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Escrito ao longo de mais de trinta anos por Ludovico

Ariosto e publicado, na sua versão final, em 1532


(com 46 cantos e cerca de 40.000 versos rimados), o
«Orlando Furioso» é uma das mais importantes e
influentes obras da literatura europeia e mundial,
apenas comparável em termos de relevância �ultural
a outras obras-primas da literatura como «A Divina
Comédia» de Dante Alighieri, «Paraíso Per�ido» de
John Milton, ou ao nosso «Lusíadas», do qual, aliás,
foi influência maior.

Misto de romance de cavalaria, que engloba o imaginário


popular e mitológico numa fina ironia renascentista, o
«Orlando Furioso» é um longo poema épico que, tal
como a «Odisseia» ou a <<Ilíada>> pode facilmente ser
lido como um grande romance de aventuras. Foi, aliás,
leitura de entretenimento ao longo dos séculos em
todas as cortes europeias, influenciando gerações de
escritores como o inglês Spencer ou o espanhol
Cervantes, estando ainda presente em obras tão distantes
.no tempo e diferentes no estilo como as de Camões
ou de Cyrano de Bergerac.

@
cava lo de ferro
LUDOVICO ARIOSTO nasceu em Reggio Emília
em 1474 e morreu em Ferrara em 1533. Ao serviço
da rica corte dos d'Este de Ferrara tornou-se, ainda
em vida, num dos maiores autores do renascimento
italiano. Escreveu para o teatro diversas obras trágicas
(Tragedia di Tisbe, La Cassaria, I Supposití), comédias
(Lena, fl Negromante); e também poesia lírica e satírica;
mas foi devido ao «Orlando Furioso», a sua obsessão
de uma vida, que ficou a dever a glória e ganhou
lugar de destaque no panteão da _literatura universal.

GUSTAVE DORÉ, ilustrador e pintor francês, nasceu


em 1822 e morreu em 1883.
É, provavelmente, o maior e melhor ilustrador do
século XIX, tendo realizado ilustrações para quase todos
os grandes clássicos de literatura, bem como para uma
miríade de obras "novas" à altura. Para o «Orlando
Furioso>> realizou mais de 650 ilustrações das quais se
incluem mais de 450 no presente volume.


cavalo de ferro
t.

O MAIOR ÉPICO DE CAVALARIA EUROPEU. UM DOS MONU­


MENTOS DA LITERATURA UNIVERSAL FINALMENTE EM POR­
TUGUÊS, NUMA EDIÇÃO INTEGRAL E FIEL AO ORIGINAL.

.J.,•-1· Carlos Magno e os seus paladinos cristãos preparam os seus exércitos para �ravar
-{;., ,1,

.os avanços do rei sarraceno Agramante. Contudo acabam cercados em Paris


pelos aliados dos infiéis: Marsillio, rei de Espanha e o feroz guerreiro Rodomonte.
Entre os soldados e cavaleiros de Carlos Magno, apenas uma pergunta - Onde
está Orlando, o mais famoso herói da cristandade?
O valoroso cávaleiro, após tantos e magníficos feitos, enlouqueceu ao descobrir

que a bela e casta Angelica recusou o seu amor fugindo para os braços do jovem
cavaleiro sarraceno Medoro. Orlando, louco furioso, erra pela terra destruindo
�t{, com força bruta tudo à sua passagem, tornando-se um perigo para homens,
animais e natureza. A última esperança de Carlos Magno e da cristiandade está
em encontrar um remédio para a loucura do guerreiro.
. ;\ Da Europa à África, por territórios �xóticos ou totalmente fantásticos, cruzando
animais impossíveis e aventuras extraordinárias, batalhas, duelos e viagens à lua,
feiticeiros, criaturas míticas e monstros diabólicos, os feitos heróicos, a honra e
sobretudo o amor, marcam uma das mais apaixonantes e influentes obras da
literatura universal que serviu de inspiração a obras como «Dom Quixote» de
Cervantes ou «Os Lusíadas» de Camões.

1 1 111
ISBN 978-989-623-067-8

9 789896 230678 cavalo de ferro


ORLANDO
FURIOSO
LUDOVICO ARIOSTO

ORLANDO
FURIOSO
ILUSTRADO POR

GusTAVE DoRÉ

INTRODUÇÃO, NOTAS, RESUMO


E TRADUÇÃO EM VERSO
DO ORIGINAL ITALIANO POR

MARGARIDA PERIQUITO

cavalo de ferro
Orlando Furioso

Autor: Ludovico Ariosto

Tradução: Margarida Periquito

Revisão: Raul Lourenço

Capa: Miss Sushie


Paginação: Gabinete Gráfico Cavalo de Ferro

l." edição, Novembro de 2007


Impressão e Acabamento: Offsetmais S.A.
Depósito Legal: 267910/07
ISBN: 978-989-623-067-8

A presente edição contou com o apoio do

Ministcro degli AfEui Estcri Italiano


Direzione Generale per la Promozione e la Cooperazione Culrurale

Todos os direitos para publicação


cm língua portuguesa reservados por:

@ Cavalo de Ferro Editores, Lda.


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sob qualquer forma ou por qualquer pro�
sem a autorização prévia e por escrito do editor,
com exccpção de excertos breves
usados para apresentação e critica da obra.
LUDOVICO ARIOSTO:
A VIDA, O TEMPO, A OBRA.

O
autor do Orlando Furioso nasceu a 8 de Setembro de 1474
em Reggio nell'Emilia, sendo o primeiro dos dez filhos de
Nicolo Ariosto, pertencente a uma família bolonhesa nobre,
e de Daria Malaguzzi Valeri, senhora da alta nobreza de Reggio. Na
altura, o conde Nicolo era comandante da guarnição da fortaleza de
Reggio, ao serviço de Ercole I d'Este, duque de Mântua e de Ferrara.
Nessa cidade, e quase inteiramente dentro das muralhas da fortaleza,
decorre a infância de Ludovico até 1484, ano em que seu pai é chama­
do a ocupar outros cargos em Ferrara, para onde a família se muda,
ocupando uma casa em que o poeta viveria até 1529.
Em Ferrara, Ludovico inicia os seus estudos de Latim e Grego, com
preceptores, o primeiro dos quais foi Domenico Catabene. Entre 1489
e 1494 frequenta, por vontade paterna, o curso de Direito no Studio
de Ferrara, mas consegue por fim sensibilizar o pai para a sua verda­
deira vocação. Abandonando o Direito, dedica-se aos estudos literários
com o humanista Gregorio da Spoleto, homem de grande saber em
quem Ariosto encontra o mestre que ambicionava, e não só: «Deu-me
mais que o meu próprio pai, pois ensinou-me a viver com nobreza,
enquanto meu pai apenas me ensinou a viver entre os mortais» - escre­
veu numa sua ode latina, em 1503.
Em 1498 entra ao serviço de Ercole I, e frequenta as aulas do filó­
sofo Sebastiano dell'Aquila. Além das poesias líricas, epigramas e ele­
gias em latim, e das Rime em vulgar, de inspiração petrarquista, que
compôs na idade juvenil, começa também a escrever comédias para a
companhia de teatro de Ercole 1.
8 ORLANDO FURIOSO

O teatro tinha lugar de relevo na corte de Ferrara. Alguns dos pri­


meiros contributos de Ariosto para as artes cénicas são Tragedia di
Tisbe, La Cassaria e I Suppositi. Muitos anos mais tarde voltaria à
comédia, com as peças Lena (1528) e II Negromante (1529).
Em Fevereiro de 1500, a vida de Ludovico, até aí despreocupada, é
abalada por um acontecimento que a condiciona de modo drástico: a
morte de seu pai. & responsabilidades que caem sobre os ombros do
primogénito são tremendas. Tem de prover ao sustento da numerosa
família administrando uma situação econémica periclitante, e procurar
orientação e encaminhamento profissional para os irmãos e dotes para
casar as irmãs; assume a tutela dos irmãos, ainda menores, e atravessa
uma série interminável de acções judiciais por questões de herança.
Entre 1501 e 1503 exerce o cargo de capitão da guarnição da forta­
leza de Canossa, cargo que requereu por razões económicas. Da fortale­
za, situada em lugar ermo nas montanhas a sudeste de Parma, desloca­
va-se a Reggio para receber o estipêndio e visitar os parentes maternos.
Em Outubro de 1503 regressa de Canossa, e entra ao serviço da
faustosa corte do cardeal Ippolito d'Este, filho de Ercole I, ao qual fica­
ria ligado até 1517. Para poder auferir de benefícios concedidos pelo
Cardeal (rendas de paróquias), Ariosto toma ordens religiosas menores,
sem que isso implique o exercício de funções pastorais, pois não pre­
tende seguir a carreira eclesiástica.
Nesse mesmo ano nasce um seu filho natural, Giovambattista, de
cuja mãe se conhece apenas o primeiro nome, Maria.
Em 1509 nascer-lhe-ia outro filho ilegítimo, Virginio, da sua rela­
ção com Orsolina Sassomarino. Este filho foi muito caro a Ariosto, que
o perfilhou e cujos estudos orientou, e que teve sempre junto de si.
Os seus deveres de cortesão estavam longe de se limitar aos de natu­
reza cultural, através das comédias que escrevia para o teatro da corte e
que lhe granjeavam algum prestígio, pois as funções de um «familiar»
incluíam tarefas muito triviais e, não raro, desagradáveis. Era constan­
temente encarregado de missões diplomáticas de grande responsabili­
dade, algumas delas bastante delicadas, como as que o obrigavam a des­
locar-se em longas viagens a Roma, para resolver ou mediar questões
belicosas entre Ippolito d'Este e o papa Júlio II, e atritos nascidos do
difícil relacionamento do ducado de Ferrara com o Papa. Consta que
este uma vez ameaçou mandar atirá-lo ao Tibre se não lhe desapareces­
se imediatamente da vista.
LUDOVICO AruosTO: A VIDA, o TEMPO, A OBRA. 9

Além dos perigos a que estava sujeito nessas longas e urgentes via­
gens a cavalo, a Roma e a várias outras cidades, era chamado a desem­
penhar tarefas de camareiro, mordomo ou moço de recados, de que
muito se lamentava, concretamente nas suas sátiras.
Foram anos difíceis, ressentindo-se sempre de ser afastado do lar e
da tranquilidade que lhe permitiria dedicar-se à escrita, mas encontrou,
mesmo assim, tempo e concentração para escrever, além do Orlando
Furioso, as comédias, a poesia lírica e as sátiras. Considerava que a sua
obra era o Furioso, tendo descurado a publicação do restante, que dei­
xou em manuscritos dispersos.
Das suas obras menores, as Satire são, sem dúvida, as mais interessan­
tes. Em número de sete, são compostas em tercetos e têm forma epistolar,
dirigindo-se o poeta a familiares e amigos com quem discorre sobre factos
concretos da sua vida ou sobre os seus estados de alma, evoca recordações
pessoais ou caricaturiza alguém, e nas quais por vezes se lamenta, com desi­
lusão ou com humor, do pouco reconhecimento que recebe ou da falta de
liberdade para se dedicar à literatura. Foram compostas entre 1517 e 1525.
No Outono de 1515, Ludovico decidiu dar o seu poema à estampa:
entregou o manuscrito a Giovanni Mazzoco, de Bondeno (cidade pró­
xima de Ferrara), de cuja tipografia saiu em Abril de 1516, a expensas
do autor, com excepção do papel, provido pelo Cardeal. Compunha-se
de quarenta cantos e era dedicado a Ippolito d'Este, o qual não daria o
devido apreço à obra do seu cortesão, que, em vez de louvores, recebeu
dele, dias depois, a pergunta: «Messer Ludovico, dove mai avete trova­
to tante corbellerie?>> («Senhor Ludovico, onde é que foi buscar tantos
disparates?»). A obra, porém, conheceu um sucesso imediato em todas
as cortes italianas, tendo em poucos anos saído da esfera aristocrática e
conquistado público de todos os estratos sociais.
Em 1517, as relações entre Ippolito d'Este e Ariosto conheceram
um corte definitivo. Em Agosto, o Cardeal decide partir para a
Hungria, onde tinha um bispado, ordenando a Ariosto que o acompa­
nhasse. Ludovico recusa-se a fazê-lo, alegando motivos de saúde -
bronquite e problemas de estômago - susceptíveis de se agravarem com
a longa viagem e a transição climática. Foi a ruptura total. Ippolito não
aceitou a sua justificação e afastou-o do seu serviço, retirando-lhe os
honorários e os benefícios eclesiásticos que lhe atribuíra.
Por intercedência de Bonaventura Pistofilo, notário e secretário de
Alfonso d'Este, irmão de Ippolito, em 1518 Ariosto entra ao serviço
10 ORLANDO FURIOSO

deste. Conforta-o o facto de o duque o desviar menos de Ferrara, o que


lhe permite dedicar-se mais à sua obra literária e não se afastar do con­
vívio de Alessandra Benucci, como confessa na Satira III, composta em
Maio desse ano:

II servizio dei Duca, da ogni parte


che ci sia buona, piu mi piace in questa:
che dai nido natio raro si parte.
Per questo i studi miei poco molesta,
né mi toglie onde mai tutto partire
non posso, perché il cor sempre ci resta. 1
(Sat., III, 67-72)

Ariosto foi sempre muito discreto em relação à sua vida amorosa,


mas alguns factos essenciais são conhecidos. A sua relação com Orsolina
Sassomarino, iniciada em 1508, e da qual nascera, no ano seguinte,
Virginio, em 1513 já se esgotara; nessa altura, Ludovico rompeu for­
malmente a ligação, porque se enamorara daquela a quem se uniria
sentimentalmente para o resto da vida. Quis, no entanto, dar uma
posição digna à mãe do seu filho, à qual nunca dedicou um único
verso: arranjou-lhe marido e comprou-lhe uma casa, que até mobilou,
arrumando assim, de forma prática e generosa, a situação.
Alessandra Benucci, florentina, era mulher de Tito Strozzi, impor­
tante mercador da família dos banqueiros Strozzi, de Florença, mas que
habitavam em Ferrara, cuja corte frequentavam, participando dos janta­
res, bailes e outros divertimentos, em que Alessandra era admirada como
a mais bela entre as belas. Ariosto conheceu-a, pois, nesses ambientes, e
a admiração que ela lhe suscitava transformou-se em enamoramento. Em
Junho de 1513, no dia de São João, o poeta estava em Florença para assis­
tir aos festejos daquela cidade, sendo hóspede de Niccolo Vespucci,
amigo do cardeal Ippolito. Alessandra chegou com o marido para as fes­
tas, sendo hóspedes da mesma casa. Nesse dia, Ludovico declarou o seu
amor à mulher que exercia sobre ele o fascínio de uma revelação, como
diz na sua canção Non so s'io ben potei chiudere in rima 2.

1
(O serviço do Duque, de entre todas as partes I boas que tem, na que mais me agrada é nesta: I
que do ninho pátrio raramente se aparta. I Por isso os estudos meus pouco molesta, I nem me tira de
onde separar-me de todo I não posso, pois sempre lá me fica o coração.)
2 («Não sei se fui capaz de guardar em rima»).
LUDOVICO AruosTo: A VIDA, o TEMPO, A OBRA. 11

Teve início entre eles uma relação secreta, mas que havia de perdu­
rar para sempre. Tito Strozzi morreu repentinamente em 1515, mas,
apesar de Alessandra ficar assim livre para casar com Ariosto, ambos
decidiram não o fazer, preferindo conservar as vantagens que o celiba­
to lhes garantia. Alessandra, casando de novo, perderia o usufruto dos
bens do marido e a tutela dos filhos, que eram seis. E Ludovico não
podia renunciar de ânimo leve aos benefícios que adquirira em 1503,
ao tomar as ordens menores. Vivia cada um na sua casa, em Ferrara,
sem nunca terem coabitado. Numa sua elegia, Ariosto dá-nos conta das
cautelas a que era forçado para se introduzir furtivamente em casa de
Alessandra:

Or mi levo, or m'accosto, or faggo or torno,

Tutto nel manto ascoso, a capo basso,


vo per entrar; poi veggio appresso o sento
chi puo vedermi, e m 'allontano e passo.

Che debb 'io for? che poss 'io for tra cento
occhi, e fra tanti usei e finestre aperte? 3

Só muito mais tarde, numa data imprecisa entre 1528 e 1530, cele­
braram, secretamente, matrimónio. Nem os cônjuges nem os poucos
amigos que terão estado presentes à cerimónia secreta revelaram tal
facto, e Ludovico e Alessandra continuaram a viver separadamente.
O Orlando Furioso, entretanto, tinha sido continuamente melho­
rado pelo poeta, que, em Fevereiro de 1521, fez publicar uma segunda
edição revista, esta impressa por Giovan Battista da la Pigna. Não
sofrendo alterações em conteúdo (tinha os mesmos quarenta cantos),
apresentava no entanto enormes melhorias no que respeitava à língua,
expurgada de expressões dialectais regionais, de arcaísmos e latinismos,
muito mais elegante e límpida do que a da primeira versão da obra,
acompanhando os cânones renascentistas. Deixava já prenunciar a per­
feição que viria a observar-se na última edição que o autor faria publi-

3 (Ora me afasto, ora me aproximo, ora fujo ora regresso, / Todo escondido no manto, de cabeça
baixa, / vou para entrar; nisto vejo perto ou oiço / quem me pode ver, e afasto-me e passo. / Que hei­
de fazer? Que posso eu fazer entre cem / olhos, e entre tantas portas e janelas abertas?)
12 ORLANDO FURIOSO

car. Desta segunda edição fizeram-se inúmeras reimpressões, mas sem


quaisquer alterações ao texto.
Em finais de 1521 Ferrara era alvo de novas ameaças de guerra por
parte do Papa, e Alfonso d'Este tomou providências, recrutando exér­
citos e reforçando fortificações, despesas que o obrigaram a cortar nos
gastos menos importantes, considerando supérfluos os estipêndios de
alguns cortesãos, entre os quais Ariosto. Ludovico começou a recear
pelo seu futuro e, em Fevereiro de 1522, disse ao duque que, caso não
provesse às suas necessidades, não podia levar a mal que ele procurasse
o sustento noutro lado. É então que Alfonso lhe propõe o cargo de
governador da província da Garfagnana, que ele não tem coragem de
recusar, compelido pela necessidade. Tratava-se de um território nos
confins do ducado, disputado por Florença e Lucca, perdido no meio
das gargantas dos Apeninos, onde os conflitos e o banditismo grassa­
vam entre os habitantes. Requeria-se um governador com mão de ferro
e um aumento das forças militares. Ariosto sabia que o cargo era difí­
cil e que não se coadunava com o seu temperamento, e pesava-lhe
muito afastar-se de casa e de Alessandra, mas os tempos eram maus e
os honorários generosos. Assumiu-o, pois, tendo demonstrado digni­
dade e firmeza no seu desempenho. Depois de uma viagem de vários
dias, chega a Castelnuovo di Garfagnana, onde permaneceu até Junho
de 1525, fazendo visitas a Ferrara mais ou menos de seis em seis meses,
e voltando a partir sempre amargurado pelo afastamento e por não
poder levar consigo Alessandra. Nos primeiros meses teve a companhia
do filho Virginio. Ali escreveu as Satire iv, vii e vi, que reflectem os seus
sentimentos e preocupações desses tempos, e continuou, sempre, a
«purificar» o Orlando Furioso, o que, aliás, faria até ao fim da vida.
As dificuldades de governação que Ludovico enfrentou na
Garfagnana foram muitas, e não encontravam respostas eficazes nas
directivas do duque, que não atendia as suas sugestões e pedidos nem
colmatava a escassez de forças da ordem com que aquele lutava. Em
1524, Alfonso propõe-lhe o cargo de seu embaixador oficial em Roma,
mas Ariosto recusa. O que mais almejava era a tranquilidade da sua
casa, para se dedicar à escrita e estar perto da família e de Alessandra.
Em 1525, renuncia de livre vontade ao cargo de governador e regressa
a Ferrara. Com as economias que ali fez compra uma casa no bairro de
Mirasole, afastada do centro da cidade e com um grande quintal. Dá
início a obras de restauro, que ele próprio dirige, dispensando enge-
LUDOVICO AruosTo: A VIDA, o TEMPO, A OBRA. 13

nheiros e arquitectos. Sobre a fachada da casa lia-se um dístico em


latim, que ali fora inscrito pelo anterior proprietário, e que Ariosto
conservou: «Parva, sed apta mihi, sed nulli obnoxia, sed non sordida, /
parta meo sed tamen aere domuS>> 4.
Goza finalmente do privilégio de se afastar definitivamente das
empresas militares e das missões diplomáticas dos senhores da corte de
Ferrara, limitando-se a ser um observador distanciado dos factos, um
outsider distraidamente atento que observava os homens e as suas proe­
zas e reveses, sem estar neles imiscuído. Nomeado superintendente dos
espectáculos da corte por Alfonso I, volta a escrever comédias, ensaia as
peças e faz cenografias. Deixou incompleta a comédia I Studenti, que
foi terminada por seu irmão Gabriele e seu filho Virginio.
O seu cuidado e ocupação maior continuava a ser a revisão do
Furioso, de que preparava nova edição. Entre 1521 e 1528 escreveu os
Cinque Canti, cinco novos cantos que planeava acrescentar ao poema,
dando-lhe uma conclusão diferente, mas decerto inferiu que esses
novos enredos não se harmonizavam com os restantes, e pô-los de
parte. Virginio encontrou-os após a morte do pai e veio a publicá-los
em 1545, em apêndice a urna nova edição da obra.
No início de 1529, Ludovico saiu da companhia dos irmãos e
mudou-se para a sua parva domus em Mirasole (hoje, na via Ariosto),
levando consigo apenas Virginio. Ali viveu os seus últimos anos, dispon­
do livremente do tempo, que dividia entre a actividade teatral na corte,
os estudos, a jardinagem e, evidentemente, a pertinaz revisão da sua obra.
Alfonso d'Este chamava-o à corte de vez em quando para conver­
sar com ele, ou para o acompanhar em alguma deslocação, pois era-lhe
grato mostrar-se na companhia do grande poeta, que tanto brilho dava
à sua corte. A obra de Ariosto era conhecida e apreciada através da
Europa, a sua fama corria mundo.
Em Outubro de 153 1, Alfonso d'Este envia Ariosto a Correggio a
fim de sondar as intenções de Alfonso d'Avalos, marquês do Vasto, que
tem ali as suas tropas estacionadas. Ariosto, além de trazer ao duque
notícias tranquilizadoras, vê ser-lhe atribuída pelo marquês urna pen­
são anual de cem ducados de ouro, transmissível aos herdeiros, que o
ajudou a viver mais desafogadamente os seus derradeiros anos.

4 («É uma casa pequena, mas adequada a mim, livre de vínculos e decente, I e adquirida com o meu
dinheiro»).
14 ORLANDO FURIOSO

Em Outubro de 1532 sai da tipografia de Francesco Rosso da


Valenza, em Ferrara, a terceira edição, revista, do Orlando Furioso,
ampliada para quarenta e seis cantos (compreendendo 4842 oitavas,
quase 40.000 versos). Quando pôs de parte os Cinque Canti, Ariosto
decidiu, em vez de acrescê-los ao poema, ampliar este no seu interior,
inserindo novos episódios que se integravam nos já existentes. Assim,
esta terceira edição tinha como novidade, em relação aos quarenta can­
tos das duas anteriores, os episódios de Olímpia, do Castelo de Tristão,
de Marganor, de Leone, e, ainda, a menção às personalidades ilustres
suas contemporâneas, que comparecem no último canto a aguardar, no
cais, a chegada do «navio», metáfora do poema. Ariosto tencionava
ampliar ainda mais a sua obra-prima, conforme declarou a amigos, na
edição seguinte, que já projectava; a vida, porém, não lhe deu tempo
de o fazer.
Em Dezembro de 1532, pouco depois de regressar de uma viagem
a Mântua com o duque para cumprimentar Carlos V, que ia encontrar­
-se com o Papa em Roma, Ludovico adoece com enterite.
Depois de quase sete meses de doença, sobrevêm-lhe complicações
pulmonares e morre a 6 de Julho de 1533, na sua casa, com a idade de
58 anos. No dia seguinte, ao entardecer, o féretro é transportado para
o mosteiro de San Benedetto, onde é sepultado com a maior simplici­
dade. A notícia da sua morte só corre pela cidade nos dias que se
seguem. Actualmente, o mausoléu com as suas ossadas encontra-se na
Biblioteca Comunale Ariostea, em Ferrara, para onde foram transferi­
das por iniciativa do general francês Miollis, em 180 1, quando da ocu­
pação napoleónica da Itália.
0 «ORLANDO FURIOSO»

Génese

E
m 1486 foram publicados, em Veneza, os dois primeiros Livros
do poema Orlando Innamorato, do conde Matteo Maria
Boiardo. O então adolescente Ludovico Ariosto, impressionado
com a obra, começou a dedicar-se à leitura e estudo de histórias de cava­
laria, matéria que estava na génese da obra de Boiardo, e quando este mor­
reu, em 1494, deixando a obra interrompida no Canto IX do Livro III,
Ludovico alimentou a intenção de lhe dar continuidade. Não se sabe ao
certo quando começou a fazê-lo, mas há indicações de que em 1504 o tra­
balho já estava iniciado.
Ariosto retomou as personagens e as respectivas aventuras no ponto
exacto em que Boiardo as deixara suspensas, e incutiu-lhes, de novo,
movimento. Contudo, esse novo movimento revelou-se muito mais fluido
e elegante, percebendo-se, desde a primeira edição, que o Orlando Furioso,
laborando embora na mesma matéria de uma interminável cadeia de
romances cavaleirescos, e tendo como antecessores mais directos no espa­
ço italiano Morgante Maggiore (1483), do florentino Luigi Pulei, que
parodia as canções de gesta, e o já referido poema de Boiardo, era uma obra
original. Ludovico, com a sua extraordinária fantasia, dera uma outra fisio­
nomia às personagens, mais de acordo com a sensibilidade e o gosto renas­
centistas. O mundo cavaleiresco perdia os seus contornos rígidos e passava
a ser um cenário de fundo para figuras que exprimiam livremente toda a
diversidade e contrastes de sentimentos e comportamentos próprios da
natureza humana, sem excluir a nota dissonante da loucura.
Mas a novidade da obra não ficava por aí. Ariosto, em relação aos dois
antecessores citados, burilara a língua com um cuidado e uma perícia que
a colocavam a grande distância da linguagem áspera, rude e pouco maleá­
vel de Pulei e de Boiardo. Numa época em que se buscava, entre tão varia­
dos dialectos, um padrão para a língua culta italiana, Ariosto quis impri­
mir à sua obra a evolução linguística teorizada por Pietro Bembo, que
16 ORLANDO FURIOSO

tinha como modelo o toscano do século XIV, de Petrarca e Boccaccio,


acompanhando assim a fixação do florentino como língua literária, e
sendo o primeiro a usá-la numa obra de grande fôlego. Seguindo essa
linha e a teoria de Bembo, também difusor do petrarquismo como mode­
lo lírico, o estilo de Petrarca está visivelmente presente no Orlando
Furioso, na reprodução de palavras e versos, na sintaxe, na descrição de
paisagens e figuras femininas, etc.
A ottava rima, modelo de estrofe usado pela primeira ve:z por
Boccaccio na Teseida (1340), adquire em Ariosto uma fluide:z e uma
musicalidade novas, e um ritmo propulsor que impele· a narrativa.
Narrativa que é feita com uma grande mestria, num movimento inces­
sante em que estão sempre presentes a malícia, o bom humor e a ironia
de um narrador que não quer ser tomado muito a sério e que é o primei­
ro a divertir-se com a história, fazendo frequentes comentários acerca
daquilo que está a escrever, ou considerações que atestam o seu conheci­
mento dos factos e dos sentimentos humanos. Salta de um episódio a
outro em momentos de maior suspense, ironiza acerca da credibilidade de
quanto narra, fala com o leitor ou com o destinatário da obra - «o senhor»
- no início e no final de cada canto, quando muda de episódio e sempre
que lhe apetece, como um realizador que está sempre presente e que con­
trola toda a acção. Deste modo, cria pausas de desaceleração e de reflexão,
e um distanciamento entre o narrador e o narrado que permite a famosa
«ironia ariostesca», a confrontação do poema com o próprio poema.
Um exemplo dessa sua demonstração de que tem tudo sob controlo
e que maneja com perícia todos os fios do tecido que está a urdir, que­
rendo mesmo evidenciar ao leitor os nós que vai deixando no lado do
avesso, encontra-se nas oitavas 80 e 81 do Canto XIII, quando abandona
Bradamante, presa a um feitiço do mago Atlante, para ir observar o que
se passa no campo sarraceno:

Bradamante deixo, e mal não vos caia


saber que ela ali fica em tal encanto;
pois, quando for tempo que dali saia,
faço-a sair, e Ruggier outro tanto.
Se, a novo pitéu, novo gosto raia,
acho que a minha história, também, quanto
mais variando for aqui e além,
mais gosto em quem a ouvird mantém.
Muitos fios serd preciso dar-me
para tecer esta tela que eu rasouro.
Mas espero que vos agrade escutar-me,
ouvindo o modo como o povo mouro
a mando do rei Agramante se arme;
Ü ÜRLANDO FURIOSO 17

Se alguns passos da obra podem considerar-se menos entusiasman­


tes, são aqueles em que o poeta cumpre o dever de cortesão e faz o
encómio dos seus senhores, tecendo louvores que conferem a Ippolito,
Alfonso e restante família dimensões quase divinas.
O texto é despretensioso, não aspira a um estilo sublimado, camo­
niano. A matéria heróica, como a histórica, é reduzida a um registo
coloquial. Ao contrário de Os Lusíadas, não é uma narrativa sequen­
cial, linear, mas sim um contínuo interromper e reatar de aconteci­
mentos paralelos e cruzados, em que várias histórias vão sendo conta­
das em simultâneo e em cadeia, com recurso frequente ao flashback, e
sem que o próprio tempo, muitas vezes, seja linear. A variação dos tem­
pos verbais dentro da oitava também acentua essa oscilação ou indefi­
nição temporal.
Perante a perfeição expressiva do poema de Ariosto, a obra de
Boiardo foi, na altura, relegada à obscuridade, considerada imperfeita,
escrita num italiano provinciano e grosseiro; contudo, o Innamorato é
uma obra digna de apreço, de um grande espírito inventivo e com sen­
tido de humor, que foi a fonte da quase totalidade das personagens e
das aventuras que deram vida ao Furioso. Ariosto tinha em devido
apreço a obra de Boiardo, por isso dizia modestamente, enquanto o seu
poema não conheceu publicação e não recebeu um título, que ele era
apenas una gionta (um acréscimo) ao Orlando Innamorato.

Enredo e personagens
O argumento do poema tem por fundo as guerras entre Carlos Magno
e os Mouros que invadiram a França, comandados pelo rei Agramante.
Nesse cenário movimentam-se personagens ligadas ao ciclo carolíngio
e ao ciclo bretão, pertencentes à tradição literária dos romances de
cavalaria e das canções de gesta, matéria que fugia já ao gosto classicis­
ta do Renascimento. Mas Ariosto soube moldá-la de modo a torná-la
mais refinada e variada, recorrendo a todo o passo ao simile, com fre­
quência vergiliano, introduzindo-lhe muitas referências clássicas e
mitológicas, novas personagens e novas histórias. Entre as personagens
mais relevantes avulta Orlando, o Roland da Chanson de Roland,
herói de tantas canções de gesta, e a sua paixão por Angelica, que o leva
à loucura, facto central no poema e na sua própria estrutura, pois acon­
tece no Canto XXIII, e que dá título à obra. Ruggiero e Bradamante
são igualmente personagens de primeiro plano na economia do poema,
na medida em que têm como destino dar origem à estirpe d'Este, sendo
eles próprios descendentes do troiano Eneias, através de seu filho
Astíanax.
18 ORLANDO FURIOSO

Naquele tempo, como já nos tempos homéricos, era muito impor­


tante ter uma genealogia ilustre, que fizesse a família descender de um
grande herói, mitológico ou histórico. As cortes italianas tinham todas
uma grande tradição cultural, mas, mais que todas, as de Florença e de
Ferrara. Esta pôde orgulhar-se de por ela passarem, sucessivamente, os
três maiores poetas épicos da Itália: Matteo Maria Boiardo ( Orlando
Innamorato), Ludovico Ariosto ( Orlando Furioso) e Torquato Tasso
( Gerusalemme Liberata). Ercole I d'Este encarregara Boiardo de criar,
no Orlando Innamorato, um antepassado ilustre para a sua família,
tendo o poeta introduzido a figura de Ruggiero no poema com essa
finalidade; no Livro III, que deixou apenas começado, chegou a pro­
porcionar o seu encontro breve com Bradamante, mas não teve tempo
para desenvolver a história dos seus amores, o que acontece no Furioso.
Também a conturbada história de Itália, em especial a do tempo de
Ariosto - empolgando de modo particular as empresas e os reveses dos
governantes de Ferrara - é tema constantemente abordado na obra,
determinando dois planos temporais na narração: o tempo da fábula
cavaleiresca, e o tempo da história político-militar italiana. Não faltam
também episódios picantes e de grande erotismo, que contribuíram
para que o Furioso sofresse acusações de licencioso e imoral, até finais
do século XVIII.
A Ariosto bastam as primeiras quatro oitavas do Canto I para fazer
o exórdio do poema. Define na primeira qual a matéria que vai cantar,
informa na segunda que vai dizer coisas que nunca foram ditas em
prosa ou rima a respeito de Orlando (o qual nunca, em anteriores
obras, atingira a loucura), e invoca a amada, preterindo as Musas ou
qualquer divindade. Na terceira, pede a Ippolito d'Este que se digne
aceitar este tributo do seu humilde servo, criando um desnível entre
quem dá «o que pode» e quem recebe; e na quarta oitava refere o herói
Ruggiero, com o qual sugere que o dedicatário tem uma relação tópi­
ca, usando-a como chamariz para que ele condescenda em que seus
altos pensamentos «cedam» um pouco de atenção aos seus versos, pois
eles cantarão alguém que lhe diz respeito.
Nas estrofes 5 e 6 faz a ponte entre o estado das coisas conforme
tinham ficado no Innamorato, no que respeita à guerra entre Carlos
Magno e os Mouros e à personagem Orlando, e o actual teatro da acção
no Furioso, antecipando, com a adversativa com que abre o último
verso da oitava 6, que estão reservadas contrariedades ao seu herói, pelo
motivo expresso no primeiro verso da oitava 7. Logo a seguir faz uma
das suas intromissões pessoais, que desmontam a acção perante os nos­
sos olhos e que são uma autocrítica do próprio poema: «eis que o juízo
humano amiúde erra!». Nenhum errará tanto, no Furioso, quanto o de
Orlando.
O ÜRLANoo Furuoso 19

Ariosto encadeia os factos de tal maneira que não nos deixa respirar;
logo a seguir, na oitava 10, apresenta-nos Angelica em fuga por bosques
e selvas, o que será nela uma constante, para escapar aos seus muitos e
diversos amadores. E, com Angelica, começamos de imediato a perce­
ber que o tecido do poema é uma selva cerrada e cheia de ciladas, per­
corrida em todos os sentidos por criaturas errantes que se cruzam ou se
desencontram, que se buscam ou se evitam, numa permanente deam­
bulação em demanda de um ser amado ou de um inimigo, de um cava­
lo ou de uma espada, ou simplesmente de uma aventura. O leitor é
constantemente confrontado com o imprevisto, com as súbitas mudan­
ças de cenário, com o jogo de aparições e desaparecimentos e os mais
variados golpes de magia; e é levado pela cadência rítmica marcada pelo
galope dos cavalos, pelo tinir das armas, pela voz do narrador, pelo enca­
deamento das oitavas, frequentemente ligadas por enjambement.
A guerra entre Carlos Magno e os Mouros, sempre presente, a certa
altura transfere-se de França para África, tal como Orlando, enlouque­
cido, atravessa o mar a nado para África. O cerne do poema é, de facto,
o enlouquecimento por amor do seu herói titular, a apresentação do
amor como fonte de loucura para o espírito impreparado. Nas três pri­
meiras oitavas do Canto XXIV, o narrador diz-nos que o amor nada
mais é que insânia, que tem disso experiência própria, e que só o facto
de passar de momento por um intervalo de lucidez lhe permite fazer
esse aviso à navegação.
Orlando segue obsessivamente Angelica, mas nunca mais a encon­
tra, a partir do momento em que Carlos Magno a subtrai à sua compa­
nhia no início do poema, como já se referiu. Ele que era o paladino mais
heróico, mais valoroso e forte do rei de França, seu tio, abandona as hos­
tes francesas a coberto da noite, disfarçado de mouro, no momento mais
crítico: quando Paris está assediada. Parte numa longa e vã demanda por
Angelica, que o leva a outros países e a participar de outros episódios da
trama, e a regressar, muitos meses depois, ao ponto de partida. E é então
que, nos arredores de Paris, Orlando encontra o seu locus infaustus,
num dos cenários mais amenos e oníricos de todo o poema.
Angelica, que ao longo de vários cantos é o motor que impulsiona
e arrasta atrás de si cavaleiros cristãos e mouros, reis e eremitas enfeiti­
çados pelos seus encantos, tudo o que deseja é regressar ao Oriente e
livrar-se definitivamente de todos esses pretendentes. Porém, ninguém
é dono do seu destino, e Angelica tem um encontro fatal: eis que depa­
ra com um jovem soldado mouro, Medoro, louro e belo como um que­
rubim, gravemente ferido. O seu coração empedernido finalmente
amolece e prende-se de paixão pela bela criatura, que trata com carinho
e poções feitas de ervas, cujos benefícios conhece bem. Amam-se,
unem-se, e juntos partem para o Catai. Ariosto escorraça do poema a
20 ORLANDO FURIOSO

sua heroína favorita no Canto XIX, e nas duas últimas oitavas do


Canto XXIX, num breve ataque de misoginia, lamenta mesmo que o
paladino não tenha exercido vingança sobre ela.
No Canto XXIII, Orlando encontra por acaso um lugar aprazível
junto a um rio cristalino, que corre entre prados floridos onde crescem
frondosas árvores, e onde sob um monte há uma gruta. Em redor
vagueiam pastores e rebanhos, e há referências a ninfas. É o espaço
bucólico perfeito, tal como o descrevem Vergílio e Sannazaro.
Pretendendo repousar ali um pouco, começa a aperceber-se de que por
todo o lado há inscrições, nomes e epigramas feitos por Angelica e
Medoro. Recorre a vários estratagemas para se iludir, trava dura luta
com o seu coração e a sua mente, mas recebe o golpe fatal quando se
aloja na casa de um pastor, a mesma em que se alojaram os amantes; ali
ouve contar toda a história, e vê a pulseira que um dia dera a Angelica,
oferecida por ela ao pastor em reconhecimento.
Volta ao lugar aprazível e destrói toda a natureza, despe a armadu­
ra, desfaz-se do cavalo, da espada, das roupas interiores, usa a sua força
bruta para destruir com bestialidade todo o ser que de si se aproxima,
animal ou gente, e daí em diante vagueia ao acaso, nu e irracional,
espalhando destruição. A mente de Orlando não pode entender que
Angelica, uma princesa, o pretira por um pobre soldado mouro, por­
que isso não se inscreve nas regras do mundo cavaleiresco a que ele per­
tence, segundo as quais ela devia querer o mais prestigiado dos paladi­
nos, ele próprio. Por isso, fica louco furioso. Angelica, por seu lado,
parece ter saído precocemente do poema por desestabilizar o mundo
cavaleiresco. Talvez nestes factos esteja implícita uma crítica aos valores
mais rigorosos da cavalaria, uma vontade de causar o desmoronamen­
to desse mundo.
Como atrás ficou referido, Ruggiero e Bradamante são os heróis
que estão presentes no Furioso para conferir prestígio à árvore genea­
lógica da família d'Este. Ariosto arrasta-os, afigura-se-nos, com um
certo desconforto, num desencontro permanente, até ao último canto,
onde por fim lhes celebra o matrimónio, dando cumprimento à von­
tade que já fora transmitida a Boiardo. São personagens menos espon­
tâneas, mas que completam, com as suas personalidades próprias, a
variedade de caracteres humanos que enriquece o poema. Ruggiero é,
originalmente, um cavaleiro sarraceno, e converte-se ao cristianismo
para desposar Bradamente. Se, por um lado, é um guerreiro exemplar
que dá inúmeras provas de bravura e brio, por outro apresenta-se como
um indivíduo leviano e fraco, que esquece facilmente Bradamante, e
que mostra pouco discernimento. Além do que lhe acontece no episó­
dio da ilha de Alcina, podemos observar isso na passagem em que ele
encontra Angelica amarrada ao escolho, prestes a ser devorada pelo
Ü ÜRLANDO FURIOSO 21

monstro marinho, e é ela que tem de insistir para que se apresse a tirá­
la dali, uma vez que ele persiste numa luta ineficaz com o monstro, sem
conseguir matá-lo, deixando-a exposta ao perigo. Assim que a salva,
tem o impulso incontrolável de a possuir. O contraste é enorme, tanto
na valentia como no comportamento, entre ele e Orlando, quando
este, em idêntica situação, mata o monstro e salva Olimpia.
Ruggiero não tem determinação nem força de carácter que lhe
permitam ser senhor de si mesmo, e deixa-se controlar por duas forças
antagónicas, ambas conotadas com a magia e a feitiçaria. Uma, o mago
Atlante, usa todo o tipo de engodos para o afastar do teatro das opera­
ções, com a intenção de o proteger de um destino nefasto que lhe foi
predito; outra, a maga Melissa, esforça-se continuamente para o cha­
mar ao dever e à razão, e para o aproximar de Bradamante, a fim de que
o desígnio de fundador da estirpe d'Este não fique por cumprir. Parece­
nos que por detrás desta imagem, pouco abonatória, daquele que será
a «cepa» da família d'Este, se adivinha o sorriso malicioso de Ariosto.
Quanto a Bradamante, menina-dos-olhos de Carlos Magno e por
ele muito mimada, é uma guerreira forte e feroz que só encontra para­
lelo em Marfisa, mas que, por contraste, se mostra demasiado dócil e
subjugada à autoridade paterna, e excessivamente tolerante e confor­
mada no que respeita aos erros e ausências de Ruggiero. Assistimos aos
seus longos monólogos, carpindo a infelicidade amorosa encerrada no
castelo da família, como quem cumpre um destino que lhe está fatal­
mente traçado.
Além destas personagens, que são centrais no poema, imensas são
as que nele se movimentam e que têm igualmente protagonismo. Mas
outras há com aparições pontuais, acessórias (Ippalca, por exemplo, ou
o mensageiro que traz a Ginevra notícias de Ariodante), e até efémeras,
tendo apenas a função de ligar fios da trama, sem nela terem relevo,
como é o caso da dama lacrimosa que Ruggiero e Bradamante encon­
tram e os conduz ao castelo de Pinabello; nem chegamos a saber o seu
nome. Há personagens divinas que interferem directamente na acção
bélica, como o arcanjo São Miguel, numa leve reminiscência da inter­
venção dos deuses olímpicos em Homero, e há um grupo de figuras do
povo - taberneiros e estalajadeiros, pastores, barqueiros - que sobres­
saem por serem detentoras de saberes tradicionais e grandes contadoras
de histórias. São as figu ras que dão presença à literatura oral, que se
transmite através da palavra falada. Regista-se também a presença, quer
acessória quer relevante, de eremitas, que tanto vestem a pele do santo
como a do pervertido. Entre os reis e guerreiros sarracenos - designa­
ção que abrange também os originários de terras orientais - vários
sobressaem pela sua bravura, mas a figura mais notável é a de
Rodomonte, rei de Argel, que se distingue de modo especial no assalto
22 ORLANDO FURIOSO

a Paris. Em certa medida, pode ser comparado a Orlando, visto que


possui, entre os seus, prestígio, força física e valentia idênticos, sofren­
do também ele um ataque de loucura por amor. Chega a envolver-se
em luta corpo-a-corpo com o paladino francês, quando as mentes de
ambos se encontram obscurecidas.
Há, contudo, uma personagem no Orlando Furioso que merece
atenção especial, por ter a capacidade de aprender com o próprio erro
e de exercer uma função didáctica, e por ser capaz de restabelecer a har­
monia e o equilíbrio do poema: Astolfo, o duque inglês.
Quando o encontramos pela primeira vez, no Canto VI, está trans­
formado em mirto, por se ter deixado enredar nas seduções da feiticei­
ra Alcina. Nesse estado vegetal, tenta transmitir a Ruggiero a sabedoria
que adquiriu com a sua experiência e evitar que de seja vítima da
mesma armadilha, mas debalde: Ruggiero vai cair nas mesmas malhas,
porque não é capaz de aprendizagem. Astolfo, porém, nunca mais
incorre no erro. Atravessa o resto do poema livre das ilusões, ideais e
aspirações que ocupam os outros, sem pretender actos de galhardia,
sem se apaixonar nem seguir as regras da cavalaria. Tem um livro que é
como um manual de instruções para resolução dos problemas que
encontra, tem armas e acessórios mágicos, nunca perde a descontrac­
ção, é cómico e fala de tudo com conhecimento de causa. Montado no
hipogrifo, voa pelos ares a seu bel-prazer, alheado do que se passa cá em
baixo, parecendo não fazer parte do poema e olhá-lo do exterior.
Astolfo visita o Inferno por um capricho de momento, e depois o
Paraíso. Aqui encontra São João Evangelista, que o trata de igual para
igual e que o acompanha até à Lua. Esta viagem interplanetária, realiza­
da no Canto XXXIV, tem como objectivo recuperar o juízo de Orlando,
pois na Lua encontra-se tudo quanto os homens perdem na Terra.
Entre uma imensa parafernália de coisas perdidas pelos homens ao
longo dos séculos, Astolfo encontra a ampola que contém o siso do
paladino; e, de passagem, cai-lhe sob o olhar uma ampola com o seu
nome, que contém uma parte do seu juízo que ele nunca se apercebe­
ra de ter perdido, mas que se apressa a inspirar. Quando regressa à
Terra, Astolfo vem munido de poderes que lhe permitem, entre outras
coisas, devolver a visão perdida ao Preste João, e transformar pedras em
cavalos e folhas de árvores em navios, constituindo um exército e uma
frota no Norte de África que garantem a vitória das forças cristãs sobre
as sarracenas; e devolve a Orlando o siso perdido, diluindo-se na sua
mente qualquer lembrança de Angelica.
Astolfo dá-nos a imagem do louco saudável, porque não leva as coi­
sas demasiado a sério; vai vivendo as situações conforme se lhe depa­
ram, sem querer que a realidade se adapte à sua teoria de vida, como
aconteceu com Orlando, o louco patológico. Enquanto Orlando con-
O ÜRLANoo Furuoso 23

vulsionou o mundo, Astolfo restitui-lhe a ordem e a harmonia. Ariosto


deu asas a Astolfo para que ele se elevasse do mundo material e pudes­
se ter uma percepção distanciada das coisas, tal como o poeta, e fosse
capaz da mesma auto-ironia. Por isso, Astolfo é a projecção do próprio
poeta dentro do poema, ou seja, Astolfo é o alter ego de Ariosto.
Conquanto o Orlando Furioso rejeite os significados absolutos do
código da cavalaria, e esteja mais preocupado em dar vida a uma pro­
fusão de acções, sentimentos e emoções, dos mais nobres aos mais vis,
que ilustram a diversidade de matizes da natureza humana, exprime
também uma certa nostalgia por esse mundo perdido, quando, por
exemplo, condena as armas de fogo (XI:21-28), ou quando, no final do
Canto IX, Orlando destrói e afunda em alto-mar o arcabuz e respecti­
vas munições. Pois o que vale um disparo de espingarda ou de arcabuz,
ao pé dos belos golpes de espada e lança de um cavaleiro que lutava
pelo seu senhor, pela sua dama, pela religião, pelos oprimidos, ou ape­
nas para obter a glória? Que é feito das cortesias que andavam sempre
associadas a esses actos de valentia?
O poeta contemporâneo de um príncipe sem escrúpulos como
César Borja não podia deixar de sorrir de nostalgia enquanto escrevia
sobre Rinaldo e Ferraú - um cristão e outro muçulmano - que se
batiam em duelo por Angelica e que, ao notarem que ela entretanto
fugira, concordam em interromper a batalha, e, dispondo de apenas
um cavalo, o montam juntos para segui-la:

Oh, bondade dos cavaleiros antigos!


Eram rivais, eram de fé diferente,
e, de se infligirem cruéis castigos,
toda a pessoa os dois tinham dolente;
mas, por selvas, atalhos, desabrigas,
juntos vão, sem que a suspeita os atente.
(1:22:1-6)
NOTA DA TRADUTORA

O
Orlando Furioso é uma obra que há muito tempo conheço e
amo. Não esperava, porém, que me viesse a caber a tarefa de
a traduzir para língua portuguesa. A editora Cavalo de Ferro
teve a feliz e louvável iniciativa de publicar a obra-prima de Ludovico
Ariosto, e propôs-me a execução do trabalho.
O tradutor profissional, ao assumir a responsabilidade de um trabalho,
assina um contrato com a editora, que o obriga às cláusulas pelas quais o
mesmo se rege, e tem de executar esse trabalho como quem executa uma
empreitada, sem que o grau de dificuldade ou a busca de mais perfeição
sejam tidos em conta. A mais premente e mais pesada dessas cláusulas é,
invariavelmente, o prazo. O prazo é, quase sempre, um mecanismo assus­
tador, que, qual guilhotina, está suspenso sobre a cabeça do tradutor.
No caso presente, foi-me dado o prazo de um ano para fazer este
trabalho, porque a própria editora estava vinculada a compromissos de
edição que a tal a obrigavam.
Conhecendo bem a obra, não ignorei que o prazo era restricto, porém,
uma vez que me foi dada a liberdade de fazer a tradução como quisesse, ou
seja, em rima, em prosa, em verso branco, com ou sem rigor métrico, acei­
tei. Aceitei, sobretudo, porque era um desafio: ser-me-ia muito difícil ter a
oportunidade de traduzir o Orlando Furioso e descartá-la.
Conhecer bem uma obra, porém, é um facto que perde importân­
cia quando a abordamos com a intenção e os requisitos da tradução.
Tendo feito o primeiro canto em rima, seguindo, tanto quanto era pos­
sível segui-lo à pressa, o modelo de Ariosto, fiz contas e verifiquei que
o tempo não chegaria. Passei a fazer a tradução em decassílabos, para
lhe dar ao menos um ritmo, mas sem rima, e assim cheguei ao Canto
VIII. Olhei para trás, e não reconheci o poema de Ariosto, que, sem
dúvida, encontra o seu ritmo não só na narrativa, mas, acima de tudo,
na rima e na métrica. Retrocedi e refiz todos esses cantos em rima, e da
mesma forma prossegui, sujeita à crescente pressão do tempo que se
escoava e da extensão da obra, privada da possibilidade de um segun-
26 ORLANDO FURIOSO

do olhar ao trabalho que ia ficando feito ou de uma mudança de crité­


rio, tendo, como .preocupação única, avançar, avançar.
Numa tradução perde-se sempre alguma coisa, e creio que em
Ariosto é ainda mais fácil que se perca. Para além da mestria do autor,
há que ter em conta que a língua italiana e, particularmente, a língua
do Orlando Furioso, possui uma ductilidade que a nossa está longe de
possuir. Anima-me o conforto de a minha tradução ser, tanto quanto é
possível sê-lo dentro do espartilho da rima e do decassílabo, e nas con­
dições a que já aludi, fiel ao original, e dar a conhecer o conteúdo da
obra a quem não seja capaz de ler o texto de Ariosto.

O «Orlando» em português
A presente edição é a primeira tradução integral jamais feita deste
poema em língua portuguesa, contemplando os padrões rimático e
métrico da oitava de Ariosto.
Há notícia de uma tradução em prosa, de Salustiano da Silva Alves
de Araújo Susano, publicada no Rio de Janeiro em 1833. E, também
no Brasil, da tradução em oitavas de alguns episódios soltos do
Orlando Furioso, feita por Luiz Vicente De-Simoni, publicada no Rio
de Janeiro em 1843, incluída numa antologia de poetas italianos.
Em Portugal a obra foi sendo lida no original e em traduções, ver­
sões e resumos, em espanhol e francês, que proliferaram nos anos que
se seguiram à publicação da obra em Itália, e o interesse que imediata­
mente despertou está patente não só em várias passagens de Os
Lusíadas como, por exemplo, na obra de T homé Pinheiro da Veiga,
Fastigimia 1 , escrita em 1605 - uma perspicaz e jocosa crónica de cos­
tumes portugueses e espanhóis da época, em que abundam as referên­
cias, entre outros, a Ariosto, e as citações de versos e mesmo de oitavas
inteiras do Orlando Furioso, na língua original.
Fica por fazer um estudo aturado da receptividade e dos ecos que
o poema teve em Portugal e junto dos escritores e estudiosos portu­
gueses, que exigiria de mim tempo de que não dispus.
Em 1895 foi publicada no espaço lusitano, pelo editor David
Corazzi, uma tradução do poema de Ariosto, reduzido a prosa, da
autoria de Xavier da Cunha.
Antes dessa tradução, o poeta Gomes Leal ( 1848- 1921) fez, em
1889, uma versão do Canto I do Orlando Furioso, «vertido em lin­
guagem portuguesa» a partir de uma versão francesa da época.

1 Thomé Pinheiro da Veiga, Fastigimia, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1 988 (reprod.
fac-similada da ed. de 1 9 1 1 da Biblioteca Pública Municipal do Porto) .
NOTA DA TRADUTORA 27

Recentemente, em 2002, foi publicada no Brasil uma tradução


parcial, em rima, do poema de Ariosto (os oito primeiros cantos e mais
alguns episódios soltos), da autoria de Pedro Garcez Ghirardi, profes­
sor de Literatura Italiana na Universidade de São Paulo 2 • Trata-se de
uma tradução que respeita a métrica original das oitavas de Ariosto.

Critérios de tradução

Sobre alguns critérios de tradução, gostaria de esclarecer, no tocan­


te a nomes, que os mesmos mantêm a grafia que apresentam no origi­
nal, exceptuando as individualidades históricas com relevância univer­
sal cujo nome já tem uma versão na nossa língua (aplicando-se idênti­
co critério aos nomes geográficos), as figuras mitológicas e bíblicas, e as
figuras da literatura tradicional, como Merlim, Tristão e Isolda, etc.,
que também já possuem· uma versão própria na nossa língua.
Notará o leitor uma dualidade na grafia de alguns dos nomes próprios,
como é o caso de Ruggiero/Ruggier, Pinabello/Pinabel, Grifone/Grifon,
Brunello/Brunel, e outros mais, que reproduz a dualidade que se veri­
fica no original, constituindo um recurso de grande utilidade para a
rima e também para a métrica.
Ariosto faz uso muito frequente do poliptoto, isto é, da repetição
da mesma palavra, com formas gramaticais diversas - ou apenas com
um sentido semântico diverso -, em posição de rima. Alguns casos há
em que recorre à repetição de uma palavra, mesmo sem mudança de
forma gramatical ou semântica, procurando talvez um efeito enfático,
como sucede no Canto VI, oitava 48, em que usa três vezes a palavra
«outros» em posição de rima. Na medida do possível, reproduzi na tra­
dução, no todo ou em parte, esses efeitos.
Nos vv. 1 e 2 da oitava 32 do Canto XLI, separei com hífen, de um
verso para o outro, a palavra «sobrevestes», e no Canto XLIII, oitava
105, separei do mesmo modo, do v. 3 para o v. 4, a palavra «precisa­
mente», reproduzindo idênticos processos do original.
Encontra-se por vezes, em duas oitavas seguidas, a mesma rima,
chegando a ocorrer, nas duas, uma mesma palavra (ex: «mano/mão» em
XV, 81-82, e «allora/hora», em XLIII, 147-148). Há casos esporádicos
de oitavas que têm a mesma rima nos seis primeiros versos: veja-se a
oitava 6, do Canto XXXIII, em que se faz a aproximação a um con­
junto de pinturas murais, representando factos que hão-de acontecer
no futuro; no original, cinco dos seis versos apresentam em posição de

2 L. Ariosto, «Orlando Furioso (cantos e episódios)», lntrod., Trad. e Notas de Pedro Garcez Ghirardi,
Ateliê Editorial, Granja Viana-Cotia-SP, 2002.
28 ORLANDO FURIOSO

rima um particípio verbal com terminação em «ate/adas», e o outro um


presente do conjuntivo, que em italiano tem igual terminação. A insis­
tência nos particípios passados talvez pretenda enfatizar a passividade
que essa forma verbal transmite, uma vez que se trata de factos que
estão «adormecidos», à espera da hora justa para acontecerem.
Esforcei-me para acompanhar, sempre que possível, os efeitos que
atrás referi, bem como outros mais pontuais, pois não são de modo
nenhum despiciendos. Ariosto procura-os deliberadamente, moldando
e sujeitando as palavras e os versos, para conferir ao poema agilidade e
desafectação. Compraz-se em brincar com as palavras e em surpreen­
der o leitor, obrigando-o por vezes a reler, para confirmar a exactidão;
como sucede, por exemplo, no Canto XLIII, oitava 93, v. 8: perché
non ha ne la sua fede fede («que ele não tenha na sua fé fé»).
A forma contínua que dei ao texto, sem separação das oitavas,
segue o modelo da edição da Einaudi (Torino, 1998) que usei na tra­
dução. Esta forma parece-me ser a que melhor acompanha e enfatiza a
fluidez e a despretensiosidade narrativa do texto, acentuadas também
pelo recurso assíduo ao enjambement.
Finalizo, formulando a esperança de que esta tradução chegue a
muitos leitores, e que através dela possam descobrir o génio de Ariosto
e fruir do prazer que a leitura do seu poema proporciona.

Margarida Periquito
NOTA ÀS ILUSTRAÇÕES

Q
ando pensámos em editar o «Orlando Furioso» ocorreu-nos
que seria perfeito incluir as magníficas ilustrações que, no
século XIX, Gustave Doré realizou para esta obra. Mal sabía­
mos, então, as dificuldades que se nos deparariam. Se a nossa intenção
inicial era incluir todas as gravuras existentes, cedo descobrimos a
impossibilidade de tal projecto. Isto porque as mais de 650 gravuras do
famoso ilustrador francês nunca mais foram reproduzidas em livro na
sua totalidade, desde a primeira edição da obra em língua francesa (da
Hachete), datada de 1879, à qual não conseguimos aceder.
A nossa investigação levou-nos a duas outras edições, igualmente
difíceis de encontrar, mas que acabaram por servir de base para a selec­
ção das cerca de 450 gravuras incluídas no presente volume: a edição de
Armando Curcio editore, s.l., de 1957, e a belíssima edição de Fratelli
Treves editori, Milão, 19 14.
Apesar de nenhuma destas edições comportar, mesmo em conjun­
to, a totalidade dos desenhos e gravuras originais de Doré (muitas das
quais continuamos curiosos em um dia descobrir), pensamos que a
selecção por nós feita seja mais que suficiente para completar, com uma
descrição visual dos lugares e personagens imaginados por Ariosto, a
profunda beleza do seu poema.

Os Editores
GUIA À LEITURA

CANTO I

Exórdio (matéria do poema, invocação e dedicatória) - Antecedentes


- Fuga de Angelica - Encontros, desencontros e recontros na flores­
ta (Rinaldo, Ferraú, Sacripante, Bradamante).

CANTO II

Duelo entre Sacripante e Rinaldo - Nova fuga de Angelica -


Encontro com o eremita necromante - Rinaldo a caminho de
Inglaterra - Bradamante, em busca de Ruggiero, encontra-se com
Pinabello - Traição de Pinabello.

CANTO III

Bradamante na gruta de Merlim e profecia do mago - Melissa faz


desfilar ante Bradamante a sua futura descendência e dá-lhe conselhos
para libertar Ruggiero do castelo de Atlante - Bradamante encontra
Brunello.
32 ORLANDO FURIOSO

CANTO N

Bradamante desembaraça-se de Brunello, ilude Atlante e liberta


Ruggiero - Ruggiero é levado pelos ares, montado no hipogrifo -
Rinaldo é arrastado para a Escócia por uma tempestade, e salva Dalinda.

CANTO V

Dalinda conta a Rinaldo a história de Ginevra, condenada à morte


por suposta infidelidade - Rinaldo luta com Polinesso e liberta
Ginevra, anulando a cruel lei da Escócia.

CANTO VI

Ginevra desposa Ariodante - Ruggiero chega à ilha de Alcina -


Diálogo entre Ruggiero e Astolfo, transformado em mirto - Ruggiero
pretende ir para o reino de Logistilla, mas os monstros barram-lhe o
caminho - Ruggiero é seduzido e guiado para o reino de Alcina.

CANTO VII

Depois de derrotar Erifilla, Ruggiero é recebido por Alcina, de cujos


encantos e luxúria fica cativo - Bradamante reencontra Melissa e dá-lhe
o anel mágico, para que liberte Ruggiero - Melissa desmascara Alcina.

CANTO VIII

Ruggiero deixa o reino de Alcina e dirige-se para o de Logistilla -


Rinaldo, em Inglaterra, obtém reforços para Carlos Magno -
Angelica, vítima do eremita, é raptada e levada para a ilha de Ebuda,
para servir de alimento ao monstro marinho - Pesadelos de Orlando,
que parte em demanda de Angelica.
GUIA À LEITURA 33

CANTO IX

Orlando, procurando Angelica, encontra Olimpia e ouve a sua tris­


te história - Orlando derrota Cimosco e liberta Birena - Orlando
afunda o arcabuz em alto-mar - Casamento de Olimpia e Birena.

CANTO X

Birena abandona Olimpia numa ilha deserta -· Lamento de


Olimpia - Ruggiero deixa o reino de Logistilla, regressa ao Ocidente
no hipogrifo e vê a parada dos exércitos perto de Londres - Ruggiero
salva Angelica de ser devorada pelo monstro.

CANTO XI

Angelica foge de Ruggiero graças ao anel mágico, que a torna invi­


sível - Ruggiero prisioneiro no palácio de Atlante - Orlando chega
a Ebuda, mata o monstro marinho e salva Olimpia - Oberto, rei da
Irlanda, desposa Olimpia.

CANTO XII

Orlando aprisionado no palácio de Atlante - Angelica liberta Orlando,


Ferraú e Sacripante do palácio encantado - Duelo entre Ferraú e Orlando,
pelo elmo deste - Angelica parte, só e invisível - Orlando massacra as for­
ças sarracenas - Numa gruta, Orlando descobre uma jovem aprisionada.

CANTO XIII

Isabella narra as suas desventuras a Orlando, que dizima os ladrões


e a liberta - Bradamante reencontra Melissa, que lhe fala das mulhe­
res estenses - Também Bradamante se deixa aprisionar por Atlante.
34 ORLANDO FURIOSO

CANTO XIV

Agramante e Marsilio passam em revista os seus exércitos -


Mandricardo rapta Doralice, noiva de Rodomonte - O arcanjo
Miguel procura a Discórdia, para a enviar para o campo sarraceno -
Paris é assaltada pelos exércitos sarracenos.

CANTO XV

Rodomonte entra em Paris - Salvo por Melissa, Astolfo viaja para o


Ocidente; no Egipto, vence os gigantes Caligorante e Orrilo - Grifone e
Aquilante partem com Astolfo para a Palestina, onde encontram Sansonetto.

CANTO XVI

Grifone parte em busca de Orrigille, que o traiu - Rinaldo,


Zerbino e as forças vindas de Inglaterra desbaratam os Mouros no cerco
de Paris - Dentro da cidade, Rodomonte lança morte e destruição.

CANTO XVII

Carlos Magno e seus' paladinos contra Rodomonte - Grifone,


Orrigille e Martano em Damasco - História de Norandino e Lucina,
vítimas do Orco - Martano e Orrigille tramam cilada contra Grifone.

CANTO XVIII

Rodomonte retira-se de Paris e encontra o anão - Prossegue o


combate em Paris - A Damasco, onde Grifone luta ferozmente, che­
gam Sansonetto, Astolfo, Aquilante e Marfisa - Na batalha de Paris,
Rinaldo mata Dardinello e as forças cristãs levam a melhor - De
noite, Cloridano e Medoro procuram o cadáver de Dardinello.
GUIA À LEITURA 35

CANTO XIX

Cloridano e Medoro surpreendidos quando tentam sepultar


Dardinello; o p rimeiro morre, o segundo é gravemente ferido -
Angelica encontra Medoro, trata-o e enamora-se dele; dirigem-se
ambos para o Oriente - Marfisa e eis companheiros chegam .à terra das
mulheres homicidas.

CANTO XX

Guidone Selvaggio conta a história das mulheres homicidas - Efeitos


mágicos do corno de Astolfo - Fuga para França, deixando Astolfo em
terra - Marfisa separa-se dos outros e encontra Gabrina - Zerbino, ven­
cido em duelo por Marfisa, é obrigado a levar Gabrina consigo.

CANTO XXI

Ermonide da Holanda conta a Zerbino a história da p érfida


Gabrina - Ermonide morre e Zerbino prossegue caminho com
Gabrina.

CANTO XXII

Astolfo regressa ao Ocidente, desfaz o encanto do palácio de


Adante e fica com o hipogrifo - Bradamante e Ruggiero reencon­
tram-se e seguem juntos - Enquanto Ruggiero combate no castelo de
Pinabello, Bradamante reconhece Pinabello, persegue-o e mata-o -
Bradamante e Ruggiero de novo sep arados.
36 ORLANDO FURIOSO

CANTO XXIII

Bradamante encontra Astolfo e regressa a Montalvão - Ippalca


encontra Rodomonte - Gabrina acusa Zerbino da morte de Pinabello
- Orlando salva Zerbino e restitui-lhe lsabella - Duelo entre
Orlando e Mandricardo - Orlando chega ao lugar onde Angelica e
Medoro se amaram e enlouquece.

CANTO XXIV

Fúria destruidora de Orlando - Zerbino condena o traidor


Odorico a levar consigo Gabrina; ele e lsabella encontram os sinais da
loucura de Orlando - Mandricardo apodera-se da espada Durindana,
que Orlando abandonou - Morte de Zerbino - Duelo entre
Mandricardo e Rodomonte.

CANTO XXV

Trégua entre Mandricardo e Rodomonte, para irem em auxílio de


Agramante - Ruggiero salva Ricciardetto, que lhe narra a sua história
com Fiordispina - Do castelo de Agrismonte, Ruggiero e Ricciardetto
vão, com Aldigieri, em socorro de Malagigi e Viviano.

CANTO XXVI

Marfisa participa na libertação de Malagigi e Viviano - Malagigi


explica o significado das imagens da fonte de Merlim - Encontro de
Ruggiero e Ippalca - Duelo de Mandricardo e Marfisa - Rodomonte
e Mandricardo vão no encalço de Doralice - Ruggiero e Marfisa
seguem para Paris.
GuIA À LEITURA 37

CANTO XXVII

Rinaldo sai de Paris, em busca de Angelica - Mandricardo,


Rodomonte, Marfisa e Ruggiero juntam-se às hostes sarracenas que
atacam o campo cristão junto a Paris, mas a Discórdia provoca quere­
las entre os Mouros - Agramante, tentando pôr-lhes termo, propõe a
Doralice que escolha entre Rodomonte e Mandricardo, e ela prefere
Mandricardo - Rodomonte afasta-se, irado, com o propósito de
regressar a África.

CANTO XXVIII

Rodomonte escuta, de um taberneiro, a história picante de


Fiammetta, Astolfo e Jocundo - Rodomonte decide instalar-se num
lugar agradável do litoral, no Sul de França. Ali chega Isabella, levando
o corpo de Zerbino - Rodomonte apaixona-se instantaneamente por
Isabella.

CANTO XXIX

Morte heróica de Isabella, para se subtrair à cobiça de Rodomonte,


que constrói um mausoléu para ela e Zerbino, e uma ponte onde desa­
fia todos os que por ali passam - Orlando, louco, luta com
Rodomonte - Angelica, em fuga com Medoro, cruza-se com Orlando
perto de Barcelona, mas não se reconhecem.

CANTO XXX

Deambulações de Orlando, espalhando morte e destruição; atra­


vessa a nado o estreito de Gibraltar e passa ao continente africano -
Mandricardo morre em duelo com Ruggiero, que fica ferido -
Suspeitas e ciúmes de Bradamante em Montalvão, perante a ausência
de Ruggiero e por sabê-lo em companhia de Marfisa.
38 ORLANDO FURIOSO

CANTO XXXI

Guidon Selvaggio encontra-se com Rinaldo, seu meio-irmão, e


seguem para Paris, onde sabem, por Fiordiligi, da loucura de Orlando
- Agramante, derrotado, retira-se para Arles - Fiordilígi e
Brandimarte reencontram-se; passam pela ponte de Rodomonte e
Brandimarte é feito prisioneiro - Gradasso desafia Rinaldo para um
duelo pela espada Durindana.

CANTO XXXII

Lamento de Bradamante, à espera de Ruggiero - Bradamante


decide partir para Paris; encontra Ullania e os três reis, que transpor­
tam o escudo de ouro da rainha da Ilha Perdida - Bradamante no cas­
telo de Tristão, e as estranhas regras ali em uso para obter alojamento.

CANTO XXXIII

Numa sala do castelo de Tristão estão pintadas, em antevisão, as


incursões dos Franceses em Itália - Bradamante derrota e humilha os
três reis - Duelo entre Rinaldo e Gradasso - Gradasso apodera-se do
cavalo Baiardo e falta à palavra dada - Astolfo� montado no hipogri­
fo, chega à Etiópia, onde liberta Senapo do flagelo das Harpias.

CANTO XXXIV

Astolfo no Inferno - Astolfo no Paraíso terrestre - Astolfo vai à Lua


com S. João evangelista para recuperar o juízo de Orlando, pois na Lua
está tudo o que se perde na Terra - Astolfo visita o palácio das Parcas.
GUIA À LEITURA 39

CANTO XXXV

Astolfo no templo da Imortalidade e do Tempo - Bradamante


encontra Fiordiligi, que lhe pede para libertar Brandimarte -
Bradamante derrota Rodomonte e recupera o cavalo Frontino, mas não
Brandimarte, já enviado para África - Rodomonte, humilhado,
esconde-se numa gruta - Bradamante chega a Arles, desafia Ruggiero
e luta com vários cavaleiros sarracenos.

CANTO XXXVI

Duelo entre Bradamante e Marfisa - Bradamante, Ruggiero e


Marfisa junto ao túmulo de Atlante, cuja voz lhes revela que Ruggiero
e Marfisa são irmãos - Marfisa decide converter-se ao cristianismo e
ir com Bradamante prestar auxílio a Carlos Magno.

CANTO XXXVII

Marfisa, Bradamante e Ruggiero encontram três damas seminuas, ofen­


didas por Marganorre - História de Cilandro e Tanacro - Bradamante,
Marfisa e Ruggiero punem Marganorre e põem fim à sua cruel lei misógi­
na - Ruggiero regressa a Arles, Marfisa e Bradamante seguem para Paris.

CANTO XXXVIII

Carlos Magno organiza os festejos, e Marfisa é baptizada por


Turpino - Astolfo regressa à Terra com poderes especiais, cura a
cegueira de Senapo, apetrecha o seu exército, transforma pedras em
cavalos e vai atacar Bizerta - Em França, concílio dos reis africanos,
que determina um duelo entre Rinaldo (por Carlos Magno) e Ruggiero
(por Agramante).
40 ORLANDO FURIOSO

CANTO XXXIX

Melissa intervém e põe fim ao duelo entre Ruggiero e Rinaldo -


Em África, Astolfo liberta Dudone e dá-lhe o comando de uma frota
que cria, transformando folhas de árvores em navios - Chegada dos
cavaleiros que Rodomonte aprisionara - Orlando é dominado e
Astolfo restitui-lhe o juízo - Agramante foge para África, mas a sua
frota é destruída por Dudone.

CANTO XL

Tomada de Bizerta por Orlando, Astolfo e companheiros - O navio


de Agramante é arrastado para uma ilha pela tempestade - Agramante
propõe a Orlando uma luta decisiva, três contra três, na ilha de
Lipadusa - Ruggiero quer voltar a África para apoiar os Sarracenos, e
trava uma justa com Dudone em Marselha.

CANTO XLI

O navio de Ruggiero é surpreendido por uma tempestade -


Preparativos e partida para a batalha de Lipadusa (Orlando, Oliviero e
Brandimarte contra Agramante, Gradasso e Sobrino) - Ruggiero, a
nado, vai ter a uma ilhota, onde um eremita o catequiza e baptiza -
Profecia do futuro de Ruggiero - Batalha de Lipadusa - Morte de
Brandimarte.

CANTO XLII

Orlando vinga a morte de Brandimarte - Rinaldo parte no encal­


ço de Angelica, passa junto à fonte do desamor, bebe e liberta-se da pai­
xão - Rinaldo conhece o palácio do cavaleiro de Mântua, que lhe pro­
põe que faça o teste do cálice dos maridos enganados.
GUIA À LEITURA 41

CANTO XLIII

Rinaldo recusa beber do cálice - O cavaleiro conta a sua história


- Rinaldo ouve de um barqueiro uma segunda história de infidelida­
de - A batalha já terminou quando Rinaldo chega a Lipadusa -
Lamento de Fiordiligi - Funeral de Brandimarte em Agrigento -
Cura milagrosa de Oliviero, conversão de Sobrino e reencontro com
Ruggiero, na ilhota.

CANTO XLIV

Rinaldo promete a mão da irmã, Bradamante, a Ruggiero, mas, já em


França, os pais opõem-se, preferindo Leone, futuro imperador - Astolfo
regressa a França no hipogrifo, depois de desfazer os encantos - Ruggiero
parte incógnito, para ir lutar ao lado dos Búlgaros contra Costantino, pai
de Leone - O seu valor é admirado pelos aliados e por Leone.

CANTO XLV

Ruggiero, feito prisioneiro pelo imperador, é libertado por Leone;


grato, Ruggiero promete ajudá-lo a conquistar Bradamante, que fez
saber que só desposará o homem que a vencer em duelo - Ruggiero,
disfarçado de Leone, combate com Bradamante e vence-a, e depois
foge e esconde-se - Marfisa e os outros cavaleiros opõem-se ao casa­
mento de Bradamante com Leone.

CANTO XLVI

O navio, metáfora do poema, chega ao porto, e a esperá-lo estão


todos os homens e mulheres ilustres do tempo de Ariosto - Melissa
intervém junto de Leone, revelando a verdade acerca de Ruggiero; Leone
cede-lhe todos os direitos sobre Bradamante - Ruggiero é eleito rei dos
Búlgaros - Núpcias de Ruggiero e Bradamante - Surge Rodomonte,
em busca de vingança. Trava duelo com Ruggiero, que o mata.
Orlando Furioso,
de Messer Ludovico Ariosto
ao Ilustríssimo e Reverendíssimo Cardeal
Dom Ippolito de Este, seu Senhor

CANTO I

Damas, cavaleiros, armas e amores,


cortesias e audazes feitos canto,
do tempo em que o mar Mouros vingadores
passaram, para França molestar tanto,
seguindo a ira e j uvenis furores
do rei de África, Agramante 1 , porquanto
ousou vingar a morte de Troiano
em rei Carlos, imperador romano2 •
2 Direi de Orlando 3 , simultaneamente,
o que nunca foi dito em prosa ou rima:
por amor ficou furioso e demente,
tendo antes de sensato fama opima;
se a que quase me fez o equivalente\
e o pouco engenho sem cessar me lima,
permitir que eu conserve o requerido
para levar a bom fim o prometido.
48 ORLANDO FURIOSO

3 Dignai-vos, hercúlea prole5 generosa, 9 em prémio a prometeu ao mais rapace,


ornamento e esplendor do tempo nosso, que maior cópia, na grande batalha,
Ippolito, aceitar o que vos ousa de Mouros infiéis ceifar lograsse,
e pode dar o húmil servo vosso. e obra feita mostrasse com mais valha.
Parte do que devo, em obra verbosa Mas, o oposto ao que esperavam, dá-se,
a tinta gravada pagar-vos posso; e a gente baptizada em fuga espalha;
de pouco vos dar culpável não sou, com outros viu-se o duque na prisão,
pois, quanto dar-vos posso, tudo dou. ficando ao abandono o pavilhão.
4 Ireis ouvir, entre os dignos heróis 10 Onde, logo que chegara, a donzela
que para citar com louvor me aparelho, que prémio seria para o vencedor,
lembrar Ruggiero6 , de quem neto sois, antes do caso, subira para a sela,
de vossa ilustre prole o cepo velho. e escapou quando houve ocasião melhor,
Seu valor e ilustres gestas, pois, pressentindo que desse dia a estrela
escutareis, dando ouvido a meu conselho, aos cristãos daria enganoso alor;
e se vossos pensamentos cederem penetrou num bosque, e na estreita via
lugar para meus versos neles caberem. um cavaleiro encontrou, que a pé ia.
5 Orlando, que há muito se enamorara 11 Couraça vestida e elmo na testa,
de Angelica7 , e que pelos encantos seus à cintura a espada e no braço o escudo,
na fndia, Média e Tartária8 deixara corria mais ligeiro pela floresta
inumeráveis e imortais troféus, que para vencer páreo 1 2 aldeão desnudo.
com ela ao Ocidente regressara, Tímida pastora nunca tão lesta
onde, cerca dos montes Pirenéus, seu pé virou, ante réptil sanhudo,
com os de França e os da Alemanha, como Angelica o freio contorceu,
Carlos armara as tendas de campanha, logo que o guerreiro reconheceu.
6 para que o rei Marsilio 9 e o rei Agramante 12 Era ele aquele paladim galhardo
pagassem cara a sua ousada chança; filho de Amon, senhor de Montalvão 13 ,
um, porque trouxe de África adiante a quem pouco antes seu corcel, Baiardo 14 ,
o povo apto a usar espada e lança; lhe escapara, coisa estranha, da mão.
e o outro, por levar a Espanha avante A olhar a donzela não foi tardo:
à destruição do reino de França. conheceu, mesmo de longe, a feição,
Orlando chegou quando era exigido, a angélica figura, o rosto belo
mas bem se arrependeu de lá ter ido, que em malhas de amor lograra prendê-lo.
7 pois sua dama ali lhe foi tirada: 13 Dá meia volta a dama ao palafrém,
eis como o juízo humano amiúde erra! e pela floresta o lança a toda a brida;
De Vésper a Eos 1° , em tanta jornada quer pela rala quer pela basta, porém,
ele a defendera, em tão longa guerra, a escolher a via é desprevenida:
e entre gente amiga ora lhe é furtada, pálida, louca, deixa com desdém
sem uso de espada e na sua terra. que a via seja pelo corcel escolhida.
O imperador, que extinguir maquinou Acima, abaixo, pela selva altaneira
um grave incêndio, foi quem lha tirou. tanto girou que achou uma ribeira.
s Nascera havia pouco uma porfia 14 Da ribeira Ferraú 1 5 se abeirara,
entre o conde Orlando e Rinaldo, o primo; todo suado e muito polvoroso.
pois cada um por Angelica ardia Pouco antes, da batalha o apartara
de amoroso desejo no seu imo. desejo de beber e de repouso;
Carlos, que a tenção com maus olhos via, mas depois, contrafeito, ali ficara,
por assim lhe darem menos arrimo, porque, sôfrego e pouco cauteloso,
a donzela, que motivo disso era, o elmo no rio deixara tombar,
deu a guardar ao duque da Baviera 1 1 ; e não o conseguia recuperar.
CANTO I 49

15 O mais alto que era possível, vinha 1s Longo tempo se esforçaram em vão,
a gritar a donzela espaventada. cada um querendo o outro derribar,
Salta, ao ouvir, para a margem ribeirinha pois tanto valor com a arma na mão
o mouro, e no rosto lhe pousa a mirada; tinha, qualquer deles, como o seu par;
e reconhece-a assim que se avizinha, foi primeiro o senhor de Montalvão,
apesar de pálida e perturbada; a o cavaleiro de Espanha alertar,
há muito não tinha notícia dela, como quem tem no peito tanto fogo
mas não duvida: é Angelica bela. que todo arde, sem ter desafogo.
16 Como era cortês, e tanto, talvez, 19 Disse ao pagão: - Crês que só a mim dás
como os primos por ela tinha amor, desaire, mas teu inimigo és;
aquilo que podia fazer, fez: se a luz do novo sol 1 6 teu peito faz
como se elmo houvesse, com pundonor, incendiar, e se algum ganho vês
sua espada empunhou para dar revés em me reter, tu, o que ganharás?
a Rinaldo, a quem não tinha temor. Ao teres-me morto ou preso como crês,
Não só muitas vezes se tinham visto, não será tua a dama mesmo assim,
como em provas de armas tinham registo. pois em fuga se pôs neste interim.
17 Deram início a uma feroz batalha: 20 Quão melhor será, se a amas deveras,
apeados ambos, gládios brandiam; que ligeiro vás na sua peugada,
aos golpes, couraças, cotas de malha, pois para detê-la é melhor se não esperas,
ou mesmo bigornas não resistiam. antes de estar daqui mais afastada!
Mentres cada um o outro trabalha, Tendo-a em poder, com praxes severas
estugando o passo bicho e dama iam; se decide de quem será, pela espada;
incitando o bicho a dar mais à perna, pois nada deve esta contenda ao siso,
por campos e bosques com ele se interna. e dela só colhemos prejuízo. -
50 ORLANDO FURIOSO

21 A proposta ao mouro não desprazeu, 24 Uma vez mais junto à ribeira estando,
e a peleja afrouxou nesse momento; lá onde o elmo na água caiu,
foi tal a trégua que entre eles nasceu, e a dama de encontrar desesperando,
passando o ódio e a ira ao esquecimento, para ter o elmo que lhe esconde o rio
que o pagão ao seu rival ofereceu para o sítio onde tombou vai caminhando,
na sua montada cómodo assento: e desce até à beira do baixio;
de tão instado, sobe para a garupa, mas tão enterrado ele está no leito
e só o rasto da dama os ocupa. que muito apalpará sem ter proveito.
22 Oh, bondade dos cavaleiros antigos! 25 Um ramo de árvore, de folhas mundo,
Eram rivais, eram de fé diferente, serviu-lhe para fazer a longa vara
e, de se infligirem cruéis castigos, com que tenteia o rio até ao fundo,
toda a pessoa os dois tinham dolente; sondando com denodo a água avara.
mas, por selvas, atalhos, desabrigas, Com a maior irritação do mundo,
juntos vão, sem que suspeita os atente. já muito em sua busca se obstinara,
Por quatro esporas o corcel picado, quando do rio se ergueu um cavaleiro
chega a um caminho em dois bifurcado. até à cinta, de aspecto altaneiro.
23 E, uma vez que não sabiam se uma 26 Estava, excepto a cabeça, todo armado,
ou outra via tomara a donzela e mostrava um elmo na destra mão:
(pois em ambas, sem diferença nenhuma, era o mesmo elmo que tão buscado
se via inda fresca a pegada dela) , foi por Ferraú tanto tempo, em vão.
tiraram à sorte, e em seguida ruma Falou a Ferraú em tom irado:
Rinaldo a esta, e o sarraceno àquela. - Ó marrano mentiroso, ó pagão!
Pelo bosque Ferraú muito girou, Por que deixar o elmo aqui não querias,
e, donde partira, outra vez voltou. se de tão longa data mo devias?
CANTO I 51

27 Lembra-te, pagão, que quando mataste 33 Foge por selvas medonhas e escuras,
de Angelica o irmão (que tal sou eu) , lugares desertos, ermos e selvagens.
após as outras armas me juraste De azinhos, faias, abetos, verduras,
que ao rio lançarias este chapéu. o sussurrar de frondes e folhagens
Se ora a Sorte (o que tu não realizaste) fizeram-na por montes e planuras
permite que se cumpra o gosto meu, errar, assustada, em estranhas viagens;
não te amofines; e se amofinares, se em monte ou vale alguma sombra via,
que seja por à promessa faltares. temia ser Rinaldo que a seguia.
28 Se desejo tiveres dum elmo fino, 34 Lembrava juvenil gamo ou gazela
tenta arranjar outro, e com mais honor; que, de entre os ramos do bosque natal,
como o que tem Orlando, o paladino, da mãe tenha visto apertar a goela
ou Rinaldo, talvez inda melhor: o leopardo, em abraço mortal;
um foi de Almonte 1 7 , o outro de Mambrino 1 8 • de selva em selva foge da esparrela,
Conquista um desses dois com teu valor; tremendo e receando sorte igual;
este, que já me devias por preito, e, a cada galho que passando toca,
farás bem em deixar-mo, com efeito. - da ímpia fera já se crê na boca.
29 Ao surgir-lhe o fantasma de improviso 35 Aquele dia e a noite, e mais meio,
da água, seu pêlo todo eriçou-se, cavalgou ao acaso, errando à toa.
e descolorido mostrou o viso; Por fim a um ameno bosque veio,
a voz, que era para sair, encravou-se. que uma leve e fresca brisa abençoa.
E Argalia 1 9 , que em tal sítio preciso De dois claros rios soa o gorjeio,
matara (Argalia identificou-se) , e erva tenra sempre o chão acolchoa.
ouvindo-o de falsa jura acusar, Por entre seixos fluem vagarosas
de ira e vergonha se sentiu corar. as águas, ao ouvido deleitosas.
30 Sem tempo ter para pensar noutra escusa, 36 Parecendo-lhe encontrar-se ali segura,
e bem sabendo que a verdade ouviu, de Rinaldo mil milhas já partida,
calado fica, resposta não usa; exausta de correr e da quentura,
mas tanto opróbrio o peito lhe oprimiu a repousar ali está decidida:
que ali jurou, pela vida de Lanfusa20 , desmonta, deixando a cavalgadura
outro elmo não querer ter, e decidiu pascer-se, já aliviada da brida;
que só lhe convinha o que em Aspramonte2 1 vagueia junto à água o palafrém,
Orlando arrebatara ao fero Almonte. que de erva tenra a margem plena tem.
31 E cumpriu melhor este juramento 37 Não longe, avista um frondoso maciço
que o outro que fizera a Argalia. de rosas vermelhas e pilriteiro:
Dali foi-se embora tão rabujento na margem do caudal colhe o seu viço,
que se mortificou mais do que um dia. oculto do sol por querco altaneiro;
O paladim buscar é seu intento, seu âmago, vazio como um cortiço,
por todo o lado onde que estava cria. dá abrigo discreto e prazenteiro.
Sorte diferente a Rinaldo tocou, Ramos e folhas são tão intricados
que vias diversas deste tomou. que interditam sol e olhares aguçados.
32 Não anda Rinaldo muito e dá fé 38 De tenras ervinhas o chão se cobre,
de que à frente salta o corcel feroz: chamando ao repouso quem aparece.
- Pára, Baiardo meu, detém o pé, Ali, a bela donzela se encobre,
que estar sem ti, para mim, é dano atroz! - depois deita-se e depressa adormece.
O corcel não dá ouvidos, e até Mas eis que resulta seu sono pobre,
mais se afasta, e cada vez mais veloz. pois sons de passos logo reconhece:
Rinaldo, irado, atrás o passo estuga; silente se ergue, e vê que um cavaleiro
sigamos nós Angelica na fuga. armado chegara junto ao ribeiro.
52 ORLANDO FURIOSO

39 Se amigo ou inimigo é, não entende: 45 Se alguém quiser saber, por pertinácia,


temor e esperança o coração lhe agita; quem no rio verte tal choro abundante,
e daquela aventura o fim atende, eu respondo que é o rei da Circássia24 ,
mas nem um suspiro no ar palpita. o que o amor tem ferido, Sacripante25 ;
Para a beira-rio o cavaleiro propende, e direi que da dor a contumácia
e no braço repousa a face aflita; tem por única causa o ser amante:
em tão profundo pensamento medra, é um dos amantes desta donzela,
como se feito de insensível pedra. e reconhecido já foi por ela.
40 Mais de uma hora assim esteve à porfia, 46 Para onde o Sol se põe, por seu amor,
senhor22 , o cavaleiro tão dolente; tinha ele vindo do extremo Oriente;
depois, um som tão pungente emitia, pois na fndia soube, com grande dor,
a lamentar-se mui suavemente, que Orlando ela seguira para Poente;
que pedras, de piedade, quebraria, soubera em França que o imperador
e feroz tigre faria clemente. à parte a pusera da demais gente:
Tanto chorava que dum rio o leito para dá-la àquele dos dois que contra o Mouro
parecia a face, e um Mongibello23 o peito. maior vantagem desse aos Lírios de Ouro 26 •
41 - Tormento (disse) de que gela e arde 47 No campo de batalha ele estivera,
meu coração, e que o corrói e lima, sabendo ali da derrota do Galo27 ;
o que posso eu fazer, se cheguei tarde vestígio de Angelica achar quisera,
e outro fez, antes, do fruto vindima? mas não conseguira ainda encontrá-lo.
Só palavras e olhares tive (cobarde!) É essa a notícia que o desespera
e outro colheu a recompensa opima! e lhe provoca tão profundo abalo,
Se não alcançarei fruto nem flor, fazendo-o lamentar-se, e em tom falar,
por que me dás, coração, tanta dor? capaz de o Sol, de piedade, parar.
42 A pucela é comparável à rosa 4s Enquanto Sacripante se amofina,
que em seu jardim, presa à nativa espina, fazendo dos olhos tépida fonte,
enquanto só e segura repousa, e com mais queixas faz tal serrazina
rebanho ou pastor não a descortina; que necessário não será vos conte,
a brisa suave e a alva orvalhosa, quer o mero acaso da sua sina
a água, a terra, em seu favor se inclina; que Angelica as escute, ali defronte:
jovens e donzelas apaixonados eis que em raro instante o destino tece
o peito e a fronte usam com ela ornados. coisa que em mil anos não acontece.
43 Porém, logo que da materna haste 49 Atentíssima está, de ouvido em riste,
é retirada e de seu caule verde, Angelica ao pranto, à voz e aos modos
favor, graça e beleza, por contraste, daquele que de amá-la não desiste;
que de homens e céu tinha, tudo perde. já escutara dele rogos a rodos,
A virgem a quem sua flor mais baste mas, dura e fria qual coluna, existe
que a sua vida, e os lindos olhos que herde, nela a impiedade que tem por todos;
se um colhê-la deixa, o apreço de antes como quem todos olha com desdém,
fenece no peito de outros amantes. porque digno de si não crê ninguém.
44 Seja para os outros vil, e amada em paga 50 Mas, nesses bosques sozinha andando ela,
por aquele a quem tanto de seu deu. pensa que este podia ter por guia;
Ah, Fortuna cruel, sorte aziaga!, pois quem na água está até à goela,
ganham outros e à míngua morro eu. não pedindo ajuda, tolo seria.
Já minha alma por isso a não afaga? Se esta oportunidade ela protela,
Posso por tal findar o viver meu? não encontra tão fiel companhia:
Quanto melhor será aqui morrer, já antes tivera prova abundante
que viver mais sem amá-la poder! - que era mais fiel que qualquer amante.
CANTO I 53

51 Porém, longe está da sua intenção 57 - Se não soubera o cavaleiro de Anglante30


alívio dar à ânsia do que a ama, desfrutar, por inépcia, o que à mão houve,
ou dar de outros danos compensação a perda é dele, porque de hoje em diante
com o prazer que o amante reclama: Fortuna não deixará que ele tal prove
algum fingimento e persuasão (de si para si dizia Sacripante) ;
nutrindo-lhe a esperança, eis tudo o que trama; intenção de imitá-lo não me move:
nesta falta, usá-lo como reserva; não desperdiço o bem que concedido
depois, voltar a ser dura e proterva. me é, para depois sentir-me arrependido.
52 Qual bela aparição que, ali escondida, 58 Colherei a fresca e matinal rosa
sua evidência súbito retome, que, tardando, frescura perderia.
surge, tal de selva ou gruta saída, Sei que à dama coisa mais deleitosa
Diana ou Vénus sobre o palco assome28 ; e que mais lhe agrade não se faria,
- A paz te assista (diz-lhe de seguida) ; ainda que se mostre desdenhosa,
Deus não permita que manches meu nome chorosa por vezes e fugidia;
e de mim tenhas, sem qualquer razão, não há-de ser falsa repulsa ou pejo
tão errada e tão falsa opinião. - óbice para saciar meu desejo. -
53 Com quanto júbilo e quanto estupor 59 Assim disse; mas, quando se abalança
uma mãe no filho os olhos pousou, ao doce assalto, grande rumor troa
depois de por morto o chorar de dor, e o ouvido lhe fere com intemperança;
crendo que sem ele a hoste voltou, contrafeito, seu intento acantoa,
o assombro e alegria não foi menor e põe o elmo (tinha por usança
do sarraceno, quando contemplou trazer sempre armada a sua pessoa) ,
o belo gesto, o angélico semblante corre para o cavalo, repõe�lhe a brida,
que de improviso lhe surgiu diante. e sobe para a sela de lança erguida.
54 De amoroso sentimento tomado, 60 Eis que do bosque um cavaleiro investe,
acorre à sua dama, à sua deia; de seu semblante homem gentil, guerreiro:
estreita-o ela pelo pescoço enlaçado, alva como a neve é a sua veste,
o que em Catai não faria sem peia. branco penacho no elmo altaneiro.
De ao pátrio reino, ao seu torrão amado Sacripante não se conforma que este
regressar com este ocorre-lhe à ideia; ali faça inoportuno carreiro,
nela renasce o repentino alento impedindo-lhe o prazer prenunciado;
de em breve rever seu rico aposento. olha-o com ar desdenhoso e irado.
55 Dá-lhe ela a conhecer com minudência 6 1 Mal se aproxima, chama-o à batalha,
o que desde que o mandou, ocorreu, fácil crendo derribá-lo da sela.
ao Oriente pedir assistência O outro, que julgo que menos valha
ao rei sericano e ao nabateu29 ; do que ele não tem, e dará prova dela,
e que Orlando a guardou com persistência as ameaças soberbas logo atalha,
e da morte e desonra a protegeu; esporas e lança ajeitando à procela.
que sua flor virginal preservara Rei Sacripante investe com furor,
como do ventre materno a herdara. e embatem-se os rivais de igual ardor.
56 Verdade talvez, porém coisa incrível 62 Leões ou touros, em ferino salto,
a quem do seu bom-senso for senhor; não são na investida tão sanhudos
pareceu a ele facilmente possível, como os guerreiros no calor do assalto,
pois estava perdido em mais grave error. que um ao outro trespassaram os escudos.
O que à luz está o amor torna invisível, O baque sacudiu de baixo a alto,
e o que é invisível faz ver Amor. dos verdes vales aos montes desnudos;
Fé fez; pois o desgraçado se atém por dita tinham arneses perfeitos,
a acreditar em quanto lhe convém. que lhes salvaram ilesos os peitos.
CANTO I 55

63 Os cavalos, desenfreados muito, 69 - Como bem vês, aqui me derribou


de cabeça chocam como carneiros: e lesto partiu (disse Sacripante) ;
o do guerreiro pagão caiu defunto, para que eu saiba quem assim me apeou,
ele, que em vida era um dos primeiros; não me deixes de seu nome ignorante. -
depressa o outro, que lhe caiu junto, E o arauto: - De bom grado te dou
se ergue ao sentir as esporas nos traseiros. as novas que pretendes, de rompante:
O do rei sarraceno ficou teso pois bem, sabe que te tirou da sela
em cima do dono, com todo o peso. a destreza duma gentil donzela.
64 O ignoto campeão que em pé ficou 70 É ainda mais bela que garbosa;
e o outro viu sob o corcel por terra, nem o seu famoso nome te escondo:
achando que de luta já bastou, foi Bradamante3 1 quem fez desonrosa
desinteressou-se de fazer mais guerra; a boa fama que tinhas avondo. -
a via que a selva corta tomou, Isto disse e foi, com pressa fogosa,
e a toda a brida dali se desferra; o sarraceno assim muito indispondo:
e, quando o pagão se desenvencilha, paralisado de fala ou acção,
já ele está dali a mais de uma milha. a face, de pudor, era um tição.
65 Qual camponês atordoado e aflito 71 Após muito no caso sucedido
que se ergue, após o raio ter passado, em vão haver reflectido, e, mormente,
donde estendido o estrépito inaudito por uma mulher ter sido abatido,
o deixara, em meio ao seu morto gado, quanto mais nisso pensa mais dor sente,
e vê, perdida a fronde e o gabarito, monta o outro corcel, emudecido;
o pinheiro de longe tão olhado, sem nada dizer, silenciosamente,
tal se levantou o pagão da arena, Angelica põe na grupa, fruí-la
assistindo Angelica à triste cena. diferindo para hora mais tranquila.
66 Suspira e geme, não de impaciência
ou porque braço ou perna molestara,
mas de vergonha, que em sua existência
nunca teve ou terá tão rubra a cara;
não só por cair, mas porque, em sequência,
do peso do corcel ela o livrara.
Mudo ficava, creio, se, dengosa,
ela não o chamasse à voz e à prosa.
67 - Ora, senhor (diz) , não vos agasteis!
Culpado não sois desta acrobacia,
mas o corcel, que de erva, convireis,
e de folga - e não justa - carecia.
Àquele guerreiro glória não dareis,
pois vencido mostrou ser neste dia:
pelo que sei, a vitória não cobiça
o que primeiro abandonar a liça. -
68 Enquanto anima o sarraceno assim,
de trompa e bornal pendentes no flanco,
surgiu a galope sobre um rocim
um mensageiro de fôlego estanco;
chegou-se a Sacripante o andarim
e perguntou se, com um escudo branco
e com um branco penacho na testa,
viu passar um guerreiro pela floresta.
56 ORLANDO FURIOSO

n Percorrida pouco mais de uma milha, 75 Logo, dócil, a donzela visita,


ouvem troar a selva em seu redor com modo humilde e humano feitio,
com estrondo tal que toda ela fervilha, como em redor do dono o cão saltita,
e estremecer parece ao derredor; quando alguns dias lhe esteve arredio.
eis que surge um corcel abrindo trilha, Dela tem Baiardo lembrança fita,
todo arreado de ouro com primor; pois em Albracca32 o manteve sadio,
salta sarças e rios, e com fracasso no tempo em que por ela era amado
árvores arrasta, e o que lhe veda o passo. Rinaldo, então cruel, desinteressado33 •
73 - Se os intricados ramos e o ar fosco 76 A brida lhe segura com a canha,
(disse a dama) o meu olhar não ofende, com a outra afaga pescoço e peito:
é Baiardo o corcel que ali no bosco aquele corcel, de bravura tamanha,
com tanto fragor seu caminho fende. a ela, como um anho, está sujeito.
É certo que é Baiardo, bem o tosco: Sacripante este bom ensejo apanha:
que bem nossa necessidade entende! Baiardo monta, pica e tem atreito34 •
Sabe que um só rocim para dois não chega, Do seu rocim aliviado, a donzela
e de nos vir ajudar se encarrega. - deixa a garupa e reocupa a sela35 •
74 Desmonta o circassiano e se lhe encosta, 77 Alongando o olhar, um vulto mira
tendo por fito deitar mão ao freio. que vem, as armas tinindo, pelo trilho.
Dá de ancas o corcel como resposta, Toda se inflama de despeito e ira,
volteando-se em célere meneio; pois nele reconhece de Amon o filho36 •
não ferem os coices onde ele aposta: Ele a ela mais do que à vida aspira;
ai do cavaleiro se eram em cheio! foge-lhe ela como a falcão cordilho.
A força de seus coices era tal Antes a odiou mais do que a morte
que estilhaçava um monte de metal. e ela o amou; depois trocaram sorte.
CANTO I 57

78 Disto causa foi uma e outra fonte, 80 - Sou pois (disse o rei, melindrado assaz)
pois efeito vário tem seu licor; de vosso crédito tão pouco digno
nas Ardenas 37 ambas, quase defronte: que me achais inútil e incapaz
uma, a quem lhe beber enche de amor; de vos defender de homem tão maligno?
se a outra escolher, com amor não conte, Das batalhas de Albracca tão fugaz
que ela gelo fará do que era ardor. memória tendes, e quando, benigno,
Duma bebeu ele, e de amor palpita; em vossa defesa, só e desnudo,
ela à outra foi, e Rinaldo evita. contra Agricane e o resto fiz de escudo 38 ? -
79 Essa, que oculta poção adubou, 81 Não responde ela nem sabe o que faça,
que em ódio muda a amorosa ânsia, pois Rinaldo já bem perto aparece,
faz que a dama que Rinaldo avistou e de longe o sarraceno ameaça
no sereno olhar mostre repugnância; quando o cavalo vê e reconhece,
triste e em voz tremente, suplicou e o angélico semblante devassa
a Sacripante com veemente instância dessa que o coração de amor lhe aquece.
que mais perto o guerreiro não pretenda, O que entre os dois soberbos se passar
e que com ela a fuga ora empreenda. para o outro canto quero reservar.

NOTAS

1 6
Agramante: rei africano, filho de Troiano e neto de Ruggiero: guerreiro sarraceno, filho de Ruggiero II de
Agolante, é o comandante supremo das tropas sarracenas Risa (Reggio di Calabria) e de Galaciella, filha do rei
que atravessaram o mar Mediterrâneo para fazer guerra a Agolante. Apresentado como descendente de Heitor de
Carlos Magno. O exército africano desembarcou em Tróia e fundador da estirpe d'Este.
Tortosa, na Catalunha (junto à foz do Ebro), e dali mar­
chou para França através dos Pirenéus (cf. Matteo Maria 7 Angelica: filha de Galafrone, rei do Catai. Bela e
Boiardo, Orlando Innamorato, Livro II, XXIX:23). esquiva, tem inúmeros pretendentes (entre os quais
Orlando e Rinaldo) , que trata com desprezo, tirando
2
Carlos, imperador romano: Carlos Magno (742-8 14), partido dos seus sentimentos quando lhe convém.
filho de Pepino, o Breve, rei dos Francos a partir de 768.
8
Foi coroado imperador do Ocidente, em Roma, pelo Índia: designava de modo genérico a Ásia meridional;
papa Leão III, no dia de Natal de 800. Rodeou-se de Média: correspondia à região a sul do mar Cáspio;
homens doutos que promoveram as ciências e as artes, Tartdria: era a região a ocidente do Catai (nome dado na
dando origem ao chamado Renascimento Carolíngio. Europa à China desde que Marco Polo a visitou, entre
1 275 e 1 292), e é hoje uma república da Federação Russa.
3 Orlando: herói principal das lendas carolíngias com
9
o nome de Roland, era um guerreiro severo e casto, pro­ Marsilio: rei sarraceno de Espanha, irmão de
tótipo ideal do cavaleiro cristão. Tombou na batalha de Galerana, mulher de Carlos Magno, de quem foi, ini­
Roncesvalles (778) . Sobrinho de Carlos Magno por cialmente, aliado. Posteriormente, uniu-se a Agramante
parte da mãe, é o seu mais bravo paladino. No poema de para invadir a França.
Ariosto, como no Orlando Innamorato, aproxima-se
mais do tipo do cavaleiro errante do ciclo bretão, sujeito 10
Vésper a Eos: Vésper é a estrela da tarde, aliás, o pla­
às paixões amorosas. neta Vénus, que surge no Ocidente e simboliza esse
ponto cardeal; Eos é a divindade que personifica a auro­
4 A { .. } equivalente: aquela que quase me fez o mesmo ra e simboliza o Oriente.
(a amada do poeta, Alessandra Benucci) .
11
Duque da Baviera: Namo, duque da Baviera, amigo de
5 Hercúlea prole: o cardeal Ippolito d'Este ( 1 479- infância de Carlos Magno, era o seu mais fiável conselheiro.
1 520) , filho de Ercole I e irmão de Alfonso II, duque de
12
Ferrara. Ariosto estava ao seu serviço em 1 5 1 6, quando Pdreo: corrida a pé, ou a cavalo, em que duas pessoas par­
publicou a primeira edição do poema, que lhe dedicou. tiam a par; o mesmo nome se dava ao prémio de tal corrida.
58 ORLANDO FURIOSO

13
Era [ . .} Montalvão: Rinaldo, primo de Orlando (cf. 26
Lírios de Ouro: elementos do brasão da França. Aqui,
8:2) , senhor do castelo de Montalvão (Montauban), e por antonomásia, a França.
também apaixonado por Angelica. Seu pai, Arnon,
27
duque de Dordonha, é irmão de Milon d'Anglant, pai de Galo: os Gauleses.
Orlando. Pelo nascimento, ambos descendem da casa de
28
Claramonte ( Clainnont). Diana [ . .} assome: Diana, deusa da caça, e Vénus,
deusa do amor, exemplos de aparições em cena, numa
14 Baiardo: cavalo já célebre na literatura cavaleiresca.
alusão às representações mitológicas, muito em voga nas
cortes no final do séc. XV, início do séc. XVI.
1 5 Ferraú: guerreiro sarraceno espanhol, sobrinho do
29
rei Marsilio, também apaixonado por Angelica. Sericano [ . .} nabateu: o vocábulo «sericano» designa
genericamente os povos orientais, isto é, da região da
16
Novo sol: Angelica. seda (latim sericum, t) ; os Nabaceus eram um povo de
origem árabe que se instalou no Noroeste da Arábia nos
17
A/monte: filho de Agolance e irmão de Galaciella, sécs. V-IV a. C. Pecra era a capital do reino, que atingiu o
por conseguinte, cio de Ruggiero. Foi morto em máximo esplendor no séc. I a. C. Foi subjugado pelos
Aspramonte por Orlando, que conservou o seu elmo e Romanos em 1 0 5 .
restantes armas.
18
3
° Cavaleiro de Anglante: Orlando, senhor do castelo de
Mambrino: inimigo de Carlos Magno morto por Anglante; na literatura francesa, seu pai era Milon
Rinaldo, que conservou o seu elmo como troféu. d'Anglanc.
19 31
A rgalia: irmão de Angelica, morto em duelo por Bradamante: filha de Amon, irmã de Rinaldo, e ena­
Ferraú. Este prometera-lhe, na hora da morte, que atira­ morada de Ruggiero.
ria as suas armas ao rio, conservando o elmo apenas
32
alguns dias, após o que lhe daria o mesmo destino; mas Albracca: fortaleza situada perco do Catai, onde
não cumpriu. O fantasma de Argalia vem agora resgatar Angelica, então apaixonada por Rinaldo, cuidara pes­
o elmo. soalmente de Baiardo.
20 33
Lanfosa: mãe de Ferraú. No tempo [ . .} desinteressado: os sentimentos entre
eles desencontraram-se, por terem bebido em fontes
21 Aspramonte: monte da Calábria (Itália) . Junto dele, diferences (cf. 77-78) .
Carlos Magno derrotou os Sarracenos comandados por
Agolante (morto ali por Orlando) ; batalha narrada no 34 Pica e tem atreito: esporear energicamente um cavalo e
poema francês Aspremont, e no italiano Aspramonte, de ao mesmo tempo apertar-lhe o freio firmemente é uma
Andrea da Barberino. técnica equestre comum para amansar um animal rebelde.
22
Senhor: Ariosro dirige-se ao cardeal Ippolito, a quem 35 Do seu [ . .} a sela: Angelica sai da garupa do cavalo e
a obra é dedicada. Fá-lo-á constantemente, ao longo do volta para a sela, antes ocupada por Sacripante (de cujo
poema, conservando assim vestígios do uso, ao tempo peso o animal fica aliviado).
ainda não de todo abandonado, dos cantores cavaleires­
36
cos populares, que se dirigiam com frequência ao seu De Amon o filho: Rinaldo.
auditório.
37
Ardenas: meseta densamente arborizada que se esten­
23
Mongibello: o Ecna. de pela Bélgica, França e Luxemburgo.
24 Circdssia: região russa a noroeste do Cáucaso, junto 38
Das batalhas [ . .} escudo: no Orlando Innamorato,
ao mar Negro. Agricane, rei da Tartária, assediara Angelica em Albracca
para a conquistar pela força, uma vez que ela desdenha­
25 Sacripante: rei da Circássia. Amante fiel e infeliz de va o seu amor. Consegue penetrar na fortaleza com tre­
Angelica, já a defendera no Oriente e seguiu-a até ao zentos cavaleiros; Sacripante, que convalescia de uma
Ocidente, para onde ela se deslocou em companhia de ferida, salta do leito conforme escava, mata os cavaleiros
Orlando. e obriga o rival à fuga.

CANTO II

Injustíssimo amor, por que é tão raro 4 - Estás a mentir ao chamar-me ladrão
fazeres corresponder nossas paixões? (disse o outro, não menos sobranceiro) ;
Por que razão, pérfido, te é tão caro os que a ti tal chamarem falarão
ver a discórdia entre dois corações? (pela fama que tens 1 ) em tom verdadeiro.
Não me levas ao rio tranquilo e claro, Provaremos aqui, com nossa acção,
só no mais fundo e mais escuro me pões: quem da dama e do corcel é herdeiro;
de quem quer meu amor, tu me desvias, mas quanto a ela, é o que disseste já:
e a amar quem me odeia me alicias. outra tão digna no mundo não há. -
2 Angelica a Rínaldo tornas bela, Como às vezes soem dois cães mordentes,
e ele a ela fazes feio e falace; por inveja ou outro ódio movidos,
quando o amava e belo era para ela, aproximar-se arreganhando os dentes,
odiava-a ele com o ódio mais tenace; com olhos turvos e incandescidos,
e, agora, em vão se aflige e se flagela. e depois se mordem, de raiva ardentes,
Desta arte foi igual o desenlace: rosnando, eriçados e entumecidos,
ela odeia-o, e o ódio é de tal sorte ofendem-se, e com espadas estão de fronte
que em vez de o ter preferia ter morte. o da Circássia e o de Claramonte.
3 Rínaldo ao sarraceno, desdenhoso, 6 Um a pé, outro a cavalo: faz tal
gritou: - Desce, ladrão, do meu cavalo! pensar que o sarraceno tem vantagem?
Tirarem-me o que é meu, deixar não ouso, Não tem nenhuma, pois ele assim vale
e a quem o quer faço caro pagá-lo; menos, talvez, do que um ingénuo pagem;
nem contigo a esta dama dou pouso: é que o corcel, de instinto natural,
deixar-ta, seria grande resvalo. não queria ao dono fazer vilanagem;
Corcel tão bom, dama de tal cariz, com mão ou esporas, não pode o circasso 2
com um ladrão julgo que não condiz. - fazer que ele dê a seu jeito um passo.
60 ORLANDO FURIOSO

7 Quando quer que avance, ele finca pé, 13 Pelos anos e o jejum debilitado,
e, se imóvel o quer, ele vai na mecha; um vagaroso jumento montava;
sob o peito a cabeça esconde até, parecia, mais que ninguém, ser dotado
as ancas empina e coices desfecha. de consciência escrupulosa e brava.
Mas vendo o sarraceno que não é Ao avistar o rosto delicado
a hora para domar da besta a pecha, da donzela que dele se aproximava,
as mãos firma no arção dianteiro, embora débil e pouco animosa,
e pelo esquerdo lado ao chão vai certeiro. toda se comoveu, de caridosa4 .
s Assim que o pagão, com ligeiro salto, 14 A dama ao fradeco pergunta a via
se livrou do obstinado Baiardo, por onde chegue a um porto de mar,
ali começou um bem digno assalto pois de abandonar França gostaria,
entre um par de campeões tão galhardo. para de Rinaldo nem ouvir falar.
Tinem um gládio e outro, baixo, alto: Bom conhecedor de necromancia,
de Vulcano o martelo era mais tardo não cessa o frade de lhe afiançar
na fúmea gruta, obrando na bigorna que em breve a liberta de todo o perigo;
os lampos de que Júpiter se adorna. e mão mete ao bornal que tem consigo.
9 Com golpes longos, curtos, e fingidos, 1s Tirou um livro que houve grande efeito:
mostram que mestres são daquele jogo; ainda nem uma folha tinha lido,
ei-los erectos, ei-los encolhidos, sai dele um espírito escudeiro feito,
eis que se cobrem ou se mostram logo; que de suas ordens é instruído.
recuam, ou avançam destemidos, Vai este, ao mágico poder sujeito,
golpes rebatem, ou dão desafogo, onde os cavaleiros duelo renhido
e em volta giram; e, onde um o pé tira, feras combatiam, com contumácia;
logo o outro prontamente o seu estira. e entre eles se mete com grande audácia.
10 Mas Rinaldo em peso, como um colosso, 16 - Diga-me um de vós (disse) , que eu escuto,
de espada em riste Sacripante investe; matarem-se um ao outro de que valha;
oferece-lhe este o escudo, feito de osso, qual é para vossas cuidanças o fruto
que temperada chapa de aço veste. quando terminardes esta batalha,
Trespassa-o Fusberta3 , conquanto grosso: se sem justar, o conde Orlando, astuto,
ressoa, gemendo pela selva agreste. nem da cota romper uma só malha,
A gelo se assemelham osso e aço, rumo a Paris acompanha a donzela
e fica ao sarraceno inerte o braço. por quem aqui lutais fátua procela?
11 Quando notou a tímida donzela
que o fera golpe causou tal ruína,
de temor mudou-se-lhe a face bela,
qual réu que a seu suplício se destina;
sente que ali não deve ficar, se ela
não quer de Rinaldo sofrer rapina;
desse Rinaldo que ela tanto odiava
quanto ele, a ela, desditoso amava.
12 Girando o cavalo, pela selva espessa
o lança, por estreita e íngreme via;
do branco rosto atrás girar não cessa,
parecendo-lhe que Rinaldo a seguia.
Um eremita que um vale atravessa
encontra, inda era há pouco fugidia:
as longas barbas cobriam-lhe o peito,
devoto e vetusto era o seu aspeito.
CANTO II 61

17 Uma milha atrás encontrei Orlando, 1s Havíeis de ter visto os dois turvar-se
que para Paris com Angelica ia, ao ouvir tal e, tristes e espantados,
rindo-se ambos de vós e motejando papalvos e cegos a si chamar-se,
porque debalde lutais à porfia. por serem pelo rival achincalhados;
Talvez mais vos conviesse ir procurando, e Rinaldo ao cavalo aproximar-se,
antes que se afastem, seguir-lhe a via; exalando suspiros inflamados;
se em Paris Orlando a consegue ter, e, de indignação e furor, jurar
não vo-la deixará jamais rever. - a Orlando o coração arrancar.
62 ORLANDO FURIOSO

19 Para onde o seu Baiardo espera passa, 25 E porque do rei de África batalha
monta-o, e só galopar o preocupa; e assédio espera, vai com ligeireza
nem ao que a pé está no bosque e ultrapassa buscando soldados e vitualha,
diz adeus, ou convida para a garupa. fossos cava e a muros dá firmeza.
O corcel fogoso investe e fracassa, Com presteza e azáfama agasalha
picado pelo dono, tudo o que entupa: tudo o que prevê lhe acresça a defesa:
não há fosso ou rio, nem rochedo ou espinho pensa a Inglaterra alguém enviar
que desvie o corredor do seu caminho. que gente traga para a tropa engrossar;
5
20 Que ora vos espante, senhor , não convinha, 26 pois quer regressar de novo à campanha,
se Rinaldo o corcel depressa pilha, voltar a tentar as sortes da guerra.
quando há já dias que atrás dele caminha Envia logo Rinaldo à Bretanha,
sem a mão poder deitar-lhe à presilha. a Bretanha depois dita Inglaterra.
Fez-se o corcel, que humano senso tinha, Ao paladim tal ida muito lanha:
não por birra seguir-se tanta milha, não é que tenha ódio àquela terra,
mas para guiar, para onde a dama ia, mas porque Carlos o manda a correr,
o seu senhor, que nomeá-la ouvia. sem ali parar um dia sequer.
21 Quando ela se escapou do pavilhão, 27 Nunca coisa fez tão contrariado,
Baiardo atenção lhe dava, matreiro, por não ser tal encargo de seu gosto:
sucedendo ter livre a sela então, assim de procurar lhe era vedado,
porque dela descera o cavaleiro girando ao acaso, o sereno rosto;
para combater a pé com um barão, porém, para que o rei fosse contentado,
que em armas como ele era ligeiro; ao caminho se fez que lhe era imposto;
à distância lhe foi seguindo os passos, a Calais em poucas horas chegou,
para a conduzir, do seu senhor, aos braços. e dali no mesmo dia embarcou.
22 Pretendendo levá-lo junto dela, 2s Ignorando os conselhos do barqueiro,
dele foi fugindo pela selva imensa; por ânsia do regresso que almejava,
deixá-lo não queria montar-lhe a sela, fez-se ao mar agitado e altaneiro,
para que a ir por outra estrada o não vença. que forte tempestade ameaçava.
Graças a si, Rinaldo, da donzela, Desprezo de tal modo sobranceiro
duas vezes em vão esteve em presença; ofendeu o Vento, que já soprava;
primeiro, Ferraú foi o estorvante, e o mar em volta com tal raiva ergueu
depois foi, como ouvistes, Sacripante. que até à gávea em água os embebeu.
23 No demónio que a Rinaldo mostrou 29 Descem os espertos homens do mar
da dama a pista de falso cariz, as velas grandes, querendo sem demora
também Baiardo, firme, acreditou, aos portos de onde partiram voltar,
e ao dono dá seus préstimos servis. pois de lá tinham largado em má hora.
De ira e amor aceso, o dono o lançou - Não posso (diz o Vento) tolerar
a toda a brida, direito a Paris; que com tanta ousadia vão embora -;
e de paixão tanto voa que lento e sopra e uiva e naufrágio ameaça,
lhe parece o cavalo e até o vento. e que, onde quer que vão, ele os rechaça.
24 Só de noite dá pausa àquele afã 30 Ora à popa ora à proa, às furtadelas,
que o leva em busca do senhor de Anglante: os fustiga, cada vez mais crescendo;
de tal modo creu na palavra vã para cá e para lá, com as curtas velas
do arauto do cauto necromante. vão girando e o alto mar percorrendo.
Cavalga sem parar tarde e manhã, Mas diversos fios em diversas telas
até ver aparecer Paris diante, mister me são, e urdir todos pretendo;
onde Carlos está, vencido, em apuros, Rinaldo deixo entregue ao seu afã
com as tropas que restam, entre muros. e torno a Bradamante, sua irmã.
CANTO II 63

31 Falo daquela ínclita donzela 32 Foi ela amada por um cavaleiro7


por quem Sacripante no chão jazeu; que de África veio com Agramante;
digna irmã desse cavaleiro é ela, do sémen de Ruggiero o fez herdeiro
que de Amon e Beatrice6 nasceu. a desditosa filha de Agolante8 ;
A grande força e o muito brio daquela ela, que de urso ou de leão grosseiro
não menos gosto à França e Carlos deu não descendeu, não desdenhou o amante;
(pois de mais que uma prova viu rescaldo) mas verem-se e falarem-se uma vez
que o grande valor do irmão Rinaldo. foi tudo de que a sorte os satisfez.
64 ORLANDO FURIOSO

33 Por isso Bradamante buscando ia 36 Por ter no coração aquele ardor


o amado, que o nome do pai herdara, de escutar do facto alheio a novela,
tão segura indo, sem companhia, ao cavaleiro foi de sua dor
como se grande exército a guardara; o motivo perguntar a donzela.
depois que o da Circássia por sua via Tudo lhe revelou em bom rigor,
o rosto da mãe Terra abalroara9 , motivado pelo modo cortês dela
um bosque atravessou e logo um monte, e o ar senhoril, que ao olhar primeiro
e achou em seguida uma fresca fonte. lhe pareceu ser de garboso guerreiro.
34 A fonte corria através dum prado 37 E começou: - Senhor, eu conduzia
que as umbrosas árvores adornavam; peões e cavaleiros para o local
os viajantes, com som delicado, onde Carlos por Marsilio atendia,
a beber e repousar convidavam; para junto ao monte ter estorvo frontal 1 º ;
abrigava-a um monte cultivado uma donzela comigo trazia,
dos raios que ao meio-dia abrasavam. por quem me inflamo de amor sem igual;
Ali, onde os olhos lançou primeiro, quando encontrei, junto a Rodonna 1 1 , armado,
a presença notou dum cavaleiro; um que cavalgava um corcel alado.
35 cavaleiro que à sombra do arvoredo, 38 Logo que aquele, seja mortal ladrão
na margem verde, vermelha, áurea e branca ou alma que ao Inferno se esquivou,
pensativo está, solitário e quedo, vê a eleita do meu coração,
e junto às límpidas águas abanca. como um falcão que para ferir voou,
O escudo e o elmo pendem do folhedo ágil desce e sobe, e, de supetão
da faia que ao cavalo faz de tranca; as mãos estendendo, com ele a levou.
olhos aguados, rosto derrubado, Não dera eu ainda pelo assalto,
mostrava-se dolente e alquebrado. quando o grito dela ouvi lá no alto.
CANTO II 65

39 Tal sói fazer milhafre predador 42 De longe, resplandece como chama:


ao pinto que com a mãe vai peniscando, de terracota ou mármore não parece.
a qual de seu descuido faz clamor, Mais me aproximo daquele panorama,
em vão lhe gritando e cacarejando. e a mais bela obra ali me aparece.
Seguir não posso um homem voador, Hábeis demónios (pude ouvir a fama) ,
entre montes e penedos me achando: chamados por fumos, carmes e prece,
cansado, o cavalo mal os pés muda, com aço o tinham em volta cercado,
e a pedregosa via não o ajuda. no fogo e água do Estige 1 2 temperado.
4o Porque menos cuidados me daria 43 Em aço tão brunido é cada torre
tirarem-me do peito o coração, que ferrugem ou mancha não ostenta.
deixei seguir caminho a companhia, Toda a Terra dia e noite percorre
sem meu comando e sem qualquer guião; ó ladrão, que lá dentro se afugenta.
por mais ou menos alta penedia, Tudo o que ambiciona em suas mãos morre 1 3 ,
de Amor tomei da via a sugestão, e em brados e lamentos não atenta.
para onde me parecia que o rapace A dama (o meu coração) lá retém,
o alento da minha alma transportasse. e esperança de a reaver não me vem.
41 Manhã à noite caminhei seis dias 44 Ai de mim! Que mais posso que mirar
por declives e penhascos estígios, ao longe o monte que meu bem encerra,
onde atalho não há ou outras vias, qual raposa que o filho ouve gritar
nem sinal achei de humanos vestígios; no ninho da águia, na alta serra,
um vale alcancei, entre penedias, e que asas não tendo para se librar,
antros e fraguedos de altos fastígios, o que fazer não sabe e em baixo erra?
que no centro, sobre um monte, um castelo Tão íngreme penhasco e tal castelo,
tinha, robusto e sumamente belo. só quem é pássaro pode acedê-lo.
45 Enquanto ali tardava, chegar vejo
dois cavaleiros e um anão a passo,
que esperança ajuntaram ao meu desejo;
mas esperança e desejo foram fracasso.
Eram guerreiros de grande traquejo:
um, o rei dos Sericanos 1 4 , Gradasso,
e o outro Ruggiero, jovem e forte,
muito prezado na africana corte.
46 «Vêm para de seu valor fazer prova
(disse-me o anão) com o castelão
que, de forma estranha, insólita e nova,
cavalga armado o alado alazão».
«Senhores (disse eu) , piedade vos mova;
de meu caso atroz tende compaixão!
Quando, tal como espero, o vencereis,
peço que a minha dama me entregueis».
47 Como me foi tirada lhes contei,
com lágrimas mostrando minha dor.
Deles, palavras de pesar escutei,
e desceram o escarpado pendor.
Toda a batalha de longe observei,
e a Deus supliquei para eles favor.
Sob o castelo media a planura
uns dois tiros de pedra de longura.
66 ORLANDO FURIOSO

48 Chegados ao sopé da penedia, 54 Dois guerreiros em terra e um no céu


um e outro queria ser o primeiro; batalharam até àquela hora
a Gradasso toca, ou por lotaria, que, ao espalhar-se pelo mundo escuro véu,
ou por ser Ruggiero menos ligeiro. todas as coisas belas descolora 1 5 •
O sarraceno no corno assobia: Assim foi, e nada aumento de meu:
ressoa o monte e o castelo cimeiro; eu vi, eu sei; mas inda hesito agora
e eis que surge o cavaleiro armado, em contá-lo; pois é prodígio tal
fora de portas, no cavalo alado. que mais que veraz parece irreal.
49 Começou pouco a pouco a elevar-se, 55 Com pano de seda tinha, coberto,
como soem as peregnnas gruas, no braço o escudo o cavaleiro celeste.
que fazem corrida antes de librar-se Não sei por que o não teria liberto
acima do chão uma braça ou duas mais cedo o cavaleiro daquela veste,
e, depois de no ar avoaçar-se, porque, no instante em que o mostra aberto,
batem pressurosas as asas suas. quem olhar, por força, entontece preste,
A tal altura o necromante ascende caindo como morto num instante,
que só a águia tão alto o ar fende. e ficando em poder do necromante.
50 Quando lhe pareceu, o corcel virou, 56 Como piropo o escudo resplandece,
que as asas fechou e caiu a prumo, e luz não pode haver mais esplendente.
qual falcão que para a caça se treinou No chão logo o clarão os estarrece,
quando vê pombo ou ganso alçar o rumo. com os olhos toldados e sem mente.
De lança em riste o cavaleiro baixou, De longe, o senso em mim também fenece,
o ar fendendo com ribombo sumo. e, quando me recompus finalmente,
Mal se apercebeu da queda Gradasso, já não vi guerreiros nem vi anão:
já ele lhe golpeava as armas de aço. vazio o campo, e escuros monte e chão.
51 Contra Gradasso o mago a lança rompe; 57 Pensei por isso que o encantador
Gradasso o vento fere e o ar vazio, os dois duma só vez colheu assim,
visto que o volátil não interrompe e que tirou, com uso do esplendor,
o bater de asas, sempre fugidio. liberdade a eles, e esperança a mim.
Ao duro choque, de garupa irrompe E àquele lugar, prisão do meu amor,
sua esbelta égua pelo chão macio. disse adeus, dali partindo por fim.
Tinha Gradasso uma égua, a mais bela Dizei-me pois se de amor pena par
e melhor de quantas usaram sela. a esta minha se pode encontrar. -
52 O voador às estrelas ascendeu; 58 Tornou ele, após fazer tal denúncia
girou e abaixo toste regressou, ao mesmo pranto de antes, sem quartel.
e atacou Ruggier, que por ele nem deu, De Anselmo d'Altaripa, de Mogúncia,
porque a Gradasso cuidados prestou. era este filho, o conde Pinabel;
Ruggiero, ao golpe, todo se encolheu, de sua gente era o de mais fedúncia,
e o corcel mais de um passo recuou, não somente descortês e infiel,
e, quando se voltou para o outro ferir, mas em vícios execráveis excedeu,
longe o avistou, ao céu a subir. mais que igualou, o parentesco seu.
53 Ora Gradasso ora Ruggiero fere 59 A bela dama, com expressão diferente,
na cabeça, nas costas e no peito, quando o mogonciacense 1 6 lhe falou
e as pancadas deles sempre difere, de Ruggiero, tudo escutou silente,
pois, tão ligeiro, é à vista estreito. e de aprazimento se iluminou;
Indo e voltando, amplas rotas desfere, mas, quando o soube de prisão sofrente,
finge a um ir e ao outro vai direito: de amorosa angústia se perturbou;
tanto a qualquer um a vista alucina e uma vez ouvir não a satisfez:
que não podem ver para que lado guina. teve de escutá-lo mais de uma vez.
68 ORLANDO FURIOSO

60 Quando por fim a coisa se fez clara, 66 E deu tal desculpa que o da mensagem
disse: - Cavaleiro, dá-te repouso; pareceu ter ficado contente e quedo.
pode minha presença ser-te cara, Ela o corcel mandou seguir viagem
tornando-te este dia venturoso. com Pinabel, que já não pareceu ledo,
Andemos já para aquela estância avara pois percebeu ser esta da linhagem
que nos esconde tesouro fabuloso; que tanto odeia em público e em segredo;
vã não será esta nossa fadiga, as futuras quezílias já prevê
se a Fortuna não for minha inimiga. - se ela um rnogonciacense nele vê.
61 Responde ele: - Tu queres que atravesse 67 Aos de Mogúncia e Clararnonte ernpeça
de novo os montes e te mostre a via? um ódio antigo e inimizade intensa;
Que passos em vão dê não me aborrece, uns aos outros cortaram a cabeça,
tendo perdido tudo o mais que havia; e sangue verteram em cópia imensa;
mas tu, por tal caminho, até parece o iníquo conde a esse ódio regressa,
que prisão buscas; seja, todavia. e trair a incauta jovem pensa;
Não podes depois queixar-te de mim, ou, se a ocasião surgir primeiro,
pois te avisei e queres ir mesmo assim. deixá-la só, seguindo outro carreiro.
62 E dito isto monta o cavaleiro, 68 E tanto lhe ocupou a fantasia
pois da dama ser guia tem por sorte, o ódio ancestral, a dúvida, o medo
que por Ruggier risco de cativeiro que por desatenção mudou de via;
assim vai correr, ou até de morte. e encontrou-se num escuro arvoredo,
Nisto, chega a correr o mensageiro, em cujo centro um alto monte havia
que: - Espera, espera! - grita em voz bem forte. encimado por áspero fraguedo;
Era o mesmo que disse a Sacripante mas a filha do duque de Dordonha20
quem o estendeu na erva num instante. segue-o perto, e em afastar-se nem sonha.
63 O mensageiro notícias a ela 69 Quando o de Mogúncia se vê no bosco,
de Montpellier 1 7 e de Narbonne 1 8 traz: a abandonar a jovem não resiste.
que alçaram a bandeira de Castela, Disse: - Antes que o céu se faça mais fosco,
e Aigues-Mortes 1 9 não lhe ficou atrás; melhor será que um abrigo se aquiste.
e que Marselha na ausência dela, Por trás desse monte, se bem o tosco,
sem quem a guarde, teme sortes más; um belo castelo no vale existe.
e conselho lhe pede e sua ajuda Espera aqui, que do cimo quero ir perto,
por este correio, para que lhe acuda. para com meus olhos ver bem se estou certo. -
64 Esta cidade e as milhas que partilha, 70 Assim dizendo, à altura superna
que do Var ao Ródano praia são, do despido monte o cavalo enrista,
tinha o imperador doado à filha procurando achar urna via alterna,
do duque Arnon, por sua admiração; para fazê-la perder a sua pista.
pois seu valor com grande maravilha Eis que no monte encontra urna caverna,
contempla, se ela a arma tem na mão. que a trinta braças de fundo se avista.
Agora de Marselha, corno eu disse, Aberta a picão, a direito corta,
veio o arauto pedir que acudisse. e lá em baixo avista-se urna porta.
65 Entre sim e não a jovem hesita; 71 Alta e larga era a porta lá em baixo,
se quer ou não voltar, dúvidas tem: que para um mais amplo aposento dava;
ali, a honra e o dever a incita, corno se houvesse ali aceso facho,
aqui, o amoroso fogo a retém. saía esplendor da montanha cava.
Que Ruggier livrará, por fim cogita, Enquanto o traidor olha, cabisbaixo,
do sítio encantado em que se mantém; a dama, que de longe o acompanhava
ou, não bastando a tal sua bravura, (porque perder o seu rasto temia) ,
ao menos ficar com ele em clausura. já perto da caverna lhe surgia.
CANTO II 69

n Vendo-se o traiçoeiro assim gorar


o intento que maquinara em surdina,
de afastá-la de si ou de a matar,
nova ideia lhe surge repentina.
Saiu-lhe ao encontro, e fê-la trepar
para onde o oco monte mais se inclina;
e disse-lhe que vira lá no fundo
uma donzela de rosto jucundo,
73 que pelo aspecto e pela rica roupagem
aparentava nobre condição;
mas que tão infeliz tinha a imagem
que ali estaria por contradição;
para do caso fazer aprendizagem
já tentara descer o alçapão;
porém, que saiu um da gruta interna
que a compeliu a entrar na caverna.
74 Bradamante, que tanto era animosa
quanto era incauta, no traidor fez fé,
e, de ajudar a outra desejosa,
buscou maneira de lá pôr o pé.
Eis que num olmo de copa frondosa,
erguendo os olhos, longo ramo vê;
puxa da espada, corta o longo troço,
e fá-lo mergulhar naquele poço.
75 A ponta então a Pinabel confia,
e, com afoiteza, o ramo apreende;
adiante os seus pés no poço enfia,
e todo o corpo pelos braços suspende.
Pergunta-lhe Pinabello, e sorria,
como ela salta; e as mãos abre e estende,
dizendo: - Aqui estivesse a tua gente,
para eu vos acabar com a semente! -
76 Não foi como Pinabel pretendeu
daquela donzela inocente a sorte;
porque, precipitando-se, bateu
lá em baixo antes dela o ramo forte.
Despedaçou-se, mas amparo deu,
e com sua ajuda a salvou da morte.
Aturdida a jovem ficou um tanto,
como vos contarei no outro canto.
70 ORLANDO FURIOSO

NOTAS
-&!lfi,:-
1 Pela [. . .] tens: nas canções de gesta, Rinaldo andava 1 1 Rodcnna: cidade de localização imprecisa; talvez
sempre desprovido de dinheiro, não hesitando em recor­ Rhodumna, a sul do Loire, identificada por Ptolomeu na
rer ao roubo e ao saque para colmatar essa carência. sua Geografia.
2 12
Circasso: circassiano. Estige: rio dos Infernos, que tornava invulnerável
tudo o que nele era mergulhado.
3 Fusberta: espada de Rinaldo.
13
4 Embora [. . .] caridosa: a consciência, irónicamente. Em [. . .] morre: vai-lhe parar às mãos.
14
5 Senhor: Ariosto dirige-se ao cardeal Ippolito (cf. nota Sericanos: cf. nota a 1: 55:4.
a 1:40:2) . 1 5 Àquela hora [. . .] descolora: Ariosto reproduz uma das
6 Beatrice: Beatrice di Baviera, mulher de Amon, mãe passagens mais poéticas da Eneida (Vl:271 -272) .
de Rinaldo e Bradamante. 16
Mogonciacense, ou mogoncíaco: da cidade de
7 Um cavaleiro: Ruggiero. Os amores de Ruggiero e Mogoncíaco ou Mogôncia, acrual Mainz ou Mogúncia,
na Alemanha.
Bradamante têm breve início no Orlando lnnamorato.
Conhecem-se, acompanham-se durante um percurso em 17
Montpellier: cidade do Sul de França, capital da
que contam um ao outro as suas histórias, descobrem os região de Languedoc-Roussillon.
rostos e apaixonam-se, mas logo o destino os separa.
18
8 Narbonne: cidade do Sul de França, na costa medi­
Desditosa filha de Agolante: Galaciella, mãe de
terrânica, a sudoeste de Montpellier.
Ruggiero. Casou com Ruggiero II de Risa contra a von­
tade da família, e por isso foi banida. 19
Aigues-Mortes: cidade francesa situada junto ao delta
9 do Ródano, na zona da Camargue.
O da Circdssia [. . .] abalroara: Sacripante, que
Bradamante derrubou da sela. 20
Duque de Dordonha: Amon, pai de Bradamante.
10
Onde [. .. ]frontal: onde Carlos Magno ànha as tropas,
no sopé dos Pirenéus, para interceptar o exército do rei
Marsilio quando este descesse os montes, vindo de Espanha.
-.­
CANTO III

Quem a voz e as palavras me dará


que convenham a tão nobre sujeito?
Quem ao verso asas emprestará
para que voando ele eleve o meu preito?
Maior inspiração me convirá
que venha agora incendiar-me o peito;
pois esta parte ao meu senhor 1 se deve,
que canta a estirpe onde ela origem teve;
2 do que ela, de quantos senhores ilustres,
pelo Céu eleitos para reger a Terra,
não vês, ó Febo2 , dentre os mais industres,
mais gloriosa prole, em paz ou guerra;
nem quem por mais séculos os seus lustres
guardou3 , e guardará (se em mim não erra
o que o profético lume me inspira)
enquanto em redor do pólo o céu gira.
3 E, para lhe dizer todos os louvores,
a cítara te peço, que sobraças,
com que após os gigantescos furores4
ao pai dos deuses tu rendeste graças.
E se de outros arnanhos dador fores,
e para a pedra5 esculpir tu me espicaças,
eu nestas belas imagens me empenho
com todo o esforço e todo o meu en genho.
72 ORLANDO FURIOSO

4 Entretanto, alguns fragmentos miúdos 10 É esta a antiga e famosa gruta


tirarei com meu tosco escopro a eito; que edificou Merlim, o sábio mago
talvez venha, com mais constantes estudos, cuja recordação inda se escuta,
a tornar este trabalho perfeito. onde o enganou a Dama do Lago.
Mas voltemos àquele a quem nem escudos Este é o sepulcro onde jaz corrupta
nem couraças hão-de salvar o peito: a matéria sua; onde ele, aziago,
de Pinabello de Mogúncia falo, para a satisfazer, que lho suplicou,
que a dama creu matar com tal resvalo. vivo se meteu, e morto ficou.
Imaginou o traidor que a donzela 11 Corpo morto e espírito vivo alberga,
no fundo do poço estivesse morta, à espera de soar do anjo a tromba
e pálido se distanciou daquela que clo C:éu o proscreva, ou lá o erga,
triste e por ele contaminada porta; dependendo de ele ser ou corvo ou pombaª .
ligeiro voltou a montar na sela Vive inda a voz; e quão clara se enxerga
e, como não evita a alma torta verás, quando do túmulo retomba:
ao crime outro juntar ou agravá-lo, que as coisas passadas e que hão-de vir
de Bradamante levou o cavalo. sempre responde, a quem lhe vem pedir.
6 Deixemo-lo, que ao ódio dá guarida 12 Já estou há tempo neste cemitério,
e ardil tece, enquanto a morte procura; de terra distante proveniente,
e voltemos à dama que, traída, para que do meu saber grande mistério
quase ali achou morte e sepultura. me tornasse Merlim mais evidente;
Quando do chão se ergueu, entontecida e, porque ver-te foi para mim império,
da queda que findara em pedra dura, mais um mês cá fiquei do que o assente;
a porta atravessou, que acesso dava Merlim, que o certo sempre anunciou,
à outra assaz mais dilatada cava. tua vinda neste dia fixou. -
7 A sala, quadra e ampla, faz lembrar 13 Atónita estava de Amon a filha,
uma igreja devota e majestosa: calada e atenta ao discorrer dela;
colunas de alabastro singular em seu coração há tal maravilha
arquitectura amparam, grandiosa. que não discerne se sonha ou se vela;
Ao centro eleva-se um formoso altar, as suas pálpebras de pudor cilha
que em frente tem candeia luminosa; (pois era muito modesta a donzela)
o esplendor da luz que ali cintilava .e diz: - Mas que mérito tenho eu,
os dois aposentos iluminava. para se profetizar o porvir meu? -
s Humildade a devota dama toca, 14 E, leda da insólita aventura,
ao achar-se em lugar sagrado e pio, ligeira seguiu os passos da maga,
e logo ajoelhando Deus invoca, que a conduziu àquela sepultura
e de alma e boca preces proferiu. que de Merlim alma e ossos afaga.
Nisto, uma porta- que em frente se entoca Era feita a arca de pedra dura,
range e chia, e uma dama6 saiu, tersa e rubra, donde um clarão divaga;
descalça, soltas vestes e melena, tanto que à sala, que o sol não beijava,
que pelo nome a saudou em voz serena. dava esplendor o fulgor que emanava.
9 E disse: - Ó generosa Bradamante, 1 5 Seja de algumas pedras natureza
por divino poder vinda até mim, afugentar as sombras, como velas,
de ti há dias foi vaticinante ou fosse o poder de fumos e reza,
o vidente espírito de Merlim7 , ou o efeito de observar as estrelas
que suas relíquias vinhas, errante, (o que me parece ter mais certeza) ,
visitar por insólito confim; desvelava o esplendor mais coisas belas
e aqui me encontro para os destinos teus de pincel e de escultura que, em torno,
te revelar, tal os querem os Céus. ao augusto lugar davam adorno.
CANTO III 73

16 Mal Bradamante entrou naquela cela 17 O sangue antigo que de Tróia vindo,
e na secreta gruta penetrou, pelas duas melhores vias em ti misto9 ,
do mortal corpo o espírito que vela a suprema jóia irá produzindo,
com voz claríssima pronunciou: de entre as linhagens que o Sol haja visto
- Ó casta e nobilíssima donzela, do Nilo ao Danúbio, do Tejo ao Indo,
tua vida a Fortuna bafejou; e o que entre Antárctico e Arctico avisto.
teu seio abrigará germe fecundo Na tua linhagem terão honores
que a Itália honrará e todo o mundo. marqueses, duques e imperadores.
74 ORLANDO FURIOSO

1s Os capitães e cavaleiros robustos 20 Calou-se aqui Merlim e, circunspecto,


dela sairão, que, com espada e peito, a maga deixou sua arte obrar:
à Itália os antigos honores vetustos a Bradamante queria ela o aspecto
das invictas armas darão, a eito. de todos os seus herdeiros mostrar.
E terão ceptro os senhores justos, Um bando de espíritos tinha afecto,
que ao sábio Augusto e a Numa 1 1 farão preito. não sei se infernais se de outro lugar,
Em seu benigno reinado vindouro os quais todos num sítio estavam postos,
farão regressar a idade do ouro. com vestes várias e diferentes rostos 1 2 •
19 Para que se cumpra a vontade do Céu 21 Chama a donzela de volta à igreja,
no que a ti respeita, que para mulher onde um círculo traçado se via,
de Ruggier desde sempre te elegeu, para que dentro, deitada, se proteja,
que teu caminho sigas é mister; ficando ainda um palmo em demasia.
nada impedirá o desejo teu, Por que a salvo dos fantasmas esteja,
nem logrará teu intuito empecer dum pentáculo lhe dá garantia;
de prostrar dum só assalto por terra diz-lhe que em sigilo fique a olhá-la,
o ladrão que em seu castelo o encerra. - depois abre o livro e aos demónios fala.
CANTO III 75

22 Eis que do primeiro aposento avança 23 - Se de cada um nome e feitos digo


gente que no sacro círculo roça; (dizia a feiticeira a Bradamante)
mas entrar nele, porém, não alcança, destes, que dos espectros ao abrigo,
como se ali houvera muro ou fossa. antes que nasçam já nos estão diante,
À sala que ao sepulcro dá bonança, não sei quando daqui te desobrigo,
que dos ossos do profeta se empossa, que uma noite a tanto não é bastante;
iam os demos que já dado haviam assim, de alguns te farei selecção,
três voltas ao cerco, como deviam. de acordo com o tempo e a conjunção.
76 ORLANDO FURIOSO

24 Olha o primeiro, que a ti é parecido 30 Será do enlace digno por virtude;


no belo semblante e na alegre traça: em sua idade é coisa não mesquinha28
por ti e por Ruggiero concebido, que quase meia Itália em dote mude,
plantará em Itália a tua raça. e, de Enrico primeiro, a sobrinha.
Tornar pelo sangue de Ponthieu 13 tingido Eis de Bertoldo o filho, e se saúde
o chão, é meu augúrio que ele o faça, Rinaldo teu, o qual terá mezinha
assim vingando a afronta e o torto para a Igreja pôr a salvo, como rocha,
daqueles por quem seu pai será morto. do ímpio Frederico Barba-Roxa.
2s Por sua acção há-de ser destronado 31 Eis outro A:zzo, e é o que Verona
o rei dos Longobardos, Desiderio; possuirá com seu bel território;
de Este e de Calaon lhe há-de ser dado também será feito marquês de Ancona
o domínio, por dom do sumo Império 14 • pelo quarto Otão e o segundo Honório29 •
Por teu neto Uberto 1 5 é acompanhado, Tempo leva todos trazer à tona
honra das armas do país hespério 16 ; do sangue teu a quem o consistório
em quem encontrará quem a proteja o pendão dará, e cada peleja
de assaltos bárbaros a santa Igreja. que vencerão pela romana Igreja.
26 Vê Alberto, o invicto capitão
que de troféus tanto templo ornará;
com ele Ugo 1 7 , seu filho, que Milão
para o pendão das serpentes 1 8 ganhará.
O outro é Azzo 1 9 que, depois do irmão,
no país dos fnsubres20 reinará.
Eis Albertazzo2 1 , que a outro alvitrou22 :
de um Berengario e outro23 nos livrou;
27 digno é, se o imperador Otão
de sua filha Alda a mão lhe der24 .
Vê, outro Ugo25 : bela sucessão,
que do paterno valor não difere!
Será este quem, por boa razão,
aos Romanos o alto orgulho fere:
liberta Otão terceiro e o papado,
pondo fim a assédio tão pesado.
2s Este é Folco 26 , que ao irmão, num instante,
o que em Itália tinha tudo deu,
para ir possuir em terra distante,
entre os Alamanos ducado seu;
e da Saxónia foi colaborante,
que sua estirpe varonil perdeu;
por linha de sua mãe ali veio,
e com a sua prole lhe deu esteio.
29 De A:zzo segundo e os filhos é hora,
que mais cortês que guerreiro será;
Bertoldo e Albertazzo 27 vês agora.
Um, Enrico segundo vencerá,
e de sangue alemão ensopa e cora
todo o campo que Parma em torno há;
do irmão a condessa gloriosa,
Matilde, sábia e casta, será esposa.
CANTO III 77

32 Obizzo, Folco, Azzo e Ugo outros há; 38 Vê Rinaldo43 , que resplendor não tole
Enrico pai e filho olha entretanto; ao valor da raça, a não ser que seja,
Guelfos são dois: um a Úmbria terá, por tanta exaltação da tua prole,
e também de Spoleto o ducal manto 30 • ou Morte ou Fortuna capaz de inveja.
Eis quem o sangue e as feridas secará Que Nápoles da dor o eco evole,
de Itália, convertendo em riso o pranto; quando refém por seu pai ali esteja44 .
deste falo (e aponta-lhe Azzo quinto 3 1 ) , Eis Obizzo, que, jovem e fagueiro,
que Ezzelino fará cativo e extinto. deverá ser de seu avô herdeiro45 •
32
33 Ezzelino, o implacável tirano 39 Junta a seu domínio, para o ver maior,
que foi tido por filho do demónio, Reggio alegre e Modena feroz46 •
causará a seus súbditos tal dano, Tal valor terá que para seu senhor
e destruição do país ausónio 33 , o chamarão os povos, a uma voz.
que piedosos são, postos no seu plano, Vê Azzo sexto, o filho: com honor,
Mário, Sila, Nero, Caio e António 34. ao pendão da cruz cristã dará prós;
Federico segundo, imperador, dá-lhe o ducado de Andria em partilha
terá neste Azzo o seu vencedor. Carlos da Sicília, com sua filha.
34 Este reinará com mais feliz ceptro 4o Acolá a excelência em grau supino
a bela terra à beira do rio 35 , de príncipes ilustres se condensa:
onde Febo carpiu com triste plectro Nicolà coxo, Obizzo, Aldobrandino,
o filho, que o carro mal conduziu36 , e de Alberto, tão clemente, a presença.
e o mítico âmbar se chorou, tetro, Para não te deter muito, não te ensino
e Cicno de alvas plumas se vestiu37 ; como a seu reino acrescerão Faenza47 ,
e aquela, de muitas obras mercê, e, por mais tempo, Adria, que nomeia
lhe será dada pela Santa Sé38 • o mar rebelde que o país ladeia48 ;
35 Que direi do irmão, Aldobrandino 39 ? 41 e essa terra que, por ser rica em rosas,
Que para o pontífice defender, belo nome mereceu de gregas vozes49 ,
de Otão quarto e do bando gibelino, e a outra que, no meio das piscosas
ao Capitólio pronto há-de acorrer, águas, teme do Pó ambas as fozes 50 ,
tudo em redor tomando, de contínuo, e onde habitam gentes desejosas
e em Umbros e Picenos40 freio ter; de mar alteroso e ventos atrozes 5 1 •
como para os ajudar não terá tença, Calo de Argenta, Lugo e mais aldeias
forçoso será que a peça a Florença; e vilas, de população tão cheias.
36 não tendo jóia ou valor que se veja, 42 Vê Nicolà 52 , que ainda juvenil,
como garante dará seu irmão4 1 • o povo quer senhor da sua terra,
O seu vitorioso pendão adeja, e anula a ideia de Tideu53 hostil,
por vencer o exército alemão; o qual contra ele as armas aferra.
o trono há-de devolver à Igreja, Há-de ser deste a diversão pueril
dando aos de Celano fustigação; treinar-se nas armas e para a guerra;
mas, ao serviço do sumo Pastor, e dos estudos desses tempos primeiros
findará sua vida ainda em flor. sairá a fina-flor dos guerreiros 54 •
37 Será Azzo, seu irmão, que herdará 43 Dos seus rebeldes por ele será roto
o domínio de Ancona e de Pisauro, o fito, que lhes tornará em dano;
das cidades que desde o Tronto há, usará de estratagema tão noto
do Apenino ao mar, até ao lsauro42 ; que difícil será fazer-lhe engano.
grandeza de espírito e fé terá, Tarde se aperceberá Terzo Oto 55 ,
e maior valor que gemas ou lauro: de Reggio e de Parma cruel tirano,
pois doutros bens a Fortuna é senhora; por ele despojado duma só vez
só a virtude seu poder ignora. do poder e duma vida soez.
78 ORLANDO FURIOSO

44 O bom reino há-de ser sempre crescente, 50 mas porque lhes dará ínclita prole:
sem tirar pé do caminho direito; Alfonso justo e Ippolito 65 benigno,
nem nunca a ninguém dará acidente, modelo dos quais os filhos de escol
se dele antes não receber despeito; de Tíndaro e do cisne é deles digno:
o Grande Motor56 por tal está contente cada um à vez se priva do sol,
e não o tem a limite sujeito: para seu irmão poupar ao ar maligno.
mas que dure e que prospere é mister, Será cada um deles assaz forte
enquanto em esferas o céu se mover. para o irmão salvar, com sua morte66 •
45 Vê Leonello 57 , e o duque primeiro, 51 O grande afecto deste belo par
o ínclito Borso, que foi capaz fará sentir o povo mais seguro
de, em paz ficando quedo, ser obreiro que se Vulcano duplo anel forjar
de mais triunfos que um qualquer pugnaz. de ferro, e dele lhes cercar o muro.
Marte encerrará em escuro telheiro, Alfonso, ao seu saber, tão exemplar
e as mãos ao Furor atará58 , tenaz. bondade acrescerá que, no futuro,
O intento deste príncipe perfeito j ulgar-se-á que do céu regrediu
é que seu povo viva satisfeito. Astreia67 , para onde há gelo e estio68 •
46 Ercole 59 chega, que em rosto lançou 52 Muito lhe valerá o ser prudente,
ao vizinho 60 , enquanto vai manquejando, e no valor ao pai assemelhado;
que as tropas em dispersão lhe salvou pois o assaltarão, falto de gente,
em Budrio, seu peito e cara dando, as legiões venezianas dum lado,
não sendo guerra a paga que esperou, e de outro aquela69 que de justamente
e que o seguisse até Barco o seu bando. madrasta ou mãe chamar tenho hesitado;
Não saberei dizer, deste senhor, se mãe, é como Procne tão ruim
se em guerra ou paz honra terá maior. e Medeia7° , que aos filhos deram fim.
47 Calabreses e Lucanos terão, 53 Dia ou noite, quantas vezes sairá
e os Apulianos, dele memória, com seu povo fiel da sua terra;
por o terem visto ao rei catalão que memoráveis derrotas dará
ganhar, em duelo, a primeira glória6 1 ; aos inimigos, por mar e por terra.
o título de invicto capitão A Romagna, imprevidente, fará
conquistará, com mais de uma vitória; aos vizinhos, outrora amigos, guerra,
à senhoria já tinha direito 62 do seu sangue se tingirá o solo
trinta anos antes, quando foi eleito. entre o Pó, o Santerno e o Zanniolo7 1 •
48 Toda a mercê que uma terra dar possa . 54 Nos mesmos confins há-de comprová-lo
a um príncipe lhe será devida; do Papa o mercenário castelhão,
não porque da palude a desempossa, que lhe tomará com pouco intervalo
e em campo fértil é enriquecida; a Bastia, matando o castelão72
não porque na sua área a engrossa depois de, infractor, aprisioná-lo;
e de muralhas a faz protegida, não restará soldado ou capitão
por templos e palácios ter erguido, que da reconquista e morte geral
e praças e teatros construído; possa levar até Roma sinal.
49 e não porque das garras do audaz 55 Será este, com senso e corri. a lança,
Leão Alado63 lhe dará defesa, que honra terá, nos campos da Romagna,
ou quando a face gaulesa, falaz, de ter dado ao exército de França
houver de fogo toda a Itália acesa, vitória contra Júlio e contra a Espanha73 •
neutral estará, com o seu estado em paz, Submersos os corcéis até à pança,
de temores e de tributos ilesa64 ; em sangue humano nadam pela campanha;
não só por estas obras benfeitoras para os mortos enterrar não bastarão
lhe serão suas gentes devedoras, franco, hispano, grego, ítalo e alemão.
CANTO III 79

56 Aquele que em veste pontifical 57 Alumiará sua progénie bela,


na cabeça purpúreo chapéu toma como o Sol faz à máquina do mundo
é o sublime, bondoso e liberal muito mais que a Lua ou que qualquer estrela;
grande cardeal da Igreja de Roma, pois outro qualquer lume lhe é segundo.
Ippolito, que em prosa, verso ou tal Com poucos a pé e menos em sela
lembrado será, em cada idioma; vejo-o partir flébil, tornar jucundo:
a cuja florida idade o Céu justo quinze galés, que lhe eram ofensivas,
quis dar um Marão, tal como à de Augusto 7' . mais mil naves, à praia traz cativas75 •
80 ORLANDO FURIOSO

58 Dois Sigismondi76 vês passar agora. 64 A audaz dama ali permaneceu


De Alfonso os cinco filhos ora vão; a inteira noite, em parte passada
que sua fama vá pelo mundo fora a falar com Merlim, que a convenceu
montes ou mares jamais obstarão: a Ruggiero socorrer, apressada.
genro do rei de França, passa agora Quando novo lume o ar acendeu,
Ercole segundo 77 ; Ippolito78 , o irmão, a caverna abandonou, confiada,
a seguir, que, com idêntica imagem por um caminho muito tempo cego,
à de seu tio, dará brilho à linhagem. tendo da espiritual dama apego.
79
59 Francesco, o terceiro ; e Alfonsi, a par, 65 Chegaram a um penedo escabroso,
80
vão ali dois • Mas como disse acima, entre montanhas impérvias às gentes;
se toda a tua prole te apresentar, e, todo o dia sem se dar repouso,
cujo valor tua estirpe sublima, transpuseram declives e torrentes.
muitas vezes terá de se apagar Para ser o caminho menos penoso,
e aclarar o céu, para que tos exprima; conversas entretêm entrementes,
já são horas, se não te desagrada, daquelas que, por seu fluir suave,
que os demos despeça e fique calada. - tornavam o percurso menos grave;
60 Assim, com o acordo da donzela, 66 das quais era, porém, a maior parte
a douta feiticeira o livro cerra. as com que a douta maga a Bradamante
Logo correm os espectros para a cela mostrava toda a astúcia e toda a arte
onde a bela arca os ossos encerra. que para salvar Ruggiero era bastante.
Bradamante, quando a palavra dela - Se fosses (dizia) Palas ou Marte82 ,
recuperou, logo os lábios descerra, e de mais tropas houvesses garante
dizendo: - Quem são, qual deles mais triste8 1 , que Carlos e Agramante, não podias
os que entre Ippolito e Alfonso viste? ter contra o necromante regalias;
61 Suspirando iam, olhos no chão, 67 pois, além de ser rodeada de aço
de toda a intrepidez abandonados; a invencível cidadela, e alta;
e vi que desviava cada irmão além de o seu corcel lançar o passo
os passos deles, deles afastados. - para os ares, onde galopa e salta;
Ouvindo esta pergunta, de antemão tem o mortal escudo, que, sem chumaço,
foram da maga os olhos marejados; clarão difunde que os olhos assalta,
gritou: - Desgraçados, a quanta pena da vista os priva, turvando os sentidos,
o instigar de homens vis vos condena! e como mortos nos deixa estendidos.
62 Ó bondosa prole de Ercole bom, 68 E, se acaso imaginas que te valha
não vença o seu erro a vossa bondade, cerrar os olhos enquanto abordoas,
que os vis de vosso sangue têm o tom; como poderás saber, na batalha,
deixai que a justiça ceda à piedade. - quando o evitas ou o abalroas?
E acrescentou falando em baixo som: Mas para escapar ao brilho que embaralha,
- De mais te dizer não tenho vontade. e para que os outros feitiços esmoas,
Guarda na boca o doce, e não te doas sei dum remédio que protecção presta;
se amargar-te não quero as coisas boas. nem há outra no mundo senão esta.
6 3 Ao luzir no céu a primeira luz, 69 Agramante trouxe de África um elo,
vamos pela via que o monte ladeia roubado na f ndia a uma rainha83 ;
e ao belo castelo de aço conduz, deu-o a um barão, um tal Brunello,
em que Ruggiero está em mão alheia. que poucas milhas à frente caminha;
De companheira e guia farei jus, tem tal poder que é só no dedo tê-lo
até que venças esta selva feia; e todo o feitiço logo definha.
depois te ensinarei, à beira-mar, De furtos e ardis, Brunel sabe tanto
tão bem a via que não hás-de errar. - como o que tem Ruggier preso de encanto.
CANTO III 81

70 Este Brunello, sabido e astuto


como digo, foi por seu rei mandado
para que com seu engenho e usufruto
do anel, em tais coisas já usado,
possa tirar Ruggier daquele reduto
em que está; pois disso se tem gabado
e juramento fez ao seu senhor,
o qual Ruggiero estima com fervor.
71 Para veres que Ruggier de ti não se alheia
e sim de Agramante, quando deixar
do encantado cárcere a ameia,
vou-te ensinar a medida a tomar.
Três dias andarás sobre a areia
do mar, que estamos quase a avistar;
ao terceiro, a um albergue contigo
chegará o que o anel tem consigo.
n Para que o conheças, ele de estatura 75 Assim falando, chegaram ao mar,
uns palmos tem; o cabelo pontudo na foz do Garona, de Bordéus perto.
é de negra cor, sendo a pele escura; E, depois de um pouco lacrimejar,
pálido o rosto, em excesso barbudo; apartaram-se as damas por concerto.
protuberante e vesga a olhadura; A filha de Arnon, que para libertar
chato o nariz, o sobrolho lanzudo; o amante da prisão está em aperto,
o traje, pois nada te seja alheio, tanto avançou que uma noite chegou
é estreito e curto como o de um correio. a um albergue onde Brunel achou.
73 De discorrer sobre esse mago a eito 76 Quando vê Brunello, conhece-o logo:
há-de-se apresentar ocasião; sua forma tinha esculpida na mente;
mostra que queres, e assim é com efeito, donde vem, para onde vai, faz-lhe rogo;
com o mago lutar de tua mão; responde ele, mas em tudo lhe mente.
mas que sabes disfarça, com preceito, A dama, prevenida, faz o jogo
que o anel tem que faz o encanto vão. da mentira, simulando igualmente
Dirá que está pronto a mostrar-te a via pátria, nome, fé, sexo e ascendência;
que ao forte leva, e dar-te companhia. e olhares às mãos lhe lança com frequência.
74 Vais atrás dele, e, quando se avizinhe 77 Os olhos às mãos dele vai deitando,
o ponto donde se avista o castelo, sempre receosa de ser roubada;
dás-lhe morte; que o dó não te amesquinhe: nem deixa que ele se vá aproximando,
o meu conselho cumpre com desvelo! da sua vocação bem informada.
Não deixes que o teu intento adivinhe, Juntos deste modo se achavam, quando
e tenha tempo para o anel escondê-lo; aos ouvidos chegou grande atoada.
deixava de estar a teus olhos exposto, Já vos direi, senhor, qual foi a causa,
se o anel na boca tivesse posto. - depois de ao meu cantar dar justa pausa.
82 ORLANDO FURIOSO

NOTAS

1 Meu senhor: Ippolito d'Este. 13 Sangue de Ponthieu: o sangue dos senhores do caste­
lo de Ponthieu (lugar de localização incerta) , isto é, da
2
Febo: Apolo, invocado como divindade solar (ilus­ casa de Mogúncia, por quem Ruggiero virá a ser morto.
tres - verbo ilustrar, do latim illustrare, iluminar) e tam­
14 Sumo Império: Carlos Magno dar-lhe-á o domínio
bém como deus da poesia.
daqueles dois castelos do Véneto, como recompensa pela
3
Mais [. . .} guardou: a casa d'Este teve as suas origens sua vitória sobre os Longobardos. Do primeiro deles
no séc. XI, mas Ariosto, ao associá-las a Ruggiero e deriva o nome da casa d'Este.
Bradamante, e com ascendente em Heitor, fá-la remon­
tar aos Troianos. 1 5 Uberto: personagem imaginário. A genealogia da
família d'Este apresentada por Ariosto é, em parte, fan­
4 Gigantescos furores: luta entre Zeus, apoiado pelos tasiada, inexacta ou incerta.
deuses olímpicos, e os Titãs, que tinham tomado o poder
no Olimpo. 16 Pais hespério: a Itália, desi ada Hespéria pelos G os, por
gn reg
lhes ficar a ocidente. Héspero, na mitologia grega, é o génio da
5 Pedra: A escultura como metáfora da história da Estrela da Tarde (planeta Vénus), que simboliza o Ocidente.
família d'Este, que Ariosto se propõe «esculpir».
17 Ugo: personagem histórico. Foi marquês e conde de
6 Uma dama: a maga Melissa, mas Ariosto só desven­ Milão ( 1 02 1) .
dará o seu nome em VII:66:6.
18
Pendão das serpentes: alusão à serpente do antigo bra­
7
Merlim: personagem lendária do Ciclo Bretão a são dos Visconti, que foi depois símbolo de Milão.
quem é atribuída a instituição da Távola Redonda, e
19
que apoiava a resistência do rei Artur contra os Saxões. Azzo: personagem histórico. Alberto Azzo 1.
Em inícios do séc. xiii a sua lenda inseriu-se na do Santo
20
Graal. O mago Merlim construiu uma arca onde o seu fnsubres: antigos habitantes da região da Lombardia,
corpo e o da sua amada, a fada Viviana - irmã da fada no Norte de Itália.
Morgana - , se conservariam invioláveis até ao dia do
21
juízo final, pois uma va. encerrada ninguém a poderia Albertazzo: Alberto Azzo II (996- 1 097) , considerado
abrir. Conhecedora dessa magia, Viviana (a Dama do o verdadeiro fundador da casa d'Este, pois foi o primei­
Lago) , que o não amava, persuadiu-o a entrar na arca e ro a habitar o castelo de onde lhe veio o nome. Era filho
encerrou-o nela para sempre. Do seu interior, Merlim de Alberto Azzo 1.
passou a prever o futuro dos que o vinham interrogar.
22
A outro alvitrou: Ariosto supõe que ele teria sugerido
8
Corvo ou pomba: pecador proscrito ou alma cândida. a Otão i, rei da Germânia, que descesse à península itá­
lica para derrotar Berengario pai e Berengario filho,
9 Em ti misto: pelo matrimónio de Bradamante e livrando deles a Itália.
Ruggiero dava-se a união dos dois melhores ramos de
descendência de Heitor, pois ambos provinham de 23 De um Berengario e outro: Berengario I reinou desde 888
Asdanax, filho de Heitor e Andrómaca. e foi coroado imperador do Ocidente em 9 1 5. Foi assassina­
do em 924. Berengario II foi rei de 950 a 963. Foi destrona­
10
NiÚJ [. . .} Indo: cada um dos rios representa um do por Otão I, que o manteve na prisão até à morre (966).
ponto cardeal (Ocidente e Oriente) .
24 A mão lhe der: fantasia de Ariosto. Na realidade,
1 1 Augusto (63 a. C.- 1 4 d. C.) , imperador: com ele Alberto Azzo II casou com uma irmã de Guelfo III da
teve início a era dos imperadores romanos; Numa: Baviera, de quem teve dois filhos: Polco e Guelfo.
Numa Pompílio (c. 7 1 5-c. 672 a. C.) , o segundo dos
primeiros sete reis de Roma. Segundo a lenda, sucedeu 25 Outro Ugo: filho ilegítimo de Alberto Azzo III. As
a Rómulo. empresas que aqui lhe são atribuídas (aos Romanos o alto
orgulho fere) são imaginadas.
12
Espíritos [. . .] rostos: Melissa, servindo-se dos espíritos
que invocou, vai fazer desfilar perante Bradamante os 26 Polco: marquês d'Este, filho de Alberto Azzo II.
s.eus mais notáveis descendentes (da casa d'Este) , à seme­ Polco não foi para a Germânia, mas sim seu irmão
lhança do que sucede com Eneias quando visita o Guelfo; este, como duque da Baviera, deu continuidade
Averno em companhia da Sibila de Cumas, onde o seu àquela casa, que estava sem descendência.
falecido pai, Anquises, faz desfilar perante ele os seus
descendentes, personagens da história de Roma 27 De Azzo [. . .} Albertazzo: personagens e factos não
(Vergílio, Eneida, Vl:752 ss.). reconhecidos historicamente.
CANTO III 83

28 Sua idade [ . .] mesquinha: Quem efectivamente 41


Como [ . .] irmão: para obter ajuda financeira de
casou com a condessa viúva, Matilde di Canossa, de 43 Florença, deu como refém seu irmão, Azzo VII.
anos, foi Guelfo V da Baviera, de 1 8 anos. A condessa
42
tinha grandes possessões (Toscana, Piacenza, Parma, Tronto [ . .] !sauro (hoje, Foglia) : rios que delimitam
Modena, Reggio, Mântua, Ferrara, parte da Úmbria, a marca de Ancona.
Espoleto, etc.); por isso, quase meia !tdlia (v. 3).
43
Rinaldo: filho de Azzo VII, e não o mesmo Rinaldo
29 Azzo [ . .] Honório: Acontecimentos relativos a dois da oitava 30.
membros da casa d'Este: Azzo VI e Azzo VII. Azzo VI foi
44
senhor de Verona a partir de 1 207, e em 1 208 foi Refém [ .. ] esteja: Rinaldo foi dado pelo pai, como
nomeado marquês de Ancona pelo papa Inocêncio III; refém, a Federico II, rei da Sicília, em 1 239, e morreu
Azzo VII foi eleito marquês de Ancona em 1 2 1 7, pelo envenenado em 1 2 5 1 .
papa Honório III (e não segundo) .
45
Eis [ .. ] herdeiro: Obizzo, filho de Rinaldo, sucedeu
30
Obizzo [ . .] manto: nomes e factos pouco claros. ao avô Azzo VII quando tinha apenas 1 7 anos (jovem e
fagueiro).
31
Azzo V: filho de Obizzo i, morreu antes do pai e
46
pouco se sabe a seu respeito. Quem na realidade fez a Reggio [ . .] feroz: Reggio alegre, pelas recordações de
guerra contra Ezzelino foi Azzo VI, por ele vencido, e infância de Ariosto; Modena feroz, pela sua grande resis­
Azzo VII, marquês de Ancona, que derrotou o tirano. tência.
32 47
Ezzelino: trata-se de Ezzelino III ( 1 1 94- 1 25 9), Faenza: a sudoeste de Ravenna; famosa pelo fabrico de
senhor de Verona, Vicenza, Pádua, Feltre e Belluno. A porcelana de arte, muito exportada para a Europa durante
sua tirania valeu-lhe a fama de filho do demónio. o Renascimento. Do nome da cidade deriva a palavra por­
tuguesa «faiança», que designa esse tipo de loiça.
33
Pais ausónio: a Itália. Ausónia era um dos seus nomes
48
na Antiguidade. Adria [ . .] ladeia: a cidade de Adria deu o nome ao
mar Adriático. Devido aos aluviões do Pó, encontra-se
34
Mdrio [ . .] António: série de personagens da histó­ hoje a cerca de 20 km do mar.
ria de Roma, famosos pela sua crueldade. Caio é
49
Calígula. Essa terra [ . .] vozes: Rovigo, cujo nome antigo,
«Rhodigium», deriva da palavra grega que significa
35
Reinard [ . .] rio: Azzo VII será mais afortunado do «rosa».
que seu pai, Azzo VI, no governo de Ferrara (bela terra à
50
beira do rio - o Pó) . Teme [ . .] fazes: Comacchio, situada entre dois bra­
ços da foz do Pó, rodeada por lagunas ricas em peixe.
36
Onde Febo [ . .] conduziu: segundo a mitologia grega,
51
Faetonte, filho do Sol, pediu um dia ao pai que o dei­ Desejosas [..] atrozes: porque a tempestade faz com que
xasse conduzir o seu carro. Desviou-se, porém, da rota o mar invada as águas palustres e nelas deixe peixes de mar.
por ele indicada, e aproximou-se demasiado da Terra ao
52
descer, e dos astros ao subir, correndo o risco de os quei­ Nico/o: Niccolo III, que sucedeu ao pai, Alberto V.
mar. Para evitar uma calamidade, Zeus foi obrigado a
53
fulminar Faetonte, que caiu no rio Erídano (identificado Tideu: Não se sabe exactamente quem é.
ora com o Pó ora com o Reno) .
54
Fina-flor dos guerreiros: Niccolo III é exercitado nas
37
E o mítico [ . .] vestiu: suas irmãs choraram-no tanto artes da guerra desde tenra idade, o que o torna um guer­
que foram transformadas em choupos pelo deus irado; reiro excepcional.
da casca desses choupos transudavam lágrimas de âmbar.
55
Cicno, amigo de Faetonte, foi, pelo mesmo motivo, Terzo Oto: Ottobono Terzi, morto perto de Rubiera
transformado em cisne. em 1 409, depois de tentar derrubar Niccolo III.
38 56
E aquela [ . .] Santa Sé: a família d'Este recebeu O Grande Motor: Deus.
Ferrara do Papa, como feudo, em 1 267.
57 Leonel/o: filho natural de Niccolo III.
39 Aldobrandino: irmão de Azzo VII. O personagem e
58
os feitos atribuídos são históricos. O ínclito [ . .] atard: Borso, filho natural de Niccolo
III, sucedeu a Leonello em 1 450. Foi o primeiro duque
de Ferrara, título recebido do papa Paulo II. Defensor da
40
Umbros e Picenos: habitantes da Úmbria e do Piceno paz e protector das letras, foi muito amado pelo povo. A
(antiga região junto ao Adriático, que veio a ser anexada imagem de Marte (deus da guerra) e do Furor aprisiona­
à Úmbria) . dos inspira-se em Vergílio (Eneida, i:294-296) .
84 ORLANDO FURIOSO

59 71
Ercole: Ercole I, filho legítimo de Niccolo III, sucedeu Pó [. .. } Zanniolo: rios que delimitam o campo em
a Borso em 1 47 1 . Ariosto nasceu durante o seu reinado. que Alfonso I derrotou ( 1 5 1 1) os da Romagna (outrora
amigos), que lutavam ao lado do Papa, junto à fortaleza
60 Em rosto [. . .} vizinho: lançou em rosto aos de Baseia.
Venezianos (o vizinho) a sua ingratidão. Depois de
Ercole lhes ter evitado a derrota numa batalha perto de 72 Matando o castelão: ainda em 1 5 1 1 , e no mesmo
Budrio, em que foi ferido e ficou coxo, não tiveram pejo local, o exército mercenário espanhol a soldo do Papa
em atacá-lo e persegui-lo até Barco, perto de Ferrara, em tomou a fortaleza de Baseia e matou o comandante.
1 492. Alfonso I reconquistou o forte e mandou matar todos os
ocupantes, como represália.
61
Cal.abreses [. . .} glória: na juventude, Ercole I militou
sob o comando de Alfonso I de Nápoles, rei de Castela 73 Vitória [. . .} Espanha: batalha de Ravenna ( 1 5 1 2). Os
e Aragão, e ali travou um duelo. Franceses, ajudados por Alfonso i, venceram o exército
do papa Júlio II e dos Espanhóis.
62 À senhoria já tinha direito: sendo filho legítimo de
Niccolo III, devia ter-lhe sucedido e assumido o poder 74 Como à de Augusto: tal como Augusto teve, na sua
trinta anos antes, tantos quantos governaram Leonello época, Vergílio (de seu nome Públio Vergílio Marão),
(nove) e Borso (vinte e um), filhos naturais de seu pai. Ippolito terá Andrea Marone (Marão), poeta improvisa­
dor da corte do cardeal.
63 Leão AI.ado: símbolo de Veneza.
75 Quinze [. . .} cativas: espólio de navios apreendido aos
64 Face [. .. } ilesa: manterá Ferrara neutral, por conse­ Venezianos por Ippolito, após a vitória na batalha de
guinte em paz e livre de tributos, quando Carlos VIII de Polesella.
França (face gaulesa) invadir a Itália.
76 Dois Sigismondi: um irmão e um filho de Ercole I.
65
A/fonso justo e Ippolito: filhos de Ercole I. Alfonso I
77 Genro [. . . } segundo: Ercole li casou com Renata de
governa Ferrara quando Ariosto publica o seu poema,
que dedica ao cardeal Ippolito, a cujo serviço se encontra. França, sendo, portanto, genro de Luís xii.
66 Modelo [. .. } morte: serão tão amigos como os gémeos 78 Ippolito: cardeal, tal como seu tio.
Castor e Pólux, filhos de Leda. Zeus, sob a forma de
cisne, uniu-se a Leda e fecundou-lhe um ovo; na mesma 79 O terceiro: terceiro filho legítimo de Alfonso I e
noite, Tíndaro, seu marido, fecundou-lhe outro ovo. Por Lucrezia Borgia.
isso, Castor é mortal e Pólux imortal. Quando Castor
80
morreu numa luta, Pólux recusou-se a ficar no Olimpo, Alfonsi [. .. } dois: filhos naturais de Alfonso I e de
por seu irmão estar nos Infernos. Então, Zeus permitiu Laura Dianti (Alfonso e Alfonsino).
que os irmãos ficassem no Olimpo, entre os deuses, em
81
dias alternados (cada um [. .. } sol) . Quem [. . .} triste: Ferrante e Giulio, irmãos de
Alfonso e Ippolito d'Este. Conspiraram contra os irmãos
67 Astreia: na Idade do Ouro, espalhava entre os e foram condenados à morte, sendo a pena mais tarde
homens virtude e justiça. Quando o mal se espalhou convertida em prisão perpétua.
pelo mundo, Astreia voltou para o céu, onde se tornou a
82
constelação da Virgem. Pai.as [Atena} ou Marte: deuses da .guerra.
68 Para [. . .} estio: para a Terra (onde se alternam as esta­ 83 Roubado [. . .} definha: Brunello, seguindo ordens
ções) . de Agramante, roubou a Angelica, no Oriente, o anel
que tem a propriedade de tornar invisível quem o
69
Aquel.a: a Igreja, sobretudo Júlio II, que se aliou aos meter na boca, e de dar imunidade contra todos os fei­
Venezianos contra Ferrara. Por isso, com justiça, não tiços a quem o tenha no dedo. Agora, Agramante man­
sabe se lhe deve madrasta ou mãe chamar. dou Brunello libertar Ruggiero do castelo do mago,
com a ajuda do anel, pois quere-o a combater no seu
70
Procne [. . . } Medeia: cruéis mães mitológicas, que exército.
mataram os próprios filhos.

CANTO IV

Conquanto quase sempre reprovável 3 Simula ela também; e assim convém


e de mente maligna dando indícios, com ele que é o pai do fingimento;
já a simulação, é inegável, e, tal como eu já disse, não se abstém
atraiu evidentes benefícios, de lhe olhar as ladras mãos um momento.
o mal e a morte tornando evitável; Nisto, grande ruído sobrevém.
pois nem sempre os amigos são propícios E a dama: - Gloriosa Mãe, que espavento!
nesta, tão mais obscura que serena, Ó Rei do Céu, que coisa será esta? -
vida mortal, toda de inveja plena. E onde o rumor se ouviu, acudiu lesta.
2 Se após desilusões e com fadiga, 4 Do estalajadeiro a prole acorreu
encontrar lograste um amigo vero, à rua ou à janela da saleta,
a quem sem qualquer suspeita se diga ficando de olhos erguidos ao céu,
o nosso pensamento mais austero, como se a ver ou eclipse ou cometa.
que há-de fazer, de Ruggiero a amiga, Viu a dama o prodígio que ocorreu,
com aquele Brunel nem bom nem sincero, que contado tomaria por peta:
todo fingido e todo simulado, vê passar um grande corcel alado,
tal como a maga lho tinha pintado? pelo ar levando um cavaleiro armado.
86 ORLANDO FURIOSO

5 Grandes tinha as asas de tom brejeiro; 11 De monte em monte e dum a outro bosco,
de armadura tersa e resplandecente, dos Pirenéus foram a alturas tais
sentava-se entre elas um cavaleiro donde se vê, quando o ar não está fosco,
que ao corcel dera o rumo do poente. França e Espanha e opostos areais 1 ,
Aos montes baixou, e o estalajadeiro tal do Apenino o mar eslavo e o tosco2 ,
disse e bem falou, pois estava ciente, junto a Camaldoli, nos dão sinais.
que ele era um necromante, e que fazia, Dali, por rude e áspera galeria,
ao largo ou perto, aquela travessia. a um profundo vale se descia.
6 Voando, vai por vezes às estrelas, 1 2 Ao centro um monte tem, cuja eminência
outras vezes a terra quase rasa; é por muralha de aço rodeada;
levando consigo todas as belas ao céu ascende com tal evidência
damas que encontra e que levar lhe apraza; que tudo o mais em volta não é nada.
a ponto das infelizes donzelas, Subi-lo, vã seria a diligência
a quem falta beleza ou extravasa a quem asas não tem para a arrancada.
(pois todas elas lhe servem para o rol), Disse Brunel: - Eis onde prisioneiros
não ousarem mostrar-se à luz do Sol. do mago estão damas e cavaleiros.
7 - Ele tem nos Pirenéus um castelo 13 Quadrangular era, e aparentava
(contava o homem) feito por encanto; a fio de prumo ter sido talhado.
é todo em aço, e tão luzente e belo Atalho ou escada ali não se avistava
que outro não pode haver sedutor tanto. que acesso permitisse, em nenhum lado.
Para ali cavaleiros levou com zelo, Que ninho era ou covil assemelhava,
e que nenhum de lá regresse é espanto; mas próprio só dum animal alado.
o que me faz temer pela sua sorte: Aqui a dama a hora vê chegar
que ele lhes dê cativeiro ou a morte. - de ter o anel, e de Brunel matar.
s Alegra-se ela com o que ouve àquele, 14 Mas acha acto vil ensanguentar-se
pensando que fará, e faz por certo, por homem desarmado e tão abjecto;
tão milagrosa prova com o anel pois pode muito bem apoderar-se
que ficará mago e fortim deserto; do rico anel sem dar-lhe tal decreto.
e diz-lhe: - Arranja-me um dos teus, fiel, Brunello não pensava em resguardar-se:
que o caminho conheça até lá perto; fácil foi amarrá-lo, e tê-lo quieto,
não posso esperar, a ideia afago a um abeto forte e altaneiro;
de travar batalha contra aquele mago. - mas do dedo o anel lhe tirou primeiro.
9 Brunello diz: - Não te faltará guia; 1 5 Às lágrimas, gemidos e lamentos
tenho esboço da estrada, e coisas mais, de Brunello ela ficou indiferente.
que útil te farão minha companhia. - A montanha desceu a passos lentos,
Referindo-se àquelas coisas tais, até ao plaino que há do monte em frente,
ao anel, que não mostrou, aludia; e o corno sopra com fitos intentos
mas por cautela não lhe disse quais. de que à batalha o mago se apresente;
- Grato me é (diz ela) o consórcio teu -, após o toque, em rude gritaria
crente de que assim o anel fará seu. chama-o ao campo e à luta o desafia.
10 O essencial disse, e aquilo ocultou 16 Não demorou muito a sair da porta
que não podia ouvir o sarracino. o feiticeiro, que ouviu corno e voz.
O estalajadeiro um corcel mostrou, O alado corcel pelo ar o transporta
bom para a luta e para a levar ao destino; contra a que lhe parece homem feroz.
comprou-lho e partiu quando clareou A princípio a dama pouco se importa,
do dia seguinte o ar matutino. pois inerme parece o homem veloz:
Num vale entraram, e Brunello adiante lança não usa, nem espada, nem maça,
ou atrás seguia, nunca distante. que fure ou que quebre a sua couraça.
CANTO IV 87

19 Dali o trouxe ele à força de encanto,


e assim que o teve outra coisa não fez:
com arte e aplicação laborou tanto
que lhe deu brida e sela após um mês;
na terra e no ar fê-lo entretanto
girar a bel-prazer, sem rispidez.
Não era obra de encanto como o resto.
Que era natural, era manifesto.
20 Tudo o mais no mago era fingimento:
o vermelho tornava em amarelo;
mas com a dama não teve esse alento
(o falso, com o anel, não pode vê-lo) .
Vai contudo dando golpes ao vento,
manobrando o cavalo sem apelo;
ela bate-se e moureja, aguerrida,
como fora, antes de vir, instruída.
21 Após se ter exercitado um tanto
sobre o cavalo, para o chão desmontou,
para melhor realizar tudo quanto
a prudente maga lhe demonstrou.
Vem o mago fazer o extremo encanto,
aquele a que antes ninguém escapou:
descobre o escudo com a convicção
que o brilho mágico a atira ao chão.
22 Poderia de início descobri-lo,
sem ter que aos cavaleiros dar liçada,
mas amava ver dos golpes o estilo:
os passes com a lança, os jogos de espada;
como se vê que ao esperto gato aquilo
ao rato fazer por vezes agrada;
mas, quando está farto desse prazer,
logo o abocanha e o faz morrer.
17 O escudo da mão esquerda lhe pendia, 23 Que o mago ao gato e que os outros ao rato
todo envolvido em seda carmesim; nas batalhas se assemelham, dizia;
na direita um livro com que fazia, mas já não era a semelhança um facto,
ao lê-lo, prodígio surgir assim: uma vez que a dama o anel trazia.
que atacava com a lança parecia Atenta e fixa estava a todo o acto,
(e a muitos fez tremer como pudim) , a ver se ele vantagem não tomaria;
depois, que estoque ou maça avançava; e, assim que o mago o escudo descobriu,
porém estava longe e nem lhes tocava. fechou os olhos e no chão caiu.
1s Do corcel as feições são naturais, 24 Não que o fulgor do luzente metal,
pois uma égua o concebeu dum grifo; tal como aos outros, a adormecesse;
penas e asas ao pai tinha iguais, mas aquilo fez para que ele afinal
membros anteriores, cabeça e grifo3 ; junto de si do cavalo descesse;
no resto do corpo imitava mais e aquilo que pensou teve em igual,
a mãe, e era o seu nome hipogrifo4 ; pois assim que no chão ela amortece,
raros, nos montes Rifeus5 são criados, acelerando as asas ao voador,
que ficam muito além dos mares gelados. deu largo voo e em terra se veio pôr.
88 ORLANDO FURIOSO

25 O escudo ao arção logo o mago ata 31 A bela fortaleza edifiquei


já coberto, e seus passos acelera para ter Ruggiero em segurança além;
para a dama, que, qual lobo na mata foi preso ele por mim, como esperei
escondido, pelo cabritinho espera. que aqui te iria hoje prender também;
Quando ao alcance o tem, na hora exacta, cavaleiros e damas para ali levei,
lesta se ergue e dele se apodera. que ver irás, e outra gente de bem,
Deixara o triste caído por terra para que, estando impedido de sair,
o livro que fazia toda a guerra, sua presença o possa distrair.
26 e corria, trazendo uma correia 32 De não saírem tenho teimosias,
que à cinta sempre usava para tal fim; mas os demais prazeres lhes satisfaço;
pois de ligá-la intenção alardeia, sons, cantos, trajes, jogos, iguarias
como aos outros fizera em tal motim. de toda a parte há no castelo de aço,
Mas logo ela no chão o estende e peia: e do mundo todas as fantasias
eu desculpo-o se foi dela o festim, à mão sempre têm, sem embaraço.
pois muito era a coisa descondizente: Bem semeei, e bons frutos colhia;
um velho fraco e ela tão potente. mas vieste tu, e adeus harmonia.
21 Tendo intenção de cortar-lhe a cabeça,
a mão vitoriosa depressa alçou;
mas, ao ver-lhe o rosto, suspende à pressa
a mão: baixo gesto a vingança achou;
um velho que no rosto mágoa expressa
é, afinal, quem ela dominou;
pelo rosto rugoso e branca guedelha,
cerca de setenta anos assemelha.
2s - Jovem, por Deus, acaba-me com a vida -,
disse o velho com ira e arrelia;
mas ela estava tão indefinida
quanto ele de ser morto gostaria.
Quis a dama então saber, presumida,
quem era o mago e por que bizarria
o seu forte erigiu em lugar tal,
e vai a todos infligindo o mal.
29 - Ai de mim! Não foi por má intenção
(disse a chorar o velho feiticeiro) .
Não é por avidez que sou ladrão
e a bela fortaleza fiz no outeiro,
mas para salvar da extrema expiação,
e por amor, um gentil cavaleiro;
o qual o Céu me diz que, em tempo breve,
cristão e atraiçoado morrer deve6 .
30 Daqui ao pólo austral não cobre o céu
um jovem tão formoso e tão prestante;
Ruggier se chama, e desde que nasceu
foi criado por mim, que sou Atlante7 .
Glória querer e o cruel destino seu
a França o trouxeram, com Agramante;
e eu, que o amei sempre mais que um filho,
de França hei-de livrá-lo e do sarilho. ', ,�
CANTO IV 89

33 Se igual ao rosto tens o coração, 39 Da donzela o mago se libertou,


não impeças o meu honesto plano! qual tordo que às malhas da rede escapa,
Ofereço-te o meu escudo e o alazão e com o castelo se evaporou,
que voa por todo o céu sem afano; deixando ali a companhia guapa.
mas não te detenhas no torreão; Damas e paladins assim privou
leva um amigo ou dois e não dês dano; do luxo dos salões, muito à socapa;
ou leva os outros todos, que só quero e muitas das damas se lamentaram
que me deixes ficar o meu Ruggiero. que as liberdades seu prazer roubaram.
34 Mas, se estiveres a tirar-mo disposto, 4o Ali está Gradasso, ali Sacripante,
rogo-te que antes de o levares para França, este é Prasildo, nobre cavaleiro
de minha alma soltar me dês o gosto, que com Rinaldo veio do Levante;
desta sua crosta já podre e rança! - com ele Iroldo, amigo verdadeiroª .
Responde-lhe a donzela: - Pois aposto Por fim, achou a bela Bradamante
que o liberto. Se sabes, grasna e dança! Ruggier, tão desejado companheiro,
Nem proponhas oferecer-me esse escudo que, ao fazer dela reconhecimento,
nem o corcel, pois meu, não teu, é tudo; lhe deu apaixonado acolhimento,
35 mesmo que os pudesses dar ou tirar, 41 porque mais que à luz dos olhos lhe queria
tal troca não me convinha fazê-la. que ao seu coração e que à própria vida;
Dizes reter Ruggiero para obstar Ruggiero a amou desde que ela um dia
ao influxo maligno da sua estrela, o elmo tirou, e logo foi ferida9 •
por não poderes saber, ou evitar, Dizer como e por quem longo seria,
sabendo, o que para ele o Céu revela; e quanto, em selva rude e desabrida,
pois se teu mal, que perto está, não vês, de noite e de dia se procuraram;
como o alheio, que há-de vir, prevês? mas só aqui de novo se encontraram.
36 Não me peças a morte: teus pedidos 42 Agora aqui a vê, e tem noção
vãos seriam; mas se quiseres a morte, de que ela o libertou de tais covis;
mesmo que a tal ninguém te dê ouvidos, tanto júbilo lhe enche o coração
por si a pode achar ânimo forte. que ditoso se julga e mui feliz.
Mas, antes que teus dias sejam idos, Descem o monte e àquele lugar vão
aos teus cativos darás passaporte. - em que ela ao mago vergou a cerviz,
Assim falou a dama, e entretanto onde pousado o hipogrifo mudo
para o monte o mago tocava, em quebranto. estava, e no seu flanco, coberto, o escudo.
J7 A sua própria corrente o ligava; 43 O freio a dama lhe quer agarrar,
Atlante ia andando, e a dama ao lado, e ele espera que ela lhe esteja oposta;
pois nele mesmo assim não se fiava, depois suas asas abre pelo ar,
embora mostrasse um ar resignado. e perto vai pousar, a meia encosta.
Havia pouco tempo que o levava, Segue-o ela, e de modo similar
chegaram, junto ao monte, a um alçado, ele se eleva e pouco se descosta;
e aos degraus que em redor do monte giram; tal faz a gralha, aqui e ali pousando,
à porta do castelo, então, subiram. ao cão que apanhá-la em vão vai tentando.
38 Sob a soleira Atlante pedra apanha 44 Ruggier, Gradasso, Sacripante, e os mais
com estranhas figuras, sinais gravados. cavaleiros que juntamente estavam,
Por baixo há panelas de forma estranha, sobem e descem aos lugares nos quais
que dentro ocultam fogos defumados. ver o corcel voador pousar esperavam.
Quebra-as o mago, e logo a montanha Depois de os induzir a passos tais,
fica descampada nos seus costados; subindo ao cume que antes habitavam,
nem torre ou muralha ali aparece, e em vão tantas vezes ao vale descer,
como se castelo lá nunca houvesse. junto a Ruggier por fim se vem deter.
90 ORLANDO FURIOSO

45 Tudo isto foi obra do velho Adante,


pelo seu piedoso desejo levado
de Ruggiero livrar do perigo instante,
pois só nisso pensa e lhe dá cuidado.
Faz que o hipogrifo lhe pouse diante,
para que da Europa o veja afastado.
Ruggier segura o corcel, para levá-lo,
mas ele recusa-se a acompanhá-lo.
46 Então de Frontino 10 o audaz desmonta
(Frontino é nome do seu cavalar) ,
e no outro, que sabe voar, monta,
dando-lhe de esporas para o espevitar.
Ele corre um pouco, e os pés aponta,
e mais ágil aos céus vai a voar
que o gerifalte 1 1 a quem o mestre tira
o caparão, e que à presa se atira.
47 A linda donzela, vendo tão alto
o seu Ruggiero e em tão grande risco,
tão tonta fica que, no sobressalto,
muito tempo o senso lhe foi arisco.
O que Ganimedes 1 2 sofreu de assalto,
de seu reino furtado por um corisco,
teme que possa acontecer àquele,
por não menos gentil e belo que ele.
48 Pelo céu o segue com olhar de espanto
enquanto pode; e quando ele se afasta,
a vista já não pode correr tanto:
segui-lo com o espírito lhe basta.
Mas com suspiros, gemidos e pranto,
não tem paz nem trégua, a dor a devasta.
Quando Ruggier da vista se ocultou,
para o bom Frontino ela os olhos voltou;
49 e fez propósito de não deixá-lo
em prémio a quem passasse, por mercê,
mas consigo levá-lo e depois dá-lo
ao dono, que rever anseia e crê.
Sobe o volátil e Ruggier pará-lo
não pode: lá em baixo a terra vê
tão achatada que toda lhe é estranha,
quer seja planície ou seja montanha.
so Quando tão alto vai que um simples grão
pode julgá-lo quem o vê de terra,
daquela zona toma a direcção
que busca o Sol quando em Câncer se encerra 1 3 ;
vai como nau untada 14 , o alazão,
que no mar com vento propício erra.
Deixemo-lo seguir o seu destino;
voltemos a Rinaldo, paladino.
CANTO IV 91

51 Rinaldo correu outro e outro dia 53 e outros cavaleiros, não só da nova


muito sobre o mar, levado pelo vento, como da velha T ávola, famosas.
que, ou para poente ou contra as Ursas 1 5 , ia O arrojo de seus feitos se renova
sem cessar, noite e dia, um só momento. nos monumentos e glórias pomposas.
Por fim na Escócia o ferro ao fundo envia, Baiardo e as armas Rinaldo comprova,
onde a selva Caledónia há assento; e desembarca nas costas umbrosas;
ali, por entre os carvalhos frondosos ao barqueiro manda avante, e que fique
ouvem-se tinir ferros belicosos. a aguardar seu regresso em Berwick 1 7 •
52 Por ela vagam cavaleiros errantes, 54 Sem escudeiro ter e sem companhia,
bravos guerreiros de toda a Bretanha, vai o cavaleiro pela selva imensa,
de terras próximas e de distantes, tomando ora uma ora outra via,
de França, Noruega e Alemanha. onde mais aventuras achar pensa.
Ali não entre quem não liçou antes, Chegou nessa jornada a uma abadia,
que indo em busca de glória a morte ganha. que grande parte de seus bens compensa
Grandes façanhas ali fez Tristão, dando pousada, no ameno mosteiro,
Lancelote, Artur, Galaaz, Galvão 16 , a dama que ali passe ou cavaleiro.
92 ORLANDO FURIOSO

55 Boa recepção monges e abade 56 Dizem-lhe que, errando pelos bosques escuros,
deram a Rinaldo, que perguntou poderia encontrar muitos acasos;
(não antes de servir-se à saciedade os quais, · como os lugares, são obscuros,
de acepipes vários que ali achou) pouca notícia havendo desses casos.
como é que sempre a sua sociedade - Procura achar (ouviu) aqueles furos
aventuras mil ali encontrou, que de teus feitos não façam ocasos,
por forma a provar, com acção de peso, para que depois do perigo e da fadiga
se um homem merece glória ou desprezo. venha a fama e o que for devido diga.
CANTO IV 93

57 E, se de teu valor quiseres dar prova, 63 Rinaldo reflectiu, e então falou:


tens à tua espera a mais digna empresa - Deverá, pois, morrer uma donzela,
que, na idade antiga ou na nova, só porque em seus braços desafogou
já de algum cavaleiro foi proeza. seu terno desejo o amador dela?
Do nosso rei a filha ora prova Maldito seja quem tal lei ditou;
carestia de ajuda e de defesa, maldito também quem a não debela!
contra um barão que Lurcanio se chama, Justo é que morra aquela que é cruel,
que privá-la quer da vida e da fama. não a que vida dá a amor fiel.
58 Esse Lurcanio ao pai a acusou 64 Que Ginevra recebesse o amante,
(talvez por ódio, mais que com razão) vero ou falso que seja, não contesto;
que um dia à meia-noite a encontrou louvá-la-ia por levá-lo avante,
alçando o seu amante a um balcão. se não tivesse sido manifesto.
A dura lei do reino a condenou Defendê-la, para mim, é imperante:
ao fogo, se não vem um campeão dai-me um que me guie e que seja lesto,
dentro dum mês, e está-se a concluir, para que junto do acusador me leve;
que prove o acusador estar a mentir. em Deus espero salvar Ginevra em breve.
59 A dura lei da Escócia, áspera e pesada, 65 Eu não digo que ela o não tenha feito;
diz que uma mulher, seja de qual sorte, dizer tal sem saber seria error;
que homem acolha sem lhe ser esposada, direi é que por semelhante efeito
se for acusada, receba a morte. não deve ela sofrer tal amargor;
Não se evita que seja justiçada, como direi que louco era o sujeito
a não ser que haja algum guerreiro forte que de lei tão funesta foi autor;
que sua defesa tome, e confesse por iníqua deve ser abolida,
que é inocente e morrer não merece. e por lei mais sensata substituída.
60 O rei, de Ginevra compadecido 66 Se um mesmo ardor e um igual suspirar
(pois assim é chamada a sua filha) , inclina e atrai um e outro sexo
deu ordens para que fosse difundido àquele suave fim do doce amar
que, se algum do caso a desenvencilha, (para o vulgo ignorante acto desconexo) ,
havendo-a da falsa fama eximido por que punir a dama ou censurar,
(e se em nobre família se perfilha) , por a um ou mais dum dar esse amplexo
sua mão terá, e um feudo também, que o homem pode dar a quantas quer,
como dote que a tal dama convém. louvado sendo e sem censuras ter?
61 Mas se ninguém vier dentro dum mês, 67 Para as damas, nesta lei tão desigual,
ou vindo não vença, há que a matar. injustos na verdade são tais factos;
Tal empresa bem mais para ti se fez por Deus, espero mostrar que é grande mal
que pelos bosques andares a errar: que há tanto tempo os tomem por exactos. -
além de glória e fama tens de vez, Rinaldo obtém consenso universal,
para nunca de teu lado se apartar, que os antigos nem justos nem sensatos
a que dentre as mais belas vai florindo, foram, ao consentir lei tão severa;
entre as colunas de Hércules 1 8 e o Indo 1 9 ; e o rei mal faz, pois pode e a não altera.
62 e com ela a riqueza, mais um estado, 68 Ao surgir o brilho ebúrneo e galhardo,
que a viver contente te ajudarão; que abriu o horizonte ao outro dia,
e o favor do rei, se ressuscitado Rinaldo toma as armas e Baiardo;
por ti for seu honor, em perdição. e dão-lhe um escudeiro na abadia,
Tu pela cavalaria és obrigado que lhe serve em muitas léguas de guardo
a desafrontar duma tal traição naquela selva inóspita e sombria,
aquela dama, que, hás-de ouvir dizê-lo, rumando à terra onde se realiza
de castidade e pudor é modelo. - a liça que a dama despenaliza.
94 ORLANDO FURIOSO

69 Tinham, tentando abreviar caminho, 71 Dão às de vila-diogo os birbantes


deixado a estrada e seguido o desvio, logo que o socorro vêem surgir,
quando um choro ouvem ali pertinho, para aquele profundo vale imigrantes.
que toda aquela floresta invadiu. O paladino não os quis seguir;
Baiardo um guia, outro o rocim fuinho, à dama vem, e as razões bastantes
para o vale donde esse grito se evadiu; de tanta punição procura ouvir;
lá, entre dois biltres uma donzela para tempo ganhar, manda que o escudeiro
viram, que ao longe lhes pareceu bela, a leve na grupa, e torna ao carreiro.
10 mas tão lacrimosa e angustiada n E cavalgando nota ser aquela
quanto jamais alguém pudesse estar. de grande beleza e de fino porte,
Junto a ela dois, com a mão na espada, embora ainda abalada estivesse ela,
para com seu sangue a erva avermelhar. por tanto terror que teve da morte.
Com rogos quer ver a morte adiada, Quando ele novamente a interpela
esperando a alguém piedade inspirar. para a causa saber de tão triste sorte,
Rinaldo chega e da cena dá conta: começou em branda voz a contar
com gritos e ameaças os afronta. o que ao outro canto vou protelar.

NOTAS

1
França [ . .} areais: ponto dos Pirenéus de onde, com que lhe deu o actual nome (O. Innamorato, L0 • II,
o ar límpido, se avista França e Espanha e as costas do XVl :56).
Mediterrâneo e do Atlântico.
11
Gerifolte: ave de rapina usada para caçar, à qual se
2
Mar es/,a vo e o tosco (toscano) : o Adriático e o Tirreno, descobria a cabeça (tira o caparão) no instante em que
que se avistam do monte Falterona ( 1 654 m), nos devia ver a presa e atirar-se a ela.
Apeninos, não longe do mosteiro de Camaldoli.
12
Ganimedes: jovem adolescente pertencente à estirpe
3
Grifo (ou grifa) : garra. real de Tróia. Por ser muito belo, foi cobiçado por Zeus,
que o raptou e levou para o Olimpo.
4 Hipogrifa: animal fabuloso, nascido do cruzamento de
13
uma égua com um grifo. Os elementos da constituição do A direcção [ . .} encerra: para ocidente, sobre o Atlântico,
animal encontram-se em Vergílio (Éclogas, VIIl:27), e em seguindo a latitude do trópico de Câncer.
Ovídio (Metamo,foses, VI:713 e IV:785-786).
14 Untada: bem revestida de pez, e, po; isso, bem veda­
5 Montes Rifeus: montes fabulosos da Cítia (cf. Os da e deslizante.
Lusíadas, IIl:7:3).
15
Contra as Ursas: para norte.
6 Cristão [ . .] deve: Ruggiero será morto sete anos
16 Tristão [ . .} Galvão: alguns dos «cavaleiros da távola­
depois de se ter convertido ao cristianismo (cf. XLI:6 1 ) .
-redonda», figuras lendárias do ciclo da Bretanha, cujas aven­
7 Atlante: mago que criou Ruggiero e o amava como a turas constituem o tema da novela de cavalaria A Demanda
um filho; queria a todo o custo protegê-lo do augúrio de do Santo Graal.
morte prematura.
17 Berwick: Berwick-upon-Tweed, na costa leste da Grã­
8 Prasildo [ . . } verdadeiro: Prasildo e Iroldo já no Bretanha, junto à fronteira entre a Inglaterra e a Escócia.
O. Innamorato eram apresentados como modelo de ami­
18
zade. Colunas de Hércules: nome dado na Antiguidade aos
montes que ladeiam o estreito de Gibraltar. Segundo a
9
Ferida: ao tirar o elmo para deixar que Ruggiero lhe mitologia, Hércules separou-os, para criar uma passagem
visse o rosto, Bradamante foi ferida por um sarraceno. do Mediterrâneo para o Atlântico. Representavam o limi­
te ocidental do mundo.
10
Frontino: pertenceu a Sacripante com o nome de
Frontalatte; Brunello roubou-lho e ofereceu-o aRuggiero, 1 9 Indo: rio Indo, como limite oriental do mundo.

CANTO V

Todos os outros animais da Terra,


ou que vivam tranquilos e em paz
ou que entre si façam rixas e guerra,
à sua fêmea o macho não a faz;
a ursa com o seu urso em paz erra,
a leoa perto do leão jaz;
junto do lobo a loba se recreia,
e a novilha o novilho não receia.
2 Que Megera 1 , que peste, que poder
conturbou os humanos corações?
Sempre um ao outro marido e mulher
lançam ofensivas acusações,
os rostos ferem por mútuo malquerer,
de pranto banham conjugais colchões;
não só de pranto, que de quando em vez
de sangue os banha a cólera soez.
3 Não só faz mal, creio que o homem age
contra a natura (é infernal modelo)
sempre que da mulher o rosto ultraje,
ouse ferir ou quebrar-lhe um cabelo.
Mas o que envenena, ou que se avantaje
e para a matar use laço ou cutelo,
que homem seja, não posso crer em tal:
com forma humana, é espírito infernal.
96 ORLANDO FURIOSO

Desses deviam ser os dois ladrões 10 pois tantas vezes ali o fiz vir
que Rinaldo escorraçou da donzela; quanta ocasião Ginevra me deu,
ao vale escuro a levaram, vilões, que de leito mudava para fugir
para que encoberta ficasse a esparrela. do calor ou do frio no apogeu.
Deixei-vos eu quando ia as razões Nunca ninguém o viu ali subir;
transmitir da iníqua sorte dela ter discreta entrada favoreceu
ao paladino, que foi seu amigo; só casas em ruínas ter em frente,
prosseguindo a história, disso vos digo. e dia ou noite lá não passar gente.
Começou ela: - Escuta minhas penas; 11 Muitos dias e meses protegi,
a maior crueldade, e inaudita, secreto entre nós, o amoroso jogo;
que nem em Tebas, Argos ou Micenas2 , o amor cresceu, e tanto nele ardi
ou em mais atroz lugar foi prescrita. que dentro em mim queimava como fogo;
E, se o Sol, ao volver suas melenas, cega fiquei, e não compreendi
este lugar menos que outros visita, que muito amor fingia por arrogo,
é porque aqui de má vontade vem, embora daquele enganoso o ardil
por de tão cruel gente ter desdém. fosse fácil de ver em sinais mil.
6 Que o homem para o inimigo é cruel, 12 Dias depois disse-se apaixonado
muitos exemplos temos, e ancianos; por Ginevra. E se isso então principiava
mas a morte dar a quem te é fiel, ignoro, ou se já antes, disfarçado
fazem-no seres iníquos e insanos. de a mim amar, por ela suspirava.
Para que melhor o caso te desvele, Vê como é arrogante esse malvado:
que levou estes a meus verdes anos sabendo que em meu coração reinava,
querer colher, contra toda a razão, tal me contou, e, sem qualquer pudor,
do início te faço a narração. pediu-me ajuda neste novo amor.
7 Quero que saibas, senhor meu, que, sendo 13 Dizia-me que igual ao meu não era,
eu criança ainda, ao serviço entrei nem seus amores por ela eram reais;
da filha do rei, com quem fui crescendo: mas que, simulando a paixão, quisera
posto elevado na corte alcancei. celebrar legítimos esponsais.
O Amor, a minha sorte apetecendo, O acordo do rei teria, assevera,
tal fez que sua sequaz me tornei; desde que dela tivesse os avais,
de entre os cavaleiros que conheci, pois em nobreza e posses se gabava
achei mais belo o duque de Albany. que só o rei, no reino, o superava.
Mostrando ele a amar-me estar disposto,
eu o amei com todo o coração.
Bem se ouve o falar e se vê o rosto;
do que o peito encerra não há visão.
Crendo e amando, satisfiz meu gosto:
no leito o aceitei, sem dar atenção
que entre as reais câmaras era aquela
a mais secreta de Ginevra bela;
9 onde ela guardava o que mais estimava,
e onde quase sempre também dormia.
Ali, por um balcão mui bem se entrava,
que a descoberto para a rua se abria.
Por ele o meu amado a mim chegava,
e a escada de corda que ele subia
eu mesma da varanda lhe atirei,
sempre que em meus braços o desejei;
CANTO V 97

14 Convenceu-me que, se obra eu lhe fazia 20 Ao duque recomendei amiúde


para que genro do rei viesse a ser que abandonasse aquela empresa vã,
(e claro vejo que isso o elevaria e que não esperasse ele outra atitude
em todo o reino ao mais alto mester) , pois um outro ela tinha por galã.
prémio me dava, pois nunca seria Claramente lhe disse que se ilude,
tão grande benefício para esquecer; porque Ariodante ama com afã,
e da mulher e toda a gente adiante e quanta água há no mar não extinguiria
me punha, por ser sempre meu amante. a chama que em seu coração ardia.
1 5 Eu só lhe queria dar satisfação, 21 De tantas vezes me ouvir Polinesso
nada lhe soube ou não quis recusar; (é o nome do duque) eu dizer-lhe isto,
tudo o que feliz me fazia então que de Ginevra não merece apreço
era seus desejos executar; já tinha bem compreendido e visto;
aproveitava qualquer ocasião não só por à dama não ter acesso,
para falar dele e para muito o louvar; mas por ser, por causa de outro, malquisto,
não me poupei a esforços e a fadiga de soberbo, tão mal tal recebeu
para fazer Ginevra ser dele amiga. que em ira e ódio o amor se converteu.
16 De coração e obras tudo fiz 22 Entre Ginevra e seu amado pensa
o que podia; sabe-o Deus .e eu; tanta discórdia e disputa criar,
mas o amor de Ginevra não condiz e inimizade nascer tão intensa
com o que dela espera o duque meu; que não mais se possam conciliar;
isto, porque ela todo o chamariz e a Ginevra causar afronta imensa,
e todo o seu desejo de amor deu que paz não possa, viva ou morta, achar.
a um cavaleiro gentil, galante, Seu iníquo plano não me contou,
à Escócia vindo dum país distante; nem a ninguém, só para si o calou.
17 que com seu irmão muito jovem veio 23 E depois: «Dalinda minha», me diz
da Itália, para ficar nesta corte; (é assim que me chamo) 3 , «ouve-me bem:
das armas adquiriu um tal maneio tal qual como desponta da raiz
que a Bretanha não tinha outro mais forte. árvore cortada uma vez ou cem,
Amado era do rei, que lhe deu esteio: também este meu anseio infeliz,
em grande cópia lhe ofereceu, em sorte, decepado com tão cruel desdém,
castelos, vilas e jurisdições; de germinar não deixa, pois almeja
e fê-lo um dos grandes entre os barões. realizar o que tanto deseja.
1s Caro era ao rei e ainda mais à filha
o cavaleiro, dito Ariodante,
por seu valor ser uma maravilha;
mas mais, por saber que era seu amante.
Vesúvio, ou Etna na sícula ilha,
ou Tróia, nunca ardeu tão flamejante,
como por seu amor, ela o sabia,
Ariodante o peito consumia.
19 O modo como ela se lhe afeiçoa,
com seu sincero e fiel coração,
fez que pelo duque eu advogasse à toa;
nunca me deu resposta sem senão;
quanto mais fazia elogio e loa,
tentando conquistar sua adesão,
mais ela o censurava e desprezava,
e cada vez menos o suportava.
98 ORLANDO FURIOSO

24 E não tanto por prazer o cobiço 30 Então por que não tens por mim respeito,
quanto por querer vencer este despeito; pela nossa amizade, no dizer teu,
mas não tendo, em verdade, esse derriço, que devo, e que teria com efeito,
já só de imaginá-lo me aproveito. se fosses tu, não eu, o amado seu?
Quando me receberes no passadiço, Não menos que tu para mulher a espreito,
e que Ginevra nua no seu leito apesar de mais rico seres do que eu;
se encontre, tomarás todas as vestes não menos que tu sei que ao rei agrado,
que ela despiu; e com elas te vestes. e mais do que tu sou pela filha amado».
25 No penteado e ornamentação 3 1 «Oh (disse-lhe o duque) , que grande engano
tenta imitá-la, e, o mais que poderás, em que teu amor louco te induziu!
parecer ser ela; e depois ao balcão Como eu, pensas ser dela soberano,
irás, de onde a escada me atirarás. mas os factos dirão quem se iludiu.
Acima irei, na imaginação Do que entre vós se passa faz-me o plano,
que aquela és, cujas vestes terás. que eu todo o meu segredo te desfio;
Espero que assim, a mim mesmo enganando, e aquele que de nós lesado se veja,
vá meu desejo em breve atenuando». que desista, e que de outra se proveja.
2 6 Assim disse. E eu, que fora de mim 32 Pronto estarei, se quiseres que te jure
andava, e como que dali ausente, que ao que contares fecharei bedelho,
nem vi que aquele pedido tão ruim mas quero que tua voz me assegure
era uma fraude4 , e até muito evidente; que o que te conto guardas até velho».
e com as vestes de Ginevra, enfim, Para que entre os dois o pacto se conjure,
a escada lhe atirei frequentemente; vão a mão pousar sobre o Evangelho.
e só compreendi o seu engano Juraram guardar o segredo inteiro,
quando já estava feito todo o dano. e Ariodante falou primeiro.
27 Disse ainda o duque a Ariodante 33 Como, em pormenor ao duque foi dito,
estas palavras ou outras que tais entre ele e Ginevra a coisa surdia;
(amigos tinham sido já, bastante, jurara-lhe ela por boca e por escrito
e por Ginevra ora eram rivais) : que apenas dele esposa ser pretendia;
«Causa-me espanto (disse o meu amante) e, se pelo rei tal fosse contradito,
que tendo-te sempre entre os meus iguais prometia ser sempre fugidia
respeitado, e tendo-te sempre amado, a diversas conjugais companhias,
seja por ti tão mal recompensado. e viver só em todos os seus dias;
2s Sei que não ignoras nem desvirtuas 34 e que tinha esperança, dado o valor
de Ginevra e eu o antigo amor; de que em armas mostrara vasto signo,
hoje mesmo pedir as graças suas, e mais esperava mostrar, pois -honor
e a sua mão, irei ao meu senhor. ao rei e ao reino queria dar condigno,
Por que me agastas? Por que continuas de tal mercê ganhar do seu senhor
a fixar nela em vão o teu fervor? que perante ele fosse achado digno
Eu bem respeitaria o caso teu, daquela sua filha desposar,
se em teu lugar estivesse e tu no meu». sabendo assim a ela prazer dar.
29 «Pois eu (Ariodante retorquiu) 35 Disse ainda: «Neste ponto me vejo,
de ti me espanto ainda maiormente; nem creio que outro queira mais que eu;
pois primeiro a ela o amor me uniu mais que isto não pretendo, e não almejo
que tu a tivesses visto somente; sinal mais evidente do amor seu;
e sabes que entre nós amor floriu mais, só desejo quanto Deus, por pejo,
que mais do que é não pode ser ardente; ao legítimo conúbio cedeu:
sua vontade é ser minha mulher, por ora, dela mais querer era vão,
e sei que sabes que a ti não te quer. pois é mais virtuosa que as mais são».
CANTO V 99

36 Depois de Ariodante lhe ter exposto 42 «Mando-te aviso quando for a hora»,
como espera vir a ser compensado, disse Polinesso e dali andou.
Polinesso, que se tinha proposto Com dois dias, se tanto, de demora,
Ginevra denegrir ao seu amado, o duque novo encontro me marcou.
disse: «É teu fortúnio ao meu muito oposto, Pretendendo desenlear agora
e quero ouvi-lo por ti pronunciado; os nós que armara, o rival avisou
quando conheceres do meu a raiz, para na noite a seguir se ocultar bem
que confesses que só eu sou feliz. nas tais casas onde não há ninguém,
37 Falsa te é, não te ama nem te preza; 43 num lugar que mostrou, mesmo diante
com esperanças e palavras te entretém; daquele balcão a que subir soía.
o teu amor como tolo despreza, Havia suspeitado Ariodante
quando comigo conversa mantém. que o outro o chamara à deserta via
De lhe ser caro eu tenho uma certeza por ali querer armar a seu talante
que mais que a promessas tolas se atém; alguma cilada em que o mataria,
vou contar-ta sob a jura, em segredo, sob o pretexto de lhe demonstrar
inda que melhor fora ficar quedo. aquilo em que não pôde acreditar.
38 Por mês, três, quatro ou seis noites não passo, 44 De lá comparecer tomou partido,
e por vezes até dez, que não esteja mas de forma que ele não seja mais forte;
nu nos braços dela, naquele abraço para que, no acaso de ser agredido,
que o amoroso abrasamento almeja. não ter que sentir receio da morte.
Bem podes ver que o prazer que te traço Um irmão tinha ardiloso e aguerrido,
às lérias que tu ouves faz inveja. Lurcanio, o melhor em armas da corte;
Rende-te, pois, e de outra vai em busca, com ele se sentia mais confiante
pois, como vês, meu mérito te ofusca». que se mais de dez levasse adiante.
39 Ariodante logo respondeu: 45 Chamou-o, e as armas recomendou
«Não creio nisso, e estou certo que mentes; que trouxesse; e à noite o levou também;
tudo não passa dum enredo teu mas o segredo não lhe revelou:
para que desta empresa assim me afugentes; não o diria a ele nem a ninguém.
e a prova de teus ditos põe ao léu, A um tiro de pedra o colocou;
por serem para ela muito nocentes; «Se me ouvires chamar-te (disse-lhe) , vem;
não só que és mentiroso, mas também mas se minha voz não ouvires chamar,
traidor, nada de o provar me contém». se me amas, irmão, deixa-te aqui estar».
4o Responde o duque: «Não seria honesto 46 «Vai e não temas», disse-lhe o irmão.
querermos aqui batalha travar, E assim ficou Ariodante quieto
por algo que te torno manifesto e se ocultou no ermo casarão,
quando quiseres, perante o teu olhar». mesmo em frente do meu balcão secreto.
Turba-se Ariodante ouvindo o resto, Do outro lado chega o intrujão,
e sente-se dum frémito gelar; que a difamar Ginevra era afecto;
se nele acreditasse plenamente, e deu o sinal, tão aliciante
ali tinha morrido de repente. para mim, que da traição era ignorante.
41 Com peito oprimido e pálido rosto, 47 Eu, com alva veste, a fio de ouro ornada
a voz a tremer-lhe e a boca amara, na cinta, e na bainha toda em torno,
respondeu: «Quando tu me houveres exposto na cabeça rede em ouro, enfeitada
à vista a tua aventura tão rara, de vermelhas laçadas, como adorno
prometo deixar essa que é por gosto (rede que só por Ginevra era usada,
para ti tão liberal, para mim avara; por ninguém mais) , ouço o sinal e torno
mas não julgues fazer-me crer em tal, ao balcão, de tal maneira situado
sem com meus olhos ver, ao natural». que me mostrava de frente e de lado.
1 00 ORLANDO FURIOSO

48 Entretanto Lurcanio, receando 54 Procura ela matar, que isso merece,


que algum perigo o irmão ali persiga, e reserva a maior honor tua morte.
ou, por hábito comum, procurando Traição oculta o amor não esmorece;
conhecer algo da alheia intriga, mas agora ódio lhe darás bem forte;
pé ante pé o veio acompanhando, pois com teus olhos vês, e aparece,
e onde há mais sombras escuro se abriga; o quanto é meretriz, e de que sorte.
a menos de dez passos aparecera, A arma que para ti voltaste, apanha,
e no mesmo casebre se escondera. e revela ao rei desonra tamanha».
49 Eu, desconhecendo a sua presença, 55 Quando Ariodante viu chegar o irmão,
no traje descrito à varanda vim; o seu cruel intento pôs de lado;
como antes já viera, sem diferença, mas de a vida cessar a intenção
mais de duas vezes para um bom fim. não perde, tendo-a apenas disfarçado.
Tinha o traje ao luar clareza imensa; Ergue-se e vai, levando o coração
não diferindo Ginevra de mim, por uma angústia extrema trespassado;
nem no seu aspecto nem na estatura, com o irmão finge que aquele furor
pareceu que era dela a minha figura; lhe passou, antes tão devastador.
50 e sendo muito amplo o espaçamento
que entre o balcão e as casas se abrangeu,
aos dois irmãos, que estavam ao relento,
o duque facilmente os convenceu
com o falso. Vê tu que desalento
e que desgosto Ariodante viveu.
Vem Polinesso e à escada deita a mão,
pois lha atirei, e sobe ao balcão.
51 Assim que chega lhe abraço com gosto
o pescoço, pois julgo-me invisível;
beijo-o nos lábios e por todo o rosto,
o que em cada visita era infalível.
A acariciar-me estava mais disposto
que o usual, para a fraude ser mais crível.
E Ariodante essa cena proterva
à distância, boquiaberto, observa.
52 Cai em tal angústia que se dispõe
ali mesmo a da vida se excluir:
logo o punho da espada em terra põe,
a fim de sobre a ponta se ferir.
Lurcanio, que inda mal se recompõe
de ter visto o duque até mim subir,
mas que à distância o não reconheceu,
vendo o gesto do irmão, logo acorreu,
53 impedindo que ele, com a própria mão,
em louco impulso trespassasse o peito.
Se mais longe estivesse de plantão,
tempo não tinha de impedir o efeito.
«Ah, irmão desgraçado, insano irmão
(gritou) , a morte querias por despeito,
por uma mulher, neste vil momento?
Que o demo as leve, como à névoa o vento!
CANTO V 101

56 Na manhã seguinte, sem dizer nada 62 Repetia a si mesmo que o irmão


ao irmão nem a ninguém, conduzido fora só Ginevra quem lho matou,
pelo mortal desespero, fez-se à estrada, pois fora só aquele acto malsão
e nada mais dele foi conhecido. que a viu cometer que à morte o levou;
Só seu irmão e o duque, esta abalada, pela vingança ganhou tal obsessão,
sabiam bem o que a tinha induzido. e tal ira e desgosto o dominou
Na corte sobre ele muito se falava, que a mercê do rei perder já despreza,
e a toda a Escócia o mistério alastrava. e o seu ódio e o do povo não lhe pesa.
57 Ao fim de oito ou mais dias veio à corte 63 Apresentou-se ao rei, quando mais gente
apresentar-se a Ginevra um viajante. na sala com ele estava, e proferiu:
Notícias lhe trazia de má sorte: «Sabe, senhor, que de turvar a mente
que no mar se afogara Ariodante, a meu irmão, o que à morte o induziu,
dando-se de seu livre arbítrio à morte, é tua filha a única nocente,
sem culpa de Bóreas 5 ou do levante6 . pois tanta dor na alma lhe infligiu
Dum rochedo que o mar domina, alto, o tê-la visto tão pouco pudica
mergulhara de cabeça, dum salto. que só morte tal mágoa pacifica.
58 Disse ele: «Encontrei-o antes que o gesto 64 Não encubro que ele era amante dela,
executasse, e quis que eu fosse ver: pois seu amor não era desonesto;
"Vem comigo, para ires dar manifesto de ti por mulher queria merecê-la,
a Ginevra do que me suceder; por seu serviço e valor manifesto;
e diz-lhe também que a razão do resto mas, mentre o tolo cheirava à cautela
que com teus olhos em breve vais ver as folhas, de longe um viu subir lesto
se deu apenas porque vi demais. à árvore que havia preservado,
Feliz sem olhos fora, muito mais!" e roubar-lhe o fruto tão desejado».
59 Encontrávamo-nos no Cabo Baixo7 , 65 E prosseguiu contando que observara
que para a Irlanda se estende no mar. Ginevra ir ao balcão, e atirar dele
Isto dizendo, dum rochedo abaixo uma escada, e que logo ali chegara
logo o vi de cabeça mergulhar. seu drudo, cujo nome não sabe ele,
No mar ficou, e à pressa e cabisbaixo que roupas e cabelos mascarara
vim, para esta notícia apresentar». para que sua pessoa não revele.
Ginevra, aquilo ouvindo, meio morta Acrescentou ele que pelas armas queria
ficou, e coisa nenhuma a conforta. provar ser verdadeiro o que dizia.
60 Deus sabe tudo o que ela disse e fez, 66 Imaginas como fica magoado
quando se encontrou sozinha em seu leito! um pai, quando ouve acusar sua filha;
Rasgou as roupas e feriu a tez ouve dizer o que tinha pensado
e a seus loiros cabelos deu defeito, nunca ouvir, e causa-lhe maravilha;
repetindo as palavras tanta vez porque sabe bem que será forçado
que Ariodante para fim tinha eleito: (se a defesa um guerreiro não partilha,
que ter visto demais era a razão que faça de Lurcanio mentiroso)
de cometer tão fatídica acção. a condená-la à morte, desgostoso.
61 Dele se ouve dizer por todo o lado 67 Creio, senhor, que para ti não é nova
que por desgosto procurara a morte. a lei da Escócia que condena à morte
Por tal tem o rei seu rosto banhado, qualquer dama ou donzela que se prova
e os cavaleiros e damas da corte. unir-se a outro que não o consorte.
Mas seu irmão era o mais enlutado, No prazo dum mês terá de ir para a cova,
e foi tomado duma dor tão forte se não surgir um cavaleiro tão forte
que quase sua vida extinguiu também, que dê por falsa a trama que esse tece,
querendo ao irmão juntar-se no além. provando que ela a morte não merece.
1 02 ORLANDO FURIOSO

68 Tornou público o rei que, para salvá-la 74 à minha escolta deu ordem secreta
(pois pensa que ela em falso é acusada) , para que, tendo-me nesta selva a jeito,
por mulher com bom dote pensa dá-la me dessem como prémio morte abjecta.
a quem limpe a infâmia divulgada. Seu intento seria satisfeito,
Guerreiro que se ofereça, nem se fala: se acaso o meu clamor não te intercepta.
de soslaio, entre si trocam mirada, Vê como trata Amor quem lhe é atreito! -
pois, sendo Lurcanio tão destemido, Ao paladino assim narrou Dalinda,
qualquer guerreiro se sente inibido. enquanto pelo caminho iam ainda.
69 Quis a adversa sorte que Zerbino, 75 Rinaldo dà graças à sua fada
irmão dela, do reino esteja ausente; por haver encontrado esta donzela;
já anda há muitos meses peregrino, pois toda a hist6ria lhe foi desvendada
das artes militares defendente; da inocência de Ginevra bela.
se mais perto estivesse o paladino, E se esperara, mesmo se acusada
ou onde de desdita tão premente com justa razão, poder defendê-la,
o fosse alcançar a tempo a notícia, mais confiante à prova ora se apresta,
a irmã salvaria com perícia. sabendo que é falso o delito desta.
70 Entretanto, o rei quer ver se se inteira, 76 E tendo por destino Santo André8 ,
por provas de diferente qualidade, onde o rei de sua corte partilha,
se falsa é a denúncia ou verdadeira, e onde ia realizar-se o finca-pé
se é justo ela morrer ou se é maldade: que decidiria a sorte da filha,
chama a si uma ou outra camareira Rinaldo avançou sem parar até
que devera conhecer a verdade. estar dali a pouco mais duma milha.
E vi que, se à sua presença eu ia, Cruzou-se, ainda fora da cidade,
para o duque e para mim grande perigo havia. com um pagem que lhe deu novidade:
71 Do palácio fui nessa noite andante, 77 que um cavaleiro estranho lá aparecera,
sozinha, e o meu duque procurei; a defender Ginevra decidido;
e fiz-lhe ver o quanto era importante suas insígnias ninguém conhecera,
para n6s ambos que eu não falasse ao rei. andando ele sempre muito escondido;
Tranquilizou-me e louvou-me bastante; desde que ali estava, ninguém pudera
ante os seus conselhos me despachei o rosto ver-lhe, por estar obstruído;
a albergar-me num castelo seu, mesmo o escudeiro que para ele moureja
na companhia de dois que me deu. afirma, jurando: - Eu não sei quem seja. -
n Já te contei, senhor, de que feição 78 Cavalgaram pouco até que à muralha,
o duque satisfiz com o meu amor; e logo à porta, chegam de imprevisto.
claro vês tu se da sua afeição O receio de avançar Dalinda atalha;
por tal motivo me era devedor. mas vai, porque Rinaldo lhe é benquisto.
Pois vê que tipo de compensação, Ao ver a porta fechada, este ralha
que prémio reservou para tanto ardor; a quem a guarda: - Que quer dizer isto? -
e diz-me se deve, por tanto amar, Que o povo todo (foi-lhe respondido)
uma mulher ser amada esperar; para a batalha ver estava reunido,
73 pois este ingrato, pérfido e cruel, 79 a que Lurcanio e o outro acto dão,
para a minha falsidade ora se inclina: no extremo oposto a este da chegada,
começou a recear que eu revele, onde havia um prado espaçoso e chão;
agora ou mais, sua farsa vulpina. e que a luta já era iniciada.
Fingiu que, para que me afaste e me sele Abriram ao senhor de Montalvão
enquanto a ira do rei não declina, a porta, que de novo foi fechada.
pretendia mandar-me para o seu forte; A cidade atravessa sem paragem,
mas queria dar-me imediata morte: mas Dalinda deixa numa estalagem;
CANTO V 1 03

80 que fique tranquila recomendou, 81 Seis outros cavaleiros 9 no cercado


pois ele a regressar não demorava; estavam, em pé, vestidos com couraça;
e logo para o campo dali marchou, e o duque de Albany 1 ° , este montado
onde um guerreiro o outro trabalhava num possante corcel de boa raça.
havia tempo, e a luta continuou. Como grão-condestável foi-lhe dado
Lurcanio contra Ginevra pugnava; a guarda daquele campo e da praça,
o outro fazia a sua defesa, e, crendo que Ginevra em perigo estava,
com brio levando a cabo a sua empresa. o coração e o olho lhe brilhava.
CANTO V 1 05

82 Rinaldo vai avançando entre a gente; 88 Polinesso, mostrando receança,


abre caminho o bom corcel Baiardo: coração tremente e pálida tez,
quem o seu tropel impetuoso sente, ao terceiro toque enristou a lança.
a desviar-se não é coxo ou tardo. Desejando a festa acabar de vez,
Rinaldo ali se apresenta, eminente, logo Rinaldo contra ele se lança.
entre os cavaleiros o mais galhardo; Para trespassar-lhe o peito o gesto fez,
frente à real tribuna se detém, e não discorda do desejo o efeito,
e acorrem todos para ouvi-lo bem. pois meia haste lhe enfiou no peito.
83 Rinaldo disse ao rei: - Magno senhor, 89 Assim transfixo o faz cair por terra,
não deixes a batalha prosseguir; distante do cavalo umas seis braças.
pois o que morrer, seja aquele que for, Desmonta Rinaldo e pronto lhe aferra
será morte em vão que vais consentir. o elmo antes que se erga, e solta as laças.
Um pensa ter razão, estando em error, Mas ele, que já não pode fazer guerra,
e mente sem saber estar a mentir; humilde, solicita suas graças,
o mesmo engano que matou o irmão e confessa, perante o rei e a corte,
agora lhe pôs a arma na mão. a sua fraude, que o levou à morte.
84 Não sabe o outro se há razão ou torto;
pois só por gentileza e por bondade
quis vir correr o risco de ser morto,
para não deixar morrer essa beldade.
À inocência a salvação transporto,
e o contrário a quem usa falsidade.
Mas antes, manda o duelo parar;
depois, escuta o que te quero narrar. -
85 A autoridade de homem tão digno,
quanto Rinaldo o era de semblante,
comoveu o rei, que logo, benigno,
mandou que não fosse a peleja avante;
depois ao rei, e séquito condigno,
e aos cavaleiros e gente restante,
Rinaldo tornou o ardil expresso
a Ginevra urdido por Polinesso.
86 Depois, para provar pelas armas se oferece
que só a verdade ali veio falar.
Chamam Polinesso, que comparece,
com grande audácia pondo-se a negar;
mas perturbado o rosto lhe aparece.
Disse Rinaldo: - Vamos já provar. -
Estando os dois armados e o campo intacto,
logo passaram a vias de facto.
87 Oh, quanto ao rei e quanto ao povo é caro
provar-se que Ginevra é inocente!
Todos esperam que Deus lhes torne claro
que impudica foi dita injustamente.
Polinesso era tido por avaro,
perverso, fraudulento e insolente;
assim, não é surpresa para ninguém
que tenha tecido este ardil tão bem.
1 06 ORLANDO FURIOSO

90 Em meio a uma palavra a voz se aperta,


e voz e vida ali se lhe esboroa.
O rei, que sua filha vê liberta
da morte e da calúnia nada boa,
rejubila de forma mais aberta
do que faria se, perdida a coroa,
se visse dela de novo empossado;
muito por ele é Rinaldo louvado.
91 Sem elmo se lhe torna conhecido,
pois já antes houvera dele sinal;
ergueu as mãos a Deus, agradecido
por ajuda tão providencial.
Aquele cavaleiro desconhecido,
que a Ginevra acudira em caso tal
e que, armado, por ela ali pugnara,
ficara de lado e tudo observara.
92 Quis conhecer o rei sua linhagem,
ou que ao menos mostrasse a aparência,
para lhe poder prestar sua homenagem
por ter acudido nesta ocorrência.
O elmo só tirou da sua imagem
a muito custo, pondo em evidência
o que noutro canto vou prosseguir,
se grato vos for esta história ouvir.

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NOTAS

1 Megera: uma das três Fúrias infernais. va que Isabella d'Este possuía um exemplar (mais tarde
traduzido para italiano por Lelio Manfredi).
2 Tebas, AJxos ou Micenas: cidades funosas por grandes
delitos (Tebas, pela extrema cruddade de Creonte e pela tra­ 5 Bóreas: deus do vento norte.
gédia de Édipo; Argos, pela história das cinquenta filhas do
6 Levante: vento de leste.
rei Dánao - as Danaides -, que apunhalaram os maridos;
Micenas, pelos crimes de Atreu, Clitemnestra e Orestes). 7 Cabo Baixo: cabo não identificado.
3
Da/inda [. . .] chamo: para compor a figura de 8
Dalinda, Ariosto ter-se-á inspirado em Braugain, cama­ Santo André: St. Andrews, na costa oriental da Escócia.
reira da rainha Isolda, que sacrifica a sua honra para sal­ 9
var a da rainha; contudo, os desfechos são diferentes. Seis outros cavaleiros: as testemunhas, ou padrinhos,
do duelo.
4 Fraude: o plano urdido por Polinesso deve ter sido
1 0 Duque de Albany: Polinesso, que urdira a trama con­
inspirado pelo romance catalão Tirant lo blanch, de J.
Martorell, que Ariosto terá conhecido no original, uma tra Ginevra (cf. 7:8).

CANTO VI

Infeliz o que mal faz e confia


que o malefício há-de ficar oculto;
inda que outros o calem, o anuncia
o ar e a terra onde ficou sepulto;
e Deus faz muita vez que a felonia
descubra aquele que pensa ter indulto:
sem que lho peçam ele a si molesta:
inadvertidamente o manifesta.
2 Pensara o miserável Polinesso
o seu delito poder encobrir,
dando fim a Dalinda como preço,
pois só ela o podia descobrir;
mas, acrescendo ao primeiro outro excesso,
chamou o mal em vez de o diferir;
diferi-lo ou evitá-lo podia,
mas, precipitado, à morte corria;
3 perdeu assim amigos, vida e estado,
e a honra, que dano maior é que esse.
Dizia eu antes que foi muito instado
o cavaleiro, que ninguém conhece.
Por fim, tirando o elmo, o rosto amado
e tanta vez visto aos olhares oferece:
mostrou a todos que era Ariodante,
chorado por toda a Escócia adiante!
1 08 ORLANDO FURIOSO

4 Por quem, j ulgando-o morto, tanto pranto 10 - Ai de mim! (dizia), não poderia
Ginevra e seu irmão vertido havia; saber que por meu mal ela morreu;
e o rei, a corte e o povo chorou tanto, com que amargura a vida findaria,
pela virtude e valor de que esplendia. se antes de mim a visse morrer eu.
Que o peregrino lhes mentira em quanto Minha amada é ainda e minha guia,
veio a seu respeito contar, parecia; é ela que dá luz ao olhar meu.
porém, viu-o de facto cabisbaixo Com ou sem razão, à batalha irei
atirar-se ao mar, do rochedo abaixo. por ela, e no campo morto serei.
5 Mas (como um desesperado que pediu 11 Sei que a razão não defendo; mas seja!
à distância, porque a deseja, a morte, Assim morrerei; só me desconforta
e que ao vê-la de perto desistiu, saber que, por morrer nessa peleja,
por achar mui dura e acerba sorte) tão bela dama deverá ser morta.
quando Ariodante no mar se viu, Um único consolo me sobeja:
já não quis morrer; e, como era forte, se Polinesso de amor a conforta,
hábil, e mais que qualquer outro audaz, a Ginevra dúvida não restou
pôs-se a nadar, e à praia o mar o traz; que a defendê-la não se apresentou;
6 e, por desprezá-lo, chamando estulto 12 e eu, que abertamente ela ofendeu,
ao seu desejo de deixar a vida, há-de ver que para a salvar ali vim.
à via se fez o encharcado vulto, De meu irmão, que este fogo acendeu,
e alcançou dum eremita a guarida. pelo mesmo acto vou vingar-me assim;
Em segredo ali quis ficar oculto, fá-lo-ei sofrer, ao ver que sou eu
até notícia ser por si ouvida: a quem sua crueldade deu fim:
se pelo caso Ginevra se alegrasse, j ulgando ter vingado o seu irmão,
ou se desgostosa e triste ficasse. tê-lo-á morto com a própria mão. -
7 Ouviu primeiro que, pela grande dor, 13 Quando este raciocínio concluiu,
ela correra risco de morrer buscou armas e corcel para o duelo;
(de tal modo se espalhara o clamor sobreveste e escudo negros vestiu,
que em toda a ilha houve que dizer) : ornamentado a verde e a amarelo.
contrário efeito àquele que, por error, Um escudeiro ao acaso lhe surgiu,
cria ante si ter visto acontecer. desconhecido, e a seu lado quis tê-lo;
Soube depois como Lurcanio a tinha e incógnito (como eu tinha narrado)
perante seu pai tornado mesquinha. contra o irmão se apresentou armado.
s Por seu irmão não menos de ira ardeu 14 Já vos narrei como o caso se desse,
como de amor antes por ela ardesse, que foi reconhecido Ariodante.
pois ímpio e cruel acto lhe pareceu, Não menor gáudio teve o rei do que esse
embora por si ele o cometesse. de a filha livre poder ver diante.
Soou-lhe depois que não apareceu Pensou para si que jamais se pudesse
cavaleiro que defesa lhe desse encontrar mais fiel e vero amante;
(sendo Lurcanio tão forte e galhardo, depois de tanta injúria que sofrera,
todos, de o enfrentar, tinham resguardo; contra o seu próprio irmão a defendera.
9 e quem o conhecia o reputava 15 Por sua inclinação (pois muito o amava)
tão prudente, tão sábio e atilado e atendendo aos rogos de toda a corte
que, se vero não fosse o que narrava, e de Rinaldo, aquele que mais instava,
risco de morte não tinha enfrentado; da sua bela filha o faz consorte.
por isso a maioria receava De Albany o ducado a si voltava,
duma falsa causa ser advogado) ; depois que Polinesso achou a morte;
Ariodante muito reflectiu, que em tal hora vague é uma maravilha,
e lutar contra o irmão decidiu. pois em dote pode oferecê-lo à filha.
CANTO VI 1 09

16 Rinaldo para Dalinda implorou graça, 22 Por entre alvos lírios e rubras rosas
que do seu erro assim foi absolvida; que a amena brisa frescos conserva,
a qual, por vocação e por escassa saltam coelhos e lebres airosas;
fé no mundo, a Deus dedicou a vida. o veado sereno e a mansa cerva,
Para a Dácia 1 , para ser monja, se trespassa, sem temor, erguem as frontes garbosas,
deixando a Escócia logo de seguida. ou estão imóveis ruminando a erva;
Mas são horas de a Ruggier regressar, ágeis e esbeltos, o gamo e o cabrito
que no ligeiro animal corre o ar. ali vivem em número infinito.
17 Mostra Ruggier corajoso semblante, 23 Tocando o hipogrifo quase a cerra,
e na tez mantém a coloração, e perigo já não havendo em que salte,
mas não creio não tenha palpitante Ruggi er com pressa a sela desaferra,
como uma folha, dentro, o coração. e seus pés pousa no herboso esmalte;
Para trás deixara, já muito distante, contudo, na mão as rédeas lhe cerra,
toda a Europa e aquele bastião, pois não deseja que para o ar ressalte;
dos navegantes o confim2 , prescrito depois amarra-o, no areal ribeiro,
pelo admirável Hércules invicto. num mirto entre um loureiro e um pinheiro.
1s O hipogrifo, pássaro aprumado 24 Vendo que havia ali perto uma fonte
que pelo ar o arrebata com presteza, rodeada de cedros e férteis palmas,
o ministro 3 teria ultrapassado pousou o escudo e retirou da fronte
que dos lampos transportar tem empresa. o elmo, e desarmou as duas palmas 5 ;
Não cruza os céus outro animal alado o rosto ora para o mar ora pro monte
que a voar se lhe iguale em ligeireza; volvia, para colher as brisas almas
creio que apenas o raio e a flecha que os topos, com rumorejos facetos,
do céu à terra vêm com mais mecha. agitam das faias e dos abetos.
19 Depois de atravessar grande distância 2s Às águas cristalinas vai e banha
em linha recta, sem nunca curvar, os lábios secos, e as mãos nela passa,
farto do ar, começa em alternância para do corpo o calor que se lhe entranha
sobre uma ilha, às voltas, a baixar; expulsar, do interior da couraça.
igual àquela a que, por discordância Que a aborreça não é coisa estranha,
do seu amante e querendo-se ocultar, pois não serviu para se mostrar em praça,
Aretusa4 se fez chegar em vão, mas sim para sem pousar, de armas coberto,
sob o mar indo em cega direcção. três mil milhas correr a céu aberto.
20 Não viu lugar mais ameno ou jucundo,

de todo o ar em que as asas estendeu;


nem, quem haja corrido todo o mundo,
terra mais aprazível conheceu.
Depois de dar amplo giro rotundo,
com Ruggiero o pássaro ali desceu:
verdes planuras, amenas colinas,
margens umbrosas, águas cristalinas.
21 Sedutores bosques, de fresco olor,
de palmeiras e mirtos odorosos,
cedros, laranjeiras com fruto e flor,
dispostos em modos harmoniosos,
abrigavam do férvido calor
com seus ramos folhudos e frondosos;
entre a ramagem, em voo descuidado,
perpassam rouxinóis com seu trinado.
CANTO VI 111

26 Nisto, o corcel, que deixara amarrado 32 Depois viu-se que suava da cortiça,
sob os densos ramos na fresca sombra, como um madeiro do bosque trazido
recua, querendo fugir assustado que ante o calor do fogo se inteiriça,
com não sei quê que no bosque o assombra; depois de ao fogo em vão ter resistido;
tanto verga o mirto a que está atado - Tua cortesia (disse) me atiça
que todo o pé com os ramos lhe ensombra; a que também te torne conhecido
verga o mirto e faz-lhe cair a folha, quem fui antes, e quem de mim fez tal,
mas dele a rédea não desaferrolha. que mirto sou neste ameno areal.
27 Como às vezes um cepo que o miolo 33 Era meu nome Astolfo7 ; e morticínio,
verde ou oco tem, e no lume é posto, paladino de França, fiz na guerra;
e a húmida aragem do seu carolo de Orlando e Rinaldo era consanguíneo,
o forte calor consome com gosto; cuja fama nenhum limite encerra;
dentro silva e assobia um arrolo, e devia ser meu todo o domínio,
até que para sair encontra um posto, após meu pai, Otone, de Inglaterra.
assim arrulha e chia e se encarniça Belo e galante fui, e conquistei
o mirto, até que se lhe abre a cortiça. não poucas damas; e me desgracei.
2s Dali voz débil e triste saiu, 34 Voltando daquelas ilhas extremas
que expedita e mui clara tagarela: que no Levante o mar índico8 lava,
- Se acaso fores tão cortês e pio onde com Rinaldo sofri algemas,
quanto faz crer tua presença bela, fechados numa prisão escura e cava,
da minha árvore solta ao bicho o fio; e donde nos livraram as supremas
basta o meu próprio mal que me flagela, forças e brio do cavaleiro de Brava9 ,
sem outras penas e outros sofrimentos para poente vinha por areais
que, de fora, venham dar-me tormentos. - batidos pelos ventos setentrionais.
29 Ao primeiro som desta voz voltou 35 Seguindo essa via e hostil destino,
Ruggiero o rosto, e ergueu-se de repente; sem saber chegámos uma matina
ao ver que do mirto a voz se soltou, àquele deleitoso areal marino
sua estupefacção foi evidente. que um castelo tem, da possante Alcina1 0 •
A retirar o corcel se apressou, Fora do seu castelo a descortino,
e a vergonha no rosto foi patente: sem companhia, na margem salina;
- Perdoai-me (disse) , quem quer que seja, sem redes nem anzol, ela atraía
espírito humano, ou deusa sertaneja6 • à praia todós os peixes que queria.
30 Só porque não sabia que se esconde 36 Velozes acorriam os golfinhos,
sob a áspera cortiça humano espirto, e o grande atum com sua boca aberta;
ousei perturbar a perfeita fronde os cachalotes e leões-marinhos,
e ofensa fiz ao teu viçoso mirto; aos quais enorme sono desconcerta;
ao meu pedido, te peço, responde: ruivos, alforrecas, salmões, toninhos
diz-me quem és, que num corpo tão hirto vêm aos cardumes, estes alerta;
vives, tendo voz e racional siso; os espadartes, as orcas e baleias,
salve-te o Céu das pedras de granizo. de enormes corpos, chegam às areias.
31 Se alguma vez puder este despeito 37 · Uma baleia surgiu, a maior
com algum benefício compensar-te, que já alguma vez se viu no mar;
pela minha linda- dama te dou preito, onze passos 1 1 teria, sem favor,
aquela que há de mim a melhor parte, acima de água o seu dorso invulgar.
que te darei, com palavra ou com feito, Caímos todos nós no mesmo error,
razão que de mim possas orgulhar-te. - pois estava queda sem se deslocar:
Terminando Ruggier o falar seu, que ela era uma ilhota todos nós cremos,
o mirto do vértice aos pés tremeu. tão distante um do outro tinha os extremos.
112 ORLANDO FURIOSO

38 Alcina com feitiço o peixe engana 41 Rinaldo acenou negativamente,


e com palavras, e ele vem a si. e Dudon também; debalde, porém.
Nasceu ela irmã da fada Morgana, A fada Alcina, toda sorridente,
do mesmo parto, disseram-me aqui. deixando os outros, atrás de mim vem.
Alcina olhou minha figura humana, A baleia, zelosa e diligente,
de que se agradou, nos olhos lho vi; nadando se afastou pelo mar além.
e pensou com astúcia e com talento Do erro depressa me arrependi,
reter-me ali; e cumpriu seu intento. mas já bem longe da praia me vi.
39 Veio ao nosso encontro, de alegre rosto, 42 Rinaldo à água cai em alvoroto
e por entre graciosos cumprimentos para me acudir, e quase sucumbiu,
disse: «Cavaleiros, se vos dá gosto pois levantou-se o furioso Noto 1 2 ,
tomar de minha casa os aposentos, que de sombras céu e terra cobriu.
ireis ver que o meu pescado é composto O que mais lhe aconteceu é-me ignoto.
de peixes vários e de muitos centos: A tranquilizar-me Alcina acudiu;
tenho escamudos, com pêlo e ao léu, todo esse dia e a noite a seguir,
e são mais do que estrelas há no céu. no monstro, através do mar, me fez ir.
40 E, caso queiram ver uma sereia 43 Até que a esta ilha se aportou,
que com seu doce canto aquieta o mar, que de Alcina é em parte, não inteira,
vamos daqui àquela outra areia, porque ela a uma irmã 1 3 a usurpou,
onde por esta hora sói voltar». de quem o pai fez a única herdeira;
E apontava-nos a maior baleia, como filha legítima a herdou,
que eu disse ser a ilha similar. pois (como alguém me disse, em cavaqueira,
Eu que (ai de mim) me precipitei, que ao corrente estava disso e do resto)
logo para cima do peixe saltei. estas duas 14 foram fruto de incesto.
CANTO VI 1 13

44 Enquanto iníquas são e celeradas, 50 Tarde descobri como era inconstante:


e têm todo o vício infame e feio, dois meses ocupei seu coração,
a outra tem virtudes recatadas e meu lugar cedi a novo amante.
e fez da castidade o grande esteio. Rejeitou meu amor com presunção
Contra ela estão estas conjuradas, (amava e desamava num instante) ,
e até de exércitos têm maneio, e do seu favor me deu privação.
para da ilha a expulsar, e em duelos Depois aprendi que igual tratamento
já lhe tiraram mais de cem castelos; dera ela a mil outros, sem merecimento.
45 nem teria já um palmo de terra, 51 E, para que eles não andem pelo mundo
Logistilla (que assim ela é chamada) ; falando de sua índole ligeira,
porém, um golfo deste lado encerra, planta-os por este terreno fecundo,
e do outro uma montanha, a entrada, uns como abeto, outros como oliveira,
tal como está da Escócia a Inglaterra, ou então como palmeira, ou segundo
pelo monte e pela ribeira 1 5 separada; a mim em mirto vês do mar à beira;
pensam Alcina e Morgana, contudo, de alguns fonte faz e de outros faz fera,
tirar-lhe o que resta e ficar com tudo. como mais apraz àquela megera.
46 Pois este par, em vícios primazia, 52 Ora tu, que por insólita via,
odeia a outra, que é pudica e santa. senhor, alcançaste a ilha fatal,
Mas voltando àquilo que te dizia para que outro amante seja, por magia,
para te contar como me tornei planta: mudado em pedra, em onda, ou coisa tal,
Alcina de delícias me cobria, terás de Alcina ceptro e senhoria,
e por mim ardia de paixão tanta; e serás mais feliz que outro mortal;
igual chama o coração me incendiou mas cedo tua hora há-de chegar
a beleza e agrado que mostrou. de em fera, fonte, pedra ou pau mudar.
47 De seu corpo disfrutava, me alembra, 53 De boa vontade foste instruído;
parecendo que nele se encontrava junto não é que eu ache que possa ajudar-te,
todo o bem que para os mortais se desmembra, mas melhor será que vás prevenido
num pouco mais, ou menos, nunca muito; e de seus costumes conheças parte;
nem França ou outra coisa já me lembra, talvez que, como o rosto é diferido,
perdido a contemplar o seu conjunto; o possa ser também o engenho e a arte.
cada pensamento meu ou desejo Saberás, quiçá, evitar o dano,
nela terminava, único almejo. depois de outros mil sofrerem o engano.
48 Por ela eu era tanto ou mais amado: 54 Ruggier, que Astolfo soubera por fama
Alcina já não se ocupava de outros; ser primo de sua amada cavaleira,
os demais amantes tinha deixado, condoeu-se de ver que em planta a dama
que antes de mim houvera muitos outros. mudou sua aparência verdadeira;
Dia e noite me mantinha a seu lado, e por amor daquela que tanto ama,
seu conselheiro e comandando os outros 16 ; e desde que soubesse em que maneira,
em mim cria e só em mim se fiava; lhe acudiria; porém, para ajudá-lo
noite ou dia, com mais ninguém falava. mais não pode fazer, só confortá-lo.
49 Ai! Por que minhas chagas vou tocando, 55 Fê-lo o melhor que soube; e então pediu
se para elas não espero medicina? para lhe indicar a via que o levasse
Por que esse bem que perdi vou lembrando, a Logistilla 17 , por plano ou pendio,
quando aqui sofro extrema disciplina? de maneira que a de Alcina evitasse.
Quando julgava ser feliz, e quando Que outro caminho havia garantiu
pensava que mais me amaria Alcina, o mirto, mas abrupto e mui falace,
o amor que me dera me retirou, pouco mais à frente, à sua direita,
e a outro novo amor se dedicou. subindo o monte ao pico que o enfeita.
1 14 ORLANDO FURIOSO

56 Mas que não deverá pensar que possa 57 Ao cavalo foi para desamarrá-lo
por ela caminho a salvo seguir: e atrás de si pelas rédeas o levou,
lá encontrará gentalha da grossa, para não poder a bel-prazer alçá-lo,
e bravia, para o passo lhe impedir. como antes fizera, quando o montou.
Alcina ali os pôs, qual muro ou fossa, Tem como pensamento, a ocupá-lo,
para quem de seu poder logra fugir. de Logistilla o reino que almejou.
Ruggier ao mirto agradeceu, sentido, Estava disposto a usar toda a obra,
pois dali se vai douto e instruído. para de Alcina evitar a vil manobra.
CANTO VI 115

58 O hipogrifo pensou cavalgar 61 Nunca foi vista tão estranha cambada,


e no ar incitá-lo a novo rumo; tão monstruosas 1 8 caras e aparatos:
mas receou ter um maior azar, alguns têm figura humanizada,
pois com a brida não lhe dava aprumo. e rostos de macacos ou de gatos;
- Por força passarei, se eu não falhar -, de pé caprino alguns deixam pegada;
para si dizia mas em vão, presumo. centauros há também, ágeis e aptos;
Duas milhas andara pela campina, jovens insolentes, velhos estultos,
quando avistou a cidade de Alcina. nus, ou com peles a cobrir os vultos.
59 Ao longe viu uma grande muralha, 62 Num corcel sem freio há um que galopa;
que em torno gira e grande reino encerra; outros, lentos, vão em burros ou bois;
parece que em altura ao céu se espalha, um outro monta dum centauro a gropa,
e que de ouro é, desde o cimo à terra. outro monta avestruz, e águia depois;
gente há para quem o meu parecer não valha, um leva à boca o corno, o outro a copa;
e a julgue alquimia; mas creio que erra; um é macho, outro fêmea, e outro os dois;
ou, porventura, mais do que eu entende. escada de cordà e gancho, alguém os tem,
A mim parece ouro, pois tanto esplende. e barra de ferro ou lima, também.
60 Ao chegar junto aos muros de cintura, 63 O capitão 1 9 do bando apresentava
que o mundo outras não tem da mesma sorte, dilatado ventre, e rosto anafado;
a estrada abandonou que, pela planura, sobre uma tartaruga se sentava,
levava àquele portão de grande porte; a qual andava em passo sossegado.
pela da direita, que era mais segura De cada lado alguém o apoiava,
e ao monte ia, foi o guerreiro forte. pois ébrio estava, rosto pendurado;
Mas logo encontrou a ímpia quadrilha, outros enxugavam-lhe a fronte e o mento,
que lhe interditou com furor a trilha. e abanavam panos para lhe dar vento.
1 16 ORLANDO FURIOSO

64 Um, que de humano tinha pés e ventre,


de cão o pescoço, orelhas e testa,
a Ruggiero ladra querendo que ele entre
na bela cidade que à destra resta.
Diz o cavaleiro: - Não entro, mentre
na minha mão firme segurar esta! -
E faz-lhe ver a espada, cuja ponta
comprida e bem aguçada lhe aponta.
65 O monstro quer feri-lo com uma lança,
mas Ruggier rechaça e sobre ele cai,
e uma tal estocada lhe dá na pança
que pelas costas a espada um palmo sai.
O escudo embraça e a todos se lança,
mas é muito grande o bando que atrai;
um o fere aqui; lá, outro o aferra;
ele vai-se esquivando e fazendo guerra.
66 Um rasga até aos dentes, outro ao peito,
e vai cortando aquela iníqua raça,
da falta de elmos tirando proveito,
e de escudos, de panceira ou couraça;
mas é assediado de tal jeito
que precisaria, para fazer praça
e manter ao largo aquele povo réu,
ter mais braços e mãos que Briareu20 •
67 Se descobrisse o escudo que levava,
o escudo que já foi do necromante
(refiro-me àquele que a vista ofuscava,
que no arção deixara o mago Atlante) ,
com rapidez o bando dominava,
pois lhe cairia, cego, diante;
terá desprezado usar tal ardil,
por querer mostrar virtude viril.
68 Seja como for, antes quer morrer
/ que prisioneiro ser de tão vil gente.
Mas eis que se vê na porta aparecer,
saindo do muro de ouro luzente,
duas donzelas, em cujo parecer
origem não humilde era evidente:
não por pastores criadas, na pobreza,
mas em reais palácios da nobreza.
69 Um licorne cada uma montava,
mais cândido do que o cândido arminho;
o vestido que cada uma usava,
e o porte, mostrava perfeito alinho.
De modo que, se um homem as olhava,
devia possuir olho adivinho
para desmascarar a sua negaça2 1 :
��--·.:::...:.��:-:_ . . .
Beleza uma parece, a outra, a Graça.
CANTO VI 117

70 Ambas àquele lugar foram, no prado, 71 O adorno que aquela porta rodeia,
onde ataca Ruggier vil multidão. que a encima e que lhe avança, adiante,
Logo o bando se desvia para o lado, em toda a sua parte patenteia
e elas ao cavaleiro dão a mão; as mais preciosas gemas do Levante.
o qual enrubesceu, intimidado, Em quatro pontos nos extremos se esteia
e pela ajuda expressou gratidão. em maciças colunas de diamante.
Para seu comprazimento, e por decoro, O olho o dirá falso ou verdadeiro,
com elas regressou à porta de ouro. mas em beleza e graça é o primeiro.
1 18 ORLANDO FURIOSO

n No espaço que entre as colunas se espraia, 74 Ali, com serena e jocosa fronte,
correm brincando lascivas donzelas; parece que ri sempre o ameno Abril;
se à discrição dessem mais atalaia, jovens e damas há: uns junto à fonte,
que à dama convém, seriam mais belas. cantando uma toada pastoril;
Além de usarem todas verde saia, outros, à sombra de árvore ou de monte,
grinaldas coroavam todas elas. brincam, dançam, fazem coisa não viF3 ;
E, pródigas de encanto e de sorriso, também há quem, afastado, ao amado
a Ruggier franqueiam o paraíso: das amorosas penas dê recado.
73 tal se pode chamar àquele lugar, 75 Entre as copas de loureiros e pinhas,
onde creio que Amor terá nascido. de altas faias e abetos desgrenhados,
Em dança ali se está, ou a jogar, voam brincando tenros Amorzinhos24 ;
e de festejos o tempo é nutrido; alguns da vitória gozando agrados25 ,
maduro pensamento assento achar outros dali aos corações espinhos26
aqui não pode, é lazer aborrido; atirando, ou com redes ocupados;
aqui não entram míngua nem inópia: um ao riacho vai, dardos temperar;
de corno cheio, está presente a Cópia22 • outro os aguça em pedra de amolar.
CANTO VI 1 19

76 Um corcel a Ruggier ali foi dado, 79 Não só esse caminho impede assim,
forte, esbelto, pelagem luzidia, que livre seria não fora ela,
do qual o belo arreio era bordado como escorraça por todo o jardim,
a fio de ouro e preciosa pedraria; perturbando ou esta coisa ou aquela.
em custódia foi dado o outro, alado, Sabei que da quadrilha malandrim
que ao velho mouro 27 obedecer soía, que vos assaltou junto à porta bela
a um mancebo que a pequeno espaço muitos seus filhos são, todos sequazes,
de Ruggier o levava, em lento passo. como ela ímpios, hostis e vorazes. -
77 Aquelas duas jovens tão formosas 80 Ruggier respondeu: - Não uma batalha,
que Ruggier do ímpio bando livraram mas por vós estou pronto a fazer um cento;
(o bando de criaturas asquerosas de mim, e de tudo em que eu tenha valha,
que a via da direita interditaram) fazei como vos pede o vosso intento;
disseram: - Senhor, vossas valorosas que a razão por que eu visto cota e malha
obras, que a nossos ouvidos chegaram, não é para ganhar terras nem provento,
ammam-nos a que o amparo vosso mas só para fazer bem ao semelhante,
vos roguemos, para benefício nosso. mormente se é dama bela e galante. -
78 Em breve acharemos um lameirão 81 As damas muito gratas se disseram
que em duas partes faz esta planura. a Ruggiero, de forma lisonjeira;
Erifilla28 , a cruel, tem a função e, conversando, a um lugar vieram
da ponte guardar, e engana e tortura donde avistaram a ponte e a ribeira;
quem de ir à outra margem faz tenção; armada surge ali, como já esperam,
uma giganta é ela na estatura, de ouro e pedraria, a dama altaneira.
com dentes venenosos abocanha, Mas reservo para o outro canto a história
e com longas unhas, qual urso, arranha. do choque entre Ruggiero e a finória.

NOTAS

1 Ddcia: antiga provmc1a romana; faz actualmente 7
Astolfo: filho do rei Otone de Inglaterra e primo de
parte do território da Roménia. Orlando e Rinaldo (seu pai pertencia à família de
Claramonte), é figura tradicional da literatura cavaleires­
2 Confim: as colunas de Hércules, ou seja, o estreito de ca. As aventuras que aqui conta a Ruggiero ocorreram no
Gibraltar. O. Innamorato.
3 8
O ministro: a águia, ministro de Júpiter por lhe Mar índico: não equivale a oceano Índico, mas sim
transportar e precipitar na Terra os raios e relâmpagos. aos mares orientais de forma indefinida, pois fndia era
sinónimo de Oriente.
4 Aretusa: mito associado à ilha de Ortígia, em frente
9
a Siracusa, na Sicília. Transformada em fonte por Árte­ Brava: corresponde à actual Blaye, a norte de
mis, a fim de escapar à perseguição amorosa de Alfeu Bordéus, no estuário do Gironda; já no O. Innamorato
(deus do rio do mesmo nome, situado no Peloponeso, na era considerada feudo de Orlando.
Grécia), a ninfa foi, por caminhos subterrâneos, até
10
àquela ilha. Mas Alfeu conseguiu misturar as suas águas Alcina: irmã da fada Morgana, é invenção de
às dela (por isso, a fuga foi em vão). Boiardo. Idêntica aos seus modelos literários (Circe,
Dido, Calipso, etc.), representa alegoricamente a
5 Desarmou [ . .} palmas: retirou as manoplas (luvas de Luxúria.
ferro).
11
Onze passos: o «passo» dos Romanos equivalia a um
6
Deusa sertaneja: ninfa dos bosques. metro e meio.
1 20 ORLANDO FURIOSO

12 20
Noto: vento de sul, que traz tempestade. Briareu: um dos três Hecatonquiros, gigantes provi­
dos de cem braços e cinquenta cabeças que ajudaram
13
Irmã: Logistilla, símbolo da sensatez e da virtude. Zeus e os Olímpicos na luta para expulsar os Titãs.
1 4 Estas duas: as gémeas Alcina e Morgana. 21
Negaça: o feitiço, que lhes permite encobrir o vício
sob uma aparência de virtude.
15
Pelo monte e pela ribeira: os montes Cheviot e o rio
22
Tweed. Cópia: a Abundância, que, segundo a mitologia
grega, tinha por símbolo um corno repleto de flores e
16
Outros: a repetição desta palavra em posição de rima frutos, a cornucópia.
nos vv. 2-4-6 segue o original. Talvez seja um recurso para
23
Astolfo enfatizar a preferência que Alcina lhe concedeu. Fazem [. . .} vil: não se ocupam de tarefas vulgares,
servis. Apenas de diversão.
17
A via [. . .} a Logistilla: o caminho que conduz ao
reino de Logistilla - a virtude - é de difícil acesso e cheio 24 Tenros Amorzinhos: pequenos Cupidos.
de ciladas, em oposição àquele que conduz a Alcina - o
25
vício -, que é fácil e cheio de seduções. Vitória [. . .} agrados: regozijando-se por terem sido
bem sucedidos.
18 Momtruosas: os monstros apresentados simbolizam
26
os vícios que Ruggiero terá de combater para chegar ao Espinhos: os dardos atirados pelos Cupidos.
reino de Logistilla, isto é, à virtude.
27 Velho mouro: Atlante, que Boiardo, no O. lnnamorato,
19
O capitão: o capitão daquele bando é o Ócio, pai de diz ser originário da cordilheira do Atlas, no Norte de
todos os vícios. A sua figura parece inspirar-se no velho África.
sátiro Sileno, que costuma ser representado montado
num burro e amparado de ambos os lados, por estar 28 Erifilla: fi ra que simboliza a cupidez.
gu
sempre embriagado. O Ócio, porém, monta uma tarta­
ruga, cuja natural lentidão melhor se lhe adapta.
-.­
CANTO VII

Quem se desvia da sua pátria vê


coisas diferentes, que nunca advertira;
quando depois as conta, ninguém crê,
e em sua boca passam por mentira;
pois o vulgo ignorante não faz fé
no que nunca tocara ou nunca vira.
Por isso, bem sei que a inexperiência
fará meu canto ter pouca credência.
2 Que acreditem ou não, não me aborrece;
desprezo dou ao vulgo tolo e ignaro.
Sei bem que a vós mentira não parece,
que tendes do intelecto o lume claro;
pois só para vós, cuidado me merece
que o fruto do meu esforço seja caro.
Deixei-vos junto à ponte e à ribeira
guardados por Erifilla altaneira.
3 Fino metal vestia com desvelo,
de gemas de cor variada retinto:
rubro o rubi, o topázio amarelo,
verde a esmeralda e dourado o jacinto.
Cavalo não monta, mas outro pêlo:
um lobo, que é daquele bem distinto.
O lobo montava, onde passa o rio,
em sela rica como ninguém viu.
1 22 ORLANDO FURIOSO

4 Um tão grande a Apúlia 1 não teria, 6 Logo a giganta, destemida e lesta,


pois mais que um boi era o tamanho deste. o lobo pica e ao arção se cerra;
Não sei como a seu desejo o regia, a meio do caminho a lança enresta,
sem freio que espuma à boca lhe empreste. e faz tremer com seu galope a terra.
Da cor da areia uma capa vestia Porém, ao duro embate, em terra resta,
sobre a armadura, a maldita peste; pois sob o elmo Ruggiero a aferra
tirando a cor, era da mesma sorte e com tal furor a arranca do arção
que um bispo ou um prelado usa na corte. que seis braças voa antes de ir ao chão.
5 Tinha insígnia no escudo e no cimeiro 7 Da espada puxa ele, que tinha à cinta,
de um venenoso sapo façanhudo. para decepar a cabeça proterva;
Mostraram-na as damas ao cavaleiro, fácil lhe seria, pois como extinta
de cá da ponte, e para a justa tem estudo, jazia Erifilla, entre flores e erva.
e para trufar, e cort:u-lhe o carreiro, Gritam as damas: - Basta que ela sinta
como usava fazer muito a miúdo. que a venceste; a sua vida conserva.
Manda Ruggier para trás, em gritaria; Recolhe, gentil cavaleiro, a espada;
ele toma a lança, ameaça e desafia. passemos a ponte, e a seguir a estrada. -
s Por entre um bosque seguem uma via,
a qual, insuave e árdua, não deleita;
à colina, mui íngreme, subia,
e além de pedregosa era estreita.
Mas encontram espaçosa pradaria
que o cimo daquela colina enfeita;
e ali se lhes depara o mais jucundo
e belo palácio que há neste mundo.
9 Alcina sai, e um pouco vem avante
do férreo portão, com seu nobre porte;
Ruggiero acolhe com gentil semblante,
entre a sua graciosa e digna corte.
Todos fazem vénias ao viajante,
e reverências ao guerreiro forte;
outras não fariam se aos sítios seus,
do supremo trono, descesse Deus.
10 O palácio não era tão excelente
por qualquer outro vencer em riqueza,
mas por ter a mais cativante gente
deste mundo e de maior gentileza.
Pouco era um do outro diferente,
e eram de florida idade e beleza:
de todos, só Alcina era mais bela,
tal como o Sol é mais que qualquer estrela.
11 Sua figura era tão bem formada
como em obra de pintor não perlustro;
loura cabeleira traz entrançada:
não cem o ouro mais brilho e mais lustro.
Espargia-se na face delicada
a cor mista da rosa e do ligustro;
a fronte em marfim puro foi esculpida,
e o rosto acaba na justa medida.
CANTO VII 123

12 Encimam dois subtis e negros arcos 13 Logo abaixo, e entre covinhas estreitas,
os negros olhos, ou dois claros sóis, a boca tinta a natural cinábrio;
de suave expressão e a mover-se parcos; duas filas de pérolas perfeitas
como se Amor brincasse nesses dois, surgem, quando se aparta o doce lábio;
suas setas dispara desses marcos, donde se escoam palavras eleitas
os corações trespassando depois; que amolecem o coração mais sábio,
daquele ponto seu nariz descende, e onde se forma tão suave sorriso
e não encontra Inveja onde o emende. que dá na Terra acesso ao paraíso.
1 24 ORLANDO FURIOSO

14 De alva neve é o colo e leite o peito: 16 Cada feição é um laço estendido,


torneado um; cheio, o outro copia se fala, ri, canta, ou andar se digna;
dois verdes pomos, mas de marfim feito, nem espanta ter Ru ggier neles caído,
vão e vêm qual onda na baía, quando em tudo a encontra tão benigna.
quando o mar a suave brisa é sujeito. Ao que ao mirco sobre ela tinha ouvido,
As outras partes Argo2 não veria, que é pérfida e cruel, não se resigna;
mas bem se pode ver que corresponde, pois engano e traição, em seu juízo, ·
ao que fora aparece, o que se esconde. não acompanham tão suave riso.
15 Seus braços têm a medida justa; 17 Mais depressa acredita que por ela
e a cândida mão, que bem se lhe vê, foi plantado Astolfo na praia amena,
longa é bastante e de largura- angusta; por acto ingrato e vil que fez àquela,
nela nem nó nem veia se entrevê. e que é digno desta e de maior pena;
Vê-se por fim dessa figura augusta e tudo o que Astolfo ouviu contar dela
o pequeno, esguio, e macio pé. falso julga, por querer vingança plena,
Angelical feição, vinda do Céu, por rancor e inveja o penitente
ocultá-la não pode nenhum véu. movido, contra a dama, e em tudo mente.
CANTO VII 125

1s A formosa dama3 , que ele tanto amava, 20 Que mesa triunfante e sumptuosa
do coração lhe está desaparecida, de qualquer um dos sucessores de Nino,
pois por seu encanto Alcina lho lava ou aquela, tão célebre e famosa,
de toda a passada amorosa ferida; de Cleópatra4 para o victor latino,
ela só e seu amor nele grava, a esta era par, que a fada amorosa
ficando nele só ela esculpida: pusera na frente do paladino?
por isso desculpar Ruggier se deve, Não creio que uma mesa assim se observe
se aqui se mostrou inconstante e leve. onde Ganimedes Júpiter serve5 •
19 Cítaras, harpas, liras a tocar, 21 Das mesas o espaço desimpedido,
e vários outros aprazíveis sons, fizeram, numa roda, um jogo ledo:
em torno faziam tinir o ar uns aos outros perguntam ao ouvido,
com suave harmonia e concordes tons. a seu bel-prazer, um qualquer segredo;
Muitos davam a ver que para cantar tal foi pelos amantes bem acolhido
de amor gáudios e penas tinham dons, para seu amor confessarem, sem medo:
ou, com suas ficções e poesias, e foi sua conclusão derradeira
representavam gratas fantasias. juntos passarem essa noite inteira.
1 26 ORLANDO FURIOSO

22 Cedo o jogo acabou, e muito antes 2s mas saia ou saiote não envergou,
do que soía ser ali costume; que envolta veio em ligeiro cendal
pagens trouxeram tochas, e em instantes que só sobre a camisa colocou,
as trevas expulsaram com o seu lume. branca e diáfana como cristal.
Atrás e à frente vão acompanhantes, Abraçou-a e do manto a despojou,
que fazem que Ruggiero ao leito rume, e só lhe restou o subtil brial,
num aposento de tão belo efeito que a não cobria à frente nem atrás
que melhor entre todos foi eleito. mais que a rosas e lírios vidro faz.
23 Depois que finos doces e bons vinhos 29 Tão estreitamente não abraça a hera
lhe serviram em oferta cortês, o tronco a que se agarra duma palma;
retiraram-se os outros para seus ninhos, tal o abraço dos amantes era,
e muitas vénias cada um lhe fez; colhendo nos lábios a flor da alma9 ,
Ruggiero entrou nos perfumados linhos, mais odorante que semente dera,
das mãos de Aracne6 saídos, talvez, da Índia ou da Sabeia 1 0 , flor que açalma.
mantendo porém o ouvido atento, Dizer esse prazer a eles toca,
para na chegada da dama ter tento. pois mais que uma língua tinham na boca.
24 Ao mais pequeno rumor que sentia, 30 Esta paixão lá dentro era secreta;
na esperança de vê-la, seu rosto alçava: ou dela, pelo menos, se não falava;
pensava ouvir, depois já não ouvia, saber calar não raro é coisa recta:
e, pelo seu erro dando, suspirava. louvor motiva e pouca gente agrava.
Saía até do leito e a porta abria, Com fino acolhimento e etiqueta
para fora olhava, mas nada avistava; toda a gente ali Ruggiero adulava:
mil vezes maldição lançou à hora, cada um respeitoso se lhe inclina,
que para passar levava tal demora. pois assim quis a enamorada Alcina.
2s A si mesmo dizia: - Aí. vem ela. -, 3 1 Não há deleite que de fora reste;
e começava os passos a contar todos inclui essa amorosa aliança.
que da alcova dela iam àquela Num só dia amiúde trocam veste,
em que ele espera Alcina ver entrar; de acordo com esta ou aquela usança.
mil devaneios faz em sua cela, Todo o tempo em festejo ali se investe,
antes que a dama possa ali chegar. em justas, lutas, cenas, banho ou dança;
Teme que algo secreto se alicerce, ou junto às fontes, e umbrosos abrigos,
que entre o fruto e a mão venha meter-se7 . lêem os ditos de amor dos antigos;
26 Alcina, que aos seus preciosos odores 32 ou por amenos vales e colinas
se entregara sem restrições ou meta, caçam lebres esquivas com o alão;
ao chegar a hora em que de rumores ou, dos restolhos secos das campinas,
sabe que toda a casa já está quieta, com sagazes cães, espantam o faisão;
seu quarto deixa então, por entre olores; aos tordos visco ou laços, pelas matinas,
e silente vai, por via secreta, entre frondosas giestas armar vão;
aonde Ruggier, com temor e esperança, ou com redes, ou com anzóis e isco,
aguardava em forçada temperança. os segredos turbar do peixe arisco.
27 Conforme viu o sucessor de Astolfo 8 33 Estava Ruggier em tal recreio e festa,
aparecer-lhe diante as risonhas estrelas, enquanto Carlos luta e Agramante;
nas veias sente de enxofre um regolfo a sua história não quero por esta
a incendiar-se com o fogo delas. deixar esquecida, e a de Bradamante,
E até aos olhos imerge no engolfo que, amargurada por pena molesta,
dos enlevos e delícias singelas: dias chorou o desejado amante;
salta do leito e recolhe-a nos braços, o qual, por caminhos que o saber esconde,
sem esperar que ela desfaça seus laços; viu ser levado sem saber para onde.
CANTO VII 1 27

34 Desta primeiro que dos outros digo, 36 Que fosse morto acreditar não queria,
que muitos dias procurou em vão pois de homem tão notável a ruína,
por campos sombrios ou sem abrigo, das águas do Hidaspes 1 1 se ouviria
por vilas, cidades, por monte ou chão; até onde o Sol a dormir se inclina.
novas não teve de seu caro amigo, Imaginar não sabe qual a via
que estava em tão distante região. que no céu ou terra segue, e mofina
Ao campo sarraceno também ia, o vai buscando, e só leva consigo
mas notícia de Ruggier não ouvia. suspiros, pranto e da dor o castigo.
35 Perguntas faz por dia a mais de um cento, 37 Pensou por fim em regressar à furna
mas ninguém sabe dar-lhe indicações. que encerra os ossos de Merlim profeta,
Passa de alojamento a alojamento, e rogar tanto junto àquela urna
procurando em tendas e pavilhões. que a pedra fria à pena se remeta;
Pode fazê-lo sem impedimento, e que viva Ruggier ou que a soturna
por entre cavaleiros e peões, e triste Fortuna à morte o submeta,
graças ao anel mágico infalível, ali saber, e depois acatar
que a torna, na boca o tendo, invisível. o conselho que houvesse para lhe dar.
1 28 ORLANDO FURIOSO

38 A caminho se pôs desse confim, 44 Ele o mandara para a ilha de Alcina,


nas florestas vizinhas a Ponthieu, para esquecer as armas naquela corte;
onde a tumba falante de Merlim e como mago de suma doutrina,
por via tão ignota conheceu. que encantos sabia de toda a sorte,
Porém a maga, que no interim o coração daquela fada inclina
de Bradamante nunca se esqueceu ao seu amor com laçada tão forte
(falo daquela que, na linda gruta, que nem se desfaria se, um supor,
para a prole lhe mostrar se deu labuta) , vivesse mais Ruggiero que Nestor 1 2 •
39 aquela boa e sábia encantadora, 45 Voltando agora àquela que pressaga
que protectora desta sempre é, foi do que há-de vir, digo-vos que a via
sabendo que será progenitora tinha tomado em que a errante e vaga
de heróis, e de semideuses até, filha de Amon depois a encontraria.
de seus passos quer ser conhecedora, Bradamante, avistando a sua maga,
e sortes deita por ela com fé; mudou a dor que tanto a afligia
Que Ruggier liberto e desaparecido, em esperança; e a maga lhe revelou
e para as fndias fora, tinha sabido. que até Alcina Ruggiero voou.
4o Bem o vira partir naquele cavalo 46 Ficou a jovem quase como morta,
que não regia, porque desfreado, pois ao sabê-lo longe se compunge;
e percorrer um enorme intervalo e que isso ao seu amor perigo comporta,
por caminho perigoso e desusado; se remédio prontamente o não unge;
sabia-o rodeado de regalo, mas logo a bondosa maga a conforta,
de iguarias e ócio delicado, pondo-lhe o emplastro onde a dor a punge:
sem ter já lembrança do seu senhor, em poucos dias, promete-lhe e jura,
de sua dama nem de seu honor. Ruggiero verá, pode estar segura.
41 E assim a flor de seus juvenis anos 47 - E já que (disse) o anel tens contigo,
poderia em inércia consumir que poder tem contra toda a magia,
o cavaleiro, e nos mesmos enganos sei bem que se lá o tiver comigo,
corpo e alma a um tempo lhe fugir; onde Alcina do teu bem te espolia,
e aquele olor que fica dos humanos destruirei de seu feitiço o perigo
depois do frágil resto se extinguir, e trago a tua doce gelosia.
que do túmulo o liberta e preserva, Parto esta noite, na primeira hora,
feneceria nele qual frágil erva. e chego às Índias ao nascer da aurora. -
42 Mas essa gentil maga, que precata 48 E, continuando, o modo esmiuçou
mais do que o cavaleiro o seu viver, como tinha pensado utilizá-lo,
quer trazê-lo, por via pouco grata, para do lânguido reino a que chegou
à virtude e ao bem contra o seu querer: o tirar, e para França encaminhá-lo.
como médico que com ferro trata, Bradamante o anel do dedo tirou,
e fogo e até veneno, por mister, pois não só tinha vontade de dá-lo,
e que no princípio ofender parece, como o coração daria e a vida
mas no fim a vida se lhe agradece. para que ajuda a Ruggier fosse oferecida.
43 Com ele a maga não era indulgente, 49 O anel lhe entregou, e por si pedia,
sentindo por ele tão imenso amor e inda mais Ruggier lhe recomenda,
que, tal como Atlante, queria somente ao qual por ela saudações envia;
salvar-lhe a vida com todo o fervor. e para a Provença toma nova senda.
Mais depressa queria que longamente Seguiu a feiticeira outra via
ele vivesse, sem fama e honor, e, para que ao plano que urdiu bem atenda,
que com a maior glória que há no mundo à noite faz surgir um palafrém,
perdesse um ano de viver jucundo. que um pé vermelho e o resto negro tem.
CANTO VII 1 29

50 Alichino ou Farfarello 1 3 era ele, 56 Apareceu-lhe na figura de Atlante,


que, julgo, do Inferno em tal forma venha; pois sua semelhança possuía,
solta a veste e descalça monta aquele, tendo o sério e venerável semblante
e a solta juba atrozmente desgrenha; que Ruggiero reverenciar soía,
do dedo, porém, retirou o anel, e aquele olhar irado e ameaçante
para que suas magias não detenha. que já em menino tanto temia;
Tão depressa foi que a manhã raiava - É este (disse) o fruto sedutor
quando ela à ilha de Alcina chegava. que tanto esperei ter do meu suor?
51 Ali, magicamente, transformou-se: 57 As medulas de ursos e de leões
acresceu mais de um palmo de estatura, te dei como primeiros nutrientes;
e em proporção nos membros aumentou-se; por grutas te levei e boqueirões,
por fim reproduziu sua figura menino ainda, a estrangular serpentes,
como pensou que o necromante fosse deixar tigre e pantera sem unhões
(o que criou Ruggiero com ternura) . e ao javali vivo tirar os dentes,
De longas barbas cobriu a queixada, para que, depois de tanta disciplina,
e tornou a pele seca e enrugada. sejas Adónis ou Átis 1 5 de Alcina?
52 Em rosto e palavras, e no semblante,
tanto o imitou que perfeitamente
podia passar pelo mago Atlante.
Depois escondeu-se, e foi tão persistente
que de Ruggiero afastar-se a amante
Alcina viu um dia, finalmente;
Sorte teve, pois ou para estar ou ir
não costuma ela dele prescindir.
53 Sozinho o encontrou, tal como queria,
a manhã gozando, fresco e sereno,
junto ao rio que uma colina descia
para um lago cristalino e ameno.
Com a veste delicada e macia,
de indolência e lascívia estava pleno:
Alcina, com trabalho delicado,
a tinha em seda e ouro entrelaçado.
54 Ricas gemas, num colar feminil,
desciam-lhe do colo até ao peito;
em um e outro braço, antes viril,
luziam pulseiras de belo efeito.
Das orelhas, em fio de ouro subtil,
pendiam brincos em anel perfeito;
os quais duas pérolas suspendiam
como Árabes ou Índios não teriam.
55 Tinha os anéis de cabelo molhados
com suave e requintado perfume;
de amor eram seus gestos repassados,
como em Valência 14 o adamado assume:
seus méritos tinha do mal eivados;
só ao nome o que ele era se resume.
Assim Ruggiero ela encontrou, que tanto
lhe mudara a pessoa aquele encanto.
1 30 ORLANDO FURIOSO

58 Foi isto que as tão estudadas estrelas, 64 O que tem esta, que assim te domina,
entranhas, augúrios, pontos e linhas 1 6 , que não tenham mil outras meretrizes.?
sonhos, oráculos, todas aquelas De tantos outros já foi concubina,
tão exaustivas conjecturas minhas, e bem sabes se os sói fazer felizes.
para ti previram desde sempre, elas, Mas para que bem saibas quem é Alcina,
para estes anos a que te avizinhas : despojada dos seus falsos carizes,
que e m armas tuas obras tão preclaras põe no dedo este anel, vai ter com ela,
deviam ser, e grandiosas e raras? que assim vais poder ver como ela é bela. -
59 É esta a tua inicial lição 65 Ruggiero estava mudo, envergonhado,
para que venhas a ser, de forma lesta, olhando o chão sem achar que dizer;
um Alexandre, um Júlio, um Cipião? 1 7 no mindinho foi-lhe o anel enfiado,
Quem esperava uma coisa como esta, fazendo-lhe ela o senso reaver.
que de Alcina tomasses escravidão? Quando Ruggier se viu recuperado,
E, para que a todos seja manifesta, tal opróbrio sentiu em si crescer
tens no pescoço e braços a cadeia que enterrar-se mil braças desejara
com que ela à sua sedução te peia. só para que mais ninguém lhe visse a cara.
60 Se não te estimulam tuas medalhas 66 A sua antiga forma num instante,
e a excelsa obra a que o Céu te elegeu, assim falando, a maga recupera;
a tua sucessão por que abandalhas, pois já não precisava da de Atlante,
se o bem já te previ mil vezes eu? tendo visto o efeito por que viera.
Por que razão esse ventre amortalhas 1 8 , Que vos diga o que não disse é instante:
no qual o Céu por ti já concebeu Melissa o nome desta maga era,
vida dar àquela gloriosa prole que a Ruggier já se mostra, sem feitiço,
que no mundo há-de brilhar mais que o Sol? e lhe diz porque usou rosto postiço;
6 1 Não negues dar corpo às mais nobres almas 67 mandada foi daquela, de amor plena,
já ideadas 1 9 pelo divino querer; que o deseja sentindo a sua ausência,
vê se de tua progénie as açaimas, para o livrar da grilheta a que o condena
que a raça em ti raiz deverá ter! e constringe essa mágica violência;
Não impeças os triunfos e palmas o
e semblante de Atlante de Carena20
com que, após danos e chagas sofrer, tomara, para sobre ele ter influência.
teus filhos, netos e mais sucessores Mas, como de novo o siso o bafeja,
voltarão a dar à Itália honores. tudo revela para que tudo veja.
62 Chamar-te à razão deveriam tantas 68 - A gentil donzela que te ama tanto,
almas excelsas, em tom iracundo, e que do teu amor digna seria,
que ilustres, claras, ínclitas e santas à qual, se bem te lembras, sabes quanto
irão florir do teu tronco fecundo; a tua liberdade se associa,
mas que te baste um só par dessas plantas: este anel que defende do encanto
Ippolito e o irmão; poucos no mundo te mandou; e o coração mandaria,
como eles houve até aos dias de hoje, tivesse o coração igual virtude
em que a virtude em qualquer grau se poje. à do anel sobre a tua saúde. -
63 Costumava mais destes dois falar-te 69 E continua a falar-lhe do amor
do que dos outros todos em conjunto, de Bradamante, pois isso lhe importa,
porque lhes caberá a maior parte dela louvando também o valor,
das virtudes que em ti havias junto; que por verdade e afecto tanto exorta;
por isso, ao narrar deles vias dar-te usou os termos e o modo melhor
mais falas que de qualquer outro assunto; com que uma mensageira outrem conforta.
vi que deles muito te comprazias, Ruggier odiar Alcina tanto faz
por saberes que sua cepa serias. quanto é costume odiar as coisas más.
CANTO VII 13 1

70 Fez com que a odiasse, apesar de tanto 76 Balisarda22 à cintura então sustém
amá-la antes; e não achem estranho; (este o nome que à espada pertencia) ,
o amor era forçado pelo encanto, e o mágico escudo toma também,
e diante do anel perdeu tamanho. que não s6 os olhos cegar podia
Tornou claro o anel que tudo quanto como a alma entorpecida retém,
Alcina tinha belo era arreganho: parecendo que do corpo se desvia.
falso era tudo, desde o pé à trança; Pega-lhe e, sem lhe retirar a capa,
vai-se a beleza, a fealdade avança. ao pescoço o põe e logo se escapa.
71 Como um menino que um fruto maduro 77 No estábulo faz pôr arreios e sela
abandona, e esquece onde o colocou, ao corcel mais que pez negro, e faceiro,
e ao mesmo sítio voltou no futuro que Melissa indicara, visto que ela
e por acaso o mesmo fruto achou, sabia que a correr era ligeiro.
ficando admirado de o ver tão escuro, Por Rabicano 23 o bicho se interpela,
murcho e podre e já não como o deixou, e foi este que, com o cavaleiro
e, tanto quanto o apreciava, agora agora à beira-mar ao vento exposto24 ,
lhe dá nojo e repulsa e o deita fora: a baleia aqui trouxe, a contragosto.
n assim Ruggier, que graças a Melissa 77 Poderia o hipogrifo igualmente
pôde voltar a ver Alcina, a fada, levar, pois ao lado estava amarrado;
com aquele anel que desenfeitiça mas dissera-lhe a maga: - Tem em mente
e desmancha qualquer obra encantada, que ele é, como sabes, desenfreado. -
e em vez daquela por quem se derriça, No dia seguinte ela, estava assente,
da beleza por ele tão desejada, o levava para fora desse estado,
vê tão decrépita e feia mulher para onde ia receber instrução
como em toda a Terra não há sequer. para ir por todo o lado e ter travão.
73 Vincado e mirrado o rosto mostrava,
o cabelo ralo e embranquecido;
a estatura a seis palmos não chegava
e os dentes da boca tinham caído;
mais que a Cumana e Hécuba2 1 contava,
e mais que outra qualquer tinha vivido.
Pois arte ao nosso tempo ignota tem,
que aspecto belo e jovem lhe mantém.
74 Jovem e bela ela se faz com arte,
e muitos enganou como Ruggiero;
mas o anel o feitiço põe de parte,
que muito já escondeu o que era vero.
Milagre não é, pois, que ora se aparte
de Ruggiero o pensamento sincero
de Alcina amar, agora que descobre
a fraude que o aspecto bem lhe encobre.
75 Seguindo aviso de Melissa, aceita
não mudar o habitual semblante,
e suas armas, que há tempo rejeita,
vestiu de cima abaixo, atrás e adiante;
para não causar em Alcina suspeita,
fingiu provar que inda estava elegante,
provar que seu corpo não se expandira,
ap6s alguns dias que as não vestira.
1 32 ORLANDO FURIOSO

79 Deixando-o ali, suspeitas evita so Aos guardas deu assalto de improviso,


da fuga clandestina que aparelha. entrando entre eles de espada na mão,
Ruggier faz tudo o que Melissa dita, ou ferindo ou dando eterno prejuízo;
que invisível lhe está junto à orelha. a ponte atravessou de supetão,
Assim fingindo o reino desabita, e, antes de Alcina receber aviso,
lascivo e adamado, da puta velha: já longe ia Ruggiero em deserção.
da via que a Logistilla transporta No outro canto a via que tomou
foi-se aproximando, por uma porta. digo, e como a Logistilla chegou.

NOTAS

1 Apúlia: região do Sul de Itália (Puglia) , onde exis­ 14
Valência: cidade espanhola que era famosa pelos seus
tiam enormes lobos. hábitos dissolutos.
2
Argo: figura mitológica provida de cem olhos. 15 Adónis ou Átis: mancebos muito belos, amados, res­
pectivamente, por Afrodite e Cíbele.
3
A formosa dama: Bradamante.
16 Estrelas { . .} linhas: várias formas de adivinhação
4 Nino { . .} Cleópatra: a propósito da mesa de Alcina, (astrologia, aruspicação e geomancia) .
são recordados sumptuosos banquetes de personagens
famosos: Nino (rei dos Assírios) e seus sucessores 17 Alexandre { . .} Cipião: Alexandre Magno, Júlio César
(Semíramis e Sardanapalo), e Cleópatra, pelos banquetes e Cipião, o Africano, grandes figuras da história univer­
que ofereceu a Marco António (victor latino). sal.
5 Onde { . .} serve: no Olimpo. 18
Esse ventre amortalhas: condenas à infecundidade o
ventre de Bradamante.
6
Aracne: jovem exímia na arte de tecer e de bordar;
19
tendo vencido Atena em concurso, a deusa, por vingan­ Almas jd ideadas: de acordo com a doutrina plató­
ça, transformou-a numa aranha que tece continuamente nica, as almas já existem (ideadas pelo divino querer)
o seu fio. antes do corpo, tomando, de quando em quando, for­
ma terrena.
7
Entre { . .} meter-se: Ariosto adapta um verso de
Petrarca, tra la spiga et la man qual muro e messo (Rime, 2
° Carena: monte da cadeia do Adas onde, segundo
LVI:8), que Camões também transcreveu (Os Lusíadas, Boiardo, Adante habitava num castelo.
IX:78, 8) .
21
Cumana e Hécuba: lendários exemplos de velhice; a
8 Sucessor de Astolfo: seu sucessor nos amores de Sibila de Cumas viveu mil anos. Hécuba, mulher de
Alcina. Príamo, rei de Tróia, não viveu tanto, mas o bastante
para ter cinquenta filhos e assistir à destruição de Tróia e
9
Flor da alma: o beijo. de toda a sua família.
10Sabeia: ou Sabá, antigo reino dos Sabeus, no 22
Balisarda: espada que pertencera originalmente a
Sudoeste da Arábia (actual Iémene) . Orlando e lhe fora roubada por Brunello, que depois a
deu a Ruggiero.
11
Hidaspes: rio da Índia, que aqui representa o
23
Oriente. Rabicano: pertenceu a Argalia, irmão de Angelica, e
passou sucessivamente para Rinaldo e Astolfo.
12
Nestor: rei de Pilo; segundo Homero, viveu três gerações.
24
Cavaleiro { . .} exposto: Astolfo, agora plantado à
13
Alichino ou Farfarello: nomes de demónios usados beira-mar sob a forma de mirto.
por Dante (Inferno, XXI: 1 1 8 e 1 23) , e já antes documen­
tados na demonologia medieval.
--­
CANTO VIII

Oh quantas encantadoras e quantos


encantadores há entre nós, secretos,
que de homens e mulheres por seus encantos
amados são, mudando seus aspectos.
Não fazem com espíritos tais quebramos,
nem ao estudo dos astros são afectos:
com mentiras, fraudes, simulações,
prendem com nós cegos os corações.
2 Quem o anel de Angelica, ou, melhor,
quem o da razão tivesse, podia
a todos ver o rosto, que impostor
por arte e arrebique não seria.
O que de bom e belo tem louvor,
sem ouropéis, feio e mau surgiria.
Teve pois Ruggiero a grande ventura
de ver, com o anel, a verdade pura.
3 Ruggier (dizia eu) , dissimulando,
com Rabicano chega à porta armado:
a guarda ali desprevenida achando,
à espada deu para um e outro lado.
Mortos uns e outros feridos deixando,
à ponte vai destruindo o cercado;
ao bosque se avia; mas pouco corre,
que logo um dos servos da fada acorre.
1 34 ORLANDO FURIOSO

4 Empunha o servo uma ave rapace, 7 O cão não quer que o tomem por mais tardo
que em cada dia levava a voar e segue Rabicano, acelerado,
no campo ou na lagoa ali de face, como segue as lebres o leopardo.
onde era certa a presa para caçar; Ruggiero, de fugir envergonhado,
um cão levava, companheiro tenace, aguarda aquele que a pé vem tão galhardo;
e montava um escanzelado muar. armas não lhe vê, somente um cajado,
Bem pensou que Ruggiero ia fugir, com que ao cão a obedecer ensina;
quando com tamanha pressa o viu vir. e para puxar da espada não se inclina.
Vai ao seu encontro, e com ar altivo s Chega-se-lhe ele e com força lhe bate,
indaga o porquê de tal ligeirice. enquanto o pé esquerdo lhe morde o cão.
Ruggiero a responder mostrou-se esquivo, Três ou mais vezes os cascos lhe embate
mais certo ele ficando que fugisse; o rocim, do lado da destra mão.
detê-lo é então o seu objectivo, Volteia o pássaro a dar-lhe combate,
e estendendo o braço esquerdo 1 lhe disse: cravando-lhe as garras como punção;
- Que dirás tu, se aqui te der prisão, o seu crocito o cavalo estarrece,
se contra a ave não tens protecção? - que à mão e às esporas já pouco obedece.
6 Instiga a ave a voar com tal mecha 9 Constrangido, Ruggiero o ferro caça,
que iguala Rabicano na corrida. para fugir à moléstia que o enfada;
Do palafrém logo um salto desfecha, os animais e o vilão ameaça
ao mesmo tempo que o livra da brida. com o fio e com a ponta da espada.
Veloz parte ele, como do arco a flecha, A importuna turba o embaraça:
formidável no coice e na mordida; espalhando-se, ocuparam toda a estrada.
e o servo tão lesto lhe corre atrás Prevê Ruggiero o dano e o contratempo
que parece que fogo ou vento o traz. que lhe advirá, se ali passa mais tempo.
10 Sabe bem que, por pouco que ali fique,
Alcina e seu povo o alcançarão:
de trompa, tambor, sinos a repique,
já pelos vales ecoa a entoação.
A espada usar desdenha no despique
contra um servo sem armas e um cão:
mais breve é pois usar, por eficaz,
o escudo de Adante, que ao lado traz.
11 Tirou o rubro pano, que encoberto
houvera por muitos dias o escudo.
Fez este o efeito tido por certo,
ao ferir seus olhos com brilho agudo:
fica o servo dos sentidos deserto,
cai o cão, a pileca e o penudo;
Ruggiero assim os dá ao abandono,
feliz por vê-los entregues ao sono.
1 2 Alcina fora entretanto avisada
de que Ruggiero ultrapassara a porta,
deixando muita guarda dizimada,
e de dor esteve prestes a ser morta.
Com as vestes rotas e a cara arranhada,
néscia se diz e pelo descuido absorta;
mandou dar alarme imediatamente,
e em torno juntou toda a sua gente.
CANTO VIII 135

13 Em dois grupos os fez, e um mandou 16 Mandou-os Melissa para os seus países,


pela mesma estrada em que Ruggier caminha; com débito eterno de gratidão.
o outro grupo no porto ajuntou, O duque inglês4 , primeiro entre os felizes,
e logo embarcou na margem marinha: adquiriu humana conformação;
tanta vela enfunada o mar turvou. valeu-lhe o parentesco e as directrizes
Com eles embarca Alcina, mesquinha, corteses de Ruggiero em tal acção,
de Ruggiero reaver tão insofrida que a Melissa também deu o anel,
que deixa a cidade desprotegida. para maior ajuda assim dar àquele.
14 Não deixa ninguém de guarda ao seu paço, 17 A pedido pois de Ruggier, refeito
o que a Melissa, que estava disposta foi o paladim em sua forma antiga.
a libertar daquele reino devasso Parece a Melissa nada ter feito,
a gente que em desgraça fora posta, enquanto dar-lhe as armas não consiga,
deu comodidade e desembaraço e a lança de ouro, que, ao primeiro jeito,
para encontrar tudo aquilo em que aposta: em quem toca a cair da sela obriga.
imagens queimar, signos apagar, Foi de Argalia5 , ora é de Astolfo a lança
nós, losangos e espirais 2 desmanchar. que a um e a outro muito honrou em França.
15 Pelo campo em passos acelerados, 1s Encontrou Melissa essa lança de ouro,
à grande chusma de antigos amantes, posta por Alcina em sua morada,
em fontes, feras, plantas transformados, e as outras armas que eram de seu foro
devolveu a forma que tinham antes. e lhe tiraram nessa vil pousada.
Achando os caminhos desempachados, Sobre o corcel do necromante mouro
de Ruggiero foram acompanhantes: montou ela e Astolfo em retirada;
Logistilla os salvou, dali partindo logo a Logistilla se dirigiu,
para a Cítia3, para a Pérsia e Grécia, e para o Indo. e primeiro que Ruggier lá surgiu.
19 Por entre pedras e espinhos seguia
Ruggiero o trilho para a fada virtuosa,
dum penhasco a outro e de via em via,
inóspita, selvagem e penosa;
e só com grande custo a uma baía
chegou, na hora nona6 calorosa,
entre o mar e o monte, para o sul aberta,
ardente, nua, estéril e deserta.
20 Incide o Sol ardente na colina;
e, do calor que para trás reverbera,
de fervor o ar e a areia fulmina,
(com menos já o vidro derretera) .
Moles, à sombra, nem uma ave trina;
só a cigarra a cantar persevera
entre os densos ramos, e a sua prece
vales, montes, mar e céu ensurdece.
21 Ali, o calor, a sede e a fadiga,
por ter de seguir a via arenosa
da praia deserta que o Sol fustiga,
a Ruggier dão companha perniciosa.
Mas, porque não convém que eu sempre diga
ou duma coisa só vos faça prosa,
deixo Ruggiero no meio deste baldo,
e à Escócia vou reencontrar Rinaldo.
1 36 ORLANDO FURIOSO

22 Rinaldo era ali muito considerado 2s Emissários por toda a sua terra
pelo rei, pela filha e por todo o país. mandou, recolher cavalos e gente;
Do motivo que o tinha ali levado navios prepara e munições de guerra,
revelou o paladino o cariz: vitualhas e dinheiro, prontamente.
ficaria seu rei, sendo ajudado Vai Rinaldo entretanto a Inglaterra,
pela Escócia e Inglaterra, mui feliz; e, quando partiu, o rei, cortesmente,
ao pedido de Carlos ajuntou mesmo até Berwick7 o acompanhou;
a justa razão que o justificou. e há quem diga que, ao vê-lo ir, chorou.
23 Sem delongas o rei lhe fez o gosto: 26 Com o vento favorável pela popa,
que, até onde sua força se estendia, diz Rinaldo adeus a todos e embarca;
a ajudar e honrar sempre disposto o mestre, célere, os mastros enroupa,
o rei Carlos e o Império estaria; e chegam onde a salsa onda encharca
e em breve ao seu dispor seria posto o doce Tamisa e ao acre o não poupa8 •
o melhor corpo de cavalaria; Com a maré alta, que mais água abarca,
e só o ser entrado na velhice por caminho seguro navegaram,
vedava que ao comando ele seguisse. e a remos e à vela a Londres chegaram.
24 Não seria porém isso bastante 27 Vinha de Carlos e Otone9 em missão,
para ali ficar, se acaso não tivesse que em Paris estava com Carlos sitiado,
o filho, em força e saber abundante, com suas credenciais, em comissão
digno de que tal comando lhe desse; ao Príncipe de Gales enviado;
embora estando do reino distante, para que o que possa dar a região
esperava que entretanto aparecesse, de infantes e cavalos seja dado,
enquanto aquela tropa reunia; e tudo para Calais mande embarcar,
já reunida o filho a encontraria. para assim a França e Carlos ajudar.
CANTO VIII 137

31 Acendeu-lhe a beleza o coração,


e pôs-lhe em brasa a frígida medula,
mas ao vê-la dar-lhe pouca atenção,
e que a ficar consigo a não estimula,
esporeia o asno sem contemplação;
mas por mais que faça não o açula:
pouco vai a passo, e menos a trote;
pô-lo a galopar, nem com o chicote.
32 E porque muito já ela correu,
e dentro em pouco lhe perdia o rasto,
ao negro antro 1 1 o frade recorreu,
chamando de demónios grupo basto;
e de todo o grupo um deles escolheu,
informando-o logo do seu desgasto;
e fá-lo entrar no corpo do corcel
que a amada dele afasta num tropel.
33 Qual cão astuto, que, ao monte habituado,
à lebre e à raposa dar caça vem,
e que, se vê o bicho ir para um lado,
vai pelo outro, simulando desdém,
indo apanhá-lo em caminho cruzado,
e logo, rasgado, na boca o tem:
assim pelo eremita, em outra estrada,
vá por onde for, vai ser apanhada.
2s O príncipe que eu disse, que na vez 34 Qual é o seu desígnio, bem entendo,
de Otone ocupava o trono real, e vo-lo direi, mas não é agora.
a Rinaldo de Amon tanto honor fez Angelica, nada disso temendo,
que não teria a seu rei feito igual; seguia com mais ou menos demora.
depois os seus pedidos satisfez, No corcel se ia o demónio escondendo,
de modo que a toda a gente marcial como se esconde o fogo em certa hora,
da Bretanha 10 e ilhas que em torno havia o qual tão vivo depois se destapa
para se fazer ao mar fixou o dia. que não se apaga e a mal se lhe escapa.
29 Senhor, devo fazer, tal faz o bom 35 Tinha já a dama achado o caminho
tocador em seu instrumento estudo, junto ao grande mar 1 2 que a Gasconha lava,
que de corda muda e varia o som, e o corcel tinha das ondas vizinho,
procurando ora o grave ora o agudo. buscando o chão que mais firmeza dava;
Enquanto falo do filho de Amon, mas levou-lho o demónio mesquinho
de Angelica me recordo a miúdo, para dentro de água, e já nela nadava.
pois fugindo deste a deixei, aflita, Tudo o que pode a tímida donzela
quando tinha encontrado um eremita. é manter-se firme na sua sela.
30 Um pouco a sua história vou seguir. 36 A brida lhe puxa mas ele não volta,
Disse eu que ela perguntava, interessada, e vai sempre avançando para o mar alto.
como podia até à praia ir; A veste arregaça, no corpo envolta,
pois com Rinaldo estando apavorada, para não a molhar e os pés põe ao alto.
não passando o mar, teme sucumbir; Pelas costas desce a cabeleira solta,
nem na Europa toda está confiada. da brisa sofrendo lascivo assalto.
E o eremita ali a entretinha, Quedaram-se todos os grandes ventos
porque de estar com ela prazer tinha. a tanta beleza, com o mar, atentos.
1 38 ORLANDO FURIOSO

37 Voltava a terra o belo olhar em vão, 40 - Fortuna (diz), que mais fazer te resta
de lágrimas o rosto e o seio pleno, para que de mim te sacies e te fartes?
vendo afastar-se o arenoso chão, Que mais posso ora dar-te senão esta
que assim se ia fazendo mais pequeno. mísera vida? Mas, com tuas artes,
Nadando o corcel para setentrião, a salvá-la do mar foste bem lesta,
dá grande giro e regressa ao terreno podendo bem tirar-ma nessas partes;
entre assustadores penhascos e furnas, é porque esperas ter outros momentos
onde já descem as trevas nocturnas. para dar-me, antes que eu morra, mais tormentos.
38 Quando se viu sozinha em tal deserto, 41 Não creio possas fazer-me mais mal
que só de olhá-lo o medo a desfigura, do que aquele que até hoje me tens dado.
na hora em que no mar Febo encoberto 13 Afastaste-me do trono real,
a Terra, como o ar, tornara escura, que julgo estar-me para sempre vedado;
quedou-se em gesto que tornava incerto, minha honra perdi, perda fatal,
a quem avistasse a sua figura, pois, não tendo na verdade pecado,
se era uma dama viva e verdadeira dou motivo à fama que a mim se aplica:
ou rocha conformada em tal maneira. que ao ser vagabunda sou impudica.
39 Pasma e absorta sobre a areia instável, 42 Que mais pode uma mulher ter de bom,
os cabelos soltos, despenteados, depois de perder sua castidade?
j untas as mãos, a boca inalterável, Mal que à minha beleza traz destom,
e os lânguidos olhos ao céu voltados, quer seja mentira ou seja verdade.
como acusando o Grão-Motor 14 culpável Não agradeço já ao Céu tal dom,
de contra si ter conjurado os fados, do qual só me veio infelicidade:
imóvel ficou e atónita, tanto, meu mano Argalia por tal morreu;
até que língua e olhos solta ao pranto. nem a arma encantada 1 5 lhe valeu;
43 e Agricane, da Tartária sultão,
meu pai, Galafron, levou de vencida 1 6 ,
que do Catai, na Índia, era grão-cão;
por isso à condição fui reduzida
de mudar, todo o dia, habitação.
De haveres, honra, pessoas desvalida
me fazes, e com todo o mal me feres;
que outras dores infligir-me ainda queres?
44 Se afogar-me no mar morte não era
para teu cruel querer satisfação,
não rejeito que mandes uma fera
que me devore, e finde esta aflição.
Qualquer seja o martírio que me espera,
se eu perecer, só sinto gratidão. -
Chorava assim a dama em seu pesar,
quando ao lado o eremita vê chegar.
45 Tinha avistado, do ponto mais alto
duma íngreme falésia, o eremita,
Arigelica, que, ao dar do mar o salto,
na base da rocha ficara, aflita.
Seis dias antes veio, em sobressalto,
que o demo o trouxe por via interdita;
a ela vai, fingindo devoção,
como tivera Paulo ou Hilarião 1 7 •
CANTO VIII 1 39

46 Assim que a dama o começou a ver,


sem o reconhecer sentiu conforto;
e a pouco e pouco deixou de temer,
embora o rosto tenha como morto.
- Misericórdia, padre, se puder
(disse) , que sou chegada a um mau porto. -
Com voz entrecortada pelo soluço
contou-lhe o que para ele já era embuço.
47 Começa o eremita a confortá-la,
palavras belas usando e devotas;
e põe mão atrevida, enquanto fala,
ou no seio ou do choro nas gotas;
depois, mais seguro, quer abraçá-la;
ela desdenha as intenções marotas:
empurra-o com a mão, no peito o atinge,
e, por honesta, de rubor se tinge.
48 Abriu ele o alforge que levava,
retirando uma ampola de licor;
e nos olhos dela, em que cintilava
a mais ardente expressão que haja Amor,
uma gota atirou, numa acção prava,
que para pô-la a dormir teve valor.
Ei-la que estendida na areia jaz
à disposição do velho voraz.
49 Abraça-a ele e a bel-prazer lhe toca,
e ela a dormir não lhe pode pôr termo.
Ora beija o belo peito ora a boca,
sem que alguém o veja em local tão ermo.
Mas seu corcel no assalto embatoca 1 8 ,
que não segue o desejo o corpo enfermo:
impreparado, por ter muitos anos,
quanto mais tentar mais tem desenganos.
50 Todas as maneiras e modos tenta,
mas o rocim, preguiçoso, não salta.
Em vão lhe abana o freio e o atormenta,
mas não logra pôr-lhe a cabeça alta.
Por fim ao lado dela se adormenta,
mas uma nova desgraça a assalta:
quando escolhe para brincar um mortal,
nunca o Destino faz coisa banal.
51 Primeiro, impõe-se que vos narre o caso
que a um desvio me vai obrigar.
Nos mares do Norte, para o lado do ocaso,
após a Irlanda, uma ilha há lugar
chamada Ebuda 1 9 ; onde a Sorte deu azo
ao povo dessa ilha se encurtar:
a orca e mais monstros o destruiu,
quando Proteu20 para ali os conduziu.
1 40 ORLANDO FURIOSO

52 Narra uma antiga lenda, falsa ou vera, 55 chegam a ir às cidades muradas,


que teve esse lugar um rei potente, e por todo o lado lhe dão assédio.
cuja filha de tal beleza era Dia e noite estão as gentes armadas,
e graça tal que pôde facilmente, com temor e desconfortável tédio,
um dia em que na praia aparecera, e ficam as terras abandonadas;
deixar Proteu, em plena água, ardente; procurando por fim achar remédio,
quando este um dia só a encontrou, lá foram a pedir conselho seu
com seu amplexo grávida a deixou. ao oráculo, que lhes respondeu:
53 A coisa foi gravíssima e molesta 56 que era preciso achar uma donzela
para o pai, homem desalmado e severo; que fosse à primeira em beleza par,
a vida com maldade manifesta e a Proteu, ofendido, dar aquela
não lhe poupou, por desdém forte e fero. em troca da morta, à beira do mar.
Nem mesmo vendo-a grávida lhe resta Se, para o satisfazer, a achar bela,
pejo de executar o acto austero; tê-la-á, e não virá perturbar;
e o netinho, que não tinha pecado, se não lhe agradar, que se lhe apresente
fez com que morresse antes de ser nado. outra e mais outra, até que se contente.
54 Proteu marinho, que pasce o armento 57 Assim se iniciou a triste sorte
de Neptuno2 1 , que dos mares é o rei, de quantas mais belas eram de rosto;
sofre pela amada duro tormento; que Proteu cada dia se conforte,
tomado de ira, rompe ordem e lei22 , até que se encontre dama a seu gosto.
e a mandar ir para a terra não é lento À primeira e às demais coube a morte:
orcas e focas, e a restante grei, pois todas a comer se tem disposto
que a bois, ovelhas dão destruição, uma orca, que ficou junto à foz23
e às terras, e a quem cultivava o chão; depois de ter partido o bando atroz.
58 Que a história seja vera ou mentirosa,
a de Proteu (eu não sei que vos diga) ,
ali se conservou coisa odiosa
contra as mulheres, a cruel lei antiga:
que sua carne à orca monstruosa,
em cada dia, ali encha a barriga.
Embora ser mulher em toda a banda
seja desgraça, ali é mais nefanda.
59 Infelizes as damas que transporte
injuriosa fortuna ao lido infausto!
eles pelo mar as apanham, à sorte,
para de estrangeiras fazer holocausto;
pois quanto mais estranhas dão à morte,
menos das suas o número é exausto;
Mas, se pelo vento ali não são depostas,
vão em busca delas por outras costas.
60 Vão procurando por toda a marinha,
em fustas, galês e navios de truz,
em parte distante e também vizinha,
aliviando as suas dessa cruz.
A muitas, força e rapto descaminha,
outras, lisonjas e ouro as seduz;
são trazidas de diversas regiões,
e enchem todas as torres e prisões.
CANTO VIII 141

61 Passando uma sua fusta rente à terra, 64 A bela dama, que o sono retém,
em frente à tal solitária baía, a acorrentar logo o bando se apresta.
onde entre tojos, na herbosa terra, O frade bruxo levaram também
a infeliz Angelica dormia, no barco a abarrotar de gente roesta.
alguns dos marujos vieram a terra, Içada a vela que o mastro sustém,
para procurar lenha e água sadia; seguiu a nave para a ilha funesta.
e dentre as belas a flor mais bonita Ali, a dama encerraram num forte,
encontram, nos braços do eremita. até que o dia lhe calhasse em sorte.
62 Oh tanto cara e tanto excelsa presa, 65 Mas teve o condão, por ser assim bela,
para povo tão bárbaro e tão vilão! de na gente fera inculcar piedade;
Quem pode crer, Fortuna, em tal crueza: e foram diferindo a morte dela,
sobre o que é humano tens tal condão guardando-a para maior necessidade;
que, para alimento dum monstro, a beleza e, enquanto lhes restou uma donzela,
dás que à Índia Agricane em rebelião pouparam essa angélica beldade.
fez vir, através da caucásia porta24 , Ao monstro foi levada finalmente,
ali ficando meia Cítia morta? chorando, a acompanhá-la, toda a gente.
25
63 A beldade pela qual deu Sacripante 66 Quem dirá a angústia, o pranto, os gemidos,
mais que à honra e ao reino o seu empenho; o alarido que para o céu desabrocha?
a beldade por que o senhor de Anglante Estranho é que não se abrissem os lidos,
manchou a clara fama e o alto engenho 26 ; quando foi posta sobre a fria rocha
a beldade que fez todo o Levante em cadeias, todos dela esquecidos,
conturbar-se e obedecer de mau cenho 27 esperando morte abominosa e frouxa.
não tem agora, só e abandonada, Eu não direi, que é tal minha emoção
uma ajuda, uma palavra, nem nada. que a meus versos dou outra direcção,
1 42 ORLANDO FURIOSO

67 tentando achar outros menos plangentes, 69 Essa Paris que entretanto assedia
até meu espírito se recompor; o famoso filho do rei Troiano30 ,
não poderiam esquálidas serpentes, e que chegou a um tal extremo um dia
nem, cioso da cria, tigre em furor, que quase sucumbiu ao africano:
e os venenosos que dos Atlas quentes por sorte o Céu suas preces ouvia,
aos rubros lidos erram28 , ao calor, inundando de negra chuva o plano:
ver ou imaginar sem amargura senão, teria a africana lança
Angelica amarrada à rocha dura. ganho o Império e o grão nome de França.
68 Oh, se em Paris de tal soubera Orlando, 70 O Sumo Criador o olhar volveu
que ali para procurá-la faz prodígios; ao velho Carlos, para recompensá-lo;
ou os dois29 que o frade foi enganando chuva repentina o fogo abateu:
com o arauto dos antros estígios! não podia a força humana apagá-lo.
Mil mortes afrontariam, tentando Sábio é quem sempre a Deus recorreu,
encontrar os angélicos vestígios; pois ninguém melhor podia ajudá-lo.
mesmo que estes achassem, que fariam, Foi o devoto rei conhecedor
se tanto da dama se distanciam? de ao divino auxílio ser devedor.
71 De noite Orlando às incómodas plumas3 1
transmite o seu pensamento veloz.
Para aqui para ali o gira, ou suas sumas
num só reúne, sem deter o algoz,
como em repouso da água as escumas:
se, de lua ou sol, raio as toca após,
nos tectos dão reflexo em grande salto,
à esquerda, à direita, para baixo e ao alto.
CANTO VIII 1 43

n A sua dama, que lhe volta à mente, 75 Que ao menos a pusesse em guarda boa,
sem jamais dela se ter apartado, em Paris ou em cidadela forte.
reacende-lhe e torna mais ardente Que a tenha dado a Namo, bem me soa,
a chama que o dia tinha amainado. foi só para que a perdesse de tal sorte.
Com ele tinha ela vindo para o Poente, Para bem guardá-la, qual melhor pessoa
do Catai, e aqui se tinha eclipsado; que eu? Devera, sim, e até à morte,
não mais vira o rasto dos passos seus mais que aos meus olhos e ao meu coração
desde o revés de Carlos em Bordéus32 • tê-la bem guardado, e não o fiz, não.
73 Por isso Orlando sofria, e consigo 76 Oh, onde, sem mim, minha doce vida,
em vão na sua inépcia repensava. tens paradeiro, tão jovem e bela?
- Amor (dizia) , como vil contigo Como, da luz do dia desprovida,
me comportei! Meu Deus, quanto me agrava, a desgarrada ovelha se acautela,
poder ter-te dia e noite comigo, e, pelo pastor esperando ser ouvida,
pois tua bondade me o não negava, vai balindo desta parte para aquela,
e deixar-te nas mãos de Namo 33 pôr, sendo escutada pelo lobo distante,
por não saber-me a tanta injúria opor! e em vão a busca o pastor, soluçante.
74 Não tinha eu motivo para me escusar? 77 Onde estás tu agora, ó minha guia?
Não me haveria Carlos contrafeito; Será que vais inda sozinha errando?
e, se sim, quem me podia obrigar? Ou tens dos cruéis lobos companhia,
Quem te iria tirar-me, a meu despeito? sem que te guarde o teu fiel Orlando?
Não podia eu ser lesto a pelejar? A flor34 que lugar nos Céus me daria,
Deixar tirar-me o coração do peito? essa flor que intacta fui conservando
Pois nem Carlos, nem toda a sua gente, para não perturbar teu espírito casto,
para tirar-te-me à força era potente. devem já, ai!, tê-la colhido e gasto.
144 ORLANDO FURIOSO

78 Oh, que desgraçado sou! Só me resta 84 Sem pensar que as imagens falsas são
morrer, se a flor sofreu mutilação! quando por medo ou desejo se sonha,
Ó bom Deus, faz que não seja por esta da donzela sentiu tal compaixão,
que eu me doa, mas por outra razão. julgando-a exposta ao perigo ou à vergonha,
Pois, se for, fim ponho à vida funesta, que salta apressado do leito ao chão.
e à alma dou eterna danação. - De malha e couraça todo se enfronha,
Tal dizia, a chorar e suspirando, e foi buscar Brigliadoro37 , o cavalo;
consigo mesmo o infortunado Orlando. o escudeiro, porém, não quis levá-lo.
79 Por toda a parte as lassas criaturas 85 E, para poder passar por todo o lado38
davam repouso aos espíritos cansados, (a tal sua dignidade o aconselha) ,
uns sobre penas, outros pedras duras, não leva o seu emblema esquartelado,
na erva, em mirtos ou faias pousados; distinto pela cor branca e a vermelha,
tu, Orlando, os olhos cerrar procuras, preferindo ir de negro ornamentado:
mas teus pensamentos, duros, pesados, achou que à sua dor tal se assemelha;
nem tão-pouco um sono breve e fugaz tinha-o tirado a um miramolim39
te deixam ao menos gozar em paz. que às suas mãos um dia achara o fim.
80 Parecia a Orlando, numa campina 86 Quando é meia-noite, silente, parte,
de odoríferas flores salpicada, sem despedir-se ou dar palavra ao tio40 ;
ver o belo marfim, e a purpurina mesmo ao fiel amigo Brandimarte4 1
pelas mãos do próprio Amor nele pintada, não dizer que partia preferiu.
e as duas estrelas35 , fonte genuína Mas quando o Sol, que seus raios disparte,
onde a alma de Amor era ateada: da morada de Titono saiu42
falo dos belos olhos e da face e as sombras negras todas expulsou,
que ao coração lhe dão prisão tenace. viu logo o rei que Orlando se ausentou.
81 Sentia todo o prazer, toda a festa 87 Apercebe-se o rei com grande abalo
que sentir pode algum feliz amante; que o sobrinho partiu durante a noute,
mas surge uma tempestade molesta quando devia ali estar e ajudá-lo;
que flores e plantas destrói, fulminante; e à sua cólera não pôs garrote:
não é comum ver semelhante a esta, começa a lamentar-se e a censurá-lo,
quando sopra aquilão, austro e levante36 • com desagradável e duro mote;
Na sua busca vã para se abrigar, faz-lhe ameaças, chegando a dizer
num hostil deserto parecia errar. que o fará do grave erro arrepender.
82 Sem saber como sua dama se some, 88 Brandimarte, que a Orlando amor par
perde-a de vista em meio ao ar revel; tem quanto a si mesmo, não ficou quedo;
por todo o lado faz seu belo nome ou que o pensasse fazer regressar,
ressoar, pelos bosques e pelo vergel. ou por ouvi-lo censurar azedo,
E, enquanto diz: - O astro atraiçoou-me! o tempo apenas se quis demorar
Quem transformou minha doçura em fel? -, para do escuro da noite ir em segredo.
chega-lhe a voz da dama que lhe implora À sua Fiordiligi43 nada disse,
ajuda e protecção, enquanto chora. para que ela o intento não lhe impedisse.
83 Donde lhe soa o grito vai veloz, 89 Era esta a dama a quem ele se unira,
e, dum lado para outro, aflito erra. muito pouco estando na sua ausência;
Oh, quanto é sua dor dura e atroz, usos, graça e beleza a distinguira,
pois sinal do doce olhar não aferra. dotada de bom senso e de prudência;
Eis que ouve então dizer uma outra voz: e, se ora dela não se despedira,
- Não esperes dela alegria na Terra. - foi por esperar rever sua aparência
A este horrível grito despertou, no mesmo dia; porém, sucedeu
e banhado em lágrimas se encontrou. que mais tardou do que era intento seu.
CANTO VIII 1 45

90 Depois de o ter esperado quase um mês


em vão, sem assistir ao seu regresso,
da sua ausência não se satisfez
e sozinha partiu, com fito expresso;
o país percorreu de lés-a-lés,
mas à história teremos novo acesso.
Sobre estes dois não irei ora avante,
pois mais me importa o cavaleiro de Anglante.
91 O qual, depois de as insígnias de Almonte
ter vestido, para o portão avançou,
e, para que o guarda a abri-lo se apronte,
ao ouvido lhe disse: - O conde eu sou44 • -
E, mandando abaixar súbito a ponte,
a direcção sem demora tomou
do campo que ao inimigo é restrito.
O que segue no outro canto é escrito.

NOTAS

1 Braço esquerdo: a ave de rapina usava-se no braço 13 No mar Febo encoberto: ao pôr do Sol.
esquerdo.
14 Grão-Motor: Deus.
2 Imagens [. .. } espirais: objectos e desenhos usados na
15
arte da magia. Arma encantada: a lança de ouro que agora pertence
a Astolfo (cf. VIII: 1 7- 1 8) .
3
Cftia: antigo nome da actual Tartária, região da
Federação Russa situada a leste de Moscovo. 16 Da Tartária [. . .} vencida: no O. lnnamorato,
Agricane, rei da Tartária, combateu e derrotou
4 Duque inglês: Astolfo. Galafrone, grão-cão do Catai, por lhe recusar a mão da
filha, Angelica.
5 Argalia: irmão de Angelica, morto por Ferraú (cf.
17
nota a I:29) . Paulo ou Hilarião: Paulo, primeiro eremita do
Egipto (Tebas), e Hilarião, primeiro eremita da
6 Hora nona: ou noa; hora canónica correspondente Palestina, dois modelos de santidade.
aproximadamente ao período entre as 1 3 e as 1 5 horas.
18
Corcel [. .. } embatoca: seguindo a tradição literária,
7
Berwick: cf. nota a IV:53. Ariosto utiliza o cavalo como metáfora sexual, expressa­
mente do órgão genital masculino. Aqui e na oitava
8
Salsa onda [. ..} poupa: o ponto onde o mar salgado seguinte, dá expressão à impotência sexual do eremita.
se mistura às águas doces do Tamisa, ou seja, a foz desse
rio. 1 9 Ebuda: ilha a ocidente da Escócia, que se supõe no
actual arquipélago das Hébridas.
9
Otone: rei de Inglaterra, pai de Astolfo.
20
Proteu: Na Odisseia, Proteu é apresentado como um
1 0 Bretanha: Grã-Bretanha. deus do mar, com a tarefa de apascentar os animais mari­
nhos pertencentes a Posídon. Possuía o dom da meta­
1 1 Negro antro: Inferno. morfose, podendo tomar a forma não só de seres vivos,
mas de tudo o que quisesse.
12
Grande mar: o Atlântico.
1 46 ORLANDO FURIOSO

21
Neptuno: Neptuno é o deus romano identificado 34 A flor: a virgindade de Angelica, que ele respeitou, e
com Posídon, deus grego dos mares. que o teria feito feliz como um deus.
22 35
Rompe ordem e lei: rompe a ordem e a lei da nature­ Purpurina [. . .] estrelas: evocação metafórica do rosto
za, levando para a terra os animais marinhos. de Angelica.
23 36
Foz: entrada do porto. Aquilão, austro e levante: ventos que sopram de
norte, sul e leste.
24
Caucdsia porta: passo de Derbent; fortaleza no
37
Cáucaso, destinada a impedir a passagem dos Tártaros. Brigliadoro: cavalo de Orlando.
25 Sacripante: rei da Circássia (cf. 1:4 5). 38
Passar por todo o lado: Orlando disfarça-se de sarra­
ceno, para poder, sem ser reconhecido, penetrar nos
26
Senhor [. . .] engenho: Orlando manchou a clara fama campos- dos Mouros em busca de Angelica.
e o alto engenho, ao abandonar o campo cristão, sitiado
39
pelos Sarracenos, para ir procurar Angelica. Miramolim: califa ou chefe, entre os muçulmanos.
27
Levante [. . .] cenho: todo o Oriente foi conturbado 40 Tio: Carlos Magno. A mãe de Orlando, Berta, era
por causa de Angelica. irmã do imperador.
28
Venenosos [. . .] erram: animais venenosos que erram 41 Brandimarte: grande amigo de Orlando, por ele con­
pelo deserto que, no Norte de África, se estende dos vertido ao cristianismo.
montes Adas ao mar Vermelho (rubros lidos) .
42
Da morada de Titono saiu: o Sol saiu da morada de
29 Os dois: Rinaldo e Sacripante (cf. II: 1 5- 1 7) , ludi­ Titono (marido da Aurora), ou seja, surgiu a oriente.
briados pelo demónio (arauto) que o eremita (frade)
invocara dos Infernos (antros estígios) . 43 Fiordiligi: a esposa de Brandimarte, que o costuma
acompanhar em todas as empresas.
3
° Filho do rei Troiano: Agramante (cf. 1: 1) . 44 O conde eu sou: disfarçado com as armas e insígnias
31
Incómodas plumas: o leito torna-se incómodo a quem que herdou de Almonte quando o matou (cf. nota a
não consegue conciliar o sono. I:28: 5), Orlando teve de se identificar verbalmente para
que a guarda lhe franqueasse a saída.
32
Desde [. . .] Bordéus: cf. 1:9:5-6.
33
Namo: o duque da Baviera (cf. 1:8).
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CANTO IX

O que, a um coração a si sujeito,


faz esse cruel e traidor Amor:
consegue a Orlando apagar do peito
a tanta fé que deve ao seu senhor!
Era sensato e pleno de respeito,
e da santa Igreja era defensor;
agora, por amor, cuidados seus
poucos há por si, pelo tio e por Deus.
2 Mas dou-lhe desculpa, e até me alegro
por ter no meu erro parceiro tal;
também eu sou no bem débil e egro,
mas são e galhardo a seguir o mal.
Vai-se ele embora vestido de negro,
tanto amigo deixar é-lhe banal;
segue para onde de África e de Espanha
a tropa estava, em tendas de campanha;
3 não era em tendas, pois da chuva coito
sob árvores acharam, agrupados
aos dez, aos vinte, quatro, sete e oito;
uns mais longe outros mais perto alojados,
cada um dorme, fatigado e afoito,
uns estendidos, uns à mão apoiados.
Pode matar os que tiver na gana,
porém, nem deita a mão a Durindana 1 •
148 ORLANDO FURIOSO

4 Tem tal nobreza o generoso Orlando 10 À margem não vai mais que aquela marca,
que não ousa ferir gente adormecida. receando que à força ele arremeta.
Ou num ou noutro lado, procurando Orlando implora que na sua barca,
vai o vestígio da sua dama querida. para o passar para a outra margem, o meta.
Se encontra algum de vela, suspirando E ela: - Cavaleiro aqui não embarca,
descreve-a tal como é e está vestida; o qual por sua fé não me prometa
e depois pede que, _por cortesia, que a fazer uma batalha se apresta,
para ir onde ela está lhe indique a via. a mais justa do mundo e a mais honesta.
5 Ao chegar o dia claro e luzente, 11 Se quereis, cavaleiro, transferir
buscou todo o exército mouresco; comigo à outra margem vossa rota,
podia fazê-lo seguramente, prometei-me que, antes de se atingir
tendo vestido o hábito arabesco; do mês que se aproxima a última gota,
e nisto foi ajudado igualmente ao rei de Hibérnia4 vos ireis unir,
por saber o idioma soldadesca; j unto do qual se faz a bela frota
era em africano tão entendido que irá destruir a ilha de Ebuda,
que dir-se-ia em Trípoli nascido. que é de todas que o mar cerca a mais cruda.
6 Ali tudo buscou, numa demora 12 Deveis saber que para lá da Irlanda,
de três dias, e só com este fito; entre outras que há, essa ilha jaz;
depois cidades, burgos delas fora, chama-se Ebuda, e sua lei manda
não espiou só por França e seu distrito2 , que em redor roube o seu povo rapaz;
mas primeiro Auvergne, e Gasconha agora, e quantas mulheres apanham, vianda
viu até ao lugar mais interdito; todas são para um animal voraz
e procurou da Provença à Bretanha, que cada dia ao lido vem comer,
e da Picardia aos confins da Espanha. nova dama achando para se pascer;
7 De fim de Outubro a início de Novembro,
nessa estação em que a frondosa veste
à planta cai e lhe descobre o membro,
até que nua fica ao frio agreste,
e as aves juntas vão, desde Setembro,
Orlando a demanda amorosa investe.
Todo o Inverno não a abandonou,
e nem na nova estação a deixou.
Indo ele um dia, como costumava,
duma terra a outra, um rio3 ali houve
que entre Normandos e Bretões põe cava,
e para o mar vizinho calmo se move;
que então caudaloso e branco espumava,
pela neve mole e o que no monte chove;
a força da água a ponte arrancara,
impedindo o passo a quem lá passara.
9 Olha o paladim um e outro lado
ao longo das ribas, para ver se vê
(visto que não é peixe nem alado)
como há-de pôr na outra margem pé;
nisto um barco vê vir, para si virado,
e uma donzela vem, sentada à ré,
que faz sinal de querer vir junto dele;
mas não deixa vir a terra o batel.
CANTO IX 1 49

13 mercadores e corsários dão razia, 19 Pediu-lhe, da parte duma donzela,


muitas trazem, na maioria belas. que ir até ela não lhe fosse grave;
Podeis fazer a conta, uma por dia, a qual acharia, para além de bela,
quantas morreram, damas e donzelas. mais que outra qualquer, gentil e suave;
Mas se em vós se albergar uma alma pia, se acaso ele preferisse esperar, ela
e não tendes contra o Amor querelas, viria ao seu encontro até à nave;
alegrai-vos por estar entre os eleitos que não quisesse ser mais relutante
que vão provocar tão úteis efeitos. - que qualquer outro cavaleiro errante;
14 Orlando, assim que tudo ouviu contar, 20 pois nenhum outro cavaleiro, que chega
jurou ser o primeiro em tal empresa; por terra ou por mar até esta foz,
nem pode o acto iníquo ouvir contar, a falar com a donzela se nega,
só de escutá-lo o coração lhe pesa; para aconselhá-la no seu caso atroz.
e a pensar vai, aliás, a recear, Ouvindo isto, Orlando não sossega,
que tenham feito de Angelica presa; e logo para a margem salta veloz;
pois, tendo-a procurado em campo vasto, e sendo humano e cheio de cortesia,
dela até hoje não encontrou rasto. onde o velho o levou, seguiu a via.
1s Esta reflexão tanto o confundiu 21 À terra8 foi levado de seguida,
que o fez esquecer a primeira intenção, a um palácio onde, ao subir a escada,
e o mais lesto possível decidiu uma dama viu de luto vestida,
navegar para aquele reino malsão. e pelo luto tendo a face marcada;
Quando o outro sol no mar se sumiu, de negros panos estava revestida
já se encontrava numa embarcação; toda a casa: quartos, salas, arcada;
alçadas as velas em Saint-Mala, após a recepção grata e honesta,
pelo monte Saint-Michel depois passou. fê-lo sentar e disse-lhe em voz mesta:
1 6 Saint-Brieuc e Tréguier deixa à canha,
e vai rasando da Bretanha a terra;
logo às brancas falésias rumo ganha,
que o nome Álbion 5 deram à Inglaterra;
nisto, o vento de sul já não apanha,
e um de poente e de aquilão6 se aferra
com tal força que as velas abater
é mister, e à popa o vento acolher.
17 Quanto o navio para diante avançara
em quatro dias, num voltou para trás;
em alto mar o bom mestre o ampara:
se em terra der, qual vidro se desfaz.
O vento, que quatro dias soprara
em fúria, ao quinto parar se compraz:
deixou, sem se opor, o navio entrar
onde o rio de Antuérpia encontra o mar7 •
1s Assim que na foz entrou o cansado
barqueiro, com estragos no seu navio,
junto a uma terra que no destro lado
do rio havia, um velho descer viu
muito idoso (o cabelo branqueado
disso era indício) , o qual se dirigiu
muito cortês, após a saudação,
ao conde, que tomou por capitão.
1 50 ORLANDO FURIOSO

22 - Quero que saibas, senhor, que nasci 25 Mal Bireno daqui tinha partido
do conde de Holanda, e a ele mui grata (assim se chama o meu fiel amante) ,
(mas dele não fui só eu que floresci, eis que o rei da Frísia 1 1 (a qual, quanto o lido
pois dois irmãos tive por sorte beata) do mar separa o rio, nos é distante) ,
fui: tudo aquilo que a meu pai pedi, querendo tornar seu filho meu marido,
sempre a resposta dele foi cordata. seu único filho, chamado Arbante,
Estando eu assim feliz, aconteceu os dignitários do seu estado manda
que na nossa terra um duque apareceu. pedir-me a mim a meu pai, à Holanda.
23 Duque era da Zelândia9 , e então ia 26 Eu, que ao meu amante fidelidade
para a Biscaia 10 , para os Mouros guerrear. devo, pois, dada, não mais se desata,
A idade e a beleza que nele floria e Amor me tiraria a liberdade
novel amor em mim fez acordar: de o fazer, para não ser a ele ingrata,
num instante cativa me fazia; para o trato não se tornar realidade,
e, por quanto pude nele observar, pois já ia avançada a concordata,
. . .
eu ena e ereto, e ereto crer no vero, digo a meu pai que prefiro, a casar-me
que me amava e ama de amor sincero. com o da Frísia, que mande matar-me.
24 Dias retido pelo contrário vento 27 Meu bondoso pai, que só queria quanto
(contrário aos outros, que a mim foi propício; eu queria, afligir-me não pretendeu;
quarenta foram; para mim, um momento, para me consolar e estancar o pranto
já que correram em veloz bulício) , em que eu estava, o acordo dissolveu;
várias vezes houvemos parlamento, o que ao soberbo rei da Frísia tanto
tendo feito um acordo esponsalício: agravo causou, e de ódio acendeu,
eu a ele, e ele a mim, de matrimónio que veio à Holanda iniciar a guerra,
no seu regresso, demos voto idóneo. e em breve a família toda me enterra.
2a Além de ser robusto, e tão potente
que poucos pares tem na nossa idade,
e tão astuto que torna impotente
nos outros força, argúcia e qualidade,
armas possui ele que a antiga gente
não viu nem, tirando ele, a actualidade:
um tubo com duas braças, em aço,
e uma bola e pólvora por chumaço 1 2 •
29 Com fogo atrás, onde o tubo é fechado,
toca um orifício que mal se vê,
assim como pelo médico é tocado
o ponto da veia que estancar crê;
sai então a bola, ao ser disparado,
e como raio e trovão faz banzé;
tal qual o corisco, por onde passa
queima, derruba, fende e despedaça.
30 O nosso campo duas vezes derrota
com este ardil, e os meus irmãos matou;
um no primeiro assalto: a bola bota
no coração (o arnês lhe atravessou) ;
no segundo ataque o outro, que em frota 1 3
fugiu, do corpo a alma lhe apartou;
pelas costas o atingiu de tal jeito
que fez a bala sair-lhe pelo peito.
CANTO IX 151

31 Refugiado meu pai desse transtorno 37 Dois servos irmãos, por meu pai estimados,
num castelo que tinha por acaso, escolhi devido à sua lealdade:
pois tudo o mais tinha perdido em torno, de grande engenho e coragem dotados,
com golpe idêntico encontrou o ocaso: mas mais ainda de fidelidade,
indo daqui para ali, fez um retorno, pois, na corte crescidos e criados,
acudindo àquele ou a este caso; connosco vivem desde tenra idade;
o traidor fez de longe pontaria tão bem me queriam que até pouco achavam
e no meio dos olhos o atingia. se a vida por minha salvação davam.
32 Mortos irmãos e pai, fiquei sozinha, 38 Comuniquei-lhes a minha intenção,
da ilha de Holanda a única herdeira, e logo os dois tomaram meu partido.
e o rei da Frísia, que vontade tinha Um na Flandres prepara embarcação,
de içar nesse estado sua bandeira, na Holanda comigo outro é retido.
faz-me saber, e à população minha, Enquanto estrangeiros e os da nação
que paz me dará e vida fagueira, para as bodas se convidam, foi sabido
se desta vez quiser ser aceitante que Bireno, na Biscaia, uma armada
de ter por marido seu filho Arbante. tem já contra a Holanda preparada.
33 Eu, não só pelo grande ódio que transporto 39 Pois assim que houve a primeira batalha,
no peito, a ele e a toda a iníqua seita, em que meu irmão teve fim funesto,
por terem meu pai e meus irmãos morto, logo eu à Biscaia um correio, sem falha,
e a minha pátria pilhada e desfeita; levando a notícia a mandar me apresto;
como àquele outro trair não suporto, enquanto Bireno para vir trabalha,
a quem a promessa já estava feita, o rei da Frísia conquistou o resto.
que homem não havia que desposasse, Bireno, que de tal nada sabia,
enquanto ele de Espanha não regressasse: para nos socorrer ao mar se fazia.
34 «Por cada mal que sofro, quero um cento 4o Tal ouvindo o frísio de um mensageiro,
sofrer (respondo) , e arriscar todo o resto; do matrimónio seu filho encarrega;
ser morta, queimada viva e ao vento com sua armada ao mar se faz ligeiro,
as cinzas esparsas; mas isso ,contesto.» encontra o duque e vence-o na refrega,
Tenta a minha gente de tal intento e, quer Fortuna, fá-lo prisioneiro;
tirar-me: suplicam, fazem protesto; porém disto a nós notícia não chega.
a terra e eu entregar-lhe se ultima, Desposa-me entretanto o filho, e impõe
para razão não dar a que n os oprima. que nos deitemos quando o Sol se põe.
35 Quando os protestos e an 1eaças em vão 41 Por detrás das cortinas esconder ouso
viram ser, e que eu não lhe. s cederia, o meu fiel, que nada se mexeu
com o frísio se acordaram, , e, em mão, antes de ver vir até mim o esposo;
eu e os muros lhe deram, cc >mo queria. e nem tempo de se deitar lhe deu:
O frísio, sem fazer-me acto vilão, com um machado e o braço valoroso,
de vida e reino me dá garanda, por detrás a cabeça lhe fendeu,
se na minha decisão eu ceder · e privou-o da palavra e da vida;
e concordar ser de Arbante mulher. e a garganta eu lhe abri, numa investida.
36 Vendo-me eu assim forçada, desejo 42 Tal como no açougue o boi cai no chão,
para lhe sair das mãos perder .a vida; cai o mal-nado filho, para desdém
mas se antes me não vingo, 1cenho pejo, do rei Cimosco 14 , mais que os mais vilão;
por quanta injúria me foi in fligida. tal fama o ímpio rei da Frísia tem,
Tenho pensado; e com triste:z.a vejo que me matara um e outro irmão
que só simulando terei saída: e o pai, e, para mais domínio também
finjo que o desejo, e não que me maça, ter do meu estado, queria-me por nora;
que me perdoe e sua nora me faça. e talvez me matasse sem demora.
1 52 ORLANDO FURIOSO

43 Antes que alguém por ali apareça, 44 Não sei se o rei da Frísia mais sofrente
levando o que vale e é menos pesado 1 5 , pelo filho morto ou mais enraivecido
ao mar o meu fiel me desce à pressa, contra mim ficou, quando foi presente,
suspensa dum cabo à janela atado, ao outro dia, ante o acontecido.
lá onde o irmão, atento, regressa, Soberbo voltava com sua gente,
no navio na Flandres aparelhado. trazendo Bireno preso e vencido;
Dando ao vento as velas, à água os remos, crendo que vinha para a boda e para a festa,
salvámo-nos e a Deus o agradecemos. encontrou a cena tetra e funesta.
CANTO IX 153

45 A dor do filho e a füria enraivecida 46 Todos quantos sabia ou lhe disseram


contra mim não o deixam noite e dia. que eram meus amigos, e aqueles meus,
Mas como o pranto aos mortos não dá vida, que para me salvar ajuda me deram,
ao passo que a vingança o ódio esfria, matou, queimou os bens ou fé-los réus.
a parte da ideia que era devida Quis matar Bireno, pois para mim eram
ocupar-se em suspiros e agonia as dores maiores que havia sob os céus.
prefere que ao ódio se una e investigue Depois achou que, se vivo o mantinha,
como, deitando-me a mão, me castigue. para me apanhar a rede na mão tinha.
47 Mas apresenta-lhe cruel e dura
condição: o prazo lhe dá de um ano,
ao fim do qual atroz morte lhe jura,
se ele antes pela força ou pelo engano,
com parentes e amigos não procura,
com seu saber, traçar o melhor plano
para a ele me entregar: assim, a sorte
de ele se salvar será a minha morte.
48 Já usei para o livrar vários ardis;
excepto perder-me, eu tudo tentei.
Dos castelos na Flandres me desfiz:
o pouco ou muito valor que lucrei,
dando-o a pessoas de astuto cariz
para os guardas comprar, parte dissipei;
outra parte, para ao traidor causar danos,
gastei-a com Ingleses e Alamanos.
49 Os astutos, ou porque não puderam
ou porque o dever foi para eles goro,
em vez de acções só palavras me deram:
ignoram-me, pois já têm o ouro;
o prazo os dias quase perfizeram,
após o qual nem forças nem tesouro
chegarão a tempo, para que da morte
possa ser salvo o meu caro consorte.
50 Por ele meu pai foi, e um e outro irmão,
mortos, e o reino me foi usurpado;
por ele dos bens o pequeno quinhão
que para me sustentar tinha restado
dissipei, para tirá-lo da prisão;
nada mais há que possa ser usado,
a não ser ao cruel ir-me entregar,
para que assim ele o venha a libertar.
5 1 Se outra coisa fazer, pois, não me resta,
nem existe para salvá-lo outro amparo
senão dar esta minha vida, esta
minha vida por ele dar me é caro.
Mas um único temor me molesta:
não posso fazer acordo tão claro
que me garanta não pense o tirano,
tendo-me na mão, levar-nos no engano.
1 54 ORLANDO FURIOSO

52 O meu receio é se, ao ter-me cativa 5s Não pretende ele que ela seja dada
e com torturas várias me desfaça, ao inimigo para salvar Birena:
a libertar Birena ele se esquiva, os dois há-de salvar, se a sua espada
para não ter do meu sacrifício a graça; e todo o seu valor usar em pleno.
que tão vilão, e cheio de raiva altiva, No mesmo dia se fazem à estrada,
só de matar-me não se satisfaça, que o vento é de feição e o ar sereno.
e o que a mim fizer, cheio de veneno, Tem pressa o paladino, pois almeja
tal e qual faça ao infeliz Bireno. ir à ilha do monstro dar peleja.
53 Ora, o motivo de eu contar a vós 59 Vira ora a uma ora a outra banda,
este meu caso, e de contá-lo a quantos pelos fundos canais, o barqueiro a vela:
senhores, cavaleiros vêm a nós, entre as ilhas da Zelândia ciranda;
é só para que, falando disto a tantos, uma atrás fica e outra se desvela.
algum me queira garantir que, após Pisa Orlando ao terço dia a Holanda,
eu ser àquele cruel levada em prantos, na nave ficando a que tem querela
Bireno em ficar preso não incorra, com o rei frísio: Orlando, que ele foi morto,
nem queira ele, morta eu, que ele morra. quer que ela saiba antes que desça ao porto.
54 A alguns pedi para estarem comigo 60 Armado, o paladino desembarca
quando ao rei da Frísia eu me entregar; num corcel que era cinzento e trigueiro,
mas que prometa, qual leal amigo, criado em Flandres, nado em Dinamarca,
que a troca será feita em tal andar e mais possante era do que ligeiro;
que, entregue eu, Birena desobrigo; porque deixara, ao meter-se na barca,
para que, quando o tirano me matar, na Bretanha o corcel seu companheiro,
morra contente, porque a minha morte esse Brigliadoro belo e galhardo,
a vida terá dado ao meu consorte. que paralelo só tem em Baiardo 16 •
55 Ninguém inda se quis comprometer, 61 Chega Orlando a Dordrecht 17, onde comprova
e com seu juramento afiançar-me que muita guarda armada há junto à porta;
que, se ao ser-lhe eu entregue, não quiser sim, porque sempre, mas mais quando é nova,
por troca aquele rei Birena dar-me, a dominação suspeitas comporta;
não deixará que contra o meu querer e porque pouco antes chegara a nova
fique presa: temor lhes causa alarme, que, da Zelândia, frota armada aporta,
devido à arma a que se crê não possa de gente e navios que um primo traz
resistir armadura, por mais grossa. daquele senhor que em prisão ali jaz.
56 Se não for vosso valor desconforme 62 Orlando pede a um da guarda armada
do vosso altaneiro e hercúleo aspecto, que diga ao rei que um cavaleiro errante
e quereis dar-me ou reter-me, conforme com ele se quer bater com lança e espada;
o seu proceder seja ou não correcto, mas, antes, pacto de honra irá avante:
peço que comigo venhais, a pôr-me se for Orlando a parte derrotada,
em suas mãos: que assim não me inquieto, a dama entrega que matou Arbante,
tendo-vos comigo, que apesar de eu que se encontra em lugar e condição
morrer, não morrerá o senhor meu. - de sem demora lhe ser posta em mão;
57 Aqui a dama o seu falar calou, 63 por outro lado, quer que o rei prometa
por pranto e suspiros interrompido. que, se for o rei a parte vencida,
Orlando, quando ela a boca fechou, livre logo Birena da grilheta
ele, que a fazer bem era compelido, e permita que vá à sua vida.
nada em palavras com ela gastou, Depressa o soldado faz de estafeta;
pois nelas era, de si, comedido; mas o rei, que virtude só fingida
mas prometeu, e a palavra concede, conhece, dirigiu o seu intento
que fará mais que quanto ela lhe pede. à fraude, ao engano e ao traimento.
CANTO IX 1 55

64 Pensa que, tendo em mão o cavaleiro, 67 Aquele que caça pássaros tem vivos
terá a dama que o tinha ofendido, os primeiros que apanha, por pretender
se tê-la em seu poder é verdadeiro ainda muitos mais fazer cativos,
e se o soldado bem tinha entendido. se voar ou cantar estes fizerº ;
Trinta homens mandou tomar carreiro o rei Cimosco usou tais atractivos,
outro que a porta em que ia dar-lhe ouvido, mas não quis Orlando como esses ser
os quais, depois que ocultos prosseguiram, que à primeira se deixam apanhar,
nas costas do paladino surgiram. e rompeu o cerco que vm armar.
65 Entretanto o traidor o entretém 68 O cavaleiro de Anglante, onde avistou
com palavras, até avistar quantos mais gente e armas, apontou a hasta;
homens fez sair, como lhe convém; e um, outro e outro nela empalou,
pela porta sai então, com outros tantos, como se feitos duma fina pasta;
tal como o caçador cercadas tem seis nela couberam e segurou
no bosque as feras por todos os cantos; todos na lança, a qual porém não basta
e como em Volana 1 8 os peixes, na charca, para o sétimo, que assim fica de fora,
o pescador com longa rede abarca; mas que morre da ferida sem demora.
66 assim o rei da Frísia, com denodo, 69 Do mesmo modo, nas margens de areia,
para que ele não fuja se precavê. de rãs vemos, nos canais e nas valas,
Quere-o vivo ter, e não de outro modo, pelo hábil archeiro a flecha ser cheia,
e consegui-lo facilmente crê, pelos flancos ou pelo dorso a empalá-las;
pois do raio terrestre 1 9 com que a rodo e só quando o ferro encheu, em cadeia,
gente matou ora não se provê; de ponta a ponta, começa a tirá-las.
não lhe parece que para aqui convenha, A pesada lança para longe espalha
pois em prender, e não matar, se empenha. Orlando, e de espada vai à batalha.
1 56 ORLANDO FURIOSO

70 Partida a lança, empunha aquela espada 74 que rola pedras e ramos estilhaça,
que nunca foi brandida em vão duelo; e, para onde volta a altiva fronte,
o fio ou a ponta, em cada estocada, ruído faz, que se crê despedaça
para homem montado e a pé é flagelo: a selva em volta e vem abaixo o monte.
onde toca, dá cor avermelhada2 1 Cimosco espreita, para ver se não passa
a verde, azul, negro, branco e amarelo 22 • Orlando sem que seu castigo afronte.
Lamenta Cimosco o tal tubo e o fogo23 Mal aparece, ao orifício acode
não ter à mão, para lhe dar desafogo. com a chama, e o ferro logo explode.
71 Pede com voz grossa e ameaçadora 75 Atrás reluz, qual fulmíneo clarão,
que lhos tragam, mas não lhe dão ouvido; à frente estoira e o trovão entoa.
pois quem de se salvar achou ser hora Tremem muros, e sob os pés o chão;
prefere na cidade estar recolhido. o céu ribomba quando o estrondo soa.
O rei frísio, os outros vendo ir embora, A seta em fogo, que não dá perdão,
também de se salvar toma partido: e destrói tudo aquilo que abalroa,
corre à porta e a ponte24 quer alçar, assobia, sibila, mas sem ferir
mas bem lesto é o conde a lá chegar. quem o assassino queria atingir.
n O rei volta as costas e deixa Orlando 76 Ou seja porque a pressa a mão lhe tolha,
senhor da ponte, e das portas também; e a ânsia de o matar o faça errar;
e foge, à frente de todos passando, ou que o coração trema como folha,
por ser mais veloz o seu palafrém. fazendo mãos e braços vacilar;
Ao conde não interessa o gentio bando; ou porque o divino querer não acolha
só do vilão a morte lhe convém; a vontade de essa vida ceifar,
mas o corcel não é bom para correr: o tiro para o corcel se desviou;
parece estar quieto, e o outro asas ter. da terra nunca mais se levantou.
73 Mudando de via, foge da vista 77 À terra vão cavalo e cavaleiro:
ao paladino; mas regressa logo a um mal toca, outro para sempre peia;
com novas armas que entretanto aquista levanta-se o conde, ágil e ligeiro,
e tem consigo: o ferro oco e o fogo2 5 ; o qual mais força e vigor alardeia.
escondido, espera lhe faz imprevista, Tal como o líbio Anteu27 , que mais guerreiro
como faz o caçador o seu jogo, ficava sempre que tocava a areia,
com os cães armados 26 e a lança, à espera assim pareceu que sua força, quando
do javali, destruidora fera; a terra tocou, dobrou em Orlando.
78 Quem tenha visto do céu vir o fogo
que Júpiter com atroz som descerra28 ,
e entrar em sítio onde, sem desafogo,
carvão, enxofre e salitre se encerra29 ;
que assim que chega, mal lhe toca, e logo
parece arder o céu e mais a Terra,
quebra muralhas, mármores esventra,
e voam pedras onde o céu se adentra,
79 imagine30 tal coisa acontecendo
quando o paladino a terra tocou:
um semblante tão feroz e horrendo,
de fazer estremecer Marte, mostrou.
Assustado, o rei da Frísia, torcendo
toda a brida, para fugir se voltou;
a persegui-lo Orlando se projecta,
mais veloz do que sai do arco a seta;
CANTO IX 1 57

80 e aquilo que primeiro não pudera 83 Este povo 35 sempre fora inimigo
fazer a cavalo, agora a pé faz. do rei da Frísia e todo o seu sequaz,
De quem não viu, toda a ideia supera porque lhes matara o seu rei antigo,
a velocidade em que vai, tenaz. e porque era injusto, ímpio e rapaz.
Alcança-o, ergue a espada e dilacera Foi Orlando mediador, como amigo
o elmo de forma tão eficaz de ambas as partes, e entre elas fez paz;
que lhe abre a cabeça até ao pescoço unidas, não deixaram frísio vivo
e ao chão o manda, feito num destroço. ou que, vivendo, não fosse cativo.
81 Nisto, erguer-se na cidade se sente 84 As portas dos cárceres rebentadas
novo tumulto e som de espadeirada; são, sem incómodo de achar a chave.
porque o primo de Bireno3 1 e a gente Palavras de gratidão repassadas
que de sua terra trouxera embarcada, Birena ao conde diz, em tom suave.
ao encontrarem a porta patente, Dali, juntos e com várias brigadas,
na cidade entraram de revoada; vão aonde Olimpia36 espera, na nave;
correm-na toda sem ter estorvo algum, assim se chama aquela que da ilha,
pois medo ao paladim tem cada um. por seu direito, o domínio perfilha;
82 Debanda o povo à toa, pois quem são 85 essa que Orlando até ali trouxera
estas gentes não sabe, ou quem as manda; sem suspeitar que ele faria tanto;
mas pelas vestes e a fala vendo vão pois que morrer bastar lhe parecera
que são zelandeses, e o medo abranda: para aliviar seu amado do pranto.
paz pedem, e carta branca32 lhes dão, Todo o povo a reconhece e venera.
rendendo-se ao capitão que os comanda; Demorado seria contar quanto
querem contra o Frísio33 lutar também, Bireno a ela e ela a ele afaga,
que o seu duque34 em prisão aqui mantém. e as honras que prestam ao conde37 , em paga.
86 O povo senta no trono paterno
a dama, e fidelidade lhe jura.
Ela a Birena, a quem com laço eterno
Amor a ligou com cadeia dura,
do reino e de si confia o governo.
E ele, que seus cuidados não descura,
dos castelos e de toda a nação
seu primo deixa como guardião;
87 pois à Zelândia voltar pretendia,
levando consigo a fiel consorte;
e aqui no reino dizia que queria
com a Frísia tentar a sua sorte38 ;
pois disso em mão tinha uma garantia,
um penhor que ele achava muito forte:
a filha do rei da Frísia ficara
entre os cativos, que muitos contara.
88 E diz que por mulher um seu irmão
mais jovem recebê-la idealizou.
O senador romano39 parte, então,
nesse dia em que Bireno zarpou.
Nos despojos que tinha não pôs mão,
entre tantos e tantos que ganhou,
a não ser no tormento semelhante,
como se disse, ao raio fulminante.
CANTO IX 159

89 Mas, ao levá-lo, seu único intento 92 Tanto desejo o paladino oprime


não foi para o usar em sua defesa; de saber se ali se encontra a donzela
pois acha cobarde procedimento (que não há no mundo quem tanto estime,
com vantagem tratar qualquer empresa; nem vive urna hora feliz sem ela)
quer num sítio deixar aquele invento, que receia de Hibérnia se aproxime
onde se saiba que a mais ninguém lesa; e nova aventura o afaste dela,
de pólvora e bolas levou quantia, e depois o faça dizer: - Maldição!,
tudo o que àquela arma pertencia. por que ao passo não dei mais impulsão? -
90 Após sair daquele braço de mar 93 Nem escala em Inglaterra ou na Irlanda
e em águas profundas se tendo achado, deixou fazer, nem no oposto lido4 1 •
onde já nada podia avistar Mas deixerno-lo ir aonde o manda
quer do direito quer do esquerdo lado, Amor, por quem seu coração foi ferido.
pegou-lhe e disse: - Para não evitar Dele ora não falo, e vou à Holanda,
mais alguém, por ti, de ser arrojado40 , e a lá voltar comigo vos convido;
nem quanto vale o bom, por ti se gabe pois, corno eu, não gostaríeis vós
o mau de valer, tua vida acabe! que aquelas bodas se dessem sem nós.
91 Ó maldito, ó engenho abominável, 94 Sumptuosas e belas elas são;
que fabricado no Tártaro fundo mas não tão sumptuosas e tão belas
foste, à mão, por Belzebu execrável, corno em Zelândia dizem que farão.
que pensou por ti destruir o mundo, Mas não desejo que venhais àquelas,
devolvo-te ao Inferno, miserável! - pois novos incidentes se darão
Tal disse e o atirou ao mar profundo. para perturbá-las; mas notícias delas
As velas enfunadas vai o vento no outro canto vos vou transmitir,
dirigindo para a ilha do tormento. se ao outro canto me vierdes ouvir.

---.--
NOTAS

1
Durindana: a espada Durindana, famosa na literatu­ 7 Onde [. .. ] mar: foz do no Escalda, que banha
ra cavaleiresca. Orlando obteve-a de Almonte, mas ori­ Antuérpia.
ginalmente pertencera a Heitor.
8 Terra: cf. 1 8:3.
2
França e seu distrito: refere-se a Íle-de-France, região
9
do Norte de França cuja capital é Paris, e é atravessada Zelândia: ilha dinamarquesa.
pelos rios Sena, Oise e Mame.
10
Biscaia: província do Norte de Espanha, na região
3 Um rio: o rio Couesnon, que separa a Normandia da do País Basco, cuja capital é Bilbau.
Bretanha e desagua na baía do Mont-Saint-Michel.
4 Hibérnia: era o nome latino da Irlanda. 11
Frísia: corresponde hoje à parte setentrional da
Holanda, da qual estava separada apenas pelo rio Reno
5 Álbion: nome antigo e poético da Inglaterra, deriva­ no seu ponto mais largo, isto é, junto à foz.
do da falésia branca (lat. alba) de Dover, no canal da
12
Mancha, que se avista de França. Um tubo [. . .] chumaço: trata-se do arcabuz, usado
pela primeira vez no séc. XJV, ou seja, cinco séculos após
6 De poente e de aquilão: de oeste e norte («aquilão» Carlos Magno. Há vários anacronismos deste género no
designa a região boreal) . poema. Neste caso, talvez seja uma oportunidade para
condenar as armas de fogo.
1 60 ORLANDO FURIOSO

13 Em frota: em grupo. 28
Do céu [. . .] descerra: raios e relrunpagos.
14 29
Cimosco: o rei da Frísia. Sítio [. . .] encerra: um paiol de pólvora.
15 Vale e é menos pesado: coisas de pouco peso e volume, 30
Imagine: o sujeito encontra-se no v. 1 da oitava ante­
mas de grande valor. rior (quem tenha visto) .
16 31
Baiardo: o cavalo de Rinaldo. Primo de Bireno: cf. 6 1 :5-8.
17 32
Dordrecht: cidade do Sul da Holanda. Carta branca: documento em branco, em que o ven­
cedor pode registar livremente as condições da rendição.
18
Volana: situa-se num dos braços do delta do Pó, rico
33
em peixe. O Frfsio: o rei da Frísia e seus sequazes, que agora
dominavam a Holanda.
19
Raio terrestre: o arcabuz.
34
O seu duque: Bireno.
20
Se voar [. . .] fizer: métodos para capturar pássaros.
35
Mantendo uma ave atada a um fio, ela esvoaça e atrai Este povo: os Holandeses.
outras; também uma ave canora, numa gaiola, atrai
36
outras com os seus trinados. Olimpia: só agora Ariosto revela o nome da donzela
que é legítima herdeira do trono da Holanda.
21
Avermelhada: de sangue.
37
Conde: Orlando.
22
liérde [. . .] amarelo: cores das insígnias nas armaduras
38
dos adversários. Frísia [. . .] sorte: tentar a sua sorte na conquista do
reino da Frísia.
23
Tubo e o fogo: o arcabuz.
39
Senador romano: título que já no O. Innamorato era
24
Ponte: a ponte levadiça, sobre o fosso que rodeava os atribuído a Orlando.
castelos.
40
Para não evitar [. .. } arrojado: para que, por te temer,
25
Oferro oco e ofogo: o arcabuz e a mecha para lhe dar fogo. mais nenhum cavaleiro deixe de mostrar sua coragem.
26 41
Armados: com coleiras de bicos. Oposto lido: a costa do lado oposto, isto é, a França.
27
Anteu: gigante que habitava a Líbia, filho de Posídon
e de Geia (a Terra) . Em contacto com a mãe, era invul­
nerável. Para o matar, Héracles teve de erguê-lo do chão.

CANTO X

Dos que amor, fidelidade no mundo 2 e que com tantos e claros sinais
acharam, entre os corações constantes, de tal tornou o seu Bireno certo,
e dentre os que, em tempo triste ou jucundo, que nenhuma mulher pode dar tais,
por provas 1 foram famosos amantes, mesmo de peito e coração aberto.
mais o primeiro lugar que o segundó E, se almas tão devotas e leais
dou a Olimpia; e, se maior houve antes, são dignas dum amor de igual acerto,
mantenho que, entre o antigo e o recente, Olimpia é digna que amor mais pequeno
amor maior que o seu não se consente; sinta por si que por ela Bireno;
1 62 ORLANDO FURIOSO

3 e de por ele não ser abandonada s assim fazem esses jovens, que, enquanto
por outra mulher, inda fosse aquela para eles fordes esquivas e protervas,
que Europa e Ásia pôs alvoroçada2 , vos amam e galanteiam com quanto
ou outra que seja ainda mais bela; ardor o faz quem serve sem reservas;
antes a vista lhe seja tirada, mas tão depressa da vitória o canto
ouvido, gosto e fala, mas não ela, podem entoar, de damas a servas
e sua vida e a fama gloriosa, vós passareis, sendo-vos retirado
ou coisa porventura mais preciosa. seu falso amor, que a outra será dado.
4 Se Bireno a amou do modo exacto 9 Mas não vos proíbo (seria asneira)
como ela o amou, se foi tão fiel que vos deixeis amar, pois sem amante
como ela foi, se para outra, de facto, seríeis como uma estéril videira,
não virou a proa do seu batel, sem planta em que se apoie ou pau montante.
ou se a tal lealdade foi ingrato, Apenas à tal penugem primeira
se para tão fiel amor foi cruel, deveis fugir, volúvel e inconstante,
digo, e espero de pasmo conseguir colhendo os frutos não verdes e duros,
fazer-vos boca e sobrolho franzir. mas também não demasiado maduros.
s E depois que revelada vos seja 1 0 Uma filha, mais atrás vos dizia,
qual foi da sua bondade a mercê, do rei frísio foi ali encontrada;
damas, que nenhuma de vós esteja que, segundo eles disseram, seria
em jura de amor pronta a fazer fé. por Bireno ao irmão, para mulher, dada.
O amante, para obter o que deseja, Mas a verdade é que ele a apetecia,
esquecendo que Deus tudo ouve e vê, pois era iguaria bem delicada:
engendra promessas e juramentos, e achava que era cortesia louca,
que mais tarde pelos ares levam os ventos. para dá-la a outro, tirá-la da boca.
6 Os juramentos e promessas são 11 A rapariga ainda não passava
levados pelo vento, que os dissipou catorze anos, bela e virginal,
logo que os amantes satisfação como uma rosa que mal despontava
tiveram para o fogo que os inflamou. do verde botão ao sol matinal.
Sede a seus rogos e imploração Bireno não só de paixão se agrava;
mais cautas, pelo exemplo que vos dou. pois lenha nunca ardeu com fogo tal,
Felizes aquelas, caras senhoras, nem mãos invejosas e m1m1gas
que de astúcias tais são conhecedoras. o atiçaram às maduras espigas,
7 Guardai-vos desses que o rosto acontece 12 como se inflamou instantaneamente,
imberbe terem, que a idade o permite; como até às medulas ele ardia,
neles lesto nasce e lesto fenece, quando junto ao pai morto a viu dolente,
como fogo em palha, cada apetite. e o pranto seu belo rosto cobria.
Tal qual o caçador que não esmorece, Como acontece, se água fria sente
sem que frio, calor, monte e vale evite; aquela que antes ao fogo fervia3 ,
quando a lebre apanha já não lhe interessa: assim por Olimpia o primeiro ardor
só enquanto atrás corre o passo apressa; nele foi extinto pelo seu sucessor4 •
CANTO X 1 63

13 Não só farto está, mas tão enfadado 1s A agitação do mar e a tremura


de Olimpia que mal a suporta ver; que dias sem dormir deram a esta,
pela outra o desejo é tão inflamado e o encontrar-se ora em terra, segura,
que morrerá, se muito o suspender; distante dos rumores da floresta,
mas, até que chegue o dia aprazado e porque nem pensamento ou agrura,
para o seu desejo, enfim, satisfazer, tendo o seu amante ao lado, a molesta,
Olimpia finge adorar, não amar, deram a Olimpia um sono tenaz,
e só o que lhe agrada desejar. como não tem urso nem arganaz5 •
14 Se acaricia a outra (pois não pode 19 O falso amante, a quem a vilanagem
evitar fazê-lo mais que o devido) , mantinha acordado, vendo-a dormir,
não há ninguém que de maldoso o apode: devagar sai do leito, e da roupagem
à piedade e dó é atribuído; faz uma trouxa, em vez de se vestir;
pois quem ao desafortunado acode, sai do pavilhão; e como se alagem
e consola o aflito pela dor ferido, recebesse, para pelos ares se evadir,
ralho não ouve mas louvor frequente; vai aos seus, acorda-os, e sem ruído
inda mais uma donzela inocente. fazem-se ao mar, abandonando o lido.
15 Sumo Deus, como os juízos humanos 20 Para trás ficou o lido e a infeliz
se deixam ofuscar por véu obscuro! Olimpia, que dormiu sem despertar
Os gestos de Bireno, tão profanos, até que a Aurora a geada quis
tomados por piedosos, de homem puro. com as douradas rodas6 dissipar,
Iam os marinheiros insulanos e os Alcíones7 ouviu, nos alcantis,
remando, longe do lido seguro, seu antigo infortúnio lamentar.
levando, ledos, pelos canais saleiros, Meio acordada, ela estendeu a mão
à Zelândia o duque e os companheiros. querendo abraçar Bireno, mas em vão.
16 Para trás tinham ficado já perdidos 21 Não o acha, e a si a mão retira;
de vista todos os confins da Holanda tenta de novo, e não acha ninguém.
(para a Frísia evitar, mais protegidos Um braço para cá, outro para lá gira,
seguiam junto à Escócia, à esquerda banda), e ambas as pernas gira em vão também.
quando pelo vento são surpreendidos, O receio lhe abre os olhos e mira:
e o barco à deriva três dias anda. ninguém. Não mais no calor a retém
Surgiu ao terço, da noite já perto, o viúvo tálamo: eis se arremessa
uma ilha: sítio inculto e deserto. para fora do leito e da tenda à pressa:
17 Depois de entrarem num golfo pequeno, 22 e corre para o mar, e o cabelo arranca,
Olimpia veio a terra; e satisfeita, pressaga, certa já, da sorte sua8 •
acompanhando o infiel Bireno, Arrepela o rosto e seu peito espanca,
jantou feliz sem ter qualquer suspeita; e vai olhando (pois brilhava a Lua) ,
depois com ele, onde em lugar ameno tentando ver além da praia branca;
uma tenda armaram, logo se deita. mas para lá dela nada se desnua.
Todos os mais companheiros voltaram Bireno chama: em resposta ouve só
para os seus navios, onde repousaram. a voz dos Antros, que sentiam dó.
1 64 ORLANDO FURIOSO

23 Na ponta da praia havia um rochedo, 29 Receio, e ver já creio com alarme


pelas ondas feito com bater frequente, leões e ursos da selva sair,
oco por baixo, de arco um arremedo; tigres, e mais que a natureza arme
pelo mar avançava, curvo e pendente. de dentes e garras para me ferir.
Olimpia sobe-o célere, sem medo Mas que feras cruéis poderão dar-me
(impelida pelo desespero urgente) , pior forma que tu de sucumbir?
e vê ao longe as enfunadas velas Dar-me uma morte a elas bastará,
do seu cruel senhor, que foge nelas: mas mil mortes tua traição me dá.
24 vê-as ao longe, ou parece-lhe ver, 30 Mas pressinto que estará para chegar
pois a manhã não era ainda clara. barqueiro que por dó daqui me leve;
Deixou-se cair, toda ela a tremer, e a lobos, ursos, leões me esquivar,
mais branca e fria que neve na cara; e à fome, e outras formas de morte breve;
e, quando sente forças para se erguer, à Holanda acaso me irá levar,
direito às naves o grito dispara: se a guarda dos portos a ti se deve? 9
várias vezes chamou em voz bem forte, Levar-me-á à terra onde nasci,
gritando o nome do cruel consorte; se por tua fraude já a perdi?
25 e, quando lhe faltava a débil voz, 31 Tu, o que era o meu reino, com pretexto
valia o pranto e o bater palma a palma. de parentesco 1 0 e de amor me tiraste.
- Para onde foges, cruel, tão veloz? A pôr lá tuas gentes foste lesto,
Esta carga o teu navio não açaima. e assim mais o domínio asseguraste.
Leva-me ainda: quanto custa a vós Voltarei à Flandres? Vendi o resto
que leve o corpo, se transporta a alma? - de que vivia, pouco e quanto baste
E, com os braços e as vestes à solta, para te ajudar a sair da prisão.
vai acenando, a ver se a nave volta. Ai de mim! Onde irei? Qual o meu chão?
26 Mas os ventos que levavam as velas 32 Talvez para a Frísia, onde poderia,
pelo alto mar, desse jovem infido, e por ti não aceitei, ser rainha?
levavam as súplicas e querelas O que de meus irmãos e pai seria
da infeliz, e o pranto e o alarido; a ruína, e de tudo o mais que tinha.
três vezes pôr fim às suas procelas Tudo quanto por ti fiz eu não queria,
meditou, debruçando-se do lido; ingrato, pôr-te em cara e ladainha
ergue-se por fim, sem que a tal se afoite, fazer: tão bem quanto eu o saberás;
e volta para onde passara a noite. mas vê a recompensa que me dás.
27 Estende-se no leito e oculta neste 33 Mas não queria ser, pelos que corso fazem,
o rosto que o banha de pranto, e diz: apanhada e vendida como escrava!
- Se ontem em ti dois juntos recebeste, Lobo, leão ou urso mais me aprazem,
que juntos se erguessem por que não quis? ou tigre ou qualquer outra fera brava,
Ó pérfido Bireno, ó dia agreste que me dilaceram e me desfazem,
e tão maldito que me deu matriz! e morta me levam para a sua cava. -
Que faço? Aqui só, que posso fazer? Diz, e leva as mãos aos loiros cabelos,
Quem ajuda e consola meu viver? madeixa por madeixa a retorcê-los.
2s Homem aqui não vejo, nem sinal 34 Corre de novo até ao fim da praia,
donde conclua que aqui haja gente; girando e espalhando ao vento as melenas;
navio não vejo que deste areal parece louca e que em cima lhe caia
me leve, e minha via siga em frente. não um demónio, mas sim às dezenas;
À míngua morrerei; sem que coval ou que, como Hécuba, em raiva descaia,
alguém me dê, e os olhos me acalente; morto Polidora de atrozes penas 1 2 •
se sepulcro em seu ventre me não derem Senta-se numa pedra, olhando o mar;
os lobos, ai!, que em tal selva estiverem. tal qual uma pedra, a uma pedra par.
CANTO X 165

35 Fica a doer-se até que eu ali torno 13 , 36 Enquanto a sede, e do andar a fadiga
pois falar-vos de Ruggiero quisera; pela areia funda, e a deserta via
a meio do dia, num calor de forno, lhe faziam, por essa praia imiga,
cavalga o lido e a fadiga o lacera. enfadonha e molesta companhia,
Bate o sol na colina e faz retorno: à sombra encontrou duma torre antiga,
a areia miúda é como se ardera. que das águas, junto à margem, saía,
Para serem de fogo, pouco faltava, três damas que, pelos gestos e pelas saias,
como foram 1 4 , às armas que endossava. viu que da corte de Alcina eram aias.
1 66 ORLANDO FURIOSO

37 Tendo tapetes persas como ninhos, 39 Uma delas chegou-se-lhe ao cavalo,


gozavam fresca sombra com prazer, segurando o estribo para que descesse;
entre muitos jarros de vários vinhos com taça de espumante a convidá-lo
e doces da melhor espécie que houver. veio outra, que a sede lhe engrandece;
Brincando com os balanços marinhos, mas Ruggiero não foi naquele embalo,
aguardava-as junto à praia um escaler, porque, qualquer demora que tivesse,
que esperava para a vela a boa hora, tempo de o alcançar dava a Alcina,
pois nem leve fio de ar soprava agora. que o persegue e já quase o descortina.
38 Vendo vir, pela areia que ao passo cede, 40 Nem fino salitre ou enxofre puro 1 5 ,
Ruggiero, à sua viagem adstrito, ao chegar-se-lhe o fogo, assim se inflama;
que tinha nos lábios impressa a sede, nem assim freme o mar, quando o obscuro
e pleno de suor o rosto aflito, furacão desce e em seu seio se acama;
começam a dizer-lhe que se excede, como, ao ver que Ruggiero tão seguro
tendo ao caminho o intento tão fito segue o seu caminho pela areia em chama,
que à doce e fresca sombra não se renda, dando-as ao desprezo (e achavam-se belas),
e restaurar seu corpo não pretenda. arde de furor a terceira delas.
4 1 - Tu não és nem gentil nem cavaleiro
(diz-lhe gritando, quanto pode, forte) ;
armas e corcel roubaste a terceiro,
pois teus não podiam ser de outra sorte;
e, como isto que digo é verdadeiro,
queria ver-te punir com digna morte:
queimado, esquartejado ou enforcado,
ladrão, soberbo, vil, vilão malvado! -
42 Além destas, palavras lhe teceu
inj uriosas aquela megera,
às quais Ruggiero não lhe respondeu,
que de tão vil querela honra não espera;
com as irmãs ela lesta correu
para o barco que ali estava e delas era;
remando apressada, vai-lhe na pista,
junto à costa, sem o perder de vista.
43 De ameaças e maldições o encharca,
que ofensas sabe dar por todo o lado 1 6 •
Entretanto, ao estreito que o reino marca
da fada mais bela eis que ele é chegado;
onde um velho barqueiro a sua barca
vê soltar da margem, como avisado
e já prevenido ali se encontrasse,
à espera que Ruggiero ali chegasse.
44 Parte o barqueiro assim que a vir o vê;
de o transportar mostra feliz aspecto:
se do coração o rosto faz fé,
muito bondoso seria e discreto.
Ruggiero no navio põe o pé,
a Deus agradecendo; e pelo mar quieto
conversando ia com o remador,
que era experiente e muito sabedor.
CANTO X 1 67

45 Louvava Ruggiero que assim tivesse 47 Vai-te ensinar estudos mais elevados
sabido a Akina escapar, e antes que banhos, odores, danças, iguarias;
que o cálice encantado ela lhe desse, e que os pensamentos mais bem formados
que no fim dera a todos os amantes; se elevam às altas periferias;
e que a Logistilla se remetesse, e como a glória dos beatificados,
onde eram santos costumes reinantes, no corpo mortal, em parte avalias. -
beleza eterna e graça nobre e pia Assim vai dizendo o barqueiro avante,
que o coração pasce, e nunca sacia. da segura margem inda distante,
46 - Esta (dizia) pasmo e benquerença 48 quando nisto vê surgir na marina
induz na alma, quando se aproxima. navios e barcos, para o seu dirigidos.
Depois contempla bem sua presença: Num deles vem a ofendida Alcina;
outros bens parecem de pouca estima. e muitos dos seus estão a ela unidos,
O seu amor dos outros faz diferença: para levar o reino e ela à ruína
ânsia e temor noutros o peito lima; ou reconquistar os amores perdidos.
neste, o desejo nada mais te pede, O amor é, para tal, razão nada leve,
e o vê-la satisfação te concede 1 7 • mas não menos a injúria que prescreve.
1 68 ORLANDO FURIOSO

49 Desde que nasceu, raiva não sentiu 55 Alcina foge, e sua infeliz gente
tão grande como esta que agora a rói; presa ou morta é, queimada ou submersa.
e os remos sobre as águas tanto urgiu De Ruggiero perder ela se sente
que a ambas as margens a espuma foi 1 8 • mais que de qualquer outra coisa adversa:
Mar e margem grande estrondo emitiu, dia e noite por ele amargamente
e Eco 19 , ressoando, se condói. geme, e lágrimas abundantes versa;
- Descobre o escudo, Ruggier, que é preciso; para pôr fim ao martírio que a atormenta,
ou tens, de morte ou prisão, prejuízo. - de não poder morrer mui se lamenta.
50 O barqueiro de Logistilla disse; 56 Morrer a uma fada não é possível,
e, além de dizer, tirou de repente se Sol e céu não sofrerem desvio.
a coberta, para que o escudo surgisse, Dout..-0 modo, o desgosto era plausível
mostrando o brilho claro e evidente. para apressar Cloto a enovelar-lhe o fio24 ;
O grande esplendor, como se aturdisse, ou, qual Dido2 5 , com ferro perecível;
os olhos feriu com força potente ou do Nilo a rainha26 , que dormiu
que fez ficar cega cada pessoa, mortífero sono, imitar podia;
e os fez tombar ora à popa ora à proa. mas morrer, para as fadas, é fantasia.
51 Um, que estava de guarda numa roca, 57 Ao que de eterna glória nada trave
da frota de Alcina se apercebeu; voltemos; e Alcina fique a penar.
e logo o sino martelando toca, Ruggiero, depois de sair da nave,
e pronto o socorro ao porto acorreu. em mais firme areia27 pôde pisar;
A artilharia20 prontamente esboca grato a Deus por não ter achado entrave
contra quem a Ruggiero acometeu; ao seu plano28 , deixou para trás o mar;
de todas as partes há quem lhe acuda, e, apressando o passo em terreno enxuto,
e a vida salvou com tão grande ajuda. dirigiu-se ao castelo, resoluto.
52 Quatro senhoras às águas estão rente, 58 Noutro mais forte e belo não encalha
mandadas ali ir por Logistilla: olho mortal, ou próximo ou distante29 •
a tenaz Andronica e a prudente Menos valor tinha sua muralha
Fronesia e a justíssima Dicilla, se feita de piropo ou diamante.
e a casta Sofrosina, competente De ge01as assim cá em baixo30 há falha:
mais que as outras 21 a agir, se perfila. quem conhecer quiser, tem que diante
Este exército22 no mundo sem par destas vir; não creio que em outra parte,
sai do castelo, e avizinha-se ao mar. senão talvez no Céu, haja tal arte.
53 Sob o castelo, na tranquila foz, 59 O que faz com que a elas vénia dê
de muitos navios estava uma armada, qualquer gema é que, mirando-se nessas,
a um toque de sino, a uma voz, um homem até à alma se vê;
dia e noite à batalha preparada. os vícios e as virtudes vê expressas
E assim foi a luta dura e atroz, de forma que em lisonjas já não crê,
em terra e sobre a água iniciada23 ; e a censuras injustas pede meças:
a qual pôs todo o reino em polvorosa, faz-se, ao olhar-se no espelho luzente,
que à irmã roubara Alcina viciosa. ele mesmo, ao conhecer-se, prudente.
54 De quantas batalhas fim sucedeu 60 A sua luz, que como o Sol quer ser,
diferente do esperado, e bastante! difunde tanto brilho em seu redor
Não só Alcina não apreendeu, que uma tendo, onde e sempre que quiser,
como julgava, o fugitivo amante; pese a Febo, do dia tem-se a cor3 1 •
mas os navios, com tantos guarneceu Não só as gemas têm tal parecer;
antes o mar que não dava vazante, pois as matérias e o fino lavor
e ao fogo que a todos, feroz, alapa, competem entre si, e avaliar
com um barquito só, mísera, escapa. a excelência maior, só por azar32 •
CANTO X 169

61 Sobre os altíssimos arcos, que amparos 62 Árvores assim nobres e dilectas


parecia que do céu fossem, ao vê-los, não existem fora destes jardins,
havia jardins tão extensos e raros nem rosas como estas ou violetas,
que até no chão era difícil tê-los33 • nem lírios, amaramos ou jasmins.
Verdejavam arbustos de odores caros Noutros sítios, num dia as silhuetas
· (das ameias o brilho a guarnecê-los) , erguem-se, inclinam-se, e atingem seus fins:
a que singelas flores de Inverno e Verão viúvos ficam seus caules ao léu,
e frutos maduros adorno dão. sujeita a flor ao variar do céu;
1 70 ORLANDO FURIOSO

63 mas ali era perpétua a verdura, 69 Assim partiu Ruggier, mas não voltou
perpétua das flores a beleza eterna; pelo caminho que fez contrariado:
não é a amenidade da Natura sobre o mar hipogrifo o conservou
que tão temperadamente as governa: e da terra esteve sempre afastado;
Logistilla com seu saber as cura, mas agora a seu jeito o manobrou,
sem que dependa da regra superna34 para aqui, para ali, mas sempre a seu agrado;
(conquanto aos outros pareça impossível), tal como os Magos, outra via fez,
mantendo a Primavera imperecível. para assim darem a Herodes revés.
64 Logistilla demonstrou muito agrado 70 À ida fora, saindo de Espanha,
por receber um tão gentil senhor; encontrar a Índia em rota direita,
deu ordens para que fosse bem tratado, aonde o mar oriental a banha,
e que cada um lhe prestasse honor. e onde uma fada a outra é contrafeita37 •
Já antes tinha Astolfo ali chegado, Agora foi por uma rota estranha
e, ao revê-lo, Ruggier mostrou calor. àquela em que Éolo os ventos aleita38 ;
Dentro de dias todos chegarão, assim completou o giro rotundo,
aos quais Melissa deu normal visão35 • para ter, como o Sol, contornado o mundo 39 •
65 Depois de repousarem mais que um dia, n E assim o Catai e também Mangiana
procurou Ruggiero a fada prudente viu, o grande Quinsai sobrevoando40 ;
com Astolfo, que tal como ele queria passou sobre o fmavo, e Sericana4 1
licença para regressar ao Poente. estava à direita; e, sempre declinando
Melissa à fada por ambos pedia, da Cítia hiperbórea42 à onda hircana43 ,
fazendo-lhe súplica humildemente chegou às bandas de Sarmácia44 , e, quando
que os vá aconselhando e assistindo, a Ásia da Europa se dividiu,
para que regressem donde tinham vindo. Russos, Prussos e Pomerânia45 viu.
66 Disse a fada: - No caso pensar quero; n Embora Ruggier tivesse desejo
dentro de dois dias serão expedidos. - de regressar a Bradamante em breve,
Só, medita depois como Ruggiero com prazer aproveitou tal ensejo
e o duque Astolfo serão assistidos: de observar o mundo, e não se deteve
decide que o corcel alado e fero sem Polacos e Húngaros no adejo
leve o primeiro aos aquitanos lidos36 ; olhar também e Alemães, ao de leve,
mas primeiro quer que se faça um freio, e o resto daquela boreal terra;
que a travar e virar lhe dê maneio. por fim chegou à distante Inglaterra.
67 Mostra-lhe como fazer, se quiser 73 Não crede porém, senhor, que sempre ia,
que no ar esteja, ou fazê-lo pousar; todo o caminho, sobre o animal:
como um giro completo descrever, cada noite na estalagem dormia,
como ir veloz ou só no ar pairar. tentando evitar alojar-se mal.
Todos os jeitos que o cavaleiro quer Passou dias e meses nesta via,
ao bom cavalo em terra firme dar, de ver terra e mar tendo prazer tal.
Ruggiero no ar ao corcel de penas Perto de Londres chega uma manhã,
conseguiu dar, em instantes apenas. j unto ao Tamisa indo a terra chã.
68 Depois de estar de tudo esclarecido, 74 Ali, nos prados à cidade afins
Ruggiero da fada se despediu, viu, juntos, homens de armas e infantes,
a ela ficando para sempre unido que ao som de trompas e de tamborins
por grande amor, e do país saiu. atrás iam, garbosos e marchantes,
Falo ora dele, em boa hora ido, do bom Rinaldo, honra dos paladins;
depois direi como Astolfo partiu, o qual, se se recordam, disse eu antes
e como alcançou, com maior fadiga, que a mando de Carlos aqui viera
o magno Carlos e sua corte amiga. buscar ajuda, que ele em França espera.
CANTO X 171

75 Chegou Ruggiero quando se fazia 77 Tu vês ali uma bandeira grande,


a parada, fora daquela terra46 ; com a flor-de-lis e os leopardos:
e para lhe contar tudo ele pedia o comandante é que no ar a brande,
a um paladim, mas primeiro aterra; e os outros atrás não lhe serão tardos.
e aquele, muito amável, lhe dizia Seu nome, que nestas bandas se expande,
que da Escócia, de Irlanda e de Inglaterra, é Leonetto, o maior dos galhardos,
e de outras ilhas, eram as fileiras duque de Lencastre e mestre o direi
que ali ostentavam tantas bandeiras; na guerra, e sobrinho do nosso rei.
76 findando a parada ali alinhados, 78 A primeira, junto ao pendão real,
até à beira de água marcharão, que ao vento tremula direito ao monte,
para sulcar o oceano são esperados asas brancas em campo verde é tal,
pelos navios que no porto já estão. Ricardo de Warwick a tem defronte.
Os Francos, em Paris assediados, Do duque de Gloucester é o sinal
esperam que estes para socorrê-los vão. com dois cornos de cervo e meia fronte.
- Mas, para que tu te informes plenamente, Do duque de Clarence o ígneo facho,
eu vou-te distinguir toda esta gente. e do de York a árvore, mais abaixo.
1 72 ORLANDO FURIOSO

79 Ali há uma lança partida em três, 85 O conde de Athol de dourada barra


que do duque de Norfolk é o toque. em seu azul estandarte faz alardo.
Do duque de Kent o raio é jaez, De Moray o duque a bandeira agarra
e o grifo é o do conde de Pembroke. que apresenta enjaulado um leopardo.
Do de Northumberland grinalda vês; Com muitas cores e pássaros, bizarra,
do de Suffolk a balança a reboque. olha a insígnia de Alcabrun galhardo,
Vês o jugo que as cobras associa: que não é duque, conde nem marquês,
é o conde de Essex que ele anuncia. mas sim um chefe no país escocês.
80 O conde de Arundel é o que liberto 86 Do duque de Strafford é o brasão
exibe o barco que no mar se afunda. da ave com o olhar no Sol parado.
Vês o marquês de Berkeley, que, perto, Lurcanio48 , conde, tem de Angus temão,
de Richmond e March os condes secunda: leva o touro que os galgos tem ao lado.
mostra o primeiro em branco um monte aberto, O duque de Albany49 , vê, tem o chão
outro a palma, outro o pinho em água funda. pelas cores azul e branco assinalado.
Olha de Dorset e Hampton os condes: Esse abutre que o verde dragão pisa
a eles, ao carro e à coroa respondes. do conde de Buchan é a divisa.
81 As asas o falcão para o ninho inclina: 87 O ousado Armano, de Forbes patrão,
Raimondo, conde de Devon, segura. branca e negra mostra a sua bandeira;
Negro-amarelo o de Worcester guina; tem o conde de Errol à destra mão,
de Derby cão, de Oxford urso, a figura. que leva em campo verde uma tocheira.
A cruz que ali avistas, cristalina, Olha os irlandeses, no plano estão:
do prelado de Bath é bordadura. são duas esquadras, delas a primeira
Fendida cadeira o cinza reflecte: pelo conde de Kildare é comandada;
é de Ariman, duque de Somerset. ao conde de Desmond a outra é dada.
82 Os homens de armas e archeiros montados 88 No pendão do primeiro um pinho ardente;
quarenta e dois mil em número são. do outro, em branco uma vermelha banda.
Mais cento, menos cento, são dobrados Não leva socorro a Carlos somente
aqueles que a pé para a batalha vão. a terra inglesa, a Escócia e a Irlanda;
De cinza, amarelo e verde corados da Suécia e Noruega vem gente,
vês, e a negro e àzul listado um pendão: de Thule5°, e também da remota Islanda5 1 :
Gofredo, Enrigo, Ermante e Odoardo de toda a terra, enfim, que tem presteza
guiam peões, qual deles mais galhardo. de gente guerreira por natureza.
83 De Buckingham o duque soberano, 89 Dezasseis mil são, se eu não estiver manco,
e Enrigo, que é de Salisbury conde; saídos de cavernas e florestas;
de Monmouth é Ermante, o veterano; têm peludo o rosto, peito e flanco,
de Shrewsbury Odoardo a conde responde. costas, braços e pernas, como as bestas.
Aqueles que a levante estão no plano Em volta do seu pendão, todo branco,
são ingleses. Vê onde o Sol se esconde: estas bandas estão de lanças infestas:
trinta mil escoceses que o paladino Moratto, o chefe, assim o leva exangue52 ,
filho de seu rei comanda, Zerbino47 • para lá o tingir de mourisco sangue. -
84 Vê entre os unicórnios o leão: 90 Enquanto Ruggier dessa gente bela
espada de prata na mão lhe floriu; que para socorrer França se prepara
aquele é do rei da Escócia o pendão; conhece as insígnias, e tagarela,
Zerbino, o filho, ali está arredio. e dos britânicos o nome aclara,
Tão belo não há entre os que aqui estão: alguns para junto dele, para ver aquela
a Natura o fez e o molde partiu. besta que monta, única e tão rara,
Duque é de Ross, e nenhum irradia acorrem com pasmo, em espantado jeito;
assim graça, valor e valentia. em breve em torno um cerco lhe foi feito.
CANTO X 1 73

91 Para causar inda mais admiração, 97 Nos belos olhos os olhos pousando,
e o bom Ruggier com tal se divertir, a sua Bradamante recordou.
deu um pouco de rédea ao alazão E, de piedade e de amor se alagando,
e esporas no flanco lhe fez sentir: o pranto em seus olhos mal evitou;
voou ele pelos céus em digressão, à donzela com doçura falando,
e todos com espanto fez reagir. disse, depois que o seu corcel travou:
Depois Ruggier, que duma a outra banda - Ó senhora, digna só das cadeias
vira os Ingleses, voou para a Irlanda. que Amor usa para a seus servos pôr peias,
92 E viu Hibérnia fabulosa, onde 98 deste mal ou doutro imerecedora;
aquele santo velhinho 53 abriu a cava, quem é o cruel que vos prende assim,
que tanta graça parece que esconde que, de apertá-las, com manchas descora
que o homem de sua culpa desagrava. dessas belas mãos o puro marfim? -
Sobre o mar, o corcel faz ir aonde De ouvi-lo assim falar, por força cora,
ele a mais pequena Bretanha54 lava: qual marfim aspergido com carmim,
e ao passar viu, deitando abaixo o olho, por aquelas partes que nuas tem,
Angelica amarrada ao calvo escolho. belas, que a vergonha cobre porém.
93 Ao calvo escolho, na ilha do pranto 99 Teria o rosto com as mãos escondido,
(pois ilha do pranto ela era chamada) , se presas não estivessem ao rocado;
essa que por feroz, e cruel tanto, mas de pranto, que não lhe era impedido,
e desumana gente era habitada, cobriu-o, e tentou mantê-lo abaixado.
que (como vos disse no outro canto) E, após alguns soluços, comedido,
lidos vários percorria, em armada, seu falar soltou, baixo e entrecortado;
as damas e donzelas depredando, logo parou, pois dentro o fez ficar
para do monstro serem manjar nefando. o grande rumor que se ouviu no mar.
94 Foi atada ali naquela manhã, 1 00 E eis que o enorme monstro aparece,
e para comê-la viva ali viria meio metido no mar e meio saído.
o monstro enorme, em seu sôfrego afã, Qual longo navio que o porto apetece,
que o execrável manjar deglutia. vindo por austro ou bóreas 58 impelido,
Como a raptaram disse, em terra chã, assim vem ao pasto que se lhe oferece
os que a encontraram quando dormia, a besta horrenda; o tempo é reduzido.
do eremita necromante ao lado, Meio morta de medo a dama está;
que a tinha por encanto ali levado. nem o falar dele conforto lhe dá.
95 A gente feroz, inóspita e crua, 1 0 1 Não tinha Ruggiero enristada a lança,
à besta cruel junto ao mar expôs mas a prumo, e assim golpeava a orca.
a lindíssima donzela, tão nua Não vejo que tenha outra semelhança,
como a própria natureza a compôs. senão grande massa que avança e aborca;
Nem um véu lhe puseram, que dilua só cabeça de animal tem, não pança,
dos lírios e rosas as cores 55 , que após olhos e dentes para fora, qual porca59 •
Julho ou Dezembro costumam cair, Ruggier na fronte a feria entre os olhos,
mas no seu corpo estão sempre a florir. mas parecia tocar em ferro ou escolhos.
96 Pensaria Ruggier estátua aprazível 1 02 Como aquela investida pouco vale,
de alabastro ou de mármore polido volta para melhor fazer a segunda.
ser, e que atada ao escolho, era plausível, A orca, que na água vê sinal
um escultor caprichoso houvesse querido; das asas, para cá e para lá secunda
se lágrima não visse, e bem visível, a sombra60 ; a presa certa ao litoral
das rosas e ligustros 56 ter caído, deixa, e segue a incerta, furibunda:
suas verdes pomas 57 indo orvalhar, atrás dela volteando se gira,
e a brisa seus cabelos ondular. e Ruggiero desce e golpes lhe atira.
CANTO X 1 75

1 03 Como do alto a águia vir costuma, 10s Luta idêntica faz a mosca audaz
quando entre as ervas avistou a bicha, contra o mastim, no poeirento Agosto,
ou na rocha ao sol posição assuma ou no mês antes ou no seu sequaz62 ,
para as escamas dourar, e ali se anicha; um o das espigas e o outro o do mosto;
para apanhá-la, àquela parte não ruma olhos lhe pica e focinho mordaz,
em que a venenosa assobia e esguicha6 1 ; voa-lhe em roda e não lhe sai do rosto;
por trás vai, e seu voo de modo embala muito faz ele soar o dente em vão,
que ela não possa virar-se e picá-la: mas, se a agarra, paga a reinação.
104 assim Ruggier com a lança e a espada, 1 06 No mar bate ela a cauda com tal força
não onde os dentes lhe armavam a boca, que a água até ao céu faz levantar;
mas atrás das orelhas a estocada, nem sabe ele se no ar as asas esforça
ou nas costas, ou na cauda coloca. o seu corcel, ou se nada no mar.
Se a fera se volta, ele muda estrada, O desejo de ir para terra reforça,
e para baixo ou para cima se desloca; pois, se aquele borrifo muito durar,
mas, como se batesse em pedra dura, teme as asas molhar do hipogrifo,
a casca córnea e áspera não fura. e em vão querer ali ter ou bóia ou esquifo63 •
1 76 ORLANDO FURIOSO

1 07 Tomou outra decisão, a melhor: 1 13 Não seguiu a via que programou


vencer com outras armas o cascudo; antes, de sobrevoar toda a Espanha;
quer encandeá-lo, com o esplendor na primeira costa o corcel pousou,
encantado do encoberto escudo. onde ao mar entra a pequena Bretanha.
Voa ao lido; e, para não fazer error, Bosque umbroso de carvalhos achou,
à dama amarrada ao rochedo rudo que o choro de Filomela69 acompanha;
deixa ficar, no mindinho da mão, tinha no meio um prado e uma fonte,
o anel que torna todo o encanto vão; e em cada lado um solitário monte.
10s digo o anel que Bradamante havia, 1 14 O cavaleiro ansioso ali deteve
para Ruggier soltar, tirado a Brunel; seu voo audaz, e no prado desceu;
para livrá-lo de Alcina e da magia as asas ao cavalo então susteve,
por Melissa à Índia o mandara àquele. mas não ao outro que mais as estendeu70 •
Melissa (como eu atrás vos dizia) Apeou-se, e a custo se conteve
para o bem de muitos usou o anel; de outro montar7 1 : apenas o tolheu,
depois a Ruggiero o restituiu, por ter de o tirar, o pesado arnês,
e do seu dedo nunca mais saiu. que ao seu desejo impedimento fez.
1 09 Dá-o a Angelica, pois ora teme 115 De um lado e do outro, à pressa entretanto,
que possa impedir do escudo o fulgor, e em confusão, suas armas tirava.
e para que os olhos dela não blasfeme64 , Cria nunca lhe ter custado tanto,
que já lhe armaram laço sedutor. pois, se um laço soltava, dois atava.
À margem vem, e sob o ventre preme Mas muito longo, senhor, vai o canto,
bem meio mar o monstro assustador. e, talvez, mais ouvir já vos pesava:
Ruggiero está a postos, alça o véu65 , por isso defiro esta minha história
e crê-se que nasça outro Sol no céu. para ocasião mais propiciatória.
1 1 0 O encantado esplendor os olhos feriu
daquela fera, e fez como é costume.
Qual truta ou perca a flutuar no rio
que o montanhês turvou com um betume66 ,
assim na espuma das ondas se viu
boiar o monstro, com o baixo para o cume67 •
Ruggiero arremete-o pelo corpo todo,
mas de feri-lo não encontra modo.
1 1 1 A bela dama pede todavia
que a dura escama mais não fira em vão.
- Volta, por Deus, e minhas mãos deslia
(chorava) , antes que a orca tenha acção;
leva-me e dá-me no mar agonia68 ,
em vez de ser do monstro refeição. -
Ruggiero, pelo seu grito comovido,
desligou-lhe as mãos e ergueu-a do lido.
1 12 Picado, o corcel faz força na areia,
e saltando no ar pelos céus galopa;
às costas o cavaleiro acarreia,
vai a donzela na garupa, à popa.
Assim foi privado o monstro da ceia,
e tão delicado manjar se poupa.
Ruggiero vai-se virando, e mil beijos
são, em seu peito, latentes desejos.
CANTO X 1 77

NOTAS

1 Por provas: por provas de amor dadas. 17


Ânsia [. . .} te concede: o outro tipo de amor mói
(lima) o coração, com a ânsia e o temor, enquanto neste
2
Aquela [. . .} alvoroçada: Helena, que provocou a (o de Logistilla) o coração se compraz com a simples
longa guerra entre Gregos (Europa) e Troianos (Ásia) . visão dela.
3 18
Água fria [. . .} fervia: se deitarmos água fria naquela Ambas [. . .} foi: Ruggiero navega num estreito, que
que está a ferver, esta perde a fervura. tem, portanto, duas margens.
4 Ardor [. . .} sucessor: a paixão por Olimpia foi extinta 19
Eco: ninfa dos bosques e das fontes que amou
pela nova paixão. Narciso, por quem foi sempre rejeitada. Depois de
morta restou a sua voz, que repete incessantemente os
5
Urso [. . .} arganaz: animais sujeitos ao longo sono da sons que ouve.
hibernação.
20
Artilharia: as máquinas que lançavam pedras e outros
6
Douradas rodas: as rodas do carro dourado da Aurora. projécteis.
7 21
A/clones: Aldone, filha de Éolo, rei dos ventos, des­ Casta [. .. } outras: Sofrosina, que representa a castida­
posara Ceíce, filho do Astro da Manhã, formando um de, tem aqui um papel mais importante a desempenhar
casal muito feliz. Tal felicidade irritou os deuses, que os junto de Ruggiero, depois da incontinência representada
transformaram em pássaros. Alcíone fazia o ninho à por Alcina.
beira-mar e as vagas destruíam-lho, o que despertou a
22
compaixão de Zeus e o levou a ordenar aos ventos que se Exército: as quatro damas, que representam as virtu­
acalmassem durante os dias em que ela chocava os ovos. des cardeais.
São os chamados «dias do aldone», no solstício de
23
Inverno, em que não há tempestades. E assim [. . .} iniciada: há quem considere esta batalha
uma incoerência, uma vez que Ruggiero já tinha posto
8 E corre [. . .} sua: o episódio da fuga de Bireno aban­ os adversários fora de combate com a ajuda do escudo
donando Olimpia, e o lamento desta, decalcam o episó­ mágico, ou que haja uma troca na ordem das oitavas.
dio do abandono de Ariadne por Teseu na ilha de Naxos, Contudo, pode-se pensar que, tendo o escudo sido reco­
adormecida junto ao mar. Quando acorda apercebe-se berto, os inimigos tenham recuperado os sentidos, sendo
da traição e avista ao longe as velas do navio de Teseu (cf. a batalha necessária para os expulsar.
Ovídio, Heróides, X:7-24). Também Catulo abordou este
24
tema no seu poema LXIV, e Vergílio colheu nele inspi­ Apressar [. . .}fio: Cloto é uma das três Parcas (Átropo,
ração para o lamento de Dido, abandonada por Eneias Cloro e Láquesis), divindades romanas do Destino iden­
(Eneida, IV:584 ss.). tificadas com as Meras gregas, que regulavam a duração
da vida dos mortais com a ajuda de um fio. A primeira
9
A ti se deve: são guardados a mando dele, visto que fiava, a segunda enrolava e a terceira cortava, quando a
Olímpia entregou a Bireno o governo do reino (IX:86:5). vida terminava. Apressar Cloto a enovelar-lhe o fio signifi­
ca apressar o fim da vida de Alcina.
10 Parentesco: matrimónio.
25
Dido: rainha de Cartago, que se apunhalou quando
11
Que corso fazem: corsários. Eneias a abandonou.
12 26
Hécuba [. . .} penas: Hécuba, rainha de Tróia, vendo o Do Nilo a rainha: Cleópatra, que se suicidou fazen­
cadáver de seu filho Polidoro, enlouqueceu e transfor­ do-se morder por uma áspide.
mou-se numa cadela raivosa (Ovídio, Metamorfoses,
27
XIIl:399-575) . Mais firme areia: do lado da virtude e segurança
(reino de Logistilla) , o chão que pisa é firme, ao passo
13
Até que eu ali torno: até que eu volte à história de que o que pisava no reino de Alcina (vício e inseguran­
Olimpia. ça) não o era (cf. 36: areia fonda, e 38: areia que ao passo
cede) .
14
Como foram: como no dia em que foram feitas.
28
Pl,ano: de alcançar o reino de Logistilla.
15 Salitre [. . .} puro: pólvora.
29
Próximo ou distante: próximo ou distante no tempo.
16
Ofensas [. . .} lado: ofensas que ferem todos os pontos
vulneráveis. 3
° Cd em baixo: entre nós, no reino dos mortais.
178 ORLANDO FURIOSO

31
Uma tendo [. . .] a cor: quem tiver uma daquelas 51 Manda: forma usada na tradução em vez de Islândia,
gemas tem a luz do dia onde e quando quiser, mesmo por semelhança com Irlanda, Holanda, etc.
contrariando o Sol (Febo) .
52
O leva exangue: leva o estandarte pálido (branco),
32
Excelência [. .. ] azar: só ao acaso se pode dizer se é sinal de que não tinham ainda participado em nenhuma
maior a excelência das gemas ou a do trabalho artístico. empresa de guerra.
33 53
jardim [. .. ] tê-los: jardins suspensos. Santo velhinho: São Patrício, que, segundo a lenda,
cavou um poço no None da Irlanda (Hibérnia) que lava­
34 Regra superna: os movimentos astrais, que determi­ va as culpas a quem nele se banhasse, porque comunicava
nam o ciclo das estações. com o purgatório.
35 54
Melissa [. ..] visão: a quem Melissa restituiu o aspecto Pequena Bretanha: Bretanha francesa.
normal, quebrando o encanto a que estavam sujeitos.
55 Llrios [. .. ] cores: os tons da carnação de Angelica des­
36
Aquitanos lidos: costas da Aquitânia, antigo nome da critos à maneira petrarquista, processo que se repete na
região francesa da Gasconha. oitava seguinte.
37 Fada [. .. ] contrafeita: Alcina e Logistilla, que litigam 56
Rosas e ligustros: o rosto de Angelica.
entre si.
57
i&rdes pomas: os seios, pequenos e rijos como maçãs
38
Rota [. .. ] aleita: evitou o mar, onde Éolo solta os seus verdes.
ventos.
58
Austro ou bóreas: ventos de sul e de norte, respectiva­
39
Assim [. .. ] mundo: à ida, Ruggiero partira da Europa mente.
para ocidente, até à Índia; agora, em vez de voltar para
59
trás pelo mesmo caminho, continua para ocidente e, Porca: javali-fêmea.
sobrevoando a Ásia, chega à Europa, completando uma
60
volta ao mundo no mesmo sentido do Sol. A orca [. . .] sombra: a cena de Angelica presa ao
rochedo e o combate de Ruggiero com o monstro (que
40
Catai [. .. ] sobrevoando: viu o Catai (a none) e a persegue a sombra do cavalo alado) lembram o episódio
Mangiana (região a sul do Catai, descrita por Marco Polo), da libertação de Andrómeda por Perseu (Ovídio,
quando sobrevoava Quinsai (região central da China e Metamorfoses, IV:663 ss.).
cidade com o mesmo nome, descritas por Marco Polo).
61 Àquela parte [. ..] esguicha: a águia assalta a serpente
41 Ímavo, e Sericana: os Himalaias e o reino de (venenosa) pelo l�o oposto à cabeça, para não ser mordida.
Gradasso, na China.
62 Mês
antes [. .. ] sequaz: em Julho (das espigas) ou
42
Cltia hiperbórea: Cítia setentrional (Sibéria) . Setembro (do mosto).
43 63
Onda hircana: mar Cáspio. O nome deriva de Bóia ou esquife (esquife) : objecto flutuante que o
Hircânia, região do Cáspio. impeça de se afundar.
44 64
Sarmdcia: região a oriente do Cáspio. Pam que [. ..] blasfeme: para que não ofenda os ollios dela
45 65
Pomerânia: região do Noroeste da Polónia, junto ao Véu: cobertura do escudo mágico.
mar Báltico.
66
Betume: nos Apeninos, os montanheses deitavam cal
46
Terra: cidade (Londres). nos rios para fazer os peixes vir à tona e os apanharem
(método ilegal).
47
Zerbino: filho do rei da Escócia e irmão de Ginevra
67
(cf. V:69) . Com o baixo para o cume: revirado, de ventre para o ar.
48
Lurcanio: irmão de Ariodante, já referido nos cantos 68 Dd-me no mar agonia: afoga-me.
V e VI, no episódio de Ginevra.
69
Filomela: donzela transformada pelos deuses em rouxinol.
49 70
Duque de Albany: Ariodante, que casou com Asas [. .. ] estendeu: susteve as asas ao hipogrifo, mas
Ginevra, a qual herdou este ducado após a morte de não ao outro (seu apetite sexual), que mais as estendera.
Polinesso (c( VI: 1 5) .
71
A custo [. .. ] montar: teve de conter a custo o seu dese­
50 jo de possuir Angelica.
Thule: ilha lendária d o mar d o Norte.
--ê$,-­

CANTO XI

Embora débil freio em pleno curso 4 É este o anel que ela levou para França
detenha o cavalo, inda que fogoso, a primeira vez que viu tal confim,
mais raro é que a razão haja recurso com seu irmão, que então levava a lança3
para dar à lasciva fúria repouso, que foi depois de Astolfo, o paladim.
com o prazer à mão; tal qual o urso Anel com que aos encantos fez esquivança,
que do mel já não se afasta, guloso, de Malagigi, à beira de Merlim4 ;
se lhe chegou ao nariz seu odor com ele Orlando tinha, uma matina,
ou duma gota tomou o sabor. furtado aos encantos de Dragontina5 ;
2 Qual o motivo que Ruggier refreia 5 com ele saiu invisível da torre
para de tal coisa não tirar proveito, onde um velho celerado a prendeu.
tendo Angelica nua, qual sereia, Mas por que todas as provas me ocorre,
no solitário bosque tão a jeito? se vós as sabeis tão bem como eu?
Já Bradamante lhe saiu da ideia, Que Brunel lho tirou já se discorre,
que costumava ter fixa no peito: pois Agramante tais ordens lhe deu.
mesmo que ainda se lembrasse dela, Desde então a Fortuna a desdenhou
néscio era se não estimasse aquela; sempre, e tanto que o reino lhe tirou.
3 com ela nem teria aquele crudo 6 Ora que o vê, como disse, na mão,
Xenócrates 1 sido tão continente. fica de espanto e alegria tão plena
Para o lado atirara a hasta e o escudo, que quase teme estar sonhando em vão:
e o arnês retirava impaciente; de crer em seus olhos não se asserena.
quando, passando pelo corpo desnudo Tirando-o do dedo com brusquidão,
a dama os olhos, vergonhosamente, na boca o põe; e, instantânea e lena,
no dedo o mágico anel se destaca dos olhos de Ruggier desaparece,
que lhe tirara Brunello em Albracca2 • como o Sol quando a nuvem o escurece.
1 80 ORLANDO FURIOSO

7 Ruggiero em toda a volta procurava, 13 Ruggiero entretanto, após longamente


e à roda se girava estupefacto; em vão esperar que ela se revelasse,
mas depois do anel se recordava, compreendeu seu erro finalmente,
sentindo-se frustrado e insensato; que ali não estava e que era já fugace;
pela imprudência sua blasfemava, para onde o corcel estava, competente
e a dama condenava por tal acto para a terra e para o céu, caminha tenace:
ingrato e descortês, compensação e descobriu que ele soltara a brida
que dava a quem lhe deu a salvação. e pelo ar subia, em livre corrida.
- Donzela ingrata (dizia) , é assim 14 Grave acréscimo foi ao outro dano
que de meu gesto tão cortês me preitas? ver-se agora privado do corcel,
Preferes então o anel tirar de mim que não menos que o feminino engano
a que eu to dê? E por que não aceitas lhe oprime o peito; mais que este e que aquele
o mágico escudo, o alado andarim, o oprime, e faz sentir em grande afano,
e eu próprio, pois assim meu uso enjeitas? ter ficado sem o precioso anel;
Por que teu belo rosto assim me escondes? não tanto por ter virtude estupenda,
Sei que ouves, cruel, e não respondes. - como por ser de sua dama oferenda.
9 Assim dizendo, à volta da nascente 15 Voltou a vestir, mui desalentado,
andava, tacteando como cego. a armadura e pôs o escudo ao peito;
O ar ia �braçando à sua frente, deu costas ao mar e pelo verde prado
esperando da donzela o aconchego. dirigiu-se a um vale nada estreito,
Mas ela, que dali já estava ausente, onde, através dum bosque sombreado,
à frente achou duma gruta o sossego, seguia um atalho largo e direito.
que sob um monte tinha amplo assento; Pouco avançara, quando à destra sente
e ali encontrou algum alimento. um estrépito, onde a selva é mais florente.
10 Um velho pastor que grande rebanho 16 Estrépito e assustadora entoação
tinha de éguas, achara ali recato. de armas que se chocam; e logo avança
Pasciam-se as bestas no vale tamanho, por entre o bosque, e encontra dois que estão
das tenras ervinhas junto ao regato; num espaço apertado em bélica dança.
na gruta abrigo, ao lado destro e canho, Atacam-se sem piedade ou perdão,
do sol do meio-dia era-lhes grato. para de alguma coisa fazer vingança.
Angelica um dia ali fez detença, Um é gigante e de aspecto grosseiro;
mas não foi notada sua presença. o outro era um garboso cavaleiro.
1 1 Ao anoitecer, fresca se sentiu, 11 E este, com o escudo e com a espada,
e achando-se já repousada assaz, saltando de cá para lá se defende
com uns trapos grosseiros se cobriu, da maça, pelas duas mãos agarrada,
muito diversos da roupa vivaz com que o gigante feri-lo pretende.
que, em tempos idos, sempre possuiu, Morto jaz o seu cavalo na estrada.
verde, amarela, azul, rubra, lilás. Ruggiero pára e à batalha atende;
Mas a humilde saia não encobre começa a tomar partido, e deseja
que mui bela dama ela é, e nobre. que vencedor o cavaleiro seja.
12 Calem louvores a Fílidas, Neera, 1s Mas lá por isso não lhe dá demão,
Amarílis, Galateia fugaz6 ; ficando apartado, apenas a ver.
nenhuma delas tão formosa era, Nisto, o mais membrudo, com o bastão,
Títiro e Melibeu, se vos apraz7 • o elmo a duas mãos do menor fere.
A linda dama entre todas soubera Do baque, o cavaleiro vai ao chão;
a égua escolher, que mais a compraz. o outro, que aturdido o vê jazer,
E, então, uma vez mais8 a ideia teve para lhe dar morte o elmo lhe escancara,
de ao Oriente regressar em breve. e faz com que Ruggier lhe veja a cara.
CANTO XI 18 1

19 Ruggiero vê da sua doce e bela 20 e levando-a às costas, a transporta


e tão querida donzela, Bradamante, como o lobo leva um pequeno anho,
descoberta a face; e vê que é a ela ou a àguia, preso na unha torta,
que quer dar morte o bárbaro gigante; um pombo ou pássaro de igual tamanho.
logo o outro desafia à querela, Ruggiero vê que a sua ajuda importa,
e com a espada nua faz-se avante: e a correr vem em passo não tacanho;
mas aquele, que não quer mais embaraços, o outro em grandes passadas prossegue,
toma a dama atordoada nos braços; e Ruggier com os olhos mal o segue.
1 82 ORLANDO FURIOSO

21 Correndo assim, e segui-lo tentando 27 Por ti foram para debaixo da cerra,


Ruggier por atalho sombrio e fosco, e hão-de ir, senhores e cavaleiros tantos,
que de largura ia sempre aumentando, antes que acabada esteja esta guerra
num grande prado saíram do bosco. que o mundo, e mais a Itália, pôs em prantos,
Calo agora deste e volto a Orlando, que como disse, e o meu dito não erra,
que aquele raio9 que foi de Cimosco só o mais ímpio e mais cruel de quantos
deitara ao mar, onde ele é mais profundo, inventores o mundo já conheceu
para que mais mal não fizesse no mundo. tal engenho execrável concebeu.
22 Pouco se alegrou: o inimigo infido
da humana raça, o qual inventou
tal arma, como exemplo tendo tido
o raio, cujo efeito copiou,
com pouco menor dano que o sofrido
quando Eva com a maçã enganou,
fez com que o encontrasse um necromante,
quando era nosso avô quase reinante 10 •
23 A máquina infernal, que mais de um cento
de passos de água cobriu muitos anos,
à tona veio por encantamento;
levada foi à mão dos Alamanos,
que fizeram um ou outro experimento,
enquanto o demo, para nos dar mais danos,
lhes foi espevitando mais a mente:
seu uso descobriram finalmente.
24 Itália e França, e onde quer que se ande,
todo o mundo aprende a cruel empresa.
Um o bronze em cavas formas expande,
já liquefeito na fornalha acesa;
outro a boca fura; e, pequeno ou grande,
faz-se o bojo que mais ou menos pesa:
um, morteiro se chama, outro arcabuz,
canhão duplo ou simples, e lança obus;
25 diz-se sacre, falcão ou colubrina,
conforme o nome ao seu autor agrada;
que ferro e mármore abre e arruína,
e, por onde passa, à força abre estrada.
Leva, infeliz soldado, à oficina 1 1 ,
as armas que tiveres, e até a espada,
e ao ombro põe arcabuz ou morteiro;
sem ele, eu sei, não ganharás dinheiro 1 2 •
26 Como pudeste, invenção aborrida,
no humano coração ter favor?
A glória militar foi destruída,
das armas o ofício perdeu honor;
foi virtude militar reduzida,
podendo o mau parecer que o bom melhor;
por ti, bravura e determinação
já não têm em campo avaliação.
CANTO XI 1 83

28 E espero que Deus, para que a punição 34 Porque está longe e o rosto tem pendido,
eterna seja, aquela alma maldita quem ela seja não consegue ver.
encerre no mais fundo boqueirão Aos remos dá, com vigor desmedido,
de Averno, que Judas traidor habita 1 3 • desejoso de melhor conhecer.
Mas sigamos Orlando, campeão: Nisto, ouve o mar emitir um mugido,
para chegar a Ebuda se agilita, trovão grutas e selvas percorrer;
onde as damas belas e delicadas incham-se as ondas, e o monstro aparece:
são, para seu alimento, ao monstro dadas. sob o seu peito o mar quase esvanece.
29 Quanto mais pressa tinha o paladino, 35 Qual nuvem que se ergue de escuro vale,
menos parecia que a tivesse o vento. grávida de tempestade e de chuva,
Sopre do lado destro ou do esquerdino, que mais que cega noite tudo embale,
ou que sopre à popa, é sempre tão lento deixando a Terra do dia viúva,
que não ajuda a chegar ao destino; assim a fera porção cobre tal
por vezes perdia todo o alento; de mar que se crê que todo o enluva.
ou então adverso a soprar se obstina, Freme o mar. Orlando olha-a, concentrado,
e o faz regredir ou ir à bolina. sem que arrojo ou rosto tenha alterado.
30 Queria Deus que a demora o impedisse 36 E, como tinha firme a intenção,
de antes de o rei de Hibérnia 14 lá chegar, o que queria fazer, depressa fez;
para que com mais destreza conseguisse para que à donzela desse protecção
o que em poucas páginas vou contar. e a fera atacasse, duma s6 vez,
À ilha chegados, Orlando disse põe entre uma e outra a embarcação,
ao seu barqueiro: - Podes fundear e a espada não retira do arnês;
e dar-me o batel, que s6 eu procedo, a âncora e a corda em mão tomou,
sem mais companhia até ao rochedo. e com afoiteza o monstro aguardou.
31 E a maior corda quero que me dês, 37 Quando a orca se aproximou e viu
e a âncora maior que há no navio; no esquife Orlando a tão pouco intervalo,
a razão para as levar tu depois vês, para engoli-lo tanto a boca abriu
quando eu defrontar o monstro bravio. - que um homem entrar podia a cavalo.
Consigo o escaler desceu do convés, Orlando entrou, na goela imergiu
e o mais que para seu plano era atavio. levando a âncora, e, se não resvalo 18 ,
As armas deixou, com excepção da espada, o bote até; e a âncora cravou
e direito ao escolho se fez à estrada. entre o palato e a língua, e lá ficou:
32 Puxa os remos ao peito, e vira à proa 38 de modo que de cima já não cai,
as costas, para o lado a que se destina 1 5 ; nem sobe de baixo a queixada avara.
tal qual como do mar ou da lagoa Como quem nas minas o ferro extrai,
sai o caranguejo à seca marina. a terra, à medida que avança, ampara;
Era na hora em que a Aurora a coroa e assim à derrocada se subtrai,
dos áureos cabelos para o Sol inclina, enquanto tranquilo o trabalho encara.
parte descoberto e parte ocultado 16 , De um gancho ao outro a âncora é tão alta
com desdém de Titono, enciumado 17 • que Orlando não lhe chega, se não salta.
33 Chegando junto ao escolho, tanto quanto 39 Colocada a escora, e estando seguro
um tiro de pedra de um robusto braço, que o monstro não pode fechar a boca,
parece e não parece ouvir um pranto, agarra a espada e aquele antro escuro
tão fraco aos ouvidos lhe chega, e lasso. com cortes e pontadas todo toca.
Todo ele se revira para o esquerdo canto, Como se já dentro estiver do muro
pousando os olhos da onda a um passo: o imigo, do forte a defesa é pouca,
nua como nasceu, vê uma dama assim defender-se a orca podia
presa a um tronco; a seus pés o mar brama. do paladim, que a goela lhe enchia.
1 84 ORLANDO FURIOSO

40 Vencida pela dor, sobre o mar avança, 41 E com ela vem nadando depressa
e os flancos e o escamoso dorso acciona; para o rochedo; onde, já com firme pé,
depois nele se imerge, e com a pança a âncora puxa que a boca empeça
a. areia do fundo faz vir à tona. e fere com os ganchos, qual polé.
Sentindo a água o cavaleiro de França De seguir a corda a fera não cessa,
tão abundante, a nado se abandona: que a força que a puxa faz fincapé;
deixa fixa a âncora, da qual pende força que mais puxa com um esticão
a corda, que da mão ele não desprende. que em dez um cabrestante dá tracção,
CANTO XI 1 85

42 Qual touro selvagem que sente o corno 48 Um com funda, o outro com arco armado,
apanhado por repentino laço, outro com hasta ou espada ao lido atende;
salta, cai, ergue-se e volteia em torno, e da frente e de trás, de todo o lado,
sem conseguir livrar-se do baraço; de longe ou perto, quem mais pode o ofende.
assim, fora do natural contorno 1 9 , O ver-se irracionalmente atacado,
a orca forçada por esse braço, ao paladino muito surpreende:
contorce-se, salta, e a corda segue, que ao matá-la injúria fez ora vê,
porque livrar-se dela não consegue. embora esperasse glória e mercê.
43 Da boca o sangue sai com tal fartura 49 Como o urso que às feiras sói trazer
que o mar Vermelho este hoje é, a fingir; o Russo ou o Lituano pela mão,
de tal maneira as ondas ela fura e que pela rua passa sem temer
que até ao fundo se vêem abrir; o ladrar de qualquer pequeno cão,
a água ao céu vai, e a luz torna escura sem sequer se dignar olhar para o ver,
do claro Sol: tanto ela a faz subir. assim não temia o povo vilão
Ribombam, ao som do local fragor, o paladino que, apenas soprando,
selvas, montes e praias em redor. poderia derrubar todo o bando.
44 Do fundo do mar sobe Proteu20 , quando 50 E logo em redor de si abriu praça,
tanto rumor faz com que a gruta deixe; tomou Durindana e uma volta fez.
vendo entrar na orca e sair Orlando, Tinha julgado, aquela louca raça,
.
e para a praia puxar o enorme peixe,
. que nele encontrava pouca altivez,
para o alto oceano foge, olvidando por nem vestida lhe ver a couraça,
o grege; para que do rumor se queixe, nem escudo no braço nem outro arnês;
Neptuno os golfinhos ao carro atrela, desconhecia que dos pés em diante
e a ida à Etiópia21 não protela. a pele tinha mais dura que diamante.
45 Melicertes 22 pega em lno, chorando; 51 O que nenhum a Orlando fará,
as tranças das Nereides23 a espalhar-se; ele aos outros de o fazer nada impede.
Glaucos, Tritões24 e outros vão buscando, Trinta matou; estocadas contará
de cá para lá, onde possam salvar-se. dez ao todo; se mais, em pouco excede.
O horrendo peixe ao lido trouxe Orlando, Num instante em seu redor ninguém há,
e mais não precisou de afadigar-se; e para acudir à dama retrocede,
dos ferimentos e da grande tareia quando outro tumulto e novo alarido
morreu, inda antes de chegar à areia. faz ressoar dum lado ao outro o lido.
46 Da ilha não poucos a correr vão 52 Enquanto o paladino nesta banda
para verem a batalha desumana; os bárbaros mantivera entretidos,
os quais movidos por culto pagão, sem impedimentos, os da Irlanda
a tão santa obra25 chamam profana; por toda a ilha foram repartidos;
diziam que Proteu nova razão e, sem piedade, matança nefanda
teria para atiçar a ira insana, iam fazendo daqueles infidos;
trazendo de novo o grege para a terra, fosse injustiça, ou fosse crueldade,
e retomando aquela antiga guerra; não olhavam a sexo nem idade.
47 e que será melhor pedir a paz 53 Não se defendem os ilhéus do jogo;
ao ofendido, ou o pior virá; não só porque eles chegam de improviso,
tal só se cumprirá, quando o audaz, mas poucos têm o seu desafogo,
para o aplacar, lançado ao mar será. e esses poucos nada devem ao siso.
Como um facho outro fogo pegar faz, Os bens pilham; às casas põem fogo;
e em breve a aldeia toda alumiará, o povo tem da morte o prejuízo;
de voz em voz a ira vai passando o que era muro, foi tudo arrasado;
que quer atirar às ondas Orlando. nem um único vivo foi deixado.
1 86 ORLANDO FURIOSO

54 Orlando, não considerando sua 57 Tenho de agradecer-vos se de um preço


a batalha, seus passos não detinha; de morrer me livrastes tão disforme;
vai junto àquela que na pedra nua que hediondo seria, reconheço,
devia comer a orca marinha. se no sujo ventre chegasse a pôr-me.
Olha a donzela e bem averigua, Mas não morrer, porém, não agradeço,
pois lhe parece, quando se avizinha, pois só a morte pode recompor-me;
parece-lhe Olimpia, e é bem verdade: agradeço, sim, se a quiserdes dar-me:
tal paga teve a sua lealdade! só ela toda a dor pode tirar-me. -
55 Infeliz Olimpia! Após a ofensa 58 Depois, em grande pranto lhe contou
que Amor lhe fez, também Sorte sanhuda como por seu esposo fora traída;
corsários levou à sua presença, que adormecida na ilha a deixou,
que a transportaram para a ilha de Ebuda. e como ali foi raptada em seguida.
Que é Orlando vê ela, sem diferença, Enquanto falava, se acomodou
quando ele se chega; mas, porque desnuda, na mesma posição em que é esculpida
baixa a cabeça; e não só nada diz ou é pintada Diana, junto à fonte,
como de erguer os olhos se interdiz. lançando a Actéon água na fronte26 ;
56 Orlando perguntou que iníqua sorte 59 escondendo quanto pode o peito e o ventre,
a pôde à ilha maldita trazer é mais liberal com os rins e o lado.
de onde ele a deixara, com seu consorte, Quer Orlando que no porto a nave entre,
tão feliz quanto se pode dizer. pois, tendo-a já das cadeias soltado,
- Não sei (disse ela) se vos devo a morte uma veste lhe queria dar. Em mentre,
de que me livrastes agradecer, Oberto já se tinha aproximado;
ou se, por vossa causa, lamentar Oberto, rei de Hibérnia, já soubera
minha pena aqui não ver terminar. que estava estendida na praia a fera;
CANTO XI 1 87

60 que a nado um cavaleiro tinha ido 66 Na chama dos olhos o dardo amorna
meter-lhe na goela âncora grave; e depois, no pranto, o calor lhe tira,
e que assim a arrastara para o lido, que entre rubras e brancas flores 27 se entorna;
tal contra a corrente se puxa a nave. assim temperado, com força o atira
Oberto queria ver se tinha ouvido contra o jovem28 , que escudo não contorna29 ,
toda a verdade, ou se alguém o aldrave; nem dupla cota ou dura pele vestira;
e até lá vai; sua gente, entretanto, enquanto olhos mira e cabelos vê,
de Ebuda faz ruína em cada canto. dói-lhe o coração sem saber porquê.
61 O rei de Hibérnia, vendo assim Orlando 67 As belezas de Olímpia eram daquelas
todo encharcado e de sangue tingido, que mais raras são; não a fronte apenas,
do sangue que agarrado trouxe quando olhos, faces e boca tinha belas,
saiu da orca em que estava metido, nariz, pescoço, ombros e melenas;
pelo conde apesar disso o foi tomando; mas abaixo das pomas eram elas,
pois tinha por si só já deduzido, as que costumam estar de roupas plenas,
logo que da façanha ouviu a nova, de uma tal excelência que talvez não
que só Orlando faria tal prova. achassem no mundo comparação.
62 Conhecia-o porque na corte p agem 68 A pura neve em brancura venciam,
de França fora, e no ano anterior e mais macias eram que marfim;
dali partira, porque, por linhagem, as redondas tetas leite pareciam,
do pai que morreu fora sucessor. dos cinchos saído, como um pudim30 •
Não tinham conta as vezes que a imagem Espaço entre elas havia, que as faziam
dele vira, e dele fora auditor. como colinas que vemos assim,
Correu para o abraçar e fez-lhe festa, com vales entre elas, na Primavera
depois de afastar o elmo da testa. cobertos ainda de neve austera.
63 Não menos Orlando ficou contente 69 Os seus flancos salientes e as ancas,
de ver o rei que o rei de o ver a ele. e, mais liso que espelho, o ventre plano,
Depois que a se abraçarem novamente, pareciam feitos, e as coxas brancas,
mais de uma vez a amizade os impele, por Fídias3 1 no torno, ou método arcano.
Orlando a Oberto tornou patente Devo falar dessas partes estancas,
a traição feita à jovem, por aquele que em vão ocultava com tanto afano?
que menos que outro devia fazê-lo: Digo e resumo: da cabeça ao pé,
Bireno, da falsidade modelo. tudo quanto se vê beleza é.
64 As provas lhe narrou ter ela dado 70 Se tivesse sido, no monte lda32 ,
infindas vezes de a ele ter amor: vista pelo pastor frígio33 , não sei quanto
sem parentes e bens tinha ficado, Vénus, elas34 levando de vencida,
e a vida daria ao usurpador; mais do que esta pudesse ter encanto;
que ele mesmo havia testemunhado nem para Esparta tinha dado partida,
muitas, das quais podia dar penhor. para ir violar o hospício santo35 ;
Enquanto falava, os olhos serenos antes diria: - Com Menelau resta,
da donzela estavam de pranto plenos. Helena; eu não quero outra senão esta. -
65 Seu belo rosto muito se parece 11 E se em Crotona36 esta um dia estivera,
com o céu, por vezes, na Primavera, quando a im agem37 Zêuxis38 quis fazer,
quando a chuva cai e o sol aparece, a qual devia pôr no templo de Hera39,
e o véu nebuloso afasta e supera. e tantas belas desnudas quis ver40 ;
Como o rouxinol, que cantigas tece · e, porque uma perfeita fazer espera,
e dos ramos da árvore se apodera, parte a uma e a outra vai colher;
assim, Amor, em lágrimas se banha, não escolheria outra, só aquela,
enquanto a clara luz dos olhos ganha. pois toda a beleza se via nela.
1 88 ORLANDO FURIOSO

n Eu não creio que Bireno desnudo 78 deteve-se um só dia na Irlanda,


aquele corpo visse; pois estou certo não há rogo para ficar a que atenda;
que nunca teria sido tão crudo, Amor, que atrás de sua dama o manda,
capaz de deixá-la naquele deserto. não quer que mais tempo ele ali se prenda.
Oberto enamorou-se, não me iludo, Parte, mas de ao rei lembrar não abranda
e já não consegue tê-lo encoberto. o prometido, e Olimpia recomenda;
Quer consolá-la, e esperança lhe dá: não era preciso, pelo contrário:
o mal que a oprime a bem passará; há-de cumpri-las mais que o necessário.
73 promete que vai com ela à Holanda; 79 Em poucos dias tropas recolheu,
e enquanto ao reino a não fizer voltar, e a ele se ligou o rei de Inglaterra
e com vingança justa e memoranda com o da Escócia, e logo reaveu
o infiel traidor não castigar, Holanda, e da Frísia tirou-lhe a terra44 ;
tudo o que possa fazer a Irlanda mesmo a Zelândia contra ele torceu,
fará, não deixando de se apressar. e por terminada não deu a guerra
Mandava entretanto buscar nas casas sem o matar; contudo não foi tal
saias e outras femininas gazas. a pena que ao seu crime fosse igual.
74 Sair da ilha para encontrar saias 80 Oberto Olímpia por mulher tomou,
não precisa, que ali as acharia; e de condessa a fez grande rainha.
havia as das damas que nestas praias Vejamos Orlando, que desfraldou
para o monstro eram diária iguaria. as velas e noite e dia caminha;
Depressa acharam sedas e cambraias depois no mesmo porto45 as amainou,
com que Oberto a nua donzela avia; onde antes as soltara na marinha.
vestiu Olímpia, porém lamentou O seu Brigliadoro montou armado,
que a veste não fosse a que desejou. e atrás deixou ventos e mar salgado.
75 De tão bela seda ou tão fino ouro 81 Naquele Inverno coisas terá feito
nunca os Florentinos4 1 fizeram pano, dignas de que se lhes fizesse o ponto;
e quem borda, jamais bordou tesouro, mas ficaram escondidas de tal jeito
a que deu tempo, habilidade e afano, que culpa não tenho se não as conto;
que ele achasse ter bastante decoro porque Orlando, de seu virtuoso feito,
(feito embora por Minerva42 ou Vulcano43) mais que falar, a fazê-lo está pronto.
para cobrir da dama o corpo tão belo, Nunca foi sucesso seu descoberto,
que lhe parece ainda estar a vê-lo. se não havia testemunhas perto.
76 Várias razões o paladim reúne 82 O resto do Inverno passou tão quieto
para ter por tal amor satisfação; que não se ouviu dele coisa sincera;
pois além do rei não deixar impune mas quando o Sol, no animal discreto
Birena, pela sua grande traição, que Frixo levou, aclarou a esfera46 ,
também ele assim ficaria imune e Zéfiro47 voltou, suave e faceto,
a grave e delicada interdição: trazendo-nos a doce Primavera,
não foi por Olímpia que ele aqui veio, de Orlando surgiram ousadas provas,
mas por à sua dama querer dar esteio. com as gentis flores e ervinhas novas.
77 Que ela aqui não estava teve o conforto, s3 Do plano à montanha, do campo ao mar,
mas não soube se aqui fizera estada; mortificado e dolente seguia,
pois tudo o que era humano estava morto, quando, ao entrar num bosque, ouviu gritar,
nem um restou de tão grande brigada. alto lamento que o ouvido feria.
No dia seguinte largou do porto, Pica o cavalo, a mão à espada a dar,
e juntos foram, numa só armada. e donde o som lhe vem lesto se avia;
Para a Irlanda também Orlando avança, mas tal deixo para contar doutra vez,
que fica em caminho para ir para França; se de o saber tiverdes avidez.
CANTO XI 1 89

-.-.
NOTAS

1 Xenócrates: austero filósofo grego, discípulo de Platão, 8


Uma vez mais: Angelica já mostrara desejo de o fazer
famoso por ter resistido à sedução de Frine. (cf. 1:54 e 11: 1 4) .
2 Tirara [. .. ] Albracca: cf. nota a III:69. 9
Aquele raio: o arcabuz d e Cimosco, rei d a Frísia (cf.
IX:90-9 1 ) .
3 A lança: a lança de ouro que foi de Argalia (seu
10
irmão) e agora pertence a Astolfo (cf. VIIl: 1 7) . Quando [. . .] reinante: quase no tempo dos nossos
avós. Talvez Ariosto aluda ao frade alquimista alemão
4 À beira de Merlim: junto à gruta d e Merlim. Factos Bertold Schwarz (séc. XIV), que aperfeiçoou máquinas de
narrados no O. Innamorato. artilharia.
5 Com ele [. . .] Dragontina: com a ajuda do anel, 11
À oficina: à forja, para que sejam derretidas.
Angelica libertara Orlando de Dragontina, feiticeira que
capturava os cavaleiros e os fazia perder a memória. 1 2 Ao ombro [. . .] dinheiro: discurso irónico contra a
artilharia e as armas de fogo.
6 PI/idas [ .. ]fagaz: ninfas que aparecem nas éclogas de
13
Vergílio e de outros poetas pastoris. Fundo [. .. ] habita: Dante, na Divina Comédia, colo­
ca Judas no lugar mais profundo do Inferno, o círculo
7 Se vos apraz: «com vossa licença», pois Títiro e Melibeu dos traidores (Inferno, X:58-59) .
são pastores que louvam essas ninfas nas referidas éclogas.
1 90 ORLANDO FURIOSO

1 4 Antes [. . .} Hibérnia: cf. IX: 1 1 . 33


Pastor frigio: Páris, a quem, no monte Ida, foram
apresentadas a mandado de Zeus as três deusas, Hera,
15
Costas [. . .} destina: avança de costas, como o caran­ Atena e Afrodite, para que ele decidisse qual delas era a
guejo. mais bela, visto que os deuses não conseguiam enten­
der-se quanto à questão. Cada uma delas lhe fez pro­
16
Aurora [. . .} ocultado: quando o céu se tinge de ama­ messas em troca do título. Afrodite limitou-se a prome­
relo-laranja e o Sol começa a ver-se. ter-lhe o amor de Helena de Esparta, casada com Menelau
e considerada a mais bela das mortais. Páris não hesitou
17
Titono, enciumado: Titono é o velho marido da e escolheu Afrodite ( Vénus) como a mais bela das três
Aurora, famosa pelas suas aventuras amorosas. Quando deusas.
se apaixonou por ele, que era mortal, pediu a Zeus que
34
o tornasse imortal, mas esqueceu-se de pedir a eterna Elas: as outras duas deusas.
juventude. Titono envelheceu tanto e ficou tão encar­
quilhado que a Aurora acabou por transformá-lo em 3 5 Esparta [. . .} santo: Páris violou as regras da hospitali­
cigarra. dade, que eram sagradas na Antiguidade. Aproveitando­
se de uma ausência de Menelau, seduziu Helena, que
18 E se não resvalo: e se enganado não estou. fugiu com ele para Tróia. Este incidente deu origem à
Guerra de Tróia.
19
Natural contorno: elemento natural (neste caso, a
36
água) . Crotona: cidade da Magna Grécia (Sul de Itália).
20 37
Proteu: cf. nota a VIIl:5 1 . A imagem: o retrato de Helena.
21 38
Neptuno [. . .] Etiópia: diz a tradição que os deuses se Zêuxis: pintor grego (c. 464 a. C.-c. 398 a. C.).
reuniam na Etiópia (ou no Egipto). Além disso, Proteu
39
passava a maior parte do tempo junto à embocadura do Hera: deusa grega a que corresponde a deusa roma­
Nilo. na Juno, que tinha um templo em Crotona. Em vez de
Juno, como está no original, preferiu-se Hera na tradu­
22
Melicertes: filho de lno; quando ele morreu, a mãe ção por razões de rima.
afogou-se com o desgosto, levando consigo o seu cadá­
40
ver. Tantas [. .. } ver: para pintar o retrato de Helena,
Zêwcis quis observar cinco belas jovens nuas, tendo esco­
23
Nereides: as cinquenta filhas de Nereu e Dóris, nin­ lhido a parte mais bela de cada uma para conseguir um
fas do mar. retrato de grande perfeição.
24 41
Glaucos, Tritões: divindades do mar. Florentinos: célebres pelas artes de tecelagem da seda,
da lã, etc.
25
Santa obra: a obra de Orlando, matando o monstro
42
e acabando com o cruel rito. Minerva: a correspondente romana da deusa grega
Arena; além de deusa da Razão e de guerreira, era uma
26
Diana [. . .} fronte: Arremis (a Diana romana) banha­ excelsa tecedeira e bordadeira.
va-se nua numa fonte quando foi surprendida por
43
Actéon, que por isso foi vítima da cólera da deusa. Vulcano: identificado com o deus grego Hefesto, é o
Atirando-lhe água ao rosto, transformou-o em veado, e deus do Fogo. Hábil ferreiro, tinha a sua oficina numa
em seguida açulou contra ele a sua matilha de cinquen­ gruta subterrânea na ilha de Lemnos. Na mitologia
ta cães, que o devoraram. romana, a sua oficina situa-se sob o Etna, na Sicília.
27 44
Rubras e brancas flores: as faces de Olímpia. Tirou-lhe a terra: reconquistou a Bireno a Holanda e
a Frísia.
28
O jovem: Oberto, rei da Irlanda (Hibérnia).
45
Mesmo porto: Saint-Malo (cf. IX: 1 5) .
29
Contorna: protege.
46
Sol [. . .} esfera: quando o Sol iluminou a Terra (esfera)
30
Leite [. .. ] pudim: leite que coalhou nos cinchos, a partir da constelação de Carneiro (na Primavera). Os
tendo a forma de um pudim. irmãos Frixo e Hele foram transportados num carneiro
alado, com o velo em ouro, enviado por Zeus para os sal­
31
Fidias: célebre escultor grego do séc. V a. C. Por var dos pais, que os queriam sacrificar àquele deus. No
vezes, os escultores antigos faziam trabalhos no torno caminho Hele caiu ao mar e morreu, mas Frixo chegou
(especialmente em marfim). são e salvo à Cólquida.
32 47
Ida: monte da Tróade onde Páris, filho de Príamo, Zéfiro: personificação mitológica da suave brisa da
rei de Tróia, foi criado. Primavera.
�­

CANTO XII

Voltando Ceres da mãe, do monte Ida,


e à pressa indo àquele vale solitário 1
em que a montanha do Etna trucida
Encélado 2 , o gigante, em seu calvário,
a filha não achou, onde entretida
deixou, fora de todo o itinerário3 ;
depois que peito, olhos, faces lesou
e a crina, dois pinheiros arrancou;
2 no fogo de Vulcano4 os acendeu,
e de não se apagar lhes deu feitiço;
com um em cada mão, no carro seu,
em que serpentes faziam serviço 5 ,
selvas, campos, montes, vales correu,
os rios, lagos, torrente ou abisso,
terra e mar; e, corrido todo o mundo
onde o Sol luz, foi ao tartáreo fundo6 •
3 Tivesse Orlando tido um poder par
ao da deusa de Elêusis7 , como tinha
desejo, para Angelica encontrar
correria campo, selva, marinha,
vale, monte ou planície, terra ou mar,
o céu, e à terra do olvido 8 vinha;
mas, como carro igual não possuía,
ia-a buscando o melhor que podia.
1 92 ORLANDO FURIOSO

4 Buscou-a em França, e já se aparelha s leva no braço, e no arção de diante,


para a buscar na Itália e na Alemanha, à força, uma desolada donzela.
na nova Castela e também na velha, Chora, debate-se, e faz um semblante
e passar para a Líbia pelo mar de Espanha. de grande dor; e por socorro apela
Nisto pensando, chega-lhe à orelha ao valoroso príncipe de Anglante;
uma voz que chora de forma estranha; que, assim que olha aquela jovem bela,
avança e vê surgir diante dele crê ser a mesma por quem toda a França
um cavaleiro, montando um corcel; correra, noite e dia, sem parança.
CANTO XI I 1 93

6 Não digo que fosse ela, mas parecia 12 Em vão procuram, e culpa lhe dão
Angelica gentil que ele tanto ama. e acusam de algum furto que lhes fez:
Ele, que sua dama e sua deusa via do corcel roubado, um, de ser ladrão;
levar à força (e lágrimas derrama) , um que a dama perdeu, desfaçatez;
de ira tomado, em alta vozearia outros de outras coisas, e todos são
e grande füria o cavaleiro chama; incapazes de sair do xadrez;
chama o cavaleiro e ameaça-lhe a vida, muitos lá estão, do engano fregueses,
e Brigliadoro lança a toda a brida. alguns há semanas, outros há meses.
7 Não pára aquele vilão, nem dá resposta, 1 3 Quatro ou seis vezes percorreu Orlando,
à sua presa, à sua caça atento; buscando, toda a estranha moradia,
e tão veloz vai por aquela encosta e para si dizendo: - Aqui demorando,
que a muito custo o seguiria o vento. o meu tempo e fadiga em vão perdia:
Foge um, persegue o outro, e a selva posta por outra porta o ladrão abalando,
em volta faz soar alto lamento. com ela muito longe já iria. -
Correndo chegaram a um grande prado, Assim pensando, foi para o verde prado
que ao centro tinha um palácio instalado. de que todo o palácio era cercado.
s De várias pedras, com rico decoro9 14 Ao circundar a casa campesina,
fora erigido o palácio altaneiro. mantendo o rosto para a terra inclinado
Pela porta entrou, que era esmaltada a ouro, procurando pegada, ou da esquerdina
com a donzela presa o cavaleiro. ou da destra, de passo há pouco dado,
Não muito depois chegou Brigliadoro, duma janela alguém o denomina;
levando Orlando indignado e guerreiro. ergue o olhar, e aquele falar amado
Em estando dentro, Orlando os olhos gira: parece ouvir, e pensa ver o rosto
já nem cavaleiro nem dama mira. que tão vário do que era o tinha posto.
9 Desmonta logo e, veloz como o raio, 1 5 Pensa Angelica ouvir, que suplicando
corre às salas que belo tecto coroa; e a chorar diz: - Acode de seguida!
para cá e para lá anda, e de soslaio Por minha virgindade estou rogando 1 1 ,
toda a casa com o olhar aguilhoa. mais que pela alma ou que pela própria vida.
Já desvendado todo o piso espraio 1 0 Pois, na presença do meu caro Orlando,
sem os dois ver, pela escadaria voa; por tal ladrão me há-de ser subtraída?
mas não menos perde naquele soalho Mais vale que tua mão me dê a morte
do que em baixo perdeu tempo e trabalho. que deixar-me entregue a tão triste sorte. -
10 Leitos ornados de ouro e seda vê; 16 Estas palavras uma e outra vez
das paredes nem um pouco aparece; o levam a fazer pela casa estança;
nelas e no chão onde põe o pé com paixão e muita fadiga o fez,
rica tapeçaria comparece. porém temperada por grande esperança.
Volta abaixo e acima e tudo revê, Pára e a voz ouve, com nitidez,
mas a alegria os olhos não lhe aquece: que à de Angelica tem tal semelhança;
Angelica não vê, nem o rapace se ele aqui está, ela soa acolá,
que lhe ocultou a delicada face. e para achá-la não sabe aonde vá.
1 1 E enquanto aqui e ali movia o passo, 1 7 Mas voltando a Ruggier, que deixei quando
perdido em pensamentos agoireiros, ia, por atalho sombrio e fosco,
Ferraú, Brandimarte e o rei Gradasso, o gigante e a donzela encalçando,
rei Sacripante e outros cavaleiros e num grande prado saiu do bosco,
encontrou, que, correndo o mesmo espaço, direi que chegou aqui onde Orlando
não menos que ele eram vãos caminheiros; antes chegou, se é que o lugar bem tosco.
queixavam-se do invisível raptor, Aquela porta o gigante atravessa;
o qual daquele palácio é senhor. Ruggiero, atrás, à mesma se endereça.
CANTO XII 195

18 Assim que dentro dela põe o pé, 24 Gostaria de Orlando ou Sacripante


o grande pátio e arcadas mira; ter por companhia; mas não estimou
já nem gigante nem donzela vê, mais o primeiro ou o segundo amante;
e aqui e ali em vão os olhos gira. pelo contrário, um e outro desprezou;
Volta abaixo e acima e tudo revê, mas devendo, até chegar ao Levante,
mas não acontece aquilo a que aspira: passar cidades e fortes, pensou
não percebe como em curto interim ser bom de um protector ter vizinhança,
gigante e dama sumiram assim. e em ninguém, mais que neles, tem confiança.
19 Quatro ou cinco vezes correu asinha 2s Tanto um como o outro andou procurando,
todos os quartos, salões e arcadas; mas notícia ou sinal não lhe surtia,
vai mais uma vez, e então esquadrinha nem em cidades ou vilas nem quando
até os espaços sob as escadas. bosques passava ou qualquer outra via.
Pensando que estão na selva vizinha, Por fim a Fortuna, onde está Orlando,
sai; mas uma voz chega das sacadas, Ferraú e Sacripante, a envia,
que, como a Orlando, a ele chamou; e Ruggiero e Gradasso, e ainda tantos
e logo no palácio reentrou. que Atlante envolvera em estranhos encantos.
20 Uma mesma voz e a mesma pessoa 26 Entra, pois não poderá vê-la Atlante,
que Angelica parecera a Orlando, e tudo busca, oculta pelo anel;
qual dama de Dordonha 1 2 a Ruggier soa, Orlando e Sacripante tem diante,
que o seu coração ia devassando. procurando-a em vão naquele hotel.
Se com Gradasso ou com outro arrazoa, Vê que sua falsa imagem o farsante
desses que andavam pelo palácio errando, usa, fazendo fraude a este e àquele.
parece a todos que tal coisa seja Qual deles vai levar, muito revolve
o que cada um para si mais deseja 1 3 • no seu pensamento, e não se resolve.
21 Este era um novo e desusado encanto 27 Não sabe qual para ela é o melhor,
composto por Atlante de Carena 14 , se o conde Orlando ou o rei circassiano.
para que Ruggiero se ocupasse tanto Orlando a poderá com mais valor
dessa busca e da sua doce pena salvar dos perigos do que o soberano;
que afastasse dele o cruel quebranto, mas se o faz de si guia, faz senhor,
aquele que a morrer jovem o condena. e não vê como dar-lhe desengano
Após do castelo de aço o fim triste, quando, dele já farta, fizer esquivança,
e após Alcina, Atlante ainda insiste. ou lhe der ordem de voltar para França.
22 Não só ele, mas sim todo o paladim 28 Já o circassiano, quando lhe apraz
que em França de valor tenha mais fama, depõe, tendo-o embora erguido ao Céu 16 •
para que às suas mãos não encontre o fim, Só por isso o prefere para seu sequaz,
incluir neste encanto Atlante trama 1 5 • e lhe mostra o crédito e afecto seu.
E enquanto os força a estar neste confim, O anel tira da boca e assim desfaz
para ver se da ração nenhum reclama, a Sacripante do feitiço o véu.
tão bem aprovisionou o castelo Pensou a ele só mostrar-se, mas, nisto,
que eles e elas estão em refestelo. Orlando e Ferraú tinham-na visto.
23 Voltemos a Angelica, que traz 29 Surgiram ali Ferraú e Orlando;
consigo o anel que é milagroso tanto tanto um como o outro andava à deriva,
que na boca a quem olha cego faz, acima, abaixo, e fora procurando
e no dedo protege-a do encanto; por ela, que para ambos era a diva.
na caverna achou tudo o que a compraz: Correm os três para Angelica, quando
comida, montada, vestes e quanto nenhuma magia ali estava activa:
necessitava; e tomou decisão pois, tendo ela o anel posto na mão,
de à Índia voltar, à sua nação. tornou o feitiço de Atlante vão.
196 ORLANDO FURIOSO

30 Couraça usavam, e elmo cobria 33 Não sabe nem pode Atlante impedir
dois destes guerreiros que eu aqui canto; que os guerreiros retomem sua sela,
nunca os tiraram, de noite ou de dia, para os lindos olhos negros perseguir
desde que estão no palácio de encanto; e a áurea cabeleira da donzela,
usavam-nas com a mesma louçania que fustiga a jumenta para fugir;
que uma veste, por habituados tanto. porque não estava na intenção dela
Como eles estava Ferraú armado, ter os três amantes por companhia:
excepto o elmo, por ele não desejado, um após outro, talvez, escolheria.
31 até poder ter o que o paladino 34 E estando o palácio já afastado
tirou ao que era de Troiano irmão 17 ; bastante, para que já não se acautele
esta jura fez, quando o elmo fino nem tema que o encantador malvado
de Argalia no rio buscou em vão; exerça a sua magia cruel,
com Orlando aqui o pôs o destino, cerrou, como em apertos do passado,
mas Ferraú não lhe deitou a mão; entre os rosados lábios o anel:
aconteceu que não se conheceram logo da vista lhes fugiu, e pô-los
durante os dias em que ali estiveram. como se fossem insanos e tolos.
32 Tal encanto aquele palácio embaraça 35 Tal como fora seu primeiro desejo
que reconhecerem-se não podiam. consigo ter Orlando ou Sacripante,
De noite e de dia, espada e couraça de ao reino acompanhá-la dando ensejo,
e escudo do braço não removiam. de Galafron 1 8 , no último Levante;
Os seus cavalos, que a sela enchumaça, de repente, por ambos sentiu pejo,
com as rédeas de rojo, se pasciam e mudou de vontade num instante:
numa estância próximo da saída, sem ter de se obrigar a este e àquele,
de palha e cevada bem fornecida. mais que os dois lhe valia o seu anel.
CANTO XII 197

36 Giram pelo bosque aqui e além, à pressa, 39 Voltai para trás ou tomai outra via,
ludibriados, o rosto abismado; se não quereis encontrar aqui a morte;
como se lebre ou raposa travessa nenhum de vós pense que companhia
o cão houvesse na caça enganado, para amar minha dama, ou seguir, suporte. -
por de repente numa moita espessa, Orlando disse ao rei 1 9 : - Que mais diria,
ou toca, ou fosso, se ter ocultado. se por vis mulheres da mais baixa sorte
Deles se ri Angelica, proterva, nos houvesse tomado, ou cortesãs
que sem ser vista seus gestos observa. que já de rocas extraíram lãs? -
37 Pelo meio do bosque vê-se uma só estrada: 40 Depois, para Ferraú: - Homem bestial,
pensam os cavaleiros que a donzela se eu não te visse aí sem elmo haver,
à frente vá, por ela encaminhada, o que disseste, se foi bem ou mal,
pois mais via não há senão aquela. sem delongas te dava a perceber. -
Corre Orlando, e Ferraú menos nada, Disse o espanhoFº : - Se não me importa tal,
e Sacripante esporeia e dá trela. por que preocupações hás-de tu ter?
Angelica a brida mantém mais presa, Eu, contra os dois, capaz de fazer sou
e vai atrás deles com mais lenteza. o que disse, sem elmo como estou. -
3s Chegados ao sítio em que os carreiros 41 - Ouve (disse Orlando ao rei circassiano) ,
se perdiam para dentro da floresta, faz-me o favor e o elmo a esse empresta,
começam a buscar os cavaleiros, e verás como a loucura lhe esgano,
para ver se pegada a erva molesta; pois outra nunca vi igual a esta. -
Ferraú, que era o rei dos altaneiros, Diz-lhe o rei: - Quem seria mais insano?
deles podendo usar coroa na testa, Mas se tal petição achas honesta,
voltou-se com mau modo aos outros dois empresta-lhe o teu; pois eu não me apouco,
e gritou-lhes: - Para onde vindes, pois? tal como tu, de castigar um louco. -
1 98 ORLANDO FURIOSO

42 Voltou Ferraú: - Loucos são vocês, 48 Terás tido, senhor, conhecimento


pois se usar elmo fosse meu agrado, que Ferraú era todo fadado 25 ,
sem eles vós estaríeis já talvez, menos no ponto onde o primeiro sustento
que os vossos já vos teria tirado. o infante toma26 , no ventre encerrado;
Pois fiquem a saber que tal arnês e, até que o escuro limo houvesse assento
não uso na cabeça colocado, em seu rosto27 , aquele lugar sempre armado
porque só usarei o elmo fino usou, onde risco corria a vida,
que pertence a Orlando, o paladino. - com sete chapas de têmpera acrescida.
43 - Quer dizer (diz-lhe o conde sorridente) 49 Era também o príncipe de Anglante
que até sem elmo pensas ser bastante, todo fadado, excepto numa parte:
e fazer como Orlando fez, és crente, nas plantas28 , onde isenção não garante;
em Aspramonte ao filho de Agolante? 2 1 protege-as ele com grande estudo e arte.
Pois eu acho que se o visses na frente, No resto, são mais duros que diamante
de alto a baixo lhe tremias diante; (se a verdade não está da fama à parte);
não só o elmo ignoravas: darias mas ambos andam, mais para estar ornados
espontaneamente as armas que vestias. - que por necessário, para a luta armados.
44 Diz o fanfarrão espanhol: - Tanta vez, 50 Encrudesce e inflama-se a batalha,
mas tanta, já tive Orlando apertado medonha de ver e assustadora.
que facilmente todo o seu arnês, Ferraú, quando fere e quando talha,
não só o elmo, teria tirado; não desfere golpe que se perca fora;
não o fiz, porque não me satisfez cada lance de Orlando ou cota ou malha
fazê-lo então, mas estou ora interessado: arranca, rompe, abre, e nenhum se gora.
antes não quis, ora quero e desejo Angelica, invisível, tem em mente
que se me apresente depressa ensejo. - estar sozinha ao espectáculo presente.
45 Não pôde ter mais paciência Orlando; 51 Entretanto Sacripante, julgando
gritou: - Mentiroso22 , infiel marrano, que pouco adiante Angelica fugia,
em que terra e lugar te achaste, e quando, quando lutando Ferraú e Orlando
com armas na mão do que eu mais soberano? viu, decidiu seguir aquela via,
O paladim de que te estás gabando pois crente estava que a donzela, quando
sou eu23 , que longe crias: teu engano. desapareceu, por ela seguia;
Agora vê se o elmo vais tirar-me, por isso, só de Galafrone a filha
ou se serei eu que a ti te desarme. como testemunha a pugna partilha.
46 Nem quero ter a mínima vantagem. - 52 Por horrível como era e pavorosa,
Assim dizendo, o elmo retirou, a olhá-la se pôs de parte um tanto,
que perto suspendeu numa ramagem, e pareceu-lhe ser assaz perigosa
e a um tempo Durindana empunhou. tanto para um como para outro canto;
Mas Ferraú não perdeu a coragem: de fazer mais desfeitas desejosa,
puxando da espada, um lugar buscou o elmo29 quis levar, só para ver quanto
onde, com ela e tendo erguido o escudo, fariam os guerreiros, não o vendo;
pudesse cobrir o crânio desnudo. mas muito tempo tê-lo não prevendo.
47 E logo os dois guerreiros começaram, 53 De dá-lo ao conde tem a intenção,
os cavalos girando, a voltear-se; mas quer primeiro algum divertimento.
nas junturas das armas24, onde acharam O elmo apanha e põe-o no arção,
mais raro o ferro, com o ferro a tentar-se. e observa os cavaleiros um momento.
Em todo o mundo dois não se juntaram Depois afasta-se, sem dar sermão30 ;
que como estes devessem defrontar-se: e já longe ela ia em andamento,
pares eram em vigor e ousadia; antes que algum de tal desse notícia,
nem um nem outro ferir-se podia. atentos a medir sua perícia.
CANTO XII 199

54 Ferraú, que para ali olhou primeiro, 56 como à estrada da esquerda o conde aponte,
afastou-se de Orlando e assim falou: para um vale, que o circassiano seguiu,
- Vê como de nós fez o cavaleiro escolheu Ferraú outra, junto ao monte,
néscios e tolos, e aqui nos deixou! onde Angelica fizera desvio.
Que prémio agora há para o melhor guerreiro, Angelica entretanto a uma fonte
se o belo elmo ele daqui levou? - chegara, de aprazível atavio,
Recua Orlando e ao ramo os olhos gira: que quem passa à sua sombra convida,
não vê o elmo e todo ele arde em ira. e obriga a beber antes da partida.
55 À opinião de Ferraú cedeu, 57 Pára Angelica junto à clara onda,
que o cavaleiro que com eles estava pensando que ali não virá ninguém;
o levara; logo a brida torceu, e, desde que o mágico anel a esconda,
e esporas em seu Brigliadoro crava. sabe que nenhum mal lhe sobrevém.
Vendo Ferraú que ele se escafedeu, Logo que chega, numa verde fronda
foi atrás, e, no sítio em que se achava na margem do arroio o elmo sustém;
na erva o sinal que os rastos revela depois, onde a erva mais tenra sente,
feitos pelo circassiano e pela donzela, a égua prende para que se apascente.
200 ORLANDO FURIOSO

58 O cavaleiro de Espanha que sua pista 62 temperou a dor em que lhe arde o peito,
vinha seguindo, chega àquela bica. de não ter tal desejo consolado,
Assim que Angelica lhe põe a vista, com ter do elmo a posse satisfeito,
desaparece e a jumenta pica. que de Orlando tomar tinha jurado.
O elmo ora da dama muito dista: Pelo conde foi procurado a preceito,
do ramo caiu, e na erva fica. quando dos factos ficou inteirado;
Quando o pagão dela se apercebeu, o elmo ao mouro nunca mais tirou,
cheio de alegria para ela correu. senão quando entre as pontes o matou32 •
59 Desapareceu-lhe ela, disse eu, diante, 63 Angelica, invisível se remete
como um fantasma ao despertar se esvai. a seu caminho com turvada fronte;
Procura em todo o lado o seu semblante, no elmo que deixara ora reflecte,
mas seu triste olhar nela não recai. por pressa abandonado junto à fonte:
Praguejando a Maomé e Trivigante3 1 , - Por querer fazer o que não me compete,
e de seu credo a todo o mestre e pai, fiz com que o conde com elmo não conte;
voltou Ferraú à fonte, e viu onde com tal acto quis dar compensação
na erva jazia o elmo do conde. por quanto lhe estou em obrigação.
60 Reconheceu-o logo que o olhou, 64 Com boa intenção (e sabe-o Deus) ,
por letras que tinha escritas no bordo, embora alcançasse um diferente efeito,
dizendo onde e quando Orlando o ganhou, o elmo levei; os pensamentos meus
e de quem o teve em silente acordo. eram só de pôr fim àquele pleito;
Com ele colo e cabeça ornamentou, e não que por mi.m os desejos seus
pois o desgosto não o fez balordo; o bruto espanhol apanhasse a jeito. -
desgosto por ela desaparecer Assim para si se ia lamentando,
como costumam fantasmas fazer. por ter de seu elmo privado Orlando.
61 Depois de o elmo afivelar à testa, 65 Irritada e triste seguiu a via,
para total consolo ter, estabelece como melhor achou, para o Oriente.
que só Angelica encontrar lhe resta, Sua presença esconde ou denuncia,
que como um raio surge e desvanece. conforme é oportuno, entre a gente.
Por ela buscou na alta floresta, Depois de terras ver em demasia,
e, quando toda a esperança lhe fenece chegou a um bosque, onde cruelmente,
de poder achar seus sinais subtis, entre companheiros mortos estendido,
volta ao campo espanhol, junto a Paris; encontrou um jovem no peito ferido.
66 Mas de Angelica não vou mais adiante,
que de outros falar vontade me anima;
nem vou a Ferraú ou Sacripante
por muito tempo dedicar mais rima.
Deles me afasta o príncipe de Anglante,
que merece que antes de outros exprima
as fadigas e a ânsia que passou
por Angelica achar, e não achou.
67 Na primeira cidade a que ele chega,
e porque andar disfarçado procura,
de novo casco a cabeça carrega,
sem querer saber se a têmpera é fraca ou dura:
seja o que for, qualquer coisa o sossega,
de tal modo a encantação é segura.
Assim coberto, prossegue a demanda;
noite, dia, chuva ou sol não a abranda.
CANTO XII 20 1

68 Era na hora em que Febo do mar 74 Quando Alzirdo viu Orlando defronte,
os orvalhados cavalos ergueu, que em valor não havia par no mundo,
e a Aurora começava a espalhar com tal semblante e tão soberba fronte,
áureas e rubras flores por todo o céu; parecendo o deus da guerra a si segundo,
as estrelas deixaram de bailar, pasmou, por perceber a quanto amonte
e para partir já tinham posto o véu; o olhar altivo, o porte furibundo;
quando, junto a Paris um dia andando, calculou ser guerreiro poderoso,
de seu valor deu grande prova Orlando. mas de o provar foi demasiado ansioso.
69 Encontrou dois esquadrões: um, Manilardo33 75 Era jovem Alzirdo, e arrogante,
regia, o sarraceno encanecido, pela força e coragem apreciado.
rei de Norizia, em seu tempo galhardo, Para justar fez seu cavalo ir avante:
mas hoje mais conselheiro que destemido; mais valia em formação ter ficado;
o outro tinha do pendão resguardo no choque com o príncipe de Ariglante,
do rei de Tlemcen34 , cavaleiro tido ao chão foi de coração trespassado.
por perfeito pelas africanas gentes: Foge o seu cavalo, de terror cheio,
Alzirdo foi chamado pelos parentes. sem ter em cima quem lhe tome o freio.
70 Estes e o outro exército pagão 76 Levanta-se um grito súbito e horrendo
tinham passado do Inverno o rigor, que por todo o ar em torno se alteia,
uns mais perto da cidade35 , outros não, quando o jovem cai, de seu peito vendo
nas vilas e cidades em redor; espirrar o sangue de tão grossa veia.
tendo gasto o rei Agramante em vão A turba para o conde corre, fremendo
mais que um dia, para de Paris dispor, desordenada, e já o ar golpeia;
por fim, montar-lhe assédio decidia, e maior turba, com penudos dardos3 8 ,
pois de outro modo não a tomaria. ataca a flor dos cavaleiros galhardos.
71 Dispunha para o fazer de muita gente; 7 7 Com tal alarido a frota porcina
pois junto àquela que com ele viera, os montes desce ou pelas campinas corre,
e a que de Espanha fora, obediente se sai da toca a matilha lupina,
ao pendão que o rei Marsilio trouxera, ou se urso esfomeado ao plano acorre,
a soldo em França outra arranjou suplente; e de tenro leitão fazem rapina,
36
de Paris ao rio que em Arles impera , que com grunhidos seu lamento escorre,
excepto uns fortes, a Gasconha a eito, tal qual a horda infiel desacata,
tudo a ele já se encontrava sujeito. correndo ao conde a gritar: - Mata! Mata! -
n Começando ora os gelados ribeiros 78 Mil lanças, setas, espadas a couraça
a liquefazer-se em tépidas ondas, recebeu, e não menos houve o escudo;
de ervas cobertos, prados e lameiros, as costas uns atacam com a maça,
e as árvores ganhando novas frondas, ou frente ou lado com ferro pontudo.
reuniu Agramante os companheiros Mas ele, que nunca temeu ameaça,
37 calcula as armas e o povo sanhudo,
que seguiam suas felizes rondas ,
por o exército querer revistar tal no escuro calcula lobo hostil
e de melhor forma o organizar. o número de ovelhas que há no redil.
73 O rei de Tlemcen, lá, para esse efeito, 79 Na mão tem nua a fulminante espada
com o de Norizia se dirigia, que a tanto sarraceno deu má sorte.
querendo ir a tempo: do esquadrão o preito, Contar os caídos desta brigada,
mais ou menos bom, ali se aferia. quem quiser tem tarefa dura e forte.
Disse eu que Orlando ali passava a jeito, Vermelha de sangue corria a estrada,
e encontro fez com esta companhia, que não continha os que tiveram morte;
em busca andando, como costumava, porque nem casco nem broquei defende
daquela que ao Amor o aguilhoava. da fatal Durindana, onde ela fende,
202 ORLANDO FURIOSO

84 Aturdido, da sela ao chão esvoaça,


e Orlando nem se volta para revê-lo;
os outros corta, fende, fere e amassa,
e a todos parece nas costas tê-lo.
Como pelo ar, que é para ele larga praça,
foge o estorninho do falcão, ao vê-lo,
assim daquele esquadrão desbaratado
um foge, outro cai, ou está alapado.
85 Não deu repouso à ensanguentada espada,
sem ter de viva gente livre o couto.
Hesita Orlando antes de seguir estrada,
bem que lhe seja todo o país noto.
De à esquerda ou à direita dar guinada,
seu pensamento está sempre remoto43 :
Angelica buscar na errada via
teme, ou na estrada de onde é arredia.
39
80 nem vestes de algodão cheias , nem telas 86 O seu caminho (por ela inquirindo)
que a cabeça envolvam em voltas mil40 • pelos campos e pelas selvas o levou;
Não vão pelo ar gemidos e querelas: como fora de si estava, saindo
braços, pés, cabeças sem gorgomil. foi da estrada, e a um monte chegou;
Pelo campo a morte, errante entre as mazelas, e ali à noite, duma gruta vindo,
vai deixando nos rostos seu perfil; uma luz trémula ao longe avistou.
e diz para si: - De Durindana os coices Orlando foi-se abeirando da gruta,
podem mais do que cem das minhas foices. - para ver se Angelica nela perscruta.
81 Uma estocada a segunda é avessa4 1 • 87 Tal como num bosque que o zimbro cobre,
Em breve começaram a fugir; ou no restolho da campina aberta,
e quanto para atacar vinham à pressa procuramos a lebre que se encobre
(pois estando só, queriam-no engolir) , por entre sulcos e por via incerta,
agora nenhum para escapar se empeça, e a cada moita vamos ou alfobre,
nem espera pelo amigo para partir: ver se acaso ela ali está encoberta,
um a pé foge, outro a cavalo voa, assim buscava Orlando com cuidado
e nenhum pergunta se a estrada é boa. sua dama, onde pela esperança era guiado.
82 Virtude ali girava com seu espelho, 88 Para aquele sítio o conde se aventura,
que deixa ver na alma qualquer ruga; chegando onde na selva a luz se espalha
nenhum lá se mirou senão um velho, daquele monte, por estreita fissura,
cujo sangue idade, e não ardor, suga42 • que uma grande gruta em si agasalha;
Vê este que a morte é melhor conselho encontra ali intrincada moldura
que, para sua desonra, pôr-se em fuga; de espinhos e silvas que o passo atalha,
falo do rei de Norizia, que a lança para ocultar os que na gruta estão
enristou contra o paladim de França. e qualquer malefício tornar vão.
83 E rompeu-a no rebordo do escudo 89 À luz do Sol achada não seria,
do nobre conde, que nem se moveu. mas à noite com luz está descoberta.
Tinha ele a postos o ferro desnudo, O que aquilo será Orlando avalia,
e Manilardo entretanto ofendeu. mas quer saber a coisa pela certa.
Fortuna o salvou; pois o ferro crudo Amarrou Brigliadoro à penedia,
na mão de Orlando para baixo volveu; e silente foi à gruta encoberta;
nem sempre a estocada é dada à tabela, entra pela brecha, entre a ramagem densa,
mas foi bastante para o tirar da sela. sem chamar alguém para pedir licença.
CANTO XII

90 Por muitos degraus se desce à caverna


em que gente viva está sepultada.
Não pouco espaçosa era a parte interna,
que a golpes de escopro fora talhada;
pouca luz tinha a entrada da cisterna,
mas em baixo era mais iluminada;
bastante pelo buraco penetrava
duma janela, que à mão destra estava.
91 No meio da espelunca, junto à lareira,
estava uma jovem de jucundo viso;
quinze anos, talvez, estaria à beira,
foi o que ao conde pareceu de improviso;
era tão linda, que aquela pedreira
fazia assemelhar ao paraíso;
os olhos,. de lágrimas fontanais,
eram de dor manifestos sinais.
92 Uma velha com ela discutia
(como costuma ser feminil uso),
mas, como o conde na gruta surgia,
o seu altercar deram por concluso.
Orlando saudou-as com cortesia
(como é com damas costume difuso),
e elas ergueram-se imediatamente,
correspondendo delicadamente.
93 Viu que nas faces se estampou o espanto, 94 Solta a custo a donzela suas prosas,
ouvindo de repente aquela voz, embargada por soluços ardentes,
e por armado verem, entretanto, que dos corais e pérolas44 preciosas
ali entrar um homem tão feroz. fazem sair os doces sons frementes.
Orlando perguntou quem era tanto Lágrimas banhavam lírios e rosas45 ,
injusto, descortês, cruel e atroz, algumas de seus lábios abluentes.
para manter naquela gruta sepulto Ouvi, senhor, no outro canto o resto,
um tão gentil e aprazível vulto. pois para pôr termo a este já me apresto.

NOTAS

1 Geres [. . .] solitdrio: a deusa Ceres, regressando de 4 Fogo de Vulcano: a sua oficina sob o Etna.
uma visita à mãe no monte Ida, foi procurar a filha que
deixara no vale junto ao Etna, a colher flores. 5 Serpentes [. . .} serviço: o seu carro era puxado por serpentes.

2 Encélado: gigante sobre o qual a deusa Acena preci­ 6 Ao tartdreo fondo: ao Inferno, onde encontrou a
pitou a montanha do Etna. filha, que fora raptada por Hades, deus dos Mortos.
3 Fora de todo o itinerdrio: afastada de caminhos fre­ 7 Elêusis: cidade grega famosa pelo culto à deusa
quentados. Deméter (Ceres), em honra da qual se realizavam feste­
jos (mistérios de Elêusis).
204 ORLANDO FURIOSO

8 28
Terra do olvido: o Inferno, onde corre o rio Lete, rio Plantas: plantas dos pés. Orlando era invulnerável
do esquecimento. em todo o corpo, excepto nas plantas dos pés (cf.
XI:50:7-8).
9
Decoro: ornamento.
29
O elmo: o elmo de Orlando, que estava pendurado
10
Piso espraio: rés-do-chão. num ramo.
11 30
Por [. . .] rogando: a virgindade de Angelica é uma Sermão: palavra.
obsessão de Orlando (cf. VIII:77-78) .
31
Trivigante: divindade adorada pelos pagãos e pelos
12
Dama de Dordonha: Bradamante, filha do duque de muçulmanos na literatura medieval. Dada a sua compo­
Dordonha (cf. ii:68) . sição (tri + vagant, ou seja, «três vezes deambulante») , a
palavra poderá designar a tríplice divindade de Selene,
13 Parece [. . .] deseja: aquela voz soa, a cada um, como a que no céu é a Lua, na Terra é Ártemis (Diana), e no
voz que cada um deles mais deseja ouvir. mundo das sombras é Hécate. Recorde-se que Trívia é o
sobrenome de Diana.
14
Atlante de Carena : ver nota a VII:67.
32
O elmo [. . .] matou: previsão que não se concretiza no
15
Para que [. . .] trama: Adante enclausura também os O. Furioso. É no Mo rgante Maggiore, de Luigi Pulei
paladinos no palácio encantado, por recear que Ruggiero (XXIV: 1 6) , que Orlando mata Ferraú numa ponte deli­
encontre a morte às mãos deles. mitada por duas portas (pontes) .
16 Tendo [. . .] Céu: apesar de lhe ter dado o privilégio da 33
Manilardo: rei d e Norizia, país d e África não identi­
sua companhia. ficado.
17
Até [. . .] irmão: até se apoderar do de Orlando, que 34 Tlemcen: cidade do Noroste da Argélia.
fora de Almonte (de Troiano irmão) , e que Ferraú jurou
35
que havia de ser seu (cf. i:30). Cidade: Paris.
18 36
Galafron: pai de Angelica. Rio [. . .] impera: o rio Ródano, que banha Arles.
19
Rei: Sacripante, rei da Circássia. 37 Felizes rondas: bem sucedidas empresas.

20 38
Espanhol: Ferraú, sarraceno de Espanha. Penudos dardos: flechas ornamentadas com penas.
2 1 Filho de Agolante: Almonte. 39
De algodão cheias: vestes acolchoadas usadas pelos
soldados, que facilitavam mais os movimentos do que a
22
Mentiroso: no O. lnnamorato, Ferraú lutou com armadura e protegiam das flechas e dardos.
Orlando, mas não o venceu nem mostrou mais valor.
40
Telas [. . .] mil: turbantes.
23
Sou eu: Ferraú não tinha reconhecido Orlando; no
palácio de Adante, o encanto não permitia que se conhe­ 41 Uma [. . .] avessa: basta uma estocada para matar, não
cessem (cf. 32), e agora, Orlando tem o rosto coberto é necessário segunda.
pelo elmo e não usa as suas insígnias, pois partira em
42
busca de Angelica sob disfarce (cf. VIIl:85) . Sangue [. . .] suga: desgastou-o a idade, e não o ardor
da luta.
24
]unturas das armas: nas articulações da armadura,
onde há menos resistência. 43 À esquerda [. . .] remoto: como não sabe onde pro­
curar Angelica, tanto lhe faz virar à esquerda como à
25
Terds [. . .]fadado: no O. lnnamorato diz-se que Ferraú direita.
era invulnerável em todo o corpo, excepto na barriga.
44 Corais e pérolas: lábios e dentes.
26
Ponto [. . .] toma: umbigo.
45
Lírios e rosas: as cores da face. Tal como no v. 3, a des­
27
Escuro [. . .] rosto: até que a negra terra o cobrisse (até crição do rosto feminino segue o modelo petrarquista.
morrer) .

CANTO XIII

Venturosos foram os cavaleiros


daqueles tempos em que nos fundões,
em escuros antros, bosques e atoleiros,
tocas de cobras, ursos e leões,
achavam o que em paços altaneiros
pouco hoje acham sábias opiniões:
damas que, na sua mais fresca idade,
mereçam ter título de beldade.
2 Em cima vos contei que nessa gruta
tinha Orlando encontrado uma donzela,
e perguntou quem tivera a conduta
de ali a pôr; agora conto que ela,
depois de ser por soluço interrupta,
na sua voz suave e tão singela
ao conde a sua história fez audível,
com a brevidade que foi possível.
206 ORLANDO FURIOSO

3 - Embora saiba (disse), ó cavaleiro, 9 Assim que teve fim a grande festa,
que de meu falar colherei suplício, o meu Zerbino à Escócia regressou.
pois penso que ao que foi meu carcereiro, Se conheces o amor, sabes que mesta
esta irá dar desta conversa indício, fiquei, e em minha ideia ele ficou;
estou disposta a contar-te o verdadeiro, e estava certa que também molesta
deitando a minha vida ao precipício. chama seu coração acompanhou.
E que mais posso eu esperar que ocorra, Ao seu desejo ele não pôs barreira,
senão que ele um dia queira que eu morra? e de ter-me consigo achou maneira.
4 lsabella sou eu, e fui do rei 10 Sendo diferente a nossa religião
da Galiza filha, desse infeliz. (cristão ele é, e sarracena eu sou),
Bem disse fui, pois dele não serei, não pode a meu pai pedir minha mão,
mas da dor, da ânsia e tristeza vis. e levar-me por furto planeou.
Culpa de Amor: de outrem não poderei Fora da nossa rica possessão,
queixar-me mais que de seu mau cariz; que à beira-mar verde campo cercou,
pois no início docemente aplaude, um belo jardim numa praia estava,
e às escondidas tece engano e fraude. de onde as colinas e o mar se avistava.
Gozava minha sorte tão contente, 11 Parece-lhe estar tal lugar disposto
jovem, gentil, honesta, rica e bela; a dar-nos o que a fé nos intercepta;
vil e pobre ora sou, e descontente; e faz-me saber que havia composto
e, se pior sorte houver, minha é ela. o modo de termos vida dilecta.
Mas quero que conheças a semente Perto de Santa Marta dera encosto,
que originou o mal que me flagela; com gente armada, a uma galé secreta,
inda que não me dês ajuda expressa, à guarda de Odorico de Biscaia,
conforto me dará que te entristeça. mestre de guerra no mar e na praia 1 •
6 Meu pai fez uns torneios em Baiona, 12 Em pessoa tal levar a efeito
cerca de doze meses deve haver. não podia, porque seu velho pai
A sua fama trouxe à nossa zona ao rei de França o mandara dar preito;
cavaleiros de fora para combater. sobre Odorico a tarefa recai,
De todos (talvez porque Amor o abona, entre todos os amigos eleito
ou por o seu valor patente ser), o mais fiel e que mais o atrai:
Zerbino, que do rei da Escócia é filho, e tal devia ser, se os benefícios
achei ser o que tinha maior brilho. para conquistar amigos são propícios.
7 Quando fazer provas em campo o vi, 13 Viria ele sobre um navio armado,
maravilhosas de cavalaria, no dia aprazado buscar-me a mim.
de amores me tomei; só me apercebi, Assim chegou o dia desejado,
quando dona de mim não me sentia. e fiz-me encontrada no tal jardim.
Sendo por seu amor que sofro aqui, Vindo Odorico à noite, acompanhado
gosto de alimentar a fantasia por quem é bom marujo e espadachim,
que meu amor não pus em sítio imundo, num rio ali vizinho desmontou,
mas no mais digno e belo que há no mundo. e ao meu jardim em silêncio chegou.
s Zerbino de beleza e de valor 14 Levada fui à galé bem pichada2,
era de todos o mais eminente. antes que aviso levassem à corte.
Mostrou e creio que me tinha amor, Da criadagem nua e desarmada,
que menos do que o meu não era ardente. uns fugiram, a outros deram morte,
Não nos faltou quem do comum ardor parte, cativa, foi também levada.
entre um e outro fosse confidente, Minha terra deixei e fui à sorte,
pois, tendo sido da vista apartados, com quanto gáudio não te sei dizer,
ficámos sempre em espírito ligados. esperando em breve o meu Zerbino ver.
CANTO XIII 207

15 Mongia3 havíamos deixado para trás, 16 Era inútil baixar velas, ou estais
quando se levantou do esquerdo lado ao mastro dar, ou castelo6 abater;
um vento de turvar o ar capaz, pois íamos, malgrado nossos ais,
e o mar turvou e pôs encapelado. em La Rochelle nas rochas embater.
Salta um mistral4 que de través nos traz, Se não nos ajuda o que pode mais,
e cresce a toda a hora desbragado, só contra a terra nos vamos deter.
e cresce desbragado com tal força O vento cruel sopra com mais mecha
que não serve alternar poja com orça5 . que jamais do arco saiu a flecha.
208 ORLANDO FURIOSO

17 O biscainho7 viu o perigo, e a ele 23 Almonio, que daí nada temia,


remédio opôs que muito tem falido: sem delongas ao caminho se volve,
de imediato recorreu ao batel; para a cidade, que não se distancia
ele e eu dentro, o batel foi descido. mais de seis milhas e que o bosque envolve.
Vieram mais dois; viria um quartel, Odorico a vontade malsadia
se esses dois o tivessem permitido; ao outro descobrir por fim resolve;
com a espada os mantêm afastados, porque o tinha de ter na vizinhança,
cortam a corda e vamos apressados. e nele tinha grande confiança.
1s A salvo à praia fomos em viagem, 24 Corebo de Bilbau era chamado
nós, que tínhamos dado uso ao escaler; esse que connosco permaneceu;
com o navio perdeu-se a marinhagem, de pequeno com ele fora criado
e o mar nossos aprestas quis sorver. nas mesmas casas, e com ele cresceu.
À Eterna Bondade rendi menagem: Poder comungar o intento malvado
as mãos ergui para Lhe agradecer, com ele, disso o traidor se convenceu,
porque a füria do mar não impedisse pensando que ele, mais que ser honesto,
que o meu Zerbino de novo eu revisse. o prazer do amigo encobria, lesto.
19 As minhas vestes no navio deixei, 25 Corebo, que gentil era e cortês,
as jóias e riqueza similar; não o pôde ouvir sem sentir desdém;
de ver Zerbino a esperança alimentei, chama-lhe traidor, e o plano soez
e o resto não me importa o tenha o mar. com palavras e factos lhe contém.
Onde aportámos sinais não achei Grande ira a um e outro o caso fez,
de caminho, nem em torno há solar; o que, de espadas nuas, mostram bem.
só o monte, que o cume sempre o vento Ao puxar dos ferros medo senti,
fustiga, e tem no mar o seu assento. e pela obscura selva me fugi.
20 Aqui, cruel tirano Amor, que sói 26 Odorico, que mestre era de guerra,
ser às suas promessas desleal, em pouco tempo à vantagem chegou;
e estuda e atenta, e por fim destrói deixou Corebo aturdido por terra,
todo o nosso desígnio racional, e em meu encalço caminho tomou.
de modo vil os ânimos corrói: Deu-lhe Amor, se a minha crença não erra,
o alívio muda em dor, meu bem em mal; asas com as quais até mim voou;
pois o amigo, em quem Zerbino crê, e ensinou muitas lisonjas e rogos,
em desejo ardeu e gelou em fé. para que lhe aceite os amorosos jogos.
21 Talvez me desejasse mar afora,
mas de demonstrá-lo tivesse pejo,
ou começasse o seu desejo agora
que o solitário sítio dava ensejo;
ali decidiu sem qualquer demora
dar satisfação ao sujo desejo;
antes, de um dos dois livrar-se quis ele
que connosco vieram no batel.
22 Da Escócia sendo Almonio, tal sujeito,
que leal era a Zerbino se entendeu;
considerado guerreiro perfeito
foi por ele, quando a Odorico o deu.
Disse este a ele que era grande defeito
levar-me a La Rochelle pelo pé meu;
e pediu-lhe que adiante quisesse ir,
para com um rocim ao encontro vir.
CANTO XIII 209

27 Tudo é debalde, pois eu, firme e certa, 31 só para de como eu sou terem abono:
antes morria que o satisfizesse. virgem sendo, esperam vender-me bem.
Todo o rogo e toda a lisonja experta Findo é o mês oitavo, e vem o nono,
e ameaça fez, sem que eu pena tivesse, que este povo sepulta aqui me tem.
e à força se entregou de forma aberta. De Zerbino toda a esperança abandono;
Vão era que rogando eu lhe dissesse pelo que aqui ouvi dizer alguém,
da fé que Zerbino nele pusera, fizeram de mim venda a um mercante
e que eu pensara em suas mãos houvera. que a um sultão me leva, no Levante. -
2s Quando viu que rogas fizera em vão, 32 Assim contava a formosa donzela;
e que de ajuda eu não tinha concurso, muitos soluços e suspiros dava
chegou-se-me, mais cúpido e vilão que interrompiam a infeliz novela,
que se a mim viesse faminto urso; que até víboras de piedade agrava.
defendi-me com o pé e com a mão, Enquanto o seu sofrer assim revela,
e às unhas e aos dentes fiz recurso: ou, quem sabe, de suas mágoas se lava,
pelei-lhe o queixo, dei-lhe arranhadelas, uns vinte homens entram na pedreira,
e os meus gritos chegavam às estrelas. armados de espeto e de podadeiraª.
29 Não sei qual foi o caso: ou os meus gritos 33 O que era o chefe, homem de feroz rosto,
que se faziam a uma légua ouvir, um só olho tem, e olha de esguelha;
ou quando com navios haja conflitos o outro por um golpe foi deposto,
tenham o hábito de à praia vir, que o cortou do nariz à sobrancelha.
sobre o monte surgiram expeditos Vendo que o paladim tomou encosto
alguns, para ao mar e a nós se dirigir. junto à donzela, naquela quartelha,
Quando o biscainho ali os topou, disse aos outros: - Temos pássaro novo;
deixou-me e para fugir se preparou. sem rede lhe estender cá o encovo. -
30 Com aquela multidão me satisfiz 34 E disse ao conde: - Nunca um homem vi
contra o traidor, mas daquela maneira mais útil do que tu e a meu favor.
que às vezes em provérbio o vulgo diz: Não sei se adivinhaste, ou estás aqui
cair-se da panela para a braseira. porque por outro foste sabedor
É certo que não fui tão infeliz, que tão belas armas apeteci,
.nem eles malvados sobremaneira, e essa bela capa de escura cor.
que violassem a minha pessoa; A tempo tu chegaste, na verdade,
mas não por sua virtude, ou acção boa; de acudir à minha necessidade. -

... . �- . . .
. ..... -....... ....,..·-. §.
210 ORLANDO FURIOSO

35 Pondo-se em pé, sorriu com amargor 37 Na caverna uma mesa existe até,
Orlando, e deu resposta ao malandrão: dois palmos grossa, espaçosa e em quadro,
- As armas te vendo por um valor apoiada em grosseiro e sujo pé,
que nenhum mercador tem no razão9 • - que leva toda a família do ladro.
Do fogo, mesmo ao lado, foi raptor Com aquela agilidade que se vê
de fumegante e ardente tição; os Espanhóis lançar a cana 1 1 no adro,
o malandrim no ponto atingir quis Orlando a grande mesa de si esgalha
em que confinam sobrolho e nariz. para onde em conjunto está a canalha.
36 Ambos os olhos o tição colheu, 38 A uns o peito, outros o ventre, a testa
mas maior dano fez no esquerdo lado: atinge, ou pernas ou braços amassa,
aquela única parte lhe tolheu um de tal morre, outro trôpego resta;
por onde o dia não lhe era vedado. quem menos sofreu, fugir ameaça.
Mas não só de cegá-lo se aprazeu: Assim também uma pedra molesta
fê-lo para aquele lugar ser despachado lados, costas, cabeças despedaça,
em que Quíron tem, com seus companheiros, lançada sobre um monte de serpentes
os espíritos em ferventes ribeiros 1º . que após o Inverno ao sol se estão, dolentes.
CANTO XIII 211

39 Casos há vários, não sei dizer quantos: 42 A velha, que era amiga dos malsãos,
uma morre, outra sem a cauda fica, assim que viu que estavam todos extintos,
para a frente outra não vai, e em quebrantas chorando e às melenas levando as mãos,
em vão a sua çauda encolhe e estica; escapou-se por silvestres labirintos.
outra, que teve propícios os santos, Depois de correr trilhos e desvãos,
nas ervas serpenteia e se barrica. em árduos passos de terror retintos,
Foi grande o choque, mas não admirando, na margem dum rio num guerreiro esbarra;
pois quem o fez foi o valente Orlando. mas quem ele é noutro canto se narra;
40 Os que pouco ou nada ofendeu a mesa 43 regresso à outra, que se recomenda
(escreve Turpino 12 que eles foram sete) ao paladim, e dele não se isola:
aos pés recomendam sua defesa; diz-lhe que o seguirá em qualquer senda.
mas na saída o paladim se mete, Orlando com cortesia a consola;
e, depois de apanhá-los sem braveza 13 , dali, quando adornada se desvenda
ao nó da corda suas mãos submete; de rósea grinalda e purpúrea estola
da corda ao seu serviço consentânea a branca Aurora, ao usual destino,
que ali achou, na casa subterrânea. partiu com lsabella o paladino.
41 De rojo vão para fora da espelunca, 44 Sem encontrar qualquer anomalia,
onde fazia sombra um velho sorvo 14. por muitos dias juntos caminharam;
Orlando com a espada os ramos trunca, por fim um cavaleiro na mesma via,
e eles pendura para que os coma o corvo. que cativo fora feito, encontraram.
Corrente não requer, de ponta adunca, Quem era não digo, pois me desvia
pois, para purgar o mundo de tal estorvo, agora alguém, de quem ouvir esperaram:
a árvore seus ganchos lhe emprestou, a filha de Amon 1 5, que eu deixei atrás 16,
onde pelo queixo Orlando os pendurou. de amorosa pena dolente assaz.
212 ORLANDO FURIOSO

45 A bela dama, desejando em vão 51 - Quando chegares (disse) àquela parte


que Ruggiero a si fizesse retorno, que fica perto da casa encantada,
estava em Marselha, onde ao bando pagão o mago surgirá para encontrar-te;
todos os dias causava transtorno; para creres que é Ruggier não falta nada,
o qual a monte e vale deitava a mão, e far-te-á parecer, com sua arte,
de Languedoc 17 e da Provença 18 em torno: que um mais forte lhe dá sova pesada,
fazia bem o ofício verdadeiro para que tu vás, por lhe querer dar defesa,
de sábio duque e de óptimo guerreiro19 • onde com os outros ficarás presa.
46 Aqui estando, e já muito tempo havendo 52 Para que dos enganos, de que penante
que a si deveria ter regressado tanta gente fez, estejas advertida,
o seu Ruggiero, e nem tão pouco o vendo, mesmo que de Ruggier rosto e semblante
vivia em temor de um caso azarado. te pareça, não sejas impelida
Um dia, de lágrimas guarnecendo a crer que é ele; conforme ele avante
seu rosto, viu que lhe surgia ao lado para ti vem, priva-o da indigna vida;
a que levou no anel a medicina não temas Ruggiero matar assim:
que o peito curou, ferido por Alcina20 • ao que te contraria porás fim21 •
47 Porque regressar sem o seu amante, 53 Bem sei como para ti será errado
tanto tempo após, a seu lado a vê, matar quem de Ruggier tem a feição;
fica pálida, treme, e nesse instante ao olho não dês fé, pois ofuscado
falta-lhe a força para estar em pé; o encanto o tem, e oculta-lhe o que é são.
põe-se-lhe a maga tão gentil diante, Convence-te antes que te leve ao prado,
e ri, pois do grande temor dá fé; para que depois não mudes de intenção;
com seu rosto jucundo lhe dá paz, Ruggiero para sempre te será esquivo,
como costuma quem boa-nova traz. se fores cobarde e o mago deixares vivo. -
48 - Não temas (disse) por Ruggier, donzela, 54 A valorosa jovem tomando esta
que é vivo e são, e sabes que te adora; decisão de eliminar o revel,
em liberdade não está, pois aquela a pegar armas e a seguir é lesta
teu inimigo a tirou sem demora; Melissa, que sabe que lhe é fiel.
e é preciso que montes tua sela A qual, por sementeira ou por floresta
se o queres ter, e que me sigas agora; a guia, caminhando sem quartel;
se me seguires, abro-te o caminho aliviar-lhe tentava, todavia,
para que Ruggiero tires do seu ninho. - com falar grato a cansativa via.
49 E continuou, tendo-lhe contado 55 Lembrava-lhe assim, em falas frequentes,
o mágico truque que urdira Adante: que dela e Ruggier a estirpe provém
tendo dela o semblante simulado, daqueles príncipes tão excelentes,
parecendo ser cativa do gigante, e gloriosos semideuses também.
atraíra-o ao palácio encantado, Para Melissa eram coisas evidentes,
onde depois a não vira diante; pois os segredos dos deuses detém;
e que ele atrai, com a mesma trapaça, todas as coisas predizer sabia
dama ou cavaleiro que por lá passa. que daí a séculos se veria.
50 A todos parece, o mágico olhando, 56 - Ouve, ó minha escolta, sábia mulher
olhar o que para si quer cada um: (dizia à maga a ínclita donzela),
dama, escudeiro, amigo; recordando que anos antes me deste a conhecer
que o desejo humano não é comum. minha descendência viril tão bela22,
Depois, todo o palácio vão buscando duma dama me queria comprazer,
com fadiga, sem ter fruto nenhum; da minha estirpe, se é que alguma nela
e tão grande é o desejo e a sua esperança por bela e virtuosa lugar tem seu. -
que dali já não fazem mais andança. E a maga cortês assim respondeu:
CANTO XIII 213

57 - De ti sairão mulheres exemplares, 58 E, se eu te narrar sobre cada uma


mães de imperadores e de majestades, que na tua estirpe tal valor tem,
reparadoras, sólidos pilares muito será; pois vejo que nenhuma
de ilustres casas, nobres propriedades; olvidar no silêncio me convém.
que menos dignas não são, pois são pares Deixa que a três ou quatro me resuma,
dos cavaleiros em suas qualidades, doutro modo o meu conto ao fim não vem.
em piedade, coragem e prudência, Por que na gruta tal não me pediste?
e suma e incomparável continência. Só por isso sua imagem não viste.
214 ORLANDO FURIOSO

59 De tua estirpe há-de sair aquela 65 De outras não falo; pois, como já disse,
de obras ilustres e de artes amiga, difícil será de tantas contar;
que não sei se mais graciosa, se bela, embora cada uma em si reunisse
ou se instruída e virtuosa eu a diga, razões para merecer heróico cantar.
liberal e magnânima lsabella23 , De Bianche, Lucrezie, calo a ledice,
que dia e noite em sua luz abriga Costanze e outras, que governar
a terra que junto ao Menzo cresceu, esplêndidas casas em Itália vão,
à qual a mãe de Ocno seu nome deu24; e restauradoras e mães serão.
60 onde honroso e deslumbrante certame 66 Mais que as outras, as estirpes que perfilhas
fará com seu digníssimo consorte, serão de suas damas venturosas;
para ver qual deles virtudes mais ame, não o serão mais com as suas filhas
e à fidalguia melhor abra a corte. que na honestidade das esposas.
Se ele no Taro e no reino25 se proclame, E notícia de tal também partilhas,
por livrar dos Gálios a Itália, forte, se de quanto Merlim me contou gozas;
ela, qual Penélope, que viveu contou-me talvez para me dar ensejo
casta, não menos que Ulisses valeu. de a ti dizer, saciando meu desejo.
61 Grandes e muitas coisas eu ouvi 67 Primeiro, de Ricciarda39 vou falar,
dessa dama, e muitas para trás desleixo, exemplo de força e de honestidade:
que, no tempo em que do vulgo fugi26, ficará viúva, jovem, por azar
me revelou Merlim do cavo seixo27• que aos bons a Fortuna dá sem piedade.
Se em tão grande mar a vela abro aqui, Os filhos, deixando o paterno lar,
Tífis a vogar muito para trás deixo28 • verá desterrar para estranha cidade,
Concluo enfim que ela terá, por dom jovens, pelos adversários exilados;
da virtude e do Céu, tudo o que é bom. mas verá por fim os males sanados.
2
62 Em Beatrice 9, a irmã, tem matiz, 68 Da alta estirpe de Aragão antiga
a quem tal nome assenta muito bem: a ilustre rainha40 se descortina;
não só dos bens da Terra imperatriz, tão sábia e tão pudica não abriga
mas perfeição na curta vida obtém; como ela a história grega ou a latina,
e será capaz de fazer feliz nem quem tenha a Fortuna tão amiga:
entre os duques o que a seu lado tem; pois há-de ser pela Bondade divina
o qual, depois de ela deixar o mundo, eleita mãe, para parturir a bela
conhecerá do infortúnio o fundo30 • prole: Alfonso, lppolito e lsabella.
63 Moro, Sforza e de Visconti as serpentes, 69 Será esta a ilustre Eleonora,
vivendo ela, formidáveis serão31 , que em tua árvore se manifesta.
da neve a norte, aos rubros lidos32 quentes, Que hei-de dizer-te da segunda nora41 ,
do Indo aos montes que para teu mar dão33 ; que é a próxima sucessora desta?
morta ela, aos Ínsubres aderentes34 , Lucrezia Borgia, de quem de hora em hora
com grave dano para a Itália irão a beleza, a virtude, a fama honesta
para a servidão3 5; sem ela, só o acaso e a fortuna crescerá, nada menos
à suma prudência terá dado azo. que jovens plantas em macios terrenos.
64 Outras haverá como ela chamadas, 70 Como o estanho à prata e o cobre ao ouro,
muitos anos antes, qual mais idónea: a papoila silvestre à nobre rosa,
uma há-de ter as madeixas ornadas o pálido salgueiro ao verde louro,
com a coroa da fecunda Panónia36; ou vidro pintado a gema preciosa,
outra, depois de as terrenas estradas tal a ela, que antes de nascer douro,
haver deixado, será na Ausónia37 comparo alguma até aqui famosa
colocada no número das divas, por singular beleza ou por prudência,
terá incensos e imagens votivas38• ou por qualquer louvável excelência.
CANTO XIII 215

71 E sobre os seus demais ínclitos dons, n Não é de silêncio que aqui Renata
que lhe serão, ou viva ou morta, dados, de França, nora desta, se acompanha,
louvá-la-ão porque de régios tons42 de Luís, duodécimo Rei, nata45,
Ercole e os outros43 foram dotados, e da perpétua glória da Bretanha.
e porque lhes deu predicados bons Toda a virtude que houve dama, inata,
de que se ornarão em toga e armados44 ; desde que fogo queima e água banha,
não há odor que logo se derreta e o céu em torno gira e o Sol desloca,
que em novo vaso, mau ou bom, se meta. para Renata adornar vejo que é pouca.
216 ORLANDO FURIOSO

75 · E Bradamante de novo aconselha,


tal como mil vezes já tinha feito,
deixando-a ir só por aquela quelha.
Duas milhas andou no atalho estreito;
nisto, vê um que a Ruggiero assemelha,
e dois gigantes de cruel aspeito
apertando-o de maneira tão forte
que perto estavam de lhe darem morte.
76 Assim que a donzela em tal perigo vê
aquele que Ruggiero tanto parece,
logo �rn suspeita muda a sua fé,
e seus bons desígnios todos esquece.
Que Melissa deteste Ruggier crê,
porque ódio estranho nela amadurece,
e procure urdir desusada trama
para que a morte o leve dela, que o ama.
77 Dizia a si: - Não é Ruggier aquele,
que o coração sempre vê, e ora o olho?
Se não o vejo e não conheço a ele,
pois que outra coisa com meus olhos colho?
Por que a opinião de outrem me impele
a não crer no que em meu olhar recolho?
Mesmo sem olhos, pode o coração
saber se está longe ou se está à mão. -
78 Enquanto assim pensava ouviu a voz
pedir socorro, à de Ruggier parecida;
e ao mesmo tempo aquele vê, veloz,
que o cavalo esporeia e lhe dá brida,
e um inimigo e outro que feroz
o segue, para o alcançar na corrida.
De os seguir a dama não se impediu,
e à casa encantada se conduziu.
73 De Alda de Saxónia46 longo seria 79 Da qual assim que a porta atravessou,
narrar, ou da condessa de Celano47 , submersa se achou no comum error.
ou, da Catalunha, Bianca Maria48 , Em vão em cima e em baixo o procurou
ou sobre a filha do rei siciliano49 , e fora e dentro, com todo o rigor;
ou Lippa de Bolonha50, em louçania nem de noite nem de dia parou
famosa; e outras, mas, se aqui me explano o encanto forte do encantador;
e de todas te falo e as exorto, Ruggier vê ela e com ele conversa:
entro num mar onde não acho porto. - não o reconhece, nem vice-versa.
74 Depois de lhe contar a maior parte so Bradamante deixo, e mal não vos caia
da sua estirpe com todo o vagar, saber que ela ali fica em tal encanto;
mais e mais vezes lhe falou da arte pois, quando for tempo que dali saia,
que Ruggier no palácio fez entrar. faço-a sair, e Ruggier outro tanto.
Melissa parou quando o baluarte Se, a novo pitéu, novo gosto raia,
já estava perto, do mago sem par; acho que a minha história, também, quanto
achou ser melhor não ir mais adiante, mais variando for aqui e além
temendo ser vista pelo velho Adante. mais gosto em quem a ouvirá mantém.
CANTO XIII

81 Muitos fios será preciso dar-me


para tecer esta tela que eu rasouro.
Mas espero que vos agrade escutar-me,
ouvindo o modo como o povo mouro
a mando do rei Agramante se arme;
o qual, ameaçando os lírios de ouro51 ,
o manda juntar para nova revista,
para de quantos restam ser calculista.
82 Além de cavaleiros e peões,
dizimados em infinita cópia,
faltavam capitães, e dos brigões,
da Espanha, da Líbia e da Etiópia;
e os exércitos das várias nações
erravam, por ter de chefia inópia;
para chefe e ordem a cada um dar,
para a revista as tropas tem de juntar.
83 Preencheram o povo dizimado
nas batalhas e nos feros conflitos,
em Espanha o rei, e outro foi mandado
a África, que tem muitos inscritos52 •
Cada um foi em ordem colocado,
a seus chefes todos foram adstritos.
·-·- - --
�- --�- - Deferirei, senhor, com a vossa graça,
ao outro canto a revista na praça.

NOTAS

1 No mar e na praia: no mar e em terra. 9 Razão: livro de contabilidade, onde se lançam os
valores a crédito e a débito.
2
Bem pichada: bem untada com piche, ou pez, e por
isso mais deslizante. 'º Mas não só [. . .} ribeiros: não só o cegou, como o
matou, tendo-o despachado para o círculo dos violentos
3 Mongia: provavelmente Mugia, aldeia entre o cabo contra o próximo (Dante, Inferno, XII), que se encon­
Finisterra e A Corunha. tram mergulhados num rio de sangue fervente, vigiados
constantemente pelos centauros, cujo chefe é Quíron.
4 Mistral: vento frio que sopra no Sul de França no
11
final do Inverno. Lançar a cana: o jogo de lançamento da cana (lança
fina e furada, como uma cana) foi introduzido em Itália
5 Alternar[. . .} orça: oferecer ora um lado ora outro da pelos Espanhóis, e era praticado em festas pelos cavalei­
embarcação ao vento. ros nobres.
6 12
Castelo: castelo de popa ou de proa, estruturas que se Turpino: ao longo de todo o poema, Ariosto atribui
podiam abater para aliviar a nave. ironicamente a Turpino as situações que parecem menos
credíveis. Já Boiardo fazia o mesmo no O. lnnamorato.
7
Biscainho: Odorico de Biscaia. Turpino é um lendário arcebispo de Rheims, a quem se
atribuía uma crónica da vida de Carlos Magno, que acom­
8 Espeto [. . .} podadeira: utensílios que eram usados panhou em algumas campanhas. Hoje crê-se que essa cró­
como armas pelos ladrões. nica foi composta por diversos autores, no séc. XIII.
218 ORLANDO FURIOSO

13
Sem braveza: sem oferecerem resistência. 33
Indo [...} dão: do Oriente (Indo) ao Ocidente (montes,
junto a Gibraltar, que abrem caminho para o teu mar (o mar
14
Sorvo: sorveira (sorbus domestica), árvore de madeira de Bradamante, isto é, o Mediterrâneo, que banha Marselha).
muito resistente e frutos (a sorva) comestíveis.
34
Aos [. . .} aderentes: juntamente com os fnsubres (anti­
15
Filha de Amon: Bradamante. gos habitantes da Lombardia) .
16 35
Deixei atrds: no canto VIl:49. Para a servidão: cairão nas mãos dos Franceses.
17 36
Langu,edoc: região do Sul de França a oeste do Ródano. Uma [. . .} Pan6nia: Beatrice, filha de Aldobrandino
III, casou com André II, rei da Hungria (Pan6nia) .
18
Provença: região do Sul de França a leste do Ródano.
37
Aus6nia: Itália.
19
Oficio [. . .} guerreiro: Carlos Magno conferira a
38
Bradarnante funções governativas e militares em Marselha Outra [. . .] votivas: a beata Beatrice, filha de Azzo
(cf. 11:64). VII, morta em 1 262 e venerada no mosteiro de Santo
António, em Ferrara, onde foi monja.
20
A que [. . .} Alcina: Melissa, que com o anel libertou
39
Ruggiero do feitiço de Alcina. Ricciarda: filha do marquês de Saluzzo, casou com
Niccolà III d'Este. Seus filhos Ercole e Sigismondo foram
21 Não [. . .]fim: não receies estar a matar Ruggiero, pois exilados para a corte de Nápoles e privados da sucessão
estarás a pôr fim à vida de Adante (o que te contraria), do ducado de Ferrara. Só após a morte de Borso, filho ile­
disfarçado de Ruggiero. gítimo de Niccolà III, a linha legítima de sucessão foi res­
taurada e Ercole assumiu o poder (cf. IIl:47) .
22
Anos antes [. . .} bela: cf. canto IIl:23-59.
40
Rainha: Leonor de Aragão, mulher de Ercole I e mãe de
23
Isabel/a: Isabella d'Este, filha de Ercole I e Leonor de Alfonso i, Ippolito e Isabella d'Este. Ariosto chama-lhe rainha
Aragão, irmã do duque de Ferrara, Alfonso I, e do cardeal por ela ser filha do rei de Nápoles, Fernando I de Aragão.
Ippolito. Mulher de grande cultura, casou com Francesco
41
II Gonzaga, marquês de Mântua. Teve relações de amiza­ Segunda nora: Lucrezia Borgia foi segunda nora de
de com Ariosto, com quem trocou cartas; ele leu-lhe par­ Leonor de Aragão, porque quando Alfonso I casou com
tes do Orlando Furioso antes da publicação da obra. ela já era viúvo de Anna Sforza.
24 42
Terra [. . .} deu: Mântua, banhada pelo rio Mincio Régios tons: educação de acordo com a sua condição.
(Menzo) . Ocno é um herói etrusco, ligado também à
43
lenda de Bolonha. Sua mãe é Manto. Os outros: os outros filhos.
25 44
No Taro e no reino: Francesco II participou na batalha Em toga e armados: na corte e na guerra.
de Fornovo, junto ao rio Taro (afluente do Pó), e na de
45
Atella, no reino (de Nápoles), para expulsar os Franceses. Luís [. . .} nata: Renata era filha de Luís xii de França
e de Ana, duquesa da Bretanha. Ariosto faz um jogo de
26
Tempo [. . .} fagi: no tempo em que se isolou na gruta palavras com o nome (di Luigi il duodecimo Re nata) .
de Merlim.
46
Aida de Sax6nia: terá sido mulher de Alberto Azzo
27
Cavo seixo: túmulo de Merlim. II, segundo Ariosto (cf. III:27) .
28 47
Se [. . .} deixo: se percorresse os factos da vida de Condessa de Celano: provavelmente, mulher de Azzo VI
Isabella, faria viagem muito mais longa que os d'Este.
Argonautas (Tífis foi timoneiro do navio Argo) .
48
Bianca Maria da Catalunha: filha de Afonso de Aragão
29
Beatrice: Beatrice d'Este desposou Ludovico Sforza, e mulher de Leonello d'Este.
il Moro.
49
Filha [. .. } siciliano: Beatrice, filha de Carlos II de
30
Depois [. . .} fando: após a morte de Beatrice, Anjou, mulher de Azzo VIII.
Ludovico, il Moro, conhecerá a derrota e morrerá prisio­
50
neiro dos Franceses. Lippa de Bolnnha: segunda mulher de Obizzo III d'Este.
31 51
Moro [...} serão: enquanto Beatrice for viva, Ludovico, Lírios de ouro: insígnias da bandeira francesa, valen­
il Moro, o nome dos Sforza, e Milão (de Visconti as ser­ do aqui pela própria França.
pentes, símbolo de Milão), serão poderosos e famosos.
52
O rei [. . .] inscritos: o rei Marsilio mandou buscar
32
Neve [. . .} lidos: do Pólo Norte ao mar Vermelho. tropas a Espanha, e Agramante a África, onde havia mui­
tos soldados já recrutados.
--&$,.­

CANTO XIV

Nos muitos assaltos, cruéis conflitos Com esses, que estiveram com decoro
tidos entre França, África e Espanha, muito perto do derradeiro apelo,
muitos morreram e foram prescritos derrotastes as ricas landes de ouro4 ,
ao lobo, ao corvo ou à águia grifanha; rasgastes o pendão rubro e amarelo5,
estavam contudo os Francos mais aflitos, e a vós se deveu o triunfal louro
por terem perdido toda a campanha, do lírio não ter sofrido atropelo.
mas queixavam-se mais os Sarracenos, Uma outra fronde vos adorna a coma:
por barões e príncipes terem menos. Fabrizio ter restituído a Roma6 •
2 Vitórias tiveram, mas sanguinosas, Essa Coluna7 do nome romão,
e pouco houveram de que se alegrar. que prendestes e guardastes inteira,
E se as modernas coisas às saudosas mais vos honra que se por vossa mão
puderem, invicto Alfonso, ter par, tivesse caído a ufana fileira,
a grande vitória' , que às virtuosas toda a que engorda o ravenano chão8 ,
obras vossas tanta glória há-de dar, e toda a que partiu sem a bandeira9
pela qual em pranto sempre permanece de Navarra, de Aragão, e Castela,
Ravenna, mui com esta se parece: pois estacas e carros foram à vela 1 0 •
3 quando, cedendo Mórinos, Picardos2 , 6 Essa vitória foi mais de conforto
o exército normando e o aquitano, que de alegria; porque muito pesa
vós no meio atacastes os resguardos no nosso contentamento ver morto
do quase vencedor imigo hispano, o capitão de França e da empresa 1 1 ;
seguindo-vos esses jovens galhardos e ter com ele essa procela absorto
que mereceram, por seu ânimo lhano, os príncipes ilustres, que em defesa
de vós receber insígnias honradas: de seus reinos, de seus confederados,
punho, guarda-mão, e esporas douradas3 • atravessaram os Alpes gelados.
220 ORLANDO FURIOSO

7 Nossa saúde, nossa vida nesta 13 Stordilano, Tesira e Baricundo,


vitória decidida se conhece, um após outro mostram sua gente:
que impede que o Inverno, que tempesta a um Granada, Lisboa ao segundo,
por Júpiter irado, nos empece 12 : Maiorca ao terceiro é obediente.
gozar não podemos nem fazer festa, Foi de Lisboa rei, quando do mundo
sabendo a grande dor que comparece partiu Larbin, Tesira, seu parente.
nas escuras vestes, e triste lembrança Depois Galiza, que seu guia, em vez
que as viúvas choram por toda a França. de Maricoldo, Serpentino fez.
s Terá que abastecer o rei Luís 13 14 Os de Toledo e os de Calatrava,
de novos capitães suas esquadras, de que Sinagon já teve a bandeira,
que pela honra da áurea Flor-de-lis 14 com toda aquela gente que se lava
punam as mãos violadoras e ladras no Guadiana e bebe da ribeira,
de freiras, frades de todo o cariz, o audace Matalista governava;
e esposas, filhas, mães em suas quadras 15 ; Bianzardin das Astúrias em fileira
deitaram Cristo do sacrário ao chão, com os de Salamanca e de Plasência,
para levar o argênteo pavilhão. de Ávila, de Zamora e de Palência.
9 Ó mísera Ravenna, era conselho 1s Daqueles de Saragoça e da corte
que ao vencedor não desses resistência; de Marsilio tem Ferraú governo:
deverias ter Brescia como espelho, está toda a tropa bem armada e forte.
não a Faenza e Rimini dar ciência 16 • Entre eles Malgarino, Balinverno,
Manda, Luís, o bom Trivulzio 1 7 velho, Malzarise e Morgante, a quem a sorte
que ensine a estes teus mais continência, fizera habitar em país externo;
e diga quantos, por tais desconfortos, pois, quando seus reinos tinham perdido,
ficaram por toda a Itália mortos. Marsilio os tinha no seu acolhido.
10 Como de capitães precisa agora 16 Também lá está de Marsilio o bastardo,
que o rei de França seu campo proveja, Follicon de Almeria, e Doriconde,
também reis Marsilio e Agramante ora, Bavarte e Largalifa e Analardo,
para que seu arraial em ordem esteja, mais Archidante, de Sagunto conde,
do sítio onde no Inverno fez demora e Lamirante e Langhiran galhardo,
quer que venha, e no campo se reveja; e Malagur, que tanta astúcia esconde,
assim, vendo onde necessidade há, e tantos mais de quem eu penso os feitos
guia e governo a cada hoste dá. vos narrar, em momentos mais eleitos.
11 Primeiro Marsilio, depois Agramante, 17 Tendo passado o exército de Espanha
revistaram fileira por fileira. aprumado diante de Agramante,
Os catalães vão dos outros adiante, com suas hostes surge na campanha
de Dorifebo seguindo a bandeira. o rei de Orão2 1 , que era quase um gigante.
Depois vêm sem seu rei Folvirante, Por Martasin a próxima se lanha,
a quem Rinaldo deu morte certeira 1 8 , o qual lhe foi morto por Bradamante22 ;
os de Navarra; o rei hispano lhes deu doem-se por ter sido uma mulher
Isoliero para comandante seu. que o rei dos Garamantes23 fez morrer.
12 Balugante a milícia de Leão, 1s Segue a terceira força, de Marmunda24,
e a do Algarve Grandonio perfilha; que Argosto abandonou, morto em Gasconha:
de Falsirone, de Marsilio irmão, a esta um chefe, tal como à segunda
a da menor Castela 1 9 segue a trilha. e à quarta, é necessário que se imponha.
De Madarasso seguem o pendão Porém rei Agramante não abunda
os vindos de Málaga e de Sevilha, em capitães, mas finge ter e sonha:
de Cádis até Córdova fecunda, Buraldo, Ormida e Arganio elegeu,
das verdes margens que o Bétis inunda20 • e a quem não tinha chefes ele os deu.
CANTO XIV 221

19 A Arganio deu os da Libicana25 , 25 Os de Bellamarina40, que guiava


que o negro rei choravam, Dudrinasso. Gualciotto, agora guia o rei de Argel
Brunello guia os seus, da Tingitana26 , e da Sárcia41 , Rodomonte: chefiava
de rosto sombrio e olhar madraço; de novo homens a pé e de corcel;
pois, desde que na floresta serrana, que, enquanto o Sol nebuloso ficava
onde Atlante o castelo tinha de aço, no centauro e aos cornos foi fiel42,
o anel lhe subtraiu Bradamante, a África o mandou ir Agramante,
caíra em desgraça para Agramante: de donde há três dias fora emigrante.
20 se o irmão de Ferraú, Isoliero, 26 Não tinha o campo de África mais forte,
que o encontrou à árvore amarrado, nem sarraceno mais audaz que aquele;
ao rei não fizesse prova do vero, as portas de Paris temem sua sorte,
um pulo na forca já tinha dado. e razão tinham para o temer a ele
Mudou de ideia o rei, menos severo, mais que a Marsilio, Agramante, e à corte
estando já pelo pescoço pendurado: a que em França estes dois davam quartel:
mandou-o retirar, mas reservá-lo e, mais que qualquer que ali punha o pé,
para ao primeiro erro enforcá-lo; era ele inimigo da nossa fé.
21 tinha assim motivos para vir Brunel 27 Eis Prúsias, das Alvaracchie43 sultão;
de cabeça baixa, cara mofina. depois o de Zumara44, Dardinello.
Depois vinha Farurante, e atrás dele Não sei se gralhas ou corujas terão,
cavalos e infantes da Maurina27 • ou sinistro volátil paralelo,
Perto vinha Libanio, o rei novel, de algum telhado, fronde ou torreão,
e com ele as gentes de Constantina28 ; augurado aos dois futuro flagelo;
a sua coroa e o ceptro de ouro pois no outro dia o Céu diz que é hora
lhe deu o rei, que eram de Pinadoro29 • que um e outro do mundo vá embora.
30 2s Em campo já não falta comparecer
22 Com a gente da Hespéria , Soridano;
e com os de Ceuta Dorilon vem; a não ser os de T lemcen e Norizia45 ;
com os Nasamões31 vinha Puliano. não se via na parada aparecer
Os de Amonia32, rei Agricalte os tem; sinal deles, nem dar de si notícia.
Malabuferso aos de Fez dá afano. Não sabendo Agramante o que dizer,
Finadurro a outra hoste detém, nem que pensar desta sua estultícia,
que das Canárias e Marrocos veio; um escudeiro por fim se lhe acercou,
aos de Tardocco Balastro dá esteio33 • do rei de Tlemcen, que tudo narrou.
23 Dois contingentes, de Mulga e Arzila34: 29 E contou-lhe que Alzirdo e Manilardo
esta conserva o seu senhor antigo, com muitos outros jaziam no campo.
a outra não; o rei vai atribuí-la - Senhor (disse ele), o cavaleiro galhardo
a Corineo, que é seu fiel amigo. que os matou teu arraial num relampo
Também deu Caico à gente de Almansilla35 , dizimava, se a fugir fosse tardo
que Tanfirion já não tem consigo; mais que eu, que só agora aqui me acampo.
os da Getulia36 deu a Rimedonte. Faz o mesmo aos peões e cavaleiros,
Com os de Cosca37 surge Balinfronte. que o lobo faz às cabras e carneiros. -
24 Na outra hoste vem de Bolga38 a gente: 30 Poucos dias antes viera avante
rei é Clarindo, já foi Mirabaldo. ao campo do rei de África um senhor;
Eis Baliverzo, e crê que tens na frente, não tinha o Poente, nem o Levante,
de todo o magote o maior ribaldo. um com mais força nem com mais ardor.
Não creio que em todo o campo se apresente Grandes honras lhe fazia Agramante,
bandeira que tropa com tal respaldo por ser aquele o filho e sucessor
cubra como a que leva o rei Sobrino39 , do rei tártaro, Agricane galhardo:
nem outro sarraceno com mais tino. era seu nome o feroz Mandricardo.
222 ORLANDO FURIOSO

31 Por espantosos feitos era famoso, 33 Ao escudeiro foi perguntar como era
e a sua fama todo o mundo enchia; a sobrevesce daquele cavaleiro.
mas mais que tudo tornava-o glorioso - Era toda negra (ele respondera),
no castelo da fada de Soria46 negro era o escudo, e sem tufo cimeiro48 • -

o arnês ter adquirido, luminoso, E foi, senhor, sua resposta vera,


que Heitor troiano há mil anos cobria47 , pois Orlando não vestira o quarteiro49 ;
por estranha e formidável aventura, tendo o espírito dentro tão dolente,
que dela falar já é pena dura. quis também fora a dor tornar patente.
32 Encontrando-se, pois, este presente 34 Marsilio a Mandricardo tinha dado
a tal conversa, ergueu a cara ousada; um corcel cor de casca de castanha,
e dispôs-se a ir imediatamente pernas e crina negras; fora nado
achar o guerreiro, indo na peugada. de frísia mãe, e era seu pai de Espanha.
O seu pensamento ocultou na mente, Para cima salta Mandricardo armado,
ou porque em algum não confiava nada, e segue galopando pela campanha;
ou porque teme, se a ideia revela, jura não regressar àquela tropa,
que outro antes dele se apodere dela. se o campeão de armas negras não topa.
CANTO XIV 223

35 Muita encontrou da temerosa gente 38 Um dia e outro meio segue, incerto,


que do feroz Orlando ia fugida, o cavaleiro de negro em demanda.
ou pelo irmão, ou pelo filho sofrente, Chega a um prado de sombras coberto,
que na sua frente perdera a vida. que tão fundo e largo rio ciranda
Ainda a estupefacta e triste mente que deixa só um breve espaço aberto,
no pálido rosto tinham esculpida; em que a água curva para a outra banda.
do terror sentido por tal acção, Lugar parecido, com torcida onda,
pálidos, mudos e aturdidos vão. o Tibre em Otricoli arredonda.
36 Muito não andara quando encontrou 39 Onde entrar se podia50 , de couraça
espectáculo cruel e desumano, havia muitos cavaleiros armados.
que os factos espantosos testemunhou Pergunta o pagão quem ali os faça,
que foram ditos ao rei africano. e para que efeito, estarem agrupados.
Um e outro morto olhou, e virou, Respondeu-lhe o capitão, pois engraça
e de suas chagas mediu o plano, com o senhoril aspecto e os ornados
movido por estranha inveja que sente do arnês, em ouro e gemas tão industre
do guerreiro que matou tanta gente. que o revelava cavaleiro ilustre:
37 Como lobo ou mastim chega atrasado 40 - Chamou-nos o nosso rei de Granada,
ao boi deixado morto pelos vilães, para a sua filha darmos companhia,
só de ossos, cornos, unhas faz achado, que ao rei da Sárcia51 sua mão foi dada,
que o resto saciou pássaros e cães, mas notícia de tal inda é sombria.
e em vão olha o esqueleto, esfomeado: Quando perto da noite, sossegada
assim faz o bárbaro em seus vaivéns. a cigarra estiver, que inda cicia,
De dor pragueja, e mostra inveja acesa junto do pai e do hispano uniforme52
por chegar tarde a uma tão rica mesa. a levamos; entretanto, ela dorme. -
224 ORLANDO FURIOSO

44 A audácia do tártaro é tão ousada


que vai contra. aqueles em desvantagem,
gritando: - Quem me quer vedar a estrada? -
E com a lança faz-lhes abordagem.
Uns baixam hasta, outros puxam espada;
a toda a volta tolhem-lhe a passagem.
Entre eles fez grande e cruel matança,
antes que se quebrasse aquela lança.
45 Vendo-a quebrada, o seu grande bastão,
que inteiro ficou, com ambas aferra;
com ele mata de gente tal porção
que nunca foi vista tão cruel guerra.
Como entre os Filisteus o hebreu Sansão53 ,
com a mandíbula que ergueu da terra,
escudos, elmos quebra, e golpes certeiros
apagam cavalos e cavaleiros.
46 Correm para a morte cada um à vez,
nem por cair um outro de andar cessa;
porque a maneira de morrer talvez
seja mais amarga que a morte expressa.
Não se conformam com a morte soez
de um pedaço de hasta que os atravessa,
e que de bastonadas tão vilãs54
sejam mortos, como cobras ou rãs.
41 O pagão, que a todos desprezar tende, 47 Mas quando à própria custa deram conta
decide fazer de súbito a aposta, que mau de qualquer modo era morrer,
se aquela gente ou bem ou mal defende quando a dois terços de mortos amonta,
a dama, que à sua guarda foi posta. todo o restante se pôs a correr.
Disse: - Ela, por quanto se depreende, Como se àquilo que é seu dessem afronta,
é bela; e disso quero ter resposta. não pode o sarraceno conceber
Conduz-me a ela ou manda-a aqui vir, que algum daquela turba espavorida
que a outra parte tenho pressa de ir. - dali se afaste conservando a vida.
42 - És decerto louco mais que ninguém -, 48 Como não resiste restolho em eira,
disse o de Granada, e o resto calou. nem sibilante cana em seca vala,
Para o ferir o tártaro lesto vem: ao sopro de bóreas55 e à fogueira
com a hasta baixa, o peito lhe passou; que o cauto lavrador juntos propala,
como a couraça o golpe não retém, quando a chama errante subtil se esgueira,
à terra caiu e morto ficou. e pelos sulcos corre, e assobia e estala;
De Agricane o filho retira a hasta, também aqueles contra a fúria acesa
pois outra não possui e esta lhe basta. de Mandricardo hão pouca defesa.
43 Não usa espada nem bastão, pois quando 49 Logo que ele viu que estava a entrada,
das armas de Heitor se tornou patrão, que mal guardada foi, sem defensor,
que a espada faltava verificando, pela recente via que assinalada
teve de jurar (e não foi em vão) na erva estava, e pelos gritos de dor,
que enquanto não tirasse essa a Orlando quis ir ver se a donzela de Granada
não punha noutra espada a sua mão; em formosura à fama faz honor:
Durindana, que Almonte assaz estimava, avança entre os corpos da gente morta,
ora usa Orlando, antes Heitor usava. onde lhe abre, torcendo-se, o rio porta.
CANTO XIV 225

50 E Doralice em meio ao prado vê 56 Com a presa o tártaro se contenta,


(pois assim a donzela nome havia), que fortuna e valor lhe pôs diante;
que, debruçada sobre o antigo pé encontrar o da negra .vestimenta58
dum freixo silvestre, sua dor exprimia. já não parece ser tão importante.
O pranto, como nascente maré Antes corria, agora a marcha é lenta;
de viva veia, no seio caía; achar alojo é pensamento instante:
e o rosto mostra que da vida alheia quer encontrar cómodo desafogo,
se condói, e que pela sua receia. para exalar tanto amoroso fogo.
51 Cresceu o temor, quando vir o viu 57 Entretanto conforta Doralice,
ensanguentado, rosto ímpio, cruel, que o rosto banhado de pranto tem:
e o grito até ao céu pelo ar subiu, muitas coisas compõe e finge, e disse
dela e da sua gente por medo dele; que pela fama há muito que lhe quer bem;
não só cavaleiros, mas um gentio e que sua pátria, seu reino feiice,
da bela infanta a protecção compele: que tão grande é que os outros deixa aquém,
maduros anciãos, damas e donzelas abandonou, não para ver Espanha ou França,
do reino de Granada, e das mais belas. mas só para contemplar sua linda trança.
52 Quando o tártaro viu seu belo viso, 58 - Se há-de o homem por amar ser amado,
o qual não tem rival em toda a Espanha, mereço vosso amor, pois vos amo eu:
que em pranto (ora o que não seria em riso?) se por estirpe, quem melhor que eu foi nado?
de Amor o envolveu em teia tamanha, O potente Agricane foi pai meu;
ignora estar na Terra ou paraíso; se por riqueza, algum mais abastado?
nem da vitória outra coisa ele ganha, Pois em domínio só Deus me venceu;
senão ficar à sua prisioneira se por valor, já hoje demonstrei
preso, e sem que saiba de que maneira. que por tal ser amado merecerei. -
53 A ela porém não se verga tanto 59 Estas palavras e outras, que Amor
que do seu sofrimento lhe dê fruto56 ; a Mandricardo de sua boca dita,
embora chorando ela mostre quanto vão consolando e dando algum alor
possa dama mostrar, de dor e luto. à donzela, de medo tão aflita.
Ele, esperando transformar-lhe o pranto Cessa o temor, e depois cessa a dor
em alegria, estava resoluto que à sua alma dava tal desdita.
a levá-la; e num branco cavalinho Começa ela, com mais paciência,
a fez montar, e retomou caminho. a dispensar-lhe mais grata audiência;
54 Damas, donzelas, velhos e outra gente 60 depois respostas muito mais corteses,
que com ela viera de Granada, mostrando-se doce e afável, lhe deu,
a todos dispensou benignamente, não lhe negando no rosto por vezes
dizendo: - Ora é por mim acompanhada; fixar piedosa luz do olhar seu:
eu camareiro, guardião, servente ele, que do dardo de Amor já reveses
serei para ela; e agora, adeus, brigada. - antes tivera, a certeza colheu,
Não podendo fazer-lhe oposição, e não só esperança, que a dama formosa
chorando e suspirando lá se vão; do seu amor não seria desdenhosa.
55 entre si diziam: - Que doloroso 61 Com tal companhia, ledo e ditoso,
será para o pai, quando a tal caso atenda! a qual tanto o satisfaz e o deleita,
Quanta ira e quanta dor para o seu esposo! estando próxima a hora em que ao repouso
Ai, como há-de fazer vingança horrenda! a fria noite os animais aleita,
Mas por que é que em momento tão gravoso vendo já baixo o Sol e um pouco umbroso,
não está perto, para que a este apreenda deu início a passada mais escorreita;
o sangue ilustre do rei Stordilano57 , até que ouviu tocar gaitas e canas59 ,
antes que mais longe o leve o tirano? - e viu fumegar casas e cabanas.
226 ORLANDO FURIOSO

62 Eram só pastoris alojamentos, 65 A alta fantasia, que um só trilho


melhor casa e mais cómoda que bela. não quer que eu siga sempre, ora me guia,
Onde o cortês guardião dos armentos levando-me onde o mourisco fervilho6 1
honrou o cavaleiro e a donzela, de rumor e gritos França anuvia,
que lhe agradeceram com cumprimentos; ao pavilhão do de Troiano filho:
não é em vila nem em cidadela, de Roma o Santo Império desafia,
mas inda por tugúrios e redis, e o audaz Rodomonte se lhe gaba
que achamos por vezes homens gentis. que Paris queima e que Roma desaba.
63 O que depois fosse feito no escuro 66 A Agramante chegara conselho,
por Doralice e o filho de Agrican que os Ingleses tinham passado o mar;
para vos contar não me sinto seguro: por tal, Marsilio e o rei do Garbo62 , o velho,
dê cada um a seu juízo afã. e os outros capitães mandou chamar.
Que se acharam de acordo é o que eu apuro, Alvitram que se faça um aparelho,
pois estavam mais alegres de manhã; de forma a Paris poder expugnar.
Doralice agradeceu ao pastor Podem estar certos que a não tomarão,
que em seu abrigo lhe fizera honor. se antes cá chega o inglês batalhão.
64 Dum lado para outro lá vão errando, 67 Já várias escadas para esse fim
até que um rio acham em seu corrume, mandou buscar nos lugares em redor,
que em silêncio para o mar vai deslizando, e tábuas, traves, cestos, coisa afim,
e se vai ou se está mal se presume; que para vários usos têm valor,
é tão límpido e claro que, mirando, barcos e pontes; dizia outrossim
sem embaraço ao fundo leva o lume6° . que importante ao assalto era dispor
Na margem, a uma sombra fresca e bela, primeira fila e segunda, e quer estar
dois cavaleiros há e uma donzela. entre os que a cidade vão assaltar.
CANTO XN 227

68 O imperador63, no dia que a batalha 74 E muitas outras foram nesse instante


precedeu, mandou missas em Paris por tais correios levadas ao Céu;
celebrar no interior da muralha, ouvindo as almas santas66 o narrante,
por padres negros, brancos, e mongis; encheu-se de piedade o rosto seu;
quem confessara toda a sua falha, olharam todas o Eterno Amante,
livre estando dos infernais covis, pondo-lhe os comuns desejos ao léu:
que comungasse, não se desse o acinte que à oração tão justa Ele acuda,
de vir a morrer no dia seguinte. do povo cristão, que pedia ajuda.
69 E ele, entre barões e paladinos, 75 E a inefável Bondade, que em vão
príncipes, prelados, na catedral, ouviu jamais um coração fiel,
com devoção nesses actos divinos ergue os olhos piedosos, e com a mão
participou, dando exemplo formal. acena a chamar o arcanjo Miguel.
De mãos juntas e olhos ao céu supinos, - Vai (disse-lhe) ao exército cristão
disse: - Senhor, sou cruel e brutal, que em frente à Picardia a vela impele67 ,
mas por meus erros não seja mister e leva-o junto aos muros de Paris
que teu fiel povo venha a sofrer. sem que cal notem as hostes hostis.
70 Se for tua vontade o povo ferir, 76 Primeiro ao Silêncio, da minha parte,
e dar a nosso errar dignos castigos, diz que contigo quero vá também;
encontra outro modo de nos punir pois ele proverá, com óptima arte,
que não seja às mãos dos teus inimigos; a tudo aquilo que prover convém.
porque se a nós matar lhes competir, Depois disso, vai logo àquela parte
que fama temos de ser teus amigos, onde o seu assento a Discórdia tem:
os pagãos dirão que tu nada podes, diz-lhe que o fuzil e o rastilho leve,
pois aos teus partidários não acodes. e no campo mouro o fogo soleve68 ;
71 E, por um que a ti se tornar infiel, 77 e que entre os que ali são ditos mais fortes
cem tal se tornarão em todo o mundo, tanta cizânia espalhe, e alaridos,
e assim a crença falsa de Babel64 que entre si combatam; e que haja mortes,
tua fé vencerá, mandando-a ao fundo. alguns prisioneiros e outros feridos,
Protege este teu povo, que é aquele outros abandonem as mouras cortes,
que teu sepulcro tornou livre e mundo para que seu rei muitos tenha impedidos. -
dos cães infiéis, e a tua santa Igreja, Em resposta a tal, palavra não soa
que não tem vigário que a não proteja. do bendito arcanjo, que do Céu voa.
n Nossos méritos, sei, aptos não são 78 Onde asas bate o arcanjo Miguel,
para compensar nosso débito um nada; fogem as nuvens, serena-se o céu.
nem devemos esperar de ti perdão, Um dourado aro o cerca, como aquele
se olharmos nossa vida tão errada; que a Terra vê relampejar no breu.
se nos deres de tua graça fruição, Vai pensando onde é bom que o voo cancele,
a nossa dívida será saldada; o celeste correio, onde entendeu
teu auxílio dispensar não podemos, esse inimigo da palavra69 achar,
desde que tua piedade lembremos. - pois vai procurá-lo em primeiro lugar.
73 Assim dizia o imperador devoto, 79 Medica onde ele more, quais os seus usos,
com humildade, contrição e dor. e por fim pensamentos faz certeiros:
Mais preces fez e condizente voto só entre frades e monges reclusos
com sua necessidade e seu esplendor. o achará, em igrejas e mosteiros;
Não teve o seu rezar efeito boto, pois são os falares ali cão exclusos
pois o seu génio, o seu anjo melhor65, que o Silêncio, onde cantam os salceiros,
pegou nas preces, as asas abriu, e onde dormem, e tomam o sustento,
e para as narrar ao Salvador subiu. e em toda a sala, por fim, toma assento.
228 ORLANDO FURIOSO

80 Julgando ali achá-lo, agitava 83 Viu que era, por vestir de cores um cento,
as asas douradas com mais presteza; em tiras desiguais e assaz sortidas,
que Paz e Caridade lá morava, que a cobrem ou não; os passos e o vento
além do Sossego, tinha a certeza. lhas abriam, pois não eram cosidas.
Crença que ser falsa verificava As crinas tinha cor de ouro e de argento,
ao aterrar no claustro, com surpresa: negras, cinza, entre elas desentendidas;
não está Silêncio ali; e foi-lhe dito umas em trança, outras em fitas postas,
que ali já não habita; só por escrito. algumas para o peito e muitas para as costas.
81 Nem Piedade, Sossego ou Humildade, 84 De intimações e de pareceres alheios,
nem Amor aqui vê, e nem Paz mira. interrogatórios, deliberações,
Já lá moraram, na antiguidade; as mãos trazia e o regaço cheios,
expulsaram-nas Gula, Avareza e Ira, e enormes maços de leis e de acções;
Soberba, Inveja, Inércia e Crueldade. por causa dos quais nunca estão os meios
De tal novidade o anjo se admira: garantidos dos pobres aldeões.
andou olhando aquela turba brava, Tinha atrás e à frente, e de ambos os lados,
e viu que a Discórdia também lá estava. notários, procuradores, advogados.
82 Aquela que dissera o Pai Eterno 85 Miguel a si a chama e a comanda
que, após o Silêncio, encontrar devia. para que entre os Sarracenos se introduza,
Pensava encaminhar-se para o Averno70 , e arranje motivos que a memoranda
julgando que entre os danados estaria, discórdia, e a guerrear-se, os induza.
e veio achá-la neste novo Inferno Depois, do Silêncio lhe faz demanda:
entre ofícios e missas (quem diria?). quem sabe nova dele lhe foi difusa,
Achou estranho Miguel ela ali estar: já que ela vai sempre fogos atear
pensara muito andar para a encontrar. daqui para acolá, por todo o lugar.
230 ORLANDO FURIOSO

86 Responde a Discórdia: - Não tenho em mente 92 Há na Arábia uma valada amena,


tê-lo já encontrado alguma vez; que perto não tem burgo nem cidade,
ouvir falar dele é coisa frequente, à sombra de dois montes, e que é plena
e muito gabá-lo pela sagez. de faias e abetos com muita idade.
Mas a Fraude, uma aqui da nossa gente, Em vão ali o Sol o dia ordena:
que companhia às vezes já lhe fez, lá não penetra a sua claridade,
creio que dele possa contar novela -; tanto a basta verdura a via trunca;
e apontando uma, disse: - É aquela. - sob a terra ali se abre uma espelunca.
87 Tinha boa cara, vestir honesto, 93 Sob a escura floresta uma capaz
um olhar humilde e um andar grave, e espaçosa cave entra pelo penedo,
um falar tão bondoso e tão modesto da qual a fachada a hera vivaz
que a Gabriel parecia dizer: Ave7 1 • contorna com seu sinuoso enredo.
Era feia e disforme em todo o resto; O pesado Sono em tal quarto jaz;
mas a esses defeitos punha entrave o Ócio dum lado, anafado e quedo,
com veste longa e larga, sob a qual doutro a Preguiça, que no chão se senta,
tinha sempre, envenenado, um punhal. pois não pode andar nem de pé se aguenta.
88 Pergunta a ela o anjo por qual via 94 O deslembrado Olvido está à porta:
deve seguir para o Silêncio encontrar. não deixa entrar nem conhece ninguém;
Disse a Fraude: - Em tempos idos soía não escuta embaixada nem a reporta;
entre a virtude apenas habitar, quem quer que seja, afastado mantém.
quando era novidade a abadia, O Silêncio gira e com paz conforta;
de Benedito e de Elias o lar72 ; botins de feltro e escuro manto tem;
esteve em escolas à conversa interditas, e aos que vê chegar acena com a mão
no tempo de Pitágoras e Arquitas73 • que partam, pois não têm recepção.
89 Idos esses filósofos e santos 95 Chega-se-lhe ao ouvido, e suavemente
que o compeliam ao caminho recto, diz o anjo: - Deus quer que tu dês norte,
desses honestos costumes e cantos, até Paris, a Rinaldo e essa gente
levou para a malvadez o seu trajecto. que seu senhor vem ajudar na sorte;
À noite com amantes pelos recantos mas que o faças tão silenciosamente
andou, e com ladrões em acto abjecto. que aos Mouros não chegue algum grito forte;
Com a Traição muito ele se entretém, por forma a que, antes que a Fama os previna,
e com o Homicídio o vi também. cheguem aqueles para lhes dar chacina. -
90 Com quem moeda falseia há usança 96 Doutro modo o Silêncio não falou:
de se abrigar em qualquer cave escura. com a cabeça disse que o faria;
De companhia e pouso faz mudança, obediente, atrás dele marchou,
e encontrá-lo será para ti ventura; e num só voo chegam à Picardia.
contudo, de ajudar-te tenho esperança: Os tão bravos esquadrões Miguel guiou,
tu à meia-noite chegar procura tornando-lhes breve uma longa via;
à casa do Sono, sem intervalo74, num só dia a Paris os conduziu,
e ali (onde dorme) vais encontrá-lo. - e nenhum que era milagre inferiu.
91 Costuma a Fraude dizer só bojarda, 97 Ocupado o Silêncio em sua escolta,
mas seu falar parece verdadeiro, na frente das tropas ia e em torno,
e o anjo nela crê; e, assim, não tarda fazendo girar grande névoa em volta;
a levantar voo daquele mosteiro. todo o resto, do dia, tinha adorno;
Acerta o bater de asas; está em guarda a espessa névoa não deixava à solta,
para chegar a tempo ao fim do carreiro, que fora ouvissem, som de trompa ou corno;
pois na casa do Sono (que sabia depois aos pagãos foi dar desconchego:
bem onde era) o Silêncio encontraria. cada um deles tornou surdo e cego.
CANTO XIV 23 1
232 ORLANDO FURIOSO

98 Enquanto Rinaldo pressa trazia, 1 04 Paris situa-se em grande planura,


parecendo pelo arcanjo conduzido, no umbigo de França, ou no motor82 ;
e num tal silêncio que não se ouvia o rio entre as muralhas se aventura,
no campo sarraceno algum ruído, e corre e sai depois para o exterior.
rei Agramante tinha a infantaria Antes faz uma ilha, e assegura
em volta de Paris distribuído, da cidade uma parte, e a melhor;
no fosso junto aos muros sob ameaça, outras duas (três partes tem a terra83)
para que o sumo esforço esse dia faça. de fora o fosso e dentro o rio encerra 84.
85
99 Quem de contar o exército é capaz, 105 A Paris, que muitas milhas regira ,
que contra Carlos moveu Agramante, pode dar-se assalto de muito lado;
também de toda a planta as contas faz come só duma parte assaltar mira,
em que o Apenino é tão abundante; que o exército não quer dispersado,
dirá quantas ondas, com mar roaz, para lá do rio Agramante retira,
banham os pés do mauritano Atlante75 ; para poente, onde o assalto será dado;
e até por quantos olhos76 o Céu espreite assim, não tem cidade nem campanha
dos amantes o furtivo deleite. atrás que não seja sua, até Espanha.
100 Dos sinos se ouvem, como de martelo, 106 Toda a área que o grande muro abraça
muitas e assustadoras badaladas; de fortificações Carlos proveu,
nos templos mãos se elevam em apelo, aterros reforçou com argamassa,
e bocas estão em preces ocupadas. túneis cavou, casamatas ergueu;
Se o tesouro parecesse a Deus tão belo onde para fora e para dentro o rio passa,
como é para as nossas ideias estouvadas, grossíssimas correntes estendeu;
todo o santo consistório77 , este dia, mas, mais que qualquer parte, fez prover
a estátua em ouro na Terra teria78 • onde tinha mais razão para temer.
101 Ouvem-se lamentar os velhos justos 107 Com olhos de Argo86, o filho de Pepino87
de que a vida os poupou para tais afanos, previu onde ia assaltar Agramante;
e chamar felizes aos sacros bustos79 , e nada planeou o Sarracino
sepultos na terra há já muitos anos. a que não se tivesse dado obstante.
Mas os animados jovens robustos, Com Ferraú, lsolier, Serpentino,
que não pensam nos iminentes danos, Grandonio, Falsirone e Balugante,
desprezando as falas dos mais maduros, e os que de Espanha tinha transportado,
daqui e de acolá correm para os muros. se encontrou Marsilio no campo armado.
88
102 Havia duques, condes, paladinos, 108 Sobrino à sua esquerda, junto ao Sena,
reis, cavaleiros, marqueses, barões, com Puliano89 e Dardinel90 de Almonte,
soldados forasteiros e citadinos80 , e o rei de Orão9 1 , o de gigante empena,
dispostos a morrer e não poltrões; que mede seis braças dos pés à fronte.
para cair em cima dos Sarracinos, Mas por que sou eu mais lento com a pena
ao seu rei pedem que baixe os pontões. do que aqueles com as armas, lá de fronte?
Orgulha-se ele do ânimo audaz, O rei da Sárcia, cheio de ira e desdém,
mas deixá-los sair não o compraz. grita e blasfema e já não se contém.
103 Dispõe-os nos indicados lugares, 109 Como atacar os pratos pastoris
para impedir aos bárbaros a via: ou os doces restos dos seus convivas
para ali contenta-se que vão uns pares, costumam, num estridor de asas hostis,
e acolá não basta uma companhia; mofinas moscas em tardes estivas,
alguns tomam conta dos luminares8 1 , ou pássaros em bandos nos hastis
ou das máquinas, conforme varia. de amadurecidas uvas fruitivas;
Carlos de cá para lá não se detém, assim vinham, entre gritos e estouros,
e vai socorrendo onde mais convém. lançados ao ferino assalto os Mouros.
CANTO XIV 233

110 Sobre os muros o exército cristão 1 16 Apoiam-se ao mesmo tempo mil escadas,
com lanças, machados, pedras e fogo, que dois ou mais sustêm por degrau.
defende Paris sem apreensão, Os de trás aos da frente dão pisadas,
pouco alarmado com o bárbaro jogo; que um terceiro os empurra mais um grau.
e, onde Morte aqui e ali dá vazão, Por virtude ou por medo são escaladas:
não falta quem o posto ocupe logo. todos têm de passar este vau;
Tombam sarracenos das amuradas, porque, se algum hesita, o rei de Argel,
por força das feridas e das pancadas. Rodomonte, fere ou mata, cruel.
1 1 1 Não é só o ferro que ali se emprega, 1 17 Cada um, pois, se esforça para subir
mas alvenaria e merlões perfeitos, aos muros entre fogo e arremessos.
muros partidos com muita refrega, Mas atentos olham, para ver surgir
telhados de torres e parapeitos. um local que lhes dê melhores acessos;
Água a ferver, que do alto derrega, só Rodomonte faz questão de vir
inflige aos Mouros ardentes despeitos; por onde os caminhos são mais revessos.
não há quem a esta chuva resista, Quando algum outro em desespero esteja,
que inunda o elmo e faz cegar a vista. a Deus reza, mas ele a Deus pragueja.
112 Esta quase mais que o ferro lesava; 11s Armado estava de forte couraça,
e o efeito da névoa de calcina? que já foi de dragão escamosa pele.
E o que de ardentes vasos se esperava, Do peito e das costas fora chumaça
com óleo, enxofre, pez e terebintina? do seu avô, que edificou Babel,
No paiol roda ardente92 não ficava, para do celeste assento a Deus dar caça,
que a toda a volta tem em chama a crina: e ficar rei do estrelado dossel;
estas, lançadas a todas as faldas, o elmo e o escudo teve tão perfeito,
dão 'aos Sarracenos cruéis grinaldas. e a espada também, só para esse efeito.
1 13 O rei da Sárcia tinha aproximado 1 1 9 Não é menos que Nemrod o seu neto97
das muralhas a fileira segunda, indómito, soberbo e furibundo;
por Buraldo e Ormida acompanhado, para ao Céu ir, a noite não espera quieto,
um garamante93 , e o outro de Marmunda94 • desde que o caminho encontre no mundo;
Clarindo95 e Soridano96 estão ao lado, nem repara se quebrado ou completo
e a estes o rei de Ceuta secunda; o muro está, ou se a água tem fundo:
os de Marrocos e Cosca também, a fossa passa, voando sobre ela,
para que seu valor se conheça bem. chafurdando na água até à goela.
114 Na bandeira, de rubro colorida, 120 Enlameado e a escorrer água, avança
tem Rodomonte da Sárcia um leão, entre fogo e pedras, arcos, balestas,
que a feroz boca abrir a uma brida como pelos pantanais fazem andança,
que uma dama lhe dá, não diz que não. na nossa Mallea98 , as porcinas bestas99 ,
Aquele leão nele mesmo tem vida; que com as presas, o focinho e a pança
e, na dama que lhe dá sujeição, vão abrindo, em toda a parte, amplas frestas.
só Doralice está representada, Com o escudo ao alto o Mouro, seguro,
filha de Stordilan, rei de Granada; o Céu despreza, quanto mais o muro.
115 a que levada foi, como eu contava, 121 Mal pisou terra enxuta Rodomonte,
por rei Mandricardo, e disse onde e a quem. sentiram-no chegar à serventia 100
Era aquela que Rodomonte amava que, dentro dos muros, fazia ponte
mais que seu reino, e seus olhos também; por onde a tropa francesa seguia.
brio e valor por ela alardeava, Vê-se despedaçar mais de uma fronte,
sem saber que em seu poder outro a tem: coroas maiores que as dos frades abria,
tivesse-o ele sabido, e então faria voavam braços, cabeças; no fosso
aquilo que depois fez, outro dia. caía do muro um rio rubro e grosso.
234 ORLANDO FURIOSO

122 Atira o escudo, e a duas mãos a espada 12s A uns encoraja, outros repreende,
cruel ergue, atingindo o duque Arnolfo. à frente os leva quer queiram quer não:
Era ele do ponto onde dá entrada deste o peito, deste a cabeça fende,
a água do Reno no salso golfo l01 • se os vê para fugir mudar direcção.
Melhor não se defendeu da estocada Uns aperta, outros empurra, outros prende
que o enxofre a que o fogo dá engolfo; pelos cabelos, pescoço, braço ou mão:
cai por terra dando o último tombo, e para baixo tantos deles empoça
decepada a cabeça a meio do lombo. que para todos conter é estreita a fossa.
1 23 Dum golpe oblíquo matou dum sacão 1 29 Enquanto o bando de infiéis se embala,
Artselmo, Oldrado, Spineloccio, Prando: aliás, mergulha, para o perigoso fundo,
o lugar estreito e a grande multidão e logo tenta, por diferente escala,
fez a espada um giro dar ondulando. ascender ao baluarte segundo,
Os primeiros à Flandres perda dão, o rei da Sárcia (como se houvesse ala
os dois últimos ao povo normando. em cada membro) elevou o rotundo
Orghetto de Mogúncia, neste mentre, corpo todo armado, como um colosso,
fendeu da fronte ao peito e até ao ventre. lançou�se e de um salto transpôs o fosso.
102
1 24 Artdropono e Moschino duma ameia 130 Pouco menos de trinta pés, ou tanto,
lança ao fosso; o primeiro é sacerdote, que como um galgo ele atravessou lesto,
ao segundo só o vinho recreia, e estrépito ao tocar o chão fez quanto
e barris já bebeu, de um piparote. faria se em feltro fizesse o gesto;
Como sangue viperino receia e a um e a outro vai cortando o manto 105 ,
a água, e foge-lhe como a chicote; como se feito de metal modesto,
agora tombou, e o que o aborrece e não de ferro; como de cortiça,
é perceber que na água perece. tal é a espada e a força que a iça!
125 Em dois cortou o provençal Luigi,
passou o peito ao de Toulouse, Arnaldo.
De Tours, Oberto, Claudio, Ugo e Dionigi
a alma exalam com o sangue, em caldo;
a mais quatro, de Paris, morte inflige:
Gualtiero, Satallone, Odo e Ambaldo,
e muitos outros; só que eu não saberei
dizer de cada um o nome e a grei.
1 26 A turba atrás de Rodomonte, lesta,
escadas apoia e sobe em sítios vários.
O parisiense aqui já não faz testa,
pois a muralha e o fosso são sumários.
Sabem que aos inimigos muito resta
dentro fazer, se forem bons operários;
pois entre o muro e o baluarte segundo
cava-se um fosso horrível e profundo.
127 Embora os nossos façam a defesa
de baixo para o alto l03 , e mostrem valor,
nova gente foi chamada à empresa,
lutando no terrapleno interior;
lanças e setas desfere com certeza
sobre a turba que vem do exterior,
cujo número seria mais pequeno,
se não fosse o filho do rei Ulieno104 •
236 ORLANDO FURIOSO

131 Mas nesse entretanto os nossos 106, de quem 133 A chama esparsa numa só se acua:
armadilhas houve a fossa profunda, entre um bordo e outro o espaço está pleno;
que estopa e ramos com fartura tem, e tanto em altura sobe que à Lua
em redor dos quais muita pez abunda pode em breve secar seu seio ameno.
(nem um pouco dela se vê porém, Escura nuvem no alto o céu debrua,
bem que em dois lados esteja dela imunda, que o Sol oculta, afastando o sereno.
do escuro fundo quase até à borda), Ouve-se estalar contínua explosão,
e de vasos escondidos uma horda, lembrando longo e assustador trovão.
132 tal com salitre, um com azeite, tal 134 Rude concerto, horrível harmonia
com enxofre, ou com símil combustivo; por berros, gritos, urros constituída,
os nossos entretanto, para que mal da pobre gente que ali perecia,
resulte ao Sarraceno o assalto altivo, por culpa do guia 1 07 perdendo a vida,
pois estavam no fosso e o outro beiral, que estranhamente concordar se ouvia
escadas trepando, era o seu objectivo, com o brutal som da chama homicida.
ao sinal combinado foram logo Mais não, ó senhor, mais não deste canto;
aqui e acolá atiçar-lhe o fogo. estou rouco já, repouso-me entretanto.

NOTAS

1 Grande vitória: na batalha de Ravenna, em 1 5 12, em 1 1 Capitão [ .. ] empresa: Gaston de Foix, morto ao per­
que Alfonso d'Este se aliou aos Franceses contra os seguir os Espanhóis em fuga.
Espanhóis (c( IIl:55). Ravenna (em pranto permanece)
foi saqueada pelos Franceses. 12 Impede [ .. ] empece: a vitória sobre os Espanhóis evi­
tou que o papa Júlio II (Júpiter) fizesse pagar caro a
2 Mórinos e Picardos: antigos povos do Norte de Alfonso d'Este (nos empece) o apoio dado aos Franceses.
França (Artois e Picardia) que combateram em Ravenna.
13
Rei Luís: Luís XII de França.
3
Punho { .. } douradas: insígnias dos cavaleiros.
14
Áurea Flor-de-lis: por antonomásia, a França.
4
Landes de ouro: um carvalho com as !andes em ouro
15
era a insígnia do papa Júlio II, que ali era aliado dos Punam { .. } quadras: punam os soldados franceses
Espanhóis. que cometeram excessos de toda a ordem no saque de
Ravenna, roubando e violando em casas (quadras) e con­
5 Pendão rubro e amarelo: bandeira espanhola. ventos.
6 Uma outra { .. } Roma: outra glória honra Alfonso 16
Deverias [ . .] ciência: deveria ter visto o exemplo
d'Este: ter libertado e restituído a Roma Fabrizio (espelho) de Brescia, que já fora saqueada pelos Franceses,
Colonna, comandante das forças do pontífice, que tinha em vez de ter servido de exemplo (ciência) a Faenza e
feito prisioneiro. Rimini, as quais depois se entregaram pacificamente e
não sofreram tal violência.
7
Coluna: alude a Fabrizio Colonna, jogando com o nome.
17
Trivulzio: quando era governador francês de Milão,
8
Toda [ .. ] chão: toda a que está sepultada nos campos em 1 500, teve de fugir e ceder o lugar a Ludovico Sforza,
de Ravenna. por suscitar a hostilidade da população, devido às suas
extorsões - lição que os Franceses deviam ter aprendi­
9 Sem a bandeira: em debandada. do (que emine) .
10 18
Pois { . .} vela: por não lhes ter servido de nada as suas Rinaldo { . .} certeira: Boiardo, Orlando lnnamorato
trincheiras, feitas com carroças e estacas. (L0 • II, XXIV: 3 1 -32) .
CANTO XIV 237

19 43
Menor Castela: Castela-a-Velha. Alvaracchie, ou Ilhas Afonunadas, segundo Boiardo ( O.
Innamorato, L0• II, XXII: 1 3), que se supõe serem as Canárias.
° Cddis [ . .] in unda: os que vêm das reg10es que o
2
44
Guadalquivir (Bétis) banha, entre Córdova e Cádis. Zumara: calvez Azemmour, na costa de Marrocos, a
sul de Casablanca.
21
Orão: cidade do litoral noroeste da Argélia.
45
Tlemcen e Norizia: os reinos de Alzirdo e Manilardo,
22
Morto por Bradamante: no Orlando Innamorato (L0 • mortos por Orlando (cf. xii:69) .
III, VI: 1 0- 1 4) .
46
Soria: a Síria.
23
Garamantes: antigo povo africano.
47 Arnês [ . .] cobria: no O. Innamorato, Mandricardo
24
Marm unda (ou Marmonda): região africana, calvez a obtém, no castelo da fada de Soria, as armas que foram
oriente da Cirenaica. do troiano Heitor, à excepção da espada, que fica em
poder de Almonte. Quando matou Almon�e, Orlando
25
Libicana: região da Líbia. apoderou-se das suas armas, incluindo essa espada que
Mandricardo ambiciona ter (cf. 43).
26
Tingi,tana: região vizinha de Tânger ( Tingis, em latim).
48
Tufo cimeiro: penacho ou bandeirola sobre o elmo,
27
Ma urina: região da Mauritânia. com as insígnias do cavaleiro.
28 49
Constantina: cidade do Norte da Argélia. Quarteiro: divisa de Orlando, dividida em quatro
quadrados alternadamente brancos e vermelhos, que ele
29
Pinadoro: o anterior rei de Conscantina, morto por não envergou quando iniciou a demanda de Angelica,
Ruggiero no O. Innamorato (L0 • III, II:32) . preferindo ir disfarçado (cf. viii:85).
30 50
Hespéria (terra mais a ocidente, onde se põe o Sol) : Onde [ ..]podia: na faixa de cerra que dá acesso àque­
calvez Cabo Verde. le prado, pequena península desenhada por um meandro
do rio.
31
Nasamões: tribo do Norte de África.
51
Rei da Sdrcia: Rodomonte (cf. 25).
32
Amonia: Amónio, oásis do deserto da Líbia onde se
52
situava o templo de Júpiter Árnon. Camões ( Os L usíadas, Hispano uniforme: tropas espanholas.
vii:48:2) escreve Amon por conveniência de acento
53
métrico. Sansão: juiz de Israel de 1 1 1 6 a 1 096 a. C., dotado
de grande força. Massacrou os Filisteus usando uma
33
Tardocco [ . .] esteio: Balastro comanda as tropas que mandíbula de burro.
antes eram de Tardocco.
54
Tão vilãs: cão impróprias de um combate entre cava­
34
Mulga (cidade do Norte da Argélia) e Arzila (cidade leiros.
marroquina, a sul de Tânger) .
55
Bóreas: vento norte.
35
Almansilla: Numídia, antiga região do Norte de
56
África. Sofrimento [ . .] fruto: que lhe dê a liberdade, tocado
pelo seu sofrimento.
36
Get ulia: cerra dos Geculos, tribo nómada do interior
da Líbia. 57 Sangue [ . .] Stordilano: a filha (sangue) do rei de
Granada, Stordilano.
37
Cosca: região africana não identificada.
58
O [ ..} vestimenta: Orlando.
38
Bolga: região de África não identificada.
59
Gaitas e canas: gaitas-de-foles e flautas.
39
Sobrino: rei africano, de Garbo, é o principal conse­
60
lheiro de Agramance. L ume: olhar.
40 61
Bellamarina: litoral da Argélia e Tunísia. Fer vilho: multidão.
41 62
Sdrcia: região da Argélia não identificada. Rei do Garbo: Sobrino (cf. 24) .
42 63
Enq uanto [ . .] fiel: enquanto o Sol permaneceu nas O imperador: Carlos Magno.
constelações de Sagitário (centa uro) e Capricórnio (cor­
64
nos), isto é, de 2 1 de Novembro a 2 1 de Janeiro. Babel: Babilónia, centro do poder muçulmano.
238 ORLANDO FURIOSO

65 86
Seu [. . .} melhor: o seu anjo da guarda. A rgo : figura mítica que possuía cem ou mais olhos.
66 87
Almas santas: os santos da corte celeste. Filho de Pepino: Carlos Magno era filho de Pepino, o
Breve.
67
Exército [. . .} impele: exército dos Ingleses e
88
Escoceses, que já se encontra junto à costa francesa. Sobrino: cf. nota a 24 e 66.
68 Fogo soleve: propague o fogo da discórdia. 89
Puliano: cf. 22.
69 90
Inimigo da palavra: o silêncio. Dardinel: cf. 27 (Dardinello).
70
Averno: lago na região da Campânia, Itália, onde os 9 1 Rei de Orão: cf. 1 7.
poetas situam uma das entradas do Inferno.
92
Roda ardente: a roda de fogo (uma espécie de girân­
71
Falar[. . .} Ave: uma voz tão bondosa e suave como a dola em chamas).
do arcanjo S. Gabriel ao fazer a anunciação a Maria.
93
Garamante: Buraldo, rei dos Garamantes (cf. 1 7).
72
Benedito[. . .} lar: ordens beneditina (inspirada em S.
94
Bento) e carmelita (com origem nos montes Carmelo, De Marm unda: Ormida (cf. 1 8).
em Israel, inspirada nas acções religiosas do profeta
Elias). 95 Clarindo: cf. 24.

73 96
Escolas [. . .} Arq uitas: nas escolas pitagóricas Soridano: cf. 22.
(Arquitas foi um matemático discípulo de Pitágoras)
97
eram proibidas aos alunos as disputas verbais pelo perío­ Avô[. . .} neto: Nemrod é referido na Bíblia como o
do de cinco anos. descendente de Noé que fundou Babel, Nínive e muitas
outras cidades, e foi «poderoso caçador diante da face do
74 Sem intervaÚJ: àquela hora exacta. Senhor» (Génesis, 1 0:8- 1 2). Ariosto, como Boiardo, con­
sidera-o antepassado de Rodomonte e construtor da
75 Atlante: Adante ou Atlas (maciço montanhoso do torre de Babel. Com esta, pretendia expulsar Deus do
Noroeste de África). assento celeste e ficar senhor dos astros. Para esse fim
mandara construir armas perfeitas, as mesmas que
76
Olhos: estrelas. Rodomonte usa.
77 98
Santo consistório: conjunto de todos os santos e bea­ Mallea: região palustre das proximidades de Ferrara,
tos da assembleia celeste (cf. Dante, Paraíso, XXIX:67). junto ao rio Pó.
78 99
Se o teso uro[. . .} teria: cada santo e beato teria neste Porcinas bestas: javalis.
dia a sua estátua em ouro como oferta votiva, se a rique­
100
za (teso u ro) fosse apreciada por Deus como é pelos mor­ Serventia: passagem, corredor.
tais.
101
Era [. . .} golfo : onde o Reno desaguava no golfo de
79
Sacros b ustos: os venerados defuntos. Os romanos Zuidersee, hoje fechado (território holandês).
chamavam «busto» (latim bustum, i) ao lugar onde se
1 02
queimavam ou sepultavam os mortos, e, por extensão, Andropono e Moschino: o primeiro, diz Ariosto que é
aos restos mortais. um sacerdote. Moschino é a alcunha de Antonio
Magnanino, famoso beberrão da corte de Este, que
8
° Forasteiros e citadinos: estrangeiros e franceses. Ariosto conheceu.
81 1 03
L uminares: fogueiras. De baixo para o alto: dum plano inferior ao da mura­
lha principal, que está a ser transposta pelos atacantes.
82
Motor: coração.
I 04
Filho do rei Ulieno: Rodomonte.
83 Terra: Paris.
1 05
Manto: armadura.
84
Antes[. . .} encerra: dentro das muralhas o Sena parte­
1 06
se em dois braços, formando uma ilha (a parte melhor). Os nossos: é o sujeito desta oitava e da seguinte (reto­
As outras duas partes da cidade ficam confinadas entre mado em 1 32:3).
cada um dos braços do rio e o fosso das muralhas.
IO? Guia: Rodomonte.
85
Regira: tem de perímetro.
-.­
CANTO XV

Vencer foi desde sempre coisa honrosa,


quer se vença por sorte ou por empenho;
verdade é que a vitória sanguinosa
ao capitão dará menos engenho;
mas é eternamente gloriosa,
e divino honor tem pelo desempenho,
quando, poupando os seus a qualquer dano,
faz com que fuja o inimigo ufano.
2 A vossa, senhor meu, foi de louvar,
quando ao Leão 1, que é no mar tão feroz,
e ocupara uma e outra beira-mar
do Pó, de Francolino2 até à foz,
tal fizeste que, se outra vez rosnar,
desde que vos veja, não temo a voz.
Como vencer se deve, o demonstraste:
mataste o inimigo e a nós salvaste.
3 O que o pagão, para seu mal tão audaz,
fazer não soube; ao fosso os seus deitou,
onde a fogueira súbita e voraz
não perdoou ninguém, todos matou.
Para todos conter não era capaz
o fosso, mas o fogo os apertou;
apertou-os e a pó os reduziu,
e assim lugar a todos garantiu.
240 ORLANDO FURIOSO

4 Onze mil e vinte e uns oito mais 10 É hora de eu voltar onde deixara
foram parar àquele buraco ardente, o aventureiro Astolfo de Inglaterra,
todos contrariados por demais; que o seu exílio longo já declara,
assim quis seu chefe pouco prudente. e arde de saudade da sua terra;
Ali morreram entre chamas tais, disso muita esperança lhe despertara
e o voraz lume neles meteu dente; aquela que Alcina venceu na guerra7 •
e Rodomonte, causa do seu mal, Que o manda voltar, ela se assegura,
escapou ileso ao tormento mortal; pela via mais rápida e mais segura.
5 ao inimigo e à borda mais interna li E assim uma galé foi preparada,
tinha passado, em milagroso salto. das que os mares já sulcaram a mais fina;
Se houvesse descido àquela caverna3 , e, duvidando que em toda a jornada
para ele era o fim de qualquer assalto. não perturbe a sua viagem Alcina,
O olhar deitou àquela vala inferna, quer Logistilla que com forte armada
e quando o fogo viu subir tão alto, Andronica acompanhe e Sofrosina;
e dos seus o pranto ouviu e o bramido, a fim de no mar árabe e no golfo
ao Céu praguejou em feroz rugido. dos Persas navegar a salvo Astolfo.
6 Entretanto, rei Agramante havia 12 Que perto costeasse, ela preferia,
atacado com ímpeto uma porta; os Citas, Índios, reinos nabateus,
pois, enquanto a cruel batalha ardia e depois fosse, por tão longa via,
onde tanta gente está ferida e morta, a passar pelos Persas e os Eritreus
aquela ele desprevenida cria sendo ao mar boreal a nave arredia8 ,
da guarda, que em luta julgava absorta. onde há sempre vento e obscuros céus,
Com ele está Bambirago, o rei de Arzila4, e pobres de sol algumas estações,
e Baliverzo5, que vício destila; que alguns meses duram nessas nações.
7 e Corineo de Mulga e o rico rei 13 Depois de a fada ter tudo aferido,
Prúsias, o das Ilhas Afortunadas; ao duque deu licença para partir,
e Malabuferso, que tem a grei tendo-o antes ensinado e instruído
de Fez6, onde o Verão faz longas estadas; de coisas mil, que custo a repetir;
outros senhores e pessoas, direi, para vedar que por magia atraído
peritas na guerra e mui bem armadas; seja, para de onde não possa fugir,
e muitos sem valor, de armas desnudos, um livro muito útil lhe tinha dado,
a quem nada valeriam mil escudos. que devia manter sempre a seu lado.
Encontrou o oposto à ideia que fez 14 Como o homem pode evitar encantos
naquela parte, o rei dos Sarracinos; diz o livrinho que ela lhe ofereceu:
lá estava o chefe do Império, o francês para os assuntos achar sem atarantos,
rei Carlos, e alguns dos seus paladinos: de índice e de rubricas o proveu.
Salamone e Uggiero, o dinamarquês, Outra oferta lhe fez, que mais que quantos
dois Guidi e dois Angelini contínuos, dons já houvera em vantagem excedeu:
o duque de Baviera e Ganelone, de horrível som, foi a oferta um corno
e Berlengier, Avolio, Avino e Otone; que faz fugir qualquer que o oiça em torno.
9 muita gente também de pouca monta, 1 5 Digo eu que o corno é de um horrível som,
dos Francos, dos Alamães e Lombardos; que onde se oiça faz fugir a gente:
presente o senhor, cada um se apronta não há no mundo um ânimo tão bom
para fama ganhar entre os mais galhardos. que deixe de fugir assim que o sente;
Disto em outra parte vos darei conta, nada são, comparados com seu tom,
que este duque não deixo entre os mais tardos: som de vento, trovão, terra tremente.
de longe me grita e de longe acena, Agradecendo, despedidas fez,
pedindo que o não guarde em minha pena. e da fada se partiu o inglês.
CANTO XV 241

16 Deixando o porto e as águas mais tranquilas, 22 e encontrar dessa longa costa o fim 17,
com propícia brisa que à popa expira, que faz pensar que as águas são diversas;
pelas facundas e populosas vilas e correr os litorais e o confim
da odorosa Índia o duque gira, de ilhas indianas, árabes e persas 18 ;
encontrando à esquerda e à destra filas vejo outros de Hércules deixar enfim
de ilhas dispersas; e avançando mira a esquerda e direita margens adversas,
a terra de São Tomás9; e o barqueiro do Sol seguindo o caminho rotundo
mais para norte a seguir ruma o cruzeiro. e encontrar novas terras, novo mundo 19 •
10
17 O áureo quersoneso quase roça 23 Vejo a santa cruz, vejo o imperial
a bela armada, o oceano cortando; brasão, na verde margem bem direitos20 ;
o lido costear faz que ver possa vejo uns que as naves guardam no areal,
o Ganges, o mar muita vez branqueando 1 1 ; e outros para tomar as terras eleitos2 1 ;
12 13
vê Taprobana , e Comorin se esboça, vejo dez espantar mil22 , vejo o total
o mar entre os dois lidos se estreitando. dos reinos da Índia23 a Aragão sujeitos;
Depois de muito andar viram Cochim, de Carlos quinto vejo os capitães
e das Índias deixaram o confim. ser das terras achadas guardiães.
1s Correndo o duque o mar com tão fiel 24 Quis Deus que desconhecida fosse esta,
e tão segura escolta, diligente e por mais tempo seja oculta a via;
pergunta a Andronica se daquele e só venha a saber-se quando a sexta
lado do mundo, que ao Sol é poente, e a sétima era já se anuncia24 ;
jamais nave que remo ou vela impele quer torná-la no tempo manifesta,
aparecera nos mares de Nascente; em que ao mundo dará a monarquia,
e se pode ir, sem nunca tocar terra, sob o mais sábio imperador, e justo,
quem de Índia sai, para a França ou Inglaterra. que já houve e haverá depois de Augusto.
19 - Tu deves saber (responde Andronica) 25 Do sangue de Áustria e de Aragão, eu vejo
que o mar abraça a terra em todo o lado; na margem esquerda do Reno nascer
e a água uma com a outra comunica, um príncipe, a cujo valor ensejo
seja onde o mar é quente ou é gelado; nenhum outro tem de se parecer25 •
mas porque aqui em frente se amplifica, Reinou de novo Astreia26 a seu desejo,
e o mar muito para sul tem ocupado ou antes, de morta a fez reviver;
a Etiópia, a Neptuno, foi dito, virtudes que perdeu quando a baniu,
passar por esse ponto é interdito 14 . ao mundo devolveu seu poderio.
20 Por isso, do nosso índico Levante 26 Por tal mérito, a Bondade Suprema,
nenhuma nave para a Europa parte; não só do grande império foi seu plano
nem da Europa parte navegante que houvesse também ele o diadema
que de chegar aqui queira ter arte. de Augusto, Severo, Marco, Trajano27 ;
O ver tão longa terra por diante mas de terras que, duma à outra extrema,
faz com que dela cada um se aparte; nelas se não punha o Sol nem o ano28 ;
pois todos julgam, vendo-a assim tão longa, e deseja que sob este imperador
que ao outro hemisfério ela se prolonga. um só rebanho haja, e um só pastor.
21 Mas daqui a anos vejo sair, 27 E, para que sejam mais bem sucedidos
das terras mais extremas que há a poente, os planos no Céu desde sempre escritos,
novo Tífis e Argonautas, e abrir a suma Providência, como adidos,
a estrada ignorada até ao presente 1 5 ; deu-lhe em terra e mar capitães invictos.
vejo contornar África, e seguir Vejo Hernán Cortés29, por quem submetidos
ao longo da costa da negra gente, novos povos são, e ao império adstritos,
passando aquele ponto onde o Sol parece e reinos tão remotos no Oriente
deixar Capricórnio, e que a nós regresse 16 ; que os ignoramos nós, indiana gente.
242 ORLANDO FURIOSO

28 Vejo Prospero Colonna30 , e de Pescara 34 Estes, ou qualquer que sua pátria tenta
vejo um marquês3 1 , e perto não ignoro de livre tornar serva ruborize;
um jovem de Vasto32, que fazem cara e, onde o nome de Doria se aventa,
parecer a bela Itália aos Lírios de Ouro33 ; de olhar homem nos olhos não se guise.
vejo que a ultrapassar se prepara Vejo Carlos que o galardão lhe aumenta:
o terceiro os outros, para ter o louro; além da que quer que ele em comum pise44,
como o cavalo que em último parte dá-lhe a rica cidade que aos Normandos
e de ser primeiro a chegar tem arte. dará azo a na Apúlia terem mandos45 •
29 Vejo tanto o valor, e vejo a fé 35 Não só a este capitão cortês
tão grande de Alfonso (seu nome atesto), deve o magnânimo Carlos mostrar-se,
que com tão pouca idade (mais não é mas a todo o que ilustre empresa fez,
que além do vigésimo ano o sexto) e de seu sangue dar não fez disfarce.
o imperador a tropa dar-lhe vê; Cidades poder dar o satisfez
a qual, salvando, não só salva o resto, a um fiel; mais o vejo alegrar-se
mas de tornar o mundo obediente, por o fazer a quem tal merecer,
com este capitão estará assente34. que de impérios e reinos rico ser. -
30 Como com estes, aonde ir por terra 36 Assim das vitórias, as quais passado
se possa, aumentará o império antigo, grande número de anos, tudo indica,
também por todo o mar que entre si cerra os capitães a Carlos terão dado,
Europa lá, cá o africano abrigo3 5 , com o duque discursava Andronica;
será vitorioso em toda a guerra, enquanto os ventos do nascente lado
pois de Andrea Doria36 será amigo. vai ela moderando e os domestica;
O Doria, que aos piratas deu enfado faz que ou um ou outro propício seja,
e os correu deste mar, por todo o lado. e amplia-os e abranda-os, como deseja.
31 Não foi Pompeu37 tanto como este digno, 37 Entretanto o mar pérsico observaram,
embora aos corsários desse <lesares; e como se estende em amplos alagos;
porque eles, ao império mais condigno e logo do golfo se aproximaram
que já houve, não podiam ser pares38 ; que teve nome dos antigos Magos46 •
mas desse Doria o engenho consigno, Aqui a porto foram, e atracaram
pois com sua força purgará os mares; de popa para a frente os navios vagos;
de Gibraltar ao Nilo, onde aparecer dali, salvo de Alcina e sua guerra,
seu nome, toda a costa vai tremer. Astolfo tomou caminho por terra.
32 Vejo Carlos, que com sua escolta aporta 38 Passou mais do que um bosque e um terreno,
(desse tal capitão nomeado atrás) por montes e vales foi caminhante;
a Itália, sendo ele a abrir-lhe a porta, onde, na escuridão e no sereno,
para vir tomar a coroa que o compraz39 • ladrões teve por trás e por diante.
Vejo que o prémio que daí reporta Viu leões, dragões cheios de veneno,
não é para si, à pátria prenda faz: e outras feras, em seu caminho errante;
pede e obtém que seja libertada40, mas, assim que levava à boca o corno,
quando outro a teria a si sujeitada. fugiam, não lhe dando mais transtorno.
47
33 Essa devoção que ele à pátria esboça 39 Vem pela Arábia que é dita Feliz ,
merece mais louvor que uma batalha rica em mirra e em odoroso incenso,
que em África ou Espanha, ou na terra vossa, que a fénix única48 para poiso quis,
ou França ou Tessália, Júlio41 amealha. escolhendo-o entre todo o mundo imenso;
Nem o grande Octávio, ou quem lhe faz mossa, às ondas chegou, pelos Hebreus hostis
seu par António42, tem que ele mais valha ao Egipto, por divino consenso:
pelos feitos seus; que o louvor não reforça Faraó e todos seus submergiu49 •
o ter usado contra a pátria a força43• Para a Terra dos Heróis5 0 depois seguiu.
244 ORLANDO FURIOSO

40 Ao longo do rio Trajano51 cavalga 43 Não irás mais que seis milhas adiante,
no corcel que não tem no mundo par, e acharás a sanguinosa parança
que com tal ligeireza corre e galga em que se alberga um horrível gigante,
que na areia não grava o seu pisar; o qual em estatura oito pés avança.
erva não calca, neve não amalga, Não tenha cavaleiro nem viajante
com os pés enxutos passaria o mar; de se separar dele vivo esperança,
e tanto é veloz e vai com tal mecha que alguns degola, e há quem ele esfole,
que ultrapassa o vento, o raio e a flecha. e outros esquarteja ou vivos engole.
41 É este o corcel que foi de Argalia; 44 Prazer, entre outras maldades, recebe
pela chama e pelo vento foi concebido; duma rede que tem, mui bem tecida:
sem feno e sem cevada, se nutria pouco distante do tecto a embebe,
do ar; por Rabicano é conhecido. e no meio do pó está tão bem escondida
O duque vem seguindo a sua via, que quem já não souber não se apercebe,
onde pelo Nilo é tal rio52 recebido; tão fina é, tanto a fez à medida;
e, antes que tivesse chegado à foz, com gritos os viajantes ameaça,
viu um navio que a si vinha, veloz. e cheios de medo com a rede os caça.
42 Vem à popa, com sua barba comprida 45 E, às gargalhadas, enrolados nela
e branca, navegando um eremita, os arrasta para dentro do coberto;
que para o navio o paladirn convida, nem cavaleiro poupa nem donzela,
e: - Meu bom filho (de longe lhe grita), seja seu mérito certo ou incerto;
se não tens em ódio tua própria vida, comida a carne, os miolos desvela,
se não queres hoje da morte ter visita, suga-os e dá os ossos ao deserto;
digna-te vir pisar este outro chão, e de peles humanas, toda em torno,
que essa via é para a morte direcção. tem sua morada macabro adorno.
46 Toma, filho, esta via que eu te digo,
que daqui até ao mar é segura. -
- Agradeço-te, pai, mas eu prossigo
(responde o duque com desenvoltura),
porque pela honra não receio perigo,
a qual mais que a vida me dá agrura.
Falas-me em vão, que o rio não passo nunca;
vou em frente, ao encontro da espelunca.
47 Se fugir, vou com desonra salvar-me;
mais que à morte, a tal salvação me esquivo.
Se lá for, o mais que pode achacar-me
é ficar, corno os mais, da vida privo;
mas querendo Deus com as armas ajudar-me,
para que ele morto fique e eu fique vivo,
a mil tornarei segura esta via:
será maior que o dano a regalia.
48 Assim, a morte de um só é consolo,
pois dá salvação a gente infinita. -
- Vai em paz, filho, mais não apostolo;
para defender tua vida, Deus permita,
venha o anjo Miguel do sumo pólo. -
Disse, e benzeu-o, o simples eremita.
Astolfo junto ao Nilo seguiu estrada,
mais confiante no som53 que na espada.
CANTO XV 245

49 Há, entre o fundo rio e o lameiro54 , 53 Assim que o paladino a vir o vê,
pequeno atalho na borda arenosa; pára o corcel, por ter cerco respeito,
a erma casa interrompe o carreiro, não vá nos seus laços meter o pé,
do humano comércio silenciosa 55 • tal como o bom velhote achara jeico56 •
Cabeças e membros têm poleiro Do seu mágico corno aqui dá fé,
em torno, de gente tão desditosa. e este ao soar produz o usado efeito:
Não há janela nem relevo algum ao gigante, que o ouve, medo faz
em que pendente não se veja um. tal que volta com seus passos atrás.
50 Como em aldeias alpinas não reles 54 Astolfo sopra, girando a mirada,
sói caçador, em grande perigo incurso, sempre com medo que a rede o invista.
pregar nas portas as hirsutas peles, Foge o vilão em incerta passada,
horríveis patas e cabeças de urso, pois com a coragem perdera a vista.
cal fazia o cruel gigante àqueles Tal é o temor que não vê a estrada,
que eram mais honrosos para o seu percurso. e nas próprias armadilhas se enrista:
De muitos mais estão espalhados os ossos; na rede cai; logo ela se descerra,
de sangue humano estão cheios os fossos. enrola-se nele e deita-o por terra.
51 Caligorante está em pé à porta, 55 Astolfo vê cair o grande peso,
que é este o nome do monstro cruel e corre à pressa, já com confiança;
que orna a sua casa com gente morta, desmonta, empunha a espada, e com desprezo
como outros de ostro e dourado dossel. vai para fazer de mil almas vingança.
De alegria, este a custo se comporta Mas pensa que quem mata um que está preso
quando ao longe vê o duque e o corcel; de poltrão mais que herói tem semelhança;
pois já dois, quase três meses havia, tão atados tem pés, braços, pescoço
que um cavaleiro não ia àquela via. que nem mover-se pode aquele colosso.
52 Para a palude, que estava em escuro envolta 56 Aquela rede fizera Vulcano
pelas muitas canas, ele à pressa vai; de fino fio de aço, mas com cal arte
conjectura que, correndo-lhe em volta, que vão teria sido todo o afano
nas costas do paladim depois sai; para desmanchar a mais pequena parte;
da rede oculta ali fará recolca, era a mesma que já em tempo arcano
convencido de que ele nela cai, de pés e mãos ligou Vénus e Marte;
como fizera aos outros peregrinos, fê-la o ciumento para aquele efeito:
que ali tinham marcados seus destinos. para ambos enredar juntos no leito57 •
246 ORLANDO FURIOSO

57 Mercúrio ao ferreiro a rede ladroa,


para Clóris apanhar com tal anzol;
Clóris tão formosa, que pelo ar voa
atrás da Aurora, ao aparecer do Sol,
e que do seu regaço espalha à toa
lírios, violetas, rosas, girassol.
Mercúrio esta ninfa tanto esperou
que um dia no ar com a rede a apanhou.
58 Onde o rio etíope no mar tem topo58 ,
parece que a deusa voando fosse.
Depois, de Anúbis no templo, em Canopo59 ,
por séculos a rede conservou-se.
Três mil anos depois, o misantropo
Caligorante desse templo a trouxe:
da rede o ladrão houve propriedade,
saqueou o templo, deu fogo à cidade.
59 E adaptou-a de tal modo à areia
que todos quantos a quem dava caça
nela caíam; mal tocada a teia,
pescoço, pés e braços embaraça.
Dela tirou Astolfo uma cadeia,
e as mãos atrás àquele vilão enlaça;
de bem ligar-lhe o tronco não desleixa,
para não soltar-se; e então erguê-lo deixa,
60 não sem antes de outros nós desprendê-lo, 63 Não era grande o Cairo nessa hora,
pois estava mais dócil que uma donzela. como na nossa era que é se diz:
Pensa levá-lo e dar a conhecê-lo, que não cabia o povo que ali mora
por vilas, aldeias, levado à trela. em dezoito mil burgos de um país;
Quer inda a rede, pois que ela martelo que as casas têm três pisos, mas fora
ou lima jamais fez coisa mais bela: inda assim muitos dormem, pelos lancis;
carrega-a aquele que leva pela cadeia, e que o sultão habita num castelo
e que em triunfo atrás de si passeia. de espantoso tamanho, rico e belo;
61 O seu elmo e o seu escudo deu-lhe até, 64 e que tem quinze mil dos seus vassalos,
como a escudeiro, e seguiu seu caminho, sendo eles todos cristãos renegados61,
espalhando alegria onde põe o pé, com mulheres, com família e cavalos,
pois seguro ora vai viajor sozinho. debaixo dum só tecto arrebanhados.
Astolfo vai andando, até que vê Astolfo quer ver do Nilo os resvalos,
que aos sepulcros de Mênfis é vizinho; e quanto entra no mar daqueles lados
Mênfis pelas pirâmides é famoso, de Damieta; pois, ouviu dizer,
e em frente tem o Cairo populoso60 • quem o passa há-de ser preso ou morrer.
62 O povo todo a correr atraía, 65 Pois na margem do Nilo, junto à foz,
para ver o gigante desmesurado. se abriga um ladrão dentro duma torre,
- É possível (um a outro dizia) para os viajores e estrangeiros feroz,
que o pequeno tenha o grande ligado? - que para os roubar dali ao Cairo corre.
Astolfo só a custo andar podia, Ninguém lhe resiste, e diz essa voz
tanto a gente o aperta de todo o lado; que tirar-lhe a vida a ninguém ocorre;
e, como cavaleiro de alto valor, mais de cem mil feridas lhe têm feito,
todos o admiram e rendem honor. mas de o matar ninguém teve o proveito.
248 ORLANDO FURIOSO

66 Para ver se pode a Parca subtraí-lo n Duas damas discretamente ornadas,


a seu fio, que assim a vida lhe nega62, de branco uma, outra de negro vestida,
Astolfo vai ao encontro de Orrilo que daquela luta eram as culpadas,
(assim se chama), e a Damieta chega; estavam observando a dura investida.
e, chegado onde entra no mar o Nilo, Eram estas duas bondosas fadas
vê que na margem grande torre se apega, que aos filhos de Olivier deram guarida,
na qual tem abrigo a alma encantada depois que em pequenos foram raptados
que dum gnomo nasceu e duma fada. pelas garras de dois animais alados67 ,
67 Ali encontra uma cruel batalha63 73 que os raptaram a Gismonda fecunda,
entre Orrilo e dois guerreiros acesa. e levaram para terra inadvertida.
Orrilo, só, os outros dois trabalha, Mas não é preciso que eu mais difunda,
que com muito custo encontram defesa, que a história é de todos bem conhecida;
e, quanto em armas um e outro valha, embora o autor no pai se confunda,
a todo o mundo mostra com clareza. que em vez do verdadeiro outro apelida68 •
Os filhos de Oliviero tinha diante: Fazem ora os dois jovens o duelo,
o branco Grifone, e o negro Aquilante64 • porque as damas pediram para fazê-lo.
68 É verdade que o necromante viera 74 O lugar já do Sol não tinha adorno
à batalha com uma grande vantagem; (alto ainda nas ilhas da Fortuna69) ;
pois consigo em campo tinha uma fera65 as sombras tudo encobriam em torno,
que só se encontra naquela paragem; e muito indecisa a Lua se enfuna,
nas margens e no rio ela se gera, quando Orril ao seu forte faz retorno,
é o corpo humano a sua pastagem: uma vez que à irmã branca e à bruna
das pessoas míseras e incautas, comprazeu protelar esta porfia
dos infelizes viajantes e nautas. até que surja o sol do novo dia.
69 A besta já na areia junto ao porto, 75 Astolfo, que Grifone e Aquilante,
pela mão dos dois irmãos morta, jazia; pelas insígnias e_ pelo ferir galhardo,
por tal, para Orril não é desconforto tinha reconhecido muito ante,
se ao mesmo tempo cada um o feria66 • para os saudar não foi altivo nem tardo.
Muito o tinham mutilado, não morto, Vendo eles que o que trazia o gigante
nem mutilando-o matar se podia; era o senhor do brasão do leopardo
se uma mão ou perna cortada lhe era, (assim na corte o duque é conhecido),
de novo a punha, como se de cera. com igual afecto foi recebido.
70 A cabeça até aos dentes lhe abriu 76 As damas levaram os cavaleiros
Grifone, e Aquilante até ao peito. para repousar num palácio vizinho.
Dos seus golpes ele apenas se riu, Ao encontro donzelas e escudeiros
e exaltam-se eles por não ter efeito. com tochas vieram, a meio caminho.
Quem argento-vivo verter já viu Os corcéis deram aos palafreneiros,
(foi pelos alquimistas mercúrio eleito) desarmaram-se e, num jardim de azinho,
seus fragmentos separando e juntando, mesa posta encontraram para cear,
ao ouvir isto, vá-se dele lembrando. onde uma amena fonte tem lugar.
71 · Se a cabeça lhe cortam, ele se inclina 77 Mandam ligar o gigante à verdura,
e vai apalpando até encontrá-la; com mais uma cadeia muito grossa,
pelos cabelos lhe pega ou pela narina, a um carvalho que há muito ano dura,
e ao pescoço não demora a colá-la. e ao qual ele não pode causar mossa;
Grifone ora lhe pega e à marina dez serventes lhe farão de moldura,
a lança, mas Orril nada se rala: para que de noite soltar-se não possa,
mergulha até ao fundo como um peixe ir atacá-los, e causar-lhes mal,
e traz a cabeça, sem que se queixe. quando repousam sem guarda pessoal.
CANTO XV 24 9

78 Na abundante e sumptuosa mensa, 84 O tonto, que o facto não percebeu,


onde mais que comer prazer se expande, tacteava o chão, procurando a testa;
grande parte do falar se dispensa ouvindo que o outro o passo estendeu,
a Orrilo, e àquele milagre grande, levando-lhe a cabeça para a floresta,
que parece um sonho a quem em tal pensa, sem delongas para o cavalo correu,
que braço ou cabeça ao chão se lhe mande, montou-se nele e a correr se apresta.
que o apanhe e de novo dele se muna, Queria gritar-lhe: - Espera, volta, volta! -,
e mais feroz à luta se reúna. mas tem-lhe o duque a boca e não a solta.
70
79 Astolfo, no livro que tinha a jeito , 85 Que dos pés não lhe haja tolhido o passo
lera (o que a quebrar encantos ensina) já se consola, e segue a toda a brida.
que a Orrilo não sai a alma do peito Para trás o deixa ficar grande espaço
enquanto um pêlo fatal tem na crina; Rabicano, tão ágil na corrida.
sendo arrancado ou cortado, a preceito Astolfo entretanto vai pelo cachaço,
a alma do corpo se lhe elimina. desde a nuca à sobrancelha franzida,
Tal diz o livro, mas não a maneira buscando à pressa se o pêlo fatal
de achar o cabelo em tal cabeleira. reconhece que Orril torna imortal.
80 Da vitória Astolfo se comprazia, 86 Numa cabeleira tão basta e forte,
como se houvesse já levado a palma; nenhum cabelo é mais longo e riçado:
e com poucas estocadas esperança havia irá pois Astolfo escolher à sorte
de ao necromante tirar pêlo e alma. o pêlo que há-de ser eliminado?
Porém aquela empresa, prometia, - Melhor (disse) é que todos puxe ou corte. -
para a resolver só ele a força açaima. Sem navalha ou tesoura ter ao lado,
Orril mata, desde que satisfaça recorre à sua espada sem mais peia,
aos dois irmãos que ele esta justa faça. que tão afiada é que até barbeia.
a1 Dão-lhe de boa vontade a empresa, 87 Tendo a cabeça pela bossa nasal,
certos de que ele irá cansar-se em vão. atrás e à frente toda a descabela.
Já outra aurora ao céu dava clareza, Cortou por acaso o pêlo fatal:
quando Orrilo dos muros veio ao chão. a cara faz-se tetra e amarela,
Entre ele e o duque houve batalha acesa, revira os olhos, e mostra sinal
um com a maça, outro de espada em mão. de se ter apagado a sua estrela;
Espera Astolfo dar-lhe um golpe entre mil, e o corpo que cortara pelo pescoço
que arranque o espírito do corpanzil. cai da sela, num último alvoroço.
82 Ora lhe decepa o punho com a maça,
ou um ou outro braço com a mão;
vai-o cortando através da couraça,
e fazendo ir seus pedaços ao chão;
mas recolhendo sempre vai, da praça,
os seus membros Orrilo e fica são.
Se em cem pedaços o tivesse feito,
em pouco tempo o veria perfeito.
83 Ao fim de mil golpes um lhe acertou
onde o queixo aos ombros faz ligamento:
o elmo e a cabeça lhe arrancou,
e a desmontar não foi que ele mais lento.
A sangrenta cabeleira agarrou,
e subiu para o cavalo num momento;
levou-a, correndo de encontro ao Nilo,
para que não a recuperasse Orrilo.
CANTO XV 251

88 Astolfo, para as damas e cavaleiros 94 Mas, antes de iniciarem a viagem,


voltou, e a cabeça na mão trazia, cada um de provisões se socorre,
que sinais de morte dava certeiros, carregando o gigante com a bagagem,
e o corpo apontou que longe jazia. que até podia levar uma torre.
Não sei bem se a olharam prazenteiros, No final do caminho áspero e selvagem,
embora lhe mostrassem cortesia; dum alto monte à sua vista ocorre
pois a roubada vitória, talvez, a santa terra, onde o Supremo Amor
no peito dos irmãos inveja fez. lavou com o seu sangue o nosso error.
89 E que este fim tal batalha alcançasse, 95 Encontram à entrada da cidade
creio que não fosse às duas damas grato. um jovem gentil, um seu convivente:
Estas, para que mais tempo se afastasse Sansonetto de Meca, mais que a idade,
dos dois irmãos o doloroso facto na flor da juventude, era prudente;
que em França parece que os esperasse, como bom cavaleiro e pela bondade
instigaram Orril ao desacato, famoso, e assaz respeitado entre a gente.
com a esperança de ali os entreter Orlando à nossa fé o converteu,
até o mau augúrio fenecer. e o baptismo com sua mão lhe deu.
90 Logo que o castelão de Oamieta 96 Ali quer construir, para que se afronte
se certificou da morte de Orrilo, o egípcio califa, uma fortaleza;
uma pomba soltou que, qual estafeta, e quer circundar o Calvário monte
na asa leva a carta para servi-lo. dum muro em duas milhas de longueza.
Para o Cairo voou, donde outra gazeta Acolheu-os ele com aquela fronte
outra ave levou, como é ali estilo; que dá do interno amor grande clareza,
e em poucas horas no Egipto é sabido e mandou-os entrar e, mui cordial,
que Orrilo, o vilão, tinha falecido. alojou-os em seu paço real.
91 O duque, terminada a sua empresa, 97 Governava ele a cidade, e em vez
aconselhou os nobres rapagões, de Carlos73 regia o império justo.
os quais já na ideia tinham firmeza, O duque Astolfo a ele oferta fez
sem precisar conselho ou aguilhões, daquele tão desmesurado busto74,
a da santa Igreja fazer defesa, que para carregar pesos vale por dez
e do Romano Império, das razões, bestas de carga, tanto era robusto.
deixando as batalhas do Oriente Deu-lhe Astolfo o gigante, e deu também
para procurar glória entre a sua gente7 1 • a rede com que o fizera refém.
92 Grifone e Aquilante recebeu
cada um de sua dama cedência;
a elas muito custou e doeu,
mas não souberam opor resistência.
Com eles Astolfo à destra volveu,
pois decidiram fazer reverência
aos lugares santos, de Deus a morada;
fica a França para depois relegada.
93 Podiam seguir a via esquerdina,
que era mais agradável e mais plana,
e nunca se afastavam da marina;
mas foram pela direita, mais tirana,
que à alta cidade da Palestina72
menos seis dias que essa o rumo aplana.
Água e erva se encontram nesta via;
de tudo o mais, porém, há carestia.
252 ORLANDO FURIOSO

98 Em paga Sansonetto ao duque deu 1 02 Em Constantinopla a tinha deixado


para a espada uma correia rica e bela; prostrada por uma febre severa.
e deu esporas para um e outro pé seu, Agora vê-la, quando regressado,
que de ouro tinham roseta e fivela; e sua companhia gozar, espera,
o par ao cavaleiro pertenceu que para Antioquia, ouve o desgraçado,
que libertou do dragão a donzela75 : com seu novo amante ela se movera,
em Jaffa com muito espólio as ganhou achando mais não dever consentir
Sansonetto, quando Jaffa76 tomou. ter de, em tão fresca idade, só dormir.
99 Num mosteiro das culpas refrigério 1 03 Desde que lhe deram a triste nova,
tiveram, que era em exemplos famoso, suspirava Grifone noite e dia.
da paixão de Cristo cada mistério Prazer, que os outros alegre e comova,
contemplando; em todos os templos pouso a ele ainda mais entristecia
fizeram, que os Mouros com vitupério (pense-o aquele em quem Amor faz prova
usurparam de modo tão forçoso. de seus dardos, e sua têmpera avalia).
Europa em armas a guerra deseja E mais que outro martírio lhe pesava
em toda a parte, e não onde se almeja. que de seu mal contar se envergonhava.
1 00 Enquanto o espírito tinham devoto, 1 04 Isso, por antes já ser muito instante
em perdões e cerimónias penitentes, em repreendê-lo por tal amor
um grego viajante, de Grifon noto, o seu mais prudente irmão Aquilante,
notícias lhe deu graves e pungentes, que o quisera desse amor desertor;
de seu actual plano e antigo voto em sua opinião, estava perante
muito desconformes e divergentes; a que entre as mulheres vis era a pior.
tanto elas o coração lhe inflamaram Defende-a Grifon se o irmão a dana;
que a oração da ideia afastaram. cada um por vezes a si se engana.
101 Amava Grifone, por desventura, 105 E pensou para si, sem nada dizer
uma donzela de nome Orrigille; a Aquilante, sozinho ir direito
com rosto mais belo ou melhor estatura a Antioquia, e de lá trazer
outra não se encontraria entre mil; aquela que tem gravada no peito;
por vilas e aldeias, de tal natura achar o que lha tirou, e fazer
se procurardes, desleal e vil, vingança tal que ganhe fama o feito.
e na terra firme e ilhas do mar, Direi como essa ideia resolveu,
não creio que uma acheis que seja par. no outro canto, e quanto sucedeu.

NOTAS

1 7 Aq uela { .. }
Leão: Veneza, por antonomásia. guerra: Logistilla.
2 Francolino: povoação da margem direita do Pó, pró­ 8 Que perto { . .} arredia: Logistilla prefere que Asrolfo
xima de Ferrara. regresse ao Ocidente costeando a China, a fndia, e atra­
vessando o oceano fndico até ao golfo Pérsico, a que
3 Caverna: fosso. venha pelo Norte, através do oceano Glacial Árctico.
4 Bambi 9 Terra de São Tomds: costa do Malabar, perto de Madrasta,
rago { ..} Arzi'4: cf. xiv:23.
mas aqui é confundida com outro Malabar, na penínsu­
5 Baliverzo: cf. XIV:24. la do Camboja.
6 10 Qµersoneso: península (palavra de ori m grega). Refere­
Corineo { . .} Fez: já referidos no Canto xiv (Corineo ge
em 23, Prúsias em 24, e Malabuferso em 22). -se à península de Malaca, rica em jazidas de ouro (áureo).
CANTO XV 253

28 Terras [. . .] ano: eram tão vastos os domínios de Carlos


110 Ganges [. . .] branqueando: vai passando pelas vá-
rias fozes do Ganges, que branqueiam o mar com a sua V que neles nunca se punha o Sol e, portanto, não ocor­
espuma. riam os ciclos anuais.
2 29
1 Taprobana: nome clássico da ilha de Ceilão. Herndn Cortés: conquistador espanhol. Participou
na conquista de Cuba (1 5 1 1 ), e em 1 5 1 8 conquistou o
13
Comorin: cabo Comorin, na costa indiana oposta a México, pondo termo ao Império Azteca.
Ceilão.
30
Prospero Colonna: príncipe romano que se associou
14
Se amplifica [. . .] interdito: como a África (Etiópia) se primeiro aos Franceses e depois aos Espanhóis.
estende muito para sul, diz-se que o mar (Neptuno) ali
31
encontra um obstáculo que não permíte ir mais além. Pescara [. . .] marquês: Francesco d'Avalos, marquês de
Pescara, um dos comandantes de Carlos V contra os
15
Terras [. . .] presente: alude às viagens dos navegadores Franceses. Casou com Vittoria Colonna, ilustre poetisa e
portugueses ao longo da costa africana, e depois até à amiga de vários artistas, entre os quais Miguel Angelo.
Índia.
32
jovem de Vasto: Alfonso d'Avalos, marquês de Vasto
16
Passando [. . .] regresse: indo além do trópico de e de Pescara, capitão de Carlos V contra os Franceses.
Capricórnio (onde, após o solstício de Inverno, o Sol Recebeu Ariosto como enviado de Alfonso d'Este,
parece retroceder). A corte de Ferrara recebia da tendo-lhe dado uma pensão vitalícia extensiva aos seus
Península Ibérica os mapas e cartas de navegação que herdeiros. Ariosto ofereceu-lhe uma das três primeiras
reproduziam essas viagens e as terras descobertas, aos cópias do seu poema.
quais Ariosto tinha acesso.
33
Cara [. . .] Ouro: os capitães de Carlos V tornaram
17
E encontrar [. . .] fim: o cabo da Boa Esperança, difícil (cara) aos Franceses a conquista de Itália.
dobrado por Bartolomeu Dias.
34
A qual [. . .] assente: salvando o exército, conserva
18
E correr [. . .] persas: ir até à fndia (Vasco da Gama). aquilo que já tem (o resto) e conseguirá que todo o
mundo se lhe subjugue, graças a este capitão.
35
0 mar [. . .] abrigo: o Mediterrâneo.
19
Vejo outros [. . .] mundo: vê outros que partem dei­
36
xando para trás as opostas margens do estreito de Andrea Daria: almirante genovês, que esteve primei­
Gibraltar. Fala da viagem de Cristóvão Colombo para ro do lado dos Franceses e depois se passou para os
ocidente, partindo de Sevilha pelo Guadalquivir, que o Espanhóis. Famoso por ter dado caça aos piratas no
levou à América (novo m undo) . Mediterrâneo.
20 37
Imperial [. . .] direitos: as insígnias do imperador espa­ Pompeu: Pompeu, o Magno, foi encarregado pelo
nhol, Carlos V. senado romano de expulsar os piratas do Mediterrâneo,
no séc. I a. C.
21
�jo uns [. . .} eleitos: enquanto uns ficam a guardar os
38
navios, outros vão apoderar-se das terras descobertas. Porque [. . .] pares: porque os piratas não podiam
competir com as forças do poderoso império, que esta­
22
Dez espantar mil: dez europeus provocavam a fuga vam à disposição de Pompeu. Ao passo que Doria lutou
de mil indígenas. apenas com os seus meios e força.
23 39
Índia: fndias Ocidentais, nome que designou as ter­ Carlos [. . .] compraz: para vir receber a coroa de Itália,
ras descobertas por Colombo, devido à sua convicção de Carlos V foi transportado até Génova por Andrea Doria
que tinha chegado à fndia por ocidente. no seu navio e sob sua escolta.
24 40
Sétima [. .. } anuncia: sete séculos separam as eras de O prémio [. . .] libertada: como compensação, Carlos
Carlos Magno e de Carlos V. V concedeu a Doria o principado de Génova. Este, em
vez de sujeitar a cidade, deu-lhe a liberdade, constituin­
25 Mais sdbio [. . .] parecer: Ariosto faz o elogio de Carlos do-a república.
V, imperador da Alemanha e rei de Espanha (Carlos i),
41
que governou o maior império europeu desde Carlos Júlio: Júlio César.
Magno, em extensão, população e riqueza. Era filho de
42
Filipe da Áustria e de Joana de Aragão. Octdvio [. . .] António: Octaviano Augusto e seu rival
Marco António.
26
Astreia: deusa da justiça e da virtude.
43
Louvor [. . .] força: o terem usado violência contra a
27
Augusto [. . .] Trajano: Augusto, Septímio Severo, pátria através da guerra civil retira mérito aos seus feitos.
Marco Aurélio e Trajano, imperadores romanos.
254 ORLANDO FURIOSO

44 61
Além [ . .} pise: além de Génova, que partilha com os Quinze [. .. } renegados: os mamelucos, ex-cristãos ou
seus cidadãos. filhos de cristãos convertidos ao islamismo, numa pri­
meira fase escravos, e que depois constituíram a guarda
45
Cidade [..} mandos: dá-lhe a senhoria de Melfi, na pessoal do sultão.
Basilicata, cidade de onde partiu Guilherme, o Normando,
62
para conquistar a Apúlia e a Sicília. Parca [. .. } nega: as três Parcas (Atropo, Cloto e Láquesis)
regulavam a duração da vida de cada humano através de
46
Golfo [. . .} Magos: baía do Bahrein, no golfo Pérsico, um fio que a primeira fiava, a segunda enrolava e a ter­
que na Antiguidade recebeu o nome de uma antiga tribo ceira cortava.
persa, os Magos.
63
Batalha: já iniciada no O. Innamorato. Boiardo dei­
47
Ardbia [. .. } Feliz: o Norte da Arábia. xou a cena no ponto em que um cavaleiro se aproxima.
Ariosto retomou o episódio, fazendo de Astolfo esse
48
Fénix única: ave mitológica que vivia muitos séculos. cavaleiro.
Por ser a única da sua espécie não se podia reproduzir; ao
64
sentir aproximar-se o fim dos seus dias, reunia plantas Grifone [. .. } Aqui/ante: irmãos gémeos, filhos de
aromáticas e incenso que fazia arder, imolando-se, e re­ Oliviero e de Gismonda: a Grifone chamavam o branco,
nascia das cinzas. por ter sido criado por uma fada vestida de branco, e a
Aquilante o negro, porque a sua fada protectora vestia de
49
Ondas [ .. } submergiu: o mar Vermelho, que se negro.
fechou sobre os Egípcios depois de se abrir para deixar
65
fugir o povo hebreu. Fera: crocodilo, o qual já fora morto no lnnamorato.
50 66
Terra dos Heróis: Heroópolis, cidade do antigo A Orril [. .. } feria: não está em desvantagem,' porque
Egipto, no golfo de Suez. trouxera o crocodilo.
51 67
Rio Trajan_o: canal que unia o Nilo ao mar Vermelho, Dois animais alados: uma águia e um grifo, deles
e que foi restaurado pelo imperador Trajano. derivando os nomes dos irmãos.
52 68
Tal rio: o canal Trajano. A história [ .. } apelida: Ariosto alude a um poema do
séc. xv, Uggeri il Danese, que refere este episódio mas dá
53
No som: no som do corno mágico. outro nome ao pai dos cavaleiros. Ele, porém, mantém o
nome atribuído por Boiardo.
54
Lameiro: terras alagadas devido às cheias do Nilo.
69
Alto [. .. } Fortuna: nas Canárias (ilhas Afortunadas),
55
Do humano [. .. } silenciosa: privada de presença ou mais a ocidente, ainda era dia.
actividades humanas.
70
Livro [. .. } jeito: o livro que lhe deu Logistilla à parti­
56
Tal [. .. } jeito: como o eremita achara provável. da (cf. 14).
57 71
A mesma [. .. } leito: Vulcano fabricou uma rede com A sua gente: a cristandade.
a finalidade de apanhar no leito a mulher, Vénus, com
72
Marte, seu amante (Homero, Odisseia, VIIl:272 ss.) . Alta [. . .} Palestina: Jerusalém.
58 Onde [. .. } topo: na foz do Nilo. 73 Em vez de Carlos: por nomeação de Carlos Magno.

59 Templo [. .. } Canopo: em Canopo (perto de Alexandria, 74


Desmesurado busto: o gigante Caligorante
junto a um dos braços do delta do Nilo), no templo de
75
Anúbis, deus egípcio com cabeça de chacal que vigiava Cavaleiro [. .. } donzela: S. Jorge.
os túmulos.
76
jajfa: cidade israelita do litoral, hoje integrada na
60
Mênfls [. ..} populoso: Mênfis, capital do antigo Egipto, zona urbana de Telavive.
fica na margem esquerda do Nilo, onde se encontram as
pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos, enquanto o
Cairo se situa na margem oposta do rio.

CANTO XVI

Graves penas se sofrem por amor,


delas já padeci a maior parte;
as que a meu dano foram, sei de cor,
dessas posso falar por minha arte.
Por tal, se faço ou se antes fiz clamor,
em viva escrita ou em falado aparte,
que um mal é leve, um outro amargo e fero,
façam fé porque o meu juízo é vero.
2 Digo, disse, e direi enquanto viva
que, quem se encontra em digno laço preso
e vê que a si a sua dama é esquiva,
em tudo adversa ao seu desejo aceso,
se bem que Amor da recompensa o priva,
dando o seu tempo e fadiga ao desprezo,
se em digno objecto pôs seu coração,
que definhe e morra, mas chorar não.
3 Chorar deve aquele que foi feito servo
duns olhos vagos e bela madeixa,
os quais escondam um coração protervo,
que pouco tem de puro e muita pecha.
Quereria fugir, mas como cervo
ferido, para onde for, transporta a flecha.
De si e de seu amor tem vergonha,
não ousa contá-lo, e em vão sarar sonha.
4 Encontra-se Grifone neste caso,
não pode emendar-se e o erro não mede;
vê que seu coração deu ao acaso,
à infiel Orrigille que mal procede;
o uso ao mal a claudicar deu azo,
e o livre arbítrio assim à paixão cede:
sendo embora pérfida, ingrata e má,
forçado é a buscá-la onde ela está.
2 56 ORLANDO FURIOSO

Digo-vos, sua história retomando, 11 Enquanto de Nicósia estava à espera,


que a cidade deixou secretamente, onde tu foste, àquela grande corte,
sem ousar dizer ao irmão, lembrando que voltasses, pois com febre severa
que a chamá-lo à razão foi diligente. me tinhas deixado, em risco de morte,
À sinistra, para Rama 1 declinando, soube que à Síria passar te aprouvera,
tomou a via mais plana e corrente. o que me causou sofrimento forte;
Damasco da Síria fez em seis dias; modo de seguir-te não encontrei,
para Antioquia tomou outras vias. e quase meu coração trespassei.
6 Após Damasco encontra o cavaleiro 12 Mostra Fortuna ter, com dupla graça,
a quem Orrigille dera seu amor; por mim aquilo que não tens: ternura;
era em costumes seu digno parceiro, meu irmão mandou (este que aqui passa)
como combina a erva com a flor; para que eu venha de minha honra segura;
um e outro de coração ligeiro, e agora quer que o bom encontro eu faça
um pérfido como o outro e traidor; de ti, que estimo mais que outra ventura;
e encobria um e outro o seu defeito, e bem a tempo o faz; pois, mais tardando,
outrem lesando sob cortês aspeito. morreria, a ti, senhor, desejando. -
7 Como vos digo, o cavaleiro ia 13 E continua a donzela impudente,
num grande corcel e com pompa armado; que em acções mais que a raposa descai,
a pérfida Orrigille por companhia, as suas queixas tão astutamente
com vestido azul, a ouro bordado, que faz que a culpa em Grifone recai.
e dois escudeiros, dos quais se servia Faz-lhe crer que o outro é mais que parente,
para levar elmo e escudo, tinha ao lado; que ossos e sangue tem do mesmo pai;
como quem para si os olhares cobiça, seus enganos tão bem tecidos são
ia a Damasco justar numa liça. que faz parecer Lucas falso e João2 •
Uma esplêndida festa, que fazer 14 Não só da perfídia não repreende
mandou o rei de Damasco esse dia, Grifon a dama, iníqua mais que bela,
era o motivo de ali comparecer não só a vingança não empreende
cada um mais ornado que podia. naquele que era adúltero daquela,
Assim que a rameira vê aparecer mas muito acha que faz, se se defende
Grifone, teme insulto e felonia: de que todas as culpas lhe dê ela;
sabe não ser seu amante tão forte como se a um cunhado verdadeiro,
que em luta com o outro escape à morte. muito cordial é para o cavaleiro.
9 Mas sendo tão astuta e tão matreira, 15 Com ele segue, sem que mais se importe,
embora por dentro de medo trema, para a porta de Damasco, e ele lhe diz
afeiçoa o rosto e a voz amaneira, que ali em grande festa tinha a corte
parecendo que coisa nenhuma tema. o rei da Síria, de rica matriz;
Com o drudo combina a maroteira, e que para todos, não importa a sorte,
corre e, fingindo uma alegria extrema, seja cristão seja de outro cariz,
os braços abertos a Grifon estende, tem dentro e fora a cidade segura,
deita-lhos ao pescoço e dele pende. por todo o tempo que esta festa dura.
10 Depois, juntando afectuoso gesto 16 Porém de prosseguir não tenho intento
à suavidade e ternura da voz, a história da fraudulenta Orrigille,
disse a chorar: - Senhor meu, tão modesto que em seus dias não só um traimento
prémio por tanto amar tenho de vós? fizera aos amantes, mas mais de mil,
Só, sem ti, há um ano e mais o resto sem voltar a ver um cento e outro cento,
que estou, e a ti não te parece atroz? ou mais do que as faúlhas do brasil
Se estivesse a esperar-te com porfia, por eles ateado, que junto aos muros
não sei se chegaria a ver tal dia! de Paris causavam danos e apuros.
25 8 ORLANDO FURIOSO

17 Deixei-vos eu, quando assaltando estava 23 Aquilo que o tigre ao rebanho faz
Agramante uma porta dessa terra, no campo que Hircânia7 ou Ganges abrange,
que sem guarda estaria, acreditava; ou a cabras e ovelhas lobo voraz
mas, mais do que ali, nada o passo cerra, no monte que Tifeu pisa e constrange8 ,
pois em pessoa Carlos a guardava, assim fez o pagão, àquele fugaz
e tinha consigo os mestres da guerra: esquadrão não direi, não direi falange,
dois Guidi e Angelini, um Angeliero, melhor é dizer vulgo e populaça,
Avino, Avolio, Otone e Berlingiero. que antes de nascer já a morte ameaça.
1s Perante Carlos, e o rei Agramante, 24 A nenhum dos que encontra vê a fronte,
um grupo e outro quer-se fazer ver, de tantos que corta, fende e golpeia.
pois louvor e recompensa abundante Pela rua que se dirige para a ponte
se pode ganhar, cumprindo o dever. de Saint Michel, que de povo vai cheia,
Dos Mouros o valor não foi bastante corre o feroz e cruel Rodomonte,
que paga do seu dano possam ter; e a espada sangrenta em redor meneia:
deles são muitos a quem morrer toca, não respeita nem servo nem senhor,
para os outros exemplo de audácia louca. nem poupa o justo mais que o pecador.
19 A chuva de setas lembra granizo 25 A religião não salva o sacerdote,
que do muro ao inimigo disparte. e no garoto a inocência não estrova;
O amplo grito é do terror aviso nem em dama ou donzela encontra dote
que faz a nossa e a contrária parte. de belo rosto ou olhos que o demova;
Carlos e Agramante deixar preciso, não há velho a quem não zurza ou enxote;
que eu vou cantar o africano Marte, o Sarraceno aqui não dá mais prova
Rodomonte, que, terrível e horrendo, de valor que de grande crueldade:
pela cidade de Paris vai correndo. não distingue sexo, classe ou idade.
20 Não sei, senhor, se inda estais recordado
deste sarraceno de si seguro,
que seu bando morto tinha deixado
entre o baluarte segundo e o muro;
pelas chamas rapaces foi devorado,
jamais houve espectáculo tão obscuro.
Disse eu que ele entrou de um salto na terra3,
passando o fosso que a cinge e encerra.
21 Já conhecido o sarraceno atroz,
'
pelas estranhas armas, pela escamosa pele4 ,
os velhos e o povo menos feroz5
atentos estavam a notícias dele;
ergueu-se um pranto, um grito, uma alta voz,
um bater de mãos que às estrelas se impele;
quem pôde fugir fora não ficou,
nos templos e nas casas se fechou.
22 A feroz espada a poucos dá mercê,
em roda a girando o Mouro robusto.
Aqui fica com meia perna um pé,
lá uma cabeça salta do busto;
depois cortar um pelo meio se vê,
da cabeça à cinta outro fender justo;
de tantos que mata, fere e separa,
a nenhum deles assinala a cara6 •
260 ORLANDO FURIOSO

26 Não só ao sangue humano a ira estende 2s Enquanto aqui com a espada, o maldito,
o ímpio rei, que é dos ímpios senhor, e com o fogo, fazia tal guerra,
mas às casas, nas quais fogos acende, se fora Agramante viesse ao conflito9 ,
como aos templos, de que é profanador. perdia-se em tal dia aquela terra;
As casas tinham, por quanto se entende, mas não conseguiu; tal foi-lhe interdito
quase todas da madeira o vigor: pelo paladim que vinha de Inglaterra,
assim seria, que em Paris, agora, e gente inglesa e escocesa trazia,
cada seis em dez inda assim vigora. que o Silêncio e o arcanjo conduzia.
27 Não pareça, embora já tudo arda, 29 Quis Deus que ao ter entrado Rodomonte
que tão grande ódio assim saciar-se possa. em Paris, que tanto fogo ali fez,
Vê onde prender as mãos, estando em guarda junto aos muros a flor de Claramonte,
para tombar uma casa a cada mossa. Rinaldo, chegou com o grupo inglês.
Senhor, não duvideis que uma bombarda Três léguas atrás passara ele a ponte,
nunca em Pádua vistes assim tão grossa caminho à esquerda tomando, de viés;
que possa deitar tanto muro ao chão, para, querendo ele os bárbaros investir,
como o rei de Argel num só abanão. o rio disso o não pudesse impedir.
30 Mandara seis mil infantes archeiros
sob o altaneiro pendão de Odoardo 1º ,
e dois mil cavalos ou mais, ligeiros,
sob o comando de Ariman galhardo 1 1 ;
dissera que fossem pelos carreiros
que levam de Paris ao mar picardo 12,
e a porta Saint Martin e Saint Denis 13
entrassem, em socorro de Paris.
31 Carruagens e mais impedimentos
mandou que levassem por essa estrada.
Ele, com todo o resto dos regimentos,
fez, rodeando o alvo, a caminhada.
Levavam naves, pontes, instrumentos
para passar o Sena, de larga alçada.
Passado o rio, abatem os pontões;
de Ingleses e Escoceses fez esquadrões.
32 Mas primeiro Rinaldo, os comandantes
e barões tendo em redor reunido,
nas margens, do que o plano mais bojantes,
e em que por todos era visto e ouvido,
disse: - As mãos a Deus erguei, viajantes,
por vos ter até aqui conduzido,
para, depois de muito escasso suor,
mais que a qualquer nação vos dar honor.
33 Por vós serão dois príncipes salvados,
se a cidade livrais do assédio forte:
o vosso rei, o qual sois obrigados
a defender da servidão e morte,
e um imperador entre os mais louvados
que alguma vez no mundo houveram corte;
e mais reis, duques, marqueses, barões,
senhores, cavaleiros de mais nações.
CANTO XVI 261

34 Salvando uma cidade, não apenas 40 Sem estrépito algum, sem qualquer rumor,
os Parisienses gratos serão, faz a tropa tripartida avançar:
que, muito mais do que pelas próprias penas, junto ao rio a Zerbino dá o honor
temerosos e apoquentados estão de primeiro os bárbaros atacar;
por suas mulheres, crianças pequenas, os da Irlanda, com desvio maior,
que idêntico perigo correndo vão, pel�s campinas devem atravessar;
como as santas virgens enclausuradas, cavaleiros e infantes de Inglaterra,
por não serem de seu voto privadas 14 : com o duque de Lencastre, ao meio cerra.
35 digo eu, salvando vós esta cidade, 41 Tendo indicado a todos seu destino,
não são só de Paris os obrigados, cavalga o paladim junto à ribeira,
mas toda a terra da proximidade. e passa à frente ao bom duque Zerbino,
Não falo só dos povos mais chegados; que vai comandando a sua fileira;
pois todas as terras da cristandade em breve ao rei de Orão e ao rei Sobrino 1 7
cá têm cidadãos seus deslocados; e restantes companheiros se abeira,
por isso, vencendo, em obrigação que estão a meia milha dos de Espanha,
mais terras que a França vos ficarão. de guarda àquele lado da campanha.
36 Se davam os antigos uma coroa 42 O exército cristão, que companhia
a quem salvava a um cidadão a vida, fiel e segura houvera por escudo,
pois que digna mercê a vós se doa, tendo o Silêncio e o anjo como guia,
salvando multidão tão desmedida? já não foi capaz de manter-se mudo.
Se, por inveja ou tibiez, tão boa Vendo o inimigo, fez gritaria,
e tão santa obra for impedida, das trompas fez ouvir o som agudo,
acreditem: tomado aquele muro, e, com grande barulho e atropelo,
nem Itália nem outro está seguro; aos ossos dos Sarracenos deu gelo. 1 8
37 nem Alemanha, ou parte onde se adora 43 Rinaldo para a frente o cavalo impele,
aquele que quis por nós na cruz ter morte. e, para a usar, já sua lança enresta,
Nem penseis que os Mouros se vão embora, os Escoceses deixando para trás dele;
nem que o mar torna vosso reino forte: tanto a demora em lutar o molesta.
pois se outras vezes saíram para fora Como uma rajada que o vento expele
de Gibraltar, do hercúleo suporte 1 5, e atrás de si a tempestade alesta,
para ir buscar presas às ilhas vossas, tal se adianta o cavaleiro galhardo,
que farão, se donos das terras nossas? dando esporas ao seu corcel Baiardo.
38 Mas, mesmo que nem honra, nem nenhum 44 Ao aparecer o paladim de França,
proveito vos animasse esta empresa, mostram os Mouros grande agitação:
um socorrer outro é dever comum vê-se em todas as mãos tremer a lança,
de quem fizer de uma Igreja a defesa. nos estribos os pés, as coxas no arção.
Que o inimigo não vençamos, um Só em rei Puliano 1 9 não há mudança:
de vós não tema; e com pouca despesa 1 6 ; de Rinaldo não conhece a feição;
parecem-me todos impreparados, sem pensar que tão grande estorvo tope,
sem força e coragem, e mal armados. - a ele incita o cavalo a galope;
39 Pôde com estas, e melhores razões, 45 ao partir, toda ao corpo a lança cinge,
com seu falar expedito e clara voz e sobre si dobra a sua pessoa;
incitar os magnânimos barões o corcel com duas esporas atinge,
Rinaldo, e aquele exército feroz; e as rédeas à vontade lhe afeiçoa.
Foi, qual provérbio, tocar aguilhões A outra parte o seu valor não finge,
ao bom corcel que já corre veloz. mostrando em actos o que o nome soa:
Findo o discurso, mandou as fileiras quanto na justa tem graça e tem arte
avançar devagar sob as bandeiras. o filho de Amon, ou melhor, de Marte20 •
262 ORLANDO FURIOSO

46 No apontar dos golpes foram pares, 52 Cada um deu ímpeto ao seu cavalo
levando ambos os ferros à cabeça; ao chegar perto; e fechou de repente
em virtude e armas, dissimilares: o espaço breve, o pequeno intervalo
um morto fica, outro o passo não cessa. que ali havia entre uma e outra gente.
Do valor há que dar mais claros ares Estranho era tal baile e estranho dançá-lo,
do que a lança querer enristar à pressa; pois feriam os Escoceses somente:
bom é também da sorte ter sinal; somente os pagãos eram destruídos,
sem ela o valor pouco ou nada vale. como se a morrer ali conduzidos.
47 O paladim a lança recupera, 53 Mais frio que gelo está cada pagão,
e contra o rei de Orão logo a embica, e cada escocês mais quente que a chama.
pessoa em quem coragem não impera, Crêem os Mouros que cada cristão
mas que é em ossos e carne bem rica2 1 • como Rinaldo seus golpes derrama.
Entre os bons golpes este se enumera, Fez avançar Sobrino o seu esquadrão,
mesmo se ao fundo do escudo o aplica; sem aguardar que algum arauto brama;
quem o não louvar, de culpa o exima, esta esquadra que a outra era melhor
pois não podia chegar mais acima. em capitão, em armas e valor.
48 O escudo não impede que o golpe entre, 54 De África esta era a mais valiosa gente,
embora de aço fora, e dentro palma, embora grande coisa ela não valha.
nem que do corpanzil faça pelo ventre Avança Dardinel seu contingente,
sair a desigual, pequena alma. mal armado e pouco usado à batalha;
Crera o corcel levar tal peso, mentre apesar de ele usar elmo luzente,
durasse o dia; dele se desaçalma, e também couraça e cota de malha.
e a Rinaldo mentalmente agradece, Eu creio que a quarta melhor seria,
que assim desse fardo o desentorpece. que com lsoliero22 atrás aparecia.
49 Rota a hasta, Rinaldo o corcel volta 55 Trason, duque de Moray23, inflamado,
tão ágil que parece que asas veste; que esta ocasião para ter glória agarra,
e onde vê a multidão mais envolta passando aos seus guerreiros tal recado,
impetuoso o paladim investe. para que vão à luta levanta a barra,
Gira Fusberta sanguinosa em volta, logo que viu ter na batalha entrado
parecendo que em vidro os golpes asseste: Isolier, com os homens de Navarra.
têmpera de ferro a ela não se esquiva, Ariodante24 traz seu soldadesca,
sem que atrás vá achar a carne viva. duque de Albany nomeado de fresco.
50 Acha pouca têmpera e férrea barreira 56 O alto rumor de trompas e farromba,
a espada cortante, em oposição; de tambores e bárbaros instrumentos
mas escudos, ou de couro ou de azinheira, que se repercutem por vale e comba,
turbante e chumaçado jaquetão. de arcos, rodas, máquinas e tormentos25 ,
Não admira que Rinaldo à poeira e aqueles, pelos quais o céu mais ribomba,
mande, e fure e corte onde deita a mão; gritos, tumultos, gemidos, lamentos;
à espada não têm mais resistência produzem um alto som que parece
que erva à foice ou cevada à inclemência. quando o Nilo, ao cair, tudo ensurdece26 •
51 Estava a primeira frente destroçada, 57 Grande sombra em redor o céu ajeira,
quando Zerbin e a retaguarda chega. das setas que se entrecruzam no ar;
O cavaleiro, em frente à grande armada, hálito, vapor do suor, poeira,
já na sua lança enristada pega. fazem no tetro céu névoa pairar.
A gente ao seu pendão associada Um exército se afasta, outro se abeira;
com não menor denodo se lhe agrega: um segue o outro que se quer escapar;
eram como lobos, quais leões eram, há quem no sítio ou não longe ficou
que atacar cabras e ovelhas vieram. morto, onde há pouco o inimigo matou.
CANTO XVI 263

58 Onde um esquadrão já cansado se afasta, 59 Zerbino dava do seu valor prova,


outro avança que ali não estava antes. como nunca dera um varão tão jovem;
A gente armada é cada vez mais basta: às hostes pagãs dá morte e dá sova,
mais cavaleiros lá, aqui infantes. destruindo as que em torno de si chovem.
A terra onde se luta é rubra pasta: Ariodante à sua gente nova
cor mudaram os prados verdejantes; mostra toda a arte, para que a comprovem;
onde amarelas flores e azuis havia, temor e admiração por si desvela
homens e cavalos mortos se via. nos homens de Navarra e de Castela.
264 ORLANDO FURIOSO

60 Chelindo e Mosco, os dois filhos bastardos 64 Deixou o cavalo, e, embora tencione


do morto Calabrun, rei de Aragão, escapar rastejando, não conseguiu,
e Calamidor, noto entre os galhardos, pois deu-se o caso de o duque Trasone
que Barcelona tinha por nação, passar sobre ele, e assim o comprimiu.
para trás deixaram seus homens, mais tardos; Ariodante e Lurcanio, onde se entrone
e, crendo ganhar glória e galardão espessa gente que Zerbino engoliu,
por Zerbin matar, foram atacá-lo; com mais cavaleiros vão ter com ele,
e nos flancos lhe feriram o cavalo. ajudá-lo a montar outro corcel.
61 Passado por três lanças morto cai, 65 Brandia Ariodante a espada em giro:
mas Zerbino dum salto põe-se em pé; deu a Artalico e Margano lição;
para o seu cavalo morto vingar, vai mais pnrém Etearco e Casimiro
para onde aqueles que o mataram vê: sentiram a força daquela mão:
primeiro Mosco ao caminho lhe sai, feridos, os primeiros fazem retiro,
jovem ingénuo que apanhá-lo crê; os outros dois, mortos, jazem no chão.
fere-o de ponta, trespassa-lhe o flanco, Lurcanio, fazendo ver quanto é forte,
e da sela o faz cair, frio e branco. fere, esmurra, derruba e leva à morte.
27
62 Ao ver assim cair, tão de repente, 66 Não pensai, senhor , que com menos sanha
Chelindo seu irmão, de furor pleno, se luta nos campos que junto ao rio,
chegou-se a Zerbino a fazer-lhe um rente; nem que para trás o exército se acanha,
o freio este tomou do sarraceno, que o duque de Lencastre dirigiu.
deixando o cavalo no chão assente: Assaltou este as bandeiras de Espanha,
não comeu mais cevada nem mais feno; e muito equilíbrio a luta surtiu:
Zerbino com tal força golpeou infantes, cavaleiros e capitães,
que dum só corte ele e o dono matou. eram de seu honor bons guardiães.
63 Quando Calamidor tal golpe admira, 67 À frente vem Oldrado e Fieramonte,
volta a brida para se afastar daqui; de Gloucester duque e de York, aliás;
Zerbino por trás estocada lhe atira, também Ricardo, Warwick é sua fonte,
dizendo: - Espera, traidor, espera aí! - e o duque de Clarence, Enrigo audaz28 •
Não vai o golpe aonde fez a mira, Matalista e Follicon hão defronte,
porém não se afasta muito dali; e Baricundo e todo o seu sequaz.
não lhe acertou, mas o corcel colheu Reina o primeiro Almeria, o segundo
sobre a garupa, e no chão o estendeu. - Granada, e tem Maiorca Baricundo29 •
266 ORLANDO FURIOSO

68 A fera luta andou um tempo par, 74 Ali não demora; a espada volteia,
distinguindo-se ali pouca vantagem. cortando elmos e cotas de malha;
Viam-se uns e outros ir e voltar, frontes aqui, faces ali golpeia,
como em Maio as searas com a aragem, aqui cabeça, além um braço talha;
e como na praia se move o mar, a este e àquele sangue e alma escaceia,
que vai e vem em sua dupla viagem. e daquele lado põe fim à batalha,
Depois que a Fortuna um pouco brincou, onde a ignóbil e assustada frota
nociva aos Mouros por fim se tornou. fugia em desordem, desfeita, rota.
69 O bom duque de Gloucester se adestra, 75 Entrou na batalha o rei Agramante,
e Matalista faz voar do arção; para se mostrar e à gente fazer estrago;
ferindo Follicon na espádua destra tem com ele Baliverzo, Farurante,
Fieramonte, atirou-o este ao chão; Prúsias e Soridano, e Bambirago3 1 •
este pagão e aquele se sequestra, E gente sem nome há também bastante,
e entre os Ingleses se lhes dá prisão. poderão fazer com seu sangue um lago;
Pelo duque de Clarence, Baricundo melhor eu contaria cada folha,
no mesmo instante abandona este mundo. quando as árvores o Outono desfolha.
10 Começam os pagãos a assustar-se, 76 Agramante, do muro, grande banda
mas entre os fiéis o ardor a florir; de infantes e cavalos traz por escolta,
vêem-se os primeiros a acanhar-se, os quais com o rei de Fez32 logo manda
a desorganizarem-se e a fugir, que atrás dos pavilhões dêem a volta,
e os segundos com ímpeto a lançar-se, para irem fazer frente aos da Irlanda,
ganhar terreno, pressionar, seguir. cuja hoste via mui desenvolta,
Se auxílio não lhes tivesse aparecido, após grandes voltas e enrolamentos,
desse lado estava o campo perdido. a vir ocupar os alojamentos.
11 Mas Ferraú, que sempre esteve à beira 77 O rei de Fez a executar foi lesto,
do rei Marsilio, ao seu lado direito, que a demora prejuízo traria.
quando viu fugir aquela bandeira, Reúne entretanto Agramante o resto;
e o seu exército já meio desfeito, divide os esquadrões, que à batalha envia.
pica o cavalo e, onde viu mais guerreira Ele vai ao rio, onde é manifesto
a batalha, lá foi; chegou a jeito que sua presença se requena;
de ver do cavalo cair por terra, pois já dali um mensageiro acorre
de testa aberta, Olimpo da la Serra, do rei Sobrino, a ver quem o socorre.
n um mancebo que com seu doce canto, 78 Levava consigo mais de metade
ao da cítara cornuda30 parecido, de todo o exército, e só do rumor
um coração enternecia tanto, tremeram os Escoceses de ansiedade,
mas era como pedra endurecido. abandonando a ordem e o honor.
Feliz fora, se lhe bastara quanto Zerbin, Lurcanio e Ariodante há-de
honor tal lhe dava, e houvesse esquecido ser quem enfrenta a sós este furor;
escudo, arco, flecha, cimitarra e lança, Zerbin, estando apeado, morreria,
que o fizeram morrer jovem em França! se Rinaldo a tempo não lhe acudia.
73 Quando assim Ferraú o viu tombar, 79 O paladim já tinha, mais à frente,
muito o amando e tendo em muita estima, feito fugir de fileiras um cento.
mais de dor se sentiu amargurar Agora que a notícia lhe é patente
que por outros mil a quem morte oprima; que Zerbin está em perigo, é seu intento
quem o matou não tarda a atacar: juntar-se-lhe entre a cireneia gente33 ,
fende o elmo desde a parte de cima, onde está sem ter do exército alento;
atravessa a fronte, os olhos e a cara, volta o cavalo, e onde o povo escocês
até ao peito; morto, no chão pára. viu fugir, para lá caminho fez.
CANTO XVI 267

80 Onde os Escoceses em fuga correndo 85 Enquanto fora com cruel batalha,


vê, pára, e grita: - Mas para onde andais? de ódio, raiva, furor, tudo se ofende,
Por que tal cobardia em vós estou vendo, Rodomonte em Paris o povo talha,
que a tão vil gente o campo abandonais? as casas e os sacros templos acende.
São estes os troféus com que pretendo Carlos, que em outra parte a luta atalha,
ver que ao regressar vossa igreja ornais? tal não vê, nem nova disso apreende;
Qual honra e glória tereis conquistado, Odoardo e Arimanno entram Paris35 ,
se o filho do rei deixais só e apeado? - com gente de britânica raiz.
81 Dum seu escudeiro uma grande hasta aferra, 86 Chega-se um pagem de pálido vulto,
vendo perto Prúsias, o soberano que quase não respira de cansado.
das Alvaracchie, e a hasta lhe enterra, - Ai de nós, senhor, ai! - diz em tumulto,
e do arção o leva morto ao plano. antes de outra coisa ter pronunciado;
Morto, Agricalte e Bambirago aterra; - Hoje o Romano Império, hoje é sepulto,
depois fere asperamente Soridano; Cristo hoje tem seu povo abandonado:
ter-lhe-ia como a outros dado a morte, o demónio do Céu quis descer hoje,
se fosse no ferir a lança mais forte. para que nesta cidade Ele não se aloje.
82 Fusberta empunha, que a hasta rompeu, 87 Satanás36 (pois mais ninguém pode ser)
e atinge Serpentino da la Stella. destrói e arruina a cidade infeliz.
Armas fadadas tinha; recebeu Volta-te, para os rolos de fumo ver,
porém tal golpe que o tirou da sela. dos quais a grande chama é geratriz,
Assim ao duque dos Escoceses deu e escuta o pranto para o céu a crescer;
à sua volta ampla largueza e bela; e façam fé no que o servo vos diz.
e já à vontade um corcel podia É um só que a destrói a ferro e fogo,
montar, dos que tinham sela vazia. e dos que encontra a nenhum escuta rogo. -
83 E mesmo a tempo montado se achou, 88 Como alguém que primeiro ouve o tumulto,
que talvez não montasse, se tardava; dos sacros sinos o bater constante,
Agramante e Dardinello chegou, e veja o fogo, a nenhum outro oculto
34
Sobrino o rei Balastro acompanhava. senão a si, para quem é mais tocante;
Mas ele, que na hora certa montou, assim é Carlos, ao saber do insulto,
para cá, para lá, a espada manejava, e vendo-o de seus olhos adiante:
mandando este e aquele para o fundo Inferno, logo a força da sua melhor gente
levar notícias do viver moderno. manda para onde o grande rumor sente.
84 O bom Rinaldo, que a deitar por terra 89 Dos paladinos e guerreiros mais dignos,
os mais perigosos não queria ser tardo, Carlos leva consigo grande parte,
contra o rei Agramante a espada aferra, e faz para a praça encaminhar os signos37 ,
que lhe parecia feroz e galhardo pois o pagão fora para aquela parte.
(sozinho, mais que mil fazia guerra); Ouve o rumor, vê os horríveis signos38
a atacá-lo se lança com Baiardo: da barbárie que humanos membros parte.
enquanto o fere empurra-o de través, Mais ora não: que volte uma outra vez
mandando-o com o cavalo ao revés. quem esta história ouvir não contrafez.
268 ORLANDO FURIOSO

NOTAS

1 21
Rama: Ramla, pequena cidade da Síria. Em ossos [. . .] rica: cf. XIV: 1 7 (era q uase um gigante) .
2 22
L ucas [. . .} João: S. Lucas e S. João, evangelistas. lsoliero: cf. XIV: 1 1 e 20.
3 23
Terra: Paris. D uq ue de Moray: cf. X:85.
4 Escamosa pele: de dragão, ou serpente (cf. XIV: 1 1 8). 24 Ariodante: cf. VI: 1 5 e X:86.

5 Povo menos feroz: que não combatia (velhos, mulhe­ 25 Mdq uinas e tormentos: estruturas para escalar e assal­
res e crianças). tar, e para arremessar pedras.
6 Nenh um [. . .} cara: porque todos estão em fuga, a 26
Quando [. .. ] ens urdece: as cataratas do Nilo produ­
todos fere pelas costas. zem ruído ensurdecedor.
7 27
Hircânia: província do Norte da Pérsia, junto ao Senhor: cf. nota a 1:40, Ariosto dirige-se de novo ao
mar Cáspio. cardeal Ippolito.
8 Monte [. . .} constrange: monte da ilha de lschia, que 28
À .frente [. . .] a udaz: personagens já identificadas em
esmaga T ifeu, ser monstruoso que atacou Júpiter. X:78.
9 29
Fora [. . .] conflito: se apertasse o cerco no exterior. Matalista [. . .] Baric undo: já referidos em XIV: 14, 16
e 1 3, respectivamente. Note-se que, ali, Ariosto atribuía
10
Odoardo: cf. X:83. diferentemente os reinos.
11
Harriman galhardo: cf. X:8 1 . ° Citara corn uda: porque as extremidades são encurva­
3

das como cornos.


12 Mar picardo: da Picardia.
31
Baliverzo [. .. ] Bambirago: já citados em XIV:24, 2 1 ,
13
Porta [. . .} Denis: portas orientais de Paris. 27, 22, e XV:6, respectivamente.
14 Santas [. . .] privadas: as monjas em clausura nos con­ 32
Rei de Fez: Malabuferso (cf. XIV:22).
ventos, por não verem violado o seu voto de castidade.
33
Cireneia gente: da Cirenaica, península da Líbia.
1 5 Hercúleo s uporte: colunas de Hércules (Gibraltar).
34 Rei Balastro: cf. XIV:22.
16
Po uca despesa: pouco dispêndio de esforço.
35 Odoardo [. ..] Paris: cf. 30.
17
Rei [. .. ] Sobrino: cf. XIV: 1 7 e 24, respectivamente.
36 Satands: Rodomonte.
18
Aos ossos [. .. ] gelo: fê-los gelar de medo até aos ossos.
37
Sign os: insígnias.
19
Puliano: rei dos Nasamões (cf. XIV:22).
38
Sign os: sinais.
20
A o u tra [. . .] Marte: Rinaldo não encena o gesto,
como o mouro parece fazer, usando apenas a sua bravu­
ra, comparável à do deus da guerra (Marte).

CANTO XVII

1 O justo Deus, se a nossa iniquidade 4 a quem parece não bastar a fome,


da remissão já passou o sinal, e que em seu ventre caiba tanta carne;
para demonstrar ter igual à piedade outros chamam, de entre quem melhor come,
a justiça, chega a dar pedestal de longes bosques, para que nos descarne8 .
a tiranos de atroz monstruosidade, Do Trasimeno as ossadas se some
e engenho lhes dá para fazer o mal. às de Canne e às de Trebbia9, e se escarne
Por isso Mário e Sila pôs no mundo, o que são ao pé daquelas que grassam
dois Neros e um Caio furibundo, onde Adda, Mella, Ronco e Taro passam 1°.
1
2 um Domiciano e o último Antonino ; 5 Permite Deus que sejamos punidos
e trouxe das imundas plebes gebas, por povos talvez do que nós piores,
ao império o elevando, Maximino2 ; pelos nossos muitos e descomedidos
mas antes fez nascer Creonte3, em Tebas; nefandos, e vergonhosos errores.
e Mezêncio deu ao povo agilino4, Tempo virá que a depredar seus lidos
que com sangue humano engordou as glebas; iremos nós, se então formos melhores,
e em tempos mais recentes deu a rodos e seus errores a ponto vão também
Itália, aos Hunos, Lombardos e Godos. de à Eterna Bondade darem desdém.
3 O que direi de Átila5 ? E do iníquo 6 Devia ter seu excesso e indecoro
Ezzelin da Roman6 , e outro cento, de Deus perturbado a serena fronte,
que, após um longo andar sempre em oblíquo7 , pois sua terra invadiu o Turco e o Mouro,
manda Deus para castigo e para tormento? fez que estupro, morte, e rapina afronte;
Não só no tempo antigo houve profícuo mais que outros danos, provocou mais choro
exemplo; hoje temos claro experimento: o fruto do furor de Rodomonte.
a nós, grege inútil de mal-nascidos, Disse eu que Carlos dele notícia ouviu,
dá por guardas lobos enraivecidos e à praça onde estava se dirigiu.
270 ORLANDO FURIOSO

7 Vê pelo caminho gente espedaçada, 9 Para ali viera muito populaça,


casas queimadas, os templos desfeitos, esperando ajuda, buscar acoiteza;
grande parte da terra desolada: pois mui forte em paredes era o paço,
nunca se viram tão cruéis efeitos. dando abrigo para uma longa defesa.
- Por que fugis vós, ó gente assustada? Rodomonte, de ira louco e relasso,
Não há ninguém que vingue seus despeitos? sozinho toda a praça tinha presa:
Que cidade, que refúgio vos resta, com uma mão, que em fúria se encarniça,
quando houverdes, cobardes, perdido esta? roda a espada, com a outra o fogo atiça.
Pois um só homem na cidade preso, 10 Da casa real 12, tão alta e sublime,
fechado em muros, sem fugir poder, fere e faz ressoar a grande porta.
dela partirá escorreito e ileso, Atira a gente tudo o que a encime,
depois de todos vós fazer morrer? - ameias, torres, e já se dá por morta.
Tal dizia Carlos, que, de ira aceso, Do paço estragar ninguém se reprime;
em tanta vergonha não queria crer. madeiras, pedras, tudo se deporta,
E chegou ao ponto em que, junto à corte, lajes, colunas e traves douradas,
viu o pagão dando à sua gente a morte. que por seus avós foram tão estimadas.
CANTO XVII 271

11 À porta está o rei de Argel, luzente 17 Mas agora, senhor, descansarei


de aço claro a cabeça armada e o busto, de falar de ira e de cantar a morte;
como das trevas saída serpente, que por agora muito já falei
após lá deixar seu couro vetusto 13, do sarraceno tão cruel e forte;
do novo orgulhosa, e que assim se sente pois hora é de voltar onde deixei
cheia de vigor no corpo robusto; Grifone, em Damasco, perto da corte,
três línguas vibra e tem nos olhos fogo; com Orrigille traidora e o vilão,
por onde passa, tudo foge logo. de facto seu amante e não irmão.
12 Pedra, ameia, trave, arco ou catapulta, 1s Que é das mais ricas terras do Levante,
tudo o que sobre o sarraceno caia, das mais populosas e ornamentadas,
para a sangrenta mão deter não resulta dizem de Damasco; a qual é distante
que a porta não corte, espedace e extraia; de Jerusalém bem sete jornadas,
tanta janela no palácio avulta e em planície fértil e abundante
que a ver e a ser visto o olhar se espraia fica, sem ter estações diferenciadas.
pelos rostos tingidos da cor da morte, A ela é negado o raio primeiro
dos quais se encontra cheia toda a corte. da aurora, por ter perto um outeiro.
13 De gritos ressoar se ouvem efeitos 19 Dois cristalinos rios pela cidade
pelos altos tectos, feminis, plangentes: vão regando, por diversos canais,
mulheres aflitas, que batem nos peitos, de jardins uma grande infinidade,
correm pelas salas, pálidas, dolentes; de flores e frondes privados jamais.
beijam ombreiras e nupciais leitos, Mover moinhos, diz-se, a quantidade
que em breve vão deixar para estranhas gentes. podia que ali há de águas florais;
A tal perigo tinha a coisa chegado quem pelas ruas vai, das casas para fora,
quando o rei surgiu, com os barões ao lado. sente vir cheiros que com gosto odora.
14 Olhou Carlos para os ânimos agrestes,
que a trabalhos já se acharam defronte.
- Não vos lembrais que comigo estivestes
contra Agolante (disse), em Aspramonte? 14
São já vossas forças tão pouco prestes
que, se aquele matastes, Troiano e Almonte, -�
mais cem mil, um só ora receais,
tendo ele aos outros sangue e raça iguais?
15 Por que devo ver ora menos forte
vosso ardor do que vi naquela hora?
Mostrai a este cão o vosso porte,
a este cão que aqui homens devora.
Coração heróico não teme a morte,
se bem morrer, a morte não deplora.
Duvidar não posso, se aqui vos vejo:
sempre convosco a vitória festejo. -
16 Findo o falar, esporeia o alazão,
e de hasta baixa ao sarraceno vai.
O paladino Uggiero toma acção,
e Namo; e Oliviero não se retrai;
Avino, Avolio, e Berlingier lá vão,
com Otone 15 (um sem outros não me sai);
todos feridas deram a Rodomonte,
no peito, flancos, braços, e na fronte.
272 ORLANDO FURIOSO

20 Toda coberta a rua principal 23 Foi-lhes contando que o rei Norandino,


está de panos de alegre colorido; de Damasco e da Síria senhoria,
de erva odorosa e vário matagal mandou o conterrâneo e o peregrino 1 7 ,
está a terra e cada muro escondido. que ordem tivesse de cavalaria,
Às portas e janelas um estendal para o torneio convidar que, matutino,
de tapetes e de fino tecido. no dia a seguir na praça faria;
E muitas belas damas de cambraias se valor tinham igual ao semblante,
e gemas ornadas, e lindas saias. podiam mostrar sem ir mais adiante.
21 Não se vê porta em que não se recorte 24 Embora Grifon não para essa acção
festas ou bailes, ou outros regalos; ali viesse, ao convite se atém;
pelas ruas o povo de melhor sorte16 pois, quando se apresenta ocasião
passeia bem arreados cavalos; de valor mostrar, nunca desconvém.
mais gosto de olhar dava a rica corte Depois perguntou-lhe qual a razão
de senhores, de barões e de vassalos, daquela festa e se ela sobrevém
de pérolas, de ouro e de gemas cheia, todos os anos, ou se é coisa nova
da Índia e das costas da Eritreia. do rei, que os seus queira ver fazer prova.
22 Vinha Grifone e sua companhia 25 Responde o cavaleiro: - A bela festa
dum lado e de outro a mirar tudo bem, há-de ser feita em cada quarta lua
quando um cavaleiro os parou na via das que vierem a começar desta,
e os convidou para o palácio que tem; que esta é a primeira que se efectua.
por ser seu hábito, e por cortesia, É em memória de ter salvo a testa
fez que tivessem tudo o que convém. tal dia o rei, por grande sorte sua,
Após tomarem banho os. banqueteia após quatro meses em dores e pranto
com suculenta e sumptuosa ceia. ter estado, vendo a morte perto tanto.
CANTO XVII 2 73

26 Mas, para contar-vos tudo plenamente: 2s Os pavilhões montámos, e as sombrinhas


Norandino, o rei, que assim se interpela, entre as árvores estendemos, muito ledos.
muitos anos nutriu amor ardente Preparam-se as fogueiras e as cozinhas,
pela graciosa, e mais que todas bela, tapetes, mesas, entre os arvoredos.
filha do rei de Chipre; e, finalmente, Enquanto o rei, pelas valadas vizinhas
tendo-a desposado, partiu com ela: andava a ver, e nos bosques mais quedos,
cavaleiros e damas de companhia se encontrava cabras, gamos ou cervos;
levando, a caminho da Síria ia. levando o arco, iam com ele dois servos.
27 Depois de já estarmos a plena vela 29 Enquanto à espera estamos, discorrendo,
longe do porto, no Cárpato iníquo 18 , que o rei regresse de caça provisto,
levantou-se uma tão grande procela vimos o Orco20 para nós vir correndo
que assustou até o mestre conspícuo 1 9 • à beira-mar, terrível e imprevisto.
Noites e dias errámos naquela Deus vos guarde, senhor, que o rosto horrendo
água temível por caminho oblíquo. do Orco jamais foi por olhos visto:
Demos à costa cansados, molhados, só pela fama conhecê-lo é mais certo
entre verdes colinas, frescos prados. do que para vê-lo chegar-se-lhe perto.
30 Não sei a que o tamanho é paralelo,
por ser desmesuradamente grosso.
Em vez dos olhos tem, qual cogumelo,
de ambos os lados sob a fronte um osso.
À beira-mar começámos a vê-lo,
para nós avançando como um colosso.
Tem presas salientes, como o porco2 1 ,
longo nariz, de baba o peito porco.
274 ORLANDO FURIOSO

31 Vem em corrida, e o focinho traz 37 Logo os barqueiros o avistam no lido,


como o cão de caça ao achar a pista. e o bote mandam a terra buscá-lo;
Cada um que o vê conforme é capaz quando por Norandino foi ouvido
foge, pálido, sem destino em vista. que o Orco ali viera para roubá-lo,
O vê-lo cego pouco nos compraz, sem hesitar, logo toma partido
pois, só farejando, é maior artista de, esteja onde estiver, ir procurá-lo.
que outros capazes de ver e cheirar, Perder Lucina dá-lhe angústias tais
e asas são precisas para lhe escapar. que ou a encontra ou não quer viver mais.
32 Mas fugir dele pouco nos satisfez, 38 Onde vê marcada ao longo da areia
pois mais que o vento sul era apressado. a fresca pegada, segue-a com a pressa
Éramos quarenta, e apenas dez
.
com que a amorosa raiva o espore1a,
.
se salvaram, para o navio indo a nado. e à gruta que eu disse chega depressa;
Com alguns sob o braço um molho fez, na qual com terror se espera e receia
e o peito não deixou desocupado; que o Orco de novo ali apareça:
encheu também a bolsa que trazia, cada som que nos chega faz lembrar-nos
como um pastor; de lado lhe pendia. que vem, esfomeado, para devorar-nos.
33 Levou-os para o covil o monstro cego, 39 Fortuna ao rei a ida facilita,
no antro junto ao mar, em penedia. pois a mulher sozinha em casa caça.
De mármore tão branco é o aconchego «Ó desgraçado, foge (ela lhe grita)!
como uma folha de escrita vazia. Ai se te apanha o Orco (ela ameaça)!»
Uma matrona em doloroso ofego «Apanhe (disse) ou não, já não se evita
e rosto sofredor ali vivia; que de mim miserável ele faça.
com ela estavam damas e donzelas Desejo me traz, não erro de via,
de idade e classe vária, feias, belas. que só com minha mulher morrer queria» .
34 Havia, perto da gruta em que estava, 40 Pediu depois que notícias lhe desse
junto ao cimo do penedo superno, dos que o Orco apanhou em comitiva;
idêntica àquela uma outra cava, de Lucina antes dos mais lhe dissesse
onde dos rebanhos tinha governo. se estava morta ou se a tinha cativa.
Tantos tinha que nem se enumerava, Diz-lhe a mulher, e um pouco se enternece,
sendo ele o pastor de Verão e de Inverno. que sossegue, que Lucina está viva;
Soltava-os e fechava a bel-prazer, nem receio há que morra em qualquer hora,
para se distrair, não para lucro ter. pois o Orco fêmea nunca devora.
35 A carne humana melhor lhe sabia, 41 «Testemunho disso em mim própria vês,
o que antes mostra de ao antro chegar; e em todas estas que aqui estão comigo;
pois três dos jovens que com ele havia nunca a mim e a elas mal ele fez,
come, engolindo-os sem os matar. desde que não saiamos deste abrigo.
Vai ao curral e uma rocha desvia: Quem tenta fugir fá-lo uma só vez,
tira o rebanho, e ali nos dá lar. pois ele lhe aplica fatal castigo:
Pascê-lo vai onde encontra ervas moles, ou enterra-as vivas ou encadeia,
enquanto toca uma gaita-de-foles. ou põe-as nuas ao sol sobre a areia.
36 Nosso rei, tendo à praia regressado, 42 Quando hoje para aqui trouxe a tua gente,
não tarda que seu dano compreenda; as mulheres dos homens não separou;
pois encontra silêncio em todo o lado, assim como os trouxe, confusamente
vazios abrigo, pavilhão e tenda. dentro da gruta todos os guardou.
Não percebe quem o tenha roubado, Sentirá pelo cheiro o sexo diferente.
e à praia o caminho, com medo, emenda; Que elas não morrem a certeza dou;
seus marinheiros vê que se encarniçam: os homens, sim, não têm escapadela:
levantam âncora e as velas içam. quatro ou seis por dia enfia na goela.
CANTO XVII 275

43 Levá-la é ideia que não perfilho 49 Guardado o rebanho, o Orco a nós vem;
nem te aconselho; podes contentar-te primeiro atrás de si a entrada fecha.
de não haver para a sua vida sarilho: Todos fareja; dois na mão sustém:
como nós aqui viverá, de igual arte. para cear, de carne já se apetrecha.
Mas vai-te, por Deus, vai-te embora, filho; Quando tal lembrança me sobrevém,
se o Orco aqui chega, vai devorar-te. inda o tremor e o suor não me deixa.
Chegando aqui, toda a parte fareja: Sai o Orco, e o rei a veste arregaça
sente até um rato que em casa esteja». de carneiro, e à sua dama abraça.
44 Responde o rei dali partir não querer 50 Em vez de sentir prazer e conforto
sem primeiro ter visto a sua Lucina; de aqui o ver, só aflição sentia:
e que mais queria ao pé dela morrer vê que ele vem para onde há-de ser morto,
que de viver longe dela ter sina. e de ela morrer não evitaria.
Quando ela viu nada poder dizer «Com todo o mal (dizia) que eu suporto,
que o demovesse da ideia mofina, senhor, maior era a minha alegria
para o ajudar pensa uma nova astúcia, por tu não te encontrares junto de nós
na qual põe muito empenho e muita argúcia. quando hoje nos raptou o Orco atroz.
45 Mortas em casa, tinha com fartura 51 Pois se o destino, que para mim pressinto
cabras, ovelhas, anhos a granel; de morte ter, era desgraça forte,
dela e das outras eram comedura, ter-me-ia, como é natural instinto,
do tecto pendendo mais que uma pele. doído só da minha triste sorte;
Deu a mulher ao rei muita gordura mas ora, que também serás extinto,
que um grande carneiro da tripa expele, mais me custa a tua que a minha morte».
com a qual se untou dos pés à cabeça, Mostrava anseio muito mais tirano
para que o seu cheiro já não se conheça. pelo de Norandino que pelo seu dano.
46 Depois que o mau cheiro ter lhe pareceu, 52 «A esperança (disse o rei) cá me fez vir
a que o fétido carneiro lhe sabe, que de tu e os outros salvar carrego;
deu-lhe a pele e nela ele se meteu, mais vale morrer se não o conseguir
pois é ela tão grande que ele bem cabe. do que sem ti, meu sol, viver eu cego.
Em tão estranha vestimenta o escondeu, tal como vim, também posso partir,
e de quatro no chão faz que ele acabe; e todos a vir comigo congrego,
levou-o para onde a pedra encobria se não tiverem, como não tive eu,
da sua dama a face que ver queria. horror a cheiro de animal sandeu».
47 Norandino obedece, e para a entrada 53 A fraude contou que, contra o nariz
da gruta vai esperar, por tempo vasto, do Orco, lhe ensinou a mulher dele;
para com o rebanho entrar na malhada; peles vestíssemos, caso a cerviz
todo o dia esperou sem ter desgasto. ao sairmos da gruta apalpasse ele.
Ouve à noite, enfim, da gaita a balada, Depois que cada um aderir quis,
convidando a deixar o fresco pasto quem lá estava, deste sexo e daquele,
as ovelhas, e a voltar ao curral; todos carneiros para matar escolhiam,
atrás delas vinha o pastor brutal. dentre os mais velhos e que mais fediam.
48 Calculem do coração o tremor, 54 Os corpos ungimos com a gordura
quando sentiu que o Orco regressava, que achámos no intestino e no umbigo,
e o rosto feroz viu, cheio de horror, e das peles fizemos cobertura.
apressar-se para a entrada da cava; O dia saiu do seu áureo abrigo;
pôde mais a devoção que o temor: à gruta voltou à primeira alvura
vejam se a sério ou se a fingir amava. do Sol o pastor, e a gaita consigo;
Avança o Orco, a pedra ergue e afasta: e, dando espírito à sonora cana,
e ele entre cabras e ovelhas se arrasta. o rebanho fez sair da cabana.
276 ORLANDO FURIOSO

55 Põe a mão junto ao buraco da choça, 61 Manhã e noite o infeliz amante


para nós não sairmos com o rebanho; pode ver como ela se aflige e chora;
toca-nos e, quando pêlo ou lã roça, pois entre as cabras passa-lhe diante,
vai deixando sair sem arreganho. se de ir para o pasto ou recolher é hora.
Homens, mulheres deixam a estranha fossa, Ela, com rosto triste e suplicante,
vestidos com o hirsuto couro estranho; faz-lhe sinal para que se vá embora
a nenhum de nós o Orco impediu, porque ali sua vida corre perigo,
e então Lucina com temor saiu. e a ela não poderá dar abrigo.
56 Lucina, porque ela não quis talvez 62 A mulher do Orco ao rei também pede
ungir-se como nós, por aversão; que se vá embora, mas tudo é vão;
ou por no lento andar ter trepidez, ir, deixando Lucina, não concede,
que do bicho a fingir não é feição; cada vez mais forte na decisão.
ou que o Orco ao tocar-lhe impressão fez, Nesta servidão fazem que ele se quede
e gritasse pela sentida aflição; Piedade e Amor, em tão longa missão,
ou se lhe tenha soltado o cabelo; que aconteceu darem por ali passo
sentida foi; como, não sei dizê-lo. o filho de Agricane22 e o rei Gradasso.
57 la cada um concentrado em si, 63 Tal estes fizeram com tanta audácia
e para lá não estava o olhar virado. que libertaram a bela Lucina:
Voltei-me ao grito dela, e o monstro vi foi mais por sorte que por eficácia;
que a pele hirsuta lhe tinha tirado, ao pai a levam, à margem salina,
e que na gruta a meteu percebi. o qual a esperava ali com contumácia;
Nós, bem escondidos no fato emprestado, mas deu-se isto na hora matutina
no meio do rebanho, com o pastor em que Norandino com o grege estava,
fomos até um verde prado em flor. a ruminar23 dentro daquela cava.
58 Esperamos até que à sombra estendido
o narigudo Orco se adormeça.
Para o mar ou monte foi tudo evadido,
só Norandino a fugir não se apressa.
No amor de sua dama tem o sentido,
e só regressar à gruta lhe interessa:
dali não partirá até à morte,
se não recuperar sua consorte;
59 quando a vira voltar para o antro intruso,
onde presa ficava sem mais gente,
quase se atirava, pela dor confuso,
para a goela do Orco, de repente;
ao focinho trepou com grande abuso,
pouco faltou para lhe cair no dente;
mas para o rebanho o fez voltar a esperança
que tinha de a livrar de tal possança.
60 Quando à noite o grege à gruta acareia
o Orco, e que nós fugimos pressente,
e que se encontra privado de ceia,
Lucina chama, que julga nocente,
e condena a que fique pela cadeia
presa para sempre ao penhasco eminente.
Vendo-a o rei por sua culpa sofrer,
desespera-se, mas não quer morrer.
CANTO XVII 277

64 Quando clareou foi aberta a barra, 70 Passam tocando tambores e trombetas,


e soube o rei que ela tinha partido vão-se juntando os cidadãos na praça.
(que a mulher do Orco tudo lhe narra), Depois de ouvir cavalos e carretas
e como a coisa tinha sucedido; e gritos ribombar da populaça,
dá graças a Deus e ao voto se agarra Grifon suas armas veste completas,
que, de tal desgraça tendo saído, que são daquelas de mui rara traça;
chegue a lugar onde, por petição, eram impenetráveis e encantadas,
tesouro, ou armas, tenha quitação. pela fada branca feitas e temperadas.
65 Com letícia vai com a companhia 71 O de Antioquia26 , entre os vis o mais vil,
de ovino gado até ao almargeal; também se armou e fez-lhe companhia.
e ali espera até que, à sombra macia, Preparara-lhes o hospedeiro gentil
o monstro adormeça no matagal. robustas lanças, de boa armaria,
Parte, e caminha de noite e de dia; e, dentre a parentela senhoril,
já sem temer do Orco ir para o bornal, comitiva; e com eles também ia;
em Antália24 num navio embarcou, e escudeiros a cavalo e a pé,
e há já três meses que à Síria chegou. aptos a tal serviço, deu até.
66 Em Rodes, Chipre, em campo e em cidade, n Chegando à praça, puseram-se à parte,
e em África, no Egipto e na Turquia, não querendo participar na parada,
de Lucina o rei buscou novidade; para ver melhor tanta gente de Marte27,