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D​​EFENSORIA PÚBLICA ESPECIALIZADA EM ATENDIMENTO DE INTERESSES COLETIVOS

Excelentíssimo Senhor 10ª Vara Cível e de Acidentes de Trabalho da


Comarca da Capital

Autos n. 0633043-92.2017.8.04.0001

A DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO AMAZONAS​​, instituição


essencial à função jurisdicional da Justiça, presentada neste ato pelo Defensor
Público que a esta subscreve, no uso de suas atribuições de acordo com o art.
134 da Constituição Federal e arts. 1º e 4º, I, da Lei Complementar nº 80/1994,
vem, perante Vossa Excelência, requerer ​HABILITAÇÃO nos autos como “custos
vulnerabilis”, bem como expor e requerer o que segue abaixo:

1. DO RELATÓRIO

Trata-se de ação de reintegração de posse ajuizada por Maria de Fátima


Vieira dos Santos, viúva do Sr. Antônio Vieira dos Santos, em desfavor de várias
pessoas que encontram-se ocupando irregularmente, o terreno localizado na Rua
03, Loteamento Chácaras Donabella km. 17, Rodovia Torquato Tapajós,
matriculado sob o n.º 33.243.

Aduz a Requerente que é a proprietária e possuidora do terreno desde o


momento do falecimento do seu marido Antônio Vieira dos Santos, inclusive
recolhendo os tributos, taxas e emolumentos que incidem sobre o seu imóvel.

Aludiu que no dia 07 de setembro de 2017, teve turbada a sua posse,


oportunidade em que tentou conversar com os ocupantes para que deixassem a
sua propriedade, todavia, sem êxito.

A autora juntou vários documentos comprobatórios de sua propriedade,


bem como de registro fotográfico de onde atesta a existência de posse nova.

A demanda foi recebida (fls 39-40), oportunidade em que este Juízo


proferiu decisão ​concedendo a liminar possessória em favor da autora, bem
como determinou a citação dos ocupantes do terreno em lume.

Às fls. 53-115, a Srª Amanda Branco Rocha, por meio de advogado


privado, compareceu aos autos como representante da comunidade,
apresentando, desta feita, a contestação na defesa dos seus interesses. Nesta
ocasião, suscitou, a requerida, que a ação deveria ser extinta dada a ausência da

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comprovação preliminar da existência do exercício de posse pela requerente. Por


outro lado, requereu a intimação dos diversos órgãos de assistência social em
prol da tomada de providências quanto à necessidade de realocação dos
moradores em local apropriado para moradia.

Neste ínterim, o Oficial de Justiça compareceu ao local para cumprir o


mandado de reintegração de posse, tendo acertado com os ocupantes o prazo de
2 dias para saída de forma mansa e pacífica (fls. 120), todavia, não cumpriram o
acertado, tendo o oficial de justiça devolvido o mandado com a solicitação de
reforço policial.

A requerente apresentou réplica.

Ato contínuo, o Juízo intimou as partes para apresentarem eventuais


propostas de acordo para ser discutida na audiência de instrução e julgamento.
Atualmente, está aguardando o término do prazo atribuído pelo Juízo.

É o relatório.

2. BREVE RESENHA SOBRE A LEGITIMIDADE INSTITUCIONAL DE


CUSTOS VULNERABILIS

No caso vertente, a manifestação da Defensoria Pública não se dá


enquanto representante de qualquer parte, mas sim a partir de sua missão
constitucional de ​emancipação dos vulneráveis ​e na condição de ​órgão
terceiro interveniente para amplificar o contraditório em favor de ​categorias
vulneráveis na ​formação de precedentes – situação essa já reconhecida pelo
egrégio TJ-AM:

EMENTA: PROCESSO PENAL E DIREITO CONSTITUCIONAL. REVISÃO


CRIMINAL. DEFENSORIA PÚBLICA. ESSENCIALIDADE CONSTITUCIONAL.
INTERVENÇÃO PROCESSUAL. CUSTOS VULNERABILIS.
POSSIBILIDADE CONSTITUCIONAL E LEGAL. MISSÃO INSTITUCIONAL.
VULNERABILIDADE PROCESSUAL. ABRANDAMENTO. INSTRUMENTO DE
EQUILÍBRIO PROCESSUAL E PARIDADE ENTRE ÓRGÃO DE ACUSAÇÃO
ESTATAL E DEFESA​. AMPLIFICAÇÃO DO CONTRADITÓRIO E
FORMAÇÃO DE PRECEDENTES EM FAVOR DE CATEGORIAS
VULNERÁVEIS.
1. A Defensoria Pública é função essencial à Justiça (art. 134, CF),
cabendo-lhe ser expressão e instrumento do regime democrático na
defesa dos direitos humanos e das necessidades da população
necessitada.
2. A intervenção de custos vulnerabilis da Defensoria Pública é
decorrência da vocação constitucional da Defensoria Pública para com as

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categorias vulneráveis e é harmônica com o histórico de nascimento da


carreira no âmbito da Procuradoria Geral de Justiça (PGJ) no século
passado no Rio de Janeiro, sendo esse o modelo público de assistência
jurídica adotado na Constituição de 1988.
3. ​A intervenção da Defensoria Pública visa ao seu interesse
constitucional, em especial à amplificação do contraditório em
favor dos vulneráveis necessitados face à ordem jurídica,
viabilizando ampla participação democrática na formação de
precedentes (...)”. (TJ-AM, Revisão Criminal n.
4001877-26.2017.8.04.0000, Rel. Des. Ernesto Anselmo, p. 39-46, j.
8/3/2018, g.n.).

De modo semelhante, também decidiu o TJ-SP:

AGRAVO DE INSTRUMENTO – INTERVENÇÃO DEFENSORIA PÚBLICA –


AÇÃO CIVIL PÚBLICA – Decisão que indeferiu o pedido de ingresso da
Defensoria pública em Ação Civil Pública de autoria do Ministério Público
– Decisão que deve ser reformada – Finalidade institucional da
Defensoria Pública que se volta à proteção de grupos
hipossuficientes – Art. 5º, Lei 7.347/85 c/c art. 134 da CF/88 – ADI
3943/DF – Hipótese dos autos em que a Ação Civil Pública apresenta
elevada complexidade – Demanda que envolve direito ambiental,
urbanístico e de moradia – ​Interesse da coletividade que justifica a
intervenção da Defensoria Pública – Princípio da máxima efetividade
das demandas coletivas – Multiplicidade de demandas fundadas no
mesmo levantamento do Ministério das Cidades que evidencia a
existência de grande número de pessoas afetadas – ​Intervenção da
Defensoria Pública que se mostra oportuna para a adequada
condução do feito – Decisão reformada - Recurso provido. (TJSP;
Agravo de Instrumento 2086146-83.2018.8.26.0000; Relator (a):
Rubens Rihl; Órgão Julgador: 1ª Câmara de Direito Público; Foro de
Guarulhos - 2ª Vara da Fazenda Pública; Data do Julgamento:
21/06/2018; Data de Registro: 21/06/2018)..

“Agravo de Instrumento. Decisão que, em Ação Civil Pública movida pelo


Ministério Público (...) ingresso da Defensoria Pública Estadual para
intervir no feito. ​Recurso da Defensoria Pública objetivando sua
intervenção na lide​​, em nome próprio, bem assim a revogação da
tutela de urgência e a citação de todos os ocupantes da área. Parcial
admissibilidade. Hipótese em que a presente ação atinge a esfera
jurídica de pessoas em situação de hipossuficiência econômica, a
justificar a intervenção da Defensoria Pública, em nome próprio,
na qualidade de "custos vulnerabilis et plebis". (...)”. (TJSP;
Agravo de Instrumento 2007125-58.2018.8.26.0000; Relator (a):
Aroldo Viotti; Órgão Julgador: 11ª Câmara de Direito Público; Foro de
Guarulhos - 2ª Vara da Fazenda Pública; Data do Julgamento:
10/07/2018; Data de Registro: 10/07/2018)

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Na mesma linha de raciocínio, vide ​CÁSSIO SCARPINELLA BUENO​​:

“Com base nessa missão institucional, é correto aplaudir e desenvolver


o entendimento de que a Defensoria Pública deve atuar, em processos
jurisdicionais individuais e coletivos, na qualidade de ​custos vulnerabilis
para promover a tutela jurisdicional adequada dos interesses que lhes
são confiados, desde o modelo constitucional, similarmente ao Ministério
Público quanto ao exercício da função de ​custos legis”​ . (BUENO, Cássio
Scarpinella. ​Manual de Direito Processual Civil​​. 4a ed. São Paulo:
Saraiva, 2018, p. 226).

Ressalte-se, ademais, que tal posição constitucional da Defensoria Pública


também é acolhida e exposta por ​PEDRO LENZA1 ​e ​JOSÉ EMÍLIO MEDAUAR
OMMATI2.

Deve-se ressaltar que ​inexiste colisão de grupos vulneráveis​​, sendo


dispensada a aplicação coletiva do inc. V do art. 4º-A da LC n. 80/1994, a qual
exigiria a atuação de um defensor público (​amicus communitas​) para cada grupo
vulnerável em rota de colisão3, caracterizando a aplicação da teoria das posições
processuais dinâmicas4 para a Defensoria Pública5.

Desse modo, a manifestação institucional de ​custos vulnerabilis é bastante


ao reforço e tutela processual do ​grupo ​vulnerável em apreço: ​ocupantes
irregulares de Comunidades Carentes.

3. ​DOS FUNDAMENTOS JURÍDICOS

3.1. DA ​PERDA DA FORÇA COGENTE DO MANDADO DE


REINTEGRAÇÃO DE POSSE

1
LENZA, Pedro. Direito Constitucional Esquematizado. 22ª ed. São Paulo: Saraiva, 2018.
2
OMMATI, José Emílio Medauar. Uma teoria dos Direitos Fundamentais. 4ª ed. Rio de
Janeiro: Lumen Juris, 2017.
3
Nesse sentido: CASAS MAIA, Maurilio. Legitimidades institucionais no Incidente de
Resolução de Demandas Repetitivas (IRDR) no Direito do Consumidor: Ministério Público
e Defensoria Pública: similitudes e distinções, ordem e progresso. Revista dos Tribunais,
São Paulo, vol. 986, p. 27-61, Dez-2017.
4
CASAS MAIA, Maurilio. A Intervenção de Terceiro da Defensoria Pública nas Ações
Possessórias Multitudinárias do NCPC: Colisão de interesses (Art. 4º-A, V, LC n. 80/1994)
e Posições processuais dinâmicas. In: Didier Jr., Fredie; Macêdo, Lucas Buril de; Peixoto,
Ravi; Freire, Alexandre. (Org.). Coleção Novo CPC - Doutrina Selecionada - V.1 - Parte
Geral. 2ª ed. Salvador: Jus Podivm, 2016, v. I, p. 1253-1292.
5
Para outros detalhes e debates sobre as posições processuais assumidas pela
Defensoria Pública no IRDR, vide: TEMER, Sofia. Incidente de Resolução de Demandas
Repetitivas. 3ª ed. Salvador: JusPodivm, 2018.

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Nesse tópico, tratar-se-á da perda da força cogente do mandado de


reintegração/manutenção de posse que tenha havido o transcurso do prazo
superior a 1 (um) ano sem que tenha havido cumprimento, conforme inteligência
do art. 565, § 1.º do CPC:

Art. 565. (...). § 1º Concedida a liminar, ​se essa não for executada
no prazo de 1 (um) ano​​, a contar da data de distribuição, caberá ao
juiz designar audiência de mediação​, nos termos dos §§ 2o a 4o deste
artigo.
(grifo nosso)

Com base nessa norma, verifica-se que os mandados judiciais não podem
ter efeitos eternos, por razões lógicas, a vida social é dinâmica em razão da
constante mudança na cultura, nos usos e costumes, na noção d e moral e
evolução da ideia de lícito e ilícito. No caso da matéria possessória não é
diferente, em especial porque é regida sob o manto do princípio da fungibilidade,
privilegiando a alteração da situação fática do imóvel ou de quem detém o bem.
Essa norma coloca um fim à visão ultrapassada de que os efeitos dos mandados
judiciais, decorrentes de cognição sumária e precária, possuem efeitos sem
duração definida, decorrente da mitologia Grega com a famosa estória da
“Espada de Dámocles”.6

Além disso, com a perda da força cogente do mandado liminar possessório


em razão do tempo, a própria lei traz explicitamente uma consequência, isto é, a
realização de mediação entre as partes, a fim de que realizem autocomposição
em prol da resolução do litígio. Embora essa determinação tenha um efeito de
repescagem, ela é de aplicação obrigatória, conforme assevera os doutrinadores
Nelson Nery Júnior e Rosa Nery:7

Caput e § 1º: 6. Audiência de Mediação. Segundo este dispositivo,


independentemente de a inicial estar devidamente instruída (CPC, 562),
deverá ser designada audiência de mediação antes da concessão da
liminar de reintegração ou manutenção de posse. O caráter coletivo de
que se reveste a posse disputada no caso faz com que a decisão
proferido tenha, como consequência, um impacto de grande proporção.
Em razão disso, deve ser tentada a mediação, de forma que as partes
envolvidas dissolvam o conflito por si mesmas e restaurem a
convivência harmoniosa e pacífica. Caso a liminar seja concedida e
não seja executada em um ano da distribuição, nova mediação
deverá​​ ser tentada​​.
(grifo nosso)

6
​Dámocles é uma figura participante de uma história moral que faz parte da cultura grega clássica.
In.: . Acesso em: 29 de agosto de 2016.
7
NERY JUNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria Barreto Borriello de Andrade. Comentários ao Código de
Processo Civil. 1ª ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2016​.

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Seguindo essa linha, Teresa Arruda Alvim8 e outros doutrinadores


asseveram que essa audiência de mediação tem como finalidade de evitar
conflitos traumáticos e desastrosos inerentes ao cumprimento de mandado de
reintegração possessório coletivos, ​in verbis:

2. O §§ 1.º, 2.º e 4.º do art. 565 do NCPC: em caso de não


cumprimento da liminar em até um ano contado da distribuição da ação,
será realizada nova audiência de mediação. O art. 565, § 1.º, do NCPC
trata de uma segunda audiência de mediação após aquela que deve ser
inicialmente designada quando do pedido de liminar em ações de força
velha de caráter coletivo. ​2.1. Esta audiência, que deve ser
designada caso não executada a liminar em até um ano da
distribuição da ação, tem o claro escopo de tentar-se, mais uma
vez, a solução mediada do conflito possessório coletivo, que no
mais das vezes é traumático por natureza e tende a gerar imensa
tensão a todas as partes envolvidas. 2.2. É clara a intenção
legislativa de, em conflitos possessórios de largas dimensões,
que impactam grande número de pessoas (menores, inclusive,
que estejam a habitar a área), incentivar o quanto possível a
resolução da controvérsia de maneira mediada. ​2.3. Para tal
audiência, determinam os §§ 2.º a 4.º do art. 565 do NCPC que deverão
comparecer o MP, como fiscal da lei, e a Defensoria Pública, quando
houver partes beneficiárias de justiça gratuita. E mais: “§ 4.º Os órgãos
responsáveis pela política agrária e pela política urbana da União, de
Estado ou do Distrito Federal e de Município onde se situe a área objeto
do litígio poderão ser intimados para a audiência, a fim de se
manifestarem sobre seu interesse na causa e sobre a existência de
possibilidade de solução para o conflito possessório” (§ 4.º do art. 565
do NCPC).
​(grifo nosso)

Diante do exposto, é imprescindível a suspensão da força cogente do


mandado de reintegração/manutenção de posse nas demandas coletivas que não
tenham sido cumpridos dentro do prazo de 1 (um) ano após sua distribuição,
devendo, portanto ser designada audiência de mediação na tentativa de que as
partes medeiem o conflito posto ao Judiciário.

No caso em comento, a decisão interlocutória concedendo a liminar


possessória (fls. 39-40) foi proferida no dia 09 de outubro de 2017, tendo sido
expedido mandado de reintegração de posse no mesmo dia, contudo até o
presente momento não houve o seu cumprimento, embora tenha transcorrido o

8
WAMBIER, Teresa Arruda Alvim; RIBEIRO, Leonardo Ferres da Silva; CONCEIÇÃO,
Maria Lúcia Lins; MELLO, Rogério Licastro Torres. Primeiros comentários ao novo código
de processo civil. 2ª ed. Revista dos Tribunais, 2016.

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prazo de 1 (um) ano e 1 (um) mês, aproximadamente, razão pela qual o


mandado encontra-se com o prazo vencido.

3.2. DA INCOMPATIBILIDADE DA VIA PROCEDIMENTAL ELEITA

A inércia é uma das características da Jurisdição, a qual não se aplica às


partes que devem envidar esforços para resolução da demanda no menor espaço
de tempo possível, cumprindo para com seus prazos próprios e impróprios. No
caso em tela, o Requerido além de se manter inerte quanto ao cumprimento da
medida liminar, usa procedimento incompatível para beneficiar-se da celeridade
e das liminares possessórias que diferem do procedimento da Ação Civil Pública.

Além da incompatibilidade de procedimentos, a Requerente ao fazer o uso


da Ação de Reintegração de Posse ​deixa de cumprir o requisito
indispensável ao seu manejo, qual seja, a comprovação da POSSE e seu
exercício​​. ​Embora comprove domínio da área​, objeto do litígio, ​não há que se
discutir posse se o Requerente sequer possui instalações ou, pelo
menos, indícios de havê-la, portanto, essa tentativa de beneficiamento
de procedimento mais simplificado deve ser desmantelado, antes da
ocorrência de um prejuízo maior à Comunidade, que atende exercer a
função social da terra ocupada​​.

Essa incompatibilidade procedimental não possui forma de convalidação


nos presentes autos, haja vista que sequer o pleito perseguido pelo Requerente
se baseia nos procedimentos possessórios descritos nos arts. 920 do CPC/73,
mas com base no procedimento da Ação Civil Pública da Lei n.º 7.347/85,
demonstrando o completo desapego com a técnica impossibilitando o
cumprimento da finalidade do uso da jurisdição, qual seja, a prestação de uma
tutela jurisdicional.

Neste sentido, além da doutrina, cumpre salientar que a jurisprudência


pátria é ​uníssona quanto à inadequação de defesa de posse baseada
exclusivamente em comprovação de propriedade​​, no caso em tela, feita
através de contrato de compra e venda:

PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE. CAUSA DE


PEDIR FUNDADA EM DIREITO DE PROPRIEDADE. IMPOSSIBILIDADE.
INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA. FALTA DE INTERESSE DE AGIR.
EXTINÇÃO SEM RESOLUÇÃO DO MÉRITO. POSSIBILIDADE.
CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. ACERTO DO JULGADO. A
questão preliminar da nulidade da sentença não deve prosperar. Isto
porque a demanda foi julgada extinta em razão da ausência de uma das
condições para o exercício regular do direito de ação, não chegando a
ser conhecida no mérito a pretensão deduzida na inicial. Deste modo,
evidente a desnecessidade da realização de qualquer prova, que

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somente é exigida quando houver controvérsia a respeito de fato. O


interesse de agir, ou interesse processual, é condição de qualquer
demanda, que se conceitua como a utilidade e necessidade da
providência jurisdicional pleiteada pelo demandante. Este terá interesse
de agir toda vez que tiver necessidade da tutela jurisdicional de tal
natureza e, além disso, tiver pleiteado a medida adequada a satisfação
do direito substancial. ​A autora, embora pretenda a tutela
possessória, fundamenta sua demanda no título de propriedade
que detém, o que se afigura inviável neste rito especial​​. É
indiscutível que a posse e a propriedade são institutos jurídicos
distintos, tendo o próprio Código Civil previsto cada um deles em títulos
diferentes. ​Em razão disso, o nosso ordenamento prescreve
tutelas jurisdicionais diversas para cada uma delas​.​ Correta a
sentença prolatada pela juíza de primeiro grau ao ​julgar extinto o
processo sem análise do mérito em razão da via processual
inadequada. Recurso manifestamente improcedente​​. Seguimento
negado, com fulcro no artigo 557, do Código de Processo Civil. (TJ-RJ -
APL: 00002986720108190056 RJ 0000298- 67.2010.8.19.0056,
Relator: DES. LINDOLPHO MORAIS MARINHO, Data de Julgamento:
19/02/2014, DÉCIMA SEXTA CAMARA CIVEL, Data de Publicação:
04/04/2014 14:00)

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE. CARÊNCIA DE


AÇÃO EM RAZÃO DE VIA ELEITA INAPROPRIADA PARA PROPOR A
DEMANDA. PEDIDO FUNDADO NA PROPRIEDADE. ARGUMENTO
DESCABIDO. POSSE EXERCIDA PELO AUTOR. ESBULHO CONFIGURADO.
COMPROVADOS OS REQUISITOS DO ART. 927 DO CÓDIGO DE
PROCESSO CIVIL. PROCEDÊNCIA DO PEDIDO DO AUTOR. BOA-FÉ DO
RÉU. INDENIZAÇÃO DEVIDA. ASSEGURADO O DIREITO DE RETENÇÃO
PELAS ACESSÕES. APURAÇÃO DOS VALORES EM SEDE DE LIQUIDAÇÃO
DE SENTENÇA. DECISÃO REFORMADA NO PONTO. RECURSO
CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO. Em sede de ação de
reintegração de posse com fundamento em esbulho, além da condição
de ação de força nova, ​o autor tem por obrigação fazer prova pré
constituída da ​posse anterior​​, da ocorrência da ocupação, da data
deste evento e da perda da posse. Ao possuidor de boa-fé é assegurado
o direito de retenção do imóvel até que seja paga a indenização devida
pelas acessões decorrentes da construção nele inserida. (TJ-SC - AC:
20090456871 SC 2009.045687-1 (Acórdão), Relator: Stanley da Silva
Braga, Data de Julgamento: 05/09/2012, Sexta Câmara de Direito Civil
Julgado)

Eleger a via do procedimento especial das ações possessórias baseando


seu pedido em ​provas que dão conta do domínio que a Requerente possui sobre
o bem, ​não há como ser convalidado, restando a extinção sem resolução
do mérito da demanda por eleição inadequado do procedimento especial​​,
nos termos do art. 485, IV, do CPC/15.

3.3. DA AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DA POSSE

Seguindo essa linha teórica e lógica de argumentação, importante aludir,

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ainda, que ao Requerente incumbe o ônus do fato constitutivo do seu direito, isto
é, a comprovação da posse anterior ao esbulho, conforme art. 373, I, c/c art.
561, I, II, do CPC, ​in verbis:​

Art. 373. O ônus da prova incumbe:


I - ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito;

Art. 561. Incumbe ao autor provar:


I - a sua posse;
II - a turbação ou o esbulho praticado pelo réu;
III - a data da turbação ou do esbulho;
IV - a continuação da posse, embora turbada, na ação de manutenção, ou
a perda da posse, na ação de reintegração.

Outrossim, a existência de ação de reintegração de posse tramitando


perante este Poder, por si só, não é prova suficiente para provar o suposto
esbulho. Nessa linha de raciocínio, o Superior Tribunal de Justiça assim decidiu:

CIVIL. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO


DISCRIMINATÓRIA. TERRAS DEVOLUTAS. COMPETÊNCIA INTERNA. 1ª
SEÇÃO. NATUREZA DEVOLUTA DAS TERRAS. CRITÉRIO DE EXCLUSÃO.
ÔNUS DA PROVA. PROVA EMPRESTADA. IDENTIDADE DE PARTES.
AUSÊNCIA. CONTRADITÓRIO. REQUISITO ESSENCIAL.
ADMISSIBILIDADE DA PROVA. 1. Ação discriminatória distribuída em
3.02.1958, do qual foram extraídos os presentes embargos de
divergência em recurso especial, conclusos ao Gabinete em 29.11.2011.
2. Cuida-se de ação discriminatória de terras devolutas relativas a
parcelas da antiga Fazenda Pirapó-Santo Anastácio, na região do Pontal
do Paranapanema. 3. Cinge-se a controvérsia em definir: i) a Seção do
STJ competente para julgar ações discriminatórias de terras devolutas;
ii) a quem compete o ônus da prova quanto ao caráter devoluto das
terras; iii) se a ausência de registro imobiliário acarreta presunção de
que a terra é devoluta; iv) se a prova emprestada pode ser obtida de
processo no qual não figuraram as mesmas partes; e v) em que caráter
deve ser recebida a prova pericial emprestada. 4. Compete à 1ª Seção o
julgamento de ações discriminatórias de terras devolutas, porquanto se
trata de matéria eminentemente de direito público, concernente à
delimitação do patrimônio estatal. 5. Nos termos do conceito de terras
devolutas constante da Lei 601/1850, a natureza devoluta das terras é
definida pelo critério de exclusão, de modo que ausente justo título de
domínio, posse legítima ou utilização pública, fica caracterizada a área
como devoluta, pertencente ao Estado-membro em que se localize,
salvo as hipóteses excepcionais de domínio da União previstas na
Constituição Federal. 6. Pode-se inferir que a sistemática da
discriminação de terras no Brasil, seja no âmbito administrativo, seja
em sede judicial, deve obedecer ao previsto no art. 4º da Lei 6.383/76,
de maneira que os ocupantes interessados devem trazer ao processo a

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prova de sua posse. 7. Diante da origem do instituto das terras


devolutas e da sistemática estabelecida para a discriminação das terras,
conclui-se que cabe ao Estado o ônus de comprovar a ausência de
domínio particular, de modo que a prova da posse, seja por se tratar de
prova negativa, de difícil ou impossível produção pelo Poder Público,
seja por obediência aos preceitos da Lei 6.383/76. 8. De acordo com as
conclusões do acórdão embargado e das instâncias ordinárias, o registro
paroquial das terras foi feito em nome de José Antonio de Gouveia, em
14 de maio de 1856, sob a assinatura do Frei Pacífico de Monte Falco,
cuja falsidade foi atestada em perícia,comprovando-se tratar-se de
"grilagem" de terras. Assim, considerou-se suficientemente provada,
desde a petição inicial, pelo Estado de São Paulo, a falsidade do
"registro da posse", pelo que todos os títulos de domínio atuais dos
particulares são nulos em face do vício na origem da cadeia,
demonstrando-se a natureza devoluta das terras. 9. Em vista das
reconhecidas vantagens da prova emprestada no processo civil, é
recomendável que essa seja utilizada sempre que possível, desde que se
mantenha hígida a garantia do contraditório. No entanto, a prova
emprestada não pode se restringir a processos em que figurem partes
idênticas, sob pena de se reduzir excessivamente sua aplicabilidade,
sem justificativa razoável para tanto. 10. Independentemente de haver
identidade de partes, o contraditório é o requisito primordial para o
aproveitamento da prova emprestada, de maneira que, assegurado às
partes o contraditório sobre a prova, isto é, o direito de se insurgir
contra a prova e de refutá-la adequadamente, afigura-se válido o
empréstimo. 11. Embargos de divergência interpostos por WILSON
RONDÓ JÚNIOR E OUTROS E PONTE BRANCA AGROPECUÁRIA S/A E
OUTRO não providos. Julgados prejudicados os embargos de divergência
interpostos por DESTILARIA ALCÍDIA S/A. (STJ - EREsp: 617428 SP
2011/0288293-9, Relator: Ministra NANCY ANDRIGHI, Data de
Julgamento: 04/06/2014, CE - CORTE ESPECIAL, Data de Publicação:
DJe 17/06/2014)

No caso dos autos, a Requerente defende ser a detentora da área objeto


dos autos, apresentando documento de Escritura Pública de compra e venda (fls.
11-12) lavrada em cartório, na qual consta a aquisição do imóvel da Raymunda
Bayma Diniz e Antônio Vieira dos Santos. Porém, apesar disso, ainda que seja a
detentora do imóvel, é fato que ela deixa de cumprir pressuposto lógico das
ações possessórias, qual seja, ​sua posse, ​pois compulsando o arcabouço
probatório trazido em sua exordial, ​percebeu-se que não há qualquer
comprovação de sua estadia no local, quer sejam instalações ou, como indícios
de havê-la​.

Assim, a ausência de comprovação da posse ou do esbulho, restará a


improcedência da exordial, conforme entendimento dos Tribunais:

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D​​EFENSORIA PÚBLICA ESPECIALIZADA EM ATENDIMENTO DE INTERESSES COLETIVOS

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE. AUSÊNCIA DE


PROVA DO ESBULHO POSSESSÓRIO. POSSE DA AUTORA NÃO
COMPROVADA. PROVA PERICIAL E TESTEMUNHAL. INVIABILIDADE E
IMPROCEDÊNCIA DA TUTELA POSSESSÓRIA. APELO A QUE SE NEGA
PROVIMENTO. ​Não comprovada ​a posse de imóvel litigioso, através de
prova pericial e testemunhal, tampouco ​o esbulho praticado pela ré,
há que se julgar improcedente a tutela possessória à parte
autora, em obediência aos arts. 499 do CC e 926 do CPC​​. "A
testemunhal é a prova por excelência, nas questões possessórias, para
se comprovar a posse do autor, a prática da turbação ou do esbulho,
como para a identificação do agente e da data em que se praticou o ato
que molesta ou retira a posse daquele possuidor, requisitos para acolher
a custódia possessória". (TJ-BA - APL: 00000676520038050156 BA
0000067-65.2003.8.05.0156, Data de Julgamento: 17/12/2013,
Segunda Câmara Cível, Data de Publicação: 20/12/2013)

AÇÃO POSSESSÓRIA. AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO DA POSSE E DO


ESBULHO. ÔNUS DE PROVA DO AUTOR. DESATENDIMENTO.
MANUTENÇÃO DA SENTENÇA. ​Os recorrentes/autores não lograram
demonstrar nem a posse e nem a prática do esbulho possessório
pelas partes contrárias​​. Apelação não provida. (TJ-SP - APL:
00024488220108260587 SP 0002448-82.2010.8.26.0587, Relator:
Sandra Galhardo Esteves, Data de Julgamento: 15/07/2014, 12ª
Câmara de Direito Privado, Data de Publicação: 15/07/2014)

Portanto, ausente a comprovação da posse por parte da Requerente, não


há que se falar em deferimento de liminar possessória, mas em julgamento de
improcedência da demanda, nos termos do art. 373, 561 e 487, I, do CPC.

4. DOS PEDIDOS

Pelo Exposto​​, a Defensoria Pública do Amazonas, acompanhando o


interesse constitucional na defesa dos grupos vulneráveis, pugna pelo
deferimento da sua intervenção na qualidade de ​custos vulnerabilis​. Ato
contínuo, manifesta-se:

(i) pela retirada da força cogente do mandado de reintegração de posse


expedido por ocasião da decisão liminar proferida em 09 de outubro de 2017, há
mais de um ano, bem como seja ​designada audiência de mediação para que
as partes realizem composição do litígio, conforme determinação do art. 565,
§1º, do CPC;

(ii) pelo julgamento improcedente da demanda e a sua consequente


extinção com resolução do mérito (art. 487, I, CPC), em razão da
impossibilidade da discussão de domínio em sede das ações

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possessórias​​, bem como a ​ausência de comprovação de pressuposto


processual indispensável ao bom andamento processual, qual seja, a
comprovação da posse, cujo ônus lhe pertence, configura barreira intransponível
para o deslinde da demanda.

Alfim, pugna-se pela intimação pessoal da Defensoria Pública, bem como a


contagem em dobro de todos os prazos, conforme dispõe o art. 128, I da LC nº
80/1994 e art. 186 do CPC.

Pede deferimento.

Manaus, 12 de novembro de 2018.

Diêgo Luiz Castro Silva


Defensor Público

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