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CONTABILIDADE

& EMPRESAS
JANEIRO E FEVEREIRO 2010 | N.º 1 | 2ª SÉRIE

EDITORIAL
• Contabilidade & Empresas - Ano novo vida nova (!)

ENTREVISTA
• Presidente da CNC – Domingos José da Silva Cravo

ARTIGOS
• SNC – uma atitude diferente
• O “justo valor” no SNC e o art. 32.º do CSC
• Reversão do activo e prestações do concedente
• A crise
• Tratamento fiscal das gratificações por aplicação
dos resultados
• Ética e auditoria
• Medição de performance

OUTROS DESTAQUES
ISBN 972-788-201012 -5
• Eleições na Ordem dos TOC
• Normalização Contabilística
• Impactos fiscais das NIC e do SNC

9 727882 010125
Editorial

JoaQuim CunHa
guimarãEs
jguimaraes@vidaeconomica.pt

ConTaBiLidade & emPreSaS – ano noVo, Vida noVa (!)


O ano 2010 fica marcado pela entrada em vigor, em 1 de Janeiro, do novo modelo contabilístico
nacional, intitulado Sistema de Normalização Contabilística (SNC), aprovado pelo Decreto-Lei n.º
158/2009, de 13 de Julho, que revoga o Plano Oficial de Contabilidade (POC)
e demais diplomas de alterações e normas contabilísticas complementares (29
Directrizes Contabilísticas e 5 Interpretações Técnicas).
A “Contabilidade & Empresas” (C&E) é publicada desde Janeiro de 1995,
com periodicidade mensal, completando-se o seu 15.º Aniversário. A Direcção
do Grupo VE convidou-nos para assumir a Direcção desta segunda série da re-
vista, convite que muito nos honra e aceitamos.
Assim, a revista surge com uma nova imagem (design), um maior número de
páginas, uma periodicidade bimestral e com novos conteúdos, sem fazer ruptura
com o passado, mantendo-se as notícias e informações no formato anterior, que
continuam a cargo de Guilherme Osswald.
Relativamente à primeira série, relevamos o aumento do número de artigos técnicos de contabili-
dade e áreas conexas, com especial destaque para a fiscalidade, a auditoria/revisão de contas, a gestão e
as finanças, bem como o incremento das informações associativas e técnicas nessas áreas.
Neste primeiro número destacamos a entrevista ao Presidente da Comissão de Normalização Con-
tabilística (CNC), Domingos José da Silva Cravo, e incluímos, por razões óbvias, cinco artigos sobre
temáticas do SNC.
A C&E contará com colaboradores permanentes, os quais são elencados na ficha técnica, sem
prejuízo, como é óbvio, de contributos esporádicos de outros especialistas.
É nosso hábito referir que “preferimos ser criticados (corrigidos) por termos feito alguma coisa do
que ignorados por não termos feito nada”, pelo que solicitamos e agradecemos antecipadamente os
contributos que os leitores nos fizerem chegar, pois com eles certamente que a C&E melhor se afirma-
rá e cumprirá o principal objectivo para que foi criada, i.e., a divulgação da Contabilidade e daquelas
áreas científicas.
A C&E, fazendo jus ao seu título, contribui, desta forma, para a renovação da Contabilidade
empresarial (SNC).

CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série 3


Sumário
Opinião
Mudar para melhorar.................................................................................... 5
Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série
Entrevista
Propriedade A nova Comissão de Normalização Contabilística já está constituída
Vida Económica - Editorial S. A. e iniciou os seus trabalhos.............................................................................. 6

DIRECTOR Actualidade
Joaquim Fernando da Cunha Guimarães Regulamento comunitário baixa limiares para os contratos públicos............ 10

COLABORADORES permanentes
Contabilidade
Agostinho Costa SNC – uma atitude diferente...................................................................... 11
António Lopes de Sá Reflexões sobre o SNC................................................................................ 12
Hernâni O. Carqueja I - 2010 – Ano novo, Contabilidade (com o SNC) nova!.................... 12
Guilherme Osswald II – O “justo valor” no SNC e o art. 32° do CSC............................... 14
Joaquim Fernando da Cunha Guimarães OE impede congelamento de reembolsos a devedores ao fisco..................... 17
José Azevedo Rodrigues Supervisão e controlo das práticas contabilísticas estão reforçados................ 18
José Alberto Pinheiro Pinto Reversão do activo e prestações do concedente............................................ 19
Maria José Fernandes
Mário da Cunha Guimarães Fiscalidade
Paulo Moura de Castro O tratamento fiscal das gratificações por aplicação dos resultados................ 22
Rogério Fernandes Ferreira A crise......................................................................................................... 26
Novo “Pacote IVA” garante mais receita ao Estado português...................... 28
COLABORADORES neste número Tributação autónoma pretende evitar situações de abuso continuado........... 30
António Domingues de Azevedo Quebra nas receitas fiscais faz disparar défice orçamental............................. 31
António Lopes de Sá Aumentam adesões ao Sistema Nacional de Compras Públicas.................... 32
Domingos José da Silva Cravo Impactos fiscais das NIC e do SNC............................................................. 33
Guilherme Osswald
Hernâni O. Carqueja Auditoria
Joaquim Fernando da Cunha Guimarães Ética e auditoria.......................................................................................... 36
José Alberto Pinheiro Pinto Normas Internacionais de Auditoria Clarificadas......................................... 37
Paulo Moura de Castro Revisores Oficiais de Contas com controlo de qualidade mais exigente........ 38
Rogério Fernandes Ferreira Ordem dos Revisores Oficiais de Contas quer mais transparência no sector.....39

O conteúdo dos artigos é da exclusiva Gestão e finanças


responsabilidade dos autores Medição de performance............................................................................. 40
PAGINAÇÃO Normalização contabilística
José Barbosa CNC elegeu membros do Conselho Geral e da Comissão Executiva............ 42
CNC lança newsletter sob o título “CNC em breves”................................... 42
REDACÇÃO E ADMINISTRAÇÃO A Revolução das NIC.................................................................................. 42
R. Gonçalo Cristóvão, 111
6º Esq. 4049-037 Porto Informações e notícias
Telef.: 223 399 400 Para a história de…..................................................................................... 43
Fax: 222 058 098 Governo alarga prazo de dívidas fiscais........................................................ 43
E-mail: geve@vidaeconomica.pt OTOC define plano de formação para todo o ano....................................... 43
AFP e ISCSP assinam protocolo de colaboração.......................................... 44
DELEGAÇÃO EM LISBOA Sector da construção toma conhecimento do SNC...................................... 44
Av. Fontes Pereira de Melo, nº 6 OTOC pede linha de crédito para equipamentos e formação...................... 44
1069-106 Lisboa
Telef.: 217 937 747 Sectores
Fax: 217 937 748 Construção defende alterações fiscais para “aliviar” crise.............................. 46

IMPRESSÃO Associativismo
Uniarte Gráfica - Porto Eleições para a OTOC contam com três listas............................................. 48

Registo nº 108640 no ICS Casos práticos


Caso prático nº 1........................................................................................ 49

Janeiro/Fevereiro 2010 – Este suplemento Livros


faz parte integrante da Vida Económica Gestão do risco de longevidade.................................................................... 50
nº 1334, de 19.02.2010 Tendências.................................................................................................. 50
Gestão ambiental......................................................................................... 50

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Opinião

Mudar para melhorar


Guilherme Osswald* um mercado em rápida mutação, a particularmente, junto dos profis-
par do objectivo de chegar a novos sionais, quer pela sua frontalidade
A revista “Contabilidade & públicos. Passou a haver um conte- quer pelas suas palavras doutas so-
Empresas” foi criada em Janeiro de údo mais equilibrado entre artigos bre o caminho a seguir pela Conta-
1995, com periodicidade mensal. de fundo, entrevistas e notícias so- bilidade. A estes dois colaboradores
Surgiu sobretudo com o objectivo bre a Contabilidade e a Fiscalidade. permanentes deixamos os mais sin-
de alargar o âmbito da informação Foi ainda criada uma nova secção, ceros agradecimentos.
das publicações do grupo editorial tendo em conta a importância cres- O ano 2010 marca o início de
“Vida Económica” à importante cente da Informática na Contabi- um novo ciclo da “Contabilidade
área da Contabilidade. Já então era lidade. Naturalmente, manteve-se & Empresas”. Afinal, a mudança
notório que a actividade contabilís- o objectivo central de garantir um faz parte da vida e o mundo de hoje
tica iria assumir um papel central estatuto único como revista inde- é muito diferente de há década e
na sociedade. A profissão ganhou pendente, atenta aos problemas do meia. A entrada para a direcção de
dignidade, sendo que a “Contabili- mundo da Contabilidade. Nessa Joaquim da Cunha Guimarães vai
dade & Empresas” também contri- altura também o “design” passou representar uma enorme mais-valia.
buiu para esse desiderato. por algumas alterações, tornando-se A revista não quer perder o “com-
Desde a sua criação, uma das mais “arejada” e de consulta mais boio do tempo” e a equipa agora
nossas preocupações foi também a simples e rápida. Toda a transfor- reforçada está apostada em trazer
de revelar ao mercado, em especial mação gráfica ocorreu sem recurso algo de novo para o mercado edi-
às empresas e agentes económicos, a contratação externa, antes pela torial no sector da Contabilidade.
como deveriam posicionar-se pe- mão dos criativos do grupo Vida A vertente prática terá mais peso e
rante a administração fiscal e qual Económica. pretendemos alargar o contributo a
a legislação a que deveriam estar Neste já longo percurso, há que mais profissionais e a mais áreas de
atentos. Pelo que o conteúdo in- destacar a colaboração permanente actividade. Contamos com a cola-
cidiu bastante nas áreas da Fiscali- de Agostinho Costa e Manuel Bena- boração de nomes de reconhecido
dade e da Gestão. Nessa perspecti- vente. O seu contributo é reconheci- mérito e continuaremos a pugnar
va, foi uma aposta ganha. Aliás, a do e muito apreciado pelos leitores. pela total independência. A nossa
revista registou uma forte procura O primeiro revelou-se de extrema tarefa continua a passar por infor-
por parte dos destinatários, tor- importância no meio académico. mar com qualidade, objectividade
nando-se mesmo na publicação da Os seus textos foram sempre mui- e absoluta independência.
especialidade de maior tiragem, se to apreciados e disso tivemos eco ao Como sempre foi nosso apaná-
exceptuarmos a Revista TOC, esta longo dos anos da sua colaboração. gio, a intenção é manter um “ca-
de distribuição gratuita a todos Manuel Benavente foi apreciado, nal aberto” com os leitores, pelo
os membros da agora Ordem dos que serão sempre bem recebidos
Técnicos Oficiais de Contas. Aliás, comentários ao nosso trabalho.
sempre se evitou que esta fosse uma
Procura Mantemos o objectivo de tirarmos
revista de classe. A revista registou uma forte procu- lições dos nossos erros, de melhorar
Durante o seu percurso, im- ra por parte dos destinatários, tor- a “Contabilidade & Empresas” e
porta notar algumas alterações em nando-se mesmo na publicação da proceder à sua adequação os novos
termos de conteúdo e de “lay-out”. especialidade de maior tiragem, se tempos. Muito está em mudança e
Há cerca de sete anos, deu-se a exceptuarmos a Revista TOC, esta queremos fazer parte dessa mudan-
principal alteração da publicação, de distribuição gratuita a todos ça.
o que decorreu das novas realida- os membros da agora Ordem dos
des, da necessidade de adequação a Técnicos Oficiais de Contas. *Editor

CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série 


Entrevista

A nova Comissão de Normalização


Contabilística já está constituída
e iniciou os seus trabalhos
O nosso primeiro entrevistado, Domingos
José da Silva Cravo, presidente da
Comissão de Normalização Contabilística
(CNC), recentemente reestruturada, que
nos apresenta os principais aspectos do
funcionamento da entidade e as prioridades
no desenvolvimento do Sistema de
Normalização Contabilística (SNC).

C&E – Considerando a sua vasta experiência


como membro da Comissão Executiva da
CNC, o novo cargo de Presidente da CNC
traz-lhe, com certeza, novos desafios e novas
responsabilidades. Como analisa esta situação?

DC – O cargo de presidente da Comissão de Nor-


malização Contabilística constitui, de facto, uma enorme
responsabilidade, uma vez que estou a suceder a duas per-
sonalidades, por quem nutro especial respeito e conside- no funcionamento, tendo o Conselho Geral reunido em
ração e que tiveram uma importância crucial no processo 12 de Novembro passado e deliberado, designadamente,
de desenvolvimento da normalização contabilística em eleger como representantes das Escolas Superiores de
Portugal: o Professor Rogério Fernandes Ferreira e o Dr. Contabilidade o Prof. José Duarte Assunção Dias, do
António Coelho Garcia. Essa é, para mim, a principal Instituto Superior de Economia e Gestão da Universida-
responsabilidade acrescida ao que já vinha efectuando no de Técnica de Lisboa, e o Prof. João Baptista da Costa
seio da Comissão de Normalização Contabilística. Carvalho, do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave,
Quanto aos desafios eles são, do ponto de vista profis- eleger como personalidades de reconhecido mérito em
sional, muito aliciantes uma vez que a Comissão está a viver matérias contabilísticas o Professor José Rodrigues Jesus,
um tempo que – face à adopção do Sistema de Normalização o Dr. Leopoldo Assunção Alves e o Dr. António Baia
Contabilística – durante muitos anos vai ser irrepetível. Engana e eleger os membros para integrarem a Comissão
Atenta a sua nova composição, a Comissão procurará Executiva, para o mandato 2009-2012. Por outro lado,
ter uma forma de estar mais aberta do que tem sido habi- a Comissão Executiva está a reunir semanalmente desde
tual e esse é, também, um propósito e um desafio. 18 de Novembro passado.

C&E – Qual o ponto de situação da actual C&E – Uma das principais novidades da nova
organização da CNC relativamente à CNC é, sem dúvida, o controlo de aplicação das
constituição dos Órgãos? normas no âmbito do Sistema de Normalização
Contabilística (SNC). Já existem algumas ideias-
DC – Neste momento, a Comissão está completa- -base sobre o regulamento que irá ser aprovado?
mente constituída, quer ao nível do Conselho Geral,
quer ao nível da Comissão Executiva, estando já em ple- DC – É verdade que o Decreto-Lei nº 158/2009, de

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entrevista

13 de Julho, estabelece sanções para três tipos de compor- Nos termos da lei, o Painel de Consulta tem a função
tamentos: a não aplicação das disposições que constem das de apoiar a Comissão Executiva no processo de prepara-
Normas Contabilísticas e de Relato Financeiro (NCRF), ção de normas nacionais de contabilidade, no processo
a supressão de lacunas de modo diverso do legalmente de preparação da votação no Comité de Regulamentação
estabelecido e a não apresentação de demonstrações fi- Contabilística do endosso de normas internacionais de
nanceiras previstas na lei. Contudo, nos dois primeiros contabilidade e de normas internacionais de relato finan-
casos apenas haverá lugar a sancionamento se da prática ceiro, e na preparação do plano de actividades da CNC.
das empresas decorrer uma distorção das demonstrações O Painel de Consulta actua mediante solicitações da
financeiras. Comissão Executiva da CNC, que poderá dirigir consul-
Sendo certo que a CNC irá exercer as competências tas específicas, i.e., consultas direccionadas a um grupo
que lhe estão cometidas por lei, esta questão do controlo reduzido e identificado de interessados no processo de
da aplicação das normas só terá resposta depois de devida- normalização contabilística e consultas públicas de carác-
mente analisada pelo Conselho Geral. ter geral.
De qualquer forma, neste momento, considero que a Naturalmente que nas consultas específicas a partici-
prioridade é de outra natureza e tem a ver com a criação pação é sujeita a inscrição prévia dos interessados.
de condições para que possa existir uma aplicação apro- Para o funcionamento do Painel de Consulta, a Co-
priada do SNC. missão Executiva comunica a existência das matérias que
O sistema tem de valer pelos seus méritos intrínsecos e pretende sujeitar a consulta no “site” da CNC, com indi-
não pelo regime sancionatório que lhe está associado. Daí cação da natureza da referida consulta, bem como o prazo
que considere muito importante que a CNC se organize durante o qual a mesma decorre. Posteriormente, a Co-
de modo a poder contribuir para uma aplicação serena missão Executiva, nas suas decisões, pondera as opiniões
do novo sistema e se constitua parceira na identificação transmitidas no processo acima referido e efectuará uma
das potencialidades que este pode gerar para as empresas e síntese dos principais contributos que divulgará.
para os demais utilizadores. Os membros do Painel de Consulta podem assistir às
As próprias empresas que não venham a adoptar o reuniões do Conselho Geral da Comissão de Normaliza-
SNC serão, seguramente, mais penalizadas pelo mercado ção Contabilística, desde que o requeiram e sejam auto-
do que aquelas que venham a aplicar o sistema, já que rizados.
estas terão condições para apresentar uma informação fi- O Painel de Consulta, estou certo, afirmar-se-á como
nanceira mais útil para todos e, por isso, usufruirão dos factor de aproximação entre agentes do processo de nor-
benefícios económicos associados a tal postura. A reacção malização contabilística e contribuirá para a melhoria das
adversa do mercado àqueles que não venham a aplicar, ou normas contabilísticas a adoptar em Portugal.
que venham a aplicar mal o SNC, será seguramente mais
penalizante para as empresas que qualquer mecanismo C&E – A CNC iniciou o que se poderá designar
contra-ordenacional. de uma “nova fase” na divulgação das suas
actividades, através da emissão da newsletter
C&E – Outra das novidades do Decreto-Lei “CNC em breves”. Que outras acções estão
n.º 160/2009 é o “painel de consulta”. Como previstas em prol de uma melhor divulgação das
funcionará? actividades da CNC?

DC – Com efeito, uma das maiores novidades intro- DC – A publicação da newsletter constitui uma das
duzida pela nova legislação está relacionada com o modo formas privilegiadas de comunicação das actividades da
de actuação da Comissão e pode constituir, a meu ver, CNC. Para além disso, está neste momento em curso
uma mais-valia muito significativa em todo o processo de um trabalho que está a ser desenvolvido por um dos
normalização, uma vez que com a criação do painel de membros da Comissão Executiva de reestruturação e re-
consulta foi estabelecido um mecanismo de envolvimento organização do “site” da Comissão, de forma a torná-lo,
dos interessados no processo de normalização, incremen- por um lado, mais amigável e, por outro lado, mais útil a
tando as condições para que o processo de normalização quem procura informações acerca da normalização con-
ganhe em transparência e em simplificação. tabilística portuguesa.

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Entrevista

A par desses instrumentos, a Comissão efectuou, no Uma vez que há dúvidas que são colocadas de forma
passado dia 15 de Dezembro, uma conferência onde apre- recorrente, a Comissão Executiva está a preparar um con-
sentou a sua visão acerca do novo Sistema de Normali- junto de FAQ que continuará a disponibilizar no “site” e
zação Contabilística e que envolveu, nomeadamente, os na newsletter.
mais altos representantes das Confederações dos Agricul-
tores de Portugal, do Comércio e Serviços e da Indústria, C&E – Com o SNC há um significativo
bem como o Bastonário da Ordem dos Revisores Oficiais melhoramento da Estrutura Conceptual. Sendo
de Contas e o Presidente da Direcção da Ordem dos Téc- um investigador particularmente atento aos
nicos Oficiais de Contas. Foi uma jornada que a Comis- aspectos teórico-conceptuais, quais as principais
são Executiva avaliou de forma muito positiva e que, se bases dessa Estrutura Conceptual?
tudo correr conforme o planeado, levará a que durante o
ano que agora se iniciou tenhamos um novo evento orga- DC – Em primeiro lugar, há que considerar que o
nizado pela Comissão. facto de o SNC incorporar de modo formal uma estrutu-
ra conceptual, tem um relevante significado em matéria
C&E – A implementação das Normas de regulamentação contabilística, pois traduz o “com-
Internacionais de Contabilidade (NIC) e do promisso” do regulador – no caso português, a CNC
SNC em Portugal, exigirá uma nova dinâmica da – para com a sociedade em matéria de desenvolvimento
CNC, face à necessidade de acompanhar o ritmo do sistema normativo. De facto, a CNC, ao reconhecer
de produção de normas do IASB e a consequente a Estrutura Conceptual constante do SNC, aceitou im-
adaptação a esse normativo internacional. De plicitamente uma dada referência teórica para o processo
que forma é que a CNC se organizará para fazer normalizador – ou seja, um modelo económico com evi-
face a esses novos desafios?
dentes manifestações utilitaristas – e definiu uma linha
de actuação a seguir e, também, a autolimitação das suas
DC – A Comissão Executiva está organizada, neste
opções.
momento, em dois grupos de trabalho: um, de apoio à
A assumção dessa lógica económica na construção do
implementação, melhoria e actualização do SNC, e um
modelo contabilístico, resulta da escolha dos utentes da
outro, de acompanhamento do processo de harmoniza-
informação financeira a divulgar pelas entidades sujeitas
ção contabilística internacional. O primeiro dos grupos
ao sistema contabilístico, pela análise das características
começou a avaliar os vinte regulamentos comunitários
do meio envolvente, pela avaliação das necessidades dos
que foram publicados desde o regulamento que serviu
utilizadores da informação financeira, e, consequente-
de referência à adopção do SNC, no sentido de propor
mente, do estabelecimento dos objectivos a consignar à
quais os que são susceptíveis de adaptação e posterior
sobredita informação.
incorporação no quadro do SNC e qual o calendário
A partir daí, a Estrutura Conceptual desenvolve-se – em
apropriado.
linha muito próxima à que é reconhecida pelo International
O acordo de princípio que está estabelecido é que a
Accounting Standards Board (IASB) – no sentido de fixar
Comissão apenas proporá para entrada em vigor em 1 de
as características qualitativas a que deve obedecer tal infor-
Janeiro de cada ano as normas que forem aprovadas pelo
Conselho Geral até finais de Julho do ano anterior. mação e, finalmente, deduzir os elementos das demonstra-
ções financeiras, seu reconhecimento e mensuração.
C&E – Com a implementação do SNC vão, Esta perspectiva conceptual – ao aparecer tão clara-
com certeza, aumentar as dúvidas mente definida no quadro do SNC – tem o mérito de
dos preparadores e dos auditores. De que permitir eliminar alguns aspectos dúbios que se desen-
forma a CNC vai responder a tais dúvidas? volveram no quadro do POC, face à hibridez do siste-
ma então vigente. Fica agora claro que as linhas mestras
DC – Como referia acima, um dos grupos de trabalho do sistema apontam para uma apropriada divulgação
da Comissão tem essa função de apoio à implementação, da informação financeira nas demonstrações financeiras
melhoria e actualização do SNC e tem vindo a respon- preparadas pelas empresas que tenham em conta, em
der às questões que lhe são colocadas pelos utilizadores primeiro lugar, os efeitos económicos das operações que
do SNC. envolvem a empresa.

 CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série


entrevista

C&E – Um dos pilares fundamentais operações que envolvem a empresa, estava já a fazer alguma
da Estrutura Conceptual é o da mensuração, referência a este novo paradigma da informação financeira.
no qual assume particular relevo o critério A circunstância de agora termos um sistema em que
do “justo valor”. Quais os principais as normas se baseiam mais em princípios e do que em
parâmetros do “fair value”, nomeadamente regras – como explicitamente está referido no ponto 1.2
no que tange à sua aplicabilidade às entidades do Anexo ao Decreto-Lei nº 158/2009 – significa que a
abrangidas pela Norma Contabilística e de interpretação das mesmas não se pode confinar ao seu as-
Relato Financeiro – Pequenas Entidades?
pecto meramente literal, mas deve ter em consideração os
objectivos gerais que lhe estão consignados no contexto
DC – De facto, ao nível da mensuração regista-se a in-
do SNC. E aqui não é de mais relembrar que, cf. estabe-
clusão do “fair value” como critério de mensuração a adop-
lece o Anexo ao diploma antes referido, as demonstrações
tar no quadro do SNC. Sobre este tema, gostaria de referir
financeiras são uma representação estruturada da posição
que a solução encontrada quanto à adopção do “fair value”
financeira e do desempenho financeiro de uma entidade,
constitui um bom ponto de equilíbrio, uma vez que, ten-
que, sendo de finalidades gerais, têm como objectivo pro-
dencialmente, ficamos no quadro do que podemos designar
porcionar informação acerca da posição financeira, do de-
pela adopção do “fair value” “regulado”, i.e., a permissão de
sempenho financeiro e dos fluxos de caixa de uma entida-
adopção de critérios de fair-value, por regra, apenas nas situ-
de que seja útil a uma vasta gama de utentes na tomada de
ações em que exista mercado regulado e de forte restrição à
decisões económicas, evidenciando também os resultados
adopção de critérios “mark-to-model”. Em especial no que
da condução, por parte do órgão de gestão, dos recur-
respeita a pequenas entidades a adopção do “fair value” ain-
sos a ele confiados. Ora, para satisfazer este objectivo, as
da é mais restritiva já que apenas é permitida a sua adopção
demonstrações financeiras proporcionam informação de
nos casos de instrumentos financeiros negociados em mer-
uma entidade acerca dos vários elementos nela contidos
cado líquido e regulamentado.
(v.g. activos, passivos, capital próprio, rendimentos e gas-
A par desta abordagem contabilística à problemática
tos), tal como estão definidos na Estrutura Conceptual.
do “fair value”, há que anotar a alteração ao artigo 32º
Esta informação, juntamente com outra incluída nas
do Código das Sociedades Comerciais efectuada pelo De-
notas do anexo, ajuda os utentes das demonstrações finan-
creto-Lei n.º 185/2009, de 12 de Agosto, nos termos da
ceiras a prever os futuros fluxos de caixa da entidade e, em
qual, se impede a distribuição dos incrementos decorren-
particular, a sua tempestividade e certeza.
tes da aplicação do justo valor através de componentes do
Portanto, as várias disposições das normas – que ago-
capital próprio até que os mesmos sejam alienados, exerci-
ra não são tão prescritivas quanto o eram no quadro do
dos, extintos, liquidados ou, também, quando se verifique
POC – têm de ser lidas neste contexto. Veja-se um exem-
o seu uso, no caso de activos fixos tangíveis e intangíveis,
plo ilustrativo do que penso a este respeito. O parágrafo
regulando-se, desta forma, alguns dos efeitos mais nefas-
12 da NCRF 27 – Instrumentos financeiros refere que
tos da aplicação do “fair value”.
uma entidade deve mensurar ao custo ou ao custo amorti-
C&E – Em recente entrevista à revista zado, entre outros, algumas contas a receber (e, entre elas,
“Revisores/Auditores” sublinhou que com o SNC as de clientes) e as contas a pagar (nestas se incluindo as
assistimos a um novo paradigma da informação dívidas a fornecedores). A opção pelo custo ou pelo custo
financeira. Quais as características principais amortizado não é casuística. A opção está condicionada à
desse novo paradigma, nomeadamente no que obtenção da imagem verdadeira e apropriada da posição
concerne à dicotomia “princípios vs. regras”? financeira e dos resultados da entidade e, naturalmente,
que tal imagem não é obtida pela utilização indiscrimi-
DC – De algum modo, esta alteração já estava a ser nada de um ou do outro dos critérios. Obviamente que,
enunciada na resposta acerca das principais bases da Estru- atento o objectivo da informação financeira, e as condi-
tura Conceptual. Quando referi antes que fica agora claro ções económicas concretas de cada situação, assim deve
que as linhas mestras do sistema apontam para uma apro- ser utilizado o custo ou o custo amortizado, sendo que o
priada divulgação da informação financeira nas demons- primeiro tem, por norma, mais sentido económico nos
trações financeiras preparadas pelas empresas que tenham casos de curto prazo de maturidade e o segundo nos casos
em conta, em primeiro lugar, os efeitos económicos das de longo prazo de maturidade.

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Actualidade

Para incentivar a concorrência

Regulamento comunitário baixa limiares


para os contratos públicos
Está em vigor o regulamento co- lamento comunitário, é obrigatório ma a atenção para as novas regras do
munitário que fixa novos limiares em todos os seus elementos e direc- Sistema Comunitário de Ecogestão e
para os contratos públicos. Da revi- tamente aplicável em todos os países Auditoria (EMAS). Este sistema visa
são em baixa dos limiares comunitá- da União Europeia. Não carece, por- reconhecer e recompensar as empre-
rios, parece evidente que o legislador tanto, de norma de transposição para sas e organizações que avaliam, ge-
teve como principal preocupação o Direito interno.” rem e melhoram o seu desempenho
reforçar a concorrência, garantindo Os procedimentos de concurso ambiental. Com a nova regulamen-
aos interessados uma maior transpa- público ou limitado por prévia qua- tação, permanece essencialmente
rência e mais publicidade na contra- lificação sem publicação naquele voluntário e continua a ser baseado
tação pública, faz notar o gabinete jornal oficial tiveram em conta os num sistema padrão de gestão am-
de advogados PLMJ - A. M. Pereira, novos limiares ou os valores máxi- biental. O novo regulamento preten-
Sáragga Leal. Oliveira Martins. Jú- mos permitidos para a celebração de tornar o sistema mais atractivo e
dice & Associados, na sua análise ao de contratos. Nos contratos de em- tornar claros os seus benefícios para
diploma. preitada de obras, o limite é agora o ambiente e as próprias organiza-
A fixação de novos limiares decorre de 4,845 milhões de euros, contra o ções.
da alteração das directivas 2004/17/CE, anterior limiar de 5,150 milhões. As novas medidas tendem para
2004/18/CE e 2009/81/CE, respei- Caso o procedimento seja o do uma maior promoção e apoio por
tante à sua aplicação no contexto dos ajuste directo (isto é, por convite) parte das instituições e dos gover-
processos de adjudicação de contratos para a locação ou a aquisição de nos, incluindo o acesso ao finan-
públicos. Assim, o novo diploma fixa bens móveis e de aquisição de servi- ciamento ou a incentivos fiscais,
limiares mais baixos para o valor dos ços por parte de empresas públicas a previsão de medidas de assistên-
contratos que podem ser celebrados na e organismos de direito público, o cia técnica ou a razoabilidade das
sequência de procedimentos sem pu- novo limite de contratação é de 193 despesas de registo, entre outros
blicidade internacional. Ou seja, sem a mil euros. aspectos. O novo regulamento as-
publicação prévia de anúncio no “Jor- O regulamento comunitário revê segura ainda o acesso ao EMAS
nal Oficial da União Europeia”. também os limiares para os sectores por todas as organizações dentro
Avança o gabinete a este propósi- especiais da água, da energia, dos e fora da comunidade, cujas acti-
to: “Atendendo a que a forma adop- transportes e dos serviços postais. Es- vidades tenham impacto ambien-
tada para o diploma foi a de regu- tes são do mesmo valor, no caso das tal, a harmonização de registos em
empreitadas, e de 387 mil euros, no toda a União, a simplificação das
caso da locação ou de aquisição de regras para a utilização do logótipo
Limites bens móveis e de aquisição de servi- EMAS.
O novo diploma fixa limiares mais ços (o anterior limiar era de 312 mil Os Estados-membros devem ago-
baixos para o valor dos contratos euros). ra alterar os procedimentos aplicados
que podem ser celebrados na se- pelos sistemas de acreditação e orga-
quência de procedimentos sem EMAS também nismos competentes, nos termos do
publicidade internacional, sem a com novas regras novo regulamento, sistemas esses que
publicação prévia de anúncio no deverão estar plenamente operacio-
“Jornal Oficial da União Euro- No âmbito da regulamentação nais até meados de Janeiro do próxi-
peia” comunitária, a PLMJ também cha- mo ano.

10 CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série


contabilidade

SNC – uma atitude diferente


António Domingues de Azevedo* nos princípios contabilísticos em que
assentam o novo SNC.
Muito já se escreveu sobre o novo Isto é, em muitas questões, as to-
Sistema de Normalização Contabilís- madas de decisões e o seu enquadra-
tica (SNC) e ainda muito mais se irá mento eram feitos no âmbito restrito
escrever. do legislador, sendo agora no âmbito
À nossa velha maneira latina, em- das dos princípios contabilísticos que
bora sendo um povo lutador e aguer- sustentam o SNC.
rido, temos receio do que é novo e Ora, no âmbito do SNC, o pro-
tentamos protelar para o mais tarde fissional vê-se agora confrontado
que possa ser a introdução de refor- com ter que assumir juízos de valor
mas na nossa estrutura social. e tomar decisões, o que exige um
Nestes últimos anos, Portugal tem muito maior conhecimento do ne-
tentado contrariar aquela tendência e gócio dos seus clientes ou entidades
muito se tem evoluído nas áreas da patronais.
pectos relacionados com o reconheci-
organização social. Mas não é suficiente só o co-
mento, a mensuração, a apresentação
Começando pela introdução do nhecimento do profissional, pois há
e a divulgação.
Processo de Bolonha no Ensino Su- questões que pela sua especificidade
Produzidas estas alterações conta-
perior, passando pela desmateria- lhe escapam e que só podem ser to-
bilísticas, os profissionais têm todo o
lização das declarações fiscais, pela madas pela entidade patronal, pois
ano 2010 para se adaptarem às novas
implementação da IES e agora com só ela conhece os parâmetros pro-
exigências emergentes da aplicação
a introdução do SNC, são metas e dutivos e as metas que se pretendem
do SNC.
desafios que marcam o rumo e o per- atingir com determinado procedi-
O que deve mudar radicalmente
curso da história. mento ou investimento, pelo que o
é a atitude do profissional (TOC) pe-
Se nos debruçarmos sobre os do- concurso dos empresários na gestão
rante os seus clientes. Até agora, este
cumentos emitidos pela renovada do SNC revela-se fundamental para
profissional enquadrava as questões
Comissão de Normalização Contabi- a introdução de uma Contabilidade
nos termos e condições em que o le-
lística, em bom rigor, desde há muito mais transparente e adequada à nos-
gislador as regulava, o que não acon-
que vínhamos sendo familiarizados sa realidade objectiva.
tecerá no SNC, uma vez que o órgão
com os valores, as doutrinas e os prin- A Ordem dos TOC apercebeu-se
de gestão e os profissionais é que têm
cípios consagrados no SNC, isto é, as bem cedo desta realidade e está a de-
que ajuizar e enquadrar as situações
Normas Internacionais de Contabili- senvolver uma série de acções de for-
dade (NIC). mação em que participam profissio-
Em bom rigor, o que muda é um
Conceitos nais e empresários, procurando por
conjunto de conceitos e procedimen- O que muda é um conjunto de essa via uma melhor e mais salutar
tos técnicos que de momento se pren- conceitos e procedimentos técnicos entendimento entre os profissonais e
dem com a aplicação pela primeira que de momento se prendem com seus clientes ou entidades patronais.
vez do SNC e que consiste numa a aplicação da primeira vez do SNC Não temos, no entanto, quaisquer
ordenação diferente das contas, da e que consiste numa ordenação di- dúvidas de que, para se implementar
arrumação do balanço e das restantes ferente das contas, da arrumação com sucesso o SNC, exige-se uma ati-
demonstrações financeiras, dos efei- do balanço e das restantes demons- tude diferente dos profissionais e dos
tos da nova terminologia e de uma trações financeiras, dos efeitos da empresários.
nova estrutura conceptual, na qual nova terminologia e de uma nova
*TOC e Presidente
assumem particular relevância os as- estrutura conceptual. da Direcção da OTOC

CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série 11


contabilidade

Reflexões sobre o SNC*


Joaquim Fernando da Cunha Guimarães

I – 2010 – Ano novo, Contabilidade (com o SNC) nova!


O adágio popular “Ano novo, vida nova!” serve de Neste contexto, podemos inferir que a legislação fis-
mote para a elaboração do presente artigo. cal, através do CCI, foi o verdadeiro motor e incentivador
Em 1 de Janeiro de 2010 entrou em vigor o novo mo- da normalização contabilística em Portugal, apelando aos
delo de normalização contabilística, designado de Sistema “sãos princípios de contabilidade”, os quais só viriam a ser
de Normalização Contabilística (SNC), aprovado pelo consagrados 14 anos (!) mais tarde, com a publicação do
Decreto-Lei n.º 158/2009, de 13 de Julho, o qual revogou citado POC/77.
o Plano Oficial de Contabilidade (POC), aprovado pelo Assim, podemos concluir que as ligações da fiscalidade
Decreto-Lei n.º 410/89, de 21 de Novembro (POC/ 89), (no CCI e, posteriormente, no Código do IRC) à Conta-
os posteriores diplomas de alterações e as normas conta- bilidade (POC/77, POC/89 e, agora, SNC) são umbili-
bilísticas complementares (29 Directrizes Contabilísticas cais e históricas.
e 5 Interpretações Técnicas). Voltando ao SNC, relevamos que o mesmo é o corolá-
Na verdade, o POC/89 “morreu” ao completar o seu rio de algumas etapas jurídicas no processo de normaliza-
vigésimo aniversário (de 1989 a 2009), sendo justo des- ção contabilística nacional e internacional.
tacar o seu importante papel na história da normalização O SNC constitui uma adaptação (e não adopção) das
contabilística em Portugal. Normas Internacionais de Contabilidade (NIC ou IAS),
Como sublinhámos em artigo anterior, sob o título das Normas Internacionais de Relato Financeiro (NIRF
“História (Breve) da Normalização Contabilística em ou IFRS) e das respectivas Interpretações (SIC e IFRIC),
Portugal”, o primeiro POC (POC/77) foi aprovado pelo emanadas pelo International Accounting Standards Bo-
Decreto-Lei n.º 47/77, de 7 de Fevereiro (O POC 89 foi ard (IASB), em resultado da estratégia da União Europeia
o segundo) e vigorou durante 12 anos (de 1977 a 1988). (UE) da sua aplicação no contexto do Regulamento (CE)
Ou seja, até 1977 não existia qualquer plano de norma- 1606/2002, do Parlamento Europeu e do Conselho, de
lização contabilística nacional, o que originou problemas 19 de Julho.
de comparabilidade das contas (demonstrações financei- A nível nacional, a primeira etapa da implementação
ras) das empresas. daquelas normas do IASB concretizou-se com a publica-
Note-se, porém, que, antes do POC/77, e como re- ção do Decreto-Lei n.º 35/2005, de 17 de Fevereiro, que
ferimos naquele artigo, o Código da Contribuição In- obrigou as entidades com títulos negociados em mercados
dustrial (CCI), aprovado pelo Decreto n.º 45103, de 1 regulamentados (v.g. bolsa de valores) na UE (em Por-
de Julho de 1963, continha diversas referências à con- tugal, julga-se que sejam cerca de 90) a utilizarem essas
tabilidade, com especial destaque para o seu art. 22.º, normas, a partir de 1 de Janeiro de 2005, e, obrigato-
que previa: riamente, apenas para as demonstrações financeiras con-
“O lucro tributável reportar-se-á ao saldo revelado pela solidadas (a título facultativo nas contas individuais das
conta de resultados do exercício ou de ganhos e perdas, ela- empresas participadas, desde que sujeitas a certificação
borada em obediência a sãos princípios de contabilidade...”. legal das contas).

 Abreviatura da expressão anglo-saxónica “International Accounting Stan-


dards”
 Disponível para “download” nos nossos Portais “INFOCONTAB” e “IN-
 Abreviatura da expressão anglo-saxónica “International Financial Repor-
FOCONTAB-HISTÓRIA”.
ting Standards”
 O CCI foi revogado a partir de 1 de Janeiro de 1989 com a entrada em
 Significa:
vigor do Código do IRC, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 442-B/88, de 30 - SIC - “Standing Interpretations Committee”
de Novembro. - IFRIC - “International Financial Reporting Interpretations Committee”

*Estes dois artigos fazem parte de um conjunto de reflexões que elaboraremos ao longo do corrente ano sobre aspectos contabilísticos, fiscais e legais do SNC.

12 CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série


contabilidade

Com o SNC e os seus diversos instrumentos legais,


dá-se a segunda fase da implementação dessas normas
a nível nacional, através da adaptação daquelas normas
do IASB consubstanciada na concepção de dois níveis
de normalização contabilística, definidos em função
da dimensão das entidades, nos termos do art. 9.º do
Decreto-Lei n.º 158/2009, de 13 de Julho, e das res-
pectivas necessidades de relato financeiro numa análi-
se de “custo-benefício”, como resumimos no esquema
seguinte:

SNC

1º NÍVEL Estrutura Conceptual 2º NÍVEL

28 NCRF Opção* NCRF-PE

19 Capítulos
12 NCRF não aplicáveis
16 NCRF aplicáveis
Restantes empresas dos sectores 2 Apêndices
não financeiros

* Apenas para as Pequenas Entidades (PE), conforme dispõe o art. 9º do DL 158/2009, de 13 de Julho.

Fonte: Elaboração própria

De notar que a Norma Contabilística e de Relato Fi- O SNC constitui, sem dúvida, uma evolução signifi-
nanceiro para Pequenas Entidades (NCRF-PE), apresen- cativa da Contabilidade em Portugal, assumindo particu-
tada como “2.º nível”, constitui uma opção relativamen- lar relevância a sua Estrutura Conceptual, aprovada pelo
te às 28 Normas Contabilísticas e de Relato Financeiro Aviso n.º 15652/2009, de 7 de Setembro.
(NCRF) do “1.º nível”, que apenas pode ser exercida Finalmente, sugerimos aos leitores a consulta do
pelas entidades que cumpram os requisitos previstos no menu “Normalização Contabilística e SNC” do nos-
mencionado art. 9.º do Decreto-Lei n.º 158/2009. so Portal INFOCONTAB, no qual disponibilizamos
diversas informações sobre o SNC, nomeadamente
 Disponíveis no menu “Normalização Contabilística e SNC” do nosso
Portal INFOCONTAB e no sítio da CNC. artigos da nossa autoria e de outros autores, os quais
 O n.º 1 deste articulado prevê (os n.ºs. 2 e 3 prevêem outras condições constituem um contributo para o seu melhor conhe-
complementares):
“Artigo 9.º
cimento.
Pequenas entidades
A «Norma contabilística e de relato financeiro para pequenas entidades»
(NCRF -PE), compreendida no SNC, apenas pode ser adoptada, em al- c) Número de trabalhadores empregados em média durante o exercício:
ternativa ao restante normativo, pelas entidades, de entre as referidas no 20.”
artigo 3.º e excluindo as situações dos artigos 4.º e 5.º, que não ultrapassem A própria NCRF-PE confirma estes indicadores.
dois dos três limites seguintes, salvo quando, por razões legais ou estatutá-  Sobre esta temática elaborámos um artigo sob o título “A Estrutura Con-
rias, tenham as suas demonstrações financeiras sujeitas a certificação legal ceptual da Contabilidade – Do POC ao SNC”, TOC n.º 91, de Outubro
de contas: de 2007, e disponível para “download” no menu “Actividades Pessoais”/
a) Total do balanço: € 500 000; “Artigos(download)/”Por Título”/”N.º 216”, do nosso Portal” INFOCON-
b) Total de vendas líquidas e outros rendimentos: € 1 000 000; TAB”.

CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série 13


contabilidade

II – O “justo valor” no SNC e o art. 32° do CSC


O Decreto-Lei n.º 185/2009, de 12 de Agosto, intro- formação financeira prestada pelas empresas, facto que
duziu algumas alterações ao Código das Sociedades Co- permite reflectir com maior relevância a sua verdadei-
merciais (CSC), aprovado pelo Decreto-Lei n.º 262/86, ra “performance”, entende-se que deverá haver alguma
de 2 de Setembro, e, posteriormente alterado por diversos limitação à distribuição dos resultados positivos que
diplomas. tenham sido gerados a partir da aplicação do referido
Neste breve artigo apenas nos referiremos à alteração critério de valorimetria. Quanto às componentes ne-
do art. 32.º – “Limite da distribuição de bens aos sócios” gativas da aplicação do justo valor, não deixa de ter
do CSC, que passou a ter a seguinte redacção: aplicação o princípio da prudência, pelo que não é
contemplada qualquer alteração nesta vertente, con-
tinuando a afectar, neste
Redacção em vigor Redacção a vigorar caso negativamente, a dis-
tribuição de resultados, já
Sem prejuízo do preceituado 1 - Sem prejuízo do preceituado quanto à redução do que, primeiro, terão de ser
quanto à redução do capital social, capital social, não podem ser distribuídos aos sócios bens da
não podem ser distribuídos aos só- sociedade quando o capital próprio desta, incluindo o resulta- compensadas estas perdas,
cios bens da sociedade quando a si- do líquido do exercício, tal como resulta das contas elaboradas e só depois se poderão li-
tuação líquida desta, tal como resul- e aprovadas nos termos legais, seja inferior à soma do capital bertar bens para distribui-
ta das contas elaboradas e aprovadas social e das reservas que a lei ou o contrato não permitem dis- ção.”.
nos termos legais, for inferior à soma tribuir aos sócios ou se tornasse inferior a esta soma em conse-
Estas disposições legais
do capital e das reservas que a lei ou quência da distribuição.
o contrato não permitem distribuir 2 - Os incrementos decorrentes da aplicação do justo va- suscitam-nos os seguintes
aos sócios ou se tornasse inferior a lor através de componentes do capital próprio, incluindo os da comentários:
esta soma em consequência da dis- sua aplicação através do resultado líquido do exercício, apenas 1. O n.º 1 da nova
tribuição. relevam para poderem ser distribuídos aos sócios bens da socie- redacção corresponde,
dade, a que se refere o número anterior, quando os elementos
ou direitos que lhes deram origem sejam alienados, exercidos,
quase na íntegra, excep-
extintos, liquidados ou também quando se verifique o seu uso, to referências a negrito,
no caso de activos fixos tangíveis e intangíveis. à anterior, registando-se
apenas alterações pontu-
Fonte: Elaboração própria.
ais quanto à actualização do termo “situação líquida”,
que passa a designar-se de “capital próprio”, e à ênfase
O preâmbulo do diploma justifica esta alteração nos
de que este inclui o resultado líquido do exercício (conta
seguintes termos:
88 do POC ou conta “81 – Resultados líquido do perí-
“Por outro lado, a recente adopção, por parte das entida-
odo” no SNC);
des com valores cotados, das Normas Internacionais de
2. A propósito das restrições à aplicação do critério
Relato Financeiro adoptadas pela União Europeia e a
de mensuração do justo valor, o relatório da “Comissão
próxima adopção de um novo Sistema de Normaliza-
de Acompanhamento da Audição Pública do Sistema de
ção Contabilístico aplicável às demais empresas vie-
ram permitir que as empresas passem a utilizar com Normalização Contabilística” prevê:
maior intensidade o critério de mensuração do justo “Fair Value
valor (“fair value”). A aplicação desta técnica contabi- Na apreciação da problemática do “fair value” a Comis-
lística tem como principal consequência que a ênfase é são de Acompanhamento entendeu sugerir as seguintes me-
dada à mensuração das rubricas do balanço, passando, didas:
em consequência, a expressar-se muitas das rubricas  De notar que a designação “Situação Líquida” era utilizada no primei-
desta demonstração financeira em valores de mercado. ro Plano Oficial de Contabilidade (POC), aprovado pelo Decreto-Lei n.º
47/77, de 7 de Fevereiro (POC/77), tendo sido substituída pela de “Capital
Assim sendo, e embora reconhecendo a importância da Próprio” com o POC/89, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 410/89, de 21 de
adopção do critério de justo valor na qualidade da in- Novembro, e que se mantém no SNC.
 Divulgado na revista TOC n.º 110, de Maio de 2009, pp. 38-44, dispo-
 O art.º 3.º do DL185/2009 elenca 24 (!) diplomas de alterações ao Código das nibilizado no sítio da Ordem dos ROC e publicado no livro “Anotações
Sociedades Comerciais desde a sua entrada em vigor em 1 de Janeiro de 1986. ao Sistema de Normalização Contabilística”, da autoria de Carlos Grenha,
 Esta alteração só produz efeitos a partir dos exercícios económicos que se Domingos Cravo, Luís Baptista e Sérgio Pontes, Ed. Câmara dos TOC,
iniciem em, ou após, 1 de Janeiro de 2010. Lisboa, Setembro de 2009, pp. 52-65.

14 CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série


contabilidade

1. Adopção do “fair-value” “regulado”, i.e. a adopção de cri-


térios de fair-value, por regra, apenas é possível em situ-
ações em que exista mercado regulado (p.ex. a adopção
da informação constante do SIMA na Norma referente à
Agricultura). Em especial a adopção de critérios mark-to-
model é fortemente restringida;
2. Estabelecimento – através da alteração da redacção do art.
33.º do Código das Sociedades Comerciais – de limites à
distribuição de resultados, sempre que estes tenham ori-
gem em valores não realizados provenientes da aplicação a coexistência das NIRF e das NIC, enquanto estas
do “fair-value” através de outros factores que não a cota- não forem substituídas pelas primeiras;
ção de mercado regulamentado; - Na expressão “Sistema de Normalização Contabilístico”
3. Criação de mecanismos de controlo da aplicação do novo (SNC) deveria ser usada a palavra feminina “Contabi-
SNC, estabelecendo um regime contra-ordenacional asso- lística”, i.e., “Sistema de Normalização Contabilística”.
ciado à má ou não aplicação do Novo SNC.”. 4. Como é sublinhado, a alteração em análise visa,
3. Relativamente à referência “Por outro lado, a re- concretamente, criar limitações à distribuição de resulta-
cente adopção, por parte das entidades com valores co- dos derivados de incrementos gerados pela aplicação do
tados, das Normas Internacionais de Relato Financeiro justo valor (fair value);
adaptadas pela União Europeia e a próxima adopção de 5. É reconhecida a importância da adopção do critério
um novo Sistema de Normalização Contabilístico...” ca- de mensuração do justo valor na qualidade da informação
rece, em nosso entender, dos seguintes esclarecimen- financeira prestada pelas empresas, com destaque para a
tos/correcções: característica qualitativa da relevância, a qual contribui
- A expressão “a recente adopção” refere-se à entrada em para “a sua verdadeira performance”10;
vigor, em 1 de Janeiro de 2005, do Decreto-Lei n.º 6. Não deixa de ser curiosa a inexistência de qualquer
35/2005, de 17 de Fevereiro, que (conforme seu pre- referência explícita ao critério de mensuração do “custo
âmbulo) veio “criar um quadro jurídico integrado no histórico”, que, normalmente, é apresentado em con-
novo regime contabilístico de origem comunitária,
traposição ao critério de mensuração do justo valor, ou
estabelece-se ainda a possibilidade, prevista no Regu-
modelo de custo, em contraposição ao modelo de reva-
lamento n.º 1606/2002, do Parlamento Europeu e do
lorização;
Conselho, de 19 de Julho, relativa à aplicação das NIC
7. Relativamente às componentes negativas (perdas)
às entidades sujeitas ao Plano Oficial de Contabilida-
resultantes da aplicação do justo valor, é esclarecido que,
de (POC) e às entidades que, nas restantes situações,
em obediência ao princípio da prudência11, não é suscep-
tenham contas consolidadas, bem como, no que se re-
tível dos qualquer alteração, continuando a afectar nega-
fere às contas individuais, quando as entidades estejam
tivamente a distribuição dos resultados, tendo em conta
incluídas no âmbito de sociedades que já elaborem as
suas contas consolidadas de acordo com as NIC.”;  A relevância é definida nos parágrafos 26 a 28 da Estrutura Conceptual
- A referência às Normas Internacionais de Relato Finan- do SNC (Aviso n.º 15652/2009, de 7 de Setembro), sendo que o parágrafo
26 descreve:
ceiro (NIRF) estaria mais correcta se também fosse
efectuada referência às NIC e às Interpretações de
umas e outras (IFRIC e SIC, respectivamente). Com
efeito, o actual normativo do IASB contempla, ainda, 10 Julgamos que é a primeira vez que a palavra “performance” é utilizada no
normativo societário português.
 No item 2 transcrito e relativamente ao art.º 33.º do CSC, consta a se- 11 No Capítulo 4 do POC, “Princípios Contabilísticos”, é apresentado
guinte nota de rodapé “Ver Decreto-Lei n.º 185/2009, de 12 de Agosto como um “princípio contabilístico fundamental” (ou “princípio contabi-
(alteração ao artigo 32.º do CSC e não ao artigo 33.º)”. lístico geralmente aceite”), ao passo que na Estrutura Conceptual do SNC
 Na terminologia anglo-saxónica: “International Financial Reporting Stan- é apresentado como uma “subcaracterística” da característica qualitativa da
dards” (IFRS). “fiabilidade”, de cujo parágrafo 37 extraímos o seguinte texto:
 Na terminologia anglo-saxónica: “International Accounting Standards” (IAS). “37 - (...) A prudência é a inclusão de um grau de precaução no exercício dos
 Significa: juízos necessários ao fazer as estimativas necessárias em condições de incerteza,
IFRIC - International Financial Reporting Interpretations Committee de forma que os activos ou os rendimentos não sejam sobreavaliados e os passivos
SIC - Standing Interpretations Committee. ou os gastos não sejam subavaliados. (...)”.

CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série 15


contabilidade

que “terão de ser compensadas estas perdas, e só depois se activo tangível) do excedente de revalorização (admite-se
poderão libertar bens para distribuição”; que os restantes 200 dos resultados transitados não se en-
8. No que tange à nova redacção do n.º 1 do art.º contram realizados e referem-se a outros factos patrimo-
32.º do CSC, mantém-se a cláusula restritiva da distribui- niais), qual o montante distribuível?
ção dos bens12 aos sócios, i.e., quando o capital próprio,
RUBRICA VALOR
incluindo o resultado líquido do período13, seja inferior
51 Capital 1.000
à soma do capital social14 e das reservas que a lei15 ou o 551 Reservas legais 100
contrato16 não permitem distribuir aos sócios ou quando 553 Reservas estatutárias 100
se tornar inferior a esta soma em consequência dessa dis- 56 Resultados transitados* 400
tribuição. 58 Excedentes de revalorização de acti-
vos fixos tangíveis e intangíveis** 100
Esta disposição visa, nomeadamente, a protecção do
81 Resultado líquido do período 200
capital das sociedades, constituindo uma “salvaguarda da
Total do Capital Próprio 1.900
descapitalização” e protecção dos sócios minoritários, em * Inclui o valor de 200 referente à parte realizada do excedente de revalo-
obediência ao designado princípio da “conservação do ca- rização. Os restantes 200 consideram-se “não realizados”.
** Valor não realizado de 100 num total de 300.
pital”.
Vejamos o seguinte exemplo: Neste caso, o Capital Próprio é de 1900, sendo superior
à soma (1200) do capital (1000) com as reservas legais (100)
RUBRICA VALOR
e as reservas estatutárias (100), pelo que não resulta qualquer
51 Capital 1000
551 Reservas legais 100
impedimento à distribuição dos resultados. Os resultados
distribuíveis, sem as reservas17, são de 400, referente ao so-
553 Reservas estatutárias 100
matório do resultado líquido do período (200) com os resul-
56 Resultados transitados (400)
81 Resultado líquido do período 200
tados transitados correspondentes à realização do excedente
Total do Capital Próprio 1000
de revalorização do activo fixo tangível (200).
Note-se, ainda, que mesmo após essa distribuição
(400) o capital próprio (que ficará a ser de 1500) conti-
Neste contexto, dado que o Capital Próprio (1000) é nuará a ser superior a 1200, pelo que se encontra também
inferior à soma (1200) do capital (1000) com as reservas cumprida a condição do n.º 1 do art.º 32.º do CSC;
legais (100) e as reservas estatutárias (100), não poderá 9. O n.º 2 do art.º 32.º constitui a principal novidade da
ser distribuído o resultado líquido do período, pois este alteração do articulado face à referida aplicação do critério
deverá ser utilizado prioritariamente para cobertura dos de mensuração do justo valor, constituindo uma limitação
resultados transitados negativos de 400. objectiva à distribuição de bens resultante de incrementos
Admitindo, agora, uma segunda situação, em que os (variações positivas) decorrentes da aplicação do justo valor
resultados transitados de 400 são positivos, dos quais 200 através de componentes em capital próprio (aumentos nas
resultam da realização (pelo uso, i.e., a depreciação de um contas da Classe 5 do SNC), nomeadamente os agora deno-
minados excedentes de revalorização evidenciados na conta
12 A palavra “bens” deve ser entendida em sentido lato, incluindo, portan-
58 - “Excedentes de revalorização de activos fixos tangíveis e
to, os resultados.
13 A Conta “88 - Resultado líquido do exercício” do POC, passou a desig- intangíveis” e os ajustamentos positivos decorrentes da apli-
nar-se “81 - Resultado líquido do período”, conforme Código de Contas do cação do método da equivalência patrimonial relevados na
SNC aprovado pela Portaria n.º 1011/2009, de 9 de Setembro.
14 A designação “capital social” (conta “52 - Capital social”) era utilizada conta “571 – Ajustamentos em activos financeiros – Relacio-
no primeiro POC, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 47/77, de 7 de Feverei- nados com o método da equivalência patrimonial”.
ro (POC/77), tendo passado a intitular-se apenas por “capital” (conta “51 A expressão “quando os elementos ou direitos que
- Capital”) com o actual POC (POC/89), aprovado pelo Decreto-Lei n.º
410/89, de 21 de Novembro. O Código de Contas do SNC mantém a lhes deram origem sejam alienados18, exercidos19, extin-
designação do POC/89 de “capital” (conta “51 - Capital”). Ou seja, a desig- tos20, liquidados21 ou, também, quando se verifique o
nação do CSC não está normalizada com o POC/89 nem com o SNC.
15 Normalmente, a “reserva legal” (conta “571 - Reservas legais” no POC e 17 Estas podem ser redistribuídas se não existirem impedimentos legais.
conta “551 - Reservas legais” no SNC). 18 Ou vendidos.
16 Designadas de “reservas estatutárias” (no POC tinha uma conta própria 19 Caso do exercício de opção de compra na locação financeira.
com o título “572 - Reservas estatutárias”, ao passo que o SNC não a prevê 20 Como exemplos podemos apenas ter os seguintes casos: término de um
explicitamente, pelo que deve ser criada uma subconta da conta “552 - Ou- contrato de aquisição de bens, término do contrato de sociedade (v.g. objec-
tras reservas” ou mesmo uma conta com grau superior, por exemplo, “553 to social, duração da sociedade) e a insolvência.
- Reservas estatutárias”). 21 Por exemplo, em processo de insolvência da empresa ou término do

16 CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série


contabilidade

uso22, no caso de activos fixos tangíveis e intangíveis”, “Braz Machado, no livro atrás referido, preconiza que a re-
diz respeito à verificação do “princípio de realização”, o serva (excedente) de reavaliação não realizada deveria ser
qual se encontra contemplado no item 2.4 da Directriz identificada no capital próprio numa classificação especí-
Contabilística n.º 16 (DC16) – “Reavaliação de Activos fica de “capital não realizado”.
Imobilizados Tangíveis”23 e, com o SNC, na NCRF 6 No esquema seguinte resumimos este clausulado:
– “Activos Intangíveis” e na NCRF 7 “Activos Fixos Tan-
gíveis”, nos parágrafos relativos à mensuração após reco-
nhecimento, e, mais concretamente, nas partes relativas Por “abate”
– Alienação
ao modelo de revalorização24. – Exercício do direito
Em nosso artigo anterior25, citámos Braz Machado26 Activos fixos – Extinção
tangíveis e Realização – Liquidação
nos seguintes termos: (causas)
intangíveis
objecto e ou durabilidade do contrato da sociedade.
22 Pela depreciação do activo fixo tangível ou amortização do activo fixo Uso (depreciação de activos
intangível. fixos tangíveis e amortização
23 O item 2.4 da DC16 prevê: de activos fixos intangíveis)
“2.4. O excedente obtido do processo de reavaliação só se considera realizado, de
acordo com os princípios contabilísticos geralmente aceites, pelo uso ou alienação
dos bens a que respeita.”. Fonte: Elaboração própria.
24 Parágrafos 74 a 86 da NCRF6 e parágrafos 31 a 42 da NCRF7.
25 Sob o título “A Realização e a Utilização das “Reservas” (“Excedentes”) Em suma, o art.º 32.º do CSC constitui, efectivamente,
de Reavaliação”, Revisores & Empresas n.º 13, de Abril/Junho de 2001, pp.
24-8 e disponível para “download” no menu “Actividades Pessoais/Artigos
uma norma do direito societário que interfere (limita) di-
(Download)/Por Título/N.º 69” do Portal INFOCONTAB, no qual apre- rectamente na aplicação do critério de mensuração do justo
sentámos as principais características teóricas e práticas desta problemática. valor.
26 BRAZ MACHADO, José Rita: “Contabilidade Financeira”, Ed. Proto-
contas, Lisboa, 1998, pp. 1148-52. *ROC, TOC, Docente do Ensino Superior

Sector bancário passará a pagar mais IRC

OE impede congelamento de reembolsos


a devedores ao fisco
São duas medidas que terão um forte impacto na acti- empresas, gestores e advogados contestavam a postura
vidade empresarial. Por um lado, o Orçamento de Estado da administração fiscal. Aliás, o próprio Supremo Tribu-
impede o fisco de se apropriar de reembolsos devidos a nal Administrativo já tinha apresentado vários acórdãos
contribuintes com dívidas fiscais. Por outro, a banca de- nesse sentido.
verá contar com um agravamento da tributação em sede Entretanto, o Governo vai garantir mais receita fiscal
de IRC. por via do aumento da tributação efectiva que incide so-
A Direcção-Geral dos Impostos (DGCI) não poderá bre o sector bancário. Até agora, a banca pagava apenas
aceder aos reembolsos dos contribuintes para compen- 12,8% em sede de IRC, o que sempre foi contestado pelas
sar as suas dívidas fiscais, antes de decorrerem todos os empresas, já que se tratava de uma situação de desigualda-
prazos legais para que o sujeito passivo possa contestar a de perante o fisco. A medida junta-se à já tributação agra-
dívida junto da Justiça. Trata-se de uma medida que vai vada dos prémios do gestores no sector da banca. Teixeira
representar um alívio para muitas empresas. Haverá as- dos Santos, ministro das Finanças, garante que se trata de
sim uma alteração ao artigo 89º do Código do Procedi- um orçamento de rigor e que vai possibilitar reequilibrar
mento e do Processo Tributário. De notar que há muito as contas públicas.

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Na opinião do docente Emanuel Gamelas

Supervisão e controlo das práticas


contabilísticas estão reforçados
É uma realidade inquestionável que haverá sempre sejam penalizadas, mas há aspectos em que se vai longe de
escândalos contabilísticos. Até porque a criatividade hu- mais. “Sancionar sim, mas sem exageros.”
mana ultrapassa a máquina. No entanto, a tendência é
para que os mecanismos de supervisão e controlo das prá- Simplificação na leitura das demonstrações financeiras
ticas contabilísticas saiam reforçadas da crise global. Esta
a perspectiva de Emanuel Gamelas, professor do ISCTE, Quanto ao SNC, Emanuel Gamelas é de opinião que
em trabalho publicado na Revista TOC. Quanto ao Siste- se simplificam alguns aspectos de leitura das demonstra-
ma de Normalização Contabilística, considera o mesmo ções financeiras. É uma filosofia mais virada para o va-
uma inevitabilidade e que o novo modelo obriga os pro- lor da empresa e menos para o património conservador.
fissionais a estarem mais habilitados, pelo que abre novas “No fundo, na interpretação da empresa. O que obriga
oportunidades em termos de empregabilidade, sobretudo os profissionais a estarem mais habilitados.” Lembra que
no que se refere aos jovens licenciados. a revolução é tão grande em termos de abordagem que
Os mecanismos de supervisão e controlo das práticas só com formação intensa será possível uma adaptação à
contabilísticas vão sair reforçados, nem que seja pela so- nova realidade. Devem verificar-se dois níveis formativos,
fisticação informática crescente das máquinas do Estado um de formação da informação (mais generalista) e um de
e dos organismos de supervisão. “A tendência é para a in- formação específica.
formatização de um conjunto de dados, sejam fiscais ou Um dos aspectos que tem sido motivo de polémica,
parafiscais e de supervisão de actuações, introduzidos em no âmbito do novo regime, é aquele que respeita ao justo
sistemas informáticos que, por si, ajudam o controlador valor. Ora, o docente acha que a polémica até é útil para a
a efectuar uma melhor monitorização das situações. Esta discussão e considera que o justo valor, com a volatilidade
é uma realidade que se vai intensificar”, admite Emanuel que tem caracterizado os mercados, apresenta alguns as-
Gamelas. pectos menos vantajosos, “mas a óptica das normas inter-
Considera o docente que haverá sempre escândalos con- nacionais assenta no valor da empresa e, como tal, é aquilo
tabilísticos. O importante é reforçar o mecanismo de sina- que ela vale hoje e o que se espera venha a valer, portanto
lização em todos os Estados-membros da União Europeia, a perspectiva do investidor”. O SNC, na parte do justo
com a necessária articulação com os sistemas judiciários de valor, só se aplica àquilo que tem mercado. A regra conti-
cada país. “Esta política de alerta tem falhado, especialmen- nuará a ser para muitos activos o custo.
te na nossa economia e muito por culpa da ineficácia de Para todos os efeitos, o justo valor para produtos co-
algumas leis e da máquina judicial, com as situações a arras- tados em bolsa não é motivo de contestação, “é o valor
tarem-se anos a fio.” Por sua vez, considera que a máquina no momento em que se tira a fotografia à empresa”. Nos
fiscal tem que proceder a alguns ajustamentos. outros activos a definição de justo valor é que requer testes
De facto, está demasiado rígida, a transição foi exces- e validação, o que envolve sempre contestação e subjecti-
sivamente brusca. E é necessário ter em conta que a maior vidade.
parte do tecido empresarial assenta em capitais alheios e Por último, Emanuel Gamelas defende a existência de
não em capitais próprios. Argumenta a este propósito: uma ampla oferta de formação, para que o próprio TOC
“Quando uma empresa fica bloqueada em termos de te- possa gerir as suas necessidades. Cabe à Ordem aferir das
souraria, deveria existir um mecanismo voluntário por necessidades dos membros e corrigir eventuais erros, quer
parte desta e o fisco deveria ter capacidade para responder ao nível dos formadores, quer das matérias que estão a ser
à situação em termos técnicos, evitando que a empresa en- leccionadas. E lembra que “o SNC é um comboio que está
trasse em colapso prolongado.” Concorda que as empresas em andamento e que não pode ser parado”.

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Reversão do activo
e prestações do concedente
Hernâni O. Carqueja* afecto, não comprometeria o reembolso final do capital e
do financiamento complementar. O reconhecimento das
A reversão dos activos afectos à exploração, no final do amortizações teria implicado a retenção de valores corres-
período da concessão ou em situações de resgate antecipa- pondentes ao valor “gasto” no imobilizado, valor que, no
do, implica, para os titulares de partes de capital numa esquema, acresceu a outros activos.
concessionária, providências adequadas à conservação do Mas a realidade económica é mais complexa e são
capital que investiram. poucos os elementos do imobilizado com duração útil
A natureza do problema a resolver pode ser esquema- igual ao período da concessão – haverá que substituir
tizada considerando o caso de uma concessionária com muitos para manter em operação a concessão, e de
o capital de 5000 e investimentos iniciais necessários ao facto boa parte do valor retido, ao reconhecer amor-
arranque da concessão de 250 000 ­– dos quais 200 000 tizações, acaba imobilizado e novamente afecto à con-
em imobilizado e 50 000 em “Outros Activos”. O finan- cessão. A experiência empresarial permite prever que o
ciamento implica financiamentos além do proporcionado valor global líquido do imobilizado, ignorando infla-
pelo capital, só 5000, são necessários mais 245 000. Ad- ção e se não houver alterações tecnológicas significa-
mita-se que a concessão é feita por 50 anos, sendo rever- tivas, e aceitando afastamentos pontuais relativamente
sível, numa hipótese muito simplificadora, a preço zero a à tendência, se vai fixar em valores líquidos inferiores
totalidade dos activos afectos. Reduzindo o modelo só aos a 200 000. Haverá sempre em uso alguns elementos
elementos essenciais à análise, teremos: novos, alguns elementos do imobilizado parcialmente
ACTIVO CAPITAL PRÓPRIO e PASSIVO
amortizados e até elementos totalmente amortizados. A
Imobilizado 200 000 Capital 5 000
hipótese de gastar toda a utilidade do imobilizado em
Financiamento
Outros activos 50 000 245 000 50 anos pode colocar-se tomando como referência a
Complementar
250 000 250 000 utilidade, ou valor, para a entidade concessionária, mas
carece totalmente de razoabilidade com qualquer ou-
Ignorando o facto de a história económica tornar pre- tra referência. Para o concedente, a reversão traduz-se
visível alteração significativa do valor da moeda passados em receber valores diferentes de zero e com significado.
os cinquenta anos, considerando totalmente amortizado o Atribuir ao imobilizado o valor que normalmente teria
imobilizado, uma sequência de exercícios com resultado fi- numa exploração em continuidade é a única solução
nal acumulado nulo, e ignorando completamente problemas inteligível para a generalidade de utentes, e, certamen-
legais e fiscais, teríamos em final e imediatamente antes da te, para o concedente. É a quebra de continuidade da
reversão: exploração que é invocada para atribuição do valor zero
ACTIVO CAPITAL PRÓPRIO e PASSIVO pelo concessionário.
Imobilizado 200 000 Capital 5 000 Mas esta hipótese conduz de imediato à necessidade de
Amortização -200 000 prever a perda pela entrega do Imobilizado quando da re-
0 versão da concessão; a falta de tal providência é evidenciada
Financiamento pelo seguinte cenário simplificado para facilitar análise:
Outros activos 250 000 245 000
Complementar
ACTIVO CAPITAL PRÓPRIO e PASSIVO
250 000 250 000
Imobilizado 200 000 Capital 5 000
Amortização -90 000
A amortização implicou retenção de valores, acres-
110 000
cendo 200 000 em “Outros Activos”. Nesta situação, Financiamento
Outros activos 140 000 245 000
que limita os problemas aos que pretendemos apreciar, Complementar
a entrega do imobilizado, por reversão do património 250 000 250 000

CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série 19


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Neste cenário, a reversão da concessão, valor líquido de


110 000 (200 000-90 000), só deixaria o concessionário
com 140 000, valor insuficiente para liquidação do finan-
ciamento, e que impossibilitaria o reembolso do capital.
Como, relativamente ao valor do imobilizado, é o cenário
com mais aderência à realidade económica, evidencia um
problema. Este tem sido resolvido adoptando:
– a solução “pragmática” de reforçar a amortização de
todo o imobilizado, ignorando a utilidade para além
do termo do período da concessão, de forma a que o
imobilizado esteja totalmente amortizado quando da
reversão;
– a solução tecnicamente correcta de reconhecer como encargos
de natureza diferente o da amortização considerando a du-
ração efectiva da utilidade do equipamento, e o correspon- de gestão, quer nas notas anexas e opiniões de auditoria, se
dente à perda inerente à reversão do imobilizado afecto. deva esclarecer que os valores indicados para o imobilizado
Qualquer das hipóteses conduz à retenção de valores resultam da aceleração das amortizações justificada pelos
que possibilita o reembolso da totalidade do financiamen- termos da concessão. Mesmo que a solução de “expedien-
to da exploração que termina: Financiamento Comple- te” tenha acolhimento nas normas contabilísticas, continua
mentar e reembolso do Capital. Mas a informação conta- a faltar correspondência entre a realidade e a imagem da
bilística não corresponde a imagem fiel no primeiro caso. informação disponibilizada, por exemplo, ao mercado de
Em final teremos, respectivamente: capitais. O expediente de acrescer a amortização conduz
Solução pragmática (ou de expediente!) a resultado final equivalente para o concessionário, mas
ACTIVO CAPITAL PRÓPRIO e PASSIVO compromete a “imagem fiel” que se espera da informação
Imobilizado 200 000 Capital 5 000 contabilística. Não resolve o problema da total falta de sig-
Amortização -90 000 nificado dos valores atribuídos ao imobilizado.
Amort. adicional -110 000 Merece, em especial, análise o caso em que uma parte,
0
ou a totalidade, do que designámos por “Financiamento
Outros activos 250 000 Financiamento 245 000
complementar Complementar” consiste em financiamentos por entregas
250 000 250 000 em espécie, por exemplo infra-estruturas, ou financiamen-
tos em dinheiro consignados à construção de tais infra-es-
Solução tecnicamente correcta truturas. Neste caso, também é razoável que os termos
ACTIVO CAPITAL PRÓPRIO e PASSIVO da concessão estabeleçam a reversão da concessão líquida,
Imobilizado 200 000 Capital 5 000 até ao valor fixado para o imobilizado, de tais financia-
Amortização -90 000 Reserva para Reversão 110 000 mentos. Note-se que as infra-estruturas, sem prejuízo de
110 000 a sua manutenção ser encargo do concessionário, são, em
Outros activos 250 000 Financiamento 245 000
complementar muitos casos, bens fora do comércio privado. Estão preju-
360 000 360 000 dicadas soluções contabilísticas relacionadas com valor de
mercado, pelo que deve merecer especial realce o critério
Considerações de natureza fiscal podem conduzir a op- para atribuição de valores, quando da reversão. Face ao
tar pela solução “de expediente”. Por exemplo, se a legisla- título da concessão, pode não haver perda por reversão, e
ção fiscal acolher como custo a acelaração das amortizações, até pode acontecer o imobilizado ter valor para reversão
considerando-as justificadas pelos termos de concessão, mas superior ao valor de uso em continuidade!
não acolher como custo para efeitos fiscais o progressivo re-
conhecimento da perda por reversão, é razoável esperar que Informação
os responsáveis pela gestão tomem a opção de acelerar as Esperávamos que o novo modelo contabilístico normali-
amortizações. A imposição de transparência à informação zado, o SNC, comportasse modelo de informação mais
contabilística justifica que, em mínimo, quer no relatório adequado ao esclarecimento do mercado.

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contabilidade

Podemos designar o financiamento pelo concedente, parte do capital próprio da entidade os subsídios para fo-
quando não remunerado e quando persista até ao resga- mento de cooperativas não exigíveis, enquanto se verifi-
te ou reversão, por exemplo “Prestações do Concedente”. que continuidade, mesmo que não possam ser apropria-
Tal como as prestações suplementares dos titulares de par- dos pelos cooperantes. As unidades de participação não
tes do capital, as “Prestações do Concedente” integram o reembolsáveis por iniciativa dos titulares não constituem
Capital Próprio à disposição da entidade a que respeita a capital dos proprietários do capital nominal, mas são capi-
exploração. São, para a entidade, uma parcela dos Fun- tal para a entidade, mesmo quando implicam uma remu-
dos Próprios; são exigíveis quando da reversão, mas esta neração não dependente de resultados. É também capital
implica quebra de continuidade na exploração pelo con- próprio da entidade o valor das unidades de participação
cessionário. só reembolsáveis por iniciativa da entidade mas implican-
Na hipótese, que é pelo menos uma possibilidade teóri- do concordância expressa dos titulares, situação que pode
ca, de as prestações do concedente excederem o valor a atri- justificar particular cuidado em estimativas dos resultados
buir à totalidade do activo reversível, a entrega do activo e sua disponibilidade.
reversível liquida parte das “Prestações do Concedente” e o São diversas as situações em que o capital próprio da
valor restante terá que ser pago por outros activos. As con- entidade tem valores que não fazem do capital próprio
tas, mantendo a hipótese de resultados acumulados iguais a dos titulares de partes do capital, e podem variar face às
zero, podem ser exemplificadas nos termos seguintes: instituições legais de cada caso. A tradução de uma nor-
ACTIVO CAPITAL PRÓPRIO e PASSIVO
ma, transposição de uma língua para outra, pode acar-
Imobilizado 200 000 Capital 5 000
retar dificuldades acrescidas quando não há equivalência
Amortização -90 000 de instituições. Em muitos casos, uma tradução, que
110 000 até pode parecer correcta fora do contexto contabilísti-
Outros activos 140 000 Prestações do concedente 245 000 co, pode resultar em falta de equivalência dos conceitos
250 000 250 000 correspondentes aos termos usados na língua fonte e na
tradução.
Se os termos da concessão estabelecerem que a en- Esperávamos que o novo modelo contabilístico nor-
trega do imobilizado em reversão liquida 110 000 das malizado, o SNC, comportasse modelo de informação
Prestações do Concedente, então o activo restante, “Ou- mais adequado ao esclarecimento do mercado. Mas as es-
tros Activos”, será aplicado na liquidação de 245 000 pecialidades das concessões, instituições que nos cercam
- 110 000 = 135 000, e reembolso do capital de 5000. (estradas, água, electricidade, gás, comunicações, etc.),
Na situação de arranque do processo o valor de “Outros continuam opacas, designadamente na informação con-
Activos” era 50 000, a amortização implicou acréscimo tabilística relativa ao capital próprio, quer dos titulares de
de 90 000, 50 000 + 90 000 = 140 000. partes do capital quer da entidade.
Estas “Prestações do Concedente”, tal como as “Re- Estas observações pretenderam clarificar a necessidade de
servas Para Reversão”, não são exigíveis enquanto conti- existirem Reservas afectas à Reversão para que seja possível
nuar a concessão, isto é, enquanto não houver quebra de conservar o valor nominal do capital social, quer para efei-
continuidade. Correspondem a valores à disposição da tos de reembolso quer de continuidade após reorganização.
entidade, mas não dos titulares de partes de capital, que Também pretendem clarificar a especialidade do problema
não podem apropriar-se deles. São capital próprio da en- da necessidade de Reservas para Reversão quando o conce-
tidade, mas não dos proprietários. dente financia parte ou a totalidade do imobilizado afecto
Há outras situações em que o capital da entidade pode até final da concessão, e a reversão liquida, total ou parcial-
compreender valores não incluídos no capital dos proprie- mente, tal financiamento (Prestações do Concedente).
tários, designando por proprietários os accionistas que Em esclarecimento da natureza contabilística dos va-
controlam a gestão ou os accionistas detentores de acções lores à disposição da entidade e não apropriáveis pelos ti-
comuns. Dependendo do privilégio, o capital privilegia- tulares de partes de capital, esquematizaram-se situações
do pode ser excluído do capital próprio dos proprietários. demasiado simplificadas, mas que ajudam a situar o pro-
Em contas consolidadas, o capital de minoritários é capi- blema da classificação contabilística.
tal próprio do grupo, mas excluído do capital próprio dos
* ROC, TOC, ex-Docente da FEP,
proprietários da empresa-mãe. Numa cooperativa, fazem Director da Revista de Contabilidade e Comércio

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Fiscalidade

O tratamento fiscal das gratificações


por aplicação dos resultados
José Alberto Pinheiro Pinto* fosse essa não coincidência e não teria obviamente sen-
tido fazer no Código qualquer referência a gratificações
Sendo na contabilidade que se encontram os pontos por aplicação de resultados – a não ser, naturalmente, em
de partida para a tributação em IRC, é natural que as al- relação a eventuais limitações na aceitação como custo
terações que se processem nessa disciplina motivem alte- das gratificações, como é o caso da exigência de que as
rações no Código que disciplina esse imposto, quer para gratificações, para beneficiarem deste regime, tenham de
se adaptar às alterações, quer para delas se demarcar. ser pagas ou colocadas à disposição dos respectivos bene-
Não é, assim, de estranhar que, face à introdução en- ficiários até ao fim do exercício da sua atribuição.
tre nós do Sistema de Normalização Contabilística (SNC), Entretanto, ainda na redacção antiga do artigo 24.º
substituindo o Plano Oficial de Contabilidade (POC), o do Código do IRC, foram introduzidas limitações à acei-
Código do IRC tenha sido objecto de diversas alterações, tação como custos destas gratificações, designadamente
processadas através do Decreto-Lei n.º 159/2009, de 13 quando atribuídas a membros do órgão de administração
de Julho. da sociedade, titulares, directa ou indirectamente, de par-
Muitas das alterações decorrem da (lamentável) subs- tes representativas de, pelo menos, 1% de capital social
tituição terminológica que se operou com o SNC. quando excedessem o dobro da remuneração mensal au-
Quanto às alterações substanciais, algumas visaram a ferida pelo beneficiário no exercício a que respeitasse o
adaptação a novas regras contabilísticas (casos dos contra- resultado em que participassem.
tos de construção e dos activos intangíveis, entre outros) e No fundo, tratou-se de limitações decorrentes do fac-
outras visaram precisamente a não aceitação de outras novas to de se ter entendido que o regime aplicável às gratifica-
regras (caso, por exemplo, da não aceitação, como regra, dos ções por aplicação de resultados era um regime de favor
ajustamentos decorrentes da aplicação do justo valor). que não devia ser estendido a gratificações “excessivas”
O tema que pretendemos abordar neste trabalho refe- atribuídas a administradores ou gerentes, sócios da socie-
re-se às gratificações por aplicação de resultados. dade, porventura substituindo ou “disfarçando” verdadei-
No Código que vigorou até ao fim de 2009, o regime ras distribuições de lucros – e daí a previsão no n.º 3 do
fiscal destas gratificações estava tratado no artigo 24.º, artigo 24.º de que o excesso de gratificações em relação ao
dedicado a variações patrimoniais negativas (não reflec- referido dobro da remuneração mensal fosse assimilado,
tidas no resultado líquido do exercício). para efeitos de tributação, a lucros distribuídos.
De acordo com o disposto no n.º 2 desse artigo, as Sucede que o tratamento das gratificações por aplica-
variações patrimoniais negativas relativas a gratificações ção de resultados foi alterado através do Decreto-Lei n.º
e outras remunerações do trabalho atribuídas a trabalha- 159/2009.
dores e a membros dos órgãos sociais a título de partici- Por um lado, deixou de se lhe fazer qualquer referên-
pação nos resultados eram reconhecidas para efeitos de cia no artigo 24.º, que continua a ser o artigo dedicado às
determinação do lucro tributável do exercício a que res- variações patrimoniais negativas.
peitasse a participação. Por outro lado, no tocante às limitações que no mes-
Isto é, embora a variação patrimonial negativa, como mo artigo estavam previstas, foram “transferidas” para o
grandeza contabilística que é, se verificasse apenas no artigo que contém encargos (ou gastos) não aceites (ago-
exercício da atribuição das gratificações, era fiscalmente ra, artigo 45.º, correspondente ao anterior artigo 42.º).
reconhecida no exercício anterior, em que era apurado Assim, nas alíneas m) e n) do n.º 1 desse artigo, pas-
o lucro em relação ao qual se atribuía a participação dos sam a constar como encargos não dedutíveis:
trabalhadores ou membros dos órgãos sociais. “m) Os gastos relativos à participação nos lucros por membros
E só se justificava esta disposição no Código do IRC de órgãos sociais e trabalhadores da empresa, quando as
pela não coincidência entre o exercício da verificação da respectivas importâncias não sejam pagas ou colocadas
variação patrimonial negativa na contabilidade e o exer- à disposição dos beneficiários até ao fim do período de
cício em que a mesma era fiscalmente reconhecida. Não tributação seguinte;

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Fiscalidade

n) Sem prejuízo da alínea anterior, os gastos relativos à Por outro lado, não é verdade que o novo normativo
participação nos lucros por membros de órgãos sociais, contabilístico preveja que as gratificações por aplicação
quando os beneficiários sejam titulares, directa ou indi- de resultados sejam necessariamente registadas como gas-
rectamente, de partes representativas de, pelo menos, 1 tos nos períodos em que o trabalho é prestado.
% do capital social, na parte em que exceda o dobro da É importante ler o que efectivamente se diz nesse nor-
remuneração mensal auferida no período de tributação mativo, designadamente na Norma Contabilística e de
a que respeita o resultado em que participam.”. Relato Financeiro 28 (NCRF 28) – Benefícios dos em-
Complementarmente, ainda sobre este assunto, os pregados.
nºs 5 e 6 do artigo 45.º passaram a dispor: De acordo com a alínea (c) do § 9 desta Norma, as
“5 — No caso de não se verificar o requisito enunciado gratificações por aplicação de resultados – “participação
na alínea m) do n.º 1, ao valor do IRC liquidado nos lucros e bónus pagáveis dentro de doze meses após o fi-
relativamente ao período de tributação seguinte adi- nal do período em que os empregados prestam o respectivo
ciona-se o IRC que deixou de ser liquidado em resul- serviço” – constituem benefícios a curto prazo dos em-
tado da dedução das importâncias que não tenham pregados.
sido pagas ou colocadas à disposição dos interessados Relativamente a este tipo de benefícios, o § 11 da
no prazo indicado, acrescido dos juros compensatórios NCRF 28 diz textualmente:
correspondentes. “Quando um empregado tenha prestado serviço a uma enti-
6 — Para efeitos da verificação da percentagem fixada na dade durante um período contabilístico, a entidade deve
alínea n) do n.º 1, considera -se que o beneficiário detém reconhecer a quantia não descontada de benefícios a cur-
indirectamente as partes do capital da sociedade quando to prazo de empregados que espera ser paga em troca desse
as mesmas sejam da titularidade do cônjuge, respectivos serviço:
ascendentes ou descendentes até ao 2.º grau, sendo igual- (a) Como um passivo (gasto acrescido), após dedução de
mente aplicáveis, com as necessárias adaptações, as regras qualquer quantia já paga. Se a quantia já paga ex-
sobre a equiparação da titularidade estabelecidas no Có- ceder a quantia não descontada dos benefícios, uma
digo das Sociedades Comerciais”. entidade deve reconhecer esse excesso como um activo
Como facilmente se intui, esta mudança terá sido (gasto pré-pago) na extensão de que o pré-pagamento
provocada pela modificação do tratamento contabilístico conduzirá, por exemplo, a uma redução em futuros
que o SNC alegadamente veio dar às gratificações por pagamentos ou a uma restituição de dinheiro; e
aplicação de resultados comparativamente com o que ti- (b) Como um gasto, salvo se outra Norma Contabilística
nha no POC. e de Relato Financeiro exigir ou permitir a inclusão
Cremos, porém, que não se terá interpretado correc- dos benefícios no custo de um activo (ver, por exem-
tamente as disposições do novo normativo contabilístico plo, NCRF 18 - Inventários e a NCRF 7 - Activos
sobre a matéria, pois se presumiu que as gratificações por Fixos Tangíveis).
aplicação de resultados passariam a ser obrigatoriamente Os parágrafos 12, 15 e 18 explicam como uma entida-
registadas, não como variações patrimoniais negativas no de deve aplicar este requisito a benefícios a curto prazo dos
ano da respectiva atribuição, mas como gastos no período empregados na forma de ausências permitidas e de planos de
a que se refere o resultado, ou seja, no ano anterior. participações nos lucros e de bónus”.
A ideia parece resultar do princípio de que os gastos Pretende-se, segundo parece resultar deste parágrafo,
com o pessoal devem ser registados, não quando ocorre o que o gasto correspondente aos benefícios a curto prazo
dispêndio da entidade, mas quando o serviço é efectiva- dos empregados seja registado no período em que o res-
mente prestado. pectivo serviço for prestado.
Por um lado, este não é um princípio novo, pois já Não obstante, no caso particular das gratificações por
assim era no tempo do POC. Veja-se, por exemplo, o aplicação de resultados, existe um parágrafo – o § 18 –
que acontecia com as remunerações devidas por motivo em que especificamente se estabelece o respectivo regime
de férias, que, segundo o POC, eram contabilisticamen- contabilístico, nos seguintes termos:
te registadas no exercício em que, pelo trabalho prestado “Uma entidade deve reconhecer o custo esperado dos paga-
pelos trabalhadores, o direito era adquirido, e não quan- mentos de participação nos lucros e bónus segundo o pa-
do o pagamento era concretizado. rágrafo 11 quando, e só quando:

CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série 23


Fiscalidade

(a) A entidade tenha uma obrigação presente legal ou


construtiva de fazer tais pagamentos em consequência
de acontecimentos passados; e
(b) Possa ser feita uma estimativa fiável da obrigação.
Existe uma obrigação presente quando, e só quando, a en-
tidade não tem alternativa realista senão a de fazer os
pagamentos”.
Como facilmente se verifica, a NCRF 28 não prevê
que as gratificações por aplicação de resultados devam ser
necessariamente registadas como gastos do período em
que o serviço dos trabalhadores é prestado, mas, diferen-
temente, apenas “quando, e só quando”, a entidade tiver
uma obrigação presente legal ou construtiva de fazer tais
pagamentos.
Ora a obrigação é presente “quando, e só quando” a legal, nem construtiva, nem presente, que permita conta-
entidade não tiver “alternativa realista” senão a de fazer bilizar essas gratificações como gasto do exercício anterior
esses pagamentos, como se diz no parágrafo que acabá- ao da assembleia geral.
mos de transcrever. Sendo assim, raríssimas serão, quanto a nós, as
Dado que a atribuição de gratificações como aplica- situações em que as gratificações atribuídas em as-
ção do resultado de um dado exercício cabe à assembleia sembleia geral de aprovação de contas podem ser con-
geral, não estamos a ver em que circunstâncias é que se tabilizadas como gastos do exercício a que as contas
verificará a inexistência dessa “alternativa realista” senão a se reportam.
de pagar as gratificações... Quando muito, isso poderá acontecer quando exis-
Por outro lado, para além de presente, a obrigação tir uma tradição enraizada de distribuição de uma dada
tem de ser legal ou construtiva. percentagem dos lucros. E, mesmo assim, temos fortes
Importa transcrever estes conceitos do SNC, sendo dúvidas de que exista, mesmo nessas situações, uma
certo que constituem, no domínio terminológico, uma “obrigação construtiva” em moldes tais que a entidade
das expressões mais acabadas do ridículo a que se chegou não tenha “alternativa realista senão a de fazer os paga-
neste domínio. mentos”.
Dizem o seguinte: Por conseguinte, levanta-se a questão de saber qual o
“Obrigação legal é uma obrigação que deriva de: tratamento fiscal a dar às gratificações por aplicação de
a) Um contrato (por meio de termos explícitos ou implíci- resultados que, por não cumprirem o condicionalismo
tos); enunciado no § 18 da NCRF 28 para poderem/deve-
b) Legislação; ou rem ser contabilizadas como gastos no período em que o
c) Outras obrigações de lei”. serviço dos trabalhadores for prestado – como em regra
“Obrigação construtiva é uma obrigação que decorre das ac- acontecerá –, vão ter de ser registadas como variação pa-
ções de uma entidade em que: trimonial negativa no período da atribuição das gratifi-
a) Por via de um modelo estabelecido de práticas pas- cações.
sadas, de políticas publicadas ou de uma declaração Será que serão custo fiscal do ano anterior?
corrente suficientemente específica, a entidade tenha Pensamos que não.
indicado a outras partes que aceitará certas responsa- Na verdade, para que o fossem, seria necessário, quan-
bilidades; e to a nós, que existisse disposição no Código do IRC que
b) Em consequência, a entidade tenha criado uma expectati- o estabelecesse, como sucedia com a redacção anterior do
va válida nessas outras partes de que cumprirá com essas n.º 2 do artigo 24.º.
responsabilidades”. Ora, tal disposição deixou de existir, não havendo
Salvo raríssimas excepções, não vemos que exista, na agora norma nenhuma que preveja que a variação patri-
atribuição das gratificações que por vezes se faz em assem- monial negativa em que se consubstancia a atribuição de
bleia geral de aprovação de contas, qualquer obrigação lucros em assembleia geral de aprovação de contas releve

24 CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série


Fiscalidade

Gratificações Qual a razão por que, no caso de gratificações por


aplicação de resultados, se fixa um limite igual ao dobro
Sendo assim, raríssimas serão, quanto a nós, as situa- da remuneração anual quando o beneficiário for membro
ções em que as gratificações atribuídas em assembleia dos órgãos sociais e titular, directa ou indirectamente, de,
geral de aprovação de contas podem ser contabiliza- pelo menos, um por cento do capital social, quando idên-
das como gastos do exercício a que as contas se re- tico limite não existe se a gratificação não for atribuída
portam. por aplicação de resultados?
Dantes, ainda podia pensar-se que a limitação podia
fiscalmente no período de tributação anterior àquele em ter algum sentido por se dar às gratificações por aplicação
que é apurada. de resultados um tratamento fiscal de favor, aceitando-as
Se existir a tal “obrigação presente legal ou constru- um ano antes da respectiva ocorrência, quando as demais
tiva” que permita/imponha a contabilização das gratifi- gratificações eram aceites apenas no ano em que eram
cações no período a que o lucro se reporta e em que foi atribuídas.
prestado o serviço dos trabalhadores, a questão estará re- Agora, porém, não há qualquer tratamento de favor.
solvida, pois o custo contabilístico aparece nesse período, Não vemos, por isso, qualquer justificação para que
restando apenas verificar se se cumpre ou não o condi- essa limitação exista, independentemente de se tratar de
cionalismo estabelecido nas alíneas m) e n) do n.º 1 do gratificações que possam/devam ser contabilizadas como
artigo 45.º (correspondente ao anterior artigo 42.º) do gastos ou como variações patrimoniais negativas.
Código do IRC. Note-se que a limitação em apreço, anteriormente
Não existindo essa “obrigação presente legal ou cons- aplicável a membros do órgão de administração, foi ago-
trutiva”, surgirá na contabilidade, no ano da assembleia ra estendida aos demais órgãos sociais sem que, quanto a
geral, uma simples variação patrimonial negativa, que, nós, se vislumbre razão para o efeito.
não estando excluída da tributação no artigo 24.º, não Além disso, na anterior redacção do n.º 3 do artigo
deixará de ter de relevar para efeitos de apuramento do 24.º estabelecia-se que o excesso das gratificações em re-
lucro tributável desse período (e não do anterior). lação ao dobro da remuneração mensal era assimilado,
Mas será que neste caso se aplicam as limitações ex- para efeitos de tributação, a lucros distribuídos, aspecto
pressas nas tais alíneas m) e n) do n.º 1 do artigo 45.º? que foi omitido no texto da alínea n) do n.º 1 do artigo
Parece-nos que não, porquanto o artigo 45.º não trata 45.º.
de variações patrimoniais, mas de “encargos, mesmo quan- Cremos, pelas razões expostas, que se justificaria que
do contabilizados como gastos do período de tributação”. o tema das gratificações por aplicação de resultados fosse
Mas não será que teria todo o sentido que, pelo me- repensado.
nos a limitação da alínea m) – ou seja, a exigência de que Como principal razão para tal reflexão, consideramos
as gratificações sejam pagas ou colocadas à disposição dos o facto de indevidamente se ter partido do princípio er-
beneficiários até ao fim do período de tributação seguinte rado – profusamente divulgado em acções de formação
– se aplicasse mesmo quando as gratificações constitu- sobre o SNC – de que as gratificações por aplicação de
íssem variações patrimoniais negativas e não gastos do resultados iriam passar, dentro do novo normativo con-
período? tabilístico, a ser contabilizadas, não no ano da respectiva
atribuição, mas no ano anterior. Ora, isto não é manifes-
O problema não é de ter ou não sentido. Isso será em
tamente verdade, sendo até muito raro, quanto a nós, que
matéria fiscal irrelevante. As disciplinas aplicáveis às vá-
venha a acontecer na realidade.
rias situações terão de estar vertidas na lei e é através desta
Por outro lado, há que reequacionar se se justifica ou
que as questões terão de ser tratadas, independentemente
não – pensamos que não – a manutenção da limitação
da lógica e da razoabilidade. A lógica e a razoabilidade
contida na alínea n) do n.º 1 do artigo 45.º do Código
terão de ser presentes, não propriamente na leitura da lei,
do IRC a propósito deste tipo de gratificações, quando
mas na sua elaboração.
idêntica limitação não existe para gratificações atribuídas
Aliás, falando em lógica e em razoabilidade, importa-
como gastos.
rá levantar uma outra questão, qual seja a de saber se tem
ou não sentido manter a limitação da alínea n) do n.º 1
*ROC, TOC, Docente da FEP e UC-Porto
do artigo 45.º do Código do IRC. e Consultor Fiscal

CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série 25


Fiscalidade

A crise*
Rogério Fernandes Ferreira**

I. Visibilidade da crise
“Crise” significa alteração provocada por doença, situa-
ção anormal e grave (cf. Dicionário de A. Moraes). Assim,
crise será também situação anómala, de doença, da econo-
mia, da sociedade, das nações.
Toda a gente já concluiu que a crise existe, pois o sente
na própria pele ou o sente nas afectações dos que estão a
sofrer os efeitos. A crise actual também se manifestou nou-
tros países e, por isso, entidades oficiais, ministros e outros
dirigentes aparecem a justificar o que se vem passando em
Portugal, invocando que a crise é geral, ou que se está a
ser afectado pelas dificuldades do exterior, focando que se
exporta menos porque as empresas dos países em crise re- era grave, mas com a crise actual, mundial e nacional, os
duzem as suas compras de bens e serviços. São factos, mas problemas avolumaram-se.
não explicam tudo. Os partidos da oposição, olhando à si- O que fazer? Quais são as soluções?
tuação do País, em confronto com anos anteriores, acentu-
am que se piorou, atribuindo todas as culpas ao Governo, II. Agir perante a crise
o que também não é razoável. Antes de se instalar uma crise, aparecem os sinais. O
O País está mais pobre, e em crise. Ocorreram em Por- que se fez para a atacar foi insuficiente. A crise veio-se
tugal eventos que geraram quebras de produção, perdas de instalando e progredindo, e está a gerar desastrosas conse-
postos de trabalho, falências de empresas. Problemas graves quências (paralisações, cessações de produção, perdas de
em certos bancos, a que se juntaram escândalos de corrup- postos de trabalho, quebras de rendimentos, carências va-
ção, com uma Justiça que não funciona, tudo a fazer recear riadas, endividamentos, falências e turbulências sociais).
ocorrências ainda mais graves. Tudo quanto se fizer de apropriado será desejável, mas
O problema é que o País, de há muitos anos a esta par- a crise é situação tão má que o melhor seria evitá-la. Peran-
te, se encontra em plano inclinado, para o pior. Criaram-se te os prenúncios de crise, não se poderia ficar em estado
nele artificialismos. Em geral, governos sucessivos, desde o larvar. Porém, a tendência de muitas pessoas é a de que
25 de Abril, têm sofrido exigências de todos, desde os mais “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas” ou a de que
privilegiados aos mais pobres, para que se lhes concedam não podem, sozinhos, tomar medidas, pois sentem a adver-
melhores remunerações, mais regalias sociais, melhor as- sidade derivada das atitudes dos muitos que não querem
sistência. Em particular na função pública e em empresas partilhar dificuldades nem ajudar à solução. Assim, é difícil
públicas os encargos cresceram e o volume de funcionários alterar o sentido do plano, inclinado, pelo qual os avanços
também. Em geral, pode dizer-se que todos, quase todos, da crise vão deslizando.
quiseram, para si, o concedido a outros, mesmo sabendo Entendemos que, em Portugal, há má cultura democrá-
que se tratava de atribuições desrazoáveis, ilegítimas, imo- tica. A prática, até agora, tem sido, sempre ou quase sem-
rais e ilegais. pre, a de quem está em outro lado entender que a opção
E o país ficou mais pobre. Não dispõe de riqueza e não é combater os adversários, vê-los como inimigos, quando
produz o suficiente para satisfazer as reivindicações havidas, seria de apreciar se o programado está (ou não) correcto e,
gerando-se, assim, endividamento, défices, mais impostos então, auxiliar (não contrariar).
e mais injustiça social. Tudo o que estava acontecendo já A actual crise portuguesa deriva, muito, da actuação de

* Reorganização e actualização de textos do autor, anteriormente publicados, em parte, no Semanário Sol.

26 CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série


Fiscalidade

decénios dos portugueses e de seus partidos, associações, O funcionalismo público, onde praticamente não se
sindicatos, que nas alturas de tomadas de posições neces- premeiam os melhores e em que todos têm emprego (vi-
sárias se colocaram sempre em oposição uns aos outros e talício), mesmo os que não exercem as suas funções com
nunca, ou quase nunca, em concertação. Entenderam, de- empenho, veio sempre em crescendo, em número e em
magogicamente, ir contra as medidas que conviria tomar encargos.
no País. Desde o 25 de Abril que se praticam excessos e A produção no País é inferior ao consumo e a comu-
abusos, incluindo atribuições de rendimentos e de benesses nidade portuguesa vem assim acumulando défices, endi-
a todos os que recalcitrem com alguma força contra o es- vidamento.
tatuído, exigindo mais (sempre mais). Em certos casos, até A acrescer, observa-se que, em geral, os partidos conver-
será pouco. Porém, tem de ponderar-se que não se pode dar gem na atribuição de prebendas aos políticos. Um caso que
além do que se tem. temos sublinhado, e que não esquecemos, é o da legislação
na qual a Assembleia da República atribuiu aos deputados
III. Como salvar Portugal? (e demais agentes políticos) que exercessem funções du-
rante um certo período de anos (oito, agora doze), pensão
O que vem acontecendo no nosso País está a che- vitalícia, sem articulação com quotizações para a Segurança
gar a um ponto que muitos analistas vêm referindo que Social, como é exigido aos demais trabalhadores.
acabará em desfecho calamitoso. E porquê? Porque se Nas situações existentes torna-se cada vez mais difícil
inseriram no nosso viver opções que, idealmente ou encontrar receitas através de impostos e de outros tributos
ideologicamente, se foram aceitando, pois derivavam que permitam acorrer à totalidade dos gastos públicos que
de soluções introduzidas democraticamente. Só que tais estão incomportáveis. Assim, ao problema económico do
soluções, em regra, não foram ponderadas nas suas con- défice crónico da balança comercial junta-se o do défice
sequências negativas, designadamente na economia na- orçamental, também algo crónico e impossível de conter.
cional e nas finanças públicas. Damos alguns exemplos
elucidativos. Que soluções, então, para salvar Portugal?
A Constituição da República de 1976 introduziu o
direito à greve (art. 58º) e a proibição do despedimento A promiscuidade entre Estado, empresas públicas e algu-
sem justa causa (art. 53º). Mas algumas greves tornaram-se mas grandes empresas privadas tornou-se chocante. As clas-
abusivas e, em geral, acabaram por ser praticadas, apenas, ses profissionais não transigem nas suas exigências. As remu-
em empresas públicas e nos serviços do Estado, ou seja, nerações e as reformas escandalosas e abusivas de gestores de
exactamente onde, por vocação, se deve estar à disposição empresas públicas, alguns escândalos na banca, os processos
de todos e em particular dos utentes mais pobres, ou dos judiciais que se eternizam (devido a sucessivos recursos e a
que mais precisam. incidentes dilatórios variados), e acabam por prescrever (ou
Quanto à proibição de despedimentos sem justa cau- em absolvições por provas não aceites ou falsas e consabidas).
sa, derivou, daí, em face de crises conjunturais passadas, Autênticos desaforos que continuam a descredibilizar um pi-
ou da crise geral vivida, desde 2008, que muitas empresas, lar fundamental da Nação, que é a Justiça.
em particular médias e pequenas e do sector industrial, so- Estes factos prejudicam o País (tornam-no ingerível).
freram gravames nos custos da sua produção. É que, com E os partidos? Os seus eleitos parece entenderem que o
as crises, houve quebras de encomendas, ficando o pessoal objectivo deve centrar-se em oposição aos eleitos dos ou-
inactivo. Mas os encargos de mão-de-obra mantiveram-se, tros partidos. ainda que desadequada ou mentirosa. O(s)
acabando as empresas em falência. Surgiu, assim, no fim, partido(s) que estiver(em) a governar sofre(m) oposição
a cessação de trabalho, para todos, e não só para exceden- desapiedada, algo incorrecta, dos partidos da oposição.
tários. Esta é a realidade, pelo que a resposta ao título deste texto
revela-se difícil. Impossível? Possível só através de milagre?
Tragédia De solução excepcional?
Quererão os portugueses, em face do estado do seu
O que vem acontecendo no nosso País está a chegar a País, prescindir de excessos e de benesses (os que as têm)?
um ponto que muitos analistas vêm referindo que aca- Darem exemplos de boas condutas? Poderá o investimen-
bará em desfecho calamitoso. to aparecer de novo? Os que estão a beneficiar de refor-

CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série 27


Fiscalidade

mas excessivas e injustas prescindirão de parte delas? A Nos pontos anteriores acentuámos que Portugal foi
ambição pode ser contida e acabará a corrupção de quem, atingido por crise (económica), o que quer dizer que está
detendo cargos e responsabilidades sociais, não olha a (economicamente) doente. A doença de Portugal não é
meios? Será possível regeneração? Como regenerar? Dar só económica, é também política (e isso é muito pior).
bons exemplos, debelar males existentes e sair da actual O sistema político em que se vive é de Democracia, mas
situação em que se caiu? Será que os eleitos são capazes de há decénios que se degrada. Há maus eleitos. Mas o pior é
actuar conjugadamente? No sentido de viabilizarem pro- que muitos eleitores também são maus. Em eleições havidas
postas para a salvação nacional? Ou ter-se-á de acabar em verifica-se que os suspeitos, ou acusados, de crimes, quando
revolução, que mude as estruturas que estão a apodrecer? concorrem nas eleições, são os preferidos pela maior parte
dos eleitores.
IV. As respostas A COMO SALVAR Um País em democracia, doente e em crises tem de
PORTUGAL curar-se, para não morrer. Eis o que se entende de acentu-
V. PORTUGAL DOENTE ar. Talvez em comunicação seguinte se procure explicar um
 A versão original deste artigo, disponível no Portal INFOCONTAB em
pouco mais (Camões, no fim da sua vida, doente, triste-
www.infocontab.com.pt no menu “Mestres-Professores/Rogério Fernandes mente, disse ao “menos morro com a Pátria”).
Ferreira (1929 - ...)/Artigos”, contém este capítulo que, com a anuência
do Professor, foi suprimido, pois o mesmo inclui depoimentos pessoais de **Professor Catedrático Jubilado
diversos amigos e colegas do Professor de resposta ao texto. e Consultor de Empresas

De acordo com Carlos Santos

Novo “Pacote IVA” garante


mais receita ao Estado português
O novo “Pacote IVA” está em vigor na União Euro- de IVA que deve ser aplicada. Ou seja, as prestações de
peia. Tem alterações que incluem o facto de o IVA nos serviços efectuadas entre contribuintes de IVA passam a
serviços entre empresas (B2B) passar, em regra, a ser pago localizar-se no destino, onde ocorre, em princípio, o acto
no país de consumo e não no país onde o fornecedor está de consumo.
localizado. Nos serviços empresa-consumidor, o IVA con- Quanto à regra geral de localização das prestações
tinuará a ser pago no Estado-membro onde o fornecedor de serviços efectuados entre sujeitos passivos e parti-
está estabelecido. Carlos Santos, ex-secretário de Estado culares, continua a ser a mesma, ou seja, continuam a
dos Assuntos Fiscais, explicou à “Contabilidade & Em- localizar-se na origem – sede, estabelecimento estável
presas” o que há a esperar da entrada em vigor de duas ou domicílio do prestador. No entanto, estão previstas
regras gerais de localização das prestações de serviços, con- excepções relevantes, adianta Carlos Santos. “O objec-
soante as operações se efectuem entre sujeitos passivos ou tivo das regras especiais de localização ou excepções é
entre sujeitos passivos e particulares. localizar as prestações de serviços onde ocorre o acto de
A Comissão Europeia adoptou uma proposta sobre a consumo. Passa a suceder, por exemplo, relativamente
implementação de medidas para evitar as situações de du- aos serviços de restauração, locação de meios de trans-
pla tributação, susceptíveis de surgirem como resultado de porte, serviços culturais, desportivos, científicos, edu-
divergência da interpretação das novas regras. Assim, exis- cativos e prestações de serviços de telecomunicações,
tem directrizes para os fornecedores sobre a localização e a radiodifusão, televisão ou comércio electrónico presta-
situação fiscal do cliente, pois esta é que determina a taxa dos a particulares.”

28 CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série


Fiscalidade

De notar que as regras de localização das prestações de


serviços de telecomunicações, radiodifusão e televisão e Regime de reembolsos
serviços electrónicos, no caso de o adquirente ser um par- mais simplificado
ticular, entrarão em vigor, de facto, a partir de Janeiro de
2015. Desde essa data até 2019 acordou-se um esquema
progressivo de repartição da receita. O Estado-membro de
estabelecimento do prestador irá reter 30% da receita en-
tre 2015 e 2016, passando para 15% de Janeiro de 2017
até ao final do ano seguinte e, finalmente, para a taxa zero
a partir de Janeiro de 2019 em diante.
“Sendo assim, as prestações de serviços de telecomu-
nicações, radiodifusão e televisão e de comércio electróni-
co efectuadas a particulares passarão a localizar-se onde o
consumidor se encontra estabelecido, tem domicílio ou
residência habitual”, explica o fiscalista. Decorre da transposição da directiva um novo regime de
reembolso do IVA a sujeitos passivos estabelecidos noutro
Garantir situações de maior transparência Estado-membro ou fora do espaço comunitário, adverte o
gabinete de advogados PLMJ.
O novo regime visa um procedimento de reembolso mais
Importa saber quais as consequências desta directiva
simplificado, através do recurso aos meios electrónicos,
para o nosso país, em particular. É um facto que estáva- para efeitos de recepção e processamento dos novos pedi-
mos a perder receita com as anteriores regras de localização dos. Prevê ainda a ampliação do prazo para apresentação
de determinadas prestações de serviços, regras essas agora dos pedidos, que passam a poder ser apresentados ao dia
alteradas. “No tocante às telecomunicações, são conheci- 30 de Setembro do ano civil seguinte àquele em que o
das situações de cartões telefónicos e serviços de acesso imposto se tornou exigível, ao invés do último dia útil do
à internet consumidos em Portugal por particulares que mês de Junho.
Também é reduzido o prazo de decisão para quatro meses,
são prestados por operadores do Luxemburgo, ficando a
contra os anteriores seis meses previstos. Findo o referido
receita neste país.” prazo de quatro meses sem que tenha sido proferida deci-
No sector da restauração e hotelaria, com a anterior são, passam a considerar-se, tacitamente, indeferidos os
regra da sede do prestador, havia situações em que a mes- pedidos de reembolso para efeitos de reclamação ou im-
ma era utilizada para obstar à tributação em Portugal dos pugnação. Todas estas regras já entraram em vigor.
serviços cá consumidos. “Bastava os serviços serem glo-
balmente facturados a sujeito passivo de outro país que, verificava-se que existiam operadores de outros países da
por sua vez, os facturava aos turistas que para cá se deslo- UE que adquiriam viaturas em Portugal e locavam-nas a
cavam. O consumo ocorria em Portugal e a receita ficava partir da sua sede. O que significava que as viaturas esta-
noutro Estado-membro.” vam cá, os consumos eram realizados em Portugal, mas a
Em relação à locação de meios de transporte, Carlos receita ficava noutro Estado-membro.
Santos assume que a anterior regra – sede do prestador Por último, há que ter em conta uma perda de compe-
– também dava origem a perdas de receita para Portugal. titividade, dadas as novas regras de localização das presta-
Situações havia de operadores de outros Estados-mem- ções de serviços de telecomunicações e das prestações de
bros a adquirirem a “rent-a-car” nacionais serviços de serviços efectuadas via electrónica, que irá afectar, essen-
locação de viaturas. O operador nacional liquidava im- cialmente, a localização de empresas na Região Autónoma
posto português. O operador de outro Estado-membro da Madeira.
recuperava esse IVA ao abrigo da Oitava Directiva e dava O referido “Pacote IVA” foi adoptado pelos Estados-
em locação as viaturas a turistas que cá se deslocavam. -membros no Conselho ECOFIN, em Fevereiro de 2008.
O IVA liquidado na locação ficava noutro país comuni- De notar que também contém regras sobre um procedi-
tário. As viaturas nunca saíam de Portugal e o consumo mento electrónico mais rápido e eficiente para as empre-
era cá realizado. sas reclamarem o IVA que pagam num Estado-membro,
Ainda em relação à locação de meios de transporte, que não aquele onde estão estabelecidas.

CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série 29


Fiscalidade

Ministério das Finanças avisa

Tributação autónoma pretende evitar


situações de abuso continuado
A tributação autónoma continua a suscitar muitas dú- Por sua vez, se o valor dos referidos encargos esti-
vidas entre os agentes económicos, pelo que o Ministério ver expressamente mencionado na facturação emitida ao
das Finanças, através da Direcção-Geral dos Impostos, cliente, mas o sujeito passivo não possuir elementos de
optou por esclarecer quando é que os contribuintes estão prova que permitam comprovar a despesa, será posta em
ou não sujeitos à referida tributação. O que está em cau- causa a indispensabilidade do respectivo custo e, conse-
sa é uma norma antiabuso, já que o ministério considera quentemente, não serão aqueles encargos considerados
que as despesas com ajudas de custo são de difícil com- dedutíveis fiscalmente. O que significa que, neste caso,
provação e correspondem, com frequência, a salários dos os encargos não são tributados autonomamente.
trabalhadores. Assim, o legislador optou que tais despesas
só seriam aceites como custos fiscais se o montante fosse Encargos não facturados ao cliente
imputado aos clientes e expressamente mencionado na
facturação emitida. Mas há outras situações que importa ter em conta.
São tributados autonomamente à taxa de 5% os Uma é quando os encargos não são facturados ao clien-
encargos dedutíveis relativos a despesas com ajudas de te, mas o contribuinte possui o necessário mapa através
custo e com compensação pela deslocação em viatura do qual é possível efectuar o controlo das deslocações
própria do trabalhador, ao serviço da entidade patronal, a que respeitam tais encargos. Designadamente os res-
não facturadas a clientes, escrituradas a qualquer título, pectivos locais, tempos de permanência, objectivo e, no
excepto na parte em que haja lugar a tributação em sede caso de deslocação em viatura própria do trabalhador,
de IRS na esfera do respectivo beneficiário, bem como identificação da viatura e do seu proprietário, tal como
os encargos não dedutíveis suportados pelos contribuin- o número de quilómetros percorridos. Então os mes-
tes que apresentem prejuízo fiscal no exercício a que os mos são dedutíveis. No caso em apreço, os encargos são
mesmos respeitem. tributados autonomamente à taxa de 5%, como consta
O Ministério das Finanças chama a atenção para vá- do CIRC.
rias situações e a que os agentes económicos deverão estar Se tais encargos não forem facturados aos clientes e
atentos. É o caso dos encargos com ajudas de custo e com não estiverem devidamente documentados com o mapa
compensação pela deslocação em viatura própria do tra- já mencionado, então o seu encargo não é fiscalmente
balhador que não representam rendimento do trabalho dedutível. Trata-se de uma situação em que os encargos
tributável em sede de IRS na esfera do beneficiário. Se o não estão sujeitos a tributação autónoma, excepto se o
valor dos referidos encargos estiver expressamente men- sujeito passivo apresentar prejuízos fiscais no exercício
cionado na facturação emitida ao cliente – e desde que a que o mesmo respeita, caso em que há lugar a essa
devida e especificamente comprovadas –, será o respectivo tributação autónoma (também à taxa de 5%, como an-
custo fiscalmente aceite. Neste caso, não há lugar a qual- teriormente).
quer tributação autónoma.
Finalmente, se os encargos com as ajudas de custo e
com a compensação pela deslocação em viatura própria
Normativo do trabalhador constituírem rendimento do trabalho
dependente e implicarem tributação em sede de IRS na
O que está em causa é uma norma antiabuso, já que esfera dos respectivos beneficiários, então não se levan-
o ministério considera que as despesas com ajudas de tam quaisquer dúvidas quanto à sua dedutibilidade – os
custo são de difícil comprovação e correspondem, com encargos são dedutíveis na sua totalidade – e não há lugar
frequência, a salários dos trabalhadores. a tributação autónoma.

30 CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série


Fiscalidade

Quebra nas receitas fiscais


faz disparar défice orçamental
O défice do subsector Estado registou um forte agra- Segurança Social
vamento no ano passado. O aumento ascendeu a 8,9
mil milhões de euros, para mais de 14 mil milhões de A Segurança Social registou, no final de Dezembro, um
euros. O acréscimo ter-se-á ficado a dever em 69% à saldo de 559,9 milhões de euros, menos 1051,6 mi-
redução na receita e a 31% ao aumento da despesa. O lhões de euros, face ao exercício anterior.
Ministério das Finanças garante que a execução da des-
pesa confirma que, no ano passado, os gastos efectuados medidas referidas incluem um aumento dos reembolsos
ficaram aquém dos valores orçamentados, relativamen- de IVA e IRC, a redução da taxa de IVA normal de 21%
te ao exercício anterior. A despesa total cresceu a uma para 20% e a transferência de mais de 389 milhões de
taxa de 6%, enquanto na despesa corrente primária a euros de receitas de IRS para os municípios”.
4,5%, sendo que o grau de execução se fixou em cerca
de 97,3%. Segurança Social não escapa à crise
O ministério de Teixeira dos Santos destaca na exe-
cução orçamental, no conjunto do ano, o crescimento Por sua vez, a Segurança Social registou, no final de
das despesas de capital (32,6%), “traduzindo o esforço Dezembro, um saldo de 559,9 milhões de euros, me-
de investimento público, designadamente no que res- nos 1051,6 milhões de euros, face ao exercício anterior.
peita à execução das medidas orientadas para a recupera- Destaque para a evolução da receita de contribuições e
ção da actividade económica, que integram o Programa quotizações que foi positiva em 0,3%, face ao ano tran-
Iniciativa para o Investimento e Emprego”. A taxa de sacto. “A execução orçamental do conjunto dos serviços
execução do referido programa passou de 53%, em No- e fundos autónomos revelou um saldo de 226,1 milhões
vembro, para quase 71%, em Dezembro. Destaca ainda de euros, representando um agravamento de 140,8 mi-
a pequena variação das despesas com remunerações cer- lhões de euros.
tas e permanentes e com a aquisição de bens e serviços. Ainda que se verifique um certo optimismo por par-
O crescimento terá sido de apenas 0,3% de um ano para te do Ministério das Finanças relativamente aos núme-
o seguinte. ros do défice do Estado, a realidade é que os mesmos
Quanto às receitas fiscais, o Governo revela algum não deixam de levantar preocupações. Afinal, o referido
optimismo, apesar de se ter verificado uma descida. défice orçamental foi três vezes superior ao do ano ante-
Adianta a este propósito o Ministério das Finanças: “A rior. Mais, parece evidente que a derrapagem se ficou a
receita fiscal do subsector Estado registou um decrés- dever, essencialmente, à quebra nas receitas fiscais. Pelo
cimo de 13,9%, relativamente a 2008, representando que o Orçamento de Estado deverá ter em conta esta
uma melhoria na execução de 0,3%, face à taxa de varia- realidade.
ção homóloga de menos 14,2% observada em Novem- Muitos analistas concordam que as previsões apon-
bro. Este resultado explica-se por melhorias na execução tam para que a receita fiscal entre numa fase de estagna-
da receita dos impostos directos e indirectos de 0,4% e ção. A criação de empresas vai manter um ritmo muito
0,1%, respectivamente.” lento, sendo até provável que se mantenha a tendência
Considera a administração fiscal que a evolução da de destruição de postos de trabalho. Para garantir um
receita fiscal “reforça a leitura de que a recuperação da nível razoável de receita fiscal, parece evidente que terá
economia portuguesa está em curso”. Refere ainda a que haver uma intensificação no combate à fraude e à
tutela que, descontados os efeitos das medidas de po- evasão fiscais. Uma outra possibilidade é fazer entrar
lítica adoptadas pelo Governo, no âmbito do combate no circuito agentes económicos que ainda estão fora
à crise económica, “constata-se que a receita fiscal teria do mesmo, ainda que se trate de uma situação cada vez
registado uma quebra de 9,8%, face ao ano anterior. As mais rara.

CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série 31


Fiscalidade

Aumentam adesões ao Sistema Nacional


de Compras Públicas
O Sistema Nacional de Compras Públicas (SNCP)
está a ter uma adesão superior às expectativas, o que é
visto com satisfação por parte do Ministério das Finan-
ças, sobretudo porque permite um maior controlo sobre
as despesas e, por outro lado, uma evidente redução dos
custos. Entretanto, o mesmo ministério também está
muito optimista quanto ao facto de ter sido publicado o
projecto de regulamento de extensão do Acordo Colec-
tivo de Carreiras Gerais (ACCG). Em ambos os casos há
implicações directas em termos orçamentais.
Durante o ano passado, aderiram ao Sistema Nacio-
nal de Compras Públicas e aos Acordos Quadro celebra-
dos pela Agência Nacional de Compras Públicas (ANCP)
mais de 200 entidades da administração local, regional
e do sector empresarial do Estado. Câmaras municipais,
organismos da administração regional, empresas públicas
e municipais podem usufruir das mesmas condições dos Projecto de extensão do acordo colectivo
organismos da administração central do Estado e proce- de carreiras gerais
der às compras de bens e serviços, ao abrigo dos acordos
quadro celebrados por aquela agência. O Ministério das Finanças também fez saber que foi
“A simplificação dos procedimentos aquisitivos, a publicado em Diário da República o projecto de regu-
normalização dos bens e serviços a adquirir, a garantia lamento de extensão do acordo colectivo de trabalho de
de níveis de serviço e de cumprimento de requisitos am- carreiras gerais, celebrado em Setembro do ano passado
bientais adequados à satisfação das necessidades públi- entre as entidades empregadoras públicas e a Frente Sin-
cas, em condições económicas e financeiras vantajosas, dical da Administração Pública e a Frente Sindical repre-
são alguns dos principais benefícios a que as entidades sentada pelo Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado.
aderentes podem aceder”, explica o Ministério das Fi- Os interessados podem pronunciar-se, por escrito, sobre
nanças. este projecto.
A ANCP já celebrou dez acordos quadro para as áreas O regulamento tem como objectivo estender aos tra-
de serviço móvel terrestre, combustíveis rodoviários, papel balhadores com contrato de trabalho em funções públi-
e economato, cópia e impressão, equipamento informá- cas por tempo indeterminado não filiados em qualquer
tico, seguro automóvel, energia, plataformas electrónicas associação sindical um conjunto de disposições, desig-
de contratação, veículos automóveis e licenciamento de nadamente no âmbito da duração e da organização do
software. Espera concluir, ao longo do presente trimes- tempo de trabalho.
tre, os acordos quadro para as áreas de higiene e limpeza, A este propósito, o ministério destaca aquelas que
mobiliário, vigilância e segurança, serviços de voz e dados permitem a adopção do regime de horário flexível, de
em local fixo, viagens e alojamentos e refeições confeccio- jornada contínua, de teletrabalho e de enquadramento
nadas (os concursos estão a decorrer). A câmara do Porto, da isenção de horário de trabalho. Considera-se que, con-
o Metropolitano de Lisboa, a Estradas de Portugal e a ferindo uma maior flexibilidade à gestão do tempo de
Parque Escolar foram as entidades que mais recentemen- trabalho, potenciam também a sua maior harmonização
te aderiram ao sistema em causa. com as vidas pessoal e familiar dos trabalhadores.

32 CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série


Fiscalidade

Impactos fiscais das NIC e do SNC


O ano agora iniciado é de profundas mudanças ao financeiros. Por exemplo, o custo amortizado é aplicado
nível da actividade contabilística. A adopção das nor- na valorização de activos financeiros respeitantes a in-
mas internacionais de contabilidade (NIC) vai repre- vestimentos detidos até à maturidade e a empréstimos
sentar um impacto fiscal considerável, como fez notar concedidos e contas a receber.
José Vieira dos Reis, revisor oficial de contas, durante No âmbito das “stock options”, nos pagamentos a
a conferência “Impacto fiscal da adopção das Normas trabalhadores e membros dos órgãos estatutários com
Internacionais de Contabilidade”, promovido pela As- base em acções, o respectivo gasto apenas concorre para
sociação Fiscal Portuguesa. A mudança implicará uma a formação do lucro tributável no período de tributação
maior responsabilização por parte dos profissionais em que os respectivos direitos ou opções sejam exercidos
da contabilidade e uma formação adequada, como se pelas quantias liquidadas ou pela diferença entre o valor
pode deduzir das explicações dadas pelo ex-bastonário dos instrumentos de capital próprio atribuídos e o preço
da Ordem dos Revisores Oficiais de Contas. de exercício pago.
O modelo do justo valor é das matérias que mais
dúvidas e interrogações tem levantado entre os profis- Alterações nos contratos de construção
sionais da contabilidade. José Vieira dos Reis explica
que se mantém o princípio da realização na formação Os contratos de construção, passam por alterações
do lucro tributável, relativamente aos ajustamentos de- significativas. A este propósito adianta José Vieira dos
correntes da aplicação do justo valor, “excepto quando Reis: “Altera-se o regime de apuramento dos resul-
respeitem a instrumentos financeiros reconhecidos pelo tados de contratos de construção, de modo a que o
justo valor através de resultados, desde que, tratando-se mesmo se faça sempre pelo método da percentagem
de instrumentos de capital próprio, tenham um preço de acabamento. Quando o desfecho de um contrato
formado num mercado regulamentado e o contribuinte de construção puder ser fiavelmente estimado, o ré-
não detenha uma participação no capital superior a 5% dito do contrato e os custos associados ao contrato de
do respectivo capital social”. construção devem ser reconhecidos como rédito e gas-
Assim, faz notar, aceita-se o modelo do justo valor tos, com referência à fase de acabamento do contrato
em instrumentos financeiros, cuja contrapartida seja re- à data do balanço.”
conhecida através de resultados, mas apenas nos casos Nas vendas e prestações de serviços, o valor a in-
em que a fiabilidade da determinação do justo valor es- cluir no lucro tributável é sempre o valor nominal da
teja assegurada. Por sua vez, manteve-se o princípio da contraprestação recebida e a receber, enquanto para
realização, relativamente aos instrumentos financeiros efeitos contabilísticos, o rédito é reconhecido pelo va-
valorizados ao justo valor, cuja contrapartida seja reco- lor actual – descontado – da contraprestação recebida
nhecida através de capitais próprios, bem como às partes e a receber.
de capital que correspondam a mais de 5% do capital Por outro lado, deu especial atenção à questão dos
social, ainda que reconhecidas pelo justo valor através inventários. “O ajustamento (imparidade) dos inventá-
de resultados. rios é dado pela diferença entre o custo de aquisição ou
Finalmente, importa notar que se “aceita igualmen- de produção dos mesmos e o respectivo valor realizável
te o modelo do justo valor na valorização dos activos líquido referido à data do balanço quando este for in-
biológicos consumíveis que não respeitem a explora- ferior àquele. Entende-se por valor realizável líquido o
ções silvícolas plurianuais, bem como nos produtos preço de venda estimado no decurso normal da activida-
agrícolas colhidos de activos biológicos no momento de do contribuinte, deduzido dos custos necessários de
da colheita”. acabamento e venda.”
Quanto ao custo amortizado, acolhe-se o mesmo para Consideram-se para este efeito preços de venda os
o apuramento dos rendimentos ou gastos decorrentes da constantes de elementos oficiais, os últimos praticados
aplicação do método do juro efectivo aos instrumentos pelo contribuinte ou os correntes no mercado desde que

CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série 33


Fiscalidade

sejam idóneos e de controlo inequívoco. “No caso de Ainda neste âmbito, elimina-se a exigência de evi-
os inventários requererem um período superior a um denciar separadamente na contabilidade a parte do valor
ano para atingirem a sua condição de uso ou venda, in- dos imóveis correspondentes ao terreno, transferindo-se
cluem-se no custo de aquisição ou de produção os cus- essa exigência para o dossier fiscal. E passam a ser aceites
tos de empréstimos obtidos que lhes sejam directamente para efeitos fiscais depreciações ou amortizações infe-
atribuíveis, de acordo com a normalização contabilística riores às quotas mínimas. A partir da sua classificação
especificamente aplicável.” como activos não correntes detidos para venda, aos acti-
vos sujeitos a deperecimento deixam de ser aplicáveis as
Depreciações e amortizações depreciações ou amortizações para efeitos fiscais. “Desde
significam diferenças contabilísticas que contabilizadas ao custo histórico, as propriedades
de investimento podem ser objecto de depreciação para
As depreciações e amortizações para efeitos fiscais po- efeitos fiscais.”
dem dar lugar a significativas diferenças contabilísticas.
Por exemplo, quanto ao conceito de valor depreciável, Perdas por imparidade
ao valor residual, à escolha do método de depreciação, à
estimativa da vida útil, à depreciação por componentes As perdas por imparidade são dedutíveis para
e à data de início das depreciações e amortizações, facto efeitos fiscais apenas no caso de créditos e de desva-
que levou José Vieira dos Reis a debruçar-se de forma
lorizações excepcionais verificadas em activos fixos
mais promonorizada sobre a matéria.
tangíveis, activos intangíveis, activos biológicos não
Desenvolvendo, a dedutibilidade fiscal das depre-
consumíveis e propriedades de investimento prove-
ciações e amortizações “deixa de estar dependente
nientes de causas anormais devidamente comprova-
da respectiva contabilização como gasto no mesmo
das ou alterações significativas, com efeito adverso,
período de tributação, podendo ser também aceites
no contexto legal.
quando tenham sido contabilizadas como gastos nos
Quanto às perdas por imparidade de activos depre-
períodos de tributação anteriores, desde que não te-
ciáveis ou amortizáveis não aceites como desvalorizações
nham sido dedutíveis por excederem as quotas máxi-
excepcionais, são consideradas como gastos, em partes
mas admitidas”.
iguais, durante o período de vida restante desse activo
Além disso, prevê-se a inclusão no custo de aqui-
ou até ao período de tributação anterior àquele em que
sição ou de produção dos elementos depreciáveis ou
se verificar o abate físico, o desmantelamento, o aban-
amortizáveis dos custos de empréstimos obtidos, in-
dono, a inutilização ou a transmissão do mesmo. “Nos
cluindo diferenças de câmbio a eles associadas, quan-
demais casos, a aceitação das perdas por imparidade so-
do respeitarem ao período anterior à sua entrada em
mente ocorre no período de tributação da sua efectiva
funcionamento ou utilização, desde que superior a um
ano. realização.”
“Elimina-se a exigência de diferimento, durante As perdas por imparidade em créditos continuam
um período mínimo de três anos, das despesas com a ser aceites para efeitos fiscais se cumprirem determi-
a emissão de obrigações dos encargos com campa- nadas regras do CIRC, designadamente encontrar-se o
nhas publicitárias e dos encargos financeiros e das crédito vencido há mais de seis meses. Para efeitos con-
diferenças cambiais desfavoráveis relacionados com tabilísticos, as perdas por imparidade em créditos são
o imobilizado e correspondentes ao período anterior reconhecidas quando se estima uma perda, podendo, no
à sua entrada em funcionamento”. limite, ter de se reconhecer perdas de imparidade em
créditos ainda não vencidos.
Vieira dos Reis faz notar que se aceitam para efei-
Valor depreciável tos fiscais as provisões para garantias a clientes, embora
sujeitas a determinado limite, em função dos encargos
A aplicação do regime fiscal das depreciações e amorti- efectivos com garantias em três períodos de tributação
zações pode dar lugar a diferenças contabilísticas essen- anteriores. O limite é determinado tendo em conta os
ciais quanto ao conceito de valor depreciável. encargos efectivos de garantias dos últimos três anos e as

34 CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série


Fiscalidade

vendas e prestações de serviços com garantia dos últimos mentos do elemento coberto reconhecidos em resul-
três anos. tados – ainda que não realizados – concorrem para a
formação do lucro tributável, na exacta medida dos
Gastos de créditos incobráveis no PEC ajustamentos de sinal contrário, gerados pelo instru-
mento de cobertura.”
Já no que respeita ao pagamento especial por conta, Nas operações de cobertura de fluxos de caixa ou de
aceitam-se como gastos de créditos incobráveis resultan- cobertura do investimento líquido numa unidade ope-
tes de procedimento extrajudicial de conciliação (PEC) racional estrangeira, os ajustamentos gerados pelo ins-
para viabilização de empresas em situação de insolvência trumento de cobertura são diferidos (na parte conside-
ou em situação económica difícil (mediado pelo IAP- rada eficaz), até ao momento em que os ajustamentos do
MEI). elemento coberto concorram para a formação do lucro
Também se aceita para efeitos fiscais a dedução das tributável.
contribuições suplementares para fundos de pensões e Vieira dos Reis chama a atenção para o facto de, se
equiparáveis destinadas à cobertura de responsabilida- existirem correcções ao valor de transmissão de direitos
des com benefícios de reforma que resultem da aplica- reais sobre imóveis, deixar de ser exigida ao adquirente
ção das NIC – adoptadas pela União Europeia ou do desses direitos a respectiva contabilização pelo valor pa-
SNC – repartidas em partes iguais por cinco períodos trimonial tributário definitivo para que o mesmo seja
de tributação. considerado para efeitos de determinação de qualquer
Na sua intervenção, o revisor oficial de contas abor- resultado tributável em IRC. Lembra ainda que “o re-
dou a questão das mais e menos-valias fiscais: “São gime especial de neutralidade fiscal aplicável às fusões,
abrangidos pelo regime das mais e menos-valias fiscais cisões e entradas de activos deixa de estar dependente
os activos fixos tangíveis e intangíveis, os activos bioló- das condições exigidas relativamente à contabilização
gicos não consumíveis, as propriedades de investimen- dos elementos patrimoniais transferidos”.
to, ainda que qualquer destes activos tenha sido reclas- Finalmente, convém ter em conta o que se passa
sificado como activo não corrente detido para venda no que respeita ao regime transitório. Vieira dos Reis
e os instrumentos financeiros, com excepção daqueles adianta: “Os efeitos nos capitais próprios decorrentes da
em que os ajustamentos decorrentes da aplicação do adopção, pela primeira vez, dos novos referenciais conta-
justo valor através de resultados concorrem para a for- bilísticos e que sejam considerados relevantes para efei-
mação do lucro tributável no período de tributação.” tos fiscais concorrem em partes iguais para a formação
Por sua vez, a correcção monetária não é aplicável aos do lucro tributável durante cinco períodos de tributa-
instrumentos financeiros, salvo quanto às partes de ca- ção, sem prejuízo das entidades que já os aplicavam este
pital. período se contar a partir daquele em que os referenciais
Para efeitos da aplicação do regime do reinvestimen- se aplicaram pela primeira vez.”
to dos valores de realização, são fiscalmente aceites os No entanto, as despesas com a emissão de obriga-
activos tangíveis, biológicos não consumíveis e as pro- ções, os encargos com campanhas publicitárias e os en-
priedades de investimento afectos à exploração, com cargos financeiros e as diferenças cambiais desfavoráveis
excepção dos bens adquiridos em estado de uso a con- relacionadas com o imobilizado e correspondentes ao
tribuinte de IRS ou IRC, com o qual existam relações período anterior à sua entrada em funcionamento, reco-
especiais. nhecidos como gastos e ainda não aceites fiscalmente, a
partir da transição concorrem para a formação do lucro
A formação do lucro tributável tributável, de acordo com o regime que era adoptado.
E às mais ou menos-valias fiscais de elementos do
Os ajustamentos decorrentes da aplicação do justo activo imobilizado que tenham beneficiado do ante-
valor a instrumentos financeiros derivados ou a qual- rior regime de reinvestimento e cujos valores de rea-
quer outro activo ou passivo financeiro utilizado como lização ainda não tenham sido reinvestidos é aplicável
instrumento de cobertura restrito à cobertura do cam- o disposto na nova redacção do regime, mantendo-se,
bial concorrem para a formação do lucro tributável. contudo, o prazo original para a concretização desse
“Nas operações de cobertura de justo valor, os ajusta- reinvestimento.

CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série 35


auditoria

Ética e auditoria
António Lopes de Sá* que em livro escrevi mostrando os graves erros da có-
Conhecida é a existência de processos na Justiça en- pia do modelo anglo-saxão, relativos à Lei 6404/76,
volvendo profissionais da Contabilidade em relação às só agora alguns são corrigidos em novas leis, mais de
opiniões que emitiram sobre demonstrações. trinta anos depois. Diversos erros, todavia, ainda per-
Como o Contador é um preposto, terceiros se valem manecem.
do que ele assina e quando as situações informadas não Ao discordar, jamais em meus pareceres afirmei que
correspondem à realidade ocorrem, então, os problemas as situações de uma empresa eram correctas simplesmen-
que vão ter ao judiciário. te porque uma norma ou uma lei as exigia, mas apenas
Dentre os diversos casos já ocorridos, um dos mais que seguiam disposições obrigatórias; se era a minha opi-
recentes foi o relativo ao financista Bernard Madoff, que nião que se requeria, era essa que deveria oferecer, respei-
aplicou um calote de cerca de 50 mil milhões de dólares tando o preceito ético, evitando a prejudicar terceiros. A
no mercado através da empresa que possuía e que tinha capacidade de julgamento é um princípio que, tolhido,
balanços auditados. também subtrai o direito fundamental de liberdade do
Inquiridos sobre os pareceres, os auditores responde- ser humano.
ram que haviam seguido as “normas”, segundo difundiu Aquele que sonega a si mesmo o direito de dizer tor-
a imprensa. na-se indigno consigo mesmo.
Tudo isto ocorreu e tenderá a suceder enquanto  Discordei e ainda discordo de algumas normas de
prevalecerem critérios subjectivos e “negociação de entidades estadunidenses, da própria IASB (filha do
normas”, como a imprensa depreciativamente se re- mundo anglo-saxão), assim como do IFAC, e se não im-
feriu recentemente (CFO, 11 de Março de 2008, em ponho ideias a ninguém, também não omito as próprias
“Hot Times for Accounting Officials”, comentário de quando requerida a minha opinião; só me curvo diante
David M. Katz). da ciência, da realidade objectiva; jamais cedi espaços às
O fato de existir uma norma contabilística legal, ofi- imposições ou as empreguei como minhas, pois a cons-
cial, de entidade de classe ou governamental não significa ciência ética profissional não se deve formar pelo que
que o profissional deva aceitá-la de forma absoluta como é compulsório, mas pelos efeitos da inteligência como
base para sua opinião, embora compelido a cumpri-la; outorga divina que é, a menos que o indivíduo resolva
não podendo evitá-la, deve ressalvar, apresentando seu abdicar a si mesmo.
julgamento próprio e que pode ser até contrário ao texto O uso da liberdade de expressão pelo profissio-
legal; por várias vezes, emiti opinião dizendo que a situ- nal chega a ser um dever ético quando requerida é a
ação informada tinha sido feita para cumprir a lei, mas opinião; o discordar de consensos, normas, leis não
que esta tecnicamente se achava errada em meu modo significa desobedecer, nem insurgir-se contra a ordem
de entender. pública – é um direito do cidadão; é absolutamente
Assim, por exemplo, em certa época, embora legal, a lícito o contador expressar o contraditório e obrigação
“correcção monetária” no Brasil eu dela discordava quan- moral é fazê-lo quando implica informação a terceiros
to ao critério, esse que era económico e não contábil; sobre erros que ferem a realidade objetiva patrimo-
assim opinei, afirmando que o demonstrado estava de nial.
acordo com a lei, mas, em face da realidade objectiva, Assim, por exemplo, posso afirmar que bens arren-
encontrava-se errado, porque o denominado “lucro in- dados se encontram demonstrados no Activo segundo as
flacionário” era uma “fantasia de números”, mas não um Normas que a lei obriga a seguir, mas, do ponto de vista
aumento real de função da riqueza; mais tarde, os tri- ético, não posso omitir minha opinião de que se trata de
bunais superiores de Justiça confirmariam a opinião que algo errado tecnicamente em face da realidade, em caso
por dever ético emiti. de necessidade de liquidação dos referidos.
Muitas outras opiniões diferentes do legislado e
*Professor Universitário
normatizado as tive, como ainda as tenho; matérias e Consultor de Empresas

36 CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série


auditoria

Normas Internacionais
de Auditoria Clarificadas
É a nova designação das Normas Internacionais de
Auditoria (NIA), ou, na terminologia anglo-saxónica, ISA
(International Standards of Auditing). A propósito desta
nova designação, o ROC Gastambide Fernandes, em en-
trevista à revista Revisores – Auditores (n.º 47, de Outubro/
Dezembro de 2009, p. 3), esclareceu:
“Este projecto da IFAC, que surgiu no ano de 2005,
destinou-se a dar resposta a várias críticas de reguladores e
de utentes que se queixavam da falta de consistência entre as
normas e da existência de muitos pontos de ambiguidade.
Trabalhando em cooperação com o Public Interest Oversi-
ght Board (PIOB), o International Auditing and Assurance
Standards Board (IAASB) encetou o chamado “Projecto de
Clareza”, com o fim de substituir todas as normas até então
em vigor, mesmo aquelas que recentemente tinham sido
revistas (revised) ou refeitas (redrafted).
Em consequência desta substituição e para evitar con-
fusões, adjectivaram-se estas novas normas de ‘clarificadas’
(clarified).” - Desenvolvimento da norma relativa às entidades que
Ainda nessa excelente entrevista, Gastambide Fernan- usem organizações de serviços, com vários requisitos
des informa que as NIA/ISA foram alteradas na sua forma muito exigentes que incidem sobre a organização de
e substância, e relativamente a esta sublinhou os seguintes serviços e a entidade e os respectivos auditores.
aspectos: - Introdução em muitas normas de Considerações Espe-
- Distinção entre referencial contabilístico de apresenta- ciais para as Pequenas Entidades e de Considerações
ção apropriada e referencial contabilístico de cumpri- Específicas para as Entidades do Sector Público.
mento. - Separação no relatório do auditor da opinião sobre as
- Subordinação a requisitos éticos de independência, evi- demonstrações financeiras da opinião sobre outros re-
denciada sobretudo no título do “Relatório Auditor quisitos legais ou regulamentares.
Independente”. - Introdução do conceito de materialidade do desempe-
- Existência de duas normas para tratar o controlo de nho, diferente do conceito de materialidade das de-
qualidade; uma para ser aplicada antes da finalização monstrações financeiras.
do relatório do auditor, e outra para ser aplicada pelas - A aplicação da norma sobre “Acontecimentos Subse-
firmas de auditoria, sociedades de revisores e revisores quentes” pode trazer conflitos com a legislação portu-
individuais nos seus escritórios. guesa, sobretudo no que se refere à eventual emenda
- Mantém a distinção entre “gerência” (management) e ou substituição do relatório do auditor.
“encarregados da governação” (those charged with go- - Desenvolvimento da norma sobre auditorias de grupo,
vernance) que é transversal a grande número de nor- regulando com muito pormenor as relações entre a
mas. Esta distinção poderá causar, no caso português, gerência do grupo, a gerência do componente e os res-
e em entidades que não sejam de grande dimensão, pectivos auditores.
dificuldades não só na distinção como na aplicação das
normas que a elas se refiram. A entrevista está disponível no sítio da OROC em
- Distinção entre “perito do auditor” e “perito da gerência”. www.oroc.pt.

CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série 37


auditoria

Revisores Oficiais de Contas


com controlo de qualidade mais exigente
Os revisores oficiais de contas estão sujeitos a um sistema Cabe-lhe ainda propor guias de controlo a utilizar por aque-
de controlo de qualidade. No âmbito da legislação comuni- les últimos e preparar e submeter à aprovação do Conselho
tária, a Ordem dos Revisores Oficiais de Contas procedeu a Directivo o seu orçamento anual, a integrar no orçamento
várias alterações no processo de controlo de qualidade, quer da Ordem.
quanto aos profissionais, quer no que se refere às respectivas
sociedades. O controlo é regulamentado pela Ordem, caben- Deveres claramente definidos para as partes
do a supervisão ao Conselho Nacional de Supervisão de Au-
ditoria (CNSA). Dois grandes objectivos estão inerentes ao Não menos determinante é o facto de a Comissão emi-
novo regulamento. Por um lado, pretende-se a verificação da tir o parecer relativo a cada controlo e submetê-lo ao Con-
aplicação das leis e regulamentos profissionais e das normas selho Directivo para homologação e promover a execução
de auditoria em vigor. Por outro, trata-se de promover a me- de controlos de qualidade não constantes do plano anu-
lhoria da qualidade, incentivando os revisores a adoptarem al. Também lhe cabe promover as acções necessárias para
as práticas profissionais mais adequadas. fornecer ao CNSA as informações e os outros elementos
O controlo de qualidade da actividade exercida pelos relacionados com o controlo de qualidade, solicitados por
revisores deve ser efectuado em conformidade com um pla- aquela entidade.
no anual, o qual envolve a avaliação global da actividade e A referida Comissão do Controlo de Qualidade tem
a verificação de que os profissionais possuem dossiers de tra- deveres bem definidos, essenciais para a eficácia e a transpa-
balho instruídos de acordo com o previsto nas normas de rência do processo. Os seus membros devem declarar-se im-
auditoria em vigor. De notar que devem ser ainda sujeitos a pedidos de participarem na análise de dossiers, bem como
controlo os revisores que revelem manifestar desadequação na emissão de parecer relativo a cada controlo, sempre que
dos meios humanos e materiais utilizados, face ao volume exista um conflito de interesses com o revisor sujeito a con-
de serviços prestados, e apresentem fortes indícios de in- trolo ou com as entidades às quais os dossiers digam respei-
cumprimento das normas em vigor. to. Naturalmente, terão que guardar sigilo sobre quaisquer
Em todo este processo é tido como muito importante factos, documentos ou informações de que tomem conhe-
o artigo relativo às conclusões do controlo de qualidade. cimento no exercício das suas funções.
Estas deverão permitir a avaliação do grau de adequação A selecção dos revisores que serão submetidos a controlo
dos meios técnicos e humanos utilizados, do sistema inter- de qualidade será realizada anualmente por sorteio público.
no de controlo de qualidade implementado e mesmo dos Incluirá ROC e sociedades que realizem revisão/auditoria
honorários cobrados. Determinam se foram cumpridas as às contas de entidades públicas e de outras entidades. A
normas e os regulamentos aplicáveis ao exercício da activi- Comissão deverá fixar e divulgar, publicamente, os critérios
dade e se os relatórios e pareceres emitidos estão suportados de selecção anuais, os quais devem assegurar que todos os
pelo trabalho desenvolvido. No caso dos revisores de enti- revisores são objecto de um controlo em cada período de
dades de interesse público, pretende-se uma avaliação do três anos, para os revisores entidades de interesse público, e
teor mais recente do relatório anual de transparência. de seis anos para os restantes.
Quanto a competências, cabe à Comissão do Controlo O acompanhamento e a monitorização assumem espe-
de Qualidade propor ao Conselho Directivo da Ordem o cial destaque. A Comissão do Controlo de Qualidade dará
plano anual de intervenção, relativamente aos controlos a indicação ao revisor das indicações resultantes das acções
efectuar e promover a sua execução, bem como seleccionar que devem ser adoptadas, estabelecendo um prazo não su-
os controladores-relatores a designar pelo Conselho Direc- perior a 12 meses. Por seu lado, o revisor deverá adoptar as
tivo. É da responsabilidade da Comissão definir os procedi- recomendações que lhe tenham sido dirigidas e informará
mentos a seguir quando ocorrem eventuais conflitos entre a Ordem sobre o modo e a forma como procedeu à respec-
os revisores sujeitos a controlo e os controladores-relatores. tiva adopção.

38 CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série


auditoria

De acordo com o Plano de Actividades para este ano

Ordem dos Revisores Oficiais de Contas


quer mais transparência no sector
A Ordem dos Revisores Oficiais de Contas (OROC) Formação mantém importância
antecipa um ano de 2010 fortemente condicionado
A formação continuará a ter um peso muito impor-
pela crise internacional. O futuro das empresas é vis-
tante na actividade da Ordem, como se pode concluir do
to com preocupação e o Plano de Actividades e Orça-
Plano de Actividades. O curso de preparação para candi-
mento pretende dar resposta no sentido do reforço da
datos a ROC terá uma carga horária total de 256 horas e
credibilidade e da melhoria da transparência, ajudan-
é estruturado em quatro grupos de módulos de 64 horas
do a criar um clima de maior estabilidade e de mais
cada. As acções de formação são ministradas no Porto e
confiança entre os agentes económicos. Quanto à acti-
em Lisboa, incidindo prioritariamente nas áreas de audi-
vidade da instituição, tudo indica que ficará marcada
toria, contabilidade, fiscalidade e direito.
pela contenção de custos. O resultado líquido previsto
Quanto ao exame, serão realizadas as quatro provas
é de 102 mil euros, contra os quase 315 mil do ano
escritas e as provas orais de candidatos que tenham con-
passado.
cluído com sucesso as provas escritas. O júri de exame
Para 2010 fica reservada a reformulação do Código manterá a sua constituição por membros independentes
de Ética e Deontologia. Isto devido à importância de que dos formadores do curso de preparação para revisor ofi-
se reveste a matéria. Na sequência das alterações estatu- cial de contas, mantendo independência na avaliação dos
tárias decorrentes da transposição da Directiva de Au- conhecimentos dos participantes, mas interdependência
ditoria, procedeu-se à revisão e à alteração dos diversos nas matérias sujeitas a avaliação.
regulamentos internos da Ordem. Mas há questões, em De igual modo, a OROC pretende melhorar as con-
concreto, que vão merecer especial atenção por parte dos dições de estágio, quer através do funcionamento da Co-
revisores oficiais de contas ao longo do ano. missão de Estágio, quer através de um novo sistema de
Destaque para a necessidade de acompanhar a evo- informação. Realizar-se-ão provas de avaliação anual de
lução internacional da profissão e, em particular, os estágio, com a constituição e o funcionamento dos júris
desenvolvimentos que tenham lugar ao nível da União e avaliação e discussão dos trabalhos individuais em cau-
Europeia. Não menos importante será o acompanha- sa. Proceder-se-á ainda à avaliação semestral intercalar
mento do Sistema de Normalização Contabilística e a dos membros estagiários.
apresentação junto do Governo de uma nova proposta O controlo da qualidade é um outro factor que mere-
de alteração do regime de responsabilidade civil profis- ce especial atenção por parte da OROC. Destaque para
sional. Além disso, importa continuar a acompanhar o a execução dos controlos de qualidade da actividade de-
projecto de simplificação da Comissão Europeia. Serão senvolvida pelos profissionais, relativamente a funções de
ainda promovidas acções para a melhoria da qualidade interesse público, ao longo do ano passado. No âmbito
das auditorias. da adopção do novo regulamento de controlo da quali-
Ao nível da gestão interna, continuarão a ser efec- dade, a introdução de nova metodologia para a realiza-
tuadas algumas alterações que decorrem das exigências ção do controlo de qualidade.
adicionais que irão ser colocadas pelo novo quadro regu- A supervisão da actividade decorrerá da promoção de
lamentar. Por outro lado, o plano de actividades apon- auditorias internas aos procedimentos relacionados com
ta para a tomada de decisões para concluir o processo a qualificação profissional, a inscrição, os registos de acti-
de reestruturação informática e elaborado um manual vidade e a formação profissional. Importa prevenir even-
de procedimentos internos. Será feito um esforço para tuais incumprimentos ou infracções de disposições legais
emitir o manual que contém a tradução das normas ou regulamentares, mediante uma intervenção mais pró-
internacionais de auditoria e o controlo de qualidade. -activa junto dos profissionais.

CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série 39


Gestão e finanças

Medição de performance
Paulo Moura de Castro*

Sem medir não se pode gerir

“Estou a perder dinheiro e não sei onde!” Não raras


vezes, somos confrontados pelos empresários com es-
ta expressão aquando do primeiro contacto. Num con-
texto de recessão económica e de margens de negócio
praticamente esmagadas em todos os sectores, torna-se,
por isso, essencial, implementar sistemas de medição
da performance que permitam monitorizar permanen-
temente o desempenho de um negócio nas suas múlti-
plas vertentes.
Ao contrário do que a introdução deste artigo pos-
sa dar a entender, a implementação de sistemas de me-
dição da performance não se destina apenas às empre-
sas em dificuldade. Pelo contrário. Perceber com rigor
como se posicionam os diferentes segmentos de um
negócio permite ao Gestor tomar decisões em tempo
útil, capitalizando os segmentos que acrescentam va-
lor e descontinuando os que o destroem. Como diria
Peter Drucker, «if you can’t measure it, you can’t ma-
nage it».

Segmentos de análise empresas por um ou múltiplos tipos de segmentos, que


podem ser:
Antes de proceder à análise propriamente dita, é i. Externos: como um mercado, uma região, um cliente;
necessário definir o que vamos analisar. A informação ii. Internos: como um produto, um projecto, um centro
financeira tradicional, baseada na contabilidade geral, de responsabilidade, um colaborador, uma máquina.
produz informação da empresa numa óptica global, Em suma, o segmento pode ser definido como qual-
tendo por objectivo dar a conhecer a sua situação eco- quer parte de uma empresa, ou grupo de empresas, so-
nómica e financeira perante o exterior. Tem um carác- bre a qual se considera relevante o conhecimento de
ter formal, sendo influenciada pelas normas jurídicas e informação económica e financeira, dado proporcionar
fiscais. retornos diferentes e estar sujeito a riscos diferencia-
A informação por segmentos visa proporcionar o co- dos.
nhecimento da performance económica e financeira das
A escolha dos indicadores
Contabilidade geral
Uma vez definidos os segmentos de análise, impor-
A informação financeira tradicional, baseada na ta escolher o(s) indicador(es) para a sua monitorização.
contabilidade geral, produz informação da empresa Opções não faltam, mas, como em quase tudo na vida,
numa óptica global, tendo por objectivo dar a co- quantidade não significa necessariamente qualidade.
nhecer a sua situação económica e financeira perante De todas as métricas utilizadas pelas empresas para mo-
o exterior. nitorizar o seu desempenho, nenhuma nos parece tão

40 CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série


Gestão e finanças

apropriada como a Margem de Contribuição Residual A B


- MCR. Em termos simples, a MCR obtém-se deduzin- Volume de negócios 1500 1750
do aos lucros operacionais de um investimento o custo Gastos (80% VN) 1200 1400
dos activos utilizados para financiá-lo. Por outras pala- EBITDA 300 350
vras, mede a diferença, em termos monetários, entre o Amortizações 100 150
retorno do capital investido na empresa e o custo desse EBIT 200 200
mesmo capital (se retirarmos o Imposto à MCR obte- CFAE1 (8%) 52 74
mos o EVA® – Economic Value Added). MCR 148 126
A utilização de “baterias” de diferentes indicado- Activo económico 650 925
res (margem bruta, quota de mercado, rendibilida-
Activo fixo 500 750
de do capital próprio, rendibilidade do activo, etc.),
NFM 2
150 175
muitas vezes contraditórios entre si, pode traduzir-se 1
Custo de Financiamento do Activo Económico (CFAE)
numa errada orientação estratégica e tomada de de- 2
Necessidades em Fundo de Maneio (NFM)
cisão. Adicionalmente, com mensagens conflituosas
provenientes de diferentes indicadores, cada gestor de Um sistema de avaliação assente na MCR permite,
unidade de negócio tenderá a escolher o que lhe for assim, que todas as decisões sejam pensadas, monitoriza-
mais conveniente e suporte as suas acções, politizan- das, avaliadas, comunicadas e recompensadas em função
do assim as decisões e criando um comportamento de de uma única métrica, envolvendo todos os trabalhado-
destruição de valor. res em torno do objectivo da criação de valor.
Naturalmente, os gestores continuarão a preocupar-
se com rácios sobre volume de negócios, margens, custos
Um exemplo prático
unitários, lead-time e muitos mais, mas sempre no con-
texto de qual o seu impacto final na MCR.
Tomemos como exemplo duas unidades de negócio,
No entanto, a mudança mais significativa na adop-
A e B, com os seguintes dados:
ção da MCR como métrica de medição da performan-
i. B tem um volume de negócios ligeiramente superior a A;
ce reside na quantificação do custo de oportunidade do
ii. O activo económico de B é superior ao de A;
capital utilizado, o que obriga os gestores operacionais
iii. Ambas têm o mesmo nível de custos operacionais, excepto
das diferentes unidades de negócio a utilizarem os seus
amortizações. activos de forma mais responsável, centrando a sua aten-
Chegado o momento de medir o desempenho das ção no imobilizado líquido ao seu dispor, bem como nas
unidades acima referidas, facilmente se depreende que o Necessidades em Fundo de Maneio (NFM).
gestor da unidade B defenderá, por exemplo, o EBITDA Em resumo, mais do que um mero indicador, a MCR
(Earnings Before Interest, Tax, Depreciation and Amorti- representa uma profunda mudança na cultura organiza-
zations) como métrica a utilizar, permitindo-lhe, assim, cional, visando alinhar os objectivos dos accionistas com
“esconder” a ineficiência na utilização do activo econó- os dos gestores, para que estes pensem, actuem e sejam
mico ao seu dispor. remunerados como se fossem donos da empresa.
A B
Volume de negócios 1500 1750 Nota final
Gastos 1200 1400
A implementação de modelos de Controlo de Gestão
EBITDA 300 350
e Medição da Performance está fortemente dependente de
Sistemas de Informação (SI) competentes. Não obstante a
Amortizações 100 150
estratégia da empresa ser o verdadeiro driver da criação de
EBIT 200 200
valor, a mesma só terá sucesso se for apoiada em sistemas
Uma análise mais rigorosa permitiria constatar que que permitam medir o seu impacto e tomar decisões em
o valor residual acrescentado por A é superior ao de B, tempo útil. Na economia do conhecimento, quem tem
uma vez que o seu menor custo de oportunidade (deri- informação tem uma vantagem competitiva.
vado do Activo Económico) mais do que compensa a
*Consultor de Gestão e Finanças,
diferença ao nível do volume de negócios. sócio-administrador da Partner to Partner, SA

CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série 41


Normalização contabilística

CNC elegeu membros do Conselho - N.º 2 de Dezembro que tem os seguintes itens: A Con-
Geral e da Comissão Executiva ferência CNC; Consulta pública e Programa.
Entretanto, e de acordo com esta newsletter, a 1.ª Con-
Em reunião do Conselho Geral da CNC de 12 No- ferência da renovada CNC teve lugar no passado dia 15
vembro de 2009 foram constituídos os órgãos do Con- de Dezembro de 2009.
selho Geral e da Comissão Executiva da CNC, face ao
disposto no Decreto-Lei n.º 160/2009, de 13 de Julho. A revolução das NIC
De acordo com a newsletter “CNC em Breves” n.º 2, de
Dezembro de 2009, a Comissão Executiva é constituída A revista espanhola Técnica Contable n.º 722, de Se-
pelos seguintes membros: tembro de 2009, pp. 14-38, contém um extenso artigo,
a) Preparadores de Informação financeira – os Drs. Pedro sob o título La Revolución de las NIIF, da autoria de Car-
Aleixo Dias – Confederação da Indústria Portuguesa los Barroso, no qual expõe as principais alterações em
e Carlos Manuel Grenha – Associação Portuguesa de debate no IASB, nas NIC e NIRF e respectivas Interpre-
Empresas Municipais; tações (SIC e IFRIC), as quais se reflectirão obviamente
b) Câmara dos Técnicos Oficiais de Contas – o Prof. Ave- no normativo contabilístico, nomeadamente a nível do
lino Azevedo Antão; SNC.
c) Ordem dos Revisores Oficiais de Contas – o Dr. João Neste contexto, a CNC deverá proceder à análise das
Amaro Cipriano; mutações em contenda e efectuar as respectivas adapta-
d) Utilizadores de Informação financeira – o Dr. Eduardo ções ao SNC, nomeadamente às Normas Contabilísticas
Damásio – Comissão do Mercado de Valores Mobi- e de Relato Financeiro (NCRF).
liários; Considerando que o IASB, como organismo emis-
e) Representantes das Escolas Superiores de Contabilida- sor das NIC/NIRF e SIC/IFRIC, tem um dinâmica
de – o Prof. José Duarte Assunção Dias, do Instituto
de permanente ajustamento e ou aprovação dessas no-
Superior de Economia e Gestão da Universidade Téc-
vas normas, a CNC terá, obviamente, de acompanhar
nica de Lisboa
esse ritmo de trabalho, por força da necessidade da
f ) Personalidades de reconhecido mérito em matérias
sua adaptação ao SNC, não podendo, obviamente,
contabilísticas – o Dr. António Baia Engana.
acontecer, como acorreu até agora com as Directri-
Para além dos eleitos pelo Conselho Geral, a Comis-
zes Contabilísticas, as quais resultavam de adaptações
são Executiva integra, por inerência, o Presidente da CNC
das NIC/NIRF (20 das 29 Directrizes Contabilísticas
Domingos Cravo e as representantes da IGF, da Direcção-
tiveram influências directas e nunca foram actualiza-
-Geral dos Impostos e da Direcção-Geral do Orçamen-
das).
to, respectivamente as Dras. Isabel Castelão Silva, Maria
Cristina Mourinho e Maria Luísa Barata. Perante esta “Revolução NIC”, não iremos ter uma
“Revolução SNC”?
CNC lança newsletter Para pensar! O que é certo é que as dinâmicas da CNC
sob o título “CNC em breves” e do SNC terão de acompanhar permanentemente o tra-
balho do IASB e da UE através dos respectivos Regula-
A nova CNC disponibiliza no seu sítio a newsletter sob mentos, o que também exigirá um esforço dos preparado-
o título “CNC em breves”, tendo, até à data, publicado res (v.g. TOC) e dos auditores (ROC).
dois números:
- N.º 1, de 25 de Novembro de 2009, na qual des- Normativo
taca: A abrir; Notícias do Conselho Geral; Eleição
da Comissão Executiva; Actividade da Comissão; A CNC deverá proceder à análise das mutações em
Linhas mestras da actuação da CNC; Perguntas fre- contenda e efectuar as respectivas adaptações ao SNC,
quentes (FAQ); Notícias da Comissão Executiva e nomeadamente às Normas Contabilísticas e de Relato
Documentos em consulta; Financeiro (NCRF).

42 CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série


INFORMAÇÕES E NOTÍCIAS

PARA A HISTÓRIA DE… n.º 310/2009, de 26 de Outubro, alargaram-se as com-


petências e as responsabilidades dos TOC (art.º 6.º,
A Lei da Fiscalização das Sociedades Anónimas, de 13 “Funções” do EOTOC) a nível do processamento con-
de Abril de 1911 (vigorou no ano civil de 1911 e ano tabilístico das matérias relacionadas com a segurança
económico 1911/1912), é considerada a norma legal em- social e das funções de consultoria (v.g. peritagens em
brionária da fiscalização das sociedades anónimas, pre- tribunais).
vendo que as suas contas fossem fiscalizadas por peritos Uma das cláusulas mais contestadas na profissão é
contabilistas. a do art.º 24.º, n.º 3, da Lei Geral Tributária, no que
A Lei previa que os Directores não podiam ser guarda- concerne à responsabilidade subsidiária fiscal do TOC,
-livros. no contexto das suas responsabilidades pela regularidade
O número 2 do artigo 9.º da parte II, sob o título técnica nas áreas contabilística e fiscal. Neste sentido, o
“Modo de exercer a fiscalização”, determinava que os do- n.º 3 do art.º 6.º do EOTOC passou a clarificar o que
cumentos de prestação de contas deveriam ser assinados se deve entender por “regularidade técnica”, designada-
“sempre pelo guarda-livros”. Além disso, o art.º 35.º es- mente para os efeitos da aplicação daquela disposição
tabelecia que os guarda-livros eram co-responsáveis com legal e do art.º 8.º do Regime Geral das Infracções Tri-
os gerentes da sociedade por quaisquer actos dolosos ten- butárias (RGIT).
dentes a ocultar a veracidade das verbas constitutivas dos A referência histórica, supra datada de Abril de 1911
balanços, e, por tal motivo, eram obrigados a subscrever (quase 100 anos!), serve para lembrar que a questão das
os inventários, balanços e todas as contas que as socieda- responsabilidades profissionais dos TOC, então desig-
des tinham de apresentar. nados de “guarda-livros”, já é muito antiga. Registamos
N.R.: Com o Estatuto da Ordem dos TOC (EO- que essa Lei (só vigorou em 1991 e 1912) previa que os
TOC), aprovado pelo Decreto-Lei n.º 452/99, de 5 de guarda-livros deveriam assinar os inventários, exigência
Novembro, e recentemente alterado pelo Decreto-Lei esta não contemplada no actual EOTOC.

OTOC define plano de formação


Governo alarga prazo para todo o ano
de dívidas fiscais
O Governo decidiu alargar o prazo de cinco para 10 anos A Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas tem já de-
do período máximo do pagamento em prestações de dívi- finido o calendário da formação a frequentar pelos seus
das fiscais. A medida abrange aquelas dívidas fiscais que membros ao longo deste ano. O Sistema de Normalização
atinjam um valor superior a 51 mil euros e que estejam a
Contabilística merece especial atenção, tendo em conta a
ser exigidas em processo de execução fiscal.
A intenção é evitar o encerramento de empresas e garantir
sua entrada em vigor. O programa compreende as forma-
receita para os cofres do Estado, ainda que de uma forma ções eventual, segmentada, permanente, à distância e as
mais espaçada no tempo. Além disso, esta alteração le- reuniões livres.
gislativa visa aproximar o regime fiscal sobre esta matéria A formação eventual decorre em todo o país. Serão
com o regime da Segurança Social. Face ao facto de terem atribuídos 12 créditos após a conferência das presenças e
surgido várias interrogações por parte dos contribuintes, o terminada a formação a nível nacional. Ao longo do ano,
Ministério das Finanças esclarece as as dúvidas surgidas
a Ordem compromete-se a disponibilizar, a nível nacio-
sobre o novo regime.
São abrangidos os contribuintes cujas dívidas sejam ob-
nal, um vasto leque de formações de âmbitos segmentado
jecto de um procedimento extrajudicial de conciliação ou e permanente.
de um plano de insolvência. O máximo de prestações men- A Ordem prossegue a aposta na formação à distância,
sais admitido é de 120, mas nenhuma pode ser inferior a desta feita com um amplo plano formativo, com especial
10 200 euros. Com o pedido para pagamento em presta- enfoque no SNC. Por sua vez, são mantidas as sessões das
ções deverá o executado oferecer garantia idónea, a qual quartas-feiras, com a realização das reuniões livres, estas
consiste em garantia bancária, caução ou qualquer outro
a decorrerem em 23 cidades do país. Qualquer alteração
meio que possa assegurar os créditos do exequente.
feita ao programa será comunicada aos membros.

CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série 43


INFORMAÇÕES E NOTÍCIAS

AFP e ISCSP assinam Sector da construção


protocolo de colaboração toma conhecimento do SNC

A Associação Fiscal Portuguesa (AFP) e o Instituto Na sequência da publicação dos diplomas legais que
Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade integram o Sistema de Normalização Contabilística e das
Técnica de Lisboa (ISCSP) assinaram um protocolo de alterações ao Código do IRC, os agentes económicos de-
colaboração que visa a aproximação das duas entidades vem estar conscientes que foram introduzidas profundas
e a conjugação de esforços na divulgação das respectivas mudanças em termos contabilísticos. O sector da constru-
áreas de interesse, conhecimentos e iniciativas. Destaque ção quer cumprir as novas regras.
para as áreas da fiscalidade e da ciência das finanças e da Mas é um facto que o SNC ainda suscita dúvidas e in-
administração e da gestão financeira pública. certezas por parte das empresas. Pelo que a Associação dos
O protocolo permitirá reforçar as competências de Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AIC-
ambas as partes. Pretende-se estimular a produção de es- COPN) quer dar a conhecer em pormenor o que se vai
tudos académicos e científicos, bem como a realização de passar no âmbito contabilístico. Assim, promove, no dia
congressos, colóquios, debates e outras iniciativas conjun- 18 de Março, na sua sede, uma sessão de esclarecimento
tas de divulgação da cultura e do conhecimento financeiro sobre o novo regime, orientada sobretudo para o impacto
e tributário, estimulando nesse sentido alunos, académi- dessas mudanças no quotidiano das empresas do sector da
cos e investigadores. construção.
A AFP tem desenvolvido a sua actividade de divulga-
ção da cultura e da ciência fiscal em todos os seus domí-
nios, através de uma maior aproximação às universidades. Otoc pede linha de crédito
O instituto tem reforçado as suas competências no domí- para equipamentos e formação
nio dos estudos de administração e gestão públicos e do
controlo público financeiro. Recentemente intensificou a A Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas solicitou
sua actividade formativa em Angola e Moçambique, por junto do Governo a criação de uma linha de crédito ao in-
via de cursos de pós-graduação e de especializção. vestimento e à formação profissional. Depois de os profis-
sionais já terem despendido elevadas somas para fazerem
face a exigências recentes, o SNC vai implicar novas exi-
gências, quer em termos de equipamentos informáticos,
quer ao nível da formação profissional.
A linha de crédito teria como orientações a concessão
de um crédito aos TOC para actualização de programas
informáticos conexos com a sua profissão até ao limite
máximo de cinco mil euros. De um crédito para a aqui-
sição ou actualização dos equipamentos informáticos até
ao limite de 15 mil euros. E um crédito para participação
em acções de formação profissional até o limite máximo
de mil euros.
Os créditos concedidos serão reembolsados em 50%
do seu valor em seis prestações semestrais, vencendo-
se a primeira no prazo de um ano após a concessão dos
mesmos, com uma taxa de juro Euribor a seis meses sem
qualquer outro agravamento. O OTOC, em colaboração
com o IAPMEI, regulamentará a certificação dos investi-
mentos efectuados. O juro do período vencido será pago
em conjunto com as respectivas prestações e o do perío-
do de carência conjuntamente com a primeira prestação
a pagar.

44 CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série


Sectores

Construção defende alterações fiscais


para “aliviar” crise
O sector da construção atravessa a crise mais profun-
da em quase 40 anos. O ano de 2010 adivinha-se muito
complicado, a menos que seja criado um contexto mais
favorável. A Associação de Empresas de Construção,
Obras Públicas e Serviços (AECOPS) defende alterações
significativas ao nível fiscal. Considera a entidade que o
paradigma mudou radicalmente e que a palavra de ordem
é reabilitar. A par da necessidade de exportar serviços. As
medidas propostas, em documento apresentado ao Go-
verno, passam pela reabilitação urbana, pela promoção
da internacionalização e pelas tributações do património
e do rendimento.
A reabilitação urbana tem que assentar na criação e outra medida seria a introdução de um mecanismo que
no reforço dos incentivos fiscais. Desde logo, a introdu- possibilitasse a amortização/reintegração – num período
ção de um benefício fiscal semelhante àquele que vigorou razoável de tempo – de 50% do valor de aquisição do
para as “contas poupança-habitação”, quer no que respei- imóvel no rendimento colectável do proprietário, a um
ta à dedução à colecta de IRS, quer por forma a que os ritmo anual relativamente pequeno. Finalmente, uma
juros provenientes dos depósitos em contas desse tipo se- taxa liberatória de 10% (em IRS ou IRC) sobre todos os
jam isentos de tributação em sede daquele imposto, desde rendimentos prediais, excluindo os obtidos no arrenda-
que a poupança se destine a empreitadas de conservação e mento de espaços em grandes espaços comerciais.
reparação de habitação já existente.
Defende a associação a criação de uma dedução ao Redução de IRC para rendimentos gerados no exterior
imposto sobre o rendimento por via da aquisição de
materiais de isolamento térmico e de produção de ener- A internacionalização tem-se revelado um factor deter-
gias alternativas. Importante seria também a extensão minante na actividade das empresas de construção. Mas a
da taxa de 5% aos materiais de construção aplicados AECOPS considera que nesta área também é fundamen-
em obras de reparação de habitação, mesmo quando o tal a criação de incentivos fiscais, de forma a impulsionar
valor desses materiais ultrapasse os 20% do montante a competitividade das empresas nacionais. Destaque para
das prestações de serviços. Esta medida teria a vantagem a redução da taxa de IRC sobre os rendimentos gerados
adicional de reduzir o trabalho informal. Além disso, na actividade externa, fixando-a em 10%, e a majoração
a associação quer o alargamento dos fundos de inves- em 20%, no IRC, dos custos suportados pelas empresas
timento imobiliário para arrendamento habitacional nos mercados externos. Isto a par da isenção de impos-
às empresas de construção, possibilitando-lhes colocar to do selo das garantias e contragarantias concedidas por
nestes os fogos que possuem em carteira e para os quais instituições financeiras nacionais.
não conseguem escoamento. A associação acha que se pode ir ainda mais longe
No âmbito do mercado do arrendamento, a associa- nesta matéria. É o caso da revisão do regime legal das
ção acredita que existem possibilidades reais de estimular amortizações dos equipamentos envolvidos nas obras ex-
este segmento, entre outros factores através da criação ternas, aproximando os prazos de depreciação fiscal do
de incentivos fiscais. É o caso da dedução ao rendimen- tempo de vida útil respectivo. Defende ainda a criação
to predial de 30%, a título de despesas de conservação de benefícios fiscais, em sede de IRS, para os trabalha-
e reparação, sem prejuízo da possibilidade de dedução dores deslocalizados e a redução das contribuições para a
da totalidade das despesas efectuadas, se superior. Uma Segurança Social relativas aos trabalhadores portugueses

46 CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série


Sectores

deslocados. Seria importante o apoio financeiro directo primeira transmissão de um prédio construído por uma
à elaboração de propostas para concursos internacionais empresa que tenha por objecto a construção de edifícios
em países terceiros com impacto na criação de emprego para venda.
de jovens qualificados. Quanto ao IMT, com as actuais regras de determi-
nação do valor patrimonial, frequentemente há lugar
Valor patrimonial tributário distorce regras de mercado ao pagamento deste imposto sobre valores superiores
aos das transmissões efectivas. Apesar da redução das
A tributação do património é uma outra área que taxas do IMT relativamente às que vigoravam em sede
suscita sérias preocupações às empresas de construção. de sisa, verificou-se, em várias situações, um agrava-
A actual forma de determinação do valor patrimonial mento na tributação em IMT, tendo em conta o alar-
tributário tem conduzido a fortes distorções do merca- gamento considerável da base tributável. Pelo que a as-
do, em consequência da discricionariedade subjacente à sociação avança com uma redução substancial da taxa
aplicação dos vários coeficientes que compõem a fórmu- de imposto incidente sobre as transmissões onerosas de
la de cálculo. A amplitude da variação desses coeficien- imóveis, fixando-a num intervalo de zero a um ponto
tes pode induzir enormes variações no valor tributável percentual.
de imóveis cujos custos e áreas de construção sejam se-
melhantes. Reavaliação dos bens do imobilizado empresarial
A AECOPS sempre esteve contra a utilização do re-
ferido “valor de mercado” para efeitos de tributação do A tributação do rendimento merece especial atenção
património. Como tal, considera a possibilidade de al- por parte da estrutura associativa, que considera essen-
teração do método de avaliação em vigor, criando-se um cial a produção de nova legislação que permita proceder
novo sistema que possibilite obter um valor fiscal inde- à reavaliação legal dos bens do imobilizado empresarial.
pendente do valor patrimonial ou do valor de mercado. Por sua vez, os juros e outras formas de remuneração de
De facto, o valor apenas é determinado no acto da tran- suprimentos feitos pelos sócios à sociedade são sujeitos a
sacção concreta de um imóvel, não podendo ser utilizado retenção à taxa de 15% para efeitos de IRS, por se tratar
de forma generalizada como valor médio. de rendimentos de capitais, e estes rendimentos estão su-
As taxas de IMI e IMT também deveriam passar por jeitos a englobamento. Ora, esta legislação deveria ser al-
alterações, na óptica dos responsáveis associativos. As ta- terada em moldes que permitam a sua tributação através
xas do Imposto Municipal sobre imóveis têm uma grande da aplicação de uma taxa liberatória, à semelhança do que
amplitude. Sendo que a grande maioria dos municípios se passa com outras formas de remuneração de capitais.
fixa as taxas aplicáveis nos limites superiores ou muito A AECOPS lembra que o regime simplificado de tri-
próximos destes. A associação propõe uma redução subs- butação em sede de IRC foi suspenso. Mas existe uma
tancial nos limites e que seja criada uma taxa especial autorização legislativa para a criação de um novo regime
– correspondente a 50% da taxa normal – aplicável aos simplificado em sede deste imposto. Defende que deve ser
edifícios que apresentem uma elevada eficiência energé- incluído no OE um novo modelo de regime simplificado,
tica. à semelhança do que acontece noutros países europeus.
Por sua vez, a AECOPS pede a não sujeição a IMI dos Finalmente, é proposta a redução ou a eliminação da
terrenos para construção que tenham passado a figurar no tributação autónoma, tendo em conta que foi agravada
activo de uma empresa que tenha por objecto a constru- significativamente a carga fiscal por este meio. Face a uma
ção de edifícios para venda. E sujeição apenas a partir do conjuntura extremamente difícil, é necessário eliminar
ano seguinte, inclusive, àquele em que tenha ocorrido a este tipo de tributação ou, no mínimo, repor a situação
anterior. Por outro lado, no âmbito dos incentivos espe-
cíficos, é proposta a redução para 10% da taxa do IRC
Taxa
incidente sobre os lucros não distribuídos – reforçando os
A AECOPS defende, uma taxa liberatória de 10% (em capitais próprios – a ser permitida nas mesmas condições
IRS ou IRC) sobre todos os rendimentos prediais, ex- em que se concede o benefício por via das entregas em
cluindo os obtidos no arrendamento de espaços em dinheiro, para aumento do capital social.
grandes espaços comerciais.

CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série 47


Associativismo

Rosado Valente candidato a bastonário

Eleições para OTOC


contam com três listas
As eleições para a Ordem dos Técnicos Oficiais de Con-
tas (OTOC) passaram a contar com mais uma lista, esta
liderada por Rosado Valente, sob a designação “Decidir
no presente para ganhar o futuro”. O aparecimento desta
terceira lista é revelador do interesse que estão a suscitar
estas eleições para o primeiro mandato à frente dos destinos
da maior ordem do país. A “Contabilidade & Empresas”,
no seu número anterior, deu conta das candidaturas e dos necessidades particulares dos profissionais, facilitando a
programas das listas lideradas por Domingues de Azevedo facilitação e a eficiência do seu trabalho. A formação/in-
(Lista A) e Vítor Vicente (Lista C). Importa dar agora a co- formação de aspectos relevantes, dirigidas aos profissionais
nhecer os conteúdos programáticos da última lista a apre- e às empresas/entidades, no sentido de garantir a optimi-
sentar-se a uma eleições que se prevêem concorridas. zação da sua relação – em benefício mútuo –, assegurando
A lista de Rosado Valente assenta no pressuposto das a participação dos agentes mais qualificados.”
alterações ocorridas no actual contexto e por serem as pri-
meiras eleições enquanto ordem. Pelo que se juntou um Revisão dos seguros e casas para os profissionais
grupo de profissionais que “acredita ser a altura ideal para
proceder a um conjunto de mudanças, no sentido de co- O apoio social é outra das áreas que merece especial
locar os técnicos oficiais de contas no lugar que merecem, atenção por parte desta candidatura. É proposta a avalia-
por força da importância das funções que desempenham ção e a ponderação da criação de casas para os profissio-
no tecido económico do país”. nais relacionadas com os centros de formação. Defende-se
Do programa consta a intenção de proceder a várias a revisão dos seguros de responsabilidade civil e de doen-
alterações de fundo quanto às funções da ordem, em ter- ça, de modo a torná-los mais abrangentes, a par da análise
mos da sua natureza orgânica. Desde logo, é proposta a e da revisão do fundo de pensões, isto para “garantir e
revisão do Estatuto, “tornando-o consentâneo com a ac- assegurar a rentabilidade do investimento”.
tual realidade actual, depois de consulta pública e alarga- Quanto à qualidade, o objectivo passa por rever, es-
da”. Também são defendidos outros aspectos, com des- truturar e planificar as acções de controlo e criar os ne-
taque para a limitação dos mandatos dos órgãos sociais cessários mecanismos legais que impeçam a eventual de-
e a atribuição remuneratória destes elementos por deli- gradação da profissão. De igual modo, relativamente aos
beração da assembleia geral. Considera ainda essencial a honorários, é avançada a proposta de estudar as acções e
revisão da concepção da revista TOC, com a criação de as medidas a implementar, “para que os serviços prestados
espaços de opinião dos seus profissionais, bem como a possam reflectir a qualidade do trabalho realizado pelos
edição de publicações de natureza específica relativas às profissionais”.
funções dos TOC ou de sua autoria. Finalmente, é feita A Lista B considera fundamental estreitar as relações
a promessa de investimento nos apoios jurídico, fiscal e com as ordens profissionais da União Europeia e refor-
parafiscal. çar as já existentes com os países de expressão portuguesa.
No âmbito da formação, a lista de Rosado Valente Além disso, defende prosseguir um diálogo construtivo
defende mudanças substanciais. Por um lado, avaliar e com a administração pública e assegurar a participação
ponderar a criação de dois centros de formação (Lisboa da OTOC como parceira essencial na elaboração de le-
e Porto), por outro, reestruturar a formação, separando gislação fiscal. Por último, é pedida a clarificação da LGT,
duas grandes áreas de intervenção. Neste âmbito, consta relativamente ao planeamento fiscal e à responsabilidade
do programa: “A formação específica, de acordo com as perante a Segurança Social.

48 CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série


casos práticos

CASO PRÁTICO nº 1* Resolução:


1. Os lançamentos relativos às operações realizadas.
Enunciado: Nº
Data Descrição Débito Crédito Valor
A sociedade Quartzo, SA dedica-se à organização de Oper.
Transferência
eventos e viagens de grupos. Em 31 de Dezembro de N, o 1/1/N+1 1 para resultados 56.1 818 10.000
transitados
seu Capital próprio era o seguinte:
Aplicação
Cód. Descrição Ano N Informações do resultado:
Adicionais sem movimento
- neste caso existe
51 Capital 100.000 (1) 31/3/N+1 2.1 coincidência - - -
da deliberação
55 Reservas com o movimento
551 Reservas legais 20.000 contabilístico
em 1/1/N+1
552 Outras reservas 5.000 31/3/N+1 3.1 Subscrição 261 67.000
do capital
56 Resultados transitados -2.000 51.11 50.000
81 Resultado líquido do período 10.000 (2) 54 17.000
3.2 Realização do capital 12.1 261 52.000
Total 133.000
3.3 Regularização 51.11 51.12 35.000
Informações adicionais: do capital
(1) Representado por acções com um valor nominal de 5 u.m. cada. Aquisição de
(2) Até 31/12/N. 1/5/N+1 4.1 acções próprias 521 10.000
522 3.000
12.1 13.000
4.2 Indisponibilização 551.2 13.000
de reservas
552 5.000
56.1 8.000

Observações:
Sugere-se que a conta 51 - “Capital” seja decompos-
ta em “capital ordinário” (conta 51.1) e esta seja, depois,
decomposta em “subscrito e não realizado” (conta 51.11)
e “subscrito e realizado” (conta 51.12). Tal divisão servirá
para um melhor controlo dos valores já realizados e por
A 31 de Março de N+1, realizou-se uma Assembleia realizar, em conjunto com a conta 261 - “Accionistas c/
Geral, tendo sido deliberado: subscrição” (conta 262 - “Quotas não liberadas” no caso
1.º A transferência do resultado do período para resulta- de sociedades de responsabilidade limitada). Estas contas
dos transitados. podem ainda, se o número de sócio o permitir, serem de-
2.º Proceder a um aumento do capital, através de subscri- compostas pela participação de cada sócio na empresa.
ção pública, mediante emissão de 10.000 novas acções De acordo com o Código das Sociedades Comerciais,
(ordinárias), com um valor nominal de 5 u.m. e um se a empresa adquirir acções próprias, deverá indisponi-
valor de emissão de 6,7 u.m. cada. Realização do capi- bilizar uma reserva de valor igual ao valor de aquisição
tal: 70% de imediato e o restante a 1 ano. dessas acções (art. 324.º).
A 1 de Maio de N+1 adquiriu, a pronto, 2000 acções Não são permitidos diferimentos na realização do prémio
próprias ao accionista Sr. X, pelo valor unitário de 6,5 de emissão, ou seja, este tem de ser realizado de imediato.
u.m.. 2. Que indique qual o valor do capital social que
deve ser apresentado no Balanço.
Pedidos: No novo Balanço preconizado pelo SNC a rubrica
1. Os lançamentos, no exercício de N+1, relativos às onde é inscrito o capital social designa-se por “Capital
operações realizadas. realizado”, pelo que os valores inscritos na conta 51 - “Ca-
2. Que indique qual o valor do capital que deve figurar pital” e na conta 261 - “Accionistas c/ subscrição” (con-
no capital próprio e ser apresentado no Balanço de N+1. ta 262 - “Quotas não liberadas” no caso de sociedades
de responsabilidade limitada) devem ser compensados e
* Extraído e gentilmente cedido pelos autores do livro SNC - Sistema de apresentados naquela rubrica.
Normalização Contabilística - Casos Práticos, da autoria de António Borges,
Emanuel Gamelas, José Pinhão Rodrigues, Manuela Martins, Nuno Magro
Assim, o valor a apresentar no balanço de N+1 será de
e Pedro António Ferreira., Áreas Editora, Lisboa, 2009, pp. 278-80. 135.000 u.m. (150.000 u.m. - 15.000 u.m.).

CONTABILIDADE & Empresas | Jan/Fev 2010 | nº 1 - 2ª série 49


livros

Gestão do risco de longevidade


Este livro, da autoria de António Henrique a mudar e a realidade já é diferente daquela que
Cruz, desenvolve a problemática da programa- se vivia há escassos anos. As pessoas têm que estar
ção do nível de rendimento ao longo do pe- preparadas para um cenário bastante diferente.
ríodo de reforma e apresenta os mecanismos A obra está estruturada em introdução, risco
actualmente disponíveis para gerir a incerteza de longevidade e necessidade do consumidor,
associada à longevidade. caracterização dos riscos inerentes ao negócio
Para o pensionista, é fundamental assegurar dos seguros no ramo vida, a gestão do risco de
um rendimento durante toda a sua vida. A gestão longevidade e a análise da competitividade da
da incerteza sobre a longevidade é um problema oferta de rendas vitalícias. Inclui as conclusões
de relevância crescente para o cidadão nacional, e anexos. Trata-se de uma edição do grupo edi-
muito habituado a vê-lo resolvido pelos sistemas públicos torial Vida Económica, tem 152 páginas e está disponível
com um nível generoso de benefícios. Mas os tempos estão por 25 euros.

Tendências
“Speculations & Trends” é um livro sobre ten- meios académicos das melhores universidades,
dências, vistas de ângulos diferentes, mas sempre com destaque para Harvard. O livro, em tom
numa perspectiva global. É feita uma abordagem despretensioso e directo, encerra em si próprio
inovadora e única sobre as tendências para os pró- uma nova tendência, entrega aos leitores os di-
ximos anos. Para o seu conteúdo contribuíram reitos intelectuais do seu conteúdo, em oposi-
mais de 700 pessoas de todo o mundo, desde ção com a normal protecção de “copyrights”.
“skaters” em Chicago até vendedores de Xangai. Pedro Barbosa integra os quadros do grupo
Na primeira parte, Pedro Barbosa compõe El Corte Inglés, é docente do IPAM e cronista
um conjunto de tendências para o período de regular em várias publicações. É licenciado em
2010 a 2012, abarcando áreas como o consu- Engenharia Industrial. A publicação é da res-
mo, a tecnologia, a saúde ou a sustentabilidade. A segunda ponsabilidade do grupo editorial Vida Económica, tem
parte é composta por artigos sobre assuntos debatidos nos 240 páginas e está disponível por 15 euros.

Gestão ambiental
O ambiente é um factor de força, mas pode valor, através de um sistema ambiental focado na
constituir também uma fraqueza para o negó- acção. Ou como pode o ambiente ser trabalhado
cio. Potenciar umas e evitar outras é o desafio em sintonia e em sinergia com a estratégia para
colocado pela obra “Gestão ambiental – Sinto- o negócio. Não menos importante é a forma de
nizar ambiente e estratégia para o negócio”, da encarar um sistema de gestão ambiental como
autoria de Carlos Pereira da Cruz. um portefólio de projectos de melhorias.
O livro dá resposta a muitas questões, cons- O autor é licenciado em Engenharia Quími-
tituindo mesmo um manual indispensável em ca. Tem desenvolvido a sua actividade profissional
qualquer tipo de organização empresarial. Desta- como consultor, auditor e formador nas áreas de
que para matérias como concentrar uma organi- gestão, qualidade e do ambiente. A edição é da
zação no que é essencial, alinhando os projectos de melhoria responsabilidade do grupo editorial Vida Económica e o li-
ambiental com a estratégia, os clientes-alvo e a proposta de vro está disponível por 26 euros, num total de 432 páginas.

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