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A Reforma da Igreja na Época Moderna1

Ao iniciarmos a abordagem da reforma da Igreja na época moderna, importa


considerar dois aspetos preliminares:
- O conceito de reforma não é unívoco: reforma protestante; reforma católica;
contrarreforma; reformas sectoriais (ordens religiosas, clero…).
- A reforma da Igreja nesta época esta profundamente marcada pelo
encerramento do concílio de Trento (1563), pelo que todos os dinamismos de
reforma têm matizes diferentes quando acontecidos antes ou depois desta
data.

1. Impulsos de reforma antes de Trento


Trento marca um ponto de viragem no sentido da reforma católica. O desabrochar
da reforma já antes se fazia sentir, nas diversas paragens do catolicismo europeu e
também em Portugal, como indiciam os breves elementos que apresentamos
relativamente à vida religiosa, ao clero secular e a espiritualidade.

1.1. Na vida religiosa


A necessidade de reforma da vida religiosa fez-se sentir antes do concílio de
Trento, pelo que, ao longo do século XV e nos inícios do século XVI, várias ordens
religiosas iniciaram ou foram submetidas a processos de reforma, com influxo na
renovação do espírito religioso e da espiritualidade. Noutros casos surgiram novas
congregações religiosas.
Novas congregações religiosas que apareceram entre o século XIV e o século XV:
- A Ordem de Eremitas de São Jerónimo (Jerónimos)2. Os Jerónimos nasceram
em Itália e Espanha. Foram aprovados para Espanha por Gregório XI, em 1373 e
para Portugal por Bonifácio IX em 1400, depois de terem cá chegado através de
Vasco Martins da Cunha, discípulo de Tammasuccio da Folignio, por volta de
1375. Surgiram sob o signo do eremitismo e estavam vocacionados
particularmente para o estudo.
- Os Cónegos seculares de São João Evangelista (Loios), cuja instituição remonta
a 1446, foram criados em Portugal em 1471, por bula de Pio II. Tratando-se de
cónegos seculares estavam mais virados para a ação pastoral.

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Este esquema sintetiza sobretudo Maria de Lurdes CORREIA FERNANDES, Da Reforma da Igreja à Reforma dos
Cristãos: Reformas, Pastoral e Espiritualidade, in HRP, II, 15-38; José Pedro PAIVA, Dioceses e Organização
Eclesiástica, in HRP, II, 187-199; José Pedro PAIVA, Os Mentores, in HRP, II, 201-237; José Pedro PAIVA
Pastoral e Evangelização: as Missões Internas; as Visitas Pastorais, in HRP, II, 239-255; Francisco
BETHENCOURT, A Inquisição, in HRP, II, 95-131; Francisco BETHENCOURT, Inquisição, in DHRP, II, 447-453.
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Remetemos para os seguintes estudos: Cândido DIAS DOS SANTOS, Os Jerónimos em Portugal. Das Origens
aos Fins do Século XVII (=Textos de História 3), Instituto Nacional de Investigação Científica - Centro de
História da Universidade do Porto, 1980; Cândido DIAS DOS SANTOS, Os Monges de S. Jerónimo em Portugal
na Época do Renascimento (= Biblioteca Breve. Série História 90), Instituto de Cultura e Língua Portuguesa,
1984.
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A importância e influência destas ordens religiosas fizeram-se sentir sobretudo em


finais do século XV e início do século XVI, quando com o apoio do rei e da nobreza se
fundaram novas casas de cada uma delas.
Movimentos de reforma nalgumas das ordens religiosas já existentes:
- Franciscanos:
o O primeiro impulso foi dado pelo breve Cum sicut Praefectur Rex de
Alexandre VI a D. Manuel (1501), seguido pelo impulso de D. Leonor
(viúva de D. João II) à fundação do Mosteiro da Madre de Deus de
Xabregas (1509). Aí foram recolhidas religiosas de origem nobre,
criteriosamente escolhidas por D. Leonor, sob a observância da regra de
Santa Clara. O Mosteiro integrou algumas religiosas, incluindo a
abadessa, provindas do Mosteiro de Jesus de Setúbal. Do Mosteiro de
Xabregas saíram posteriormente algumas religiosas para reformarem
outros mosteiros de clarissas.
o D. Manuel também contribuiu para a reforma dos conventos
franciscanos, sobretudo a partir do momento em que Frei Francisco de
Lisboa, presente em Roma no capítulo geral da ordem (1517), trouxe um
breve de Leão X, pedido pelo rei e logo executado, no sentido de
transformar em observantes os conventos de São Francisco de Lisboa,
de Santarém, de Tavira e os mosteiros de Santa Clara de Vila do Conde,
Santarém e Estremoz.
o O estímulo à observância manteve-se e foi intensificado com D. João III e
culminou com a extinção dos claustrais executada pelo cardeal D.
Henrique em 1568.
o Ao longo da primeira metade do século XVI nasceram novas províncias
de observantes, mostrando o apoio de várias famílias nobres ao ramo
mais reformado dos franciscanos: Piedade (1508); Algarves (1533);
Arrábida (capuchos) (1539); Santo António (1568).
- Dominicanos:
o Também nos dominicanos se faziam sentir as disputas entre observantes
e claustrais. Com a vinda de Espanha do visitador e reformador Frei Juan
Hurtado em 1513 criaram-se condições para que a reforma se
estendesse a todos os conventos. Na visita feita aos conventos situados
entre Lisboa e Guimarães, deu-se conta que a vida religiosa não estava
tão relaxada que não pudessem todos unir-se aos observantes, sob a
autoridade dum mesmo prelado. Foi, por isso, eleito nesse ano único
provincial de todos os conventos do reino o Frei João Braga.
o Alguns conventos masculinos e femininos revelaram-se ao longo do
século importantes focos de renovação espiritual e moral. Destacou-se
convento de São Domingos de Benfica que era então um dos mais
reformados e, por isso, mais apto a motivar a observância da regra, a
ascese, as práticas espirituais dos religiosos e dos que neles
encontravam inspiração. Neste convento esteve a partir de 1551 –
provincial em 1556 – Frei Luís de Granada, discípulo de Juan de Ávila.
Também dele saiu por ordem do rei Frei Bartolomeu dos Mártires para
pastorear a arquidiocese de Braga (1559).
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- Agostinhos:
o Deu-se um impulso de reforma dos eremitas de Santo Agostinho na
sequência das desavenças internas para a eleição do provincial (1534).
D. João III solicitou então ao geral a vinda de visitadores, concretizada
nos espanhóis Francisco de Villafranca e Luís de Montoya (1535). O
exemplo de vida, de penitência e de oração marcou a reforma da ordem
em Portugal em meados do século XVI.
o Pelo Convento da Graça em Lisboa passaram figuras marcantes como
Frei Sebastião Toscano, provincial em 1572 e pregador de D. João III e de
Carlos V, autor da Mystica Theologica (1568), assim como Frei Tomé de
Jesus, fundador da reforma dos agostinhos descalços e autor de várias
obras, nomeadamente os editadíssimos Trabalhos de Jesus.
Relativamente às novas formas de vida religiosa nascidas na primeira metade do
século XVI, nomeadamente os chamados clérigos regulares, merece destaque a
implantação em Portugal, com o apoio régio, da Companhia de Jesus:
- Francisco Xavier e de Simão Rodrigues, que pertenciam ao grupo inicial de
Inácio de Loyola, chegaram a Portugal em 1540, devido ás insistências de D.
João III. Xavier partiu para o Oriente no ano seguinte e Rodrigues foi o primeiro
provincial da Companhia em Portugal.
- As primeiras intervenções dos padres jesuítas mostravam empenhamento na
atividade catequética, sacramental e cultural, sobretudo junto dos setores mais
elevados da sociedade.
- A atividade pedagógica da Companhia ficou marcada pela criação de Colégios:
Colégio de Jesus em Coimbra (1542); Colégio do Espírito Santo em Évora
(1551); Colégio de Santo Antão em Lisboa (1553). Foi-lhes também confiado o
Colégio das Artes de Coimbra (1555) e a Universidade de Évora, fundada em
1559.
- A Companhia não parou de crescer nas décadas e séculos seguintes devido à
influência intelectual e pedagógica, à relação entre religião e política com
grande influxo na corte e à atividade missionária dos domínios ultramarinos
portugueses.

1.2. No clero secular e na vida pastoral


Os diversos sínodos de finais do séc. XV e inícios do séc. XVI, de que resultaram as
primeiras constituições sinodais em português, traduzem um empenho na renovação da
vida e da disciplina clerical, da atividade pastoral e da vida cristã e moral dos fiéis. Os
impulsos de reforma procuravam fazer face:
- À falta de disciplina e de cumprimento dos preceitos da Igreja (acumulação de
benefícios; incumprimento dos deveres e funções; hábitos moralmente
incorretos).
- À ignorância generalizada de clérigos e leigos.
Este impulso de renovação fez-se sentir inicialmente graças a D. Fernando da
Guerra, arcebispo de Braga (1417-1467) e a D. Diogo de Sousa, bispo do Porto (1496-
1505) e arcebispo de Braga (1505-1532). Numa linha de reforma emergiram alguns
instrumentos pastorais e outras iniciativas:
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- As constituições sinodais que foram surgindo nas diversas dioceses: Coimbra


(1521; 1548); Viseu (1527); Évora (1534; 1558); Lisboa (1537); Braga (1538);
Porto (1541); Algarve (1554); Angra (1560). O peso destes instrumentos revela
que na primeira metade do século a renovação passou sobretudo pela firmeza
da legislação e da disciplina.
- As sumas dos casos de consciência, que retomavam as sumas medievais em
latim, e os manuais de confissão, em português e espanhol, mais práticos e de
mais fácil uso pelos confessores. A divulgação destas obras mostra que as
medidas institucionais e disciplinares eram insuficientes para a renovação cristã
do clero e dos leigos.
- A insistência na criação de colégios para a formação do clero e o mandato para
publicação de algumas obras, conduzido pelo cardeal D. Henrique como
arcebispo de Évora (1540-1564), com o apoio do Frei Luís de Granada e do Frei
Bartolomeu dos Mártires: a tradução espanhola da Summa Caietana de Tomás
de Vico (1557; 1560); a Cartilha do P. Marcos Jorge mandada distribuir por todo
o reino.
- As medidas tomadas por D. Frei Bartolomeu dos Mártires como arcebispo de
Braga por volta de 1560, antes da última fase de Trento (1562-63) para obrigar
à residência do clero com cura de almas e para melhor o preparar para as
funções pastorais: criação dum seminário no Paço, visita às igrejas do cabido e
do arcebispado, incluindo as da zona do Barroso; estabelecimento de duas
cátedras de Casos de Consciência no Paço; ordem para a tradução em
português e distribuição na diocese da Summa Caietana de Tomás de Vico.
Mesmo se estas medidas só começaram a surtir efeito já mais perto do final do
século, revestiram-se já antes de significado, na medida em que outros as tomaram como
exemplo da reforma que após Trento importava implementar noutras áreas geográficas
ou com mais vigor.

1.3. Na espiritualidade
A compreensão da renovação eclesial também reclama atenção ao peso decisivo
das correntes de espiritualidade e de sentimento religioso que se foram afirmando ao
longo do século XVI através da publicação e leitura de obras de espiritualidade e em
círculos de devotos que congregavam religiosos, clérigos e leigos. Essas correntes
contribuíram para que a renovação ultrapassasse o limiar da legislação canónica ou das
posições disciplinares. Para esta renovação contou a recuperação e atualização de
modelos anteriores de vida espiritual, através da releitura e reinterpretação de obras e
doutrinas dos Padres e Doutores da Igreja, sobretudo São Bernardo e São Boaventura,
mas também de místicas como Santa Gertrudes a Magna e Santa Catarina de Sena ou da
Devotio moderna, nomeadamente a Imitação de Cristo de Tomás de Kempis.
A renovação da espiritualidade até à divulgação dos decretos de Trento, em 1564,
esteve particularmente marcada pelo movimento de observâncias religiosas, traduzido na
reforma das ordens religiosas já referida, que influenciou as correntes de espiritualidade
e de sentimento religioso e as práticas devocionais:
- Servem de exemplo:
o Os círculos espirituais dados à oração mental, à meditação e à
contemplação que se formaram à volta dos dominicanos de Benfica,
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em particular de Frei Luís de Granada (1504-1588), um dos maiores


mestres espirituais em Portugal.
o Os círculos espirituais que floresceram em torno dos agostinhos do
Convento da Graça de Lisboa e dos capuchos da Arrábida, marcados
por uma espiritualidade muito afetiva, que contam entre os seus
membros mais destacados com Francisco de Sousa Tavares, autor do
Livro de doutrina espiritual (1563), e o arcebispo de Goa D. Gaspar de
Leão, autor do Desengano dos Perdidos (1573).
- Estes exemplos provam a persistência da receção e influência de algumas
obras espirituais anteriores, não de mestres medievais como São Bernardo e
São Boaventura, mas também de místicos do norte, como Tauler e Herp,
franceses, como Jean Gerson e Louis de Blois, e espanhóis, como o franciscano
Francisco de Osuna.
Tendo em conta que na primeira metade do século XVI recaía sobre as correntes
de espiritualidade as suspeitas de ambiguidade teológica, a Inquisição encarregou-se de
vigiar as principais figuras e círculos espirituais, em busca de influências erasmistas ou
iluminadas, de que são exemplos respetivamente os processos contra Frei Valentim da
Luz e Isabel Fernandes. Contudo, a maior parte dos textos e figuras espirituais não
causaram suspeita.

2. A divulgação dos decretos de Trento em Portugal


A efetivação da reforma em Portugal no pós-Trento passou prioritariamente pela
divulgação dos decretos conciliares e depois por diversos elementos de caráter disciplinar
e pastoral, assim como pelo perfil e atividade dos diversos quadros eclesiais. A rápida
divulgação dos decretos tridentinos em Portugal contou com dois apoios fundamentais:
- O cardeal D. Henrique que em 1563-64 era regente na menoridade de D.
Sebastião. A ele se deve a ordem de publicação dos decretos e a da sua
execução com o auxílio do braço secular.
- O arcebispo de Braga Bartolomeu dos Mártires, cuja autoridade e exemplo
ultrapassaram os limites do seu arcebispado.
Coube-lhes a promoção de várias edições e traduções dos decretos de modo que
pudessem chegar ao clero, e através dele, a todos os fiéis.
Tais decretos foram apenas um dos suportes da afirmação e divulgação das
determinações tridentinas. Em causa estava também uma mais cuidada formação do
clero e a sua influência mais eficaz junto dos fiéis. Assim, as reformas de ordem legal e
institucional eram apenas uma parte do esforço de reforma que havia de atingir todos os
cristãos, ao nível da frequência dos sacramentos e práticas devocionais e ao nível do
comportamento moral e social. Para tanto foram-se multiplicando outros meios auxiliares
da reforma. Neste quadro emergem particularmente os meios disponibilizados sobretudo
por Bartolomeu dos Mártires:
- Traçou o perfil ideal do pastor no Stimulus Pastorum (1564), com 21 edições, e
escreveu o Compendium Spiritualis Doctrinae, com 10 edições.
- Pôs à disposição de clérigos e leigos o seu Catecismo ou Doutrina Cristã e
Práticas Espirituais (1564) de modo a responder sobretudo à ignorância de uns
e outros. A segunda parte continha breves sermões para as festas de Cristo e
de Nossa senhora. A obra teve imensa repercussão em Portugal, com 15
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edições, e mesmo no estrangeiro. Em Portugal superou de longe o Catecismo


Romano (1566), que o arcebispo de Braga também defendera e cuja primeira
edição portuguesa remonta a 1590.
- Intensificou, apoiado nos decretos de Trento, as medidas pastorais e
catequéticas que vinha ensaiando desde o início do seu episcopado,
nomeadamente a criação do Seminário, a visita à diocese, o sínodo diocesano
(1564) em que publicou os decretos, e o concílio provincial (1566).

3. Elementos de reforma disciplinar, espiritual e pastoral


Após o concílio de Trento aumentaram as medidas disciplinares e pastorais
tendentes a melhorar a preparação e a ação pastoral do clero, como a criação de
seminários e a valorização da formação teológico-canónica. Não diminuíram, porém, a
consciência e as acusações de ignorância que provinham da fase anterior. Uma vez mais
se pode dizer que não bastavam as medidas legislativas, se as mesmas não fossem depois
devidamente implantadas. Interessantes são neste sentido algumas obras de caráter
espiritual e pastoral:
- A Regra de Sacerdotes de António Madeira (1603), escrita com o objetivo de
convencer os presbíteros a se conformarem às regras a que estão obrigados.
Deteve-se a definir as categorias, dignidade, atribuições e funções do estado
sacerdotal, apelando aos presbíteros para que levem uma vida consentânea.
- O Motivos Espirituais de Frei Rodrigo de Deus (1611), com várias edições ao
longo do século procurou também exaltar a dignidade do sacerdócio, no
quadro das suas reflexões sobre o Santíssimo Sacramento e a comunhão
frequente.
- O Pároco Perfeito de António Moreira Camelo (1675) procurou refletir sobre os
ofícios e deveres pastorais dos párocos.
- A divulgação de obras de teologia moral que acompanhavam a valorização da
confissão.
A legislação canónica foi valorizando cada vez mais a prática da confissão, unida ao
exame de consciência, a partir das normas emanadas de Trento e assumidas pelo
Catecismo Romano:
- A valorização do sacramento da Penitência andava também unida a iniciativas
de formação e aferição dos conhecimentos dos fiéis como é notório nas
Constituições Sinodais do Porto (1585) de Frei Marcos de Lisboa (1581-1591),
em que se mandava «aos Abades, Reitores e Curas das igrejas, e aos mais
confessores, de qualquer qualidade, e condição que sejam, que antes que
ouçam de confissão qualquer pessoa, que se a eles quiser confessar, lhe
perguntem se sabem a doutrina cristã, e ao menos, a oração do Pater noster, e
Ave Maria, e o Credo, e os mandamentos da lei de Deus, e da Igreja, e se traz
bem examinada sua consciência, e cuidados seus pecados […]: e achando-se
que não sabe as coisas acima ditas, ou que está compreendido em algum dos
ditos casos o admoeste, e não estando em perigo de morte, lhe dilate a
confissão por alguns dias, em que se possa emendar, e admitir ao sacramento
da penitência […] ensinando-lhe orações que reze cada dia, e outras coisas que
para isto podem ajudar como são lição de bons livros, ouvir Missa, esmolas,
jejuns, e outras asperezas corporais, e sobretudo, fugir das ocasiões de pecado,
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o que muito recomendamos a todos os confessores cumpram inteiramente,


pois vemos que os penitentes, pela maior parte, vão absolvidos, sem haver
neles emenda».
- O ensino da catequese e a pratica da confissão frequente acompanhada de
cuidado exame de consciência marcavam as prioridades pastorais da época
como prova a complementaridade das obras de Manuel Goes de Vasconcelos
Caminho Espiritual das Almas Cristãs (1613) e Exame de Consciência e Ordem
para os Penitentes se Confessarem bem de Seus Pecados (1615), num
paralelismo claro com a tradução castelhana da Declaración de la Doctrina
Christiana de Roberto Belarmino publicada em Lisboa em 1614, incluindo no
final uma Instruccion para Examinar la Consciencia antes de la Confesion do
jesuíta espanhol Francisco de Sosa. Aliás, uma comparação entre os manuais de
confissão anteriores e posteriores a Trento revela que os primeiros
privilegiavam o encontro do confessor com o penitente, enquanto os de finais
do séc. XVI e do séc. XVII valorizavam mais o exame de consciência como
encontro do penitente consigo mesmo antes do encontro com o confessor,
preparando-o para a mudança de costumes e para as práticas devotas,
nomeadamente a comunhão.
A reafirmação em Trento da importância do culto dos santos potenciou o retomar
das canonizações, após a criação da Congregação dos Ritos e Cerimónias, no contexto da
reforma da cúria de Sisto V (1588) e o desenvolvimento da hagiografia, apresentando aos
féis modelos e exemplos de perfeição nacionais. Este foi também um dos elementos de
afirmação da identidade católica do reino, concretizado de diversas formas:
- Abundantes biografias individuais de santos.
- Projeto dum martirológio português, parcialmente concretizado no
Martirológio dos Santos de Portugal publicado pelo P. Álvaro Lobo em anexo à
tradução portuguesa do Martirologio Romano (1591) e no Jardim de Portugal
de Frei Luís dos Anjos, um catálogo de mulheres santas.
- Um projeto de hagiológio português que integrasse não só os santos oficiais,
mas todos os homens e mulheres ilustres em virtude do império português,
parcialmente concretizado no Hagiológio Lusitano de Jorge Cardoso, em três
tomos (1652, 1657, 1666), continuado no século XVIII com mais um tomo de D.
António Caetano de Sousa (1744).

3.1. As missões populares


Houve ao longo da época moderna um movimento de missionação interna
maciço, duradouro e organizado que procurava fazer face à ignorância religiosa das
populações. No século XVI, tendo como contraponto o novo mundo, descobriram-se os
índios de cá, sentindo-se necessidades de os converter e de doutrinar, também para
evitar eventuais contágios protestantes. Para além da evangelização propriamente dita, a
transmissão de modelos de vida e de conduta e a interiorização de valores como a
obediência e a ordem fizeram das missões populares (ou internas) um fator de
homogeneização e coesão social, contribuindo também para a consolidação das novas
formas de Estado.
Em Portugal este tipo de evangelização esteve cargo das congregações religiosas,
nomeadamente os jesuítas, dominicanos, franciscanos, oratorianos e lazaristas:
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- Entre meados de quinhentos e meados de seiscentos:


o As primeiras missões terão sido empreendidas pelos jesuítas em 1547 na
zona de entre Douro e Minho, e a partir de 1555 em Évora.
o Grande impulso foi dado pelos dominicanos, graças à dinamização inicial
do provincial Juan Salinas (1555-1556), com particular incidência na
diocese de Portalegre.
o Apesar do desconhecimento da sua ação é de admitir também o
trabalho dos franciscanos nesta área.
- A partir da década de 1670, o panorama deve ter sido substancialmente
alterado, entrando numa fase de maior fulgor, devido:
o À ação do franciscano António das Chagas que, por ordem do superior,
andou por todos os bispados do reino, do Algarve até Miranda, onde
este tipo de missões ainda não tinha chegado por falta de pregadores.
o À introdução da Congregação do Oratório em Portugal (1668), cuja
missionação cresceu desde finais do século XVII até 1730, seguindo-se
alguma contenção, para voltar a ter grande frequência entre 1760 e
1770, data a partir da qual entrou nalgum declínio até finais do século.
o Graças à ação dos jesuítas, oratorianos e à Congregação da Missão, que
se lhes juntou em 1737, as missões populares atingiram o seu período
áureo na primeira metade de setecentos.
- Não é fácil de identificar a decadência. A partir da expulsão dos jesuítas, as
missões populares perderam certamente uma boa parte dos seus efetivos, mas
continuaram com menor intensidade até ao final do século e também no
seguinte.
As missões populares atravessaram durante esta época todo o território nacional,
se bem que a ação dos diferentes institutos se fizesse sentir em zonas
predominantemente diferenciadas:
- Os jesuítas foram mais atraídos pelos centros urbanos e pelos maiores
aglomerados populacionais, distribuindo a ação missionária pelos diversos
colégios: Braga, Coimbra, Lisboa e Évora.
- Os oratorianos dedicaram-se quase na totalidade às gentes rurais nas zonas
alargadas das suas casas de Braga, Porto, Freixo de Espada à Cinta, Viseu,
Lisboa e Estremoz.
- Os franciscanos do Varatojo e Brancanes expandiram-se por todo o continente
e ilhas sem predominância citadina ou rural, os primeiros mais no Centro e
Norte e os segundos mais a Sul.
- Os vicentinos de Rilhafoles missionaram sobretudo na região de Lisboa e na
zona entre o Tejo e o Mondego.
As missões não foram realizadas contra a vontade do poder episcopal. A sintonia
reformadora fez com que os próprios bispos as pedissem. Também os monarcas, os
poderes municipais e locais, os párocos apoiaram este tipo de evangelização.
A sua realização fazia-se prioritariamente no Advento e Quaresma ou então por
ocasião acontecimento grave (terramoto, inundações…) dando às missões um cariz mais
assistencial. A marcação também dependia da própria duração das missões, mais breves
no caso dos jesuítas, oratorianos e lazaristas (cerca de um mês); ou mais longas no caso
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dos missionários de Brancanes e Varatojo (até dois anos com interrupção nos períodos
agrícolas mais exigentes.
A organização das missões era diferenciada, conforme as congregações em
questão, se bem que todas essencialmente direcionadas para a conversão, com um forte
pendor penitencial:
- Compunham-se de sermões, ensino do catecismo, procissões penitenciais,
confissões, difusão de devoções, resolução de discórdias e inimizades,
assistência aos presos, pobres e doentes. A partir do medo e receio incutido na
pregação, procurava-se conduzir os fiéis ao arrependimento e à reforma dos
comportamentos, dando grande importância ao sacramento da penitência.
- A difusão de devoções, diferenciadas segundo as congregações, tinha o condão
de prolongar os efeitos da missão após a partida dos missionários: os jesuítas
promoveram confrarias marianas, do SS.mo Sacramento, o culto de São
Francisco Xavier, a construção de calvários e o rosário; os franciscanos
apostaram na oração mental, vias-sacras, terço e devoções marianas; os
oratorianos centraram-se na oração mental, nas devoções a Santa Ana, a Nossa
Senhora (rosário, estampas, escapulários), São José, São Filipe Néri e São
Francisco de Sales.
Uma avaliação final sugere duas observações ambivalentes:
- A missão foi, sem dúvida, um instrumento educativo de transmissão de
modelos de vida e de conduta conformes com a ética cristã, de instigação para
uma série de devoções e de enraizamento de formas de piedade. O
aprofundamento da cristianização das populações modernas e a maior
individualização da experiência religiosa muito lhes ficou a dever.
- A missão foi também responsável pela criação duma religiosidade superficial,
mais devota do que consciente, por assentar a sua ação mais no medo e no
terror de Deus do que no seu amor.

3.2. As visitas pastorais


A importância das visitas pastorais ficou bem patenteada nos inúmeros textos
que, sobretudo a partir de 1565, foram determinando a sua execução, no seguimento das
diretivas tridentinas. A visita pastoral assumiu-se como um importante meio de:
- Difusão da doutrina da Igreja.
- Verificação do funcionamento administrativo, económico e espiritual das
paróquias e do clero.
- Controlo sobre a observância religiosa e moral das populações.
As visitas pastorais adquiriram ao longo dos séculos XVII e XVIII quatro dimensões:
- Instrumento fundamental da consumação da autoridade do prelado na diocese
face às autoridades concorrenciais (cabidos, colegiadas, ordens militares,
mosteiros, clero local), que tendiam por vezes a opor-se aos dinamismos de
reforma.
- Meio decisivo de aplicação da reforma tridentina, ao nível da distinção entre o
sagrado e o profano, da difusão de várias devoções e do esplendor e
uniformização do culto e da doutrina.
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- Mecanismo disciplinador de comportamentos, capaz de provocar a


interiorização das condutas e influenciar as decisões das populações, em
articulação com o Santo Ofício, os missionários e os confessores.
- Mecanismo de controlo social sobre o clero e as populações no sentido de
identificar os desvios religiosos e morais para os emendar e punir.
Este caráter disciplinador e normalizador de condutas acabou por dar às visitas
pastorais em Portugal um caráter algo específico relativamente ao restante mundo
católico. Podemos apontar algumas particularidades:
- Tipo de situações observadas. Enquanto nas outras zonas cristãs, o visitador só
indagava sobre o estado da Igreja, a ação do clero e o comportamento religioso
dos féis (prática dominical, vida sacramental, fermentos heréticos…), em
Portugal inspecionava a prática de pecados públicos (mancebias, embriaguezes,
inimizades, ofensas verbais…).
- Fontes de informação dos visitadores. Enquanto noutros locais as testemunhas
de informação eram essencialmente os párocos locais, entre nós estendia-se a
um conjunto variado de paroquianos, do sexo masculino e com maturidade,
escolhidos ao acaso pelos visitadores a partir das listas de róis de confessados.
Esta especificidade transforma a visita portuguesa num repositório
extraordinário de observação da vida das comunidades e da cultura popular,
com excelentes informações sobre o comportamento moral e sexual das
populações do antigo regime.
- As penalidades aplicadas no seguimento da visita. Em Portugal os bispos tinham
jurisdição para imporem não só penas espirituais, como a excomunhão, mas
também penas temporais, mesmo sobre o laicado (multas, prisão, degredo).
- O valor jurídico dos depoimentos recolhidos. As devassas da visita pastoral
constituíam uma espécie de processo preliminar, desencadeado pelo bispo,
que nos casos mais graves podia gerar um processo judicial no tribunal
diocesano.
Estas observações confirmam a tendência jurídico-normativa do disciplinamento
tridentino em Portugal.
Relativamente à evolução das visitas, podem distinguir-se algumas fases:
- Até meados do século XVI não havia em Portugal propriamente absentismo na
realização das visitas pastorais. Eram, contudo, direcionadas apenas para o
controlo dos bens da Igreja, do estado dos edifícios e da observância religiosa,
sem, todavia, entrar nas áreas dominadas por cabidos, colegiadas ou ordens
militares. Apesar da regularidade, eram realizadas com desleixo e com pouca
eficácia no cumprimento das determinações.
- O tempo áureo das visitas decorreu nos dois séculos subsequentes a Trento,
sobretudo a partir do século XVII, altura em que tomaram uma periodicidade
praticamente anual. Na fase pós-tridentina contaram com o empenho da
maioria dos bispos e com o apoio das autoridades régias à justiça episcopal.
- Ao longo do século XVIII, as perturbações nas relações entre Portugal e a Santa
Sé no tempo de D. João V (sedes vacantes nalgumas dioceses), a inflação do
número de casos denunciados nas devassas e a afirmação das políticas
regalistas e iluministas podem ter ditado a menor frequência das visitas, mas
não a redução da sua eficácia.
11

4. A geografia eclesiástica
A Igreja em Portugal esteve organizada geograficamente em dioceses tuteladas
por bispos, por sua vez aglutinadas a nível supradiocesano em províncias, sob a
responsabilidade pastoral dos arcebispos. Internamente estavam divididas desde a célula
base da paróquia ou freguesia até circunscrições mais abrangentes com várias
denominações (comarcas, arcediagados, vigararias, arciprestados, ouvidorias, ramos,
distritos, quadrelas, visitas).
Houve também alguns territórios isentos da jurisdição de qualquer bispo,
(totalmente extintos em 1882), sob tutela das ordens militares de Cristo, Avis e Malta ou
de alguns institutos religiosos, como os cónegos regrantes de Santa Cruz de Coimbra:
- O priorado do Crato, um núcleo de territórios em torno da vila alentejana do
Crato sob jurisdição da Ordem de Malta.
- A prelazia de Tomar, um núcleo de territórios em torno de Tomar, sob a
jurisdição da Ordem de Cristo.
- A vila de Leiria e algumas zonas em redor, antes da criação da respetiva diocese
em 1545, eram isentas de Santa Cruz de Coimbra.
A circunscrição diocesana herdada do século XV, composta pelas províncias
eclesiásticas de Braga (Braga, Porto, Viseu e Coimbra) e Lisboa (Lisboa, Lamego, Guarda,
Évora e Algarve), conheceu entre os séculos XVI e XVIII algumas alterações ditadas pelo
crescimento físico do império português de pelo esforço de reordenamento interno:
- A província eclesiástica de Lisboa viu aumentar a sua área de jurisdição com a
criação da diocese do Funchal (1514) que integrava todas as terras descobertas
e de Portalegre (1549).
- Com a criação das dioceses de Cabo Verde (1533), de Angra, São Tomé, Goa
(1534), a diocese do Funchal passou a metropolita, título que perdeu em 1551,
ao ser integrada com todos os seus territórios sufragâneos em Lisboa. Neste
mesmo ano foi criada a diocese da Baía, também sufragânea de Lisboa e em
1596 a do Congo (a partir de 1628 os bispos passaram a residir em Angola,
onde foi construída a sé).
- A diocese de Évora passou a metropolita em 1540, assumindo como
sufragâneas Silves, Tânger e Elvas, após a sua criação em 1570, com paróquias
de Évora e de Ceuta. Em 1577 a sede de Silves foi transferida para Faro.
- Em 1545 foram criadas as dioceses de Leiria e Miranda, integradas
respetivamente nas províncias de Lisboa e Braga.
- Em 1558 foi criada a província eclesiástica de Goa, tendo como sufragâneas
Cochim e Malaca, criadas na mesma data, e mais tarde Macau (1576), Funai
(1588), Meliapor (1606), Angamale/Cranganor (1600/1608)3, Moçambique
(administração eclesiástica em 1563; vigararia espiritual em 1612; prelazia
nullius em 1781), Nanquim (1690) e Pequim (1690).
- Em 1676 a Baía passou a metrópole, ficando-lhe adstritas Olinda e Rio de
Janeiro, criadas na mesma data e no ano seguinte a do Maranhão e de
Angola/Congo. As restantes dioceses brasileiras entretanto criadas integraram

3
A antiga diocese malabar de Angamale foi incluída pelo papado no padroado português em 1600. A sede
desta diocese transferida para Cranganor em 1608.
12

também o arcebispado da Baía: Belém do Pará (1741); Mariana, São Paulo e as


prelazias de Cuiabá e Goiás, todas em 1745.
- Em 1716, na sequência da passagem da Capela Real a basílica patriarcal, a
arquidiocese de Lisboa foi dividida em duas: Lisboa Oriental, tendo por
sufragâneas Guarda, Portalegre, Cabo Verde, São Tomé e Congo (esta desde
1677 pertencia à Baía); Lisboa Ocidental, ligada ao Patriarcado, tendo por
sufragâneas Lamego, Leiria, Funchal e Angra. Esta divisão terminou em 1740,
com a integração de Lisboa Oriental no Patriarcado, depois de nunca ter sido
provida de bispo.
- Na sequência da reorganização diocesana de Pombal, entre 1770 e 1774, Braga
acrescentou às dioceses que já integravam a sua província (Porto, Miranda,
Coimbra e Viseu) as de Penafiel, Pinhel, Bragança (1770) e Aveiro (1774). Lisboa
acrescentou Castelo Branco (1771). Évora acrescentou Beja (1770). A diocese
de Penafiel teve existência efémera: criada em 1770 foi de novo integrada no
Porto oito anos depois. A divisão da diocese de Miranda, em resultado da
criação da de Bragança, terminou também logo em 1780, ficando a sé em
Bragança e o prelado com o título de Bragança e Miranda.
Nos três séculos subsequentes à chegada de D. Manuel ao trono (1495) a
geografia diocesana mudou significativamente: as nove dioceses do continente passaram
a 19 (17 com a supressão de Penafiel e a unificação de Bragança e Miranda) e no ultramar
foram criadas 24. Vários motivos justificaram esta transformação:
- A melhoria da administração episcopal.
- Contínuo crescimento do império ultramarino.
- Influências pessoais e clientelares.
- Troca de favores entre a monarquia portuguesa e a Santa Sé.
- Organização racional do espaço, pela presença e exercício dos poderes que o
dominavam.
- Políticas tendentes a debilitarem o poder de certos cargos eclesiásticos.

5. A reforma dos quadros eclesiais


A reforma passou também pelos diversos agentes eclesiais, enquanto a acolheram
e para ela contribuíram. Cabe-nos, por isso, abordar a evolução da vida religiosa, do clero
secular e do episcopado neste período.

5.1. A vida religiosa


A Idade Moderna testemunha um grande crescimento quantitativo dos religiosos
em Portugal. A reunião de dados de fontes diversas permite apresentar a evolução do
número casas religiosas:
- Em 1506 existiam no continente 167 casas religiosas (135 masculinas e 32
femininas).
- Em 1652 eram 448 (337;111).
- Cerca de um século depois 531 (403; 128).
- Em 1765 eram 492 (371; 121), registando-se um pequeno decréscimo que a
expulsão dos jesuítas em 1759 pode praticamente explicar.
- Da década de vinte do século XIX, há números divergentes em duas fontes: uma
de 1821 regista 498 (360; 198); outra de 1826 regista 577.
13

Este crescimento resulta:


- Em primeiro lugar e sobretudo da introdução de novas congregações ou
observâncias que caracterizou a reforma católica, com destaque para os
jesuítas (23 fundações), agostinhos descalços (12), oratorianos (7).
- Também do revigoramento das ordens antigas, nomeadamente os
franciscanos, dominicanos, beneditinos e agostinhos calçados.
Mais difícil é o apuramento do número de religiosos, cuja quantificação só é
conhecida para os anos de 1765 (total: 43.509; masculinos: 31.828; femininos: 11.631) e
de 1826 (12.980; 7.000; 5.580). A disparidade dos dados aconselha, porém, cautela. Pode,
contudo, concluir-se a partir dos casos conhecidos e das informações disponíveis que:
- Há uma grande variedade de situações consoante as famílias religiosas e entre
as casas da mesma família, tendo um peso significativo, no número de efetivos,
os bens materiais disponíveis.
- Os séculos XVI e XVII foram períodos de crescimento, a primeira metade do
século XVIII foi o período áureo quanto ao número, seguindo-se-lhe a partir do
terceiro quartel de setecentos um rápido declínio de ingressos. Como motivos
de tal decréscimo podemos apontar:
o A laicização dos valores proporcionada pelo iluminismo.
o A corrupção causada pelos movimentos freiráticos.
o As alterações no modelo nobiliárquico de encaminhamento de boa
parte da descendência secundogénica para a vida religiosa.
o As medidas pombalinas lesivas dos privilégios até então usufruídos.
A geografia da implantação não foi uniforme e conheceu alterações ao longo do
período:
- No início do século XVI, os beneditinos estavam sobretudo nas dioceses de
Braga, Porto e Coimbra; os cistercienses e os agostinhos na zona centro. Os
beneditinos mais nas zonas rurais e os mendicantes em espaço urbano. Em
síntese, pode afirmar-se que a maioria das casas se encontrava na faixa litoral a
norte do Douro, se bem que também houvesse alguma aglomeração em
Coimbra, Santarém e Lisboa.
- O crescimento transformou este panorama. No tempo de Pombal a geografia
era já diferenciada: 41% na Estremadura, notando-se grande atração por Lisboa
sobretudo por parte dos institutos femininos; 17,8% e 17,9% respetivamente
no Alentejo e na Beira, assumindo-se como centros de atração Évora e
Coimbra; 16,3% no Minho; Algarve e Trás-os-Montes respetivamente 3,2% e
3%. A geografia da vida religiosa passa a ser predominantemente urbana (a
maioria da população vivia no campo) e sobressaem como principais centros
Lisboa e Évora.
Relativamente ao estado e à evolução da reforma no seio da vida religiosa:
- No início do século XVI a vida regular masculina e feminina não era brilhante
sobretudo nas ordens que seguiam a regra de São Bento e Santo Agostinho.
Estariam certamente melhores os Jerónimos e os mendicantes, como já
falámos, se bem que não fosse primoroso o estado dos conventuais, entretanto
desaparecidos. Motivos:
o Deficiente formação escolar, cultural e religiosa.
o Ausência de vocação religiosa de boa parte dos membros.
14

o Profissões precoces: entre os 13 e os 15 anos, depois de um ano de


noviciado, nem sempre exigente.
o Frequente não observância da regra, nomeadamente a clausura, a
pobreza e até a castidade.
- A atenção de Trento à reforma dos regulares (sessão 25) e o cuidado das novas
ordens nascentes permitiram que houvesse renovação.
o Na atenção à formação cultural destacaram-se certamente os jesuítas
(oito anos de estudo após o noviciado) e os oratorianos que viriam a
ter papel de relevo no desenvolvimento do saber científico em Portugal
ao longo do século XVIII (João Batista, Teodoro de Almeida).
o Na atenção à humildade, à pobreza, ao desprendimento do mundo e à
espiritualidade destacaram-se os franciscanos formados no seminário
do Varatojo de Torres Vedras, após a ação de Frei António das Chagas.
- Mesmo assim nem todos os desvios pré-tridentinos foram erradicados. Dois
exemplos:
o Em 1677 o embaixador em Roma dá conta dum agostinho chamado
Pedro da Silveira que foi lá procurar justiça, depois de ter cortado uma
orelha a outro religioso de Évora.
o Em 1784, as clarissas de Santa Clara de Beja organizaram uma corrida
de touros no convento, transformando o claustro em arena, sob a
presidência da abadessa.
Relativamente à composição social dos conventos e à origem dos seus membros,
mesmo se não muito estudadas, pode afirmar-se que:
- As ordens monásticas (beneditinos, cistercienses, cartuxos, jerónimos,
observâncias de cónegos regulares) atraíam sobretudo gente nobre aristocrata.
- As ordens mendicantes, com presença urbana, atraíam sobretudo gente do
terceiro estado: os franciscanos ligados aos setores mais populares; os
dominicanos ligados aos setores burgueses e até aristocratas, dado o maior
pendor à preparação intelectual.
- As novas congregações (jesuítas, lazaristas, ursulinas…) tinham um universo de
recrutamento mais amplo, com tendência para acolher os que se
entusiasmavam com uma preparação mais intensa.

5.2. O clero secular


O peso numérico do clero secular era ainda maior do que o regular, concretizado
também num movimento de crescimento que se explica por diversos motivos:
- O fervor religioso proporcionado pela reforma (consumo devocional…)
- As possibilidades de promoção social dos próprios e das famílias de origem.
- Os privilégios de que gozavam (isenção de taxas sobre o património familiar…)
Apesar da quantificação a nível nacional não se encontrar realizada, há alguns
números que nos permitem avaliar a evolução:
- Primeira metade do século XVI (1527-1532), apenas para os clérigos de missa:
o Entre Tejo e Guadiana: 898 clérigos; 42.371 fogos; 1 padre para 188
pessoas.
o Trás-os-Montes: 614; 35.587; 1 – 231.
o Estremadura, excluindo Lisboa: 300; 28.929; 1 – 302.
15

- Segunda metade do século XVIII:


o Trás-os-Montes: 1 padre para 97,5 pessoas.
o Minho: 1 – 123.
o Diocese de Aveiro: 1 – 135.
o Diocese de Beja: 1 – 294.
o Algarve: 1 – 391.
De fora ficam os clérigos apenas tonsurados ou já com as ordens menores, que
gozavam de um largo conjunto de privilégios e cujo número assumia dimensões
gigantescas, se bem que mais limitadas a partir de Trento.
Em síntese, deve dizer-se que o número de clérigos seculares aumentou
ininterruptamente ao longo de dois séculos, apesar dos tonsurados terem sofrido uma
significativa redução. Por isso, se entende que em 1644 um decreto régio solicitasse aos
prelados que não admitissem ninguém a ordens, num tempo em que a isenção militar
não era consentânea com a necessidade de homens para as guerras da restauração. Nova
ordem foi emanada no tempo de Pombal (1762), no sentido de que fosse refreada a
concessão de ordens.
A distribuição do clero secular era desigual, sendo o seu número mais elevado nas
cidades e vilas, onde se concentravam os maiores recursos: os cabidos, as administrações
diocesanas; as colegiadas; a Inquisição; maior número de igrejas paroquiais e capelas… O
número de padres em função dos habitantes tendia a ser mais elevado no Norte.
O universo social de recrutamento era muito largo:
- Sendo o estado clerical um instrumento privilegiado de promoção social, por
mérito ou por influências, compreende-se que os candidatos proviessem
sobretudo dos escalões inferiores e intermédios da sociedade. Mesmo assim
supunha-se a existência do património indispensável para a admissão às ordens
sacras.
- Nos setores mais elevados, o estado clerical era entendido como um meio de
usufruir das rendas das dignidades capitulares ou de conferir um futuro digno
aos filhos bastardos, expediente ainda visível em meados do século XVIII.
Se a formação do clero antes do concílio de Trento era de má qualidade, após o
mesmo aumentaram as preocupações já notórias em algumas constituições diocesanas
anteriores, e mais manifestas nas seguintes, se bem que não se conheça com rigor a sua
eficácia:
- As Constituições de Évora (1565) exigiam para as ordens o seguinte: leitura e
escrita, latim, capacidade de rezar a qualquer santo e de celebrar os
sacramentos, cantochão, gramática, posse e conhecimento do breviário.
- As Constituições de Coimbra (1591) exigem já o conhecimento do latim para as
ordens menores.
- As Constituições de Miranda (1565) exigiam que os padres possuíssem alguns
livros fundamentais: a Suma de Caetano, o Manual de Confessores de Martin
Azpilcueta Navarro, o Aviso de Curas de Bernardo Dias de Lugo, o Catecismo ou
Doutrina Cristã de Luís de Granada. Pode notar-se a ausência da Bíblia.
Foram progressivamente tomadas outras medidas formativas:
- A realização de conferências eclesiásticas, com o intuito de proporcionar uma
formação contínua.
- A publicação de várias obras de caráter doutrinal, moral e pastoral.
16

- A criação de colégios, seminários e cursos de Casos de Consciência.


Importa desenvolver um pouco mais as instituições destinadas à formação do
clero:
- Os colégios:
o Em Braga D. Diogo de Sousa criou em 1531-32 o Colégio de São Paulo, a
cargo do vigário-geral, onde se ensinava leitura, escrita, gramática e
lógica. Foi-se progressivamente desenvolvendo ao longo das primeiras
décadas e sobretudo a partir do momento em que em 1561 foi confiado
aos jesuítas por Frei Bartolomeu dos Mártires, em cuja posse se
manteve até 1759.
o Particular relevo na formação tiveram os colégios jesuítas, quer pela
formação dada a muitos jovens que depois optavam pelo estado
eclesiástico, quer pela formação prestada a alunos dos seminários. Se
bem que com menos relevo, houve outras congregações também com
papel importante na formação eclesiástica, nomeadamente os
oratorianos.
- Os seminários:
o Seguindo as determinações de Trento, começaram a aparecer
seminários nas diversas dioceses, se bem que o processo se tenha
arrastado até ao século XIX: Lisboa (1566); Braga (1572); Viseu (1587);
Portalegre (1590); Évora (1597); Guarda (1601); Miranda (1601); Leiria
(1674); Elvas (1759); Coimbra (1765); Lamego (1789); Algarve (1797);
Porto (1811).
o Eram seminários simples, em vários casos a formação não era
totalmente prestada pelo próprio seminário, mas por colégios próximos,
e não eram seguramente frequentados por todos os indivíduos que
acediam às ordens.
- A Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra, cuja existência serviu
inclusivamente para justificar o tardio aparecimento dos seminários de
Coimbra e Porto:
o A frequência da Faculdade nunca foi muito elevada, mas notou-se uma
tendência de crescimento entre 1537 (data em que a Universidade se
fixou definitivamente em Coimbra) e 1629. De 1629 a 1654 deu-se uma
baixa prolongada (média de 40 matrículas por ano), seguida de
crescimento até 1771 (100 matrículas por ano). A partir da reforma
pombalina de 1772, segundo a qual os futuros teólogos tinham que
frequentar os preparatórios do curso matemático, os ingressos caíram. A
situação tornou-se tão grave que em 1805 D. João VI mandou que os
bispos enviassem por ano um ou mais alunos para a Universidade, que
instituíssem seminários onde não existissem e que neles houvesse três
anos de estudos teológico-canónicos.
o Entre 1537 e 1771 a maioria dos alunos provinham das ordens religiosas
e ingressavam já em fase adiantada dos estudos.
o O curso integral implicava sete anos de aulas e servia-se sobretudo da
Bíblia, da Summa Theologica de S. Tomás de Aquino e das Sentenças de
17

Pedro Lombardo. A reforma de 1772 apostou, todavia, numa teologia


mais positiva que especulativa.
Pesem embora dos esforços feitos e a grandes melhorias relativamente à primeira
metade do século XVI, no início do século XIX a formação cultural e religiosa do clero
estava ainda longe de se considerar exemplar.
Relativamente ao acesso e ao percurso no estado eclesiástico:
- O ingresso no estado clerical não era muito exigente, se bem que após Trento
se tenha tornado mais rigoroso:
o Exigências de formação religiosa e cultural no sentido já apontado a
propósito das constituições diocesanas.
o Legitimidade de nascimento e limpeza de sangue (para evitar os
cristãos-novos).
o Comportamento, virtudes morais e aptidões físicas.
- O acesso às ordens sacras obrigava também à posse de um benefício
eclesiástico ou à constituição dum património, comummente garantido pela
família. Dada a abundância de clero e a certeza de que não havia benefícios
para todos, a Igreja procurava assim garantir à partida um modo de sustento de
modo a prevenir a mendicidade ou o exercício de atividades menos próprias
por parte dos seus ministros.
- A ordenação era apenas o primeiro passo no presbiterado, seguindo-se depois
inúmeras hipóteses de exercício do ministério, desde simples capelanias até ao
episcopado, passando por benefícios paroquiais, colegiadas, cabidos,
misericórdias, confrarias, inquisição, administração e justiça diocesana, e
mesmo órgãos de governo na monarquia, como por exemplo a Mesa de
Consciência e Ordens.
- Os que acediam a lugares mais importantes provinham habitualmente da
nobreza e dos setores mais relevantes do terceiro estado, não sendo por vezes
os mais bem preparados ou com mais habilitações académicas. Com o tempo,
porém, certos lugares ou funções implicavam habilitações: inquisidor, vigário-
geral, cónegos doutorais…
- A maioria dos lugares correspondia aos benefícios paroquiais:
o A nomeação pelos padroeiros: Os benefícios paroquiais estavam em
grande parte entregues à nomeação dos padroeiros, favorecendo a
criação de redes clientelares e a necessidade de pertencer a estas para
os obter. Era, por isso, normal que alguns benefícios se perpetuassem
em certos círculos familiares.
o A heterogeneidade de cargos e condições: simples beneficiado
assalariado de outro eclesiástico, cura, reitor, vigário, prior e abade (as
designações não são, porém, precisas e têm implantação geográfica
diferenciada). Se alguns podiam auferir uma quantia elevada, outros
viviam no limiar da pobreza, uma vez que a maioria das rendas das
Igrejas não ficavam para eles e tinham que viver essencialmente do pé
de altar.
o A estabilidade do corpo eclesiástico paroquial, concretizada no facto de
os eclesiásticos ficarem vários anos à frente da mesma paróquia.
Acrescente-se ainda que grande parte do clero era recrutada e exercia
18

funções na própria paróquia de naturalidade, não havendo por isso


grande mobilidade geográfica nas carreiras de nível médio ou inferior.
o A residência nos locais dos benefícios. A falta de residência tinha sido
um dos grandes problemas que Trento ousara combater. Diga-se,
porém, que os dados conhecidos, pelo menos ao nível dos benefícios
paroquiais, indicam que, sob este aspeto, a reforma tridentina teve boa
implementação em Portugal.
Deixamos finalmente algumas considerações sobre os principais vícios ou desvios
de que eram acusados os eclesiásticos, o mais frequente dos quais o não cumprimento do
celibato, testemunhado por inúmeras denúncias e por várias referências das
constituições diocesanas, como aquelas que proibiam que presbíteros que fossem pai e
filho se auxiliassem na celebração da missa ou exercessem na mesma paróquia
(Constituições de Viseu de 1527). Para uma ideia dos desvios, aproveitamos o elenco dos
principais, por ordem decrescente, que foram colhidos dos dados das visitas da diocese
de Coimbra entre 1651-1783 (percentagem dos 1197 casos denunciados):
- Não respeito do celibato (53%).
- Abuso de vinho (16%).
- Desleixo na administração dos sacramentos (8%).
- Desleixo no ensino da catequese aos paroquianos (3%).
- Jogo de bola, dados e cartas (3%).
- Trabalho em ofícios servis (3%).
Há, todavia, a impressão de que a maioria dos eclesiásticos com comportamentos
morais e religiosos indevidos não eram colados, mas viviam em situação de desemprego
ou não tinham passado das ordens menores, a que tinham chegado sem vocação.
Em síntese, pode afirmar-se que os esforços dos bispos e da corte corrigiram em
parte ao longo da época moderna as irregularidades de vida, a carência de cultura, a falta
de sentido evangélico e espírito apostólico do clero secular. O caminho da reforma foi
dando os seus frutos, se bem que na aurora do liberalismo o clero secular não estivesse
ainda isento de máculas.

5.3. O episcopado
Desde pelo menos o séc. XIV que foi prevalecendo a autoridade régia na escolha
dos bispos. No princípio do séc. XVI, D. Manuel pretendeu obter o direito de
apresentação, como fora concedido por Sisto IV aos reis de Castela. Estabeleceu-se então
o costume dos antigos bispados serem providos por pessoa idónea indicada pelo rei. A
apresentação propriamente dita só existia para as novas dioceses de padroado régio.
A designação dos bispos portugueses competia de qualquer forma ao monarca,
seguindo-se-lhe a confirmação pontifícia. A partir de finais do século XVI a Santa Sé
passou a exigir a elaboração de um processo (processo consistorial), a cargo da
nunciatura, que salvaguardasse a averiguação das qualidades do escolhido. Na prática,
porém, a confirmação papal foi sempre outorgada, com exceção do período posterior à
restauração.
Se bem que podendo, o rei não decidia isoladamente. Ouvia os ministros da
governação, os eclesiásticos próximos, os cabidos e até o próprio papa. Assim a
nomeação estava dependente dos apoios conseguidos dentro de certos grupos. Durante
o reinado de D. João III tinham influência a rainha D. Catarina e os condes de Vimioso e
19

Castanheira. Durante a governação filipina era ouvido o Conselho de Portugal e foram


escolhidos prelados aderentes à nova dinastia. D. João V ouvia o seu conselheiro, parente
e amigo Frei Gaspar da Encarnação.
Algumas constantes na escolha dos bispos durante a idade moderna:
- Manteve-se um certo equilíbrio entre seculares e religiosos:
o Antes de Trento havia um predomínio secular (61%); a partir desta data
a escolha começou a recair mais nos regulares em virtude da reforma
das ordens e das diretrizes de reforma tridentinas (1563-1750: 56%;
1750-1820: 53%; pouco influxo na escolha dos bispos do
anticongreganismo iluminista em Portugal).
o No âmbito regular a escolha recaiu sobretudo nos franciscanos (50%),
agostinhos (29%), dominicanos (29%), jesuítas (26%) e carmelitas (9%).
Houve, contudo, elementos escolhidos praticamente de todas as ordens.
o Nas zonas ultramarinas predominavam os regulares. Houve resistências
à aceitação devido às dificuldades, distâncias e poucos proventos.
- Consumou-se a nomeação de bispos quase exclusivamente portugueses:
o Na Idade Média, o centralismo papal na escolha dos prelados fez com
que as dioceses fossem confiadas a vários bispos estrangeiros.
o Este quadro alterou-se radicalmente na Idade Moderna e é
demonstrável no facto de dos 480 escolhidos apenas 14 serem
estrangeiros.
- Intensificou-se a tendência para a nomeação de bispos oriundos da alta
nobreza, só esbatida com Pombal:
o A escolha de prelados provindos da aristocracia tomou um caráter mais
hegemónico, sobretudo no continente. As mais importantes sedes do
reino – Braga, Lisboa e Évora – estavam praticamente reservadas aos
filhos, mesmo se bastardos, das principais famílias nobres.
o Com a subida do futuro marquês de Pombal em 1755 aos Negócios do
Reino começaram a chegar ao episcopado elementos da nobreza
provincial ou de função, por vezes recentemente promovida. Era um
modo de combater o poder das grandes famílias nobres. A partir desta
data tornaram-se frequentes os bispos de origem social humilde: Frei
Manuel do Cenáculo, bispo de Beja (1770-1802) e Évora (1802-1814);
Frei Caetano Brandão, bispo do Pará (1782-1790) e de Braga (1790 -
1805)…
- Melhorou-se a formação académica e cultural de modo a corresponder aos
desafios de Trento. Mesmo sem dados definitivos porque se desconhece a
preparação académica de 253 dos 480 bispos providos entre 1500 e 1820, há
algumas tendências relevantes:
o Os restantes 227 eram teólogos (119) ou canonistas (108).
o Para os casos conhecidos houve um aumento de prelados formados a
partir de meados do século, correspondendo à determinação tridentina
de que os bispos fossem graduados em cânones ou teologia: 1ª metade
do séc. XVI – 35% dos bispos com formação universitária ou nas ordens
religiosas; 1563-1750 – 50%; pós 1750 – 86%, com predominância dos
que tinham sido professores na Universidade de Coimbra.
20

o A maior parte dos graduados ficavam nas dioceses do continente (70%).


Quanto ao peso dos canonistas e dos teólogos na geografia do império
português: canonistas (80% no continente e 20% no ultramar); teólogos
(59% no continente e 41% no ultramar). Os teólogos eram considerados
mais aptos para a evangelização em terras de missão, enquanto os
canonistas para a elaboração de constituições, convocação de sínodos e
fiscalização de comportamentos, como era próprio do disciplinamento
pós-tridentino.
- Desaparecem progressivamente as nomeações de bispos muito jovens, sem
formação, moralmente pouco recomendáveis, com acumulação de benefícios,
guerreiros, em detrimento de eclesiásticos mais maduros e com trajetos
anteriores que permitiam esperar desempenhos mais competentes:
o Depois de Trento não mais se nomearam bispos como o infante D.
Afonso, que em 1516, tendo sete anos, foi indicado para o bispado da
Guarda. Os nomeados do tempo de Pombal tinham uma média etária de
41 anos quando assumiram os cargos.
o Foram sendo cada vez mais raras as nomeações de bispos filhos de
relações ilegítimas, ou daqueles que na altura da nomeação não eram
ainda presbíteros.
Importa também deixar algumas considerações sobre o perfil e os
comportamentos dos bispos portugueses, salientando os efeitos da reforma tridentina e
os efeitos do iluminismo sobre a ação episcopal:
- A mudança de comportamento e desempenho dos prelados tridentinos numa
linha mais pastoral:
o O panorama português antes de Trento era semelhante nos problemas
ao das outras zonas do mundo católico.
 Ausência de residência dos bispos, que não lhes permitia
governar diretamente as dioceses e favorecia a emergência de
focos de poder no seio das mesmas. Retidos junto da corte ou
nos seus afazeres privados, era normal pediram um auxiliar que
os ajudasse, a quem confiavam a diocese a troco duma pensão
anual. Alguns bispos na primeira metade do século não
chegaram sequer a ir às dioceses como Rodrigo Pinheiro, bispo
de Angra (1540-1552); Martinho de Portugal, bispo do Funchal
(1533-1547) ou Jorge de Melo, bispo da Guarda (1519-1548).
 O nepotismo. Um dos casos mais evidentes foi o de D. Jorge da
Costa, o cardeal Alpedrinha, que tendo residido muitos anos em
Roma e privado com o papa conseguiu colocar bem os seus
irmãos – Jorge da Costa, em Braga (1488-1501); Martinho da
Costa, em Lisboa (1501-1521) e sobrinhos – Diogo da Costa e
Pedro da Costa, ambos no Porto (1506-1507; 1507-1539).
 A avidez de dinheiro, dizimando as rendas episcopais em
proveito próprio; o concubinato público, a que se seguiam filhos
bastardos a seguir a carreira eclesiástica; as grandes cortes
episcopais, com enorme criadagem.
21

o Existiram, contudo, ainda antes de Trento algumas figuras minoritárias


que se caracterizaram pela dignidade com que exerceram o episcopado
e pelos fermentos de renovação que foram semeando: D. Henrique,
enquanto arcebispo de Évora (1540-1564); D. Afonso, arcebispo de
Lisboa e administrador de Évora (1523-1540), com as suas constituições,
visitações e medidas de formação do clero; D. Pedro Vaz Gavião (1496-
1516), bispo da Guarda, que apesar de frequentemente ausente da
diocese, elaborou umas constituições em 1500, com medidas que
Trento viria a confirmar.
o No pós-Trento emergiu na Igreja um outro paradigma de bispos assente
sobretudo na sua missão pastoral.
 Ao nível da Igreja universal, este paradigma teve no bispo de
Milão Carlos Borromeu o seu expoente mais conhecido: boa
formação cultural e religiosa; vida moral consentânea, simples e
austera; administração zelosa da diocese; residência na diocese;
atenção aos cuidados materiais (atenção aos pobres) e
espirituais (sacramentos, catequese, pregação); vigilância sobre o
recrutamento, a formação e o comportamento do clero;
atividade legislativa e normativa através de sínodos e
constituições; conhecimento do estado da diocese através das
visitas pastorais; defesa da jurisdição episcopal diante dos outros
poderes, nomeadamente dos cabidos e dos religiosos.
 Em Portugal, com influxo mesmo internacional, quem melhor
encarnou este paradigma foi certamente o arcebispo de Braga
Frei Bartolomeu dos Mártires. O seu Stimulus Pastorum (1564)
pode ser considerado o escrito da reforma católica mais eficaz
sobre os requisitos do bispo. Também Bartolomeu dos Mártires
era dotado duma cultura sólida, duma vida moral coerente e
preocupou-se com a formação do clero, com a visita à diocese,
com medidas legislativas nos concílios e sínodos que promoveu…
 Se Bartolomeu dos Mártires foi a figura episcopal mais relevante.
Não se tratou, todavia, dum caso isolado. Outros prelados se
distinguiram na implantação das medidas de Trento: Pedro
Castilho, bispo de Angra (1578-1584) e de Leiria (1583-1604);
João Manuel, bispo de Viseu (1609-1625), Coimbra (1625-1633) e
Lisboa (1633); Rodrigo da Cunha, bispo do Portalegre (1615-
1618), do Porto (1618-1627), de Braga (1627-1635) e de Lisboa
(1635-1643); João Mendonça, bispo da Guarda (1712-1736);
António Vasconcelos e Sousa, bispo de Lamego (1693-1705) e
Coimbra (1706-1717). Outros ainda se destacaram pela sua
piedade, modéstia, exemplaridade religiosa e sentido pastoral:
Frei Agostinho de Castro, arcebispo de Braga (1588-1609); Frei
Álvaro de São Boaventura, bispo da Guarda (1669-1672) e de
Coimbra (1672-1683); Frei Luís da Silva, bispo de Lamego (1677-
1685), da Guarda (1685-1691) e de Évora (1691-1703).
22

 As medidas de reforma empreendidas não foram habitualmente


bem aceites, dada a oposição ou as dificuldades levantadas pelos
cabidos, colegiadas, ordens religiosas e militares que pretendiam
defender os antigos privilégios; dos eclesiásticos insubmissos e
dos fiéis a quem se queria inculcar novos códigos de
comportamento e de prática religiosa; e do poder régio, cuja
afirmação da soberania colidia com o reforço da capacidade
jurisdicional dos prelados.
- A mudança gerada pelas ideias reformadoras que o iluminismo trouxe e foram
assumidas pelos bispos:
o Propunha-se um catolicismo mais austero, exigente e ordenado, assente
em profunda e erudita formação, influenciado pelo racionalismo e mais
distante das formas populares de devoção. Algumas características da
reforma:
 Valorização da cultura bíblica, da história da Igreja, da liturgia e
da teologia positiva.
 Desprezo e combate da cultura de matriz escolástica e da
piedade sensorial e exterior, divulgada pela parenética barroca.
 Subordinação da Igreja ao poder secular, expressa na aceitação
do beneplácito régio para as pastorais dos bispos (1768), na
procura de maior autonomia relativamente a Roma e nas
manifestações de episcopalismo e regalismo habitualmente
aceites.
o Algumas figuras que se destacaram nestes ideais de reforma: Miguel da
Anunciação, bispo de Coimbra (1739-1779); Miguel de Távora, arcebispo
de Évora (1739-1759); Gaspar de Bragança, arcebispo de Braga (1758-
1789); Manuel do Cenáculo, bispo de Beja (1770-1802) e de Évora
(1802-1814).

6. A Inquisição
Ao falarmos de Inquisição referirmo-nos a um tribunal eclesiástico criado pelo
papado no século XIII para combater as heresias, que adquiriu nova configuração
aquando do seu estabelecimento em Castela em 1478. Nessa altura foi reconhecido ao rei
a capacidade de propor o inquisidor-geral, tendo a Coroa depois criado o Conselho da
Inquisição integrado nos órgãos da monarquia.
O estabelecimento da Inquisição em Portugal conheceu um processo longo,
marcado por diversos pedidos da Coroa (1515, 1525, 1531) e por vários diplomas
pontifícios (1531, 1536, 1547). Embora se tenham organizado processos deste a primeira
nomeação em 1531 dum inquisidor por Clemente VII – Frei Diogo da Silva – foi a bula Cum
ad nihil Magis (1536) que definiu o quadro legal de funcionamento da Inquisição em
Portugal, completado pela bula Maditatio Cordis (1547):
- A primeira deu enorme autonomia à instituição, permitindo a criação duma
rede de tribunais do país com poderes subdelegados pelo inquisidor-geral, bem
como a produção de legislação própria que enquadrasse o papel da Inquisição
no combate às heresias ou das crenças e comportamentos incompatíveis com a
fé da Igreja.
23

- A segunda abriu caminho ao processo sigiloso, sem conhecimento das


testemunhas de acusação; estabeleceu a jurisdição particular do Santo Ofício
nas causas dos seus funcionários; e venceu as resistências papais na
salvaguarda das condições de defesa dos cristãos-novos, o alvo principal do
tribunal.
O estabelecimento da Inquisição em Portugal foi, pois, uma iniciativa da Coroa em
domínios que lhe eram teoricamente alheios, com o consentimento do papa,
manifestamente contra a vontade, perante a pressão constante do rei. Assim se explica
que após a bula de 1547, o papa tenha isentado por dez anos o confisco de bens aos
cristãos-novos (1548) e proibido as testemunhas secretas (1549). A predominância régia
foi, porém, ainda acentuada quando, após a demissão de Frei Diogo da Silva de
inquisidor-mor, ocupou o lugar o infante D. Henrique, irmão de D. João III, futuro cardeal
(1545), regente do trono português (1562-68) e rei (1568-70).
A concessão, porém, tem de se justificar e de se enquadrar:
- No seguimento da criação da Inquisição espanhola em finais do século XV, que
reforçara fortemente o poder régio, e dentro duma política religiosa da
monarquia tendente ao controlo da Igreja, já emergente na concessão do
padroado para os territórios ultramarinos.
- No ambiente de fragilidade vivido por Roma após a fragmentação eclesial
proporcionada pelo protestantismo e de necessidade apoio dos estados
católicos mais fiéis.
- No ambiente de controlo doutrinal emergente com a criação da Inquisição
romana pela bula Licet ab Initio (1542)
- No ambiente de expansão ultramarina que conferia a Portugal importante peso
político na esfera internacional e religioso dada a obra de missionação que
acompanhava a expansão.
- No contexto duma forte tendência contrária aos cristãos-novos emergente na
Coroa portuguesa, depois da ziguezagueante política régia relativamente aos
judeus no seguimento da conversão forçada de 1497.
A decisão papal jogava-se pois entre as reticências à alienação dum poder
espiritual significativo reforçadas pela amarga experiência espanhola e a necessidade de
satisfazer um aliado constante, sólido, que prometia uma missionação em larga escala
nos outros continentes, já com alguns resultados visíveis.
A Inquisição conheceu em Portugal rapidamente formas de organização estáveis:
- Em 1541 funcionam tribunais em Évora (1536), Lisboa (1539), Porto, Coimbra,
Tomar e Lamego.
- Em 1548, os tribunais ficam reduzidos a Évora e Lisboa.
- Em 1560, foi criado o tribunal de Goa.
- Em 1565, foi restabelecido o de Coimbra, mantendo-se até a extinção da
Inquisição quatro tribunais, com momentâneas interrupções de todos ou de
algum deles. Coimbra tinha jurisdição sobre as dioceses a Norte; Lisboa sobre a
de Lisboa, Leiria e Guarda, sobre as ilhas, a África Ocidental e o Brasil; Goa
sobre a África Oriental e a Ásia.
Aspetos organizativos da Inquisição:
24

- As visitas da Inquisição aos distritos constituíam um verdadeiro processo de


inspeção das crenças e práticas religiosas locais. Percorreram praticamente
todas as regiões periféricas dos tribunais, incluindo os territórios ultramarinos.
- Foram produzidos vários regimentos (1552, 1613, 1640, 1774), que definiam
um quadro regulamentar estável.
- A Inquisição era constituída por diversos cargos ou funções:
o A estrutura da organização compreendia um inquisidor-geral nomeado
pelo papa sob proposta régia; seis membros do Conselho Geral
nomeados pelo inquisidor-geral após consulta ao rei; três inquisidores
em cada tribunal, um promotor fiscal (acusação e proposta de
instauração do processo) e um ou mais deputados (acompanhamento
das causas e dádiva de pareceres).
o Integravam os diversos tribunais também os oficiais menores –
secretários; meirinhos (detenções); alcaides (prisões) – e os
profissionais que eram chamados em momentos necessários (médicos,
advogados…).
o Havia ainda os comissários, que funcionavam como representantes dos
tribunais nas periferias dos distritos: recolhiam testemunhos e
denúncias, obtinham informações genealógicas…
o Devemos apontar também os familiares do Santo Ofício, agentes civis
não remunerados que auxiliavam o tribunal nas tarefas diárias,
realizando detenções nas regiões periféricas ou exercendo funções de
representação. Eram gente ilustre que conferia prestígio ao tribunal,
recebendo também alguns benefícios, nomeadamente a isenção de
impostos e de participação na guerra ou o privilégio de porte de
armas…
- Se o modelo inquisitorial português se aproximou do espanhol, revelou
também algumas diferenças:
o Os membros do Conselho Geral em Espanha eram nomeados
diretamente pelo rei sob proposta do inquisidor-geral, sendo
reservados dois lugares para juízes leigos, situação que nunca se
verificou em Portugal.
o O número médio de três inquisidores por tribunal em Espanha só foi
alcançado em finais do séc. XVI, enquanto se encontra quase desde o
início entre nós.
o Em Portugal, os deputados faziam espécie de carreira dentro da
instituição, podendo aceder por esta via ao Conselho Geral.
o Do que se disse decorre que do ponto de vista burocrático se nota uma
maior modernidade na forma de organização portuguesa, enquanto, do
ponto de vista da dependência da Coroa, foi conseguida, apesar de
tudo, uma maior autonomia.
- A atividade repressiva foi elevada:
o Os dados globais são a esse respeito reveladores:
 Entre 1536 e 1767, houve pelo menos 44.817 processos
instaurados (não temos dados do tribunal de Goa entre 1624-
1684).
25

 No mesmo período, houve pelo menos 2064 relaxados (réu


entregue pela Inquisição ao poder secular para que lhe fosse
aplicada pena de morte), ou seja 5% do total (não possuímos
dados de Goa para quase todo o séc. XVII).
o O ritmo repressivo não foi regular: a repressão aumentou muito no séc.
XVII, nomeadamente até 1674, ano em que o papa decretou a
suspensão da Inquisição portuguesa, pelo breve Cum Dilecti. A partir
daqui entrou progressivamente em declínio, acentuando-se o mesmo a
partir de 1750.
- As principais vítimas foram os cristãos-novos de origem judaica: 83% em
Coimbra; 84% em Évora; 68% em Lisboa. A menor percentagem em Lisboa
deve-se ao facto de haver zonas ultramarinas sob a sua jurisdição e nelas
emergirem também outras questões: comércio ilegal com Marrocos; ajuda à
fuga dos escravos convertidos originários do Norte de África… No Brasil a
percentagem de acusações de judaísmo foi de 48%. Em Goa, as acusações
viraram-se sobretudo para os nativos convertidos, principalmente hindus, e a
partir de finais do século XVI também muçulmanos, mas com maior contenção
nas condenações relativamente aos demais tribunais do reino.
- A máquina burocrática da Inquisição permitia manter uma enorme capacidade
de intervenção em todo o império português sobre as crenças e
comportamentos religiosos das pessoas, envolvendo uma apertada vigilância
sobre as comunidades de estrangeiros e um controlo sistemático sobre a
importação, produção, circulação e posse de livros (ex. visitas a navios).
- Quanto ao processo, segundo o regimento de 1640, importa relevar um
conjunto de elementos que, não sendo diversos dos usados nos tribunais civis,
não deixam de se revestir de particular gravidade: o recurso a testemunhas
secretas e acusações anónimas; os interrogatórios tendentes a obter o maior
número possível de dados confessados, valorizando indícios e presunções e
recorrendo à pressão psicológica e à tortura; a importância dada a pequenos
indícios e presunções; a prisão prolongada durante o processo; as denúncias de
outros presos; a vigilância exercida sobre os presos para os apanhar em atos
heréticos ou judaizantes; o recurso a advogados nomeados pela Inquisição que
não podiam consultar o processo nem assistir aos interrogatórios.
- Os condenados cumpriam penas espirituais ou temporais (confisco de bens,
desterro, relaxação ao braço secular).
O declínio da Inquisição deveu-se sobretudo à crescente autonomia do campo
político, acentuada pelo regalismo pombalino, que a usou como instrumento da sua
política absolutista. A supressão da discriminação dos cristãos-novos em 1773 e a
clarificação do estatuto do Santo Ofício como tribunal régio em 1774 constituíram duas
machadadas no poder na Inquisição. A perda da autonomia relativa da Inquisição
sublinhou o seu caráter anómalo numa constituição dominada pelo poder régio sem
partilha nem compromisso na esfera da ação política. A abolição do tribunal de Goa em
1774 – regressou quatro anos depois – e definitivamente 1812 devido à pressão inglesa
anunciava o fim dum tribunal que nada tinha a ver com a nova ordem constitucional que
se desenhava no horizonte. Não foi, por isso, com surpresa que a Inquisição foi abolida
26

pela Assembleia Constitucional em 5 de abril de 1821, por ser incompatível com o novo
regime.
Concluímos com o juízo autorizado de José Mattoso:
«Divergem os autores quanto à interpretação da inquisição como fenómeno histórico e
quanto ao juízo acerca do papel que exerceu na sociedade do seu tempo. Os
Protestantes, desde o séc. XVII, e os historiadores positivistas ou agnósticos mais
recentes atacaram-na, por vezes, com a intenção de provarem o obscurantismo da
Igreja ou o seu papel de obstáculo à emancipação do homem. Em contrapartida, alguns
historiadores católicos pretenderam mostrar os benefícios que trouxe ou pelo menos
justificá-la em face dos costumes e princípios da época. Hoje, poucos se atrevem a
defendê-la sem reservas, porque o processo, e por vezes a prática da inquisição, são
objectivamente contrários ao espírito cristão, e não parece que a Igreja possa colher
benefícios de uma instituição contrária aos seus princípios. Todavia, há que distinguir as
épocas. Os processos do séc. XVI parecem revelar maior isenção que os de tempos
posteriores. O que no séc. XVI resultava da intolerância generalizada em matéria
religiosa (que deu origem a processos semelhantes nos países protestantes),
condicionalismo psicológico a que os homens da época dificilmente poderiam escapar,
transformou-se, no séc. XVII, em muitos casos, num órgão de totalitarismo político,
discriminação racial e pressão social»4.

4
José MATTOSO, Inquisição em Portugal, in Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira de Cultura. Edição século XXI,
XV, Lisboa – São Paulo: Verbo, 1178-1179.