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13/12/2018 Aos Desigrejados com Amor - TGC Coalizaopeloevangelho

Aos Desigrejados com Amor


12 DEZEMBRO, 2018 | Marcelo Berti

Eu tenho uma certa dor no coração quando ouço a respeito de


pessoas que professam a fé em Cristo Jesus como salvador,
entendem as escrituras como revelação divina e fundamento da
fé e prática, que gostariam de viver para a glória de Deus, mas
que ao mesmo tempo rejeitam a igreja local. Me dói o coração
especialmente porque conheço várias pessoas assim e entendo
um pouco do sentimento que tem. Para eles a religião
institucionalizada é má, corrompida, abusa dos seus fiéis e
acaba por perverter o verdadeiro evangelho de Jesus. Eles
realmente acreditam que a vivacidade comunitária da fé
precisa acontecer fora das instituições humanas de modo
natural e orgânico.

E para ser bem honesto, essa visão da igreja que defendem


está diretamente ligada com a experiência que tiveram com a
igreja institucionalizada. São pessoas que sentiram na pele os

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abusos de líderes religiosos dominadores, que viveram com a


constante hipocrisia de cristãos maledicentes, que viram os
interesses financeiros do pastor corromper a exposição das
escrituras. São pessoas que testemunharam a organização da
igreja local sufocar o organismo da igreja de Cristo em função
da predileção institucional de seus líderes. Meu coração dói por
essas pessoas porque via de regra são pessoas que sofreram na
mão de maus pastores e péssimas congregações. E em função
de sua terrível experiência com esse tipo de instituição
concluíram que todo tipo de organização humana é igualmente
má, corrupta e desnecessária.

Sentimento Partilhado
A bem da verdade, eu entendo esse sentimento porque eu o
conheci de perto. Embora tenha sido criado num lar cristão, a
experiência da minha família com a igreja local nem sempre foi
positiva. Anos antes de nascer, meus pais participavam de uma
igreja de liderança forte e centralizadora. Eles aprenderam o
evangelho nessa igreja, se apaixonaram pelas escrituras e a
estudavam com afinco. Cresceram na fé, desenvolveram seus
dons e viviam o que acreditam ser a verdadeira experiência da
igreja local. Entretanto, diferenças de opinião entre pessoas da
liderança com pessoas que gostariam de estar na liderança
acabaram gerando uma facção no grupo. Meus pais saíram
dessa comunidade seguindo aquele que entendiam ser o
verdadeiro líder espiritual deles. Infelizmente, eles estavam
enganados. Pouco tempo depois esse “pastor” abandonou a fé,
a família e a comunidade para viver no mundo como alguém
que pertencia ao mundo. E agora aquela comunidade, cheia de
ovelhas que queriam de fato viver para o Senhor, se viram sem
liderança, sem comunidade e sem condições de continuar. Não
muito tempo depois disso, aquele grupo tornou-se um grande
aglomerado de desigrejados, onde cada um tentava viver a vida
cristã a seu modo.

Eu nasci nesse período. Meus pais seguiam sozinhos, sem


conseguir voltar para a igreja de onde tinha saído, sem
conseguir se juntar a outra comunidade. Eles buscavam viver o
evangelho, buscavam verdadeiramente o Senhor e estavam
prontos para serví-lo, mas em função das dores da experiência
e dos medos da igreja institucional eles seguiam procurando
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orientação de Deus sem qualquer relação com qualquer igreja


local. Pela graça de Deus, entretanto, meus pais resolveram
ingressar no Seminário Bíblico Palavra da Vida onde tiveram
sua fé reafirmada no evangelho e na igreja local. Puderam
voltar e pedir perdão para a comunidade de onde tinha saído e
finalmente entenderam que apesar de todos os seus problemas
a igreja local era fundamentalmente importante para o
desenvolvimento, promoção e comunhão da fé. Desde então,
eles tem se dedicado no plantio, fortalecimento e crescimento
de igrejas locais em diferentes localidades no Brasil.

Infelizmente, a maioria das pessoas que experimentaram as


decepções da igreja institucional juntamente com meus pais
não passaram pelo mesmo processo e continuaram a viver a
experiência solitária do evangelho como desigrejados. Eu me
lembro de visitar essas pessoas com meus pais e ver pessoas
com genuíno interesse por Cristo, pelo ensino de Cristo, mas
que tinham um certo desprezo pela igreja local. Pessoas que
queriam criar seus filhos no temor do Senhor, mas que eram
incapazes de juntar-se à uma igreja e viver o aspecto
comunitário da fé em uma igreja local. Para eles a igreja local
havia sido corrompida por lideranças dominadoras, as
denominações eram instituições humanas que dividiam a igreja
invisível de Cristo, e que em última análise ela havia se tornado
institucional, má, corrompida e finalmente desnecessária.

Eu testemunhei o amor que essas pessoas tinham por Cristo


apesar das dores que carregavam contra a igreja local. Mas isso
não foi tudo o que testemunhei. Infelizmente, eu também
testemunhei muitos desses fracassarem na fé, vacilarem numa
vida de pecado sem qualquer prestação de contas ou
orientação de outras pessoas. Ouvi de alguns que perderam
seus casamentos, de outros que viram seus filhos abandonarem
a fé e se voltarem contra o Senhor. Conheço histórias de
pessoas que por terem desprezado a igreja local acabaram
ensinando seus filhos a desprezarem a igreja, os cristãos e o
Senhor. Embora conheça algumas poucas histórias de pessoas
que mantiveram sua caminhada com Cristo à parte da igreja, a
grande maioria delas acabou por empurrar seus filhos para fora
da comunidade da fé. Na infeliz tentativa de salvar seus filhos
da igreja local, muitos deles acabaram permitindo que seus
filhos se quer conhecessem o evangelho, o Senhor e a salvação.

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É por isso que meu coração se dói quando ouço falar de


um desigrejado. Por um lado entendo suas dores, seus medos e
sua relutância de estar em uma igreja local. Por outro, eu temo
pelo que pode vir a acontecer com aqueles que abandonam a
igreja local, em especial com o que pode vir a acontecer com
seus filhos. Por isso, hoje eu escrevo o que escrevo com amor,
na tentativa de quem sabe poder ajudar aqueles que lutam com
a experiência da fé à parte da igreja local. Se eu pudesse ajudar
um desigrejado a entender o valor da expressão local da
comunidade da fé, eu tentaria demonstrar, com amor, que nas
escrituras a igreja de Cristo é (1) uma comunidade de expressão
local, (2) composta por pecadores redimidos, (3) chamados
para estar juntos, (4) para adorar a Deus, (5) servir um ao
outro, (6) debaixo da supervisão de líderes e (7) para alcançar
o mundo. A igreja local, apesar de todos os seus problemas, é
parte integral do plano de Deus para Seus filhos.

Igreja é uma Comunidade Local


Se eu pudesse ajudar a um desigrejado, eu tentaria mostrar que
nas escrituras a igreja de Cristo é normalmente apresentada
como uma comunidade local. Em Atos, por exemplo, igreja é
normalmente descrita como uma congregação local, seja em
Jerusalém (5.11; 8.1, 3; 11.22; 12.1, 5; 14.27; 15.4, 22; 18.22),
Antioquia (11.26; 13.1; 15.3, 41), ou em locais onde Paulo realiza
suas viagens missionárias, como por exemplo Derbe e Listra
(16.5) ou Éfeso (20.17). É também comum em Atos o termo
ekklesia descrever a assembléia cristã, com ênfase no
ajuntamento de pessoas em um determinado local (5.11; 14.27;
15.3, 4, 22, 23). Eventualmente apenas Lucas usa o mesmo
termo para descrever aspectos organizacionais da assembléia
cristã (14.23; cf. 1 Tim 3.1-8), sua dimensão universal (9.31) ou
para descrever teologicamente sua natureza (20.28). Ou seja,
da perspectiva da igreja primitiva, o cristianismo sempre foi
experimento em comunidades locais. É verdade que as
escrituras falam de uma igreja universal, invisível (1 Co 1.2), mas
a bem da verdade, a grande maioria das cartas do NT foram
escritas para comunidade particulares em lugares específicos.
O ato de congregar que o autor de Hebreus exorta os cristãos a
realizar com frequência (Hb 10.24-25) é direcionado a uma
congregação local. Nas escrituras não existe expressão

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individual de fé à parte da igreja local. A fé verdadeiramente


cristã é sempre manifesta e experimentada em comunidade.
Ovelhas solitárias são presas fáceis para os lobos da perversão
da fé.

“Nas escrituras não existe


expressão individual de fé
à parte da igreja local. A
fé verdadeiramente cristã
é sempre manifesta e
experimentada em
comunidade.”


Comunidade de Pecadores Redimidos


Eu também tentaria demonstrar que na história da igreja
primitiva, a igreja local é sempre composta por pecadores
redimidos. Por mais bonita que seja a história da igreja
primitiva, a bem da verdade é que ela era bem parecida com as
nossas comunidade: ela era um aglomerado de igrejas locais
compostas por pecadores redimidos por Cristo. O evangelho
pregado pelos apóstolos era recebido por pecadores como eu
e você. Observe que quando Pedro prega pela primeira vez o
evangelho no livro de Atos, ele defende que o Jesus histórico
que viveu e se manifestou abertamente diante dos israelitas
(2.22), que foi morto por eles, tendo sido executado pelos
romanos (2.23), Deus o havia ressuscitado (2.24) cumprindo o
que havia prometido nas escrituras (2.25-28; 29-31; cf. Sl 16.8-
11). A esse Jesus, que Pedro entende ser um homem aprovador
por Deus diante dos homens, Deus o fez Senhor e Cristo (2.36).
Esse Jesus era o Messias prometido e aquele que invocasse o
nome do Senhor seria salvo (2.21), tal como aconteceu com
essas 3 mil pessoas em Jerusalém (2.41). O invocar o nome do
Senhor Jesus (Jl 2.32+At 2.21; cf. Rm 10.10-13) é explicado por
Pedro com um ato de arrependimento (At 2.38a; cf. 3.19; 17.30;
26.20), pelo batismo em nome de Jesus para perdão dos
pecados (v.38b; cf. 8.12-13; 8.36, 38; 9.18; 10.47-48; et al) e pelo
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recebimento do Espírito Santo (v.38c; cf. 10.44-48; 11.15-18; et


al). Como fica claro, o evangelho era o centro da pregação
apostólica e a expectativa de conversão de pecadores a missão
da igreja (At 1.8; cf. 9.35; 11.21; 26.18; 26.20). Ou seja, a igreja
primitiva era formada por pecadores que ouviram a mensagem
apostólica (2.22-36), se arrependeram dos seus pecados (2.38),
receberam o evangelho (2.41a) e foram batizados (2.41b), tal
como acontece nas nossas igrejas até os dias de hoje. A igreja
primitiva era formada por pecadores redimidos!

“A igreja primitiva era


formada por pecadores
que ouviram a mensagem
apostólica (2.22-36), se
arrependeram dos seus
pecados (2.38),
receberam o evangelho
(2.41a) e foram batizados
(2.41b), tal como acontece
nas nossas igrejas até os
dias de hoje. A igreja
primitiva era formada por
pecadores redimidos!”


É por isso, que na igreja primitiva existia mentira (At 5.1-10),


divisão (At 6.1;), descaso (At 8.2), preconceito (10.28), diferença
de opinião (7.2-53; cf. At 2.46; 3.1; 5.12), falsos mestres
querendo entrar (8.13-21), pessoas precisando ser disciplinadas
(5.3-10), corrigidas (18.25-26) e tantos outros problemas que
vemos nas epístolas neotestamentárias. Ou seja, a igreja
primitiva também era cheia de gente problemática, tal como
acontece nas nossas igrejas até os dias de hoje. Eram
pecadores redimidos chamados para viver juntos! Aliás, é
exatamente isso que lemos no livro de Atos: “Todos os que
criam estavam juntos” (At 2.44). Dois conceitos são bem
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interessantes nesse verso. Primeiro, observe que aqui os


cristãos são descritos como aqueles que creem. Essa é a
primeira vez que Lucas usa esse verbo para descrever os
membros da igreja, e com raras exceções (cf. 8.12, 13; 9.26)
todas as outras vezes que o faz ele descreve os cristãos (cf. 4.4,
32; 5.14; 9.42; 10.43; 11.17; 15.5; 19.18; 21.20, 25; 22.19). Em
segundo lugar, é muito interessante notar que esses que
creram passaram a viver juntos. Apesar de a expressão da fé
ser individual, os cristãos passam a pertencem à comunidade
da fé. No Novo Testamento, a individualidade da fé é
necessariamente seguida pela ingressão na comunidade dos
salvos. Em outras palavras, de acordo com o testemunho da
igreja primitiva o salvo não é uma ilha de santidade e solidão
em um mundo de trevas, mas um membro da comunidade local
no mundo. Pecadores redimidos são chamados para estar
juntos e para viver juntos a fé cristã.

“O salvo não é uma ilha


de santidade e solidão em
um mundo de trevas, mas
um membro da
comunidade local no
mundo”


Chamados Para Estar Juntos


Além disso, eu diria que a expressão da fé cristã é
necessariamente comunitária, afinal, o termo mais comum no
Novo Testamento para se referir a igreja é o termo grego
ekklesia. Diferente do que se pensa, ekklesia não descreve
aqueles que foram “chamados para fora” (do grego ek [para
fora] + kaléö [chamar]), mas descreve um agrupamento de
pessoas. No Antigo Testamento Grego, a Septuaginta (LXX),
esse termo é usado em tradução ao termo qahal que
normalmente descreve a assembléia de Deus, a comunidade de
Israel (Dt 31.30, Js 8.35, Jz 20.2, 1 Re 8.22, 1 Cr 13.2; cf. Dt 18.16; 1
Sm 17.47). Embora o termo hebraico qahal tenha sido usado

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para descrever uma assembléia judicial (Dt 9.10; 23.3-8; Jz 21.5;


Mq 2.5), ou um ajuntamento político (Ed 10.8;, 12; Ne 8.2, 17), o
termo era também usado para descrever uma reunião de fiéis
com objetivos de adoração (Cr 6.3; 30.2, 4, 13, 17; Sl 21.22; Jl
2.16). No Novo Testamento o termo ekklesia é usado de modo
muito similar a esse, por isso diversas vezes no NT nós
encontramos a expressão comunidade (assembléia, igreja) de
Deus (1 Co 1.2; 10.32; 11.22; 15.9; 2 Co 1.1; Gl 1.13; pl. 1 Co 11.16, 22;
1Ts 2.14; 2Ts 1.4). Nesse sentido, seria mais apropriado entender
o termo ekklesia como aqueles que foram chamados para
estar juntos. Em outras palavras, aqueles que foram redimidos
por Cristo, foram salvos da condenação do pecado para
viverem a graça de Deus de modo comunitário. É por isso que
vemos em Atos Deus adicionando pessoas à comunidade local
da fé em diferentes lugares do mundo antigo (At 2.47; 5.14;
11.24). Quando Deus salva um pecador Ele o adiciona à igreja
local, para que em comunidade esse cristão possa viver o
evangelho de modo comunitário com seus irmãos de fé.

“Quando Deus salva um


pecador Ele o adiciona à
igreja local, para que em
comunidade esse cristão
possa viver o evangelho
de modo comunitário com
seus irmãos de fé”


Para Prestar Culto Juntos


Esse ajuntamento de pessoas que foram chamadas para estar
juntas, também é convidada por Cristo para viver em adoração
a Deus de modo comunitário. E é por isso que dizemos que a
igreja é uma comunidade doxológica, isto é, é orientada
primeiramente para a glória e adoração a Deus. Da mesma
forma que tudo o que foi criado, seja no céu (Sl 108.5; 72.19) ou
na terra (Sl 19.1) existe para glorificar a Deus, a igreja existe
nesse mundo para glorificar a Deus (Ef 3.21). Metaforicamente,
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a igreja é descrita como o santo templo (Ef 2.21), o santuário de


Deus (1 Co 3.16; 2 Co 6.16), o lugar da habitação de Deus (Ef
2.22) onde Sua presença gloriosa é verdadeiramente manifesta
(1 Co 14.25). Em outras palavras, a comunidade cristã, como
templo de Deus, experimenta a manifestação da presença de
Deus quando a comunidade se reúne em nome de Cristo, e
baseados no perdão obtido por Seu sacrifício se juntam para
glorificar a Deus prestando-Lhe um culto comunitário. A
adoração comunitária é a expressão presente que melhor
representa a expectativa da eternidade, onde pessoas de todos
os povos, línguas, raças e nações se juntarão para adorar o
Cordeiro (Ap 4.11; 5.9-12; 7.9). É no culto público da
comunidade da fé que vemos essa adoração acontecer!

“A adoração comunitária
é a expressão presente
que melhor representa a
expectativa da
eternidade, onde pessoas
de todos os povos,
línguas, raças e nações se
juntarão para adorar o
Cordeiro”


Para Servir Uns Aos Outros


Se pudesse ajudar um desigrejado a considerar o valor da igreja
local, eu diria que o mais recorrente elemento da igreja
apresentada nas escrituras é o conceito da mutualidade
conhecido na recorrente expressão “uns aos outros.” O
encorajamento e edificação mútua dos cristãos é uma
constante no NT. era a prática da igreja primitiva (At 4.36; 11.22-
23; 13.43; 14.21-22), era parte do ministério de Paulo e Barnabé
(At 15.32; 16.40; 18.27-28; 20.1-2), era recorrente nas cartas de
Paulo (Rm 1.11-12; 2 Co 7.4, 13; Ef 6.21-22; Fp 1.14; Cl 4.8; 1 Ts 2.11-
12; 3.2, 7; Fm 7; Tt 2.15) e em outros escritos apostólicos (Hb

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3.13; 13.19-22; 1 Pe 2.11; 5.12; Jd 3). Fortalecer a fé uns dos outros


era uma prática da igreja primitiva e marcava um dos
importantes elementos da experiência comunitária da
comunidade da fé. Aliás, a igreja primitiva era exortada a se
encorajar mutuamente! (Hb 10.25; 1 Ts 5.11).

Além disso, os cristãos são também exortados a viver o amor


mútuo: da mesma forma que Deus nos amou (Jo 3.16; 1 Co 8.11-
13; 1 Jo 3.16; 4.11), nós devemos amar uns aos outros (Gl 5.14; Mt
22.39; Jo 15.12; Rm 13.10; 1 Ts 4.9; Hb 13.1; Tg 2.8; 1 Pe 1.22. 2.17; 1
Jo 3.23; 4.21; 2 Jo 5). O amor fraterno é uma das marcas da
igreja primitiva, que era convidada a cuidar dos doentes (Mt
25.36; Gl 4.14), auxiliando com necessidades financeiras (Mt
25.35; 1 Jo 3.17), servindo uns aos outros (1 Ts 2.8; Gl 5.13; Fp
2.30; 4.10; 1 Ts 1.3) e manter a unidade e comunhão da
comunidade por meio da prática do amor mútuo (1Pe 4.8; Ef
4.2). Na igreja primitiva o amor mútuo era expresso nas
comunidades locais como uma demonstração da manutenção
do ensino de Cristo (Jo 14.32; 1 Ts 4.9).

Vale mencionar, que a igreja primitiva era exortada orar uns


pelos outros: do mesmo modo que Cristo (Rm 8.34; Hb 7.25; 1
Jo 2.1) e o Espírito Santo (Rm 8.26-27) intercedem por nós, os
salvos devem orar uns pelos outros (Ef 6.18; 1 Ts 5.25; Fm 22;
Hb 13.18-29; Tg 5.14; 1 Jo 5.16). A igreja primitiva era também
exortada a servir uns aos outros em amor (Gl 5.13) honrar uns
aos outros (Rm 12.10c), aceitar uns aos outros (Rm 15.7),
admoestar uns aos outros (Rm 15.14), carregar as cargas uns
dos outros (Gl 6.2), suportar uns aos outros (Ef 4.2), submeter
uns aos outros (Ef 5.21) e sermos dedicados uns aos outros
(Rm 12.10a). Isso tudo era possível porque os cristãos são
membros uns dos outros (Rm 12.5; 12.4; 1 Co 10.17; 12.12-14, 20,
27, 28; Ef 1.23; 4.25; 5.23, 30; Cl 1.24; 2.19). A mutualidade do
cristianismo é experimentada verdadeiramente na expressão
local da comunidade da fé, afinal a mutualidade esperada da
comunidade cristã pressupõe uma comunidade em comunhão.
Não existe mutualidade na solidão do cristianismo
desassociado da expressão local da comunidade da fé.

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“A mutualidade do
cristianismo é
experimentada
verdadeiramente na
expressão local da
comunidade da fé”


Debaixo de Liderança
Um detalhe que os desigrejados normalmente se esquecem é
que desde sua origem a igreja é dirigida por líderes que
precisam ser obedecidos e respeitados (Hb 13.17). Para alguns
desigrejados, o único pastor da igreja é Cristo (1 Pe 5.4) e
baseado nisso se entendem livres de todo e qualquer líder
comunitário pois respondem apenas a Jesus Cristo.
Infelizmente, essa leitura que fazem da igreja está equivocada.
Em primeiro lugar, eles se esquecem que foi Cristo quem
estabeleceu o princípio da liderança na comunidade da fé
quando estabeleceu os apóstolos como líderes da igreja
primitiva (Mc 3.13-19; Mt 10.1-4; Lc 6.12-16; Jo 6.70; Mt 19.28; Mc
11.11; Lc 8.1; At 6.2; 1 Co 15.5; Ap 21.14). Em segundo lugar, se
esquecem que os apóstolos seguiram o padrão estabelecido
por Cristo quando constituíram líderes (At 6.1-7) nas igrejas que
plantavam (At 14.23; Tt 1.5). Em terceiro lugar, se esquecem que
os apóstolos deixaram orientações sobre o trabalho e a função
desses líderes comunitários. eles tem que ter caráter acima de
reprovação (1 Tm 3.1-13; Tt 1.6-9) para funcionarem como líderes
(1 Tm 5.17), mestres (1 Tm 5.17) e protetores da comunidade
contra os ataques dos falsos mestres (At 20.28-31; Tt 1.9); para
exercerem sua liderança em amor (1 Pe 5.1-3) e para serem
modelo para suas comunidades (1 Tm 4.12). Por fim se
esquecem que líderes comunitários marcados por essas
qualidades devem ser respeitados e obedecidos (Hb 13.7, 17; 1
Ts 5.12). É verdade que o Supremo Pastor da Igreja é Jesus
Cristo (1 Pe 5.4), e que todos um dia prestaremos contas a Ele,
mas na experiência da vida cristã nesse mundo, nós seremos
liderados por homens separados por Deus, como os apóstolos
bem nos instruíram.
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“É verdade que o
Supremo Pastor da Igreja
é Jesus Cristo (1 Pe 5.4), e
que todos um dia
prestaremos contas a Ele,
mas na experiência da
vida cristã nesse mundo,
nós seremos liderados por
homens separados por
Deus, como os apóstolos
bem nos instruíram.”


Para Alcançar o Mundo


Por fim, eu diria a um desigrejado que se ele de fato acredita
nas escrituras, de fato se entende um seguidor de Cristo que
realmente quer fazer a vontade de Deus nessa vida, que ele foi
chamado para fazer discípulos de todas as nações (Mt 28.19-
20). E aqui vemos o mais significativo problema dos
desigrejados: eles ignoram a missionalidade da fé cristã.
Vivendo isolados da comunidade local, eles não reproduzem
discípulos como o Senhor nos ensina a fazer. Para eles, a fé
cristã é reduzida apenas uma coleção de ensinos apostólicos,
ou afirmações teológicas que devem ser saboreadas à distância
da igreja local. São membros que não querem pertencer ao
corpo, seguidores que não querem fazer discípulos discípulos,
são ouvintes mas não praticantes do evangelho. Não à toa
vivem uma fé estéril e sem frutos que acaba por empurrar seus
filhos para longe de Cristo Jesus.

Por isso, eu ajudaria um desigrejado a lembrar que os cristãos


verdadeiros seguidores de Cristo foram comissionados por Ele
(Jo 15.16; Mt 9.37-38; Lc 10.1-3; Jo 4.36), com autoridade dada
por Ele (Lc 9.1; Mt 10.1; 28.18; Mc 6.7; 16.17-18; Lc 10.17-19) para
dar continuidade à Sua missão (Jo 20.21; 17.18), por meio da
capacitação do Espírito Santo (At 1.8; Lc 24.49; Jo 20.22; Hb

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2.4) para fazer discípulos (Mt 28.19-20; At 2.47; 14.15; 16.14-15;


18.8; Rm 10.14-14), proclamar o evangelho (At 20.24; 8.40; Rm
1.9; 15.20; 2Tm 1.11), testemunhar a Jesus Cristo (5.30-32; Lc
24.48; Jo 15.16-27; At 4.20), defender a fé (Fp 1.27), para honrar
a Deus (Ef 3.10-11; Jo 15.8; 1 Pe 2.12) e alcançar o mundo (Lc
24.47; Mt 24.14; Mc 13.10; Mt 28.19-20).

“Os cristãos foram


comissionados por Cristo,
com autoridade dada por
Ele, para dar continuidade
à Sua missão e por meio
da capacitação do
Espírito Santo, fazer
discípulos, proclamar o
evangelho, testemunhar a
Jesus Cristo, defender a
fé, honrar a Deus e
alcançar o mundo”


Aos Desigrejados
Eu sei que muitos desigrejados estão vivendo fora de igrejas
locais especialmente porque nelas já sofreram o suficiente. Eu
sei que vários deles carregam feridas profundas causadas por
maus pastores e péssimas congregações. Mas, se eu pudesse
deixar uma última sugestão a um desigrejado, eu diria: Não
desista da igreja local porque a igreja local que você conheceu
era terrível. Não desista da igreja local porque você sofreu nas
mãos de um mau pastor e de uma péssima comunidade.
Procure uma comunidade local que viva a simplicidade do
evangelho, cuja liderança é marcada pelos valores bíblicos. Eu
sei que não é fácil encontrar pastores e comunidades assim,
mas acredite, eles existem. Deus não abandonou Sua igreja! A
bem da verdade, existem pastores que se importam como

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13/12/2018 Aos Desigrejados com Amor - TGC Coalizaopeloevangelho

vocês, que estão prontos a demonstrar amor verdadeiramente


cristão e a caminhar com vocês lado a lado. Não desistam da
igreja local, pois é nela que a verdadeira vivacidade da fé
acontece. #tmj

Teologia Faz Bem para a


Igreja
29 NOVEMBRO, 2018 | Marcelo Berti

Nos nossos dias muitas pessoas realmente acreditam que


estudar teologia é algo completamente desnecessário. Para
alguns, o cristianismo é uma experiência pessoal com Cristo
que nada tem a ver com a mente; para outros, o verdadeiro
cristianismo importa-se exclusivamente com a prática de
princípios e, portanto, não precisam atentar-se a conceito e
ideias sobre Deus, Sua palavra e revelação.

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Embora essa atitude contrária ao estudo da teologia seja


comum, ela dificilmente pode ser considerar uma atitude
correta. A bem da verdade, as Escrituras atestam a importância
de se estudar teologia. Por isso, nesse artigo vamos considerar
a importância prática da doutrina, observar sete razões pelas
quais pessoas desprezam o valor da doutrina e por fim,
apresentar boas razões para estudarmos teologia.

1. A Importância Prática da Doutrina


Uma das mais recorrentes desculpas para não se estudar as
doutrinas cristãs, é que tal estudo não tem importância prática.
Muitos realmente acreditam que existe uma divisão entre o
conhecimento e a prática, entre o conceito e a ética, entre a
mente e o coração. E por assim pensarem, entendem que
qualquer estudo centrado em conhecimento será focado
apenas na mente do indivíduo e não no seu coração, e como
consequência disso, será um estudo sem relevância prática.

Nada poderia estar mais longe da verdade! As Escrituras não


ensinam essa divisão entre conhecimento e prática, muito
menos entre doutrina e ética. De acordo com o que lemos nas
Escrituras, a doutrina é o alicerce da prática cristã. Ou seja,
sem bases conceituais e doutrinárias sólidas, o cristão não terá
fundamento para a prática da sua fé.

Por exemplo, o chamado para a vida santa tem por base a


doutrina da identificação na morte do cristão com Cristo (Rm
6.1-13); a rejeição do preconceito de pessoas nasce da
percepção de que Deus não é parcial com as pessoas (Rm 2.11),
e de que Ele não estabelece preferência entre ricos e pobres
(Tg 2:1-4), de que Ele envia suas bênçãos para todos os homens
sem distinção (Mt 5:45). A vida santa é estimulada pelo
reconhecimento de que existe um plano divino para o futuro,
que envolve a completa realização da santidade (1 Jo 3.1-3).
Aliás, é porque cremos que Deus tem um plano e um propósito
para sua criação é que nos empenhamos em apresentar o
evangelho as pessoas (2 Co 2.10).

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Além disso, o cristão pode apenas reagir aos falsos ensinos se


conhecer a verdadeira doutrina. Heresias, falsos ensinos,
mentiras e tantas outras práticas que distorcem o que as
Escrituras ensinam só poderiam ser percebidas, respondidas e
corrigidas por aqueles que tem um bom conhecimento das
doutrinas que as Escrituras ensinam. Em outras palavras, só
poderemos saber o que é falso, se conhecermos o que é
verdadeiro. Diga-se de passagem, o mesmo é válido para
práticas e comportamentos que são contrários à sã doutrina
(cf. 1 Tm 1.8-10).

Ou seja, a doutrina verdadeiramente cristã serve como


fundamento para a prática verdadeiramente cristã. Aquele que
se opõe ao estudo aprofundado das Escrituras por entender
que a doutrina não tem implicações práticas, provavelmente
não retirou das Escrituras essa conclusão. Afinal, as Escrituras
atestam o oposto disso: a doutrina serve de fundamento para a
prática.

2. Aversões a Teologia
Tendo feito essas considerações, devemos nos perguntar: “Se a
doutrina é a base da prática cristã, porque algumas pessoas
não gostam e não querem estudar teologia?” A verdade é que
existem diferentes respostas a essa pergunta. Alguns rejeitam o
estudo das Escrituras por pietismo, enquanto outros o fazem
pelo zelo biblicista, pelo pragmatismo, pelo misticismo, pelo
ceticismo, pelo carismatismo ou até mesmo por um
ecumenismo utópico.

a. Pietismo

Algumas pessoas realmente acreditam, embora provavelmente


nunca o afirmem em voz alta, que o estudo da doutrina pode
destruir a fé. É como se o estudo da teologia fosse um
empecilho para a verdadeira expressão da fé cristã. A
experiência com Deus é o que importa, e a verdadeira
experiência não acontece no estudo das Escrituras. A vida
espiritual não se preocupa com questões conceituais ou
doutrinárias, tudo o que importa é a devoção.
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Entretanto, o que não se percebe, é que para fazer uma


afirmação como essa, o indivíduo precisa de fundamento, e
melhor, precisa de um sistema doutrinário que o permita
chegar à essas conclusões. Em outras palavras, como ele sabe
que a verdadeira experiência não acontece no estudo das
Escrituras? É realmente verdade que o estudo da doutrina não
pode levar alguém a experimentar Deus genuinamente? Fazer
afirmações como essa sem poder, entretanto, demonstrar sua
veracidade é um problema doutrinário. Com isso, não estamos
dizendo que a experiência com Deus não seja importante,
estamos afirmando que a experiência e o estudo não são
antagônicos como pensam alguns. Devoção, piedade e
conhecimento não são opostos entre si, até porque o
verdadeiro conhecimento de Deus é o fundamento para a
devoção e piedade (1 Jo 2.3-14).

b. Biblicismo

Entre os teologicamente mais conservadores, existem aqueles


que realmente acreditam que a teologia é oposta às Escrituras.
Alguns o fazem por defender um dualismo infantil que diz que
a fonte das Escrituras é divina, enquanto as fontes da teologia
são humanas. De acordo com essa visão, devemos nos dedicar
exclusivamente ao texto das Escrituras e rejeitar as construções
teológicas que se fazem a partir dela. Outros o fazem por
acreditarem que a teologia é desnecessária, e o que realmente
importa é a escritura.

Ironicamente, ambas as proposições supracitadas são feitas a


partir de uma plataforma teológica, seja ela conceitual, seja ela
histórica. Conceitualmente, aqueles que dividem a fonte da
teologia e das Escrituras o fazem por meio de uma doutrina da
revelação restritiva. Eles afirmam a inspiração do texto, aceitam
a autoridade do texto e rejeitam as reflexões humanas feitas a
respeito dela. Entretanto, historicamente, essa opinião só pode
ser feita dentro da tradição protestante. A centralidade e
prioridade das Escrituras na reflexão teológica foi um dos
muitos resgates conceituais oferecidos pela Reforma
Protestante. Em outras palavras, na tentativa de se afirmar a
desnecessidade da teologia, esses cristãos afirmam a teologia
protestante da prioridade das Escrituras à teologia.

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A bem da verdade é que ninguém lê as Escrituras com base


exclusivamente nas Escrituras. A escritura é de fato inspirada,
mas toda leitura das Escrituras é interpretativa, e toda
interpretação é humana. A partir do momento em que nos
colocamos a ler a escritura nós a estamos interpretando por
meio de um viés teológico, quer o leitor saiba disso ou não.
Ninguém lê o texto num vácuo espiritualmente neutro e santo,
pois todos nós trazemos nossas pressuposições para o texto. E
muitas das pressuposições que carregamos são fruto do
ambiente teológico que estamos inseridos, e são derivadas de
afirmações teológicas conscientes ou não. Ou seja, aqueles que
afirmam a exclusividade das Escrituras na reflexão cristã, o
fazem por meio de afirmações teológicas, conscientes disso ou
não.

Vale dizer, por outro lado, que não rejeitamos a primazia das
Escrituras no estudo da teologia. O que estamos demonstrando
é que a ideia da exclusividade das Escrituras na reflexão cristã é
ingênua e imatura, senão autocontraditória.

c. Pragmatismo

Alguns cristãos realmente acreditam que a teologia é


irrelevante. Para eles, o que realmente importa é como vamos
viver nossas vidas no dia a dia, e nesse quesito a teologia nada
tem a acrescentar. É como se a reflexão cristã a respeito da
doutrina revelada nas Escrituras não tivesse relevância prática.

A razão para alguns pensarem desse modo tem a ver com a


cultura extremamente pragmática e imediatista dos nossos
dias. Refletir sobre como agir pode levar mais tempo do que se
gostaria, mas oferece bases mais consistentes para nossa
prática cristã. O resultado pode não ser imediatamente rápido,
mas quem disse que os resultados devem ser medidos em
tempo e não em relação com a verdade? Infelizmente, muitos
fizeram do pragmatismo e do imediatismo o critério ultimo
para decisões éticas, eclesiásticas e missionais, fazendo com
que muito do que se produz nos nossos dias seja superficial e
transitório.

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Isso não quer dizer que não possamos ser pragmáticos com
algumas das nossas escolhas sobre ética, igreja e missão. O que
não podemos fazer é ignorar que a doutrina cristã é a base
para essas decisões, mesmo as mais pragmáticas.

d. Misticismo

Para alguns cristãos, a teologia tornou-se complicada demais


quando se propôs a investigar e invadir os mistérios de Deus. A
retórica mais conhecida desse argumento é que a teologia
complica aquilo que é simples. O argumento por trás da
retórica é que a verdadeira espiritualidade é encontrada fora da
escritura, porque a letra mata, mas o espirito vivifica. São nas
experiências místicas que o verdadeiro conhecimento de Deus
é encontrado.

Novamente, a ironia dessa proposta é que precisa-se de uma


estrutura teológica para organizar a revelação divina desse
modo. Em outras palavras, necessita-se de uma teologia da
revelação divina para se sugerir que a verdadeira fonte da
verdadeira experiência mística com Deus acontece além das
Escrituras. E mais, para fazer isso, o indivíduo precisaria usar as
Escrituras (!).

A verdade é que não se pode negar a manifestação de Deus, e


sua revelação além daquilo que foi revelado de forma
proposicional nas Escrituras, pois aprendemos com elas que o
Espírito de Deus também se revela na natureza (At 14.17; Rm
1.20) e não somente nas Escrituras (Hb 4.12-13). Ao mesmo
tempo, não se pode ignorar a primazia da Escritura à
experiência, afinal qual seria o critério para se avaliar a
veracidade da experiência? Diga-se de passagem, deve-se
assumir uma estrutura conceitual teológica que afirme a não
contrariedade das revelações do Espírito. Ou seja, uma teologia
que considere que o mesmo Espírito que atuou nos apóstolos e
profetas não comunique algo nos dias de hoje que seja
contrário àquilo já revelado nas Escrituras. O misticismo levado
à efeito conduzirá o cristão ao agnosticismo piedoso, que
afirma que não se pode saber ao certo quem Deus é, muito
embora se possa sentir o que Ele espera de nós.

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e. Ceticismo

A partir de uma percepção superficial dos dilemas teológicos,


alguns cristãos acreditam que o estudo teológico não oferece
clareza, mas confusão. A retórica é mais ou menos parecida
com essa: “Se os teólogos que dedicam toda suas vidas para
entender a teologia e as Escrituras não conseguem concordar
em um assunto, como eu poderia encontrar uma solução para
esse dilema?” Essa postura presume a impossibilidade de se
conhecer algo sobre Deus e sua revelação de modo objetivo, e
por isso é cética quanto a validade do estudo teológico.

Por um lado, a pergunta feita por esses cristãos é de fato


interessante. Teólogos não concordam entre si, como poderiam
meros mortais como nós saber qualquer coisa sobre teologia?
Por outro lado, devemos considerar que aqueles que assim se
perguntam, confundem convicção e certeza. Nem todo
conhecimento revelado nas Escrituras será plenamente
objetivo, e nesse sentido, a certeza não será o objetivo do
estudo. Isso não significa que não se possa ter convicções
teológicas bem fundamentadas.

Considere por um momento um tema não controvertido entre


os teólogos conservadores, como por exemplo o pecado. Ao
que parece, todos os teólogos dos mais diferentes espectros da
teologia conservadora irão concordar com o fato de que os
seres humanos são criaturas caídas e desfiguradas pelo
pecado. Por outro lado, nem todos irão concordar com as
implicações dessa afirmação teológica, ou com a abrangência
dessa desfiguração no ser humano. Ou seja, é possível manter
convicções em assuntos controvertidos, mesmo que a certeza
objetiva e absoluta não seja possível. Diante da imensa
profundidade daquele que se revela nas Escrituras, sabemos
ser impossível saber tudo sobre Ele com absoluta certeza. Até
porque um Deus que é plenamente factível e explicável para a
mente humana, dificilmente seria verdadeiramente Deus.

f. Carismatismo

O carismatismo, diferente do pietismo e do misticismo, sugere


de modo similar a eles que o estudo teológico não é uma
atividade espiritual. Enquanto o pietismo evita a teologia para

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valorizar a devoção, e o misticismo a experiência da divindade,


o carismatismo evita a teologia por enfatizar os ministérios do
Espírito Santo e sua atual manifestação. Aqui encontra-se a
dicotomia entre a vida espiritual e o estudo teológico, uma
dicotomia que deveria ser evitada a todo custo. A consequência
lógica da proposição de tal dicotomia, é que pode-se confiar no
Senhor com seu coração, mas jamais com sua mente, como se
o estudo enfraquecesse as presentes manifestações do Espírito,
ou que o mesmo se tornasse inefetivo e improdutivo quando o
cristão passasse a estudar.

Por outro lado, devemos considerar que existe certa veracidade


nesse tipo de ceticismo, até porque muito da produção
teológica produzida no Protestantismo teve suas bases no
racionalismo que tende a minimizar a experiência, a piedade e
as manifestações do Espírito. Se bem observado, notar-se-á
que muito do que se aprende em instituições de ensino
teológico se sobrepõe com a espiritualidade genuína, devoção
em oração, discernimento do Espirito. Aliás, encontrar-se-á
muitos estudantes e professores de teologia que sabem muito
sobre Deus, mas quase nada experimenta verdadeiramente
Dele.

É por isso que devemos rejeitar ambos os extremos, do


academicismo improdutivo, e do carismatismo ignorante.
Talvez o maior desastre que aconteceu na história da teologia
foi a separação entre a teologia que se faz sentado e aquela
que se faz de joelhos. Se bem analisada, as Escrituras ensinam
ambas as verdades e ambas devem ser mantidas unidas para o
bem da cristandade, da comunidade da fé e da maturidade
cristã.

g. Ecumenismo Cristão

Ecumenismo é a tentativa de se encontrar um ponto comum


entre diferentes propostas religiosas e com isso defender a
unidade primária dessas religiões. O ecumenismo cristão pensa
de modo similar, mas apenas dentro do cristianismo. Para os
cristãos que defendem essa bandeira, o amor une e a doutrina
divide. Em outras palavras, devemos parar com as reflexões
teológicas e focar na manifestação do amor cristão como
ponto de verdadeira unidade na cristandade.
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Entretanto, devemos observar que existem dois elementos


equivocados na retórica desse movimento. Em primeiro lugar,
amor não une, ele redime. Em muitos casos, o amor defendido
nesses ambientes não é o justo amor da divindade, mas o
inclusivo amor da humanidade que se tem em mente. Nesse
tipo de amor, aceita-se todas as diferenças em nome de um
sentimento que mais se parece com a conivência do que com a
justiça de Deus. O amor de Deus, por outro lado, não é um
sentimento desassociado de suas virtudes, mas a manifestação
delas, sendo a redenção de seres caídos por meio da morte de
Cristo para viverem em novidade de vida a mais importante
manifestação desse amor. O amor de Deus redime. Em
segundo lugar, doutrina divide como deveria. De acordo com as
Escrituras a doutrina divide a verdade da mentira, a doutrina da
heresia, o falso do verdadeiro. Aliás, essa é a função da verdade
(cf. 2 Tm3.1-3; 4.2-4; Tt 1.9-11; 2.1).

Por outro lado, é necessário se dizer que entre os cristãos


conservadores, em especial entre os fundamentalistas, a
teologia tem sido usada como vara da disciplina divina. Aqueles
que tem um conhecimento limitado das Escrituras e impróprio
da teologia, usam a teologia como desculpa para hostilidade e
carnalidade e com isso dividem o corpo de Cristo de modo
desnecessário e infantil. Esses fundamentalistas, por
presumirem assertividade em todas as suas afirmações
teológicas, acreditam que sua missão é impor suas convicções
doutrinárias à fórceps a todos que se dizem cristãos, e se fazem
o rolo compressor da justiça e verdade divina na tentativa de
destruir visões distintas daquelas que eles mesmos defendem.
Esse equívoco é trágico para a fé, pois divide o corpo de Cristo.

Em outras palavras, deve-se evitar ambos os extremos, seja o


da unidade utópica do ecumenismo cristão, seja do
separatismo infantil de alguns fundamentalistas. A bem da
verdade, a melhor resposta para ambos, é uma boa dose de
conhecimento teológico.

3. Necessidade da Teologia

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Como ficou claro, a teologia é mais do que um capricho dos


acadêmicos, é uma necessidade real para a comunidade da fé.
Sem uma boa base doutrinária qualquer uma das aversões
apresentadas acima poderia ser considerada verdadeira. Por
outro lado, uma teologia que se propõe a investigar e explicar
as Escrituras, ao invés de destruir a fé (pietismo) ela irá
promover uma fé consciente; ao invés de se opor às Escrituras
(biblicismo), ela será biblicamente verdadeira; ao invés de se
mostrar irrelevante (pragmatismo), ela será vital para vida,
eclesiologia e missão cristã; ao invés de invadir os mistérios de
Deus (misticismo), ela será curiosamente reverente diante da
grandeza de Deus; ao invés de levar pessoas ao agnosticismo
(ceticismo), ela será humildemente conclusiva; ao invés de
impedir a manifestação do Espirito (carismatismo), ela será
impelida por Ele; ao invés de dividir (ecumenismo), ela será
construtiva para a comunidade da fé.

Em outras palavras, a teologia é fundamentalmente


importante para o cristão, a comunidade da fé e a missão
cristã. Sem um bom fundamento teológico, a própria piedade
seria distorcida, a liturgia esquecida e a missão enfraquecida.
Por isso, o cristão deve dedicar-se a conhecer mais do Senhor,
da sua comunidade e missão por meio da teologia, pois a
teologia não é o fim da dedicação acadêmica do cristão, mas
apenas o meio pelo qual sua devoção, religião e missão são
percebidas e desenvolvidas.

Soli Deo Gloria

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A Pregação como Exegese


Pública
6 NOVEMBRO, 2018 | Marcelo Berti

A prática da exposição das Escrituras é uma das mais


importantes tarefas do ministério pastoral[i]
(https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-pregacao-
como-exegese-publica-a-centralidade-da-escritura/#_edn1) e
frequentemente estudantes de teologia e pastores no início de
sua jornada ministerial tem grande dificuldade em colocar essa
disciplina em prática. A diversidade de métodos e propostas,
gostos e preferências pessoais do pastor e da comunidade que
ele serve fazem com que o novato na arte de comunicar a
mensagem de Deus sinta-se perdido. É bem verdade que os
aspectos da oratória da exposição são importantes e o
estudante deve dedicar-se a aprimorá-la[ii]
(https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-pregacao-
como-exegese-publica-a-centralidade-da-escritura/#_edn2),
mas o pastor que quer proclamar a mensagem de Deus para
sua comunidade deve estar primeiramente atento as Escrituras.

Fazer das Escrituras a prioridade da pregação é reconhecer


que a autoridade do conteúdo proclamado é divino e não
humano; é atribuir ao Senhor a responsabilidade de comunicar
a mensagem dele para a comunidade dele; é entender que no
processo da proclamação da mensagem, como pregadores,
somos apenas mensageiros preocupados em não distorcer o
que Deus tem a comunicar com sua igreja.[iii]
(https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-pregacao-
como-exegese-publica-a-centralidade-da-
escritura/#_edn3)Entretanto, fazer das Escrituras a prioridade
da exposição é um desafio que deve ser encarado
primeiramente na preparação da mensagem. Aliás, ousaria
dizer que é na preparação da mensagem que um sermão é
definido como uma pregação expositiva.
https://coalizaopeloevangelho.org/blogs/marcelo-berti/aos-desigrejados-com-amor/ 24/33
13/12/2018 Aos Desigrejados com Amor - TGC Coalizaopeloevangelho

É por isso que gosto de chamar a prática da pregação que


prioriza o texto original de exegese pública. É uma maneira de
deixar evidente que a Escritura não é apenas a prioridade da
mensagem a ser apresentada, mas a fonte primária do
conteúdo a ser apresentado. É um modo de associar duas
disciplinas fundamentalmente importantes em uma única
atividade: Exegese e Homilética pertencem uma a outra e
separá-las pode ser prejudicial para a prática da pregação
expositiva.[iv]
(https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-pregacao-
como-exegese-publica-a-centralidade-da-escritura/#_edn4)

A exegese pública é uma filosofia de pregação expositiva que


faz das línguas originais o centro do estudo e preparação da
homilia; é uma filosofia que reconhece que abandonar o texto
nos seus idiomas originais é incorrer no risco de abandonar o
evangelho[v]
(https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-pregacao-
como-exegese-publica-a-centralidade-da-escritura/#_edn5) ou
de se desviar da verdade divina.[vi]
(https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-pregacao-
como-exegese-publica-a-centralidade-da-escritura/#_edn6)
Reconhecer a Escritura como prioridade e fazer da Escritura a
prioridade da pregação são duas coisas distintas, e a exegese
pública dedica-se a realizar ambas atividades tanto na
declaração da filosofia da pregação como na sua prática.[vii]
(https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-pregacao-
como-exegese-publica-a-centralidade-da-escritura/#_edn7)

João Crisóstomo poderia ser citado como um bom exemplo de


alguém que praticou a exegese pública.[viii]
(https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-pregacao-
como-exegese-publica-a-centralidade-da-
escritura/#_edn8)Conhecido por sua habilidosa oratória, João
Crisóstomo figura entre aqueles que fizeram da exegese do
texto grego o ponto de partida de suas mensagens. Via de
regra, sua exposição iniciava-se com uma cuidadosa exegese,
que se preocupava com aspectos gramaticais, literários e
contextuais e a partir dessas informações ele apresentava a
aplicação do texto.[ix]
(https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-pregacao-
como-exegese-publica-a-centralidade-da-escritura/#_edn9) De

https://coalizaopeloevangelho.org/blogs/marcelo-berti/aos-desigrejados-com-amor/ 25/33
13/12/2018 Aos Desigrejados com Amor - TGC Coalizaopeloevangelho

tão habilidoso na sua prática homilética, João ganhou o título


de “boca de ouro” (Χρυσόστομος – Crysóstomos) e ficou
reconhecido por combinar com excelência a exegese do texto,
sua apresentação e aplicação.[x]
(https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-pregacao-
como-exegese-publica-a-centralidade-da-escritura/#_edn10)
Sua maestria na realização da exegese pública lhe rendeu a
condecoração de maior dos pregadores do período patrístico.
[xi] (https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-

pregacao-como-exegese-publica-a-centralidade-da-
escritura/#_edn11) Sobre ele, Everett Ferguson afirma: “Desde
o sexto século ele é reconhecido como ‘boca de ouro’, porque
ele dominou a arte da pregação. Seus insights sobre o
significado da Bíblia Grega e sua habilidade em aplicá-la de
modo prático para seus ouvintes são as perenes contribuições
de suas mensagens sobreviventes”.[xii]
(https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-pregacao-
como-exegese-publica-a-centralidade-da-escritura/#_edn12)

Contudo, Crisóstomo não era uma espécie de comentarista frio


no púlpito. Muito pelo contrário, suas homilias eram destinadas
especialmente a instrução da comunidade e reforma moral de
uma sociedade nominalmente cristã. Em função de sua
influência como pregador, Crisóstomo acabou por funcionar
como um reformador na cidade de Antioquia,[xiii]
(https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-pregacao-
como-exegese-publica-a-centralidade-da-escritura/#_edn13)
com homilias que denunciavam o aborto, a prostituição, a
glutonaria, o teatro, a prática do xingamento e o amor pelas
corridas de cavalos. Crisóstomo era um exegeta público por
excelência: com atenção ímpar ao texto grego e com os olhos
voltados ao estímulo da prática cristã, Crisóstomo pode ser
descrito como alguém que foi bem-sucedido na tarefa de
associar a exegese e a homilética. Sua influência pode ser
sentida ainda hoje e seu exemplo nos estimula a buscar a
excelência

Além disso, Crisóstomo nos serve como exemplo de que existe


vida na exegese, e que a mesma não é uma disciplina
acadêmica a ser praticada na quietude do escritório pastoral. A
bem da verdade, a exegese deve ser pública para poder ter seu
fim levado à efeito. Aliás, é porque acreditamos que a “a

https://coalizaopeloevangelho.org/blogs/marcelo-berti/aos-desigrejados-com-amor/ 26/33
13/12/2018 Aos Desigrejados com Amor - TGC Coalizaopeloevangelho

Palavra de Deus é viva e eficaz e mais afiada do que qualquer


espada de dois gumes”, porque acreditamos que “ela penetra
ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e julga os
pensamentos e intenções do coração” (Hb 4:12) é que nos
esforçamos para estuda-la minuciosamente. Afinal, na
exposição somos meros comunicadores da mensagem divina; é
na Escritura que reside a autoridade da mensagem proclamada.

Em outras palavras, a exegese pública é uma filosofia de


pregação expositiva que faz das línguas originais o centro do
estudo e preparação da homilia; é uma proposta que visa
unificar duas disciplinas fundamentalmente importantes para o
ministério: a exegese e a homilética. Por isso, gostaria de deixar
algumas sugestões para que seminaristas/estudantes de
teologia/pastores considerem a possibilidade de se tornarem
exegetas públicos:

1. Nunca perca de vista a função devocional da


exegese
É verdade que o método de aprendizado de uma língua é por
vezes enfadonho e repetitivo; é verdade que as vezes somos
desencorajados no aprendizado das línguas bíblicas porque
não vemos resultados imediatos desse aprendizado. Entretanto,
quando o aluno chega à exegese e percebe sua utilidade, ele
corre o risco de fazer da mesma um estudo meramente
intelectual. Esse erro pode ser fatal para a exposição. Ser capaz
de identificar os marcadores de discurso, as muitas funções do
genitivo, não terão valor se o aluno perder de vista a função
devocional da exegese. Por isso, estude a Escritura para
aprender do Senhor e conhecer mais dele; estude as Escrituras
na busca da presença do Espírito Santo e encontre-se com
Cristo no texto. Um aluno que não sente a presença de Deus na
exegese, dificilmente poderá comunicar a verdade de Deus com
paixão e poder. A exegese é iminentemente devocional.

2. Nunca ignore a função eclesiástica da exegese


O estudo da Escritura não é um exercício egocêntrico, é uma
prática eclesiástica. A exegese é uma das práticas mais
pastorais do ministério, pois é a partir dela que o pastor

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13/12/2018 Aos Desigrejados com Amor - TGC Coalizaopeloevangelho

alimenta, orienta, corrige, instrui, protege e dirige suas ovelhas.


A homilia é a mais importante ferramenta do discipulado
pastoral, e a mais abrangente. É por isso que a exegese tem
que ser feita pública na homilia. O estudo aprofundado das
Escrituras deve ser feito para o bem da comunidade. A exegese
é fundamentalmente eclesiástica.

3. Nunca separe a homilética da exegese


As demandas do ministério pastoral serão infindáveis, pode
acreditar. O pastor sempre terá mais coisas a fazer do que tem
tempo para executá-las. E normalmente é essa demanda
excessiva de atividades e responsabilidade que faz o pastor
abandonar a exegese. Na sua lista de prioridades, o estudo
aprofundado da Escritura não tem lugar, por que para ele o
mesmo não tem qualquer relação com sua prática pastoral.
Nada poderia estar mais longe da verdade! É no estudo
aprofundado das Escrituras que o pastor forma sua filosofia
ministerial, suas convicções doutrinárias e a partir de onde ele
deveria produzir suas mensagens. A vida da comunidade é
importante demais para que o pastor ignore o estudo
aprofundado das Escrituras. Por isso, não se permita separar a
homilia dos esforços exegéticos, o preço que se paga por isso é
muito alto. A exegese é finalmente homilética.

4. Aprimore suas habilidades exegéticas


Uma as maneiras para colocar em prática a exegese públicas é
ter domínio sobre as línguas originais. E isso não acontece do
dia pra noite, leva tempo e empenho. Por isso, faça todo
esforço para aprimorar suas habilidades durante seu período de
treinamento no seminário. Leia gramáticas, léxicos e
comentários muito além da carga exigida pelos seus
professores. Esse esforço fará diferença a longo prazo. Invista
tempo e, se possível, recursos durante o seminário, pois é bem
provável que no ministério você nunca mais tenha tanto tempo
para estudar as Escrituras. Não despreze o estudo das línguas
originais durante sua formação ministerial. Aliás, se precisar
gastar mais tempo com elas do que com qualquer outra
disciplina, faça isso, pois todas as outras disciplinas se podem
aprender bem fora do seminário. A exegese exige dedicação.

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5. Faça da exegese o fundamento de sua homilia


Uma vez que a exegese é iminentemente devocional,
fundamentalmente eclesiástica e finalmente homilética,
esforce-se diligentemente para fazer da exegese o ponto de
partida da sua mensagem. Isso não significa que você deva usar
do púlpito para destilar seus conhecimentos exegéticos, nem
para ensinar sua congregação as idiossincrasias das línguas
bíblicas. A exegese deve ser o fundamento da homilia, e não a
homilia em si. A oratória e a comunicação bem articulada
exigem do pregador outras habilidades além as da exegese,
mas sem ela, a mais eloquente pregação pode ser nada mais do
que exposição de opinião pessoal. E no ministério pastoral, não
podemos incorrer no risco de apresentarmos uma mensagem
que não seja a de Deus para a comunidade. Por isso, faça da
exegese o ponto de partira da mensagem a ser proclamada,
sem fazer da exegese a mensagem proclamada. A exegese
deve ser o ponto de partida, e não o ponto final da pregação.

A verdade é que que não se pode negar a centralidade das


Escrituras na pregação, nem a fundamental importância do
texto original para nossas traduções da Bíblia. Se pretendemos
ser expositores das Escrituras, devemos estar preparados para
manuseá-la nos seus idiomas originais com a devida
competência. Por isso, esmere-se em conhecer e em se
aperfeiçoar no conhecimento das línguas originais; a
comunidade de Deus agradece.

Artigo originalmente publicado no site Voltemos ao Evangelho


em dois artigos: A pregação como exegese pública: a
centralidade da Escritura
(https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-pregacao-
como-exegese-publica-a-centralidade-da-escritura/) e A
pregação como exegese pública: 5 dicas para seminaristas
(https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/08/a-pregacao-
como-exegese-publica-5-dicas-para-seminaristas/).

– – –

Notas
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13/12/2018 Aos Desigrejados com Amor - TGC Coalizaopeloevangelho

[i] (https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-
pregacao-como-exegese-publica-a-centralidade-da-
escritura/#_ednref1) Mark Dever afirma que a exposição das
Escrituras na comunidade crista é a mais importante de todas
as marcas de uma igreja saudável (DEVER, Mark, Nove Marcas
de uma Igreja Saudável, 40); fazer da Escritura a prioridade do
púlpito deve ser o contínuo esforço do pregador. Donald Miller
chega a afirmar que “toda pregação verdadeira é uma pregação
expositiva, e que toda pregação que não é expositiva, não é
verdadeiramente pregação” (MILLER, Donald, Way to Biblical
Preaching, 22).

[ii] (https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-
pregacao-como-exegese-publica-a-centralidade-da-
escritura/#_ednref2) Haddon Robinson defende que são dois
os elementos que fazem uma pregação eficiente: (1) que se fala
e (2) como se fala: “fora dos aspectos relacionados com a vida,
com o conteúdo bíblico, nós não temos nada que valha a pena
comunicar; mas sem uma habilidosa oratória, nós não seremos
capazes de fazer com que esse conteúdo chegue à
congregação” (ROBINSON, Haddon, W., Biblical Preaching, 201
– publicado por Edições Vida Nova como Pregação Bíblica).

[iii] (https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-
pregacao-como-exegese-publica-a-centralidade-da-
escritura/#_ednref3) Ler a excelente introdução à pregação
expositiva de Sidney Greidanus, The Modern Preacher and the
Ancient Text, pp.1-18 (publicado pela Cultura Cristã como O
Pregador Contemporâneo e o Texto Antigo). Para Greidanus, no
coração da pregação expositiva encontra-se “não apenas um
método, mas um compromisso, a visão da essência da
pregação, uma abordagem homilética de pregar as Escrituras”
(p.15). É esse compromisso de expor a mensagem de Deus para
a comunidade dele é o compromisso mais importante da
pregação expositiva.

[iv] (https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-
pregacao-como-exegese-publica-a-centralidade-da-
escritura/#_ednref4) Um dos grandes problemas da formação
pastoral de muitos dos nossos seminários é que se separam
exegese da homilética desde o planejamento acadêmico.
Normalmente, homilética figura entre as matérias pastorais ao

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passo que a exegese é alocada entre as matérias acadêmicas.


Professores de línguas originais defendem a prioridade da
Escritura na pregação, mas não ensinam seus alunos como sair
do texto para o púlpito porque suas matérias são desenhadas
para ajudar o aluno a focar no texto; ao passo que professores
de homilética defendem a prioridade da Escritura na
preparação e entrega da pregação, mas não ensinam os alunos
a como fazê-lo porque estão mais preocupados com a entrega
da mensagem do que sua preparação. Nesse cenário, muitos
alunos não conseguem transpor o abismo entre a realização da
exegese e a apresentação da mensagem. Resultado disso é que
pouquíssimos pastores fazem uso recorrente da exegese em
seu ministério pastoral.

[v] (https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-
pregacao-como-exegese-publica-a-centralidade-da-
escritura/#_ednref5) Marinho Lutero foi o reformador campeão
desse princípio: “Certifique-se disso: não preservaremos o
evangelho sem as línguas originais. As línguas são a bainha na
qual que espada do Espírito está contida; a caixa em que essa
joia é consagrada; a garrafa em que esse vinho é mantido; a
despensa em que esta comida é armazenada (…) Se, por nossa
negligência, abandonarmos as línguas originais (que Deus não
permita!), nós iremos perder o evangelho” (LUTHER, Martin, To
the Councilmen of All Cities in Germany That They Establish and
Maintain Christian Schools, p.31).

[vi] (https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-
pregacao-como-exegese-publica-a-centralidade-da-
escritura/#_ednref6) João Calvino defendeu isso com
propriedade: “Ao abandonarmos as línguas bíblicas, fechamos
os olhos para a luz e espontaneamente nos desviamos da
verdade” (CALVIN, John, Selected Works of John Calvin, 3:75).

[vii] (https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-
pregacao-como-exegese-publica-a-centralidade-da-
escritura/#_ednref7) Com isso não estamos dizendo que
aqueles que não usam língua originais na preparação de suas
mensagens não são verdadeiros expositores, nem que estão em
erro ou abandonando a verdade. Estamos apenas afirmando
uma filosofia que faz do texto original o ponto de partida da

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13/12/2018 Aos Desigrejados com Amor - TGC Coalizaopeloevangelho

exposição, e que tal preocupação pode nos ajudar a defender e


apresentar o evangelho e a verdade divina. A exegese pública é
uma forma de pregação expositiva, e não a única forma.

[viii] (https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-
pregacao-como-exegese-publica-a-centralidade-da-
escritura/#_ednref8) O leitor deveria, entretanto, refrear os
impulsos de julgar a prática da exegese de Crisóstomo pelos
critérios dos métodos atuais da exegese contemporânea pois
isso seria anacrônico. Crisóstomo é um excelentíssimo
representante da escola exegética antiocana, e baseado nos
critérios dessa escola hermenêutica que ele deveria ser
avaliado.

[ix] (https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-
pregacao-como-exegese-publica-a-centralidade-da-
escritura/#_ednref9) THISELTON, Anthony C., “Chrysostom,
John,” The Thiselton Companion to Christian Theology, 246.

[x] (https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-
pregacao-como-exegese-publica-a-centralidade-da-
escritura/#_ednref10) VENABLES, Edmund, “Chrysostom,
John,” A Dictionary of Christian Biography, Literature, Sects and
Doctrines, 521. Ver também: GALLI, Mark, OLSEN, Ted Olsen,
“John Crysostom,” 131 Christians Everyone Should Know, 83;
LEID, K., “Chrysostom, John,” Who’s Who in Christian History,
159.

[xi] (https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-
pregacao-como-exegese-publica-a-centralidade-da-
escritura/#_ednref11) HUNTER, David G., “Chrysostom, John,”
The Encyclopedia of Christianity, 475.

[xii] (https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-
pregacao-como-exegese-publica-a-centralidade-da-
escritura/#_ednref12) FERGUSON, Everett, “John Crysostom,”
Eerdmans’ Handbook to the History of Christianity, p.191.

[xiii] (https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/07/a-
pregacao-como-exegese-publica-a-centralidade-da-
escritura/#_ednref13) CROSS, F. L., LIVINGSTON, Elizabeth A.,
“John Crysostom,” The Oxford Dictionary of the Christian

https://coalizaopeloevangelho.org/blogs/marcelo-berti/aos-desigrejados-com-amor/ 32/33
13/12/2018 Aos Desigrejados com Amor - TGC Coalizaopeloevangelho

Church, p. 345. Sua série de mensagens intituladas “Sobre os


Estatutos” pregadas entre março e abril de 387 EC serve como
um excelente exemplo de sua participação e influencia pública.

https://coalizaopeloevangelho.org/blogs/marcelo-berti/aos-desigrejados-com-amor/ 33/33