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DOI: 10.1590/1413-81232017223.

27982015 911

O atendimento psicológico ao paciente com diagnóstico

TEMAS LIVRES FREE THEMES


de depressão na Atenção Básica

Psychological assistance provided to patients diagnosed


with depression in primary care

Cibele Cunha Lima da Motta 1


Carmen Leontina Ojeda Ocampo Moré 1
Carlos Henrique Sancineto da Silva Nunes 1

Abstract The scope of this research was to un- Resumo O objetivo da pesquisa foi compreen-
derstand the assistance provided by psycholo- der a prática dos psicólogos para atendimento a
gists to patients diagnosed with depression in the pacientes com diagnóstico de depressão em rede
municipal health care network. In this study, the municipal de saúde. No estudo, o fenômeno é
phenomenon is examined from its broader per- entendido com base na compreensão ampliada e
spective, taking the psychosocial dimensions of universal, observadas as dimensões psicossociais
health into account. A group of 22 psychologists da saúde. O estudo, de natureza qualitativa, con-
participated in this study of a qualitative nature. tou com a participação de 22 psicólogos. A coleta
Data collection began with participant in-field de dados iniciou com a observação participante de
observation of the institutional context followed campo do contexto institucional, seguida da en-
by semi-structured interviews. Grounded theory trevista semiestruturada. O método da “Groun-
methodology was used to analyze information, ded Theory” foi usado na análise das informações
thereby facilitating its integration and categoriza- facultando integrá-las e categorizá-las. Os resulta-
tion.The results revealed that in the primary care dos demonstraram que o atendimento na rede de
network the treatment of depression is essentially Atenção Básica delimita o tratamento de quadros
restricted to its biological aspect; the choice of in- depressivos sob a perspectiva sobretudo biológica;
dividual psychotherapy as the main form of treat- a eleição da psicoterapia individual como princi-
ment refers to traditional practices of psychologi- pal forma de atendimento remete a práticas tra-
cal care for depression; the use of institutional and dicionais de atenção aos quadros de depressão; o
community methods as part of the therapeutic ap- uso dos dispositivos institucionais e comunitários
proach suggests mental health interventions that como parte do projeto terapêutico aponta para
address the psychosocial dimension. The findings ações em saúde mental que contemplam a dimen-
indicate that transcending the traditional models são psicossocial. Os resultados revelam que a su-
1
Departamento de of care for patients with depression and the con- peração dos modelos tradicionais de atendimento
Psicologia, Universidade struction of forms of treatment using psychosocial à depressão e a construção de formas de atenção
Federal de Santa Catarina.
resources are ongoing, indicating that comprehen- que utilizem recursos psicossociais ainda estão em
Campus Universitário
Laboratorio de Psicologia sive care needs to be further consolidated in pri- curso, evidenciando que a atenção integral precisa
da Saúde, Família e mary care. ser mais bem consolidada na Atenção Básica.
Comunidade/Sala 10B,
Key words Psychologists, Depression, Mental Palavras-chave Psicólogos, Depressão, Saúde
Trindade. 88040-970
Florianopolis SC Brasil. health, Primary care mental, Atenção básica
mottacibele@gmail.com
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Motta CCL et al.

Introdução ca. Assim, o psicólogo deve atuar em perspectiva


generalista na atenção curativa e desenvolver ati-
Este estudo parte da compreensão ampliada da vidades de prevenção e promoção de saúde com
depressão, a qual congrega um conjunto de sinais foco na família e na comunidade9. Tal estrutura
e sintomas reconhecidos como constitutivos dos institucional se articula com a prática dos psicó-
estados depressivos, que variam em intensidade logos no atendimento clínico em saúde mental,
sobre os efeitos no indivíduo. Tal compreensão cujos processos de intervenção ocorrem mediante
se baseia nas dimensões biológica e psicossocial, escuta sensível da demanda10, considerando as cir-
as quais se influenciam recursivamente. Conside- cunstâncias que a constituem para a elaboração de
rada um dos principais e mais correntes proble- projetos terapêuticos que possibilitem o cuidado
mas de saúde mental, com taxas de prevalência integral do usuário diagnosticado com depressão.
que alcançam até 20% da população mundial, As dimensões psicossocial e comunitária
a depressão impacta o meio social de tal modo, do atendimento psicológico são realizadas por
que é julgada a segunda patologia a causar mais meio do conjunto de ações técnico-assisten-
prejuízo na esfera econômico-social; no campo ciais que sustenta as práticas dos profissionais.
da saúde, a carga de comorbidade dos quadros A psicoterapia, tanto individual como grupal, é
depressivos afeta doenças crônicas, dificultando instrumento que, reconhecidamente, representa
o tratamento. essas práticas. Para tratar a depressão, a psicote-
Ao se considerar esse cenário, o atendimen- rapia individual é amplamente recomendada por
to à depressão é apontado como desafio para a agências nacionais e internacionais de saúde11,12
área da saúde pública. O plano de Ação Global e possui eficácia reconhecida em distintas abor-
de Saúde Mental 2013-2020 da OMS1 consolida a dagens teóricas13. Para Ferreira Neto e Kind14, o
concepção de que o atendimento à saúde mental atendimento individualizado possibilita atenção
deve ser feito em centros comunitários de aten- personalizada e direcionada, mas ao mesmo tem-
ção à saúde. po foca no processo patológico. Já o atendimento
Há uma década, o Brasil incorporou a aten- em grupo configura estratégia terapêutica prio-
ção à saúde mental às ações da Atenção Básica – rizada nas ações em saúde mental15. O potencial
AB2-4, garantindo panorama favorável ao atendi- dessa forma de intervenção se apoia no fortaleci-
mento aos quadros depressivos, pois possibilitou mento ou na construção de redes sociais, o que
mais acesso ao tratamento do usuário com de- constitui fator de saúde14. Quanto ao tratamento
pressão. Atualmente, a demanda por atendimen- da depressão, a psicoterapia em grupo é julga-
to à depressão corresponde a 23,9% dos usuários da mecanismo tão eficaz quanto o atendimento
na rede básica de atenção à saúde, caracterizan- individual13, sendo também recomendada por
do-se como predominante no atendimento em organismos de saúde11,16. O atendimento psico-
saúde mental na rede pública5. lógico à depressão contempla ainda ações psicoe-
Na Atenção Básica, o atendimento à depres- ducacionais em busca da construção de processo
são é sustentado por um conjunto de políticas de autonomia do usuário de saúde diagnosticado
que possibilita construir modelo de atenção que com depressão por meio da informação17,18.
visa ao atendimento integral do usuário. Nesse Esses recursos, em conjunto com as políticas
sentido, os aspectos socioculturais do adoeci- de atenção à saúde mental, representam as ferra-
mento ganham impulso e os cuidados em saúde mentas que permitem ao profissional de Psicolo-
retomam perspectivas contextuais e institucio- gia atender o paciente com depressão a partir de
nais, de forma que a dimensão psicossocial pos- perspectiva psicossocial, a qual contribui para o
sa ser reconhecida na construção dos processos atendimento integral ao usuário, buscando a su-
de saúde e doença6. Nessa linha de raciocínio, os peração de modelos tradicionais de saúde men-
processos de intervenção dos profissionais exi- tal. Nesse sentido, investigar como os profissio-
gem atuação em concepção ampliada, interagin- nais desenvolvem suas ações possibilita entender
do com os diferentes campos do conhecimento o impacto das diretrizes das políticas públicas
no desenvolvimento do projeto terapêutico7. nas propostas de intervenção dos que atuam na
Nesse quadro, o trabalho do psicólogo se pau- rede pública de saúde.
ta em conceitos norteadores do contexto institu- A literatura científica sobre as práticas dos
cional, como o de clínica ampliada e compartilha- profissionais de saúde mental no atendimento
da8, e em diretrizes de inclusão das ações em saúde público à depressão, na ótica do profissional de
mental3 na Atenção Básica, esta desenvolvida a saúde é, todavia, pouco explorada. No cenário in-
partir dos pressupostos da Reforma Psiquiátri- ternacional, a produção bibliográfica, na maioria
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relacionada ao profissional médico, foca nos pro- tinha entre 3 e 7 anos de atuação como psicólogo.
cessos de análise do manejo clínico dos pacientes Quanto ao tempo de atuação na rede municipal
tanto no que concerne à prescrição de medica- de saúde mental, 12 atuavam entre 10 meses e 3
mentos19, como à indicação da psicoterapia20. anos, e o restante variou até 13 anos.
A perspectiva de outros profissionais de saúde Em termos de especialização em abordagem
mental é abordada em produções que tratam do teórica, os 12 participantes possuíam curso com-
cuidado compartilhado21,22. No âmbito das polí- pleto em Psicanálise, em Gestalt e em Sistêmica
ticas públicas de atendimento, aponta-se a neces- Familiar; 10 possuíam especialização incompleta
sidade de (re) pensar novos modos de interven- ou não a possuíam em nenhuma abordagem teó-
ção que ampliem as formas de atendimento, para rica. Ademais, 13 possuíam curso de pós-gradua­
tornar o tratamento mais abrangente e eficaz23. ção, 10 dos quais com especialização em áreas
No cenário nacional, a produção dos últimos relacionadas à Psicologia ou à Saúde. Quanto à
5 anos em revistas indexadas sobre a depressão participação em cursos de capacitação, apenas 4
no contexto da AB está fortemente relacionada psicólogos afirmaram ter estudado transtornos
a dados epidemiológicos de prevalência, eviden- de humor.
ciando a ausência de publicações sobre práticas A coleta de dados, realizada de 2009 a 2010, foi
profissionais e processos de intervenção na de- organizada em duas etapas: a primeira caracteri-
pressão5,24. Isso pode estar conectado ao fato de zou-se por processo de “observação participante
que a atenção à saúde mental na Atenção Básica de campo” nas reuniões mensais das equipes de
constitui evento recente, em construção. saúde mental e nos encontros de matriciamento
Com base nessas ideias, este trabalho se in- dos CAPS com as equipes de saúde mental, tota-
sere no campo das práticas profissionais articu- lizando 30 eventos. Essa etapa permitiu conhecer
ladas com as políticas públicas que norteiam os o campo de pesquisa, para identificar os proces-
processos de trabalho. O estudo então objetiva sos de trabalho da equipe de saúde mental. Os
compreender a prática dos psicólogos no atendi- dados colhidos nessa fase foram registrados em
mento a usuários com diagnóstico de depressão diários de campo e integraram a análise, eviden-
em rede municipal de saúde. ciando a configuração do contexto institucional e
também o modo como a depressão era discutida
e tratada nessa conjuntura.
Método A segunda etapa foi efetivada por meio de
entrevista semiestruturada, aplicada após o perí-
A pesquisa é qualitativa e busca compreender os odo de “observação participante de campo”. Os
significados, as crenças e os valores produzidos eixos temáticos norteadores da entrevista foram:
pelos participantes dentro da realidade social e a) processo de formação e capacitação; b) carac-
cotidiana25. Realizado sob a perspectiva dos pres- terização do processo de diagnóstico; c) identifi-
supostos epistemológicos do Pensamento Com- cação dos princípios do manejo clínico; d) ques-
plexo26, este estudo se ancora no princípio da tões referentes ao trabalho em uma rede de saúde
dialógica, no intuito de contemplar a vasta rede mental; o último eixo foi também sustentado
de elementos em interação que compõe a atenção pelos dados provenientes da observação. As en-
à saúde mental. trevistas, registradas em áudio, foram realizadas
O estudo foi realizado em uma rede muni- individualmente em local e horário previamente
cipal de saúde mental, que contava com equipes acordados.
formadas por psicólogos e psiquiatras, os quais A análise de dados foi realizada por meio da
atendiam, por matriciamento e equipes NASF, a Grounded Theory (teoria fundamentada empiri-
centros de saúde, objetivando oferecer cobertura camente), desenvolvida por Strauss e Corbin27, a
completa à Atenção Básica do município. qual permitiu agrupar, comparar e relacionar sis-
Participaram na pesquisa psicólogos que atu- tematicamente os dados oriundos das transcri-
avam com os usuários da rede de atenção à saúde ções das entrevistas semiestruturadas e das notas
mental. De um grupo de 28 profissionais com dos diários de campo. Ao considerar o objetivo
atuação na rede, 24 foram convidados – 15 da do estudo, a análise foi efetuada nestas etapas: a)
Atenção Básica, 5 do CAPS II e 4 do CAPS Infan- imersão nos dados a partir da leitura do mate-
til. Dos profissionais convidados, 22 psicólogos rial coletado; b) divisão dos dados em incidentes,
aceitaram participar do estudo. ideias ou eventos e renomeação com código con-
A descrição do conjunto de participantes ceitual que os representasse, etapa denominada
evidenciou que a maior parte dos entrevistados “codificação aberta”; c) classificação dos códigos,
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de forma a nuclear as propriedades similares ou pelos profissionais de saúde como sintoma de


evidenciar singularidades - etapa designada “co- outros tipos de sofrimento psíquico, tais como
dificação axial”; d) listagem, a partir das catego- borderline, transtorno obsessivo-compulsivo, al-
rias principais, das respectivas subcategorias de coolismo, psicose, além de estar associada a com-
análise, na fase denominada “codificação seleti- portamentos suicidas. Nota-se que a depressão
va”, em que os códigos são refinados e integrados não constituía tema dos encontros matriciais. A
em busca de descrever e compreender as catego- despeito da significativa incidência, a depressão
rias principais. ficou invisível nas narrativas dos profissionais, o
Dada a quantidade de dados produzidos pe- que sugere processo de normalização dessa for-
las entrevistas, a análise foi efetuada pelo software ma de sofrimento psíquico, o que implica pouca
ATLAS TI 5.0 (Qualitative Research and Solu- ou nenhuma mobilização dos profissionais frente
tions), programa de análise qualitativa. A utiliza- às demandas e às necessidades geradas pelo esta-
ção dessa ferramenta permitiu executar visuali- do depressivo dos pacientes.
zação, integração e exploração de informações, O segundo fator se refere ao fluxo dos usuá-
de acordo com os princípios do programa28, para rios de saúde que buscam atendimento psicote-
possibilitar a codificação e a construção das ca- rapêutico, o que direciona as formas de atendi-
tegorias, baseadas no referencial teórico da pes- mento à depressão. Por meio do fluxo, pode-se
quisadora. compreender a avaliação e a intervenção às quais
A pesquisa foi submetida ao Comitê de Éti- o paciente é submetido antes do atendimento
ca de Pesquisa com Seres Humanos e por ele pelo serviço de Psicologia. A organização do flu-
aprovada e contou com a autorização dos parti- xo de atenção à saúde mental resulta do modelo
cipantes, mediante o Termo de Consentimento da Estratégia da Saúde da Família - ESF, o qual
Livre e Esclarecido. Para preservar o anonimato, indica que o atendimento inicial deve ser realiza-
os participantes foram identificados por letras e do pela equipe ESF. Esse procedimento é deter-
números. minante para a percepção do quadro depressivo
e a terapêutica, na medida em que a maioria dos
usuários chega ao psicólogo com diagnóstico e
Resultados e discussão medicação prévios.
O desenvolvimento de trabalho proposto
Da análise das narrativas dos profissionais, foram pelo apoio matricial significou, por um lado,
destacadas, para este artigo, quatro categorias, avanço na atenção à saúde, uma vez que deman-
que evidenciaram aspectos clínicos e institucio- dou (e ainda demanda) novo olhar sobre o pro-
nais do atendimento ao usuário de saúde com cesso clínico marcado pela interdisciplinaridade,
diagnóstico de depressão, detalhados a seguir. como preconiza o Ministério da Saúde, ao reco-
mendar que o Projeto Terapêutico Singular resul-
Fatores contextuais do atendimento te de construção conjunta entre os membros da
ao diagnóstico de depressão equipe de saúde7,8. Isso foi também exposto pelos
entrevistados, quando externaram a importância
A trama entre as relações e as estruturas or- de poder discutir com a equipe sobre a necessida-
ganizacionais nas quais as práticas profissionais de de medicação para pacientes com depressão.
são construídas e reproduzidas constitui os fa- Por outro lado, o desenvolvimento da clí-
tores contextuais do atendimento aos quadros nica a partir da perspectiva do apoio matricial
depressivos. Neste estudo dois fatores institucio- privilegia a concepção biomédica, uma vez que
nais são destacados: o primeiro - discussão sobre os conceitos de saúde e doença estão calcados
a depressão entre os profissionais de saúde mental - nesta noção, a qual favorece a dimensão bioló-
revela dados referentes à observação participante gica do fenômeno da depressão. Rey29 confirma
de campo das reuniões de apoio matricial entre essa ótica, ao asseverar que as representações e as
CAPSs e equipes de saúde mental da AB. As reu- práticas em relação à saúde refletem os discursos
niões visavam principalmente discutir casos mais dominantes da sociedade. Desse modo, a tentati-
complexos que demandavam esforço multidisci- va de desenvolver recursos e estratégias psicosso-
plinar. ciais a partir dessa perspectiva está atrelada a essa
Nesses encontros pôde-se observar que, na ordem simbólica, o que limita as possibilidades
maioria das vezes, a depressão era apresentada terapêuticas dos quadros depressivos.
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Atendimento psicoterapêutico Assim, no atendimento psicológico, esses
elementos são processos-chaves para acessar a
O atendimento terapêutico aborda os princi- subjetividade do outro e compreender seu sofri-
pais elementos citados pelos participantes acer- mento psíquico. Na depressão, a escuta propicia
ca do atendimento psicológico ao usuário com identificar as questões subjacentes à própria de-
quadro depressivo. A utilização do termo psico- manda do paciente, com base na compreensão
terapêutico, para nomear a categoria, concerne do contexto e das relações sociais que constituem
ao fato de que, para os psicólogos, o atendimen- a existência do sujeito que busca atendimento
to está centrado na psicoterapia individual com psicológico. Segundo Frizzo et al.30, o entendi-
base na formação clínica dos profissionais, como mento do contexto relacional por meio de escuta
aponta o participante: Então, a proposta seria a empática permite construir boa aliança terapêu-
psicoterapia de apoio breve, o contrato envolve ses- tica com o paciente depressivo, configurando-se
sões já predeterminadas, de seis a oito sessões, no condição para o progresso do tratamento.
fechamento do processo [o usuário de saúde] é re- A narrativa dos entrevistados demonstrou
avaliado (P20). que o trabalho psicoterapêutico é marcado pela
Diferentes abordagens terapêuticas foram tarefa de dar sentido ao sintoma, como aponta-
apresentadas pelos entrevistados como principal do na fala de P7: E eu acho assim que o mais im-
suporte do atendimento psicológico à depressão, portante é ajudar o paciente a dar um sentido pra
evidenciando a importância dessa perspectiva aquilo que lhe acontece. O poder dar um sentido
no desenvolvimento da prática profissional. Nos pra isso, porque o que o paciente traz é a falta de
quadros depressivos, abordagens distintas são sentido, né?.
julgadas eficazes13, consolidando a pluralidade A fala evidencia que a construção desse sen-
de perspectivas no campo profissional e no tra- tido ocorre na relação entre o paciente e o tera-
tamento da depressão. peuta. Dar sentido ao sintoma permite à pessoa
No intuito de descrever o atendimento psi- com depressão compreender a dimensão psíqui-
coterapêutico, as narrativas dos participantes ca que constitui o quadro. Essa tarefa se converte
apresentaram estratégias de informação e apoio em compreensão e ressignificação do sofrimento
como uma das técnicas de intervenção terapêuti- psíquico, gerando novos significados que pro-
ca. Essas estratégias foram apontadas como for- porcionam ao indivíduo entender a construção
ma inicial de abordar o paciente com depressão. da própria história e as implicações na compo-
A proposta é mais instrumentalizar o paciente sição da subjetividade. Para os participantes, va-
para que ele comece a reconhecer a própria condi- loriza-se o atendimento que proporciona nova
ção, o que ele tem, mostrar pra ele o que é depres- construção, com vistas ao resgate da história de
são, como é que a gente faz o tratamento, através do vida pessoal. Desse modo, para os psicólogos o
diálogo [...]. (P8) projeto terapêutico deve ser iniciado a partir das
Esses processos cognitivos desenvolveriam o demandas e das possibilidades do paciente.
instrumental pessoal que auxiliaria na prevenção O conjunto de recursos e técnicas apresenta-
da piora do quadro e no tratamento. As informa- dos na narrativa dos participantes que configu-
ções e as orientações dos psicólogos configuram ram a categoria “o atendimento psicoterapêuti-
etapas do processo de psicoeducação, que reduz co” consolida a dimensão psicológica do trata-
os sintomas e favorece a prevenção de novos epi- mento à depressão, ao descrever os processos do
sódios de depressão17,18. atendimento. Nesse sentido, foi possível observar
O relato dos profissionais sobre o atendi- que as técnicas utilizadas são generalistas e não
mento destacou a escuta qualificada e o acolhi- aludem ao tratamento da depressão em si, mas
mento da demanda como os principais recursos a toda forma de sofrimento psíquico. O cerne
de intervenção em quadros depressivos. Para os do trabalho dos participantes reside na escuta e
entrevistados, a escuta possibilita ao profissional no acolhimento da demanda e na construção de
acolher o paciente, a fim de garantir o espaço de terapêutica singular, elementos constituintes da
reconhecimento do outro, segundo aponta P17: atenção psicológica, reconhecida e recomendada
Então, primeiramente é um espaço de escuta, de por distintos organismos de saúde.
saber como é que essa pessoa tá, de ir devagarinho Quando se considera o contexto da AB, esses
fazendo os elos daquilo que ela fala. [...] Então ge- resultados manifestam que o atendimento psi-
ralmente, nem sempre a gente acha uma resposta, coterapêutico ainda possui espaço privilegiado
mas principalmente de acolher, de aceitação, de no desenvolvimento das intervenções psicoló-
não fazer julgamento. gicas, refletindo como a construção das práti-
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cas profissionais na AB ainda está marcada pela como que o outro lidou com aquela situação, na fa-
ideia do atendimento individual. Os resultados mília ou em qualquer outro lugar. [...] Eu acho que
se coadunam com os apontamentos de Ferreira o grupo tem esse recurso terapêutico muito impor-
Neto e Kind14 e indicam que a proposta clínica tante, que é de identificação, de saber que não é o
ampliada, interdisciplinar e as intervenções extra único e de ouvir como que o outro fez pra lidar com
clínicas coexistem com o atendimento individu- aquela situação (P13).
al, evidenciando que as transformações promo- O processo de identificação apresentado por
vidas pelo SUS ainda estão em curso, demandan- esse entrevistado foi apontado como o elemento
do contínuo processo de revisão das práticas em a partir do qual o trabalho terapêutico é realizado
Psicologia na busca de atendimento que vise à no grupo. Por meio da identificação, os pacientes
integralidade da atenção em saúde. com quadros de depressão podem se reconhecer
na vivência do outro e entender o momento de
Atendimento em grupo sua história de vida. Para Zimerman33 e Pom-
bo-de-Barros e Marsden34, o processo de iden-
O atendimento em grupo reúne elementos tificação desperta sentimentos de pertinência e
relacionados ao trabalho terapêutico para esse unificação, o que permite abertura entre os par-
tipo de paciente e constitui uma das estratégias ticipantes, favorecendo o trabalho terapêutico a
da atenção em saúde mental na Atenção Básica partir desse encontro.
recomendada pelo Ministério da Saúde12,15. To- Os psicólogos ressalvaram que tal processo
dos os psicólogos entrevistados afirmaram rea- de identificação favoreceria o que foi denomina-
lizar atendimento em grupo; no entanto, parte do por um deles como “muro das lamentações”:
deles relatou que realizava essa forma de inter- “Ai, às vezes é difícil, tem que manejar [o grupo]
venção exclusivamente em função da proposta e pra não ficar, como eu chamo: ‘muro de lamenta-
das metas de trabalho da rede municipal em que ções’. Porque senão fica aquele discurso um pou-
atuavam e declararam que não se sentiam prepa- co queixoso, pessimista, desanimador e que vai
rados ou preferiam não atender em grupo. que meio que contagiando todo mundo” (P10).
Reconhecida13 como recurso de intervenção Nesse caso, o processo de identificação tem
psicológica eficaz no atendimento ao paciente papel inverso e colabora para que o paciente
com depressão, a terapia em grupo na AB não mantenha os sintomas da depressão. Para Zim-
apresenta proposta diferenciada por tipo de merman33, os processos de identificação no cam-
sofrimento psíquico, de acordo com a fala dos po grupal podem dificultar a emancipação do
participantes. No trabalho em grupo, o foco é indivíduo e alimentar o lugar de sofrimento, o
o indivíduo e não o tipo de sofrimento psíqui- que diminui a potencialidade terapêutica do tra-
co que o define. Essa forma de intervenção está balho em grupo. Isso pode se relacionar à difi-
alicerçada nos princípios da reforma psiquiátri- culdade de manejo dessa forma de intervenção
ca, a qual concebe as ações em saúde mental a terapêutica, conforme foi apontado por parte dos
partir dos conceitos de território, cidadania e au- entrevistados, ao expor limitações na realização
tonomia31,32, alterando o foco da concepção das do atendimento em grupo.
doenças ou dos transtornos mentais. O conceito Ainda que o Ministério da Saúde preconize as
de clínica ampliada reforça essa perspectiva, pois abordagens coletivas nas ações em saúde mental15,
propõe sair do polo da doença, dos limites e do o atendimento em grupo a pacientes com depres-
sofrimento e incorporar a concepção de poten- são nem sempre é possível. Um dos principais
cialidade do indivíduo7,8. fatores a serem considerados para a indicação de
Os psicólogos apontaram que os usuários de atendimento individual é o grau de severidade da
saúde com quadro depressivo representavam a depressão. Nesse sentido, segundo os psicólogos,
principal demanda do atendimento em grupo, o acolhimento dos casos mais graves foi entendi-
resultado que refletia os dados de prevalência da do como critério para o atendimento individual.
depressão no contexto da AB. Para eles, a estru- A não inclusão dos pacientes graves em atendi-
tura de grupos com participação de usuários com mento grupal é referendada por estudos de Oei e
quadro depressivo possibilitava o trabalho tera- Dingle35, que indicam que os casos de depressão
pêutico a partir da identificação dos sintomas, severa não devem ser atendidos em grupo pela di-
conforme apontou um dos entrevistados: ficuldade de engajá-los no processo grupal e pela
Então é legal por isso (trabalho em grupo), tem necessidade de atendimento mais personalizado.
essa identificação de mostrar que não é o único Outro fator destacado pelos participantes está
sofredor do mundo, né? [...] Tem essa riqueza de relacionado às dificuldades de adesão a esse tipo
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de terapêutica - de acordo com os psicólogos, há volvidos por centros comunitários, ONGs e ins-
pacientes que não aderem ou têm dificuldades tituições públicas presentes na comunidade do
de aderir ao trabalho em grupo. Essa dificuldade paciente. A utilização de recursos da comunidade
pode se referir a constrangimento ou impossibi- constitui uma das diretrizes do processo de in-
lidade de participar, dada a posição do indivíduo clusão da saúde mental na AB - respaldado pela
dentro da comunidade, representando fator li- proposta do Ministério da Saúde que preconiza
mitante de utilização dos recursos terapêuticos relação de troca e construção de espaços entre a
disponíveis na Rede. Assim, a posição do usuário instituição de saúde e a comunidade que promo-
de saúde no contexto social é fator relevante na vam saúde mental15.
construção de estratégias que possibilitem a par- Ao considerar o âmbito institucional, dife-
ticipação no atendimento em grupo. rentes ações de prevenção e promoção realizadas
A narrativa dos participantes trouxe distintos na AB e mediadas por vários profissionais con-
elementos que demonstram como o atendimen- sistem em recursos terapêuticos que a unidade
to em grupo ao usuário de saúde diagnosticado de saúde proporciona aos usuários e contribuem
com depressão enfrenta limitações entre as prá- para o tratamento da depressão, como aponta o
ticas profissionais utilizadas pelos psicólogos. As- seguinte trecho:
sociados aos limites psicossociais do usuário ou Ah, sim, sim... Oficinas terapêuticas, grupos
à capacitação dos profissionais, os entraves para terapêuticos... Que é assim: na oficina terapêutica
o atendimento em grupo restringem as interven- também há seu espaço de escuta, claro, não vai ser
ções psicossociais. O contexto grupal se caracte- psicoterapêutico, mas vai ser um recurso que tam-
riza como espaço que possibilita o fortalecimen- bém vai contribuir processo dele ali. [...] Porque esse
to das redes sociais, o vínculo entre o usuário de trabalho isolado de consultório, ele limita muito os
saúde e a instituição e propicia o desenvolvimen- resultados que a gente possa ter. (P19).
to de ações de prevenção e promoção da saúde14. Ao asseverar que a utilização dos recursos
O atendimento em grupo aumenta o contato complementares amplia as possibilidades de
social, o que diminui a condição de isolamento, atendimento, a fala de P19 sugere o reconheci-
comum à pessoa com depressão. mento desse instrumental como inerente ao tra-
tamento ao usuário de saúde diagnosticado com
Recursos complementares depressão. A utilização desses recursos desenvol-
ve o cuidado integral, que assimila as possibilida-
A dimensão psicossocial do tratamento da des do contexto e consolida a dimensão psicosso-
depressão conta também com recursos comple- cial do tratamento.
mentares ao atendimento psicoterapêutico indi- Outro recurso indicado pelos participantes
vidual ou grupal. As ações em saúde elencadas foi a realização de atividades físicas, indicada por
nesse âmbito incluem a indicação de atividades mais da metade dos entrevistados, o que confir-
sociais e físicas na vida cotidiana, a utilização dos ma os resultados de estudos que apontam o im-
recursos da própria unidade de saúde e da comu- pacto positivo dos exercícios no tratamento da
nidade, conforme mostra o extrato de entrevista depressão36. A indicação de exercícios físicos en-
a seguir: contra viabilidade nas UBS em função das ações
[...] então sempre procuro tá a par, saber quais dos profissionais de educação física nas equipes
são os recursos que tem na comunidade, quais são do Núcleo de Apoio à Saúde da Família - NASF.
os cursos, sei lá, que tem no centro social, que hábi- Regida pelo eixo das Atividades Físicas e Práti-
tos aquela pessoa tem, o que ela poderia se interes- cas Corporais37, a intervenção desse profissional
sar em aprender, se ela tem pouco estudo, sempre deve ser realizada sob a ótica da concepção de
procuro saber que supletivos tem ali na região, ati- saúde como produção social. Assim, as atividades
vidade física, onde que ela poderia tá fazendo, com físicas representam “espaço” de atenção integral
quem... E acabo também indicando essas coisas. à saúde, no qual as relações sociais preservam o
Enfim, o quanto que a pessoa tem que conseguir, âmago da atenção em saúde. Para o paciente com
sair daquela caixinha e ver que tudo que aparecer quadro depressivo, poder participar de grupos
nesse momento vai ser bom. (P5) dessa natureza possibilita usufruir tanto os bene-
A fala de P5 demonstra as diferentes orienta- fícios da atividade física quanto o fortalecimento
ções de atividades na comunidade, as quais po- das redes de convivência.
dem contribuir para o tratamento da depressão. Os recursos complementares elencados pelos
Este participante, assim como os outros, afirmou psicólogos desvelam uma multiplicidade de ce-
buscar conhecer as atividades e os cursos desen- nários que ampliam as formas de tratamento e
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Motta CCL et al.

consolidam a relevância da dimensão psicosso- atendimento em grupo confirmam essa tendên-


cial no desenvolvimento de intervenções tera- cia e sugerem que as propostas de intervenção,
pêuticas para os casos de depressão. A utilização para o usuário de saúde diagnosticado com de-
desses recursos auxilia o tratamento e minimiza a pressão, encontram-se em processo de transição,
reincidência de quadros depressivos. Para Moos38 para atender às lacunas da dimensão psicossocial,
e Moré e Macedo39, quanto mais inserção social uma vez que esse tipo de atendimento se confi-
e mais significativa a rede de relacionamentos, gura como dispositivo eficaz no tratamento da
mais são as possibilidades de sucesso no pós-tra- depressão e viabiliza a construção de rede sociais
tamento. Nesse sentido, a indicação desses recur- pelo usuário de saúde.
sos fortalece a rede de relacionamentos sociais do Por sua vez, a utilização dos recursos com-
usuário de saúde e caracteriza-se como ação que plementares aponta para o exercício da Clínica
produz saúde. ampliada, dado que incentiva a utilização dos re-
cursos institucionais e comunitários como parte
ativa do tratamento dos quadros depressivos. O
Considerações finais uso desses recursos se qualifica como prática de
saúde que propicia o cuidado integral e colabora
Este artigo visou compreender as práticas dos para a adoção de ações que promovam a saúde
psicólogos para atender a usuários com diagnós- do paciente diagnosticado com depressão.
tico de depressão na Atenção Básica, visto que Desde a inserção da saúde mental na Atenção
configura desafio no tratamento desse sofrimen- Básica, os avanços na ampliação do atendimento
to psíquico. à depressão foram significativos, considerando a
Os resultados da pesquisa revelam que o aten- cobertura e as estratégias de trabalho que ense-
dimento psicológico aos quadros depressivos está jaram acesso ampliado dos usuários aos profis-
subordinado aos processos de trabalho propostos sionais de saúde mental. No entanto, a superação
na Rede de tal forma, que o paciente já chega, na dos modelos tradicionais de atendimento aos
maioria das vezes, medicado pela Equipe de Saú- casos de depressão e a construção de formas de
de da Família. Nesse sentido, o tratamento dos atenção que utilizem recursos psicossociais na
quadros depressivos subjacente ao atendimento busca da atenção integral ainda estão em curso;
clínico está predominantemente calcado em con- o usuário de saúde diagnosticado com depressão
cepção biomédica - que privilegia a dimensão conta com dispositivos reconhecidamente efica-
biológica do fenômeno da depressão -, estabe- zes, mas que atendem parcialmente às demandas
lecendo proposta de intervenção coerente com geradas pela complexidade do fenômeno.
tal perspectiva. Assim, a proposição de ações que Nesse sentido, reflexões sobre as formas de
ressaltem as potencialidades dos usuários de saú- atendimento à depressão à luz das políticas pú-
de depara com barreiras inerentes aos processos blicas da área permitirão elaborar nova concep-
de trabalho propostos pela própria Rede. ção do fenômeno e construir ferramentas eficazes
Quanto aos métodos de intervenção psicoló- que se aliem aos dispositivos já conhecidos. Rea-
gica para atendimento a quadros depressivos, a lizar pesquisas com essa intenção pode colaborar
escolha da psicoterapia individual como princi- para o desenvolvimento desse novo instrumen-
pal forma ainda reflete prática profissional cen- tal, confirmando a importância da continuidade
trada no indivíduo. Os entraves relacionados ao dos estudos na área.
919

Ciência & Saúde Coletiva, 22(3):911-920, 2017


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