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I - Ou a angústia ou o conceito

1. De um livro a outro

Etrmnl~eza
Estacionanios,algum tempo, numa obra consagrada à avaliação das psicotenpias. Estaciona-
mos para resumi-la, elucidá-Ia e esmiuçá-la com aquilo que poderíamos, talvez, qualificar, cha-
mar de um certo "sadisnio lacaniano"'. Agora, é de um outro livro que vai se tratar, um livro que
vou Ihes apresentar, ainda que, sob outras formas, isso do que se trata Ihes seja familiar Seu
conteúdo já passou por esse Curso ao longo dos anos e por numerosos, inumeráveis Cursos e
:irtigos2.Contudo, algunia coisa se passa quando essa massa de notas toma fonna de livi-o.Em
todo caso, posso testemunhar que algo se passa comigo no próprio traballio de dar essa foiina,
ao que, evidentemente, como vocês, percorri e meditei. Trata-se do novo tomo a ser publicado
do Seniiiiário delacques Lacan, Osmnina??o, L i m 10, A ang~istia.Eu Ihes ~ i g as o i-eflexõestle
:ilguém que ainda está - náo no meio da travessia - mas entre as prinieiras e as seguntl;is provas.
Esse que Ihes fala está, de empreitada, e não é de hoje, num contexto do qual vocês mesmos
sabeni a que ponto ele foi movimentado este ano - um contexto que náo C talvez indiferente à
escolha que fiz de levar esse Seminário à publicação. Num contexto em que a regulamentaç50
das psicoterapias deu o que falar, contexto mah amplamente marcado pela paixáo pela avalia-
çáo, a pi~blicaçãode um tal livro não poderia ser senão intempestiva, a contratempo, desafinada,
1

II
~~ublicação da qual se pode antecipar que ela fará ouvir uma dissonhcia.
Num certo sentido, náo se poderia sonhar melhor pai2 esse Seminário: que ele apai-eça,
que chegue ao público num moinento ein que se pode estar certo de que ele sobressairá por
sua estranheza.

Atravessar
Seria cômico ao mais alto grau - contenho-me, então - erguer um paralelo entre um livro
e outro, entre o relatório do INSERM e o Seniinário da Angústia. Seria preciso fazê-lo, no
gênero zombar com ar sério.
O que é que se diria, então? Que um é um crabalho de equipe, que abarca toda a
I
psicopatologia, ou quase, enquanto que o outro é a obra de um pesquisaclor isolado,

Opqái) Lacanian:~nl' 43 7 Maio 2005


autoproclamado, além do mais. Isso é tanto mais verdadeiro que no ano em que se devia dar
continuidade a esse Seminário, no início do seguinte, Osquatro co~zceitosJiri&me~z~ui.sd~l
psicanúlise, esse pesquisador questionou-se a si mesmo em quê ele estaria autonzado a se
l~
exprimir dessa maneira, sem estar garantido pela colaboração, pela verificacão do que hoje
parece ser o instrumento indispensável de tal trabalho, a saber, ser controlado por seus pares.
Apenas pela maneira de fazer, percebe-se que, com relação à psicanálise, deve restar al-
guns preconceitos que tocam à intuição genial, solitária. Como ele sabe disso? E por que ele
4
se reporta apenas a mesmo? Ele se dedica, de uma maneira que parece limitada, a uni
fenômeno único, extraído do vasto domínio que chamamos hoje psicopatologia.
Enquanto o primeiro livro que esfolainos apoia-se numa massa enorme de outros trabalhos,
este livro sobre a angústia se contenta em fazer referência a um número muito resuito de autores
e de obras. Ele se sustenta de diversas contingências de viagens, de encontros, de exl>osições
pictóricas que se encontram no caminho. É uni pequeno número de obras que é ali mobilizado,
contrariamente ao que -podemos notar em outros seminários de lacan. Sobretudo, enquanto o
~

primeiro livro insénnico não perde nunca de vista o tntamento das perturbações e procura sem-
pre o melhor, no segundo
- livro, o de Lacan, não podemos verdadeiramente dizer que a angústia
seja considerada comouma penurhação, como uma disfunção. E não nie parece ter enconu-ado
nesse Seniináiio a in(li&@o de que a angústia da qual se tnta, digamos, a angústia lacaniana - e
para se chegar a ela o autor procede a uma enoime desobstru<ãodas formas múltiplas da angústia
e das ocasiões de seu apareciinento - n2o me parece ter encontrado nesse Seminário a indicação
de que seja questao, propriamente Eilando, de cuk-Ia. Trata-se, quando muito, cle atravessá-I;!.
Assini, o autoi; o orado! transformado em autor, brilha, quando consideramos essa obra em rela-
çio a outra, brilha pelo 'que parece ser sua indiferença para coni o tratamento, todo ocupado que
iacan se mostra com o que é a sua pakfio própria. Qual?Esta da qual ele não se furta: a de prosse-
guir seu discurso, a cle articular termos, de uni-los e de dar a cada um seu exato lugar Eis o que
pode servir de fio condutor a essa pesqiiisa. Em vão encontraríamosai uma resposta direta ao que
mobiliza as equipes. ~ u h o que é da ordem da psicoterapia, está, de maneira sobeha, airogante,
ausente da obra. É por esse traço que ela se encontra especialmente intempestiva no momento
em que somos requeridos - e por quein? - a responder sobre o tratamento e sua eficácia.

Uvr lugar conceituul


Esse Seminário deve ser lido supondo que o que concerne à direção do tratamento, a propó-
sito da angústia e do que ela arrasta consigo, é entregue, confiado àqueles que escutam -cabe a
cada um tirar um proveito, dar disso uma tradução prática -, e é legítimo que um ensino se
desenvolva em sua continuidade, num certo mistério cujas elaborações são cercadas sem que
nada obrigue esse fala a curar a angústia, a desangustiar - isso não está na ordein do dia
1
nesse Seminário. Eu acentuei esses traços. Darei, aqui, sob a forma de nota, a correção segundo
a qual a doutrina do tntamento aparece nesse Seminário, porém de uma maneira que pennane-
ce lateral, visto que encontraiiios ai leituras cuidadosas, mas limitadas, de um ceno núniero de
textos anglo-americanos, dizendo respeito à contn-transferência, questão que iacan anuncia
como devendo ser retdmada sob a égide do desejo do analista. É, pomnto, por esse viés - e eu

Maio 2005 8 Opyáo lacani;ina nC'43


2. Uma via de acesso ao real

Uina dislâi7cia
Por que a escolha da angústia? Por que b c a n escolheu a angústia coiiio o décimo de seus
Seininários? E ele obseiva eni seu Seminário que é para a surpresa de seus ouvintes, para
quem o tenia, é preciso crer, não era evidente no ponto cle seu desenvolviinento.
Demos, já de urna vez, essa resposta: a angústia escolhida por iacan, a angústia lacaniana, é
uina via de acesso ao objeto pequeno a Ela é concebida conio a via de acesso ao que nio é
significante. É preciso dizer que a própria angústia, a angústia enquanto tal, não é significante;
como via de acesso ao resto que não é significante, Lacan escolhe uma via equivoca, unia via que
parece duvidosa e que é a de um afeto. Apesar do titulo de Kierkegaard, que ele qualifica de
audacioso, isso não é um conceito, é, antes, o queveni no lugar de um conceito. E é exaumente
porque aqui iacan escolhe a angústia como separada do conceito que, no ano seguinte, conio
contmpeso, ele ~ITL quatro conceitos:O.sq~ratroc o n c d l o . s u a t a i s , que vêin conio os cava-
leiros do Apoadipse, se posso dizer, levii-los. Eles I-estani condicionados pelo fato de que a via
escolhida anteriormente foi nio-conceitual.Eu Ihes tra~eio detalhe que faz coiii que o que eu Ilies
diga não seja uina superelucidaçáo.Estou, evidentemente, na superelucidação,uma vez que iiiui-
tos de vocês conhecem isso. É preciso, então, que eu dè aqui um compleniento do que a iiiiiii
inesiiio iiie pareceu, particularmente ao longo desse trabalho, ser o estilo clesse Seminário.
Poderíamos em [parte dizer que sou eu quem lhe dá um estilo: pelo corte, pelo corte d;i
fi-ase,do parágrafo, da parte, porque na estenografia há alguma coisa que é da ordem do fluxo
verbal. O léxico permanece o mesnio porquanto conseguimos aqui e ali reconstituí-10, iiias,
evidentemente, eu me encarrego da gramática, tla constmção gramatical. Nesse trabalho, eu
me dei conta de que, nesse nível do estilo, parecia-me mais adequado d e ~ ~inenos ar inversóes
na construção gciniatic:il, de tal iiianeira que há, no conjunto do trab:ilho que tive que fazer
p:~rarelé-lo - e náo apçnas uma vez - uni fraseado mais uniforme. E isso, é preciso que eu o
ponha sob niinli;~conta. Pareceu-me que, em 2004, era preciso renunciar a certas inversões
praticadas por hcan para seu auditório.
Fiqueiii tranqüilos, isso não toca o fundamento e dig:imos que facilita o acesso ao de que
se tnta. Mas não é preciso dar a isso unia iniportância excessiva, é bastante superficial e nio
seria perceptível se eu não o houvesse assinalado. Apesar dessa operação de transcrição, resta
que deixei - porque
. . me parecia fundamental - esse traço do estilo, uma distância feita p ; i ~ i
marcar a diferença, a heterogeneidade de pequeno a ao significante.

Decomnpo.rição do nível especirlu?.


Em se tr:it;intlo de pequeno a, tal como ele aparece no Seminário da Ang~istia,ou seja,

Opyiu L;ic;ini;in;r n<'43 11 Maio 200 j


que não é como os outros. Vocês podem, evidentemente, estendê-lo aos outros Seininários
de Lacan porque ele está, há muito tempo, em relação com esse "que não é como os outros".
Isso implica um estilo que é envolvente, que é labiríntico, que é digressivo e, ao mesmo teni-
po, concêntrico - e vocês conhecem o gosto de Lacan para falar daquilo que se trata de cemir.
É também, especialmente neste Seminário, um estilo anatómico, uma dissecação prudente da
referência. É também uni tratamento do objeto como um cristal que cintila, que desluinbra e
do qual é preciso tratar com um estilo diamantário, com pequenas pinças e olhanclo suas
diferentes facetas.

Um atelier
Aqui, entra-se nuin mundo que nada tem a ver com esse do qual saímos, inundo da
vociferação unívoca do imperativo em nome do Um. Na dimensão em que o objeto a virá
ocupar o seu lugar, estamos num campo em que nada é evidente, onde as evidências são
desfeitas, suspensas, unia diinensão que exige o que Husserl chamava épokhè - em grego, a
suspensão - à espera, para ele, de uma aparição purai0.Mas a fenomenologia, por sua vez,
permanece dominada pelo especular, pelo campo do visível, enquanto que aqui, ao contrário,
o especular é objeto de um forçamento. E o próprio Lacan é levado a forçar seus próprios
esquemas do especular. Ele destrói, ele desenvolve, mas ele torce seus esquemas que tanto o
ocuparam na construção do imaginário. Na primeira pane do Seminário, os esquemas ópticos
são ao mesnio tempo explorados e destmidos, e, na segunda parte, eles ficani fora do páreo.
Em seguida, é uni outro espaço que se abre, onde o especular encontra, então, novos temos,
novas funções que não mais se parecem, de fornia alguma, com o estádio do espelho.
E isso não é lateral. A medida que o objeto a é construído, constrói-se, secretamente, se
posso dizei; unia nova concepçfto do especular Ao ponto que encontramos, no último capítu-
lo desse livro, coris~ruídosobre o iiiodelo do esquema que aparece no primeiro capítulo, seu
respondente no nível especularl1.Ele pode vir como uma surpresa - Lacan nunca o 1-etomou
- inas, na i-ealidade,é o próprio percurso desse Seminário, do capítulo I ao capítulo XXIY e
que leva a inostrai-o resultado obtido no nível especular.
Portanto, esse Seminário é um questionamento constante do privilégio atribuído pelo pi-ó-
prio Lacan, na psicanálise, i dimensão especular, e ela se revela pela emergência do objeto a,
a própria diinensão ein que o pequeno a é mais difícil de ser apreendido. A dimensão especu-
lar, na qual se desenvolve a operação do estádio do espelho- uma referência que náo dispen-
sanios, mas que é preciso, mesmo assim, considerar do ponto de vista do Seminário da An-
giíctia -, é a dimensão por excelência em que o pequenoa é reduzido a zero. Lacan o qualifica
exatamente empregando um termo que é freudiano: "O campo especular é o campo em que
o sujeito está mais seguro quanto à angú~tia."'~ O termo freudiano é "segurança", uin termo
que encontramos em Inibi~áo,sintoma e angÚ.ítia".
Nesse Seminário, desloca-se num campo onde a adequação dos nomes às coisas não é
evidente, desloca-se na [~rópriafalha entre o imaginário e o real e, com isso, o Seminário
explora a falha entre o simbólico e o real. A perspectiva insémica, que tem toda a sua dignida-
de, implica, no viés pelo qual a considero aqui, que o real é exaustivamente percoirido pelo

011yÃo i.:icanian:i n" 43 13 Maio 2005


significante. E isso não é senão uma simulação do que chamamos "científico". 0 INSERM não
diz apenas: há saber no real; segundo essa perspectiva, esse saber é reduzido 30 significante
contável". Esse ponto de vista, que procede de uma espécie de positivismo, implica que o
real seja reduzido a esse saber e que com isso se evapore nesse saber. É uni positivisnio para
o qual a angústia é uina perturbação, uma perturbação que faz obstáculos ao acesso ao real,
ao passo que é do inverso disso que se trata nesse Seminário, a saber: a angústia é, ao contrá-
rio, via de acesso ao real.
Afalha do sinibólico com relação ao real demanda que se suspenda o assentimento a tudo
o que já está traçado, que é hábito, que é rotina. O apelo (lesse Seminário é: não se deixe
sugestionar peki imagem neni adormecer pelo significante empregado na fala. Esse Seminário
vai contra a sugestãoj nias, por sua vez, ele poderia produzir unia hipnose. Eu gostaria de
tentar Ihes trazer um anti-hipnótico, entáo, vou convidá-los a receber esse Seiiiinário como
um atelier e a ficarem despertos ao que Lacan trama aqui.
O próprio iacan dá uma ajuda para o despertar. É a dificuldade mesma de seu discurso
que os interrompe e que é feita para colocá-los num certo eiiibaraço.

Armadilha
Embaraço é uma palavra trazida, logo de início, por esse Seminário, a partir da deconipo-
siçjo do termo freudiano inibição, que inicia a série "inibiçáo, sintoma, angústia". A inibição
de uma funçao vital é, aliás, o que está imerso no t e m o que senfe para tudo: dishnção. A
inibiçio é o núcleo, o ápice da dishnção. O Seminário se inicia por unia decomposição da
inibiçáo, uina decomposição conceitual que separa o funcionamento e o entrave ao funciona-
niento. Não são os ternios que Iacan emprega. Ele se orienta no primeiro capítulo de Inibi-
ção, sintoina e angzktia, de Freud, e na Função especialmente evidenciada da motricidade;
então, a decomposição não se chama "Funcionamento e entrave", inas "moviniento e dificul-
dade". A partir do ternio "inibição", constrói-se uma matriz: o movimento, a dificuldade. É
entáo que Lacan faz vir quatro temos a partir de numerosos comentários etimológicos: a
emoção e a conroção, num certo grau do movimento que se libera e, num sentido contrário,
o impedimento e o eriibaraço, num gnu onde a dificuldade é abrandada. Esse é um quadro
feito para cernir a angústia, que permanece ali como o Último ternio.

Dificuldades *

Inibição Impedimento Embaraço

Sintoma

1 Angústia

Lacan não retomou essa construção, e é preciso perceber por qual armadilha essa cons-
trução é animada. "Queres tudo? Entáo, tonia!', há nove lugres enquadrados por uni quadro

Maio 2005 14 Opyão lacaniana n" 43


significante ainda se arraste aqui, ein Lacan. Esse Seminário pontua o que não se presta à
dialética, o que não se presta ao significante. É o resto. Esse Seminário vai longe nas analogias
e nas referências para pontuar o resto como absoluto. Absoluto quer dizer - Hegel o chamou
Aujhebung e Lacan o retomou em um momento muito preciso de seusEscrilos - isso cliante
do que toda Aujhebuwg se revela impotente.
Esse Seminário da Angústia é uma pontuação do resto, nós sabemos, mas o que é preciso
apreender é que o resto é aqui levadoao absoluto.Absoluto quer dizer separação com relação à
dialética. O resto fziz obstáculos à dialética e i lógica elo significante, no sentido em que esse
resto permanece insolúvel, não se pode nem resolvê-lo nem dissolvê-lo. E, a esse respeito, a
funçáo do resto é :intikômicn àAi&ebung ela qual o ensino precedente de iacan fazia a chave,
pelo menos, i qual eid fazia apeio para exprimir a transposiçáo do significável ein significante.
Nesse ponto, é preciso que eu Ihes remeta a essa passagem ele 'A significação do falo"l" onde
justamente Lacan faz apelo à AuJhebung hegeliana que é, no fundo, uma utilização do resto. O
significável é, por excelência, o imaginário, tanto o significado quanto o especular, e precisa-
mente a medida que o mundo dos objetos encontra seu protótipo na imagem especular
Faço esse chamamento para fazer ouvir por que Lac:in recorreu à angústia como via de
acesso. Ele recorreu à angústia como unia via alternativa com relação i da Aujhebzr?zg pai-a
;ipreender o que escapa a toda Ai~Jhebung,para apreender o que não é significável, o que é o
resto de toda significantização. É preciso ir lá, manelar essa última lição do Seminário para
apreender que o qiie'está em questão no Seminário daAtzgi.ktia, o que animou Lacan nessa
escolha singuknr, nessa elaboração, é a questão: o que é que dá a "possibilidacle verdadeira de
exercer uma ação (laprise véritable sttr) sobre o real?', essa é uma citação: "possibilidade
verdadeira tle exercer uma ação sobre o real". Será que é a via tlo conceito, ou seja, será que é
a siiiibólica?Ou será :i via aberta pela função da angústia? Dkzenclo de outro modo: esse Senii-
nário, eni sua extr;ivagância, na extrav:igância que o suportou, é dominadopor um "ou ;i
angústia ou o conceito". E, aqui, há uma espécie de renúncia à via do conceito. É por isso que
o último dos capítulos desse livro fai. o contraponto da primein liçio; a primeira lição fu
rutilar o significante, "queres tudo? Pois entáo, toma!". Abra o dicionário, você encontrará o
teu bem. No inicio, trança-se uma recle, mas essa rede de significantes revela-se, ao longo elo
Seniinário, marcacl;i, como o próprio nível especular, tle unia certa impotência, e a angústia
constitui -esta é a ;il>iovaçáo que Lacan se dá no final -, eu o cito: "a única apreensão última
e conio tal de toda a !ealidaden. Por que a palavra "realidade"?Será que ele recua em dizer "tlo
real como tal"? Ao iiiksiiio tempo, h i o adjetivo "última"; é para se ouvir que há na angústia
uma travessia da realiLlade?Ela é, ao longo desse Seminário, pouco posta em cena.

3. Da realidade ao real

Para além do einbaraço


Eu disse que havia algo patético. Há algo patético, mas a angústia é, ela niesma, pouco posta
em cena. A angústia lacaniana é especizil, ela é evidentemente inspirada por Freud, e iacan não
faz senão repetir, de tempos em tempos: "a angústia é uni sinal, Freud bem o disse", etc. Ela é
inspirada por Freud a um ponto, aliás, que o próprio lacan não enfatizou.Aangústia lacaniana é
tão especial que num certo momento, para evocá-la,iacan a compara com o segundo tempo da
reconstrução da fantasia em "Bate-se numa criança"", a saber, algo que é reconstruído mas que
não é experimentado. Ele cliz isso muito rapidamente, mas é certo que o que ele chama angús-
tia, é o que conota a passagem da realidade ao real, a travessia da realidade no sentido do real e
que, com isso, é correlativa de uma falha do significante. E como a falha do significante poderia
ser melhor evidenciada senáo pela referência, tão habitual, tão familiar que cessou de nos sei-
esti-anha, mas que se torna novamente estranha nesse Seminário, a referência ao episódio pti-
inordial do nascimento, coiiio referência última da angústia, como protótipo da angústia?Essa é
unia referência tomada por Freud, depois de Otto Rankzo,é uma presença recorrente nesse
Seminário - Lacan se refere a Otto Rank por seu trabalho sobre o duplo, sobre Don Juanz'- e
iacan se inscreve após Rank e Freud para implicar a angústia do nascimento na teoria cl:i angús-
tia. iacan valida essa implicaçáo da angústia natal como protótipo da angústia.
Se pensarmos no INSERM, estaremos totalmente desviados, pois a essência do que com-
preendi do tratamento cognitivo-comportamental,consiste em tomar a angústia aqui e agora
e tratá-la pelo significante imperativo, modulado como conselho. h r a eles, a angústia é passí-
vel de unia resolução, enquanto que a abordagem psicanalítica da angústia tem uma profuncli-
clacle histórica que faz com que a noção mesma de curar a angústia tenha algo de váo, tenlia
algo de deslocado. Isso vai longe. O que quer dizer que, aqui, a angústia se coloca fora cios
limites desenhados pelo sujeito do significante; isso é o que o primeiro quadro de I.;ican
propóe e vela, igualmente. Há, eviclenteniente, um para além do embaraço, o embaraço que é
próprio do sujeito barrado; isso vai até à afliçáo, nas análises rankianas, freudianas, lacanianas,
até aHi1/1o.~igkeit,até o mais conipleto desarvoramento, para além do embaraço, ali onde está
ausente toda orientação enquanto significante.

A arrsência do buquê.
Nesse ponto, podemos, por um curto circuito, perceber o que faz o pivô do Seminário cla
Angrhtia, o pi\d invisível, porque o pivô do Seminário daA?zg!hlia é alguma coisa que não há.
Deveríainos esperar que, no âmago de u m Seminário que se intitula Angústia, houvesse an-
gústia de castração, que a angústia fosse abordada a partir da castração à qual o ensino cle
1;ican havia dado uma funçáo eminente, estmturante, de toda relaçáo de objeto. A angústia
cle castração é precisamente a ausente desse buquê, com todo o romance que arrasta consi-
go. Vocês podem procurar que vocês não encontra60 o romance edipiano. Eu exagero por-
que aqui e ali iacan não chega, apesar de tudo, a apagar todos os traços, mas n a perspectiva
que ele escolheu da via d:i angústia, o romance edipiano é bye bye Édipo, se posso dizer. Eu
exagero, mas vocês não encontram a ameaça do pai para colocar a angústia em funçáo. Ve-
mos, nesse Seminário 10, iacan se desprender da constniçáo fundamental, táo maravilhosa,
precisa, que aguenta firme, unia construção que refizemos depois dele, toda a constnição
que se estende no Seminário 4, A relação de objeto". O Senzinário 10 retoma algo clisso -
- , é como se fosse o negativo do SeminárioA relaçáo de objeto22,cujo pivó é,
A l ~ j ~ e b u n g mas
com efeito, a angústia de castração que está no centro do caso do pequeno Hans.
disso o objeto pequeno a . No que hcan construiu, edificou sohre a lógica da relação de objeto,
ele não escondeu de forma alguma que se tratava de objetos significantes, visto que ele qualifi-
cou o cavalo de angústia como significante pau para toda obi2 da fobia. Toda sua demonstração
tende a mostrar a polivalência semântica do cavalo. Toda essa análise repousa sobre a autono-
niia tlo significante com relação ao significado, repousa sobra a cesura saussunana. O que nos
retéiii entio próxiiiios de apreender isso de que se trata na angústia, é a sinibolização do objeto.

o corte
O caminho do Seminario da Angúsiia, que é uni caminho difícil, com a ressonância que
essa palavra pode tomar a partir desse esquema, esse caminho é aquele tle uinadesinzbolizaçüo
d o objeto, tle uma de.sig~zi/icaniizaçüo d o objeto, correlativa tambéin d e uma
desimaginariz~~çüo. Isso não pode se realizar sem tocar o que é um dos pilares do que Lacan
estabeleceu conio ensinaniento, evidentemente isso toca a noção que ele legou do falo como
signific;inte. É precisamente isso que é trazido à baila no Seininário da Anghlia, e de uma
Forina tio radical que chega até a ser invisível, uma vez que ela não é professada enquanto tal.
É a significância do falo, e igualmente a da falta de objeto, a chave escolhida por Lacan no
inicio de seu Seminário: A relação de objero, e que nos vale toda a adinirável construçáo da
privação, da frustração e da castração. Em toda sua diversidade, em todas as suas modalida-
des, a falta de objeto é sempre redutivel a uma falta de significante, e o esforço de laczin no
Seiiiinário da Angustia é iiiuito precisamente a elaboração de uma falta irredutível ao signifi-
cante. A esse respeito, a angústia ressoa com uni "terminou de jogar" coni o significante,
poi-que há uma afinidade entre o jogo e o significante, quando o significante está eni todo
lugai-e sempre substituível à falta. Aqui, no Seniinirio daAtzgtislza, ao contrário, assistimos i
elaboraçáo de unia nova estrutura da falta, de uiiia estrutura não significance da falta que
passa pela topologia e libera umstatt~sinédito do corpo.
Antes, o que conheciaiiios de Lacan era essencialmente o corpo do estádio do espelho,
uni corpo suscetível de ser significantizado, ao passo que no Seminário da Angiistia - é
vercladeiramente a única vez que, eiii I.acan, coni uiii amoi-pelo detalhe -, o corpo é restitu-
íclo :to que ele chama totlas as suas particulariclades anatômicas. Não é um corpo fora do
significante, e, coiiio ele iiiesmo assinala, a anatoiiiia comporta a Função do corte. Essa pala-
vra corte deve ser despertada, está no centro c10 Seminário da Angústia, é o instru~iiento
cletivo desse Seiiiinário.
Eis uma pal:ivra que usanios. Para despertá-la, é preciso pensar em opô-la ao tixço. O que
preside na Função significante, é a operação do traço, em particular na Ai~jbebung,que tem
por efeito anular e elevar. A função do traço se inscreve no contexto da Aujbebung, ela trans-
form:~em significante o significável, ao passo que :i função do corte é outra coisa, é o que se
espalha no Seininário cla Angzktia. Ela separa uni resto que, precisaniente, não é significável.
Terio traduzido por I'olanda Vilela e revisado por $'era~\\,ellarRibeiro

' T c ~ i l e .r*.l.ai~klxil.
ip.riLi'r.r . e H o ii. i i d ~ ' i ~ lMm~ " ~ w , L Iziioii9aa
I,~. .ll ( ri r.noyi&:il>iiooi. t\i,dol..p.riri:ieiiid~I~,~:h~i.~i;.
J . I'.iis i.l I 9 . 1 c . Sain.1 t n , I b , r < r c i d uL F n . w 1, R e .. uc n i i m i! e . 6 d : .unlnoc iV.1 .:idc :o,: J drnaw.
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Er~lrelicnssurune rnacht;rcdii!tposisz, Paris.Crasset.2004; ao textode].-A. ~illei"l.èredel'ho~minesans q u á l i t é . . , ~ n ~ ~ s e / ~ ~n.~57.


d i Paris,
me
N a v ~ iédJdi8
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I1 - Uma bússola
Ainda o Seminário A angktia, que tento Ihes passar de maneira inesperada.

1. Um efeito de surpresa

Uma dimenrão inédita


Não estou descontente de ter conseguido produzir um certo efeito de surpresa no auditó-
rio, a de vocês, a minha, no local onde conhecemos Lacan, onde estudamos seu ensino, onde
escrutinamos seus enunciados. Consegui essa surpresa ao formular, evidentemente para pro-
vocar, que a angústia de castração estava ausente do buquê desse Seminário. Fiz alusão a
hlallarmé nessa formulação e visava também o que, nesse Seminário, se desenvolve com rela-
ção ao "buquê invertido", esquema que vocês encontram reproduzido nosEscí+tosl, ali onde
Lacan o apresentou, após tê-lo produzido em seu Seminário, por ocasião de uma observação
feita sobre o relatório de um psicanalista daquela época chamado Daniel iagache.
Fui alvo de objeções apresentadas a seguir, não aqui, mas em particular, e que não deixa-
ram fazê-las chegar a mim, no estilo: "Comoassim?Como assim?!"- "Mas a angústia de castra-
ção não está absolutamente ausente desse Seminário; ao contrário, ela é constantemente
lembrada pelo que é apresentado como sua sigla, menos phi (-cp), que designa objeto da
castração como imaginário". Sem dúvida, Lacan conserva essa sigla em seu lugar central ao
longo de todo o Seminário, da mesma forma que dá ao estágio fálico, como se diz na literatura
psicanalítica, um lugar central em relação aos diversos estágios de objeto. Encontramos, de
fato, nesse Seminário, e não apenas uma vez, que o (-(P)é a angústia de castrago em relaçáo
ao Outro. Isso não inipede que eu mantenha o que trouxe sobre esse ponto.
Lacan se interroga, nesse Seminário, sobre o niodo de abordagem da questão que vai
escolher, quando ele valida explicitamente que a angústia é um afeto, que ela é experimenta-
da, sentida como tal. Ele distingue três modos de abordara questão, para rejeitar dois e esco-
lher um. Eles são, se vocês quiserem, os três c, que ele enumera e rotula por palavras nas
quais esta é a inicial. Fazer um catálogo dos afetos, é isso o que ele rejeita, assim como rejeita
fazer deles uma classificação, para escolher esta abordagem que classifica de chave. Ele rejeita
as enumerações, mesmo ordenadas, mesmo hierarquizadas, e oferece ao contrário, como via
de aproximaçáo, algo de outra ordem.
É preciso saber o que vai girar a porta de entrada e permitir abrir a uma nova dimensão.
Abre-se, no Seminário A angústia, com relação ao que íacan havia articulado nos anos prece-
dentes, uma dimensão inédita e que, de certa forma, permanece inédita para nós, pelo fato de
que - é um fato - são os primeiros anos de seu ensino que fmram a noção mais comum do que
ele trouxe. É o que está entre o Seminário, livro I e livro 4 e, nos seusEscritos, o que vai até 'A
direção do tratamento" e 'A significação do falo", ao que podemos acrescentar "Observação
sobre o relatório de Daniel Lagache", que se fuca o lacanismo. É no SeminárioA angústia que
começa a se agitar e a se detalhar um outro Lacan. Por isso é certamente preciso que, ao lê-lo, eu
traga não exatamente uma chave, mas, falando de forma mais apropriada, uma bússola.

OpGo Lacaniana n" 43 21 Maio 2005


ou do 1;ido clo Outro?f i o corrijo Lacan, eu o transcrevo, de fato me alio aos iiieantlros de sua
reflexão sobre esse ponto e, i meclitla em que acompanhamos esse Seminário, vou Ihes dar
respostas divergentes. De que lado esti o pequeno a? O que chamo bússola é Ihes dar as
coordenadas da minha leitura, das quais espero que componem uma certa objetividade em
relaçjo ao texto.
Vou responder às objeções à formulação que arrisquei da última vez, não por ter razão -
pouco me importa --,mas para tentar esclarecer do que se trata, em íacan, na castração e na
angústia de castração.

2. Uma novaçáo

Exce~üo paradoxal
Falo tle um Seminário de Lacan prestes a se tornar livro. Ele se chama A Angústia, é o
título. Mas o título diz do que se trata, o título é o objeto?
Acentuei, ao contrário, a alternativa justamente para colocar isso em dúvida: ou :i angústia
OU o conceito. O conceito sendo o instmniento da apreensão simbólica do real. Quer dizer

que nesse Seminário que se intitulaA angil..ítia, não é tanto que a angústia seja seu tema, seu
objeto, mas que ele a situa apenas como uma via.
A angústia, nesse seniinário, é uma abordageiii que visa outrzi coisa. A referência que to-
niei o indica. O que é ess:i outra cois;i?A angústia é uma via quevisa o real, uti1iz;intlo para isso
outra coisa que não o significante.
Abordar o real pelo significante é o que tinha sitlo justamente, até então, a via de Jacan, a
via prescrita eni "Função e campo da fala e da linguagem". Esta foi unia via unilateral que teve
por i-esultatlo,como já tive a ocasião de mostrar, de detalhar, uma significantizaçãogenel-aliza-
da da experiência analítica e tlos conceitos inventados para dar conta dela3.
A operação tle Lacan sobre a psicanálise até o SeminárioA angLíia consistiu eni demons-
trar que o que estava em jogo na experiência só encontra seu lugar ao ser repensado como
significante. É o que se clepreende da leitura do O Seinidrio, livro 5: Aífomza~ãesdo incons-
ciente no qual vemos tiidose tornar significante Quando se afirma este tudo significante, quan-
do o significante pode ser tomado como um todo, quando ele se toma totalitário, entio,
correlativaiiiente se afiriiia o que não é significante, quer dizer, o que se apresenta, considenn-
tlo esse começo, como a função tle uma exceção antinômica ao todo significante e p;indoxal.
Posso escrever isso lios termos que extraio do próprio Lacan, que os extraiu tla lógica
matemática. Essa fórniiila é como uma bússola para ler o SeminárioA angústia. Nela, todos é
significante. É a fórmula que, de algum modo, indica a própria estrutura do Outro. Pela via
que ele escolheu, a da angústia, uma via não conceitual, esse Seminário destac;i que, por

Opqáo 1ac:iniana no43 23 Maio 2005


vemos se apresentar, estar em função e ser reencontrado o órgão, tla mesma fomi;i que ve-
mos kican, subitamente, deixar de lado a forma especular unitária do corpo para se interessar
pelas particularidades anatômicas clo organismo. Essa perspectiva de bcan, esse detalhe bio-
lógico e anatômico trazido ali, jaiiiais o reencontraremos propriamente dito. Nós o encontn-
mos no momento em que iacan levanta o véu do significante e que o corpo, o corpo esplên-
dido do espelho, iiias ao mesiiio tempo esse corpo unitário, que não passa de unia forma,
reencontra seus órgãos.
O corpo imaginário é um corpo sem órgãos, para retomar uma expressio que foi utilizadi
justaniente para desenvolver aquilo que, no SeminárioA angústia, mereceria ser qualificado
- não nie clivirto com isso - de anri-Étlipo. O SeminárioA angícstia é verdadeinniente o que
cava a via do anti-Édipo. É isso que apaga essa maquinana para restituir ao corpo seus órgãos
e , portanto, deixa de lado o corpo imaginário, aquele indefinidamente con1ent;ido no estádio
d o espelho. Ele deixa de lado o corpo mortificado pelo traço do significante que sulca, o
corpo inarcado pela barra e traz toda uma outr;i função tlo traço que é a do corte significante.
Por isso, mais ao final do Seminário, Lacan fala do que alcançou t i n sua trajetória como de
uma reuivescência da dialética do desejo, porque a dialética do desejo, como ele a escreve em
' R instâncki da letra"', não faz niais do que produzir um desejo morto.

Um ó r ~ ã paradoxal
o
O que é a dialética do desejo e da demanda? Observem que é uma dedução que teiii
como ponto de partida o impulso da necessitlade e esse impulso que passa pelos desfiladei-
ros da demanda e que ali encontra o significante. Vocês sabem que foi de lá que Lacan
deduziu o desejo já como uni resto - o termo está ali -, como um rebento, porém coiiio um
resto significante.
No primeiro ensino de Lacan já está presente a noçáo de resto, mas o resto do confronto
d o tlesejo e da deinanda é o clcsejo, quer dizer, ainda unia funçio significante. É ;i cadeia
signific;inte como ineronímica. E supóe-se que esse desejo dê conta da libido. O que Lacan
chama desejo, antes do Seminário A angústia, vale como Aujhebung significante d;i libido.
Totalmente ao contrário, no curso do SeminárioA angústia, e logicamente, a libiclo apare-
cerá como algo completamente diferente. Ela resta, no ensino de Lacan, como uni tipo de
enclave que não é inteiramente apreendido, como seu mito inspirado pelo Banquete de
Platáo. Mas no caminho da angústia, em Os qualro conceilos fundamentais, a libido apare-
cerá conio algo completamente cliverso de um restosignificante, ela própria aparecei-á como
um órgio paradoxal.
O iiiito da Limela, que figura em "Posição CIO Inconsciente" e é também enunciado em 0,s
quatro cotzceirosJrrndainetztai.~, traduz o uso que é feito do termo órgáo no lugar clo signifi-
cante e niostra beni qual é a anfibologia do resto. Conheciainos, até então, o resto desejo, o
desejo como resto, que é um resto aberto i dialética e iacan não se priva de falar na tlialética
do desejo. No SeminárioA angústia, há ainda um resto, mas se trata de um resto-órgão que,
por si mesmo, faz objeção à dialética, que não é um resto-desejo, mas um resto-gozo, resto
rebelde à Aufhebung.

Opçáo lacdniana no 43 27 Maio 2005


O que é esse resto que nos é entregue de saída pela divisão subjetiva?E um resto de gozo.
Lacan diz uma única vez apenas, mas isso basta, de onde ele se inspira em Freud quando ele
diz qtie é isso que faz aqui uma hnçáo, são os pontos de fixação da libido, quer dizer aquilo
que, em Freud, é justamente isolado como resistente à dialética do desenvolvimento. A fuca-
$0 designa o que empaca frente à Aufleb~~ng significante, o que na economia do gozo de
cada um não cede à falicimçüo.
A falicização é uma significantização, ou seja, uma monificação. O que fica fora dela é o
que está vivo e Lacan mesmo fez objeções a isto em seu escrito "Subversão do sujeito'*. Ele fez
objesio ao gozo e, embora este escrito não seja propriamente datado, um ceno número de
índices parece mostrar que é contemporâneo ao Seminário A angústia, ao menos ao início
deste. Ele fez objeção aogozo para logo capturj-lo novamente na instância fálica, em "Subver-
são do sujeito", onde vocês encontram a seguinte frase citada: "O falo dá corpo ao gozo na
dialética do desejoHY. Lacan está nesse limite em que é preciso cenamente um corpo para o
gozo, mas ele só o encontra como corpo de significante que o falo lhe dá. É no SeminárioA
angkítia que o gozo se libera da armação significante de sua prisão fálica e que nele se de-
monstra, ao contrário, que são os objetosa que dão corpo ao gozo. É a frase que, de qualquer
forma, falta para que se apreenda do que se trata.
É isto que Lacan tenta animar com esses tipos de órgãos, de corpos de gozo que não são
significantes. Ele o ilustra, i s vezes de forma resumida, como o pedaço de corpo - pode
fazer alusão à "libra de carne" que Shakespeare apresenta num trecho dc uma de suas pe-
ças. De fato, trata-se de pedaços de real que se encontram pela primeira vez ilustrados d e
maneira imaginária, de maneira material e que somente mais tarde encontraram seu estatu-
to cle consisténcia lógica.

Falo órgão
Em "Subversão do sujeito", o íp da castração como imaginário é manipulaclo de iiianeira a
produzir o Q do gozo impossível de negativizar No SeminárioA angiistia, iacan permanece-
rá nessa linha de que o gozo é, de fato, uma Função impossível de negativizar É o que ele dirá
' ~ forma: "O sujeito está feliz". Mas essa positividade CIO
em seu diálogo de E l e v i ~ ü odestzi
gozo se expressa pelo objetou no SeminárioAangiistia, ela é, de alguma forma, depreendida
do significante.

lei

/
No SeminárioA angúslia o -9, que vocês conhecem bem, não é mais de forma alguma o
mesmo. Não é mais o -9da castração imaginário-simbólica,mas o -9do órgão. iacan introdu-
ziu ali algo que não está, em absoluto, em Freud, que não é perceptível, que eu saiba, n;i

Maio 2005 28 OpsÃo lacdniana n" 43


literatura analítica sob essa forma. O -cp não é mais, de fato, o símbolo da castração, porém
marca uma propriedade anatômica do órgão masculino e que é completamente oposta à sua
imaginarização de potência, pois se trata da detumescéncia que atinge esse órgáo no momen-
to do seu gozo.
É uma função, essa particularidade anatômica, que iacan detalha. Ele passa pelas espécies
animais para mostrar que o órgão da cópula não é necessariamente, em todas as espécies,
atingido por este desaparecimento. É uma particularidade propriamente humana que não
mobiliza nada do que mobiliza a castração, que não mobiliza nenhum agente da c;istraçáo,
mas, ao contrário, é um dado. É por isso que, num segundo tempo deste Seminário, iacan se
interroga sobre a subjetivação dos dados anatômicos, mas Iiá, no início, uma cmeza na abor-
dagem da particularidade anatômica como tal. A de não se regular pelo significante, nias sim
pelo órgão, o que permite a I.acan aumentar a lista dos objetos. Se ele pôde, nesse seminário,
acrescentar o olhar e a voz, é porque arrancou o estatuto de objeto do significante.
Quando se regula sobre Eilo como significante, e iacan mostra que essa é a verdade de fieud,
a castração tem como fundamento a apreensão no real da auséncia de pênis na mulher. Segue-se
daí o que iacan não hesita em sublinhar, emA velaqio de objeto", o que ele chama, de acordo
com a doxa analítica, de um sentimento de inferioridade na mulher no plano imaginário.
É sobre esse pano de fundo que devemos ler o SeminárioA angktia, sobre o fundo do que
o próprio Lacan nos ensinou precedentemente: na dialética simbólica, a mulher entn com o
sinal menos, pois sua falta de objeto é o falo significantizdo, o objeto simbólico fálico. Isso não
concerne apenas à mulher, pode ser deduzido, vocês sabem, por exemplo pelo esquema R dos
Escritos, a identificação primordial do sujeito com esse falo imaginário, imaginário-simbólico.
Daí a incidência da fantasia fálica em relação à sexualidade feminina, de certo modo, ela acredita
que é provida cle um falo e que a mie possui um falo. Daí que Freud desenvolve, como o
primeiio Lacati, iim efeito de complicaçáo na posição feminina frente ao dcsejo. H5 co~iii,que
contorções necessárias ao sujeito feiiiinino para ultrapassar a fantasia fálica com o fim de alcan-
çar a posição feminina. Uma complicação que se assenta no fato de que o objeto do desejo é o
de se fazer reconhecer pelo viés do significante do desejo, quer dizer, o falo significante.
No caminho do desejo, encontramos o falo significante, ao passo que o falo órgão se des-
cobre no caminho do gozo. Segue-se toda uma outra posição, uma outra estmturação da
posição feminina. Isso começa no Seminário A angústia e continuará a rolar no ensino de
Lacan até acabar por ser, dez anos mais tarde, verdadeiramente apreendido.

Elogio a feminilidade
O falo simbólico não é o significante impossível de ser negativizado. O que está em Função
no SeminárioA a~zgústiaé o órgão que, no macho, se negativiza a si mesmo em sua operação
copulatória. Encontraremos assim três aulas que são como que o avesso do que encontramos
no escrito da 'A significação do falo". Uma vez que iacan estabelece, de maneira inesquecível,
o estatuto do falo significante, ele passa, em seguida, na última parte desse escrito, à elabora-
ção das estruturas que, em função do falo significante, estão submetidas às relações entre os
sexos. Ele mostra que essas relações giram em tomo do significante fálico como significante

Opçáii lacdniana n"43 29 Maio 2005


Enquanto que a tradiçáo cinalitica quer que o caminho feminino para encontrar sua posi-
ção seja mais complexo e inais embaraçado do que o itinerário do homem, temos aqui como
que o avesso da sexualidade feminina, ou seja, é a relação do homem coni o desejo o que
aparece aqui de complicado e limitado pelo -q, quer dizer, pela detumescéncia. Essa particu-
laridade anatômica surge ai, mas é absolutamente determinante para toda elaboraafão que
Lacan dará em seguida do objeto a, e ele remeterá esse conceito ao trabalho em sua "Lógica
da fantasia"". Daí temos que a angústia do lado do homem é ligada não a uma ameaça pater-
na, nias sim a um "não poder", ou seja, à sua relação com uni instnimento que falha ou que,
pelo menos, não está sempre disponível. Dai a interrogação repetitiva que Lacan faz do dito
de Kierkegaard segundo o qual a angústia afeta mais a mulher.
É uma questáo que iacan se coloca e recoloca muitas vezes porque o que ele demonstra é
que, no nível do gozo, ela é menos sujeita i angústia. E aí que ele apela, contra Kierkegaard, ao
mito de Tirésias, que enuncia explicitamente a superioridade feminina no nível do gozo. Mas,
por isso mesmo - e neste ponto Lacan concorda com Kierkegaard -, ela é iiiais diretamente
afetada pelo desejo do Outro. "Mais diretamente" quer dizer que ela não passa pelo -q, que
não está protegida pelo objeto que concerne o desejo do Outro, ao passo que o homem
interpõe um objeto.
A angústia do lado feminino, Lacan a situa como frente ao desejo do Outro, já que ela não
sabe o que ele cobre, ela está somente diante de um Outro que falta. Ao mesmo tempo, ele
lhe reconhece mais liberdade no lugar do desejo do Outro, digamos mais franqueza, porque
ela não está encoberta pelo objeto. Neste ponto, ele rende homenagem aos teóricos anglo-
saxões da conti:itransferência, para quem ele vê uma maior facilidade em apreender as inci-
dências do desejo do Outro porque o objeto não encobre a mulher
Diro de outra inanein, no SeminárioA angústia, assistimos a uma inversão sensacional de
tudo o que foi a d o m analítica. É ao homem que falta, já que na copulação ele t n z o órgão e
se descobre coni -q. Ele fxz a aposta e é ele que a perde. Ele só pode repanr essa perda pelo
objeto, enquanto iacan se deleita em mostrar a mulher permanecendo intacta, intocacla, in-
clusive pela cópula.
Duas fantasias paradigniiticas se distinguem, se as ordeno assim, uma do lado do homem
e a outra do lado da mulher. Foram tomadas como observações importantes de Lacan e estão
na lógica dessa construção que acabo, pacientemente, de reordenar Dizendo rapidamente, a
fantasia do lado macho é o masoquismo feminino, o masoquismo imputado à mulher, e do
lado mulher, a fantasia é a de Don Juan, a do homem Don Juan. Essas duas fantasias, niesino
se expostas em inomentos diversos, se respondem.
O iiiasoquismo feminino como fantasia masculina quer dizer que a incidência do falo ór-
gão se traduz pela fantasia de uma mulher que seria objeto, um objeto permanente que goza-
ria de ser o objeto do gozo do homem, sem limites, sem os limites que são, justamente,
cruelmente marcados pelo -v. Em oposição, iacan dá como emblema da fantasia feminina
Don Juan. Portanto, do lado masculino é uma mulher quegozaria de ser esse objeto que pode
reparar o -v que o afeta, e do lado feminino, a imagem de um homem ao qual nunca faltaria
nada. Don Juan é o negativo do -v, quer dizer, uma imagem na qual o -qestá apagado. Pode-

011yác lacdniana n" 43 31 Maio 200j


tnnsiçóes e aqui reencontranios o (-v) elaborado precedentemente. Reencontrainos estes
termos, iiias eles deveni ser lidos neste Seminário tendo n:i cabeça ;i idéia cle que o que nele
se realiza suavemente é, na verdade, uma mudança de coordenadas.

2. Detumescência

Desmitologização
O que sublinhei precedentemente preparou vocês para o que Lacan indica coiiio obstácu-
lo a superar na elaboraçáo do Seminário A angúsiia, para aceder à função generalizada da
qud se trata. Esse obstáculo é constituído pela angústia de castração que marca, em Freucl, o
liiiiite da experiência analítica. I.:ican indica, a esse respeito, através de quais vias ele procede
ein seu ensino, no sentido do "seu modo de ensinar", digamos de sua peclagogia psican:ilític;i.
A palavra pode chocar, no entanto ela se refere explicitamente a um procedimento da peda-
gogia escolar que ele define da seguinte maneira: "ir além clo que é chamado de capacidades
mentais da criança através de problemas, ultrapassando-os ligeiramente". Compreende-seque
essa é a iiietodologia do SeminárioA angústia, um pouquinho, mas não muito, de modo a
poder obter "um efeito de pressa em relação a maturaçio mental" e "verdadeiros efeitos de
abei-tura, inclusive desencadeamentos"'. A esse respeito, ele observa que os pedagogos des-
tacaram - esta é a posição deles - que o acesso ao conceito na criança seria contenipoi5neo
à puberdade. Lacan não valida essa observação, mas evidentemente se serve dela diante do
obstáculo em questão.
Ele faz entáo saltar o obstáculo conceitual da angústia de castração re-situando-a no nível
do órgão masculino, no nível de seu funcionamento na cópula no momento do orgasmo. Isso
poclerki ser uma notação adjunta que se situaria em outro plano, deixando intocado o concei-
to da castraç:io e da angústia de castraçáo. Ali, é preciso descicar que elc faz da detumescência
do órgão, dc sua carência, do apagamento da função fálica no ato sexual "o princípio da an-
gústia cle castraçáo".
Damos todo valor :!o termo principio. Lacan encontra, nuni funcionamento do ói-@o, o
princípio, ou seja, o fundamento, :i raiz, a causa do que é elaborado, eni psicanilise, nas coor-
denaclas edíllicas. Poréni, se, neste nível, trata-se do órgão e do seu funcionaniento, que é o
do princípio, a dramaturgia edípin é apagada, se levarmos :i sério o termoprincípio, ou seja,
que o princípio sesitua no nível do órgão como tal. Isso quer dizer: o pi-incípioclii angústia cle
castração não se situa no nível de nenhum agente cla castraçáo, de nenhum Outro proferindo
ameaças, não se inscreve no Édipo.
Há, em toclo esse Seminário, uma onda que desinscreve os termos fundamentais da psica-
nálise do contexto edípico. Por isso pude dizer rapidamente que o SeminárioA angziiticc era
o anti-Édipo, o que aqueles que fizeram disto título, só se deram conta dez anos niais tarclex...
Lacan não teria dito certamente anti-Édipo, mas esta linha que relativiw e re-situa o Éclipo
toma seu ponto de partida precisamente do Seminário A angústia. Enunciar esse princípio
tem na verdade a conseqüência desejada por Lacan, a de uma abertura, na medida em que ele
permite perceber que a castração poderia muito bem não ser um termo único e último, iiias
genitais, mas náo pré-edípicos, porque o Édipo está em toda parte. Os objetos como tais: 0121,
;inal e genital sáo eclípicos, ou seja: o falo doinina tudo o que é da ordem do objeto. Sobre
isso, I.acan avançava, 'anos antes de seu SeminárioA aizgklia, o termoJaloce~zi+ismo, que fez
estard;ilhaço e encantou durante certo tempo, até que foi vomitado, como se inici:ilniente ele
sustentasse o que propunha e, ein segundo lugar, como se não mais o sustentasse.
Verifica-se,no SeminárioA atzgústia, a que ponto a idéia futada do ensino de iacan decorre
efetivaniente do que precedeu este seminário. É sua transcrição fonnalizada, significante, sua
reelalioraç5o significante de Freud que fmou a imageni de bcan: a imagem do que Lacan trouxe.
Voci.s vêem como, ao contrário: no Seminário A a~zgustia,se desfaz a retroação edípica.
Lacan fala, de uma inaneira não totalmente convincente, mas que tem seu valor se pensarmos
no que isso desniente, ou seja, a reti-oação do Édipo, de "constituição circular" do objeto.
Entenclo issc eni relaç5o à retroaçáo edípica, que desaparece. O que ele elabora como objeto
a 6unia funç5o gene,ralizada,que não é edipic;~nem tampouco cronológica, nias sim topológic;~
e , se quiserem, sinckônica.
Enconti-aremos inais tarde a função do tempo. Ela será encontrada em "Posição do incons-
ciente", ein Os quat7.o concei~osJuttdamentais. No ano seguinte, aparecem as suas conse-
qüências na direçáo do tratainento, enquanto que, no SeminárioA angústia, isso aparece a
respeito dos tratamentos de Freud, a partir de alguns exemlilos relativos à contratransferência,
mas não é o centro da elaboração.

3. Resto real

A din~e~lsão dopeqtteno a
Falei de leitmoiiu. Há um leitmo/itj edípico no Seminário A attgr2slia e é preciso saber
situá-lo ein seu devido lugar Uma fórmula retorna, insistente. Se ela não é colocada em seu
lugar, pensa-se que' ela expressa a doutrina que o Seminário A u?zgktia avança, quando, ao
contrário, ela aparece ali para liberar o espaço novo. Esta fórmula, que aparece no final clo
escrito "Subversão do sujeito", é: "o desejo é a lei".
O que fundamenta esta equivalência, que em si mesma mereceria ser desenvolvida, é o
objeto. "O desejo é a lei" é uni resumo do Édipo. Isso quer dizer: o desejo e a lei têm o
mesmo objeto, uina vez que a lei é a fala que proíbe o objeto do desejo e que, ao proibi-lo,
dirige o desejo para esse objeto. Isto quer dizerentáo que o principio CIO desejo é o inesino
daquele cla lei. ;
Nas elaboraçó& iniciais de Lacan, que decalcam Freud, é o pai quem enuncia a lei. Se nos
ativernios i s prinieiras constmções em que lacan apreende Freud na traiiia clos seus signifi-
cantes, do iiiesmo golpe é o pai quem traça as vias do desejo, se nos ativemos aos três ou
quatro priiiieiros :mos de seu ensino. Mas hoje, onde existe um pai digno desse nome? Onde
existe um pai que ouse interditar, que saiba interditar, uma vez que é apenas pela interdição
que podem ser abertas, se liberarem e entrarem na norma as vias do desejo? Tocla unia massa
d e psicanalistas descamba assim na ojeriza ao contemporâneo e, apoianclo-se em Freud trans-
crito por Lacan, eiii totlos esses assuntos que nos solicitain, fazem vacilar, metainorfoseiam a
noção de família, tomando a esse respeito posições que eu náo gostaria de depreciar
exageradamente, qualificando-as de "reacionárias".
Quando iacan faz voltar esse tcma - náo sei quantas vezes, não contei - é preciso situá-lo
como um condensado do Édipo, é preciso se dar conta de que, coniparativamente ao objeto
que é o do desejo lei, o objeto órgão, digamos, o pequenoa náo é determinado pela interdiçio.
Eni nenhum nível ele é determinado pela interdição, mas sim pela pura e siiiiples separação.
Encontramos por um lado, no Seminário A a?zgzktia, uma descrição, se pudernios dizei-
assim, do corpo e dos seus órgãos extremamente sofisticada, que se apóia, no entanto, na
consulta a um certo número de tratados de anatomia, de embriologia, tipo: "queres tudo?
Então tonia!", mas que têm o valor de afastar mais a embriologia do que a mitologia edipiana.
O resultaclo é que o Édipo aparece como unia elucubração de saber sobre :i separaçáo, e esta
é inais do registro da autoniiitila~o,enquanro que a interdiçao, a castnçio em pauta, é seiii-
pir uma hetero-iiiutilaçáo.
O que o Seminário A a?lgl.kiia visa é um status do objeto anterior à lei e ao desejo, anterior
à elucubração da conjunção de identidade da lei e CIO desejo. É estesrat?.6do objeto que Iacan
designa como pequenoa. Portanto, iiiuito logicamente, o SeminárioA angústia desemboca eni
uni questionainento do pai, queaparece, muito rapidamente, no final do capítulo XVIII, no qual
Lacan expõe e reelabon o texto de Theodor Reik, por elc tomado célebre, sobre o som clo
.shofa>; o som desses chifres nos quais se sopia nas ocasióes consagradas tla Sinagoga, quando
se trata de marcar a renovação do pacto que ligaYahvé ao povo por ele eleito12.
É o shofar que serve de ponto de amarração para o coineço da elaboraçáo do objeto vo4
que, aqui, aliás, é sobretudo um mugido. Iacan examina quem fala. É a Deus que se ti-ata aqui
de lenibrar o pacto? I? Deus quem muge? Esse mugido náo faria eco ao assassinato do pai? Esta
é unia clas hipóteses de l'lieodor Reik: o mugido de um touro entristecido que se faz escutar
e que é possível interpretai- como um substituto do assassinato do pai. Assiiii, ao longo desse
capítulo estamos na sinagoga, na Bíblia, e há uma convocaçáo da função eminente do assassi-
n:ito do pai na elaboração freudiana. Lacan o sublinha, no final desse capítulo, dentre as últi-
mas palavias que ele pronuncia: por esquecer o assassinato do pai, toda a cadeia de elaboi-a-
ção psic:inalítica se desfez. O esquecimento da função paterna, da função do pai morto, vota
a psicanálise à dispersão, ?I incoerência, porque ela determina, ordena a economia do desejo,
ou seja -isso faz parte do leitmotiv - o desejo original é proibido, impossível de transgreclir.
Ein todo esse capitulo não se trata do Édipo: mas sim de "Toteni e tabu". Os dois iiiitos se
apóiam, desse ponto de vista, no fundo mais edípico, se ouso dizer, do: "Tu niorres" ... Isso
nierece ser lido desta forina: se vocês negligenciarem essas funções fundanientais, não pode-
rão nelas se reencontrar.
Trata-se aqui efetivamente de Freud - I x a n o formalizou durante anos - e não é ilegítiiiio
iiiencionar isso, porém, no SeminárioA al7gzktia, é sob a forma de convoc:ição, e é preciso
náo esquecer essa pequena frase que, por si só, faz o contrapeso a esta enorme elaboraq20:
"Esse fato oiiginal é, no entanto, secundário em relação idimensão do objetoa". Esse secun-
dário, por si só, re-situa a construção. Tudo isso é uma elucubração de saber, cujo princípio
deve ser buscado na dimensão do objeto pequeno a . Não se trata do assassinato do pai, do
correlativa ao objeto real. A seguir, há uma inversão: o objeto se torna simbólico do dom da
ináe e a máe se torna potência real.
Esse lembrete é feito para marcar o que opõe, na elaboração, a via do ainor e a via cla
angústia. A via do amor é a que hcan seguiu até então, e ela desemboc:~no objeto siiiil~ólico,
no falo como símbolo do Desejo da Mãe, no desejo como desejo do Outro. Já a via da zingús-
tia, tal como traçada por Freud em "lnibiçêo, sintoma e angústia", conduzao objeto real. Ela é
feita para conduzir ao objeto da satisfação, uma satisfação que náo é a da necessidade, mas
sim a da pulsão, unia satisfaçáo que é gozo.
Como disse, a angústia não é tanto o tema do Seminário A anghtia, mas sim a via para
aceder, no que se refere ao objeto, a uma dimensáo diferente daquela que permite a via do
amor Há, portanto uma contraposiçáo a fazer: na vertente do amor, o objeto real é elevado à
dignidade de objeto simbólico, sob a operaçáo da Aufhebung. Passa-se da satisfação estúpicki
da necessidade ao infinito clo desejo metonímico. Já na vertente da angústia aparece, ;io
contrário, a disjunçáo entre gozo e clesejo.
É nessas coordenadas que podemos re-situar a proposição de Lacan, da qual fiz outrora
um certo uso esclarecedor, mas talvez ligeiramente deslocado, ou em todo caso sem consitle-
rar precisamente todas suas coordenadas, proposição que vocês encontram como ;iforismo
no Seminário A ungzísfia:"Só o amor permite ao gozo condescender ao desejo"". Essa pro-
~)osi@ioé um resumo da dialética da fmstração. Oainor C: aqui o véu da angústia e daquilo que
a angústia produz, ou seja, o objeto que causa o desejo.

Sign@canle inomináuel
O qiie esboço aqui, a oposição entre a via da angústia e a do :inior, tainbém é manifesta ao
confrontamos o SeniinárioA tra?z.sjerência com o da Allg~istia.Eviclentemente, o Seniinário
A traiz.$erência segue a via do anior para clelinear a fiinção c10 objelo. Ele encoiill-:! esse
objeto sob as formas de agalma, o objeto tlo desejo precioso, valorizatlo, supervalorizaclo,
que se encontra no campo tlo Outro e que explica a transferência. Neste Seminário, a relação
tle anior é concebida como eletiva, privilegiada1% podemos dizer que este Seininário é intei-
ramente consti-uído sobre a abordagem do objeto em sua vertente de amor. Nele não encon-
tramos, se piiclermos tlizer assim, todas as safadezas que encontrainos no SeminárioA ang's-
lia. No SeminárioAtransJer&zcia, o objeto é iluminado pelo esplendor dos objetos agaliiiáticos,
até culminar na aparição de unia Vfnus botticelliana.
A ~p:~lavra"],rivilégio" empregaclzi por Iacan no que concerne à relaçáo do amor, ein seu
Seminirio A tran.ferência, faz eco ao privilégio atribuíclo por Freud à angústia ein "Inibição,
sintoma e angústia". É preciso saber que via é privilegiada na abordagem do objeto, e, se
privilegiamos uma ou outra, a comparação do SeminárioA Iransjerência com o SeminárioA
angústia mostra que náo atingimos a mesma dimensão do objeto.
Leinbro apenas que o SeniinárioA transfe,.ência começa por uma longa exegese do Barzq7~a
te, culminando no t e m o agalinu. Pan confirmar que há alguma coisa de fundamentada no para-
lelo que esboço, é ao tliscuko de Aristófanes que bcan recorrerá para forjar seu imito cla libido
órgão CIO qual falei. Acrescento que não é impossível que o miro tla lamela tenha sido inspirado a
Lacan por um curioso convite de Freud, iiias que não seria o único segundo a nota emdita de
Sti-aclieyno texto ' kpulsóes
~ e suas ~icissitudes"~',quando Freud sugere a seu leitor imaginar-se
como uni organisiiio vivo priinitivo, um organismo seni defesa, sem orientação no mundo e que
recel,e de manein direta os estímulos do niundo exterior. Essa elucubração,esse convite de Freud
para imaginar-se conio uni sei-vivo primitivo é o retrato escamdo da larnela de Lacan.
No Seminário A tru1?.fer6izcia,o que votes encontram após a exegese do Banqueie?A
dialética tla castiação, nns que lança ali seus últimos brilhos -eu a distingui coiiio tal, mas a
expressão está eiii iacan -, que passa precisamente pelo oral, pelo anal e pelo genital, tent:in-
do ortlenar esses estádios e deduzi-los sumariamente. Trata-se cle um esboço. Vocés verão
que é justo o oposto CIO que acontece no Seminário A angúslia, no qual Iacan inarca, ao
contrário, sua recusa ein proceder a uma dialética entre os estágios. Não há moviniento eni
espiral, não há niovimento progressivo. Lacan insiste, ao contrário, no caráter disjunto da
relaç5o coin as diversas foriiias do objeto a. E preciso ler então em paralelo.
Não resumirei essa dialética, que é apenas esboçada, iiias posso sublinhar os ângulos da
probleiiiática, que encontra uma soluçáo inversa no SeminárioA anglístia. Venios, no Semi-
nário A lrans/er&cia esse corte, ou seja, a tentativa tle iacan de ir aléni da angústia de castra-
ção. Lacan sublinha e aceita o limite freudiano da experiência: 'A análise com Freucl foi direto
:i este ponto" - ao complexo de castração. 'A mensagem freudiana terminou nessa articula-
çáo, a saber, existe um terino últiino (...) ao qual se chega quantlo se consegue retluzir no
sujeito tocl:is as vias de sua (...) repetição inconsciente, quando se consegue fazer convei-gii-
esta repetição com o i-ochedo (...) clo complexo de ca~tração"'~. Com a interrogação e o esfor-
ço para resolver o paradoxo: por que no nível genital há algo que náo se realiza?
Esse limite, que é sublinhado, iiiarcado e aceito no SeminárioA tran.ferê~zciu,é precisa-
mente o que Lacan se empenhará em forçar dois anos mais tarde na Angcíúa. No Seminái-io
A trnn.ferência vocês encontram a transcrição do complexo de castração em terinos signifi-
cantes, e a resolução do impasse sob a égide da fórniula na qual ele justamente afasta qual-
quer consideraçáo sobre órgão ein jogo no coiiiplexo de castração: "O órgão só é abordado se
tnnsforniatlo ein significante"". É justamente por ter podido formular isso emA [,zin+rên-
ciu que ele pôcle abrir a vi:!, exatamente inversa, no Seminário A an,yristiu, em que vemos
comerar ;i pululiir órgáos que não são transformados em significantes.
É surpreenclente ver como ele caracteriza ali esse ponto Últinio, esse significante apresen-
tado como pai-acloxal por ser inominável. Esse significante que é o falo sinibólico, sobre o qual
já elucubramos bastante - eu me contento eni citar Lacan - tein "a função de fazer suplência
ao ponto ein que, no Outro, desaparece a significância";"ele é o significante do ponto no qual
falta o significante"; e ainda, "símbolo no lugar em que se produz a falta de significante"; ein
seg~iida:"esforço para justificar que uma falta de significante seja possível, uma vez que a
bateiia significante é sempre conipleta". Par:! justificar essa falta, ele introcluz a questão do
sujeito e, aléni disso, o cliscurso, a cadeia significante, na qual cacla eleiiiento reniete a outro,
nuiii reenvio interniinável. Isso lhe perniite tl:ir a este significante, @, o valor de fornecer a
ga~intiada cadeia significante. E, para resuniir rapidamente, o que é rearticulado na última
parte de "Subversão do sujeito".

Maio 2003 42 Opqáo lacaniana n" 43


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A i ler ] r 5cionihro I?!Wi) r I i i n z ( h ' j o ~ i ui12 ,l;"oIn:i?!i.oto, he>...a bii!ile.riInirrn~~.~i.ildeFr:lnilir~ .'#,I3 10 :'.$.I?
'1 3 n i 4 10, r i !I I m i i n i ~ o ~ d:m iuc , i i m"i!r i. i jlf 6' i irrrcirirr.iw trp Y l j 2 P ) O; ; i
I.: ...i ] Oe i na~ l . d l i n p e 1i? nrr i.,Jo i.iir,iici to p,:;i h 1 ~ . .13j8) li. Lr:nra: '- iíll ~p rii
CIO !~l.iSll
.I<: k T 1.7.il l e ! c k . l ~ l n i t R?l.t?l h:i,,~,nIt~? !I?, rm: W . :": : , K ~..,, ~. I-tr,! l k ~ ~ e l
"Millu,~.-h(19991. Le Ymiiiiire inesislan; (1991l;~~bicrsdit,iques de Sirn~hurg,i,11-41. Strasbourg.
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Liiro 11,. O r o u ~ i r uconceilos Iudntnmluisdnh-iv~trnlise, . (o. .. Rio de laneiro: .lorre
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"Lacan, j. (2004). Le Sériiinair~Lir~re l ã L 'Angoisse, p. 209. ) - A . Miller comepu a wnientar ata proposigáo de Laca em sou C r t m de Orie>rto@o
Lnconiann i/, I, "Scansioiis dans I'enseigmenl de Lam". aulas de 24 de margo e de 14 de abril de 1982. pronunciado na enqiiadre do Deparlamenlode
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"Freud, S., Pulsioni etdestins de pulsions, op. cil.
ULacan,j. (1992) OSefninário, Iim4 A ironsftrêncin, (p. 227)ap til.
'qldem, ibid., (p. 229).
"Lacan, j. (20041. Le Sé>niruio li ri^ 10: 1'Angohse ,op.cil., capiililo I?.
N - Aquém doidesejo
I. Um móvel
I
Uniir arle de retórica
~ s t oque renho nas niãos é um livro e, no ent:into, ao relê-lo, ao redescobri-lo sob essa
forma, me ocorria o dito de Magritte: "Isto não é um livro".
b
Se não é um livro, que é então?, eu me perguntei. Talvez fosse alguina coisa coino uni
filme, o registro dos deslocamentos de um móvel. Este móvel é um pensamento que percoire
um espaço, que abre uma dimensão e a explora, que traça um caminho, não sem se perder,
náo sem encontrar iinljasses,
, não sem retornar sobre seus passos busc:indo pontos de passa-
geni. Um pensamento que delineia às vezes panoraiiias que logo depois se desvaneceiii, para
dar lugar
. a detalhes desmesuradamente ampliados, que são às vezes miragens, e eni direção
às quais se caniinha até vê-las se dissiparem. Mas ela preciso que houvesse a niirageni e que
I
ela se dissipasse pam encontrar ;I saíd:i que permitisse ir aléni.
Se procurarmos compor uma doutrina de Lacan sobre a angústia a partir desseSelninÚrio,
é preciso prestar muita atenção e não tomar cada fóriiiula como uma solução. Ao relê-lo,
encontraríaiiios cenamente umas vinte ou trinta definições, e nenhuma definitiva. Não há
nele de fato uma única definição de angústia que náo seja condicional, que não seja relativa a
um:i perspectiv;~.E percebemos a arte de retórica, a verve de Lacan na avançada por ele. Ele
arguiiienta como o ju:iz de instrução, pró e contra. E é tão persuasivo que, a cada vez, se
gostaria que parasse por ali, porque até ali foi possível coinpi-eender,
Nenhuma fórmula da angústia nesseSetninário nos poupari de ter que refazer o caminho
sobre a trilha de Lacan.
Se eu tivesse de c~mentá-10- o que não faço -, eu o faria parágrafo por parágrafo. Não há
um que não precise ser pesado, ajustado, que não necessite alguina retificação, alguma inflexáo
para a qual se encontrará, eni tal ou qual lugar, apoio para fazê-lo.
Disse "se perder", ialei de inipasse. Ao rele-lo e conhecendo o fiin do Filme - pelo iiienos o
da obra - nio encontiamos propriamente extravios, pois em todo o texto pululam achados
que valem por si mesnios, independentemente da perspectiva, achados que por si mesiiios
levani a pensar e que talvez possam estar contidos em uma Frase.
Vou tentar saudar a publicação deste Seniinurio entregando a vocês minha I>ússola,a ini-
nha, aquela que construí ao ler, ao escrever esse Serni7zbrio.
Devo ainda acrescentar elenientos ou encontrar resumos que náo me haviam sido entre-
gues até agora.

Muniei~tofe~iome~?ológico e constni.icio
Toiiiando este 1ivi-bnas inãos, eu me perguntava o que poderia responder, caso iiie pedis-
sem para dizer em uiiia palavra do que se trata. Eis a resposta que eu imaginava poder dar:
trata-se de uni iiiergulho aquém do desejo.
E o que há aquéiii do desejo? A resposta é aqui dada, repetida, manelada e preparei uin

Maio 2005 46 Opçáo l.;icaniaiia n" 43


Pulsão
Angústia
ircalque I 1Gozo
Angústia
Desejo
mítico e real
fenomenológico e conswído
recalcado e fascinado

Em seu staius metoníniico, fundainentado por Lacan em seu escrito 'A instância da letra"',
novidade é apontar que o desejo de que se trata é um desejo de nada, que náo passa da
metoníinia da falta-a-ser e que, no fundo do desejo, não há nada. Ao mesmo tempo, quando o
desejo se conjuga coiii a relação de :imoi4 é legítimo falar de unia visada do desejo em direção
a tal objeto distinguido entre todos, como Freud o desenvolve no capitulo "O enamoramento",
em "Psicologia dos g r ~ p o s " ~Há. ali esta antinomia entre o desejo como desejo cle nada e o
clesejo como clesejo de uni objeto distinto. O que há nele de imaginário é o que constitui a
cena do desejo e , nela, o sujeito se mostra atraído, imantado por um objeto. Ele encontn os
obstáculos que impedem o acesso a esse objeto, :is dificuldades ou os impasses de sua posse.
Essa cena do desejo constitui grande pane do que é expresso na experiênci:~analítica, eiii que
se trata d o deseiável e de como aceder a ele.

2. Objeto-visado e objeto-causa.

Da i,~tencionalicladeir cafcsulidade.
Até oSe?ninÚrio, A angústia, a cena do desejo sempre foi estmturada pela intencionalidade
d o desejo. Lacan menciona esse termo, que tem referências muito precisas na filosofia do
início do século, e que foi seguida na filosofia francesa. Foi somente nesse Seminurio que
Lican se despi-endeu do moclelo de intencionalidade que reinou no pens:imento dos meados
do século passado. Atribiiiiiios a Brentano a origem dessa idéia que, como diz Sartre6,se opõe
;I idéia da filosofia idealista, segundo a qual o Espírito-Annha atni as coisas pam a sua teia
para torná-las conteúdos iiiianentes à consciência, podendo o espírito pensar apenas idéias.
Sartre, pelo contrário, expõe que a consciência náo é um continente, ela é vazia, falta-a-ser, e
está em ielaçio coni o inundo, em direção ao qual ela se arremete. O mundo não é idealizado,
ele permanece em seu lugar como um fora, e é a consciência, pelo contrário, que se dirige
para o que está ali no mundo. Sartre lenibra o dito de Husserl: "Toda consciência é consciên-
cia de alguni:~coisa". Toda consciência existe conio consciência de outra coisa além de si
iiiesmo. O modelo que até então estruturava a cena do desejo eni Lacan é aquele dc uni
desejo que teiii diante de si o objeto. Embora, ao tomá-lo na fantasia, ele tenha podido com-
plicar esse sratus do objeto, isso fica diante d o clesejo que obedece a esta estrutura
de intencionalidade.
O Senzinkrio, Aa?7gústia foi feito para recusar a estnitur:i de intencionalidade. Esta é uma
soluçáo. Coino estão ali delineadas, as coisas são antinômicas com ostnius metonímico do
desejo, ou seja, com a form:i como se articulam o objeto e o nada metoniniico. Ao longo desse
Ser?ziizÚrio, iacan elabora, no lugar da estrutura de intencionalidade, a tl:~causalidade do
objeto, que retorna como um lei~nzotit).Ele a introduz no início da maneiia mais simples: "O
verdadeiro objeto de que se trata náo está adiante, nias atrás".

Maio 2005 48 Opyão 1;icanian;i no 43


Podemos distinguir aqui o objeto-visado e o objeto-causa, tendo este sido introduzido
nesse Seminário após ter sido apontado no início desse ano no escrito "Kant coin Sade'".
O objeto-visado do desejo é aquele que pode ser representado na relação amorosa, en-
quanto iacan tenta demonstrar a função do objeto-causa através da angústia.

objeto-causa 4 d 4 objeto-visado
angústia amor
palea agalma

Ostatus ético do objeto-vis:itlo é o agaltna, enquanto que, por excelência, o objeto-causa


é antes da ordem dapale. Ao grego agalma, a coisa preciosa, Lacan opõe o I:itimpalea, o
dejeto, e cledica longos desenvolvimentos ao objeto anal, que permanece paradigmático de
uina função eminente de objeto-causa.
No Senzinário: A ~ramferênc& que é todo animado pela questão do que Aicebíades en-
contra em Sócrates, Lacan explica a prevalência do objeto-visado. Por que Aicebíades faz de
Sócrates o objeto-visado do seu desejo?A solução que iacan apresenta e desenvolve consiste
em explicar a prevalência desse objeto pela presença, nele oculta, doagahna, do objeto par-
cial. Ele os enumera: o objeto oral, o objcto anal? o objeto fálicon.O objeto paitial da teoria
analítica, ternio que devemos a Karl Abraham, está colocado CIO lado clo objeto-visado. Venios
aqui o desejo sob o regime do amor. Nesse moniento se erige o objeto fascinante cujo para-
digma é o falo,phi maiúsculo (@) Do lado do amor, é o peã ao objeto fascinante e erigido.
No Senzhzario, A ungúsria temos, pelo contrário, uma elaboração que retifica esse canii-
nho, esse desvio necessário, para restituir o objeto parcial ao seu lugar de objeto-causa. O
objeto parcial é remetido ao lugar da causa sob as formas longamente descritas de resto e de
dejeto. O desejo é concebido conio uin objeto caído, cortado, caduco, separado, aquele que
foi largado, alxindonado pelo sujeito e cujo paradigma é o objeto a.

objeto-causa + d + objeto-visado
angústia amor
palea agalma
objeto parcial

Condicionalidade do desejo
Nio é difícil, a partir daí, antecipar que este Sernifzario realiza um rebaixamento do dese-
jo. Não se trata de realização do desejo, termo tão importante nos seminários anteriores de
iacan. A finaliclade do desejo é senipre uma falsa finalidade, um engano em relação ao objeto
de que se trata. O desejo é um engano. O que Lacan percebeu ali o acompanhará por toclo o
resto do seu ensino, quando ele definirá, no próprio momento em que avançar o passe, o fim
da análise como uma deflação do desejo, ou seja, em que se desinfla como por unia
detumescência analítica, em que desaparece o fascinante objeto-visado.
Repetitivamente, nesseseminário, o objeto visado pelo desejo não passa de um engodo.
A tal ponto que, quando Lacan evoca, em dado momento, o budismo, ele retoma a
asserção de que o desejo não passa tle ilusáo. O desejo não é verclade, mas ilusão. Ele
retoma essa asserção para validá-la, não inteiramente, [nas validar que ela pode ter um sen-
tido para nossa experiência1.
É possível deduzir desse Senzinário uma direção do tratamento no ponto de vista de que
o analista não esteja fascinado pelo desejo, nem mesmo pela interpret:ição do desejo e que o
que se trata de interpretar está aquém do desejo. Trata-se deinterpretar o objeto-causa. Lacan
dirá mais tarde que a interpretação incide sobre a causa do desejo mas é ali que se esboça ess;i
niudança do ponto de aplicação da interpretaçao.
A primeira vez que Lacan traz esse objeto-causa, que fica ainda misteiioso, ele o ilustra
com o fetiche da perversão fetichista. Nele, diz, se desvela a dimensão do objeto como causa
do tlesejo: o fetiche não é desejaclo, mas ali ele deve estar ali para que haja desejo, e o próprio
desejo vai se enganchar ontle pode. Vejam a que nível caiu o objeto fascinante clo desejo. Não
se trata mais de ser irrelevante onde o desejo vai se enganchar: ele deve estar ali.Já podemos,
nesse "estar ali", fazê-lo refletir sobre o Dasein que hcan qualificará de objeto a .
O que lacan elabora nesse Seminário é um objeto que é condiçáo do desejo, e essa con-
dição é diferente da intenção. Trata-se da condicionalitlade do desejo em telafio ao que era :I
sua intenciona1id;ide.

objeto-causa -+ d iobjeto-visado
angústia amor
palea agalma
objeto parcial
'i
condicionalidade
J
intencionalidade

Objeto ueríúico e objeroposriço


A ilustração do fetichismo como perversão não é absolutamente feita para restringir a
validade dessa construção, mas, pelo contrário, para revelar o slat~i.~ do desejo como tal, a
saber, que ele esti suspenso a uiii objeto distinto daquele que ele visa.
Delineio, por ora, um mundo fantástico, de maneira até mesmo abstrata. Pretendo dai.-
Ihes pontos de referência. Isso iniplica - o que é apresentado no Seininário - que Iiá uiii
desconhecimento interno ao desejo. Ele é colocado inicialmente por hcan de uma iiianeira
enigmática, a partir da segunda lição, que trata de uma confrontação com Hegel, evocada pela
fórmula "O desejo do homem é o desejo do Outro". Essa lição termina coni a lembrança de
conio se traduziria, no plano do amor, a luta de puro prestígio que ocorre entre as clu:is
consciências afrontadas de A I:eiromenologia do Esj~írito.hcan a traduziu em terinos de
domínio: "Eu te amo, mesmo que não o queiras". Trata-se da tlialétic:~do senhor e CIO escravo
transposta para o registro do amor. Lac:in lhe opõe uni;i outra fórmula, misteriosa, enigmática
que, como ele diz, talvez não seja articulável, embora possa ser articulada. Essa fórmula coin-
porta o impossível e, por isso, designa o real do tema em questão: "Eu te desejo, iiiesmo que
eu não o saiba".
Deixo então de lado o motivo pelo qual iacan considera essa fórmula irresistivel, se che-
gar a ser entendida, acentuando apenas isto: "Eu te desejo mesmo que eu não o saiba" ex-
primindo o desconhecimento do desejo. O desejo autêntico é o desejo enquanto ele não
conhece seu objeto, não conhece o ol~jetoque o causa. A fórniula não é articulável porquanto
o desejo é recalcado, ou seja, inconsciente.
Assistimos, no Sm~zinário,A atzgNstia, a um clesdobramento do objeto em objeto-causa e
objeto-visado, que se refere aos dois staius do objeto: o objeto autêntico, que é sempre o
objeto desconhecido, aquele que é propriamente o objeto a, e o falso objetou, o agalnza.
Esse antagonisino entre o objeto autêntico e o falso, de acordo com o que Lacan elaborou a
seguir, tem alguma coisa de tosco, mas inspira o contraste feito por iacan entre a fantasia no
pen7ersoe no neurótico".

Perverso Neurótico

sujeito Outro

O que esse esquema elementar procura expiimir é qiie no perverso, como se dizia tia
época, o objeto a está em seu lugar, do lado do sujeito, mas ali onde o sujeito não pode vê-lo.
É do lado do Outro que ele se torna visível, enquzinto, do lado do sujeito, há o desconheci-
mento, lá onde se inscreve propriaiiiente falando o objeto a . Está ilustrado eiii "Kant c0111
Sade" [pela 11osiç:io CIO próprio Sade, que se ignora como objeto a, ignora que é ele qiieni se
mantém no lugar do objeto.
Em contrapartida, está uin pouco mais desenvolvido no Seminário - o que explica certos
enunciados de Lacan em "Subversão do sujeitoDii-que o neurótico, pelo contrário, faz passar
o pequeno a para o lado do Outro, ou seja, ele é de fato ocupado por sua fantasia, tem cons-
ciência disso, e pode tomar esse objeto como visaclo. Para Lacan, esse não é o lugar autêntico
do objeto a, tal como ele estabelece nesseSemiriurio eni que esse lugar do objeto a é exteri-
or ao campo do Outro e se encontrzi como que invisível para o sujeito. O neurótico, por uma
manobra, por seu uso, faz passar o pequenoa para o lado do Outro e é uni objeto pequenoa
que f a ~
com que sua fantasia lhe sirva pai2 sonhar, se posso dizer, com perversáo. Pda medida
eni que a fantasia CIO neurótico está inteiramente do lado do Outro foi possível, entáo, catalo-
gar as pen~ersõesporque, nele, nos reconhecíamos.
hcan não manterá esses esquemas, que são sumários. Eles indicam, no entanto, alguiiia
coisa muito importante, a posição de exterioridade do a em relação ao campo do Outro. Esta

0pr;ão l.acani;in;i n" 43 51 Maio 2005


frase de Iacan nos ~ s c h t o s"Pelo
, menos um pé da fantasia está no Outro", difícil de apreen-
der, se esclarece pela oposição entre a fantasia perversa e a fantasia do neurótico. Consequen-
temente. l.acan introduziu a noção de que o pequenoa da fantasia do neurótico é uni peque-
~ ~

no a postiço, uma falsificaçáo,um deslocamento indevido no Outro, já que seu lugar verídico
está do lado do suieito! Nada se compreende de todo o primeiro moviniento doSeminário se
não for apreendido que ele é consuuído sobre a noçáo da exterioridade do pequeno a eni
relação ao campo do Outro.
O pequeno a está deslocado no neurótico. Lacan diz mesmo que há um uso falacioso do
objeto em sua fantasia. Conhecemos esse uso falacioso, já que foi mencionado por Iacan em
"Subversão do sujeito". O texto é retomado no Sentixário, A angústia: a denianda d o Outro
assume função de objeto em sua fantasia e, por isso ou, esse a falsificado, se torna uma isca
para o Outro, passa para o campo do Outro. Esta é a concliçáo que toma possível a psicanálise
para o neurótico, e poktanto o perverso nada tem a fazer, nessa condiçáo. O neurótico conce-
de o a, um a postigo, ao Outro.

O que não se del*a significanfizar


Esses termos permanecerão uma dificuldacle profunda trabalhada por Lacan que, no Se-
minái?o, Livro 20, bis ainda finalmente recusará sua construção de objeto a: "Tudo isso
não passa cle semblante". A busca do que é ali O verdadeiro objetoa, essa busca curiosa, esse
esqueinatismo surpreendente, mas que esclarece os E.icritos, permite prever que náo se en-
cerrou, na teoria lacaniana, na teoria analítica, :I questão da relação do semblante com o real.
kican aponta "que há um engodo da estrutura fantasmática do neurótic~"'~, no qual ele pró-
prio caiu em seus seminários: fazer do objeto-causa o objeto-visado, recobrir uin coiii o outro,
transformar o a em alguma coisa que se localiza, que se vê.
Nesse Senlinário o campo do Outro é o campo da objetividade. Não hesito em empregar
esta palavra objetividade, porque Lacan a opóe a palavra objetalidade, que vem, pelo contrá-
rio, englobar, qualificar os objetos-causa.

Objetalidade objetividade
objeto-causa + d -* objeto-visado
1 angústia amor
palea agalma

condicionalidade intencionalidade

Aqui, :i fantasia neurótica é colocada como inautêntica e o objetoa da fantasia do neuróti-


co apenas conio um substituto. Permanece, nesseSemi?Wrio, a noção de que o verdadeiro de
verdade, o verdadeir6 objetoa, não pode ser visto. Trata-se, aléin disso, do que é exatamente
dito em "Subversáo do sujeito". Lacan constrói os objetos-causa como não especularizáveis,

Maio 2005 52 Opqáo lacdniana nl' 43


eles não podem ser capturados no espaço do espelho, no campo escópico, eles escapam ao
campo visual. Por isso, o que 1.acan chania de campo do Outro no Seminário: A angústia é o
lugar do significante, mas também o lugar das apariçóes, é ali que onde eles aparecem.
Eis uma bússolaque é preciso manter em todo o primeiro moviinento doSeminário -se
eu distinguir dois principais. O lugar autêntico do a está do lado do sujeito, invisível para ele,
e só está no Outro por engodos e falácias. No segundo movimento do Sen~inário,lacan
elabora o lugar do pequeno a no Outro O objeto a que ali é construido pernianece eviclente-
iiiente uiiia formação muito ambígua, que é de um lado irredutível à simbolização e
irrepresentável segundo as leis normais do campo visual, exterior ao Outro e, no entanto,
incluído no Outro. mas conio diferente do sinnificante.
-
Essa dificuldade de articulação - a construção da alienação e da separação vai tentar resolvê-
Ia - é mencionada na última licão do Saninário: "O objeto definido como um resto irredutível
à sinibolização no lugar do Outro depende, no entanto, desse O~tro"'~.Eis a frase em que se
reconhece a dificuldade da constmção.
I? também no final do Senzi?zárioque lacan insiste no fato de que o pequeno a não é uma
pura facticidacle, não é simplesmente um em-si, e que o fato dele ser irredutível supõe que se
exerça sobre ele um esforço de redução ao Outro. Por isso, portanto, é relativo a essa redu-
ção. Isso também inspirará, no ensino de Lacan, vai-e-vens contínuos: de um lado, o objeto
pequeno a como real, inas, ao niesmo tempo, relativo à elaboração significante. Não é então
absoluto, e pode mesmo nomear o momento em que se detém a elaboração significante. Mais
tarde, em sua "Radiofonia"", Lacan falará da transformação do gozo em contabilidade, de
fazer passar o gozo ao significante que conta, e também à fala. A mesma lógica está ali presen-
te, trata-se tlefinitivaniente do que não se deixa significantizar.

A angústia, momento lógico


Ocorreu-me coiiientar o aforisma que eu havia pescado outrora noSeminário, A angús-
tiu, '56o :iinor permite ao gozo condescender ao desejo"". É preciso destacar que gozo e
desejo são duas estruturas distintas.
Por que Lacan tanto insiste, nesse Seminário, em deixar o pequeno a do lado do sujeito,
do outro lado d o Outro? Porque o a é de qualquer forma uina expressão, uma transforiiiação
d o gozo do corpo próprio, do gozo em seu estatuto autístico, fechado - ele o havia tomado
ainda mais fechado ao nomeá-lo com o termo freudiano das Ding -, enquanto o desejo é
relação com o Outro. H:í, portanto, uma antinomia, uma hiância entre gozo e desejo. O gozo,
se tomarinos as coisas de modo simples, tem o corpo próprio como lugar, ap passo que o
desejo é relação com o Outro. É ainda essa antinomia que inspirará, dez anos mais tarde, a
elaboraçáo de lacan no Sentinário, Mais ainda.
O que é divertido, noSenzinário, AAngzÚtia, é a introdução do anior entre gozo e desejo,
conio mediador. O amor é ali mediador porque desloca ou falsifica o pequeno a , tornando-o
objeto-visado, agalma, enquanto a angústia não é mediadora, diz Lacan, porém mediana en-
tre gozo e desejo. Se eu quisesse parafrasear o aforisma de iacan, diria que só a angústia
transforma o gozo em objeto causa do desejo.

Opyáo lacaniana n" 43 53 Maio 2005


hcan elabora e inclusive constrói a angústia conio o operador que pemite a das Diizg
toiiiar forma de objeto pequeno a . Isso não se encontra com todas as letras noSeti~inário.A
angústia funciona nesseSeminário como um operador que produz o objeto-causa. Aangústia
lacziniana é uma angúslia produtiva. Por isso Lacan pode dizer no final do Seminúrio: "O
inomento em que é posta em jogo a funçáo da angústia é anterior à cessão do objeto". E dá
um exeniplo extraído do caso do "Homem dos lobos" quando, diante do seu sonho repetitivo,
é possível reconstruir o episódio de uma conioção anal, de uma defecação. Isto é enunciado
por Lacan unia vez, é r{tomado em outra, mas a meu ver esse modelo pemanece essencial
para o que se trata, ou skja, a angústia como moderador que produz o objeto-causa. Por isso a
angústia, nele, é essencialmente um momento lógico, não experimentado.

3. Aparições, pedturbações e separações

Certeza da aflgzistin
Uma vez dadas essas referências, tentenios agora apreender no concreto essa relação sin-
gular do gozo com a angústia. I1ara isso, é preciso ir a Freud, que nos diz que a prinieira e mais
originária das condiçõds detei-minantes da angústia é a exigência pulsional, constantemente
crescente, diante da qual o eu está em estado de afliçáo. Apreendeinos ali sobre o quê Lacan
construiu essa esquematização. A tradução dessa fnse em temos lacanianos já leva vocês a
percorrer a relação do Bozo com a angústia. Trata-se, para Freud, de uma [ierturbação econó-
inica, uin excesso -de$ Ü b e r c h m - de libido inutilizada que é o núcleo de perigo ao qual a
angústia responde. Nos termos de Fi-eud, o que foi articulado por Lacan é a relação do gozo
coin a angústia e, por tris da angústia, a pulsáo enquanto ela quer se satisfazer, enqu;into
vontade de gozo, insistindo sem trégua. Quando essa insistência pulsional entra entáo em
contndiçáo com o princípio do prazer, há esse desprazer que se chama angústia. Por isso
iacan pôde dizer - uma vez, mas é o bastante - que a angústia ésinal do real e indício da Coisa,
de das Dirzg, e e;( fórmul:~"a angústia é sinal do real" prevalece sobre a noçáo, que no entanto
ficou famosa, da angústia conio signo do tlesejo do Outro.
É preciso esperara!última liçáo doSernbzÚrio para que lacan tome uma distância explícitzi
em relação a este enunciado escabelo que ele colocou no início: "a angústia é o signo experi-
nientado do desejo do Outro". Ele apresentou no início um louva-a-deus e um personagem
niascaraclo, que ignora se o louva-a-deusvai encontrar nele seu objeto. Daí a angústia de ser o
que falta :to louvn-a-de?s.O que iacan aponta no fim doSemi;zÚrio, puxanclo, de algum inodo,
o tapete sob os pés daquele que o segue, é que o apólogo só vale no nível escópico. Tratzi-se
do nível do estádio do espelho, nível em que somos os inesmos. É por excelência no nível
escópico que ;i estranheza do objetou é desconhecida e que esse objeto está mais mascarado.
Por isso esse Seniinário comporta unia crítica contínua do nível escópico, exataiiiente aquele
em que Iucan elaborou sua teoria do desejo após "O estádio do espelho" e o esquema ótico,
que faz, nesse Senzinú~io,sua última apariçáo.
É também essa conexáo da angústia com o real do gozo que lacan acentua coino ceneza da
angústia e que contraSta com o caráter duvidoso do significante - o significante nunca é cerro.
Por isso a fenomenologia do obsessivo ocupa tanto espaço nesseSerninário. O obsessivo é o
sujeito que tritura o significante tentando aceder i origem, ou seja, ao objeto-causa, mas que
também cultiva a dúvida na busca significante, a fini de se manter à distancia &i certew.
Nesse Senzi?zhrio, o rebaixamento tlo desejo acompanha o do significante. Enquanto a
relação com o real como angústia é certa, o significante não passa da possibilidade de logro
simbólico. Assistimos então uni rebakrnento do desejo, um rebaixamento do significante.
Tudo isso será em seguitla ajustado, temperado, deslocado por iacan, mas ali estaiiios no
momento em que emerge toda uma outra dimensão da experiência que até entáo não havia
sido aberta. Encontranios inclusive uma crítica da ciência: "Tudo o que a ciência conquista se
torna um inienso logro. Doniin:ir o fenómeno pelo pensamento é sempre mostrar corno se
potle fazê-lo de maneira enganosa, é poder reproduzi-lo, ou seja, fazer dele uni signific;inte'"'.
É preciso tomá-lo na perspectiva que valoriza a certeza da angústia, mas podeinos certamente
ver que ali está uma amostra do que Lacan desenvolverá mais tarde como a noção do signifi-
cante como semblante.
Podemos atualmente acrescentar, nesse inicio do século XXI, a constataçáo de que as con-
quistas da ciência são acompanhadas &i subida ao zênite social do valor do gozo, do tlii-eito
degozar, precisamente porque elas comportam em si mesmas um logro que torna muito niais
insistente o apelo ;i uni real, ao real dogozo, que não é semblante. O próprio tliscurso juiídico
sempre se coloca niuito mais a serviço do direito de gozar e só encontramos, para contrapor
a ele, o direito imprescritível da tradição: "Deixem-nos em nosso casulo de tradição". A cerre-
zs está do lado onde isso goza, ela não está na natureza, que é irresistivelmente falsificada pela
ciência. Ninguém mais diz que é preciso um homem e unia mulher para fazei- uma criança.
Trata-se de uin resquício de algo anterior à entrada do cientista como terceiro nesse assunto.
O apelo ao Outro coriio Pai, ao significante-mestre do Pai pode se tornar de fato tanto mais
exasperado quanto inais a certeza estiver sempre clo lado clo gozo.

kngcístia produtiva
Voltemos a Freud na relação com Lacan. A repetição da palavra sinal, a angústia como sinal
no eu - um slogan bastante repetido em Freud e hcan -, Faz acreditar que a angústiase resume
em prevenir ou conotlr. Ora, não é nada clisso. Em "Inibição, sintoma, angústia" Freud Faz o
mesmo que Lacan eiii A angúrtia, ele revê suas posições anteriores. Esse livro foi feito para
indicar que a angústia é ativa. Náo vou comentá-lo detalhadainente, e me contentarei eni dar
a vocês esta fórmula, que inspirou inteiramente este seminário de Lacan: 'A angústia" - de
castração - "é o motor do realque". É o que diz Freud. Ele escreve "Inibição, sintoma, angús-
tia" para explicar que ele revisou suas concepções para fazer da angústia o motor tlo recalque.
Exatamente o que Lacan traduz em termos tle objeto-causa: implicando a causalidade no as-
sunto. A angústia lacaniana é ativa, ou seja, protlutiva.
O que I.acan chama de causa do desejo é sua tradução do motor clo recalque, e por isso
escolhi o adjetivo recalcado para qualificar o desejo. Freud fala de exigência pulsional -
Triebansj~nmch-, de pulsão, de angústia e de recalque. A idéia do Seminário não é que a
angústia seja diretamente a causa do desejo, mas que ela a produz. Ela seria o operador que
faria, da exigência pulsional, objeto causa do desejo e que se inscreve, portanto, no moniento
em que se realiza a ruptura do que hcan chama mônada primitiva do gozo. Esta mônada é
mítica, inas há necessihade de formulá-la. Correlacionar o gozo a uma totalidade unitáiia, a
um corpo de gozo, significa que o Outro não entra eni jogo logo de início.
Por isso Lacan é levado a detalhar as separações anatômicas do objeto, as sepa1;içóes natu-
rais do objeto extraídoclo corpo, precisamente sem a intenrençáo de um agente que seria o
Outro. 'Trata-se do queele chama, termo retomado de Freud, separação. Não a castração, mas
a separ;ição dos objetos, a separação dos órgãos. Ele fala mesmo, em um dado momento, d;i
sel~artição,para indicar que se trata como de uma partição no interior, que concerne ao
sujeito do organismo. Nele, a separação de um Órgão tem seu paradigma no objeto anal. Por
isso, é ein um segundL tempo que se coloca a questão da subjetivação do objeto e de sua
inscrição no Outro. O que nele é objeto a ji está qualificado como o que há cle mais eu-
mesmo no exterior, por ter sido cortado de mim, e cujas ressonâncias se encontram na última
lição do Smzinário 11:
4
Evoquei há pouco doutrina, clássica em Lacan, do aquém CIO desejo. Esta doutrina passa
pela necessidade e pela demanda: toma a necessidade como primária, segue a passagem da
necessidade pela demanda. Disso resulta o clesejo, que é como uma defasagem entre necessi-
dade e demancl:~. :

1
Necessidade
Demanda
Desejo

Essa doutrin:~está novamente em questáo noSeminario, Aangústia, no qual o gozo passa


pela angústia para chegar ao desejo. O teriiio demanda é o lugar do ;imor porque, nessa
doutrina clássica, há um desdobraniento da demanda entre dem:inda de satisfação da neces-
I
sidade e demanda de amor. Nessa doutrina clássica o significante é inicialmente do Outro,
enquanto, no Seminário, A angzííia, há uma referência a uma inônada mítica do gozo, que
Lacan esclareceri - restam ali fórmulas ambíguas - em seu escrito "Sobre o Eieb de Freud": "O
gozo esti do laclo da hoisa, enquanto o desejo é do Outro"".
Vocês sabem entád qual é, nessa doutrina clássica, a conexáo feita entre amor e angústia. O
Outro da demanda detém os objetos de satisfação, o objeto adquire valor de doni siinbólico,
cle testemunho cle amor e, se o Outro não dá, há desamp:iro,Hilflo.\Egkeil- há então a angús-
tia por falta ou pela perda do objeto.
No Se!ninário, A aizgLC~tia,21 mesma lógica justifica uma perspectiva totalmente diferente, a
mesma Iógica que comporta que o dom essencial do amor é o próprio amoi; ou seja, nenhuni
objeto. É o que exprime a frase "O amor é dar o que não se tem", na qual o dom essenci:il é a
falta. Dai a articulação~uefigura noSeminuno, numa das raras vezes em que hcan cita explici-
tamente "Inibigo, sintoma e angústia" para contradizê-lo". Freud diz que a angústia está ligada
à perda do objeto, enquanto h n n diz que ela surge quando a falta vem a faltar, ou seja, quando
há objeto, quando há objeto demais. Enquanto o amor preseiva o lugar da falta do Outro, a
angústia vem tapar essa falta - e, por isso mesmo, provocar aapbanisis do Outro, que produz a
certeza. Conseqüentemente, o amor concede objetos, mas como tal ele é, propriamente falan-
do, seni objeto. O amor que consiste em dar o que não se tem avança desprovido, enquanto a
angústia não é seni objeto. Trata-se evidentemente de uma abordagem preliminar, d i l o g o ~ c a n ,
pois o objeto aqui precede a angústia, causa a angústia, enquanto, no segundo movimento do
Senzimirio, pelo contrário, é a angústia que produz o objeto.

Inzaginá~opertnrbado
O primeiro movimento do seminário se esforça para nos apresentar a fenomenologia do
objeto angustiante, que é apaixonante. Ela ocupa várias liçóes do início, (nas esta não é a fase
mais profunda da exploraçáo, não é sua palavra final. Lacan vai procurar esse objeto que an-
gustia no próprio Freud, em seu texto sobre a "Inquietante estranheza", no qual ele diz preci-
samente que explora, que tenta encontrar o núcleo daquilo que angustia. No segundo movi-
mento do Seminurio trata-se, pelo contririo, de uma angústia que produz o objeto.
O principio da fenomenologia do objeto angustiante é a noção de que há sempre uni
certo vazio a preseivar, tanto no campo visual como no amor, e do seu preenchimento total é
que surge a perturbação em que a angústia se manifesta. Afenomenologia do objeto ;ingusti-
ante tem início no "Estádio do espelho", e é a partir daíque Lacan o apresenta. No "Es~ídiodo
espelho" há um objeto, a imagem do corpo próprio, que produz no sujeito um sentimento de
jubilação, além de um total desconhecimento da estranheza do objeto a. Mas o que lacan
enumera sucessivamente sio os monientos de aparição do objeto que nos lançam eni uma
outra ccliiiiensáo totalmente diferente.
No primeiro niovimento do Sevzinário há aparições, enquanto no segundo há separa-
ções. li-ata-se de dois movimentos totalrfiente distintos.
No primeiro niovimento, trata-se do ipaginário perturbado, do estádio do espelho pertur-
bado, do estádio do espelho modificado em esquema ótico. Perturbado, porque nele se mani-
festa alguma coisa desse objeto a que deveria permanecer somente do lado do sujeito, i
esquerda no esquema ótico. Ele não deveria estar ali.
No esquema ótico há um espelho que separa, um buquê e um vaso. O lado esquerdo é o
lado do real, o lado do sujeito, o lado que náo se vê e só pode ser visto no espelho, ou seja, a
imagem real. No outro lado, no esquema que vocês encontram nos Esvitos, vocês têm a
imagem virtual i'@), que é a niesma.

Todos os esquenias que reproduzi no Semimirio, A angtictia levam a acreditar que ele
suprime isso para indicar que o pequeno a , ou seja, o buquê, não aparece no campo d o
Outro. Normalmente, ele não deve aparecer, deve haver ali uma lacuna - constnição que vocés
encontrani na última lição do Seminurio: A transJerêi7cia -, que podemos chamar de menos
phi, que Lacan vai inclusive chamar de x. Esta é a conclição para que todo o investimento
libidinal narcisico náo seja passado inteiramente para o campo do Outro, no campo visuzil.
Uma parte do investiniento libidinal narcisico permanece não especularizável, e estabiliza O
campo visual.
Todo o pritiieiro movimento do Semiiiário se resume em indicar como é possível fazer
uma transferéncia falaliosa, na qual este investimento suplementar vein penurbar o campo
visual, e entáo isso angustia. Vocês têm o recurso do esquema ótico para explicar a dimensáo
do estranho. Freud diz que o Unheimlichkeit pertence ao domínio do angustiante. [\'o segun-
do nioviinento, pelo contrário, não se uata mais do objeto que causa angústia, mas d o objeto
que a angústia destacaem uma conjuntura de mais-de-gozar.Em outras palavras, no primeiro
movimento vocês têin aparição e perturbação e, no segundo, separações.
O Semiizario leva inicialmente a uma prevalência do campo visual, onde aparece, com sua
funçáo perturbadora, o objeto angustiante, objeto que infringe o principio do campo visual,
que é, por excelência,o principio do prazer, a homeostase. Poderiamos enunciá-lo desta ma-
neira: só é especuiarizáirelo que está conforme o principio do prazer Assim, o que é normal-
mente excluído é a forçação do mais-de-gozar. O campo visual é por excelência o que exclui a
forçaçáo do mais-de-gozar
Lacan recorre ao dsquema ótico para dar conta da ligação da angústia coin o eu, que é
ualorizada por Freud. Mas se há um segundo movimento é porque há duas faces no discurso
dos psicanalistas sobre a angústia, como Lacan assinalai! Podemos distinguir nele os dois
movimentos. Se há, de um lado, a angústia como sinal do eu, há também a angústia referida
ao real, defesa contra o desamparo absoluto do nascimento. Náo se trata entáo do eu, nin-
guém imagina que naquele momento o eu esteja constituído. No primeiro movimento do
Semináiio é valorizada a angústia retomada pelo eu como sinal do que Lacan chania de peri-
gos infinitamente mais leves, enquanto que no segundo trata-se da angústia referida ao real.
lacques-AainMiller é psicanalisla,Diretor do Deparlamento de Psicanálisc (Paris \'lII).
Testo e notas estabelecidas por Callierine Bonningue, a partir de A orienlaçao lacaniana 111, 6, liçio pronunciada no
Departamento de Psicanálise de Paris VI11 e na Seção Clínica de Paris-Saint-Denis: liçóes de 28 de abril, 5 e 12 de maio, 2,9
e 16 de junho de 2004. Publicado conl a geniil autorização de J:A. Miller. Leremos aqui a seynda parte (liçóes de 2 , 9 e 16
de junho), tendo a sido publicada no número 58 (outubro de 2004). Testo traduzido por Inês Autran Dourado
Barbosa

'Laian J. (2004). Le Seroirzaim, Lirm 14 liillRoisse (1962-63, p ZM).Paris: Seu4


Laon 1173) ?lttdnulrr I ! t r ? 11, k j!.~ilr?c . n ~ ~ I ~ / ~ t ! . l~ ~~~ ln ui np ~~ ~. ~i 13%) ~ r AI? 1 C];<) li,% i;: !.
~ n ~ ~ s l Lt~ 5%11
,r,;~t#s::+,,\,, 164 pp ali:, 6 )kt>rr,!O: I,,, ,t<]2 t 1241,
' l a i . . ] I.YV , 3 ~iiiiin.d Ja c v a n 0 . i .nx~~n:e . JC ?:e 10 (I,?
1 I ~ I I GIC"31 li; 9 9 b i 5 V Up i,!
'.J:u ] !001) /E ~ . , ~ : I I I OI Ir~i n S I~!rmisf"ri Ij;Obi P 1.) PU I .ri I
'Freud S. (1981) Pv<holopiedps loule cl analpedu moi. ln & ~ i ~ d p n s Paris: e . 12ayol.
'Szire, J - P (1947). Une idée lond?medale de Ia phénoniénolopie de Husseil: ~intenlionnllilé.ln SilunIionsI. Parir: Gallimard.
'LacanJ. (1998). Kant com Sade (1963. pp.776 2803). Opcil.
'1acan.J. [ZOOI). Op cil., p. 180

Maio 200 5 58 Opqão bcaniana nl' 43


'Lacan]. (2004) Op. c;!., p.266
'Sdem, ibideoi, p62-63.
"Lacan J. (1998). Siibersio do sujeilo e dialélica do desejo no inconscientefreud'ano (1160, p. 807 à 842.). Op. cil.
"Lacan J. (2004). Op. c i l , p. 80
"lilem, Ibidem, p. 192
"Lacan J. (2001). Radiophonie. In Airlre écrils (p. 403~441).Paris: Seuii.
'r.-A. Miller comedou esse alorisma de Lacaii principalmenteem seu curroA orimla(üo l a m i o n n 11, 1 (1991-82). "Exansóes no ensino de Lacan'.
'6LacaiiJ. (20ffl). Op. rjl, p. 93 e94.
"ldcai]. (1998). Sobre o 7reb de Freud e a desejo do psicamiisl~(1964 Op. cil., p. 865 à 869
lXLacan]. (2004) Op Ni., p. 66 e67
"idem. ibiileii,, ~ 1 6 2 .
V - Uma linha de fissura
1. Losango lacaniano

Desacordo
Agora que produzi o livro, gostaria de me calar. Alias, o silêncio é, por excelência, o gozo
oral que não é, como se aprende nesse livro, alimentar-se. Não farei isso com vocês, tambéni
náo vou comentar o Sen~inário,A angústia antes que vocês o leiani. Vou dar-lhes tempo para
tomar conhecimento dele, ingeri-lo, eventualmente digeri-lo. Meu objetivo é apenas extrair
suas linhas mestras e, para tanto, introduzo uma linha de fissura, algo como a estrada romana
à qual Lacan se refere dm seu Seminário, &l>sicose.sl. Estrada romana que não cobre toda a
paisagem, mas permite percorrê-lo, traçar uma trajetória. Proponho-me a desenhar uma tabe-
la de orientação que náo inclui em suas coordenadas os mil e um detalhes que devem ser
avaliados um a um, com a máxima atenção.
Dou a essa linha defissura a forma do losango lacaniano, que mostro percorrido por dois
trajetos. Entre desejo egozo, um passa pela angústia e o outro passa pelo amor Avia do amor
é, classicamente, em Freud, tal como iacan pontuou, uma via de engano, porquanto o amor
se enraíza no narcisisnio. É sobre esse fundo que se destaca o aforisnio de Lacan segundo o
qual a angústia é aquiloII que náo engana.

Afirmei que se trataria nesse Seminário do aquém do desejo. Vocês já conhecem um aquém
d o desejo: a demanda be amor. Lendo de forma ordenada esse Seminário, conforme o que
acredito ser a sua orientação, uma vez dispostas certas escansões de parágrafos, de partes,
vocês descobrem um outro aquém, aquele que passa pela angústia e que Lacan náo retoiiiará
mais, em seguida
Na vertente do amoLencontrTmos,no honzonte, o que podenios denominar uma miragem
e que é designada como UI por iacan em "Funçáo e Campo da fala e da linguagem", quer dizer,
quando ele se dedicou a trabalhar o simbólico e a fazer passar o imaginário no simbólico, escrito
no qual, há bastante tempo, concorclamos em localizar o início de seu ensino propriamente
dito. No horizonte, encbntra-se o amor perfeito, cuja realizaçáo se estabeleceria a partir de urn
acordo intersubjetivo que imporia sua harmonia à naturea despedaçada que o sustentaz.

Maio 2005 60 Op@o Lacaniana n<'43


Na vertente da angústia, não se trata de acordo intersubjetivo, nem da imposição de qual-
quer harmonia. A desarmonia prevalece ao longo de todo esse Seminário, em particular com
o que Lacan apresenta como o objeto angustiante, que vai buscar na 'inquietante estranheza"
de Freud. Náo existe, aí, nenhum acordo válido. É o que angústia quer dizer, a saber, estra-
nheza, desacordo, perturbação.
Essasduas vertentes, a d o amor e a da angústia, são correlativas a dois tipos de objetos.
O objeto pequeno a, tal como é elaborado nesse Seminário e, na vertente do amor, a sigla
que é utilizada para a imagem especular e que resume as constnições de Lacan eiii o "Está-
dio do espelho" e, na sua re-edição, naquilo que é retomado, simplificado, d o esquema
ótico, que vocês encontrarão em sua forma completa no escrito "Observação sobre o relató-
rio de Daniel Lagache".
Essa iniagein especular é de saída apresentada por Lacan como fomiadora do eu, quer
dizer que ela implica o que se pode fazer aparecer como uma retroação, onde nós inscrevere-
mos primeiro, por convenção, um sujeito mítico que, no espelho, vê a imagem de sua presen-
ça, isto é, de seu corpo. Náo retomo a demonstração que Lacan tenta fazer, ou seja, que esta
imagem tem um efeito formador para o eu. A escrita do que se reflete nesse espelho plano
encontra-se a direita.

An1iga.r referências de Lacan


Essa imagem pode atrair a agressividade - esse esquema inspira e sustenta o escrito de
Lacan 'A agressividade em psicanálise"'- enquanto "eu me vejo como outro", e esse outro
completo no espelho, porque ultrapassaria o estado em que me encontro de meu desenvolvi-
mento, de minha integração biológica, seria como mestre, atraindo desse modo afetos nega-
tivos. Mesnio quando essa imagem está implicada, por Lacan, em seus sofrimentos, mesmo
quando ele leva em conta sua ambivalência para o sujcito, ela sustenta não somente o amor,
nias, até o Senzinario, A Alzgúçria, i(a) sustenta o mundo dos objetos, quer dizer, o mundo.
Em seu texto do "Estádio do espelho", Lacan indica que ela vale como o limiar d o mundo
visível4.Essa imagem, apesar dos sentimentos confusos que pode inspirar, que \rio da jubila-
ção à raiva, na descrição dada por Lacan, que se tomou clássica, continua sendo o princípio de
meu ser no mundo, ao menos de meu ser no mundo visual.
Uma outra referência desses textos antigos, 'A causalidade psíquica": "Não há nenhuma
antinomia entre os objetos que percebo e meu corpo, cuja percepção constitui-se, justanien-

Opfá'~l;ic;iniana n<'43 61 Maio 2005


te, por um acordo dos mais naturais com elesn5.Encontramos aqui esse termo acordo que dá
a tonalidade fundamelital dessa relação imaginária. Dito de outro modo, não somente essa
imagem sempre p r e i e u estar, para lacan, no princípio da formação do eu, mas também no
princípio do que chamaremos, aqui, a realidade objetiva, modelada, informada por essa ima-
gem especular, Ao menos - evito retoniar isso, se posso dizer, por conta própiia, por conta
daquele que fala -, isso permanece o fundo sobre o qual se destacam os fenôinenos que são
descritos por Lacan no Seminário, A Angúslia. Acrescento uma referência ao texto 'A
agressivitlade em psicanálise": "O espaço onde se desenvolve o conjunto de imagens do eu e
que vem juntar-se ao espaço objetivo da realidade'". É assim que, quaisquer que sejam as
funções simbólicas qoe serão inseridas por iacan nesse esquema, esse i(a) permanece - te-
mos algumas fórmulas no Senzinurio,AAngklia - como protótipo ou paradigma dos objetos,
dos objetos norinais, Lcrescentemos, dos objetos regulares. Pequenoa é o objeto construíclo
no Semitzurio, A Angúslia a partir da experiência da angústia, uma experiência extremamente
estilizada. Àincidência desse objeto é mostrada de saída. Não é a fase mais profunda tlo Senii-
nário, mas a maneira pela qual em seu primeiro movimento ele se lança, dando crédito, no
mundo visível, às prdsenps que se encontram em infração com as leis tia fenomenologia tla
percepç5o. Tenho r a k o de evocar aqui O título de Merleau-Ponry, enquanto Lacan f I~ uma .
referência global antes à estética transcendental de Kant, primeira parte da C?-ítica da razüo
p u r a na qual, nesse Seminário, ele só entra por alusão?
i
2. O engano da potência.

Um objeto nüo especzrlatirável.


Que haja uma experiência de angústia, é a isso que o primeiro movimento desse Seminário
quer dar crédito, de ?ma maneira que náo é sentimental. Essa experiência de angústia não se
credencia a p t i r enuaciados de um sujeito angustiado, mas apoiando-se no que pode aparecer
como angustiante. A palavra aparição, que se repete no primeiro movimento tlo Seminário,
remete ao mundo visível e o que aparece sio perturbações. A partir dos dados dessa experiência
edifica-se uma c o n ~ t & ~ ãque
o tenta dar conta da experiência tlessas perturbações. Como? De
um modo e apenas um. Essas perturbacões têm um princípio que não aparece clanmente antes
da décima lição desse Seminário, que intitulei "De uma falta irredutível ao significante", onde se
apresentam figums topológicas elementares que poderiam ser nielhoratlas.
Esse princípio se deduz do fato de que o limiar, o principio do mundo visível, é o especu-
lar. Isso é o fio do enjino de lacan até esseSenzi?Wrio10. A perturbação se liga essencialmen-
te ao que se manifesta, aparece, do não-especularizável.Há aí uni paradoxo, sem dúvida, mas
nós já estamos formados nele pelas fórmulas de Lacan, que comportam, por exemplo, que o
desejo não é articulável, mas é articulado. O importante do Seminário é marcar que, quando
a angústia surge, o objeto da angústia como objeto ansiogênico, não-especularizável, é para-
doxalmente especulikrizado, o invisível é entretanto visto.
A construção topológica elementar de Lacan enipenha-se eni constmir um objeto dito
náo-especularizíve1. Lacan inventa, da niesnia forma que privilegiou o especular, o não-

Maio 2005 ~ 62 Opçã<)I.;icdnian;i nl' 43


especularkzável, partindo do fato de que o objeto normal visto no espelho se inversa, sofre
uma inversáo de simetria - a esquerda se torna a direita e vice versa. Donde a diferenp entre
o que vocés vêem quando olham num espelho e quando olham uma foto de vocès. Isso supõe
que esse objeto tenha dois lados distintos.
Partindo daí, Lacan põe em jogo, e chama de nio especular, um objeto não orientável, uni
objeto onde essa inversio náo pode se produzir porque o avesso e o direito, o em ciina e o
embaixo, estio em continuidade. Ainda que reduzida a seu principio topológico, a uiiya super-
fície mínima, e até mesnio complicada, é a banda de Moebius. Fiz com que essa banda de
Moebius figurasse na capa, muito simplesmente, numa apresentação moderna, mas que se
tornou clássica - Escher -, a mais banal, e que serve de apoio a essas pequenas formigas.

Do ansioginico ao erógeno
No primeiro movimento doSe»tittúrio, a ênfase é dada i descrição da irrupçáo clisruptiva
do objeto a, enquanto nio orientável no campo visual. Ele aparece diversamente sob a forma
da intrusão, e de uma intrusão colocada como ansiogênica. Abre-se ali o capitulo de uma
classe de fenônienos. Correlativamente a essa valorizaçáo tla disrupção de uin objeto
ansiogênico nio especulaiizável, constantemente ao longo do Seminário, o campo visual é
descrito como especialmente ansiolitico. É, tliz Lacan, no campo visual que o objeto pequeno
a está mais recoberto e passa, normalmente, mais desapercebido do que em todos os campos
enumerados em funçáo dos objetos. É na percepçio visual que o sujeito está mais seguro,
mais a salvo da angústia. O objeto ansiogénico faz irrupçio, eiii casos especiais, num campo
onde normalinente ele não tem Iiigai; porque os objetos são normalizados sob o modo espe-
cul;ir. O que faz coni que vocês sejam obrigados, no caso cle lereni esseSentinÚrio, a reaprender
o esquema ótico, do qual Lacan se desembiraçará, em seguida.
O chariiie desse SenzinBrio está mais na quarta parte, onde o esquema ótico clesapare-
ceu. Mas esse Seminário é coinposto. É preciso passar pelo objeto a como ansiogénico no
campo visual, a partir de algumas de suas aparições dismptisas num campo que não é o seu
i? [,i-eciso crecienciar esse objeto a para poder considerar sua função enquanto tal, a partir de
um certo número de separações erógenas. O moviinento do Seminário, em sua fase mais
profunda, vai das apariçóes ansiogênicas às separações erógenas do objeto.
O primeiro iiioviinento, no conjunto, coinpõe-se tlas duas primeiras panes. O segundo
moviiiiento tonia toda sua força na quarta parte. Na terceira parte, kican situa a angústia entie
gozo e desejo e mostra uma certa conjunçio do ansiógeno com o erógeno, especialmente
sob o modo das afinidades das conexões entre o orgasmo e a angústia. Há ali uma disposição
completamente ordenada: do ansiogênico ao erógeno, e a báscula, o fluxo da balança se dan-
do na conjun@o do ansiógeno com o erógeno.
Isso se vê cla maneira a mais evidente, pois o Senzinário coloca em jogo dois slatus dife-
rentes do corpo. Em seu primeiro movimento, é o corpo especular, o do estádio do espelho,
em sua completude, apreendido como uma forma, uma boa forma, e mesmo a melhor das
form:is posto que, se acreditarmos em sua constmçáo, ela se impõe para o ser falante ao
mundo perceptivo de seus objetos. É umaGe.ítalt. O primeiro inovimento lida com essagestalt,

Opsio lacdniana nu 43 63 Maio 2005


I
par21 mostrar como el:i pode ser pertuhada, desdobrada, clespersonalizada, estranliijicada
pela irrupçáo incongruente de um objeto diversamente estruturado. Mas, é por te-10
estrutur;ido diversamente que o objeto especular, que encontramos esse objeto pequeno a
no segundo nioviniento, de certo modo, em seu lugar e perfeitamente informe. Esses obje-
tos pequeno a não seresumem a cinco. Em seu transbordamento, vocês encontram tipos que
terio dificuldade para designar e que náo se inserem, certamente, na ordem da boa fornia -
como a placenta, os envelopes do feto, o olhar, que só pode ser uma boa forma sob o inodo
do olho, a voz, que não se inscreve no campo visual. Estamos aí num registro onde náo se
trata de forma, inas de zona. .Trata-se do corpo das zonas erógenas, que não é o corpo visual.
É, no modo como Lacan o eniprega, o corpo como organismo, apreendido absolutainente
fora do espelho, um corpo ao menos a-especular, e do qual se entende que fornece os objetos
confornies à estmruia topológica apresentada a partir da irrupção do objeto pequeno a no
I a estrutura topológica da banda de Moebius ou, mais precisamente,
campo \gisual, quer dior,
de sua superfície mínima. É o corpo das zonas erógenas, quer dizer, das zonas de borda, essas
zonas que Freutl colocou eiii função primeiro eni seus "Três Ensaios sobre a Teoria d;i Sexua-
~ ~

lidade", quer clizer, esse corpo que retorna. Esquece-se a forma, posto que o corpo do qual se
trata é visado até erii Seu estatuto fetal, e pelas melhores razões do mundo, posto que a angús-
tia do nascimento foi credenciada no discurso analítico.

Utna extração coiporal.


É uiii corpo clo q+l, direi até niesnio, n i o conhecemos a fornia, cujo limite igno,~\inos.Há
algo, ali, de fato, nessa quarta parte, algo que se realiza no ensino de Lacan. Até então, conhe-
cia-se soiiiente, em I ~ c a no, corpo como essencialniente implicado n a formação do eu. O que
estava iinplicatlo na constituição do sujeito?O significante.E aparece ali, de modo evidente, o
I
que estava anunciado, precedentemente, na relaG~odo objeto parcial com o desejo: o corpo
e, em termos mais p!ecisos, o objeto separado do corpo, implicaclo na constituiçáo do sujei-
to. O corpo faz sua entrada sob o niodo tlo objeto pequeno a, na constituição do próprio
sujeito do inconsciente. Basta referir-se ao Seminário 11, Os quatro conceilos futzdamen-
tais, para perceber que são precisamente as estnituras que Lacan vai revelar nessa quarta
parte, que váo inspiiA-10 na refomula~ãodo próprio conceito tle inconsciente.
O conceito de inconsciente, tal como é apresentado tle saída eiii os Qualro conceitos
J'undanzentuis, é feito para ficar de acordo com a estnitura do orifício, tal como ela está de-
monstmda nessa quarta parte. É por isso que, no curso desse Smninário 11, pelas melhores
I
razões do mundo, Lacan constata que a pulsáo é ordenada em hiâncias que sáo honiólogas à
do inconsciente, precisamente porque ele constmiu seu conceito de inconsciente em função
dessa quarta parte do Senzinúrio, A An@.slia.
Digo: é um corpo do qual se ignora o limite. É o que está constantemente em jogo nessa
quarta parte. Onde Astá o limite do corpo erógeno?Até aonde vai o corpo como organismo?
Naquilo que Lacan faz valer, o organismo compreende tudo o que peimite ao corpo ser vivo,
quer dizer, inclui o que o sustenta, o nutre, e então o organismo é mosuxdo como se sobrepon-
do ao corpo c10 Outro. O que é indicado, por uma frase rápida eni "Posição do Inconsciente":
!
Maio 2005 64 0pc;ão 1ac:ini;ina n" 43
Tentlo lido o ~ e t n h h i oA, Angúslia, a gente se diz que certanierite é a solução niais elegan-
te. Náo ficar fascinado pela tópica desse objeto, mas, ao contrário, apreendê-la corno fundamen-
talmente sepancl;~.Uma tópica, existe uina, é a do imaginário, assim designada noSen~iliÚrioI,
e, aqui, estanios evidentemente num espaço onde os ensaios de tópica não são conclusivos.
Esse é o charme db~eminário,AAngíítia nessa quarta parte e se liga ao que nós perde-
mos, um certo realisnio elo objeto a, e até mesmo uin certo materialisino do objeto, que está
ali podei-osaiiiente encarnatlo nos órgãos, e até mesmo uiii certo naturalisino clo objeto a,
posto que se vê Lacan folhear tratados de fisiologia, de biologia.
Apresentou-se, pr/iiieiro, :i vocês, o objeto sob o aspecto do objeto angustizinte, ti-iunfan-
do em sua estranheza, [para,eni seguiela, fornecê-losob a forma topológica da banda de Moebius
i-eduzida. E vocês o encontrani, ali, identificado a órgáos, a partes do organismo do sujeito,
como também a partes do organismo do Outro.
Esse Seminário pbderia ser lido, i condição de deixar de lado pontos importantes, como
substancialista. O objeto a aparece identificado a uma substância. Vi nisso um chame. O
charme que encontre! é justamente que se apreende ali o objetoa em sua emergência, antes
de ter se tornado e se imposto a nós em sua forma tão sofisticada de pura consistência Iógic$.
No Sei,tinário, A A ? ~ ~ ~ s ot iobjeto
a, a é elaborado essencialmente como uma pura e siniples
extraç:io corporal. Ao inenos, é o que é mais insistente nessa quarta parte. Mas, até mesmo ali,
náo se pode esquecer que a fisiologiaeloobjetoa se tlesenvolve sob o significante da topologia,
cliier dizer que o objeto a tein uma consistência topológica.
Se eu ti\:esse que iembrar unia lei, uma lei do discurso ele Lacan sobre o objetoa, que vale
aqui taiiibéin, iiiesmose é niais fugidio e se os contristes do que é desenvolvido no nível oigâ-
nico fazeiii escliiecê-Ia,é que dele sempre damos somente exemplos, ilustrações. Dele, só pode-
mos dar o que Lacan phama, em algum lugar, de substâncias episódicas, representações.
I
O objeto a, Jjizrcasso do A'ome-do-Pui
Sofisticainos muito o objeto a, desde entáo. Agente é tão substancialista que, quando nos
ouvitlos entra uma voz falanclo do objeto pequenoa de Lican, a gente não deixa de se pei:
giintar: e eu, qual é nieu objeto a?É preciso, primeiro, pensar que, se ele é designado como o
objetoa, é porque elJ iião teni noiiie. Pequenoa, como índice para designar, nio poderia ser
niais rccluzido. É porclue o objeto a, coiii sua pequena letra lacaniana, não reni nonie, que
coloca ein questáo o Nome-CIO-Pai, e que eu pude intitular essa última lição "Doa aos Nomes-
elo-Pai". O pai é, ao contrário, por excelência, aquele que tem um nome, que clá o nonie, que
estabelece a fi1iat;io liinbólica. Nós vemos, por outro lado, por esses dias, tod:i uma popula-
ção se eiiiocionar, e os psicanalistas em priiiieiro lugar, engajanclo-se na defesa do Noriie-do-
Pai. Ein virtude ele alguns avanços &i ciência, e também elas dinâniicas elo direito de gozar i
sua maneira, eles senteni necessidade de apoiar o Nome-do-ki e vêm reforçar um cerco nú-
iiiero de pensadoresclueintegraram :ilguns dados freudianos formalizaclos por I.acaii. É unia
população de filósofos e ele teólogos. Assistiinos, assim, ao que foi previsto por Lacan nesse
Seminário, uiii:i conjunçSo sensacional dos psicanalistas e religiosos ein defesa do Noine-do-
I'ai. Esse Seminurio não poderia ter chegado eiii melhor hora. É preciso, ainda, conseguir
I
Maio 2005 66 0pc;árl 1;icaniana n1' 43
decifrar esse teiiia que abala a eternidade do Nome-do-P3i,decifrar que esse Seminário iiios-
tra que o Pai, sua potência, se choca contra o objeto pequeno a.
Ele se choca, sobretudo, porque o Outro materno está muito mais presente nas ilustra-
çóes que são dadas no nível do nascimento, no nível do objeto oral. De todo modo, trata-se de
seio, um pretenso objeto onl, e o Outro tiiaterno é colocado em cena também a propósito tlo
objeto anal. É, sem dúvida, no nível do objeto que Lacan reseiva, em seguida ao objeto vocal,
o objeto suporte ou separado dos comandos que, ali, a figura do Outro paterno viria. Nacla
impede que o Outro paterno, sua potência, se choque contra o objeto a, porquanto esse
objeto não é passível de ser nomeado. Sobre isso, remeto vocês à página 177 doSe~ninÚrio,O
l i s e . que esse objeto a não é passível de ser nomeado, nada mais é
avesso d a ~ ~ . s i c a ~ ~ áDizer
que repetir, de outra maneira, ziquilo pelo qual hcan o traz nesse Seniinário, a saber, que o
objeto pequeno a é irredutível à simbolização. Dito de outro modo, o objeto a vale como o
fracasso do Nome-do-Pai, porquanto o Nome-do-Pai é o operador maior da simbolização.
A metáfora paterna combin:~perfeitamente com a Bíblia. É até uma formaliz;iç-ao sens:!cio-
nal, que Ihes convém, e que prova a justeza do diagnóstico de Lacan concerniiido a Freud, a
saber, que por mais que ele tenha tratado a religião como uma ilusáo sem futuro, tudo o que
ele fazia na psicanálise era, enfim, salvar o pai e fundar a religião para os novos tempos -está
feito -,o Pai coin o qu:!l Freud sonhou, o Pai todo-poderoso, aquele do qual sc zomba nesse
Seminário. A palavra que é preciso seguir é a de potência, a potência revelada ein seu caráter
de engano. É isso que está em questão nesse Seminário, onde já se anuncia o questionamenro
do desejo de Freud, por Lacan, que ficará mais explícito ainda no Setlzitlurio 11.

A via da unulise
Lncan tocou no Édipo essencialmente pela metáfora paterna, quer dizer, a partir de uma
reduyão lingüística, de uma forinalizaçáo do mito. Essa formalização é feita para dai- a peice-
ber o que isso comporta de semblantes.Agora, os seniblantes são fortes, os semblantes niistu-
rain-se ao mundo. Este artificio significante ocupou tanto a cena, para retomar uin tema do
Semi?zário,A a ~ ~ g ú s r icapítulo
a, 111, que isso infiltrou o mundo e se pode dizer que, em iioine
do princípio da precaução, é melhor não tocar nisso. Mas, não há somente precaução, há a
inovação. E quando a inovação já está aí e que ela tem a seu favor uina dinâmica social extre-
maniente fundamentada em lógica e em direito, não se poderia pensar que seria preciso
;icompanhá-Ia?Seri preciso recusar a demanda de que um significante, inclusive os significan-
tes da tradição, venha batizar o gozo de c:ida um. Não seria uma demanda de ti-anscendtncia?
Um filósofo religioso, ao qual Lacan tinha se ligado outrora, em 1966, disse unia frase que
pode fiizer chiar o teólogo: "Nenhum hoineni é filho de uni homem nem de unia mulhei; é
filho de Deus".
A nietáfora paterna, tal como hcan apresentou-a classicamente, tem como ponto de par-
tida uin termo opaco: o do Desejo da f i e , concebido primeiro como um significante cuja
significação é desconhecida. A operação <Ia metáfora paterna consegue simboliz5-10, protlu-
zindo o significante fálico. A Metáfora paterna dá conta de sua nzão, o que pode ser consitle-
rado, de fato, como um exemplo de simbolização integral.
O Smnidrio, A Angúslia desenvolve-se fora da metáfora paterna e parte, também, de um
primeiro termo opacok niítico que não é o Desejo-da-Mãe,mas ogozo. O ponto de partida que
lacan propõe, quando fala de um resto irredutível,é que nenhuma nietáfora se niosti;i capaz de
simbolizi-10 integraliiiente. Nesse senticlo, a designa o fracasso da metáfora.
O libidinal, o que diz respeito à libiclo, resiste por estmtura i sinibolizaçáo integral e é isso
que u designa. Por isso mesmo, o falo como emblema da potência, e tla potência simbólica,
I
nada mais é que narcísico. Há no Smizinário, A Angirstia, uina depreciação do desejo como
desejo de potência. Argumenta-se ali, ao contrário, que é a insistência do náo poder, o "não
poder" determinado pela detumescência do órgão, que se sublima na categoria da potência.
A potência não peitence ao campo libidinal, mas ao campo narcísico. Ela fornece uni Ide-
al, o Icleal clo eu, como Ideal de onipotência, à maneira mesmo tle Deus. Há uma tese do
Seminário, A ang2'lia que é a idéia de que Deus se enraíza na sexualidade do macho, na
inipotência-ein-gozar. É mais uni h a p a eni Lacan, enquanto que a crítica do poder como
uma ilusão é unia constante.I
Ein o Atiesso dal>sicat?álise, vocês tem, a partir da histeria, unia depreciação da figura clo
pai, onde hcan formula claramente que o pai figura como castrado nessa estlutura. É sua
inipotência que é revestida pelos emblemas tl;i potência. Da mesnia maneira, vocés têni unia
constante tlo ensino Ae hcan, na mesma inspiração, que é :I crítica, a depreciaçáo da posiçáo
tlo mestre, desde o início cle seu ensino, a psicanálise aparecendo como uma outra via que
passa por uma renúncia às ilusões da potência. Entendamos, ao nível da voz: a interpretação
em vez do comando.
Beni no final do Seminário, A Angtktia, quando Lacan anuncia o Seminário "Nomes-do-
Pai", ele desenha uiii nova figura do pai, aquele que sabe que o objeto a é irredutivel ao
símbolo. Um pai que não seria e1igan;ido pela nietáfora paterna, que não acreditaria que el;i
possa realizar uma simbolizaçáo integral e que saberia, ao contrário, ligai- o desejo ao objeto
pequeno a coino à s?a causa. Não temos os desenvolvimentos ulteriores que Lacan poderia
nos ter clatlo, iiias t;ilvez j i Ihes pareça que ele tlesenlia uni pai que náo seria senáo o analist:~.
É essa figura que vem, enquanto o objeto a jogando sua partida sozinho entre o sujeito e o
Outro é que está no centro da atenção do próprio Se?izinário.
Texto induzido por Vera 1.oJes Resset.

'Laca. J. (198i).LeSl,ninain.Lirre3, IaP~ihorcs, (chapioiill). Parir: Seuil.


'Laca. J. (1998). F1iri~5oc canipa'b fala cda linpiiagcni em psicanilix. (1953. p. 265). infiwiios. Rio dejaneiro: Zal~ar.
iIdem. Agierrividade em psicanáline (pp. 104 h 126).
'Idem. Eslidio doespeihocomo lormador da l u q i o do ei1. (1949, pp.96i 103).
'Idem. Formitlagõos sobreacaiisalidadcpsíquira(l)i6), (p. 160).
Lidem. Ayresriridade eni piicanálise. (p. 125).
'Idem. Porig5o do iamsncientc (1960, pp. Wj à8M).
'LzataJ. (2001). 6acie prychana~liqueCoinpte renrlu di Shinaire 1967-1168(1969, pp. 375 i Xj).O ). c11
VI - Um fio de Ariadne

Uma pequena matriz.

Gostaria de deixar nas mãos de vocês um fio de Ariadne, que Ihes permita orientar-se
nesse labirinto do Seminurio,A afzgúsria,para destorcê-lo e fazer clele uma estrada roiiiana.
Inicialmente, poderia deixar-lhes este inemento para ludibriar o prestígio e os engodos
multiplicados por lacan que, aqui, nio diz tudo o que sabe, do qiie teiiios uni vestígio em
seus escritos contemporâneo$ eni particular no final do seu texto "Subversáo do sujeito", e
que sei-ia, muito simplesmente, o seguinte: :i função do objeto pequeno a prevalece sobie o
que é apresentado de sua substância, de sua natureu, de sua identidade.
Forjei um pecllieno instriiinento que me foi inspirado pelo esqueinatisino utiliz:iclo por
Lacan em sua "Instância da letra"', e que visa a opor metáfora e inetonímia. hcan desvia, ou
modifica, os símbolos da adição e da subti-açio:o iiiais e o menos, nessa ocasião entre parên-
teses, esti indicando que se deve tomá-los com o valor especial ali explicitatlo

Toniar as operações de ordem matemática e modificá-las, a fini de pô-las em funçáo no


discurso analítico, é uin método propriamente lacaniano. É dessa maneira que, no Setninu-
rio, Os qrratvo co~zceitosfirndaiizentais,lacan toma eniprestaclo da teoria dos conjuntos as
operações de reunião e de interseção para inodifiu-l;is, permitindo assim aos dois opei-atlo-
res transformados inscrever a alienação e a separaç2o.
Toino emprestado esse niais e esse menos entre parênteses a fim de orientar-me noSenzi-
nhrio, A angústia. Dou a esse inais especial o valor da ultrapassagem de utn liniite, um limite
que faz barreira, unia vez que ele oferece cima resistência. É esse valor que separa, ati-avésda
bari2, eiii ' L instância da letra", o significante do significado, porquanto o significante é algo
de iiiaterial, pelo iiienos de matei-ializível, mesmo que fosse apenas pelo fato de ser sensível,
sob a fornia do rastro escrito, da sonoridade que se registra; ao passo que o significado é: pelo
contrário, imaterial, inapreensível, a não ser ao fazer intmsão no patamar superior.

O menos ali esti para indicar que o elemento figurado na parte inferior permaneça nela. E
é coni :i ajuda desse símbolo que Lacan escreve as fórmulas da nietáfora e da nietoníniia:
O signo "niais" indica a ultrapassagem da barra que separa o significante e o significado, e
quer então siriiboliz:~~o efeito de acontecimento, de emergência da significação, tal conio ele
se crisraliza ern uma metáfora. A fórmula da metonímia indica que o efeito náo se produziu,
que a significaçáo está elidida, que a barra é m:intida e que o significado desliza, permanece
inapreensivel, exatainente suposto, posto por baixo. Utilizarei o mais entre parênteses como
sí~iibolode unia adiçáo, que é taiiibéin unia ultrapassagem, e o símbolo do menos entre pa-
rênteses para indicaruiiia não-ultrapassagem, uma suposição que, noSe»ziizário A angústia,
é tanibéni unia subtração.
Começarei apresentando~lhesminha pequena m a t k , uma pequena lâmpada para guiá-los
nas trevas desseSet~zinÚrio,que não deixa tle ter clarões, mas também algumas obscuridades.
Em seguida, eu a pelei eni funcionamento no im:iginário, no simbólico e no real. Partirei de
uma palavra que falta nesse livro, ouso dizer, e que, caso ela ali figurasse, sem clúvitla o torna-
ria mais legível.

Um estádio do espelho dissin~ett.izado.


Há, nesse Seminário, uma reticência tle Lacan. Uma emergência de significaçáo ali está
como que detida, unia metáfora que não se conclui coinpletaniente e uma inetonimia que
se inanténi na expectativa. Podenios até sonhar com isso. É uni Sen~inárioque não estava
prometido a um auklitório cuja boa vontade era como a deste aqui. Lacan o pronunciou
num niomento em 'que se realizaria uina separaçáo, uma cisão do gmpo analítico a ser
consumada pouco depois da conclusão de seu Seniinário. Diferentes vestígios indicam que
ele sabia muito bem que teria de lidar com o que ele não nomeia, e que só porei entre
parênteses: traços eki potencial. Então, eu disse para mim mesnio: ele os mantém na expec-
tativa e náo Ihes diz tudo. Eu me sinto ainda niais fundamentado para dizer que falt;~unia
palavra nesse livro, visto que nele, todavia, essa palavra é dita tle modo lateml. Uma palavra
que ficou faltandonaquilo que eu próprio articulei a respeito dn :ipariçáo tlo objeto
ansiogênico no campo I visual: a causa da apariçáo. Contudo, é essa causa - se a nomeamos
- que periiiite ir a o encontro do que concerne ao segundo iiiovimento do Seminário, ou
seja, a separação do objeto.
"O estádio do espelho, como matriz tla form;içáo do eu" obedece a uni principio de
sinietria. Quando Cacan o expõe apenas para introduzir a função simbólica, basta a esse
I
princípio de simetria ser simbolizado pela relaçãoa-a: É assim que ele figura, por exem-
plo, eni "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose"'. Sob essa
forma eviclentemente simétrica e recíproca, ele indica a tiansfus5o e as comutafóes d;r
libido narcísica ao objeto e vice-versa. É uma 1âmpad:i para ler Freud. A libido circula CIO
narcisisnio do eu para o objeto, ela é clistribuítla para o objeto ou lhe é retirada. H I
transvasamentos, o circuito da libido se realiza no plano imaginário, de tal forma que o
gozo, no primeiro ensino tle Lacan, tem um slatus imaginário. É gozo d o corpo e do
objeto conio imaginários.
O esqueina ótic; de Lac:in, o que ele apresentou eni seuSetniná,-io I e o publicou em sua
"Observação sobre o relatório de Daniel Lagache", obedece taml)éni a esse princípio de sinie-

h1;iio 2005 70 Op<;ão lacaniaria no 43


tria sob a fornia: i(a), i'(a). Excetuando-se a diferença dessa escrita, ele é homólogo, decalca
o a - a ' anteiior e indica a semelhança desses dois elementos.

O primeiro elemento diferencial introduzido pelo esquema ótico, que vocês encontram
no Se~ninúrio:A angústia, situa-se em outro lugar. É uma cisáo que se opera entre pequeno
a e i(a) -vamos dar a esses símbolos um valor -, que se opera entre o objeto parcial e a
iinagem da forma do corpo próprio. Mas ele se opera de uni modo especial, porquanto é por
interiiiédio de um outro espelho que opera sobre dois elementos materiais: o objeto parcial
representado sob a forma de um buquê aparente e, escondido em uma caixa, uiii vaso que o
espelho convexo permite fazer surgir sob a forma de imageiii, como se estivesse conteiido
esse buquê. Sobre o outro espelho, o espelho plano, vemos inscrever-se uma iiiiageni coiii-
pleta do vaso e das flores.

A diferença essencial com o estádio do espelho puro e simples é a valoraçáo de dois eleiiien-
tos, o a do objeto parcial e o vaso escondido, com freqüência esquecido, mas que ali está pan
figurar a realiclade invisível do corpo, sob a forma de uni vaso que contém, um vaso coni seu
orifício, emblema dos orifícios das zonas erógenas - o sujeito tendo pouco acesso a essa realidade
do corpo com a qual ele só tem, diz iacan, "uma obscura intimidade'". É esse corpo que o que está
desenvolvido na quana parte do Semitwrio, A angkctia tenta esclarecer. Temos o vaso apaiente,
que é qualificado de i(a) e que é o coipo imaginário envelopando a realidade do objeto parcial. Hi
também considenções sobre o que acontece quando essa operação de unificação iiii:iginária não
se produz. É aqui, em particular, que hcan tenta delinear a posição do esquizofrênico.
Esse breve percurso aí está para Ihes enfatizar ;i inodificaçáo essencial que se mina rio, A
a~zgúsliaintroduz nesse esqueiiia ótico, utilizado anteriormente para instalar as Funções do
eu ideal, do Ideal do eu. Aqui, r i o há nada disso, porquanto uma modificação iiiuito precisa é
introduzida nesse esquema. iacan conieça por dissimetrimr o estádio do espelho a fiiii de
valorizar, em piiineiro lugar, o que está constmído em seguida de maneira topológica: o a,
propriamente falando, não é especular, náo aparece no espelho, não se encontra à direita.
resto libidinul.
(iiiz
O que justifica essa surpreendente dissimetria, que é uma sensacional correção tlo estádio
do espellio clássico, está explicado eni totlos os detalhes no Seminário, A tran$erência4.
Iacan se apóia em uina passagem de Karl Abrahani, o inventor da função do objeto parcial,
utilizando, em particular, o sonho de uma paciente histérica que vê a imagem do pai censura-
da, no nível fálico, pela ausência de pelos pubianos. A isso, Lacan tIá o seguinte sentido: tudo
o que é investimento libidinal narcísico do sujeito não está transvazado, transferido para o
objeto, há uma parte que permanece do lado do sujeito, que não entrd no iniaginário. Isso
implica que tudo o que pode atrair o desejo do sujeito, na irnponência do objeto: à direita,
depentle tlo que se manténi do lado esquerdo e que náo está representado. Isso desiiiente as
coniutações tla libido. Um eleniento pernianece estranho à dialética libidinal em que, dessas
transfusões reciprocas do sujeito ao objeto, formulamos a seguinte questão: em qual objeto a
libido é distribuída, sobre qual outro ela se desloca, ela reflui do lado do sujeito?
H i nisso - o que já figura no Seminário, A Wu?z.sferência - um resto libidinal-designado
por uiiia [>al:ivra,o Triebregirngi. Esse Fiebregung funtlamental, do qual Lacan diz: "o que
constitui o Triebregi~ngem funçáo no desejo teni sua sede no resto". OSeminário: A angús-
lia nos permite apreender do que se trata neste "em funçáo no desejo", ou seja, como causa.
~. 50-53 doSeminário, A nng<Ls/ia.
Essa palavra freudiana deve ser acrescentada às páginas - En-
quanto rio Seininario, A traniferência o Tiiebreg~~ng aparece como o privilégio do falo, no
Seminário, A a n g h t i a esse pi-ivilégio é estendido ao objetoa. Passa-se tle uina teoria restrita
para uiiia teoria generalizada.
A esquerda, temos a supost;~realidade do organismo; à direita, sua representação iniaginá-
ria que é também o aimpo da objetividade e, por isso, o campo do Outro.
Essa palavi-:i figura no Sefninário, A angústia clesde o capítulo 1, iiias somente como um
inciso a respeito de sua tradução", no moniento em que Lacan, constmintlo sua primeira
grade signific:tnte, enhtiza a palavra conioçáo (éfnoi). Diz ele: '1traduçáo admitida de
Triebregzang conio comoç:io pulsional é totalmente imprópria". Comoçio quer dizer "queda
tle potência", :io passo que Regzrng é "estimulaçáo, chamada à desorclem e até mesmo ao
inotiin". E isso é tudo. Ele só faz essa palavra figurar ali, lateralmente. Se essa palavra figurasse
em seu lugar, ou seja, se tivéssemos percebido que o que constitui o Triebregung em fun@o
no tlesejo teni sua setle no objeto a, o que precis:imente não é tlito, isso tornaria inuito mais
chega a ponto clo pelsonagern aparecer a ele próprio visto de costas. É o ponto extl-emo.
hlanifests-se a perturbaçáo do pequeno a como náo orientável, no qual o anverso está eni
continuidade com o avesso, e em que o sujeito se vé confrontado, de algum modo, com ele
próprio, sob a forma $e uma luva revirada, imagem que retorna muitas vezes nesse Setnina-
rio e no ensino de bkan

A ce17a é o mnndo.
Sob uina forma mais cliscret;~,é eventualmente a emergéncia no campo uisual tla dimen-
i
s5o do olliar, porquanto ela traz um sentimento de estranheza, que seria a pona abert;~para :i
angústia. Mas vê-se t k b é n i , atiavés de alguiii outro mecanismo, essa intnisão do peclueno a
ter um valor erógeno e não ansiógeno. S5o os exemplos muito conhecidos claclos por Lac;in
ela pinta negra cl:i mulher charmosa, do sinal no rosto, adorável, que fazem nianchas, mas, ao
lixesino tempo, erotizani a imagem do Outro presentificando um valor, desta vez positivo, do
objeto a .
Disso resulta a oposição, estruturada nesse Serniizdrio, entre dois tipos de objetos: os
objetos ele tipo especular, objetos comuns a uni e a outro, que não %aoforçosaniente pacífi-
cos, sáo objetos ele concorrência, mas tanibéni cle troca, reconhecíveis e normais, ao iiiesiiio
teinpo especulares e simbolizáveis; e os objetos de um outro tipo, coino se anteriores a essa
coiiiuniclatle iiiiaginákia, que náo são i-egulados, nias sim carregados de Triebregzrng, tendo
unia carga pulsional. É o que se tornará, muito mais tarde no ensino de hcan, o inais.de.
gozar. Se Lacan tivesse [,osto em função o termo freudiano Triehregirng no Semi77urio: A
a n g h t i a , ele tei-ia esiaclo na pista desse mais-de-goza!:
I
Teinos aqui objetos imaginários e objetos náo-i, objetos que têni a estnitura cle i(a) e
objetos esti.uturaln~entenáo-orientáveis. O espelho desse esquenia ótico funciona como uni
véu que inipecle o sujeito de ver, em condições normais, o objeto pequeno a. Se fizermos
girar esse espelho, ele se apresenta como uma barreira que sepan o ol~jetoa do objeto nor-
m;~l.Destle então, há tlois estados possíveis, conforme essa barreira seja mantitla: o objeto a
fica eni sei1 lugar - pequeno i, nienos entre parênteses, pequeno a ; nada de desortleii~,nada
de motiiii; ou ent.20 há ultrapassagem - pequeno i, mais entre parênteses, pequeno a - e,
então, há pertui-l~ação,clesordeni e motim.
I

Vemos aqui uma priiiieira aplicação no imaginário da matriz que Ihes anunciei. Ela já per-
iiiite compreender, por exemplo, a raZo de Lacan tnzer, em certo inomento, cle moclo simé-
trico, o masoquisnio e o sadismo, e por que ele tem o cuidado de apresentar uma diferença,
eiii relaçáo a I.évi-Stnuss, entre a cena e o niundo. A cen:i - sohre a barm ou, nesse esquema,
o que figura i direita -, é o que se inostra, o que aparece. O niundo, no esqiieina ótico, figura

Maio 2005 74 011qáo1;icani;in;i nl' 43


como a realidade do organismo, está escondido. Há então uma dialética entre o mostrado e o
escondido utilizada por hcan quanto ao inasoquismo e ao sadismo. Podemos retê-lo como
traços clinicos concernindo a essas duas posições, [nas, iexata medida eiii que hcan não o
retomou assim em outro lugar, se trata sobretudo de utilizar essa matriz.

3. Luto e melancolia.

Alo e inconscie~?le.
Quando lac;in traz, no Sei~~ifzário, A angtistia, o sadismo e o masoquismo, ele o faz eiii
uni jogo chaiiiado por ele de ocultação, no qual o que é niostrado ali está para dissiniular a
outra dimensio. Para o masoquista que se exibe como dejeto, que, longe de fazer reaparecer
a outra dimensão, apresenta-se como subnietido a tudo o que pode vir do Outro enquanto
iiialtrato, dizenios: "Taí, é o objeto a".De modo algum. Trata-se de uma mostração, unia figu-
ração de i (a), está na cena. É na cena que o masoquista simula, desta feita, o obietoa, que ele
se exibe corno dejeto e torna público seu esmero eni garantir o gozo do Outro. Lacan indica
que, sob a barra, muito pelo contrário, ele tenta produzir a angústia do Outro. Inversaniente,
o sádico, na cena, se mostra matando-se p:ira produzir a angústia do Outro, quando, cle fato,
ele visa a obter o gozo CIO Outro, e até inesmo a encontrar no Outro o pequeno a, o inais
íntimo do seu gozo que é, como Lacan se esforça cm pronunciar, seguindo os passos c10
marquês de Side: "Tirei o couro do otário"
Eis aqui unia aplicação da matriz que Ihes indiquei. E a palavra matriz não me parece um
mal achado aqui. Vocês compreendem que o que Lacan desenvolve da oposição entre oacting-
out e a passagem ao ato, tal como a oposiçáo entre luto e melancolia, a parrir de Fi-eud,
corresponde estritamente a essa disposiçio. O conceito de cena -uma cena imaginária, mas
também a cena do Olitro já que, ein relação ao real, o imaginário e o simbólico estão do
inesmo lado - é aqui essencial.
O actir~g-outé o siirgimento do objeto a na cena, com seus efeitos de perturbação e de
desordem, insituáveis. Aqui, é preciso implicar uma dinâmica subjetiva que faz coin que o
sujeito traga i cena o objeto a, ao passo que na passagem ao ato é o sujeito encontrando-se,
sob a b:irn, fora da cena, com O objetou. A passagem ao ato não engana, é uma saida de cena
que náo deixa mais lugar i interpretação, não deixa mais lugar ao jogo do significante.

-a

aciing passagem ao ato

Por essa razão, ocorreu-me desunir a função do ato e a do inconsciente. Há, na passagem
ao ato, um "não querer saber mais nad;i". Sai-se do logro da cena para a certeza encontrada
ein unia identific;içio em curto-circuito com o objeto a, que Lacan chama, incliisive, identifi-
cação absoluta com o objeto a f o n da cena.
Na passagem ao ato 115 rejeição da cena e rejeição de qualquer apelo ao Outi-o, ao passo
que o acting-otri, que é uma subida à cena, é um apelo ao Outro. O pequenoa sol~eà cena e
o sujeito o mostra. Unia vez que o pequeno a não é especulatizável como tal, o sujeito o
inostra iio aclingout, sempre lateralmente, tle viés. Aqui, o sujeito necessita mentir. Quando
o objeto vem i cena no actitzgaut, tal como quando ele veiii à cena no inasoquisnio, é seni-
[Ire unia falácia. O sujeito niostrzi a libra de c:irne, os miolos frescos, nias isso não [passa de
uma careta, para retobar unia expressão de lacan em Teleui.süo, uma careta da qual o real
escapole. Uma vez sufjido à cen;i, é captado pelos logros da mostração, pelos logros do signi-
ficante, da verdade, e o real fica eni outro lug:ir.

O real contra alieidade.


A única interpretaçáo do acfitzgaut é: o que você diz é verdade, mas não toca na questão.
Aqui, tocaiiios na proposição que se pode enunciar em seu valor geral: quando se quer passar
o real para o significadte, encontra-seapenas a inentira. Só se pode fazê.10 atr;ivés da inentira,
através de uma mise etzI scène, ou de uma mise eiz inentira que traduz - o que iacan desen\:ol-
verá eiii toda a seqüência do seu ensino - a disjunção entre verdadeiro e real. Essa barra que
coloquei eiii funcionaniento se repercute na disjunyão entre o verdadeiro e o real e na disjunção
correlativ:~ao desejo e ao gozo.

Verdadeiro Desejo
-
I Real Gozo

A seqüência d o ensino de Lacan explorar5 precisamente o que repugna a Freud, como o


indica o Seminário, A angústia, a saber: o desejo mente, o real só pode mentir ao parceiro,
não se pode dizer o verdadeiro do real, sendo o passe a tentativa de cingi-lo o mais perto
possível. Disso emerge, já nesse Senzinário, a ci-ítica ao desejo de Freud como clesejo de
verdade: "Freud recusa ver n;i verdade, que é sua paixão, a estiutura de ficção conio sendo
sua origeniMY. Aqui, cabe diferenciar a paixão freudiana pela verdade - que o leva a acreditar, a
despeito tlele próprid, na mitologia - e a orientação Iauniana para o real que náo se deve
confundir com a exatibáo. É porque Freud - :iquele que L:ic:in nos apresenta - não adiiiite a
verdade inseparável cla iiientin, que ele atormenta sua noiva, sua esposa, por não lhe ter dito
tudo. I'or isso tanibém a feminilidacle lhe permanece opaca, precisamente porque ela é ine-
nos emliaraçada com a verdade e porque ela mantém uma relação mais direta com o gozo.
Vocês podem tainbéin situar nessa matriz a oposição entre luto e melancolia que figura no
final do Seiiiinurio. Questão que atorinenta Lacan já no final do Seminário, A lran.ferêizcia.
O luto relaciona-se essencialniente com i (a), com a imagem, relacion:i-se com o objeto de
amor em sua estrutuia narcísica. O trabalho do luto é a enunieração dos tletalhes imaginários
para fazê-los passar paia o simbólico. Todavia, é um trabalho que se efetua essencialniente no
nível escópico, deixando o pequeno a sob a barra, ainda que o objeto a se encontre cingido
pelo iniaginário. O luto corresponde à perda do objetou ati-avés de um carnaval imaginário e
narcísico. Eni contrapartida, Lacan se esmera eni mostrar a melancolia como estando i-elacio-
nada ao pequeno a.Na passagem ao ato melancólico, o sujeito ultnl~ass;~ a barreira que o
separa do pequeno a, ao passo que no luto a barreira é mantida. Disso decorre que o sujeito
melancólico passa através de sua própria imagem para alcançar o objeto pequenoa. íacan diz
que ele o transcende, ou seja, que ele está atrás. Não me detenho na definição tio essencial tla
mania coino não Função de pequenoa, supressão c10 lastro do objetou, mostrando em quê o
pequeno a é o segredo do ponto de basta.

+a -a

ading passagem ao ato

luto melancolia

4. Operador de separaçáo

Entre raleio e eizcontro.


Tentei niostra~-4heso objeto estranho no imaginário chegando até à cena. Tomenios o
objeto estranho no simbólico, no qual o mesnio esquematisnio é operatório.

Duas [~osiçõesdo objeto estranho sáo siruáveis nesse Seininário. Quando o objeto a não
aparece no sinibólico, temos o que conhecemos classicamente em Iacan, ou seja: os circuitos da
determina60 siinbólica que se deixam formular como leis cla dete1min:içjo simbólica.Inclusive, é
desse niodo que osficn?os se iniciam. Temos um Outro que se apresenta por um agenciamento
necessário cle fórmulas lógicas e que estabelece leis, a cal ponto que o sujeito aparece essencial-
mente deterniinado poressas leis, o que escreverei sob a foinia: A+$. Isso exprime a dominância
tlo significante sobre o sujeito fazendo eniergir uiii sujeito seni nenhuma relago com o real.

O que entusiasiiiou na emergência do discurso de Lacan, em pleno estnituralisnio, foi essa


entrada de iim sujeito que aparece condicionado e comandado unicamente pelo mandato signi-
ficante, sem nenhuma relação com o real. Mas o que se revela noS@ni&rio,A a?zgljsfiaé uma
funçáo distinta, a da causa, a ser oposta à lei, e que, ao emergir, tem urn efeito disniptivo.
O que vocés encontram de maneira evidente no campo visual sob a fomia do estranho,
dos fantasiiias que os assombram, dos duplos que os assaltam, de pessoas que são vocês
iiiesnios as quais vocês não reconhecem no sinibólico, é esse lugar ocupado pela função tla
causa coino dificilmente conceitualizivel, que os filósofos jamais conseguiram situar no bom
lugar, e que Jung teve a audácia de eliminar conio uma ilusio. Pai2 Jung, a causa é o futuro de
urna ilusão. O que é desenvolvido no Seminário, A angiíslia sobi-e a causa é o correlato, no
siiiibólico, daquilo que vocês viram surgir na percepçio sob a foima do objeto estranho.

Op(;áo lacaniana ri" 43 77 Maio 200 5


como ansiógeno: o objeto pequeno a vindo se inscrever na lacuna. Sob a mbrica G(+)a
inscrevemos o que, por exemplo, em "Inibição, sintoma e angústia" figura como um niais de
libido, a exigência pulsional, a estiniulação pulsional marcada pelo excesso engendrando an-
gústia. iacan chega até a dizer que a angústia comporta nela mesma uni eleniento infinito, o
que obriga que uma função venha interrompê-lo. Encontrnmos, no Smninúrio, A angdstia
numerosas referências nessa mbrica. Em contrapartida, temos aqui o registi-o da angústia
produtora de um objeto como separado e, portanto, produtora da perda do objeto.
Quando o pequenoa passa para o imaginário, ele é heterogêneo. É um eleniento pulsional
que vem inscrever-se eni um espaço cuja estrutura não é a mesma, introduzindo perturba-
ções. Quanclo o pequenoa se inscreve no simbólico, ele é também heterogêneo e o sitiiamos
náo pensando sua categoria como se tratando da causa Mas o pequeno a no real é de unia
estrutura conforme e sua irrupçáo é marcada pela separação, ou seja, o sujeito encainado no
corpo deve perder alguma coisa. Sobre este ponto, I.acan, ao escrever seu texto "Do Fieb tle
Freud" e, de modo contemporâneo, em seu Senzinario 11, falará de automutil:içáo do sujeito.
Essa separação do objeto real incide sobre o corpo, que não é o corpo imagin'alio, iiias o
-'

corpo libidinal, que vai além dos limites do corpo imaginário, que iniplica o corpo do Outro,
e sob todas as suas formas. Ele ocasiona o que chamei o chame naturalista do Set?zi?zario,
que seria preciso retoniar em detalhes cada unia das cinco foriiias clistinguid:is por Lacan, e
que guardei coino títiilos da últinia parte. Mas é uma ilusão: em iacan, não há nenliuin n:itli-
ralisnio do objeto pequenoa.. Pelo contrário, talvez o mais surpreendente seja o culturalismo
desse objeto. Ele poder ser substituído. É como ele diz: "O olijeto natural pode ser substituí-
do por um objeto mecânico". Em se trat;intlo do seio, ele pode ser substituído pela inamadei-
ra e até iiiesino, diz ele, "por qualquer outro objeto".
6 a demonstraç:io elo Sen~iluirioque :icenrua, simultaneamente, as n k e s corporais do obje-
to pequeno a, e, ao iiiesmo tempo, o fato de os objetos artificiais lioclereni ser equivalentes a
esses objetos naturais. Disso decoire a menção, já em 1962, cio enxerto de órgãos, da imagem
sacada sob a forma da fotografia ~irópriapai2 circular, ou da voz que pode ser gravada e estoca-
da. Sabemos inuito bem que, hoje, entramos em uma economia frenética, ofegante, na qual os
objetos de substituição dos assim chamados objetos naturais estão por toda pane. Mas é emi-
nentemente cultural tanibém, visto que um dos exemplos daclos por iacan do objetoa e de sua
separação é o prepúcio na circuncisão, ou seja, uma prática claramente cultural. N l nil~iicacla
sepaiação esti insci-itotudo o que é da ordem da protlução do objeto. Assim, podeinos encon-
trar a cópia cle exame eiitregue às pressas e, eventualmente, no inomcnto em que a angústia e o
gozo se conjugam em Função do objetou. Encontrainos tambéni a obra, o ato, nessa funçáo". A
tal ponto que Lacan recusa a idéia de uma realização subjetiva pura e simples como sendo
apenas um mito personalista, que ele nos trouxe em "Função e campo da fala e da linguageni".

EJcito ~nuiorda Itnguagetn sobre ogozo.


A reaiizaçio subjetiva, caso admitamos que entre A e $ se inscreve o pequeno a, passa pela
produção de objetos que são, cliz iacan, da mesma série que o pequeno a. Por isso, essa
realização passa pelas obras, pelos atos e sobrepõe a eles a angústia que ele supõe, ou seja, a

Opqáu 1;icaiiiana ri" 43 79 Maio 2005


realizaçáo subjetiva passa pela passagem aciiiia da barra, ultrapassa ;i barreira. É preciso então
desnaturalizar e desulistantivar o objeto a, caso contihio não seria possível compreender
como é que o próprioanalista, na seqüência do ensino de bcan -ainda náo cheganios lá -
pode inscrever-se na mesma série que o objeto a.
Vou nie fixar no olhar retrospectivo lançado por Lacan em sua construção do Senzinário, A
a?7g&lia, quando ele 'improvisa, sobre os degraus do Panteáo: "Naquele momento, cliz ele,
reinetendo o objeto a ao~entivlário,A angiislia, náo o designei com o termo mais-de-goznr,
o que prova que havia ali alguma coisa a ser construída antes que eu pudesse nomeá-lo as-
sim"". E aqui se vê que o fato de haver subtr;iido o 7riebreg~ng,o gozo piilsional, fez coni que
se esperasse pelo de surgiiiiento daquilo que resolve uni certo número cle problemas clesse
SeininLrio, a saber: a Ceferência ao objeto a como mais-de-gozaii O que conta, aqui, náo é a
substância do objeto, iiias, precisaniente, sua função.
É apenas de forma resumida que Lacan faz da angústia o operador da separação. Bastari
ler o Seminário 11 para dar-se conta de que esse operador é o princípio do prazer, o princípio
da honieostase acima tla barra, que lança o mais-de-gozar para baixo e, além disso, que esse
princípio do prazer é condicionado pela linguageni, que o objeto a é o efeito de linguagem
niais iiiiportante e que, de alguni modo, o nome angústia no Senzinúrio, A ang7,ktiu recobre
a oper:içáo mortífera tlo significante.
Por essa razio, bkan, niesnio que tenha se afastado das observações do Senziurúrio, A
atzgzis~iue que não iiikis encontrenios na seqüência de seu ensino esse lugar maior, reafirma,
contutlo, eni O avesso dapsicaizálise, o cariter central do afeto da angústia, o caráter de uiii
:ifeto eni torno tlo qual tudo se ordena, sendo até mesmo o afeto único, diz ele. É o afeto por
I
excelência, afeto único uma vez que ele conota a piodução do objetou, ou seja, o efeito maior
d
da linguageni sobre gozo. Por isso, ele pôde dizer: "Do afeto, só há uni, correlativo ao
produto do ser falante em uni discurso".
Se houvesse apenas uma página à qual tlevêssemos nos referii; no que concerne ao Senzi-
I
izurio, A angtklia, eu Ihes indicaria a página 164 CIO Sen1ii7ário 11, que é feita de niodo a
desunii- a funçáo do objeto de sua substância. Nela, lacan nos dá a estmtura do niais-de-gozar
sob a forina do objeto que a pulsão contorna e indica que esse objeto a é apenas a presença
de um oco, de um vazio ocupável por qualquer objeto. E esse qualquer objeto vem iii:ircar o
Semiizkrio, A atz@slia de forma intermitente. Por isso, mais tarde Lacan poderá fazer do
objeto a siiiip~esiiienrkuma consistência lógica, uma forma topológica, ou seja, náo unia subs-
tância. E seja qual foi- o charine das representações do objeto a e de suas foriiias, é preciso
separar sua hinçáo. É o que lacan já anunciava no final tlo Senzinúrio: A tran$m&zciu, na
liçáo que dei como título: "O analista e seu luto".
O luto de que se trata se formula assim: náo há objeto que valha niais do que outro. Isso
quer dizer: luto do amor e tle seus prestígios, luto do objeto único e, pelo contrário, acordo
coin a lei impl:icável da pulsáo e do inais-de-gozar.E nisso que a posiçáo do analista supóe o
acesso ao avesso do amor.
Caso se realize o j u e aqui é visado, ou seja, um luro do amor para ir em direção i lei da
pulsao, que é tambéni: o sujeito está sempre feliz, isso indica alguma coisa concemindo ?I

Maio 2005 80 Op$'ío lacaniana n<'43


direção do tntainento. Ou seja: o analista só o p e n sob a condição de corresponder ele pró-
prio à estrutura do estranho. É preciso que ele passe o sentin~entode estranheza. Na falta
disso tudo tlernonstraria que, caso ele próprio nêo se acostume coin o estranlio, ele não
poderi desorganizar a defesa.
Texio traduzido par \'era Avellar lübeiro e revisado: Elisa Monieiro

'Laran. 1. (119). I ~ i 5 i t c i ada letrn (195i. 0. 19). InErcviiiu RiodeJaneiro: Zahar


Que objeto é a referência?
Diferentemente do objeto em torno do qual esseSmi?záriogira, a referência é um objeto
que se pode apreender, recensear, um objeto identificável que parece apresentar as caracte-
rísticas da objeti\ítl;ide, sobre o qual se pode estar de acordo, com o qual um "se" (072) pode
concordar. Há interessL em visar a esse objeto, extraí-10 de um discurso seguido, o de Lacan,
que se ordena por um1objetocompletamente diferente, o pequenoa, que não se deixa apre-
ender pelo "se". Somos levados a formular a referência como um anti-objeto pequeno a.
Disso decorre o pensamento que acaba de mostrar que, em Lacan, muito mais cio que ein
muitos outros, a referência é um objeto pequeno a.
A referência é dita no plural. Há sempre muitas. Recenseia-se, faz-se listas, esquecem-nas,
encontram-nas.

Como se faz essas listas?


Para fazer uma listk, deve-se localizar os elementos que têm vocaçáo para entrar nela, e
isso náo é simples. Faz-se uina lista de referências essencialniente a partir dos nonies própri-
os, do título das obras e de outras formas de nomes. Disso resulta o problem:~dos nomes
próprios sem indicaçãb de obras. Por exeinplo, as referências globais a Freud, aos filósofos em
geral, independenteAente de qualquer assinatura precisa: Platão, Aristóteles, Kant, Hegel.
Tratar-se-á de precisar a obra que está em quest30, a passagem NesseSe?ni?zário,quanto a
Hegel, é sobretudo a dialética do senhor e do escravo indicada por Kojève; para Kant, é a
estética transcentlental em a Crítica da razãopura, porém, de niodo mais discreto, oEtzsaio
sobre asgrandezas nègativas assinalado principalmente no começo do Se~lzinário,Os qua-
tro co,zceiios funda~n.e?ztaisda psicanálise.
Há taml~émas referéncias implícitas. Quando Lacan se refere aos filósofos ou aos analis-
tas de um modo geral, ou "ao melhor dos analistas" a expressáo figura uma vez noSemi-
~zário- ou ainda quando ele diz - o que abre todo uni campo de pesquisas: "Nenhum
teólogo jamais atribuiu uma alma a Deus". É uma tese muito forte. É preciso estar muito
calçado em teologia para pode validar a asserçáo segundo a qual nenhum deles não fcz isso
ou aquilo. Isso requer proferir uma opinião sobre o conjunto daquilo que situanios sob as
espécies de teologia.

Maio 2005 82 Opyio L;~caniana n" 43


atravessar. André Maurois está na posição defensiva atrás de seu pequeno murinho, ao passo
que Lacan está eni uma posição ofeiisiva.Trata-se de fazer explodir a muralha das referências
à cultura da época, dinamitá-la, atravessar ou deslacrar as pedras dessa muralha. Desde o
início doSeiizinário: A angústia, Lacan convoca uma massa de referências, mas para logo em
seguida colocá-las ê distância. Ele evoca, no começo do Sefninário "uma filosofia dita
existencialista", Sartre, Heidegger, e, ao niesmo tempo, a põe de ladd.
O pensamento filosófico escolhera enganchar-se na referência à história, ele foi solto e,
desorientado só encontra o recurso de evocar a angústia. Aqui, Lacan pensa em Hegel, sem
mencioná-lo, a partir do qual se fez unia leitura tanto do que estava acontecendo no mundo
quanto da história do mundo. Essa convicção de racionalidade foi transmitida a Marx através
do comunismo, ela informou à intelectualidade - sabemos as leis do que se passa, sabenios
onde isso vai dar -, e Lacan considera que o crescimento do existencialismo vem do fato de
que a história deixou de ser tão legível quanto podíamos imaginar Ele o traduziu como uni
efeito de desarvoraniento. Ele esvazia Sartre em um parágrafo dizendo que ele apenas tenta
repor o cavalo do desaworamento - referência à fobia do pequeno Hans -, o cavalo da histó-
ria, na padiola, tenta repor a história nos trilhos. Quanto a Heidegger, ele o afasta de niodo
mais polido dizendo que a referência vivida da questão heideggeriana náo é a angústia, inas
siiii a inquietude4.Aliás, ele retomará o Sorge heideggeriano um pouco mais adiante para
também colocá-lo de lado. Uma massa de referências é assini evocada e visa, antes, a enfastiar
seu auditório. Soniente na seqüência, em unia ou duas passagens, é que ele retomará Sanre a
partir deA ndusea e do trecho dedicado à ~)sicanáliseeni Oser e o nada.
A evocação global das referências biológicas é um outro exeinplo desse esforço para atra-
vessar o muro das referéncias obrigatóri:is5. O movimento da referência em I;ican é exata-
inente o contririo de um ajuntaiiiento, tampouco é uiiia i-efutaçáo.Isso consiste em separar
um pedaço do discurso universal e niergulliá-lo em uiiia outra tliniensão, a do discurso analí-
tico. Não é de modo algum ir enganchar-se, pôr-se ao abrigo, mas, antes, atravessar o panpei-
to para arrancar uni p e d a ~ odo discurso 21 fim de levá-lo consigo, para devoia-lo, cozinhá-lo.
Isso é particulariiiente verdade quanto às referências comentadas. O comentáiio das referên-
cias por hcan não disfarça, é uma arrancada, uma subtração feita :!o autor, ao seu discurso, à
cultura coniuni, uma subtração e um retorno, tal como na imagem da luva que retorna eiii-
prestada tle Kant! lI1or\'ezes,tem-se o sentimento de que Lacan não se recusa a fx~eruin texto
dizer o contrário de sua intenção explícita.
As referências de Iacan não constituein um referencial no sentido em que o Le Robert
tonia etii[>restadodeste grande lógico tio esquecido, filósofo da lógica, Ferdinand Gonseth,
que tlesignou uma obra com o saboroso titulo: Le référetzciel, uniuersobl&é de m6diati.sationi
Um terreno de jogo é uni comutador, um operador de mediatização entre um e outi-o. O
termo referencial designa o eixo das coordenadas na geometria analítica, depois, há o uso.
Tentemos delimitar o uso corrente do termo hoje: eiii referencial, qual é o referencial?E o
ponto eni que uns e outros concordam, ainda que estejam em posiçóes diferentes. Gostaríanios
de nos seivir das refei-ênciasde Lacan como referenciais, ou seja, conio um eleniento comuin a
lacan e ;i seu leitoii De fato, não é assim que isso deve ser concebido. Toda a operaçáo de Lac;in
eni seus seminários [,arte, pelo contrário, da noção de que há dois referenciais: o seu, que é
só seu, e o clo ouvinte - hoje seu leitor-, que não é o mesmo, que é feito justamente de uin
conglonierado de idéias vagas que circulain. A situação hoje é evidentemente diferente, já
que as idéias de Iacan, suas palavras, entraram no referencial, sendo ainda iiiais difícil Eizer
passar o de que se tratd com Lacan. Nele, a operação da referência é sempre um transporte; é
chegar a quebrar alguma coisa no referencial de vocês e levá-los ao referencial dele. Lacan o
diz de niotlo bastante Iímpido em "Posição do inconsciente", quando evoca a responsabilida-
cle do ensinante ao endereçar-se a psicanalistas, devendo aquele sentir-se responsá\~eldo efei-
to de seu discurso, do èfeito de sua falay.k t a - s e de uma proeza, de um esforço realizado por
b c a n secretamente em cada lição de seu Seminário, e que consistiria em chegar a conti-olar
conio se irá compreender; para tanto, não é preciso que compreendanios o que ele diz no
referenci:il que já temos. Trata-se, ao explicar alguma cois;i, de modificar o referencial do ou-
tro'>.Ele explica o engorduramento produzido no ouvinte por tudo o que é ensino"'. Ele con-
tinua nesse estilo panchegar a "uma obtusáo ordenada" sub-tentitla, diz ele, por uma kohé,
uni;! opinião comum, uma crença comum, um discurso universal de subjeti\~a~ão~~. A pi-oeza
de cada Seminário é tdturar a koiné, triturar o referencial de vocês, o que supõe extraviá-los,
mas não conipletamente, deixando-lhes certas marcas, porém modificar o quadro cle referên-
cias no qual vocês o ouvem.
A referência lacanidna é niais da ordem da peca avulsa, evocada em uiii niomento doSmzi-
nario coino sendo uma das maneiras, um dos modos de aparição do objeto pequenos'?. O que
ele evoc;!? Eni primeiro lugar que nossos objetos são constituídos de peças avulsas que podem
ser ou náo substituídas..A peça avulsa está ligada a um ceno emprego em um ceito contexto, no
resto do objeto; e o què é essa peça avulsa que pode eventualmente encontrar uiii novo eiiipre-
go? É unia peça que fhi extciída tle seu referencial. Quando Iacan evoca o esqueina dos clois
espelhos, é exataniente isso que ele faz. Onde ele foi buscar esse esquema? Em uni manual de
física e ein uma experiência divertida do conhecido Bouasse, que I x a n reencontrou em seus
estudos. Ele extniu essa peça avulsa desse manual de fisica para colar nela a psicanálise e fazer
uiii certo número de dariações. O ['ráprio esqueina é uma peça avulsa.
Embora elas possam parecer eni muitos traços com um anti-ol~jetopequenoa, um obje-
to coniuni já peneirado pelo discurso corrente, de fato 1.acan utiliza as referências como
peças avulsas. Ele as subtrairá, fugirá com o cano de escape de uin e o guidão do outro. A
referência explícita apui é Duchamp que, ao retirar uma peça avulsa, faz dela um objeto
estético, ~iianipulandbuni pouquinho e, sobretudo, pondo-a num pedestal e explicando:
objeto de arte. É também o que aparece por trás da bricolagem cle Lévi-Strauss já como tese
em Opensanzento selt~agem'~.
lacan náo recusa de modo algum que seu ensino seja umpntchwork. O que um de seus
alunos fez que se volhsse contra ele em uma passagem bastante diveitida: "Mas o que foi que
Iaczin inventou? O siinificante e o significado? Não! Foi Jakobson. Ele inventou isto? Mo! Foi
Sartre[...]". Para ele, Lacan em uma montagem de pedaços juntados. Aliás, lacan insistiu no fato
de que uin ensino é também uiii patchruork. Não se deve recuar diante de umpatchzuork. A
iespeito do que ele vai procurar e encontrar no Bloch et \Vartburg, ele diz o seguinte: "Pego o
Tentemos essa disjbnçáo no conjunto das referências de Lacan. O que acabo de evocar
vale para as referências comentadas, principalmente as referências alvos que são reviradas por
Lacan, às quais ele sabe dar um outro sentido. Trata-se de distinguir as referências "utensílios",
as referências instrumentais: topológicas, etimológicas, estnituralistas e também freudianas.
São utensílios para trabalhar e para apanhar outras referências.
k
Essa disjunção não de modo algum absoluta. Há um movimento nos seminários de Lacan
que transforma as referências utensílios em referéncias alvos - são zrtensaluos (wtencible.~).
O mais claro deles é justamente Freud. Nele encontramos apoios, a m a s e orientações nas
referências que tomamos, e, ao mesmo tempo, não reconhecemos mais o nosso Freud, exceto
quando o aprendemo) em Iacan, é claro. Há uma reviravolta: apoiamo-nos em Freud par:i
mostrar que, definitivamente, a angústia tem um objeto, ao passo que não se Ié Freud assiiii.
Freud ali está sem dúvida como utensílio, mas, ao mesmo tempo, como alva Para lacan, a
etimologi;~é com certeza, tanto nesse Senzinario quanto eni outns ocasiees, um instrumen-
to, ele, porém marca, de imediato, uma distância. Ele só pode fazer referência marcando unia
dist;nciaL7.De fato, h4 uma superstiçio da etimologia - é seu sentido original que, por vezes,
é levado muito longe. Nos Estados Unidos este assunto é debatido, ou seja, ;I interpretação cla
Constituiçáo no sentido original: juristas chamados "originalistas" - os que têiii toda origina-
1id:icle - tentam fazer entrar costumes do início do século vinte e um nas normas CIO final do
século dezoito. I
Ao afirmar que a etimologia não implica nenhuma superstição, Lacan toma para com ela :I
maior distância. Talvez seja unia pedra no jardim de Heidegger que inventou etimologias ex-
traordinárias, uma etimologia parcialmente fictícia. Mas, sobretudo, Lacan está em vias de dar
muito mais lugar i neologia do que a etimologia. No final de seu ensino, ele criará palavras,
criará aonde elas irão.I
As referências estiuturalistas são instnimentais, sem dúvida. A referência a Lévi-Strauss é
mantida no Seminário, mas a vemos vacilar Ainda que disfarçado, Lacan é bastante forçado a
se inquiet:ii- com o materialismo primário, como ele diz, ao qual chega Lévi-Strauss em O
i ~ , formula que a estrutura articulada, a estrutura significante é
pensamenio s e l ~ a ~ equando
homóloga 5 estruturl do cérebroLx.Isso prepara a distância claraniente tomada por Lacan
quanto a Lévi-St~iussno início do capítulo I1 doSen7inal-io, Osqnalro conceitos'? Foi a sepa-
ração coni o Iévi-straussisino e coni o materialismo primário de Opensa?izento seluagena. A
ordem simliólica, uma vez que podemos confundi-la coni a esttutura do cérebro, náo é o
inconsciente, conceito I
freudiano.
Tal como ele é elaborado no Serninario, A angústia, o inconsciente freudiano está 1ig;iclo
à função cla causa, cuja referência indico noEnsaio sobre asgrandezas negatiua.~,de Kant,
que perniite pensar a hiânciazO.É a hiância que se abre e se fecha2'.É o evasivo, o tropeso, o
manquejar. O novo conceito de inconsciente introduzido por Lacan a partir dai mostra que
até mesnio o instrumento I.évi-Strauss se toma alvo. Para Jakobson, levaia mais tempo. O
j início do Seminário 12 é ainda um tiatamento de inspiração
trzitaniento de ~ h o m s l c no
jakobsoniana, porém, em Mais, ainda, e desta feita na presença de Jakobson, é toiiiada urna
distância para com sua lingüística.
Restam :ts referências topológicas que não se prestam tanto, no uso que ele faz delas, a
serein tomadas como alvos, um:! vez que são tomadas como um certo disparate. Ele extrai
objetos, relações na matemática e na topologia, mas, de ceito modo, a referência aos nós
coniportará uma certa crítica da topologia das superfícies. Vejam que podemos ir até o fim e
dizer que as próprias referências utensílios são tomadas como alvos e refundidas no discurso
de lacan.
Há outros modos de referências. A referência exemplo é uma impoiração seni transforiiia-
ção, porém, de preferência, é quando fazemos ler a estmtura no próprio objeto - talvez seja o
uso que Lacan fez de Tchekhov. Há um outro tipo de "fazer ressaltar" os elementos de estrutu-
ra. Isso fica claro principalmente no tipo de referências que são minhas preferidas, as referên-
ci;is clarão, que andam rápido com bem poucos comentários. Elas procluzem uma iluminação,
uni efeito de verdade. Lacan explica seu funcionainento quando evoca o livro cle Otto Rank
sobre Don Juan. Diz ele que não se compreende nada, mas nos dá este fio: Don Juan é um
sonho feminino. Com esse pequeno fio, vocês podem atravessar tal livro sobre Don JuanZZ,
coin toda sua miscelânea cultural. É um achado. Assim, muitas vezes seguidas, obtém-se apli-
cações repentinas de um resultado que acaba de emergir por um certo trabalho, e então,
Hop! Eis unia referência rápida que vem como que verificar, afivelar o trabalho de investiga-
çáo. Com freqüência é uma referência em posição de ponto de basta, no final do capitulo,
coili o valor de verificação do resultado adquirido ou de ângulo escolhido. Por exeniplo, no
final do capítulo I, há uma observaç%oque não é de~envolvida'~. Na filosofia, todo munclo
sabe que a passageni mais famosa sobre as paixões em Aristóteles está no Livro 11de A retóri-
ca, mas é diferente quando se faz ver conio as paixões ali são tratadas. Vocês podem trazer
[montanhasde referências sobre Aristóteles e as paixões, estudos muito meritóiios vindo dos
Estados Unidos, da França, as paixões na época medieval, na Antiguidade, nias não há a pe-
quena obseivação suplementar desenvolvida pela teoria das paixões, em Aristóteles, especial-
niente em A retórica, ou seja, longe de qualquer naturalidade, como efeito do significante
sobre a emoção, sobre o corpo. Ou ainda, no final do capítulo Y como ponto de basta, um
itzsighl nos ê trazido por uma referência, que não é desenvolvida, às experiências de hscal
sobre o vazio em Puy de Dome, em sua ligaçáo com o desejo. No fim do capitulo V1 é um
pouco diferente, tem-se uma auto-referência à 'A coisa freudiana"". Ou então, no final c10
capítulo VII, temos uma frase sobre Le Horlu, de Maupassant, que é surpreendente: tudo o
que lacan acaba de desenvolver topologic:imente está presente na experiência vivida, na refe-
rência vivida de Horluzi.
As mais Fugidias sáo as que mais me encantam, tal como as que sáo chamadas por associa-
ção, por contigüidade, as que têm um caraterzinho fortuito. Por exeiiiplo, a maneira como
Lacan introduz a pessoa de 'lirésias'! Tendo falado sobre Édipo cego, é preciso também que
fale de Tirésias, donde a referência as Métumorphoses de Ovideo, e também a The Wuste
Lund, d e T S. Eliot, que já citara no final do relatório deRoma. Em seguida, convoca Apollinaire
sobre Tirésias, o que ecoa no capitulo XX.Lacan retoma visivelmente The IVmte Latzd e, a uin
outro propósito, cita seus versos". É a tese: "Don Juan é um sonho feminino". Para o cavalhei-
ro, ê toda uma história, para a dama, esquecem-se disso, como Don Juan. A referência a Wuste
atatiito ao inconscieiile. É elo em c a d a m . oiie nos moriira haver sob o termo de inconscienk aleiirna coisade~ualificásel,de acmível e de obietiváol.
Mas qiiaiido incito os psicanalistas a n30. mai; ignorarem-me terreno. que Ihes d i um apoio sólido para sua elabora@o, querdizcr que penso n;aiiier or
conceitos inirodiizidw oar Freiid sob o termo de inconwiente 7 Pors bem. náo! Náo genso ssim".
'Oldem, ibidem, p. 24.
"ldem, ibidern,~.25.
"Sem dúvida Jaqiia-Ahii Miller lala doDiclionrinire de Donp a n (s Idir. E Brunel), Park: LalfonL Cal. Bouqiiins, 1999.
"leal,, J. (2001). b %>nitioire, Liiire X, lengoisse (1962.63. p. 24). Paris: Seuil: "para deixá-los com alguma coisa qiie or aupe, vou lzer-lhu uma
siiriplaobsena~ão.Onde éque AristÓtdoslratlmclhor aspairõa? Penso haixr, mesmossimiimcerto número devockqueosabem. E no livro IIdesua
Relóriin O que há de melhor sobre as paixões é preso na rede da retórica".
"idem. ibidem, pp. W e 113
"Ideni, ibidem, p. 116
'ideni, ibidem, cap. XiV.
"Idem, ibidem, p. 301: "Wbniloicly iwtmsloopslofo$ondpaw aboui ber roo~nogoinolo~elShennoolbcrsb~hair toilh aulo?nalicbantlnnd
pitlslhe recordo,^ lbega,nopbonene.
"Idem, ibidem, p. 210: "Náo está escl~tidnque OIC ir& pmsa, ali c H o ponto, cun'ar ma mulher, que é sua an3lista, a seu d m i o -/o sloop, eni inglk,
curvar-se".
Títiilo de uma comédia de Coldsiiiilli.
Introdução à leitura e
referências do Seminánó 10