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Tradução

Daniela Beccaccia Versiani


- ----
Re visão Té cnica
Claudia Perrone-Moisés
Norberto BOBBIO

Teoria Geral
da ' •
o 1 ica
A Filosofia Política
e as Lições dos Clássicos

20ª Tiragem

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CAMPUS
Do original
Teoria Generole Dei/o Politica
Tradução autorizada de edição publicada por Giulio Einaudi Editore
Copyright© 1999, Giulio Einaudi Editore s.p.a

© 2000, Elsevier Editara Ltda.

Todos os direitos reservados e protegidos pelo lei nº 9.610, de 19/02/1998.


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Sumário
reproduzida ou transmitida sejam quais forem os meios empregados: eietrônicos,
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Copidesque: Luzia Ferreira de Souza

Editoração Eletrônico: DTPhoenix Editorial

Revisão Gráfica: Andréa Campos Bivar / Jussara Bivar

Elsevier Editora Ltda.


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ISBN 13: 978-85-352-0646-3


A filosofia política e a lição dos clássicos
ISBN 10: 85-352-0646-9
(Edição original: ISBN 88-06-14553-3)
CAPÍTULO l
Noto: Muito zelo e técnica foram empregados na edição desta obro. No entanto,
podem ocorrer erros de digitação, impressão ou dúvida conceituai. Em qualquer dos A filosofia política 67
hipóteses, solicitamos a comunicação ao nosso Serviço de Atendimento ac C!ic,,tc, 1. Das possíveis relações entre filosofia política e ciência polít
para que possamos esclarecer ou encaminhar a questão.
Nem o editora nem o autor assumem qualquer responsabilidade.por.eventuais II. Por um mapa da filosofia política 78
donos ou perdas o pessoas ou bens, originados do uso desta publicação. III. Razões da filosofia política 86

CAPÍTULO 2
A lição do clássicos 1O1
CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte.
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ I. Kant e. as duas liberdades 1Ol
II. Marx, o Estado e os clássicos 113
B637t Bobbio, Norberto, 1909-
Teoria geral da político: a filosofia político e as lições dos III. Max Weber, o poder e os clássicos 130
dássicos / Norberto Bobbio; organizado por Michelangelo
Bovero; tradução Daniela Beccaccio Versiani. - Rio d,, •-··
Elsevier, 2000. - 20° reimpressão.
SEGUNDA PARTE
Tradução de: Teoria generale della politica
ISBN: 85-352-0646-9
Política, moral, direito
1. Ciência política. 2. Bobbio, Norberto, 1909- CAPÍTULO 3
3. Contribuições em ciência política. 1. Bovero, Michelangelo, Política e moral 159
1949- . li. Título.
CDD-320 I. O conceito de política 159
00-0742 CDU - 32 II. Ética e política 177
III. O bom governo 203
CAPÍTULO 4
Política e direito 2 J6
l. As fronteiras da política 2 16 Q UINTA PARTE
II. Do poder ao direito e vice-versa 238 Direitos e paz
III. A resistência à opressão, hoje 252 CAPITULO 9
Direitos do homem 475
1. O primado dos direitos sobre os deveres 475
T ERCEI RA P ARTE II. A declaração universal dos direitos d o homem 484
Valores e ideologias III. Os direitos, a paz e a justiça social 497
CAPITULO 5
Valores políticos 269 CAPíTuLO 10
1. Da liberdade dos modernos comparada à dos pósteros 269 Paz e guerra 509
II. Igualdade e igualitarismo 297 1. A paz: o conceito, o problema, o ideal 509
UI. Sobre a noção de justiça 306 II. Relações internacionais e marxismo 543
Ili. A guerra, a paz e o direito 559
CAPITULO 6
Ideologias 320
SEXTA PARTE
1. Pluralismo dos antigos e d os modernos 320
II. A ideologia do novo homem e a utopia invertida 342 Mudança política e filosofia ela história
111. Sobre o liberal-socialismo 354
CAPITULO 11
Mudança política 577
Q UARTA PARTE I. Reformas e revolução 577
A democracia Il. A revolução entre movimento e mudança 600
CAPÍTULO 7 Ili. Carlo Cattaneo e as reformas 618
Democracia: os fundamentos 371
1. A democracia dos modernos comparada à dos antigos CAPITULO 12
(e à dos póst eros) 371 Filosofia da história 638
Il. Democracia e conhecimento 386 1. Grandeza e decadência da ideologia européia 638
III. Democracia e segredo 399 II. Reflexões sobre o destino histórico do comunismo 652
m. Progresso científico e progresso moral 663
CAPfTuLO 8
Democracia: as técnicas 416 Fontes 6 79
1. Da ideologia democrática aos universais.ph ... t'?>~ · ... : ·: tl
Índice analmco 685
II. A regra de maioria: limites e aporias 428
III. Representação e interesses 454 Índice onomástico 711
Capítulo 3

Política e moral

L
O CONCEITO DE POLÍTICA

O significado clássico e moderno de política


Derivado do adjetivo de pólis (politikós), significando tudo ~quilo
que se refere à cidade, e portanto ao cidadão, civil, público e também
sociável e social, o termo "política" foi transmitido por influência da
grande obra de Aristóteles, intitulada Política, que deve ser considera-
da o primeiro tratado sobre a natureza, as funções, as divisões do Esta-
do, e sobre as várias formas de governo, predominantemente no signifi-
cado de arte ou ciência do governo, isto é, de reflexão, não importa se
com intenções meramente descritivas ou também prescritivas (mas os
dois aspectos são de difícil distinção), sobre as coisas da cidade. Ocor-
re, assim, desde a origem, uma transposição de significado do conjunto
de coisas qualificadás em um certo modo (ou seja, com um adjetivo
qualificativo como "político") para a forma de saber mais ou menos
organizado sobre esse mesmo conjunto de coisas: uma transposição não
diferente daquela que deu origem a termos tais como física, estética,
economia; ética .:.., por último, cibernética. Durante séculos, o termo
"política" foi empregado predominantemente para indicar obras
dedicadas ao estudo daquela esfera de atividade humana que de algum
modo faz referência às coisas do Estado: Política methodice digesta, só
para dar um célebre exemplo, é o título da obra através da qual Johannes
Althusius (1603) expôs uma teoria da "rnnsociatio puhlirn" (o Estado
no sentido moderno da palavra), compreendendo t•m seu sdo várias
159
formas de "consociationes" menores. 1
Na era moderna, o termo perdeu o seu significado original, tendo dos meios que permitem conseguir os efeitos desejados" (Russell). 2 Sen-
sido paulatinamente substituído por outras expressões tais corno "ciên- do um desses meios o domínio sobre outros homens (além do domínio
cia do Estado", "doutrina do Estado", "ciência política", "filosofia polí- sobre a natureza), o poder é definido ora como urna relação entre dois
tica" etc., para enfim ser habitualmente empregado para indicar a ativi- sujeitos, na qual um impõe ao outro a própria vontade, determinando-
dade ou o conjunto de atividades que têm de algum modo, como termo º seu, malgrado o comportamento: mas como o domínio sobre os ho-
de referência, a pólis, isto é, o Estado. Dessa atividade a pólis ora é o mens não é geralmente fim em si mesmo, mas meio para se obter "al-
sujeito, donde pertencem à esfera da política atos como o de comandar guma vantagem", ou, mais exatamente, "os efeitos desejados", de modo
(ou proibir) algo, com efeitos vinculantes para todos os membros de não distinto do domínio sobre a natureza, a definição de poder como
um determinado grupo social, o exercício de um domínio exclusivo tipo de relação entre sujeitos deve ser integrada à definição do poder
sobre um determinado território, o de legislar com normas válidas erga como a posse dos meios (dos quais os dois principais são o domínio
omnes, o de extrair e distribuir recur.,v.> J-e ·uni se'tor par a Oútro da sobre os outros homens e o domínio sobre a natureza) que permitem
sociedade e assim por diante; ora objeto, donde pertencem à esfera da obter, exatamente, "alguma vantagem", ou os "efeitos desejados". O
política ações tais como conquistar, manter, defender, ampliar, refor- pader político pertence à categoria do poder de um homem sobre ou-
çar, abater, derrubar o poder estatal etc. Prova disso é que obras que tro homem (não do poder do homem sobre a natureza). Esta relação de
continuam a tradição do tratado aristotélico recebem por título, no pader é expressa de mil maneiras, nas quais se reconhecem expressões
século XIX, Filosofia do direito (Hegel. 1821) .Sistema da ciência do típicas da linguagem política: como relação entre governantes e gover-
Estado (Lorenz von Stein, 1852-56) ,elementos de czencza polínca LMos- nados, entre soberano e súditos, entre Estado e cidadãos, entre coman-
ca, 1896), Doutrina geral do Estado(Georg Jellinek, 1900). Conserva do e obediência etc.
em parte o significado tradicional a pequena obra de Croce, Elementi Há várias formas de poder do homem sobre o homem: o poder
di política (Elementos de política) [1925], na qual "política" conserva o político é apenas uma delas. Na tradição clássica, que remonta especi-
significado de reflexão sobre a atividade política, -e, portanto, está no ficamente a Aristóteles, eram consideradas sobretudo três formas de
lugar de "elementos de filosofia política". Prova ulterior é aquela que poder: o poder paterno, o poder despótico e o poder político. Os crité-
se pode inferir do costume, que se impôs em todas as línguas mais rios de diferenciação foram, nos diferentes períodos, distintos. Em
difundidas, de chamar de história das doutrinas, ou das idéias políticas, Aristóteles, vislumbra-se uma distinção com base no interesse daquele
ou também, de modo mais geral, do .pe.ns.amento político a história em favor do qual é exercido o poder: o poder paterno é exercido no
que, se houvesse permanecido invariado o significado que nos chegou interesse dos filhos, o despótico, no interesse do senhor, o político, no
dos clássicos, deveria ser denominada história da política, por analogia interesse de quem governa e de quem é governado (contudo, somente
com outras expressões tais como história da física, ou da estética, ou da nas formas corretas de governo, uma vez que as formas corruptas são
ética: costume também acatado por Croce, o qual, na obra citada, intitula diferenciadas por sua vez exatamente por ser o poder exercido no inte-
Per la storia della filosofia della política fPela história da filosofia da resse do governante): Mas o critério que acabou afinal prevalecendo na
política] o capítulo dedicado a um breve ex.curso hlstónco G.a;, c!.outri- tratadística dos jusnaturalistas foi aquele do fundamento ou do princí-
nas políticas modernas. pio de legitimação (que se encontra formulado com clareza no capítulo
XV do Segundo tratado sobre o governo civil, de Locke): o fundamento
do poder paterno é a nattireza, do poder despótico, o castigo por um
A tipologia clássica das formas de poder
delito cometido (a única hipótese neste caso é_aquela do prisioneiro de
O conceito de política, entendida como forma de atividade ou práxis guerra que perdeu uma guerra injusta), do poder civil, o consenso. A
humana, está estreitamente ligado ao conceito de poder. O poder foi esses três motivos de justificação do poder correspondem as três ex-
definido tradicionalmente como "consistente nos meios para se obter pressões clássicas do fundamento da obrigação: ex natura, ex delicto,
alguma vantagem" (Hobbes) 1 ou, de moela análogo, como "o conjunto

2. 8. RUSSELL, Power. A New Social Analysís, Allen & Unwin. Londrn, 1'UH (1•d. IL: /1 /mtu" !Iria nuova 1
1. Cf. TH. HOBBES, Leviatà, cap. X. tmalisi soda/e, Feltrinelli, Milão, 1976/4). 161
ex conlractu. Nenhum dos d ois critérios, contudo, permite individuar
o caráter específico do pod er político. D e fato, que o pod er político se sociedades evoluídas, porque através deles, e dos valores que eles di-
caract erize, em comparação com o paterno e o despótico, por se voltar fundem, ou dos conhecimentos qu e eles emanom, cum pre-se 0 proces-
para os interesses d os gove rnantes e dos governados ou por se Fundar so de socialização necessário à coesão e integração d o grupo. O poder
sobre o consenso, é um caráter distintivo não de qualquer governo, mas político, enfim, fu~da-se sobre a posse dos instrumentos através dos
apenas do bom gove rno: não é uma conotação da relação política en- quais se exerce a força Fís ica (armas de tod o tipo e grau): é 0 poder
quanto tal, mas da rela1:,·;:;>- tJ-.•lítica corresponçleote ao governo como 1 coativo no sentido mais estrito da palavra. Tod as as três forma s d e po-
deveria ser. Na verwd'*"' ~·rn lul i.;s poirtKW>. .>emµrc rec:rmheLt!ram clN instrruem e mantêm uma sociedade de desiguais, isto é , dividida
tanto governos patemali~~..... -.iuanto governos despóticos, ou seja, go- entre n cos e pobres, com base no prime iro, entre sapientes e ignoran-
vernos nos quais a re lação entre soberano e súditos é aproximada ora da tes, com base no segundo, .entre fortes e fracos, com base ao terceiro:
relação entre pai e filhos, ora da relação entre senhor e escravos, os 1 genericamente, entre superiores e inferiores.
quais não são de fato menos governos do que aqueles que agem pelo Enquanto poder cujo m eio específico é a força - entenda-se como
bem público e se fundam sobre o consenso. veremos adiante, o uso exclusivo da força - , que é o meio desd~ sem-
pre mais eficaz para condicionar os comportamentos, o poder político
é em qualquer sociedade de des iguais o poder supremo, isto é, 0 po-
A tipologia moderna das formas de poder der ao qual todos os outros estão de algum modo subordinados: o poder
Ao objetivo de encontrar o elemento específico do poàer político, coativo de fato é aquele ao qual recorre qualquer grupo social (a classe
parece mais conveniente o critério de classificação das várias formas de dominante de qualquer grupo social), em última instância, ou como
poder que se funda sobre os meios dos quais se serve o sujeito ativo da extrema ratio, pa~a se defender dos ataques externos ou para impedir,
relação para condicionar o comportamento do sujeito passivo. Com com a desagregaçao do grupo, a própria eliminação. Nas relações entre
base neste critério, podem-se distinguir três grandes tipos no âmbito os membros de um mesmo grupo social, não obstante o estado de -su-
do conceito iatíssimo de poder. Esses tipos são: o poder econômico, o bordinação que a expropriação dos meios de produção cria nos expro-
poder ideológico e o poder político. O primeiro é aquele que se vale da priados em relação aos expropriadores, não obstante a adesão passiva
posse de certos bens necessários, ou assim considerados em uma situa- aos valores de grupo por parte da maioria dos destinatários das mensa-
ção de escassez, para induzir aqueles que não os possuem a ter uma gens ideológicas emitidas pela classe dominante, apenas o emprego da
certa conduta, consistente principalmente na execução de um certo ~orça físi~a serve, ainda que apenas em casos extremos, para impedir a
t ipo d e trabalho. N a posse dos meios de produção reside uma enorme insubordinação e a desobediência dos submetidos, como a experiência
fonte de poder por parte daqueles que os possuem em relação àqueles his~ó~ca_ p~ova com abundantes exemplos. Nas relações entre grupos
que não os possuem: o poder do chefe d e uma empresa deriva da pos- sociais distintos, não obstante a importância que possam ter a ameaça
sibilidade que a posse ou a disponibilidade dos meios de produção lhe ou~ e_x ecução de sanções econômicas para induzir o grupo adversárip a
dá de obter a venda da força-trabalho em tr~~6'tilfl'6aGn 10. Erri-gera!, des15tlr de um certo comportamento (nas relações intergrupo tem menos
qualquer um que possua abundânca de bens é capaz de condicionar o relevância o condicionamento de natureza ideológica), o instrumento
comportamento d e quem se encontra em condições de penúria, atra- decisivo para impor a própria vontade é o uso da força, a gue rra.
vés da promessa e atribuição de compensaçõ.es. ·O,,acier rdeológKv · Essa distin<gão entre os principais tipos de pode r social pode ser
funda-se sobre a influência que as idéias formuladas de um determina- novamente encontrada, embora expressa de diferentes maneiras na
do modo, emitidas em determinadas circunstâncias, por uma pessoa maioria das teorias sociais contemporâneas, nas quais o siste ma s~ciri l
investida de uma determinada autoridade, difundidas através de deter- em seu todo aparece direta ou indire lam ent arti ulado <.•m trê:-.
minados procedimentos, têm sobre a conduta dos consociados: desse subsistemas principais, que são a organi7.ação das forças produtivas n
tipo de condicionamento nasce a importância social em cada grupo or- organização do consenso, a organização da coação. 'lhmb ·m a tt·u; ia
ganizado daqueles que sabem, dos sapientes, sejam eles os sacerdotes ·..lllM:XÍa:na pode ser interpretada do seguinte modo: :i lx1:-.c r ·ai, 011 n
das sociedades arcaicas, sejam eles os intelectuais ou os cientistas das trutura, compreende o sistema econômico; a sup ·r ·struturn, t i11clinclo
se em dois momen_tos distintos, compreende o s i-:tt·n1:1 ideol6>ti~ n t ' u 1..!.!
sistema mais propriamente jurídico-político. Gramsci distingue clara- e quando os indivíduos renunciam ao direito de usar cada qual a
mente, na esfera superestrutura!, o momento do consenso (que ele ocorr . d . , l
ó ria força que os torna iguais no estado de natureza para epos1ta- o
chama de sociedade civil) e o momento do domínio (ao qual denornin pr pmãos d e uma umca
, . pessoa ou d e um umco, . corpo que d e agora em
sociedade política ou Estado). Durante séculos os escritores políticoa ~::nte será o único au~orizado a u.sar a fo.rç~ ~o interess~ deles. Esta
distinguiram o poder espiritual (aquele que hoje chamaríamos de ideo~ hipótese abstrata adqmre profundidade ~ist?n:a_ na te~r~a do Estado
lógico) do poder temporal, e sempre interpretaram o poder tefl)p 0 ral de Marx e de Engels. segundo a qual. a~ rnst1~mçoes poht1~as em uri:1a
como constituído da união do dominium i.Qm:· :bntf' \ naiJ•'\l' i'' )~ele ciedade dividida .em classes antagónicas tem por pnnc1pal funçao
poder econômico) e do imperium (ao que hoje chamaríamos poder mais s~rmitir que a classe dominante mantenha o próprio domínio, objetivo
propriamente político). Tanto na dicotomia tradicional (poder espiri- pue não pode ser alcançado, dado o antagonismo de classe, senão me:::
tual e poder temporal) quanto na dicotomia marxiana (estrut11r.., -:: su- diante a organização sistemática e eficaz da força monopolizada (e é
perestrutura) encontramos as três formas de poder, sempre que se in- or isso que cada Estado é, e não pode deixar de ser, uma ditadura).
terprete corretamente o segundo termo, em ambos os casos, como sen- ~este sentido, tornou-se já clássica a definição de Max Weber: "Por
do composto de dois momentos. A diferença está no fato de que na Estado deve-se entender uma empresa institucional de caráter político
teoria tradicional o momento principal é o ideológico, no sentido de na qual - e na medida em que - o aparato administrativo leva adiante
que o poder econômico-político é concebido como dependente direta com sucesso uma pretensão de monopólio da coerção física legítima,
ou indiretamente do poder espirittL;, ;:::.'...j_~.:... "- ___ ----~- -··----,.La 0 tendo em vista a aplicação das disposições" .3 Esta definição já se tor-
momento principal é o poder econômico, no sentido de que o poder nou quase lugar-comum na ciência política contemporânea. Em um dos
ideológico e o poder político refletem mais ou menos imediatamente a dois manuais de ciência política mais conceituados, G. A. Almond e G.
estrutura das relações de produção. B. Powell escrevem: "Concordamos com Max Weber quanto ao fato de
que a força física legítima é o fio condutor da ação do sistema político,
O poder político aquilo que lhe confere a sua particular qualidade e importância e a sua
coerência como sistema. As autoridades políticas, e apenas elas, têm o
Que a possibilidade de recorrer à força seja o elemento que distin- direito predominantemente aceito de usar a coerção e de exigir obe-
gue o poder político das outras formas de poder não significa que o diência com base nela( ... ). Quando falamos de sistema político, incluí-
poder político se resuma ao uso da força: o uso da força é uma condição mos todas as interações relativas ao uso ou à ameaça do uso da coerção
necessária, mas não suficiente para a existência do poder político. Nem física legítima" .4 A supremacia da força física como instrumento de po-
todo grupo social com condições de usar, até mesmo com certa conti- der sobre todas as outras formas de poder (entre as quais as duas princi-
nuidade, a força (uma associação de delinqüentes, um bando de pira- pais, além da força física, são o domínio sobre os bens, que dá lugar ao
tas, um grupo subversivo etc.) exerce um poder político. O que carac- poder econômico, e o domínio sobre as idéias, que dá lugar ao poder
teriza o poder político é a exclusividade do uso da força eJr.. :eh )-· a ideológico) pode ser demonstrada se considerarmos que, por mais que
todos os grupos que agem em um determinado contexto social, ex- na maioria dos Estados históricos o monopólio do poder coativo tenha
clusividade que é o resultado de um processo que se desenvolve, em buscado e encontrado a própria sustentação na imposição das idéias ("as
toda sociedade organizada, na direção .da mononaliz~d~ rh -;-,;;:.,.,- é idéias dominante5", segundo conhecida frase de Marx, "são as idéias da
do uso dos meios com os quais é possívei exercer a coação tísica. Esse classe dominante"), dos deuses pátrios à religião civil, do Estado con-
processo de monopolização caminha pari passu com o processo de
criminalização e penalização de todos os atos de violência que não fo-
Fém cumpridos por pessoas autorizadas pelos detentores e beneficiários 3. M. WEBER, Wirtschaft und Gesellschaft, organizado por J. Winckdrna11n, Mohr, TOliin~•·n, 1!J/h/'>, vol. 1, p
29 (ed. it.: Economia e società, organizado por P. Rossi, Edizioni di Com11nit1\ 7 vols., Mili\o, 1l)/'1/ i, novn 1•d.
desse monopólio. em 5 vols., voL I, p. 53).
1

Na hipótese hobbesiana, que está no,fundamento da teona moder- 4. G. A. ALMONO, G. B. POWELL, Camparative Politics. A D11v•fopn,..1111/ A/11nomh, l.1111<., Jl1ow11, li•."""'·
1966 (ed. it.: Política comparata, il Mulino, Bolonha, 1~70, p. )~. IExbtt" u11111 novn c·di\!h• mrnl1fh ndu:
na do Estado, a passagem do estado de natureza para o Estado civil - ou Camparative Palitics. System, Process, and Policy, Little, Brown & Co., llostnn, J <J 711 (c•d. li.: l'o/lllrn 1m11/~n11111
Sistema, processi e politiche, il Mulino, Bolonha, 1988. A pass11Kr111 u11H·~1uuulc~ àqtwlu e lt1tcl11, c·m llivc·r~ll
da anarquia para a arquia, do estado apolítico para o Estado político - Trad., encontra-se na p._27)).
l
'

O fim da política
fessional à religião de Estado, e na concentração e direcionamento das
atividades econômicas principais, há contudo grupos políticos organiza- Uma vez individuado o elemento específico da política no meio do
dos que puderam consentir na desmonopolização do poder ideológico e qual se serve, perdem força as tradicionais definições teleológicas, que
do poder econômico (disso é exemplo o Estado liberal-democrático ca- tentam definir a política mediante o fim ou os fins que ela persegue.
racterizado pela liberdade do dissenso, embora dentro de certos limites, Com relação ao fim da política, a única coisa que se pode dizer é que,
e pela pluralidade dos centros de poder econômico). Mas não há gmon se o poder político é, exatamente em razão do monopólio da força, o
social organizado que tenha até agora nocli.d:n 1:".on'St'ntt:· r•:: : 1 •-:--!<l'· poder supremo em um determinaáo grupo social, os fins que vierem a
nopolização do poder coativo, evento que significaria nada menos que 0 ser perseguidos por obra dos políticos são os fins considerados segundo
fim do Estado, e que, enquanto tal, constituiria um verdadeiro salto qua- as circunstâncias preemin_entes para um dado grupo social (ou para a
litativo para fora da história, no reinu sem. tempo .da utoni2 classe dominante daquele grupo social): para dar alguns exemplos, em
Algumas características habitualmente atribuídas ao poder político tempos de lutas sociais e civis, a unidade do Estado, a concórdia, a paz,
- e que o diferenciam de qualquer outra forma de poder - são conse- a ordem pública etc.; em tempos de paz interna e externa, o bem-estar,
qüência direta da monopolização da força no âmbito de um determina- a prosperidade ou até mesmo a potência; em tempos de opressão por
do território em relação a um determinado grupo social. São elas: a parte de um governo despótico, a conquista dos direitos civis e políti-
exclusividade, a universalidade e a inclusividade. Por exclusividade en- cos; em tempos de dependência de uma potência estrangeira, a inde-
tende-se a tendência que os detentorcc, i..:. p0i_. y~:·-·-- ..•.u.u.Ls.::a.n pendência nacional. Isso significa que não há fins da política para sem-
de não permitir, no seu âmbito de domínio, a formação de grupos ar- pre estabelecidos, e muito menos um fim que compreenda todos os
mados independentes, e de subjugar, ou desbaratar, aqueles que forem outros e possa ser considerado o fim da política: os fins da política são
se formando, além de manter sob vigilância as infiltrações, as ingerên- tantos quantas forem as metas a que um grupo organizado se propõe,
cias ou as agressões de grupos políticos externos. Esta característica segundo os tempos e as circunstâncias. Esta-insistência no meio mais
distingue o grupo político organizado da "societas" de "latrones" (o do que no fim corresponde de resto à communis opinio dos teóricos do
"latrocinium" do qual falava santo Agostinho). Por universalidade en- Estado, os quais excluem o fim dos chamados elementos constitutivos
tende-se a capacidade que têm os detentores do poder político, e ape- do Estado. Recorramos uma vez mais a Max Weber: "Não é possível
nas eles, de tomar decisões legítimas e efetivamente operantes para definir um grupo político - e tampouco o Estado - indicando o obje-
toda a comunidade com relação à distribuição e destinação dos recur- tivo do seu agir de grupo. Não há objetivo que grupos políticos não
sos (não apenas econômicos). Por inclusividade entende-se a possibili- tenham alguma vez proposto ( ... ) Pode-se, portanto, definir o caráter
dade de intervir imperativamente em cada possível esfera de atividade político de um grupo social somente mediante o meio ( ... ),que não é
dos membros do grupo, encaminhando-os para um fim desejado ou próprio exclusivamente dele, mas é em cada caso específico, e indis-
distraindo-os de um fim não-desejado através do instrumento da or- pensável para a sua ~ssência: o uso da força". 5
dem jurídica, isto é, de um conjunto de.normas.primárias volbd2.0 mm1 Essa remoção do juízo teleológico não impede contudo que se p~ssa
os membros do grupo e de normas secundárias voltadas para os funcio- falar, com correção, pelo menos de um fim mínimo da política: a or-
nários especializados, autorizados a intervir no caso de violação das pri- dem pública nas relações internas e a defesa da integridade nacional nas
meiras. Isto não significa que o poder noHti~(' "l'ir 1m~'.J~!:::: !ir:::~::-~ - '.·: relações de um Estado com os outros Estados. Esse fim é mínimo, por-
mesmo. Mas são limites que variam de uma tormaçáo política para que é a conditio sine qua non para a realização de todos os outros fins,
outra: um Estado teocrático estende o próprio poder à esfera religiosa, sendo portanto com eles compatível. Mesmo o partido que deseja a
enquanto um Estado laico se rende diante dela; assim também, um desordem, deseja a desordem não como objetivo final, mas como mo-
Estado coletivista estende o próprio poder à esfera econômica, enquan- mento obrigatório para transformar a ordem existente e criar uma nova
to o Estado liberal clássico dela se afasta. O Estado oniinclusivo, isto é, ordem. Além do mais, é lícito falar da ordem como fim mínimo da
o Estado para o qual nenhuma esfera de: atividade numana permanece
estranha, é o Estado totalitário, e é, em sua natureza de caso-limite, a
sublimação da política, a politização integral das relações sociais. 5. M. WEBER, Wirtschaft wui Gesellschaft cit., vol. 1., pp. 29-30 (c•cl. 11.: 1971 e 1980, vol. J, pp. 53-54). lt67
política porque ela é, ou deveria ser, o resultad o direto da o rga nização é bom que cada um faça aqui lo q ul! dele se espera no âmbito da socie-
d o poder coativo, porque , em outras palavras, esse fim (a ordem) For- dade como um todo (República, 433a) , justiça e ordem são a mes ma
ma um todo com o m eio (o monopólio da fo n;a) : em uma sociedade coisa. Outras noções de fim, como fe licidade, liberdade, igualdade, são
comp lexa, fundada sobre a divisão do trabalho, sobre a estratificação demasiado controversas, e também elas interpretáveis das maneiras m ais
de segmentos e classes, em alguns casos também sobre a sobreposição díspares para que delas se possam extrair indicações úteis para individuar
de populações e raças d ist intas, somente o recurso em última instância 0 fim específico da política.
à força impede a desagregação do grupo n retorno LOm u Jirfam o~ Outro mudo d e escapar às d ificuldades de uma d efinição teleológica
antigos, ao estado de natureza. Tanto e vercladt quc-0 dí:l em que I O!)se· de política é d efinindo-a como aquela forma de poder que outro fim
possível uma ordem espontânea, como imaginaram várias escolas eco- não tem além do próprio poder (donde poder é ao mesm o tempo meio
nômicas e políticas, dos fisiocratas aos anarquistas, ou aos próprios Marx e fim, ou, com o se costurria dizer, fim em si mesmo). "O caráter políti-
e Engels, na fase do comunismo plenamente rea lizado, não m ais have- co da ação humana - escreve Marie Albertini - emerge quando o
ria, propriamente falando, polrtica. poder se torna um fim, é buscado em certo sentido por si mesmo, e
Quem considerar as t radicionais d efini ções teleológicas de política constitui o objeto de uma atividade específica",6 diferente do que ocorre
não tardará a perceber que algumas delas não são d efinições descriti- com o m édico que exerce o próprio poder sobre o doente para curá-lo,
vas, mas sim prescritivas, no sentido de que não d efinem o que é con- ou do rapaz que impõe o seu jogo aos colegas não pelo prazer de exer-
cretamente e normalmente a pOlítiGa . ~ S forJi (";IJTl C-OmO n""VPrl;> <:<>~ 3 cer um poder, mas pelo prazer de jogar. Pode-se objetar a esse m odo de
politica para ser uma boa política; outras diferem apenas em palavras definir política dizendo que ele não define tanto uma forma específica
(as palavras da linguagem filosófica são com freqüência intencional- de poder, mas um modo específico de exercê-lo, e portanto se aplica
mente obscuras) da d efinição aqui oferecida. Toda a história da filoso- igualmente bem a qualquer forma de poder (seja e le o poder econômi-
fia po}ítica t ransborda d e definições prescritivas, a começar por aquela co, ou o poder ideológico, e assim por diante) . O poder pelo poder é a
de Aristóteles: como é sabido, Aristóteles afirma que o fim da poütica forma degenerada d o exercício de qualquer forma de poder, que pode
não é o viver, mas o viver bem (Política, 1278b) . Mas em q ue consiste ter por sujeito tanto quem exerce aquele poder d e amplas dimensões
a vida boa? Como distingui-la d a má? E se uma classe política tiraniza os que é o poder político quanto quem exerce um pequeno poder, como
seus súditos condenando-os a uma vida desgraçada e infeliz, não está pode ser o poder de um pai de família, ou d e um chefe d e seção que
por acaso fazendo política, e o poder qu exerce por acaso não é um supervisiona uma dúzia d e operários. A razão pela qual pode parecer
poder político? O m esmo Aristóteles distingue as formas puras d e go- qu~ o po_der como_ fim em si mesmo seja caract erístico da política (mas
verno das formas corruptas (e antes d ele Platão, e depois dele muitos sen a mais exato dizer de um certo homem político, o homem político
outros escritores polít icos ao longo de vinte séculos): embora aquilo m~quiavélico) está no fato de não existir um fim tão específico da po-
que d ife rencia as formas corruptas das puras seja que naquelas a vida lft~ca_ tal como, ao c~ntrário, existe um fjm específico d o poder que 0
não é boa, nem Aristóteles nem todos os escritores que d epois deJe medico exerce sobre o doente, ou do rapaz que impõe um jogo aos sºe us
vieram jamais lhes negaram o caráter de constituições poht1cas . 1-.íão colegas. Se o fim d a política (e não do homem polít ico maquiavélico)
nos iludam outras teorias tradicionais que atribuem à política outros fosse realm ente o poder p elo pode r, a política não serviria p ara nada.
fins além da ordem, como o bem comum (o oróorio Aristóteles e de- Provavelmente a definição da política como poder pelo poder deriva da
pois dele o aristotelismo medieval) ou a JUSUÇa ll"lataoJ: um cor:.;ei'.:o confusão ent;-:... ~ LOnceito d e poder e o conceito d e potência: não há
como o d e bem comum, caso queiramos libertá-lo da sua extrema ge- d_ú vida de que entre os fins da política também es teja aque l da potê n-
neralidade, através da qual pode significar tudo e nada, e queiramos oa do Estado (quando se leva em consideração ~• relação do próp1 io
indica.r-lhe um significado plausível, não pode designar senão aquele Estado c?m outros Estados). Mas uma coisa é umo políti a dl' potêncin,
bem que todos os membros de um grupo têm em comum, bem este outra coisa é o poder pelo poder. E, alé m disso, n r><Hl\nc ia nada n 11 ii , v
que outro não é senão a convivência o rdenada, em uma palavra, a or-
dem; quanto à justiça em sentido platônico, se a entendemos, uma ve:z.
dissipadas todas as n évoas ret óricas, como o princípio com base no qual 6. M. ALBERTINI. -1..m politica-. in La política ~á trftro lll,«1, Gmflto , M1l.10, 1' Ih l. , •t
1 I~
flitos antagonísticos: a política cobre o campo em que se d esenvol-
que um dos fin s possíveis da política, um fim que apenas alguns Esta- coo conflitos antagonisticos.
, . Que se1a. esta a perspect1v:i
. a partir. da
dos podem razoavelmente perseguir. vern . d - h d, .d
uai se pos icionam os autores cita os, parece nao aver uvi a. para
~chrnitt: "A oposição política é a mais intensa e extrema de todas, e
alquer outra oposição concreta é tanto mais política quanto mais se
A política como relação amigo-inimigo quroxi~a do ponto extremo, aquele do agrupamento com base nos con-
Entre as mais conhecidas e discutidas definições de política deve- a~i.tos amigo-inimigo" .10 Para Freund: "Qualquer divergência de inte-
m os considerar aquela de Carl Schmitt (retomada e éIIDT'h'lrl or Julien ~esses ( ...) pode a qualauer momento trans formar-se em rivalidade ou
Freund), segundo a qual a esfera da potíttca comade com ;i '-~fe~a da ern conflito, e esse conflito, a partir do momento em que assume o
relação amigo-inimigo. Com base a nessa definição, o cam~o de o~g~i:r' aspecto de uma prova de força entre os grupos que representam esses
e de aplicação da política seria o antagonismo, e a sua funçao cons1stina interesses, vale dizer, a partir do momento que se afirma como luta de
na atividade de agregar e defender os amigos e de desagregar e comba- patência, toma-se político".11 Como pode.mos v~rific~ na.s ?ª~sagens
ter os inimigos. Para reforçar a sua definição, fundada sobre um_a ~posi­ citadas, ao defmir a política com base na dicotomia arrugo-mumgo, es-
ção fundamental (amigo-inimigo), Schmitt compara-a_ à~ defimçoes de ses autores têm em mente que existem conflitos entre os homens e
moral, de arte etc. fundadas, também elas, sobre opos1çoes fundamen- entre os grupos sociais, e que entre estes conflitos há alguns distintos
tais tais como bom-mau, belo-feio etc. "A específica distinção política, de todos os outros devido à sua particular intensidade; a estes dão o
à q~al é possível reconduzir as açõe.c: ,. 0c n"l"-tiv'1<: t'Clífr:o'.', f a distin- nome de conflitos políticos. Contudo, tão logo se compreende no que
ção entre amigo e inimigo(... ). Uma vez que não~ d:rivável ~e outros consiste essa particular intensidade, e portanto no que a relação amigo-
critérios, ela corresponde, para a política, aos cnténos relativamente inimigo se distingue de todas as outras relações conflitantes de não
autônomos das outras oposições: bom e mau para a moral, belo e feio equivalente intensidade, percebe-se que o elemento distintivo esiá no
para a estética, e assim por diante". 7 Drastican;~nte, Fre~n_d .expressa- fato de que são conflitos que não podem ser resolvidos em última ins-
se nos seguintes termos: "enquanto houver poht1ca, ela d1vtdirá a cole- tância senão com a força, ou pelo menos, que justificam, por parte dos
t ividade em amigos e inimigos"8 • E comenta: "Quanto mais uma oposi- contendentes, o uso da força para pôr fim à contenda. O conflito por
ção se desenvolve em direção à distinção amigo-~mi~o, mais se Atam.a excelência a partir do qual tanto Schmitt quanto Freund extrapolaram
política. A característica do Estado é suprimir no mtenor do seu amb1- suas respectivas definições de política é a guerra, cujo conceito com-
to de competência a d ivisão dos seus membros ou grupo::. i n ~emos em preende tanto a guerra externa quanto a guerra interna: ora, se uma
amigos e inimigos, com o objetivo de não tolerar senão as simples riva- coisa é certa, é que a guerra é aquela espécie de conflito que se caracte-
lidades agonísticas ou as lutas dos partidos, e reservar ao governo o riza eminentemente pelo uso da força. Mas se isso é verdade, a defini-
direito de designar o inimigo externo. ( ...) Fica portanto claro que a ção de política em termos de amigo-inimigo não é em absoluto incom-
oposição amigo-inimigo é politicamente fundame~t:l".
9
A patível com aquela, ·dada anteriormente, que faz referência ao mono-
Não obstante a pretensão de valer .como defimcao.~Johal cio feno- pólio da força. Não apenas não é incompatível, como dela é uma
meno político, a d efinição de Schmitt considera a política segundo ~ma especificação, e portanto, em última análise, uma confmnação. Exata-
perspectiva unilateral, ainda que importante, que é aquela do _Parttc~­ mente porque o poder político é distinto do instrumento do qual se
lar tipo de conflito que por sua vez distinruiria a esfera da.e: 1tçoes polt- serve para alcançar os próprios fi ns, e esse instrumento é a força física,
ticas. Em outras palavras, Schmitt e rreuna parecem e:>Lal J t acordo ele é aquele poder ao qual se apela para solucionar os conflitos cuja
quanto aos seguintes pontos: a política tem a ver com~ conflitu_os~dade não-solução teria como efeito a desagregação do Estado ou da ordem
humana; há vários t ipos de conflitos, sobretudo conflitos agomst1cos e internacional, sendo estes exatamente os conflitos nos quais, postando-
se os contendentes um diante d o outro, a vita mea é a mors tua.
7. C. SCHMITf, Der Btgriff des Politischtn, Ounckcr und Humhlot:..Mü~n-1.ciozür 1QJ? (<:11 1 it .: ""'i"C::::•
dl "poli1ico", ln 10., f...e cat•torit dei "politico", organiucro pur v. Mtg.io e P. Sch•<·-· !. M u,1110, 8o O
10. C. SCHMJTT, CMr &pi// dts Poliiisch.n dt., p. i 12.
1972, rcirnp., 1998, p . 108).
8. J. PREUNO, t:=mce d• politU,ue, Sirey, Paris, 1965, p . 448. 11. J. PREUND, C:essenu du poliríque, cit., p. 479.
1 9. J. PREUND, t:usmc• du poliriqut cit., . 445.
são assim denominadas: libertas, poteslas, religio. O problema funda -
O político e o social
rnental do Estado, e portanto da política, é para Hobbes o problemo
Contrariamente à tradição clássica segundo a qual a esfera da políti- das relações entre a potesuis, simbolizada pelo grande Leviatã, de um
ca, e ntendida como esfera de tudo aquilo que concerne à vida da pólis lado, e a libertas e a religio, de outro: a libertas indica o espaço das
inclui todo tipo de relações sociais, de modo que o "político" passa~ relações .naturais, no qual se desenvolve a atividade econômica dos in -
coincidir com o "social", o tratamento que aqui se fez da categoria da divíduos, estimulada pela incessante disputa pela posse dos be ns mate-
política é certamente redutor: resumir, como se afirmou, a categoria da riais, o estado de natureza (interpretado recentemente como a pre-
política à atividade que tem d ireta ou mamm1meote rdação c0m a figuração da sociedade de mPrcado) ; a religio indica o espaço reservado
organização do pode r coativo significa resuingrr ·o amtmo do " político" à forrnação e expansão da vida espiritual, cuja conc retização histórica
e m relação ao "social", recusar a plena coincid ê ncia do primeiro com 0 se dá com a instituição da Igreja, ist o é, de uma sociedade que por sua
segundo. Essa redução tem uma razão histórica bem precisa. De um natureza é distinta da sociedade política e não pode ser com e la con-
lado, o cristianismo subtraiu da esfera da política o domínio sobre a fundida. Com relação a essa dupla d e limitação de fronte iras do territó-
vida religiosa, d ando origem à o posição entre poder espiritual e poder rio da política, e m e rgem na fil osofia po lítica m oderna dois tipos ideais
temporal, que era ignorada no mundo antigo. De outro, o nascimento de Estado: o Estado absolutista e o Estado libe ral, o primeiro tende a
da economia mercantil burguesa subtraiu da esfera da política o domí- ampliar, o segundo a restringir a própria ingerência no que concerne à
nio sobre as relações econômicas, dando o rigem à oposição (para nos sociedade econômica e à sociedade re ligiosa. Na filosofia política do
expressar com a te rminologia hegelian? "' ....,..1 ..,..1 ......":- Ma:-x". e t-ansfor- século ~· ~ pro~esso de e mancipação da sociedade e m relação ao
mada, por fim, em uso comum) entre sociedade civil e sociedade polí- Estado esta tao adiantado que pela prime ira vez, a partir de iÍiúmeros
t ica, entre esfera privada, ou do burguês, e esfera pública, ou do cida- pontos de vista, é imaginado o co m p leto d esaparecim ento em um fu-
dão, que e ra, també m e la', 1gnorada no mundo antigo. Enquanto a filo- turo mais ou m e nos distante, d o Estado, e conseqüente m:nte a absor-
sofia po!ítica clássica está alicerçada sobre o estudo da estrutura da ção do político no social, ou o fim da política. D e acordo com o que foi
pólis e das suas várias form as históricas ou ideais, a filosofia política dito até aqui sobre o signi fi cado restritivo de política (restritivo com
pós-clássica caracteriza-se pela contínua tentativa de uma de limitação relação ao conceito mais amplo de "social"), fim da política significa
daquilo que é político (o reino de César) em re lação àquilo que não é exatamente o fim de uma socied ade para cuja coesão sejam necessárias
político (seja e le o re ino de Deus ou o reino das riquezas),* por uma relações de poder político, isto é, relações de domínio fund adas em
contínua reflexão sobre aquilo que diferencia a csft i d da política da última .instância no uso da força. Fim da política não significa, bem
esfera da não-política, o Estado do não-Estado, o nde por esfera da não- en~end1do, fim de qualquer forma de o rgan ização socia l. Significa pura
política ou do não-Estado e ntende-se, depende ndo das circ unstâncias, e simplesme nte fim daquela forma de o rgan ização social que se susten-
ora a sociedade re ligiosa (a ecclesia contraposta à civitas), ora a socieda- ta no uso exclusivo do pode r coativo.
d e natural (o me rcado como lugar em que os indivíduos se encontram,
inde pendentemente d e qualquer imposicão. em oposicão à ordem roativa
do Estado) . O tema fundamental da füosoHa política mode rna é o tema Política e moral
das fronteiras, o ra mais recuadas, ora mais avançadas, segundo os vários Ao proble m a da relação e nt re política e não-política associa-se u m
autores e as várias escolas, do Estado como oreanizacão da esfe ra Política, d~s problemas fundamentais da filosofia política, o problema da rcla-
seja e m relaç ão à sociedade religiosa, seja em re1a1sao a souc:u.idc: civ il (no ç~o entre política e m o ral. A política e a m oral têm e m comum o domí-
sentido de sociedade burguesa ou dos privados) . nio sobre o qual se estende m, que é o domínio da ação ou ·d a práxis
Exemplar também sob esse aspecto é a teoria política de Hobbes, h~~ana. Conside ra-se que diferem e ntre si com base no diferente prin -
que se articula em torno de três conceitos fundam e ntais, constituindo c1p10 ou c ritério de just ificação e de ava liação das respect ivas ações
as três partes nas quais se divide a matéria d o De cive. Essas três partes tendo por conseqüência que aquilo que é obrigatório cm monil m'n~
sempre é obrigatório na política, e aquilo que é lícito na política ne m
sempre é lícito na moral; ou que podem existir ações m orais que são ~
l 72 1 • No origin~I. "sia qucsto il rcgno di Oio o qucllo di Mammona·. (N. T.}
e
impolíticas ou apolíticas) e ações políticas que são imorais l ou amorais).
A descoberta da distinção, que é atribuída, correta ou incorretamente verso da moral e o universo da política movem-se dentro do âmbito de
a Maquiavel, daí o nome de maquiavelismo a toda teoria da política qu~ dois sistemas éticos distintos, aliás, opostos. Mais que de imoralidade
sustente e defenda a separação entre política e moral, é com freqüência da política ou de impoliticidade da moral, deveríamos mais correta-
tratada como problema da autonomia da política. O problema avança rnente falar de dois universos éticos que se movem segundo princípios
pari passu com a formação do Estado moderno e com a sua gradual distintos ·de acordo com as distintas situações nas quais os homens se
emancipação da Igreja, chegando, nos casos"extremos, inclusive ii su- encontram ao agir. Desses dois universos éticos são representantes dois
bordinação da Igreja ao Estado e, conseqúen.te-n:rerrt.E, ::i· sucLcrna~ i.i ab~ personagens distintos que agem no mundo em caminhos quase sempre
soluta da política. Na verdade, aquilo que chamamos de autonomia da destinados a não se encontrar: de um lado, o homem de fé, o profeta, 0
política nada mais é que o reconhecimento de que o critério com base pedagogo, o sábio que olha~ cidade celeste; de outro lado, o homem de
no qual se considera boa ou má uma.ação política (e não nos esq~eça­ Estado, o condottiero dos homens, o criador da cidade terrena. O que
mos de que por ação política se entende, de acordo com o que foi dito conta para o primeiro é a pureza das intenções e a coerência entre ação
até aqui, uma ação que tenha por sujeito ou objeto apólis) é distinto do e intenção; para o segundo, a certeza e a fecundidade do resultado. A
critério com base no qual se considera boa ou má uma ação moral. chamada imoralidade da política resume-se, olhando bem, a uma moral
Enquanto o critério com base no qual se julga uma ação moralmente distinta daquela do dever pelo dever: é a moral pela qual se deve fazer
boa ou má é o respeito a uma norma cujo comando é considerado categó- tudo aquilo que está em nosso poder para realizar o objetivo ao qual nos
rico, independente do resultado da açao l 1'1\.l:t v 4uc aevc su h..ito e propusemos, porque sabemos desde o início que seremos julgados com
aconteça o que tiver de acontecer"), o critério com base no qual se julga base no sucesso. A ela correspondem dois conceitos de virtude, aquela
uma ação politicamente boa ou má é pura e simplesmente o resultado clássica, em que "virtude" significa disposição para o bem moral (em
("faça o que deve ser feito para que aconteça aquilo que você quer que oposição ao útil), e aquela maquiavélica, em que virtude é a capacidade
aconteça"). Os dois critérios são incomparáveis. Essa incomparabilidade do príncipe forte e prud~nte que, usando ao mesmo tempo da "raposa"
expressa-se mediante a afirmação de que em política vale a máxima "o e do "leão", é bem-sucedido em seu intento de manter e reforçar 0
fim justifica os meios": máxima que encontrou em Maquiavel uma das próprio domínio.
suas mais fortes expressões: "(... ) e nas ações de todos os homens, e
máxime dos príncipes, onde não há juízo ao qual reclamar, olha-se o fim. A política como ética do grupo
Faça portanto um póncipe de modo a vencer e manter o Estado: e os
meios serão sempre julgados honrosos, e por todos louvados" (O prínci- Quem não quiser se render à constatação da incomensurabilidade
pe, XVIII). Ao contrário, na moral, a máxima maquiavélica não vale, já de~as ~~as éticas e quiser tentar entender a razão pela qual aquilo que
que uma ação para ser julgada moralmente boa deve ser cumprida com se Justifica em um certo contexto não se justifica em outro, deve se
nenhum outro fim além daquele de cumprir o próprio dever. perguntar então ond~ reside a diferença entre esses dois contextos. A
Uma das mais convincentes interpl'etações cle5t.a opo.si.;,.:3 ~ v · dis- resposta é a seguinte: o critéric da ética da convicção é comumente
tinção weberiana entre a ética da convicção e a ética da responsabilida- empregado para julgar ações individuais, enquanto o critério da ética da
de:"( ...) há uma diferença incomensurável entre o agir segundo a má- responsabilidade é c~mumente empregado para julgar ações de grupo,
xima da ética da COnviCÇãO, a qual em "ÉPT'fl'°!'°'" r=li2i;;".v · .>u,. ·~ ~- istãO ou,ªº. menos cumpr~das por um indivíduo em nome ou por conta do
age como um justo e remete o êxito às mãos de Deus' 1 e o agir segundo pro~no grupo, SeJa eie o povo, ou a nação, ou a Igreja, ou a classe, ou 0

a máxima da ética da responsabilidade, segundo a qual é preciso res- partido etc. Em outros termos, pode-se dizer que à diferença entre
ponder pelas conseqüências (previsíveis) das próprias ações". 12 O uni- moral e política, ou entre ética da convicção e ética da responsabilida-
de, corresponde também a diferença entre ética individual e ética de
grupo. A proposição inicial, segundo a qual aquilo que é obrigatório na
12. M. WEBER, Politik ais Be-nif, in Gesammelte Politische Scimju:n, orgamzadu por J. Winckelmun:,, Mohr, moral .nem sempre é considerado obrigatório na política, pode ser
Tübingen, 1971/3 (ed. it. de A. Giolitti, in Il !avoro intellectuale come professione, "Nue", Ei•rnudi, Turim, traduzida nesta outra fórmula: aquilo que é obrigatório para o indiví-
1966, nova ed. 1977, p. 109).
duo nem sempre é _obrigatório para o grupo ao qual esse indivíduo per- ~
tence. Pensemos na profunda diferença no juízo que filósofos, teólo. rupo, ainda que o mais clamoroso, sendo o Estado a coletividadt: no
gos, mora listas apresentam e m relação à violência secundo se trate de geu rnais alto grau d e expre~são e potên ia. Mas cada vez que um grupo
um ato de violência cumprido por um indivíduo isolado, ou pelo grupo :ocial age em sua própria defesa contra outro gru po, apela-se a uma
social ao qual o mesmo indivíduo perte nce; em outras palavras, segun- ética distinta daquela geralme nte válida para os indivíduos, a urna ética
do se trate de violê ncia pessoal, geralmente, salvo casos excepcionais p0rtanto -que responde à mesma lógica da razão d e Estado. Assim, ao
condenada, ou de violência das instituições, geralmente, sa lvo caso~ lado da razão de Estado, a história nos acena, de acordo com os tempos
excepcionais, justificada. Essa diferença _encon.tta.sua .ex.o li L~1. ,, e os lugares, ora uma Tazão de partido . ora uma razão de classe ou de
conside ração de que no caso da violêncra mdlvtdual, qWbe 11u1i...J :.e nação, que representam, sob outro nome, mas com a m esma força e
pode recorre r ao critério de justificação da extrerna ratio (exceto no corn as mesmas conseqüências, o princípio da autonomia da política,
caso da legíti ma defesa), e nquanto nas relações entre grupos o recurso entendida com o autonom ía dos princípios e das regras de ação que
à justificação da violência como extrema ratio e habitual. Ora, a razão valem para o grupo com o totalidade em relação às regras que valem
pela qual a violência individual não é justificada está precisam ente no para o indivíduo no grupo.
fato de que e la é, por assim dizer, protegida pela violência colet iva,
tanto que é cada vez mais raro, no Limite do impossível, um caso em
que o indivíduo isolado encontre-se na situação de precisar recorrer à II.
violência como extrema ratio. Se isto é verdadt> d ic::r;n rle-r"r '""' up-·.
ÉTICA E POLÍTICA
importante conseqüência: a injustificação da violência individual re-
pousa em última instância no fato de que é aceita, porque justificada, a
violência coletiva. Em outras palavras, a violência individual não é ne- Como o problema se apresenta
cessária porque basta a violência coletiva: a moral pode assim se permi- Os debates cada vez m ais freqüentes que vemos há alguns anos na
tir ser severa com a violência individual porque repousa sobre a aceita- Itália sobre a questão moral repropõem o velho tema da relação entre
ção de uma convivência que se sustenta sobre a prática contínua da moral e política. Velho tema e sempre novo, porque não existe questão
violência coletiva. moral, em qualquer campo que seja proposta, que tenha encontrado
A oposição entre moral e política desse modo entendida, como opo- uma solução definitiva. Embora mais célebre pela antigüidade do d eba-
sição e ntre ética individual e ética de grupo, serve também par:i forr.~­ te, pela autoridade d os escritores que dela participaram, pela variedade
cer uma ilustração e uma explicação da secular disputa em torno da dos argumentos adotados, pela importância da matéria, o problema da
"razão de Estado". Por "razão de Estado" entende-se aquele conjunto relação entre moral e polít ica não é diferente do problema da relação
de princípios e máximas com base nas quais ações que não seriam entre moral e todas as outras atividades do homem, que nos induz a
justificadas se cumpridas por um indivíduo isolado não são apenas falar habitualmente de uma ética das relações econômicas, ou, como
justificadas mas em alguns casos de fato exaltadas e glori ficadas se cum- ocorreu com freqüênc ia nesses anos, d0 mercado, de uma ética sexual,
pridas pelo príncipe, ou por qualquer pessoa que exerça o poaer em de uma ética m édica, de uma ética esportiva e assim por diante . Trata-
nome do Estado . Que o Estado tenha razões que o indivíduo não tem se, em todas essas diferentes esferas da atividade humana, sempre do
ou não pode faze r valer é um outro modo de colocar em evid ência a mesmo problema: a distinção e ntre aquilo que é moralmente lícito e
diferença entre política e moral, uma ve.c ~ac ô!>d ull"\::H. 111yJ 1 \,; 1 · - ~­ aquilo que e -moralmenté il;dto.
ao distinto critério com base no qual são julgadas como boas ou más as O problema das relações entre ética e polltica é mais grave porque
ações nos dois diferentes âmbitos. A afirmação de que a política é a a experiência histórica mostrou, pelo menos desde a conte nda que opôs
razão do Estado encontra uma perfeita correspondência nn af'irmação Antígona a Creonte, e o senso comum parece ler pacificamente aceito,
de que a moral é a razão do indivíduo. São duas razões qu<' q11:.1sc nunca que o homem político pode comportar-se d e modo disforme da moral
coincidem : antes, da sua oposição a l imenta~se.a secular históri :i ' k con · comum, que um ato ilícito na moral pode ser o ns ide rado e apreciado
flito entre moral e poütica. O que talvez seja necessário oi nela tH. n ·sccn· como lícito na política - em suma, que a políti a obedece a um código
tar é que a razão de Estado nada mais é que urn aspc to da C-t kn de de regras, ou sistema normativo, diferente de, e em parte incompatível ~
te apresentado o problema moral em política. Mas com uma dife-
com, o código, ou o sistema normativo, da conduta moral. Quando men a· mesmo nas ava liações mora 1mente mais . inconsequentes
. .. d o mer-
Maquiavel atribui. a Cósimo de Mediei (e parece aprovar) a afirmativa renÇ · . · 1 ·
do nunca se chegará a sustentar consciente e rac10na mente a imora-
de que os Estados não se governam com o pater noster nas mãos, de- ca , d , . , l. d d
lidade do merca o, mas no maxur~o a sua .P~~-mora i a e, ou
monstra considerar, e dá por admitido, que o homem político não pode
amoralidade, ou seja, nem tanto a sua mcom~at~b1hdade com a moral
desenvolver a própria ação seguindo os preceitos da moral dominante,
que em uma sociedade cristã coincide com a moral evangélica. Chegan- quanto O seu distanciamento de qualquer avahaçao . de ordem moral. . O
amigo até o fim do mercado não tem necessidade algur:ia. de af~rmar
do aos nossos dias, em um bem-conhecido.àrnm.a...l.es m.ah \' .: Jean-
que 0 mercado não se ~overna com os pater noster. No maximo afirma-
Paul Sartre sustenta, ou melhor, faz com·queurn:·oos sern5'persortagens
á que não se governa em absoluto.
sustente a tese segundo a qual quem desenvolve uma atividade política r Naturalmente, o problema das relações entre moral e política faz
não pode deixar de sujar as mãos (de barro ou mesmo de sangue).
sentido apenas se concordamos em considerar que exista uma moral e
Assim, por mais que a questão moral se apresente em todos os cam-
se aceitamos, em geral, alguns preceitos que a caracterizam. Para con-
pos da conduta humana, quando se apresenta na esfera da política assu- ordar quanto à existência da moral e de alguns preceitos muito gerais,
me um caráter particularíssimo. Em todos os outros campos, a questão
moral consiste em discutir qual seria a conduta moralmente lícita, e,
~egativos comoneminem laedere, positivos comosuum cuique !ribuere,
não é necessário concordar quanto ao seu fundamento, que e o tema
vice-versa, qual seria a ilícita, e, por ventura, em uma moral não-rigorista,
filosófico por excelência sobre o qual sempre estiveram divididas, e
qual seria indiferente, nas relações econÔ"nlc~". 9~~·.,.;~ ~c-.r..-t:;"lS, entre
continuarão a dividir-se, as escolas filosóficas. A relação entre éticas e
médico e paciente, entre professor e aluno, e assim por diante. Adis-
teorias da ética é muito complexa e podemos aqui nos limitar a dizer
cussão versa sobre quais seriam os princípios ou as regras que respecti-
que 0 desacordo quanto aos fundamentos não prejudica o acordo quan-
vamente os empreendedores ou os comerciantes, os amantes ou os côn-
to às regras fundamentais.
juges, os jogadores de pôquer ou de futebol, os médicos e os cirugiões,
Convém no entanto precisar que, quando se fala de moral em rela-
os professores, deveriam seguir no exercício de suas atividades. O que
ção à política, referimo-nos à moral social e não à moral individual, à
geralmente não está em discussão é a questão moral em si, ou melhor,
moral que concerne portanto às ações de um indivíduo que interferem
se existe uma questão moral, se, em outras palavras, é plausível discutir
na esfera de atividade de outros indivíduos e não àquela que concerne
o problema da moralidade das respectivas condutas. Tomemos, por
às ações relativas, por exemplo, ao aperfeiçoamento da própria perso-
exemplo, o campo, no qual há anos ferve entre moraii-s1.<i., um debate
particularmente vivaz, da ética médica e, de modo mais geral, da bioética:
l nalidade, independentemente das conseqüências que a procura desse
ideal de perfeição possa ter para os outros. A ética tradicional sempre
a discusão é animadíssima no que concerne à licitude ou ilicitude de
fez a distinção entre os deveres para com os outros e os deveres para
certos atos, mas não passa pela cabeça de ninguém negar o problema
consigo mesmo. No debate sobre o problema da moral em política vêm
em si , isto é 1 que no exercício da atividade médica surjam problemas que à baila exclusivamente os deveres para com os outros.
todos aqueles que deles se ocupam estão habituados a considerar mo-
rais , e , ao considerá-los corno tais, entendem-se perfeitamente entre si,
mesmo que não se entendam sobre quais sejam os princípios ou as A ação política pode ser submetida ao juízo moral?
regras a serem observadas ou aplicadas. O mesmo ocorri" n;:i ;:1t1 lal dis-
Diferente doque ocorre nos outros campos da conduta humana, na
cussão sobre a moralidade do mercado.·~ ;:,omente ia onuc ::.e sustente
esfera da política o problema tal como foi tradicionalmente apresenta-
que o mercado como tal, enquanto mecanismo racionalmente perfeito,
do não se refere tanto a quais seriam as ações moralmente lícitas e
embora de uma racionalidade espontânea e não reflexiva, não pode ser
quais seriam as ações moralmente ilícitas, mas se teria algum sentido
submetido a nenhuma avaliação de ordem moral, o problema é apre-
propor o problema da licitude ou da ilicitude mornl das açôcs políticas.
sentado de modo semelhante àquele através do qual foi tradicional-
Trago um exemplo que ajudará a entender a diferença mais do que uma
longa dissertação: não há sistema moral que não contenha pn·ceitos
voltados para impedir a fraude e o uso cfo violf'ncia. As duas principais ~
1781 13. Ver A. K. SEN, Mercato e momle, in "Biblioteca della liberta", n. 94, 1986, pp. 8-27.

J
categorias de crimes previstos nos nossos códigos penais são os crimes de experiência comum, da qual se extrai o ensinamento da disparidade
violência e de fraude. Em um célebre capítulo de O príncipe, Maquiavel entre moral comum e conduta política, voltando sua atenção para a
sustenta que o bom político deve conhecer bem as artes do leão e da tentativa de compreender e, em última instância, justificar, essa
raposa. Mas o leão e a raposa são o símbolo da força e da astúcia. disparidade. Considero seja possível resumir toda, ou, pelo menos, gran-
Nos tempos modernos, o mais maquiavélico dos escritores políti- de parte_ da história do pensamento político moderno na busca de uma
cos, Vilfredo Pareto, e entre os maquiavélicos incluído em um conheci- solução da questão moral na política, interpretando-a como uma série
do livro recentemente recolocado em circula.i;;ão, 14 .sustenta tran0ii:la- de tentativas de oferecer uma justificativa ao fato, por si só escandalo-
mente que os políticos se dividem em duas.-cm:egor.:..a.::.. J.L.lUt:icc:-o '" ,,_, lH<lis' so, da evidente oposição entre.moral comum e moral política. Quando
prevalece o instinto da persistência dos gregários, que são os ma- assumem diante do problema esse comportamento, os escritores polí-
quiavélicos leões, e aqueles nos quais prevalece o instinto dos acasos 1 ticos não se propõem a prescrever aquilo que o político deve fazer.
que são os maquiavélicos raposas. Em.·uma eélebre págir.;;,, Ciü\-c, ad- Abandonam u campo da prescrição e colocam-se em um terreno distin-
mirador de Maquiavel e de Marx pela concepção realista que ambos to, aquele da compreensão do fenômeno. Acolhendo a distinção hoje
tinham da política, desenvolve o tema da "honestidade política", co- corrente entre ética e metaética, a maioria das indagações sobre a
meçando o discurso com estas palavras, que dispensam comentários: moralidade da política, da qual é rica a filosofia política da era moder-
"Uma outra manifestação da vulgar ininteligência acerca das coisas da na, é predominantemente sobre metaética, mesmo que não possam ser
política é a petulante exigência que se faz de honestidade na vida polí- excluídos reflexos secundários, nem sempre intencionais, em ética.
tica". Depois de ter dito que se trata ao mea1 que cant.a no ammo de Falo obviamente de "justificação". A conduta que precisa ser justificada
todos os imbecis, explica que "a honestidade política nada mais é que a é aquela não-conforme às regras. Não se justifica a observância da norma,
capacidade política". 15 A qual, acrescentamos nós, é aquela à qual isto é, a conduta moral. A exigência de justificação nasce quando o ato
Maquiavel chamava "virtude", que, como todos sabem, nada tem a ver viola ou parece violar as regras sociais geralmente aceitas, não importa se
com a virtude da qual se fala nos tratados de moral, a começar pela morais, jurídicas ou do costume. Não justificamos a obediência, mas, se
Ética a Nícômaco, de Aristóteles. consideramos que tenha algum valor moral, a desobediência. Não justifi-
A partir desses exemplos, que poderiam se multiplicar, parece ser camos a presença em uma reunião obrigatória, mas a ausência. Em geral,
impossível chegar a outra conclusão exceto àquela da impossibilidade não há necessidade alguma de se justificar o ato regular ou normal, mas
de apresentar o problema das relações entre moral e política nos mes- é necessário dar um justificação, se queremos nos salvar, ao ato que
mos termos em que é apresentado nas outras esferas da conduta huma- peca por excesso ou por falta. Ninguém pede uma justificação para o
na. Não que não tenham existido teorias que sustentaram a tese con- ato da mãe que se joga no rio para salvar o filho que está prestes a se
trária, a tese na qual também a política se submete, ou melhor, deve se afogar. Mas espera-se uma justificação se não o fizer. Um dos maiores
submeter, à lei moral, mas nunca puderam se firmar com argumentos problemas teológicos e metafísicos, o problema da teodicéia, nasce da
muito convincentes, e foram consideradas tão nobres quanto inúteis. constatação do mal no mundo e na história. Candide não se desespera
para justificar a existência do melhor dos mundos possíveis: a sua tare-
fa é aquela de, no máximo, dar uma explicação ou uma demonstração
O tema da justifíca,ção do fato de que o mundo é como é, e não de outro modo.
A maioria dos autores que se ocup2:·:1m 'J.·:~·- · iu em
consideração, mais do que a argumentação acerca da moralidade da
Um mapa
política, destinada a ter pouca força persuasiva, a lição da história e da
Antecipo que, diante da vastidão do terna, eu me propus uma
tarefa muita modesta. Pensei que pudesse ser de alguma utilidade
14. Refiro-me a J. BURNHAM, The Macliiavellians: Defenders of Freedo111, l'ut11a111 & e .. l.ondn·'· 1941. Ver a apresentar, à guisa de introdução, um "mapa" das diferenll's l' opos-
ed. it. organizada por E. Mari,, l difensori della libertà, Monc.bdori. Milão. 1(M7 A 11~r-.m11 t rill~t11~;:i '. n· ·iãtu e
corrigida por G. Pccora, com a colaboração de V. Ghinelll, ro1 rcccntc.·m~ntl' n·puhlicada !-.oh o tlwlo I tas soluções que historicamente foram dadas ao prohlcma da n•la1,Jio
machiavelliani. Critica deli.a ""'ntalità ideologica, prefácio de L. Pcllicani, Massc>n, M1l11o, l<)~l/.
15. B. CROCE, I:otiestà politica, in 10., Etica e política, Latcrza, Bari, 1945, p. l 65. entre ética e política.
Trata-se de um m apa certamente incompleto e imperfeito, porque
rno 0 lugar no qua l se realiza a vontade de potência , em um teatro
está sujeito à possibilidade de um duplo erro: com relação à classifica. co
bern rnais vasto, e portanto b em mais . v1.s1•ve 1, d o que aque 1e d as vrn-
.
ção dos tipos de solução e co m relação à inclusão déls diversas soluções
anças pessoais ou dos conflitos da socieda de feudal; sob retudo quan -
neste ou naquele tipo. O primeiro erro é de natureza conceituai; 0
segundo, d e interpretação histórica. Trata-se, portanto, de u m mapa
~o essa vontade de potência é colocada a serviço d e uma fé religiosa.
que deverá certam e nte ser revisto com ulteriores observações. Mas, no O debate sobre a razão de Estado explode no período das guerras
eli ~i osas. O oposição entre m oral e política revela-se em toda a sua
entanto, acredito possa oferecer ao me.nos .uma primeira orier tação a
quem, antes de aventurar-se em um tc"t:CICTnoIICO cunnl.' " •i tjlteira ~a~atiddade quan do acoes moralmente condenáveis (pensemos, para
conhecer todos os caminhos que o percorrem. dar 0 grande exemplo, na noite d e São Bartolomeu, louvada, aliás, por
Todos os exemplos foram extraídos da filosofia política moderna um dos maquiavélicos, G?-briel Naudé) são cu m pridas em nome da
de Maquiavel em diante. É verdade que a. gTande.fü~sofia polrtica nasc~ fonte mesma, originária, única, exclusiva, da o rdem moral do mundo,
na Grécia, mas a discussão do problema das relações entre ética e polí- que é D eus.
tica toma-se particularme nte aguda com a formação do Estado moder- Pode-se também acrescentar u m a terceira razão: som ente no século
no, e recebe pela primeira vez um termo que nunca mais a abandonou: XV1 a oposição é assumida com o problem a também prático, e só er.tão
"razão de Estado". surge a preocupação de dar -lhe alguma explicação. O texto canônico,
Por qual motivo? Apresento algumas razões, embora o faça com urna vez m ais, é O príncipe, d e Maquiavel, em particular o capítulo
muita cautela. O dualismo entre énca t:: pomtLa t: urn--oo~ as~êctos da XVIII, que começa com estas palavras fata is: "Quanto seja louvável em
grande oposição e ntre Igreja e Estado, um dualismo que não poderia um príncipe manter a fé, vivendo com integridade e não com astúcia,
nascer senão da oposição entre uma instituição cuja missão é ensinar, qualquer um compreende: não obstant e, a experiê ncia mostra que, em
pregar, recomendar leis universais d a conduta, que foram reveladas por nossos tempos, fizeram grandes coisas aqueles príncipes que a fé tive-
Deus, e uma instituição t errena cuja tarefa é assegurar a ordem t empo- rám em pouca conta". A chave de tudo é a expressão "grandes coisas".
ral nas relações dos homens entre si. A oposição entre ética e política Se com eçarmos a discutir acerca do problema da ação humana, não do
na era moderna consiste, na verdade, desde o início, na oposição entre ponto de vista dos princípios, mas do ponto d e vista das "grandes coi-
a moral cristã e a p ráxis daqueles que desenvolvem uma ação política. sas", isto é, do resu ltado, então o problema moral muda completamen-
Em um Estado pré-cristão, onde não existe uma moral institucionalizada, te de aspecto, invertendo-se radicalmente. O longo debate sobre a ra-
a oposição é me nos evidente. O que não significa que o pensamento zão de Estado é um comentário, que durou séculos, a esta afirmação
grego o ignore: basta pensar na oposição entre as leis não-escritas, às peremptória e incontestavelmente verídica: na ação política contam
quais se remete Antígona, e as leis do t irano. Mas no mundo grego não os princípios, mas as grandes coisas.
não há uma m oral, há várias morais. Cada escola filosófica tem a sua Voltando à nossa t ipologia, depois dessa premissa, acrescento uma
moral. O problema da relação entre moral e política, lá onde há mais segunda. Das doutrinas sobre ética e política, que enum erarei, algumas
morais com as quais se p ossa confrontar a açao poliili..l, j<l .lâo tem têm valor p redominantemente prescritivo, uma vez que não preten-
qualquer sentido p reciso. Aquilo que suscitou o interesse do pensa- dem oferecer uma explicação para a oposição, mas tendem a dar-lhe
m ento grego não foi tanto o problema da relação entre ética e poüti- uma solução prática. Outras têm um valor predominantemente analíti-
ca, mas o problema da relação entre ' rr !'C'l,..N ~ r c.H ~overno, a
co, uma·vez que tendem não ~ :;ugerir como deveria ser solucionada a
partir da qual nasce a distinção entre o rei e o tirano. Mas é uma relação entre ética e política, mas sim a indicar qual é a razão pela qual
distinção no interior do sistema político, que não diz respeito à rela- a oposição existe. Acredito que o fato d e não se ter levado em conside-
ção entre um sistema normativo, com o a política, e um outro s istema ração a diferente função das teorias tenha acarretado grandes con fu-
normativo, com o a m ora l. O que oco rre, ao cont rário, no mundo cris· sões. Por exemplo, não faz sentido refutar uma doutrina prcscritiva
tão e pós-cristão.
fazendo observações de tipo realista, assi m como não faz sentido opor-
A segunda razão da minha escolha e 4ut!, ::.oon::l udo coin <J fo rma·
se a uma teoria analítica propondo uma melhor, ou a melhor solução,
ção d os grandes Estados t erritoriais, a política revela-se cada vez mais
para a oposição.
Divido as teorias que se propuseram a discutir o problema da rela- aquilo que é honesto, não fazer mal a ninguém, não depredar ninguém,
ção entre moral e política em quatro grandes grupos, ainda que nem não vender magistraturas, não se deixar corromper por presentes"_ 16 A
sempre sejam facilmente separáveis, sendo muitas vezes, de fato, con- satisfação do príncipe está em ser justo, não em fazer "grandes coisas".
vergentes. Distingo as teorias monísticas das teorias dualísticas; as Trago o segundo exemplo de Kant. No apêndice àquele áureo livro
monísticas, por sua vez, em monismo rígido e monismo flexível; as que é Per la pace perpetua l Pela paz perpétua], Kant faz a distinção
dualísticas em dualismo aparente e dualismo real. No monismo rígido, entre o moralista político que condena e o político moral que exalta. O
incluo aqueles autores para os quais não exist.e·oposição entre rnu1al ( político mord~ é ayuclc que não subordina a moral às exigências da
política porque há um único sistema normativo, au m0i'·a1 úU pu.l.íüc 0 ; política, mas interpret:a os princípios aa prudência política de modo a
no monismo flexível, incluo os autores para os quais há um único siste- fazê-los coexistir com a moral: "Embora a máxima 'A honestidade é a
ma normativo, o moral, que todavia consente, em determinadas cir- melhor política' implique üma teoria, que a prática infelizmente com
cunstâncias, ou para particulares sujeitos, derrogações ou exceçoes jus- muita freqüência desmente, a máxima igualmente teorética 'A honesti-
tificáveis com argumentos pertencentes à esfera do racional; no dualismo dade é melhor que qualquer política' está acima de qualquer objeção e
aparente, os autores que concebem moral e política como dois sistemas é, antes, a condição indispensável da política" .17 Para um estudioso de
normativos distintos, mas não totalmente independentes um do outro, moral pode ser de interesse saber que tanto Erasmo quanto Kant, em-
e sim colocados um sobre o outro em ordem hierárquica; por fim, no bora partindo de teorias morais, quero dizer, sobre o fundamento da
dualismo real, os autores para os quais moral e nolítica são dois 5Ü;h>. moral, distintas, recorrem, com o propósito de sustentar suas teses, ao
mas normativos distintos que obedecem a distintos critérios de juízo. mesmo argumento, que na teoria ética de hoje receberia o nome de
Expus as várias teorias no sentido da crescente divergência entre os "conseqüencialista", vale dizer, que leva em conta as conseqüências.
dois sistemas normativos. Contrariamente àquilo que afirmam os maquiavélicos, para os quais a
inobservância das regras morais correntes é a condição para se alcançar
o sucesso, os nossos dois autores sustentam que, a longo prazo, o suces-
O monismo rígido
so sorri para o soberano respeitoso dos princípios da moral univesal. É o
Do monismo rígido há naturalmente duas versões, conforme a mesmo que dizer: "Faze o bem, porque é este o teu dever; mas também
reductio ad unum seja obtida resumindo-se a política à moral, ou vice- porque, independentemente das tuas intenções, a tua ação será premia-
versa, a moral à política. da". Trata-se, como todos podem ver, de um argumento pedagógico
Exemplo da primeira é a idéia, ou melhor, o ideal, típico do século muito comum, mas sem grande força persuasiva. Afirmemos sem ro-
XVI, do príncipe cristão, tão bem representado por Erasmo, cujo livro deios: é um argumento fraco que não é sustentado nem pela história,
I.;educazione del principe cristiano (A educação do príncipe cristão) é nem pela experiência comum.
de 1515, portanto mais ou menos contemporâneo de O príncipe de Ma- Como exemplo da segunda versão do monismo, ou da redução da
quiavel, do qual é a antítese mais radical. O príncipe cristão de Erasmo é moral à política, escolhi Hobbes, naturalmente também aqui com to-
a outra face do vulto demoníaco do poder. Algumas dtaçoes. t.rasmo das as cautelas devidas, sobretudo depois que alguns críticos recentes
volta-se para o príncipe e diz: "Se quiseres mostrar-te ótimo príncipe, colocaram em relevo aquela que foi chamada a clareza cheia de confu-
1ka então bem atento para não te deixares superar por nenhum outro são do autor de Leviatã e preveniram o leitor, atraído e fascinado pela
naqueles bens que verdadeiramente sao tt:u::. prvyi t""· ~ la.i;;;~::;:::::~ força lógica d~ arg:..:mentação hobbesiana, com relação a interpretações
de, a temperança, a honestidade". Essas virtudes exclusivamente mo- d~r;1:15iado unilaterais. Parece-me contudo que, por certos aspectos, é
rais nada têm a ver com a virtude no sentido maquiavélico da palavra. difícil encontrar um autor no qual o monismo normativo seja mais rigo-
Ou então: "Se quiseres entrar em disputa com outros príncipes, não roso, e o sistema normativo, excludente de todos os outros, seja o siste-
considera tendo-os vencido porque tiraste a parte deles do domínio
deles; hás de vencê-los verdadeiramente se fores menos r:orrupto do
l6. ERAS~O DE ROTIERD~M, lnstitutio Principis Christiani ( 151 5) (<"<I. it.: J:edw.·,uimw dr!/ /1ri 11 dfu• cri.,·tiuno,
que eles, menos avarento, menos arrogante, menos iracundo". E ainda: Ji organizado por M. lsn.ard1 Parente, Morano, Nápoles, 1977, pp. 65 e 68).
"Qual é a minha cru:z?", pergunta o príncipe. E ele responde: "Seguir ·ü KANT, Per la pace perpetua. Progetto filosofico, in ID., Scritri politici • di flloH1fia ddlt1 •loria,. d..t Jiritto
tet, Turim, 1956, reimp. 1978, p. 31 7. '
ma político, ou 0 sistema de normas que de~ivam da vo.ntade. do sobe. do não na pressupos1çao d a ex is tên cia de um dist into s istema
\
rano legitimado pelo contrato social. Poden amos aduzir muitos argu. ca ativo, m as no interior d o (mi co sistema normativo adm itido, de n-
mentos: para Hobbes, os súditos não têm o direito d e julgar aquilo que norrn do qual se cons1.dera va, 11.d a a regra que preve a d errogaçao
A - em casos.
é justo e injusto porque isto cabe apenas ao soberano, e suste ntar que 0 uo epcionaís. O que talvez caracterize a conduta do soberano é a extra-
súdito tenha o direito de julgar o que é justo e injusto é considerado exc . A • _ • •

dinária freqüênc ia com que se ve e m s1tuaçoes excepcionais se com-


uma teoria sediciosa. Mas o argumento fundamental é que Hobbes é or do com o homem comum: essa freqüência deve-se ao fato de que
um dos poucos autores, talvez o único, n-0. quai, não há ·d k · in~ão entre plll r:aopera em um contexto a t- relações, em especial com os outros so-
príncipe e tirano: e não há essa distin?D parque .na.o -Xl!. l 1' ~ possibili· eberanos,
e no qual a exceção é e 1eva d a, ~or i:na1s_
. q':e possa ser c~nsiºd era-
dade de distinguir o bom governo do mau governo. Enfun, Já que me do contraditório, a regra ('"!las contrad1t6n o nao e, porque aqw se trata
referi à oposição entre Igreja e Estad o como oposição determinante de regra no sentido d e regularidade, e a regularidade de um comporta-
para se compreender o problema da razão de estado n os séculos XVI e ento contrário não invalida a regra dada). Mesmo que possa parecer
XVII, lembro que Hobbes reduz a Igreja ao Estado: as leis da Igreja são mue a derrogação é sempre vantajosa para o soberano (e precisamente
leis apenas enquanto aceitas, desejadas e reforçadas pelo Estado. Hobbes, ~vantagem foi vista com host ilidade pelos moralistas), também pode
negando a distinção entre Igreja e Estado, e reduzindo a Igreja ao Esta. acontecer o contrário, ainda que mais raramente: a derrogação de fato
do, elimina a própria razão da oposição. pode agir extensivamente porque permite ao soberano aquilo que é
moralmente proibido, mas pode também agir restritivamente porque
proíbe o cumprim ento de ações que ao homem comum são p ermitidas:
Teoria da derrogação
noblesse oblige.
Segundo as teorias do monism o flexíve l, o sistema normativo é um Sobre a importância histórica desse motivo de justificação não pre-
só e é moral, tenha ele o p róprio fundamento na revelação ou na natu- ciso gastar muitas palavras. O s teóricos da razão de Estado, que flores-
reza a partir das quais a razão humana é capaz de extrair com suas ceram ao longo do século XVII, aos quais se deve a mais intensa e
próprias forças leis universais de conduta. Mas essas leis, precisamente contínua reflexão sobre o tema das relações entre política e moral, eram
pela sua generalidade, não poden:_ ser aplic~das a t_,od~s os ca~os. Não há com freqüência juristas, e foi para eles natural aplicar à solução do
lei moral que não preveja exceçoes em ci.rcunstãnc1as particulares. A problema, que Maquiavel colocara na ordem do dia com uma solução
regra "não matar '" falha no caso da L~a ~esa - v:a.l p ~iz~r, no caso claramente dualista, como veremos em seguida, o princípio bem co-
em que a violência é o único remédio poss1vel para a v10lenc1a naquela nhecido para os juristas da d errogação por circunstâncias excepcionais
particular circunstância - , com base na máxima que exp~essament_e em estado de necessidade. Desse modo, conseguiam salvaguardar o
ou tacitamente é acolhida pela maioria dos sistemas normativos morats princípio do código moral único e, ao mes mo tempo, oferecer aos sobe-
e jurídicos: vim vi repellere licet. A regr~ "não mentir" ~alh~, _Pº; ex~m­ ranos um argumento, para suas ações cumpridas com violação daq~ele
plo, no caso em que o filiado a um moVlffiento revoluc1ona~o e de~d? código único, que servia para encobrir aquele "vulto demoníaco do po-
e exigem-lhe que denuncie seus compannerros. t.rr1 Lv..HJ ::.\~tema 1un- derª que Maquiavel havia com escândalo revelado. Jean Bodin, escritor
dico é máxima consolidada que lex specialis derogat general1. Esta má· cristão e jurista, inicia a sua grande obra, De la République, com uma
xima é igualmente válida na moral, e naquela moral codificada que está invectiva contra Maquiavel (invectiva que era de praxe para um escrí-
contida nos tratados de teologia m or..1 pm ::. U!.v .'.l-' r . 1 1 1 ~S!;Ores . wr cristão), mas la onde t rata da diferença entre o bom principe e o
Segundo a teoria que estou expondo, aquilo que parece à primeira tirano sustenta que "não se pode consid erar tirânico o governo que
vista uma violação da ordem moral, com etida pelo d etentor do poder precise usar de meios violentos, como massacres, condenações de exí-
político, nada mais é que um a derrogação à lei moral cumprida e~ u~a lio ou confiscos, ou outros atos de força e de armas, com o necessaria-
circunstância excepcional. Em outras palavras, o que justifi ca a vaolaçao mente ocorre no ato de troca ou restabelecimento de um regime". Tro-
é a excepcionalidade da situação na aual o soberano viu-se o~er~n.do. ~á ca e restabelecimento de regime são precisam ente as circu nstâncias
que estam os buscand o individuar os diterentes m otivos de JllStaficaçao excepcionais, o estado d e necessidade, que justifica atos que em cir-
da conduta não moral do homem político, aqui o motivo deve ser bus· cunstâncias normais seriam considerados imorais.
A teoria da ética especictl .. rofissionalismo polít ico". Trata-se de saber se a atividade política é
u~a atividade com carnct e rísticas específicas tais que exijam um regi-
Para ilustrar o segundo motivo d e justificação da dispa ridade entre
me normativo particular q ue ten ha a mes ma razão de ser de qualq ue r
moral comum e conduta política, sirvo-me de uma outra categoria jurí-
outra ética profissio nal , a razão d e consentir no desempenho daquela
dica: aquela do ius s ingulare. Sou o prime iro a reconhecer que essas determinada atividade e d e alca nçar um fim que lhe é próprio: o fim do
analogias entre teorias políticas e teorias jurídicas d evem ser assumidas f'lOlítico é o be m comum, tal com o o fim do m édico é a saúde, e o do
com prudência: mas, por efeito da sua I ~ elnboracão e d :'! " 1 1~ cons- sacerdote. a saivac:;ao das alma!>. Propo r a questão nesses termos nada
tante aplicação na casuística legal, elas acenam paw .re.u.1....:w... " stges- tem tie estranho: a reflexao sobre a natureza da atividade política teve
tões práticas em campos afins, como é o ca mpo da casuística moral e início na Gréc ia antiga, de~de quando fo i cons ide rada uma técnica, uma
política. Diferente do que ocorre na relação entre regra e exceção, que forma do fazer construtivo (o poiéin), e desde a comparação desta arte
concerne à particularidade de uma s1tuaçao, o t::stado de necessidade", com outras formas de arte nas quais é exigida para o seu bom êxito uma
a relação e ntre ius commune e ius singulare concerne em primeiro lugar competência específica. O diálogo platônico O Político, cujo objeti vo é
à particularidade dos sujeitos, ou seja, ao status de certos sujeitos que explicar em que consiste a c iência régia, isto é, o sabe r próprio daquele
exatamente em razão do seu status gozam o u sofrem um regime que deve governar, é uma douta comparação entre a arte do governo e
normativo distinto daque le das pessoas comuns. Também nesse caso
3 arte do tecelão [tessitore]. D e resto, a simili tude tão freqüente a pon-
pode-se falar de derrogação com relacÃ("I "" dirPitn c-nrn11m m3s o que to de tornar-se ritual e ntre a arte do governo e a arte d o timoneiro
distingue esse tipo de derrogação daquela examinada no parágrafo pre- [nocchiero] deixou-nos como he rança a palavra "governo" e derivados,
cedente é a referência não mais a um tipo de sit uação, mas a um tipo de das quais nos servimos habit ualmente sem le mbrar seu significado pri-
sujeito, não importando então se a tipicidade do sujeito derive da con- mitivo, salvo se a vemos ressurgir em situações e ambientes históricos
dição social, pela q ual a ordem jurídica à qual está submetido o nobre é muito diversos com o quando soubemos que Mao era chamado d e o
distinta daquela à q ual está submetido o burguês ou o camponês, ou da ªgrande timoneiro" ["grande timoniere"].
atividade desempenhada, c om base na qual, para dar um exemplo co- Ao longo de toda a história do debate secular sobre a razão de Esta-
nhecido, foi se formando ao longo dos séculos o direito dos comercian- do, ao lado da justificaç.ã o da "imoralidade" da política, deduzida do
tes e m "derrogação" ao direito civil. argumento do estado de necessidade, desenvolve-se o debate derivado
Aplicada ao discurso moral, a categoria do ius sin.g ;..!.;ir.; egregia- da natureza da arte política, q ue impõe a quem a exerce ações moral-
mente serve, a m eu ver, como introdução ao capítulo das chamadas mente reprováveis m as requeridas pela natureza e pelo fim da ativida-
é ticas profissionais. Entende-se por ética profissional o conjunto de re- de mesma. Se há uma ética política distinta da ética ética, isso depende,
gras de c onduta às quais devem considerar-se submetidas as pessoas segundo essa argumentação, do fato de que o político, tal como o médi-
q ue desempenham uma determinada atividade e que geralmente dife- co, o comerciante, o padre, não poderia exercer seu ofício sem obede-
rem do conjunto das normas da moral aomum. o u oor excec;"n ou por cer a um código que .lhe é próprio e que enquanto tal não deve nece·ssa-
· falta, vale dizer, porque impõem aos membros da corporação deveres riamente coincidir com o código da moral comum nem com o código
mais rígid os ou então porque os isentam de d everes impraticáveis, como dos outros ofícios. A ética política toma-se, dessa maneira a ética do
aquele de dizer a verdade no caso do médico diante ri,. '''"" T'-aciente polític0 f>, enquanto ética do político, e portanto enquanto ética espe-
que te m uma doença incurável. Nada impeae que se cnamem as éticas cial, poõe ter os seus motivos justificados para a aprovação de uma
profissionais de morais singulares, no mesmo sent ido em que se fala na conduta que à pessoa comum pode parecer imoral, mas que ao fi lósofo
t eoria jurídica de dire itos singulares, tanto mais que os mesmos utentes parece simplesmente a necessária conformação do indivíduo-me mbro
gostam de atribuir-lhes um termo específico e particu larmente à ética do grupo. Se relermos o trecho de Crocc, já citado, ve remos que
implicativo pela su a solenidade: de ontologia. considerar a arte política como um ofício entre outros ofícios nada p r-
Constituem aqueles que desempenham wna .ativtáa,.;L rul ..tica algo deu~ sua perene vitalidad e. Condenando a comum e, em sua o pinião,
comparável a uma profissão ou a uma corporação? Que fique bem claro equivocada exigência por parte dos "imbecis " de que o político seja
que aqui não se trata de tomar posição diante do atual problema do honesto, Croce profere esta sentença: "enquanto ninguém , quando se
obre 0 problema maquiavélico da relação entre ética e política, parece
trata de curar as próprias moléstias e submeter-se a uma operação ci- sdmitir que a diferença entre os dois momentos seja uma diferença
rúrgica, chama um homem honesto( ... ), e todos chamam e buscam e ax:iologicamente hierárquica, mesmo que nem sempre fique muito cla-
procuram para si médicos e cirugiões, honestos ou desonestos que ª0 quais sejam as suas conseqüências. Uma ação política contrária à
sejam, contanto que hábeis na medicina e na cirurgia ( ... ), nas coisas ~oral deve ser condenada? O que significa ser lícita na sua esfera parti-
da política pedem-se, ao contrário, não homens políticos" - ou seja, cular se depois se admite que existe uma esfera normativamente supe-
homens que saibam desempenhar seu bravo ofício de políticos, acres- rior? São pergun.tas às quai~ é muito difícil responder. Croce retornou
cento eu - , " mas sim. h omens non-+~c· ...l.-+-rlrw ,.. " ···1' ,·' ,., '''
º'""·'"''"'· ...l.JJ3.U1\..I.•,..,
1
· " · · • • .cc. · . , • .. f". tema infinitas vezes. Aqui n;ie refiro a uma passagem que está no
30
atitudes de outra natureza". E continua: "Porque é evidente que os volume intitulado exatamente Etíca e política, na qual ele insiste neste
defeitos que possa eventualmente ter um homem dotado de capaci- ponto: a busca da política é a busca da utilidade, dos negócios, das
dade e gênio político, se dizem respeito a outras esferas df' atividad.,~, negociações, das lutas, e nessas contínuas guerras, indivíduos, povos e
18
torná-lo-ão impróprio àquelas esferas, mas não à política" - Gostaria Estados mantêm-se vigilantes contra indivíduos, povos, Estados, em-
de chamar a atenção para o termo "impróprio", que faz pensar, por penhados em manter e promover a própria existência, respeitando a de
oposição, em uma "propriedade" da política, que não é evidentemen- outrem apenas enquanto beneficie a sua própria. Depois, continuando
te aquela da moral. 0 próprio raciocínio, adverte que é preciso evitar o equívoco comum de
separar uma forma de vida da outra. Exorta a rejeitar as tolas
moralizações e a considerar falso a priori qualquer dissídio que esteja
A teoria da superioridade da política
convencido de discernir entre a política e a moral, porque a vida políti-
Passo agora da concepção de monismo atenuado ou corrigido, "a ca ou prepara a vida moral, ou é ela mesma instrumento de forma de
moralidade é uma só, mas a sua validade falha em situações excepcio- vida moral. Em suma, na dialética crociana, que é a dialética não dos
nais ou em esferas de atividade especiais", a uma concepção de nualismo opostos, mas dos distintos, onde um é superior ao outro, moral e polí-
declarado mas aparente. Peço um pouco de tolerância para com essa tica são interpretadas como dois distintos e, como se vê na última parte
insistente referência a categorias jurídicas, mas também neste caso vem do trecho, a política fica embaixo, e a moral, em cima.
em meu auxílio um bem-conhecido princípio jurisprudencial, seg>.mdo Ao contrário, Hegel, mesmo admitindo a existência dos dois siste-
o qual quando duas normas se sobrepõem, bem dizendo, em ordem mas, considera hierarquicamente superior o sistema político, e nessa
hierárquica, se são antinômicas, a superior prevalece. superioridade do sistema político encontra um ótimo argumento de
Com relação ao problema das relações entre moral e política, uma justificação para a conduta imoral do homem político, se e enquanto
das soluções possíveis é conceber moral e política como dois sistemas ela estiver conforme a uma norma superior, da qual deve ser considera-
normativos distintos mas não totalmente independentes um do outro, da ah-rogada, e portanto inválida, uma norma do sistema normativo
e sim colocados um sobre o outro em ordem hierárquica. Naturalmen- inferior com ela incompatível. Para dar os habituais exemplos escola-
te uma solução desse tipo pode ter-duas .vers6!'."..::.: dos doi~· sistema:, res, se no sistema normativo de um grupo de latrones, ou de piratas ou
normativos, o moral é superior ao político, ou, então, o político é supe- de "salteadores", ou, por não?, de ciganos, para não falar da máfia,
rior ao moral. Da primeira versão pode-se encontrar um exemplo ca- camorra, et similia, que fazem parte da nossa experiência quotidiana,
, • na f"l
ractenst1co f• , • d
i oso ia pratica e ro rP
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..J.,. <'P<"'H'',.l,., "n ,.:!~ l...T,,,...~1 l\T"
·· --- ~- • -~,..- · · existe uma norm::i que considera lícito o furt0 (entenda-se, das coisas
sistema de Croce, economia e ética são dois distintos, não ....são .nem . não-pertencentes aos membros do grupo), é evidente que a norma que
opostos nem colocados no mesmo plano: a segunda é superior a pnme1- proíbe o furto, existente no sistema normativo considerado inferior,
ra enquanto pertencente ao momento do Espírito que supera o mo- seja ele aquele do Estado, ou da Igreja, ou da moral dos não-pertencen-
mento inferior. A política pertence à esfera da economia e não à esfera tes ao grupo, deve ser considerada implicitamente ah-rogada, enquanto
da ética. Isso não quer dizer que "superar" signifique ser superior t~m­ incompatível com uma norma do sistema normativo considerado supe-
bém em sentido axiológico, mas de fato, tooavezque Crocc se quest101·a
0
rior. Os Estados, no fundo, poderiam ser também eles, segundo a fa-
mosa afirmativa de santo Agostinho, "magna latrocinia''. ~
. 190 1 18. 8. CROCE, .C:onestà política, cit., pp. 165-66.
Com maior razão, quem considerou o Estado não corno um magnurn ·dade, à moral do Estado, e deve a eia ceder quando o dever históri-
latrocinium, mas como o "racional em si e por si", como o rnomento vah . .· .
último da eticidade, a qual é por sua vez o momento último do Espí- co d o Estado assim o ex1g1r.
rito objetivo eda filosofia prática no sentido tradicional da palavra),
teve de colocar os imperativos últimos do Estado acima dos imperati- 0 firn justifica os meios
vos da moral individual. O sistema de Hegel é um grande exemplo Uma solução dualística, não mais apenas aparente mas real, é aque-
iluminador, também pela sua singularidade, da total in''t·;«::";1 · 1 :·.'];; e passou a h1stóna com o nome de "niaquiavélica", porque, com
çáo entre moral e política que tivera mn.i. ül'. suas u+r,':,~(;,.,, ~r:~·:rr:-1 .;.;, la qusern razão, costuma ser atrib uíd a ao autor d e O pnncipe.
, . Aqm. o
no pensamento kantiano. Serve, de fato, magnificamente para ilus- ~~alismo funda-se na di:ti~ção entre d,?is ~ipos de açõ~s, as aç~es fi-
trar uma forma de justificação da imoralidade da política distinta de . que têm valor intnnseco, e as açoes mstrurnenta1s, que so tem
todas aquelas examinadas até aqui: a morai no sent1cio LI aciicional da na1s, f· . d
lor enquanto servirem para alcançar um im considera o, e apenas
palavra não é por Hegel excluída do sistema, mas é considerada um "1ª como tendo valor intrínseco. Enquanto as ações finais, denomina-
momento inferior no desenvolvimento do Espírito objetivo que en- e e, f d
das boas em si [di per se stesse], tal como socorrer o so re or, e em
contra sua realização na moral coletiva ou eticidade (da qual o Estado eral todas as tradicionais "obras de misericórdia", são julgadas por si
é o portador). g esmas enquanto açoes - "desmteressa
. das ", que exat ament e sao
- cum-
' ' Hegel era um adtnirador de Maauiavel sobre o aual tecera elogios i!i rnridas sem nenhum outro interesse senão aque1e de cumpnr · uma açao
-
na obra juvenil sobre a Constituição da Alemanha. cm pollnca era um boa, as ações instrumentais, ou boas para além de si [per altro da se],
realista que sabia que lugar reservar às conversas dos pregadores quan- são julgadas com base na sua maior ou menor idoneidade na realização
do entram em campo os hussardos com seus sabres reluzentes. Ou será de um fim.
que a majestade do Estado, "daquela rica composição do etos em si que Não há teoria moral que não considere essa distinção. Para dar um
é o Estado", deve curvar-se diante daqueles que a ele contrapõem a exemplo conhecido, a ela corresponde a distinção weberiana entre ações
"conversa do coração, da amizade e da inspiração"? racionais conforme o valor (wert-rationaf) e ações racionais conforme o
No parágrafo 337 dos Líneamentí dí filosofia del diritto, ele resume objetivo (zweck-rational). Assim, não há teoria moral que não se aper-
breve, mas suficientemente, a sua doutrina em questao. O parágrafo ceba de que a mesma ação pode ser julgada de dois modos distintos,
começa assim: "Muito se discutiu, durante um período. sobre ~ np0"'i- segundo o contexto no qual se desenvolve e a intenção com que foi
ção entre moral e política e sobre a pretensão de que a segunda se cumprida. Socorrer o pobre, uma ação que é comumente citada como
conforme à primeira". Mas é urna discussão, dá a entender Hegel, que exemplo de uma ação boa em si, torna-se uma ação boa para além de si,
teve sua época mas se tornou anacrônica, pelo menos desde que se e como tal deve ser julgada, se for cumprida com o objetivo de obter
principiou a compreender que o bem do Estado tem uma "justificação" um prêmio de virtude: se quem a cumpre não obtiver o prêmio, pode-
completamente distinta do bem do indivíduo isolado: o Estado tem ríamos até mesmo dizer que a açã0 foi racional em relação ao valor, mas
uma razão de ser "concreta" e somen-c:e essa sua· existenuct Lvrn..,1e~.. certamente que não em relação ao objetivo.
pode valer como princípio da sua ação, não um imperativo moral abs- O que constitui o núcleo fundamental do maquiavelismo não é tan-
trato que prescinda completamente das exigências e dos vínculos im- to o reconhecimento da distinção entre ações boas em si e ações boas
postos pelo movimento histórico, de 4u:::: ;:;.t~tdü.L' --- - na,,",,,.,, ..:, 10 para além de si, ma.,, ª Jistinção entre moral e política com base nessa
isolado e tampouco a soma dos indivíduos isolados - é o protagonista. distinção, vale dizer, a afirmação de que a esfera da política é a esfera
Daqui deriva, aliás, a conhecida tese de que apenas a História univer- de ações instrumentais que, enquanto tal, devem ser julgadas não em si
sal, e não uma moral a-histórica colocada (por quem?) acima dela, pode mesmas, mas com base na sua maior ou menor idoneidade na realiza-
julgar o bem e o mal dos Estados, dos quais depende a sorte do mundo, ção do objetivo. O que explica por que se falou, a propósito da solução
bem mais do que da. conduta, por moral aue seja, deste ou daquele maquiavélica, de amoralidade da política, à qual corresponderia, embo-
indivíduo isolado. A partir desse ponto de vista, parece correto afirmar rà a expressão não tenha passado ao uso (não sendo necessária), a
que, para Hegel, a moral individual é inferior, no que concerne à sua "apolicidade da moral": amoralidade da política no sentido de que a
política no seu todo, com o conjunto d e atividades reguladas por nor. d e to do sobre a saúde <la pátria, não cabe qualquer considera-
mas e avaliáveis a partir de um determinado critério de juízo, nada tem d~ rbera
1 . d 1
ern de justo nem d e injusto, ne m de piedoso, ne m e crue , nem
a ver com a mora l, no seu tod o, como conjunto, t ambém e la, de ações çao, n , 1 nem de ignominioso · antes posposto qualquer outro res-
reguladas por normas diferentes e avaliáveis a partir de um distinto de louvave · de todo aquele partido
' ' . h
que lhe salve a vtda e mante n a a
·to seguir l d
c ritério de juízo. N esse ponto, evidencia-se clarame nte a diferença en. pet d, d ., 19 Nada de novo sob o sol: neste trecho, Maquiave na a
tre uma solução com o esta sobre a qual estamos discorrendo, fundada . fª e ue
liber · ilustrar com palavras particularme nte e f icazes a max1ma:
' ·
na idéia da separação e da i ndependênc.ia . ~tre macal e polít~,.., t ' C'J~ mais e~ pqublicae suprema i.ex (lei supr ema é a salvação do Estado). A
enquanto tal bem pode ser cha mada~dc.da.aJísuca. ~m a tu1u 11. i • , .as salus rei- reauza-se contrapondo ao umco · ' · que d eve gu1·ar o
, · pnnc1p10
ilustraçao . " , . . ,
soluções anteriormente examinadas, nas quais está ausente ou a sepa. , L'tt·co 0 princípio da "salvação da pátna , outros poss1ve1s cn te-
ração, já que a política está englobada no sistema norm ativo moral ain- ·uizo po i ' . . d. . -
J ·os de 1u1
· 'zo. da ação humana , fundados respectivamente na 1stmçao l
da que com um estatuto especia l, , ou, a.,inde~ndênci<l', scndv 111oral e n · sto e 0 inJ·usto entre o p iedoso e o cruel, entre o louváve e o
entre o JU , . d dic
política distintas sim, mas e m urna relação de dependência recíproea. · · so, que fazem referência ' ainda que a partir e 1e re ntes
· om1ruo
A solução maquiavélica da amoralidade da política é apresentada como ígO de vista a critérios d e juízo da moral comum .
aquela cujo principio fundamental é: "O fim justifica os m eios". Por p0ntos '
oposição poderíamos definir a esfera não política (aquela, para ser cla-
ro, que se governa com os pater noster) como a esfera em que é incor- As duas éticas
reto o recurso à distinção entre me10::.·c:: w1::., po14uc Laua açao aeve ser
De todas as teorias sobre a relação entrde moral e -política, aquela
considerada em si mesma pelo valor ou desvaler a e la intrínseco, inde- evou às extremas conseqüências a tese a separaçao - e que por-
pendenteme nte do fim. Em uma moral rigorista como a moral kantiana, que l ode ser considerada a mais · conseque·· ntemente d u alíst.1ca -
em geral em uma moral do dever, a consideração de um fim externo à tan t 0, P d d . d•C ºt'
ad rnt·t e a existência d e duas morais .funda as e m
d 01s nerentes
_ _cn e-
ação não apenas é imprópria, mas também impossível, porque a ação · de J·uízo das ações que levam a avaliações a mesma
nos . . açao nao , .ne-
para ser moral não deve ter outro fim além do cumprime nto do dever, cessariamente coincidentes, sendo portanto e ntre sr m c~mpat 1ve 1s e
que é exatamente o fim intrínseco à ação mesma . não-sobreponíve is. Um exe mplo j~ ~lá~sico da , t~ona das ~u~s
Mesm o que a máxima "O fim justifica os meios" não esteja literal- lidades é a teoria weberiana da distmçao entre etrca da conv1cçao
mente em Maquiavel, costuma-se considerar equivalente a oassa~em mora d . é .
e ética da responsabilidade. O que distingue essas uas morais preci-
d o capít ulo XVIII de O príncipe na qual, ao colocar o problem a se o samente o distinto critério que assumem para julgar ~ma ação. bo~ ?u
príncipe deve respeitar os pactos (o princípio pacta sunt servanda, os má. A primeira serve-se de algo que está antes da açao, ~ pn~ap1~,
pactos devem ser observados, é um princípio moral universal qualquer uma norma, em geral qualquer proposição prescritiva CUJa funçao seJ_ª
"9e seja seu fundamento, religioso, racional, utilitarista etc.), responde aquela de influir de ~odo mais ou m enos determinan_te no cu~~:i­
que os príncipes que realizaram "grandes coisas" em pouca conta os mento de uma ação, -permitindo-nos ao mesmo tempo julgar pos1t1va-
tiveram. Torna-se evidente, a partir de!>~ pll.S~agt:m, 4uc aquil.) que mente ou negativamente uma ação real com base na observação da con-
conta na conduta do homem de Estado é o fun, a "grande coisa", e a formidade ou deformidade desta em relação à ação abstrata na norma
realização do fim torna lícitas ações, tais como não observar os pactos contemplada . A segunda, ao contrário, para e mitir um juíz~ p~sitivo ou
estabelecidos, condenadas pelo outro ,-ndi· " ... t üu1;::•.> morai. 3 c._ual negativo sobre uma ação, serve-se de algo que vem depois, isto é, do
d evem obedecer os comuns mortais. Aquilo que não parece e vidente, resultado, e emite um juízo posit ivo ou negativo da ação com base ".ª
contudo, é em que consistem as grandes coisas. Mas uma primeira res- realização ou não do resultado proposto. Popularm c nl , ssas duas é ti-
posta pode ser encontrada no mesmo capítulo, quase ao final, onde cas podem ser chamadas també m de é tica dos prin fpios ' (•t ira dos
importante para o príncipe é "vencer e m a nte r o Estado". resultados. Na história da filosofia moral elas corr '$põndt·m, d 1.· um
Uma segunda resposta, ainda mais clara e també m mais completa,
é aquela que podemos encontrar em uma passagem aos Discorsi (lll,
49, na qual se cele bra abertamente a teoria d a separação: "onde se 19. N. MACHIAVELU, Discorsi sopra la pri111a deca dl 1"110 l.11110, 11•11•11j1,odu 1w11 t' Vh••nli, l 111•11111, 11 11 1111, l1
1983. pp. 504-5.
lado, às morais deontológicas, como aquela kantiana, de outro, às rn0- diam ser previstas. Se eu pudesse prever o que causaria, teria me
rais teleológicas, como aque la utilitarista. pentado sobre a bomba para que eu mesmo Ficasse em pedaços ...
As duas éticas não coincidem: o que é bom com relação aos princí- se É supérfluo insistir na ilustração dessa conhecida distinção, mesmo
pios não significa seja bom com relação aos resultados. E vice-versa ue seja importante observar que a redução de toda a política à ética da
Com base no princípio "não matar ", a pena de morte é condenável: ~sponsabilidade é uma extensão indevida do pensamento d e Weber, o
Mas com base no resu ltado, em seguida a uma eventual comprovada r uai, em se tratando de ética (e não de m etaética) , ou da convicção
constatação de que a pena de morte .teria um .l!Tami . 1)< rtt 1 • 11timi- ~ssoal (e não de abSt.rata teona), não está em absoluto disposto a cu m-
dação, poderia ser justificada (e de fato os seus abolicionistas esforça- rir essa redução. Na ação do grande político, ética da convicção e ética
ram-se por demonstrar, com dados estatísticos nas mãos, que grande ~a responsabilidade não P.Odem, segundo Weber, caminhar separadas
poder coibente eJa não possui). urna da outra. A primeira, tomada em si mesma, levada às últimas con-
Essa distinção atravessa toda a história da fi losofia moral, indepen. seqüências, é própria do fanático, figu ra moralmente repugnante. A
dentemente da ligação que ela possa ter com a distinção entre moral e segunda, totalmente apartada da consideração dos princípios a partir d os
política. Torna-se relevante com relação a essa distinção, quando se quais nascem as grandes ações, e totalmente voltada apenas para o suces-
sustenta que a ética do político é exclusivamente a ética da responsabi- so (recordemos o maquiavé lico "faça um príncipe de modo a vencer"),
lidade (ou dos resultados), que a ação do político deve ser julgada com caracteriza a figura, moralme nte não menos reprovável, do cínico.
base no sucesso ou ao insucesso, qut:'. 1wga-1a a pan1r ao cnterio da
fide lidade aos princípios é dar prova de moralismo abstrato e, portanto, Existe uma relação entre as várias teorias?
de pouco senso nas questões deste mundo. Quem age segundo princí-
O que ainda m e parece interessa~te observar, para fim de conclu-
pios não se preocupa com o resultado das próprias ações: "faz o que
são desta resenha das ujustificações", a propósit o exatam ente d esta
deve ser feito e aconteça o que tiver de acontecer". Quem se preocupa
última que parece a ma is drástica, uma vez que tenha sido aceita a
exclusivam ente com o resultado não se guia tanto pelo sutil respeito à
distinção entre moral como ética da convicção e polít ica com o ética
conformidade aos princípios: "faz o que deve ser feito para que aconte-
da responsabilidade, é que todas as cinco remetem umas às outras, de
ça aquilo que quer que aconteça". O juiz, como se lê inúmeras vezes modo tal que podem ser consideradas, como de resto talvez já tenha
nos jornais, que pergunta ao terrorista '.'arrependid o" se os t~rroristas sido notado pelo leitor, variações sobre o mesmo tema. O que natural-
se questionaram sobre o problema de "não matar" representa a ética mente não exclui a possibilidade, e não diminui a utilidade, da sua dis-
dos princípios. O terrorista que responde que o grupo se questionara tinção do ponto de vista anal ítico, que foi aquele adotado até aqui. Em
apenas sobre o problema se conseguiriam ou não realizar seu intento uma linha descendente, isto é, percorrendo o nosso caminho às avessas,
representa a ética do resultado. Se está arrependido não é porque sinta a última variação, çu seja, a ética da responsabilidade, está ligada à
remorso por ter violado a lei moral, mas porque considera aut> n0 fim precedente, a d outrina maquiavélica, segundo a qual conta no juízo
das contas a ação política empreendida falhou em.relaçao aos objetivos político a competência do meio para a realização do fim, independen-
propostos. Nesse sentido, não se considera propriamente arrependido, temente da consideração dos princípios. Esta, por sua vez - considera-
mas quem sabe alguém que esteja convencido de ter errado. Não reco- da a usaúde da pátria", o fim último da ação p olítica, do qual depende o
nheceu tanto a sua culpa, mas seu ern.... juízo sobre a bondade ou não das ações individuais com base na maior
Pode acontecer que não se consiga alcançar um objetivo, mas tam- ou menor conformidade ao fim último - , remete imediatamente à
bém é possível alcançar um objetivo diferente daquele proposto. O solução que a precede, aquela de Hegel, não por acaso, como foi dito,
homem que cometeu o atentado cont ra o arquiduque Ferdinando afir- admirador de Maquiavel, segundo o qual o Estad o (a "pátria" dosDiscorsi
mou, durante o interrogatório do processo: "Não previ que d epois do e la res publica, da afirmativa transmitida pela moral política tradicio-
atentado viria a guerra. Eu acreditava qae-o-aremado teri.. efeitos :.obre nal) tem uma sua razão de ser "concr ta", que 6 afinal a "razão de
a juventude, incitando-a às idéias nacionalistas". E um dos cúmplices, Estado" dos escritores polít icos que obscrvnm e com entam o nasci-
que falhara 1': :iÇão, disse: "Este atentado teve conseqüências que não mento e o crescimento do Estado moei ·rno, 1.• l.'SSa razão concr ta va le
co "?~ princípio exclusivo da ação do soberano e, portanto, do juí Assim mesmo: a necessidade não tem lei. Um velho ditado afirma que
pos1t 1vo ou negativo que se possa em it ir sobre ela . O lhando hem ta zo não se pode obrigar uma pessoa a cu mprir uma ação im possível. Com a
bém a justificação fundada na especificidade da ética profissi~nallll· rnesma lógica deve-se afirmar que não se pode proibir a mesma pessoa
nossa segunda variação, deriva de um nítido predomínio do fim co' ª de fazer aquilo que é necessário. Tal como o estado d e necessidade é
critério de avaliação: o que caracteriza de fato uma profissão em si;~ incompatível com a observâ ncia dos comandos, assim também o estado
fim ~omum a t?dos os membros do grupo, a saúde do corpo para 0 de necessidade é incompatível com a observância de proibições. A con-
médico, ou a saude da alm a para o saceulotc rnue.esst'.<; hn~ .. , ,,1 , 1 sideração cio esrado de necessidade está estreitamente ligada à consi-
nais específicos é perfeitamente legítimo ind01r uma terceira t-orma d deração do resultado: aquilo que torna "objetivamente necessária" uma
ação é considerá-La a única possível condição para a realização do fim
saúde, não menos importante do que as outras duas, a salus rei publicaee
c~mo fim p róprio do homem político. Enfim . também a primeira v:in:' desejado e julgado bom. E, de fato, o mesmo Smirnov conclui previsi-
çao, aquela fundada na derrogação em caso d e necessid ad e ' que é , a velmente que, não obstante a "forma cruel " que assumiu a luta pela
. , centralização, est e era o preço a ser pago pelo progresso e pela liberta-
meu ver, a mais comum, e e a mais comum porque é, tudo som ado, a
menos escandalosa ou a mais aceitável para quem se coloca do pont ção das "forças da reação e da estagnação".22 Fala-se de Ivan, mas a
de vista da moral comum, pode ser interpretada corno um desvio d~ mente logo corre para Stalin. E Yanov d e fato comenta: "Usando a
reto caminho devido ao fato de que prosseguir no reto caminho naque- mesma analogia, um historiador que sustentasse que a Rússia soviética
... a .•..........
la particular circunstância conduz;r1·a •m " ·-·.4.o......
.,.... ........ ..:.: •. _..,
- --,
· . . . . w lJll..
c1 • - · '
dos anos 1930 estava realmente saturada de traição, que todo o pessoal
posta ou, de resto, a nenhuma meta. dirigente do país participava de um complô contra o Estado e que sub-
Valeria a pena submeter à prova todos esses motivos de justificação jugação dos ca~poneses durante a coletivização e o apego dos operá-
(e outros ~ve_ntuais) diante de um caso histórico concreto, um daque- rios e dos empregados ao seu trabalho eram 'historicamente necessário'
les casos-lJm1te, bem representados pela figura tradicional do tirano à sobreviência do Estado, seria obrigado a 'justificar moralmente' o t er-
em que a disparidade entre a conduta que a moral prescreve para ~ ror total e o Gulag.23
homem comum e a conduta do senhor da política é mais evidente. Um Uma última consideração . Todas essas justificações têm em comum
desses casos exemplares é o reinado de Ivan, o Terrível, que suscitou a atribuição das regras da conduta política à categoria das normas hipo-
um inte nso e apaixonado debate, já secular, na historiografia russa e téticas, seja na forma das normas condicionadas, do tipo "Se é A, deve
soviética. ser B", como é o caso da justificação com base na relação entre regra e
Assumo este caso - mas poderia assumir outros - não apenas exceção, seja na forma das normas técnicas ou pragmáticas, do tipo "Se
porque é realmente um caso-limite, mas sobretudo porque sobre ele se você quer A, deve B", onde A pode ser um fim apenas possível ou
.,.ode ler uma douta e ampla síntese no Üvro de um historiador muito mesmo necessário, como em todos os outros casos. Essa exclusão dos
sens~vel ao problem a que nos interessa. 20 Na defesa daquele que foi imperativos categóricos da esfera da política corresponde, de resto, à
considerad o o fundador do Estado russo, os motivoc: de- iu.c:tificação at( opinião comum .segundo a qual ;\ conduta dos homens de Estado é
a~ui examinados comparecem todos, de maneira mais ou menos explí- guiada por regras de prudência, entendidas como aquelas das quais não
cita. Sobretudo o primeiro, o estado de necessidade, e o último, o re- deriva um dever incondicional que prescinda de qualquer consideração
sultado obtido. Mas todas essas iustae cauçap rn;i",.;.,..,,_._..,. !.!n!da:- :--~'" da situação e do fim, mas apenas um deve r a ser observado quando se
conside ração da grandiosidade do fim, que equivale exatamente âs ..gran- verifique aquela det ermil.ada co1.d ição ou para a rea lização de um de-
des coisas" de Maquiavel. Um dos historiadores considerados, L l. terminado fim. Para esclarecer esse t ratado essencial das teorias morais
S~ov, fala de "necessidade objetiva d o extermínio físico dos princi- da política nada parece mais adequado d o qu · este p ·nsa mcnto d ·
pais representantes das famílias hostis, aristocráticas ou boiardas". 21 Kant, ao qual se deve a primeira e mais compl "la elaboração dn distin
ção entre imperativos categóricos e im p ~ rativos hipotl'ti os: "A polrticn

20. A. ;ANOV. ~/,., Ori&íns of AutOCT<IL)', University of Callfomia Press, Berkeley Col., 1980 (cd . lt.: te oríJlinl
22. lbid., pp. 376-77.
Jdl a urocraz10, Editorl dl Comunltà, Milão, 1984).
2 1. lbUJ., p . 3 12. 23. lbid., p . 312. 1.!.
lização ou não desse fim específico: bom governo é aquele de
diz: 'Sede prudentes como as serpentes'; a moral acrescenta (como quem persegue o bem comum, mau governo é aquele de quem
condição limitadora) 'e simples como as pombas"' .21
persegue o bem próprio. _ , .
3) A política é superior à moral? Mas .é assim nao qualqu~r poh:ica,
Observações críticas mas somente aquela de quem realiza em uma determmada epo-
ca histórica o fim supremo da atuação do Espírito objetivo, a
Que fique bem daro que todas essas justificações (valham aquilo
política dv_ herói ou do indivíduo da .His_t~ria u~iv~rsal. ,
que valham, mas contudo devem valer~r.n:>.. cn•: '.' --, · .. an 4) o.fim iusttf1ca os me10~. M:i:' que~ 1us_ti.fica o hm. Ou ser~ que
tamanha parcela da filosofia política da era-modernaj nao tefluem a
0 fim por sua vez, não precisa ser JUStificado? Qualquer fim ao
eliminar a questão moral em política, mas apenas, partindo exatamente qual ~e proponha um homem de Estad~ é ~m. fim_ bom? N_ão
da importância da questão, a especificar-lhe os termos, e delimitar-lhe deve haver um critério ulterior que permita distinguir entre fms
as fronteiras. Eu disse que se deve justificar o desvio, não a regra. Mas bons e fins maus? E não deveríamos indagar se os meios maus
o desvio deve ser justificado exatamente porque a regra em todos os
porventura não corrompem também os fi_:is bons?. , . _
casos em que o desvio não é justificável continua a valer. Não obstante 5) A ética política é a ética dos resultados e nao dos pnncip10s. Mas,
todas as justificações da conduta política que desvia das regras da moral de todos os resultados? Se se quer distinguir entre resultado e
comum, o tirano continua tirano, e pode ser definido como aquele cuja resultado, não seria necessário remontar uma vez mais aos prin-
conduta não consegue ser justificada nor né'rr"".""'1" .-1~~ +-e-"~º ~-,-- , ~on­ cípios? É possível reduzir o bom resultado ao sucesso imediato?
tudo , reconhecem uma certa autonomia normativa da política em rela- Os vencidos estão sempre errados pelo único motivo de terem
ção à moral. Maquiavel, embora afirmasse que quando se trata da saú- sido vencidos? Mas o vencido de hoje não pode ser o vencedor
de da pátria não deve haver nenhum tipo de consideração de "piedoso de amanhã? Víctríx causa deis placuit / Sed victa Catoni. Catão
e de cruel", condena Agátocles como tirano porque as suas crueldades não_ pertence à História? E assim por diante. E assim por diante.
-eram "mal usadas". Bodin, anteriormente lembrado como um teórico
do estado de exceção, ilustra em algumas páginas famosas a diferença
entre o rei e o tirano. O problema da legítimidade do fim
Retomando brevemente as várias teorias: Todas essas perguntas não são uma resposta, mas ajudam a compre-
1) Vale também para a teoria do estado de necessidade que a exce- ender em qual direção se deve buscar a resposta, e essa direção ná? é
ção confirma a regra exatamente enquanto exceção, porque, se aquela da idoneidade dos meios, mas aquela da legi~imidade do fn_n.
valesse sempre o critério da exceção, não mais haveria exceção e Um problema não exclui o outro, mas se trata de d01s pro~lema:' dis-
não mais haveria regra. Se o desvio deve ser consentido somente tintos e convém mantê-los bem distintos. O problema da idoneidade
se for justificado, significa que se tem por pressuposto que exis- dos meios se apresenta quando se quer emitir um juízo sobre a eficiên-
tam desvios não-justificáveis e enquanto tal. inadrnisc:-fyc-i:-:. cia do governo, que é claramente um juízo técnico, e não moral: um
2) A ética política é a ética daquele que exerce atividade política; governo eficiente não é por si só um bom governo. Esse juíz.o ulterior
mas atividade política na concepção de quem desenvolve o pró- não se contenta com a realização do fim, mas pergunta: qual fim? Reco-
prio argumento partindo da consider.acão dt> 011P <> P.tir.-. :-''"ºf;.__ nhecido corno fi~ d~ ação política a salvaçã0 da pátria, ou o interesse
sional não é o exercício do poC1er enquanto rn1, mas Cio poder geral, ou o bem comum (contrapostos à saúde do governantt>, a~s intt:-
para a realização de um fim que é o bem comum, o interesse resses particularistas, ao bem próprio), o juízo, não mais sohn· a 1done1-
coletivo ou geral. Não é o governo, mas o bom governo. Um dos dade dos meios mas sobre a bondade do fim, é um vcrdadl·irn e pró-
critérios tradicionais e continuamente renovados para distinguir prio juízo moral,' ainda que - pelas razões aduzidas por toc 1as as tl•onas
.
o bom governo do mau governo é exatamente a avaliação da rea- justificacionistas-de uma moral distinta ou em parte disti11t a ela moral
comum com base na qual são julgadas as ac;ões dos indivíduos is1~lados.
O que significa que, mesmo levando em consideração as ra'l.Ól'S t'spt•t í 1W
200 1 24. L KANT, Per la pace perpeta>a, cit., P- 317.

,1 .. J,,
fi~as ~a.ação política, da chamada "razão de Estado", que e vo<:a cpis6-
O discurso terminaria aqui se em um Estado de direito, como é o
d1.os sinistros pelo mau uso que dela foi feito, ainda que e m si rnes fstado da República italiana, sobre cujas condições de saúde nasceram
· d. ·
m ~~ue u~1 cam e nte a~ carac te rísticas distintivas da ética política, a ação
ma essas reflexões, além do juízo sobre a e ficiê ncia e do juízo moral ou d e
pol1t1ca nao se subtrai em absoluto, corno qualquer outra ação li vre moral poÜtica, como procurei explicar até aqui, não houvesse sobre a
supostamente livre do homem, ao juízo do lícito e do ilícito, em qou ação política também um juízo mais propriamente jurídico, vale dizer,
.
consiste · ' mora 1, e que não pode ser confundido com o juízo dUe
o JUIZO de conformidade ou não com as normas fundamentais da Constituição,
0
idôneo ou inidôneo. às quais está.submetido o exercício da ação política também dos órgãos
Pode-~e apresentar o mesmo problenia.rmnoem no.....t.:._ .... ~ seguin-
superiores do Estado. Entre as várias acepções de Estado de direito,
t~s. Admitamos ~esmo que a ação política tenha de algum modo rela-
refiro-me àquela que o define como o governo das leis contraposto ao
çao com a conqwsta, a conservação e a ampliação do poder, do máximo governo dos homens e que entende o governo das leis no sentido do
poder do homem sobre o homem, ào umco poaer no qual se reconhe- moderno constitucionalismo.
ce, ainda que em última instância, o direito de recorrer à força (e é ist O juízo sobre a maior ou menor conformidade dos órgãos do Esta-
que distingue o poder de Alexandre do poder do pirata, que esse d.ire~ do, ou daquela parte integrante do poder soberano que são os partidos,
to não tem), ainda assim, nenhuma das teorias justificacionistas aqu· às normas da Constituição e aos princípios do Estado de direito pode
Üustradas consi~era a conquista, a conservação e a ampliação do pode; dar lugar ao juízo, que se re pete tão freqüentemente no atu.al debate
con;~ ben~ em s1 mesmos. Nenhuma consider.a auJ> n ohit>tjvf) da ação
poütico, de incorreção constitucional e de prática antidemocrática, que
poht1ca SeJa o poder pelo poder. Para o próprio Maquiavel, a ação polí- ocorre, para dar um exemplo, no caso do abuso dos decretos-lei, de
tica "imoral" (imoral em relação à moral dos pater noster) é justificada apelo ao voto de confiança unicamente para derrubar a oposição e, na-
apenas se tem por fim as "grandes coisas", ou "a saúde da pátria". Per- quüo que concerne aos partidos, na prática do sottogoverrw, • que viola
seguir o pode r pelo poder significaria transformar um meio - que como um dos princípios fundamentais do Estado de direito, a visibilidade do
tal deve ser julgado pelo critério do fim - e m um fun em si mesmo. poder e o controle do seu exercício.
Mesmo para quem considera a ação poütica como uma ação instrumen- Mesmo que com freqüência a polêmica poütica não faça a distin-
tal, ela não é instrumento para qualquer fim que o homem político se ção entre os vários juízos e coloque todos os três sob a etiqueta "ques-
compraza em perseguir. Mas, uma vez feita a distinção entre um fim tão moral", os três juízos, o juízo da eficiência, o juízo da legitimidade
bom e um fim mau, uma distinção à qual.não escapou nenh· ·ma teoria e o juízo mais propriamente moral (que também poderia ser chamado
da relação entre moral e política, é inevitável distinguir a ação política de mérito) , sobre o qual m e detive exclusivamente, devem ser manti-
boa da ação política má, o que significa submetê-la a um juízo moral. dos distintos por razões d e clareza analítica e de atribuição de respon-
Pensemos em um exemplo. O debate sobre a questão moral diz respei- sabilidade.
to, com freqüência, e especialmente na Itália, ao t ema da corrupção, em
todas as suas formas, previstas, de resto, pelo código penal sob ~ rubrica
de crimes em função de interesse privado em ai:os de ravurecimento, m.
peculato, extorsão, etcétera, e, especificamente, em referência quase O BOM GOVERNO
exclusiva a homens de partido, ao tema que costuma ser denominado
Quando Ernesto Rossi recolhe u em um volume alguns escritos de
dos percentuais. Basta uma breve reflexau pa•d ~- !) .... l.Oi.t:: ..!t. .:tt:e o que
Luigí"Einaudi para a Coleção histórica do editor Laterza decidiu, e m
torna moralme nte ilícita toda forma de corrupção política (deixando de
comum acordo com o autor, intitulá-lo lL buongoverno. Na escolha d es-
lado o ilícito jurídico) é a fundamentadíssima presunção de que o ho-
te título havia um juízo d e conde nação ao passado recente e ao mesmo
mem político que se deixa corromper colocou o inte resse individual à
tempo um gesto de confiança, ou ta lvez apenas de espe rança e de augú-
frente da interesse cole tivo, o bem próprio à fre nte do bem comum a
saúde da própria pessoa e da própria família à frent" da s:i1ídC' da pátrla.
E assim fazendo, faltou ao dever de quem se dedica ao exercício da ativi- ' ~~utilizada para se referir às pt~t.lcas de íavorill1mo e corruf)'.IO por p.rtc daqueles 4uc det~m o poder
dade política, cumprindo uma ação poüticamente incorreta. com o objetivo de angariar eleitores e consolidar a •u.1 próprlh 1>0•l~a0 pofítk• . (N.T.)
rio em relação ao futuro próximo . O que Einaudi ente ndesse por bom Bom governo e mau governo: uma antítese que percorre toda a his-
governo pode ser inferido, mais do que em qualquer outro texto, a tória do pensamento político, um dos grandes temas, senão o m aior, da
partir d e um ensaio de 194 1 ("Liberalismo e comunism o", publicado reflexão política d e todos os te mpos . Problem a fundarnental no senti-
na revista Argomenti no decorrer de um célebre debate com C roce do que não há problema de teoria política, do mais antigo ao mais novo,
sobre a relação entre liberdade econômica e liberalismo político), onde que a ele não esteja ligado. Pode-se d izer, sem temer exageros, que não
Cavour e G iolitti são tomados como exemplos do político genial e ex- há grande obra polít ica que não tenha procurado responder à pergunta:
perimentado em questões econômicas, o primeiro, e do bonest0 e boi"" "Como se d istingue o bom governo do mau governo?'', e que não possa
administrador que considera ser tarefa du polttico g0\c1 t •\. u111 go- ser em sua totalidade .reconduzida. em suas articulações internas, à busca
vernar bem , o segundo. "Contudo" - acrescenta Einaudi - , "não se de urna resposta a essa pergunta . Assim também as obras que parecem
governa bem sem um id eal. " E mais adiante: "Um político que seja um propor-se u m objetivo predominantemente histórico ou analítico. Na
puro político é algo difici lmente definível e para mim pare~ um 111ons- Política, Aristóteles, depois d e ter descrito e classificado as constitui-
tro, do qual o país não pode esperar nada além de infortúnios. Como é ções do seu tempo, com o espírito e os instrumentos do .investigador
possível imaginar um político verdadeiramente grande ( ... ) que seja que se atém aos fatos, não pôde subtrair-se ã exigência d e e nfre ntar nos
privado de um ideal? E como é possível ter um ideal e d esejar vê-10 últimos livros o problema da m elhor forma d e governo. Hegel, que no
realizado, se não se c onhecem as necessidades e aspirações d o povo ao prefácio às lições de filosofia do direito e do Estado afasta de si a sus-
qual se foi c hamado a governar e se não se sabe escolher os m eios apro- peita de querer se ocupar enquanto filósofo do Estado corno deve ser,
priados para reaüzar esse ideal? Mas essas ex:tgenaas anrmam que o dá a entender, a quem saiba ler as e ntrelinhas, que prefere a monarquia
político não deve ser um m ero manipulador de homens; d eve saber constitucional, a forma de governo m ais adequada à m aturidade dos
guiá-los em d ireção a uma meta e essa meta deve ser escolhida por ele, tempos e aos povos mais progredidos, às duas coordenadas principajs
e não imposta pelos acontecimentos mutáveis do dia que passa". 25 da sua filosofia da história, o espírito do tempo e o espírito do povo.
Quando reli essas palavras, minha mente logo correu, naturalmen- Na história das idéias nunca há o início, e nada é m ais vão e
te, às famosas páginas de Politik ais Beruf, de Max Weber: "Três quali- desesperador d o que procurar o momento inicial, a fonte originária, o
dades pode m ser consideradas como sumamente decisivas para o ho- Ursprung. Jamais m e esqueci, embora as tenha lido há muitos anos, das
mem político: paixão, senso de responsabilidade, capacidade de previ- primeiras palavras de Giuseppe e i suoi fratelli (José e seus irmãos), de
são" .26 Paixão, explica We be r, no sentido de dedicacão apaixonada a Thomas M ann: "Profundo é o poço do p assado. Não deveríamos
uma causa, diante da qual ele deve assumir inteira responsabilidade, ou considerá-lo insondável?". E contudo, é preciso começar, suspender a
fazer do senso de responsabilidade o guia determinante da própria ação, caminhada, não ir m ais além e fixar, ainda que com um ato que pode
daí a necessidade da capacidade de previsão, e ntendida como capacida- parecer arbitrário, o ponto d e partida. Por sorte existe, na tradição gre-
de de d eixar que a realidade opere sobre nós com calma e recolhimen- ga, da qual nasceu em grande parte o nosso pensamento político, uma
to interior, o contrário d a fa lta de distanciamento (D istanzlosigkeit), passagem exemplar que, não obstante a distância, nada pe rdeu do. seu
pecado mortal de qualquer homem poim co, e a a va1aau\::, o u .>L;..:, cl~ vigor e parece feita sob m edida para to rnar menos casual, e quase obri-
necessidade de colocar em primeiro lugar, em máxima evid ência, a pró- gatório, o dado da origem, e para ser colocada, e m form a de ilustre
pria pessoa . Quando lhe fa lta uma causa assim concreta, o político cor- antepassado, no início de uma longa fa mllia de textos que chega até
re o risco d e continuamente co nfundi r~ -- · 1, - • _:;._ -=i-·- ~tn , :er nós. No m ais célebre de seus cantos, Sólon, d e pois de t er expressado a
com o poder real, e q uando lhe falta o senso de responsabi lidade, arris- própria indignação contra os cidadãos que cegamente pe rscgu<'m o d ·-
ca-se a gozar do poder simplesmente por amor 3 potênci;i, sem lhe dar seja de riqueza e os líderes do povo que, insaciáveis, amontoam riqu e-
um objetivo por conteúdo. zas sem poupar nem as propriedades sagradas nem as propn ·dadcs
públicas "e saqueiam aqui e ali, sem d em onstrar respeito pelos augustos
fundamentos de Dike", opõe a eunomia (as boas leis) ~ dis nomia (as
Leis más), assim descrevendo a primeira: "O bom governo tudo toma
25. L EJNAUOI, ll bW>ftlOvt,.,., 0<gani..,Jo por E. Rossi, ut<'ffll, Rom» llan, 1973, vnl 1, l'fl 1f)I " 102
26. Cito 2 1""1. il. de A. G1oliu:i, ln M WEllER, li luvoro lntellc11Ullle "''"" pro/u o oue, •ll , 11 101 bem ordenado e composto, e com freqüência lança correntes ao rcdo1 ~
dos injustos; suaviza as asperezas, põe fim à insaciedade, domestica a para satisfazer_ seus própri,os _prazeres, os desejos ilícitos dos quais fala
violência, seca ainda em seu despontar as flores da loucura, corrige as platão no IX livro da Republica. , . .
sentenças injustas, mitiga as obras da soberba, apaga as ações das divi- De ambas as interpretações, o pensamento grego class1co nos de1-
sóes discordes, abranda a ira da contenda funesta; abaixo dele todas as alguns textos canônicos (digo "canônicos" no sentido de que, reti-
coisas são bem reguladas e sábias". 27 "ºu dos do seu contexto h.1stonco
., .
1 tornaram-se ver
d ad eiras
. , .
e propnas
Eunomia-disnomia é um clássico par de opostos que inclui em seu ra áximas que podem ser usadas nas mais diversas circunstâncias). No
seio tantos outros, uma verdadeira e µr.ópci.a "~andf' rlí.cotomia", que
serve para designar com um único traç::;. .::-.w,d,_;,,· - dm único olhar, r
°:.e se reiere à subnússão do governante às leis, é exemplar um texto
qJ&"tôntcn extraído do· quarto livro nas Leis (independentemente de
todos os pares de contrários mais comuns da linguagem política: or- Ponsiderarmos que o mesmo Platão, no Político, sustenta a tese contrá-
dem-desordem, concórdia-discórdia, paz-guerra, moderação-insolência,
brandura-violência, justiça-injustiça,·sahedoria in~:::-;::;;:;~ez. Todos carac- 1 c.
na. )· "chamei aqui de servidores das leis àqueles que ordinariamente
são chamados governantes, não por amor às novas denominações, m~s
terizados por serem axiologicamente bem definidos de uma vez por orque considero que dessa qualidade sobretudo depende a salvaçao
todas, sendo que um dos dois termos tem sempre um significado posi- ~u a ruína das cidades. De fato, onde a lei está submetida aos governantes
tivo, o outro sempre um significado negativo - diferentemente de e está privada de autoridade, vejo a pronta ruína das cidades; onde, ao
tantas outras antíteses da mesma linguagem política, em que os dois contrário, a lei é senhora dos governantes e os governantes são seus
termos podem ter significado axiológico diferente segundo as doutri- escravos, vejo a salvação das cidades e sobre elas o acumular-se de to-
nas e as ideologias, como público-pnvaao, soc1eaaae úé natureza-socie- dos os bens que os deuses costumam conceder às cidades" (71 Sd).
dade civil, direito natural-direito positivo, Estado-antiEstado. Assim também, começando a falar das constituições monárquicas,
Tocaria aos filósofos refletir sobre essas duas condições opostas do Aristóteles apresenta o problema da relação entre as leis e os governantes
viver social, o Estado bom e desejável, o Estado mau e indesejável, para em forma de dilema. "É mais conveniente sermos governados pelo
encontrar alguns critérios gerais de distinção entre um e outro que per- melhor homem óu pelas melhores leis?". A favor do segundo termo,
mitissem ir além da mera descrição dos dois Estados e das suas vanta- Aristóteles enuncia uma máxima que terá muito êxito: "A lei não tem
gens e desvantagens, chegando à definição, ou ao conceito, de um e do paixões que necessariamente se encontram em cada alma humana" (Po-
outro. lítica, 1286a). E enuncia esta máxima com base na observação, tam-
Através da lição dos clássicos considero que tenham emergido subs- bém esta fundamental, de que a lei oferece "prescrições gerais". E, no
tancialmente dois critérios principais de distinção entre bom governo e entanto, o pensamento político ocidental deve a Aristóteles sobretudo
mau governo que, embora tenham sido com freqüência empregados de a segunda interpretação do bom governo, aquela que opõe o bom ao
modo impróprio, remetem um ao outro ao longo de toda a história do mau governante com base no critério do bem comum opôsto ao bem
pensamento político. O primeiro: bom governo é aquele do governante próprio. A famosa classificação das constituições em três justas e três
que exerce o poder em conformidade com as leis preestabelecidas e, corruptas vale-se precisamente desse critério: "Quando um único, pou-
inversamente, mau governo é o goven10 daqucl:... :.,__:e exerce o poder cos ou a maiona exercem o poder tendo em vista o interesse comum,
sem respeitar outra lei exceto aquela dos seus próprios caprichos. O têm-se então necessariamente as constituições justas; quando um úni-
segundo: bom governo é aquele do governante que se vale do próprio co, ou poucos, ou a maioria exercem o poder em seu interesse privado,
poder para perseguir o bem comum, "'"'.':'.'01: ' ' • o ,;overno daquele " ( l "J79 )
.tem-se
,
entao
-
os aesvic~
; '
v ~ a .
que se vale do poder para perseguir o bem próprio. Deles derivam duas Eu falava de duas interpretações, mas qualquer um pode ver que
figuras típicas do governante odioso: o senhor, que dá leis a si mesmo, o não são tão diferentes a ponto de não ser possível relacionar uma à
autocrata no sentido etimológico da palavra; e o tirano, que usa o poder outra. O governo das leis é bom se as leis forem boas, e são boas as leis
que visam ao bem comum. Por outro lado, o melhor modo, mais segu-
27. SOLONE, fr. 3 Díeh!. Sobre a noção de "eunomia", W JAEGER.-l?aideia. ! "~•rm IXÍOnl' ,J,//'umna l(ntt:t>, l.a 1
ro, que o governante tem de perseguir o bem comum é seguindo as leis
' Nuova Italia, Florença, 1936, 1, pp. 255 em diante, que retoma um seu esu1to untl"'1:ior, Sofo11., r:u","'""·
que não têm paixões ou fazendo ele mesmo boas leis. No entanto, con-

l
"Sítz.b. Berl, Ak. Wíss,", 1926; e M. GIGANTI, N6mos Basiléus, Glaux, Nápoles, llJ5b, rrlmp. A1110 I rr"·•
Nova York, 1979, pp. 38 em diante. vém mantê-las distintas porque os escritores acentuam ora uma, ora

' :.
'.~ ,j,~, ••. 1.
outra, e esse distinto acento permite diferenciar correntes ou direções inteiro da sua obra cujo capítulo l, intitulado De differentia principis et
diferentes do pensam en to político. tiranni et qui sit princeps, começa assim: "Est ergo tiranni et principis
A superioridade do governo das leis sobre o governo dos homens é haec differentia sola vcl max ima: quod hic legi obtemperat, et eius
uma das grandes idéias que retomam todas as vezes em que e discutido arbitrio populum regit, cuius se credit ministrum '' .28 Em uma outra
o problema dos Ümites do poder, como fica bastante claro a partir da passagem explica que, quando se afirm a que o princeps é legibus solutus,
passagem aristotélica citada, por uma razão formal e outra material. não significa que lhe seja lícit o comete r atos injustos, mas simplesmen-
Formalmente, a lei distingue-se do com.and0 oessoal tlo snl)('r 11 u, pela u.•-qoe-.ele devescr.,iusto não por temor às penas Qá que não há ninguém
sua generalidade (Arist óteles fala de · prescnçoes ~~ 1 , ·racte- acim:. .dele que tenha o poder d e puni-luJ, mas por amor à justiça,
rística com base na qual a le i, quando é respeitada também pelos p0rque "publicae utüitatis minister et aequitatis servus est princeps". 29
governantes, imped e que estes façam valer a própria vontade pessoal Lá onde afirma que os destinatários dos comandos do rei podem ser
mediante disposições expedidas segundo a!> nect!ss1àacies, sem consi- livres ou servos, Bracton observa que e nquanto uns e outros estão sujei-
derar os precedentes nem tampouco as disparidades de t ratamento que tos ao rei, o rei não está sujeito a ninguém além de D eus, porque o rei
o comando particular pode produzir. Substancialmente, a lei, por sua não tem ni nguém q ue Lhe esteja à altura no reino, e, se assim fosse , não
origem, seja ela im ediatamente derivada da natureza ou mediada pela teria o d ireito de comandar, já que "par in parem non habet imperium ".
tradiçã.o, ou pela sabedoria do grande legislador, e pela sua duração no Mas, logo em seguida, em uma passagem destinada a assumi.r quase
tempo, não está submetida ao t ransformar-se das oaixões. e oermanece forma e força de regra e à qual se voltarão, nos anos da Guerra C ivil
como um depósito da sabedoria popular ou eia sap1enc1a civil que impe- inglesa, tanto os fautores do rei contra o parlamento, quanto os fautores
de as m udanças bruscas, as prevaricações do poderoso, o arbítrio do do parlamento contra o rei, detalha : "l pse autem rex non debet esse
"sic volo sic iubeo". Essa oposição entre as paixões dos h omens, em sub homine, sed sub deo et sub lege, quia lex facit regem". E um pouco
particular dos governantes, e a ausência de paixão das leis está, além do mais adiante: "Non est enim rex ubi dominatur voluntas et non lex".30
mais, no fundamento do tópos não menos clássico da le i identificada O princípio não está ausente no período do absolut ismo e nos luga-
com a voz da razão, princípio e fim de toda a tradição jusnaturalista res onde ele se manifestou. Exceto em H obbes, que rejeita a distinção
que, a meu ver, parte dos antigos e chega, sem interrupções, não obstante entre rei e t ira no, o princípio segundo o qual o soberano é Legibus solutus
autorizadas e respeitáveis opiniões em contrário, aos modernos, pas- nunca é tomado ao pé da letra : para Jean Bodin, considerado com razão
sando pelo pensamento da Idade Média . aue nesie casn p rPalmente o o maior teór ico do absolutismo, o soberano legibus solutus está livre das
elo de ligação entre nós e os antigos. leis positivas, que ele mesm o emjte, ou das leis cuja validade depende,
Antes de qualquer outro, d evem os a Gierke a tese, retomada na como no caso dos costumes, da sua tolerância, mas não das leis divinas
monum ental história do pensa mento político medieval dos irmãos e naturais que não d ependem da sua vontade (entre as leis naturais há
Car lyle, de que a idéia dominante na teoria e na prática dos governos, as leis que concernem ao dfreito privado, isto é, propriedades, contra-
do século IX ao século XI II, tenha sido a supremacia da lei sobre os tos e sucessões) , e d lls leis fundamentais do reino, em virtude das quais
homens. Dessa idéia deriva o dever d1.Ygovemame o e guvc:1 H<11 :.c:gundo o seu poder é um poàer não de fato, mas legítimo.
as leis, sejam elas as leis divinas ou naturais, as leis consuetudinárias ou Para que a subordinação do soberano à lei tenha a m esm a força
aquelas fundamen tais, estabelecidas pelos precursores: d ever, reitera- coercitiva da subordinação à lei do simples cidadão será necessá rio um
d o no juramento ritual no m omenl.:> --.--u.. ..! -~ i.1 , "•·varP. longo,. tr.abalhosc e ~':!de nt ado processo d e tr::insformação d::is relações
leges". Referem-se a ele, limitando-m e a duas citações essenciais, ex-
traídas respectivam ente de uma obra fi losófi ca e de uma obr:i jurídica, 28. "J.-P. MIGNE, P. L., C IX ( 1855). pp. 379· 822. A cdo\à<) org,1nl7.:tdo por C Ch J Wchh. ,,.., doo< volum<"',
o maior tratado político escrito antes da red escoberta da Política l.onJrcs. 1909, é umo rcproduç5o onost:hico tlu4ucla rmbllrntlo c·m Frankfurt, MlnC'rvo, C M. 11.H ., «m 1865
Pard•I tradução ingles;i: The Sru1um11n'.s Boolt of Jolt11 "Í Snfüburv, mm intro<h•\ao d" J UotldnM'ln. Knurf.
aristotélica, o Policraticus, de John de Salisbury (meados d o sécuJo Novo York, 1927 (rcimp. an. R~l and Russel, Non York, 1963). C f uonh/.m • tr.ad it. pm t•I G IOVANNI
XII), e o primeiro imponente tratado de direitojnalês n l) p legiúus et OI SALISBURY. Polkruticu.s. L'ttomo Ji ~uu110 11~/ /H"turno "'"'""'"'Ir, ):><:~ &Ktl.., Millu, 1985
29, A cdeb.·c t" <prcss3o "princeps legibus solutu~· •p••l'U' "º' furi'>ta~ d,1 c no 1m11('rtal, ULPIANO, D . 1, 1, 31.
consuetudinibus Angliae, de H e nry Bracton Lmeados do sé ulo X III). Para • outra, ver a ohro cit., no noto 4, VI, 22.
30. H_ llRACTON, De Letibus ~t Con.ruetudinibus Ang/wr, O'Jl•n11,;i,lo pur (, F. Woo<lhlnr, trod dt• S r
John de Salisbury dedica à oposição entre príncipe e tirano um livro Thorne, Harvard University Prcu, 1968, li, p 33.
entre governantes e governados, através do qual essas relações regula- se reúnem para navegar, ou as sociedades religiosas que se reúnem para
das pelo direito natural ou por pactos, formalmente entre iguais, mas celebrar ritos, ou as companhias de prazer que se reúnem para banque-
de fato entre desiguais, tal como são os tratados internacionais, se trans- tear, explica que essas sociedades particulares devem estar subordina-
formam em direitos positivos regulados por constituições escritas ten- das à sociedade política porque esta não mira a vantagem do momento,
do força de leis fundamentais ou mesmo, como no caso da Inglaterra rnas a vantagem de toda a vida, e é por isso, acrescenta, que "os legisla-
de uma constituição não-escrita mas consolidada é convalidada por um~ dores chamam de justo aquilo que é vantajoso para a comunidade". Ao
práxis regular na sua continuidade e pacificamente:.1ll:ei:ta. drnr contrário. quando alguns cidadãos se reúnem em urna sociedade parti-
revolução de 1688, pelas facções políticas que:se :suceuei1! '--."'e·"· cular, mas com um fim oolitico, e portanto não-particular, mas geral,
nam no poder. Desse processo, ao qual hoje concordemente se dá 0 nasce a facção, que gera discórdia e através da discórdia produz ou a
nome de constitucionalismo, o resultado final é um sistema ou organis- desagregação da cidade, ou, se sair vitoriosa, um governo que visa ao
mo político inspirado no princípio da responsabilidade, nao apenas re- bem da partt:: e não do todo.
ligiosa e moral, mas também política e jurídica, dos órgãos de governo, Na trãdição política dos comuni italianos e dos nossos escritores
através de alguns institutos fundamentais como aquele do equilíbrio e Políticos da Idade Média ao Renascimento em diante, o ideal do bom
separação dos poderes, do controle periódico dos governantes através governo identifica-se com o governo para o bem comum em oposição
de eleições livres com sufrágio universal, da garantia jurídica dos direi- ao governo para o bem da parte, a facção, ou de um só, o tirano. No
tos civis (e não mais apenas do apelo aos céus no oual confiava Lork"'\ afresco que recebeu o título de Buongoverno, pintado por Ambrogio
do controle de legitimidade das próprias leis do parlamento e assim por Lorenzetti no Palazzo Pubblico de Siena, a figura central do regente,
diante. O antigo ideal do governo das leis encontrou no constitucio- contornada pelas virtudes cardeais e sobranceada pelas virtudes teologais,
nalismo moderno a sua forma institucional e, definitivamente, a sua foi interpretada como representação do bem comum, segundo os ver-
realização em uma série de institutos aos quais um moderno Estado sos que abaixo dela se lêem: "Questa santa virtú lí dove regge/induce
democrático não pode renunciar sem cair em formas tradicionais de all'unità le animi molti/ e questi acciô ricolti/ un Ben Comun per lor
governo pessoal, daquele governo no qual o indivíduo está acima das signor si fanno" .31 (Esta santa virtude ali onde rege/induz à unidade os
leis, ou, com as palavras dos clássicos, o governo é senhor das leis e não muitos ânimos/ e estes assim recolhidos/ um Bem Comum por seu
seu servidor. senhor se fazem.) Não é por acaso que as duas figuras centrais são
A outra interpretação da distinção entre bom.govem.o e mau g"''~r­ aquela do bom regente, que personifica o bem comum e tem ao seu
no repousa, corno foi dito, na oposição entre interesse comum e inte- lado a paz, e aquela da Justiça inspirada, do alto, pela Sabedoria, que
resse particular, entre vantagem pública e vantagem privada. Leva em traz abaixo de si a Concórdia. O bom governo rege a coisa pública me-
consideração, desse modo, não tanto a forma através da qual o poder é diante a justiça e através da justiça assegura a concórdia entre os cida-
exercido, mas o fim que deve ser perseguido. Que esse fim seja a van- dãos e a paz geral. A idéia do bom governo entendído como o governo
tagem comum, não do governante ou dos governantes. da classe domi- para o bem comum é e sempre será associada à idéia de que apenas 0
nante, como diríamos hoje, da elite no pooer, denvaaa ua natureL.<1 governo ~e~ndo a justiça impede a formação de desigualdades que,
mesma da sociedade política (a koinonía politiké de Aristóteles), a qual desde Anstoteles, eram a principal causa do surgimento das facções, e
deve prover a satisfação das necessidades relativas a todos os membros assegura aquela concórdia, ou unidade do todo, que é a condição neces-
e não apenas a alguns deles, tais corou, 'Scg,.ü1.....u 0::, '..~rn;,:~::: e S('gi_:::_:. af sária para a sobrevivência da comunidade política.
concepções gerais do viver comum e as diversas e com freqüência opostas Por oposição, pode-se afirmar que toda a fenomernologia do mau
ideologias, a ordem interna e a paz externa, a liberdade e a igualdade, a governo, dos gregos em diante, conhece sobretudo duas figuras históri-
prosperidade do Estado no seu conjunto, ou o bem-estar dos cidadãos
uti sfnguli, a educação para a virtude ou a felicidade. Em uma passagem
da Etica a Nicômaco {l l 60a), onde Aristóte.les introd11'l o discurc;o 31.:: acord~.~~m a interpretação de N. RUBJNSTEIN, "Political ldeas in Scnt'sr Art: th" l'n·m"'·' hy Au1h111wo
FErenzett1 , m lournal of the ~arb~rg and Countauld lnstitutes, XXI (1958), pp. l 7!)-207. Vrr l•mltt'm IJ
sobre as sociedades parciais, às quais cidadãos dão vida para perseguir LDGES-HENNING, The Pictortal Programme of the Sala della Paa: a New Interpretatim1 XXXV ) ')/ / 1
pp, 145-62. ' ' ' }.
vantagens particulares lícitas, dando como exemplo os navegadores que
cas principais: o tirano e a facção. A imensa literatura política sohre 0 divisões se deslocam da aldeia para o parlamento, onde o dissenso é,
mau governo pode ser considerada como uma série infinita de varia- por assim dize~, constituci~nalizado e, portanto, legitimado, e onde
çóes sobre esses dois temas que, além do mais, estão estreitamente nascem os partidos no sentido moderno da palavra - e não mais a~
ligados, sendo a discórdia entre as facções o contexto histórico do qual facções -- enquanto partes que, representando cada qual a seu turno e
habitualmente nasce o tirano, e sendo o tirano aquele que se ergue todo e alternando-se no poder quando a alternativa é possível, consti-
acima das facções para restituir à cidade a concórdia, perdida também tuem o necessário trâmite entre os cidadãos e o Estado, e desse modc
devido à perda da líberdade mal-exercida.. Entrt> as causas dt> rlf''"' ·· permitem a oermanência da democracia, ou seja, de um sistema
gação do Estado, Hobbes menciona a i:orrmrçtü Lias J.3L\,:{lc. vr-• •_!,'( '" poliárquico em uma sociedade cle massa.
ros e próprios Estados dentro do Estado, criadas por demagogos ávidos "Costumam dizer os homens prudentes, e não é por acaso nem sem
de poder, os quais, para melhor realizar seu intento, criam um partido mérito, que quem deseje ver aquilo que há de ser, considere aquilo que
no partido, factio in factione, unindo-se a-potrcos 'COTI1panheir..J~ eu1pe- foi: porque todas as coisas do mundo, em cada tempo, têm seu própric
nhados em maquinações secretas "ubi ordinare possint quid postea in embate com os antigos tempos. O que nasce porque, sendo elas opera-
conventu generali proponendum sit" (onde possam ordenar aquilo que das pelos homens, que têm e tiveram sempre as mesmas paixões, con-
se deve propor na reunião geral). A desagregação do Estado produzida vém por necessidade que lhe suscitem o mesmo efeito". 35 São palavras
pelas facções é comparada às filhas de Pélias, rei da Tessália, as quais, muito conhecidas de Maquiavel. Por isso Maquiavel lia Llvio, para dele
para devolver a juventude ao velho pai. sob conselho de Medéia, cor- extrair, como escreve no proêmio, "aquela utilidade pela qual se deve
tam-no em pedaços e colocam-no para cozmnar, esperanao mutumen- buscar a cognição das histórias". 36 E depois de alguns séculos, pela mesma
te que retorne são e salvo: "A multidão em sua ignorância, sonhando razão, Gramsci lerá Maquiavel, e nós e os nossos pósteros leremos
renovar as antigas ordens, subjugada pela eloqüência de homens ambi- Gramsci, e Maquiavel e Lívio. Nos seus Discorsi su Cornelio Tacito 1
ciosos que repetem a magia de Medéia, deixa em pedaços o Estado, Scipione Ammirato escreve, com um quê de malícia: "(... )E porque é
destruindo-o no fogo da guerra civil" .32 Escritores políticos não-des- bom falar com os exemplos e a autoridade dos antigos, a fim de qut:
providos de leituras clássicas, corno os autores dos Federalist Papers, outros não reputem serem elas nossas invenções". 37 Não, não são nos-
opõem a democracia representativa, ou dos modernos, à democracia sas invenções. Os termos, é verdade, mudaram. E de fato ninguém
direta, ou dos antigos. Escreve Hamilton: "É impossível ler sobre as mais usa as palavras bom governo e mau governo, e quem ainda as usa
pequenas repúblicas da Grécia e da Itália sem experimentar sentimen- parece voltado para o passado, um passado remoto que apenas um com-
tos de horror e desgosto pelas agitações das quais elas eram presa con- positor de discursos inúteis tem ainda coragem de desenterrar. No en-
tínua e pelo rápido suceder-se de revoluções que as mantinham em tanto, as coisas não mudaram. Mais uma vez Maquiavel: "~ facil saber,
estado de perpétua incerteza entre os estados extremos da tirania e da para quem considera as coisas presentes e as antigas, que em todas a!;
anarquia" .33 Madison responde que as facções são um efeito inevitável cidades e em todos os povos estão aqueles mesmos desejos e aquele5
da participação direta do povo no governo do Estado e assim as define: mesmos humores, e que ali sempre estiveram". 38 Não mudaram_ Tal-
"Por facção entendo um grupo de cidadàos l···J umuo:> e moei• ...-~~..; ;::;-.:r vez tenham se tornado mais ditíceis, ou, como hoje se c0stuma dizer,
um mesmo e comum impulso de paixão ou de interesse em oposição complexas. O par bom governo/mau governo foi sendo substituído nc
aos direitos dos outros cidadãos e aos interesses permanentes e com- século passado pelo par governo mínimo/governo máximo. Para m
plexos da comunidade". 34 fautores do governo mínimo (o minimal state sobre o qual se voltou a
Afirmei que o constitucionalismo representa o desfecho natural da falar com intensidade nos últimos anos), 39 mau governo era o governo
idéia do bom governo fundado na supremacia da lei. De modo análogo,
apenas com a instituição e o exercício da democracia representativa as
~~: ~'.~iACHIAVELLI, Discorsi sopra la prima Deca di Tito l.i11io cit., Ili, 43, pp. 50(i-7 .
• .. p. 10.
32. TH. HOBBES, De cive, XII, 13. 37. S. AMMIRATO, Discorsi su Cornelio Tacito (1574), Pomba, Turim, 1853, 1, 300.
33. A. HAMILTON, J. MADlSON, J. JAY, The Federalist (1788), Carta IX (ed. it.: fl redemlüta, nuva cd. ~:· N. ~ACHJAVELLI, Discorsi, cit. 1, 39, p. 146.
organizada por L. Levi, il Mulino, Bolonha, 1997, p. 183). · Limi~o-me a lembrar o grande debate sobre este tema suscitado pelo livro de R. NOZ!CK, A11r1rchy, St"u itn«
34. lbid., Carta X, p. 190. Utopia, Blackwell, Oxford, 1974 (ed. it.: Anarchia, Stato e utopia, Lt" Monnicr, Flon·n.,a, i 'J8 I ).
que queria governar demais. Se eu precisasse escrever uma história onsiderá-lo uma falta. Não como pode r demasiadamente fo rte que
d esta idéia, a ela op oria como máxima as palavras com que T homas e foca toda voz de liberdade, suprime todo dissenso, regula do alto
~ 5 as coisas - como na lurquia, segundo a expressão icástica de
5
Paine inicia o seu Comnwm Sense (1776): "A sociedade é produ7.ida
pelas nossas necessidades, e o governo, pela nossa maldade .... A Pri- t
Maquiave 1, .. por um pnnc1pe
, . e to dos os outros servos ,.,.,- - , mas, ao
meira protege, o segundo pune". 40 Depois, no nosso século, os papéis ntrário, como um poder d emasiadamente fraco que já não consegue
se inverteram : bom -governo tornou-se cada vez mais o governo máxi- :Otver a miríade de conflitos que laceram a sociedade, e os conflitos
mo, aquele q ue deve ocupar-se do bem-estar dos seus cidadãos e d«i>v" ultiplicam-M:. e-a cwnt.ú.aUt-:u::, L quando se soluciona um, surgem ou-
não apenas administrar a justiça mas tanr8en1 ,:satmuro:s~n1 e.. • ..... li · :os cem, e formam-.-se, com1:> dizem tio1e alguns e::studiosos, governos
um princípio ou critério de justiça distributiva próprio com o objetivo parciais que impedem o governo cent ral de desempenhar sua própria
de equipar ar as fo rtunas ou ao menos redistribuí-las, e mau-governo tividade, de selecionar as questões e de alcançar os fins propostos para
cad a vez m ais passou a ser considerado-0 Estado -que deixa fazer e <k:..... ~da situação, como se, dia após d ia, se tomasse cada vez menos prínci-
passar, tendo sido d enominado - com um termo religioso, como que pe e todos os outros, senhores. 43
para acentuar o juízo negativo - "agnóstico". ' Enquanto por mau governo entendeu-se o arrogante exercício do
Nos últim os anos, os termos-chave da t eoria do governo mudaram pader, o problema fundamental da filosoRa política permaneceu aqu e-
outra vez: não se fala de bom governo e m au governo, tampouco de le dos limites do poder. Mas e se o m au governo consistir não m ais no
governo m áxim o e governo mínimo, m as d e gover nabi lidade e abuso do poder, m as sim no seu não-uso? Q ual será a tarefa da teoria
ingovernabilidade. O problema entrcro ccrm lll'lJrdv' t ll.>:. hv->:.'-'.:. ucUdl~ política? Ret ornar ao governo mínimo? Mas i.s to é possível? Insistir no
cotidianos, sobretudo desde qu e surgiu, em 1975, o relatóno da Co. caminho d o governo máxim o e reforçá-lo? Mas é desejavel? N ão é, a
missão trilateral, La crisi della democrazia, trazendo como subt ítulo primeira, a estrada da renú ncia ao Estad o d o bem -estar, que na Itália é
R apporto sulla governabilità d elle dem ocra zie (R elatório sobre a mal denominad o, quase para denegri-lo, assist e ncial, ao Estado que as-
governa.bilida.de das demo_cracias)-~ 1 _0 prob~ema é conhecid_o: na~ ~o~ie­ . segura a justiça social além da überdad e? Não é a segunda a via que
dades livres, parte da sociedade civil um numero d e questoes dm g1das conduz inevitavelmente ao Estado totalitário, e 1984 est á próximo?
ao sistema político muito superior à capacidade que qualquer sistema São essas as duas perguntas fundamentais do nosso tempo. Bem sei
político tem, m esm o o m ais eficient e, de a elas responder. Daí as ima- que t erminar um discurso com pe rguntas deixa um gosto amargo na
gens d o sistema sobrecarregado q ue emperra, da socieda~e blo~ueada, boca. Mas contínuo acreditando q ue é pre ferível faze r perguntas sérias
ou do homenzinho dos Tempos modernos que segue aflito a linha de a oferecer respostas frívolas. E d e resto não é verdade - mais uma
montagem que avança mais veloz que as suas tenazes, ficando cad~ vez pergunta - que um dos sinais premonitórios da nossa crise é que, não
mais para trás até p erder a luz da razão. Para além da velha antitese obstante o aument o vertiginoso dos nossos conhecimentos, há ainda
entre bom governo e mau governo, revela-se uma nova antítese, talvez demasiadas perguntas às quais não conseguimos oferecer uma respos-
ainda mais dramática, entre governo e não-governo, ent re um timonei- ta? 1àlvez seja capaz de responder apenas quem - permitam-me reto-
ro (un gubernator) que bem ou m al ainéa•~<i o ~ú co:_n ª" -:_-,~ mar as palavras de Max Weber - sentir com paixão, agir com senso de
prias mãos, e um timoneiro ao qual faltam não as boas mtençoes (alias, responsabilidade, enfrentar a prova e o desafio de olhar o futuro com
boas intenções ele t em de sobra) , mas os inst rumentos ad equados para sabedoria e prudência.
continuar a navegação - a bússola, as C"ttr+°'" l' ? "~' .,. •' • .. . .
mar for d e tempestade . Paradoxalmente, o mau governo sem pre foi
considerado um excesso de pod er; hoje, ao cont rário, a tendência é

40. TH. PAINE, Commum Snu• ( 1776) (cd. ll.: li s•11so co1111m•. ln ID., I dirlttl dtll'uomo • alrrl smlli po/lci,
orgonb:ado por T. Mogri, Editori Riuniti, Romo, 1978, P· 6º' 11. 42. MACHIAVEL, O princip., cap. IV.
41 . M. CROZIER, s. P. HUITTINCTON, J. WATANUKI, Thc ..:nsaJ oí ikmocra&y. k1po11 º"
tlte \JUVll•M4U ~r 43. Sabte este tema, v~r a recente a colct5 nc• de co\SllioJ, ~lOS por estudiosos alemães de ciência política, li
o/ DimocraclLs 10 ilte TriJQ./n-al Commission, Ncw York Univ~rsity Press, Novo York, 1975 (td. lt.: An& ' fPWnto debaút. Fonmt t limicí dtUa razlo111J/11d polltlca, De Donato, Bori, 1981, e• ampla introdução dos dois
Mil5o, 1977). ~. C . Donolo e f. Fichcro.