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REVISTA IHU ON-LINE

Etty Hillesum e a
criação diante do abismo
Segundo a socióloga Gabriela Acerbi, os diários de Etty Hillesum são um
apelo à criação e uma recusa a condicionar a experiência ao abismo
João Vitor Santos | Edição: Patricia Fachin

A
catástrofe, seja como condição ciganas da etnia callon na região do
de vida ou como mote para a sul de Minas Gerais para o desenvolvi-
produção intelectual de Etty Hil- mento de suas pesquisas. “Em uma das
lesum, é o que desperta o interesse da pesquisas que trabalhei direcionada
socióloga Gabriela Acerbi para a obra às políticas de financiamento social e
dessa jovem judia, que narrou em car- moradia popular, passei bastante tem-
tas e diários a sua experiência durante po tentando redimensionar a vida e as
a Segunda Guerra Mundial. “Etty é uma formas de resistir nesse campo social
descoberta recente para mim e o que eu da habitação que é também financeiro e
sei sobre ela, no sentido daquilo que que está imerso num sistema de crédi-
me instiga em relação ao seu trabalho to, dívida e estruturações do mercado”,
e sua vida, é que ela foi uma escritora observa. “Aos poucos mergulhando em
na catástrofe. Na catástrofe, enquanto políticas públicas e lógicas de gestão, se
uma condição de vida e de produção in- entende que a vida é feita, sim, a partir 45
telectual, mas também sobre a catástro- do que o Estado oferece, mas também a
fe, enquanto um tema a ser abordado, partir de todas as coisas e situações nas
que está refletido nos seus escritos de quais ele se ausenta. E nesse sentido,
um modo muito particular, por outras a vida é muito criativa. Podemos usar
vias. E é por isso que seu trabalho me o mesmo raciocínio para pensar nas
afeta tanto”, diz. ocupações indígenas, quem sabe nas
Na entrevista a seguir, concedida por ocupações urbanas na cidade, ou nos
e-mail à IHU On-Line, Gabriela Acerbi movimentos campesinos. São tantas as
menciona que, através dos diários de ausências institucionais (sejam elas de
Etty, “somos convidados a um percur- esquerda ou direita), são tantas as der-
so onde fronteiras entre o íntimo e a rotas quase corriqueiras – de um pon-
noção de humanidade, entre o homem to de vista estrutural – que a vida vai
e a natureza, entre nós e a metafísica sendo promovida por outros meios: um
divina estão borradas, se atravessam e tal modo de fazer retalhado, também
são constantemente redefinidas”. Nos com tudo aquilo que falta. E isso tudo é
escritos da jovem judia, que foi “emba- muito produtivo, como eu já falei ante-
lada pelo estado de guerra e políticas de riormente, é tecido também a partir dos
morte”, também é possível encontrar a abismos colocados”, afirma.
sua “crença na criação, de que é possível Gabriela Acerbi é graduada em
criar mesmo sem escrever uma palavra Ciências Sociais pela Universidade Fe-
ou pintando um quadro, mas moldando deral de Santa Catarina - UFSC. Atu-
uma vida interior”, pontua. almente é mestranda em Ciências So-
Gabriela também encontra a potên- ciais, com ênfase em Antropologia pela
cia criativa dos poemas de Etty na vida Pontifícia Universidade Católica de São
cotidiana, ao acompanhar experiências Paulo - PUC-SP.
em moradias populares e em ocupações Confira a entrevista.

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IHU On-Line – O que você co- toda barbárie. E isso causa bastante gar para tudo. Em mim há a Terra e
nhece acerca de Etty Hillesum estranhamento e ao mesmo tempo também o céu”.
e sobre a sua forma de resis- admiração.
Etty morreu antes de completar 30
tência à dor, ao sofrimento e à
Etty é uma mulher que vai morrer anos, em setembro de 1943. Ela tam-
amargura gerados pela guerra?
no campo de extermínio e que tem bém teve todos os seus familiares,
Gabriela Acerbi – Etty é uma uma escrita embalada pelo estado pais e os dois irmãos exterminados
descoberta recente para mim e o que de guerra e políticas de morte, mas pelo nazismo e o momento em que
eu sei sobre ela, no sentido daquilo que ao mesmo tempo está cavando começou a escrever foi exatamente
que me instiga em relação ao seu tra- fugas para o corpo capturado em quando o domínio nazista se inten-
balho e sua vida, é que ela foi uma Auschwitz. E sua poética vai sendo sificou na Holanda, não muito dis-
escritora na catástrofe. Na catástro- costurada entre esses dilaceramen- tante de onde a pequena Anne Frank
fe, enquanto uma condição de vida tos, de corpos, de subjetividades, de também escrevia.
e de produção intelectual, mas tam- cidades, de organizações comunitá-
Ainda sobre seus diários em tem-
bém sobre a catástrofe, enquanto um rias, de famílias, de relações, da es-
pos de guerra, tenho a impressão
tema a ser abordado, que está refle- piritualidade... Mas diante disso, ela
de que somos convidados a um per-
tido nos seus escritos de um modo está oferecendo algo que é mais do
curso onde fronteiras entre o íntimo
muito particular, por outras vias. E que um testemunho diante do horror
e a noção de humanidade, entre o
é por isso que seu trabalho me afeta e do abismo.
homem e a natureza, entre nós e a
tanto.
metafísica divina estão borradas, se
Etty foi uma jovem judia que viveu atravessam e são constantemente
intensamente a atmosfera da Segun- redefinidas. Lendo alguns trabalhos
da Guerra Mundial e seus desdobra- de análises sobre a produção de Etty,
mentos mais violentos e íntimos, “Ela foi uma enquanto uma tradição também es-
aqueles que afetaram os corpos du- piritual e um percurso de resistência
rante o avanço das ocupações nazis- escritora na e libertação, há autores que desta-

catástrofe”
tas. É nesse contexto do holocausto, cam o distanciamento de Etty de
46 dessa matança de mais de oito mi- um olhar autocentrado, assim como
lhões de pessoas consideradas “in- o abandono de representações con-
dignas de viver” que Etty começou vencionais da vida e do eu. Tzvetan
a escrever o primeiro dos seus oito Crença na criação Todorov1 (2016) vai defender que
diários, isso em 1941, na Holanda, Etty se afasta progressivamente da
dois anos antes de ir para o campo Em um de seus famosos trechos, tradição do pensamento ocidental,
de concentração. E é nesse contexto Etty reforça sua crença na criação, do predomínio do sujeito, onde a sua
também que ela se produziu enquan- de que é possível criar mesmo sem recusa e resistência propõem um ca-
to escritora e intelectual. É nesse escrever uma palavra ou pintando minho em que não há a prevalência
universo tirânico que ela se formou um quadro, mas moldando uma vida do eu centralizador, nesses termos
e se fez enquanto uma mulher que interior, o que nos faz pensar muito que estamos eurocentricamente fa-
estava ali elaborando, criando e re- nessa situação dos campos de con- miliarizados. E também, que ela pro-
formulando os desdobramentos centração onde há uma paralisação põe um direcionamento outro para
políticos do seu tempo à sua ma- do corpo, que aprisionado, não pode que a vida pudesse ser salvaguar-
neira. Elaborações éticas, estéticas, fazer muita coisa diante do horror. E dada, com novos parâmetros, como
políticas, poéticas e místicas sobre ela está atenta a essa dimensão me- um recomeçar do zero na Europa
o caos instaurado, também sobre si nor, que é também por onde compar- pós-guerra. Nesse sentido, é mais do
mesma e dimensões da experiência e tilha a sua dor. Quando escreve, Etty que uma oposição ao nazismo, mas
do ser, num sentido mais filosófico e vai povoando essa vida confinada e uma recusa de lugares e modos de
tecidas nesse estado de guerra total. perseguida com outras forças, como, agir. Desses lugares afogados nos
Um estado de guerra que refletia a por exemplo, as forças da natureza poços de ódio – em suas palavras
consolidação de uma racionalidade a quem ela sempre se refere. Lendo – onde as retidões não vão vir em
científica, totalitária, instrumental, seus diários, fico com a impressão de benefício de um “eu” autocentrado e
que atuou sobre natureza, vidas, que Etty redimensiona sua vida cap- nem apenas por ele. E nessa dimen-
territórios e corpos, numa realidade turada, por exemplo, quando insiste são existencial que é outra, Etty es-
de violência tão intensa que dificul- em dizer que em seu corpo correm tava sempre recrutando os elemen-
ta qualquer reflexão no sentido de largos rios, situam-se altas monta- tos da natureza, experimentando
reparações. E se você se dedicar aos nhas. Ou que nos matagais do seu árvores enquanto bosques inteiros,
escritos de Etty, vai encontrar ali for- desassossego – palavras suas – há
ças imponderáveis, muito sutis, mas largas planícies rasas do seu sossego
1 Resistenti. Storie di donne e uomini che hanno lottato
também potentes, de uma capacida- e entrega. “Todas as paisagens estão per la giustizia [Resistentes. Histórias de mulheres e ho-
mens que lutaram pela justiça, em tradução livre], Ed. Gar-
de de seguir acreditando diante de dentro de mim. Há igualmente lu- zanti, 2016. (Nota da entrevistada)

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hospedando em si as flores, trazendo prisão, que aconteceu em 1979 por modo capitalista e as condições ma-
a terra. Trazendo-as para esse ter- questões políticas associadas ao seu teriais e subjetivas que vão fazendo a
ritório existencial que afrontava os envolvimento na causa operária e vida ruir a partir desses domínios e
muros dos campos de concentração lutas autônomas italianas. Apesar referentes. Diante disso, Negri é bom
perseverando na vida pacientemen- de abordagens e contexto distintos também porque nos ajuda a pensar a
te, de forma recolhida e até mesmo entre Etty e Negri – que também partir das derrotas, com sua análise
esvaziada, que era íntegra e criativa. perdeu o pai assassinado por fascis- do sofrimento que é uma chave para
tas – promovi esse encontro, pois resistir.
ambos remontam questões interes-
Voltando a Etty, tenho que ela
IHU On-Line – Pensando santes sobre tal compartilhamento
está produzindo diante do avanço
ainda a partir da experiência da dor, as possibilidades da criação e
dos campos de extermínio e há aí
de Etty, como compreender o desdobramentos possíveis diante de
uma experiência ética da dor (tam-
avanço do individualismo e da condições opressivas. É uma ligação
bém através do corpo), do domínio
intolerância no mundo de hoje? imaginária sobre condições de vul-
nazista sobre o existente – a quem
E como, em meio à aspereza das nerabilidade que estruturam proces-
ela responde desmedidamente, em
relações cotidianas, acreditar sos de reinvenção da vida.
direção ao amor, com sua experiên-
na possibilidade de mudança
cia mística e religiosa. Etty não está
tanto através do amor quanto
recusando falar apenas do horror,
da alegria?
“Lendo seus ela está recusando condicionar sua
Gabriela Acerbi – Entre as várias
diários,
experiência ao abismo. Ela cria so-
questões que podemos encontrar bre ele. Em seus diários, toca Deus,
nos textos de Etty, vejo seu apelo à
criação como uma estratégia de fuga, fico com a a humanidade e a si mesma. No livro
de Negri, ele está retomando a his-
assim como uma forma de recusa à
proliferação de práticas de ódio, tira- impressão tória bíblica de Jó e sua experiência
com Deus também diante do sofri-
nia e dominação. Etty descreve como
a barbárie nazista despertava uma de que Etty mento. Jó confronta Deus, mas tam-
bém se aproxima dele, depois cons- 47
barbárie idêntica, íntima, que se pu-
desse, empregaria os mesmos méto- redimensiona trói radicalmente um mundo novo.
Um mundo liberto – e é sobre essa
dos de poder para fazer o que está
na ordem do seu desejo. De acordo
sua vida libertação que Negri vai tecer a ideia
de criação, onde a potência forma-se
com ela, sobre essa barbárie que se-
ria nossa, pessoal, talvez corporal,
capturada” na dor, mas se desenvolve na relação
com o ser.
deveríamos rejeitar arduamente e
Para mim, todas essas coisas vão
interiormente, o que seria um com-
sendo articuladas a nos permiti-
bate a qualquer ódio possível de ser Avanço do individualismo e
rem pensar em modos de fazer que
cultivado. Seria necessário manter da intolerância
são políticos, onde as crises vão se
acesa tal combatividade, coloca Etty,
E se a intenção é falar sobre o avan- constituindo como caminhos de
mas nunca, em hipótese alguma, ela
ço do individualismo e da intolerân- luta e reconstrução do ser. E nesse
poderia passar por um regime de
cia no mundo de hoje, a militância sentido, gosto muito quando o au-
ódio e violência, compartilhando o
e o trabalho de Negri são bom en- tor contrapõe a incomensurabilida-
idioma desses sistemas dominado-
contro para reformular as questões de das dores diante daquilo que ele
res, opressivos.
desse individualismo, já que o que chama de cultura da medida, um
Quando comecei a ler Etty e pensar ele anuncia relaciona-se diretamen- fanatismo instrumental pelo cálculo,
sobre essas questões de intolerân- te com as condições de desigualda- esse esforço de racionalização que
cia e sofrimento, lembrei muito de de no modo de produção capitalista ao mesmo tempo que se expande,
um livro do filósofo italiano Anto- (que nos é uma condição e muito expõe sua decadência e insustenta-
nio Negri2, chamado Jó a força do nos têm feito pensar atualmente em bilidade; uma ruína das leis. É as-
escravo. Quando escreveu o livro, relação aos seus horizontes neolibe- sim que Negri associa sua ânsia por
o autor cumpria seu quarto ano de rais). Penso que a questão da into- libertação à incomensurabilidade de
lerância liga-se a tudo que sustenta uma dor que não pode ser medida, e
esse modo que nos paralisa e esgo- a consequência disso é que só a pai-
2 Antonio Negri (1933): filósofo político e moral italiano.
Durante a adolescência, foi militante da Juventude Italiana ta, estruturalmente, politicamente, xão da criação poderia responder à
de Ação Católica, como Umberto Eco e outros intelectuais derrocada da medida. “Lá onde as
italianos. Em 2000, publicou o livro-manifesto Império (Rio economicamente, afetivamente e
de Janeiro: Record), com Michael Hardt. Em seguida, pu- que também tem a ver com dimen- velhas medidas caíram, era preciso
blicou Multidão. Guerra e democracia na era do império
(Rio de Janeiro/São Paulo: Record), também com Michael sões da colonialidade do poder, com criar novas, e a partir daí a paixão
Hardt – sobre esta obra, a edição 125 da IHU On-Line, de residia inteiramente na capacidade
29-11-2004, publicou um artigo de Marco Bascetta, dis- a fabricação da miséria humana do
ponível em https://goo.gl/9rjlQw. (Nota da IHU On-Line) de mover-se com alegria para além

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da medida.” (Negri, 2002). É a des- patriarcado, no campo de desigual- a lembrança daquelas manifestações
crição de uma dor ontológica, como dades no mundo do trabalho, no mobiliza, uma euforia da ordem do
destaca Pelbart3 (2013), o que na ló- genocídio indígena, das populações caos... Mas as Jornadas de Junho
gica negriana é também uma recusa pretas e periféricas. Que é um mar foram tanta coisa que nós seguimos
ontológica. Uma forma de pensar as de gente, de universos, de corpos e aqui falando sobre elas, retomando
existências por aquilo que dói e tam- de experiências que não se entregou os acontecimentos pra tentar elabo-
bém por aquilo que elas constroem diante das derrotas. Mas produziu rar o que estamos vivendo agora, já
recusando, como Etty, que recusa se sobre elas, deu sentido à vida, perpe- que essas coisas parecem estar en-
resignar às condições do extermínio, tuou modos de ocupar as cidades, os trelaçadas. Cinco anos depois das
trazendo em seus diários não só dor, campos, aliançadas localmente em ruas cheias de gente, de exigências
mas também aquilo que florir, que múltiplas experiências produzidas a inegociáveis, múltiplas, quase inco-
pode enunciar uma nova comunida- partir das suas dores incomensurá- municáveis, a gente não sabe bem o
de. veis e dos seus mundos, que se man- que achar daquele emaranhado que
tiveram, que não deixaram de exis- era muito potente e também assus-
E quando vocês me perguntam,
tir. Penso que isso é responder com tador – no sentido daquilo que sen-
como, em meio à aspereza das rela-
paixão e alegria, ainda que tudo... timos diante do desconhecido, como
ções cotidianas, acreditar na possi-
Serve pra pensar em todas as vidas me lembra Clarice Lispector em um
bilidade de mudança tanto através
matáveis que resistiram... de seus poemas: “uma espécie de pu-
do amor quanto da alegria, acredito
dor que se tem diante do que é gran-
que o caminho seja por aí. Redimen-
de demais”.
sionar a potência da dor e daquilo
que ela pode recusar e criar. Dado ao
“Vejo seu apelo Mas quando vocês me perguntam
contexto em que vivemos, o desenho
desse Brasil que ganhamos agora em
à criação como como ficam todos aqueles sonhos
diante desse atual avanço da extre-
outubro de 2018, mas também a par-
tir de toda nossa trajetória histórica,
uma estratégia ma direita, e o que resiste num Bra-
sil amargurado pela crise econômi-
acredito que precisamos redimen-
sionar as criações, a potência da ale-
de fuga, ca, primeiro gosto de lembrar onde
estão enraizadas essas amarguras e
48
gria e estar atento ao que vem sen-
do produzido. Podemos pensar que
assim como também parte daqueles sonhos. Um
dos pesquisadores de Junho em que
desde as ocupações portuguesas em uma forma confio bastante é André Fogliano
nosso território, nossas primeiras (2018). Em sua cartografia afetiva
experiências coloniais e os proces- de recusa à dos enunciados e imagens do levante

proliferação
sos de escravidão, paixões, alegrias e brasileiro, ele tratou Junho como um
formas de resistir estão sempre sen- acontecimento-problema, experiên-
do tecidas diante das suas derrotas
(que são inúmeras e desiguais, acu- de práticas de cias-limite que desestabilizaram o
atual estado de coisas e de discursos
muladas historicamente). Mas elas
estão aí, cotidianamente consolidan- ódio, tirania e com o qual a governamentalidade do
capitalismo mundial integrado ope-
do forças escapáveis e muitas vezes
imperceptíveis, mas imensamente dominação” rava no país e no mundo. Sua hipóte-
se descreve como essas insurreições
potentes. desarmaram estados de percepções
estabelecidos, que se convencionou
Penso tudo isso num sentido polí- IHU On-Line – Você viveu in-
chamar de Antropoceno – e então
tico-prático, nos modos cotidianos tensamente as reivindicações
há no seu trabalho uma abordagem
de levar a vida, nas alianças comuni- de 2013 e as possibilidades de
que chama atenção para essa crise
tárias que seguem as margens e nas transformações sociais profun-
do referente, em terras brasileiras e
bordas, as lutas diárias e o cultivo do das implicadas nas marchas e
também como um problema geral,
estar junto, principalmente frente manifestações populares. Hoje,
de mundo, que traz à tona o confron-
às desigualdades que se alastram. cinco anos depois, e com o avan-
to de vários mundos e modos de vida
Podemos pensar nas dimensões co- ço da extrema direita, como fi-
que vinham entrando em confronto
loniais do racismo, nas forças do cam todos aqueles sonhos? E o
com parâmetros da governamenta-
que resiste num Brasil amargu-
lidade vigente. Como já vinha sendo
3 Peter Pál Pelbart (1956): é um filósofo, ensaísta, profes- rado pela crise econômica?
sor e tradutor húngaro, residente no Brasil. Graduado em colocado por pesquisadores como
Filosofia pela Universidade Paris IV (Sorbonne), é mestre Gabriela Acerbi – É sempre Eduardo Viveiros de Castro4, Débo-
pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PU-
C-SP, doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo difícil falar de Junho de 2013... Acre-
e livre-docente pela PUC-SP. Vive na cidade de São Paulo,
onde é professor da PUC-SP e coordena a Companhia Tea- dito que chega a ser uma tarefa in- 4 Eduardo Viveiros de Castro (1951): antropólogo brasi-
tral Ueinzz, formada por pacientes psiquiátricos do hospi- leiro, professor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, na
grata, já que Junho é muita coisa. Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Concedeu a
tal-dia A Casa. (Nota da IHU On-Line)
Isso sem falar de todos os afetos que entrevista O conceito vira grife, e o pensador vira proprie-
tário de grife à edição 161 da IHU On-Line, de 24-10-2005,

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rah Danowski5... rar. Achille Mbembe6, autor do livro e de um tempo que ruiu. Que está
Crítica da Razão Negra, já havia ruindo faz tempo... Por mais que ele
Nesse sentido, Junho de 2013 teria
anunciado sobre essa bifurcação en- se alastre, nas suas variações, con-
levantado todo um campo de possí-
tre democracia e capital financeiro, tradições, na incoerência dos muitos
veis experimentações e também de
e sobre as ameaças que esse modo votos... Ele expressa também o de-
incômodos não mais sustentáveis.
de subjetivação neoliberal nos tra- sespero de algo em queda. Não é só
Experimentações tecidas também
ria às nossas frágeis democracias: isso, mas tem ali algo que insiste de-
diante dos desdobramentos neolibe-
uma condição de endividamento da sesperadamente, que esbraveja para
rais que nos atravessam, enquanto
vida similar à lógica perpetuada na não deixar outros modos que estão aí
Brasil, e diante dos nossos impasses
escravização das populações negras, prevalecerem. Acontece que todas as
coloniais-capitalistas atualizados,
horizontes endurecidos e mortais, forças as quais o Bolsonaro se opõe
dinâmicas neodesenvolvimentistas
produtores de sistemas de regimes seguem existindo, sempre! E se ago-
muito bem instauradas e todas as
de sofrimento aliados aos modos de ra estamos vivendo uma dimensão
tensões produzidas nessa intensi-
governo. de derrota, estamos vivendo tam-
ficação de modos de exploração e
bém uma dimensão de lutas que se
condicionamentos da vida na era
acirram, que não se dobram diante
do capital financeiro, dos grandes
empreendimentos, dos megaeven- “Etty não está dos insuportáveis que as assolam. E
isso não é uma situação só de agora,
tos, de regimes de endividamento
contemporâneo, expropriações e recusando isso sobrevive historicamente.

falar apenas
de uma crise política generalizada, Nesse sentido, eu penso com Negri
quanto aos seus formatos e modos o Brasil de agora e o presidente que
de operar, o esgotamento dessas ins-
tituições. do horror, ela ganhamos: criações a partir das pró-
prias condições de sofrimento viven-

está recusando ciadas. Acho necessário lembrar que


o que está ruindo diz mais respeito
Necropolítica tropical condicionar a eles do que a nós. Como não pen-
sar nos impactos do feminismo que 49
E pensando no agora, é claro que
estamos todos muito preocupados
sua experiência corre a ventos rápidos, que produz
novas coisas em termos de produ-
com o que foi consolidado em outu-
bro deste ano no país. Não consigo
ao abismo. Ela ção de subjetividade, dimensões de
família, de relações, do mundo do
ver menos do que uma necropolítica
tropical alargando passos, ganhan-
cria sobre ele” trabalho? Novas socialidades im-
plicadas. Ou como não pensar nas
do mais braços. Planos explícitos de Dito isso, ainda acredito que nos vidas aldeadas que não estão histo-
morte, de medo e um campo de des- ajuda a pensar e a respirar, lembrar ricamente diminuindo? Pelo contrá-
montes que intensificarão o soterra- que esse avanço da extrema direita é rio, são territórios em disputa, aderi-
mento de direitos, dos programas e também a expressão de um mundo dos, exigidos, de gente que se dispõe
políticas sociais, enfim, tudo sendo a falar uma língua institucional no
arrastado por horizontes neoliberais sentido de uma traição político-lin-
6 Joseph-Achille Mbembe, conhecido como Achille guística, para garantir seu direito de
e ultraconservadores, a radicalização Mbembe (1957): é um filósofo e cientista político. Natural
dessa coisificação da vida, das pes- de Otélé, em Camarões Franceses, obteve seu Ph.D. em sobrevivência. Também formas de
História na Universidade de Sorbonne, em Paris, França,
soas, do meio ambiente, das relações em 1989. Referência acadêmica no estudo do pós-colo- vidas aquilombadas, pretas, que ali-
nialismo e pensador das grandes questões da história e cerçam sua ancestralidade às novas
de trabalho, do campo educacional, da política africana – apesar de, ele próprio, não se definir
da saúde pública... A política inten- como “teórico do pós-colonialismo”. É professor de Histó- formas e caminhos para conquistar
ria e Ciência Política na Universidade Duke (Virgínia, Esta-
sificando ares empresariais devasta- dos Unidos) e na Universidade Witswatervand (Joanesbur-
direitos, acessos e redimensionar as
go, África do Sul), além de pesquisador no Wits Institute violências vividas... Uma luta que
dores, sob a lógica do investimento for Social and Economic Research (WISER) dessa mesma
e da resiliência. E isso tem menos a universidade. É um autor conhecido, tanto pelos seus arti- vem a suor e sangue. Assim, prefiro
gos nas versões em espanhol do Le Monde Diplomatique
ver com quem os escolheu, mas mais como pelas suas contribuições para os livros coordenados
pensar num campo que se cria a par-
com as condições que eles vão ope- por Gilles Kepel, As políticas de Deus (A proliferação do tir das condições menos favoráveis
divino na África subsaariana); Jérôme Bindé, Para onde vão
os valores?: colóquios do século XXI (Do racismo como possíveis, mas que se opõe à nossa
prática da imaginação); Fernando López Castellano, De- sensação atual de desmoronamento.
disponível em http://bit.ly/ihuon161. Entre outras publi- senvolvimento: Crónica de um desafio permanente (Poder,
cações, escreveu Arawete: O Povo do Ipixuna (São Paulo: violência e acumulação) e Okwui Enwezor, O desacolhe- Há vidas não arruinadas. Como não
CEDI), A inconstância da alma selvagem (e outros ensaios dor. Cenas fantasma na sociedade global (Necropolítica).
de antropologia) (São Paulo: Cosac & Naify) e Metafísicas Em Crítica da razão negra (Lisboa: Antígona, 2014), o autor olhar para 2018 sem lembrar das
canibais (São Paulo: Cosac & Naify). Também é autor do elabora sobre o conceito de “Negro”, sobre a evolução
prefácio do livro A queda do céu – Palavras de um xamã do pensamento racial europeu que o origina e sobre as
candidaturas de mulheres, mulhe-
yanomami, de Davi Kopenawa e Bruce Albert (São Paulo: máscaras usadas para o cobrir com um manto de invisi- res-trans, negras, indígenas e qui-
Companhia das Letras). (Nota da IHU On-Line) bilidade. O texto é profundamente teórico, permeado por
5 Déborah Danowski: bacharela, mestra e doutora em uma filosofia política latente: além de ser um acadêmico lombolas eleitas este ano? Bancadas
Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de de referência, Mbembe é também um acadêmico compro-
Janeiro - PUC-Rio, onde é professora. Fez estágio pós-
populares e coletivas, por exemplo
metido com o tema. (Nota da IHU On-Line)
-doutoral em Filosofia na Universidade de Paris IV (Paris-
-Sorbonne). (Nota da IHU On-Line)

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TEMA DE CAPA

como o MUITAS7, a candidata eleita de mundo não cansaram de chegar. rados parar enxergar aquilo que está
Érica Malunguino que administra o Temos aí Davi Kopenawa11, Ailton sendo inventado, essas produções
quilombo urbano Aparelha Luzia, a Krenak12, Sônia Guajajara13 que saiu cotidianas, comunitárias, que talvez
Bancada Ativista8 no Rio de Janei- como candidata a vice-presidente do sejam “pequenas” demais para quem
ro, Áurea Carolina em Minas Gerais país. A verdade é que nunca foi mui- concentrou-se apenas numa lógica
anunciando que eles vão aquilombar to favorável e que as dimensões da de partidos – ou de um determina-
as instituições?... Se a gente quiser, dor e da catástrofe sempre estiveram do lugar da “esquerda” nacional.
podemos chamar de política menor aí. E nesse sentido, penso que é im- Existem modos de vida, modos de
– no sentido minoritário, como bem portante a gente reforçar e lembrar organizações coletivas que estão aí
queria Deleuze9, e assim, incrivel- os projetos e iniciativas que estão e constantemente se atualizando e que
mente potentes, batalhadas diante sempre estiveram sendo produzidos talvez a gente não consiga encaixá-
das derrotas históricas e diárias. por aqueles que podem dar nome à -los naquilo que esperamos que seja
sua própria dor, que podem criar a um modo de resistir ou de agir poli-
Ainda sobre esses caminhos não re-
partir dos seus abismos. Isso tudo ticamente.
signados e dores que criam, gosto de
são políticas de localização. São polí-
retomar a pesquisadora bell hooks10 Em uma das pesquisas que traba-
ticas não ressentidas, são expressões
(2013), que fala da sua trajetória lhei direcionada às políticas de fi-
de amor, de potência, de guerra, de
com a produção de conhecimento e nanciamento social e moradia popu-
festa e de vida. Também é poético,
as questões do sofrimento – e que no lar, passei bastante tempo tentando
estético, místico e é político.
seu caso, associam-se diretamente redimensionar a vida e as formas de
às violências e desigualdades vividas resistir nesse campo social da habi-
na segregação racial institucionaliza- tação que é também financeiro e que
IHU On-Line – Quais os maio-
da nos Estados Unidos, que, nos ter- está imerso num sistema de crédito,
res desafios para se conceber
mos de lei, só foi cair depois de 1967. dívida e estruturações do mercado.
uma reinvenção da política no
No livro Ensinando a transgredir, Após acompanhar experiências co-
Brasil através da alegria?
a educação como prática de liber- tidianas em moradias populares e
dade, bell hooks elabora sobre os Gabriela Acerbi – Acho que também em ocupações ciganas da
50 efeitos e os caminhos abertos ao se gostaria de direcionar a intenção da etnia callon na região do sul de Mi-
dar nome à dor. O que abarca tanto reinvenção para a própria pergunta nas Gerais, me esforcei para tentar
uma dimensão coletiva da dor, quan- em vez de respondê-la. Ainda tenho percorrer com mais cuidado as ar-
to uma muito íntima e individual dos dúvidas de se não seria necessário ticulações e negociações que pro-
processos de cura ao se nomear os a gente parar de perguntar sobre a duzem formas de habitar distintas
efeitos do sofrimento e trazê-los ao reinvenção da política, mas reinven- e também particulares. Aos poucos
campo educativo, trazê-los ao lugar tar os olhos de quem olha para ela (e mergulhando em políticas públicas
de elaboração. também os olhos que definem o que e lógicas de gestão, se entende que
é política). Às vezes fico com a im- a vida é feita, sim, a partir do que o
Quando penso nessas campanhas,
pressão de que não estamos prepa- Estado oferece, mas também a par-
quando olho para o que temos em
tir de todas as coisas e situações nas
termos de Brasil, as dinâmicas co-
11 Davi Kopenawa Yanomami (1956): escritor e líder in- quais ele se ausenta. E nesse sentido,
munitárias que se perpetuam e as dígena brasileiro. Ainda criança, viu a população de sua
terra natal ser dizimada por duas epidemias, ambas tra- a vida é muito criativa. Podemos usar
amarguras dos processos políticos zidas pelo contato com o homem branco. Trabalhou na o mesmo raciocínio para pensar nas
que passamos, gosto de lembrar Fundação Nacional do Índio como intérprete. Mudou-se
para a aldeia Watorik+ na década de 1980. Casou-se com ocupações indígenas, quem sabe nas
que historicamente nossas condi- a filha do pajé e se tornou chefe do posto indígena Demi-
ni. Foi um dos responsáveis pela demarcação do território ocupações urbanas na cidade, ou nos
ções nunca foram fáceis. Há anos e Yanomami em 1992. Recebeu o prêmio ambiental Global movimentos campesinos. São tantas
anos, populações indígenas, xamãs, 500 da ONU. Em 2010, viu sua autobiografia La chute du
ciel, escrita em parceria com o antropólogo francês Bruce as ausências institucionais (sejam
anunciam que as catástrofes e fins Albert, foi lançada na França. O livro teve tradução para o
inglês, francês e italiano e sua edição em português saiu
elas de esquerda ou direita), são tan-
em 2015 A queda do céu. Palavras de um xamã yanomami tas as derrotas quase corriqueiras
7 https://www.somosmuitas.com.br/ (Nota da entrevista- (São Paulo: Companhia das Letras). (Nota da IHU On-Line)
da) 12 Ailton Alves Lacerda Krenak, mais conhecido como – de um ponto de vista estrutural –
8https://monicadabancada.com.br/ - https://pt-br.face- Ailton Krenak (Minas Gerais, 1953): é um líder indígena,
book.com/bancadaativista/ (Nota da entrevistada) ambientalista e escritor brasileiro. É considerado uma das
que a vida vai sendo promovida por
9 Gilles Deleuze (1925-1995): filósofo francês. Assim como maiores lideranças do movimento indígena brasileiro, outros meios: um tal modo de fazer
Foucault, foi um dos estudiosos de Kant, mas tem em Ber- possuindo reconhecimento internacional. Pertence à etnia
gson, Nietzsche e Espinosa, poderosas interseções. Pro- indígena crenaque. (Nota da IHU On-Line) retalhado, também com tudo aquilo
fessor da Universidade de Paris VIII, Vincennes, Deleuze 13 Sônia Bone Guajajara (1974): é uma líder indígena
atualizou ideias como as de devir, acontecimentos e sin- brasileira, formada em Letras e em Enfermagem, especia-
que falta. E isso tudo é muito produ-
gularidades. (Nota da IHU On-Line) lista em Educação especial pela Universidade Estadual do tivo, como eu já falei anteriormente,
10 Gloria Jean Watkins (1952): mais conhecida pelo pseu- Maranhão. Recebeu em 2015 a Ordem do Mérito Cultu-
dônimo bell hooks (escrito em minúsculas), é uma autora ral. Sua militância em ocupações e protestos começou na é tecido também a partir dos abis-
feminista e ativista social nascida nos Estados Unidos. O coordenação das organizações e articulações dos povos
nome bell hooks foi inspirado em sua bisavó materna, Bell indígenas no Maranhão - Coapima e levou-a à coordena-
mos colocados. E no nosso contexto
Blair Hooks. Sua produção trata da interconectividade de ção executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil atual, penso que isso tudo é sobre
raça, capitalismo e sexo, que ela descreve por sua capaci- - Apib. Antes disso ainda passou pela Coordenação das
dade de produzir e perpetuar os sistemas de opressão e Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira - Coiab. criação de condições de sobrevivên-
dominação de classe. Publicou mais de 30 livros e muitos Foi candidata à vice-presidência na chapa com Guilherme
artigos. Aborda raça, classe e gênero na educação, arte,
cia, como para a pesquisadora Verô-
Boulos, pelo Psol. (Nota da IHU On-Line)
história, sexualidade, mídia de massa e feminismo. (Nota nica Gago (2014) que vai falar de um
da IHU On-Line)

17 DE DEZEMBRO | 2018
REVISTA IHU ON-LINE

neoliberalismo desde baixo, que são que constantemente atualizam o oficiais, é preciso também querer en-
os modos de dar conta da dinâmica campo das resistências que estamos xergar esses lugares por onde a vida
social, política e econômica, que re- querendo nos referir e enxergar, das está constantemente produzindo.
siste à exploração e à despossessão e reinvenções. Sejam jornadas do mês Essas localizações onde é necessário
que se desprega desse espaço do cál- de Junho17, sejam pequenos e es- um fazer particular e até mesmo tá-
culo, das leis de medida. trondosos ganhos no campo da polí- ticas de visibilidade, também formas
tica institucional, seja na amplitude de cuidar da vida e mantê-la vivível,
Nesse sentido, eu lembro que todas
de um quilombo ou de uma terra já que, de onde se situa, as condições
as vezes que eu preciso falar sobre
ocupada frente as não demarcações nem sempre ou quase favoreceram.
reinvenção política, gosto de usar
É como uma perseverança ainda que
o mesmo trecho de uma poeta que
17 Junho de 2013: os protestos no Brasil em 2013, tam- tudo – e que nos dias atuais é atra-
gosto muito. Matilde Campilho14, bém conhecidos como Manifestações dos 20 centavos,
Manifestações de Junho ou Jornadas de Junho, foram
vessada, joga junto e dribla modos
em uma breve entrevista sobre arte, várias manifestações populares por todo o país que ini- de fazer neoliberais e as condições
música e poesia, insiste que essas cialmente surgiram para contestar os aumentos nas tarifas
de transporte público, sobretudo nas principais capitais. institucionais que se avivam nesses
coisas não salvam o mundo, mas Inicialmente restrito a pouco milhares de participantes,
os atos pela redução das passagens nos transportes pú-
contextos.
salvam o minuto e isso é suficiente.
blicos ganharam grande apoio popular em meados de
Depois ela reforça que estamos aqui junho, em especial após a forte repressão policial contra Fiquei pensando que eu podia en-
os manifestantes, cujo ápice se deu no protesto do dia
para “dançar um pouquinho sobre 13 em São Paulo. Quatro dias depois, um grande número
cerrar o trecho dessa pergunta reto-
os escombros. Não deixar que a po- mando Etty Hillesum e tudo aquilo
eira dê alergia nos olhos”. E nessa
dança, cada um faz como pode... “A “Ainda tenho que ela fez com as condições de ex-
termínio, me perguntar quais as con-
gente vai tentando salvar os segun-
dinhos — da minha vida, da vida de
dúvidas se dições de resistência e invenção po-
lítica no contexto do nazismo... E aí,
todos meus amigos e de alguém que
lê uma estrofe. E já é bom.”
não seria penso que eu teria que tentar focar
no que Etty criou.
A dança sobre os escombros de Ma- necessário a
tilde me lembra a política cotidiana,
constantemente reinventada. Me gente parar de IHU On-Line – De que forma a
arte e a cultura podem se con-
51
lembra que as dimensões do que é
política e resistência são mais largas perguntar sobre figurar como alternativas de
resistência ao totalitarismo,
do que definem os teóricos. Uma dis-
cussão que vem sendo amplamente a reinvenção sendo capazes de abrir pers-
pectivas para o diálogo?
tecida por uma antropóloga em que
confio e admiro, a Alana Moraes15,
da política, mas Gabriela Acerbi – Acho que um
em suas pesquisas a partir da atu-
ação das mulheres no movimento
reinventar os pouco dessa resposta está dissolvida
em tudo que tenho falado até agora.
de luta por moradia, o MTST... Ala-
na me ajudou a retomar os desafios
olhos de quem Queria apenas sugerir que a gen-
te trouxesse para a palavra cultura
epistemológicos de uma pesquisa-
dora que lemos bastante, e que nos
olha para ela uma dimensão de “modo de vida” e
então me sinto mais à vontade pra
ajuda a reconfigurar o olhar para o
que seria o campo da ação política.
(e também falar, no sentido de perceber, de es-
tar sensível a captar a inventividade
Donna Haraway16 (1995) enfatiza os olhos que desses modos, aquilo que eles estão
tal possibilidade de ver a partir dos produzindo, em variados aspectos
abismos, a partir dessa localização definem o que que compõem suas “culturas”... Pen-
so que, diante dos totalitarismos, es-
é política)”
que é periférica. E quando convo-
cou os abismos, a autora me levou tão em jogo também os inegociáveis
automaticamente para experiências de populares tomou parte das manifestações nas ruas em dos modos de existir, ainda que eles
novos diversos protestos por várias cidades brasileiras e estejam sob ameaça de serem tritu-
até do exterior. Em seu ápice, milhões de brasileiros es-
tavam nas ruas protestando não apenas pela redução das rados. Talvez a arte seja sim uma
14 Matilde Maria d’Orey de Sousa e Holstein Campilho tarifas e a violência policial, mas também por uma grande
(1982): é uma poeta portuguesa. (Nota da IHU On-Line) variedade de temas como os gastos públicos em grandes
dimensão por onde é possível que
15 Alana Moraes: é antropologia formada pela Universida- eventos esportivos internacionais, a má qualidade dos ser- algo escape, mas assim como tantas
de Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, mestra em Sociologia viços públicos e a indignação com a corrupção política em
e Antropologia pela mesma universidade, e atualmente geral. Os protestos geraram grande repercussão nacional outras coisas que estão implicadas
cursa doutorado no Programa em Antropologia Social do e internacional. Sobre o tema, confira a edição 193 dos
Museu Nacional da UFRJ. É feminista e integrante do cole- Cadernos IHU ideias, intitulada #VEMpraRUA: Outono Bra-
nas tais culturas. Não sei se falar em
tivo Urucum pesquisa-luta. (Nota da IHU On-Line) sileiro? Leituras, disponíveis em http://bit.ly/2aVdHxw. A formas de diálogo, mas daquilo que
16 Donna Haraway (1944): bióloga, filósofa, escritora e edição 524 da revista IHU On-Line, Junho de 2013 – Cinco
professora nascida nos Estados Unidos. Escreveu diver- Anos depois. Demanda de uma radicalização democrática vai ser mantido, que vai ser comuni-
sos livros e artigos sobre ciência e feminismo. Entre seus nunca realizada, de 18 de junho de 2018, está disponível
textos mais destacados está o ensaio Manifesto ciborgue. em http://www.ihuonline.unisinos.br/edicao/524. (Nota da
cado de alguma maneira – nem que
Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do sé- IHU On-Line) seja inventando uma maneira nova.
culo XX, publicado originalmente no periódico Socialist
Review, em 1985. (Nota da IHU On-Line) Se for pra pensar a arte, então pen-

EDIÇÃO 531
TEMA DE CAPA

sar uma dimensão de perpetuação, tos naquele dia. Ou que a pajelança que se abre, que vem desse encontro
de comunicar, de fazer falar aquilo indígena vai continuar existindo, de forças. Um possível esse que se
que diz respeito aos modos de vida. que a congada mineira ocupará as liga a uma feitura do mundo, um
E isso também tem a ver com formas ruas em maio pra São Benedito, que modo de fazer diante dos escom-
de se relacionar, de se alimentar, é um Santo negro. Ou que os Yano- bros, como disse acima, e que está
as práticas religiosas, as dimensões mami vão seguir enxergando os es- vinculado a um modo de vida e às
rituais, afetivas e festivas que são píritos xapiri, fazendo eles dançarem formas que ele encontra para perse-
mantidas, as formas como educamos para o céu não cair, ainda que a mi- verar suas concepções, seus concei-
as crianças, como se cura, como se neração coma seus territórios acele- tos, sua ação.
trata do corpo... radamente e os contamine com suas
epidemias.
Penso que a vida – todas essas que
IHU On-Line – Que histórias
são negadas pelos regimes que defi-
você gostaria que sua geração
nem os matáveis, os aniquiláveis –
IHU On-Line – A truculência narrasse aos que virão?
já é em si foco de resistência, e são
da ditadura no Brasil fez aflo-
vários focos... É claro que podemos Gabriela Acerbi – Se for pra falar
rar movimentos artísticos que
falar em circuitos artísticos, mas po- em histórias que deixaremos, gosta-
são reconhecidos até hoje, a
demos falar em todos os circuitos ria que a gente conseguisse trazer a
dor da Shoá fez emergir a po-
produtivos que propagam modos força das contranarrativas. Histórias
esia de amor nos escritos de
de estar no mundo e suas formas a contrapelo, num sentido benjami-
Etty Hillesum, e nas dificulda-
de extravasar e driblar as forças que niano talvez (para usar as ideias de
des da vida nas periferias das
os oprimem... E assim eles garan- alguém que também morreu no co-
grandes cidades do Brasil sur-
tem perpetuação... Gosto de pen- lapso da Segunda Guerra Mundial e
gem o samba, o rap e outras
sar quais são as histórias que estão seus extermínios, como Etty). Gos-
tantas manifestações culturais
sendo cantadas num samba de roda, taria que deixássemos uma multipli-
e artísticas. É em momentos-
que histórias estão sendo dançadas, cação de histórias do ponto de vista
-limite que o ser humano pode
por exemplo, por um grupo de afoxé, dos vencidos, aquelas que até então
ser capaz de revelar o seu me-
52 no maracatu, no jongo, que mundo existiram, mas não ocuparam as nar-
lhor? Por quê?
é cantado no rap. Que mundos es- rativas oficiais. Aquelas que não são
ses gestos, essas letras, esses modos Gabriela Acerbi – Acredito que encontradas no idioma institucional,
de fazer estão convocando? E nesse a resposta dessa pergunta pode ser e se estão, foram retorcidas. Contra-
sentido, de contar histórias que não encontrada em tudo que falei até narrativas, no plural, que furem as
as narrativas oficiais, de achar mo- agora, e para não me repetir, chamo bolhas, as identidades, as noções de
dos pra fazer vazar uma vida, isso é atenção apenas para essa questão sujeito dominantes e também as pre-
sim muito potente, necessário, ur- do que “melhor pode ser revelado” tensões modernas de modos ociden-
gente! E ao mesmo tempo, isso é o do ser humano. Não sei se alcança tais, europeus, masculinos, brancos,
que se faz, há anos e anos... Nessas essa condição do melhor ou do pior, da mercadoria de criar, escrever e
horas gosto de pensar a própria vida mas aquilo que pode ser feito, pro- produzir.
enquanto obra, uma estética da exis- duzido frente a todas essas dificul-
Na verdade, tenho a impressão de
tência. Estética, ética, política... dades, as violências vividas e aos
que essas contranarrativas não pa-
problemas estruturais que assolam.
Fico pensando que com Bolsonaro ram de se multiplicar, de ocupar os
Acredito que estamos falando então
ou sem Bolsonaro, por exemplo, can- espaços, e principalmente, sem preci-
da capacidade de produzir um pos-
domblecistas vão seguir guardando sar dobrarem-se à gramática da sujei-
sível. E frente a todas essas trucu-
as sextas-feiras, vestindo o branco, ção, da servidão e da subalternidade
lências, nessa ação artística ou qual-
não comendo determinados alimen- instaurada. ■
quer outra que seja, há um possível

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