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BREVES REFLEXÕES ACERCA DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL

NO BRASIL
BRIEF MUSINGS ON SOCIAL DEVELOPMENT IN BRAZIL

Marcelo Martins da Silva1

SILVA, M. M da. Breves reflexões acerca do desenvolvimento


social no brasil. Akrópolis Umuarama, v. 25, n. 1, p. 47-60, jan./
jun. 2017.

DOI: 10.25110/akropolis.v25i1.6673

Resumo: Recentemente a sociedade brasileira vem experimentando


um aprofundamento de posições no debate político em torno do mode-
lo de desenvolvimento que se pretende para o país: resumidamente,
um desenvolvimento com inclusão social mais efetiva ou outro cujo
enfoque é a segurança e austeridade fiscal em detrimento das políticas
sociais. O debate não é novo e pode ser cotejado com interpretações
de grandes pensadores brasileiros. Da breve reflexão que se segue,
o artigo pretende discorrer sobre uma questão importante, objeto de
discussão daqueles que interpretaram o Brasil e que ainda exerce forte
influência nas agendas e no discurso político e econômico atual, a sa-
ber, quais seriam os bloqueios para um efetivo desenvolvimento social
1
Graduado em Ciências Sociais pela Fun- no país.
dação de Santo André (FSA) e Mestre em Palavras-chave: Discurso Político; Desigualdade; Patrimonialismo.
Planejamento e Gestão do Território pela
Universidade Federal do ABC (UFABC). So- Abstract: The Brazilian society has recently been facing a deepe-
ciólogo pela Prefeitura Municipal de Mauá
e Pesquisador pelo grupo de pesquisa Po- ning of positions in the political debate surrounding the development
lítica, Políticas Públicas e Ação Coletiva model intended for the country. In other words, development with more
(3PAC), vinculado a UFABC. Endereço pos- effective social inclusion or other whose focus is on fiscal security and
tal: Rua Rodrigo Otávio, 64 – Jardim San- austerity to the detriment of social policies. This is not a new debate,
to Alberto, Santo André, São Paulo. CEP:
09260-300 and it can be compared by using thoughts from exponential Brazilian
E-mail: marcelo-msilva@bol.com.br philosophers. From the brief reflection that is presented herein, the pa-
per intends to address an important issue, which has been the object of
debate by those who have interpreted Brazil and who still exert a strong
influence in the national agendas and current political and economic
discourse, namely, the blockades for an effective social development
in the country.
Keywords: Inequality; Patrimonialism; Political Discourse.

Recebido em Março de 2017.


Aceito em Julho de 2017.

ISSN: 1982-1093 Akrópolis, Umuarama, v. 25, n. 1, p. 47-60, jan./jun. 2017 47


SILVA, M. M. da

INTRODUÇÃO (2000; 2003); Reis (2007); e Bastos (2005). Na


terceira parte refletiremos sobre como Florestan
Os aspectos de formação da sociedade Fernandes (2006) analisa o bloqueio estrutural
brasileira foram objeto do esforço interpretativo brasileiro, dialogando com as contribuições de
de autores importantes como Caio Prado Jr., Gil- Reis (2007) e Souza (2003). Na quarta parte dis-
berto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Celso correremos sobre a influência do pensamento
Furtado, Florestan Fernandes e vários outros. destes autores no debate político e teórico dos
Esses autores procuraram elucidar a especifi- projetos políticos e econômicos brasileiros das
cidade sócio-histórica brasileira por diferentes últimas duas décadas: o novo/neodesenvolvi-
perspectivas, ora enfatizando aspectos econô- mentismo e o neoliberalismo, utilizando para
micos (Caio Prado e Celso Furtado), ora políti- tanto textos e entrevistas de autores como Abreu
co-culturais (Gilberto Freyre e Sérgio Buarque), (2006), Bresser-Pereira (2012; 2013), Dória
ou mesmo em uma tentativa de síntese, a nosso (2008), Furtado (2004), Cardoso (2001; 2009),
ver, mais ampla (Florestan Fernandes). Franco (1998), Holston (2013), e Souza (2009).
Cotejados com os debates recentes so- Por fim faremos breves considerações sobre
bre o desenvolvimento brasileiro, percebe-se aquilo que foi apresentado.
que estes autores exercem ainda que indireta-
mente, uma grande influência em que, por uma ASPECTOS ECONÔMICOS DA FORMAÇÃO
determinada perspectiva, o foco da análise é a SOCIAL BRASILEIRA
desigualdade, pobreza e concentração de ren-
da, por outra, a corrupção, gestão pública e O principal aspecto que estruturou a eco-
crescimento econômico. Não se tratando de ti- nomia da sociedade brasileira desde a colônia
pos puros, por vezes se confundindo e mesclan- e ressoou, em maior ou menor grau, nas várias
do discursos e práticas. fases econômicas pelas quais passou o país,
Dentre os autores que produziram para- foi identificado e apontado por Caio Prado Jr. e
digmas explicativos, Gilberto Freyre e Sérgio Bu- Celso Furtado: a orientação para o mercado ex-
arque de Holanda, vão desenvolver elementos terno. Caio Prado a tratou como o “sentido” da
para o tema no seu viés político, sociocultural e colonização, isto é, um direcionamento no de-
psicossociológico (sem descuidar das questões senvolvimento histórico passível de ser compre-
econômicas). o primeiro argumentando sobre os endido analisando fatos relevantes num período
aspectos positivos da formação social brasileira de tempo mais abrangente, em que a dinâmica
fundada na família patriarcal e seus desdobra- do “sentido” se observa a partir de seus fatores
mentos na fusão com os fatores modernizantes constitutivos e não existe a priori, mas é recons-
e o segundo sobre seus aspectos negativos. truída a posteriori (TEIXEIRA, 2005, p.4). Desse
Caio Prado Jr. e Celso Furtado, sem per- modo, faz-se necessário um olhar mais abran-
der de vista a amplitude dos problemas e poten- gente para História, interrelacionando fatos epi-
cialidade da sociedade brasileira nos seus as- sódicos entre si e com o todo, de modo a possi-
pectos políticos e socioculturais, vão contribuir bilitar uma visão global e coerente que justifique
imensamente para a compreensão da dinâmica falar em um “sentido”.
econômica brasileira, passada e presente. Já Para Caio Prado o “sentido” da coloni-
Florestan Fernandes analisa esses mesmos fe- zação brasileira inscreve-se como uma vasta
nômenos em uma perspectiva mais ampla, eco- empresa comercial inserida no âmbito da acu-
nômica, política e sócio-histórica. mulação primitiva de capital na Europa, cujo úni-
Na primeira parte deste trabalho discorre- co objetivo era fornecer produtos primários de
remos sobre alguns aspectos socioeconômicos alto valor para o mercado externo. (PRADO JR.,
da formação da sociedade brasileira contidas 2011, pp. 28-29). O “sentido” ou direcionamento
nos trabalhos de Caio Prado Jr. (2011) e Celso para o mercado externo conduzirá toda a obra
Furtado (2007), além de observações de comen- da colonização e sociedade colonial e, somado
tadores destes autores como Reis (2007) e Tei- às características peculiares do território e dos
xeira (2005). Na segunda parte trataremos dos povos que aqui se integraram, fez emergir uma
autores pioneiros sobre a questão do patrimo- sociedade original, baseada na produção agrí-
nialismo/patriarcalismo no Brasil, Freyre (2003; cola, pecuária, e posteriormente, mineradora,
2006) e Holanda (1995) e comentadores, Souza que recrutava compulsoriamente trabalhadores

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Breves reflexões acerca...

negros africanos e indígenas do próprio territó- …acarretavam qualquer modificação estrutu-


rio. ral. Mesmo que a unidade produtiva chegas-
Porém, nesta sociedade original, o que se a paralisar-se, o empresário não incorria
vigorou do ponto de vista econômico foi “… a em grandes perdas, uma vez que os gastos
da manutenção dependiam principalmente
repetição no tempo e no espaço de pequenas e
da própria utilização da força de trabalho es-
curtas empresas de maior ou menor sucesso”, cravo. Por outro lado, grande parte dos gas-
que teria como consequência, “… a exploração tos de consumo do empresário estava asse-
extensiva e simplesmente especuladora, instá- gurada pela utilização dessa força de traba-
vel no tempo e no espaço, dos recursos natu- lho sem quaisquer modificações estruturais.
rais do país.” (PRADO JR., 2011, pp.133-134). As paralisações ou retrocessos nesse cresci-
O oportunismo produtivo que demandava uma mento não tendiam a criar tensões capazes
exacerbada mobilidade da população e, por isso de modificar-lhe a estrutura. Crescimento
mesmo, estruturou as desigualdades regionais, significava, nesse caso, ocupação de novas
foi orientado sempre pela e para demanda exter- terras e aumento de importações. Decadên-
cia vinha a ser redução dos gastos em bens
na, consequentemente, criava um antagonismo
importados e na reposição da força de tra-
entre o desenvolvimento endógeno e a função balho (também importada), com diminuição
exógena do sistema (DEÀK, 2010, p.26). Este progressiva, mas lenta, no ativo da empresa,
antagonismo como limitador do desenvolvimen- que assim minguava sem se transformar es-
to brasileiro possui semelhanças com a visão de truturalmente. (FURTADO, 2007, p.89)
Celso Furtado (2007). Para este, a orientação
para o mercado externo associada a uma escas- Disso redundou que, com a decadência
sa renda monetária limitava o desenvolvimento da economia açucareira, o Nordeste brasileiro,
do mercado interno, assim como a produção região que concentrava e era caracterizada por
agrícola somada a abundância de terras e vasta esta, tivesse como legado a economia de sub-
oferta de mão-de-obra escrava impossibilitaram sistência, com:
o progresso técnico/tecnológico. (TEIXEIRA,
2005, p.5) “… atrofiamento da divisão do trabalho, re-
A ausência de um mercado interno e dução da produtividade, fragmentação do
perspectiva para tal, já que na economia escra- sistema em unidades produtivas cada vez
vista se produzia apenas para exportação e para menores, desaparição das formas mais com-
plexas de convivência social, substituição da
subsistência, fez com que a alternativa para eco-
lei geral pela norma local e etc.” (FURTADO,
nomia açucareira (em tempos de crise) fosse a 2007, p.113).
pecuária, com isso expandiu-se o território ocu-
pado para além da faixa litorânea, aprofundando O bloqueio estrutural estaria relacionado
a atividade econômica que melhor correspondia a este sentido histórico que ia “… moldando for-
a pecuária: a economia de subsistência (FUR- mas particulares do ser e ir sendo capitalismo.”
TADO,2007, p.106). É possível estabelecer um (RAGO FILHO, 2010, p. 76) e não às formas
paradoxo entre o sucesso da rentabilidade da pré-capitalistas ou semifeudais de produção. A
economia açucareira e por isso mesmo, o fra- atribuição destas últimas à realidade histórica
casso do desenvolvimento de uma economia brasileira, segundo Furtado (2007, p.89) e Caio
mais diversificada que inserisse novas técnicas Prado Jr. (REIS, 2007, p.185-186) se tratava de
e tecnologias, e por consequência uma deman- um erro teórico, já que a forma particular de lati-
da para sustentar este sistema mais desenvol- fúndio baseada na escravidão não concentrava
vido. A alta rentabilidade do açúcar inviabilizou internamente a riqueza gerada, pelo contrário, a
economicamente a produção de outros gêneros, realização desta se dava externamente, na Eu-
porque os detentores da renda importavam suas ropa. Portanto, é o direcionamento externo de
necessidades, assim como a disponibilidade de uma produção assentada na monocultura e em
terras propiciou – além da pecuária que não in- mão-de-obra escravista, e a falta de autonomia
fluía sobre a produtividade – a estagnação da que caracterizam a formação da sociedade bra-
produção na medida em que o aumento desta sileira que vai influenciar o baixo nível de desen-
se dava pela expansão no território e não pelo volvimento das forças produtivas, a alta concen-
desenvolvimento técnico/tecnológico. Esta es- tração de renda e as desigualdades sociais e
tagnação e eventuais retrocessos não: regionais subsequentes.

ISSN: 1982-1093 Akrópolis, Umuarama, v. 25, n. 1, p. 47-60, jan./jun. 2017 49


SILVA, M. M. da

GILBERTO FREYRE E SÉRGIO BUARQUE comunicação recíproca entre diferentes, sejam


DE HOLANDA: PATRIARCALISMO, PER- essas diferenças entre culturas, grupos, gêne-
SONALISMO E PATRIMONIALISMO ros ou classes”. O problema maior da coloniza-
ção e do estabelecimento do patriarcado, longe
Outros aspectos importantes da forma- de ser o antagonismo social, harmonizado pela
ção social brasileira, políticos e culturais, que in- miscigenação, era a monocultura do açúcar que
fluenciam o debate político até os dias atuais, fo- impossibilitava a produção de outros gêneros e
ram desenvolvidos teoricamente por, dentre ou- descuidava da alimentação das populações.
tros, dois autores bastante importantes: Gilberto Para Freyre a miscigenação foi o ponto
Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. O foco da alto da colonização, porque só ela permitiria o
nossa reflexão sobre a obra destes autores será desenvolvimento em condições sociais tão ad-
nas possíveis implicações políticas que a aná- versas. Freyre parece se valer de um tempo
lise do tipo cultural brasileiro empreendida por lento, quase perene para afirmar sua tese, mais
eles remete: a relação entre Estado e socieda- marcado pela continuidade do que pela ruptu-
de, que para os autores se funda e se estrutura ra (REIS, 2007, pp.80-81). Olha da perspectiva
nas heranças comportamentais e institucionais do colonizador que reconhece o valor do coloni-
do colonizador português. zado desde que este não ameace sua posição.
A família patriarcal, católica, que domi- Reconhece os antagonismos, mas harmoniza
nava para além do Estado e da Igreja, ditando e administra os conflitos com base em elemen-
as regras políticas e econômicas, e integrando tos subjetivos e culturalmente deterministas – o
o negro, o índio e o mestiço no seu campo de “ímpeto sexual do português” devido a seu pas-
dominação, foi para Freyre a principal instituição sado étnico/colonial; “aptidão” para se aclimatar
do Brasil colonial (FREYRE, 2003, pp.38 e 85). em regiões tropicais; a falta de orgulho de raça
Esta instituição, em sua forma brasileira, sur- e etc. Neste sentido, Freyre afirma a raça, mas
giu a partir de características próprias dos por- a relativiza (sem superá-la) ao transportá-la do
tugueses devido ao contato prévio com outros campo da biologia para o da cultura (SOUZA,
povos; à facilidade de se integrar; à mobilidade; 2000, p.72). É o personalismo ibérico e o pa-
à predisposição para a colonização híbrida; à triarcalismo familiar português que estruturam
falta do orgulho de “raça’ e etc., e foram estas todas as instituições no Brasil colonial, assim o
características que possibilitaram ao português poder privado familiar exercido pelo pai vai se
colonizar o Brasil. O ambiente tropical adverso confundir com o poder público, do Estado. Nes-
ao europeu, por estas características, não fo- se ponto, na herança portuguesa, é que Sérgio
ram grande problema ao português, o problema Buarque de Holanda vai identificar a inexistência
maior, demográfico, foi contrabalanceado pela de uma exploração/colonização metódica e ra-
relação vencedor-vencido, isto é, os portugue- cional no Brasil que vai determinar a persistên-
ses em seu ímpeto de excitação pelas indígenas cia de uma escala de valores incoerentes com
e negras, e por todo o poder militar que o permi- instituições que careciam de valores modernos
tia exterminar e escravizar índios e negros, estu- para um efetivo desenvolvimento de uma demo-
prava índias e negras e fez nascer uma geração cracia de fato:
de mestiços (REIS, 2007, pp. 66-67).
Freyre não nega os antagonismos na Culto da personalidade, valores individualis-
formação da sociedade brasileira, ao contrário, tas, ausência de uma moral do trabalho, re-
os enfatiza, mas aponta para o equilíbrio destes sistência à regra social, à lei, tem como con-
antagonismos. Não há uma relação de negação sequência uma sociedade dificilmente go-
vernável, pelo menos de forma democrática.
e sim de integração entre a casa-grande e a sen-
Tal autarquia dos indivíduos, tal anarquia, só
zala; entre o senhor e o escravo; entre o domina- uma força externa pode organizar e dirigir. À
do e o dominador; este equilíbrio, segundo ele, liberdade excessiva substitui-se com facilida-
se deve às características civilizadoras dos do- de a obediência cega. (REIS, 2007, p.124).
minados, culturalmente superior em alguns as-
pectos. (FREYRE, 2003, p.107). Segundo Sou- Sérgio Buarque de Holanda (1995, pp.31
za (2000, p.71) a atenção de Freyre “… esteve e 40) vai argumentar que o personalismo ibérico,
sempre voltada a perceber formas de integração mais especificamente o português, foi a principal
harmônica de contrários, interdependência e herança colonial para a sociedade brasileira, e

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Breves reflexões acerca...

esta representação importada não condizia com de Sérgio Buarque.2


a realidade brasileira e a tornava ininteligível. Em Sobrados e Mucambos, Freyre ar-
Seguindo os passos de Gilberto Freyre, Sérgio gumenta que a chegada da família real portu-
Buarque vê o português como um “europeu di- guesa ao Brasil acelerou a decadência do pa-
ferente”, mais autônomo no que diz respeito às triarcalismo rural brasileiro concomitante com
imposições feudais e por isso mesmo mais indi- a emergência de uma nova classe mais próxi-
vidualista e menos dado a hierarquias (HOLAN- ma dos valores burgueses “urbanos” europeus
DA, 1995, p.44). A imprecisão do caráter levou (FREYRE, 2006, pp.105 e 107). Com a deca-
ao personalismo que se vincula aos sentimentos dência, faz-se necessário restaurar o equilíbrio
e a relação pessoal do mando-obediência. dos antagonismos, que não seria grande proble-
O ímpeto aventureiro do português o ma dado a interpenetração étnico/cultural, po-
fazia buscar riqueza fácil e não explorar racio- rém com grau de importância maior do urbano
nalmente a nova terra. Essa busca por riqueza e, consequentemente, de uma complexidade
fácil demandava certo grau de coesão entre os maior da vida social em termos psicossocioló-
estratos dominantes, e por isso não havia rup- gicos (SOUZA, 2000, pp.93-94). A preocupação
tura entre a burguesia e nobreza portuguesa A principal parece ser demonstrar a diferenciação
burguesia não representava o novo, antes, se do meio rural e urbano e como a influência tradi-
associava ao arcaico, ao doméstico, ao privado cional (portuguesa) e moderna (inglesa) se rela-
(HOLANDA, 1995, pp.88 e 112). Com a repúbli- cionava a partir de outro espaço social com no-
ca e a urbanização, os antigos valores monár- vos valores. A urbanização é o fenômeno que vai
quicos ainda que sem razão de ser, mantém-se. gradualmente, substituindo o individualismo e o
Não há a possibilidade de um governo racional- personalismo por valores coletivos mais afeitos
-democrático em tal contexto, pois a obediência ao mundo urbano.
cega, própria das relações privadas fundadas na Bastos (2005, pp. 26-27) argumenta que
autoridade centralizada, demanda um Estado, tanto Raízes do Brasil quanto Sobrados e Mu-
que se não despótico, autoritário (HOLANDA, cambos, o tema central é a urbanização, seus
1995, p.176). Neste ponto parece que Freyre dilemas, a diferenciação e ao mesmo tempo a
e Holanda concordaram, já que o primeiro não simbiose do rural e do urbano. Segundo a au-
supunha viável que uma democracia política tora, para Freyre, mesmo com a continuidade
impessoal ordenasse forças sociais que foram dos traços patriarcais na ordem burguesa, estes
durante toda a sua história, baseadas na pes- não seriam suficientes para evitar a tensão que
soalidade. Porém, também não via motivos para surgiria com a ordem impessoal, tanto na esfe-
romper com essa lógica, enquanto Sérgio Bu- ra pública, quanto na esfera privada, portanto,
arque afirmava a necessidade premente disto, pressupondo certa autonomia de uma em rela-
entendendo o conflito como parte essencial da ção à outra. Sérgio Buarque, por sua vez, veria a
sociedade moderna (BASTOS, 2005, p.34). Sér- impossibilidade de uma “esfera pública indepen-
gio Buarque parece concordar com Caio Prado dente no Brasil” na medida em que as formas
quanto a existência de um oportunismo produti- de sociabilidade replicariam os mesmos papéis
vo na vida social brasileira, mas não como forma sociais3: “O processo tem como consequência a
particular de objetivação do capitalismo, e sim transferência para o urbano da mentalidade e do
como uma herança própria da sociabilidade ibé- modo de organização, imperantes nos domínios
rica (HOLANDA, 1995, p.135). rurais” (BASTOS, 2005, pp.27-28).
Interessante notar, como apontaram Esta plasticidade híbrida que caracte-
Souza (2000) e Bastos (2005), que o principal rizaria a sociedade brasileira, segundo Freyre
antagonismo no que se refere à sociedade brasi- 2
Segundo Bastos (2005, p.21) a reformulação de ambos os textos
leira moderna, “… a “ambiguidade” cultural bra- que foram publicados no mesmo ano (1936) para suas respectivas
sileira a partir do embate entre a tradição patriar- segundas edições, 1948, Raízes do Brasil e 1951, Sobrados e
mucambos, define o contraponto da tese dos dois autores.
cal e o processo de “ocidentalização” a partir da 3
Florestan Fernandes (2006, p.217) observa que não obstante
influência da Europa “burguesa”, e não mais por- a urbanização crescente modificar usos costumes oriundos do
tuguesa que toma de assalto o país no séc. XIX”. estamento senhorial, “… o austero homem de negócios, do
nascente e próspero “alto comércio” urbano, impunha-se o mesmo
(SOUZA, 2000, p. 72), remete a análise contida código de honra, aspirava os mesmos ideais e, se não igualava,
em Sobrados e mucambos, e se aproxima mais suplantava o estilo de vida da aristocracia agrária (confundindo,
de um possível “debate” com Raízes do Brasil na paisagem social em mudança, os dois mundos mentais, o da
‘Casa-Grande” e o do “Sobrado”)”.

ISSN: 1982-1093 Akrópolis, Umuarama, v. 25, n. 1, p. 47-60, jan./jun. 2017 51


SILVA, M. M. da

e Holanda, quando metamorfoseada analitica- 2003, p.100).


mente para a atualidade, foi entendida por Sou- Decorre, na visão do autor, que a socie-
za (2003, pp. 97-98) em atribuição ao que o au- dade brasileira colonial como continuidade da
tor chama de “nova periferia”, como um: sociedade portuguesa, não corresponde à rea-
lidade dado ao fato de que a mais importante
…conto de fadas sociológico, que supõe a instituição histórica no Brasil, a escravidão, em
existência de uma religiosidade católica ope- Portugal era episódica e residual. Portanto, o
rante associada a um patrimonialismo político tipo social português não se reproduziu no Bra-
organizado no Brasil colonial, não é apenas sil. Por aqui se gestou uma sociabilidade oriun-
um contrassenso histórico. Ele é também a
da da inserção econômica do território brasileiro
base para a suposição de um eterno ativismo
personalista e familista, dominante em suas (ou do território português na América) no âmbi-
infinitas variações – hoje em dia é sua varia- to do incipiente capitalismo europeu. O sentido
ção “hibridista” que está na moda – seja no da colonização que condicionou as relações de
horizonte periférico, seja na reflexão interna- produção estabelecidas e não superadas pro-
cional acerca da periferia, que supõe a con- duziu uma classe de desvalidos sociais que, re-
tinuidade eterna de relações pessoais e fa- produzida historicamente, estruturaria a enorme
milísticas mesmo em sociedades periféricas desigualdade social e concentração de renda do
complexas e dinâmicas como a brasileira. país.
Essa classe de desvalidos, que muito
Isso se deve, segundo o autor, ao fato possivelmente tem raízes no setor de “economia
de inexistir em sociedades periféricas como a de subsistência” que nos falava Celso Furtado
brasileira um arcabouço ideal e consensual con- (2007), Jessé Souza (2003), dialogando com
sistente para abarcar aqui práticas institucionais Florestan Fernandes, vai chamar de “ralé” estru-
consolidadas, portanto, as “práticas modernas tural. A identificação e peculiaridades desta clas-
são anteriores às ideias modernas” (SOUZA, se e o cotejo desta com o debate político recente
2003, p.99). Isto é, antes – com a impossibilida- que pende às mazelas “patrimoniais” do Esta-
de institucional para tanto – de consolidar-se a do, são fundamentais para compreender o quão
tradição portuguesa, do ponto de vista simbólico perverso é o discurso que privilegia crescimento
(moral, cognitivo), transitou, a sociedade brasi- econômico e desconsidera a concentração de
leira, para as práticas institucionais burguesas, renda tratando a gestão de forma uniforme (par-
“… sem o lastro ideal e valorativo que lhe per- tindo de conceitos como meritocracia e eficiên-
mita articulação, reflexividade e consciência de cia) como se houvesse uniformidade social e a
longo prazo dos seus dilemas e contradições…” desigualdade fosse inexorável.
(SOUZA, 2003, p. 100). Não se trata, portanto
de “hibridismo”4, mas de desarticulação entre as FLORESTAN FERNANDES E AS CLASSES
práticas e os ideais institucionais modernos; ine- SOCIAIS NO BRASIL
xistia limitações (como continuidade da tradição
portuguesa) do ponto de vista cultural ou moral Em “A revolução Burguesa no Brasil”,
que resistissem aos valores burgueses moder- Florestan Fernandes investiga a forma especí-
nos da mesma maneira que um potencial “… fica pela qual se deu o desenvolvimento capi-
generalizador, abrangente e inclusivo existente talista no Brasil e suas implicações políticas e
nas sociedades centrais do ocidente.” (SOUZA, sociais (REIS, 2007, p.214). Para o autor, o ca-
4
Para Souza (2003) a teoria (única) que possui como exclusiva pitalismo no Brasil se estabeleceu antes de uma
função explicar o Brasil, isto é, porque o Brasil e o Brasileiro são ordem social competitiva, ou seja, não seguiu o
exatamente do jeito que é e não de outro jeito, é a teoria iniciada modelo clássico, mas uma forma particular de
por Gilberto Freyre e continuada, com outras nuances, por Sérgio
Buarque de Holanda, Raymundo Faoro, Roberto Damatta e etc. desenvolvimento com consequências importan-
Ou seja, aquela que de um lado trata do personalismo (a família tes: o caráter dependente e autoritário da socie-
patriarcal) e de outro o patrimonialismo (o Estado patrimonial). Um
seria extensão do outro ao ponto de se confundirem e anularem a
dade brasileira em que elementos estamentais e
necessária distância entre público e privado nas relações sociais competitivos coexistem com conflitos e concilia-
brasileiras. Ele afirma que esta teoria além de errada e frágil, é ções (FERNANDES, 2006, pp.179-180).
bastante conservadora; já o era em Gilberto Freyre e continua nos
outros autores na medida em que interpreta o Brasil partindo de A questão trabalhada por ele é a articula-
um arcabouço moral europeu burguês como fonte normativa da ção, tanto externa quanto interna, na economia
nossa riqueza/miséria. brasileira. O choque entre estruturas econômi-

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Breves reflexões acerca...

cas preexistentes e as emergentes não era pas- diz respeito à determinada sociabilidade como
sível de conciliação e tendia à substituição das suposta continuação da sociedade portuguesa,
velhas formas de produzir encetada por estas por exemplo; a modelos etapistas e pré-estabe-
mesmas, isto é, lecidos de interpretação histórica, como a tese
do feudalismo no Brasil; ou mesmo a uma de-
…ao provocar a eclosão de um mercado pro- terminação econômica que implica entender o
priamente capitalista, embora com formas país como capitalista desde o início, sem pro-
e funções limitadas, a mudança de relação blematizar suas mediações políticas e culturais.
com o mercado mundial forçou a ordem so- O ponto chave identificado por Florestan é o
cial escravocrata e senhorial a alimentar um
“… padrão de civilização dominante a partir da
tipo de crescimento econômico que trans-
cendia e negava as estruturas econômicas transformação estrutural das formas econômi-
preexistentes. (FERNANDES, 2006, pp.210). cas, sociais e políticas fundamentais” (SOUZA,
2003, p.130). Este padrão de civilização domi-
Ou seja, dialeticamente pensadas, as nante de que trata Souza, é uma sociabilidade
estruturas econômicas preexistentes continham que emerge da imposição da ordem competiti-
em si o germe da própria a negação na medi- va, adequando saberes e fazeres às necessida-
da em que eram constrangidas a integrarem, a des destas, dito de outro modo, é um conjunto
partir de dentro, o mercado capitalista. A subs- de valores, “ideias” que legitimam as práticas e
tituição não se deu, porém, como superação. permitem seu desenvolvimento. É justamente
Deu-se como continuidade, mantendo o “… pri- esta articulação deficitária ou inexistente entre
mado das formas econômicas “arcaicas” na de- a implantação e consolidação no capitalismo no
terminação do padrão de equilíbrio dinâmico de país e o funcionamento das práticas institucio-
todo sistema econômico” (FERNANDES, 2006, nais aqui consolidadas e reproduzidas que vão
p.212). criar uma ordem social competitiva disfuncional
Portanto, ocorre um processo moderni- ao desenvolvimento do capitalismo no Brasil.
zador, gradual e conciliador entre os setores da É este “déficit de articulação”, como ob-
burguesia. À ordem capitalista ocorre apenas serva Souza (2003, p.132), que vai fazer com
um ajustamento parcial, e não transformações que o liberalismo, como “gramática mínima”
profundas em que o liberalismo e o capitalis- (SOUZA, 2003, p.134), não tenha produzido
mo se impusessem de forma plena, racional, efeitos práticos, isto é, o ideário burguês (em
e racionalizasse as relações sociais no país. A seus pressupostos racionalizadores e seculari-
ruptura que ocorre com o início da república foi zadores) não encontrou aqui ambiente favorável
apenas uma necessidade de compatibilizar a or- para sua difusão plena, e a parcialidade deste
dem antiga à nova, não foi social e política, e, ideário fez com que elementos estamentais e
portanto, não alterou profundamente as relações modernizantes coexistissem. Se fosse apenas
de trabalho como seria necessário, e o trabalho um dado ideológico não teria importância, mas
livre não rompe, mas se torna um derivado do implicava naquilo que se pretendia para o país
trabalho escravo. Disto decorre que não há con- enquanto sociedade; implicava, portanto, em
comitância do trabalho livre como mercadoria e seus determinantes políticos, culturais, econô-
fator construtivo (FERNANDES, 2006, p.230), micos e sociais.
ou seja, o trabalho livre não se torna o impulso Diferente de Sérgio Buarque, Florestan
para uma sociedade competitiva e nem propor- vai ver o liberalismo como tendo um papel pro-
ciona o surgimento de uma classe trabalhadora dutivo no Brasil, não se tratando, pois, de uma
emancipada, solidária e com consciência de si. “ideia fora do lugar” (REIS, 2007, p.222). Porém
Produziu sim uma elite conservadora, autocráti- ele também não foi suficiente para o desenvol-
ca e com privilégios que para serem mantidos, vimento de uma política liberal, pelo contrário,
excluíam a parcela da população que estava na o caráter autocrático se somou ao liberalismo
base da pirâmide social, de uma participação econômico para modernizar o capitalismo pelo
protagonista na ordem social competitiva. alto, excluindo do processo a maior parte da po-
Souza (2003, p.130) identifica na Revo- pulação. Aqui, a transição para a ordem burgue-
lução Burguesa de Florestan Fernandes o pon- sa não considerou o desenvolvimento da nação
to chave para a compreensão da implantação e como um todo, mas apenas a classe dominante,
consolidação do capitalismo no Brasil. Esse não portanto:

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SILVA, M. M. da

Foi um desenvolvimento capitalista débil e das de uma ordem competitiva que se formou
oscilante, insuficiente para a universalização num contexto capitalista periférico e dependen-
do trabalho livre, a integração nacional do te – são passíveis, no nosso entendimento, de
mercado interno e das relações de produção dialogarem com o debate político recente e as
capitalista e a industrialização autônoma. O
agendas em disputa daquilo que se pretende ser
desenvolvimento ocorreu com dependência,
sempre reposta de forma renovada e revigo-
o projeto de nação brasileira: neoliberal e neode-
rada. (REIS, 2007, p.233). senvolvimentista.
É importante lembrar duas coisas: i) para
O principal corolário deste processo que critérios analíticos essas nomenclaturas são
limitou o desenvolvimento brasileiro foi a repro- úteis, mas a relação destas com a realidade por
dução continuada de uma parcela importante vezes se confunde e extrapolam as fronteiras
da população alijada dos direitos de cidadania de partidos e governos e inclusive das próprias
e da participação na ordem social competiti- agendas, não se tratando de “tipos puros”; e ii)
va (de forma não precária), e de outra parcela, por isso mesmo o cotejo das agendas como res-
esta pequena, que detinha e concentrava poder posta às questões estruturais que estão além
econômico, político e cultural e, por isso mes- dos anseios político-ideológicos é cada vez mais
mo, possuía um capital social que lhe permitia comum, ressalva feita que o “sacrifício” das polí-
um “status” diferenciado. Implica em dizer que ticas sociais – em detrimento da austeridade fis-
o principal corolário para a sociedade brasileira cal – responde melhor ao mercado, nesse senti-
foi, e continua sendo, uma abissal desigualdade do é como se estas em si fossem um “sacrifício”
e concentração de renda. para o país. No entanto, e em linhas gerais, no
Baseado na reflexão até aqui desenvol- que se refere ao Brasil dos últimos 24 anos, é
vida sobre a especificidade da sociedade e dos possível aproximar discursos e projetos a uma
problemas brasileiros, pretendemos realizar al- destas duas agendas.
gumas considerações sobre este tema no deba- Do ponto de vista econômico a diver-
te político recente. gência entre as agendas é maior, sobretudo, no
que diz respeito aos impactos potenciais aos
A INFLUÊNCIA DAS TEORIAS SOBRE A beneficiários das políticas distributivas e redis-
FORMAÇÃO SOCIAL BRASILEIRA NO DE- tributivas e a atenção dada estrutura produtiva
BATE POLÍTICO CONTEMPORÂNEO interna (MORAES E SAAD-FILHO, 2011, p.508).
Portanto, crises e crescimentos dependem me-
Algumas das ideias dos autores que fo- nos da política econômica interna e mais das
ram até aqui objeto de reflexão – Caio Prado Jr. condições externas, mas o direcionamento da
e sua compreensão do sentido da colonização política interna, ao enfrentar crises ou gerir as
como uma economia orientada para o merca- benesses do crescimento, dá o tom do potencial
do externo; Celso Furtado, aproximando-se da nível de desenvolvimento do país. O receituário
compreensão de Caio Prado, argumentando so- macroeconômico baseado no paradigma neoli-
bre os determinantes que limitavam o desenvol- beral, posto em prática governo Fernando Hen-
vimento de um mercado interno forte no Brasil; rique Cardoso (doravante governo FHC) não foi
Gilberto Freyre e a identificação das relações alterado no governo Lula (BRESSER-PEREIRA,
sociais que possibilitaram a colonização e mais 2006; 2013). Segundo Bresser-Pereira (2013, p.
tarde estariam presentes no debate sobre a mo- 9) o tripé macroeconômico (superavit primário,
dernização do Brasil, isto é, a família patriarcal câmbio flutuante e meta de inflação) na sua ver-
portuguesa, a plasticidade do povo que aqui se tente ortodoxa, neoliberal,
formou e a necessidade de um “equilíbrio” dos
antagonismos entre a antiga e nova ordem; Sér- … é constituído por estes três conceitos ge-
néricos que, afinal, resultam em dois parâ-
gio Buarque de Holanda e o patrimonialismo
metros e um único objetivo que interessam a
derivado dos determinantes antes identificados
uma coalizão política neoliberal formada por
por Freyre, e seus corolários numa ordem típica capitalistas rentistas e financistas. Os dois
idealmente “impessoal”; Florestan Fernandes e parâmetros são uma taxa de juros a mais alta
os limites e potencialidades da revolução bur- possível e uma taxa de inflação a mais baixa
guesa no Brasil e principalmente, as extremas possível; o objetivo final é uma taxa de juros
desigualdade e concentração de renda advin- real elevada que remunere os capitalistas

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Breves reflexões acerca...

rentistas e os financistas que administram caracterizada “… pela efemeridade dos ciclos


sua riqueza. (BRESSER-PEREIRA, 2013, p. econômicos aproveitando conjunturas positivas
9). sem constituir uma base econômica sólida para
a satisfação das necessidades materiais da po-
Bresser argumenta que superavit primá- pulação que nele habita.” (PRADO JR., p.75), e
rio e responsabilidade fiscal são necessários e principalmente em Celso Furtado (2004, p.3):
desejáveis em qualquer economia, porém câm-
bio flutuante e meta de inflação que subordine …a saída para o Brasil consiste em dina-
pleno emprego e câmbio competitivo são inacei- mizar o mercado interno. Mas para isso, é
táveis. O argumento do autor, vinculado ao neo- preciso deter a concentração de renda. É
desenvolvimentismo – ou novo desenvolvimen- preciso, portanto, fazer crescer as atividades
tismo (BRESSER-PEREIRA E THEUER, 2012) produtivas em sentido amplo, isto é, incen-
– remete, inclusive ao governo Lula, ainda que tivar atividades produtivas que nem sempre
este estivesse muito mais próximo do neode- visam o lucro, mas que são essenciais para
alcançar os objetivos sociais.
senvolvimentismo, assim como o governo FHC
estava do neoliberalismo. Para Bresser-Pereira
(2013, p.6) o governo Lula não logrou escapar O fortalecimento do mercado interno
das armadilhas do tripé macroeconômico orto- depende do nível de emprego que garantiria a
doxo do governo anterior, se mantendo, portan- demanda efetiva. Neste sentido, as empresas
to, dependente das amarras de uma lógica em transnacionais deveriam ser orientadas para
que o crescimento se sobrepõe ao desenvolvi- privilegiarem o mercado nacional e a criação de
mento. empregos.
Neste sentido, afirma Bresser, o governo Na ótica neoliberal, esta não é uma ques-
de Dilma Roussef recebeu uma pesada herança tão importante na medida em que o Estado não
em relação às perspectivas de desenvolvimento, deve se envolver na questão produtiva, se limi-
na medida em que o acima exposto somou-se às tando à regulação mínima. Abertura e desregu-
condições externas desfavoráveis para o cresci- lamentação devem caminhar juntas, pois existe
mento que até então sustentava o desenvolvi- um nexo entre abertura e produtividade desde
mento (BRESSER-PEREIRA, 2013, pp.6-7). O que não existam barreiras protetivas à primeira
desenvolvimento não poderia ser sustentável ou (FRANCO, 1998, p.129). Para Franco (1998) a
sustentado em um contexto de crise internacio- estabilização é pré-requisito ao desenvolvimen-
nal, porque o mercado interno, fruto da atenção to econômico sadio e que deve necessariamen-
do governo Lula com o setor produtivo nacional te ser pautado pelo equilíbrio (austeridade fiscal)
e de políticas como o bolsa-família e microcrédi- e a abertura de mercado. Sem esses elemen-
to, cresceu em setores com baixo valor adiciona- tos não há controle da inflação e, consequen-
do per capita, isto é, setores tecnologicamente temente, uma taxação ao pobre, na medida em
menos sofisticados sem capacidade de absorver que aquela é um imposto que afeta principal-
o desemprego industrial. Para Bresser (2013, mente este (FRANCO, 1998, p.122). Portanto,
p.12) sem a correção deste desequilíbrio, que austeridade fiscal e abertura de mercado são
pressupõe afastamento da ortodoxia neoliberal perfeitamente compatíveis (e desejáveis) com
no que diz respeito à condução da política eco- crescimento econômico e com desenvolvimen-
nômica, não haverá demanda para o setor priva- to social, sendo fundamental, inclusive, na es-
do e, consequentemente, “… todos os esforços tratégia de redução das desigualdades sociais.
que o país vem realizando no lado da oferta, no Esta perspectiva pressupõe uma racionalidade
sentido de desenvolver a educação, a ciência, nas relações de mercado que, a nosso ver, não
a tecnologia e investir na infraestrutura, serão existe.
desperdiçados” (BRESSER-PEREIRA, 2013, O economicismo frio, tratando apenas
pp.6-7). lateralmente das questões sociais, faz com que
A preocupação neodesenvolvimentista o autor se preocupe mais com o “ambiente” abs-
com o mercado interno forte, capaz de integrar trato, exclusivamente para os negócios, do que
parte expressiva da população já estava presen- com as pessoas, com o artifício teórico (e pre-
te em Caio Prado Jr. em sua crítica ao fato da tensamente retórico) de que estas se beneficiam
economia brasileira ser organizada para fora, do potencial “liberalizador” do mercado. A crítica
ao “viés” pró-mercado interno em Franco (1998,

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SILVA, M. M. da

p.127) é dirigida não mais ao chamado período pública e privada; a necessária impessoalidade
“populista”, mas ao atual (do texto), que implici- no tratamento das instituições; e que, por fim,
tamente nos textos do autor pode ser entendido acabam legitimando discursos ora conservado-
como “neopopulista. A receita para alcançar o res, ora progressistas e ora reacionários.
pretendido, neste contexto, pareceu ser menos A demonização do Estado caminha junto
investimento social como forma de objetivação com a reificação do mercado como o espaço ra-
da austeridade fiscal, e privatização de setores cional por excelência. Daí a noção de que tudo
estratégicos (e potencialmente rentáveis) para que é privado é mais eficiente, mesmo aqui-
sinalizar positivamente ao capital internacional. lo que não deveria ser cambiável como saúde
O capitalismo dependente foi assumido como e educação, por exemplo. Por essa perspecti-
estratégia de desenvolvimento e não houve va, quanto mais enxuto o Estado, melhor, pois
nada que indicasse a superação do modelo, ao este será o ensejo de que os indivíduos preci-
contrário, um aprofundamento da dependência sam para potencializar a sociedade civil, além
(via submissão ao capital financeiro externo) em do que, a inépcia dos funcionários públicos e a
detrimento daqueles que sustentam o modelo: corrupção seriam problemas menores.
os mais pobres.
A questão da pobreza e da desigualdade O Estado é sempre suspeito de “politicagem”
também é bastante importante nas abordagens e de “aparelhamento” por indicações políti-
neodesenvolvimentista e neoliberal. Em matéria cas e o mercado é definido como instância
publicada no Jornal do Brasil5, Fernando Henri- “técnica”, ou seja, reflexo da “racionalidade
pura” e do “cálculo técnico”. Um é a esfera do
que Cardoso, aproximando-se do fim de seu go-
“privilégio inconfessável” e o outro o reflexo
verno, em 2001, afirmou que em países em de- da “razão técnica” supostamente no interes-
senvolvimento como o Brasil, a questão chave se de todos. É isso que explica o foco cons-
não é a concentração de renda e sim a diminui- tante e diário na “corrupção política” como a
ção da pobreza. Porém, minimizar a concentra- lembrar ao público onde está o mal e onde
ção de renda e, por conseguinte a desigualda- está o bem. Como tudo no mundo social,
de, não faz com que a redução da pobreza seja essa é uma realidade “construída”, fruto de
mais importante. Os argumentos de Fernando uma leitura interessada do mundo. (SOUZA,
Henrique e outros neoliberais na referida maté- 2009).
ria se aproximam aos de Gustavo Franco: i) a
necessidade da austeridade fiscal como forma No que se basearia esta “leitura interes-
de evitar déficit e, consequentemente, o finan- sada do mundo”? Principalmente, na manuten-
ciamento deste; ii) a distribuição de renda de- ção de privilégios de classe e na necessidade
mandaria tributação do capital que nestas condi- de tornar secundárias as abissais desigualdades
ções “fugiria”; e o mais mafioso dos argumentos: sociais e a concentração de renda. Quando se
iii) aumentar os impostos dos bens de consumo ameaça tocar nestas questões, ainda que, no
dos ricos gera desemprego que prejudica os nosso entendimento, de forma tímida, o sinal de
mais pobres. alerta toca e aqueles que negam a existência
Do ponto de vista do debate político, da luta de classes, mas lutam por privilégios de
até pela estreita relação com a esfera econômi- classe, esbravejam contra uma pretensa espé-
ca, pode-se também distinguir as agendas em cie de “populismo patrimonialista estatal”.
disputa. As questões que orientam os debates Fernando Henrique Cardoso em artigo
parecem ser as mesmas: gestão, corrupção, publicado no “O Globo” de 01/11/2009, intitula-
estabilidade, pobreza, desigualdade, sustentabi- do “Para onde Vamos?”, aponta para aquilo que
lidade, segurança, política externa e etc. O dife- no seu entendimento havia se transformado o
rencial está na ênfase e no direcionamento que Estado brasileiro no final do governo Lula. Não
cada tema ganha dependendo da perspectiva julgaremos o mérito dos governos em questão,
política em questão. nos interessa é que em seu discurso, Fernando
Não obstante, a matriz teórica de fundo Henrique reelabora a noção de “estamento bu-
deste debate é o tema do personalismo/patrimo- rocrático” ou “Estado patrimonialista”. Segundo
nialismo que remete a confusão entre as esferas ele, o estamento burocrático não diz respeito
mais ao antigo “autoritarismo militar”, mas a um
5
Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/dimenstein/ “autoritarismo popular”. O que exatamente signi-
temporeal/gd111201.htm. Acessado em 11/10/2016.

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Breves reflexões acerca...

fica isso não deixou claro, porém deu pistas do vezes, a verdadeira “alienação”, pois repete-se o
que queria dizer: discurso midiático/liberal sem uma reflexão mais
ampla.
Pouco a pouco, por trás do que podem pare- A percepção do Estado como o berço da
cer gestos isolados e nem tão graves assim, corrupção também se reproduz no debate polí-
o DNA do “autoritarismo popular” vai minan- tico, o que se esquece é que a corrupção parte
do o espírito da democracia constitucional. do mercado. A corrupção é um mecanismo que
Essa supõe regras, informação, participa-
empresas e grupos se utilizam para obter van-
ção, representação e deliberação conscien-
te. (CARDOSO, 2009). tagens no mercado competitivo. Uma das estra-
tégias é corromper agentes públicos, mas nem
Portanto, no “autoritarismo popular” que sempre. A corrupção é certamente um problema
caracterizava o governo Lula, não havia regras, bastante preocupante e em escala na socieda-
informação, participação, representação e deli- de brasileira; portanto, deve ser combatida, mas
beração. O povo “plástico”, “cordial”, “desinfor- não mitificada. Em artigo publicado no “Estado
mado”, sem capacidade crítica e prospectiva, de São Paulo” em 13/07/2008, o jornalista Pedro
aplaudia a baderna autoritária que seus repre- Dória, citando Bolívar Lamounier, vai afirmar que
sentantes diretos (sindicalistas, lideres de mo- o Estado Brasileiro é essencialmente corrupto
vimentos sociais, religiosos e etc.) exerciam no e, ao tratar do caso de corrupção envolvendo o
aparelho burocrático do Estado, e não davam empresário Daniel Dantas, argumenta que:
conta dos malefícios à nação. A situação concre-
O Brasil tem uma formação patrimonialista,
ta em que parte expressiva da população passa
ou seja, o Estado é o verdadeiro detentor da
a ter acesso a esta “nação” para poucos não é riqueza. Seu poder é avassalador. O emara-
levada em conta na medida em que ao reconhe- nhado jurídico é tal que se tornou impossível
cimento das próprias condições de vida, de sua manter uma empresa sempre em ordem. Daí
própria história, e a opção por um projeto mais a capacidade de pressão do governo ser de-
adequado a estas é atribuído um personalismo. vastadora. A influência do Estado em setores
Holston (2013), neste sentido, argumen- por natureza oligopólicos como telecomuni-
ta que na eleição de Lula em 2001, seus elei- cações, energia ou aviação é ainda maior.
tores reconheciam nele um projeto em comum; Desse jeito, um sujeito que tenha capacita-
uma história de vida ou mesmo uma perspecti- ção técnica e audácia, como Daniel Dantas,
precisa de contatos políticos para se susten-
va de mudança, e não o líder carismático com
tar empresarialmente. É evidente que o caso
poderes “hipnóticos”, visão que parece comum dele, que dizem ter recorrido até a empre-
aos críticos de Lula e adeptos à vociferação do sas de espionagem, é extremado. Mas todo
populismo político. grande empresário brasileira precisa de uma
relação simbiótica com o governo. Porque a
…os residentes nas periferias com quem eu mão do governo está presente em tudo. (DÓ-
trabalho votaram em Lula não apenas para RIA, 2008).
exigir futuras mudanças, mas também para
reivindicar como emblematicamente sua Ou seja, por essa percepção o Estado
uma história de vida envolvendo tudo que já é um monstro centralizador que freia a capa-
havia mudado: uma história de industrializa-
cidade do mercado. Aos capitalistas, acuados,
ção, de migração urbana, de transformação
das cidades e de luta pela cidadania que re- só resta mecanismos informais de atuação para
fez o Brasil nos cinquenta anos. É uma his- liberarem seus ímpetos empreendedores: a cor-
tória que muitos desses votantes viveram e rupção; a sonegação; negociatas e etc. É como
que Lula personifica de forma carismática. se houvesse um constrangimento à corrupção,
(HOLSTON, 2013, p.24). portanto, o corruptor apenas age conforme as
regras do jogo. Não lhe resta alternativa diante
A argumentação de Holston nos leva do “Leviatã”, “popular”, acrescentaria Fernando
a refletir sobre a inversão da equação: não se Henrique.
trata de “desinformação”, “alienação”. Antes, é O debate, seja político, seja econômi-
o “desentranhamento” ou reconhecimento das co, é dominado pela relação Estado/mercado e
próprias condições de vida. Neste sentido, a cor- a “sociedade civil”, quando aparece é de forma
rupção como mote da questão é, na maioria das homogeneizada, abstrata; em vez de dividida

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SILVA, M. M. da

em classes. Quando se trata de uma classe de do per si; por sua natureza moral, que o torna
pobres, sem acesso ou com acesso precário ao abstrato e estéril6. Entendemos que o foco do
conhecimento, a inserção produtiva num merca- debate político e econômico deveria ser o apro-
do competitivo é problemática, dado que os es- fundamento de políticas que integrasse toda a
tímulos não são compatíveis com aquilo que se população na ordem competitiva, ampliando o
tem como mote atitudinal no capitalismo: visão acesso aos direitos. Demandaria, certamente,
prospectiva, valorização do conhecimento, pou- uma melhor distribuição da riqueza, principal-
pança, espírito empreendedor e etc. mente com a expansão de serviços que não
Isto se dá por diversas razões, dentre as deveriam ser objeto de troca monetária, e uma
quais que o peso do presente não permite que necessária desconcentração de renda, ou seja,
se projete um futuro muito diferente do que foi no demandaria o rompimento, ainda que parcial,
passado, isto é, o futuro já está sendo sacrifica- dos privilégios da menor parcela da população
do em função da necessidade do presente; disto do país que nunca esteve disposta a lidar com
decorre que o conhecimento não possui efeitos esta “chaga”.
práticos imediatos, portanto, não potencializa o
interesse e consequentemente a concentração CONSIDERAÇÕES FINAIS
para o mesmo. É claro que qualquer trabalho
exige concentração e conhecimento, mas aqui A sociedade brasileira tanto do ponto de
estamos falando de um conhecimento valoriza- vista teórico, quanto empírico, guarda ainda as-
do pelo mercado que permite melhores salários pectos que estiveram presentes em sua história.
e um trabalho menos braçal e mais salubre. A compreensão da história, da especificidade da
Tempo livre também é outra variável importan- sociedade brasileira e dos autores que a pensa-
te já que em geral e desde cedo, estes pobres ram, nos ajuda a entender o presente e podem
têm menos tempo livre para dedicarem-se ao indicar caminhos para superação de nossas ma-
conhecimento, por exemplo. O jovem pobre, di- zelas. Os autores supracitados que investigaram
ferente dos jovens de classe média, tem pouco a sociogênese destes processos, independente
tempo para estudar e, somando a isso a falta das virtudes e falhas em suas análises, deixa-
de estímulo, tende a reprodução do mesmo nível ram um legado reflexivo que, de forma direta ou
de vida dos pais. É esse aspecto, derivado da indireta, influenciam na forma como país pensa
obra de Florestan Fernandes, que Jessé Souza a si mesmo; como se identifica; e qual o poten-
(2009, p. 82) pertinentemente aponta: cial de desenvolvimento partindo daquilo que
somos.
…para que exista justiça social, as crianças Do ponto de vista econômico a questão
deveriam chegar à escola em condições se- chave parece ser qual o foco: um desenvolvi-
melhantes de competição. É essa “gênese mento que integre maior parcela da população
da desigualdade social” que nenhuma teoria ou que continue concentrando renda. O contex-
liberal alcança. Existe um verdadeiro abismo
to histórico nem sempre permite a realização
entre as crianças da classe média e da “ralé”
brasileira. Enquanto as primeiras chegam na plenitude das propostas econômicas, devido
à escola já tendo recebido dos pais todo o às pressões externas e internas e a correlação
estímulo, os melhores exemplos e a carga de forças dos agentes. De um ou outro modo, o
de motivação diária necessária para o difícil incremento de um mercado produtivo/consumi-
aprendizado que a disciplina escolar significa dor com parte da população que historicamente
para as crianças, as crianças da “ralé” che- sempre esteve a margem das benesses do cres-
gam completamente despreparadas para os cimento/desenvolvimento, faz com que a pers-
mesmos desafios. pectiva de uma sociedade mais igualitária seja
mais próxima a realidade.
O pressuposto das “condições seme- A perspectiva neoliberal tende ao econo-
lhantes de competição” é o acesso à “ordem so- micismo, e mesmo considerando que a justiça
cial competitiva”. Sem essa garantia inicial, de
que todas as pessoas tenham acesso à “ordem 6
Este debate tem uma relação mais estreita com a perspectiva
social competitiva”, ou seja, sejam “integradas à liberal/neoliberal. O novo/neodesenvolvimentismo também não
escapa de reproduzir esta ideia, porém não a enfatiza, além de
sociedade de classes”, o debate sobre o patri- considerar desigualdade e concentração de renda como proble-
monialismo/personalismo só pode ser justifica- mas relevantes.

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Breves reflexões acerca...

social não seja algo fora do horizonte, a reifica- DEÁK, C. Acumulação entravada no Brasil
ção de um mercado que não abrange a todos e a crise dos anos de 1980. In: DEÁK, C.;
vai fatalmente relegar parte da população à SCHIFFER, S. R. (orgs.) O processo de
marginalidade. A perspectiva novo/neodesen- urbanização no Brasil. 2. ed. São Paulo:
volvimentista parece mais afeita as preocupa- EDUSP, 2010. pp.19-48.
ções com o mercado interno e a redução das
desigualdades, porém cedem a ortodoxia eco- DÓRIA, P. Admitamos: somos corruptos. O
nômica que impacta na condução das políticas Estado de São Paulo, São Paulo, 13 de julho
públicas internas, e esta parece ser a chave do de 2008. Aliás. Disponível em http://alias.
entendimento do bloqueio de um efetivo desen- estadao.com.br/noticias/geral,admitamos-
volvimento social no país: a contradição entre o somos-corruptos,205122. Acesso em
potencial produtivo da maior parte da população 15/10/2016.
e os interesses de uma minúscula parcela privi-
legiada. FERNANDES, F. A revolução burguesa no
Do ponto de vista político, este fato ten- Brasil: ensaio de interpretação sociológica. 5.
de a ser secundarizado pela ênfase na estrutu- ed. São Paulo: Globo, 2006. 505p.
ra e funcionamento do Estado. As discussões
FRANCO, G. H. B. A inserção externa e o
sobre corrupção, segurança, eficácia da gestão
desenvolvimento. Revista de Economia
e etc. se sobrepõe àquelas de tratam das desi-
Política, vol. 18, n. 3 (71): 121-147, julho-
gualdades e concentração de renda. Inverte-se
setembro, 1998.
a prioridade para a manutenção dos privilégios.
Salientamos, portanto, para a importância de se
FREYRE, G. Casa-grande & Senzala:
compreender e analisar o Brasil de forma mais
formação da família brasileira sob o regime da
distanciada do senso comum reforçado pela mí-
economia patriarcal. 48. ed. São Paulo: Global,
dia e do debate político imediatista e pragmático;
2003. 719 p.
e mais aproximada (criticamente) daquilo que foi
esforço de interpretação dos grandes intérpretes ______. Sobrados e Mucambos. Edição
do Brasil. comemorativa 70 anos. São Paulo: Global,
2006. 1008 p.
REFERÊNCIAS
FURTADO, C. Formação econômica do
ABREU, M. A. A. Raymundo Faoro: Quando o Brasil. 34. ed. São Paulo: Companhia das
mais é menos. Perspectivas, São Paulo, v. 29, letras, 2007. 352 p.
p. 169-189, 2006.
______. Receita para o crescimento. Jornal
BASTOS, E. R. Raízes do Brasil – Sobrados da UNICAMP, Campinas, nº. 267, p. 3, 27 de
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el debate político sobre el modelo de desarrollo que
In. REIS, J. C. As identidades do Brasil: de
se destina para el país: resumidamente un desarrollo
Varnhagen a FHC. 9. ed. Ampl. Rio de Janeiro, con inclusión social más efectiva u otro cuyo enfo-
Editora FGV, 2007. p.115-144. que es la seguridad y austeridad fiscal en detrimento
de las políticas sociales. El debate no es nuevo y se
______. Anos 1960: Caio Prado Jr.: A puede comparar con las interpretaciones de grandes
reconstrução crítica do sonho de emancipação pensadores brasileños. En breve reflexión que sigue
e autonomia nacional. In. REIS, J. C. As en el artículo, se discute sobre un tema importante,
identidades do Brasil: de Varnhagen a FHC. tema éste objeto de discusión por aquellos que in-
9ª ed. Ampl. Rio de Janeiro, Editora FGV, 2007. terpretaron Brasil y todavía ejercen fuerte influencia
pp.173-202. en las agendas y en el discurso político y económico
actual, es decir, cuáles son los obstáculos para un
______. Anos 1960-70: Florestan Fernandes: efectivo desarrollo social en el país.
Os limites reais, históricos, à emancipação e Palabras Clave: Discurso político; Desigualdad;
Patrimonialismo.
à autonomia nacional: a dependência sempre
renovada e revigorada. In. REIS, J. C. As
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