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JULGAMENTO ANTECIPADO PARCIAL DO MÉRITO


Partial summary judgment on the merits
Revista de Processo | vol. 252/2016 | p. 133 - 146 | Fev / 2016
DTR\2016\209

Edilton Meireles
Pós-doutor em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Doutor em Direito pela
PUC-SP. Professor de Direito Processual Civil na Universidade Federal da Bahia (UFB). Professor
de Direito na Universidade Católica do Salvador (UCSal). Membro do IBDP. Membro da Associacion
Iberoamericana de Derecho del Trabajo. Membro do Instituto Brasileiro de Direito Social Cesarino
Júnior. Desembargador do Trabalho na Bahia (TRT 5.ª Região). edilton_meireles@uol.com.br

Área do Direito: Civil; Processual


Resumo: No presente trabalho tratamos da hipótese de julgamento antecipado de mérito conforme
previsto no novo Código de Processo Civil. Preocupado com a efetividade da decisão judicial em
prazo razoável, o legislador resolveu, com o novo Código de Processo Civil, autorizar a possibilidade
de o juiz também julgar antecipadamente o mérito, de modo definitivo. Destacamos que, em verdade,
essa possibilidade não se constitui em novidade no processo civil brasileiro. Analisamos, ainda, o
cabimento e processamento do recurso contra a decisão que julga antecipadamente o mérito.

Palavras-chave: Julgamento antecipado - Mérito - Processo civil - Recurso - Improcedência liminar.


Abstract: In this article we treat trial hypothesis of merit anticipated judgement as provided for in the
new CPC. Concerned about the effectiveness of judicial decision within a reasonable doubt, the
legislature decided, with the new CPC, allowing the possibility that the judge also of merit anticipated
judgement in a definitive. We emphasize that, in fact, that possibility does not represent a novelty in
the Brazilian civil procedure. We have analyzed also the pertinence and resource processing against
the decision in anticipated judgement.

Keywords: Anticipated judgment - Merit - Civil procedure - Appeal - Dismissal preliminary.


Sumário:

1Introdução - 2Uma distinção necessária: ação e processo - 3Do julgamento antecipado parcial na
legislação anterior ao Código de Processo Civil de 2015 - 4Do julgamento antecipado parcial de
mérito no Código de Processo Civil de 2015 - 5Do recurso - 6Dos honorários advocatícios - 7Da
ordem cronológica - 8No processo do trabalho - 9Conclusão

1 Introdução

Preocupado com o princípio da duração razoável do processo (celeridade), o legislador, em boa


hora, tratou de regular de forma expressa a hipótese de julgamento antecipado parcial do mérito no
processo civil brasileiro no novo Código de Processo Civil.

Com essa regulamentação o legislador não só procurou dispor expressamente sobre essa
possibilidade - que não se constitui novidade na legislação processual -, como quis corrigir uma
atecnia existente no Código de Processo Civil de 1973, quando trata da antecipação da tutela na
hipótese de pedido incontroverso (§ 6.º do art. 273 do CPC/1973).

Adiante procuramos tratar deste tema, em todas as suas vertentes. Deixamos de lado, porém, a
hipótese de julgamento antecipado parcial sem resolução de mérito, que, mais uma vez, não foi
objeto de regulamentação especifica pelo legislador.
2 Uma distinção necessária: ação e processo

Antes de adentrarmos, todavia, a hipótese de julgamento antecipado parcial e mérito, é preciso


relembrar uma distinção muito cara ao direito processual e que nem sempre é lembrada, inclusive
pelo legislador. Queremos nos referir à distinção entre ação e processo.

Como é sabido, em expressão já clássica, para todo direito corresponde uma ação judicial. Ou seja,
para cada direito subjetivo, o seu titular dispõe do direito de ação correspondente. Isso é, ele pode
propor uma ação exigindo do Estado a prestação de um serviço jurisdicional tendentePágina a lhe
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assegurar a satisfação do direito subjetivo que alega possuir.

Assim, por exemplo, se alguém deve o aluguel (os alimentos, o salário etc.) do mês de janeiro, o
credor pode propor uma ação judicial cobrando a prestação respectiva.

Pode ocorrer, porém, de a pessoa ser titular de diversos direitos subjetivos em face da mesma
pessoa (ou diversas pessoas). Neste caso, ela pode propor tantas ações judiciais quanto sejam seus
direitos subjetivos. Por exemplo: se a pessoa é credora dos alugueres devidos em janeiro, fevereiro
e março pode propor três distintas ações, cobrando em cada uma delas a prestação devida em cada
mês.

A ação judicial, por sua vez, é instrumentalizada em um processo. Processo aqui entendido, ao
menos para fins didáticos, como o instrumento ou meio adequado pelo qual o Estado presta a tutela
jurisdicional. Instrumento por meio do qual se exerce a função jurisdicional e a parte exerce seu
direito de ação.

Assim, para cada ação o seu respectivo processo.

O direito, porém, por economia e até para melhor gestão do serviço público, acaba por admitir que o
titular do direito subjetivo possa reunir todas essas suas ações num único procedimento judicial. Para
tanto, o interessado pode propor então uma ação com cumulação de pedidos (art. 327 do
CPC/2015). São várias ações reunidas.

Todas essas ações, por suas vezes, são reunidas em um único processo. Ou, se assim quiser
entender, são vários processos (ação) reunidos em um único processo.

Todas as ações reunidas em um único processo, porém, tanto pode ser tratado pelo direito
processual de forma autônoma entre si (diversas ações/processos reunidos distintos entre si), como
pode ser regulada procedimentalmente de forma dependente uma da outra (como se fosse apenas
uma ação/processo). Aqui se cuida de uma opção legislativa.

Nada impede, ainda, que mesmo em relação a uma única ação (demanda de apenas um direito
subjetivo), o legislador permita que ela possa ser fracionada, autorizando ao juiz apreciar parcela do
pedido, destacando-o do restante.

Tais lições, portanto, devemos ter em mente ao apreciarmos o instituto processual do julgamento
antecipado parcial de mérito.
3 Do julgamento antecipado parcial na legislação anterior ao Código de Processo Civil de
2015

À primeira vista, poder-se-ia pensar que o julgamento antecipado parcial, ainda que do mérito, é uma
das novidades disciplinadas no Código de Processo Civil de 2015. Ledo engano.

Em verdade, mesmo diante do Código de Processo Civil de 1973 encontramos diversas hipóteses de
julgamento antecipado do mérito. Para tanto, podemos começar por citar a hipótese de julgamento
"de plano" da ação de consignação proposta contra duas ou mais pessoas fundada "em dúvida sobre
quem deva legitimamente receber" a prestação.

Nesta hipótese, diz o Código de Processo Civil de 1973, em seu art. 898, que, "não comparecendo
nenhum pretendente, converter-se-á o depósito em arrecadação de bens de ausentes;
comparecendo apenas um, o juiz decidirá de plano; comparecendo mais de um, o juiz declarará
efetuado o depósito e extinta a obrigação, continuando o processo a correr unicamente entre os
credores; caso em que se observará o procedimento ordinário".

Em outras palavras, nesta hipótese, proposta a demanda contra dois ou mais réus, o juiz pode
declarar extinta a obrigação cuja prestação foi consignada pelo autor, extinguindo o processo em
face deste, "continuando o processo a correr unicamente entre os credores".

Vejam, então, que, nesta hipótese, o juiz julga antecipadamente o mérito, declarando a extinção da
obrigação cuja prestação foi consignada pelo autor da consignação. Em outras palavras, julga
procedente a consignação, certificando a satisfação da obrigação.
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Mais outros exemplos, mesmo de mérito, podem ser lembrados, ainda que não regulados
expressamente na legislação. E aqui queremos nos referir às hipóteses em que o juiz homologa
acordo judicial derredor de parte do pedido. Não é raro, em demanda judicial, as partes conciliarem
derredor de parte do pleito da inicial, prosseguindo-se o processo no restante. Logo, aqui temos um
julgamento antecipado do mérito.

Igual fenômeno, por sua vez, já percebido pela doutrina, verifica-se, à luz do Código de Processo
Civil de 1973, quando o juiz concede a tutela antecipada do pedido incontroverso (§ 6.º do art. 273).
Neste caso, diante da incontrovérsia, o juiz, em juízo exauriente, oferta a tutela final da demanda. Ou
seja, julga parcialmente o mérito.

Já quanto ao julgamento antecipado sem resolução de mérito podemos citar, mesmo à luz do Código
de Processo Civil de 1973 a hipótese em que o juiz homologa o pedido de desistência parcial do
pedido ou da demanda em face de um dos litisconsortes passivo.

No processo do trabalho e nos juizados especiais podemos citar a hipótese de arquivamento


(extinção sem resolução de mérito) da demanda proposta pelo litisconsorte ativo que não comparece
à audiência, prosseguindo o processo apenas com os autores presentes. Aqui há extinção parcial do
processo, em face de um dos autores.

Situação semelhante a esta, cuida-se daquela na qual o juiz impõe a limitação do litisconsórcio ativo
(parágrafo único do art. 46 do CPC/1973). Neste caso, o juiz, ao determinar a limitação pode adotar
dois procedimentos alternativos: primeiro, extinguir o processo como um todo, determinando que
novas ações sejam propostas com a limitação de litisconsortes; ou, segundo, extinguir o processo
em relação a alguns demandantes, prosseguindo em relação aos remanescentes, permitindo-se que
aqueles primeiros proponham outras demandas.

No Código de Processo Civil de 2015, por sua vez, além dos exemplos acima mencionados,
expressamente menciona outra hipótese de julgamento antecipado parcial. Trata-se da extinção da
demanda contra réu originário quando este alega sua ilegitimidade ou que não é o responsável pelo
prejuízo invocado (art. 338).

Vejam, que, neste caso, o autor pode pedir a substituição do réu (parágrafo único do art. 338). Logo,
ele estaria desistindo da demanda proposta em face do réu originariamente ilegítimo, prosseguindo
do mesmo processo contra o novo réu (substituto).

E no caso de substituição do réu originário quando este alega que não é o responsável pelo prejuízo
invocado, podemos até concluir que o autor, ao pedir a substituição, estaria reconhecendo a
improcedência da demanda em face daquele primeiro, prosseguindo com o processo em face do réu
substituto.

Em suma, com os diversos exemplos acima mencionados, verificamos que o julgamento antecipado
parcial com ou sem resolução do mérito não se constitui nenhuma novidade no processo civil
brasileiro. De novidade mesmo apenas sua expressa regulamentação no art. 356 do CPC/2015.
4 Do julgamento antecipado parcial de mérito no Código de Processo Civil de 2015

Como dito na introdução, preocupado com a duração razoável do processo (em verdade, da ação
judicial), o legislador processual tratou de regulamentar expressamente as hipóteses de julgamento
antecipado do mérito, sem prejuízo das hipóteses tratadas especificamente, a exemplo da ação de
consignação proposta contra credores duvidosos.

Assim é que, no art. 356 do CPC/2015, está estabelecida a possibilidade do julgamento parcial
antecipado do mérito "quando um ou mais dos pedidos formulados ou parcela deles":

a) "mostrar-se incontroverso";

b) "não houver necessidade de produção de outras provas";

c) ou quando o réu for revel, presumindo-se "por verdadeiras as alegações de fato formuladas
pelo autor" (art. 344 do CPC/2015) e não haja requerimento de produção de prova pelo demandado.

Observem que, seguindo a regra da tutela antecipada de pedido incontroverso, previsto no §Página
6.º do3
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art. 273 do CPC/1973, o legislador repetiu a fórmula quanto à possibilidade de julgamento de um ou


mais pedido ou de parcela deles. Por exemplo, diante de dois ou mais pedidos, o juiz pode julgar,
desde logo, um deles, prosseguindo o processo em suas fases posteriores com o outro ou demais
pedidos.

Pode, ainda, em relação a um dos pedidos, julgar apenas uma parcela dele, prosseguindo na
demanda em suas fases posteriores para em seguida apreciar o restante do mesmo pedido, em sua
parcela ainda não avaliada. Exemplo que se tem é aquele no qual o autor pede a condenação do réu
em determinada quantia e este reconhece dever um valor inferior ao demandado na inicial. Logo,
diante da incontrovérsia de parcela do pedido, o juiz está autorizado a julgar antecipadamente uma
parcela do pedido.

Os exemplos se avolumam, sendo que, no processo do trabalho, que se caracteriza pelo fato de que
na inicial, em geral, o autor formula diversos pedidos, muitas vezes ultrapassando a casa da unidade
(dez ou mais pedidos), essa possibilidade ganha contornos de ampla utilidade.

O pedido se revela incontroverso quando o réu não contesta ou reconhece a procedência do pedido.
Também aqui se enquadra a hipótese na qual o autor renúncia à pretensão formulada na ação, pois,
neste caso, o pedido se torna incontroverso como não sendo (mais) devido.

Hipótese em que não há necessidade de produção de outras provas se tem quando o fato resta
comprovado pela prova documental exibida pelo autor ou réu, ou quando diante da realização da
perícia ou mesmo quando diante da confissão da parte.

Também se terá oportunidade para o julgamento antecipado parcial do mérito quando, não havendo
contestação, ter-se "por verdadeiras as alegações de fato formuladas pelo autor" (art. 344 do
CPC/2015) e não haja, por parte do demandado, o requerimento de produção de prova.

Vale lembrar, todavia, que a falta de contestação não induz a veracidade das alegações de fato
postas na inicial se, conforme art. 345 do CPC/2015,

"I - havendo pluralidade de réus, algum deles contestar a ação;

II - o litígio versar sobre direitos indisponíveis;

III - a petição inicial não estiver acompanhada de instrumento que a lei considere
indispensável à prova do ato;

IV - as alegações de fato formuladas pelo autor forem inverossímeis ou estiverem em


contradição com prova constante dos autos".

A legislação, por sua vez, não limita a natureza da decisão. Logo, ela pode se referir a um pedido
meramente declaratório, constitutivo ou condenatório.

Da mesma forma, a lei não limita a quantidade de decisões antecipadoras parciais do mérito. Daí por
que o juiz pode proferir diversas decisões de antecipação parcial do mérito, à medida que, em
relação ao pedido, esteja preenchido o pressuposto para seu julgamento. Uma vez encerrada a fase
de instrução, todavia, descabe o julgamento parcial dos pedidos. Neste caso, o julgamento deverá
ser "em bloco", sob pena de verdadeira fraude à lei.

A decisão, por sua vez, "poderá reconhecer a existência de obrigação líquida ou ilíquida" (§ 1.º do
art. 356 do CPC/2015).

A parte, outrossim, está autorizado a "liquidar ou executar, desde logo, a obrigação reconhecida na
decisão que julgar parcialmente o mérito, independentemente de caução, ainda que haja recurso
contra essa interposto" (§ 2.º do art. 356 do CPC/2015).

Vejam que, mesmo diante do cumprimento provisório, foi dispensada a exigência da caução.

Essa liquidação ou cumprimento da decisão, por sua vez, poderá ser processada em autos
suplementares, a requerimento da parte ou a critério do juiz (§ 4.º do art. 356 do CPC/2015). Melhor
será, ao certo, formar autos apartados ou procedimento virtual autônomo para evitar tumultos
processuais, com perda do benefício buscado (celeridade). Página 4
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5 Do recurso

A decisão que julga antecipadamente de forma parcial o mérito é, no conceito do Código de


Processo Civil de 2015, de natureza interlocutória (art. 203, § 2.º). Isso porque ela não põe fim à fase
de conhecimento em seu todo. Daí por que, dentro da lógica do novo Código de Processo Civil de
2015, o § 5.º do art. 356 estabelece que essa decisão é impugnável por agravo de instrumento. Tal
regra se repete, em outras palavras, no inc. II do art. 1.015 do CPC/2015, já que cuida de decisão de
"mérito do processo".

Tal agravo de instrumento, por sua vez, tem verdadeira natureza de apelação. E tanto assim o é que
o próprio Código de Processo Civil o tratou dessa forma ao estabelecer a incidência da técnica de
julgamento prevista do art. 942 quando, no agravo de instrumento, "houver reforma da decisão que
julgar parcialmente o mérito" (inc. II do § 3.º).

Em suma, tal como na apelação, quando o resultado não for unânime, "o julgamento [do agravo de
instrumento] terá prosseguimento em sessão a ser designada com a presença de outros julgadores,
que serão convocados nos termos previamente definidos no regimento interno, em número suficiente
para garantir a possibilidade de inversão do resultado inicial, assegurado às partes e a eventuais
terceiros o direito de sustentar oralmente suas razões perante os novos julgadores" (art. 942, caput,
CPC/2015).

Vejam, ainda, que, da aplicação deste dispositivo, extrai-se outra regra própria da apelação, somente
estendida ao agravo de instrumento por norma expressa. Estamos a nos referir do direito de
sustentação oral.

O art. 937 do CPC não estabelece expressamente a possibilidade de a parte poder fazer
sustentação oral em agravo de instrumento interposto contra decisão que julga antecipadamente de
forma parcial o mérito. Há previsão para a sustentação oral "no agravo de instrumento interposto
contra decisões interlocutórias que versem sobre tutelas provisórias de urgência ou da evidência"
(inc. VIII). Olvidaram de mencionar, no entanto, o agravo de instrumento interposto contra decisão
que julga antecipadamente de forma parcial o mérito.

Pelas vias transversas, no entanto, em face da incidência do art. 942 do CPC/2015, podemos
concluir que também é assegurada a sustentação oral no agravo de instrumento interposto contra
decisão que julga de forma antecipada parcialmente o mérito. Isso porque por este dispositivo está
"assegurado às partes e a eventuais terceiros o direito de sustentar oralmente suas razões perante
os novos julgadores" (art. 942, caput, CPC/2015). Se tem direito de sustentar perante os novos
julgadores, ao certo tem perante os "antigos" (originários) julgadores.

Destaque-se, porém, que, mesmo diante de uma decisão com natureza de sentença (pois resolve
em definitivo o mérito, ainda que parcialmente) e de um recurso com natureza de apelação, o
legislador retirou o efeito suspensivo a este (recurso). E tal decorre da própria lógica do cabimento
do julgamento antecipado parcial, já que com esse instituto o que se busca é a maior celeridade
processual, "incluída a atividade satisfativa" (art. 4.º do CPC/2015). Não teria lógica, assim,
estabelecer o efeito suspensivo ao recurso. Aqui se seguiu a lógica do agravo de instrumento, que
não é dotado de efeito suspensivo.

Entendemos, porém, que o legislador andou mal ao regulamentar esse instituto. Deveria ter feito de
forma mais técnica, de modo a evitar confusões. Para tanto, e mesmo para sua melhor
compreensão, teria sido melhor que o legislador tivesse sido expresso em conceder poderes ao juiz
para "dividir" o processo. Separar as ações ou dividi-la em caso de parcela julgada parcialmente de
forma antecipada.

Em suma, o que ocorre no julgamento antecipado parcial, seja de mérito, seja sem resolução de
mérito, é uma verdadeira separação das ações reunidas no mesmo processo ou da divisão da ação
quando se julga apenas uma parcela do (de um) pedido. Separação ou divisão ex officio.

Esse fenômeno, aliás, repete-se quando da limitação "do litisconsórcio facultativo quanto ao número
de litigantes na fase de conhecimento, na liquidação de sentença ou na execução, quando este
comprometer a rápida solução do litígio ou dificultar a defesa ou o cumprimento da sentença" (§ 1.º
do art. 113 do CPC).
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Vejam que o que ocorre, nesta hipótese, é uma verdadeira separação de ações reunidas em um
único processo. Quando o juiz determina a limitação do litisconsórcio, ele, em outras palavras,
manda dividir o processo. Isso fica claro em especial na fase de liquidação de sentença e na de seu
cumprimento. Aqui se tem um processo que é dividido de acordo com o número de litisconsórcio,
desdobrando-se em quantos seja determinado pelo juiz.

A partir dessa percepção, então, deveria ter o legislador previsto, de forma expressa, que o juiz
estaria autorizado a dividir o processo, presentes os pressupostos para julgamento antecipado
parcial do mérito. Dividido, formando-se um novo processo, dar-se-ia a este o mesmo tratamento
dado à sua decisão definitiva. Ou seja, teríamos uma sentença a reclamar apelação etc.

Tal regramento, por sua vez, teria a vantagem de evitar dúvidas quanto ao processamento do
recurso. Isso porque, na forma estabelecida no Código de Processo Civil de 2015, tratando-se de
agravo de instrumento com natureza de sentença, restam dúvidas quanto à aplicação das regras
próprias do agravo de instrumento, a exemplo do juízo de retratação do órgão recorrido (§ 1.º do art.
1.018 do CPC/2015).

De qualquer forma, ainda que assim não tenha sido previsto em lei, é fato que ao agravo de
instrumento interposto contra a decisão que julga antecipadamente de forma parcial o mérito deve
ser dado o mesmo tratamento dispensado à apelação, salvo o seu efeito suspensivo, em face de
regra expressa (§ 2.º do art. 356 do CPC/2015).

Mas, de qualquer forma, algumas dúvidas restam. Por exemplo, o recurso deve ser interposto
diretamente perante o tribunal (art. 1.016 do CPC/2015) ou perante o juízo recorrido (art. 1.010 do
CPC/2015)? Cabe-lhe exigir o preparo próprio da apelação ou não?

São dúvidas que somente a jurisprudência irá sanar de forma definitivo. Até lá, cabe a aplicação do
princípio da fungibilidade. De nossa parte, entendemos que cabe aplicar, a este agravo de
instrumento, as regras próprias da apelação.
6 Dos honorários advocatícios

Outra questão duvidosa se refere aos honorários advocatícios.

Na dicção do art. 85 do CPC/2015 os honorários advocatícios devem ser fixados na "sentença".

Se se adotar a literalidade deste dispositivo, quando do julgamento antecipado parcial do mérito,


descaberá ao juiz decidir quanto aos honorários advocatícios. Restaria deixar essa questão para ser
enfrentada quando do último julgamento, isto é, quando da prolação da sentença (decisão que põe
fim à fase de conhecimento).

A questão aqui, porém, é duvidosa. Partindo do pressuposto acima sustentado que caberia ter esse
julgamento antecipado parcial como uma decisão que impõe a "divisão" do processo, haveríamos de
apreciar cada uma das partes divididas como verdadeira ação autônoma, de modo a atrair a
condenação em honorários.

E se assim se entender ou interpretar as normas do Código de Processo Civil, a questão dos


honorários advocatícios estaria resolvida.

O novo Código de Processo Civil, porém, parece que segue outra lógica, permitindo o julgamento
parcial, mas sem considerar a parte decidida como "demanda" autônoma, que se separa em
definitivo do processo original (dos "autos principais").

Sendo assim, parece-nos que, de fato, o procedimento a ser adotado e de somente decidir os
honorários advocatícios quando da prolação da sentença. Isso porque, em relação aos honorários
advocatícios, o juiz haveria de ter em conta a atuação do advogado em todo o processo ajuizado. Da
inicial à sentença. Descaberia, assim, ao juiz condenar o vencido de forma antecipa.

A princípio se poderia pensar no contrário. Essa divisão, porém, traria uma dificuldade.

Vejam a hipótese de sucumbência mínima do pedido. Neste caso, a regra é condenar a outra parte,
por inteiro, pelas despesas e honorários advocatícios (parágrafo único do art. 86 do CPC). Imaginem,
então, que a parte mínima seja justamente aquela acolhida em julgamento antecipado parcial Páginade
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mérito, mas somente assim definida após o julgamento dos demais pedidos. Se nesta oportunidade
do julgamento antecipado o juiz tiver que decidir quanto aos honorários advocatícios, haveria de
condenar o vencido nos honorários incidentes sobre a parcela objeto da condenação antecipada. Se,
no entanto, ao julgar o restante dos pedidos o juiz concluir que o derrotado na decisão antecipada
somente foi vencido em parte mínima considerando todos os pedidos, que seria justamente aquela
antecipada, teríamos criado uma situação na qual a regra do parágrafo único do art. 86 do CPC teria
sido fraudada. Isso porque, uma vez condenado o vencido em parte mínima do pedido nos
honorários incidentes sobre a parcela antecipada, não se teria mais como aplicar a regra do
parágrafo único do art. 86 do CPC.

Aqui estamos, pois, diante de outra questão a ser resolvida pela jurisprudência. De lamentar, todavia,
esse outro vacilo do legislador.
7 Da ordem cronológica

Outra dificuldade temos em relação ao julgamento na ordem cronológica de conclusão.

O art. 12 do novo CPC estabelece que "os juízes e os tribunais deverão obedecer à ordem
cronológica de conclusão para proferir sentença ou acórdão".

E, mais uma vez, adotando-se a interpretação literal do caput do art. 12, teríamos que a decisão
interlocutória que antecipa parcialmente o mérito não está sujeita à apreciação conforme a ordem
cronológica de conclusão, já que este dispositivo somente menciona as sentenças e acórdãos. E
tanto seria assim, pois, ao mencionar os procedimentos ou atos que estão excluídos desta regra, o
legislador não incluiu o julgamento antecipado (§ 2.º do art. 12). Ou seja, teria distinguido a decisão
interlocutória que antecipa parcialmente o mérito da sentença em si.

Assim pode até ser, mas essa interpretação acaba por tratar de forma contraditória o mesmo instituto
processual. Isso porque, ora teria a decisão que antecipa parcialmente o mérito como simples
decisão interlocutória, afastando-o da regra do art. 12 do CPC, ora teria essa mesma decisão como
de natureza de sentença ao dar ao agravo de instrumento contra ela interposto o tratamento
dispensado à apelação (que pressupõe uma sentença).

Creio, porém, que o sentido do art. 12 do CPC é estabelecer uma ordem de cronológica para
prolação de decisão de mérito, seja interlocutoriamente, seja ao final da fase de conhecimento,
lembrando que a decisão que extingue o processo sem resolução do mérito está na exceção do § 2.º
do art. 12 (inc. IV).

Assim, a decisão que antecipa parcialmente o mérito somente deve ser prolatada em obediência à
ordem cronológica a que se refere o caput do art. 12 do novo CPC.

Não temos dúvidas, porém, em afirmar, numa interpretação teleológica deste instituto do processo
civil, que, no mínimo, deve haver respeito à ordem cronológica de conclusão dos processos nos
quais o juiz pode prolatar decisão antecipada parcial de mérito. Isso de modo a evitar os "privilégios",
que é o que justamente essa norma - que impõe o respeito à ordem cronológica - busca por fim.
8 No processo do trabalho

Afirmamos acima que a possibilidade de julgamento antecipado parcial de mérito cai como uma luva
no processo do trabalho, considerando que, em geral, na inicial da demanda trabalhista, são
formulados inúmeros pedidos, aumentando a probabilidade da adoção deste procedimento de
apreciação dos pleitos.

A isso se acresça o fato de que, na demanda trabalhista, em geral, o autor é pessoa vulnerável, com
parcos recursos econômicos, a demandar parcela de natureza alimentar (salários), o que atraia a
incidência do princípio da duração razoável do processo com fortes cores. O julgamento antecipado
parcial do mérito, portanto, vai ao encontro dos anseios do trabalhador demandante.

Podemos, assim, concluir que este instituto processual é plenamente aplicável ao processo do
trabalho e chegaria em boa hora.

Mas uma dificuldade há de ser superada. E para tanto um "dogma" do processo do trabalho há de
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ser quebrado, reinterpretando-se uma de suas regras de ouro. Refiro-me à regra do § 1.º do art. 893
da CLT (LGL\1943\5), que admite "a apreciação do merecimento das decisões interlocutórias
somente em recurso da decisão definitiva", entendendo-se esta como a sentença que põe fim à fase
de conhecimento.

Está consagrado na doutrina e na jurisprudência trabalhistas o entendimento de que contra decisão


interlocutória descabe a interposição de imediato de recurso. A decisão interlocutória seria, assim,
objeto de recurso somente quando da decisão definitiva ou terminativa do feito (art. 895, I, da CLT
(LGL\1943\5)). Mas, repito: entendendo-se a decisão terminativa ou definitiva como aquela que põe
fim à fase de conhecimento.

Mas esse entendimento tem toda a sua lógica à luz do Código de Processo Civil de 1973. Com o
novo Código de Processo Civil, no entanto, não se pode mais ter a sentença como a única decisão
definitiva ou terminativa do feito. Isso porque a decisão interlocutória que julga antecipadamente de
forma parcial o pedido também é uma decisão definitiva. É definitiva em relação ao pedido apreciado
antecipadamente. E uma vez proferida, não cabe mais ao juiz de primeiro grau voltar a apreciar a
mesma questão.

Daí se tem que cabe reinterpretar o § 1.º do art. 893 da CLT (LGL\1943\5) de modo a se entender
que a "apreciação do merecimento das decisões interlocutórias" somente caberá em recurso
interposto contra a sentença se aquela (decisão interlocutória) não for definitiva (não for de mérito).

Assim não se entendendo, seria mínimo o ganho com o julgamento antecipado parcial do mérito no
processo do trabalho. Em outras palavras, ele seria mera "antecipação da tutela" em seus efeitos
práticos, ainda que não sujeito à confirmação na "decisão definitiva" (sentença).

A grande vantagem do julgamento antecipado é justamente permitir a formação da coisa julgada


antecipadamente ou mesmo o processamento de eventual recurso de imediato. Se for para aguardar
o fim do processo como um todo para que esses fenômenos possam ocorrer, o julgamento
antecipado de mérito do Código de Processo Civil de 2015 irá se igualar à tutela antecipada do
Código de Processo Civil/1973.

Pensamos, porém, que cabe a reinterpretação, tal como já procedida pelo TST em situações
semelhantes, quando passou a admitir o recurso contra decisão interlocutória de decisão "(a) de
Tribunal Regional do Trabalho contrária à Súmula ou Orientação Jurisprudencial do Tribunal Superior
do Trabalho; (b) suscetível de impugnação mediante recurso para o mesmo Tribunal; (c) que acolhe
exceção de incompetência territorial, com a remessa dos autos para Tribunal Regional distinto
daquele a que [qual] se vincula o juízo excepcionado, consoante o disposto no art. 799, § 2.º, da CLT
(LGL\1943\5)" (Súmula 214).

Vejam que, nessas três hipóteses, a CLT (LGL\1943\5) não admite a interposição de recurso contra
a decisão interlocutória. Mesmo na hipótese do § 2.º do art. 799 da CLT (LGL\1943\5), o que ali está
dito é que, se o juiz acolher a exceção de incompetência e julgar extinta a demanda (decisão
"terminativa do feito"), em vez de remeter o processo para o juízo competente, caberia o recurso
ordinário. A menção a este dispositivo, aliás, é um grande equívoco interpretativo do TST. Isso
porque, neste dispositivo, em momento algum se diz que cabe recurso contra a decisão que
determina a remessa dos autos para outro juízo, até porque ela não é terminativa do feito.

O TST, porém, inovando, passou a admitir o recurso contra a decisão interlocutória que, acolhendo a
exceção de incompetência territorial, determina a remessa dos autos para juízo vinculado a Tribunal
Regional distinto daquele a qual se vincula o juízo excepcionado.

Em suma, no que nos interessa, é fato que o próprio TST já inovou, reinterpretando a CLT
(LGL\1943\5), de modo a admitir o recurso contra decisão interlocutória ao menos em três hipóteses.
E em relação à segunda hipótese (decisão "suscetível de impugnação mediante recurso para o
mesmo Tribunal"), generalizou-se a possibilidade da interposição do recurso de agravo previsto no
Código de Processo Civil ou instituído por Regimento Interno (em norma inconstitucional, já que os
Tribunais não têm competência para legislar em matéria de direito processual).

Cabe, pois, apenas ter a coragem de romper com esse "dogma" de modo que processo do trabalho
possa avançar.
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E avançando, diria que o recurso cabível contra a decisão definitiva que antecipa de forma parcial o
mérito no processo do trabalho é o ordinário. E, como tal, ele atrai a incidência de todas as regras
relativas ao preparo recursal, inclusive a exigência do depósito recursal, se for o caso.

Como no processo do trabalho não se aplica a regra da sucumbência mínima para fixação dos
honorários advocatícios, nada impede, ainda, da sua condenação em decisão antecipada parcial de
mérito.

Caberia, ainda, ao juiz do trabalho, ao julgar antecipadamente de forma parcial o mérito, caso acolha
o pedido, impor, desde logo, a condenação do demandado no pagamento das custas parciais do
processo. Caso, porém, rejeite integralmente o pedido de forma antecipada em decisão parcial, deve
deixar a decisão quanto às custas para o final do processo. Isso porque, caso o autor venha a ser
vencedor em qualquer outro pedido, ainda que mínimo, essa despesa deve ser arcada pelo
demandado. Isso se entender que continua a ser um mesmo processo, ainda que repartido, mas não
dividido.

Uma dificuldade teríamos quanto ao depósito recursal. Isso porque a lei estabelece um limite a este
depósito. Pode ocorrer, porém, que com o recurso interposto contra a decisão que antecipa
parcialmente o mérito a empresa efetue o total deste limite. Fica a dúvida: quando da interposição de
novo recurso, contra acolhimento dos demais pedidos, cabe novo depósito?

A questão se resolve pela definição que significa a decisão que antecipa parcialmente o mérito. Se
se tem que se trata de um fenômeno que divide o processo, separando as ações, passaríamos a ter
duas ou mais demandas, que devem ser tratadas como feitos autônomos um do outro. Se se
entender que se trata apenas de uma repartição de pedidos, sem divisão das ações em vários
processos, continuando a existir apenas um procedimento, a lógica será tratar os "autos
suplementares" (procedimento de antecipação) como parte de um todo. Neste caso, teríamos
apenas um processo, o que asseguraria o aproveitamento do depósito recursal que eventualmente
foi antecipado quando da interposição do recurso contra a decisão que julgou de forma parcial o
mérito.
9 Conclusão

Para finalizar, podemos então concluir com as seguintes teses:

a) o julgamento antecipado parcial do processo, com ou sem resolução de mérito, não é nenhuma
novidade no direito processual civil brasileiro;

b) a decisão que julga antecipadamente de forma parcial o mérito é, no conceito do Código de


Processo Civil de 2015, definida como interlocutória (art. 203, § 2.º), mas tem natureza de sentença;

c) essa decisão é impugnável por agravo de instrumento, que, por sua vez, tem verdadeira natureza
de apelação;

d) a este agravo de instrumento devem ser aplicadas todas as regras procedimentais que incidem
sobre a apelação;

e) com o julgamento antecipado parcial de mérito o juiz estabelece verdadeira separação das ações
reunidas no mesmo processo ou a divisão da ação quando se julga apenas uma parcela de um
pedido;

f) o julgamento antecipado parcial de mérito é plenamente aplicável ao processo do trabalho;

g) no processo do trabalho, contra a decisão de primeiro grau que julga antecipadamente de forma
parcial o mérito, cabe recurso ordinário, incidindo as regras pertinentes, inclusive quanto à exigência
do preparo.

Página 9
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JULGAMENTO ANTECIPADO PARCIAL DO MÉRITO


Partial summary judgment on the merits
Revista de Processo | vol. 252/2016 | p. 133 - 146 | Fev / 2016
DTR\2016\209

Edilton Meireles
Pós-doutor em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Doutor em Direito pela
PUC-SP. Professor de Direito Processual Civil na Universidade Federal da Bahia (UFB). Professor
de Direito na Universidade Católica do Salvador (UCSal). Membro do IBDP. Membro da Associacion
Iberoamericana de Derecho del Trabajo. Membro do Instituto Brasileiro de Direito Social Cesarino
Júnior. Desembargador do Trabalho na Bahia (TRT 5.ª Região). edilton_meireles@uol.com.br

Área do Direito: Civil; Processual


Resumo: No presente trabalho tratamos da hipótese de julgamento antecipado de mérito conforme
previsto no novo Código de Processo Civil. Preocupado com a efetividade da decisão judicial em
prazo razoável, o legislador resolveu, com o novo Código de Processo Civil, autorizar a possibilidade
de o juiz também julgar antecipadamente o mérito, de modo definitivo. Destacamos que, em verdade,
essa possibilidade não se constitui em novidade no processo civil brasileiro. Analisamos, ainda, o
cabimento e processamento do recurso contra a decisão que julga antecipadamente o mérito.

Palavras-chave: Julgamento antecipado - Mérito - Processo civil - Recurso - Improcedência liminar.


Abstract: In this article we treat trial hypothesis of merit anticipated judgement as provided for in the
new CPC. Concerned about the effectiveness of judicial decision within a reasonable doubt, the
legislature decided, with the new CPC, allowing the possibility that the judge also of merit anticipated
judgement in a definitive. We emphasize that, in fact, that possibility does not represent a novelty in
the Brazilian civil procedure. We have analyzed also the pertinence and resource processing against
the decision in anticipated judgement.

Keywords: Anticipated judgment - Merit - Civil procedure - Appeal - Dismissal preliminary.


Sumário:

1Introdução - 2Uma distinção necessária: ação e processo - 3Do julgamento antecipado parcial na
legislação anterior ao Código de Processo Civil de 2015 - 4Do julgamento antecipado parcial de
mérito no Código de Processo Civil de 2015 - 5Do recurso - 6Dos honorários advocatícios - 7Da
ordem cronológica - 8No processo do trabalho - 9Conclusão

1 Introdução

Preocupado com o princípio da duração razoável do processo (celeridade), o legislador, em boa


hora, tratou de regular de forma expressa a hipótese de julgamento antecipado parcial do mérito no
processo civil brasileiro no novo Código de Processo Civil.

Com essa regulamentação o legislador não só procurou dispor expressamente sobre essa
possibilidade - que não se constitui novidade na legislação processual -, como quis corrigir uma
atecnia existente no Código de Processo Civil de 1973, quando trata da antecipação da tutela na
hipótese de pedido incontroverso (§ 6.º do art. 273 do CPC/1973).

Adiante procuramos tratar deste tema, em todas as suas vertentes. Deixamos de lado, porém, a
hipótese de julgamento antecipado parcial sem resolução de mérito, que, mais uma vez, não foi
objeto de regulamentação especifica pelo legislador.
2 Uma distinção necessária: ação e processo

Antes de adentrarmos, todavia, a hipótese de julgamento antecipado parcial e mérito, é preciso


relembrar uma distinção muito cara ao direito processual e que nem sempre é lembrada, inclusive
pelo legislador. Queremos nos referir à distinção entre ação e processo.

Como é sabido, em expressão já clássica, para todo direito corresponde uma ação judicial. Ou seja,
para cada direito subjetivo, o seu titular dispõe do direito de ação correspondente. Isso é, ele pode
propor uma ação exigindo do Estado a prestação de um serviço jurisdicional tendente a lhe
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assegurar a satisfação do direito subjetivo que alega possuir.

Assim, por exemplo, se alguém deve o aluguel (os alimentos, o salário etc.) do mês de janeiro, o
credor pode propor uma ação judicial cobrando a prestação respectiva.

Pode ocorrer, porém, de a pessoa ser titular de diversos direitos subjetivos em face da mesma
pessoa (ou diversas pessoas). Neste caso, ela pode propor tantas ações judiciais quanto sejam seus
direitos subjetivos. Por exemplo: se a pessoa é credora dos alugueres devidos em janeiro, fevereiro
e março pode propor três distintas ações, cobrando em cada uma delas a prestação devida em cada
mês.

A ação judicial, por sua vez, é instrumentalizada em um processo. Processo aqui entendido, ao
menos para fins didáticos, como o instrumento ou meio adequado pelo qual o Estado presta a tutela
jurisdicional. Instrumento por meio do qual se exerce a função jurisdicional e a parte exerce seu
direito de ação.

Assim, para cada ação o seu respectivo processo.

O direito, porém, por economia e até para melhor gestão do serviço público, acaba por admitir que o
titular do direito subjetivo possa reunir todas essas suas ações num único procedimento judicial. Para
tanto, o interessado pode propor então uma ação com cumulação de pedidos (art. 327 do
CPC/2015). São várias ações reunidas.

Todas essas ações, por suas vezes, são reunidas em um único processo. Ou, se assim quiser
entender, são vários processos (ação) reunidos em um único processo.

Todas as ações reunidas em um único processo, porém, tanto pode ser tratado pelo direito
processual de forma autônoma entre si (diversas ações/processos reunidos distintos entre si), como
pode ser regulada procedimentalmente de forma dependente uma da outra (como se fosse apenas
uma ação/processo). Aqui se cuida de uma opção legislativa.

Nada impede, ainda, que mesmo em relação a uma única ação (demanda de apenas um direito
subjetivo), o legislador permita que ela possa ser fracionada, autorizando ao juiz apreciar parcela do
pedido, destacando-o do restante.

Tais lições, portanto, devemos ter em mente ao apreciarmos o instituto processual do julgamento
antecipado parcial de mérito.
3 Do julgamento antecipado parcial na legislação anterior ao Código de Processo Civil de
2015

À primeira vista, poder-se-ia pensar que o julgamento antecipado parcial, ainda que do mérito, é uma
das novidades disciplinadas no Código de Processo Civil de 2015. Ledo engano.

Em verdade, mesmo diante do Código de Processo Civil de 1973 encontramos diversas hipóteses de
julgamento antecipado do mérito. Para tanto, podemos começar por citar a hipótese de julgamento
"de plano" da ação de consignação proposta contra duas ou mais pessoas fundada "em dúvida sobre
quem deva legitimamente receber" a prestação.

Nesta hipótese, diz o Código de Processo Civil de 1973, em seu art. 898, que, "não comparecendo
nenhum pretendente, converter-se-á o depósito em arrecadação de bens de ausentes;
comparecendo apenas um, o juiz decidirá de plano; comparecendo mais de um, o juiz declarará
efetuado o depósito e extinta a obrigação, continuando o processo a correr unicamente entre os
credores; caso em que se observará o procedimento ordinário".

Em outras palavras, nesta hipótese, proposta a demanda contra dois ou mais réus, o juiz pode
declarar extinta a obrigação cuja prestação foi consignada pelo autor, extinguindo o processo em
face deste, "continuando o processo a correr unicamente entre os credores".

Vejam, então, que, nesta hipótese, o juiz julga antecipadamente o mérito, declarando a extinção da
obrigação cuja prestação foi consignada pelo autor da consignação. Em outras palavras, julga
procedente a consignação, certificando a satisfação da obrigação.
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Mais outros exemplos, mesmo de mérito, podem ser lembrados, ainda que não regulados
expressamente na legislação. E aqui queremos nos referir às hipóteses em que o juiz homologa
acordo judicial derredor de parte do pedido. Não é raro, em demanda judicial, as partes conciliarem
derredor de parte do pleito da inicial, prosseguindo-se o processo no restante. Logo, aqui temos um
julgamento antecipado do mérito.

Igual fenômeno, por sua vez, já percebido pela doutrina, verifica-se, à luz do Código de Processo
Civil de 1973, quando o juiz concede a tutela antecipada do pedido incontroverso (§ 6.º do art. 273).
Neste caso, diante da incontrovérsia, o juiz, em juízo exauriente, oferta a tutela final da demanda. Ou
seja, julga parcialmente o mérito.

Já quanto ao julgamento antecipado sem resolução de mérito podemos citar, mesmo à luz do Código
de Processo Civil de 1973 a hipótese em que o juiz homologa o pedido de desistência parcial do
pedido ou da demanda em face de um dos litisconsortes passivo.

No processo do trabalho e nos juizados especiais podemos citar a hipótese de arquivamento


(extinção sem resolução de mérito) da demanda proposta pelo litisconsorte ativo que não comparece
à audiência, prosseguindo o processo apenas com os autores presentes. Aqui há extinção parcial do
processo, em face de um dos autores.

Situação semelhante a esta, cuida-se daquela na qual o juiz impõe a limitação do litisconsórcio ativo
(parágrafo único do art. 46 do CPC/1973). Neste caso, o juiz, ao determinar a limitação pode adotar
dois procedimentos alternativos: primeiro, extinguir o processo como um todo, determinando que
novas ações sejam propostas com a limitação de litisconsortes; ou, segundo, extinguir o processo
em relação a alguns demandantes, prosseguindo em relação aos remanescentes, permitindo-se que
aqueles primeiros proponham outras demandas.

No Código de Processo Civil de 2015, por sua vez, além dos exemplos acima mencionados,
expressamente menciona outra hipótese de julgamento antecipado parcial. Trata-se da extinção da
demanda contra réu originário quando este alega sua ilegitimidade ou que não é o responsável pelo
prejuízo invocado (art. 338).

Vejam, que, neste caso, o autor pode pedir a substituição do réu (parágrafo único do art. 338). Logo,
ele estaria desistindo da demanda proposta em face do réu originariamente ilegítimo, prosseguindo
do mesmo processo contra o novo réu (substituto).

E no caso de substituição do réu originário quando este alega que não é o responsável pelo prejuízo
invocado, podemos até concluir que o autor, ao pedir a substituição, estaria reconhecendo a
improcedência da demanda em face daquele primeiro, prosseguindo com o processo em face do réu
substituto.

Em suma, com os diversos exemplos acima mencionados, verificamos que o julgamento antecipado
parcial com ou sem resolução do mérito não se constitui nenhuma novidade no processo civil
brasileiro. De novidade mesmo apenas sua expressa regulamentação no art. 356 do CPC/2015.
4 Do julgamento antecipado parcial de mérito no Código de Processo Civil de 2015

Como dito na introdução, preocupado com a duração razoável do processo (em verdade, da ação
judicial), o legislador processual tratou de regulamentar expressamente as hipóteses de julgamento
antecipado do mérito, sem prejuízo das hipóteses tratadas especificamente, a exemplo da ação de
consignação proposta contra credores duvidosos.

Assim é que, no art. 356 do CPC/2015, está estabelecida a possibilidade do julgamento parcial
antecipado do mérito "quando um ou mais dos pedidos formulados ou parcela deles":

a) "mostrar-se incontroverso";

b) "não houver necessidade de produção de outras provas";

c) ou quando o réu for revel, presumindo-se "por verdadeiras as alegações de fato formuladas
pelo autor" (art. 344 do CPC/2015) e não haja requerimento de produção de prova pelo demandado.

Observem que, seguindo a regra da tutela antecipada de pedido incontroverso, previsto no Página
§ 6.º do
12
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art. 273 do CPC/1973, o legislador repetiu a fórmula quanto à possibilidade de julgamento de um ou


mais pedido ou de parcela deles. Por exemplo, diante de dois ou mais pedidos, o juiz pode julgar,
desde logo, um deles, prosseguindo o processo em suas fases posteriores com o outro ou demais
pedidos.

Pode, ainda, em relação a um dos pedidos, julgar apenas uma parcela dele, prosseguindo na
demanda em suas fases posteriores para em seguida apreciar o restante do mesmo pedido, em sua
parcela ainda não avaliada. Exemplo que se tem é aquele no qual o autor pede a condenação do réu
em determinada quantia e este reconhece dever um valor inferior ao demandado na inicial. Logo,
diante da incontrovérsia de parcela do pedido, o juiz está autorizado a julgar antecipadamente uma
parcela do pedido.

Os exemplos se avolumam, sendo que, no processo do trabalho, que se caracteriza pelo fato de que
na inicial, em geral, o autor formula diversos pedidos, muitas vezes ultrapassando a casa da unidade
(dez ou mais pedidos), essa possibilidade ganha contornos de ampla utilidade.

O pedido se revela incontroverso quando o réu não contesta ou reconhece a procedência do pedido.
Também aqui se enquadra a hipótese na qual o autor renúncia à pretensão formulada na ação, pois,
neste caso, o pedido se torna incontroverso como não sendo (mais) devido.

Hipótese em que não há necessidade de produção de outras provas se tem quando o fato resta
comprovado pela prova documental exibida pelo autor ou réu, ou quando diante da realização da
perícia ou mesmo quando diante da confissão da parte.

Também se terá oportunidade para o julgamento antecipado parcial do mérito quando, não havendo
contestação, ter-se "por verdadeiras as alegações de fato formuladas pelo autor" (art. 344 do
CPC/2015) e não haja, por parte do demandado, o requerimento de produção de prova.

Vale lembrar, todavia, que a falta de contestação não induz a veracidade das alegações de fato
postas na inicial se, conforme art. 345 do CPC/2015,

"I - havendo pluralidade de réus, algum deles contestar a ação;

II - o litígio versar sobre direitos indisponíveis;

III - a petição inicial não estiver acompanhada de instrumento que a lei considere
indispensável à prova do ato;

IV - as alegações de fato formuladas pelo autor forem inverossímeis ou estiverem em


contradição com prova constante dos autos".

A legislação, por sua vez, não limita a natureza da decisão. Logo, ela pode se referir a um pedido
meramente declaratório, constitutivo ou condenatório.

Da mesma forma, a lei não limita a quantidade de decisões antecipadoras parciais do mérito. Daí por
que o juiz pode proferir diversas decisões de antecipação parcial do mérito, à medida que, em
relação ao pedido, esteja preenchido o pressuposto para seu julgamento. Uma vez encerrada a fase
de instrução, todavia, descabe o julgamento parcial dos pedidos. Neste caso, o julgamento deverá
ser "em bloco", sob pena de verdadeira fraude à lei.

A decisão, por sua vez, "poderá reconhecer a existência de obrigação líquida ou ilíquida" (§ 1.º do
art. 356 do CPC/2015).

A parte, outrossim, está autorizado a "liquidar ou executar, desde logo, a obrigação reconhecida na
decisão que julgar parcialmente o mérito, independentemente de caução, ainda que haja recurso
contra essa interposto" (§ 2.º do art. 356 do CPC/2015).

Vejam que, mesmo diante do cumprimento provisório, foi dispensada a exigência da caução.

Essa liquidação ou cumprimento da decisão, por sua vez, poderá ser processada em autos
suplementares, a requerimento da parte ou a critério do juiz (§ 4.º do art. 356 do CPC/2015). Melhor
será, ao certo, formar autos apartados ou procedimento virtual autônomo para evitar tumultos
processuais, com perda do benefício buscado (celeridade). Página 13
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5 Do recurso

A decisão que julga antecipadamente de forma parcial o mérito é, no conceito do Código de


Processo Civil de 2015, de natureza interlocutória (art. 203, § 2.º). Isso porque ela não põe fim à fase
de conhecimento em seu todo. Daí por que, dentro da lógica do novo Código de Processo Civil de
2015, o § 5.º do art. 356 estabelece que essa decisão é impugnável por agravo de instrumento. Tal
regra se repete, em outras palavras, no inc. II do art. 1.015 do CPC/2015, já que cuida de decisão de
"mérito do processo".

Tal agravo de instrumento, por sua vez, tem verdadeira natureza de apelação. E tanto assim o é que
o próprio Código de Processo Civil o tratou dessa forma ao estabelecer a incidência da técnica de
julgamento prevista do art. 942 quando, no agravo de instrumento, "houver reforma da decisão que
julgar parcialmente o mérito" (inc. II do § 3.º).

Em suma, tal como na apelação, quando o resultado não for unânime, "o julgamento [do agravo de
instrumento] terá prosseguimento em sessão a ser designada com a presença de outros julgadores,
que serão convocados nos termos previamente definidos no regimento interno, em número suficiente
para garantir a possibilidade de inversão do resultado inicial, assegurado às partes e a eventuais
terceiros o direito de sustentar oralmente suas razões perante os novos julgadores" (art. 942, caput,
CPC/2015).

Vejam, ainda, que, da aplicação deste dispositivo, extrai-se outra regra própria da apelação, somente
estendida ao agravo de instrumento por norma expressa. Estamos a nos referir do direito de
sustentação oral.

O art. 937 do CPC não estabelece expressamente a possibilidade de a parte poder fazer
sustentação oral em agravo de instrumento interposto contra decisão que julga antecipadamente de
forma parcial o mérito. Há previsão para a sustentação oral "no agravo de instrumento interposto
contra decisões interlocutórias que versem sobre tutelas provisórias de urgência ou da evidência"
(inc. VIII). Olvidaram de mencionar, no entanto, o agravo de instrumento interposto contra decisão
que julga antecipadamente de forma parcial o mérito.

Pelas vias transversas, no entanto, em face da incidência do art. 942 do CPC/2015, podemos
concluir que também é assegurada a sustentação oral no agravo de instrumento interposto contra
decisão que julga de forma antecipada parcialmente o mérito. Isso porque por este dispositivo está
"assegurado às partes e a eventuais terceiros o direito de sustentar oralmente suas razões perante
os novos julgadores" (art. 942, caput, CPC/2015). Se tem direito de sustentar perante os novos
julgadores, ao certo tem perante os "antigos" (originários) julgadores.

Destaque-se, porém, que, mesmo diante de uma decisão com natureza de sentença (pois resolve
em definitivo o mérito, ainda que parcialmente) e de um recurso com natureza de apelação, o
legislador retirou o efeito suspensivo a este (recurso). E tal decorre da própria lógica do cabimento
do julgamento antecipado parcial, já que com esse instituto o que se busca é a maior celeridade
processual, "incluída a atividade satisfativa" (art. 4.º do CPC/2015). Não teria lógica, assim,
estabelecer o efeito suspensivo ao recurso. Aqui se seguiu a lógica do agravo de instrumento, que
não é dotado de efeito suspensivo.

Entendemos, porém, que o legislador andou mal ao regulamentar esse instituto. Deveria ter feito de
forma mais técnica, de modo a evitar confusões. Para tanto, e mesmo para sua melhor
compreensão, teria sido melhor que o legislador tivesse sido expresso em conceder poderes ao juiz
para "dividir" o processo. Separar as ações ou dividi-la em caso de parcela julgada parcialmente de
forma antecipada.

Em suma, o que ocorre no julgamento antecipado parcial, seja de mérito, seja sem resolução de
mérito, é uma verdadeira separação das ações reunidas no mesmo processo ou da divisão da ação
quando se julga apenas uma parcela do (de um) pedido. Separação ou divisão ex officio.

Esse fenômeno, aliás, repete-se quando da limitação "do litisconsórcio facultativo quanto ao número
de litigantes na fase de conhecimento, na liquidação de sentença ou na execução, quando este
comprometer a rápida solução do litígio ou dificultar a defesa ou o cumprimento da sentença" (§ 1.º
do art. 113 do CPC).
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Vejam que o que ocorre, nesta hipótese, é uma verdadeira separação de ações reunidas em um
único processo. Quando o juiz determina a limitação do litisconsórcio, ele, em outras palavras,
manda dividir o processo. Isso fica claro em especial na fase de liquidação de sentença e na de seu
cumprimento. Aqui se tem um processo que é dividido de acordo com o número de litisconsórcio,
desdobrando-se em quantos seja determinado pelo juiz.

A partir dessa percepção, então, deveria ter o legislador previsto, de forma expressa, que o juiz
estaria autorizado a dividir o processo, presentes os pressupostos para julgamento antecipado
parcial do mérito. Dividido, formando-se um novo processo, dar-se-ia a este o mesmo tratamento
dado à sua decisão definitiva. Ou seja, teríamos uma sentença a reclamar apelação etc.

Tal regramento, por sua vez, teria a vantagem de evitar dúvidas quanto ao processamento do
recurso. Isso porque, na forma estabelecida no Código de Processo Civil de 2015, tratando-se de
agravo de instrumento com natureza de sentença, restam dúvidas quanto à aplicação das regras
próprias do agravo de instrumento, a exemplo do juízo de retratação do órgão recorrido (§ 1.º do art.
1.018 do CPC/2015).

De qualquer forma, ainda que assim não tenha sido previsto em lei, é fato que ao agravo de
instrumento interposto contra a decisão que julga antecipadamente de forma parcial o mérito deve
ser dado o mesmo tratamento dispensado à apelação, salvo o seu efeito suspensivo, em face de
regra expressa (§ 2.º do art. 356 do CPC/2015).

Mas, de qualquer forma, algumas dúvidas restam. Por exemplo, o recurso deve ser interposto
diretamente perante o tribunal (art. 1.016 do CPC/2015) ou perante o juízo recorrido (art. 1.010 do
CPC/2015)? Cabe-lhe exigir o preparo próprio da apelação ou não?

São dúvidas que somente a jurisprudência irá sanar de forma definitivo. Até lá, cabe a aplicação do
princípio da fungibilidade. De nossa parte, entendemos que cabe aplicar, a este agravo de
instrumento, as regras próprias da apelação.
6 Dos honorários advocatícios

Outra questão duvidosa se refere aos honorários advocatícios.

Na dicção do art. 85 do CPC/2015 os honorários advocatícios devem ser fixados na "sentença".

Se se adotar a literalidade deste dispositivo, quando do julgamento antecipado parcial do mérito,


descaberá ao juiz decidir quanto aos honorários advocatícios. Restaria deixar essa questão para ser
enfrentada quando do último julgamento, isto é, quando da prolação da sentença (decisão que põe
fim à fase de conhecimento).

A questão aqui, porém, é duvidosa. Partindo do pressuposto acima sustentado que caberia ter esse
julgamento antecipado parcial como uma decisão que impõe a "divisão" do processo, haveríamos de
apreciar cada uma das partes divididas como verdadeira ação autônoma, de modo a atrair a
condenação em honorários.

E se assim se entender ou interpretar as normas do Código de Processo Civil, a questão dos


honorários advocatícios estaria resolvida.

O novo Código de Processo Civil, porém, parece que segue outra lógica, permitindo o julgamento
parcial, mas sem considerar a parte decidida como "demanda" autônoma, que se separa em
definitivo do processo original (dos "autos principais").

Sendo assim, parece-nos que, de fato, o procedimento a ser adotado e de somente decidir os
honorários advocatícios quando da prolação da sentença. Isso porque, em relação aos honorários
advocatícios, o juiz haveria de ter em conta a atuação do advogado em todo o processo ajuizado. Da
inicial à sentença. Descaberia, assim, ao juiz condenar o vencido de forma antecipa.

A princípio se poderia pensar no contrário. Essa divisão, porém, traria uma dificuldade.

Vejam a hipótese de sucumbência mínima do pedido. Neste caso, a regra é condenar a outra parte,
por inteiro, pelas despesas e honorários advocatícios (parágrafo único do art. 86 do CPC). Imaginem,
então, que a parte mínima seja justamente aquela acolhida em julgamento antecipado parcial Página de
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mérito, mas somente assim definida após o julgamento dos demais pedidos. Se nesta oportunidade
do julgamento antecipado o juiz tiver que decidir quanto aos honorários advocatícios, haveria de
condenar o vencido nos honorários incidentes sobre a parcela objeto da condenação antecipada. Se,
no entanto, ao julgar o restante dos pedidos o juiz concluir que o derrotado na decisão antecipada
somente foi vencido em parte mínima considerando todos os pedidos, que seria justamente aquela
antecipada, teríamos criado uma situação na qual a regra do parágrafo único do art. 86 do CPC teria
sido fraudada. Isso porque, uma vez condenado o vencido em parte mínima do pedido nos
honorários incidentes sobre a parcela antecipada, não se teria mais como aplicar a regra do
parágrafo único do art. 86 do CPC.

Aqui estamos, pois, diante de outra questão a ser resolvida pela jurisprudência. De lamentar, todavia,
esse outro vacilo do legislador.
7 Da ordem cronológica

Outra dificuldade temos em relação ao julgamento na ordem cronológica de conclusão.

O art. 12 do novo CPC estabelece que "os juízes e os tribunais deverão obedecer à ordem
cronológica de conclusão para proferir sentença ou acórdão".

E, mais uma vez, adotando-se a interpretação literal do caput do art. 12, teríamos que a decisão
interlocutória que antecipa parcialmente o mérito não está sujeita à apreciação conforme a ordem
cronológica de conclusão, já que este dispositivo somente menciona as sentenças e acórdãos. E
tanto seria assim, pois, ao mencionar os procedimentos ou atos que estão excluídos desta regra, o
legislador não incluiu o julgamento antecipado (§ 2.º do art. 12). Ou seja, teria distinguido a decisão
interlocutória que antecipa parcialmente o mérito da sentença em si.

Assim pode até ser, mas essa interpretação acaba por tratar de forma contraditória o mesmo instituto
processual. Isso porque, ora teria a decisão que antecipa parcialmente o mérito como simples
decisão interlocutória, afastando-o da regra do art. 12 do CPC, ora teria essa mesma decisão como
de natureza de sentença ao dar ao agravo de instrumento contra ela interposto o tratamento
dispensado à apelação (que pressupõe uma sentença).

Creio, porém, que o sentido do art. 12 do CPC é estabelecer uma ordem de cronológica para
prolação de decisão de mérito, seja interlocutoriamente, seja ao final da fase de conhecimento,
lembrando que a decisão que extingue o processo sem resolução do mérito está na exceção do § 2.º
do art. 12 (inc. IV).

Assim, a decisão que antecipa parcialmente o mérito somente deve ser prolatada em obediência à
ordem cronológica a que se refere o caput do art. 12 do novo CPC.

Não temos dúvidas, porém, em afirmar, numa interpretação teleológica deste instituto do processo
civil, que, no mínimo, deve haver respeito à ordem cronológica de conclusão dos processos nos
quais o juiz pode prolatar decisão antecipada parcial de mérito. Isso de modo a evitar os "privilégios",
que é o que justamente essa norma - que impõe o respeito à ordem cronológica - busca por fim.
8 No processo do trabalho

Afirmamos acima que a possibilidade de julgamento antecipado parcial de mérito cai como uma luva
no processo do trabalho, considerando que, em geral, na inicial da demanda trabalhista, são
formulados inúmeros pedidos, aumentando a probabilidade da adoção deste procedimento de
apreciação dos pleitos.

A isso se acresça o fato de que, na demanda trabalhista, em geral, o autor é pessoa vulnerável, com
parcos recursos econômicos, a demandar parcela de natureza alimentar (salários), o que atraia a
incidência do princípio da duração razoável do processo com fortes cores. O julgamento antecipado
parcial do mérito, portanto, vai ao encontro dos anseios do trabalhador demandante.

Podemos, assim, concluir que este instituto processual é plenamente aplicável ao processo do
trabalho e chegaria em boa hora.

Mas uma dificuldade há de ser superada. E para tanto um "dogma" do processo do trabalho há de
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ser quebrado, reinterpretando-se uma de suas regras de ouro. Refiro-me à regra do § 1.º do art. 893
da CLT (LGL\1943\5), que admite "a apreciação do merecimento das decisões interlocutórias
somente em recurso da decisão definitiva", entendendo-se esta como a sentença que põe fim à fase
de conhecimento.

Está consagrado na doutrina e na jurisprudência trabalhistas o entendimento de que contra decisão


interlocutória descabe a interposição de imediato de recurso. A decisão interlocutória seria, assim,
objeto de recurso somente quando da decisão definitiva ou terminativa do feito (art. 895, I, da CLT
(LGL\1943\5)). Mas, repito: entendendo-se a decisão terminativa ou definitiva como aquela que põe
fim à fase de conhecimento.

Mas esse entendimento tem toda a sua lógica à luz do Código de Processo Civil de 1973. Com o
novo Código de Processo Civil, no entanto, não se pode mais ter a sentença como a única decisão
definitiva ou terminativa do feito. Isso porque a decisão interlocutória que julga antecipadamente de
forma parcial o pedido também é uma decisão definitiva. É definitiva em relação ao pedido apreciado
antecipadamente. E uma vez proferida, não cabe mais ao juiz de primeiro grau voltar a apreciar a
mesma questão.

Daí se tem que cabe reinterpretar o § 1.º do art. 893 da CLT (LGL\1943\5) de modo a se entender
que a "apreciação do merecimento das decisões interlocutórias" somente caberá em recurso
interposto contra a sentença se aquela (decisão interlocutória) não for definitiva (não for de mérito).

Assim não se entendendo, seria mínimo o ganho com o julgamento antecipado parcial do mérito no
processo do trabalho. Em outras palavras, ele seria mera "antecipação da tutela" em seus efeitos
práticos, ainda que não sujeito à confirmação na "decisão definitiva" (sentença).

A grande vantagem do julgamento antecipado é justamente permitir a formação da coisa julgada


antecipadamente ou mesmo o processamento de eventual recurso de imediato. Se for para aguardar
o fim do processo como um todo para que esses fenômenos possam ocorrer, o julgamento
antecipado de mérito do Código de Processo Civil de 2015 irá se igualar à tutela antecipada do
Código de Processo Civil/1973.

Pensamos, porém, que cabe a reinterpretação, tal como já procedida pelo TST em situações
semelhantes, quando passou a admitir o recurso contra decisão interlocutória de decisão "(a) de
Tribunal Regional do Trabalho contrária à Súmula ou Orientação Jurisprudencial do Tribunal Superior
do Trabalho; (b) suscetível de impugnação mediante recurso para o mesmo Tribunal; (c) que acolhe
exceção de incompetência territorial, com a remessa dos autos para Tribunal Regional distinto
daquele a que [qual] se vincula o juízo excepcionado, consoante o disposto no art. 799, § 2.º, da CLT
(LGL\1943\5)" (Súmula 214).

Vejam que, nessas três hipóteses, a CLT (LGL\1943\5) não admite a interposição de recurso contra
a decisão interlocutória. Mesmo na hipótese do § 2.º do art. 799 da CLT (LGL\1943\5), o que ali está
dito é que, se o juiz acolher a exceção de incompetência e julgar extinta a demanda (decisão
"terminativa do feito"), em vez de remeter o processo para o juízo competente, caberia o recurso
ordinário. A menção a este dispositivo, aliás, é um grande equívoco interpretativo do TST. Isso
porque, neste dispositivo, em momento algum se diz que cabe recurso contra a decisão que
determina a remessa dos autos para outro juízo, até porque ela não é terminativa do feito.

O TST, porém, inovando, passou a admitir o recurso contra a decisão interlocutória que, acolhendo a
exceção de incompetência territorial, determina a remessa dos autos para juízo vinculado a Tribunal
Regional distinto daquele a qual se vincula o juízo excepcionado.

Em suma, no que nos interessa, é fato que o próprio TST já inovou, reinterpretando a CLT
(LGL\1943\5), de modo a admitir o recurso contra decisão interlocutória ao menos em três hipóteses.
E em relação à segunda hipótese (decisão "suscetível de impugnação mediante recurso para o
mesmo Tribunal"), generalizou-se a possibilidade da interposição do recurso de agravo previsto no
Código de Processo Civil ou instituído por Regimento Interno (em norma inconstitucional, já que os
Tribunais não têm competência para legislar em matéria de direito processual).

Cabe, pois, apenas ter a coragem de romper com esse "dogma" de modo que processo do trabalho
possa avançar.
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E avançando, diria que o recurso cabível contra a decisão definitiva que antecipa de forma parcial o
mérito no processo do trabalho é o ordinário. E, como tal, ele atrai a incidência de todas as regras
relativas ao preparo recursal, inclusive a exigência do depósito recursal, se for o caso.

Como no processo do trabalho não se aplica a regra da sucumbência mínima para fixação dos
honorários advocatícios, nada impede, ainda, da sua condenação em decisão antecipada parcial de
mérito.

Caberia, ainda, ao juiz do trabalho, ao julgar antecipadamente de forma parcial o mérito, caso acolha
o pedido, impor, desde logo, a condenação do demandado no pagamento das custas parciais do
processo. Caso, porém, rejeite integralmente o pedido de forma antecipada em decisão parcial, deve
deixar a decisão quanto às custas para o final do processo. Isso porque, caso o autor venha a ser
vencedor em qualquer outro pedido, ainda que mínimo, essa despesa deve ser arcada pelo
demandado. Isso se entender que continua a ser um mesmo processo, ainda que repartido, mas não
dividido.

Uma dificuldade teríamos quanto ao depósito recursal. Isso porque a lei estabelece um limite a este
depósito. Pode ocorrer, porém, que com o recurso interposto contra a decisão que antecipa
parcialmente o mérito a empresa efetue o total deste limite. Fica a dúvida: quando da interposição de
novo recurso, contra acolhimento dos demais pedidos, cabe novo depósito?

A questão se resolve pela definição que significa a decisão que antecipa parcialmente o mérito. Se
se tem que se trata de um fenômeno que divide o processo, separando as ações, passaríamos a ter
duas ou mais demandas, que devem ser tratadas como feitos autônomos um do outro. Se se
entender que se trata apenas de uma repartição de pedidos, sem divisão das ações em vários
processos, continuando a existir apenas um procedimento, a lógica será tratar os "autos
suplementares" (procedimento de antecipação) como parte de um todo. Neste caso, teríamos
apenas um processo, o que asseguraria o aproveitamento do depósito recursal que eventualmente
foi antecipado quando da interposição do recurso contra a decisão que julgou de forma parcial o
mérito.
9 Conclusão

Para finalizar, podemos então concluir com as seguintes teses:

a) o julgamento antecipado parcial do processo, com ou sem resolução de mérito, não é nenhuma
novidade no direito processual civil brasileiro;

b) a decisão que julga antecipadamente de forma parcial o mérito é, no conceito do Código de


Processo Civil de 2015, definida como interlocutória (art. 203, § 2.º), mas tem natureza de sentença;

c) essa decisão é impugnável por agravo de instrumento, que, por sua vez, tem verdadeira natureza
de apelação;

d) a este agravo de instrumento devem ser aplicadas todas as regras procedimentais que incidem
sobre a apelação;

e) com o julgamento antecipado parcial de mérito o juiz estabelece verdadeira separação das ações
reunidas no mesmo processo ou a divisão da ação quando se julga apenas uma parcela de um
pedido;

f) o julgamento antecipado parcial de mérito é plenamente aplicável ao processo do trabalho;

g) no processo do trabalho, contra a decisão de primeiro grau que julga antecipadamente de forma
parcial o mérito, cabe recurso ordinário, incidindo as regras pertinentes, inclusive quanto à exigência
do preparo.

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