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Pierre Duhem: Um Filósofo do Senso Comum*

[Pierre Duhem: A Common Sense Philosopher]

Fábio Rodrigo Leite **

Resumo: O presente artigo visa a elucidar os fundamentos da me-


todologia científica de Pierre Duhem, realçando alguns aspectos
anti-convencionalistas da mesma. Argumentamos que seu método
ampara-se em noções e princípios provenientes do senso comum. Ini-
cialmente, distinguimos os significados que este conceito assume ao
longo de sua obra, comparando-o com a noção de bom senso, para, em
seguida, justificarmos por que suas críticas a Wilhelm Ostwald, Al-
bert Einstein e Bernhard Riemann, feitas em nome do senso comum,
não envolvem, como alguns importantes estudiosos supuseram, con-
tradição alguma. Por fim, sustentamos que suas publicações tardias,
especialmente A ciência alemã, apesar de resultante do clima intelec-
tual belicoso, deve ser alçada ao mesmo patamar de importância ge-
ralmente atribuído a A teoria física.
Palavras-chave: senso comum, bom senso, metodologia, ciência
alemã, espírito de finura.

Abstract: The present article aims at elucidating the foundations


of Pierre Duhem’s scientific methodology, highlighting some of its
anti-conventional aspects. We argue that his method is based on
common sense notions and principles. After initially distinguishing
the meanings that the concept of common sense assumes throughout
the Duhemian works, comparing them with the notion of good sense,
we try to justify how his criticisms of Wilhelm Ostwald, Albert Eins-
tein and Bernhard Riemann, made in the name of common sense, do
not involve, as some important scholars thought, any contradiction.
Finally, we mantain that his mature publications, especially German
science, though resulting from the bellicose intellectual climate, must
be raised to the same level of importance as The aim and structure of
physical theory.
Keywords: common sense, good sense, methodology, German sci-
ence, intuitive mind.

Introdução: o estado atual do pro- controversas de Pierre Duhem. Es-


blema crito meses após a eclosão da
Grande Guerra, no contexto da fa-
A ciência alemã (1915) é, reco- migerada “guerra dos manifestos”
nhecidamente, uma das obras mais

* O presente artigo é uma versão atualizada e substancialmente remanejada da primeira parte de minha Dis-
sertação de Mestrado, defendida na Universidade de São Paulo em 2007.
** Pós-doutorando em Filosofia das Ciências pela Universidade de São Paulo. E-mail: efferrelle@yahoo.com.br.

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entabulada sobretudo entre inte- do conhecimento vulgar, proveni-


lectuais franceses e alemães (RAS- ente do senso comum, e da física
MUSSEN, 2004), o pequeno livro teórica, reservado ao bom senso dos
chama a atenção pelo estilo elo- especialistas (cf. DUHEM, 1981,
quente, pela preocupação didática e p. 239-248, 269-271), como ele po-
pelo nacionalismo explícito. A oca- deria amparar suas críticas às te-
sião contribuiu para que sua re- orias de tipo alemão em 1915 na-
cepção fosse a melhor possível no quele mesmo senso comum, explo-
cenário acadêmico francês, alcan- rando a ausência dele nas teorias
çando, inclusive, o grande público. de seus vizinhos geográficos? Por
Classificada não por acaso como outras palavras, não estaria o filó-
“literatura de guerra” (cf. STOF- sofo traindo a distinção anterior-
FEL, 2002, p. 253-260), torna-se mente elaborada entre as “leis do
impossível negar o caráter opor- senso comum” e as leis abstratas
tunista da obra (as quatro lições e convencionais da física matemá-
constituintes de A ciência alemã fo- tica, elevando, agora, o conheci-
ram proferidas junto a um grupo mento vulgar ao patamar de cri-
de estudantes católicos da Univer- tério metodológico para a escolha
sidade de Bordeaux que se prepa- das teorias? É um erro, diz-nos
rava para ir ao front de batalha). Maiocchi (1985, p. 230), “susten-
Aspectos externos como esses, as- tar que para Duhem a escolha das
sociados a questões de cunho in- teorias dependa do senso comum”.
terno que logo examinaremos, con- De fato, continua o comentador,
duziram Roberto Maiocchi a de- toda a confusão seria resolvida se
fender a tese da existência de uma se assumisse a hipótese da existên-
contradição entre a metodologia an- cia de “deslize terminológico”, tal-
terior, exposta em A teoria física vez inconsciente, operado em A ci-
(1906), e a “infeliz” metodologia ência alemã. Como nosso autor ou-
posterior, resultante do clima beli- trora defendera que o bom senso
coso, delineada em A ciência alemã. era o apanágio dos cientistas ex-
À primeira vista, a tese do intér- perientes, desenvolvido com a prá-
prete italiano parece convincente, tica constante da ciência, a coerên-
afinal, se antes Duhem havia dis- cia tê-lo-ia obrigado a grafar “bom
tinguido nitidamente os domínios senso” em vez de “senso comum” –

1 “A fonte da confusão frequentemente operada entre ‘bom senso’ e ‘senso comum’ é um escrito de Duhem, o
seu escrito mais infeliz, A ciência alemã. [...] este livrinho ressente-se de modo pesadíssimo do clima bélico, das
exigências da retórica e de um exaltado patriotismo” (MAIOCCHI, 1985, p. 232). E, mais à frente: “Não podemos
tomar as considerações de Duhem sobre o senso comum de A ciência alemã juntamente com a epistemologia de
A teoria [física], porque a epistemologia da primeira é radicalmente diversa daquela da segunda. A ciência alemã

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apenas em nome do bom senso as o qual é o fundamento de


críticas à ciência alemã poderiam toda certeza científica, filo-
1
ser justificadas . sófica e religiosa. Meu livro
Anos depois, Jean-François Stof- sobre a teoria física não tinha
fel intentou dar uma resposta às outro objetivo senão colocar
acusações de Maiocchi. Sua argu- em evidência a verdade cien-
mentação, contudo, resumiu-se a tífica desta tese.
mostrar que a temática naciona-
lista já estava presente desde os en-
saios de juventude do filósofo. Em E ainda:
particular, no artigo “A escola in-
[...] percebi que poderíamos
glesa e as teorias físicas” (1893),
dizer o mesmo sobre todas as
quando o autor distinguia as ca-
ciências, incluindo aquelas
racterísticas das físicas inglesa e
consideradas como as mais
francesa, uma passagem prenun-
rigorosas – a física, a me-
ciaria a cisão, futuramente explo-
cânica e mesmo a geome-
rada, entre franceses e alemães2 .
tria. As fundações de cada
Mas isso é tudo. A resposta de Stof-
um desses edifícios são for-
fel afigura-se-nos deveras insufici-
madas por noções que se
ente, pois ela sequer toca no pro-
tem a pretensão de com-
blema fundamental levantado por
preender, apesar de não se
Maiocchi, referente à questão dos
poder defini-las, de princí-
critérios legítimos para a escolha
pios que se têm por asse-
das hipóteses.
gurados, apesar de não ter-
Problemas reais para o italiano,
mos nenhuma demonstra-
não mencionados por Stoffel, so-
ção deles. Essas noções e es-
brevêm quando atentamos para a
ses princípios são formados
carta endereçada por Duhem a Jo-
pelo bom senso. Sem esta
seph Récamier:
base de bom senso, que de
Creditei meu dever como ci- modo algum é científica, ne-
entista, bem como cristão, a nhuma ciência poderia exis-
fazer-me incessantemente o tir como tal; toda a soli-
apóstolo do senso comum, dez da ciência vem desta

estava provavelmente destinada a ser um infeliz parêntese no percurso duhemiano” (MAIOCCHI, 1985, p. 234).
Duas décadas depois, Maiocchi (2004, p. 511) reiterou sua interpretação, insistindo que A ciência alemã “é o mais
medíocre de todos os escritos de Duhem; [...] que esse escrito é de um nível bem inferior às precedentes produções
duhemianas; [...] que esse texto está em contradição com o que Duhem havia escrito anteriormente”.
2 Ei-la: “Enquanto o físico francês e sobretudo o físico alemão, quando descobrem uma lei nova, comprazem-se
em uní-la aos princípios admitidos, em mostrar que...” (DUHEM, 1893b, p. 370. Itálicos meus. Cf. STOFFEL, 2002,
p. 266, n. 199).

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base. [*] O que há de sur- parece solapar a posição de Maioc-


preendente, então, se ocorrechi, uma vez que nele se afirma que
o mesmo com as noções pri- A teoria física representaria, sur-
meiras e com os primeiros preendentemente, uma defesa do
senso comum. O vigor dessa reori-
princípios da filosofia e da fé?
[**] Se eu não posso definirentação interpretativa (a avaliação
essas noções que me parecem,mesma do seu impacto está fora
entretanto, claras: “corpo”,de questão...) depende, por sua
“alma”, “Deus”, “morte”, vez, da confiança que a carta deve
receber, mormente porque ela pa-
“vida”, “bem”, “mal”, “liber-
dade”, “dever”...; se eu nãorece conflitar com o conteúdo do
posso demonstrar esses jul- livro. Essa confiança foi questi-
gamentos, que me parecem, onada por Stoffel, que levantou a
entretanto, assegurados: “O suspeita de um erro de retranscri-
corpo não pode pensar”; “O ção na carta, propondo que A teoria
mundo não tem em si mesmo física seja lida como uma defesa do
uma razão de sua existên- bom senso. Sem o perceber, o belga
aproxima-se muito mais da posi-
cia”; “Devo fazer o bem e evi-
ção de Maiocchi do que ele mesmo
tar o mal”, mereço ser recom-
pensado no primeiro caso e supõe4 . O “deslize terminológico”
punido no segundo? Nossas que este atribuíra a A ciência alemã
ciências mais certas repou- é renomeado como um “problema
sam sobre fundamentos da terminológico” ou um “problema
mesma natureza que aque- de retranscrição” que aquele iden-
les3 . tifica na carta. Tanto o primeiro
quanto o segundo não estão dis-
De imediato, o primeiro parágrafo postos a ver Duhem como um de-

3 Grifos meus. Hélène Pierre-Duhem afirma que a carta, não datada, fora destinada a Récamier e se perdera
após tê-la recebido por empréstimo do destinatário (PIERRE-DUHEM, 1936, p. 156). Pior: nunca encontramos
uma transcrição integral da missiva. Assim, vimo-nos obrigados a cotejar versões parciais disseminadas entre os
autores mais antigos. Inferimos de saída que sua escrita deve ser posterior a 1906, ano de publicação de A teoria
física. Qualquer informação adicional sobre sua composição torna-se hipotética. De nossa parte, cremos que ela
pode ter sido escrita nos últimos anos da vida de Duhem, a partir de 1914, quando a temática do bom senso e do
senso comum recebe atenção renovada. Utilizamos para a nossa tradução três fontes: PICARD, 1921, p. cxxxvii-iii;
JORDAN, 1917, p. 31-32; PIERRE-DUHEM, 1936, p. 156. O sinal “[*]” indica o fim da parte transcrita por Picard
e o início do trecho traduzido a partir de Jordan; o sinal “[**]” marca o ponto a partir do qual encontramos simila-
ridade entre os registros de Jordan e Hélène. A primeira síntese das partes citadas por Jordan e Picard foi feita por
Mentré (1922a, p. 457-458).
4 “Esse texto [a carta] fundamental coloca imediatamente um problema terminológico que, se dispuséssemos do
texto original, se revelaria possivelmente como um problema de retranscrição: no primeiro extrato citado, Duhem
se refere ao ‘senso comum’, enquanto no segundo, ele evoca o ‘bom senso’. Sendo idêntico o contexto – o funda-
mento de toda a certeza –, há aí um problema de coerência [...]. Ora, esse problema é de importância: antes de
qualificar Duhem de apóstolo do ‘senso comum’, seria preciso se assegurar de que essa leitura é melhor do que
uma outra, que faria dele o apóstolo do ‘bom senso”’ (STOFFEL, 2002, p. 80).

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fensor do senso comum; ambos ne- centa Duhem, a quantidade de hi-


gam de imediato qualquer possi- póteses acessórias assumidas na re-
bilidade de identificação entre os alização do teste é inumerável, de
conceitos de senso comum e bom modo que, em um caso de refu-
senso – quando identificados, o re- tação, diante da inumerabilidade
sultado, indicam os intérpretes, se- inicial, a lógica mostra-se incapaz
ria a incoerência5 . O problema de de determinar qual (ou quais) a
Maiocchi (agora também de Stof- hipótese responsável pelo desvio
fel) permanece sem solução. Que constatado, impedindo, por conse-
Duhem possa ser considerado um guinte, o abandono ou a modifica-
filósofo do senso comum sem pre- ção imediatos da mesma (DUHEM,
juízo da coerência de seu pensa- 1894, p. 187-193; 1981, p. 278-
mento é o que esperamos provar 285). Dada a limitação do po-
nas páginas subsequentes. der decisório da análise lógica, o
encargo da escolha é transferido
a uma faculdade de natureza dis-
Observações sobre os conceitos de
tinta:
bom senso e senso comum em A
teoria física
[...] a pura lógica não é ja-
Uma teses que mais contribuí- mais a única regra de nos-
ram para a influência da epistemo- sos julgamentos; certas opi-
logia duhemiana consiste na afir- niões, que não caem jamais
mação de que na física matemá- sob o golpe do princípio de
tica nenhum resultado experimen- não-contradição, são, toda-
tal pode ser convenientemente in- via, perfeitamente insensa-
terpretado sem o conhecimento de tas; esses motivos que não
outras teorias ou hipóteses acessó- decorrem da lógica e que, en-
rias que auxiliaram o teórico a con- tretanto, dirigem nossa esco-
ceber o próprio experimento. Toda lha, essas razões que a ra-
experiência é feita à luz de teo- zão não conhece, que fa-
rias, necessárias para a sua correta lam ao espírito de finura e
condução. Frequentemente, acres- não ao espírito de geometria,

5 Mentré (1922a, p. 458, n. 1) foi o primeiro a apontar a relação de sinonímia que os conceitos de bom senso e
senso comum exibem na carta, ainda que, acerta ele, isso nem sempre ocorra nos demais escritos do compatriota.
Recentemente, em sua edição eletrônica de A teoria física, Sophie Roux (DUHEM, 2016, p. 116, n. 68) arriscou: a
carta “mostra igualmente que não é preciso enrijecer a distinção entre o senso comum [...] e o bom senso [...] porque
nela os dois termos são empregados como sinônimos”. Lamentavelmente, a editora não esmiúça os termos em que
tal distinção poderia ser flexibilizada, nem pressente a problemática com a qual Maiocchi e Stoffel se debateram.
Ao propormos circunscrever tais conceitos, evitamos nublar a distinção entre eles. Permaneceremos diferenciando-
os quando necessário ou tratando-os indistintamente quando for o caso, aceitando ambas as possibilidades, pois
acreditamos que, quando a identificação ocorre, um terceiro referencial entra em jogo.

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constituem o que se chama não se contradigam no interior de


propriamente o bom senso uma mesma teoria, e; [iii] que as
(DUHEM, 1981, p. 330). consequências deduzidas delas re-
presentem o conjunto das leis ex-
Se a escolha da hipótese a ser perimentais de modo aproximado
abandonada não pode ser levada (DUHEM, 1981, p. 335). Atendi-
a cabo mediante critérios estri- das essas exíguas condições, resta
tamente lógicos, o cientista deve uma liberdade quase absoluta ao
apelar para uma outra qualidade físico, e todo o restante cai sob
quando de suas opções – o bom a competência de seu bom senso.
senso (DUHEM, 1981, p. 329-332). Não nos é difícil ver que Duhem re-
Duhem aproxima o bom senso de duz drasticamente o espaço da ra-
uma espécie de intuição caracterís- zão dedutiva, questionando sua re-
tica do espírito de finura pascali- levância epistemológica. Em suma,
ano, oposta à pura dedução, associ- o bom senso designa um tipo de
ada ao espírito de geometria: “Ora, perspicácia gradualmente esculpida
o espírito de finura, aqui como com o exercício da ciência. Quanto
em toda parte, aguça-se por uma mais complexa for a decisão a ser
longa prática” (DUHEM, 1981, p. tomada, maior a finura requerida
444). É o seu bom senso particu- para a solução adequada. Desigual
lar que, paulatinamente cultivado, entre os teóricos, o bom senso va-
orientará suas escolhas para um riará conforme variar a sua prá-
conjunto mais estreito de hipóte- tica e capacidade de aprender com
ses alvo, preservando a confiança ela. As decisões atinentes ao bom
nas restantes. Toda opção envolve senso demandam amadurecimento
uma aposta, um ato de fé, cujo grau e, se porventura sucedem rapida-
de eficácia indica o grau de bom mente, é porque os condicionan-
senso. O escopo de aplicação do tes para a sua tomada haviam sido
bom senso dá-se no matiz entre o antepostos. Com isso, o profes-
preto e o branco lógicos, sendo ge- sor de Bordeaux consegue expli-
neralíssimo, uma vez que a lógica car as “longas querelas” científicas
imporia pouquíssimas restrições à sem caracterizá-las como ilógicas
escolha das hipóteses, exigindo so- (DUHEM, 1981, p. 330-331), uma
mente que: [i] as hipóteses não vez que o bom senso vê-se subsu-
sejam auto-contraditórias; [ii] que mido em uma instância de raciona-

6 Em uma teoria do método avessa a decisões de cunho algorítmico como a duhemiana, a noção de bom senso ad-
quire papel nevrálgico. Elaboramos um lista com as funções atribuídas a ela em LEITE, 2007, p. 92-93. Desde que
Stump (2007) aproximou-a da variante responsabilista da epistemologia da virtude esposada por Linda Zagzebski,
tal noção passou a receber atenção crescente entre os críticos.

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lidade emergente6 . Um dos corolá- parca precisão que revestem a sua


rios dessa concepção é que o reco- expressão. As leis típicas do senso
nhecimento geral de qual dos la- comum são, pois, incondicionadas e
dos em uma disputa estava acom- irrestritas (DUHEM, 1894, p. 213-
panhado do bom senso é sempre 216)7 . A verdade das leis do senso
feito retrospectivamente, após a in- comum, expressas em linguagem
tensificação do debate, quando as natural, decorre de seu caráter ime-
opiniões especializadas passam a diato, o qual nos dispensa de uma
convergir e formar um consenso. pesquisa detalhada. Não é preciso
Por isso, a tradição é a expressão de ser físico para reconhecer a ver-
uma certa racionalidade. dade das seguintes leis: “Todo ho-
À medida que a aptidão que fa- mem é mortal” e “Antes de ouvir-
culta a tomada de decisões adequa- mos o trovão, vemos o raio brilhar”
das no domínio das teorias é o bom (DUHEM, 1894, p. 213; 1981, p.
senso, no domínio da observação na- 250), ou a falsidade da proposi-
tural, alheia à aplicação de instru- ção: “A Lua está sempre cheia”
mentos científicos, é o senso co- (DUHEM, 1894, p. 216). Nestes ca-
mum que impera. Neste caso, qual- sos, não há, ou não deveria haver,
quer homem que observar pacien- conflito interpretativo – a averi-
temente o rumo das coisas obterá, guação da verdade ou da falsidade
por indução, leis universais cuja ver- de tais juízos é algo fácil, de sorte
dade estaria, desde o início, asse- que todos, com pouco esforço, en-
gurada (DUHEM, 1894, p. 220). trarão em acordo sobre o seu va-
Uma lei do senso comum reconhe- lor de verdade (DUHEM, 1894, p.
cida como verdadeira será “verda- 226). Os termos que as leis do
deira em todos os tempos e sem senso comum conjugam são abstra-
exceção” (DUHEM, 1894, p. 226). ções formadas instintiva e irrefleti-
Tais leis, é Duhem quem o afirma, damente, e sempre encontram um
são absolutas, isto é, não podem referencial na realidade, como um
ter o seu valor de verdade relati- homem, uma morte, um raio ou
vizado no tempo ou no espaço, e um trovão particulares, uma vez
sua certeza resulta da grande ge- que aqueles são o resultado da ex-
neralidade, enorme simplicidade e tração “[d]aquilo que há de geral
nas realidades concretas” submeti-

7 As leis do senso comum são, para Duhem, formadas indutivamente. A conhecida crítica feita pelo francês à
indução distingue-se da crítica de Hume à causação e, da mesma maneira, da crítica lógica de Popper à indução. A
apreciação duhemiana restringe-se à esfera das teorias físicas, as quais seriam formuladas de maneira convencional
(dado o reconhecimento da tese da subdeterminação) a partir das observações, ao passo que a crítica popperiana
atingiria inclusive as leis do senso comum no sentido duhemiano. Para Duhem, o método indutivo permanece
válido no âmbito pré-teórico.

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das aos nossos sentidos (DUHEM, peça é adicionada; é o capi-


1894, p. 213). Inversamente, tal de uma sociedade imensa
certos postulados da teoria física, e prodigiosamente ativa, for-
como o princípio de conservação mada pela união das inte-
de energia, não podem ser verifi- ligências humanas. De sé-
cados diretamente. É impossível, culo em século, esse capi-
por exemplo, encontrar na natu- tal se transforma e aumenta;
reza correlatos para “sistema iso- a essas transformações, a
lado” (DUHEM, 1903, p. 227) ou esse acréscimo de riqueza,
para “espaço absoluto” (DUHEM, a ciência teórica contribui
1909). Do ponto de vista estri- em grande parte (DUHEM,
tamente empírico, estes enuncia- 1981, p. 397).
dos não possuem sentido e exigem,
por isso, convenções e instrumen- Haveria, insiste o francês, uma
tos adequados para se ligarem à ex- difusão do conhecimento teórico,
periência. Até mesmo noções usu- mediado pela conversação, pelo
ais como “massa”, “temperatura” e ensino, livros e jornais, que contri-
“pressão” têm para o físico um sen- buiria para o enriquecimento e re-
tido diverso daquele que lhes con- novação do conhecimento dissemi-
fere o homem comum (DUHEM, nado entre os homens dotados de
1894, p. 214), sendo ininteligí- cultura intelectual. Ao contrário
veis para aquele que não conhece das leis verdadeiras do senso co-
os procedimentos necessários à sua mum, as proposições constituintes
composição. do conhecimento comum tornam-
Mas para além das leis do senso se cambiáveis por se mesclarem a
comum, que de modo algum po- algo não apoiado na observação di-
dem servir de base para a edi- reta e, enquanto tal, ele se apro-
ficação das teorias, dada a sua xima da opinião média compar-
generalidade, existe o aprendi- tilhada em um local e época es-
zado comum, que se soma àquelas pecíficos, sendo passível de ilus-
para formar o conhecimento comum, tração. Ele absorve, à sua ma-
compartilhado por populações ge- neira, os resultados científicos e os
ográfica e historicamente determi- traduz em sua própria linguagem,
nadas. Trata-se do conhecimento não raro transformando inadverti-
adquirido pelos homens mediante damente as hipóteses em dogmas.
o comércio cultural: Em um primeiro momento, o físico
O fundo do senso comum cria uma relação simbólica regida
não é um tesouro enterrado por definições e cálculos precisos
no solo, ao qual nenhuma sem ligação direta com a experiên-
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cia; no segundo, aquela relação vê- fornecidos pelo conhecimento co-


se assimilada pela linguagem vul- mum” (DUHEM, 1981, p. 394).
gar, passando a fazer parte do dis- Acabamos de observar que a
curso leigo. É desse modo que o modificação das hipóteses teóri-
princípio do aumento da entropia cas aceitas em uma época acarreta
transforma-se no princípio da dis- uma alteração no conhecimento
sipação da energia, de cuja formu- comum, na medida em que este é
lação o obscuro termo “entropia” influenciado pelo estado da ciên-
foi eliminado, tornando o enunci- cia que lhe é contemporâneo. Mas
ado menos caviloso. Se bem que há, em Duhem, uma preocupa-
esse processo de tradução estreita ção constante em restringir suas te-
a comunicação entre o homem co- ses epistemológicas à teoria física,
mum e o físico de formação, ele preservando a objetividade do co-
disfarça, prossegue Duhem, a dis- nhecimento pré-teórico (cf. LEITE,
paridade existente entre as lingua- 2016). Lembremo-nos que ele li-
gens teórica e vulgar, visto que o mita a impregnação teórica à expe-
sentido que o termo “energia” ad- riência controlada da física, conser-
quire em uma é muito diverso da- vando incólume a observação bruta
quele assumido na outra. Toda e as leis exclusivamente dela deriva-
analogia entre elas tende a ser me- das. Ao outorgar a verdade às leis
ramente superficial. O esqueci- do senso comum, condicionando-
mento dessa diferença pode con- as à alta generalidade, Duhem se
duzir o físico a pressupor como furta a uma crítica ampla e conse-
fundamental o que não é senão quente da indução9 . Logo, a reno-
derivado, fazendo-o crer que suas vação do senso comum não é total.
proposições possam ter sido extraí- As hipóteses, essencialmente pro-
das diretamente das proposições visórias, não projetam sua efemeri-
do senso comum8 . O físico esta- dade intrínseca sobre aquelas leis,
ria retomando do fundo do conhe- de sorte que estas resguardam sua
cimento comum algo que a ciência fixidez. Gardeil (1910, p. 26-27)
ali depositou, incorrendo em um ressalta com acerto que “a influên-
círculo vicioso. Como Duhem trans- cia das hipóteses científicas não re-
forma esse exemplo em regra ge- troage sobre os dados brutos da ex-
ral, segue-se que “As hipóteses não periência e do senso comum; – os
podem ser deduzidas de axiomas quais permaneceriam intactos”.

8 Este sentido sociológico, por assim dizer, do senso comum é bastante atual. Sua única aparição na obra duhe-
miana dá-se na seção V do último capítulo de A teoria física, intitulado “A escolha das hipóteses”.
9 Para uma tentativa de explicar o empenho duhemiano em restringir suas principais teses epistemológicas à
física teórica, preservando a objetividade do conhecimento pré-teórico, cf. LEITE, 2016.

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Pois bem, pressuposta essa dis- ores detalhes.


tinção entre o domínio do senso co-
mum, o qual inclui o conhecimento
O senso comum na base da meto-
comum, e o da teoria física, Mai-
dologia duhemiana
occhi defende, com razão, que o
senso comum e/ou o conhecimento Ao longo dos textos duhemia-
comum não deve(m) atuar como nos, o termo “lógica” comporta ao
critério(s) para a escolha das hi- menos dois sentidos. Um deles
póteses (concepção que jamais será identifica-se à análise formal das te-
alterada por Duhem). Somente o orias, ao exame que revela o que
bom senso poderia exercer legiti- estas são e, enquanto tal, é não
mamente tal tarefa. No entanto, só descritiva, como permissiva, pois
o que nem ele e nem Stoffel per- que, já o mencionamos, são mí-
ceberam é que, em A ciência alemã nimas as exigências propriamente
(o mesmo vale para a carta anteri- lógicas quando da elaboração da
ormente citada de Duhem a Réca- teoria física. Esta será definida,
mier e para “Algumas reflexões so- então, como um construto com-
bre a ciência alemã”), sempre que posto por grandezas e hipóteses
nosso autor critica as teorias ger- resultantes de um “livre decreto”
mânicas, ele o faz amparado em (DUHEM, 1981, p. 433) do es-
um outro conceito de senso comum, pírito, formuladas na linguagem
ainda que a terminologia dissimule abstrata da matemática, cujo obje-
a alteração. As verdades designa- tivo é fornecer o quadro sinóptico
das pelo “novo” senso comum têm de um conjunto de leis experimen-
natureza intelectual, sendo eviden- tais, permitindo prever os fenô-
tes e imediatas à razão. Elas com- menos (DUHEM, 1892a, p. 139-
poriam, se se quiser, as noções e 148). Desde que essa finalidade
princípios primitivos da natureza seja garantida, o físico pode lan-
humana, e, nesse sentido, estru- çar mão de hipóteses que visam
turariam o conhecimento possível tanto a explicar os fenômenos por
e alicerçariam todo o discurso. E suas causas quanto a representá-
não é só: quando Duhem se refere los fenomenologicamente; também
a essas verdades ele as nomeia in- pode erigir várias teorias incompa-
diferentemente como provenientes tíveis para dar conta de um mesmo
do senso comum e/ou do (simples) conjunto de leis experimentais. A
bom senso, algo que tende a con- lógica que desvela a subdetermina-
fundir os leitores que permanecem ção das teorias pelos dados, eviden-
atrelados ao padrão anterior de A ciando que, ao contrário das leis
teoria física. Vejamos isso com mai- do senso comum, as hipóteses são
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convenções não induzidas da expe- p. 367).


riência, é a mesma que se cala di-
ante da instauração do pluralismo A axiologia duhemiana orienta a
teórico. Nada, do ponto de vista composição de um “método mais
da pura lógica, contrange o físico perfeito”, responsável por dar cabo
à busca de uma teoria unitária de do pluralismo teórico e conduzir
máxima amplitude descritiva. a ciência à sua “perfeita unidade”
O outro sentido do termo “ló- (DUHEM, 1981, p. 152). Oriundo
gica”, menos preciso embora mais de um sentimento natural dotado
importante, remete ao que Duhem de força invencível, esse método é
(1981, p. 498; 1916, p. 150) de- capaz de gerar convicção intensa,
nomina “lógica superior”, a qual se bem que geralmente confusa, à
consiste sobretudo de “pressenti- qual é concedida a ausência de pro-
mentos não analisáveis” (DUHEM, vas ou garantias que não prove-
1981, p. 459), de “razões que a pró- nham de si mesma. O reconhe-
pria razão desconhece”. Ela é di- cimento do poder que o princípio
retiva e restritiva, pois se impõe ao metodológico de unidade interteó-
teórico quando da estipulação do rica tem sobre – todos – os homens
que a teoria deve ser. Entre esses demandaria, persiste Duhem, uma
pressentimentos encontramos o de tomada de consciência, um exame
unidade interteórica: reflexivo que exponha os princí-
É melhor, é mais perfeito pios “claros e evidentes” que guiam
coordenar um conjunto de a sua razão, lançando luz sobre
leis experimentais por meio essa “verdade admitida por todos
de uma teoria única, da sem que seja necessário comentá-
qual todas as partes, logica- la” (DUHEM, 1893b, p. 368).
mente encadeadas, decorrem O desejo de unidade constatado
em uma ordem irrepreensí- em “A escola inglesa e as teorias
vel de um certo número de físicas” tem sua origem revelada
hipóteses fundamentais esta- uma década depois, quando da de-
belecidas de uma vez por to- finição do objeto da teoria física, na
das, do que invocar, para última seção da primeira parte de
classificar essas mesmas leis, A teoria física – trata-se de um “sen-
um grande número de te- timento inato” que, se não pode ser
orias irreconciliáveis funda- justificado, tampouco pode ser evi-
das umas sobre certas hipóte- tado. Em sendo inato, é universal:
ses, outras sobre outras hipó- “Todo físico aspira naturalmente
teses que contradizem as pre- à unidade da ciência” (DUHEM,
cedentes (DUHEM, 1893b, 1981, p. 151). Não por acaso,
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a pior das acusações que se pode ria de cunho metafísico para ga-
fazer a um rival é a que lhe im- rantir aquela unidade. Não é um
puta a pecha de ilogismo. Mesmo objeto eminentemente metafísico que
os físicos negligentes em relação garantirá a realização da unidade in-
à coerência lógica10 compartilha- terteórica mas um sentimento natu-
riam desse sentimento, e se eles ral. Este será, a um só tempo, in-
constroem suas teorias assentadas terno ao sujeito e externo à ciência,
em flagrantes contradições, é, as- precedendo-a. Assim, o problema
sere Duhem, com a esperança de do relativismo não é recolocado.
que estas sejam superadas. Tal ex- Com uma terminologia outra feita
plicação faculta-lhe: em primeiro religiosa, Duhem considera que se
lugar, estimar a aceitação das con- o relativismo teórico não pode ser
tradições como uma moda, irraci- eliminado pela análise lógica, ele
onal e passageira (DUHEM, 1917, seguramente seria “excomungado”
p. 133, 150, 157); em segundo, pelo senso comum:
salvaguardar a ideia de unifica-
ção teórica em concomitância com [...] a ciência seria impo-
a negação de que as teorias se- tente para estabelecer a legi-
jam explicações metafísicas da rea- timidade dos princípios mes-
lidade material. Afinal, a renúncia mos que traçam os seus mé-
à busca da causa última dos fenô- todos e dirigem suas pesqui-
menos legitimaria a construção de sas se ela não recorresse ao
teorias díspares, uma vez que es- senso comum. No fundo de
tas ficariam dispensadas de corres- nossas doutrinas mais clara-
ponder com a ordem essencial do mente enunciadas e mais ri-
mundo externo. Mas se a aspira- gorosamente deduzidas, en-
ção de unidade interteórica é uni- contramos sempre esse con-
versal, ela acaba naturalmente as- junto confuso de tendências,
similada pela metodologia e torna aspirações e intuições. Ne-
supérflua a procura de uma teo- nhuma análise é assaz pene-
trante para separá-las umas

10 A recusa duhemiana do pluralismo teórico é feita no contexto da crítica ao estilo inglês (ou seria melhor dizer,
britânico) de fazer física, visto pelo filósofo como propício à prática da concepção há pouco mais de meio século
alcunhada de instrumentalista. Os ingleses valorizariam sobretudo o potencial heurístico, preditivo, das teorias,
sem preocupação com a sua coordenação lógica, o que explica a presença recorrente de contradições nas teorias
inglesas. Por intermédio de uma análise psicológica, Duhem deriva esse desdenho pela coerência da mentalidade
que os caracteriza: o grande potencial imaginativo, a dificuldade em abstrair e a prodigiosa memória dos ingleses
explicam o emprego de modelos incompatíveis e o descuido pelo rigor lógico. Por assimilar com facilidade diversas
construções teóricas disparatadas e reportá-las sempre a modelos mecânicos, o inglês pode dispensar o fio lógico
que liga as hipóteses em um conjunto harmonioso e simples. Duhem elegeu o escocês Maxwell como o maior ex-
poente da física “inglesa”, e a ele dedicou várias publicações de marcante acidez crítica. Até hoje, a análise mais
detalhada da recepção das teorias de Maxwell na França foi feita por Abrantes (1985).

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das outras, para decompô-las pesquisa física na direção de clas-


em elementos mais simples; sificações cada vez menos artifici-
nenhuma linguagem é sufi- ais, que correspondam com a es-
cientemente precisa e flexí- trutura e a ontologia do mundo
vel para defini-las e formulá- material11 . Essas intuições ou prin-
las; e, entretanto, as verda- cípios são “companheiras insepa-
des que o senso comum nos ráveis”, já que, exceto se se aceitar
revela são tão claras e tão que a realidade com a qual a teo-
certas que não podemos nem ria acabada vier a corresponder seja
desprezá-las nem colocá-las fragmentada, a consecução da clas-
em dúvida. E mais: toda cla- sificação natural demanda a coe-
reza e toda certeza científicas rência teórica (DUHEM, 1981, p.
são um reflexo de sua clareza 335). Em outros termos, na hipó-
e um prolongamento de sua tese de a realidade em si mesma ser
certeza (DUHEM, 1981, p. coesa, a coerência torna-se um pré-
153). requisito para a correspondência.
Ora, assegura-nos Duhem, sabe-
mos naturalmente que “a contradi-
Como na carta a Récamier, Duhem ção não está na realidade, sempre
atribui o fundamento de toda cer- de acordo consigo”, mas nas teorias
teza ao senso comum, mesmo que que a exprimem (DUHEM, 1981,
este não seja passível de uma aná- p. 243). Daí a cogência do princí-
lise lógica totalmente elucidativa. pio de unidade interteórica. Aliás,
São dois os princípios de que o salta aos olhos que, sem o presente
senso comum provê a metodologia par de princípios metodológicos,
duhemiana, quais sejam, o de coe- nenhuma descrição condizente das
rência interteórica, frequentemente críticas duhemianas às ciências in-
utilizado pra criticar os ilogismos glesa e alemã poderia ser produ-
presentes na física inglesa, e o de zida, bem como nenhuma lista dos
classificação natural, que orienta a

11 O ideal de classificação natural é demasiado complexo para ser abordado neste artigo. O acesso à nossa inter-
pretação do mesmo pode ser feito recorrendo a LEITE, 2007, p. 125-229.
12 De um modo geral, o principal critério da metodologia física duhemiana consiste na adequação empírica,
ou seja, na aproximação satisfatória entre as consequências deduzidas das hipóteses inicialmente aceitas e as leis
experimentais a serem “salvas”. Será um êxito adicional se essa adequação se fizer por intermédio de hipóteses
representativas, uma vez que estas são mais seguras e menos sujeitas à alteração, ao contrário das hipóteses expli-
cativas, mais indeterminadas porque mais afastadas dos fenômenos. As hipóteses representativas, por não envolve-
rem especulações baseadas nos mecanismos subjacentes aos fenômenos, têm a vantagem de preservar a autonomia
da física diante dos sistemas cosmológicos que almejam a descobrir as causas últimas daqueles. A abstração ma-
temática deve revestir a forma da teoria, já que ela concorre para o rigor dedutivo, em detrimento da imprecisão
característica dos modelos mecânicos de cariz figurativo. Por outro lado, a predição de fenômenos desconhecidos
era, para Duhem, desejada, mas nunca foi um valor de primeira ordem, e a simplicidade sempre foi vista por ele
como um critério relativo.

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critérios cognitivos elaborados por do convencionalismo popperiano13 .


nosso filósofo poderia reputar-se Começa a ser delineado uma no-
completa12 . ção de senso comum que não se
Sabemos que na Lógica da pes- identifica com a constatação de leis
quisa científica, Popper (1975, p. puramente experimentais ou com a
55-57) considerou a sua metodolo- opinião corrente admitida em um
gia como um jogo regido por certas tempo e em um espaço específicos.
convenções (como a testabilidade), Os princípios de unidade interteó-
as quais determinam o que seria a rica e de classificação natural não
própria ciência empírica. Tais con- são justificados pela lógica pura,
venções seriam irredutíveis a re- como não o são empírica ou his-
gras estritamente lógicas, e com- toricamente. Ele são suportados,
poriam, continua ele, uma teoria em uma palavra, pela natureza hu-
do método distinta daquelas. De- mana: “A natureza sustenta a razão
certo que Duhem aceitaria que as impotente e a impede de extrava-
regras metodológicas distinguem- gar até esse ponto” (PASCAL apud
se daquelas pertencentes à lógica. DUHEM, 1981, p. 154). Eis o sig-
Todavia, não nos é difícil ver, nificado do fragmento pascaliano
agora, que as principais diretrizes com o qual o autor remata a pri-
que guiam sua metodologia não meira parte de A teoria física. Isso
são convenções arbitrárias. Deri- torna defensável a tese de que esta
vados do senso comum, tanto o obra representa realmente uma de-
princípio de unidade interteórica fesa do senso comum. É mediante
quanto o princípio de classifica- as aspirações deste que o objeto da
ção natural são espontâneos, pois teoria é fixado. Quando, no último
que inatos e irresistíveis. O con- parágrafo de Salvar os fenômenos,
vencionalismo metodológico pop- Duhem (1908, p. 140) toma par-
periano contrasta profundamente tido de Kepler e Galileu, susten-
com o que podemos denominar tando que a teoria física deve “sal-
realismo metodológico duhemiano. var ao mesmo tempo todos os fenô-
Se é impossível aproximar Duhem menos do universo inanimado”, é
do pragmatismo heurístico de Poin- exatamente o princípio de unidade
caré, que propunha a importação interteórica que entra em cena. O
do pluralismo teórico para o con- espírito instrumentalista que per-
tinente, também devemos afastá-lo dura por todo o opúsculo cede, ao

13 Passa ao largo das pretensões duhemianas a tentativa de fornecer um critério demarcatório entre ciência e
não-ciência. Este tipo de preocupação não o afetou, de sorte que sua concepção do que seja ciência é pouquíssimo
restritiva. As matemáticas, a história, as físicas experimental e teórica, a química e até a metafísica seriam, para
ele, ciências. Cf. LEITE, 2016, p. 101-102, 106.

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fim, espaço a páginas de pendor sustentáculo para o realismo nos


unificacionista. A conclusão de reduz a um conflito insolúvel, pois
Salvar os fenômenos deve ser lida, o uso duhemiano da história é am-
tal qual a última seção da primeira bíguo, favorecendo ora uma versão
parte de A teoria física, como uma epistemológica do realismo conver-
vitória da natureza sobre a análise gente, ora, contrariando esta, uma
lógica. Aliás, o projeto científico imagem próxima da meta-indução
duhemiano de unificação da física pessimista, quando ele reitera que
sobre as bases da termodinâmica, as teorias desmoronam sucessiva-
que culminou em seu Tratado de mente umas sobre as outras, sendo
energética (1911), seria ininteligí- reconstruídas sobre fundamentos
vel sem o apelo ao senso comum. inteiramente novos, e que “os fí-
Tanto sua metodologia quanto sua sicos se apressam para varrer os
pesquisa científica estribam-se so- seus escombros a fim de ceder o lu-
bre o mesmo terreno. gar a outra teoria, que por sua vez
As observações anteriores têm não se eleva senão para se arrui-
consequências dignas de nota. Se- nar” (DUHEM, 1894, p. 122; cf.
guindo um padrão interpretativo 1903, p. 346; 1981, p. 322). Os-
que favorece a vinculação das pes- cila, portanto, a tentativa de emba-
quisas históricas com a epistemo- sar o realismo duhemiano em sua
logia, Maiocchi (1985), Chiappin descrição histórica/dinâmica da ci-
(1989) e Souza Filho (1996) res- ência. Ademais, como tentei mos-
saltam a função da história da fí- trar em trabalhos prévios (LEITE,
sica como apoio fatual ao realismo 2012, p. 261-388; 2017, p. 151-
duhemiano. O móvel desse rea- 156), a narrativa histórica das mais
lismo seria a – controversa – tese importantes obras historiográficas
da continuidade histórica do desen- do autor não legitima a visão do
volvimento da física, a qual vaticina- mesmo como um defensor do con-
ria uma visão cumulativista do pro- tinuísmo estrito, alheio à existên-
gresso científico. Esse vínculo fun- cia de revoluções cientificas drás-
damenta uma concepção que con- ticas. Penso que o mais seguro
sideramos legítima, a saber, que a ancoradouro do realismo duhemi-
epistemologia de Duhem possa ser ano repousa naquela “ideia da ver-
classificada como “histórica” (cf. dade”, que não carece de garantia
REDONDI, 1978, p. 26; HÜBNER, externa pois que é imediata, natu-
1986, p. 50; BRENNER, 1990, p. ral ao homem. Trocando em miú-
19; MAZAURIC, 2004, p. 99-102; dos, afirmo que a fonte inequívoca
LEITE, 2012, p. 100). Entremen- do realismo de Duhem é a sua axi-
tes, a utilização da história como ologia, derivada do senso comum.

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Tal axiologia determina, por sua 1915, onde o autor opõe-se às geo-
vez, uma metodologia realista, ma- metrias não euclidianas.
nifesta explicitamente nas diretri- Dado que tanto a relatividade
zes metodológicas que correspon- einsteniana quanto a geometria ri-
dem ao princípio de unidade inter- emanniana são expressões epife-
teórica e ao ideal de classificação nomênicas da mentalidade germâ-
natural. Sem tais princípios a física nica, urge adiantarmos algumas
degeneraria no utilitarismo da en- palavras sobre esta. Consoante a
genharia. caracterização duhemiana, o ale-
mão é, antes de tudo, um espí-
Aspectos críticos do senso co- rito forte, dotado de elevado po-
mum: os casos de Einstein, Rie- der de abstração e afeito ao rigor de-
mann e Ostwald dutivo. Seu caráter metódico e me-
cânico revela, diz Duhem, uma es-
Nosso objetivo passa a ser, a par- treiteza de espírito, uma incapaci-
tir de agora, o de dar mostras de dade de tratar de questões que en-
como o senso comum pode decre- volvam muitos princípios. É por
tar a rejeição de teorias sem, con- isso que eles trabalham lenta e pa-
tudo, fornecer princípios ou hipó- cientemente, a conduzir seus pensa-
teses genuinamente teóricos. Para mentos por longas cadeias silogís-
darmos conta desta tarefa, toma- ticas (DUHEM, 1916). Em suas es-
remos inicialmente dois exemplos; peculações filosóficas e científicas,
um será retirado de “Algumas re- o raciocínio discursivo tornar-se-ia o
flexões sobre a ciência alemã”, en- procedimento padrão. No limite,
saio no qual Duhem esforça-se o método mais caro a eles seria o
por patentear os absurdos sobre os “método puramente dedutivo”, tal
quais repousa a teoria da relativi- qual definido por Pascal, e consis-
dade; o segundo, da primeira li- tiria em “definir todos os termos e
ção de A ciência alemã, também de provar todas as proposições” (PAS-

14 Ao dissertar sobre o método geométrico no opúsculo O espírito da geometria, Pascal afirma que a geometria
é incapaz de definir todos os termos e provar todas as proposições. Por outro lado, esta fraqueza é suplantada
pelo auxílio advindo da luz natural, a qual provê o discurso geométrico da certeza dos termos primitivos e das
proposições que servirão de base para as deduções. O verdadeiro procedimento a ser adotado na construção do co-
nhecimento consistiria em saber manter-se nesse meio termo, de nunca definir as coisas claras entendidas por todos
os homens e nunca provar aquelas que são conhecidas naturalmente por eles, definindo e provando todas as de-
mais. Tempo, espaço, movimento, número, são termos que “designam tão naturalmente” as coisas significadas, que
qualquer pretensão de defini-los projetará mais escuridão que instrução sobre eles (PASCAL, 2000, p. 20). Assim, a
geometria deve ser aplicada onde houver espaço para o equívoco semântico, e de modo algum deve se estender aos
termos ou proposições que são objetos do “sentimento natural”. Demonstração e certeza, assevera Pascal, não são
coextensivas – há certezas que são obtidas pelo coração, sem demonstração. Conhecimento certo, por sua vez, não
significa conhecimento logrado por definição, pois há termos incapazes de serem definidos, mas dos quais todos os
homens possuem uma “ideia semelhante”, mesmo que a posse da ideia de uma coisa não assegure o conhecimento
de sua essência.

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CAL, 2000, p. 17; cf. DUHEM, os princípios, e é em vão que


1915b, p. 16; 1981, p. 306)14 . o raciocínio, que deles não
Daí que os alemães ajam como se participa, tenta combatê-los.
o método dedutivo fosse um ideal [...] Pois o conhecimento
a ser perseguido indefinidamente dos princípios, como o da
em todas as disciplinas (DUHEM, existência do espaço, tempo,
1915b, p. 16). Ao localizar o movimento, números, é tão
princípio de certeza no raciocí- firme como nenhum dos pro-
nio discursivo, em prejuízo do co- porcionados pelos nossos ra-
nhecimento intuitivo derivado do ciocínios. E sobre esses co-
senso comum, os alemães subme- nhecimentos do coração e do
teriam a ciência ao perigo da re- instinto é que a razão deve
gressão ao infinito, de sorte que o apoiar-se e basear todo o seu
resultado seria a perda de contato discurso (PASCAL, 1670, p.
com a realidade, de uma base fun- 158-159; citado separada-
damental inamovível. Excessiva- mente em DUHEM, 1915b,
mente dotado em matéria de raci- p. 6 e 15, mas também em p.
ocínio, os alemães intentam elabo- 70-71 e 105)15 .
rar as ciências ao seu modo, desde-
nhando as certezas intuitivas. En- Duhem faz das reflexões pascalia-
tre uma física exageradamente in- nas sobre o espírito da geometria
tuitiva ou exclusivamente dedu- a pedra de toque de sua crítica aos
tiva, eles incorrem no segundo ex- alemães. O respeito pelos ditames
cesso – “só admitir a razão” (PAS- do coração, a fonte dos primeiros
CAL, 1670, p. 49; ABRANTES, princípios, arraiga o conhecimento
1989, p. 42). Reiteradas vezes no solo firme da realidade. Sem
Duhem arroga a autoridade de Pas- o recurso proveniente do senso co-
cal, recontextualizando-a com a in- mum, que sente, convicto, aque-
tenção de impor limites à têmpera les princípios evidentes em si mes-
germânica: mos, o espírito essencialmente ge-
ométrico dos alemães vê-se fadado
Conhecemos a verdade não a operar formalmente. É a simpli-
só pela razão mas também cidade dos axiomas da álgebra, da
pelo coração; é deste úl- geometria, da mecânica e da meta-
timo modo que conhecemos física que contribui para a sua per-

15 As constantes referências duhemianas a Pascal, sobretudo esta que acabamos de destacar, atestam a dificul-
dade da interpretação de Jaki (1984, p. 323), para quem a influência pascaliana na obra duhemiana seria reduzida:
“Duhem nunca foi um intuicionista a ponto de repetir a afirmação de Pascal que ‘todo o nosso raciocínio reduz-se
a ceder ao sentimento”’. Voltaremos a esse ponto à frente.

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feita evidência e certeza, bastando rações, e não que as noções mes-


que nossa atenção se fixe por um mas do senso comum fossem refor-
momento sobre eles para que o seu muladas (DUHEM, 1915a, p. 680).
sentido seja apreendido (DUHEM, Referindo-se às consequências da
1915b, p. 25). Esclareçamos esse relatividade, posteriormente des-
arrazoado. lindadas por Minkowski, Duhem
A crítica mais elaborada à re- afirma:
latividade restrita encontra-se nas
páginas de “Algumas reflexões so- As noções de espaço e de
bre a ciência alemã” (1915), e tempo parecem ser, a to-
concentra-se na explicação einste- dos os homens, independen-
niana dos resultados experimen- tes entre si. A nova física
tais obtidos por Albert Michelson, une-as por um laço indis-
incapazes de detectar o movimento solúvel. [...] Entre a ex-
da Terra através do éter estacio- tensão do caminho percor-
nário. Uma das respostas ante- rido por um corpo móvel
riores, aventada por Hendrik Lo- e a duração desse percurso,
rentz, consistiu em assumir que nossa razão não estabelece
a negativa atestada pelo interferô- nenhuma conexão necessá-
metro devia-se a uma contração ria. Por mais longo que
dos corpos rígidos no sentido lon- um caminho seja, podemos
gitudinal à velocidade. Essa as- imaginar a sua transposição
sunção ad hoc permitia-lhe recon- em um tempo tão pequeno
ciliar a ideia do éter com os expe- quanto o desejarmos. Por
rimentos. Mais audaciososo, Eins- maior que uma velocidade
tein derivou a contração exclusi- seja, sempre podemos con-
vamente do par de postulados de ceber uma velocidade ainda
sua teoria, sem recorrer ao éter maior. (DUHEM, 1915a, p.
imóvel, visto por ele como uma 680. Itálicos meus)
hipótese supérflua. Dispensando
de vez qualquer referencial abso- Como adverte Mentré (1922b, p.
luto, prossegue Duhem, o físico 622), a teoria da relatividade não
alemão subverteu as noções intui- é criticada devido a alguma ina-
tivas do espaço e do tempo forne- dequação empírica ou por supos-
cidas pelo senso comum. A radi- tamente ser incoerente, ou, ainda,
calidade de sua inovação explica-se por ser uma explicação metafísica
porque o resultado do experimento das aparências; ela é censurada
de Michelson implicava que as teo- por contradizer formalmente nos-
rias da óptica passassem por alte- sas evidências imediatas acerca das
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propriedades do tempo e do es- física da referida “velocidade ainda


paço. Não é uma experiência sen- maior”, não é a impossibilidade
sível particular que condena a re- prática da engenharia que Duhem
latividade, mas a “razão” univer- opõe ao princípio da relatividade,
sal, pois que as noções de espaço mas uma impossibilidade lógica:
e tempo são comuns a todos os ho- “Para um defensor do princípio da
mens. Os postulados da “nova relatividade, falar de uma veloci-
física” evidenciariam uma dupla dade maior que a velocidade da
ruptura: a primeira, em relação luz é pronunciar palavras despro-
às teorias anteriores; a segunda, vidas de sentido” (DUHEM, 1915a,
mais grave, em relação ao senso co- p. 681). Com a relatividade, a ve-
mum. Ora, se as teorias são es- locidade da luz deixa de ser um in-
sencialmente falíveis e mutáveis, o finito potencial, ao qual operações
primeiro gênero de ruptura seria intermináveis poderiam fazer o seu
como que esperado. Ao contrá- valor exceder indefinidamente um
rio, a segunda ruptura representa valor dado, para se tornar, se se
muito mais que uma subversão es- quiser, um finito atual. As no-
tritamente científica – ela se arvora ções primitivas do senso comum
em uma subversão contra as certe- são obliteradas pelo espírito exces-
zas imediatamente inteligíveis da sivamente geométrico dos alemães,
“experiência comum”, que todo ho- desejoso de rigor absoluto. Daí
mem pratica desde que deixou a a tendência alemã a ignorar que
infância (DUHEM, 1915a, p. 106- espaço, tempo e movimento são
107). Por extrapolar o campo cien- ideias simples e irredutíveis, incapa-
tífico, esta ruptura carrega no seu zes de definição algébrica. O que
bojo uma temerária conclusão: o a intuição nos revela, diz Duhem,
homem da rua estaria dotado de é que “uma das primeiras ver-
recursos suficientes para recusar dades, anteriores a toda geome-
com propriedade a física relativís- tria, que nós podemos formular
tica! Eis a legítima porta de en- acerca do espaço, é que ele tem
trada do senso comum na metodo- três dimensões” (DUHEM, 1915a,
logia duhemiana16 . p. 666). O desequilíbrio entre a
Mesmo que existam limites prá- intuição e a dedução conduziria os
ticos intransponíveis à realização alemães a fabricarem o seu pró-

16 Se bem que não estejamos diante de um embate que opõe dois conjuntos de hipóteses teóricas, cumpre recordar
que a índole da crítica duhemiana à relatividade não atinge o extremo que, anos depois, caracterizaria a sua con-
denação ideológico-política, difundida sob a forma de panfletos no ambiente acadêmico europeu (cf. BROUZENG,
1987, p. 111-112); também carece de sustento a tese de que o ataque teria sido motivado por um anti-semitismo
enrustido.

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prio espaço, tempo e movimento tica deveria ser o inverso, visando


(DUHEM, 1915a, p. 683), subme- como alvo alguma suposta conexão
tendo os fundamentos da física a entre a nova teoria e o senso co-
uma reconstrução completa. Como mum, e não o apartamento entre
ocorrera com Maxwell, nosso au- estes. Faltou a Agassi notar que o
tor vislumbra em Einstein um es- senso comum que Duhem opõe à
pírito revolucionário e, na “física relatividade tem outra natureza17 .
dos elétrons” de Lorentz, o an- A crítica duhemiana à relati-
damento de uma verdadeira revo- vidade baseia-se no contrassenso
lução (ABRANTES, 1989, p. 44; fundamental tanto de seus prin-
LEITE, 2012, p. 284-285). cípios (o postulado da invariân-
Sabemos que o professor de Bor- cia da velocidade da luz) quanto
deaux descarta a noção de senso de suas consequências (o espaço-
comum calcada na experiência di- tempo quadridimensional de Min-
reta como fundamento das hipóte- kowski). Mas Einstein não é criti-
ses na física. Em A teoria física, ele cado porque sua teoria ocasionou
mostrou que se as proposições teó- uma nova definição do tempo e do
ricas fossem inferidas das observa- espaço, assim como Kant não o foi,
ções cotidianas, a dinâmica atual em A ciência alemã, por conta de
assemelhar-se-ia àquela de Aris- sua definição destes como formas a
tóteles. Deve haver, consequen- priori da percepção, nem Newton,
temente, uma “extrema diferença em Le mouvement absolu et le mou-
de natureza” entre as dinâmicas vement relatif, por causa do trato
peripatética e moderna (DUHEM, absoluto do referido par de concei-
1981, p. 403). Com base em tais tos. A crítica duhemiana ao autor
ponderações, Joseph Agassi (1957, da relatividade justifica-se porque
p. 243) considerou difícil enten- as conclusões logradas por ele con-
der a crítica duhemiana a Einstein tradisseram essas “exigências pri-
justamente porque se as teorias fí- meiras e forçosas de nossa razão”
sicas, com exceção da aristotélica, (DUHEM, 1981, p. 397). Não se
são abstratas e contrárias ao senso trata de reprovar as tentativas de
comum, então o sentido da crí- definição em si mesmas, pois, se

17 A confiarmos em Michel Paty (2003, p. 13), a dualidade concernente ao conceito de senso comum era algo
disseminado no ambiente filosófico-científico: “Os que se opunham à teoria evocavam o senso comum ou o bom
senso, entendidos como a simples razão natural, para levantar-se contra as noções abstratas, teóricas, puramente
matemáticas como a de espaço-tempo da relatividade restrita, ou a de curvatura do espaço da relatividade geral.
Os partidários da teoria de Einstein replicavam evocando um outro senso comum, que se apóia em uma análise mais
crítica dos fenômenos para justificar as novas noções e, sobretudo, para torná-las compreensíveis”. A morte prema-
tura de Duhem, em setembro de 1916, privou-o do conhecimento da relatividade generalizada e das verificações
experimentais subsequentes de maio de 1919 que confirmaram os cálculos de Einstein.

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esse fosse o caso, todos os meta- mento a esta ou àquela escola cos-
físicos seriam condenados. Uma mológica. O mesmo acontece com
das tarefas reservadas por Duhem nosso segundo caso.
ao metafísico consiste na pesquisa Bem como a física relativística,
do significado profundo de ideias e as geometrias não euclidianas não
proposições, buscando apreender a foram objeto de análise nas pu-
sua definição real ou razão de ser. blicações duhemianas anteriores a
O metafísico pode, então, especu- 1915, e é com severidade que o se-
lar sobre a essência do homem, do rão a partir de então. Desde A teo-
corpo, do tempo ou sobre as causas ria física, Duhem (1981, p. 405) ad-
de uma lei natural qualquer, mas jetivava as matemáticas como “ci-
não pode menoscabar os preceitos ências muito excepcionais”, pois,
do senso comum. Por outras pala- ao contrário das ciências experimen-
vras, entre as proposições da meta- tais, a certeza dos seus axiomas
física e do senso comum deve haver é imediata/direta, e prescinde do
harmonia. teste empírico. O modelo das ci-
É precisamente essa harmonia ências do raciocínio escolhido por
que Einstein rompeu ao postular o ele são os Elementos de Euclides.
princípio de invariância da veloci- Duas seriam as etapas da composi-
dade da luz, levando-o a redefinir ção de qualquer geometria: a aqui-
de modo inaceitável as noções de sição dos princípios e a extração de-
espaço e tempo. Entre o espaço- dutiva das conclusões a partir da-
tempo e o senso comum há solu- queles. Os princípios envolvidos
ção de continuidade. Por conse- especificamente na geometria eu-
guinte, carecerá de senso comum clidiana são, no rigor do termo,
não aquele que definir noções cuja axiomas, reconhecidos como verda-
clareza é suficiente no uso ordi- des evidentes pelo senso comum
nário, mas aquele que não enxer- (DUHEM, 1981, p. 404), são pro-
gar o solo seguro das noções in- posições universais, autônomas e
tuitivas e, em decorrência, infrin- “definitivas” (DUHEM, 1915a, p.
gir os preceitos da natureza. As ten- 659-660), que “todo homem são de
tativas de definição do tempo, por espírito sente-se seguro de sua ver-
exemplo, podem introduzir o dis- dade antes de ter estudado a ci-
sensso entre as escolas cosmológi- ência da qual eles serão os funda-
cas, mas disso não se segue estejam mentos” (DUHEM, 1915b, p. 5).
autorizadas a introduzir o contras- Mas para que conclusões verdadei-
senso! O contrassensso, ao contrá- ras sejam atingidas a partir de tais
rio, deve ser compulsoriamente re- princípios, é necessário que a de-
jeitado, independente do pertenci- dução parta de axiomas verdadei-

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ros, uma vez que “a dedução jamais mente deduzidos dos postu-
cria certeza nova; tudo o que ela lados que enuncia. Ela satis-
pode fazer, quando seguiu sem ne- faz, portanto, o espírito geo-
nhuma falha, é transportar às con- métrico. Ela não é uma geo-
sequências a certeza que as premis- metria verdadeira, pois, ao
sas já possuíam” (DUHEM, 1915b, assumir seus postulados, não
p. 15). Por isso, a matematização cuidou para que seus coro-
da física aumenta a clareza desta, lários concordassem em to-
mas não a certeza de suas proposi- dos os pontos com os juí-
ções, sempre hipotéticas. A depen- zos, extraídos da experiên-
dência que a matemática tem do cia, que compõem o nosso co-
senso comum é maior que aquela nhecimento intuitivo do es-
que a física possui, na medida que paço. Por isso, ela repugna
aquela dispensa a comparação com ao senso comum (DUHEM,
a experiência sensível. Se no caso 1915a, p. 668).
da física o senso comum age de
modo restritivo, mas não exclu- Vemos que Duhem permanece
sivo, pois ao teórico ainda resta atrelado a uma concepção “ma-
muita liberdade na escolha de seus terial” dos axiomas, entendidos
princípios, no caso da matemática, como enunciados indubitavel-
ele é determinante. Toda a certeza mente verdadeiros. Não é a va-
da matemática depende do senso co- lidade da geometria que interessa
mum. ao francês, mas a sua verdade18 ,
Para Duhem, ao abandonar o sua correspondência com nossas
quinto postulado de Euclides, a intuições, admitidas como certas
geometria riemanniana, apesar de por todos aqueles que possuírem
aceitável do ponto de vista lógico, a razão sadia (DUHEM, 1915b, p.
torna-se falsa do ponto de vista 11). A mútua independência dos
epistemológico, convertendo-se em axiomas e o impecável rigor de-
um jogo intelectual arbitrário: dutivo são condições necessárias,
mas insuficientes para sua aceita-
A doutrina de Riemann é ção – a concordância dos axiomas
uma álgebra rigorosa, pois e dos corolários deles deduzidos
todos os teoremas que ela com os ensinamentos do senso co-
formula são muito exata- mum é um requisito imprescindí-

18 O consevadorismo matemático de Duhem fez dele uma vítima do “mito de Euclides” (cf. DAVIS; HERSH, 1981,
p. 325), nublando-lhe os sintomas da “crise” atravessada pela matemática no início do século XX (BOUDOT, 1967,
p. 438). É compreensível que ele não tenha tomado parte no debate filosófico instaurado pela crise nas matemáticas.
Nem o formalismo de Hilbert nem o logicismo de Russell e Whitehead chamaram-lhe a atenção.

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vel. De igual modo, na ausência se a justificássemos apelando para


de axiomas chancelados pelo senso o contexto político. A noção de
comum, a geometria riemanniana senso comum como critério avali-
reduz-se a um “exercício mental” ador de teorias resiste à interpre-
(DUHEM, 1915a, p. 123). Tais co- tação consoante a qual Duhem te-
locações põem-nos a par do anti- ria forjado critérios de última hora
convencionalismo duhemiano em para distanciar-se daqueles que,
geometria, e, mais uma vez, da dis- até então, eram colocados por ele
tância que o separa do espírito li- próprio ao seu lado contra os ingle-
beral de um Poincaré. ses19 . Nosso último exemplo será
Resta-nos amenizar, senão evi- retirado de A evolução da mecânica,
tar, a suposição de que o acirra- publicado em 1903.
mento nacionalista suscitado pela É em “A derrota do atomismo
Grande Guerra foi decisivo na con- contemporâneo”20 que Wilhelm
cessão do privilégio epistemoló- Ostwald oferta-nos uma visão mais
gico ao senso comum. Contra os clara das consequências radicais da
ingleses, Duhem emprega uma crí- adoção de seu energetismo. Para o
tica de cunho eminentemente me- professor de Leipzig, as ideias as-
todológico, no anseio de afastar da sociadas à matéria, como a massa, a
física as incoerências resultantes impenetrabilidade e o peso, não pas-
da aplicação de modelos figurati- sariam de manifestações heterogê-
vos. À imaginação potente dos in- neas do único e verdadeiro cons-
gleses o filósofo opõe o poder de tituinte do mundo – a energia –,
abstração de franceses e alemães. a qual assumiria diversas formas
Enganar-nos-íamos em pensar que como, respectivamente, a capa-
a crítica aos alemães, autorizadas cidade para a energia cinética, a
pelo senso comum, estivesse pre- energia de volume, e a energia de
sente unicamente nos textos de posição (cf. OSTWALD, 1973, p.
1915. O engano seria tanto maior 122). Em sendo todos os fenôme-

19 De fato, não precisamos aguardar pelas publicações maduras para entrevermos ataques de mesmo jaez a outros
alemães. Nicolau de Cusa, criticado em A ciência alemã por assumir em seu sistema metafísico o postulado segundo
o qual “Em toda ordem de coisas o máximo é idêntico ao mínimo” (DUHEM, 1915b, p. 21), já fora objeto de censura
no segundo tomo dos Estudos sobre Leonardo da Vinci (1909), quando da defesa do mesmo postulado, descrito como
“a antinomia mais formal que se possa conceber” (DUHEM, 1984, p. 127, cf. 107). Heinrich Hertz, outro alemão,
depreciado em “Algumas reflexões sobre a ciência alemã” como um “algebrista” (DUHEM, 1915a, p. 670), recebera
igual rótulo nas conclusões de As teorias elétricas de J. Clerk Maxwell, por ocasião de sua famigerada definição da
teoria de Maxwell como o conjunto de suas equações. A ideia segundo a qual uma teoria pode preservar o seu
significado mesmo quando reduzida a um conjunto de equações destacadas das regras de correspondência com os
fenômenos foi sobejamente criticada por Duhem em prol do holismo semântico (cf. DUHEM, 1902, p. 222-223;
1915a, p. 676-677). Hertz expressaria, em sua definição, a preferência germânica pelo aspecto sintático das teorias.
20 O ensaio de Ostwald apareceu pela primeira vez no número 21 da Revue générale de sciences pures et appliquées
(15 de novembro de 1895), e tinha originalmente como título: “Le dépassement du matérialisme scientifique”.
Utilizamos uma reprodução mais recente anexada em LECOURT, 1973, p. 113-124.

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nos subordinados ao conceito de prioridade do projeto da energética


energia, a matéria, enquanto cate- é constantemente atribuída a Wil-
goria filosófica, ver-se-ia eliminada liam Rankine por Duhem (1896,
e, com ela, as infindáveis especula- p. 498; 1897, p. vi; 1903, p. 235;
ções sobre a sua estrutura. De que- 1981, p. 73-74; 1911, p. 3; 1917,
bra, desfar-se-ia a dicotomia en- p. 76), o energetismo de Ostwald
tre materialistas e idealistas, bem passa quase em branco em seus
como o antagonismo entre o corpo escritos, o suficiente para termos
e a alma, agora definida como ener- uma ideia de sua austeridade com
gia psíquica. Trocando em miúdos, relação e ele. Causa espécie que
a energia seria a substância última essa atitude negativa não seja jus-
da realidade. Decerto que a posi- tificada por uma concepção que
ção de Ostwald libera a física de visa a manutenção da autonomia
um compromisso com o desvela- da física diante das tentativas de
mento do mecanismo da natureza explicar os fenômenos, reduzindo-
– a máquina do mundo não pre- os a entidades metafísicas – tema
cisaria mais ser construída. En- recorrente em Duhem. Ademais,
tretanto, seu energetismo exclui poderíamos naturalmente esperar
apenas o tipo mecânico de expli- do francês uma crítica de caráter
cação da natureza, já que não se mais técnico, na medida em que, a
furta a considerações metafísicas confiamos em Meyerson (1951, p.
tangenciais, substituindo-o por ou- 401), Ostwald, e os atomistas antes
tra ontologia, como notou Meyer- dele, não conseguira compatibili-
son (1951, p. 400-401): “a energia zar o princípio de Carnot com as
do cientista de Leipzig é um ver- consequências de sua teoria. A crí-
dadeiro ser ontológico, uma coisa tica duhemiana tem natureza di-
em si. Ela existe absolutamente, versa:
independentemente de toda outra No momento de deixarmos
coisa, abrangendo a substância e o a terra firme da mecânica
acidente, o espaço e a causa, sendo tradicional para nos lançar-
ela mesma sua própria causa, causa mos, sobre as asas da ima-
sui, e causando o mundo fenomê- ginação [rêve], à persegui-
nico inteiramente”. Evitando a uti- ção dessa física que situa os
lização das noções de átomo e mo- fenômenos em uma extensão
lécula, a posição de Ostwald paga vazia de matéria, somos to-
com outra moeda o idêntico preço mados pela vertigem. Então,
do reducionismo, transformando- com todas as nossas forças,
se em uma “visão de mundo” (Cf. nos agarramos ao solo firme
DELTETE, 2012, p. 109-110). Se a do senso comum, pois nos-
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sos conhecimentos científi- Tal como contra Einstein em A ci-


cos mais sublimes não têm, ência alemã, as palavras acima ver-
em última análise, outro sam sobre a negligência do quí-
fundamento senão os da- mico para com os ditames do senso
dos do senso comum; se se comum, cuja supressão subtrai os
revoga todas as certezas do fundamentos mais firmes de todo
senso comum, o edifício in- o conhecimento (nenhuma expe-
teiro das verdades científicas riência sensível ou opinião disse-
vacila sobre suas fundações e minada são evocadas). As cer-
desmorona. tezas que não podem ser revo-
gadas transitam no domínio pré-
Persistiremos, pois, a ad- científico. Implícito nessa passa-
mitir que todo movimento gem encontra-se a noção de senso
supõe um móvel, que toda comum como evidência imediata
força viva é a força viva de ao intelecto: é inconcebível o mo-
uma matéria. “Você recebe vimento sem algo que se mova. O
um golpe de bastão”, diz-nos movimento que entretém as trans-
Ostwald; “o que você sente, formações da energia será sempre
o bastão ou a energia?” Ad- o movimento de um móvel, de um
mitimos sentir a energia do substrato – o contrário como que vi-
bastão, mas continuaremos a ola as leis do pensamento. Medi-
concluir disso que existe um ante uma analogia que é somente
bastão portador dessa ener- instigada pelo autor, podemos di-
gia. [...] Permanecere- zer que o movimento está para a
mos aquém das doutrinas se- matéria como o acidente está para
gundo as quais a existên- a substância.
cia substancial de matérias Meyerson expressou um senti-
diversas e maciças torna-se mento de desorientação com seme-
uma ilusão (DUHEM, 1903, lhante crítica a Ostwald22 ; foi ela
p. 179)21 .

21 Mais uma vez, os pressupostos da recusa duhemiana da teoria da migração de energia encontra paralelo em
Pascal, não referenciado na ocasião. Em O espírito da geometria encontramos a seguinte passagem: “Porque não se
pode imaginar movimento sem alguma coisa que se mova” (PASCAL, 2000, p. 25). Duhem utiliza duas formulações
para a sua conclusão: o movimento implica um móvel, e; a força viva implica a matéria. Em virtude da indeter-
minação da natureza do móvel ao qual Pascal se refere na passagem acima, só podemos conjecturar que se trate de
algo material, como em Duhem. Acrescentemos que a segunda edição dos Pensées, diferentemente das edições de
há mais de um século, inclui o termo “matéria” entre os primeiros princípios: “Pois o conhecimento dos primeiros
princípios, como, por exemplo, que há o espaço, o tempo, movimento, número, matéria, é tão firme que nenhum
dos nossos raciocínios podem nos proporcionar” (PASCAL, 1670, p. 159). A ausência do termo em questão na
maioria das edições atuais deve-se provavelmente a um “efeito dominó”, originado dessa omissão tipográfica.
22 “Nossa concepção está muito mais próxima daquela de Duhem, de quem, sobretudo no começo desta ex-
posição, fizemos amplos empréstimos. Entretanto, não estamos muito seguros de termos compreendido a diferença
que este cientista estabelece entre o senso comum e as teorias físicas” (MEYERSON, 1951, p. 435-436).

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também a responsável pela excla- 142)23 . Esse aparente paradoxo po-


mação de Abel Rey: deria ser desfeito de modo simples,
Essa crítica é muito curi- com a introdução de uma distin-
osa sob a pena de Duhem. ção categórica entre a termodinâ-
[...] ele se esforça para cons- mica, teoria abstrata que, de fato,
truir uma física teórica pu- permanecia sem referência à estru-
ramente matemática, logo, tura íntima da matéria, e a (proto-
sem matéria, e faz repousar )ontologia duhemianas, dimanada
esta física sobre os princípios do senso comum. Duhem ofereceu
relativos à energia (REY, a Ostwald uma resposta nos ter-
1930, p. 91, n. 1). mos do colega, deslocando o con-
fronto do terreno teórico para o on-
A nós, já avisados das publicações tológico: contra a ontologia anti-
duhemianas que se seguiram, ela materialista deste, aquele opôs um
não espanta. Mas é compreen- materialismo informe24 , desacom-
sível a hesitação de Rey na pri- panhado de um sistema cosmoló-
meira edição de seu livro (1907), gico. Outrossim, sem a assunção
pois Duhem não havia insistido da realidade da matéria, a própria
na importância metodológica do demarcação entre a física e a cos-
senso comum. O único conceito mologia, esboçada em “Física e me-
de senso comum empregado por tafísica”, ruiria. Neste artigo, tal
ele até então era o que se opu- demarcação é posta nos seguintes
nha à física simbólica. A estupe- termos: “A física é o estudo dos fenô-
fação de Rey diante do vislumbre menos, cuja fonte é a matéria bruta,
da crítica a Ostwald, um presumí- e das leis que os regem. A cosmologia
vel companheiro de batalha con- procura conhecer a natureza da ma-
tra o mecanicismo, foi interpretada téria bruta, considerada como causa
como um recuo no abstracionismo dos fenômenos e como razão de ser
propugnado por Duhem, cuja física das leis físicas” (DUHEM, 1893a, p.
o próprio positivista classificava 58). Física e cosmologia cindem-
como um “formalismo” ou “mate- se após assumirem a existência da
matismo” (REY, 1930, p. 128, 138, matéria e a sua regência por leis fi-

23 Também Maiocchi (1985, p. 6-8, 14, 310) entrevê na exigência de abstração a principal originalidade da meto-
dologia duhemiana. Por isso, a defesa do senso comum lhe parece incompatível com a abstração outrora arrogada
(MAIOCCHI, 1985, p. 233). Ao criticar os alemães, prossegue o comentador, Duhem estaria ressuscitando uma
filosofia pautada pelo fenomenalismo indutivista que ele mesmo recusara desde os escritos iniciais. Daí o caráter
problemático de A ciência alemã. Contudo, é mister notarmos que em nenhum momento o francês critica o excesso
de abstração de seus vizinhos geográficos. O que mina as teorias germânicas não é, em si mesma, a hipertrofia da
capacidade abstrativa, mas, digamo-lo, a desproporção nelas existente entre esta e a capacidade intuitiva.
24 A rigor, a concepção esposada por Duhem é condizente com o dualismo de substâncias, uma vez que o senso
comum imporia a existência de “matérias diversas” sem ser, contudo, estritamente materialista.

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xas. Ambas dependem, por conse- aos especialistas nas decisões deli-
guinte, de noções fornecidas pelo cadas em que nenhuma regra pre-
senso comum25 , e qualquer sistema cisa guia seu espírito. Doravante,
metafísico que negue terminante- cumpre mostrarmos que é possí-
mente aquela existência contradi- vel distinguir dois sentidos de bom
lo-ia. Dado o estatuto ontológico senso: um, tal como o que aparece
privilegiado da noção de matéria em A teoria física, e outro, que se
sobre o conceito artificial e simbó- identifica ao senso comum, e que
lico de energia, Duhem desfaz a in- encontramos aplicado em oportu-
versão operada por Ostwald (1973, nidades como as críticas a Einstein
p. 121), que reduzia a matéria a e a Riemman e na carta a Récamier.
uma ficção, para delegar à energia Brouzeng (1987, p. 110) des-
a qualidade de realidade efetiva. tacou o parco empenho duhemi-
ano em conceituar o senso co-
mum no domínio científico. Com
Observações sobre os conceitos de efeito, afigura-se-nos qualquer
bom senso e senso comum em A coisa como irrealizável o anseio de
ciência alemã coligir uma lista exaustiva das pro-
posições do senso comum semea-
À constatação da polissemia das ao longo de seus textos. Tam-
conceitual do senso comum pre- bém não encontraremos algures
sente em A teoria física seguiu-se uma definição detalhada e inequí-
a evidência de que em um de seus voca da referida noção. Isso não
sentidos ele pode genuina e coe- nos obriga à assunção extremada
rentemente ser eleito critério me- de Jaki (1984, p. 322-323), que
todológico para a seleção de teo- imputou uma “drástica incomple-
rias. Já o bom senso, na mesma tude” à filosofia duhemiana no que
obra, apresenta multiplicidade fun- tange à determinação do paren-
cional e univocidade semântica, ou tesco filosófico da noção de senso
seja, ele desempenha um varie- comum. O pioneirismo do intér-
gado grupo de competências, em- prete húngaro em destacar a im-
bora seja sempre compreendido portância desta para o realismo do
como a perspicácia indispensável

25 Na física duhemiana a matéria entra como termo não definido (cf. DUHEM, 1892b, p. 270-271). A questão
acerca da constituição real da matéria, se contínua ou descontínua, permanece sendo metafísica.
26 Segundo Jaki (1984, p. 319), “O papel do senso comum na filosofia de Duhem é o aspecto mais fundamental,
ainda que amplamente negligenciado e quase invariavelmente mal interpretado”. O comentador destaca que o dis-
curso duhemiano possui uma tonalidade realista que o distancia de Hume, Kant e Mach. Realmente, cremos que,
ao nível pré-teórico, o professor de Bordeaux pode ser considerado um realista ingênuo, crente na existência de
substâncias materiais como entidades individuais independentes do sujeito do conhecimento. Para ele, o homem
está em contato direto com a realidade, a qual não é dissolvida em ideias que mascaram o ser, em representações

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francês não lhe assegurou, quer- servariam plenamente a sua cer-


nos parecer, a melhor das com- teza – o que nos reconduz à carta
preensões26 . Com razão, as po- a Récamier. Como Pascal e Des-
sições de Martin (1991, p. 60) e cartes, nosso autor inspira-se no
Stoffel (2002, p. 342-345; 2007), modelo geométrico de certeza para
que fazem de Duhem um herdeiro fixar os parâmetros que integram
de Pascal, foram alçadas entre as A ciência alemã. Não é à toa que a
mais sólidas nas últimas décadas. primeira lição desta obra tem como
Afinal, não é o próprio Duhem tema as “ciências do raciocínio”, e
(1915b, p. 6) que aponta, a con- é nela que os conceitos de senso co-
tragosto de Jaki, a equivalência en- mum e bom senso aparecem iden-
tre o seu bom senso e o “coração” tificados pelo maior número de ve-
pascaliano quanto à capacidade de zes. Distanciando-se de Descartes,
“perceber intuitivamente a evidên- contudo, Duhem recusa-se a acei-
cia dos axiomas”? E essa mesma tar a distribuição natural igualitá-
capacidade não é concedida igual- ria do bom senso entre os homens:
mente ao senso comum na pri- “Não, não é verdade que a ap-
meira lição de A ciência alemã? Por tidão de discernir intuitivamente
isso, acreditamos que o bom senso o verdadeiro do falso, isto é, o
e o senso comum refiram-se ao que bom senso, tenha, em todos os ho-
o jansenista designou, em O espí- mens, um igual desenvolvimento”
rito da geometria, como luz natu- (DUHEM, 1915b, p. 11). É justa-
ral ou, nos Pensamentos, como cora- mente essa desigualdade que lhe
ção. Desse modo, para Pascal, bem faculta a crítica aos alemães. Mas
como para Duhem, o coração (ou se também este bom senso pode va-
a luz natural) e o bom senso (ou riar como aquele presente em A te-
senso comum) denotam um modo oria física, o que essencialmente os
de conhecimento não discursivo de distingue? Vimos que aquele bom
ideias ou termos primitivos, no vo- senso resulta da prática científica,
cabulário pascaliano, e de noções e de maneira que algum estudo é
princípios, segundo as expressões requerido para o seu incremento.
usadas por Duhem. Todas essas Consequentemente, é por falta de
noções e princípios teriam algo em treino que um cientista particu-
comum: seriam indefiníveis, inde- lar dele carecerá. Ao contrário, o
monstráveis e, nada obstante, con- bom senso enquanto a aptidão para

solipsistas ou em complexos de elementos. Além de nós, Martin (1987, p. 306-307; 1991, p. 81-85) foi o único
a conferir atenção às várias facetas do senso comum no pensamento duhemiano. A despeito da sagacidade que
caracteriza suas análises, os resultados atingidos por ele discrepam dos nossos.

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PIERRE DUHEM: UM FILÓSOFO DO SENSO COMUM

apreender os primeiros princípios alemã. Em algumas oportunidades


e distinguir o verdadeiro do falso é Duhem usa a expressão “simples
espontâneo, e sua ausência indica bom senso” como algo distinto do
uma deficiência mais profunda – espírito de finura. Nos casos em
a má constituição mental. Duhem que isso ocorre, o espírito de fi-
condiciona a percepção dos axio- nura identifica-se à “perfeição do
mas à sanidade psíquica, alçando a bom senso”, enquanto que o sim-
predicação discursiva à universali- ples bom senso seria o correlato de
dade ao referir-se a “todo homem senso comum. Citemos algumas
são [sain] de espírito” (DUHEM, passagens, sem a preocupação de
1915b, p. 5); a “toda razão sa- contextualizá-las, das quais pode-
diamente [sainement] constituída” mos inferir a referida distinção:
(DUHEM, 1915b, p. 71). Uma dé-
1. Assim, privado da luz do senso
cada antes, em A teoria física (1981,
comum e do espírito de finura,
p. 147), ele já defendera que o
a ciência alemã [...] (DUHEM,
desejo natural de coerência inter-
1915b, p. 76).
teórica respondia à “necessidade
de um espírito sadiamente cons- 2. A falta de bom senso e de espí-
tituído”. Ao generalizar-se, o dis- rito de finura é muito comum
curso duhemiano passa a abarcar, nos alemães (DUHEM, 1915b,
com exceções, nações inteiras: o p. 89).
alemão seria menos dotado de bom
3. [. . .] é preciso que o bom senso
senso que o francês.
transcenda-se [se surpasse lui-
O problema com a interpretação
mème], que ele desenvolva
de Jaki não se limita ao tema geral
[pousse] sua força e sua flexi-
da herança conceitual do senso co-
bilidade até seus extremos li-
mum, mas transmuda-se em uma
mites, que ele se torne o que
questão específica atinente à fun-
Pascal nomeava o espírito de fi-
ção exercida pelo bom senso em A
nura (DUHEM, 1915b, p. 29).
ciência alemã. No prefácio à tra-
dução inglesa desta obra, ele sus- 4. Essas são, com efeito, as ca-
tenta a correlação subsequente: “O racterísticas de uma razão na
espírito de finura e o bom senso, qual o espírito de geome-
[...] são uma e a mesma coisa para tria, por causa seu desenvolvi-
Duhem” (JAKI, 1991, p. xix). A mento excessivo, comprimiu o
identificação aventada por Jaki não bom senso e não lhe permitiu
encontra respaldo textual. É fácil expandir-se em espírito de fi-
mostrar que as duas noções pos- nura (DUHEM, 1915b, p. 88).
suem funções diversas em A ciência 5. No desenvolvimento excessivo
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do espírito de geometria, no relação entre o bom senso e o espí-


aborto do espírito de finura e rito de finura: este seria o desen-
mesmo do simples bom senso, volvimento extremo daquele, en-
descobrimos vícios profundos quanto a citação 9 diz o mesmo da
(DUHEM, 1915b, p. 88). relação entre o senso comum e o es-
6. [. . .] esta perfeição do bom pírito de finura. Nos excertos 6 e
senso que é o espírito de finura 7 ocorre a identificação entre a per-
(DUHEM, 1915b, p. 98). feição do bom senso e o espírito de
finura. A perfeição do bom senso, en-
7. Eu saudaria nele [Pasteur] a tão, difere do senso comum e do bom
perfeição do bom senso fran- senso, mas a citação 5 estabelece
cês, um exemplo completo do igualmente uma distinção entre o
espírito de finura (DUHEM, simples bom senso e o espírito de fi-
1915b, p. 98). nura, subjugados pelo desenvolvi-
8. Sem dúvida, o incessante uso mento excessivo do espírito de ge-
do raciocínio matemático não ometria. Assim, simples bom senso,
mudou o caráter experimental bom senso e senso comum são, to-
dessas ciências [a estática, a di- dos, distintos do espírito de finura.
nâmica...]; suas hipóteses não Ora, a passagem 8 concede ao sim-
são princípios dos quais o sim- ples bom senso o poder de confe-
ples bom senso nos dá certeza rir certeza aos princípios das ciên-
plena (DUHEM, 1915b, p. 34). cias não experimentais, enquanto a
9 reserva o mesmo poder ao senso
9. Os axiomas [da geometria]
comum (ambos são indiretamente
condensam neles tudo o que o
relacionados às ciências do raciocí-
senso comum, aguçado em es-
nio). Ao menos no que diz respeito
pírito de finura, pode desco-
à função de garantia de certeza nas
brir de verdadeiro (DUHEM,
ciências do raciocínio, simples bom
1915b, p. 71).
senso e senso comum identificam-
Conjugando as passagens 1 e 2, se e, como vimos, ambos também
vemos que elas não estabelecem são passíveis de se aguçarem em
qualquer relação entre o bom senso espírito de finura. Em suma, é ex-
e o senso comum (e sequer com um clusivamente no contexto de intuição
terceiro termo), conquanto sejam de princípios metodológicos, metafí-
suficientes para diferenciarem am- sicos, morais ou pré-científicos que
bos do espírito de finura. As cita- ocorre a identificação entre os concei-
ções 3 e 4 estabelecem a seguinte tos de (simples) bom senso e senso co-

27 Essa identificação não é exclusividade da carta a Récamier e de A ciência alemã. O neotomista e correspondente

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mum27 . conjunto de proposições ou leis de-


rivadas diretamente da pura obser-
Considerações finais vação empírica, ordinária e pouco
detalhada, e as opiniões que se jun-
Uma análise exegética compre- tam a elas para formar o conhe-
ensiva revela que a obra duhemi- cimento comum, assim como hoje
ana conjuga com coerência ao me- nos referimos à opinião mediana
nos dois conceitos distintos de senso compartilhada por um povo, va-
comum, e que cada um preserva um riável geográfica e temporalmente,
domínio específico de vigência. O portanto, “ilustrável”. Enquanto
primeiro é constituído por aspira- nesta segunda acepção o senso co-
ções, noções e princípios primiti- mum não pode ser utilizado como
vos passíveis de serem apreendidos critério metodológico para a ava-
imediata e intuitivamente, sem ca- liação de teorias, na primeira, de-
rência de demonstração, devido à vido ao seu caráter universal, ele
sua obviedade e simplicidade. Neste necessita ser resguardado. Se o
sentido, o senso comum forma a senso comum não é capaz de indi-
base universal de todo conheci- car positivamente a construção de
mento, seja ele filosófico, religioso, um sistema teórico, ele atua ne-
metafísico, científico, matemático ou gativamente na exclusão daqueles
simplesmente vulgar. A negação que o contrariam. É exatamente a
dos princípios certos deste senso este conceito que Duhem recorre
comum acarreta o absurdo e mina em suas críticas à ciência alemã.
o edifício do conhecimento erigido Por fim, há o bom senso dos espe-
sobre eles. Em muitas oportuni- cialistas, equivalente ao espírito de
dades, este senso comum é nome- finura, variável entre estes porque
ado de modo indistinto como bom decorrente do aprendizado. É ele
senso ou, eventualmente, no caso que predomina na atividade cien-
de A ciência alemã, como simples tífica, guiando a escolha das hipó-
bom senso. O segundo assinala um

de Duhem, cardeal Désiré Mercier (1918, p. 196), definia assim os juízos provenientes do bom senso: “Os julga-
mentos mais ou menos indistintos, que a natureza espontânea, deixada a si mesma, dita à inteligência, chamam-se
verdades de bom senso, de simples bom senso. Como a natureza é a mesma em todos, as verdades de bom senso
chamam-se, com razão, verdades de senso comum”. Conquanto o bom senso seja pouco instrutivo para a formação
dos sistemas filosóficos, ele exigiria, por outro lado, um acordo com os seus primeiros princípios, percebidos com
certeza. Como Duhem, Mercier (1918, p. 197) atribui ao desejo de unidade uma origem inata: “O homem possui no
coração uma necessidade inata de ordem e de unidade” e, em respeito a esta, a verdadeira ciência deve harmonizar-
se com aqueles princípios. O reconhecimento dessa equivalência terminológica já fora feito por Kant (1982, p. 16)
no prefácio aos Prolegômenos, no momento de sua crítica à solução “fácil” ofertada por Thomas Reid e seguidores
à crítica humeana à causalidade. Não creio que Duhem tenha recebido qualquer influência direta da filosofia es-
cocesa do senso comum, visto que ele não reconhece qualquer débito em relação a esta (ele sequer menciona o seu
mais excelso expoente). Ademais, encontramos no pensamento neotomista uma fonte temporal e conceitual mais
próxima dele. Esta nota almeja unicamente a apontar alguns caminhos para futuras pesquisas.

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teses. Porém, por operar em um re- mas o desnudamento dos limites do


cinto intricado para o qual conver- seu convencionalismo.
gem inúmeras soluções possíveis, É certo que as leituras das pu-
ele pode apresentar retardo em seu blicações de maturidade podem ser
afloramento. Este bom senso ja- matizadas; adjetivações mais bran-
mais se identifica ao senso comum. das que a de “contradição”, im-
A sinonímia entre senso comum putada ao francês por Maiocchi,
e bom senso que se dá na carta são encontradas tanto em Brenner
a Récamier e entre senso comum (1990, p. 124)29 , que atribui a
e (simples) bom senso em A ci- Duhem uma “inconstância” carac-
ência alemã não é resultante nem terística, quanto em Martin (1991,
de um erro de transcrição, como p. 80), que opta por realçar uma
supôs Stoffel, nem de uma confu- “mudança de perspectiva” da parte
são conceitual infeliz, como insis- do autor. Acredito ter evidenciado,
tiu Maiocchi. Nos momentos em no que concerne especificamente à
que essa identificação ocorre, o seu noção de senso comum, verdadeiro
referencial conceitual é o mesmo, “pomo da discórdia” entre os espe-
qual seja, os princípios invencíveis cialistas, a existência de uma ên-
que fundamentam todo conheci- fase cronológica crescente outorgada
mento28 . Nada nos autoriza a su- a um de seus sentidos, já empre-
por que Duhem tenha alguma vez gado nas páginas de A evolução da
aceito que a opinião comungada mecânica e de A teoria física. A meu
por leigos pudesse ter sido elevada ver, são justas as palavras de Jor-
a critério metodológico para julgar dan (1917, p. 36) dirigidas a A ci-
teorias. Não houve qualquer tipo ência alemã: “esse livro, nascido da
de recuo em seu abstracionismo, guerra, não se ressente dela”. De

28 A não observância das teses defendidas no presente artigo tem gerado problemas recorrentes de tradução. A
versão inglesa de A ciência alemã vale-se de opções questionáveis. O original sens commun é invariável e corre-
tamente vertido por common sense; já bon sens é ora traduzido por good sense ora por common sense, produzindo
conflitos interpretativos (compare-se DUHEM, 1915b, p. 33-34, 43, 60, 71 e 88, com, respectivamente, DUHEM,
1991b, p. 28, 35, 47, 55 e 67). O tradutor parece, na maioria destes casos, ter adotado a seguinte tática: nas oportu-
nidades em que bon sens aparece sem referência próxima a sens commun, a tradução preferida é common sense; do
contrário, permanece como good sense. Presumimos que essa tática resulte do fato de que a tradução não técnica
mais frequente que bon sens recebe na língua inglesa seja common sense. Outro exemplo pode ser encontrado na
introdução da segunda edição inglesa de A teoria física, escrita por Jules Vuilleman, mas não traduzida por ele,
onde encontramos a passagem conforme a qual Duhem “elege o senso comum [common sense] como o juiz capaz
de decidir quais hipóteses devem ser abandonadas” (DUHEM, 1991a, p. xx). Ao contrário, o corpo do texto, de
tradução mais fiel às teses do filósofo, indica que “O bom senso [good sense] é o juiz das hipóteses que devem ser
abandonadas” (DUHEM, 1991a, p. 216). O original em francês é bons sens, e indica que o debate propriamente
científico é sempre travado entre os físicos em nome do bom senso.
29 As referências de Brenner (1990) a A ciência alemã esgotam-se na página indicada. Em outra publicação, Bren-
ner (2003, p. 169), aproveitando-se de uma citação encontrada na primeira lição de A ciência alemã em que bom
senso e senso comum identificam-se, constatou a proximidade da noção de bom senso de um tipo de intuição
“supra-lógica”, mas negligenciou tanto a problemática conceitual em torno da noção de senso comum como a
distinção traçada entre bom senso e senso comum em A teoria física.

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fato, a crítica aos alemães não se Embora a teoria da ciência duhe-


sucedeu a um rasgo colérico. Nossa miana, no que tange à análise epis-
interpretação tem, inclusive, algu- temológica e ao recurso constante
mas vantagens adicionais. Ela ex- à história da ciência, ainda seja
plica a crítica (esquecida pelos co- atual, sua teoria do conhecimento,
mentadores hodiernos) a Ostwald, em muitos aspectos, permaneceu
a qual confundiu Rey e Meyer- engessada, impedindo a sua ade-
son; explica igualmente a censura são às teorias concorrentes. Ao
a Einstein que estarreceu Agassi e; adotar o apanágio de “apóstolo do
por fim, a obscura passagem ao fi- senso comum”, Duhem coloca-se
nal da primeira parte de A teoria fí- como um defensor de uma “me-
sica, na qual o princípio de unidade todologia perene”, o que explica
interteórica é remetido ao senso co- parcialmente as malogradas con-
mum. Sem o recurso ao senso co- denações proferidas por ele às te-
mum, seria impossível a Duhem fi- orias de Maxwell, à relatividade
xar o objeto mesmo da teoria física, e ao atomismo. Torna-se difícil
recusando a incoerência e o prag- estimar como Duhem poderia ter
matismo da escola inglesa. aceito ideias como o quantum de
Isto posto, algumas conclusões ação de Planck e sua utilização, por
se nos impõem. Não nos parece Einstein, na explicação do efeito
cabível desprezar A ciência alemã fotoelétrico ou, ainda, o modelo
como obra de qualidade inferior, atômico de Bohr (cf. DELTETE;
visto que ela aprofunda sobrema- BRENNER, 2004, p. 225). O
neira tópicos metodológicos ape- mesmo pode ser dito da interpre-
nas esboçados até A teoria física, tação de Copenhage da mecânica
e, se bem que então pouco de- quântica. As reflexões duhemia-
terminados, jamais contraditórios. nas sobre a ciência alemã eviden-
A ciência alemã introduz novas te- ciam que na base de sua sofisticada
ses metodológicas e epistemológi- teoria da ciência repousa uma rudi-
cas, como a crítica às geometrias mentar teoria do conhecimento que
não euclidianas e à relatividade a suporta e restringe. Nem o aco-
restrita. A metodologia duhemi- lhimento do falibilismo científico,
ana não estava acabada, como já se as críticas ao indutivismo teórico,
supôs (MAIOCCHI, 1985, p. 132; ao experimento crucial ou ao apri-
BORDONI, 2012, p. 17; COKO, orismo metafísico, eliminaram por
2015, p. 77), desde os ensaios inau- completo os resquícios de fundaci-
gurais, em sua maioria incorpora- onalismo de sua filosofia. Por suas
dos quando da redação de A teoria aspirações, sua metodologia impul-
física. siona à busca de uma ciência coe-

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rente e realista, contra a escola in- apego à tradição, algo já aventado


glesa; por seus preceitos, ela obriga por Paul Painlevé (1893, p. 10) nos
a ciência a respeitar princípios de- primeiros trabalhos de Duhem e
masiado simplistas, menoscabados reforçado por outros, como Maioc-
nas teorias alemãs. As restrições chi (1985, p. 259) e Ramoni (1989,
metodológicas ora desenvolvidas p. 55). Mas afirmar isso, como se
conduzem-nos reavaliar e minimi- ele agisse como um cientista normal
zar o convencionalismo do autor, na defesa de seu paradigma ter-
tanto em geometria quanto em fí- modinâmico, é permanecer na su-
sica, à medida que, reconhecemo- perfície do problema, negligenci-
lo, não se trata exclusivamente de ando a subjacente metodologia orto-
“salvar as aparências” mediante doxa do senso comum que limita a
quaisquer convenções adequadas sua metodologia teórica refinada. É
para tal fim, mas, também, de evi- do exame das condições de possibi-
tar a construção mesma de teorias lidade de todo conhecimento pos-
que contradigam os preceitos uni- sível, prévio ao debate científico,
versais e primitivos da razão hu- que decorre o conservadorismo de
mana. Sem a meditação destes, nosso filósofo. No senso comum
nenhum discurso abrangente sobre duhemiano, que não é o senso co-
a teoria da ciência de Duhem po- mum renovável, passível de escla-
derá ser erigido. Poder-se-ia pen- recimento, de “idas e voltas”, tudo
sar que essa posição antivanguar- parece deter-se – inclusive a ciên-
dista resultasse de mero conserva- cia.
dorismo ao nível científico, de um

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