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PANORAMA
Mutação 1 Origem da variabilidade genética
necessária para a evolução
Base molecular da mutação
Xeroderma pigmentosum 1
Mutação 1 Características básicas do processo
defeito do reparo do DNA
Mutação 1 Efeitos fenotípicos
danificado em seres humanos
Localização das mutações nos genes pelo
O sol brilhava intensamente em um dia de verão; para a teste de complementação
maioria das crianças, dia perfeito para ir à praia. Todos os
amigos de Nathan vestiam shorts ou roupa de banho. Prepa- Avaliação da mutagenicidade de substâncias
rando-se para encontrar os amigos, Nathan vestiu calças de
químicas 1 Teste de Ames
moletom e uma camisa de mangas compridas. Em seguida, Mecanismos de reparo do DNA
pôs um chapéu de abas largas e aplicou uma camada ge-
Doenças humanas hereditárias com defeitos
nerosa de filtro solar sobre as mãos e o rosto. Enquanto os
no reparo do DNA
amigos brincavam sob a luz do sol, Nathan tinha medo dos
efeitos da luz solar. Nathan nasceu com o distúrbio hereditá- Mecanismos de recombinação do DNA
rio xeroderma pigmentosum, um traço autossômico recessivo
que afeta cerca de 1 em cada 250.000 crianças. As células cutâneas
de Nathan são extremamente sensíveis à radiação ultravioleta - os Quando detectados, esses defeitos são corrigidos por um pequeno
raios de alta energia da luz solar. A luz ultravioleta causa alterações arsenal de enzimas de reparo do DNA, tendo cada uma delas se
químicas no DNA das células cutâneas de Nathan, alterações que desenvolvido para combater um tipo específico de dano. Neste
provocam não só 0 surgimento de muitas efélides, mas também de capítulo, examinaremos os tipos de alterações ocorridas no DNA,
câncer de pele. os processos de correção dessas alterações e os processos rela-
Os amigos de Nathan não se importavam em brincar ao sol; cionados de recombinação entre moléculas de DNA homólogas.
as queimaduras eram a ún ica grande preocupação. Suas células
cutâneas contêm enzimas que corrigem as alterações do DNA de-
correntes da exposição à luz ultravioleta. Mas as células cutâneas
de Nathan não têm uma das enzimas necessárias para reparar es-
sas alterações da estrutura do DNA induzidas pela luz ultravioleta.
O xeroderma pigmentos um é causado por mutações homozigotas
com perda de função em qualquer um entre nove genes autos-
sômicos diferentes. Além disso, outros distúrbios hereditários são
causados pela ausência de reparo do DNA lesado por outros agen-
tes físicos e químicos. As consequências possivelmente letais des-
ses defeitos hered itários das enzimas de reparo do DNA enfatizam
sobremaneira sua importância.
Diante do papel essencial do DNA nos seres vivos, a evolução
de mecan ismos para proteger sua integridade parece inevitável.
Crianças brincando ao ar livre. O menino de roupa branca que cobre
Na verdade, enquanto apresentamos este capítulo, mu itas en- todo o corpo tem xeroderma pigmentosum, distúrbio autossômico
zimas existentes nas células vivas examinam constantemente o recessivo caracterizado por sensibilidade aguda à luz solar. Ele precisa
DNA à procura de danos ou erros de pareamento dos nucleotíd ios. se proteger da luz solar para evitar o câncer de pele.
324 Fundamentos de Genética

Mutação 1 Origem da variabilidade genética


necessária P-ara a evolu ão
As mutações - alterações hereditárias do material gené- ro e da estrutura dos cromossomos (Capítulo 6), além
tico - propiciam a nova variação genética que permite a de modificações nas estruturas de genes individuais. As
mutações com modificação de sítios específicos de um
evolução dos organismos.
gene são mutações pontuais. Elas incluem a substituição de
Aprendemos nos capítulos anteriores que a herança de- um par de bases por outro ou a inserção ou deleção de
pende de genes transmitidos dos pais para os filhos du- um ou mais pares de nucleotídios em um sítio específico
rante a reprodução e que os genes armazenam informa- de um gene. Na atualidade, o termo mutação às vezes é
ções codificadas nas sequências de pares de nucleotídios usado em sentido estrito para se referir apenas às altera-
do DNA ou nos nucleotídios do RNA. Analisamos como ções na estrutura de genes. Neste capítulo, exploraremos
essas informações genéticas são duplicadas com precisão o processo de mutação segundo essa definição de sentido
durante a replicação semiconservativa do DNA. Mostra- estrito.
mos que a replicação precisa depende, em parte, das ati- A mutação é, em última análise, a origem de toda va-
vidades de revisão intrínsecas das DNA polimerases que riação genética; provê a matéria-prima para a evolução.
catalisam a síntese de DNA. Assim sendo, surgiram meca- Os mecanismos de recombinação reorganizam a varia-
nismos facilitadores da transmissão fiel das informações bilidade genética em novas combinações, e a seleção
genéticas de uma célula para outra e, em última análise, natural ou artificial preserva as combinações mais bem
de uma geração para outra. Todavia, o material genético adaptadas às condições ambientais existentes ou deseja-
está sujeito a erros. Essas modificações hereditárias do das pelo criador de vegetais ou animais. Se não houvesse
material genético são as mutações. mutação, todos os genes existiriam em apenas uma for-
O termo mutação refere-se tanto (1) à modificação do ma. Os alelos não existiriam, e a análise genética clássi-
material genético quanto (2) ao processo de modificação. ca seria impossível. E o mais importante, populações de
Um organismo que apresenta um novo fenótipo resul- organismos não seriam capazes de evoluir e se adaptar às
tante da uma mutação é um mutante. No sentido histórico variações ambientais. A mutação em algum nível é essen-
amplo, mutação é toda modificação súbita e hereditária
,
cial para garantir nova variabilidade genética e ensejar a
do genótipo de uma célula ou de um organismo. E pre- adaptação dos organismos a novos ambientes. Ao mesmo
ciso, porém, distinguir meticulosamente as modificações tempo, se as mutações fossem frequentes demais, pertur-
do genótipo de um organismo e, portanto, de seu fenó- bariam a fiel transferência de informações genéticas de
tipo, ocasionadas por processos de recombinação que uma geração para outra. Além disso, a maioria das muta-
criam novas combinações da variação genética preexis- ,
ções com efeitos fenotípicos facilmente detectados é pre-
tente e as modificações causadas por novas mutações. As judicial aos organismos em que ocorrem. Como era de
vezes os dois processos dão origem a novos fenótipos com se esperar, a taxa de mutação é influenciada por fatores
frequência muito baixa. As modificações do genótipo de genéticos, e surgiram mecanismos que controlam o nível
um organismo por mutação incluem variações do núme- de mutações em várias condições ambientais.

PONTOS ESSENCIAIS • As mutações são alterações hereditárias do material genético que proveem a matéria-prima para
evolução.
1

Base molecular da muta -ao


As mutações alteram de várias maneiras as sequências e Crick destacaram, que as estruturas das bases no DNA
nucleotídicas dos genes; por exemplo, a substituição de não são estáticas. Atomos de hidrogênio podem passar
de uma posição para outra em uma purina ou pirimidina
um par de bases por outro ou a deleção ou o acréscimo
- por exemplo, de um grupo amino para um nitrogênio
de um ou mais pares de bases. do anel. Essas oscilações químicas são as modificações tau-
toméricas. Embora sejam raras, as modificações tautomé-
Quando Watson e Crick descreveram a estrutura da dupla ricas podem ser muito importantes no metabolismo do
hélice de DNA e propuseram a replicação semiconservati- DNA porque algumas delas modificam o potencial de pa-
va de acordo com o pareamento de bases específico para reamento das bases. As estruturas nucleotídicas comenta-
explicar a transmissão precisa das informações genéticas das no Capítulo 9 são as formas comuns e mais estáveis,
de uma geração para outra, propuseram também um nas quais o par da adenina é sempre a timina e o par da
mecanismo para explicar a mutação espontânea. Watson guanina é sempre a citosina. Em raras ocasiões, as formas
Capítulo 13 1 Mutação, Reparo do DNA e Recombinação 325

ceto de timina e gua11i11a e as formas amino de adenina


e citosina, mais estáveis, podem sofrer modificações tau-
toméricas e se transformar, respectivamente, nas formas
enol e imino, menos estáveis (Figura 13.1 ). O esperado se- Substituições de pares de nucleotídios no
ria que as formas tautoméricas menos estáveis das bases
gene HBB humano
existissem ape11as durante curtos períodos. Co11tudo, se
a base estivesse 11a forma rara 110 momento da replica- O segundo aminoácido na [3-globina humana madura é a histidi-
ção ou da incorporação a uma cadeia nascente de DNA, na, especificada pelo códon CAU no mRNA de HBB. Consideran-
haveria mutação. Quando estão nos raros estados imino do apenas substituições de um par de nucleotídios na parte do
ou enol, as bases podem formar pares adeni11a-citosina e gene HBB que especifica a histidina na 2ª posição, quantas dife-
guani11a-timina ( Figura 13.2A). O efeito fi11al desse proces- rentes substituições de aminoácidos são possíveis? Que substi-
so, e a replicação subsequente necessária para separar o tuições de par de nucleotídios darão origem a cada substituição
.
de aminoácido? Alguma dessas substituições de aminoácidos foi
.

par de bases errado, é uma substituição de A:T por G:C


detectada em [3-globinas humanas? Alguma dessas variantes
ou de G:C por A:T ( Figura 13.28). Leia Resolva! Substitui-
tem nome? Em caso afirmativo, quais são seus nomes?
ções de pares de nucleotídios no gene HBB humano e
analise os efeitos dessas modificações na sequência nucle- ~ Leia a resposta do problema no site
otídica de um gene importante. http://gen-io.grupogen.com.br.
As mutações resultantes de modificações tautoméricas
11as bases do DNA implicam a substituição de uma purina ção de uma pirimidi11a no filamento complementar por
em um filame11to de DNA por outra puri11a e a substitui- outra pirimidina. Essas substituições de pares de bases são
as transições.As substituições de pares de bases de bases em
Comum Rara que há troca de uma purina por uma pirimidina e vice-,rer-
o OH sa são as transversões. Cada par de bases pode sofrer três
11 1
substituições - uma transição e duas transversões. Ao todo,
~e pode ha,rer quatro transições diferentes e oito transversões
H
/e""" C- CH3 ~ 4 """C - CH
1 11
~3 li 3 diferentes (Figura 13.3A). Outro tipo de mutação pontual
~C~ /CH ~C~ /CH ocorre por acréscimo ou deleção de um ou mais pares de
O N""'- , O N bases. Os acréscimos e as deleções de pares de bases nas re-
Açucar """- Acúcar
'
giões codificadoras dos genes são designados mutações por
Forma ceto Forma enol
Ti mina mudança de matriz de leitura porque alteram a matriz de leitu-
ra de todas as trincas de pares de bases (tri11ucleotídios 110
NH2 NH
DNA que especificam códons no mRNA e ami11oácidos 110
1 11
e produto gênico polipeptídico) no gene distal ao sítio em
~~""'-CH / 4 ""'-cH
1
3
11
H~3 li que ocorre a mutação (Figura 13.38).
Os três tipos de mutações po11tuais - transições, trans-
~C~ /CH ~C~ /CH
O N""'- O N versões e mutações por mudança de matriz de leitura
Açúcar """Açucar
,
- estão prese11tes e11tre as mutações espontâneas. Uma
Forma amino Forma imino proporção surpreendentemente grande das mutações
Citosina
espontâneas estudadas em procariotos são acréscimos ou
deleções de um par de bases em vez de substituições de
par de bases. Essas mutações por mudança de matriz de
leitura quase sempre acarretam a síntese de produtos gê-
nicos proteicos inativos.
Embora ainda haja muito a aprender sobre as causas,
os mecanismos moleculares e a frequência das mutações
Forma amino Forma imino espontâneas, os três principais fatores são (1) a precisão
Adenina
do mecanismo de replicação do DNA, (2) a eficiência dos
mecanismos que se desenvolveram para reparo do DNA
danificado e (3) o grau de exposição a agentes mutagê-
nicos no ambiente. Demonstrou-se que as perturbações
do aparelho de replicação do DNA ou dos sistemas de
reparo do DNA, ambos mantidos sob controle genético,
causam grandes aume11tos das taxas de mutação.
Forma ceto Forma enol
Guanina
• FIGURA 13.1 Formas tautoméricas das quatro bases comuns no -
MUTAÇOES INDUZIDAS
DNA. As transferências de átomos de hidrogênio entre a 3ª e a 4ª
posições das pirimidinas e entre a 1ª e a 6ª posições das purinas mo- Os primeiros geneticistas ide11tificaram e estudaram muitas
dificam o potencial de pareamento de bases. mutações 11aturais. No entanto, a ciência da genética modi-
326 Fundamentos de Genética

Pares de bases A:C e G:T unidos por ligações de hidrogênio formados quando a
citosina e a guanina estão em suas formas tautoméricas raras imino e enol.
Par de bases A:C raro Par de bases G:T raro
CH3
H H 1 o.
Hc~c'4c~N ·... H H Hc~c'c~ ···H
1 1 'N/ 1 1 'o
, /N, ;~H 1 , /N'-c/~ H. 1
Açucar n · . N~C'c-N~ Acucar
. 11
·.. ~e, N
N 6 e- ~
O 1 11 ~CH O.. 11 11 CH
Citosina HC~ /e- / Timina .. H.. . .___ /e~ /C-N/
(forma ceto comum) ~ N \
(forma imino rara) N A\, H Açúcar
. cucar
Ad en1na · Guanina
(forma amino comum) (forma enol rara)
A

Mecanismo pelo qual modificações tautoméricas nas bases do DNA causam mutações.
, --
5· u u a1a a1 1
)


A e 1 G1 T e T' 1
Forma tautomérica enol ··T ···
G·····
C•A·· ···
G 1po se vagem
5. 3' 1

1 Ua a a >
tT 1 '. ! : ' 1
rara de guanina (G *) Ae GTe
.. ... ... .. ...
TGTAG
... 3' 5·

li ' ' e 5, 1 U a 1 A> 3'

'
3, e 5' A e A T e
. ,- , Replicação ,
. •• ••• ••• •• • •• Mutante
5
1 U, a1a cA 3 TGTAG
A C G:T
1
•••••.••• , .. •••
do DNA 5
)Ir AC
••••• Replicação 3, ( li ' ' e e 5'
, T
T G' ? •A G ,
r • ! ,e e , T G doDNA >
3 t ~ -- 5 3 5' 1 u'ãl' A 3'
A C•G , T e
1 1
DNA parental
5' '- 1 3'
•• • •• 1 ••• , •• • ••
Tipo selvagem
1 U,a,a a T G', j .•A
i
>
(1) (2)
S· A •••••••
•• C•G ,T C
••• ••• )Ir
3' l , 1' - - 1 5'
T G C•A G 1

5' e e 5' & ;' Ãl a i/ 3·


3 l
'
'-- e
, ' 1 1

A C•G , T C
1 1

Prole da primeira Tipo selvagem


li,.,.,
•• • •• 1 ••• , •• • ••

-
geraçao
T G C•A G e
1

3' l '-- 5'


(3) Prole da segunda (4)
B geraçao-
• FIGURA 13.2 Os efeitos das modificações tautoméricas dos nucleotídios do DNA sobre o (A) pareamento de bases e (B) a mutação. Pares de
bases A:C e G:T raros, como os mostrados em (A), também se formam quando a ti mina e a adenina estão em suas formas raras enol e imino,
respectivamente. B. Uma guanina (1) sofre uma modificação tautomérica para sua forma enol rara (G*) no momento da replicação (2). Na for-
ma enol, a guanina emparelha-se com a ti mina (2). Durante a replicação subsequente (3 a 4), a guanina retorna à sua forma ceto mais estável.
A timina incorporada diante da forma enol da guanina (2) guia a incorporação da adenina durante a próxima replicação (3 a 4). O resultado
final é uma substituição do par de bases G:C por A:T.

ficou-se radicalmente em 1927, quando HermannJ. Muller fêmeas heterozigotas para um cromossomo X normal e
descobriu que os raios X induziam mutações em Drosophi- um cromossomo X alterado - o cromossomo CIB - que Mul-
la. A capacidade de induzir mutações abriu as portas para ler criou especificamente para uso em seu experimento.
uma técnica totalmente nova de análise genética. Então, O cromossomo ClB tem três componentes essenciais.
tornou-se possível induzir mutações em genes de interesse ( 1) A letra C, de supressor do crossing over, refere-se a uma
e estudar os efeitos dos produtos gênicos faltantes. longa inversão que inibe a recombinação entre o cromos-
Muller mostrou que o tratamento de espermatozoides somo ClB e o cromossomo X de estrutura normal em fê-
de Drosophila com raios X aumentou a frequência de mu- meas heterozigotas. A inversão não impede o crossing over
tações letais recessivas ligadas ao X. (Os raios X são uma entre os dois cromossomos, mas causa o aborto da pro-
forma de radiação eletromagnética com comprimentos le com dois cromossomos X recombinantes produzidos
de onda mais curtos e maior energia que a luz visível; ver por crossing over entre os dois cromossomos em razão das
Figura 13.10.) O estudo de Muller foi a primeira demons- duplicações e deficiências (ver Capítulo 7). (2) A letra l
tração de que a mutação poderia ser induzida por um refere-se a uma mutação letal recessiva no cromossomo
fator externo. Em 1946, ele recebeu o Prêmio Nobel de ClB. As fêmeas homozigotas e os machos hemizigotos
Fisiologia ou Medicina por essa importante descoberta. que têm essa mutação letal ligada ao X são inviáveis. (3)
A demonstração inequívoca da mutagenicidade dos A letra B refere-se a uma mutação causadora do fenótipo
raios X por Muller foi possível porque ele desenvolveu olhos em barra, distúrbio em que os grandes olhos com-
uma técnica simples e precisa que poderia ser usada para postos das moscas de tipo selvagem são reduzidos a olhos
identificar mutações letais no cromossomo X de Droso- estreitos em formato de barra. Como B é parcialmente
phila. Essa técnica, chamada método CIB, é realizada com dominante, as fêmeas heterozigotas para o cromossomo
Capítulo 13 1 Mutação, Reparo do DNA e Recombinação 327

Doze substituições de base diferentes podem ocorrer no DNA.

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Legenda:
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O Pirimidina '' ''
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---11~ Transicão ~ /
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- - 11 Transversão

A
lnsercões ou delecões de um ou dois pares de bases alteram a matriz
de leítura do gené distal ao sítio da mutação.
Acréscimo de par de bases C:G""'
Tipo selvagem ""' Mutante
~ J ~
ATGAAAGGGCCCTTTett. A T GAAACGGGCCC TT T ett.
DNA •• •• ••• •• •• •• ••• ••• ••• ••• ••• ••• •• •• •• •• •• ••• •• •• •• ••• ••• ••• ••• ••• ••• •• • •• •• ••
TAC TT TCCCGGGAAAett. T ACTT T GCCCGGGAAA ett.
p e pp p p1 11 e e e e e e p e 1 pp p11 1 e e e e e e e
L-y-1 L-y-1 L-y-1 L-y-1 L-y-1 '\ / L-y-1 L-y-1 L-y-1 L-y-1 L-y-1 L-y-1
Filamento

mRNA
.......
···~~ .......
~ ...
AUGAAAGGGCCCUUUett.
.. ...
~ ~~~~~ ~~~ ~--·
transcrito
.......
••~ .......
AUGAAACGGGCCCUU
....... .......
~ ~ .........
~ ...~
etc.
L-y-1 L-y-1 L-y-1 L-y-1 L-y-1 etc. L-y-1 L-y-1 L-y-1 L-y-1 L-y-1 etc.
Cooon Códon CóOOn Códon CóOOn Cooon Códon COOon Códon COOon
1 2 3 4 5 1 2 3 4 5
Polipeptídio Met- Lys- Gly - Pro - Phe - etc. Met - Lys-Arg-Ala - Leu - etc.

B
• FIGURA 13.3 Tipos de mutações pontuais que ocorrem no DNA: (A) substituições de bases e (B) mutações por mudança de matriz de leitu ra.
A. As substituições de bases incluem quatro transições (purina por purina e pirimidina por pirimidina; setas verdes) e oito transversões (purina
por pirimidina e pirimidina for purina; setas azuis}. B. A inserção de um par de bases C:G entre o sexto e o sétimo pares de bases do gene de
t ipo selvagem (em cima à esquerda} produziu um gene mutante (em cima à direita). Essa inserção altera a matriz de leitura da parte do gene
distal à mutação, em relação à direção de transcrição e tradução (da esquerda para a direita, como mostra o diagrama). A mudança na matriz
de leitura, por sua vez, modifica todos os códons do mRNA e todos os aminoácidos no polipeptídio especificado por trincas de pares de bases
distais à mutação.

CZB podem ser prontamente identificadas. Tanto a muta- prole feminina e masculina na proporção de 2: 1 (apenas
ção letal recessiva (l) quanto a mutação de olhos em bar- os machos com o cromossomo CZB morreriam). Com a
ra (B) estão no segmento invertido do cromossomo CZB. técnica CZB, a detecção de mutações letais recessivas li-
Muller irradiou moscas do sexo masculino e cruzou-as gadas ao X recém-induzidas é clara e sem erros; é ne-
com fêmeas CZB/+ (Figura 13.4). Todas as filhas desse cessário apenas verificar a presença ou ausência de prole
cruzamento com olhos em barra tinham o cromossomo masculina. Com o auxílio desse procedimento, Muller
CZB da mãe e o cromossomo X irradiado do pai. Como demonstrou um aumento de 150 vezes na frequência
toda a população de células reprodutivas dos machos foi de mutações letais ligadas ao X depois do tratamento de
irradiada, cada filha com olhos em barra tinha um cro- moscas do sexo masculino com raios X.
mossomo X com possível mutação. Essas filhas com olhos Outros pesquisadores prontamente demonstraram
em barra foram cruzadas individualmente (em culturas que os raios X são mutagênicos em outros organismos,
separadas) com machos de tipo selvagem. Se o cromosso- entre eles vegetais, outros animais e micróbios. Além
mo X irradiado de uma filha com olhos em barra tivesse disso, logo se demonstrou que outros tipos de radiação
adquirido uma mutação letal ligada ao X, toda a prole eletromagnética de alta energia e muitas substâncias
do cruzamento seria fêmea. Machos hemizigotos para o químicas são potentes mutágenos. A capacidade de in-
cromossomo CZB morreriam por causa da mutação letal duzir mutações gênicas contribuiu muito para o avanço
( l) recessiva desse cromossomo; além disso, machos he- da genética; possibilitou que pesquisadores induzissem
mizigotos para o cromossomo X irradiado morreriam mutações em genes de interesse e desativassem suas
se tivesse sido induzida uma mutação letal recessiva. Os funções. Assim, seria possível estudar os organismos mu-
cruzamentos de filhas com olhos em barra que têm um tantes para obter informações sobre a função do pro-
cromossomo X irradiado sem mutação letal produziriam duto gênico de tipo selvagem. Essa técnica - dissecção
328 Fundamentos de Genética

Cruzamento 1: fêmeas heterozigotas para o cromossomo ClB mutacional - de processos biológicos mostrou ser um
são cruzadas com machos irradiados. poderoso instrumento na análise de muitos processos
czsÇ X Irradiados cf biológicos.
Os raios X têm muitos efeitos em tecidos vivos. Portan-
to, as mutações induzidas por raios X oferecem poucas
ClB + Raios X---:(; '
informações sobre os mecanismos moleculares de produ-
- ---
/
/
/

--- ---......-- -----


...... ...... - -
,_
\
--
-
- -~
.,,,... .,,,...
..--
/
I / \
\
\
ção das mutações. A descoberta de mutágenos químicos
-- --- -- -- com efeitos específicos sobre o DNA levou à melhor com-
/ ---- --
\ .,.,...- - I \
~ /
, ......
...................
/
\
- k - - ~ li - - - .... \ preensão da mutação em nível molecular.
)f ' O gás mostarda (mostarda sulfúrica) foi a primeira
ClB
m (?) + m(?) ClB 1 + 1 substância química a ter sua mutagenicidade demons-
trada. Charlotte Auerbach e colaboradores descobriram
~ Morre
os efeitos mutagênicos do gás mostarda e de substâncias
relacionadas durante a II Guerra Mundial. No entanto,
em razão do possível uso em guerras químicas, o go-
Cruzamento li: a prole feminina ClB do cruzamento 1é verno britânico classificou seus resultados como confi-
cruzada com machos de tipo selvagem. denciais. Desse modo, Auerbach e colaboradores não
Filha ClB x Tipo selvagem cf tiveram permissão para publicar os resultados nem dis-
cuti-los com outros geneticistas até o fim da guerra. As

ClB
m (?) + 1 substâncias que estudaram são exemplos de uma gran-
de classe de mutágenos químicos que transferem gru-

/
/ /
/ -~--\.....
--
,-
\
--- --- -- ------
...... -. ...... -< - ;::::-<... __,,.,... -
\ - -- - _.,.... ---
.,....
-~ I

I
I /
I \
\
\\
pos alquila (CH3- , CH3 CH2- e assim por diante) para
as bases no DNA; portanto, são denominadas agentes
)t * --- "' -~
,,,J,.:"
>-
- - .....
--
I
1---.... \ \
\ alquilantes. Assim como os raios X, o gás mostarda tem
~ muitos efeitos sobre o DNA. Mais tarde, descobriram-se
ClB +
m(?) + CZB m (?) 1 mutágenos químicos com efeitos específicos sobre o
DNA (Figura 13.5) .
Morre Morre se foi induzida

• FIGURA 13.4 A técnica CIB usada por Muller para detectar mutações
mutação letal.
-
MUTAÇOES INDUZIDAS POR
letais recessivas ligadas ao X (m) em Drosophila. O cruzamento li pro- SUBSTÂNCIAS QUÍMICAS
duzirá apenas fêmeas se houver uma mutação letal recessiva ligada
Os mutágenos químicos são divididos em dois grupos:
ao X no cromossomo X irradiado. Um terço da prole do cruzament o
li será de machos se não houver mutação letal recessiva no cromos- (1) mutagênicos tanto para o DNA em replicação quanto
somo X irradiado. Portanto, a classificação das mutações letais requer para o DNA que não está se replicando, como os agentes
apenas que se verifique a presença ou ausência de machos na prole alquilantes e o ácido nitroso; e (2) mutagênicos apenas
do cruzamento 11. para o DNA em replicação, como os análogos das bases

Agentes alquilantes
Cl-CH2-CH2-S-CH2-CH2-CI CH3-CH2-0-S02-CH3 CH3-CH2-0-S02-CH2-CH3
Sulfeto de bis-(2-cloroetil) Sultanato de etil metano Sultanato de etil etano
A (gás mostarda) (EMS) (EES)

Análogos de bases Acridinas


H H H H
1 1 1 1
N-::::::- C'e/ N~ H, -: : : - C, /e~ /e~ / H
e e e e
1 li C-H 1 11 1 1

H N/
e~ N /e' N
; e ... e + ..... e . . . e
H2N/ ~e/ ' N'l' ' c'l' 'NH3
+
2 1 1 1 1
H H H H
5-Bromouracila 2-Aminopurina 2,8-Diamino acridina
B (5-BU) (2-AP) c (Proflavina)

Agente desaminante Agente hidroxilante


HN02 NH20H

D Acido nitroso E Hidroxilamina
• FIGURA 13.5 Alguns potentes mutágenos químicos.
Capítulo 13 1 Mutação, Reparo do DNA e Recombinação 329

- purinas e pirimidinas com estruturas semelhantes às de sua incorporação a um filamento nascente de DNA,
das bases normais no DNA. Para exercer efeitos muta- será incorporada diante da guanina no filamento-mol-
gênicos, os análogos das bases têm de ser incorporados de e causará uma transição G:C ~ A:T (Figura 13.7A).
às cadeias de DNA no lugar das bases normais durante a Se, porém, a 5-bromouracila for incorporada em sua
replicação. O segundo grupo de mutágenos inclui ainda forma ceto mais frequente diante da adenina (no lu-
as acridinas, que se intercalam no DNA e aumentam a gar da timina) e sofrer uma modificação tautomérica
probabilidade de erros durante a replicação. para a forma enol durante uma replicação subsequente,
Os análogos de bases mutagênicos têm estruturas simi- causará transição A:T ~ G:C (Figura 13.78). Portanto, a
lares às das bases normais e são incorporados ao DNA 5-bromouracila induz transições nas duas direções, A:T
durante a replicação. No entanto, suas estruturas são ~ G:C. Uma consequência importante dessa bidirecio-
suficientemente diferentes das estruturas das bases nor- nalidade das transições induzidas por 5-bromouracila é
mais no DNA para aumentar a frequência de erros de que mutações originalmente induzidas por esse análogo
pareamento e, portanto, de mutação, durante a repli- da timina também podem ser induzidas a voltar ao tipo
cação. Os dois análogos de bases mais usados são 5-bro-
mouracila e 2-aminopurina. A pirimidina 5-bromoura-
cila é um análogo da timina; o átomo de bromo na 5ª
Efeito da forma enol da 5-bromouracila durante:
posição é semelhante, em vários aspectos, ao grupo me-
tila (-CH3 ) na 5ª posição da timina. Contudo, o bromo Incorporação Replicação após
nessa posição modifica a distribuição da carga elétrica incorporação
e aumenta a frequência de modificações tautoméricas
1 1
(Figura 13.1). Em sua forma ceto mais estável, a 5-bro-
mouracila faz par com a adenina. Após a modificação
tautomérica para sua forma enol, a 5-bromouracila faz
1
1
-----· JG: C 1

1
1
1
-----· A :T
j
1

1
1 1
par com a guanina (Figura 13.6). O efeito mutagênico da 1 1
1 Replicação I 1 Replicação I
5-bromouracila é igual ao previsto para as modificações 1 1
1 1
tautoméricas nas bases normais (Figura 13.2B), ou seja, 1 1
transições. 1 1
1 1
Se a 5-bromouracila estiver em sua forma enol, menos 1
1
1 t
G: BU
1
G:C
1 1
1
1
A T
1
frequente, como trifosfato de nucleosídio no momento 1 1
1 J 1 j 1 1 j 1
1 1
1 1
1 Replicação li 1 Replicação li
1 1
Par de bases 5-bromouracila: adenina. 1 1
1 1
H 1 1
/ : 1 1 1 ~ : 1 1 1 ~
Br O···· H-N N: : : --.. ,........- H 1 G: C A =BU 1 A: T G: BU
\ # \ / ~e 1 j 1 j 1 j 1 j
/;e-~ 11'/,c-c~ 1
1 1
1/ ~ ---N 1
1
1
1
N- C N-H···· N \ Replicação Ili Replicação Ili
1 1
\ N-d \ e=/ Açúcar 1 1
/ ~ / 1
1
1
1
Açúcar O H 1 1
5-Bromouracila Adenina : 1 1 : 1 1
(forma ceto) '->- A :T '+- G:C
A j 1 j 1

Par de bases 5-bromouracila: guanina.


1 1 ... 1 1 1 1 .. 1 1
Br O-H····O N::::::-... ,........- H •
•• G:C A :T •• • A :T G:C
\ I ~ I -.;;:::e j j j j
/;1/
e-e, c-c, 1
1 1 1 1

~ 1 ~ ___ N A B
N-C N····H - N C \
\ N- CI \ C= NI Acúcar
1
· 1 1 .. ... 1

/ ~ / Ou, total: A :T G: c
Acúcar O····H-N 1 1 1 1
' \
H • FIGURA 13.7 Efeitos mutagênicos da 5- bromouracila. A. Quando a
5- bromouracila está presente em sua forma enol menos frequente
5-Bromouracila Guanina
(farma enol) (laranja} no momento da incorporação ao DNA, induz transição G:C
~ A:T. B. Quando a 5-bromouracila é incorporada ao DNA em sua
B
forma ceto mais comum (azul} e passa à forma enol durante uma
• FIGURA 13.6 Pareamento de bases entre 5- bromouracila e (A) ade- replicação subsequente, induz transição A:T ~ G:C. Portanto, a 5-bro-
nina ou (B) guanina. mouracila induz transições nas duas direções, A:T ~ G:C.
330 Fundamentos de Genética

selvagem pela 5-bromouracila. A 2-aminopurina tem As acridinas, como a proflavina (Figura 13.5C), laranja
ação semelhante, mas é incorporada no lugar da adeni- de acridina e toda uma série de substâncias relacionadas,

na ou guan1na. são mutágenos potentes que induzem mutações por mu-
O ácido nitroso {HN02) é um potente mutágeno com ação dança de matriz de leitura (Figura 13.3B). As acridinas
no DNA que está ou não em replicação. O ácido nitro- com carga elétrica positiva interpõem-se entre os pares
so provoca desaminação oxidativa dos grupos amino na de bases empilhados no DNA (Figura 13.9). Assim, aumen-
adenina, guanina e citosina. Essa reação converte os gru- tam a rigidez e alteram a conformação da dupla hélice,
pos amino em grupos ceto e modifica o potencial de liga-
ção ao h idrogênio das bases modificadas (Figura 13.8). A
adenina é desaminada em hipoxantina, que faz par com
a citosina em vez da timina. A citosina é convertida em
uracila, que faz par com a adenina em vez da guanina. A
desaminação da guanina produz xantina, mas a xantina
- assim como a guanina - faz par com a citosina. Portan-
Mo l éc ul as_~
to, a desaminação da guanina não é mutagênica. Como de proflavina
a desaminação da adenina resulta em transições AT ----'>
G:C, e a desaminação da citosina produz transições G:C
----'> AT, o ácido nitroso induz transições nas duas direções,
AT ~ G:C. Logo, as mutações induzidas por ácido nitro-
so também são induzidas a voltar ao tipo selvagem pelo
ácido nitroso. Teste seu conhecimento sobre a mutação • FIGURA 13.9 Intercalação de proflavina na dupla hélice de DNA.
induzida por ácido nitroso acompanhando o Problema Estudos por difração de raios X most raram que essas acridinas com
resolvido: Previsão das substituições de aminoácidos in- carga elétrica positiva são interpostas entre os pares de bases empi-
duzidas por mutágenos químicos. lhados.

H
/
H.. . . . _ ....-::::: N O····H-N H
c::::-- \ // \ I
1 /Jc-c\ 1 c-c\
N- 1/ !/ ~
/ C N- H···· N C-H
Acúcar \ I \ I
· N= C C- N
\ // \
H O Açúcar
A Adenina Hipoxantina Citosina

H H
\ /
N N- H H O····H-N N::::,...... . . . . . - H
\ / \ // \ ;, ~c
c- c /Jc - c~
// ~ /;1/c- c\ l/J ~ _. N
1

H- C N H- C N-H ···· N C \
\ / \ I \ I Acúcar
N-C N-C C=N ·
/ ~ / ~ /
Açúcar O Açúcar O H

B Citosina Uracila Adenina

H
/
H.. . . . _ . . . ::::: N O H.. . . . _ ....-:::::N O····H-N H
c::::-- \ // c::::-- \ // \ I
1 /Jc - c\ 1 /;c-c\ /;c-c\
; N-c! N- H
N- 1/ 1/ ~
/ C N-H ·· .. N C-H
Acúcar \ I Acúcar \ I \ I
· N=C · N- C C-N
\ / ~ // \
N-H H O O Acúcar

1

C Guanina H Xantina Citosina


• FIGURA 13.8 O ácido nitroso induz mutações por desaminação oxidativa das bases no DNA. O ácido nitroso converte (A) adenina em hipo-
xantina, causando transição A:T ~ G:C; (B) citosina em uracila, causando transição G:C ~A:T; e (C) guanina em xantina, que não é mutagênica.
juntos, os efeitos do ácido nitroso sobre a adenina e a citosina explicam a capacidade de induzir transição nas duas direções, A:T ~ G:C.
Capítulo 13 1 Mutação, Reparo do DNA e Recombinação 331

Previsão das substituições de aminoácidos induzidas por mutágenos químicos


PROBLEMA 3. Embora os vírus do mosaico do tabaco não estejam se replican-
A natureza do código genético foi apresentada na Tabela 12.1 . do no momento do tratamento com ácido nitroso, em seguida
Como ilustra a Figura 13.8, o ácido nitroso desamina a adenina, a serão replicados por infecção das folhas de tabaco para identifi-
citosina e a guanina (adenina - hipoxantina, que faz par com a car se alguma mutação do tipo indicado foi ou não induzida por
citosina; citosina - uracila, que faz par com a adenina; guanina - tratamento com ácido nitroso.
xantina, que faz par com a citosina). Ao tratar com ácido nitroso 4. Os códons de histidina são CAU e CAC. Portanto, o genoma do
uma população de vírus do mosaico do tabaco (TMV) que não es- TMV (RNA) contém uma dessas sequências em todos os sítios
tivessem se replicando, você esperaria que o ácido nitroso induzisse especificadores da histidina nos polipeptídios codificados por
alguma mutação tendo como consequência a substituição de um TMV.
resíduo de histidina (His) por outro aminoácido em um polipeptídio 5. As adeninas e citosinas no genoma do TMV são possíveis alvos
de tipo selvagem? de mutação induzida por ácido nitroso.
Isto é, polipeptídio: aa ,............... h.1st1ºdº1na .......................
ANÁLISE E SOLUÇÃO

' Quando o ácido nitroso desamina a adenina e a citosina, produz


? Acido nitroso
hipoxantina e uracila, respectivamente. Durante a replicação subse-
quente dos RNA de TMV modificados, a hipoxantina faz par com a
aa, ................. aax (não histidina) .............. aan?
citosina e a uracila faz par com a adenina. Consequentemente, al-
Em caso afirmativo, que aminoácido(s) e por que mecanismo(s)? gumas das A e C no RNA do TMV são convertidas em G e U. A desa-
Em caso negativo, por que não? minação dessas bases produz códons de tirosina, arginina e cisteína
nos genomas do TMV produzidos pela replicação semiconservativa
FATOS E CONCEITOS
do RNA viral cuja mutação foi induzida. Portanto, a mutagênese por
1. O TMV armazena suas informações genéticas em RNA unifila- ácido nitroso leva à substituição de algumas histidinas nas proteí-
mentar equivalente ao mRNA. nas do TMV de tipo selvagem por tirosinas, argininas e cisteínas em
2 . O RNA genômico do TMV replica-se como o DNA por meio de proteínas mutantes, como mostra o diagrama a seguir.
um intermediário bifi lamentar complementar (com pareamento
das bases).

Traducão

Mecanismo (Nota: códon de His = -CA~~) durante
Filamento infeccão

RNA do TMV empacotado subsequente
- cAu~
e
t HN02 - uAu ~
e - LJAU~
e
---- ' ....- uAu ~ Tiro sina
~ALJA - ~ALJA-
e
-UA~~ ,.~
+
G '
+
' --- +
G

-cHg~
Replicação -cHu~
e -CGU~
e
---- ' ....-cGu~ Arginina
~GCA- ~GCA-
e
,.~ G
G '
+
' --- +
- uHu~
e - uGu~
e
---- .... '
-uGu~ Cisteína
~ACA - ~ACA - e
,.~
G '
' --- G

criando leves curvaturas ou acotovelamentos na molécu- Os agentes alquilantes são substâncias químicas que doam
la. Na replicação das moléculas de DNA que co11têm acri- grupos alquila para outras moléculas. I11cluem a mostar-
dinas i11tercaladas, há acréscimo e deleção de um ou mais da nitroge11ada, o sulfonato de metila e o sulfo11ato de
pares de bases. Como seria de se esperar, esses pequenos etil metano (MMS e EMS) (Figura 13.5A) - substâncias
acréscimos e deleções, geralme11te de um só par de bases, químicas com múltiplos efeitos i10 DNA. Os agentes al-
alteram a matriz de leitura para a parte do gene distal à quilantes induzem todos os tipos de mutações, inclusive
mutação (Figura 13.3B). Desse modo, as mutações indu- transições, transversões, mudança de matriz de leitura e
zidas por acridina nos éxo11s dos genes geralmente resul- até mesmo aberrações cromossômicas, com frequências
tam em produtos gê11icos inativos. relati,ras que depe11dem da reati,ridade do agente. Um
332 Fundamentos de Genética

mecanismo de mutagênese por agentes alquilantes é a violeta). As radiações ionizantes têm alta energia e são
transferência de grupos metila ou etila para as bases, que úteis no diagnóstico médico porque penetram nos teci-
altera os potenciais de pareamento de bases. Por exem- dos vivos em profundidades significativas. No processo,
plo, o EMS causa etilação das bases do DNA nas posições esses raios de alta energia colidem com átomos e causam
7-N e 6-0. A 7-etilguanina, quando produzida, faz par liberação de elétrons, criando radicais livres ou íons de
com a timina e causa transições G:C ~ A:T. Outros pro- carga elétrica positiva. Os íons, por sua vez, colidem com
dutos da alquilação de bases ativam processos de reparo outras moléculas e causam a liberação de outros elétrons.
do DNA propensos a erro que introduzem mutações por A consequência é a formação de um cone de íons ao lon-
transição, transversão e mudança de matriz de leitura go do trajeto de cada raio de alta energia ao atravessar
durante o processo de reparo. Alguns agentes alquilan- tecidos vivos. Esse processo de ionização é induzido por
tes, sobretudo agentes alquilantes disfuncionais (aqueles raios X, prótons e nêutrons produzidos por um aparelho,
que têm dois grupos alquila reativos), fazem a ligação bem como pelos raios alfa, beta e gama por isótopos ra-
cruzada de filamentos ou moléculas de DNA e induzem dioativos como 32P, 35S, e o urânio-238 usado em reatores
quebras cromossômicas, que resultam em vários tipos de nucleares.
aberrações cromossômicas (Capítulo 6). Portanto, como A radiação ultravioleta, por ter menos energia que a
classe, os agentes alquilantes apresentam efeitos mutagê- radiação ionizante, penetra apenas nas camadas super-
nicos menos específicos que os análogos de bases, o áci- ficiais das células em vegetais e animais superiores e não
do nitroso ou as acridinas. causa ionização. Os raios ultravioleta dissipam a energia
Em contraste com a maioria dos agentes alquilantes, dos átomos que encontram, levando os elétrons nos or-
o agente hidroxilante hidroxilamina (NH20H) tem um efei- bitais externos para maiores níveis de energia, um estado
to mutagênico específico. Induz apenas transições G:C conhecido como excitação. As moléculas que contêm áto-
~ A:T. Quando o DNA é tratado com hidroxilamina, o mos em formas iônicas ou estados excitados são quimica-
grupo amino da citosina é hidroxilado. A hidroxilamino- mente mais reativas que aquelas que contêm átomos em
citosina resultante faz par com a adenina, causando tran- seus estados normais estáveis. A reatividade aumentada
sições G:C ~ A:T. Tendo em vista sua especificidade, a dos átomos nas moléculas de DNA é responsável pela
hidroxilamina foi muito útil na classificação de mutações maior parte da mutagenicidade da radiação ionizante e
por transição. As mutações induzidas a reverter ao tipo luz ultravioleta.
selvagem pelo ácido nitroso ou pelos análogos de bases Os raios X e outras formas de radiação ionizante são
e, portanto, originalmente causadas por transições, são mensurados em unidades roentgen (r), que são medidas do
divididas em duas classes segundo a reversibilidade com número de ionização por unidade de volume em condi-
h idroxilamina. (1) A hidroxilamina não induz a reversão ções padronizadas. Especificamente, uma unidade roent-
de mutações com um par de bases A:T no sítio mutante. gen é uma quantidade de radiação ionizante que produz
(2) A hidroxilamina induz a reversão de mutações com 2,083 x 109 pares de íons em um centímetro cúbico de
um par de bases G:C no sítio mutante. Portanto, pode-se ar a OºC e uma pressão de 760 mm de mercúrio. Obser-
usar a hidroxilamina para verificar se determinada muta- ve que a dose de radiação em unidades roentgen não
~

ção foi uma transição A:T ~ G:C ou G:C ~ AT. inclui uma escala de tempo. E possível obter a mesma
dose com baixa intensidade de irradiação durante um
longo período ou com alta intensidade de irradiação por
MUTAÇÕES INDUZIDAS POR RADIAÇÃO
um curto período. Esse ponto é importante porque, na
A porção do espectro eletromagnético (Figura 13.10) com maioria dos estudos, a frequência de mutações pontuais
menor comprimento de onda e maior energia que a luz induzidas é diretamente proporcional à dose de radiação
visível é subdividida em radiação ionizante (raios X, raios ( Figura 13.11 ). Por exemplo, a irradiação X de espermato-
gama e raios cósmicos) e radiação não ionizante (luz ultra- zoides de Drosophila aumenta em aproximadamente 3%

Luz visível

E_g o
-.._ E
e a.> Q)
Q) e
o E ro -o
.._ - o
LI'> .._ E ~CX)
r--.~ <( ~ <( (Y)

Raios Raios
Ondas de rádio Micro-ondas Infravermelho uv Raios X gama cósmicos

109 nm 106 nm 103 nm 1 nm 1o-3 nm 1o-5 nm Comprimento


(lm} de onda
Radiação ionizante

Mínimo Nível de energia Máximo


• FIGURA 13.10 O espectro eletromagnético.
Capítulo 13 1 Mutação, Reparo do DNA e Recombinação 333

15 e translocações (Capítulo 6). Essas aberrações cromossô-


micas são consequência de quebras dos cromossomos in-
duzidas por radiação. Como esses processos exigem duas
V)
Q) quebras cromossômicas, há cinética de dois eventos em
tO
~X 10 vez da cinética de evento único observada nas mutações
~o
E ro
V)
pontuais.
ro
Q)
-O-o A radiação ultravioleta (UV) não tem energia suficiente para
E =rai
Q) induzir ionizações. Mas é facilmente absorvida por muitas
~-V) 5
....... ro
e ......
moléculas orgânicas como as purinas e as pirimidinas no
Q) Q)
~ - DNA, que então se tornam mais reativas ou excitadas. Os
rf. raios UV penetram pouco no tecido. Portanto, em organis-
mos multicelulares, apenas a camada celular epidérmica
o está exposta aos efeitos do UV. A luz ultravioleta, porém, é
um potente mutágeno para organismos unicelulares. A ab-
o 1.000 2.000 3.000 4.000 5.000 sorção máxima de UV pelo DNA ocorre no comprimento
Unidades Roentgen
de onda de 254 nm. A mutagenicidade máxima também
• FIGURA 13.11 Relação entre dose de radiação e frequência de mu- ocorre com 254 nm, sugerindo que o processo de muta-
tação em Drosophila.
ção por UV é mediado diretamente pela absorção de UV
por purinas e pirimidinas. Estudos in vitro mostram que
há intensa absorção pelas pirimidinas a 254 nm, que, por-
a taxa de mutação para cada aumento de 1.000 r na dose tanto, tornam-se muito reativas. Dois produtos importan-
de radiação. Essa relação linear mostra que a indução tes da absorção de UV por pirimidinas (timina e citosina)
de mutações por raios X tem cinética de evento único são os hidratos de pirimidina e os dímeros de pirimidina
( single-hit), o que significa que cada mutação é causada (Figura 13.12). Os dímeros de timina causam mutações por
por um único evento de ionização. Ou seja, toda ioniza- dois mecanismos. ( 1) Os dímeros perturbam a estrutura
ção tem uma probabilidade fixa de induzir uma mutação das duplas hélices de DNA e interferem na replicação pre-
em condições padronizadas. cisa do DNA. (2) Durante os processos celulares há erros
Qual é o nível seguro de irradiação? O desenvolvimen- que reparam defeitos no DNA, como dímeros de timina
to e o uso da bomba atômica e os acidentes em usinas induzidos por UV (ver a seção Mecanismos de reparo do
nucleares despertaram preocupação com a exposição às DNA, adiante neste capítulo).
radiações ionizantes. A relação linear entre taxa de muta-
ção e dose de radiação indica que não há nível seguro de
irradiação. Na verdade, os resultados indicam que quanto MUTAÇÕES INDUZIDAS POR ELEMENTOS
maior é a dose de radiação, maior é a taxa de mutação, e GENÉTICOS TRANSPONÍVEIS
quanto menor é a dose, menor é a taxa de mutação. Mes-
mo níveis muito baixos de radiação estão associados a cer- Os seres vivos têm elementos de DNA extraordinários
ta probabilidade baixa, mas real, de induzir mutações. capazes de passar de um local para outro no genoma.
Esses transpósons, ou elementos genéticos transponíveis,
Em espermatozoides de Drosüphila, a irradiação crôni-
ca (baixos níveis de irradiação durante longos períodos) são tema do Capítulo 17. A inserção de um transpóson
geralmente inativa o gene (Figura 13.13). Se o gene codi-
é tão eficaz na indução de mutações quanto a irradiação
aguda (a mesma dose total de irradiação administrada ficar um produto importante, é provável que o fenótipo
em alta intensidade por curtos períodos). Em camundon- seja mutante. Agora os geneticistas sabem que muitos dos
mutantes clássicos do milho, de Drosüphila, de E. coli e
gos, porém, a irradiação crônica causa menos mutações
de outros organismos foram criados pela inserção de ele-
que a mesma dose de irradiação aguda. Ademais, quando , . , . .
mentos genetJ.cos transpon1ve1s em genes importantes.
camundongos são tratados com doses intermitentes de
Na verdade, tanto o alelo para sementes rugosas de ervi-
radiação, a frequência de mutação é um pouco menor
do que quando são tratados com a mesma quantidade lha de Mendel (Capítulo 3) quanto a primeira mutação
total de radiação em dose contínua. Acredita-se que as ( w1) causadora de olhos brancos em Drosüphila ( Capítu-
lo 5) resultaram da inserção de elementos transponíveis.
diferentes respostas das moscas-das-frutas e dos mamífe-
Veja no Capítulo 17 outros detalhes sobre o mecanismo
ros à irradiação crônica seja consequência de diferenças
pelo qual os transpósons se deslocam e, no processo, cau-
na eficiência de reparo da lesão do DNA induzida por
sam mutações.
radiação. Talvez haja nas espermatogônias e nos oócitos
de mamíferos mecanismos de reparo inexistentes em es-
permatozoides de Drosüphila. Todavia, é preciso enfatizar
-
EXPANSAO DE REPETIÇOES DE -
que todos esses tratamentos de irradiação são mutagê- TRINUCLEOTÍDIOS E DOENÇAS
nicos, embora em diferentes graus, tanto em Drosophila
quanto em mamíferos.
HUMANAS HEREDITÁRIAS
A radiação ionizante também induz alterações cro- Todos os tipos de mutações apresentados nas seções an-
mossômicas, entre elas deleções, duplicações, inversões teriores deste capítulo ocorrem em seres humanos. Além
334 Fundamentos de Genética

Citosina Hidrato de citosina


A

o o o
H li li CH3 CH3 li
"- / e"-.. / CH3 l'l!ft
~
H"- / C'-...... 1
N e- e
l/ C'-.... / H
N
7
e
Yi
e"-H
_ ___,.... 1

e
li
e- e
1 li
e
o-:::?' "-N/ o-:::?' "- N/ 1 1"- N/ ~o
1 1 H H 1
H H H
Timina Dímero de timina
B

• FIGURA 13.12 Fotoprodutos de pirimidina por irradiação UV. A. Hidrólise de citosina em uma forma hidrato que pode causar erro de parea-
mento das bases durante a replicação. B. Ligação cruzada de moléculas de t imina adj acent es para formar dímeros de t i mina, que bloqueiam a
replicação do DNA.

Elemento genético pares de nucleotídios, repetições de trinucleotídios, pode


transponível aumentar e causar doenças hereditárias em seres huma-
~~A~~
nos. Vários trinucleotídios estão sujeitos a esses aumen-

tos da quantidade de cópias. Repetições expandidas de
r - - Salto- - - _, Segmentos do gene separados
Gene t
,...__,/\~-~
por elemento genético transponível trinucleotídios CGG no sítio FRAXA no cromossomo X
são responsáveis pela síndrome do X frágil, a segunda
DNA forma mais comum de retardo mental hereditário em se-
res humanos (Capítulo 16). Os cromossomos X normais
Transcricão Transcricão
' • têm de 6 a 50 cópias da repetição CGG no sítio FRAXA .
mRNA Os cromossomos X mutantes contêm até 1.000 cópias da
ou repetição CGG em série nesse sítio (ver Em foco: Síndro-
me do X frágil e repetições expandidas de trinucleotídios
Tradução
Tradução no Capítulo 16).
As repetições de trinucleotídios CAG e CTG estão
Polipeptídio -~ implicadas em várias doenças neurológicas hereditárias,
Produto gênico Polipeptídio truncado inativo
polipeptídico ativo
entre elas doença de Huntington, distrofia miotônica,
doença de Kennedy, atrofia dentatorrubral-palidoluisia-
• FIGURA 13.13 Mecanismo de mutação induzida por transpóson. A na, doença de Machado-Joseph e ataxia espinocerebe-
inserção de um elemento genético t ransponível (vermelho) em um lar. Em todos esses d istúrbios neurológicos, a intensi-
gene de t ipo selvagem (esquerda) geralmente inat iva o gene (direi- dade da doença está relacionada com a quantidade de
ta). Um produto gênico t runcado geralmente é resultado de sinais cópias de trinucleotídios - quanto maior a quantidade
de término da transcrição ou da tradução, ou ambos, localizados no
de cópias, mais graves são os sintomas. Além disso, os
transpóson.
trinucleotídios expandidos associados a essas doenças
são instáveis em células somáticas e entre gerações. Essa
instabilidade dá origem ao fenômeno de antecipação,
desses, há outro tipo de mutação associado a doenças que é a maior gravidade da doença ou o início mais
humanas. Sequências repetidas de um a seis pares de cedo em gerações sucessivas à medida que aumenta a
nucleotídios são conhecidas como repetições em série sim- quantidade de cópias de trinucleotídios. No Capítu-
ples. Essas repetições estão dispersas em todo o genoma lo 16 é apresentado um possível mecanismo de expan-
humano. A quantidade de cópias das repetições de três são de trinucleotídios.
Capítulo 13 1 Mutação, Reparo do DNA e Recombinação 335

PONTOS ESSENCIAIS • As mutações são induzidas por substâncias químicas, radiação ionizante, luz ultraviokta e
ekmentos genéticos transponíveis endógenos
• As mutações pontuais são de três tipos: ( 1) transições - substituições de purina por purina
e de pirimidina por pirimidina; (2) transversões - substituições de pirimidina por purina e
de purina por pirimidina; e (3) mutações por mudança de matriz de l,eitura - acréscimos ou
dekções de um ou dois pares de nucleotídios, que alteram a matriz de l,eitura do gene distal ao
sítio da mutação
• Várias doenças humanas hereditárias são causadas por repetições expandidas de trinuckotí-
dios.

Muta ão 1 Características básicas do P-_ro_c_e_s_


so_ _ _ _ __
As mutações ocorrem em todos os organismos, dos vírus Os efeitos de eventuais mutações dominantes nas cé-
aos seres humanos. Podem ser espontâneas ou induzidas lulas da linhagem germinativa podem ser expressos ime-
diatamente na prole. Se as mutações forem recessivas, os
por agentes mutagênicos. A mutação geralmente é um
efeitos geralmente são encobertos em diploides. As mu-
processo aleatório, não adaptativo.
tações germinativas podem ocorrer em qualquer estágio
no ciclo reprodutivo do organismo. Se a mutação surgir
As mutações ocorrem em todos os genes de todos os seres em um gameta, provavelmente apenas um membro da
vivos. Essas mutações garantem a variabilidade genética prole terá o gene mutante. Se houver uma mutação em
que possibilita a adaptação dos organismos a mudanças uma célula primordial da linhagem germinativa do tes-
ambientais. Assim, as mutações foram, e continuam sen- tículo ou ovário, vários gametas poderão receber o gene
do, essenciais para o processo evolutivo. Antes de discor- mutante, aumentando seu potencial de perpetuação. As-
rermos sobre seus efeitos fenotípicos, vamos analisar al- sim, a dominância de um alelo mutante e o estágio no ci-
guns aspectos básicos desse importante processo. clo reprodutivo em que ocorre uma mutação são fatores
importantes na determinação da probabilidade de mani-
festação do alelo mutante em um organismo.
MUTAÇÃO 1 SOMÁTICA OU
A primeira mutação germinativa dominante registrada
GERMINATIVA em animais domésticos foi observada em 1791, por Seth
A mutação pode ocorrer em qualquer célula e em qual- Wright, em sua fazenda às margens do rio Charles, em
quer estágio do desenvolvimento de um organismo multi- Dover, Massachusetts. Wright notou em seu rebanho um
celular. Os efeitos imediatos da mutação e sua capacidade carneiro diferente, com pernas muito curtas, e ponderou
de produzir uma alteração fenotípica são determinados que seria vantajoso ter um rebanho inteiro de animais de
pela dominância, pelo tipo de célula e pelo momento em pernas curtas, que não poderiam saltar os muros baixos
que ocorre durante o ciclo de vida do organismo. Em ani-
mais superiores, as células da linhagem germinativa que
dão origem aos gametas separam-se de outras linhagens
celulares no início do desenvolvimento (Capítulo 2). To-
das as células não pertencentes à linhagem germinativa
são somáticas. As mutações germinativas ocorrem nas células
da linhagem germinativa e as mutações somáticas, nas célu-
las somáticas.
Quando uma mutação ocorre em uma célula somáti-
ca, somente as células dela descendentes apresentam o
fenótipo mutante. A mutação não é transmitida por ga-
metas para a prole. A maçã Delicious (Figura 13.14) e a
laranja-de-umbigo são exemplos de fenótipos mutantes
resultantes de mutações ocorridas nas células somáticas.
A maçã Delicious foi descoberta em 1881 porJessie Hiatt,
fazendeiro de Iowa. Depois, foi modificada pela seleção
de outras mutações somáticas. As árvores em que ocorre-
ram as mutações originais eram mosaicos somáticos. Fe-
lizmente, a propagação vegetativa da maçã Delicious e da • maçã Delicious original foi resultado de uma muta-
FIGURA 13.14 A
laranja-de-umbigo era viável e hoje a numerosa prole de ção somática. Depois, foi modificada pela seleção de outras mutações
enxertos e brotos perpetuou as mutações originais. somáticas.
336 Fundamentos de Genética

de pedra da vizinhança na Nova Inglaterra. Na tempora- MUTAÇÃO 1 GERALMENTE UM PROCESSO


da seguinte, Wright cruzou as ovelhas com o novo carnei-
ALEATÓRIO, NÃO ADAPTATIVO
ro de pernas curtas. Dois filhotes nasceram com pernas
curtas. Os animais de pernas curtas foram intercruzados Em muitas cidades, os ratos já não são mais afetados pe-
e desenvolveu-se uma linhagem na qual todos os indiví- los anticoagulantes tradicionalmente usados como ve-
duos apresentavam a nova característica. neno. Muitas populações de baratas são insensíveis ao
clordano, o veneno usado para controlá-las na década
de 1950. As populações de moscas domésticas costumam
MUTAÇÃO 1 ESPONTÂNEA OU INDUZIDA apresentar altos níveis de resistência a muitos insetici-
das. Cada vez mais microrganismos patogênicos estão se
Quando uma nova mutação - como a responsável pelos
tornando resistentes aos antibióticos desenvolvidos para
carneiros de pernas curtas de Wright - ocorre, é causada
controlá-los. A invenção desses pesticidas e antibióticos
por algum agente no ambiente ou é consequência de um
pelo ser humano produziu ambientes novos para esses
processo inerente aos seres vivos? As mutações espontâneas
organismos. Ocorreram mutações que causam resistên-
são aquelas que ocorrem sem causa conhecida. Podem
cia a esses pesticidas e antibióticos; os organismos sensí-
ser verdadeiramente espontâneas, resultantes de um bai-
veis foram mortos; e os mutantes multiplicaram-se e de-
xo nível de erros metabólicos inerentes, ou causadas por
ram origem a novas populações resistentes. Muitos desses
agentes desconhecidos presentes no ambiente. As muta-
casos de evolução por mutação e seleção natural são bem
ções induzidas, já comentadas, resultam da exposição de or-
documentados.
ganismos a agentes físicos e químicos que alteram o DNA
Esses exemplos suscitam uma dúvida básica sobre a
(ou RNA em alguns vírus). Esses agentes são conhecidos
natureza da mutação. A mutação é um evento totalmente
como mutágenos; incluem radiação ionizante, luz ultra-
aleatório no qual o estresse ambiental apenas preserva
violeta e uma grande variedade de substâncias químicas,
mutações preexistentes? Ou é dirigida pelo estresse am-
conforme apresentado na seção anterior.
biental? Por exemplo, se cortar as caudas dos camundon-
Do ponto de vista operacional, é impossível comprovar gos por muitas gerações, você acabará produzindo uma
que determinada mutação foi espontânea ou induzida por
linhagem de camundongos sem cauda? Apesar da convic-
um agente mutagênico. Os geneticistas têm de restringir ção de Jean Lamarck e Trofim Lysenko, que acreditavam
essas distinções ao nível populacional. Se a taxa de muta- na herança de "características adquiridas" - característi-
ção for aumentada em cem vezes pelo tratamento de uma cas impostas aos organismos por fatores ambientais - a
população com um mutágeno, uma média de 99 a cada resposta é não; os camundongos continuarão a nascer
100 mutações na população terá sido induzida pelo mutáge- com caudas.
no. Assim, os pesquisadores podem fazer comparações esta- Hoje é dificil compreender como Lysenko conseguiu
tísticas válidas entre mutações espontâneas e induzidas pela convencer do lamarckismo - a herança de característi-
comparação de populações expostas a um agente mutagê- cas adquiridas - as autoridades da União Soviética de
nico a populações de controle não expostas ao mutágeno. 1937-1964. No entanto, refutar o lamarckismo não era
As mutações espontâneas são raras, embora as fre- uma tarefa fácil, principalmente no caso de microrganis-
quências observadas variem de um gene para outro e de mos, quando até mesmo pequenas culturas costumam
um organismo para outro. As medidas da frequência de ter bilhões de organismos.
mutação espontânea para vários genes de fagos e bacté- A título de exemplo, analisemos uma população de
rias variam de aproximadamente 10-a a 10-10 mutações bactérias como E. coli cultivada em meio sem estreptomi-
detectáveis por par de nucleotídios por geração. Nos eu- cina. Quando expostas à estreptomicina, a maioria das
cariotos, as taxas de mutação estimadas variam de apro- bactérias é destruída pelo antibiótico. Mas se a popula-
ximadamente 10-7 a 10-9 mutações detectáveis por par de ção for suficientemente grande, logo dará origem a uma
nucleotídios por geração (considerando apenas os genes cultura resistente à estreptomicina na qual todas as célu-
sobre os quais se dispõe de amplos dados). Ao compa- las são resistentes ao antibiótico. A estreptomicina ape-
rar as taxas de mutação por nucleotídio com as taxas de nas seleciona mutantes aleatórios raros preexistentes na
mutação por gene, geralmente se considera que a região população, ou todas as células têm alguma probabilida-
codificadora do gene médio tem 1.000 pares de nucleotí- de de desenvolver resistência em resposta à presença de
dios de comprimento. Assim, a taxa de mutação por gene estreptomicina? Como os geneticistas podem distinguir
varia de cerca de 10-4 a 10-7 por geração. essas duas possibilidades? A resistência à estreptomicina
O tratamento com agentes mutagênicos aumenta as só pode ser detectada por tratamento da cultura com o
frequências de mutação em ordens de magnitude. A fre- antibiótico. Como, então, um geneticista consegue saber
quência de mutação por gene em bactérias e vírus pode se existem bactérias resistentes antes da exposição à es-
aumentar para mais de 1 % por tratamento com potentes treptomicina ou se elas são induzidas pela presença do
mutágenos químicos. Ou seja, mais de 1 % dos genes dos antibiótico?
organismos tratados apresentarão uma mutação ou, dito Em 1952, J oshua e Esther Lederberg desenvolveram
de outra maneira, mais de 1 % dos fagos ou das bactérias uma técnica nova e importante chamada plaqueamento em
na população apresentarão uma mutação em um deter- réplica. Essa técnica possibilitou demonstrar a presença de
minado gene. mutantes resistentes a antibióticos em culturas bacteria-
Capítulo 13 1 Mutação, Reparo do DNA e Recombinação 337

nas antes da exposição ao antibiótico ( Figura 13.15). Pri- definitivos. As colônias que proliferaram nas placas de
meiro, eles diluíram as culturas bacterianas, dispersaram replicação seletivas quase sempre tinham células resisten-
as bactérias na superfície de meio ágar nutritivo semis- tes à estreptomicina, enquanto as colônias que não pro-
sólido em placas de Petri e incubaram as placas até que liferaram no meio seletivo raramente continham células
cada bactéria produzisse uma colônia visível na superfí- resistentes (Figura 13.15).
cie do ágar. Em seguida, inverteram cada placa e a pres- Se uma mutação que torna uma bactéria resistente
sionaram sobre veludo estéril apoiado sobre um bloco à estreptomicina ocorre em um estágio inicial do cres-
de madeira. Algumas das células de cada colônia ficaram cimento de uma colônia, a célula resistente divide-se
aderidas ao veludo. Eles, então, pressionaram delicada- em duas, depois quatro, oito, até que haja uma grande
mente uma placa estéril de meio ágar nutritivo contendo quantidade de bactérias resistentes. Assim, se uma muta-
estreptomicina sobre o veludo. Repetiram esse procedi- ção é um processo não adaptativo aleatório, muitas das
mento de replicação com muitas placas, cada uma delas colônias formadas nas placas não seletivas contêm mais
contendo cerca de 200 colônias bacterianas. Depois da de uma bactéria resistente ao antibiótico e dão origem
incubação das placas seletivas (que continham estrepto- a culturas resistentes quando se testa o crescimento em
micina) durante a noite, surgiram raras colônias resisten- meios seletivos. No entanto, se a mutação é adaptativa e
, . .
tesa estreptom1c1na. as mutações de resistência à estreptomicina só ocorrem
Em seguida, os Lederbergs testaram as colônias das depois da exposição ao antibiótico, a probabilidade de
placas não seletivas (que não continham estreptomici- que as colônias nas placas não seletivas que deram ori-
na) para verificar a capacidade de proliferação em meio gem a colônias resistentes nas placas seletivas depois do
contendo estreptomicina. Os resultados obtidos foram plaqueamento em réplica contivessem células resistentes

Placa que contém


meio de cultura ágar
; ,ª:;,;,·..-=-.,,,,.,.,~
sem estrepto micin

"'"'p"'
(J.O
, Inoculação com
bactérias e incubação t\
até que haja colônias lf
visíveis.
, Crescimento
e bacteriano "'"'p"'
-- ------------- --~ - (J.O
, Uso de células da placa
~f>..P-.y ~/:C::::::::::::::::===:::=~~ original sem estreptomicina
Ausência de para inocular meio líquido
O Retirada da : crescimento contendo estreptomicina.
tampa, inversão '1 bacteriano
e pressão da '
placa sobre Veludo estéril
o veludo. esticado sobre
bloco de madeira.
Crescimento de
apenas uma colônia.

Placa que contém


meio de cultura ágar
e estreptomicina.
~f>..P-.y
9 Retirada da placa .. - ... ...
(algumas células ''
aderem ao veludo). '' \
\

~f>..P-.y
O Pressão da placa com
estreptomicina sobre
o veludo contendo
células e incubação.
• FIGURA 13.15Uso de plaqueamento em réplica por joshua e Esther Lederberg para demonstrar a natureza aleatória ou não direcionada
da mutação. Para simplificar, somente quatro colônias são mostradas em cada placa, e apenas duas são submetidas a teste para resistência
à estreptomicina na Sª etapa. Na verdade, cada placa conteria cerca de 200 colônias, e seriam necessárias mu itas placas para encontrar uma
quantidade adequada de colônias mutantes.
338 Fundamentos de Genética

à estreptomicina não seria maior que em outras colônias da quase totalmente de indivíduos de olhos castanhos, o
nas placas não seletivas. alelo para olhos azuis poderia ser considerado mutante.
Portanto, com o auxílio da técnica de plaqueamen- Quando uma segunda mutação restaura o fenótipo
to em réplica, os Lederbergs demonstraram a existên- original perdido em razão de uma mutação anterior, o
cia de mutantes resistentes à estreptomicina em uma processo é denominado reversão ou mutação reversa. A re-
população de bactérias antes da exposição a antibió- versão pode ocorrer de duas maneiras diferentes: (1) por
ticos. Os resultados, como os de muitos outros experi- retromutação, uma segunda mutação, ocorrida no mesmo sí-
mentos, mostraram que o estresse ambiental não diri- tio gênico que a primeira, restaura a sequência de nucleo-
ge nem causa as alterações genéticas como acreditava tídios do tipo selvagem, ou (2) por mutação supressora, uma
Lysenko; apenas seleciona mutações preexistentes ra- segunda mutação em local diferente do genoma, que
ras que produzem fenótipos mais bem adaptados ao anula os efeitos da primeira mutação (Figura 13.16). Are-
novo ambiente.
tromutação restaura a sequência nucleotídica de tipo sel-
vagem original do gene, mas a mutação supressora não.
MUTAÇÃO 1 UM PROCESSO REVERSÍVEL As mutações supressoras podem ocorrer em sítios dife-
rentes no mesmo gene da mutação original ou em genes
Conforme já foi comentado, a mutação de um gene de
diferentes e até mesmo em cromossomos diferentes.
tipo selvagem pode produzir um alelo mutante que oca-
Algumas mutações são revertidas principalmente por
siona um fenótipo anormal. O alelo mutante, porém,
retromutação, ao passo que outras são revertidas quase
também pode sofrer mutação de volta a uma forma que
restaura o fenótipo selvagem. Ou seja, a mutação é um exclusivamente por mutações supressoras. Portanto, em
processo reversível. estudos genéticos, muitas vezes os pesquisadores preci-
A mutação de um gene de tipo selvagem em uma sam distinguir essas duas possibilidades por retrocruza-
forma que produz um fenótipo mutante é denominada men to do revertente fenotípico com o organismo de tipo
mutação direta. No entanto, às vezes a designação dos fe- selvagem original. Se o fenótipo selvagem for restaurado
nótipos selvagem e mutante é bastante arbitrária. Eles por uma mutação supressora, a mutação original estará
podem apenas representar dois fenótipos diferentes, mas presente e poderá ser separada da mutação supressora
normais. Por exemplo, os geneticistas consideram que os por recombinação (Figura 13.16). Se o fenótipo selva-
alelos para olhos castanhos e azuis em seres humanos gem for restaurado por retromutação, toda a prole do
são de tipo selvagem. Mas em uma população constituí- retrocruzamento será do tipo selvagem.

Fenótipo Genótipo
+
Tipo selvagem
i Mutação
Mutante

Retromutação Mutação supressora

Reversão
fenotípica
+ m s
Tipo selvagem (1) (2)

Retrocruzamento com o tipo selvagem


+
(1) .. + Toda a prole de
tipo selvagem
+
m s
(a} Parentais de
fenótipo
+
m s (b} selvagem
(2)
... m
(c} Recombinante:
+
fenótipo mutante
s Recombinante:
(d}
fenótipo desconhecido
• FIGURA 13.16 A restauração do fenótipo selvagem original de um organismo pode ocorrer por (1) retromutação ou (2) mutação supressora
(mostradas no mesmo cromossomo para simplificar). Alguns mutantes podem reverter o fenótipo selvagem por ambos os mecanismos. Os
revertentes dos dois t ipos podem ser distinguidos por retrocruzamentos com o t ipo selvagem original. Se tiver ocorrido retromutação, toda
a prole do retrocruzamento será de tipo selvagem. Se o responsável for uma mutação supressora, parte da prole do retrocruzamento terá o
fenótipo mutante (2c).
Capítulo 13 1 Mutação, Reparo do DNA e Recombinação 339

PONTOS ESSENCIAIS • As mutações ocorrem tanto nas células germinativas quanto nas células somáticas, mas
apenas as mutações da linhagem germinativa são transmitidas à prol.e
• As mutações podem ser espontâneas ou induzidas por agentes mutagênicos existentes no
ambiente
• A mutação geralmente é processo não adaptativo no qual um estresse ambiental apenas
seleciona organismos com mutações al.eatórias preexistentes
• A restauração do fenótipo selvagem em um organismo mutante pode ser consequência de uma
retromutação ou de uma mutação supressora.


Muta ão 1 Efeitos fenotí ICOS

Os efeitos das mutações no fenótipo variam da inexis-


tência de alterações observáveis à letalidade.
p
Os efeitos das mutações no fenótipo variam de altera- X X
ções tão leves que só são detectáveis por técnicas gené- ,- __ -----
//--~---
----:-- --....:-- "' '
ticas ou bioquímicas especiais, passando por alterações / /
/
\
- ---
----
- k -">"'-
-
---- /
.....
_--...:.
-- ~
/
/

/7"- _ _ _
'
'
morfológicas grosseiras, até a letalidade. Um gene é uma
sequência de pares de nucleotídios que geralmente codi- + + +
fica um polipeptídio específico. Portanto, toda mutação
que ocorre em determinado gene produz um novo alelo
X X X X X y
'e! X y
d Morre
daquele gene. Os genes que apresentam mutações que 9 9
não afetam o fenótipo ou que causam efeitos pequenos • FIGURA 13.17 Alteração da proporção sexual por uma mutação le-
reconhecíveis apenas por técnicas especiais são chamados tal recessiva ligada ao X. A proporção de fêmeas e machos na prole
isoalelos. Outras mutações produzem alelos nulos que deter- de fêmeas heterozigotas para uma mutação letal recessiva ligada ao
minam a ausência do produto gênico ou um produto gê- Xéde2:1.
nico totalmente inativo. Se houver mutações desse último
tipo em genes necessários para o crescimento do organis-
mo, os indivíduos homozigotos para a mutação não sobre- esperado se considerarmos o que se sabe sobre o con-
viverão. Essas mutações são denominadas letais recessivas. trole genético do metabolismo e as técnicas disponíveis
As mutações podem ser recessivas ou dominantes. Em para identificação de mutações. Conforme comentamos
organismos monoploides como vírus e bactérias, as mu- no Capítulo 4, o metabolismo ocorre por sequências de
tações recessivas e dominantes podem ser reconhecidas reações químicas, e cada etapa é catalisada por uma en-
pelo efeito sobre o fenótipo do organismo em que ocor- zima específica codificada por um ou mais genes. Com
rem. Em organismos diploides como a mosca-das-frutas frequência, as mutações nesses genes causam bloqueios
e os seres humanos, mutações recessivas só modificam das vias metabólicas ( Figura 13.18). Esses bloqueios ocor-
o fenótipo quando presentes na condição homozigota. rem porque muitas vezes as alterações nas sequências
Assim, em diploides, a maioria das mutações recessivas de pares de bases dos genes modificam as sequências de
não é reconhecida por ocasião da sua ocorrência porque aminoácidos dos polipeptídios ( Figura 13.19), o que pode
estão presentes no estado heterozigoto. As mutações re- acarretar a síntese de produtos inativos (Figura 13.18).
cessivas ligadas ao X são uma exceção; elas são expressas Na verdade, esse é o efeito mais comum de mutações fa-
no estado hemizigoto no sexo heterogamético (p. ex., o cilmente detectadas. Considerando-se um alelo selvagem
sexo masculino no ser humano e na mosca-das-frutas; o codificador de uma enzima ativa e alelos mutantes codifi-
sexo feminino em aves). As mutações letais recessivas li- cadores de enzimas menos ativas ou totalmente inativas,
gadas ao X alteram a proporção sexual da prole porque é evidente por que a maioria das mutações observadas
os indivíduos hemizigotos que têm a mutação letal não seria recessiva. Se uma célula contém formas ativas e ina-
sobrevivem (Figura 13.17). tivas de determinada enzima, a forma ativa geralmente
catalisa a reação em questão. Portanto, o alelo especifica-
dor do produto ativo geralmente é dominante, e o alelo
MUTAÇÕES COM EFEITOS FENOTÍPICOS 1 codificador do produto inativo é recessivo (Capítulo 4).
GERALMENTE PREJUDICIAIS E Em razão da degeneração e da ordem existente no
código genético (Capítulo 12), muitas mutações não
RECESSIVAS
afetam o fenótipo do organismo; são conhecidas como
A maioria das mutações identificadas e estudadas por mutações neutras. Mas por que a maioria das mutações
geneticistas é prejudicial e recessiva. Esse resultado é com efeitos fenotípicos reconhecíveis ocasionaria dimi-
340 Fundamentos de Genética

,
Precursor .. lntermediário1 .. lntermediário2 .. Produto vos. E possível fazer uma analogia com qualquer má-
Enzima A Enzima B Enzima C quina complexa, cuidadosamente projetada, como um
computador ou um automóvel. Ao se modificar aleato-

GeneA
t Gene B
t Gene C
t riamente um componente essencial é improvável que o
desempenho da máquina continue tão bom. Essa noção
Alelo selvagem A Alelo selvagem B Alelo selvagem C de mutação e da interação entre alelos mutantes e sel-
Mutacão Mutacão Mutacão vagens é compatível com a observação de que a maioria
' ' '
das mutações com efeitos fenotípicos reconhecíveis é
Alelo mutante a Alelo mutante b Alelo mutante c recessiva e prejudicial.

+ + + EFEITOS DAS MUTAÇÕES NOS GENES


Enzima a inativa Enzima b inativa Enzima c inativa
em homozigoto em homozigoto em homozigoto
DA GLOBINA HUMANA
ªª bb cc
Precursor 5;1.. lntermediário1 5;1 .. lntermediário2 5;1 .. Produto As hemoglobinas humanas mutantes ilustram bem os
• FIGURA 13.18 Alelos mutantes recessivos geralmente causam blo- efeitos prejudiciais da mutação. Nos Capítulos 1 e 12,
queio das vias metabólicas.As vias podem ter apenas algumas etapas, examinamos a estrutura da hemoglobina e os efeitos
como mostra o diagrama, ou mu itas etapas. O alelo selvagem de cada traumáticos
, de uma variante, a hemoglobina falciforme.
gene geralmente codifica uma enzima ativa que catalisa a reação per- E preciso lembrar que a principal forma de hemoglobi-
tinente. A maioria das mutações ocorridas em genes de tipo selvagem na em adultos (hemoglobina A) contém duas cadeias alfa
resulta em formas alteradas da enzima com atividade diminuída ou (a) idênticas e duas cadeias beta (í3) idênticas. Cada po-
ausente. No estado homozigoto, alelos mutantes que determinam lipeptídio a é constituído de uma sequência específica
produtos inativos causam bloqueios metabólicos (-\ \~) em virtude de 141 aminoácidos, enquanto cada cadeia í3 tem 146
da ausência da atividade enzimática necessária.
aminoácidos. Dadas as semelhanças das sequências de
aminoácidos, acredita-se que todas as cadeias globina (e,
portanto, seus genes estruturais) tenham evoluído a par-
nuição ou ausência de atividade do produto gênico? Um tir de um progenitor comum.
alelo selvagem de um gene codificador de uma enzima Muitas variantes diferentes de hemoglobina adulta fo-
de tipo selvagem ou proteína estrutural foi selecionado ram identificadas em populações humanas, e várias de-
pela atividade ideal durante a evolução. Assim, as mu- las têm efeitos fenotípicos graves. Muitas variantes foram
tações, que causam alterações aleatórias nas sequências inicialmente detectadas pela alteração de seu comporta-
de aminoácidos muito bem adaptadas, geralmente de- mento eletroforético (movimento em campo elétrico por
terminam produtos menos ativos ou totalmente inati- diferenças de carga - ver Capítulo 14). As variantes da

Mutação
-------------------------------------

1
1
1
1 1
1
AI elo Alelo mutante Y
"selvagem"
dogene 1 do gene 1
Cromossomo mitótico ou meiótico ,- __
1 - - - -- - - - - - --
- - - -- -
- - -- ::;.t>-P_,, - -- - --
1
1
G AG O As informações genéticas são AG - -- -
DNA ••••••••
armazenadas na sequência
ere T C
de pares de bases.
Transcrição '\t>-P Transcrição
. ,_f, i As informações genéticas
mRNA G AG são expressas usando - - - -I AG
'---v--' sequência de códons
Códon 0
Traducão trinucleotídicos no Traducão
'
'
mRNA como intermediários.
::;.t>-P_,,
Polipeptídio aa 1·aa2.... · .. · .. · ....glu· · .. · .... · .. · .. · .. ªªn e o efeito do gene sobre o
fenótipo é mediado por
(Produto gênico "selvagem" ativo) (Produto gênico mutante inativo)
sequência específica de
aminoácidos (aa) no produto
gênico polipeptídico.
• FIGURA 13.19 Visão geral do processo de mutação e a expressão de alelos selvagens e mutantes.As mutações alteram as sequências de pares
de nucleotídios em genes, o que, por sua vez, modifica as sequências de aminoácido dos polipeptídios codificados por esses genes. Um par de
bases G:C (em cima à esquerda} sofreu mutação em um par de basesA:T (em cima à direita). Essa mutação altera um códon de mRNA de GAG
para AAG; e um aminoácido no produto polipeptídico de ácido glutâmico (glu} para Usina (lys). Em geral, essas alterações determinam produtos
gênicos inativos.
Capítulo 13 1 Mutação, Reparo do DNA e Recombinação 341

hemoglobina são uma excelente ilustração dos efeitos da Podemos ilustrar os efeitos das mutações no meta-
mutação nas estruturas e funções dos produtos gênicos e, bolismo humano por meio da análise de praticamente
por fim, no fenótipo das pessoas afetadas. qualquer via metabólica. No entanto, o metabolismo
Quando as sequências de aminoácidos das cadeias 13 dos aminoácidos aromáticos fenilalanina e tirosina é um
de hemoglobina A e a hemoglobina em pacientes com exemplo excelente porque alguns dos primeiros estudos
doença falciforme (hemoglobina S) foram determina- de mutações em seres humanos revelaram bloqueios
das e comparadas, constatou-se que a hemoglobina S nessa via. A fenilalanina e a tirosina são aminoácidos es-
só diferia da hemoglobina A em uma posição. O sexto senciais necessários à síntese proteica; os seres humanos
aminoácido da terminação amino da cadeia 13 da he- não os sintetizam como fazem os microrganismos. Assim,
moglobina A é o ácido glutâmico (um aminoácido com ambos os aminoácidos têm de ser obtidos das proteínas
carga negativa). A cadeia 13 da hemoglobina S contém da alimentação.
valina (não tem carga elétrica em pH neutro) nessa po- O defeito hereditário mais conhecido do metabolis-
sição. As cadeias a da hemoglobina A e da hemoglobina mo da fenilalanina-tirosina é a fenilcetonúria, causada
S são idênticas. Assim, a alteração de um aminoácido pela ausência de fenilanina hidroxilase, a enzima que
em um polipeptídio pode ter efeitos graves sobre o fe- converte a fenilalanina em tirosina. Recém-nascidos
,. .
notlpo. com fenilcetonúria, uma doença autossômica recessiva,
No caso da hemoglobina S, a substituição do ácido apresentam retardo mental grave quando não se institui
glutâmico por valina na sexta posição na cadeia 13 leva dieta com restrição de fenilalanina. O primeiro distúr-
à formação de uma nova ligação, que altera a confor- bio hereditário na via metabólica da fenilalanina-tirosi-
mação da proteína e leva à agregação de moléculas de na estudado em seres humanos foi a alcaptonúria, cau-
hemoglobina. Essa alteração resulta no formato excessi- sada por mutações autossômicas recessivas que inativam
vamente anormal (falciforme) das hemácias. A alteração a enzima ácido homogentísico oxidase. A alcaptonúria
mutacional no alelo HBBA que deu origem a HBW foi a teve um papel importante na evolução do conceito do
substituição de um par de bases A:T por um par de bases gene.
T:A, com T no filamento transcrito no primeiro caso e A Dois outros distúrbios hereditários são causados por
no filamento transcrito no segundo caso (ver Figura 1.9). mutações dos genes codificadores das enzimas necessárias
Essa substituição de pares de bases A:T ~ T:A foi prevista para o catabolismo da tirosina; a herança de ambos é au-
a partir de dados da sequência de proteínas e dos códons tossômica recessiva. A tirosinose e a tirosinemia são cau-
conhecidos e, mais tarde, confirmada por sequenciamen- sadas pela ausência das enzimas tirosina transaminase e
to dos alelos HBBA e HBW. ácido p-hidroxifenilpirúvico oxidase, respectivamente. As
Conhecem-se mais de 100 variantes de hemoglobi- duas enzimas são necessárias para decompor a tirosina em
na com alterações de aminoácidos na cadeia 13 (ver as C02 e H 20. A tirosinose é muito rara; só foram estudados
questões em Genômica na Web no fim do capítulo). A alguns casos. Indivíduos com com tirosinose apresentam
maioria delas difere da cadeia 13 normal da hemoglobina aumento acentuado dos níveis sanguíneos e urinários de
A por substituição de apenas um aminoácido. Algumas tirosina e têm várias anormalidades congênitas. Indivíduos
diferem em dois aminoácidos. Também foram identifica- com tirosinemia têm altos níveis sanguíneos e urinários de
das muitas variantes do polipeptídio a. tirosina e de ácido p-hidroxifenilpirúvico. A maioria dos
Os exemplos da hemoglobina mostram que a mutação recém-nascidos com tirosinemia morre por insuficiência
é um processo em que alterações na estrutura do gene, hepática nos primeiros 6 meses após o nascimento.
com frequência alterações em um ou mais pares de ba- O albinismo, a ausência de pigmentação na pele, nos
ses, podem modificar as sequências de aminoácidos dos pelos e nos olhos, é causado por um bloqueio mutacional
produtos gênicos polipeptídicos. Essas alterações da es- na conversão de tirosina no pigmento escuro melanina.
trutura das proteínas, por sua vez, causam alterações do Um tipo de albinismo é causado pela ausência de tirosi-
fenótipo que são reconhecidas como mutantes. nase, a enzima que catalisa a primeira etapa na síntese de
melanina a partir da tirosina. Outros tipos de albinismo
MUTAÇÃO EM SERES HUMANOS 1 são causados por bloqueios em etapas subsequentes da
conversão de tirosina em melanina. A herança do albinis-
BLOQUEIOS EM VIAS METABÓLICAS mo é um traço autossômico recessivo; os heterozigotos
No Capítulo 4, discorremos sobre o controle genético geralmente têm níveis normais de pigmentação. Portan-
das vias metabólicas, no qual cada etapa de uma via é to, filhos de dois albinos com mutações em genes dife-
catalisada por uma enzima codificada por um ou mais rentes têm pigmentação normal.
genes. As mutações desses genes costumam causar blo- Assim, estudos de uma única via metabólica, metabo-
queios metabólicos (Figura 13.18) que acarretam fenó- lismo da fenilalanina-tirosina, revelaram cinco distúrbios
tipos anormais. Esse quadro do controle genético do hereditários, todos causados por,.
mutações em genes que
metabolismo é válido para todos os organismos vivos, controlam etapas dessa via. E possível obter exemplos
inclusive os seres humanos (ver O futuro: Pesquisa de semelhantes do controle genético do metabolismo pelo
mutações de Tay-Sachs em pré-embriões de oito célu- exame de praticamente qualquer outra via metabólica
las). em seres humanos.
342 Fundamentos de Genética

• FUTURO
-
PESQUISA DE MUTAÇOES DE TAY-SACHS EM Gangliosídio GM2 : N-acetil-0-galactosamina-~-
1,4,-galactose-~-l , 4-glicose-~- l, 1-ceramida
PRÉ-EMBRIÕES DE OITO CÉLULAS 1

3
1

e todos os distúrbios hereditários humanos, a doença de a-2


' 1
Tay-Sachs é um dos mais trágicos. Lactentes homozigotos Acido N-acetilneuramínico
para o gene mutante causador da doença de Tay-Sachs são
Hexosaminidase A f Doença de Tay-Sachs
normais ao nascimento. Em poucos meses, porém, eles se tornam
hipersensíveis a ruídos altos, e uma mancha vermelho-cereja surge N-acetil-0-galactosamina
na retina. Muitas vezes esses sintomas iniciais da doença não são +
detectados pelos pais nem pelos médicos. Seis meses a 1 ano após Gangliosídio GM3:
o nascimento, as crianças com doença de Tay-Sachs começam a Galactose-~-1 , 4-glicose-~- l, 1-ceramida
1
apresentar degeneração neurológica progressiva que logo acarreta
3
retardo mental, cegueira, surdez e perda gera l de controle das fun- 1
a-2
ções do corpo. Aos 2 anos de idade, geralmente há paralisia total ' 1
Acido N-acetilneuramínico
e infecções respiratórias crônicas. Essas crianças costumam morrer
com 3 a 4 anos de idade. • FIGURA 1 O defeito metabólico em seres humanos com doença
A doença de Tay-Sachs é causada por mutação autossômica de Tay-Sachs.
recessiva no gene HEXA, que codifica a enzima hexosaminidase
A. Essa mutação é rara na maioria das populações. No entanto,
cerca de 1 em 30 adultos na população de judeus asquenaze da bera alguns distúrbios hereditários possam ser tratados com a ad-
Europa Central tem o gene mutante em estado heterozigoto, e a ministração da enzima ausente aos pacientes, isso não acontece na
doença acomete aproximadamente 1 em cada 3.600 crianças. No doença de Tay-Sachs, porque a enzima não atravessa a barreira que
casamento de duas pessoas dessa popu lação de judeus, a chance separa as células encefálicas do sistema circulatório. Além disso, a
de que ambas tenham o gene mutante é de aproximadamente 1 terapia gênica em células somáticas - que fornece cópias ativas do
em 1.000 (0,033 X 0,033). Se os dois pais forem portadores, um gene defeituoso para as células somáticas (Capítulo 16) - ainda
quarto dos fi lhos, em média, será homozigoto para o gene mutante não é possível, já que não existe procedimento consolidado de in-
e terá doença de Tay-Sachs. trodução de genes em neurônios.
A hexosaminidase atua sobre o gangliosídio GM2, um lipídio A amniocentese (Capítulo 6) foi usada em larga escala para de-
complexo, clivando-o em um gangliosídio menor (GM3) e N-ace- tectar a mutação de Tay-Sachs durante o desenvolvimento fetal.
ti l-D-galactosamina, como mostra a Figura 1. A função do gan- Mais recentemente, foi desenvolvido um teste de DNA que usa
gliosídio GM2 é revestir as células nervosas, isolando-as dos proces- o DNA de uma única célula para detectar o gene mutante. Esse
sos que ocorrem nas células adjacentes e, portanto, acelerando a teste pode ser usado para triagem da mutação de Tay-Sachs em
transmissão dos impulsos nervosos. Na ausência da enzima que o pré-embriões de oito células produzidos por fertilização in vitro.
decompõe, o gangliosídio GM2 acumula-se e encobre literalmente Uma célula é usada para o teste de DNA, e as outras sete célu-
as células nervosas. Esse acúmulo de lipídios complexos sobre os las preservam a capacidade de dar origem a um embrião normal
neurônios bloqueia sua ação, causando a deterioração do sistema quando implantadas no útero materno. Apenas os embriões cujo
nervoso e, por fim, paralisia. teste é norma l - não homozigotos para o gene Tay-Sachs mortal -
Embora a doença de Tay-Sachs tenha sido descrita por Warren são implantados. Esse procedimento torna possível que pais hete-
Tay em 1881 e sua base bioquímica seja conhecida há mais de rozigotos tenham filhos sem temer o nascimento de uma criança
25 anos, ainda não há tratamento eficaz para esse distúrbio. Em - com doença de Tay-Sachs.

MUTAÇÕES LETAIS CONDICIONAIS 1 mutantes com letais condicionais podem ser propaga-
dos em co11dições permissivas, e as i11formações sobre as
INSTRUMENTOS EFICIENTES PARA
funções dos produtos gênicos podem ser inferidas pelo
ESTUDOS GENÉTICOS estudo das consequências de sua ausência em condições
De todas as mutações - de isoalelos a letais - as mutações restritivas. A$ mutações letais condicionais foram usadas
letais condicionais são as mais úteis para estudos genéticos. para investigar uma grande ''ariedade de processos bioló-
Essas mutações são (1) letais em um ambiente, a condição gicos desde o dese11volvimento até a fotossíntese.
restritiva, mas (2) viáveis em outro ambiente, a condição A$ três principais classes de mutantes com fenótipos
permissiva. A$ mutações letais condicionais possibilitam letais co11dicio11ais são (1) mutantes auxotróficos, (2)
aos geneticistas identificar e estudar mutações em genes mutantes termossensíveis e (3) mutantes sensíveis ao
essenciais que provocam a perda total da atividade do supressor. Os auxotróficos são mutantes incapazes de sin-
produto gênico, mesmo em orga11ismos haploides. Os tetizar um metabólito essencial (aminoácido, puri11a, pi-
Capítulo 13 1 Mutação, Reparo do DNA e Recombinação 343

rimidina, vitamina, e assim por diante) que é sintetizado tanto, em um organismo mutante com mutação no gene
por organismos de tipo selvagem ou prototróficos da mes- B, que resulta na síntese de uma forma inativa de enzima
ma espécie. Os auxotróficos crescem e reproduzem-se B ou na ausência de enzima B, o intermediário Y pode
quando o metabólito está presente no meio (a condição acumular-se em concentrações muitos maiores, facilitan-
permissiva); não crescem quando o metabólito essencial do seu isolamento e caracterização. Do mesmo modo,
está ausente (a condição restritiva). Os mutantes termossen- uma mutação no gene A pode auxiliar a identificação do
síveis crescem em uma temperatura, mas não em outra. precursor X. Assim, geralmente é possível determinar a
A maioria dos mutantes termossensíveis é sensível ao ca- sequência de etapas em determinada via metabólica.
lor; alguns, porém, são sensíveis ao frio. A sensibilidade A morfogênese em organismos vivos ocorre em par-
térmica geralmente é consequência de aumento da la- te pelo acréscimo sequencial de proteínas a estruturas
bilidade em situação de calor ou de frio do produto do macromoleculares a fim de produzir as conformações
gene mutante - por exemplo, uma enzima ativa em baixa tridimensionais finais, e com frequência é possível deter-
temperatura, mas parcial,
ou totalmente inativa em tem- minar a sequência de acréscimos de proteínas por meio
peraturas mais altas. As vezes, apenas a síntese do produ- do isolamento e do estudo de organismos mutantes com
to gênico é sensível à temperatura e, uma vez sintetizado, defeitos nos genes codificadores das proteínas implica-
o produto do gene mutante pode ser tão estável quanto das. Como uma mutação específica elimina a atividade
o produto do gene tipo selvagem. Os mutantes sensíveis de determinado polipeptídio, as mutações constituem
ao supressor são viáveis na presença de um segundo fator um instrumento útil para dissecção de processos biológi-
genético, um supressor, mas inviáveis na ausência desse cos - a divisão dos processos em etapas.
supressor. O gene supressor pode corrigir ou compensar O poder de resolução da dissecção das mutações em
o defeito do fenótipo causado pela mutação sensível ao processos biológicos foi esplendidamente documentado
supressor, ou pode fazer com que o produto gênico alte- pela pesquisa de Robert Edgar, Jonathan King, William
rado pela mutação não seja essencial. Apresentamos no Wood e colaboradores, que elucidaram toda a via de mor-
Capítulo 12 uma classe de mutações sensíveis ao supres- fogênese do bacteriófago T4. Esse processo complexo
sor, as mutações âmbar. conta com a participação dos produtos de aproximada-
Agora, analisemos resumidamente como é possível mente 50 dos cerca de 200 genes no genoma de T 4. Cada
usar mutações letais condicionais para investigar pro- gene codifica uma proteína estrutural do vírus ou uma
cessos biológicos - para dissecar os processos biológicos enzima que catalisa uma ou mais etapas na via morfoge-
em partes ou etapas. Comecemos por uma via simples de nética. Edgar, King, Wood e colaboradores identificaram
biossíntese: toda a via de morfogênese do fago T 4 com o auxílio (1)
Gene A GeneB do isolamento de linhagens mutantes do fago T4 com
mutações letais condicionais termossensíveis e sensíveis
Enzima A • Enzima B • ao supressor em cada um dos aproximadamente 50 ge-
nes e (2) do uso de microscopia eletrônica e de técnicas
Precursor X .,. Intermediário Y .,. Produto Z
bioquímicas para analisar as estruturas que se acumulam
O intermediário Y é produzido a partir do precursor X quando essas linhagens mutantes são cultivadas em con-
pela ação da enzima A, produto do gene A, mas o inter- dições restritivas (Figura 13.20).
mediário Ypode ser rapidamente convertido em produ- Muitos outros processos biológicos também foram
to Z pela enzima B, o produto do gene B. Nesse caso, o dissecados com sucesso por estudos de mutação. São
intermediário Y pode estar presente em quantidades di- exemplos as cadeias transportadoras de elétrons na fo-
minutas e pode ser dificil caracterizá-lo e isolá-lo. No en- tossíntese em vegetais e as vias de fixação do nitrogênio

Fibra ___3_7:.....,3_8_ _--i~ ~


da cauda ~
-><
~
34
..
16, 2, 4, 13,
20,21,22 17, 50, 64, 14
Cabeça
23,24,31,40, 66 49
.. \
,,,,
65
.. \ ,,
\I \
..
wac
\ I \
\
1
(Espontâneo} 63

5, 6, 7, 8, 10, 9, 54,
25, 26, 27, 28, 11, 48,
Cauda _2_9,_5_1_,_53----i•• .. .. ..
12 19 18
.. 3, 15
..
• FIGURA 13.20 Via resumida de morfogênese em bacteriófago T4. A cabeça, a cauda e as fibras da cauda são produzidas por ramificações
separadas da via e se reúnem nas fases finais da morfogênese. Os números identificam os genes de T4 cujos produtos são necessários em cada
etapa da via. As sequências das etapas iniciais na formação da cabeça e da cauda são conhecidas, mas foram omitidas aqui para manter o
diagrama conciso.
344 Fundamentos de Genética

em bactérias. Atualmente a dissecção mutacional está tas devem ser capazes de usar mutações para dissecar
produzindo novos conhecimentos sobre os processos de qualquer processo biológico. Todo gene pode sofrer
diferenciação e desenvolvimento em vegetais superiores mutação para um estado inativo. Assim, a dissecção mu-
e animais (Capítulo 20). Os pesquisadores também es- tacional de processos biológicos só é limitada pela in-
tão usando mutações para dissecar o comportamento e ventividade dos pesquisadores em identificar mutações
o aprendizado em Drosophila. Em princípio, os cientis- dos tipos desejados.

PONTOS ESSENCIAIS • Os efeitos das mutações nos fenótipos de organismos vivos variam de pequenas alterações à
letalidade
• A maioria das mutações influencia o fenótipo pela alteração das sequências de aminoácidos
dos polipeptídios, os produtos gênicos primários
• Os polipeptídios mutantes, por sua vez., bloqueiam vias metabólicas
• As mutações letais condicionais são técnicas eficientes de dissecção dos processos biológicos.

Localização das mutações nos genes pelo


teste de com P-..le
.: . . . : :. . m
: . . . :. . .: . .e. : . . .n
: . . . :.t. : . . a~~
. : . ã-=-
o _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __
O teste de complementação ou trans pode ser usado continham o mesmo mutante e informações genéticas de
para verificar se duas mutações estão localizadas no tipo selvagem, mas em arranjos diferentes. Quando or-
ganismos que contêm os mesmos marcadores genéticos,
mesmo gene ou em dois genes diferentes.
porém em arranjos diferentes, têm fenótipos diferentes,
diz-se que os marcadores apresentam efeitos de posição. O
Com o surgimento do conceito um gene-um polipeptí-
tipo de efeito de posição que Lewis observou é chamado
dio (Capítulo 12), os cientistas puderam definir o gene de efeito de posição cis-trans.
bioquimicamente, mas não tinham técnica genética para
A descoberta dos efeitos de posição cis-trans por Lewis
determinar se duas mutações estavam no mesmo gene levou ao desenvolvimento do teste de complementação ou
ou em genes diferentes. Essa deficiência foi resolvida teste trans para alelismo funcional. Esse teste possibilita
na década de 1940 quando Edward Lewis desenvolveu o que os geneticistas determinem se as mutações que pro-
teste de complementação para alelismo funcional. Antes duzem fenótipos iguais ou semelhantes estão no mesmo
de discorrermos sobre o trabalho de Lewis, precisamos gene ou em genes diferentes. As mutações têm de ser
definir alguns termos novos. Um heterozigoto duplo, testadas em pares pela determinação dos fenótipos de
que tem duas mutações e seus alelos selvagens, ou seja, heterozigotos trans. Ou seja, é preciso construir heterozi-
m1 e m1+ com m2 e m2+, pode existir em dois arranjos (Fi-
gotos trans para cada par de mutações e examiná-los para
gura 13.21). Quando as duas mutações estão no mesmo verificar se o fenótipo é mutante ou selvagem.
cromossomo, o arranjo é denominado acoplamento ou con- O ideal é que o teste de complementação ou trans seja
figuração eis, e um heterozigoto com esse genótipo é de- feito em conjunto com o teste eis - um controle que é omi-
nominado heterozigoto eis (Figura 13.21A). Quando as duas
mutações estão em cromossomos diferentes, o arranjo é Heterozigoto eis.
denominado repulsão ou configuração trans. Um organismo m1 m2
com esse genótipo é um heterozigoto trans (Figura 13.218).
Nas décadas de 1940 e 1950, Lewis observou que as
moscas-das-frutas com alguns mutantes nas configu-
rações eis e trans tinham fenótipos diferentes. Nós exa-
A
minaremos seus resultados com duas mutações reces-
sivas para olhos l>rancos ( w) e laranja-amarelados ( apr).
As moscas homozigotas para as mutações ligadas ao X Heterozigoto trans.
m1 m+
apr e w têm olhos amarelo-alaranjados e olhos brancos, 2
respectivamente, ao contrário dos olhos vermelhos da
Drosophila de tipo selvagem. Quando Lewis produziu he-
terozigotos eis com o genótipo afrr w/ap+ w+, eles apresen- m+
1
taram olhos vermelhos como as moscas de tipo selvagem
(Figura 13.22A). Quando criou heterozigotos trans com B
genótipo afrr w+/ap+ w, eles apresentaram olhos de cor • FIGURA 13.21 O arranjo dos marcadores genéticos em heterozigo-
laranja-amarelada clara (Figura 13.228). Os dois genótipos tos eis e trans.
Capítulo 13 1 Mutação, Reparo do DNA e Recombinação 345

Heterozigoto eis.
Gene whíte

apr w
Produto do gene
Cromossomo X 1
whíte mutante
1 -
Cromossomo X 2 -~---~~ Produto do gene
whíte selvagem

t
Portanto, o heterozigoto cís tem
olhos vermelhos de tipo selvagem.

Heterozigoto trans.
Gene whíte

apr w+
Cromossomo X 1
Produtos do gene
1 :à... whíte mutante
Cromossomo X 2 --~-. ~
apr+ w

Portanto, o heterozigoto trans tem


olhos de cor laranja-amarelada clara.

B
• FIGURA 13.22 O efeito de posição cis-trans observado por Edward Lewis com as mutações apre wde Drosophila.

tido com frequência. Os testes eis são realizados construin- Quando as duas mutações presentes em um hetero-
do-se heterozigotos eis para cada par de mutações estu- zigoto trans estão no mesmo gene, os dois cromossomos
dadas e determinando se os heterozigotos têm fenótipos têm cópias defeituosas desse gene. Logo, o heterozigoto
mutante ou selvagem. Juntos, o teste de complementação trans conterá apenas produtos inativos do gene implica-
ou trans e o teste eis são denominados teste cis-trans. Cada do e terá fenótipo mutante.
heterozigoto eis, que contém um cromossomo de tipo sel- Quando um heterozigoto trans tem fenótipo selvagem,
vagem, deve ter o fenótipo selvagem, quer as mutações es- diz-se que as duas mutações apresentam complementa-
tejam no mesmo gene, quer em dois genes diferentes. Na ção ou se complementam e estão localizadas em genes
verdade, é preciso que o heterozigoto eis tenha o fenótipo diferentes. Nesse caso, o heterozigoto trans conterá pro-
selvagem para que os resultados do teste trans sejam váli- dutos funcionais dos dois genes e, portanto, apresentará
dos. Se o heterozigoto eis tiver o fenótipo mutante, não se o fenótipo selvagem.
poderá usar o teste trans para determinar se as duas muta- Ilustremos esse conceito de complementação pelo exa-
ções estão no mesmo gene. Assim, não é possível usar o tes- me de testes trans realizados com algumas mutações âmbar
te trans para identificar mutações dominantes dos genes. bem caracterizadas do bacteriófago T4. As mutações âmbar
Com organismos diploides, os heterozigotos trans são em genes essenciais são mutações letais condicionais (ver
produzidos pelo simples cruzamento de organismos ho- a seção deste capítulo intitulada Mutações letais condi-
mozigotos para cada uma das mutações de interesse. Com cionais: instrumentos eficientes para estudos genéticos).
os vírus, os heterozigotos trans são produzidos pela infec- Quando presentes em bactérias hospedeiras restritivas
ção simultânea das células hospedeiras por dois mutantes como a linhagem B de E. eoli, o fenótipo é a letalidade -
diferentes. Qualquer que seja o mecanismo de criação dos isto é, não há prole. No entanto, quando presente em uma
heterozigotos trans, os resultados dos testes de comple- célula hospedeira permissiva, como a linhagem CR63 de
mentação ou trans oferecem as mesmas informações.
E. eoli, o fenótipo é selvagem - isto é, cada célula infectada
1. Se um heterozigoto trans tiver o fenótipo mutante (o produz cerca de 300 fagos. Nas mutações letais condicio-
fenótipo de organismos ou células homozigotas para nais, a distinção entre os fenótipos mutante e selvagem é
uma das duas mutações), as duas mutações estão na máxima: letalidade e crescimento normal.
mesma unidade de função, no mesmo gene. As mutações âmbar produzem trinucleotídios de tér-
2. Se o heterozigoto trans tiver o fenótipo selvagem, as mino da tradução nas regiões codificadoras dos genes
duas mutações estão em duas unidades de função di- (ver Figura 12.24). A consequência é que os produtos
ferentes, dois genes diferentes. dos genes mutantes são polipeptídios truncados, quase
346 Fundamentos de Genética

sempre totalmente inativos. Portanto, os testes de com- vagens dos dois genes, produzindo proteínas ativas da ca-
plementação feitos com mutações âmbar geralmente são beça e da cauda (Figura 13.23A). Logo, esse heterozigoto
. ,
1nequ1vocos. trans apresenta o fenótipo selvagem (um resultado nor-
Duas das três mutações âmbar que abordaremos ( amBI 7 mal da prole). As mutações amBI 7 e amEI8 complemen-
e amH32) estão localizadas no gene 23, que codifica a tam-se porque estão localizadas em dois genes diferentes.
principal proteína estrutural da cabeça do fago; a outra Por outro lado, um heterozigoto trans que contém
mutação (amE18) é no gene 18, que especifica a principal mutações amBI 7 e amH32 (ambas no gene da cabeça 23)
proteína estrutural da cauda do fago (Figura 13.20). não produz proteína da cabeça ativa do gene 23 (Figu-
Em um heterozigoto trans contendo mutações amBI 7 ra 13.238). Assim, esse heterozigoto trans tem o fenótipo
(gene da cabeça) e amEI8 (gene da cauda), há cópias sel- mutante (letalidade, ou ausência de prole). As mutações

Complementação entre mutações amB17 e amE18.

Célula de E. coli B: hospedeiro restritivo para mutantes âmbar


Cromossomo de mutante amBl 7 Cromossomo de mutante amE 18

Gene 18 Gene 23 Gene 18 Gene 23

DNA • 1 - •

1 ""'---------------'~I
T Mutações T
mRNA

Proteína
1
.
1 1
1 I
\ I
\ /
\ /
/
'~ --------. ..-------- ~/

A lise libera fagos infecciosos;


A portanto, o heterozigoto trans tem o fenótipo selvagem.

Ausência de complementação entre mutações amB17 e amH32.


Célula de E. coli B: hospedeiro restritivo Qara mutantes âmbar
Cromossomo de mutante amBl 7 Cromossomo de mutante amH32

Gene 18 Gene 23 Gene 18 Gene 23

DNA • - 1 •

t t~~ M.rt.Çra-
mRNA

Proteína
t ~
t
1 '
1
1
\
\
\
t /
/
I
I
I

' ~ ..---- /

Não há cabeças de fago e, portanto, não há produção de prole infecciosa na célula infectada;
B desse modo, o heterozigoto trans tem o fenótipo mutante.

• FIGURA 13.23 Complementação e não complementação em heterozigotos trans. A. Complementação entre a mutação amB 17 no gene 23,
que codifica a principal proteína estrutural da cabeça do fago, e mutação amE18 no gene 18, que especifica a principal proteína estrutural da
cauda do fago.As cabeças e caudas dos fagos são sintetizadas na célula, e o resultado é a produção de prole infecciosa. B. Quando o heterozigo-
to trans tem duas mutações (amB17 e amH32) no gene 23, não há produção de cabeças, e não é possível produzir a prole de fagos infecciosos.
Capítulo 13 1 Mutação, Reparo do DNA e Recombinação 347

a1nBl 7 e a1nH32 não se compleme11tam porque estão lo-


calizadas no mesmo gene.
Graças ao teste de compleme11tação, o pesquisador
consegue determinar se mutações independentes que Como localizar mutações nos genes?
produzem o mesmo fe11ótipo estão no mesmo gene ou
Quatro mutantes de E. eoli isolados de modo independente,
em ge11es diferentes. Dez mutações âmbar, por exemplo,
todos incapazes de crescer na ausência de triptofano (auxo-
podem estar em um ge11e, ou pode haver uma em um
tróficos para o triptofano), foram examinados em todos os
gene e no,re em um segundo gene, e assim por diante,
heterozigotos eis e trans possíveis (d iploides parciais). Todos
com a possibilidade final de que cada mutação esteja em os heterozigotos eis cresceram na ausência de triptofano. Os
um ge11e diferente. Nesse último caso, as dez mutações heterozigotos trans tiveram duas respostas diferentes: alguns
identificariam dez genes. Teste seu conhecimento sobre cresceram na ausência de triptofano; outros, não. Os resulta-
esse conceito na seção Resol,ra!: Como localizar muta- dos experimentais, usando "+" para indicar crescimento e "O"
ções nos genes? para indicar que não houve crescimento, são apresentados no
A complementação é resultado da funcionalidade dos quadro adiante.
produtos gênicos especificados por cromossomos que Crescimento de heterozigotos transem meio sem
têm duas mutações diferentes quando presentes nomes- triptofano
mo protoplasma. A complementação não depende da re-
Mutante: 1 2 3 4
combinação dos dois cromossomos. A co1nple1nentação, ou 4 o o
+ +
S'Lta attsência, é avaliada pelo fenótipo (selvagem ou 1nutante) de 3 o o
+
cada heterozigoto tra11s. Já a recombinação requer a qttebra dos 2 o
+
cro1nossomos e a rettnião de partes para prodttzir cro1nossomos de 1 o
tipo selvagem e mtttantes duplos.
Observe que o teste de complementação ou trans de- Quantos genes são definidos por essas quatro mutações? Que
linhagens mutantes têm mutações no(s) mesmo(s) gene(s}?
fine o alelis1no funcional, isto é, se duas mutações estão
localizadas no mesmo gene ou em dois genes diferentes. ~ Leia a resposta do problema no site
Duas mutações que não se compleme11tam em um he- http://gen-io.grupogen.eom.br.
terozigoto trans estão na mesma unidade de função, o
mesmo gene. O alelismo estrtttural- a ocorrência de duas
ou mais mutações diferentes no mesmo sítio em um cro- nem se recombi11am. Os homoalelos mutantes têm de-
mossomo - é determinado pelo teste de recombinação. feitos no mesmo sítio, ou defeitos que superpõem um
Duas mutações que não se recombinam são estrutural- sítio comum, no mesmo gene. As mutações com alelismo
mente alélicas; as mutações ocorrem 110 mesmo sítio ou funcional, mas não estrutural, são denominadas hetero-
- , .
superpoem um s1tlo comum. alelos; elas se recombinam, mas não se complementam.
As mutações com alelismo estrutural e funcional são Os heteroalelos muta11tes ocorrem em sítios difere11tes,
,
denominadas homoalelos; elas não se complementam porem 110 mesmo gene.

PONTOS ESSENCIAIS • O teste de complementação é usado para verificar se duas mutações que produzem o mesmo
fenótipo estão localizadas no mesmo gene ou em dois genes diferentes
• Homoalelos são mutações no mesmo sítio em um gene; heteroalelos são mutações em diferentes
, .
sztzos em um g-ene.

Avaliação da mutagenicidade de substâncias


, .
~u1m1cas Teste de Ames

O teste de Ames é um método simples e de baixo custo sob controle genético. Genes específicos codificam pro-
para detecção da mutagenicidade de substâncias quí- dutos que regulam a divisão celular em resposta a sinais
' .

. intracelulares, intercelulares e ambientais. As vezes, a


m1cas.
mutação desses genes para estados
,
inativos pro,roca adi-
Os agentes mutagê11icos também são carcinógenos; isto é, visão celular descontrolada. E claro que desejamos evitar
· - ,... . ,,....
a expos1çao a agentes mutagen1cos e carc1nogen1cos, mas
induzem câ11ceres. A única característica em comum de
centenas de tipos de câncer é que as células malignas a 11ossa sociedade tec11ológica depe11de do uso em larga
continuam a se dividir depois que a divisão celular te- escala de substâncias químicas, tanto na indústria quanto
ria cessado em células normais. Evidentemente, a divisão na agricultura. Todos os anos são produzidas cente11as de
celular, como todos os outros processos biológicos, está novas substâncias químicas, e é preciso avaliar a mutage-
348 Fundament os de Genética

n icidade e a carcinogenicidade dessas substâncias antes transversões e mudan ças de matriz de leitura - em genes
que seu uso seja difundido. necessários para a biossín tese do amin oácido histidin a.
Os testes tradicionais de carcinogen icidade das subs- Para monitorar a reversão desses mutantes auxotróficos
tâncias químicas eram realizados em roedores, geral- em p rototróficos, eles puseram uma quantidade con heci-
mente camundongos recém-nascidos. Nesses estudos a da de bactérias mutantes em meio sem h istidina e con ta-
substância testada é administrada aos animais pela ali- ram as colônias produzidas por reverten tes prototróficos.
mentação ou injeção, e depois estes são examinados à Como algumas substâncias químicas são mutagênicas
procura de tumores. Os testes de mutagenicidade eram apenas para o DNA em replicação, eles acrescentaram ao
realizados de maneira semelhante. No entanto, como a meio uma pequena quantidade de histidin a, suficie n te
mutação é um evento de baixa frequência e o custo da para algumas divisões celulares, mas não para a formação
manutenção de gran des populações de camundon gos é de colônias visíveis. Eles mediram a mutagen icidade de
alto, os testes eram relativamen te in sensíveis; isto é, não uma substância química por comparação da frequência
detectavam baixos níveis de mutagenicidade. de reversão em sua presença com a frequência de rever-
Bruce Ames e colaboradores desenvolveram técnicas são espon tânea (Figura 13.24). Avaliaram sua capacida-
sensíveis que possibilitam fazer testes rápidos da mutage- de de in duzir diferentes tipos de mutações usando um
nicidade de grande quantidade de substâncias químicas conjun to de lin hagens testadoras com diferentes tipos
a um custo relativamente baixo. Ames e colaboradores de mutações - uma linhagem com transição, outra com
criaram linhagens auxotróficas da bactéria Salmonella mutação por mudança de matriz de leitura, e assim por
typhimurium com vários tipos de mutações - transições, diante.

'\f>...P...,
- ~.
Cultura de auxotróficos
'\f>...P...,
~-
Preparo de solução
de Salmone/la his - com de possível mutágeno.
mutaçã9 por m.udança
de matriz de leitura.

"'"'"P Dispersão das "'"'"P-r Aplicacão da solucão


~O bactérias em meio ~O contendo possíveí
ágar contendo mutágeno sobre
traços de histidina. disco de papel de filtro.

Colocação do disco
com possível mutágeno
em placa experimental.

Placa de controle Placa experimental


'\f>...P...,
~- Papel de filtro
emôebido em
1ncubaç ão das possível mutágeno
placas a 37ºC.

Revertentes his+
::::ti==- induzidos
,
pelo
murageno
Revertentes
his+ espontâneos

• FIGURA 13.24 Teste de Ames para mutagenicidade. O meio em cada placa de Petri contém traços de histidina e uma quantidade conhecida
de células his- de uma "linhagem testadora" específica de Salmonella typhimurium que abriga uma mutação por mudança da matriz de leitura.
A placa de controle, à esquerda, mostra uma estimativa da frequência de reversão espontânea dessa linhagem testadora específica. A placa
experimental, à direita, mostra a frequência de reversão induzida pelo possível mutágeno, nesse caso, o carcinógeno 2-aminofluoreno.
Capítulo 13 1 Mutação, Reparo do DNA e Recombinação 349

Durante os vários anos em que testaram milhares de carnes excessivamente tostadas) não são mutagênicos ou
substâncias químicas diferentes, Ames e colaboradores ob- carcinogênicos. No entanto, nas células eucarióticas os ni-
servaram correlação maior que 90% entre a mutagenicida- tratos são convertidos em nitrosaminas, que são altamente
de e a carcinogenicidade das substâncias testadas. A prin- mutagênicas e carcinogênicas. Os testes de mutagenici-
cípio, observaram que vários carcinógenos potentes não dade de Ames mostraram a presença de mutágenos por
eram mutagênicos para as linhagens testadoras. Depois, mudança da matriz de leitura em vários componentes de
descobriram que muitos desses carcinógenos são metabo- condensados da fumaça de cigarros quimicamente fracio-
lizados em derivados fortemente mutagênicos nas células nada. Em alguns casos, a mutagenicidade exigiu a ativação
eucarióticas. Assim, Ames e colaboradores acrescentaram pelo preparado de extrato de figado; em outros casos, a
extrato de figado de rato aos sistemas de ensaio na tenta- ativação foi dispensável. O teste de Ames é um método
tiva de detectar a mutagenicidade dos derivados metabó- rápido, de baixo custo e sensível para avaliação da muta-
licos das substâncias testadas. O acoplamento do sistema genicidade de substâncias químicas. Como as substâncias
ativador de figado de rato aos testes de mutagenicidade químicas mutagênicas também são carcinógenos, o teste
microbiana ampliou bastante a utilidade do sistema. Por de Ames pode ser usado para identificar substâncias quí-
exemplo, os nitratos propriamente ditos (presentes em micas com alta probabilidade de serem carcinogênicas.

PONTOS ESSENCIAIS • Bruce Ames e colaboradores desenvolveram um método sensível e de baixo custo para teste
da mutagenicidade de substâncias químicas com mutantes auxotró.ficos para histidina de
Salmonella.

Mecanismos de reP-_
ar_o_d
_o_ D_N_A
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __
Os organismos vivos contêm muitas enzimas que exami- ativada pela luz. Quando o DNA é exposto à luz ultra-
nam o DNA à procura de lesões e iniciam processos de violeta, dímeros de timina são produzidos por ligações
cruzadas covalentes entre resíduos de timina adjacentes
reparo quando detectam algum dano.
(Figura 13.12B). A DNA fotoliase reconhece os dímeros
de timina no DNA, liga-se a eles e usa a energia da luz
A multiplicidade de mecanismos de reparo surgidos em
para clivar as ligações cruzadas covalentes (Figura 13.25 ).
organismos que variam de bactérias a seres humanos é
A fotoliase liga-se aos dímeros de timina no DNA no es-
uma prova contundente da importância de se manter
curo, mas não catalisa a clivagem das ligações que unem
as mutações em nível tolerável. Por exemplo, as células
as porções timina sem a energia obtida da luz visível, es-
de E. coli têm cinco mecanismos bem caracterizados de
reparo de defeitos no DNA: (1) reparo dependente de pecificamente da luz na faixa azul do espectro. A fotolia-
luz ou fotorreativação, (2) reparo por excisão, (3) reparo se também faz a clivagem dos dímeros de citosina e dos
de erros de pareamento, (4) reparo pós-replicação, e (5) dímeros de citosina-timina. Assim, quando se usa luz ul-
sistema de reparo propenso a erro (resposta SOS). Além travioleta para induzir mutações em bactérias, as células
disso, há pelo menos dois tipos diferentes de reparo por irradiadas são cultivadas no escuro por algumas gerações
excisão, e as vias de reparo por excisão podem ser inicia- para maximizar a frequência da mutação.
das por várias enzimas diferentes, cada uma delas agindo
em um tipo específico de lesão do DNA. Os mamíferos
REPARO POR EXCISÃO
parecem ter todos os mecanismos de reparo observados
em E. coli, exceto a fotorreativação. Como a maioria das O reparo por excisão do DNA lesado ocorre em pelo menos
células de mamíferos não tem acesso à luz, a fotorreativa- três etapas. Na 1ª etapa, uma endonuclease de reparo do
ção seria pouco útil para elas. DNA ou um complexo enzimático que contém endonu-
A importância das vias de reparo do DNA para a saúde clease reconhece a(s) base(s) lesada(s) no DNA, liga-se
humana é clara. Distúrbios hereditários como o xeroderma a ela(s) e faz sua excisão. Na 2ª etapa, uma DNA polime-
pigmentosum, apresentado no início deste capítulo, são a rase preenche o espaço usando como molde o filamento
comprovação viva das graves consequências dos defeitos complementar de DNA não lesado. Na 3ª etapa, a enzima
no reparo do DNA. Analisaremos alguns desses distúrbios DNA ligase solda a quebra deixada pela DNA polimera-
hereditários em uma seção subsequente deste capítulo. se e completa o processo de reparo. Existem dois tipos
principais de reparo por excisão: os sistemas de reparo por
excisão de base removem bases anormais ou quimicamente
REPARO DEPENDENTE DE LUZ modificadas do DNA, enquanto as vias de reparo por excisão
O reparo dependente de luz ou fotorreativação do D NA em de nucleotídios removem defeitos maiores como dímeros
bactérias é executado pela DNA fotoliase, uma enzima de timina. As duas vias de excisão atuam no escuro, e
350 Fundamentos de Genética

5, 1 ~

T G e
•• ••• •••
~ ~ ~

e
•••
T T A G A T
•• •• ••
~

••• ••
~

••
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>
-
3' 5'
•••••• 1 • 1 • • • • >
T G e e T T e A G A T e G T

•• ••• ••• ••• •• •• ••• •• ••• •• •• ••• ••• ••
3'

3'"'111(
A e G G A A T e T A
.........................._ ••_ ................ -= 5'
A e G G A A G T e T A G e A
3'"'111t•'._i1•_.•...i11_.•._11•_.e._11•_.,._,.................e...c 5'
'\f>..P"'

~
'\f>..P"'
"'O
Dímero de timina Desaminação de citosina
lrradiacão UV 5' • • • • • • • 1 • 1 • • • • > 3'
~ · T G e e T T u A G A T e G T
•• ••• ••• ••• •• •• ••• •• ••• •• •• ••• ••• ••
A e G G A A G T e T A G e A
5' :::11
1
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . .

T
••
G
•••
e •••e
•••
T =T
•• ••
i
A
••
A i
G
•••
A
••

T
••
> 3'
3'"'111t•'-•ft_.p._.p_.•._111•_.e._111!..1111111'...11'•!._•p_.•._c 5'
'\f>..P"'
A e G G A A T
3'"'111(..........................._ ••_ ..._ ...........lllc 5' e T A "'O
'\f>..P"'
Ligação de uracila
"'O .----.::DNA glicosilase
A fotoliase liga-se ao 5' =-. . . .
dímero de timina no DNA T G
•• •••
Fotoliase A C
3........... -= 5'
'\f>..P"'

Sítio AP
"'a
V
Excisão de uracila ( U }
3'
5' • • • • 1 • 1 • • • • >
'\f>..P"' T G e e T T A G A T e G T
A fotoliase é "'O •• ••• ••• ••• •• •• •• ••• •• •• ••• ••• ••

ativada pela Clivagem de 3."",....ê....i...i....i...ê.....i...i111111111....i-I._.Q.i....i...ê...c 5.


absorção da ligações cruzadas
'\f>..P"'
luz azul. "'O
Nucleotídio Açúcar-fosfato retirado
5' =-111111111..- 3' faltante por AP endonuclease

5·~•T G• •e •e~
T G e fosfodiesterase
•• •••
A C
...-= 5'
••
A
•T •T
. . . . . . . ........
•••
e
••• ••• •• ••
1 • 1 • • • • )
A G A T C G T
•• ••• •• •• ••• ••• ••
G G A A G T e T A G e A
3'

'\f>..Pf 3' ( e e e e e e e ' e ' e e e e 5'


~ '\f>..P"'
Liberação de enzima
Quebra
unifilamentar
"'O'
5' > 3' DNA polimerase
• • • • • • 1 • 1 •
T
••
G e
••• •••
e
••• ••
T

3'"'111(....ê.....i.....i-.i-·'-·'-··..i..........,llllc, 5'
T
••
A G A T
•• ••• •• ••
5· .................
- • • • • •
T G e e
~
.T .....
• • 1
• 1 • • • • >
T e A
G A T e G T
3'
•• ••• ••• ••• •• •• ••• •• ••• •• •• ••• ••• ••
A e G G A A G T e T A 1r, e A
• FIGURA 13.25 Clivagem de ligações cruzadas do dímero de timina
3'"'111t•'-•ft_.p._.p_.•._111•_.p._111!...•111111•._11•1111111...•l...i'._c 5'
por fotoliase ativada pela luz. As setas indicam a polaridade inversa
dos filamentos complementares de DNA.
(<,o'\f>..P"'

Sítio de reparo DNA ligase


......____ > 3'
5' • • • .~ 1 • 1 • • • •
ambas ocorrem por mecanismos muito semelhantes em T G e e T T e A G A T e G T
•• ••• ••• ••• •• •• ••• •• ••• •• •• ••• ••• ••
E. coli e seres humanos. 3'"'111t•ê....i_.j._.j_.ê._..Q_.i111111111....i-•....ê.i....i...ê._c 5·
O reparo por excisão de bases ( Figura 13.26) pode ser
iniciado por qualquer enzima de um grupo de DNA gli- • FIGURA 13.26 Reparo de DNA pela via de excisão de base. O reparo
cosilases, que reconhecem bases anormais no DNA. Cada por excisão de base pode ser iniciado por qualquer uma das várias
glicosilase reconhece um tipo específico de base altera- DNA glicosilases diferentes. No exemplo mostrado, a uracila DNA gli-
da, como as bases desaminadas, bases oxidadas, e assim cosilase inicia o processo de reparo.
por diante (2ª etapa). As glicosilases clivam a ligação gli-
cosídica entre a base anormal e a 2-desoxirribose, crian-
do sítios apurínicos ou apirimidínicos (sítios AP) com dois lados do(s) nucleotídio(s) danificado(s) e excisa um
bases faltantes (3ª etapa). Os sítios AP são reconhecidos oligonucleotídio contendo a (s) base (s) danificada (s).
por enzimas chamadas AP endonucleases que, com as Essa nuclease é denominada excinuclease para distingui-la
fosfodiesterases, excisam os grupos de açúcar-fosfato nes- das endonucleases e exonucleases que têm outros papéis
ses sítios (4ª etapa). A DNA polimerase então substitui o no metabolismo do DNA.
nucleotídio faltante de acordo com as especificações do A Figura 13.27 mostra a via de reparo por excisão de
filamento complementar (5ª etapa), e a DNA ligase fecha nucleotídios de E. coli. A atividade da excinuclease em E.
o corte (6ª etapa) . coli requer os produtos de três genes, uvrA, uvrB e uvrC
O reparo por excisão de nucleotídios remove do DNA (a designação uvr significa reparo de UV [do inglês, UV re-
lesões maiores como dímeros de timina e bases com gru- pair). Uma proteína trimérica que contém dois polipep-
pos laterais volumosos. No reparo por excisão de nucleo- tídios UvrA e um polipeptídio UvrB reconhece o defeito
tídio, uma nuclease de excisão específica faz cortes nos no DNA, liga-se a ele e usa a energia do ATP para curvar
Capítulo 13 1 Mutação, Reparo do DNA e Recombinação 351

Dímero de timina

5' - ..1""'1-1•1•1•1..l""l""'l-1•1..
1• 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 • 3'
3·..,.,--1-1..1..1..•...•-1..1..1..1...1-1..1..1..1...1-1..
1..1..1...1...1-1..1..1..1...1--5·

( ,º
-<.,f>..P..,

Trímero polipeptídico contendo 2 cópias


de proteína UvrA e 1 cópia de
proteína UvrB reconhece o DNA
danificado e se liga a ele.
: -,-:-::-::-:-::-::l"PI~: :::::::::: . ::
( ,e
-<.,f>..P..,

A energia do ATP é usada para curvar


o DNA e modificar a conformação
da proteína UvrB; o dímero UvrA é liberado.
ATP
~ADP+ Pi

Atividade
da excinuclease
5' ~~L).l,.i.lool..,...__l~'\f>..P-y 3'

~ 5'
A proteína UvrC liga-se a UvrB-DNA e
cliva o DNA nas regiões 5 e 3
em relacão

ao dímero .
Corte 5' Corte 3'
\
5'
3'

3' -<.,f>..P..,

'l»'
A UvrD helicase libera o
oligômero excisado.
+
ATP
111111. 1111
' - ADP +Pi
12-mer
5 1 1-1 1-1 11111111 • 3'
·- -
,
3 ~ 1 ' 11111111 C B~ I 11111111' 1 5'

( ,o
-<.,f>..P..,

A DNA polimerase 1 substitui a proteína


UvrB e preenche a lacuna usando o
filamento complementar como molde.

5
·3'"-""""------.__--.
-------..r . . -----5· ,....""""'..... -.. 3'

-<.,f>..P..,
'l)'
12 nucleotídios A DNA ligase fecha o corte
substituídos deixado pela polimerase.

5' -----~ ~~;;;;;;...___~.


111111111111111111111111111 3'
3, 11 1111 1 111 11 1
1 1 1 11
1 1 1 1 1 l 1 1 1 5'


'
FIGURA 13.27 Reparo de DNA pela via de excisão de nucleot ídio em E. coli. A at ividade de excinuclease (excisão de nuclease) requer os pro-
dutos de três genes - uvrA, uvrB e uvrC.A excisão de nucleot ídios ocorre por uma via semelhante em seres humanos, exceto pela participação
de uma quantidade muito maior de proteínas e pela excisão de um oligômero com 24 a 32 nucleotídios.

o DNA no sítio danificado. O dímero UvrA é liberado, e a câmero excisado. Nas duas últimas etapas da via, a DNA
proteína UvrC liga-se ao complexo UvrB/DNA. A proteí- polimerase I preenche o espaço, e a DNA ligase fecha o
na UvrC cliva a quarta ou quinta ligação fosfodiéster a corte na molécula de DNA.
partir do(s) nucleotídio(s) danificado(s) no lado 3' e a A via do reparo por excisão de nucleotídio em seres
oitava ligação fosfodiéster a partir da lesão no lado 5'. O humanos é semelhante à que ocorre em E. coli, mas a
produto do gene uvrD, a DNA helicase II, libera o dode- quantidade de proteínas participantes é aproximada-
352 Fundamentos de Genética

mente quatro vezes maior. Em seres humanos, a excinu- uvrD). A proteína MutS reconhece erros de pareamento
clease tem 15 polipeptídios. A proteína XPA (proteína e liga-se a eles para iniciar o processo de reparo. Então,
A do xeroderma pigmentosum) reconhece e se liga ao(s) as proteínas MutH e MutL unem-se ao complexo. MutH
nucleotídio(s) danificado(s) no DNA. Em seguida, re- tem uma atividade endonucl,ease GATC-específica que cliva
cruta as outras proteínas necessárias para a atividade da o filamento não metilado nos sítios hemimetilados ( i. e.,
excinuclease. Em seres humanos, o oligômero excisado metilados pela metade), na região 5' ou 3' em relação ao
tem de 24 a 32 nucleotídios, em lugar do oligômero de erro de pareamento. Os locais de incisão podem distar
12-mer removido em E. coli. A lacuna é preenchida por 1.000 pares de nucleotídios ou mais do erro de parea-
DNA polimerase õ ou e em seres humanos, e a DNA liga- mento. O processo de excisão subsequente requer MutS,
se completa o trabalho. MutL, DNA helicase II (MutU) e uma exonuclease apro-
priada. Se a incisão ocorrer em uma sequência GATC em
posição 5' em relação ao erro de pareamento, é neces-
OUTROS MECANISMOS DE sária uma exonuclease 5' ~ 3' semelhante à exonucle-
REPARO DO DNA ase VII de E. coli. Se a incisão ocorrer em posição 3' em
Durante os últimos anos, pesquisas sobre mecanismos de relação ao erro de pareamento, é necessária uma exo-
nuclease 3' ~ 5' semelhante à exonuclease Ide E. coli.
reparo do DNA demonstraram a existência de um arse-
nal de enzimas de reparo que examinam constantemente Depois do processo de excisão ter retirado o nucleotídio
o DNA à procura de danos, que variam da presença de dí- errado do filamento não metilado, a DNA polimerase III
meros de timina induzidos pela luz ultravioleta a modifi- preenche a grande lacuna- até 1.000 pb- e a DNA ligase
cações diversas e numerosas demais para serem descritas fecha o corte.
aqui. Os novos resultados desse trabalho mostraram que Homólogos das proteínas MutS e MutL de E. coli fo-
várias DNA polimerases antes desconhecidas têm papéis ram identificados em fungos, vegetais e mamíferos - uma
cruciais em vários processos de reparo do DNA. Análises indicação da ocorrência de erros de pareamento seme-
detalhadas desses importantes mecanismos de reparo do lhantes em eucariotos. Na verdade, a excisão do erro
DNA ultrapassam o escopo deste texto; todavia, nunca é de pareamento foi demonstrada in vitro em extratos nu-
demais ressaltar sua importância. O que é mais importan- cleares preparados a partir de células humanas. Assim,
te para a sobrevivência de uma espécie do que manter a o reparo de erros de pareamento provavelmente é um
integridade de seu projeto genético? mecanismo universal ou quase universal para preservar
No Capítulo 10, examinamos o mecanismo usado a integridade das informações genéticas armazenadas no
pela exonuclease 3' ~ 5' inerente das DNA polimerases D NA bifilamen tar.
para revisar filamentos de DNA durante sua síntese, re- Em E. coli, o reparo dependente de luz, o reparo por
movendo nucleotídios com pareamento errado nas ter- excisão e o reparo de erros de pareamento podem ser eli-
minações 3' dos filamentos em crescimento. Outra via minados por mutações nos genes phr (fotorreativação),
de reparo do DNA após a replicação, o reparo de erros de uvr e mut, respectivamente. Em mutantes com deficiên-
pareamento, reforça essa revisão durante a replicação cor- cia de mais de um desses mecanismos de reparo, há ainda
rigindo erros de pareamento de nucleotídios que persis- outro sistema de reparo do DNA, conhecido como reparo
tem no DNA depois da replicação. Em geral, os erros de pós-replicação. Quando a DNA polimerase III encontra um
pareamento ocorrem com as quatro bases normais do dímero de timina em um filamento-molde, seu avanço é
DNA. Por exemplo, pode haver pareamento errado de T bloqueado. A DNA polimerase reinicia a síntese de DNA
com G. Como T e G são componentes normais do DNA, em alguma posição depois do dímero, deixando uma
os sistemas de reparo de erros de pareamento precisam lacuna no filamento nascente defronte ao dímero no
de algum mecanismo para verificar se a base correta em filamento-molde. Nesse ponto, a sequência nucleotídica
determinado sítio é T ou G. O sistema de reparo faz essa original foi perdida nos dois filamentos da dupla hélice
distinção por identificação do filamento-molde, que da prole. A molécula de DNA danificada é reparada por
contém a sequência nucleotídica original, e do filamen- um processo de reparo dependente de recombinação
to recém-sintetizado, que contém a base erroneamente mediado pelo produto do gene recA de E. coli. A proteí-
incorporada (o erro). Em bactérias é possível fazer essa na RecA, necessária para recombinação homóloga, esti-
distinção pelo padrão de metilação no DNA recém-re- mula a troca de filamentos únicos entre duplas hélices
plicado. Em E. coli, a A em sequências GATC é metilada homólogas. Durante o reparo pós-replicação, a proteína
depois de sua síntese. Portanto, há um intervalo durante RecA liga-se ao filamento simples de DNA na lacuna e
o qual o filamento-molde está metilado, e o filamento medeia o pareamento com o segmento homólogo da du-
recém-sintetizado não está metilado. O sistema de reparo pla hélice irmã. A lacuna em frente ao dímero é preen-
de erros de pareamento usa essa diferença de metilação chida com o filamento de DNA homólogo da molécula
para excisar o nucleotídio errado no filamento nascente de DNA irmã. A lacuna resultante na dupla hélice irmã
e substituí-lo pelo nucleotídio correto; para isso, empre- é preenchida pela DNA polimerase, e o corte é fechado
ga como molde o filamento parental metilado de DNA. pela DNA ligase. O dímero de timina continua no fila-
Em E. coli o reparo de erros de pareamento requer os mento-molde da molécula de DNA original, mas agora
produtos de quatro genes, mutH, mutL, mutS e mutU (= o filamento complementar está intacto. Se o dímero de
Capítulo 13 1 Mutação, Reparo do DNA e Recombinação 353

timina não for removido pelo sistema de reparo por ex- sintetizadas em baixos níveis na célula na ausência de DNA
cisão de nucleotídio, esse reparo pós-replicação deverá lesado. Nessa situação, LexA liga-se às regiões de DNA
ser repetido depois de cada ciclo de replicação do DNA. que regulam a transcrição dos genes induzidos durante a
Os sistemas de reparo do DNA descritos até agora são resposta SOS e mantém baixos seus níveis de expressão.
muito precisos. No entanto, quando agentes mutagênicos Quando as células são expostas à luz ultravioleta ou a ou-
como a luz UV causam danos graves ao DNA das células tros agentes causadores de lesão do DNA, a proteína RecA
de E. coli, as células tomam algumas medidas drásticas na liga-se a regiões unifilamentares de DNA produzidas pela
tentativa de sobreviver. Elas apresentam uma resposta SOS, incapacidade de replicação da DNA polimerase III nas re-
na qual há síntese de uma série completa de proteínas de giões lesadas. A interação de RecA com o DNA ativa RecA,
reparo, recombinação e replicação do DNA Duas dessas que então estimula LexA a se inativar por autoclivagem.
proteínas, codificadas pelos genes umuC e umuD (do in- Com LexA inativa, o nível de expressão dos genes SOS -
glês, [N mutable, mutável por UV), são subunidades da inclusive recA, kxA, umuC, umuD e outros - aumenta e o
DNA polimerase V, enzima que catalisa a replicação do sistema de reparo propenso a erro é ativado.
DNA em regiões lesadas do cromossomo - regiões em A resposta SOS parece ser uma tentativa um tanto de-
que a replicação pela DNA polimerase III é bloqueada. A sesperada e arriscada para escapar dos efeitos letais da
DNA polimerase V possibilita o prosseguimento da repli- lesão intensa do DNA. Quando o sistema de reparo pro-
cação através dos segmentos lesados dos filamentos-mol- penso a erro está operante, há um aumento acentuado
de, embora não seja possível replicar com precisão as das taxas de mutação.
sequências nucleotídicas na região lesada. Esse sistema Pesquisas recentes sobre os mecanismos de reparo do
de reparo propenso a erro elimina lacunas nas partes dos fila- DNA indicam que ainda é preciso esclarecer muitos no-
mentos recém-sintetizados correspondentes aos nucleotí- vos processos de reparo. Durante os últimos anos, foram
dios danificados nos filamentos-molde, mas, ao fazer isso, caracterizadas várias novas DNA polimerases com fun-
aumenta a frequência de erros de replicação. ções específicas no reparo do DNA. Os resultados desses
O mecanismo de indução do sistema SOS pela lesão do estudos sugerem que temos muito a aprender sobre os
DNA foi elucidado em detalhes. Duas proteínas regulado- mecanismos que preservam a integridade de nossas in-
ras - LexA e RecA- controlam a resposta SOS. Ambas são formações genéticas.

PONTOS ESSENCIAIS • Múltiplos sistemas de reparo do DNA desenvolveram-se para preservar a integridade de
informações genéticas nos organismos vivos
• Cada via de reparo corrige um tipo específico de /,esão no DNA.

Doenças humanas hereditárias com defeitos


no reP-aro do DNA
Vários distúrbios humanos hereditários são causados por
defeitos nas vias de reparo do DNA.

Como já comentamos no início deste capítulo, indiví-


duos com xeroderma pig;mentosum (XP) são extremamente
sensíveis à luz solar, e a exposição ao sol ocasiona alta
frequência de câncer de pele nesses pacientes ( Figu-
ra 13.28). As células de indivíduos com XP apresentam
deficiência no reparo da lesão do DNA induzida por UV,
como os dímeros de timina. A síndrome de XP é causada
pelo defeito de qualquer um de pelo menos oito genes
diferentes. Os produtos de sete desses genes, XPA, XPB,
XPC, XPD, XPE, XPF e XPG, são necessários ao reparo por
excisão de nucleotídio (Tabela 13.1 ). Eles foram purifica-
dos, e demonstrou-se que são essenciais para a atividade
da excinuclease. Como a atividade da excinuclease em
seres humanos requer 15 polipeptídios, a lista de genes
XP provavelmente será ampliada no futuro. Dois outros • FIGURA 13.28 Efeitos fenotípicos da doença hereditária xeroderma
distúrbios humanos, síndrome de Cockayne e tricotiodis- pigmentosum. As pessoas que têm essa doença maligna apresentam
trofia, também são causados por defeitos no reparo por extensos tumores cutâneos após exposição à luz solar.
354 Fundamentos de Genética

Tabela 13.1
Doenças humanas hereditárias causadas por defeitos no reparo do DNA.

Distúrbio hereditário Gene Cromossomo Função do produto Principais sintomas


1. Xeroderma pigmentosum XPA 9 Proteína de reconhecimento de Sensibilidade à radiação
lesão no DNA UV, surgimento precoce de
XPB 2 Helicase 3' ~ 5' câncer de pele, distúrbios
XPC 3 Proteína de reconhecimento de neurológicos
lesão no DNA
XPD 19 Helicase 5' ~ 3'
XPE 11 Proteína de reconhecimento de
lesão no DNA
XPF 16 Nuclease, incisão 3'
XPG 13 Nuclease, incisão 5'
XPV 6 DNA polimerase translesão 11
2. Tricotiodistrofia TTDA 6 Fator de transcrição basal llH Sensibilidade à radiação
XPB 2 Helicase 3' ~
5' UV, distúrbios neurológicos,
XPD 19 Helicase 5' ~ 3' retardo mental

3. Síndrome de Cockayne CSA 5 Proteína de reparo do DNA por Sensibilidade à radiação


exc1 -
.sao UV, distúrbios neurológicos
CSB 10 Proteína de reparo do DNA por e do desenvolvimento,
exc1 -
.sao envelhecimento prematuro

4. Ataxia-telangiectasia ATfvf 11 Serina/treonina quinase Sensibilidade à radiação,


instabilidade cromossômica,
início precoce de
neurodegeneração
• -
progressiva, propensao ao
A

cancer
5. Câncer colorretal fvfSH2 2 Proteína de reconhecimento do Alto risco de câncer de cólon
hereditário sem polipose erro de pareamento do DNA (como familiar
(síndrome de Lynch) MutS de E. coli)
fv1LH1 3 Homólogo da proteína de reparo
de erros de pareamento Mutl de
E. coli
fvfSH6 2 Homólogo 6 de MutS
Pfv1S2 7 Endonuclease PMS2
Pfv1S1 2 Homólogo da proteína de reparo
de erros de pareamento de
levedura
6. Anemia de Fanconi FA (8 genes, Sensibilidade aos agentes
A-H, em de ligação cruzada do DNA,
5 cromossomos instabilidade cromossômica,
diferentes) - A

propensao ao cancer
7. Síndrome de Bloom Blfvf 15 BLM RecQ helicase Instabilidade cromossômica,
retardo mental, propensão ao
A
cancer
8. Síndrome de Werner WRN 8 WRN RecQ helicase Instabilidade cromossômica,
neurodegeneração
• -
progressiva, propensao ao
A

cancer
9. Síndrome de RECQL4 8 RecQ helicase L4 Instabilidade cromossômica,
Rothmund-Thomson retardo mental, propensão ao
A
cancer
10. Síndrome de quebra NBSI 8 Proteína de reconhecimento de Instabilidade cromossômica,
Nijmegen quebra bifi lamentar do DNA microcefalia (crân io pequeno),
- A

propensao ao cancer
Capítulo 13 1 Mutação, Reparo do DNA e Recombinação 355

excisão de nucleotídio. Os indivíduos com síndrome de uma em cada 200 pessoas, portanto é um tipo comum de
Cockayne apresentam retardo do crescimento e das habi- câncer. Quando compreendermos melhor os defeitos he-
lidades mentais, mas não aumento das taxas de câncer de reditários, talvez sejamos capazes de desenvolver outros
pele. Os pacientes com tricotiodistrofia têm baixa estatu- métodos eficazes de tratamento desses cânceres além da
ra, pelos frágeis e pele descamativa; também apresentam cirurgia, quimioterapia e radioterapia.
habilidades mentais subdesenvolvidas. As pessoas com A ataxia-telangiectasia, anemia de Fanconi, síndro-
síndrome de Cockayne ou tricotiodistrofia têm defeito me de Bloom, síndrome de Werner, síndrome de Roth-
em um tipo de reparo por excisão que é acoplado à trans- mund-Thomson e síndrome de quebra de Nijmegan são
crição. No entanto, os detalhes desse processo de reparo seis outras doenças hereditárias em seres humanos asso-
acoplado à transcrição ainda estão sendo elucidados. ciadas a defeitos conhecidos do metabolismo do DNA.
Além da lesão das células cutâneas, algumas pessoas Os seis distúrbios têm padrão de herança autossômica
com XP desenvolvem anormalidades neurológicas, apa- recessiva e todos resultam em alto risco de doença malig-
rentemente decorrentes da morte prematura de células na, sobretudo leucemia no caso da ataxia-telangiectasia
nervosas. Esse efeito sobre as células nervosas de vida mui- e anemia de Fanconi. As células de pacientes com ata-
to longa pode ter implicações interessantes em relação às xia-telangiectasia têm sensibilidade anormal à radiação
causas do envelhecimento. Uma teoria é a de que o en- ionizante, sugerindo um defeito no reparo da lesão do
velhecimento é consequência do acúmulo de mutações DNA induzida por radiação. As células de indivíduos
somáticas. Assim, o esperado seria que um sistema de re- com anemia de Fanconi apresentam comprometimen-
paro defeituoso acelerasse o processo de envelhecimento, to da remoção de ligações cruzadas interfilamentares
e esse parece ser o caso das células nervosas de pacientes do DNA, como as formadas pelo antibiótico mitomicina
com XP. No momento, porém, há poucas evidências que C. As pessoas com síndrome de Bloom e síndrome de
associem as mutaçoes somatlcas a senescenc1a.
• - ""' • ... A •
quebra Nijmegen apresentam alta frequência de que-
O câncer colorretal hereditário sem polipose (tam- bras cromossômicas, com consequentes aberrações cro-
bém conhecido como síndrome de Lynch) é causado mossômicas (Capítulo 6) e trocas de cromátides-irmãs.
por defeitos hereditários na via de reparo dos erros de A ataxia-telangiectasia é causada por defeitos em uma
pareamento do DNA. Pode ser causado por mutações em quinase implicada no controle do ciclo celular, e a sín-
pelo menos sete genes diferentes, cinco deles listados na drome de Bloom, síndrome de Werner e síndrome de
Tabela 13.1. Vários desses genes são homólogos dos ge- Rothmund-Thomson são causadas por alterações em
nes de reparo de erros de pareamento em E. coli e S. cere- DNA helicases específicas (membros da família RecQ de
visiae. Assim, a via de reparo de erros de pareamento dos helicases). A Tabela 13.1 Lista algumas das doenças hu-
seres humanos é semelhante às existentes em bactérias e manas mais conhecidas resultantes de distúrbios heredi-
fungos. Esse tipo de câncer de cólon ocorre em cerca de tários nas vias de reparo do DNA.

PONTOS ESSENCIAIS • Os distúrbios humanos hereditários causados por defeitos no reparo doDNA são prova
convincente da importância das vias de reparo do DNA
• Alguns tipos de câncer também estão associados a defeitos nas vias de reparo do DNA.

Mecanismos de recombina ão do DNA


A recombinação entre moléculas de DNA homólogas re- RECOMBINAÇÃO 1 CLIVAGEM E
quer a atividade de várias enzimas que clivam, desenro- REUNIÃO DAS MOLÉCULAS DE DNA
lam, estimulam irrupções unifilamentares de duplas héli- No Capítulo 7, comentamos o experimento de Creighton
ces, reparam e unem filamentos de DNA. e McClintock que mostrou que o crossing over ocorre por
quebra dos cromossomos parentais e reunião das partes
Apresentamos no Capítulo 7 os principais aspectos da re- em novas combinações. Evidências de que a recombina-
combinação entre cromossomos homólogos, mas não leva- ção ocorre por quebra e reunião foram obtidas também
mos em conta os detalhes moleculares do processo. Já que por autorradiografia e outras técnicas. Na verdade, as
muitos produtos gênicos participantes do reparo do DNA principais características do processo de recombinação
lesado também são necessários à recombinação entre cro- já estão bem estabelecidas, embora ainda seja preciso es-
mossomos homólogos, ou crossing over, examinaremos ago- clarecer detalhes específicos.
ra alguns aspectos moleculares desse importante processo. Grande parte do que sabemos sobre os detalhes mole-
Além disso, de modo geral, ou talvez sempre, a recombi- culares do crossing over baseia-se no estudo de mutantes de
nação demanda alguma síntese de reparo do DNA. Assim, E. coli e S. cerevisiae com deficiência de recombinação. Os estu-
grande parte das informações apresentadas nas seções an- dos bioquímicos desses mutantes mostraram a deficiên-
teriores é relevante para o processo de recombinação. cia de várias enzimas e outras proteínas necessárias à re-
356 Fundamentos de Genética

combinação. Juntos, os resultados dos estudos genéticos mo, como muitos outros invocados, começa quando uma
e bioquímicos criaram um quadro bastante completo da endonuclease cliva filamentos únicos de cada uma das
recombinação em nível molecular. duas moléculas de DNA parental (quebra). Segmentos
Muitos modelos populares de crossing over foram de- dos filamentos únicos de um lado de cada corte são des-
rivados de um modelo proposto por Robin Holliday em colados de seus filamentos complementares com a ajuda
1964. O modelo de Holliday foi um dos primeiros a expli- de DNA helicases e de proteínas de ligação unifilamenta-
car a maioria dos dados genéticos d isponíveis na época res. As helicases desenrolam os dois filamentos de DNA
por um mecanismo que incluía a quebra, a reunião e o na região adjacente às incisões unifilamentares. Em E.
reparo de moléculas de DNA. A Figura 13.29 mostra uma coli, o compl,exo R.ecBCD contém tanto atividade de endo-
versão atualizada do modelo de Holliday. Esse mecanis- nuclease, que produz quebras unifilamentares no DNA,

a+ Homólogo 1 b+ a b+
A. Pareamento de 111111111111111111, f 111111 111111 11111
cromossomos ' J. Cromossomos
homólogos. Jlllllllllllllllllt •f-1-11...1....1-1...1...1-1...
, ,...,....1-1...1-1-1 recombinantes.
ª Homólogo 2 b a+ b '

DNA ligase, provavelmente


precedida por exonuclease
Endonuclease e DNA polimerase
a b+
a+ b+ ~ 11111~ 11111111111
' 1. Vista bidimensional.
B. Formação 1111111111) 1111111, f 11111 (111111 11111
de quebras > cortes a+ b '
unifilamentares. J"l""PIP1~11~1~1~1~1~1)~1111111t
a b

Helicase e proteína de ligação


ao DNA unifilamentar

H. Dissolução da
ponte unifilamentar.
C. Deslocamento
do filamento.
a
b Endonuclease

Proteínas tipo RecA

a+ b+
G. Estrutura 3D
D. Troca de equivalente.
filamento.
a b

DNA ligase, Rotação das extremidades inferiores


provavelmente precedida
por exonuclease e 180º
DNA polimerase

a+ b+
E. Formacão

de
ponte unifilamentar F. Estrutura
covalente. tridimensional.
a b

• FIGURA 13.29 Mecanismo de recombinação entre molécu las de DNA homólogas.A via mostrada baseia-se no modelo originalmente propos-
to por Robin Holliday em 1964.
Capítulo 13 1 Mutação, Reparo do DNA e Recombinação 357

quanto atividade de DNA helicase, que desenrola os fila- mediários de recombinação com o formato da letra X,
mentos complementares de DNA na região adjacente a chamados de formas chi, observadas em várias espécies
cada corte. pelo exame com microscópio eletrônico (Figura 13.30).
Os filamentos únicos deslocados trocam de par, em- As formas chi são separadas por quebra catalisada por
parelhando bases com os filamentos complementares enzima e reunião dos filamentos de DNA complemen-
intactos dos cromossomos homólogos. Esse processo tares para produzir duas moléculas de DNA recombi-
é estimulado por proteínas como a proteína RecA de nantes. Em E. coli, as estruturas chi podem ser desfeitas
E. coli. As proteínas tipo RecA foram caracterizadas em pelo produto do gene recG ou do gene ruvC (reparo de
. ,,,. . . ,,,, . . ,,,,
muitas espec1es, tanto procar1oticas quanto eucar10- lesão induzida por UV). Cada gene codifica uma endo-
ticas. A proteína RecA e seus homólogos estimulam a nuclease que catalisa a clivagem de filamentos únicos
assimilação unifilamentar, um processo no qual um único nas junções chi (Figura 13.29).
filamento de DNA desloca seu homólogo em uma dupla Há muitos dados indicativos de que existe mais de
hélice de DNA. As proteínas tipo RecA promovem tro- um mecanismo de recombinação homóloga - provavel-
cas recíprocas de filamentos únicos de DNA entre duas mente vários mecanismos diferentes. Em S. cerevisiae, as
hélices duplas de DNA em duas etapas. Na primeira eta- extremidades das moléculas de DNA produzidas por
pa, um filamento único de uma dupla hélice é assimila-
quebras bifilamentares são altamente recombinogê-
do por uma segunda dupla hélice homóloga, deslocan-
nicas. Esse fato e outros dados sugerem que a recom-
do o filamento idêntico ou homólogo e emparelhando
binação em leveduras geralmente implica quebra bifi-
suas bases com o filamento complementar. Na segunda
lamentar em uma das hélices duplas parentais. Assim,
etapa, o filamento único deslocado é assimilado do mes-
em 1983, Jack Szostak, Franklin Stahl e colaboradores
mo modo pela primeira dupla hélice. A proteína RecA
propuseram um modelo de quebra bifilamentar de crossing
medeia essas trocas por ligação ao filamento de DNA
over. De acordo com seu modelo, na recombinação há
não pareado, auxiliando na busca de uma sequência
uma quebra bifilamentar em uma das hélices duplas pa-
de DNA homóloga, e, uma vez encontrada uma dupla
hélice homóloga, promovendo a substituição de um fi- rentais, e não apenas quebras unifilamentares como no
lamento pelo filamento não pareado. Se as sequências modelo de Holliday. As quebras iniciais alargam-se, e
complementares já existirem como filamentos únicos, surgem lacunas nos dois filamentos. As duas termina-
a presença de proteína RecA aumenta em mais de 50 ções unifilamentares produzidas na lacuna bifilamentar
vezes a taxa de renaturação. da dupla hélice quebrada invadem a dupla hélice intac-
Em seguida, os filamentos clivados são unidos por li- ta e deslocam segmentos do filamento homólogo nessa
gação covalente em novas combinações (reunião) pela região. As lacunas são preenchidas por síntese de repa-
DNA ligase. Se as quebras originais nos dois filamentos ro. Esse processo produz dois cromossomos homólogos
não ocorrerem exatamente no mesmo lugar nos dois unidos por duas pontes unifilamentares. As pontes são
homólogos, é necessário algum ajuste antes que a DNA desfeitas por clivagem endonucleolítica, assim como no
ligase possa catalisar a etapa de reunião. Esse ajuste modelo de Holliday. Tanto o modelo bifilamentar quan-
requer a excisão de nucleotídios por uma exonuclea- to o modelo de Holliday explicam bem a produção de
se e a síntese de reparo por uma DNA polimerase. A cromossomos recombinantes para marcadores genéti-
sequência de eventos descritos até agora produz inter- cos que ladeiam a região de crossing over.

A 0,1 µm B

• FIGURA 13.30 Micrografia eletrônica (A) e digrama (B) de uma forma chi. O exame ao microscópio eletrônico identificou duas moléculas de
DNA durante o processo de recombinação genética. Essa micrografia eletrônica oferece evidências físicas diretas da existência do intermediário
de recombinação de Holliday. Observe como essa molécula corresponde exatamente à estrutura teórica mostrada na ilustração (G) do modelo
de recombinação de Holliday prototípico, apresentado na Figura 13.29. fvficrografia cedida por H. Potter, University ofSouth Florida e D. Dressler,
Harvard University.
358 Fundamentos de Genética

CONVERSÃO GÊNICA 1 SÍNTESE os wci a+ e b+ no qual há pareamento de bases dos fila-


mentos complementares de DNA dos dois cromossomos
DE REPARO DO DNA ASSOCIADA À
RECOMBINAÇAO - homólogos. Se um terceiro par de alelos localizado nesse
segmento fosse segregado no cruzamento, haveria erros
Até esse momento, apresentamos apenas processos de de pareamento nas duas duplas hélices. As moléculas de
recombinação explicáveis pela quebra de cromátides ho- DNA contendo esses erros de pareamento, ou diferentes
mólogas e a troca recíproca das partes. Contudo, a aná- alelos nos dois filamentos complementares de uma du-
lise de tétrades de produtos meióticos de alguns fungos pla hélice, são denominadas heterodúplex. Essas moléculas
mostra que nem sempre a troca genética é recíproca. Por heterodúplex ocorrem como intermediários no processo
exemplo, quando se realizam cruzamentos entre duas de recombinação.
mutações intimamente relacionadas no bolor Neurospara Se a Figura 13.29E fosse modificada para incluir um
e se analisam ascos contendo recombinantes selvagem, terceiro par de alelos, e as outras duas cromátides fos-
muitas vezes esses ascos não contêm o recombinante mu- sem acrescentadas, a tétrade teria a seguinte composi-
tante duplo recíproco. -
çao:
Imagine um cruzamento em que há duas mutações inti-
mamente relacionadas, 1n.i e mz No cruzamento de m1 m2+ , a+ m+ b+

com m1+ m2, observam-se os seguintes tipos de ascos: 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 11 1 1 1 1 l


1° par de esporos: m1+ m2
2º par de esporos: m1+ m2+ m
30. par de esporos: m1 m2+
4ª par de esporos: m1 m2+
Há esporos do tipo selvagem m1+ m2+, mas não há espo-
ros mutantes duplos m1 m2 no asco. A recombinação re-
cíproca produziria um cromossomo m1 m2 sempre que a m

fosse produzido um cromossomo m1+ m2+. Nesse asco, a


proporção m2+:m2 é de 3:1 em vez da proporção esperada Se os erros de pareamento forem corrigidos por reparo
de 2:2. Um dos alelos m2 parece ser sido "convertido" na por excisão de nucleotídio (Figura 13.27), no qual os fila-
forma alélica m2+. Assim, esse tipo de recombinação não mentos m são excisados e ressintetizados com os filamen-
recíproca é denominado conversão gênica. Poderíamos pre- tos m+ complementares como moldes, surgirá a seguinte
sumir que a conversão gênica é causada por mutação, ex- tétrade:
ceto pelo fato de que ocorre com mais frequência que os
eventos de mutação correspondentes, sempre produz o
111 11 11 11 11 11 111 11 11 11 11 11 11
alelo presente no cromossomo homólogo, não um novo m
+ ,
alelo, e em cerca de 50% dos casos está relacionada com
a recombinação recíproca dos marcadores flanqueado-
a+ m+
res. A última observação é uma indicação veemente de
que a conversão gênica resulta de eventos ocorridos du- a m+
rante o crossing over. Na verdade, agora se acredita que a
conversão gênica seja consequência da síntese de reparo
do DNA associada aos processos de quebra, excisão e reu-
nião do crossing over. a m
Nos marcadores intimamente associados, a conversão
gênica é mais frequente que a recombinação recíproca. Em razão da replicação semiconservativa do DNA duran-
Em um estudo do gene hisl de levedura, 980 de 1.081 te a divisão mitótica subsequente, essa tétrade produz um
ascos contendo recombinantes his+apresentaram conver- asco contendo seis ascósporos m+ e dois ascósporos m, a
são gênica, enquanto apenas 101 apresentaram recombi- razão de conversão gênica igual a 3: 1.
nação recíproca clássica. Suponha que apenas um dos dois erros de pareamen-
O aspecto mais surpreendente da conversão gênica é to descritos na tétrade seja reparado antes da divisão
que a proporção inicial 1: 1 de alelos não é mantida. Isso mitótica. Nesse caso, a replicação semiconservativa do
pode ser explicado com facilidade se segmentos curtos de heterodúplex remanescente produz um homodúplex
DNA parental forem degradados e ressintetizados com m+ e um homodúplex m, e o asco resultante contém
filamentos-molde fornecidos pelo DNA que tem o outro uma razão de ascósporos igual a 5m+:3m. Essas razões
alelo. Em virtude dos mecanismos de reparo por excisão de conversão gênica de 5:3 existem; elas resultam da se-
comentados antes neste capítulo, o modelo de Holliday gregação pós-meiótica (mitótica) de heterodúplex não
de crossing over explica a conversão gênica de marcadores reparados.
genéticos localizados na vizinhança imediata do crossing A conversão gênica está associada à recombinação re-
over. Na Figura 13.29D-I, há um segmento de DNA entre cíproca de marcadores flanqueadores em aproximada-
Capítulo 13 1 Mutação, Reparo do DNA e Recombinação 359

• FIGURA 13.31 Formação de combinações recombinantes (em-


baixo à esquerda) ou parentais (embaixo à direita) de marcadores
flanqueadores em associação com conversão gênica. O interme-
diário de recombinação na parte superior equivale ao ilustrado na
Figura 13.29G, mas mostra as cromátides com reparo dos erros de
pareamento da tétrade ilustrada no texto. Essa tétrade produz um
asco com conversão gênica de 3 m+ para 1 m. A clivagem da ponte
unifilamentar no plano vertica l (esquerda) produz o arranjo recom-
binante (a+ b e a b+) de marcadores flanqueadores, enquanto a cliva-
- - - - - Síntese
de reparo gem no plano horizontal produz o arranjo parental (a + b+ e a b) dos
marcadores flanqueadores.

Endonuc/ease

me11te 50 % dos casos. Essa correlação é bem explicada


pelo modelo de Holliday de recombinação apresentado
na Figura 13.29. Se as duas cromátides recombina11tes
da tétrade no diagrama anterior forem desenhadas em
uma forma equivalente à mostrada na Figura 13.29G,
será fácil explicar a associação de conversão gênica e
recombinação recíproca dos marcadores flanqueado-
res ( Figura 13.31 ). A po11te unifilamentar que une as
a m+ b+ a+ m+ b+
r 1111 1111a 11 111111 t 1111 1111a 1111 111 J duas cromátides tem de ser desfeita por clivagem en-
m+ m+ do11ucleolítica para co11cluir o processo de recombi11a-
e e
m+ m+ ção. Essa clivagem pode ser horizo11tal ou vertical na
f1111 l...l....l....l!!....11...1-1...1...11~1 11111 1111 a 1111 111l forma chi dese11hada na Figura 13.31. A clivagem verti-
a+ m+ b a m+ b
cal produz um asco que apresenta tanto conversão gê-
DNA ligase DNA ligase nica quanto recombinação recíproca dos marcadores
flanqueadores. A clivagem horizontal produz um asco
a m+ b+ a+ m+ b+ que apresenta tanto co11versão gênica qua11to a combi-
r 11111 111a 11 111111 t 1111 1111a 1111 111 J nação parental dos marcadores fla11queadores. Assim,
m+ m+
e e se a cli,ragem ocorrer no plano vertical em metade dos
m+ m+
·r-11-1-1-11...1-1.,-11....1-1-1-11-1 casos e no plano horizo11tal na outra metade, a co11ver-
11111 1111a 1111 111l
a+ m+ b a m+ b são gê11ica estará associada à recombinação recíproca
de marcadores flanqueadores em 50% das vezes, como
Recombinante para Parental para
marcadores externos marcadores externos obser\rado.

PONTOS ESSENCIAIS • iVo crossing over há quebra de moléculas homólogas de D1VA e reunião das partes em novas
combinações
• iVo caso de marcadores genéticos intimamente associados, a recombinação não recíproca, ou
conversão gênica, é frequente, produzindo razões 3: 1 dos alelos de segreg·ação
• A conversão gênica resulta da síntese de reparo do D1VA que ocorre durante o processo de
recombinação.

Exercícios
A~ligue a análise genética básica

1. Reflita sobre o papel da mutação na evolução. As binação produzem novas combinações dessa varia-
espécies evoluiriam se i1ão houvesse mutação? ção genética, e a seleção natural (ou artificial) pre-
serva as combi11ações que produzem orga11ismos
Resposta: Não. A mutação é a primeira etapa esse11cial do
mais adaptados ao ambie11te em que vivem. Sem
processo evolutivo; é a verdadeira origem de toda
mutação, i1ão ha\reria evolução.
nova variação genética. Os mecanismos de recom-
360 Fundamentos de Genética

2. Imagine um segmento curto de um ge11e tipo selva- i1a qual o quarto códo11 deixa de ser UGG, um códon
gem com a seguinte sequê11cia de pares de i1ucleo- de triptofa110, e passa a ser UGA, um dos três códons
tídios: de término da cadeia. Logo, haverá interrupção pre-
matura do polipeptídio mutante nessa posição, com
5 '-ATG TCC GCA TGG GGA -3'
a produção de uma proteína truncada.
3'-TACAGG CGT ACC CCT-5'
4. Caso haja inserção de um par de bases A:T entre os
A transcrição desse segmento de gene produz a se-
pares de nucleotídios 6 e 7 no segmento de gene mos-
guinte sequência nucleotídica do mRNA:
trado no Exercício 2, qual será o efeito dessa modifi-
5'-AUG UCC GCA UGG GGA-3' cação no polipeptídio especificado por esse gene?
e a tradução desse mRNA produz a sequê11cia de Resposta: A sequência nucleotídica do mRNA especifica-
aminoácidos: da pelo segme11to de ge11e mutante será:
metionina-serina-alanina-triptofano-glicina 5'-AUG UCC AGC AUG GGGA:J'
Caso haja substituição de um par de nucleotídios e o polipeptídio produzido a partir do mRNA alte-
nesse gene, com troca de G:C na posição 7 por A:T, rado será:
qual será o efeito dessa mutação no polipeptídio
metio11ina-serina-serina-metio11ina-glicina
produzido por esse gene?
sequência de aminoácidos alterada
Resposta: O mRNA produzido pelo segmento do gene
- sera:
com a mutaçao /
A i11serção de um par de bases altera a matriz de lei-
tura do mRNA (trinucleotídios lidos como códons)
5'-AUG UCCACA UGG GGA-3'
distal ao sítio da mutação. Logo, todos os aminoácidos
e especificará a sequê11cia de ami11oácidos: especificados por códons na região 3' em relação ao
sítio de i11serção serão modificados, com a produção
metio11i11a-seri11a-treoni11a-triptofano-glicina
de uma proteí11a a11ormal (geralme11te inativa). Em
Observe que o terceiro aminoácido do polipeptídio muitos casos, a inserção desloca um códon de térmi-
mutante é treonina, em vez de alanina existente no 110 para a matriz de leitura apropriada para tradução,
polipeptídio de tipo sel,ragem. Assim, essa substitui- com produção de um polipeptídio truncado.
ção de um par de bases, como a maioria das substi-
5. Se houver crossing over por quebra e reunião nas
tuições de pares de bases, resulta na substituição de
duas moléculas de DNA mostradas no diagrama
apenas um aminoácido no polipeptídio codificado
adiante, nas quais a ponta de seta indica a extremi-
pelo ge11e.
dade 3' de cada filame11to, a frequência de produ-
3. Caso haja substituição de um par de nucleotídios ção dos dois recombinantes será igual?
no segmento de gene mostrado no Exercício 2, a+ b
, Quebra
com troca de G:C na posição 12 por A:T, qual será 11111111111111111~ e ·- 11111111> 11111111~
reun1ao
o efeito dessa mutação no polipeptídio produzido X e
por esse gene? ,
11111111111111111~
,11111111,,01111111 r
a b+ a+
Resposta: A sequência de mRNA produzida será:

5'-AUG UCC GCA UGA GGA-3' Resposta: Não. Durante a recombinação, só os filamentos
de DNA com a mesma polaridade podem ser uni-
códon de término dos. O segu11do recombinante não será produzido.

Autoavaliação
Integre diferentes conceitos e técnicas

1. Charles Yanofsky isolou uma gra11de quantidade Resposta: A cultura de bactérias mutagênicas tem de em-
de mutantes auxotróficos de E. coli que só cresciam pregar meio contendo triptofano para que os mu-
em meio contendo o aminoácido triptofano. Como tantes desejados possam sobreviver e se reproduzir.
seria possível identificar esses mutantes? Se a muta- Depois, é preciso fazer a diluição das bactérias, pla-
ção induzida por ácido nitroso produzisse um au- queamento em meio de ágar co11te11do triptofano
xotrófico específico para o triptofano, seria possível e i11cubar até que haja colô11ias visíveis. As colô11ias
induzir a reversão ao prototrofismo por tratame11to são tra11sferidas para placas sem triptofano pela
com 5-bromouracila (5-BU) ? técnica de plaqueamen to em réplica desenvolvida
Capítulo 13 1 Mutação, Reparo do DNA e Recombinação 361

pelos Lederbergs (Figura 13.15). Os auxotróficos desses mutágenos induz a mutação de A3 em A 4


para o triptofano desejados crescerão nas placas nem de A5 em A2.
com triptofano, mas não nas placas de réplica sem Use as informações anteriores e a natureza do
triptofano. Como o ácido nitroso e a 5-BU produ- código genético (Tabela 12.1) para deduzir que
zem mutações de transição nos dois sentidos, A:T alelo mutante especifica o polipeptídio mutante
~ G:C, a 5-BU deve induzir a retromutação de toda em cada uma das sete diferentes substituições de
mutação induzida por ácido nitroso. aminoácidos na 6ª posição da trinucleotídio muta-
genase, e justifique suas deduções.
2. Suponha que você descobriu recentemente uma
nova espécie de bactéria e nomeou-a Escherichia Resposta: As deduções a seguir são feitas a partir das in-
mutaphilium. Durante o último ano, você estudou o formações apresentadas.
gene mutA e o polipeptídio especificado por ele, a (a) O códon His de tipo selvagem tem de ser CAU com
enzima trinucleotídio mutagenase, nessa bactéria. base na sequência de pares de nucleotídios do gene.
Demonstrou-se que a E. mutaphilium usa o código (b) Os códons para os sete aminoácidos encontrados na
genético universal e comporta-se como a Escherichia 6ª posição nos polipeptídios mutantes têm de estar
associados a CAU pela troca de uma única base por-
coli em todos os outros aspectos relevantes para a
que os mutantes foram todos derivados do tipo sel-
genética molecular.
vagem pela substituição de um único par de nucleo-
O sexto aminoácido da terminação amino da tídios. Assim, a degeneração do código genético não
trinucleotídio mutagenase selvagem é a histidina, influencia a dedução das atribuições específicas de
e o gene mutA de tipo selvagem tem a sequência códons.
tripla de par de nucleotídios. (c) Tendo em vista a natureza do código genético - espe-
cificamente a degeneração na terceira (3 ' ) posição
3'-GTA-5'
... .. .. em cada códon - existem três possíveis substituições
5'-CAT-3' de aminoácidos decorrentes de substituições de
na posição correspondente ao sexto aminoácido do uma única base (causadas por substituições de um
produto gênico. Nessa trinca também foram carac- único par de bases no DNA) em cada uma das duas
primeiras posições (a base 5 ' e a base do meio), mas
terizados sete mutantes, isolados em separado, com
apenas uma possível troca de aminoácido causada
substituições de apenas um par de nucleotídios. pela troca de uma única base na posição 3 (a base
Além disso, todas as trinucleotídio mutagenases 3 ' no códon). Para simplificar a discussão, as posi-
mutantes foram purificadas e sequenciadas. Todas ções dos três pares de nucleotídios no trinucleotídio
as sete são diferentes: contêm, respectivamente, em questão serão denominadas 1ª posição (corres-
glutamina, tirosina, asparagina, ácido aspártico, ar- pondente à base 5' no códon), 2ª posição (o par de
ginina, prolina e leucina como o sexto aminoácido nucleotídios no meio) e 3ª posição (correspondente
da terminação amino. à base 3 ' no códon de mRNA).
Os mutantes mutAl, mutA2 e mutA3 não se re- (d) Já que Al, A2 e A3 não se recombinam, todos são
combinam entre si, mas cada um deles se recombi- produzidos obrigatoriamente por substituições de
na com os outros quatro mutantes (mutA4, mutA5, pares de bases na mesma posição no trinucleotídio,
na l ª ou 2ª posição. O mesmo acontece com A4, A5
mutA6 e mutA7) para produzir recombinantes sel-
e A6. Como A7 recombina-se com todos os outros
vagens verdadeiros. Do mesmo modo, os mutan- seis alelos mutantes, é resultante da substituição de
tes A4, A5 e A6 não se recombinam entre si, mas um único par de bases na 3ª posição que ocasiona a
cada um deles produz recombinantes selvagens troca de um aminoácido.
verdadeiros nos cruzamentos com os outros qua- (e) O único aminoácido com códons associados ao có-
tro mutantes. Por fim, cruzamentos entre mutAl don His CAU por substituição de uma base na 3ª
e mutA 7 produzem aproximadamente duas vezes posição é Gln (códons CAA e CAG). Assim, o sexto
mais recombinantes selvagens verdadeiros que cru- aminoácido do polipeptídio mutA7 é obrigatoria-
zamentos entre mutA6 e mutA7. mente glutamina.
O tratamento com 5-bromouracila (5-BU) induz (f) Como mutA7 (substituição na terceira posição) pro-
a retromutação dos mutantes Al e A6 em tipos sel- duz aproximadamente duas vezes mais recombinan-
tes de tipo selvagem em cruzamentos com mutAl
vagens, o que não ocorre com os mutantes A2, A3,
que em cruzamentos com mutA6, a substituição de
A4, A5 e A7. Os mutantes A2 e A4 crescem lenta-
. ,. . Al está na 1ª posição e a substituição de mutA6 está
mente em meio m1n1mo, ao passo que os mutan- na 2ª posição. Associado a (d), isso põe as substitui-
tes A3 e A5 têm mutações nulas (que especificam ções A2 e A3 na 1ª posição e as substituições A 4 e A5
produtos gênicos totalmente inativos) e são incapa- na 2ª posição.
zes de crescer em meio mínimo. Essa diferença foi (g) Como a 5-BU causa a reversão de mutAl e mutA6 ao
usada para discernir, pelas mutações, os genótipos tipo selvagem, esses mutantes estão obrigatoriamen-
mutA3 e mutA5 dos genótipos mutA2 e mutA4. O te associados à trinca de pares de nucleotídios que
tratamento com 5-bromouracila ou hidroxilamina codificam His por mutações de transição, isto é,
pode induzir a transformação de mutantes A3 e A5 (mutAJ) ~T.~ • 5-BU > q~.t\ • 5-BU ,. qÇ_t\ (mutA6)
em A2e A4, respectivamente. No entanto, nenhum TAT CAT CGT
362 Fundamentos de Genética

(h) Como a hidroxilamina induz a mutação de mutA3 e Alterações da primeira base


mutA5 em mutA2 e mutA4, respectivamente, A3 está mutAl
associado a A2, e A5 aA4, especificamente por tran- Tyr
sições G:C - A:T- isto é, UAU
ATA
.... ..
CTA
(mutA3) ·· .... HA > TTA
...... (mutA2) '
TAT
'
GAT AAT mutA6
mutA4 mutAS
Aminoácido de tipo selvagem = His
e Leu Pro códon de mRNA da His = CAU
Arg Alteracões

cuu ccu Trinucleotídio de DNA = ...
GTA CGU da segunda
.. .. base CAT
(mutA5) GGA
...... HA > GAA
...... (mutA4) GAA
••••••• .GGA
.. •·•• •·• CAT GCA
••••••••
CCT CTT , CTT CCT CGT

Juntas, essas deduções estabelecem a presença das mutA2 mutA7


Asn Gln
seguintes relações entre os aminoácidos, códons e -
AAU CAA ou CAG
trincas de pares de nucleotídios na posição de inte-
.. .. •·•
TTA G TT ou ... ......
GTC
resse nos polipeptídios da t1inucleotídio mutagena- AAT
••• •• ••
CAA CAG
se, mRNA e genes nos sete diferentes mutantes:
mutA3 Alteracões

da terceira
Asp
base
- GAU
CTA
...
.....
GAT

Avaliação adicional
Entenda melhor e desenvolva a capacidade analítica

13.1 Classifique as mutações po11tuais a seguir repre- cólon, dez pessoas morreram com o mesmo tipo
sentadas i10 DNA e no RNA como (1) transições, de câncer e seis têm polipose intestinal. Todas as
(2) trans,rersões ou (3) mudanças da matriz de outras ramificações dessa grande família foram
leitura. (a) A para G; (b) C para T; (c) C para G; examinadas meticulosamente sem que se encon-
(d) T para A; (e) UAU ACC UAU para UAU AAC trassem casos. Sugira uma explicação para a ori-
CUA; (f) UUG CUA AUA para UUG CUG AUA. gem do gene defeituoso.
13.2 De todas as mutações de sentido trocado possíveis 13.7 A distrofia muscular juve11il em seres humanos é
em um segmento de DNA que codifica o aminoá- determinada por um gene recessivo ligado ao X.
cido triptofano, qual é a proporção entre transver- Em um estudo intensi,ro, encontraram-se 33 ca-
sões e transições se todas as substituições de um par sos em uma população de aproximadamente
de bases ocorrerem com igual frequência? 800.000 pessoas. Os pesquisadores estavam co11-
vencidos de que haviam enco11trado todos os ca-
13.3 Espera-se a ocorrê11cia tanto de mutações letais
sos avançados o suficiente para ser detectados por
quanto de mutações visíveis em moscas-das-frutas
ocasião do estudo. Só os 11omens apresentavam
irradiadas. Defina um método para detectar muta-
sintomas da doença. A maioria dos doe11tes mor-
ções (a) letais ligadas ao X e (b) visíveis ligadas ao
reu cedo, e nenhum deles viveu além de 21 anos.
X em Drosophila irradiadas.
Em geral, apenas um caso foi detectado em uma
13.4 Como é possível detectar mutações em bactérias família, mas em algumas famílias havia dois ou três
que causam resistência a um fármaco específico? casos. Sugira uma explicação para a ocorrê11cia es-
Como se pode ''erificar se determinado fármaco porádica da doença e a tendência de persistência
causa mutações ou apenas identifica mutações j á do gene na população.
existentes no organismo investigado?
13.8 Os produtos resultantes de mutações somáticas,
13.5 Em geral, as taxas publicadas de mutação espon- como a laranja-de-umbigo e a maçã Delicious, tor-
tânea em seres huma11os são maiores que as taxas naram-se comu11s em pla11tações de frutas cítricas
em bactérias. Isso significa que a mutação de genes e maçãs. No enta11to, as características decorrentes
individuais em seres huma11os é mais frequente de mutações somáticas raramente são mantidos
que em bactérias? Explique. em animais. Por quê?
13.6 Um distúrbio pré-canceroso (polipose intestinal) 13.9 Caso exista um carneiro de pernas curtas em um
em certo grupo familiar humano é determinado rebanho, sugira experimentos para determinar se
por um único ge11e dominante. Entre os descen- as pernas curtas são consequência de uma muta-
dentes de uma mulher que morreu com câncer do ção ou um efeito ambiental. Se as per11as curtas
Capítulo 13 1 Mutação, Reparo do DNA e Recombinação 363

forem causadas por uma mutação, como é possível com ou sem estreptomicina; outros só sobrevivem
verificar se a mutação é dominante ou recessiva? quando o meio contém esse fármaco. Dada uma
linhagem dessa espécie sensível à estreptomicina,
13.10 De que maneira enzimas como a DNA polimerase
descreva um procedimento experimental para o
poderiam participar do mecanismo de ação dos
estabelecimento de linhagens resistentes à estrep-
genes mutacionais e antimutacionais (genes mu-
tomicina dos dois tipos.
tantes que aumentam e diminuem, respectivamen-
te, as taxas de mutação)? 13.19 Um estoque de moscas-das-frutas foi tratado com
1.000 roentgens (r) de raios X, o que aumentou
13.11 Como a seleção natural poderia otimizar as taxas
em 2% a taxa de mutação de um gene específico.
de mutação espontânea?
Que porcentagem de aumento da taxa de mutação
13.12 Um gene mutacional Dt em milho aumenta a taxa desse gene seria esperada se o estoque de moscas
de mutação do gene para aleurona incolor (a) fosse tratado com doses de 1.500 r, 2.000 r e 3.000
para o alelo dominante (A), que produz aleuro- r de raios X?
na colorida. Quando se fizeram cruzamentos re-
13.20 Por que a frequência de quebra de cromossomos
cíprocos (i. e., planta-mãe dt/dt, a/a x Dt/Dt, a/a e
induzida por raios X varia com a dose total e não
planta-mãe Dt/Dt, a/a x dt/dt, a/a), o cruzamento
com a velocidade de administração?
com plantas-mães Dt/Dt produziu três vezes mais
pontos por grão que o cruzamento recíproco. Ex- 13.21 O superaquecimento de um reator produz trítio
plique esses resultados. radioativo (H3), iodo radioativo (1131 ) e xenônio
radioativo (Xn 133 ). Por que devemos nos preocu-
13.13 Uma única mutação bloqueia a conversão de fe-
par mais com o iodo radioativo do que com os ou-
nilalanina em tirosina. (a) Espera-se que o gene
tros dois isótopos radioativos?
mutante seja pleiotrópico? (b) Explique.
13.22 Uma pessoa sofreu um acidente e recebeu 50 ro-
13.14 Como é possível distinguir a hemoglobina normal
entgens (r) de raios X de uma vez. Outra pessoa
(hemoglobina A) da hemoglobina S?
foi tratada 20 vezes com 5 r. Supondo-se que não
13.15 Se CTT é um trinucleotídio de DNA (filamento haja efeito de intensidade, qual é o número pro-
transcrito de DNA) que especifica o ácido glutâ- porcional de mutações esperado em cada uma?
mico, que alterações da trinca de bases de DNA e
13.23 Realizou-se um cruzamento de Neurospora crassa
mRNA seriam responsáveis pela valina e lisina na
entre uma linhagem de tipo de cruzamento A e
6ª posição da cadeia de í3-globina?
genótipo :>e- m+ z e uma linhagem de tipo de cru-
13.16 O genoma do bacteriófago T4 contém cerca de zamento a e genótipo x m z+. Os genes x, me z es-
50% de pares de bases A:T e 50% de pares de ba- tão intimamente associados e presentes na ordem
ses G:C. O análogo de base 2-aminopurina induz x-m-z no cromossomo. Um asco produzido por esse
substituições de pares de bases A:T ~ G:C e G:C ~ cruzamento continha duas cópias ("gêmeos idên-
A:T por modificações tautoméricas. A hidroxilami- ticos") de cada um dos quatro produtos da meio-
na é uma substância química mutagênica que rea- se. Se os genótipos dos quatro produtos da meiose
ge especificamente com a citosina e induz apenas mostraram que houve conversão gênica no locus m
substituições G:C ~ A:T. Caso se produzisse uma e recombinação recíproca nos Zoei x e z, quais po-
grande quantidade de mutações independentes deriam ser os genótipos dos quatro produtos? Nos
A o ,.

em bacteriófago T4 por tratamento com 2-amino- espaços entre parenteses a seguir, escreva os geno-
purina, que porcentagem dessas mutações deveria tipos dos quatro produtos haploides da meiose em
sofrer retromutação para o genótipo de tipo selva- um asco com conversão gênica no wcus me recom-
gem por tratamento com hidroxilamina? binação recíproca dos marcadores flanqueadores
(nos ÚJci X e z).
13.17 Supondo que a cadeia í3-globina e a cadeia a-globi-
na tivessem um ancestral comum, que mecanismos Tabela Pares de esporos no asco
poderiam explicar as diferenças que agora existem
nessas duas cadeias? Que alterações nos códons de la2 3a4 5a6 7a8
DNA e mRNA seriam responsáveis pelas diferen- ( ) ( ) ( ) ( )
ças que resultaram em aminoácidos diferentes nas
posições correspondentes? 13.24 Como o ácido nitroso induz mutações? Que resul-
tados específicos poderiam ser esperados no DNA
13.18 Em determinada linhagem de bactérias, todas as
e no mRNA depois do tratamento de vírus com áci-
células geralmente são destruídas quando há uma
do nitroso?
concentração específica de estreptomicina no ,.
meio. Essas células sofrem mutações que conferem 13.25 E mais provável que as alterações mutacionais
resistência à estreptomicina. Os mutantes resisten- induzidas por ácido nitroso sejam transições ou
tes à estreptomicina são de dois tipos: alguns vivem transversões?
364 Fundamentos de Genética

13.26 Você está usando o teste de Ames para avaliar a gicas como talassemias e anemia falciforme. Você
possível mutagenicidade de três novos pesticidas. conheceu uma família na China na qual algumas
Duas linhagens his- produzidas por mutação por pessoas eram portadoras de uma nova forma gené-
mudança de matriz de leitura ou transição foram tica de anemia. As sequências de DNA na extremi-
usadas e os resultados foram os seguintes (número dade 5' do filamento não molde do DNA normal
de colônias revertentes): e mutante codificador da subunidade a da hemo-
Controle de Mutante de
globina são:
mutantes de transição Normal 5'-ACGTTATGCCGTACTGCCAGCTAACT-
transição Mutante de + substância
. - + , . GCTAAAGAACAATTA.......-3'
(sem trans1çao qUlllllca +
Mutante 5'-ACGTTATGCCCGTACTGCCAGCTAACT-
substância substância enzimas de
ljnhagem 1 química)
, .
qUlllllca fígado de rato
GCTAAAGAACAATTA.......-3'

Pesticida n º 1 21 180 19 (a) Qual é o tipo de mutação presente no gene da he-


Pesticida n º 2 18 19 17 moglobina mutante?
(b) Quais são os códons na porção traduzida do mRNA
Pesticida n º 3 25 265 270
transcrito dos genes normal e mutante?
Mutante por (c) Quais são as sequências de aminoácidos dos poli-
Controle de mudança de peptídios normal e mutante?
mutantes por Mutante por matriz de
13.32 O bacteriófago MS2 contém as informações gené-
mudança da mudança leitura
ticas no RNA. Seu cromossomo é análogo a uma
matriz de de matriz + substância
leitura (sem de leitura+
, •
qUlllllca + molécula poligênica de mRNA em organismos que
substância substância enzimas de armazenam suas informações genéticas no DNA.
, •
I .inhagem 2 química) qUlllllca fígado de rato O minicromossomo de MS2 codifica quatro poli-
peptídios (i. e., tem quatro genes). Um desses qua-
Pesticida n º 1 5 4 5
tro genes codifica a proteína da cápsula de MS2,
Pesticida n º 2 7 5 93
um polipeptídio com 129 aminoácidos de compri-
Pesticida n º 3 6 9 7
mento. Toda a sequência nucleotídica no RNA de
Os três pesticidas induzem algum tipo de mutação? Qual? MS2 é conhecida. O códon 112 do gene da proteí-
na da cápsula é CUA, que especifica o aminoácido
13.27 Qual é a diferença entre a ação e o efeito mutagê-
leucina. Se você fosse tratar uma população em
nico da 5-bromouracila e do ácido nitroso?
replicação do bacteriófago MS2 com o mutágeno
13.28 Sydney Brenner e A. O. W. Stretton constataram 5-bromouracila, que substituições de aminoácidos
que as mutações sem sentido não interrompiam a esperaria que fossem induzidas na posição 112 da
síntese de polipeptídios no gene rll do bacterió- proteína da cápsula de MS2 (i. e., Leu ~ outro
fago T4 quando estavam localizadas em um inter- aminoácido)? (Nota: O RNA do bacteriófago MS2
valo da sequência de DNA no qual havia ocorrido replica-se usando um filamento complementar de
inserção de um único nucleotídio em uma extre- RNA e pareamento de bases como o DNA.)
midade e deleção de um único nucleotídio na ou-
13.33 Espera-se que as frequências das diferentes substi-
tra. Qual é a explicação desse achado?
tuições de aminoácidos induzidas por 5-bromoura-
13.29 Seymour Benzer e Ernst Freese compararam mu- cila na posição 112 do polipeptídio da cápsula que
tantes espontâneos e induzidos por 5-bromoura- você indicou no Problema 13.32 sejam iguais? Em
cila no gene rll do bacteriófago T4; o mutágeno caso afirmativo, por quê? Em caso negativo, por
aumentou a taxa de mutação (r//+~ rll) centenas que não? Alguma delas ocorreria com maior fre-
de vezes acima da taxa de mutação espontânea. O quência? Qual?
tratamento com 5-bromouracila poderia induzir a
reversão para o tipo selvagem de quase todos (98%) 13.34 Essas mutações ocorreriam se uma suspensão não
os mutantes induzidos por 5-bromouracila (rll ~ replicativa do fago MS2 fosse tratada com 5-bro-
r//+), mas esse tratamento induziria a reversão ao mouracila?
tipo selvagem de apenas 14% dos mutantes espon- 13.35 O ácido nitroso desamina a adenina, a citosina e a
tâneos. Discorra sobre a razão desse resultado. guanina (adenina ~ hipoxantina, que faz par com
13.30 Como as alterações do DNA induzidas por acridi- a citosina; citosina~ uracila, que faz par com a
na levam à produção de proteínas inativas? ade nina; e guanina ~ xan tina, que faz par com
a citosina). Você esperaria que o ácido nitroso in-
Use as distribuições de códons-aminoácidos conhecidas, duzisse alguma mutação cuja consequência seria
apresentadas no Capítulo 12, para resolver os próximos a substituição de um resíduo de glicina por outro
problemas. aminoácido em um polipeptídio de tipo selvagem
13.31 Mutações nos genes codificadores das subunidades (i. e., glicina ~ outro aminoácido) se a mutagê-
a e 13 da hemoglobina causam doenças hematoló- nese ocorresse em uma suspensão de bacterió-
Capítulo 13 1 Mutação, Reparo do DNA e Recombinação 365

fagos T4 maduros (não replicantes)? (Nota: Após NH2-Met-Pro-Phe-Gly-Glu-Arg-Phe-Pro-COOH


o tratamento mutagênico da suspensão de fagos,
qual seria a sequência nucleotídica mais provável no
o ácido nitroso é retirado. Depois, permite-se a in-
mRNAdesse gene no revertante (mutante duplo)?
fecção de células de E. eoli pelo fago tratado para
a expressão de eventuais mutações induzidas.) Em 13.41 Oito mutantes de E. eoli isolados de modo inde-
caso afirmativo, por que mecanismo? Em caso ne- pendente, todos incapazes de crescer na ausên-
gativo, por que não? cia de histina (his-), foram examinados em todos
os heterozigotos eis e trans possíveis (diploides
13.36 Tendo em mente a natureza conhecida do código
genético, as informações sobre o fago MS2 apre- parciais). Todos os heterozigotos eis cresceram
sentadas no Problema 13.32 e o que aprendeu na ausência de histidina. Os heterozigotos trans
sobre o ácido nitroso no Problema 13.35, você es- tiveram duas respostas diferentes: alguns cres-
peraria que o ácido nitroso induzisse alguma mu- ceram na ausência de histidina; outros, não. Os
tação que teria como consequência substituições resultados experimentais, usando "+" para indi-
de aminoácidos do tipo glicina ~ outro aminoá- car crescimento e "O" para indicar que não houve
cido se a mutagênese ocorresse em uma suspensão crescimento, são apresentados na tabela adiante.
de bacteriófagos MS2 maduros (não replicantes)? Quantos genes são definidos por essas oito mu-
Em caso afirmativo, por que mecanismo? Em caso tações? Que linhagens mutantes têm mutações
negativo, por que não? no(s) mesmo(s) gene(s)?

13.37 Você esperaria que o ácido nitroso induzisse uma Crescimento de heterozigotos trans (sem histidina)
maior frequência de substituições Tyr ~ Ser ou
Mutante 1 2 3 4 5 6 7 8
Tyr ~ Cys? Por quê?
8 o o o o o o + o
13.38 Qual das substituições de aminoácidos a seguir 7 + + + + + + o
você espera que seja induzida com maior fre- 6 o o o o o o
quência pela 5-bromouracila? (a) Met ~Leu; (b) 5 o o o o o
Met~Thr; (c) Lys~Thr; (d) Lys~Gln; (e) Pro
4 o o o o
~Arg; ou (f) Pr~ Gln? Por quê?
3 o o o
13.39 A sequência de tipo selvagem de parte de uma 2 o o
,. ,.
prote1na e 1 o
NH2-Trp-Trp-Trp-Met-Arg-Glu-Trp-Thr-Met
13.42 Suponha que os mutantes descritos no Problema
Cada mutante na tabela a seguir difere do tipo sel- 13.41 tenham produzido os resultados a seguir.
vagem por uma única mutação pontual. Usando Quantos genes eles teriam definido? Que muta-
essa informação, determine a sequência de mRNA ções estariam no(s) mesmo(s) gene(s)?.
que codifica o polipeptídio de tipo selvagem. Se
houver mais de um nucleotídio possível, liste todas Crescimento de heterozigotos trans (sem histidina)
as possibilidades. Mutante 1 2 3 4 5 6 7 8
8 + + + + + + o o
Mutante Sequência de aminoácidos do polipeptídio
7 + + + + + + o
1 Trp-Trp-Trp Met 6 o o
+ + + +
2 Trp-Trp-Trp-Met-Arg-Asp-Trp-Thr-Met 5 + + o
+ +
3 Trp-Trp-Trp-Met-Arg-Lys-Trp-Thr-Met 4 o o
+ +
4 Trp-Trp-Trp-Met-Arg-Glu-Trp-Met-Met 3 o
+ +
13.40 Acridinas como a proflavina induzem principal- 2 o o
mente acréscimos e deleções de um único par de 1 o
bases. Suponha que a sequência nucleotídica de
tipo selvagem no mRNA produzida a partir de um 13.43 Em Drosophila, white (branco), white eherry (bran-
co-cereja) e vermilion (vermelhão) são mutações
ligadas ao X que afetam a cor dos olhos. Todas as
5 '-AUGCCCUUUGGGAAAGGGUUUCCCUAA-3' três mutações são recessivas em relação ao alelo
Suponha também que uma mutação seja induzi- selvagem para olhos vermelhos. O cruzamento de
da nesse gene pela proflavina e, em seguida, um uma fêmea de olhos brancos com um macho de
revertante dessa mutação seja induzido pela pro- olhos vermelhão produz machos de olhos bran-
flavina, decorrente da mutação supressora de um cos e fêmeas de olhos vermelhos (tipo selvagem).
segundo sítio no mesmo gene. Se a sequência de O cruzamento de uma fêmea de olhos brancos
aminoácidos do polipeptídio codificado por esse com um macho de olhos branco-cereja produz
gene na linhagem revertante (mutante dupla) fosse machos de olhos brancos e fêmeas de olhos ce-
366 Fundamentos de Genética

reja-claros. Esses resultados indicam se alguma Mutame 1 2 3 4 5 6 7


das três mutações que afetam a cor dos olhos está 7 + + o + o o o
localizada no mesmo gene? Em caso afirmativo, 6 + + + + + o
quais? 5 o o
+ + +
13.44 Os mutantes loz (do inglês, lethal on Z [letal em Z]) 4 o o + o
do bacteriófago X são mutantes letais condicionais 3 + + o
que se desenvolvem na linhagem Y de E. eoli, mas 2 o o
não na linhagem Z. Os resultados apresentados na 1 o
tabela a seguir foram obtidos na análise da com-
(a) Proponha três explicações plausíveis para o com-
plementação de sete mutantes wz por infecção da portamento de complementação aparentemente
linhagem Z de E. eoli por cada par de mutantes anômalo do mutante loz número 7.
possível. O sinal"+" indica a produção de fagos nas (b) Que experimentos genéticos simples podem ser usa-
células infectadas, e "O" indica ausência de produ- dos para distinguir as três explicações possíveis?
ção de fagos. Também foram feitos todos os testes (c) Explique por que resultados específicos dos expe-
eis possíveis, e todos os heterozigotos eis produzi- rimentos propostos distinguirão as três explicações
; .
ram prole de fagos de tipo selvagem. poss1ve1s.

Genômica na Web em http://www.ncbi.nlm.nih.gov


A doença falciforme é causada pela substituição de um 3. Documentaram-se mutações em uma grande
único par de bases no gene da 13-globina humana. Essa quantidade das 146 trincas de pares de bases
mutação troca o ácido glutâmico, o sexto aminoácido (especificadores de códons de mRNA) no gene da
no polipeptídio maduro, por valina (ver Figura 1.9). 13-globina humana. Quantas dessas trincas sofreram
Por sua vez, essa substituição de um único aminoácido é mutação para acarretar a substituição de um aminoá-
responsável por todos os sintomas dessa doença dolorosa cido no polipeptídio?
e, por fim, fatal. 4. Que genes estão localizados perto do gene da 13-globina
no cromossomo humano 11? Quais são as funções dos
1. Que outras mutações do gene da 13-globina humana
genes das globinas delta, gama A, gama G e épsilon?
substituíram o ácido glutâmico na 6ª posição por
Seu arranjo no cromossomo tem algum significado?
algum outro aminoácido? Como são chamadas essas
variantes da hemoglobina? Existem variantes da Dica: No site do NCBI, pesquise "beta-globin variants" em
13-globina com substituição de um aminoácido na 6ª todos os bancos de dados. Comece com os resultados em
posição e substituição de mais um aminoácido em OMIM (Online Medical Inheritance in Man); clique em
outra posição no polipeptídio? HBB (símbolo on-line de gene da 13-globina humana), na
2. A prolina está presente na 5ª posição na 13-globina humana barra à esquerda; clique em HbVar para obter uma lista
normal. Que substituições de aminoácidos ocorreram de todas as variantes da 13-globina humana caracterizadas
nessa posição em 13-globinas mutantes? E quanto ao ácido até hoje. Depois, volte à página do HBB e clique em
glutâmico presente na 7ª posição? Existem mutações que "Gene Map" para obter uma lista dos genes próximos de
substituem esse aminoácido por outro? HBB.