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             LEILA SALOMÃO DE LA PLATA CURY TARDIVO  
(ORGANIZADORA) 
 
 
   

  O PROCEDIMENTO DE DESENHOS‐ESTÓRIAS  

  NA CLÍNICA E NA PESQUISA: 45 ANOS DE PERCURSO 
1ª Edição 

 
 
 

  Edit. Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo 
 
                                                    São Paulo 
 
  

2017 





O PROCEDIMENTO DE DESENHOS-ESTÓRIAS NA CLÍNICA E NA PESQUISA: 45 ANOS DE PERCURSO

 
 

ISBN 978-85-86736-82-7

O PROCEDIMENTO DE DESENHOS‐ESTÓRIAS NA
CLÍNICA E NA PESQUISA: 45 ANOS DE  PERCURSO

LEILA SALOMÃO DE LA PLATA CURY TARDIVO


(Organizadora)

   

SÃO PAULO
INSTITUTO DE PSICOLOGIA DA
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
2017

REALIZAÇÃO

INSTITUTO DE PSICOLOGIA DA USP

DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA CLÍNICA

 
Leila Salomão de La Plata Cury Tardivo  (Organizadora)                          
 
 



O PROCEDIMENTO DE DESENHOS-ESTÓRIAS NA CLÍNICA E NA PESQUISA: 45 ANOS DE PERCURSO

O PROCEDIMENTO DE DESENHOS-ESTÓRIAS NA CLÍNICA E NA PESQUISA:


45 ANOS DE PERCURSO

LABORATÓRIO DE SAÚDE MENTAL E PSICOLOGIA CLÍNICA SOCIAL

Catalogação na publicação
Biblioteca Dante Moreira Leite
Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo

E BOOK (13.: 2017: São Paulo) Leila Salomão de La Plata Cury Tardivo
(organizadora).O PROCEDIMENTO DE DESENHOS-ESTÓRIAS NA CLÍNICA E NA
PESQUISA: 45 ANOS DE PERCURSO- Instituto de
Psicologia da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017

In, 2017

Inclui bibliografia.
ISBN: 978-85-86736-82-7
1. 1 1. Psicologia clínica 2. Psicologia Social 3. Direitos Humanos 4. Clínica I.

Título.

RC467

 
Leila Salomão de La Plata Cury Tardivo  (Organizadora)                          
 
 



O PROCEDIMENTO DE DESENHOS-ESTÓRIAS NA CLÍNICA E NA PESQUISA: 45 ANOS DE PERCURSO

“O PERIGO MORA EM CASA: IMAGINÁRIO DE ESTUDANTES SOBRE A


CRIANÇA VITIMA DE ESTUPRO

Sueli R. Gallo Belluzzo


Andreia de Almeida Schulte
Marcela C. Ferreira-Teixeira
Rubens A. A. das Virgens
Evelin R. Rodrigues
Tânia Maria José Aiello-Vaisberg

Resumo

A violência sexual contra crianças é uma problemática que atravessa todos os


grupos socioeconômicos, educacionais e étnicos. Sua ocorrência gera
sofrimento humano e considerável prejuízo ao desenvolvimento do indivíduo e
da sociedade. O presente estudo tem como objetivo investigar
psicanaliticamente o imaginário de estudantes de psicologia sobre a criança
vítima de estupro, tendo em vista que situações que envolvem violência sexual
contra a criança são comuns no cotidiano da atuação profissional do psicólogo.
Realiza-se, metodologicamente, por meio de entrevista coletiva com trinta
estudantes de psicologia do nono semestre, mediada pelo uso do
Procedimento de Desenho-Estória com Tema. A consideração psicanalítica
deste material permitiu a produção interpretativa de dois campos de sentido
afetivo-emocional ou inconsciente relativo, que denominamos “o perigo mora
em casa” e “quem me defende?”. O primeiro se organiza em torno da crença de
que ou agressor é um membro da família e o segundo organiza-se pela crença
de que a mãe não protege.

Palavras-Chave: abuso sexual, imaginário coletivo, violência contra crianças

A violência sexual é uma problemática, grave e complexa, que parece


atravessar todos os grupos socioeconômicos, educacionais e étnicos. Sua
ocorrência gera sofrimento humano e um considerável prejuízo ao
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desenvolvimento das pessoas e da sociedade (Flam & Haugstvedt, 2013;
Corbett, 2014, Chahine, 2014). Desta forma, esse tipo de violência se tornou
um grave problema de saúde pública e, por sua complexidade, demanda
atenção interdisciplinar e intersetorial às vítimas, suas famílias e em suas
comunidades (Santos & Yakuwa, 2015; Morais et al., 2016). Assim, devido a
sua importância, diversas áreas do conhecimento têm produzido estudos sobre
este tema, tais como psicologia, medicina, enfermagem e antropologia (Corbett,
2014).
No Brasil, tal tema passou a merecer maior atenção do governo e
autoridades competentes a partir dos anos 1980 por meio da Constituição
Federal de 1988 (Brasil, 1988/2016) e também com a promulgação do Estatuto
da Criança e do Adolescente (Brasil, 1990/2014), quando a legislação tornou
obrigatória a notificação de casos suspeitos ou confirmados de violência contra
a criança e adolescente (Zambon, Jacintho, Medeiros, Guglielminetti & Marmo,
2012).
Em estudo realizado por Zambon et al. (2012) é constatado que o abuso
sexual predomina entre as meninas e na faixa entre 5 a 10 anos de idade,
enquanto que a negligência, um tipo de violência doméstica, tem maior
incidência na faixa etária menor de 5 anos e com distribuição semelhante entre
meninos e meninas. Zambon et al. (2012) explicam essa diferença com o fato
de que os meninos apresentam maior relutância e são mais contraditórios ao
relatar o fato, além de subestimarem o problema por mecanismos de negação.
Acrescentam que a sociedade não considera o abuso em meninos e acredita
que eles sejam menos afetados.
Alguns estudos mostram que vários obstáculos impedem as crianças de
comunicarem o abuso sexual sofrido, o que resulta em graves prejuízos
psicológicos, emocionais e sociais para as vítimas (Zambon et al., 2012; Flam &
Haugstvedt, 2013; AlMadani, Bamousa, Alsaif, Kharoshah & Alsowayigh, 2012;
Rumble et al. 2015). O encobrimento do abuso pode ocorrer por receio da
criança em relatá-lo, temendo punições, porque o abuso em geral ocorre dentro
da própria família, ou é praticado por pessoas de sua confiança, porque ela
teme causar problemas aos outros, ou que não acreditem nela, por omissão da
família (Zambon et al., 2012; Flam & Haugstvedt, 2013).
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A estimativa anual no Brasil é de que cerca de 0,26% da população sofra
violência sexual, o que indica que haja anualmente 527 mil tentativas ou casos
de estupros consumados no país, dos quais somente 10% são reportados à
polícia (Cerqueira & Coelho, 2014). Ainda que tal estimativa seja lamentável,
deparamo-nos com mais uma informação igualmente impactante, o alto índice
de violência sexual contra crianças. Em pesquisa realizada por Drezett et al.
(2001) das 617 vítimas de abuso sexual, 84,5% são crianças e foram abusadas
por agressores identificáveis, geralmente do núcleo familiar. Em estudo
efetuado por Lopes et al. (2004) as vítimas variaram entre 1 a 68 anos de
idade, sendo que 18,6% dos casos eram menores de 10 anos. Por fim, na
pesquisa de Cerqueira e Coelho (2014) temos a informação de que em 2011,
88,5% das vítimas desse tipo de violência foram do sexo feminino, dentre elas,
mais da metade tinha menos de 13 anos de idade e seu agressor era
conhecido, sendo o perpetrador majoritariamente o pai ou o padrasto.
A partir desses dados, compreendemos que, ao contrário do que se
pode imaginar, a violência sexual contra crianças se dá, massivamente, dentro
de ambiente conhecido, familiar, ou seja, no lugar onde o ser humano mais
deveria se sentir seguro. Obviamente, tal situação gera sofrimento emocional,
que certamente afetará seu desenvolvimento.
No Brasil, os serviços públicos, destinados ao atendimento de crianças e
adolescentes vítimas de violência sexual, não conseguem lidar de maneira
satisfatória com a demanda existente, seja devido à sobrecarga de trabalho, à
baixa qualificação dos profissionais, dificuldades na comunicação entre as
instituições ou ainda, o conhecimento reduzido de usuários e funcionários sobre
o Sistema Único de Assistência Social (Freitas & Habigzang, 2013; Freire &
Alberto, 2013; Luna, Ferreira, & Vieira, 2010; Conselho Federal de Psicologia,
2009). No que diz respeito à capacitação do psicólogo de realizar uma escuta
emocional e dar atenção ao sofrimento da criança vítima da violência sexual,
Freire e Alberto (2013) e Paiva e Yamamoto (2010) relatam o despreparo deste
profissional e a prevalência de um modelo clínico tradicional de atuação, com a
formação dissociada da prática social, vale dizer, afastada dos problemas e
grupos sociais em situação de vulnerabilidade.

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O atendimento às vítimas de violência requer integrações complexas nas
diversas frentes de atuação, a saber, Conselhos Tutelares, Juizados Especiais,
Centros de Referência Especial da Assistência Social (CREAS) e Centros de
Referência da Assistência Social (CRAS). Os profissionais envolvidos precisam
refletir sobre sua atuação, que não deve ser apenas tecnicista e mecânica, mas
deve ser uma prática dinâmica e reflexiva, o que exige transformação das
concepções excludentes que trazem consigo, em decorrência dos preconceitos
socialmente circulantes (Corbett et al, 2014).
Quando investigamos o imaginário coletivo de futuros psicólogos acerca
da violência sexual infantil, intencionamos produzir conhecimento sobre o modo
como diferentes segmentos e agentes sociais lidam com esta problemática
social e não apenas aqueles diretamente envolvidos com ela. Muitas pesquisas
focalizam o preparo técnico do psicólogo necessário para uma atuação de
qualidade no atendimento às vítimas de agressão sexual, bem como as falhas
na sua formação profissional. Porém, poucos estudos se aprofundam na
análise e compreensão de suas reações emocionais frente a essas vítimas e
condições de trabalho, ou realizam uma verdadeira escuta deste profissional.
Neste momento escolhemos estudar o imaginário de estudantes de
psicologia por serem futuros profissionais que atenderão as vítimas da violência
sexual. Este aluno traz, em seu imaginário, crenças, imagens e fantasias muito
bem estabelecidas sobre o encontro com seu paciente e que derivam de sua
experiência prévia (Aiello-Vaisberg, 1999). A partir desse imaginário coletivo é
possível conhecer e compreender tais ideias, conceitos e fantasias ligados a
condutas preconceituosas ou defensivas contra as vítimas de estupro. Por
conseguinte, tal conhecimento pode se tornar um instrumento para apontar
novas demandas na capacitação desses profissionais, possibilitando que
estejam melhor preparados para atuar em atendimentos de crianças que
sofrem agressão, seja na clínica privada ou social.

METODOLOGIA

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O presente estudo desenvolveu-se como como pesquisa qualitativa com
a adoção da perspectiva psicanalítica, que como método investigativo e
referencial teórico revela-se um instrumento adequado para a compreensão de
fenômenos humanos em contexto intersubjetivo, incluindo sua dimensão
inconsciente (Bleger, 1963/1984).
Temos utilizado uma forma de operacionalização do método
psicanalítico, que permite seu uso fora do setting de atendimento em
consultório, utilizando entrevistas individuais e coletivas, estudo de produções
culturais e manifestações através de blogs (Bleger, 1979/1980; Gallo-Belluzzo,
Corbett & Aiello-Vaisberg, 2013; Simões, Ferreira-Teixeira & Aiello-Vaisberg,
2014; Schulte, Gallo-Belluzzo & Aiello-Vaisberg, 2016a; Schulte, Gallo-Belluzzo
& Aiello-Vaisberg, 2016b). Assim, para a realização da presente pesquisa, o
método psicanalítico foi operacionalizado em termos da diferenciação de três
procedimentos investigativos, a saber: de configuração, de registro e
interpretação da entrevista, além de um procedimento investigativo
complementar, o de interlocuções reflexivas.
O procedimento investigativo de configuração da entrevista realizou-se
por meio de um enquadre diferenciado, denominado entrevista grupal para
abordagem da pessoalidade coletiva (Ávila, Tachibana & Aiello-Vaisberg,
2008), organizada ao redor do uso do Procedimento de Desenho-Estória com
Tema (Aiello-Vaisberg, 1999), derivado do instrumento diagnóstico idealizado
por Trinca (1976). A entrevista foi realizada com alunos do 9º semestre do
curso de Psicologia de uma faculdade particular do interior do Estado de São
Paulo. Participaram 30 alunos, que foram convidados a desenhar, em uma
folha sulfite, “uma pessoa que foi estuprada”. A seguir foram convidados a
inventar e escrever uma história sobre a figura desenhada. Neste artigo
apresentaremos e discutiremos apenas as produções que abordaram a criança
vítima de estupro, que totalizam sete produções, sendo que as demais
produções se referem à mulher que sofre agressão sexual. Consideramos
significativo que cerca de trinta por cento dos participantes tenham pensado na
criança como a pessoa que sofre violência sexual e se importem com o
sofrimento dessa faixa etária.

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O segundo passo, o procedimento investigativo de registro do acontecer
clínico, concretizou-se a partir do material encontrado, os desenhos e histórias,
os quais constituem registros por meio dos quais os estudantes expressaram o
que imaginaram diante do tema proposto.
Seguimos com o procedimento investigativo de interpretação da
entrevista que consistiu na revisão, em estado de atenção flutuante e de
associação livre de ideias dos desenhos e histórias. Assim, os pesquisadores
iniciaram o processo de produção interpretativa dos determinantes emocionais
implícitos nas condutas que estudamos, ou seja, dos campos de sentido
afetivo-emocional, seguindo os passos propostos por Herrmann (1979): “deixar
que surja”, “tomar em consideração” e “completar o desenho”. Embora cada
desenho-estória tenha sido produzido individualmente, foram tomados como
expressão de uma pessoalidade coletiva grupal, neste caso, o estudante de
psicologia, em concordância com a noção blegeriana de que o fenômeno da
conduta pode ser abordado em âmbitos individuais e coletivos (Bleger,
1963/1984).
Finalizamos com um procedimento investigativo suplementar que
consiste na suspensão do método psicanalítico, vale dizer, a suspensão do
estado de atenção flutuante e da associação livre de ideias. Tal procedimento,
denominado procedimento investigativo de interlocuções reflexivas, consiste na
retomada do pensamento conceitual e teorizante com o objetivo de considerar
ideias, teorias e pensamentos de autores psicanalíticos ou não, que adotem
perspectivas antropológicas convergentes com as nossas, além de nosso
próprio desenvolvimento teórico decorrente das interpretações formuladas.

CAMPOS DE SENTIDO AFETIVO-EMOCIONAL

A consideração do material, composto pelos desenhos-estórias e pela


narrativa transferencial da entrevista coletiva, possibilitou a produção
interpretativa de dois campos de sentido afetivo-emocional, denominados “o
perigo mora em casa” e “quem me defende?”.

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O campo denominado “o perigo mora em casa” se organiza em torno da
crença de que crianças são estupradas por um membro da família.
Como exemplo de produção que se encontra neste campo, temos o
desenho de uma menina chorando, segurando um urso de pelúcia e com a alça
do vestido rasgada do lado esquerdo. Em volta da menina está escrito:
“angústia”, “medo”, “desespero”. Na história, uma menina de dez anos é
abusada sexualmente pelo padrasto.
“Feminino, 10 anos.
Maria foi abusada sexualmente pelo padrasto em uma das noites que
sua mãe trabalhou até tarde. Sem poder contar a ninguém sobre o
ocorrido, ela ficou em seu quarto abraçada com seu urso Berto. Ela
chorou muito, sentia-se abandonada, magoada, medo, tristeza. (...)”

Em outro desenho-estória um menino é abusado sexualmente pelo


padrasto:

“Wilson morava com a mãe e seu padrasto, Wilson era muito novo, e
quando ia tomar banho com o pai não entendia o porque das caricias em
suas partes intimas. Wilson ficava com a mãe até que aos 8 anos de
idade a mãe arrumou um emprego, Wilson ficava só quase um dia todo.
Um dia qualquer seu padrasto chega em sua casa embriagado, e vai até
o quarto de Wilson. Pede para ele tirar a roupa. Wilson se recusa e o pai
começa a agredi-lo. Wilson sem a menor chance de reagir acaba sendo
abusado sexualmente. Sob a ameaça de um novo espancamento Wilson

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se mantem calado. Porém chora pelos cantos, e é possível ver em seu
olhar o medo e a desconfiança.”

O campo denominado “quem me defende?” se organiza em torno da


crença de que a mãe não defende e/ou protege a criança que sofre a violência
sexual”.
Como exemplo de uma produção que habita este campo, temos um
casal que está em pé, de frente para uma criança sentada no chão, chorando.
Na história, a criança sofreu abuso sexual e ao contar para a mãe, esta diz que
não pode fazer nada:

“Certa criança foi enganada por um adulto e acabou sendo abusada


sexualmente por ele. O abusor se passou por amigo da família para
conseguir ter acesso à criança. Depois de violentada, a criança contou a
mãe no mesmo dia, mas a mãe explicou a filha que não poderia fazer
nada, além de afastar o adulto da criança. A criança se sentiu
desprotegida e com raiva, mas teve que guardar esse segredo e nada
aconteceu. “

Em outro desenho-estória, já apresentado no primeiro campo, temos o


desenho de uma menina chorando, segurando um urso de pelúcia e com a alça
do vestido rasgada do lado esquerdo. Em volta da menina está escrito:

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“angústia”, “medo”, “desespero”. Na história, uma menina de dez anos é
abusada sexualmente pelo padrasto e a mãe não a defende”:

(...) Quando sua mãe retornou do trabalho, Maria lhe contou o que havia
acontecido, porém, sua mãe não acreditou nela. Naquela noite Maria
sofreu com o abuso do padrasto e com a desconfiança da mãe, que lhe
deu um tapa na cara. Em outro dia, Maria ao chegar na casa de sua tia
Ana contou-lhe tudo. Tia Ana acompanhou Maria a uma delegacia e lá
fizeram todos os exames e o padrasto de Maria foi preso.”

INTERLOCUÇÕES REFLEXIVAS

Os campos de sentido afetivo-emocional que pudemos produzir


interpretativamente a partir do conjunto de desenhos-estórias, “o perigo mora
em casa” e “quem me defende”, possibilitam a visão de um imaginário segundo
o qual a criança que sofre abuso sexual vive em um ambiente perigoso,
desprovido de segurança e cuidados.
Em todas as produções observamos expressões de um padrão familiar:
o pai é ausente e, em algumas histórias, ele é substituído pela figura de um
padrasto violento, que é o abusador. Em comum, todos os perpetradores são
do sexo masculino, próximos da criança, nos levando a ressaltar, com ajuda de
Bleger (1963/1984), que estamos diante de estruturas paranoides.
Por outro lado, a mãe, considerada a responsável pelos cuidados à
criança não a protege, seja porque defende seu companheiro, o abusador, seja
porque não se interessa pelo sofrimento do filho. A falta de alguém que defenda
as crianças remete-nos às discussões sobre os papéis e as funções da mãe na
vida familiar. Carregando, ao longo da história ocidental, um lugar de
submissão ao poderio patriarcal, com profundas marcas de sexismo, racismo e
violência dentro da própria família (Corbett, 2014), as mulheres brasileiras nem
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sempre estão em condições de, vale dizer, defender seus filhos. A ideia de que
essa mãe não faz alguma coisa para proteger a criança estabelece a ela um
lugar enfraquecido, muitas vezes judicativo, o que nos parece delicado, em se
tratando de imaginários daqueles que trabalharão com as famílias em
sofrimento.
As vítimas, aqui imaginadas, foram abusadas em ambiente familiar, o
que, coaduna com as pesquisas correntes sobre o tema (Zambon et al., 2012;
Drezett et al., 2001; Lopes et al., 2004; Cerqueira e Coelho, 2014). Entretanto,
a expressão do imaginário desse grupo de estudantes desvela uma ideia
definida e pronta de que o agressor é membro familiar da vítima e que a casa
não é um lugar que protege a criança. O sujeito coletivo, estudantes de
psicologia, manifesta a crença de que a criança é abusada porque existe um
elemento mal, o abusador, e porque existe um elemento fraco, omisso, a mãe
que não protege. Cabe questionarmos se a formação do curso de psicologia
estaria contribuindo para uma postura, em situações angustiantes, de abertura
de imagens não lógicas e ideias desconcertantes, que possibilitem, ao
profissional dessa área, uma escuta mais livre de conceitos definidos das
dinâmicas familiares. Como destacamos no início do texto, é importante que
estudantes, futuros profissionais, estejam atentos aos impactos dos
atendimentos marcados por caraterísticas angustiantes, tais como crianças
vítimas de estupros, e as condutas preconceituosas ou defensivas que possam
participar desse contexto. Indubitavelmente, as consequências da violência
sofrida seguem na vida dessas crianças.
Assim, acreditamos que além de ser demasiado importante a discussão
do tema das crianças que sofrem abuso sexual, reconhecendo que precisam de
atendimento nos mais diversos âmbitos, tais como jurídicos, hospitalares,
psicológicos e outros, vale também lembrar que há autores que vêm tratando
do tema como uma questão de saúde pública (Corbett, 2014; Santos &
Yakuwa, 2015; Morais et al., 2016).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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