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%*0(07";1*/50 nuidade e alcance cativantes”, boa parte to parteiro. Não precisa de mais de duas ros em que, armado de arpão e coragem,
EJPHPQJOUP!JPOMJOFQU destes micro-relatos parecem nascer como linhas para se ver uma cabeça, puxar um não era crime dar caça aos cachalotes”.
versos relaxados, sem especial urgência, corpo da página e dar-lhe o tabefe para o Só que o mundo dá umas voltas danadas,
Os mestres sabem como aos contos o ar e a cambar entre registos, despreocupa- pôr a chorar. E, nisto, não é difícil perce- e o que era a vida de uns, por razões des-
lhes dá melhor, lhes enche mais a vela, se damente. São objectos de recreio ocioso, ber a capacidade que tem para pôr uma sas muito fortes mas sem deus, torna-se
forem escritos em mesas com alguma incli- mas que se sustentam em prodigiosas elip- linha a intrigar, tendo uma obra que se um pecado capital, crimes terríveis. E ele,
nação. Num autocarro atravessando algum ses, dizendo o menos possível, sem o dese- estende pela ficção, o ensaio e a poesia, dando por si mais tempo em terra, “sen-
México, mental ou físico (ou líquido), indo jo de levar para a pista de atletismo as suas mas acima de tudo com muita prática na tado no café como se estivesse sentado
daqui para o além, ou com a mão de fora sugestões. Acende-as, dá uns bafos encos- escrita para teatro. Assim, o talento aqui num quadro pintado por alguém que sou-
da vida, a fazer ondas no vento, com uma tado num muro, e vai-se. Isto não quer está na forma como a um problema o cer- besse exactamente as cores da sua paciên-
atenção perfurante em relação às suas iro- dizer que, para trás, vá deixando piriscas ca de imediato de uma prole de berran- cia e, por que não dizê-lo?, da sua triste-
nias. O que se quer é o insólito, algum per- ou uns seres mal-formados às contas com tes soluções. za”, sabe que não lhe restam trunfos nem
calço ou vício nas leis da física que nos umas poucas horas de vida, até que uma “Mar” é o nome de um conto que arran- fichas, e já se adivinha o desfecho do peque-
transporte para esse mundo imitando este veia se lhes rompa na cabeça e faça o cére- ca com um velho pescador que estará mal no conto que arrancara com ele a dizer-
e estranhando-o, rindo-se: a literatura. bro afogar-se. São mais como lances de com tudo o resto, mas que é no amigo de nos: “– Só há um modo de calar o mar, nin-
Essa que lhe mete à frente um espelho e dados que, não pretendo anular o azar, sempre que viu a conversa azedar – como guém o cala”. Então, um dia é visto a sair
o rouba ou acrescenta algum aspecto que vivem bem à margem das ambições que eco natural das suas próprias inquieta- do café e entrar num bote. “E foi reman-
torna a vida bamba. fazem suar nas voltas os maratonistas da ções, um convite inacessível. Mas isto já é do. Estranharam ele não voltar./ Só há um
Abel Neves é um experimentado caça- ficção portuguesa. jactância do crítico, porque o autor resol- modo de calar o mar. Deixando de o ouvir.”
dor de improbabilidades, seja como dra- “Acariciem os detalhes”, dizia Nabokov, ve a coisa sem demasiadas explanações. O motivo por que estas “historietas” não
maturgo, ficcionista ou poeta. No seu livro “os divinos detalhes”. Muitas vezes, logo Num diálogo silencioso com um rapaz se ficam pela “ornamentação dos lugares-
mais recente, “O Bibliófago e mais histo- nos títulos, a mesa de jogo fica montada. atrás do balcão do café, diz-nos que “o comuns” de que Nabokov acusava os auto-
rietas breves”, reúne 80 narrativas breves Cabe-nos colocar algumas fichas nesta velho pescador vinha do tempo dos baleei- res menores, esses que vivem das “noções
ou brevíssimas, conseguindo sempre fazer casa ou naquela e ver que número sai. Des- tradicionais que podem ser retiradas da
ruir por um lado inesperado a casota dos de logo aquele que dá título à reunião, “O biblioteca itinerante das verdades públi-
hábitos que as leituras de ficção nos cria- Bibliófago”, que leva a imaginação para cas”, esses que não se incomodam com a
ram. Estes contos ou fragmentos narrati- esticar as pernas, e as deixa no ponto ideal reinvenção do mundo, mas “tentam sim-
vos funcionam como pequenos ensaios para ‘sacar’ tanto quanto possível das dupli- plesmente espremer o melhor que podem
sobre o género, sem se furtarem a assen- cidades que vai montando, a partir de “flo- uma dada ordem de coisas, a partir de
tar em bases sólidas as suas situações e reados de magia mimética”, ao mesmo padrões tradicionais da ficção”, é o facto
personagens, sem esquecerem que a pro- tempo que os alerta para a insídia que fica, /FTUBTCSFWFTOBSSBUJWBT  de estas narrativas viverem justamente
sa não pode ser só um cabide, nem um contudo, além destas linhas, como se as NVJUBTWF[FT MPHP dessa incomodidade. Se de algumas não
manequim, mas tem de ter sangue a cor-
rer e pernas para andar.
trancasse lá fora. Um livro como uma pri-
são para o que nele não entra, mas tam-
OPUÐUVMPBNFTBEFKPHP se pode dizer que arrisquem grande coi-
sa para lá dos tais limites estabelecidos,
À dimensão muito variável – normal- bém não passa ignorado. Outros exemplos GJDBNPOUBEB FDBCF produzindo meros divertimentos “agra-
mente, entre quatro páginas a apenas um no que toca a títulos: “’Lesma’, o cavalo BPMFJUPSNFUFSBTGJDIBT davelmente efémeros”, o certo é que Abel
parágrafo –, somam-se nestes textos outros solitário”, “Kafka com lâmpada chinesa”, Neves escreve revelando um grande can-
indícios da sua acidental inspiração. Como “Um fóssil no quintal”, “A vida segundo o saço da literatura. E não veste, como as
nuvens de fumo aprisionadas em copos talhante Horácio e o jardineiro Olívio”, “O
$PNPIÅUBMFOUPT nossas dondocas que gostam muito de
de boca voltada sobre a toalha, as suas budista de Massarelos”... DBQB[FTEFPSEFOIBS fazer que sim com as cabecinhas enquan-
peripécias e personagens surgem-nos à E as coisas vão bem. Como há talentos UVEPPRVFNFYB "CFM to não se adormecem a si mesmas e a
superfície de espelhos foscos, montras con- capazes de ordenhar tudo o que mexa, e quem perde tempo com elas, esses disfar-
vidando o quotidiano a espiar as caretas até por vezes coisas inanimadas, Abel
/FWFTUFNVNBFOPSNF ces gentis em que a ficção deste tempo,
que faz sem dar por isso. De “uma inge- Neves prova uma eficácia invulgar enquan- FGJDÅDJBDPNPQBSUFJSP como de outro qualquer, é tão pródiga. E,

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