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Ac onselham e n t o

Exaltar a Dor? Ignorar a Dor?


O que fazer
com o sofrimento?
E d w a r d T. We l c h 1
“A igreja consiste de pessoas sentadas na Nossa proposta insere-se em um con-
piscina das próprias lágrimas”. Isso é o que texto em que os cristãos vêem-se atraídos
acredita um número crescente de pastores, para uma de duas direções: alguns exaltam
conselheiros e cristãos em geral. Não existem a dor, outros negam a dor. Alguns estão com
pesquisas nem estatísticas rigorosas para pro- o coração sangrando, outros são estóicos.
var esta afirmação, mas muitos cristãos não Alguns são “conselheiros da dor”, outros são
hesitariam em concordar. Mais importante “conselheiros do pecado”. Os conselheiros da
ainda é o fato de que a Palavra de Deus dor são peritos em fazer com que as pessoas
concorda, e dá um passo à frente afirmando sintam-se compreendidas; os conselheiros
que “toda a criação, a um só tempo, geme do pecado são peritos no entendimento do
e suporta angústias até agora” (Rm 8.22). chamado à obediência, mesmo diante da
A vida humana implica tristeza e mágoa. dor. Os conselheiros da dor correm o risco de
Relacionamentos quebrados, doenças enfatizar em demasia a dor, a tal ponto que
terminais, a perspectiva da própria morte, o alívio do sofrimento passa a ser o assunto
depressão, injustiça e atrocidade, o medo de primeira importância. Os conselheiros do
silencioso que paralisa, memórias de abuso pecado correm o risco de dar à dor pouca ou
sexual, a morte de um filho, e muitos outros nenhuma importância. Os conselheiros da
problemas dolorosos não poupam ninguém. dor podem ser lentos em levar os sofredores
Seria impossível minimizar a amplitude e a a responder ao evangelho de Cristo em fé
profundidade do sofrimento tanto na igreja e obediência. Os conselheiros do pecado
como no mundo. podem correr o risco de alimentar estóicos
cuja resposta de obediência ignora a grande
Tradução e adaptação de Exalting pain? Ignoring pain?
1 compaixão de Deus. Os conselheiros da dor
What do we do with suffering? podem prover um contexto que enfatiza a
Publicado em The Journal of Biblical Counseling. transferência de culpa e a ideia da vítima
Glenside, Pa., v. 12 n. 3, Spring 1994. p. 4-19. inocente. Os conselheiros do pecado po-

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dem estar tão preocupados em evitar que compulsivo [tradução: pecaminosamente]
a culpa seja lançada sobre outros que não porque esta é uma maneira de fazer cessar
desenvolvem adequadamente a teologia do a dor”. Em seguida, o autor descreve três
sofrimento. Há falhas em ambos os lados. diferentes casos: um homem obcecado por
sexo e pornografia, outro pelo trabalho,
Exaltar a dor e outro ainda pelo álcool. “Em cada um
Aqueles que são propensos a exaltar a desses casos, o comportamento em si não
dor têm dito ou ouvido: “A Bíblia não fala era o problema real. O comportamento era
significativamente ao meu sofrimento”. A apenas um sintoma do problema. Todos eles
teologia bíblica do sofrimento parece não estavam se escondendo da dor. Aquilo que
“funcionar”. Eles já tentaram, mas a Bíblia faziam tinha o propósito de curar a mágoa
não lhes ofereceu respostas profundas. Foram resultante de algum sofrimento profundo
encorajados por conselheiros e amigos a ter em sua vida.”2
fé. Podem ter ouvido excelentes pregadores Esta é a consequência de exaltar a dor
e ensino bíblico a respeito do sofrimento, além dos limites bíblicos: o problema da dor
mas nada falou verdadeiramente à sua dor torna-se mais profundo do que o problema
profunda. do pecado. Fazemos uma revisão da nossa
Afirmar que a Bíblia não se dirige de teologia para dizer que dor é na verdade
modo significativo ao sofredor parece algo a causa do pecado. Mas é isso o que Deus
estranho se considerarmos que ela está re- diz? É verdade que a dor precede o pecado?
pleta de ensinamentos profundos sobre o Algumas vezes parece ser verdade. Muitas
sofrimento. Por que a Palavra de Deus parece pessoas que estão agindo com ira em seus
superficial a alguns cristãos sofredores? Por desentendimentos conjugais diriam que a
que eles procuram conselheiros que podem ferida e o desapontamento antecederam o
entender e penetrar sua dor, mas que não seu pecado. Mas há problemas significativos
conduzem ao evangelho de Cristo e aos quando atribuímos o lugar de destaque ao
propósitos de Deus em meio ao sofrimento? sofrimento. Biblicamente, o pecado nunca
Sem dúvida, uma razão é que muitos sofre- pode ser reduzido a dor, nem explicado pela
dores, à semelhança de Jó, foram feridos por dor. Pecado é exatamente pecado. Não po-
aqueles que lhe ofereceram conforto. Todos demos encontrar o culpado em outro lugar
nós já encontramos membros do corpo de a não ser em nossa própria transgressão. A
Cristo que lidam com o sofrimento de modo causa do pecado não está na ação de outras
acadêmico, distante, e cujo conselho pode ser pessoas ou no desejo de autoproteção de
resumido em “siga em frente”. Esses conse- uma dor maior. Outras pessoas certamente
lheiros e amigos não conhecem de verdade o nos infligem dor, mas essa dor nunca pode
que Deus diz àqueles que enfrentam a dor, de nos levar a pecar nem mesmo nos impedir
forma que são embaixadores incompetentes. de amar ao próximo.
Mas esta não é a única razão. Acreditar que a dor causa o nosso pe-
A igreja está se psicologizando, à medida cado e que o alívio da dor é a nossa maior
que a cura da dor é identificada como a necessidade tem implicações dramáticas.
necessidade mais profunda do homem! Con-
sidere este prefácio de um livro evangélico GALLEGHER, Vicent. Three compulsions that defeat
2

popular: “Temos nos comportado de modo most men. Minneapolis: Bethany House, 1992. p. 29.

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Em primeiro lugar, o pecado é reduzido à imediatamente pensar em nos admoestar
autoproteção, ou seja, nosso maior pecado a perdoar o ofensor. Esse tema é crucial, e
é buscar proteção de uma dor ainda maior. certamente não há erro em incluir a questão
Isso desconsidera a natureza específica do do perdão no aconselhamento. No entanto,
pecado como transgressão contra Deus. Em estamos diante de um problema quando
segundo lugar, quando percebemos que não perdão é o único tema no aconselhamento.
temos na verdade proteção contra o sofri- Com frequência, neste caso, o primeiro e o
mento, e quando descobrimos que a “cura” último conselho dado a uma mulher que
nunca nos livra completamente das garras do foi vítima de um abuso é que ela perdoe o
sofrimento, passamos a crer que Deus falhou agressor.
em Suas promessas, e sentimo-nos justifi- Para completar o problema, alguns
cados em nossa ira para com Ele. Também conselheiros podem juntar uma cláusula
acreditamos que a Palavra de Deus não tem adicional ao perdão, ou seja, que ele deve ser
respostas significativas para os problemas acompanhado de esquecimento. É um bom
mais profundos da vida. No entanto, Deus conselho se o esquecimento for entendido
nunca prometeu liberdade temporal do sofri- como não permitir que a visão que cultiva-
mento. Ele nos adverte quase que em todas mos do ofensor seja controlada pelo pecado.
as páginas das Escrituras para que estejamos No entanto, geralmente, os aconselhados
preparados para o sofrimento. Embora possa ouvem este conselho entendendo que eles
parecer difícil, o evangelho não elimina o so- cometerão pecado se pensarem a respeito do
frimento presente. O evangelho vai além. Ele sofrimento que lhes foi imposto. O resultado
cura nosso problema moral. Ele nos revela é que a vítima assume o papel de ofensor, e
realidades mais belas que a dureza do nosso se sente culpada quando menciona o fato de
sofrimento, de modo que possamos nos terem cometido contra ela um pecado que
alegrar mesmo em meio ao sofrimento. Ele ainda causa dor.
nos dá poder para uma nova obediência que Aqueles que minimizam o sofrimento
resiste sob sofrimento. A Bíblia não fornece pessoal podem errar também ao tentar
uma tecnologia para remover o sofrimento, recuperar rapidamente o sofredor. Os ho-
mas nos ensina a viver em meio a ele. Ensinar mens parecem estar mais inclinados para
qualquer coisa diferente seria comprometer esta direção. A intenção pode ser digna de
o evangelho. louvor, pois a maioria de nós deseja que os
sofredores recebam alívio. Mas a maneira
Ignorar a dor como isso é feito pode causar danos. Os
Aqueles que tendem na direção de mi- conselheiros podem ouvir apenas um pre-
nimizar a dor, ou chamar a uma aceitação fácio do sofrimento e logo se precipitar em
estóica da dor, são frequentemente mais respostas. Os aconselhados, com frequência,
precisos em suas formulações teológicas. reagem sentindo como se o conselheiro não
Mas eles podem ser culpados de ignorar te- quisesse ouvir a respeito de sua dor e como
mas bíblicos importantes, e assim deixar de se ela fosse, de alguma maneira, errada.
oferecer o inteiro conselho de Deus àqueles Outras vezes, a intenção de “consertar”
que sofrem. Por exemplo, se o sofrimento é o aconselhado pode não ser tão louvável.
resultado do pecado de outros contra nós, Algumas pessoas simplesmente não querem
aqueles que minimizam o sofrimento podem ouvir sobre o sofrimento alheio. Lágrimas

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podem trazer muito desconforto em sua vida para prosseguir com a vida. Biblicamente,
confortável. “Aguente firme” é seu conselho. porém, não existe este limite; não existem
Um breve estudo da atitude compassiva estágios predeterminados de sofrimento e
de Jesus é uma repreensão profunda para pesar. Há tristezas que não serão eliminadas
esse tipo de egoísmo. A encarnação por si até o último dia (Ap 21.4). Os conselheiros
mesma foi um exemplo dramático de Deus devem ser pacientes com todos, chorar com
entrando na vida de Seu povo. Jesus era os que choram, e manter o alvo de auxiliar
movido por compaixão para com os oprimi- as pessoas a amarem aos outros e a Deus em
dos, desorientados, enlutados. Assim como meio ao sofrimento.
Jesus nos aconselhou a chorar com os que Dois perigos em potencial podem nos
choram, Ele chamou nossa atenção para a levar para longe de uma abordagem bíblica
Sua própria vida como exemplo. Os estóicos do sofrimento. Se exaltamos o sofrimento,
evitam ou ignoram esses temas evidentes nas ele passa a ser a causa do pecado, a autopro-
Escrituras. teção passa a ser o problema, e o alívio do
Pergunte às pessoas que passaram por sofrimento é a questão principal a ser trata-
sofrimento severo o que mais as ajudou. da. Se ignoramos o sofrimento, então a dor
Muitos responderão algo semelhante a “Ele torna-se um problema de pouca importância
estava aqui ao meu lado”. Um amigo ou con- a ser “consertado” e a compaixão torna-se um
selheiro esteve fisicamente presente durante passo temporário que tem por intenção pre-
os momentos de dor. Talvez o amigo não parar terreno para coisas mais importantes.
tenha oferecido grande quantidade de conse- Mesmo diante de um número considerável
lhos, mas estava disponível para que a pessoa de bons livros a respeito do sofrimento, há
aflita não se sentisse tão sozinha e se deixasse problemas que uma teologia atual do sofri-
consumir pelo sofrimento. Talvez isso signifi- mento precisa considerar. A teologia prática é
que ter a sua casa aberta ou fazer um convite falar com compaixão àqueles que enfrentam
para uma refeição, para que a pessoa que está a dor, apontando para realidades mais pro-
sofrendo tenha um lugar para conviver com fundas que a dor. A seguir, trabalharemos o
outras pessoas que se preocupam com ela e a assunto por meio de duas perguntas básicas:
compreendem. Talvez isso signifique sentar De onde vem o sofrimento? Como posso
ao lado da pessoa na igreja. Se o seu alvo ajudar aqueles que sofrem?
principal é “consertar” o sofrimento, fazer
com que a dor vá embora, provavelmente De onde vem a dor?
você intensificará o sofrimento. De onde vem o sofrimento? Quando a
Outro perigo comum aos estóicos é dor me atinge, de qual direção ela vem? É
quando o conselheiro tem um desperta- minha culpa? É iniciativa de Satanás? Ou é
dor interno que dispara anunciando que Deus o autor da dor? Estas perguntas são
já é tempo para o sofrimento acabar. Há diferentes de perguntas que costumamos
diferentes razões para isso. Pode ser que o fazer como: “Por que Deus não fez (ou não
conselheiro seja compassivo e queira aliviar faz) cessar a dor?” ou “Por que eu?”. Fran-
o sofrimento. Mas talvez o sofrimento seja camente, as perguntas “de onde vem” são
incômodo ao conselheiro. Ou ele pense as menos inquietantes para a maioria das
que há um limite bíblico de um mês ou pessoas. Mas elas merecem ser consideradas
um ano para a dor, sendo depois tempo porque resultam em respostas bíblicas im-

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portantes e ricas de possíveis aplicações no Certamente há cuidados que devemos
aconselhamento. tomar acerca do sofrimento que nos é im-
Outros. Uma das respostas para “De posto por outrem. Deus nos adverte contra
onde vem a dor?” é: “Ela vem de outras a justiça própria. Ele nos diz que o pecado
pessoas”. Um rei governa pela força, um de outras pessoas não pode ser desculpa para
marido abandona a esposa pela secretária, nossa desobediência ou falta de amor. E
uma esposa atinge seu marido verbalmente, Deus reitera que Ele, somente Ele, é o juiz;
uma criança é morta por um motorista bê- nós devemos confiar em Seu julgamento.
bado e uma mulher é estuprada por alguém Portanto, não pagamos mal por mal.
em quem ela confiava. Pessoas pecam contra Outro cuidado que devemos ter é que
nós, e isso dói profundamente. “outros” não são a única causa de sofrimen-
Desta forma, quando uma mulher viti- to. Ocasionalmente, as crianças reduzem
mada pergunta “por quê?”, você pode dar à sua dor a esta causa. Se elas erram e um dos
pergunta um tom de “de onde” e responder pais está por perto, dizem instintivamente
“devido à maldade de seu pai”. Talvez a “Papai”, como se seu pai fosse o responsá-
pergunta daquela mulher seja: “Por que vel. Adultos também fazem isso: transferem
Deus permite isso?”, mas a resposta ainda é sua culpa. Mas há outros lugares para onde
“Foi seu pai quem fez isso, devido ao pecado precisamos olhar.
dele”. Eu. Outra resposta óbvia é Eu Mesmo.
Com certeza, esta resposta bastante Eu sofro porque pequei. Estou grávida fora
óbvia não lida com todos os mistérios que do casamento porque saí de debaixo da se-
circundam o problema da dor, mas é uma gurança dos mandamentos de Deus. Meus
resposta importante. Muitos sofredores filhos me deixaram porque eu constantemen-
levantam-se contra Deus ou contra si mes- te os provoquei e fui duro com eles. Estou
mos, e ignoram o óbvio. Esta resposta, então, fisicamente doente pela inveja que me con-
oferece encorajamento porque diz claramen- some. Meu noivo rompeu o relacionamento
te à vítima que a causa de seu sofrimento é devido a meus acessos de ira. Estou com
outra pessoa, e não ela mesma. Embora isto enfisema pulmonar porque fumei dois maços
esteja evidente, aqueles que foram vítimas de cigarro ao dia durante quarenta anos.
parecem ter um instinto que diz: “Eu sou Perdi meu emprego porque fui surpreendido
o responsável”. Deus responde lembrando- roubando de meu empregador. Fui demitido
nos de que nós não causamos o pecado de porque tenho sido preguiçoso.
outra pessoa. Cada um é responsável pelo O encorajamento contido nesta resposta
próprio pecado. é que existe esperança de mudança. Deus
Essa resposta também pode nos encora- nos oferece não apenas completo perdão dos
jar porque ela aponta para o ponto central pecados em Cristo, mas também poder para
do amor: perdão de pecados. Como cristãos, nos despojarmos do pecado. Podemos mu-
não ficamos imobilizados quando outros dar! Não precisamos ser atormentados por
pecam contra nós. Pelo contrário, temos ira pecaminosa, luxúria, mentiras, hábitos
a oportunidade de crescer mediante uma dominadores ou preguiça. Foi-nos concedi-
atitude de perdão que esperamos conduza do o Espírito de poder que dá graça para o
ao perdão verbalizado, à reconciliação e à crescimento contínuo em Cristo.
restauração do relacionamento.

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Os cuidados com o sofrimento causado maldição é antecipar a volta de Jesus, quando
por “eu mesmo” são evidentes. Da mesma a maldição será removida. Estas três causas
maneira que outras pessoas não são a única representam as razões mais óbvias para nosso
causa do meu sofrimento, eu também não sofrimento; mas conforme revela o livro de
sou a única causa do meu sofrimento. Não Jó, há ainda outras duas.
há uma ligação óbvia entre o pecado pessoal Satanás. O sofrimento vem também
e o sofrimento, e precisamos ser cuidadosos de Satanás. Ele é “como leão que ruge pro-
para não presumir esta relação. Devemos nos curando alguém para devorar” (1Pe 5.8).
lembrar de que algumas pessoas - especial- Deleita-se em enviar sofrimento sobre o povo
mente aquelas que foram gravemente feridas de Deus. O livro de Jó aponta para Satanás
por suas famílias - assumem a pressuposição como um inimigo que usa o sofrimento para
do “eu mesma” em lugar de evitá-la. Elas levar avante os planos de seu reino. Ele é um
preferem culpar a si mesmas, pois se sentem homicida (Jo 8.44) que inflige sofrimento
incomodadas com a ideia de que pessoas pela dor física e pela perda. O tormento do
que deveriam ter sido amorosas foram até apóstolo Paulo por meio do “mensageiro de
mesmo muito maldosas. Com este tipo de Satanás” (2 Co 12.7) ilustra como Satanás
pensamento, a vítima é capaz de guardar a está claramente em cena no sofrimento fí-
ilusão de que o ofensor a amava. Novamente, sico. Mas Satanás pode infligir sofrimento
as Escrituras mostram que nós não causamos que vai além do tormento físico. Usando
o pecado de outra pessoa. Cada um é respon- mentiras e acusações, e promovendo divisão
sável pelo próprio pecado. no corpo de Cristo, Satanás esforça-se para
Adão. Uma terceira causa do sofrimento nos levar ao desânimo e ao questionamento
é Adão e a queda do homem. Embora partici- da bondade de Deus.
pemos do pecado de Adão (Rm 5), foi Adão Você fica furioso diante do sofrimento?
quem pecou e trouxe tristeza e morte a toda Satanás pode ser um alvo apropriado para sua
a sua descendência. Devido ao seu pecado, ira. Ele é enganador. Seu dedo no sofrimen-
experimentamos a maldição sobre toda a to está com frequência encoberto. Aqueles
criação. Como resultado, passamos por aci- que sofrem precisam ser advertidos sobre os
dentes que ferem, doenças e fraqueza física, propósitos de Satanás para que possam estar
perda de pessoas amadas e trabalho árduo. alertas às suas mentiras e iniciar logo o com-
Esta pode ser a causa mais frustrante bate. Sim, este inimigo pode ser combatido.
do sofrimento. É como se ninguém tivesse A resistência mais forte consiste em confiar
cometido uma falta. Não há ninguém com em Deus e seguir a Cristo em obediência,
quem se reconciliar, ninguém a perdoar e mesmo em meio ao sofrimento.
nenhuma certeza de mudança. Na verdade, Aqui também devemos ter cautela.
remédios podem reduzir temporariamente Satanás não é a única causa de sofrimento.
alguns efeitos do pecado de Adão, mas os Por exemplo, mesmo que ele esteja ativo em
benefícios parecem superficiais. E nisto está todo sofrimento, sua presença não diminui
a advertência principal para nós: a maldição a responsabilidade de outras pessoas ou a
resultante do pecado de Adão deve fazer com nossa. Satanás nunca pode ser usado como
que não amemos demasiadamente o mundo. meio para dividir a responsabilidade pela
Devemos prever algo melhor. O encoraja- maldade do pecado. Ninguém pode dizer:
mento para aqueles que sentem o peso da “Satanás me fez fazer isso”. Não podemos

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usar Satanás como uma desculpa para o É possível dizer que algum sofrimento
pecado pessoal, como também não podemos não esteja dentro da vontade de Deus? Deus
usá-lo para minimizar o pecado de outros. proíbe afirmarmos que algo está acima dEle.
Os assaltantes que saquearam os bens de Jó O mundo não é um cabo de força entre Deus
foram plenamente responsáveis por seu peca- e Satanás. Deus é soberano sobre tudo. Deus
do bárbaro e infame. Judas, e não Satanás no não é o autor do sofrimento e do pecado, mas
corpo de Judas, foi quem traiu Jesus. Satanás Ele está acima de todas as coisas, mesmo do
pode causar grande sofrimento, mas Ele não sofrimento. Ele “faz todas as coisas conforme
pode nos fazer pecar. o conselho da sua vontade” (Ef 1.11).
Deus. Curiosamente, é raro Satanás ser Desde toda a eternidade e pelo
o alvo da frustração ou até mesmo ira do mui sábio e santo conselho de sua
sofredor. Mas Deus é. Parece que agnósticos própria vontade, Deus ordenou li-
e até mesmo ateus tornam-se teístas quando vre e inalteravelmente tudo quanto
passam pelo sofrimento e perguntam: “Por acontece, porém de modo que nem
que Deus está fazendo isso comigo?”, “O Deus é o autor do pecado, nem
que eu fiz a Ele?”. violentada é a vontade da criatura,
É verdade que Deus causa o sofrimento? nem é tirada a liberdade ou a contin-
Noemi certamente cria nisso. Voltando para gência das causas secundárias, antes
sua terra natal, depois de perder o marido estabelecidas.3
e os filhos, ela disse: “Grande amargura O encorajamento resultante é evidente.
me tem dado o Todo Poderoso” (Rt 1.20). Nosso Deus fiel reina. O mundo não está
E ela estava certa. Ela estava cega para o em caos. Nem Satanás nem os criminosos
plano completo de Deus, mas estava certa. perversos venceram. Mas os conselheiros
A mulher de Jó também cria na ação de precisam saber onde estão os limites teoló-
Deus no sofrimento quando aconselhou gicos. Conforme destacado pela Confissão
seu marido: “Amaldiçoa a Deus e morre” de Westminster, a soberania de Deus não
(Jó 2.9). Seu conselho era pecaminoso, rouba das criaturas a sua vontade própria.
mas seu entendimento de que Deus estava Isso é certamente um enigma. É um mis-
acima do sofrimento de Jó era verdadeiro. tério afirmar que Deus governa sobre todas
Lamentações e Habacuque são verdadeiros as coisas, significando que Ele as ordenou e
tratados a respeito de como a fé aceita e ao não apenas previu, e ao mesmo tempo afir-
mesmo tempo luta com a mão de Deus no mar que “a estultícia do homem perverte o
sofrimento. seu caminho” (Pv 19.3). Mas a grandeza de
Estudiosos da Palavra tentam distinguir Deus é tal que Ele estabeleceu um mundo
entre aquilo que Deus ordena e o que Ele ordenado, e que não é um robô.
permite, mas a distinção é algumas vezes uma Aqui está mais uma advertência. Nunca
clara tentativa de encontrar uma desculpa devemos pensar que Deus esteja de alguma
para justificar a Deus. Uma afirmação menos forma indiferente ao nosso sofrimento,
técnica poderia ser: quando o sofrimento visto Ele ter ordenado todas as coisas. O
nos atinge, é a vontade de Deus. “Por isso, evangelho deixa claro que Deus é movido a
também os que sofrem segundo a vontade
de Deus encomendem a sua alma ao fiel A Confissão de Fé de Westminster. São Paulo: Cultura
3

Criador, na prática do bem” (1 Pe 4.19). Cristã, 1994. p.17

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grande compaixão diante do sofrimento de perceber que o sofrimento é um intruso que
Seu povo. Jesus Cristo compartilhou o nosso será um dia banido. Desta forma, podem
sofrimento (Hb 2.14-18). Talvez possamos prosseguir como servos de Deus sofredores,
dizer que a resposta emocional de Deus à que trabalham diligentemente e estão aptos
Sua criação é complexa e variada, mas nunca a tomar decisões sábias com respeito à sua
podemos dizer que Ele não se compadece de próxima semeadura. Uma revisão cuidadosa
nós diante do sofrimento. das cinco causas do sofrimento ajuda-nos a
ouvir a Palavra de Deus com mais sentido e a
encontrar uma resposta bíblica apropriada.
Mas essas respostas não aparecem sem-
pre ordenadas. O sofrimento raramente recai
apenas em uma dessas categorias. Com fre-
quência, recai em todas elas. Muitos Salmos
movimentam-se entre uma causa e outra do
sofrimento. Em alguns casos, pode haver
maior ênfase em uma das partes visíveis da
tríade formada por “eu mesmo”, “outros” ou
“Adão”, mas ainda assim a ênfase pode ser
relativa. Por exemplo, no caso de vítimas de
abuso sexual, a ênfase está certamente em ter
sido alvo do pecado de outros. Mas isso não
exclui o fato de que a vitimização não teria
Figura 1. As causas do sofrimento acontecido se não tivesse sido pelo pecado de
Adão, e também não exclui que somos peca-
As cinco categorias (Figura 1) respondem dores que podem tirar proveito da disciplina
à pergunta: “De onde vem o sofrimento?”. de Deus na própria vida. Além de Jesus, não
Elas são importantes pelo seu efeito esclare- há sequer um sofredor inocente.
cedor para aqueles que sofrem, bem como Considere o caso da doença. A ênfase
pelas precauções que elas indicam. Identificar mais óbvia na tríade “eu mesmo”, “outros”
esta variedade de causas pode ser de imensa ou “Adão” seria a maldição associada ao pe-
ajuda para aqueles que enfrentam a dor, pois cado de Adão. Todavia, a doença pode estar
proporciona clareza bíblica que, por sua vez, relacionada a um pecado pessoal, e também
promove respostas bíblicas. Quando aqueles pode ser resultado do pecado de outros (p.
que estavam culpando a si mesmos percebem ex. a AIDS contraída por uma transfusão
que seu sofrimento foi consequência do de sangue).
pecado de outras pessoas, encontram alívio Recomende às pessoas que evitem
de um peso que não era seu. Eles também reduzir a questão do sofrimento a uma
podem responder aprendendo a perdoar; única causa. Se o sofrimento é reduzido a
e ainda podem considerar a possibilidade “outros”, transferimos a culpa para eles. Se o
de confrontar o ofensor em amor. Quando sofrimento é reduzido a “eu mesmo”, como
uma família perde a colheita devido a uma fizeram os conselheiros de Jó, então a culpa
seca ou enchente, seus membros não devem e a condenação estão sempre presentes. Se é
culpar a si mesmos ou a outrem. Eles podem apenas devido ao pecado de Adão, tornamo-

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nos fatalistas. Se é apenas devido a Satanás, Os personagens bíblicos que enfren-
tornamo-nos guerreiros espirituais que vêem taram o sofrimento podem nos orientar.
somente este lado da questão e ignoram os Quando os descobrimos nas Escrituras, é
propósitos de Deus e os aspectos interpes- como se eles viessem ao nosso encontro,
soais do sofrimento. O único “diagnóstico” tomassem-nos pela mão e nos conduzissem
seguro é que quando somos atingidos pelo às verdades que são mais profundas que o
sofrimento, esta é a vontade decretada de sofrimento. Em primeiro lugar, considere
Deus para a nossa vida. Ainda assim, não Jó, um companheiro para muitos sofredores.
podemos reduzir a causa do sofrimento uni- Em Jó 1.21, ele diz: “o SENHOR o deu e o
camente a Deus. Ele está acima do pecado e SENHOR o tomou; bendito seja o nome do
do sofrimento, mas não é seu autor. A pessoa SENHOR!”. Após terríveis perdas, esta é a
que faz de Deus a causa única do sofrimento primeira resposta de Jó. Ele adorou a Deus.
blasfema e se ira contra Ele. A Bíblia enfa- O peso da glória de Deus foi maior que o
tiza que o sofrimento, independentemente peso do seu sofrimento. Semelhantemente,
de sua causa, é um momento de lágrimas Sadraque, Mesaque e Abdnego disseram
e lutas, tempo para arrependimento, para diante da morte na fornalha: “Se o nosso
depositar a fé em Deus em meio à angústia, Deus, a quem servimos, quer livrar nos, ele
para segui-lO em obediência. Com este pano nos livrará da fornalha de fogo ardente e
de fundo teológico básico, estamos prontos das tuas mãos, ó rei. Se não, fica sabendo, ó
para ajudar os sofredores. rei, que não serviremos a teus deuses, nem
adoraremos a imagem de ouro que levan-
Como ajudar os taste” (Dn 3.17,18). Deparando-se com
sofredores? o sofrimento, ou a ameaça de sofrimento
A estratégia bíblica é contrabalançar o e de morte, sabiam que eram chamados a
sofrimento. A princípio, todo o peso parece depender exclusivamente de Deus.
estar do lado do sofrimento. É como se os O apóstolo Paulo retomou o mesmo
sofredores fossem incapazes de ver alguma tema em 2 Coríntios 4.17. Seus sofrimentos
coisa além de sua dor. Gradualmente, fi- foram ultrapassados apenas pelos sofrimen-
xando os olhos em Jesus, eles descobrem tos de Jesus. Após narrar mais uma vez seus
pesos de glória cuja carga equilibra a do seu sofrimentos no primeiro capítulo, e antes de
sofrimento. Estes pesos de glória incluem relembrar maiores sofrimentos nos capítulos
os sofrimentos de Cristo, a alegria de ter onze e doze, Paulo disse: “Porque a nossa
os pecados perdoados, o contentamento de leve e momentânea tribulação produz para
obedecer a Cristo em pequenas coisas em nós eterno peso de glória, acima de toda
meio a uma grande provação, a presença de comparação”.
Deus em nossa vida, a esperança da eternida- Como você imagina que uma pessoa em
de. Para cumprir essa estratégia, os sofredores meio à dor responderia a esta declaração do
precisam ser surpreendidos tanto pelo amor apóstolo Paulo? Se não tivesse lido o con-
pessoal de Deus como pela glória transcen- texto, ela poderia dizer algo assim: “Leve e
dente de Deus; eles precisam ser ajudados momentâneo? Caia na real, Paulo. Você não
para que conheçam a Deus de forma que a conhece o meu sofrimento”. Mas quando
obediência, a confiança e a adoração a Deus reconhecemos a extensão do sofrimento de
tornem-se irresistíveis. Paulo, ele começa a ganhar a nossa atenção.

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Paulo é um sofredor credenciado, a quem falarem honestamente com Ele. Por que
precisamos ouvir. Ele não está oferecendo isso seria uma surpresa para muitos deles?
encorajamento fútil. Ele está falando de Eles tendem a se sentir solitários e isolados.
verdades que pesam mais que o sofrimento. Com frequên-cia, pensam que Deus está
Chegar ao ponto em que podemos fazer eco muito distante. Mas Deus penetra neste
a estas palavras pode parecer uma jornada isolamento e nos impulsiona a colocar em
longa e impossível, mas Paulo aponta para palavras nossas experiências dolorosas. Não
um alvo que pode orientar nossas orações se trata, com certeza, de qualquer tipo de ex-
e meditações. Ele nos lembra que devemos pressão. Não é amargura. Não são lamentos
olhar para os pesos de glória bíblicos que pagãos lançados em um mundo onde não há
contrabalançam e aliviam o sofrimento. sentido. Deus nos encoraja a dirigir nossas
A estratégia de aconselhamento que ofe- palavras a Ele.
recemos a seguir consiste de cinco afirmações Esse é o padrão dos Salmos, e também
para orientar o apoio e o conselho dirigidos é o modelo traçado ao longo das Escrituras
àqueles que sofrem. Todas elas são introdu- em livros como Jó e Lamentações. Deus
zidas pela expressão “Deus diz” como meio nos encoraja a colocar os lamentos do nosso
de enfatizar que Deus fala claramente ao coração em palavras, e “toda conversa deve
sofredor por meio de Sua Palavra. Cada uma ser dirigida a Deus, que é o ponto de refe-
delas é um peso de glória que contrabalança rência final de toda a existência”.4 Embora
a dor pessoal. As cinco frases são: seja um desafio para o nosso entendimento,
ŠŠDeus diz: “Expresse seu sofrimento Deus deseja ouvir as profundezas do coração.
em palavras”; Na verdade, quando somos incapazes de
ŠŠEm casos de vitimação evidente, Deus nos pronunciar perante Ele, Deus nos dá
diz: “Pecaram contra você”; palavras para expressar estes silêncios. Deus
ŠŠDeus diz: “Eu estou ao seu lado e amo “dá nome” aos silêncios do nosso coração;
você”; os lamentos inarticulados tomam a forma
ŠŠDeus diz: “Saiba que Eu sou Deus”; de palavras.
ŠŠDeus diz: “Há um propósito no so- Talvez a igreja esteja perdendo algo
frimento”; precioso por não cantar sistematicamente
Há uma lógica nesta ordem, mas estas os Salmos. Se o fizéssemos, saberíamos que
cinco afirmações não constituem um proces- Deus coloca nosso sofrimento em palavras.
so passo por passo. Elas se sobrepõem umas Os meus ossos estão abalados.
às outras. Sofredores não “completam” um Também a minha alma está pro-
passo para só então se moverem em direção fundamente perturbada; mas tu,
ao seguinte. Desta forma, enquanto você SENHOR, até quando? (Sl 6.2,3)
estiver enfatizando um dos temas, os demais Por que, SENHOR, te conser-
continuam presentes. vas longe? E te escondes nas horas
de tribulação? (Sl 10.1)
1. Deus diz: “Expresse seu sofri-
mento em palavras”.
Uma surpresa inicial para muitas pes­ 4
HAUERWAS, S. Naming the silences: God, medicine, and
soas, e também um peso de glória, é des- the problem of evil. Grand Rapids: Eerdmans, 1990,
cobrir que Deus encoraja os sofredores a p. 82.

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1 23


Até quando, SENHOR? Esque- que estão conectados ao desejo de conhecer
cer-te-ás de mim para sempre? Até a Deus. São queixas que se dirigem a Deus,
quando ocultarás de mim o rosto? e não contra Deus.
Até quando estarei eu relutando O que você faz quando as queixas dos so-
dentro de minha alma, com tristeza fredores assemelham-se mais às más queixas
no coração cada dia? (Sl 13.1,2) de um ateu que às boas queixas que provêm
Por que se acham longe de da fé? Você permite que os Salmos estabe-
minha salvação as palavras de meu leçam o padrão. Você molda as queixas de
bramido? (Sl 22.1) maneira que elas se conformem mais e mais
Pois a minha alma está farta de com como Deus nos ensina a “dar nome”
males.... Puseste-me na mais profun- aos silêncios do nosso coração.
da cova, nos lugares tenebrosos, nos Diante deste encorajamento à expressão,
abismos (Sl 88.3,6). o que você esperaria ouvir quando alguém
O aconselhamento que você oferece co- “dá nome” aos silêncios angustiantes? O
meça, portanto, com estar presente ao lado provável é que você ouça uma mistura com-
dos sofredores e encorajá-los a falar sobre seu plexa de emoções. Não será uma progressão
sofrimento, com você e com Deus. linear de emoções que vão de negação, para
Mas o que fazer se os aconselhados estão ira, negociação, depressão, até aceitação da
queixosos ou irados? Deveríamos encorajá- dor. Será mais semelhante a fragmentos ou
los a “dar nome” ao silêncio nesse caso? Na “cacos” de uma vidraça estilhaçada. Pode
leitura dos Salmos, você provavelmente haver dúzias de experiências, algumas delas
descobrirá que Deus dá mais espaço à nos- contraditórias, expressas simultaneamente.
sa expressão do que a maioria das pessoas Por exemplo, considere uma mulher
pensa. Ele nos dá espaço para dizer coisas que sofreu um abuso sexual. Ela pode estar
que alguns considerariam quase blasfêmia. temerosa, cheia de vergonha, sentindo-se
Mas há uma queixa boa e uma queixa má. impura e entorpecida. E esse é só o começo.
A queixa má é o choro daquele que não A culpa está quase sempre presente. Ela pode
reconhece quem Deus é. É o choro do co- se sentir responsável pelo que aconteceu,
ração egocêntrico que diz: “O Senhor deve assim como diz o antigo mito: “Coisas ruins
preencher as minhas necessidades”. A maior acontecem a pessoas ruins”. A vida de Jó
preocupação é o alívio do sofrimento, e não deveria ter mudado há muito tempo nossa
a glória de Deus. A queixa má não acredita maneira de pensar a este respeito, mas muitos
nas promessas de Deus; ela resmunga e se ainda acreditam que se algo ruim acontece
enfurece contra Deus. em sua vida, deve ser resultado de seu pró-
As boas queixas clamam “Por que o prio comportamento. Trata-se de uma culpa
Senhor esqueceu de mim?” com base no particularmente incômoda porque, em certo
conhecimento de Deus. Elas vêm de um sentido, ela está além do perdão. Em outras
coração que conhece o seu Deus e as Suas palavras, estas vítimas têm um forte senso de
promessas, e está perplexo porque Deus pare- que são responsáveis, mas não têm ideia do
ce tão distante. “Como pode isso acontecer, que confessar (pelo menos com respeito ao
quando meu Deus é o Deus fiel de Abraão, abuso sexual). E ainda que encontrem algo
Isaque, Jacó, e Moisés?”, grita a pessoa em a confessar, a culpa permanece. Se abando-
meio à dor. As boas queixas são choros de fé nadas à própria sorte, algumas chegam a

24 Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1


odiar e desprezar a si mesmas. Elas se sentem tempo você encorajará os sofredores a “dar
culpadas e objeto de desdém. nome” aos silêncios em sua alma? A respos-
O que mais você deve esperar encontrar ta é óbvia. Você terá compaixão durante o
no silêncio? Dor, raiva contra o ofensor, um tempo em que elas estiverem sofrendo. Você
senso de traição e de estar indefesa como uma encorajará as pessoas a falar enquanto elas
criança, mas também certo amor e o desejo guardarem partes de sua vida que não foram
de proteger o ofensor. Algumas vezes, são expressas diante de Deus. Isso não quer dizer
pessoas determinadas a não ter esperança. que elas nunca ouvirão. A expressão de seu
Esta é vista como um inimigo que, se des- coração é o começo do diálogo que consiste
pertado, resultará apenas em uma dor ainda em falar com Deus e ouvir a Deus.
maior. Os sentimentos e pensamentos que Diante da fragmentação da experiência
dizem respeito ao relacionamento com Deus de dor, você poderia pensar em um processo
estão mais escondidos. É quase inevitável que sem fim para tratar cada “caco” biblicamente.
surjam perguntas sobre a soberania de Deus: Mas guardando a perspectiva da centralidade
“Por que Ele não impediu?”, “Por que Ele da cruz de Cristo, você descobrirá que pode
me abandonou?”. Estas perguntas aparecem falar a todas estas experiências simultanea-
unidas a uma ira contra Deus, que assusta mente. Por exemplo, a cruz proclama poder
a própria pessoa. Tanto você como a vítima para o fraco, exaltação para os humildes,
ficarão provavelmente submersos em um vestimentas para o que está nu, amor para
número enorme de “cacos” emocionais. aqueles que têm sido odiados, redenção para
Expressar a sua empatia é com frequên- os que são escravos, graça para os que estão
cia a melhor resposta inicial. Os sofredores tentando pagar por seus pecados, perdão
sentem-se isolados, como se ninguém en- para os pecadores e julgamento sobre os
tendesse a sua dor. Portanto, os conselheiros inimigos de Deus. Deus nos surpreende
devem ser tudo menos passivos durante este com a imensa amplitude de Sua obra de
tempo. Eles devem se mover ativamente para redenção bem como com Seu amor para
dentro do mundo do sofredor, procurando com o oprimido e a vítima. Mesmo assim,
compreender a vida pelos olhos do sofredor. muitos sofredores acreditam que Deus os
“Como esta pessoa está vendo a situação?” abandonou e que a cruz é algo distante, tão
é a pergunta do momento. Mais adiante, é distante que os benefícios da redenção não
crucial que os conselheiros expressem sua se estendem a eles.
resposta ao sofredor. Você está esmagado A tarefa do aconselhamento é surpre-
pela complexidade do sofrimento? Diga isso ender os sofredores com quem Deus é e
ao aconselhado. Está triste pelo que ouviu? o que Ele diz. Inicialmente, isso significa
Conte isso a ele. Você está irado com a mal- relembrar ao sofredor que Deus não ape-
dade da pessoa que causou o sofrimento? nas permite que falemos honestamente
Expresse isso. Você está comovido? Chore com Ele, mas nos encoraja a tanto. A
com a pessoa que está sofrendo. verdade de Deus nos ensina a sermos ho-
Você fará isso durante uma hora? Um nestos, mesmo que precisemos mudar o
mês? Anos? Por quanto tempo você terá conteúdo da honestidade para adequá-lo
compaixão da pessoa que sofre? Por quando biblicamente.

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1 25


Ideias para tarefas práticas vítima de uma pessoa que tinha autoridade
a) Leia os Salmos através desta lente: sobre ela. Deus responsabiliza as autoridades,
Deus está encorajando o sofredor a falar sejam elas líderes de Israel (Jr 23, Ez 34),
honestamente com Ele. pastores, parentes ou outros adultos. Ainda
b) Coloque a sua dor em palavras, ver- mais, Deus diz que Ele é contra o opressor
balizadas a um amigo ou conselheiro, ou (Ex 22.21-24).
em um diário. Alguns preferem fazer um Alguns conselheiros são tímidos no uso
desenho que reúna a complexidade de suas da categoria bíblica de “vítima”, pois ela
experiências. parece muito semelhante a transferir a culpa
c) Percorra os Salmos destacando pala- para outros. Com frequência, as pessoas que
vras, frases ou salmos inteiros que expressem foram oprimidas lançam sobre outros a culpa
o seu coração. por suas reações, justificando autopiedade,
d) Fale ou escreva suas experiências amargura, vingança, abuso de substâncias
diante de Deus, lembrando que Deus está tóxicas e outras respostas pecaminosas. As
presente e ouve. vítimas também são conhecidas por culpar os
e) Sofrimento vem pelo pecado de outras ofensores e tornar o mal por mal: “Meu furor
pessoas, o pecado de Adão e a maldição que suicida [ou homicida] é culpa daquela tal
recaiu sobre toda a criação. Sofrimento pode pessoa”. Muitas psicoterapias atuais reforçam
ser o resultado do seu próprio pecado. Sata- esta justiça própria. Desta forma, os conse-
nás também é o inimigo por detrás de todo lheiros têm razão em se preocupar para que
sofrimento, e Deus está acima do sofrimento pessoas não fiquem sem esperança bíblica,
e usa o sofrimento para um bom propósito. negando sua responsabilidade, alimentando
De onde vem o seu sofrimento? a ira. Mas as categorias de ofensor e vítima
são categorias bíblicas, e usá-las corretamente
2. Em casos de vitimação é parte do pensar bíblico. Quando evita-
evidente, Deus diz: mos estas categorias, ignoramos a palavra
“Pecaram contra você”. que Deus tem para pessoas em sofrimento.
Quando está óbvio que a causa do Lançar a culpa sobre outros é um pecado
sofrimento foi o pecado de outras pessoas, com que todos estamos familiarizados. Mas
Deus fala às vítimas. Enquanto continua a a Bíblia é equilibrada. “Não retribua mal por
encorajá-las a falar honestamente, Ele as aju- mal” identifica as pessoas como sofredoras
da a identificar o verdadeiro responsável pela do mal ao mesmo tempo que as desafia a se
“violação”. Embora a vítima seja certamente responsabilizarem pelos próprios atos.
pecadora, como todos nós, a ênfase inicial de Se o sofrimento é em larga escala resul-
Deus é mostrar que Ele é a favor da vítima tado do pecado de outras pessoas, você vai
e da justiça. O amor consiste em “visitar provavelmente descobrir que identificar as
os órfãos e as viúvas nas suas tribulações” responsabilidades é muito importante. Não
(Tg 1.27). Será que as vítimas poderiam é possível montar o cenário para o perdão se
ter gritado mais alto, falado antes com um a vítima não acredita que ela precisa perdoar;
amigo, resistido mais, ou assim por diante? ao mesmo tempo, vítimas ficarão paralisadas
Talvez, mas isso não as faz responsáveis pelo em seu crescimento espiritual se guardarem
pecado de outras pessoas. Por exemplo, em um senso interior de que são responsáveis
caso de incesto na infância, a mulher foi pelo que aconteceu. Você ficará provavel-

26 Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1


mente surpreso ao descobrir o quanto é de achegarmos diante de Deus. Mais especifi-
fato difícil identificar as responsabilidades. camente, Deus nos chama agora a ver a Sua
As vítimas são conhecidas por tentar encon- bondade e o Seu amor expressos mediante
trar culpa em suas próprias ações: “Se eu ape- Seu Filho.
nas tivesse _________, aquela pessoas não Este olhar que se fixa em Cristo não vem
teria me ______”. Às vezes, podem chegar naturalmente. Satanás o grande enganador
a ponto de acreditar que são responsáveis - constantemente sopra aos nossos ouvidos
por simplesmente existir! É difícil prosseguir que Deus não é bom. O desejo de Satanás é
para outras verdades bíblicas até que as res- que nos tornemos para com Deus “amigos
ponsabilidades estejam definidas. dos tempos prósperos”, que apreciam as
bênçãos manifestas de Deus durante os bons
Ideias para tarefas práticas tempos e questionam a Sua bondade nos
a) Saiba o que a Bíblia diz a respeito maus tempos. Desta forma, à medida que
daqueles que praticam o mal contra outrem. o aconselhamento se volta para identificar
Leia Jeremias 23.1-8, Ezequiel 34.1-16, o amor de Deus em Cristo, os conselheiros
Lucas 17.1-2. precisam estar cientes de que o aconselha-
b) Quem você pensa ser o responsável do, com frequência, estará relutante ou até
por aquilo que lhe aconteceu? O que Deus mesmo irado. O primeiro passo será expor
diz a esse respeito? Você acredita naquilo a batalha espiritual que impede que o acon-
que Deus diz? selhado ouça a Deus.
Considere a leitura de Gênesis 3.1-7.
3. Deus diz: “Eu estou ao seu Perceba como Satanás contradiz diretamente
lado e amo você”. a palavra de Deus a Adão. A serpente essen-
A dinâmica do aconselhamento bíblico cialmente chama Deus de mentiroso e sua
é voltada para fora. Ela dirige nosso coração implicação é que Deus está privando Seu
para o Senhor e nos conduz a amar a Deus povo de coisas boas. Satanás diz que Deus
e ao próximo. Os temas discutidos até aqui não é bom, mas o evangelho de Cristo é
expressam esta dinâmica. Vimos que verba- a afirmação definitiva de que Deus causa
lizar o sofrimento perante Deus procede da impacto em pessoas com o Seu amor. Essa
fé e é uma expressão de obediência. Não se é a batalha dominante que muitos sofredo-
trata de despejar emoções para aliviar a dor, res enfrentam, visto que Satanás usa com
mas de responder a Deus. Semelhantemente, persistência o sofrimento para desafiar a
em casos de vitimização evidente, identificar nossa fé.
com precisão o ofensor e a causa notória do Em conjunto com Satanás, outra dificul-
sofrimento pode ser uma parte importante dade que nos desafia é a famosa pergunta:
da tarefa de interpretar as circunstâncias “Por que eu?”. Há várias maneiras de lidar
biblicamente. Em lugar da vingança com com esta pergunta. Uma possibilidade é
base em justiça própria ou da aceitação de sugerir que o sofredor temporariamente a
toda a responsabilidade com base em auto- evite. Não estamos dizendo que se trata de
condenação para proteger o ofensor, saber uma pergunta sem importância. É que há
que alguém pecou contra nós pode ser um uma prioridade lógica nas perguntas que
passo fundamental para dar glória a Deus. fazemos a respeito de Deus. Antes de “Por
Agora é tempo de sair de nós mesmos e nos quê?”, devemos perguntar “Quem?”. Quem

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1 27


é o Rei dos Reis que diz ser o Deus que nos Outros textos mais longos para medi-
ama? O sofredor pergunta: “Como posso tação são Isaías 40-53 e João 10-20. Alguns
saber que Ele me ama quando tudo quanto Salmos podem ser usados com esse propósi-
vejo é tristeza”? “Confie em mim”, diz o to, como o Cântico do Messias: o sofrimento
Deus de amor e poder, e para confiar nEle doloroso revelado nos Salmos encontra sua
precisamos conhecê-lo. expressão plena em Jesus fazendo-se pecado
Talvez você possa começar por perguntar por nós.
ao sofredor se ele gostaria de conhecer um Essas passagens bíblicas apontam para a
amigo sofredor. Você já percebeu que sofre- existência de algo mais profundo que o nosso
dores parecem mudar na presença de alguém sofrimento. De modo específico, o sofrimen-
que os entenda? E você já observou que o to de Cristo é mais profundo que o nosso
sofrimento é mais leve quando você está per- sofrimento. Deus não promete remover o
to de alguém cujo sofrimento é maior que o sofrimento, mas à medida que Ele aponta
seu? Você já conheceu pessoas atingidas pela para o Seu sofrimento relembramos que não
dor que foram visitar uma ala de oncologia vivemos diante de um Deus estóico que se
pediátrica, e o sofrimento que viram fez mantém distante de Suas criaturas. Vivemos
com que o próprio sofrimento se tornasse diante do Deus que sofreu. Suas palavras de-
suportável ou mesmo insignificante? Isso é o vem ter credibilidade para sofredores porque
que acontece quando somos apresentados ao elas vêm de Sua própria familiaridade com
Cordeiro de Deus. Todo o nosso sofrimento, a dor, e Seu entendimento e amor são ine-
embora grave, é menos monstruoso que gáveis. Diante disso, os aconselhados antes
aquele que atingiu o Filho de Deus. Jesus hesitantes podem agora estar mais abertos a
começa a transformar sofredores a partir do ouvir o que Deus diz.
Seu próprio sofrimento. Em seguida, Deus surpreende o sofredor
Aqui estão alguns textos bíblicos que dizendo: “Você me pertence, Eu sou o seu
podem ser úteis: Deus”. Essa é uma promessa preciosa para
todos quantos colocaram sua fé em Jesus,
ŠŠTodavia, ao SENHOR agradou moê- mas pode ser especialmente significativa
-lo, fazendo o sofrer (Is 53.10); para alguém que está enfrentando a dor. O
sofrimento isola. Os aflitos, com frequência,
ŠŠEntão, [Jesus] começou ele a ensinar-
sentem-se como se tivessem sido banidos
-lhes que era necessário que o Filho do
da sociedade por terem experimentado
Homem sofresse muitas coisas, fosse
um tratamento ofensivo. Eles se sentem
rejeitado pelos anciãos, pelos principais
envergonhados e rejeitados. É como se não
sacerdotes e pelos escribas, fosse morto
fossem nem filhos nem servos, mas uma
e que, depois de três dias, ressuscitasse
espécie de filhos adotivos, como Cinderela.
(Mc 8.31);
Com fre­quência, as vítimas sentem como
ŠŠPorque convinha que aquele, por cuja se estivessem presas atrás de muros largos e
causa e por quem todas as coisas exis- impenetráveis que as separam do resto do
tem, conduzindo muitos filhos à glória, mundo. Jesus penetra esses muros e assegura
aperfeiçoasse, por meio de sofrimentos, aos sofredores que eles Lhe pertencem (1 Jo
o Autor da salvação deles (Hb 2.10). 3, Lc 15). Eles são parte de Sua família.

28 Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1


Jesus ouve e compreende aqueles que contudo, ouve. Além do mais, “ouvir”, no
Lhe pertencem. Ele se compadece (Hb sentido bíblico, significa ouvir e responder.
4.15). Ele é o Pastor dos feridos e fracos, e Ouvir é acompanhado de ação. O amor de
os carrega em Seus braços (Sl 23, Jr 23; Ez Deus é expresso na promessa infalível de que
34, Jo 10). Ele promete nunca os deixar nem Sua ira é suscitada pela injustiça e opressão
abandonar (Hb 13.5), e Ele nos assegura que e que Ele governará com justiça (Is 1). Deus
nada pode nos separar de Seu amor (Rm age a favor de Seu povo, e Ele promete que
8.38,39). A promessa de Deus de que um haverá justiça final contra Seus inimigos
dia estaremos ao lado dEle é a solução final (Rm 12.19).
para o sofrimento (Ap 21.3,4). As perguntas “Por que eu?” e “Por que
Deus também cobre a vergonha daque- Ele não faz cessar o sofrimento?” podem ain-
les que sofreram com o pecado e a violação da estar vivas. E o pensamento “Se existe um
cometidos por outrem. A Bíblia está repleta relacionamento de Pai e filho, Deus tem um
de passagens que falam sobre vergonha (e jeito estranho de se expressar” é corriqueiro.
também violação, nudez, ou desonra). Ver- Mas quando você surpreende os sofredores
gonha é uma consequência de nosso próprio apontando para o sofrimento e a graça de
pecado, mas também há uma vergonha que Deus, muitos começam a ouvir a voz de
é consequência do pecado de outros contra Deus acima do som dissonante das próprias
nós. Por exemplo, em Gênesis 34, Diná foi perguntas. O peso do sofrimento pode ainda
envergonhada ou “violada” por Siquém. não estar completamente contrabalançado
No Salmo 79, o templo é envergonhado ou a esta altura; mas, como conselheiro, você
violado pelo contato com pessoas e objetos está começando a apontar o caminho para
impuros. Jesus mesmo experimentou este a resposta final ao problema do sofrimento:
tipo de vergonha na cruz (Hb 12.2). De fato, “confia em mim” é o apelo mais forte de
a Bíblia pode ser vista legitimamente como a Deus. O sofredor está agora começando a
história de Deus cobrindo a vergonha de Seu ver que pode confiar em Deus.
povo (cf. Is 61.10, Zc 3.1-5). A premissa é
que todos nós precisamos ser cobertos diante Ideias para tarefas práticas
de Deus. Seremos cobertos por montanhas
a) Lembra-se de seu inimigo? Satanás
que destroem (Lc 23.28-30) ou seremos
anda à espreita e quer enganá-lo levando-o
cobertos em Cristo (Rm.13.14). Deus, por
a pensar que Deus não é bom. Leias Gênesis
meio de sua graça, transforma o que está nu
3. Qual a estratégia de Satanás? Onde você
em uma noiva ricamente trajada (Ap 21).
pode identificá-la em sua vida? Como você
Uma outra característica do amor
pode combatê-la?
dAquele que nos adota como filhos é que
Ele não esquece nossos sofrimentos, e fará b) Leia os Salmos. Leia-os pela perspec-
justiça. Sofredores sentem-se esquecidos, tiva de Jesus. Afinal, Ele é o Salmista por
sem que haja ninguém disposto a resgatá- excelência. As palavras são as Suas palavras.
los da opressão. Suas queixas parecem não Dê particular atenção aos salmos em que Ele
ir além de seus lábios (p. ex. Sl 10) e, se fala sobre o Seu sofrimento. Volte aos salmos
foram vítimas, com frequência expressam que captaram a sua experiência pessoal. Ago-
ira para com o ofensor e as testemunhas. É ra leia estes mesmos salmos como sendo as
uma ira que diz: “Vou fazer justiça”. O Pai, palavras de Jesus.

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1 29


c) Se sofrimento é uma característica A resposta bíblica, com certeza, é que
da vida de Jesus, o Filho unigênito, não Deus reúne ambas as coisas: Ele é amor, e
devemos nos surpreender se Deus não nos Ele é o Deus soberano sobre toda a criação.
proteger do sofrimento. Onde em sua vida Isso não faz de Deus o autor do pecado nem
você percebe a crença “Eu tenho direito a do sofrimento, mas revela que Ele está acima
menos dor ou sofrimento”? de tudo, operando todas as coisas para o
d) Leia o primeiro capítulo de Isaías. Per- propósito da Sua glória. Aparentemente, esta
ceba a preocupação evidente de Deus com a questão não era obstáculo para os persona-
justiça, e Sua ira contra a injustiça. gens bíblicos. José sugeriu que os planos de
Deus pesavam mais que a maldade de seus
4. Deus diz: “Saiba que Eu sou irmãos (Gn 50.20). Falando com exatidão,
Deus”. embora sem o pleno entendimento da gra-
Para consolidar a ênfase voltada para fora ça de Deus, Noemi disse: “o SENHOR se
do “eu”, e aumentar o peso para contrabalan- manifestou contra mim e o Todo-Poderoso
çar o sofrimento, Deus nos conforta com o me tem afligido” (Rt 1.21). Jeremias, um
fato de que o mundo não é caótico. Ele é o perfeito sofredor, disse: “Quem é aquele
Deus soberano que reina. Nem o sofrimento que diz, e assim acontece, quando o SE-
nem Satanás estão acima dele. NHOR o não mande? Acaso, não procede
É nesse ponto que muitas teologias do do Altíssimo tanto o mal como o bem?” (Lm
sofrimento fracassam. Elas abraçam a Deus 3.37,38). Em meio à perseguição, o Salmista
como um Deus de amor compassivo, mas encontrou descanso somente em Deus, e
não conseguem unir isso a um Deus que é disse confiante: “O poder pertence a Deus,
Todo-Poderoso. Elas dizem que é impossível e a ti, SENHOR, pertence a graça, pois a
juntar ambos os aspectos. Desta forma, o cada um retribuis segundo as suas obras”
pensamento atual eleva os arranjos da nossa (Sl 62.11,12).
mente acima das verdades da Palavra de Finalmente, Jó teve todas as suas per-
Deus. Quando encontramos uma dificul- guntas respondidas, ou pelo menos elas se
dade conceitual, nós a revisamos para que tornaram insignificantes, em uma conversa
se torne mais agradável. Talvez o exemplo em que apenas Deus teve a palavra, e dis-
mais conhecido seja o livro When Bad Things se: “Saiba que eu sou Deus” (Jó 38-41).
­Happen to Good People (Quando Coisas Não há uma reflexão acadêmica, banhada
Ruins Acontecem a Pessoas Boas), de autoria em ceticismo: “Se Deus é Deus Ele não é
do Rabino Harold Kushner.5 Em seu comen- bom; se Deus é bom, Ele não é Deus”. Em
tário sobre o livro de Jó, ele diz: “forçados lugar disso, o peso esmagador da glória de
a escolher entre um Deus bom e que não é Deus fez o sofrimento de Jó parecer menor.
totalmente poderoso ou um Deus poderoso Quando Jó estava definhando, imerso na
e que não é totalmente bom, o autor do li- pergunta “Por que eu?” e estabelecendo um
vro de Jó escolheu acreditar na bondade de verdadeiro tribunal terreno para questionar
Deus”. E o livro foi um best-seller! o Todo-Poderoso, Deus o surpreendeu com
um tribunal onde Ele mesmo foi o promotor.
“Acaso, quem usa de censuras contenderá
5
KUSHNER, Harold. Quando Coisas Ruins Acontecem às
Pessoas Boas. São Paulo: Nobel, 1989, p. 19. com o Todo- Poderoso? Quem assim argúi a
Para um tratamento mais completo do assunto, veja
6 Deus que responda” (Jó 40.1). Deus revelou

30 Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1


a Jó a Sua glória; e depois de ter visto a glória c) Pratique - talvez durante dez minutos
de Deus, Jó percebeu que havia realidades ao dia - a disciplina espiritual de aquietar
espirituais mais profundas que o seu sofri- as perguntas em sua mente e ouvir o que
mento. Na verdade, este peso de glória era Deus diz.
tão profundo que Jó ficou completamente
humilhado e calado. Ele se arrependeu de 5. Deus diz: “Há um propósito
justificar a si mesmo e acusar a Deus. Seus no sofrimento”.
problemas eram certamente “leves e momen- Em seu livro How to Handle Trouble
tâneos” à luz do poder revelado por Deus. (Como Lidar com as Dificuldades) 7, Jay
Isso coloca um fim à questão? Para Adams resume sua abordagem bíblica ao so-
muitas pessoas não. Com frequência, mais frimento da seguinte maneira: Deus está no
uma pergunta levanta-se furtivamente na sofrimento, Deus está operando algo, e Deus
sombra: “Se Deus está sobre todas as coisas, está operando algo para o bem. Visto que
por que Ele permitiu que eu fosse acometi- Deus é o Deus do evangelho da graça, bem
do pelo mal?”. Surpreendentemente, Deus como o Rei acima de toda a criação, Ele tem
incentiva esta luta com Ele. Sua resposta, propósitos soberanos no sofrimento e Seus
todavia, continua a mesma: “Eu sou Aquele propósitos são para o bem. “Os leõezinhos
que lhe dá livramento, Eu sou o seu Salvador, sofrem necessidade e passam fome, porém
Amigo e Deus. Confie em mim. Em última aos que buscam o SENHOR bem nenhum
instância, a própria existência do mal proverá lhes faltará.” (Sl 34.10)
uma demonstração da minha glória, do meu O problema para muitos de nós é que o
amor e poder, porque eu salvarei meus filhos “bem” pode não incluir um cessar imediato
e destruirei meus inimigos.”6 Deus descor- do sofrimento. Mas o “bem” de que a Bí-
tina o panorama mostrando como nosso blia fala é que aquele sofrimento será usado
sofrimento precede a glória futura. por Deus para nos conformar à imagem de
Jesus e, como resultado, dar glória ao Pai.
Ideias para tarefas práticas Parafraseando C. S. Lewis, costumamos nos
a) Os pensamentos de Deus são mais conformar com muito pouco. Não queremos
altos que os nossos. Em meio ao sofrimento, mais que o alívio imediato do sofrimento,
Deus não fornece respostas profundas às quando Deus quer nos dar muito mais. Ele
perguntas “por quê?”, mas Ele nos conforta quer nos dar coisas que durarão para a eterni-
com o fato de que Ele é maior que o sofri- dade. Ele quer nos dar uma nova disposição
mento. Deus está no sofrimento, mas sem de obediência à Sua Palavra (Sl 119.67,71),
ser o autor do sofrimento. Leia Jó 38 a 41 santidade que conduzirá a justiça e paz (Hb
até que você possa ser confortado pelo fato 12.10,11), perseverança, caráter e esperança
do mundo não estar em caos. (Rm 5.3-5), e um conhecimento de Sua
b) Leia os julgamentos relatados em Eze- presença em nossa vida pelo Seu Espírito
quiel 1, Isaías 6 e Apocalipse 4. Quais são as (Jo 14-16). Em resumo, ele quer nos dar
respostas das testemunhas? Por quê? o Reino.

o livro de Jay Adams The grand demonstration. Santa Phillipsburg, N.J.: Presbyterian & Reformed, 1982.
Barbara, Calif.: EastGate, 1991. 8
Hinário para o Culto Cristão. Rio de Janeiro: Juerp,
7
ADAMS, Jay. How to handle trouble: God’s Way.

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1 31


A esta altura, costumo apresentar ao damentos” (Dt 8.2). Isso não quer dizer que
aconselhado um trecho bíblico familiar, algum pecado pessoal é sempre a causa do
Romanos 8.28: “Sabemos que todas as sofrimento. Os conselheiros de Jó estavam
coisas cooperam para o bem daqueles que errados. Mas isso quer dizer que Deus usa
amam a Deus, daqueles que são chamados o sofrimento para provar e purificar aqueles
segundo o seu propósito”. O versículo 29, a quem Ele ama. Jó se arrependeu de sua
menos familiar, nos diz o que é esse “bem”: justiça própria.
“Porquanto aos que de antemão conheceu, Talvez você tenha ouvido cristãos
também os predestinou para serem confor- falarem a respeito do sofrimento: “Isso é
mes à imagem de seu Filho, a fim de que ele exatamente aquilo de que eu precisava”. Eles
seja o primogênito entre muitos irmãos”. estão se referindo a ter o seu pecado exposto,
Esta é a maneira mais significativa como o que com frequência acontece durante o
Deus pode nos mostrar o Seu amor. sofrimento. Foi preciso aquele exato sofri-
À medida que se caminha com um mento para ensinar a depender de Deus em
aconselhado em direção a um melhor enten- lugar de depender de si mesmo. Ninguém é
dimento dos propósitos de Deus, é sábio não naturalmente grato por uma doença grave,
perder de vista os adversários: o mundo, a por um cônjuge que se mantém a distância
carne e o diabo. O mundo está comunicando no relacionamento ou por uma tragédia, mas
constantemente que a terra é a única mora- muitos aprenderam a ser gratos, e até a esta-
da que temos, e que merecemos liberdade rem alegres, pelo treinamento espiritual que
da dor enquanto estivermos aqui. A carne circunstâncias semelhantes produziram. Se a
encontra prazer na autonomia para com nossa carne pecaminosa e resistente não for
Deus e resiste a se submeter à Sua vontade. constantemente exposta, ficamos sossegados
E o diabo aproveita-se constantemente das com a ideia de que está tudo bem conosco
nossas circunstâncias de vida para sugerir - somos pessoas boas que ocasionalmente
que elas são a evidência de que Deus não fazem coisas que não são tão boas. Desta for-
é realmente bom, que Ele está contra nós e ma, o problema do mal torna-se algo que está
não nos ama. Com estes adversários, torna- “fora daqui” e não “aqui dentro”. O perigo
se óbvio que a batalha não pode ser travada assustador desse tipo de pensamento é que o
sem as orações do povo de Deus. evangelho de Cristo torna-se pouco mais que
um presente amável de Deus para pessoas
O sofrimento revela o coração. que já estavam caminhando razoavelmente
Deus usa o sofrimento para expor bem. Ele não é mais visto por aquilo que é:
nosso coração. Sofrimento é uma pressão o evangelho da graça oferecido a mendigos
que pode nos “espremer”, revelando nossa desesperados.
fé ou os fragmentos de falta de fé e pecado Esquadrinhando essa ideia no livro de
que estavam até então escondidos. As pro- Jó, diríamos que o sofrimento coloca-nos
vações testam a nossa fé (Tg 1.2,3). Como diante de um cruzamento espiritual. Quan-
disse Lutero, “onde a batalha é furiosa, ali a do todos os acontecimentos agradáveis da
lealdade do soldado é provada”. Deus usou vida forem removidos, adoraremos ainda a
o sofrimento do povo de Israel “para humi- Deus? Nos bons tempos, a resposta parece
lhar, para provar, para saber o que estava no fácil: “Claro que confiarei em Deus!”. Mas
coração, se guardariam ou não os Seus man- o sofrimento revela em nosso coração a falta

32 Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1


de fé e a adoração voltada para nós mesmos. com aqueles que enfrentam a dor, embora
Ele pode revelar que nossa fé é mais na possamos também nos alegrar com sofredo-
base de “uma mão lava a outra”. Ele pode res que dão testemunho visível diante de si
revelar que nossa obediência aparente mesmos, da igreja e do mundo de que são
pode ser na verdade uma boa coincidência, filhos de Deus.
acontecendo quando os nossos desejos inci-
dentalmente coincidem com a lei de Deus. O sofrimento revela a eternidade.
Com isso em mente, o propósito gracioso Enquanto o sofrimento pode acender os
de Deus torna-se mais óbvio. Deus usa holofotes e expor o coração, ele pode tam-
o sofrimento para que saibamos quando bém emprestar claridade para identificarmos
estamos adorando a Deus por amor a Ele realidades mais amplas do reino de Deus. Ele
ou a nós mesmos. nos ajuda a ver a eternidade. Ele incentiva
O apóstolo Paulo mostrou que o sofri- a esperança. É como se o nosso sofrimento
mento nos força a responder à pergunta “Em nos incitasse mais para perto da eternidade
quem eu vou confiar?”. Sua resposta pessoal de modo que pudéssemos ver nossas aflições
foi: “Contudo, já em nós mesmos, tivemos a presentes a partir da perspectiva eterna. É
sentença de morte, para que não confiemos aqui que 2 Coríntios 4.16-18 ganha maior
em nós, e sim no Deus que ressuscita os brilho.
mortos” (2 Co 1.9). Paulo estava mais em- Por isso, não desanimamos; pelo contrá-
polgado com conformar-se com Cristo pela rio, mesmo que o nosso homem exterior se
fé que com um alívio imediato do próprio corrompa, contudo, o nosso homem interior
sofrimento. se renova de dia em dia. Porque a nossa leve
Um dos propósitos do sofrimento é pro- e momentânea tribulação produz para nós
duzir arrependimento, fé e obediência. Este eterno peso de glória, acima de toda compa-
é o tipo de resposta que dura eternamente, ração, não atentando nós nas coisas que se
agrada a Deus e traz a bênção da paz. Ela vêem, mas nas que se não vêem; porque as
também revela maiores pesos de glória que que se vêem são temporais, e as que se não
desequilibram a balança contra o sofrimento. vêem são eternas.
O peso de glória do perdão dos pecados é O peso de glória eterno contrabalança
maior que o peso de nossa aflição, e o peso de longe nossa dor momentânea. Ou como
de glória de ganhar sabedoria e compartilhar disse Madre Teresa, “do céu, a vida mais
a santidade de Deus passa a ser uma bonita triste na terra parecerá como uma noite mal
dádiva que altera ainda mais a escala da dormida em um hotel desconfortável”. E
balança. assim prossegue o processo de contrabalan-
Com certeza, o sofrimento não revela çar o sofrimento, resultado de uma teologia
apenas o pecado, mas pode também expor bíblica do sofrimento.
corações que estão cheios de fé. Muitos O encorajamento a ter esperança no
cristãos que foram surpreendidos pelo so- sofrimento é um tema marcante ao longo das
frimento surpreenderam-se também recor- Escrituras. É obvio que se o apóstolo Paulo
rendo imediatamente à Palavra de Deus em tinha um segredo, aqui está ele. A esperança
busca de conforto, e expressaram orações de na eternidade era mais profunda que a sua
lamento e louvor que competiram com as dor: “gloriamo-nos na esperança da glória
do Salmista. Em tais casos, ainda choramos de Deus” (Rm 5.2). O problema, todavia, é

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1 33


que somos uma geração presa ao presente. Depois repare na distância que há entre a
Preocupações com coisas temporais, como esperança atual do sofredor e a esperança de
as contas mensais, bem como com bênçãos Paulo ou Tiago. Perceba como esta distância
temporais, como paz e liberdade, fazem não pode ser superada a não ser pela oração,
com que seja cada vez menos natural para os meditação e prática da “disciplina da espe-
cristãos olhar para além. No entanto, é aqui rança”. Lembre aos aconselhados que a es-
que o sofrimento pode melhor trabalhar. perança não virá em uma semana, mas ela se
Sofrimento lembra-nos de que o mundo tornará mais e mais uma realidade mediante
não mantém suas promessas. Lembra-nos de encorajamento persistente e prática.
que não há nada neste mundo que não tenha Na leitura dos Salmos, pode parecer
sido manchado pelo pecado e pela maldição que a esperança surja instantaneamente.
da queda. Desta forma, a esperança pode se Em vários salmos, parece haver apenas um
tornar mais espontânea e tranquilizadora, leve convite a esperar no Senhor, e logo em
pela graça de Deus. seguida o salmista irrompe em louvor. Os
Esperança é o gran finale do sofrimento. Salmos, todavia, oferecem esboços conden-
O sofrimento ajuda-nos a focalizar na espe- sados de um processo educativo. Além disso,
rança, portanto não devemos nos surpreen- eles foram escritos por pessoas que eram
der ao descobrir que algumas das passagens treinadas em esperança. Sim, esperança é
bíblicas mais conhecidas sobre o sofrimento uma habilidade. Não é uma experiência ins-
acabam em tom de esperança segura (Rm tantânea. É uma disciplina que requer força
5.3-5, 8.18-19, 1 Pe 4.12-14). Por exemplo, e encorajamento constante das Escrituras e
Romanos 5.3-5 fala sobre os propósitos do povo de Deus para que possa florescer
cumulativos do sofrimento. Para aqueles que (Rm 15.4).
foram treinados pelo sofrimento, tribulação
produz perseverança, perseverança produz Este é o centro do propósito de Deus
experiência, e experiência produz esperança. no sofrimento: revelar nosso coração, con-
E logo a seguir o apóstolo passa a argumentar templar o Salvador ressurreto e depositar
a garantia presente da nossa esperança. De confiança nEle, antecipando Sua volta e
acordo com Paulo, a esperança está selada aprendendo a obediência. No entanto, há
no testemunho da cruz de Cristo e de Sua mais um propósito que pode realmente
ressurreição. Testemunhamos Seu amor por entusiasmar algumas pessoas. Na situação
nós. Portanto, nossa esperança é garantida. de Jó, um dos propósitos do sofrimento
Paulo leva-nos de volta ao início da nossa era silenciar Satanás. Satanás, o inimigo e
teologia do sofrimento e nos lembra de que a causa proeminente do sofrimento e do
sofredores nunca devem tirar seus olhos da mal, ainda vive para nos acusar e persuadir
cruz e do amor nela revelado. Não há espe- a desobedecer ao Deus Altíssimo. O privi-
rança sem convicção do amor de Deus. légio do povo de Deus é combater Satanás,
Como podemos ganhar esperança em confiando em Deus e obedecendo mesmo
meio à dor? Podemos começar pela leitu- em meio ao sofrimento.
ra de passagens bíblicas sobre esperança. Enquanto estivermos aqui na terra, não
Maravilhe-se diante de como Paulo (Rm saberemos identificar plenamente quem são
5.3) e Tiago (Tg 1.2) alegraram-se em seu os inimigos de Deus. O único inimigo que
sofrimento enquanto esperavam em Deus. conhecemos com certeza é o próprio Satanás.

34 Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1


Como um dos puritanos disse, nossa tarefa é escreveu o poema que transcrevemos abaixo.
“causar tanto dano a ele quanto possível”. Perceba como, mesmo em sua maior tristeza
O sofrimento certamente coloca em e depressão, ele descobriu que a esperança
evidência esta batalha da vida cristã; mas o em Cristo é profunda. Ele encontrou pesos
poder de Deus, Sua vitória sobre Satanás e de glória que lhe deram paz.
Sua iniciativa de nos persuadir com promes- Se paz a mais doce eu puder desfrutar,
sas preciosas, são mais que suficientes para se dor a mais forte sofrer,
conduzir a batalha com sucesso. Temos tam- oh, seja o que for, tu me fazes saber
bém o exemplo de Cristo, bem como o de que feliz com Jesus sempre sou!
homens e mulheres de fé no Antigo e Novo
Embora me assalte o cruel Satanás,
Testamentos que nos dão alento. E ainda
e ataque com vis tentações;
mais, há vidas de muitas pessoas ao nosso
oh, certo eu estou, apesar de aflições
redor que são merecedoras de imitação.
que feliz eu serei com Jesus!
Um exemplo bem conhecido de sofredor
que pode ser modelo para nós é Horatio Meu triste pecado por meu Salvador
Spafford, o escritor do hino “Sou feliz com foi pago de um modo total.
Jesus”. Em 1873 ele acenou adeus a sua espo- Valeu-me o Senhor, oh que amor sem
sa, Anna, e a seus quatro filhos que partiam igual!
para a França a bordo do transatlântico Ville Sou feliz, graças dou a Jesus.
de Havre. Ele tinha negócios a completar
A vinda eu anseio do meu Salvador.
nos Estados Unidos antes de poder se juntar
Ao céu Ele vai me levar;
à família na Europa. A viagem procedeu
em breve eu irei para sempre morar
tranquila até que no meio da noite de 22
com os salvos por Cristo Jesus.8
de novembro o navio colidiu com outra
embarcação. A balança pende cada vez mais para um
As águas impetuosas separaram a senho- dos lados. O sofrimento ainda existe, e a dor
ra Spafford de seus três filhos mais velhos. pode ser grande, mas os pesos de glória ocu-
Ela ainda conseguiu agarrar a mais nova, pam em nosso coração lugar mais profundo
Tannetta, enquanto elas eram arrastadas para que a dor (figura 2).
dentro do Atlântico gelado. Repentinamen-
te, a criança lhe foi arrancada. Anna foi mais
tarde tirada das águas por marinheiros da
outra embarcação, enquanto que os quatro
filhos morreram afogados.
Poucos dias depois, Horatio recebeu um
telegrama dizendo que apenas a esposa so-
brevivera. Embora ele tenha experimentado
o que pareceu ser uma depressão implacável, Figura 2
logo partiu a bordo de um navio para encon-
trar sua esposa na Europa. A certa altura da
viagem, o capitão comunicou a passagem
pelo lugar onde estavam os destroços do 1991. n. 329.
naufrágio. Horatio foi para sua cabine e 9
O autor sugere A Step Further de Joni Eareckson Tada

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1 35


Ideias para tarefas práticas sendo curadas da dor? Pessoas que foram
a) Considere a vida de José. Como você feridas e vitimadas? Ou somos pessoas que
identifica o propósito amoroso de Deus? precisam esquecer a dor e seguir em frente?
Preste atenção especialmente em Gênesis Precisamos ser uma espécie de cristãos mais
50.20. fortes que ignoram a dor e permanecem na
b) Considere a vida de Noemi no livro batalha?
de Rute. Como você identifica o propósito Deus claramente nos aponta outro
amoroso de Deus? caminho. A encarnação fala contra a super-
c) A caminhada da vida cristã costuma ficialidade dos estóicos. A presença de Jesus
ser resumida de várias maneiras: na terra mostra Sua solidariedade para com
“O fim principal do homem é glorificar os sofredores. Seu ministério foi cheio de
a Deus e gozar de comunhão com Ele para compaixão e entendimento. Seu ministé-
sempre”, rio também revelou a superficialidade dos
“Sêde santos como Deus é santo”, corações sangrentos. Ele demonstrou que
“Sêde imitadores de Cristo”. dor, sofrimento, condição de vítima e morte
De que maneira estas frases sugerem que não são os aspectos mais relevantes da vida.
há um propósito maior para a sua dor? Jesus nos dirige a realidades mais profundas,
d) Reúna uma coleção de cânticos de necessidades espirituais mais profundas.
adoração. Somos pessoas que foram alvo de mi-
e) Leia um livro bibliográfico sobre sericórdia. Isso certamente não é algo novo
sofrimento9. para nós. É uma identidade que até mesmo
f ) De que maneiras você pode silenciar crianças podem perceber nas Escrituras, mas
Satanás? banalizá-la prejudica nossa habilidade para
g) Dê início ao hábito de orar de acordo revolucionar a perspectiva do sofredor. Por
com versículos das Escrituras. Se Deus diz exemplo, pessoas que sofreram nas mãos de
algo que você não entende ou acredita, ore outras podem achar que a vida de vítima seja
que Ele faça a Sua Palavra viva para você. inevitável. Isso é o que elas são, e o máximo
Considere a possibilidade de começar com que elas podem fazer é tentar proteger a si
passagens a respeito de esperança. mesmas da dor. Mas Deus reorienta sofre-
h) Leia Hebreus 10.37 a 12.12. Como dores. Ele revela que a graça recebida não se
estas breves biografias podem encorajá-lo? compara à dor atual. A graça é algo de peso
Que perguntas esta passagem bíblica suscita na balança; o sofrimento é leve.
em sua mente? Considere também aquelas pessoas que
estão iradas porque acham que não merecem
Nem vítimas com coração a dor. Como recipientes de misericórdia
partido, nem estóicos, mas servos e graça, elas podem ficar repentinamente
de Deus sofredores que humilhadas quando descobrem o custo es-
respondem à Sua graça. tarrecedor da iniciativa do amor divino em
Então, quem somos? Qual é a nossa seu favor. Elas passam de vítimas que reagem
identidade? Pessoas da dor? Pessoas que estão a pessoas que respondem em amor. O fun-
damento para a vida do cristão é a graça de
e Through Gates of Splendor de Elizabeth Elliot. Deus, e não liberdade do sofrimento. Éramos
inimigos de Deus que estavam nus e cegos, e

36 Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1


Ele tomou a iniciativa para conosco: “Deus ao próximo e a Deus, tornando inevitável o
prova o seu próprio amor para conosco pelo passo do perdão. Perdoamos assim como fomos
fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós perdoados. Na mesma medida como Deus
ainda pecadores” (Rm 5.8). lidou conosco de modo “injusto”, ou seja, Ele
Talvez a expressão “pessoas que respon- nos amou quando não o merecíamos, também
dem” capte bem nossa nova identidade. Deus amamos aos nossos inimigos.
é o iniciador implacável da graça libertado- Como será este amor? Há dezenas de
ra. Nós respondemos à Sua graça pela fé. possibilidades. Às vezes assumirá a forma de
Como pessoas que respondem a Ele, somos confrontar a pessoa, por carta ou pessoalmente.
definidos por Aquele que nos liberta e nos Poderá também assumir a forma de orar pelo
tornamos Seus servos. Isso não remove o so- ofensor e não perder a esperança de uma plena
frimento, visto que ele está ligado à vida aqui reconciliação. Ou então assumirá a forma de
na terra, mas não somos mais definidos nem telefonar para o pastor e também para 192 em
controlados pelo sofrimento. Somos servos busca de ajuda em meio à crise. Outras vezes
sofredores que respondem a Deus. assumirá a forma de ministrar verdade e graça a
Aqui está um conselho curioso para os outras pessoas que sofrem mágoas semelhantes.
sofredores: caminhar olhando para fora, em O amor de Deus pode inspirar muitas inicia-
direção ao Deus trino, “olhando firmemente tivas criativas.
para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual,
em troca da alegria que lhe estava proposta, su- Pessoas responsivas que amam a
portou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, Deus.
e está assentado à destra do trono de Deus” Na última ceia, Jesus contou aos discípu-
(Hb 12.2). Isso certamente não significa que los que eles estavam prestes a experimentar
devamos ignorar o sofrimento, mas que nossas grande aflição, mas logo depois da dor have-
perguntas começam a mudar diante do peso ria uma alegria que nunca lhes seria roubada,
de glória de Deus. A pergunta “Por que Deus mesmo durante as tremendas perseguições
não fez isso cessar?” torna-se menos urgente. que todos iriam enfrentar.
Começamos a perguntar “Como posso amar Em verdade, em verdade eu vos
a Deus e aos outros em resposta ao que Deus digo que chorareis e vos lamentareis, e
fez por mim?” e “Como posso tratar outros da o mundo se alegrará; vós ficareis tristes,
maneira como Cristo me tratou?”. A pergunta mas a vossa tristeza se converterá em
dos sofredores passa a ser a mesma pergunta dos alegria.A mulher, quando está para dar
demais cristãos: “Como posso cumprir os dois à luz, tem tristeza, porque a sua hora
grandes mandamentos - amar a Deus e ao meu é chegada; mas, depois de nascido o
próximo como a mim mesmo?”. menino, já não se lembra da aflição,
pelo prazer que tem de ter nascido ao
Pessoas responsivas que amam mundo um homem. Assim também
outras. agora vós tendes tristeza; mas outra vez
Para aqueles que foram vítimas, este é o vos verei; o vosso coração se alegrará, e
momento de falar a respeito de perdoar o ofen- a vossa alegria ninguém poderá tirar.
sor. “Não te deixes vencer do mal, mas vence o (Jo 16.20-22)
mal com o bem” (Rm 12.21). O aconselhamen- Como poderiam entender: alegria
to bíblico incentiva um movimento em direção constante, mas sobrecarregada de aflição e

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1 37


dor? Certamente é uma experiência difícil peso de glória para qualquer sofredor. Isso
de descrever; no entanto é verdadeira. Ela não coloca um fim ao nosso sofrimento ou
tem base na adoração do Cristo ressuscita- dor momentânea, mas significa que não
do. Jesus está vivo. Independentemente do vamos exaltar nem ignorar a dor. Vamos
que nos acontece, nosso grande Deus reina. exaltar a Deus em meio à dor.
Dificuldades pessoais e aflições não podem “Porque para mim tenho por certo
mudar a verdade da ressurreição. A maior que os sofrimentos do tempo presente não
alegria do cristão é o próprio Deus e o fato podem ser comparados com a glória a ser
de que nada pode nos separar dEle. revelada em nós”. (Rm 8.18)
A evidência desta alegria em meio ao
sofrimento pode ser vista nos funerais de Declarações sobre o problema do
muitos cristãos. Pode ser vista nas palavras sofrimento
da família de uma criança que morreu de A igreja necessita de uma declaração
câncer: de fé para o aconselhamento que defina o
Empreste sua canção celeste que cristãos devem ou não crer a respeito
para que se junte às nossas que do problema do sofrimento. Damos aqui
vêm da terra, querido filho, e adore algumas declarações preliminares, que es-
Àquele cujo amor O constrangeu peramos sejam refinadas em um processo
a morrer por pessoas como nós, de de discussão.
forma que você pudesse entrar no 1. Dor e sofrimento entraram no mun-
paraíso que agora desfruta e onde do após o pecado de Adão.
vive para sempre com Ele. Nós sen-
Afirmamos que:
timos sua falta, mas seremos fortes e
ŠŠembora não tenhamos participado
seguiremos em frente, até o dia em
voluntariamente do pecado de Adão,
que o veremos, aí no céu.
compartilhamos a culpa e a deprava-
Há uma grande tristeza pela perda de
ção de Adão. Portanto, nunca somos
um amigo ou parente querido. Pode haver
sofredores inocentes;
até ira, pois a morte é uma intrusa que não
ŠŠa dor é agora uma parte permanente
pertence à criação de Deus. Mas também
de nossa existência na terra devido à
há alegria. Alegria por saber que aquele que
maldição de Deus sobre o pecado;
morreu está em casa. Alegria por saber que
ŠŠa dor atinge crentes e descrentes;
na ressurreição de Jesus o maior inimigo,
ŠŠa dor é uma intrusa na criação de Deus,
a mais profunda causa de sofrimento, a
e um dia será banida por Cristo;
própria morte, “tragada foi pela vitória” (1
ŠŠa dor, à semelhança do pecado, é uma
Co 15.54).
presença misteriosa em nosso mundo,
Existem realidades mais profundas que a
que não pode ser plenamente enten-
nossa dor. O amor de Jesus que se fez homem,
dida.
o perdão de nossos pecados, o conhecimento
de que Deus tem um propósito, são pesos de Negamos que:
glória que mudam o nosso sofrimento. Mas o
ŠŠDeus é o autor do pecado (consideran-
maior de todos os pesos de glória é o próprio
do o pecado como causa da dor);
Deus. Conhecê-lo como o Deus verdadeiro
que deve ser louvado e adorado é o maior ŠŠa dor é sempre a causa do pecado.

38 Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1


2. Dor e sofrimento podem ser atri- Negamos que:
buídos a Satanás, ao pecado de Adão, ŠŠa soberania de Deus no sofrimento de
ao nosso pecado pessoal, a outros algum modo reduz o Seu grande amor
que pecam contra nós, e ao próprio por Seu povo.
Deus.
Afirmamos que: 5. O evangelho de Cristo transforma
ŠŠas Escrituras enfatizam como viver obe- todas as coisas em nosso mundo, in-
dientemente em meio ao sofrimento, clusive o sofrimento.
em lugar de como discernir a causa Afirmamos que:
precisa do sofrimento. ŠŠnos sofrimentos de Jesus encontramos
um sofrimento que é maior que o
Negamos que:
nosso;
ŠŠo sofrimento é sempre um resultado
direto do pecado pessoal. ŠŠno evangelho, Jesus vem a nós como
um sacerdote que entende amplamente
3. Independentemente da causa, dor
nossa dor;
e sofrimento devem mover o povo de
Deus à compaixão. ŠŠredenção é a necessidade mais profun-
Afirmamos que: da do homem. Nosso problema com o
ŠŠJesus estava cheio de compaixão por pecado ultrapassa em muito o peso do
aqueles que sofriam; como imitadores nosso sofrimento. Como tal, as bênçãos
de Cristo, aqueles que compõem a Sua da redenção são mais profundas que o
igreja também devem responder ao nosso sofrimento;
sofredor com compaixão; compaixão
ŠŠo sofrimento tem um propósito. Ele
expressasse em palavras e ações;
testa e revela o coração humano, e ele
ŠŠcompaixão inclui encorajar sofredores coopera para o “bem” na medida em
a falar honestamente com Deus. que pode fortalecer os crentes e moldá-
los à imagem de Cristo;
Negamos que:
ŠŠcompaixão é um “estágio” no aconselha- ŠŠos cristãos podem sofrer mais que os
mento. Ela é do começo ao fim a nossa descrentes. Eles sofrerão mais porque
atitude para com aqueles que sofrem. sua compaixão se estenderá além dos
limites de si mesmos e suas famílias.
4. Deus está acima de todas as coisas,
Eles sofrerão por amor à justiça;
inclusive da dor e do sofrimento.
Afirmamos que: ŠŠo sofrimento conduz à esperança. À
ŠŠDeus está acima de Satanás, do pe- medida que crescemos por meio do
cado, das “casualidades”. Quando o sofrimento, aprendemos a não nos
sofrimento nos atinge, é a vontade de contentar com o mundo presente e a
Deus para a nossa vida; antecipar a eternidade.Olhamos menos
ŠŠsofrimento leva-nos a uma dependên- para a razão do sofrimento e mais para
cia humilde de Deus. nosso Redentor ressurreto.

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1 39