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Psicanálise

e política:
UMA NOVA LEITURA DO POPULISMO

Christian Hoffmann
Joel Birman

1 ~ edição

2018
São Paulo
Instituto Langage / Université Paris Diderot
Copyrigh t© d a 1' Edição, 2018, Instituto La ngage
Todos os direitos reservados. A reprodução não-autorizada desta publicação,
no todo ou em parte, constitui violação de direitos autorais.
1' Edição
2018
Editores A fascinação coletiva generalizada pelo ultra-liberalismo 11
Sergio Lopes Oliveira
Erika Pa rlato-Oliveira
Christian Hoffmann
Editor Técnico Psicanálise e filosofia política na contemporaneidade
Celso Riquena
Sobre as categorias de povo, de populismo e de identidade na
Conselho Editorial
Alfredo Je rusalinsky
atualidade 21
Ana Paula Ramos de Souza
Bahia Guellai Benedicto A. D. Vitoriano Joel Birman
Catherine Saint-Georges C hristian Hoffmann
David Cohe n Eric Bidaud Fedem, Kelsen, Laclau e a dimensão anti-institucional
Erika Parlato-Olive ira Inês Catào da democracia 51
José Carlos Cavalheiro Joe l Birman Vladimir Safatle
Maria Cristina Kupfer Marie Christine Laznik
Marie-Claire Busnel Maya Gratier
M yriam Szejer
Populismo, política e subjetividade 65
Severina Silvia Ferreira
Terez inha Rocha Almeida Thats Cristófaro Silva Roland Chemama
Vera Blondi na Zimmermann
Projeto Gráfico Identidade, gozo e as potencialidades democráticas do populismo 77
Thiago Pagin Thomás Zicman de Barros
Capa
Thiago Pagin sobre obra de Gi nette Hoffmann "!st.hmes" O povo como identidade sem substância e as variações
Revisão do populismo 115
Celso Riquena Felipe Rafael Linden
Tradução
Regina Macêna Entrevista de Yannis Stavrakakis com Dimitra Athanassopoulou 133
Marila nde M artins Abreu
Discória, dívida e populismo 143
Dimitra Athanasopoulou
Dados Internacionais de Catagolaçào na Publicação (CIP)
Entre afeto sem representação e afetos compartilhados e orientados
Christia~ Hoffmann e_ Joel Birman (Orgs.) Psicanálise e Política: uma nova leitura dopo-
pulismo / Chn stlan Hoffmann e Joel Birman (Orgs.) - 1 ' . Ed. - São Paulo: Instituto
(com ou sem líder): sujeito do social e povo do populismo,
Langage/Université Paris Diderot, 2018. dupla leitura entre Nuit Debout e populismo à esquerda 159
192 p. 21 cm Ade/e Clément
ISBN 978-85-62686-27-6
Governamentalidade e subjetivação política:
1. Psicanálise 2. Política 3. Filosofia 4 . Populismo 5. Cultura 6. Psicologia das Massas 175
Foucault e o populismo
Luiz Paulo Leitão Martins
CD D 18.928982
A predação 194
Impresso no Brasi l Marie-Jean Sa uret
INSTITUTO LANGAGE
Alameda Santos, 1398 - conj. 67 - São Paulo, SP
Crítica psicanalista do populismo no Brasil: massa, grupo e cl~sse 203
Telefone: (11) 3473 5458 Christian Ingo Lenz Dunker
www.in stitutolangage.com.br
insti tutolangage@institutolangage.com. br Algumas considerações sobre o populismo no contexto da crise na
lnstituto
facebook.com/Instituto-Langage Langage Grécia do ponto de vista psicanalítico 225
Yorgos Dimitriadis
#

APRESENTAÇAO
O AVESSO DO POPULISMO

A finalidade deste livro é tentar pensar a problemática da política


com a psicanálise. Como sabemos, a questão da política sempre foi pro-
blemática na tradição psicanalítica. De fato, os psicanalistas sempre se
sentiram desconfortáveis em pensar política, como se as questões éticas
levantadas pela psicanálise desde Freud nada tivessem a ver com polí-
tica. O que é uma coisa surpreendente que mostra como o pensamento
psicanalítico se perdeu após o percurso freudiano da psicanálise. Bem
sabemos que a pretenção de Freud sempre foi a leitura da singularidade
do sujeito em conjunção com os problemas maoires da sociedade e da
cultura. Há em Freud uma preocupação com o futuro da civilização
moderna, na qual a problemática da política é bastante presente.
Podemos evocar várias obras onde Freud relatou a problemática
da política, a saber, Totem e Tabu, Psicologia das massas e análise do eu,
Mal-estar na civilização, Moisés e o monoteísmo. No entanto, a tradição
psicanalítica pós-freudiana rechaçou a preocupação legítima de Freud,
o que resultou que as ciências sociais e a filosofia política não levaram
em conta as contribuições da psicanálise para pensar a política, como
uma espécie de eco dos psicanalistas em relação à política.
Nesse sentido, levar em consideração a psicanálise no tempo como
ferramenta teórica para pensar a política veio primeiramente da teoria
crítica freudo-marxista e posteriormente, da retomada de Althusser
das contribuições de Freud e Lacan para pensar a política. O desafio
disso foi a problemática da ideologia como uma prática de dominação
política em que o sujeito estava totalmente em questão.
É a partir daí que alguns autores contemporâneos tentam extrair
uma reflexão renovada sobre a política a partir de uma retomada da psi-
8 9
1 fi J> 1J lll 1111,1 • \ lt i u .1 1.lo p• 1 11

canálise. Este é o caso de Ernesto Laclau, Slavoj Zizek e Judith Butler. par com um possível deslize rumo ao totalitarismo, a menos que consi-
Deve ser lembrado que eles fizeram uma discussão muito densa em um deremos com Lacan que a psicanálise é um trabalho de desconstrução
livro intitulado Após a emancipação', onde podemos notar as diferentes do grande Outro até o reconhecimento de sua inexistência. Nesta pers-
leituras para pensar a Esquerda hoje. Para esses autores, a questão do pectiva, podemos retomar a tese de Butler sobre a precariedade onde a
sujeito na psicanálise é absolutamente fundamental para pensar o su- sociedade seria uma composição do precário. Daí a questão do sujeito
jeito político. Pode-se dizer que a psicanálise se tornou o interlocutor definido por uma falta-de-ser como matéria-prima para pensar o sujei-
privilegiado daqueles autores que ocupam a atualidade do pensamento to político e a questão da identificação no lugar da identidade.
político hoje. O mesmo vale para o universal que não abrange qualquer totali-
É preciso reconhecer que esse renascimento do pensamento polí- dade, portanto o universal deve ser tomado de maneira contextual e
tico atual gira em torno do trabalho de Laclau, embora Butler e Zizek contingente. Isso supõe uma abertura do universal que deve reconhecer
sejam importantes e reconhecidos nesse campo. os particularismos, relativizando-os em relação a qualquer essencial is-
O ponto de partida da teoria de Laclau é muito polêmico do ponto mo de identidade. É desse modo que a hegemonia poderia ser pensada
de vista da tradição da ciência política. De fato, Laclau tenta retomar em uma perspectiva tropológica.
o conceito de populismo que sempre foi marcado à direita, desenvol- Esta reflexão converge para uma nova concepção da noção de povo.
vendo a idéia de um populismo de esquerda. Ele se baseia em Freud e Este último sempre foi tomado pelo pensamento político de direita
Lacan para pensar o conceito de hegemonia em Gramsci, além de ten- como defensor dos valores da tradição, enquanto Laclau desenvolve
tar pensar essa hegemonia a partir das práticas de discurso no campo uma perspectiva da esquerda propondo a nova ideia da produção do
social e para elaborar a categoria de povo a partir dessa hegemonia. povo da hegemonia tal como ela se organiza em torno de um signifi-
Ele quer criticar a noção de identidade para sair dos particularismos e cante vazio.
chegar à construção de um contingente universal. Todos os autores deste livro estão convencidos de que o desafio
Existem algumas questões que são amplamente desenvolvidas neste maior da psicanálise hoje é pensar o sujeito da política a partir da psi-
livro entre psicanalistas, filósofos e pesquisadores em ciência políti- canálise, do mesmo modo que Lacan pensa o sujeito da psicanálise em
ca, a saber, o desamparo, o universal, a identidade, o povo e o sujeito relação ao discurso da ciência.
político como sendo as principais coordenadas para repensar o campo
político hoje. Christian Hoffmann
O desamparo em Freud que assumiu hoje a forma de vulnerabilidade Joel Birman
e precariedade dão origem em Butler à um pensamento ético e políti-
co no contemporâneo colocando o afeto no centro do debate político.
Enfatizamos a problemática psicanalítica e política que poderia gerar
a utilização do desamparo tanto quanto ela instaura o Outro em uma
posição de tudo-poder, tese de Butler sobre o sujeito freudiano como
marca para o assujeitamento e norma. A partir disso, pode-se preocu-

1 Aprés l'émancipation - Trais voix pour penser la gauche. Paris: Seuil. 2017-
,.,
A FASCINAÇAO COLETIVA
GENERALIZADA PELO
ULTRA-LIBERALISMO
Christian Hoffmann 1

Definir o inconsciente, como fez Lacan,


através de sua proposição celebre que "o in-
consciente é a política", supõe que nós consi-
deramos que o sujeito político é o sujeito da
psicanálise2•
Vou desenvolver essa hipótese a partir da
Psicologia das massas de Freud, tal como ela foi
retomada por Lacan ao fim de seu seminário
sobre Os quatro conceitos fundamentais da psica-
nálise3. Lacan acabara de ser excluído da IPA,
por seus colegas, e ele viu neste ato uma re-
sistência a isso que ele estava abordando para
além do Édipo. Esta reação de seus colegas psi-
canalistas pode ser compreendida, como isso
que vamos encontrar no coração do populis-
mo, a saber, um medo de um colapso dos valores.
A reação foi fiel a análise de Max Weber sobre

1. Psicanalista. Professor e directo r da Ecole Doctorale de


Estudos Psicanalíticos da Universidade Paris Diderot (Paris 7).
Professor emérito da Universidade de Shangai. Membro da
Association Espace Analytique.
·o
2. J. Lacan, tempo lógico·. Écrits. Seuil. 1966, p. 213 : ·o
· coletivo não é nada mais que o sujeito do individual'.
3. J. Lacan, Les q uatre concepts fondamentaux de la
psychanalyse, Seuil. 1973-
12
13
Ili t: 11 Ir H. 1
um 1 110,,1 lcirur., do populhmo

as instituições que passam mais tempo a se p roteger que a procura de A partir desse esquema, Lacan se interessará pela co njunção ent re
novidades. Ideal do eu, I (A) e o objeto causa do desejo (onde se significa a falta
0
Mais do que nunca, Lacan vai se identificar com Spi noza e a sua no ser). Essa conjunção constitui a fasc inação pelo hipnotizador e a da
defini ção do desejo como sendo a essê ncia d o homem. Isso que vem massa pelo seu líder.
a definir o suj eito do d esejo como o suj eito político na cidade. Após Pode-se di zer, em seguid a, q ue a psicanálise visa exatamente o co n-
te r desenvolvido sua teoria do desejo, Lacan termina seu seminário do trário, a saber, sua d istancia máxima.
modo mais analítico, faze ndo ent rar, na linha de Freud, a psicologia Efetivamente, pode-se compreender fac ilmente que quando o ob-
coletiva e a ps icologia individual. jeto narcísico, i'(a) leu como a imagem que envolve o objeto pulsional,
O suj eito do desejo, o falaser, que é atravessado por uma falta, na que fo rnece sua u nidade ao corpo e então ao eu, que é sempre narci-
medida em que nenhu m objeto do mercado é capaz de satisfazer suas sista, que es te ob jeto aponta para um x "extime': como o chama Lacan,
pulsões, como di z R. Gary "se pode morrer de sede ao lado de uma que é a falta que faz do objeto a causa do desejo, que Lacan designa pelo
fo nte", esse sujeito é de uma essência ext remamente dife rente do sujei- objeto a. Este objeto a, causa do desejo, é produ zido pela experi ência
to narc is ista q ue sai do seu individualis mo, que é galopante hoje, pela de gozos que deixa sempre a desejar, pelo fato que há relação en tre o
fasci nação coletiva. gozo que é encontrado e este q ue é procurado, ce n'est pas ça! não é isso!
Como sabemos, após a Psicologia das massas e análise do eu, de Freud,
a hipnose e o amor dão a formula da fasc inação coletiva. O que já é uma E quando este objeto i'(a) se associa
resposta ao por que da servidão voluntári a de La Boétie, não esq ueça- aos ideais que o líder encarna através
mos que o subtítulo do seu famoso livro é "Contra Um" ("Co ntr'Un").
da massa como, por exemplo, a
Apoiarei meu desenvolvime nto sobre o esquema fre ud iano da cons-
tituição da massa: autoridade, então se produz uma
fusão entre a economia política e a
economia libidinal em que o resultado
é a fascinação. Basta assistir O
ditador de Chaplin para se perceber
este fenômeno onde Hitler fascina a
Objeto externo
massa por uma vociferação, uma voz
sem enunciado. O que é uma massa
fascinada por um líder que encarna
fsquema de Freud valores em colapso, sem um verdadeiro
Fonte: Lacan. Seminário, livro 11(1964/ 1989, p. 257). discurso de razão, isso não é a própria
definição de populismo?
14 15

A análise, por sua vez, visa o retorno da demanda de reconheci- O populismo de qualquer forma é uma encarnação desse desejo
mento de seu ser de gozo narcísico (economia pulsional) em reconhe- puro, o fascismo é a inclinação natural do populismo\ que demanda
cimento de seu desejo (de sua falta a ser como causa de sua economia o sacrifício daquilo que o ameaça, esta ameaça hoje é encarnada pelos
pulsional). É por este ato que o objeto a se distancia de I(A), do Ideal do imigrantes na Europa, num chamado a uma "personalidade autoritária"
eu. Por isto, o analista vem encarnar o hipnotizado, numa hipnose ao e a uma política autoritária encarregada em manter "a integridade da
contrário, pela separação da pulsão com o Ideal. ordem moral" aqui onde os sujeitos sustentam uma ameaça de decom-
posição de seu pertencimento a um "nós", como indica Ivan Krastev em
A identificação ao ideal cai graças ao encontro da fantasia funda- "O Destino da Europa"5• Basta pensar no movimento "la manif pour
mental. A história entre Alcebíades, Sócrates e Agatão no Banquete de tous", (a manifestação para todos) para ser convencido, se necessário.
Platão, é exemplo desse sujeito, Alcebíades endereça seu amor a Sócra- Uma obra de 2005 de Karen Stenner, A Dinâmica Autoritária teste-
tes, que indica que o verdadeiro objeto de sua pulsão é Agatão. Temos munha aqui, muito utilmente, a pertinência da aproximação psicológi-
aqui um exemplo da separação entre I(A) e o objeto a. Isso que faz a per- ca desta demanda de governo autoritário. Ele se movimenta nos traba-
da da identificação deixa o sujeito com a realidade de seu inconsciente, lhos de Adorno que ficou encarregado de iniciar, em 1950, um grande
ou seja, com a pulsão. programa sobre este ponto. Daí o sentimento freudiano de Déjà vu.
Ninguém vai contradizer Lacan sobre a invasão atual pelos dois ob- E. Balibar faz uma correlação entre a formação do "eu" e esta dos
jetos que são o olhar e a voz. Nas mídias, ressaltemos que é mais nosso grupos chamando-os, "o momento do transindividual na obra de Freud"
olhar que nossa visão (do mundo), que é solicitado. num capítulo sobre Spinoza, Marx e Freud de seu último livro6, no qual
Lacan abriu sua política do inconsciente, em seguida ao drama ele faz corresponder a possibilidade de uma individualidade (em Spino-
do nazismo. Encontraremos aqui o sacrifício e a morte do objeto do za) que seria um excesso em relação a transindividualidade da pulsão de
amor "na ternura humana", onde pouco do sujeito pode resistir a morte. Isso nos leva a um retorno a Spinoza e a isso que se chama hoje
esta "monstruosa captura", exceto ser animado de Amor intellectualis uma "política dos afetos"7 •
Dei de Spinoza, em resumo, o Amor da razão. Este sacrifício é o do Spinoza construiu uma verdadeira alternativa a tirania do UM
afeto onde se significa o desejo do Outro, como exige a razão prática (do poder) fundando o "comum" (o coletivo) no desejo que afeta
de Kant por deixar subsistir um desejo no estado puro. Este sacrifício não somente nossos pensamentos, mas igualmente nosso corpo.
abre a porta, pela morte, da destruição do desejo, no qual o sujeito "O desejo é o apetite e a consciência do apetite" e é isso que é a
encontra seu limite como falta à ser. Encontraremos assim o Kant essência do homem que nos coloca em movimento para a políti-
com Sade de Lacan. Em contrapartida, o desejo do analista não é um ca: "O desejo é a essência mesmo do homem, na medida em que
desejo puro, ele resta contaminado para além da identificação ao é concebida como determinada a fazer qualquer coisa por uma
ideal, contaminado pela pulsão. É neste espaço que se abre um lugar afeição qualquer dada a ela" 8• Se pensa, com certeza, primeiro
para a tragédia, sinônimo de ética, e por consequência da política, no afeto da angústia, não se esquecendo que Freud já falava "do
um lugar para um amor para além das leis da Cidade, pensamos cer-
4. U. Eco. Reconnaitre le fascism e . Grasset. 2017.
tamente em Antígona. 5. 1. Krastev. Le destin de l'Europ e. Premier Paralléle. 2017
6. E Balibar. Sp inoza politique. Le transindividuel. Puf. 2018.
7. F. London. Les atfects de la politique. Seuil. 2016
8. Spinoza. Éthique. Ili ·
16 17
1 rn.d se 1r. ml1th. 1
11111110,.1h:11u1.td1 poptli o

afeto do real", e ao desamparo. Daí nossa questão so bre a ar ti- é resultante dos efeitos constituintes do que faz a essência do homem
cul ação en tr e o afeto e o desejo. É aqui que se pode se referir a para Lacan após Spinoza, ou seja, o desejo.
um a citação de Lacan ext r aída de seu seminári o O desejo e sua É ass im que se encontra atuali zada a ideia de Hegel que não
interpretação, que é particularmente clara sobre este ponto: "A se pode fazer filosofia sem Spinoza, que encontra um uso pós
relação do desejo do sujeito ao dese jo do O utro é dramática, con- moderno 11 , a té nas teses recentes de J. Butler 12, que tenta fornece r
tanto que o desejo do s uj eito seja s ituado an tes do desejo do O u- uma ética da vulnerabilidade que afeta o su jeito e a política. Estando
tro, o qual, contudo, o as pira literalm ente e o deixa sem recurso. afetado, o sujeito se torna um sujeito político, ou seja, um suj eito
É nes te drama que se constitu i a estrutura" 9 • É necessário, sobre responsáve l de sua posição subjetiva 13 a respeito do real de seu esta-
esta questão, retornar ao seminário sobre A Angústia para ch egar tuto de falaser e vivente. O limite do vivente e o impossível do s im-
a prec isar es ta tragéd ia do desejo. É aq ui que a le itu ra gra m at ical bólico tornando possível de certo modo a política, como o sublinha
que Lacan faz da proposição: o desejo do homem é o desejo do a seu modo E. Laclau 14 •
Outro, nos é de gr a nde utilidade. Ele distingue nesta proposição
o genitivo objeti vo do ge nitivo subjetivo, a saber, o pri m ei ro cond uz Isso que nos Leva a pensar o
o su jei to a fazer de seu desejo o ob jeto do desejo do Outro; e n- sujeito político como sujeito
tão que, no sen tido do genit ivo sub jetivo, o desejo do su jeito é o
da psicanálise no nosso mundo
desejo do O utro.
contemporâneo, onde a questão
A angústia se inscreve na relação do 11comum" em relação ao
do sujeito ao desejo do Outro, individualismo pode se resumir
o que comporta o risco de se tornar o a uma definição da identidade
objeto de gozo do Outro e desaparecer como individuo ou como jogo de
como sujeito. Em resumo, é necessário pura diferença, num conjunto
distinguir a identificação ao onde o significante-unário em
objeto de gozo do Outro da Lugar e posição do discurso do
identificação ao seu desejo. mestre se torna um significante-
zero, ou seja, um significante da
Por exemplo, nós estamos afetados pelos imigrantes 10 reduzidos a
falta.
espectros, seja por que nós temos um desejo "comum" ("commun"),
isso que outros chamam hoje um amo r da democracia (da política).
Em resumo, uma política de afetos, livres da paixão (do gozo) do Um, 11. A Negri. Spinoza el naus. Galilée. 2010
12. J. Lacan Écrits. Seuil. 1966. p. 858.
9- J. Lacan. Le désir et son interprélal io n. La Marliniére. 2013 , p. 502 13 J. Butler. Rassemblement. 2016. Fayard. Cf. également: J. Butler. E. Laclau et S. S. Zizek.
10. S. Smith. La ruée vers l'Europe. Grassei. 2018 . G. Didi-Huberman et N. Giannari. Passer. Aprés l'émancipation. 2017, Seuil.
quoi qu'il en coüte. Éditions de Minuit. 2017. E. Jelinek. Les Suppliants. L'Arche. 2016 . 14. E. Laclau. La guerre des identités. La découverte. 2015. p. 105
18 19
P,u.:,u1.tl1',(.' e pol11 iL,I" u111.1 no,.1 lciu11,1 do pupuli,mo

O que é um modo de colocar o universal de forma diferente como da sublimação (a ciência e a arte) e a quem à cultura é imposta, daí
o faz Étienne Balibar. No seu livro Universais 15, 2016, Balibar ;ala do 0 ressentimento contra a elite. O que faz, na minha opinião, nossa
"conflitos dos universais" em Hegel que não avança sem O fato da atualidade política, através da ascensão do populismo. É aqui que
"enunciação do universal" (numa proximidade de Spinoza, sub specie intervém a religião como forma sublimada das pulsões pela trans-
16
aetemitatis , e de Foucault, a parrêsia) que deixa sempre um resto posição do desejo infantil na modalidade de esperanças messiânicas
que faz o objeto do conflito como, por exemplo, este de Creonte e coletivas, o que Freud qualifica de ilusão e que Balibar reconhece
Antígona ou o da fé e da razão. Basta compreender que O univer- como "o universal freudiano".
sal se particulariza em se anunciando. A lembrança de Benveniste Esta dialética, retomada por Freud e discutida por Balibar, entre
é judiciosa para interpretar Hegel mostrando que a apropriação da a fé e a razão (saber), é atravessado por seu pessimismo, ligado a sua
linguagem passa pela enunciação do sujeito. percepção do declínio do universal da fé 1 7, que perdeu no Ocidente
Balibar trata em seguida, da relação entre o universal e a ideolo- sua capacidade de cultura próxima das massas, e a impotência dos
gia, entre Hegel e Marx, para melhor fazer surgir a parte da incons- universais da razão se substituem por mecanismos de identificação
ciência (a dominação e a violência) repelida por Hegel. Não se pode coletiva para cimentar e fazer evoluir o laço social.
mais que subscrever, a evocação de Barthes para quem "toda ideolo- É por Psicologia das massas de Freud que ele vai esclarecer esta
gia é dominante" e leva a questão da enunciação do universal (da lei) tese freudiana e, notadamente por sua descrição dos mecanismos
na modalidade do universal, e não do privilégio. O desenvolvimento de obediência a autoridade, a referência ao carisma dos chefes e a
que segue sobre a relação entre os dominados e os dominantes abre universalidade das ideias (ideologia), com benefício para o sujeito
a interrogação para Freud. do poder renunciar a sua capacidade de julgamento, entregando-a
Ele toma os últimos textos de Freud sobre a cultura que vão de nas mãos de um Outro. Se reconhece nesta identificação a servidão
O futuro de uma ilusão (1927), a Mal-estar na Cultura (1936), passando voluntária, na qual a autoridade prevalece sobre a igualdade e faz
por Psicologia da Massas e Análise do eu (1921). A hipótese de Balibar desaparecer a ideia de emancipação.
é que Freud enuncia sob o nome de cultura (então, do universal) um Balibar chega a conclusão que Freud concebeu uma característi-
dos paradoxos da universalidade em situando sua enunciação ao ní- ca das enunciações do universal que causa o conflito (Hegel) e a do-
vel do inconsciente. Assim, na sua leitura de O futuro de uma ilusão minação (Marx) nessa formação de um "ideal do nós" ("a comunida-
Freud toma suas distancias com a ideologia germanizante da oposi~ de") que implica recalque e sublimação das pulsões de vida e morte.
ção entre cultura e civilização. Como já sabia Rousseau, o universal não é a simples representação
A leitura política que faz Balibar permiti-lhe colocar às claras de uma unidade, mas ele representa a idealização que institui um
que para Freud a cultura compensa o renunciamento aos desejos laço entre estes que assim se unem.
infantis e inspira o amor do trabalho aos homens que mergulham no É interessante notar que os nomes do universal, como lembra o
princípio de prazer. Mas essas duas necessidades são mais difíceis autor, são equívocos e não basta substituir um universal por outro,
de realizar nas classes populares que não participam dos prazeres por exemplo, o mercado pela comunidade ... para criar um conflito.

15. E. Balibar. Des Universels. Galilée. 2016. 17. Se terá na leitura que faz Lacan da religião em Le triom phe de la religion. Seuil. 2005: "Sim .
16. L. W(llgenstein retoma esta questão nos seus Cadernos de 1914-1916. para situar O ponto ela (a religião> não trinfurá somente sob a psicanálise. ela triunfará sob outras coisas ainda.
de Junçao entre a estética e a ética. Não se pode mesmo imaginar quão poderosa é a religião· p. 79. (Lacan. 1974).
20

,
Observemos a pertinência de Balibar ao destacar que na mundia- PSICANALISE E
lização, "o universal é sempre já dito". Basta evocar o famoso "TINA"
("There is no alternative") que é o discurso político da ausência de es- FILOSOFIA POLÍTICA NA
colha que atravessa a Europa e a mundialização 18 •
CONTEMPORANEIDADE 1
SOBRE AS CATEGORIAS
DE POVO, DE POPULISMO
E DE IDENTIDADE
NA ATUALIDADE 1
Joel Birman2

I. Preâmbulo
A leitura das publicações teóricas recen-
tes indica claramente que existe uma novidade
teórica evidente em alguns discursos filosóficos
da atualidade, nos quais se enunciou de forma
eloquente teses interessantes e sugestivas para
pensar nos "destinos políticos da esquerda no

1. Este texto foi escrito à partir das notas que me orientaram


na conferencia realizada no colóquio intitulado "Psychologie
des foules et populisme li Peuple et identité", realizado em
22 de fevereiro na Université Paris Diderot, que foi organizado
pela École Doctoral de Psychanalyse da Université Paris
Diderot e o Institui de Science Politique de Paris.
2 Psicanalista. Membro do Espaço Brasileiro de Estudos
Psicanalíticos e do Espace Analytique. Professor Titular
do Instituto de Psicologia da UFRJ, Diretor de Estudos em
Letras e Ciéncias Humanas da Universidade Paris Diderot.
Pesquisador associado do Laboratório · Psicanálise e
Medicina e Sociedade" e Professor associado da École
18. 1. Krastev. Le destin de l'Europe. Premier Paralléle. 2017, p. 95. J. Stiglitz. L'euro. Como uma Doctoralle de Psychanalyse da Université Paris Diderot
moeda única ameaça o futuro da Europa. Babel. 2018. .Pesquisador e Consultor Ad-hoc do CNPq.
23
22
unu no, ..l lciturJ tio populi�n10
P,1 1n.tl1,l' L: polllil,I

mundo contemporâneo". Contudo, é preciso afirmar desde o início des­ zer, é para a constituição desse acontecimento discursivo decisivo que
te ensaio que se essa novidade é evidente ela é, em contrapartida, com­ devemos ficar atentos neste ensaio, para que possamos apresentá-lo na
pletamente inesperada. Com efeito, não há qualquer dúvida que é entre sua complexidade.
a dita evidência patente, que pode ser facilmente verificada pela leitura A dita inversão discursiva pode ser avaliada pela leitura da obra
de alguns textos importantes de certos autores que se destacam na cena intitulada "Contingency, Hegemony, Universality: Contemporary Dia­
filosófica do mundo contemporâneo, e o que se enuncia como inesperado logues on the Left", 4 que foi composto pelo debate que foi então esta­
nessa evidência, que se enuncia o campo da novidade teórica em questão belecido entre Judith Butler, Ernesto Laclau e Slavo Zizek, em 2000.
no cenário atualidade. Com efeito, nos três autores implicados nesse debate a psicanálise foi
Qual é então a novidade teórica hoje em pauta, afinal de contas? fartamente referida como discurso teórico, pelos diferentes textos que
Nada mais nada menos, do que a posição teoricamente estratégica foram então elaborados, num contexto estritamente dialógico.
que foi conferida à psicanálise nesses diferentes discursos filosóficos No entanto, é preciso salientar ainda qual foi a problemática,5 no dis­
que procuraram pensar nas alternativas para a esquerda hoje. Se essa curso psicanalítico, que foi destacada pelos diversos autores em questão,
posição estratégica é efetivamente nova no campo discursivo, numa no dito debate teórico. No que concerne a isso, não há qualquer dúvida
perspectiva histórica, isso se deve ao silêncio anterior conferido à psi­ que foi a problemática do SL1jeito que foi o ponto de convergência entre os
canálise quando o discurso político estava em pauta, principalmente diferentes autores, no destaque que foi conferido à psicanálise para pen­
na tradição das esquerdas ao longo do século XX. Neste contexto his­ sar o campo da política na contemporaneidade. No comentário que es­
tórico, a psicanálise era representada seja como apolítica, na melhor creveu sobre as "universalidades contingentes", que se inscreve no cam­
das hipóteses, seja como decididamente reacionária e conservadora na po deste debate e diálogo, Judith Butler explicitou isso com eloquência. 6
)

pior das hipóteses. Com efeito, o discurso psicanalítico era figurado Portanto, a intenção deste ensaio é a de pensar nas condições con­
como um discurso político e ideológico, representativo dos interesses cretas de possibilidade desta referência teórica à psicanálise no campo
da pequena burguesia, não podendo assim se inscrever decididamente da filosofia política de esquerda na contemporaneidade, na qual se evi­
no ideário político da esquerda. dencia a importância conferida à problemática do sujeito no discurso
Portanto, uma inversão significativa ocorreu efetivamente na con­ psicanalítico. Entretanto, tais condições concretas de possibilidade se
temporaneidade em relação a isso, que deve ser não apenas registrada, inscrevem numa temporalidade histórica, de forma que as leituras des­
mas também reconhecida em toda a sua eloquência, pois algo de origi­ sas condições de possibilidade devem se inscrever no campo teórico da
nal se delineou na inscrição da psicanálise na contemporaneidade, de genealogia/ tal como Foucault retomou esse conceito à partir da leitura
forma que se tornasse uma referência teórica crucial para a teorização crítica de Nietzsche sobre a filosofia da história. 8
da filosofia política na atualidade.
No que tange a isso, é preciso reconhecer efetivamente que a dita 4- Butler. J .. Laclau, E., Zizek, S. Contingency, Hegemony, Universality: Contemporary
Dialogues on lhe Left. Londres, series. 2000.
inversão em pauta, no que concerne a psicanálise, evidencia que es­ 5. Foucault. M. Dits et écrits. Volume IV. Paris. Gallimard. 1994.
6. Butler, J. 'Des universalités contingentes·. ln: Buller, J., Lacan, J.. Zizek, S. Aprés
tamos em face de um acontecimento discursivo,3 que deve ser pensado l'émancipation. Trais voix pour penser la gauche. Paris, Seuil. 2017-
7. Foucault. M. 'Nietzsche, la généalogie, rliistoire·. (1970). ln: Foucault. M. Dits et écrits.
devidamente nas suas linhas de força e nas suas linhas de fuga. Vale di- Volume 1. Op. cit.
8. Nietzsche, F. Seconde considération intempestive. De l'utilité et de l'inconvénient des
éludes historiques pour la vie. Paris, Flammarion. 1989.
3- Foucault. M. Dits et écrits. Volume IV. Paris, Gallimard, 1994.
24
25
' 1 Jl IIH; l'
l\'1 t 1111\ 1 lut111,1 li,, pop1 1 11

II. Universal e particular


mundo e na sua ideologia. Contudo, como para Marx a classe operá-
Parece não existir qualquer dúvida que estamos confrontados hoje
ria teria perdido tudo, inscrita que estaria num "escândalo universal" e
com um novo debate sobre o universal pelo menos na tradição política
num "crime notório", 12 no contexto histórico do modo de produção ca-
da esquerda, que procura repensar o argumento teórico do universa-
pitalista, o proletariado poderia representar assim o universal, pois teria
lismo face ao particularismo na atualidade. Foi no contexto histórico e perdido assim a sua posição social de particularidade no capitalismo.
teórico deste debate filosófico que Bali bar passou a propor a existência
Contudo, foi a crítica sistemática desse argumento de Marx é que
do universalismo no plural e não mais no singular, enunciando assim a
redundou no referido silêncio desse argumento, centrado na luta de
existência de universalismos.9
classes no modo de produção capitalista, que conduziram à impossibili-
O que é preciso se indagar, no que concerne a isso, é se a pluralização
dade e mesmo ao impasse no discurso político da esquerda. Com efei-
da categoria do universal transforma as regras discursivas do campo do
to, o proletariado não poderia mais representar o universal, tal como
universal de forma radical, nos lançando num outro recomeço teórico
enunciou Marx, na medida em que a classe operária ficaria restrita ao
no campo da filosofia política. De qualquer forma, diferentes autores
horizonte ideológico do particularismo, pois as coordenadas sociais e
importantes da tradição política e filosófica da esquerda se inscreveram
políticas se transformaram progressivamente no capitalismo desde a
no campo desse debate, para repensar o estatuto teórico do universalis-
segunda metade do século XIX.
mo, tais como Judith Butler, Ernesto Laclau e Slavo Zizek, respectiva-
O argumento clássico de Marx foi criticado por duas ordens de ra-
mente. A obra "Contingency, Hegemony, Universality: Contemporary
zão, a saber, no desenvolvimento histórico posterior do capitalismo o
Dialogues on the Left" 1º foi a cena teórica onde esta discussão ocorreu
proletariado não se manteria na mesma posição de poder representar o
efetivamente e os argumentos levantados pelos filósofos implicados no
universal e teria se restringido assim ao particularismo, por um lado, as-
calor desses debates continuam ainda vivos na atualidade.
sim como não obstante se inscrever para Marx no registro da sociedade
É preciso reconhecer sobre isso que estamos inseridos hoje numa
civil e da superestrutura social, estaria numa posição de dependência da
posição teórica de impasse, para que possamos pensar o discurso da políti-
infraestrutura econômica no modo de produção capitalista, pelo outro.
ca na sua especificidade na tradição política da esquerda e do pensamen-
Além disso, é preciso destacar ainda que no impasse e na impossibi-
to propriamente socialista. O que está aqui em pauta é o registro teórico
lidade do discurso político da esquerda hoje, além da polêmica do argu-
do universalismo, como disse acima, tal como esta categoria teórica foi
mento teórico de Marx, é preciso considerar o colapso social e político
concebida inicialmente por Marx na obra intitulada "Contribuição à
do socialismo real em consequência da derrocada da União Soviética,
crítica da filosofia do direito de Hegel". 11
ass im como a expansão espetacular da sociedade neoliberal em escala
Qual era o argumento de Marx, no que tange a isso?
global no mundo contemporâneo, pela qual os antigos países perten-
Assim, na formulação clássica de Marx o proletariado foi figura-
centes ao bloco soviético passavam a se inscrever também no campo da
do como representante do universal, não obstante ser uma classe so-
globalização neoliberal. Ao lado disso, mesmo países que se denominam
cial particular e ser então marcada pelo particularismo, na sua visão de
como comunistas, como a China, se inscreveram na lógica neoliberal
9 Balibar, E. Des universels. Paris Galilé 2016 de produção de riqueza, passando a se regular também pelo processo
'.º·Butler. I "Des universalités contingentes·. ln: Butler. J.. Laclau, E.. Zizek. s. Aprés
l emanc1pat1on. Tro1s vo,x pour penser la gauche. Op. ci t. de mundialização da economia internacional.
l i. Marx, K. Contribu_tion à la critique de la p hilosophie du droit de Hegel. ln: Marx, K. Critique
du dro,t polit,que HegéL Paris, Sociales, 1975, p. 201-212.
12. Ibidem.
26
27
unM 110\.1 kitur., cio {Hlpuli,1110
É .
preciso evocar ainda, para tornar mais complexa o campo t , .
dest J • d • eonco enunciou de forma precoce no seu percurso político, quando era prisio-
a eitura o impasse e da impossibilidade do pensament d
querda por M . o e es- neiro do regime fascista e escreveu os célebres "Cadernos de prisão". 13
arx, que a interpretação economicista de M d
no deter · · arx, centra a Assim, foi neste contexto histórico que Gramsci enunciou o concei-
m1nismo estrito da infraestrutura econômica sob
to de hegemonia para pensar o registro da política na sua especificidade
;est~~tur; política, social e ideológica, foi sistematicament:ec~t;:::~
e autonomia. Com efeito, para constituir a hegemonia necessário seria o
am em esde as primeiras décadas do século XX po d"-'" ,
ricos ma · , r 11 erentes teo- trabalho minucioso de tecer alianças entre diferentes classes e segmen-
rx1stas. O que estava basicamente em foco nessa , .
a posiç' d 1 . autonomia do registro da política f; cntica
ao e reativa , .
era tos sociais, para fazer assim avançar as linhas de forças das lutas sociais
trutura eco • • . ace a infraes- e políticas no espaço social, constituído que esse seria por múltiplos
,. nom1ca, na medida em que seria no campo específico da
po 11t1ca que os emb t . conflitos violentos e poderosos. 14
a es e antagonismos sociais tomam efetivamente
corpo e forma. Em decorrência disso, a categoria de vontade seria então crucial
para tecer as linhas de forças das alianças para forjar a hegemonia,
Portanto, é em torno da articulando assim as diferentes classes e segmentos sociais. 15 O que
reflexão teórica do campo implica em dizer que se o argumento da luta de classe formulado por
específico da política, na sua Marx não seria descartado, seria, no entanto, relativizado e deslocado
do confronto frontal do proletariado com as classes dominantes. O que
autonomia face ao registro
importa de forma decisiva na cena política assim reconfigurada, enfim,
da infraestrutura econômica
.
que se inscreveram os debates
' seria a posição estratégica ocupada pela classe operária na tessitura da
hegemonia.
contemporâneos para delinear Ernesto Laclau e Chantal Mouffe retomaram o conceito de hege-
novas alternativas para a monia enunciado por Gramsci, em 1985, para formular o conceito de
esquerda. democracia radical, na obra intitulada "Hegemony and Socialist Stra-
tegy: Towards a radical Democratic Politics". 16 Assim, para construir
O que se im • · a democracia radical numa perspectiva hegemônica necessário seria
. pos assim como problemática crucial foi a inda a ão
sobr~ ~ universal no registro específico do campo da política
cond1çao de autonomia. '
n!
!ua
desconstruir a tese marxista clássica - a relação estabelecida entre a
infraestrutura econômica e a superestrutura ideológicas e política, de
forma determinista e unívoca - , de qualquer inscrição ontológica. 17
III. Hegemonia e democracia radical Isso porque o registro estritamente econômico seria sempre político

, ~orno se sabe, na tradição marxista Gramsci, entre outros s • e não poderia ser desse separado. Com efeito, o registro da economia
a leitura economicista do discurso teórico de Marx d d ' e opos seria um dos lugares discursivos das lutas política, permeado que seria
do século XX ' es e os anos 30
,. ' para propor outra interpretação do campo da I ' .
cnt1ca do estrito determinismo eco • . . po 1t1ca, 13. Gramsci. A Cahiers de prision. Volume 2 e 3 Paris. Gallimard. 1978
nom1co e com vistas a pensar esse 14 Ibidem.
15. Ibidem.
campo na sua relativa autonomia. Esta posição crítica de Gra . 16. Laclau. E.. Mouffe. Ch. Hegemony and Socialist Strategy: Towards a Radical Democratics
msc1 se
Politics. Londres/New York. Verso. 1985.
17. Ibidem.
28
29
1 Ili ,1
1111 1~0,,t l~lllll,t llo populi 11

assim pelas linhas de força de poder e da resistência, de tal maneira que sões de lutas e confrontos para tecer a hegemonia entre esses, como
ele seria um registro penetrado pela indecidibilidade pré-ontológica figuração do universal. Contudo, a construção da hegemonia universa-
dos dilemas cruciais do campo político, na sua especificidade. 18 lista suporia a contingência como marca imanente do espaço social.25
Desta maneira, para conceber a democracia radical, pelo privilé- Nesta perspectiva, estaríamos assim lançados de forma vertiginosa na
gio outorgado ao registro político na condição de autonom ia, Laclau luta e no imperativo da democracia radical, como desdobramento no li-
e Mouffe retomaram também a tese teórica de Leffort sobre a invenção mite do conceito de invenção democrática de Leffort, onde o multicultu-
democrática como marca fundamental que seria da modernidade polí- ralismo estaria agora no cerne da cena política contemporânea. Enfim,
tica no Ocidente. 19
Com efeito, com a queda da soberania empreendida pela Revolução a construção da hegemonia
francesa, o poder político se deslocou do registro vertical da soberania
na contemporaneidade,
absoluta para o registro horizontal dos laços sociais, de forma que as or-
dens política e social foram radicalmente reviradas de ponta-cabeça.20
para tecer o imperativo da
Em consequência disso, se a soberania permaneceu como referência democracia radical, passaria
espectral no espaço social da modernidade, com tentativas repetidas e necessariamente pela tessitura
sempre malogradas de restauração da unidade do poder vertical voltada dos diferentes registros sociais
para a figura da soberania, como o correu com o fascismo, o nazismo e
do multiculturalismo.
o stalinismo, os confrontos políticos na modernidade ocidental se ins-
creveu no registro horizontal dos laços sociais.21 Enfim, seria por este
viés que a modernidade política no Ocidente seria marcada pelo ideá- IV. Equivalência e tradução
rio da invenção democrática.22 Entretanto, para Laclau a construção da política hegemónica, para
Na retomada que empreenderam da formulação de Leffort, Laclau e a constituição da democracia radical, deve se sustentar, no limite, no
Mouffe enunciaram assim que todas as lutas sociais e políticas na mo- registro estritamente tropológico, no qual se tecem e se configuram os
dernidade seriam derivações do princípio da invenção democrática em diferentes discursos no espaço social,26 marcados pelas demandas par-
outros domínios do espaço social, a saber, a questão da raça, do sexo, da ticulares. Esses discursos são considerados como jogos de linguagem,
religião e da economia.23 Portanto, o ideário da invenção democrática se segundo a concepção enu nciada por Wittgenstein na obra intitulada
trans formou assim no projeto político da democracia radical. 24 "Investigações filosóficas".27 A constituição da hegemonia implicaria,
A problemática que se impõe então, de forma decisiva, seria de portanto, na costura estratégica tecida entre tais demandas particula-
como se poderia deslocar do registro particular destas diferentes dimen- res, com vistas à construção de universais contingentes.28

18. Ibidem . 25. Ib idem. . .


26. Laclau. E. "ldentité et hégémonie. Le rôle de r u niversalisme dans la const1tu t1on des
19. Lelfort. C. Essa is sur le politique: XIXe-XXe siécle. Paris, Seuil. 1986.
20. Ibidem. logiques politiq ues·. ln: Butler. J .. Laclau. E.. Z izek. S. Aprés l'ém anc ipation trois voix pour
21. Ibidem. penser la gauche. Op. cit.. p. 67-117 . . . . . . .
22. Ibidem. 27 W itlgenslein. L Tract us logico-philosophicus su1v1de lnvest1gat1ons p h1losoph1ques. Pans.
Gallimard , 1961. . .
23. Laclau. E.. Moulfe, Ch. Hegemony and Socialisl Strategy: Towards a Radical Democratics
Politics. Lond res/N ewYork. Verso, 1985. 28. Laclau, E. "ldentité e t hégémonie. Le rôle d e r u niversalism e dans la const1tut1on des
24. Ibidem. logiques politiq u es·. ln: Butle r, J , Laclau. E.. Zizek. S. Aprés l'émancipation trois voix pour
penser la gauche. Op. cit.
30 31
um.1 nm,1 h.. i1u1,\ do pnpu li,1110

Para que esta operação estratégica seja possível necessário seria a dade e fluidez Seria por este viés que seria então possível a construção
relativização preliminar dos particularismos das demandas pelo seu es- sempre contingente e provisória dos universais, que seriam assim figu-
vaziamento ponderado, para a construção de um discurso hegemônico rados pela costura da hegemonia política como resultante deste pro-
marcado pela universalidade contingente. Foi em decorrência deste im- cesso ativo de interlocução.
perativo teórico e político que Laclau retomou o conceito de significante Portanto, o que se propõe assim efetivamente, por esta crítica sis-
vazio, enunciado por Lévi-Strauss no campo da antropologia social e temática do essencialismo e da ontologia da identidade, é uma formu-
retomado por Lacan no campo da psicanálise, para propor a costura lação sobre o sujeito, no qual esse é configurado pela via das identi-
dos diferentes discursos particulares enunciados no espaço social, para ficações, que são não apenas flexíveis mas também mtíltiplas e plurais.
forjar assim universais que sejam contingentes e sempre provisórios Em consequência disso, pela via das identificações o sujeito pode se
para tornar então possível a hegemonia política.29, 30 desprender de qualquer marca substantiva, esvaziado que seria assim
Nesta perspectiva, existe certamente uma proximidade teórica evi- de seus traços particulares.
dente entre as proposições teóricas de Laclau e Mouffe e a que foi enun- É preciso evocar ainda, na concepção da hegemonia pela articu-
ciada por Judith Butler, na qual o registro da política se tece em torno lação do discurso mediado pelo significante vazio, segundo Laclau, o
de performances, sejam essas atos alorntórios sejam atos perlocutórios.31 enunciado do conceito de equivalência, pois seria pela mediação dessa
Além disso, para Butler a problemática da política se delineia também que a suspenção das demandas particulares poderia ser esvaziada de
com a finalidade de tornar possível a construção da democracia radical )
seus particularismos identitários, para possibilitar assim a construção
pela mediação do confronto entre discursos/demandas no espaço so- de universais contingentes e que condensariam consequentemente a
cial, pela radicalização das contradições performáticas.32 Enfim, se a de- hegemonia.34
mocracia radical deve ser sempre reinventada, pela própria mobilidade O mesmo imperativo teórico foi enunciado por Butler, quando for-
das demandas no espaço social, o que se impõe é o reconhecimento mulou a problemática da tradução, presente nas diferentes modalida-
efetivo do multiculturalismo contemporâneo como matéria prima para des de particularismos, como condição concreta de possibilidade para
a construção do campo hegemônico da política.33 a costura entre esses de universais contingentes.35 Neste contexto, tais
Desta maneira, tanto para Laclau e Mouffe quanto para Butler a particularismos discursivos identitários deveriam perder a condição de
construção da hegemonia política supõe e implica ao mesmo tempo a universais concorrentes com vistas à construção efetiva de universais
crítica radical da problemática da identidade, na medida em que nessa contingentes. 36 Laclau enunciou, de forma pertinente, a similaridade
se condensaria inequivocamente as diferentes modalidades de particu- existente entre o conceito de equivalência que formulou com o concei-
larismos. Em decorrência disso, as identidades deveriam ser necessa- to de tradução enunciado por Butler.37
riamente ultrapassadas na sua dimensão substantiva, com o intuito de Porém, Butler enuncia ainda que para a formulação de tais univer-
privilegiar as identificações, marcadas que essas seriam pela multiplici- sais contingentes, necessário seria considerar não apenas as demandas

29. Ib idem 34. Laclau. E.. La raison pop uliste . Op. cit.
30. Laclau. E. La ra ison populiste. Paris. Seuil. 2008. 35. Butter. J ' Remettre emjeu ['universal. Lhégémonie et les limites du formatisme'. ln: Butter.
31. Butler. J, '.~emettre e_n jeu l'u niversel L'hégémonie e t les limites du formalisme." ln: Butler. J. J.. Laclau. E.. Zizek, S. Aprés l'émancipation. Trois voix pour penser la gauc he. op. cit.
Lacla_u. E.. z ,zek, S .. Apres I emanc,pat,on. Trois voix pour penser la gauc he. op. c it.. p . 29- 66 36. Ib idem
32. lb1dem 37. Laclau. E. "La struc ture. l'histoire et le politique ·. ln Butler, J.. Laclau. E.. Zizek. S Aprés
33. Ibidem l'émancipation. op. cit.. p . 225- 260.
32
I' 11 11 e I nl IIC 1
33
111 >\ ..:tlUI l I fl p1

sociais dos países europeus e dos Estados Unidos, mas também as dos
v. Multiculturalismo e luta de classes
países do terceiro mundo, para que se possa efetivamente se desligar
Não obstante as múltiplas diferenças certamente existentes na lei-
dos impasses do colonialismo, ao considerar apenas as demandas dos
tura d a Pol ítica na contemporaneidade, como evidenciam os diversos
países hegemônicos no cenário internacional. 38
ensaios que compõem a obra/d e bate " Apos, a emanc1paçao
. - "4, 1 L ac 1au e
Butler concordam e convergem em questões básicas deste debate. Com
V. Povo e populismo
efeito, para ambos o campo da política deve ser considerado pelo viés
Além disso, é preciso colocar ainda em evidência que na leitura que
da retórica, por um lado, assim como as demandas particulares dos di-
Laclau e Mouffe enunciam sobre a categoria de povo, pela perda de qual-
versos grupos e segmentos sociais correlatos evidenciam a existência
quer marca essencialista e substancial, assim como de qualquer traço
do real social marcado pelo multiculturalismo, pelo outro. Como dis-
identitário, se opõe radicalmente à leitura que caracterizava a concep-
se Laclau se o multiculturalismo evidencia a existência da "guerra das
ção de povo desde o século XIX. Com efeito, para o projeto teórico de
identidades", a construção da hegemonia implica, em contrapartida, a
construção política da hegemonia, pelo viés da retórica, o universal é
superação desta guerra identitária com vistas a tornar possível a consti-
sempre contingente, como disse acima, de forma que a categoria de
tuição de universais contingentes.42 Seria por este viés, enfim, que se
povo deve ser constituído pelo discurso da hegemonia como universal
poderia delinear a "gramática da emancipação"43 no sentido estrito.
contingente. Desta maneira, a categoria de povo não se inscreve mais
Além disso, na obra intitulada "A guerra das identidades", Laclau
no campo semântico e conceituai da tradição, nem tampouco nos cam-
critica sistematicamente o conceito de luta de classes de Marx, pela ên-
pos conceituais da nação e do nacionalismo. 39
fase colocada nesta guerra de diferentes demandas particulares e das
Foi em decorrência desta perspectiva ética e política que Laclau, no
que seriam oriundas do campo do multiculturalismo contemporâneo,
livro "A razão populista", procurou neutralizar e despojar o conceito de
para construir a "gramática da emancipação".« Vale dizer,
populismo de todas as marcas negativas enunciada pelo discurso da ciên-
cia política, para torná-lo não apenas positivo mas, além disso, como a a leitura do campo da política
forma pela qual a prática política poderia como tal ser enunciada, de na contemporaneidade
fato e do direito. Portanto, para Laclau sem populismo não existiria
passaria necessariamente
política propriamente dita, 40 o que é certamente uma formulação não
apenas radical, mas também original.
pela consideração devida do
Contudo, não se pode esquecer que no contexto desta interpretação multiculturalismo e não da
as categorias de povo e de populismo remetem sempre para universais luta de classes.
contingentes, que se constroem pelas linhas de força e as linhas de fuga
da hegemonia. No entanto, Ziiek criticou as leituras de Laclau e Butler, no que
concerne à luta de classes, destacando assim a importância e a perti-
38. Butler. J. ·~em etlre en jeu runiversal. L .hégémonie et les limites du formalisme·. ln: Butler. nência deste conceito de Marx para a interpretação do campo da políti-
J .. Laclau. E., Zizek. S. Aprés l'é m ancipation. Op. c it.. p. 29-62.
39. Laclau . E. ' ldentité e t hégémonie. Le rôle de run iversalisme dans la consti tulion des
logiques politiques·. ln: Butler. J.. Laclau. E.. Z izek. S. Aprés l 'émanc ipatlon. Op. c it. 41. Buller. J.. Laclau. E.. Zizek. S. Aprés l'émancipalion. Op. cit. .
40. Laclau . E. La guerre des idenlil és. Grammaire de rémancipalion. Paris. La Découverte. 42 Laclau. E. La guerre des idenlilés. Grammaire de remancipation. Op.c1t.
2000. 43. Ibidem.
44. Ibidem.
34
d1 1.. 1 ol1fllJ 35
11 11.1 nt, 1 lc1t111.1 do ru p111 i,mo

cana contemporaneidade. Com efeito, apesar de concordar com Butler


de Laclau e Zizek para pensar a política na atualidade é a retomada e a
e Laclau na consideração efetiva do registro da retórica para empreen-
referência do discurso psicanalítico como instrumento teórico legítimo
der a leitura do registro da política na contemporaneidade, assim como
para empreender a leitura da política na contemporanei~a~e. ~lém, d_is-
do multiculturalismo, Ziiek não abre mão, enfim, do argumento da luta
so, 0 campo da convergência em pauta se centra na pert111enc1a teonca
de classes. 45
do conceito do sujeito para realizar a dita leitura.50
Como evidencia o título de seu ensaio inicial na obra "Após a eman-
cipação", Zizek se indaga de forma interrogativa se haveria a disjunção
VI. Psicanálise revisitada
efetiva entre o registro de luta de classes e o registro do pós modernis-
Para desenrolar o fio desta meada vou destacar inicialmente as refe-
mo, para já responder no sub-título do artigo de forma irônica e provo-
rências teóricas à psicanálise presentes no discurso teórico de Laclau,
cativa para Butler e Laclau: "sim, por favor". 46
onde esse enfatiza a pertinência teórica do discurso de Freud e Lacan
Com esta ironia provocativa Zizek introduz o conceito de luta de
para realizar a leitura do campo político.
classes como pertinente para empreender a leitura do campo da polí-
Assim, se no livro sobre "A razão populista" Laclau destaca a im-
tica na atualidade, enunciando a conjunção entre a categoria de luta de
portância crucial do discurso teórico de Lacan5' - principalmente os
classes e a agenda do multiculturalismo pós moderno. Com efeito, seria 53
conceitos de significante e de objeto a como objeto causa do do dese-
52

pelos diversas marcas identitárias do multiculturalismo que a luta de


jo, para enunciar o conceito de significante vazio, retomado do discurso
classes toma corpo e forma no tempo histórico da contemporaneidade. ))
teórico de Lévi-Strauss em "As estruturas elementares d o parentesco -
No ensaio "A estrutura, a história e a política", Laclau criticou Zizek
- ,54 para conceber então a construção da hegemonia e da categoria do
em termos bastante duros, ao formular que Zizek maneja os conceitos
universal contingente, o ponto de partida de sua obra foi o discurso
de luta de classe e de ideologia de forma superficial e tosca.47 Com efei-
psicanalítico de Freud, em particular a leitura que realizou do campo
to, não obstante Zizek evidenciar uma leitura acurada e sofisticada do
da política em "Psicologia das massas e análise do eu",55 ensaio publi-
discurso psicanalítico de Lacan, a sua leitura de Marx sobre os concei-
cado em 1921.
tos de luta de classe e de ideologia, em contrapartida, seria pobre e no
No que tange a isso, Freud teria realizado outra leitura do campo da
limite amador.48 É claro que Zizek responde à Laclau de forma igual-
psicologia das massas, tal como essa foi empreendida numa longa tra-
mente cortante, no ensaio intitulado "Da capo senza fine", para res-
dição teórica oriunda da segunda metade do século XIX, para eviden-
taurar a legitimidade teórica de reali zar a conjunção entre os registros
ciar como a lógica da equivalência já seria patente no discurso teórico
da luta de classes e do multiculturalismo, na sociedade pós moderna. 49
de Freud para evidenciar a construção da massa e da figura do líder
No entanto, considerando as divergências maiores e menores exis-
político.56 Neste contexto, o conceito de identificação, tecido entre o
tentes entre os oponentes deste debate para pensar a política da esquer-
da na contemporaneidade, o ponto de convergência efetiva de Butler,
50. Ibidem.
45. Zizek. S. "Lutte de classes ou postmodernisme· Ou. s·;1 vous piai!". ln: Butler. J.. Lactau, E.. 51 Laclau, E. La raison populiste. Paris. Seuil. 2008. •
Zizek, S. Aprés l'émancipation Op. cit.. p. 119-171. 52. Lacan, J. "Fonction et champ de la parole et du langage en psychanalyse (1953). ln: Lacan.
46. Zizek, S. "Lu tte de classes ou postmodernisme· Ou, s'it vous plait!·. ln: Butler. J.. Laclau, E.. J. Écrits. Paris, Seuil. 1966. . .
Zizek. S. Aprés l'émancipation. Op. cit., p. 119-171. 53 Lacan, J. L·angoisse. Le Séminaire de Jacques Lacan. Volume X, Paris. Seu1l. 2004
47. Laclau. E. "La structure. l'histoire et le politique·. Idem, p. 225-260 54 Lév-Strauss, C. Les structures elémentaires de la pa_'.ente (1948). Paris. Mouton, 1967.
48 Ibidem. 55. Freud. s, "Psychologie des foules et analyse du mo1 (19210. ln. Freud, S. Essa1s de
49. Zizek. S. 'Da capo senza fine·. Idem, p. 261-317. psychanalyse. Paris, Payot. 1981.
56. Laclau, E. l a raiso11 populiste. Op.cit.
36
37
1 ( ll 1

líder e a massa, assim como entre os diferentes componentes da massa uma referência crucial. Se como vimos acima Laclau retomou o discur-
pela mediação crucial do líder, seria fundamental se descolando então so teórico de Freud, em "A razão populista", Butler, em contrapartida,
Freud de qualquer referência à categoria da identidade. 57 retomou Freud em diversas obras, nas quais os campos da política e da
É preciso reconhecer sobre isso que estamos face à um acontecimen- ética foram colocados em cena. Com efeito, Butler considerou o dis-
to discursivo inesperado. Por quê inesperado? Porque é algo surpreen- curso freudiano no livro "O sujeito do desejo",59 publicado em 1985,
dente que o discurso psicanalítico foi considerado como uma referên- assim como na obra intitulada "A vida psíquica do poder",60 publicado
cia teórica importante para pensar o discurso de política, quando nós em 1997.
sabemos que este discurso teórico foi sempre rejeitado durante décadas Contudo, é preciso destacar ainda que no campo da recusa geral
no século XX como referência legítima e como instrumento conceituai à psicanálise como discurso teórico pertinente para realizar a leitu-
para pensar o campo da política na sua especificidade. ra do campo da política, na tradição marxista, é preciso evocar que
Além disso, é também algo inesperado que o discurso psicanalítico ocorreram algumas vozes isoladas que realizavam a recepção teórica
tenha sido retomado pelo campo da esquerda na contemporaneidade, do discurso psicanalítico na tradição propriamente marxista. Evi-
quando anteriormente na modernidade avançada, a psicanálise como dentemente, tais vozes ficaram isoladas tanto no campo do discurso
discurso teórico foi considerado como apolítica, na melhor das hipó- teórico do marxismo quanto no campo do discurso teórico da psi-
teses, ou francamente conservadora e reacionária, na pior das hipóteses, canálise.
como enunciei inicialmente neste ensaio. É preciso evocar novamente Assim, nos anos 30 Reich produziu algumas obras teóricas de refe-
que a psicanálise foi considerada pelo marxismo, nos tempos de sta- rência para pensar a conjunção entre a psicanálise e o marxismo, como
linismo triunfante, como uma ideologia da pequeno-burguesia e que "A psicologia de massa do fascismo" 61 e " Zé ninguém".62 Em ambas as
representava interesses opostos aos do proletariado revolucionário. obras a leitura de Reich procurava dar conta de como a dominação po-
É preciso evocar ainda que nesta retomada surpreendente da psica- lítica do nazismo se realizou pelas trilhas da regulação psíquica da se-
nálise, na leitura do campo da política, que Lacan é o autor de referência xualidade da classe operária, pela promoção da sexualidade pré-genital,
fundamental, tanto por Laclau quanto por Butler e Zizek. Por quê Lacan, para promover então a homogeneização das massas e implementar a
devemos nos interrogar? Porque Lacan desenvolveu de forma sistemá- dita ideologia do nazismo. Além disso, procurou articular os discursos
tica o conceito do discurso na sua especificidade, nas s uas relações com teóricos de Marx e de Freud para analisar os campos da ética e da po-
os registros do do gozo, do desejo, da verdade, 58 que ocupa uma posição lítica, assim como as ideologias do capitalismo no seu projeto político
estratégica na leitura do campo da política para estes teóricos. Foi ainda de dominação da classe operária.
pelo viés do campo do discurso que a categoria do sujeito foi colocada Na obra intitulada "Eros e Civilização", nos anos 60, Marcuse re-
em evidência, como pertinente para a leitura do campo da política. tomou o discurso psicanalítico para pensar as relações existente entre
No entanto, é preciso evocar que a referência teórica à psicanálise civilidade e sexualidade, numa leitura eminentemente crítica d e Freud
não se restringe ao discurso teórico de Lacan, pois Freud é também no que concerne a isso. Contudo, não resta qualquer dúvida que a re-

57. Freud. S.. "Psychologie des foules e t analyse du moi" (19210 ln: Freud. S. Essais de 5g. Butler. J. Le sujet du désir. Paris. PUF. 2000.
psychanalyse.Op.cit.
60. Butler. J. La vie psychique du pouvoir. Paris. Ed itions Léo Scheer. 2002.
58 Lacan. J. l'envers de la psychanalyse. Le Séminaire de Jacques Lacan. Volume XVII. Paris. 61. Reich. W. The mass psychology of facism. London. Condor. 1972.
Seuil. 2000. 62. Reich. W. Listen. little man 1 London. Condor. 1972.
38
39
11 l 1.; pnl111 1·
11m,1 1111\.l kllur.1 do nopuli,1110

ferencia teórica à psicanálise era crucial na leitura que Marcuse enun- freudiana, na obra "Crítica aos fundamentos da psicologia",68 publicada
ciou para pensar a modernidade no Ocidente, desde os anos 30.63 em 1928, Politzer passou a criticar frontalmente a psicanálise quando
Da mesma forma, Adorno retomou o discurso psicanalítico de se incorporou posteriormente ao movimento comunista, de forma que
Freud para analisar as fragmentações subjetivas promovidos pelo capi- a psicanálise não seria um instrumento teórico legítimo para realizar a
talismo, sob a forma da leitura da alienação social. Não obstante as suas leitura do campo da política. Em decorrência disso, a leitura crítica de
ironias para com o discurso freudiano, principalmente na obra intitu- Politzer em relação à psicanálise marcou o discurso marxista francês
lada "Minima moralia",64 Adorno reconhecia a pertinência das leituras durante algumas décadas.
do discurso freudiano para analisar os impasses da experiência subli- Somente em 1964, com a publicação do ensaio "Freud e Lacan,"69
matória nas formas alienadas de existência promovidos pelo modo de Althusser retomou positivamente o discurso psicanalítico no campo da
produção capitalista.65 Enfim, valorava a leitura teórica de Freud sobre tradição marxista francesa, para analisar a constituição da subjetividade
a sociedade, centrada no registro das pulsões, em oposição à leitura da nas suas relações com o campo da ideologia no modo da produção ca-
tradição psicanalítica norte-americana, representada pelos autores do pitalista. Em seguida na obra "Por Marx",70 publicado nos anos 70, Al-
discurso sobre Cultura e personalidade.66
thusser retomou o conceito freudiano de sobredeterminação enunciado
Se este primeiro conjunto de vozes é oriunda da tradição freudo- em "A interpretação dos sonhos",71 para pensar a categoria filosófica de
marxista alemã, na qual de diferentes maneiras se procurou conjugar causalidade numa perspectiva estrutural. Além disso, na obra sobre os
os discursos teóricos de Freud e de Marx para empreender a leitura das aparelhos ideológicos do Estado - na qual a proximidade teórica como
formas alienadas da existência no capitalismo avançado, onde imperava conceito de hegemonia de Gramsci se encontra presente - , Althus-
a reificação da existência social em todos os seus níveis de existência e ser procurou pensar na constituição do sujeito nas suas relações com a
não apenas no registro econômico,67 em contrapartida, a tradição mar- ideologia, de forma que o sujeito foi concebido numa perspectiva emi-
xista francesa passou a retomar positivamente o discurso freudiano nentemente psicanalítica. 72 Finalmente, Althusser procurou pensar nas
apenas nos anos 60. Como interpretar esta decalagem histórica exis- relações existentes entre os discursos teóricos de Freud e de Marx, que
tente entre as tradições francesa e alemã sobre o marxismo, no que confluiriam para a importância conferida por ambos à problemática do
concerne a consideração teórica do discurso psicanalítico para a leitura conflito, nos campos psíquico e social, respectivamente. 73
do campo da política?
Entretanto, é preciso se indagar ainda por que a psicanálise passou
Antes de tudo é preciso considerar a influência da leitura crítica e a ser retomada positivamente pelo discurso filosófico para pensar o
francamente negativa de Politzer no que se refere à consideração teó- campo da política na atualidade. Nesta retomada, os autores concer-
rica da psicanálise para a leitura do campo da política. Assim, não obs- nidos procuraram articular os registros da política e da ética, pela me-
tante o elogio teórico à psicanálise com a intenção de construir a psi-
cologia concreta, apesar das reticências que tinha para a metapsicologia 68. Politzer. G. Critique des fondements de la psychologie (1928) Paris. PUF. 1968
69. Althusser. L. "Freud e t Lacan· (1964)_ ln: Althusser. L. Positions. Paris, Sociales. 1976;
Althusser. L. Lenine et la philosophie. Paris, Maspero, 1969.
63_ Marcuse. H. Eros et civilisation. Paris. Minuit. 1963.
70_Althusser, L. Pour Marx. Paris, Maspéro. 1973
64 Adorno. T.W. Mínima moralia. São Paulo. Ática. 2000.
65 Ibidem. 71. Freud. S. L'interprétation des réves (1900). Paris. PUF. 1976
72_Althusser. L. "Aparelhos ideológicos do Estado". ln: Althusser, L. Posições 2, Rio de Janeiro.
66. Adorno. T.W . La psychanalyse révisée. Suivi de Jacques Le Rider L"allié incomode. Paris. Graal. 1980.
L Ol1v1er. 2007_
73- Althusser, L. ·sur Marx et Freud". ln: Althusser. L. Écrits sur la psychanalyse. Paris. Stock/
67. Lukáks. G. Histoire e t conscience de classe. Paris. Minuit. 1960.
IMEC.1993
40
41
\lll\J nu, (C'it 11r,1 tio popul 1 no

diação dos discursos teóricos de Freud e de Lacan. Como é possível


Além disso, é preciso reconhecer ainda que se os discursos teóri-
pensar esta retomada inesperada da psicanálise, na trad ição da política
cos da pós-modernidade são marcados pelas referências permanente
de esq uerda na contemporaneidade?
à problemática da diferença, isso seria o correlato do que ocorria no
É o que vou tentar responder em seguida.
real do campo social, de forma que seria impossível pensar o espaço
social na sua espessura e complexidade sem a problematização efetiva
VII. Diferença
da diferença. Em decorrência disso, a diferença foi transformada num
No que concerne a isso, é preciso destacar inicialmente que a con- conceito fundamental no discurso fil osófico, desde os anos 60.
sideração teórica tardia do discurso psicanalítico para pensar o cam po Assim, é impossível problematizar o discurso filosófico de Deleuze
da política nas suas relações intrincadas com o campo da ética, se cons- sem a consideração do conceito de diferença. Com efeito, tanto na obra
truiu pelo reconhecimento efetivo da problemática da diferença para "Diferença e repetição"74 publicado em 1968, quanto no livro intitula-
pensar o mundo contemporâneo. Com efeito,
do "Lógica do sentido",75 a problemática da diferença é crucial, assim
como nas obras sobre o "Anti-Édipo"76 publicado em 1972 e "Mil platô-
para que se
s"77 publicado em 1980 em colaboração com Guattari. Se me refiro ape-
queira enunciar as nas a essas obras é porque elas são cruciais para os autores em questão,
problemáticas da mas poderia certamente evocar todas as demais no que se refere a isso,
invenção democrática e pois o conceito de diferença ocupa uma posição estratégica no discurso
da democracia radical é teórico de Deleuze e Guattari.
Além disso, o discurso psicanalítico é crucial nas múltiplas proble-
necessário reconhecer
matizações realizadas por Deleuze e Guattari, mesmo quando a psi-
plenamente, como canálise é frontalmente criticada como ocorreu em "O anti-Édipo".
condição preliminar, Porém, a intenção crítica é a de colocar em evidência a dimensão da
que o espaço social da política existente efetivamente no discurso psicanalítico, pelo enun-
contemporaneidade ciado do conceito de máquina desejante,78 com a finalidade de constituir
as condições de possibilidade da eszquizoanálise.79 Da mesma forma, foi
é marcado pelas
a ênfase colocada no registro da política que se enunciou no livro de
diferenças. Guattari, publicado em 2003, intitulado "Psicanálise e transversalida-
Essas são certamente múltiplas e plurais, não sendo então pos- de."ªº Enfim, o livro de Deleuze publicado em 1967, intitulado "Apre-
sível realizar a leitura do mundo contemporâneo sem considerá-las
devidamente. Portanto, não resta qualquer dúvida que a presença
74. Deleuze. G. Ditférence et répétition. Paris, PUF, 1968
eloquente do mu lti cultural ismo na pós-modernidade, ass im como 75 Deleuze. G. Logique du sens. Paris. Minuit. 1969.
76. Deleuze. G. Gualtari. F. t..:anti- Oedipe.Capitalisme et schizophrénie.Volum e .Parie. Minuit. 1972.
de outras marcas enunciadas no tempo histórico da modernidade 77. Oeleuze. G. Guattari. F. Mille Plateaux. Capitalisme et schizophrenie. volume 2. M ille
Plateaux. Paris. Minuit. 1980.
ava nçada, são caracterizadas pela referência às diferenças nos seus 78. Deleuze. G. Capitalisme et schizophrenie. volume 1. L'anti-Oédipe. Op. cit.
menores detalhes. 79. Ibidem
80. Guattari. F. Psychanalyse e t transversalité. Paris. M aspero. 1972.
42
43
11m.1 no,,\ h..'ilut.t tio populismo

sentação de Sacher-Masoch",8 1 é uma problematização original dos


diano baseado nos conceitos de escrita e de "différance''. 88 Além disso,
fundamentos do discurso freudiano, no qual as ressonâncias políticas
no ensaio intitulado "Mal de arquivo", publicado em 1995, formulou a
são fundamentais.
releitura original do conceito freudiano de pulsão de morte como con-
No que tange a isso, é preciso destacar ainda como a problemática
dição de possibilidade para o apagamento e para a reestruturação de
da diferença foi decisiva no percurso teórico de Derrida desde os anos
arquivo (Mal de arqtiivo).89 Finalmente, no ensaio intitulado "Estados
60, onde em múltiplas obras destacou com eloquência a categoria do
de alma da psicanálise", publicado em 2000, foram as condições ética
diferir e formulou a questão da diferença como "différance". Com efei-
e políticas presentes no discurso psicanalítico que foram colocados vi-
to, esta problemática original se evidenciou nos livros intitulados "Da
vamente em pauta numa conferência realizada em Paris, nos "Estados
gramatologia"82 e "A escrita e a diferença",83ambos publicados em 1967.
Gerais da Psicanálise".9º
Além disso, é preciso evocar que na segunda parte de seu percurso teó-
Além disso, na obra intitulada "O cartão-postal", publicada em
rico Derrida destacou a importância estratégica do conceito de "dif-
1980, Derrida examinou não apenas a constituição do campo da escrita,
férance" para pensar diferentes problemáticas inscritas nos registros
mas também a sua circulação social e histórica, de forma que critican-
ético e político, quando se confrontou com a problemática dos arquivos
do Lacan enunciou que as mensagens podem se desviar e nem sempre
sobre o mal, quando problematizou as questões da hospitalidade,84 do
chegar ao seu destinatário.91 Foi neste contexto que Derrida analisou
perdão, da amizade85 e do arquivo86, entre outras.
criticamente o famoso seminário de Lacan sobre "A carta roubada" ba-
Nesta série de problemáticas, articuladas pelos registros da ética
seado na leitura do conto de Edgar Allan Poe.92• 93
e da política, a questão do arquivo ocupava certamente uma posi-
Assim, é possível enunciar que foi pelo reconhecimento da pro-
ção estratégica no discurso teórico de Derrida, na medida em que o
blemática da diferença, como marca eloquente do espaço social na
método filosófico da desconstrução se centra efetivamente no campo
contemporaneidade, que o discurso psicanalítico foi positivamente
teóri co do arquivo. Nesta perspectiva, Derrida se voltou para pen-
considerado posteriormente pelos autores que procuraram pensar na
sar na existência dos arquivos sobre o mal, que permeariam o mundo
construção da democracia radical na atualidade. Contudo, é preciso re-
contemporâneo, pela mediação dos conceitos de arquivo e de mal de
conhecer ainda que se a problemática da diferença foi apenas uma das
arquivo.87
condições de possibilidade para a consideração teórica da psicanálise,
No entanto, é preciso evocar que Derrida considerou seriamente
não é, no entanto, a única dimensão a ser evidenciada. Enfim, é preciso
o discurso ps icanalítico como objeto teórico de leitura, não apenas o
enunciar que a ênfase na problemática da diferença na contemporanei-
discurso teórico de Freud mas também o de Lacan. Assim, no ensaio
dade foi certamente a condição necessária para a utilização conceituai da
intitulado "Freud et la scene de l'écriture", publicado no livro "A escrita
psicanálise para pensar o campo da política na atualidade, não foi, no
e a diferença", Derrida enunciou uma leitura original do discurso freu-
entanto, a condição suficiente para isso.

81. Deteuze. G. Présentation de Sache-Masoch. Paris. Minuit. 1967 88. Derrida. J Derrida, J. "Freud et la scéne de l'écriture·. ln: Derrida. J. L'écriture et la
82. Derrida. J. Dei ta gramatotogie. Paris. Minuit. 1967 ditférence. Paris. Seuil. 1967
83 Derrida. J. Lécriture et ta ditférance. Paris, Seuit. 1967 89. Derrida. 1. Mal d 'archive. Op. cit. . . .
84. Derrida. J. Dufourmantette. K. On Hospitality. California. Stanford University, Press. 2000. 90. Derrida. J États d'ãme de La psychanalyse. L'impossible au-dela d une souvera1ne
85. Derrida, J. Politiques da l'amitié. Paris. Galilée. 1994 cruauté. Paris. Galitée, 2000. .
86. Derrida. J. Mal d'archive. Paris. Galilée. 1995 91. Derrida. J La carte postale. de Sócrates à Freud et au-detà. Paris. Aubier Flammanon. 1980.
87.lbidem 92. Ibidem.
93. Lacan. J. Écrits. Op. cit.
44
45
i , 111\t:, pol111l,
1111 no,, ll 1111 t do pol 1,I

IX. Sujeito e subjetivação


da subjetivação no registro da retórica, passa pelo destaque que foi
Assim, se a problemática da diferença foi certamente crucial para conferido para as categorias de reflexividade e de reconhecimento, na
a retomada positiva da psicanálise na leitura do campo da política, obra "O sujeito do desejo".98
isso ocorria na medida em que aquela remetia para as problemáticas Não foi por acaso que Foucault, no final de seu percurso teórico,
do sujeito e da subjetivação, que foram meticulosamente tecidos pelo enunciou as problemáticas do sujeito e da subjetivação para articular
discurso psicanalítico. Com efeito, seria como impossível pensar 0 os imperativos dos registros do saber e do poder que já tinha problema-
campo da política, imantado por múltiplas diferenças e linhas de tizado outrora nas suas pesquisas. Com efeito, se na obra intitulada "A
força na contemporaneidade, sem destacar a importância correlata vontade do saber", 99 publicado em 1976, Foucault enunciou o conceito
do sujeito e da subjetivação que seriam imanentes nos antagonis- de sujeito pelo viés da subjetivação, em seguida, nos seus cursos finais
mos e conflitos sociais presentes no espaço social. Seria então pela do College de France, quando trabalhou a Antiguidade e o Helenismo,
mediação dos registros do sujeito e da subjetivação que os parti- Foucault procurou pensar na constituição do sujeito no registro do si,
cularismos se enunciam com eloquência, assumindo assim corpo e sob a forma das tecnologias de si. 100
forma.
É claro que o discurso psicanalítico não era uma referência teó-
É preciso destacar sobre isso o enunciado por Giddens do concei- rica importante para Foucault pensar no sujeito e na subjetivação,
to de reflexividade, para se pensar nas linhas de força do espaço social como o foi para Butler Laclau e Zizek, bem entendido. Contudo, se
na modernidade avançada, pelo viés do qual as categorias de sujeito e faço alusão aqui ao discurso tard io de Foucault sobre o sujeito e a
de subjetivação se inscrevem na leitura dos campos político e social.94 subjetivação é para indicar como tais problemáticas eram cruciais
Além disso, foi formulado deste patamar conceituai o conceito de mo- para pensar o campo da política na contemporaneidade, na qual as
dernidade reflexiva, por Giddens, Beck e Lash,95 na qual os registros do diferenças se impunham nas linhas de força e nas linhas de fuga do
sujeito e da subjetivação se inscrevem nas cenas onde se configuram os espaço social.
conflitos sociais.
Assim, é possível afirmar que se a psicanálise foi considerada como
Além disso, seria impossível ler os múltiplos textos de Butler so- um discurso teórico importante para a leitura do campo da política na
bre os performativos e as contingências,96 no mundo contemporâneo, contemporaneidade, de forma inesperada, isso apenas se impôs efeti-
sem a referência à reflexividade, pela qual o sujeito e a subjetivação vamente pela presença no discurso psicanalítico dos conceitos de su-
se configuram no espaço social. Em decorrência disso, Butler pôde jeito e de subjetivação. Por este viés seria então possível analisar com
pensar na existência da vida psíquica do poder, 97 na qual o assujeita- pertinência o espaço social marcado pelas múltiplas diferenças e pelos
mento do sujeito ao Outro seria crucial para pensar na constitu ição particularismos identitários. Enfim, seria possível então enunciar a im-
do sujeito enquanto tal. Da mesma forma, a retomada que Butler portância decisiva da psicanálise para pensar o campo da política na
realizou da filosofia do Hegel, para pensar os conceitos do su jeito e contemporaneidade.

f:-.
94. Giddens. A transformação da intimidade. Sexualidade. amor e erotismo nas sociedades
modernas. Sao Paulo. UNESP. 1992.
95. Gidden. A .. Beck. U .. Scott Lash. Modernidade reflexiva. São Paulo. UNESP. 1995.
96. Butter. J. Le pouvoir des mai s. Discours de haine et politique du performatif Paris.
Amsterdam. 2017. 98 Butler. J. Le sujet du d ésir. Op. cit.
97. Butler. J. La vie psychique d u pouvoir. Op. cit. 99. Foucault. F. La volante de savoir. Paris. Gallimard.1976. .
100. Foucault. F. " Les tecnologies de soi méme·. ln: Foucault. M. Dits et écrits. Volume IV. Op.c,t.
46 47
li li \,: IH hth.,l um,\ no,,\ ll'l1u1., tio populi,1110

X. Trauma É possível assim interpretar que foi pelo viés do imperativo da pro-
No entanto, é preciso avançar ainda um pouco mais sobre tudo blemática do trauma na contemporaneidade, como contraponto das
isso, para pensar nas condições concretas de possibilidade para que catástrofes na atualidade, que o discurso psicanalítico foi considerado
a psicanálise fosse considerada como um discurso teórico legítimo como podendo oferecer ferramentas conceituais fundamentais no re-
para a leitura do campo da política na contemporaneidade, pelo viés gistro do sujeito e das subjetivações, seja com Butler, seja com Laclau
das problemáticas da diferença e do sujeito. No que concerne a isso, e Zizek.1º2 Nesta perspectiva, ultrapassar os particularismos presentes
é importante destacar e acrescentar ainda a relevância assumida nos diversos segmentos sociais para construir a hegemonia marcada
pela problemática do trauma no mundo contemporâneo, que incide por universais contingentes, pressupõe o reconhecimento das deman-
decisivamente sobre o sujeito e os processos de subjetivação de for- das tecidas entre os diferentes segmentos sociais, pelo deslocamento
ma disseminada, problemática essa que foi pesquisada pela psicaná- decisivo do registro das identidades (particularismos) para o das iden-
lise de forma importante. tificações múltiplas. Em decorrência disso, o particularismo identitário
Assim, pode-se enunciar que a existência de um espaço social mar- poderia se ultrapassado de forma contingente, constituindo as linhas
cado pelas múltiplas diferenças, nos quais segmentos sociais diversos de fuga para o remanejamento das condições do sujeito e das demandas
sustentam demandas diferentes e até mesmo opostas - daí porque, dos diferentes segmentos sociais.
segundo Laclau, seria necessário e imperativo a construção da hege- É preciso evocar que Deleuze, tanto em "O anti-Édipo" 103 quanto
monia para empreender a constituição de universais contingentes para no ensaio intitulado "Post-scriptum sobre as sociedades de controle, 104
articular tais discursos sociais antagônicos 101 - , a incidência do trau- destacou a importância crucial da desterritorialização como marca elo-
matismo está permanentemente presente em todos os segmentos so- quente no espaço social do capitalismo contemporâneo. Nesta pers-
ciais, principalmente os que seriam marcadas pela exclusão. pectiva, os laços e os espaços sociais são dissolvidos, de forma a serem
É preciso considerar no que tange a isso a condição das mulheres, produzidas fragmentações em diferentes escalas de grandeza no campo
assim como dos homossexuais e dos transgêneros nas suas especifici- social. Portanto, é possível afirmar como a desterritorialização é a fonte
dades, sem esquecer a presença ostensiva do racismo de todas as co- permanente de traumatismo no mundo contemporâneo, que se enuncia
res. Da mesma forma, é preciso colocar em destaque as questões dos pela fragmentação disseminada dos sujeitos.
imigrantes e dos refugiados, que se impõem hoje no nível internacio- Esta referência de Deleuze à desterritorialização no capitalismo
nal de forma catastrófica. Com efeito, estes diferentes segmentos so- avançado deve ser aproximada da passagem célebre de Marx e Engels,
ciais são constituídos por sujeitos onde o trauma se impõe como uma no "Manifesto comunista", 105 onde enunciaram que no capitalismo
questão primordial nas suas existências, em algum tempo e em algum "tudo que é sólido desmancha no ar", de forma que os sujeitos e os
contexto, pelo menos. Portanto, é preciso enfatizar que a ausência de laços sociais se fragmentam em larga escala, promovendo então trau-
reconhecimento e a exclusão social correlata, que marcam de forma elo- matismos de forma disseminada, pelas catástrofes que seriam assim
quente aqueles segmentos sociais, é o canteiro mortífero de obra para engendradas.
a produção do trauma e para a sua disseminação vertiginosa no mundo
102. Butler. J. Laclau. E.. Zizek. S. Aprés L'emancipation. Op. cit
contemporâneo. 103 Deleuze. G. Capitalisme et schizophrenie. Volume 1 t.·anti-Oedipe. Op. cit.
104. Deleuze. G. 'Port-scriptum sur les sociétes de controle'. ln: Foucault. M. Pourparler. 1972-
1993. Paris, Minuit. 1990.
101. Laclau, E. La concept de populisme. Op. cit. 105. Marx. K.Engtes.F. Manifeste du parti communisl. Paris. Flamarion. 1999
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Porém, no capitalismo generalizadas que se disseminaram no espaço social, no contexto da


. . . l07
contemporâneo, caracterizado pela guerra civi1que se 111st1tu1u.

globalização neoliberal, a dissolução Desta maneira, é possível inscrever as três referências acima cita-
das numa escala histórica da longa duração, nos contextos do capita-
dos laços sociais se radicalizou de
lismo e da modernidade, de forma que de Marx (modernid ade) à Deleu-
forma aterrorizante, de forma que os ze (pós-modernidade) passando por Freud (modernidade avançada) a
sujeitos e os segmentos sociais se descrição da fragmentação subjetiva e da dissolução dos laços sociais
desterritorializam e se fragmentam foi radicalmente incrementada, tendo como correlato a produção de

mais ainda do que ocorria no tempo traumatismos psíquicos disseminados.


Assim, é possível dizer que o discurso psicanalítico enunciou um
histórico do capitalismo industrial.
conceito teórico de sujeito, marcado pela alteridade, na qual este seria
Com isso, o trauma é promovido de virtualmente marcado pelo traumatismo e pela fragmentação psíquica,
forma permanente, na medida em desde que aquele fosse desinserido do campo dos laços sociais e dos ri-
que a ausência de reconhecimento tuais de reconhecimento, que seria assim o oposto do modelo solipsista

social se dissemina igualmente de e autônomo do sujeito, que foi enunciado desde o século XIX no Oci-
dente. A leitura do sujeito enunciada pela psicanálise, enfim, que foi re-
maneira contínua, engendrando as
tomada pelo discurso filosófico contemporâneo que pretende pensar o
fragmentações psíquicas. campo da política, seria assim o oposto deste modelo teórico do sujeito.
Foi assim em decorrência disso, portanto, em conjunção com a exis-
É p reciso evocar ainda que Freud em 1921, no ensaio "Psicologia
tência de uma ordem social contemporânea marcada pelas diferenças
das massas e análise do eu", en unciou o conceito de narcisismo das pe-
e pelas opos ições radicalizadas entre os diferentes segmentos sociais,
quenas diferenças 106 para caracterizar os laços sociais na sociedade oci-
que o discurso psicanalítico foi incorporado positivamente pela filo-
dental no tempo posterior à F Guerra Mundial, isto é, na modernidade
sofia política, por oferecer subsídios teóricos cruciais para pensar no
avançada. Desta maneira, o discurso freudiano enunciava que existia
campo da política na atualidade. Neste contexto, os conceitos de suj eito
na modernidade avançada a existência de uma guerra civil permanente
e de subjetivação, enunciados no discurso psicanalítico, foram as me-
no es paço social, na medida em que nas escalas do indivíduo, do seg-
diações entre a existência de uma ordem social marcada pela diferença
mento social e da classe social não existia mais qualquer possibilidade
e a incidência do trauma em larga escala como indicador eloquente das
de reconhecimento do Outro na sua d ife rença, de forma que o sujeito,
desterritorializações existentes na contemporaneidade. Enfim, se La-
na escola individual e coletiva, considerava o diferente como adversá-
clau, Butler e Zizek legitimaram teoricamente o discurso psicanalítico
rio e no limi te com o inimigo, se impondo assim a eliminação deste de
para pensar o campo da política hoje, foi pela articulação pertinente
forma violenta. Em consequência disso, a modernidade avançada seria
que foi realizada no discurso psicanalítico entre os registros da dife-
a fonte permanente de traumatismo, pela violências e pelas catástrofes
rença, do suj eito, da subjetivação e do trauma.
106. Freud, S. «Psychologie des foules e t analyse du moi» (1921). ln: Freud, S. Essais de
psychanalyse. Paris. Payot. 1981.
107. Ibidem.
FEDERN, KELSEN, LACLAU
EADIMENSAO -
ANTI-INSTITUCIONAL
DA DEMOCRACIA
Vladimir Safatle'

Alguns anos antes de Freud escrever Psi-


cologia das massas e análise do eu, um de seus
mais antigos colaboradores, Paul Fedem, es-
crevera Sobre a psicologia da revolução: a socie-
dade sem pais (1919). Neste texto, que Freud
certamente conhecia pois seus argumentos
principais foram apresentados na Sociedade
das quarta-feiras, Fedem via no fim do Impé-
rio Austro-Húngaro e na queda da figura do
Imperado r, assim como na vitória da Revolu-
ção Soviética, a possibilidade do advento de
sujeitos políticos que não seriam mais "su-
jeitos do Estado autoritário patriarcal". Para
tanto, tais sujeitos deveriam apelar à força

1. Professor Livre Docente do departamento de filosofia


da Universidade de São Paulo. Foi Visiting Scholar da
Universidade da California - Berkeley. além de professor
visitante das Universidades de Paris VII. Paris VIII.
Toulouse. Louvain e Stellenbosch (África do SuU. É um dos
coordenadores da lnternational Society of Psychoanalysis
and Philosophy. do Laboratório de Pesquisa em Teoria
Social. Filosofia e Psicanálise (Latesfip).
52 53
u1Jl 1 110,.1 h 11u1 l do pnpuJ 1nu

libidinal das relações fraternas, relações distintas e que não se derivain mente afetadas, tópico abordado por Judith Butler. Por isto, as relações
completamente da estrutura hierárquica de uma relação ao pai que até de cooperação tipificadas em confrarias ou comunidades de iguais só
então havia marcado a experiência política de forma hegemônica. Para podem se consolidar, dentro de um paradigma freudiano, apoiando-se
que novas formas de identidade coletivas fossem possíveis, não basta- na exclusão violenta da figura antagônica. Isto talvez explique porque
ria apenas transmutar a identificação ao pai em recusa de seu domínio. Freud, mesmo dizendo-se interessado pelos desdobramentos da revo-
Seria necessário a existência de um modelo alternativo de identifica- lução bolchevique, pergunta-se sobre o que os soviéticos farão com sua
ções que se daria de maneira horizontal e com forte configuração igua- violência depois de acabarem com seus últimos burgueses.
litária. Daí uma afirmação maior como: "Dorme em nós, igualmente Outra forma de crítica à idéia de Fedem aparecerá quase cinquen-
herdada ainda que em uma intensidade inferior ao sentimento de filho, ta anos mais tarde, com o livro de Alexander Mitscherlich: Em dire-
um segundo princípio social, este da comunidade fraterna cujo motivo ção a uma sociedade sem pais (Aus dem weg zur vartelose Gesellschaft), de
psíquico não está carregado de culpabilidade e temor interior. Seria 1963. Partindo do diagnóstico frankfurtiano do declínio da autorida-
uma liberação imensa se a revolução atual, que é uma repetição das de paterna devido às mutações na sociedade capitalista do trabalho,
revoltas antigas contra o pai, tiver sucesso" 2• à generalização do modelo burocrático de autoridade e à insegurança
O modelo de Federn, baseado na defesa de que as relações frater- produzida pela ausência de "seguranças de caráter paternalista" (pa-
nas poderiam constituir um "segundo princípio social" relativamente ternistischer Sicherung)4 na constituição de modelos para processos de
autônomo e não completamente dedutível das re lações verticais entre decisões a serem tomadas pelos indivíduos (o que dará décadas depois
filhos e pais, inscreve-se no horizonte de reflexões sobre estruturas ins- na temática da "sociedade de risco"), Mitscherlich poderá afirmar que
titucionais pós-revolucionárias. A partir de tal modelo, Fedem tentará o advento de uma sociedade sem pais já teria sido, à sua maneira, reali-
pensar o fundamento libidinal de organizações políticas não-hierar- zada pelo capitalismo. A desaparição do pai é um destino, não cansará
quica como, por exemplo, os sovietes e os conselhos operários que pro- de dizer Mitscherlich. No entanto, a comunidade de irmãos não teria
curavam se disseminar na nascente república austríaca graças as pro- redundado em novas formas de organização política, como Fedem em
postas dos social-democratas. A sociedade sem pais a que Fedem alude um momento imaginou. Na verdade, à estrutura da rivalidade edípica
tem a forma inicial de uma república socialista de conselhos operários. entre pai e filho substitui-se um comportamento de afirmação de si
É fato que Freud não seguirá esta via. Para tanto, seria necessária entre irmãos expressos através de ciúme e concorrência com suas pato-
a defesa de uma dimensão de relações intersubjetivas naturalmente logias ligadas ao culto da performance e à pressão narcísica dos ideias5.
cooperativas baseada na reciprocidade igualitária. Tal dimensão não Mesmo as figuras paternas no interior do núcleo fami liar seriam cada
existe em Freud que, neste sentido, estaria mais a vontade lembran- vez menos representantes de modelos patriarcais de autoridade e cada
do da agress ividade própria às relações fraternas com suas estruturais vez mais próximas de figuras fraternas concorrentes.
duais baseadas em rivalidade, tópico profundamente explorado por La-
can ao reduzir tais relações à dimensão imaginária e narcísica3, ou na 4. MITSCHERLICH. Alexander: Aus dem Weg zur varterlosen Gesellschaft. ln: Gesammelte
Schriften. Frankfurt; Suhrkamp. 1983, p. 250
natureza de "despossessão" própria às relações entre iguais libidinal- 5. Dai afirmações como: ·a necessidade de perform ance. o medo de ser ultrapassado e de
ficar para trás são com ponentes fundamentais da vivéncia do ind ividuo na sociedade de
massa. O m edo de envelhecer toma proporções de pãnico: a própria velhice se transforma
2. FEDERN. Paul: 'La société sans pére·, ln: Figures de la psychanalyse 212002 (n. 7), pp. 217-238 em um estágio da vida no experimentamos grande abandono sem reciprocidade por
3. Ver. por exemplo. LACAN, Jacques: "A agressividade em psicanálise·. ln: Ecrits. Paris: Seuil. 1966 gerações seguintes· (Idem. p. 324)
54 55
tlt , 1 olllll 1 u111.1 1\0\.l kitu1.1 dtl 11upu l i-.mo

Tal problema pareceria à princípio não ter espaço adequado de des-


Desta forma, a sociedade
dobramento em Freud, pois sua predominância das relações verticais
capitalista teria sido capaz de
em relação às relações horizontais acabaria por colocar uma barreira
sobreviver ao se transformar intransponível para toda política possível de transformação social. No
em uma sociedade sem pais entanto, o problema pode começar a ser encaminhado de outra forma
organizada em chave narcísica, a partir da reconsideração sobre a natureza de tais relações verticais.
pois se tais relações verticais puderem ser vistas como potencialmente
cujas patologias deixarão de se
desestabilizadoras de identidades, e não apenas como fortalecedora de
constituir a partir dos conflitos
papeis sociais estabelecidos, então teremos espaço para pensar o polí-
neuróticos com as interdições tico em suas dinâmicas de transformação institucional.
da Lei para se constituírem a Neste sentido, vale a pena lembrar como Ernesto Laclau forneceu
partir dos conflitos narcísicos uma releitura da potencialidade política do pensamento freudiano en-
quadrando tais discussões no interior do projeto de reconstrução do
diante da impotência a realizar
que se convencionou chamar de "populismo". Laclau chega a ver no
ideais. populismo "a via real para compreender algo relativo à constituição
Mitscherlich termina seu livro retomando a hipótese de Fedem e ontológica do político enquanto tal"6 • Isto a ponto de defender não ha-
se perguntando pela razão da experiência dos sovietes e dos conselhos ver: "nenhuma intervenção política que não seja, até certo ponto, po-
operários ter redundado, em vários casos, em culto à personalidade e no pulista"7. Partindo das mesmas descrições do advento da sociedade de
retorno a figuras paternas de autoridade ainda mais brutais. Sua respos- massas que influenciou Freud (Le Bon, Tarde, e McDougall) a fim de
t~ pa.ssa pela hipótese de tal retorno ser forma de defesa contra a angús- deixar evidente seu caráter de reação ao aparecimento de identidades
tia diante da destruição das "representações de identidade" ligadas aos populares no campo político, Laclau retorna ao texto freudiano para
modelos de conduta e de papéis sociais fornecidas pela identificação explorar a dubiedade do fenômeno identificatório no qual sua psicolo-
paterna. Com tal destruição das identidades e sua consequente abertura gia das massas se baseia:
a _novos circuitos dos afetos e desejos (Mitscherlich fala, por exemplo, de Se nossa leitura está correta, tudo gira em torno da noção
vmculos homossexuais em uma comunidade de 1'rm~ '
aos, vmcu Jos estes chave de identificação e o ponto de partida para explicar uma
que nã~ podem mais ser socializados a partir do modelo de sublimação pluralidade de alternativas socio-políticas deve basear-se no
produ~ido pela identificação paterna), sujeitos se viram desamparados grau de distância entre o eu e o ideal do eu. Se tal distância
e, por isto, vulneráveis à reprodução da identidade através da internali- aumenta, encontraremos a situação centralmente descrita
zação de um ideal social do eu que expressava nada menos que a "força por Freud: a identificação entre os pares como membros do
de aço das leis inexpugnáveis da História". Fica assim a questão de sa- grupo e a transferência do papel de ideal do eu para o líder.
ber como a destruição das representações de identidade produzida pelo (...) Se, ao contrário, a distância entre o eu e o ideal do eu é
colapso do caráter normativo das identificações paternas poderiam não
redundar em reações defensivas, mas em afirmações produtivas. 6. LACLAU. Ernesto; La razón populista, Buenos Aires Fondo de Cultura Económica, 2011, p. 91
7. Idem, p. 195
56
57
1 1 l pol1t1'-- \
m.1 no\, lcnu ., do populi mo

menor, o líder será o objeto eleito pelos membros do grupo, Não há totalização sem exclusão, e sem que tal exclusão pressu-
mas também será parte destes, participando do processo geral ponha a cisão de toda identidade entre, de um lado, sua natureza
de identificação mútua8• diferencial que a vincula/separa de outras identidades e, de ou-
Mas a mera proximidade entre eu e ideal do eu nos processos de tro, seu laço equivalencial com todas as identidades restantes a
identificação entre líder e povo não é suficiente para determinarmos partir do elemento excluído. A totalização parcial que o vínculo
uma natureza não autoritária dos vínculos políticos. A fim de salientar hegemônico consegue criar não elimina a cisão mas, ao contrá-
o fundamento democrático de sua hipótese, Laclau descreverá como rio, deve operar a partir das possibilidades estruturais que deri-
tal particularidade do líder alçada à condição de apresentação de uma vam dela 11 .
totalidade composta pelo povo, processo através do qual: "uma parti- Freud não falaria outra coisa ao denunciar a dinâmica autoritária
cularidade assume uma significação universal incomensurável consigo da psicologia das massas, mas Laclau não vê tal cisão como expressão
mesma"9, é a maneira através da qual uma particularidade se transfor- necessária de práticas segregacionistas. Vários movimentos populistas,
ma no corpo de uma totalidade inalcançável, incorpora uma totalidade em especial os latino-americanos se servem desta totalização por ex-
que não se coloca como fundamento a ser recuperado em um retorno clusão para operar no âmbito político das lutas de classe. Desta forma,
autoritário à essencialidade original dos vínculos sociais, mas que se o populismo pode dividir a sociedade em dois campos antagônicos no
fundamenta como horizonte de transformação continuamente aberto. interior do qual o povo, mesmo não se confundindo com a totalidade
Para tanto, tal particularidade deve se tornar um "significante vazio". dos membros da comunidade, coloca-se como parte que procura ser
Ou seja, não basta, como disse Lefort, que o lugar simbólico do poder concebida como única totalidade politicamente legítima, plebs até en-
esteja vazio. Faz-se necessário que aquele que ocupa tal lugar também tão não-representada que reclama ser o único populus legítimo.
apareça como um significante vazio e que tal vacuidade seja decisiva na No entanto, sob o populismo, a constituição do campo popular,
constituição de sujeitos políticos 1°. Só assim o vazio poderia preencher quanto maior, pede cada vez mais a suspensão do caráter contraditório
o papel que lhe cabe: instaurar o povo como um modelo de identidade de demandas particulares que ele precisa mobilizar. Por isto, só cabe
coletiva baseado na multiplicidade. No caso, multiplicidade de deman- à liderança ser um significante vazio que parece operar como ponto
das concretas de diferentes grupos distintos, muitas vezes contraditó- de unidade entre interesses aparentemente tão distintos. Tal caráter
rias entre si mas capaz de ser agenciada em uma rede de equivalências vazio dos significantes que unificam o campo popular não é resulta-
que permite, ao mesmo tempo, a constituição de uma identidade popu- do de algum arcaís mo político próprio a sociedades prenhes de ideias
lar-coletiva e a determinação de linhas antagônicas de exclusão (agora fora do lugar. Ele: "simplesmente expressa o fato de que toda unifica-
politizadas). Assim, Laclau poderá afirmar: ção populista tem lugar em um terreno social radicalmente heterogê-
neo"12. Laclau fornece vários exemplos para dar conta de um fenômeno
que, em seu caso, certamente tem expressões profundas no peronismo
8 Idem. p.87
g. Idem. p. 95 e em outras formas de populismo latino-americano reformista capa-
·o
s alientada por Slavoj Zizek: vazio do ·povo· é 0
10. Há aqui uma difere nça i11;portante bem _
vazio do s1g~1ficante hegem o~1co que totaliza a _cadeia de equivalência. isto é. cujo conteúdo zes de permitir a constituição de identidades coletivas. Nestes casos,
particular e transubs_tanc1ado numa Incorporaçao do todo social. enquanto o vazio do lugar
do poder e uma d1:tanc1a que torna 'deficiente', contingente e temporário todo portador
empInco do poder (ZIZEK. SlavoJ: Em d efesa das causas perdidas. São Paulo: Boitempo 11 Idem , p. 104
2011, p. 247) .
12. Idem. p. 128
58 59
um,l 110\.1 lt1111r,\ de, populi,ino

o populismo demonstrou tal função pelo fato da defesa da ordem ins- sobreposição entre direito e
titucional nestes países ter sempre estado, em larga medida, vinculada
demandas sociais, entre legalidade
às demandas hegemônicas de setores conservadores da sociedade. O
que pode não ser o caso. Tal indeterminação de resultados relativos e legitimidade. Não há política
a fenômenos populistas permite a Laclau ver no papel unificador de democrática sem um excesso
Nelson Mandela, na política cosa nostra do governador paulista Adhe- de antagonismo em relação às
mar de Barros Filho ou nos projetos de Mao Tse-Tung exemplos do possibilidade previamente decididas
antiinstitucionalismo populista. Pois: "existe em toda sociedade um
pela estrutura institucional, e é isto
reservatório de sentimentos anti status quo puros que se cristalizam
em alguns símbolos de maneira relativamente independente da forma de que a experiência populista nos
sua articulação política e é sua presença que percebemos intuitivamente mostra,
quando denominamos "populista" um discurso ou uma mobilização" 13•
embora Slavoj Zizek lembre com propriedade que o populismo não é o
Tais símbolos são "significantes flutuantes" cujo caráter de "flutuação"
único modo de existência do excesso de antagonismo sobre a estrutura
vem do fato deles poderem aparecer organizando o discurso de pers-
democrático-institucional 14 • De toda forma, Laclau nos permite com-
pectivas políticas muitas vezes radicalmente distintas entre si.
preender como a reflexão política freudiana pode nos aj udar a subli-
nhar a complexidade da relação entre institucionalidade e demandas
As elaborações de Laclau são
que se alojam em um espaço anti-institucional. A irredutibilidade da
precisas em mais de um ponto. posição da liderança implica reconhecimento de um lugar, não com-
Elas mostram como a perspectiva pletamente enquadrado do ponto de vista institucional, marcado pela
freudiana e seus desdobramentos presença da natureza constituinte da vontade política. Tal lugar pode
permitem compreender, com clareza, tanto impedir que a política se transforme na gestão administrativa das
possibilidades previamente determinadas e constrangidas pelo ordena-
as dinâmicas identificatórias no
mento jurídico atual quanto ser o espaço aberto para a recorrência con-
campo político não apenas como
tínua de figuras de autoridade e liderança que parecem periodicamente
regressivas, mas também como se alimentar de fantas ias arcaicas de segurança, proteção e de medo.
constitutivas da própria dinâmica Esta ambivalência lhe é constitutiva, pois ela é, na verdade, a própria
transformadora das lutas sociais. ambivalência da incorporação em política.
No entanto, Laclau deveria explorar com mais sistematicidade a
Não há política democrática sem
natureza profundamente ambígua das estratégias populistas e sua ne-
o reconhecimento de dinâmicas cessária limitação. Ambiguidade não no sentido da polaridade, sempre
constituídas no ponto de não- alimentada pelo pensamento conservador, entre democracia com ins-

13 Id e m . p . 136 14. Cf. ZIZEK. Slavoj ; Em d efesa d as causas p e rdid as. op. cit., p. 287
60
61
f 1. l. H 1111. 1
111 l\ 1 li,; llll 1,I) Jlúl 1 1111

tituições fortes e autoritarismo personalista, mas no sentido de uma . editar na relação fundamental entre norma e fantasia, Freud
pois, ao acr "
oscilação contínua, interna a todo movimento populista, entre trans- • ria indevidamente o comportamento das massas e dos grupos
genera11za
formação e paralisia. Por sustentar a necessidade de sujeitos políticos se , , · s" fortemente dependentes de móbiles psicológicos para toda e
trans1tono
expressarem como povo constituído através de cadeias de equivalências
qua1quer 1·nstituição possível. Freud não apenas_ indicaria a. gênese das ilu-
entre demandas concretas muitas vezes contraditórias, o populismo é ~
soes subs tancialistas que afetam a representaçao da autoridade do Estado,
assombrado continuamente pelo risco da paralisia dos processos de
mostrando como tais ilusões representariam o retorno de uma mentalida-
transformação social devido ao fato de alcançarmos rapidamente um de arcaica a ser combatida por inviabilizar uma concepção democrática da
ponto de equilíbrio no qual demandas começam a se vetarem mutua- vida política incapaz de sobreviver ao conflito particularista das paixões.
mente. O populismo avança em situações nas quais há um cálculo possí- Neste sentido, a perspectiva freudiana não é eminentemente crítica, o que
vel que permite a várias demandas determinadas mais fortes serem, em para Kelsen seria bem-vindo. Ao contrário, ao insistir em compreender
algum nível, contempladas. No entanto, ele se depara rapidamente com todo e qualquer vínculo social a partir "dos processos de ligação e asso-
uma situação na qual processos de transformação se estancam porque ciação libidinal" em sua multiplicidade empírica, ele pareceria expor a ne-
demandas contraditórias começam a se negar mutuamente, o que faz cessidade de tal ilusão para a própria sobrevida da soberania do Estado.
do processo de liderança uma gestão contínua do imobilismo e da inér- "Freud, portanto, vê o Estado como uma mente de grupo" 15 , d'ira'Ke1sen
cia, desviada pela construção pontual de antagonismos setorizados com insistindo que uma linha vermelha teria sido atravessada, já que o Estado,
grupos exteriores. Faz parte da dinâmica do populismo estes momentos para o jurista austríaco:
nos quais o imobilismo se justifica pela transformação da luta de classe
Não é um dos vários grupos transitórios de extensão e estrutura
em mero fantasma a assombrar, com ameaças de regressões a condições
libidinal variáveis; é a ideia diretora, que os indivíduos pertencen-
antigas de vulnerabilidade, os setores submetidos à liderança. Assim,
tes aos grupos variáveis colocaram no lugar de seu ideal de ego,
consolida-se a dependência às figuras de liderança que já não são mais
para poderem, por meio dela, identificar-se uns com os outros.
capazes de fazer o processo de transformação avançar, mas que tentam
As diferentes combinações ou grupos psíquicos que se formam
nos fazer acreditar que, se desaparecerem, elas poderiam nos levar à
quando da realização de uma única ideia de Estado não incluem,
situação de perda das conquistas geradas. Figuras que a partir de então
de modo algum, todos os indivíduos que, num sentido inteira-
se perpetuarão através do retorno fatídico à mobilização libidinal do
mente diverso, pertencem ao Estado. A concepção inteiramente
medo como afeto político (o caso brasileiro recente do esgotamento do
jurídica do Estado só pode ser entendida na sua conformidade
lulismo é um exemplo quase didático neste sentido).
jurídica específica, mas não psicologicamente, ao contrário dos
De toda forma, a leitura de Laclau pode nos fornecer uma boa respos-
processos de ligação e associação libidinal, que são o objeto da
ta a críticas à Freud feita ainda nos anos vinte por Hans Kelsen. Em "O
psicologia sociaP 6•
conceito de Estado e a psicologia social, com especial referência à teoria
de grupo de Freud", Kelsen se volta contra a possibilidade das hipóteses 15. KELSEN. Hans: A democracia. São Paulo: Martins Fontes. 2000. p. 323 . .
16. Idem. p. 327- Não deixa de ser sintomático a proxim idade entre a vertente formalista kelseniana
fundamentais de Psicologia das massas e análise do eu valerem também para ·o
e leituras ·republicanas· como a critica a Freud sugerida por Bernard Baas: agrupamento _do
povo para o exercício do poder soberano. ou seja. do poder de fazer leis as quais todos aceitam
sociedades democráticas insistindo, no seu caso, na irredutibilidade da obedecer. é a ereção de cidadão que formam o bando político republicano. E claramente a 1de1a
republicana que é aqui objeto de amor unificando os cidadãos em um mesmo corpo: mas se
norma jurídica à crença ou amor por uma pessoa ou ideia personificada. trata de um corpo sem cabeça. sem 'chefe' no sentido freudiano do termo· (BAAS. Bernard: Y a-t-
il de psychanalystes sans-culotte7 • op. cit.. p. 217)
62
ili «.: e I o l 111l ,.

Ou seja, a existência do Estado exigiria uma universalidade genéri-


ca que não pode ser assegurada se creio que todas as instituições devem
necessariamente encontrar seu fundamento em processos de identifi-
cação e investimento libidinal, tal como quer Freud. Pois não haveria
identificações universalmente recorrentes, já que elas dependem das
particularidades empíricas das relações familiares em sua contextuali-
dade especifica. No entanto, é fato de que, para o psicanalista, a "con-
cepção inteiramente jurídica do Estado" de Kelsen seria simplesmente
uma hipóstase que nos impediria de compreender as dinâmicas pró-
prias à estrutura fantasmática da autoridade em nossas sociedades. Se
Freud se vê obrigado a afirmar o caráter filogenético de sua fantas ia
social do pai primevo, é por entender que os vínculos ao Estado pro-
curam se legitimar através da reiteração retroativa de um modelo de
demanda de autoridade. Tais vínculos não se alimentam apenas da es-
pecificidade de relações familiares, mas assentam-se em outros "apare-
lhos de estado" como a igreja ou o exército, aparelhos mais gerais que
incitam continuamente a certas formas de vínculos libidinais. De fato,
o Estado do qual fala Kelsen exige uma espécie de "purificação política
dos afetos" através da defesa da validade transcendental da norma que
só pode nos levar à crença na imunidade do Estado à problematização
política do quadro jurídico com seu ordenamento e seus mecanismos
previamente estabelecidos de revisão. Como bem demonstrou Laclau,
a teoria freudiana da psicologia das massas fornece uma crítica a tal
positivismo jurídico ao insistir na d imensão rad icalmente anti-institu-
cional da experiência política.
IDENTIDADE, GOZO E AS
POTENCIALIDADES
,
DEMOCRATICAS DO
POPULISMO
Thomás Zicman de Barros'

O populismo é um perigo para a democra-


cia ou, ao contrário, abre um caminho privi-
leg iado rumo à democratização? Diferentes
res postas a essa questão dividiram os comen-
tadores do mundo político nos últimos anos.
Por um lado, observamos o aparecimento de
livros dedi cados a denunciar o populismo
como síntese de todos os problemas políti-
cos: o populismo é autoritário, irracional, an-
tidemocrático (Stavrakakis e Jager 2017). Por
outro lado, o populismo é às vezes apresen-
tado como o caminho para a redenção da de-
mocracia, a meaçada pela força dos mercados
(Mouffe 2018). Divididos entre posições tão
diferentes sobre o mes mo fenômeno, como
decidir?

1. Doutorando em Ciência Política pelo Institui dÉtudes


Politiques de Paris - Sciences Po Paris. associado ao Centre
de Recherches Politiques de Sciences Po (CEVIPOF). Possui
graduação em Ciências Econômicas pela Universidade de
São Paulo e pôs-graduação em Teoria Política do Institui
dÉtudes Politiques de Paris - Sciences Po Paris.
78 79

Atualmente, uma reflexão acerca o populismo não pode ignorar talismo popular" articulava uma serie de elementos discursivos
uma das contribuições mais consequentes sobre essa temática: as teo­ tais como tradição, família, patriotismo, lei e ordem, economia de
rizações de Ernesto Laclau. Como esse texto indicará, porém, mesmo mercado, empreendedorismo, liderança forte, entre outros - contra
sua obra não produz respostas definitivas sobre o caráter democrático certas "elites" - nesse caso, os burocratas, os sindicalistas e outros
dos fenômenos.populistas. "parasitas" que se aproveitariam de forma indevida das benesses do
Há, nos trabalhos de Laclau, um certo paradoxo. De um lado, Estado de Bem-Estar (Hall 1988, 140-2; Howarth 2000, 9). De acordo
ele critica as teorias tradicionais do populismo, que o apresentam com Jean-Claude Monod, a mesma lógica seria presente, também,
de forma pejorativa, como um fenômeno marcadamente irracional no discurso de Nicolas Sarkozy durante sua campanha presidencial
e potencialmente antidemocrático. Para ele, o populismo não é nem vitoriosa, quando ele opun h a "a França que se 1 evanta cedo" aos "as-
positivo, nem negativo. O populismo, segundo Laclau, é acima de sistidos" que dependiam do Estado (Monod 2009, 47). Progressistas
tudo uma lógica política. Se trata, no populismo, da articulação de ou conservadores, liberais ou intervencionistas, todos eventualmen­
diversas demandas insatisfeitas presentes na sociedade. Tal articu­ te podem ser considerados populistas segundo Laclau.
lação se estabelece no momento em que essas demandas passam a Por outro lado, porém, Laclau defende o populismo como estraté­
ser vistas como equivalentes - o elemento comum que estabelece gia emancipadora. O populismo, para ele, é um veículo que permite
essa equivalência sendo o fato de todas as demandas continuarem representar setores excluídos da sociedade. O populismo teria a
insatisfeitas. Para que essa cadeia de equivalência se estabeleça, diz capacidade de colocar em questão nossas formas de vida social - toda
Laclau, é preciso em primeiro lugar um significante vazio - em ou­ desigualdade tradicional seria abalada pela força politizadora do
tras palavras, um símbolo compartilhado que represente a totalidade populismo. Para Laclau, o populismo seria o meio necessário para
das demandas. Complementarmente, o populismo deve representar expressar um projeto de democracia radical (Zicman de Barros e Sta­
um adversário comum - a lógica populista por excelência é aquela vrakakis 2017, 11).
que divide o campo social em dois: "nós" contra "eles", o "povo" O paradoxo emerge da aparente incompatibilidade entre defen­
contra as "elites". Assim sendo, o populismo se distingue de uma der o populismo ao mesmo tempo em que se indica que movimen­
lógica institucional na qual as demandas presentes na sociedade não tos que portam conteúdos tão diferentes são todos, em certo grau,
se articulam e, ao contrário, são administrativamente endereçadas, populistas.
uma a uma. O esforço despendido nesse texto busca pensar esse paradoxo e ava­
Nesse sentido, para Laclau, não se trata nunca de dizer se um liar as potencialidades democráticas do populismo. O populismo seria
movimento é populista ou não, mas em qual grau ele é populista (La­ sempre democrático? Seria possível distinguir dois tipos de populismo,
clau 2005a, 45-7). Segundo Laclau, o populismo não tem um conteú­ um democrático e outro antidemocrático?
do definido: Mao Tsé-Tung era populista, assim como Benito Mus­ A própria formulação dessa pergunta nos força, em primeiro lu­
solini, mas também Charles de Gaulle. Mesmo se o próprio Laclau gar, a explicar o que se entende por democracia - um conceito que
nunca utilizou esse exemplo, é possível dizer, a partir das reflexões definirá nossa ética política. O presente capítulo será, portanto, or­
de Stuart Hall, que até mesmo Margaret Thatcher seria em certa ganizado em dois momentos, divididos finalmente em cinco partes.
medida populista. O discurso thatcherista em defesa de um "capi- Primeiramente, tratando da dimensão simbólica do problema em
80 81

questão, serão aprese nt adas as bases on to lógicas da Teoria do Dis-


Um discurso é um conjunto
curso da Escola de Essex e s ua co ncepção de democracia radical. A
articulado de elementos
partir dessas noções, na segunda parte do texto será possível pensar
co mo um populismo de mocrátic o e um populismo a ntide mocrático linguísticos e extralinguísticos,
se distinguiriam. Como se tentará d emons trar, a distinção teó ri ca simbólicos e afetivos. Ele comporta
e nt re esses dois populismos passa fundamentalmente por suas di- palavras, mas também atos. E
ferentes relações com a ideia de identidade. Na terceira parte d o
ele comporta uma dimensão
capítulo, debruçando-se sob re a dimensão afet iva do problema em
questão a partir do co nce ito psicanalítico de gozo, se verá como os
performativa: é a partir do discurso
diferentes populismos implicam diferentes circ uitos dos afetos. Na que se constrói o conjunto de
quart a e quinta partes, as tensões entre os dois tipos de populismo nossas práticas sociais - é porque
serão ap resentadas a p art ir de uma art iculação entre a Escola d e acreditamos em discursos e agimos
Essex e o pensamento de Freud e Lacan. Finalmente, a co nclusão
a partir deles que eles dão forma ao
indi cará como a fronteira en t re um populismo democrático e um po-
nosso mundo.
pulismo ant idemocrático é n a realidade uma zona c inzen ta, e co mo
um populismo democrático e s ublim a tório será sempre rondado por Trata-se, é claro, de uma ideia que suscitou vivas críticas, sobretudo
lóg icas fantasmáticas. da parte do marxismo trad icional, baseado em uma noção ma terialista
da objetividade. De acordo co m Norman Geras, por exemplo, Laclau e
A DIMENSÃO SIMBÓLICA
Mouffe seriam idealistas que perigosamente ignorariam a existência de
1. Discurso, identidade e democracia radical uma realidade pré-discursiva e a nterior à teoria, minando as bases neces-
O conceito d e discurso tem um a longa trajetória, que remo nta a sárias ao debate racional (Laclau e Mouffe 1987, 84). A resposta dos dois a
Ferdinand de Saussure, Jacques Derrida, Michel Foucault, entre outros tais críticas afi rma, contudo, que não se trata de negar a existência de um
(Howarth 2000), mas que aqui não poderá ser retomada em d etalhe. mundo exterior. O argumento de Laclau e Mouffe aceita a objetividade
Nessa sessão, será apresentada a n oção de discurso como ela foi de- de um mundo extradiscursivo que podemos estudar, mas sublinha que
senvolvida pela Escola de Essex, e mais precisamente nos trabalhos de nenhuma significação acerca desse mundo está dada a ntes do d iscurso.
Ernesto Laclau e Chantal Mouffe. Em uma boa ilustração de seu ponto de vista, os autores afirmam:
Desde o aparec ime nto de Hegemony and Socialist Stra tegy (1985),
Se eu c huto um objeto esférico na rua ou se eu chuto uma bola
o primeiro livro que esc reveram juntos, Laclau e Mouffe defen-
e m um jogo de futebol, o fato físico é o mesmo, mas a signifi-
dem que o conce ito de discurso é um a categoria on tol ógica que
cação é diferente, O objeto só é futebol na medida em que ele
faz a lusão a tudo o que concerne à s ig nifi cação - nesse se n tido,
estabelece um sistema de relações com outros objetos, e essas
para eles, tudo o que diz respeito à realidade humana é discursivo.
relações não são dadas apenas pela materialidade referencial de
tais objetos mas são, ao contrá rio, socialmente construídas (La-
clau e Mouffe 1987, 82).
82 83
1 \ , 1 (1 1 1 1 1

Se encostarmos em uma vela acesa, nos queimaremos. Aí está o fato constitutiva do sujeito - são tratadas separadamente, e uma plurali-
dade de identidades coexistem, cada uma " no seu quadrado", com sua
objetivo. Contudo, o puro ato de se queimar pode ter significados so-
particularidade. Como foi indicado na introdução, o populismo segue
ciais bastante diferentes. Um motorista que se queima com combus-
tível durante um acidente de carro não é entendido da mesma forma um caminho contrário a esse. No discurso populista, a lógica que opera
é a lógica de equivalência. O populismo cria uma equivalência entre
que um manifestante que decide se imolar durante uma revolta. E um
diversas demandas insatisfeitas. Ele simplifica o campo político, divi-
mesmo fenômeno _p ode também suscitar interpretações muito distin-
dindo-o, em última instância, em duas partes: "nós" e "eles".
tas: a devastação causada por um tornado, por exemplo, pode ser vista
Nessa dinâmica, segundo Laclau, é preciso existir um ponto nodal,
como um evento natural pouco importante, como fruto de mudanças
um elemento específico que garanta a estabilidade parcial da constru-
climáticas estruturais, como uma vingança de ordem divina ou, ainda,
ção discursiva desse " nós". A partir dos anos 1990, Laclau chamará esse
como resultado da falta de prevenção da parte do governo 00rgensen
ponto nodal de "significante vazio".2 O significante vazio é central por-
e Phillips 2002, 9). Mesmo se podemos estar em profundo desacordo
que ele dá nome à coletividade e, em o fazendo, a constitui como su-
com algumas dessas interpretações, elas produzem efeitos sociais - ao
jeito político coletivo - de acordo com Oliver Marchart, "a política deve
mesmo tempo em que nos indicam como, em nossas sociedades, a sig-
ser entendida como o próprio processo através do qual um grupo assume seu
nificação pode ser plural.
nome" (Marchart 2007, 5).
Tal noção de discurso é fundamental porque, para além da demons-
Para Laclau, esse significante vazio é um significante particular que
tração da contingência de nossas significações, ela abre o caminho
progressivamente perde seu conteúdo específico, e que começa a re-
rumo a uma concepção moderna e democrática da realidade social.
presentar uma totalidade ausente mais vasta do que ele próprio, crian-
Com essa noção de discurso, aceita-se que não há resposta definiti-
do uma cadeia de equivalência entre diversas demandas insatisfeitas
va sobre a forma de organizar nossa sociedade - a resposta teológica,
presentes na sociedade. É o caso, por exemplo, das lutas por liberdade
pré-moderna, não sendo mais suficiente. Como Claude Lefort bem dis-
sindical no norte da Polônia durante os anos 1980. Em um contexto
se, com o advento da modernidade, vemos a "dissolução das referências
de forte repressão política no qual várias reivindicações continuavam
de certeza" e experimentamos " uma indeterminação última quanto ao
pendentes, "as demandas do Solidamosé [o sindicato de Lech WalE;sa na
fundamento do poder, da lei e do saber" (Lefort 1986, 29).
cidade de Gdarísk] se tomaram o ponto de encontro de associações equiva-
Isso dito, a noção de discurso de Laclau e Mouffe não para por aí.
Eles avançam e desenvolvem uma teoria sobre a forma como os dis-
lenciais mais vastas do que elas próprias" (Laclau 2005b, 217). Poderíamos
pensar, também, nas Revoluções Russas, quando múltiplas demandas
cursos e as identidades coletivas a eles associadas se estruturam como
- tais como "Pão", "Paz" e "Terra" - se articularam, a partir de certo
construções contingentes.
momento, em torno da demanda "Todo poder aos sovietes". Tal deman-
A partir de Ferdinand de Saussure, Laclau considera que toda iden-
tidade é relacional. Não é possível constituir um "nós" como sujeito
2 Mesmo se o conceito de significante vazio é em geral associado ao populismo e à lógica
político se não houver algo para além desse "nós". No discurso insti- da equivalência. Laclau nos convida a pensar sobre a presença de tais significantes até
mesmo nos dilos discursos institucionalistas. De partida. se a d istinção entre um discurso
tucionalista, o que vigora é a lógica da diferença. O campo político é populista e um discurso inslilucionalista é uma questão de grau. então é possível encontrar
equivalências também no institucionalismo. De fato. m esm o os discursos nos quais a lógica
fragmentado: as diversas demandas presentes na sociedade - deman- da diferença prevalece - incluindo em suas versões mais radicais, como no discurso do
apartheid - é possível encontrar referências a uma universalidade ausente (Norval 1996, 173:
das que são, como veremos, produto de um deslocamento, da divisão ver tam bém Butler. Laclau. e Laddaga 1997)
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85
nli ·

da específica tornou-se representante de uma universalidade ausente


"que após a possível aniquilação do inimigo antagônico, eu iria finalmen­
- constituindo, a partir dessa representação, o povo russo como sujeito
te abolir o antagonismo e chegar a uma identidade comigo mesmo" (Zizek
revolucionário.
1990, 251). De acordo com ele, a posição original de Laclau e Mouffe
No caso do populismo, o significante vazio é frequentemente o
ignoraria a noção já mencionada do caráter relacional de toda identi­
"povo", um termo capaz de unificar diversos setores da sociedade contra
dade: para que "nós" existamos, é preciso haver outros. O argumento
um adversário comum: as elites. Isso dito, para Laclau todo significante,
de Zizek, portanto, é de que o outro, o antagonista, já faz parte de nosso
e mesmo o nome de um líder, pode potencialmente se tornar um signi­
discurso - sua ameaça estando, ao menos parcialmente, simbolicamen­
ficante vazio (Laclau 2005b, 100). Na Argentina durante o exílio de Juan te controlada.
Domingo Perón, diz Laclau, a demanda "Perón no poder" e o próprio É inspirado por essas críticas que Laclau avança em sua teoria de
nome do caudilho teriam reunido uma série de insatisfações - frequen­ forma a distinguir o social e o político (Laclau 1990, 160). O social,
temente insatisfações contraditórias entre si, como se tornou claro no
para Laclau, é precisamente o conjunto de práticas sociais rotinizadas
momento do retorno de Perón ao país, em 20 de junho de 1973, quando
hegemônicas que reproduzimos no cotidiano. O social sedimenta,
do Massacre de Ezeiza - contra o regime antiperonista em vigor.
reafirma as identidades: mesmo em uma relação antagônica que opõe
Mais populista ou mais institucionalista, um discurso é dito
"nós" e "eles", os dois polos adversários apenas se reafirmam mutua­
hegemônico quando ele consegue definir provisoriamente o signi­ mente - paradoxalmente, o inimigo é parte constituinte de um discur­
ficado dos termos do debate público. Um discurso hegemônico é
so, e seu caráter ameaçador, na realidade, apenas nos define enquan,to
aquele que faz "de suas lógicas e regras as regras 'naturais' da comu­ sua negação. 3 Como Lasse Thomassen bem indicou, o antagonismo
nidade", e que "contribui para a desativação, ou ao esquecimento, dos discursivo apresentado por George W. Bush opondo "o mundo livre" ao
projetos rivais contra os quais ele lutava" (Zac e Sayyid 1998, 262). Tudo "terrorismo" servia para lhe dar legitimidade - paradoxalmente, cada
que o ultrapassa, todo projeto rival se torna incompreensível (Ner­
nova ameaça terrorista apenas reforçava a necessidade de sua liderança
val 1996, 173). Um discurso hegemônico é aquele que se estabelece (Thomassen 2005a, 105-8).
como fundamento da ordem simbólica, que fixa as identidades, e
O político, por sua vez, se refere ao momento de instituição do
que não permite o deslocamento das fronteiras que separam o "nós"
social, quando novas práticas e identidades se estabelecem (Laclau
e os "outros".
1999, 146). O "momento do político" revela o caráter arbitrário e
Para melhor compreender essa ideia, é preciso retomar uma evolu­
contingente da vida social e, dentro dessa, das fronteiras que defines
ção no pensamento de Laclau. Em 1985, quando ele publica Hegemony nossas identidades coletivas, abrindo espaço para sua rearticulação
and Socialist Strategy com Chantal Mouffe, o conceito de antagonismo - um processo criador que emerge mas que é também limitados pe­
é ainda pensado como nomeando o que ameaça nossas identidades: o
las lacunas da ordem simbólica. Como Lilian Zac e Bobby Sayyid
inimigo, o outro, apresenta um discurso rival que, incomensurável e
bem ilustraram:
em desacordo com o nosso, coloca em causa nossa identidade (Laclau e
Mouffe 1985, 124- 5). Tal ideia, no entanto, evoluiu a partir de uma série
3. Isso se torna ainda mais claro se considerarmos que às vezes. na relação entre discursos
de críticas desenvolvidas pelo filósofo esloveno Slavoj Zizek. Segundo de dois grupos. um se insere na lógica populista do confronto enquanto outro se 1nscrevena
_
Zizek, essa primeira noção de antagonismo se baseava sobre a ilusão na lógica institucionalista. Guardada toda medida. os estudos sobre as tnb:'s W1nnebago
feitos por Claude Lévi-Strauss apresentam um bom ?�emplo dessa s1tuaçao na qual
diferentes perspectivas coexistem (Butler. Laclau, e Z1zek 2000. 112-13).
86
87
lll11,\lll\ lc.:ilur1 op1 1,1
1 '1
A política não é como um jogo de xadrez. Na
política, é possível A democracia radical visa
quebrar as regras do jogo, por exemplo, chut
ando o tabuleiro de
xadrez. Chutar o tabuleiro não é algo inter
a aceitar a contingência de
no ao jogo de xadrez
[... J. A política é precisamente um jogo cui·os
fins estão abertos, e
nossas identidades e das
que busca fazer as regras e desenhar as front
eiras dessas regras formas de nossa vida social
(Zac e Sayyid 1998, 252). - e, para aí chegar, ela nos
Essa característica do "político" explica por
que suas expressões convida a estabelecer uma
empíricas - as irrupções populistas e as
manifestações de indigna­ nova relação com o que Laclau
ção recentes, por exemplo - são vistas, em
tes. Como Zizek notou, nesses momentos
geral, como surpreenden­ chamou de heterogeneidade.
de irrupção política - que
ele aproxima da noção de ato analítico - o
escandaloso, 0 impossível, O conceito de heterogeneidade tem suas raízes na filosofia de Geor­
o impensável ocorre, e os próprios atore ges Bataille. O pensamento de Bataille se interessava pelos resíduos
s que os protagonizam afir­
mando não compreender como conseguiram que a sociedade produz e não consegue absorver simbolicamente. No
que algo desse tipo fosse
feito (Zizek 1998, 14). E Zizek adiciona, pensamento de Jacques Ranciere, a heterogeneidade se aproxima do
comentando um desses "mo­
mentos" - mais uma vez, as "prematuras"
Revoluções Russas - que es­ que ele chama de "parte dos sem-parte" (Ranciere 1995, 31). O hetero­
ses processos criam, retrospectivamente
, as condições de sua própria gêneo, muito simplesmente, é um real excluído da ordem simbólica,
emergência: o discurso se transforma, e aquil uma limitação de tal ordem que, quando da sua emergência, a coloca
o que era impossível pode
se tornar, subitamente, inevitável (Zizek 2008
, 31116). o "momento do em xeque.
político" apresenta um novo discurso, exter
ior aos antagonismos exis­ Nessa linha, Laclau associa o heterogêneo ao que G. W. Hegel cha­
_
tentes, que coloca em evidência a falta cons
titutiva que atravessa as mava de "povos sem história", que não encontram lugar na lógica dialé­
identidades em vigor - a falta de base sólid tica que governaria a história e que, para Laclau, indicariam a inconsis­
a de nossas práticas roti­
nizadas - de forma a desestabilizá-las e, assim tência da teoria hegeliana:
, abre o caminho para a
mobilização dos excluídos do discurso dom
inante.
[... ] há, porém, um ponto cego [na concepção dialética da his­
Dessa forma, compreende-se como o conc
eito de discurso forne­
ce as bases para o que se pode chamar de ética tória em Hegel]: aquilo que Hegel chama de "povos sem his­
da democracia radical.
A democracia radical busca acentuar o carát tória". [...] Eu os comparei com [...] o resíduo que sobra em um
er contingente de todo
tubo de ensaio após um experimento químico. Essa presença
discurso e de toda identidade, institucio
nalizando O "momento do
político". não-histórica é como a gota de óleo que destrói o pote de mel,
pois a existência de um excesso contingente [...] torna essa
dialética igualmente contingente e, como resultado, toda a visão
2. Heterogeneidade e populismo
da histórica como um conjunto coerente é pelo menos prejudi­
A democracia radical não é nem um regim
e, nem uma forma de
seleção de líderes. Ela é, antes de qualquer cada (Laclau 2006, 666).
coisa, uma ética, uma forma
de ver o mundo (Glynos 2003, 191).
lf
88 89

O heterogêneo é também comparado por Laclau ao lumpemproleta­ geneidade é já uma representação parcial do que se supõe resis­
riado como formulado por Karl Marx - excluído do antagonismo entre o tir à representação, a heterogeneidade não reivindica agarrar o
proletariado e a burguesia porque excluído da produção econômica que que quer que seja "em si". A heterogeneidade se refere precisa­
dá aos atores sociais seus papeis. Segundo Laclau, a dicotomia marxista mente aos limites internos da representação, e não a alguma coisa
tradicional, opondo trabalhadores e patrões, não seria tão subversiva. para além ou fora da representação (Thomassen 2005a, 113-14).
Na realidade, tal antagonismo apenas reafirmaria as identidades dos
No mesmo sentido, Zizek adicionaria que
dois lados beligerantes - os proletários e os burgueses. Mesmo se eles
disputam os mesmos elementos discursivos, esses elementos já esta­ [...] o real não é uma realidade substantiva transcendente que,
riam dentro da ordem simbólica. O caráter verdadeiramente subver­ desde fora, perturba o equilíbrio do simbólico, mas o obstácu­
sivo residiria precisamente no lumpemproletariado: sua aparição na lo imanente, a pedra no caminho da própria ordem simbólica
esfera pública chacoalharia o discurso hegemónico. Para Laclau, um (Zizek 2008, 319).
grupo subordinado "deve ter alguma coisa da natureza do lumpemproleta­ Com tais noções em mente, podemos dizer que o "momento do
riado", como símbolo do heterogêneo, se quer verdadeiramente amea­ político" é precisamente o momento de irrupção do heterogêneo, o
çar as identidades em vigor (Laclau 20056, 152). momento em que ele emerge e desestabiliza as formações discursivas
É possível pensar em outros casos para ilustrar a heterogeneidade. existentes, abrindo caminho para novas inscrições simbólicas, novas
Gayatri Chakravorty Spivak, por exemplo, dará outro nome a essa ca­ sedimentações parciais.
tegoria: ela os chamará de "subalternos", e apresentará as mulheres in­
Se Laclau vê potencialidades democráticas no populismo, é porque
dianas durante o período colonial como um dos grupos excluídos da considera o populismo como o meio de incorporação do heterogêneo
ordem simbólica na disputa entre colonizados e colonizadores (Spivak par excellence. Trabalhando nas margens da ordem simbólica, o popu­
1988). Enfim, podemos também adicionar à categoria de heterogenei­ lismo poderia mobilizar e politizar o que está excluído do discurso he­
dade todas as minorias de gênero não-binário, como as drag-queens e as gemónico.
transexuais no pensamento de Judith Butler, capazes de abalar a dico­ Isso dito, será que o populismo opera sempre às margens da ordem
tomia tradicional entre mulheres e patriarcado (Butler 1990). simbólica, na lógica de institucionalização do momento do político? A
Isso dito, o uso desses exemplos concretos não deve nos levar a pen­ partir de Laclau, torna-se claro que a simples dicotomia populista que
sar que o heterogêneo se reduz a grupos sociais excluídos. Na verdade, divide o campo político em duas partes - "nós" e "eles" - não implica
todos esses exemplos são produto da análise de discurso, e não anterio­ necessariamente o abalo das fronteiras que definem as identidades.
res a ela. O risco, aqui, é de cair no essencial ismo e começar a Assim, podemos dizer, em termos abstratos, que a distinção entre
acreditar que tais grupos existem como entidades concretas, antes da um populismo democrático e um populismo antidemocrático depende
representação. O heterogêneo se refere às aporias do discurso, ao real da relação de cada um com a identidade e com o heterogêneo. O popu­
lacaniano. Como Thomassen bem notou: lismo democrático exige a incorporação constante da heterogeneida­
Heterogeneidade é apenas um termo [...] que eu utilizo para falar de - em outras palavras, a problematização incessante de sua própria
das diferentes aporias discursivas, especialmente aquelas que identidade, e uma relação com o significante "povo" visto como hori­
pertencem à exclusão. Assim, mesmo se o uso do termo hetero- zonte aberto, como significante verdadeiramente vazio que buscamos
90
,, 91

sempre significar, mas cujas significações parciais são aceitas em sua


A DIMENSÃO AFETIVA
incompletude e contingência, se aproximando do que Jacques Derrida 3. Gozo, fantasia e vazio
chamou de "democracia por vir" (Stavrakakis 1999, 139; Norval 2007, Um discurso hegemônico não se sustenta apenas sobre a retóri­
145-52). O populismo antidemocrático, por sua vez, constrói o "povo"
ca. Tal ideia tornou-se clara a partir das contribuições de Yannis Sta­
como entidade fechada. Mesmo se ele incorpora o heterogêneo - como,
vrakakis, um antigo orientando de Ernesto Laclau que contribuiu para
por exemplo, Donald Trump o fazia durante sua campanha que reivin­
a incorporação formalizada de conceitos psicanalíticos na Teoria do
dicava a representação de uma "maioria silenciosa" - ele o faz apenas
Discurso - convidando o próprio Laclau a explicitar os pontos onde a
parcialmente. Como Glynos bem indicou, movimentos de contestação
teoria lacaniana o havia inspirado.
poder ser tão ideológicos quanto discursos dedicados a proteger a or­
De acordo com Stavrakakis, se o discurso fosse apenas retórica, se­
dem em vigor (Glynos 2008, 292). Dessa forma, fazendo um paralelo
ria impossível compreender sua força, compreender por que um sig­
com conceitos psicanalíticos, podemos dizer que o populismo antide­
nificante vazio é mais estável e mais poderoso do que outro, e por que
mocrático se aproxima da passagem ao ato, de uma ruptura improdu­
obedecemos (Stavrakakis 2007, 20-21). Se nenhum regime pode se ba­
tiva, oposta ao ato analítico - esse último produtor de novas inscrições
sear exclusivamente sobre a coerção física, a obediência só pode ser
simbólicas. O populismo antidemocrático incorpora certos setores
explicada se em alguma medida nós desejamos obedecer, se há um
excluídos, mas o faz a partir da discriminação de imigrantes e outras
investimento afetivo em relação ao comando. O conceito de afeto, aqui,
minorias (Stavrakakis 2017, 79). Como Thomassen bem disse alhures:
pode ser definido como uma energia libidinal nos limites da mediação
Não devemos ser levados a pensar que, normativamente, há algo simbólica (Stavrakakis 2007, 91). É a partir dessa noção que podemos
de inerentemente progressista relativo à heterogeneidade. De entender que, em nossa servidão voluntária, experimentamos certa for­
fato, mesmo que Marx encontre potenciais revolucionários na ma de regozijo. O conceito de gozo é central nos trabalhos psicana­
espontaneidade do lumpemproletariado, ele identifica também líticos de Jacques Lacan. Trata-se de um prazer inconsciente, guiado
o lumpemproletariado como uma força regressiva e como o fun­ pela pulsão de morte, e que pode se expressar como desprazer no nível
damento para o discurso conservador do bonapartismo (Tho­ consciente.
massen 20056, 301). Uma questão frequentemente endereçada à Teoria do Discurso diz
respeito a como articular a dimensão psicanalítica - em geral associada
No populismo antidemocrático, o povo não é um horizonte aberto,
aos traumas do sujeito particular - e a dimensão política que ultrapassa
mas comporta uma raiz étnica, proibindo a reencenação do momento
0 sujeito e discute dinâmicas coletivas. Mesmo se justa, essa questão
do político. Ao invés de instaurar a dúvida, a contingência, ele instaura
ignora a história da psicanálise.
a promessa de certeza e identidade.
Desde Freud, os psicanalistas utilizam seu ferramental teórico para
Evidentemente, é preciso se perguntar se o populismo democrático
pensar nossas sociedades - e, na direção inversa, se informam de ques­
é politicamente viável - ou seja, se pode se inscrever no tempo ou, ao
tões sociais para mais bem formular suas teorias sobre o sujeito. No
contrário, se não será sempre rondado pela promessa de uma identida­
primeiro sentido, já em seu texto sobre Psicologia de massas e análise do
de fechada. Pode-se construir uma hegemonia que coloca em questão
Eu (1921), Freud mostra como a formação de massas segue dinâmicas
suas próprias bases - uma paradoxal hegemonia contra-hegemônica?
narcísicas - na introdução desse texto, ele chega a dizer que "a psi-
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92
111\,11 (IIJ

O processo de castração simbólica implica a conformação aos ideais


cologia individual se apresenta desde o princípio como sendo, ao mesmo
tempo, de certa forma, uma psicologia social" (Freud 1921, 10). No segundo e às normas aprendidas na família. No entanto, esses últimos são sem­
sentido, como sugerido por Étienne Balibar, o conceito de superego, pre informados e configurados por uma ordem simbólica que é coleti­
uma das instâncias mais importantes da segunda tópica de Freud, seria va. É o coletivo que forja o sujeito lacaniano como sujeito dividido, e é
também no coletivo que esse sujeito pode buscar respostas às angústias
fruto de seu debate com Hans Kelsen sobre a obediência ao Estado (Bali-
que o constituem, onde ele pode buscar o gozo pré-simbólico perdido.
bar 2011, 383-434). Tal articulação continuou em Freud com Mal-Estar na
Mesmo se esse primeiro gozo idealização continua simbolicamente
Civilização (1929), entre outros textos, e na pluma de outros psicana­
listas. Assim, em última instância, do ponto de vista da psicanálise não inacessível, outras formas de gozo se fazem presentes na vida adulta.

há distinção clara entre o nível subjetivo e o nível coletivo. Haveria ao menos duas modalidades de gozo politicamente relevantes
- cada uma associada a diferentes formas de circular os afetos: o gozo
Voltando ao conceito lacaniano de gozo, constatamos que nossa fantasmático e o gozo do vazio (Stavrakakis 2007, 196-97; Glynos e
socialização ocorre no ambiente familiar, e que somos influenciados Stavrakakis 2008, 261-62). Como veremos, definir qual forma de gozo
pelas expectativas e pelas regras de nossos pais e outros adultos impor­ prevalece nos fenômenos populistas é uma etapa central para se
tantes em nossa infância, exercendo uma função de castração. Quando descobrir se tratamos de experiências compatíveis com um projeto de
nasce, o bebê não se entende ainda como uma totalidade democracia radical ou não.
independente. Em sua relação quase simbiótica com a mãe, não há Comecemos pela fantasia. Segundo Jason Glynos,
fronteira clara defi­nindo onde um acaba e outro começa. O bebê não
[As fantasias] dão forma a nossa maneira de "ver" a realidade,
conhece limite, nem entre ele mesmo e sua mãe, nem para a satisfação
incluindo seus problemas e solução, e portanto estruturam a ma­
de suas pulsões: tudo nele é excessivo. Ele experimenta - ou, para ser
neira como agimos no mundo (Glynos 2011, 67).
preciso, ele idealizará retrospectivamente essa situação como se ele
experimentasse - um estado de gozo pleno pré-simbólico. A fantasia se apoia sobre dois pilares. Em primeiro lugar, a apre­
É a partir da relação com adultos, no processo de entrada no campo sentação de um objeto exterior idealizado que incarna a promessa de
social da linguagem, que esse gozo pleno será castrado e reencontro com o gozo pré-simbólico perdido. Em termos políticos, a
irreparavelmente perdido. Uma vez na linguagem, o sujeito só pode fantasia busca esconder a contingência fundamental de nossas práti­
obter uma identidade se identificando narcisisticamente com algo que cas sociais, prometendo a instauração de uma sociedade plenamente
é exterior a ele (Lacan, Écrits, 524). Contudo, as diversas representações reconciliada, sem antagonismos (Stavrakakis 2007, 196-7). Seu exemplo mais
simbólicas não serão jamais capazes de dar conta da plenitude perdida, evidente são os discursos nacionalistas, prometendo o reencontro com
de cobrir a falta de gozo (Laclau 20056, 112-3). Quando da castração o paraíso perdido - para retomar a fórmula de Trump, "Make America
simbólica, o bebê faz convergir o conjunto desarticulado de pulsões Great Again" - ou a marcha rumo a um futuro glorioso ao qual o povo
parciais que o constituía no momento do nascimento e começa a se ver estaria predestinado. Gozamos dessa promessa, por antecipação.
como uma totalidade fe­chada. Ele se torna um sujeito descentrado, O exemplo do nacionalismo nos remete a uma das reflexões de Sla­
deslocado, dividido entre, de um lado, ele próprio como falta de gozo e, voj Zizek sobre a fantasia. De acordo com ele, o discurso fantasmá
de outro lado, como um objeto exterior que promete cobrir essa falta, mas -tico inclui sempre o que ele chama de "ladrões de gozo" (Zizek 1993,
que não poderá jamais ser internalizado (Glynos e Stavrakakis 2008, 263).
94 95
1 1

200). Segundo Zizek, nossos modos de gozo são sempre constituídos reformar profundamente o sistema financeiro, idealizar uma sociedade
em relação com o gozar dos outros. Assim, na fantasia, o gozo do outro reconciliada na qual os banqueiros seriam eliminados segue na mesma
é apresentado como responsável pela nossa falta de ·gozo. Se o paraí­ lógica da fantasia. A patologia da fantasia reside na promessa de gozo
so perdido não se instala, é porque alguém o impede. Além disso, na pleno, de um retorno ao gozo pré-simbólico.
fantasia, se o outro goza, trata-se de um gozo obsceno, não merecido. A questão é que uma tal promessa de uma sociedade ideal não pode
O outro goza às nossas custas. O judeu, aqui, é o exemplo mais claro: se realizar. Mesmo após uma possível eliminação dos "ladrões de
na propaganda antissemita, ele é o bode expiatório apresentado como gozo", nós não retornaríamos à situação de gozo pré-simbólico - o que,
monstro covarde que mina a grandeza da nação e que, por conseguinte, na prática, coloca problemas para o discurso fantasmático, incapaz de
deveria ser eliminado. entregar o que promete. Assim, para resistir, o segundo pilar que
sustenta a fantasia são certas experiências parciais do corpo que
O antagonismo ajudam a nutrir a ilusão de um gozo pleno que emerge no horizonte
externaliza nossa divisão (Stavrakakis 2007, 196-7). É o caso, por exemplo, das grandes festas
subjetiva, e atribui ao nacionais, ou das grandes competições esportivas. Contudo, esses
momentos de êxtase coletivo, de gozo do corpo, não dariam conta da
outro a responsabilidade
plenitude fantasmática: "Não é isso - eis o grito pelo qual se distingue o
de nossa incompletude gozo obtido daquele esperado" (Lacan, XX, 142). A promessa persiste -
simbólica - de tal forma talvez passando metonimicamente de um objeto idealizado a outro -
que, ao invés de ser visto mas não poderá jamais ser realizada (Stavrakakis 1999, 49).
como um adversário a É preciso adicionar que a lógica da fantasia, como Yannis Sta­
vrakakis bem notou, estava presente nas grandes ideologias do século
respeitar em uma lógica
vinte - como na promessa de uma sociedade comunista - mas também
agonística, o outro se no consumismo. Nos dois casos, objetos particulares são idealizados
torna um inimigo a e apresentados prometendo cobrir a falta constitutiva do sujeito. De
abater. acordo com ele, em uma entrevista recente,

[ ... ] para algumas pessoas, a promessa utópica, comunitária, de


Vale sublinhar que, para Zizek, o caráter fantasmático de um dis­
uma sociedade de esquerda ou comunista pode exercer a mes­
curso não tem nenhuma relação com seu conteúdo de verdade. Inspi­
ma função que, para outras pessoas, é exercida pela propaganda
rado por Jacques Lacan, o filósofo esloveno afirma que, mesmo se o que
consumista de uma nova Lamborghini (Zicman de Barros e Sta­
um marido ciumento diz de sua esposa - que ela dorme com todos os
vrakakis 2017, 11).
homens da cidade - fosse verdade, seu ciúme continuaria sendo
patológico (Butler, Laclau, e Zizek 2000, 126-7). A mesma lógica valeria Poderíamos, porém, escapar da lógica da fantasia? A democracia
para a política: mesmo se for verdade, digamos, que a ganância de Wall pode se basear sobre outra forma de gozo? Certas leituras de Zizek nos
Street é responsável pela crise econômica, e mesmo se for necessário indicariam que isso seria impossível. Citando Jacques-Alain Miller, ele
96 91

afirma que a democracia seria um "deserto de gozo", e que o crescimento 4. Massas, sublimação e idealização
de paixões na política só aumentaria o fundamentalismo, a destruição, Isso dito, a noção de significante vazio como elemento que garante
os massacres e outras catástrofes (Zizek 2004, 111-2; ver também a coesão discursiva do populismo comportaria tal distinção? Como se
Miller 2003, 146-7). tentará mostrar nas próximas duas sessões, mesmo que Laclau esboce
Não obstante, como já dissemos, próximo ao fim de seu ensino La­ uma distinção entre populismo democrático e populismo antidemocrá­
can apresenta um outro gozo: o gozo do vazio (Lacan, XX, 97). Essa tico, em sua obra essa diferença não está nunca clara. Isso se junta,
outra modalidade de gozo, excessiva, não-controlada, seria talvez mais como também veremos, ao fato de, empiricamente, esses dois tipos de
compatível com uma ética democrática (Stavrakakis 2007, 279). De populismo tenderem sempre a se amalgamar.
acordo com Glynos e Stavrakakis: Os problemas emergem de partida quando voltamos à incorpora­
ção de conceitos psicanalíticos na formulação da noção de significante
Aqui [nesse outro gozo do vazio], o sujeito reconhece e afirma a contin-
vazio. Para Laclau, a lógica do significante vazio é a mesma lógica do
gencia das relações sociais e persegue um gozo que não é guiado pelo im-
que a psicanálise chama de sublimação (Laclau 2005b, 116). Seria então
pulso de "completar", de "totalizar", ou de "fazer todo", um gozo situado,
possível se perguntar: a sublimação opera na lógica da fantasia ou na
ao contrário, do lado do não-todo (Glynos e Stavrakakis 2008, 263).
lógica do gozo do vazio?
Não estamos, porém, diante de um gozo resignado. O gozo do vazio Comecemos por nos perguntar o que é a sublimação. Trata-se, sem
é um gozo de abertura ao impossível - não a um impossível idealizado, dúvida, de um conceito cuja formulação é a menos sistemática em psica­
a utopia fantasmática, mas o impossível como o que está à margem, nálise - o que não quer dizer que não se tenha muitas passagens tratando
nos limites da ordem simbólica que estrutura nossa vida social. sobre esse tema na obra freudiana (Assoun 2017, 5). Com efeito, Freud
Trata-se de um gozo para além do simbólico (Metzger 2017, 89-90). utilizou esse termo diversas vezes. O problema é que ele jamais dedicou
Seria, talvez, um gozo do desamparo - o afeto da destituição subjetiva, um texto metapsicológico a essa noção - se, como alguns acreditam, esse
da crítica da identidade, da aceitação do heterogêneo e da texto foi rascunhado, seu esboço teria se perdido (Metzger 2017, 38).
transformação do impossível em possível (Safati e 2015, 55, 68-70). Em Freud, a partir dos elementos que podemos reunir, a sublima­
Com essas noções em mente, a distinção entre populismo antide­ ção é um dos destinos possíveis da pulsão. Ela se produz quando uma
mocrático e populismo democrático ganha novo contorno: pulsão sexual, impedida de encontrar seu objeto, é desviada de seu alvo,
o populismo antidemocrático deriva, sua energia libidinal sendo conduzida à produção de outros ob­
jetos menos primitivos e socialmente valorizados - daí a relação fre­
produziria do gozo fantasmático,
quentemente sublinhada entre sublimação e produção artística. Nesse
enquanto o populismo democrático sentido, é importante sublinhar que a sublimação não é nunca um fe­
operaria de forma a produzir gozo nômeno solitário - desde Freud, ela implica uma dimensão de reconhe­
do vazio. Em um caso, estamos na cimento social e aparece como um meio possível para a construção de
instituição da fantasia. No outro, vínculos sociais.
Uma melhor compreensão desse conceito emerge da distinção que
apontamos o caminho rumo à sua
Freu d apresenta, em sua Introdução do Narcisismo (1914), entre sublima-
travessia.
98
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ção e idealização. A sublimação nos afasta do objeto sexual, enquanto ideia que exerce uma função diretiva - no lugar de ideal do eu - daí a
a idealização - sinônimo de "embelezamento e enobrecimento dos contetí­
importância da idealização. Se trata, para Freud, de um processo gene­
dos representativos" (de Mijolla-Mellor 2003, 95) - se apega ao objeto, ra\izado: a lógica das massas se expressa também para além das multi­
aumenta-o, superestima-o (Freud 1914, 28), o apresenta ilusoriamen­ dões transitórias, podendo ser diagnosticada em organizações estáveis
te como se ele incarnasse os ideais do sujeito (de Mijolla-Mellor 2003,
como a Igreja e o Exército. No entanto, mesmo se Freud generaliza a
107), nos remetendo à lógica da fantasia Por conseguinte, a sublima­ lógica das massas, se afastando de certas teorias que o precederam e
ção se distingue da idealização igualmente em um outro ponto. Se a que apresentavam esses fenômenos como sendo necessariamente irra­
constituição de ideais é o motor por detrás da repressão da pulsão, a
cionais e perigosos, a leitura freudiana continua a indicar os riscos dos
sublimação, ao contrário, estabelece uma outra relação com os ideais,
comportamentos de grupo.
operando para além da "barragem da censura" (de Mijolla-Mellor 2003,
Freud afirma que a formação de massas, o estado amoroso e a hip­
95). Ela pode ser definida como a ausência de recalque (Freud 1914,
nose só se distinguiriam em termos de dimensão. Os três obedeceriam
28) - e, daí podemos deduzir, das subsequentes fo rmações de sintomas.
à mesma lógica da idealização. A sublimação aparece implicitamen­
Nesse sentido, a sublimação surge às vezes, nos textos de Freud, como
te no texto freudiano sobre as massas precisamente porque ela com­
"a sa{dafeliz do tratamento" (de Mijolla-Mellor 2003, 93). partilha com o estado amoroso - onde a idealização tem primazia - a
À primeira vista, então, mesmo se Laclau não fala de idealização confrontação com a impossibilidade de satisfazer a pulsão sexual. No
em sua teoria do significante vazio, transpondo a distinção freudiana estado amoroso, o objeto do amor assume ume posição imponente, se
para nosso debate sobre o populismo, podemos dizer que o populismo apresenta como se não houvesse falhas, podendo levar o sujeito a prati­
antidemocrático operaria na lógica da idealização, enquanto o popu­
car atos de loucura. Segundo Freud, no estado amoroso,
lismo democrático seria mais próximo da sublimação. Se a idealização
apresenta um objeto superestimado, a sublimação desvia desse objeto, [...) o eu se torna cada vez menos exigente, e cada vez mais mo­

numa aceitação produtiva de sua impossibilidade. desto, enquanto o objeto se torna cada vez mais grandioso e

A questão é que a diferença entre sublimação e idealização não é precioso, atraindo sobre ele todo amor que o eu poderia experi­

sempre clara -na realidade, essas duas noções desenvolvem relações mentar por si mesmo, o que pode ter por consequência natural

complexas (Assoun 2017, 2734, 50-1). Mesmo em sua teoria do narci­ o sacrifício completo do eu. O objeto absorve, devora, por assim

sismo, Freud afirma que a idealização poderia "incitar" a sublimação dizer, o eu. [ ... ] .

(Freud 1914, 28). Alguns anos mais tarde, quando Freud discute as for­ [ ... ] Simultaneamente, com essa "entrega" do eu ao objeto, que

mações de massa -uma situação marcada pela idealização, ele fala de não se distingue mais da entrega sublimada [sublimierten Hin­

"entrega sublimada a uma ideia abstrata" para se referir à relação entre os gabe) a uma ideia abstrata, deixam de operar completamente as

membros da massa e seus ideais (Freud 1921, 55-6, 80-4; de Mijolla­ funções conferidas ao ideal do Eu. Cala a crítica exercida por

Mellor 2003, 1045). Essa tensão conceituai, nós veremos, será muito essa instância; tudo o que o objeto faz e pede é justo e irrepreen­

produtiva para nossa reflexão sobre o populismo. sível. A consciência não se aplica a nada que acontece a favor do
objeto; na cegueira do amor, o indivíduo pode se tornar, sem
A teoria freudiana das massas já nos é conhecida: na massa, seus
remorsos, um criminoso (Freud 1921, 55-56, grifos nossos).
diferentes membros colocam o mesmo objeto exterior - o líder ou uma
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Portanto, já em Freud podemos e ncon trar certa ambivalência em pulsão - a distinção ent re o sexual e o não-sexual estando descartada
relação à sublimação.• Distinguida da ideali zação, ela parece contudo desde o princípio na obra de Lacan. Segundo ele, "o jogo sexual mais cru
estabelecer uma relação tensa com essa. Voltamos, aqui, a uma outra pode ser objeto de uma poesia, sem que essa perca dessa forma uma referên-
versão de nosso velho problema: dada a proximidade entre sublimação cia sublimante" (Lacan, VII, 191). Em Lacan, a pulsão é definida como
e idealização, há o risco de que a aceitação produtiva da impossibili- sendo precisamente marcada pelo desvio. Sublimar, nesse sentido, é
dade de reencontrar o objeto derrape rumo à idealização fantasmá tica exatamente aceitar e tornar explícita a impossível satisfação da pulsão
desse objeto? por objetos empíricos.
Essa questão é central. E e la nos indica um problema no que diz Quando Lacan se refere à Coisa na sublimação, trata-se da Coisa
respeito à teoria de Laclau: se por um lado ideali zação e sublimação como vazio, como lugar impossível. Por mais paradoxal que pareça,
desenvolvem relações complexas, por outro lado uma distinção teórica o objeto part icular elevado à dignidade da Coisa apenas representa e
desse tipo parece fundamental para pensarmos a diferença ent re po- constrói esse vazio - ele dá as coordenadas de um centro impossível
pulismo democrático e populismo antidemocrático. Se restringindo ao qual nos referimos, mas que não tentamos nunca encontrar (Met-
a falar de sublimação, Laclau escapa dessa problemática - o q ue, nos zger 2017, 73). Sua função é paradoxal porque a Coisa está "em ligação
parece, o leva a ter certo viés sobre as potencialidades democráticas do com o objeto e para além dele" (Assoun 2017, 124). Mesmo que a Coisa
populi smo. Como tentaremos mostrar em seguida, essa questão per- "exceda a todo objeto", que ela invoque o real, ela precisa do objeto para
manece mesmo quando sublinhamos, como é preciso, que o conceito se inscrever simboli camente, para "realizar o contorno" da pulsão (As-
de sublimação utilizado por Laclau vem sobretudo de outra abordagem soun 2017, 94, 124). Esse objeto é portanto uma "imagem que é destruição
teórica: a abordagem lacan iana. da imagem" (Safatle 2005, 689). O objeto na pulsão é ass im diferente
Com efeito, Lacan fornece uma o utra definição de sublimação, do objeto no desejo - a fixação sobre aquele não é desfeita ao final da
diferente daquela de Freud. Sua célebre fórmula afirma que a subli- análise como ocorre com esse (Safatle 2005, 680). Se seguimos Zizek,
mação eleva um objeto particular à dignidade da Coisa (das Ding). Se a pulsão é, em certa medida, o que sobra ao final da a ná lise, quando o
com preendemos a Coisa co mo um real não-simbolizável que se refere caráter fan tasmático dos objetos se torna claro. Na pulsão - que, mais
ao gozo pleno mítico, então à primeira vi sta a definição lacaniana de uma vez, se caracteriza pela não-satisfação por objetos empíricos - o
sublimação poderia nos levar a pensar que estaríamos, aqui, na lógica objeto é esse ponto ao redor do qual circulamos, sem jamais chegarmos
da ideali zação e do desejo que coloca o objeto do amor numa posição lá (Zizek 2008, 327).
capaz de cegar o sujeito a toda crítica. Contudo, mesmo se essa primei- Ao invés de reproduzir a lógica da fantasia e da fasci nação ideali-
ra abordagem nos indica reflexões importa ntes, a fórm ula de Lacan vai zada dos objetos, a sublimação nos indicaria a impossibilidade de um

expli citamente em uma outra direção. gozo pleno, nos faria ci rcular em torno de um objeto impossível e, se-
Reformulando a noção de pulsão, Lacan rejeita as interpretações gundo certos co mentadores, abriria a possibilidade de um outro gozo,
que viam nos escritos de Freud um a lvo naturalmente sexual para a de um gozo do vazio (Metzger 2017, 8790). Estaríamos próximos de uma
sati sfação "que se satisfaz do que é destinado à insatisfação" (Assoun 2017,
4. Mesmo em um período posterior da teorização freudiana. quando a noção de sublimação
ganha uma nova formulação. o conceito permanece ambivalente. Após ligar a sublimação à 125). Assim, a sublimação é próxima, em Lacan, de uma ética da psica-
ideia de separação de pulsões. Fre ud. nos convida a pensar que a presença da sublimação
em uma cultura seria proporcional à presença da pulsão de morte destrutiva nessa mesma nálise (Metzge r 2017, 34) - co mparável ao et/10s da democracia radical.
cultura (Freud 1923. 71l.
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A partir de Lacan , podemos compree nder por qu e é produtivo Voltando a Freud em seu seminário sobre Os quatro conceitos funda-
usar o co nceito de sublimação para se pensar nas potencialidad es mentais da psicanálise (1964), Lacan afirma que, nas massas ass im como
democráticas d o populismo. Mesmo se a incorporação de noções na hipnose, se estabelece uma relação de identificação co m o líder. Para
psicanalíticas, inspirada por Joan Copjec, não é sempre clara e m explicar esse processo, Lacan nos lembra - como já indicamos - que o
Laclau, a partir de seu pensamento é possível ver a sublimação como suj eito se confronta sem pre com sua imagem exte rior - uma imagem
processo de construção de um corp o político da mesma forma como onde "o sujeito de vera, como se diz, como que visto pelo outro" (Lacan, XI,
- para retomar um exemplo laca niano - um pote de barro é construí- 298). Assim, Lacan vai esclarecer esse ponto afi rmando que, se há na
do, com um vazio no interior (Stavrakakis 1999, 132). Trata-se, como massa uma relação de identificação com o líder, essa identificação não
diz Laclau sobre a democracia, da "p rodução da vacuidade a partir é direta entre os membros e o líder, mas aquela dos membros da massa
da operação de lógicas hegemônicas" (Laclau 2005b, 166). Construímos com sua própria imagem vista pelo líder. É em relação e esse olhar ter-
o "povo" co mo uma universalidade - que, como tal, é particular - ceiro que o suj eito constituirá seus ideais do eu.
que se distingue por ser abe rta. Ela ins titui um espaço s imbólico Todavia, a relação entre o líder hipnoti zador e a massa não se resu-
não-saturado. Assim, co nstrui r o povo como s ignifica nte vazio, para me a uma relação com o ideal do eu. Segundo Lacan, se na massa o líder
Laclau, é cons truir um espaço democrático - ou de democracia rad i- nos fascina, é porque, amalgamado com o ideal do eu, encontramos um
cal - o nd e a disputa política tem lugar ace itando a con tingê ncia das objeto narcís ico que promete nos completar, o objeto a (Lacan, XI, 304).
configurações de nossa vida soc ia l. O co nceito de objeto a é polivalente, e conheceu variadas formu-
lações no ensino de Lacan, de sorte que um a apresentação simples se
5. Sublimar nas massas? torna impossíve l (Fink 1995, 83). Para os objetivos desse capítulo, basta
Como já dissemos, passar da teoria freudiana à teoria lacaniana so- remarcar, por ora, que por detrás da noção lacaniana de objeto a há a
bre a sublimação não elimina tensões. Uma vez mais, Laclau nos fo r- ' ideia - desenvolvida a partir das reflexões de Alexandre Kojeve sobre
nece ferramentas para pensarmos sobre o caráter democrático do po- Hegel - de que nosso desejo é, na realidade, o desejo de outrem. Essa
pulismo, mas falta uma contraposição para refletirmos sobre as massas ideia se torna mais clara se retornarmos às ori ge ns de nossa vida psí-
antidemocráticas - um fenôme no que preocupava muito o próprio La- quica, na relação entre o bebê e aquela ou aquele que exerce a função
can. De fato, é preciso notar de partida que, mesmo se a partir da noção materna. Para comunicar suas necessidades para a mãe, o bebê deve
lacaniana de sublimação podemos pensa r no poder emancipador do articulá-las simbolicamente em demandas. Por detrás de toda deman-
vazio, é difícil encontrar, no ensino de Lacan, uma tradução diretamen- da há, primeiramen te, a busca do amor da mãe. Se a mãe responde ao
te política e coletiva da ideia d e sublimação e d e gozo do vazio. Mais bebê, é porque ela o reconhece, porque ela lhe dá seu amor, porque ela
difícil ainda é encontrar uma ligação entre sublimação e formação de o coloca na posição de objeto do seu desejo. O objeto a nomeia preci-
massas. Na verdade, em alguns de seus comentários sobre a psicologia samente essa pura capacidade desejante que nós dese jamos nos outros.
de massas, Lacan continua a seguir o cam inho freudiano, que dá mais Ele é, portanto, a causa de nosso desejo.
atenção aos perigos do que às virtudes das formações de grupo. A ideia Nesse sentido, o objeto a não é u m objeto especular - ou seja,
de uma massa democrática é, portanto, uma possibilidade elaborada ele não é um objeto concreto de nossa realidade. Ao contrário, ele
fora da obra lacan iana. se expressa, por exemplo, uma vez mais, no olhar. Com frequência, o
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sujeito é pego na fantasia e induzido a pensar que o que ele deseja é um das, essas duas noções nos oferecem pontos de referência para pensar­
objeto especular capaz de preencher esse espaço, um objeto prometen­ mos nas potencialidades democráticas e antidemocráticas das massas,
do responder definitivamente ao desejo enigmático de outrem (Safatle respectivamente. Não é ainda o caso em nossa exposição se Lacan. Se
2009, 64) - corno vimos, o comunismo e o consumismo repetem essa por um lado a teoria de Laclau não nos permite pensar formalmente em
lógica-, mas ele se equivoca. Em todos os casos, estamos apenas diante um populismo antidemocrático, por outro lado a teoria de Lacan aqui
de faux-semblants, de semblantes fantasrnáticos de a. apresentada não nos ajuda a pensar em massas democráticas.
É precisamente aqui, sobre o caráter enganador da fantasia, que Seguindo o modelo lacaniano, a única forma de pensar em um po­
Lacan ergue sua crítica às massas. Para resumi-la, nas massas o líder pulismo democrático seria a construção de uma massa que operasse
hipnotizador se coloca em uma posição de autoridade - ou seja, ele de forma análoga ao final da análise, com um líder ou uma ideia di­
ocupa o lugar de ideal do eu - ao mesmo tempo em que ele parece rigente que incarnasse esse desejo enigmático. Exemplos desse tipo,
possuir e incarnar o objeto a narcísico, um objeto que promete cobrir contudo, são improváveis. Mesmo se ele não fala em termos de popu­
a falta constitutiva do sujeito (Lacan, XI, 303). Nesse amálgama, o líder lismo, quando Vladimir Safatle nos convida a pensar em uma política
parece saber algo sobre nosso desejo - se o líder é carismático, é porque do desamparo e da destituição subjetiva, sua solução é voltar a Freud e
ele parece possuir o que nós desejamos. a sua interpretação da história de Moisés- um líder que levou seu povo
Se Lacan opunha a dinâmica das massas à dinâmica da análise, a se identificar com um desejo errante, e que teria indicado os limites
era precisamente porque ele considerava que o analisando não deve­ da ordem simbólica em "uma incorporação que, de certa forma, nega a si
ria se identificar com o analista da forma como um membro da massa mesma" (Safatle 2015, 128). Haveria porém Moisés fora do mito?
se identifica ao líder (Lacan, XI, 302). O analista não deve se tornar o Há, todavia, uma ligação possível entre o final da análise como
objeto de fascinação do analisando. Na análise, é preciso ir além da oposto às massas e a ideia, montada por Laclau, de uma massa demo­
identificação. Se na massa o líder amalgama o ideal do eu e o objeto a, crática e sublimatória - uma ligação imperfeita, é verdade, mas produ­
na análise trata-se de separá-los ao máximo (Lacan, XI, 304). No fim da tiva, capaz de nos fazer pensar ao mesmo tempo nas potencialidades
análise, o analisando deve "mutilar" o analista: com o distanciamento democráticas e antidemocráticas do populismo. Para aí chegar, é pre­
entre o ideal do eu e o objeto a, o analisando deve compreender que o ciso um esclarecimento adicional acerca da noção lacaniana de final da
que ele deseja não é o analista, mas o objeto a enquanto pura capaci­ análise para além da dialetização do desejo.
dade desejante do analista (Lacan, XI, 305) - uma capacidade desejante Precisamente na época de seu seminário de 1964, onde encontra­
sempre enigmática, que não tem objeto. mos seu debate sobre a psicologia de massas, Lacan assume que tornar
A crítica de Lacan às massas emerge, aqui, como o contrapeso que evidente o caráter enigmático do desejo não é suficiente como critério
faltava à teoria de Laclau, que tornava difícil se pensar em um populismo que guie o final da análise (Fink 1999, 205-9). Bem que a aceitação do
antidemocrático. O problema, entretanto, é que entre esses dois contra­ caráter enigmático do desejo continue uma etapa importante da aná
pesos é preciso haver uma ligação. Em outras palavras, até aqui pare­ ­lise, Zizek e outros comentadores nos mostraram que a liquidação da
ce que Laclau e Lacan operam em modelos incomensuráveis. A partir transferência e a destituição subjetiva implicam menos uma relação
de Freud, como vimos, sublimação e idealização podem ser integradas com o desejo do que com a pulsão (Zizek 1996, 31-45). Se as massas se
como dois momentos de um mesmo modelo: separáveis ou amalgama- ­guem uma lógica oposta à do final da análise, é porque a fantasia nos
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fecha na lógica do desejo, e impede o passo seguinte - que a pulsão se são. Assim, é preciso adicionar que, ao lado dos semblantes puramente
faça presente. Nesse sentido, colocar em evidência o desejo enigmáti­co fantasmáticos de a - "cujo fundo falso cobre o vazio" (Metzger 2017, 54, ver
seria apenas umaeta pa antes da emergênc ia do "sujeito da pulsão" também 219) - relativos ao desejo, encontramos o que podemos chamar,
(Fink 1999, 209-10). De acordo com Lacan: inspirado por Paul-Laurent Assoun, paradoxais semblantes sublimes de a,
É na medida que o desejo do analista[ ...] tende no sentido exa­ ou objetos sublimatórios (Assoun 2017, 91, 124), relativos à pulsão.
tamente contrário ao da identificação, que o ultrapassar do Essa distinção é central porque os semblantes sublimes, ao invés de
plano da identificação é possível [... ]. A experiência do sujeito reforçarem a lógica da fantasia, emulariam a Coisa enquanto impossi­
é assim levada ao plano onde pode se presentificar [...] a pulsão bilidade. Se a fantasia opera como uma tela sobre o real, a sublimação
(Lacan, XI, 305, grifos nossos). evoca o buraco no real (Metzger 2017, 205-6).
Como, então, essa precisão conceituai pode distinguir e ao mesmo
Presentificar a pulsão, vista como movimento desviado de seu alvo,
que roda ao redor de um objeto impossível: aí está o verdadeiro desafio tempo conectar Laclau e Lacan? Até aqui, ainda não havíamos comenta­
do que, para Laclau, além da lógica da sublimação, o significante vazio
da análise. Zizek resumiu em linhas gerais esse movimento:
reproduziria também - se trataria de sinônimos - a lógica do objeto a.
[ ... ] no momento em que ele [o sujeito] muda sua atitude e come­ Com esse triplo paralelo entre significante vazio, sublimação e objeto a,
ça a encontrar prazer na simples repetição da tarefa fracassada Laclau parece ter em mente o objeto a entendido como semblante subli­
[segurar o objeto], apertando o objeto que, de novo e de novo, lhe me: enquanto estratégia sustentada na construção de significantes va­
escapa, ele passa do desejo à pulsão (Zizek 2006, 7). zios, portanto, o populismo apresenta simbolicamente um vazio a ser go­
Mesmo que sublimação e final de análise estabeleçam relações com­ zado, que sai da lógica da fantasia e do desejo para presentificar a pulsão.
plexas e cambiantes na teoria lacaniana, não é uma dinâmica análoga a Lacan, ao contrário, pensa o objeto a nas massas como o operador da
essa que a sublimação tenta produzir? fascinação, nos convidando a pensar nos riscos de um populismo anti­
A ligação entre a teoria das massas de Lacan e a teoria do populismo democrático. Nesse sentido, é interessante de notar que Stavrakakis pa­
e Laclau se estabelece também a partir dos diferentes usos do conceito rece caminhar junto com Lacan, incorporando a noção de objeto a em
de objeto a no desejo e na pulsão. Em nossa apresentação do objeto a, sua articulação de noções psicanalíticas para pensar a Teoria Política de
nós havíamos distinguido o objeto a como desejo enigmático, como ob­ forma diferente da de seu antigo orientador. Stavrakakis está claramente
jeto-causa do desejo, de suas aparições especulares - o que poderíamos de acordo com a ideia de sublimação como conceito útil para se pensar a
chamar, a partir de Lacan, de semblantes de a. Porém, desde seu sétimo construção do vazio que caracteriza a democracia (Stavrakakis 1999, 131).
seminário, em uma formulação complementar, Lacan dá ao objeto a uma Não obstante, uma leitura atenta de suas reflexões torna claro que, para ele,
definição muito próxima da própria Coisa: ancorado no real, ele é o ponto não há paralelo entre isso e o objeto a. Para Stavrakakis, a lógica do objeto
impossível ao redor do qual a pulsão circula (Metzger 2017, 59-60). Se o ob a é oposta à lógica da sublimação. Claramente, ele pensa o objeto a a partir
­jeto a enquanto Coisa explica por um lado a emergência do desejo a de sua função no desejo (Zizek 2008, 327). Segundo ele, é ao redor do objeto
partir da referência ao gozo pré-simbólico perdido (Metzger 2017, 73), por a que nossas fantasias são constituídas (Stavrakakis 1999, 49), e o objetivo
outro lado essa formulação ganha umaimportância adic iona l na medida em da democracia deveria ser a separação entre o objeto a e aqueles que in­
que ela nos permite ir além do desejo e explicitar a função do objeto a na pul- carnam e parecem garantir a ordem simbólica (Stavrakakis 1999, 134). Isso
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leva Stavrakakis a afirmar que "apenas o sacrifício do objeto a fantasmático pulismo são necessários em um mundo onde movimentos tão diferentes
pode tomar esse outro gozo [o gozo do vazio] acessível" (Stavrakakis 2007, 279). assumem essa designação - mas nos apresenta novos desafios. Aparen­
A diferença entre Laclau e Stavrakakis - e Lacan - parece residir temente, nas massas haveria uma linha tênue que distinguiria a situação
em uma confusão - que, é preciso notar, está também presente na lite­ hipnótica de fascinação fantasmática da construção de um significante
ratura psicanalítica tradicional - que dá o mesmo nome de objeto a a vazio servindo como horizonte aberto de uma democracia por vir.
coisas bastante díspares. Se para Laclau o objeto a se refere aos sem­ Voltamos, então, às mesmas tensões já anunciadas diversas vezes
blantes sublimes de a, representando uma impossibilidade enquanto nos diversos modelos mencionados aqui - no debate sobre a hegemonia
tal (Butler, Laclau e Zizek 2000, 199), para Stavrakakis esse conceito é contra-hegemônica, sobre a tensão entre idealização e sublimação em
associado aos faux-semblants fantasmáticos de a, objetos prometendo o Freud e sobre os diferentes semblantes no pensamento lacaniano.
reencontro com o gozo pleno pré-simbólico. Longe de indicar um pro­
blema de conceituação, esses dois usos do conceito de objeto a podem Muito facilmente, nos parece, o sujeito pode
ser reconciliados, e sua distinção pode ser muito produtiva. Em termos balançar de uma situação de aceitação da
práticos, essa distinção fornece o elemento que faltava à Escola de Es­ contingência radical rumo a um discurso
sex para diferenciar os diversos tipos de populismo.
movido pela lógica da fantasia, de promessa
Segundo nossa argumentação, a diferença entre o populismo anti­
democrático e o populismo democrático seria a diferença entre os di­
do paraíso perdido e de criação de bodes
versos semblantes de a. De um lado, quando falamos de significante expiatórios. Muito facilmente, a contra­
vazio como objeto a, nós podemos nos referir ao que se chama sem­ hegemonia pode se tornar hegemonia. Muito
blante fantasmático de a, que o líder na massa parece possuir ao mesmo facilmente, a sublimação pode se tornar
tempo em que incarna o ideal do eu, se inscrevendo na lógica da fanta­
idealização. Muito facilmente, o semblante
sia. De outro lado, se o objeto a é entendido como semblante sublime
de a, estruturado a partir de um desejo que não tem objeto, estamos na sublime, elevado à dignidade da Coisa,
dinâmica inversa, apontando talvez para a travessia da fantasia. pode passar de seu status de símbolo de
uma impossibilidade a que nos referimos
Co11cl11são: uma democracia sempre impura sem jamais tentar encontrar à promessa
Em nosso percurso, diagnosticamos um problema na formulação
fantasmática de reencontro com essa
teórica de Ernesto Laclau: se concentrando sobre o conceito de subli­
mação, ele tornava difícil pensar sobre fenômenos populistas de tipo impossibilidade - somos sempre divididos
antidemocrático, em oposição às potencialidades democráticas de um entre "a busca de um para além do objeto e
populismo que constrói o povo como espaço vazio, simbolicamente uma absolutízação do objeto" (Assoun 2017,
não-saturado. O que é bastante claro, porém, é que a distinção entre 94). Em termos de afeto, muito facilmente
esses dois populismos continua potencialmente instável. Isso não exime
o desamparo pode se tornar medo (Safatle
Laclau de críticas - os critérios para pensar nas diferentes formas de po-
2015, 67-68).
110
111

Essas dificuldades se tornam claras quando somos confrontados à BIBLIOGRAFIA


falta de exemplos de populismo puramente democrático. Se conside­ Assoun, Paul-Laurent. 2017. La sublimarion: leço11s psyclwnalytiques. Paris: Economica.
Balibar, Étienne. 2011. Citoyen sujet et aurres essais d'anr/iropologie pliilosop/iique. Presses
rarmos os exemplos utilizados por Stavrakakis e outros, nos deparamos
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mais uma vez com casos problemáticos, ambivalentes, que confirmam sutler, Judith. 1990. Gender Troub/e: Feminism a11d t/1e Subversion of ldentity. New York: Rout­
a suspeita de uma fronteira borrada entre fantasia e sublimação. Eles ledge.
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citam, por exemplo, a queda de Nicolae Ceau�escu na Romênia. Nesse 27 (1): 212.
contexto, os cidadãos revoltados recortaram o brasão do regime socia­ Butler, Judith, Ernesto Laclau, e Slavoj Zizek. 2000. Conringency, Hegemony, Universality:
Conremporary Dialogues 011 tl,e Left. London: Verso.
lista do centro da bandeira nacional. De acordo com esses teóricos, esse
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buraco representaria a falta na ordem simbólica - ele simbolizaria, por eton University Press.
sua ausência, a construção do vazio (Stavrakakis 1999, 135; Marchart ---. 1999. A Clinica/ /11troductio11 to Lacanian Psyclwanalysis: Tl,eory and Teclmique. Cam­
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regime socialista era profundamente problemático, quiçá puramente 1910), traduzido por Paulo C. de Souza, 166219. Obras Completas 9. São Paulo: Com­
panhia das Letras.
tirânico, o ódio contra Ceau�escu e o gozo experimentado pela massa
---. 1914 [2010]. "Introdução ao Narcisismo". ln Introdução ao Narcisismo, Ensaios de Me­
no momento de sua execução extrajudicial são elementos de forte con­ tapsicologia e outros textos (1914-1916), traduzido por Paulo C. de Souza. Obras Comple­
teüdo fantasmático. tas 12. São Paulo: Companhia das Letras.
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uma democracia por vir se explica, talvez, pela definição ambivalente e Completas 15. São Paulo: Companhia das Letras.
cambiante desse conceito. Já em Freud, fomos alertados do fato de ser im­ ---. 1923 [2011J. "O Eu e o ld". ln O Eu e o /d, "Aurobiografia" e outros textos (1923-1925),
traduzido por Paulo C. de Souza, 1374. Obras Completas 16. São Paulo: Companhia
possível sublimar tudo (Freud 1910, 215), uma parte de nossas pulsões sen­ das Letras.
do necessariamente recalcadas e reemergindo sob a forma de sintomas e Glynos, Jason. 2003. "Radical Democratic Ethos, Oc, What Is an Authentic Political Act?"
Conremporary Political Theory 2 (2): 187208.
fantasias. Em Lacan, como Stavrakakis bem notou, a sublimação é sempre
---. 2008. "Ideological Fantasy at Work". Joumal of Poli rica/ ldeologies 13 (3): 27596.
imaginária, ligada à fantasia (Stavrakakis 1999, 132-3; ver também Zizek ---. 2011. "Fantasy and ldentity in Criticai Political Theory". Filozofski vesmik 32 (2):
2008, 329). O semblante sublime, como todo elemento discursivo, segue 6588.
Glynos, Jason, e Yannis Stavrakakis. 2008. "Lacan and Political Subjectivity: Fantasy and
um semblante - o real, em si, é ontologicamente inacessível.
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A impureza da política - um fato que deveria ser colocado em evi­ Hall, Stuart. 1988. T/,e Hard Road ro Renewal: Thaccherism and the Crisis of the left. London:
dência pela sublimação - implicaria então a impureza da própria subli­ Verso.
Howarth, David. 2000. Discourse. Concepts in the Social Sciences. Buckingham: Open Uni­
mação. É preciso nos lembrarmos que a fantasia estrutura nossa reali­ versity Press.
dade, e que nós só atravessamos a fantasia através da fantasia (Safatle J0rgensen, Marianne Winther, e Louise Phillips. 2002. Discourse Analysis as Tl1eory and
Merlwd. London: SAGE.
2009, 69), mudando nossa relação com ela, a tematizando na esfera pú­
Laclau, Ernesto. 1990. New Reflecrions 011 the Revo/urion of Our Time. Phronesis. London:
blica. Assim, se o populismo tem potencialidades democráticas, elas Verso.
emergem de forma tênue, sempre rondadas pela lógica da fantasia. Isso ---. 1999. "Hegemony and the Future of Democracy: Ernesto Laclau's Political Philoso­
phy". ln Race, Rhetoric, and cl,e Posccolonial, editado por Gary A. Olson e Lynn Worsham.
nos obriga a estarmos sempre vigilantes.
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'I
1

CRITICA PSICANALISTA
DO POPULISMO NO
BRASIL: MASSA,
GRUPO E CLASSE
Christian fngo Lenz Dunher'

1. O Retorno do Recalcado
Os múltiplos e súbitos intérpretes da cri-
se brasileira, de 2013 a 2018, se viram diante
da dificuldade de ler um processo que é ao
mesmo tempo institucional e popular, polí-
tico e jurídico, cultural e econômico. Isto é
decerta forma esperado, pois em situações de
i crise precisamos de um ponto de vista geral
.(/
sobre as coisas, uma vez que é próprio e defi-
1
1' nição do que é uma crise, nos fazer perguntar
/-
J
do que algo é feito, sua substância, razão ou
causa. Neste ponto, ainda que por motivos di-
ferentes, tivemos que pagar a conta por uma
espécie de hiato na reflexão sobre a brasili-
dade. Um hiato que tocou tanto daqueles que
atuam nos meios de administração e gover-

1 Psicanalista. Professor Titular do Instituto de Psicologia da


USP no Departamento de Psicologia Clinica Titulo de Livre
Docente em Psicologia Clinica Pós-Doutorado na Manchester
Metropolitan University. Atualmente é Analista Membro de
Escola (A.ME) do Fórum do campo Lacaniano. Coordena. ao
lado de Vladimir Safalle e Nelson da Silva Jr. o Laboratório de
Teoria Social. Filosofia e Psicanálise da USP.
204 205

nança do país, como políticos e econo mistas, quan to para aqueles que produção cultu ral e nos d ireitos humanos. Com exceção dos progra-
t rabalham para a leitura e compree nsão de nossa realidade, como aca- mas de re nda mínima, que são praticados por gove rnos liberais mundo
dê micos e teóricos. Até o golpe civil -militar de 1964 o Brasil cultivou afo ra, a intervenção na economia privi legiou o plano normativo:
uma tradição de re flexão sobre si mes mo expressa na teoria da literatu- agências de regulação, t ributação crescentemente complexa e leis
ra por An tônio Candido, na Sociologia por Gilberto Freire, por Sérgio ins trumen talizáveis por seus agenciadores.
Buarque de Ho landa na história, por Caio Prado Jr. na economia, pelos Outro aspecto in teressan te deste retorn o do recalcado é a volta d e
mod ernistas d os anos 1930 e as neovanguard as dos anos 1960 nas artes um dos temas mais cruciais da retórica nacionalista: a fa mília, a moral
e na arquitetura. Esta discussão, que às vezes se confund ia com um e sua aliança d ivina. É do compromisso mal resolvido ent re a fa mília
ques ti onamento sobre a identidade bras ilei ra e com o caráter nacio nal, e o estado, entre o p úblico e o privado que enfrentamos nosso colapso
envolve ndo nosso lugar ce ntral o u periférico no conce rto das nações. crônico de nossos dispositivos liberais d e individ ualização. Es ta é a
Nela a psicanálise ocupava u m lugar transversal e ntre as di feren tes gramáti ca bás ica da corrupção, não só em nosso país. Es ta foi também
disciplinas em fo rmação. a retórica explícita nas declarações de vo to no momen to do afastamen-
Esta d isc ussão foi suspensa pelo golpe de 1964 e substituída por to da presidente na Câmera: minha família, minha cidade, meu Deus.
uma narrativa de Estado, compulsória, definido a natureza, a ordem e Uma origem pura, como a min ha, é a única coisa capaz d e se opor à
o ritmo do que seria o projeto nac ional e desenvolvimento. A discussão corrupção. Ocorre que este é o princípio an t i-republi ca no, que cria a
anterior foi interrompida para jamais ser prop riamente reintegrada, a corrupção como fo rma de vida e prát ica de governo, baseada na exten-
não ser de fo rma es porádica e u m tanto assistemática, po r exemplo, são da fa mília e da lógica privada ao universo públi co e institucional.
pelo cinema da reto mada. No ín terim a univers idade ga nhou outros Não é uma disputa sobre qual é a lei, mas sobre quem manda na lei. O
con tornos, a pós-graduação, com sua exigê ncia de segmentação e es- diagnóstico e a mobilização popular em torno da corrupção revela a
peciali zação foi defini tivamen te implantada no país e os nosso embrio- con tinuação de uma mes ma rac ionalidad e, mas que não é reconhecid a
3
nários think tanks, como o Ise b2, o Dieese e o Cebrap inst rumentali- 4 como tal em função do hiato, em fu nção de uma espécie de recalque
zaram-se como órgãos produtores de dados, mais d o que voltados a his tóri co.
in terpretações de conjunto.
Isso explicaria algumas coisas sobre a crise atual. Po r exemplo, Para a psicanálise quando algo é negado,
porqu e os comunistas vermelhos são desenterrad os como inimigos não admitido ou não elaborado, isso
da pátria, em um contexto no qual o governo jamais ag iu, no plano volta. E o que é negado no simbólico
eco nômico, segundo o que se en te nd ia por com unismo, nos anos 1970,
volta no simbólico, mas o que não foi
ou seja, estati zação de bancos, refo rm a agrária maciça e generalizada
e co nt role direto da economia. Como ressaltou Paulo Arantes, a es-
simbolicamente reconhecido no simbólico
querda começou a se caracte ri zar cada vez mais como defesa do so- volta no real. Este retorno do simbólico
cial, das minorias, das pautas sobre desigualdade real na educação, na é chamado de sintoma enquanto o que
2. Instituto Superior de Estudos Brasileiros. fundado em 1955.
retorna no real é chamado de trauma.
3. Departam ento lntersind ical de Estatística e Estudos Sócio Econôm icos, fundado em 1955
4. Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. fundado em 1969 Nesta situação fazer a história deixada
206 207
ll.,I 1

para trás é uma boa medida, ainda que pos falantes, mesmo os indivíduos funcionam como massas ecoando
vozes anônimas. Este é um traço da segregação no real. E o real aqui
preparatória e insuficiente. Mais além dos
tem dois nomes: o antagonismo social, que se torna "inomeado" e a
sintomas de ressentimento social é preciso diferença de classe, que se torna intratável. Ora, uma das característi-
tratar sua causa real, é preciso um ato que cas do real é que ele não faz unidade. Ele acentua os conflitos simbó-
o reconheça e o insira na lógica de sua licos e as oposições imaginárias. Isso fica perfeitamente claro quando

própria repetição. não conseguimos qualificar a crise como econômica, política, moral
ou social. Ela não é assunto qualificado, nem de juristas nem de politi-
Por isso entendo que a atual crise tem por pressuposto e condição cólogos, nem de economistas. Ela é crise porque expressa e acentua a
um sintoma social a que chamo de vida em forma de condomínio5• Re- tensão que envolve e separa estes discursos. Por isso ela aparecerá, ao
sumidamente: em vez de espaço público, incorporação imobiliária, em seu final, como indeterminação de limites e poderes entre judiciário,
vez de representantes orientados para fins coletivos, síndicos e gestores legislativo e executivo. Há uma única força que se pretende e se apre-
interessados apenas na eficácia dos meios, em vez de leis, regulamentos senta como capaz de pensar a soma dos sistemas simbólicos, dando-lhe
feitos às pressas conforme as contingências, em vez de diferença e ne- unidade e sentido: a teologia. É por isso que a crise faz reaparecer a
gociação social, muros de segregação, em vez de afetos sociais como a força da teologia política em nosso país. Esta é a ideologia mais antiga
culpa e a vergonha, a soberania política baseada no medo e da seguran- e mais persistente em nossa educação, em nossa filosofia da história em
ça. Ou seja, trata-se de uma forma de vida que é um sintoma deste hia- nossa teoria cultural.
to histórico. Ela se exprime na arquitetura, mas também na circulação Aqui temos que nos arrepender amargamente por ter suspenso nos-
urbana, nas trocas sociais, na vida no trabalho, como uma espécie de sos esforços e estudos globais sobre a brasilidade. Talvez seja por isso
estrutura. Ele se repete de forma variante nas experiências das prisões, também que a psicanálise, que estava lá presente nas reflexões semi-
das favelas, dos Shoppings Centers e obviamente nos condomínios. Ela nais sobre o Brasil, retorne agora, ao lado de outras tantos esforços
se repete nos condomínios de saúde, de educação, de cultura e obvia- teóricos, quase que em regime de emergência. Afinal é assim que se
mente no condomínio armado pelo governo com os diferentes extratos poderia caracterizar o pensamento crítico, não apenas como alinhado e
da sociedade civil e principalmente com agentes econômicos. reduzido ao programa marxista, mas ao conjunto de reflexões surgidas
Mas além da insuficiência deste sintoma, nossa crise atual expressa para nos ajudar a suportar um mundo em rarefação de sentido e uma
um retorno no real. Um retorno do traumático, seja pelo acasalamen- modalidade de subjetivação pós-teológica.
to entre empresas-famílias e partidos-igrejas, seja pela violência que Assumindo-se esta montagem como nosso problema de base, a
suspendeu a palavra e anulou a possibilidade de que os oponentes se discussão sobre os diferentes tipos de igualitarismo, radical, liberal
reconhecessem como adversários. Quando isso acontece o outro é des- ou neoliberal, torna-se supérflua. No fundo todos estão em luta para
tituído da condição de sujeito, ele se torna coxinha ou petralha, louco ou instrumentalizar o Estado como principal player econômico do país.
sem caráter, ou seja, no fundo figuras daquele com quem é impossível Privatizar ou estatizar tornam-se medidas simétricas e falsas questões.
senão indesejável conversar. Não se reconhece mais pessoas, mas gru- Reimplantar um hiper-desenvolvimentismo e uma nova abertura dos
portos, rever nossa política fiscal, tributária, trabalhista, eleitoral, sem-
5. Dunker. C.1.L. (2015) Mal-Estar, Safrimenta e Sintama. São Paulo: Boitempo.
208 209

pre foram plataformas tão desejáveis quanto temidas porque depen- um pacto estabelecido, neste caso a alternância de poder entre os filhos
dentes de sua instrumentalização condominial. de Édipo. É neste sentido que a psicanálise afirma que o desejo humano
Desde a antiguidade a tirania era um regime político aceitável em é trágico por excelência, pois ele nos leva a cometer atos que podem
situações de crise, decorrentes da devassidão dos governantes, guer- levar ao pior do ponto de vista do bem-estar e da moral, mas que ainda
ra ou a epidemia. Sabia-se que nestas situações o poder concentrado assim estão investidos de valor e merecem reconhecimento.
ganha em agilidade o que perde em legitimidade. Os golpes também A segunda concepção ética afirmará que as intenções são um péssimo
tem história, eles mudam sua forma e função conforme a sua lógica critério. Podemos enganar os outros quanto às nossas verdadeiras inten-
de produção. Tragédias sociais também se renovam. A tirania grega ções. Por exemplo, podemos fazê-los acreditar que estamos rezando pie-
não é a mesma que o governo de Kim Jong-woon, ou que o fracassado dosamente quando, por dentro, estamos amaldiçoando o Todo Poderoso.
"putsch" de Hitler em 1923. Os golpes ostensivos rodeados de conspi- Mas pior, podemos enganar a nós mesmos, confundindo razões, motivos e
rações e interesses internacionais deram lugar ao tipo de golpe que se causas, criando pretextos e racionalizações que justificam as piores imora-
deve esperar em tempos de neoliberalismo: livre empreendimento de lidades cometidas contra os outros e contra nós mesmos. Qualquer ato que
um grupo interessado no poder, manipulação das leis por exageração se apresente como altruísta facilmente pode ser reconduzido a uma cadeia
ou flexibilização contextual, punição seletiva consoante a resultados, subterrânea de interesses egoístas. Em nossa cultura do espetáculo há es-
criação retrospectiva de razões "práticas" autojustificadoras, cinismo pecialistas na arte do simulacro de pureza moral. Portanto, um critério éti-
ostensivo das motivações e propósitos. E o golpe é o retorno no real do co muito mais seguro do que as intenções são as consequências de nossos
que não conseguimos simbolizar durante estes anos todos. Por isso ele atos. Os efeitos objetivos de nossos comportamentos, seu valor agregado,
soa tão perfeitamente repetitivo com o golpe que originou a República, individual ou coletivo, determinam a eticidade do ato. Neste caso, a éti-
o golpe que levou Getúlio Vargas ao poder e o Golpe de 1964. Todos ca não cria um fragmento ainda não escrito de legitimidade, mas apenas
eles praticados em nome da constituição. resguarda que nenhuma transgressão foi realizada. Voltando ao caso de
Antígona. O fato de que ela foi enterrada, junto com seu irmão Polinice,
2. A Tragédia Ética da Política por ordem de Creonte, garante que a lei foi cumprida e que a ética pessoal
A história do pensamento sobre a ética pode ser dividida em duas e particular da família foi derrotada pela lei pública e universal do Estado.
grandes tradições. De um lado estão aqueles que defendem que a essên- A justiça prevaleceu sobre a liberdade e o módico preço a pagar é reduzir
cia da ética reside no que move o ato. Ainda que sua ação seja contrária a ética a moral. Com isso ficamos indefesos diante do fato de que alguém
à moral instituída e estranha aos costumes ou ao habitus, ela pode ser pode ser profundamente indigno, corrupto e imoral, e ainda assim perma-
ética porque ambiciona praticar uma lei que ainda não foi toda escri- necer dentro da lei. Ora, reduzir a ética à moral e à mera obediência das
ta. Por exemplo, quando Antígona desafia Creonte, o tirano de Tebas, leis é o mesmo que reduzir a política ao direito. É trocar nossa capacidade
porque quer dar a seu irmão Polinice um enterro digno, ela vai contra de produzir novos mundos pelo dever de conservar os antigos mundos.
as leis e as regras da cidade, mas no fundo ela está com a razão ética Também a psicanálise se implanta nesta tradição ao afirmar que a
porque seus motivos são mais universais do que os de Creonte, focado ética envolve não apenas certa relação com o próprio desejo, mas tam-
que está no respeito a tratos particulares. Antígona defende o princípio bém com o Real. Neste caso não vamos nos perguntar apenas pela re-
de que todos merecemos um enterro digno, ainda que tenhamos traído lação entre ética e direito, mas sobre a precedência da política sobre
2 11
210

a moral, entendendo que é a política que cri a as leis. Elas não nos são Nosso momento atual bem poderia ser lido segundo a equação de
dadas pelos deuses. Por isso a política é o campo do Real, entendido Antígona. De um lado há uma série de argume ntos que nos lembram
como antagonismo social, assim como a ética é o campo do desejo, en- Creonte. Operando dentro do "manejo das leis", dos "ritos e formas"
tendido como antagonismo individual. das "regras e práticas" uma série de "elementos sabidamente suspei-
O que une os dois problemas, e o que separa a ética das intenções tos", incriminados direta ou indiretamente, levam a cabo, com as piores
e a ética das consequências é a mesma coisa, ou seja, a lei que une intenções, o emparedamento de uma presidente. Consideremos aqui o
nosso desejo (possível ou contigente) ao Real (impossível ou neces- problema da intransparência das intenções. Não podemos saber as ver-
sário). Chegamos assim ao difícil problema da hierarquização da lei. dadeiras intenções dos movimentos sociais que saíram às ruas, assim
Como suas múltiplas e diversas incidências podem operar em um como da imprensa que cobriu os acontecimentos, nem mesmo do juiz
mesmo mundo que é simultaneamente jurídico e ético, político e Moro que desceu aos infernos para limpar as Estrabarias de Áugias.
moral? Como escolher qual lei está em questão em cada caso? Da Inve rsa é a posição de Dilma. Discute-se se há responsabilidade ou
constituição ao reg ulamento do condomínio, das regras do jogo de- não nas pedaladas, se ela sabia ou não de Passadena, se ela acobertou o
mocrático aos ritos do Supremo Tribunal Federal, das leis de New- não o sistema de corrupção na Petrobrás. Mas quanto às intenções dos
ton sob re a gravitação até a lei teológica do juízo final, como invocar atos não há muita dúvida: pagamento de gastos do governo que todos
a lei sem convocar ao mesmo tempo nossas intenções e a consequên- nós reputamos justos e bons. Suas consequências não são boas. Eles ge-
cias de nossos atos? ram inflação e desequilíbrio fiscal. Mas isso não muda as intenções ins-
titucionais das pedaladas e práticas asse melhadas que aparentemente
Pensar eticamente é respeitar que são parte dos costumes institucionais em vários estados brasileiros. Ou
seja, ela saiu da lei, ainda que por bons motivos. Inversamente, seus
a contradição entre as formas da
inimigos querem puni-la com lei, ainda que por maus motivos.
Lei nunca está totalmente definida. Para os consequencialistas a retórica é outra. Independente de
Viver com esta indecidibilidade é o seus motivos ou razões, se ela expressava anseios populares ou demo-
que se chama democracia, o poder cráticos, se ela tinha um plano liberal ou neoliberal. Importa que sua
pela palavra. O contrário disso é gerência operacional não funcionou. Nós empobrecemos. O país está
eco nomicamente em colapso e socialmente em estado de insegurança.
imaginar que o poder e a autoridade
Temos então os melhores motivos para destituí-la, porque todo aquele
não dependem mais da palavra que não está rendendo como deveria, deve ser substituído. Como qual-
praticada, mas de quem são seus quer outro trabalhador que não faz seu serviço direito deve ser trocado.
autores e atores: suas famílias, Seu governo é um desastre. Mas quanto tempo devemos esperar para
seus títulos de nobreza terrena ou afastar o próximo desastrado? Que exista uma lei que atende pela alcu-
nha de "eleições e democracia", isso exprime apenas uma intenção de
celestial, seu caráter ou disposição
nossos antepassados, uma indicação genérica do que devemos buscar
de alma, seus amigos ou interesses em nosso desejo, não o que devemos praticar com nossos atos. Se ela
particulares.
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não respeitou suas promessas, como Polinice não respeitou seu acor- eia que cria o novo, mas também o momento oportuno do aproveitador.
do com Etéocles, ela deve ser punida. Não é golpe nem vingança, pois Lembremos ainda que é Átropos quem corta nosso destino ao meio.
as intenções estão afastadas, mas apenas uma troca de técnico em um Lembremos. Temer e Nemer foram criados pelas mesmas madras-
time que não está ganhando. tas da tragédia ética de nossa política.
Percebe-se quão fraco é o argumento dos consequencialistas se
lhes retiramos o seu complemento obsceno. O direito pode afastar um 3. A Liberdade de Limitar-se
presidente, mas a economia não. É preciso imputar-lhe a acusação de A psicanálise desenvolveu uma pequena teoria prática sobre o po-
corrupta, mau caráter, condenando-a e a sua família (seus associados der. Quando alguém nos procura, em geral, está questionando suas po-
partidários) em nome de uma família melhor e maior: a nossa. Aqui a sições e decisões na vida, por isso mesmo abre-se para ouvir, pedindo
pergunta que se levanta contra os consequencialistas é: que consequên- que o outro lhe dê alguma direção, uma pista e até mesmo um conselho
cia terá uma destituição processada desta maneira? Se pelo menos 30% das sobre a pergunta fundamental: o que fazer? Este pedido não é apenas
pessoas percebe esta reunião de intenções e efeitos como um golpe, não uma demanda formal, como a que fazemos para um consultor finan-
estará nosso futuro tragicamente comprometido? ceiro ou jurídico, mas ela emerge em uma relação de confiança e in-
Neste ponto a nossa leitura da tragédia de Antígona sofre uma re- timidade, adquirida e formada pela escuta paciente e cuidadosa sobre
viravolta. Lembremos que é possível que Creonte tenha condenado Po- os aspectos que deram luz da rede de problemas que cercam uma vida.
linice não apenas porque este desrespeitou o pacto entre os irmãos, Portanto, estamos nas condições ideais para sugerir e orientar, posição
como diz a lei, mas porque ele se beneficiaria com o afastamento dos com a qual muitos educadores sonham porque lhes garantiria o traba-
dois, tornando-se, ele mesmo, o Rei de Tebas. Assim, ele e sua família, lho disciplinar que é tão difícil de obter em situações institucionais.
afinal Antígona é noiva de seu filho Heron, se perpetuariam no poder Ocorre que toda a graça e quase toda a arte da psicanálise consiste em
afastando os filhos de Édipo da linhagem real. Quando ele condena renunciar ao exercício deste poder, que o próprio paciente nos inci-
Antígona à morte seu filho Heron se mata. Em função de disso sua ta e nos pede para praticar. É porque nós não agimos com o poder que
esposa que não era nem bela nem recatada, mãe do filho perdido, o nos é atribuído, entendendo que a natureza desta atribuição é por si só
acompanha. A solidão é o destino dos que suspendem a democracia. Ao problemática, que a psicanálise transforma o poder imaginário da su-
final e ao cabo, não se tratava da vitória do princípio do Estado sobre gestão em autoridade simbólica da transferência. Nós não o fazemos,
o princípio da família, mas da punição trágica, imposta pelos deuses, contra o pedido e a demanda, por vezes explícita, de nossos pacientes.
contra aque les que em vez de buscar o universal contraditório entre Nós não vamos para a cama com eles, não usamos nossas informações
atos e desejos, reduzem a política ao direito e a ética á moral. para obter benefícios indiretos, nós não nos associamos ou empreende-
É por isso que na mitologia grega Têmis, a deusa da justiça, foi criada mos nada com eles, muito menos nos satisfazemos em sermos amados
lado a lado com Nêmesis, a deusa da vingança. Quem as formou foram como uma imagem sábia ou benevolente. Todo o poder que a situação
as três Moiras ou Parcas que regem nosso destino, antes que as tragé- nos confere, com exceção do poder de contribuir para a transformação
dias nos transformassem em heróis de nosso próprio futuro. Lembre- do próprio paciente, nos é interditado.
mos que Cloto distende os fios de com os quais tecemos nosso desejo, Ora, todas as atividades humanas que dependem de s ituações aná-
mas também as intrigas. Lembremos que Laquesis nos dá a contingên- logas deveriam seguir a mesma regra. Ou seja, padres e pastores nunca
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deveriam usar a autoridade que lhes é concedida para indicar candida- desejo. O segundo problema aqui é que tendemos a nos achar idiotas
tos ou eles mesmos se apresentarem como postulantes a cargos repre- por seguir este modelo enquanto todos os outros à nossa volta se be-
sentativos. Também médicos e professores jamais deveriam aprovei- neficiam do modelo contrário, portanto para não fica r para trás somos
tar-se desta s ituação para extrair benefícios secundários da relação de impelidos para frente, mesmo que diante de nós exista um precipício.
tratamento ou de ensino para criar laços secundários. A liberdade que
se exerce nestas atividades é dada pelo limite que se escolheu. Mas atenção: renunciar ao gozo
Quando acompanhamos a reforma politica, quando vemos a discus- não é renunciar aos prazeres,
são sobre os dez pontos contra a corrupção, quando examinamos as Levar uma vida frugal, dentro
posições recentes de nosso sistema judiciário encontramos uma inver- dos Limites da parcimônia.
são direta e regular deste princípio de auto-limitação, sem que, curio-
Ainda que esta possa ser uma
samente, ninguém o invoque como uma plataforma explícita e um crivo
de avaliação das práticas políticas. Tudo se passa como se a complacên- opção individual, a verdadeira
cia cultural tornasse este ponto ocluído e nublado. Nenhuma marcha oposição não é entre
contra a corrupção, nenhuma transfo rmação institucional, nenhum uso hedonistas e sacrificados, mas
da força popular e institucional que aparentemente tinha isso como
entre aqueles que diante do
motor de transformação.
poder podem escolher outra
Parece simples vergonha do ingênuo que, percebendo-se manipula-
do, quer mudar de assunto, esquecer a raiva e partir para outra. Mas a coisa e aqueles para os quais
situação atual é extremamente pedagógica. Ela coloca em consideração o poder se torna uma coerção
a situação na qual alguém pode exercer seu poder, não há nenhum di- e um gozo, um exercício
reito a impedi-lo, nenhum regulamento a constrange-lo, nenhuma re-
compulsório. Diante da regra
taliação vai puní-lo, mas mesmo assim sabemos que ele não deve usar
se é permitido então, para mim
o poder que tem. A situação ecológica e o consumismo auto e hetero
devastador, não terão tratamento sem esta reversão. Pouco se percebe torna-se obrigatório, é possível
que esta limitação, justamente por ser contingente, é um ato supremo responder,justamente porque
de liberdade. O modelo de ação, assim estabelecido, tem um profundo é permitido que, para mim, não
efeito moral, de ação capilarizada sobre os subordinados. Ele recria as
se tornará obrigatório.
relações de poder como relações de autoridade e respeito. O limite dá a
liberdade, uma das teses menos conhecidas de Lacan. A prática continuada da hetero-limitação nos torna vulneráveis a
Contudo, não é ass im que pensamos usualmente a liberdade. Tal- corrupção. Isso ocorre porque a liberdade não é uma experiência indi-
vez isso ocorra porque quando se tem muito pouco, quando os meios vidual. A liberdade não é apenas a liberdade de comprar ou de diante
materiais são exíguos não conseguimos exercer as oportunidades de de escolhas pré-estabelecidas, fazer opções. Isso vale para os que pou-
renunciar ao gozo, para obter efeitos de liberdade em termos da lei do co tem. Muito se critica os governos petistas porque eles investiram
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no consumo das famílias, em vez de priorizar áreas mais básicas como a extensão dos projetos sociais, mas é suspender o uso do fisiologis-
educação e fundamentos infra-estuturais da economia (como sanea-
mo, da liberação de verbas para deputados em troca da manutenção do
mento básico). A crítica é correta, contudo ela deveria ponderar que mandato. É porque sabemos que a auto-limitação é crucial que somos
pessoas em situação de miséria ou de fome estão em condições extre- tão facilmente enganados pela retórica dos cortes, das reduções e do
mamente adversas para entender e praticar o princípio da auto-limi- desinvestimento.
tação. Isso ocorre porque, neste caso, é a realidade que, de fora, lhes Quando vemos, a céu aberto, deputados que deviam pensar formas
parecem impor constantemente limites. Portanto, facultar o consumo, de auto-limitação, para criar regras que no futuro beneficiarão a to-
menos do que uma estratégia economicamente desastrosa, deve ser en-
dos nós, trocarem o futuro possível pelo presente de auto-conservação;
tendido, também, como uma aposta ética interessante. quando vemos pessoas comuns aceitarem este exercício da incapaci-
Para os que muito tem esta desculpa não vale. Estar a altura simbó- dade de se auto-limitar, como se isso fosse a única opção possível, fica
lica do patrimônio econômico que se tem implica separar-se do lema de óbvio que o moralismo que deu luz ao nosso momento atual entrou em
que a ocasião faz o ladrão (logo, tu és já um ladrão), ultrapassar a fase na
colapso. Fica clara a substância obscena da qual ele era feito. Não se
qual minha educação depende da sua (logo, não tens educação alguma), tratava de tirar Dilma, como início de uma reforma baseada na auto-
implica poder contar a história do seu dinheiro, sem vergonha (a pon-
-limitação do poder, subsequentemente tirar Temer, depois tirar todos
tuação escolhida aqui, pelo leitor, revelará algo de sua própria posi-
os outros, até que o próprio sistema se visse constrangido a exercer a
ção na matéria). Aquele que precisa vigiar ao máximo as ocasiões para
auto-limitação que dele se espera.
extinguir os bárbaros e ladrões, é incapaz de escolher seus próprios O princípio de auto-limitação que estamos todos, direita e esquer-
limites. Caro, custoso e ineficiente. Tem que ser feito, mas é a opção
da, dispostos a apoiar, assim que tivermos mostras reais de quem o re-
mais simples, não a melhor. Infelizmente as práticas administrativas,
presenta, foi trocado por outro modelo de liberdade. O modelo no qual
corporativas e econômicas reunidas em torno da austeridade, da gestão a liberdade é exercer todo o poder que se pode. Um exemplo caricato
otimizada, da redução de custos, do capital humano, as práticas cor-
disso. No dia da votação do afastamento de Temer minha caixa postal
rentes hoje em dia em termos de recursos humanos e de planejamento
se encheu de e-mails perguntando se eu não iria me posicionar sobre a
de negócios também sofrem do mal da impossibilidade de auto-limi-
Venezuela. (Sim, uma ditadura horrível que tem que acabar). Um exem-
tação. Onde estão os sócios dispostos a limitar seus ganhos hoje em
plo cabal de como o processo todo foi pensado a partir da limitação do
vista de um formato mais viável de desenvolvimento amanhã? É isso
outro, que chega ao deslocamento bizarro que prefere preocupar-se em
que torna o discurso de Trump tão difícil de aceitar quando ele se re-
limitar outro país, em vez da nossa própria auto-limitação. Prefere-se
tira do acordo internacional para suspender emissão de poluentes. O
insistir na criação de inimigos petistas e esquerdistas, que precisam
exercício do poder, porque ele é poder se apresenta ainda em várias ou-
ser limitados em nossas universidades em vez de questionar o corte
tras formas deste discurso. Se posso construir um muro, por que não?
de verbas para ciência e pesquisa. A retórica de que nosso problema é
Se posso atacar a Coreia, por que não? Versão nacional: a reforma da
que o outro está gozando demais serve para um tipo de liberdade que
previdência é necessária, por mais dolorosa que seja, mas ela é de fato
deveria se chamar de prisão domiciliar.
uma auto-limitação, ou o Estado está apenas limitando os outros para
Outro exemplo: os que dizem que não houve golpe pensam segundo
deixar de limitar-se a si mesmo? Limitar-se a sim mesmo não é reduzir
o princípio da liberdade positiva. Se está na lei pode, se pode então
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deve, se deve e nos é co nveniente, então que se faça. Alguns, mas não se confunde com o indivíduo. Esta concepção será localizada em Lacan
todos, que dizem que houve golpe estavam em dúvida razoável quanto e sua tese central de que o suje ito é dividido, ao mesmo tempo universal
a hipótese de que a liberdade negativa podia sim estar em jogo neste e particular, efemeramente singular.
movimento. Por isso me mantive relativamente quieto quanto a este Desde então estão dadas as condições para um novo tipo de crítica
ponto durante os primeiros tempos da experiência Temer. que não se contenta mais em apenas desmascarar falsas consciências
A única vantagem de Temer, aquilo que podia tê-lo transformado e educar as massas para a emancipação. A ideologia não é apenas uma
em um herói trágico inesquecível, é que ele poderia ter usado a "oca- questão de saber e esclarecimento, pois há em seu fulcro um núcleo de
sião" de exceção para auto-limitar-se. Fazer reformas políticas drásti- gozo, que é o mais difícil de abandonar em um processo transformativo
cas, criar cláusulas de barreiras para partidos, estabelecer voto distrital, qualquer, seja ele clínico ou político. Um caso particular desta divisão
suspender manobras e acordos seculares em torno de juros, tributação do sujeito é sin te tizado pela fórmula: sei muito bem que isso está errado,
orquestrada e exto rsiva, aprovar le is contra a corrupção (que são tão mas continuo agindo como se não soubesse. Retrato de como o saber é
mais eficazes porque mostram que o poder é capaz de se conter, do que impotente diante do gozo. Constatação que uma vez generalizada nos
pelo medo que inspiram nos meliantes profissionais). Ele podia fazer o leva às ideologias da força e da purificação. Se "a metafísica é o que co-
que se esperava dos tiranos na Grécia antiga, mas, e isso dá o sabor ape- locamos no buraco da política", como dizia Lacan, temos que pensar de
quenado ao seu reinado e aos que, silenciosamente o apoiam, preferiu que maneira estamos, a cada momento, produzindo ou desconstruindo
a liberdade da hetero-limitação. Ressurgiu assi m o princípio covarde metafísicas gozosas. Teologias políticas, que ocupam este vazio central
da auto-conservação, que pensa pequeno, que nos ameaça com o futu- com líderes salvadores, ideais narcísicos ou inimigos projetivos.
ro próximo do desequilíbrio da economia, que só consegue imagina r, Assim chegamos a um dos impasses mais importantes tanto para
medrosamente, reformas que imponham regras aos outros. E isso tudo, os que estão interessados em novos modelos de crítica, quanto para os
vejam só, em nome da liberdade de comércio e da redução do Estado. que querem pensar estratégias de ação coletiva. Um bom exemplo des-
te impasse está no crescente interesse das pessoas comuns por temas
3. Um Novo Modelo de Crítica políticos. Isso é em parte facilitado pela forma de vida digital, em parte
Tornou-se uma banalidade afirmar que a psicanálise tem pouco a derivado de que nele as minorias organizadas estão na vanguarda do
dizer sobre política porque esta é uma aven tura coletiva e nquanto a gradual processo de reinterpretação do cotidiano. Contudo, o desastre
clínica é uma experiência para indivíduos, que ademais teriam o indi- que se pressente por toda parte, com sua combinatória de ideali zação e
v iduali smo como valor fundamental. O argumento remonta a Jdanov, ódio, ressentimento e v ingança deriva da ascensão inquestionada de po-
ministro da cultu ra de Stálin que, nos anos 1940, decretou extinção da líticas baseadas em identidade. Aqui faz falta a crítica psicanalítica das
psicanálise soviética incipiente em a utores como Vigostski e Luria. A identificações de grupo. Lembremos que o Jdanovismo não se apoiava
psicanálise migrou assim de ciência judaica para ciência burguesa, na apenas na objeção aos modelos individualistas de mente, presentes em
pena de Bakhtin, foi execrada pelo marxismo francês de Sartre a Lu- Freud, mas, sobretudo, à sua crítica do funcionamento da identificação
cién Séve, antes de ser reabilitada por Althusser nos anos 1960. Esta em grupos. Melhor dizendo, Freud não analisou grupos propriamente,
reabilitação só foi possível porque a psicanálise foi percebida como mas massas organizadas como o exército e a igreja. Descreve-se assim
uma anti-ps icologia, capaz de fornecer um modelo de sujeito que não um conjunto de processos e nvo lvendo a regressão de seus membros a
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um laço social mais simples e empobrecedor. Todos eles representam a organização de movimentos sociais. Este significante, como bem se
antípodas do que antigamente chamava-se "consciência de classe": sub- ilustra no espanhol "Podemos" ou no brasileiro "Passe Livre", tem uma
missão irreflexiva ao líder, criação de inimigos pela projeção paranoica duração específica, correspondendo a um agenciamento contingente.
de desejos inaceitáveis para o grupo, perda de capacidade judicativa Ao contrário dos grupos definidos por uma identidade de gozo, eles
agressividade e paixão imaginária, recalque da sexualidade e devoçã~ tem uma data de término, um princípio de autodissolução.
pela causa. O modelo aqui é simples, uma forte identificação horizontal Grupos organizados pela demanda podem ou não estar articulado
entre os irmãos é reforçada continuamente por meio da colocação do com um sujeito suposto saber. Neste caso está implicada uma indeter-
mesmo objeto, seja ele um líder carismático, uma disciplina moral, um minação do sentido, ou do percurso da verdade, como diria Badiou, dos
traço estético, ou uma condição de equivalência, que ocupa, desde então significantes da demanda. Um coletivo como este terá por caracterís- .,
um lugar definitivo no ideal de eu das pessoas. Temos, portanto, três tica manter aberto o sentido de seus significantes constitutivos, tais a
termos que exprimem o coletivo em psicanálise: massa, grupo e classe, e como "democracia", "justiça" ou "igualdade". O interesse desta distin- )

nunca apenas dois, como na oposição entre indivíduo e sociedade. ção é que coletivos formados em torno de transferências ou de deman-
Examinemos agora como a antiga ideologia voltada para as massas, das são grupos de baixa densidade identitária. Ao passo que grupos que
dependente das grandes narrativas, e sua falsa universalidade transfor- se definem por identidades são politicamente muito mais perigosos
mou-se, graças à dialética digita/is do neoliberalismo, em uma políti- justamente porque a identidade é algo que precisa permanentemente
ca de grupos, com suas demandas particulares, sem que o conceito de ser reposta e confirmada. Minha identidade de gozo tende sempre a
classe tivesse a menor chance de sob revida. Perdeu-se neste caminho ser imposta ao meu vizinho. A identidade de gozo suposta ao vizinho
uma ideia recorrente entre os continuadores de Freud, ou seja, a de será sempre ameaçadora para minha fantasia. É por isso que Lacan
que existem coletivos que não funcionam nem como massa nem como dizia que o gozo é um mal, porque ele comporta o mal do próximo.
grupo. Este é o caso do que Bion chamou de "grupo de trabalho", do que Dissociada de demandas e de transferências grupos de identificação,
Pichon Riviére designou como "grupo operativo orientado para a tarefa" também chamados por Freud de "paróquias" tendem ao efeito entrópi-
e que Lacan nomeia como "transferência de trabalho". Salta aos olhos a co de auto-purificação disciplinar. Quando só resta ao revolucionário
recorrência da expressão "trabalho" entre autores de linhagens psica- "ser revolucionário" ele se afasta da transformação do mundo e começa
nalíticas tão distintas, indicando exatamente o tipo de relação contra a se esgueirar para a comparação com seu próximo em busca de saber
a lienante que se pode esperar da prática ou da ação de um coletivo, quem é o "mais revolucionário". E ainda confundirá crítica com denún-
ou seja, neste caso mais apropriadamente chamado de uma classe. A cia. Aqueles que lidam com catástrofes, tragédias e situações de vulne-
grande intuição transversal aqui é de que não precisamos ser iguais rabilidade social estão advertidos de que quando constituímos grupos à
para fazer algo juntos. Mais do que isso, quase uma regra, quanto mais base da identificação com a condição de vítimas, o processo tende a se
nos preocupamos com quem nós somos, menos nos orientamos para 0 tornar mais longo e às vezes insolúvel. É assim que se criam formas de
que queremos. Aqui precisaríamos distinguir noções que operam sepa- vida condominiais, à esquerda ou à direita, com os mesmos costumes
radamente no funcionamento dos coletivos: a demanda, a transferência narcísicos: essencial ização de si, moralização das escolhas de gosto,
e a identificação. Ernesto Laclau mostrou como o significante flutuan- crítica permanente do desvio, purificação infinita da própria subjetivi-
te e equívoco, de uma mesma demanda comunitária, é essencial para dade, seleção contínua dos que podem e dos que não podem participar
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do totalitarismo. Ainda que seja a totalidade dos pobres, das mulheres


da grande imagem que define quem é "nós", covardia na relação com a
ou das vítimas esta será uma forma criada para silenciar seu oponente,
palavra própria, valentia segregatória. É assim que a contradição entre
favorecendo o auto-preconceito e reproduzindo, de forma invertida, a
universal e particular tornou-se, no varejo, uma concorrência imagi-
lógica da segregação. A generalização do grupo apenas torna um parti-
nária e indefinida entre particulares: ricos e pobres, negros e brancos,
cular mais forte, porque mais extenso, o que não o torna por si mesmo
mulheres e homens, cultores do axé e adeptos do funk, palmeirenses e
mais universal. O que determina a diferença é a lógica de funcionamen-
corinthianos, enquanto no atacado, somos todos engolidos pelo uni-
to não o tamanho. Assim também não há massa que não se reduza a um
versal do consumo. Invertemos o princípio do apóstolo Paulo, criador
falso universal. Neste caso temos a ampliação de formas de vida que
do universalismo, agora só há judeus e gregos, servos e livres, homens
funcionam em estrutura de "igreja" ou em estrutura de "exército" que é
e mulheres.
a maneira como o neoliberalismo produz indivíduos infinitamente tra-
Para a mentalidade particularista sua própria opinião carrega um
balhadores e indefinidamente crentes. Há pequenas massas e grandes
a-mais-de-valor cujo compartilhamento é problemático, gerando iden-
tificações narcísicas cada vez mais segmentadas e condomínios cada grupos, sem nenhuma perspectiva de classe.
Mas então de onde virá esta efemeridade crucial se, como vimos, ela
vez menores e mais exclusivos. O grande problema é que não parece
está mais ligada à demanda e à transferência do que à identificação?
possível uma autêntica dedicação política sem algum engajamento
Efemeridade que é o traço distintivo da posição singular. Posição que
identitário. Neste ponto muitos concordarão sobre o valor "estratégi-
não prescinde nem do reconhecimento de predicados particulares nem
co" de colocações como "só uma mulher pode falar sobre feminismo, pois só
da aspiração de universalidade. Está aqui a chave para pensar a crítica
ela sabe o que é viver sua opressão de gênero". Como se uma mulher trans
da ideologia para além do desmascaramento de impostores, da discipli-
fosse no fundo "impura", pois não é essencialmente uma mulher, posto
na da pureza (na qual radica os discurso da corrupção) e da reificação
que nascida homem. "Só um negro tem autoridade para falar da segrega-
dos oprimidos, fora disso condenados essencialmente a eternizar e re-
ção". Como se precisássemos hipostasiar a raça para reconhecer o dever
de reparação. "Só a mulher, negra, pobre e objeto de violência possuirá a por sua própria condição de exclusão.

autoridade para falar por sua condição". Como se a pena e a compaixão


fossem os afetos políticos centrais de uma verdadeira transformação.
Como se a autenticidade do sofrimento fosse o motor espontâneo da
autoridade política. Exemplos cabais de metafísicas de gozo que pode-
mos usar para suturar o buraco da política. Exemplos de metafísicas da
propriedade, a propriedade mais fascinante e fetichista que pode haver
na era do capitalismo imaterial: a própria identidade.
Valor "~stratégico" quer dizer aqui que tal política exprime um de-
sejo de empoderamento de minorias historicamente silenciadas. Con-
tudo, "estratégico" que dizer também "provisório", "contingente", útil em
determinado "contexto". Quem diz "estratégico", diz também, subordi-
nado a uma política. E se essa política não for universal estamos diante