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A “Maria Madalena” de Hollywood

As obras de arte a retratam como uma prostituta arrependida; os polemistas modernos, como esposa de
Jesus. Agora é a vez de Hollywood… e as especulações parecem não ter mais fim. Onde se encontra, afinal, a
verdadeira Maria Madalena?
Sobre “Maria Madalena”, lançado no Brasil no último dia 15 de março, é importante que você saiba uma coisa
importante: não era a intenção nem das roteiristas nem do diretor, Garth Davis, fazer um filme de acordo com os
Evangelhos canônicos.
Em entrevista a um site australiano, Davis declarou que, quando recebeu o roteiro, ele descobriu “que não era um filme
bíblico, mas sim uma incrível história espiritual dessa mulher extraordinária, cuja história — eu depois entendi — não havia
sido realmente contada”. O retrato de Maria Madalena como uma “mulher imoral” teria sido “uma invenção do Papa
Gregório, em 591 d. C.”.
Essa mesma alegação consta no final do filme, como um post scriptum, acompanhada de uma informação que os
espectadores talvez não conhecessem: recentemente, da mesma Roma onde vivera São Gregório Magno, o Vaticano teria
“reabilitado” Maria Madalena, dando-lhe o título de apostola apostolorum (“apóstola dos apóstolos”) e reconhecendo nela
uma pessoa “em nada diferente” dos outros Apóstolos.
Antes de qualquer coisa, vamos à verdade dos fatos.
Por desejo expresso do Papa Francisco, a Congregação para o Culto Divino estabeleceu em 2016 que “a celebração de Santa
Maria Madalena” fosse “inscrita no Calendário Romano Geral, com o grau de festa em vez do de memória”, como era até
então. No mesmo decreto consta o título “apóstola dos apóstolos”, dado a Maria Madalena, mas a expressão está longe de
ser uma novidade, como Hollywood quer fazer as pessoas acreditarem; seu autor é Santo Tomás de Aquino, que viveu ainda
no século XIII.
A Igreja nunca teve dificuldades em reconhecer a santidade e os méritos de Maria Madalena.
“Noli me tangere”, de Giulio Romano.
Isso significa que a suposta “reabilitação” de Maria Madalena é muito mais antiga do que se
pensa… A começar pelo fato de que dizer simplesmente “Maria Madalena” já está errado. Nós,
católicos, lhe chamamos santa, e não é de hoje. “A Igreja, tanto no Ocidente como no Oriente
— diz ainda o decreto do Culto Divino —, teve sempre em grande consideração e louvor Santa
Maria Madalena, celebrando-a de diversos modos, pois ela foi a primeira testemunha
evangelizadora da Ressurreição do Senhor”.
Mais correto seria dizer, portanto, que foi o próprio Senhor quem “reabilitou” Maria Madalena.
Quando “andava pelas cidades e aldeias anunciando a boa-nova do Reino de Deus”, não só os
Apóstolos iam com Ele, “como também algumas mulheres”, dentre as quais menciona-se “Maria, chamada Madalena” (Lc 8,
1-2). Ela também esteve aos pés da Cruz (cf. Mt 27, 56; Mc 15, 40; Jo 19, 25) e, o mais importante de tudo, foi a primeira
testemunha de Jesus após a Ressurreição (cf. Mt 28, 1-10; Mc 16, 1-11; Lc 24, 1-10; Jo 20, 1-18). Tudo isso é mais do que o
suficiente para fazer de Santa Maria Madalena uma figura importantíssima para a nossa fé.
Mas, aparentemente, para os fãs da polêmica e os inimigos da religião — especialmente da católica —, o que consta nos
Evangelhos canônicos não basta. Em um passado não muito distante, houve até quem idealizasse um verdadeiro casamento
entre Jesus Cristo e Maria Madalena, com filhos e tudo. Garth Davis não chega a esse ponto, mas as imprecisões e os
exageros da trama saltam aos olhos.
Maria Madalena, interpretada pela atriz Rooney Mara.
Em primeiro lugar, a possessão de Santa Maria Madalena antes de seguir a Cristo, confirmada por dois dos Evangelhos
canônicos (cf. Lc 8, 2; Mc 16, 9), é totalmente relativizada no filme. A família de Maria teria simplesmente interpretado mal a
sua audácia e destemor. Em seu primeiro encontro com a mulher de Magdala, o Jesus interpretado por Joaquin Phoenix diz-
lhe que não via demônio nenhum presente nela.
Pode ser falta de fé na existência do demônio, necessidade de “romantizar” a história de Maria Madalena, ou mesmo as
duas coisas juntas. O fato é que essa tendência, que não é de agora, de tentar eliminar todas e quaisquer manchas possíveis na
vida pregressa de Maria Madalena, passa uma impressão muito errada a respeito do que sejam a conversão e a santidade
para a religião cristã.
Veja-se, por exemplo, a tempestade que os exegetas modernos fazem em torno da hipótese de Maria Madalena ter sido uma
prostituta. Para negar essa informação — que, embora não conste expressamente nas Escrituras, foi amplamente aceita pela
Igreja no Ocidente —, eles chegam a atribuir más intenções aos santos e padres católicos, inventando histórias as mais
estapafúrdias.
Mas, controvérsias exegéticas à parte, seria preciso perguntar: que diferença faria ela ter sido prostituta ou não? Por acaso
Deus não pode resgatar as pessoas de todos os tipos de pecado? Figuras como um Santo Agostinho ou uma Santa Maria
Egipcíaca (esta, sim, tirada da prostituição) deveriam receber menos prestígio e veneração, só porque levaram uma vida de
pecados antes de conhecer a Cristo? Ou não é justamente a mudança que se operou em suas vidas o motivo maior de sua
glória, como diz o Apóstolo: “Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5, 20)?
Em segundo lugar, o filme retoma uma falsa dicotomia retirada de um antigo apócrifo gnóstico: haveria uma revelação feita a
Maria Madalena e uma outra aos Apóstolos, ou melhor, Jesus teria anunciado o Evangelho a todos eles, mas só a “apóstola
dos apóstolos” — que está mais para superapóstola — o teria compreendido verdadeiramente.
Na história de Hollywood, Jesus pede a Maria que “seja suas mãos”, abençoando o povo que o circunda; manda que ela vá
com Pedro, só os dois, pregar em outras aldeias; põe-na entre os convivas da Última Ceia, à la Dan Brown; e é ela, por fim,
quem, em retribuição, tenta defender Nosso Senhor dos soldados romanos no Horto das Oliveiras — e não Pedro, como diz o
Evangelho de São João (Jo 18, 10).
Aqui é chegado o momento de explicar a compreensão correta da expressão “apóstola dos apóstolos”, atribuída a Santa
Maria Madalena por ninguém menos que Santo Tomás de Aquino. Para tanto, deixemos que o próprio Doutor Angélico fale. O
contexto de seu ensinamento é a passagem em que Jesus manda Maria avisar os Apóstolos de sua ressurreição:
Deve-se reconhecer aqui um tríplice privilégio concedido a Madalena. Em virtude do primeiro, de caráter profético, ela
mereceu ver os anjos; o profeta, com efeito, é quem serve de mediador entre os anjos e o povo. Em virtude do segundo,
consistente na elevação angélica, ela viu a Cristo, a quem desejam contemplar os anjos. Em virtude do terceiro, que é o ofício
apostólico, ela tornou-se apóstola dos Apóstolos, e por causa disso lhe foi confiada a tarefa de anunciar aos discípulos a
Ressurreição do Senhor, a fim de que, assim como no princípio a mulher levara ao homem palavras de morte, assim também
uma mulher anunciasse agora palavras de vida (Comentário ao Evangelho de São João, c. XX, l. 3, n. 2519).
Note-se, portanto, que a expressão tem todo um contexto, relacionado ao fato de ela ser a primeira testemunha da
Ressurreição, o que está muito longe da afirmação, falsamente imputada ao próprio Vaticano, de que Santa Maria Madalena
não seria “em nada diferente” dos demais Apóstolos. Isso colocaria em xeque o fato, já confirmado recentemente pelo Papa
São João Paulo II e reiterado pelo próprio Francisco, de que Nosso Senhor escolheu apenas homens como Apóstolos, para
compor a hierarquia de sua Igreja.
Em que essa escolha de Cristo diminui as mulheres, são os céticos e críticos da Igreja que precisam responder. A Igreja,
afinal, nunca teve dificuldades em reconhecer a santidade e os méritos de Santa Maria Madalena, bem como o de inúmeras
outras mulheres ao longo de toda a história:
o Santa Cecília, a primeira em que se observou o fenômeno da incorruptibilidade após a morte;

o Santa Hildegarda de Bingen, proclamada doutora da Igreja pelo Papa Bento XVI;

o Santa Catarina de Sena, mãe e mestra em sua época de uma multidão de leigos, religiosos e sacerdotes (chegando a
aconselhar em cartas o próprio Papa!);
o Santa Joana d’Arc, no fim da Idade Média;

o Santa Teresa de Calcutá, em nossa época, e a lista se prolonga indefinidamente…

A criatura mais perfeita criada por Deus, a propósito, foi uma mulher: seu nome, assim como o da mulher de Magdala, é
Maria, e por causa da devoção que lhe temos até de idólatras somos acusados.
Nenhuma dessas mulheres, no entanto, ousou fixar um protesto na porta de uma igreja ou convocar uma marcha
questionando o porquê de as mulheres não serem ordenadas sacerdotisas. Porque, no fim das contas, a coisa mais
importante dentro da Igreja não é fazer parte da hierarquia, mas, sim, cumprir a vontade de Deus, onde quer que Ele nos
chame.
Em que a decisão de Cristo de escolher somente homens como Apóstolos diminui as mulheres, são os céticos e críticos da Igreja
que precisam responder.
Além disso, o sacerdócio católico não é uma posição de poder, mas um serviço. Foi o que explicou Nosso Senhor um dia,
conversando com seus discípulos: “Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com
autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo. E o que quiser
tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo.” (Mt 20, 25-27)
Estamos dispostos a isso? Santa Maria Madalena, como santa que foi, esteve. E, no fundo, o que mais importa, ao entrarmos
em contato com sua biografia, não é tanto saber o que ela fez ou deixou de fazer fora do que está nos Evangelhos canônicos,
mas sim o que ela tem a nos ensinar justamente a partir deles. Quem ainda não foi aos cinemas assistir a “Maria Madalena”,
portanto, faça melhor: abra a Bíblia e deixe-se instruir pelo que as páginas inspiradas do Evangelho têm a nos transmitir.
Hollywood e suas narrativas fantasiosas e recheadas de causas políticas passarão; as palavras de Deus não.
Recomendações

o Maria Madalena nos Evangelhos e nos apócrifos, no site da editora Cléofas.


o Perguntas e respostas sobre Maria Madalena, no blog da editora Quadrante.

Maria Madalena nos Evangelhos e nos Apócrifos


POR PROF. FELIPE AQUINO19 DE JANEIRO DE 2018HISTÓRIA DA IGREJA
Maria Madalena é citada cinco vezes nos Evangelhos; não há porquê a identificar com uma
prostituta. Ocorrem nos Evangelhos quatro mulheres distintas: a pecadora anônima de Lc 7,
36-50, a mulher que acompanhava Jesus e lhe servia com as suas posses (Lc 8, 1-3), a irmã de
Marta e Lázaro (Jo 12, 1-12) e a mulher adúltera de Jo 8, 1-11. Nos apócrifos de origem
gnóstica e maniqueia (não cristã, porque dualista) aparece Madalena como confidente de
Jesus. É desta fonte que alguns autores modernos pretendem desenvolver a figura de Jesus
descrita pelos evangelistas. Esta tendência carece de todo fundamento, pois a tradição cristã é
diversa no tocante a Madalena após a ressurreição de Jesus.
O romancista Dan Brown, em seu “O Código da Vinci”, focalizou Maria Madalena como pretensa esposa de Jesus e
antepassada de uma dinastia de reis da França. Esta notícia, por mais estranha que seja, despertou a curiosidade de
muitos leitores, sugerindo assim o aprofundamento de tal temática. É o que será feito nas páginas subsequentes.
1. Maria Madalena nos Evangelhos
A Madalena dos Evangelhos costuma ser identificada, desde o século VII com a pecadora que lavou os pés de Jesus
com suas lágrimas, e com a irmã de Marta e Lázaro, pois esta ungiu os pés de Jesus com bálsamo. Ver Lc 7, 36-50; Lc
8, 1-3 e Jo 12, 1-11.
Esta identificação que faz de três mulheres uma só, hoje em dia não é aceita pelos melhores exegetas. Vejamos por
quê.
1.1. A identificação da mulher de má vida (Lc 7, 36-50) com Madalena (Lc 8, 1-3) carece de base sólida
Eis o que se lê em Lc 8, 2s: “Acompanhavam Jesus os doze e algumas mulheres que ele havia curado de espíritos
imundos e de enfermidades: Maria Madalena, da qual haviam saído sete demônios, Joana, mulher de Cuza,
mordomo de Herodes, Suzana e muitas outras, que lhe ministravam com seus bens”.
Detenhamo-nos sobre Maria Madalena.
O nome “Maria” era muito comum no povo de Israel; tenha-se em visto Jo 19, 25, onde se lê que, dentre quatro
mulheres, três se chamavam Maria. A predileção por tal nome talvez se deva ao fato de que a irmã de Moisés se
chamava Maria (cf. Ex 15, 20), tornando célebre o respectivo nome.
Daí o uso de um aposto para diferenciar as Marias; esse aposto podia ser o lugar de origem, que, no caso, era
Mágdala, povoado situado à margem ocidental do lago da Galiléia, 5 km ao norte da cidade de Tiberíades. É assim
que se explica o nome “Maria Madalena”.
O fato de ter sido possuída por sete demônios não quer dizer que fosse necessariamente uma grande pecadora. Nos
Evangelhos, a filha da mulher siro-fenícia em Mc 7, 29s era possessa, mas pode-se crer, pelo contexto, que era
doente; o mesmo se diga do jovem possesso “desde a infância” (Mc 9, 21): a criança não tem a responsabilidade
necessária para cometer pecado grave (como se crê). Sabe-se, de outro lado, que as doenças eram atribuídas aos
demônios (cf. 2Cr 16, 12); “sete demônios” (número de plenitude) significariam doença muito grave. Na base destas
considerações pode-se dizer que Maria Madalena não era a pecadora que a posteridade imaginou.
1.2. As demais ocorrências de Maria Madalena nos Evangelhos
Em quatro outras passagens aparece Maria Madalena nos Evangelhos, a saber:
Mc 15,40: Madalena, com outras mulheres, contemplava Jesus atormentado na Cruz.
Mc 15,47: “Maria de Mágdala e Maria, mãe de José, observavam onde depositaram Jesus descido da Cruz”.
Mc 16,1: “Passado o sábado, Maria de Mágdala, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram perfumes para
embalsamar Jesus”.
Jo 20, 1-18: No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo logo de manhã. Recebeu então de Jesus a
ordem de ir anunciar aos Apóstolos a Boa-Nova da Ressurreição. “Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: ‘Vi
o Senhor'”.
Como se percebe, Madalena aparece nos Evangelhos em situações que lhe merecem honra. Como então pôde ser
desfigurada em prostituta?
1.3. Os Equívocos
O aviltamento da figura de Maria Madalena começa pela falsa identificação com a mulher de má vida apresentada
em Lc 7, 36-50. Ter sete demônios parecia indicar grave situação de pecadora. Quando Jesus a terá libertado desses
maus espíritos? – A resposta parecia estar em Lc 7: a mulher caiu em prantos aos pés de Jesus, arrependida de seus
pecados e recebeu do Senhor o perdão; este episódio ocorrido em casa de Simão o fariseu é colocado por Lucas logo
antes da apresentação de Madalena em Lc 8; daí a fusão das duas mulheres na imagem de uma pecadora agraciada
chamada Maria Madalena.
Ora tal fusão é gratuita S. Lucas fez questão de guardar o anonimato da mulher de má vida. Seja respeitada a
delicadeza do evangelista!
A seguir, visto que em Jo 12, 1-12 aparece uma mulher chamada Maria a ungir os pés de Jesus com bálsamo,
identificaram-na com Maria Madalena, de modo que a irmã de Marta e Lázaro passou a ser a pecadora convertida
Maria de Mágdala. Todavia verifica-se que tal identificação é artificial, pois a pecadora de Lc 7 banha os pés de Jesus
com lágrimas e só depois disto os unge com bálsamo, ao passo que a irmã de Lázaro não chora, mas aplica
diretamente os seus perfumes.
Por não levar em conta tais pormenores, vários autores chegaram a identificar Madalena ainda com uma terceira
mulher, ou seja, com a pecadora adúltera de Jo 7, 53 e mais… com a samaritana de seis maridos ocorrente em 4,
17s…!
Por conseguinte tem razão a moderna exegese ao reabilitar Maria Madalena, isentando-a da nódoa de prostituta.
Passemos agora ao estudo da tradição relativa a Maria Madalena.
Leia também: Qual a importância dos evangelhos apócrifos?
Que diferença há entre os Evangelhos canônicos e os Evangelhos apócrifos?
Os Evangelhos são autênticos?
2. Maria Madalena na Tradição
Distinguiremos a tradição cristã e a tradição gnóstica.
2.1. Tradição cristã
Eis o que refere o famoso hagiógrafo Butler em sua obra “Vida dos Santos”, t, VII (22 de julho):
“Segundo a tradição oriental, Maria Madalena, depois de Pentecostes, acompanhou Nossa Senhora e S. João até
Éfeso, onde veio a falecer e foi enterrada. O peregrino inglês S. Vilibaldo teve a oportunidade de ver, lá, o seu
túmulo, em meados do século VIII. Todavia, de acordo com a tradição da França, no Martirológio Romano, e
conforme a concessão de diversas festas locais, ela, junto com Lázaro, Marta e outros, evangelizaram a Provença. Os
últimos trinta anos de sua vida, segundo se afirma, ela os passou numa gruta formada por rochas, La Sainte Baume,
no alto dos Alpes Marítimos, sendo transportada milagrosamente, instantes antes da morte, para a capela de S.
Maximino. Ela recebeu os últimos sacramentos das mãos deste santo, sendo por ele enterrada”.
A referência mais antiga que se conhece a respeito da vinda desses cristãos orientais até a França é do século XI, em
conexão com as relíquias de S. Maria Madalena, reivindicadas pela abadia de Vézelay, na Burgúndia. A formulação
da história parece ter-se espalhado pela Provença somente durante o século XIII. A partir de 1279, as relíquias de
Maria Madalena, segundo consta, estão sob a custódia dos monges de Vézelay e dos frades dominicanos de Saint-
Maximin, sendo ainda muito popular a peregrinação que se faz até o túmulo da Igreja desses últimos e à gruta de La
Sainte Baume. Todavia, a pesquisa, especialmente por parte de Mons. Duchesne, demonstra, cada vez mais
claramente, que nem as relíquias nem a história da viagem dos amigos de Nosso Senhor até Marselha podem ser
consideradas autênticas. Apesar da defesa que fazem os que estão piedosamente interessados em favor da crença
local, não se pode pôr em duvida que toda a história não passa de pura ficção.
Entre os outros contos curiosos e sem fundamento sobre a santa, existentes na Idade Média, está aquele que afirma
que ela era noiva de S. João Evangelista, quando Cristo o chamou para ser seu discípulo. “Com isso, ela ficou
indignada por ver seu noivo arrebatado dela e partiu entregando-se a toda sorte de deleites. Mas, porque não
convinha que o chamamento de S. João servisse de ocasião para a sua condenação, Nosso Senhor, em misericórdia,
a converteu à penitência, e, por tê-la privado do supremo deleite da carne, recompensou-a com o supremo deleite
espiritual, acima de todos os demais, isto é, o amor a Deus (Legenda Áurea)”.
2.2. Tradição gnóstica
Em PR tem sido publicadas algumas explanações do que é o gnosticismo. É um sistema dualista não cristão, pois
repudia a matéria, que, segundo o Cristianismo, foi criada por Deus. Propagava suas idéias por meio de escritos
semelhantes aos livros da Bíblia, de modo que são chamados escritos apócrifos gnósticos.
Dentre esses escritos destaca-se, no nosso caso, a Pistis Sophia (Fé Sabedoria), obra na qual Madalena desempenha
papel importante. Com efeito, de 46 questões 39 dão o predomínio às perguntas e aos dizeres de Madalena. É a
interlocutora privilegiada do Senhor, dita “bem-aventurada, herdeira da luz, Maria pura e cheia do Espírito…”.
Interroga Jesus com firmeza e segurança, levando Jesus a responder-lhe com grande alegria. Prostra-se aos pés de
Jesus, que ela adora e oscula. Jesus proclama: “Maria Madalena e João o Virgem serão superiores a todos os
discípulos”.
O filósofo Celso (século II) fala dos “discípulos de Mariamme”, tal é a importância que a ela cabe.
No Evangelho segundo Filipe (séc. III/IV “Madalena é a mais importante das três mulheres” que caminhavam sempre
com Ele: Maria, a mãe de Jesus, outra Maria, irmã de Maria Ssma., e Madalena, pois esta é, para Jesus, irmã, mãe e
companheira).
Existe o Evangelho de Maria (Madalena) datado provavelmente do século II. Aí Madalena incentiva os Apóstolos a
pôr em prática as palavras do Senhor e lembra-lhes a assistência permanente que Ele lhes prometeu, Pedro pede-lhe
que dê a conhecer aos Apóstolos as palavras de Cristo. Então relata ela uma longa visão de Jesus, que lhe disse:
“Bendita és tu, porque não hesitaste quando me viste”. Perante André e Pedro, pouco dispostos a crer, Levi toma a
defesa de Madalena: “Se o Senhor a julgou digna, quem somos nós para rejeitar? O Salvador, sem dúvida, a
conheceu muito bem. Eis por que Ele amou a ela mais do que a nós”. Maria Madalena aparece assim como a
mediadora e mensageira da doutrina gnóstica: ela é colocada acima dos Apóstolos.
Como se vê, o ponto de vista é totalmente diverso do da literatura apócrifa cristã, que conserva a hierarquia “Jesus –
Apóstolos”, como também difere das estórias que se contavam sobre Madalena após a ressurreição de Jesus.
2.3. Tradição maniqueia
O maniqueísmo é outro sistema dualista, que os cristãos tiveram de enfrentar nos seus primeiros séculos.
Apresenta o Salmo de Heráclito, comentário poético de Jo 20, 17:
“Maria, Maria, reconhece-me e não me detenhas. Prende as lágrimas dos teus olhos e reconhece que eu sou o teu
Mestre. Só te peço que não me detenhas, pois ainda não vi a face do meu Pai”. Jesus confia-lhe a missão de reunir
seus Apóstolos, “órfãos errantes”. Ao que Maria respondeu: “Rabi, meu Mestre, cumprirei tuas ordens com alegria e
de todo o meu coração”. Glória e vitória à alma da bem-aventurada Maria. “O espírito da Sabedoria escolheu
Maria”.
Numerosos outros salmos maniqueus aparecem dedicados a Madalena.
Resta investigar as razões pelas quais Maria Madalena desempenhou papel tão saliente nesses ambientes gnósticos
e maniqueus. Será tarefa árdua, pois não há muitos pontos de referência para o pesquisador nesse campo de
trabalho.
2.4. Outras lendas
Existem outras lendas que desenvolveram o pensamento gnóstico a respeito de Jesus e Maria Madalena.
Com efeito, uma dessas lendas afirma que Jesus se casou com Madalena por ocasião das bodas de Cana (cf. Jo 2, 1-
12), quando Jesus transformou a água em vinho – o que é inaceitável, visto que Jesus e o noivo se distinguem
claramente um do outro nesse episódio.
A insistência dessa corrente inspirada pelo gnosticismo na tese de que Jesus era casado, se explica, segundo autores
modernos, pelo fato de que os judeus não podiam conceber que um homem sadio e normal não se casasse; por
conseguinte terão feito de Jesus o esposo de Madalena aos trinta anos ou no começo de sua vida pública. Não é
necessário demonstrar longamente quão inconsistentes são tais proposições.
Mais ainda: a lenda diz que Madalena se retirou para o Sul da França levando consigo dois preciosos valores:
– o Santo Graal ou o cálice que Jesus terá usado na última ceia ou, segundo outra versão, o cálice que recolheu as
gotas de sangue de Jesus pendente da Cruz. As divergências dessas estórias já contribuem para insinuar o seu
caráter lendário;
– o filho que Madalena terá tido com Jesus e que se terá tornado o fundador de uma dinastia de reis da França. –
Vale aqui mais uma vez registrar o caráter fantasioso e irreal dessa narrativa.
D. Estevão Bettencourt, osb
Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
Nº 530 – Ano 2006 – p. 341

Perguntas e respostas sobre Maria Madalena


9.928 VISUALIZAÇÕES 25 DE JUNHO DE 2016 2 COMENTÁRIOS ARTIGOS, CULTURA,HISTÓRIA, LITERATURA E
LIVROS
Por Mark Shea e Edward Sri
Grande parte das mentiras escritas no livro O Código Da Vinci tem relação com Maria Madalena. Afinal, o que
conhecemos sobre essa santa que a Igreja honra com uma festa no seu calendário litúrgico e a quem chama de
“apóstolo dos apóstolos”?

Por que Maria Madalena aparece com tanta freqüência em O Código da Vinci? Que nos diz a Bíblia sobre esta
mulher?
O Evangelho de São Lucas apresenta-nos Maria Madalena como uma seguidora de Jesus, de quem Ele tinha
expulsado sete demônios. Fazia parte do grupo de mulheres que, com recursos próprios, proviam às necessidade de
Jesus e dos seus discípulos, e os acompanhavam nas viagens do seu ministério (cfr. Lc 8, 1-3). Seguiu Jesus em todo o
seu percurso a caminho de Jerusalém e esteve presente nos momentos-chave que rodearam a sua Morte e
Ressurreição. Foi testemunha da crucifixão de Cristo no Calvário (Mt 27, 56), esteve presente no seu sepultamento
(Mt 27, 61) e foi a primeira testemunha da Ressurreição.
Os Evangelhos relatam que, no domingo de Páscoa, Maria dirigiu-se ao sepulcro de Cristo com outras mulheres,
levando aromas para ungir o corpo do Senhor, mas viram que o sepulcro estava vazio (Mc 16, 1; Lc 24, 1-2). Segundo
Lucas, as mulheres viram duas figuras angélicas com vestes deslumbrantes, que lhes disseram que Jesus tinha
ressuscitado. Maria Madalena foi quem correu a comunicar aos Apóstolos aqueles acontecimentos dramáticos (Lc
24, 3-10). E o evangelista São João oferece-nos o relato da coisa mais surpreendente que aconteceu com Maria
Madalena no dia da Páscoa: foi a primeira pessoa que se encontrou com Jesus ressuscitado (Jo 20, 11-18).

Muita gente pensa que Maria Madalena era uma prostituta. A Bíblia ensina isso?
Quanto ao passado de Maria Madalena, a Bíblia diz unicamente que dela tinham saído sete demônios (Lc 8, 2). Como
o número sete é o número bíblico que indica perfeição (ou plenitude), pode deduzir-se que o fato de Maria Madalena
ter tido sete demônios indica a gravidade da possessão diabólica que sofrera no passado. Mas a Escritura não diz
qual foi esse passado nem que ela tivesse sido uma prostituta.
Uma das primeiras pessoas que relacionaram Maria com a prostituição foi o Papa Gregório Magno, numa homilia
que pronunciou no ano 591. Nessa homilia, o Papa identifica Maria com a pecadora anônima que unge os pés de
Cristo em Lc 7, 36-50. O modo como Lucas descreve a mulher arrependida (“uma mulher da cidade, que era uma
pecadora”) sugere que provavelmente era uma prostituta. Mas por que o Papa identificou essa mulher pecadora com
Maria Madalena? Primeiro, porque o relato da mulher pecadora em Lucas 7 vem imediatamente antes da passagem
em que Maria Madalena aparece com o seu nome, em Lucas 8. Em segundo lugar, porque a cidade natal de Maria
Madalena, Magdala, tinha má fama por causa da sua imoralidade e libertinagem.
A interpretação de Maria Madalena como a prostituta arrependida de Lucas 7 difundiu-se amplamente no Ocidente
cristão. Mas não prosperou no Oriente, onde se considerava que a mulher anônima e Maria Madalena eram duas
pessoas diferentes. Embora não existam nos Evangelhos objeções à opinião de que Maria Madalena era uma
prostituta, também não há provas bíblicas concretas que permitam afirmá-lo. Este pode ser o motivo pelo qual, em
1969, quando a Igreja Católica reviu as leituras da Bíblia empregadas na Missa, decidiu não continuar a usar o relato
da pecadora arrependida em Lucas 7 como leitura na festa de Santa Maria Madalena. Deixou claramente em aberto
a questão da identidade da mulher sobre a qual Lucas escreve.
Livro “A fraude da Vinci” do qual o artigo foi retirado.

Então O Código da Vinci tem razão quando diz que a Igreja Católica dirige uma “campanha de difamação” contra
Maria Madalena, caluniando-a ao fazê-la aparecer como uma prostituta.
Não, a Igreja Católica honra Maria Madalena como uma santa! E dedica-lhe uma festa no calendário litúrgico. Os
católicos dirigem-lhe com freqüência as suas orações, pedindo-lhe que interceda por eles. Muitas igrejas em todo
o mundo têm o seu nome. Inúmeras estátuas, vitrais e quadros representam a sua santidade. Os cristãos fazem
peregrinações para rezar nos lugares onde se acredita que se guardam as suas relíquias. Isto tudo soa a
“campanha de difamação”?
A tradição católica reconhece Maria Madalena como uma das mulheres mais importantes que seguiram Jesus. É
chamada “apóstolo de apóstolos”, porque foi a primeira pessoa que anunciou aos Apóstolos a Ressurreição de Cristo
no dia de Páscoa, e é saudada como a primeira testemunha da Ressurreição. Se a Igreja Católica pretendia
maliciosamente apagar a memória de Maria Madalena como uma importante e santa seguidora de Jesus, fez um
péssimo trabalho. O que Brown qualifica como “campanha de difamação” na Igreja Católica revela-se como uma
celebração de Maria Madalena como uma das maiores santas da Bíblia.
Quanto à associação que o Papa Gregório Magno estabeleceu de Maria Madalena com a prostituição, devemos ter
presente o contexto em que se fez. Foi numa homilia numa igreja de Roma, não numa declaração dogmática que
fosse vinculante para todos os fiéis católicos. O principal objetivo dessa homilia não era fazer uma análise histórica
da identidade de Maria Madalena, mas oferecer uma interpretação espiritual e alegórica da pecadora em Lucas 7 e
Lucas 8, com o fim de animar os cristãos a seguir um nobre exemplo de arrependimento, amor, devoção e virtude.
Por exemplo, o Papa associa os sete demônios de Maria Madalena aos sete pecados capitais, mas depois continua a
mostrar como cada um desses vícios se converteu nela em virtude, graças ao seu arrependimento e à sua fidelidade a
Cristo. É possível que o laço que o Papa estabelece entre a pecadora desconhecida e Maria Madalena não nos tenha
convencido, mas daí a dizer que a sua interpretação se deveu a um malicioso plano com o propósito de caluniar
Maria Madalena é esquecer completamente que o Papa a apresenta como modelo de arrependimento. E a imagem
que dela nos transmite a Igreja não insiste nos seus pecados ou na sua hipotética prostituição, mas põe sempre a
ênfase na sua conversão, no seu amor por Jesus e no fato de ter sido a primeira testemunha da Ressurreição.

O Código da Vinci diz que Jesus se casou com Maria Madalena e que isso está “documentado historicamente”. É
verdade?
Nos milhares de páginas escritas pelos primeiros cristãos, não aparece um só texto que afirme que Jesus se tivesse
casado com Maria Madalena. Nem nos Evangelhos do Novo Testamento, nem nas Cartas de São Paulo, nem nos
Padres da Igreja. Como também não nos evangelhos gnósticos!
Todas as provas apontam em outra direção: na de que Jesus nunca se casou. Por exemplo, se Jesus tivesse tido uma
esposa, certamente não teriam faltado aos evangelistas muitas oportunidades de falar-nos disso. Mencionam
freqüentemente os parentes do Senhor (o seu pai, a sua mãe, os seus primos), mas nunca nos falam de uma esposa.
Coisa que seria muito estranha se Jesus realmente se tivesse casado.
Por outro lado, o Novo Testamento nunca menciona Maria Madalena como “esposa de Jesus”. As mulheres que
figuram nos Evangelhos estão associadas com muita freqüência a homens importantes, quando realmente houve
esses homens nas suas vidas. O que chama a atenção é que o nome de Maria Madalena aparece geralmente unido
aos de outras mulheres cujos nomes estão relacionados com homens conhecidos. É o caso de Maria, a Mãe de Jesus
(Jo 19, 25), de Maria, mulher de Cléofas (ibid.), de Joana, mulher de Cusa (Lc 8, 3). Mas, no caso de Maria Madalena,
o que chama a atenção é que, cada vez que se menciona o seu nome, costuma-se identificá-lo com o seu lugar de
nascimento, Magdala, mas nunca com um homem. Por outras palavras, nunca é apresentada como “Maria, esposa
de…”, mas exclusivamente como “Maria Madalena”. Este pequeno pormenor diz tudo. Indica que Maria Madalena
nunca se casou, e muito menos que esteve casada com Jesus.
Por último, nenhum dos outros escritores cristãos da Igreja primitiva, nem mesmo os gnósticos, nos informam de que
Jesus estivesse casado com Maria Madalena.

O gnóstico Evangelho de Filipe chama a Maria Madalena “companheira”de Jesus, e O Código da Vinci diz que a
palavra “companheira” significa esposa em aramaico. Não é certa prova de que esteve casada com Jesus?
Teabing, personagem do livro, comenta assim a passagem do Evangelho de Filipe: “Como lhe diria qualquer
estudioso do aramaico, nessa época a palavra companheira significava esposa”. O principal problema com essa
afirmação de Teabing é que o Evangelho de Filipe não foi escrito em aramaico! Foi escrito em copta, e a palavra
companheira que se emprega nessa passagem é, na verdade, o termo grego koinonos.
Ora, koinonos não significa especificamente “mulher” ou “esposa”. Indica simplesmente companheirismo, e cobre um
vasto leque de relações. A palavra pode significar um sócio de negócios, um colaborador ou um homem cristão.
Poderia incluir também parentesco, mas, se o autor do Evangelho de Filipe pretendesse especificar que se tratava de
esposa ou mulher, podia ter escolhido uma palavra grega mais concreta: gyné. O mais provável é que a
palavra koinonos que se lê nessa passagem descreva Maria Madalena como irmã espiritual de Cristo.

No entanto, O Código da Vinci indica que, na antiga cultura judaica, se condenava o celibato. Por que Jesus se
absteve de casar-se? O celibato não fez dele um “mau judeu”?
O celibato não estava condenado na antiga cultura judaica. Estar casado e ter filhos era o caminho normal para a
maioria dos homens judeus…, como aliás é para os cristãos. Mas o celibato, em determinadas circunstâncias, era
olhado com enorme respeito.
Alguns dos homens mais venerados da história judaica não se casaram. Por exemplo, Deus disse ao profeta Jeremias
que renunciasse ao matrimônio, e ninguém o acusou de ser um “mau judeu” por isso; pelo contrário, gozou de
grande estima como um dos maiores Profetas enviados por Deus ao povo judeu (Jer 16, 1-2).
Nos tempos de Jesus, um grupo de judeus conhecidos como essênios considerava o celibato como um ideal para os
seus membros, e muitos deles viviam numa espécie de comunidade monástica perto do Mar Morto; não eram
criticados pelo seu celibato, mas extraordinariamente respeitados pelas suas práticas piedosas.
Segundo as evidências bíblicas, João Batista viveu só, como fez São Paulo, o antigo zeloso fariseu, que defendia o
celibato como um ideal religioso para os que quisessem fazer essa opção por amor ao Senhor (cfr. 1 Cor 7). Portanto,
se o celibato não era comum no judaísmo do século I, também não era insólito nem considerado desprezível, ilegal ou
condenado. Como vimos, era extraordinariamente apreciado em determinadas pessoas.

Segundo O Código da Vinci, o Evangelho de Filipe diz que Jesus amava Maria Madalena mais do que a todos os
discípulos e “costumava beijá-la na boca”. Isso não demonstra claramente que ao menos os primeiros cristãos
acreditavam que Maria Madalena e Jesus tinham uma relação sentimental?
Em primeiro lugar, devemos mencionar que o Evangelho de Filipe não diz que Jesus “costumava beijar Maria
Madalena na boca”. Neste ponto, O Código da Vinci engana os leitores. O autêntico manuscrito desse evangelho
apócrifo não apareceu completo, mas fragmentado, e não diz onde Jesus beijava Maria Madalena nem com que
freqüência o fazia. O manuscrito que se achou diz: “E a companheira [koinonos] de […] Maria Madalena […] a amava
mais que a todos os seus discípulos e costumava beijá-la […] em […]”. Os colchetes indicam falhas no manuscrito.
Portanto, o próprio manuscrito do Evangelho de Filipe não diz onde Jesus beijava Maria Madalena. Podia ser um
simples beijo de paz. Podia ser um beijo na mão, na testa ou no rosto, sem nenhum matiz sexual. Por outro lado, para
os gnósticos, um beijo não era romântico nem sexual. Por quê? Porque os gnósticos consideravam a alma prisioneira
do corpo, e viam o sexo como meio de aprisionar novas almas. A meta da espiritualidade gnóstica era a libertação do
corpo e dos seus desejos sexuais.
Para os gnósticos, um beijo era um símbolo de companheirismo entre os crentes, e por ele o alimento espiritual
passava de uma pessoa para outra. Por isso, em outro documento gnóstico intitulado Segundo Apocalipse de Tiago,
Jesus dirige-se ao seu primo Tiago como: “Meu querido!” e parece beijá-lo. Esse gesto, sem conteúdo sexual,
pretende mostrar a posição privilegiada do discípulo e a especial condição dele (ou dela) como “receptor da
sabedoria secreta”.
Por conseguinte, o Evangelho de Filipe não diz que Maria Madalena estivesse casada com Jesus. Por esse e outros
documentos gnósticos, Maria Madalena pôde ter tido uma amizade mais estreita com Jesus, e ter chegado a uma
maior percepção dos mistérios do reino de Cristo. Mas em nenhum lugar desse e de outros textos gnósticos consta
que Maria Madalena tivesse sido a esposa de Jesus nem que tivesse tido uma relação sentimental com Ele.

Existe alguma razão teológica para que Jesus fosse celibatário?


O fato de Jesus não se ter casado tem muito sentido, não porque o casamento ou o sexo sejam uma coisa má ou
funesta, antes pelo contrário: o catolicismo afirma a grande dignidade do casamento como uma aliança sacramental
abençoada por Deus; o casamento é, sem dúvida, bom e santo. Tem muito sentido porque revela a plena união de
Jesus com seu Pai do céu e a completa obediência à sua vontade: Jesus está totalmente consagrado ao seu Pai,
oferecendo-lhe plenamente a sua humanidade – incluída a sua sexualidade, pelo celibato – como um dom amoroso e
expiatório. É o que manifesta exatamente quando diz: Há eunucos que nasceram assim do ventre de sua mãe; há os
que foram feitos eunucos pelos homens; e há os que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do reino dos céus.
Quem puder entender, entenda (Mt 19, 12).
Além disso, o celibato de Jesus é a mais bela demonstração do seu amor por nós. Recorda-nos que Ele é o Esposo
divino que se entrega completamente ao seu povo. Ao longo da história da salvação, a relação de Deus com Israel é
expressa através de muitos termos: Criador, Senhor, Pai, etc. Mas a imagem mais profunda e mais íntima que
aparece na Bíblia é a do matrimônio.
O Antigo Testamento descreve Deus como o Esposo e Israel como a sua Esposa eleita. Quando Israel é fiel à sua
aliança com Deus, é descrito como a esposa fiel e formosa que Deus liberta da escravidão do Egito, que desposa no
Monte Sinai e conduz à Terra Prometida. Quando o povo rompe a sua aliança com Deus, é qualificado como esposa
infiel e adúltera. Não obstante, os Profetas anunciam que Deus permanecerá plenamente fiel a Israel, embora o povo
lhe tenha sido tão infiel. Os Profetas anunciam também que, um dia, Deus se reunirá com a sua esposa e a curará das
suas impurezas e renovará a aliança matrimonial com ela.
Assim, quando Jesus vem estabelecer essa nova aliança, é chamado com toda a propriedade o Esposo (Mt 9, 15; Jo 3,
28-36), dando cumprimento às profecias messiânicas e reunindo-se à sua Esposa. O fato de Jesus não se ter casado
com um simples ser humano é a manifestação mais bela da profunda realidade do seu pleno e incondicional amor
esponsal por todo o seu povo na Igreja, que é chamada a Esposa de Cristo no Novo Testamento (cfr. Ef 5, 21-33).

Se, como diz O Código da Vinci, nem Jesus nem Maria Madalena eram divinos, por que o “autêntico cristianismo”
estava disposto a prestar culto a Maria Madalena e ao “sagrado feminino”?
O Código da Vinci é prolífico em afirmações que à primeira vista são surpreendentes, mas que não têm nenhum
fundamento, quando se pensa nelas. Este é um bom exemplo. Não tem sentido falar do propósito de Jesus de
restabelecer o equilíbrio entre o “sagrado masculino” e o “sagrado feminino” se, como afirma o livro, Jesus e Maria
Madalena eram uns meros mortais a quem nenhum dos seus seguidores prestava culto.
Brown simplesmente contradiz-se e espera que ninguém o perceba. Consegue-o argumentando que a “hierarquia
chauvinista” oprimiu Maria Madalena. Nesta época em que vivemos, dominada pelas teorias conspiratórias e pela
retórica feminista, essa afirmação poderia parecer de certo modo digna de crédito, embora não haja nada que a
apoie nem tenha sentido.
No fim das contas, tudo o que Brown tenta transmitir-nos é a “apaixonante realidade”, a “verdadeira” história de um
rabi morto que tinha uma namoradinha, e que a Igreja ocultou isso com a absurda história de que esse rabino
ressuscitou, de que Maria Madalena o viu e se converteu na primeira pessoa na história da raça humana a anunciar
a boa nova de que Deus tinha enfrentado, combatido e vencido o poder da morte.
Agora compreendo por que a Igreja honra Maria Madalena como “apóstolo de apóstolos”.
Exatamente! Venerar Maria Madalena como uma grande santa e honrá-la como a primeira testemunha da
ressurreição de Cristo e como “apóstolo de apóstolos” é um modo curiosamente esquisito de caluniá-la e de apagá-la
da memória dos seus seguidores. Por outro lado, se a Igreja pretendia demonstrar a superioridade de Pedro sobre
Maria Madalena, por que manter cuidadosamente (e nos quatro Evangelhos) a horrível imagem de um Pedro que
promete fidelidade eterna a Jesus e pouco depois o nega num momento crítico? Por que mostrar Maria como a única
testemunha corajosa da Ressurreição que suporta as dúvidas dos Apóstolos, se o ponto central dos Evangelhos é
fazer ver a inferioridade de Maria Madalena e a superioridade deles?

Fonte: Capítulo 12 de “A fraude Da Vinci”, Quadrante, São Paulo, 2006.


Tradução: Emérico da Gama

O que diz o “Evangelho de Maria [Madalena]”?


O que afirma um grupo sectário não pode entender-se como norma geral de uma situação
PERGUNTAS SOBRE JESUS CRISTO
O que se conhece com o nome de “Evangelho de Maria” é um texto gnóstico, escrito originariamente em grego, que
chegou até nós através de dois fragmentos em papiro do século III, encontrados em Oxirrinco (Egito) (P. Ryl. III 463 e
P. Oxy. L 3525), e uma tradução à língua copta do século V (P. Berol. 8502). Todos esses textos foram publicados
entre o ano 1938 e 1983. É possível que a obra tenha sido composta no século II. Nela se representa Maria,
provavelmente a Madalena (embora no texto seja chamada apenas de Maria), como fonte de uma revelação secreta
por estar em estreita relação com o Salvador.
No texto fragmentário que nos chegou até nós narra-se que os discípulos fazem perguntas a Cristo ressuscitado e Ele
as responde. Depois, envia-os a pregar o evangelho do reino aos gentios e vai embora. Os discípulos ficam tristes,
sentindo-se incapazes de cumprirem o mandamento. Então, Maria, anima-os a realizá-lo. Pedro lhe pede que lhes
comunique as palavras do Salvador que eles não tinham escutado, porque sabem que Ele “amava-a mais do que às
outras mulheres”. Maria conta a sua visão, cheia de referências gnósticas. No contexto de um mundo que se
encaminha para a sua própria dissolução, ela explica as dificuldades da alma para descobrir a sua verdadeira
natureza espiritual, na sua ascensão ao lugar do seu eterno descanso. Quando acaba de narrar a sua visão, Maria
percebe que André e Pedro não acreditam nela. Pedro questiona que o Salvador a preferisse apor cima dos apóstolos
e Maria começa a chorar. Levi a defende-a (“Você, Pedro, sempre tão impetuoso”) e acusa Pedro de ficar em contra
da “mulher” (provavelmente, está se referindo a Maria mais do que à mulher em geral), como faziam os adversários.
Anima-os a aceitar que o Senhor tenha preferido Maria, a revestir-se do homem perfeito e a marchar viajar pregando
o evangelho, coisa que finalmente acabam por fazer.
Até aqui o testemunho dos fragmentos que, como se vê, não é muita coisa. Alguns autores quiseram ver na oposição
dos apóstolos a Maria (de alguma forma também presente no Evangelho de Tomé, a Pistis Sophia e o Evangelho
grego dos egípcios) um reflexo dos confrontos existentes na Igreja do século II. Seria sinal de que a Igreja oficial
estaria em contra das revelações esotéricas e da liderança da mulher. Mas, tendo-se em conta o caráter gnóstico
desses textos, parece muito mais plausível que esses “evangelhos” não reflitam a situação da Igreja, mas a peculiar
posição e enfrentamento dos gnósticos contra ela. O que afirma um grupo sectário não pode entender-se como
norma geral de uma situação, nem pode-se fazer da exceção uma regra.
Santa Maria Madalena
Juan Chapa