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Capa [ A Igreja se redescobre como povo de Deus, como sinal da presença do Rein

denilson mariano *

N
a obra de Lucas, o Evange-
lho apresenta o caminho de
Jesus. O livro dos Atos – ve-
ja que são atos, não apenas pala-
vras – trata do caminho da Igreja.
Mostra o caminho da comunidade
de fé que se formava a partir dos
apóstolos e dos primeiros homens
e mulheres que se colocaram no
seguimento a Jesus.

“O que vem a ser isto?”


O livro dos Atos começa destacando a
ação do Espírito que escolhe, instrui e dá
força. Logo em seguida, o Espírito desce
sobre a comunidade de fé. Ele vem co-
mo vento forte e como línguas de fogo,

Pentecostes
sobre cada membro da comunidade ali
reunida. Com o vento, Ele varre o medo
que os aprisionava; com fogo, ilumina
os acontecimentos e aquece o coração.
Infunde um novo ânimo, um novo ardor

na América
missionário, através do qual pessoas sim-
ples se transformam em ousados anun-
ciadores de Jesus, proclamando o Evan-
gelho na linguagem universal do amor,

Latina
que todos compreendiam.
A ação do Espírito não é algo ape- A Igreja volta às suas fontes primei-
nas pontual, Ele age constantemente na ras, para a Sagrada Escritura e para o en-
nossa vida, na vida da Igreja e na histó- sinamento dos Santos Padres. Ela recu-
ria. Mas em determinados momentos, pera a sua própria identidade. A Igreja
devido a circunstâncias específicas, sua se redescobre como povo de Deus, co-
presença se torna mais visível, até mais mo sinal da presença do Reino de Deus vantar a sua voz profética em defesa da
“palpável”, como podemos ver em Atos no mundo, continuadora da missão de vida e da justiça e da paz, que foram os
2,1-46. Inspirados neste acontecimento anunciar a boa nova aos pobres e sofre- eixos daquela Conferência. Foi e conti-
originário, podemos vislumbrar outros dores (cf. Lc 4,18-19). Mais uma vez o Es- nua sendo um acontecimento marcan-
pentecostes. Momentos históricos em pírito fez vencer o medo e trouxe à Igre- te na história da Igreja e de toda a Amé-
que identificamos uma presença mais ja um novo vigor, abrindo-se mais à sua rica Latina. O que foi o Vaticano II para a
sensível de Deus apontando novos ru- missão de amor no mundo. vida da Igreja, foi Medellín para a Amé-
mos, vencendo o medo e dando um no- rica Latina.
vo vigor aos seguidores de Jesus. “Isto é o que vedes e ouvis!” A teologia dos “Sinais dos Tempos”
O Concílio Vaticano II (1963 - 1965) Outro pentecostes na vida da Igreja foi a da Constituição Pastoral Gaudiun et Spes,
foi um grande pentecostes na vida da Igre- Conferência de Medellín (1968). Ela foi do Vaticano II, foi o fio condutor de todos
ja. Num momento em que dominava o organizada para realizar a recepção do os trabalhos em Medellín, de tal forma
medo diante do mundo e das ciências Concílio Vaticano II na América Latina. que veio a configurar não apenas os tex-
modernas, um sucessor de Pedro é es- O contexto era também de medo. A di- tos de Medellín, mas toda a dinâmica de
colhido, já com idade avançada, para ser tadura militar comandava vários países trabalho da Conferência que se tornou
um Papa “de transição”. No entanto, mo- latino-americanos. Não só a liberdade, o acontecimento mais importante e es-
vido pelo Espírito, ele conduz a Igreja a mas também a dignidade de vida estava timulador no Séc. XX na Igreja latino-a-
um novo tempo, propicia oportunidade sendo tirada das pessoas, sobretudo dos mericana. Nas palavras de Agenor Bri-
para a Igreja vencer o medo, abrir-se ao mais pobres. Mais uma vez podemos re- ghenti, Medellín representa uma “ousa-
diálogo com o mundo, com as outras re- conhecer a ação do Espírito Santo, que dia eclesial”, ousadia esta que marca, na
ligiões e com e as outras igrejas. vem para tirar o medo e faz a Igreja le- verdade o nascimento da “Igreja da Li-

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a do Reino de Deus no mundo, continuadora da missão de anunciar a boa nova...

bertação”. Medellín concretiza o sonho pelo qual os bispos afirmam a sua liber- -americano. Um novo ardor começa a
irrealizado do Papa João XXIII no Vati- dade frente aos dominadores de sempre”. tomar conta da Igreja que, nas palavras,
cano II, de que a Igreja fosse realmente Medellín não tem medo da palavra “Li- gestos, atitudes e opções do Papa Fran-
a Igreja dos pobres. Além de falar dessa berdade”. Mais uma vez o medo foi ven- cisco, opera uma volta à simplicidade de
opção, Medellín denuncia as estruturas cido pela força e presença do Espírito na Jesus no Evangelho. Uma nova alegria,
injustas de pecado que oprimem o povo. vida da Igreja. um novo pentecostes que conclama a
Para José Comblin, Medellín era uma Medellín expressa a superação do me- Igreja para redescobrir a alegria da fé,
aplicação do “Pacto das Catacumbas”, en- do em relação aos leigos. Vence o autori- a colocar-se em saída missionária para
tarismo e a distância do clero em relação as periferias sociais e existenciais, como
aos leigos. Os bispos vão ao encontro dos um “hospital de campanha”, uma Igreja
pobres, onde eles moram e se reúnem. misericordiosa que vence o medo para
A “opção pelos pobres” não se resume a buscar uma ecologia integral na defesa
palavras, mas se transforma em atos que da vida do planeta e da vida do ser hu-
incluem a restituição da sua dignidade, mano, acolhendo os sofredores, os em-
o que implica apoio aos movimentos so- pobrecidos, os migrantes...
ciais e a reconquista dos direitos huma- Francisco faz uma retomada do di-
nos. Medellín explicita o importante pa- namismo eclesial do Vaticano II e de sua
pel da Igreja em termos de conscienti- acolhida em Medellín. Ousa resistir a um
zação: uma “educação libertadora”, que processo de involução eclesial indiferen-
transforma a pessoa em sujeito de seu te aos grandes problemas eclesiais e so-
próprio desenvolvimento. Em resumo, ciais. De modo próprio e segundo sua
em Medellín, o Espírito aquece o cora- experiência de vida, de fé e de pastoral,
ção da Igreja que, iluminada pela Pala- Francisco retoma e atualiza as grandes
vra de Deus se torna uma Igreja mais vi- linhas inspiradoras do Vaticano II e de
sível, mais presente e atuante na história, Medellín. Ele se inspira no caminho de
de forma profética e libertadora. Jesus, que parte das periferias. Ele se dei-
Se a Igreja nasce em Pentecostes, xa guiar pela alegria do Espírito e n’Ele
quando a comunidade de fé, assume a encontra forças para seguir colocando
sua missão na força do Espírito, em Me- em prática o Evangelho, apesar das opo-
dellín nasce a Igreja dos pobres. A Igreja sições. Infelizmente, são ainda poucos os
que na força do Espírito assume a mis- que levam a sério as propostas de Fran-
são de Jesus de ser boa nova para todos, cisco, justo quando elas mais se aproxi-
mas a começar dos mais empobrecidos. mam das propostas de Jesus, como nos
Paulo VI alertava que, para conhecer a mostram os Evangelhos.
Deus, era preciso conhecer o homem; em Quando afofamos a terra em um can-
Medellín o homem é situado, identifica- teiro ou em jarro de flor, além de tirar as
cabeçado por Dom Hélder Câmara e as- do. O pobre é caminho para conhecer a ervas daninhas, tornamos a terra mais
sinado por 40 bispos em Roma, no final Deus. Na solicitude aos pobres e guia- receptiva, a planta se alimenta melhor,
do Concílio, que sinaliza o compromisso dos pelo Espírito, nascem as Comuni- se revigora e produz mais. Revisitar a his-
dos bispos, portanto, o compromisso da dades Eclesiais de Base, que se alimen- tória da Igreja, na busca de compreen-
Igreja, “com uma vida pobre e a serviço tam da leitura popular da Bíblia e bus- der a ação do Espírito, é afofar o terreno
dos pobres”. Foi a partir deste pacto que cam se organizar para defender a vida e no qual ela cresce. É criar condições pa-
vários bispos deixaram seus palácios e recuperar a esperança num continente ra arrancar o que a prejudica, é tornar a
foram viver uma vida mais simples e mais de profundas injustiças sociais. Um si- Igreja mais aberta à graça de Deus e mais
próxima do povo e dos pobres. Um ca- nal de que Espírito continua a agir nas alegre e acolhedora, mais misericordio-
minho de conversão na Igreja. pessoas, na Igreja e na história, e Ele age sa, mais profética e engajada na defesa
Medellín sinaliza uma Igreja na qual sempre “a partir de baixo”, como fez em da vida. E assim, efetivar sua ação sinal
os bispos (e posteriormente os padres) Pentecostes. do Reino na história, produzindo mais
querem agir com a liberdade do Evan- frutos de paz e de justiça. Sim, o Espíri-
gelho, denunciando a opressão sobre os Medellín e Francisco to continua a agir na história, continua
pobres e criando maneiras de ajudar na E agora, aos cinquenta anos de Medellín, a agir na Igreja, e sempre a partir de bai-
sua promoção e libertação. Nas palavras completam-se cinco anos do Pontifica- xo. “Ouçamos o que Espírito diz à Igre-
de Comblin, “Medellín é o documento do de Francisco, o primeiro Papa latino ja.” (Ap 2,17.)]

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