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OS AMANTES

ADELAIDE CARRARO

OS AMANTES
Copyright by © 1976
GLOBAL EDITORA E DISTRIBUIDORA LTDA.
Reservados todos os direitos

CAPA: Darlon
REVISÃO: Dina de Deus

DIREÇÃO EDITORIAL: J. Carlos Venancio


Luiz Alves Junior

"GAMA"
É UMA COLEÇÃO PUBLICADA POR
GLOBAL EDITORA E DISTRIBUIDORA LTDA.
Rua José Antônio Coelho, 814 — CEP 04011
Caixa Postal, 45 329 — 01000 - Telefone: 549-3137

Impresso nas oficinas da Editora Parma Ltda.


Rua da Várzea, 394 — Telefone: 66-8187 — SP — Brasil
N.° do Catálogo — 1050
CAPÍTULO I

Rubens parou o enorme caminhão em frente


à sua fábrica de imagens sacras. Abriu a porti-
nhola, desceu, andou até ao grande portão de ferro,
olhou através da grade e gritou para o porteiro
que estava debruçado na mesinha e ouvia rádio
no mais alto volume:
— Oi João, João, Joooooão.
Rubens esperou um pouquinho e recomeçou
os gritos. Mas o porteiro nem se mexia.
Rubens forçou o portão, mas a grossa corren-
te presa ao grande cadeado impedia o portão de
se mexer.
— Pô, esse cara foi pegar no sono justo agora.
Não sei porque não mandei esse sujeito embora,
já que todos os operários me avisaram que ele vi-
via dormindo. Agora fico aqui, feito bobo, espe-
rando que um de meus empregados acorde, para
que eu possa entrar na minha própria fábrica.
Rubens olhou ao redor e reparou que só em
algumas casas as luzes estavam acesas. Levantou
o braço esquerdo e do caríssimo relógio saltaram
as h o r a . Onze e meia. Rubens sacudiu mais uma
vez o portão com raiva gritando:
— João. Oi Joooão.
Só a música.
Rubens apertou os lábios e automaticamente
tamboriliou os cinco dedos da mão esquerda no
portão acompanhando a música. Depois sacudiu
a cabeça.
— O único jeito é pular a grade.

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Agarrou o ferro frio, procurou os vãozinhos
para enfiar os pés, alcançou o alto, virou e tateou
com o pé os mesmos vãozinhos do lado de lá e al-
cançou o chão acimentado. Apertou uma mão
contra a outra e seguiu rápido em direção ao por-
teiro que permanecia na mesma posição.
A mão de Rubens pousou no ombro do moço
sacudindo-o devagar.
— João. J o . . . o . . . o . . .
Rubens pulou para trás de beca aberta quan-
do o porteiro caiu duro no chão e Rubens ficou
paralisado com os olhos fixos naquela enorme ba-
rata negra grudada no rosto do porteiro, que es-
tava inchado e coberto de manchas roxas, com os
olhos saltados para fora. Quando conseguiu se
controlar Rubens pegou uma régua de cima da
mesinha e cutucou o inseto que saiu numa rapi-
dez incrível, deixando um filete de sangue a es-
correr do ferimento do rosto de João.
Segurando o estômago que girava dentro de-
le, Rubens afastou-se cambaleante e sentou-se na
cadeira dura de madeira marron e sem despregar
os olhos do homem, ainda chamou meio baixo na
esperança de que ele estivesse vivo:
— João. João.
O rosto parado, os olhos de vidro fixos, a mú-
sica alta, que Rubens nem ouvia. Seu cérebro
se requebrava.
— Mas barata, barata não suga sangue e . . .
O que seria aquilo que estava chupando a cara do
porteiro?! M a s . . . Talvez o porteiro nem estives-
se morto. Só desmaiado.
Isso mesmo, só desmaiado. O melhor seria
chamar um médico. Mas que médico?
Rubens apertava a cabeça com as duas mãos.
— Acho que vou ligar para a Rádio Patrulha.
Isso mesmo. Rádio Patrulha.
Como se estivesse flutuando, Rubens esticou
a mão e pegou no telefone. Discou, discou.
Mas Rubens só ouvia estalidos e sons se ema-
ranhando. Desligou, passou a mão na testa ba-
nhada de suor que caía em fluxos quentes pelo seu
rosto, indo pingar na mesa de madeira, onde o ver-
niz há muito deixara de existir e então ele se lem-
brou de que não estava em São Paulo, mas sim na
Cidade de Fátima, onde ele era dono de uma imen-
sa fábrica de estátuas de santos. Aliás, na fábrica
se fazia tudo. Santos de barro, argila, gesso, cera,
cerâmica, louça, pernas, braços, troncos, cabeças,
muletas, terços, enfim, mil e uma coisas que se ven-
diam aos montes, aos milhares de turistas devotos
de Nossa Senhora de Fátima, que invadiam a ci-
dade nos fins de semanas. Rubens era um jovem
pertencente a uma excelente e rica família pau-
lista. Nesta ocasião, Rubens estava com 23 anos
cheios de saúde. Era um jovem alto, forte e cur-
sava medicina, não me lembro que ano, mas sei
que naquele momento em que viu o João no chão,
tinha até se esquecido que podia saber tudo, pois
um simples auscultar de coração ou um aperto do
indicador e o polegar no pulso revelariam se o ho-
mem estava morto ou vivo. Mas Rubens devia es-
tar mesmo muito apavorado, pois como o conhecia
bem, seu cérebro se atrapalhava todo diante da
morte. Ah! também me esqueci de dizer a você,
querido leitor, que estou escrevendo essa estória por
ter sido uma grande amiga de Rubens. Prometi à
família dele, que contaria toda a verdade sobre a
fantástica estória que envolveu tanta gente que não
merecia estar coberta de terra ou fechada em uma
gaveta de concreto. Pois é, como ia falando, Ru-
bens era um lindo e feliz jovem, mas possuía um
característico muito esquisito para um estudante
de medicina — tinha verdadeiro horror à morte,
por isso não conseguira raciocinar em frente a tão
grotesco cadáver; resolveu sair de lá e ir pedir
ajuda em uma casa próxima.

Pulou o portão, chegou perto de um casa que


escolhera por estar com as luzes ainda acesas, pro-
curou a campainha, mas apesar dela estar bem
próxima ele nem a viu, por isso bateu palmas.
Um homem abriu o postigo da porta.
— Quem é?
— Sou eu.
— Eu quem?
— O Rubens.
— Rubens?
— É o Rubens. O Rubens aí da fábrica.
— Ah!
O homem abriu a porta.
— Pois não.
— Olhe, o João está m o r t o . . . quero dizer, eu
acho que ele está morto.
— Calma rapaz. Você está bem nervoso. En-
tre um pouco. Venha por aqui.
Rubens entrou na sala.
— Senta aí, vou buscar um pouco d'água.
— Não. Não é preciso e o J o ã o . . . o João.
Chame a polícia, por favor.
— Depois que o senhor se acalmar a chama-
remos. Espere que lhe trago a água.
Rubens engoliu uns goles de água, secou o suor
da testa com as costas das mãos.
— É, de fato a água esfria lá dentro e desfu-
maça um pouco a mente. Pois é, como lhe disse,

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meu porteiro está mal, lá caído com o rosto todo
inchado. Não sei o que aconteceu, só sei que ele
tinha um inseto horrível, pendurado, ou melhor,
grudado no rosto. Coisa tétrica, nem quero me
lembrar. Gostaria que o senhor ligasse para a po-
lícia, pois não tenho nem ânimo para falar.

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CAPITULO II

Na Delegacia, o investigador Sílvio acordou


tremendo ao som da campainha, mastigando a ba-
ba viscosa que escorria dos cantos da boca. Pegou
no telefone xingando:
— Oh! diabo da peste, não se tem sossego nem
a essa hora da noite, e depois ainda dizem que em
cidade do interior se tem paz de espírito e tudo.
O telefone tocava, tocava, Sílvio o tirou do
gancho e abrindo a boca e bocejando, continuou
resmungando:
— Vai pro interior Sílvio — todos me diziam
— lá não tem poluição, é só você pregar os olhos
no céu e tudo é azul, azul coberto com aquele ar-
zinho sem uma poeirinha passando pelo nariz da
gente, no interior a gente se sente leve, pois as coi-
sas pesadas das grandes cidades se desgrudam da
gente e sentimo-nos leves, bem levinhos. No inte-
rior não acontece nada, é uma verdadeira mara-
vilha. Interior é um poderoso tranqüilizante, fi-
ca-se lá na quietude do mundo nos braços da paz.
Oh! Sílvio, vai para o interior, vai para o interior,
mas que merda, nem se consegue dormir, a toda
hora telefone, telefone.
— Alô, o que é que é agora, hein?
— É da polícia?
— É sim, o que há, hein?
— Olhe, aqui na fábrica do seu Rubens tem
um h o m e m . . , Achamos que está morto.

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— Escute aqui, é melhor vocês telefonarem
para a casa do delegado. Eu não posso fazer nada,
ou então apresente queixa amanhã à uma e meia.
— Mas, meu senhor, aqui tem um homem
morto.
— E daí, todo mundo morre mesmo.
— Quem está falando?
— É o investigador da noite.
— Não tem ninguém aí que não tenha as fa-
culdades insuficientes?...
— Não estou entendendo. Quer repetir?
— Gostaria de falar com um policial normal,
alguém que não seja biruta.
— Tá me chamando de que, hein?
— De nada, meu senhor. Mas é difícil acre-
ditar que estou falando com uma delegacia de po-
lícia e mais difícil ainda, acreditar que o policial
esteja falando sério. Em todo c a s o . . . Olhe, por
gentileza, me dê o telefone da casa do delegado.

Na casa do delegado o trim, trim, fez desper-


tar Luciana que esticou o braço e pegou no fone
olhando para o lado vazio do marido. Ela já es-
tava acostumada, pois geralmente o marido dor-
mia na delegacia afirmando que sempre havia ca-
sos de emergência. Luciana fingia acreditar, pois
todo mundo na cidade sabia que o delegado Is-
rael, alto, forte, cor morena e cabelos negros e
lisos "tipo índio", tinha uma amante a quem ado-
rava, mais que a própria filha, a menina Daniela
de três anos. Também ninguém podia entender
as coisas do coração, pois Luciana era uma jovem
de dezoito anos de rara beleza morena.
O delegado a tratava fria e asperamente.
— Alô.

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— É da casa do delegado?
— É.
— Desculpe-me acordá-la, minha senhora,
mas é que aqui tem um h o m e m . . .
O homem parou um momento para que sua
mente pudesse analisar a possibilidade da mulher
se assustar com o caso de morte assim no meio da
noite.
Hesitou por um instante até que continuou:
— Quer por favor chamar o delegado?
— Ele não está.
— Não está!?
— Não.
— Mas já são vinte e quatro h o r a s . . . Des-
culpe-me . . . quero d i z e r . . . Talvez houvesse algu-
ma emergência.
— É, deve ser alguma emergência para meu
marido não estar dormindo a essa hora. Mas não
se preocupe, lhe darei o telefone de onde poderá
ser encontrado. Marque aí. 00324.
— Mas esse telefone é do Senhor Prefeito e o
prefeito está em Brasília.-.. Ah! desculpe-me.
— Mas pode ligar para lá, que o Sr. Israel es-
tá tratando de um caso de emergência.
* * *

Às oito horas o Prefeito acabou de jantar, le-


vantou-se da mesa, andou a passos largos pela
sala de visitas, acendeu um cigarro e soltava bafo-
radas em direção ao teto só para não ver a cara
da mulher que, imóvel, com o rosto vestido de me-
lancolia, assistia a TV a cores. Artur sabia que
:
alguma co sa não estava dando certo no seu ca-
samento de cito anos.
Ela, Vera, não parecia ter vinte e oito anos e
ser- mãe de cinco crianças, a mais velha, De-

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nise, com sete anos. Sua aparência viçosa, com a
pele branca e meio rosada, olhos verdes, cabelos loi-
ros brilhantes, davam-lhe uma aparência de mu-
lher fina, de alto trato. Artur às vezes orgulha-
va-se quando lhe perguntavam se era sua filha,
pois apesar de serem apenas dez anos a diferença
na idade, Artur tinha uma aparência de velho.
Barriga grande, caída, sempre pendurada fora do
cinto das calças, cabelos rareando, rosto marcado
e cansado.
Mas era um bom político, enchergando longe,
bem longe, os problemas de sua cidade. Todo o
pessoal da cidade, dos velhos às crianças, gosta-
vam muitíssimo do Sr. Artur, e o chamavam cari-
nhosamente de Padrinho. Naquele momento, Ar-
tur sentia um desejo sexual deveras forte pela bela
esposa, pois várias vezes ela se negara quando ele
a procurara, com alisamentos nos seios, beijos
quentes, abraços apertados...
— Não, Artur. Estou indisposta, com cólicas,
dores nas costas — e ia desfolhando mil e uma
desculpas.
Artur acabou de fumar e amassando o cigarro
contra o vidro azul de cristal do cinzeiro, disse:
— Bem, Vera, está na hora da minha viagem.
Ficarei em Brasília alguns dias, até conseguir a
verba para o término da fonte luminosa. Prometi
ao povo que a mesma seria inaugurada no dia de
São Benedito. Ainda está em tempo de você não
desistir da viagem, é só se vestir.
Vera nem tirou os olhos do vídeo.
— Não. Não quero viajar. O avião me cau-
sa medo. Detesto voar. Odeio mesmo.
— Mas já que as crianças estão em São Pau-
lo, você poderia aproveitar. Não se sentirá bem
ficando sozinha.

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— Ora, Artur, e sozinha como, se ficarei com
oito empregados.
Artur tirou os olhos do teto e os fixou no per-
fil bonito da mulher, e um calor correu célere pe-
las suas veias. Foi até ela e lhe alisando os ca-
belos deixou sair de sua boca de dentes perfeitos,
que pareciam feitos a mão:
— Vera querida, vou sentir muitas saudades.
Vera virou-se e vendo a ereção do homem for-
te e viril, levantou-se rápida, foi até a janela e le-
vantando a cortina, ficou com os olhos pregados
na "Doceira Caramelo", a mais chique da cidade,
que ficava do outro lado da pracinha e lá divisou
o vulto alto do Delegado, que não despregava os
olhos de sua casa, depois virou-se, volteou como
em câmara lenta e ficando parada em frente ao
marido fez com que um meio sorriso lhe perpas-
sasse pelos lábios carnudos e bem pintados:
— Artur, na sua volta teremos uma noite de
mel, mas se fosse acontecer agora, o povo não te-
ria a fonte luminosa e nem São Benedito, pois não
ficaria contente com uma só vez, e você sabe que
demoro muito para me realizar. Vá, querido.
Neste momento, você é mais útil à cidade.
— Você promete?
— Claro.
— Olhe que há muito não a sinto como mu-
lher.
— É, você sabe, as crianças; ter cinco filhos
não dá para ficar com o desejo das principiantes.
Artur passou o braço pelos ombros da bela es-
posa.
— Então me .acompanhe até ao carro.
A porta foi aberta. Quatro pernas se movi-
mentando até o carrão preto, duas bocas se encon-
trando e se colando num beijo; de um lado arden-

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te, cheio de desejo, do outro sentindo que tinha que
continuar a farsa de esposa; e mais além, dentro
da Doceira, um coração pulando como se mil raios
o tivessem atingido, e da garganta um rugido
glutual.
— Ainda mato esse Prefeito.
O ronco do carro partindo, a mão do Prefeito
balançando fora da portinhola, o braço de Vera
levantado, se agitando em direção do carro, mas
seus olhos em direção ao Delegado, que pegava no
telefone e o som do telefone de sua sala fazendo
com que ela subisse as escadas de dois em dois de-
graus dizendo com voz afobada:
— Alô.
— Sou eu.
— Eu sei.
— Para que o beijo?
— Ora, afinal é meu marido.
— Mas na minha frente.
— Israel, por favor, não estrague essa noite
tão linda com esse mórbido ciúme.
— Está certo. Posso ir para aí?
— Agora não.
— Por que não, estou morrendo para sentir
a maciez de suas carnes em meus braços.
— Mas ele acabou de sair.
— Mas o que tem isso?
— E se ele voltar?
— Algemo-o e o coloco atrás das grades.
Vera riu.
— Ora querido, não diga isso.
— Olha que é isso que ainda farei.
— Falemos de coisas mais alegres. Espero-o
lá na esquina de sempre. É só eu tirar o carro da
garagem.
— Está bem, se apresse, hein!

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Enquanto Vera procurava a chave, numa me-
sa bem no canto da sala, sentiu que alguém gi-
rava a maçaneta da porta da entrada e entrava
na sala. Vera se encostou na parede procurando
ficar escondida na sombra da grande estátua do
tamanho de uma pessoa que ficava à esquerda de
quem entrava e que representava uma vendedora
de flores, tendo nas mãos uma cesta que Vera en-
chia todas as semanas de rosas amarelas que re-
cebia do Delegado. Vera pensou que fosse o ma-
rido, porisso, pensou em se esconder e lhe pregar
um susto de brincadeirinha, mas mordeu a respi-
ração e arregalou os olhos em direção ao homem
que entrava na mais tranqüila despreocupação.
Era o Delegado.
Vera sentiu o coração na garganta e demorou
para que sentisse a voz sair nem sabia de onde.
— Israel! Pelo amor de Deus. Você não deve
fazer isso. Se Artur...
Já o delegado a apertava nos braços. Ela se
desprendeu-correndo para a porta.
— Israel vá, por Deus. Os empregados po-
dem . . .
— Sei que não estão. Também as crianças
estão em São Paulo. Sei que você fez tudo isso
por mim. Porisso a amo cada dia mais. Saber
que você corresponde ao meu amor deixa-me su-
focado de felicidade.
O delegado foi se aproximando com os braços
estendidos, o olhar ávido e o coração aos pulos; se-
gurou as mãos úmidas da moça e as puxando para
junto do coração, apertou-as.
— Deixe-me ficar!
Vera levantou os olhos e leu nos de Israel a
suplicação doce e sentiu que aquela coisa de car-

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nes se derreteu dentro dela e ela aceitou o braço
forte, másculo, moreno, peludo, apertar-lhe a ca-
beça e tremia sentindo os beijos vorazes voando
pela sua testa, faces, rosto, pescoço e quando as
bocas se encontraram ela se esqueceu que era uma
mulher casada e que a casa onde vivia com o ma-
rido e os filhos era sagrada. Ia ter relações se-
xuais com o amante pela primeira vez em sua ca-
sa, as outras tivera dentro do carro dela, um
"Dart", nos arredores da cidade, no meio de bos-
ques cerrados.
Lembrou-se da primeira vez que viu o Dele-
gado, foi quando ele fora transferido de São Paulo
para a cidade de Fátima e foi se apresentar ao
prefeito que estava viajando.
Naquele tempo, Vera já estava se preocupan-
do com a vida monótona das pequenas cidades.
Não tinha nada para fazer. Deixava as crianças
aos cuidados dos empregados e ficava naquele
alheamento, sem saber o que fazer deixando que
os pensamentos corressem para o tempo que mo-
rava em São Paulo, onde vivia ocupada com as
amigas em passeios, viagens, clubes, cinemas, tea-
tros, enfim nada a perturbava. Ali, na pequena
cidade, tentou ser a mulher do Prefeito, organizan-
do festas beneficientes, visitando creches, favelas
e a Santa Casa. Mas o dinheiro era escasso, o tra-
balho de matar e o povo mal agradecido. Porisso
se isolou envolvendo-se num tédio que a deixava
mole e vazia.
E naquela tarde quentíssima de céu límpido e
transparente a empregada avisa-lhe que um ho-
mem procurava pelo sr. Prefeito.
— Diga-lhe que o Prefeito está viajando e que
a Prefeitura fica perto do cinema, que o Prefeito
não recebe ninguém em sua casa. Negócios é na
Prefeitura. — Vera falava andando em direção à

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sala, essa mesma sala de visitas com a estátua que
tinha na mão uma cesta de onde caíam, naquele
tempo, avencas naturais. Abriu a porta, entrou,
mas recuou soltando um ah!,
— Desculpe-me, sou o novo Delegado. É meu
dever me apresentar ao Prefeito; não o encontran-
do na Prefeitura, pensei em procurá-lo aqui.
Falava sem despregar os olhos do decote do
roupão meio aberto, onde se delineavam os seios de
uma brancura tenra e translúcida das loiras, de-
pois pararam nos cabelos torcidos e presos no alto
da cabeça, onde escapavam alguns anéis que caíam
pelo pescoço e se envolviam na orelha pequena e
rosada.
Vera não entendia naquele momento porque
se sentia escarlate sendo assim verificada, revolvi-
da por olhos negros, brilhantes, daquele belo ho-
mem.
— Ora, D r . . . D r . . .
— Israel, minha senhora.
Sua mão na mão dele. Depois ele se curvando
e beijando-lhe a mão, ela fazendo o cérebro traba-
lhar para se lembrar se ainda existia a tal moda do
homem beijar a mão da mulher. Pôxa, nunca
mais vira isso.
— O Sr. é quem deve desculpar-me, Dr Israel.
Estava atrapalhada, nem sabia o que falava.
— Um momento, vou abrir a janela. Pronto,
agora temos luz mais larga. Sente-se, por favor.
Aí no sofá.
Ele sentou-se.
Vera sentou-se na ponta de uma poltrona,
muito nervosa, segurando o roupão, que se abria
nas coxas e precipitadamente começou a fazer per- ^
guntas.
— De onde viera? Há quantos anos já era de-
legado? Por que escolhera aquela cidade, etc. etc.

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— Vim respirar um pouco- de ar puro. São
Paulo sufoca. Não escolhi Fátima, mas no mo-
mento era a única vaga disponível. — Já fora de-
legado de outras cidades do interior e gostara mui-
to, porisso sempre que o governo precisava de au-
toridades para o interior o procuravam.
Israel falava devagar, recostado, com um ar
íntimo de quem há muito freqüentava aquela casa.
De repente ficaram os dois calados mas com
os olhos se encontrando sem terem coragem de os
desviarem.
Vera reparou que o Delegado nem parecia De-
legado, pois vestia-se com roupas finas e de bom
gosto. Os cabelos eram bem cortados com corte
moderno, meio compridos e bem cuidados, pois bri-
lhavam debaixo da clara luz que vinha da tarde
amarela.
Conversaram por mais de meia hora, então
Israel se levantou.
— Falo muito. A hora passa e a gente nem
sente. Creio que já vou indo. Não quero mais to-
mar seu tempo..
Israel ia-se erguendo, Vera exclamou afobada:
— Não, não. Fique mais um pouco. — Aí
apertou os lábios, pois nem sabia porque desejava
que ele ficasse, talvez por estar se aborrecendo na-
quele casarão melancólico coberto pelo calor sufo-
cante da tarde quente, sem ter ninguém para con-
versar.
Ele ainda disse:
— Desejo conhecer a Delegacia mais minucio-
samente, estive lá só de passagem.
— Compreendo, mas dará tempo para um ca-
fezinho.
— Não se preocupe. Não tenha trabalho co-
migo.
Ela já se levantava.

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Que jeito engraçado de falar — Vera ficou
pensando enquanto se dirigia à porta e dava or-
dens à empregada.
Quando voltava, ajustou o roupão e apertou o
cinto, foi só aí que reparou que estava com roupa
tão íntima diante de um estranho.
Falou que ia vestir-se. Assim não ficava bem.
— Que bobagem. Hoje em dia recebe-se de
shorts, frente única, não é assim que se chama
aquele paninho que cobre aqui e atravessa aqui?
Israel mostrava o local do busto e a volta do
pescoço.
— É isso mesmo.
Os dois rindo muito. Ela não foi tirar o rou-
pão que teimava, uma vez ou outra, em fazer apa-
recer um poucadinho das carnes de porcelana, mas
Vera já nem se preocupava em cobrir aqui ou ali.
Sentia-se alegre, feliz, falava, falava da cidade, dos
lugares bonitos.
— O Sr. precisa v e r . . .
— Senhor não, você. Me chame de Israel.
Ela mastigava a saliva.
— Está bem — parecia que ele tinha alguma
coisa que a dominava, obedecia incontinenti. Is-
rael, Israel, nome gostoso de pronunciar. A lín-
gua não precisava se colar no céu da boca.
— Israel, você precisa conhecer uma capela
que existe lá para os lados daquelas montanhas. —
Ela esticava o braço e apontava o dedo através da
janela e o ouro da aliança cintilou com reflexos
dourados que iam volteando de lá pra cá, de cá
pra lá, na cortina de renda beige. Ele se levantou,
e foi até a janela.
— Onde?
Ela se levantou e ficou perto dele.
— Lá, olhe bem depois da terceira montanha.
O perfume... que perfume delicioso e suave!

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Era dela — Israel virou um pouco a cabeça e aspi-
rou devagar. Sim, era dela. Como era bonita!
Olhava-a na nuca e ficou com vontade de levan-
tar um cachinho que balançava solto como a gri-
tos, sozinho, perdido num mundo sem fim.
— Você está vendo?
— Estou.
Ela virou e viu que ele não olhava para as
montanhas verdes com aquela neblina meio azu-
lada rodeando-a e sim tinha os olhos pregados ne-
la. Ficaram frente a frente. O cheiro dele, cheiro
de homem, de cigarro, d e . . . Do que seria? Era
cheiro de homem. Mas por que no marido não
sentia mais aquele odor que fazia saltar o cora-
ção e latejar-lhe o sangue em todo o corpo? Ela
ouvia as batidas do coração dele. Levantou os
olhos e o encarou. Ia pedir-lhe para ir. Mas a
voz não saiu.
Sentiu as mãos dele grandes e quentes segu-
rarem as suas, sentiu-se mal, com a cabeça giran-
do e quando ele procurou os seus lábios ela não
teve forças para desviar a cabeça. O beijo foi de-
morado, com as línguas se trançando e a saliva se
misturando. Quando conseguiram se desprender,
estavam embaraçados sem mesmo compreenderem
o que acontecia, eram ambos felizes no casamento.
Israel tirou o maço de cigarros do bolso, ofe-
receu um a ela e vendo como ela tremia, resolveu
sair, mas ao chegar à porta, perguntou:
— Até quando?
Ela não respondeu e fechou a porta brusca-
mente, pensando em deixar para fora de sua casa
aquela coisa que a sufocava por dentro, fazendo-a
cair no sofá e chorar desconsoladamente, enquan-
to ele, fumando e soltando as baforadas de fuma-
ça azulada para a tarde que agora se vestia de ro-
sa, ia pensando:

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— É uma bela mulher morrendo de fome de
amor. Solitária, tristonha... Amanhã a procuro.

E Israel telefonou.
Ela relutou.
— Só quero vê-la.
— Não.
• • •

No dia seguinte:
— Venha, venha por favor.
— Não.
* * *
Nos outros dias:
— Se você não vier, irei à sua casa.
— Já disse que não quero vê-lo.
— Por que?
— O r a . . . P o r q u e . . . porque sou casada.
— Eu também sou.
— Mas amo meu marido
— Eu também amo minha mulher.
— Então por que não me deixa em paz?
— Porque você roubou a paz de meu espírito.
— Israel, não me procure mais. Eu não sou
dessas que você está pensando.
— E o que estou pensando?
— Ora, que vou me entregar...
— Pô, como você é pretenciosa. Juro que nem
havia pensado nisto.
Silêncio.
— O que há, Vera?
— Nada.

24
— Só para você não ficar pensando bobagens,
convido-a a uma visita oficial, quero dizer, como
mulher do Prefeito, para ver as melhorias que fiz
na Delegacia. Faz hoje vinte dias que estou aqui,
quero comemorar com sua presença. Você não vai
se negar, não é?
— Bem, uma visita eu faço. Levo algumas
amigas e meu secretário.
— Claro.
* * *
A cadeia estava bem pintada de uma cor ver-
de calmo e suave. Nos primeiros degraus da pe-
quena escada se viam dois enormes vasos, com be-
las folhagens. Na sala de espera, tapete, mesa,
cadeiras, tudo novo.
— Comprei tudo com meu dinheiro. Depois
vejo se o Prefeito me reembolsa.
— Claro.
Ela estava linda. Israel não parava de olhá-la.
Vestia uma saia de brim azul toda abotoada na
frente e um colan de laicra vermelho. Bolsa e sa-
patos também vermelhos. Muitas amigas e o se-
cretário Fernando, alto, bonito, corpo atlético, que
a toda hora alisava o bigode. Israel olhou-o fria-
mente. Mas depois já o tratava como amigo. Co-
briu-o de atenções, pois tinha um plano.
Era Fernando daqui, Fernando de lá.
Fernando adorou o jeitão do Delegado e pro-
meteu ser seu amigo para tudo.
— Escute, Fernando, faça-se o cicerone da tur-
ma. Leve-os para visitar as celas lá no porão. Eu
tenho que atender um caso de emergência.
Desceram todos, e Vera sentiu-se puxada por
um braço e quase jogada dentro de uma sala. Era
o Delegado. Nem conseguiu coordenar as idéias

25
e já era beijada por todos os lados. Mãos ávidas
que lhe desabotoavam a saia e naquela lutinha o
colan se desabotoara sozinho. Israel fez Vera sen-
tar-se no sofá novo e jogou seu corpo ardente, so-
bre o corpo da mulher.
Alguns minutos depois nós de dedos batem à
porta.
— Quem é?
— O Fernando. A turma está lá embaixo, mas
eu subi. para procurar dona Vera.
Vera ficou branca como cal.
— Ah! Ela está aqui. Estamos tratando de
alguns detalhes para uma festinha aos presos. Es-
pere aí que abro já.
Os dois se ajeitaram rápidos e o Delegado abriu
a porta e Fernando entrou e pelo seu sorriso de
baixeza, Israel viu que desconfiara de tudo.
Sente-se aí, Fernando, talvez possa dar algu-
ma idéia para a festa.
— Primeiro preciso avisar a turma que Vera
está bem.
Os olhos de Fernando pregados em Vera sol-
tavam faíscas.
"Assim que a porta se fechou, Vera diz nervosa:
— Ele desconfiou. Eu bem que não queria.
E agora, meu Deus!
— Ora, que o leve o diabo.
Fernando encheu o peito de ar e se afastou
sorrindo da porta.
* * *

No dia seguinte Fernando foi pedir emprego


na Delegacia e conseguiu-o de assistente do Dele-
gado. Israel jurava que nunca conhecera um em-
pregado tão servil, do tipo que se arrastava mesmo.

26
* * *
Vera começou a encontrar-se com Israel todos
os dias. Certa ocasião, ele esperou dentro do au-
tomóvel da Delegacia atrás da capela, aquela que
ficava bem longe da cidade por longo tempo e Vera
não apareceu.
Voltou furioso para a Delegacia, chamou Fer-
nando :
— Olhe, leve esse bilhete para Dona Vera, mas
não deixe ninguém ver.
Assim que Fernando saiu da Delegacia enve-
redou por uma rua (nem precisou escolher, todas
eram desertas), encostou-se em uma árvore fron-
dosa, tirou o papel de dentro do envelope, desdo-
brou-o e leu.
* * *
"MEU AMOR, POR QUE NÃO VIESTE? FI-
QUEI NO NOSSO PARAÍSO, DUAS HORAS. ES-
PERO-TE AMANHA. SOU DOIDO POR VOCÊ,
MORRO SÓ EM PENSAR QUE NAO ME QUEI-
RAS MAIS. VOCÊ É DELICIOSA. SEU ALÉM
DA MORTE.
ISRAEL."

Fernando beijou o papel, correu pela rua, foi


até ao despachante.
— Escute aí, Antonio, posso tirar um xerox
deste documento?
— Dê cá.
— Não, deixe que eu tiro. Pra que se preo-
cupar. Não deixe seu serviço. Sei muito bem co-
mo se faz.
— Então tá bom, vá lá.
* * *
27
Depois Fernando saiu alegre e foi entregar o
bilhete a Vera.
Vera leu e virou-se para Fernando.
— Você sabe do que se tratava o bilhete?
— Não.
— Ah! Então diga ao Sr. Israel que aquela
moça irá amanhã sem falta.
E assim Fernando ficou dono e com provas, de
um segredo que pretendia fazer-lhe valer algum
lucro para o futuro ou mais alguns minutos de
amor.
* * *
Bem, voltemos àquela noite na casa do Pre-
feito, o ruído do telefone foi bem do lado de Israel
que ia estender o braço e atender esquecendo-se
que estava na cama do Prefeito, quando Vera
gritou:
— Não, não, deixe que eu atendo.
Vera atendeu.
— Por favor, o Delegado está aí?
— O Delegado? Ah! está lá dentro conver-
sando com o Prefeito. Quem deseja falar com ele?
— É sobre um homem que acho que está
morto.
O Delegado atendeu.
— Está bem, vou já para aí.
* * *
Israel chegou na horinha que o portão da fá-
brica estava sendo aberto por um rapaz que pu-
lara a grade a pedido de Rubens e pegara a chave
no bolso do porteiro.
Israel desceu rápido do carro e sua figura alta
e bonita sobressaiu varando no meio do povo. Che-
gou perto do homem e nem precisou fazer nada

28
para ver que estava morto, duro e frio. Chamou
uma ambulância, fez mil e uma perguntas, proibiu
que entrassem na fábrica, esperou o cadáver ser
levado para o necrotério da Delegacia, convidou
Rubens para acompanhá-lo e guiou direto para a
cadeia.
— Sente-se aí, Rubens. — A voz era seca e
fria. Israel não simpatizava com o jovem es-
tudante de medicina, pois apesar de ser conven-
cido, orgulhoso e pedante, ainda tentava jogar
umas asinhas para o lado de Vera. Uma vez, sou-
be que convidara Vera para ser a madrinha da lan-
cha que tinha inaugurado na Ilha Comprida. Di-
ziam que Rubens era o "puxa-saco" do Prefeito e
que o Prefeito o tratava como um filho — e conte
logo essa estória.
Rubens contou tudo.
— Ele caiu de costas no chão e eu vi aquela
barata medonha grudada em sua face. Foi horrí-
vel. Perdi até a noção das coisas. Me senti mal,
com o estômago dando voltas.
Israel andou pela sala a passos largos e bra-
ços cruzados. Depois parou de sopetão.
— Essa estória não está lá bem contada, Ru-
bens. Enquanto o legista não se manifestar, sou
obrigado a detê-lo.
— Deter-me?! Você está brincando.
— Infelizmente é sério. Aguarde aqui até eu
voltar do necrotério.
— Quero chamar um advogado. Sei que a lei
tem direito de suspeitar de alguém, mas não de
mim, que achei o homem morto e chamei a lei.
Nisto batem na porta e o médico legista entra.
— Então, Dr.?
— Nem precisa de autópsia, pois sei muito bem
quem o matou.

29
Israel e Rubens arregalaram os olhos e disse-
ram ao mesmo tempo:
— Sabe?!
— Sei.
— E quem foi? — perguntou Israel.
— Um barbeiro.
Dessa vez foi Rubens quem se levantou e retru-
cou assustado:
— Mas que motivo teria o barbeiro para ma-
tar meu porteiro? Conheço os quatro barbeiros
da cidade e nenhum deles era inimigo de João.
— Não é a esse tipo de barbeiro que estou me
referindo.
— Então?! Que barbeiro?
— Bicho.
— Bicho?!
— Para ser mais claro, inseto.
— Não entendo, — Rubens explica fazendo
mil gestos — eu vi uma barata, uma b a . . . r a . . . —
embranquece. — Então aquilo, aquela coisa enor-
me era um, u m . . .
— Barbeiro. O inseto que transmite a doen-
ça de Chagas.
— Mas o João parecia tão forte e dizem que
os portadores da doença de Chagas sentem-se mal,
cansados, sem poderem andar.
— O povo fala muito. Mas seu empregado de-
veria sentir febre, olhos inchados, dores no fígado,
baço ou miocardite. Ah! também o sintoma de in-
chação dos gânglios.
— Ele não tinha nada disso.
— Como você sabe?
— Estudo medicina e depois ele nunca se
queixou.
— Estranho, estranho. Mas vou atestar a cau-
sa da morte a uma picada de "barbeiro".

30
— Mas ele picou, Dr. Ele estava lá, grudado.
Ficou assim uma porção de tempo, até eu pegar
uma régua e o arrancar, aí saiu numa tremenda
carreira.
— Sei, sei, meu caro. O Barbeiro estava su-
gando a face da vítima, pois ele vive de sangue
humano, quero dizer, também, suga outros ani-
mais vertebrados, mamíferos ou aves, isso para ele
é indiferente. Só que animais não adquirem a
doença. Em muitos lugares do Brasil, ele tem o
apelido de chupão, bicudo, chupança, etc. Bem,
bem, Delegado, assino mesmo o caso da morte pela
picada do Barbeiro, a menos que você encontre
outras causas.
— Não, não, desta vez vai picada de Barbeiro.
— Desta vez?! Por que, você acha que haverá
outras mortes?
— Não sei não. Em primeiro lugar, vou até à
fábrica procurar esse tal de Barbeiro. Fernando!
Fernando!
— Pois não, chefe.
— Olhe aí, se arme que vamos caçar um
assassino.
— Deixe pegar a metralhadora.
— Não é preciso.
— Não? E vou caçar como? A unha? — To-
dos riram.
— Encontre uma lanterna bem forte e uma
lente bem grande.
— Mas não temos lentes.
— Pô, compre uma, e bote na conta da Pre-
feitura. Venha também, Rubens. Tchau, Dr.
Obrigado, hein. Ah! outra coisa, Dr. Que horas
esse bicho gosta de chupar sangue?
— A noite, Delegado.
— Então a hora é propícia. Ei, onde está esse
meu assistente?

31
— Foi comprar a lente.
— Mas até esqueci que era noite. Quero ver
onde ele vai achar comércio aberto essa hora.
— Não se preocupe, Delegado, conheço Fer-
nando. Nesta hora deve estar acordando todo
mundo.
— Concordo, Sílvio. Assim que ele voltar,
mande-o usar o jipe e ir até à fábrica.
* * *
— Já cheguei, chefe. Lembrei-me de um vi-
zinho aqui da Delegacia que tem essa lente. Olhe,
olhe esse alfinete, veja como fica enorme.
— Vamos, vamos gente. Boa noite, Dr.
O jipe de capota arriada com os três homens
dentre, vara a noite escura que cobria todas as es-
trelas do céu.
* * *
Antes de começar as buscas, Israel ligou para
a casa do Prefeito e debaixo dos olhos vivos que
corriam de lá pra cá disse só uma frase, mas que
fez o coração de Fernando se alimentar mais for-
te do que arquitetava.
— Eu a amo.
Desligou e esfregando as mãos com ar satis-
feito, disse dirigindo-se a Rubens:
— Pôr onde o bicho correu?
— Por ali. Acho que entrou na fresta da ja-
nela.

32
CAPÍTULO III

O Barbeiro saiu devagarinho do buraco, no


cantinho da sala anexa àquela onde matara o João.
Andou um pouco, mas logo ficou envolvido pelas
teias de aranhas que eram muitas ali. Lutou com
as seis patas com final em pinças até que se viu li-
vre e seguiu o cheiro de sangue humano que ema-
nava dos três homens. Mas quando sentiu que o ca-
çavam voltou a procurar um outro esconderijo e fi-
cou ouvindo as vozes humanas. Agora era o De-
legado que falava.
— Conheço muito bem o hábito' deste bicho.
Nas casas se escondem nas frinchas das paredes,
das portas, janelas, camas, nos colchões, baús, e
outros móveis. Bem, aqui é uma construção de
alvenaria, então vamos procurar em todos os bu-
raquinhos, vamos começar pelo assoalho já que
essas tábuas estão tão velhas e soltas, devem ter
Barbeiro pra burro nos intervalos de uma a outra
ou debaixo delas.
Rubens perguntou:
— Eles habitam também no papel parede?
— Adoram. Por que? Essa parede aí cheia de
emaranhados é papel?
— É.
— Então mãos à obra.
— Também debaixo do tapete, chefe?
Fernando levantava o tapete.

33
— Em todos os lugares, gente, quero achar
esse bicho hoje.
Procuraram por todos os lugares zelosamente
mas nada encontraram.
Fernando enfiava a lente em todos os orifícios
que encontrava e deitando-se no chão examinava
até cansar.
Mas nada.
O Delegado enxugava sem parar o suor que
brotava em sua testa e pescoço.
— Onde se meteu esse cão? Às vezes duvido
que haja mesmo um Barbeiro por aqui. — Coçou
o queixo e olhando fixamente para Rubens e de-
pois para uma larga porta que aparecia pela ja-
nela que ficava nos fundos da sala perguntou: —
Aquela sala dá pra onde?
— Ali é a fábrica, quero dizer, a oficina.
— A porta estava fechada?
— Fechadinha.
O Delegado se ajoelhou no chão e passou a
régua que tinha na mão debaixo da porta.
— Creio que por aqui ele não passou.
— Ele voa?
— Não, não, ou melhor, acho que voa, mas em
voos curtos e rasantes. Também se voasse não te-
ria jeito de voar para a oficina. Tudo está ermeti-
camente tapado. Penso que esse Barbeiro, esse que
está por aqui, o assassino, deve ter vindo da ofi-
cina e se escondido por aqui.
— Por que o Sr. pensa assim, chefe?
— Depois de ver a oficina lhe explico. Ago-
ra vamos descansar um pouco, aqui mesmo, pre-
tendo recomeçar a busca logo que comece a clarear.
— Mas eles só saem à noite.
— Sei, sei. De dia ficam escondidos e é isso
que quero, achar o ninho de algum.
— Ninho!?

34
— Ninho, esconderijo, qualquer lugar onde de-
positem ovos.
— Eles botam ovos, chefe?
— Eles põem ovos. Desses ovos saem ninfas,
que posteriormente se transformam em adultos.
— Os Barbeiros crescem logo? — Rubens nem
piscava, pois não queria perder uma só palavra das
ditas pelo Delegado. Até começou a respeitar aque-
le belo Delegado que não temia e não respeitava
ninguém. É, o cara era. bem sabidinho. Estava
dando um "show" a respeito de Barbeiros, por isso
Rubens também iniciou perguntas.
O Delegado sentou na mesinha e com uma per-
na solta e balançando no ar disse:
— Para sua evolução completa, os Barbeiros
precisam de 90 a 300 dias, tudo depende das con-
dições do tempo, da umidade e da alimentação.
— Eles se alimentam só de sangue?
— Só de sangue. São insetos hematófagos por
excelência, tanto o macho quanto a fêmea só se
alimentam de sangue.
Rubens sentou-se na cadeira perto da poltrona
onde Fernando estava recostado e quase dormindo.
— Durma, Fernando. Deixaremos, como já
disse, a continuação da procura para amanhã.
Durma, durma, você está caindo de sono.
— Creio que tem razão, chefe. O Sr. também
parece cansado.
— Logo mais vou me esticar aí no tapete e
tirar uma soneca, farei agora mesmo se Rubens
não tiver mais nada para perguntar.
— Só uma coisinha, Delegado. É enquanto
suga o sangue da gente que o Barbeiro injacula
o veneno que -mata assim tão rapidamente?
— Não, não. A doença de Chagas é o nome
que se dá ao portador de uma doença infecciosa

35
produzida por um protozoário. Cientificamente
Trypanosoma Cruzi, é transmitida por insetos dos
gêneros Triatoma e Panstronsgylus; isso tudo na
linguagem popular — Barbeiro.
O Barbeiro transmite a doença, porque picou
alguma pessoa ou animal com a doença de Cha-
gas. Quando isso acontece ele suga, juntamente
com o sangue, os Trypanosomas Cruzi, tornando-
se, assim, um "Barbeiro" infectado desse parasita
que não possui vida livre, está sempre parasitando
os vertebrados ou insetos vetores da doença No
homem o Trypanosoma Cruzi, vive no sangue pe-
riférico e em algumas fibras musculares, especial-
mente os músculos do coração. Quando o Bar-
beiro pica uma pessoa sadia, transmite-lhe a doen-
ça pelas fezes.
— Pelas fezes?
— É isso mesmo. A transmissão dessa terrí-
vel doença para a qual até hoje não se conhece um
tratamento específico, se dá pelas fezes que o Bar-
beiro deposita sobre a pele da vítima, enquanto
lhe suga o sangue e não pela picada Geralmente,
a picada não é muito dolorosa, mas provoca cocei-
ra. A pessoa coça, e aí pela picada facilita a pene-
tração das fezes cheias de Trypanosoma Cruzi, pois
no Barbeiro os Trypanosoma vivem no aparelho
digestivo.
— O Sr. entende tudo desse bicho, Delegado,
não entendo porque o Sr. fez perguntas sobre ele
ao médico legista. Também gostaria de saber se
o João já tinha sido picado há muito tempo, e vivia
doente, com esse parasita incubado no coração
sem o saber.
— É, creio nisso, pois a pessoa não morre assim
de repente. Para o Dr. fiz perguntas por questão
de ética.

36
— Foi coincidência essa segunda picada, não
é, Delegado?
— Tudo indica. Salvo se a l g u é m . . . Bem, é
uma idéia louca.
— Que idéia?
— Esquece. Bem, vamos dormir um pouco.
— Eu prefiro carregar o caminhão. Pois te-
nho que abastecer as lojas para o dia da prossição
de São Benedito.
— Você não pode tirar nada daqui, enquanto
tudo não ficar esclarecido.
— Pelo amor de Deus, Dr. Israel. Assim vou
à falência.
— O que posso fazer? A única coisa que faço
é cumpr'.r a lei. Vamos lá, Rubens, um pouco
mais de paciência e tudo ficará em ordem.
— Mas se não começar a carregar o caminhão
e a distribuir a mercadoria amanhã, quero dizer,
hoje, pois já está quase amanhecendo, não conse-
guiremos vender nada. Você compreende, Sr. Is-
rael, falta só um mês para a festa. Aí começarão
a chegar romeiros. Se não puder vender o enorme
estoque que está aí no depósito, é o mesmo que
matar a maioria da cidade de fome, pois a cidade
vive desse comércio, Dr. O senhor ainda desco-
nhece isso, pois é novo aqui, mas pode perguntar
para o Prefeito ou a quem o Sr. quiser. A cidade
vive às custas dos católicos, dos que têm fé na
Nossa Senhora de Fátima. Todos os anos o dia
de Nossa Senhora de Fátima é decisivo para o su-
cesso financeiro de todos, pois passam por aqui
milhares e milhares de devotos.
— Amanhã resolvo, Rubens. Deite-se um pou-
co, siga o exemplo de Fernando que já está ron-
cando.
O Delegado pegou as três listas telefônicas e
fazendo-as de travesseiro esticou-se no tapete ama-

37
relo meio gasto que cobria quase toda a salinha,
ajeitou os revólveres (eram dois), puxou as partes
da jaqueta para o peito, segurou-a com as mãos
cruzadas descansando no peito e fechou os olhos.
Logo mais sua respiração tornou-se mais pesada e
Rubens percebeu que ele já dormia e então Rubens
levantou a cadeira devagarinho, encostou-a junto
à mesa, afastou os papéis e o telefone, apagou a
luz, dobrou os braços em cima da mesa e encostan-
do a cabeça tentou dormir. Com a canseira que em-
brulhava todo o seu corpo achou que ia pegar no
sono logo, m a s . . .

* * *
Os olhos do Barbeiro se contraíram assim que
a escuridão invadiu a sala, pois o escuro para ele
era uma forte claridade onde enxergava as mais
pequeninas coisas. Silenciosamente impulsionou
seu corpo preto e cinzento e levantou as antenas
pretas e secas que se inflamaram vagarosamente
e pararam espetadas no ar por alguns segundos,
mas logo se excitaram agitando-se em todas as di-
reções, ao sentir o cheiro de sangue que pela cap-
tação das antenas vinha do rosto do Delegado e
concentrando-se nele, o Barbeiro foi movendo as
:
se s patas negras e compridas devagarinho, deva-
garinho. Já tinha conseguido chegar ao tapete
quando deparou com um pequeno papel amassado
e usando as patas da frente (que saem debaixo da
camada grossa e dura de suas costas e que apare-
cem bem perto do pescoço de onde saem as asas
cinzas e secas que se cruzam e descansam ao lon-
go do costado, cobrindo todo seu corpo faminto de
sangue) tenta ultrapassá-lo.
***

Rubens aguça os ouvidos no tétrico silêncio en-


volto no negror.

38
— O que seria aquele barulhinho de papel?
Rubens leva o braço e com a mão tateando
no escuro por todos os lados sente seu cérebro se
abrir e ele vê que não está em sua cama com o
abajour ali pertinho, na cabeceira. Então segu-
ra-se com as duas mãos na mesa e procura levar
seu corpo até perto da parede a passos rastejantes
e num desses rastejos sente que pisa em alguma
coisa. Acende a luz rápido e com os olhos esbuga-
lhados secando o suor do pescoço vê que era uma
bolinha de papel.
— Puxa, que susto, pensei que fosse o Barbeiro.
* * *
O Barbeiro foi jogado longe por um rastejo do
pé de Rubens e cego com a luz que invadiu a sala se
rastejou para debaixo do tapete e ficou aguardan-
do com ansiedade matar o vivo desejo de uma chu-
padinha de sangue; mas não esperou muito, Ru-
bens apagara a luz e voltara para o mesmo lugar e
para a mesma posição. Rubens começa a sentir o
cérebro se fechar e logo se abrir quando* um galo
canta ali bem perto, depois o silêncio. Profundo si-
lêncio. Mas o cérebro de Rubens não se fecha e
ele fica pensando naquele estranho barulhinho de
papel que ouvira. Jurava que era um barulho de
inseto. Inseto?! Seria o Barbeiro?...
* * *
O Barbeiro saiu de sob o tapete e rápido su-
biu pelo corpo do Delegado; parou só por um se-
gundinho porque enroscou a pata em alguma coi-
sa, mas com um pequeno esforço a sentiu livre e
pretendendo se aliviar rapidamente da exaltação
da fome pulou para o peito do Delegado...
* * *
39
Rubens tira a cabeça de cima dos braços e faz
com que a mesma se balance na escuridão.
— Mas se fosse mesmo o Barbeiro?
Pulou para a luz e o amarelo cobriu o quarto
cegando o Barbeiro que atordoado procurava se in-
filtrar em um lugar escuro para poder enxergar
e tentando em todas as direções ficou rodopiando
no peito do Delegado que nesta hora já não tinha
as mãos cruzadas no peito e sim caídas ao longo
do corpo bem rente ao tapete. Quando os olhos
de Rubens pousaram sobre o Barbeiro, ficou para-
lisado de terror e com a voz presa na garganta.
Abria e fechava a boca mas só saía um grunhir
estranho dando tempo para o Barbeiro entrar pela
jaqueta de Israel e ficar escondido dentro do bol-
sinho interno. Neste momento pela sala se espa-
lharam os gritos de Rubens.
— Delegado, Delegado, levante, levante, ele
entrou aí.
Israel de um salto se pôs em pé e sem enten-
der o que estava acontecendo procurava agredir
Rubens que tentava lhe arrancar a jaqueta excla-
mando:
— Ele está dentro da jaqueta. — Rubens se
agarrava apavorado à jaqueta do Delegado sem
soltá-la. Seus gritos acordaram Fernando que
também passou a dominar o jovem estudante de
medicina.
— Você vai morrer, Israel, cuidado que você
vai morrer, pois o bicho está aí, aí dentro de sua
jaqueta.
Israel pára por um momento com as duas
mãos segurando os braços do moço.
— Está querendo dizer que o bicho e s t á . . .
— É isso mesmo, tire a jaqueta e verá.
O Delegado despe a jaqueta e nada. Joga-a
em cima da mesinha e passa as mãos pelo corpo

40
e nada. Tira o cinto e passa a mão por dentro das
calças e nada. Volta-se para Rubens que, branco
como cal, vai se afastando em direção à porta gri-
tando:
— Por um motivo qualquer ele não aparece,
mas sei que o demônio está na jaqueta.
— Você está mentindo, Rubens. Essa estória
de Barbeiro é invenção sua. Sei porque você fez
isso. Você preparou tudo p a r a . . .
Israel ia a passos lentos em direção a Ru-
bens espumando de raiva, quando ouviu Fernan-
do gritar:
— Achei-o. Ele está na jaqueta. Eu o vi. Vi
duas antenas compridas se mexerem bem ali na-
quela dobra.
— Então mate-o.
— Com o que?
— Ora, ora.
Israel falava olhando para todos os lados. Por
fim resolveu pela cadeira que suspendeu no ar e
deixou-a cair diversas vezes em cima da jaqueta.
Depois atirou a cadeira para um canto, pegou a
jaqueta e sacudiu-a furiosamente. Nada.
— Maldito inseto.
— Onde está este demônio? Você tem certe-
za que o viu, Fernando?
— Claro, chefe. Inteiro, não, mas vi a cabe-
cinha e as antenas que num frenesi louco faziam
assim, olhe chefe. Assim.
E Fernando levantou os dedos indicador e o
médio e os fazia mover-se para a frente e para
trás.
— Então onde se meteu?
Rubens se aproximou, pegou a jaqueta com
cuidado deixando-a bem distante do corpo e ia vi-
rando devagar. Virou-a com cuidado no avesso e
dando um grito jogou-a para o chão, quando o in-

41
seto preto e brilhante saiu de dentro do bolsinho
e voando à volta dos três homens conseguiu sair
pela porta e desaparecer pelo pátio interno perse-
guido pelos três, que passaram algum tempo o pro-
curando mas nada encontraram. Voltaram para
a sala.
— Você viu, chefe? Como era feio. Juro que
senti um calafrio cobrir toda minha espinha quan-
do o vi. Não sei porque. Nunca tive medo de in-
setos. Juro que pegava até escorpião na mão, no
tempo que trabalhava em terraplanagem. No meio
da terra tinha muitos escorpiões. A turma morria
de medo. Tinha caboclo que até chorava quando
eu amarrava um barbante no escorpião, e saía com
ele pendurado e fingia jogar em algum colega.
Pego barata, escaravelho, caranguejo, enfim um
mundo de bicho, mas esse aí, não sei porque me
dá arrepios. Juro que estou com medo.
— É, de fato. Também estou meio impressio-
nado.
Rubens falava calmo:
— Também eu nunca temi insetos.
— Temer insetos? Vocês estão brincando. Va-
mos embora, amanhã é outro dia. Me dê as cha-
ves da fábrica, Rubens. Ela ficará mesmo inter-
ditada, pois com esse demônio aqui dentro, nin-
guém terá segurança.

42
CAPÍTULO IV

O Delegado passou a manhã na fábrica em


companhia de Sílvio e à tarde, assim que chegou
à Delegacia, Fernando lhe disse:
— O Prefeito telefonou e disse que às dezesse-
te horas vem aqui falar com o senhor, Chefe.
O coração do Delegado deu um pulinho mais
rápido.
— Ele disse a respeito de que?
Os olhos de Fernando adquiriram um brilho
malandro que não passou despercebido ao Dele-
gado.
— Não, não falou, mas parecia bem zangado.
— Ah!
Israel andou pensativo pela sala. Alguns mi-
nutos depois pegou o telefone e Fernando esticou
o pescoço e sorriu cínico quando viu que ele dis-
cava para a casa do Prefeito e logo viu que era
sua Excelência que atendia quando Israel desligou
e falou alto:
— O que estaria o Prefeito fazendo essa hora
em casa? — Foi até a janela e olhando lá longe
para o nada ficou pensando no Prefeito.
O Prefeito.
Toda vez que Israel ouvia o nome do Prefeito,
apertava as unhas contra a palma da mão com
toda a força, o ciúme crescia dentro dele e nesse
momento o sentia do tamanho do universo. E o

43
pior de tudo é que nunca vira uma cidade gos-
tar tanto do seu Prefeito. Era querido e respei-
tado desde as creches até ali na carceragem.
Uma vez tentou criticar o Prefeito e sentiu
que ninguém o apoiou, tendo mesmo um homem
levantado o punho e gritado:
— Se o Padrinho precisar de punhos para de-
fendê-lo, aqui está o meu.
Padrinho daqui, padrinho de lá. Era de fato
padrinho de quase todas as crianças nascidas des-
de que fora escolhido pelo governador para gover-
nar Fátima e de noventa por cento dos casamentos.
Israel não podia negar que Artur não tinha
lá uma grande aparência, mas se vestia bem, com
roupas caras e bem feitas que lhe traziam uma
certa elegância. O que estragava mesmo era a bar-
riga. O Prefeito deveria fazer exercícios, pois à
força de ginásticas, muitos homens acabados con-
seguem readquirir o corpo esbelto e forte dos
atletas.
Mas se o Prefeito fosse um bonitão, teria ele
lhe roubado os carinhos da esposa?
E se ele viesse falar a respeito de Vera, confir-
maria ou negaria? Se confirmasse, o que aconte-
ceria? Saiu da janela e ficou andando pela sala
depois sentou-se na cadeira giratória e fazendo com
que ela oscilasse levemente de cá para lá continuou
a dar vazão aos seus pensamentos. Vera. Por que
a amava tanto? O que estaria acontecendo com
ele? No começo pensou em conquistá-la por vai-
dade, capricho, só para não deixar de alimentar
com belas mulheres o conquistador que ardia den-
tro dele. Agora ele mesmo não podia compreen-
der; se admirava mesmo de cada vez se prender
mais aos encantos da moça, não só para matar a
fome do desejo sexual, mas porque gostava de es-
tar em sua companhia, nem que fosse só para fica-

44
rem de mãos dadas, calados, andando pelas matas
e campos. O que valia mesmo era a felicidade que
sentia por estar junto dela. Lembrou-se da esposa.
De fato era uma jovem e linda morena, com um
corpo escultural, mas nada nela o perturbava mais.
Qualquer contato com ela, atualmente, em vez
de incendiar-lhe os sentidos, exasperava-o, chegan-
do mesmo a sentir repulsa. Agora, com Vera,
tudo dentro dele palpitava, deixando-o doido, tonto
mesmo.
Israel ainda sentia a maciez das carnes dela,
delicadas, de pele fina, onde se emaranhavam mil
veiazinhas azuladas, cobertas de um tom cor-de-
rosa que ele amassava com sofreguidão todas as
vezes que a tinha nua nos braços.
Levantou-se girando com força a cadeira, por-
que não podia pensar nela sem sufocar de desejos;
por todos os lados da sala vinha o fluido que ema-
nava dela, desde aquela tarde que a possuíra ali
mesmo naquele sofá em que Fernando estava sen-
tado.
Saiu para o páteo, queria espairecer. Ficou pa-
rado na escada por alguns minutos, para contem-
plar o carro preto que parava. Dele desciam al-
guns homens e um era o Prefeito que vinha em
sua direção, alegre.
— Como vai, Delegado? Não tive oportunida-
de de visitar a cadeia depois de reformada, por isso
vim mais cedo do que havia combinado. Gostaria
que nos acompanhasse, assim conversaremos.
Israel riu apertando a mão do Prefeito, pois
pela cara de S. Excia. sentiu que o negócio não era
lá muito grave. Porisso sentiu os nervos se des-
contraírem, amolecerem e, se misturando à turma
do Prefeito, foi explicando tudo.
— Olhe, a Delegacia estava caindo aos peda-
ços, com as paredes imundas e goteiras por todas

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as partes. Goteiras até em cima dos presos. Os
coitados, quando chovia, ficavam molhados as vin-
te e quatro horas do dia.
Empurrou a grade para o lado, fazendo-a cor-
rer no trilho, esperou que todos passassem e fez a
grade voltar ao mesmo lugar.
— Não é preciso usar o cadeado, será uma vi-
sita rápida.
Passaram pelo imenso corredor com celas de
lado a lado, algumas com presos. E Israel era
obrigado a se desmanchar em delicadezas junto ao
Prefeito. Sentia-se até um herói, pois enquanto
mesurava de lado a lado, dentro dele a raiva, o
desespero, o ciúme se inflamava, pois era só o Pre-
feito abrir a boca em um sorriso, por mais insig-
nificante, que Israel- já imaginava aqueles lábios
colados aos lábios de Vera, num beijo de ranger
dentes. O Prefeito esticava os braços para mos-
trar aos seus assessores, aquele lustre novo lá em
cima, e o Delegado mordia os lábios e apertava os
dedos contra a palma da mão, ao imaginar aque-
les braços envolvendo e apertando as carnes de
porcelana da mulher que lhe envenenava o san-
gue. Envenenava-lhe o sangue e Israel até per-
dia a jovialidade, o desembaraço, as delicadezas,
ficando por momentos, com os olhos fixos no dono
do alimento de seu ferver de sangue. Sim, porque
o Delegado estava convicto que só de Vera, de ago-
ra em diante emanaria o fluido do amor do desejo
do gozo para ele. Sentia que fitando aquele ho-
mem tão bem disposto e alegre lhe doía tudo lá
dentro, mas ele não deixava que seus olhos se des-
pregassem do Prefeito e procurava ver nele, alguns
vestígios da última relação. Teria sido à noite, ao
acordar ou antes dele chegar à Delegacia? E pen-
sando tudo isso o Delegado sentia que a raiva, o
ciúme e tudo ia se transformando em ódio. Já

46
nem podia mais suportar a presença de tal homem,
por isso pretendeu sair sem pedir licença e nada,
quando o Prefeito, pondo-lhe a mão no ombro, fa-
zendo Israel estremecer, disse-lhe:
— Meu caro Delegado, Rubens disse-me que
você interditou-lhe a fábrica. Pergunto-lhe, por
quê?
— Por quê!?
— Sim, por quê?
— Mas, V. Excia. não soube do crime?
— Crime!? Soube que um homem morreu pi-
cado por um Barbeiro.
— Isso mesmo.
— E daí, não há razão para que uma cidade
pare por causa de um insetozinho. Que há, meu
caro Delegado? Um inseto se extermina com inse-
ticida e inseticida se compra em qualquer armazém.
O Delegado até ficou branco, se firmou para
se controlar.
— Se V. Excia. permitir, eu o convidaria para
irmos conversar no meu gabinete, pois tudo é mui-
to mais grave do que V. Excia. imagina.
* * *
Já na sala, o Delegado indicou gentilmente o
sofá para o Prefeito sentar, sem perceber o brilho
velhaco que iluminava os olhos de Fernando.
— Fernando, sirva a S. Excia. algo gelado e
ligue o ar condicionado, pois o calor está insupor-
tável.
O Prefeito com pose de rei, bebia a água ge-
lada aos golinhos, ouvindo o Delegado dizer que
havia vistoriado a grande fábrica de Rubens e que
em quase todos os objetos, nos buracos, nas fres-
tas do chão, nos podres da madeira, havia encon-
trado milhares de Barbeiros.
— Manda-se fazer uma limpeza em regra, De-
legado. A Prefeitura tem muitos recursos. Pode-
47
remos exterminar os Barbeiros em poucas horas.
Só desejo que o povo não saiba o que está haven-
do, pois isso estragaria o sucesso da semana da
festa, que Fátima oferece a todos os turistas do
Brasil e nesse ano virão muitos estrangeiros, que
já reservaram hotéis para assistirem a nossa pro-
cissão que, como você deve saber, é feita da igreja
de Fátima até a igreja de São Benedito, que abran-
ge vinte ruas e essas ruas estarão calçadas com os
mais belos desenhos feitos com diversos produtos,
incluindo...
— Já conheço, Excia. No ano passado vim
com minha mulher assistir a procissão da Paixão
de Cristo, e fiquei maravilhado com o radiante co-
lorido dos enfeites do chão das ruas e até fiquei
paralisado quando a procissão passou esmagando
todos aqueles lindos desenhos, pois como vim a sa-
ber, a cidade leva dias para preparar as ruas.
— Perfeitamente, Delegado, é um trabalhão
enorme. Todos trabalham, a começar pelas crian-
ças do primeiro grau até a nossa polícia Uns de-
senham, outros cortam os modelos, outros pintam
a serragem e o bagaço de cana, outros colam essas
mesmas coisas que formam os desenhos enfim, la-
butam muito para podermos ter uma semana de
festa bastante movimentada e para que os nossos
comerciantes, operários, funcionários, lavradores
possam passar o decorrer do ano sem problemas
monetários, pois nos outros feriados já tudo é de-
sequilibrado, com poucos turistas, alguns vindo
cumprir promessas, alguns casamentos, batizados,
enfim, fraco, muito fraco. Nossa salvação é mes-
mo a semana de festa; por tudo isso, meu caro De-
legado, peço a sua colaboração. A fábrica do Ru-
bens é a maior fonte de renda para a maioria dos
quinze mil habitantes da cidade.

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O Delegado recostou-se na cadeira, ficou pen-
sativo por algum tempo, depois disse:
— É uma coisa difícil de responder, pois res-
peito muito o meu posto de polícia, pois polícia é
segurança para o povo.
— É os festejos da semana, alimento para
essa gente não morrer de fome, também é segu-
rança, caro Delegado.
— Bem, dessa vez, vou ficar à sombra de sua
autoridade, Excia.

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CAPÍTULO IV

O nevoeiro já começava a envolver toda a ci-


dade, quando o último operário deixou a fábrica
e a polícia militar que a guardava pediu ao novo
porteiro para trancar o portão, depois os dois fi-
caram na sala (na mesma sala em que João mor-
rera) conversando.
Lá pelas 11 horas o porteiro disse ao policial:
— O que há!?
— Por que?
— Sei lá, você olha para todos os lados com
as sobrancelhas franzidas, parece estar assustado.
— Eu não. Assustado com o que?
— Parece que você está pensando no Barbeiro.
— Barbeiro! Que Barbeiro?
— Ora, o bicho que mata.
— Nunca ouvi falar nisso.
— Então você não sabia que o outro porteiro,
o João, foi morto por um bicho?
— Então deveria ser um bicho do tamanho de
um elefante.
— Que nada. É do tamanho de uma barata
e bem parecido com ela.
— Você está brincando.
— Tô nada. Quer saber tudo sobre a morte
do João? Eu sei tim-tim por tim-tim.
— Conte, vá lá, a gente não tem nada pra
fazer mesmo.
50
E o porteiro contou tudo direitinho, como Fer-
nando lhe havia contado. Incluindo a limpeza
monstro na fábrica, com extermínio de todos os
Barbeiros.
O militar ouvia tudo com um ar debochado.
— Então quer dizer que nesta sala tem um
inseto assassino que dá uma chupada na cara da
gente e a gente morre!
Sua gargalhada se espalhou por tudo.
— Não ri não. O caso é sério.
— Você tem medo do Barbeiro?
— Bem, com a luz acesa eu não tenho mui-
t o . . . Sabe, ele ataca só no escuro.
O soldado rindo disse:
— Olhe amigo, vou fazer a ronda, e se encon-
trar os tais t r i p a . . . t r i p a . . . que tripa é mesmo?
— Bem, o nome muito direito eu não sei. Mas
acho que é Tripanosoma Cruzi ou Triatoma.
— Pois então. Se encontrar isso aí que você
falou, boto um monte em uma caixinha, embrulho
com papel celofane, amarro com uma fita azul e
mando de presente pro Delegado.
Por longos segundos o eco da risada do soldado
parou no ar e quando o porteiro viu que ele entra-
ra na enorme oficina gritou:
— Hei praça, não vá ficar no escuro que é pe-
rigoso.
— Ai, ai, ai, estou morrendo de medo. Então
um homem do meu tamanho vai temer um bichi-
nho? Belo conceito que você faz da polícia, hein?
Tchau, volto já.
O porteiro voltou para dentro da sala, sentou-
se na cadeira giratória, ligou o radinho e a música
lenta o envolveu em um sono de algumas horas.
Quando acordou, olhou para o grande relógio
da parede e viu que eram duas horas da manhã.

51
Bocejou diversas vezes, esfregou os olhos e com
o radinho na mão foi dar uma espiadinha lá fora
para ver se via o policial.
Abriu a porta e o nevoeiro entrou.
— Puxa vida, nunca vi tanta fumaceira. Acho
que São Pedro está botando fogo no céu e jogando
a fumaça pra terra. — Andou um pouco e foi res-
mungando em direção à oficina, tateou na neblina
a maçaneta da porta e quando a sentiu, forçou a
mão para a direita e abriu a porta. Entrou no
imenso salão e no meio do escuro gritou:
— Praça, oi Praça, aonde você está? Puxa,
que silêncio, vai ver que esse cara está dormindo
em algum canto por aí. Só não entendo porque
ele apagou as luzes — cruz credo — e o porteiro
se benzeu diversas vezes, depois tentou acender as
luzes e nada. Foi até o registro e tirando a lan-
terna do bolso iluminou a pequena caixa e viu que
haviam tirado os fuzíveis.
— Ué, quem será que mexeu a q u i . . . Aaaa, só
pode ter sido o praça para me assustar. Mas onde
os teria posto? Vou dar uma olhadinha por aí.
O foco de luz amarela corria por tudo. Pas-
sava rápido pelas imagens sacras, pelos vasos, pe-
los pedestais de meio metro, de dois metros, pelas
pequenas capelinhas, pias, enfim, por tudo que se
fabricava na cidade e que seria exposto nas ca-
sas comerciais, até que parou em umas botas que
estavam encostadas bem junto ao forno de cozi-
nhar barro.
— Ah! dormindo, hein malandrão, e eu feito
um bobo me preocupando.
O porteiro andou pisando na rodela de claro
da lanterna que ele mesmo fazia mover-se para esse
e aquele lado e chegou perto das botas.
— Hei, praça, acorde. — Nisso pisou em algo
e abaixou para ver. Eram os fuzíveis.

52
— Queria me deixar no escuro, hein, mas dei-
xe estar, vou acender todas as luzes só para ver
a sua cara quando acordar e sentir aquele clarão
nos olhos — e continuando a falar em voz alta o
porteiro foi direitinho para a caixa de luz, torceu
os fuzíveis e fez com que uma forte claridade de
mercúrio invadisse tudo. Voltou para perto do for-
no e seus olhos acompanharam as botas até o ros-
to do soldado, e aí sentiu um poderoso solavanco
no coração e como se estivesse na agonia do sufo-
camento ele apontava o dedo que saía da mão trê-
mula para o grande inseto negro que estava gru-
dado no rosto inchado e arroxeado do soldado.
Quando conseguiu andar, saiu como um bó-
lido pelas ruas e gritando como um louco, fez com
que muitas janelas se abrissem antes dele chegar
à casa do Delegado.
— Dr. Delegado. Dr. Delegado. — Seus gritos
ecoaram pela rua nevoenta. Uma luz se acendeu
e o Delegado amarrando o roupão abriu a porta e
desceu correndo os degraus e diante do homem
parou assustado.
— Que aconteceu?!
O homem tremia violentamente mas conse-
:
guiu art cular algumas palavras.
— Lá na fábrica! Ele está morto!
— Ele quem?
— O Praça.
— Morto como?
Luciana se aproximava.
— Que foi, querido?
O Delegado como sempre a tratou friamente.
— Nada que interesse a mulheres. Volte pa-
ra a cama.
— Desculpe-me.
Luciana 'corou profundamente e entrou com
o Delegado em seu encalço que se vestiu precipita-

53
damente e pegando o jipe, manda o porteiro entrar
e corre para a fábrica, desce do carro, entra veloz,
abre a porta que o porteiro indicava como da ofici-
na e parou. Não queria descer os degraus de pedra
gasta e esburacada, preferiu analisar aí de cima
o enorme salão apinhado de coisas de lado a lado,
até ao teto. Seus olhos seguiram pelo assoalho de
cimento com enormes remendos por todos os la-
dos, depois subiram pela parede de fundo que es-
tava tão longe dele, mas onde ele conseguia ver os
grandes pregos com rolos de cordas penduradas,
muitas latas de tintas, cheias de pincéis grandes e
pequenos. Num dos cantos, grande quantidade de
lenha, è mais para cá, o forno e as botas pretas
reluzindo no tétrico silêncio. O homem disse com
voz sumida:
— Olhe ele lá, Dr. Delegado. Olhe ele l á . . .
Deus me ajude.
— Calma, homem. Para que tanto pavor.
Talvez nem esteja morto.
Mas o soldado estava morto, os olhos esbuga-
lhados fitando as madeiras sujas do teto.
— Onde você disse que estava o inseto?
— Bem ali. Ali onde tem aqueles ciscos pre-
tos. Acho que ele voou.
— É. Escute, ligue para a Delegacia e cha-
me Sílvio e Fernando, diga-lhes para trazerem
uma ambulância.
* * *
A ambulância gritando na noite, fez com que
o Prefeito acordasse.
— Que diabo estará acontecendo?
— Talvez um incêndio. — Vera já havia aber-
to a janela mas o nevoeiro era tão juntinho que
não dava nem para ver as luzes dos postes.

54
Quando o telefone tocou, o Prefeito se apres-
sou a atender.
— Artur, é o Rubens. Estou indo para a fá-
brica. Outro morto. O Delegado está lá. Sei que
se você não intervir ele vai criar uma porção de
obstáculos para que a fábrica não continue fun-
cionando.
— Não se alarme. Vou já para aí.
• • •

O Prefeito entrou na fábrica na hora em que o


médico examinava o cadáver.
O Delegado sentiu até um nó no estômago
quando deparou com o Prefeito assim saído da ca-
ma, pois lembrou-se que ficara esperando Vera a
tarde inteira no local de sempre e ela não apare-
cera e nem lhe dera satisfações. Mas mesmo assim
tentou ser natural. Cumprimentou o Prefeito di-
zendo-lhe:
— Culpo-me dessa morte, Excia. Se eu tives-
se cumprido o meu dever, isso não teria acontecido.
Deveria ter fechado a fábrica.
— Por que diz isso?
— Porque foi o maldito Barbeiro que o matou.
— Tem certeza?
— Claro.
— Você o viu?
— Quem?
— O Barbeiro, ora.
— Não,
— Então por que diz que foi ele?
— O porteiro viu e . . .
O Médico levantou-se.
— Posso afirmar que foi picado e morto por
um Triatoma.
O Prefeito apertou com a mão direita as bo-
chechas.

55
— Ê difícil acreditar, Dr. Desde o primeiro
acidente, quero dizer, a morte de João, tenho pro-
curado saber tudo a respeito desse bicho e não en-
contrei nenhum que matasse assim de repente.
— Existe um sim, Excia. É um tipo raro. Creio
que aparece um, em cada cem anos. É do tipo
preto, tendo manchas cinzentas em volta das asas.
Logo que as fezes penetram nos orifícios das pi-
cadas o Trypanosoma Cruzi segue pelo sangue e
assim que chega ao coração faz com que ele pare
de bater instantaneamente.
— Isso é impossível, Dr. Esse parasita leva
anos para matar o homem.
— Antes fosse, Excia. Infelizmente o Barbei-
ro preto e cinza existe e é um assassino. Since-
ramente gostaria mais que assim não fosse.
— Quer dizer então, que dos milhares de Bar-
beiros que o nosso Delegado disse existirem aqui
na fábrica, um é o assassino! Mas onde se escon-
dem essa infinidade de insetos se mandei vinte ho-
mens fazerem uma limpeza aqui na fábrica e não
encontraram nenhum?
— É difícil achá-lo, Excia, pois o Barbeiro se
enfia no menor buraquinho possível e como os bu-
racos são sempre escuros, ele consegue ver tudo
r
o que se passa à sua frente e quando sente que
o ser humano está a sua procura se afasta mais
para dentro do esconderijo. Ele também não
morre com inseticida pois é muitíssimo resistente.
Já coloquei o Barbeiro dentro de recipientes com
os mais variados remédios para matar insetos e os
Barbeiros não apresentaram nenhum problema.
Saíram espertos. Esse tipo escasso de Barbeiro
produz um ruído estranho quando sente cheiro de
sangue humano, um ruído assim como o barulho
de papel rasgado Esse barulhinho de suas ante-
nas que expelem um vaporzinho quando elas se con-

56
traem e se descontraem. Para ser mais claro, essas
antenas se inflamam assim que um ser humano
está por perto e quando desinflamam expelindo o
vapor é que se produz o barulho bem audicível ao
ouvido humano. Suas antenas também servem pa-
ra os Barbeiros se guiarem, pois eles não tem movi-
mentos de cabeça, Excia, se sentem o cheiro de san-
gue à direita então a antena direita é que se infla-
ma em primeiro lugar. Quando o cheiro está do la-
do esquerdo é a antena esquerda. Quando localizam
a vítima, as duas se incham produzindo o ruído.
Ninguém até hoje, descobriu porque o Barbeiro es-
colhe o homem adormecido para picar, mas eu
acredito que é porque a vítima nesta circunstân-
cia não ouve o ruído produzido por suas antenas.
— Quem diria, hein Dr., que estamos diante
de um inseto tão inteligente. Digo mesmo que é
uma coisa fantástica. Um inseto assassino. Isso
é estória para Allan Põe.
O Delegado que até então se conservava ca-
lado, mandou que os enfermeiros levassem o cadá-
ver e virando-se para S. Excia, disse sério:
— Para Edgar Allan Põe, que vivia bêbado e
morreu há mais de cem anos, de Delirium Tremens,
poderia ser realmente uma emocionante estória,
mas para mim, que sou responsável pela seguran-
ça de toda essa gente que morre nesta cidade, vou
pegar as rédeas como aprendi, quando me decidi
a ser um policial e para começar fecharei a fá-
brica e amanhã começarei a caça deste assassino
e prometo que o acharei nem que seja necessário
demolir a cidade.
E o Delegado fechou a fábrica e o Prefeito
reuniu os vereadores, os comerciantes, farmacêuti-
cos, hoteleiros, e fabricantes e dessa reunião ficou

57
decidido que dariam três dias para o Delegado
achar o Barbeiro assassino ou então pediriam ao
Secretário de Segurança sua transferência, pois
por causa de um inseto não iam matar a cidade.

58
CAPÍTULO V

No dia seguinte o Delegado chegou à fábrica


quando começava a escurecer. Ele, Fernando,
Sílvio e mais trinta homens. Fernando tirou o pa-
letó e acariciou de leve o revólver que brilhou na
fraca luz que vinha do vitroux lá de cima.
O Delegado sorriu.
— Não me vá dizer que você vai tentar pegar
o Barbeiro a bala, hein Fernando?
— Mas claro que não, chefe!
— Então para que a arma?
— Só por um motivo. Ganhei-a de minha ex-
patroa.
Fernando perscrutou na fraca luz, o rosto do
Delegado e viu-o morder os lábios. Sentiu uma
pontinha de alegria se revirando lá dentro, nem
sabia precisar o lugar, aí continuou:
— Dona Vera me deu o revólver bem na hori-
nha que o Dr. Artur se despedia para ir a São
Paulo.
Israel sentiu o coração disparar.
— O Prefeito viajou?
— Estou lhe falando, chefe.
— Ah! — O Delegado andou pra lá e pra cá
dando algumas ordens, depois veio até onde Fer-
nando estava e meio indeciso falou:
— Fernando, posso considerá-lo amigo?

59
— Claro, Delegado. Já que o senhor organi-
zou a minha vida, como poderia deixar de ser seu
amigo?
Fernando já imaginava o que estava atrás des-
se "considerá-lo meu amigo", por isso se desdo-
brou em agrados e chegou até a agarrar a mão do
Delegado sacudindo-a com toda força. — Amigo pa-
ra o que der e vier. Pode confiar o mais grave se-
gredo a esse seu humilde servo que essa boca não
se abrirá, nem com mil punhais apontados para
esse pobre coração.
O Delegado achou o jeito de Fernando meio
estranho, mas no momento não havia tempo para
considerações.
— Você adivinhou, é um segredo que lhe vou
contar.
Os olhos de Fernando se cobriram de um mor-
daz triunfo, pois ele nunca imaginara que de um
simples roceiro sem cultura e sem nada, chegaria
a secretário da primeira dama da cidade de Fá-
tima e ainda seria o caixa forte dos segredos do
Delegado. O que lhe valeu tudo isso, era sua be-
leza física e a sua esperteza, pois dizia a todo mun-
do que tinha feito até o secretariado. Só sabia ler
um pouco. Mas tinha o diploma, diploma compra-
do de um homônimo. Imagine, até nisso tivera sor-
te. Um homem que se chamava igualzinho a ele.
Fernando Meldute Abreu e o mais fantástico, com
a mesma idade e a mesma data de nascimento. Só
em cinema, novelas ou livros, tantas coincidências.
Mas o que valia mesmo era ser esperto, esperto co-
mo um rato. Correu até ali coberto pela capa da
mulher mais importante da cidade. Também a se-
gurava firme nas suas rédeas, porque um d i a . . .
Um d i a . . . e Fernando viu a cena aí na sua frente
como se estivesse vendo um filme de TV colorido.
Ele estava carpindo umas terras do sítio do seu Zé

60
Carneiro, quando ouviu o ronco de um automóvel.
Desdobrou o corpo ficando reto, jogou o chapéu
de palha para trás e passou as mãos calejadas, de
unhas sujas na testa e as sacudiu no ar para que
saísse o suor e ficou de olho pregado na estradi-
nha que saía da entrada asfaltada e arregalou os
olhos para o brilhante e azulado carro que vinha
chegando devagarinho. Era a mulher do Prefeito,
que ele já conhecia, pois viera muitas vezes pedir
votos para o Dr. Artur.
Quando o carro estava bem pertinho, ele sorriu
bonito, mas dona Vera nem ligou e passou reto em
direção à casa grande. Viu de longe ela descer do
carro, ouviu bater palmas e como sabia que não
havia ninguém naquele dia no sítio, foi andando
preguiçosamente até lá.
— Boa tarde, dona. Seu Zé Carneiro e a fa-
mília estão pra São Paulo.
— Quer dizer que não tem ninguém no sítio?
— Só eu.
E voce é....
— Sou empregado. O Fernando. A senhora
não se lembra mais de mim?
— Não, não.
— Aquele menino que levava o leite pra casa
da senhora.
Ela riu, enrolando o indicador num monte de
cabelos que lhe caíam lumiando da mesma cor do
sol que naquele momento queimava de tão forte
e disse admirada:
— Aquele menino a quem todos os dias eu dava
uma moedinha para não vir sacudindo o leite pa-
ra não azedar?
— Ele mesmo.
— Mas, meu Deus. Como você cresceu. Juro
que jamais o reconheceria. Você ficou bonitão,
hein? Alto, forte, moreno, dentes perfeitos. Dei-
61
xe ver, abra a boca. É, nenhum cariado. Ótimo,
ótimo. Mas o que você faz aqui no sítio?
— Carpino a roça. Agora mesmo estava car-
pindo a plantação de batatinha.
— Batatinha?! Nunca vi pé de batatinha.
Onde é?
— Se a senhora quiser, eu mostro. Só que
precisa se embrenhar no mato, pois a plantação
fica pra lá daquele verdão.
— Ora, isso é fácil, ou você pensa que nunca
andei no mato?
Ele na frente, apartando os galhos, ela vindo
devagar, escolhendo o lugar para pisar, pois o sa-
pato com a plataforma alta, não lhe dava equilí-
brio, o mesmo acontecendo com a saia curta e es-
treita. Andaram uns cinco minutos e Vera já es-
tava suando por todos os lados.
— A senhora está cansada?
Ela riu no matão fechado.
— Pensei que fosse mais fácil. Também a
gente se imbute na cidade e é isso que acontece.
Uns minutos com a natureza e sente-se morrer de
cansaço e suor, pois sinceramente nunca transpi-
rei tanto, na minha v i d a . . .
Vera puxou e sacudiu a blusa na frente com
o indicador e o polegar e olhando para os lados
falou, suspirando fundo:
— Ah! se aqui tivesse uma piscina.
— Piscina não tem, não senhora, mas logo ali
na frente passa o rio Paraíba e na margem tem
algumas pedras bem grandes que estão formando
uma pequena bacia, todos dizem que até parece
feita pela mão do homem, pois é forrada de pedras
lisinhas e a água é branquinha. É bem razinho.
Olhe, é só seguir por esse trilho e já depara com
as pedras.

62
— É, acho que vou obedecer ao meu desejo e
tomar um banho. Não é perigoso, hein, Fernando?
— Qual o que. Todo mundo do sítio toma
banho lá. Até a criançada.
— Não tem cobra? Tenho pavor desse réptil.
— Nunca ouvi falar. Também cobra não faz
mal nenhum dentro da água.
— Fernando, faça-me um favor. Vá até meu
carro e traga-me uma sacola de brim azul. Está
no banco de trás.
Fernando voltou-se e começou abrir o mato
para passar quando a voz de Vera se elevou:
— Fernando, há perigo de aparecer alguém
por aqui?
— Nesta hora, não senhora.
— Está bem. Pode ir.
Fernando se perdeu no mato e Vera seguiu o
trilho.
Quando Fernando voltou, a primeira coisa que
viu foram as roupas e os sapatos da moça bem arru-
madinhos, encostados ao pé de um enorme tronco.
Olhou para as pedras, para a água e não viu
ninguém.
Tirou o chapéu e alisou os cabelos coalhados
de suor.
— Ué! Onde será que essa dona se meteu?
Deu mais alguns passos e chegou à beira do
rio e quase caiu dentro da água quando viu a mu-
lher do Prefeito dormindo nuazinha na aveludada
grama.
Sem saber o que fazer, bambaleando para fren-
te e para trás ele pensou em fugir dali e já estava
se voltando quando ela acordou e sentando-se de
repente, fitou-o com raiva.
— O que é que você está fazendo aí?
Fernando avermelhou até a raiz do cabelo e
mostrando a sacola, nem teve forças para falar.

63
— Ponha aí e vá embora.
— Está bem. — Fernando colocou a sacola
no chão, procurando desviar os olhos da mulher,
mas quando ela gritou, ele viu a cobra enrodilha-
da, com a cabeça levantada, com a linguinha ver-
melha e fina fora da boca, tremulando por todos os
lados.
— Não se mexa. Fique bem quieta.
Vera sentada com as pernas esticadas, um bra-
ço escondendo os seios grandes, redondos e firmes,
e com a outra esticada forçando a mão no chão,
ficou assim parada imóvel com os olhos fixos nos
olhos brilhantes de vidro daquele enorme rolo cin-
zento ali na sua frente.
Tinha medo até de respirar, e quando a viu
esmagada pelo jovem, dobrou o braço no rosto e
começou a chorar.
Fernando instintivamente ajoelhou-se e lhe
tocou timidamente o ombro, e o contato daquela
pele de seda, nas suas mãos ásperas e duras como
pedra, fez com que suas idéias se envolvessem em
um emaranhado, fechando o raciocínio e agitando-
lhe o desejo do macho e jogando-lhe o coração de
lá para cá fazendo-o pulsar tão alto que Vera le-
vantou o rosto assustada e não deu tempo nem
para abrir a boca, pois Fernando a esmagava em
seus fortes braços violentamente e jogando-a para
a grama, deitou-se em cima e apesar da luta a pos-
suiu e satisfeito, saiu numa disparada se embre-
nhando no mato e de longe, do alto de um morro,
alguns minutos depois, viu que quando ela ia en-
trar no carro chegava o Zé Carneiro.
Conversaram um pouco e Fernando até tre-
meu quando ela apontava para o lado do rio.
— Pronto, ela contou tudo.
Pensou em fugir, mas para onde? O negócio
era enfrentar e mentir.

64
Falaria que ela o procurara porque o achava
bonitão.
E era isso mesmo. Afinal era mesmo um pão,
como o chamavam as moças quando, aos domin-
gos, ele ia para a pracinha e ficava plantado na
esquina, com a roupa velha mas limpinha. E
assim pensando, ele foi em direção à casa grande,
mas quando lá chegou o carro azul desaparecia no
meio do verde e então ele resolveu contar para o
seu Zé Carneiro.
Mas não falou nada, pois pelo jeito que o seu
Zé o tratou, ele viu que nada acontecera contra ele.
— Olá, Fernando.
— Pois não, seu Zé.
— Você viu a mulher do Prefeito me procu-
rar? Ela disse que andou tudo por aí. e não viu
ninguém. Onde diabo você se meteu?
Fernando estufou aliviado.
— Eu estava no pasto. Fui em busca do ca-
valo. O sr. sabe como ele é fujão.
* * *
Os dias se passavam mas Fernando já não con-
seguia dar mais nem uma enxadada na terra, pois
vivia com o gosto da mulher no sangue.
Passava os dias andando pensativo, até que
um dia resolveu esquecer.
Embarcou para São Paulo e lá passou dois
anos mas não esqueceu.
Voltou para Fátima com boas roupas e um di-
ploma de secretário, que comprara com o dinheiro
ganho num bilhete de loteria, que por coincidên-
cia dera cobra. Procurara a mulher do Prefeito.
Ela nunca o recebia. Até que um dia a cercara
na rua e cinicamente a fez lembrar de tudo e que
se ele não arranjasse um emprego na cidade por
bem, arranjaria por mal.

65
Mostrou o diploma e ficou como secretário de
Vera. Mas bem longe dela. Ela o chamou só duas
vezes. Uma para ele acompanhar as senhoras da
sociedade local a um chá beneficiente e aquele dia
que a acompanhara na Delegacia e ele vira tudo.
Olho vivo e orelha à escuta e o coração sangrando.
Mas agora ia pagar-lhe. EÀÍ quis se fazer polícia
para mostrar que era importante. Pôxa, tinha
farda, quepi, até revólver. Sim, era polícia, era
importante, a arma na cinta lhe cochichava isso a
todos os instantes. Neste momento, ali junto do De-
legado, se fazia pequeno, se encolhia o mais não po-
der, se fazia humilde. Se dobrava quase até o
chão para poder adquirir a confiança do Delegado.
— Um segrede que só a amigos se confia. Es-
tou apaixonado por uma mulher casada e ela cor-
responde ao meu amor. Mas em resumo, ela é a
mulher do Prefeito e eu preciso estar com. ela hoje,
esta noite, agora; por isso quero que você me arran-
je um lugar, um lugar em que eu possa levá-la
sem que ninguém nos veja.
Fernando alisou de leve o bigode cheio que
lhe caía mais comprido nos cantos da boca.
— De modo que o senhor não tem nenhum
lugar para levá-la?
— É isso, isso aí.
— E n t ã o . . . — Fernando mordeu os lábios
para que as palavras morressem, pois ia pergun-
tar onde a levava as outras vezes.
— Então?
— Então confiou no amigo certo, pois posso
lhe emprestar a minha casinha.
— Ela é discreta?
— Por lá não se vê viva alma. É bem reti-
rada da cidade, fica quase à beira da estrada as-
faltada que vai para o sítio do seu Zé Carneiro,

66
quero dizer, à fazenda do seu Zé, pois ele comprou
toda a redondeza a perder de vista do sítio.
— Ótimo, vou telefonar para V e r a . . . Você
tem a chave?
— Que nada, Delegado. Lá não se precisa fe-
char nada. A porta só está encostada. A porta
da frente e a de trás.
— Maravilhoso! Quer dizer que vou pela es-
trada da fazenda e passando a igrejinha entro à
direita?
— É, Delegado, o senhor entra pela direita
porque pela beira da estrada só tem o pomarzinho,
não tem portão não.
— Olhe aí, Fernando, tome a chefia, volto da-
qui a uma hora.
Os olhos acesos de Fernando seguiram o De-
legado, depois dirigiram-se para o pessoal e gritou:
— Vamos, pessoal, não deixem nem um can-
to para vasculhar.

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CAPITULO VI

O Delegado estacionou o carro uma quadra


antes da casa do Prefeito e ficou esperando o car-
ro de Vera que se aproximava. Ela não parou e
foi seguindo a toda velocidade, fazendo o cérebro
do Delegado se abrir em um — Ah! deve ter acon-
tecido alguma coisa, por isso ela não parou como
combinamos para eu ir no carro dela. Bem, o
negócio é segui-la e o Delegado ultrapassou o car-
ro de Vera e ela o seguiu até a casinha. Israel
parou o carro e saiu correndo ao encontro dela,
abriu-lhe a porta do carro e ela nervosa, respiran-
do aos solavancos, com o rosto suado e vermelho,
falou:
— Porque você telefona, já lhe disse mil ve-
zes que estou sendo vigiada. Se descobrirem, não
me perdoarão. A cidade ama meu marido e se sou-
berem serão capazes de me linchar. Artur é o ir-
mão, o pai, o padrinho, o próprio Deus para eles.
— Que bobagem. Se a cidade se atrever a pôr
a mão em um fio de seus cabelos, eu juro que a
destruo.
Vera se acalmou um pouco vendo debaixo do
branco luar que os belos olhos de Israel brilhavam
excitados de ódio.
Sentiu-se forte e feliz como mulher, pois pou-
cas mulheres no mundo poderiam se orgulhar de
ter homens tão valentes e destemidos aos seus pés.
Ela o olhou enternecida com água nos olhos e cain-

68
do nos braços que se lhe estendiam até riu alto
quando o Delegado a levantou no ar e cruzando os
braços em torno de suas nádegas entrou com ela
na casinha rodeada de árvores altas envoltas pelo
negror da noite, fazendo-a escorregar um pouco,
um pouco só, até seus braços alcançarem a sua
cintura e apertandó-a fortemente contra ele, disse
de boca a boca:
— O que vale mesmo na vida, é amar você,
Vera, e viver para você, e ver, sentir cicatrizar de
uma só vez as feridas que o amor abriu nestes dias
que não a consegui ver e que agora só em pousar
meus olhos em seu doce rosto, tudo lá dentro está
calmo, suave, curado. — Israel soltou-a de leve e
ela volteou na salinha meio decepcionada.
Ele riu.
— Não gostou? Mas foi o que eu pude arran-
jar. É um lugar bem discreto.
Vera foi até a janela, abriu-a e olhou para as
sombras negras e amarelas lá de fora.
A casa pobre ou rica não tinha muita impor-
tância. Viera, para explicar a Israel que não po-
deria mais atender aos seus desejos. Viera rom-
per. Aquele seria o último encontro. Mas depois
de sentir a quentura das carnes de seus braços se
infiltrando em seu sangue, perdeu a coragem. Vol-
tou e a alta figura do Delegado, andando pela ca-
sinha, a sua voz vindo lá do que ela imaginava
ser um quarto, o seu olhar agora ali perto dela,
dominando-a, fez acender-lhe o desejo e apagar o
raciocínio e fechou os olhos quando ele começou
a desabotoar-lhe a blusa e amoleceu quando ele a
levou para a cama.
* * *
Quando o Delegado chegou à fábrica, depois
de duas horas, todos se admiraram de sua dispo-

69
sição. Deu uma piscadinha para Fernando, tra-
balhou como um louco, assoviando alegre, e dando
ordens com calma.
— Você aí, enfie a luzinha naquele b u r a c o . . .
— A luz não entra, chefe. Já tentei.
— Pegue qualquer coisa e alargue o b u r a c o . . .
Hei, amigo, onde estão as caixinhas de acrílico?
— Estão lá no carro, chefe.
— No carro, mas por que no carro? Traga-as
para dentro.
— Pra que, chefe?
— Ora, para que. Vamos enchê-las de Bar-
beiros.
— Mas se até agora não achamos nenhum.
— Mas vamos achar. Não se preocupe. Vá
buscar as caixinhas.
O homem foi e voltou com uma braçada de
pequenas caixas, transparentes.
— Pronto, chefe.
— Coloque-as aí, aí em cima. — O foco de
luz se espalhou por cima de uma mesinha que es-
tava encostada em uma parede carcomida, onde o
reboque se desprendia em enormes placas. Depois
o homem colocou as caixas na mesa, Israel fez com
que a luz amarela andasse por toda aquela região
e sentiu seu coração estremecer quando viu dois
minúsculos fios pretos se agitando no vão de duas
dessas placas. O Delegado não quis alarmar o pes-
soal com medo que o bicho pudesse fugir. Porisso
falou com voz baixa:
— Procure um pano grande.
— Serve um saco?
— Serve.
É pra já, chefe, pois no carro tem um bem
branquinho.
— Escute. Traga também pregos, martelo e
cola.

70
— Achou o bicho, chefe?
— Cale-se. Vá logo.
O homem voltou com as coisas e o Delegado
continuou em voz mais baixa, sem despregar a luz
da racha.
— Penso que o Barbeiro está aí, mas não diga
nada a ninguém.
— Aí onde, chefe?
— Aí na parede.
— Será que é ele mesmo, chefe?
— Não tenho muita certeza. Mas pretendo
descobrir o que vi mexer-se na fresta.
O homem pegou, abriu o canivete e foi andan-
do para a parede.
— Já, já o senhor viu é só eu enfiar a lâmina
e despregar essa lascona.
— Pare. Não faça isso — O Delegado falou
entre dentes. — Se você deslocar a placa natural-
mente ele cairá no chão e jamais o pegaremos.
Vá lá e chame o Fernando.
— O que é, hem, Delegado?
Se fosse em outra ocasião, o Delegado, pela
sua audaz perspicácia, sentiria que Fernando es-
tava diferente, atrevido mesmo, mas neste momen-
to ele estava concentradíssimo no seu trabalho,
porisso deu ordem de colarem o saco no local ra-
chado e por via das dúvidas pregarem à volta bem
junto com pregos.
Tudo pronto o Delegado suspirou aliviado e
pousando a mão no ombro de Fernando, falou com
naturalidade:
— Ali, atrás desse pano, está o assassino.
Amanhã, com a luz do dia, o tirarei dali e o mos-
trarei em praça pública. Todos verão quem é Is-
rael de Toledo.
— Opa, Delegado, o senhor fala com tanto
ódio. Até parece que detesta a cidade.

71
— Não detesto a cidade, Fernando, mas sim
algumas pessoas do povo, as que estão em cima,
os que formam a panelinha dos mandões. Ontem
se reuniram todos para me cortarem a cabeça ou
jogar o povo contra a autoridade, sem os fazerem
compreender que eu sou parte do meio de qual-
quer mal que prejudica esse mesmo povo. Na fren-
te a vítima, no meio a polícia e atrás, o assassino.
A polícia tem que defender a sociedade, mas uma
dúzia de imbecis fazem com que o povo reaja con-
tra o Delegado porque ele os quer longe da morte.
Tudo era segredo. O segredo que eu pedi ao Pre-
feito, mas no momento a cidade toda sabe que
existe um Barbeiro assassino. O povo anda em pâ-
nico. Isso não era necessário, pois eu posso garan-
tir, ou melhor, eu posso tomar medidas necessá-
rias à preservação da segurança da coletividade.
Para limpar a cidade desses insetos, não é preciso
mandar buscar em São Paulo o pessoal do Serviço
de Erradicação da Malária e Profilaxia da Doença
de Chagas como pretende o Prefeito. Nós mesmos
da cidade podemos formar um mutirão e limpar
a cidade.
O homem que estava atrás do Delegado e de
Fernando enquanto os dois andavam para a porta
de saída, aliás a única que havia na fábrica se em-
parelhou com o Delegado, dizendo alto:
— Seu Delegado, se esse tal de mutirão é fei-
to de tábuas, eu tenho um bruto feixe lá em casa.
Posso dar pro senhor.
Israel riu alto e pousando a mão no ombro do
homem, disse no meio da risada:
— Você não sabe o que é mutirão?
— Sei não, seu Delegado.
— Mutirão é isso que fizemos hoje. Ajuda mú-
tua. Todos reunidos para prestarem auxílio ao
povo. Você, amigo, é um cidadão que ama o seu

72
próximo, enfim é uma boa criatura, tem coração.
Faz o seu dever.
Os três saíram da fábrica rindo e o Delegado
deixando-os no páteo da frente, disse:
— Ah! estava tão feliz que até me esquecia
de chamar o pessoal.
Voltou para dentro do imenso salão envolto
na penumbra e fez com que todos subissem no ca-
minhão de Rubens e chamando Fernando, per-
guntou-lhe :
— Você sabe guiar?
— Sei.
— Então leve o pessoal, cada um a sua casa.

Sozinho o Delegado trancou a porta do salão


e passou a grossa corrente com cadeado e tudo,
colocou a chave no bolso, entrou no carro, passou
pelo portão, desceu do carro, entrou novamente na
fábrica e revistou as dependências do escritório.
Trancou todas as portas, o portão e assoviando,
partiu velozmente fazendo as curvas sem diminuir
as marchas, quando percebeu que todas as casas
estavam com as luzes acesas, colocou a cabeça fora
da janela e gritou:
— Só essa noite, gente! Amanhã o Barbeiro
estará esmagado! E com o meu pé, hein? — E
estufou o peito e respirando fundo, disse baixinho:
— Pois o assassino está lá colado e pregado, é só
arrancar um pedaço da parede e elè cairá, plim,
plim...
Corria, corria e em frente à casa do Prefeito,
deu um buzinadinha, e seguiu feliz se perdendo na
rua sombreada pelas grandes árvores.

Os galos cantavam longe, depois perto e ago-


ra mais perto, anunciando que com mais um gi-

73
rinho da terra, o sol apareceria com seus compri-
dos raios dourados, para amarelar e aquecer o dia
que surgia com o insurdecedor chilrear de passa-
rinhos e uma brisa leve cheirando zero a poluição,
quero dizer, cheirando a misturas de matos, ca-
pins e flores Passou pela veneziana e foi sacudir a
cortina de tergal rendado da janela do quarto do
Delegado e depois andou pelo quarto, passeou na
cama redonda forrada de lençóis azuis bordados
à mão e entremeados de rendas e acariciou seu
rosto de pele morena, onde as sobrancelhas ne-
gras eram bem marcantes acima dos cílios longos
que formavam riscos negros e grossos que se se-
paravam devagarinho mostrando nesgas escuras
e luminosas que cresceram e se arregalaram.
O Delegado pulou da cama e gritou:
— Luciana...
A mulher entrou no quarto com uma bandeja
cheia de coisas de café e como nos filmes, uma
rosa vermelha com cabo longo e duas folhas ver-
des, uma de cada lado do talo, bem à mostra, bem
na hora que Israel abria a janela e puxava a cor-
tina. No quarto todo claro ele nem reparou que
ela vestia o pijama de seda azul e a cama vestia
também azul, precisou Luciana lhe falar. Então
ele deu uma alisadinha no pijama e uma olhada
na cama e sorriu.
— Mas pra que tudo isso? — Seus olhos pou-
saram na bandeja que estava em cima da cômoda.
— Será meu aniversário?
— Não, querido. Hoje reiniciei a conquista de
meu marido. Com azul, flores e beijos.
E assim falando, Luciana envolveu com os
braços envoltos em renda o pescoço do Delegado
e procurou com sua boca trêmula a boca do ma-
rido, mas Israel se desvencilhou e segurando-lhe

74
os braços, pousou um beijo rápido em sua testa e
se vestiu apressado, falando:
— A polícia não tem tempo nem para essas
coisas, digo por hoje, pois tenho quase certeza que
hoje será o dia da vitória, pois agora estou indo
buscar o assassino. Que horas são?
Luciana, com os olhos cobertos de lágrimas,
não pôde nem falar que eram sete horas, pois a
dor do ciúme que sentia picar-lhe o coração subiu
e prendeu-lhe a voz, mas o Delegado já estava
transpondo a porta quando ela conseguiu levantar
o braço e mostrar o despertador.

* * *

Israel pulou ágil. do carro, abriu rápido o por-


tão e a passos largos foi em direção à porta da
oficina; sacudiu o cadeado, enfiou a chave, deu a
volta, tirou a corrente e entrou no silêncio e clari-
dade que cobria tudo. Dava para se ver até os mais
pequeninos desenhos nos milhares de cerâmicas.
Atravessando os largos corredores formados pelos
objetos arrumados de lado a lado, o Delegado che-
gou à parede onde estava o saco colado, mas es-
tacou assustado, sem compreender como tudo es-
tava despregado. Olhou para o chão e viu só al-
guns pedacinhos do saco, pois grandes pedações
de reboco cobriam tudo. Passou a mão pela área
da parede onde sò restavam os tijolos e procurou
raspar com a unha do indicador o que imaginava
serem buraquinhos. Abaixou-se e revolveu as
placas.
Fazia tudo maquinalmente.
Mas o que teria havido?
Arrancou o saco debaixo daquela montoeira
e levantando-o no ar examinou por longos minu-
tos. Os pregos estavam enfiados, então o que hou-

75
vera fora um desmoronamento natural. É, o inseto
estava com muita sorte. Chutou tudo dizendo:
— À noite eu volto e o encontrarei. Você
vai ver.

Fernando não quis deitar-se na sua cama de


casal, pois sentia que estouraria de ódio e seria ca-
paz até de matar o Delegado se sentisse o cheiro, o
cheiro do que eles tinham feito. E os sem-vergonhas
nem tiveram coragem de esconder os vestígios de
tudo. A roupa da cama, a única que ele possuía,
estava toda emaranhada e suja. Haviam usado a
fronha para se limparem. Cães! Cães! Cães! Es-
tava com tanto ódio que não conseguia nem fe-
char os olhos. Sorte que tinha trazido o caminhão
de Rubens. Iria sair um pouco para se acalmar.
E guiando o caminhão ele foi pensando como de-
veria matar os dois. Vera, que ele amava mais
que a própria vida, e o Delegado que a usava quan-
do lhe assanhava o sangue. E Fernando ia re-
moendo a raiva e arquitetando um jeito de pos-
suí-la mais uma vez, só mais uma vez. Mas como?
Ela nem o olhava. O tratava com desdém e até
mesmo com nojo. Lembrou-se do dia em que fora
entregar o bilhete do Delegado e a sem-vergonha, a
cadela vagabunda, o lera e sorrira toda acesa. Aí fi-
cou pensando como teria sido lá na cama dele, pelo
jeito que a encontrou deveria ter sido como um
vulcão. O estouro e o correr contínuo de lavras.
Duas horas de lavras. E Fernando parou o cami-
nhão e aí viu que estava bem em frente à fábrica.
Desligou o motor, tirou as chaves e quando pegou
o molho das chaves na mão, viu que cada uma ti-
nha um nome. Portão — Escritório — P. Ofici-
na. — Fernando apertou essa chave na mão até
senti-la quente, quente como as idéias que cres-
ciam dentro do seu cérebro.

76
CAPÍTULO VII

O Triatoma quando se viu fechado pelo saco,


começou a mover as finas patas, lentamente para
fora do rachado e conseguiu se agarrar nas bordas
de cal e impulsionar o pequeno corpo cheio de
veneno (pois tinha, minutos antes, picado um gato
tremendamente infectado pelo Trypanosoma Cru-
zi) para fora Ele enxergava muito bem naquele
escuro e porisso procurava um jeito de chegar até
um local onde sobressaía uma boa porção de re-
boco estufado e o Barbeiro sabia que debaixo da-
quele estofado estava a sua companheira que há
mais de vinte dias depositara vários ovos e aguar-
dava para breve a eclosão, que mostraria as nin-
fas que mais tarde se transformariam em adultos.
Para que as ninfas se transformassem em adultos
necessitava mais ou menos de noventa a trezentos
dias, conforme as condições da temperatura, umi-
dade e alimentação. Ela escolhera aquele local
para depositar os ovos porque era bem úmido e
escuro e isso ajudava muito em tudo. Agora estava
preso, sem condições de chegar ao ninho.
Esticava as patas e se agarrava bem longe, de-
pois ia arrastando o corpo, com muito jeito, pois
sabia que se encostasse suas asas na cola não sai-
ria mais dali. E nessa luta não ouviu e nem sen-
tiu o cheiro de sangue humano que se aproxima-
va e só sabia que nunca mais ia ver a sua compa-
nheira e seus filhos, quando uma forte luz de

77
lanterna o cegou e ele, foi obrigado por um pe-
daço de madeira manejado pela mão de um homem
a se despregar da parede e cair dentro de uma coi-
sa lisa, que por mais que ele se esforçasse não con-
seguia subir no que ele imaginava ser uma pa-
rede. Dentro do quadradinho de quinze centíme-
t r o por quinze centímetros o Barbeiro patinava
virando-se para todos os lados sem nada ver, mas
sentia-se ser levado cada vez mais longe das fres-
tas que há um ano e meio tinham sido sua casa e
ele girava, levantava as patas num esforço enorme
para se agarrar, mas resvalava caindo. Tentava no-
vamente, mais outra, mais outra e mais outra vez
caía desesperado com as antenas inchando e desin-
chando num desejo assassino de estourar outro co-
ração de ser humano.
O Barbeiro agora girava, movendo só as patas
da frente e as quatro de trás eram levadas somen-
te a se virarem mas sempre no mesmo lugar. Sem-
pre no mesmo lugar.

Fernando parou o caminhão em frente à sua


casinha, pegou a caixa com o Barbeiro dentro e
bem alegre, assoviando, entrou no quarto e olhan-
do para todos os lados, procurou um bom lugar
para colocar o Barbeiro decidindo pelo guarda-rou-
pa. Abriu-o, afastou o monte de roupas que ele
não usava mais e que estavam amontoadas no chão
do guarda-roupa, colocou a caixa devagar, pegou
com as duas mãos o monte de roupas e as jogou
em cima da caixa.

Os olhos do Barbeiro eram pequeninos e ago-


ra brilhavam de alegria, pois na escuridão ele via

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tudo, via onde estava prisioneiro e viu a montanha
de roupa o cobrindo inteiro. Como sair dali? E
novamente ele começou a esticar as patas em pin-
ça, mas as mesmas não fixavam nas partes lisas
da caixa. Mas ele não pararia. Ele haveria de sair
daquela caixinha de plástico transparente.

* * *

Fernando não se importou mais com a desor-


dem da cama, se atirou nela, fechou os olhos e
dormiu feliz, pois já tinha idéias brilhantes de
onde arranjar sangue humano para alimentar seu
prisioneiro.

* * *

Quando o Delegado saiu da fábrica, desiludi-


do com a perda do Barbeiro, seguiu diretamente
para a Delegacia, e assim que desceu do carro viu
Rubens encostado no murinho da frente que assim
que o avistou veio apressado em sua direção.
O Delegado relanceou o olhar em volta e viu
que tudo estava vazio e calmo. — É, o povo do in-
terior fica mesmo embotido em casa. Ninguém na
rua às oito da manhã. Ninguém não. Um só. Ru-
bens. — A antipatia pelo moço estava mais acen-
tuada, depois que ele descobriu que Rubens jan-
tava quase todas as noites na casa do Prefeito, com
o peito cheio de esperança de algum dia conseguir
amenisar a fervura de seu sangue nas carnes de
Vera. Porisso cumprimentou-o de má vontade e
foi andando para dentro da Delegacia, o que obri-
gava Rubens a falar andando atrás ou às vezes em-
parelhando com ele.
— Delegado, meu caminhão foi roubado e eu
já sei por quem!

79
O Delegado só queria ver se tinha razão, quan-
to ao caráter de Rubens, pois sabia que ele ia men-
tir, por isso perguntou logo:
— E quem o roubou?
— Gente da própria polícia.
O Delegado parou e virando o alto e bem feito
corpo para Rubens, disse:
— Falar assim da polícia é sério e grave.
— Não estou falando da polícia, estou falan-
do de um policial.
— Aposto que você vai falar que o nome do
policial é Fernando.
O Delegado continuou o caminho dizendo:
— Meu caro jovem, a polícia precisou dos ser-
viços de seu caminhão e sei que como você não
nega nada a S. Excia., 0 Senhor Prefeito, também
não se negaria a emprestar o seu caminhão por
umas horas ao Delegado. Fernando saiu com o
pessoal que eu intimei para formar um mutirão
para a procura do Barbeiro assassino às quatro da
manhã . Deve ter esquecido que eu lhe pedi para
deixar o caminhão na fábrica.
— Não foi a essa hora que ele levou o cami-
nhão e também nem sei se foi o Fernando.
— Como não foi a essa hora?!
— Ora, Delegado, alguns vizinhos viram al-
guém sair com o caminhão às seis horas e como
estava muito escuro não souberam dizer quem es-
tava na direção.
— Seis horas?! — O Delegado parou pensa-
tivo, com o indicador e o polegar apertando o lábio
inferior. Depois perguntou a Rubens:
— Quais foram os vizinhos que presenciaram
tal cena?
— Dois vizinhos que moram em frente à fá-
brica.

80
— Você os conhece bem, tem amizade com
eles, sabe seus nomes?
— Sei sim, Delegado.
— Então entre, Rubens, e me dê nome e en-
dereço dessas pessoas.
Rubens deu.
— Lá pelas quatro horas da tarde esteja aqui,
Rubens, pretendo convidar essas testemunhas a
deporem, pois desejo descobrir uma coisa que há
dias aguça a minha mente.
* * *
Às quatro horas, a primeira testemunha estava
sentada diante do Delegado. Declarou que às seis
horas da manhã ele passava rente às grades do
portão principal da fábrica citada e viu o cami-
nhão do seu Rubens saindo devagarinho pelo meio
fio, depois ganhou o meio da rua e em alta velo-
cidade, desapareceu lá longe.
— Você viu quem estava dirigindo?
— Não, Sr. O caminhão estava virado ao con-
trário.
— Ao contrário como?
— Eu estava atrás do caminhão.
_ Como sabe que era o caminhão do Rubens?
— Ah! pela chapa.
Falaram mais uns minutos, e o Delegado o
dispensou.

* * *
A segunda testemunha disse que vira o cami-
nhão parado em frente à fábrica às seis horas da
manhã, sabia bem as horas porque é neste horá-
rio que se levanta para ir trabalhar, e que estra-
nhou o caminhão estar do lado de fora da fábri-
ca, porisso ficou espreitando atrás da cortina da

81
janela de seu quarto para ver se estava acontecen-
do alguma coisa, e então viu que um homem
saiu, carregando alguma coisa nas mãos. Não co-
nhecia o homem, aliás talvez o conhecesse, mas
não deu para ver muito bem porque estava meio
escuro.
— Você conhece o Fernando?
— Que Fernando?
— O que trabalha aqui na Delegacia.
— Conheço.
— Seria ele?
— Acho que sim, porque o homem era alto e
magro, igualzinho a ele.
— E o que ele levava nas mãos, deu para ver
o que era?
— Não.
* * *
A terceira testemunha ofereceu-se espontanea-
mente e disse que era Fernando quem guiava o
caminhão, que ele vira Fernando entrar na fábri-
ca, e logo depois sair segurando alguma coisa nas
mãos que não sabia precisar bem o que era. Que
tinha a certeza ser seis horas, porque ele trabalha-
va até às cinco e vinha a pé do centro da cidade
até na sua moradia que era na mesma rua, além
da fábrica. Vira tudo porque ficara esperando Fer-
nando retornar de dentro da fábrica, pois preten-
dia pedir-lhe a correntinha de ouro com medalha
de Santo Antonio, que ele achara há alguns anos
no sítio de seu Zé Carneiro, bem perto do rio, jun-
to às grandes pedras. Mas que Fernando não lhe
dera chance de falar, pois sairá da fábrica como
louco, parecendo nada ver. Ficara até com medo
e se afastara, correndo.
O Delegado até esqueceu o caminhão para se
concentrar na medalha e fez perguntas em cima

82
de perguntas até que a testemunha disse que a
medalha se abria e dentro Fernando guardava um
segredo.
— Que segredo?
— Uma foto e um b i . . .
A testemunha olhou para Fernando que en-
trava com jeito de chefe e sem olhar para a teste-
munha que ficara pálida como um defunto, foi fa-
lando alto:
— Já entreguei o caminhão para o Rubens,
Chefe. Ia deixá-lo hoje de manhã lá pelas dez ho-
ras na fábrica, cheguei até a entrar para telefo-
nar para Rubens, mas a porta do escritório estava
fechada, então deixei-o lá em casa e agora o trou-
xe, ou melhor, deixei-o lá na frente da fábrica e
vinha conversar com o senhor, Chefe, para avisar
o Rubens, mas encontrei-o aí fora. Tá tudo em
paz, Chefe. — Foi aí que Fernando viu a testemu-
nha e o Delegado se impressionou da expressão de
pânico que varreu a face de Fernando, mas tam-
bém viu como ele se agarrou rápido no seu auto-
controle e disse rindo:
— Joaquim, amigo. Estava te procurando.
Passe lá em casa que vou te entregar a correnti-
nha. Tá? — Depois virou-se para o Delegado:
— Imagine Delegado, que o Joa, tem uma cor-
rente cofre. Cofre porque a gente abre a meda-
lha e guarda o que quer. Quero dizer, coisa pe-
quenina. Quando o Joa achou tinha a foto da An-
gela Maria. Aliás, ainda tem, não é, Joa?
Joaquim confirmou com um sinal de cabeça
depois de ver o olhar incendiado do policial, que
não passou despercebido ao Delegado, que disse:
— Bem, esse problema é de vocês. Você está
dispensado por hoje, Joaquim. Amanhã neste mes-
mo horário, volte aqui. Há ainda muita coisa a
esclarecer.

83
— Que horário, Delegado?
— Dezesseis horas, isto é, quatro horas da tar-
de. Preciso saber mais detalhes de suas declara-
ções e também sobre a cor..... Bem, bem. Amanhã
conversaremos.

Fernando saiu junto com Joaquim e no pé da


escadaria lhe disse:
— Olhe aqui, Joaquim. Bico calado sobre a
foto e o bilhete. O Delegado não pode saber que
no medalhão está a foto da mulher do Prefeito e
o bilhete.
— Por que, seu Fernando?
— Por que, seu burro, se ele souber, vai logo
adivinhar a quem pertence a corrente, e aí a en-
trega à verdadeira dona. Você não disse que já te
ofereceram dois mil cruzeiros pela corrente e a me-
dalha? Então você vende e pronto. Escute, te levo
a corrente hoje à noite em tua casa. A que horas
posso ir? "
— Acho bom lá pelas... Deixe pensar. Lá
pelas oito.
— Com quem você mora, hein Joa?
— Eu e a empregada. Quero dizer, a empre-
gada fica só durante o dia.
Fernando passou o braço direito sobre os om-
bros do Joaquim e lhe disse, rindo:
— Escute, e se eu levasse duas mulheres, hein
Joa? Conheço duas redondinhas, cheinhas. Uma
pra mim, outra pra você.
— Pra fazer o que?
Fernando parou no meio do pátio da Delega-
cia, abriu os braços e falou alto:
— Não vá me dizer que você é coluna do meio.
— Nem sei o que é isso.

84
— Viado, filho, viado. Você é?
Joaquim se benze, fazendo o sinal da cruz.
— Deus me livre, Sr. Fernando. Nunca vi ne-
nhum na minha vida.
— Então tá aí. Agora você sabe pra que vou
levar mulher, né?
Joaquim riu todo contente.

Escurecia quando Fernando disse para Lucia-


no quando os dois iam começar o plantão na De-
legacia:
— Escute, Luciano, segure a minha barra por
umas duas horas. Vou sair com o jipe da Delega-
cia, não conte pra ninguém, hein? Se o Delega
telefonar, diga que estou no banheiro, ou invente
outra. Se ele vier pessoalmente diga que fui cha-
mado para ir prender dois briguentos, etc. etc.
— Mas o jipe só pode sair com ordens do De-
legado.
— Deixe que me entendo com ele.

85
CAPÍTULO VIII

A noite estava bem escura e até parecia que


ela havia empurrado o céu para baixo e o céu em-
purrado as estrelas que brilhavam em milhares de
pontos luminosos que você teria a impressão de
que era só esticar o braço, para tocá-las. O ar pe-
sado e sufocante fazia com que as folhas, os frutos
e as flores e tudo na cidade ficasse quieto e parado.
Não andava a menor brisa, nem uma brisinha que
pudesse agitar qualquer coisa.
O Barbeiro estava imóvel na caixa, até quan-
do sentiu a aproximação do cheiro de sangue hu-
mano. Era Fernando que parava o jipe e entrava
assoviando, abriu a porta do guarda-roupa, jogou
o montão de roupa no chão e o Barbeiro começou,
a ver bem porque estava bem escuro; viu duas mãos
grandes e peludas tatearem o fundo do móvel,
agarrarem a caixa e o Barbeiro se sentiu carre-
gado no ar e viu a noite estrelada e viu a estrada,
viu as duas moças bonitas entrarem no jipe e viu
Fernando esconder a caixa entre as duas cadeiras
da frente, amassar um jornal e colocar em cima
dele. Agora o Barbeiro sentia que o jipe corria,
corria sem parar, não via mais nada porque o jor-
nal tapava tudo, mas ouvia as moças rirem e fa-
larem, rirem e falarem. Depois a parada brusca
com o ranger dos freios e o guinchar das rodas.
Ouviu as falas e as risadas se perderem ao longe.
Passados alguns minutos sentiu o jornal ser arran-

86
cado e então ele se viu novamente nas mãos de Fer-
nando, que encostou a boca bem na tampa da cai-
xa e disse:
— Barbeirinho, você está com fome, né meu
bem? Seu jantar está lá dentro. Será um jantar
de sangue, tipo A. Purinho, purinho.
Fernando contornou a casa, empurrou uma ja-
nela que já havia aberta por dentro, pulou-a e es-
condendo a caixa debaixo da cama, disse baixinho:
— Logo virei buscá-lo para o jantar, viu, bem?
E de lá o Barbeiro ficou ouvindo que todos
bebiam alegres na maior balbúrdia. Depois Fer-
nando trouxe alguém para o quarto e o jogando
na cama, falou alto:
— Ora, Joaquim, não pensei que você fosse
tão fraco. Uns copinhos de pinga e já cai duro.
Joaquim roncava.
— Isso, Joa, durma, durma o sono eterno e
dê lá um abração pro São Pedro, por mim.
Dizendo isso, ajoelhou-se no chão, esticou o
braço e o Barbeiro cegou quando foi puxado para
a claridade do quarto, sentindo que alguma coi-
sa raspava as suas patas; ele procurava se ape-
gar nessa coisa que era um barbante que Fernan-
do segurava tentando tirá-lo dali e o Triatoma às
cegas se agarrava, era suspenso, caía, se agarrava,
era puxado, caía, até que conseguiu se achar em
um lugar seguro, macio e suas antenas se infla-
mavam, tremiam ao cheiro de sangue humano.
Fernando enrolou o barbante, colocou-o dentro
da caixa a qual escondeu debaixo da túnica caqui
do uniforme militar; fechou a janela, apagou a luz,
fechou a porta e saindo na sala, disse às moças:
— Joa já está dormindo, vamos embora.
Os três, então bêbados, entraram no jipe sem
capota e Fernando guiava em zigue-zagues, fazen-
do com que as moças soltassem gritos agudos que

87
acordavam a maioria das pessoas que saíam às ja-
nelas e logo depois retrocediam sem acreditarem
que haviam visto escrito naquele carro — Polícia.
***

O Barbeiro via tudo.


Assim que Fernando apagou a luz, devagar,
bem devagarinho, foi subindo pelo corpo de Joa-
quim. Patinou na face suada do moço que dor-
mia. Não escolheu muito onde picar, porque a
fome não permitia.
Picou, sugou, sugou e ficou aí grudado. Joa-
quim não teve forças para coçar a dolorida picada
da face, mas também nem era preciso pois, quan-
do o Barbeiro se despregou com a barriga estufa-
da, deixou escapar uns pingos de sangue que es-
tavam tremendamente cheios de Trypanosoma Cru-
zi, que rolaram da face para a boca escancarada
que roncava para a morte e os Trypanosomas se in-
filtraram no organismo de Joaquim e quando che-
garam no miocárdio, se atiraram neles famintos.
Joaquim estrebuchou com as pernas em con-
vulsões, a boca retorcida, soltando ruídos anima-
lescos, as mãos como garras amarfanhando as rou-
pas da cama, os olhos desmesuradamente abertos
que foram aos poucos se cobrindo de uma névoa
diáfana que os cegou para sempre.
Quando o Barbeiro o sentiu rígido, gelado, foi
em busca de um lugar para se esconder e o achou
atrás do guarda-roupa numa frincha da parede.
* * *

O Delegado dispensou o pessoal que tinha con-


vocado para continuar na procura do Triatoma na
fábrica à meia noite. Preocupado e nervoso, ele
ficou sentado em uns tijolos perto do forno que

88
ainda estava quente. Tudo o que se passara nesse
dia lá na Delegacia aparecia ali na sua frente,
um pouco enevoado, sem muito contorno, pois ele
se sentia com a mente cansada e com sono, mas
fazia tremendo esforço para que as imagens não
fugissem para o sombrio; via a correntinha, o me-
do no rosto de Fernando, o pavor no rosto de Joa-
quim. Joaquim morava ali perto.
Enfiou a mão no bolso do paletó e tirando um
monte de papéis, levantou-se e espalhando-os em
cima dos tijolos, achou o endereço do Joaquim.
Resolveu visitá-lo.
Fechou tudo, entrou no carro e foi guiando
devagarinho, às vezes com a cabeça de fora para
ver os números. Assim mesmo demorou para
achar o local do número e quando o descobriu pre-
cisou descer do carro para ter certeza do mesmo,
pois um nevoeiro meio ralo começava a encobrir
tudo, de um branco misturado ao marfim.
Quando encontrou a casa do Joaquim, assim
envolta em neblina e coberta de silêncio, sentiu um
enrolado no estômago e gotas de suor sairem de-
vagarinho dos poros de seu belo rosto bronzeado,
onde o vincado permanente lhe dava um ar de ma-
chão, de força, de apoio.
O Delegado tocou a campainha uma, duas,
três vezes, mas como ninguém atendesse:
— É, deve estar dormindo. Coitado, teve um
dia bem desagradável, ficar esperando horas na
;
Delegacia para prestar declarações, depo s as per-
guntas, perguntas, perguntas, depois a mente tra-
balhando. — Fiz bem? Deveria ter ido até a Delega-
cia, deveria ter falado? — Geralmente as pessoas
que são intimadas a depor na polícia ou na justiça,
não conseguem por longo tempo a deslocação de
pensamentos. Em sua mente só se encravam os
pensamentos do problema que a lei o levou a par-

89
ticipar. Nestes dias a pessoa torna-se insegura,
indesejável; desprezada e cansada.
É, Joaquim deveria estar sentindo-se assim,
porisso dormia tão pesado que não ouvia nem a
campainha.
— Bem, amanhã nós nos encontraremos. —
Olhou para o relógio. — Quero dizer, hoje nos en-
contraremos.
E ,o Delegado foi para casa, deitou-se e dormiu.
* * *

Dormiu. Logo acordou com a mão da mulher


em seu ombro.
— Israel, acorde, Israel.
Abriu os olhos, suspirou fundo.
— O que é?
— Telefone.
Levantou a cabeça, mas a mesma pendeu mole.
— Israel. — A esposa continuava a sacudi-lo.
— Ah! Já sei, telefone. Quem é?
— Da Delegacia.
Israel pegou o fone e a voz saiu enrolada:
— O que é, hein?
— Sou eu, Chefe, o Sílvio.
— Ah!
— Desculpe acordá-lo, chefe, mas é que o Fer-
nando . . .
O cérebro do Delegado se abriu e logo os olhos
adquiriram esperteza, sentou-se rápido na cama.
— Que aconteceu com Fernando?
— Ele não está aqui.
— Não está aí? Como assim?
— Pensei que estivesse com o senhor.
— Comigo?! Mas afinal é aí na Delegacia
que ele deveria estar. Hoje é plantão dele, não é?
Então...

90
— Mas é que ele saiu antes das oito e até ago-
ra não voltou, saiu com o . . . o . . .
Sílvio engasgava.
— Saiu com o que, homem de Deus, fale logo.
— Bem, e l e . . .
O Delegado gritou:
— Fale logo, Sílvio, acabei de me deitar. Fi-
quei na fábrica procurando aquele maldito bicho
até agora e vem você com essa delonga toda. Fale
logo. Não me deixe sair fora do sério.
— Ele saiu com o jipe.
— Isso é um absurdo. Já dei ordens para que
nenhum funcionário use o carro da polícia sem
minha autorização. Onde ele foi?
Israel falava enquanto acendia o abajour e
olhava o relógio de pulso.
— Não sei, chefe. Eu estou pensando, já que
não está com o senhor, que talvez ele tenha sofrido
algum acidente.
— Que nada, em cidade pequena, qualquer
acidente sabe-se logo. — Israel, sem despregar os
olhos do reloginho, continuou: —Olhe, são quatro
horas. Fernando deve estar enfiado em algum lu-
gar da cidade, não se preocupe. Lá pelas oito es-
tarei aí. Daí veremos.
***

Assim que chegou à Delegacia, Israel sen-


tou-se irritadíssimo na cadeira giratória e a fez
ir de lá pra cá com toda força.
Queria assim amenizar as frustrações e as hu-
milhações. Humilhações vindas de um simples in-
seto. Um inseto assassino. Mas seria mesmo um
assassino? E o Delegado. está ali com os olhos fi-
xos no nada e o cérebro estilando ligeiro num ro-
damoinho louco. Porque estava com tanto ódio de

91
um inseto quando esse mesmo inseto obedecia aos
seus próprios instintos na procura de algo que pu-
desse matar sua fome? Se a natureza o fez hema-
tófago o que poderia o coitado fazer?
Mas ele teria que encontrá-lo. Ele era auto-
ridade. Ele era a parede que deveria estar na fren-
te do inimigo do povo.
E o Barbeiro era o inimigo. O Barbeiro já
matara duas pessoas da comunidade que estava
coberta pelo seu corpo. Ele teria que achá-lo. Este
dia era o terceiro dia. O dia em que ele teria que
levar até aos pés do malditto Prefeito e dos de sua
corja o Triatoma cinzento e negro que estava es-
condido em algum lugar da cidade.
E ele o levaria, jurava que o levaria. Levaria,
mas como? E a cadeira se agitava mais e mais
enquanto o Delegado continha a custo a explosão
que em arrancos queria se extravasar de seu peito,
de sua alma, de seu coração.
— Chefe.
A cadeira parou e os olhos vieram lá do infi-
nito, pousaram na figura do soldado e a voz saiu
azeda:
— O que é? ,
— Telefone.
Pegou o telefone e seu rosto foi avermelhando
e os olhos brilhando de raiva.
— Aí, seu Delegado — a voz de mulher do
outro lado do fio — ele encostou o jipe bem debai-
xo da minha janela e começaram a se agarrar, os
sem-vergonhas. A loira ria como nunca se viu, ou-
via-se a quilômetros de distância e os beijos então,
eram um ranger de dentes que não acabava mais. —
E a mulher, animada pelo silêncio do Delegado, con-
tinuava: — O senhor precisava ver, quando o sol-
dado alargou o decote do vestido da loira e puxou
os seios dela para fora. É um desaforo para nós,

92
gente de bem, para nós que pagamos impostes,
impostos de renda, para nós, gente direita de fa-
milia de linha, ver essas coisas. Principalmente
eu, que apesar de ter quarenta anos, posso me ga-
bar de nunca homem algum ter tocado, nem com
as pontas dos dedos no meu corpo. E depois no
jipe da policia, é isso que a gente ganha em pa-
gar os da lei direitinho. Eles podem fazer o que
querem. E nós? Imagine se era outro, um outro
qualquer. O Maneco, por exemplo, que trabalhava
no armazém da esquina, um dia tinha levado com
o cacetete da polícia só porque estava sentado no
jardim de mãos entrelaçados com a namorada, a
filha da dona Joaninha, a mulh...
— Está bem, minha senhora. Prometo que
isso não acontecerá mais. Agora mesmo vou pro-
videnciar que esse policial seja exonerado pelo bem
da polícia.
Desligou o fone, vermelho de raiva e saindo da
sala, foi até o páteo. O jipe não estava lá. Entrou
no seu próprio carro e acelerou em direção à casa
de Fernando.
Bateu na porta. Rumores de passos e a porta
se abrindo e a figura de Fernando enrolando uma
toalha nos quadris apareceu. Quando viu o Dele-
gado, o sorriso se alargou:
— Entre, entre, Delega, quem foi que disse que
estou com duas boazudas, hein, malandrão? Pode
ficar com elas, já estou que não me agüento em
pé. Veja.
E Fernando fingindo que cambaleava cruzava
as pernas. — Veja veja Delega — mas vendo o cara
do Delegado, se assombrou e uma palidez meio
amarelada se espalhou pelo seu rosto e a voz saiu
aos arrancos:
— Que... que há? O Triatoma matou mais
alguém?

93
As moças entraram na sala arranjando as
roupas.
— Mande essas vagabundas embora, se vista
e leve o jipe para a Delegacia, vou lhe dar trinta
minutos... Espero-o lá.

Fernando entrou na sala do Delegado com a


fisionomia alegre e tranqüila, pois os colegas ha-
viam lhe dito lá no páteo, que a bronca era por
causa do jipe e das mulheres, então ainda não sa-
biam que Joaquim estava morto, aliás nem ele sa-
bia. Mas o Barbeiro estava tão faminto!
— Então, Delegado, que há mesmo?
— O que há é que a polícia não precisa mais
de seus serviços.
A alegria no rosto de Fernando foi coberta por
um ar cínico.
— E posso saber porque a polícia não precisa
mais de mim?
— Porque ela não admite que seus represen-
tantes se portem como cães no cio, na rua.
— Palavras pesadas, Delegado. Mormente
quando vêm da boça de alguém que não tem ver-
niz na cara.
O sangue se acumulou no rosto de Israel.
— Não torne a pronunciar semelhantes pala-
vras, amigo. Agora assine aí a sua demissão.
Fernando não se mexeu.
— Você não ouviu?
Israel deu um murro na mesa com a mão fe-
chada e tudo pulou.
Fernando apertou os lábios e falou estrangu-
ladamente por entre os dentes cerrados:
— Se você me obrigar a assinar esse papel,
eu levarei um certo bilhete ao sr. Prefeito.

94
Israel levantou-se como se impulsionado por
uma mola.
— O que você disse?
— Que o bilhete que você escreveu para sua
amante eu mandei tirar, ou melhor, eu tirei um
xerox e ele está bem guardado lá, dentro da me-
dalha do Joaquim.
O Delegado olhou-o petrificado e gritou:
— Vá buscar esse bilhete agora, é uma ordem.
Fernando saiu, batendo a porta.
Ficou algum tempo pensando, depois chamou
um policial e escreveu rápido uma ordem para Joa-
quim se apresentar na Delegacia.
* * *
O policial voltou depois de meia hora; entrou
na sala do Delegado vermelho e excitado, falando
tudo enrolado e com os olhos arregalados e suan-
do por todos os poros.
— Que diabo aconteceu, homem de Deus, sen-
te-se aí, i s s o . . . Rui, traga-me água. B e b a . . .
pronto... agora fale com calma.
— J o a . . . J o a . . . Joaquim está mortinho, seu
Delegado. Nunca vi um defunto tão feio assim!
Os olhos dele estão revirados para cima, aparece
quase só o branco. Nos cantos da boca, montinhos
de sangue, o rosto todo inchado, deste tamanho,
horrível, horrível.
— Mas você tem certeza que ele está morto?
— Sim, Delegado, eu o apalpei, está duro, duro
como pau.
O Delegado e dois praças, foram para a casa
de Joaquim.
Assim que o Delegado entrou no quarto e viu
o morto deitado na cama, com a aparência de um
animal disforme, sentiu que um tremor o sacudiu

95
todo, e ficou parado no mesmo lugar sem movi-
mentos. Pensou em pegar o maço de cigarros no
bolso de trás da calça. Bolso de trás? Não, no
bolso do paletó. Não. Ah! nem se lembrava
onde estavam os cigarros. Talvez, talvez... Não,
não conseguia se lembrar, o cérebro fechado, os
membros pesados. Por que aquela cena o deixava
assim petrificado? Ele que estava acostumado a ver
as cenas mais tétricas, ficar assim, paralisado!
Por que? O que de diabólico, de louco, estaria ali
junto daquele morto?
— Chefe, oi chefe. Tem uma porção de gen-
te aí fora. Um deles diz que...
O policial parou de falar e ficou olhando para
o Delegado boquiaberto. Depois suspendeu o bra-
ço e pousou a mão no ombro de Israel. Este virou a
cabeça e seus olhos fixaram o seu assistente, dizen-
do com voz fraca:
— Meu Deus, Rui, mais um horrível crime sobe
às minhas costas. Só peço a Deus que não tenha
sido obra do Barbeiro. Chame o médico legista.

O médico nem precisou examinar nada. Disse


categórico: — Morto pelo Triatoma.

O Delegado ficou sozinho na casa de Joaquim


e começou a procura do assassino.

96
CAPITULO IX

Fernando, assim que saiu da Delegacia, foi


para um telefone público e ligou para a casa do
Prefeito. Vera atendeu:
— É a Dona Vera?
— Sim, quem está falando?
— Tenho um recado do Delegado.
— Mas, quem está falando?
— Não se preocupe. É um amigo do Delegado.
Ele pede para a senhora ir imediatamente para a
casinha da estrada. A senhora sabe qual é?
— Sei, sim, Mas tínhamos combinado nos
encontrarmos às dezesseis horas, por que ele mu-
dou de idéia?
— Bem, isso não s e i . . . A senhora vai?
— Diga para ele que estou indo para lá.
Fernando desligou, pegou um táxi e mandou
que corresse a toda velocidade para a sua casinha.
Enquanto o carro corria, ele ia pensando.
— Que desavergonhada, falei no homem e ela
ficou toda assanhada, É por isso que não quero ca-
sar. Esses mandos imbecis, esses burros, chifru-
dos. Imagine só, o Prefeito. Anda com o peito es-
tufado, bufando para todos os lados, falando tão
bonito na televisão, tão bem vestido. Pôxa, cada
terno. Tudo comprado no estrangeiro. Lembrou-
se um dia que o Prefeito se desabafou com ele:
— Olhe, Fernando, vá até o Instituto Fisico-
terápico e marque dias certos para eu fazer ginás-

97
tica. Estou com uma b a r r i g a . . . Minha mulher
já reclamou. Mas a gente se metendo em polí-
tica, não tem tempo nem para tratar do físico.
Fernando riu quando a imagem do Prefeito
se fixou na sua mente, entrando no instituto. Na
porta o carrão preto luzidio com o emblema da Pre-
feitura nas duas portas e emblemas pintados de
vermelho, azul e verde. Tão lindos! Depois o Pre-
feito saindo contente, todo sorrisos. — Oh! Fer-
nando, estou leve como uma pluma. — Um dia de
ginástica, mais um dia, mais um dia, e o povo fo-
foqueiro. — Ah! o Prefeito. O Prefeito vai só tratar
de se embelezar. A cidade, coitada, um tremendo
desleixo! Ruas esburacadas, cada cratera deste ta-
manho! Esgotos correndo como riozinhos pelas
beiras das calçadas. Praças mortas peladas, com
os banheiros públicos fedendo a quilômetros de dis-
tância. Água, neca. Imagine, ali mesmo apare-
lhando a cidade caem cascatas com água limpinha,
era só encanar.

Não houve o quarto dia de ginástica.


Coitado do Prefeito, porque não pôde conser-
var a elegância, perdeu a mulher. Agora estava
bem pior. Barrigudo e chifrudo. Fernando ria
tanto que até assustou o chofer que olhou pra trás
e perguntou:
— Que foi, moço?
— Nada, nada, ou melhor, a cidade toda vai
rir num futuro bem próximo, como eu estou rindo
agora e você também mostrará os dentes, amigão.
Já dentro de casa, Fernando arrumou aqui e
ali, mas logo se escondeu na cozinha, quando ou-
viu o carro frear e Vera entrar mais linda do que
nunca, corada, com os olhos brilhantes, ajeitando

98
os cabelos e olhando para os lados, chamando com
voz dengosa:
— Israe, e, e, el.
Fernando a viu sentar-se, cruzar as belas per-
nas apertadas na saia justa, onde aparecia o ro-
sado das coxas, fez o sangue jogar o seu coração pra
cima e pra baixo, furiosamente.
Vera tirou o estojo de pó-de-arroz da bolsa e
passou pelo rosto; quando levantou o rosto este se
cobriu de um ar surpreendido quando seus olhos
se encontraram com os de Fernando, que estavam
vestidos de cinismo. Quando Fernando falou, sua
boca se repuxou num sorriso velhaco.
— O Delegado me mandou, para lhe falar que
ele vai se demorar um pouco.
Vera apertou o lábio inferior com a carreira
de dentes branquinhos e perfeitos e fez menção de
levantar-se. Mas Fernando ameaçando-a com o
indicador em riste, falou:
— Não, não, não se vá. O Delegado disse-me
que se eu a deixar ir embora, ele me mete na ca-
deia.
Vera voltou a se acomodar, desta vez à beira
do sofá, meio assustada, pois ainda guardava cer-
to receio de Fernando, principalmente quando via
aquele olhar apertadinho, com reflexos maliciosos.
— Mas se ele estava ocupado, porque mandou
que eu viesse? Não poderei esperar mais que dez
minutos.
Fernando alisava as pontas do bigode e de pé,
sem sair da frente de Vera, respondeu:
— Se ele não vier e m , . , e m . . . espere aí, va-
mos dar uma chancezinha pro coitado. Digamos:
Vinte minutos. Se nesses vinte minutos ele não
vier, eu a deixo ir.
Sentou-se perto de Vera, e seus olhos não a
deixavam.

99
Vera mexeu-se sem graça, tossiu, abriu a bol-
sa, remexeu lá dentro, tirou um vidrinho, abriu-o
fechou-o, colocou-o novamente dentro da bolsa
apertou o fecho e relanceou os olhos pela sala e
viu então Fernando levantar-se, ir até a porta da
frente, trancando-a.
Vera pulou do sofá.
— Pra que isso?
— Sabe que você está magnífica? Magnífica.
A única palavra granfina que sei falar. E sei que
ela significa... Até me esqueci. Mas isso não vai
interessar em nada ao que quero. E você sabe o
que quero, não é?
Vera tornou-se pálida e trêmula. Levou a mão
direita à garganta e a apertou levemente, para que
a voz pudesse sair, e a voz saiu baixinha e fraca:
— O que você quer?
Fernando veio mais perto e pegando-lhe as
mãos, apertou-as contra o seu coração e disse res-
pirando alto:
— Sinta as batidas do meu coração, — f o i
com o corpo mais para a frente e se encostando
em Vera — meu abrasamento, e você saberá.
— Solte-me. — Vera tentava arrancar as
mãos. — Solte-me, pois ao contrário você vai se
arrepender.
Fernando largou as mãos, mas agarrou-a pela
cintura e apertando-a com força, espalhou por todo
seu rosto, beijos vorazes.
— Largue-me, seu cafajeste, seu bastardo...
Fernando jogou a cabeça para trás num riso
louco.
— Ah! só dá pro Delegado, né, minha boneca?
Vera desvencilhou-se e quando Fernando ten-
tou agarrá-la novamente, escorregou no tapetinho
e caiu, mas conseguiu segurar a barra da saia de

100
Vera e a puxando, com força, fez com que a mes-
ma se abrisse de alto a baixo.
Assim, quase nua, a moça correu desesperada
para a cozinha, mas a porta estava trancada com
um pau que ia de um lado a outro, que tentou le-
vantar, sem conseguir,
Então segurou a maçaneta e sacudiu-a, só pa-
rando quando sentiu, bem ali no seu pescoço, a
respiração de touro, voltou-se e com as duas mãos
empurrou Fernando e voltou tentando sair aflita
pela porta da frente, mas estava sem chave, des-
vairada procurou uma saída mas recuou estupe-
fata quando ela viu Fernando tirar um bilhete do
medalhão e ler:
"Vera amor.
Por que não viestes? Estou louco por aper-
tá-la novamente em meus braços e sentir em meus
lábios o calor dos seus.
Sinto ainda o frenesi de suas carnes envol-
vendo as minhas.
Amo-a.
Seu para sempre
Israel."

— Está aí. Por aí você pode ver que aquele


bilhete que você leu, rasgou e queimou os pedaci-
nhos na minha frente, era o xerox deste. Este é
o verdadeiro e se você não for bem boazinha co-
migo, seu marido saberá tudo, tudo, tudo.
Vera conseguiu voltar ao normal e com os den-
tes cerrados, falou:
— Saia da minha frente, meu marido não vai
acreditar nas palavras de um sub-homem, de
um...
Fernando foi avançando, rindo, com os dois
braços estendidos, mas Vera correu em direção à

101
cozinha novamente e num esforço tremendo, con-
seguiu arrancar a tranca e com o pau na mão,
gritou:
— Juro que lhe dou uma paulada se você se
aproximar.
Fernando se aproximara e recebeu uma forte
paulada na mão, que o fez gemer de dor, raiva,
mas o desejo da mulher cresceu e ele arremessou-
se contra Vera que, possuída de uma cólera fre-
nética, dava pauladas para todos os lados.
Fernando, com os braços dobrados diante do
rosto, ia recuando de costas e Vera então aprovei-
tou, virou a maçaneta com uma mão e dando-lhe
uma última paulada, abriu a porta e como uma
louca saiu correndo, entrou no carro, sorte que o
tinha deixado aberto e com a chave no contato.
Bendito costume que não conseguia refrear, o de
deixar a chave no carro, assim ia pensando en-
quanto acelerava e azulou pela estrada a fora.
Só em casa viu que tinha esquecido a bolsa, é
com as mãos ainda trêmulas e os olhos cheios de
água, ligou para a Delegacia.
— O Delegado está na casa do morto.
— Morto?! Quem morreu?
— Seu Joaquim.
— Me dê o endereço.
— Quem está falando?
— O que interessa?
— É que ele deu ordem para não dar o ende-
reço pra ninguém. Nem para a mulher dele.

Vera atirou-se em cima do chaise-longue e seus


soluços se espalharam pela sala.

* * *

102
Fernando enfiou o bilhete do Delegado em um
envelope, andou até a Prefeitura, chamou um me-
nino e disse:
— Entregue essa carta ao Prefeito e ganha
esses dez cruzeiros. Olhe, o Prefeito está ali na
porta conversando com aqueles três homens.
O menino pegou o dinheiro e correu para o
Prefeito.
— Prefeito, Prefeito, aquele homem mandou
dar esta carta pro senhor.
Artur olhou, alias todos que estavam à sua
volta olharam para o ponto que o menino indica-
va com o dedo em riste, mas Fernando já havia
desaparecido. O Prefeito deu a carta ao seu se-
cretário, dizendo:
— Deve ser mais um pedido de emprego ou
ajuda a algum pobre. Trate do caso.

103
CAPÍTULO X

O Delegado andou pelo quarto escuro, falan-


do alto.
— Tenho que encontrar esse demônio. Não
posso passar por mais humilhações diante do povo.
Também não posso esperar por um milagre, o ne-
gócio é continuar procurando.
Parou no meio do quarto e levantando os bra-
ços, fechou os dedos e com as unhas se encravan-
do na palma da mão, gritou:
— Sei que você está aqui, Barbeiro assassino.
Aqui neste quarto, escondido numa frincha de pa-
rede, na madeira da cama ou num buraquinho
qualquer. Isso mesmo, Barbeiro, vamos ver na ca-
ma, no colchão, no guarda-roupa, no tapete, nos
criados-mudos, na cortina, nas frinchas do assoa-
lho, no rodapé. Vou procurar em tudo, tudo, Bar-
beiro. Você está me ouvindo? Em tudo. Hoje
você não me escapará, juro.
E o Delegado se virava para todos os lados,
arrancando as roupas da cama, puxando o colchão
e jogando-o no chão, arrancando as cortinas, abrin-
do o guarda-roupa e jogando as roupas para todos
os lados, continuando a gritar: — Te pego hoje,
maldito demônio, te pego hoje.
* * *
O Barbeiro sentia o cheiro de sangue humano,
e se mexeu inquieto dentro do buraco da parede,

104
mas sentindo o sangue de Joaquim se balançar lá
dentro, viu que estava alimentado por vários dias,
porisso colocou a cabecinha para fora e agitando
as antenas ficou revirando os olhinhos redondos e
brilhantes, se divertindo com a fúria do humano.

O Delegado enxugou o suor do rosto e em de-


sespero, gritou:
— Meu Deus, meu Deus, iluminai-me para que
eu possa encontrar uma arma, uma arminha por
mais insignificante que seja, para exterminar esse
miserável.
Iluminai-me Deus, iluminai-me. Iluminar.
Sim, a luz, era isso mesmo, a claridade. Israel
correu e escancarou as duas janelas, fazendo o
quarto, agora sem as cortinas, se cobrir de uma
claridade bem amarela, pois o sol estava tremen-
damente forte lá fora, com os raios pontudos e es-
caldantes.

• • •

O Barbeiro sentiu-se em pesada escuridão, ten-


tou se arrastar para o fundo do buraco, mas uma
de suas antenas se prendeu em um montículo de
reboco que sobressaía na fenda da parede. Ele se
esticou, uma, duas vezes para dentro, mas não con-
seguia se mover nem um milímetro,

Israel esfregava as mães. alegre.


— Claridade é a maior arma contra esse assas-
sino, e agora, avançar, Israel, e não deixe um can-
tinho sem uma espiadinha.

105
O Delegado deu um passo em direção ao guar-
da-roupa e sentiu que os tacos aos seus pés se mo-
viam. Olhou e viu-os soltos. Abaixou-se e levan-
tando, mexeu na imensa quantidade de poeira com
um outro taco.
Todos os tacos soltos foram levantados e exa-
minados. Depois o rodapé, nos lugares que esta-
vam deslocados da parede. Também ali era só
poeira. Israel voltou sua vista para o guarda-rou-
pa, que já estava aberto. Pegou a caneta do bol-
sinho da camisa e a enfiava em todas as brechas.
Até que em certo lugar ele empurrou a caneta com
tanta força que fez com que uma tábua de trás do
móvel, se desprendesse, mas não caiu no chão, fi-
cando com a parte de cima encostada na parede,
quase cobrindo uma fenda curta e escura.
O Delegado desencostou o guarda-roupa e a
claridade invadiu o buraco. Então Israel apertou
com as duas mãos o peito, pois as vibrações de seu
coração quase o sufocavam. Então o Delegado,
sentindo que as lágrimas corriam de seus olhos,
riu, dizendo: — Barbeiro, você está aí. Eu te en-
contrei, Barbeiro, te encontrei, assassino demo-
níaco.
— Ei, Delegado! O senhor está aí?
Sem despregar os olhos do Barbeiro, Israel res-
pondeu :
— O que quer?
— Sou vizinho aqui da casa ao lado. Ontem
à noite vi o jipe da polícia partir da frente da
casa do seu Joaquim em disparada e ao passarem
pela minha casa o homem que dirigia jogou uma
caixinha na calçada. Eu a apanhei e joguei ali
num terreno baldio, mas hoje quando soube que o
Joaquim estava morto, fui buscá-la, pois talvez sir-
va para alguma coisa.
— Traga-a aqui.

106
— Por onde passo?
— Pule a janela.
O homem pulou e entregou a caixa, meio re-
ceoso.
— Agora saia.
O homem saiu e falou pra todo mundo que o
Delegado estava chorando, mas as lágrimas do De-
legado secaram logo quando ele viu que a caixinha
pertencia à Delegacia. Era uma daquelas que ele
escolhera para levar na fábrica. Só quem poderia
estar com a c a i x a . . . Sim, Fernando. Fernando
iria lhe contar tudo, tudo mesmo, nem que para isso
precisasse arrancar-lhe a língua. Mas que valia
se preocupar agora, com tal sujeito, quando a vi-
tória, a glória, a sua honra de policial estava ali,
ali bem na sua frente. Mas como tirá-lo de lá?
Aí lembrou-se do folheto que estava em seu bolso.
Folheto de noções sobre o Triatoma. Pegou e ficou
com os olhos fixos na figura do grande inseto e
reparou bem que em cada pata, o inseto tinha uma
pinça. Então procurou um fio. Não o encontran-
do, rasgou um pedaço de pano qualquer e desfian-
do, ajuntou um pouco de fios e os passou pelas pa-
tinhas da frente do bicho, pois eram as únicas que
estavam de fora.

sjí sfc jfc

O Barbeiro, que estava imóvel, preso, sentiu


naquilo que lhe raspava as patas, a salvação, por
isso agarrou-se com força, sendo erguido no ar pelo
Delegado que cuidadosamente o colocou na caixi-
nha; fechou-a rapidamente, embrulhou-a em uma
toalha e sobraçando o precioso fardo, entrou no
carro e seguiu à toda pressa para a Delegacia. Nem
bem acabara de entrar, um investigador lhe deu o
fone.

107
— É para o senhor, Delegado, dê cá essa toa-
lha que eu seguro.
— Não, não. Mande esperar, ou melhor, per-
gunte o que quer. Se não for nada importante, des-
ligue. — E assim falando, o Delegado entrou na
sua sala. Desenrolou a caixinha, olhou-a bem, viu
o horrível inseto fazendo o maior esforço possível
para sair. Riu; colocou a caixa em uma gaveta,
trancando-a e colocando a chave no bolso, levan-
tou a cabeça e fitou o investigador que disse:
— É a mulher do Prefeito e parece que está
chorando.
As mãos do Delegado tremiam e sua fisiono-
mia se vestia de uma palidez mortal, quando ele
ouviu Vera dizer:
— Aconteceu uma coisa horrível, preciso fa-
lar com você agora.
— Mas o que é, o que você tem, meu amor,
não chore. Diga onde devo esperá-la. Quer que
eu passe por aí?
— Não, não, pelo amor de Deus. Me encon-
tre atrás da igrejinha.

• • •

Vera desligou o fone violentamente e ia sain-


do apressada, mas estacou como se um raio tivesse
lhe atravessado o caminho, quando deparou com
o marido parado erecto em sua frente. Fitou-o com
os olhos arregalados, sentindo os pulos desenfrea-
dos de seu coração.
— Que há, querida, assustei-a? — O Prefeito
sorrindo abraçou-a, continuando a falar: — Está
doente? — Pousou-lhe as costas da mão na testa.
— Santo Deus, parece estar com febre, você está
queimando. Vá deitar-se, que mandarei vir o mé-
dico.

108
— Ora, querido, não se preocupe. Estou ape-
nas com um leve resfriado. Estava saindo para ir
buscar mamãe, ela irá comigo ao médico. Se de-
morar um pouquinho não se preocupe, pois depois
do médico pretendo levar algumas prendas que es-
tão no meu carro, para a igreja.
* * *
Vera desceu do carro tropeçando na barra lar-
guíssima da calça, amaldiçoando quem inventou
sapatos com a plataforma tão alta. Correu à vol-
ta da igrejinha, subiu a escadinha, abriu precipi-
tadamente a porta, entrou na escuridão e reviran-
do a correntinha no pescoço, ficou com os ouvidos
atentos e quando ouviu o frear do carro e viu a
figura alta e bonita do Delegado, se jogou em seus
braços e rompeu num choro histérico.
Israel a apertava com força.
— Mas, Santo Deus, o que aconteceu?!
Vera se desprendeu de seus braços e com os
olhos cravados nos olhos do Delegado, disse:
— O bilhete que você me escreveu, está com
o Fernando.
— O que? O que você falou?!
— Que Fernando está com o bilhete que você
me mandou na semana passada.
— Como assim? Você disse que o havia quei-
mado na frente de Fernando.
— Era um xerox.
— O que?!
— Sim, Israel. — Vera não parava de chorar.
— Ele está com o original, disse que vai mostrar
ao Artur. Isso será uma desgraça, uma vergonha,
juro que me mato. Isso é um castigo de Deus.
Eu não deveria t e r . . . t e r . . .

109
Vera ergueu os olhos lagrimejantes para o De-
legado e continuou: — É isso mesmo, eu não de-
veria sujar o nome do meu marido. Agora o que
faço? Se ele souber, não me deixa ficar com os
meus filhos. — Escondeu o rosto nas mãos e solu-
çou. — Se perder meus filhos, o que será de mim?
— Ora, querida. Você está se afligindo por
um nada. Fernando não contará nada, pois assim
que sair daqui vou expedir uma ordem de prisão
contra ele por assassinato.
Vera tirou as mãos do rosto assombrada.
— Assassinato?!!!
— Sim.
Vera tremia.
— Quem ele matou?
— Joaquim. Um homem que havia empres-
tado ao Fernando uma corrente com um medalhão
de ouro. Disse-me ele, que achou no sítio do Zé
Carneiro, bem perto do rio.
Vera foi descorando e sentindo as pernas amo-
lecerem, se apoiou no Delegado, que amparando-a,
levou-a até um dos bancos e fê-la sentar-se.
— Que há, amor? Não fique assim. Você co-
nhece a corrente?
— Aquela corrente...
Vera ia contar tudo, mas uma onda fervente
de vergonha passou por dentro d e l a . . . pensou lo-
go. Se falasse, o Delegado iria pensar que ela se
entregava a qualquer um e então não iria obrigar
Fernando a lhe devolver o bilhete, por isso resol-
veu calar.
O Delegado apertou as mãos de Vera entre as
suas e disse sorrindo:
— Então! Então! Está mais calminha? Es-
queça o que ia falar, e me dê um beijo.
Vera virou o rosto.

110
— Ora, vamos. Que é isso, um beijinho só.
Não vá me dizer que está zangada comigo.
— Não estou não, Israel, mas estou decidida
a acabar com tudo.
O Delegado sentiu como se lhe tivessem aber-
to o coração a machadadas.
Sacudiu violentamente Vera pelos ombros di-
zendo nervosamente:
— Você enlouqueceu?!
Vera levantou-se e segurando o encosto do ban-
co com as duas mãos, falou com voz triste:
— Não é por mim. Se fosse só por mim.
Mas as c r i a n ç a s . . .
O Delegado também de pé apertou com força
o ombro de marfim.
— Você não vai me deixar, Vera. Juro que
não vai.
A voz de Israel estava sufocada de aflição.
— Vou resolver tudo com Fernando. Pego o
bilhete, você vai ver.
O Delegado agradava, alisava, falava.
— Não adianta. Não adianta, acabou tudo.
Não posso viver assim. Estou farta de ser duas.
Quero ter a minha vida sossegada outra vez. Vi-
ver com o coração aos pulos não é vida. Não sou
feliz, ando nervosa e só vivo gritando, as crianças
até se assustam e as empregadas antigas já se fo-
ram. As novas não param porque a outra Vera as
maltrata. Oh! Israel, compreenda, por favor. Não
crie problemas. Vamos terminar como bons amigos.
A voz era baixa e trêmula.
— Quer dizer que você não gosta mais de mim?
— Não é isso. Não enrole, já estou farta. Far-
ta de tudo. Acho que estou até doente. Nosso amor,
nossos encontros, só me trouxeram tristezas. — O
Delegado afrouxou as mãos e esticou os lábios num
sorriso de deboche.

111
— Não é isso que me dizem os seus gritos e
os seus gemidos quando estou dentro de suas
carnes.
Vera mordeu os lábios escandalizada e procu-
rando a porta foi andando e falando:
— Adeus, vou embora mesmo.
O Delegado correu e se encostando na porta,
ficou de frente para Vera.
— Vai mesmo?
Vera enxugou os olhos, levantou o rosto e fi-
tando firmemente o Delegado, respondeu:
— Vou.
— Está falando sério?
— Nunca falei mais sério na minha vida.
Israel abriu a porta se curvando,
— Então passe.
Vera deu um passo e parou quando ouviu a
voz triste do Delegado:
— Então não a verei nunca mais?
— Nunca... m . . .
Não terminou de falar e descendo as escadi-
nhas correndo, tropeçou e caiu no último degrau.
O Delegado voou em sua direção e a levantan-
do nos braços, apertou-a contra o coração, dizendo:
— Não me deixes, Vera, por Deus, não me dei-
xes. Se isso acontecer, penso que a minha vida
será totalmente nublada, negra, medonha, meu cé-
rebro se converterá em um túnel que estará sem-
pre rodando, envolvido em densa fumaça. Não me
deixe, Vera, não me deixe.
Os rostos estavam tão juntos que não foi pre-
ciso nem Israel abaixar o seu ou Vera levantar o
dela para tremerem num beijo profundo, onde as
salivas se misturaram, levando para dentro de ca-
da um uma excitação que penetrava tão ardente
em seus sangues que machucavam até a alma.

112
O Delegado delicadamente a estendeu num
dos degraus dourados de sol e penetrou-a suave-
mente, e ela, com seus braços nus, o apertando
pelo pescoço, murmurava:
— Não o deixarei nunca, meu amor, nunca.
— Jura?
— Juro.
— Por Deus?
— Por Deus.
Devoraram-se de beijos com as carnes nas
carnes.
Desprenderam-se e Israel lhe suplicou para se
encontrarem novamente no dia seguinte.

113
CAPÍTULO XI

O Secretário do Prefeito sentou-se na escriva-


ninha e colocou todas as cartas recebidas naquele
dia em cima da mesma e foi abrindo-as e lendo-as.
Alguma coisa que lhe interessasse ele anotava em
um caderno.
Pelo envelope grande e azul, ele lembrou-se que
aquela era a carta que o menino tinha entregado
ao Prefeito.
Cantarolando, foi abrindo a carta e, ao come-
çar a lê-la, seu rosto foi se tornando pálido e sua
respiração se tornou alta e apressada.
* * *
"Sr. Prefeito.
Sua mulher o trai, com o Delegado. Todos os
dias e em qualquer lugar desta cidade, eles se agar-
ram como dois cães no cio. É uma pouca vergo-
nha. Nunca vi mulher assim. Ela é uma foguei-
ra. Está sempre com um fogaréu que Deus nos
acuda. Se o Sr. não acreditar em mim, segue ane-
xo um bilhete que o Delegado mandou a ela."
• • . •

O Secretário leu o bilhete, depois dobrou-o e


colocou-o rapidamente no envelope e ficou ali pa-
rado a pensar o que faria. Mas não refletiu mui-
to, decidiu que o bilhete seria entregue ao Prefeito

114
pelo correio. Então saiu para comprar um enve-
lope, pois os que usava tinham o timbre da Prefei-
tura e ali mesmo na papelaria, com muito cuida-
do, tirou a carta do bolso e olhando com receio
para os lados, tirou o bilhete e colocando-o no en-
velope novo, subscritou em letras de forma o en-
dereço da casa do Prefeito com o nome de Vera e
seguiu para o correio. .
***

Logo que chegou à Delegacia, Israel foi per-


guntando :
— Onde está o Fernando?
O guarda a quem a pergunta foi dirigida, res-
.pondeu:
— Ainda não chegou. O horário dele é às de-
zoito horas, chefe.
— Está quase na hora. Assim que ele chegar,
mande-o à minha sala.
O Delegado nem acabou de se sentar quando
Fernando entrou sem bater perguntando logo:
— Que é, hein, Chefe?
O Delegado nem o olhou, limitou-se a levar a
mão à campainha e logo dois guardas armados en-
traram e Israel falou, dirigindo-se a um deles:
— Feche a porta à chave.
Fernando virou-se e seguiu o movimento do
guarda, ouviu o tric-tric da chave virando na fe-
chadura e sentiu que o coração pulava alto, bem
alto, e virando-se para o Delegado, perguntou com
voz balançante:
— Que brincadeira é essa?!
O Delegado foi seco.
— Não vejo brincadeira nenhuma.
— Digo trancar as portas assim, sem a gente
saber o que está acontecendo.

115
— Você vai saber agora. Fernando Matos de
Abreu, em nome da lei você está preso.
Fernando foi empalidecendo e tremendo.
— Eu preso? Só porque bebi um pouco e an-
dei com mulheres? Mas isso é humano, qualquer
um faz. Nunca vi ninguém ser preso por causa
disto.
— Você está preso por assassinato.
Fernando correu para a janela e tentou pu-
lá-la, mas foi fortemente seguro pelos guardas, que
o forçaram a sentar-se numa cadeira, enquanto o
Delegado pegava as algemas da estante e as aper-
tava em redor de seus pulsos.
— Você está cometendo um grave erro em me
algemar, Delegado, pois eu não matei ninguém.
— Joaquim. Você matou Joaquim.
— Eu?!
— Você.
A boca de Fernando se abriu numa gargalha-
da que era entrecortada pela sua voz.
— Prove, Delega. Com que arma o matei,
hein, Delega? Com que arma?
— Você o matou com um terrível inseto, seu
miserável. Quer que eu fale tim-tim por tim-tim
como tudo aconteceu? Então escute lá. Você foi
à fábrica e tirou o Barbeiro da frincha da pa-
rede, colocou-o na caixinha e escondeu-o em sua
casa. Quando você viu Joaquim prestando decla-
rações, imaginou logo que ele o estava acusando e
Joaquim sabia muitas coisas desonestas a seu res-
peito. Então você engendrou um plano demonía-
co. O plano seria levar o Barbeiro até junto de
Joaquim. Mas como? Só mesmo se ele estivesse
adormecido, ou melhor, inconsciente. Aquelas
garrafas de bebidas alcoólicas, as mulheres. Tudo
arranjadinho. Joaquim bêbado. O Barbeiro su-
bindo nele. O Barbeiro se aproximando do rosto

116
dele. O Barbeiro agarrando, com as seis pinças
as suas carnes. O Barbeiro com a boca verme-
lha como fogo, chupando, chupando e jogando fe-
zes no buraco sangrento, depois o Trypanosoma
Cruzi, correndo em disparada pelas veias de Joa-
quim e parando nas fibras musculares cardíacas,
fazendo com que a face da vítima se torcesse na
mais terrível expressão da agonia, com os olhos se
revirando, quase saltando para fora. Você não viu
tudo isso porque saiu na rapidez dos covardes.
Fernando riu.
— Então prove, Delega. Prove.
— Já está provado, imbecil. Mais de uma de-
zena de pessoas o viram entrar e sair da casa do
Joaquim, ontem à noite. Não adianta nada esse
cinismo. Soldados, tranquem-no na cela n ú m e r o . . .
— Todas estão vazias, Delegado.
— Então qualquer uma serve. Ou melhor, a
última. A última é escura e úmida. Assim ele
aprenderá a ser gente.
Fernando ergueu o enorme físico e torcendo
as algemas como se estivesse batendo pandeiro,
saiu assoviando um samba.
O Delegado esperou mais ou menos uma hora
e aí foi até a carceragem.
Assim que Fernando ouviu passos pelo com-
prido corredor, levantou-se da cama que estava en-
costada na parede do fundo da cela e segurando
as grades com as duas mãos, procurou ver quem
chegava, esticando a cabeça para a direita, e quan-
do seus olhos se encontraram com os do Delegado,
sentiu que a confiança em si mesmo tremeu, pois
os olhos do Delegado dardejavam ódio.
Assim, frente a frente, os dois homens se me-
diram e como se tivessem ensaiado esticaram o
tórax e jogaram os ombros para trás, ergueram

117
bem alto a cabeça e assim empertigados não para-
vam de se olhar até que o Delegado disse:
— Onde está o bilhete?
A boca de Fernando se escancarando numa
gargalhada, fazendo algumas gotas de lágrimas
saltarem longe.
— Fale, seu cão bastardo, onde está o bilhete?
Entrecortada de riso a voz de Fernando saiu
alta:
— O bilhete? Ah! O bilhete, sabe que fiz?
Limpei o cu com ele.
O Delegado mordeu os lábios "dando ponta-
pés nas grades, procurando atingir o preso enquan-
to berrava:
— Diga onde está o bilhete, senão estrangu-
lo-o, estrangulo-o!
— Ah! Está nervosinho, hein, Delega? — Fer-
nando fica sério, pensa um pouco e depois diz co-
mo se estivesse falando consigo mesmo. — Eu tam-
bém a amo, Delegado. Eu também a possuí. Eu
também sinto até hoje correr pelas minhas veias
o veneno que ela deixou no dia que senti as mi-
nhas carnes palpitarem dentro dela e depois es-
tourarem como um vulcão, mas não espeliram as
suas lavras, elas ficaram aqui, aqui no coração,
queimando... Eu também a amo. Amo-a, a m o - a . . .
Israel parou estático e como fascinado, ficou
ouvindo Fernando.
— Tudo começou quando ela apareceu lá no
sítio. Estava um dia com um calor infernal. Ela
quis tomar banho no rio. Eu fui para bem longe,
buscar a sacola que ela mandou. Quando voltei,
ela estava deitada na grama, dormindo. Estava
nua. Eu tremi, tremi como uma vara verde. Ia
de lá pra cá. Depois ela acordou e ficou brava,
mandou que eu desaparecesse. Aí veio a cobra que
eu matei. Ela chorou de susto. Eu a toquei e foi
como se a eletricidade do mundo se infiltrasse toda
no meu corpo. Senti tudo se levantar e ficar duro
como ferro, mas ferro com latejos fortíssimos que
pareciam me rasgar, então a joguei contra o velu-
do da grama. Ela se defendeu, mas depois amo-
leceu e fechou os olhos e abriu os lábios quando
minha língua forçou a entrada. Com um joelho
afastei suas pernas e ela as conservou abertas até
que tudo acabasse. Depois eu não tive mais sos-
sego. Dia e noite só pensava nela. Larguei tudo
aqui e fui para São Paulo, e entrei no meio daque-
le movimento para ver se a esquecia, mas a dor
da saudade quase me matava, então vim para cá
e como um cão andei atrás dela, mas então vi que
você, Delegado, estava no meu caminho e ganhan-
do a parada, então um forte ódio por você começou
a germinar no meu espírito e eu pensei em elimi-
ná-lo, por isso fui buscar o Barbeiro lá à fábrica,
minha intenção era dar um jeito para que o Bar-
beiro o picasse, Delegado, mas achei melhor, pri-
meiro matar o Joa, pois ele me vira na fábrica
naquela noite. Também ele sabia que eu guardava
ò bilhete dentro da medalha e também sabia o que
estava escrito no mesmo. Sabia porque a argoli-
nha da medalha havia quebrado e eu pedi para o
Joa consertá-la e quando fui buscá-la, Joa estava
lendo o bilhete e quando me viu quase morreu de
susto, ficando branco como um defunto. Prometeu
que guardaria segredo, jurou por Deus e pela alma
de sua mãe que nunca falaria a ninguém. Eu sa-
bia que nas declarações do dia seguinte ele reve-
laria tudo. Sabia que falaria do bilhete e da fá-
brica, então eu fiz como você disse, direitinho co-
mo você descreveu, Delega. Enquanto você conta-
va, até parecia que eu estava vendo um filme bem
na minha frente. Joa está morto, eu o matei. Só
você e eu sabemos disso. Você nunca poderá pro-

119
var que fui eu que matou o Joa, Delega. Você não
poderá deixar-me aqui preso, porque você não man-
da nada, a justiça é que manda. Ela saberá que
eu estou preso, porque usei a mesma mulher que
você, Delega. Saberá também que só eu sei o que
foi feito de um dos bilhetes que você enviou a essa
mulher casada com o nosso querido Prefeito, o
nosso Padrinho, o Padrinho dos pobres e quando
todos souberem que você (neste caso só você, De-
legado, porque eu estou por fora, não escrevi bi-
lhete pra ninguém), mas você, você sim, aí quan-
do souberem vão massacrá-lo, Delega, e eu esta-
rei de camarote, rindo às suas custas, porque se-
rei eu o causador de tudo. Serei eu o salvador da
honra do Prefeito, ou melhor, serei eu, só eu, que
irei serrar os chifres do Padrinho. Quero vê-lo com
a cabeça bem lisinha novamente. Lisinha assim,
assim. — Fernando passava a mão pela cabeça.
Fernando começou a rir novamente, depois
continuou:
— Que cara, hein, Delegado? Pena que aqui
não exista um espelho para que ele possa refletir
a sua cara. " Ela está terrivelmente amedrontada,
parece que você viu até um fantasma, pôxa, como
ficou branco, branquinho.
O Delegado saiu daquele estupor e chegando
bem perto da grade, tentou agarrar Fernando pelo
pescoço, gritando:
— Seu infame, cão sarnento, nada do que vo-
cê disse eu acredito. Você quer enlamear uma se-
nhora casada, uma sènh...
— Uma cadela, Delegado. Eu não quero en-
lamear ninguém... Ela já está enlameada na sua
própria lama. Estou com raiva dela, da cadela,
porque ela dá a você na minha cama e não quis
dar pra mim, então eu fiz o que fiz com o bilhete...

120
O Delegado, vermelho como brasa, parou erec-
to no meio do corredor e gritou com toda a força
de seus pulmões:
— Guardas! Guardas! Guardas!
Alguns guardas acorreram.
— Onde está a chave desta cela?
— Eu vou buscar, chefe.
O Delegado voltou-se para o preso: — Você
vai repetir o que disse, senão quebro-te inteirinho.
Pegou a chave das mãos do guarda, dizendo:
— Quero ficar só com o preso. Tranquem a
grade de saída.
— Agora, seu réptil, vamos conversar de ho-
mem para homem.
Assim dizendo, o Delegado abriu a cela e se
empertigou em frente do preso e com o rosto co-
berto de ódio.
— Agora diga a menor palavra contra Vera,
que lhe quebrarei os dentes.
Fernando alisou as pontas do bigode como era
seu costume, quando queria mostrar que nada te-
mia e mostrando os dentes perfeitos num riso es-
candaloso, disse:
— E o que V. Excia. acha palavra insultante?
Talvez dizer-lhe que ela a Vera, é igualzinha às
que rolam as bolsinhas nas esquinas... Às putas..,
Não terminou, pois o soco veio e pegou-o bem
no meio da boca alcançando um lado do nariz de
onde o sangue esguichou, avermelhando o rosto, o
pescoço e as roupas de Fernando, que como um
louco saltou sobre o Delegado e os dois lutaram
como loucos numa luta de forças iguais, que aca-
bou com os dois caídos, extenuados, mas nas fei-
ções rígidas e nos punhos crispados, via-se que se
os dois guardas não viessem retirar o Delegado, a
luta continuaria. Mas o Delegado não se deu por
vencido. A certeza sgora, tinha-se fincado em sua

121
alma, de que Fernando era perigoso para a sua
felicidade junto a Vera e sentado diante de sua
mesa de trabalho, movendo o maxilar de lá pra
cá, pois estava muito dolorido depois daquele soco
que quase o nocauteou. Sentia o olho arder e ali-
sava-o devagarinho, pensando o que deveria fazer
para Fernando dizer o que fizera com o bilhete.
Como fazê-lo confessar, como? Se ele não reve-
lasse, ia perder Vera. Sentiu um calafrio perpas-
sar pela espinha, rodopiar na nuca e infiltrar-se no
cérebro, parando aí, e então ele relembrou, sentin-
do uma onda de sangue inchar suas veias e ferver
o sexo, o primeiro beijo que trocaram perto da ja-
nela onde o escaldante sol teimava em entrar in-
filtrando-se em seu corpo cobrindo-a de um en-
torpecimento que a deixou mole e inebriante, sem
poder resistir ao tremor do corpo quando a aper-
tou nos braços e colou seus lábios nos dela. De-
p o i s . . . foi ali, ali no sofá que estava bem na sua
frente que ele, com o coração aos pulos, a apertou
contra o sofá e a beijou e sem despregarem as bo-
cas se foi infiltrando dentro dela, até lhe sentir a
respiração apressar-se, as pernas tremerem e com
gemidos curtos e abafados desfalecer por um se-
gundo em seus braços. Como era bom tê-la assim
trêmula e linda sempre que o desejasse Mas ago-
ra o pesadelo de perdê-la se encravava em sua men-
te e ele a via ali em sua frente, petrificada, com os
lábios descorados e quando ele estendeu os braços,
ela recuou como se estivesse sendo chamada por
um demônio e gritou:
— Quero meu bilhete. Traga-o ou nunca
mais me verá, Nunca mais me verá.
A sala vibrava com essas frases, fazendo o De-
legado sair daqueles pensamentos torturantes e
começar a pensar em alguma coisa que pudesse
trazer para suas mãos o maldito bilhete. Ficou por

122
alguns momentos parado, olhando para o alto, até
que o seu cérebro estalou, fazendo-o pular da ca-
deira.
— Sim, era isso mesmo!
Israel chamou os guardas.
— Traga-me o preso algemado.
* * *
Fernando entrou, escondendo com as mãos al-
gemadas o hematoma do olho direito, deixando en-
trever no vão formado no meio dos braços, a boca
vestida de um riso, onde se viam quase todos os
belos dentes meio aureolados pelo bigode espesso
e negro, e com aquele jeitão dos que não têm nada
a perder, foi logo falando:
— Está com medo de apanhar mais, Delega,
por isso se esconde atrás das algemas, hein? O
que falaria a nossa linda e gostosa amante se sou-
besse q u e . . .
O Delegado também foi irônico quando retru-
cou, interrompendo-o:
— Só se algemam os covardes assassinos. Tam-
bém não adianta você vir com chantagem moral,
pois sei que se eu mandar tirar-lhe as algemas,
você sai voando daqui, tremendo de medo e por
enquanto isso não poderá acontecer, pois temos
um problema muito sério a tratar.
Fernando riu mais, escancarando a boca pa-
ra o ar.
— Só tremi uma vez de medo, Delega, e você
sabe quando foi. Se você quiser, eu posso repetir.
E Fernando sentando-se na cadeira e cruzan-
do as pernas, continuou. — Foi quando tive V e . . .
Israel levanta-se rápido e grita como um pos-
sesso :

123
— Cale-se, cale-se — e virando-se para os pra-
ças. — Saiam, saiam e fiquem por aí, se eu pre-
cisar, chamo.
— É, fiquem por aí, pois o Delegado está com
paúra de um homem algemado. Coitadinho, não
se afastem muito.
O Delegado, indiferente às palavras de Fer-
nando, senta-se no sofá e ferve de ódio quando
Fernando pisca o olho bom em direção ao sofá e
fala:
— Foi aí, né, Delega, aí no sofá. Espiei pela
porta antes de bater e os vi agarrados como car-
rapatos. Ela, a sem-vergonha, tinha as pernas lin-
das e rosadas à volta de seu corpo. Quando dei as
pancadinhas na porta, custou para se desagarra-
rem. Custou muito, um tempão, que para mim
pareceu um s é c u l o . . .
Fernando até se calou assustado quando viu o
Delegado sorrir e com voz amiga dizer:
— É . . . Amamos a mesma mulher. Penso que
deveríamos disputá-la. Disputá-la de um m o d o . . .
Deixe-me pensar... ou melhor, pense você, que
mostra grande habilidade em formar idéias. Pode
ser até e m . . . d i g a m o s . . . uma disputa na bebida,
pois sei que você gosta de beber... D i g a m o s . . .
Whisky.
Fernando descruzou as pernas, sempre rindo,
e falou:
— Estrangeiro?
— É, pode ser. Tenho aqui mesmo na Dele-
gacia algumas garrafas de Whisky Escocês...
— Aquelas que pegamos na mercearia do seu
Geraldo, que eram contrabandeadas?
— É, aquelas mesmo.
— Chiii, Delega, você também está usando as
coisas do governo, então porque bronqueou quan-
do usei o jipe, hein?

124
— Depois reponho.
— É bom mesmo, porque você anda estufan-
do o peito por aí dizendo ser o mais honesto dos
homens, vive exigindo respeito, então tem que sa-
ber ser respeitado, né, Delega? Ou você também
sabe iludir as autoridades?
— Chega de falar besteira, a m i g o . . .
— Amigo?! Que há, hein, Delega? — Os olhos
de Fernando voltearam por todos os lados. — Será
que você não está me preparando algum ardil,
hein, Delega? Vê lá, hein?
— Está com medo?
— Medo não, m a s . . . coisas, faladas assim en-
roladas, dá pra desconfiar.
— Bem, Fernando, quer ou não quer a bebi-
da? Sim ou não.
— Sim.
— Então espere que vou à copa abrir a gar-
rafa e pegar gelo, porque você não vai querer sem
gelo, não é?
Depois de aberta a garrafa, o Delegado pre-
parou a bebida com o gelo, e num dos copos
dissolveu alguns comprimidos de sonífero, mas
como sabia que Fernando era por demais esperto,
ficou com o copo dos soníferos e ofereceu o outro _
ao preso, que num largo sorriso, disse:
— Será que o Delega pensa que nasci ontem?
Troque aí o copo, vamos, Delega, e tire as algemas
senão não poderei sair correndo daqui, quando o
ver caído estrebuchando de bêbado.
O Delegado abriu as algemas e quando pre-
tendeu tirar o copo da mão do preso, este disse:
— Calma, Delega. Primeiro deixe pegar o
que está em sua mão, senão você faz uma bruta
atrapalhada e no fim troca os copos.
Israel entregou o copo a Fernando que o le-
vantou bem alto e disse:

125
— Venha, Vera, venha para o Fernandinho —
e levando o copo aos lábios, bebeu de uma vez até
à última gota, depois recostou-se na cadeira, di-
zendo:
— Encha outra vez o meu copinho, Delega.
— Com todo o prazer, Fernando.

H< ífc %

O Barbeiro lutava com todas as forças de seu


pequeno corpo, impulsionando-o para cima no in-
tuito de se agarrar nas beiradas da caixinha, já
que tinha conseguido fazer com que a tampa se
afastasse um pouquinho. Conseguia erguer-se nas
patas traseiras e tentava agarrar-se com as outras
quatro, mas deslizava suavemente no escorregadio
do plástico e caía no fundo da caixa começando
tudo novamente, lenta e suavemente. Com os olhi-
nhos revirando para todos os lados, ele via bem
o interior da gaveta, com seus lápis, suas canetas,
tinteiro, borracha e papéis, pousados ali ordeira-
mente, mas de repente sentiu-se cego e jogado pa-
ra todos os pontos.
— Olá, Barbeiro.
O Delegado colocou a caixinha sobre a mesa
e fitou o rosto escarlate e os olhos em nesgas lu-
zidias de Fernando, e sentiu o coração aos pulos
porque sentia que se o preso dormisse agora, ja-
mais saberia do bilhete.
— Fernando — chamou baixo, quando viu que
ele pendera a cabeça e fechara os olhos. — Fernan-
do, olhe quem está aqui.
Fernando abriu as pálpebras e tentou ver atra-
vés da nuvem que embrulhava seus olhos o que
estava balançando de lá pra cá em sua frente, pen-
durado em um cordão.

126
Esticou mais e mais as pálpebras e então o
pavor apertou todos os seus nervos fazendo-o es-
tremecer fortemente. Atirando para longe o copo,
ele soltou um grito fino e longo, fazendo os guar-
das correrem de todos os lados e baterem à porta
da sala e em vozes altas perguntarem:
— Delegado, o sr. está bem?
O Delegado colocou rapidamente o Barbeiro
dentro da caixa e cobrindo-a com alguns papéis,
escondeu os copos e as garrafas debaixo da mesa,
ajeitou o preso que escorregava da poltrona e en-
treabriu a porta, falando:
— Fernando não está passando bem. — Abriu
mais a porta e os soldados viram Fernando recos-
tado de olhos fechados. — Ele está descansando.
Se não melhorar, mando chamar um médico. Po-
dem ir para seus postos.
Assim que o Delegado trancou a porta, pegou
logo o cordão e com o Barbeiro esperneando preso
na ponta, foi até perto de Fernando e chamou,
chamou, chamou.
* * *
Fernando abriu os olhos e seu cérebro se abriu
fazendo captar todas as formas daquela coisa ne-
gra acima de sua cabeça e todo o terror do mundo
se concentrou em seu espírito e ele implorou:
— Não, não Delegado, não me mate. Tire esse
demônio daqui.
— Então diga onde está o bilhete.
— O bilhete?! — Uma nuvem negra envolvia
agora a mente de Fernando. — O bilhete. Que
bilhete?!
— Aquele que você tinha dentro do medalhão.
A nuvem foi se desfazendo. Com os olhos fi-
xos no Barbeiro, Fernando ia escorregando da pol-

127
trona, mas via que o Delegado abaixava a mão e o
inseto ficava cada vez mais perto, mais perto de
sua face.
— Tire-o daqui, tire-o daqui. — A voz sumia e
a boca se retorcia num choro triste, fazendo com
que dos olhos descessem montes de lagrimas, as
quais levavam para o espírito do Delegado, um pra-
zer frenético em impulsionar mais e mais o Bar-
beiro, para baixo, para cima, à direita e à esquerda.
— Onde está o bilhete? Onde? — E impiedo-
samente, soltava mais um pouco o cordão, mais um
pouco, até que Fernando, sentindo as pinças das
seis patas encostarem em seu rosto, contraiu os
músculos convulsivamente, e abrindo desmesura-
damente os olhos vestidos de horror, tentou levan-
tar os braços, mas os mesmos pendiam moles, in-
filtrados pelo álcool.
— Fale... fale... — a voz vinha de longe,
lá das trevas, do infinito.
Fernando abriu a boca, fechou, abriu...
— Tire-o daqui, tire-o daqui, pelo amor de
Deus.
Israel riu, levantando o cordão.
— Fale. O bilhete.
Fernando tentou levantar o corpo, mas escor-
regou até o chão, sem despregar os olhos do inseto,
que jogava doidamente as patas em todas as di-
reções.
— Eu mandei um menino entregá-lo ao Pre-
feito.
O Delegado gelou todo.
— Que menino?
— Não sei. Ele estava lá na rua.
— Em que lugar?
— Em frente à Prefeitura.
Fernando explicava tudo enroladamente.

128
— Eu coloquei o bilhete dentro de um enve-
lope, ia pô-lo no correio, quando vi o Prefeito, aí
pedi ao menino, um que estava ali naquele mo-
mento, para levar o envelope ao Prefeito. O Pre-
feito pegou o envelope e o passou ao seu Orlando,
seu secretário.
— Sem o abrir?
— Sem o abrir.
— E o seu Orlando?
— Enfiou no bolso.
— Leu?
— Nãoooooo.
A cabeça de Fernando pendeu para o lado e
o Delegado se impressionou com o ronco forte e<
prolongado que saía de sua garganta, fazendo seu
peito arfar num subir e descer descontrolado.
O Delegado estava tão distraído olhando para
o preso que nem sentiu quando largou o cordão.
Acendeu um cigarro, puxou o ar pela porção
de fumo que entrou em sua boca como fumaça e
soltou-a para o teto da sala, agora envolta numa
penumbra acinzentada. Sentou-se no sofá ficando
bem em frente ao homem caído e então lembrou
do Barbeiro. De um pulo ficou em pé e sorriu
quando viu o cordão ali tão pertinho, agarrou-o e
levántou-o, mas ficou apavorado quando viu que
o Barbeiro não estava lá. Abaixou-se bem perto
de onde estava o cordão e começou a revirar os
olhos para todos os lugares perto do corpo inerte
à procura do inseto. Sabia que não poderia estar
longe, pois o alimento para a sua sobrevivência
estava ali, ali caído.

129
CAPITULO X I I

O Barbeiro, assim que se desprendeu do cor-


dão, correu para dentro da calça de Fernando e,
forçando suas seis patas para cima, foi num mo-
vimentar rápido, chegando até à cintura. Encon-
trou alguma dificuldade no cinto que estava meio
apertado, mas colou-se bem nas carnes de Fernan-
do e espremendo as asas contra seu pequenino cor-
po, conseguiu passar e prosseguir em sua tétrica
jornada em direção à face da sua presa. Varando
por baixo da túnica caqui, foi sair no pescoço e
aí parou indeciso, pois pressentiu que havia mais
alguém.

O Delegado levantou-se com o olhar em Fer-


nando' e então viu o Barbeiro que movia as patas,
mas não saía do lugar. Israel pensou em pegá-lo,
mas não sabia porque não conseguia mover-se.
Ficou parado e quieto, com medo até de res-
pirar mais forte para não assustar o Barbeiro, que
estufava as antenas, mexendo a cabecinha para
todos os lados, e sentindo tudo em silêncio, reco-
meçou a andar diante dos olhos fascinados e pe-
trificados do Delegado. Quando chegou rente aos
lábios de Fernando, parou novamente, depois re-
tomou o caminho contornando os lábios do lado
direito, mas quando suas patas encontraram os pe-

130
los negros e grossos do bigode, se afastou rápido,
e tomou a direção esquerda, desviando-se o mais
possível do bigode e parou no meio da face esquer-
da, onde rodopiou diversas vezes e com o bico com-
prido e arredondado tateou a carne suada e, quan-
do a sentiu macia, enfiou os ferrões cor de fogo e
sugou por longos minutos, arremessando para o
ar o corpo, para que pudesse depositar suas fezes,
enquanto se alimentava com o sangue de Fernan-
do, e o Delegado, impassível, via o Barbeiro cravar
cada vez mais fundo, as seis patas nas carnes do
preso, que agora se agitava lentamente, tentando
levantar o braço para coçar o local da picada.
Mas tudo que Fernando conseguiu foi virar a
mão e movimentar levemente a cabeça, e então o
Delegado lembrou-se da última frase que havia
lido sobre o Barbeiro.
A doença de Chagas não se dá pela picada do
Triatoma, mas sim pelas fezes que ele deposita en-
quanto suga o sangue. A picada não é dolorosa,
mas provoca uma tremenda coceira e o ato de co-
çar facilita a penetração dos Trypanosomas Cruzi,
no local da picada, mas também podem penetrar
no organismo humano pela mucosa íntegra dos
olhos, nariz e boca. cu ainda por alguma ferida
ou corte existentes na pele; não penetram na pele
íntegra.
Então se Fernando não coçar a face, o Try-
panosoma não penetrará em seu sangue, não cor-
rerá pelas suas veias e não roerá seu coração.
O Delegado ficou de cócoras e estendeu a mão
até ao rosto de Fernando e com a ponta do dedo
tocou as asas cinza mescladas de marfim do Bar-
beiro e as sentiu duras e frias; fazendo-as tremu-
larem e se afastarem lentamente e então o Dele-
gado alisou o dorso mole e negro, sentindo que todo

131
o seu corpo se arrepiava e sua boca borbulhava de
água, torcendo-se de nojo.
Puxou rápido a mão e pegando a régua de ci-
ma da escrivaninha, cutucou o inseto até que o
sentiu desprender os ferrões, que saíram envolvi-
dos em sangue, mas na pele nem uma marca da
picada, só aquele montículo de fezes que o Dele-
gado impulsionou com a régua para dentro da
boca de Fernando. Uns segundos depois, viu que
o corpo de Fernando se contorcia e se esticava fu-
riosamente. Escancarou a boca, puxou o ar, en-
gasgou, bolindo a cabeça de um lado para outro
e num grito agudo e terrível, ficou meio sentado,
com o peito exalando um barulho incessante de en-
gasgos prolongados, tentou com as mãos em gar-
ras paradas no ar, respirar sem conseguir, depois
jogou o corpo para trás, esticando horrivelmente
as pálpebras e Fernando, antes de morrer, viu en-
volto em densa e agitada neblina, os dentes lindos,
brancos e perfeitos do Delegado, num sorriso triun-
fante.
• • •

O Delegado puxou o corpo para cima do sofá,


ajeitou-lhe as roupas, e pôs uma almofadinha de-
baixo da cabeça.
Abriu a porta e disse ao guarda:
— Vou me afastar por algum tempo, Fernan-
do está dormindo. Daqui meia hora acorde-o e
leve-o para a cela. Tó, esta é a chave da porta da
minha sala. Não esqueça, h e i n . . .
O Delegado ia se afastando, mas parou e vi-
rando-se, continuou falando:
— Se por acaso Fernando acordar e continuar
queixando-se da dor de estômago, chame o médico.
Não o deixe ficar sofrendo, coitado!

132
O Delegado entrou na Prefeitura e nem cum-
primentou ninguém, foi logo entrando na sala do
secretário e quando Orlando levantou a cabeça da
escrita, sentiu até um arrepio ao ver o rosto pá-
lido e transtornado de Israel.
Os quatro olhos encontrando-se e as duas bo-
cas fechadas. Mudas.
— Onde está o bilhete?
A voz saiu seca, gelando a espinha de Orlando.
— Mandei-o para a casa do Prefeito.
— Quem o levou?
— O Correio.
— Vá buscá-lo.
— Mas, como?
— Dê um jeito. Revire tudo, bote até fogo
no Correio se for necessário, mas traga-me o bi-
lhete. Vou esperar a t é . . . deixe-me ver, são de-
zoito horas, vou esperar até às dezenove h o r a s . . .
Se você não aparecer...
Orlando empalideceu.
— Se eu não aparecer?
— Você v e r á . . .
— É uma ameaça?
— Você verá.
— Não adianta ameaçar, Dr. Israel, quase to-
da a cidade já sabe.
O Delegado pensou que um raio houvesse es-
tourado bem junto dele e a expressão de assom-
bro que se infiltrou em seus olhos fez com que
Orlando ficasse penalizado e lhe falasse:
— Seria melhor o Sr. deixar a cidade, Dr. Is-
rael, pois o Prefeito é muito estimado e penso que
o povo não v a i . . .
— Não tenho medo do povo, a m i g o . . . Mas,
como descobriram?

133
— Bem, muitos viram o sr. e a d o n a . . .
— Cale-se, cale-se... ou melhor, fale baixo.
— Aqui todos sabem.
— Todos?! T a m b é m . . .
— Ele não. Fizemos tudo para que ele não
soubesse. Ele não merece isso.
— Então porque você mandou o bilhete para
o Prefeito?
— Não disse que mandei ao Prefeito.
O Delegado levantou os olhos do chão e os cra-
vou em Orlando.
— O que você disse?
— Que não o mandei ao Prefeito, mas sim
para a casa do Prefeito, mas em nome de dona
Vera. De fato eu tinha subscrito um envelope em
nome do Prefeito, mas depois achei de bom alvitre,
não enviar a ele e sim no nome dela e foi o que fiz.
O Delegado apertou o lábio inferior com a mão
direita e depois de pensar por um segundo, saiu
como um bólido, foi para um telefone público e
ligou para Vera.
* * *

Ouvindo o telefone, Vera levantou a cabeça,


onde apareciam os olhos vermelhos e inchados de
tanto chorar e quando ouviu a voz de Israel, per-
guntou cheia de angústia:
— Ele entregou o bilhete?
— Ele morreu.
— O que?!
— Depois lhe explico. Agora preste atenção.
Ele antes de morrer disse que mandou o bilhete
pelo Correio aí para você. A carta deve chegar
amanhã cedo, mas como mulher de quem você é,
tem direito de ir até ao correio e saber onde está a
carta, vá, faça isso. Escute, meu amor, preciso
vê-la. Posso esperá-la amanhã?

134
— Mas, Israel...
— É necessário. Tenho que lhe revelar coisas
graves, quero dizer, importantes.
Vera teve um sobressalto.
— Mas o que é, não me deixe mais nervosa.
Com doçura o Delegado falou, falou, falou.
— Está bem. Paro meu carro no meio do ca-
navial do meu sítio e sigo pelo meio do canavial
até o lago.
— Não, não vá com seu carro, pegue um táxi.
Desça na estrada e atravesse só o lado norte do ca-
navial. Lá os pés-de-cana são mais espaçosos e
dará para você passar sem esbarrar nas folhas.
Lembre-se da última vez que você caiu em meus
braços toda arranhada. Aquelas folhas cortam
como navalha, não é mesmo? Ah! outra coisa,
entre na gruta. Aquela que fica no fim da plan-
tação e está encoberta pelo mato raso.
— Não se preocupe, Israel, farei como você
está falando.
— Você me ama?
— Ora, Israel, já lhe disse tantas vezes.
— Diga-me mais uma hoje, meu amor, pois
é muito importante para mim.
— Amo-o.
— Outra vez.
— Amo-o. Amo-o.
* * *
De longe, o Delegado viu diante da Delegacia
um amontoado de gente, que foi aumentando com
as que vinham correndo de todos os pontos da
grande praça, onde estava localizada a Delegacia.
Israel buzinou e o povo foi se afastando, ele esta-
cionou no páteo e Sílvio veio correndo:
— Chefe, uma desgraça.

135
— Que aconteceu? — O Delegado fingou es-
panto.
— Fernando morreu.
— Morreu? Como assim?
— Picado pelo Barbeiro.
— Barbeiro?!
— Sim, Delegado. O médico está lá dentro, e
diz que foi picado mais ou menos há uma hora.
— Isso quer dizer que o Barbeiro está aqui,
aqui na Delegacia?
— É isso que todos estão dizendo. Já tive-
mos a maior dificuldade para conter o povo que
queria invadir a Delegacia. O povo está irritado,
Chefe. Querem ver o Barbeiro morto de qualquer
maneira.
— Vamos lá, Sílvio, eu falarei ao povo.
O Delegado foi para a frente da Delegacia, su-
biu os degraus e, do topo da escada, levantou os
braços e abanando as mãos pediu calma, ia abrir
a boca para falar, mas a multidão que agora to-
mava quase a praça inteira começou a gritar:
— Queremos o Barbeiro, queremos o Barbei-
ro, Barbeiro, Barbeiro.
O Delegado, vendo que nada adiantava ficar
ali parado, feito bobo, em frente ao povo, entrou
na Delegacia e sem olhar para o cadáver de Fer-
nando, foi fazendo perguntas ao médico e provi-
denciando que o morto fosse levado para o necro-
tério, debaixo do grande alarido do povo, que se
dispersou quando o Delegado mandou a patrulha
montada.
* * *
Lá fora, silêncio. Dentro da Delegacia, si-
lêncio.
O Delegado se recostou na cadeira giratória e
a fazendo ir de lá pra cá levemente, fechou os olhos,

136
mas logo em seguida pulou como que impulsiona-
do por uma mola.
— E o Barbeiro?!
A Delegacia se cobriu com os gritos do Dele-
gado que convocou todos os funcionários na pro-
cura do Barbeiro.
Não fazia nem vinte minutos que a turma pro-
curava, quando Sílvio entrou na sala e disse:
— O Prefeito e uma porção de homens estão
entrando na Delegacia, chefe.
Israel sentiu uma pontada no coração quando
viu S. Excia. entrar e ir-se sentando com os seus
acompanhantes e assistentes por toda a sala.
Os olhos do Delegado percorreram os rostos
dos visitantes e reconheceu todos: Vereadores, o
dono do Grande Hotel, o dono do Fátima Hotel, o
farmacêutico, o dono do mercadinho São Benedito,
alguns fazendeiros, médicos, advogados, Rubens,
alguns comerciantes, etc.
A voz do Delegado tremeu um pouco quando
perguntou:
— A que devo a honra da visita?
O Prefeito se ajeitou no sofá e retrucou:
— Acabou o prazo para que você nos entre-
gasse o Barbeiro.
O Delegado sentiu as pernas bambearem.
— Acabou?
— Acabou.
— Mas eu tenho o Barbeiro.
Todos se olharam.
— Onde ele está?
— Aqui, Excia., aqui na Delegacia. Eu o ha-
via prendido dentro dessa caixinha. — O Delegado
nervosamente falava. Tirou a caixa da gaveta e
andando em frente de todos com a caixa brilhan-
do em suas mãos, foi mostrando a um por um e
falando: — Dentro dessa caixinha, olhem, mas o

137
demônio fugiu e matou um de meus homens, o
Fernando. O Fernando, que V. Exia. conhece tão
bem. Agora está por aqui. Talvez debaixo de
qualquer uma dessas cadeiras onde os senhores es-
tão sentados. — Todos se levantaram rápidos e con-
tinuaram de pé até ao fim da visita. — Isso mesmo,
senhores, não os quero assustar, mas o miserável
aparece e desaparece como um fantasma, mas eu
o pegarei novamente, isso prometo-lhes. Confiem
em mim e terão a mais bela procissão de São Be-
nedito de todos os anos. Vocês verão. — O Dele-
gado se inflamava no louco desejo de fazer aque-
les homens compreenderem que ele não poderia
deixar seu cargo, deixar a Delegacia, a cidade e
a . . . mulher amada. Falou, falou, até ficar rouco
e ouviu perplexo o dono do Grande Hotel, o seu
Olavo, retrucar as suas palavras dizendo que o De-
legado deveria cumprir a palavra e deixar que ou-
tro Delegado mais competente tomasse as rédeas
de segurança da cidade e não viesse com aqueles
argumentos bestas de interditar tudo, por causa
de um insetozinho.
O Delegado ficou escarlate e franzindo a testa
já rugosa, gritou:
— Se é um insetozinho, por que os senhores
estão de pé?
Todos se mexeram, resmungaram, mas nin-
guém sentou.

No final ficou decidido que o Delegado deve-


ria ficar no seu posto até chegar o novo Delegado.
Olavo leu o pedido do "impeachment" do De-
legado e todos os presentes assinaram debaixo do
olhar fulminante do Delegado.
Assim que saíram, Israel sentou-se no sofá e
com as duas mãos apertando a cabeça e os coto-

138
velos fincados nos joelhos, ficou assim quieto e pa-
rado, com o pensamento virando, virando dentro
de um túnel negro sem fim, até que o cérebro foi
clareando e ele tirou as mãos da cabeça e com os
olhos no ar, continuou quieto. Teria sentido uma
cocegazinha na perna, o u . . . Sim, sim, alguma
coisa subia se prendendo nos pelos de sua perna
direita... Seria, seria... Com todos os nervos do
corpo tremendo, o Delegado foi puxando devagar
a calça com o máximo cuidado para que ela não
esbarrasse no que o Delegado imaginava que fosse
o Barbeiro, e enquanto a calça ia vagarosamente
se elevando, a mente do Delegado ia se alegrando,
pois se fosse mesmo o Barbeiro, ele, por mal ou
por bem, continuaria Delegado de Fátima.
E era mesmo o Barbeiro. Já abria e agitava
as asas em curtas vibrações, quando o Delegado
esticou o braço e apanhando a lanterna, fez com
que a luz forte da mesma cobrisse o corpo do pe-
queno inseto, que ficou quieto, então Israel, segu-
rando a calça acima do joelho, foi se movimentan-
do devagarinho até à mesa e, pegando uma caneta,
enfiou por entre os pelos da perna e com muito
cuidado foi tentando afastar o Barbeiro que com as
seis patas secas e escuras fortemente grudadas
por mais que o Delegado fizesse, não conseguia
desprender. Foi então que se lembrou em cortar
os pelos com a tesourinha de unhas que sempre
estava à mão e o Barbeiro foi guardado com pe-
los e tudo dentro da caixinha e a caixinha dentro
da gaveta que o Delegado enchavou, guardando a
chave no seu chaveiro Um chaveiro que repre-
sentava a cabeça do diabo e, com uma extraordi-
nária alegria incendiando-lhe o olhar, o Delegado
foi com alguns praças no jipe da polícia patrulhar
as ruas de chão desenhado que no dia seguinte re-
ceberiam os pés de milhares de católicos que já

139
estavam na cidade para os festejos da semana. De-
pois dali foi para a área de barracas de "Camping",
em seguida vistoriou os bares, paradas de ônibus,
enfim todos os lugares onde havia acúmulo de
gente.

• • •

Vera soube pelo pessoal do Correio que as car-


tas estavam com os estafetas para serem entregues
no dia seguinte, logo ao amanhecer.
Recebeu o endereço dos inúmeros estafetas,
mas achou desnecessário ir procurá-los, pensou em
pedir à empregada que no dia seguinte esperasse
o Correio na porta e assim que recebesse a corres-
pondência a guardasse em qualquer lugar seguro,
pois havia escrito uma carta de aniversário para o
marido e não queria que ele a recebesse antes das
oito da noite.
No dia seguinte acordou, enfiou o braço de-
baixo do pescoço do marido que dormia e beijando-
lhe levemente os lábios, disse:
— É tarde, querido.
Era tarde mesmo, pois faltava só meia hora
para o seu encontro com o Delegado, e o Prefeito
justo naquele dia resolvera dormir até mais tarde.
Assim que o Prefeito entrou no banho, Vera
correu para a cozinha.
— Onde está Joana?
— No portão, senhora.
Vera voltou-se e procurou a porta que dava
para um largo corredor com as laterais apinhadas
de flores e ali encontrou Joana, que ante o olhar
interrogativo da patroa, disse logo:
— Tudo certo. Olhe, aqui está uma porção
de cartas.

140
Vera esticou a mão para apanhá-las, mas a
voz do Prefeito, na cozinha, fez com que ela man-
dasse Joana esconder a correspondência e algum
tempo depois saiu feliz dando o braço ao marido
e na porta da Prefeitura se despediu com um beijo
na boca e sem perceber que era seguida por um
carro que levava a bordo cinco homens; pegou um
táxi e indicou a estrada, desceu do carro, atraves-
sou o canavial e sem pressa entrou no carro do
Delegado, que a abraçou e cobriu de beijos.
De longe, os homens marcaram direitinho o
local do encontro e se afastaram silenciosamente.

141
CAPÍTULO XIII

O Delegado olhou o relógio, dizendo:


— Você foi pontualíssima, amor.
— Quase que não vinha.
— Não diga isso nem brincando, pois desde
ontem não penso em outra coisa. Mas o que acon-
teceu?
— Meu marido não queria acordar.
— Não fale nele.
— Ora, Israel.
— Não fale nele.
— Está bem, não vamos perder este dia tão
lindo, azul, amarelo, verde, pássaros, flores...
— E uma garrafa de champanhe.
Vera ria.
— Não diga.
— Olhe ali atrás.
— Que é aquilo?
— Um cesto. Se você levantar a tampa, vai
encontrar sanduíches de patê, empadinhas, cro-
quetes de camarão, frutas...
— E a champanhe?
O Delegado ria feliz.
— Na geladeira portátil, no porta-malas.
— E onde vamos?
— Ao rancho de um amigo, aqui perto.
— Ele sabe alguma coisa?
Israel ia falar que quase toda a cidade sabia,
mas se falasse nunca mais ia sentir o cheiro dela,

142
aquele cheiro que o embriagava até aos ossos, a
quentura de sua boca e a umidade de suas carnes.
Não, não falaria nunca. Com o tempo resol-
veria o que fazer, agora queria matar a sede do
amor que estava em brasas.
— Claro que não sabe. A chave está comigo
desde ontem, pois ele viajou para a Europa,
— Ah! Então estaremos tranqüilos.
— Tranqüilíssimos, meu amor.
* * *
A casa estava situada no alto de um morro
todo gramado.
O Delegado abriu a garagem, entrou com o
carro e a trancou com a chave.
Vera olhou para todos os lados.
— Por que estamos aqui trancados debaixo do
morro, não vamos para a casa?
Israel acendeu a luz e Vera viu um portão gra-
deado no fundo da garagem, que se foi abrindo
devagar com a pressão do indicador do Delegado
em um botão do tipo que se acende a luz.
— Por aquele túnel chega-se à casa.
— É fantástico!
— Quis arranjar o lugar mais seguro do mun-
do para podermos ficar mais sossegados. Já vê
que só penso em você.
Tirou o cesto e a geladeira do carro e com Vera
grudada em seu braço, se perderam na claridade
artificial do túnel e saíram pelo alçapão, bem no
meio da ampla sala e o Delegado nem teve tempo
de pôr as coisas no chão e Vera já o envolvia em
seus braços e se devoravam em beijos que Vera fa-
zia questão de serem bem estaladinhos.
Depois volteou pela sala rindo e falou:
— Qual é o quarto mais aconchegante?

143
— Pra que?
— Ora, meu amor.
— Mas não é aqui que programei.
— Então...
— Venha.
— Deixe-me levar o cesto.
De mãos dadas e cada qual segurando uma
das cestas, saíram atrás da casa e foram alegres
e rindo alto, descendo o terreno todo gramado e
arborizado, com ruazinhas em círculo ladeadas de
muitas plantas de azaléias com suas inúmeras flo-
res jogando seu ardente colorido pelo ar quente
vestido de um sol forte e bem amarelo que com
seus raios luminosos abraçavam os pássaros chil-
reantes, que volteavam tão baixo que se viam per-
feitamente suas cores vivas. Vera soltou-se e corria
contornando as ruazinhas e Israel corria reto e
quando Vera chegava em uma curvinha ele fingia
que ia pegá-la, ela se afastava dando gritinhos com
os belos dentes brilhando. Estavam transbordan-
tes de felicidade.
O Delegado foi o primeiro a chegar perto do
lago, depositou no chão a geladeirinha e relanceou
o olhar pelo lado em que Vera vinha descendo com
grande dificuldade, equilibrando o cesto a cada es-
corregão no veludo da relva verde.
Israel ria às gargalhadas e com os braços aber-
tos esperou-a no pé do morro e apertando-a em
seus braços, derrubou-a na grama e arrancándo-
me as roupas, deixou que suas carnes queimantes
varassem as outras carnes em brasa e os gritos da
fêmea saciada foram morrer ali bem dentro do
lago azul, onde a claridade fulgurante tremia em
filigramas de ouro.
Depois a calma vinda lá do fundo.
Se esticaram e de mãos dadas ficaram quie-
tos olhando para o céu.

144
— Ai... ai...
Vera se agitou.
O Delegado sentou-se de um ímpeto e com
o olhar cheio de preocupação, fitou Vera que tinha
a lhe vedar quase toda a nudez, ramos que pen-
diam das plantas baixas que escondiam entre suas
folhas inúmeras florzinhas lilazes, que jogavam
para o ar um delicioso perfume.
— Que foi?
— Meu pé, não consigo virá-lo. Acho que o
torci quando escorreguei no morro.
O Delegado ficou ajoelhado e pegando o pé de
marfim com as unhas esmaltadas de rosa pálido,
friccionou com as palmas das mãos.
— Erga um pouco mais a perna.
— Assim?
O Delegado olhou, e um calor apertou-lhe o
cérebro, embaralhando-o. Apertou o pé com força
e foi depositando beijos pela perna, coxas, e che-
gando lá, forçou o rosto, mas Vera começou a se
retorcer, gritando:
— Largue-me! Largue-me! Você está louco!
Assim não! Assim não quero!
Mas o Delegado não a largava, ofegante, sua-
do, bestial, insolente, ia enfiando e restejando o
rosto no vão das pernas até que as coxas dela se
separaram moles, fracas, e a voz vinha toda que-
bradinha, em monossílabos incompreensíveis.
Depois Vera virou-se e por longo tempo, ficou
debruçada no meio das flores, até que a voz doce
de Israel se fez ouvir:
— Zangada?
A voz veio abafada:
— Oh! Israel, você não devia.
— Perdoe-me. Nunca mais pedirei.
Vera ergueu-se e prendeu-o nos braços, falou
muitas vezes:

145
— Amo-o muito, muito, muito. Quero ser só
sua pelo resto de minha vida.
E voltaram a cair na grama e só deram con-
ta das horas quando Vera disse que estava com
fome, mas tudo ficou lá jogado na beira do lago,
quando o Delegado consultou o relógio e viu que
era meio dia.

Quando o Delegado a deixou perto da estrada,


fez-lhe prometer que no dia seguinte ela viria à
mesma hora.
— Virei mais cedo. Quero estar mais tempo
com você — Beijou-o na boca. — Quero vê-lo na
hora da procissão.
— Ah! até havia me esquecido que hoje é o
grande dia. Mas como nos encontraremos?
— Não nos encontraremos.
— Então?
— Artur vai carregar o andor de São Bene-
dito e eu da Virgem de Fátima. Precisaremos de
policiais por perto e eu o quero junto a mim.
— Estarei lá.
— Até lá, vai pensar em mim?
— Milhares de vezes.
— Jura?
— Juro.
Beijaram-se, mas logo se desprenderam, pois,
pela estrada, vinha um táxi que Vera fez parar
sem olhar para o Delegado, que entrava no mato
para se esconder do chofer.

146
CAPÍTULO XIV

A lua parecia de fogo, jogando para a cidade


uma luz clara que se envolvia na brisa leve e sua-
ve que fazia tremular molemente as chamas das
velas que saíam dos cartuchos de papel branco,
seguras pelas mãos de milhares e milhares de pes-
soas que seguiam em procissão, esmagando passo
a passo os magníficos desenhos das ruas, que le-
varam meses para serem feitos, entoando cânticos
sacros. De um lado vinha a procissão de São Be-
nedito e do outro a de Nossa Senhora de Fátima.
Os dois padroeiros da cidade haveriam de se en-
contrar bem no meio da praça principal e aí tro-
cariam de andor e ficariam durante o ano seguinte
um na igreja do outro.
E nesta hora seriam espocados uma infinidade
de fogos de artifício e através das duzentas caixas
acústicas espalhadas pela enorme praça, se ouvi-
ria A Aleluia de Haendel — seria o clímax.
O Prefeito e os mais importantes cidadãos da
cidade, carregavam o andor de São Benedito. Ele
estava felicíssimo e disse para Olavo que andava
junto dele com uma enorme vela segura pelas duas
mãos bem tratadas:
— Sucesso. Em nenhum ano tivemos uma
procissão tão magnífica! Quanta gente! Teremos
a renda triplicada.

147
— Concordo, Excia., meu hotel está lotado.
Até meu quarto cedi a um casalzinho para a lua
de mel.
— Graças a Deus!
— A São Benedito, Excia,, e a Nossa Senhora
de Fátima. Olhe, Excia., já se vê a área ilumi-
nada da praça onde se dará o encontro dos santos.
— Ótimo, depois da troca de santos, convida-
rei o povo para a inauguração da fonte luminosa.
* * *
Israel ficou na Delegacia até que Sílvio lhe
disse que a procissão ia sair.
— A que horas será o encontro dos Santos?
— Lá pelas dez horas.
— Que horas são?
— Deixe v e r . . .
— Arre, estou com o relógio aqui. — O Dele-
gado gaguejou.
— O senhor parece triste, Chefe, nervoso. Al-
gum problema?
— Não, não. Vou pra casa me vestir. Tome
o posto.
— Tá bem, Chefe.
O Delegado ia saindo quando Sílvio o viu dar
meia volta.
— Ah! me esqueci de uma coisa. Escute, Síl-
vio, dê um pulo na carceragem e veja como andam
as coisas...
Assim que Sílvio saiu, o Delegado abriu a ga-
veta e pegou a caixa com o Barbeiro. Embrulhou-a
em seu paletó e seguiu rápido para casa. Vestiu
suas melhores roupas, proibiu a mulher de sair e
com a caixa embrulhadinha em papel estampado,
com um largo laço de fita rosa apertado no braço
esquerdo em círculo, foi para o carro e guiou até

148
onde estava a procissão. Aí seguiu com passos
largos a fila de mulheres, até chegar ao andor e
levou um choque quando viu que Vera não estava
entre as moças da alta sociedade local que carre-
gavam o andor.
O que teria acontecido?! Pensou um pouco e
resolveu telefonar para a casa do Prefeito,
— Dona Vera está dormindo.
— Dormindo?!
— É, estava muito nervosa, tomou um remé-
dio pra dormir.
— Ah!
— Quem queria falar com ela?
— Ninguém.
* * *
O Delegado voltou para junto da procissão
com o cérebro estalando em mil perguntas.
— O que teria havido? O que?
Bem, logo mais saberia, a g o r a . . .
* * *
O Delegado ficou no final da fila, emparelha-
do com alguns meninos.
Tateou a tampa da caixa e quando sentiu a
ponta do cordão de nylon, foi puxando devagari-
nho até que o sentiu preso. Com os dedos da mão
que abraçavam a caixa levantou um pouco a tam-
pa e puxou. O Barbeiro esperneava preso na pon-
ta do fio. O Delegado deixou que o cordão escor-
regasse para o chão e com muito cuidado fez com
que o Barbeiro se encostasse na perna do menino,
que logo voltou os olhos para o local da coceguinha
e de sua garganta veio um grito de pavor:
— Barbeiro, Barbeiro, ele estava na minha
perna.

149
O Delegado puxou o fio, jogou o inseto para
dentro da caixa e pegou o caminho do Grande Ho-
tel, deixando para trás o povo em pânico corren-
do em todas as direções gritando, gritando — Bar-
beiro, Barbeiro — jogando para longe as velas que
pegavam fogo nos cartuchos soltando pequenas
nuvens de fumaça que para o povo com a mente
enrolada, dava a impressão de um enorme incêndio.
E a corrida agora era do inseto, do fogo e do
medo. O medo que entra nas pessoas que as obri-
ga a perder a personalidade e imitar as outras pes-
+
soas. Por isso todos corriam, até o Prefeito e a sua
turma jogaram no chão o andor e corriam sem
saber o que acontecia. Todos não. O padre con-
seguiu subir no tablado do encontro dos santos e
com o crucifixo bem alto pedia calma. Mas só
via bandos de pessoas com os olhos arregalados, a
fisionomia coberta de pavor, passar por ele e o
derrubaram com Deus e tudo como se fossem as
lavras de um furacão.

Israel chegou ao Grande Hotel e em nome da


lei quis dar uma olhada nos apartamentos do ho-
tel, pois recebera denúncia de que ali estavam hos-
pedados traficantes de tóxicos. Revistou alguns
apartamentos e logo perguntou:
— Onde é o apartamento do Orlando?
— Aquele ali, Delegado.
— Ótimo. Agora, pode ir.
Sozinho, o Delegado entrou no quarto de Or-
lando e com muito cuidado amarrou o Barbeiro
debaixo da cama de Orlando, um dos homens que
ele odiava por ser um dos responsáveis pela perda
de seu distintivo.

150
O Delegado sabia que o Barbeiro só agia no
escuro, por isso deixou a luz acesa e guiou para
um local escondido, mas de onde ele poderia ver
pela janela do quarto de Criando, quando ele che-
gasse, fosse dormir e apagasse a luz. Então iria
para o hotel e esperaria o grito da morte.
* * *

151
CAPÍTULO XV

Quando Rui ouviu a gritaria do povo se deba-


tendo e gritando, puxou a mulher e a encostando
em uma parede, cobriu-a com seu corpo forte de
jovem de vinte anos, defendendo-a da turma es-
pavorida que quase o levava em roldão, sendo-lhe
necessário cravar as unhas na parede, sentindo-as
até sangrar, mas como isso não foi o suficiente pa-
ra proteger a mulher, então achou melhor enfren-
tar a turba enfurecida e com grande sacrifício con-
seguiu chegar a salvo fora da praça e abraçando a
jovem, disse nervoso:
— Que lua de mel, hein? Maldito lugar, mal-
dito São Benedito, maldita Nossa S . . .
A mulher tapou-lhe a boca levemente com os
longos dedos da mão morena e bem tratada, e
murmurou repreensivamente:
— Oh! querido, não diga isso. Os santos po-
dem castigar-nos.
— E o que você quer que diga? Escolhi esse
horrível lugar para passar a nossa lua de mel. Lo-
go que chegamos, a primeira notícia é q u e . . .
— O apartamento que o Sr. reservou, seu Rui
de Almeida Passos, está interditado, por suspeita
de inseto assassino. — Inseto assassino, pode ser
uma coisa dessas?
— De quê?!
— Você se lembra, né, que o empregado do
hotel engasgou todo para contar que a cidade toda

152
estava em guarda contra um inseto assassino, um
Barbeiro, ou melhor, um Triatoma ou Panstrons-
gylus, sei lá, e que esse assassino fora visto no hotel,
justo no quarto que reservei. E agora, onde se en-
contrava o patife do Barbeiro? Na procissão, nu-
ma procissão de gente idiota que quase nos mata
por causa de um merdinha de um bichinho. Agora
só me falta chegar ao hotel e o retardado do por-
teiro me falar:
— Não conseguimos outro quarto. — Você vai
ver o que faço, reviro aquele hotel de pernas para
o ar. Vamos lá.
Mas o porteiro, com a fisionomia alegre, foi
logo falando:
— Sr., o dono do hotel cedeu-lhe o seu apar-
tamento, para quantos dias o sr. precisar e tudo
gentilmente.
Os olhos de Rui luziram.
— O que, de graça?!
— De graça. Também a champanhe, as flo-
res e tudo.
O rosto de Irma se cobriu de alegria.
— Oh! Rui, que bom. Você estava tão ner-
voso por ter perdido a carteira.
— É, abençoado seja São Benedito e Nossa Se-
nhora de Fátima.
E os três rindo foram em direção ao aparta-
mento de Orlando.
— Por favor, Sr., por aqui.
— A luz está acesa!
— Toda a cidade dorme com a luz acesa, Sr.
— Por que?!
— O Barbeiro só ataca no escuro.
Os lábios de Rui se contraíram.
— Que tolice, se o Barbeiro está lá não pode
estar cá.
— O povo daqui é medroso, senhor.

153
— É, estou vendo mesmo.
— Daqui a um minuto lhe trarei o champa-
nhe, sr.
— Com gelo, hein?
— Com gelo.
Assim que ficaram a sós, Irma foi para o quar-
to anexo trocar de roupa, enquanto Rui se esti-
cava na cama e, dobrando os dois braços em baixo
da cabeça e cruzando as pernas, ficou aguardando
a mulher, com o pensamento voltado para o dia em
que conheceu Irma.

Foi num domingo com céu azul e bastante sol,


no Parque do Ibirapuera. Ele ia ao parque para
se encontrar com os amigos motoqueiros. Naquele
domingo estreava a sua nova e reluzente moto. Ga-
nhara do pai, rico industrial, porque conseguira
entrar na Faculdade de Direito. Lembrou-se sor-
rindo que quando vira aquela morena espetacular,
fingira que ia atropelá-la.
Ela gritou apavorada, chorando de verdade.
Ele falou-lhe como a uma criancinha e pediu-lhe
mil perdões. Seis meses depois estavam casados.
— Quero passar a minha lua de mel em Nossa
Senhora de Fátima.
— Que é isso? Papai já nos reservou luga-
res no mais luxuoso hotel das Bahamas.
— Não, eu quero na Nossa S . . .
— Tá bem, não precisa fazer beicinho.
**

— Que tal estou?


Rui até perdeu a voz, mas seus olhos deslum-
brados diziam tudo, tudo de mais, de mais intenso
do que quando a viram vestida de noiva. Na trans-

154
parência da camisola azul claro, brilhavam os seios
grandes e retos, marron dourado com os bicos qua-
se negros, depois a cintura fina ia se alongando em
um redondo quadril e terminava em coxas grossas
acetinadas.
— Chega, Rui, olhe-me no rosto.
Os cabelos negros caídos até os ombros, os den-
tes molhados num sorriso sexual e Rui abriu os
braços e Irma ia se jogar neles quando batidinhas
na porta os fizeram estremecer.
Era uma bandejona que reluzia na forte luz
do quarto, segura pelas mãos do homem que a de-
positou na mesinha com muito cuidado, para não
derrubar o balde de gelo, a champanhe, os copos
e as rosas amarelas cobertas de pingos d'água que
pareciam reluzentes pérolas.
O homem ia saindo quando Rui gritou:
— Espere.
Levantou-se e enfiou a mão no bolso.
— Ui, e a minha carteira?
— Acho que o Sr. a perdeu na procissão, co-
mo a maioria das pessoas que aqui estão hospeda-
das e que estão chegando e reclamando a mes-
ma coisa. Alguns estão dando graças a Deus por
não terem ficado queimados ou feridos, como gran-
de número de turistas que estão em estado grave
no hospital.
— Que horror!
— Alguns já estão com as malas prontas. Só
ficarão para a missa de a m a n h ã . . .
— Ah!
— Bem, senhor, muitas felicidades.
Quando viram o empregado pelas costas, Rui
pegou a bandeja e colocou-a aos pés da cama.
Abriu a garrafa de champanhe, encheu os copos
e brindaram. Longa vida, cheia de alegrias.
— Sem uma briguinha?

155
— Sem uma briguinha.
Rui abraçou-a e beijou-a na boca.
— Gostaria de saber o que você fez para eu
estar assim alucinado por você. — E passava a mão
por toda a camisola, apertando aqui e ali.
Irma sorria feliz.
— Agora fique aí quietinha bebendo devaga-
rinho, enquanto tiro a roupa.
Rui voltou de roupão de seda anil com seu no-
me bordado a dourado no bolsinho, do lado do
coração.
Irma virou-se com o copo na mão, as faces es-
carlates e os olhos luzindo.
Olharam-se por longo tempo, até que se agar-
raram e se comeram de beijos. Rui levou-a para
a cama e tirou-lhe a camisola e de pé jogou para
longe o roupão e caiu em cima do marron dou-
rado, que se virou dizendo em sussurros:
— Vai doer? %
Ele não a ouvia e esmagando-a com seu cor-
po forte, moreno e peludo, forçou sua carne na ma-
c i e z da carne úmida e ferozmente a empurrou e
para não ouvir o grito agudo de quem deixava a
virgindade, colou seus lábios nos lábios dela e em
frêmitos lhe sugou quase a alma.
Depois Rui caiu para o lado e fechou os olhos.
Irma levantou-se e enrolando-se na camisola, dis-
se-lhe baixinho:
— Volto já.
Irma chegou na porta do banheiro e, ao acen-
der a luz, errou o botão e apagou a do quarto. Pro-
curou outro botão e acendeu a do banheiro e aí,
cantarolando baixinho, começou a tomar banho.
* * *
O Barbeiro na fúnebre escuridão, foi em bus-
ca de alimento e sem se atrapalhar no cordão, su-

156
biu na cama e passando pelo corpo nu e suado
de Rui, que ressonava suavemente, procurou a fa-
ce e aí, enfiou os ferrões e começou a chupar o
sangue doce e quente, soltando as fezes.

O Delegado sentiu o coração aos pulos quando


viu o quarto de Orlando às escuras. Acelerou em
direção ao hotel. Entrou e seu rosto se cobriu de
um ar decepcionante quando viu Orlando no meio
de um grupo de turistas, lamentando o fracasso
já no princípio do que eles arquitetaram que seria
o oásis para a sua cidade.
Quando viu o Delegado, foi ao seu encontro
fazendo mil perguntas.
— Algum morto? Quantos feridos? Que lás-
tima, agora que meu hotel ia recuperar o prejuízo
do ano passado, quando esteve em reformas. Ima-
gine, o hotel tão cheio, lotado, até com o meu apar-
tamento cedido a um casal em lua de mel, e
agora...
— Que foi, Delegado, porque está com os olhos
tão arregalados, o que eu disse demais?
— Nada. — O Delegado levou a mão ao cora-
ção que forçava para sair do peito. — O casal
está lá?
— Lá onde?
— No quarto.
— Não sei se já chegaram. D e i x e . . .
Todos pararam petrificados quando ouviram
os gritos de terror. Israel foi o primeiro a sair do
marasmo e velozmente subia as escadas, pulando
os degraus, chegou perto da porta do que ele já
sabia ser o apartamento de Orlando, e sentindo-a
fechada, jogou seu enorme físico contra a madeira
escura e varando o forte triturar de madeira, es-

157
tacou e sentiu todo o horror do mundo cobrindo
sua face quando viu o Barbeiro encravado na face
serena do moço. Sem perda de tempo, puxou o
cordão, fazendo o Barbeiro desgrudar-se, trazendo
seguras nas seis pinças de suas patas, pedacinhos
de carne rubra. Israel jogou o inseto debaixo da
cama e respirou aliviado quando viu que Irma na-
da percebera, pois com o rosto escondido nas mãos,
chorava alto, interruptamente, em soluços do-
loridos.
Os olhos do Delegado deixaram a moça e se
voltaram para Rui, e o Delegado pulou rápido, ten-
tando segurar o braço do homem que ia se levan-
tando, mas era tarde, as unhas do moço coçavam
sem parar o ferimento, levando para dentro de
seu sangue milhares de Trypanosoma Cruzi, Al-
guns minutos em horrorosa agonia e Rui estava
morto e quando o Delegado desceu as escadarias
com a caixa do Barbeiro debaixo do braço, sentiu
o peito estufar em satisfação, pois encontrou todos
os hóspedes deixando o hotel, arrastando as ma-
las, sacolas, pacotes, roupas nos cabides e tudo.
Desceu assoviando e quando já estava no úl-
timo degrau, quis que a sua vitória se devastasse
mais e mais no seu espírito, por isso ficou de pé
ereto, olhando com os olhos brilhantes de alegria
Orlando arrancar os cabelos e com as faces inun-
dadas de lágrimas, gritar para a noite quente e
estrelada:
— Estou arruinado. Arruinado.
* * *
Lá no fundo do céu escuro, começava a apa-
recer um claro luminoso que aos poucos se ia alar-
gando e dava formas aos inúmeros voluntários que
limpavam as ruas, com o Prefeito dando ordens da-

158
qui e dali até que um de seus assistentes, vendo-o
branco, abatido, com negros contornos em volta dos
olhos, pediu-lhe que fosse descansar e o Prefeito
foi e chegou em casa juntinho com o carteiro, que
lhe entregou a correspondência atrasada.
O Prefeito entrou, sentou-se na poltrona e, in-
diferente, foi passando as cartas de uma mão para
a outra e quando viu aquela para a mulher, exami-
nou-a com curiosidade.
Letra de homem? Ora, existiam tantas letras
que poderiam tanto ser de homem como de mulher.
Levantou o envelope contra a luz que entrava aos
borbotões pela janela, sacudiu-o e colocando-o jun-
to dos outros, enfiou tudo na gaveta ali da estante
e foi descansar um pouco para a missa das dez.

* * *
Apesar do desastre da noite, a igreja estava
superlotada.
Luzes, velas, sons, flores, São Benedito; o pa-
dre vestido de marfim e ouro levantou o cálice que
rebrilhava soltando raios que se perdiam na clari-
dade das chamas das velas e o Delegado, entrando
ajoelhou-se bem perto de uma velhinha, que con-
trita ia movimentando os lábios secos e com as
mãos murchas e manchadas ia segurando as boli-
nhas do terço murmurando:
— Ave Maria, cheia de g r a ç a . . .
— Barbeiro! Socorro! Barbeiro! De todas as
bocas unificou um só grito, Barbeiro! Barbeiro!
Novo tumulto, com gente caindo, gente arras-
tada, gente pisada, gente ferida, gente morta.
O Delegado escondeu o Barbeiro no seu carro
depois de tê-lo feito andar na mão da velhinha que,
apavorada, gritou e desmaiou, e correu em auxílio
de suas vítimas.

159
Foi o que mais trabalhou, sem se importar com
o cansaço que tendia algumas vezes a derrubá-lo e
foi ele quem levou para casa o Prefeito que, lívido
com os olhos cheios de lágrimas, via os turistas dei-
xarem a cidade em enormes filas de carros que
lentamente se afastavam.
Quando o Delegado abriu a porta do carro
para o Prefeito descer, este agarrou em sua mão,
dizendo:
— A cidade está arruinada, Delegado, arrui-
nada! Um ano perdido. Não entendo o que está
havendo. Descubra, Delegado, descubra como é
que esse inseto está aparecendo em todos os luga-
res onde se reúne o povo. A cidade tem um sór-
dido, covarde e traiçoeiro inimigo, Delegado, que
não é Triatoma, mas sim humano. Humano com
cérebro diabólico, cérebro homicida. Você viu os
mortos? Eram três lindas crianças. Foi horrí-
vel, cruel. Descubra onde se esconde este réptil,
Delegado. Pegue-o e esmague-o sem piedade e seja
o Delegado desta cidade até à morte.
— Assim farei, Excia. O que mais desejo é
ser o Delegado, a autoridade que defenderá a ci-
dade nem que para isso seja preciso dar a minha
própria vida.
* * *
O Prefeito entrou e caiu no sofá, e ficou co-
berto pela penumbra da silenciosa sala e aí ficou
pensando onde estariam todos. Fechou os olhos,
mas as cenas da igreja saltavam em sua mente.
Sentou-se no sofá e com a cabeça amparada nas
duas mãos abertas, fez o cérebro se alargar em bus-
ca de alguma coisa que o fizesse esquecer por al-
gum segundo tudo, e então lembrou-se da corres-
pondência.

160
Foi abrindo as cartas e lendo, sem ao menos
se preocupar em ver o subscrito do envelope e quan-
do teve desdobrada na mão a carta da mulher,
leu-a sem entender, releu-a, mas o cérebro cansa-
do, nervoso, não conseguia se coordenar, então ele
virou o envelope e viu que estava lendo a carta de
Vera e sentiu a mente se estender plana e lím-
pida, levantou-se subitamente, acendeu a luz e
leu, leu, leu até que as mãos moles e trêmulas lar-
garam o papel que caiu no tapete de veludo azul-
anil e quando sentiu o afrouxamento nos joelhos,
procurou segurar-se à beirada da estante para não
tombar.
— Então o Delegado...
Um ódio fervente entrou nele, fazendo-o le-
vantar-se e andar desvairado pela sala, chutando
tudo que encontrava pela frente, quebrando cris-
tais, porcelanas, plantas e tudo^ De repente, imo-
bilizou-se com o rosto amarelo, os olhos fuzilantes,
os lábios tremendo, quando Vera entrou assustada.
— Que foi, querido?
Artur teve ímpetos de estrangulá-la, de mas-
sacrá-la, dar-lhe um tiro ali bem na boca, esma-
gá-la, triturá-la.
Apertava as unhas contra a palma das mãos
sem sentir a dor dilacerante que rasgava as suas
carnes e não conseguia responder.
— Já que você não quer explicar a causa des-
se furacão, vou para o quarto das crianças Artur-
zinho está com febre, fui em busca do médico.
Assim que Vera entrou no quarto, suspirou
fundo e arrumando as roupas da cama do filho
doente, daqui e dali, procurava controlar os arre-
pios que corriam por todo o seu corpo ao lembrar-
se do perigo de que escapara Nem, queria lembrar,
mas a cena se desenhava bem na sua frente como
um filme colorido.

161
Ela fora ao encontro do Delegado, como ficara
combinado, pegou o táxi e desceu na estrada, mas
assim que entrou no canavial, uma turma de ho-
mens a perseguiu, tentando alcançá-la jogando-
lhe ovos, tomates e outras coisas, que ela não con-
seguia decifrar. Ela correu como louca e conse-
guiu se esconder numa curva, onde havia a gruta
escondida na vegetação, que Israel lhe mostrara no
dia anterior e lá ficou encolhida com o coração aos
pulos, ouvindo o castanholar dos seus dentes de
pérola.

• • •

A primeira preocupação do Delegado ao che-


gar à Delegacia, foi esconder o Barbeiro dentro
da mesma gaveta. Depois descansou um pouco e
então saiu para o encontro com Vera. Assim que
atravessou o corredor e ganhava a porta da rua,
teve pela frente Sílvio, que entrava muito nervoso,
e lhe disse:
— Desculpe, Chefe, não tenho nada com a sua
vida, mas gostaria de saber se o sr. vai indo ao
encontro da dona Vera.
O Delegado cambaleou como se tivesse levado
um soco.
— Como se atreve a . . .
— Não é nada disso, Chefe, quero dizer, eu
não tenho nada com isso, não, não é isso que eu
queria falar, é . . .
— Que trapalhada é essa? Fale de uma vez.
Quem lhe falou que vou me encontrar com Vera?
— É que ela está em perigo.
O Delegado apertou os ombros do policial, gri-
tando :
— O que você falou?! O que aconteceu, fale
logo, homem, fale, fale!

162
— Meu primo que trabalha na Prefeitura me
contou que ontem uma porção de amigos do Pre-
feito, sondaram Dona Vera e o senhor e sabem de
tudo. Hoje eles se reuniram lá no canavial para
darem uma lição na traidora, o Sr. sabe, eles gos-
tam muito do Padrinho, e u . . .
Israel nem acabou de ouvir Sílvio, entrou
em seu carro e guiando em grande velocidade, sem
respeitar qualquer lei de trânsito e quase causan-
do desastres, entrou na estrada e pegando uma
variante de terra, escondeu o carro e enfiando-se
mato a dentro, procurando entrar no canavial pelo
trilho que ele havia feito para Vera passar, assim
chegou à gruta abraçando a moça que chorava
baixinho, ele, com meiguice, disse tudo o que de
mais belo existia para arrancar o medo de sua ama-
da e de joelhos lhe implorou perdão pela situação
que ele havia criado por adorá-la tanto. Vendo-a
mais calma, saíram sorrateiramente pelo fundo da
gruta já bem perto do carro e o Delegado deixou-a
perto da casa de sua mãe, depois dela ter prome-
tido que pensaria nele o dia todo e que iria para
São Paulo no dia seguinte, para se encontrarem,
pois ele resolvera deixar a cidade.

* * *

Israel foi para a Delegacia e, sentado em sua


mesa na cadeira giratória, ficou olhando como que
espantado tudo à sua volta.
A sala que ele adorava, pintadinha de novo,
de um cinza perolado, os móveis imitação de couro
brilhante, com a mesinha no meio, com o vaso de
flores naturais lá pregado na parede, bem na sua
frente, o retrato em meio corpo do presidente da

163
República, a sua mesa, a cadeira, o tapete, a cor-
tina branca com furinhos redondos... suas mãos
se esticaram maquinalmente e os dedos morenos
com pelos negros nas falanges acariciaram o cin-
zeiro de cristal branco que Vera lhe havia dado e
ficaram muito tempo alisando, afagando.
— Por ela, por Vera, tornei-me até um assas-
sino. Mas serei o mesmo, a mesma pessoa de me-
ses atrás? Como mudei. Sinto-me como se hou-
vessem trocado a minha alma. O que aconteceu
comigo? Pode um amor modificar tanto um ser
humano? Sim. Por ela mataria mais e mais. Que
extraordinária transformação. Sinto-me como um
sonâmbulo, inflado, mole, raivoso. Mas lá em São
Paulo tudo vai melhorar. Para isso não devo dei-
xar que descubram que sou um assassino. Vou-
me embora, levo Vera comigo. — E aquela idéia
cresceu, transbordou dentro dele. — Deixo Lucia-
na e a criança aqui e depois mando meu sogro bus-
cá-los e que façam com eles o que bem entende-
rem. Só Vera, só ela me interessa,
O Delegado, forçando a mente, fez com que a
silhueta de Vera se formasse ali, bem na sua fren-
te, e então ele sentiu uma onda de calor correr
célere pelo seu sangue quando recordou seus bei-
jos e a quentura de suas carnes. Já não poderei
mais viver sem ela, nem um minuto, nem um se-
gundo.
Enquanto o Delegado se emaranhava em
quente voluptuosidade, Artur, com o coração qua-
se estourando de dor, pega a carta do chão e entra
no quarto do filho e como um alucinado empurra
Vera para diante da janela e, esticando a carta
aberta, encosta-a quase no rosto da mulher, gri-
tando:
— Leia, leia o que está escrito aí.

164
Vera pegou o papel, mas nem precisou ler para
saber que era o bilhete que o Delegado lhe havia
escrito, mas mesmo que quisesse não conseguiria
ler, pois a carta dançava em suas mãos trêmulas.
— Então?!
— Então o quê?
A voz de Vera era calma.
— Que senvergonhice é essa?
— Vamos conversar na sala, nosso filho não
deve ouvir.
— Não deve por que, assim ficará sabendo a
mãe que tem.
— Ainda insisto, vamos conversar em outro
lugar. — Vera ia se retirando, mas Artur a puxou
com força e fez com que ela cambaleasse e se se-
gurasse firme na janela. Neste momento o carro
da polícia com Sílvio e outro policial passavam bem
em frente a casa do Prefeito e Sílvio fixou os olhos
na janela e viu a carta sacudida no ar, o Prefeito
empurrando, e Vera caindo; guiou como um louco
e entrando na Delegacia, gritou esbaforido:
— Delegado, o Prefeito descobriu tudo e está
batendo em Dona Vera.
Foi como se um raio tivesse atravessado a sala
e lhe entrado na cabeça, fazendo com que seu cé-
rebro estalasse em mil ribombos e em sua arro-
jada corrida em defesa da amada, ele até chegava
a ouvir os estalos secos das bofetadas que o Pre-
feito aplicava em Vera e, quando chegou perto da
casa, olhou à janela e viu os dois discutindo. Sen-
tiu uma sensação de fera e arremessou seu gigan-
tesco corpo contra a primeira, a segunda, a ter-
ceira porta e desvairado, avançou sobre o Prefeito,
dando-lhe punhadas a torto e a direito, depois al-
gemou-o e arrastou-o para o jipe que Sílvio havia
trazido (numa corrida louca atrás do Delegado pro-

165
curando detê-lo) e jogando o Prefeito dentro voou
para a Delegacia e como dono de tudo. encarce-
rou S. Excia.
* * *
Assim que o Delegado chegou à sala, Sílvio
veio anunciar Vera.
— Que entre, entre, entre.
E quando ela entrou, com os cabelos soltos com
reflexos iluminados, ele a apertou nos braços e nu-
ma voz dolorida falou:
— Por Deus, meu amor, ele à machucou? — e
fazendo-a virar-se olhava-a com olhos faiscantes,
os lábios tremendo.
— Não, Israel, e u . . .
— Porque ele a agrediu, por que? — O tre-
mor agora passava para as mãos e depois se con-
centrara em todos os nervos do corpo, ele tre-
mia, se sacudia, fazendo Vera o olhar assustada e
bem branca.
— Que é isso, Israel, o que há com você, o que
aconteceu? Artur não me bateu. Não aconteceu
nada de mais, ele só descobriu o bilhete, mas íamos
conversar, eu ia pedir-lhe o desquite, eu ia embora
com você, mas a g o r a . . .
— Agora?
— Agora não quero mais nada, não quero mais
saber de você. Você não devia ter feito isso, e u . . .
O Delegado se afastou e num modo desvaira-
do, estendeu os braços e sem poder falar, abria e
fechava a boca, até que da mesma saíram como
em soluços:
— Não me deixe — e com passos trôpegos foi
em direção a Vera, repetindo: — Não me deixe,
não me deixe, que eu a farei viúva, farei com ele

166
como fiz com Fernando, e u . . . — e Vera, branca
como cal e sem poder mover um músculo do corpo,
ficou ouvindo a macabra narrativa do Delegado.
— Foi assim que ele morreu, foi assim que destruí
a semana dos festejos, foi assim que pretendia ma-
tar todos os que assinaram a minha transfe-
rência, ia começar pelo Orlando, mas aconteceu
aquela desgraça, ele havia cedido o seu apartamen-
to para o casal em lua de mel. Eu tenho aqui o
Barbeiro assassino, veja. — O Delegado abriu a
gaveta e tirou a caixinha e Vera viu, pela trans-
parência do acrílico, o negro inseto que agora, ner-
voso, se retorcia por todos os lados.
A caixa quase se encostava no rosto da moça
quando ela vacilou e, com um grito rouco, caiu es-
tirada no tapete.
O Delegado escondeu depressa o inseto e, pe-
gando Vera nos braços, deitou-a no sofá- e gritan-
do para os investigadores, pediu éter, álcool, cân-
fora, qualquer coisa que estivesse em mão. Todos
acorreram cada qual com o que conseguiu encon-
trar, depois o Delegado exigiu um médico, mas não
foi preciso, pois assim que ela respirou o éter, foi
deixando aparecer lentamente os reflexos esmeral-
dinos de seus olhos e o Delegado precipitou-se para
junto dela, falando alto e abafado:
— Vera, fala amor, minha querida, minha
vida, fala, fala, não fique assim. Assustei-a, não
foi, amor?
Vera sentou-se devagar e olhando todos que
estavam à sua volta, admirados com as palavras e
modos do Delegado, sem que ninguém pudesse de-
tê-la, empurrou com as duas mãos o Delegado que
estava ajoelhado à sua frente e saiu desabalada-
mente correndo pela praça quando viu pela frente

167
uma multidão enraivecida que ia em rumo à De-
legacia, então gritou:
— Salvem o meu marido, o Delegado vai ma-
tá-lo com o Barbeiro, o Delegado tem o Barbeiro
escondido dentro de uma caixa na gaveta de sua
escrivaninha. Foi ele, ele que matou Femando, o
moço do hotel, toda aquela gente e que levou o pâ-
nico à procissão e à igreja. Agora ele vai matar
Artur.
O povo estourou para a Delegacia, com as vo-
zes altas reunidas em um só grito:
— Assassino! Assassino!

Assim que Vera saiu, o Delegado correu até à


porta, mas divisando ao longe a turba enfurecida,
entrou rápido para dentro e, ordenando que se
trancassem todas as portas e janelas, entrou em
sua sala, fechou a porta com a chave, com a
enorme tranca e, pegando a caixa com o Barbeiro,
desceu para a carceragem, fechando na sua passa-
gem todas as portas gradeadas e sem se importar
com os quatro presos que ouvindo a gritaria e n -
surdecedora lá fora, indagavam o que havia. O De-
legado foi em direção à cela do Prefeito, abriu a
caixa e sacudindo a mesma devagarinho, fez com
que o Barbeiro fosse em direção a Artur, que jazia
estendido no catre sem poder mover-se, e que ao de-
parar com aquele enorme inseto vindo do fundo da
penumbra em sua direção, e sabendo que era o
Barbeiro, ficou como que paralisado esperando, es-
perando. .. e ouvindo o Delegado que segurava
com os dedos em garra a grade, com metade do
rosto enfiado entre os frios ferros, falar:
— Aí está o seu jantar, Barbeirinho.
* * *

168
O Barbeiro sentiu-se livre e, no escuro da cela,
era como se fantásticos raios de luzes o levassem
rápido para o sangue que saía aos filetes do nariz
do Prefeito, motivados pelos socos dos fortes pu-
nhos de Israel. Já bem perto de Artur, o Barbeiro
estufou freneticamente as antenas longas e secas
e esticando os ferrões, foi subindo devagar, deva-
gar, até seu peito. Sim, era ele mesmo. Ar-
tur não conseguia ver muito bem no meio es-
curo, mas sabia que aquela mancha parada ali à
sua frente, em cima de seu coração, era o Barbei-
ro assassino, então saiu do entorpecimento em que
estava envolvido e com uma mãozada jogou para
longe o Barbeiro, que foi cair enfurecido no rosto de
Israel e agarrando-se na face do Delegado, procu-
rava livrar-se das mãos frenéticas deste que, com
os olhos desmesuradamente abertos, fazia tu-
do para arrancá-lo de sua face, mas o Barbeiro con-
seguiu encravar os ferrões cor de brasa em suas
carnes e movimentando o corpo de lá pra cá, esti-
cou as asas em leque e soltou as fezes bem na hora
que os cinco dedos curvados para dentro do Dele-
gado o arrancavam de seu rosto e o jogavam longe.
E quando a coceira veio, o Delegado (que tinha sua
atenção voltada para os presos que tinham conse-
guido fugir e acendiam as luzes fazendo com que
a forte claridade que inundou as celas iluminasse o
Barbeiro que ficou estufado de sangue ficasse pa-
rado no chão em uma horripilante mancha negra
na cerâmica vermelha do corredor) já o Delegado
coçava fortemente o lugar da picada, facilitando a
entrada dos Trypanosomas Cruzi, que sem perda
de tempo, procuraram ô miocárdio e ali enfiados,
fizeram com que o coração do Delegado começasse
a bater descompassadamente, convulsionando seus
pulmões que, com a necessidade de ar, faziam o De-
legado apertar a garganta com as duas mãos e ir

169

í
com a boca escancarada e aos arrancos, buscar o
ar em todas as direções, sem o conseguir; quando
sentiu que estava morrendo, gritou cambaleante
em direção ao Barbeiro:
— Você me matou, miserável, mas eu vou es-
magá-lo, esmagá-lo. — E o Barbeiro só teve tempo
de levantar as antenas para ouvir o que o Delegado
dizia, quando sentiu que o sapato do Delegado o
triturava contra o chão gelado e o Delegado o es-
magava, esfregando o pé no chão, continuando a
gritar:
— Vou esmàgá-lo, esmagá-lo, esmagá-lo.
Assim.
Os olhos do Delegado já se fechavam para a
última viagem, mas assim mesmo ele pôde ver en-
volvido em densa neblina, o povo chegar para li-
bertar o Prefeito, Vera colar seus lábios vermelhos
e quentes nos lábios de Artur e então ele começou
a rebelar-se contra a morte, tentando atingi-la com
os seus punhos. Todos com os olhos fixos nele ven-
do-o berrando e se esticando, se mordendo, arran-
cando os cabelos, pulando com as mãos na cabeça.
— Não quero morrer. Não quero morrer...
Nããããão...

170
Luciana correu para ò quarto, ouvindo os gri-
tos do marido e, sacudindo-o pelos ombros, gritou:
— Israel, Israel, acorde,, por favor, acorde.
O Delegado foi abrindo os olhos em nesgas e
de repente levanta o corpo e senta-se de um sope-
tão na cama.
— Abra a janela, quero que tudo fique claro.
A única arma contra ele é a claridade. Depressa,
depressa.
A janela aberta e o sol entrando e o rosto pá-
lido, com pingos de suor escorrendo de todos os po-
ros, se voltou para o céu fortemente azul, enfei-
tando o bairro do Jardim São Bento, onde o Dr.
Israel Pinheiro Machado residia com a mulher e
a filhinha.
— Que foi, meu bem? Você gritou tanto que
até deixou preocupado o representante do Secre-
tario de Segurança que está aí com a sua no-
meação.
Israel passou a mão gelada por entre os bri-
lhantes cabelos negros e disse baixo:
— Tive um terrível pesadelo. Já cansei de lhe
pedir para não me deixar dormir mais do que cos-
tumo, agora vou castigá-la assim, venha cá.
O Delegado apertou a mulher contra o peito
e do longo beijo saiu um pedido que ela rindo
negou.
— Atenda primeiro o Secretário de Segurança.
O Delegado embrulhou-se no roupão de velu-
do grená e, alisando os cabelos, foi para a sala.

173
Mãos nas mãos e a voz do homem:
— Dr. Israel, vim trazer-lhe sua nomeação.
— Para que cidade?
— Nossa Senhora de Fátima.
Israel embranqueceu como um defunto e re-
petiu :
— Nossa Senhora de Fátima?!!!
— É, por que se admira?
— Nada, nada.
— Sua Excia., o Sr. Secretário, oferece-lhe
esta cidade porque está necessitada de um Dele-
gado como o Sr.: trabalhador, forte, destemido e
mais, acha que o Sr. é o único Delegado que po-
derá acabar com a epidemia Cliagásica. A cidade
de N. S. de Fátima está infestada de Barbeiros,
atingindo até o centro da cidade.
O Delegado ficou com os olhos arregalados nos
olhos do Secretário.
— Que há, Dr.?!
Sem desarregalar os olhos, Israel pergunta:
— O Sr. conhece o Prefeito da cidade?
— Ah! se conheço, é meu grande amigo. Gen-
te boa, tem uma mulher loira que é uma maravi-
lha. Ali está mulher bonita.
— Como é o nome dela?
— Vera, e o Prefeito, Artur.
O Secretário já estava com a folha da nomea-
ção aberta, bem ali na frente do Delegado.
— É só assinar aqui, Delegado, e meus para-
béns, vai ser o maior ordenado da nossa polícia.
Trinta mil cruzeiros mensais, pois combater a doen-
ça de Chagas é um bocado... u m . . . bocado...
como diremos
— Mortífero.
— É isso m e s m o . . . quero dizer... Bem, bem,
o Sr., com esse físico todo, não terá medo de um

174
insetozinho, não é? Vamos lá, assine aqui, aqui
na cruzinha.
Vendo que o Delegado não se mexia, o Secre-
tário fitou-o longamente, dizendo:
— Não vai me dizer que está com medo do
Barbeiro, o senhor já enfrentou os nossos piores
bandidos.
A cabeça do Delegado balançou em sinal afir-
mativo.
* * *
Hoje visitei Israel para cumprimentá-lo pela
sua nova nomeação para uma cidade do interior de
São Paulo, e estranhei quando ele me disse que
preferiu ficar na Capital.
— Mas você vive criticando a cidade de cinzen-
to armado, né, Delegado? O que o fez desistir da
paz do Interior?
— Um Barbeiro.
Então ele me contou essa estória.
Adelaide Carraro
1976