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UM PRATO CHEIO DE CONTRANGIMENTO

(Jonas de Souza)

De tempos em tempos, são divulgados relatórios de diferentes organizações e institutos de


pesquisa mundiais sobre um problema que afeta diretamente a sociedade e coloca em xeque sua
perspectiva de futuro: o aumento do índice de pessoas com sobrepeso, obesidade e o aumento de
problemas metabólicos relacionados diretamente a esses males. Tais documentos enumeram, criam
estatísticas e põem em alerta a população. Contudo, na prática, não esclarecem o que está realmente por
trás do aumento desses índices e, o que é pior, transfere a responsabilidade diretamente às pessoas que
sofrem do problema, amenizando assim o papel das grandes corporações, seja da indústria alimentícia,
seja do agronegócio e da pouca efetividade das práticas do Estado em relação ao problema.

Em 2015, no Brasil, foi divulgado um relatório do Vigilantes do Peso informando que 52%
da população está com sobrepeso e desses, um pouco mais de 17% possui obesidade mórbida. Muito se
destrincha desses dados, como o aumento dos índices em determinados nichos da população, como o
infantil ou entre as mulheres, por exemplo. Contudo, a maioria dos principais meios de divulgação
desses relatórios preferem se valer da máxima para resolução do problema: “Mude o estilo de vida,
coma menos e pratique atividade física”. O que não se diz são quais os fatores da vida moderna que
levam ao aumento desse quadro, os milhares de dólares investidos pela indústria alimentícia na criação
de estratégias para que os consumidores de seus produtos também se tornem um produto e as
conivências do Estado para a perpetuação desse jogo.

O ser humano é um animal que cozinha. Existe uma teoria cientifica que entende que o
desenvolvimento biológico do homo sapiens só foi possível quando os seus ancestrais começaram a
cozinhar. A nutrição rica em proteína provinda através do cozimento das carnes propiciou o
desenvolvimento do cérebro. A tarefa do cozimento se perfaz e desenvolve-se em todas as organizações
humanas, gerando desde a divisão de trabalho por gêneros à proporcionalidade de ferramentas de
relacionamentos sociais entre os grupos. Com o avanço da vida moderna, a falta de tempo das pessoas,
entre outros motivos, possibilitou uma abertura de um mercado para um consumidor que já não pode se
dedicar a cozinha. Após a 2ª Guerra Mundial, uma indústria alimentícia tecnologicamente desenvolvida
no processamento de alimentos para soldados, se expandiu nas sociedades capitalistas em proveito das
novas relações de trabalho que se configurava juntamente com conquistas históricas, como o aumento
da participação feminina no mercado de trabalho, por exemplo. A indústria vendeu a solução para a falta
de tempo na cozinha. Prateleiras de supermercados foram preenchidas por alimentos processados que
vendiam rapidamente devido sua praticidade. Contudo, logo foram encontrados problemas decorrentes
dessa má oferta de alimentação. No final dos anos setenta um relatório da OMS foi divulgado prevendo
um futuro problema de saúde pública decorrente do consumo de alimentos com alto teor de gordura.
Bem como na indústria de tabaco, os principais responsáveis se negaram a admitir sua responsabilidade
e, além disso, logo desenvolveram estratégias que mascararam o problema. Historicamente, talvez o
tenha piorado. Para suprir a falta de sabor que o alimento sem gordura oferece, aumentou-se o nível de
açúcar e sódio presentes neles. É sobre a modulação dessas três substancias: o açúcar (já
comprovadamente mais viciante do que a cocaína), o sódio e a gordura que a indústria alimentícia vende
seus os seus “prazeres”. Não raramente, o Estado, que deveria regular esses processos, já que –
praticamente - retém todos seus prejuízos, fica refém das chantagens corporativas, não educa a
população e comumente não cria estratégias que possibilitam maiores possiblidades nutritivas como, por
exemplo, a melhor distribuição de alimentos in natura. No Brasil, temos entre os legisladores uma
bancada apelidada de “Boi” feita por representantes dos interesses do agronegócio. É uma rede de poder
formada que produz vidas com a dignidade comprometida em nome do lucro.

Quando se fala sobre os constrangimentos que perfaz ao ser humano em todas as dimensões, se
fala sobre o que constrói a dignidade do ser humano como pessoa. São elas: dimensão biológica, social,
psicológica e espiritual. O ser humano é constrangido em sua dimensão biológica pois problemas
metabólicos, que geram graves problemas de saúde, diminui sua expectativa de vida, limitando-a partir
do meio. Em sua dimensão social, o comprometimento se dá quando o seu meio social o educa
ofertando tão limitada possibilidade de nutrição, ao mesmo tempo que o pressiona a partir de padrões
estéticos que não os abrange. Até mesmo as vozes de resistência, orgulho e afirmação de um corpo
obeso encontram limitações. Formam grupos cuja voz política é diminuída quando lhes são atribuídas
moralmente a responsabilidade por sua situação, até mesmo por grupos, também, historicamente
estigmatizados. Isso quando não são absorvidos pela indústria na recriação de “novos padrões já
estabelecidos”. É o que acontece quando empresas da moda promovem uma falsa “inclusão” através de
modelagens “plus size” com modelos gordas, contudo, de rostos magros e de cinturas finas, ou seja, uma
pequena parcela dos corpos obesos. Também o preconceito sofrido por esses corpos marginais gera
grandes frustrações e constrangimentos que comprometem sua dimensão psicológica: depressão,
ansiedade, baixa autoestima e elevação das taxas de suicídios são resultados disso. Com tudo isso não se
esperaria algo diferente de um constrangimento da pessoa em sua dimensão espiritual: o ser humano que
não encontra equilíbrio físico, psicológico e que é marginalizado socialmente, não possui ferramentas
para a plenitude de uma elevação espiritual para além das fontes de falsos prazeres e escopos de suas
ansiedades de homem moderno.
Urge-se fazer compreensão de maneira globalizada, crítica e humanizada do problema de forma
que sejam repensadas estratégias de combate a um futuro cujas previsões revelam-se uma verdadeira
distopia, com uma hecatombe não apenas econômica e ambiental, mas também humana.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRUM, Eliane. Açúcar, Sal e Gordura: as engrenagens da 'junk food'.2013. Disponível em:
http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2013/03/acucar-sal-e-gordura-
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DANIEL, E.; SCOPINHO, S. C. D. Antropologia, Ética e Cultura. Batatais: Claretiano, 2013

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