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REALIZAÇÃO APOIO

Competências
Socioemocionais
Índice
PÁGINA 3

Introdução

PÁGINA 4

Capítulo 1
Competências para
além do conteúdo

PÁGINA 11

Capítulo 2
Uma escola
mais saudável

PÁGINA 18

Capítulo 3
O ambiente digital

PÁGINA 29

Capítulo 4
Como eles fazem
na prática
INTRODUÇÃO

B ullying, automutilação, publicações


constrangedoras sobre colegas
em redes sociais, clima negativo
de empoderar os educadores para
essas discussões e de fazer das
escolas espaços mais acolhedores,
entre funcionários e alunos. Que NOVA ESCOLA, com o apoio
escola nunca enfrentou um desses do FACEBOOK, produziu este
problemas? O relatório Um Rosto material. Nele, exploramos como
Familiar: A Violência na Vida de competências como abertura ao
Crianças e Adolescentes, do Fundo das novo, autogestão, engajamento
Nações Unidas para a Infância (Unicef), com os outros, amabilidade e
aponta que cerca de 130 milhões de resiliência emocional podem
estudantes entre 13 e 15 anos (pouco colaborar na formação e saúde
mais de um em cada três) sofrem mental de crianças, adolescentes e
bullying regularmente no mundo. Esse até mesmo adultos.
é só um dos problemas que afetam
o clima escolar e impactam a saúde Há escolas que já desenvolvem as
mental dos diferentes atores que competências socioemocionais com
circulam pela escola. a sua equipe e seus alunos. Neste
e-book, compartilhamos algumas
O desenvolvimento das dessas histórias para inspirar mais
competências socioemocionais educadores a ajudar na construção
podem ajudar a transformar esse de uma escola saudável e com
cenário. Entendendo a importância clima positivo.
CAPÍTULO 1

Competências
para além do
conteúdo
É um dia comum. Na hora de
acordar você se irrita com o
despertador, desliga o aparelho e acaba
desculpas e de remarcação), além dos
conhecimentos que entrariam em jogo
em cada um dos seus compromissos.
levantando meia hora depois do que Mas há atitudes que são igualmente
havia previsto. Esse pequeno deslize fundamentais para contornar toda a
tem consequências: você vai ter que situação: a capacidade de lidar com
rever toda a sua agenda. Precisará ter frustrações, de estar aberto para
mais foco nas tarefas – não vai dar mudanças no percurso, de ter foco e
para checar o celular milhões de vezes saber se organizar, além de lidar bem
ao longo do dia –,desmarcar alguns com relações interpessoais.
compromissos, reagendar outros e
reorganizar o dia. O primeiro grupo de aptidões faz
parte das habilidades cognitivas,
Uma situação cotidiana como que incluem conhecimentos,
essa mostra a importância de conteúdos e procedimentos que
conhecimentos, habilidades e já são tradicionalmente ensinados
competências de diversas ordens. Para nas escolas e estão relacionados
lidar com um problema simples – cinco à memorização, à assimilação e à
minutinhos a mais de sono que se compreensão de informações. Já o
transformaram em 30 –, é preciso, por segundo grupo, o das competências
exemplo, fazer diversos cálculos (com socioemocionais (CSE),tem ganhado
resultados exatos ou aproximados) destaque recentemente. Elas são parte
envolvendo medidas de tempo. Você do desenvolvimento individual pelo
também terá de dominar a leitura qual todos passamos ao longo da vida e
e a produção de gêneros textuais que engloba também aspectos físicos
que lhe permitam se comunicar (bem-estar) e culturais (identidade e
com as pessoas com quem tinha diversidade), além do intelectual. Por
compromissos (sejam eles escritos, isso, são frequentemente associadas
como um e-mail ou uma mensagem a pesquisas e trabalhos que tratam de
de texto, ou orais, como o pedido de Educação Integral.
Afinal, o que são
as competências
socioemocionais?
Os trabalhos sobre as CSE vêm do
campo da psicologia. Depois dos
anos 1930, pesquisas se debruçaram
sobre quais seriam as palavras
usadas para descrever os traços da
personalidade humana e, a partir
da década de 1980, essa lista foi
reduzida a cinco principais eixos:
abertura ao novo (curiosidade
para aprender, imaginação criativa
e interesse artístico), consciência Na Educação, a relação entre
ou autogestão (determinação, aspectos morais e comportamentais
organização, foco, persistência e e a aprendizagem não é novidade.
responsabilidade), extroversão O biólogo suíço Jean Piaget (1896-
ou engajamento com os outros 1980), por exemplo, realizou
(iniciativa social, assertividade estudos aprofundados sobre o
e entusiasmo), amabilidade desenvolvimento moral. Mas, nas
(empatia, respeito e confiança) duas últimas décadas, o espaço
e estabilidade ou resiliência dedicado a essas questões aumentou
emocional (autoconfiança, tolerância a ponto de instituições como a
ao estresse e à frustração). Cada um Organização para a Cooperação e
dos eixos abriga diversas qualidades, Desenvolvimento Econômico (OCDE)
também chamados de traços de se debruçar sobre elas em diversos
caráter, que podem se entrelaçar com estudos e inclusive inserir aspectos
competências cognitivas, criando sobre o desenvolvimento das CSE no
capacidades híbridas – a criatividade e Programa Internacional de Avaliação
o pensamento crítico, por exemplo. de Alunos (Pisa).
Por que falar sobre usá-lo se você não tiver atitudes e
as CSE agora valores que façam dele algo positivo
para você e para o mundo”, afirma
No texto introdutório da Base Nacional Anna Penido, diretora do Instituto
Comum Curricular (BNCC), são Inspirare. Além disso, o aumento de
definidas dez competências gerais que casos de pessoas com transtornos
todos os alunos devem desenvolver ao psicológicos na vida adulta acendeu
longo da escolarização. Elas resumem o sinal amarelo para que questões
o que as escolas devem ter como de personalidade, comportamento
norte. As CSE estão contempladas e temperamento fossem mais bem
dentro das competências listadas no trabalhadas com os mais jovens.
documento. Ainda que sempre tenham
sido abordadas por pensadores, Uma segunda explicação é o
especialistas e professores, a aumento no número de pesquisas
importância dada a elas – que a levou que mostram – com números – o
à principal diretriz curricular do país impacto do trabalho com as CSE.
– cresceu nos últimos anos devido a “Isso muda todo o quadro. Uma coisa
diversos fatores. Primeiro, o século 21 é você saber o que são os modelos
e o avanço vertiginoso das tecnologias teóricos, pois isso importa e muito na
fizeram com que diversas funções de hora de ensinar. Outra coisa é você
trabalho fossem automatizadas. Como ter evidências”, analisa Simone André,
resultado, cada vez mais pessoas gerente executiva de Educação do
que antes trabalhavam na indústria Instituto Ayrton Senna. O professor
passam a trabalhar com serviços, Robert Selman, da Universidade de
lidando com outras pessoas, o que Harvard, resume bem o movimento
exige novas competências. “Não basta pelo qual o trabalho com as CSE
apenas ter conhecimento e não saber passou nos últimos anos:
“Há algumas décadas, acreditava-
se que o ensino de competências
relacionadas à convivência cabia
exclusivamente às famílias e que as
escolas deveriam se debruçar apenas
sobre o conhecimento acadêmico.
Com o tempo, passou-se a acreditar
que o papel da escola também era
formar cidadãos, mas sem clareza
sobre o que era necessário para isso. Um desses estudos foi realizado pela
Por essa razão, ainda havia resistência OCDE e publicado em 2015. A análise
à incorporação de competências Competências para o Progresso
como amabilidade, estabilidade Social – O poder das Competências
emocional e consciência. Quando, nas Socioemocionais verificou que, adultos
décadas de 1980 e 1990, epidemias com as CSE mais desenvolvidas
de violência e conflitos se espalharam tendem a ser mais bem-sucedidos: eles
pela sociedade, o cenário começou a têm mais chances de concluir o Ensino
mudar, pois esses problemas também Superior, escapar do subemprego e
atingiam as escolas. Como é comum receber um bom salário. Com relação
acontecer, coube à Educação lidar com à renda, por exemplo, um jovem aluno
esses problemas, o que o mundo não norueguês tem 33% mais chances de
conseguia. Nesse contexto, o papel alcançar um patamar superior de renda
que era das famílias passou a ser se for incentivado a compreender CSE.
considerado também um papel das O mesmo estudo aponta que uma
instituições escolares. Começaram criança que frequenta nos Estados
a surgir, então, diversas propostas Unidos a pré-escola com ensino das
para trabalhar com essas questões. CSE com ênfase no autocontrole tem
Recentemente, o movimento da 12% menos risco de sofrer bullying
aprendizagem socioemocional levou até o final do Ensino Fundamental.
vantagem porque algumas pesquisas O relatório ressalva que diferentes
mostram que, quando colocamos essas contextos socioeconômicos podem
habilidades no currículo, o desempenho afetar a comparação de análises.
acadêmico também melhora”. Associando ainda mais à vida escolar,
relatório do Pisa 2015 recomenda que
Leia a entrevista completa em autoconfiança e motivação levam a um
bit.ly/Selman-CSE melhor domínio da língua materna.
CSE como política pública maiores níveis de abertura a novas
experiências obteve desempenho
Antes do Brasil, outros países e regiões melhor, mesmo vindo de famílias
já haviam apostado na inserção das menos favorecidas economicamente.
CSE em seus currículos e no cotidiano Juntamente com os ganhos
das escolas. Uma experiência exitosa é cognitivos, observou-se, por exemplo,
a da província de Ontário, no Canadá, que o incentivo ao estudo pelos
onde o conselho escolar definiu que familiares estimulou aspectos como
alunos do Ensino Médio têm de sair da consciência e amabilidade e que filhos
escola compreendendo e expressando de mães menos escolarizadas são tão
competências para melhorar o bem- ou mais conscienciosos (responsáveis)
estar e construir um senso de cidadania que filhos de mães mais escolarizadas.
ativa. A definição sobre quais seriam,
especificamente, essas competências
se deu pela construção coletiva de um
plano de ação da comunidade escolar.
Outros casos estrangeiros semelhantes PARA FICAR CLARO
que privilegiam as CSEs de forma
As competências
institucional e intencional são a Austrália
socioemocionais (CSE) e
e a Finlândia – ambos apresentam
reformas curriculares que especificam
as competências gerais
CSE, com destaque para os finlandeses, da Base Nacional Comum
que se distanciaram consistentemente Curricular (BNCC) estão
de aulas somente expositivas. relacionadas, mas não são
a mesma coisa. As CSE
Nas escolas daqui, a avaliação pioneira compõem um modelo
de impacto das CSE foi realizada teórico vindo do campo
no Rio de Janeiro em 2013, com da psicologia. Elas são
a parceria da Secretaria Estadual utilizadas por entidades
de Educação e o Instituto Ayrton brasileiras e estrangeiras
Senna. Cerca de 25 mil alunos, do 5º para estudar como aspectos
ao 9º ano do Ensino Fundamental da personalidade podem
e do 3º ano do Ensino Médio, influenciar no processo de
responderam a um questionário e ensino e aprendizagem.
tiveram informações socioeconômicas Já as competências da
coletadas para permitir o cruzamento BNCC determinam o norte
com resultados cognitivos. Entre os para todo o processo de
resultados, conclui-se que alunos
escolarização: envolvem
mais responsáveis, focados e
tanto aspectos atitudinais
organizados aprendem em um ano
quanto procedimentais e de
letivo cerca de um terço a mais de
Matemática do que os colegas. Em
conteúdos que os estudantes
Língua Portuguesa, quem apresentou brasileiros precisam desenvolver.
Intencionalidade

Pode ser fácil entender que um aluno


mais instável emocionalmente e
isolado socialmente provavelmente
vai ter um desempenho escolar
aquém de seus colegas. Basta então
o professor incorporar as CSE em aula
para a situação mudar efetivamente?
Não é tão simples assim. Há, sim,
de acordo com Vygotsky, Wallon e
outros (Abed, 2014), a possibilidade
de direcionar, por meio do professor,
capacidades afetivas de acordo com
princípios pedagógicos de mediação
de aprendizagem, preferindo
“ações concretas que o professor
deve planejar e executar para que
esses objetivos atinjam os alunos,
gerando assim a reciprocidade, ou
seja, o engajamento do aluno no
processo”. (Abed, 2014; 59). Isso
não significa, porém, que práticas
pedagógicas que ressaltem as CSEs
dependam somente do professor para
serem intencionais. Pelo contrário:
currículo, gestão, formação de
professores, avaliação, recursos e
práticas pedagógicas são dimensões
institucionais que devem enfatizar PARA SABER MAIS
as CSEs em diversos contextos de Especial Socioemocionais
aprendizagem (OCDE, p. 41), como de Guia de Competências Gerais
escola, família, comunidade e trabalho. da Base
Para oferecer as competências de “Quando as emoções entram
forma eficaz e intencional, a escola no currículo”
deve gerar contribuições diretas “Como aplicar na prática as
(práticas pedagógicas e trabalho em competências socioemocionais”
equipe); lidar com fatores ambientais
“O desenvolvimento das
(espaço, recursos e segurança); habilidades socioemocionais
e promover incentivos políticos como caminho para a aprendizagem
(currículo e formação de professores), e o sucesso escolar de alunos da
segundo estudo da OCDE. educação básica”
CAPÍTULO 2

Uma escola
mais saudável
B rigas,bullying, variações
de humor entre alunos e
professores, falta de interesse
como essa podem se dar com relação
a diversas emoções e também em
várias esferas da escola. Longe de só
nas aulas e tarefas, notas ruins. “cuidar dos problemas” dos alunos, a
O trabalho com as competências incorporação das CSEs nas práticas
socioemocionais NÃO vai resolver pedagógicas reverbera na melhora da
magicamente todos esses problemas, saúde mental de crianças, famílias,
mas pode ajudar. professores, gestores e funcionários.

Um exemplo corriqueiro: um aluno A organização norte-americana


geralmente extrovertido chega Casel (sigla em inglês para o Coletivo
cabisbaixo às aulas da semana. para Aprendizagem Acadêmica,
Você percebe que algo o está Social e Emocional) defende
incomodando e gerando tristeza. outros benefícios do trabalho com
Como proceder? Há diversas socioemocionais: além de melhorias
intervenções possíveis que podem nas notas das disciplinas escolares,
buscar aliviar esse sofrimento instituições que seguem essa
pontual e animar ou distrair o abordagem têm redução da taxa de
estudante. Mas a perspectiva das evasão escolar e menor ocorrência
CSE propõe que esse não seja o de casos de comportamentos
único objetivo. A tristeza funciona, destrutivos (como na geração
via de regra, de forma adaptativa. de conflitos). Segundo estudo da
Isso significa que esse sentimento American Institutes for Research de
pode ser utilizado para se extrair 2016 abrangendo período de quatro
aprendizagens importantes sobre anos, entre nove distritos de ensino
as suas causas e sobre como lidar norte-americanos que dedicam
com ele. Essa aprendizagem será atenção ao tema quatro registraram
fundamental em diversas outras maior presença de alunos e seis viram
situações em que essa emoção menos ocorrências de suspensão.
retornará. Além disso, esse mesmo “Se o aluno tem um aprendizado
aluno poderá espalhar essa em habilidades socioemocionais na
aprendizagem, ajudando colegas de escola, ele é capaz de compreender
dentro e fora da escola e familiares melhor algumas questões que podem
a também se relacionar de maneira surgir em sua casa. Ele aprende a
saudável com suas emoções. A ter boas relações com os colegas,
longo prazo, isso pode ter efeitos professores e mentores”, disse a
benéficos à saúde mental dele e das NOVA ESCOLA a especialista norte-
pessoas que o cercam. americana Pamela Bruening, diretora
de aprendizado profissional no
Agora imagine que aprendizagens programa Cloud9World, que adota
um projeto desenhado pela Casel. outros, observadas por exemplo por
meio de jogos.
Emoções para cada fase
do desenvolvimento Na infância e pré-adolescência,
a criança já apresenta um senso
A sensibilidade do professor é de equilíbrio socioemocional que
importante para que situações permite buscar objetivos e “se
cotidianas – como variações de enturmar”. A vergonha tende a
humor e conflitos espontâneos emergir nessa fase. Também é
entre os alunos – se transformem comum que as crianças se afastem
em matéria-prima para o trabalho um pouco de seus sentimentos
com as socioemocionais. Ainda para exercer habilidades sociais e
mais importante é planejar esse compreender como funcionam os
trabalho. Isso é possível conhecendo seus grupos.
as características de cada faixa
etária e criando situações em que Na adolescência, começa um
os alunos precisem aliar as CSE ao processo de internalização das
desenvolvimento de habilidades emoções e o questionamento
cognitivas. desses sentimentos (“Por que me
sinto culpado de sentir raiva?”).
De acordo com a trajetória A comunicação incorpora essas
organizada por Christopher Peterson emoções e existe a formação de
e Martin E.P. Seligman no livro uma moral e uma identidade.
Character Strengths and Virtues:
A Handbook and Classification, Finalmente, na vida adulta, o
nossa vida emocional pode ser indivíduo se sente, em geral,
dividida em quatro fases: primeira como quer se sentir. Aqui, o ideal
infância, infância e pré-adolescência, é haver um processo de aceitação
adolescência e vida adulta. das experiências emocionais
alinhadas a crenças, criando
Na primeira infância, há um um equilíbrio das emoções. O
agrupamento pouco integrado de objetivo final desse percurso
habilidades que serão base para o seria, para os autores, perceber
desenvolvimento, mas já existem “um eu altamente desenvolvido
mostras de paciência, autocontrole e totalmente diferenciado dos
e empatia no contato com os outros”. Entendendo nossas
qualidades e fragilidades, do programa dedicado a desenvolver
podemos inspirar outros a viver habilidades interpessoais, adequando
vidas mais significativas. tempo, dedicação e atenção a
construir essas habilidades. Por fim,
A maior parte dessa montanha- são explícitos: buscam um modelo
russa que é o desenvolvimento de aprendizado claro e específico
psicológico se dá durante os anos de CSE, e não apenas resultados
de escolarização. É uma trajetória positivos generalizados, ou seja,
sinuosa e complexa, mas que ainda definem as competências específicas
assim apresenta pontos de transição que se pretende promover. Exemplo:
destacados e características que o caso do Canadá, visto no primeiro
permanecem conosco, de pequenos capítulo, priorizou a resiliência e a
a adultos. O trabalho com as CSE colaboração como competências
na escola não tem como objetivo essenciais aos seus alunos.
acelerar esse processo – que tende a
ser natural e pelo qual todos passam O impacto desse trabalho se dá em
–, mas, sim, garantir que ele seja diversas esferas: da dinâmica em sala
mais rico. Por isso, assegurar que elas de aula à gestão escolar. Conheça
sejam trabalhadas transversalmente algumas estratégias utilizadas.
aos conteúdos é fundamental.
Trabalhos em grupo
A Casel, além de oferecer assistência
e treinamento específicos aos Entre os alunos, praticar a
professores, também recomenda colaboração é essencial para a
um conjunto de práticas, conhecido formação de consciência social,
em inglês pela sigla SAFE Eles já que todo trabalho necessita de
são sequenciados: implementam cooperação para ser bem feito.
diferentes atividades coordenadas Os alunos terão que saber ouvir
para chegar aos objetivos de atentamente a discussão dos colegas;
aprendizagem, num percurso vão precisar se colocar no lugar do
passo a passo de complexidade. outro para entender um raciocínio
São ativos: o que significando que que é, a princípio, incomum (ou seja:
formas dinâmicas de ensino devem é novo) e, na hora de se expressar,
colocar os alunos em situações não apenas opinar com base no que
reais, incentivando a apropriação do pensava antes mas argumentar de
conteúdo e oferecendo devolutivas maneira respeitosa, levando em
frequentes. São focados: além dos conta as ideias de todos, além de
efeitos do clima escolar, têm pelo ter ética para dividir bem o trabalho
menos um componente específico e ninguém se sobrecarregar. Como
resultado, mais pontos de vista são
considerados e, se bem organizados,
fundamentam melhor as respostas
aos colegas e ao professor.

Aula expositiva vs.


colaborativa
Feedback
Calma, professor, a aula expositiva
não tem que desaparecer. Mas ela No ensino tradicional, fazer
deve passar de protagonista para devolutivas aos alunos pode
coadjuvante porque as metodologias significar mais advertir sobre
ativas, que colocam as atividades os erros nas atividades do que
realizadas pelos estudantes como incentivar sobre os acertos. Com as
o ponto principal da aula, são CSE, o professor tem de expressar
fundamentais para o desenvolvimento as expectativas de aprendizagem
das CSE. A resolução de problemas de forma que os alunos se sintam
é uma delas, principalmente em motivados a participar das
Matemática e Ciências. Em vez de atividades e, ao fim de cada aula,
o professor abastecer os alunos se mostrem capazes de falar sobre
de perguntas a ser solucionadas o que aprenderam. Dessa forma,
após a explicação de um conceito, o uma relação de confiança entre
caminho é inverso. O aluno acessa docente e aluno é possível. Mas,
a problematização, discute, levanta cuidado: essa relação não pode
hipóteses e tenta estratégias de ser de amizade ou paternalismo.
solução antes de o conceito ter Ao exercer sua autoridade como
sido ”ensinado” pelo professor. Essa mentor, o professor deve então
pode ser uma oportunidade de influenciar e ser influenciado pelas
compreender os níveis de tolerância à experiências com os alunos. Tendo
frustração dos alunos. Para isso, eles um compromisso com o ensino,
precisam saber que têm autonomia pode demonstrar estabilidade
para escolher o tema a ser trabalhado emocional e responsabilidade com
e se engajar nas atividades. seus feedbacks.
Clima escolar: gestão mais O que pode funcionar
democrática?
Tão importante quanto desenvolver
O professor não deve as CSEs dos alunos é estimulá-las
carregar sozinho nas costas a de forma integral, espelhando-
responsabilidade de promover as com uma situação real. Foi o
o desenvolvimento integral dos que fez a professora de Ciências
alunos. Outros fatores que guiam Milena Fabrini, da Escola Municipal
o aprendizado, como a gestão Professor Francisco de Assis Varela
democrática da escola, são tão Cavalcanti, de Natal. Com alunos
essenciais quanto o trabalho do 8º ano do Ensino Fundamental,
do docente. “Um processo Fabrini trabalhou a extroversão
participativo permite a pluralidade e a tolerância por meio de rodas
de pensamentos e pontos de vista. de conversa e dinâmicas de
Nesse sentido, o investimento planejamento pessoal para incentivar
em práticas de Educação moral, um debate sobre educação sexual.
ética, cidadania e habilidades Questionamentos iniciais, geralmente
socioemocionais contribui para constrangedores, eram feitos por
que todos aprendam a conviver meio de bilhetes anônimos. Em
com a diversidade de modo mais meio a risadas da classe, Milena foi
natural”, afirmam os especialistas ganhando a confiança dos alunos até
Bruno Cavalcante e Bárbara Dias, da não precisar mais dos bilhetes. “Aos
consultoria educacional Evoluir. Com poucos, eles criaram uma relação de
isso, o surgimento de novas vozes vai afetividade com o professor e entre
legitimar, por exemplo, as decisões eles e deixaram de ter vergonha de
da gestão e a elaboração do projeto perguntar. Agora estão mais abertos,
político-pedagógico (PPP). Contudo, sabem agir de forma natural e tiram
conflitos e discordâncias devem qualquer dúvida”, conta.
acontecer mais naturalmente. Para
não tomar o dissenso como coisa Para chegar a esse ponto, recorreu-
negativa, a gestão deve organizar a se a algumas estratégias. Os
participação dos atores da escola. alunos puderam – em situações de
Por exemplo: alunos podem elaborar jogos e dinâmicas – discutir sobre
uma pesquisa sobre o que debater tomadas de decisões responsáveis
no PPP e acompanhar um plano de relacionadas à vida sexual, como o
ação coletivo implementado pela uso de contraceptivos. Rodas de
gestão. Diversas C SE, como a conversa foram montadas para
aber tura a novas experiências, debater incertezas e estimular a
são desenvolvidas nesse empatia nos estudantes. No fim
processo democrático. do projeto, diz Milena, ao ouvir o
relato de uma menina sobre sua previsível. Se o aluno percebe
decisão de não fazer “sexo como que a atitude empática é a coisa
prova de amor”, ninguém mais “certa” a fazer, ele pode apenas
riu. “Isso é muito gratificante”. verbalizar aquele direcionamento,
A professora também aponta e não refletir genuinamente sobre
a melhora no desempenho dos o traço de caráter. “A empatia pode
alunos nas avaliações escritas ao acabar se resumindo à habilidade
responderem questões subjetivas, de manipular a pesquisa que está
que requerem mais interpretação sendo feita”, alerta.
do que memorização. Eles se
tornaram mais resilientes e não Outro engano seria avaliar as CSE
deixavam mais a resposta em do mesmo modo que as habilidades
branco, segundo Milena. cognitivas, estabelecendo objetivos
ideais de pontuação a uma turma ou
Mas nem tudo são flores nas escola. Como diz o psicólogo Ricardo
atividades de compreensão Primi em relatório do Instituto
das CSE. Gustavo Estanislau, Ayrton Senna, é “importante lembrar
especialista em psiquiatria da que nesse tema não podemos
infância e adolescência e integrante definir qual competência é bom ter
do grupo Cuca Legal, da Unifesp, em maior ou menor grau. Trata-se
conta que questionários ou de um conjunto de características
rodas de conversa após uma aula que cada pessoa tem em uma
expositiva podem deixar a atividade combinação diferente”.
CAPÍTULO 3

O ambiente
digital
“Compreender, utilizar e
criar tecnologias digitais de
informação e comunicação de
forma crítica, significativa,

N ão faz muito tempo que,


para conhecer uma pessoa,
dependíamos de interações
reflexiva e ética nas
diversas práticas sociais
(incluindo as escolares)
feitas ao vivo: encontrá-la para se comunicar, acessar
pessoalmente, conversar e fazer e disseminar informações,
passeios juntos, compartilhar com produzir conhecimentos,
outros conhecidos impressões resolver problemas e exercer
que você colheu com base nesses protagonismo e autoria na
momentos. Mas a internet mudou vida pessoal e coletiva”.
muita coisa. Hoje, nossos perfis Competência Número 10 da BNCC
e publicações online, assim como
as informações sobre nós que Dados da pesquisa TIC Educação
circulam no perfil de outras 2017 mostram um panorama
pessoas, podem ser uma das únicas surpreendente: apesar do alto
formas de contato que algumas uso da internet por professores e
pessoas possuem conosco. alunos de escolas urbanas (69% dos
estudantes dizem acessá-la mais de
Com identidades criadas unicamente uma vez por dia), apenas 44% dos
online, pensar em como as relações jovens entrevistados afirmaram ter
se dão nesse espaço também é aprendido com os educadores sobre
essencial. Na Base Nacional Comum como utilizá-la de maneira segura.
Curricular (BNCC), uma das suas dez Parece haver um descompasso entre
competências gerais diz respeito a a vida virtual dos alunos e a vida dos
esse tema: profissionais da escola.
Para mudar a situação, diversas
organizações têm produzido
materiais que ajudam o professor
a incorporar esse tema. Um dos
mais interessantes foi desenvolvido
pela organização norte-americana
DQ Institute (Instituto Inteligência
Digital, na sigla em inglês). Segundo
eles, a inteligência digital pode ser
dividida em oito áreas, com subáreas.
São elas:

• Uso digital, que incorpora a • Comunicação digital, com as


saúde digital, o tempo de tela e subdimensões de colaboração e
a participação na comunidade. comunicação online e pegadas
digitais.
• Identidade digital, relacionada
ao empreendedorismo digital, à • Inteligência emocional digital,
cocriação no ambiente virtual e que aborda a conscientização
à cidadania digital. social e emocional, a regulação
emocional e a empatia.
• Direitos digitais, que abordam
a liberdade de expressão, o • Segurança digital e as
direito à propriedade intelectual subáreas de proteção de senhas,
e à privacidade. segurança na internet e em
dispositivos móveis.
• Letramento digital, que
envolve o pensamento • Proteção digital, que trabalha
computacional, a criação de com comportamentos de risco,
conteúdo e o pensamento conteúdos de risco e contatos
crítico. de risco.
Boa parte das áreas listadas pelo GQ
Institute diz respeito a diferentes
dimensões das competências
socioemocionais (CSE). Alguns
exemplos: empatia para lidar com
as opiniões expostas pelos colegas e
por problemas que eles possam viver
na internet, autorregulação para
controlar não só o tempo utilizado
em frente a telas mas também para O uso de diversas plataformas
fazer uma curadoria seletiva das virtuais transita entre esses dois
informações que compartilha online conceitos. A identidade digital pode
e pensamento crítico para saber ler ser entendida como o conjunto de
e analisar os conteúdos com que se informações pessoais disponíveis
tem contato. online e a maneira como elas afetam
suas interações. Ela é construída, por
Prevenção é o melhor caminho exemplo, a cada nova conta aberta
em uma nova rede social ou serviço
Buscar soluções quando surgem de compra com base nas informações
problemas como o bullying e que são compartilhadas com as
vazamento de fotos íntimas é pessoas que têm acesso a esse perfil.
importantíssimo (falaremos disso Fazem parte da nossa identidade
mais adiante). Mas, em um trabalho digital as informações colocadas em
na perspectiva das CSE, apagar perfis nas redes sociais, mas também
incêndios não basta. O planejamento curtidas que distribuímos, os itens
deve ser estruturado para que que compartilhamos, as fotos que
habilidades como as mostradas acima publicamos e as atualizações de
sejam desenvolvidas pelos alunos status que fazemos. E não apenas
antes que esses casos ocorram. em uma plataforma, mas em
toda a internet: também conta
Dois elementos fundamentais de nossa presença em redes sociais
serem trabalhados são os conceitos profissionais, acadêmicas e assim por
de privacidade e identidade digitais. diante. Esse todo constitui quem nós
Ambos estão relacionados às somos dentro do ambiente virtual.
informações que são disponibilizadas
online a respeito de uma pessoa, o A privacidade é um direito e
que pode ser feito por ela mesma também um controle sobre o
ou por terceiros. Por isso, tanto que outras pessoas ou empresas
autorregulação, quanto empatia e sabem sobre você. Ela diz respeito
respeito são conceitos-chave. à definição de quais informações
você NÃO gostaria que fossem – e, se for descontextualizada, usada
disponibilizadas abertamente. contra a pessoa.
Nesse tema, é importante ser
cuidadoso ao analisar quais dados, Para evitar esse risco, a identidade
sites e aplicativos serão coletados digital deve ser construída com
e aprender a criar relações de atenção e precaução, realçando
confiança e respeito com quem você características positivas sobre a vida
compartilha conteúdos privados. social do usuário. Uma boa maneira
de conduzir uma reflexão desse tema
Para se apresentar de forma pode surgir de uma autoanálise sobre
consciente e positiva nas interações as características que os alunos mais
digitais, identidade e privacidade admiram em si mesmos – os colegas
devem se complementar. Em uma também podem ser convidados a
rede social, se conteúdos pessoais participar. Depois, proponha a eles
são expostos equilibradamente, com olhar as próprias redes sociais e
o usuário sabendo quem vê cada observar se essas características
conteúdo publicado e como vê, as estão contempladas ou não, além de
informações são protegidas por esse tentar imaginar quais informações
grupo de pessoas confiáveis. A escola presentes ali são passíveis de uma
não precisa recomendar regras do que interpretação equivocada sobre a
é certo ou errado postar, nesse caso, personalidade deles. O professor
e sim enaltecer em rodas de conversa pode servir de exemplo e contar
a consciência de sempre avaliar o como usa as mídias sociais de forma
contexto e o destinatário de um post segura, equilibrada e saudável. É
ou mensagem antes de compartilhar importante ressaltar que segurança
uma foto, vídeo ou informação não é o oposto de liberdade, mas
pessoal em ambientes digitais. uma condição para que as liberdades
dos alunos sejam respeitadas em
Junto a isso, também deve- variados contextos.
se considerar a perenidade do
conteúdo da internet. Em outras Para esse processo se tornar efetivo,
palavras, uma quantidade enorme a voz dos alunos deve ser ampliada
de informação publicada todos os e tomada como válida. Casos reais
dias pode ser localizada depois de podem aparecer durante o debate.
dois, cinco ou dez anos da postagem Use-os como base, mas fique
original – é o chamado rastro digital atento para que a discussão em
sala não acabe expondo jovens e
amplificando problemas que possam
ter acontecido. Durante rodas de
conversa, é importante que os
alunos saibam ouvir, apresentem
argumentos bem embasados e
exercitem a empatia. Além disso, a Portuguesa e Língua Inglesa, mas
autocrítica é fundamental. Leve-os a também há outros componentes
pensar sobre quais comportamentos curriculares que podem ser envolvidos.
tidos por eles podem violar a
privacidade de outras pessoas. Resolvendo problemas
Abordar esses aspectos não é
algo trivial Exige um planejamento Em contextos em que as CSE
cuidadoso, que estimule o ainda não estão plenamente
uso de diversas competências implementadas, é natural que surjam
socioemocionais. Criar coletivamente ocasiões em que seja necessário
combinados para as discussões (não apagar algum incêndio. Há três
interromper, não citar nomes nem principais grupos com maiores
características que permitam que ocorrências relacionadas à internet.
as pessoas sejam identificadas, não
revelar perfis de colegas presentes 1) Bullying
podem ser pontos levantados pelos O bullying (ou intimidação
alunos com base na questão: “Como sistemática) se manifesta como
debater esse tema sem causar violência física ou psicológica em
constrangimentos aos colegas?”), atos de intimidação, humilhação
estimular que eles se preparem ou discriminação. É importante
previamente para o debate e fazer dizer: é uma forma de violência
uma avaliação coletiva da atividade e pode acontecer de maneiras
(destacar maneiras mais adequadas diferentes e com jovens de
de se colocar, bons exemplos de todos os tipos. O assunto é
argumentos etc.) são maneiras de sério porque traz repercussões
estimular o desenvolvimento das CSE desastrosas para a vida de
em um contexto em que a cultura todos os envolvidos, seja para
digital é discutida. a vítima ou agressor, para a
família, escola e até para os
Por fim, as atividades podem estar amigos. No ambiente virtual,
ligadas a discussões pertinentes aos o bullying também ocorre de
objetivos de aprendizagem de cada formas variadas, desde espalhar
ano. O tema é um bom tópico para rumores e publicar fotos
a realização de produções textuais impróprias até ameaçar alguém
de diversos tipos nas aulas de Língua são algumas delas.
2) Vazamento de imagens 3) Participação em desafios
e conversas e correntes
É cada vez mais comum que De tempos em tempos, são
jovens utilizem aplicativos de criados desafios na internet.
conversas e redes sociais para Alguns deles podem envolver
fazer experimentações com o comportamentos de risco e auto-
despertar da sexualidade. Trocas injuria. Em geral, um grupo – as
de mensagens e imagens podem vezes anônimo – cria “tarefas”
acontecer e, em determinadas para que as pessoas envolvidas
situações, ser espalhadas participem. Essas tarefas podem
por um dos envolvidos. Além assumir diversas funções: desde
disso, também é comum que fazer com que o jovem pareça
montagens sejam feitas com o descolado perante os colegas,
intuito de difamar uma pessoa. estimulando a ingestão de
É o chamado usualmente de bebidas ou que eles preguem
revenge porn ou pornografia de peças em colegas e adultos,
vingança. Segundo a SaferNet até situações que envolvem
Brasil, organização que trabalha automutilação e os façam colocar
para promoção e defesa dos a própria vida em risco.
Direitos Humanos na Internet no
Brasil, a pornografia de revanche O surgimento dessas ocorrências
pode ser definido como “um é um sinal vermelho para a escola:
conteúdo sexualmente explícito elas evidenciam um ambiente
compartilhado publicamente pouco saudável. Isso porque
online sem o consentimento” geralmente ocorrem em situações
com o objetivo de causar em que os jovens se sentem
vergonha e constrangimento à vulneráveis, têm necessidade de
vítima. A motivação de espalhar se reafirmar entre os colegas,
conteúdos comprometedores competem ou entram em intensos
sobre a outra pode ser um e duradouros conflitos entre si.
conflito, como uma briga na
escola ou o término de um As vítimas são, com frequência,
relacionamento. adolescentes e crianças em
situação de maior vulnerabilidade,
repentinamente, que se tornam
mais quietos e parecem mais tristes
podem estar passando por algum
sofrimento psicológico. “Também
é comum que eles procurem um
professor de quem eles gostem
apenas para estar perto mesmo.
Nesses momentos, com frequência
elas fazem perguntas ou puxam
assuntos que parecem não fazer
como aqueles que se sentem muito sentido para o contexto”,
mais inseguros, são mais tímidos explica Telma Vilma, professora de
e possuem menos amigos. Psicologia Educacional da Unicamp.
Aspectos sociais entram em jogo,
já que essas violências podem Contudo, só a intervenção dos
ter caráter machista, racista ou adultos não basta. Pode-se criar
homofóbico. Também é importante canais de comunicação anônimos,
compreender que elas costumam como uma caixa onde alunos podem
envolver um grupo grande de deixar bilhetes sem se identificar, e
pessoas: além do agressor e da dar formação para que os próprios
vítima, a plateia é fundamental estudantes atuem. Como já dito, a
para que a violência aconteça, plateia é fundamental para que as
ganhe repercussão e se repita. violências ocorram. O agressor busca
legitimação pelo grupo e, embora
O primeiro passo para lidar com o esconda dos adultos, faz questão que
problema é ser capaz de identificá- jovens da mesma idade participem
lo. O olhar atento da equipe escolar, dos atos como espectadores.
nesse caso, é fundamental. Parte
das agressões pode ser flagrada Os estudantes devem ser
por algum adulto, mas como a estimulados a intervir nessas
maioria tende a acontecer longe situações e tomar, eles próprios,
dos olhos de educadores, pais ou ações que impeçam que as violências
funcionários da escola – sobretudo continuem: conversar com os
as que ocorrem online – é importante amigos, incentivá-los a pensar
estar ligado para mudanças empaticamente e se colocar ao lado
repentinas de comportamento: do colega agredido são algumas
alunos com desempenho alterado ações que podem ser estimuladas.
inveja podem se manifestar como
agressão. Quando bem assimilados e
praticados, empatia e autocontrole
emocional podem ser elementos de
inibição ou redução da agressividade,
além de estreitar relações
interpessoais positivas.
Eles também precisam ser
encorajados a comunicar situações “Mesmo se não acontece na escola,
graves aos adultos: não se trata, aqui, as agressões virtuais são problema
de se tornar dedo-duro, mas de fazer da escola porque repercutem nela”,
uma denúncia, procurando promover afirma a psicóloga Maria Tereza
o bem-comum. Maldonado e autora do livro Bullying
e Cyberbullying -– o Que Fazemos
Problema identificado, as com o Que Fazem Conosco?. A
intervenções devem destacar especialista afirma que programas
aspectos como empatia e de conscientização e prevenção
autocontrole emocional. Seja qual precisam ser inseridos no projeto
for o papel no conflito (agressor, político-pedagógico (PPP) da
agredido ou colegas servindo de instituição. “Palestras e campanhas
espectadores), se colocar no lugar isoladas não funcionam”, destaca ela.
do outro para tentar compreender
como ele se sente e reconhecer sua Especificamente sobre os atos que
perspectiva sem fazer julgamentos acontecem em meios digitais, apenas
faz com que os alunos percebam as impedir o uso do celular ou do acesso
consequências de seus atos e revejam à internet não são alternativas
sua participação nessas ações. Já eficazes. Segundo a Safernet Brasil,
o autocontrole surge para que os a formação socioemocional do
alunos possam segurar impulsos. Se jovem sobre como responder a esses
não há esse filtro, raiva, vergonha e riscos leva a melhores resultados.
Habilidade central para isso, a
resiliência só pode ser desenvolvida
enfrentando riscos num ambiente
onde o jovem possa pedir ajuda
e com espaço para falar sem
prejulgamentos e reprimendas.

Recursos para ajudar no “Sem meu consentimento,


trabalho não” oferece dicas para lidar e
denunciar o compartilhamento
As próprias plataformas digitais e não consensual de imagens
organizações civis estão investindo íntimas. Algumas dicas práticas
na produção de materiais e de como se proteger, segundo o
orientações para que os usuários site pornografiadevinganca.com,
conheçam mais profundamente são: fazer as fotos sem mostrar
as possibilidades que elas o rosto, não usar o celular de
disponibilizam para aumentar a outros para fotografar e não
segurança e a privacidade no uso mandar a mesma foto para
da internet, assim como denunciar muitas pessoas (isso dificulta
abusos. Conheça, a seguir, alguns identificar quem vazou a imagem
exemplos de materiais que podem de forma criminosa).
trazer informações relevantes para
pais, educadores e alunos: 2) Iniciativa Seja Incrível na
Internet, do Google
1. Central de Segurança do
Facebook Entre os materiais, há um
documento que estimula a
Há um guia sobre bullying feito reflexão sobre compartilhamento
para educadores e outro guia excessivo online. Ensina a
sobre como usar a plataforma de se prevenir quanto a golpes
maneira segura. Há indicações de identificando conteúdos falsos e
recursos como as configurações a proteger informações pessoais.
de privacidade, formas de Há planos de aulas e sugestões
notificação da rede sobre de atividades que estimulam os
conteúdo impróprio e sobre alunos a, em uma situação de
como remover marcações feitas bullying, serem testemunhas
por um amigo em uma foto. proativas (apoiem quem sofreu
Ainda na Central, o documento a agressão, em particular ou em
público) e saberem como fazer em duas etapas, processo de
denúncias nas redes e aos adultos. segurança que, por exemplo,
pede a senha e um código
3) #Internet com Responsa único que chega no seu celular,
também deve ser configurada
Conteúdo produzido pelo CGI. nas contas quando disponível.
br (Comitê Gestor da Internet
no Brasil) apresenta, entre 4) Safernet Brasil
outras orientações, dicas
para aumentar a segurança A organização produz diversos
de uma conta. Senhas fortes materiais relacionados à
(difíceis de ser adivinhadas segurança digital. Também
ou memorizadas), não usar oferece um serviço de
uma senha para todos os orientação a adolescentes e
sites que acessa e, se utilizar jovens em situação de violência
computadores públicos, sempre on-line no site helpline.org.br
fazer log out (sair da página) e sugere um modelo de carta
para evitar que estranhos para solicitar a remoção de um
acessem suas redes são conteúdo abusivo ao site de
algumas delas. A verificação onde ele tiver sido publicado.
CAPÍTULO 4

Como eles fazem


na prática
No Colégio Dante Alighieri,
tradicional instituição paulistana,
há o programa Cientista Aprendiz,
uma espécie de iniciação científica

N ão há um método específico
para que o trabalho com as
Competências Socioemocionais
focada em aprimorar habilidades
para diferentes áreas da pesquisa
e em propiciar aos jovens vivência
(CSE) aconteça. As diversas real dentro do setor de pesquisa e
organizações que pesquisam e desenvolvimento. “Aqui no colégio,
advogam o assunto propõem muitos dos alunos buscam respostas
estratégias e atividades, sim, para aquilo que eles vivenciam.
mas não há um único jeito de Nosso papel é dar dicas e condições
encaminhar esse trabalho. Isso para orientar o projeto, a ponto de
se dá principalmente por causa eles caminharem com as próprias
da necessidade de que aspectos pernas”, afirma Ian Bastos, professor
como a abertura para o novo de Filosofia e orientador do projeto.
e a empatia sejam abordados
transversalmente, ou seja, estejam Quando estavam chegando ao
presentes em todas as disciplinas, final do Ensino Fundamental, as
séries e conteúdos. jovens de então 13 anos Alessandra
Hister, Catharina Faria e Maria Clara
Os projetos são uma das formas Batista ainda não se conheciam.
de organizar o trabalho em sala Mas cada uma, a seu jeito, passava
de aula que mais permitem que por algum sofrimento emocional:
as CSE venham à tona. Ao colocar automutilação, ansiedade e bulimia
os alunos como protagonistas são lembranças de um tempo em
do processo e incentivá-los a que não conseguiam dar vazão
trabalhar em grupo, a resolução para o que estavam sentindo. “O
de problemas, o relacionamento negócio era meio sombrio”, diz hoje
interpessoal, a organização e a Catharina, três anos depois, em meio
argumentação são fundamentais. a uma gargalhada.
As jovens decidiram abordar a a percepção sobre o próprio
questão da saúde mental de jovens corpo, o consumo (ter roupas
e adolescentes em seu trabalho do caras, por exemplo), a necessidade
programa Cientista Aprendiz. Agora de popularidade na escola e o
no Ensino Médio, o trio de alunas desempenho escolar. “Vimos uma
fala com propriedade sobre temas correlação entre a identidade de
como padrões sociais, sociedade corpo e a saúde mental”, afirma
de consumo, pós-modernidade e Maria Clara. Elas notaram que
formação de identidade. “A partir do jovens que tinham mais latente
momento em que nos envolvemos a necessidade da busca por um
no projeto, ele me ajudou a reparar corpo ideal também apresentavam
essas coisas. Era algo que nos maiores dificuldades de fazer
afetava gravemente e era o que amigos, por exemplo.
queríamos trabalhar: discutir um
tema e falar direito sobre o que Na segunda fase, que acontece
estava acontecendo com a gente”, agora, o projeto foca em dar
conta Alessandra. subsídios (conversas e material
elaborado pelo grupo) para alunos
O trabalho ainda está em curso. A representantes de classes do
primeira fase fez um mapeamento, colégio onde elas estudam. Esses
em diferentes escolas, sobre como jovens “multiplicadores” passam a
jovens avaliavam fatores sociais, mediar conversas com os próprios
colegas em nove classes do 1º
ano do Ensino Médio, nas aulas
da disciplina Gestão Pessoal e
Interpessoal (onde são trabalhadas
as CSE). “Fazer isso de jovem para
jovem gera uma identificação. É
mais válida a persuasão em uma propondo para lidar com questões
conversa. É diferente quando é como saúde mental. “Como não
palestra de adulto. Acho aquilo tivemos formação específica de CSE,
muito esquisito”, diz Catharina. O a tendência é buscar no mercado
objetivo central aqui é responder especialistas que deem palestras na
se essa intervenção pode escola. Não que não seja válido para
conscientizar os adolescentes os gestores e professores, mas para
com a troca de ideias entre eles e os alunos nem tanto. As meninas
os critérios adotados na primeira passaram um questionário depois
fase do projeto. de uma intervenção feita no colégio
com duas especialistas [em saúde
Para as estudantes que encaminham mental]. A pesquisa delas mostrou
o projeto, a própria identidade que a ação é mais eficiente quando
foi ressignificada. Perder o medo os alunos mesmos falam, quando há
de falar em público, saber falar uma liderança jovem para justificar
de temas complexos, montar um a questão. Alunos da própria idade,
projeto de pesquisa e compreender orientados por um especialista.
a linguagem científica são alguns A escola tem uma estrutura que
dos impactos pessoais das acredita que a melhor forma de
pesquisadoras-aprendizes do Dante. intervenção é com especialistas e
muito aprofundamento teórico, mas
Os resultados do projeto fizeram feita pelos alunos”, afirma Sandra
com que a própria gestão escolar Tonidandel, coordenadora-geral
repensasse as soluções que vinha pedagógica do colégio.
O lúdico e as emoções, da
Educação Infantil ao Ensino
Médio

O aspecto lúdico tem muitas


funções socioemocionais.
Identificar sentimentos, gerenciá-
los de acordo com diferentes
contextos, construir hábitos
saudáveis e ajudar a tomar decisões
são algumas delas. Na Educação
Infantil, o trabalho com atividades
que estimulam a imaginação pode “Importante nessa faixa etária,
trazer esses conceitos, muitas vezes tanto na Educação Infantil
distantes das crianças e dos pais, quanto nos anos iniciais do Ensino
para perto de uma estrutura de Fundamental, é a criação de
aprendizado por meio do encanto – linguagem. Muitas vezes, o aluno
incorporado pela ação de bonecos e sente, mas não consegue colocar
fantoches de animais. em palavras o que está sentindo.
Não queremos explicar o que é
É o que o Laboratório Inteligência amor, mas criar o ambiente onde
de Vida (LIV) programa elaborado eles possam falar sobre esses
e aplicado na Eleva, escola de elite sentimentos. E assim vai se criando
no Rio de Janeiro, propõe para a relação com os alunos e entre
desenvolver aspectos de inteligência eles mesmos”, conta Caio Lo Bianco,
emocional para crianças da Educação coordenador do LIV. Atividades de
Infantil. Trabalhando emoções expressão artística, sensorialidade e
básicas, como medo, alegria, exploração do espaço também são
tristeza, raiva e amor, com bonecos realizadas com as crianças.
de lobo e ovelha, por exemplo, que
fogem de estereótipos, as ações No Ensino Fundamental 2 e
baseiam-se em histórias contadas no Ensino Médio, há para o LIV
pelos personagens, com a intenção uma necessidade de aproximar
de recriar situações vividas na escola características como a colaboração
e com a família para gerar vínculos e a comunicação com base em
com os alunos. Compartilhando, um gênero muito conhecido pelos
aliás, intencionalidades semelhantes jovens, os seriados da internet.
ao programa “Amigos do Zippy”, da As atividades inseridas na grade
Associação pela Saúde Emocional de curricular têm para os alunos
Crianças (ASEC). do 6º ao 9º ano a função de
A condução dos temas e das
perguntas depende da capacitação
do professor. Como mediador,
buscando um debate democrático,
ele tem que priorizar questões
do coletivo sobre o individual e,
ao gerir o tempo das respostas e
das rodadas temáticas, como diz o
coordenador Lo Bianco, deve “saber
fechar o círculo”. A gestão também
deve trabalhar as CSE com o próprio
apresentar a diversidade humana professor, com base em suas
e estimular a argumentação. Em necessidades com a turma.
um episódio da série – elaborada
especificamente para o material do Com os jovens do Ensino Médio,
LIV –, há um blackout numa cidade o foco são as escolhas e o
fictícia e expressões artísticas e planejamento do que pode ser
de entretenimento, como funk e a vida adulta. Com o objetivo
games, correm o risco de serem de manter o protagonismo dos
deletados. “A intenção não é estudantes nessa preparação
trazer uma resposta a eles, mas e motivar debates em aula, os
colocar discussões de democracia, alunos usam vídeos da popular
representatividade, cultura e youtuber Jout Jout para refletir
preconceitos”, diz Lo Bianco. sobre padrões de beleza, amizade e
preconceito. Por meio dos debates,
Atividade realizada no EF 2, o pretende-se iniciar um processo
Círculo da Confiança é um espaço diverso de formação de identidade.
de resolução de conflitos que
pode ser adaptado para qualquer Sobre o impacto dessas práticas,
escola, segundo Lo Bianco. O Lo Bianco admite ser difícil fazer
professor levanta temas ligados à qualquer estimativa, mas aponta
turma e incentiva respostas com a redução de casos de bullying e
perguntas específicas, como: “O indisciplina. Juntamente com a
que o incomoda nessa turma? O organização de palestras e materiais
que gosta na turma? Que palavra para responsáveis, o envolvimento
define a turma? Que momento entre escola, família e alunos se
engraçado vocês já passaram tornou, segundo ele, mais presente.
juntos?”. As temáticas devem ser Iniciativa privada da rede Eleva
preferencialmente decididas por desde 2015, o LIV realiza atividades
todos, mas também podem ser como essas uma vez por semana,
sugeridas por um aluno: “Pode falar dentro da grade curricular. É
de algo que se arrepende? O que aplicado em 60 escolas, atendendo
fez de especial no fim de semana?”. 25 mil alunos.
Matemática e autoestima
Em 2012, o CE Chico Anysio, na • Projeto de Vida (PV), em que
Zona Norte do Rio, estava se os alunos são incentivados
preparando para iniciar o trabalho a pensar no seu futuro, nos
com uma proposta que envolvesse seus desejos, sonhos e no
as CSE – algo ainda pouco presente planejamento para atingi-los.
no país naquele momento.
Quando a experiente professora • Projeto de Intervenção
de Matemática Denise Oliveira e Pesquisa (PIP): parecido
participou de uma entrevista para com o programa do Colégio
pleitear uma vaga nesse novo Dante Alighieri, os alunos
projeto, pensou: “Não vão me concebem e aplicam um
escolher, pois não vão achar que eu projeto, acompanhados pelos
com essa idade possa ser inovadora”. professores.
Não podia estar mais errada. Hoje,
ela ainda brinca: “Chamaram uma • Estudos Orientados (EO): em
pessoa experiente para tocar uma que está em jogo a própria
proposta extremamente nova”. rotina de estudos, que é
discutida em conjunto entre
Denise conta que antes exercitava aluno e professor.
uma presença pedagógica
incentivando os alunos a se “As dificuldades que tive [no início]
autoavaliarem, mas sem objetivos foram com as atividades do núcleo
claros de trabalho com as CSE. Na de PV. Porque você se vê com os
Chico Anysio, o trabalho todo é alunos conversando sobre sonhos,
dividido em três núcleos, que são sobre a sua identidade, sobre
abordados pelos professores em a sua carreira. A professora se
diferentes momentos em suas desconstrói. Antes, era uma ideia
disciplinas. São eles: de professora de Matemática que
deram lugar a problematizações que
buscam caminhos diferentes para
gerar debate. O debate matemático
pode ser incentivado por meio de
não sofre, que não tem dor, que não imagens, enigmas e esquemas de
sabe conversar sobre determinados lógica. Problemas assim levam a
temas – só Matemática”, conta ponderações e suposições a serem
Denise. Mas, segundo a professora, contestadas. “Meus alunos leem
essa abertura foi importante para os problemas uma segunda vez
quebrar o estigma dos alunos de para tirar o que não importa”,
que a Matemática é uma matéria diz, orgulhosa. Denise conta que
difícil. “O comportamento dos geralmente todos chegam juntos
alunos muda. Começam a ver que a uma solução. Mas, quando há
a relação entre eles e o professor é diferentes formas de resolução, a
mais importante do que o acerto e o professora inicia uma conversa para
erro. As CSE mudariam a minha vida avaliar, anonimamente, as respostas
como professora de Matemática. Eu dos alunos com todos. Álgebra,
seria vista de outra maneira, daria aritmética e desenhos podem ser
um outro tipo de aula, e isso tira usados para chegar a uma mesma
um pouco esse peso que a gente, resposta, sugerindo diferentes
professor de Matemática, carrega. potencialidades dos alunos.
Porque a professora compartilha
com eles sonhos, medos. Então, a Mas o que tem a ver com as CSE?
gente é vista de outra forma.” “Quando falamos em diversidade
de problemas, isso para de frustrar
Denise viu colegas de profissão os alunos. Ele pode não resolver um
mais jovens “com medo” de dar problema algébrico, mas ele resolve
aula por não acreditar nas novas um de lógica ou um de visão espacial.
metodologias. Conta que poderia Vou desmistificando essa dificuldade
teroferecido resistência à proposta com problemas de níveis diferentes.
pedagógica do colégio por sua Visando descobrir no aluno onde ele
experiência. Não aconteceu. Suas é bom. Eles vão percebendo que é
aulas mudaram: cálculos isolados possível”, diz Denise.
A resiliência e a correlata tolerância
à frustração, competências
frequentemente relacionadas a um
melhor desempenho de Matemática
em provas nacionais e internacionais,
também apresentam na experiência
de Denise uma conexão com o
autoconhecimento e a autoestima.
“Aprender com o erro é muito Hoje, com 40 alunos por sala –
melhor do que aprender com o quando entrou na escola eram
acerto porque a gente passa pelo menos de 30 –, a tarefa ficou mais
acerto. Os erros nos marcam de difícil. Denise diz que, com a nova
forma positiva. Se erramos hoje, não carga horária semanal, que caiu de
vamos errar amanhã. A causa de 30 horas para 16 horas, há poucos
desistências é quando o aluno nunca projetos comuns entre professores.
consegue resolver. Não permito isso. “Tem professor que eu nem vejo
Trago coisas do simples ao mais na escola”, diz Denise. “A gente não
complicado e incentivo a resolução atinge os alunos da mesma forma”,
em grupo, o que ajuda muito na pondera. “Mas deixar de tentar seria
frustração, pois um auxilia o outro.” um retrocesso.”

A mesma diversidade que minimiza Ceará: gestão e autogestão


frustrações também promove
momentos de cooperação e vitória. Localizada no noroeste cearense,
Denise diz que tem alunos que dão próxima ao litoral, a cidade de Bela
“pulos absurdos” quando resolvem Cruz tem 30 mil habitantes. Ela faz
um problema que aquele que tira boa parte da expansão do programa
nota não conseguiu. Isso acontece de promoção das CSE no Ceará.
pela variação de tipos de problemas Geralmente, os principais programas
propostos e também, segundo ela, ficam concentrados na capital,
pela base de pensamento crítico Fortaleza, mas a gestora da EEM
desenvolvido nas aulas das Ciências Marieta Santos, Dourisete, chamou
Humanas, que descondiciona o aluno a atenção da coordenação estadual
a esperar uma resposta apenas com por se interessar pelo tema e
uma fórmula dada. engajar sua equipe de professores.
A instituição teve a ideia de criar um que essa não era uma perda de
jogo interno sobre as CSE, o que a conteúdo, e sim uma nova forma de
fez entrar para o rol de escolas que ensinar”.
participam de um programa para
incluir o tema na rotina escolar. A aluna Quecyane Gomes da Silva,
Em seu 4º ano de atuação, a EEM 17 anos, por sua vez, lembra que,
Marieta Santos reserva um espaço quando conheceu o programa
na grade curricular para a promoção das CSE em Bela Cruz, não sabia o
de práticas pedagógicas de CSE. que era ao certo, “se era uma aula
Demandando uma reorganização de escrever ou ficar em grupo”.
de 4 horas/aula na grade curricular Hoje, aponta a importância da
antiga, são realizadas aulas cooperação. “A gente vê o porquê de
específicas de Projeto de Vida, que, se engajar com o próximo. Você vê a
no início, geraram conflito interno. A colaboração de quem está com você,
defesa de Dourisete aos professores quanto estão empenhados. A gente
incomodados eraquando não se perde muito tempo quando faz tudo
via impactos na escola: “Eu dizia sozinho”, finaliza.
Realização
Nova Escola

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Parcerias
Helena Velloso, Raquel Gehling e
Paloma Mello

Coordenação-geral
Laís Semis

Texto
Renan Castilho Borges Simão

Edição
Wellington Soares

Coordenação de Arte e
Projeto Gráfico
Alice Vasconcellos

Ilustrações
Bruno Nunes

Revisão
Sidney Cerchiaro
REALIZAÇÃO APOIO