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(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Rodrigues, Cristina Carneiro


Tradução e diferença / Cristina Carneiro. - São Paulo: Editora UNESP, 2000.
- (Coleção Prismas / PROPP)

Bibliografia.
ISBN 85-7139-290-0

1. Lingüística 2. Tradução e interpretação I. Título. I!. Série.

00-1000 CDD-418.02

Índices para catálogo sistemático:


1. Tradução: Lingüística 418.02
2. Tradução literária: Lingüística 418.02

Este livro é publicado pelo projeto Edições de Textos de Docentes e


Pós-Graduados da UNESP - Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa da
UNESP (PROPP) / Fundação.Editora da UNESP (FEU)

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Asocíacíón de Edttnrtalcs Untvcrsüartas Associação Brasllctra de


de América Latina y el Cartbc Editoras Umversttártas
132 CRISTINA CARNEIRO RODRIGUES TRADUÇÃO E DIFERENÇA 133

buiu para estabelecer. A análise do trabalho de Toury, feita a se- afirmar que os "textos traduzidos só são fatos lingüístico-textuais
guir, indica alguns desses pontos. de uma única tradição textual: a alvo" (p.28). De acordo com seu
ponto de vista, da perspectiva da língua, do texto ou do sistema li-
terário produtor desse texto, a tradução não existe e em nada po-
UMA PROPOSTA DE SISTEMATIZAÇÃO DOS ESTUDOS de afetar esse sistema. Por outro lado, as traduções "podem afetar
DESCRITIVOS DA TRADUÇÃO: GIDEON TOURY EM BUSCA as normas lingüísticas ou textuais e mesmo os sistemas da cultu-
ra-alvo, receptora, assim como a própria identidade do texto-alvo
DE UMA TEORIA DA TRADUÇÃO
enquanto texto da língua-alvo" (p.28). Toury entende, portanto,
Toury tem produzido trabalhos na área de tradução desde os que os estudos devem se direcionar a fim de descobrir a maneira
pela qual as traduções se moldam para satisfazer os objetivos do
-
anos 7Ó, definindo como objeto--- de estudo
--
a tradução literária e
.. -
como prioridade o pólo receptor da tradução. Grande parte de
pólo receptor, e de como as funções que devem preencher influen-
ciam sua produção. Assim, propõe a análise da articulação entre
sua obra foi publicada em In search of a theory of translation
textos traduzidos e originais segundo sua função, salientando que
(1980), livro constituído por onze artigos escritos entre 1975 e
não trabalha com a identidade material, como as teorias tradicio-
1980J Desses artigos, nove são teóricos e expõem os principais
nais. Não estabelece nenhum tipo de relação a priori entre o siste-
tópicos de uma "abordagem semiótica da tradução", desenvolvida
ma produtor de um texto e o receptor de uma tradução como ne-
para o estudo descritivo da tradução. Os outros dois artigos são
cessária ou suficiente para um texto se configurar como tradução.
"estudos de caso", que trazem os resultados da aplicação da teoria,
Defin~ o corpus para os estudos como a totalidade dos textos que
ou seja, descrevem traduções.
sejam "encarados como traduções na configuração de determina-
Nos artigos teóricos, Toury mostra que sua principal preocu-
dos sistemas-alvo" (p.18).
pação é apresentar os passos dados na busca de uma explicação sis:
temática da tradução. Inicia com a concepção de que a tradução Essas são as linhas gerais da proposta de Toury, ou de sua
envolve "operações de transferência ocorridas em uma entida_de "busca de uma teoria da tradução" que possa se opor às aborda-
semiótica, pertencente a um certo sistema, para gerar outra enti- gens existentes e explique os dados que elas não conseguem escla-
dad~ semiótica, pertencente a um sistema diferente" (p.12). Por recer. Examinarei três pontos dessa teoria, com o objetivo de mos-
"entidade semiótica" entende desde o signo até combinações hie- trar que o distanciamento idealizado por Toury (1980) entre sua
rarquicamente superiores, como orações, textos, "mensagens': e proposta e as teorias tradicionais não ocorre da maneira radical
"modelos institucionalizados". Para Toury, a tradução deve ser es- como pretende o autor. Restringe-se à consideração da existência
tudada de modo descritivo e o estudo deve ter como objetivo veri- e das exigências do contexto em que se recebe a tradução, mas não
ficar qual foi a orientação dada a ela, como se insere no sistema atinge certos postulados fundamentais das abordagens tradicionais.
que a recebe e o tipo de coerções que influenciou o trabalho. Esse São estas as três questões que evidenciam não haver uma lacuna
objetivo decorre do pressuposto inicial: o sistema receptor não em relação às propostas anteriores: a concepção de leitura de
tem apenas impacto na produção final, ou na "recomp,.9sição", Toury, que envolve a transferência e o invariante de tradução, sua
mas também influi na "decomposição" do "texto-fonte", assim definição de equivalência e a crítica às teorias anteriores. Além do
como no próprio processo de transferência (p.16). Toury chega a exame dos pontos mencionados, pretendo comentar qual o lugar
em que o autor situa os estudos sobre tradução, questão em que
marca um posicionamento diferente daquele encontrado no pen-
7 Este livro está esgotado, mas em Descriptiue Translation Studies and beyond
(1995) Toury retoma todos os principais pontos nele abordados. samento tradicional sobre tradução.
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A concepção de leitura de Toury e as noções do, ao contrário, resulta em acerto, porque o novo comportamen-
de transferência e de invariante to é compatível com o antigo (p.101).8
Esse emprego do conceito pode ser notado quando, ao falar
o trabalho de T oury tem como ponto de partida a "teoria dos sobre a segmentação do discurso efetuada por tradutores aprendi-
polissistemas", quadro teórico elaborado por Even-Zohar (1979) zes, Toury (1986) afirma que sua análise indica "a ocorrência de
para õ estudo da literatura hebraica. Even-Zohar teria cunhado o transferência de discurso" e formula a hipótese de que, quanto
termo "polissistema" para se referir à rede dos sistemas semióticos mais segmentado for o texto, "maior a probabilidade de ocorrên-
que existem em uma dada cultura. Seu objeto de estudo são as cia de transferência, especialmente nos níveis lingüísticos inferio-
transferências que ocorrem internamente a esses sistemas e, entre res (que, por sua vez, freqüentemente se realiza como 'transferên-
eles, os literários. O estudo da literatura traduzida é um dos aspec- cia negativa', porque as diferenças entre as várias línguas muitas
tos que investiga, na medida em que concebe a tradução como vezes são maiores nesses níveis)" (p.83). Para corroborar sua hipó-
uma transferência com status igual às demais trocas inter ou in- tese, fornece duas traduções de um mesmo texto, feitas por dois
tra-sistêmicas. Para Even-Zohar (1990), a teoria da tradução é sujeitos diferentes. Na primeira, realizada por um aluno que não
parte de uma teoria geral da transferência, pois "nosso conheci- tinha experiência em tradução, há muitos segmentos, de "nível in-
mento acumulado sobre tradução indica, cada vez mais, que os ferior", e "marcada tendência à transferência negativa", chegando a
procedimentos tradutórios entre dois sistemas (línguas/literaturas) apresentar decomposição de sintagmas formulares como "at times"
são, em princípio, análogos ou mesmo homólogos às transferências (p.88~. Na segunda tradução, produzida por um aluno que tinha
[transfers] nos limites do sistema" (p. 73). "alguma experiência prévia de tradução socialmente funcional",
Nem Toury nem Even-Zohar, entretanto, definem o uso que há poucos segmentos, usualmente no nível do sintagma ou da fra-
fazem da palavra "transfer". No sentido comum, "to transfer" sig- se, e "ausência total de instâncias de transferência negativa"
'nifica "to convey, carry, ,remove or send from one person, place, or (p.89). Sua exposição mostra que aquilo que denomina "transfe-
Iposition to another" (Webster's, s.d., p.1938). Em português, rência" se refere ao que, na literatura sobre tradução, geralmente
"transferir" significa "fazer passar (de um lugar para outro), deslo- se chama de "correspondência formal", tradicionalmente oposta à
car" (Dicionário Aurélio eletrônico), ou "mudar, transportar ou "tradução livre". Esse uso da noção de transferência é reiterado
passar de um lugar para outro" (Caldas Aulete, 1958, p.5040). pela observação que Toury faz de que a aceitabilidade da transfe-
Even-Zohar parece empregar a palavra nesse sentido de "passa- rência é "governada culturalmente", ou seja, de que há culturas
gem" de um sistema para outro. Toury, por outro lado, mostra, es- que a aceitam e outras que a rejeitam. Em "culturas que desfavore-
pecialmente em "Monitoring discourse transfer: a text-case for a cem a transferência em tradução", os tradutores desenvolveriam
developmental model of translation" (1986), que entende "trans- estratégias para lidar com essa questão. Uma delas seria a "monito-
ferência" também como o termo se aplica na área de aquisição de ração da transferência de discurso por sua gradual eliminação dos
língua estrangeira. Em livro sobre esse assunto, Dulay et a!. (1982) níveis mais baixos", mesmo que fosse conservada nos níveis mais
explicam que o conceito designa o "uso de comportamentos
aprendidos no passado na tentativa de produzir novas respostas",
ou seja, a aplicação de regras (lingüísticas) conhecidas em contex- 8 T oury enfatiza que é "nos estudos de aquisição de segunda língua que a trans-
tos novos (p.101). Desdobra-se em "transferência negativa", ferência [transferI recebeu maior atenção e refinamento". Declara também
que, "em qualquer contexto de transferência, o usuário da linguagem ativa si-
quando resulta em erro, porque o comportamento habitual difere
multaneamente duas das línguas que tem à disposição" (1986, p.81). Não es-
do que está sendo aprendido; e em "transferência positiva", quan- clarece, portanto, seu papel em uma teoria da tradução.
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altos, tais como paragrafação, divisão em capítulos, modelos tex- tras palavras, embora "a entidade resultante de qualquer operação
tuais (p.90). Acrescenta que, mesmo quando a norma desfavorece de transferência difira da entidade inicial do mesmo processo",
a transferência, "isso se refere primordialmente à transferência ne- ambas as "entidades têm também que possuir algo em comum": o

-
que será transferido, o "invariante" (p.12). Esse invariante seria a
gativa, simplesmente porque os produtos da transferência positiva
dificilmente são discerníveis das produções apropriadas na LA base para determinar a relação que se estabelece entre duas entida-
.
[língua-alvo]" (p.91). des (dois textos, no caso da tradução literária), "normalmente de-
A exposição de T oury sobre a transferência tem duaaímplíca- nominada adequação, equivalência, correspondência etc." (p.12).
ções. Em primeiro lugar, sugere que a tradução é, antes de mais Essas idéias remontam ao conceito, comum na literatura sobre
nada, a passagem de um texto codificado em uma língua p_~ 01;- tradução, de que est~jeve espelhar o original, de que é secundária
tra, ou seja, uma espécie de transporte de traços. Essa noção fica e derivada de uma origem que contém ou expressa todos os signi-
evidente se lembrarmos que define tradução como a "capacidade ficados que devem ser transportados ou transferidos durante o
de substituir TFs [textos-fonte] por TAs [textos-alvo] sob certas processo. Toury, porém, não aceita a idéia de derivação total, pois
condições de invariância", ou "de reter (ou reconstruir) certos tra- afirma haver diferença entre as entidades resultantes da transfe-
ços invariantes do TF em um TA que o substitua" (1980, p.24). rência, na medida em que as entidades "são membros de sistemas
T oury enfatiza que essa passagem tem que, por um lado, recons- diferentes, ou seja, se organizam em códigos ... diferentes" (p.12).
truir os traços do original e, por outro, obedecer a certas coerçõ~s Não se percebe em Toury a noção de insuficiência da tradução,
do sistema que produz a tradução mas, de acordo com suas coI)- subjacente a muitos trabalhos, mas transparece uma grande neces-
cepções, sempre vai envolver o transporte de certas marcas~ sidade de justificar por que os textos "transferidos" não se apre-
implica considerar que os textos tenham traços estáveis que po- sentam exatamente iguais à "entidade inicial" (p.12). Além disso,
dem ser transpostos para outra língua. Essa tese fundamenta o não se descarta a noção de que pode haver correspondência total
pensamento tradicional sobre tradução e dela decorre a colocação entre os textos. Pelo contrário, mantém-se no modelo enquanto
da possibilidade de uma produção "literal", errada ou correta, hipótese de trabalho, pelo uso de um construto que denomina "in-
adequada ou fora das normas, intimamente relacionada à questão variante de comparação", instrumento de análise empregado para
da manutenção de certas características do original na tradução e verificar se a tradução estaria situada em um ponto mais próximo
ao conceito de "invariância". Como, para Tou~ü986) "traduzir do "pólo-fonte" ("adequação") ou do "pólo-meta" ("aceitação").
é, naturalmente, um modo de produção de linguagem secundário, O invariante serviria para determinar se a tradução estaria recons-
derivado, que pressupõe a preservação invariante de certos traços, truindo os traços do original, ou se teria se construído de acordo
em um ou mais níveis" (p.82), percebe-se que o autor aceita as no- com as coerções do sistema receptor (lingüístico, textual ou literá-
ções de transporte e de possibilidade de reprodução de um original. rio). O objetivo da análise que Toury propõe é determinar, pela
Toury elabora a questão da "invariância" em In search of a comparação entre o "invariante de comparação" e a tradução,
theory of translation (1980), trabalho êiTiqüe afirma que o proces- quais teriam sido as normas que orientaram a tradução estudada.
so de tradução se diferencia de outros processos semióticos de Para o autor, essa determinação se fundamentaria em uma relação
transferência em virtude da dupla natureza da entidade resultante, empírica e derivada do corpus de análise:
Esta faz parte do sistema a que pertence (sistema "alvo" ou "recep-
Nesse quadro metodológico, concebe-se [a adequação] como
tor"), mas seria, também, "de certa maneira, e até certo ponto, uma entidade hipotética construída a partir da análise sistêmica (rex-
graças ao invariante comum a ela e à entidade inicial, representa- têmica) do TF [texto-fonte]. Usa-se como invariante de comparação
ção de outra entidade pertencente a outro sistema" (p.12). Em ou- (ou seja, como tertium comparationis), não como invariante de tra-
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dução, como às vezes as teorias orientadas para o TA ou para a LA a pelo pesquisador com base na análise do texto de partida, associa-
apresentam. (Toury, 1980, p.49) do por Toury à noção de total recuperação desse texto.
A relação dada como empírica e proveniente do corpus se fun-
A "tradução adequada", a base "invariante de comparação", damenta na análise do texto original, na medida em que a "ade-
seria a reconstrução hipotética do original na língua da tradução, quação", usada como "invariante de comparação", é "a reconstru-
tendo como único ajuste sua inserção nas regras obrigatórias da ção máxima dos traços relevantes do TF (ou seja, a realização do
língua-alvo. Assim, a noção de correspondência total não se insere construto de traduzibilidade máxima)" (p.29). Toury parte, assim,
no modelo como um ideal que os tradutores precisariam atingir, do pressuposto de que o analista vai construir o "invariante de
como, por exemplo, o exigido por Nida. Para Toury, a recupera- comparação", uma idealização do texto original e buscar o que, na
ção de todos os traços de um texto é tarefa para o pesquisador, que tradução, difere dele:
se encarregaria da análise correta do texto de partida, que geraria
o "invariante", ou a correspondência total. Essas noções fazem A comparação entre a tradução real e o seu "invariante" (que é,
parte de teorias como, por exemplo, a de Catford, mas a diferença naturalmente, apenas um construto hipotético) vai revelar os desloca-
em relação a elas, como o próprio autor salienta, é que o Q..onjQde mentos causados por fatores alheios às regras; séries de comparações
realizadas de acordo com este método levarão o aluno a generaiiza-
partida de sua proposta não é a suposição "de que a tradução nada
ções e permitirão, entre outras coisas, que ele levante hipóteses a res-
mais é que a tentativa de reconstruir o original", ou a "preservação peito das normas. (1980, p.59)
de certos traços predeterminados" do original (p.17). Em ou ras
palavras, Toury não considera necessário) como ce to e
A análise da proposta mostra uma intrincada vinculação en-
que "o item substituído ... seja idêntico, em hierarquia ou fun ão,
tre as noções de "adequação", "tertium comparationis", "tradu-
ao item que substitui" (p.85). Todavia, só o fato de levantar _a
zibilidade máxima" e "invariante de comparação", que se relacio-
questão já implicaria considerar uma possível identidade entre o~
nam intimamente ao texto de partida e não, como enfatiza o
textos. Mas o modelo não se limita a considerar essa possibilidade;
autor, ao texto traduzido. Um dos pontos em que se percebe o
ao contrário, propõe que se inicie a análise pelo construto hipoté-
peso dado ao texto original é a distinção entre "invariante de
tico: "parece melhor que se inicie [a comparação] por meio da des-
comparação" e "invariante de tradução", considerada marcada e
coberta dos desvios (ou 'deslocamentos') em relação à adequação"
evidente por Toury, a partir do momento em que o autor as fun-
(p.I08). Toury interliga, portanto, os conceitos de "adequação" e
damenta no conceito de "funcionalidade e relacionalidade", não
de "invariante"; ambos remetem a uma hipotética análise correta
no de "materialidade" (p.69). O "invariante de comparação"
do texto original, como se verifica no trecho abaixo:
vincula-se, em seu modelo, aos sistemas lingüístico e textual da
língua-fonte, enquanto o "invariante de tradução" refere-se às
Qualquer instância de tradução se considerará, assim, como
relações funcionais que efetivamente se estabelecem entre os tex-
um ato concreto de desempenho nesse quadro teórico [dos estudos
não normativos da tradução], exibindo certa relação com um texto
tos e envolve verificar os termos e as construções que funcionam,
preexistente em outra língua e cuja adequação se determina por um na tradução, como equivalentes dos termos e construções do tex-
certo construto de traduzibilidade máxima [optimal translability] to-fonte. Esse desdobramento da noção de "invariante" parece
que serve como norma para a tradução. (1980, p.28) ter como objetivo diferenciar o modelo proposto das teorias tra-
dicionais, critica das por Toury, por prescreverem que a tradução
A "traduzibilidade máxima" se relaciona, ois aos conc itos se apresente com todas as características do original. De acordo
de "adequaçao"e "invari~nte". Trata-se de um construto definido com as propostas tradicionais, espera-se que a tradução mante-
140 CRISTINA CARNEIRO RODRIGUES TRADUÇÃO E DIFERENÇA 141

nha os traços do texto de partida, ou seja, determina-se que não ou sociais. Há inconsistência, portanto, em sua postulação em um
deve haver diferença entre o original e a tradução. Toury, por modelo exclusivamente orientado para o -"pólo-alvo".
outro lado, parte do princípio de que os dois textos têm de parti- Da maneira como se posiciona no modelo, o "invariante de
lhar um núcleo comum, ou seja, considera que o texto traduzido comparação" deriva de uma leitura correta, verdadeira, indepen-
representa o texto original "de acordo com alguma condição de dente de qualquer intervenção humana ou contextual. Ora, o pen-
invariância" (p.24). Mas, como não aceita que a relação entre samento tradicional sobre tradução já pressupõe a possibilidade
eles possa ser estática ou fixada a priori, seu modelo acaba por dessa leitura legítima e atribui ao tradutor o papel de um filtro pas-
exigir que se diferenciem duas categorias de invariante. Assim, sivo, que tanto contribui para o rebaixamento do seu status em
apresenta, por um lado, o "invariante de tradução", caracteriza- nossa sociedade. Toury não parece encarar assim o tradutor, já
do como o realizado, representado pelos traços que original e que comenta que ele é o responsável pelas decisões tomadas a pro-
tradução efetivamente partilham, ou seja, pelas relações funcio- pósito da orientação dada à tradução, pois é o tradutor quem de-
nais que se estabelecem entre os dois textos; por outro, o "invarian- termina se a tradução fica sujeita "ao TF, às suas relações textuais e
te de comparação", que seria aquele definido pela leitura suposta- às normas por ele expressas ou nele contidas, ou às normas lingüísti-
mente correta do texto original. cas e/ou literárias ativas no polissistema literário-alvo" (1980, p.116).
Entretanto, de acordo com o modelo, usa-se o conceito de Também não o considera c~mo ~otalmente neutro~u socialmente
"adequação", atrelado ao de "invariante de comparação", para descontextualjzado, o que se depreende do seguinte trecho:
desc~os fatores que influenciam a tradução além das coerções
sistêmicas da língua-alvo", para identificar os "desvios" [deviances] A tradução é um tipo de atividade comportamental socialmente
orientada e seria ingênuo e enganador admitir que qualquer ato nes-
"do tipo não obrigatório", ou seja, os que não são gerados pelas
sa atividade seja um encontro único e pessoal entre um texto a ser
regras lingüísticas (p.49). Ora, esses "desvios", posteriormente re- traduzido e um futuro tradutor, livre de toda a bagagem prévia, em
classificados como "deslocamentos" [shifts], só se detectam por que o tradutor tem total liberdade para definir os problemas tradutó-
uma via: a partir do texto original. Apenas ele permite "identificar rios em seus próprios termos e fornecer soluções novas, pessoais, para
os fatores que determinam o desempenho tradutório além das re- eles. (1980, p.141)
gras lingüísticas" e cuja regularidade levará às normas de tradução
de um trabalho específico (p.49). O autornão explora ~ relações que se estabelecem entre o
Teoricamente, a noção de "tradução.adequada" ou de "inva- texto e o tradutor. Apesar de reconhecer o papel decisório que o
ri ante de comparação" apresenta, assim, contradições. Em primei- trad~tor desempenha, não lhe reserva um lugar em sua teoria e en-
ro lug;[, Toury parte da idéia de que é possível ter o mesmo texto fatiza seu interesse no "produto", ~mo se vê a seguir: - -
em uma outra língua sem nenhuma intervenção interpretativa e
sem que as relações lingüísticas ou culturais o afetem de alguma Essa regra [metodológica, de iniciar a análise pelas relações de
maneira. Em segundo lugar, supõe uma distinção nítida entre as nível mais alto] não deve, de maneira alguma, ser vista como atribui-
regras opcionais e as obrigatórias, já que o invariante seria a inser- ção de crédito ao tradutor enquanto pessoa real. Obviamente, "na
realidade", a tentativa de estabelecer relações formais ("mais bai-
ção do texto original nas regras obrigatórias da língua de chegada
xas") podem resultar em relações funcionais (ou seja, "mais altas"),
(ver Ria Vanderauwera, 1982). Além disso, há problemas internos
ainda que não pretendidas. Mas o ponto aqui não são as intenções do
ao modelo: o construto "invariante de comparação" se baseia no tradutor. A regra de dominância da relação "superior" obtida é ape-
texto original e, como vem conceituado no modelo, situa-se em nas uma questão de método e foi elaborada com o único propósito de
um nível em que não sofreria influências de elementos históricos descrever textos traduzidos de modo metodologicamente sisternáti-
142 CRISTINA CARNEIRO RODRIGUES TRADUÇÃO E DIFERENÇA 143

co e teoricamente justificado; e nosso maior interesse reside no pro- (p.37).9 Toury afirma que a noção de relevância que acrescenta ~
duto real da tradução, não em seu processo, para não mencionar os definição de Catford é "uma propriedaderelativa", em primeiro
"estudos psicotradutórios". (1980, p.109) lugar porque alguma coisa só pode ser relevante para um determi-
nado ponto de vista ou para algum fim; em segundo lugar, porque
o autor define ue seu objeto d~ estudo é o texto tra~ e, se refere a textos, compostos de "traços" em vários níveis, dos fo-
em sua proposta, o trabalho intelectual parece estar reservado ao nológicos aos morfossintáticos, havendo a possibilidade de esti-
analista, que teria o poder de explicar por que se fez uma tradução mar todos como "relevantes" (p.38). Concebe-se a relação entre
de determinada maneira, com base em uma leitura "correta" do "relevante" e "irrelevante" como polar, não dicotômica, mas ela
texto original. Toury pressupõe, assim, que os itens que funda- envolve certa hierarquia. No caso de equivalência de tradução, o
mentam a semelhança ou a diferença entre o texto de partida e a autor interessa-se pela "relevância vinculada aos traços comparti-
tradução, que constituem o "material" para a identificação das lhados" entre texto-alvo e texto-fonte, não por todos os "traços
normas que orientaram a tradução daquele texto, sejam também textuais ou lingüísticos" do corpus. Nos modelos tradicionais, o
transparentes ou auto-evidentes. Desse modo, o pesquisador po- grau de relevância seria, de acordo com Toury, determinado pelo
deria fazer a leitura correta da tradução e identificar com precisão texto-fonte e a forma ideal de tradução corresponderia à recons-
os deslocamentos em relação à "fonte". Nesse quadro, os textos se trução de todas as suas características relevantes (p.3 8). Como isso
comporiam de marcas indiscutíveis e o analista não estaria sujeito significaria a interpermutabilidade entre o texto-alvo e o tex-
às coerções de seu meio. to-fonte, as teorias freqüentemente teriam que recorrer ao conceito
de equivalência funcional como condição necessária para o ato de
tradução.
A equivalência: a distinção feita por Toury
Toury afirma que promover ojeslocamento, ou seja, passara
entre o conceito "teórico" e o "descritivo" enfocar o texto-alvo, significa não postular a equivalência; ela pas-
Para discutir a questão da equivalência e mostrar que ela seria saria a ser um fato empírico, ou seja, estabeleceria as "relações reais"
uma função das normas de tradução, Toury parte da seguinte defi- entre texto-alvo e texto-fonte. Para o autor, "a comparação não é
nição: "tradução, no sentido estrito, é a substituição de uma men- feita para determinar se se atinge a equivalência entre tradução e
sagem, codificada em uma língua natural, 20r uma mens_agem original, mas qual o tipo (e/ou grau) de equivalência que realmente
equivalente, codificada em outraIíngua" (1980, p.63). O autor
impõe três condições bás~as para que se obtenha uma tradução: a 9 Trata-se da modificação da seguinte definição de Catford (1965/1980), "ocor-
re equivalência de tradução quando textos ou itens da LF e da LM podem rela-
I presença de duas línguas (códigos); o estabelecimento de duas
cionar-se com os mesmos traços de substância (ou ao menos com alguns de-
mensagens distintas, cada uma em uma das línguas; e a "existência les)" (p.56). A essa definição, Catford adiciona uma nota para explicar que o
ou estabelecimento de certa relação entre as duas mensagens" "tipo da substância depende do escopo da tradução. Para a tradução total é a
(p.63). Como sua definição é semelhante às formuladas pelas substância de situação, para a tradução fonológica é a substância fônica, para a
tradução grafológica é a substância gráfica" (p.56). Minha análise do livro de
abordagens tradicionais, Toury considera necessário reavaliar a
Catford, apresentada no primeiro capítulo deste trabalho, explica que o autor
noção de equivalência, já que sua proposta pretende a elas se opor. fornece cinco diferentes formulações para a equivalência de tradução (ver os
Seu ponto de partida para o reexame do conceito é a definição itens "A equivalência textual e a formulação de regras de tradução" e "O signi-
ficado e os traços de situação"), sendo a última bastante semelhante à de Toury
de Catfor ,mõâificada para: "a equivalência de tra~ução (;cçme
(1980): "para que ocorra equivalência de tradução, ambos os textos, o da LF e
quando um texto (ou item) em LF e um em LA se relacionam. aos o da LM, devem poder relacionar-se com os traços funcionalmente relevantes
mesmos traços relevantes (ou, pelo menos, a alg~?s deles)" da situação" (Catford, 1965/1980, p.104).
144 CRISTINA CARNEIRO RODRIGUES
TRADUÇÃO E DIFERENÇA 145

ocorre entre eles", com a ajuda do "conceito intermediário", que É necessário também observar que tanto o termo "teórico"
serve como "base fixa, invariante, para a comparação" (p.58). O quanto o "descritivo" são denominados "equivalência de tradu-
autor enfatiza este ponto: a reconstrução dos traços relevantes do ção" [translation equivalence], só que o primeiro pertenceria à
"teoria da tradução" e o segundo, ao "estudo empírico" (p.65). O
texto-fonte em sua ordem de relevância não é a única opção do
tradutor, o que significa que o texto de partida e a tradução po- termo "teórico" estaria relacionado às abordagens tradicionais,
dem exibir vários tipos de relações. Entretanto, abre-se a possibili- critica das por "não incluírem uma caracterização sistemática da
dade da reconstrução total, que o tradutor pode adotar ou não, equivalência de tradução nem uma definição precisa desse concei-
pois, de acordo com Toury, a tradução tanto reconstrói os traços to básico" (p.90). Para Toury, mesmo as teorias que tentam expli-
do original (pólo da adequação) quanto se adapta ao sistema tex- car a equivalência "não fornecem uma definição que se aproveite
tual receptor (pólo da aceitabilidade). Para ele, mesmo as tradu- como ponto de partida para os estudos descritivos" (p.90). De
ções que são amoldadas às coerções do sistema-alvo são equivalen- acordo com o autor, "sua aplicação ... denota uma categoria de re-
tes, pois o autor parte de uma distinção entre dois usos da palavra lações entre TA e TF abstrata, idealizada" (p.65). Afirma também
"equivalência": o primeiro, "teórico", denotaria a relação abstra- que "a noção 'tradicional' de equivalência de tradução não só é fa-
ta, ideal, entre texto-alvo e texto-fonte; o segundo, "descritivo", lha em si, mas também mal equipada para servir como base para os
exprimiria as relações reais entre as expressões efetivas em duas estudos descritivos da tradução e para explicar a ampla variedade
línguas e duas literaturas diferentes (p.39). de relações tradutórias" existentes entre original e tradução
(p.93). Nesses termos, Toury pondera que, por um lado, a discus-
No modelo proposto por Toury, a equivalência é um fato em-
são sobre tradução "deveria livrar-se de sua dependência da noção
pírico, descoberto ao se procedú-à análise das traduções .. Essa
de equivalência e seguir outros rumos; por outro, deveria rever a
concepção se opõe à tradicional, que postularia uma relação ideal
noção de equivalência, se possível em consonância com o novo
entre o texto de partida e a tradução. O autor contrapõe, assim, os tratamento dado ao conjunto de relações tradutórias" (p.93-4).
termos, "descritivo" e "empírico" aos termos "teórico" e "abstra- - Há uma contradição evidente entre "livrar-se" da noção e "revê-
to". O primeiro par está posicionado na ordem do objetivo, o lu-
Ia", decorrente do fato de Toury não descartar efetivamente a
gar das propriedades dos textos, do "real". O segundo é visto com equivalência postulada. Pelo contrário, afirma que se devem ligar
desconfiança, porque alheio ao que o autor considera o verdadei-
as duas noções:
ro objeto dos estudos da tradução: o "texto-alvo". Aparentemen-
te, subverte-se a concepção tradicional de que a teoria é o lugar do
racional, inteligível, enquanto o empírico é o do intuitivo, do sen- não se deve permitir que a categoria de equivalência de tradução abs-
sível, e secundário em relação ao teórico. No entanto, não é isso o trata, teórica, se dissocie da classe de relações tradutórias empíricas,
que efetivamente ocorre, pois seu trabalho segue a rota da estrutu- concretas, permanecendo uma noção meramente especulativa. Pelo
contrário, deveríamos tentar conectar essas duas noções (e níveis) de
ração de "uma teoria da tradução no verdadeiro sentido", que
modo apropriado, ou seja, transformar a noção teórica no denomi-
fundamente os estudos sobre tradução (p.27). Esta seria baseada nador comum para os objetos de estudo, em termos da noção descri-
nas características próprias do objeto, o produto traduzido, e teria tiva, e vice-versa. (p.66)
que fornecer, para cada relação entre texto-alvo e texto-fonte,
uma descrição e explicação de suas condições de adequação ou de
A ligação entre os dois termos, o "teórico" e o "descritivo",
aceitabilidade. O que poderia parecer subversivo converte-se ape-
nas em uma crítica às teorias que não se fundamentam em "dados acaba se fazendo pela subdivisão do conceito teórico em "equiva-
empíricos" . lência mínima" e "equivalência máxima". Toury indaga se "não
146 CRISTINA CARNEIRO RODRIGUES TRADUÇÃO E DIFERENÇA 147

seria possível, ou mesmo desejável, introduzir no ramo teórico dos Quanto às relações formais, um aspecto interessante de uma de-
estudos da tradução dois conceitos abstratos de equivalência: um cisão não genuína se manifesta por meio dos "equivalentes de esto-
mínimo, para definir o 'limiar da tradução', e um máximo, que de- que", ou seja, a tendência a uma substituição automática de certos
MLs [meios lingüísticos] ou MTs [meios textuais] do sistema-alvo no
finirá um núcleo de tradução 'ideal' ou 'exemplar'" (p.68). Con-
lugar de determinados MLs ou MTs da fonte, tanto nos casos em que
clui que a introdução desse conceito "máximo" se deve a razões
o elemento-alvo tem uma função equivalente à do original, quanto
meto do lógicas. Apesar de enfatizar que não se deve definir como naqueles em que esse elemento não tem essa função, sem se levarem
"postulado de equivalência incondicional", ou seja, que não se tra- em conta, portanto, as funções e as relações funcionais. Os "equiva-
taria do "termo teórico", Toury considera a "equivalência máxi- lentes de estoque" deveriam ser considerados, principalmente, como
ma" como "o início da reflexão (ou da reconstrução) das relações os elementos que estabelecem uma relação formal com os elementos
correspondentes da fonte ... Assim, uma taxa elevada de "equivalen-
textuais e lingüísticas do TF no TA, ou seja, o resultado da subordi-
tes de estoque" em certa tradução pode ser vista como indicação for-
nação total no movimento para a adequação tradutória" (p.69). te da dominância da tendência ao emprego de equivalentes formais e
Trata-se, portanto, do "invariante de comparação", do "construto de uma relação formal com o TF. (1980, p.l0S)
que serve como hipótese de trabalho" para a análise. A diferença
entre o "equivalente máximo" e o "equivalente teórico" restringe-se, Parece difícil abordar a questão do "equivalente de estoque",
portanto, ao plano conceitual: enquanto não se entende o primei- um item que não teria a função do elemento que está substituindo,
ro como condição necessária para se definir um texto como tradu- sem se reportar ao construto teórico, porque a noção remete dire-
ção, o segundo seria um "requisito prescritivo". tamente a uma função que um determinado item desempenha no
Em outras palavras, a "equivalência teórica" se conserva no texto de partida. Só seria possível determinar essa função, no mo-
modelo, mas se altera seu status em relação às abordagens tradicio- delo proposto, por meio do invariante de cornparaçâo, ou seja, do
nais: não é a que se exige que uma tradução exiba. O uso que construto hipotético baseado no texto original. O exemplo que
T oury faz do conceito, entretanto, abrange relações abstratas, co- Toury fornece deixa isso claro: em uma tradução de Lady Chatter-
mo se verifica em vários trechos de seu trabalho, mesmo nos que ley's 10ver, a interjeição "oh" do inglês é substituída por "ho", um
tratam do método e dos resultados de análise. Um deles lembra a termo aparentemente sem sentido em hebreu, o que o transforma-
comparação, comentada no primeiro capítulo deste livro, que Ni- ria em um "equivalente de estoque" (p.IOS). Entretanto, essa de-
da faz entre a distribuição de roupas em várias malas e o arranjo terminação só pode partir do "original". Toury analisa da mesma
formal das unidades em uma tradução: "uma unidade do TF ou da maneira a linguagem coloquial presente nos textos de partida:
LF pode ser substituída por uma ou mais que uma unidade do TA
No começo do período [analisado], as soluções para essa situa-
ou da LA, e vice-versa, desde que as funções sejam equivalentes"
ção tradutória eram quase automáticas: os elementos coloquiais
(p.98). Para Nida, da mesma maneira que não interessaria saber eram omitidos ou substituídos por elementos típicos do(s) sistema(s)
em que mala estaria colocada cada peça de roupa, pois o impor- escrito(s) do hebreu. Como resultado, qualquer diferença estilística
tante seria sua chegada ao destino, não importaria determinar em obtida no TF desaparecia e não se forneciam equivalentes para as
funções textuais relacionadas tanto com a identidade dos elementos
que palavras estaria depositada a carga semântica, desde que fosse
coloquiais enquanto itens do sistema coloquial do SF [sistema fonte],
transportada em perfeito estado. Analogamente, para Toury, não
quanto com as transições de um nível estilístico para outro. (1980,
importaria a distribuição das unidades, mas a equivalência de fun- p.128-9)
ção. O autor trata de modo profundamente abstrato essa questão.
No trecho a seguir, por exemplo, não se percebe se se trata da Esse trecho, além de remeter a um conceito abstrato de equi-
equivalência teórica ou da descritiva: valência, indica que o texto de partida é um ponto fundamental na
148 CRISTINA CARNEIRO RODRIGUES TRADUÇÃO E DIFERENÇA 149

análise. Em outras partes de seu livro, também fica evidente essa equivalência de tradução (ou de equivalência de tradução como
remissão à origem: fenômeno empírico) se equipara ao estudo de sua posição inter-
mediária entre a adequação absoluta ... e a absoluta aceitabilida-
A única conclusão direta a que se chega é que os conceitos de de" (p.75).
tradução e de equivalência de tradução expressos por eles [os textos
Essa definição e as relações circulares descritas conduzem a
do corpus] não são congruentes com o construto hipotético de tradu-
ção adequada ... Além disso, esse tipo de equivalência funcional é outra questão, que envolve os conceitos de "unidade de substân-
apenas parcial, tanto em termos de sua distribuição global nos textos cia" e "unidade funcional", e que me leva a discutir se, no trabalho
quanto em termos das funções lingüísticas. (p.136) de Toury, o texto-alvo é efetivamente o objeto central da compa-
ração. Quando examinei as noções de "transferência" e "invarian-
Os trechos citados mostram submissão à origem e tornam cla- te", já' tinha levantado o problema. Aqui faço uma análise mais de-
ro que há todo um círculo de relações entre os conceitos trabalha- talhada, iniciando com a afirmação de Toury de que as relações
dos por T0l!!Y. Em princípio, para o autor, a tradução envolve, e entre o original e a tradução são "fatos observáveis" e "realizações
reflete a tensão_entre dois fatores incompatíveis: por um lado, há a de um 'estoque' de opções" (1980, p.46). Partindo do pressuposto
ne~~ssidade de se estabelecerem relações entre o tex;--Jvo ;0, de que as traduções reais são atualizações de possibilidades, o au-
tex!.o-f<?pte sob certas condições de invariância, o que geraria o fa- tor distingue as "relações exigidas" (equivalentes postulados) das
tor adequação; por outro, é preciso formular um texto ,na Iín- "existentes" (equivalentes encontrados nos textos) e das "possí-
gua-alvo, o que daria origem ao fator aceitabilidade. Assim, Toury veis" (p.46). Essas últimas consistem em "todas as relações po-
julga que toda tradução ocupa certa posição tanto em relação à tenciais entre dois textos em duas línguas naturais diferentes,
adequação quanto à aceitabilidade e "exibe alguma mistura desses pertencentes a sistemas literários diferentes", e poderiam ser des-
dois ~xtremos" (p.29). Não se pode, entretanto, presumir anteci- critas de acordo com as seguintes oposições básicas:
padamente qual é essa posição; deve-se estabelecê-Ia durante o
"estudo do desempenho real da tradução" (p.29). Como Toury 1. a possibilidade de enfocatem ou as unidades de substância ou as
não concebe que uma tradução possa ser inteiramente "aceitável", unidades funcionais (ou seja, unidades de substância mais suas funções):
porque mantém algum tipo de vínculo com o "pólo de adequação equivalência "formal" x funcional, ao nívellingüístico ou textual;
estrangeiro", nem que possa ser totalmente "adequada", pois se 2. a possibilidade de escolherem, na língua-alvo ou na tradição
constrói para outro público receptor, é a análise, ou a comparação literária-alvo, itens e padrões que tenham vários graus e modos de
entre texto-alvo e texto-fonte, que irá "determinar sua [da tradu- "existência" em seu respectivo sistema, até o ponto da pura inven-
ção 1 verdadeira posição entre os dois pólos, ou a combinação des- ção: equivalentes existentes x não existentes (ad hoc);
ses dois extremos (ou compromisso entre eles)" (p.49). Ora, para 3. a possibilidade de fazerem considerações a priori ou genuínas,
que se determine, comparativamente, a posição que uma tradução estáticas ou "dinâmicas", sobre o texto-fonte ou a língua-fonte. (p.46)
ocupa entre esses dois pólos, o parâmetro será o "conceito inter-
mediário", definido como o "invariante de comparação", ou ter- A primeira dessas relações implica nivelar forma e substância e
tium comparationis; este, por sua vez, fundamenta-se na noção de opô-Ias à função. Esse movimento significa atribuir às estruturas das
"equivalente de tradução", que se empregará como base tanto pa- línguas as características de universalidade, de fechamento e de
ra identificar os deslocamentos reais do texto-alvo em relação ao imobilidade, na medida em que Toury afirma que os elementos de
"invariante de comparação" quanto para explicar as causas desses língua (forma) são representações de substância invariantes e subja-
deslocamentos. Ou seja, "o estudo das manifestações reais de centes, o que implica excluir desse nível as relações diferenciais.
150 CRISTINA CARNEIRO RODRIGUES TRADUÇÃO E DIFERENÇA 151

Pressupõe até mesmo a universalidade em nível textual, como se vê o texto traduzido carregue todas as características desse ideal.
no texto abaixo: Além dos trechos já citados, outros podem corroborar a afirmação
de que seu trabalho se baseia na idealização do texto de partida. A
A primeira oposição básica a ser assumida será a que subjaz às citação abaixo, por exemplo, foi retirada do trecho em que o autor
relações tradutórias, derivada das propriedades inerentes, universais descreve e justifica seus procedimentos de análise:
de cada língua natural em cada um de seus níveis, até mesmo no nível
textual, e enfoca o próprio ato de transferência de um TF codificado Por razões de economia de esforços, se não por outra razão, pa-
em LF, para um TA codificado em LA. Essa é a oposição entre subs- rece melhor iniciar detectando-se os desvios (ou "deslocamentos")
tância material e elemento funcional. (p.95) da adequação (uma reconstrução máxima das relações textuais do TF
no TA, ou seja, as relações tradutórias máximas no nível funcional do
texto) e, então, examiná-los e ponderá-los em relação ao modo e grau
Ao fazer uma "apresentação esquemática da língua", o autor
de sua aceitabilidade no sistema-alvo. (p.lOS)
coloca que "a substância de uma língua natural consiste em meios
lingüísticas (MLs), tanto no aspecto fundamental, a manifestação O que denomina "reconstrução máxima" se equipara à "tra-
oral, quanto no secundário, a manifestação escrita" (p.95). Esses dução máxima", ou seja, trata-se de um "equivalente" definido a
"meios lingüísticos" poderiam "adquirir alguma função habitual,
priori, baseado no texto de partida, antes de qualquer análise do
institucionalizada, em seu sistema lingüístico respectivo" (p.95).
texto traduzido. Além disso, a fundamentação que Toury dá para
Com essas palavras, Toury dá a entender que os elementos de a comparação entre textos mostra que o "invariante", ou tertium
substância material ("meios lingüísticos", ML, e "meios textuais", comparationis, se relaciona intimamente ao texto de partida:
MT) estejam "disponíveis anterior e independentemente da análi-
se de um dado sistema, lingüístico (no caso do ML) ou textual (no Esse tipo de comparação [entre TA e TF] pertence a um subgrupo
caso do MT)" (p.96). Por outro lado, apenas se definiriam as uni- especial da categoria geral "comparação", em virtude de, pelo me-
dades funcionais por meio da análise de um dado sistema. Essas nos, duas propriedades:
colocações levam a concluir que Toury postula a existência de
(a) o postulado da equivalência. Enquanto em qualquer outra
uma substância que se relacionaria com o aspecto formal e seria comparação, a questão colocada é "se os objetos comparados mos-
universal, fora e acima de cada língua, e que se realizaria com dife- tram alguma equivalência (em relação ao aspecto x)", aqui, por defi-
rentes funções em cada sistema lingüístico. O "invariante" e a nição, existe o equivalente e a questão colocada é "qual é o tipo e/ou
"tradução máxima" postulados estariam nesse nível, seriam com- o grau de equivalência que os textos comparados mostram".
parados com as traduções reais para, então, se determinarem os (b) a diferença de status entre os objetos comparados. Enquanto
uma comparação comum envolve objetos de um único e mesmo sta-
desvios ou deslocamentos (shifts) que teriam sofrido, ou quais teriam
tus ontológico ou, pelo menos, a questão do status não é relevante,
sido os equivalentes encontrados nos textos, e se eles seriam "for- no caso da tradução, um dos dois textos tem status primário e o ou-
mais" ou "funcionais". tro, status secundário. O status do TF é primário em relação ao TA,
Nesse quadro, o centro das relações que Toury analisa deixa tanto cronológica (prioridade na dimensão temporal) quanto logica-
de ser o texto traduzido, "em sua materialidade", e passa a ser uma mente (textos independentes x dependentes, original x derivado), e
essa diferença não pode, de modo algum, ser negligenciada. Como
idealização do texto original, ou seja, o "invariante de compara-
resultado, enquanto uma comparação comum poderia (ou deveria)
ção" (ou "tertium comparationis"). Isso significa que, quanto a es- ser vista como uma operação bilateral que estabelece relações mútuas
se ponto, a proposta de Toury em nada difere da tradição. A dife- (ou seja, Xl está para X2 em relação a y assim como X2 está para x, em
rença reside no fato de aceitar os "deslocamentos" como relação ao mesmo y), a comparação entre TA e TF é unilateral e irre-
traduções possíveis, ou seja, não exigir como condição a priori que versível. Segue-se que o invariante que serve como tertium compara-
152 CRISTINA CARNEIRO RODRIGUES TRADUÇÃO E DIFERENÇA 153

tionis em uma comparação desse tipo deveria ser baseado no TF. rem principalmente o processo de tradução. Para o autor, a ênfase
(p.113)10 nesses tópicos faz que essas abordagens não levem em conta as coer-
ções geradas pelo pólo-alvo e, conseqüentemente, não se interes-
A última frase dessa citação fecha o círculo das relações em sem pelos fatores que determinam a produção das traduções.
torno do texto original, não em torno do texto traduzido. Sendo o De acordo com Toury (1980), as abordagens existentes "não
conceito de "traduzibilidade máxima" inevitavelmente associado só incluem uma noção de traduzibilidade, corno realmente redu-
ao de substância, infere-se que o texto tomado como base para zeriia 'tradução' à 'traduzibilidade"', não considerando outros fa-
análise estaria fora do sistema de relações, ou seja, que transcende- tores quet'desernpenharn um papel tanto na formação e na {ormy-
ria a esse sistema, representando a leitura "verdadeira" da "essên-
lação de textos traduzidos, quanto em sua aceitação enquanto
cia" do texto, fora do jogo da linguagem, porque remeteria a uma traduções em contextos culturais e lingüísticos específicos" (p.26).
substância a ela anterior. Isso significa dizer que Toury pressupõe
Além A~sso ':'~~ E:0ç<?e~não passam.de versões restritas de. um
a existência de um nível que não estaria sujeito a nenhuma interfe- conceito gera! de traduzibilidade, porque sempre postulam que al-
rência externa, por parte dos usuários da linguagem. Envolve tam- gumas condições de adequação específicas são as únicas correta~"
bém supor que há uma "leitura correta" de cada texto, pressupos- (p.26). Isso as tornaria não só preditivas, mas tambémprescritivas.
to que o autor compartilha com os teóricos tradicionais. Há, Em outras palavras, Toury julga que essas teorias identificam ou
entretanto, uma diferença: enquanto tradicionalmente se exigia reduzem a tradução à "tradução" que consideram a "correta", se-
que o tradutor fizesse a "leitura correta" e que a transferisse para gundo as condições estabelecidas a priori e definidas pelo texto ou
outra língua, Toury não espera que as traduções se amoldem a esse pela cultura produtora do texto. A "correção" seria por elas con-
construto ideal.
cebida como uma realização do construto da traduzibilidade, en-
quanto Toury pensa que essa seria apenas uma das possibilidades
de tradução, dentro de um sistema potencial, mas não necessaria-
As limitações do alcance da crítica feita por
mente uma possibilidade concretizada.
Toury às teorias da tradução
Por essa razão, Tourydescarta as "teorias da traduzibilidade"
Levantei, com a análise da proposta de Toury feita nos dois como base única para o "estudo da tradução como um fenômeno
itens anteriores, alguns pontos em que ela se mostra bastante pró- empírico, comportamental, que pode ou não se conformar com
xima ao pensamento tradicional sobre tradução, especialmente quaisquer normas postuladas", que pretende desenvolver (p.27).
quanto à noção de "invariante de comparação", o construto hipo- Na medida em que afirma que a "tradução real, como o próprio
tético que serviria como base para a análise das traduções. Neste uso da linguagem, é comportamento de seres humanos comuns
item, argumento que sua proposta não se opõe aos. fundamçntos (de tipo bilíngüe) e não um construto criado ou ditado por teóri-
dessas abordagens, apesar de criticá-Ias. As principais críticas que cos", e que "serve a vários fins e assume várias formas", não have-
o autor explicita dirigem-se ao fato de serem unidirecionais, to- ria sempre uma mesma relação entre o texto-alvo e o texto-fonte
mando como base o texto de partida; de serem normativas; de se (p.27). Além disso, pensa que as relações efetivas entre os textos
ocuparem eminentemente com a tradução potencial ou com a tra- não correspondem necessariamente às relações postuladas pelas
duzibilidade; de não explicarem o produto traduzido e de enfoca- teorias da traduzibilidade.
Entretanto, essas críticas à noção de traduzibilidade devem ser
10 O argumento da irreversibilidade é também utilizado par Toury para não ad-
relativizadãs com bmnãs análises que apresentei nos itens an;erio-
mitir a retroversão ["back translation"] (1980, p.47). res, poisa proposta de Toury também envolve a reconstrução hi-
154 CRISTINA CARNEIRO RODRIGUES TRADUÇÃO E DIFERENÇA 155

potética do texto de partida como centro do estudo das relações ção [do texto original], poderíamos dizer que ela impede o tratamen-
que se estabelecem entre texto original e texto traduzido. As "rela- to da dimensão política da tradução ... Ora, a eliminação da cultura e
ções postuladas" pelas abordagens criticadas correspondem ao do texto originário inviabiliza o exame dessas hierarquias de poder.
Em última instância, questiona-se a validade de uma teoria geral da
"equivalente teórico", ou seja, ao construto da "tradução máxi-
tradução, que é o objetivo perseguido por Toury. (1992, p.127-8)
ma", tomado como "invariante" para a comparação entre o texto
original e a tradução. Entretanto, há uma certa diferença, quanto à Vieira está considerando que a proposta de T oury efetiva-
orientação, entre o trabalho "descritivo" proposto e os "prescriti- mente promove o deslocamento de um pólo a outro, Mas, corno
vos": Toury não espera que a tradução se amolde ao construto argumenteíiíõítem a~teri-;r, o a}!tor não elimina realmente o
ideal nem só cl;ssifica- cômo "tradução" o que d~le se aproxima.
, __ ~ ·u·,,- __
"texto-fonte", na medida em que o toma como base para o estabe-
Como o autor salienta, não se faz uma análise comparativa em ter- lecimento das relaçõesentre.os textos.
mos "negativos e finais" que visam estabelecer o que as traduções
Entretanto, o modelo prevê uma investigação direcionada pa-
não são, não conseguem ser ou deixam de ser, sempre de acordo ra explicar apenas dois c-;;-nj;ntãs de relações: a que se estabelece
com os parâmetros ditados inicialmente. Para Toury, sua proposta
"entre c texto-alvo e o text~-fonte" e aquela "entre o texto-alvo e
permitiria uma discussão positiva sobre o processo que gerou uma
a língua-alvo e/ou entre o texto-alvo e o sistema textual-alvo"
tradução, ou sobre seu modo de existência no "pólo-alvo". Isso
(p.29). O objetivo da proposta é, portanto, buscar quais foram as
não significa, entretanto, que haja o deslocamento radical asseve-
coerções do sistema-alvo que geraram os "desvios" ou "desloca-
rado pelo autor, que envolveria a passagem de questões de gênese
mentes" em relação ao original. Não há abertura para outras refle-
e de relações entre um texto derivado e um inicial, de uma investi-
xões, especialmente sobre as que se relacionam com a característica
gação de formas, para uma análise funcional de traduções efetiva-
ambivalente da tradução: ser uma visão de uma cultura ou comuni-
mente produzidas, pois sua proposta também postula uma origem
dade produzida por alguém pertencente a outra cultura e a outra
fixa, a partir da qual vai identificar os "deslocamentos", para che-
comunidade.
gar às normas que teriam orientado a construção do texto.
A escolha do texto traduzido como objeto de análise resulta
Quanto à crítica à unidirecionalidade das teorias, a ênfase que de outra das críticas de Toury: a que dirige contra as teorias que
T oury dá ao seu enfoque exclusivamente no pólo receptor - o que centralizam seus estudes noprocessojradutório, ou em uma visão
efetivamente não ocorre, como expus no item anterior - pode tam- idealizada desse processo, O autor julga que só por meio da análise
bém ser vista como um enfoque unidirecional, reverso, e dar mar- comparativa entre "texto-alvo e texto-fonte", precedida pelo "es-
gem ao mesmo gênero de crítica que faz. Como exemplo, cito Viei- tabelecimento de sua [dos textos em língua-alvo] posição no siste-
ra que, no item de sua tese denominado "A tradução centrada no ma-alvo, é possível reconstruir o real processo gerativo da tradu-
pólo receptor: Toury", questiona a pertinência da abordagem, to- ção estudada", pois "o processo dificilmente seria acessível por
mando como principal argumento a questão da unidirecionalidade: um método diferente dessa reconstrução que tem como base o
produto" (p.30). Verifica-se que estão em jogo dois conceitos dife-
A postura radical de que as traduções são fatos apenas do siste- rentes de "processo". Por um lado, "processo" remete à reflexão
ma receptor também é problemática: tomada literalmente, essa pos- sobre qual é a natureza da atividade tradutória, seus mecanismos
tura acarretaria a eliminação da fonte ... Parece-me que uma coloca-
gerais de produção, mas esse sentido não parece ser o que Toury
ção menos radical daria maior flexibilidade à teoria de Toury, por
exemplo, se ele sugerisse a inversão da posição de vantagem, o que adota, tendo em vista que, se fosse o caso, não colocaria a absoluta
possibilitaria o exame das traduções também sob a perspectiva da necessidade de um estudo baseado em dados. Assim, o autor pare-
cultura receptora ... Ainda com relação a essa problemática elimina- ce empregar "processo" apenas quando busca conhecer a constitui-
156 CRISTINA CARNEIRO RODRIGUES TRADUÇÃO E DIFERENÇA 157

ção de uma determinada tradução, ou as coerções que agiram sobre levaria ao conhecimento das circunstâncias e condições em que se
um produto específico, o que acabaria por levar a generalizações e a criaram os fenômenos empíricos (p.80).
uma "teoria geral" da tradução. O projeto de comparações sistemá- A teoria deveria, portanto, oferecer o aparato teórico para a
ticas é, portanto, monumental - e infindável; supostamente cada descrição do córpus e chegar às normas que- regeram sua produ-
estudo traria uma nova contribuição que, somando-se aos resulta- ção. De acõrdo~om Toury, um quadro que descreva total e siste-
dos das anteriores, levaria ao total conhecimento sobre o assunto. máticainente as relações possíveis entre texto-alvo e texto-fonte
Toury lamenta que não haja "quadro teórico para a discussão e "pode possibilitar a explicação e a identificação de noções como
descrição de todos os fenômenos que ocorrem, ou que podem 'tradução literal', 'tradução interlinear', 'tradução palavra por pa-
ocorrer em tradução" e mostra buscar essa completude ao tentar lavra', 'adaptação', 'reprodução do espírito do original' ou 'adi-
construir um modelo que preencha essa lacuna (p.91). Nesse sen- ção', 'omissão' e 'tradução incorreta' [mistranslation)" (p.92). A
tido, coloca-se no mesmo plano de teorias, coma a de Catford, metodologia que propõe é bastante detalhada e indica que se deve
que têm coma objetivo o controle total sobre o processo tradu- iniciar o trabalho pela detecção dos "desvios", ou "deslocamen-
tório. tos", em relação à "adequação", ou à "traduzibilidade máxima".
A proposta de Toury envolve também o pressuposto da objeti- T oury propõe também "uma ordem de procedimentos de desco-
vidade do pesquisador, pois nem prevê a põ7sihllidade de que dois berta", que evitaria "o risco de a comparação entre o TA e o TF ter-
diferentes analistas poderiam descrever diferentes relações gara minar antes que se tenham descoberto todas as relações, especial-
um ~esmo corpus. Ao contrário, o autor _esp~a que os estudos ment~ as 'mais altas', ou seja, as mais essenciais do ponto de vista
descritivas sejam sistemáticos, providos de metodalogia e de ro- da reconstrução do TF" (p.I08-9). Depois da identificação das re-
cedimentos de pesquisa explícitos e que "apresentem, de modo in- lações entre as unidades da tradução e as do texto-fonte, esten-
tersubjetivo e significante da ponto de vista das estudos sobre tra- dem-se os resultados ao texto como um todo, o que leva ao estabe-
dução, as descobertas de cada estudo de campo realizada de lecimento das normas que governaram a produção da tradução
acordo com seu quadra teórica, e que tornem os estudos reprodu- analisada. Essas normas levam o analista a determinar qual foi o
tíveis no mesma, au em outro corpus" (p.8I). Espera-se que as conceito de tradução e de equivalência da tradução do(s) texto(s)
pesquisadores façam "análises textêmicas" que as levariam aos analisado(s).
mesmos resultadas, sem envolver a interpretação do analista. O projeto de T oury não se diferencia de propostas teóricas
O modelo de análise que Toury propõe é estrutural funda- e
anteriores, como a ele Nída a de Catfo~dLquanto à tentativa de, se
mentada na descoberta de oposições básicas que serviriam corno apr~sentar como o mais geral e abrangente possível. Busca, como
"traços distintivos" para explicar a relação entre um problema tra- aqueles autores, atingir o nível máximo de conhecimento dos prg-
dutório e sua solução. Seu oEjetivo é saber como.as traduções cessos tradutórios. As abordagens envolvem, entretanto, concei-
"fu11:.ciptJf1mpara satisfazer certas necessidades do pólo receptor e tos de norma bastante diferentes. Para as teorias tradicionais, os
como essas necessidades e funções contribuem para, ou mesmo estudos devem descobrir as normas de tradução que devem ser se-
condicionarn, seu moda de produção e - acima de tudo - sua signi- guidas, enquanto T oury pretende revelar as normas que são segui-
ficação" (p.16). Para tal, o autor tenta fornecer um componente das. ~Essa diferença tem alcance limitado, pois não implica uma
teórico que permita uma "descrição sistemática e exaustiva e a ex- mudança radical em relação aos projetos anteriores, na medida em
plicação para todo fenômeno dentro do domínio", ou seja, que que o parâmetro para a análise permanece o mesmo: uma visão
possibilite "a geração de todos esses fenômenos e nenhum a eles idealizada do "texto-fonte" que, nas teorias tradicionais seria o
'alheio'" (p.19). A "representação superficial", a texto traduzido, "equivalente de tradução" e, na proposta de Toury, o "invariante
158 CRISTINA CARNEIRO RODRIGUES TRADUÇÃO E DIFERENÇA 159

de comparação". O que se altera é o resultado -9~ pretende ra. Essa "oposição básica" derivaria do fato de Dão considerar que
atingir: enquanto teorias como a de Catford buscam_regras para a literariedade seja inerente ao texto, mas "uma instituição cultu-
reproduzir os textos originais, Toury oferece uma proposta que ral: em toda cultura, certos fenômenos (modelos, técnicas, traços
tem como objetivo analisar como se obtiveram as traduções, quais e .: por extensão - textos) funcionam como, em vez de serem lite-
as "normas" que foram efetivamente seguidas. rários" (1989, p.103).
Essas colocações são os pontos que efetivamente marcam uma
diferença entre a proposta de Toury e outras abordagens de siste-
o lugar em que Toury situa os estudos matização. O autor não concebe a literariedade como uma catego-
ria e~tética fixa;- nem pensa que a tradução de um texto literário
descritivos da tradução
necessariamente será aceita como literatura no contexto que a re-
De acordo com o exposto nos itens anteriores, Toury busca cebe. Além disso, ele não define que os Estudos da Tradução cons-
construir os fundamentos de uma ciência que estude, descrrti~~- tituarn-se uma ramificação de outra área do conhecimento.
rnente;a tradução literária. O autor deixa implícito que "os estudos
descritivos da tradução" seriam área interdisciplinar, na medida
em que a análise que propõe inclui a descrição contrastiva das lín- OS ESTUDOS DA TRADUÇÃO COMO PROLONGAMENTO
guas envolvidas. Não busca, entretanto, uma teoria contrastiva da DO PENSAMENTO TRADICIONAL SOBRE A TRADUÇÃO
tradução, nem uma teoria lingüística. Pelo contrário, afirma que
uma teoria lingüística da tradução "pode ser de algum uso em ter- A análise dos trabalhos de Lefevere e de T oury feita neste ca-
mos de descrição, de menor uso em termos de explicação, de quase pítulo mostrou que eles seguem caminhos que abrem os estudos de
nenhuma ;tilidade em termos de qualquer predição verdadeira" tradução para discussões que as propostas anteriores não trata-
(1989, p.104). Toury (1980) salienta que a tradução não envolve ram. Como exemplo de temas não abordados e que passam a ser
apenas o sistema lingüístico, por isso busca trabalhar em um nível sistematicamente discutidos na área, pode-se citar a questão da in-
intermediário, entre a competência "objetiva" e o desempenho fluência da patronagem sobre a tradução, ou seja, do poder exerci-
"subjetivo". Esse seria o domínio do intersubjetivo, das "normas"; do por aqueles que determinam desde a escolha do que se vai tra-
em seu caso, das normas da tradução literária. Para o autor, por- duzir até o direcionamento de sua produção. Inclui-se, como
tanto, os Estudos da Tradução têm como objetivo buscar a regula- componente dos estudos, com base no trabalho desses autores, a
ridade de comportamento na tradução literária. própria reflexão sobre os limites entre o que é e o que deixa de ser
T oury afirma que os mecanismos com que lida não fazem par- tradução, que envolve o objeto de pesquisa na área. Anteriormen-
te apenas da tradução literária, mas da tradução em geral enquan- te, via-se como improdutivo para os estudos da tradução muito
to atividade e produto semiótico, mas não especifica a dife~ça material, rotulado como imitação, adaptação, crítica, mas o traba-
entre tradução "comum" e "literária" (1980, p.7). Em "Well, what lho de Lefevere, de Toury e de outros pesquisadores abrem a área
about a linguistic theory of literary translation?", afirma que "a para o estudo de outros tipos de corpora que mantêm relações
'tradução literária' pode parecer formar uma subclasse da catego- com a tradução. É o caso da crítica, das obras de referência, do tra-
ria geral da 'tradução'", e opõe o termo "tradução 'literária'" a balho de edição de textos, de antologias que, como argumenta Le-
"tradução literária". O primeiro remete às traduções de textos fevere (1992b), são produtos históricos, ideológicos e sociais, da
considerados literários na cultura produtora; as "traduções literá- mesma maneira que a tradução. Os trabalhos dos dois autores en-
rias" seriam aquelas que a cultura receptora aceita como literatu- fatizam também a estreita ligação entre cultura e literatura, mos-
160 CRISTINA CARNEIRO RODRIGUES TRADUÇÃO E DIFERENÇA 161

trando que a tradução é um dos fatores que impulsionam mudan- da tradução literária como parte de um campo que estudaria todos
ças culturais e literárias. A própria maneira pela qual enfocam a os tipos de tradução, o enfoque dado por Lefevere acaba por re-
literatura, como instituição social e sujeita a coerções econômicas meter a dois campos distintos, um que incluiria a Literatura Com-
e ideológicas, não como uma categoria artística abstrata, universal parada e outro que se dedicaria aos estudos de traduções não lite-
e estática, pode explicar por que alguns autores são aceitos em um rárias. Essa é uma subdivisão tradicional, desnecessária, porque,
período, mas não em outros, o que ocorre também com as tradu- uma vez que se defina a tradução e se explique quais os fatores que
ções. A introdução dessas questões nos estudos da tradução leva à influenciam o processo, todas as traduções estariam sujeitas, em
percepção de um jogo de inter-relações entre tradução e escritura, maior ou menor grau, dependendo das circunstâncias, ao mesmo
que era desprezado pelos pesquisadores da área. gênero de coerção. Dessa maneira, a escritura e a reescritura pode-
A crítica que Lefevere e T oury fazem à unidirecionalidade de riam se analisar em um mesmo plano geral.
trabalhos anteriores desperta interesse pelo estudo da recepção Tanto Lefevere quanto Toury salientam que não têm como
dos textos e pelo conhecimento de como as traduções funcionam objetivo prescrever normas para a tradução, nem procurar erros,
na cultura e na literatura receptora. Esses autores enfatizam que mas buscar descrever o comportamento regular dos tradutores.
não se pode denominar "tradução" apenas o material que exiba No entanto, ambos partem de uma suposta leitura "correta" do
um certo tipo de correspondência com o texto de partida e salien- texto, usada como parâmetro para se verificar, na tradução, quais
tam que a equivalência entre o texto de partida e o de chegada, co- os deslocamentos e os desvios em relação a essa leitura. Com esses
mo concebida por Nida ou por Catford, não é o que caracteriza a procedimentos se detectariam as "normas" de tradução (Toury),
tradução, nem é o que dela se deve esperar. ou' as "estratégias" adota das pelos tradutores (Lefevere). Ambos
Essas propostas também abrem novas perspectivas em relação consideram, portanto, a possibilidade da "equivalência", enquan-
à análise da tradução literária, ao mostrarem que os estudos da tra- to construto a priori - a leitura "correta" do texto -, já que é dela
dução devem ter alguma orientação teórica. Em suas obras, Lefe- que partem para a análise de traduções. Nesse sentido, apresen-
vere e Toury evidenciam que o trabalho nesse campo não é mera ta-se um problema interno às teorias, pois empregam como ponto
questão de opinião ou gosto pessoal, nem o estudo envolve pinçar de partida o elemento que relativizam. Em outras palavras, as duas
erros ou tropeços de tradutores. Subjacente aos trabalhos de propostas salientam a historicidade da tradução, mas partem de lei-
T oury e de Lefevere, está a noção de que os tradutores não traba- turas pretensamente a-históricas em seu exame de textos.
lham alheios a uma teoria, pois ambos apontam para "normas" e Especificamente, o trabalho de Toury apresenta como maio-
"estratégias" adotadas pelos tradutores. Além disso, abrem a pos- res problemas a proposta do "invariante de comparação" e a ne-
sibilidade de reflexão sobre questões mais amplas, especialmente as cessidade de determinação de regras "obrigatórias" em oposição
que relacionam a aceitação das traduções à sociedade e à ideologia. às "opcionais" para a pesquisa. O de Lefevere (1992a) traz à tona a
Entretanto, apesar de os dois autores propalarem seu rompi- velha questão de que a tradução nunca consegue reproduzir as es-
mento com o "pensamento tradicional sobre tradução" (Lefevere, tratégias do original. Assim, por um lado, suas propostas tentam
1983, p.190), os argumentos expostos neste capítulo levam à con- desfazer a imagem de que traduzir é destruir, corromper, mas, por
clusão de que seus trabalhos não se opõem radicalmente aos estu- outro, subjaz a elas a idéia de que a tradução é um desvio ou um
dos analisados no primeiro capítulo desta obra, já que diversos deslocamento em relação a um "equivalente" possível.
pressupostos são compartilhados. Esse ponto é comum a ambas as
propostas, assim como a colocação dos Estudos da Tradução co-
mo área independente. Mas, enquanto Toury considera o estudo