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Euza Inácia Ferreira

EM BUSCA DA AUDIÊNCIA:
uma análise do Quadro Espelho, Espelho Meu, do Programa Márcia, da TV
Bandeirantes

Belo Horizonte
Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH)
2010
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Euza Inácia Ferreira

EM BUSCA DA AUDIÊNCIA:
uma análise do Quadro Espelho, Espelho Meu, do Programa Márcia, da TV
Bandeirantes

Monografia apresentada ao curso de Jornalismo do Centro


Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) como requisito parcial à
obtenção do grau de Bacharel em Jornalismo.
Orientadora: Profa. Wanir Campelo.

Belo Horizonte
Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH)
2010
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AGRADECIMENTOS

Foram muitas as pessoas que contribuíram para que eu conseguisse finalizar esta monografia.
A todas elas gostaria de registrar meus agradecimentos.

Agradeço primeiramente a Deus, pois sem Ele não somos nada.

À minha mãe que, com sua experiência e serenidade, esteve sempre presente, me orientando e
me ajudando nos momentos de dúvida, frente aos caminhos a tomar.

Ao meu pai, meu porto seguro em toda a minha trajetória. Seu amor e torcida foram sempre
muito importantes.

Aos meus irmãos, à minha afilhada, meus sobrinhos, cunhadas e cunhado que torceram por
mim, agradeço o apoio.

À minha mestra e “ídola”, professora Wanir Campelo, orientadora de todas as horas. Sua
ajuda e confiança foram essenciais para a finalização deste projeto. Agradeço a paciência, o
amor, e o apoio fundamental, como sempre. Quando crescer, gostaria de ser como você.

Aos professores Adélia, Ana Rosa, Ângela, Edmundo, Érika, Fabrício, Fernanda, Izamara,
João Joaquim, Juarez, Lorena, Luciano, Luiz Henrique, Maurício, Vanessa e Wagner, que me
ajudaram muito, principalmente, com relação a algumas dúvidas que tive no decorrer de todo
o projeto. Nunca vou esquecê-los e seguirei para sempre os seus ensinamentos. Vocês me
fizeram acreditar que eu tinha potencial para conseguir realizar esse trabalho que confesso, foi
o mais difícil que eu já fiz.

Meu carinho à Dorinha (Coordenadora da Biblioteca do Centro Universitário UNI-BH) que,


com toda paciência, me orientou e me deu dicas essenciais.

Aos meus amigos João Paulo Castilho (Diamante Negro), Euclésio Barbosa e Joseph Santos
que, mesmo não estando hoje no curso, me ajudaram muito.
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Às amigas Daisy Oliveira, Dayanna Nunes e Caroline Ornellas, agradeço a leitura sempre
atenta das minhas produções e a clareza de seus comentários. Obrigada por toda a torcida e
carinho de sempre.

A todos os demais amigos e familiares que compartilharam as minhas dúvidas, as minhas


aflições e as minhas conquistas, o meu muito obrigada!
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DEDICATÓRIA

Dedico esse trabalho às minhas duas filhas Kathleen


Karine Ferreira Poncio e Larissa Evelyn Ferreira Poncio
que, com a alegria contagiante de sempre, não pouparam
palavras e sorrisos para me alimentarem do ânimo
necessário para seguir adiante. Saibam que vocês são a
razão da minha vida.
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RESUMO

A presente monografia pretende analisar o quadro Espelho, Espelho Meu, do Programa


Márcia da TV Bandeirantes e verificar de que forma a estética do grotesco se faz presente,
buscando identificar, nas crises humanas apresentadas cotidianamente, sua matéria-prima na
obtenção da audiência.

Palavras-chave: Televisão, audiência, grotesco, espetáculo.


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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................08

2 TV: O GRANDE CIRCO ELETRÔNICO.....................................................................09

2.1 Indústria Cultural e Globalização.....................................................................................09

2.2 O grotesco como elemento de audiência na TV...............................................................12

2.3 A metamorfose da TV: o palco se transforma em picadeiro............................................16

2.4 O histórico da TV.............................................................................................................18

3 O PROGRAMA MÁRCIA ..............................................................................................24

3.1 A trajetória........................................................................................................................24

3.2 A atração ..........................................................................................................................25

3.3 Os atores ..........................................................................................................................29

3.4 Os bastidores....................................................................................................................30

4 ESPETÁCULO E REALIDADE: DISCURSOS DE SUJEITOS COMUNS..............33

4.1 Metodologia de pesquisa..................................................................................................33

4.1.1 Pesquisa bibliográfica....................................................................................................34

4.1.2 Pesquisa Documental.....................................................................................................35

4.1.3 Métodos e técnicas ........................................................................................................35

4.1.3.1 Análise de conteúdo....................................................................................................36

4.2 A espetacularização da vida para a transformação do rosto e da alma.............................37

4.3 Era uma vez uma mulher... que queria viver feliz para sempre........................................39
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5. CONCLUSÃO..................................................................................................................42

REFERÊNCIA.....................................................................................................................45

ANEXOS...............................................................................................................................48

Anexo A – Participantes do quadro Espelho, Espelho Meu de 2009.....................................48

Anexo B – Entrevista com Márcia Goldschmidt ...................................................................55


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1 INTRODUÇÃO

O Programa Márcia, veiculado pela TV Bandeirantes, foi ao ar pela primeira vez em junho
de 2007, comandado pela apresentadora Márcia Goldschmidt. O talk show leva ao
telespectador emocionantes histórias de vida, mostrando o drama de pessoas comuns, em
busca de soluções para seus problemas.

Exibido de segunda a sexta-feira, sempre às 16 horas, tem uma hora e meia de duração. São
muitos e variados os relatos apresentados. Paixões, traições, desilusões e desencontros são, na
maioria das vezes, a tônica das histórias. Diante de uma plateia de 120 pessoas, Márcia
Goldschmidt entrevista convidados e leva profissionais da área da psicologia, do direito ou da
medicina, para ajudar na solução de cada caso.

O programa é dinâmico e ousado. Além de entreter, também se preocupa, ainda que


timidamente, em informar e orientar a plateia e os telespectadores.

O objetivo desse trabalho é analisar, de maneira geral, o referido programa e, mais


especificamente, o quadro Espelho, Espelho Meu, na tentativa de identificar os recursos
utilizados pelos seus idealizadores na busca pela audiência.

Os temas abordados no Programa Márcia estão diretamente ligados à família, com questões
que envolvem drogas, alcoolismo, espancamentos, dentre outros.

Muniz Sodré e Raquel Paiva (2002) afirmam que a televisão reproduz na tela as diversões e
os ritos populares, visando à captação e a ampliação da audiência. Por meio da identificação
de uma sociedade fragilizada, programas desse gênero tendem a conquistar um alto nível de
audiência; afinal, a exposição de crises emocionais, conjugais e psicológicas caracteriza o
programa como um circo moderno, em que não é mais a mulher barbada, o globo da morte ou
o trapezista que fazem sucesso. É a corda bamba da vida contemporânea que acaba se
tornando a atração principal deste picadeiro eletrônico. Assim, como acontece sob as
tradicionais lonas coloridas, o programa de auditório diverte e emociona.
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2. TV: O GRANDE CIRCO ELETRÔNICO

2.1 Indústria Cultural e Globalização

As formas de compreender os meios de comunicação não passam pelos caminhos de uma


análise lógica, muito menos por uma via unidirecional controlada; ao contrário, encontram
eco em todas as esferas da sociedade e, por isso mesmo, estão sujeitas às injunções que
compõem as culturas de um país (ou mesmo de uma região) - lugares, mediações de discursos
que se constroem e desconstroem obedecendo a uma dinâmica própria de cada sociedade, cuja
principal organização é a linguagem.

Para Morin (1997), a cultura de massa está relacionada a “um corpo complexo de normas,
símbolos, mitos e imagens que penetram o indivíduo em sua intimidade, estruturam os
instintos e orientam as emoções”.

Ele afirma que a cultura de massa estabelece uma concorrência, mas não altera as demais
culturas como a nacional, a humanista e a religiosa. Conforme o autor, as sociedades
modernas tendem a ser policulturais. Nesse sentido, “a cultura de massa se integra, ao mesmo
tempo, numa realidade policultural, fazendo-se conter, controlar, censurar (pelo Estado, pela
Igreja) e, simultaneamente, tende a corroer e a desagregar outras culturas.” (MORIN, 1997, p.
16).

Ao discutir o funcionamento da Indústria Cultural, Edgar Morin destaca que a sociedade


capitalista coloca-se sempre em busca do lucro, deixando de lado a sua capacidade criativa.

Ao apresentar-se sob forma de espetáculo, percebe-se que hoje, o mundo imaginário tem sido
sempre consumido através de espetáculos, onde tudo já se encontra pronto e acabado,
inclusive as reações do público.

Segundo Morin (1997), diante de histórias apresentadas como verídicas, essa noção do
espetáculo se evidencia.

Mesmo que o fato levado ao ar tenha sido representado por atores, a identificação não
deixaria de existir, já que o enredo, independentemente de ser mostrado por protagonistas
autênticos, é sempre recheado de apelo individual, tornando-se cada vez mais atrativo.
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As intrigas se registram dentro de quadros plausíveis. O cenário confere aparência da


realidade. O ator se torna cada vez mais “natural” até aparecer não mais como um
monstro sagrado executando um rito, mas como um sósia exaltado do espectador ao
qual este está ligado por semelhanças e, simultaneamente, por uma simpatia profunda.
(MORIN, 1997, p.92)

De acordo com Edgar Morin (1997), a mídia cria uma espécie de Olimpo, onde abriga seus
deuses. “Os olimpianos não são apenas astros de cinema, mas também campeões, príncipes,
reis, artistas...”. Da mesma forma, não são verdadeiros deuses, mas seres humanos mortais.

O olimpismo nasce de várias maneiras como do imaginário, por exemplo, a partir de papeis
encarnados na ficção. Hoje, qualquer um pode tornar-se um olimpiano, ainda que por apenas
15 minutos.

De acordo com Thompson (1998), com o advento da mídia eletrônica, os indivíduos e os


acontecimentos tornaram-se mais visíveis. Fazer parte do mundo público não é mais restrito.
Os eventos podem ser gravados e retransmitidos para quem está longe no tempo e no espaço
em que os fatos ocorrem.

Embora existam algumas restrições em relação às celebridades que, provavelmente, não


encontramos no cotidiano, é comum que possamos vê-las e ouvi-las com frequência. Da
mesma forma, podemos considerá-las “íntimas”, embora saibamos que elas aparecem para
milhares de pessoas.

John B. Thompson (1998) explica que o desenvolvimento dos meios de comunicação


transformou a constituição espacial e temporal da vida social, criando novas formas de ação e
interação, não mais ligadas ao compartilhar de um local comum. As consequências desta
modificação têm grande alcance e atingem muitos aspectos de nossas vidas, desde os mais
íntimos, a partir da experiência pessoal e da autoformação à mutável natureza do poder e da
visibilidade no domínio público.

Thompson (1998) desenvolve sua argumentação através de uma análise de vários temas
interligados: o advento da interação mediada, a criação de novas formas de visibilidade
mediada, a emergência das redes de comunicação global, a transformação da tradição e o
caráter mutável da esfera pública.

De acordo com o autor, devemos repensar um novo significado do “caráter público”, haja
vista a constituição atual de um mundo permeado por novas formas de comunicação e de
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difusão de informações, em que os indivíduos são capazes de interagir com outros e observar
pessoas e eventos sem sequer os encontrar no mesmo ambiente, no mesmo espaço temporal.

Thompson (1998) explica que, antes do desenvolvimento dos mass media, a publicidade dos
indivíduos estava relacionada ao compartilhamento de um lugar comum.

Thompson (1998) defende que, a partir das novas formas de comunicação eletrônica, o
fenômeno da publicidade se separou da ideia de conversação dialógica em espaços
compartilhados. Ele argumenta que os receptores se tornaram testemunhas de eventos que
acontecem em lugares distantes.

Desta forma, quando falamos em esfera pública na contemporaneidade, devemos sempre levar
em consideração a particularidade da natureza funcional dos meios de comunicação, que
operam ao mesmo tempo para milhões de pessoas.

Na visão de Thompson (1998), há de se considerar, também, a globalização, com a


transnacionalização (facilitada pelo desenvolvimento das tecnologias), exportação e produção
de bens da mídia para o mercado internacional.

Apesar da globalização da comunicação ter surgido no século XIX, torna-se, de acordo com o
autor, um fenômeno típico do século XX. A partir desse período, os conglomerados passaram
a atuar em grande escala e as novas tecnologias desenvolveram-se bruscamente. Os produtos
da mídia passam a circular no mercado internacional, tendo diversas reações na captação do
material transmitido pelas redes globais.

A globalização da comunicação no século XX é um processo dirigido, principalmente, por


atividades de conglomerados de comunicação em grande escala.

(...) Conglomerados de comunicação expandiram suas operações para outras regiões


fora de seus países originais; e parte dos interesses financeiros e industriais, dentro de
explícitas políticas globais de expansão e diversificação, foi canalizado para a
aquisição substancial de ações nos setores de informação e de comunicação. Através
de fusões, compras ou outras formas de crescimento corporativo, os grandes
conglomerados assumiram uma presença sempre maior na arena global do comércio
de informação e comunicação (THOMPSON, 1998, p.143 e 144).

Segundo Thompson (1998), os indivíduos pertencentes à determinada cultura se comportam


na sua vida cotidiana, de acordo com os pressupostos normativos estabelecidos pela sociedade
e difundidos pela indústria cultural. Para o autor, a difusão dos produtos da mídia nos permite,
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em certo sentido, a experiência de eventos, a investigação de outros e, em geral, o


conhecimento de um mundo que se amplia para muito além de nossos encontros diários.

2.2 O grotesco como elemento de audiência na TV

Muniz Sodré e Raquel Paiva (2002) afirmam que o grotesco é o ideal estético que, desde a
antiguidade, prega a dominância do belo sobre o feio, sendo a beleza, por vezes, tomada como
sinal de bondade e a feiúra como maldade.

A palavra grotesco pode significar tudo que seja bizarro, fantástico e extravagante. Na prática,
o termo torna-se sinônimo de cômico, ridículo e burlesco.

A trajetória do grotesco pôde ser observada com maior evidência na Idade Média, quando
assumiu um sentido bem próximo do carnavalesco: algo alegre e luminoso, algo risível e bem
atrativo, para uma plateia sempre atenta às distorções cômicas do que é bizarro e desprezível.

Em fins do século dezessete, o dicionário de Richelet registra o adjetivo “grotesco”,


definindo-o como “aquilo que tem algo de agradavelmente ridículo”: “homem
grotesco”, “moça grotesca”, “jeito grotesco”, “rosto grotesco”, “ação grotesca”. Na
mesma época, o dicionário da Academia Francesa explica o grotesco como o que é
“ridículo, bizarro, extravagante”. (SODRÉ & PAIVA, 2002, p.30)

O século XVIII marca o início da discussão para a fundamentação do grotesco como uma
categoria estética. Uma reflexão artística sobre o advento da caricatura foi a conexão
necessária para o início das explanações sobre o valor estético do estilo controverso.

Em Nietzsche, encontramos o grotesco como uma aproximação do homem com o


animal, valorizando as afecções corporais e não os afetos espirituais, dando estatuto
pleno ao mau gosto. (SODRÉ & PAIVA, 2002, p. 48)

Sodré e Paiva (2002) afirmam que o grotesco, quase sempre, é vinculado ao disforme, ao
estranho, e por aquilo que apresenta algo agradavelmente ridículo, como o Bufão da Corte,
cuja característica é fazer da vida alheia ou da própria vida uma razão para rir, transformando
o trágico em comédia. Nesse sentido, eles mostram que o bufão é a inversão do rei, ou seja, o
grotesco é o belo de cabeça para baixo – é uma espécie de catástrofe do gosto clássico.
(SODRÉ e PAIVA, 2002, p.28).

O grotesco infiltrou-se nos diversos gêneros televisivos na busca obsessiva pela audiência e a
programação das emissoras passou a ser substituída por emoções baratas. O riso tem sido
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estimulado pela exibição do lado cruel da realidade como a miséria, a falta de solidariedade, o
descaso dos poderes públicos, dentre outros.

Extremamente populares desde a era do rádio, os programas de variedade sempre


apresentaram problemas comuns do dia-a-dia. A fórmula também encontrou sucesso na tela
da TV. Afinal, tudo que pode, de alguma maneira, tocar o telespectador como algo íntimo ou
familiar, também pode ser explorado, ainda que de forma pública.

A estética grotesca se posiciona na berlinda, expondo sempre as pessoas simples que se


apresentam diante das câmaras relatando seus dramas, falando de seus problemas mais
íntimos e sendo ridicularizadas por uma plateia.

Por volta das décadas de 60 e 70, muitos programas com esse formato passaram a ser
apresentados na TV. Fez muito sucesso, por exemplo, o programa de Sílvio Santos,
caracterizado por oprimir a timidez de seus convidados.

Os programas de Jacinto Figueira Júnior, que tinham como objetivo explorar o “mundo cão” e
o de Chacrinha, que dava um abacaxi ou um bacalhau aos aspirantes a cantores, foram
também conquistando altos índices de audiência.

Em meados da década de 90, surgiram outros programas de auditório que aderiram ao mesmo
formato: Domingão do Faustão (Rede Globo) apresentado por Fausto Silva, o Programa do
Ratinho (SBT) comandado por Carlos Massa; Super Pop com Luciana Gimenez (Rede TV) e
o Programa Márcia com Márcia Goldschmidt (TV Bandeirantes).

Percebe-se que a presença do grotesco na TV vem se evidenciando, principalmente na


utilização do cômico para a expressão do emocional ou psicológico. É como se alastrasse por
toda a mídia, penetrando em cada uma das mais variadas produções, em maior ou menor
escala.

Mas tem principalmente um efeito de contaminação semiótica (uma espécie de


reprodução viral dos simulacros à maneira da “lei de Gresham”, segundo a qual a
moeda má expulsa a boa), não por uma lógica intrínseca das imagens, mas pela força
catalisadora do marketing num contexto de livre concorrência ou livre circulação da
“moeda” televisiva, em que a facilitação e a banalidade convertem-se em recurso de
fácil captação de audiência. (SODRÉ; PAIVA, 2002, p.137 e 138)

A exibição da vida íntima é uma das estratégias mais utilizadas pelo grotesco. Os bastidores
da vida alheia sempre foram alvo para atrair a atenção do homem, mesmo antes do
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surgimento da cultura de massa. Há um aumento expressivo de emissoras de TV que utilizam


essa abordagem em seus programas.

Conforme Barbero (2001), tendo em vista as hibridizações genéticas do talk show, que reúne
o que deveria estar separado em gêneros (ficção e não-ficção), a sua sintaxe resulta numa
mescla de sentidos. Enquanto algumas marcas são evidenciadas pelo ato de enunciação,
outras são apagadas, o que é próprio da dinâmica do meio da TV. Esses inúmeros contágios,
que se configuram em quase toda a programação televisiva, entretanto, nem sempre deixam
evidentes as novas lógicas de significação que vão se constituindo.

Para o autor, é incontestável que, do ponto de vista do telespectador, a classificação por


gêneros já não atende mais à sua necessidade de entendimento do tipo de mensagem e das
possibilidades de interpretação do programa, operando, como mediador fundamental entre a
forma e a interpretação, constituindo-se numa estratégia de comunicabilidade.

Sodré e Paiva (2002) destacam, por exemplo, os reality shows. Em 2001, a Casa dos Artistas
(SBT), explorou a espetacularização do produto televisivo, com a exposição de diversas
celebridades. O formato do programa, que hoje não existe mais, apostava no confinamento de
artistas, filmados 24 horas por dia. Aquele cotidiano revelava ao público todas as emoções, as
alegrias, as angústias e os conflitos dos participantes, como se eles estivessem em uma vitrine,
sendo observados por milhões de telespectadores, ávidos por conhecer a intimidade de cada
um deles.

Já o Big Brother Brasil (Rede Globo), que estreou em 2002, tem usado, até hoje, em sua
décima edição, a mesma tática, porém, os seus personagens são pessoas comuns, que mandam
seus vídeos para a emissora e são selecionados a partir de uma maratona de testes de
personalidade e de performance, diante das câmeras da TV.

Muniz Sodré e Raquel Paiva (2002) observam que pessoas que se submetem a esse tipo de
espetáculo, geralmente não se preocupam com a exposição ao ridículo. O principal objetivo
de cada uma delas é a busca pela fama.

A televisão procura levar o sentimento da identificação para o maior número possível de


telespectadores. Para isto, ela reproduz, na tela, as diversões e os ritos populares.
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Também a exibição de problemas emocionais e pessoais é uma tendência que vem crescendo
entre os espetáculos. Através da identificação de uma sociedade fragilizada, programas que
abordam esse tipo de assunto, geralmente, conseguem um alto nível de audiência.

De acordo com Barbero (2001), pensar a comunicação sob a perspectiva das mediações
significa entender que, entre a produção e a recepção, há um espaço em que a cultura
cotidiana se concretiza.

Para o autor, a televisão também é organizada pelo tempo da repetição e do fragmento,


incorporando-se assim ao cotidiano dos receptores.

Barbero (2001) destaca a cotidianidade familiar, como um dos lugares de mediação que
interferem e alteram a maneira como os receptores recebem os conteúdos midiáticos. É como
se fosse um espaço em que as pessoas se confrontam e mostram como verdadeiramente são
através das relações sociais e da interação dos indivíduos com as instituições.

Segundo o autor, “a televisão recorre a dois tipos de intermediários fundamentais: um


personagem popular e o apresentador-animador”. (BARBERO, 2001, p.306). Ele afirma que
ambos são importantes para a recepção dos meios de comunicação. O apresentador-animador
não é apenas o manipulador de informações: é considerado um interlocutor, o porta-voz do
povo. O personagem popular por sua vez, é representado pela família.

Nos programas televisivos, geralmente são exibidos conflitos e tensões que são reproduzidos
pelas relações de poder da sociedade. Essas atitudes, portanto, fazem com que os indivíduos
manifestem seus anseios e inquietações, tornando-se, assim, a unidade fundamental da
audiência e do reconhecimento.

Conforme Muniz Sodré (1975), os veículos audiovisuais possuem, em demasia, elementos


que promovem projeção, identificação e empatia, básicos para a existência de uma boa
recepção.

(...) projeção (o receptor desloca as suas pulsões para os personagens do vídeo),


identificação (o receptor torna-se inconscientemente idêntico a um personagem no
qual vê qualidades que gostaria ou julga que lhe pertençam) e empatia (conhecimento
que o receptor tem do comunicador, colocando-se mentalmente em seu lugar).
(SODRÉ, 1983, p. 60)
24

Habitualmente, as características advindas dos ritos populares são desprovidas das belezas
exaltadas pela elite intelectual. Na verdade, o popularesco terá muito mais de grotesco que de
sublime, sendo clara a exibição de uma realidade nua e crua. O grotesco será a vertente mais
utilizada para a conquista visual nos programas de auditório.

O burlesco exposto na TV apresenta-se de forma bem particular, sendo conhecida como


“grotesco escatológico”, ou seja, o predomínio do mau gosto, expondo deformidades,
mazelas e tudo que é, de certa maneira, degradante e que formará o cenário principal dessa
subcategoria.

Sodré (1975) alia o grotesco à cultura de massa nacional, que, através da atmosfera
psicossocial é retirado de seu contexto crítico, atuando com a finalidade de compensação para
a angústia do homem moderno. O autor conceitua a categoria estética nesse contexto como:

(...) o fabuloso, o aberrante, o macabro, o demente. (...) o grotesco é uma aberração


de estrutura ou de contexto (...) o miserável, o estropiado, são grotescos em face da
sofisticação da sociedade de consumo, especialmente quando são apresentados em
forma de espetáculo. A “estranheza” que caracteriza o grotesco coloca-o perto do
cômico ou do caricatural, mas também do Kitsch. (...) o grotesco é um mundo
distanciado, daí a sua afinação com o estranho e o exótico. (SODRÉ, 1975, p.38 e
39)

Para Sodré (1975), a intenção da TV, quando representa o burlesco, é sempre colocar-se entre
o que é comum ao ser humano, mas ao mesmo tempo é exótico e sensacional. Seria de certa
forma uma tradução da realidade humana, do cotidiano, das manias, dos hábitos, das
características mais desprezíveis do homem.

2.3 A metamorfose da TV: o palco se transforma em picadeiro.

Os programas de televisão funcionam como grandes picadeiros que trarão para a “telinha” o
espírito circense e tragicômico. É como acontece nas feiras e praças, ambientes muitas vezes
representados por vários elementos do meio circense. É possível, nesses ambientes,
reconhecer a figura do palhaço, de animais ou seres estranhos assim como também é possível,
reconhecer, nesse contexto, a exposição de crises emocionais e psicológicas que irão
caracterizar o programa como um circo moderno.

A televisão impõe um monólogo controlável e uma representação do real (ângulo da câmera,


seleção das imagens etc.). “O veículo impõe ao receptor a sua maneira especialíssima de ver
o real” (SODRÉ, 1975, p.61).
25

Para o autor, ao ligarmos a TV, já estaríamos fazendo parte de uma “teleorganização”, cujo
uso do código compete ao emissor. A televisão, aí, é uma forma social, e o meio técnico serve
para manter essa relação imagem/receptor.

O plágio das atrações radiofônicas surgiu com o nítido objetivo de consolidar e ampliar a
audiência. Os interesses publicitários da TV sempre objetivaram repetir a fórmula de sucesso
do rádio. “Quanto mais os signos da mensagem (os elementos culturais de um programa de
televisão, por exemplo) forem familiares ao público, por já constarem de seu repertório, maior
será o grau de comunicação”. (SODRÉ, 1975, p 63)

Os apresentadores vestem o traje do poder paralelo e eficaz. Eles são confundidos com o
herói, que resolve ou que tem acesso mais facilitado a tudo, e que possui poderes de
solucionar qualquer problema.

Sodré (1975) ressalta o poder do apresentador como o da figura heroica e com autorização
para conquistar todos os seus sonhos e desejos. Ele pode lançar bacalhau para a plateia, ele
pode se travestir de mulher, ele pode condenar, ele pode mandar. Ele é sábio e dono da
verdade. O apresentador pode rir, caçoar ou esbravejar. Ele é como o bobo da corte, solto em
meio ao salão, dominando espectadores e participantes do espetáculo.

O clown, o palhaço, é o louco profissional. Só ele pode sorrir sonoramente ante o


escândalo da existência e levar-nos a reconhecer a nossa condição tragicômica. A
mímica do palhaço é a estilização do nosso ridículo cotidiano – nossos hábitos
repetidos, nossos estereótipos. Para fazer rir da realidade, ele, inconscientemente, se
distância dela, apontando-a, no mesmo movimento revelador do grotesco. (SODRÉ,
1983, p. 81)

Muniz Sodré (1975) acredita que a televisão rebaixa constantemente o padrão de qualidade
de seus programas a fim de atingir um público cada vez mais amplo. O autor ressalta que
esses veículos apresentam o cômico por acreditar, ou ter a certeza, de que o público gosta
dessa estética e irá consumir os produtos midiáticos veiculados. Muniz Sodré afirma que,
atualmente, a televisão e diversos outros veículos de comunicação têm apelado ao grotesco
para conquistar a audiência.

Bourdieu (1997) chama de sensacionalistas vários programas exibidos na TV, em especial, os


de auditório. Segundo o autor, a mídia utiliza uma seleção de convidados, à luz de recursos
técnicos que os deixam visíveis e audíveis, integrando uma estratégia que vai configurar os
sentidos de espetáculo do programa, através de lógicas nem tão explícitas de inclusão e/ou de
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exclusão. Para ele, a busca cotidiana por fatos extraordinários leva a uma uniformização e a
uma banalização do espetáculo.

Bourdieu (1997) explica ainda que, os critérios de inclusão estão, provavelmente, baseados na
produtividade do tema, na capacidade icônica do convidado, na identificação que ele pode
gerar no público e na aparência física, fatores que na maioria das vezes, garantem audiência.
O autor complementa dizendo que, a construção, a seleção e a disposição das imagens na TV,
além de atender a vários interesses, são também restringidas pela ótica pessoal dos jornalistas,
que destacam certas coisas e sublevam outras, conforme sua visão e seus preconceitos.

As críticas de Pierre Bourdieu, contudo, não se restringem aos programas de auditório. Para
ele, mesmo os noticiários produzidos por jornalistas, fazem uso de múltiplos recursos para
dramatizar certos elementos da notícia. Ele afirma que, muitas vezes, esses profissionais não
sabem o que estão dizendo, nem consideram sua enorme responsabilidade diante da
audiência. Afinal, a obsessão pelo furo se torna ponto de honra e a apuração pode
condenavelmente, não fazer parte da prioridade jornalística desejada.

2.4 O histórico da TV

A Idade moderna da comunicação coincide com o advento da imprensa, que surgiu na


Europa, no século XV, fazendo com que a população deixasse de ser excluída da vida social e
política (função mediadora) pelo desconhecimento dos fatos – comunicação em massa.

A difusão da imprensa pós-Gutenberg estendeu-se à burguesia e se popularizou, na medida


em que cresciam os serviços de correios e se difundia a alfabetização. Daí para o telégrafo, o
cinema e o rádio, foi um pulo.

A televisão foi inventada do séc. XX graças aos grandes matemáticos e físicos que entregaram
para as ciências humanas um grande e poderoso veículo de comunicação.

No Brasil, as gestões para a implantação da TV foram iniciadas na década de 50.

A primeira emissora foi fundada pelo empresário Assis Chateaubriand, em São Paulo.
Naquela época, ele era o diretor dos Diários Associados, um grande grupo de veículos de
comunicação que compreendia jornais, revistas e emissoras de rádio.
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Com o lucro obtido em suas empresas, ele comprou equipamentos nos Estados Unidos e
trouxe a televisão para o Brasil, criando a TV Tupi Difusora. Esse canal reuniu um grupo de
profissionais oriundos do teatro e do rádio e cuja responsabilidade era criar e produzir uma
atração que agradasse ao público telespectador.

Programas de auditório, de calouros, novelas, programas de humor, noticiário cotidiano e


narrações esportivas foram reinventados, agora por meio de um rádio provido de imagens.

Aos poucos, outras emissoras de TV foram surgindo: TV Tupi do Rio (1951), TV Paulista
(1952), TV Record (1953), Itacolomi em Belo Horizonte (1955), TV Excelsior (1959). Ao
final da década de 50 existiam 10 emissoras de televisão em funcionamento no país.

Na década de 60, os festivais de música organizados pelas emissoras Excelsior, Record e


Globo eram os eventos mais aguardados da televisão. Os movimentos musicais também
encontraram acolhida na TV, inicialmente com a Jovem Guarda e a nova geração da MPB.

No dia 1 de setembro de 1969, entrou no ar o primeiro Jornal Nacional colocado em rede,


com a apresentação de Hilton Gomes e Cid Moreira, para várias regiões do país, inaugurando
o tronco Sul de microondas da Embratel na Rede Globo. O programa foi o primeiro noticiário
de televisão transmitido ao vivo em rede para todo o Brasil.

Nos anos 70, a televisão seguiu as regras impostas pelo governo militar que incluíam a
censura em todas as redações, fazendo com que vários programas fossem retirados do ar.

Em 31 de Março de 1972, foi realizada a primeira transmissão em cores da TV brasileira,


quando a TV Difusora de Porto Alegre, transmitiu diretamente da capital gaúcha, a Festa da
Uva, que contou com a presença do presidente Médici.

Em janeiro de 1973, a TV Globo produziu a primeira novela colorida do país, denominada:


"O Bem Amado". Foi nesse ano também que nascia a primeira revista eletrônica da TV: o
“Fantástico – o show da vida”, apresentada sempre aos domingos.

Em meados da década de 70, começou a ser gerado, no Rio de Janeiro, o embrião de outra
grande emissora: o SBT. Em 1976, Sílvio Santos, após trabalhar durante anos para a TV
28

Paulista, que foi comprada pela Rede Globo, ganhou a concessão de seu primeiro canal de
TV. Entrou no ar, assim, a TV Studios Silvio Santos, que ficou conhecida como TVS.

Apesar da grande audiência da TVS que, em pouco tempo, alcançou o segundo lugar no
estado, Sílvio queria um canal em São Paulo para formar uma rede.

Em Julho de 1980, com a falência da TV Tupi, o governo anunciou o lançamento de duas


concessões. Sílvio Santos ganhou uma delas e em 1981 nascia o Sistema Brasileiro de
Televisão, o SBT.

Na década de 90, foi transmitida pela rede de TV norte-americana, CNN, a Guerra do Golfo
Pérsico. O Iraque foi atacado pelos americanos e os bombardeios foram mostrados nas
imagens e narrados por um repórter ao vivo.

Os sistemas de transmissão evoluíram muito. Além da melhora da qualidade técnica o Brasil


passou a contar com os sistemas pagos de TV a cabo e também por satélite. O número de
canais multiplicou-se.

Nos anos 2000 a grande novidade apresentada pela TV foi a proposta dos “reality shows”
começando com o programa No Limite.

Em 2001, foi criado o programa Casa dos Artistas, fenômeno de audiência do SBT. Um ano
depois surgia o maior expoente do gênero no Brasil, o programa Big Brother Brasil.
Posteriormente, em 2009, a Rede Record lançou A Fazenda, usando a mesma fórmula da
Casa dos Artistas.

Os programas de auditório, tão aplaudidos pelos telespectadores são, até hoje, grandes
atrações da TV brasileira.

Abelardo Barbosa (Chacrinha) e Silvio Santos já deixaram seu lugares registrados na história
da TV, principalmente quando se trata de programas do gênero.

Chacrinha foi um fenômeno de audiência. Interagia com o auditório e animava-o com bordões
famosos como Vocês querem bacalhau? Chacrinha morreu em 1988.
29

Sílvio Santos apresenta, até hoje, uma série de atrações no SBT, rede de televisão da qual é o
proprietário.

Atualmente, os programas de auditório estão presentes em todas as grandes emissoras


nacionais.

Na Rede Globo, o principal, e de maior audiência, é o Domingão do Faustão, exibido aos


domingos. H´também o Caldeirão do Huck e TV Xuxa apresentados aos sábados, o Programa
do Jô, de segunda a sexta, o Altas Horas, na madrugada de sábado para domingo, e o quadro
Vídeo Game do Video Show, exibido de segunda a sexta.

Na Rede Record, os programas O Melhor do Brasil, O Preço Certo, “Legendários” e o Show


do Tom, é exibido aos sábados. Tudo é Possível e o Programa do Gugu, aos domingos.

Na Rede TV os programas de auditório são SuperPop com Luciana Gimenez, de segunda a


quinta. Mega Senha também com Luciana Gimenez e Marcelo de Carvalho às quintas-feiras.
Pânico na TV, na sexta-feira e no domingo apresentado por Emílio Surita.

O SBT é a emissora que mais aposta em programas de auditório. Deles, o mais duradouro é o
Programa Sílvio Santos, apresentado aos domingos, por muitas horas e com a exibição de
diversos quadros.

Programa da Hebe, na segunda. Programa do Ratinho e Casos de Família apresentado por


Cristina Rocha, de segunda a sexta. O “1 contra 100”, com Roberto Justus é exibido na
quarta-feira. Qual é o seu talento? por André Vasco e A Praça é Nossa apresentado por
Carlos Alberto de Nóbrega são exibidos nas noites de quintas. Aos domingos, Domingo Legal
com Celso Portiolli e o programa Eliana, são outros programas de auditório da emissora.

A Band apresenta o Programa Raul Gil aos sábados. De segunda a sexta é exibido Programa
Márcia e às segundas, à noite, apresentado por Marcelo Tas, Rafinha Bastos e Marco Luque,o
programa CQC ou o Custe o que custar e às terças Patrícia Maldonado apresenta É o Amor.
30

De acordo com o site da Rede Globo1, os destaques dos programas de auditório que fizeram
história diante do telespectador brasileiro foram muitos.

- NOITE DE GALA - Estreou em 1955, na TV Rio, com direção de Geraldo Casé e Carlos
Thiré. Foi apresentado também na TV Tupi e na TV Globo. O tema de abertura era a música
Eu sou o samba, de Zé Keti. Passaram pelo programa João Gilberto, Oscarito, Walter e Ema
D’Ávila, Luís Delfino e Chico Anysio, as vedetes Rose Rondelli, Carmen Verônica, Márcia
de Windsor e Íris Bruzzi, e o jornalista Flávio Cavalcanti que entrevistava políticos. Eram
redatores do programa: Chico Anysio, Henrique Pongetti e Guilherme Figueiredo. Foi nesse
programa que Chico Anysio interpretou seu primeiro tipo na TV, um recruta do Exército.

- 8 OU 800 – Era apresentado aos domingos por Paulo Gracindo e Sílvia Bandeira, na TV
Globo. Os participantes respondiam a perguntas sobre temas específicos. Clodovil, por
exemplo, respondeu sobre Dona Beija e ficou no ar por 12 domingos consecutivos.

- O CÉU É O LIMITE - Com formato de quiz show, o programa da Tupi fez um sucesso
estrondoso no final da década de 50. Um programa de perguntas e respostas que testava a
memória e a rapidez de raciocínio dos candidatos. O apresentador J. Silvestre tinha como
bordão: “Resposta absolutamente certa”.

- PROGRAMA FLÁVIO CAVALCANTI - Flávio Cavalcanti estreou no programa Noite de


Gala, em 1957, e a partir de 1966 apresentava dois programas semanais: A Grande Chance,
às quintas-feiras, e Um Instante, Maestro!, às terças-feiras.

- ALMOÇO COM AS ESTRELAS - Esse programa da TV Tupi apresentado por Airton


Pelingeiro estreou em 1957 e ficou 23 anos no ar. O programa era um almoço de verdade em
frente às câmeras. Atores, cantores, jogadores de futebol compareciam ao programa que
ajudava na divulgação de peças de teatro, discos e outras atividades.

- HEBE CAMARGO – É apresentado há 15 anos no SBT (antes era apresentado na TV


Bandeirantes). Programa de entrevista e musical. Nos anos 50, Hebe chegou a comandar
cinco programas por semana na TV Paulista: Calouros em Desfile, Hebe Comanda o
Espetáculo, Com a Mão na Massa, O Mundo é das Mulheres e Maiôs à Beira-Mar.

1
Disponível em: <http://redeparede.com.br/bauru/a-venda/cds-dvds-vhs/posts/programas-de-auditorio-tupi-
globo-sbt-record-desenhos-series-em-dvd-propagandas-radio-apresentacoes-60028>. Acesso em: 08 de abril de
2010.
31

Em 1966, Hebe estreou seu programa na Record, transmitido nas noites de domingo com uma
produção milionária e grandes profissionais como Manoel Carlos e Nilton Travesso. O
programa foi líder de audiência por três anos consecutivos em São Paulo.

- DISCOTECA DO CHACRINHA- Estreou na TV Tupi em 1957 e passou pela Excelsior,


Bandeirantes e Globo. Chacrinha também comandou a Buzina do Chacrinha. A Hora do
Chacrinha foi um programa de calouros de muito sucesso e que revelou grandes nomes para a
nossa Música Popular Brasileira. As atrações serviam para apresentar artistas, cantores em
destaque, músicas da parada de sucesso e os calouros. Na TV Globo, Chacrinha passou a
promover a entrega dos troféus Disco de Ouro e Velho Guerreiro. Chacrinha tornou famosas
as "chacretes" e seu grito de guerra: "Terezinhaaaa!"

- ESSA NOITE SE IMPROVISA - “A palavra é...”. Ao ouvir esta senha, os candidatos ao


prêmio já ficavam em estado de alerta. Era o ponto alto do programa apresentado por Blota Jr.
que foi ao ar em São Paulo a partir de 1966 na TV Record. O programa desafiava os
participantes, que tinham que cantar uma música qualquer em que tivesse a palavra dita pelo
apresentador. O programa ficou no ar durante três anos.

- PROGRAMA SILVIO SANTOS - Em 1966, Silvio Santos estreou na TV Globo o seu


programa com 4 horas de duração, nas tardes de domingo. Programa de auditório com música,
jogos, gincanas e premiações. Transferiu-se para a TVS em 1976 e ao longo do tempo foi
conquistando mais e mais horas no ar. Foi para o SBT em 1981. Apesar de ser um dos
programas mais antigos da TV, renova suas atrações, fazendo de algumas delas como Porta
da Esperança e Topa Tudo por Dinheiro de 1993 líderes de audiência no horário. Outros
quadros famosos são: Namoro na TV e Show de Calouros.

- PERDIDOS NA NOITE - Revelou o apresentador Fausto Silva para a televisão. O


programa estreou em 1985 na TV Record. Tinha música e muito humor.

- DOMINGÃO DO FAUSTÃO - Estreou em 1989. Programa de variedades, o Domingão do


Faustão é um dos programas de auditórios mais antigos da televisão brasileira. Comandado
por Fausto Silva.

- PROGRAMA LIVRE - Estreou no SBT em 1993. Programa de auditório dirigido aos


adolescentes e universitários. Apresentado por Sérgio Groisman, o programa tentava
esclarecer, por meio de entrevistas com convidados, problemas nacionais e questões sociais.
32

3 O PROGRAMA MÁRCIA

3.1 A trajetória

Márcia Goldschmidt tem 47 anos. Nasceu em São Paulo, no seio de uma família humilde e
começou a trabalhar como babá aos nove anos.

Em meados dos anos 80 Márcia se mudou para Paris onde atuou no agenciamento de artistas
brasileiros que iam trabalhar na França. Seis anos depois, retornou ao Brasil e casou-se com o
suíço-alemão Cyril von Goldschmidt-Rothschild, com quem teve um filho.

No Brasil, montou uma agência de relacionamentos e, posteriormente, foi convidada para


apresentar um programa na Rede Mulher intitulado Happy End.

Foi a partir de um anúncio de jornal, que Márcia ingressou no SBT. A emissora procurava
uma mulher para ser a versão brasileira da norte-americana Ricki Lake2. A apresentadora
Márcia se inscreveu, vencendo o concurso.

Ela também dirigiu o Programa Livre e o Fantasia até que, em 2000, recebeu e aceitou um
convite da TV Gazeta para comandar o programa feminino Mulheres, que já havia sido
apresentado anteriormente por Claudete Troiano, Ione Borges e Cátia Fonseca.

Na TV Bandeirantes, apresentou o Hora da Verdade e o Jogo da Vida. Depois de um ano e


meio afastada da televisão e morando em Miami, Márcia voltou à programação da Band em
junho de 2007, onde permanece até hoje, comandando um talk show que leva ao telespectador
variadas histórias de vida.

Ela mostra os dramas de pessoas comuns em busca de soluções para seus problemas. As
paixões, as traições, os desencontros e muito mistério são a tônica desse programa diário, que
tem conquistado uma audiência considerável.

Os contatos para participação no programa são feitos por telefone: (11) 3153- 4003 ou pelo e-
mail: marcia@band.com.br3.

2
Disponível em: < http://www.lastfm.com.br/music/Marcia+Goldschmidt/+wiki>. Acesso em: Acesso em: 10 de
abril de 2009.
3
Disponível em: <marcia@band.com.br>. Acesso em: Acesso em: 05 de março de 2009.
33

3.2 A atração

O Programa Márcia é exibido de segunda a sexta-feira, sempre às 16 horas e com uma hora e
meia de duração. Ele é composto por três blocos, de 25 minutos em média, cada um.

A apresentadora mostra histórias vividas pelos seus convidados, que relatam suas paixões,
traições, desilusões e desencontros. Diante de uma plateia de 120 pessoas, Márcia
Goldschmidt também leva profissionais como psicólogos, advogados e cirurgiões plásticos
para comentarem, analisarem, aconselharem e solucionarem os problemas ali relatados.

O programa traz atrações específicas em cada dia da semana apresentando, por conseguinte,
um formato variável.

Desabafo é exibido às segundas-feiras. A proposta é construída a partir de uma história que


uma pessoa relatou para a produção do programa por meio de uma carta. A carta, geralmente,
é uma confissão de um erro cometido no passado e uma reflexão sobre as consequências desta
falha nos dias atuais. É produzida então uma encenação, também chamada de reconstituição
da história, feita por atores contratados para essa finalidade. As cenas são gravadas em preto e
branco; um artifício para enfatizar o caráter documental atribuído ao quadro, trazendo sempre
uma frase de efeito do tipo: “eu precisava saber a verdade...”, “eu não desejei essa gravidez
e...”. Tais enunciados provocam nos sujeitos a curiosidade de saber como a história terminará.

Polígrafo é a atração das terças-feiras. Márcia Goldschmidt conta com a ajuda da tecnologia
na resolução dos casos apresentados. No decorrer do programa, o convidado é conectado a
uma máquina que avalia, no momento das respostas, o comportamento de funções vitais
como: respiração, pulsação, íris, voz, temperatura corporal e pressão arterial. Assim, o
instrumento é capaz de detectar a veracidade das declarações. Segundo a Band4, o polígrafo
foi importado do México e é capaz de detectar a veracidade das declarações com até 100% de
precisão.

A apresentadora faz 20 perguntas durante os blocos do programa e, no final, Márcia


Goldschmidt avalia, de acordo com o polígrafo, se a pessoa está mentindo ou não.

Quem tem razão é o nome do quadro exibido às quartas-feiras. É constituído por um júri
popular que dá o veredicto sobre uma disputa entre duas pessoas. O quadro lembra um

4
Disponível em: <www.band.com.br/marcia>. Acesso em: 10 de abril de 2009.
34

tribunal, com a presença de um advogado para cada uma das partes envolvidas e de duas
testemunhas para cada lado. Durante os primeiros blocos, os advogados expõem as suas
defesas baseando-se em provas, tanto documentais, quanto testemunhais. Márcia pede ao júri,
formado pelas 120 pessoas da plateia, que dê o seu voto. No final, é dado a veredicto e os
participantes assinam um termo se comprometendo a seguir a sentença, que é registrada em
cartório.

Espelho, Espelho Meu é a atração das quintas-feiras e objeto específico dessa análise. O
quadro tem como objetivo transformar o visual de voluntárias descontentes com sua
aparência.

Eu nunca disse prá você é exibido toda sexta-feira. A proposta é levar um convidado famoso
para fazer revelações bombásticas envolvendo nomes de outras pessoas igualmente famosas.
A apresentadora faz algumas perguntas relacionadas com desafetos dos convidados no
passado e pergunta: “o que você nunca disse para essa pessoa?”. O convidado revela todas as
suas particularidades e mágoas. No final, Márcia Goldschmidt propõe um desafio ao
convidado sugerindo que diga para alguém algo que nunca disse anteriormente.

Normalmente, o programa começa com um texto de abertura lido pela apresentadora, em que
ela sempre tenta chamar a atenção do telespectador, apelando para o lado emocional daquilo
que será tratado; servindo para construir ou destruir a imagem dos participantes a partir das
histórias relatadas.

Os temas abordados estão diretamente ligados ao comportamento do indivíduo, com questões


que envolvem família, drogas, alcoolismo, espancamentos, traições, dentre outros.

Com exceção da sexta-feira, os protagonistas são, na maioria das vezes, pessoas


aparentemente simples, humildes, de classe social baixa e, geralmente, com poucos anos de
estudo. Muitos falam de forma coloquial e pode-se notar o uso excessivo de gírias.

O comportamento de cada um deles é singular. Alguns se sentem bastante à vontade ao relatar


suas histórias. Há aqueles que demonstram certa vergonha e timidez, outros riem de suas
próprias experiências e há até quem chore diante das câmeras, enquanto apresenta a sua
narrativa.
35

Segundo Muniz Sodré (2000), o comum nesses casos é a figura do rebaixamento. O cidadão
expõe, em rede nacional, as suas aflições cotidianas, quase sempre de forma vexatória e, em
troca, recebe, da apresentadora e da plateia, críticas de toda ordem. É satirizado,
ridicularizado e colocado, muitas vezes, em situação humilhante.

A sociedade tem a mídia como um meio pelo qual seus principais conflitos podem ser
visíveis. O que antigamente era feito face a face, hoje é realizado, principalmente, pela tela da
TV. A informação midiática produz um sentimento que permite acreditar que os problemas
mais importantes de uma sociedade são visíveis e levados ao conhecimento de todos.

É preciso compreender qual o papel e a importância da televisão na sociedade contemporânea


e examinar quais as motivações que levam o telespectador a interessar-se por programas dessa
categoria, que tratam de temas banais, muitas vezes de foro íntimo, com entrevistas e opinião
de especialistas de forma satírica e irônica.

Faz-se necessário, também, entender o motivo pelo qual pessoas comuns aparecem na TV
expondo aspectos de suas vidas, na maioria das vezes, sem qualquer constrangimento.

O Programa Márcia é pautado pela narrativa dos convidados (personagens de suas próprias
histórias) e pela interação da apresentadora com a plateia. A intenção, segundo ela, é ajudar e
dar apoio aos participantes que ali estão envolvidos com seus dramas familiares.

No portal da emissora na internet (www.bandtv.com.br5) existe uma página exclusiva para o


programa, onde o internauta pode encontrar diversas informações, conhecer um pouco sobre a
apresentadora da atração, ver fotos das gravações e acessar a enquete do dia. Ainda é
possível falar com a produção do programa através do Fale Conosco.

De acordo com o site, o programa tem por objetivo agregar e auxiliar as pessoas em seus
conflitos pessoais, estimulando-as a resolver, pela TV, as questões que afetem suas vidas. Há
a informação de que os casos apresentados no programa são verídicos, ocorridos no âmbito de
uma família brasileira comum.

Importante ressaltar, contudo, que as histórias, mesmo sendo verdadeiras, podem ser
encenadas por atores ou apresentadas pelos próprios envolvidos, que vão ao programa narrar

5
Disponível em: <www.band.com.br/marcia>. Acesso em: 10 de abril de 2009
36

seus conflitos e desventuras. Essa exposição pessoal é a principal temática da atração,


configurando-se como matéria-prima para a realização do programa.

O espaço cênico tem o formato de um semi círculo, limitando a circulação da apresentadora.

Como em um circo, tem se a impressão de estarem todos de frente para uma arena. Apesar de
possuir um formato circular, as câmeras tendem a mostrar, com maior frequência, apenas um
lado do cenário.

A apresentadora fica sempre de pé, interagindo com o auditório e opinando. Há um tamborete


que serve de apoio para o microfone que ela utiliza quando vai entrevistar a plateia, e para as
fichas contendo as informações apuradas pela produção.

O figurino da apresentadora é bastante formal. Na maioria das vezes ela está de calça social e
camisa de manga longa, quase sempre, bordada.

A imagem passada por Márcia Goldschmidt é de uma pessoa expansiva, otimista e de bem
com a vida. Sua expressão facial mostra sentimentos muito nítidos, não hesitando em deixar
transparecer agrado, desaprovação, ironia ou raiva nas situações ali apresentadas. Seu tom de
voz pode ir de um sussurro, a gritos estridentes.

A chamada imparcialidade jornalística não é de forma alguma uma preocupação para Márcia.
Na verdade, o que realmente importa, é a sua própria opinião diante do fato narrado pelos
convidados.

A conquista pela atenção da plateia é disputada entre a apresentadora e os convidados. Todos


querem contar as suas histórias, fazer os seus comentários e defender as suas ideias.

Nas suas intervenções, Márcia sempre fala algo engraçado, cruel, debochado. Todo o jogo de
cena apresentado dá a ela uma grande importância na sustentação do programa. Ela tem
autonomia para dar a sua opinião. Pode censurar, criticar, ridicularizar, elogiar e julgar.

Ela é como o bobo da corte, solta em meio ao salão, responsável pelo entretenimento dos
espectadores participantes do espetáculo. Seus convidados são figuras passivas e atentas aos
ensinamentos da “mestra” sempre “disposta a ajudar” a todos.
37

Os telespectadores também podem participar do programa. Durante a exibição, são


disponibilizados o endereço eletrônico e os números dos telefones da produção para que eles
possam fazer os seus contatos em tempo real, interagindo com a apresentadora e convidados e
opinando sobre a questão abordada no dia.

Em cada edição, o programa é aberto com uma imagem panorâmica de todo o cenário,
mostrando a apresentadora, a plateia e os convidados, já posicionados no centro do palco.

Depois, uma câmera focaliza a apresentadora em plano médio. Quando a atenção se desloca
para os convidados, a câmera acompanha, evidenciando quem está com a palavra.

Quando ocorre um debate entre os convidados, a câmera se abre mais um pouco, para o
enquadramento de todos os envolvidos. A utilização de closes é feita nos momentos mais
dramáticos da conversa. Quando algum convidado se emociona, a câmera fecha no rosto dele.
Percebe-se que há, também, uma atenção especial em torno da apresentadora, com imagens de
seus gestos e de suas expressões, especialmente nos momentos de tensão ou na emissão de
opinião.

A música instrumental é muito usada na sonoplastia do programa. Na maior parte do tempo,


aplausos e risos se evidenciam. Assim como outros programas que trabalham com esse
gênero, o Programa Márcia, usa os clássicos closes e trilhas sonoras carregadas de emoção
em situações mais comoventes ou dramáticas. Entretanto, é no discurso da apresentadora e
dos convidados que está a verdadeira fonte de atração emocional do programa.

3.3 Os atores

Embora alguns demonstrem certa timidez ao relatar as suas histórias, de uma maneira geral os
convidados se sentem muito à vontade no programa.

Márcia intervém constantemente no discurso, fazendo várias perguntas para entender melhor
o caso apresentado. Depois disso, assume diversos papeis: o de psicóloga, o de juíza, o de
entrevistadora, o de “dona da verdade” e tenta analisar o que foi dito pelo convidado, tirando
suas conclusões.
38

Algumas vezes, os verdadeiros profissionais de psicologia e de advocacia que atuam no


programa, são consultados sobre o problema apresentado. Raramente discordam das palavras
da apresentadora.

Poucas vezes, Márcia é interrompida pelo atores da história. É raro alguém discordar da
opinião da apresentadora e dos profissionais que lá estão no palco, para tentar justificar as
atitude dos sujeitos ali presentes e aconselhá-los a buscar o caminho do bem.

O raciocínio de Márcia é muito rápido e ela age de maneira quase coercitiva diante do
indivíduo que ali está. É comum perceber o constrangimento de cada um deles diante dos
comentários da apresentadora.

Na plateia, ela encontra o respaldo para as teorias que monta a respeito das atitudes daquelas
pessoas que se dispuseram a participar do programa. Na interação com a plateia, o que se
percebe é a busca pelo apoio aos seus comentários, às suas ideias, ao seu próprio juízo de
valor.

A cada comentário que ela faz, é como se incitasse todos ali presentes e mesmo o público
telespectador, a reagirem com uma resposta unânime: um sonoro e entusiasmado aplauso,
indicando que ela está coberta de razão em todas as análises que faz a respeito daquele caso.

É a plateia se mostrando como a verdadeira representação da audiência naquele cenário.

3.4 Os bastidores

São variados os problemas conjugais, afetivos e de relacionamento levados para a tela da TV


para serem discutidos publicamente.

É a televisão se fazendo de espelho e de janela para aqueles telespectadores fieis ao programa


e para uma plateia que também se vê ali identificada.

Trata-se de uma representação de uma fatia da sociedade que se despe de seus preconceitos e
se dispõe a ir ao encontro de um cinismo generalizado por tratar de assuntos grotescos,
relativos à intimidade, sem a máscara a que são submetidos no dia-a-dia.

Os telespectadores procuram a televisão para a resolução dos seus problemas. O veículo


assume um papel de conselheiro e mediador das boas coisas, frente a um sistema de amparo
39

social falido. Na televisão, o espectador carente encontra histórias como as suas vividas por
outras pessoas e percebem a partir daí, que suas crises são comuns e estão presentes nas
relações humanas. O indivíduo que procura a TV sabe que vai até ali expor algo muito íntimo
e que, também, estará exposto aos comentários do público.

A exposição de crises emocionais e psicológicas caracteriza o programa como um circo


moderno, onde não é mais a mulher barbada, o globo da morte ou o trapezista que fazem
sucesso. Tal quais estes exemplos, a corda bamba da vida contemporânea torna-se a atração
principal deste picadeiro eletrônico.

Assim como é debaixo das tradicionais lonas coloridas, o programa de auditório pode levar o
público à euforia, ou a vivenciar momentos de apreensão.

Tanto o choro quanto o riso, acrescidos do grotesco, são muito comuns no programa. No
palco ou na plateia, é possível rir e chorar.

Em 27 de novembro de 2009, por exemplo, uma senhora de 50 anos foi ao programa pedir
que a apresentadora a ajudasse a resolver um caso conjugal. Ela relatou, aos prantos, que o
marido dela, de 42 anos, tinha uma amante e ela precisava ficar mais jovem e bonita para
reconquistar o marido. Imediatamente, Márcia convidou a mulher a participar do quadro
Espelho, Espelho Meu. Ela iria se submeter a uma série de tratamentos estéticos para, assim,
se tornar, aparentemente, mais nova.

A plateia delira, ri, admira, aplaude, chora, revolta-se.

Outro ponto que caracteriza o Programa Márcia como uma atração que utiliza a estética
grotesca é a inversão de valores.

O julgamento dos participantes do programa fica a cargo de uma plateia incompetente para
essa tarefa. Atribuir ao auditório a função de analisar e julgar candidatos, como se tivesse
condições para tal é o grande mote para o sucesso na conquista da audiência.

O formato do programa evidencia o emocional como representação. A vida pública, já tão


devassada, abre espaço para o não público. É o show no picadeiro como receita de consumo.

A sociedade do espetáculo é caracterizada pela transformação de tudo e de qualquer coisa em


mercadoria. É o lugar onde o acontecimento se reduz à dimensão do aparecimento e onde o
40

sujeito deixa de ser receptor para tornar-se consumidor. Isso acontece porque a lógica que
rege essa sociedade é a mesma lógica do capital, da circulação da mercadoria. A televisão,
portanto, não atende aos desejos do seu público apenas como telespectadores, mas atende às
suas necessidades como consumidores.

A inversão de valores que estamos presenciando hoje é fruto de uma sociedade


majoritariamente impossível de ser regulada pela política ou pela religião. Hoje, o que se vê, é
uma sociedade regida pelo espetáculo, o espetáculo midiático.

Nela, os fatos perdem seus efeitos reais ao serem transplantados para o domínio da mídia, o
espaço onde as coisas acontecem é deslocado para o espaço da cena televisiva, a visibilidade e
o show ganham destaque, a história fica à mercê da linguagem midiática. Tudo isso regulado
pela lógica do capital, justamente porque se trata da própria sociedade de consumo. Estamos
falando do lucro.
41

4 ESPETÁCULO E REALIDADE: DISCURSOS DE SUJEITOS COMUNS

4.1 Metodologia de pesquisa

Foi pensando no interesse midiático gerado pela exposição pública do que é privado,
especialmente exibido pelas telas da TV, é que surgiu a proposta de realização de um estudo
sobre o Programa Márcia, veiculado todas as tarde, a partir das 16 horas, na TV
Bandeirantes.

Como a abordagem se limitaria especificamente a um programa de auditório da televisão


brasileira, foi necessário realizar um estudo mais teórico do veículo-tema, em que procurei
traçar as características e diretrizes que poderiam influenciar na formatação do programa
estudado.

Foram realizadas algumas pesquisas e levantamentos históricos para melhor compreensão do


objeto. Afinal, fez-se necessário compreender como e porque a televisão acaba por reproduzir,
na maioria das vezes, apenas aquilo que lhe permite captar e/ou ampliar a audiência. Seria
preciso tentar compreender, também, porque programas desse gênero, com exposição de
crises emocionais, conjugais e psicológicas atraem tanto a atenção do telespectador.

A indústria cultural e a globalização foram outros temas estudados, enquanto, paralelamente,


tentei entender o porquê da presença do grotesco nesse tipo de programa, utilizado como mola
propulsora para alavancar audiência, atuando como um importante elemento para a conquista
do grande público.

Em seguida, os olhares se voltaram para a mediação como espaço entre a produção e a


recepção e a metamorfose da TV, quando o palco se transforma em picadeiro para
apresentação do grande espetáculo desse circo eletrônico.

Por fim, foi feita a análise do Programa Márcia, com ênfase na edição final de 2009, levada
ao ar no dia 31 de dezembro, quando foi eleita a candidata que melhor se transformou ao
participar do quadro Espelho, Espelho Meu.
42

4.1.1 Pesquisa bibliográfica.

Muito foram os autores estudados nessa empreitada. Sodré e Paiva (2002), por exemplo,
mostraram a visão do grotesco na cultura e nas artes, desde a Antiguidade até os dias atuais.
Os autores analisam o termo como uma categoria estética presente também no
comportamento, sinalizado nas atitudes pelas quais o homem se aproxima do animal. Além
disso, tratam da relação do grotesco com as diversas formas televisivas e veículos que buscam
o entretenimento como uma indústria sem escrúpulos.

Bakhtin (1987) mostra as características e os ritos da cultura cômica popular medieval e


renascentista. O autor define os elementos do grotesco como sendo: a paixão, o riso, a alegria
e a festa, todos eles presentes no programa estudado. A cultura popular foi identificada
primeiramente através do carnaval, de onde originou universalmente o riso para, em seguida
entendermos a influência da cultura na religião, na literatura e em outros ritos.

Crippa (2003) aborda noções do grotesco presente na história, na cultura e nas artes, da
Antiguidade ao Modernismo e trata o tema dentro do olhar estético. De forma complementar,
Lagrou (2006) relaciona o humor ao mito e ao grotesco, como um pensamento ocidental que
influencia na abordagem do tema pela antropologia.

Bourdieu (1997) discorre sobre os aspectos mais evidentes da estrutura de poder da televisão
e das relações políticas que a envolvem. Ele faz uma relação entre imagem e receptor. Em
seguida, destaca a força da imagem televisiva afirmando que ela constrói quadros igualitários,
que podem ter profunda influência sobre a realidade ordinária, através de efeitos sociais de
mobilização e critica a relevância que se dá aos índices de audiência.

Enquanto Thompson (1998) fala da importância da mídia e o seu impacto na vida social
moderna, Ciro Marcondes Filho (1994) apresenta as transformações da TV.

Sodré (1975) expõe assuntos relacionados à cultura e ao público. O autor estuda o código na
cultura de massa que rege a produção das mensagens de massa e quando trata da televisão,
cataloga a ideia de ser um sistema ou código que polariza a analogia entre emissor e receptor.

Edgar Morin (2000) aponta as principais características da cultura industrial e o


desenvolvimento dos meios de comunicação de massa. O autor também aborda conceitos
ligados à mídia e a sociedade. E já Jésus Martin Barbero (2001) nos apresenta o espectro de
43

assuntos relacionados à comunicação social, destacando, principalmente, a sociedade de


massa, além de mostrar como os meios de comunicação influem na vida do receptor, no seu
dia-a-dia.

4.1.2 Pesquisa Documental

O material empírico é constituído por gravações em vídeo cassete do Programa Márcia.

No primeiro lote, foram feitas as gravações de cinco programas apresentados ao longo da


semana de 28 setembro a 02 outubro de 2009, para análise do formato e das atrações de cada
dia da semana.

No segundo lote foram gravados os programas exibidos nos dias 24 e 31 de dezembro,


quando foram escolhidas as finalistas do concurso Melhor Transformação, do quadro Espelho,
Espelho meu, exibido sempre às quintas feiras, durante 2009.

De posse do resultado, construímos o nosso terceiro lote, com a gravação e decupagem dos
programas em que estiveram presentes as quatro finalistas, e que foram levados ao ar nos dias
15 de julho, 18 de setembro, 8 de outubro e 22 de outubro 2009.

Também foram coletados dados relativos à atração da TV Bandeirantes e à apresentadora,


usando para isso o site oficial do programa6, os blogs do fã clube7, e a revista Veja8 do dia 09
de setembro de 2009, que trouxe na edição 2129 nas páginas 126 e 127 uma entrevista com
Márcia Goldschmidt.

4.1.3 Métodos e técnicas

Para a realização desse trabalho foram utilizados os métodos de análise de conteúdo


objetivando estudar as estratégias adotadas pelo Programa Márcia da TV Bandeirantes que
evidenciam a busca pela audiência.

6
Disponível em: <www.band.com.br/marcia>. Acesso em: 10 de abril de 2009.
7
Disponível em: <http://marciagoldschmidt-faclube.blogspot.com/>. Acesso em: 02 de outubro de 2009.
8
Disponível em:< http://veja.abril.com.br/090909/todos-querem-ficar-marcia-p-126.shtml>. Acesso em: 20 de
março de 2010.
44

4.1.3.1 Análise de conteúdo

Como procedimentos metodológicos, foram estabelecidas relações entre os conceitos


destacados durante a pesquisa bibliográfica, juntamente com a análise do material empírico,
com o objetivo de identificar a presença de elementos no Programa Márcia que podem ser
caracterizados como importantes componentes para a conquista de audiência podendo, assim,
contribuir para a coordenação e sistematização da análise de conteúdo.

Para efeito da análise qualitativa, as bases teóricas adquiridas na formulação da pesquisa


bibliográfica auxiliaram na identificação de elementos ligados à espetacularização.

Sendo assim, os estudos se voltaram para:

a) Estrutura, recursos e perfil editorial:

 Formato (abertura, palco, cenário, vinheta, uso da câmara, sonoplastia, figurino,


cabelo, imagem, expressão facial e tom de voz da apresentadora);
 Quadros e temas veiculados no programa;
 Forma de apresentação dos quadros e temas correntes;
 Descrição dos assuntos presentes nas edições pesquisadas;
 Perfil e postura da apresentadora, convidados e especialistas em relação aos temas
abordados;
 Exibição dos problemas dos convidados e interação da apresentadora com a plateia.
 Meios de interação (sites, cartas, telefones, etc.).

b) Divisões vinculadas ao conceito do grotesco:

 A possibilidade de o programa alterar a mudança de atitudes e comportamentos


(convidados, plateia e telespectador);
 A percepção de elementos nas matérias que convoquem os participantes à
transformação ou mudança de estilo;
 A forma como as matérias são divulgadas no programa, afirmando o seu poder de
mobilização (exposição de crises emocionais e psicológicas);
 Utilização de imagens de arquivo ou imagens recentes para a constituição das matérias
exibidas;
45

 Emprego de “dramatização” nos temas ocorridos (histórias de vida narradas por um


ator e a transformação, ou seja, antes e depois dos participantes).

c) Abordagem linguística:

 A busca pela espetacularização na elaboração das histórias;


 Locução utilizada pela apresentadora;
 Postura da apresentadora diante da plateia, convidados e telespectadores;
 Abordagem da questão da objetividade e imparcialidade.

d) Expediente de espetacularização no programa:

 Exibição das histórias de vida narradas;


 A relação estabelecida entre a história e o convidado;
 Narração das histórias;
 Detector de mentiras;
 Transformações visuais imediatas dos convidados;
 Tipo de linguagem utilizada no programa.

e) Equipe que compõe os quadros durante as gravações do objeto estudado:

 Apresentadora;
 Produção;
 Convidados;
 Plateia;
 Esclarecimento dos especialistas de acordo com os quadros e temas exibidos;

4.2 A espetacularização da vida para a transformação do corpo e da alma.

O quadro Espelho, Espelho Meu é exibido uma vez por semana, sempre às quintas-feiras, no
Programa Márcia, a partir das 16 horas, na TV Bandeirantes.

A atração tem por objetivo transformar o visual das participantes utilizando, para isso,
procedimentos estéticos como implante dentário, drenagem linfática, depilação a laser,
bronzeamento, massagem e até lipoescultura; além de apresentá-las aos telespectadores, com
roupas modernas, calçados elegantes e maquiagem transformadora.
46

Para participar do programa, as candidatas devem enviar uma carta para a produção contando
suas histórias de vida e explicando porque gostariam tanto de passar por tais transformações.

Segundo Márcia Goldschmith, a seleção é feita a partir do que elas têm para contar. “O
objetivo do quadro é promover, principalmente, uma mudança de dentro para fora na vida de
cada participante”, afirmou a apresentadora em seu site.9

A produção do programa visita as candidatas pré selecionadas em suas próprias casas, para as
primeiras gravações, mostrando a vida delas antes da transformação a que serão submetidas.

Importante esclarecer que, durante um determinado tempo, a pessoa escolhida fica isolada do
mundo, tendo contato apenas com os profissionais encarregados da transformação como
médicos, esteticistas, massagistas, dentistas, dentre outros. Em momento algum ela se vê no
espelho e fica assim, durante todo o processo, sem saber os resultados que estão sendo obtidos
naquele período, que podem durar dias ou até meses dependendo da condição da candidata
escolhida.

Ao compartilharem suas histórias em rede nacional, as participantes transformam seus


próprios problemas, que pertencem à instância de suas vidas privadas, em objetos de acesso
público. São construídos, a partir daí, verdadeiras celebridades “momentâneas”, com seus
minutos de fama.

No final de 2009, Márcia Goldschmidt decidiu realizar um concurso para eleger a


transformação mais significativa daquele ano. Convidou então as 27 mulheres que
participaram do quadro, Espelho, Espelho Meu, para um especial de fim de ano.

Deu aos internautas a responsabilidade de selecionarem oito semifinalistas e no dia 24 de


dezembro produziu um programa diferente. Para eleger a grande vencedora de 2009, permitiu
que a plateia, ao vivo, participasse da escolha por intermédio do voto eletrônico e convidou
também para votar, seis profissionais de áreas variadas: Charles Yamaguchi, cirurgião
plástico, a estilista Lara Gerin, o publicitário Alexandre Lima, a arquiteta Raquel Silveira, o
consultor de moda Raphael Mendonça e a dermatologista Carla Sallet.

9
Disponível em: <http://www.infomaroto.com/blog/programa-marcia/>. Acesso em: 20 de abril de 2010.
47

Os jurados escolheram quatro finalistas para participarem do especial de ano novo, exibido
em 31 de dezembro de 2009 e que deu à vencedora, uma joia da Vivara, um cruzeiro marítimo
pela costa brasileira e um vestido do estilista Arthur Caliman.

Duas delas, Fabiana e Rosa foram eleitas pela plateia, enquanto Magda e Ana Lúcia foram
escolhidas pelos profissionais convidados.

Para a apresentadora Márcia Goldschmidt, o programa para eleger a melhor transformação de


2009 foi uma grande celebração, proporcionando também uma reflexão importante: a
necessidade de se transformar sempre, não apenas fisicamente, mas, sobretudo, internamente,
para a conquista de dias melhores.

Márcia abriu o primeiro bloco fazendo um resumo do que seria mostrado no último programa
do ano e afirmando que estava ansiosa para rever as quatro candidatas.

Após o intervalo comercial, a apresentadora contou um pouco da história de vida de cada uma
das finalistas, enfatizando o antes e o depois da transformação. Até do final da atração, uma
delas sairia como a grande vencedora: Rosa, Fabiana, Magda ou Ana Lúcia.

4.3 Era uma vez uma mulher... que queria viver feliz para sempre

Em 15 de Julho de 2009, Fabiana participou do programa contando a sua história de vida. Ela
havia se casado com uma pessoa de sexualidade duvidosa. Durante doze anos, Fabiana ficou
em dúvida se seu marido era gay. Disse só ter tido certeza mesmo, a partir do momento em
que passou a observar os comentários que vinham de todos os lados, a respeito do marido
dela.

Fabiana afirmou que ele já havia lhe dito que adorava se vestir de mulher. “No começo, achei
estranho confesso, mas pensei que se tratasse de um desejo, que fosse apenas uma fantasia”.

Fabiana explicou que chegaram a se separar, mas desde 2007, voltaram a morar juntos. “Nós
chegamos a nos separar, mas há dois anos estamos juntos novamente, dormimos juntos, mas
como amigo, somos irmãos”.

Ao retornar ao palco do Programa Márcia, naquele dia 31 de dezembro, para a grande final,
Fabiana ouviu da apresentadora a seguinte observação: “quem te viu e quem te vê, em termos
48

físicos você está incrível! Nossa gente! como ela é linda’. Fabiana aparentemente humilde e
tímida afirmou que estaria confiante.

No dia 18 de setembro foi a vez de Magda passar pela transformação. No especial de fim de
ano, ela disse acreditar que a vida dela tenha mudado bastante. “Márcia estou linda, não
acredito que esta que está aqui, hoje, seja eu mesma”, afirmou entusiasmada.

Antes de participar pela primeira vez do programa, Magda havia feito uma cirurgia de
redução de estômago e emagreceu 55 quilos, porém precisava de uma nova intervenção
cirúrgica. Sem condições financeiras para pagar uma outra operação, Magda afirmou que
perdera o marido, a auto-estima e a vontade de viver.

Esta história sensibilizou a produção do programa e por isso foi selecionada para o quadro
Espelho, Espelho Meu. Bastou passar pela transformação para a sua vida tomar um novo
rumo.

Ana Lúcia participou do programa em oito de outubro. A exemplo das outras candidatas, ela
também tem uma história de vida dramática. Foi violentada e abandonada. Precisou também
abandonar a única filha que teve, para não morrer de fome junto ao bebê. “Foram 46 anos de
sofrimento... 46 anos de dor... 46 anos de muita tristeza”, afirmou Ana.

Na carta enviada ao programa, ela falou de seu sofrimento e afirmou se considerar uma
pessoa velha, apesar de ter apenas 46 anos.

Contou que durante anos a fio passou por várias e duras agressões físicas por parte de seu
marido. Foi torturada e traz no rosto as marcas deixadas pela violência sofrida. Mas ao se ver
diante do espelho afirmou: “nem parece que sou eu, sou uma nova mulher, uma nova vida
renasce após a minha participação nesse quadro”.

Ao encerrar o bloco, a apresentadora Márcia rebateu: “ainda bem que não se parece mais com
você, a ideia é essa! Aquela Ana Lúcia morreu, largue aquele homem que não te merece”.
49

Em seu depoimento na grande final, ela disse que está noiva e só recuperou a vaidade após ser
transformada no quadro Espelho, Espelho Meu. “Mudei completamente, até a minha alma
mudou”.

Rosa foi a candidata do dia 22 de outubro de 2009. Em sua carta, ela disse que queria
participar do programa para arrumar um namorado. Foi uma das selecionadas. “Espero ser
muito feliz. Quero encontrar uma pessoa boa e honesta que não tenha vergonha de mim.
Ninguém vive sem amor”.

Dois meses depois, de visual novo, ela retornou como finalista, agora, para se candidatar ao
prêmio de melhor transformação. Ao ser chamada ao palco, a sua primeira reação foi beijar o
espelho. “O espelho me transformou por dentro e por fora. Olha gente, antes o meu marido só
me colocava para baixo, me humilhando por eu ser mais velha. Mas naquele dia do programa,
joguei a mala dele na rua, e disse a ele que não o queria mais”.

Desde outubro, quando Rosa se transformou numa nova mulher, a vida dela também se
transformou. Já tem um novo parceiro e, só esta semana, recebeu mais de mil e duzentas
cartas de telespectadores.

Apresentadas as quatro candidatas, foi a vez, então, do auditório votar. Fabiana foi a escolhida
com 37, 5% dos votos.

Em seguida foi a vez dos jurados.

O publicitário Alexandre Lima votou em Rosa, a estilista Lara Gerin, a arquiteta Raquel
Silveira e o consultor de moda Raphael Mendonça votaram em Ana Lúcia.

Anunciado o resultado, todas se abraçaram e, emocionada, Ana Lúcia, fez o seu


agradecimento: “hoje, sem dúvida alguma, é o dia mais feliz da minha vida, obrigada a todos
vocês”.

Sem imaginar a grande surpresa que a esperava, Ana Lúcia, a grande vencedora do Espelho,
Espelho Meu pôde, ao final da festa, reencontrar a filha que ela havia entregue para adoção
ainda bebê.
50

5. CONCLUSÃO

Como um grande espelho, o Programa Márcia, apresentado na TV Bandeirantes reflete,


exatamente, a imagem de milhões e milhões de pessoas que todos os dias, às quatro da tarde,
param as suas atividades para assistir àquela atração.

São milhões e milhões de pessoas que se posicionam de frente para a mágica tela, ou que
ocupam um dos 120 lugares da plateia onde o programa é exibido, para se verem ali
espelhadas.

São milhões e milhões de pessoas ávidas por histórias construídas ao avesso, deixando à
mostra suas próprias entranhas.

É precisamente isto o medium: o espelho como prótese do mundo. O que efetivamente


consome o espectador de tevê é o ato de ver, de espiar, de satisfazer-se escopicamente.
O que se poderia chamar de “desejo audiovisual” é esse movimento de espiar o mundo
ou suas imagens, somente pela pulsão de olhar, independentemente dos conteúdos ou
dos significados. A mirada concentra-se sobre o chocante na televisão do mesmo
modo que sobre o malabarista de feira pública ou sobre o acidente na beira da estrada.
(SODRÉ &PAIVA, 2002, p. 139)

A emissora não é considerada padrão no quesito qualidade de seus programas; mas assistir ao
Programa Márcia pode se tornar interessante para quem quer comparar, criticar, julgar, para
quem deseja ver o grotesco de perto e se distrair com isso.

Pode ser um atrativo para quem deseja conhecer histórias de vida semelhantes às suas, ou que
se tornam atrativas por serem tão distantes de suas próprias histórias!

As intrigas se registram dentro de quadros plausíveis. O cenário confere aparência da


realidade. O ator se torna cada vez mais “natural” até aparecer não mais como um
monstro sagrado executando um rito, mas como um sósia exaltado do espectador ao
qual este está ligado por semelhanças e, simultaneamente, por uma simpatia profunda.
(MORIN, 2000, p.92)

O Programa Márcia possui, em demasia, elementos que promovem projeção, identificação e


empatia, básicos para a existência de uma boa recepção entre o público e a espetacularização
com sujeitos reais acaba sendo ainda mais bem aceita por provocar risos e assimilação.

Por se tratar de histórias ditas verídicas, isto se torna ainda mais fácil. Mesmo que o fato
apresentado no programa possa vir a ser representado por atores profissionais, a identificação
não deixa de existir, já que independe de protagonistas autênticos para que os enredos, tão
recheados de apelo individual, sejam atrativos e gerem audiência.
51

De fato, a principal matéria-prima para os conteúdos discursivos da tevê são as


“representações sociais”, no sentido de forma de conhecimento a partir do senso
comum e orientadas para a figuração de uma realidade qualquer. Na fronteira do
individual com o social, essas representações incorporam conteúdos (opiniões,
atitudes, informações) realistas e imaginários, relativos à vida cotidiana,
reorganizando-os numa modalidade de saber adaptada à fácil comunicação. (SODRÉ
& PAIVA, 2002, p.131)

Mas, não apenas de audiência se sustenta uma emissora de televisão, porque o interesse
mercadológico está inserido nas atrações. Durante o programa, merchandising de produtos
ligados à elevação da auto-estima são anunciados a todo instante.

Na intenção de melhor entender as novas tendências dos programas televisivos, percebe-se a


existência de uma prática de compor, de complicar as técnicas da comunicação, aproveitando-
se de todos os artifícios para a busca de audiência, muitas vezes não se importando com a
qualidade do que é oferecido.

Apesar do tom apelativo do Programa Márcia, ele influi no gosto de uma fatia considerável
do público para atrações desse gênero: Agrada milhões e a cada um, individualmente, ao
mesmo tempo.

A homogeneização propiciada pelo modo de produção capitalista, subsidiada pela cultura de


massa e pela globalização, força o sujeito a buscar a sua individualidade, nem que seja frente
às câmeras.

(...) os problemas da vida individual, privada, os problemas da realização de uma vida


pessoal se colocam, de hoje em diante, com insistência, não mais apenas no nível das
classes burguesas, mas da nova camada salarial em desenvolvimento. (MORIN, 2000,
p.89)

Com o palco armado e o cenário todo pronto, os atores envolvidos na trama, sujeitos comuns,
mas anônimos, dão início ao espetáculo, assim que a apresentadora cumprimenta a plateia e o
público de casa. Do outro lado da tela, no conforto de suas poltronas, os telespectadores se
divertem, se encantam, se decepcionam, ao se verem ali espelhados, assistindo ao “show” de
problemas cotidianos, tão semelhantes aos seus próprios problemas.

Os protagonistas estão em rede nacional, expondo suas intimidades, mas também se


transformando em “celebridades momentâneas”.

Mesmo expostos, ridicularizados, fragilizados diante da plateia e de milhares de


telespectadores, há coragem de sobra, vontade de sobra, necessidade de sobra de contar suas
52

histórias e problemas, quase sempre ligados à família, às questões que envolvem drogas,
alcoolismo, espancamentos, traições, infidelidade conjugal, conflitos entre pais e filhos e teste
de paternidade.

O que se percebe, é que as representações televisivas do tipo “talk-show” acabam tentando se


aproximar ao máximo da realidade, levando aos palcos dos programas, sujeitos e dramas
reais.

Os participantes quase sempre são classificados como “vítimas” e “acusados”. A


apresentadora, muitas vezes, aparece atrás de um púlpito, assumindo a posição de uma juíza e
na sua fala, o reflexo de seu posicionamento. Ela discursa e julga. Ela absolve ou condena e a
plateia ratifica qualquer decisão que ela tomar.

O Programa Márcia, usa os clássicos closes e as trilhas sonoras emocionais quando alguma
questão mais comovente ou dramática é abordada pelos convidados. Entretanto, é no discurso
da apresentadora e dos convidados que está a verdadeira fonte de atração do programa.

Os fatos ali apresentados e a postura da entrevistadora servirão para construir ou destruir a


imagem dos participantes com fatos e versões baseadas na dramatização, na
espetacularização, na banalização e, sobretudo, no grotesco.

A exploração do grotesco, a representação e o espetáculo difundidos em programas destinados


a esse determinado público-alvo nas telas da TV fazem com que esse veículo de massa passe
a ser considerado um meio voltado ao empobrecimento cultural e alienação daqueles que o
assistem.
53

REFERÊNCIAS

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na imprensa. São Paulo: Summus, 1995.

BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de


François Rabelais. Tradução de Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec, 1987.

Band. Bandeirante TV S/A, ano de 2005. Jornalismo, notícias, vídeos, informação, economia,
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Band. TV S/A, ano de 2005. Jornalismo, notícias, vídeos, informação, economia, política,
fotografia, imagem, noticiário, cultura, tecnologia, esporte, Brasil, internacional, geral,
cinema, resultados, opinião, análise, cobertura, música, pop, arte, plantão, mundo, negócios,
empresas, ciência, saúde, vestibular, infográficos. Disponível em: <marcia@band.com.br>
Acesso em: 05 de março de 2009.

Band. Bandeirante TV S/A, ano de 2005. Jornalismo, notícias, vídeos, informação, economia,
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<http://www.band.com.br/marcia/videos.asp>. Acesso em: 02 de outubro de 2009

Band TV. Bandeirante TV S/A, ano de 2005. Bandtv.com.br é sua primeira e melhor fonte de
informação sobre Band. Aqui você encontra também outros Links interessantes. Disponível
em: <www.bandtv.com.br> Acesso em: 15 de abril de 2009.

BARBERO, Jesús Martín. Dos meios às mediações – Comunicação, cultura e hegemonia. 2ª


edição. Rio de Janeiro: UFRJ, 2001.

Biografia de Márcia Goldschmidt. Last.fm Ltd, agosto de 2008. Ouça Marcia Goldschmidt:
Loira, Mexeu Com Você, Mexeu Comigo e mais, além de 12 imagens. Descubra novas
músicas, shows, vídeos e fotos no maior catálogo on-line com a Last.fm. Disponível em:
<http://www.lastfm.com.br/music/Marcia+Goldschmidt/+wiki> Acesso em: 10 de abril de
2009.
54

Blog Infomaroto. WP-HOTWords, 22 de abril de 2007. A Band estreia o novo formato do


programa “Márcia”. De acordo com informações do jornal Folha de São Paulo. Disponível
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BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Seguido de: a influência do jornalismo e os jogos


olímpicos. Tradução de Maria Lúcia Machado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

BRAUNE, Bia; Rixa. Almanaque da TV: histórias e curiosidades desta máquina de fazer
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CRIPPA, Giulia. O grotesco como estratégia de afirmação da produção pictórica feminina.


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MICELI, Sergio. A Noite da Madrinha. São Paulo: Perspectiva, 1972.


55

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Sardinha. 9ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.

PATERNOSTRO, Vera Íris. O texto na TV: manual de telejornalismo. São Paulo: Campus:
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PROGRAMAS DE AUDITÓRIO (TUPI, GLOBO,SBT, RECORD). Disponível em:
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SODRÉ, Muniz. A comunicação do grotesco: introdução à cultura de massa brasileira. 4ª ed.


Petrópolis: Vozes, 1975.

SODRÉ, Muniz; PAIVA, Raquel. O império do grotesco. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.

THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade – uma teoria social da mídia. Tradução de


Wagner de Oliveira Brandão. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1998.

Veja.com. Editora Abril S/A, ano de 1968. A maior revista semanal de informação do Brasil.
Informações exclusivas e notícias diárias, além de especiais inéditos on-line e colunistas
exclusivos. Versão integral de VEJA e arquivo de edições anteriores. Disponível em:
<http://veja.abril.com.br/090909/todos-querem-ficar-marcia-p-126.shtml>. Acesso em 20 de
março de 2010.
56

ANEXOS

Anexo A - Participantes do quadro Espelho, Espelho Meu de 2009

1- Conheça as 27 candidatas.

Fabiana Rosemary Luciana

Iracema Bruna Magda

Rosa Verônica Cássia


57

Elizângela Andrea Maria Solange

Marines Elizabete Jurema

Ana Lúcia Lindalva Dalva


58

Zoraide Maria Alice Elvira

Alba Maria Eurie Maria

Valdirene Gêmeas – Gislaine e Gisleine


59

2- Semi-finalistas do quadro Espelho, Espelho Meu de 2009

Fabiana Magda

Rosa Maria Rosemary


60

Iracema Ana Lúcia

Maria Eurie Andrea


61

3 – Finalistas do quadro Espelho, Espelho Meu de 2009


62

4- Melhor transformação do quadro Espelho, Espelho Meu de 2009

Ana Lúcia
63

Anexo B – Entrevista com Márcia Goldschmidt

Edição 2129 / 9 de setembro de 2009

Perfil
Todos querem ficar com Márcia
Menina sem família, acolhida de favor de casa em casa, Márcia
Goldschmidt protagonizou transformações extraordinárias: ganha
250 000 por mês, ficou chique e superou a fama de "barraqueira"

Juliana Linhares

RAINHA DO MAKEOVER
Márcia na sala do seu apartamento: pele renovada, penteado moderno, roupas
finas e inglês e francês no vocabulário.

Uma das maiores atrações do programa vespertino Márcia é a transformação impressionante de mulheres
com variadas lacunas na aparência, tiradas de sua casa, fotografadas em seu pior (inclusive sem pontes e
dentaduras) e, depois de submetidas a inúmeros procedimentos estéticos, apresentadas em nova e miraculosa
versão. Nenhuma novidade: o makeover, como é chamado esse tipo de quadro, é praticamente uma
subdivisão da indústria da televisão. O que torna o programa de Márcia Goldschmidt único é que a própria
apresentadora passou por transformações que dariam uma série inteira de TV. Ou um conto de Charles
Dickens. Nascida Márcia Marcelino, tornou-se órfã na prática e enfrentou vicissitudes de cortar o coração.
"Durante anos, fui jogada de uma família para outra. Minha vida era: quem vai ficar com Márcia", conta a
apresentadora, com lágrimas nos bem pintados e puxados olhos. Hoje, aos 47 anos, salário de 250 000
mensais na Band, convites de outras emissoras e um guarda-roupa de dar taquicardia na mais controlada
das fashionistas, Márcia tem um bocado de gente que quer ficar com ela.
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O sucesso decorre de mais uma das muitas transformações de Márcia. Os arranca-rabos familiares diante de
uma plateia ávida por escândalos que fizeram a fama do seu programa continuam lá, mas a apresentadora
mudou. Não mais atiça os piores instintos da massa, como antes. Com voz calma, em tom baixo, pede licença
e, muito fina, admoesta o marido pronto para torcer o pescoço da sogra: "O senhor está se excedendo". O fio
condutor também está sendo redirecionado do espetáculo das brigas entre parentes para as transformações
estéticas. "Passei de barraqueira para a classe AB", anuncia Márcia, de cabelo novo, roupas novas, pele
nova e postura impecável. A mudança obedece às mais superiores das razões, as comerciais. Em 2005, o
programa saiu do ar por falta de patrocínio. A fórmula mundo-cão, com seus conhecidos apelos, tem o
defeito intrínseco de espantar anunciantes, que não querem se identificar com a baixaria rompante. Márcia
passou dois anos de molho em Miami, onde tem apartamento, ganhando salário sem trabalhar. Voltou mais
fina e menos loira, decidida a dar outra volta por cima.

Quem entenderia do assunto melhor do que ela? Filha de uma jovem operária, não conheceu o pai. Começou
a trabalhar como babá aos 9 anos, na mesma época em que a mãe teve problemas de saúde. Separaram-se.
Encaminhada aos cuidados do Exército de Salvação, Márcia começou a romaria por famílias adotivas.
"Numa das casas, só me davam uma refeição por dia, uma panqueca frita com um pouquinho de açúcar",
lembra. Da infância, guarda duas únicas fotos. Com bolsa de estudos, ela cursou uma escola adventista. "Fui
muito humilhada lá. Uma das minhas dores é lembrar que no intervalo os alunos jogavam pingue-pongue e
não me deixavam participar porque eu não pagava a escola. A primeira coisa grande que comprei na vida foi
uma mesa de pingue-pongue, que eu nunca usei", diz. Depois do colegial, Márcia foi com um namorado para
a França, conheceu um produtor de artistas brasileiros e virou sua assistente, ocupação que a pôs em contato
enviesado com gente famosa. "Arranjei muito Engov para o Chico Buarque", brinca. Em Paris, numa noite
em um bar, procurava um cinzeiro – até hoje, ela fuma cerca de vinte cigarros de palha por dia – quando
alguém puxou conversa. Era o barão Cyril Rudolf Maximilian von Goldschmidt-Rothschild, suíço, possuidor
de dois sobrenomes que são sinônimos tradicionais de banqueiros. Apesar da imponência da estirpe, ele
ganhava a vida com uma prosaica agência matrimonial. Casaram-se e se mudaram de mala e profissão para
São Paulo, onde ela se orgulha de ter ajudado a formar 1 800 casais. Loira, exuberante, extrovertida, em
1995 Márcia estreou um programa sobre namoros na televisão, e começou aí outra virada. Do casamento
encerrado, Márcia ficou com o único filho, hoje com 15 anos, a nacionalidade suíça e o sobrenome
hifenizado, tão diferente do Marcelino original.

Márcia mora num apartamento de 600 metros quadrados, forrado de quadros ruins e roupas boas. Ao
mostrar o closet, alisa vestido por vestido e enumera: "Tem Chanel, tem Burberry, tem Marc Jacobs, tem
Armani, tem Balenciaga, tem Dolce&Gabbana". Os sapatos, de preferência, são Prada. Como qualquer
mulher com muito dinheiro e à beira dos 50, demanda alta manutenção. "O Botox é meu melhor amigo", diz.
Silicone? "Claro." Para eliminar os sulcos ao lado da boca, o médico Roberto Tullii fez a técnica da
subincisão. "Com uma agulha cortante subcutânea, desfiz os vincos que se formam pela aderência da pele ao
músculo", explica Tullii. Ele também injeta frequentemente gás carbônico no rosto de Márcia para estimular
a formação de colágeno. De quatro em quatro meses, a cabeleireira Renata Souza aplica um tratamento
chamado bordado, em que corta as pontas duplas, uma a uma. "Todo mês, fazemos alisamento. Mesmo
assim, ela precisa de escova diária, porque seu cabelo é enrolado como o da Elba Ramalho", diz Renata.

Expressões em inglês e francês brotam nas conversas. "Give me a break", invoca quando perguntada se as
brigas no programa são forjadas. "Se eu fosse uma fraude, não estaria na TV até hoje." Recentemente,
Márcia abraçou o novo item obrigatório do pacote celebridade: a cabala, na versão adaptada por um rabino
extraviado que resolveu espalhar entre famosos e, principalmente, ricos ensinamentos místicos do judaísmo.
Em Miami, teve o mesmo professor de Madonna e, lá também, fez jejum de 25 horas ao lado de Demi Moore.
"Segundo a cabala, na outra vida fui uma líder religiosa que viveu em clausura. Nesta, vim com o dom da
projeção, da mídia", explica. Como se precisasse. Quem passou pelos makeovers de Márcia pode tudo, até
usar o fio vermelho no pulso, sem dar explicações a ninguém.