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A luta contínua:

sobre a tensão entre autenticidade


e reconhecimento
na filosofia de Charles Taylor

Resumo
Larissa Cristine Daniel A filosofia de Charles Taylor é marcada pela análise das tensões
Gondim constitutivas do self. Uma dessas tensões é descrita pelo autor a
Doutoranda em Filosofia pela
UFSCar. Mestre em Ciências partir da tese de que a autenticidade, como princípio que deter-
Jurídicas e em Filosofia pela mina ‘ser fiel a si mesmo’ e que substancializa o ‘sentimento de
UFPB. Bacharel em Direito e em existência’, deve ser defendida como um ideal moral, ao contrário
Filosofia pela UFPB. Professora
da licenciatura em Filosofia da da tradicional visão solipsista e atomista de autorrealização e auto-
Faculdade São Luis. determinação do indivíduo. Dessa forma, no tocante ao desenvol-
vimento do self e da identidade, ser autêntico deve levar em conta
larissa.gondim@gmail.com
não só a estrutura dialógica da linguagem humana, mas também
Palavras-chave a importância das relações de significado com o Outro. Isso indica
Autenticidade, Reconhecimen- que o fundamento do ideal moral de autenticidade são relações de
to, Charles Taylor.
reconhecimento que, simultaneamente, complementam-se e con-
flitam-se em uma tensão irresolúvel que justifica, em última ins-
tância, a constituição do eu. O objetivo do presente trabalho será,
através da leitura dos textos “A Ética da Autenticidade” e “A Polí-
tica do Reconhecimento”, ambos do filósofo Charles Taylor, anali-
sar de que modo o autor descreve o conflito entre autenticidade e
reconhecimento, para evidenciar que essa tensão é irresolúvel, não
contraditória, constitutiva e indispensável na formação da subje-
tividade. Ao fim, buscar-se-á demonstrar que, a partir da obra de
Taylor, há indícios suficientes para se afirmar que, ao lado da ética
da autenticidade, existe uma ética do reconhecimento, baseada em
princípios morais de reciprocidade e respeito. Dessa forma o argu-
mento da autenticidade como ideal moral também pode ser apli-
cado no tocante ao reconhecimento, de modo que este passa a ser
caracterizado não apenas como um conceito político.

Ao escrever “A Ética da Autenticidade”, Charles Taylor parte de


uma observação acerca do modo de vida contemporâneo. Segundo
o autor, a cultura e a sociedade desse tempo experimentam uma
dupla sensação contraditória: por um lado, é inegável o desenvol-
vimento civilizacional produzido pela tecnologia, entretanto, por
outro lado, esse mesmo desenvolvimento não compreende um nível
“moral”, já que, sob esse aspecto, o que se experiencia é um senti-
mento de declínio ou de perda. A partir dessa consideração, Charles
Taylor passará a analisar o que ele denomina por “três mal-estares
da modernidade” e, quais sejam, a perda do significado, a perda
dos fins e a perda da liberdade.
A partir desses três males, Taylor tentará evidenciar a sua tese de
que autenticidade deve consubstanciar-se em um ideal moral, um
sentimento de existência e fidelidade à si mesmo, sem que isso
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Anais do seminário dos signifique a adoção de uma postura atomista, narcisista ou hedo-
estudantes de pós-graduação nista da subjetividade. Na verdade, a história das ideias políticas
em filosofia da UFSCar
2014 e morais aponta que a adoção dessas formas “imperfeitas” do ser
10a edição autêntico ocasionou problemas profundos que separaram o homem
das suas relações de significado com os outros e com o mundo.
ISSN (Digital): 2358-7334
ISSN (CD-ROM): 2177-0417 A partir dessa perspectiva, caracterizar a autenticidade como um
ideal moral representa, para Taylor, situar o sujeito em sua iden-
tidade linguística dialógica: o homem é um ser inserido em sua
comunidade de fala, e compartilha uma articulação de valores que
estão disseminados no seio de sua tradição. Isso significa que a for-
mação dialógica da identidade é uma das características principais
do self situado e, por esse motivo, as relações de reconhecimento
não só são constitutivas, mas também indispensáveis para a forma-
ção da subjetividade.
Apesar do tema do reconhecimento ter sido tratado na Ética da
Autenticidade, foi só no texto “A Política do Reconhecimento”,
que Taylor discorre com mais precisão sobre seu significado. En-
tretanto, o autor faz isso a partir de uma perspectiva política, que
tenta observar a necessidade do reconhecimento para construção
de regimes políticos inclusivos. Entretanto, Taylor claramente não
opta por uma perspectiva de reconhecimento procedimentalista/
deliberativa, que acredita que o reconhecimento político se traduz
em uma simples ampliação dos mecanismos de escuta popular das
minorias, o famoso direito de participação1. Na verdade, Taylor
pretende construir uma noção política de reconhecimento com
fundamentos éticos, a partir dos conceitos como o de apropriação
e fusão de horizontes. Entretanto, o autor não chega a formular se
seria possível constituir uma ética do reconhecimento, que se con-
substanciaria como elemento dialético que, junto com a ética da
autenticidade, daria início ao processo de tensão constante e neces-
sária para a constituição de um subjetividade moralmente situada.
O objetivo do presente artigo, portanto, é, a partir da leitura de am-
bos os textos do Charles Taylor, bem como de alguns de seus co-
mentadores, propor a possibilidade de formulação de uma tal “Ética
do Reconhecimento”. Se, por um lado, a ética da autenticidade se
traduz no princípio moral de ser fiel a si mesmo, a ética do reco-
nhecimento repousaria no dever moral de reconhecer o outro, dever
este que, além de estar baseado no princípio de reciprocidade, seria
anterior e mais fundamental que o dever de autofidelidade, tendo
em vista que a consciência do ser um “si mesmo” só pode originar-
-se quando e a partir do momento em que se reconhece e se é reco-
nhecido, de modo que ser-em-si também é um ser-no-outro.
A partir de um método dedutivo de análise das obras acima referi-
das, o presente artigo se dividirá em três momentos. O primeiro de-
les terá como objeto a analise do texto “A Ética da Autenticidade”.
O segundo momento terá como objeto a análise do texto “A Políti-
ca do Reconheicmento”. Por fim, a última parte tratará de analisar
a ligação entre as duas obras, bem como tentará evidenciar os fun-
damentos do que aqui se chama de ética do reconhecimento.

1 Sobre essa perspectiva procedimentalista de reconhecimento, vide Anna Elisabetta Gale-


256 otti (2005), Nancy Fraser (2003) e Will Kymlicka (1996).
Anais do seminário dos 1. A ética da autenticidade: pela autenticidade como ideal moral
estudantes de pós-graduação Conforme já foi dito anteriormente, o objetivo do Taylor, nesse tex-
em filosofia da UFSCar
2014 to, é analisar o que ele denomina por males da modernidade. Esses
10a edição males são três: (1) a perda do significado; (2) a perda dos fins; e (3)
a perda da liberdade.
ISSN (Digital): 2358-7334
ISSN (CD-ROM): 2177-0417 A partir do modo como o autor discorre sobre esses três problemas,
fica claro que o segundo e o terceiro mal são consequências do
primeiro mal. Isso acontece por alguns motivos. Primeiramente,
trata-se de uma questão quantitativa, pois Taylor se debruça em
muito mais páginas sobre a temática do primeiro mal do que sobre
os demais. Entretanto isso não é o mais relevante. Na verdade, cada
um dos males, apesar de relacionados, aplica-se a uma dimensão
distinta da vida. O primeiro mal, descrito como “desencantamento
do mundo”, ou “perda da dimensão heroica da vida”, diz respeito
à subjetividade e o modo pelo qual ela é formada e compreendida.
O segundo mal, descrito como “primazia da razão instrumental”,
diz respeito ao mundo, ou melhor, ao modo pelo qual essa subjeti-
vidade desarticulada (descrita pelo primeiro mal) se relaciona com
o mundo e com a tecnologia ao seu redor. Por fim, o terceiro mal,
descrito como “apatia política” e “sentimento de impotência” diz
respeito à política e à vida em sociedade, isto é, o modo pelo qual
aquela subjetividade atomista se relaciona com o político.
Percebe-se, portanto, que cada um dos males da modernidade en-
contra seu ponto em comum na ideia de subjetividade atomista,
narcisista e hedonista. Por esse motivo, Taylor se debruça com
maior largueza a esse primeiro problema, tendo em vista que a
sua resolução traria consequências animadoras para a mudança de
perspectiva acerca dos demais problemas.
É importante destacar também que Taylor não enxerga esses pro-
blemas sob uma ótica pessimista, como se eles fossem o motivo do
ocaso da sociedade contemporânea. Na verdade, o autor aponta que
esses problemas representam uma má fase da autenticidade, ou seja,
um modo não correto de se interpretar esse ideal e que, consequen-
temente, pode ser aprimorado, ou modificado. Segundo Hugo Chelo
as dores experimentadas e as tensões vividas nas nossas socie-
dades não indicam necessariamente uma entidade moribunda,
mas uma crise de crescimento que nos pode conduzir a abis-
mos insondáveis ou pode levar-nos a uma forma de vida mais
livre, consciente e responsável (CHELO, 2009, p.183)

É exatamente por esse otimismo que Taylor, ao escrever o capítulo


“A luta continua”, parafraseando as Brigadas Vermelhas italianas,
afirma que a sociedade é um lugar de batalha em que maiores e
menores liberdades se alternam. Para Taylor, “a natureza de uma
sociedade livre é de que sempre será o lócus de uma batalha entre
formas mais elevadas e mais baixas de liberdade” (TAYLOR, 2011,
p.82). O mesmo acontece com o ideal de autenticidade e a estraté-
gia de responsabilização que o acompanha. “Há perdas e ganhos,
mas acima de tudo, la lotta continua” (TAYLOR, 2011, P.83).
Feitas essas considerações iniciais, passa-se a analisar o que cons-
tituem precisamente cada um desses três males. Como foi dito, o
primeiro mal é a perda do significado. Esse mal encontra sua ori-
257 gem do individualismo da autorrealização e na ideia de relativismo
Anais do seminário dos leve. Para Taylor, o relativismo é baseado em um modo de indivi-
estudantes de pós-graduação dualismo que tem como fundamento um self desarticulado da vida
em filosofia da UFSCar
2014 tradicional, da história, da religião, ou de qualquer horizonte moral
10a edição que ultrapasse a própria subjetividade do agente. Trata-se da ideia
de autodeterminação, isto é, de que cada um tem o direito de se
ISSN (Digital): 2358-7334
ISSN (CD-ROM): 2177-0417 desenvolver da maneira que achar mais valorosa, sem que isso seja
externamente determinado. Esse desenvolvimento é fundamentado
pela liberdade de escolha racional de um agente cuja moralidade é
exclusivamente subjetiva, já que a razão não serve para julgar dis-
putas sobre valores.
O grande problema dessa perspectiva é que ela gera o que Taylor
chama de “desencantamento do mundo”, ou seja, o descrédito pelas
ordens morais que anteriormente davam ao mundo e à vida social
seus significados. A liberdade moderna representava exatamente
a fuga desses ideais morais, o que ocasionou uma autoabsorção
anormal do indivíduo nele mesmo, um estreitamento, um nivela-
mento de significado.
Superar esse problema implica em encontrar, no individualismo,
um ideal moral. Taylor entende por ideal moral uma espécie de
“padrão do que devemos desejar” (TAYLOR, 2011, p.25), o que é im-
portante de se ressaltar porque equipara a estrutura do valor moral
com a estrutura do desejo. Esse padrão moral do individualismo é
justamente a autenticidade, mas não no sentido de autorrealização,
mas sim no sentido de autofidelidade. Por esse motivo, para Taylor
“há um ideal moral poderoso em trabalho aqui, não importa quão
degradada e travestida é possa ser sua expressão. O ideal moral por
trás da autorrealização é o de ser fiel a si mesmo” (2011, p.25).
Entretanto, como é possível ser fiel a si mesmo sem cair em um
atomismo solipsista? Taylor levanta alguns argumentos sobre isso.
Primeiramente, o relativismo é, por si mesmo, um ideal moral base-
ado em um princípio de neutralidade acerca das concepções de vida
boa. Nesse sentido, quando o relativismo afasta do debate público
questões sobre valores, enquadrando-as como fora dos domínios da
racionalidade, ele apenas se afirma como um ideal moral que tem
como objetivo tratar os valores de forma negativa. Nesse sentido,
para Taylor “há algo contraditório e autodestrutivo nessa posição,
já que o próprio relativismo é alimentado (pelo menos em parte) por
um ideal moral. [...] O ideal se reduz ao nível de um axioma, algo
que não se desfia e também nunca se expõe” (2011, p.27).
Secundariamente, não só a autenticidade é um ideal moral, mas
sobre ele pode-se discutir acerca desses ideais. Isso acontece por-
que raciocinar sobre questões morais não é uma tarefa solitária: é
preciso um interlocutor, que também possua ideias acerca da mora-
lidade, e é preciso um ponto moral de partida (TAYLOR, 2011, p.41).
Isso acontece por causa de uma condição essencial e irrefutável
da vida humana, que é a dialogicidade. O modo de definição da
identidade humana só pode ser feita a partir da aquisição de uma
linguagem introduzida pela troca com os outros significativos. Isso
não aduz que a autonomia é impossível: apenas indica que, sobre
questões mundizantes, a autonomia não é suficiente para gerar
significantes. Por esse motivo, segundo Taylor

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Anais do seminário dos Espera-se que nós desenvolvamos nossas próprias opiniões,
estudantes de pós-graduação perspectivas, posições, em relação às coisas, até um grau
em filosofia da UFSCar considerável através da reflexão solitária.. No entanto, não é
2014 assim que as coisas funcionam com as questões importantes,
10a edição tal como a definição de nossa identidade. Nós a definimos
sempre em diálogo, por vezes em conflito, com as identidades
ISSN (Digital): 2358-7334 que nossos outros significativos querem reconhecer em nós
ISSN (CD-ROM): 2177-0417 (TAYLOR, 2011, p.43)

A condição de dialogicidade é uma circunstância de inteligibili-


dade. Por isso, mesmo que seja possível escolher autonomamente
sobre qual valor é melhor ou pior para si mesmo, nunca se escolhe
sobre o nada neutro: é necessário um conjunto de questões morais
relevantes, e essas questões não são monológicas, mas sim coloca-
das a partir de um contexto tradicional, um horizonte de sentido
preexistente à escolha. Esse horizonte é um dado e, para que a
autorrealização e a autoescolha tenha um significado, é preciso
que elas anteriormente se coloquem ao sujeito como uma questão
importante, de modo que, para Taylor, “posso definir minha iden-
tidade apenas em contraste com o conhecimento das coisas que
importam” (2011, p.49).
Por fim, a condição dialógica da vida leva à necessidade de re-
conhecimento. Desse modo, este representa uma das garantias a
partir das quais é possível ser autêntico e fiel a si mesmo sem cair
no atomismo, no narcisismo ou no hedonismo. O reconhecimento
é o modo de relacionamento recíproco que possibilita a vida social.
Ele implica no princípio da equidade, isto é, na ideia de que todos
devem ter as mesmas chances de desenvolver a própria identidade
socialmente. Obviamente isso é um problema para o liberalismo
da neutralidade, entretanto, a partir do momento em que se adota
a perspectiva dialógica, percebe-se que esse problema perde sua
razão de ser em face de um horizonte de sentido compartilhado, o
que representa a superação da noção meramente procedimentalista
de reconhecimento. Para Taylor
Unir-se em um reconhecimento mútuo de diferenças exige que
compartilhemos mais do que a crença nesse princípio [de igual-
dade]; temos que compartilhar também alguns padrões de valor
que as identidades referidas conferem como iguais. Deve haver
um acordo substancial sobre valor, ou então o princípio formal
de igualdade será vazio e uma fraude (TAYLOR, 2011, p.59)

Percebe-se, enfim, que, a partir dessa discussão sobre o primeiro


mal estar da modernidade, qual seja, a perda de sentido, configura-
-se a autenticidade como um ideal moral articulado com horizontes
de sentido tradicionais. Isso siginifica que a autenticidade é, sim,
um ser fiel a si mesmo, mas essa originalidade é reflexiva, tendo
em vista a necessidade do reconhecimento. É, portanto, uma origi-
nalidade que se aliena no outro e retorna para si com consciência
do seu lugar no mundo e na sociedade.
O segundo mal estar da modernidade foi descrito anteriormente
como a perda dos fins ou primazia da razão instrumental. Taylor
define razão instrumental como “o tipo de racionalidade em que
nos baseamos ao calcular a aplicação mais econômica dos meios
para determinados fins. Eficiência máxima, maior custo-benefício,
259 é a sua medida de sucesso” (TAYLOR, 2011, p.15). A primazia da
Anais do seminário dos razão instrumental se deu por diversos motivos. Primeiramente, a
estudantes de pós-graduação noção atomista de subjetividade deu origem a um afastamento da
em filosofia da UFSCar
2014 vida significativa em sociedade. A sociedade industrial, tecnológica
10a edição e burocrática, a necessidade de mobilidade, e a impessoalidade nas
relações são motivos que serviram ao afrouxamento dos laços so-
ISSN (Digital): 2358-7334
ISSN (CD-ROM): 2177-0417 ciais, fazendo o ser humano buscar soluções científicas e tecnológi-
cas para problemas cuja solução necessita, na verdade, de compro-
misso, compreensão e aceitação, valores morais que se perderam
em meio à demanda por máxima produção. Esse mal é responsável
pelo descaso em relação a matérias que possuem relevância con-
junta, como o meio ambiente, a saúde, e a participação política.
O afrouxamento dos laços sociais, é portanto, o princípio do terceiro
e último mal estar da modernidade: a apatia política. Em face do
Mercado e do Estado e, na ausência de horizontes de sentido forte-
mente compartilhados, os cidadãos encontram-se cada vez mais com
uma sensação de desapoderamento em face das questões públicas
e de governo. Taylor parafraseia Weber ao retratar a situação como
uma “jaula de ferro”, uma perda completa da liberdade e a rendição
a um Estado paternalista e burocrático. Cada vez mais os cidadãos
se sentem menos responsáveis pelo destino das decisões políticas,
fechando-se para as satisfações cotidianas da vida privada.
Segundo Taylor, cada um desses males possui uma proposta de
solução específicas. Em relação à perda das finalidades, Taylor pro-
põe o uso tecnológico não apenas em um sentido científico, mas
também em um sentido moral, isto é, com a função de “aliviar a
condição da humanidade” (TAYLOR, 2011, p. 104). A benevolência
do uso da razão instrumental, representa, portanto, a humanização
da tecnologia, ou seja, “a ideia de que a ciência deverá contribuir
para a melhoria da qualidade de vida do ser humano” (FIGUEIRE-
DO, 2009, p. 149).
Por outro lado, o terceiro mal estar, qual seja, a perda da liberdade,
pode ser solucionado a partir da intervenção ativa dos cidadãos na
política. Isso só pode ser realizado quando se supera a fragmen-
tação social, ou seja, quando os cidadãos identificam-se com sua
sociedade política como uma comunidade. É preciso gerar uma
política de resistência como meio de formação da vontade demo-
crática e superação da impotência política.
A partir dessa análise dos três problemas da modernidade, é possí-
vel, enfim, afirmar que a autenticidade como ideal moral represen-
ta um caminho de superação. Mas não se trata de caminho simples
e tranquilo, porque a autenticidade, em si mesma, representa a ten-
são dialética do esforço do humano em transformar-se em um ser
original reflexivamente.

2. A política do reconhecimento:
a articulação de identidades sociais na esfera pública
Em seu texto “A Política do Reconhecimento”, Taylor discute a
questão do reconhecimento a partir do problema do multicultura-
lismo. Segundo o autor, o reconhecimento se dá em duas esferas:
uma íntima, a partir do diálogo e luta contínua do self com os ou-
tros significantes; e uma pública que diz respeito às demandas por
reconhecimento (TAYLOR, 1994, p. 37).
260
Anais do seminário dos Segundo Luís Lóia, existem três acepções cotidianas do termo
estudantes de pós-graduação reconhecimento: (1) reconhecer como identificar características
em filosofia da UFSCar
2014 relevantes; (2) reconhecer como recordar; e (3) reconhecer como
10a edição gratidão, agradecimento (LÓIA, 2009, p.198). Esses sentidos co-
tidianos, segundo Lóia, podem ser relacionados com os diversos
ISSN (Digital): 2358-7334
ISSN (CD-ROM): 2177-0417 significados que o termo reconhecimento assumiu na obra de
Taylor. Por exemplo, o significado (1) pode indicar que no reconhe-
cimento descobrem-se sentidos morais que constituem a identidade
humana. O significado (2) pode representar a ideia de que através
do reconhecimento é possível recordar os valores morais dos hori-
zontes de sentido da época. O significado (3) pode indicar que no
reconhecimento considera-se que há ações que possuem conteúdo
moral digno que promovem a unidade de sentimento do corpo so-
cial (LÓIA, 2009, p.200).
Entretanto, no texto “A Política do Reconhecimento” Taylor propõe
focar-se na questão do reconhecimento na esfera pública, eviden-
ciando seus motivos e significados. Segundo o autor, nas socieda-
des tradicionais, o reconhecimento não era em si um problema, já
que havia lugares e funções sociais predeterminadas para todos. A
dignidade, portanto, era definia a partir da noção de honra e per-
tença. Com o colapso das hierarquias sociais, a democracia inaugu-
ra um modo de organização social baseada no princípio formal da
igualdade. Entretanto, quando esse princípio encontra-se aliado ao
individualismo da autorrealização e ao liberalismo da neutralidade,
surge um sistema de exclusão que Taylor denomina de “cegueira
pública das diferenças”, em que a sociedade política, ao ignorar
as discussões sobre concepções de bem e de vida boa, termina por
gerar uma tendência à homogeneização da diferença que ceifa
qualquer possibilidade de exercício de uma identidade diferenciada
na vida pública.
Existem, portanto, duas políticas em relação à questão da dignida-
de. A política da igualdade, que tem como pressuposto um sentido
de igualdade formal perante a lei, neutra e universal, que se baseia
no princípio da separação entre o público e o privado, no neutra-
lismo e na racionalidade pública. Por outro lado, a política da dife-
rença trata a igualdade em seu sentido material, para proporcionar,
o reconhecimento da diferença e das variadas formas de vida,
incluindo, no debate público, considerações sobre valores e status
sociais que migram do privado para o público, garantindo uma
inclusão a partir das particularidades. De modo geral, ambas po-
líticas procuram proporcionar um sistema político mais inclusivo,
entretanto, a partir de perspectivas opostas. Segundo Taylor,
Onde a política da dignidade universal lutou por formas de
não-discriminação que eram deveras cegas aos modos pelos
quais os cidadãos diferem, a política da diferença muitas vezes
redefine não-discriminação como requisição de que nós faça-
mos essas distinções a base do tratamento diferencial (TAYLOR,
1994, p.39)2

2 A tradução do texto original em inglês é livre. No original: “where the politics of


universal dignity fought for forms of nondiscrimination that where quite ‘blind’ to the
ways in which citizens differ, the politics of difference often redefines nondiscrimination
261 as requiring that we make these distinctions the basis of differential treatment”.
Anais do seminário dos Para Taylor, a principal deficiência da política da igual dignidade
estudantes de pós-graduação é a questão da homogeneização, esta que, por sua vez, tem sua
em filosofia da UFSCar
2014 origem no modo pelo qual essa perspectiva interpreta a questão da
10a edição igualdade perante a lei, bem como ela desconsidera a existência
de fins coletivos compartilhados. O modo formal de se interpretar
ISSN (Digital): 2358-7334
ISSN (CD-ROM): 2177-0417 a igualdade termina gerando um resultado oposto: ao invés da in-
clusão e do pluralismo, o que termina ocorrendo é a submissão dos
traços identitários da maioria sobre a minoria. O pior é que essa
discriminação estaria legitimada institucionalmente por uma ideia
de neutralismo que, segundo Taylor, assim como o relativismo,
também é um padrão moral que trata os valores de forma negativa.
Todavia, a neutralidade ainda é mais devastadora quando represen-
ta a negação da política liberal de se reconhecer como uma tradi-
ção moral e política que possui uma específica concepção de bem.
Segundo Taylor, “o liberalismo não pode nem deve clamar pela
completa neutralidade cultural. Liberalismo também é uma crença
combatente” (TAYLOR, 1994, p.62)3.
A partir da perspectiva da imposição da vontade da maioria sobre
as minorias culturais, legitimadas silenciosamente pelo neutralis-
mo, Taylor passa a se perguntar até que ponto a imposição cultural
é incontornável, ou se se pode considerar que a sobrevivência de
grupos culturais minoritários pode ser transformada em um fim
coletivo. A resposta de Taylor é afirmativa, no sentido de que não
reconhecer a diversidade cultural como um fim coletivo é retornar
à mentalidade imperialista que imprimia a imagem do colonizador
no colonizado, o que, por si só, é uma forma de opressão à autoi-
magem de si mesmo. Ademais, segundo Taylor é preciso manter a
diversidade cultural porque cada cultura que se realizou na História
tem algo a ensinar a humanidade.
Obviamente essa espécie de reconhecimento multicultural não é uma
tarefa simples. Tampouco pode ser realizada a partir de alternativas
puramente procedimentalistas, que tentam enquadrar as minorias em
um direito de participação dentro do quadro geral da política neutra
da maioria. Entretanto, a participação minoritária não terá a mesma
força representativa da maioria, nem será articulada ao mesmo nível,
de modo que ela terá uma voz que não será ouvida.
O procedimentalismo multicultural, portanto, falha ao manter o for-
malismo e o neutralismo. E para superar esse impasse, Taylor pro-
põe o método da fusão de horizontes, originalmente idealizado por
Gadamer, como um meio de ampliação dos horizontes de sentido a
partir da vivência na perspectiva do outro. Reconhecer é colocar-se
no horizonte de sentido do outro, a partir da sua própria linguagem,
ao mesmo tempo em que se amplia o horizonte de sentido próprio.
A fusão de horizontes, portanto, “opera através do nosso desenvol-
vimento de novos vocabulários de comparação, por meio do qual
nos podemos articular esses contrastes” (TAYLOR, 1994, p. 67) 4.
Desse modo, Taylor propõe que, no aspecto político, o reconheci-
mento envolve também uma postura ética de abertura aos signifi-

3 No original: “liberalism can’t and shouldn’t claim complete cultural neutrality. Libera-
lism is also a fighting creed”.
4 No original: “the fusion of horizons operates through our developing new vocabularies
262 of comparison, by means of which we can articulate these contrasts”.
Anais do seminário dos cantes do outro, como um processo em que ambas as partes serão
estudantes de pós-graduação modificadas. Não é uma perspectiva fácil ou aproblemática, entre-
em filosofia da UFSCar
2014 tanto, a eliminação radical do conflito não é um objetivo pretendi-
10a edição do por Taylor, já que, para o autor, esse conflito é o que constitui a
própria identidade e as relações que dela decorrem.
ISSN (Digital): 2358-7334
ISSN (CD-ROM): 2177-0417
3. Ética do reconhecimento e ética da autenticidade:
a tensão constitutiva da subjetividade
A partir da leitura da obra de Taylor, e considerando os argumentos
acima expostos, percebe-se que, tanto a autenticidade quanto o re-
conhecimento são conceitos fundamentais para a filosofia do autor.
Entretanto, acredita-se que entre esses conceitos, existe uma relação
essencial. Na “Ética da Autenticidade”, Taylor afirma o seguinte:
Podemos dizer que a autenticidade (A) envolve: (i) criação e
construção assim como descoberta, (ii) originalidade e, frequen-
temente (iii) oposição às regras da sociedade e mesmo poten-
cialmente ao que reconhecemos como moralidade. Contudo
também é verdade, como vimos, que (B) requer: (i) a abertura
aos horizontes de significado (visto que de outro modo a cria-
ção perde o pano de fundo que pode salvá-la da insignificân-
cia) e (ii) uma autodefinição do diálogo (TAYLOR, 2011, p.73)

Isso significa que o ideal de autenticidade internaliza uma contra-


dição constitutiva: por um lado, ela é impulso criativo e original de
opor-se a regras morais preestabelecidas, ao mesmo tempo em que
requer a abertura dos horizontes de significado a partir do diálogo.
Isso significa que a estrutura dialógica da linguagem humana e os
valores tradicionalmente transmitidos não aprisionam e engessam
a identidade do sujeito no seio de uma determinada comunidade,
como afirmam a maioria dos críticos ao comunitarismo, mas ao
contrário: é justamente ela que possibilita o conjunto inicial de
questões significantes a partir das quais a subjetividade pode na-
vegar e dialogar, alterando-se originariamente a si mesma a partir
das relações com os outros.
Nesse sentido, ao considerar-se que essa necessidade de abertura
dialógica dos horizontes morais consubstancia-se do ato de re-
conhecimento do outro, propriamente dito, então percebe-se que
a construção da identidade representa uma tensão dialética entre
originalidade (autenticidade) e reconhecimento. Entretanto, Taylor
escreve a ética da autenticidade, mas não desenvolve uma respecti-
va ética do reconhecimento. O que ele faz é inauguram um pensa-
mento político à respeito, considerando que o reconhecimento é a
origem mesma da interação social.
Ocorre que no texto “A política do reconhecimento”, Taylor afirma
o seguinte: “O dever de reconhecimento não é apenas uma cortesia
que nós devemos às pessoas. Ele é uma necessidade humana vital”
(TAYLOR, 1994, p.26) 5. Isso significa a possibilidade de se formular
uma ética do reconhecimento a partir da ideia do dever moral de
reconhecer como necessidade recíproca da humanidade no proces-
so de formação histórico dela mesma.

5 No original: “due recognition is not Just a courtesy we owe people. It is a vital human
263 need”.
Anais do seminário dos A ética do reconhecimento, portanto, é uma ética dialógica, mul-
estudantes de pós-graduação tilateral, que tem como fundamente o princípio de reciprocidade
em filosofia da UFSCar
2014 das relações humanas. Ela é necessária em duas medidas: primei-
10a edição ramente como uma etapa dialética do desenvolvimento do self
articulado no mundo e, secundariamente, como primeiro requisito
ISSN (Digital): 2358-7334
ISSN (CD-ROM): 2177-0417 de sociabilidade a partir de um relacionamento moral incipiente.
Ademais, pode-se afirmar, ainda que a ética do reconhecimento é
anterior à ética da autenticidade, tendo em vista que essa necessita
previamente de uma ideia de si que só pode ser adquirida a partir
dos horizontes de sentido dialógicos disponibilizados pela estrutura
do reconhecimento.
Percebe-se, enfim, que a ética da autenticidade, como dever moral
de ser fiel a si mesmo, e a ética do reconhecimento, como dever
moral de reconhecer o outro, são modos inseparáveis do exercício e
constituição da subjetividade, seja em um sentido interno, na vida
privada, seja em um sentido externo, na vida pública.

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Anais do seminário dos Bibliografia
estudantes de pós-graduação
em filosofia da UFSCar
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