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Elaboração de

Decisões Judiciais
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Marcelo Paiva

Elaboração de
Decisões Judiciais

Educere
© 2017, Instituto Educere

Dados internacionais de catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Paiva, Marcelo. Elaboração de Decisões Judiciais. Brasília: Instituto Educere,


2017.

Bibliografia
ISBN

1. Português Jurídico. 2. Linguagem técnica. 3. Redação Oficial.


4. Língua Portuguesa.

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.


A reprodução não autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui
violação dos direitos autorais (Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998) e é crime
estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal.
Sumário

Capítulo 1
Conceito e estrutura de decisão judicial........................................7

Capítulo 2
Linguagem jurídica.......................................................................15

Capítulo 3
Técnicas de elaboração de decisões judiciais.............................33

Capítulo 4
Expressões e vocabulário específicos.........................................73

Capítulo 5
Padronizações...........................................................................125
CAPÍTULO
1 Conceito e estrutura
de decisão judicial

Decisões judiciais são julgamentos proferidos por magistrado ou por


colegiado de instituição judicial. Alguns artigos do Novo Código de
Processo Civil brasileiro tratam do assunto.

Art. 203. Os pronunciamentos do juiz consistirão em sentenças, deci-


sões interlocutórias e despachos.
§ 1º Ressalvadas as disposições expressas dos procedimentos espe-
ciais, sentença é o pronunciamento por meio do qual o juiz, com fun-
damento nos arts. 485 e 487, põe fim à fase cognitiva do procedimen-
to comum, bem como extingue a execução.
§ 2º Decisão interlocutória é todo pronunciamento judicial de nature-
za decisória que não se enquadre no § 1º.
§ 3º São despachos todos os demais pronunciamentos do juiz pratica-
dos no processo, de ofício ou a requerimento da parte.
§ 4º Os atos meramente ordinatórios, como a juntada e a vista obriga-
tória, independem de despacho, devendo ser praticados de ofício pelo
servidor e revistos pelo juiz quando necessário.
Art. 204. Acórdão é o julgamento colegiado proferido pelos tribunais.
Art. 205. Os despachos, as decisões, as sentenças e os acórdãos serão
redigidos, datados e assinados pelos juízes.
§ 1º Quando os pronunciamentos previstos o caput forem proferidos
oralmente, o servidor os documentará, submetendo-os aos juízes para
revisão e assinatura.
§ 2º A assinatura dos juízes, em todos os graus de jurisdição, pode
ser feita eletronicamente, na forma da lei.
§ 3º Os despachos, as decisões interlocutórias, o dispositivo das
sentenças e a ementa dos acórdãos serão publicados no Diário de
Justiça Eletrônico.
7
1.1 Despacho

Há despacho administrativo (decide ou não procedimento adminis-


trativo) e despacho judicial (destinado a dar andamento ao proces-
so). Os manuais de redação oficial indicam que despachos podem
ser classificados como:
a) decisório: dá solução e põe termo à questão;
b) ordinatório: apenas dá andamento ao documento;
c) interlocutório: não resolve terminantemente a questão, apenas a
transfere a outra unidade da estrutura organizacional do órgão;
d) saneador: aquele que resolve as falhas que porventura ocorram
no procedimento.

Despachos podem conter apenas uma palavra (Autorizo, Aprovo,


Indefiro, etc.), expressões (De acordo, etc.) ou textos mais longos.
Quando o despacho for curto, pode ser escrito no próprio corpo do
documento de que é parte.

O objetivo do despacho na decisão judicial é promover movimenta-


ção administrativa para que o processo tenha o andamento adequa-
do. As determinações de um magistrado ao determinar ao departa-
mento responsável a citação de um réu é exemplo de despacho. O
despacho pode ser proferido a requerimento da parte interessada ou
lançado no processo “de ofício”, ou seja, por iniciativa do próprio
magistrado. Como o despacho não é decisão judicial, não cabe re-
curso contra ele.

1.2 Decisão interlocutória

Decisão interlocutória ou simplesmente “decisão” é ato que não põe


fim ao processo e ocorre, por exemplo, quando o magistrado decide
não intimar testemunha, nomear perito ou marcar audiência. A decisão
interlocutória apresenta conteúdo que pode causar prejuízo a uma das
partes e, assim, o recurso é possível.
8
1.3 Sentença

O Novo Código de Processo Civil detalha as principais partes de uma


sentença e apresenta observações relevantes sobre os requisitos e a ela-
boração, principalmente ao fundamentar a decisão.

Art. 489. São elementos essenciais da sentença:


I - o relatório, que conterá os nomes das partes, a identificação do
caso, com a suma do pedido e da contestação, e o registro das princi-
pais ocorrências havidas no andamento do processo;
II - os fundamentos, em que o juiz analisará as questões de fato e de
direito;
III - o dispositivo, em que o juiz resolverá as questões principais que
as partes lhe submeterem.
§ 1º Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja
ela interlocutória, sentença ou acórdão, que:
I - se limitar à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normati-
vo, sem explicar sua relação com a causa ou a questão decidida;
II - empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o mo-
tivo concreto de sua incidência no caso;
III - invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra de-
cisão;
IV - não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capa-
zes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador;
V - se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem iden-
tificar seus fundamentos determinantes nem demonstrar que o caso
sob julgamento se ajusta àqueles fundamentos;
VI - deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou prece-
dente invocado pela parte, sem demonstrar a existência de distinção
no caso em julgamento ou a superação do entendimento.
§ 2º No caso de colisão entre normas, o juiz deve justificar o objeto e
os critérios gerais da ponderação efetuada, enunciando as razões que
9
autorizam a interferência na norma afastada e as premissas fáticas que
fundamentam a conclusão.
§ 3º A decisão judicial deve ser interpretada a partir da conjugação
de todos os seus elementos e em conformidade com o princípio da
boa-fé.
Art. 490. O juiz resolverá o mérito acolhendo ou rejeitando, no todo
ou em parte, os pedidos formulados pelas partes.

(…)

Art. 492. É vedado ao juiz proferir decisão de natureza diversa da


pedida, bem como condenar a parte em quantidade superior ou em
objeto diverso do que lhe foi demandado.
Parágrafo único. A decisão deve ser certa, ainda que resolva relação
jurídica condicional.

O Conselho da Justiça Federal detalha, no Manual de Procedimentos,


as principais partes de uma sentença.

Relatório
Requisito essencial da sentença, contendo o nome das partes, a súmu-
la do pedido e da resposta do réu, bem como o registro das principais
ocorrências havidas no desenvolvimento do processo.

Fundamentação
É a análise dos fatos e do direito aplicável, equacionando-se a questão
em exame. Na fundamentação, o magistrado pode também resolver
questões preliminares e prejudiciais.

Dispositivo
Parte, ou fecho, da sentença em que o magistrado profere sua decisão
em torno do litígio.

10
O jurista Pontes Miranda classifica a sentença de acordo com sua eficá-
cia da seguinte forma:

a) declaratória: declara a existência ou inexistência de relação jurídica;


b) constitutiva: cria ou modifica relação jurídica;
c) condenatória: “condena” o réu à prestação de obrigação;
d) mandamental: determina que uma parte cumpra um fazer ou um
não fazer;
e) executiva: a própria sentença determina que se o provimento juris-
dicional seja efetivado.

A sentença é também classificada por diversos doutrinadores de três


formas em relação à amplitude de análise do pedido da parte.
a) citra petita: a decisão é omissa a um ou mais dos pedidos do autor;
b) ultra petita: a decisão dá mais do que o pedido do autor;
c) extra petita: a decisão é diversa ao pedido do autor.

1.4 Acórdão

O Superior Tribunal de Justiça define acórdão como peça escrita que


contém o julgamento proferido por órgão colegiado de um tribunal; não
por um juiz. Deve conter, obrigatoriamente, o relatório, a fundamenta-
ção e a parte dispositiva — na qual se encontra a decisão propriamente
dita —, e uma ementa, que significa o resumo que se faz dos princípios
expostos em uma sentença ou em um acórdão, ou o resumo do que se
contém uma norma, levado à assinatura da autoridade a quem compete
referendá-la ou decretá-la.

O acórdão deve apresentar o nome de seu relator, dos membros com-


ponentes do órgão julgador (câmara, turma, seção, órgão especial, ple-
nário etc.), e o resultado da votação. Caso a votação não seja unânime,
o voto vencido, ou seja, o entendimento divergente, mesmo que de um
membro apenas órgão julgador deverá ser exposto no acórdão.
11
1.5 Requisitos essenciais de uma decisão judicial

Júlio Bernardo do Carmo, magistrado, doutor em Direito e ex-diretor


de Escola Judicial, detalha os requisitos essenciais de uma decisão ju-
dicial.

a) Relatório
No relatório é suficiente que o juiz aluda, resumidamente, aos fatos
alegados pelo autor e aos pedidos formulados, ao valor dado à causa,
à resposta do réu (que pode ser mais de uma), às provas produzidas,
aos eventuais incidentes, às propostas de conciliação e às razões finais,
sendo desnecessário o ingresso no exame do conteúdo desses atos, pois
essa investigação interna constituirá objeto da segunda parte da senten-
ça, a fundamentação.

b) Fundamentação
A motivação das sentenças é um ato que enobrece a função judicial.
Constitui ela um reflexo imediato das convicções do juiz e um bom ex-
poente de sua personalidade profissional. Sentença desprovida de fun-
damentação é sentença arbitrária, ainda que justa. O juiz não é obrigado
a citar todos os dispositivos de lei em que se arrimou para proferir a
sentença, bastando que o seu convencimento esteja de acordo com o
direito vigente à época da valoração dos fatos. A prática da citação da
lei aplicável à espécie enriquece, todavia, o julgado e denota a exação
do julgador.

c) Dispositivo
No dispositivo o juiz resolve as questões que lhe são submetidas pelas
partes. Nele o juiz absolve ou condena.

12
1.6 Requisitos de dicção

a) Clareza
É necessário que a sentença seja redigida com clareza. Frases curtas e
construídas com simplicidade soam bem em qualquer contexto. Desa-
conselham-se sentenças extremamente longas ou enxundiadas de cita-
ções doutrinárias impróprias. A sentença não é lugar apropriado para
denotar erudição ou redigir tratados. O juiz não precisa demonstrar
cultura na sentença, sendo-lhe bastante solucionar com objetividade e
fundamentação concisa os conflitos intersubjetivos de interesses.

b) Certeza
A sentença deve ser certa, ainda quando decida relação jurídica condi-
cional. A certeza do conteúdo da sentença confere à formulação explí-
cita de se estar condenando ou absolvendo o réu, com os motivos que
levaram o magistrado a chegar a essa conclusão.

c) Exaustividade
O NCPC exige que o juiz aprecie todas as questões, de fato e de direito,
que lhe forem submetidas à cognição, pelas partes. Aqui o juiz disseca
o processo, exaurindo com percuciência toda a matéria controvertida.

d) Adequação
O magistrado não pode conceder aquilo que não foi pedido e não deve
conceder menos do que a parte tem direito.

13
CAPÍTULO
2 Linguagem jurídica

“Serviço judiciário não é academia de letras nem


academia de filosofia.”
Sepúlveda Pertence

O profissional da área jurídica deve ter essencialmente conhecimen-


to do Direito. Não deve, no entanto, limitar-se a tais aprendizados.
O ato de escrever e de organizar ideias é técnica essencial para o
profissional demonstrar domínio de sua capacidade. Não se trata de
arte ou dom. É estudo, prática, técnica. A inadequação na linguagem
compromete a expressão do pensamento jurídico. Muitos são os ca-
sos em que o texto fica aquém da capacidade do próprio autor. Quem
trabalha direta ou indiretamente com linguagem jurídica deve bus-
car, constantemente, conhecimento das regras gramaticais e técnicas
para boa redação.

O Manual do Superior Tribunal de Justiça aborda também o assunto:

É necessário que a sentença seja redigida com clareza. Frases cur-


tas e construídas com simplicidade soam bem em qualquer contexto.
Desaconselham-se sentenças extremamente longas e exagero de cita-
ções doutrinárias impróprias. A sentença não é lugar apropriado para
denotar erudição. O juiz não precisa demonstrar cultura na senten-
ça, sendo-lhe bastante solucionar com objetividade e fundamentação
concisa os conflitos intersubjetivos de interesses.
15
A ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Ellen Gracie demonstrou
sua preocupação com a linguagem forense logo na posse:

Que a sentença seja compreensível a quem apresentou a demanda e se


enderece às partes em litígio. A decisão deve ter caráter esclarecedor
e didático. Destinatário de nosso trabalho é o cidadão jurisdicionado,
não as academias jurídicas, as publicações especializadas ou as ins-
tâncias superiores. Nada deve ser mais claro e acessível do que uma
decisão judicial bem fundamentada.

O Manual de Redação e Padronização de Atos Oficiais do Ministério


Público Federal afirma que:

a falta de precisão na linguagem técnica acarreta problemas para o desem-


penho de tarefas e, às vezes, prejudica as relações humanas, gerando desen-
tendimentos, discussões e até redução da produtividade. (...) É preciso ser
econômico nas ideias e conciso em sua exposição, utilizando somente as pa-
lavras necessárias. Devem-se evitar as explicações supérfluas e inúteis, tratar
de um assunto por vez, ser coerente e buscar alcançar o objetivo previamente
traçado. E isso ainda não é suficiente. A estética, a visualização do texto im-
presso no papel, tudo deve ser feito tendo em vista atingir o leitor.

O Manual de Redação Oficial do Tribunal de Contas do Distrito Federal


complementa:

A eficácia da comunicação jurídica depende basicamente do uso de


linguagem simples e direta, chegando ao assunto que se deseja expor
sem passar, por exemplo, pelos atalhos das fórmulas de refinada cor-
tesia usuais no século passado. Ontem o estilo tendia ao rebuscamen-
to, aos rodeios ou aos circunlóquios; hoje, a vida moderna obriga a
uma redação mais objetiva e concisa.

2.1 Linguagem técnica e linguagem rebuscada

Linguagem jurídica é linguagem técnica e faz uso de termos específicos


e estrutura própria em seus textos. Domínio de amplo e adequado voca-
16
bulário é importante para expressão específica. Palavras técnicas e pre-
cisas inibem falhas de compreensão. Não se pode, no entanto, em nome
da linguagem técnica, justificar o uso de rebuscamento e comprometer
técnicas de um bom texto. É comum encontrar textos com verdadeiras
acrobacias linguísticas e desprezível conteúdo. Observe exemplo de re-
buscamento.

Com espia no referido precedente, plenamente afincado, de modo


consuetudinário, por entendimento turmário iterativo e remansoso, e
com amplo supedâneo na Carta Política, que não preceitua garantia
ao contencioso nem absoluta nem ilimitada, padecendo ao revés dos
temperamentos constritores limados pela dicção do legislador infra-
constitucional, resulta de meridiana clareza, tornando despicienda
maior peroração, que o apelo a este Pretório se compadece do impe-
rioso prequestionamento da matéria abojada na insurgência, tal enten-
dido como expressamente abordada no acórdão guerreado, sem o que
estéril se mostrará a irresignação, inviabilizada ab ovo por carecer de
pressuposto essencial ao desabrochar da operação cognitiva.

O desembargador Carlos Alberto Bencke esclarece que:

Os advogados peticionam para o juiz que assim os entende; o pro-


motor exara parecer e o direciona também para o juiz; e, finalmente,
o juiz decide para os advogados, para o promotor e para o tribunal.
Enfim, as palavras ficam num mesmo círculo e, de rigor, ninguém
necessita pedir explicações sobre o real sentido daqueles termos téc-
nicos utilizados. Lembremo-nos, todavia, que o Direito não pertence
aos lidadores do Direito, mas sim às partes, geralmente pessoas leigas
nos assuntos jurídicos.
Com a abertura cada vez maior dos julgamentos – públicos na sua
essência – a imprensa passou a realizar a cobertura dos processos que
dizem respeito mais de perto aos interesses da sociedade. Daí esbar-
rou nos termos técnicos e nas dificuldades de passar uma informação
inteligível para o seu público consumidor.

17
O Superior Tribunal Militar recebeu, certa vez, recurso assim redigido:

O alcândor Conselho Especial de Justiça, na sua postura irrepreensí-


vel, foi correto e acendrado no seu decisório. É certo que o Ministério
Público tem o seu lambel largo no exercício do poder de denunciar.
Mas nenhum lambel o levaria a pouso cinéreo se houvesse acolitado
o pronunciamento absolutório dos nobres alvarizes de primeira ins-
tância.

Inúmeras são as vezes em que a má redação compromete o entendimen-


to. A página eletrônica Consultor Jurídico publicou entrevista com o
advogado Manuel Alceu sobre o rebuscamento na linguagem jurídica.
Cito trecho da entrevista.

Conjur – O senhor acha que a mudança de atitude na relação en-


tre jornalistas e juízes passa também pela discussão da reforma da
linguagem jurídica?

Manuel Alceu – Com relação ao “juridiquês”, tenho uma posição


intermediária. Realmente é preciso facilitar o entendimento do Di-
reito e de sua aplicação aos casos concretos. Mas, ao mesmo tempo,
existem termos jurídicos dos quais não se pode abdicar, sob pena de
sacrificar as ideias e conceitos neles embutidos. Como posso subs-
tituir, por exemplo, “comoriência”, “prescrição em concreto”, “pre-
clusão recursal lógica”, “inépcia substancial” etc.? Cada atividade
tem o seu palavreado exato, que é insubstituível. Assim, também
ocorre com o Direito. Em suma, a reforma da linguagem jurídica
será feita para simplificá-la naquilo que não prejudique a exatidão
daquilo que se quer dizer. Ademais, o “juridiquês” não deve ser con-
fundido com demonstração da falsa erudição, com o rebuscado. No
meio e no razoável é que se buscará a solução.
18
2.2 Competência textual

A Língua Portuguesa, de vocabulário extenso e gramática complexa,


permite ampla variação linguística. Ser competente é dominar funda-
mentos adequados ao bom texto e evitar os vícios de linguagem. O
Manual de Padronização de Atos Administrativos do Senado Federal
destaca:

O texto jurídico, em geral, é conhecido pela redação rebuscada, pela


prolixidade e pela utilização exagerada de citações, jargões, arcaís-
mos, latinismos e estrangeirismos.
Não podem ser esquecidas as fórmulas arcaicas tão usadas e abusa-
das, como “vistos etc.”, “faz saber”, “hei por bem condenar (ou ab-
solver), como agora o faço”, “que outro fará quando deprecado for”,
“especial mercê de V. Exª”, “chamo o feito à ordem”, “acautelem-
-se os autos”. Algumas tão antigas que alguns jovens advogados nem
mesmo conhecem o seu significado.
A criatividade indesejada também traz prejuízos ao vernáculo quan-
do cunha expressões absolutamente redundantes. Exemplos clássicos
são “acordo amigável” – como se fosse possível um acordo não-ami-
gável; “alterações posteriores” – não existe a possibilidade das alte-
rações serem anteriores ao ato; “União Federal” – deve-se utilizar
apenas União, conforme previsto na Constituição Brasileira, já que
federal é a forma do Estado Brasileiro (art. 18). Escrever com clare-
za não é um favor que os operadores do Direito fariam à sociedade,
mas uma obrigação; seria o simples cumprimento do disposto no Có-
digo de Processo Civil.

2.2.1 Clareza

Habilidade de transpor com exatidão uma ideia ou pensamento. O texto


deve ser claro de tal forma que não permita interpretação equivocada
ou demorada pelo leitor. A compreensão deve ser imediata. É importan-
te usar vocabulário acessível, redigir orações na ordem direta, utilizar
19
períodos curtos e eliminar o emprego excessivo de adjetivos. Deve-se
excluir da escrita ambiguidade, obscuridade ou rebuscamento.
Texto claro pressupõe o uso de sintaxe correta e de vocabulário ao al-
cance do leitor. O Supremo Tribunal Federal, em seu Manual de Atos
Oficiais Administrativos, recomenda, para obtenção de clareza:

a) releia o texto para assegurar-se de que está claro;

b) empregue a linguagem técnica apenas em situações que a exijam e


tenha o cuidado de explicitá-la em comunicações a outros órgãos
ou em expedientes voltados para os cidadãos;

c) certifique-se de que as conjunções realmente estabeleçam as re-


lações sintáticas desejadas; no entanto, evite o uso excessivo de
orações subordinadas, pois perío­dos muito subdivididos dificultam
o entendimento;

e) utilize palavras e expressões em outro idioma apenas quando fo-


rem indispensáveis, em razão de serem designações ou expressões
de uso já consagrado ou de não terem exata tradução. Nesse caso,
grafe-as em itálico.

Observe texto com falta de clareza.

Vossa Excelência, data maxima venia, não adentrou às


entranhas meritórias doutrinárias e jurisprudenciais acopladas
na inicial, que caracterizam, hialinamente, o dano sofrido.

Veja como fica melhor na redação da professora Hélide Santos Campos.

Vossa Excelência não observou devidamente a doutrina e a


jurisprudência citadas na inicial, que caracterizam, claramente,
o dano sofrido.

20
Evite rebuscamento ou arcaísmos, que podem comprometer a clareza ou
a correção gramatical. A Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB)
e praticamente todos os manuais direcionados ao assunto defendem uso
mais adequado da linguagem jurídica e citam vocábulos a serem evitados:

Evitar Preferir
a teor nos termos, conforme, de acordo
abroquear fundamentar
acosta aos autos anexar ao processo
apelo extremo recurso extraordinário
areópago tribunal
avençar pacto locatício fazer contrato de locação
com espeque com base
com fincas com base
com supedâneo com base
descabe falar não há falar
em sede de recurso no recurso
em sede extraordinária em instância extraordinária
empilha traz, coleciona
ergástulo público cadeia
espalma recorrida
estribado com base
excelso sodalício Supremo Tribunal Federal
exordial petição inicial
hostilizada recorrida
improvimento desprovimento
indigitado réu
inobstante não obstante
lavrar uma avença fazer contrato
meirinho oficial de Justiça
nem tampouco tampouco

21
no que pertine no que concerne, quanto a
objetivando com objetivo
peça incoativa petição inicial
peça increpatória denúncia
peça vestibular petição inicial
petição de introito petição inicial
posto isto posto isso
proemial delatória denúncia
quinquídio prazo de cinco dias
suplicante requerente
suplicado requerido
trancatório denegado
tríduo prazo de três dias
vazada, lançada proferida
vergastado recorrido
vez que uma vez que
visando com vistas a

2.2.2 Concisão

Consiste em informar o máximo em um mínimo de palavras. No entan-


to, contenção de palavras não significa contenção de pensamentos. Por
essa razão, não se devem eliminar fragmentos essenciais do texto com
o objetivo de reduzir-lhe o tamanho. Termos desnecessários necessitam
ser eliminados. Mais que curtas e claras, as expressões empregadas de-
vem ser precisas. Recomendações:

a) revise o texto e retire palavras inúteis, repetições desnecessárias,


desmedida adjetivação e períodos extensos e emaranhados. Não
acumule pormenores irrelevantes. O Manual de Redação do Tribu-
nal de Justiça do Distrito Federal e Territórios afirma que:

22
nos documentos jurídicos, costumam-se empregar diversos adjeti-
vos para qualificar os substantivos a que se referem, como pretório
excelso, douto magistrado, augusto presidente, respeitável deci-
são, elevado e digno ministro, sobrelevado órgão recursal, entre
outros. Esses adjetivos devem ser evitados, por não acrescentarem
informação necessária ao texto e por serem contrários aos princí-
pios da concisão e da clareza;

b) dispense, sempre que possível, os verbos auxiliares, em especial


ser, ter e haver, pois a recorrência constante a eles torna a reda-
ção monótona, cansativa;

c) prefira palavras breves. Entre duas palavras opte pela de menor


extensão.

d) dispense, nas datas, os substantivos dia, mês e ano:


• no dia 12 de janeiro (em 12 de janeiro);
• no mês de fevereiro (em fevereiro);
• no ano de 2016 (em 2016).

e) troque a locução verbo + substantivo pelo verbo:


• fazer uma viagem (viajar);
• fazer uma redação (redigir);
• pôr as ideias em ordem (ordenar as ideias);
• pôr moedas em circulação (emitir moedas).

f) use aposto em lugar de oração apositiva:


Inadequado: O contrato previa a construção da ponte em um
ano, que era prazo mais do que suficiente.
Adequado: O contrato previa a construção da ponte em um ano,
prazo mais do que suficiente.

23
g) Empregue particípio para reduzir orações:
Inadequado: Agora que expliquei o título, passo a escrever o texto.
Adequado: Explicado o título, passo a escrever o texto.

h) Elimine, sempre que possível, os artigos indefinidos um e uma:


• Dante quer (um) inquérito rigoroso e rápido.
• Timor-Leste se torna (uma) terra de ninguém.
• A cultura da paz é (uma) iniciativa coletiva.

2.2.3 Formalidade e correção gramatical

A utilização do padrão formal de linguagem representa texto correto em


sua sintaxe, claro em seu significado, coerente e coeso em sua estrutura,
elegante em seu estilo. Ser culto não é ser rebuscado. As incorreções
gramaticais desmerecem o redator e a própria instituição. Também não
deve ser coloquial, com gírias, regionalismos etc. Seguem recomenda-
ções para produção de texto formal e correto:

a) evite expressões e clichês do jargão burocrático e as formas
arcaicas de construção de frases, assim como o coloquialismo
e a gíria;

Em vez de Escreva
ao apagar das luzes no final
depois de longo e tenebroso inverno após muito tempo
dizer cobras e lagartos expressar abertamente
mestre Aurélio dicionário
obra faraônica obra grande
voltar à estaca zero retornar ao início

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b) prefira a palavra simples quando for possível.

c) adote como norma a ordem direta da frase, por ser a que con-
duz mais facilmente o leitor à essência da mensagem.

d) evite o pleonasmo. Pleonasmo é a repetição de termos que,


em certos casos, têm emprego legítimo, para conferir à ex-
pressão mais força, mais vigor, ou mesmo por questão de cla-
reza. Na frase Conheça-te a ti mesmo, atribuída a Sócrates, a
redundância (te = a ti) produz inegável efeito retórico. À ex-
ceção desses casos, o pleonasmo constitui vício inadequado
em textos dissertativos.
Observe exemplo na expressão “nem tampouco”. O termo
“tampouco” já tem sentido negativo e equivale a também
não. O emprego da segunda negativa (nem) é, portanto, re-
dundante. Observe lista de pleonasmos a serem evitados.

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exceder em muito dupracitado acima
expectativa futura durpresa inesperada
experiência anterior todos foram unânimes
exultar de alegria tornar a repetir
fato verídico totalmente lotado

25
2.2.4 Objetividade

A objetividade consiste em ir diretamente ao assunto, sem rodeios e


divagações. Para ser objetivo, é necessário escrever apenas as palavras
imprescindíveis à compreensão do assunto. Redigir com objetividade é
evidenciar a ideia central a ser transmitida e usar vocabulário de sentido
exato, com referencial preciso, para facilitar a compreensão do leitor.
Observe exemplo de texto com falta de objetividade retirado de revista
de grande circulação.

Investigar as causas principais que fizeram desabrochar no meu


espírito durante os anos tão distantes da infância que não voltam
mais e da qual poucos traços guardo na memória, já que tantos anos
se escoaram, a vocação para a Engenharia é tarefa que pelas razões
expostas, me é praticamente impossível e, ouso acrescentar que,
mesmo para um psicólogo acostumado a investigar as profundezas
da mente humana, essa pesquisa seria sobremodo árdua para não
dizer impossível.

Como produzir texto objetivo:

a) use frases curtas e evite intercalações excessivas ou inversões des-


necessárias.
Inadequado: O maior país da América Latina – apesar de ainda
desconhecer seu potencial imenso – parece ter encontrado o cami-
nho do progresso tão esperado pela população.
Adequado: O Brasil parece ter encontrado o caminho do progresso.

b) elimine os adjetivos que não contribuam para a clareza do pensa-


mento.
Inadequado: A maravilhosa cidade de Brasília, capital do Brasil,
representará nosso imenso país.
Adequado: Brasília representará o Brasil.
26
c) corte os advérbios ou as locuções adverbiais dispensáveis.
Inadequado: Desde sempre e nos dias de hoje, há necessidade de
estudo.
Adequado: Há necessidade de estudo sempre.

d) seja econômico no emprego de pronomes pessoais, pronomes pos-


sessivos e pronomes indefinidos. Evite, por exemplo, um tal, um
outro, um certo, um determinado, pois termos indefinidos juntos
não contribuem para maior clareza; ao contrário, tornam o texto
obscuro.
Inadequado: Um tribunal de São Paulo produziu um parecer con-
trário.
Adequado: Tribunal de São Paulo produziu parecer contrário.

e) restrinja o uso de conjunções e de pronomes relativos (que, qual,
cujo).
Inadequado: O processo que foi arquivado e que apresentava in-
formações que eram relevantes.
Adequado: O processo arquivado apresentava informações rele-
vantes.

f) não use expressões irrelevantes, pois tornam o texto artificial.


Inadequado: O STF, que fica em Brasília, decidiu assim.
Adequado: O STF decidiu assim.

g) evite figuras de linguagem, frases ambíguas.


Inadequado: O tribunal é fogo para decidir.
Adequado: O tribunal é criterioso para decidir.

h) se puder optar, escolha a voz ativa.


Inadequado: A decisão foi divulgada pelo Tribunal.
Adequado: O Tribunal divulgou a decisão.

i) não externe opiniões subjetivas, reúna fatos e fundamentos lógicos;

j) use palavras específicas, pertinentes ao assunto.


27
2.2.5 Estilo

O Manual de Redação do Senado Federal afirma que há quem pretenda


justificar como particularidade de estilo o uso sistemático de figuras de
retórica, de expressões enviesadas e de tantos outros enfeites linguísti-
cos que normalmente comprometem a clareza do texto e a dificultam
sua compreensão.
Tais recursos linguísticos se revelam inadequados à redação jurídica,
que deve primar pela clareza e objetividade. Todos os manuais e atos
normativos relacionados à linguagem jurídica são claros em recomen-
dar linguagem objetiva, sem rebuscamentos ou recursos estilísticos des-
necessários.

Recomendações:

a) texto inteligível com palavras e expressões em seu sentido comum,


salvo quando o assunto for de natureza técnica, hipótese em que se
empregarão a nomenclatura e a terminologia próprias da área;

b) orações na ordem direta sem preciosismos, neologismos, intercala-


ções excessivas, jargão técnico, lugares-comuns, modismos e ter-
mos coloquiais;

c) uso do tempo verbal de maneira uniforme em todo o texto;

d) coerência na exposição de ideias, com organização lógica do início ao


fim do texto em sequência lógica e ordenada. Isso significa que o texto
deve conter apenas as ideias pertinentes ao assunto proposto;

e) consistência nos argumentos e pensamentos apresentados;

f) frases afirmativas tornam o texto mais objetivo e claro;

g) evite dupla negativa (“não há nenhum”, por exemplo);

28
h) omita a conjunção “que” nas orações subordinadas introduzidas
por subjuntivo (“requer seja” no lugar de “requer que seja”; “deter-
mina seja” no lugar de “determinar que seja”);

i) use a preposição com segurança.

2.3 Níveis de Linguagem

A eficiência da comunicação depende do uso adequado do nível de lin-


guagem. Cada situação exige linguagem específica. É necessário preo-
cupar-se e muito com quem receberá o seu texto.

Linguagem formal: empregada por pessoas com mais formação aca-


dêmica e intelectual. Observamos seu uso nos meios profissionais, uni-
versitários, diplomáticos, científicos. O vocabulário é rico em termos
mais precisos e as regras gramaticais são mais adequadas à norma culta.
Observe modelo.

O Supremo Tribunal Federal determinou o bloqueio imediato dos


bens de todos os diretores envolvidos no escândalo do Banco do Bra-
sil. A instituição deverá prestar contas dos gastos de seis diretorias
que foram aliciadas por meio de propina para a liberação de verbas a
agências publicitárias.

Linguagem coloquial: é o uso do idioma em sua forma mais espon-


tânea e sem compromisso com as normas gramaticais. Geralmente, o
texto apresenta gírias, figuras de linguagem, construções incompletas e
com falhas gramaticais. Observe um texto coloquial.

Brother, dentro dessa nova edição do Concurso 500 testes tem tudo
para que minha prova role na maior. Só de português são mais 800
questões. Ah, tem uma lista de livros e dicas para todos ficarem por
dentro do que é moleza que caiu na prova. Vou encarar este estudo.
29
Percebe-se, claramente, que nosso objetivo é o uso de linguagem for-
mal. Reforço que isso não significa texto rebuscado e complicado. Lin-
guagem formal indica também texto objetivo, claro, correto gramati-
calmente.

2.4 Petição e decisão em verso

A petição inicial e a decisão judicial são documentos que solicitam texto


técnico. Todos os manuais sobre o assunto recomendam texto em prosa
concatenados em parágrafos coerentes e divididos em partes padroniza-
das. No entanto, encontramos a criatividade em diversos momentos. O
advogado e poeta Carlos Nascimento produziu um texto com 18 versos
livres para constestar uma ação em que a seguradora argumentava que
a cobrança de seguro obrigatório não poderia tramitar na comarca indi-
cada pelo autor. Transcrevo os versos do advogado.

Senhor Juiz
O autor sobre o evento sete (07) vem falar
Que lesado foi ao acidentar
Por isso, procurou onde a demanda ajuizar
Preferiu o domicílio do réu sem vacilar
Sendo competência territorial pôde optar
Seja, onde há sucursal ou onde morar
Isso é jurisprudencial não precisa reafirmar
Ademais, o réu sabe que deve pagar,
Aqui ou em outro lugar
Porém, para modificar, não basta alegar
Prejuízo tem que demonstrar
Sobre esse intento não conseguiu provar.
Portanto, o autor para finalizar
Pede para o doutor, a presente rejeitar
Essa é a contestação,
30
Parece de canastrão
Mas, sem atrevimento.
Pede, suplica o deferimento

O juiz, por sua vez, surpreendeu o advogado e produziu decisão judicial


parte em prosa e parte em verso. Observe a decisão.

Vistos.
Itaú Seguros S/A em razão de ação de cobrança que lhe move Getú-
lio Rodrigues Pereira nos autos em apenso (processo nº 5020384-
76.2013.827.2729), manuseou a presente exceção de incompetência
invocando o disposto no artigo 100, inciso V, alínea “a” e seu pará-
grafo único do Código de Processo Civil que elege o foro do local dos
fatos ou o domicílio do autor, a Comarca de Paraiso-TO.
Ressalta que tendo o acidente ocorrido em Pugmil que pertence à Co-
marca de Paraíso-TO, este é o foro competente para a questão e onde
as provas necessárias à discussão do direito serão melhor produzidas.
Requer o reconhecimento da incompetência do Juízo e a consequente
remessa dos autos ao Juízo de Direito da Comarca de Paraíso-TO
(Evento 1).
O excepto, em versos, impugna a exceção argumentando ter optado
pelo domicílio do demandado e invoca precedentes acerca do tema.
Requer o não acolhimento da exceção (Evento 9).

Este o relato necessário.

Decido.

Em versos e jurisprudências responde o excepto;


Não pode ser acolhida a exceção; acertado pontua;
O juízo competente é do domicílio do autor ou do local do fato;
Esqueceu-se a excipiente não ser escolha sua.
A lei contemplou o domicilio do autor ou o local do acidente;
Assim é mais fácil para a vítima do sinistro pensou o legislador;
31
Em sua casa, com sua gente ou onde se feriu o requerente;
Pareceu mais propício buscar lenitivo e reparo à sua dor;

Mas, onde mora o requerente? Perquire o judicante;


Mora em Palmas e se feriu quando no interior se encontrava;
Em seu parágrafo único o artigo cem (100) soluciona o embate;
O foro do domicílio do autor era escolha que bastava.

A contestação não parece de canastrão;


Pelo contrário, sem respaldo legal e sem assento;
Parece, isto sim, a exceção, uma medida de protelação;
Coisa de instituição financeira querendo ganhar tempo.

De fato a jurisprudência é de remanso;


Por outro lado a legislação é de meridiana clareza;
Enquanto o requerente espera ansioso o desfecho;
Navega tranquila a seguradora sob o benefício da destreza.

É preciso colocar na espera um ponto final;


Por isso, sem mais delongas, porque não sou poeta;
Firmo de logo a competência do juízo da capital;
É aqui que se deve resolver o quanto o caso afeta

Face ao exposto, nos moldes do artigo 100, parágrafo único do Có-


digo de Processo Civil, rejeito a exceção reafirmando a competência
do Juízo da Comarca de Palmas para conhecimento e julgamento da
questão.
Após o término do prazo recursal, prossiga-se nos autos principais.

Int.

Palmas, 11 de junho de 2015.


Zacarias Leonardo
Juiz de Direito
32
Técnicas de elaboração
CAPÍTULO
3 de decisões judiciais

Decisões judiciais seguem padrão específico. Após anos ministrando


cursos a magistrados e servidores de gabinete, observo que três elemen-
tos são essenciais à boa decisão judicial:

a) conhecimento das normas e experiência jurídica;


b) domínio da estrutura e da disposição do conteúdo a ser apresenta-
do;
c) capacidade de saber argumentar com clareza, coerência e objeti-
vidade.

Nosso enfoque neste material é justamente destacar os dois últimos


elementos. Esclareço que minha intenção aqui não é explorar as nor-
mas e as interpretações jurídicas. Nossa abordagem será direcionada
para melhorar o domínio da estrutura da decisão e do conteúdo a ser
apresentado com competência textual e domínio da lógica da argu-
mentação
Também reforço que nossa intenção não é impor um estilo conside-
rado melhor ou único. Cada magistrado possui o seu estilo e deve
ser respeitado. Farei sugestões de organizações textuais a serem se-
guidos de acordo com a argumentação. O estilo de cada magistrado
é único e é ele próprio que deve decidir qual técnica usará em seus
textos.

33
O juiz Paulo Araújo, por ocasião de sua aposentadoria no TRT 3ª Re-
gião, declarou:

Cada juiz empresta às suas sentenças as marcas e os sináculos de seu


temperamento e as dominantes de sua formação. Quem tiver auto-
ridade para fazê-lo indicará com excelências supremas do estilo do
julgado a concisão que não argua probreza ou dê ao estilo caráter
hermético e cerrado, o “natural” que não se abastarde em vulgaridade,
o vigor que não vá até as raias da ênfase, em uma palavra, “a clareza”
do ideal sthendhaliano. Mas inexiste qualquer preceito rígido imposto
ao juiz na redação das sentenças. O que se pode exigir é que dê o juiz
os fundamentos de sua convicção.

O professor Gézio Duarte Medrado, doutor em Direito do Trabalho,


afirma:

A palavra “sentença” tem sua raiz no latim “sententia”, que significa


“sentir”. Sentenciar, portanto, é tato profundamente humano, que ex-
pressa uma opinião pessoal sobre um assunto humano, quase sempre
um drama que une, intencionalmente ou não, duas ou mais pessoas,
que disputam um bem da vida.
Por meio da sentença se faz justiça, como ideal humano de vida em
sociedade. A sentença também é o instrumento principal do serviço da
justiça e, em nosso país, a exemplo de praticamente todos os demais
países ocidentais, a sentença judicial, emanada do Estado-Juiz, possui
certas características que devem ser observadas como requisito de
validade. Mas, se é certo que por meio da sentença se faz justiça, esse
valor máximo da civilidade não é requisito expresso legalmente. Isso
ocorre porque a justiça, em sua raiz humana de “sentir”, é obra do ser
humano tomado individualmente, em sua característica de convicção
pessoal em face dos temas que lhe são apresentados.
Como requisito de validade da sentença, atribuindo especial rele-
vância à noção de convicção pessoal e independência do julgador, a
Constituição Federal exige tão somente que ela seja fundamentada na
razão, relegando a emoção típica do “sentir” a um plano secundário,
ainda que não menos importante.
34
Essa breve introdução serve para frisar que a mecânica de construção
da sentença é fundada no “sentir” humano,- fundamental para estabe-
lecer uma decisão judicial-, mas, esse “sentir” deve estar submetido
ao critério civilizatório do sistema jurídico, que inclui o respeito aos
fatos provados, às normas, aos princípios, à jurisprudência enfim, à
lógica que permeia a razão jurídica do país, em sua concretude espa-
ço-temporal.
Sentenciar é expor, segundo as regras do sistema jurídico, o enten-
dimento que soluciona a lide, respeitando a técnica de redação que é
dominada pelos juízese profundamente examinada por todos os de-
mais atores sociais.
(...)

A concepção geral do ato de decidir juridicamente é fundada na cons-


trução de um raciocínio jurídico, observada a construção do silogismo
típico jurídico nos quais há uma premissa maior, representada pela
norma, uma premissa menor, representada pelo fato, um mecanismo
de subsunção da norma ao fato e, por fim, a conclusão representada
pela decisão judicial.

1. Premissa maior: Norma jurídica que traduz soluções “in abstrato”.


2. Premissa menor: fato concreto examinado, materializado no pro-
cesso em torno da prova produzida, que pode ser controvertido ou não
em sua origem.
3. Subsunção da norma ao fato: verificação da possibilidade de
aplicação.
4. Conclusão: decisão sobre a subsunção e a determinação da solu-
ção “in concreto”.
A sentença requer, enquanto autoridade, algumas qualidades.

Ser clara e objetiva: A sentença é destinada às partes, ainda que me-


diadas por seus representantes legais. A sentença democrática deve
ser clara, inteligível e objetiva, concedendo às partes as explicações
racionais que fundam a decisão que lhes interessa.
35
Ser completa: A sentença dá solução a uma lide, a uma controvérsia
de interesse legal e, portanto, não tem sentido solucionar somente
parte do problema exposto à justiça. Por essa razão, a sentença deve
abranger todo o problema que lhe foi proposto e dar solução aos pedi-
dos que lhe são feitos. Dizemos ainda que a sentença completa é “re-
donda”, ou seja, é uma solução elegante e alinhada de um problema
jurídico, que está em sintonia com o sentimento de justiça democráti-
ca que se espera de decisões judiciais.
Ser fundamentada: A constituição atribui à sentença uma inspira-
ção de justiça, pois concede a competência legal de sua produção ao
Poder Judiciário. No entanto, o sentido de justiça é subjetivo e, por
essa razão, a Constituição determina que a decisão seja racionalmente
fundamentada. O juiz possui liberdade e independência para senten-
ciar conforme sua convicção mas, essa convicção deve ser permeada
de critérios racionais e amparada da lei, nos princípios de direito, na
jurisprudência, na doutrina e, em casos especiais, na equidade, fonte
primária do sentimento de justiça. Qualquer decisão que não tenha
fundamentação racional é nula, nos termos constitucionais.
Ser determinante: A sentença é um comando. Portanto, sua finali-
dade é, após examinar racionalmente um problema legal, decidir, dar
solução ao caso. A sentença determina uma solução, acolhendo, no
todo ou em parte, um pedido, ou ainda, rejeitando-o.

Transcrevo modelo objetivo e simples de sentença produzida por Cla-


rissa Margotti com os elementos essenciais de uma decisão judicial.

Vistos e examinados os autos de Ação Anulatória de Contrato de


Fiança sob o n. ___, em que é autora ___ e réu ___.

I – Relatório

A autora ingressou com o presente feito requerendo a Declaração de Nulidade


da fiança prestada por seu marido, o senhor ___, no contrato de confissão de
dívida celebrado com a empresa/ré, alegando ser casada em regime de comu-
nhão universal de bens.
36
Entretanto, o senhor ___ assumiu um compromisso em determinado
contrato, assumindo uma obrigação que não pertencia exclusivamen-
te a ele, sem que houvesse sido prestada a competente outorga uxória
por parte da ré.
Na defesa, o réu alegou a impossibilidade jurídica do pedido expondo
que a autora deveria ter movido demanda Declaratória de Nulidade
e não Anulatória de Contrato de Fiança, já que visa à nulidade do
processo.
Afirmando que se trata de uma relação calçada na relação do princí-
pio de boa fé, sendo que o fiador não convivia maritalmente com a
autora. Sustentando que foram suficientes os argumentos da autora, o
réu não pode sofrer danos em relação às falsas afirmações do fiador,
levando em consideração que agiu de boa fé.

II- Fundamentação

A fundamentação presente no pedido inicial é totalmente procedente visto que


a lei prescreve a necessidade de outorga uxória em caso de fiança, exceto no
regime de separação absoluta, nos termos do artigo 1.647, inciso III do Código
Civil em vigor.
Em relação à preliminar levantada em contestação, percebe-se que, embora
o nome da ação tenha sido equivocado, não se deve levar em consideração,
tendo em vista o princípio da fungibilidade. Este faz com que ação seja consi-
derada caso a sua fundamentação e pedidos estejam corretos.
A falta de consentimento da esposa em fiança prestada pelo marido acarreta a
nulidade absoluta da garantia.
O argumento do réu não convence, pois incumbia ao mesmo se precaver quan-
to à regularidade da fiança prestada. Mesmo sendo evidente a falta da assina-
tura da esposa no contrato, o requerido, por motivo ora desconhecido, aceitou
o contrato de fiança.

III – Dispositivo

Tendo em vista esses fundamentos, julgo totalmente procedente o pedido, para


fim de declarar nulo o contrato de fiança referido nos autos.

37
Condeno o réu ao pagamento das custas, bem como os honorários
advocatícios, os quais arbitro em ___, tendo em consideração, espe-
cialmente, a simplicidade da causa, em que pese o bom trabalho de-
senvolvido pelo procurador do autor, o que faço com base no artigo
20, § 4º combinado com o §3º, alíneas “a” a “c” do artigo do Código
de Processo Civil.

Publique-se. Registre-se. Intimem-se.


Nada mais.

Localidade e data
Assinatura

Modelo de sentença trabalhista bem objetiva.

Relatório
Fulano de Tal, qualificado na inicial de fls. …., moveu a presente
ação trabalhista contra a Empresa Tal, pretendendo desta última aviso
prévio, férias proporcionais, 13º salário proporcional e os depósitos
do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, sob a alegação de haver
sido despedido sem justa causa.
A Reclamada, regularmente citada (fls. __), ante a impossibilidade de
conciliação, contestou o feito, refutando as pretensões do Reclamante
e, no mérito, pugnando pela improcedência da ação, argumentando
não dever ao reclamante os títulos e valores pretendidos, em face da
ocorrência de falta grave, consistente em reiteradas e injustificadas
faltas ao serviço.
As partes prestaram depoimentos pessoais (fls. ….), tendo sido ouvi-
das três testemunhas para cada parte.
Rejeitada a proposta final de conciliação, foi encerrada a instrução e
manifestaram-se os advogados em razões finais orais.
É o relatório – decide-se.

38
Fundamentação
A prova colhida na instrução deixa evidente a inexistência da ale-
gada falta grave. As faltas ocorridas nos dias __ foram justificadas,
como bem demonstram os atestados médicos de fls__. A alegação
da Reclamada de que tais atestados não lhe foram entregues não é
de ser aceita, pois seu preposto (fls.__) declara que, ao contrário, os
mencionados atestados foram entregues pelo Reclamante ao Depar-
tamento Pessoal. Assim, não há falar em faltas injustificadas nos dias
em apreço.

Diante do exposto, julgo procedente a presente ação e, por via de con-


sequência, condeno ___ a pagar ao ___ os títulos e valores discrimi-
nados na inicial de fls. __, a saber: aviso prévio no valor de __, férias
proporcionais no importe de __, 13º salário proporcional no total de
__ e guias AM (Código 01) dos depósitos do Fundo de Garantia do
Tempo de Serviço, com a multa respectiva. Juros e correção monetá-
ria na forma da lei. Custas pela Reclamada, fixadas sobre o valor da
causa, no importe de __.
Intimem-se. Nada mais.

3.1 Elaboração de relatório

Após os elementos introdutórios (referência ao processo, às partes e ao


magistrado), a sentença apresenta o relatório. Um relatório adequado só
é possível quando ocorre conhecimento pleno da controvérsia trazida a
julgamento.
A função principal do relatório é apresentar de forma resumida e rele-
vante o limite do pedido com seus fatos, argumentos e provas, a ma-
nifestação do réu com seus argumentos e provas, o histórico dos atos
processuais ocorridos no processo.

Rezende Filho propõe uma sequência sistemática ao magistrado para a


elaboração do relatório:
39
a) afastar toda a matéria estranha ao objeto da causa;
b) selecionar, dentre a matéria pertinente, a que é necessária para re-
solver;
c) determinar qual a controvérsia;
d) apurar as pretensões do autor e do réu; e
e) levantar os fundamentos essenciais dessas pretensões.

O relatório deixa claro que o juiz analisou os principais elementos


do pedido do autor, da manifestação da defesa e dos fatos relevantes
do processo. Geralmente, o relatório é formulado com parágrafos
pequenos e divididos por assunto. Importante que o pedido do autor
e a manifestação do réu não fiquem no mesmo parágrafo. É muito
comum que cada ideia fique em um parágrafo para que as etapas
fiquem bem claras e objetivas. Observe exemplos de sentenças reais
de diversas áreas.

O professor Gustavo de Souza Lima afirma que a função do relatório


na decisão judicial é, basicamente, organizar os argumentos e provas
apresentados pelas partes e delimitar a lide com seus objetivos e as
questões que deverão ser analisadas e decididas pelo julgador. Além
disso, o relatório deve conter o histórico dos atos processuais ocorridos
no processo que possam influenciar na sentença.

O professor enfatiza, também, na diferença entre a estruturação ló-


gica e a estruturação cronológica do relatório. A primeira se preo-
cupa em fornecer todos os elementos relevantes e necessários para
o julgamento da causa. A segunda preocupa-se em relatar todos os
atos do processo e não somente aqueles que terão importância para
o julgamento.

40
Exemplo de relatório cível.
Vistos etc.
Trata-se de ação monitória, ajuizada por __ em desfavor de ___, par-
tes devidamente qualificadas à fl. 02 (dois).
Na petição inicial, o autor alegou que é credor do réu na importância
de R$ __ (____), representada pelo cheque __.
Aduziu que o réu está em mora, devendo o débito ser atualizado, o
qual perfaz o montante de R$ __ (____).
Requer, ao fim, a condenação do réu no importe de ___ (____).
Acompanham a inicial documentação às fls. 05/14.
Regularmente citada, a parte ré apresentou embargos à monitória, nos
quais asseverou que os títulos executivos apresentados têm origem
em ___.
Manifestação acerca dos embargos à monitória às fls. 65.
Aberto o prazo para especificação de provas, ambas as partes se ma-
nifestaram o desinteresse em produzir outras provas.
É o Relatório. Decido.

Exemplo de relatório criminal.


Vistos...
Cuida-se de habeas corpus impetrado por ___, qualificado, em favor
do paciente ____, também identificado na petição inicial.
Dizem os impetrantes que o paciente foi preso em flagrante sob a
acusação de ter cometido o delito descrito no art. 157, c/c o art. 71,
ambos do Código Penal.
Aduz que a prisão em flagrante foi convertida em preventiva a fun-
damento de que não há elementos autorizadores para a concessão ex
officio da liberdade provisória, bem assim que a gravidade da conduta
atribuída ao paciente indica risco à ordem pública.
Destacam que a liberdade concedida com amparo no parágrafo único
do art. 321 do CPP não exige a comprovação de condições favoráveis,
como residência fixa, primariedade e bons antecedentes.

41
Alegam que o paciente é primário e reside no distrito da culpa, bem
assim que o crime em apuração foi cometido sem o emprego de arma
de fogo. Daí sustentam que não se fazem presentes os pressupostos
autorizadores da prisão preventiva.
Ao final, pedem a concessão da ordem, inclusive, liminarmente, a fim
de que seja concedida liberdade provisória ao paciente.
É o breve histórico.

Exemplo de relatório trabalhista.


____ ajuíza reclamação trabalhista contra ___ e ___, qualifi-
cados na inicial, afirmando, em síntese, que: a) tem direito em an-
tecipação de tutela a liberação do FGTS e ao encaminhamento do
seguro-desemprego; b) foi admitida em ___ e dispensada sem justa
causa em ___, exercendo a função de promotora de vendas, mediante
remuneração de R$ ___; c) não recebeu a integralidade das verbas
rescisórias; d) o não pagamento das verbas rescisórias implica na san-
ção do art. 477, da CLT; e) (...); f) (...); g) (…); h) (…); i) (…).

Em razão desses fatos postula as seguintes reparações trabalhistas: a)


guias para encaminhamento do seguro-desemprego; b) indenização
por dano moral; c) verbas rescisórias consistentes em férias em dobro
com 1/3, gratificação de natal, aviso-prévio e saláriofamília; d) multa
do art. 477, da CLT; e) (...); f) (...); g) (...); h) honorários de advogado;
i) assistência judiciária gratuita. Atribui à causa o valor de R$ ___.

A primeira reclamada levanta preliminares de impossibilidade jurídi-


ca do pedido de responsabilidade subsidiária da segunda reclamada e
inépcia da petição inicial. No mérito, sustenta que: a) as verbas res-
cisórias foram correta e tempestivamente quitadas mediante depósito
na conta corrente da reclamante; b) a falta de homologação da res-
cisão contratual ocorreu por culpa da reclamante; c) (…); d) (...); e)
(...); f) (…).

A segunda reclamada levanta preliminares de ilegitimidade de parte, im-


possibilidade jurídica do pedido e ausência de interesse de agir relati-
vamente ao pedido de responsabilidade subsidiária. No mérito, sustenta

42
a licitude do contrato civil mantido entre as reclamada e a ausência de
fundamento legal para a responsabilização sem a existência de relação
de emprego. Contesta um a um os demais pedidos formulados na petição
inicial. Produz-se prova documental e ouvem-se duas testemunhas. Ra-
zões finais remissivas. Propostas conciliatórias rejeitadas.

É o relatório. Decide-se:

Exemplo de relatório militar


Vistos.

Cuida a espécie de Mandado de Segurança com pedido liminar impe-


trado por ___, PM RE __ contra ato do ___ prolatado no PD n. ____.

O impetrante foi acusado da prática de atos incompatíveis com a fun-


ção policial militar, caracterizados como transgressões disciplinares,
previstas nos nºs 36 e 97 do parágrafo único do artigo 13 do Regula-
mento Disciplinar da PMESP - Lei Complementar nº 893/01 (fls. 13).

Deduziu na petição inicial a concessão de liminar para a suspensão da


punição disciplinar, deferida conforme despacho de fls. 187.

O impetrado apresentou as informações (fls. 196/204). Aberta vista ao


Ministério Público, apresentou seu parecer, acostado às fls. 207/209,
opinando pela denegação da ordem.

É a síntese do necessário.

3.2 Orientações para um bom relatório

Os parágrafos do relatório de uma decisão judicial não seguem as orien-


tações que geralmente recebemos para escrever uma dissertação. Eles
apresentam características peculiares.
Cada assunto diferente deve integrar um parágrafo específico. Falha co-
mum é dividir de forma desorganizada as ideias nos parágrafos. Sugere-
43
-se que o resumo da inicial seja feito em um parágrafo e o resumo da
contestação em outro.
O resumo da inicial deve apresentar a descrição dos fatos (causa de
pedir) e, conforme a complexidade da causa, pode ser feita referên-
cia aos fundamentos jurídicos do pedido.
Pedidos como citação de réu, produção de provas, condenação ao
pagamento de custas e honorários, não precisam aparecer no rela-
tório.
Recomenda-se bastante cuidado ao redigir o pedido para que haja
coerência com o dispositivo da sentença.

Vistos
Tradicionalmente, inicia-se a sentença com a expressão “vistos, etc.”
ou “vistos e examinados os autos”. Alguns autores não apreciam o
uso. Trata-se de praxe forense. Erro comum é usar a expressão com
etc. e três pontos (vistos, etc...).

Trata-se de
Na linguagem jurídica, dois casos merecem destaque. Observe.

Trata-se de (ação) proposta por (autor) contra (réu), todos devida-


mente qualificados na petição inicial.

Cuida-se de (ação) proposta por (autor) contra (réu), todos devida-


mente qualificados na petição inicial.

No caso, as expressões “trata-se de” e “cuida-se de” são impessoais


(não aceitam sujeito) e ficam sempre no singular. Já o verbo “versa”
concorda com o referente.
44
Nome da ação
O nome da ação proposta (mandado de segurança, recurso extraordi-
nário, etc.) não precisa ser indicado com iniciais maiúsculas ou em ne-
grito. Nos modelos encontrados nos manuais de redação oficial de tri-
bunais, o nome da ação aparece com inicial minúscula e sem destaque.

Nomes das partes


O Manual do STJ recomenda que, ao serem usados termos anafóricos
para retomar o nome das partes de um processo, os termos sejam inicia-
dos em inicial minúscula e sem destaque no relatório e na fundamen-
tação.

Em face de
A expressão “em face de” é muito empregada na linguagem jurídica.
No entanto, muitas vezes é usada de forma equivocada. O sentido ade-
quado da expressão é “diante de”.

O Manual de Padronizações do Superior Tribunal de Justiça esclarece


o assunto:

A expressão significa diante de, face a face: Em face do perigo, re-


fugiou-se numa gruta; em virtude de: Em face das circunstâncias ex-
postas, não é possível ao STJ intervir no caso. Não está dicionarizada
a acepção contra para a expressão, como comumente se vê na lin-
guagem jurídica. Assim, diz-se interpor recurso contra e não interpor
recurso em face de.

O Manual de Redação Oficial do Tribunal de Justiça do Distrito Federal


complementa:

Anote-se ainda que, do ponto de vista semântico, é inadmissível o


uso de em face de para posicionar processualmente a parte contra
45
quem se move ação. Nesse caso, deve-se utilizar a preposição contra.
Observem-se os exemplos.
O agravo de instrumento foi provido em face do disposto no art. 120
da Constituição (certo).
Ação de Reparação de Danos ajuizada pelo autor em face da empresa
de materiais de construção (errado).
Ação de Reparação de Danos ajuizada pelo autor contra empresa de
materiais de construção (certo).

O Código Civil emprega a preposição “contra” para indicar a contra-


posição dos polos ativo e passivo de uma demanda. De igual modo, o
Código de Processo Civil registra o uso da preposição “contra” para
estabelecer o antagonismo das demandas judiciais.

O uso tradicional consagrou o uso de “em face de”. No entanto, os prin-


cipais manuais de redação jurídica indicam o uso de “contra” ou “em
desfavor” e condenam o uso de “em face de”.

Ação de Reparação de Danos ajuizada pelo autor em face da empresa


de materiais de construção (inadequado).
Ação de Reparação de Danos ajuizada pelo autor contra empresa de
materiais de construção (adequado).

Verbos declarativos
A exposição de fatos ocorre com a utilização de verbos declarativos.
Assim, é importante conhecer o sentido adequado dos principais verbos
para não repetir verbos ou usar de forma incorreta.
Acrescentar – latim accrescentare com sentido de adicionar;
Acusar – latim accusare com sentido de indicar a causa, o motivo
Admitir, reconhecer – aceitar fato ou argumento antes rejeitado;
Aduzir – trazer ou acrescentar novas razões a fatos ou argumentos já
expostos;
46
Afirmar – declarar com firmeza;
Alegar – apresentar argumento com intenção de defesa;
Anuir – latim annuere com sentido de estar de acordo.
Argumentar – discutir ou apresentar raciocínio com a intenção de con-
vencer;
Assegurar – garantir, tornar algo confiável.
Assentir – latim assentio com sentido de concordar ou chegar a acordo.
Asseverar – dizer de maneira segura, preferencialmente com provas.
Assinalar – destacar, distinguir.
Contradizer – refutar, afirmar o oposto.
Comentar – opinar sobre fatos;
Concluir – encerrar pensamento com lógica;
Concordar – estar de acordo.
Confessar – reconhecer erro ou culpa;
Confirmar – concordar com algo.
Contestar – questionar fato ou argumento com a apresentação de pro-
vas;
Declarar – expor algo com solenidade;
Defender – justificar ação com argumentos.
Destacar – assinalar informação importante.
Dizer – expressar conteúdo;
Explicar – interpretar algo;
Esclarecer – justificar com informações ou argumentos.
Exortar – induzir a pensar ou a agir.
Falar – expressar-se por meio de palavras.
Frisar – tornar informação relevante.
Garantir – assegurar ou responsabilizar-se por algo;
Indagar – questionar sobre algo.
47
Informar – introduzir notícia ou informação;
Insinuar – induzir a pensar de determinada forma.
Jurar – comprometer-se a algo.
Justificar – demonstrar fato ou argumento com apresentação de provas;
Mencionar – citar algo ou alguém.
Negar – afirmar que algo não é verdadeiro.
Observar – atrair atenção sobre algo.
Perguntar – questionar, procurar saber, inquirir.
Ponderar – analisar e examinar detalhadamente.
Proclamar – anunciar com destaque.
Prometer – comprometer-se a algo.
Propor – apresentar informação a ser analisada.
Redarguir – oferecer resposta com embasamento.
Registrar – mencionar informação com ênfase.
Responder – dar resposta.
Ressaltar – destacar informação.
Replicar – responder com contestação.
Retrucar – retrucar acusações.
Revelar – apresentar informação até então ignorada.
Rogar – insistir com perseverança.
Salientar – tornar informação relevante.
Sugerir – insinuar ou fazer parecer sem o dizer diretamente.
Sustentar – argumentar em favor de informação e refutar ideias con-
trárias.

Correlação verbal
Os verbos devem ser conjugados no mesmo tempo (passado ou pre-
sente). Não se deve prejudicar a compreensão do texto com mudança
48
inadequada de tempo verbal. Deve-se manter o mesmo tempo verbal:
passado (disse, juntou, pediu, apresentou, contestou, impugnou etc.) ou
presente (diz, junta, pede, apresenta, contesta, impugna, requer etc.)

Divisão de parágrafos
Cada assunto diferente deve integrar um parágrafo específico. Falha co-
mum é dividir de forma desorganizada as ideias nos parágrafos. Sugere-
-se que o resumo da inicial seja feito em um parágrafo e o resumo da
contestação em outro. A seguir, cada parágrafo destaca ideia relevante
a ser inserida no relatório.

Data
As datas devem ser grafadas com as seguintes normas, estabelecidas
pelo Decreto 4.176, de 28 de março de 2002 e consagradas na redação
oficial:
a) nos casos em que for cabível o uso da data abreviada (nunca na data
do documento), não se deve pôr zero à esquerda do número no dia e no
mês: 5/3/2017 (não: 05/03/2017);
b) não existe ponto entre o milhar e a centena no ano: 2015 (não: 2.017);

3.3 Elaboração da fundamentação

A fundamentação é a parte da decisão judicial em que o magistrado


apresenta a análise entre os fatos e as normas jurídicas e expõe as razões
que o convenceram a chegar à conclusão a que chegou.
A boa fundamentação se caracteriza pela plena identificação das
questões jurídicas levadas a juízo. As questões jurídicas se dividem
em questões prévias (preliminares e prejudiciais) e questões de mé-
rito.

49
Questões prévias

É comum iniciar a fundamentação com algumas expressões consagra-


das na linguagem jurídica:

a) Preliminarmente, analiso (…);


b) Antes de entrar no mérito, passo a analisar as preliminares levanta-
das pela parte ré (…);
c) De início, cumpre ao julgador examinar, de ofício, se estão presen-
tes os pressupostos processuais e as condições da ação. No caso
dos autos (…);
d) Presentes os pressupostos processuais de existência e validade do
processo e as condições da ação, passo à análise do mérito;
e) A análise da questão posta em juízo divide-se nos seguintes pontos
(…);
f) Interessa examinar os seguintes aspectos (…).

O juiz não precisa explicitar em todas as decisões e sentenças que pro-


ferir que os pressupostos processuais e as condições da ação estão pre-
sentes, salvo, por óbvio, quando houver a constatação da ausência de
quaisquer deles no contexto da relação jurídica de direito processual.
Por outro lado, havendo questionamento expresso das partes fica o juiz
obrigado a se manifestar a respeito, devendo acatar ou afastar os argu-
mentos apresentados por qualquer dos litigantes.

Questões de mérito

Como já vimos, o artigo 489 do Novo Código de Processo Civil


esclarece que os fundamentos devem analisar as questões de fato
e de direito e não se considera fundamentada qualquer decisão
judicial:
50
I - se limitar à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normati-
vo, sem explicar sua relação com a causa ou a questão decidida;
II - empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o mo-
tivo concreto de sua incidência no caso;
III - invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra de-
cisão;
IV - não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capa-
zes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador;
V - se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem iden-
tificar seus fundamentos determinantes nem demonstrar que o caso
sob julgamento se ajusta àqueles fundamentos;
VI - deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou prece-
dente invocado pela parte, sem demonstrar a existência de distinção
no caso em julgamento ou a superação do entendimento.

O segundo parágrafo do artigo 489 também destaca que, no caso de


colisão entre normas, o juiz deve justificar o objeto e os critérios gerais
da ponderação efetuada, enunciando as razões que autorizam a inter-
ferência na norma afastada e as premissas fáticas que fundamentam a
conclusão.

O ministro do TST Aloysio Correa da Veiga proferiu palestra sobre a


fundamentação e a argumentação da decisão judicial.

A alteração legislativa, ora consagrada pelo novo Código de Processo


Civil, no que concerne a responsabilidade do Juiz na fundamenta-
ção estruturada das decisões, ao retirar a expressão, até então vigente,
prevista no art. 131 do Código de 1973, de que: “O juiz apreciará
livremente a prova, atendendo aos fatos e circunstâncias constantes
dos autos, ainda que não alegados pelas partes, mas deverá indicar, na
sentença, os motivos que lhe formaram o convencimento”, não afasta,
de modo algum, do juiz a liberdade intelectual de julgar. Ao contrário,
exige dele ao enunciar no art. 371 que: “o juiz apreciará a prova cons-
tante dos autos, independentemente do sujeito que a tiver promovido,
51
e indicará na decisão as razões da formação de seu convencimento”,
exige dele, apenas e tão-somente, a obrigação de declarar expressa-
mente como e porque formou o seu convencimento naquele sentido.
Vale dizer, repetindo Houaiss, demonstrar através da lei, da doutrina
e da jurisprudência, o fato que a parte alegou em juízo, objeto da con-
trovérsia, e que pretende que a decisão lhe seja favorável.
(…)
Ao juiz é reservada a fundamentação estruturada das decisões. É na
ampliação do debate; é na investigação do fato controvertido; é na
adequação do fato controvertido à lei e à jurisprudência, que reside
a justeza da decisão. Com isso, terá o julgador que enfrentar todos
os fundamentos e toda a prova que a parte se baseia para demonstrar
o fato controvertido. Não cabe a ele eleger o que melhor lhe con-
vence, ignorando as demais questões. Há que se distinguir, porém,
fundamento de argumento. O juiz não está obrigado a se manifestar
sobre argumentos como, por exemplo, de que a parte ouviu dizer que
a outra parte teria se comprometido a cumprir a obrigação discutida.
Não se chega a tanto. A resposta aos fundamentos desenvolvidos nas
razões do êxito da pretensão, aliada ao enfrentamento dos argumentos
de resistência à pretensão, com a análise dos meios de prova produ-
zidos, se tornam bastante para entregar, com eficiência, a prestação
jurisdicional.
Não há porque entender que o fundamento estruturado das decisões
importa em uma capitis diminutio da autonomia e da independência
do juiz de julgar, impondo a ele a interpretação da lei, previamente
estabelecida para o caso concreto.
Não é verdade. A observância da jurisprudência uniforme indica o
julgamento igual, para casos iguais. Daí irá decorrer, necessariamen-
te, a previsibilidade e segurança na manifestação dos Tribunais.
Se a tese submetida ao julgador não se reveste das características
de igualdade com as decisões paradigmas, não estará ele obrigado,
nunca, a seguir o precedente que for impertinente, inespecífico e/ou
superado. Caberá ao juiz, ao deixar de cumprir a decisão uniforme,
diante da distinção ou da superação, dar as razões da desigualdade; da
distinção dos precedentes, tidos por paradigmas, ou da superação do
52
entendimento prevalecente ao do caso submetido a julgamento. Ne-
cessário, no entanto, que haja especifica fundamentação a demonstrar
as razões da distinção ou da superação.
Não há mais lugar para prevalecer o entendimento do Juiz. A vontade
pessoal só prevalece, com autoridade, nos regimes totalitários. Não
mais se abriga a expressão: “esse é o meu entendimento”.
O juiz moderno tem o dever de julgar e entregar às partes uma deci-
são que contenha, com propriedade, manifestação expressa sobre as
razões que levaram ao seu convencimento, mediante a resposta exau-
riente a todos os fundamentos objeto da pretensão.

Busca de melhor interpretação na fundamentação

Existem diversas técnicas para estruturar com segurança fundamentação.


Recurso muito útil é esboçar a ideia a ser organizada antes de escrever de
forma definitiva. Diante da consulta, relacionamos às normas jurídicas com
interpretação ontológica, teleológica, sistêmica e histórica.

Primeiro passo: transcrever a norma jurídica contemplada no fato


apresentado.

Segundo passo: observar se a consulta envolve interpretação onto-


lógica (busca o sentido e o alcance de norma específica para análise
normativa comum a todas as situações, como o Código de Defesa do
Consumidor) ou interpretação teleológica (busca o sentido da norma
de forma mais ampla e a relaciona com exigências sociais e levam em
consideração valores de justiça, ética, liberdade etc.) com objetivo de
identificar a finalidade pretendida pela norma jurídica.

Terceiro passo: analisar a norma jurídica à interpretação sistêmica


(aquela que relaciona as normas jurídicas como um conjunto maior e
são interpretadas em harmonia) com objetivo de demonstrar que o sis-
53
tema jurídico é composto de preceitos coordenados e subordinados que
compõem uma unidade.

Quarto passo: verificar interpretações históricas com objetivo de indi-


car fatores jurídicos e discussões sobre os fatos e aspectos jurídicos da
consulta.

Argumentação jurídica

A argumentação visa persuadir o leitor ou ouvinte acerca de uma po-


sição. Agostinho dias Carneiro afirma que “argumentar é um processo
que apresenta dois aspectos: o primeiro ligado à razão, supõe ordenar
ideias, justificá-las e relacioná-las; o segundo, referente à paixão, bus-
ca capturar o ouvinte, seduzi-lo e persuadi-lo”. Os argumentos devem
promover credibilidade. Com a busca de argumentos por autoridade
e provas concretas, o texto caminha para direção coerente, precisa e
persuasiva.
Othon M. Garcia afirma que “na argumentação, além de dissertar, pro-
curamos formar a opinião do leitor ou a do ouvinte, tentando convencê-
-lo de que a razão está conosco”, isto é, a verdade. Argumentar é, em
última análise, convencer ou tentar convencer mediante a apresentação
de razões em face da evidência das provas e à luz de um raciocínio ló-
gico e consistente.

Estrutura argumentativa com enfoque no conceito

O autor conceitua, fundamenta e, por último, interpreta. Ao encontrar


tema sobre assunto específico e técnico, o candidato opta por, primeiro,
conceituar o assunto. Demonstra, assim, que domina o conteúdo. De-
pois, posiciona-se sobre o tema.

O princípio da legalidade se divide em sentido restrito e sentido am-


plo. No primeiro caso, verifica a adequação do ato à lei em sentido
54
formal, como ocorre nos atos que restringem direitos dos cidadãos,
conforme disposto no inciso II do artigo 5º da Constituição Federal.
Em sentido amplo, abrange não só a obediência à lei, mas também os
princípios e valores que estão na base do ordenamento jurídico.
A moralidade administrativa, elevada a princípio constitucional pelo
artigo 37, “caput”, da Constituição Federal/1988, refere-se à ideia de
probidade na Administração Pública. Não basta, no entanto, o respei-
to à legalidade formal, mas também aos princípios éticos de lealdade,
de boa-fé, de regras que assegurem a boa administração e a disciplina
interna na Administração Pública (DI PIETRO, 2004).
Portanto, é possível que um ato administrativo formalmente legal vio-
le a moralidade. No caso, deve ser anulado por vício de imoralidade
(SILVA, 2005), pois a moralidade administrativa constitui pressupos-
to de validade em todo ato da Administração Pública (MEIRELLES,
1998). Enquadra-se, assim, em ato de impropriedade, passível de san-
ções administrativas, civis e criminais, nos termos do parágrafo 4º do
artigo 37 da Constituição Federal e da Lei n. 8.429/1992 (MORAES,
2006).

Exemplo de sentença com fundamentação inicial nos parágrafos com


conceitos e, depois, com argumento de autoridade.

(…).
É o relatório. Decido.

O feito comporta julgamento antecipado da lide de acor-


do com o disposto no art. 330, I, do Código de Processo Ci-
vil, tendo em vista que as partes não se interessaram pela pro-
dução de outras provas além daquelas já constantes dos autos.

Como é cediço, o procedimento monitório é um procedimento típico


de "cognição sumária", que se caracteriza pelo propósito de conseguir
o mais breve possível o título executivo e, com isso, o início da exe-
cução forçada. Ao analisar os autos, verifico que assiste razão à parte
autora, devendo, portanto, seu pedido prosperar.

55
Enquanto o processo de conhecimento puro consiste em estabelecer,
originária e especificamente, o contraditório sobre a pretensão do au-
tor, o procedimento monitório consiste em abreviar o caminho para a
execução, deixando ao devedor à iniciativa de eventual contraditório, por
meio de embargos, previstos no art. 1.102-C, do CPC, os quais, apesar
de não ter a natureza de uma ação incidente, como ocorre nos embargos
do devedor, objetivam, a um só tempo, suspender a eficácia do mandado
inicial e obter uma sentença de mérito de sua desconstituição.

No caso em análise, foram preenchidos os requisitos do artigo 1.102a


do CPC, e assim as duplicatas constituem-se em documento próprio à
instrução do pedido monitório. É, pois, documento escrito que autori-
za o ajuizamento de ação monitória.

Nesse mesmo sentido, ao comentar o artigo supracitado, Theotonio


Negrão assinala:
Duplicata mercantil não aceita, desacompanhada de comprovante
de entrega da mercadoria, não é título executivo extrajudicial; pode,
pois, servir de base à ação monitória (RT 749/298). "Mesmo que o
crédito seja originário de compra e venda mercantil com pagamen-
to a prazo, e possa haver emissão das respectivas duplicatas, pode
o credor optar por receber seu crédito via ação monitória, "pois a
simples emissão dos títulos não caracteriza a liquidez e certeza da
dívida." (RT 744/252) (in, Código de Processo Civil e Legislação
Processual em vigor, 30ª Ed., pág. 875).

Esta Corte tem decidido que a duplicata sem aceite e sem a comprovação
efetiva do recebimento das mercadorias ou da prestação de serviços é
prova hábil a ensejar a ação monitória. Confira-se, a seguir, verbis:

AÇÃO MONITÓRIA. DUPLICATA SEM ACEITE. ADEQUA-


ÇÃO AO ARTIGO 1.102 DO CPC. CONVERSÃO EM TÍTULO
EXECUTIVO JUDICIAL. Configura-se a duplicata sem aceite
como título injuntivo válido a ensejar a propositura da monitória,
haja vista sua perfeita adequação ao artigo 1.102a do CPC. - Rejei-
tados os embargos, assim, passa a constituir-se como título executi-

56
vo judicial, nos moldes do art. 1.102c do CPC." (TJDF, 2ª Turma Cí-
vel, APC 4318396, Rel. Desa. Aparecida Fernandes, DJU 11.12.97)

PROCESSUAL CIVIL - AÇÃO MONITÓRIA - DUPLICATA


SEM ACEITE - POSSIBILIDADE. 01. AUSÊNCIA DE DOCU-
MENTO COMPROVANDO O EFETIVO RECEBIMENTO DA
MERCADORIA OU SERVIÇOS, RETIRA DO TÍTULO A FOR-
ÇA EXECUTIVA, MAS, NO ENTANTO, NÃO IMPEDE QUE
SEU DETENTOR O UTILIZE COMO PROVA ESCRITA PARA
VIABILIZAR O PEDIDO MONITÓRIO. 02. APELAÇÃO PRO-
VIDA. UNÂNIME." (TJDF, 5ª Turma Cível, APC 38562, Rel. Des.
Romeu Gonzaga Neiva, DJU 21.2.2001).

Assim, a mera alegação acerca da origem do débito ser ilícita, sem qual-
quer comprovação, não enseja a nulidade contratual e, consequentemen-
te, a ilicitude da cobrança. Ademais, não há sequer prova de que houve
contrato avençado entre as partes. Noutros termos, a parte ré não logrou
afastar a presunção de veracidade constante dos documentos acostados
autos, cabendo a ela, ré, nos moldes do artigo 333, inciso II, do CPC,
comprovar "a existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do
direito do autor". Deve, portanto, o pedido contido na exordial prosperar.
Assim é o entendimento deste Tribunal:

Processual civil. Ação monitória. Duplicata sem aceite. Ineficácia


executiva. Documento hábil à instrução do procedimento monitó-
rio. art 1.102-a do CPC. Assentando o Tribunal de origem estar a
duplicata despida de força executiva por ausência de aceite, é ela
documento hábil à instrução do procedimento monitório. Recurso
especial não conhecido. (RESP 166343/MG, 4ª Turma Cível, Rel.
Mm. César Asfor Rocha, DJ 27/03/2000, p. 108)

Estrutura argumentativa com posicionamento direto.

Outra possibilidade é a resposta direta já no início do texto. O autor


agora prefere já se posicionar desde o início. Assim, logo no primeiro
57
período, o texto apresenta a abordagem com a resposta esperada. De-
pois, a fundamentação justifica a opinião do autor. Observe pergunta e
modelo de resposta.
Tema a ser analisado: A empresa X auferiu receitas ao longo do exercí-
cio de 1999, tendo, conforme determina a legislação tributária aplicá-
vel, declarado às autoridades fiscais os valores devidos a título de PIS
e de COFINS. Ocorre que, embora declarados, os respectivos valores
não foram recolhidos em favor da União Federal, porquanto a referida
empresa passava por sérias dificuldades financeiras. A Procuradoria da
Fazenda Nacional, no regular exercício de suas prerrogativas, inscreveu
os citados débitos de PIS e COFINS em Dívida Ativa da União Federal
em 1º/1/2004. Em 5/7/2005 foi ajuizada execução fiscal para cobrança
da dívida, tendo a empresa sido citada em 6/7/2005. Neste contexto,
indaga-se se foi respeitado o prazo prescricional para a cobrança (ajui-
zamento da ação de execução fiscal) em tela.

O prazo prescricional não foi respeitado. A inscrição em dívida ati-


va suspende o prazo prescricional por 180 dias (artigo 2º, § 3º, Lei
6.830/80). A execução foi ajuizada quase um ano e meio após a ins-
crição em dívida ativa (5/7/2005), o que significa que a contagem do
prazo prescricional voltou a ocorrer 180 dias após a data de inscrição
em dívida ativa, ou seja, 7/2004.
Portanto, tomando-se as datas de ocorrência dos fatos geradores até
a distribuição da ação de execução fiscal, descontados os 180 dias de
suspensão, terá sido consumada a prescrição, de acordo com o artigo
174 do Código Tributário Nacional.

Exemplo de setença com posicionamento direto na fundamentação.

Vistos, etc.
Trata-se de AÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE, com pedido
de liminar, ajuizada por ___ em desfavor de ___ e ___, partes devida-
mente qualificadas nos autos em epígrafe.
58
Em suas considerações iniciais aduz a parte autora que é legítimo
possuidor de uma gleba de terra descrita na inicial, conhecida com
parte da fazenda ___, localizada na cidade de ___.

Informa que a posse da área descrita foi reconhecida por meio de


decisão judicial, e que os requeridos estão construindo residência e
cercando a área.
Relata que os requeridos estão vendendo lotes no local, causando pre-
juízo aos requerentes.
Tece arrazoado jurídico e postula a concessão de liminar para a reinte-
gração de posse dos autores, com imposição de multa diária no valor
de R$ 5.000,00.
No mérito requer que a torne definitiva a posse dos requerentes com
destruição das construções realizadas.
Com a inicial vieram documentos [fls. 10/67].
Liminar deferida [fl. 72/73].

___ foi citado, apresentando contestação. Alega que é proprietário da


área denominada ___ e que a adquiriu de ____, mediante instrumento
particular de cessão; que o cedente é era legítimo possuidor desde
11/3/1989 e que adquiriu de ___; que estavam no imóvel e que os re-
querentes, mediante interposta pessoa. (...) Por fim, pede a revogação
da liminar.

Pedido de revogação de liminar indeferido.


(…).

Recebi os autos conclusos para sentença.


Esse é o relato do que reputo ser necessário. Passo a decidir.
Preliminares já enfrentadas.
Passo ao mérito da presente demanda.

O pedido é improcedente, tanto na ação possessória quanto na caute-


lar de atentado. Justifico.
59
Verifica-se que se trata de uma ação em que as partes discutem a pos-
se do referido bem.

O Código Civil de 2002 não conceituou posse, perdendo, assim, a


oportunidade de fazer tal façanha. Contudo, trouxe, no artigo 1.196,
o conceito de possuidor, que assim dispõe: "considera-se possuidor
todo aquele que tem de fato o exercício, pleno ou não, de algum
dos poderes da propriedade". Assim, a incumbência de definir pos-
se ficou a cargo da doutrina, que, por extração indireta do dispo-
sitivo referido, chegou a definir posse como sendo o exercício de
fato da propriedade. É a aparência da propriedade [Posse Justa e
Posse Injusta - Aplicações Práticas e Teóricas in Jus Navegandi].

A questão litigiosa há de ser analisada basicamente à luz do conjunto


probatório carreado aos autos.

(…).

Forte nessas razões julgo IMPROCEDENTE O PEDIDO formulado


pela parte autora, e assim o faço com resolução do mérito nos termos
do art. 487, I, do Código de Processo Civil.

E ainda, julgo IMPROCEDENTE O PEDIDO da ação cautelar de


atentado ajuizada pela parte autora, e assim o faço com fulcro no art.
487, I, do Código de Processo Civil.

Por fim, em face da sucumbência, tanto na ação principal quanto na


cautelar, condeno a parte autora no pagamento das despesas proces-
suais e dos honorários advocatícios, que ora arbitro em ___, para cada
causídico que patrocina os requeridos, tudo nos termos do art. 20, §
4º, do Código de Processo Civil.

Publique-se. Intimem-se. Sentença registrada eletronicamente.


Local e data.
Assinatura.

60
Estrutura argumentativa com relação entre ideias.

Autores necessitam, em alguns casos, abordar dois ou mais assuntos


e relacioná-los. Deve-se tomar cuidado para não misturar as ideias no
mesmo parágrafo. Observe exemplo entre a relação entre o perdão ju-
dicial e o perdão tácito.

O perdão tácito é uma causa extintiva de punibilidade prevista no artigo


107, inciso V, do Código Penal, configurando-se na ação penal exclusi-
vamente privada, em face de um ato do querelante para com o querelado,
denotando incompatibilidade e continuar o processo-crime, vez que o ato
da vítima denota que perdoou o querelado, existindo apenas quando já
recebida a queixa-crime por parte do juiz, não devendo ser confundida
com a renuncia tácita que é sempre antes de iniciar o processo, devendo
o perdão tácito para extinguir a punibilidade ser aceito por parte do que-
relado, porquanto o perdão é sempre bilateral.
Já o perdão judicial constitui providência exclusivamente do Poder
Jurisdicional derivada de medida de Política Criminal, havendo pre-
visão expressa em situações de homicídio culposo e outras culposas
expressas em lei, quando as consequências da infração atingirem o
próprio agente de forma tão grave que a sanção penal se torne des-
necessária, destacando que o artigo 120 do Código Penal é expresso
ao afirmar a natureza declaratória do instituto do perdão judicial ao
afirmar que “a sentença que conceder perdão judicial não será consi-
derada para efeitos de reincidência”.

Lógica

A lógica é estudada em diversas áreas do conhecimento: filosofia, mate-


mática, discurso etc. A origem do termo (do grego logiké) mantém rela-
ção com “razão”, “palavra”, “discurso” e geralmente significa o estudo
do raciocínio adequado.
Diversos filósofos abordaram o assunto com ênfase em áreas específi-
cas do conhecimento. O discurso e a argumentação são os tópicos que
61
nos interessam neste momento. Aristóteles destacou o tema com ênfase
no conceito, juízo e raciocínio. Assim, o estudo da lógica era a capaci-
dade de julgar corretamente por meio de raciocínios corretos e formal-
mente válidos.
Nosso enfoque no estudo da lógica será a capacidade de termos propo-
sições válidas para o bom texto argumentativo. Alguns conceitos são
essenciais para o desenvolvimento do assunto.

Lógica da argumentação

A relação entre lógica e argumentação é a capacidade de observar a valida-


de de um enunciado (abordagem) por meio de proposições e conclusões. O
silogismo desenvolvido por Aristóteles (duas premissas e uma conclusão)
é exemplo comum de lógica de argumentação e é muito empregado em
decisões judiciais. Observe exemplo clássico de silogismo.

Premissa 1: Todo homem é mortal.


Premissa 2: Sócrates é homem.
Conclusão: Logo, Sócrates é mortal.

A característica básica do silogismo é apresentar duas premissas decla-


rativas e chegar a uma conclusão válida. Há diversos estudos sobre o
silogismo. Como nosso interesse é relacionar a lógica à argumentação,
enfatizaremos os tópicos relevantes para nosso curso.

Argumento dedutivo ou indutivo

A argumentação técnica geralmente faz uso de estrutura dedutiva ou


indutiva na argumentação.

Argumento dedutivo

O argumento dedutivo é uma forma de raciocínio que geralmente parte


de uma verdade universal e chega a uma verdade menos singular. Esta
62
forma de raciocínio é válida quando suas premissas, sendo verdadeiras,
fornecem provas evidentes para sua conclusão. Observe exemplo.

Premissa 1 (argumento): Tudo que respira é um ser vivo.


Premissa 2 (fato): A planta respira.
Conclusão (pensamento dedutivo): Logo, a planta é um ser vivo.

O argumento dedutivo baseia-se em ideias consagradas e plenamente


aceitas como verdade absoluta. Ao apresentar o argumento, a conclusão
já aparece fundamentada nele. Observe exemplos.

Argumento: Só há movimento no carro se houver combustível.


Fato: O carro está em movimento.
Pensamento dedutivo: Logo, há combustível no carro.

Argumento: Só há fogo se houver oxigênio


Fato: Na lua não há oxigênio.
Pensamento dedutivo: Logo, na lua não pode haver fogo.

O pensamento dedutivo é muito empregado ao defender argumento


bem aceito universalmente e com fato contemplado pelo argumento. O
emprego de textos normativos para justificar teses é excelente exemplo
de uso.

Imagine a seguinte situação: o candidato a presidente da República José


da Silva fez campanha eleitoral fora do prazo permitido por lei. Eis
exemplo para empregar o argumento por dedução.

Argumento: A Lei nº X determina que candidatos só podem fazer cam-


panha eleitoral em tal prazo. Caso se comprove que houve campanha
em data não permitida, o candidato será apenado de tal forma.
63
Fato: O candidato fez campanha fora do prazo aceito.
Conclusão: O candidato deve ser apenado.

Parágrafo com estrutura com pensamento dedutivo.

O art. 13 do Código de Defesa do Consumidor dispõe que é dever do


fabricante e do comerciante a prestação de assistência técnica ou a
troca do produto, caso o conserto seja inviável, quando este apresen-
tar vício de fabricação. O art. 14, por sua vez, prevê que o consumi-
dor poderá optar pela devolução do dinheiro ou pelo abatimento do
preço do produto. A geladeira comprada por José da Silva na loja Tal
queimou logo na instalação, apesar de todos os procedimentos reco-
mendados terem sido seguidos. Assim, deve a loja realizar a troca do
produto ou a devolução do valor pago.

Parágrafo com estrutura de argumentação dedutiva.

O exame de corpo de delito é disciplinado no Decreto-Lei n. 3.689,


de 3 de outubro de 1941 – Código de Processo Penal e determina que
tal exame seja realizado por médico registrado no Conselho Médico
do Brasil. O Código de Ética Médica determina, em seu art. 16, que
o médico plantonista deve ser profissional com a mesma capacidade
técnica mínima dos demais profissionais médicos do hospital. Assim,
este profissional (plantonista) possui as mesmas capacidades de ana-
lisar e realizar satisfatoriamente o exame de corpo de delito como os
demais médicos não plantonistas.

Texto com estrutura de argumentação dedutiva

O art. 668 do Decreto-Lei nº 1.608, de 18 de setembro de 1939, prevê


que a retirada de qualquer dos sócios, que não cause a dissolução da
sociedade, dá ensejo à apuração exclusivamente dos seus haveres.

Com efeito, a Súmula nº 265 do Supremo Tribunal Federal estabelece:


Súmula nº 265. Na apuração de haveres não prevalece o balanço
não aprovado pelo sócio falecido, excluído ou que se retirou.
64
O autor, como mencionado anteriormente, não participou da elabora-
ção do balanço, tampouco o aprovou. Portanto, o balanço elaborado
unilateralmente que apurou, como patrimônio líquido da sociedade
corré, o valor de R$ 100.000,00 (cem mil reais) não pode ser utilizado
para efeito de apuração dos haveres do autor.

Observe sentença com estrutura dedutiva na fundamentação.

Vistos etc.

Trata-se de Embargos de Declaração interpostos por ___ às fls.


524/526 e pela ___ às fls. 527/533 em desfavor da sentença proferida
às fls. 518/519.
Argumenta ___ que os requeridos deram ensejo à propositura da
ação, não sendo o caso de condenação de sucumbência em desfavor
da autora ou noutra hipótese a redução do valor da condenação.
A ___ sustenta que a condenação em honorários a seu favor foi ínfima
e deve ser fixado o percentual sobre o montante do imóvel da causa.
É o breve relatório. Decido.

Dispõe o artigo 535, do Código de Processo Civil, que:

Art. 535. Cabem embargos de declaração quando:


I - houver, na sentença ou no acórdão, obscuridade ou contradição;
II - for omitido ponto sobre o qual devia pronunciar-se o juiz ou tribunal.

Não assiste razão às Embargantes, isso porque a decisão em-


bargada não foi duvidosa, omissa nem contraditória quanto aos
referidos pontos, não se prestando os embargos de declaração
para rediscutir matéria já examinada.

Verifica-se que a condenação em honorários seguiu parâmetros
equitativos, em razão da duração da ação e do desenrolar dos
fatos que culminaram a presente demanda.
65
No mais, a não concordância das partes não tem o condão de
modificar a decisão, não se prestando os embargos como meio
de rejulgamento.

Em não havendo qualquer omissão ou contrariedade na referida


decisão não há que falar em concessão de efeitos infringentes
aos presentes embargos, uma vez que estes não lograram alcan-
çar qualquer alteração ou complementação do julgado.

Diante do exposto, rejeito os embargos opostos, por entender


que inexistem erro material, contradição, obscuridade ou omis-
são a esclarecer.
Esta decisão é parte integrante da decisão embargada.

Publique-se. Intime-se.
Local e data.
Assinatura.

Argumento indutivo

Argumentos indutivos apresentam premissas que conduzem a uma


conclusão. Um bom argumento indutivo terá uma conclusão altamente
provável, mas geralmente não aceita de forma universal. O argumen-
to indutivo estrutura-se em apresentação de fato singular em busca do
convencimento por meio de raciocínio que vai além das premissas para
o caso. O autor busca convencer não por fundamentos plenamente con-
sagrados, mas por linha de pensamento específica que excede o próprio
fato. Observe exemplos.

Premissa 1 (fato): A sala 1 da escola foi pintada de verde.


Premissa 2: (fato): As salas 2, 3, 4, 5, 6, também foram pintadas de
verde.
66
Conclusão indutiva: Todas as salas da escola serão pintadas de verde.

Fato: O ouro conduz eletricidade e é um metal.


Fato: O ferro, o zinco, o bronze, a prata também são metais e conduzem
eletricidade.
Conclusão indutiva: Todo metal conduz eletricidade.

Nota-se que a conclusão não decorre necessariamente das premissas. É


uma probabilidade de que a conclusão seja verdadeira. Do ponto de vis-
ta formal, o argumento é correto. Contudo, diferentemente da dedução,
um argumento indutivo, sendo ele válido, pode admitir uma conclusão
falsa, ainda que suas premissas sejam verdadeiras.
Na linguagem jurídica, o uso do pensamento indutivo é empregado para
defender pensamento que não está presente ou não está embasado clara-
mente no ordenamento jurídico.

Parágrafo com estrutura argumentativa indutiva.

O Supremo Tribunal Federal discute a questão dos embargos infrin-


gentes com a importância merecida. Não se trata apenas de interpre-
tar as ambiguidades possíveis na norma jurídica. As questões sociais
envolvidas no caso revelam-se superiores às omissões da Lei 8038 e
do Regimento Interno no STF. Dessa forma, o clamor social (in dúbio
pro societate) deve ser o diferencial na decisão como já ocorreu nos
acórdãos X e Y, em 2012.

Parágrafo com estrutura argumentativa indutiva.

É oportuno ressaltar que o exame de corpo de delito é ato minucio-


so por sua natureza e constitui peça fundamental no processo penal.
Não é algo simples, que possa ser realizado na emergência de um
hospital público, cujas emergências funcionam em condições precá-
rias, conforme denunciado pelo CREMERJ. O médico plantonista de

67
emergência hospitalar não pode (e não deve) realizar exame de corpo
de delito. A Súmula 361 do Supremo Tribunal Federal dispõe que “no
processo penal, é nulo o exame realizado em situações excepcionais”.

Estrutura da fundamentação

Cada situação merece uma análise específica para sua estrutura. O ma-
gistrado deve, assim, dominar estruturas dedutivas, indutivas, com ên-
fase no conceito, com posicionamento direto etc. Há fundamentações
que são estruturadas em uma ideia apenas e outras que devem ser divi-
didas em itens para melhor clareza e compreensão. Observe exemplo de
sentença com divisão de análise por itens.

QUANTO AO RÉU A

Da Imputação Inicial.

Ao réu ___ foi imputada a prática do crime previsto no art. 157, § 2º,
I, II, e V, todos do Código Penal Brasileiro.
A materialidade está comprovada com o lastro probatório coligido
aos autos, ou seja, as provas testemunhais e o documento de fl. 60.
A participação, não obstante a negativa do acusado, também ficou
demonstrada, sobretudo pelo depoimento prestado pelo acusado ___
perante a autoridade policial, no qual alegou que ___ cedeu sua casa
para que os réus planejassem o crime, além de transportar os corréus
ao Município de ___. (…).

QUANTO AO RÉU B

Da Imputação Inicial.

Ao réu ___ foi imputada a prática do crime previsto no art. 157, § 2º,
I e II, e art. 157, §2º, I e II c/c art. 14, II, na forma do art. 69, todos do
Código Penal Brasileiro.
68
A materialidade está comprovada com o lastro probatório coligido
aos autos, ou seja, as provas testemunhais e o documento de fl. 60.
A autoria, entretanto, não ficou devidamente demonstrada, uma vez
que persistem dúvidas quanto à identidade física do delinquente. O
réu ___, único acusado reconhecido pelas vítimas e que foi funda-
mental na resolução do crime, afirmou, em acareação realizada pela
autoridade policial, que o acusado não cometeu o crime em tela, o
qual fora praticado por homônimo seu. (…).

3.4 Elaboração do dispositivo

O dispositivo é a parte da decisão judicial em que o magistrado mais


deve se preocupar com a clareza, concisão e objetividade, pois a decla-
ração da decisão não pode deixar dúvida. Algumas vezes, o relatório e
a fundamentação podem ser longos. No entanto, o dispositivo deve ser
sempre objetivo e direto.

Observe exemplos de dispositivos:

Diante do exposto, julgo procedente (parcialmente procedente) o pe-


dido para, dando por encerrada esta etapa do procedimento, declarar
(constituir, condenar, determinar, ordenar) a parte ré a ___.

Antecipo os efeitos da tutela jurisdicional para determinar ___.

Fixo multa diária no valor de ___, nos termos do art. ___, em caso de
descumprimento desta decisão.

Condeno a parte ré ao ressarcimento das custas e despesas processu-


ais e ao pagamento de honorários advocatícios, que fixo em 10% (dez
por cento) sobre o valor da condenação.

Por todo o exposto, julgo parcialmente procedente a denúncia, para


condenar o réu __, nas sanções do art. __, e absolver o réu __ dos
delitos a ele imputados, com arrimo no art. __.
Passo à fixação das penas cabíveis na espécie.
69
3.5 Orientações gramaticais e estilísticas

Intimar, cumprir, proceder


Dúvida comum na linguagem jurídica é o uso de “intime-se” ou “in-
timem-se”, “cumpra-se” ou “cumpram-se”, junte-se” ou “juntem-se”,
“proceda-se” ou “procedam-se”, “trata-se de” ou “tratam-se de” etc.

O uso da concordância adequada depende da observação se o “se” fun-


ciona como pronome apassivador, índice de indeterminação do sujeito
ou parte integrante do verbo. Observe a diferença.

Pronome apassivador
O pronome apassivador ocorre com verbos transitivos diretos e indica
voz passiva sintética. É o caso de “intime-se a parte” ou “intimem-se
as partes”. Sempre será possível substituir para voz passiva analítica (a
parte seja intimada, as partes sejam intimadas). Em tais frases, o verbo
concorda com o sujeito posposto. Observe exemplos.

Intime-se a parte.
Intimem-se as partes.
Cumpra-se o mandado.
Cumpram-se os mandados.
Junte-se o documento.
Juntem-se os documentos.
Cite-se o réu.
Citem-se os réus.
Devolvam-se os autos.
Entreguem-se os autos.
Processem-se os recursos.
70
Observação: em todos os casos acima, pode-se substituir pela voz pas-
siva analítica (a parte seja intimada, as partes sejam intimadas, o man-
dado seja cumprido, os mandados sejam cumpridos, o documento seja
juntado, os documentos sejam juntados etc.)

Pode-se também escrever com o verbo na terceira pessoa do plural sem


o “se”. Passaríamos a ter agora voz ativa com sujeito indeterminado.

Intimem a parte.
Intimem as partes.
Cumpram o mandado.
Cumpram os mandos.
Juntem o documento.
Juntem os documentos.

Índice de indeterminação do sujeito


Cuidado com verbos transitivos indiretos. Eles não aceitam o “se” como
pronome apassivador. No caso, o “se” indica índice de indeterminação
do sujeito e o verbo deve ficar no singular. Não se consegue substituir
pela voz passiva analítica.

Proceda-se aos inventários.


Proceda-se aos julgamentos.
Obedeça-se aos princípios legais.

Oficiar
Dúvida comum é o uso do verbo “oficiar” em instituições públicas.
Trata-se de verbo transitivo indireto (pede a preposição “a”) com o sen-
tido e enviar comunicação oficial a alguém ou a alguma instituição.
71
Observe exemplos.
O promotor intervém e afirma que vai oficiar à Procuradoria-Geral da
Justiça.
O Tribunal oficiou à instituição financeira.
O Tribunal oficiou ao diretor José da Silva.

Posto isto
Dúvida comum é o uso da expressão “posto isso”, “posto isto”, “isso
posto” ou “isto posto”.
Vamos esclarecer.
O pronome demonstrativo “isso” apresenta diversas funções. Uma de-
las é retomar toda a ideia apresentada (abordaremos as demais em ou-
tras mensagens). Observe exemplo:
Ela trabalhou o dia inteiro, fez compras e estudou a noite toda. Isso o
deixou com dor de cabeça.
No caso, o pronome “isso” refere-se a tudo que ela fez (trabalhar o dia
inteiro, fazer compras e estudar a noite inteira).
O pronome demonstrativo “isto” recupera a última ideia apresentada.
Observe exemplo:
Ela trabalhou o dia inteiro, fez compras e estudou a noite toda. Isto o
deixou com dor de cabeça.
No caso, o pronome “isto” refere-se ao referente mais próximo (estudar
a noite inteira).
Como você observou, alterou o sentido. Assim, geralmente, a forma
recomendada é “isso”.
Em relação ao uso de “posto isso” ou “isso posto”, a linguagem formal
indica o uso do particípio antes do sujeito: “feito assim”, “terminado o
texto”, “posto isso”.
Prefira “posto isso”. Não significa que outras formas estejam inadequa-
das sempre.

Publique-se. Registre-se. Intimem-se.


Não existe na língua portuguesa a sigla P.R.I. tão comum em algumas
sentenças. A forma adequada é Publique-se. Registre-se. Intimem-se.
72
CAPÍTULO
4 Expressões específicas

À custa de – a expensas de – em via de


A expressão “à custa de” indica “à força de”: obteve o resultado favo-
rável à custa de muito trabalho. “A expensas” de tem o mesmo sentido
de “à custa de” (pode-se grafar também “às expensas”): o prédio foi
construído a expensas do governo local. Já a expressão “em via de” tem
sentido de “a caminho de” ou “prestes a”: o processo está em via de ser
encerrado.

A maior – a menor
A língua portuguesa aceita o uso das expressões “a maior” e “a menor”
como correspondentes das expressões “a mais” e “a menos”, respec-
tivamente: os impostos pagos a maior serão restituídos; os impostos
pagos a mais serão restituídos; o valor das taxas foi cobrado a menor do
que o estabelecido em lei; o valor das taxas foi cobrado a menos do que
o estabelecido em lei. Manuais de redação oficial recomendam o uso de
“a mais” e “a menos”.

A partir de – com base


A expressão “a partir de” deve ser empregada em sentido temporal: ela pro-
meteu iniciar o regime a partir do próximo mês. Evite empregá-la com sen-
tido de “com base em”: o juiz proferiu a sentença a partir dos argumentos
apresentados (inadequado). A forma adequada é “o juiz proferiu a sentença
com base nos argumentos apresentados” (adequado).
73
A quo – ad quem
As duas expressões latinas aparecem com frequência na linguagem jurí-
dica. A orientação é grafá-las com itálico (termos estrangeiros).
A expressão a quo refere-se ao juiz ou ao tribunal de instância inferior
de onde provém o processo objeto do recurso ou o ato que se discute
em outro juízo. Destaco que a expressão a qua para acompanhar o subs-
tantivo feminino “juíza” não está adequado. A expressão não concorda
com o referente, pois se trata de adjunto adverbial invariável. Prefira
sempre a quo. A expressão ad quem designa o juízo ou o tribunal para
onde se encaminha ou se remete, em grau de recurso, o processo que se
achava em instância inferior.

Ab-rogar
Indica revogar totalmente uma lei, decreto, regulamento ou costume;
cassar, anular ou tornar sem efeito um ato anterior por entrar em vigên-
cia um princípio, preceito ou costume.

Acusar
Apresenta sentido de incriminar, culpar ou caracterizar negativamente.
O objeto direto deve ser pessoa: acusaram o suspeito de realizar a ope-
ração; a autoridade acusou o rapaz de corrupto.

Adimplir
Indica cumprir ou acordo ou contrato: o requerido adimpliu todas os
termos previstos.

Adjudicar
Indica transferir bens do domínio de uma pessoa para o domínio de
outra em consequência de execução, sucessão ou venda.

Aduzir
Verbo muito empregado no relatório (latim adducere com sentido de levar
informação à Justiça). Assim, é muito empregado na linguagem processual.
Indica apresentar novas informações, provas, testemunhos etc.
74
Agravante
O termo é feminino no sentido de intensificar gravidade de algo: houve
uma agravante. Com o sentido de interpor agravo, aceita os dois gêne-
ros: o agravante; a agravante.

Anexo – em anexo
A recomendação é concordar diretamente com o referente: segue deci-
são anexa; segue documento anexo; seguem contratos anexos; seguem
decisões anexas. Alguns gramáticos aceitam o termo com a preposi-
ção "em": segue decisão em anexo; segue documento em anexo; se-
guem contratos em anexo; seguem decisões em anexo. A redação oficial
orienta o uso apenas do primeiro caso (concordando com o referente).

Anuir
Indica aprovar ou autorizar a prática de um ato, aceitá-lo depois de fei-
to, sem nenhuma objeção, ou nele consentir.

Apelar
O verbo é bastante empregado na linguagem jurídica e merece atenção.
Com sentido de “interpor recurso” pede a preposição “de”: os advoga-
dos vão apelar da sentença. Com sentido de “recorrer”, pede a preposi-
ção “para”: o secretário apelou para o prefeito.

Apenar - penalizar
Apenar significa condenar à pena, castigar, punir: o Tribunal apenou o
responsável pelo prejuízo. Penalizar indica causar pena ou desgosto a,
sentir grande pena ou desgosto: também o penalizavam os resultados da
fome em seu país. Penalizou-se com o sofrimento do amigo.

Apêndice e anexo
Apêndice é material elaborado pelo autor do texto para complementar
ideias. Anexo, por sua vez, é texto ou documento não elaborado pelo
autor do estudo com objetivo de fundamentar, comprovar ou ilustrar.
75
Apensar
Indica anexar ou juntar. Não existe a forma “em apenso”.

Arguir
Verbo muito empregado na linguagem jurídica (principalmente em Por-
tugal) com sentido de alegar receio fundamentado de prejuízo à impar-
cialidade de juiz, representante do Ministério Público, testemunha, pe-
rito, etc. devido a certas circunstâncias ou interesses que possam privar
qualquer deles da correção no exercício de suas funções. (Usado para
exceção de impedimento, de suspeição e de incompetência.)

Arrazoar
Indica expor razões ou argumentos sobre um efeito ou sobre uma causa,
a favor ou contra. Dar as razões escritas sobre o caso em juízo, ou es-
crever tais razões ou alegações para serem juntadas aos autos no prazo
estipulado pelo juiz ou disposto em lei.

Atestar
Indica a confirmação de veracidade de informação ou fato.

Autor
O termo apresenta diversos sentidos na língua portuguesa. A lingua-
gem jurídica destaca dois usos: aquele que intenta ação judicial contra
alguém (relação processual) e aquele que pratica um delito ou contra-
venção (aspecto criminal).

Autos
Conjunto ordenado das peças que compõem um processo judicial ou
administrativo, a saber: petição inicial, petições, certidões, documen-
tos, termos de diligências e de audiências, sentenças, etc. O mesmo que
processo.
76
Autos conclusos
Diz-se de autos enviados, com termo de conclusão, ao magistrado, em
cujo poder permanecem para que seja exarado despacho ou decisão.

Avocar
O verbo é transitivo direto e indireto com sentido de atribuir a si (ele
avoca a si o direito de agir assim) e é transitivo direto com sentido de o
juiz chamar a seu juízo determinada causa.

Brocados latinos

Absolvere debet judex potius in dubio quam condemnare.


Na dúvida, deve o juiz antes absolver do que condenar.

Accessorium sequitur suum principale.


O acessório segue o seu principal.

Actor et reus idem esse non possunt.


Autor e réu não podem ser os mesmos.

Actori incumbit probatio.


Ao autor cabe o ônus da prova.

Adhuc sub judice lis est.


A lide ainda está sob apreciação do juiz.
Allegatio et non probatio quasi non allegatio.
Alegar sem prova é quase não alegar.

Audiatur et altera pars.


Seja ouvida também a outra parte.
77
Audita altera parte. (Cf. Inaudita altera parte.)
Tendo sido ouvida a outra parte.

Bis de eadem re ne sit actio (non bis in idem).


Não haja ação duas vezes sobre a mesma coisa.

Da mihi factum dabo tibi jus.


Dá-me o fato, dar-te-ei o direito.

Dies interpellat pro homine.


O prazo cobra no lugar da pessoa.

Dominium est jus utendi fruendi et abutendi re sua quatenus juris ratio
patitur.
Domínio é o direito de usar, fruir e dispor do que é seu, o quanto o per-
mite a razão do direito.

Dormientibus non succurrit jus.


O direito não socorre os que dormem.

Dura lex sed lex.


A lei é dura, mas é lei.

Durum jus sed ita lex scripta est.


O direito é duro, mas assim a lei foi escrita.

Error facti nemini nocet.


O erro de fato não prejudica ninguém.
78
Fraus omnia corrumpit.
A fraude corrompe tudo.

In dubio pro reo.


Na dúvida, a favor do réu.

Is de cujus successione agitur.


Aquele de cuja sucessão se trata.

Inaudita altera parte. (Cf. Audita altera parte.)


Não tendo sido ouvida a outra parte.

Ignorantia juris neminem excusat.


A ignorância da lei não isenta de culpa aquele que a ignora.

Ita lex dicit.


Assim diz a lei.

Jura novit curia.


O tribunal (o juiz) conhece o direito.

Juris praecepta sunt haec: honeste vivere, alterum non laedere, suum
cuique tribuere.
Estes são os preceitos do direito: viver honestamente, não causar dano
a outrem e dar a cada um o que é seu.

Jus est ars boni et aequi.


O direito é a arte do bom e do justo.
79
Jus est facultas agendi.
O direito é a faculdade de agir.

Lex posterior derogat priori.


Lei posterior derroga a anterior.

Necessitas facit jus.


A necessidade gera o direito.

Nemo debet lucrari ex alieno damno.


Ninguém deve tirar vantagem de dano alheio.

Nemo judex sine lege.


Ninguém é juiz sem lei.

Omnis definitio in jure civile periculosa est.


Em direito civil, toda definição é perigosa.

Pacta sunt servanda.


Os pactos devem ser observados.

Quot capita, tot sententiae.


Cada cabeça, uma sentença; quantas cabeças, tantas são as sentenças.

Quid juris?
Que há de direito? Qual é a opinião do direito?

Ubi non est lex nec prevaricatio.


Onde não há lei, não há crime.
80
Com o pretexto – a pretexto de – sob o pretexto de
Apenas a expressão “a pretexto de” é indicada para a linguagem formal
com o sentido de “a fim”, “com objetivo aparente”: O réu não pode
falsear a própria identidade a pretexto de autodefesa, sob pena de co-
meter crime. Evite as formas “com o pretexto de” e “sob o pretexto de”.

Comunicar
O verbo “comunicar” é transitivo direto (coisa) e indireto (pessoa): O
Tribunal comunicou a decisão a todos. Deve-se ter atenção ao empre-
gar na voz passiva: A decisão foi comunicada a todos pelo Tribunal
(adequado). Todos foram comunicados sobre a decisão pelo Tribunal
(inadequado).

Cargos (masculino e feminino)


O Conselho Nacional de Justiça publicou a Recomendação n. 42, de 8
agosto de 2012, sobre o uso do gênero feminino na menção aos cargos
ocupados por servidoras e magistradas.

Art. 1º Fica recomendado aos tribunais indicados nos incisos II a


VII do art. 92 da Constituição Federal que:

I) na menção aos cargos do Poder Judiciário, observem o gênero de


seu ocupante, respeitando a condição feminina ou masculina;

II) a linguagem inclusiva de gênero, referente aos cargos, seja ob-


servada nos atos oficiais de nomeações, posses, designações, docu-
mentos funcionais, crachás de identificação pessoal, placas de auto-
móvel, cartões de visita, plaquetas de identificação, entre outros que
visem à identificação.

81
Causa
Conjunto de interesses de uma das partes em litígio que se quer fazer
valer perante a autoridade judicial. O mesmo que demanda, ação, pleito
judicial.

Citação
Ato de intimar alguém para que compareça perante autoridade judici-
ária, a fim de participar dos atos e termos de demanda contra ele pro-
posta.

Conformidade
O termo "conformidade" pode ser construído de duas formas: "em con-
formidade com" ou "na conformidade de": a pena lhe foi imposta em
conformidade com o art. 12 do Regimento Interno; a pena lhe foi im-
posta na conformidade do art. 12 do Regimento Interno.

Conhecer de
Sabemos que o verbo é naturalmente transitivo direto na língua por-
tuguesa sem uso de preposição no completo: ela conheceu o rapaz
na festa. A linguagem jurídica, no entanto, apresenta sentido espe-
cífico do verbo com preposição no objeto indireto com sentido de
o magistrado tomar conhecimento de um causa ou de um recurso,
acolhendo-os ou não no mérito, afastadas quaisquer preliminares de
não conhecimento.

Dar provimento
Indica proferir decisão favorável a recurso e modificar a decisão ante-
rior.

Decidir
Verbo empregado geralmente no dispositivo com sentido de julgar ou
sentenciar.
82
Declino a competência ou declino da competência?
A dúvida ocorre porque o verbo "declinar" é transitivo direto no sentido
de "recusar", "rejeitar": declinou o convite. No entanto, o verbo "decli-
nar" é intransitivo no sentido de "afastar-se de um ponto", "ir perdendo
um ponto de referência". No caso, ele aceita adjunto adverbial introdu-
zido pela preposição "de": ela declinou de algo.
Usa-se, em tribunais, a expressão "declinar da competência" para indi-
car que o magistrado se afasta de um poder naturalmente exercido por
ele.

Deferir
Deferir (deferimento) é atender, outorgar, conceder: a Diretora deferiu
prontamente o pedido: os jurados deferiram o prêmio ao jovem cientista.
Diferir (diferimento) é adiar ou ser diferente: a empresa diferiu o paga-
mento; esses projetos diferem apenas no acessório, sendo idênticos no
essencial.

Defeso
Qualidade de tudo que é proibido ou interdito, quer seja por lei, por
sentença judicial ou por ato a que se deva obediência.

Deligenciar
No contexto jurídico, em especial no cumprimento de ordens judiciais, o
verbo diligenciar é empregado, constantemente, do seguinte modo:
Diligenciei ao endereço indicado no mandado judicial e citei Beltrano Silva.

Embora quase imperceptível a um rápido olhar, o emprego do verbo


diligenciar, no exemplo apresentado, está inadequado, uma vez que não
exprime a ação de executar ato judicial fora do Tribunal. Essa significa-
ção pertence, na verdade, ao substantivo diligência. A confusão decorre
da semelhança entre diligenciar e diligência.
83
O verbo diligenciar possui a acepção de empenhar-se, esforçar-se.
Observe como a substituição do verbo diligenciar por um de seus signi-
ficados torna o exemplo apresentado ininteligível:
1. Diligenciei ao endereço indicado no mandado judicial e citei Bel-
trano Silva.
2. Empenhei-me ao endereço indicado no mandado judicial e citei Bel-
trano Silva.

Desse modo, uma possibilidade de reescrevermos a oração, de maneira


correta, seria:
Dirigi-me ao endereço indicado no mandado judicial e citei Beltrano
Silva.

Observe exemplo em que os vocábulos diligenciar e diligência foram


empregados corretamente:
O oficial de justiça diligenciou por cumprir os mandados de citação e
de intimação; entretanto, não obteve êxito nas diligências.

Denegar
Indica indeferir ou recusar decisão ou despacho.

Desprover - improver
O termo desprover é empregado com sentido de recusar provimento.
Nosso vocabulário ortográfico também registra desprovido e despro-
vimento. Não existem em nosso idioma improver e improvimento.
Improvido existe. Importante destacar que os termos citados devem
exercer função de adjetivo: recurso desprovido. Não existe desprovejo,
improvejo ou formas semelhantes.

Embargar
Indica opor recurso de embargo judicial apropriado, ou seja, opor obs-
táculo.
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Em que pese
A expressão pode aparecer sem ou com preposição: "em que pese" ou
"em que pese a". O sentido é o mesmo. O problema é a concordância.
Sem preposição, o verbo deve concordar com o termo seguinte: em que
pese o argumento (…); em que pesem os argumentos (…).
Com preposição, o verbo deve ficar sempre no singular: em que pese
aos argumentos; em que pese às dúvidas.

Em sede de
Evite a expressão, pois não apresenta o sentido de “na esfera de”, “no
âmbito de” como é comum em textos jurídicos. Observe exemplo ina-
dequado: Em sede de suspensão de segurança, não se apreciam questões
de mérito. Deve-se, portanto, dizer: Em suspensão de segurança (…).

Escoimar
Indica livrar de multa, pena ou coima.

Exarar
Indica registrar por escrito.

Expressões latinas
Já destacamos que linguagem técnica deve ser empregada apenas em
casos específicos. O uso de expressões latinas é comum na linguagem
jurídica. Importante é evitar o uso de forma exagerada e sem necessida-
de. O novo Acordo Ortográfico determina que termos estrangeiros de-
vem ser grafados em itálico. Relaciono a seguir as principais empregas
na linguagem jurídica.
ab actis. Dos feitos/dos autos.
ab alto. Por aproximação.
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ab initio. Desde o início, desde o começo.
ab ovo. Desde o começo.
aberratio ictus. Desvio do golpe; erro de alvo. Erro ou acidente, na exe-
cução do delito, que leva o criminoso a atingir pessoa diversa daquela a
quem pretendia ofender.
a contrario sensu. Pela razão contrária, em sentido contrário.
ad argumentandum tantum. Só para argumentar.
ad causam. Por causa, para a causa.
ad cautelam. Por cautela. Diz-se do ato que se pratica, ou medida que
se toma, por simples precaução.
ad diem. Até o dia, dia em que termina o prazo
ad hoc. A propósito; para isto, para este fim; para o ato em questão.
ad hominem. para uma determinada pessoa.
ad judicia. Para as coisas da Justiça (para o foro judicial).
ad litteram. Literalmente; conforme o que está escrito.
ad nutum. À vontade de, segundo a vontade, ao arbítrio.
ad processum. Para o processo.
ad referendum. Para reportar (diz-se da votação sujeita à aprovação
posterior de um colegiado).
ad quem. Para quem; juiz ou tribunal para o qual segue o recurso; dia
ou termo final de prazo.
ad referendum. Para ser referendado; para submeter à apreciação de,
sob condição de consulta aos interessados e aprovação deles.
ad verbum. Palavra por palavra
a fortiori. Por mais forte razão; por maior razão; com mais razão.
a limine. Desde o início/ de antemão
animus. Ânimo, intenção; vontade do agente em atingir determinado
objetivo.
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animus narrandi. Intenção de narrar.
animus nocendi. Intenção de prejudicar, de causar dano.
ante tempus. Antes do tempo; antes do prazo.
a posteriori. Para depois; que vem depois. Conclusão de um raciocínio
indutivo a ser apresentado depois baseado em fatos.
a priori. Em princípio; raciocínio dedutivo prévio.
apud acta. Junto aos autos. Procuração apud acta: a que o réu outorga
ao defensor mediante indicação verbal feita ao juiz do processo.
a quo. De onde; juízo originário do recurso; do qual; dia ou termo ini-
cial de um prazo.
a rogo. A pedido de. Indica assinatura feita por alheia pessoa a pedido
de quem não pode assinar documento.
bis in idem. Incidência duas vezes sobre a mesma coisa.
caput. Cabeça. Parte superior de um artigo que contém o fundamento
do dispositivo.
casu. Por acaso.
causa mortis. Causa determinante da morte.
causa petendi. Causa de pedir. Ato ou fato que constitui o fundamento
jurídico da ação.
citra petita. Aquém do pedido.
concessa venia. Com a devida licença; o mesmo que data venia.
conditio. Condição entre duas pessoas; acordo.
conditio sine qua non. Condição sem a qual não; condição indispen-
sável.
contra jus. Contra o direito.
contra legem. Contra a lei.
custos legis. Fiscal da lei.
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data venia/data maxima venia. Com a devida licença. Expressão res-
peitosa com que se principia uma argumentação ou opinião divergente
da de outrem; o mesmo que concessa venia ou permissa venia.
decisum. A sentença; o decidido.
de cujus. O falecido. Geralmente essa expressão é empregada para re-
ferir-se à pessoa cujos bens são inventariados.
de facto. De fato.
de jure. De direito; quanto ao direito.
de lege ferenda. Da lei a ser criada.
de lege lata. Da lei já criada, estabelecida, em vigor.
de persona ad personam. De pessoa a pessoa (indica a transmissão de
posse, de bens, etc.)
dies ad quem. Termo final do prazo; último dia do prazo.
dies a quo. Termo inicial do prazo; primeiro dia do prazo.
dominus litis. Dono da lide; titular do direito de ação; autor da ação.
dura lex sed Lex. a lei é dura, mas é a lei.
erga omnes. Contra todos. Usado para indicar que os efeitos de deter-
minado ato atingem todos os indivíduos de determinada população, ou
os membros de uma organização.
error in judicando. Erro quanto ao julgamento das questões de direito
suscitadas na causa.
error in procedendo. Erro quanto ao andamento do proceso, prejudi-
cando seu curso normal.
error iuris (juris). Erro de direito.
et similia. e coisas semelhantes.
ex abrupto. Subitamente, sem preparação, de repente.
ex causa. Em razão da causa.
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exempli gratia. Por exemplo. É usada também a forma abreviada e. g.
ex jure. Conforme o direito
ex lege. De lei; segundo a lei.
ex nunc. De agora em diante; sem efeito retroativo.
ex officio. Por motivo do ofício, por força da lei; ato praticado pelo juiz
sem provocação das partes.
ex positis. Isto posto, do que foi exposto.
ex tempore. Imediatamente
ex tunc. Desde o início. Expressão usada para dizer que um ato tem
efeito retroativo.
extra petita. Fora do pedido.
ex vi. Consoante o disposto/pela força.
ex vi legis. Por força da lei.
fumus boni juris. Fumaça do bom direito; presunção de legalidade.
Expressão equivalente: fumum boni juris.
grosso modo. Por alto, de modo grosseiro, impreciso, aproximadamen-
te.
habeas corpus. Que tenhas teu corpo. Garantia constitucional outor-
gada em favor de quem sofre ou está na iminência de sofrer coação ou
violência na sua liberdade de locomoção por ilegalidade ou abuso de
poder.
habeas data. Que tenhas os dados. Direito que garante o acesso aos ar-
quivos do Estado e às informações neles constantes sobre o postulante.
honoris causa. Por causa da honra. Diz-se dos títulos universitários
conferidos sem exame ou concurso, a título de homenagem. Ex.: doutor
honoris causa.
in abstracto. Em abstrato, abstratamente.
in albis. Em branco; sem manifestação dos interessados.
in casu. No caso.
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incidenter tantum. Incidentalmente apenas, em processo incidental.
in concreto. Em concreto, objetivamente.
in continenti. De imediato, imediatamente.
in dubio (in dubio pro reo). Aforismo aplicado em matéria penal a
respeito do favorecimento ao réu, notadamente no que concerne à apli-
cação da pena: se há dúvida, a decisão deve ser favorável ao réu.
initio litis. No início da lide. Despacho exarado pelo juiz logo que pro-
posta a ação, quando a lei o permita, determinando a imediata prática
de ato.
in limine. Desde logo; no início.
in loco citato. No lugar citado.
in nomine. Em nome.
in specie. Em espécie; em particular, particularmente.
in totum. No todo, totalmente.
interna corporis. No âmbito interno da corporação, do grupo ou do
órgão, com respeito ao que nele se trate ou decida.
intuitu personae. Em consideração à pessoa.
in verbis. Nestes termos; textualmente.
ipsis litteris. Exatamente igual; com as mesmas letras.
ipsis verbis. Exatamente igual; com as mesmas palavras.
ipso facto. Pelo mesmo fato.
ipso jure. Pelo próprio direito, de acordo com o direito.
iter. Percurso, direito de passagem; etapas; procedimentos.
iter criminis. As etapas do crime. Atos que se encadeiam na execução
do crime.
90
jus abutendi. Prerrogativa que tem o proprietário de dispor da coisa,
transferindo-a quando lhe aprouver.
jus eundi. Direito de ir e vir.
jus imperii. Direito do governo.
jus postulandi. Direito de postular.
jus sanguinis. Direito de sangue; o que decorre da hereditariedade, do
parentesco.
lato sensu. Sentido amplo, geral.
legem habemus. Temos lei. Indicativo de que, em determinada situa-
ção, há lei para tutelá-la. É correta também a forma habemus legem.
legis. Da lei.
lex lata. Lei promulgada.
lex specialis. Lei especial.
litis contestatio. Contestação da lide.
loco citato. No lugar citado.
mala fide. Por má-fé.
mandamus. Mandado de segurança; ordem judicial.
manus. Mão; autoridade, poder.
maxime. Principalmente, especialmente, mormente.
mens legis. A finalidade da lei, espírito da lei, intenção da lei.
modus dicendi. Modo de dizer.
modus vivendi. Maneira de viver.
mutatis mutandis. Mudando o que deve ser mudado.
motu próprio. De própria iniciativa.
mutatis mutandis. Mudado o que deve ser mudado.
non bis in idem. Não duas vezes no mesmo assunto. Axioma de juris-
prudência pelo qual o indivíduo não pode ser punido duas vezes pelo
mesmo delito. Usa-se também para indicar que não se deve cair duas
vezes na mesma falta.
91
non liquet. Não está claro; não convence.
notitia criminis. Notícia ou conhecimento do crime.
novatio legis. Nova lei.
numerus clausus. Número fechado, limitado. Enunciação taxativa, não
exemplificativa, por isso não admite acréscimo.
obiter dictum. Referência passageira/dito de passagem.
ope iuris (juris). Por força do direito.
ope legis. Por força da lei.
opus citatum. Obra citada.
per capita. Por cabeça; por pessoa.
per contra. Em sentido contrário.
periculum in mora. Perigo de mora.
permissa venia. Com o devido respeito.
per se. Por si.
persona non grata. Pessoa não grata.
post mortem. Depois da morte.
post scriptum. Escrito depois. Abrev.: P.S.
prima facie. À primeira vista. Que se pode verificar de pronto, sem
maior esforço.
pro labore. Pelo trabalho. Remuneração por serviço prestado.
propter officium. Por causa do ofício; em função do cargo.
pro rata. Em proporção. Pagando ou recebendo cada um a parte que lhe
toca num rateio.
pro solvendo. Para resolver; destinado a pagamento.
pro tempore. Temporário, interino.
punctum saliens. Ponto principal (de uma questão).
quaestio juris. Questão de direito.
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quantum satis. Quanto baste.
quid iuris? Qual o direito?
qui pro quo. Uma coisa por outra/equívoco.
quorum. De quantos. Número mínimo de pessoas para funcionamento
e/ou deliberação de um órgão colegiado.
ratio. Razão.
ratio decidendi. Razão de decidir
ratio essendi. Razão de ser.
ratio legis. Razão da lei.
ratione loci. Em razão do lugar.
ratione materiae. Em razão da matéria.
ratione personae. Em razão da pessoa.
rebus sic stantibus. Desde que permaneçam as mesmas condições e
circunstâncias.
referendum. Certas decisões que são submetidas à apreciação de ou-
trem para que tenham validade jurídica.
reformatio in pejus. Reforma da sentença para pior, modificação des-
vantajosa.
res in judicio deducta. Coisa trazida a juízo. (Deve estar contida na
petição inicial.)
res judicata. Coisa julgada.
sententia extra petita. Sentença fora do que foi pedido.
sententia ultra petita. Sentença além do pedido (sentença que conside-
rou coisas não constantes do pedido).
sine qua non. Sem a qual não (condição).
statu quo. Estado ou situação em que se encontrava anteriormente certa
questão. Admite-se também a forma status quo.
stricto sensu. Em sentido restrito.
sub censura. Sob censura. Expressão indicativa de que a matéria está
sujeita a crítica ou aprovação de outrem.
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sub examine. Em exame, em tela.
sub judice. Sob julgamento, sob apreciação judicial.
sui generis. De seu próprio gênero; especial; único.
sursis. Suspensão condicional da pena.
thema decidendum. Tema ou questão a decidir.
ultima ratio. Último argumento, última razão.
ultra petita. Além do pedido.
vacatio legis. Espaço de tempo entre a publicação de uma lei e a sua
entrada em vigor.
verba legis. A palavra da lei.
verbatim. Palavra por palavra, literalmente.
verbi gratia. A saber, por exemplo. Abrev.: v.g.
verbis. em termos.
verbo ad verbum. Palavra por palavra.
vide. Veja; confira.
vis attractiva. Força atrativa.

Fórum ou foro
Fórum tem indica o espaço físico (prédio) onde funcionam os órgãos do
Poder Judiciário. Foro (ó) apresenta o mesmo sentido. Foro (ô) indica
tanto o espaço físico, a área de jurisdição, o juízo.

Gerúndio
O uso do gerúndio merece estudo cuidadoso. Ele pode apresentar-se nas
formas simples ou composta. Observe:
Encontrei o magistrado proferindo sentença (forma simples).
Os licitantes estão participando do certame (forma composta).
94
Casos adequados:
a) Orações subordinadas adverbiais reduzidas de gerúndio
Passando pelo mesmo caminho, a vítima foi atacada pelos réus (ideia
temporal).
Considerando o cumprimento da cláusula nos primeiros meses, tor-
na-se evidente a má-fé da contratada (ideia condicional).
Mesmo alienando o veículo a terceiro, o recorrente responde pelas
obrigações anteriores ao negócio jurídico (ideia concessiva).
Não alcançando o número de matrículas suficientes para formar a
turma, foi cancelado o curso (ideia causal).
Ele se defendeu, argumentando desconhecer o assunto (ideia de
modo).

b) Combinação da preposição “em + gerúndio”


Em se tratando de direitos individuais homogêneos, é possível tanto
a ação coletiva quanto a individual.
Em se lhe dando provimento, far-se-á justiça à parte.

Casos inadequados ou não recomendados na linguagem formal:


a) Ideia pontual
Nós vamos estar enviando a declaração amanhã (inadequado).

b) Ideia adjetiva
Chegou o documento contendo a informação (inadequado).

c) Ideia aditiva
O juiz analisou o caso, decidindo assim (inadequado).

95
Grafia de números de órgãos públicos

Dúvida comum é como escrever (extenso, cardinal, ordinal etc) o nú-


mero que acompanha alguns órgãos judiciários. O manual do STJ re-
comenda da seguinte forma: Quando se tratar de órgão fracionário de
tribunal, o numeral deverá ser escrito por extenso: a Terceira Turma do
STJ; a Segunda Seção do STJ; a Terceira Câmara Criminal do Tribu-
nal de Justiça do Estado de Goiás. Isso também se aplica a instância e
grau: primeira e segunda instâncias; primeiro e segundo graus. Em se
tratando de varas, regiões e promotorias, a designação se fará por meio
da escrita do algarismo arábico: o TRF da 2ª Região; a 2ª Vara Federal
Criminal; a 2ª Promotoria de Justiça de Rio Largo.

Gravar
Indica, na linguagem jurídica, impor gravame, onerar, hipotecar, sujei-
tar a encargos.

há que + infinitivo
Expressão típica de textos jurídicos, a expressão “há que + verbo no
infinitivo” tem o sentido de “é necessário”, “deve-se fazer”: Há que
examinar com detalhes os argumentos apresentados.
Sem o “que”, o sentido passa a ser de “ser possível”: Não há falar em
autonomia do Judiciário se não há independência financeira; Não há
responsabilizar os acusados pelo crime porque não há provas; Quando
o desemprego assola o País, não há falar de crescimento.

hora extra
Sem hífen. Plural: horas extras.

inobstante
O vocabulário ortográfico não registra a palavra “inobstante”, embora
empregada com certa frequência no meio jurídico. Melhor usar “não
obstante” ou “nada obstante”.
96
Ilidir
Indica refutar com argumentos ou provas.

Imitir
Indica fazer entrar na posse de coisa a pessoa a quem pertence ou a
quem cabe a posse.

Impetrar
Indica requerer a decretação de medida judicial que assegure o exercí-
cio de um direito, a execução de um ato (usado para mandado de segu-
rança, habeas corpus e habeas data).

Inadimplir
Indica algo que não foi cumprido como o combinado.

Indeferir
Indica proferir decisão ou despacho contrário a; emitir decisão rejeitan-
do o pedido.

Inquirir
Indica perguntar para esclarecer fatos.

Interpor
Indica entrar em juízo com recurso (genérico), apelação, agravo de ins-
trumento, agravo regimental, embargos infringentes, embargos de di-
vergência, recurso especial e recurso extraordinário. Pode indicar tam-
bém contrapor.

Intimar
Verbos muito empregados no final da sentença com sentido de dar ci-
ência, por meio de ato judicial, a uma pessoa dos termos ou atos de
um processo; exigir o comparecimento, convocar. O verbo é transitivo
direto e indireto: intimar alguém de uma decisão ou Intimar alguém a
comparecer.
97
Jurisprudência
Indica interpretação reiterada que os tribunais dão à lei nos casos concretos
submetidos a seu julgamento e conjunto de decisões colegiadas (acórdãos)
que servem como modelo para solucionar questões similares.

Litigar
Indica disputar ou pleitear.

Litígio
Indica controvérsia ou discussão formada em juízo acerca do direito ou
da coisa que serve de objeto da ação ajuizada; pleito, demanda, pen-
dência.

Mérito
Ponto fundamental da questão levada a juízo; matéria principal da lide,
que orienta a formação da decisão judicial.

Negar provimento
Não atender à pretensão do recorrente; proferir decisão contrária ao
recurso interposto.

Negar seguimento
Desacolher pedido ou recurso sem enfrentar com profundidade seu mé-
rito.

No que pertine
A expressão não existe em nosso idioma. Prefira “no que concerne”,
“com referência”, “com relação”, “quanto a”.

O mesmo
A linguagem formal orienta que o uso da expressão “o mesmo” deve ocor-
rer com o sentido de “a mesma coisa”. Observe exemplos adequados.
98
Fulano de tal afirmou que recebeu o aviso. Sicrano afirmou o mesmo
(a mesma coisa).
Ontem, estudei português à noite. Hoje farei o mesmo (a mesma coisa).
A linguagem formal não aceita o uso da expressão como pronome pes-
soal. Assim, são inadequadas construções como:
O desembargador recebeu o processo e analisará o mesmo rapidamente.
Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo se encontra no andar.

Opor
É transitivo direto com sentido de apresentar em juízo (opor os embar-
gos) e transitivo direto e indireto para oferecer juízo (opor embargos
à sentença). Na linguagem jurídica, encontra-se também com a pre-
posição contra: cuida-se de embargos de declaração opostos contra a
decisão que (...)

Pedir para - pedir que


Como o verbo pedir é transitivo direto, só se usa pedir para quando
ficar subentendida a palavra licença ou permissão: Pedimos (licença)
para nos retirar da sessão; Pediu (permissão) para ligar a televisão; As
jornalistas pediram (permissão) para filmar a entrevista.
Nos demais casos, usa-se pedir que: Ela pediu que se retirassem; Pedi-
ram que você ligasse a televisão; As jornalistas pediram que eu filmasse
a entrevista.

Pedir vista - pedir vistas


O correto é pedir vista, no singular. Significa solicitar exame do proces-
so: O ministro pede vista. O presidente lhe concede vista.

Perimir
Indica pôr termo a ação, instância judicial ou direito em razão de fato
que os torne peremptos, extintos ou prescritos.
99
Precedente
É o entendimento aplicado pelo magistrado a determinado caso (deci-
são que serve de referência, de exemplo). A aplicação repetida do mes-
mo entendimento cria uma jurisprudência naquele sentido. A aplicação
reiterada de uma mesma jurisprudência pode levar à edição de uma
súmula.

Pronúncia
Indica o ato de despachar ou declarar. Na linguagem jurídica, indica,
também, decisão judicial que, reconhecendo como provada a existência
de crime e admitindo haver indícios suficientes de ser o réu quem o
praticou, determina que se lhe registre a culpa e o remete ao julgamento
final no tribunal do júri.

Qualquer – sequer – algum – nenhum


Não se deve usar o termo “qualquer” com sentido de “nenhum” em
construções negativas: não consultei qualquer livro da biblioteca (ina-
dequado). A forma correta é: não consultei livro algum da biblioteca.
Sequer indica “ao menos”, “pelo menos” e deve ser empregado em ora-
ções negativas: o requerente não respondeu sequer a uma pergunta.

Quando do (da)
A expressão é galicismo, por isso deve ser substituída por no momento
de, no tempo de, por ocasião de: Por ocasião da consulta, o tribunal
estava de recesso, e não Quando da consulta (...)

Redibir
Indica anulação de contrato de compra e venda em virtude de a coisa
adquirida apresentar vício ou defeito oculto, impossibilitando o uso ou
diminuindo-lhe o valor.
100
Regência
Enumerei verbos que aparecem com frequência na linguagem jurídica
e causam dúvidas.
Siglas utilizadas na explicação:
VI = verbo intransitivo
VTD = verbo transitivo direto
VTI = verbo transitivo indireto
VTDI = verbo transitivo direto e indireto

Ab-rogar: VTD no sentido de revogar uma lei, decreto, etc.


Acarear: VTD no sentido de defrontar testemunhas.
Acionar: VTD no sentido de ação judicial.
Acoimar: VTD no sentido de infligir, punir.
Aconselhar: VTDI no sentido de orientar; aconselhar algo a alguém;
aconselhar alguém a algo; aconselhar alguém de/sobre algo
Acordar: VI no sentido de fazer um acordo, firmar contrato. VTD no
sentido de concordar, resolver em comum acordo.
Acostumado: regência nominal com a preposição “a” ou “com”.
Adimplir: VTD no sentido de cumprir, executar um contrato.
Ad-rogar: VTD no sentido de tomar por adoção pessoa sui juris.
Agradar: VTD (fazer carinho, presentear); VTI com preposição “a”
(satisfazer).
Agradecer: VTDI – o objeto direto é sempre coisa, e o indireto é sem-
pre pessoa.
Agravar: VTD no sentido de onerar, sobrecarregar.
Agredir: VTD. O desempregado agrediu o amigo.
Ajudar: VTD ou VTI com a preposição “a”.
Ansioso: regência nominal com a preposição “de”, “por” ou “para”.
101
Anuir: VTI ou VI no sentido de concordar: O juiz anuiu a seu pedido.
Os juízes anuíram.
Apelar: VTI ou VI no sentido de recorrer buscando ajuda; recorrer por
apelação a instância superior para pedir a reforma de sentença de juízo
inferior; interpor recurso ou apelação: A defesa apelou da sentença. O
promotor apelou.
Apenar: VTD no sentido de punir, condenar.
Apoiar-se: VTI (pronominal); apoiar-se ao muro; apoiar-se em docu-
mentos; apoiar-se sobre tal coisa.
Arrestar: VTD no sentido de fazer ou decretar arresto.
Arrogar: VTD no sentido de apropriar-se de, tomar como seu. VTDI
no sentido de exigir ou atribuir-se direitos indevidos.
Arrolar: VTD no sentido de fazer constar em rol ou lista a relação dos
bens de um espólio.
Aspirar: VTD (sorver, inspirar) e VTI com a preposição “a” (desejar).
Assíduo: regência nominal com a preposição “em”.
Assistir: VTD (prestar assistência); VTI com a preposição “a” (ver, ter
direito);VI (morar).
Atenção: regência nominal com a preposição “a” ou “para”.
Atender: VTD ou VTI com a preposição “a” para pessoa; VTI com a
preposição “a” para coisa no sentido de dar atenção.
Atingir: VTD (alcançar o alvo).
Autuar: VTD no sentido de lavrar um auto. O servidor autuou o pro-
cesso. VTDI no sentido de exigir ou atribuir-se direito indevido.
Avisar, certificar, cientificar, informar: VTDI (algo a alguém ou al-
guém de algo).
Avocar: VTDI no sentido de chamar, atribuir-se: O presidente avocou
a si a decisão sobre o projeto. VTD no sentido de despertar, evocar:
Aquelas palavras avocavam bons pressentimentos.
Caluniar: VTD no sentido de imputar falsamente.
102
Caucionar: VTD no sentido de assegurar com caução, dar em garantia.
Certificar: VTD no sentido de afirmar a certeza, passar a certidão de: O
secretário certificará a aprovação no concurso. O médico certificou o
óbito. VTDI no sentido de tornar ciente, afirmar: Ele o certificou do jul-
gamento. VTDI (pronominal) no sentido de ter a certeza de, convencer-
-se: Ele se certificou da verdade.
Chamar: VTD e VTI com a preposição “a” (considerar); VTD (con-
vocar, fazer vir); VTDI com a preposição “a” no sentido de repreender.
Chegar, ir, sair, vir: Intransitivo.
Circundutar: VTD no sentido de julgar nula ou sem eficácia uma ci-
tação.
Citar: VTD no sentido de chamar alguém a juízo.
Cominar: VTDI no sentido de ameaçar com pena ou castigo no caso
de infração.
Comparecer: VI ou VTI no sentido de aparecer, apresentar-se em local
determinado ou em juízo perante magistrado ou funcionário judicial:
Somente as testemunhas de defesa compareceram. A testemunha com-
pareceu perante o juiz.
Compartilhar: VTD.
Competir: VTI no sentido de concorrer na mesma pretensão, disputar
título, ser da competência ou atribuição, caber, pertencer por direito, ser
de obrigação: O candidato mais forte competia com o irmão. Isso não
compete ao chefe da seção. Parte dos bens compete aos filhos.
Comunicar: VTDI com a preposição “a”.
Comutar: VTD no sentido de permutar um pena mais grave por outra
mais branda.
Conhecer: VTI regendo a preposição de, no sentido de juiz ou tribunal
ser competente para intervir num processo; dar-se por competente para
julgar; acolher a causa: O ministro conheceu do recurso.
103
Consentir: VTI com a preposição “em” (concordar); VTDI com a pre-
posição “a” (permitir).
Consistir: VTI no sentido de compor-se; basear-se: O procedimento de
apuração consistia em duas etapas.
Coonestar: VTD no sentido de dar aparência de honestidade.
Correger: VI no sentido de fazer correição. VTD no sentido de fazer o
pagamento do dano ou da indenização.
Custar: VTI com a preposição “a”(ser custoso, ser difícil); TDI com a
preposição “a” (causar).
Decidir: VTD ou VTI no sentido de resolver, determinar, sentenciar,
julgar: O ministro decidiu (sobre) a questão rapidamente.
Deferir: VTD ou VTI no sentido de atender, condescender, anuir (o
que se pede ou requer): Ele deferiu o (ao) pedido. VTDI no sentido de
outorgar, conferir e conceder: O prefeito deferiu a solicitação à asso-
ciação de moradores.
Deparar: deparar-se com; deparar com; deparar-se-lhe algo.
Desobedecer: VTI com a preposição “a”.
Deliberar: VTD ou VTI no sentido de decidir, resolver após exame:
A Corte deliberou punir os culpados. O Tribunal deliberou sobre os
recursos especiais.
Delinquir: VI no sentido de cometer crime, delito.
Demandar: VI no sentido de disputar em juízo. VTD no sentido de
intentar ação judicial.
Denunciar: VTD no sentido de notificar, dar ciência.
Derrogar: VTD no sentido de revogar parcialmente uma lei, decreto,
regulamento.
Desaforar: VTD no sentido de isentar o pagamento, de um foro ou no
sentido de transferir um processo de um foro para outro. É pronominal
no sentido de renunciar aos privilégios do foro.
104
Desagravar: VTD no sentido de reparar uma ofensa ou insulto.
Descriminar: VTD no sentido de absolver do crime, excluir a injuridi-
cidade ou condição criminosa.
Difamar: VTD no sentido de imputar fato ofensivo à reputação de al-
guém.
Dignar-se: VTI com a preposição “de”.
Distratar: VTD no sentido de anular o ajuste ou contrato.
Embargar: VTD no sentido de pôr embargos.
Ensinar: ensinar algo a alguém; ensinar alguém a algo
Equivalente: regência nominal com a preposição “a” ou “de”.
Escoimar; VTD no sentido de livrar pena ou censura.
Esquecer: VTD ou VTI (com pronome e preposição “de”). Esqueceu
tudo. Esqueceu-se de tudo.
Evencer: VTD no sentido de desapossar judicialmente a pessoa da pro-
priedade que detém.
Falta: regência nominal com a preposição “a”.
Faltar: VTI com a preposição “a” (ausentar-se, inexistir).
Impedir: VTDI com dupla regência: algo a alguém ou alguém de algo.
Implicar: VTD no sentido de requerer, demandar; embaraçar; trazer
como consequência, produzir como consequência, acarretar e provocar:
A desobediência dos motoristas no trânsito pode implicar sérias conse-
quências. VTDI no sentido de envolver, comprometer: Implicaram-no
em crime de furto. VTI no sentido de ter implicância com, ser inconci-
liável, rege a preposição com: Implicava com o guarda.
Inadimplir: VTD no sentido de descumprir a obrigação contratual as-
sumida.
Indagar: indagar de alguém alguma coisa.
Indiciar: VTD no sentido de proceder a imputação criminal contra al-
guém.
105
Inquirir: VTD no sentido de fazer perguntas, indagar.
Insimular: VTD no sentido de atribuir crime, denunciar.
Interessar: algo interessa a alguém; interessar-se por algo.
Interpelar: VTD no sentido de exigir categoricamente explicações em
juízo.
Lembrar: mesma regra de esquecer.
Notificar: VTDI ou VTD no sentido de intimar, dar conhecimento de
ordem judicial a, informar, comunicar, participar, dar notícia ou conhe-
cimento de: O juiz notificou a sentença ao condenado. O juiz notificou
o condenado.
Obedecer: VTI com a preposição “a”.
Pagar: VTDI com a preposição “a”. Objeto direto é a coisa e objeto
indireto é a pessoa.
Perdoar: VTDI com a preposição “a”. Objeto direto é a coisa e o objeto
indireto é a Persuadir: persuadir alguém a alguma coisa.pessoa.
Preferência: regência nominal com a preposição “a” ou “por”.
Preferir: VTDI com a preposição “a”. Nunca usar “prefiro mais” e pre-
firo algo do que outra coisa.
Preferível: regência nominal com a preposição “a”.
Prescrever: VTD no sentido de ordenar, determinar; preceituar, indi-
car com precisão: O diretor-geral prescreveu normas para a licitação.
VTDI no sentido de marcar, fixar, limitar: O setor prescreveu novo pra-
zo aos servidores para entrega de documentos. VI no sentido de ficar
sem efeito por ter decorrido certo prazo legal, caducar, cair em desuso;
incidir em prescrição: A pena já prescreveu.
Presenciar: VTD. Os interessados presenciaram a sessão.
Presente: com a preposição “a” com nomes abstratos e preposição
“em” com nomes concretos.
Presidir: VTD ou VTI no sentido de exercer a presidência.
106
Prevenir: VTD (evitar); VTDI com a preposição “de” (avisar).
Providenciar: providenciar algo a alguém; providenciam sobre algo;
providencia-se para algo; para providenciar em algo.
Proceder: VTI no sentido de originar-se, descender; realizar, fazer,
efetuar: O presidente procederá à nomeação de novo ministro. VI no
sentido de ter fundamento, continuar, agir, comportarse, ser decisivo na
prova, concluir: Este recurso não procede. O ministro procedeu exem-
plarmente. VI com a preposição “de” no sentido de origem. O Juiz pro-
cede de São Paulo.
Prover: VTD no sentido de receber e deferir (um recurso), ordenar;
dispor: O Colegiado proveu o recurso. VTDI no sentido de dotar, abas-
tecer, nomear alguém para (cargo ou emprego): O ministro da Justiça
o proverá para o cargo de secretário-geral. VTI no sentido de ocorrer,
acudir, remediar, atender: Ele proverá às despesas.
Querer: VTD (desejar); VTI com a preposição “a” (estimar).
Recorrer: VI ou VTD no sentido de interpor recurso judicial; apelar,
dirigir-se pedindo socorro, proteção; lançar mão, valerse.
Renunciar: VTD ou VTI com a preposição “a”.
Reparar: VTD (consertar); VTI com as preposições “em” ou “para”
(observar).
Ressarcir: VTD no sentido de pagar o prejuízo causado.
Residente, situado, sito, domiciliado: aceitam a preposição “em”.
Residir: VI com a preposição “em”.
Resignar: a) (renunciar) resignar o cargo; b) (conformar-se) resignar-se
com algo; resignar-se a algo.
Responder: VTDI com a preposição “a”.
Revogar: VTD no sentido de anular ou retirar.
Sancionar: VTD no sentido de dar sanção, aprovação, confirmação.
Satisfazer: VTD ou VTI com a preposição “a” (solicitar).
107
Simpatizar: simpatizar com algo/com alguém.
Socorrer: socorrer alguém/algo.
Solicitar: VTDI. O Ministro solicitou o material ao Tribunal. O nome
“solícita” pede a preposição “com”. O Ministro é solícito com todos.
Substabelecer: VTD no sentido de transferir a outrem os poderes con-
feridos num mandato
Suceder: TI com a preposição “a” (substituir).
Sobressair: VTI com preposição “em”. Não é verbo pronominal.
Torcer: VTI com a preposição “por”.
Usufruir: usufruir algo.
Visar: VTD (pôr o visto); VTI com a preposição “a” (objetivar).

Remição – remissão
Remição é o ato de resgatar ou desobrigação do cumprimento de uma
pena. Também é empregado com o sentido de conseguir libertação ou
mesmo arrepender-se.
Remissão é o ato de perdoar, ter misericórdia. Também apresenta o sen-
tido de fazer referência.

Requerente
Aquele que reivindica algo por meio de requerimento; postulante; pe-
ticionário; parte em processos como medida cautelar e suspensão de
segurança.

Requerer
Indica solicitar e dá origem a documento oficial chamado requerimento.
Na lingaugem jurídica, indica também requerer em juízo medida caute-
lar, suspensão de segurança e suspensão de liminar e de sentença.

Requerido
É a parte da lide contra a qual é postulada alguma coisa.
108
Resilir
Indica anular acordo por vontade de uma das partes.

Restar
Verbo muito empregado na linguagem jurídica para indicar ideia de
estado. No entanto, o verbo “restar” indica ação e deve aparecer acom-
panhado ao lado de substantivo ou verbo. Ele não assume função de
verbo de ligação. Observe exemplos inadequados.
A ré restou condenada pelo júri.
Restou evidente o dolo do autor.
Resta provado.

As estruturas acima são muito comuns na linguagem jurídica, mas ina-


dequadas gramaticalmente. As formas corretas são:
A ré foi condenada pelo júri.
Ficou evidente o dolo do autor.
Está provado.

Observe agora exemplos adequados do verbo “restar”:


Restam dúvidas sobre o assunto.
Resta saber o que de fato ocorreu.
Resta fazer a estatística dos processos.
Restavam ao juiz poucos processos para concluir a inspeção.
Resta ao credor tal valor.

salário mínimo/salário-mínimo
Salário mínimo (sem hífen) é a remuneração mínima do trabalhador,
fixada por lei: O atual salário mínimo do brasileiro é de R$ 865,50.
109
Salário-mínimo (com hífen) é usado para designar o trabalhador cuja
remuneração é o salário mínimo, ou o trabalhador mal remunerado:
Aquele pobre homem é um salário-mínimo. O plural é salários-míni-
mos.

Sancionar
Indica aprovar lei.

Sub-rogar
Indica substituir coisa ou pessoa por outra para cumprir algo ou tomar
o lugar de outro.

Súmula
A súmula é registro que resume o entendimento vigente em um tribunal
sobre uma tese jurídica discutida e serve de referência para os julga-
mentos sobre o mesmo tema.

Súmula vinculante
Oriunda do Supremo Tribunal Federal, é aquela que, obrigatoriamente,
deve ser seguida por todos os órgãos do Judiciário e pela administração
pública.

Suso
Trata-se de palavra de uso antigo e significa acima, anteriormente, an-
tes, atrás.

Tempestivo
Qualidade das coisas ou fatos que vêm a seu tempo, isto é, no momento
próprio. Tempestivo designa, pois, o que é oportuno, o que se faz no
prazo, o que vem na ocasião dada, o que está de acordo com a regra.
110
Tramitar
Indica seguir o andamento legal do processo.

Ultimar
Concluir, encerrar, fechar, terminar.

Vez que, eis que, posto que, haja visto


As expressões acima quase sempre são empregadas de forma inadequa-
da na linguagem jurídica.
Vez que, de vez que e haja visto não devem ser empregadas nunca. Estão
inadequadas.
Eis que indica surpresa ou tempo. Raramente, será empregada nesse
sentido. Posto que não possui valor de causa. O sentido correto da ex-
pressão é de concessão.
Observe os exemplos a seguir.
O Tribunal solicitou a cópia, vez que não a possuía (inadequado).
O Tribunal solicitou a cópia, de vez que não a possuía (inadequado).
O Tribunal solicitou a cópia, eis que não a possuía (inadequado).
O Tribunal solicitou a cópia, posto que não a possuía (inadequado).
O Tribunal solicitou a cópia, haja visto não a possuir (inadequa-
do).
O Tribunal solicitou a cópia, haja vista não a possuir (adequa-
do).

Viger
Indica estar em vigor.
111
Vislumbrar
Indica entrever ou ver indistintamente. Na linguagem jurídica,
usa-se de forma equivocada em construções como “não vislum-
bro (não vejo indistintamente) os requisitos autorizadores da me-
dida urgente” Prefira “não vejo os requisitos”.

Vítima fatal - letal - mortal


Os vocábulos fatal, letal e mortal exprimem algo que é determi-
nado por um fato, que produz a morte ou que está sujeito à morte;
algo inevitável, funesto, marcado pelo destino. Qualificam, por-
tanto, aquilo que causa ou provoca o resultado.
Vista essa questão semântica, o uso da expressão vítima fatal,
letal ou mortal constitui impropriedade vocabular, uma vez que
a vítima não é agente causador; mas, sim, alguém que sofre a
consequência. Por isso, a qualificação tem de recair sobre o fato,
e não sobre o agente causador. Então, fatal, mortal e letal é o
evento, o acidente, a doença.
O acidente causou uma vítima fatal, além de danos materiais.
(errado)
O acidente fatal causou uma vítima, além de danos materiais.
(certo)
A facada desferida pela autora provocou vítima mortal. (errado)
A facada desferida pela autora provocou a morte da vítima. (cer-
to)

Voto
Manifestação da opinião de membro de uma corporação, assembleia,
tribunal ou colegiado acerca de um assunto mediante norma preestabe-
lecida.
112
1. Grafam-se com hífen os compostos cujo segundo elemento é subs-
tantivo: votovista, voto-vogal, voto-mérito, voto-preliminar.
2. Não se usa hífen quando o segundo elemento é adjetivo: voto vencido.

Voto-mérito
Voto por meio do qual se julga o objeto da controvérsia.

Voto-preliminar
Voto relativo a alguma questão preliminar, precedendo o exame do mé-
rito da ação ou recurso.

Voto vencido
O que é dado em desacordo com os votos vitoriosos da maioria; voto
dado por membro divergente da maioria.

Voto-vista
Consiste no voto proferido pelo desembargador ou ministro que pediu
vista dos autos. Embora ainda não dicionarizado, o termo é adotado no
Superior Tribunal de Justiça como substantivo composto.

Voto-vogal
É o voto proferido por desembargador ou ministro diverso do relator
que compõe o colegiado. Igualmente não dicionarizado, é grafado neste
Tribunal com hífen.

Writ
Palavra originária do inglês usada em referência a mandado, ordem es-
crita. Na terminologia jurídica brasileira, é atribuída ao mandado de
segurança e ao habeas corpus.
113
Grafia de alguns Termos segundo a Nova Ortografia

A
abaixo-assinado
ab-rogar
acórdão
Advocacia-Geral da União*
advogado-geral da União*
amiúde
antijurídico
antissocial
(eu) apoio
arguição
arguir
assembleia
assembleia geral
atividade fim*
atividade meio*
à toa
autossuficiente
autossustentável
auxílio-acidente*
auxílio-alimentação*
auxílio-doença
auxílio-enfermidade
auxílio-funeral
auxílio-invalidez*
auxílio-maternidade
auxílio-moradia*
auxílio-natalidade
auxílio-reclusão
114
B
bem-estar
bem-sucedido
bilíngue
boa-fé
bônus
C
chefe de gabinete*
cláusula-mandato*
coautor
coautoria
coavalista
cocredor
codevedor
coerdar ou co-herdar
coerdeiro ou co-herdeiro
coexistência
cofiador
coirmão
colegatário
conta-corrente
conta-poupança*
consequência
(ele) constrói
contra-argumento
contra-arrazoado
contra-arrazoar
contra-arrestar
contracautela*
contraestadia

115
contrafação
contrafé
contraindicação
contramandado
contraofensiva
contraordem
contraparte
contraproducente
contraproposta
contraprova
contrarrazão
contrassenso
cooperar
cooptar
coordenar
coproprietário
corré
corregedor-geral*
Corregedoria-Geral*
corresponsável
corréu
coutente
(ele) crê
(eles) creem
custo-benefício*
D
data-base*
data-limite*
(que ele) dê
decreto-lei
(que eles) deem
116
défi ce, déficit ou deficit
desindexar
(ele) desprovê
(eles) desproveem
desprover
desprovido
desprovimento
(ele) detém
(eles) detêm
(o) dia a dia
dia-multa*
diretor-geral
diretor-gerente
Diretoria-Geral
diretor-secretário
E
edifício-sede*
ensino-aprendizagem*
equidade
estado-membro*
ex-aluno
ex-detento
exequendo
ex officio
extrajudicial
extraoficial
extraterritorial

117
F
fático-probatório*
força-tarefa
fórum
frequência
H
habeas corpus
hediondo
herói
heroico
heterossexual
hipossuficiente
homoafetivo*
hora-aula*
hora extra
I
ideia
improvido
infra-assinado
infracitado
infraconstitucional*
infraestrutura
instância
inter-regional
inter-relação
introito
inumano

118
J
juiz
juízes
juízo
júri
jurisprudência
jusfilosofia
jusnaturalismo
juspositivismo
L
(ele) lê
(eles) leem
licença-maternidade
licença-paternidade
licença-prêmio
liquidez
líquido
livre-arbítrio
M
macroeconomia
má-fé
mais-valia
mal-estar
malsão
malsucedido
malvisto
maus-tratos

119
meio-termo
memorando circular
mesa-redonda
microeconomia
micro-organismo
ministro presidente*
ministro relator*
N
não agressão
não apresentação*
não comparecimento*
não comprovação*
não cumprimento
não incidência*
O
oficial de gabinete
oficial de justiça
ofício circular
órgão
P
palavra-chave
para (v. parar, pres.)
paraestatal
pena-base*
pôde (v. poder, pret. perf.)
poder-dever*
polo
porquê (subst.)
preclusão

120
pré-constitucional
pré-constituído*
pré-datar
predeterminar
preestabelecer
pré-executividade*
preexistência
prefixar
prejulgado
prelibatório*
pré-qualificar
prequestionamento
prequestionar
pré-requisito ou prerrequisito
princípio
proativo ou pró-ativo
procurador-geral
Procuradoria-Geral
(ele) provém (v. provir)
(eles) provêm (v. provir)
(ele) provê (v. prover)
(eles) proveem (v. prover)
Q
queixa-crime
quinquenal
R

reelaborar
reeleição
regência
121
(eles) releem
réu
(eles) reveem
S
salário-base
salário de benefício
salário de contribuição
salário-educação
salário-família
salário-hora
salvaguardar
salvo-conduto
Secretaria-Geral
secretário-geral
seguro-desemprego
seguro-saúde
semiaberto
semi-interno
semiliberdade*
sem-número
sequestro
sobre-estadia
sobre-humano
sobrestado
sobrestamento
sobrestar
sobrestimar ou sobre-estimar
socioafetivo*
socioambiental*
sociocultural
socioeconômico
122
socioeducativo*
sócio-gerente
subentendido
subestimar
sub-reptício
sub-rogar
subscrever
subsídio (si)
subsistência (si ou zi)
substabelecer
subumano ou sub-humano
sucedâneo
superávit ou superavit
supracitado
supramencionado
supramencionar
T
tão só
tão somente
teleconferência
(ele) tem
(eles) têm
V
(ele) vê
(eles) veem (v. ver)
(ele) vem
(eles) vêm (v. vir)
verossímil
verossimilhança
123
vice-presidência
vice-presidente
vice-versa
videoconferência
videotexto
voo
voto-mérito*
voto-preliminar*
voto vencido*
voto-vista*
voto-vogal*
* As palavras assinaladas ainda não estão dicionarizadas, mas seguem orientação de grafia do STJ.

124
CAPÍTULO
5 Padronizações

5.1 Elementos normativos

5.1.1 Artigo

O artigo é a unidade básica para apresentação, divisão ou agrupamento


de assuntos num texto legal. Pode desdobrar-se em parágrafos ou em
incisos; os parágrafos em incisos; os incisos em alíneas e as alíneas em
itens. De acordo com a Lei Complementar nº 95, de 26 de fevereiro de
1998 (alterada pela Lei Complementar nº 107, de 26 de abril de 2001),
e com o Decreto nº 4.176, de 28 de março de 2002, que estabelecem
normas e diretrizes para a elaboração, redação, alteração e consolidação
- entre outros aspectos - de atos normativos, são as seguintes as regras
fundamentais em relação ao artigo:
a) na forma abreviada (Art.), seguida do ordinal até o art. 9º, dispensan-
do-se o ponto entre o numeral e o texto. A partir do art. 10, emprega-
-se o cardinal, seguido de ponto:
• Art. 9º Os objetivos do Planejamento Estratégico do MPF são:
• Art. 10. Os objetivos do Projeto Wiki MPF são:

b) por extenso, se vier empregada em sentido genérico ou desacompa-


nhada do numeral:
• Fez referência ao artigo anterior da lei.
• O artigo da Resolução que trata (...).
125
O texto de um artigo inicia-se por maiúscula e encerra-se por ponto-
-final. Quando se subdivide em incisos, a disposição principal, chamada
caput (do latim, cabeça), encerra-se por dois-pontos e as subdivisões
encerram-se por ponto e vírgula, exceto a última, que terminará por
ponto-final.

Em referências, emprega-se a forma abreviada art., seguida de algaris-


mo arábico e do símbolo de numeral ordinal até o nove:
• O fundamento é o art. 5º da Constituição.
• A Lei Complementar nº 75, no seu art. 37, trata (...);

A partir do número dez, emprega-se apenas o algarismo arábico corres-


pondente:
• Fizemos referência ao art. 10.

5.1.2 Parágrafo

O parágrafo é a divisão imediata do artigo e pode conter explicações ou


modificações da proposição anterior. É representado pelo sinal gráfico
§, forma entrelaçada dos esses iniciais da expressão latina signum sec-
tionis (sinal de seção, corte).

Emprega-se o sinal gráfico §:

a) antes do texto do parágrafo, quando seguido de número. Emprega-


-se o ordinal até o nono, dispensando-se o ponto entre o numeral e o
texto. A partir do § 10, emprega-se a numeração cardinal, seguida de
ponto:
• § 1º Qualquer cidadão no gozo de seus direitos políticos poderá (...).
• § 11. A violação do disposto neste artigo sujeita (...).
126
b) nas citações e referências bibliográficas:
• Agiu nos termos do art. 37, § 4º, da Constituição Federal.

Emprega-se o sinal gráfico duplo §§, quando seguido de número, indi-


cando mais de um parágrafo:
• O art. 32 e seus §§ 4º e 5º esclarecem o assunto.

Usa-se a palavra parágrafo por extenso quando:


a) o parágrafo for único:
Art. 18. O Subcomitê Gestor de Tabelas será constituído (...)
Parágrafo único. O SGT será coordenado (...)

b) o sentido for vago, indeterminado, e estiver desacompanhado do nú-


mero:
• Isso se refere ao parágrafo anterior.

Nota: a forma p. único somente poderá ser usada nas referências, entre
parênteses:
• (art. 32, p. único, do Código Eleitoral)
O texto de um parágrafo inicia-se por maiúscula e encerra-se por ponto-
-final. Quando se subdivide em incisos, empregam-se dois-pontos antes
das subdivisões, que se separam por ponto e vírgula, exceto a última,
terminada por ponto-final.

5.1.3 Inciso

O inciso é usado como elemento discriminativo do caput de um artigo


ou de um parágrafo. Ele vem após dois-pontos, é indicado por alga-
rismos romanos, seguido de travessão e separado por ponto e vírgula,
127
exceto o último, que se encerra por ponto-final. As iniciais dos textos
do inciso são minúsculas:
• Art. 118. São órgãos da Justiça Eleitoral:
I – o Tribunal Superior Eleitoral;
II – os tribunais regionais eleitorais;
III – os juízes eleitorais;
IV – as juntas eleitorais.

Quando citado em ordem direta, recomenda-se que o inciso seja gra-


fado por extenso:
• a alínea c do inciso v (...).

Na ordem indireta, o nome inciso pode ser suprimido:


• o art. 67, IX, c, do Regimento Interno.

5.1.4 Alínea

A alínea é o desdobramento dos incisos e vem indicada por letras


minúsculas seguidas de parênteses. Quanto às iniciais e à pontu-
ação dos textos das alíneas, empregam-se as mesmas regras dos
incisos:
• Art. 14. (...)
§ 1º O alistamento eleitoral e o voto são:
I – obrigatórios para os maiores de dezoito anos;
II – facultativos para:
a) os analfabetos;
b) os maiores de setenta anos;
c) os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos.
128
Quando citada em ordem direta, a alínea deve ser grafada por ex-
tenso:
• a alínea c do inciso V (...).

Na ordem indireta, o nome alínea pode ser suprimido:


• o art. 67, IX, c, do Regimento Interno.

5.1.5 Item

O item é o desdobramento das alíneas e vem indicado por algarismos


arábicos. As letras iniciais e a pontuação dos textos dos itens seguem o
padrão dos incisos:
• Art. 1º São inelegíveis:
(...)
II – para presidente e vice-presidente da República:
a) até 6 (seis) meses depois de afastados definitivamente de seus cargos
e funções:
1. os ministros de Estado;
2. os chefes dos órgãos (...).

Observações:

a) por ser termo latino, caput deve ser destacado (itálico ou negrito):
• O caput do art. 91 da Constituição.

b) quando citado na ordem indireta, deve vir entre vírgulas:


• O art. 91, caput, da Constituição.
129
c) alguns manuais de redação oficial orientam a não empregar a abre-
viatura de número. Assim, indicam:
• Lei 6.368/1976;
• Resolução 3/1999.

5.2 Pontuação com elementos normativos

Ao citar referências de elementos articulados, geralmente surgem dúvi-


das em relação ao uso de vírgulas.

a) ordem direta crescente ligada pela preposição “de” não recebe vír-
gula:
• O processo está baseado nos incisos I e II do art. 226 do Código
Penal.
• O advogado recorreu com base na alínea “d” do inciso III do art.
593 do Código de Processo Penal.
• Com base na alínea “b” do inciso II do art. 10 da Lei nº 8.666, de
21 de junho de 1993.

b) sequência em ordem indireta, mesmo com a preposição de, é sepa-


rada por vírgula.
• Tal situação é regulada no art. 302, III, do Código de Processo
Penal.
• O art. 5º, XXXVI, da Constituição de 1988 repete a regra do art.
153, § 3º, da Constituição de 1967.
Observação: erro comum.
• O art. 14, “b” do Código de Processo Penal (faltou a vírgula após a
alínea).
• art. 14, do Código de Processo Penal (ordem crescente com preposi-
ção “de” não aceita vírgula).
130
c) Por ser um termo latino caput deve ser destacado em itálico: O caput
do art. 91 da Constituição. Quando citado na ordem indireta, deve vir
entre vírgulas: O art. 91, caput, da Constituição.

d) Quando inciso e alínea forem citados em ordem crescente devem


ser expressos por extenso. Na ordem decrescente, recomenda-se su-
primir o termo: a alínea b do inciso IV (…); citou o art. 67, IX, c, do
Regimento Interno.

5.3 Referência a texto legal

A recomendação na redação oficial é empregar por extenso na primeira


vez.
• Lei nº 8.177, de 1º de março de 1991.
• Portaria nº 10, de 20 de março de 2004.

Nas seguintes, pode-se empregar a forma reduzida:


• Lei n° 8.177, de 1991 ou Lei nº 8.177/1991.
• Portaria nº 10/2004.

Usa-se inicial maiúscula e por extenso quando há referência expressa a


um diploma legal:
• Lei nº 8.112.
• Portaria nº 28.
• Resolução nº 113.
• Decreto-Lei nº 2.354.

Em sentido generalizado, usa-se com inicial minúscula:


• A lei é a fonte imediata da justiça em um país.
131
Quando se tratar de referência à legislação, colocada entre parênteses, a
expressão pode ser abreviada:
• O referido dispositivo (DL 2.354/1992).

5.4 Datas

As datas devem ser grafadas com as seguintes normas na linguagem


formal em instituições públicas:

a) a localidade não pode sofrer abreviatura.

b) a unidade da Federação não é obrigatória. Recomenda-se o uso em loca-


lidade pouco conhecida ou com nome semelhante em outro estado.

c) o primeiro dia é ordinal. Não existe zero antes do número 2 ao 9.

d) o mês é escrito em minúsculo e por extenso.

e) não existe ponto entre o milhar e a centena no ano: 2016 (não: 2.016).

f) nos casos em que for cabível o uso da data abreviada (nunca na data
do documento), não se deve pôr zero à esquerda do número no dia e
no mês: 5/6/2016 (não: 05/06/2016).

g) no interior do texto, as datas e os anos podem ser escritos de forma


plena ou abreviada. No entanto, em órgãos públicos, a preferência é
pela forma extensa. O primeiro dia do mês é designado com ordinal
também.
• Entre 1986 e 1988, o Congresso elaborou a atual Constituição bra-
sileira, assinada em 8 de outubro de 1988.
• O Brasil foi campeão mundial de futebol em 1958, 1962, 1970,
1994 e 2002.
• O documento foi assinado em 1º de abril de 2004.
132
h) se a data não estiver centralizada, indica-se o uso de ponto-final.
• Brasília, 1º de junho de 2015.
• Brasília, 2 de junho de 2015.
• Brasília-DF, 27 de junho de 2015.

i) datas que se tornaram efemérides são escritas por extenso preferen-


cialmente:
• o Sete de Setembro.
• o Quinze de Novembro.
• o Dois de Julho.

Mas (dia 1º):


• o 1º de Janeiro.
• o 1º de Maio;

j) as décadas podem ser mencionadas sem a referência ao século (salvo


quando houver possibilidade de confusão).
• O “milagre econômico” da década de 70.
• Os anos 20 foram fortemente influenciados pela Semana de Arte
Moderna de 1922.
• Na década de 1850.

5.5 Itálico ou negrito

Destaques são comuns na linguagem jurídica. Falha comum é


exagerar no destaque e unir negrito e sublinhado, por exemplo.
Seguem orientações padronizadas para o destaque em nosso idio-
ma e na ABNT.

133
5.5.1 Itálico

Tipo inclinado para a direita (letras inclinadas). Usa-se em:

a) estrangeirismo: O Brasil conheceu o two-party system durante a dita-


dura, com a Arena e o MDB.

b) expressões latinas: data venia; habeas corpus; opportuno tempore.

c) palavras ou expressões não características da linguagem de quem es-


creve, como arcaísmos, expressões populares, gírias, neologismos:
Fugiam do tira.

d) palavras ou partes de texto que se pretende destacar: O veto é uma


forma de participação do Executivo na elaboração das leis.

e) títulos de obras, jornais, revistas:


• Estas ideias estão em As democracias contemporâneas, de Arend
Lijphart.
• Li no Correio Braziliense a reportagem. A revista Veja publicou o
assunto.

f) nomes de instituições estrangeiras:


• O Empire State Building voltou a ser o mais alto edifício de Nova
Iorque após a destruição do World Trade Center.

g) nomes científicos de Botânica, Zoologia e Paleontologia:


• Coffea arabica, Carica papaya, Felis catus, Panthera leo, Homo
sapiens, Homo erectus (apenas o primeiro nome em maiúscula).

134
5.5.2 Negrito

Tipo mais cheio, de cor acentuadamente mais forte que o normal, usa-
do em cabeças de verbetes, em várias partes de obras impressas, como
títulos, capítulos, ementas de acórdãos etc. O negrito e o sublinhado
são utilizados para realce de palavras e trechos e em títulos e subtítulos.
Devem, no entanto, ser empregados com muito critério, pois o uso abu-
sivo para realçar palavras e trechos dentro de um texto, além de poluir
a página visualmente, tira-lhes o efeito de destaque.
• Votante. Que ou quem vota (verbete).
TÍTULO VI – Da Disciplina Partidária.

5.6 Referência a folhas

O serviço público apresenta variedade na referência a folhas. Analisare-


mos as formas adequadas e as inadequadas.
Formas adequadas:
• a fls. 27.
• à fl. 27.
• à f. 27.
• a fls. 27 e 28.
• a fls. 27 a 32.
• às fls. 27 e 28.
• às fls. 27 a 32.
• despacho de fl. 25.
• despacho de fls. 25-27.
• consta na folha 25.
• consta da folha 25.
• fl. 25, verso (apenas no verso da folha);
135
• fl. 25, frente e verso;
• fl. 25-28, verso (apenas no verso das folhas);
• fls. 25-28, frente e verso (frente e verso das folhas).

Formas inadequadas:
a) uso do plural para indicar apenas uma folha ou página: às fls. 27
(inadequado).
b) uso da expressão sem a referida folha ou página.
• Conforme os dados descritos a fls. citada, confirmo a decisão.
c) não se deve usar a preposição “a” com o verbo “constar” no sentido
de estar documentado. As preposições adequadas são “em” ou “de”.

5.7 Citação

O registro de uma informação extraída de outra fonte denomina-se ci-


tação, que pode ser uma transcrição. Elas podem ser diretas, quando re-
produzem o texto original, ou indiretas (paráfrase), quando reproduzem
a ideia com outras palavras.
Observações:

a) manter a fidedignidade às ideias do autor, se paráfrase, ou ao texto


citado, se transcrição. Na ocorrência de erros, emprega-se a palavra
latina sic (assim) entre parênteses ou colchetes, ao final da citação ou
logo após a palavra ou expressão estranha ou errada, para indicar que
está igual ao original:

À unanimidade, negar provimento o (sic) recurso.

136
O correto seria:

À unanimidade, negar provimento ao recurso.

b) usar aspas duplas no início e no final de transcrição e aspas simples


em transcrição inserida em outra (pode-se usar também o itálico para
destacar).

c) recuar, em relação à margem esquerda, e usar corpo menor, quando as


transcrições tiverem mais de três linhas. Quando se tratar de textos de
lei, recuar independentemente do número de linhas. Deve-se usar espaço
simples entre as linhas e um espaço duplo entre a citação e os parágrafos
anterior e posterior. Esse tipo de citação aparece sem aspas.

d) supressões feitas numa transcrição são indicadas por reticências en-


tre parênteses ou colchetes. Os acréscimos ou comentários feitos pelo
autor do texto são indicados entre colchetes:

Segundo João Barbalho, “a cláusula final do art. 28 resultara de uma


falha da redação, pois a emenda aditiva (...) dizia: representação das
minorias [e não da minoria] com mais propriedade e acerto”.

e) citações podem vir introduzidas por expressões latinas, como: verbis,


in verbis, ipsis verbis (pelas mesmas palavras; textualmente) ou ipsis
litteris (textualmente; pelas mesmas letras):

O Ministério Público Federal sintetizou de forma coerente a questão.


In verbis: (...)

f) no caso de matérias publicadas em colunas, como acontece em revis-


tas e jornais, pode manter apenas as aspas, dispensando-se o recuo e
137
a composição em corpo menor, independentemente da extensão das
transcrições.

g) caso se queira destacar algum termo ou expressão de uma citação di-


reta, utiliza-se o negrito e, no final, acrescenta-se a expressão assim:
“grifo nosso” ou “sem grifo no original”. Observe dois exemplos:

Lopes (2005, p. 59) afirma que “princípio dispositivo, em sua


concepção radicional, significava que a iniciativa das alegações,
pedidos e provas pertencia exclusivamente às partes” (grifo nosso).

“O princípio dispositivo, em sua concepção tradicional, significava que


a iniciativa das alegações, pedidos e provas pertencia exclusivamente
às partes” (LOPES, 2005, p. 59, sem grifo no original).

h) citação em nota de rodapé deve sempre vir entre aspas, independen-


temente de sua extensão.

Observe modelo:

No texto:

Num primeiro momento, reafirma a versão oficial de que o exército


naquela ocasião, como de costume, apenas patrulhou a cidade.
Sem qualquer amparo documental¹, vê-se vencida pelas evidências
levantadas em pesquisa posterior.

No rodapé:

1
Sua única fonte comprobatória é a seguinte: “Várias pessoas que moravam em Francisco Beltrão, na época,
afirmaram isso, inclusive Walter Pecoils e Luiz Prolo, que eram da comissão” (Gomes, 1986, p. 104).

138
Observações:

1. Interferências e destaques: devem ser indicadas supressões, inter-


polações, comentários, ênfases ou destaques da seguinte forma: as
supressões com três pontos entre colchetes; as interpolações, acrés-
cimos ou comentários entre colchetes; ênfase ou destaque preferen-
cialmente em negrito.

2. Ao se destacar trecho da citação, deve-se indicar a alteração com a


expressão “grifo nosso”, após o trecho citado.

3. Quando a citação incluir texto traduzido por quem reproduz o texto,


deve-se acrescentar a expressão “tradução nossa”, após o trecho ci-
tado.

4. Informações verbais (palestras, debates, comunicações etc.) devem


ser citadas com a expressão “informação verbal” e dados disponíveis
em nota de rodapé.

5.8 Referência a documentos jurídicos

5.8.1 Legislação (leis, medidas provisórias, decretos, etc.)

BRASIL. Lei n° 9.504, de 30 de setembro de 1997. Estabelece normas


para as eleições. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil,
Brasília, n. 189, 1° out. 1997. Seção 1, p. 21.801.

BRASIL. Medida Provisória n° 1.953-25, de 16 de novembro de 2000.


Institui o auxíliotransporte aos militares, servidores e empregados pú-
blicos da administração federal direta, autárquica e fundacional da
139
União e revoga o § 1° do art. 1° da Lei n° 7.418, de 16 de dezembro de
1985. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Poder Exe-
cutivo, Brasília, DF, 17 nov. 2000. Seção 1, p. 9.

5.8.2 Jurisprudência (decisões judiciais: súmulas, acórdãos, reso-


luções)

BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. RESOLUÇÃO n° 23.216, de


2010. Dispõe sobre a arrecadação de recursos financeiros de campanha
eleitoral por cartões de crédito. Resoluções-TSE nos 23.216 e 23.217.
Brasília, DF, p. 5-10, 2010.

BRASIL. Tribunal de Contas da União. Súmula n° 235. Importância re-


cebida indevidamente por servidor. Ressarcimento ao Erário. In: ____.
Súmulas. 4. ed. Brasília: TCU, 1998. P. 231.

5.8.3 Referência jurídica em meio eletrônico

BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Súmula no 6. É inelegível, para o


cargo de prefeito, o cônjuge e os parentes indicados no § 7° do art. 14
da Constituição, do titular do mandato, ainda que este haja renunciado
ao cargo há mais de seis meses do pleito. Disponível em:
<http://intranet.tse.gov.br/jurisprudencia/codigo_eleitoral/sum6.html>. Acesso em 9: nov. 2010.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa


do Brasil. Brasília,DF: Senado, 1988. Disponível em: <http://www.pla-
nalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constitui%E7ao.htm>. Acesso em:
5 nov. 2010.

5.8.4 Grafia dos numerais em textos técnicos

No caso de textos técnicos, a grafia dos numerais deve observar regras


específicas:
140
a) não se inicia período com algarismo arábico, devendo o número ser
grafado por extenso, independentemente de ser cardinal ou ordinal.
• Dezesseis anos era a idade da moça que trazia o céu nos olhos.
• Sexagésimo aniversário da fundação da escola era a comemoração
do dia.

b) grafam-se por extenso os numerais expressos em um único vocábulo


e em algarismos aqueles que exigem mais de uma palavra para serem
veiculados.
• Mais de quinhentas pessoas compareceram à cerimônia de posse
do Presidente da República, mas apenas 250 tinham sido convi-
dadas. Destas, apenas vinte representavam Estados estrangeiros.

c) valores monetários devem ser expressos em algarismos seguidos da


indicação da quantia, por extenso, entre parênteses: R$ 25.000,00
(vinte e cinco mil reais).

d) tanto gráficos, gravuras, ilustrações, fotografias, figuras, esquemas,


tabelas e quadros constantes dos textos, como idades, datas, escores
de jogos, vereditos e contagem de votos devem ser numerados com
algarismos arábicos.
• A Tabela 5 mostra a evolução da taxa de mortalidade nos últimos
meses. Marcelo tem 30 anos.
• No plebiscito, foram 200 votos contra a reeleição e 100 a favor
dela.
• O Júri absolveu-o por 4 a 3.

Nota: Tempo decorrido deve ser grafado por extenso: Marcelo nasceu
há trinta anos; A reunião durou duas horas e meia.
141
e) nas datas escritas por extenso, indicam-se o dia e o ano em algaris-
mos arábicos e o mês pelo nome correspondente. Nas abreviadas,
os três elementos são expressos em algarismos arábicos e aparecem
separados por hífen ou barra.
• 14 de março de 1997.
• 5 de julho de 1995.
• 12 de outubro de 1984.
• 1º de maio de 1999.
• 13-12-2016; 27/1/92; 27.1.92.

f) as frações são invariavelmente indicadas por algarismos numéricos


se decimais, mas também podem ser escritas por extenso quando am-
bos os elementos designados estão entre um e nove.
• 0,3; 12,75; 4/12; 7/25; 5/6; dois terços; um quarto.

142
Bibliografia

BRASIL. Código de Processo Civil de 1939.


Lei 1608, de 18 de setembro de 1939.
BRASIL. Código de Processo Civil de 1973.
Lei 6.869, de 11 de janeiro de 1973.
BRASIL. Código de Processo Civil de 2015.
Lei 13.105, de março de 2015. BRASIL.
Consolidação das Leis do Trabalho. Decreto-Lei 5.452, de 1º de maio
de 1943.
INSTRUÇÃO NORMATIVA 39. Tribunal Superior do Trabalho. Re-
solução 203, de 15 de março de 2016.
MONTEIRO, João. Curso de Processo Civil. I Volume – Duprat &
Comp. 3ª ed. São Paulo, 1912. p.30
PAIVA, Marcelo. Português Jurídico. 10ª ed. Brasília: Educere, 2015.

143