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OS GRANDES PROBLEMAS DA ATUALIDADE

PETER KROPOTKIN

QUESTÃO SOCIAL
flihliaikrca Promclhru
EM FAÇJS DÂ
Silo Paulo - - Brasil

CIÊNCIA

Distribuidora : Biblioteca Prometheu


r.ditorial Paulista — S ã o Paulo — Brasil S Ã O PAULO
Os grandes problemas
da atualidade
A QUESTÃO SOCIAL
— O ANARQUISMO
EM F A C E D A CIP.X
CIA — de P e t e r K r o -
potkin

Este livro c indispensável


ao» estudiosos dos problemas
sociais, porque nele, o seu au-
tor, o sábio Peter Kropotkin,
analisa, á luz da ciência, con-
frontando e deduzindo, uma
das maia discutidas soluções da
Questão Social: o Anarquismo.
F." uma obra de estudo, de
ciência, de filosofia, que de-
safia a contestação <ips mais
arrojados críticos e sociólogos.
Peter Kropotkin, que aban-
A Questão Social
donou o comodismo da corte
i m p c i a l russa para se dedicar
á causa dos oprimidos,
tamlx-m, o autor da "Grande
t,
O anarquismo em face d a c i ê n c i a
Kevoluç.io" que acaba de ser
i-ilitada, pela primeira vez, no
Brasil, e de outras obras que
correm mundo, em quasi to-
das as lingua*. COMO " A Con-
quista do Pio". " O A|»>io
M ú t u o " , "Palavras de um re-
belde". "C'am|Mis, Fabricas e
0(fcinas , p " A Moral Anar-
quista" e "Ética", sendo enor-
me a sua produção jornalística
e a sua atividade revolucio-
naria.

C O M O SF. F E Z A R F . V O
M T Ç A O K I S S A — De Vo-
linr. que participou de tinias
as fases da grande convulsão
que ahaloa o antigo império
dos czares.
P E T E R K R O P O T K I N

A Questão Social
O a n a r q u i s m o em face
da ciôncia

T i ; n l i n ; ; i ' i livi« <|<> <n i • 111 »I i n g l ê s


(

poi
11 !• N I) I O S K R

B b l i o t e c a P r o m e t h e u — S. P a u l o

CCS ,

& ^ J
PREFACIO l>\o FRANCESA

(,'iKinil, M ,imili\,i IIIII.I leoim \m ml ./;/<J/./M(V , mio <•


/«"/*# 1/ r+rifmn. apox um h,,. no , \ame, que Ao não repre-
senta apenas um programo partidário e iV/n// r/V
construião do soiicdadi nm\/n moi.\, pois, em geral, e
conexa com um sistema I / I M / I / I H I de filosofia, de con-
ccpçãti do \ . </«n uuiedades humanas la tivemos
oportunidade de expoi esto manena • - em duos con-
ferencias que em tempo demos i I i i.»/>»,• < orno considerar
o Anarquismo.
Nesses dois estudos cridem uivamos os relações exis-
tentes entre as nossas ideias e o tendência actual, forte-
mente acentuado mu ciem ias naturais, de explicaras
grandes fenómenos do Wilure o pelo acção dos infinita-
mente pequi nos onde mitioia, so \e enxergava a acção
das grandes mMttút, e, nas tiêttcku tOtitii, de reco-
nheeei tomo pnmanois os dnei$04 do indiriduo. ao invés
dos interesse,\ I stado i/uc, ot< hoje se teem reconhe-
cido como sohrelerontes aqueles
Pretendemos agoio nesta obra mostrar que a nossa
concepção anarquista apresento uma consequência neces-

(li <» .mi. i n i n - »r, de-certo, às suas duas conferên-


cias ••< i - u i i i ' . ., i» i• • • - ii .1, Mil.ur.liiiacla ao título L e g Temps
NOIIV«-/IU>. dada • in l.iunires, publicada em francês em 1894;
a segunda «|in- n u l a mais •'• do que u m a re-edição desenvol-
vida da primeira, não foi pronunciada mas escrita, intitula-se
L'Anarchie, sa philosophie, son Ideal, publicada cm Paris, em
18%, • que j a se acha por nós trasladada ao português.

N. do T .
0 P KT KR K R O P O T K I N O ANARQUISMO I A CIÊNCIA MODERNA 7

sarin do frayoroso despertar geral das ciências naturais Afinal acabámos icdcndo e durante um decénio, des-
que se manifestou durante todo o decurso do século XIX. de 1892, escrevemos uma série de artigos sob o título
O que nos inspirou o presente trabalho foi precisamente "Recent Science" pata a relendo NINETEENTH CEN-
o estudo desse empolgante movimento, bem como o das Tll\Y, ate que uniu ,ardite declarada nos forçou, como
notáveis conquistas alcançadas pela ciência nos últimos anos sucedera ao nosso ante, essor, a adiarmos esse árduo tra-
do século recêm-findo. E ' por demais sabido que os úl- balho.
timos anos do século findo se caracterizaram por noiáveis Levados assim a estudar com profundeza as extra-
progressos nas ciências naturais, ç a um tal desenvolvi- ordinários des,abertos do\ anos. chegámos a um
mento devemos a descoberta da telegrafia sem fios, o» co- duplo resultado l'o, um lado. graças 0 aplicação do me-
nhecimento de uma série de radiações que dantes eram to,!,, indutivo, ohser vávomos , orno a\ dest abertas,
ignoradas, a existência de um grupo de gases inertes ina- de uma importai,,:,, tmal.uhtrcl para „ inter prefação da
daptáveis a quaisquer combinações químicas, a revelação Natureza, vieram sobrepor-se á que ha,-iam notabilizado
de novas formas elementares da matéria viva e assim por os anos de iK.Sí, lSí..', , ,,mo uni estudo mais- penetrante
diante. E , por tudo isso, fomos levados a estudar a fundo das grandes dcscobcitu\ a ,abo nos meados do
essas novas conquistas da ciência. século por Mayer, (,'rove, Wurtz. Ihmvin « tantos outros,
davam às descobertas pi e, e, lenir» um aspeito inteiramente
Aí por 1 8 9 1 , quando estas ruidosas descobertas SJ
novo e abriam novos horuontes a , , , n , i o lavrado surgir
faziam com uma rapidez incrível, o editor da revista lon-
novas questões de alto aliam, / I / . M , - / / , , .
drina NINETEENTH CENTQKY, sr. James Knmvles,
E onde ccit.>, sábios, impa, tentados o u dominados
propunlia-nos continuarmos na sua revista a série de ar-
pela influencio de uma r,tu,a^ao p,imana, pretendiam ver
tigos que, sobre a ciência moderna, publicava então Hux-
'uma bam arrota da , i, m ,a I ( nomos nos tao somente
ley, o famoso emulo de Darwin, que, por motivos de
um facto normal, muito iam,ha, aos matemáticos, o que
saúde, se vira forçado a abandonar. Fácil é de compre- eles chamam a | M . . - . I H . I r IIIM.I | > i i i i i n i a a|>n<)\Miiac;ão à s
ender porque, durante muito tempo, relutamos em aceder seguintes.
.a este convite.
Continuamente, é la, to. vemos o astrónomo e o fí-
E ' que os assuntos científicos que Huxley tomava por sico demonstrarem, sob a denominação de "leis físicas",
temas não constituíam meras palestras literárias, mas es- a existêncui de i citas relações entre diversos fenómenos.
tudos sérios de ciência em cada um dos quais explorava a
fundo duas ou três grandes questões científicas de suma
(1) -— A l u s t o a um célebre artigo, que tanta celeuma pro-
importância que êle debatia admiravelmente, dando ao lei- duziu, d.» escritor l i a m e s l-Ynliuand Brunctière, convertido
tor, em um estilo compreensivo, a análise cerrada e crítica Bu < atoiicismo, a «mando da uma sua visita ao Papa L e ã o
das descobertas modernas em que essas questões incidis- X I I I i publicado pela primeira vez na Revue des Deux Mondes,
em Janeiro de 1895 e mais tarde re-editado no seu volume
sem. Knowles insistia e, para facilitar o nosso trabalho, La Science et la Keligion, publicado em 1916 pela livraria de
ainda a RoyaL Society nos enviava convite especial para P e r r i n & C.° que, aliás, vale a pena ser lido.
assistirmos às suas memoráveis sessões. N. do T .
s PETER K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 9

e pura estudar, em suas particularidades, as aplicações des- . vidade, deixamos de meu, mnar, as ciências, que, nas suas
sas leis não faltam investigadores decididos e competentes modalidades especiais, ttiudãm as consequências dessas
Mas, a breve trecho, à proporção que os factos se descobertas, procuram neste momento as "segundas apro-
acumulam por novas pesquisas, esscs.investigadores desco- ximações" que. com maior perfeição, corresponderem às
brem que a lei estudada nada mais ê do que uma "primeira realidades da Natureza.
aproximação", donde o concluir-se que os factos que se As pretensas " falem ias da ciência", que filósofos mo-
pretendia explicar por ela são, na verdade, muito mais dernistas exploiam vastamente na cpo,a actual, são, por
complexos do que a princípio pareciam ser. natureza, simplesmente a investi,/a^ao das segundas' e ter-
Para tomarmos um exemplo assas conhecido, citare- ceiras aproximações a IUJO estiolo. após o período culmi-
mos as chamadas "leis de Kepler" (oncernente ao, movi- nante das grandes descobertas, a neném, , omo lhe cum
mento dos planetas em z-olta do Sol. Um estudo minu- pre. dedica particular atenção
cioso dos movimentos planetários confirmou, a principio, Não vamos deter nos a,jota a dinulit as abras desse
a exactidão dessas leis; provou-se, 'efectivamente, que os parco núcleo de fdósolos rutilantes, porem, superficiais,
satélites do Sol se movem, grosso modo, ao longo das elip- que procuram tirar partido das menta.-cts indecisões das
ses em que o Sol ocupa um dos focos. Porem, agora des- ciências na sua fase formativa paia nos inculcarem a in-
cobre-se que a elipse descrita é apenas "uma primeira tuição mística e promover o descrédito da neneia em geral
aproximação". perante um auditório que mio tem a capai idade precisa
Na realidade, os planetas, na sua trajectória ao longo para verificar a exactidão das sua. sopeai (eras críticas.
das elipses, sofrem diversos desvios por efeito da acção Não repetiremos aqui o que /<-,; dito no texto deste livro
que uns sobre os outros exercem. Feito o estudo desses acerca dos abusos continua es que os metafísicos fazem
desvios, puderam os astrónomos chegar à uma s e g u n d a e do método dialctico .lo leitor que. por ventura, se inte-
<Í uma t e r c e i r a aproximações, que vieram, naturalmente, a resse por tais questões indu aremos a abra preciosa de
corresponder melhor do que a p r i m e i r a aos moxnmcntos Hugh S. R. Elliot, Modem Seieincr and the Ilhtsions
reais dos planetas ( 1 ) . of Professor Bergson, — (./ . i,n, m moderna e as ilusões
E ' precisamente o que, na face actual dos conheci- do professor llergson) com um excelente prefácio de Ray
mentos h.nnanos, se dá com as ciências naturais. Veri- Lankestcr, publicada em I ondres, em \)\2, pelos editores
ficadas as grandes descobertas da indestrutibilidade da Longman & Green (\). Nessa obra se poderá ver por
matéria, da variedade das espécies, da unidade das forças que métodos arbitrários e de pura dialética, por que fogos
físicas e da sua consequente acção sobre a matéria ani- de artifício de linguagem, o representante classificado des-
mada como sobre a inanimada, e as demais que, por bre- sa corrente filosófica chega as suas temerárias conclusões.

(1) — E n i abono do que expende Kropotkine, podemos (1) — H E N R I B K R Í i S O N , filósofo francês, autor de
«numerar, como u m a das referidas " a p r o x i m a ç õ e s " , a teoria muitas obras em que procura instituir, à moda da filosofia
da relatividade restrita, exposta e sustentada pelo sábio m a - orientai, o método da intuição psicológica como base da aqui-
temático alemão Einstein. sição de conhecimentos.
N. do T. N. do T .
10 PETER K R O P O T K I N

O segundo dos resultados a que chegámos no estudo


dos recentes progressos das ciências naturais e no reco-
nhecimento de ser cada nova descoberta que surge uma
nova aplicação do método indutivo, foi ver como as ideias
anarquistas, formuladas por Godwin e Proudhon e de-
senvolvidas por seus continuadores, representavam igual-
mente a aplicação desse mesmo método às ciências que
tratam da vida das sociedades humanas.
Trataremos de monstrar na presente obra, em primeiro
logar, até que ponto o desenvolvimento da ideia anarquis-
ta marchou paralelamente com os progressos das ciências
naturais. Indicaremos em seguida como e porquê a filo-
sofia do Anarquismo se destaca nas'tentativas recentes de
elaboração de uma filosofia sintética, isto é, de uma inter- P R I M E I R A PA R T E
pretação geral do Universo ( 1 ) . Deliberámos, para me-
lhor compreensão das referências feitas no texto do livro,
pôr em apêndice rotas explicativas a respeito dos diversos
autores citados e de' alguns termos de ciência, julgando,
com isso, satisfaz, imos u natural curiosidade do leitor. A Ciência M o d e r n a
Cumprimos, finalmente, o indeclinável dever de ex-
primir aqui os nossos mais veementes agradecimentos ao
nosso amigo Ih. Max Nettlau pelo inestimável concurso
que nos prestou, especialmente na elaboração dessas No-
tas, com os seus vastos conhecimentos da literatura socia-
lista c anarquista cm que é profundo c emérito cultor.

Hrighton, Fevereiro de 1 9 1 3 .

PETER KROPOTKIN.

(1) — P a r a este particular chamamos a atenção do leitor


para os capítulos em que o autor expõe e critica admiravel-
mente a filosofia de Herbert Spcncer, o notável pensador b r i -
tânico.
N. do T .
i'i i I K ' KROPO'1 K I N

A < I I N( I A M O I H U N A I o ANARQUISMO

( ) i i | / < ' i m ilo AiiNi<|iiiaiiMi

< )i iiMnni I.-IIIM ni' •. \ M • 111 • i |.i.. .-1. .l«

uma determinada . l v s < . I I M I i a c i r n u l i i a , m m assenta


em uni aifttema definido «Ir íiloHofia. A l c i r n c i m sft-
. i . . | . . j ' i . a-. r , ( . i n . i i i i - l . i i i n i i i o I I . I I I M <l.i l a - . r certeza
a «111 «* já c l i e ^ a t a m |>"i • -<ni|.|.' .1 I r . i . a r .1 j 11 u n i r a
Ora •.«• I H . i-siiul.i 1I11 c l i m a * r 1I0 tempo (climatolo-
vi. 1 1 meteorologia) mula n n r^uimos c o m exa-
rtulão |>iMjMiiv.i 11 , 1 um nir», mi riequcr uma se-
m a n a , de a i l l r < I.I1....1 l l i r l i - i . i >.|<> ; i .1 , i | U f
se v.io M i n i l r i , .rii.i ali u n i u <•vulentemente-, p r e t e n -
ner, c o m O N «lados «Ir u m a • n u . i a m l o r u w como e a
Sociologia, que contende cora matéria iiitmitamente
m a i s complexa d o i|ti<- o v e n t o • .1 chuva, prognosti-
iai . " I H .1 n i v .111.1 i s a i l u l a o , o s lenómenos sociais.
A n t e a de tudo lemhrcnio-iioa que os sábios, como
<|iiai .i|iii 1 . . i i i i 1 . . I H liomeiis sujeitos ao erro, ainda
...In .1 , i | ; i .1 v . i n i . I. |.«i i i i v i - i < n i . na sua maioria, às
claaaea ahaatndas e, em consequência, p a r t i c i p a r e m
dos |>i <•( o u . v n . 1 d a classe, alem do facto de muitos
viverem a expensas d o Kstado. E ' . portanto, d e toda
!4 PETER K R O P O T K I N O ANARQUISMO K A CIÊNCIA MODERNA 15

das forças naturais, d o s amestrais, — que serviam


a evidência que o A n a r q u i s m o não procede, n e m po-
dia proceder, das universidades. perfeitamente de e l o m a n t e n e d o r d a u n i d a d e federa-
tiva das tribus.
C o m o o S o c i a l i s m o , ç e m geral todos os m o v i -
mentos de carácter social, o A n a r q u i s m o o r i g i n o u - s e Nesses tempo .1 |itimeiios (.Mimes <|.i estudo

do povo e só c o n s e r v a r á a vitalidade e força c r i a d o r a da naturc/a. :i a . l 1mi ;i, a p i e v i a o do t e m p o .


que lhe são inerentes enquanto se m a n t i v e r c o m a o c o n h e c i i i i e n i . . d . r d o . n , a s eti . — a n d a v a m e s t r e i -
sua peculiaridade de m o v i m e n t o popular. tamente 111 *..• • I• • .1 d i v e i . s u p e i st iç/ics c o n t i d a s n o s
,|ifei..il« Mio r.ulloM I . . d a . a . artes e ofícios t i -
* p rtrti M I ni - I ' • ' " d o r d e s u p e r s t i ç ã o e, a q u e -
* * la* gomo ente», l l n h a m Miaa tófmulll m i tu a s s ó c o -
.,1,. . . l a s .1 . 11.1. I.KIO • < 1 " I ' • md.ido a m e n t e octll-
A t r a v é s de lodos os tempos v e r i f i c a - s e que. no tus daa masnaa paru evitai »uT**n ao seu conheci
seio das sociedades h u m a n a s , duas c o r r e n t e s de pen- Ml. Illo
samento se teem encontrado c o n s t a n t e m e n t e ç m luta Com omitantemente u i m este* incipientes repre-
antagónica. .eiitantes da leliriao e d a . u m 1,1 I i a v i u u m a classe
De u m lado. as m a s s a s . <» povo, e l a b o r a v a m , no de indivíduos . p i e . COOK) 01 bardo lUlft «a celtas e
decurso da s u a existência sob a forma de costumes, ii brehona da 11 I a m i 1 o p n o s da lei
um certo número de instituições necessárias a-fim-de
nas povo...-. , .amimava*, e t c , eram t i d o s |>or p e -
t o r n a r exequível a vida social, a manutenção da paz.
rito- e m m a t e i ia de i r . . . . . . . Hum antigos a quem
o a j u s t a m e n t o das contendas e a prática do a u x i l i o
se re« 011 ia em . .. di I I1.1 011 de conflito.
mútuo e m todas as circunstâncias que e x i g i s s e m u m
C m . 1vivam mmmiòim amente o* prereitos da lei. que
esforço combinado. O s costumes tribais entre os s e l -
algum . v r / c i H p i iimiiiii p o i meio de c e r t o s sinais
vagens, a s comunidades r u r a i s e. mais tarde, a guilde
que aar oa tfermea da
v i e r a m dcpola a eacrita, e em
( c o r p o r a ç ã o ) i n d u s t r i a l nas cidades da idade média,
que a s s e n t a r a m os p r i m e i r o s elementos do direito i n -
,.,... di contendai ara p t N e l a * como árbitros, que
« ipclava
t e r n a c i o n a l sobre que e s t a b e l e c e r a m a s suas mútuas
relações —- essas, e m u i t a s outras instituições, foram
A o l a d o d. . s u a dual altlMIi havia ainda u m a ter-
, , 11.. .1 d o 1 l i e te . l e n i p o i .11 I O S <|<>. b a n d o s d e c o m -
elaboradas e aperfeiçoadas, menos pelos legisladores
bate, a q u e m s e a t r i b u l a n |M>*ae d o a s e g r e d o s m á -
do que pelo espírito c r i a d o r das m a s s a s .
gico* 1I0 í x i t o das batalha*, do e n v e n e n a m e n t o das
De outro lado, m e d r a r a m sempre entre o s homens armai e de vários o u t r o s segredos m i l i t a r e s .
os magos, os x â m a n e s . os feiticeiros, os reptadores K*taa tré* categorias de homens constituíram
de c h u v a , os oráculos e os sacerdotes que foram, por sempi. entii 1 d< d e t e m p o s imemoriais, sociedades
ordem n a t u r a l das cousas, os p r i m e i r o s monopoliza- . . . 11 t a s t o m " h m de manter c transmitir, após u m a
dores de u m r u d i m e n t a r conhecimento da n a t u r e z a e longa e penosa iniciação, os segredos das suas fun-
os fundadores dos diferentes cultos, — do sol. da l u a . (fit dc eus ofícios. Se algumas vezes se c o m b a -
O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 17
16 PETER K R O P O T K I N

tutos. E enquanto a l g u n s descontentes se r e v o l t a m


tiam, a c a b a v a m sempre, no fim de contas, por se e n -
c o n t r a u m a instituição, já fastidiosa, procurando f a -
tenderem m a r a v i l h o s a m e n t e , unindo-se, por diferente?
z ê - l a e v o l u i r no interesse colectivo ou promovendo a
modos e formas, para dirigir e dominar as m a s s a s ,
queda de u m a a u t o t i d a d e absolutamente alheia à i n s -
mantê-las na obediência, g o v e r n á - l a s e obrigá-las a
tituição e i n c r u s t a d a nela c o m o propósito de se lhe
t r a b a l h a r e m para eles.
sobrepor p o r t o d o >> m e i o s , o u t r o s , a o contrário, pro-
curam, a t o d o o t r a m e , atacar essas mesmas institui-

ções, — a trlbu, a UM r u r a l , a g u i k k , e t c , — c o m
* *
o uni iiuito de se lolocaieni tora e acima delas
D a s duas citadas categorias, é evidente que o .i i I. 1111 111oi podeiem d u a i o s outros m e m b r o s
A n a r q u i s m o representa a p r i m e i r a delas, isto é. a for- da sociedade e l o c u p l e t a r e m - i e a e x p e n s a s suas.
ça c r i a d o r a e c o n s t r u t i v a das m a s s a s que, no passado, l o d o s O H verazes r e f o r m a d o r e s sociais, — polí-
e l a b o r a r a m as instituições de direito c o m u m para me- t i . o s , religiosos ou económicos, — p e r t e n c e m a p r i -
lhor se defenderem de u m a m i n o r i a a g r e s s i v a e de m e i r a das duas categorias enunciadas. Et indubitável
instintos dominadores. E ' também por e s s a m e s m a que entre e s s e - reformadores s e e n c o n t r a r a m sempre
força c r i a d o r a e c o n s t r u t i v a , apanágio do povo, c o m indivíduos dispostos a i r e m além, pouco se lhes dando
o poderoso auxílio que lhe prestam a ciência e a t é c - t e r e m o u não o consenso unânime dos seus c o n c i d a -
nica modernas que o A n a r q u i s m o p r o c u r a , nos tempos d ã o s o u sequer da m i n o r i a . Aqueles, todavia, sem es-
actuais, estabelecei a instituições necessárias que g a - P- i n e m pela adesão destes à c a u s a que os i m p u l s i o -
r a n t a m i» livre desenvolvimento da sociedade, em opo- n . i v . i , quer absolutamente sós, individualmente se não
sição àqueles que depositam todas a s suas esperanças eram seguidos pelos demais, quer, quando possível, em
em u m a legislação feita por m i n o r i a s governantes e. gtupo m a i s o u m e n o s numerosos, m a r c h a v a m a v a n t e
por rígida disciplina, imposta à s m a s s a s . i n i i n l i o d . i m s i i i r e i ç á o . o u t r a toda a espécie de

P o d e m o s , portanto, a f i r m a r que, nesse sentido, tirania.


houve sempre a n a r q u i s t a s e cstatistas. Revolucionários d e s t a têmpera os depararemos
D e m a i s , é da história e s t o u t r o facto que, unifor- e m todas as épocas d a história, — b a s t a c o m p u l s á - l a .
m e m e n t e , se tem o b s e r v a d o : que as instituições, m e s -
mo a s m e l h o r e s , o r i g i n a r i a m e n t e estabelecidas para
e f e c t i v a r e m a igualdade, a paz e o auxílio mútuo, se
• *
petrificam na extensão da sua caducidade. Perdem
esses institutos a finalidade que lhes deu o r i g e m para T o d a v i a , fácil é de ver que e m qualquer período
c a i r e m sob o domínio de u m a minoria a m b i c i o s a e histórico os revolucionários se d i s t i n g u e m por dois a s -
t o r n a r e m - s e , por fim. u m trambolho ao desenvolvi pectos diferentes. U n s , e m b o r a e m revolta c o n t r a a
1 mento u l t e r i o r da sociedade. S u r g e m , então, isola autoridade o p r e s s o r a a n i n h a d a no seio da sociedade,
damente, indivíduos que se rebelam c o n t r a tais i n s t i - não p r o c u r a v a m de modo a l g u m d e s t r u i r a própria
18 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 19

autoridade, p r o p u n h a m - s e s i m p l e s m e n t e a conquis- tituir de novo O l institutos de auxílio mútuo, de p r o -


tá-la e m seu favor. E m substituição a u m poder que tecção recíproca, na conformidade das novas n e c e s s i -
se t o r n a r a tirânico, pretendiam c o n s t i t u i r u m poder dades e condições da e x i s t e m ia. N a s cidades da G r é -
novo de que f o s s e m e x c l u s i v o s detentores sob a fa- cia a n t i g a I e s p e n a l u i c n l e nas da idade média, como
g u e i r a p r o m e s s a , da melhor boa fé e n u n c i a d a , de que Florença na l i n h a «• | ' * k o v IUI Kúskia europeia e o u -
a n o v a autoridade e m suas mãos se d e v o t a r i a deveras t r a s mais, e m o u t n i i fartos exemplos deste género
aos i n t e r e s s e s do povo, que ela c o n s t i t u i r i a a sua v e r - de lutan
d a d e i r a representação, p r o m e s s a tal que depois e r a fa- V.MUI tv pode d i z e i , sem i d e i o de contestação,
t a l m e n t e esquecida ou traída. que J I I I i.lnmn. ( I ) e a u a i q u i i t a s I c e m sempre existido
A s s i m se constituíram a autoridade i m p e r i a l na dr peiuieio nas l i . . . | e . .|. i c l o i m a d o f t f I revolucio-
R o m a dos C é s a r e s , a autoridade da I g r e j a nos p r i m e i - nai los
ros séculos d a n o s s a e r a , o poder dos ditadores nas
cidades j á então decadentes da idade média, e outros
análogos. A m e s m a ideia d i r e c t r i z persiste na E u r o -
p a tratando da constituição da autoridade r e a l j á nos
últimos tempos do feudalismo. A fé e m u m i m p e r a - l'ormidáveis m o v i m e n t o s populares, c a r a c t e r i s t i -
dor, — u m C é s a r , — de eleição popular e destinado c a m e n t e a n a r q u i s t a s , se p r o d u z i r a m nos tempos pas-
a s e r v i r o povo, não desajwireceu a i n d a de todo, p r e - sados. V i l a s e cidades i n t e i r a s se s u b l e v a r a m então
valece e m nossos dias. c o n t r a o princípio g o v e r n a m e n t a l , c o n t r a todos os ó r -
A o lado, porém, desta c o r r e n t e autoritária, u m a g ã o s do E s t a d o , seus tribunais e suas leis e p r o c l a m a -
c o r r e n t e s i m u l t a n e a m e n t e se a f i r m a v a i m p u l s i o n a d a v a m a b e r t a m e n t e a soberania dos direitos do h o m e m .
pela necessidade de proceder a u m a revisão das I n s t i - D e n e g a v a m toda a lei e s c r i t a e a f i r m a v a m c a t e g o r i -
tuições estabelecidas. D e tempos r e m o t o s , desde a camente <pic cada um d e v e r i a g o v e r n a r - s e por sua
a n t i g a Grécia a t é à época presente, houve sempre i n - própria consciência. P r o c u r a v a m a s s i m fundar u m a
divíduos e c o r r e n t e s de pensamento e de a c ç ã o que se n o v a sociedade baseada nos princípios de igualdade,
e s f o r ç a v a m , não por s u b s t i t u i r u m a autoridade p a r t i - de c o m p l e t a liberdade e de trabalho.
c u l a r p o r o u t r a , m a s por demolir a própria a u t o r i -
O m o v i m e n t o cristão que se produziu na J u d e i a
dade que, subreptíciamente, se h a v i a i m i s c u i d o nas
sob o império de A u g u s t o c o n t r a a lei r o m a n a , c o n t r a
instituições populares, sem dar m a r g e m a que se f u n -
0 E s t a d o romano e a m o r a l da época, — ou melhor,
dasse o u t r a e m seu logar. P r o c l a m a v a m eles c o n c o -
1 imoralidade desenfreada que então c a m p e a v a , —
m i t a n t e m e n t e a s o b e r a n i a do indivíduo e do povo e
t e v e . inquestionavelmente, fortes laivos de a n a r q u i s -
d i l i g e n c i a v a m libertar a s instituições populares das
excrescências autoritárias c o m o intuito de r e s t i t u i r
ao espírito colectivo das m a s s a s a s u a plena liberdade (I) — Vide esta palavra nas Notas E x p l i c a t i v a s no fim
do VolllIlK
p a r a que o génio popular pudesse l i v r e m e n t e r e c o n s -
N. do T .
20 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 21

mo. Mas, paulatinamente, esse movimento degene- nisso assenta, mas nas revoltas individuais e colecti-
rou em u m movimento s e c t á r i o que operou a forma- vas contra os representantes da força e x t r í n s e c a a
ção da Igreja, t r a ç a d a nos moldes da Igreja hebraica essas instituições nas quais, quando lhes bolem, é t ã o
e a t é da p r ó p r i a Roma imperial, o que, naturalmente, somente para as utilizar em seu único proveito.
matou tudo o que o cristianismo no seu início tinha Todos os rebeldes cujo ideal haja sido, porven-
de anarquismo, deu-lhe formas romanas e, a breve tura, a r e i n t e g r a ç ã o no génio criador das massas da
trecho, veiu a constituir o esteio principal da auto- n e c e s s á r i a liberdade para poderem desenvolver, ao
ridade, do Estado, da e s c r a v i d ã o e da o p r e s s ã o . m á x i m o da sua e x p a n s ã o , toda a originalidade que as
Os primeiros germes de " o p o r t u n i s m o " i n t r o d u - caracterizava de modo a efectivarem essas i n s t i t u i -
zidos no cristianismo s ã o j á palpáveis nos quatro ções exigidas pela época, — estavam, evidentemente,
evangelhos e nos actos dos a p ó s t o l o s , s e n ã o na sua insuflados do espirito anarquista.
p r i m i t i v a r e d a c ç ã o ao menos nas v e r s õ e s que desses Nos tempos modernos, o Anarquismo nasceu do
escritos temos nos livros que constituem o Novo Tes- mesmo protesto crítico e r e v o l u c i o n á r i o de que pro-
tamento. cedeu o socialismo em geral. E ' verdade que uma
Igualmente, o movimento anabatista que, a bem certa fracção de socialistas, depois de haverem che-
dizer, inaugurou e íêz a Reforma, tinha u m fundo gado a t é à n e g a ç ã o do capital e da sociedade baseada
eminentemente anarquista. Porem, esmagado pelos na escravização do trabalho ao capital, se detiveram
p r ó p r i o s reformados que), sob • regra de L u t e r o , se neste ponto do desenvolvimento das suas ideias. N ã o
haviam mancomunado com 01 príncipes contra os cam- ousaram declarar-se positivamente contra o que cons-
poneses revoltados, esse movimento foi sufocado pelo t i t u i a força real do capitalismo: o Estado e seus admi-
e x t e r m í n i o , em larga escala, desses mesmos campo- nículos, — a c e n t r a l i z a ç ã o da autoridade, a lei, feita
neses e dos cidadãos mais pobres da cidade, — os sempre por uma minoria em seu exclusivo proveito,
da " r a l é " , como lhes chamavam. E m consequência, I uma certa forma de j u s t i ç a cujo principal escopo é
a ala direita dos reformados foi degenerando aos pou- n defesa da autoridade e do capital.
cos a t é ao ponto de erigir u m compromisso solene Contrariamente a essa atitude, o Anarquismo n ã o
entre a consciência e o Estado que deu em resultado I I deteve aonde o socialismo parou, foi alem na c r í -
a fundação do Protestantismo t a l como hoje existe. H d dessas a n a c r ó n i c a s instituições. Ergue o b r a ç o
uncrilego, não <'• c o n d a <» capitalismo mas t a m b é m
* Contra «••. pilares em que êle assenta: L e i , Autoridade
• * i I' • I .ido

Sumariando o que ficou d i t o : o Anarquismo o r i -


ginou-se da actividade criadora e construtiva das
massas que, em épocas remotas, souberam elaborar
todas as instituições sociais da humanidade, e não s ó
>

O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 23

O despertar do pensamento que se produziu nessa


época animou esses pensadores do desejo de englobar
todos os conhecimentos humanos em u m só sistema
geral, — o sistema da Natureza. Repudiando i n t e i -
ramente a escolástica e a m e t a f í s i c a medievais, t i -
II veram a a u d á c i a de conceber a Natureza, em todas
as suas complexas m a n i f e s t a ç õ e s , — o mundo das es-
Do movimento intelectual do «óculo X V I I I trelas, o nosso sistema solar, o nosso globo t e r r á -
queo, o desenvolvimento das plantas, dos animais e
Embora o Anarquismo, como todos os movimen- das sociedades humanas sobre a superfície da terra,
tos r e v o l u c i o n á r i o s , surgisse dentre o povo, do t u - — como uma série de factos que podem ser estuda-
multo das lutas em prol das reivindicações sociais, e dos, em sua integralidade, de maneira idêntica à por
n ã o de u m estudo científico ou do tranquilo gabinete que se estudam as ciências naturais.
do sábio, é importante, todavia, determinar o logar Empregando largamente, com inteira proficiên-
que ocupa a meio das diversas correntes do pensa- cia, o verdadeiro m é t o d o científico, isto é, o m é t o d o
mento científico e filosófico hodierno. indutivo-dedutivo, empreenderam a formidável obra
Qual é a atitude do Anarquismo em r e l a ç ã o a es- do estudo de todos os grupos de factos que a N a t u -
sas diversas correntes ? Sobre qual se apoia de prefe- reza nos oferece a exame, quer p e r t e n ç a m ao mundo
r ê n c i a ? De que m é t o d o de i n v e s t i g a ç ã o se serve para das estrelas, quer ao dos animais, quer ao das cren-
comprovar as suas c o n c l u s õ e s ? Por outras palavras: ças o u das i n s t i t u i ç õ e s humanas, absolutamente do
a que escola da filosofia do direito pertence o A n a r - mesmo modo por que u m naturalista estudaria as
quismo? Com que corrente da ciência moderna tem q u e s t õ e s de ciência física.
maior afinidade? Primeiro, registavam pacientemente os factos,
E m face da fatuidade palavrosa da metafísica eco- sclecionavam-nos, e quando se l a n ç a v a m no terreno
nómica, privativa dos círculos socialistas, a resposta a das g e n e r a l i z a ç õ e s , faziam-no pela via da indução,
estas q u e s t õ e s reveste-se de u m c o n s i d e r á v e l inte- l o r n u i l a v a m certas h i p ó t e s e s , a que n ã o a t r i b u í a m
i ê s s e . Trataremos, pois, de analisá-las de modo su- Maior im|Kirtância da que D a r w i n a t r i b u í a à sua h i -
cinto, t ã o simplesmente quanto possível, evitando, no p ò t m a respeito da o r i g e m de novas espécies por
que evitável seja, o emprego de termos técnicos para maio da Mleeçlo natural na luta pela existência, ou
n ã o dificultar a c o m p r e e n s ã o do assunto. a que Mrn.lélóeff dava ã nua " l e i da periodicidade".
* N.in liipott-M". emitidas, esses pensadores viam
I I M I . I ' aipuniçorx e.ipa. c-s de fornecer uma explicação
O movimento intelectual do século X I X derivou I m i viu >i ia. hipótese de trabalho, — dos factos pelo
directamente da obra dos filósofos escoceses e fran- seu agrupamento de modo a facilitar o estudo subse-
ceses de meados e fins do século precedente. quente que deles se fizesse.
.'•I P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 25

Não olvidavam, porem, que tais suposições deve- I «aplace nunca recorreu aos grandes c h a v õ e s da
riam ser mais tarde confirmadas pela sua aplicação mel a física, por d e t r á s dos quais se oculta geralmente
a uma m u l t i d ã o de factos diversos e que teriam de a i n c o m p r e e n s ã o ou a obscura s e m i - c o m p r e e n s ã o dos
ser, por sua vez, explicadas pelo processo t e ó r i c o o u fenómenos e a incapacidade de interpretar os factos
dedutivo. Assim, as h i p ó t e s e s levantadas s ó chega- em sua forma concreta como quantidades m e n s u r á -
riam a ser "leis naturais", isto é, g e n e r a l i z a ç õ e s veis. Laplace dispensou a metafísica, como dispen-
provadas, depois de haverem passado pelo cadinho da sado havia a h i p ó t e s e de um deus-criador.
verificação experimental e comprovadas que fossem Postoque a sua Exposition du S y s t è m e du Monde
as causas da sua constante e x a c t i d ã o . não contenha cálculos m a t e m á t i c o s e fosse escrita
cm uma linguagem inteligível, acessível a qualquer
leitor i n s t r u í d o , os m a t e m á t i c o s puderam mais tarde
* * exprimir cada uma das ideias esparsas pela obra em
e q u a ç õ e s m a t e m á t i c a s , isto é, estabelecer as condi-
Quando o centro do movimento filosófico do ções de igualdade entre duas ou mais quantidades da-
século X V I I I foi deslocado da Inglaterra e da E s c ó - das, — t ã o exactamente tinha Laplace, em todos os
cia para a F r a n ç a , decidiram os filósofos franceses, pormenores, pensado a sua obra!
com aquela clara p e r c e p ç ã o de m é t o d o que os dis-
tingue, erigir, segundo u m plano geral e sobre os *
mesmos princípios, o esquema de todos os conheci- • *
mentos humanos, quer os de ordem natural, quer os
de ordem histórica. Intentaram, desde logo, edificar O que Laplace fêz para a mecânica celeste, os
o saber generalizado, ou seja a filosofia do universo filósofos franceses do século X V I I I o fizeram, no l i -
e da sua vida, sobre bases estritamente científicas, mite dos conhecimentos da época, para o estudo dos
repelindo, consequentemente, todas as c o n s t r u ç õ e s f e n ó m e n o s da vida, bem como para os do entendi-
m e t a f í s i c a s dos filósofos anteriores e procurando ex- mento e do sentimento humanos que constituem a
plicar todos os f e n ó m e n o s pela a c ç ã o dessas mesmas psicologia. Haviam, de h á muito, renunciado à s a f i r -
forças físicas ( a c ç õ e s e r e a c ç õ e s m e c â n i c a s ) que eram m a ç õ e s puramente metafísicas que faziam as delícias
suficientes para explicar a origem e a evolução do dos seus predecessores e que, mais tarde, vamos en-
globo terrestre. contrar nos trabalhos do filósofo a l e m ã o K a n t . E ' por
Conta-se que quando N a p o l e ã o I expressou a L a - demais sabido que K a n t , por exemplo, pretendia ex-
place a sua surpresa por n ã o haver deparado em toda plicar a origem do sentimento moral humano como
a sua obra sobre a Exposição do Sistema do Mundo u m " i m p e r a t i v o c a t e g ó r i c o " , e afirmava, ao mesmo
o nome de Deus, Laplace teria simplesmente respon- tempo, o c a r á c t e r o b r i g a t ó r i o de tal ou qual m á x i m a
dido: " n ã o tive necessidade dessa h i p ó t e s e " . Mas particular de conduta "se a pudermos conceber como
o grande m a t e m á t i c o fez mais e melhor. uma l e i susceptível de aplicação universal". Mas ca-
26 P E T E R K R O P O T K I N O AjNARQUISMO E A ClÊNCIA MODERNA 27

da termo deste r o s á r i o de palavras c o n t ê m algo de da, tais como as de " i m p e r a t i v o c a t e g ó r i c o " ou de


nebuloso e de i n c o m p r e e n s í v e l , — imperativo, cate- "lei universal".
górico, lei, universal, — em vez do facto palpável, E ' óbvia a vantagem do emprego do m é t o d o dos
conhecido de toda a gente, que se pretende explicar enciclopedistas, como o acabamos de expor. E m vez
e de que o filósofo a l e m ã o t ã o arredio andou. de buscar uma " i n s p i r a ç ã o lá do a l t o " , em logar de
E ' evidente que aos enciclopedistas franceses n ã o inquirir uma origem sobrenatural, fora e acima da
podiam satisfazer semelhantes " e x p l i c a ç õ e s " envol- humanidade, para explicar a origem do sentimento
tas nas frases empoladas da pura metafísica. Como moral, proclamavam, como cousa averiguada, "que o
seus predecessores escoceses e b r i t â n i c o s , repugna- sentimento de piedade, de simpatia, de que o homem
va-lhes, para explicar a origem do conceito do bem é dotado, herdou-o êle de seus antepassados desde
e do mal no homem, inserir " u m a palavra onde fal- remotas origens, — o que as o b s e r v a ç õ e s p r ó p r i a s em
tavam ideias", como dizia o grande Goethe. Para seus semelhantes lhe confirmavam diariamente, —
descobrir o p o r q u ê dessa concepção, foram levados, desenvolvido e a p e r f e i ç o a d o gradativamente a t r a v é s
naturalmente, a estudar o p r ó p r i o homem em quem das idades pela e x p e r i ê n c i a da vida social". O senso
a ideia se manifestava e, como j á haviam feito H u t - moral na espécie humana tem essa origem e n ã o
cheson em 1725 e depois A d a m Smith na sua melhor outra.
obra " T h e O r i g i n o f M o r a l F e c l i n g " ( o r i g e m do sen-
timento moral), acharam que o sentimento moral no *
homem t e m a sua origem no sentimento de piedade * *
e no da simpatia que experimentamos por todos os
que sofrem. P r o v ê m tal sentimento da nossa capaci-
Do exposto resulta que n ã o mudaram de m é t o d o
dade de identificação com o p r ó x i m o , ao ponto de
os pensadores do século X V I I I quando, nos seus es-
chegarmos a sentir como que uma verdadeira d ô r fí-
tudos, passavam do mundo dos astros e dos corpos
sica se virmos, em nossa p r e s e n ç a , bater em uma
físicos ao das r e a c ç õ e s q u í m i c a s , do mundo físico e
criança, pois, sem dúvida, a nossa natureza, i n s t i n t i -
químico ao da vida das plantas e dos animais e deste
vamente, se r e v o l t a r á contra tal proceder.
ao do homem, desde o desenvolvimento das formas
Partindo deste g é n e r o de o b s e r v a ç õ e s e de factos económicas e políticas da sociedade a t é à evolução do
a n á l o g o s , geralmente conhecidos, os enciclopedistas, sentido moral, das religiões etc.
por esse m é t o d o , chegavam a formular as mais lar- O m é t o d o permanecia sempre o mesmo. E m t o -
gas g e n e r a l i z a ç õ e s e assim, pelo exame dos factos dos os ramos da ciência aplicavam uniformemente o
mais simples, explicavam de verdade a o r i g e m do sen- método indutivo. Reconhecera-se, em-fim, que nem
timento moral como facto complexo que é. O que, no estudo das religiões, nem no da análise do senti-
p o r é m , eles nunca fizeram foi p ô r , em vez de factos mento moral, nem nos d o m í n i o s do pensamento em
conhecidos e compreensíveis, palavras incompreensí- geral, se encontrava u m ú n i c o caso em que esse m é -
veis e obscuras que n ã o explicam absolutamente na- todo falhasse ou o u t r o viesse a s o b r e p ô r - s e como ne-
O AWNARguiSMo K A C I Ê N C I A MOI.KRNA f
28 P E T E R K R O P O T K I N

m é t o d o científico de indução e d e d u ç ã o , que a obser-


c e s s á r i o para a completa explicação dos factos ocor- v a ç ã o e a e x p e r i ê n c i a a cada passo confirmavam.
ridos. E m nenhuma circunstância se viram esses pen- Nessa tentativa, imensa e ousada, por certo mais de
sadores na c o n t i n g ê n c i a de recorrer a concepções me- um erro se cometeu. Onde falhavam os conhecimen-
tafísicas inspiradas por qualquer ser superior, — alma tos positivos, fizeram-se, por vezes, conjecturas u m
i m o r t a l , imperativo c a t e g ó r i c o , força vital, lei univer- tanto audaciosas e n ã o r a r o e r r ó n e a s . Mas, preciso
sal, — ou a qualquer m é t o d o dialético. Daí, conse- era notar que um novo m é t o d o de investigação se v i -
quentes, procurarem interpretar o universo integral, nha aplicando ao conjunto dos conhecimentos huma-
com toda a sua fenomenalidade, por um único proces- nos e que, g r a ç a s a êle, os p r ó p r i o s erros eram depois
so, um s ó método, na atitude de verdadeiros natura- facilmente reconhecidos e logo corrigidos.
listas.
F o i assim que o século X I X recebeu em h e r a n ç a
No transcurso desses m e m o r á v e i s dias do desper-
um instrumento poderoso de i n v e s t i g a ç ã o que nos per-
tar do pensamento científico, os enciclopedistas edifi-
mite elaborar uma concepção í n t e g r a do universo so-
caram essa obra monumental que se chama a Enci-
bre bases científicas, liberta, finalmente, dos velhos
clopédia; Laplace publicava o seu estupendo Sistema
preconceitos que a obscureciam e dos termos nebulo-
do Mundo e o B a r ã o d'Holbach o seu formidável Sis-
sos que a envolviam e nada esclarecem mas que, por
tema da Natureza. Lavoisier afirmava o princípio da
temor das p e r s e g u i ç õ e s religiosas e por u m mau vezo,
indestrutibilidade da m a t é r i a , o mesmo é dizer da
se haviam manhosamente introduzido em todas as
energia e do m o v i m e n t o ; Lomonossoff, na R ú s s i a ,
q u e s t õ e s difíceis para escapar à sua plena elucidação.
inspirado, sem dúvida, em Bayle, e s b o ç a v a j á nessa
época a teoria mecânica do calor; Lamarck, o grande
naturalista francês, explicava a origem da infinita
variedade das espécies de plantas e animais por suas
a d a p t a ç õ e s aos diversos meios; Diderot, o famoso f i -
lósofo francês dos fins do século X V I I I , dava uma
explicação racional das origens do sentimento moral
da humanidade, dos h á b i t o s de moralidade, das insti-
tuições primitivas e das religiões, sem recorrer à es-
tafada ideia de uma i n s p i r a ç ã o divina; Rousseau, o
genial pensador, intentava explicar a f o r m a ç ã o das
i n s t i t u i ç õ e s políticas como resultantes de u m contra-
cto social, ou, o que é o mesmo, por efeito de u m acto
da vontade humana.
Dentro em pouco n ã o havia u m recanto dos co-
nhecimentos humanos que n ã o houvessem devassado
pelo exame profundo dos- factos e sempre pelo mesmo
( ) ANARQUISMO K A ClBNCIA MoDKRNA 31

du?» princípios cardiais pregados na F r a n ç a nos p e r í o -


dos de 1789-1793. Essa gradual r e a l i z a ç ã o , pela via
evolutiva, dos princípios que a tormenta r e v o l u c i o n á -
ria precedente aclamara, fora reconhecida como uma
lei geral de desenvolvimento das sociedades humanas.
III
Se a Igreja, o Estado e, a t é certo ponto, a Ciên-
cia, conspurcavam o estandarte altaneiro em que a
A Reacção doa começos do século X I X Revolução inscrevera a gloriosa divisa: Liberdade,
Igualdade e Fraternidade, se o acomodatismo com o
A o iniciar-se o século findo, após o fracasso da existente, que era a s e r v i d ã o política e e c o n ó m i c a , se
grande R e v o l u ç ã o francesa, a Europa, como é sabido, havia tornado a norma geral da época invadindo a t é
atravessava u m p e r í o d o de r e a c ç ã o geral nos d o m í - a filosofia dominante, de Hegel, na Alemanha, e de
nios da política, da ciência e da filosofia. O T e r r o r Cousin, na F r a n ç a , — nem assim os grandes p r i n c í -
Branco dos Bourbons, a Santa Aliança concertada em pios de liberdade deixaram de penetrar profundamen-
1815, em Viena, entre as monarquias da Á u s t r i a , da te na vida social.
Alemanha e da R ú s s i a para combater as ideias libe- Verdade é que as o b r i g a ç õ e s servis dos campo-
rais, o misticismo e o pietismo nas cortes europeias neses na Europa oriental, bem como a I n q u i s i ç ã o ,
e nas altas camadas sociais e a polícia política t r i u n -
abolida na Itália e na Espanha pelos e x é r c i t o s revo-
favam por toda a parte e campeavam à vontade.
lucionários, foram restabelecidas. Mas o facto é que
Pois n ã o obstante essa formidanda o r g a n i z a ç ã o , um golpe m o r t a l lhes fora vibrado, pois que nunca
os princípios fundamentais proclamados pela Revolu- mais puderam recobrar o seu antigo poderio.
ção n ã o foram, nem poderiam ser, aniquilados como
A vaga libertadora invadira a Alemanha ociden-
se premeditava. A gradual e m a n c i p a ç ã o do estado de
tal, depois rolou a t é à P r ú s s i a e ã Á u s t r i a em 1848,
s e m i - s e r v i d ã o em que a t é e n t ã o haviam vivido os t r a -
balhadores dos campos e das cidades, a igualdade pe- estendeu-se à s p e n í n s u l a s ibérica e itálica e, marchan-
rante a lei e o governo representativo, — esses t r ê s do ovante para o Oriente, alcançou a Rússia, onde em
princípios promulgados pela R e v o l u ç ã o e levados em 1861 fora abolida a servidão, e em 1878 chega aos p a í -
triunfo pelos e x é r c i t o s r e v o l u c i o n á r i o s franceses por ses balcânicos. A e s c r a v i d ã o desaparecera na A m é -
toda a Europa, propagavam-se rapidamente, n ã o só rica em 1863.
na F r a n ç a como nos demais países a t é aos confins da Ao mesmo tempo que esses factos se produziam,
P o l ó n i a e da R ú s s i a . as ideias de igualdade de todos perante a lei e de go-
Depois da R e v o l u ç ã o , que anunciara os grandes verno representativo se propagavam de oeste a léste
princípios de liberdade, de igualdade e de fraternida- com n o t á v e l rapidez, verificando-se que nos finais do
de, c o m e ç o u a lenta evolução, isto é, a paulatina trans- século X I X só a R ú s s i a e a T u r q u i a continuavam cur-
f o r m a ç ã o das instituições c a aplicação, na vida diária, vadas ao jugo da autocracia, — valha a verdade j á
32 P E T E R K R O P O T K I N <> ANAHIM ISMI) i; A ( II.NllA MtHHiHNA

bastante achacada e irremediavelmente condenada a parisiense forçava os representantes da C o n v e n ç ã o a


uma morte fatal ( 1 ) . I<• 111.i11-1• i medida- comunistas, i g u a l i t á r i a s .
A própria C o n v e n ç ã o se viu obrigada, pela g r i l a
*
populai a agir no sentido comunista adoptando a l -
•flimafl medidas que tendessem à " a b o l i ç ã o da po-
breza" e ao "nivelamento das f o r t u n a s " .
Enquanto esses eram os factos palpitantes da his- Depois que o partido republicano b u r g u ê s dos g i -
t ó r i a , outros mais n o t á v e i s se davam. rondinos foi apeado do poder pela s u b l e v a ç ã o de 31 de
Na linha divisória que separa o século X V I I I do M n o - 2 de Junho de 1793. a C o n v e n ç ã o Nacional e o
X I X , encontramos, j á dominantes, as ideias de eman- Club Radical b u r g u ê s dos jacobinos foram compelidos
cipação económica. Imediatamente a p ó s o apeamen- a adoptar disposições, n ã o só tendentes à nacionali-
to da realeza pelo povo insurrecto -de Paris a 10 de zação do solo, como do c o m é r c i o dos objectos de p r i -
Agosto de 1792, e, sobretudo, depois da queda dos g i - meira necessidade.
rondinos a 2 de Junho de 1793 ( 2 ) , deu-se na capital Esse movimento, muito importante, durou, infe-
francesa e nas p r o v í n c i a s uma i r r u p ç ã o de sentimen- lizmente, pouco; foi a t é Julho de 1794. quando a re-
tos comunistas que, nesse sentido, levavam à a c ç ã o acção burguesa dos girondinos, pondo-se de inteiro
directa as v á r i a s secções r e v o l u c i o n á r i a s das grandes acordo com os monarquistas, atingiu o apogeu a 9
e pequenas cidades, e a t é dos municípios, em uma do T h e r m i d o r ( 1 ) . Ainda que de curta d u r a ç ã o , esse
grande e x t e n s ã o da F r a n ç a . movimento i m p r i m i u ao século X I X o seu c a r á c t e r
O povo proclamava, alto c bom som, que soara específico, — a t e n d ê n c i a comunista dos elementos
a hora de cessar de ser uma palavra v ã a Igualdade, avançados.
que era j á tempo dela entrar no d o m í n i o dos factos Enquanto o movimento de 1793-94 durou, n ã o
concretos. E como todo o peso da guerra que a Re- faltaram, para o exprimir, oradores populares. Po-
pública teve de sustentar contra as monarquias coli- r é m , entre os escritores da época n ã o houve u m se-
gadas r e c a í a exclusivamente sobre os pobres, o povo quer em F r a n ç a que desse uma e x p r e s s ã o literária
racional à s a s p i r a ç õ e s e bases em que o movimento
(1) — Vide o conclusivo capítulo da nossa obra — L A assentava de modo a produzir uma acção duradoura
G R A N D E RÊVOLUTION. — N. do A .
sobre os e s p í r i t o s .
Há uma tradução portuguesa dessa obra, editada pela
Gráfico-Editora U N I T A S Limitada (S. Paulo).
N. do T .
(2) — Partido republicano moderado que se formou em
França em 1791 dos deputados mais eminentes da Gironda.
Combateram a M O N T A N H A . — nome dado aos democratas (1) — O undécimo mês do calendário republicano. Jor-
exaltados da Convenção francesa de 1793, — mas, vencidos, nada do 9 do Thermidor do ano I I (27 de Julho de 1704) foi
foram quase todos decapitados. a data célebre da queda do feroz Robespierre.
N. do T . N. do T .
34 P E T E R K R O P O T K I N <> A N A K O I U S M O I. A CIÊNCIA MODERNA 35

Foi nessa altura que W i l l i a m Godwin fez apare- u concepção do "Cristo socialista e r e v o l u c i o n á r i o " .
cer em 1793 a sua e x t r a o r d i n á r i a e inesquecível obra Ideil que, já antes de 1848, se ostentava garbosamen-
intitulada A n Enquiry into Politicai Justice and its te. Esses os dois pontos em que o socialismo mo-
Influence on Public Morality (Da J u s t i ç a Política e d n n o difere essencialmente do dos seus primitivos
da sua Influência sobre a Moralidade) que o elevou propugnadores.
à categoria de primeiro t e ó r i c o do socialismo sem go- O socialismo moderno entende, e m u i t o bem, que
verno, isto é, do Anarquismo, ao passo que Babeuf, para realizar as suas a s p i r a ç õ e s é absolutamente i m -
sob a influência, ao que parece, de Buonarotti, se prescindível a revolução social, n ã o p o r é m , no sentido
apresentava em 179o como <» primeiro t e ó r i c o do so- em (pie muitas vezes a palavra " r e v o l u ç ã o " é empre-
cialismo centralizador, por outra, do socialismo de gada quando se fala em " r e v o l u ç ã o i n d u s t r i a l " ou
Estado. " r e v o l u ç ã o nas c i ê n c i a s " , mas no seu sentido exacto,
Vieram posteriormente, desenvolvendo os p r i n c í - preciso, concreto: o de r e c o n s t r u ç ã o geral e imediata
pios j á formulados pelo povo francês nos finais do das bases da sociedade.
século precedente, Fourier, Saint-Simon e Robert E sobre o que fica dito acrescentaremos que o
Owen, os t r ê s fundadores do socialismo moderno nas socialismo moderno cessou de mesclar as suas claras
suas t r ê s principais escolas, e mais tarde, nos anos concepções com as raras reformas, muito anodinas,
quarenta, tivemos Proudhon que, desconhecendo a de ordem sentimental preconizadas por certos refor-
obra de Godwin, assentava de novo os fundamentos madores c r i s t ã o s . Mas isso mesmo, cumpre salientar
do Anarquismo. o facto, já havia sido feito por Godwin, Fourier e
As bases científicas do socialismo nos seus dois Owen.
aspectos principais: governamental e anti-governa- Quanto à c e n t r a l i z a ç ã o e ao culto da autoridade
mental, — foram elaborados desde os c o m e ç o s do e da disciplina, que a humanidade deve principalmente
século X I X com uma a b u n d â n c i a de desenvolvimen- à teocracia e à lei imperial romana, essa superstrutura
tos lastimosamente ignorada dos nossos c o n t e m p o r â - de um passado obscuro, constituem restos a t á v i c o s
neos. Mas a verdade é que o socialismo moderno, conservados ainda por uma m u l t i d ã o de socialistas
que data da fundação da célebre Associação Interna- modernos que, porisso mesmo, ainda n ã o atingiram
cional dos Trabalhadores em 1864, n ã o ultrapassou o nível dos seus predecessores ingleses e franceses,
aqueles e g r é g i o s fundadores s e n ã o , talvez, em dois — Godwin e Proudhon.
pontos, aliás, muito importantes.
Enquanto uma das t e n d ê n c i a s do socialismo m o -
derno se declarava r e v o l u c i o n á r i a , isto é, afirmava * *
categoricamente que a r e a l i z a ç ã o dos seus objectivos
somente pela r e v o l u ç ã o social poderiam ser obtidos, ^ Seria difícil dar aqui uma ideia adequada da i n -
sobre que Fourier, Saint-Simon e Owen n ã o ousaram fluência que a reacção, ufanamente campeante depois
pronunciar-se, a outra tendência rompia de vez com da grande R e v o l u ç ã o francesa, exerceu s ô b r c o desen-
I P E T E R K R O P O T K I N <» \.-.MisMo |.; A C I Ê N C I A MODKRNA 35

Foi nessa altura que W i l l i a m Godwin fêz apare- a concepção do "Cristo socialista e r e v o l u c i o n á r i o " ,
cer em 1793 a sua e x t r a o r d i n á r i a e inesquecivel obra ideia (pie, j á antes de 1848, se ostentava garbosamen-
intitulada A n Enquiry into Politicai Justice and its te. Esses os dois pontos em que o socialismo mo-
Influence on Public Morality (Da J u s t i ç a Política e derno difere essencialmente do dos seus primitivos
da sua Influência sobre a Moralidade) que o elevou pi < ipugnadores.
à categoria de primeiro t e ó r i c o do socialismo sem go- O socialismo moderno entende, e muito bem, que
verno, isto é, do Anarquismo, ao passo que Babeuf, p u a realizar as suas a s p i r a ç õ e s é absolutamente i m -
sob a influência, ao que parece, de Buonarotti, se prescindível a r e v o l u ç ã o social, n ã o p o r é m , no sentido
apresentava em 1796 como o primeiro t e ó r i c o do so- em que muitas vezes a palavra " r e v o l u ç ã o " é empre-
cialismo centralizador, por outra, do socialismo de gada quando se fala em " r e v o l u ç ã o i n d u s t r i a l " ou
Estado. " r e v o l u ç ã o nas c i ê n c i a s " , mas no seu sentido exacto,
Vieram posteriormente, desenvolvendo os p r i n c í - preciso, concreto: o de r e c o n s t r u ç ã o geral e imediata
pios j á formulados pelo povo francês nos finais do das bases da sociedade.
século precedente, Fourier, Saint-Simon e Robert E sobre o que fica dito acrescentaremos que o
Owen, os t r ê s fundadores do socialismo moderno nas socialismo moderno cessou de mesclar as suas claras
suas t r ê s principais escolas, c mais tarde, nos anos concepções com as raras reformas, muito anodinas,
quarenta, tivemos Proudhon que, desconhecendo a de ordem sentimental preconizadas por certos refor-
obra de Godwin, assentava de novo os fundamentos madores c r i s t ã o s . Mas isso mesmo, cumpre salientar
do Anarquismo. o facto, j á havia sido feito por Godwin, Fourier e
As bases cientificas do socialismo nos seus dois Owen.
aspectos principais: governamental e anti-governa- Quanto à c e n t r a l i z a ç ã o e ao culto da autoridade
mental, — foram elaborados desde os c o m e ç o s do e da disciplina, que a humanidade deve principalmente
século X I X com uma a b u n d â n c i a de desenvolvimen- à teocracia e à lei imperial romana, essa superstrutura
tos lastimosamente ignorada dos nossos c o n t e m p o r â - de u m passado obscuro, constituem restos a t á v i c o s
neos. Mas a verdade é que o socialismo moderno, conservados ainda por uma m u l t i d ã o de socialistas
que data da fundação da célebre Associação Interna- modernos que, porisso mesmo, ainda n ã o atingiram
cional dos Trabalhadores em 1864, n ã o ultrapassou o nível dos seus predecessores ingleses e franceses,
aqueles e g r é g i o s fundadores s e n ã o , talvez, em dois — Godwin e Proudhon.
pontos, aliás, muito importantes.
Enquanto uma das t e n d ê n c i a s do socialismo mo- *
derno se declarava r e v o l u c i o n á r i a , isto é, afirmava * *
categoricamente que a realização dos seus objectivos
somente pela r e v o l u ç ã o social poderiam ser obtidos, Seria difícil dar aqui uma ideia adequada da i n -
sobre que Fourier, Saint-Simon e Owen n ã o ousaram fluencia que a r e a c ç ã o , ufanamente ç a m p e a n t e depois
pronunciar-se, a outra t e n d ê n c i a rompia de vez com da grande R e v o l u ç ã o francesa, exerceu sobre <» desen-
P E T E R K R O P O T K I N <> ANARMIMSMO I : A C I Ê N C I A MODERNA 37

volvimento das ciências ( 1 ) . B a s t a r á notar que tudo |M»r e s s e s g u a r d i ã e s da t r a d i ç ã o , repelidas se nelas


aquilo de que a ciência moderna tanto se ufana hoje, podiam ver alguma sombra de um princípio novo que
fora já indicado, — e bastas vezes mais do que indi- llu desabonassc a arcaica ciência!
cado, expresso em forma rigorosamente científica. — Até a própria R O Y A L SOCIETY of G R E A T B R I -
nos fins do século X V I I I . I \ M. que é a Academia Inglesa das Ciências, recusa-
A teoria mecânica do calor, a indestrutibilidade i . i imprimir, sobre o assunto, a e x t r a o r d i n á r i a memó-
da m a t é r i a , portanto, do movimento ( c o n s e r v a ç ã o da ria de Joule por achá-la "anti-cientifica" ! E quanto
energia), a variabilidade das espécies sob a influência 1 0 notável trabalho de Grove a respeito da unidade
directa do meio, a psicologia fisiológica, a interpreta- de todas as forças físicas, escrito em 1843, n ã o se lhe
ção a n t r o p o l ó g i c a da história, das religiões e da le- ligou a m í n i m a i m p o r t â n c i a a t é 1 8 5 6 !
g i s l a ç ã o , as leis da e v o l u ç ã o do pensamento. — em E ' pois n e c e s s á r i o ler-se a história das ciências
resumo, toda a concepção mecânica da natureza, como na primeira metade do século X I X se se quiser com-
a e l a b o r a ç ã o de uma filosofia sintética que compre- preender q u ã o densas eram as trevas que envolveram
endesse, em um todo u n i t á r i o , todos os f e n ó m e n o s fí- a Europa nessa caliginosa é p o c a !
sicos, químicos, vitais e sociais, haviam já sido deli-
O véu entenebrecedor depressa foi d e s p e d a ç a d o
neadas, e em parte realizadas, no século X V I I I .
quando, na segunda metade do século findo, sob o i m -
Mas quando a reacção se firmou fortemente a p ó s pulso do ano r e v o l u c i o n á r i o de 1848. se iniciou no
o fracasso da Grande R e v o l u ç ã o , procurou-sc, duran- Ocidente europeu o movimento liberal que redundou
te cerca de meio século, sufocar essas descobertas. na i n s u r r e i ç ã o garibaldina. na l i b e r t a ç ã o da I t á l i a , na
Os cientistas r e a c i o n á r i o s apresentavam-nas como abolição da escravatura na A m é r i c a , nas reformas l i -
"pouco c i e n t í f i c a s " . A pretexto de se estudarem p r i - berais na Inglaterra e. alguns anos depois, abolia a
meiro "os factos", de acumular "materiais científi- servidão e o degradante knut na R ú s s i a ( 1 ) . O mes-
cos" para serem definitivamente elaborados nas so- mo movimento esbandalhou na Europa com a auto-
ciedades sábias, chegou-se ao desplante de repudiar ridade de que. em filosofia, gozava Schelling e Hegel
as simples i n v e s t i g a ç õ e s que, porventura, n ã o se e que na Rússia, em particular, promoveu aberta re-
enquadrassem em processos m e n s u r á v e i s ! N o t á v e i s volta contra o servilismo intelectual e o assédio a
descobertas, como as de S é g u i n s é n i o r e de Joule con- toda a espécie de autoridade, movimento este de re-
cernentes à d e t e r m i n a ç ã o do equivalente mecânico do belião que é conhecido pelo nome de niilismo.
calor (da quantidade de fricção mecânica n e c e s s á r i a Fazendo agora u m retrospecto da história inte-
para obter determinada quantidade de calor) eram, lectual desses anos, chega-se à evidência que foi a

( 1 ) — K N U T , — acoute, azorraguc. usado na Rússia,


(1) — Este assunto foi objecto dc uma conferência nossa
composto de tiras de couro com bolas metálicas nas extre-
cm inglês intitulada The Development of Science during the
midades com que se vergastava os condenados c aplicado, com
Nineteenth Century, (A evolução da ciência durante o século excepção dos nobres, a toda* as demais classes sociais.
XIX).
N. do T .
38 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO IÍ A C I Ê N C I A MODI-KNA 39

propaganda das ideias republicanas e socialistas na dr m o s , — de 1856 a 1862, — dos trabalhos de Grove,
terceira e quarta d é c a d a s do século X I X , bem como Joule, Berthelot, Helmholtz e Mendéléeff; de D a r w i n ,
a r e v o l u ç ç ã o de 1848, que muito c o n t r i b u í r a m para Clatlde Bernard, Spencer, Moleschott, e V o g t ; de
que a ciência pudesse quebrar as algemas que a o p r i - Lyell, sobre as origens do h o m e m ; de Alexander Bain,
miam desde o c o m e ç o da r e a c ç ã o a n t i - r e v o l u c i o n á r i a olue a psicologia fisiológica; de M i l l , sobre a lógica
pela coalizão das monarquias coligadas contra a Re- indutiva; de Emile Burnouf, sobre a ciência das re-
pública revolucionária francesa de 1789-1793. l i g i õ e s ; — toda uma plêiade de pensadores surgindo
*
como que de repente com a a p r e s e n t a ç ã o de traba-
* *
lhos, qual deles o mais n o t á v e l , produziram uma re-
v o l u ç ã o completa nas concepções fundamentais ria
Sem entrar em particularidades, b a s t a r á recordar ciência.
alguns factos. Mare S é g u i n , há pouco citado, um dos A ciência viu-se de chofre lançada em vias com-
primeiros promotores da teoria mecânica do calor; pletamente novas. Com uma rapidez vertiginosa inau-
A u g u s t i n T h i e r r y , o historiador que primeiro assen- guraram-se novos ramos do saber. A ciência da vida
tou as bases do regime popular das pequenas r e p ú - (biologia), a das instituições humanas (antropologia
blicas da idade média, bem como das ideias federa- e etnologia), a do entendimento, da vontade e das
listas da mesma é p o c a ; Leonard Sismondi, economista p a i x õ e s humanas (psicologia fisiológica), a história
e historiador suíço, que !<•/ B história das repúblicas do direito e da f o r m a ç ã o das religiões em bases cien-
livres medievas da Itália, foram todos discípulos de tíficas e a n t r o p o l ó g i c a s , e, nesse andar, as demais
Saint-Simon, um dos t r ê s fundadores j á referidos do ciências, surgiram rapidamente ante nossos olhos sur-
socialismo na primeira metade do século X I X ; Alfred preendendo o e s p í r i t o pela intrepidez das suas gene-
Russell Wallace, emulo de D a r w i n , que enunciou, ao ralizações e pelo c a r á c t e r r e v o l u c i o n á r i o das suas
mesmo tempo que este, a doutrina da origem das conclusões.
espécies por via de selecção natural, foi, em sua mo- O que no século X V I I I n ã o passara de simples
cidade, um p a r t i d á r i o convicto de Robert O w e n ; A u - conjecturas, suposições gerais, intuições vagas, se
guste Comte. o fundador da filosofia positiva, foi san- apresentava agora em factos probantes por meio da
simoniano; D . Ricardo, economista inglês, como J. b a l a n ç a e do microscópio, verificado por milhares de
Bentham, filósofo e jurisconsulto inglês, foram p a r t i - o b s e r v a ç õ e s e e x p e r i ê n c i a s . O p r ó p r i o modo de es-
dários de O w e n ; os materialistas K a r l V o g t e George crever, a t é isso, mudou por completo. Os homens de
Lewes, como Grove, Stuart M i l l , H e r b e r t Spencer e ciência, os citados acima e outros mais, voltavam-se
tantos outros, foram requestados à influência do mo- para a simplicidade, regressavam às normas da exa-
vimento radical-socialista dos ú l t i m o s p e r í o d o s do ctidão e da beleza de estilo, c a r a c t e r í s t i c o s que s ã o
século findo e nesse movimento hauriram a sua do m é t o d o indutivo, no que se distinguiram os escri-
audácia científica. tores do século X V I I I que haviam rompido, inapela-
O aparecimento, no curto espaço de meia dúzia vclmente, com a metafísica.
40 P E T E R K R O P O T K I N <> A N A K O U I S M O I: A C I Ê N C I A MOOKRNA 41

* cação adequada aos f e n ó m e n o s que diariamente se


* * nos antolham, quer sejam os mais simples factos fí-
sicos, como, por exemplo, no caso do encontro de duas
Prognosticar em que directriz m a r c h a r á d o r a - bolas de bilhar o u da queda de uma pedra no solo,
vante a ciência é impossível. Enquanto os homens de quer os fenómenos químicos, quiçá mais complexos.
ciência dependerem dos capitalistas e dos governos, Estes factos, puramente mecânicos, teem sido sufi-
como ocorre no presente, a sua ciência levará, inevi- cientes a t é agora para a explicação de todos os fenó-
tavelmente, a estampilha da influência dos ricos e dos menos naturais estudados. E m parte alguma se no-
governantes, e um período de e s t a g n a ç ã o , a n á l o g o ao tou jamais a. sua falta e, francamente, n ã o entreve-
que se deu na primeira metade do século X V I I I , po- mos a possibilidade de se descobrir algum dia uma
derá, talvez, produzir-se de novo. Mas uma cousa é esfera em que os factos mecânicos n ã o tenham acção.
certa, todavia: é que a ciência, tal qual se nos apre- Nada, a t é agora, nos autoriza a admitir a sua exis-
senta hoje, n ã o t e r á necessidade, nem da hipótese dis- tência.
pensada por Laplace, nem das m e t a f í s i c a s meias pala-
vras de que, com r a z ã o , Goethe mofou.
J á podemos ler o livro da Natureza, no qual se
compreende, n ã o só o desenvolvimento da vida o r g â -
nica e inorgânica, como a evolução da humanidade,
sem necessidade de recorrer a um hipotético criador,
a uma mística força vital ou a uma alma imortal, e
muito menos sem precisar de consultar a trilogia de
Hegel para, com ela e com os s í m b o l o s metafísicos
a que a t r i b u í m o s uma existência que n ã o possuem,
ocultar a nossa i g n o r â n c i a . Os f e n ó m e n o s mecânicos,
que progressivamente se complicam à medida que pas-
samos do estudo dos factos físicos para o dos factos
da vida, bastam amplamente para explicar a Natureza
e toda a existência o r g â n i c a , intelectual e social em
nosso planeta. Sem dúvida que cm o universo fica
ainda muita cousa de ignoto, de obscuro e de incom-
preendido ; bem sabemos que novas lacunas se abri-
r ã o no vasto campo dos nossos conhecimentos na
p r o p o r ç ã o em que as velhas se forem fechando. N ã o
conhecemos, p o r é m , r e g i ã o alguma dos nossos conhe-
cimentos em que n ã o seja possível encontrar a expli-
u ANARQUISMO K A CIÊNCIA MODKKNA 43

e x a c t i d ã o dc todas as conclusões científicas por con-


t i . i i i a s que, porventura, fossem à s noções correntes
estabelecidas.
V á r i a s tentativas dessa espécie se fizeram, de-
facto, no decurso do século X I X , mas a de Auguste
IV
Comte com a sua Filosofia Positiva e a de H e r b e r t
Spencer com a sua Filosofia S i n t é t i c a , — de que
A Filosofia Positiva de Auguste Comte adiante daremos conta, — merecem muito da nossa
atenção.
E ' evidente que tendo a ciência, por meados do Aliás, a necessidade da e l a b o r a ç ã o de uma filo-
século X I X , obtido os resultados surpreendentes que sofia sintética foi entrevista e compreendida pelos en-
descrevemos no c a p í t u l o precedente, necessário seria ciclopedistas do século X V I I I , — por Voltaire no seu
empreender a e l a b o r a ç ã o de uma filosofia sintética m e m o r á v e l Dictionnaire Philosophique, a t é hoje, com
que englobasse todos os resultados a t é e n t ã o adqui- justiça, considerada uma obra monumental; por T u r -
ridos, principalmente no d o m í n i o das ciências natu- got, o grande economista, e, posteriormente, de ma-
rais. Sem divagar por mais tempo com os produtos neira mais ampla, por Saint-Simon, o fundador de uma
da p r ó p r i a i m a g i n a ç ã o com que os filósofos distraiam das t r ê s grandes escolas de socialismo.
a a t e n ç ã o de nossos antepassados, tais como "as subs- Foi depois dessas tentativas que, com a publica-
t â n c i a s " , a "ideia do universo", " o destino da v i d a " ção, na primeira metade do século X I X , da sua vigo-
e outras a n á l o g a s e x p r e s s õ e s s i m b ó l i c a s ; dando de rosa Filosofia Positiva, o preclaro e s p í r i t o de Auguste
m ã o ao antropomorfismo, — a tendência em a t r i b u i r Comte empreendeu a mesma tarefa, p o r é m de u m
à Natureza e às forças físicas qualidades e i n t e n ç õ e s modo rigorosamente científico e mais adstrito aos
humanas, — era j á tempo de intentar a exposição de progressos das ciências naturais naquele tempo. A A u -
uma filosofia que fosse como que o s u m á r i o s i s t e m á - guste Comte seguiu-se-lhe o b r i t â n i c o H . Spencer com
tico, unificado, raciocinado, de todo o nosso saber. a sua bem fundada Filosofia Evolucionista, publicada
Uma tal filosofia, elevando-se gradualmente do já em plena e x p a n s ã o das ciências naturais no século
simples ao composto, estabeleceria, a largos t r a ç o s , X I X (1).
os princípios fundamentais da vida do universo e nos
daria igualmente a chave da c o m p r e e n s ã o da natu-
reza em sua integralidade. Deste modo t e r í a m o s
nessa filosofia um poderoso instrumento para largas (1) — Destes dois grandes pensadores temos, em língua
i n v e s t i g a ç õ e s que nos auxiliaria na descoberta de no- portuguesa, exposições sumárias de suas filosofias. Para
vas relações entre os diversos f e n ó m e n o s ou, como se Comte: T E I X E I R A B A S T O S . — Princípios de Hlosofia
Positiva, em dois volumes. Porto, 1883. Para Spencer C A L *
diz actualmente, na verificação de novas leis natu-
D A S C O R D E I R O , — Summário da Filosofia l-volucionista,
rais, nos inspiraria, ao mesmo tempo, a confiança na Lisboa 1897.


0 ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA
44 P E T E R K R O P O T K I N

N ã o há negar a c o n t r a d i ç ã o - p a t e n t e , por demais


Com r e l a ç ã o às m a t e m á t i c a s e à s ciências exactas
flagrante e c a r a c t e r í s t i c a , das duas obras de Comte,
em geral, Comte saiu-se brilhantemente no tentame.
N ã o se pode deixar de reconhecer que Comte andou entre a sua Filosofia e a sua Política, o que nos dá
magnificamente inspirado em introduzir a ciência da margem a inquirirmos do estado de algumas das mais
vida (biologia) c a das sociedades humanas (sociolo- importantes q u e s t õ e s filosóficas e científicas da actua-
gia) no ciclo das ciências positivas classificadas na lidade.
sua Filosofia Positiva, como t a m b é m é n o t ó r i a a for- *
midável influência que, na segunda metade no século * *
X I X , essa imensa obra exerceu sobre a maioria dos
cientistas e pensadores da época.
Auguste Comte, ao terminar o seu Cours de Phi-
Mas porque é que Comte, — indagam, n ã o sem losophie Positive teria, sem dúvida, notado que, nessa
r a z ã o , os admiradores da obra do portentoso filósofo, sua obra. n ã o havia tocado sequer na q u e s t ã o mais
os que a teem apreciado em sua inteireza, — se mos- essencial de todas, a saber: a origem do sentimento
trou t ã o fraco quando empreendeu, na sua segunda moral no homem e a influência desse sentimento sobre
obra sobre a Política, o estudo das instituições huma- a vida do mesmo homem e das sociedades humanas.
nas, especialmente as modernas, e, sobretudo, o da Ora. evidentemente, que em um curso de filosofia
é t i c a ? Como é que um e s p í r i t o t ã o profundo, de t ã o positiva seria absolutamente indispensável estudar a
vastos e positivos conhecimentos exuberantemente origem de um t ã o importante factor da vida humana,
manifestos na sua primeira obra, veiu a constituir-se, — o sentimento, — e explicá-lo pelas mesmas causas
no declínio da sua vida, o fundador dc uma nova re- mediante as quais Comte explicava a vida em geral;
ligião e de u m certo culto? deveria mostrar-nos porque é que o homem, sem a
Alguns dos mais ardorosos discípulos de Comte i n t e r v e n ç ã o de qualquer força sobrenatural, se sente
procuram em v ã o conciliar a sua ú l t i m a obra, a que obrigado à influência desse sentimento ou, pelo me-
trata da fundação da R e l i g i ã o da Humanidade, com nos, levado a c o m p u t á - l o devidamente.
a sua obra primitiva, sustentando, com todas as ve- O que é extremamente n o t á v e l é que Comte se
ras, que o eminente filósofo nada mais fêz que seguir situasse no mesmo ponto de vista que, posteriormente,
o mesmo m é t o d o em ambas, — na sua Filosofia Po- seguira o grande naturalista inglês Charles D a r w i n
sitiva bem como na sua Política Positiva. — o que quando este t r a t o u de explicar, em sua e x t r a o r d i n á r i a
n ã o nos parece exacto. E que o não é provaram-no obra Descent of Man (origem do homem), a origem
dors de seus mais ilustres discípulos, J. S. M i l l e E. do sentimento moral humano.
L i t t r é . positivistas igualmente, que repudiam a Polí-
tica Positiva de Comte e n ã o a consideram parte i n - Comte inseriu, por certo, no seu S Y S T È M E de
tegrante da sua grande obra, a Filosofia. Esses dois P O L I T I Q U E P O S I T I V E ou T R A I T É de SOCIOLO-
grandes filósofos n ã o vêem naquela obra outra cousa G I E I N S T I T U A N T L A R E L I G I O N de 1'JIl M . W l T Ê ,
mais do que o produto de uma inteligência decrépita. muitas passagens a d m i r á v e i s que provam n ã o have
AC P E T E R K R O P O T K I N C) ANARQUISMO K A CIÊNCIA MOWÍRNA 47

rem escapado à sua atenta o b s e r v a ç ã o a e x t e n s ã o da Nada de admirar, portanto, que Comte chegasse i
sociabilidade e do a u x í l i o m ú t u o entre os animais e lais conclusões, uma vez que n ã o reconhecera que o
a i m p o r t â n c i a ética desses factores da evolução (1) s e n i imento moral do homem, como a sociabilidade e

Mas, para tirar desses factos as conclusões posi- a própria sociedade, teem uma origem pre-humana;
tivistas n e c e s s á r i a s , os conhecimentos em biologia de.de o momento que n ã o reconhecia nesse sentimen-
eram, ao tempo, bastante escassos e, a l é m disso, a to uma mera evolução ulterior da sociabilidade a n i -
Comte faltava precisamente a ousadia para o fazer. mal, robustecido no homem pela o b s e r v a ç ã o da Na-
Suprimiu, é certo, do seu v o c a b u l á r i o filosófico. Deus, tureza e da vida das sociedades humanas, as conclu-
a divindade das religiões positivas que o homem deve s õ e s deveriam ser fatalmente aquelas.

adorar e a quem orar para obter a g r a ç a de ficar Comte n ã o pudera compreender que o senso mo-
um ser moral, mas, em s u b s t i t u i ç ã o , colocou a palavra ral do homem depende tanto da sua i n t r í n s e c a natu-
H U M A N I D A D E com H maiúsculo. A n t e esse novo reza como da sua o r g a n i z a ç ã o física as quais são uma
ídolo ordenava -nos êle prostrarmo-nos devotamente e h e r a n ç a derivada de u m longo processo evolutivo que
dirigir-lhe as nossas preces a-fim-de desenvolver em tem durado de h á séculos.
nós os sentimentos morais! Comte notara, certamente, a existência de senti-
mentos de sociabilidade e de simpatia r e c í p r o c a entre
E ' claro que, uma vez entrado nesse caminho, re-
os animais, p o r é m , sob a influência do grande zoolo-
conhecido como n e c e s s á r i o que o homem deva adorar
gista Cuvier, que, naquele tempo, era considerado a
qualquer fetiche, colocado fora e acima do mesmo ho-
maior autoridade científica, n ã o admitiu o que Buf-
mem, para manter o animal humano na senda do de-
fon e Lamarck haviam j á entrevisto: a variabilidade
ver, — o resto viria natural e suavemente. O ritual
das espécies, n ã o reconhecera, em-fim, a doutrina,
da religião comteana encontra-se facilmente por en-
hoje corrente, da evolução c o n t í n u a que vai do ani-
tre os rituais das arcaicas religiões procedentes do
mal ao homem.
Oriente.
Conseguintemente, Comte n ã o vira o que Dar-

w i n t ã o bem compreendera: que o senso moral do ho-
(1) — Na primeira edição inglesa deste estudo não havía- mem nada mais é do que uma evolução sucessiva dos
mos referido essas passagens da obra de Comte. Foi um instintos, dos h á b i t o s de auxílio m ú t u o existentes em
.amigo nosso, positivista, residente no Brasil, que mc chamou todas as sociedades animais muito anteriores ao apa-
a atenção para o facto, citando-me largamente os textos da recimento na terra dos primeiros e s p é c i m e s com apa-
obra de Comte e até presenteando-mc com um belo exem-
plar pelo que é ocasião azada de lhe testemunhar aqui os rência humana.
meus cordiais agradecimentos. Efectivamente há, na referi- Pelas mesmas r a z õ e s , Comte n ã o pôde verificar,
da obra de Comte, como na sua Filosofia Positiva, páginas como agora estamos habilitados a fazê-lo, que, n ã o
e mais páginas cheias de génio c erudição, que constitui um
obstante os actos imorais de indivíduos isolados, o
prazer intenso relê-las agora, mormente depois de uma vida
inteira absorta na aquisição de conhecimentos. senso moral na espécie humana p e r d u r a r á , todavia,
N. do A. instintivamente enquanto a humanidade n ã o entrar
48 P K T E R K R O P O T K I N

«•IH uma fase de d e c l í n i o ; que os actos c o n t r á r i o s a


uma moral derivada desta origem natural d e v e r ã o
provocar necessariamente r e a c ç õ e s da parte dos ou-
tros indivíduos, tal qual uma a c ç ã o mecânica que pro-
duzirá a sua consequente r e a c ç ã o no mundo físico.
Que nessa capacidade de r e a c ç ã o contra os actos a n t i - V
sociais reside uma força natural capaz de preservar o
senso moral e os h á b i t o s sociáveis das sociedades h u -
O vigoroso impulso científico de 1856-1862
manas, como os m a n t é m nas sociedades animais, sem
qualquer i n t e r f e r ê n c i a e x t e r i o r ; que, finalmente, essa
força é infinitamente mais poderosa do que os man- Se, na verdade, Auguste Comte faliu no seu es-
damentos de qualquer religião ou os é d i t o s dos legis- tudo a respeito das instituições humanas e, sobretudo,
ladores. no tocante à s origens da moralidade, cumpre, entre-
tanto, n ã o esquecer que êle escreveu os seis volumes
Nada disto tendo sido admitido por Comte, viu-se
do seu Curso de Filosofia Positiva nos anos que de-
éle como que compelido a inventar uma nova divin-
correm de 1830 a 1842 e os quatro do seu Sistema
dade, a H U M A N I D A D E , u m novo culto, para manter
de Política Positiva de 1851 a 1854, portanto, muito
vivo no homem o senso moral, para o obrigar a enve-
antes do período á u r e o do despertar do e s p í r i t o cien-
redar pelo caminho de unia vida moral. Como Saint-
tífico que se operou de 1856 a 1862 em que, de ma-
Simon, como Fourier, pagou Comte o seu inevitável
neira nunca vista, ruidosa e rapidamente, se dilata-
tributo à e d u c a ç ã o c r i s t ã que haveria recebido e da
ram os horizontes da ciência e se procurava elevar o
qual se ressentia. Sem admitir uma luta entre o p r i n -
nível das concepções gerais de todo o homem culto.
cípio do Bem e o princípio do M a l , ambos igualmente
poderosos, e sem a invocação do homem ao represen- A série de obras importantes concernentes a d i -
tante do primeiro desses princípios para se e n c o u r a ç a r versos ramos das ciências que se publicaram no de-
contra as influências insidiosas do representante do curso dessa meia dúzia de anos produziram uma tal
segundo, o MaJ, — sem todo esse aparato não seria r e v o l u ç ã o no modo de interpretar a Natureza, sobre a
possível o cristianismo existir, é, talvez, essa a sua vida em geral e as actividades das sociedades huma-
condição essencial de vida. nas, que n ã o há m e m ó r i a de tamanha r e v o l u ç ã o em
toda a história das ciências nos ú l t i m o s vinte séculos.
Comte, fortemente imbuído dessa concepção cris-
O que os enciclopedistas mal vislumbraram ou
tã da moral, n ã o hesitou em regressar a ela quando
obscuramente pressentiram, o que as mais fulguran-
topou no seu caminho a quest&O moral e os meios
tes inteligências da primeira fase do século X I X ha-
de r o b u s t e c ê - l a nos sentimentos do homem. O culto
viam, com incalculáveis dificuldades, lobrigado, fê/ e
da Humanidade devia servir-lhe magnificamente para
repentinamente m a t é r i a de conhecimento, tornou-se
afugentar do homem o poder nefasto do M a l .
certeza positiva exuberante em resultados a p r e c i á v e i s .
De notar é, p o r é m , que esses novos conhecimentos
P E T E R K R O P O T K I N <) ANARQUISMO I-: A CIÊNCIA MODERNA 51
50

foram t ã o belamente concatenados, de maneira t ã o léculas. tanto os que produzem as vagas m a r í t i m a s


completa e em forma t ã o compreensiva, g r a ç a s à apli- Colin» os que se descobrem nas vibrações de u m sino.
c a ç ã o do m é t o d o científico indutivo-dcdutivo, que f i - de uma lâmina metálica ou de um instrumento m u -
cou cabalmente demonstrado ser o emprego de outro, sical, bastam para explicar todos os f e n ó m e n o s fisi-
COs: o calor, a luz. o som, a electricidade e o magne-
que n ã o esse, falso, incompleto e absolutamente
tismo.
estéril.
Analisemos, rapidamente que seja, esses resulta- Foi-se mesmo além. Aprendemos a medir esses
dos para melhor nos habilitarmos a apreciar a grande movimentos invisíveis v i b r a t ó r i o s das moléculas, con-
tentativa que o genial Spencer levou a cabo com a seguiu-se, por assim dizer, pesar a sua energia da
publicação da sua exaustiva filosofia evolucionista ou tnesma maneira que medimos a-energia do movimento
de uma pedra atirada de certa altura ou de um com-
sintética.
boio em andamento. A física, afinal, tornou-se um
* mero ramo da mecânica.
Sobre tudo isso, demonstrou-se, no decurso desse
m e m o r á v e l período de meia dúzia de anos, que nos
No transcurso desses notáveis seis anos, Grove, mais distantes corpos celestes, nas m i r í a d e s de sóis
Helmholtz, Joule, e t o d i uma falange de físicos e as- que povoam a via láctea, se encontram exactamente
t r ó n o m o s em cujo n ú m e r o devemos incluir Kirchhoff os mesmos corpos simples químicos, o u elementos,
que, pela sua surpreendente descoberta de análise q u í - que encontramos na terra e que se d ã o neles as mes-
mas vibrações moleculares (pie se produzem em nosso
mica espectral, nos permitiu reconhecer a constitui-
planeta com resultados físicos e químicos absoluta-
ç ã o química das estrelas, isto é, dos sóis mais distan-
mente idênticos.
tes de n ó s , quebraram o encanto que, durante mais
de meio século, reinou entre os homens de ciência E, com todos os visos de probabilidade, julga-sc
privando-os de se aventurarem a vastas e ousadas ge- hoje que os movimentos das massas celestes, dps as-
neralizações físicas. E, dentro de poucos anos, pro- tros que percorrem o espaço conforme as leis da gra-
varam e estabeleceram eles à saciedade a unidade da vitação universal, n ã o s e r ã o outra cousa mais do que
natureza em todo o mundo inorgânico, compreendendo as resultantes de todas essas vibrações transmitidas
os astros mais l o n g í n q u o s com o seu s é q u i t o de pla- em todas as direcções a biliões e milhões de milhas
netas. a t r a v é s dos espaços interstelares do universo.
Daí por diante, a menos de querer ficar r e t r ó -

grado, n ã o era já possível falar em " f l u i d o s " , —'ca-
* *
lórico, m a g n é t i c o , eléctrico ou de qualquer outra es-
pécie. — a que os físicos de antanho haviam recorrido
para explicar as diferentes forças físicas. Provou-se Essas mesmas vibrações calóricas e eléctricas
à evidência que os movimentos mecânicos das mo- bastam para explicar todos os fenómenos químicos.
1'KTER K R O P O T K I N Q ANARQUISMO E A CIÊNCIA MOIH-KNA SJ

\a mesmo, em síntese, n ã o passa de u m ca-


pitulo da mecânica molecular. A vida, em suas inú- Estamos, dc-certo, em semelhante ramo do saber,
meras m a n i f e s t a ç õ e s , inerente à s plantas e aos ani- muito longe da |x>sse do conhecimento, mal ensaiamos
os primeiros passos; o que nos resta descobrir é imen-
mais, se resume em uma troca de moléculas, ou me-
samente vasto. A ciência, ainda mal liberta da meta-
lhor de á t o m o s , na vasta série de corpos q u í m i c o s ,
física (pie a tem estrangulado, apenas assoma o estu-
facilmente d e c o m p o n í v e i s , — i n s t á v e i s pela sua extre-
do desse imenso d o m í n i o que é a psicologia física.
ma complexidade, — de que se c o m p õ e m os tecidos
Mas os primeiros passos e s t ã o dados. Sólidas bases
vivos de todos os seres animados. A vida, portanto, e s t ã o desde j á assentes para as i n v e s t i g a ç õ e s ulte-
nada mais é do que uma série de d e c o m p o s i ç õ e s e re- riores.
c o m p o s i ç õ e s q u í m i c a s nas moléculas c o m p l e x í s s i m a s ,
cm resumo, uma série de f e r m e n t a ç õ e s devidas a fer- A antiga divisão na ordem dos conhecimentos em
mentos q u í m i c o s inorgânicos. • dois d o m í n i o s absolutamente distintos que o filósofo
Como se tudo isso n ã o bastasse, ainda nessa época a l e m ã o Kant pretendeu estabelecer, — o dos f e n ó m e -
se descobriu, o que depois, na década de 1890-1900, nos que investigamos, segundo a sua classificação,
ficou plenamente comprovado, que o processo vital "no tempo c no e s p a ç o " (o d o m í n i o físico), e o dos
das células do sistema nervoso consiste igualmente em fenómenos que só são i n v e s t i g á v e i s "no t e m p o " (o
uma série de p e r m u t a ç õ e s químicas nas moléculas ce- d o m í n i o dos fenómenos mentais), — tende a desapa-
lulares e que a capacidade de t r a n s m i s s ã o de uma a recer.
outra célula nervosa de vibrações moleculares e trans-
À q u e s t ã o proposta u m dia pelo fisiologista russo
missões q u í m i c a s , nos fornecem já uma explicação
materialista, o professor Syctchcnoff: "a que filiar e
mecânica da vida ptiquica nos animais e da propa-
como estudar a psicologia?" — a resposta c a t e g ó r i c a
g a ç ã o das excitações nas plantas.
n ã o se faz esperar: " à fisiologia e unicamente pelo
O resultado dessas i n v e s t i g a ç õ e s é, sem dúvida,
m é t o d o f i s i o l ó g i c o ! " Incontestavelmente que as re-
imenso. G r a ç a s a elas, podemos agora, sem sair do
centes i n v e s t i g a ç õ e s dos fisiologistas teem projectado
d o m í n i o dos factos puramente fisiológicos, compre-
infinitamente mais luz sobre o mecanismo do pensa-
ender como se produzem e se gravam em nosso c é r e -
mento, sobre a origem das i m p r e s s õ e s e a sua fixa-
bro as imagens e as i m p r e s s õ e s em geral, como se
ç ã o na m e m ó r i a e sua t r a n s m i s s ã o do que todas as
geram as concepções e as ideias. Estamos hoje, mais
subtis discussões com que os metafísicos nos teem
do que nunca, habilitados a compreender o mecanis-
recreado o e s p í r i t o durante séculos.
mo da chamada associação das ideias, isto é, como
cada nova i m p r e s s ã o faz surgir as i m p r e s s õ e s antigas Assim, mesmo na fortaleza que dantes era exclu-
apagadas. Logramos, com tais descobertas, erguer- sivamente sua. a metafísica bate em retirada. As
mos u m pouco o véu que encobria o mecanismo do ciências naturais por u m lado e a filosofia matéria
pensamento. lista por outro, que com uma rapidez incrível, intei
ramente desconhecida do passado, tanto fizeram avan-
*
çar os nossos conhecimentos na m a t é r i a debatida, i n -
* *
P E T E R K R O P O T K I N <) ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 55
54

vadein hoje vitoriosamente os d o m í n i o s , o u t r o r a r e - pio, ao cavalo, ao jumento, à zebra, e t c , conseguiu-se


servados à metafísica, da psicologia. determinar perfeitamente o antepassado comum pela
descol>erta das ossamentas respectivas nas camadas
* geológicas.
* * No século X V I I I era, p o r é m , perigoso professar
semelhantes "heresias". Por muito menos fora j á
Todavia, entre as obras que apareceram nessa Buffon perseguido pelo tribunal eclesiástico que o
meia d ú z i a de anos, nenhuma iguala a O r i g i n of obrigara, a quando da publicação da sua História Na-
Species (a origem das espécies) de Charles D a r w i n , tural, a retratar-se das suas ousadas a f i r m a ç õ e s a res-
t ã o profunda foi a influência que exerceu sobre os es- peito da e v o l u ç ã o g e o l ó g i c a da terra. Por essa época
píritos. a Igreja dispunha de todo o poder e o naturalista que,
J á Buffon no século X V I I I e L a mareie nos c o m ê - porventura, ousasse sustentar heresias daquele jaez,
c o s do X I X haviam ousado sustentar (pie as diferen- que vinham, naturalmente, solapar a sua histórica au-
tes espécies de plantas e animais (pie povoam a terra toridade, era inevitavelmente a m e a ç a d o de p r i s ã o , de
n ã o representam formas i m u t á v e i s . As espécies s ã o t o r t u r a e, quando menos, encerrado em um hospício
variáveis, sob a a c ç ã o do meio ambiente mudam con- de loucos! T a l o motive porque os " h e r é t i c o s " da
tinuamente. A s p r ó p r i a s semelhanças g e n e a l ó g i c a s primeira metade do século X I X falavam com tanta
de família que se notam nas diferentes espécies e per- p r u d ê n c i a e reserva.
tinentes a u m dado grupo, — assim o afirmavam esses
ilustres naturalistas, — provam que tais espécies des- P o r é m logo, na segunda metade do século findo,
cendem de um progenitor comum. Assim as diferen- após a revolução de 1848, D a r w i n e Wallace puderam
tes espécies de r a i n ú n c u l o s , que habitualmente depa- ousadamente afirmar a mesma heresia. D a r w i n n ã o
ramos nos prados e nos p â n t a n o s , s ã o necessariamente temeu acrescentar que o homem era igualmente o pro-
os descendentes de uma mesma e única espécie de duto ancestral de uma lenta e v o l u ç ã o fisiológica cuja
antepassados, descendentes estes que se teem diversi- origem se encontra em uma espécie de animais seme-
ficado por efeito de uma série de v a r i a ç õ e s e adapta- lhantes aos quadrumanos conhecidos, que a chamada
ções por que passaram em suas v á r i a s condições de "alma i m o r t a l " e o "senso m o r a l " do homem se ha-
existência. viam desenvolvido analogamente à inteligência e aos
instintos soeiais de um c h i m p a n z é ou de uma formiga.
I d ê n t i c o f e n ó m e n o se dá com as actuais espécies
de lobos, cães, chacais, raposas, que, em tempos re- N i n g u é m por-certo ignora os fulminantes a n á t e -
motos, n ã o existiam, havendo, entretanto, em seu lo- mas que os magnatas das diversas igrejas fizeram
gar uma espécie de outros animais da qual, no decor- dardejar sobre a cabeça de D a r w i n e, especialmente,
rer dos tempos, se originaram diversas classes que sobre a de seu corajoso, sábio e ardoroso discípulo
são hoje os lobos, os cães, os chacais e as raposas Huxley que tanto se notabilizou pelas conclusões que
nossos conhecidos. Para o que concerne, por exem- magistralmente soube extrair da doutrina dai inista.
56 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 57

as quais, na verdade, foram a total r u í n a dos sacer- « l o . <>•, í a m o s do saber, os factos mais incompreen-
dócios de todas as religiões. síveis e os mais difíceis problemas. Baseando-se nes-
A luta foi, sem dúvida, terrível, mas os darwinis- se princípio, t ã o rico de consequências, foi possível re-
tas, como n ã o podia deixar de ser, sairam dela vito- OOnstituir, n ã o somente a história dos organismos,
riosos e desde e n t ã o uma nova ciência, — a biologia, (lias a p r ó p r i a h i s t ó r i a das instituições humanas.
— a ciência da vida em todas as suas m a n i f e s t a ç õ e s , A biologia, manobrada por Spencer, evidenciou-
se fundou e detenvo)veu enormemente à s nossas vis- nos p e r e n t ò r i a m e n t e como todas as espécies de plan-
tas como é demasiado sabido. tas e de animais puderam desenvolver-se oriundas de
A doutrina da origem das espécies por via des- 11 iis poucos organismos que povoavam a terra no seu
cendente é hoje um facto t ã o firmemente estabelecido início e Haeckel p ô d e t r a ç a r o a d m i r á v e l esquema de
e reconhecido que a t é os p r ó p r i o s sacerdotes das v á - uma á r v o r e g e n e a l ó g i c a , mais do que provável, das
rias religiões a aceitam sem c o n t e s t a ç ã o , apenas t r a - diferentes classes de animais em que é abrangido o
tam de a acomodar ao princípio teológico da Reve- homem. Resultado imenso esse a que veio juntar-se
lação. o dos primeiros fundamentos sólidos, científicos, da
história dos h á b i t o s , dos costumes, das c r e n ç a s e das
* instituições humanas, conhecimento, aliás, que faltava
absolutamente aos filósofos do século X V I I I e, espe-
cialmente, a Auguste Comte. Essa história, — a das
Assim a obra de D a r w i n forneceu-nos uma nova sociedades humanas, das v á r i a s instituições sociais e
i n t e r p r e t a ç ã o e u m novo m é t o d o de i n v e s t i g a ç ã o que das religiões, — a podemos agora escrever norteando-
nos habilitam para uma mais exacta inteligência da nos pelo fecundo princípio da evolução sem necessi-
complexidade dos f e n ó m e n o s , m é t o d o que tanto se dade de recorrermos à s f ó r m u l a s metafísicas de He-
aplica à vida da m a t é r i a física como à vida dos orga- gel, sem ser preciso apelar para as "ideias inatas",
nismos e das sociedades em sua evolução. para uma r e v e l a ç ã o exterior e superior ou ainda para
as " s u b s t â n c i a s " de K a n t .
A ideia de u m c o n t í n u o desenvolvimento, de uma
progressiva evolução e de uma gradual a d a p t a ç ã o dos Podemos reconstituir naturalmente essa história
indivíduos e das sociedades à s novas condições na sem necessidade alguma de invocarmos f ó r m u l a s va-
medida que estas se modificam, — essa ideia funda- sias de sentido que foram a morte de todo o e s p í r i t o
mental encontrou uma aplicação muito mais larga investigador e por d e t r á s das quais se ocultavam,
que a que, a t é e n t ã o , pretendia explicar a origem das como por entre nuvens, a mesma ignorância, a crassa
espécies. Quando essa concepção se aplicou ao estu- i g n o r â n c i a de sempre, as mesmas s u p e r s t i ç õ e s do pas-
do da Natureza em geral e, em particular, ao estudo sado, a mesma fé cega de outrora.
do homem, das suas faculdades e das instituições so- G r a ç a s , de um lado aos trabalhos de naturalistas
• lai I, verificou-se que novos horizontes se abriam à s de renome, de o u t r o aos de H e n r y Maine e seus con-
sas vistas permitindo explicar, no d o m í n i o de t o - tinuadores que souberam notoriamente aplicar o mes-
58 Pi: TER K R O P O T K I N <) ANARQUISMO I: A ( MACIA MOM-KNA

mo m é t o d o científico ao estudo das instituições p r i - X I X , quando as g e n e r a l i z a ç õ e s indutivas d o s enciclo-


mitivas e das leis de que elas derivam a sua origem, pedistas e dos seus predecessores ingleses e escoceses
foi possível, durante os ú l t i m o s cincoenta anos, esta- c o m e ç a v a m a declinar, nesses tenebrosos dias em que
belecer a história do desenvolvimento das i n s t i t u i ç õ e s se carecia de coragem moral para falar, em face do
humanas em bases t ã o firmes como hoje e s t á a his- misticismo e n t ã o triunfante, da unidade da natureza
t ó r i a do desenvolvimento de qualquer espécie vegetal física e " e s p i r i t u a l " , — valor moral que faltava aos
e animal. filósofos do tempo, — as poéticas concepções de a l -
guns pensadores franceses e a metafísica nebulosa dos
* filósofos a l e m ã e s tiveram, pelo menos, o c o n d ã o de
* * despertar o gosto das g e n e r a l i z a ç õ e s .
P o r é m , as g e n e r a l i z a ç õ e s dessa época, estabeleci-
Seria, de-certo, injusto esquecer nesta resenha o das umas pelo m é t o d o puramente dialético, outras por
trabalho imenso já realizado antes dessa época, na uma semi-consciente indução, eram, por sua p r ó p r i a
terceira década do século X I X , pela escola de Augus- natureza, de uma desesperadora vacuidade.
t i n T h i e r r y na F r a n ç a , pela de Maurer e dos "germa-
As primeiras, derivadas do m é t o d o dialético, no
nistas" na Alemanha de que foram continuadores,
fundo n ã o passavam de a s s e r ç õ e s i n g é n u a s , muito se-
entre tantos outros, Kostoniaroff e Bélayeff na R ú s -
melhantes à s formuladas pelos pensadores gregos da
sia. O conceito da evolução fora já certamente apli-
antiguidade quando afirmavam que os planetas devem
cado, desde o tempo dos enciclopedistas, ao estudo
necessariamente percorrer o espaço a t r a v é s dos
dos costumes e das instituições, bem como ao das
círculos c o n c ê n t r i c o s pelo facto de ser o círculo, na
língua^.
sua opinião, a curva mais perfeita. O c a r á c t e r sim-
Mas só se puderam obter resultados exactos, plista de tais a f i r m a ç õ e s , carecedoras de provas, n ã o
científicos, depois que os homens de ciência entraram impressionava toda a gente; eram aceites simples-
de considerar os factos h i s t ó r i c o s do mesmo modo mente porque se forravam de raciocínios vagos e de
por que um naturalista considera o desenvolvimento uma ôca fraseologia servida por um estilo empolado,
gradual dos ó r g ã o s de uma planta ou o de uma nova grotesco e absurdo a mais n ã o poder ser.
espécie.
As segundas das g e n e r a l i z a ç õ e s mencionadas, o r i -
As f ó r m u l a s metafísicas, na época em que domi- ginadas de uma indução semi-consciente, foram sem-
navam, poderiam, a t é certo ponto, contribuir para a l - pre baseadas em uma série extremamente limitada de
gumas parcas g e n e r a l i z a ç õ e s . Tanto ou quanto, ser- o b s e r v a ç õ e s . Como tipo dessas g e n e r a l i z a ç õ e s mal
viram para despertar algumas inteligências coactas e elaboradas, com quanto largas, citaremos as de YVcis-
estimular o pensamento com suas vagas alusões à u n i - mann, que tanto r u í d o produziram nas fileiras d o s bio-
dade da natureza e da vida incessante que lhe é ine- logistas c o n t e m p o r â n e o s . Era e n t ã o facilmente exa-
í e n t e . N o tempo em que a r e a c ç ã o atingira o seu gerado o valor dessas g e n e r a l i z a ç õ e s , demasiado hipo-
ápice, como foi o caso nas primeiras d é c a d a s do século t é t i c a s , t ã o somente baseadas na indução semj-con-
60 P E T E R K R O P O T K I N

sciente já referida, que se pretendia apresentar como


leis indiscutíveis quando, afinal, mais n ã o eram do
que meras hipóteses, simples suposições, germes de
g e n e r a l i z a ç õ e s carecedoras de verificação experimen-
tal pela c o m p a r a ç ã o dos seus resultados com os factos
observados para serem admitidas como verdades i n - VI
concussas.
Todas essas g e n e r a l i z a ç õ e s , em resumo, expres- Herbert Spencer e a sua filosofia sintética
sas em f ó r m u l a s abstractas e ennevoadas, como, por
exemplo, as famosas "tese, a n t í t e s e e s í n t e s e " de
H e g e l , s ó tiveram por efeito dar plena liberdade ao
franco a r b í t r i o para deduzir delas as conclusões mais Quando o estudo da antropologia, que o mesmo
c o n t r a d i t ó r i a s que é possível imaginar. Como ilus- é dizer da evolução fisiológica do homem e do desen-
t r a ç ã o diremos que delas tanto se pode deduzir, — volvimento das suas i n s t i t u i ç õ e s sociais e religiosas,
o que, aliás, já foi praticamente feito, — o e s p í r i t o se fêz conforme os m é t o d o s aplicados à s ciências na-
r e v o l u c i o n á r i o de u m Bakunine, a r e v o l u ç ã o de Dres- turais, f o i , em-fim, possível t r a ç a r as linhas essenciais
den, o jacobinismo r e v o l u c i o n á r i o de M a r x , como a da história da humanidade, abandonando para sempre
" s a n ç ã o do existente" de Hegel, que levou tantos au- a metafísica que a t é e n t ã o só havia o b s t r u í d o o estudo
tores a pretender a "paz com a realidade", por ou- da h i s t ó r i a t a l como a t r a d i ç ã o bíblica o b s t r u í r a ou-
tras palavras, a justificação da autocracia. t r o r a o estudo científico e o progresso da geologia.
Em consequência da sua predilecção pelo m é t o d o Nesse estado de cousas seria de supor que quan-
dialético e pela metafísica económica, em vez de se do o genial Spencer, na segunda metade do século
aplicarem ao estudo dos factos concretos da vida eco- X I X , empreendeu, por sua vez, a e l a b o r a ç ã o de uma
nómica dos povos, bastaria referir os numerosos e filosofia sintética lograria fazê-lo sem cair nos erros
crassos erros, e c o n ó m i c o s em que os marxistas inci- que caracterizam a P O L Í T I C A de Auguste Comte a
diram. que j á nos referimos.
N ã o obstante a Filosofia Evolucionista de H .
Spencer constituir na verdade u m n o t á v e l a v a n ç o nos
d o m í n i o s do pensamento, pois que nela, de-facto. não
se enquadra qualquer nova religião ou culto, c o n t ê m ,
todavia, na sua parte sociológica, dislates t ã o graves
como os que se observam* na Política Positiva de
Comte.
E ' u m facto incontroverso que, ao tratar da psi-
cologia das sociedades, depois de haver examinado
62 P E T E R K R O P O T K I N 1 » \» " ' I S M i i I. A C l K N C I A MolUíR N A 63

com a d m i r á v e l precisão a substância do nosso conhe- quéneias lógicas que os seus a d m i r á v e i s argumentos
cimento no tocante à s ciências físicas, à biologia e naquele campo impunham.
à psicologia em geral. Spencer n ã o soube, no estudo Outro exemplo frisante. Spencer, na fase á u r e a
daquele ramo do saber, permanecer fiel ao seu rigo- do seu pensamento, bateu-se energicamente contra a
roso m é t o d o científico e assim n ã o ousou enfrentar interferência do Estado na vida das sociedades e a
as consequências a que, fatalmente, o levariam a es- uma das suas mais notáveis obras deu êle o t í t u l o que
t r i t a a d o p ç ã o desse m é t o d o . por si encerra todo u m programa social r e v o l u c i o n á -
Assim, para citar u m exemplo, Spencer reconhece rio: O Indivíduo contra o Estado (The .Man versus
plenamente que o solo nunca devera ser propriedade State). Pouco a pouco, p o r é m , sob o falso pretexto
de quem quer que fosse, como admite que o proprie- de salvaguardar as funções protectoras do Estado,
t á r i o do solo, pelo facto do direito que lhe assiste de reconstitui-o inteiramente tal qual hoje existe, ape-
elevar a seu bel-prazer o p r e ç o de locação da terra, nas com mui poucas e t í m i d a s r e s t r i ç õ e s .
p o d e r á impedir os seus naturais cultivadores de ex-
t r a i r dela tudo o que, por meio de uma cultura inten- *
siva, poderiam obter, ou. em sentido c o n t r á r i o , t e r á
a faculdade, consoante as suas conveniências, de con-
servar incultas as terras aguardando uma oportuni- Essas, e outras c o n t r a d i ç õ e s do mesmo g é n e r o ,
dade em (pie o preço do hectare suba por via do t r a - encontram fácil explicação no facto de haver Spencer
balho de outrem c do progresso realizado na r e g i ã o planeado a parte sociológica da sua filosofia, ao t e m -
que venham a promover a valorização dos terrenos po em que era n o t ó r i a a influência do partido radical
adjacentes. inglês, antes de haver escrito a parte referente à s
ciências naturais.
Spencer reconhece expressamente que u m t a l sis- Com efeito, Spencer escreveu a sua Estática So-
tema é. sobre nocivo à sociedade, prenhe de perigos cial em 1851, no período era que o estudo a n t r o p o l ó -
v á r i o s . Pois. a-pesar-de reconhecer, no que respeita gico das instituições humanas estava ainda no seu
à terra, todos estes males n ã o ousou, entretanto, apli- início. P o r é m , como quere que fosse, o resultado foi
car os mesmos raciocínios a respeito das outras r i - que Spencer, como Comte, n ã o empreendeu, como u m
quezas acumuladas, como as minas e as docas, para naturalista o faria, sem ideias preconcebidas hauridas
n ã o incluir nesse n ú m e r o as usinas e as fábricas que em fontes diversas das que as ciências exactas for-
estariam, naturalmente, no mesmo p é daquelas. necem, o estudo daquelas instituições pelo que elas
Se no domínio das ciências naturais n ã o hesitou valem em vista da sua finalidade.
Spencer em proclamar opiniões absolutamente con- Preciso é n ã o esquecer que quando Spencer ela-
t r á r i a s à s sustentadas durante séculos infindos pelo borou a sua filosofia das sociedades, isto é, da Socio-
e s p í r i t o religioso, no terreno das ciências sociológicas logia, enveredou pela aplicação de u m novo m é t o d o ,
n ã o teve a coragem n e c e s s á r i a para aceitar as conse- sem dúvida o mais ardiloso de todos quantos podiam
P E T E R K R O P O T K I N (.> A N A R Q U I S M O E A ( I I . M I A MODERNA
64

ser usados, — o das s e m e l h a n ç a s ou das analogias, — t ó r i c a s da humanidade, só viu selvajaria, barbarismo,


do qual, no estudo dos factos de natureza física, j a - crueldade, e nessa falsa c o m p r e e n s ã o dos factos sociais
mais fizera aplicação. O emprego desse m é t o d o per- dessas épocas êle representava inegavelmente u m
niitiu-lhe justificar uma massa considerável de ideias recuo sobre Auguste Comte que, nesse particular, me-
preconcebidas e o resultado de tais concessões é n ã o lhor compreendera a i m p o r t â n c i a da idade média no
possuirmos ainda hoje uma filosofia sintética da na- desenvolvimento progressivo das instituições, — ideia,
tureza assente em bases idênticas que servissem tanto aliás, depois de Comte, votada ao olvido na F r a n ç a .
as ciências naturais como as sociológicas.
*
Preciso é t a m b é m que se diga que Spencer foi * *
talvez o homem menos apto para interpretar as ins- *• m

t i t u i ç õ e s primitivas dos selvagens que constituem a


parte substancial de toda a sociologia. A este res- A l é m disso, — e este é de todos os erros talvez o
peito Spencer exagerava mesmo o erro comum à mais importante, — Spencer, como Huxley e outros
maioria dos seus compatriotas, — o de n ã o compre- mais. interpretou falsamente o significado do p r i n -
ender os usos e costumes das outras nações. " N ó s , cípio natural da " l u t a pela e x i s t ê n c i a " . Concebia-a,
os ingleses, somos os homens do direito romano, ao n ã o só como uma luta entre diversas espécies de ani-
passo que os irlandeses s ã o o povo do direito consue- mais (lobos devorando lebres, certas espécies de aves
t u d i n á r i o , isto é, da lei comum, n ã o escrita: eis por- alimentando-se de insectos, e t c ) , mas t a m b é m com >
q u ê n ã o n o s compreendemos", dizia-nos em certa oca-
s
uma luta feroz pelos meios de existência e pela con-
sião James Knowles, o director da N I N E T E E N T H quista de u m logar na terra no seio de cada espécie
C E N T U R Y , homem de vasta e r u d i ç ã o , bastante pers- entre todos os indivíduos da mesma espécie. Ora, na
picaz nas suas o b s e r v a ç õ e s . Mas essa incapacidade realidade semelhante luta, como a e x p õ e Spencer, e
de compreender uma civilização diferente sobe de tantos outros naturalistas, n ã o existe entre os ani-
ponto quando se trata do que os ingleses chamam mais e muito menos entre os primevos selvagens. E '
" r a ç a s inferiores". claro que uma vez admitida esta concepção pelo céle-
bre filósofo, todas as suas conclusões sociológicas ha-
F o i esse precisamente o caso de Spencer. Era veriam de ressentir-se dessa falsa suposição.
absolutamente incapaz de compreender o selvagem
no seu respeito para com a t r í b u e as regras desta A q u e s t ã o de saber a t é que ponto o p r ó p r i o Dar-
para com aquêíe, a " v i n g a n ç a sangrenta" que o w i n foi responsável dessa concepção e r r ó n e a da luta
herói de um saga da Islândia considerava dever sa- pela existência, n ã o cabe aqui discutirmos ( 1 ) . Cer-
grado, ou ainda a vida interna, agitada, e porisso to é, p o r é m , que quando D a r w i n publicou a sua obra
mesmo mais progressiva, das cidades da idade média.
(1) — Vide a nossa obra Mutual Ald, vertida em írancei
As concepções do D i r e i t o e da L e i , que prevaleceram sob o título L'Entr'aide (Paris, Hachette). Sobre <> smit.
nesses estados de civilização, foram absolutamente em questão, como Darwin foi levado a mudar de opinião « a
estranhas para Spencer. Spencer, nessas fases his- admitir finalmente a acçio directa do meio na cv.>lu<.
P E T R I K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA

A I ) « a c n d é n c i a do Homem (Descent of M a n ) , dOM prodigiosamente rica de c o n s e q u ê n c i a s , sobre a. natu-


i|ióa a sua Origem das Espécies ( O r i g i n of Spe reza e a e v o l u ç ã o das sociedades humanas, o que, dc-
cl< i . adoptou vistas mais largas e mais exactas da resto, j á o grande Goethe pressentira. Passaram,
llltl pela existência que s u b s t i t u í a m vantajosamente p o r é m , como brancas nuvens, essas n o t á v e i s p á g i n a s
0 primitivo conceito de uma luta e n c a r n i ç a d a entre t o - de D a r w i n . S ó em 1879, por uma conferência pro
dos os animais de uma mesma espécie, ideia esta ex- nunciada pelo eminente zoólogo Kessler, é que trava-
pressa na sua primeira grande obra escrita com o mos conhecimento com uma c o n c e p ç ã o clara das re-
pro|>ósito de provar a i m p o r t â n c i a da selecção natural lações que a Natureza nos evidencia entre o princí-
na origem das espécies novas. pio da luta pela existência e o auxílio m ú t u o . "Para
Na sua segunda obra sobre a Descendência do a e v o l u ç ã o progressiva das espécies, — disse o n o t á -
Homem deixou escrito que "as espécies animais que vel professor russo citando fartos exemplos. — " a lei
contam maior n ú m e r o de indivíduos mutuamente sim- do apoio m ú t u o tem muito mais larga a c ç i o «• i m -
páticos teem as maiores probabilidades de sobrevi- p o r t â n c i a do que a lei da luta r e c í p r o c a " .
vência e de larga p r o g é n i e " e, desse modo, evidente-
Dois anos mais tarde. Lanessan dava em Paris
mente, ia de encontro à sua primeira c o n c e p ç ã o da
a sua m e m o r á v e l conferência sobre a luta pela exis-
luta pela existência. A o mesmo tempo D a r w i n de-
tência ( 1 ) e logo depois Buchner (2) publicava a sua
senvolvia a ideia de ser o i n s t i n t o social c m cada ani-
b e l í s s i m a monografia sobre o Amor na qual mostrava
mal um instinto muito mais forte e muito mais per-
a i m p o r t â n c i a do factor simpatia entre os animais
manente e activo do que o instinto de p r e s e r v a ç ã o
como elemento imprescindível do desenvolvimento das
pessoal. Ora isto é bem diferente do que nos con-
primeiras concepções éticas, sendo apenas de lamen-
tam os pseudo darwinistas.
tar que o n o t á v e l professor materialista, apoiando-se
exclusivamente no amor filial e na c o m p a i x ã o , l i m i -
*
tasse a esses aspectos o círculo de suas sábias inves-
* *
tigações.
E m nossa já referida obra Mutual Aid (O Apoio
Os c a p í t u l o s que D a r w i n , na sua m e m o r á v e l obra
M ú t u o ) foi-nos relativamente fácil aduzir provas e
The Descent of Man, consagrou ao desenvolvimento
desenvolver as m a g n í f i c a s ideias expendidas por Kess-
da ética baseada nos h á b i t o s sociais dos animais an-
tecessores do homem, podem considerar-se como o
(1) — J . L . De Lanessan, — L a Lutte pour 1'Existence
ponto de partida para a e l a b o r a ç ã o de uma c o n c e p ç ã o ,
et PAssociation pour la Lutte; étude sur la doctrino é»
Darwin. Conferencia dada cm Paris a 5 de Abril de 1881
novas espécies, consultcm-se os nossos estudos sobre a se- Edição da livraria O. Doin, vol. de 80 pags.
lecção natural c a acção directa publicados na revista inglesa (2) — De Ludwig Buchner existem cm versão portuguesa
Nim-tceth Century, números de Julho, Novembro e Dczem- as seguintes três notáveis obras: Força e Materin. O Homem
bro át 1010 e Março de 1912. segundo a Ciência, Luz e Vida.
N. do A. N. do T.
68 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO | A CIÊNCIA MODERNA 0

ler e e s t e n d ê - l a s ao homem baseando-nos em exactas cípio enunciado. Mas a t é e n t ã o , a t é ao seu faleci


o b s e r v a ç õ e s da Natureza levadas a cabo pelos melho- mento, o homem p r i m i t i v o ficou para Spencer a besta
res zoologistas e nas i n v e s t i g a ç õ e s modernas à c ê r c a feroz de sua i m a g i n a ç ã o que n ã o teria sobrevivido a
da história das v á r i a s instituições humanas. n ã o ser arrancando à força, com unhas e dentes, o
O auxílio m ú t u o entre os animais é n ã o somente ú l t i m o pedaço de alimento ao seu concorrente.
a arma mais eficaz na luta pela existência contra as E ' evidente que, uma vez adoptada como funda-
forças hostis da Natureza e as espécies inimigas, co- mento de suas c o g i t a ç õ e s uma t ã o falsa premissa,
mo constitui o principal instrumento da evolução pro- Spencer n ã o poderia ter elaborado a sua filosofia evo-
gressiva. Mesmo para os animais mais fracos, a p r á - lucionista sintética sem cometer a série de l a m e n t á -
tica do apoio m ú t u o garante-lhes a longevidade, con- veis erros que se notam, sobretudo, na sua sociologia.
sequentemente fornece-lhcs uma maior soma de expe-
riências úteis, a s e g u r a n ç a da sua progenitura e do
seu progresso intelectual. D a í se deduz que as espé-
cies animais que melhor praticam o apoio m ú t u o n ã o
só sobrevivem, na luta pela e x i s t ê n c i a , mais facil-
mente do que as outras, como ocupam uma posição
mais elevada, cada uma em sua respectiva classe, —
insectos, aves, m a m í f e r o s , — pela manifesta superio-
ridade da sua estrutura física e da sua inteligência.
A o b s e r v a ç ã o desse facto fundamental da N a t u -
reza escapara inteiramente a Spencer a t é 1890. Acei-
tou, como princípio incontroverso que, porisso, n ã o
necessita de ser provado, isto é, como u m axioma, a
luta pela existência no seio de cada e s p é c i e : a luta
desesperada, como se o fora a ferro, a fogo e a san-
gue, por um pedaço de p ã o ou de carne. A natureza,
" t i n t a do sangue dos gladiadores", na e x p r e s s ã o do
poeta inglês Tennyson, — tal foi a imagem que do
inundo animal Spencer formulou. Só em 1890. em u m
artigo da Nineteenth Century, é que o eminente filó-
sofo b r i t â n i c o c o m e ç o u a compreender, a t é certo pon-
to, a i m p o r t â n c i a do apoio m ú t u o , ou melhor, do senti-
mento de simpatia recíproca, no mundo animal e co-
gitou em recolher os dados precisos e as observa-
ções correlatas que amplamente confirmavam o p r i n -
O A N A R Q U I S M O K. A t I Í . N C I A MOI.I.MNA 71

lações de amizade com o célebre fisiologista iiiglèn


George Lewes e sua inteligente companheira, a au
tora de Felix Holt e Adam Bede e outros r o m a a o f l
de c a r á c t e r radical escritos sob o p s e u d ó n i m o de
George Eliot. Esta mulher n o t á v e l , a quem a hq>o-
VII crisia inglesa nunca perdoou o haver abertamente des-
posado Lewes sem a menor i n t e r f e r ê n c i a da Igreja ou
do Estado, exerceu sobre Spencer uma profunda i n -
Herbert Spencer e a sua filosofia sintética fluência.
Foi nessa época, — 1850, — que Spencer escre-
Herbert Spencer, nascido em 1820 e falecido em veu a sua melhor obra de sociologia, A Estática So-
Dezembro de 1903, era do n ú m e r o daquele grupo b r i - cisd (Social Statics). ou especificação e análise das
lhante de sábios a que na Inglaterra pertenciam Dar- condições essenciais à felicidade humana. NêsiC tem-
win, L y e l l , Stuart M i l l , Bain, Huxley, e t c , que t ã o po o autor n ã o nutria o respeito mesquinho pela pro-
poderosamente contribuiu, no p e r í o d o de 1860-1870, priedade burguesa e n ã o alimentava o desprezo pelos
vencidos na luta pela vida que se nota nas suas obras
para o maravilhoso despertar das ciências naturais e
posteriores. Naquela obra, em que se observa um
para o t r i u n f o do m é t o d o indutivo.
grande sopro de idealismo, pronunciava-se Spencer
Por o u t r o aspecto da sua personalidade, Spencer
decididamente pela n a c i o n a l i z a ç ã o do solo.
íilia-se ao partido dos radicais ingleses como o eram
Verdade é que Spencer jamais perfilhou o socia-
Carlyle, Ruskin, George E l i o t , os quais, por u m lado
lismo de Estado de Louis Blanc ou o colectivismo de
sob a influência de Robert Owen, dos p a r t i d á r i o s de
Vidal e de Pecqueur e de seus continuadores a l e m ã e s .
Fourier e de Saint-Simon e, por o u t r o , do radicalismo
J á anteriormente, em 1842, desenvolvera magistral
político dos "cartistas" ( 1 ) , i m p r i m i r a m u m c a r á c t e r mente as suas ideias anti-governamentais na obra a
radical, ligeiramente colorido de socialismo, ao mo- que dera o t í t u l o : A Esfera Própria do Governo.
vimento das ideias na Inglaterra durante a década de Nela reconhecia plenamente a ideia que o solo deve-
1860-1870. ria pertencer à n a ç ã o e na citada Estática Social, de
Spencer iniciou a sua vida pública como enge- sua autoria, deparamos expressivos passos em que se
nheiro dos caminhos de ferro, mais tarde como escri- sente a p r o p u g n a ç ã o do comunismo.
tor economista. N o p e r í o d o de 1848-1852 trava re- Anos depois fez uma r e v i s ã o dessa obra em que
atenuou a positividade desses passos. A-pesar-dessa
i\) _ C A R T I S M O — Foi um movimento liberal inglês modificação subsistiu-lhe sempre, a t é aos ú l t i m o l
do século X I X . caracterizado por certa dose de soc.al.smo anos de vida, a revolta contra os a ç a m b a r c a d o r e s do
- que reivindicava a elaboração de uma constitu.çao demo-
t solo, assim como contra toda a espécie de opies-..io
crática liberal para a Inglaterra. ^ T
e c o n ó m i c a , política, intelectual ou religiosa Proles
72 P E T E R K R O P O T K I N C) ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 7.}

tou sempre contra a política "sem p r i n c í p i o s " dos vida vegetal e animal, a psicologia, a vida das socie-
r e a c c i o n á r i o s . A quando da guerra contra os boers dades humanas, o desenvolvimento das suas ideias c
(1) n ã o hesitou em se pronunciar claramente contra do seu ideal m o r a l : um Tableau de la Nature
a a g r e s s ã o inglesa e ainda alguns meses antes da sua dro da Natureza), como idealizara fazer o b a r ã o de
morte se declarava e s t r é n u o inimigo do proteccionis- Holbach, que abrangesse, na sua í n t e g r a exposição,
mo preconizado pelo aventureiro político que foi todos os fenómenos naturais, desde o simples facto
Chamberlain (2). da queda de um corpo a t é ao complexo f e n ó m e n o do
sonho magnífico do poeta, — tudo compreendido co
* mo factos de ordem puramente material.
* * A p ó s essa tentativa. Auguste Comte. nos meados
do século X I X , retomara sobre seus ombros a tarefa
O serviço principal da obra de Spencer n ã o e s t á . imensa. Tentara elaborar uma filosofia positiva que
todavia, na sua Estática Social. E s t á na e l a b o r a ç ã o devesse resumir os factos essenciais dos nossos conhe-
da sua Filosofia Sintética, (cujo vasto programa pode cimentos sobre a Natureza, sem i n t e r v e n ç ã o alguma
ser examinado no i n t r ó i t o do primeiro volume da de deuses, de forças ocultas ou de termos metafísicos
obra. — First Principies, — Primeiros P r i n c í p i o s ) , a que outra cousa n ã o são mais do que referências ve-
qual, depois da obra de Comte, pode ser considerada tadas a forças sobrenaturais.
como a principal obra filosófica do século X I X . A filosofia positiva de Comte, ainda que protes-
Os filósofos do século X V I I I , sobretudo os enci- tem os críticos a l e m ã e s e ingleses que se imaginam
clopedistas, haviam j á tentado construir uma filoso- ou se pretendem isentos da sua poderosa influência,
fia s i n t é t i c a do Universo que fosse u m resumo de essa filosofia i m p r i m i u o seu cunho c a r a c t e r í s t i c o ao
tudo o que é essencial saber a respeito dos conheci- pensamento científico do século X I X . Provocou esse
mentos humanos acerca da Natureza e do h o m e m : e x t r a o r d i n á r i o movimento que foi o despertar das
sobre os planetas e as estrelas, as forças físicas e q u í - ciências naturais nos anos que v ã o de 1856-1862. co-
micas, — ou, digamos melhor, sobre os movimentos mo, em s í n t e s e , expusemos no c a p í t u l o V deste vo-
físicos e q u í m i c o s das moléculas, — os f e n ó m e n o s da lume. F o i ela t a m b é m que inspirou os trabalhos de
M i l l . Huxley, Lewes, Bain e tantos que, por brevida-
(1) — Antigos habitantes do Transvaal que formavam de, deixamos de citar, bem como sugeriu a Spencer
uma próspera República Sul-Africana cujo solo, possuidor a ideia de construir, por seu turno, a sua denominada
de ricas minas de ouro e diamantes, fora, porisso mesmo,
filosofia sintética, indicando-lhe õ m é t o d o a seguir
cubicado pela Inglaterra que moveu àquele Estado a mais
iníqua das guerras até conseguir, finalmente, desmembrá-lo para a sua e l a b o r a ç ã o .
e anexá-lo aos seus domínios cm 1900. Mas a filosofia de Comte. além do seu erro fun-
(2) — Joseph Chamberlain, célebre estadista inglês. (1836- damental sobre a q u e s t ã o da origem e evolução do
1914). um dos promotores do movimento imperialista da In- senso moral no homem, ao que j á a t r á s nos referi
glaterra.
N. do T. mos. oferecia ainda uma formidável lacuna. Comte
74 P E T E R K R O P O T K I N (> ANARQUISMO I : A CIÊNCIA MOHEKNA 75

n ã o era naturalista. A zoologia e a geologia eram cap. I l l desta obra) foi tal que essas ideias de L a -
lhe completamente estranhas. Atendo-se nestas ma- marck foram logo esquecidas e votadas ao mais com-
t é r i a s á s opiniões de Cuvier, negava a variabili- pleto ostracismo. Dominava e n t ã o a metafísica ale-
dade das espécies. Pela a d o p ç ã o dessas vistas esta- mã e, simultaneamente com o culto da realeza, rein-
va, evidentemente, impedido de conceber e aceitar a tegrava o deus hebreu que opera a seu a r b í t r i o a pa-
doutrina da evolução, do desenvolvimento contínuo, ragem dos sóis e que vela por que nenhum cabelo
como modernamente a compreendemos. caia sem a sua p e r m i s s ã o , e renovava o culto de uma
alma imortal do universo, parcela desse deus.
* Entrementes, a ideia de desenvolvimento natural,
de evolução, prosseguia denodadamente. Se o nosso
sistema p l a n e t á r i o , em que se compreende o nosso
J á em 1801 o grande naturalista Lamarck, adian- sol, s ã o o produto de um lento desenvolvimento, co-
tando-se ã s ideias emitidas por Buffon, afirmava ca- mo j á o haviam superabundantemente demonstrado
tegoricamente que as diferentes espécies de plantas e Laplace e K a n t , os conglomerados de m a t é r i a nebu-
animais que povoam hoje a superfície da terra se ha- losa que observamos no céu n ã o r e p r e s e n t a r ã o t a m -
viam desenvolvido progressivamente, que provinham b é m mundos em via de f o r m a ç ã o ? O universo n ã o
de outras espécies de plantas e animais as quais, sob será um mundo de sistemas solares sempre em Via
a influência do meio em que vegetavam, foram adqui- de evolução que n ã o teem c o m e ç o nem f i m . o r i g i n á -
rindo gradualmente novas e distintas formas. E m rios que são do infinito?
u m clima demasiado seco, em que a e v a p o r a ç ã o seja Se Buffon e Lamarck tinham já pressentido que
mui abundante, a película foliácea se t r a n s f o r m a r á ; as o leão, o tigre e a girafa se adaptavam excelentemen-
folhas d e s a p a r e c e r ã o a ponto de se tornarem espinhos te aos meios em que habitam é que esses animais
duros e secos. U m animal que fôr forçado a per- actuaram de modo tal que fizeram deles o que hoje
correr desertos i n t e r m i n á v e i s a d q u i r i r á pouco a pouco são. E, com efeito, os factos, nos p r i m ó r d i o s do século
p r o p o r ç õ e s de leveza e locomoção mais rápida do que findo, oriundos de diversas partes do globo, se acumu-
o animal que chafurdar toda a sua vida na vasa dos lavam por via das viagens l o n g í n q u a s de investigado-
p â n t a n o s . U m r a i n ú n c u l o que germinar em u m pra- res perspicazes que todos os dias traziam novas pro-
do coberto de á g u a o s t e n t a r á folhas diferentes do que vas em apoio daquela doutrina. A variabilidade das
vegetar em um prado seco. espécies tornava-se assim um facto comprovado. O
Tudo muda continuamente em a Natureza; as transformismo, ou, como melhor se queira, o desen-
formas n ã o são permanentes, as plantas e os animais volvimento contínuo, de novas espécies, impunha-se.
com que estamos familiarizados s ã o o produto de A o mesmo tempo, a geologia estabelecia irrefra
uma lenta a d a p t a ç ã o a condições que, por si, igual- gavelmente que milhares de séculos se haviam escoa-
mente mudaram a t r a v é s dos tempos. Todavia, a re- do antes que houvessem surgido sobre a terra os p r i -
a c ç ã o que tomou pé após a grande r e v o l u ç ã o (vide o meiros exemplares de peixes, em seguida os primei-
74 P E T E R K R O P O T K I N (> \.V\KnriSM.» i: \ II M I A \ | . . | . I K , \5

n ã o era naturalista. A zoologia e a geologia eram cap. I I I desta obra) foi tal que essas ideias de I .a
lhe completamente estranhas. Atendo-se nestas ma- marck foram logo esquecidas e votadas ao mais com-
t é r i a s á s opiniões de Cuvier, negava a variabili- pleto ostracismo. Dominava e n t ã o a metafísica ale-
dade das espécies. Pela a d o p ç ã o dessas vistas esta- mã e, simultaneamente com o culto da realeza, rein-
va, evidentemente, impedido de conceber e aceitar a tegrava o deus hebreu que opera a seu a r b í t r i o a pa-
doutrina da evolução, do desenvolvimento contínuo, ragem dos sóis e que vela por que nenhum cabelo
como modernamente a compreendemos. caia sem a sua p e r m i s s ã o , e renovava o culto de uma
alma i m o r t a l do universo, parcela desse deus.
* Entrementes, a ideia de desenvolvimento natural,
de evolução, prosseguia denodadamente. Se o nosso
sistema p l a n e t á r i o , em que se compreende o nosso
J á em 1801 o grande naturalista Lamarck, adian- sol, s ã o o produto de u m lento desenvolvimento, co-
tando-se à s ideias emitidas por Buffon, afirmava ca- mo j á o haviam superabundantemente demonstrado
tegoricamente que as diferentes espécies de plantas e Laplace e K a n t , os conglomerados de m a t é r i a nebu-
animais que povoam hoje a superfície da terra se ha- losa que observamos no céu n ã o r e p r e s e n t a r ã o t a m -
viam desenvolvido progressivamente, que provinham b é m mundos em via de f o r m a ç ã o ? O universo n ã o
de outras espécies de plantas e animais as quais, sob será um mundo de sistemas solares sempre em Via
a influência do meio em que vegetavam, foram adqui- de evolução que n ã o teem c o m e ç o nem f i m . o r i g i n á -
rindo gradualmente novas e distintas formas. E m rios que são do infinito?
um clima demasiado seco, em que a e v a p o r a ç ã o seja Se Buffon e Lamarck tinham já pressentido que
mui abundante, a película foliácea se t r a n s f o r m a r á ; as o leão, o tigre e a girafa se adaptavam excelentemen-
folhas d e s a p a r e c e r ã o a ponto de se tornarem espinhos te aos meios em que habitam é que esses animais
duros e secos. U m animal que fôr forçado a per- actuaram de modo tal que fizeram deles o que hoje
correr desertos i n t e r m i n á v e i s a d q u i r i r á pouco a pouco são. E, com efeito, os factos, nos p r i m ó r d i o s do século
p r o p o r ç õ e s de leveza e l o c o m o ç ã o mais rápida do que findo, oriundos de diversas partes do globo, se acumu-
o animal que chafurdar toda a sua vida na vasa dos lavam por via das viagens l o n g í n q u a s de investigado-
p â n t a n o s . U m r a i n ú n c u l o que germinar em u m pra- res perspicazes que todos os dias traziam novas pro-
do coberto de á g u a o s t e n t a r á folhas diferentes do que vas em apoio daquela doutrina. A variabilidade das
vegetar em um prado seco. espécies tornava-se assim um facto comprovado. O
Tudo muda continuamente em a Natureza; as transformismo, ou, como melhor se queira, o desen-
formas n ã o são permanentes, as plantas e os animais volvimento contínuo, de novas espécies, impunha-se.
com que estamos familiarizados s ã o o produto de A o mesmo tempo, a geologia estabelecia irrefra
uma lenta a d a p t a ç ã o a condições que, por si, igual- gavelmente que milhares de séculos se haviam escoa-
mente mudaram a t r a v é s dos tempos. Todavia, a re- do antes que houvessem surgido sobre a terra os p r i -
a c ç ã o que tomou pé após a grande r e v o l u ç ã o (vide o meiros exemplares de peixes, em seguida os primei-
76 P E T E R K R O P O T K I N () ANARQUISMO K A C M M I A M.H.J.UNA 77

ros reptis, depois os primeiros p á s s a r o s e os p r i m i t i - Spencer, como D a r w i n , n ã o obstante ser, sul. Q


vos m a m í f e r o s para chegar, finalmente, ao homem ( 1 ) . aspecto da s a ú d e , um " f r a c o " , conseguiu, submeteu
Essas ideias, na primeira fase do século r e c ê m - do-se rigorosamente a uma certa higiene física e men-
findo. tiveram larga a c e i t a ç ã o , só que nessa éj>oca n ã o tal, terminar o seu formidável trabalho.
se ousava p r o c l a m á - l a s claramente. Mesmo em 1840, Escreveu, com efeito, u m sistema de filos..n.i m
quando Chambers as e x p ô s sistematicamente na sua tética completo, que compreende, primeiramente, o
obra Vestiges de la Création, que, ao tempo, t ã o r u i - estudo das forças físicas e q u í m i c a s , seguidamente o
dosamente repercutiu, n ã o se aventurou a i m p r i m i r - estudo da actividade dos i n ú m e r o s sóis, em via de for-
Ihe o seu nome, ocultou t ã o cuidadosamente a sua m a ç ã o ou em via de dissociação, que povoam o uni-
identidade que, durante cerca de quarenta anos. n ã o verso, e, por-fim, trata da evolução do nosso sistema
se pôde descobrir quem era o autor daquele livro. solar e. em particular, do nosso planeta. Tudo isso
Porisso, quando os metafísicos nos falam hoje da forma a m a t é r i a do seu primeiro volume da colecção,
a t r i b u i ç ã o que d ã o a Hegel de haver descoberto, ou os Primeiros Princípios.
pelo menos popularizado, a ideia de mutação, de evo- Nos dois volumes seguintes, Princípios de Biolo-
lução, esses senhores provam somente que a história gia, trata da evolução dos seres vivos à superfície do
das ciências naturais lhes é absolutamente estranha, nosso globo t e r r á q u e o . E ' essa uma obra demasiado
e n ã o só a sua h i s t ó r i a como a t é o alfabeto inicial técnica em que Spencer, na esteira das linhas já i n -
dessas ciências e o m é t o d o adoptado no seu estudo. dicadas, ou pelo menos e s b o ç a d a s , pelo g é n i o incom-
A ideia de evolução impunha-se em todas as pro- p a r á v e l de Comte, introduziu muita m a t é r i a original
víncias do saber humano. Era, pois, uma necessida- e na qual mostrou como, pela acção das forças q u í -
de lógica aplicá-la à i n t e r p r e t a ç ã o , n ã o s ó de todo o micas, teria surgido a vida sobre a t e r r a ; como essa
sistema natural do mundo, como ao estudo das ins- vida se iniciou por pequenos conglomerados de célu-
tituições humanas, das religiões e das v á r i a s doutri- las microscópicas e como, ao depois, se desenvolveu
nas éticas. Cumpria, posto que mantendo a ideia gradualmente toda essa imensa variedade de plantas
m á t e r e da filosofia positiva de Auguste Comte, alar- e animais, desde os mais rudimentares a t é aos mais
gá-la de modo a e n q u a d r á - l a no conjunto de tudo que complexos ( 1 ) .
vive e se desenvolve sobre a superfície da terra. Nessa obra, Spencer, em parte, excedeu D a r w i n ;
Foi a essa obra que se consagrou Spencer e que se estava longe de possuir a soma de conhecimentos
vamos agora analisar sumariamente. que tinha D a r w i n e de ter aprofundado cada q u e s t ã o
* como só o grande naturalista o soube fazer, ofto é

(1) — Como resumo de uma parte dessa admii


(1) — Sobre as matérias em apreço, a que Kropotkine de Spencer, deve-sc compulsar o esplêndido manual <l< Ivd
sucintamente se refere, consulte o leitor estudioso as ines- Perrier, Les Colonies Animales, escrito em um i tilu
timáveis obras de E . Haeckel que podem ser encontradas em simples, claro e atractivo.
língua portuguesa e que já são numerosas. N. do T. N . .1.» \
78 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MOIUÍMNA />>

menos certo, por outro lado. que em alguns lances, senvolvimento gradual dos usos, c o s t u m o <• institui
Spencer emitiu vistas de conjunto mais largas e, q u i - ções da humanidade.
çá, mais justas, que escaparam à visão do seu gran- Finalmente, para remate da sua obra, nos deixou
de c o n t e m p o r â n e o e mestre. Spencer os Princípios de Ética, isto é, de Moral, em
Segundo a opinião de Spencer, as novas espécies duas partes, a Moral Evolucionista (1) e a Justiça,
de plantas e de animais t i r a m a sua origem primeira- dois volumes bastante conhecidos dos estudiosos.
mente, como já o dissera Lamarck, da influência d i - Eis. em rápida síntese, todo o sistema de filoso-
recta do meio ambiente sobre os indivíduos. A esse fia evolucionista do grande pensador do século X I X
f e n ó m e n o dava Spencer a d e n o m i n a ç ã o de adapta- que foi inegavelmente Herbert Spencer.
ção directa.
*
Secundariamente, as novas variações das e s p é -
cies, produzidas, umas pela seca, outras pela humida-
de, pelo calor, pelo g é n e r o de a l i m e n t a ç ã o , e t c , e t c ,
— se tais factores forem bastante activos para serem E m todo o seu conjunto, a filosofia de Spencer
ú t e i s na luta pela existência, p e r m i t i r ã o , sem dúvida, compreendendo a sua parte moral, — Princípios de
aos indivíduos, por eles afectados, serem os melhor Ética, — é absolutamente indemne de toda a influên-
adaptados ao meio ambiente e, portanto, sobrevive- cia cristã, o que é digno de ser notado.
rem e deixarem uma p r o g é n i e mais sã. Esta sobre- Efectivamente, quando se medita a série sobre
vivência dos "melhor adaptados", é o que D a r w i n tudo o que modernamente se tem escrito em m a t é r i a
chamava de selecção natural na luta pela existência de filosofia e, principalmente, sobre q u e s t õ e s de mo-
e que Spencer designava como a adaptação indirecta. l a l , que tanto se ressente da influência do cristianis-
Esta dupla origem das espécies é t a m b é m a maneira mo, é que se aprecia devidamente o serviço prestado
de ver que prevalece hoje na ciência. O p r ó p r i o Dar por Spencer à obra do pensamento moderno.
win a perfilhou imediatamente em sua inteireza. Antes dele, n i n g u é m pensara e ousara sequer dar-
A parte seguinte da filosofia de Spencer se con- nos u m sistema filosófico do universo em que se ex-
substancia nos seus Princípios de Psicologia, cm dois plicasse, por meios naturais, o aparecimento e a evo-
volumes, em que o autor se coloca inteiramente a lução dos organismos, do homem, das sociedades hu-
dentro do ponto de vista materialista, embora o ter- manas e das concepções morais, absolutamente fora
mo materialismo n ã o seja evocado na obra. Como dos decalques comuns, uma filosofia agnóstica, isto é,
Rain. p ô s Spencer definitivamente de lado o estudo n ã o - c r i s t ã . Para Spencer, o cristianismo é uma reli-
da psicologia, claborando-a em bases puramente ma-
terialistas. A quarta parte da sua grande obra no-la (1) — A citada obra existe já em versão portm
o título O Que é a Moral?, tradução magnífii i d< II
dá nos seus Princípios de Sociologia, em t r ê s volumes, Lobo, da edição francesa. Edição da Livraria dl I Él
em que s ã o estudados os fundamentos da ciência das tos & Comp., de Lisboa.
sociedades, baseada, como o previra Comte, no de- N. do T.
P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA M UNA
80 •I

g i ã o que vale o que as outras valem, com a mesma em resumos, sentimos entrar na posse de uma •••n
origem, vivendo nos mesmos temores e nutrindo as c e p ç ã o integral do universo, seja, do conjunto d.i u.i
mesmas a s p i r a ç õ e s das suas c o n g é n e r e s , que exerceu, tureza na qual não entra a m í n i m a parcela do que
certamente, uma imensa influência sobre a humani- quer que seja de misterioso, n ã o h á nela, em Ion. |Q
dade, mas que, no f i m de contas, representa para o gar para o sobrenatural.
filósofo um mero facto da h i s t ó r i a das sociedades h u - E m casos particulares podemos, talvez, divergir
manas, como o são, sob esse mesmo aspecto, as nos- da concepção spenceriana, mas, na sua generalidade,
sas concepções j u r í d i c a s e as i n s t i t u i ç õ e s sociais. u m ponto importante fica assente. E ' o podermos
E ' por esse prisma que Spencer, do cristianismo, adquirir uma ideia real, concreta, precisa, da maneira
estuda a sua o r i g e m e e v o l u ç ã o natural. Quando fala como vivem os mundos, os sistemas solares, os pla-
de moral, interessa-se muito mais pela origem e de- netas e esses m í s e r o s seres, t ã o pretenciosos, que se
senvolvimento de tal ou tal uso, de tal ou tal princípio chamam os homens, sem a i n t r o m i s s ã o de um "abso-
moral, do que pela pessoa dos fundadores desta ou l u t o " , de uma " s u b s t â n c i a " representada como um
daquela religião, deste ou daquele ensino ético, que " e s p í r i t o d i v i n o " , e x p r e s s õ e s rebuscadas estas, com-
êle coloca em segundo plano. pletamente desacreditadas, chatas e ocas, que con-
O que falta na obra de Spencer é o e s p í r i t o de trastam com os conceitos positivos da ciência mo-
ataque, o e s p í r i t o combativo. C o n s t r ó i , é certo, u m derna.
a d m i r á v e l sistema do universo, considerado como u m A respeito de poesia, Spencer, na verdade, n ã o se
resultado da a c ç ã o das forças físicas, sem, entretanto, eleva ao ponto de nos descrever g r a n d í l o q u a s e har-
de modo directo, atacar as velhas s u p e r s t i ç õ e s , — o moniosas vistas de conjunto. Confinando-se na ma-
que, naturalmente, nos haveria de contentar sobre- terialidade do fenómeno, Spencer n ã o vibra à exalta-
maneira, — que empacham os e s p í r i t o s e lhes impede ç ã o p o é t i c a que nos inspira, no seu maravilhoso es-
de aceitar satisfatoriamente o sistema. Spencer, é p e c t á c u l o , a c o n t e m p l a ç ã o do universo. E \s
facto, silencia o ataque que essas s u p e r s t i ç õ e s mere- de lamentar que para Spencer a poesia da Natureza,
ciam e se, acaso, as fere é somente de leve, apenas do Universo, n ã o exista.
com uma palavra de menosprezo. E m c o m p e n s a ç ã o êle nos faz compreender como,
exclusivamente pela acção das forças físicas e quími
cas, a vida apareceu em nosso planeta; como, ainda
* * por via dessas mesmas forças, as plantas mais sim-
ples i r r o m p e r m e como, por efeito de meandros com-
O estilo de Spencer é, em geral, á r d u o . Frequen- plicados, outras plantas de maior complexidade sur-
temente, as provas que aduz nem sempre conseguem giram.
convencer-nos, o que, aliás, D a r w i n j á notara. A l é m Tratando dessoutro ramo das ciências naturais
disso, sente-se, ao lê-lo, a ausência do poeta, do artis- que é o dos animais, Spencer nos m o s t r a r á ui
ta. Mas quando lemos as suas obras, ainda mesmo giu e se desenvolveu, como se foi aperfeiçoando, atra»
P E T E R K R O P O T K I N < > A.NARyriSMo I \I \ IA \ RN v rU
82

vés das idades a t é excedê-lo, para finalmente atingir Verdade é que Spencer não nos leva, na rxpo-u
0 homem. Êle nos fará como que pressentir o mo- ç ã o do seu sistema filosófico, a perceber c i a r a m . m .
tivo porque a evolução foi a t é aqui um progresso; a unidade da Natureza, n ã o nos faz sentir a belr/.a, a
porque l humanidade pode e deve marchar ovante poesia dessa i n t e r p r e t a ç ã o sintética do universo Pa
para fins, sempre mais elevados, enquanto essa evo- ra t a l , falta-lhe o g é n i o de Laplace. o sentimento p o é
l u ç ã o durar. tico de Humboldt. a beleza estilística que Elisée Re
clus possuía. Destas, e de outras qualidades mais. ca
* recia o filósofo b r i t â n i c o .
* * Se. entretanto, essas maravilhosas qualidades lhe
faltam, em troca nos inicia na c o m p r e e n s ã o do racio-
Nos seus Princípios de Sociologia, Spencer t r a ç a cínio naturalista, inteiramente liberto do ensino reli-
admiravelmente o perfil das instituições humanas, das gioso e escolástico, mediante o qual se tem procurado
c r e n ç a s , das ideias gerais, das civilizações, desde as indefinidamente procrastinar e paralisar nos seus sur-
mais rudimentares a t é à s mais complexas. Nas par- tos o e s p í r i t o humano.
ticularidades pode, — é certo, — ter-se equivocado,
engana-se mesmo na sua a p r e c i a ç ã o . A concepção *
que formulamos da e v o l u ç ã o das sociedades difere j á , * *
e muito, da sua.
Todavia, Spencer nos familiariza com o verda- O p r ó p r i o Spencer. — somos levados a inquirir.
deiro m é t o d o de i n t e r p r e t a ç ã o dos factos sociais, — — ter-se-ia, acaso, liberto desse peso morto, que é o
r» m é t o d o das ciências indutivas, — que consiste em ensino religioso e e s c o l á s t i c o ? Quase, sim; inteira-
achar a explicação de todos os fenómenos sociais em mente, não.
causas naturais, em primeiro logar as imediatas c mais E m cada ciência, quando levado o seu estudo a
simples de admitir, e n ã o nas forças sobrenaturais ou fundo, à s suas ú l t i m a s instâncias, chega-se, natural
em h i p ó t e s e s provindas de análises verbalísticas, pu- mente, a um extremo limite, que n ã o poderemos, em
ramente metafísicas. um dado momento, exceder. E'. precisamente, e i
Habituados ao manejo desse m é t o d o , vemos des- c o n t i n g ê n c i a que m a n t é m a ciência sempre juvenil, a
de logo que todas as instituições sociais, relações eco- torna sempre atraente. Que maravilhoso ê x t a s e n ã o
n ó m i c a s , l í n g u a s , religiões, música, ideias morais, produziu em n ó s , nos meados do século X I X , essas
poesia, e t c , se explicam pelas mesmas vias dos factos e x t r a o r d i n á r i a s descobertas realizadas no campo d i
naturais que explicam os movimentos solares e os astronomia, das ciências físicas, das ciências biológi-
dos enxames de m a t é r i a que circulam no e s p a ç o , as cas, da psicologia fisiológica! Que belo não loi.nn
cores do a r c o - í r i s e as das borboletas, as formas das por exemplo, os horizontes que, nessa época. « I I . M
flores e as dos animais, os h á b i t o s das formigas, dos ram à nossa visão quando os limites da « iem i.t, it<
elefantes e dos homens. e n t ã o verificados, se alargaram como mu ub i im< n
84 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA H5

te! Alargados, de-facto, sim, o foram nessa época, 300 metros por segundo e propagam-se de um modo
mas suprimidos, ou sequer afastados, n ã o , porque, t ã o preciso que é a t é possível s u b m e t ê - l a s ao cálculo
imediatamente aos transportes, novos limites se er- m a t e m á t i c o . J á de há muito que isto era sabido, mas
guiam, novos problemas a resolver surgiam de t o - o que se ignorava e n t ã o e veio a ser depois uma des-
dos os lados. coberta importante era que o calor, a luz e a p r ó p r i a
Continuamente a ciência recua os seus limites. electricidade se propagam absolutamente da mesma
Onde ela, h á vinte ou t r i n t a anos, se detinha, é hoje maneira que o som, somente com a diferença de ser
d o m í n i o conquistado; o limite, a t é e n t ã o imposto, o percurso com uma velocidade de 300.000 q u i l ó m e t r o s
recua. A p ó s a conquista de grandes progressos, a por segundo.
ciência detem-se novamente para proceder t\o O f e n ó m e n o explica-se: trata-se de m a t é r i a i n f i -
da totalidade dos conhecimentos adquiridos, para des- nitamente mais rarefeita que o ar a que entra em v i -
cortinar novos horizontes que se lhe antolham e i n - b r a ç ã o nos f e n ó m e n o s e l é c t r i c o s ; a electricidade se-
vestigar factos novos que lhe permitam tomar u m rá, portanto, devida à p r o d u ç ã o dessas vibrações, ab-
novo impulso e marchar na peugada de novas con- solutamente semelhantes às produzidas no ar pela
quistas. c a m p â n u l a sonora, as quais, como j á se disse, se p >
H á u m meio século apenas dizia-se: "eis u m feixe dem verificar por cálculos rigorosamente m a t e m á -
ticos.
de f e n ó m e n o s , — de a t r a c ç õ e s e r e p u l s õ e s . — que à
nossa o b s e r v a ç ã o apresentam qualquer cousa de co- E ' claro que isso n ã o constitui toda a ciência da
mum entre si. "Chamemos-lhcs " f e n ó m e n o s eléctri- electricidade: o ignoto nos circunda, penctra-nos por
cos", à falta de melhor e x p r e s s ã o , e denominemos todos os poros, mas a h i p ó t e s e levantada é j á uma
"electricidade" a sua causa produtora, qualquer que primeira a p r o x i m a ç ã o da positividade científica. Co-
seja, desconhecida no presente momento. E quando nhecida e sabida a primeira, breve chegaremos a uma
os impacientes interpelavam: "que é, afinal, a electri- segunda a p r o x i m a ç ã o , e depois a outras, com maior
cidade" ? t í n h a m o s a ombridade de lhes respondermos p r e c i s ã o e e x a c t i d ã o . E, enquanto se aguarda a últi-
que, a t a l respeito, no estado em que se encontram ma palavra, vamos j á podendo palestrar de um a ou-
as investigações concernentes, nada se sabia de posi- tro continente, sem neessidad de cabos submarinos ou
tivo. fios transmissores, recebemos e comunicamos mensa-
Hoje um passo avante foi dado. Desvendou-se gens de toda a espécie, em nossas casas e a t é a bordo
um ponto de s e m e l h a n ç a entre o som, o calor, a luz dos grandes t r a n s a t l â n t i c o s que sulcam as á g u a s
e a electricidade. De-facto, quando uma c a m p â n u l a oceânicas com uma velocidade incrível.
emite sons, produz ondas de ar, alternativamente "Mas, — interpelareis ainda outra vez, — o que
comprimido e rarefeito, que se seguem como se fos- é essa m a t é r i a que v i b r a " ? " N o momento actual,
sem vagas à superfície de um lago. nada sabemos a esse respeito que possa satisfazer a
No seu percurso a é r e o , essas vagas sonoras ca- nossa curiosidade: sabemos hoje tanto o que é essa
minham com uma velocidade, aproximadamente, de m a t é r i a vibrátil quanto s a b í a m o s há um século o que
O ANARQUISMO K A ClÉNCIa MOIU.MNA M7
86 P E T E R K R O P O T K I N

e contar!
era a electricidade e o calor", — tal seria a resposta
E ' tudo quanto a ciência nus poderá d i / . n rtirn.i
correcta. dessas especiosas i n d a g a ç õ e s .
E se insistirdes na i n d a g a ç ã o : "daqui a cincoenta
anos estaremos, porventura, em condições de saber *
algo de positivo sobre a momentosa q u e s t ã o " ? nin- * *
g u é m vos p o d e r á , no momento actual, afirmar nada
de certo, de positivo.
Spencer, a respeito da q u e s t ã o suscitada do limi
Tudo o que se vos poderá dizer é que, a respeito,
te dos nossos conhecimentos, excedeu-se e excedeu-se
um dia saberemos mais do que hoje.
muitíssimo.
E m abono do que acabamos de dizer basta citar
A f i r m a êle enfaticamente que, para a l é m de um
o estudo dos gazes recentemente descobertos, — o
certo limite, depara-se-nos, n ã o o desconhecido a que
á r g o n e o néon, — cujos á t o m o s se movimentam em
já nos referimos, que seria presumivelmente conhe-
vibrações t ã o r á p i d a s que é extremamente difícil fa-
cido num certo lapso de tempo, em cem anos, por
zê-los entrar em quaisquer c o m b i n a ç õ e s q u í m i c a s , o
exemplo, mas o incognoscível, isto é, o que jamais
que sugeriu a Mendéléeff a ideia de n ã o ser o é t e r se-
poderá ser conhecido pela nossa inteligência. A i
n ã o m a t é r i a em v i b r a ç õ e s mais r á p i d a s do que os c i -
Frederic Harrisson, um positivista inglês, judiei" i
tados gazes. — t ã o r á p i d a s que é impossível combi-
mente ponderou o seguinte, que consideramos abso-
ná-los em qualquer o p e r a ç ã o química, — cujos á t o -
lutamente j u s t o : "o que é curioso é pretender Spen-
mos se transportam livremente nos espaços interste-
cer conhecer intimamente esse desconhecido, e tanto
lares, no meio dos á t o m o s condensados de que s ã o
o pretendeu conhecer que dele faz u m incognoscível
c o n s t i t u í d o s os sóis e os planetas com as massas de
de criação exclusivamente sua, afirmando categórica
gases e de poeiras de m a t é r i a que os circundam.
mente ponderou o seguinte, que consideramos abso-
À vista disto como se poderia predizer, em 1860,
Com efeito, para afirmar que esse " a l é m ' " da
que, ao finalizar do século passado, l a n ç a r í a m o s v i -
ciência de hoje é u m incognoscível, é preciso i I
b r a ç õ e s eléctricas de tal espécie que nos seria per-
muito seguro que tal difira essencialmente de tudo
mitido comunicar entre a Irlanda e a capital da A m é -
quanto a t é agora temos aprendido a conhecer. Mas,
rica, quando mal s a b í a m o s , ou melhor, i g n o r á v a m o s ,
em sua simplicidade, isso é pretender saber imensa-
que a electricidade é constituída por vibrações a n á l o -
mente mais do que esse desconhecido possa encerrar.
gas à s vibrações luminosas?
E ' afirmar gratuitamente que esse incognoscível
Ora, pois, tratemos de ensinar menos tolices nas
difere de tal modo de todos os f e n ó m e n o s mecânicos,
nossas escolas e universidades e procuremos antes en-
q u í m i c o s , intelectuais e emocionais, de que j;i .111*.i
sinar, com maior profundeza, as ciências naturais de
cousa sabemos, que jamais poderá ser êle cataloe.nl'•
modo a desenvolver nos e s p í r i t o s juvenis a a u d á c i a
sob qualquer das rubricas citadas. Equivale n afir-
para novas concepções, — audácia sempre é do que
mar porque "de tal m a t é r i a nada sabemos" Iitit
se carece, — c quem viver a t é lá muito t e r á que ver
88 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MOUKMNA ttJ

que " n ã o sabemos o bastante para afirmar que tal e tudo o confirma, pelo c o n t r á r i o , que n ã o há nada c m
tal cousa n ã o se assemelhe, nem mediata nem imedia- a natureza que n ã o encontre o seu equivalente cm
tamente, a tudo que já sabemos!" nosso cérebro, parcela dessa mesma natureza, 00Ofr
Se, porventura, alguma cousa sabemos do univer posta, por toda a parte, dos mesmos elemento ílll
so, da sua existência passada, das leis do seu desen- cos e químicos. Nada h á , pois, que deva ficar para
volvimento ; se somos capazes, em-fim, de estabecer sempre desconhecido, isto é, que n ã o possa encontrar
as relações existentes, digamos, entre as distâncias a sua natural e x p r e s s ã o em nosso c é r e b r o .
que nos separam da via láctea e as que nos afastam
dos movimentos solares, assim como das moléculas *
que vibram nesse e s p a ç o ; se, em resumo, a ciência do * *
universo é uma realidade positiva, é que, entre esse
universo e o nosso c é r e b r o , o nosso sistema nervoso Bem pesado o assunto aventado por Spencer, fa-
e a nossa o r g a n i z a ç ã o em geral, existe similaridade lar de Incognoscível é, afinal, regressar, sem talvez
de estrutura. nos apercebermos do facto, à s magnas palavras do
Se o c é r e b r o humano fosse composto de m a t é - v o c a b u l á r i o das religiões, e é porque n ã o faltam os
rias que diferissem essencialmente das que c o m p õ e m religiosos para explorar Fartamente o tema favorito
o universo dos sóis, das estrelas, das plantas e dos ani- do filósofo inglês que nos permitimos entrar em m i -
mais ; se as leis das v i b r a ç õ e s moleculares e das trans- n u d ê n c i a s um tanto á r d u a s na verdade.
f o r m a ç õ e s q u í m i c a s no nosso c é r e b r o e na espinal A d m i t i r o Incognoscível spenceriano é sempre
medula diferissem das que existem à superfície do supor a existência dc uma força, infinitamente supe-
nosso planeta; se, finalmente, a luz, ao percorrer o rior à s que actuam em nossa inteligência e que se ma-
espaço entre as estrelas e o nosso campo visual, obe- nifestam nas o p e r a ç õ e s do nosso c é r e b r o , quando é
decesse, nesse percurso, a leis diferentes das que re- certo que nada, absolutamente nada, nos autoriza a
gulam a actividade dos nossos olhos, dos nossos ner- supor a realidade da existência de tal força.
vos visuais e dos nossos* c é r e b r o s , — jamais poderia- Para o naturalista, o abstracto, o absoluto, o i n -
' mos saber algo de verdade sobre a c o n s t i t u i ç ã o desse cognoscível, é sempre a mesma h i p ó t e s e que Laplace
universo, das leis que o regem e das relações cons- dispensara na sua Exposição do Sistema do Mundo <
tantes que nele observamos. Ora, o c o n t r á r i o é que da qual n ã o carecemos para termos uma explicação
é a verdade: n ó s sabemos j á o bastante para predizer racional, n ã o só do universo em sua fisicidadc, mas
uma massa enorme de cousas, para saber que as mes- da p r ó p r i a vida no planeta que habitamos em todas
mas leis que nos permitem p r e d i z ê - l a s s ã o apenas re- as suas variadas m a n i f e s t a ç õ e s .
lações que o nosso c é r e b r o apreende. Esse Incognoscível n ã o passa, no f i m de o miau,
Eis a r a z ã o porque, n ã o somente h á grave con- de u m luxo filosófico, de uma superstrutura Inúl
t r a d i ç ã o em qualificar de incognoscível o que, por en- uma sobrevivência a n a c r ó n i c a , — tal <•. em úllim i inií
quanto, nos é simplesmente desconhecido, mas, o que lise, a verdade em sua inteira nudez.
90 P E T E R K R O P O T K I N () ANARQUISMO K A ( \hn>i UNA M

melhante a qualquer de nós nos rácio» H< i|.<


* *
nas nos convida a julgar os factos e a dcdii/u •• |
Exceptuado o erro j á apontado a respeito do I n - cípios como um direito comum.
cognoscível, a verdade, que n ã o podemos obscurecer, Nestes termos, enquanto Spencer expõe . .ipiecin
é que a filosofia de Spencer nos permite, na fidelida- os factos da física, da química, da biologia, e mesmo
de ao m é t o d o científico indutivo, ter uma noção, clara da psicologia como estudo das e m o ç õ e s , do modo de
e racional, de toda a série de f e n ó m e n o s físicos, q u í - sentir, de pensar e de agir, as conclusões do eminente
micos, biológicos, psíquicos, históricos e morais. pensador s ã o , quanto é dado observar, correctas.
Lendo-se as suas obras, veremos como todos es-
ses factos, t ã o variados e complexos, enquadrando-se *
em ciências t ã o diversas, se encadeiam em uma uni- * *
dade a d m i r á v e l ; como todos eles são m a n i f e s t a ç õ e s
de uma mesma série de forças físicas; como, final-
P o r é m , quando chega à Sociologia e à Moral (a
mente, são eles compreendidos e interpretados se se-
é t i c a ) o caso muda de figura.
guidos forem os mesmos m é t o d o s de i n v e s t i g a ç ã o e
Nas outras ciências, que n ã o a Sociologia, quan-
raciocínio, tratados como se fossem factos físicos.
do o autor procurava, de certeza encontrava. Mas,
Dessa justa a d m i r a ç ã o pela filosofia -mcnceriana no d o m í n i o daquelas duas outras ciências, — logo DAI
concluir-se-á, porventura, que todos, absolutamente primeiras linhas se sente o sopro do seu personalismo,
todos, os julgamentos e apreciações de Spencer este-
— vê-se que tem ideias preconcebidas, vistas inteira-
jam conformes com o m é t o d o adoptado, portanto, jus-
mente pessoais, que procura i m p o r : as ideias do ra-
tos, verdadeiros? que o seu genial autor tenha sem-
dicalismo b u r g u ê s que desenvolvera, desde 1850, na
pre perfeitamente aplicado esse m é t o d o ? Certamente
sua E S T Á T I C A S O C I A L , muito antes de haver come-
que n ã o . Que seja uma obra de Spencer ou de qual-
çado a e l a b o r a ç ã o do seu sistema de filosofia da Na-
quer o u t r o pensador, é a n ó s , seus leitores e admira-
tureza. Mesmo depois, em edições posteriores, i < v 1
dores, no uso da nossa r a z ã o , que compete verificar
sou as ideias e n t ã o expendidas e o fez em um sentido
se o autor tira conclusões justas, se, nas suas a n á l i -
ainda mais estreitamente b u r g u ê s .
ses, permanece sempre fiel ao m é t o d o seguido.
Admite-se, naturalmente, que um autor tenha, ao
E ' no exame dos factos que o m é t o d o científico iniciar u m estudo científico, qualquer suposição sua,
aparece sob o seu melhor aspecto e faz valer a sua i m - — uma h i p ó t e s e prévia que tenta verificar, quer paia
p o r t â n c i a . F o r ç a o autor a expor os factos e as de- provar a sua justeza, quer para a rejeitar. Pode acon-
duções de maneira tal que facilmente podemos, por tecer a t é que nas ciências naturais esse AUtol hl gUfl
1

nós mesmos, ajuizar da sua justeza, poisque o autor I apaixonar-se pela sua hipótese em detrimento >\ n
n ã o é um deus que fala a quem nos devamos subme- tras, quiçá melhor aparelhadas. Mas os leitores a l i
ter incondicionalmente. Por mais n o t á v e l que seja, lados s a b e r ã o muito bem ver os seu d< íeili
um autor qualquer é um homem como u m de n ó s , se- se d e i x a r ã o engodar.
90 P E T E R K R O P O T K I N () ANARQUISMO E A ( i i \ < i \OOI'.MNA '»|

melhante a qualquer de n ó s nos r a c i o c í n i o s ; élc ape-


* *
nas nos convida a julgar os factos e a deduzir O N pnn
Exceptuado o erro já apontado a respeito do I n - cípios como um direito comum.
cognoscível, a verdade, que n ã o podemos obscurecer, Nestes termos, enquanto Spencer expor . .ipuaia
é que a filosofia de Spencer nos permite, na fidelida- os factos da física, da química, da biologia. <• mesmo
de ao m é t o d o científico indutivo, ter uma noção, clara da psicologia como estudo das e m o ç õ e s , do modo de
e racional, de toda a série de f e n ó m e n o s físicos, q u í - sentir, de pensar e de agir, as conclusões do r i m n r n t e
micos, biológicos, psíquicos, históricos e morais. pensador são, quanto é dado observar, correctas.
Lendo-se as suas obras, veremos como todos es-
ses factos, t ã o variados e complexos, enquadrando-se
em ciências t ã o diversas, se encadeiam em uma uni- * *
dade a d m i r á v e l ; como todos eles são m a n i f e s t a ç õ e s
de uma mesma série de forças físicas; como. final- P o r é m , quando chega à Sociologia e à Moral (a
mente, são eles compreendidos e interpretados se se- é t i c a ) o caso muda de figura.
guidos forem os mesmos m é t o d o s de i n v e s t i g a ç ã o e
Nas outras ciências, que n ã o a Sociologia, quan-
raciocínio, tratados como se fossem factos físicos.
do o autor procurava, de certeza encontrava. Mas.
Dessa justa a d m i r a ç ã o pela filosofia spenceriana no d o m í n i o daquelas duas outras ciências, — logo nas
concluir-se-á, porventura, que todos, absolutamente primeiras linhas se sente o sopro do seu personalismo,
todos, os julgamentos e apreciações de Spencer este- — vê-se que tem ideias preconcebidas, vistas inteira-
jam conformes com o m é t o d o adoptado, portanto, jus- mente pessoais, que procura i m p o r : as ideias do ra-
tos, verdadeiros? que o seu genial autor tenha sem- dicalismo b u r g u ê s que desenvolvera, desde 1850, na
pre perfeitamente aplicado esse m é t o d o ? Certamente sua E S T Á T I C A S O C I A L , muito antes de haver come
que n ã o . Que seja uma obra de Spencer ou de qual- çado a e l a b o r a ç ã o do seu sistema de filosofia da Na-
quer o u t r o pensador, é a n ó s , seus leitores e admira- tureza. Mesmo depois, em edições posteriores, f i v i
dores, no uso da nossa r a z ã o , que compete verificar sou as ideias e n t ã o expendidas e o fez em um sentido
se o autor tira conclusões justas, se, nas suas análi- ainda mais estreitamente b u r g u ê s .
ses, permanece sempre fiel ao m é t o d o seguido.
Admite-se. naturalmente, que um autor tenha, ao
E ' no exame dos factos que o m é t o d o científico iniciar um estudo científico, qualquer suposição sua,
aparece sob o seu melhor aspecto e faz valer a sua i m - — uma hipótese prévia que tenta verificar, quer paia
portância. F o r ç a o autor a expor os factos e as de- provar a sua justeza, quer para a rejeitar. Pode a< on
d u ç õ e s de maneira tal que facilmente podemos, por tecer a t é que nas ciências naturais esse autoi • I H r.ur
nós mesmos, ajuizar da sua justeza, poisque o autor ? apaixonar-se pela sua hipótese em detrimento d< mi
n ã o é um deus que fala a quem nos devamos subme- tras, quiçá melhor aparelhadas. Mas os I m n
ter incondicionalmente. Por mais n o t á v e l que seja, lados s a b e r ã o muito bem ver os seus d r l uAo
um autor qualquer é um homem como um de nós, se- se d e i x a r ã o engodar.
92 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODKHNA

Onde esse defeito, p o r é m , se torna evidente, é cobres ao vosso salário semanal". Spencei perfilha
quando se trata do estudo da vida das sociedades. este modo de ver, e o princípio da pretendida "Ju '»
Nesses d o m í n i o s , com efeito, cada um, dispondo-se r e t r i b u i ç ã o " constitui para êle uma lei da natuir/.i
ao estudo, tem já um tal ou qual ideal de sociedade No que respeita à s c r i a n ç a s , aos jovem., anie-, de
que pretende defender. N o decurso de sua vida, nas haverem adquirido a faculdade de se proverem a u
e x p e r i ê n c i a s por que passou, êle adquiriu uma certa p r ó p r i o s , a r e t r i b u i ç ã o , em uma espécie amm.il, uao
maneira de julgar os privilégios de fortuna e de nas- será, diz o nosso autor, proporcional aos esforços cm
cimento, que êle aceita ou repudia; possui u m e s t a l ã o pregados o que, acha êle, é inevitável. Mas "entre
para medir as diversas divisões da sociedade; é aciona - adultos deverá existir conformidade à lei segundo •>
do por m i l e uma influências do meio ambiente. E co- qual os benefícios auferidos s e r ã o proporcionais ao*
mo as ciências que t r a t a m dos vários f e n ó m e n o s so- m é r i t o s de cada u m e os m é r i t o s devendo ser calcula
ciais e s t ã o ainda na sua infância, — tendo sido Spen- dos pelo poder que cada um possuir de se subvencio
cer o primeiro, depois de Comte, a aplicar-lhes real- nar a si p r ó p r i o " .
mente u m m é t o d o científico, — é muito natural que No seu l i v r o Justiça escreve: "Tais são as leis
o nosso homem n ã o tenha sabido portar-se de modo da c o n s e r v a ç ã o das e s p é c i e s ; se admitimos que a pff
tal a sacudir inteiramente de si a influência das ideias s e r v a ç ã o de tal espécie seja desejável, aegue-ae, ittl
burguesas do meio em que vive. vitavelmente, a o b r i g a ç ã o de cada um se conformai a
Acontece, porisso, de c o n t í n u o , vermo-nos profun- essas leis que poderemos denominar, conforme o
damente chocados pelas c o n c l u s õ e s de Spencer em ma- sos, de s e m i - é t i c a s ou absolutamente é t i c a s " .
téria de sociologia. Quanto admiramos as suas ma- Hemos de concordar que toda essa linguagem, el
ravilhosas s u g e s t õ e s nos Princípios de Biologia, quan- vada da velha ideia de r e t r i b u i ç ã o , de lei, de obriga
to sentimos a estreiteza de suas vistas logo que se ç ã o , n ã o é mais a de um vero naturalista. N ã o é um
põe, por exemplo, a discretear à c ê r e a das relações observador da natureza que fala: é u m escre
entre o Trabalho e o Capital nas sociedades humanas formado em leis, em economia política, que nos |
moral.
* A explicação deste facto anormal reside no CO
* • nhecimento que Spencer, inegavelmente, tem do <>
cialismo. Êle o repudia afirmando que "st cada Uni
Assim, — para n ã o citarmos mais do que um fôr estritamente r e t r i b u í d o , conforme as suas obrai
exemplo, muito importante, aliás, — Spencer foi edn e os seus m é r i t o s , s o b r e v i v e r á a morte da
cado na ideia burguesa e religiosa da justa retribui- humanas". E para provar este princípio, — inal
ção, que se traduz na seguinte a t i t u d e : "se proceder vel segundo o seu modo de ver, — procui • dai lhe
des mal, p u n i r - v o s - ã o ; se fordes um engenheiro sa foros de lei da Natureza, o que o força, n c I<
gaz, aplicado aos trabalhos de vosso p a t r ã o ou chefe, de ideias, a abandonar o m é t o d o rigorosai rum
êle prontamente a c r e s c e n t a r á , de motu-próprio, un.s tífico. E, precisamente, por via dessa alilud. I. •
94 P K T | R K R O P O T K I N O AjNARQUISMO K A C l K N t i x MolM.MNA 'M

pírito pouco científica é que apontamos, de relance, se coadunarem esses ambientes ;m seu u n i . . I I . I I H I u u l
o profundo erro spenceriano. inglês, — e jamais soube interpretar d c v i d a m t l l t l 1

e s p í r i t o das instituições de povos n ã o p..li. ud<•


Eis porque, continuamente, deparamos cm M U I
* * Sociologia e em sua Ética a f i r m a ç õ e s ab olutamenti
falsas, quer se trate de esclarecer os h á b i t o s d l Anti
A moderna ciência das sociedades, — a Sociolo- guidade. quer se trate de soerguer o véu do ÍUtUrO
gia, — n ã o se satisfaz j á com expor, de certa ma-
neira, "as leis do e s p í r i t o " com que nos entretinham *
outrora os hegelianos. * *
Desde Comte, a Sociologia, assente em bases cien-
tíficas, estuda as diversas fases que a humanidade Se temos o direito de fazer a Spencer as c r i i i . 1
atravessou na sua t r a j e c t ó r i a evolutiva, c o m e ç a n d o que acabamos de formular, preciso é reconhecer, t o -
pelos selvagens da idade da pedra a t é chegar aos tem- davia, que as suas concepções sociológicas e éticas
pos modernos, e descobre assim uma massa de su- (moral s o c i e t á r i a ) excedem, ainda assim, em adian-
p e r v i v é n c i a s em nossas instituições modernas que da- tamento todas as que se c o n t ê e m nas teorias estatis-
tam ainda da idade da pedra. Dessas supervivências tas da sociedade, a t é hoje conhecidas, em que os es-
e s t ã o fortemente impregnadas todas as nossas insti- critores do campo b u r g u ê s são férteis.
tuições. — as nossas religiões, os nossos códigos, a Da sua profunda e sábia análise das i n s t i t u i ç õ e i
nossa conduta para com os mortos, as grandes festas sociais deduz-se que as sociedades civilizadas mar
anuais, as c e r i m ó n i a s habituais. cham. incontestavelmente, para uma completa liber-
E é estudando a evolução, o desenvolvimento gra- t a ç ã o de todas as superstruturas t e o c r á t i c a s , gover-
dual das instituições sociais e das s u p e r s t i ç õ e s popu- namentais e militares que entre n ó s subsistem a t é n>
lares, que se chega a compreender a r a z ã o do nosso presente.
desprezo pelos institutos legais, estatistas, rituais e Tanto quanto é dado prever o futuro pelo estudo
outros, assim como a perscrutar o desenvolvimento do passado, as sociedades humanas, — di-lo Spencer.
futuro das nossas sociedades. — marcham, sem dúvida, para uma condição na qual
Spencer, é certo, fez esse trabalho, mas com uma o e s p í r i t o batalhador e agressivo, bem como a estru-
total ausência de c o m p r e e n s ã o das instituições dife- tura militar que caracteriza a infância das nossas
rentes das existentes na Inglaterra, i n c o m p r e e n s ã o sociedades, c e d e r ã o o logar ao e s p í r i t o industrial e a
essa que, — é notável, — caracteriza a maioria do uma o r g a n i z a ç ã o baseada na reciprocidade e na co-
povo b r i t â n i c o . Spencer. valha a verdade, n ã o co- operação voluntárias.
nhecia suficientemente os homens; n ã o viajou, — Esse e s p í r i t o novo, que desde já se avizinha, A
apenas uma vez foi aos Estados Unidos e outra à medida que as arcaicas instituições g u e r i e i r a » , 1
Itália em cujos países se sentia contrafeito por n ã o realeza, nobreza, e x é r c i t o . Estado, — forem di
P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 97

recendo por inúteis e nocivas, fará irradiar e engran- cer n ã o entende essas o r g a n i z a ç õ e s s o c i e t á r i a s , es-
decer as t e n d ê n c i a s altruisticas e c o m u n i t á r i a s , que pécie de companhias o u empresas compostas de acio-
são as c a r a c t e r í s t i c a s das sociedades modernas em nistas tirados do quarto Estado (1) que, actualmente,
marcha para o futuro. se chamam cooperativas. Spencer admite e compre-
E t ã o acentuadas são essas t e n d ê n c i a s , no que ende a c o n j u g a ç ã o de todos os esforços individuais em
Spencer pensa de acordo com os anarquistas, que a comunidade, quer para produzir, quer para consumir,
sociedade c h e g a r á , finalmente, a um estado no qual, p o r é m com inteira e x c l u s ã o das ideias que constituem
sem p r e s s ã o alguma exterior, em virtude de h á b i t o s a essência das sociedades cooperativas actuais, — de
sociais adquiridos, as acções humanas n ã o t e r ã o já por lucro c e x p l o r a ç ã o exercidas em favor ou detrimento
fim a e s c r a v i z a ç ã o de outrem, mas c o n t r i b u i r ã o , pelo dos membro, mie as c o m p õ e m . Pressente êle, em
c o n t r á r i o , para aumentar o bem-estar geral e ser- resumo, o (pie o s anarquistas (baniam de "meio am-
v i r ã o de garantia ampla rt independência de cada um. biente l i v r e " .
Postoque b u r g u ê s individualista empedernido, S e r á essa, diz ele, "uma socudadr na qual a vida
Spencer, em todo o caso, n ã o se estagna nessa fase individual será levada a maior e x p a n s ã o possível, com-
patível com a finalidade da vida em sociedades, que
de individualismo que constitui o ideal da burguesia
não será outra senão a de manter, na mais ampla es-
actual; êle enxerga perfeitamente o ideal da coope-
fera, a vida individual".
ração livre, — o que n ó s , anarquistas, denominamos
o livre acordo comunista, — estendendo-se a todos Nesse d i a p a s ã o , facilmente chegaria ao conceito
os ramos da actividade humana c conduzindo a so- anarquista do livre acordo comunista, cujo f i m é o
ciedade ao perfeito e í n t e g r o desenvolvimento da per- desenvolvimento, na sua maior e x t e n s ã o , da vida do
sonalidade humana, com todos os seus c a r a c t e r í s t i c o s indivíduo, — a mais larga individuação como se pro-
pessoais, individuais, em-fim, à individuação, na nunciava em oposição ao individualismo, — compre-
pressiva frase de Spencer. endendo por individuação o mais completo desenvol-
vimento de todas as faculdades do indivíduo, e n ã o
o individualismo e s t ú p i d o do b u r g u ê s que prega a de-
* * * cantada m á x i m a "cada u m por si e Deus por t o d o s " .
Só que. nessa concepção, como a u t ê n t i c o b u r g u ê s
Sendo a terra propriedade comum, e todo o ren- que era, Spencer distinguia a cada canto o espectro
dimento dela o r i g i n á r i o devendo beneficiar a socie- do " p r e g u i ç o s o " que se furtaria ao trabalho se a
dade e n ã o o indivíduo em si. n ã o h a v e r á necessidade, existência lhe ficasse assegurada em uma sociedade
— afirma-o Spencer, no que, evidentemente, se en- comunista; por toda a parte s ó via, na e x p r e s s ã o i n -
gana, — de alterar o regime da propriedade individual
nos domínios da indústria. B a s t a r á a c o o p e r a ç ã o i n - (1) — Entende-se por "quarto Estado" o proletariado
universal organizado em ditadura como sói dar-se no regime
teligente, pensa o nosso autor. soviético da Rússia.
Cumpre somente notar que, por c o o p e r a ç ã o , Spen- N. do T.
98 P E T E R K R O P O T K I N • ' ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 99

glesa, o " l o a f e r " (o "sem eira nem b e i r a " ) que t i r i t a mais burguesas para delas tirar o verdadeiro motivo
à s portas dos cafés e das sociedades elegantes esprei- que as inspira e verificaremos que esse motivo será
tando o momento azado e m que o b u r g u ê s trepa na sempre o insopitável ódio a toda a imposição ã liber-
sua carrinhola para lhe merecer, qual amouco, a d á - dade integral do homem, o desejo de provocar a maior
diva de uns t o s t õ e s ! soma de iniciativa, de liberdade e de confiança nas
Lidas em u m pensador da força de Spencer estas forças do indivíduo. Corrija-sc e complete-se o siste-
r e f e r ê n c i a s , tal o espanto que elas nos causam, que ma de Spencer onde êle n ã o aprofundou bastante as
a dúvida nos assalta sobre a sua l e g í t i m a a u t o r i a ! consequências do capitalismo moderno; procure-se i n -
Efectivamente, deparando-se-nos semelhantes contra- dagar <• verdadeiro motivo do seu respeito pela pro-
sensos em u m homem inegavelmente inteligente, hesi- priodade . veremos «pie >erá sempre, como já o era
ta-se em atribuir tais dislates a respeito dos rotos e es- em Proudhon, o ódio ao Estado e o receio, mui jus
farrapados ao famoso filósofo que, em p á g i n a s ad- tiíicado, da sua s u b s t i t u i r ã o pelo sistema de convento
m i r á v e i s , recalcitra, com r a z ã o , contra a e d u c a ç ã o ou de caserna. F a ç a m - s e essas c o r r e c ç õ e s , — e a sua
gratuita como protesta contra a o b r i g a ç ã o de doar adopção p r o v a r á , mais uma vez. a beleza e a vanta
um exemplar das suas obras à biblioteca do British gem que resultam da aplicação do m é t o d o indutivo,
Museum! único científico, e teremos elimando os erros em que
De-permeio com as mais altas concepções, o es- Spencer caiu, corrigidos assim os defeitos secundá-
p í r i t o tacanho do b u r g u ê s lUrge nele inopinadamen- rios do seu sistema filosófico e sociológico sem lhe a l -
te, e nisso Spencer mostra um t r a ç o comum com terar a estrutura essencial, todo o seu belo conjunto,
Fourier que, — a t é este! — embora homem de g é n i o , o que, feito, encontraremos em Spencer um sistema
tinha, por vezes, retrocessos inexplicáveis, só admis- social em todos os pontos imensamente semelhante
síveis no e s p í r i t o de u m tendeiro, por entre as mais ao que preconizam os anarquistas-comunistas.
arrojadas ideias. Sc os anarquistas-individualistas da escola de
No receio que teem dos chamados "ociosos", pre- Tucker, — que adiante estudaremos. — aceitaram a
ciso é n ã o esquecer os colectivistas que n u t r e m os doutrina spenceriana tal qual exposta, com o seu fe-
mesmos preconceitos, somente velados por u m m i s t i - roz individualismo b u r g u ê s pela propriedade indus-
fório de palavras e f ó r m u l a s ocas e enfadonhas, que, trial e o seu extremado zelo pelo principio da " r e t r i -
porisso mesmo, nada expressam. b u i ç ã o " burguesa, é que os p a r t i d á r i o s daquela esco-
la preferiram mais a letra do sistema do que o espíri-
*
to que nele se c o n t ê m e que cumpre ver.
* * E, entretanto, nada mais preciso era que praticar
as c o r r e c ç õ e s apontadas e a que o próprio Spencer.
Moditiquem-se, p o r é m , as c o n c l u s õ e s de Spencer pela sua atitude, nos autoriza, introduzindo o MU li
onde êle peca demasiado contra o que nos ensina o tema de cooperativismo v o l u n t á r i o e perfilhando 01
estudo do homem. Escalpelem-se as suas a n o t a ç õ e s seus ataques à a p r o p r i a ç ã o individual do solo, para
98 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 99

glesa, o " l o a f e r " (o "sem eira nem b e i r a " ) que t i r i t a mais burguesas para delas t i r a r o verdadeiro motivo
às portas dos cafés e das sociedades elegantes esprei- que as inspira e verificaremos que esse motivo s e r á
tando o momento azado e m que o b u r g u ê s trepa na sempre o insopitável ódio a toda a imposição a\-
sua carrinhola para lhe merecer, qual amouco, a d á - dade integral do homem, o desejo de provocar a maior
diva de uns t o s t õ e s ! soma de iniciativa, de liberdade e de confiança nas
Lidas em um pensador da força de Spencer estas forças do indivíduo. Corrija-se e complete-se o siste-
referências, tal o espanto que elas nos causam, que ma de Spencer (>nde êle n ã o aprofundou bastante as
a dúvida nos assalta sobre a sua l e g í t i m a a u t o r i a ! consequências do capitalismo moderno; procurc-se i n -
Efectivamente, deparando-se-nos semelhantes contra- dagar o verdadeiro motivo do seu respeito pela pro-
sensos em u m homem inegavelmente inteligente, hesi- priedade e veremos que será sempre, como já o era
ta-se em atribuir tais dislates a respeito dos rotos e es- cm Proudhon, o ódio ao Estado e o receio, mui jus
farrapados ao famoso filósofo que, em p á g i n a s ad- tificado, da sua s u b s t i t u i ç ã o pelo sistema de convento
m i r á v e i s , recalcitra, com r a z ã o , contra a e d u c a ç ã o ou de caserna. F a ç a m - s e essas c o r r e c ç õ e s , — e a sua
gratuita como protesta contra a o b r i g a ç ã o de doar a d o p ç ã o p r o v a r á , mais uma vez, a beleza <• a vanta-
um exemplar das suas obras à biblioteca do British gem que resultam da aplicação do m é t o d o indutivo,
Museum! único científico, e teremos elimando os erros em que
De-permeio com as mais altas concepções, o es- Spencer caiu. corrigidos assim os defeitos secundá-
p í r i t o tacanho do b u r g u ê s surge nele inopinadamen- rios do seu sistema filosófico e sociológico sem lhe a l -
te, e nisso Spencer mostra um t r a ç o comum com terar a estrutura essencial, todo o seu belo conjunto,
Fourier que, — a t é este I — embora homem de g é n i o , o que, feito, encontraremos em Spencer um sistema
tinha, por vezes, retrocessos inexplicáveis, só admis- social em todos os pontos imensamente semelhante
síveis no e s p í r i t o de u m tendeiro, por entre as mais ao que preconizam os anarquistas-comunistas.
arrojadas ideias. Se os anarquistas-individualistas da escola de
No receio que teem dos chamados "ociosos", pre- Tucker, — que adiante estudaremos. — aceitaram a
ciso é n ã o esquecer os colectivistas que n u t r e m os doutrina spenceriana tal qual exposta, com o seu fe-
mesmos preconceitos, somente velados por u m m i s t i - roz individualismo b u r g u ê s pela propriedade indus-
fório de palavras e f ó r m u l a s ocas e enfadonhas, que, trial .e o seu extremado zelo pelo princípio da " r e t r i -
porisso mesmo, nada expressam. b u i ç ã o " burguesa, é que os p a r t i d á r i o s daquela esco-
la preferiram mais a letra do sistema do que o espíri-
to que nele se c o n t ê m e que cumpre ver.
* *
E, entretanto, nada mais preciso era que praticar
as c o r r e c ç õ e s apontadas e a que o próprio Spencer,
Modifiquem-se, porem, as c o n c l u s õ e s de Spencer pela sua atitude, nos autoriza, introduzindo o ieu i
onde êle peca demasiado contra o que nos ensina o tema de cooperativismo v o l u n t á r i o e perfilhando os
estudo do homem. Escalpelem-se as suas a n o t a ç õ e s seus ataques à a p r o p r i a ç ã o individual do solo, para
100 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO R A CIÊNCIA MODERNA 101

se chegar à s nossas conclusões comunistas-anarquis- sociais precedentes, com receio de recrutar revolta-
tas, as quais, alias, foram confessadas, n ã o sem pe- dos, haviam combatido precisamente esse e s p í r i t o de
sar, pelos grandes periódicos ingleses em seus artigos independência.
necrológicos por ocasião do passamento do ilustre Ainda nesse terreno, é de lamentar (pie Spencer
pensador. ficasse a meio caminho, com proscrição, aliás, do seu
Spencer, — assim o disseram esses periodistas, m é t o d o . Ousadamente, de começo, fazia uma afirma-
— apro,ximava-se em demasia do comunismo-anar- ção revolucionária, mas logo se apressava a atenuar-
quista. Essa é, incontestavelmente, a r a z ã o porque lhe os efeitos oferecendo imediatamente um com-
êle era t ã o cordialmente detestado em toda a Ingla- promisso. E uma vez lendo enveredado por esse ca-
terra ! minho, via se forcado, naturalmente, a permittir uma
c o n c e s s ã o , depois outra e, finalmente, todas, de mo-
* do que. por último, comprometia toda a aia grande
* * obra.
Depois de haver dado a uma das suas melhores
A t é ao presente, em todas as teorias da socieda- obras o t í t u l o insolente, — O Indivíduo contra o Es-
de que filósofos e sociólogos qps serviram, o indiví- tado, — que é uma das partes da sua Sociologia, êle
duo se encontrava sacrificado ao Estado. Comte, de- admite o papel negativo, conservador, portanto, do
pois de K a n t e outros, padecia do mesmo erro c, so- Estado. Na sua opinião, ao Estado n ã o cabe o empre-
bre o tema, os metafísicos a l e m ã e s r e f o r ç a v a m a sua go dos dinheiros públicos, como n ã o é da sua com-
feroz a d o r a ç ã o pelo Estado. petência criar bibliotecas nacionais, nem é da sua a l -
Spencer foi o primeiro que no seu sistema, pelo çada a fundação de universidades. — s ã o cousas em
lado filosófico, se libertou de toda a s u p e r s t i ç ã o reli- que n ã o tem que intrometer-se. Velará, p o r é m , pela
giosa, de toda a superstrutura metafísica e, pelo lado p r o t e c ç ã o dos indivíduos, de modo a garantir direitos
sociológico, afirmou, com altanaria nunca vista, a so- r e c í p r o c o s , inclusive os direitos de propriedade.
berania do indivíduo. "Como finalidade da e v o l u ç ã o Ora, como para tal são precisas leis, n e c e s s á r i o
humana", (estilo hegeliano) o Estado n ã o tem a p r i - se tornam os seus representantes, j u í z e s para as ex-
mazia, nem sequer é objecto de c o g i t a ç õ e s . Contra- plicar, universidades para ensinar a arte de as fabri-
riamente àquela tese, é o indivíduo que deve ser co- car e de as interpretar. E, assim, Spencer, de lança
locado em primeiro plano e a êle, — e só a êle, — em riste, chega, aos poucos, a reconstituir o que havia
cumpre escolher a sociedade que quiser, determinar, primeiramente combatido com certo denodo, — o Es-
a t é onde queira, o dar-se a essa sociedade. tado nas suas mais d e t e s t á v e i s funções, a t é à pri Ko
E ' a aviltante s u b m i s s ã o ao rebanho que é neces- e à guilhotina a p e r f e i ç o a d a s .
sário combater no homem, ensina-nos Spencer, e n ã o Nesse ponto, especialmente careceu de audái l
o seu e s p í r i t o de independência, que é n e c e s s á r i o cul- O tal "justo m e i o " o conteve. Esse retraimento
tivar, enquanto todas as religiões e todos os sistemas podemos atribuir, talvez, à carência de uma inaioi
102 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 103

ma de conhecimentos especializados, poisque a sua Por diversas causas, algumas das quais expuze-
filosofia fora elaborada em uma época em que o seu' mos, essa filosofia, nas suas v á r i a s aplicações, foi
saber era restrito, e mais o era ainda pelo facto, que truncada m ú l t i p l a s vezes. Outras causas, como a apli-
o acabrunhava, de n ã o conhecer outras l í n g u a s a l é m c a ç ã o do m é t o d o vicioso das analogias, e, sobretudo,
do seu inglês. Se essa n ã o é a explicação da sua falta a e x a g e r a ç ã o do conceito da luta pela e x i s t ê n c i a entre
de audácia, e n t ã o devemos p r o c u r á - l a em sua natu- indivíduos da mesma espécie e a pouca a t e n ç ã o dada
reza pessoal e na sua e d u c a ç ã o , algo tacanha nos seus a u m outro factor activo da natureza, — O apoio
p r i m ó r d i o s , que n ã o lhe permitiram alçar o voo a m ú t u o , — foram enumeradas, ainda que sucintamente,
maiores altitudes que seriam de esperar de u m filó- n c la ii"' sa ci it i< a
sofo da sua envergadura excepcional. S e n ã o nisso, São inaceitáveis todas as conclusões de Spencer.
deveremos achar a chave do enigma na influência que E ' dever mesmo corrigii a muitas «pie a sua Socio-
sobre êle exerceu o meio ambiente inglês? O "centro logia COIltém, I "ii I.v um csciittu iii <> Mikhai
esquerdo" em vez da " M o n t a n h a " ? ( 1 ) . lovsky, sobre um pontu importante, a teoria do
* • progresso.
* * E m certos pontos da sua grande obra, devemos
permanecer fieis ao m é t o d o científico, noutros deseni
t>araçarmo-nos de certos preconceitos e ficções; e ain-
A i temos, em breve esboço, os t r a ç o s c a r a c t e r í s - da outros há em que um estudo mais profundo de
ticos da pessoa e da obra de Spencer. determinado grupo de factos se impõe.
Criar unia filosofia s i n t é t i c a que ofereça um re- Mas, acima e afora de tudo isso, u m facto da
sumo de todo o conjunto dos conhecimentos huma- mais alta i m p o r t â n c i a se t i r a de toda a obra de Spen-
nos e que dê uma explicação material de todos os fa- cer e êle superabundantemente o p r o v o u : é que do
ctos da natureza, bem como da vida intelectual do momento em que se procura elaborar uma filosofia
homem e da vida das sociedades, é, de-certo, uma sintética do universo que abranja a vida das socie-
obra imensa. Spencer, em grande parte, a realizou. dades, — Sociologia, — chega-se necessariamente à
Postoque reconhecendo o notável serviço que êle conclusão, n ã o só da n e g a ç ã o absoluta de uma força
prestou ao pensamento moderno, seria um funesto governadora desse universo, n ã o só da n e g a ç ã o de
erro determo-nos na a d m i r a ç ã o por essa obra a pon- uma alma imortal ou de uma força vital específica,
to de julgar que ela contenha realmente os ú l t i m o s mas chega-se igualmente à conclusão da necessidade
resultados das ciências e da aplicação do m é t o d o i n - de derribar essoutro fetiche que se chama o Estado,
dutivo ao homem, individual e socialmente conside- — o governo do homem pelo homem. E m sínt< <•:
rado. A ideia fundamental da filosofia de Spencer é chega-se, inevitavelmente, no que concerne ao fui m o
mais do que justa. das sociedades civilizadas, a prever o regime social
da A N A R Q U I A .
(1) — Vide a nota a pag. 20.
104 P E T E R K R O P O T K I N

Nesse sentido, H e r b e r t Spencer contribuiu, cer-


tamente, mais do que nenhum outro pensador, para
que a filosofia do século X X em que e n t r á m o s se
torne, de-facto e de direito, eminentemente anar-
quista.
VIII

A função da Lei na Sociedade

Spencer, de-resto, n ã o foi o único que incorreu


em semelhantes erros \a d o século X I X , fiel
nos ensinos de llobbes, persistiu em considerai os h o -
mens primitivos qual rebanho d e animais I n o / e . v
vendo em pequenas famílias isoladas e lutando entre
si pelo alimento e pela posse das fêmeas, a t é que uma
autoridade benéfica viesse estabelecer-se no seu meio
para lhes impor a paz.
N ã o hesitou em repetir essa t ã o falsa a s s e r ç ã o de
Hobbes o eminente naturalista que foi Huxley, e ain
da em 1885 declarava sem rebuço "que, no início, os
homens viviam lutando cada u m contra todos a t é que.
g r a ç a s a uns poucos indivíduos de linhagem superior,
a primeira sociedade humana foi fundada" ( 1 ) . Vê-
se, pois, que a t é um sábio darwinista como fluxley
n ã o tinha noção alguma do facto da sociedade, longe
de ser fundada pelo homem, j á , muito anteriormente
ao seu aparecimento, existia entre os animais. Tal a
força, mesmo no e s p í r i t o de u m cientista, que tem
um preconceito arreigado!
Se p r e t e n d ê s s e m o s r e t r a ç a r a história deste pre-
conceito, fácil seria encontrar a sua origem na in

(1) — Vide: T . H . Huxley, — The StrugRlc l"»r Bxbtenc*


(A luta pela existência), artigo publicado na N I N E T E E N T H
C E N T U R Y , de 1885, re-impresso na sua conhecida >>l>i i líannyi
and Addresses. N. do A.
106 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 107

fluência da religião e na acção d e l e t é r i a das igrejas. dade c r ê e m ainda que os acidentes naturais, como as
As sociedades secretas formadas de m á g i c o s e de secas, os terramotos e as epidemias, são castigos que
bruxos de toda a espécie, depois as constituidas de uma divindade qualquer envia do céu para conter a
sacerdotes a s s í r i o s e egípcios e, mais tarde, as dos sa- humanidade nos seus transvios e reconduzi-la ao bom
cerdotes c r i s t ã o s , procuraram sempre persuadir o ho- caminho.
mem de que "este mundo e s t á submerso no pecado" ;
que só a benéfica i n t e r v e n ç ã o do xamango m á g i c o , *
do santo, do sacerdote, i m p e d i r á que o e s p í r i t o do * *
mal se apodere do homem; que somente eles p o d e r ã o
obter de uma colérica divindade a g r a ç a de n ã o per- Concomitantemente com esses ensinos do cris-
m i t i r que o homem peque para n ã o ter de o punir tianismo, o Estado, em suas escolas e universidades,
por suas m á s acções. mantinha, e continua a manter, a mesma crença na
O christianismo p r i m i t i v o esforçou-se, sem dúvi- perversidade nata do homem.
da, mas inutilmente, por quebrar o preconceito rela- Provar a necessidade de uma força, colocada |M>r
tivo ao poderio e influência do sacerdócio. Mas a ver- sobre toda a sociedade, com a missão de implantar
dade é que a Igreja C r i s t ã , baseada nas p r ó p r i a s pa- nela o elemento moral por meio da aplicação de cas-
lavras que se lêem nos evangelhos a respeito do " f o - tigos em consequência, identificam com a lei escrita;
go eterno", nada mais í»v que SStendÕr e r e f o r ç a r convencer os homens da necessidade dessa autorida-
esse preconceito. A p r ó p r i a ideia de um deus-filho de, — é tudo uma q u e s t ã o de vida ou de morte para
descendo n terra para morrer a-fim-de redimir a hu- o Estado poisque se os homens c o m e ç a s s e m a pôr em
manidade de seus pecados, — ideia m á t e r e de todo o dúvida a necessidade de consolidar os princípios mo-
cristianismo, — confirma inteiramente essa maneira rais pela férrea m ã o da autoridade, em breve per-
de pensar. E foi precisamente essa ideia que permitiu deriam a fé na pretendida alta missão de seus go-
mais tarde o estabelecimento da "Santa I n q u i s i ç ã o " vernantes.
para, submetendo as suas indefesas v í t i m a s à s mais Desta maneira, toda a nossa e d u c a ç ã o moral, re-
atrozes torturas, inclusive as " d e l í c i a s " de um fogo ligiosa, histórica, jurídica e social, e s t á saturada da
lento, lhes proporcionar o c a s i ã o azada e fácil de arre- ideia de que o homem, abandonado a si mesmo, breve
pendimento e obter finalmente a salvação dos sofri- regressaria ao estado selvagem p r i m i t i v o ; que, sem
mentos eternos que, inevitavelmente, as esperava. autoridade, os homens se comeriam uns aos o u t r o s ;
Aliás, n ã o foi somente a I g j e j a Católica Romana que outra cousa n ã o se pode esperar da " m u l t i d ã o
que assim a g i u ; todas as igrejas c r i s t ã s , fieis ao mes- i g n a r a " , dizem, a n ã o ser a brutalidade e a guerra de
mo princípio, rivalizavam entre sí na i n v e n ç ã o e cada u m contra todos.
a d o p ç ã o de novos sofrimentos e de novos terrores A mole humana pereceria se sobre ela n ã o velas-
a-fim-de corrigir os homens atascados de " v í c i o s " . sem os seus eleitos, — o padre, o legiferador e o juiz
Mesmo actualmente, nove d é c i m a s partes da humani- cercados de seus indefectíveis áulicos, o polícia e o
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carcereiro. S ã o esses seres privilegiados, quais salva- ao homem, como às* espécies animais ainda hoje sub-
dores da humanidade, que se o p õ e m à luta fratricida, sistentes, de sobreviver na luta pela existência por
que inculcam o respeito à lei, que nos ensinam a disci- entre as mais duras condições naturais.
plina e conduzem os homens com m ã o forte para es- A ciência cabalmente nos demonstra que os pre-
tádios futuros em que melhores concepções t e r ã o de- tensos condutores de povos, heróis e legisladores da
sabrochado nos " c o r a ç õ e s empedernidos" e vierem humanidade, cousa alguma introduziram no curso da
e n t ã o , por d e s n e c e s s á r i o s , a substituir o l á t e g o , o cár- história que as sociedades n ã o houvessem j á elabora-
cere e o p a t í b u l o . do pelo direito c o n s u e t u d i n á r i o . Os melhores dentre
Excita-nos ao riso o dito célebre daquele rei (1) êlcs nada mais fizeram que formular, sancionar, aque-
que, ao partir para o exílio pelo édito da revolução las ins|ituic,ocs já confirmadas pelos h á b i t o s e costu-
de 1848. exclamava: "sem m i m que vai ser de meus mes generalizados. Mas a maioria desses "salvado-
pobres vassalos!" Diverte-nos sobejamente o tipo do res" da humanidade o que procurou cm todos o s tem-
traficante inglês que e s t á persuadido de descenderem pos foi. ou a d e s t r u i ç ã o dessas instituições consagra-
seus compatriotas de uma loginqua t r í b u de Israel e das pelo direito c o n s u e t u d i n á r i o (pie, evidentemente,
que, por esse facto, é destino seu impor um bom"go- estorvavam a f o r m a ç ã o de uma autoridade pessoal,
v ê r n o às " r a ç a s inferiores." ou a r e m o d e l a ç ã o dessas mesmas instituições, p o r é m ,
Nessa jactância do b r e t ã o nada há que estranhar. em proveito p r ó p r i o ou na defesa dos interesses da
N ã o é certo que em todas as nações há, I por entre sua casta.
aqueles que a l c a n ç a r a m uma certa cultura, a mesma
p r e t e n s ã o a serem superiores aos demais? • *

* Desde os mais remotos tempos da história da


* * humanidade, cujos v e s t í g i o s se perdem nas trevas do
p e r í o d o glaciário, que os homens viveram em socie-
E, entretanto, o estudo científico do desenvolvi- dades. E nessas sociedades se elaborou toda uma série
mento das sociedades e das suas v á r i a s instituições de instituições, rigidamente observadas, que outra f i -
nos conduz a resultados completamente diferentes. T a l nalidade n ã o tinham s e n ã o a de tornar possível a vida
estudo nos prova que os usos e costumes que a hu- em comum. Mais tarde, em todo o decurso da evo-
manidade estabeleceu a t r a v é s das idades no interesse lução humana, essa mesma força criadora, a p a n á g i o
do apoio m ú t u o , da defesa m ú t u a e da paz geral, fo- da m u l t i d ã o a n ó n i m a , foi sempre elaborando novas
ram elaborados precisamente pela " m u l t i d ã o a n ó n i - formas de vida social, de auxílio m ú t u o , de garantias
m a " . E foram esses usos e costumes que permitiram de paz, à medida que o exigiam novas condições de
existência.
(1) — Luis Filipe. Por outro lado, a ciência moderna demonstra n
N. do T. saciedade que a lei, qualquer que seja a p r e s u n ç ã o
110 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 111

que formemos da sua origem, — ou como de origem a dos senhores e a dos escravos, consagrando, por
divina, ou como fruto da sabedoria de um legislador, essa forma, a autoridade dos r é g i o s biltres que e n t ã o
— outra cousa n ã o fez mais do que fixar, ou melhor, dominavam em Roma.
cristalizar sob uma forma permanente os costumes Os p r ó p r i o s evangelhos, postoque inculcando a
já existentes. Todos os códigos da antiguidade n ã o sublime ideia do p e r d ã o , do esquecimento das ofensas,
passaram de meros registos de usos e costumes, gra- que é a essência do cristianismo, proclamam a cada
vados ou escritos, com o visível p r o p ó s i t o de os pre- passo do seu texto a ideia de um deus vingador e,
servar para as g e r a ç õ e s vindouras. nessa conformidade, ensinam exactamente o c o n t r á -
Somente que, ao fazê-lo, os nossos legisladores ri<». n ã o já o amor, mas a represália, a vingança.
t r a t a r a m de anexar, aos costumes consagrados, algu-
ma cousa de seu, regras novas feitas no interesse das *
minorias de ociosos ricaços, aguerridos para a bata- * *
lha social, regras essas que. redundando somente em
vantagens para essas minorias, c o m e ç a v a m desole lo- E m época posterior vemos produzir-sc idêntico
go por esboçar costumes de desigualdade e sancionar facto nos códigos dos povos chamados b á r b a r o s , —
a s u b m i s s ã o servil das massas. dos gauleses, dos lombardos, dos germanos, dos saxo-
nes e dos eslavos, — após a derrocada do i m p é r i o r o -
* mano. Estes códigos legitimavam u m costume, por
* * demais excelente, que, naquelas épocas, se generali-
zava, consubstanciado na p r á t i c a de indemnizar, por
" N ã o m a t a r á s , n ã o dirás falso testemunho", pro- meio de uma c o m p e n s a ç ã o , os actos de deferimento
mulgava a lei mosaica. P o r é m a essas excelentes re- ou morte, em vez de aplicar, como era habitual nes-
gras de conduta, geralmente reconhecidas como tais ses tempos, a lei de talião expressa nos t e r m o s : "olho
naquele tempo, Moisés acrescentava: " n ã o cobiçarás por olho. dente por dente, golpe por golpe, vida por
a mulher do teu p r ó x i m o , nem o seu escravo, nem o vida."
seu boi, nem o seu j u m e n t o " , com que legalizou, por N ã o h á duvida que ao i n s t i t u í r e m essa prática,
longos tempos, a e s c r a v i d ã o e colocando assim a m u - crs códigos b á r b a r o s representavam um progresso
lher no mesmo p é de igualdade que u m escravo ou comparados com as p r á t i c a s de r e t a l i a ç ã o em voga
uma besta de carga. na vida tribal. P o r é m , ao mesmo tempo esses mesmos
" A m a r á s o teu p r ó x i m o " , proclamou depois o c ó d i g o s estabeleciam a divisão dos homens livres em
cristianismo, mas n ã o se esqueceu de, pressurosamen- classes distintas, a princípio mal perceptíveis, mas de-
te, ajuntar pela boca do a p ó s t o l o Paulo: "escravos, pois, com a i n t r u s ã o da lei, solidamente sanciona
obedecei a vossos senhores", " n ã o h á autoridade que Determinada c o m p e n s a ç ã o , — e s t a t u í a m aqueles
n ã o proceda de Deus", com que legitimava e deifi- códigos, — seria devida por um escravo, isto é, uma
cava a divisão da sociedade em duas classes distintas: certa i n d e m n i z a ç ã o paga a seu senhor; uma soma
112 P E T E R K R O P O T K I N
O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 113

maior seria devida por um homem livre, e o u t r a mais


elevada por um chefe. Neste ú l t i m o caso a compen- cidades medievas; todas as formas dc relações entre
sação era t ã o elevada que implicava, para o homicida, as diferentes t r í b u s e os dana e, posteriormente, en-
na e s c r a v i d ã o por toda a vida. tre repúblicas citadinas da idade média que fornece-
A ideia p r i m á r i a dessas distinções, estabelecidas ram os elementos básicos do estabelecimento do d i -
pelos usos e costumes, era, sem dúvida, a de que a reito internacional; todas as formas de p r o t e c ç ã o m ú -
família de u m chefe, m o r t o em uma pugna, perdia, tua e de defesa da paz, inclusive os tribunais popula-
. com o seu desaparecimento, muito mais do que a fa- res e o j ú r i , foram a obra do g é n i o criador das mul-
mília de um cidadão livre o r d i n á r i o que viesse a mor- tidões a n ó n i m a s .
rer em idênticas condições, daí o ter a primeira d i - J á o mesmo n i o sucede com as leia, que todas,
reito a uma c o m p e n s a ç ã o maior do que a devida à desde <>s m a i s l o n g í n q u o s tempos a t é nossos dias, se
segunda. I . - I m a i a m pela j u x t a p o s i ç ã o de dois elementos dife-

Mas, convertendo esse costume da época em uma ientes: um que consolidava e fixava certos hábitos
lei, o código estabelecia simultaneamente, como j á previamente reconhecidos como ú t e i s para a comuni-
vimos, a divisão dos homens em classes <• t ã o firme- dade e outro que estipulava um a c r é s c i m o a tais cos-
mente ficou o princípio assente que a t é hoje n ã o l o - tumes, — muitas vezes uma maneira insidiosa dc
g r á m o s desenvencilhar-nos d ê l e l formular o costume j á estabelecido, — com o evidente
p r o p ó s i t o de implantar ou r e f o r ç a r a autoridade nas-
cedoura do senhor, do nobre, do r é g u l o e do padre,
* * proclamando, sancionando e santificando o seu poder
e a sua autoridade.
Verificam-se os mesmos resultados compulsando Tais são as c o n c l u s õ e s a que nos leva o estudo
todas as legislações anteriores a t é as actuais: a i n - científico do desenvolvimento das sociedades huma-
j u s t i ç a e a o p r e s s ã o , c a r a c t e r í s t i c a s de uma determi- nas feito durante a segunda metade do século findo
nada época, se transmitem, mediante a lei, à s épocas por um bom n ú m e r o de cientistas conscienciosos. Cer-
seguintes. Exemplos: a o p r e s s ã o do i m p é r i o persa se to é, p o r é m ,que na maioria dos casos, nem sempre
t r a n s m i t i u , por essa via, à G r é c i a ; a tirania m a c e d ó - os sábios ousaram, por sua conta, formular conclu-
nica passou a R o m a ; a o p r e s s ã o e a crueldade do i m - sões t ã o h e r é t i c a s como as que acabamos de enunciar,
p é r i o romano, as autocracias e teocracias orientais se mas o leitor inteligente chega necessariamente a elas
propagaram aos novos Estados b á r b a r o s em vias de pela leitura das obras daqueles autores.
f o r m a ç ã o e a t é à igreja cristã. Pela lei o passado se
encadeia ao futuro.
Todas as garantias n e c e s s á r i a s à vida das socie-
dades ; todas as formas de vida s o c i e t á r i a elaboradas
nas t r í b u s . ns comunidades aldeãs e, mais tarde, nas
O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 115

das pela vida moderna, soluções p r ó p r i a s ; diferentes


das que soem propor-se, e tomar atitude diversa da
que teem os partidos políticos e, a t é certo ponto, d i -
vorciar-se dos p r ó p r i o s partidos socialistas que ainda
n ã o e s t ã o libertos de todo das velhas ficções meta-
IX
físicas.

Logar do Anarquismo na Ciência Moderna K' indubitável que uma concepção mecânica i n -
tegral d<> n u i v r r . o , abrangendo a natureza física e as
fcvocicdadCH humanas, na parte sociológica dedicada ao
Que logar ocupa, e n t ã o , o Anarquismo no grande estudo da vida «• evolução das sociedades, e s t á ape-
movimento intelectual do século X I X ? iii esboçada. < > pouco, entretanto, que. nêtfC sentido,
A resposta a esta pergunta a encontramos deli- se tem feito a t é agora, á s vezes, valha a verdade,
neada no que ficou dito nos c a p í t u l o s precedentes inconscientemente. — reveste s e já do c a r á c t e r que
deste trabalho. Anarquismo, fundamentalmente, é temos vindo enunciando. Na filosofia do direito, na
uma concepção do universo baseada na i n t e r p r e t a ç ã o teoria da moral, da economia política e 0 0 estudo da
mecânica (1) dos f e n ó m e n o s da Natureza, compreen- h i s t ó r i a dos povos e das instituições sociais, o Anar-
dendo nesta igualmente os factos da vida social e seus quismo, por seus adeptos, manifestou peremptoria-
múltiplos problemas de ordem económica, política e mente que n ã o se satisfaria com as conclusões meta-
moral. Seu m é t o d o de análise e de i n v e s t i g a ç ã o é o físicas dos pensadores de antanho, mas, ao c o n t r á r i o ,
das ciências naturais, quaisquer que sejam as conclu- que procuraria dar à s suas conclusões uma base emi-
sões a que, em um estudo, se chegue, a pretenderem nentemente naturalista.
de científicas, t e r ã o de ser verificadas pela a d o p ç ã o
desse m é t o d o , sem o qual n ã o há verdadeira ciência. O Anarquismo, por sua p r ó p r i a natureza, n ã o se
Sua t e n d ê n c i a é fundar uma filosofia sintética que deixa colher nas malhas artificiosas das metafísicas
abranja todos os factos naturais, incluindo os que se de Hegel, de Schelling ou de K a n t , e menos ainda se
relacionam com a vida das sociedades humanas sem, deixa levar pela dialética dos comentadores do direito
contudo, incorrer nos erros, j á a t r á s referidos, pelas romano e do direito canónico, dos sábios professores
razoes dadas, em que incorreram os grandes e s p í r i t o s do direito do Estado, da economia política dos meta-
de Auguste Comte e H e r b e r t Spencer. físicos.
E ' evidente que, a tal respeito, o Anarquismo tem O que, primacialmente, o Anarquismo procura 6
necessariamente que dar, a todas as q u e s t õ e s suscita- expor e compreender, à luz meridiana dos factos po-
sitivos, todas as q u e s t õ e s suscitadas naqueles d o m í -
(1) — Outros melhor dirão cinética (relação entre a força nios do saber, baseando-se, para isso, nos imensos t i a
e o movimento), porém este termo sendo menos conhecido
nos meios populares, preferimos o acima adoptado. balhos e estudos, de c a r á c t e r profundamente natura
N. do A. lista, levados a cabo, por uma plêiade de pensadores
O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 117
116 P E T E R K R O P O T K I N

ainda, quando o interpelam sobre "o objectivo da v i -


eminentes, durante os últimos decénios do século d a " , — o anarquista, virando costas, pregunta a si
findo. me sino: "como é possível que, no meio do enorme
desenvolvimento das ciências naturais, ainda haja i n -
« * divíduos t ã o tacanhos que continuem a crer na efecti-
* vidade desse ÔCO p a l a n f r ó r i o ? como é crível que ainda
haja gente t i o atia/ada que fale a linguagem do sel-
Assim como as concepções metafísicas vazadas vagem p i i m i t i v o quando, levado pela sua c o n d i ç ã o ,
nas velhas e x p r e s s õ e s de " e s p í r i t o do U n i v e r s o " , nntrnpot morfi/ava a natureza que se lhe representava
" f o r ç a criadora da N a t u r e z a " , " a t r a c ç ã o amorosa da como um i I O I I i governada por seres de formas hu-
m a t é r i a " , " i n c a r n a ç ã o da I d e i a " , "finalidade da N a - manas
tureza e sua r a z ã o de ser", " i n c o g n o s c í v e l " , "huma- Ora. os anarquista, uao .<• deixam cinhair por es-
nidade", compreendendo-a no sentido de u m sêr ins- sas onoras íiasc-.. pois, demais sabem que (das só
pirado pelo "sopro do e s p í r i t o " , e por aí fóra. — es- servem para acobertar, n ã o apenas a ignorância, isto
t ã o definitivamente desacreditadas no conceito cien- é. a i n v e s t i g a ç ã o incompleta, mas, o que é peor. a
tífico e abandonadas de vez pela filosofia materialista s u p e r s t i ç ã o , isto é, o pesadelo do desconhecido. \
(mecânica, ou melhor, c i n é t i c a ) ; a s s i m como os ger- sim é què, quando se lhes fala semelhante linguagem,
mes das g e n e r a l i z a ç õ e s que s e m u l t a v a m por d e t r á s passam adiante e. sem prestar a m í n i m a a t e n ç ã o a
dessas palavras sonoras s e traduziram depois na l i n - tais objurgatórias, continuam o estudo das novas con-
guagem concreta dos factos. — assim n ó s . os anar- cepções sociais e das instituições do passado e do pre-
quistas, procedemos quando nos abeiramos dos factos sente fieis sempre ao m é t o d o naturalista.
da vida social.
E, com efeito, o anarquista acha que o desenvol-
Quando, na sua faina de persuadir um naturalista, vimento da vida das sociedades é, na realidade, i n f i -
os metafísicos pretendem que a vida intelectual e emo- nitamente mais complexo c muito mais interessante,
cional do homem se desenrola segundo o panorama no seu aspecto p r á t i c o , do que poderia ser o estudo
das "leis imanentes do e s p í r i t o " , o naturalista sorri das e s t é r e i s f ó r m u l a s metafísicas.
e prossegue pacientemente o estudo dos f e n ó m e n o s
da vida, da inteligência, das e m o ç õ e s e das p a i x õ e s * *
com o nobre afã de provar que todos, afinal, podem
reduzir-se a f e n ó m e n o s físicos e q u í m i c o s , procuran- Ultimamente tcm-se gabado muito o uso do m é -
do, destarte, descobrir as leis que os regem. todo dialético preconizado pelos social-democratas na
De igual modo, quando se fala a um anarquista e l a b o r a ç ã o do seu ideal socialista. Por a n t i - c i e n t í -
que, segundo Hegel, "toda a evolução representa uma fico, repudiamos absolutamente esse m é t o d o que não
tese, uma a n t í t e s e e uma s í n t e s e " , ou que " o direito se compara com o das ciências naturais que em tudo
tem por escopo estabelecer a J u s t i ç a que representa sobreleva aquele.
a s u b s t a n c i a l i z a ç ã o material da Ideia Suprema", ou
118 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A ClÊNCIA MODERNA 119

O m é t o d o dialético evoca na mente dos natura- no m é t o d o científico de D a r w i n , deram de p r o d a m a r


listas qualquer cousa de a n a c r ó n i c o que fez sua época o p r i n c i p i o : esmagai quem fôr maia fraco, tal é a lei
e desde h á m u i t o foi entregue ao olvido para honra da Natureza, fácil foi provar-se, pelo mesmo m é t o d o
da ciência. De todas as descobertas do século X I X , científico, que esses cientistas n ã o só trilhavam falso
— em mecânica, em astronomia, em física, em q u í - caminho como n ã o e r a m essas as l e g í t i m a s concha
mica, em biologia, em psicologia, em antropologia, — soes a que chegara D a r w i n , visto semelhante lei n ã o
nenhuma se fez pelo m é t o d o dialético. existir c a Natureza ensinar-nos cousa mui diversa,
Toda a imensa série de aquisições do século as sendo, portanto, as suas conclusões o que h á de me-
devemos ao uso do m é t o d o indutivo-dedutivo, ú n i c o nos científico.
científico conhecido. Ora, o homem sendo parte i n - Outro tanto se pode dizer a respeito da afirma-
tegrante da Natureza, como a sua vida pessoal e so- ção que tratam de incubar BOI os economistas clás-
cial é igualmente u m f e n ó m e n o natural do mesmo sicos <• u.i qual nos querem la/cr crer a saber: que a
modo que o crescimento de uma flor ou a evolução desigualdade de fortunas é uma "lei da Natureza"
da vida em colectividades como as das formigas e as e que a e x p l o r a ç ã o capitalista repiescuta a forma mais
das abelhas, n ã o vemos r a z ã o bastante para que, pas- vantajosa de o r g a n i z a ç ã o da sociedade.
sando da flor ao homem, de uma comunidade de cas- E ' precisamente por via da aplicação do m é t o d o
tores à s populosas cidades humanas, tenhamos de das ciências naturais aos factos e c o n ó m i c o s que con-
abandonar u m m é t o d o que t ã o esplêndidos resultados seguimos provar que as pretendidas " l e i s " da ciên-
a t é agora deu e busquemos o u t r o no arsenal da es- cia social burguesa, incluindo a economia política
tulta metafísica. actual, n ã o são, de forma alguma, leis, no sentido
* científico do termo, mas simples suposições, g r a t u i -
* * tas a f i r m a ç õ e s , que jamais a l g u é m t r a t o u de verificar.

A eficácia do m é t o d o indutivo-dedutivo que em- *


pregamos nas ciências naturais e s t á exuberantemente
provada pelo impulso que, no século X I X , deu à s
ciências, de tal maneira que, em cem anos, fez mais U m a palavra mais. A i n v e s t i g a ç ã o científica s ó é
do que, antes do seu emprego, se fizera em dois m i l . f r u t í f e r a com a condição de ter um objecto definido,
E quando os cientistas, na segunda metade desse de ser empreendida com o p r o p ó s i t o de achar uma
século, deram de aplicá-lo ao estudo das sociedades resposta, clara e terminante, a uma q u e s t ã o dada.
humanas, n ã o toparam com qualquer o b s t á c u l o , por Com quanta maior clareza se estabelecerem as rela-
m í n i m o que fosse, que os obrigasse a retroceder à ções entre o problema proposto e as linhas funda-
escolástica medieval ressuscitada por Hegel. mentais da nossa c o n c e p ç ã o geral do Universo, tanto
Mas há mais. Quando certos naturalistas, j u n g i - melhor se evidenciarão os resultados da i n v e s t i g a ç ã o
dos à sua e d u c a ç ã o burguesa, pretendendo basear-se científica. E quanto mais esta se acomodar á con-
120 P E T E R K R O P O T K I N

c e p ç ã o geral, tanto mais facilmente se e n c o n t r a r á a


solução buscada.
Pois bem. Podemos exprimir nos seguintes ter-
mos o problema que o Anarquismo se p r o p õ e resol-
ver : "que formas sociais garantem melhor, em tais ou
quais sociedades, e, por e x t e n s ã o , na humanidade, a X

maior soma de felicidade e, portanto, de maior bem-


estar, de maior vitalidade?" quais as formas de so- O ideal anarquista e as revoluções passadas
ciedade melhor adaptadas permitem conseguir-se essa
soma de felicidade e como aumentar e desenvolver <» \narquismo, « | . i vimos, origina se das i n -
esta, quantitativa e qualitativamente, isto é, forne- d n a ç o e s fornecidas p e l a vida prática.
çam meios de tornar essa felicidade mais duradoura, (iODYYIN, c o n t e m p o r â n e o d a (iramle Revolução
completa e variada?" o que, diga-se de passagem, de I7K ' M , havia observado cm pessoa « « u n o a autori-
1 (

equivale a achar a fórmula do progresso. dade do governo, criado durante a R e v o l u ç ã o e para


O desejo de impulsionar a evolução nesse sen- servir a mesma Revolução, se tornara, a breve trecho,
tido é o que determina o c a r á c t e r de toda a activi- um t r o p e ç o , e dos maiores, ao desenvolvimento do mo-
dade social, científica e a r t í s t i c a do anarquista. E es- vimento revolucionário. p p d e t a m b é m verificar de
sa actividade, por seu turno, precisamente por causa visu o que ocorria na Inglaterra sob os auspícios do
da sua evidente coincidência com o desenvolvimento Parlamento: a pilhagem das terras comunais, a venda
social naquela direcção, se converte em u m manan- dos empregos lucrativos, dos ofícios rendosos, a caça
cial de crescente vitalidade, de vigor, de sentimento, aos filhos dos pobres arrebatados das casas de t r a -
de a c ç ã o e de unidade com a espécie humana e as balho por agentes assalariados que, com esse único
melhores forças vitais desta. Conseguintemente, es- fim, percorriam o país e, em seguida, transportados
sa actividade tornando-se a fonte de uma i n e s g o t á v e l para as usinas e feitorias do Lancashire onde, em
vitalidade, t r a r á , sem dúvida, uma soma maior de fe- massa, pereciam, apenas chegados, por carência ab-
licidade individual. soluta do m í n i m o conforto.
G O D W I N , dentro em breve, compreendeu que um
governo qualquer, que fosse mesmo o de uma "Re-
pública Una e I n d i v i s í v e l " dos jacobinos, nunca po-
deria realizar a revolução social que se almeja, — a
R e v o l u ç ã o Comunista; que mesmo um governo revo-
lucionário, j á pelo simples fato de ser, por sua natu-
reza, o g u a r d i ã o do Estado e dos privilégios (pie todo
o Estado tem a defender, se faz prontamente u m es-
torvo à obra da revolução.
122 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 123

G O D W I N compreendeu perfeitamente, e com de- movimento parisiense mediante ordens emanadas da


nodo proclamou a ideia, genialmente anarquista, de Inglaterra, foram duas severas lições que abriram os
que, para o triunfo da R e v o l u ç ã o , devem os homens, olhos à s massas. Esses fatos levaram v á r i a s federa-
em primeiro logar, libertar-se da sua arcaica fé no ções da grande A s s o c i a ç ã o , e a n ã o pequeno n ú m e r o
poder da L e i , da Autoridade, da Unidade, da Ordem, de seus mais proeminentes membros, entre os quais
da Propriedade e de outras s u p e r s t i ç õ e s herdadas dos se contava o famoso Bakunine, a meditar sobre os
tempos passados em que os seus progenitores eram males de toda a espécie que resultam do emprego da
escravos. autoridade, ainda mesmo quando «deita na maior l i -
O segundo t e ó r i c o do Anarquismo, vindo a p ó s berdade como foi o caso na Comuna e na Interna-
Godwin, f o i Proudhon que, c o n t e m p o r â n e o da revolu- cional O p e r á r i a .
ç ã o de 1848, a v i u fracassada. Proudhon pôde ver, Alguns meses mais tarde, a decisão do Conselho
com os seus p r ó p r i o s olhos, n ã o só os crimes come- Geral da Internacional tomada em uma conferência
tidos pelo governo republicano, como convencer-se da secreta, convocada em Londres em 1871. preterindo 0
improficuidade do socialismo estatista de L o u i s Blanc Congresso anual correspondente, cavou ainda tnai tun
que vinha sendo preconizado. Sob a recente impres- do as manifestas inconveniências de um governo na
são do que havia visto durante o movimento insur- Internacional. De acordo com a funesta resolução to-
recional de 1848, escreveu a sua formidável obra I D É E mada, as forças daquela Associação que, a t é e n t ã o , se
GÉNÉRALE DE L A RftVOLUTION A U XIX* SIÊ- agrupavam para a luta e c o n ó m i c a e r e v o l u c i o n á r i a pela
C L E na qual, resolutamente, proclama o Anarquismo a c ç ã o directa das uniões o p e r á r i a s contra o crescente
e a consequente i b o H ç i o do Estado. capitalismo patronal, i r i a m , d'ora-avante, ser lançadas
em u m movimento eleitoral, político e parlamentar em
que acabariam por se estiolar e destruir, n ã o mais re-
ti * adquirindo poder efectivo algum sobre os aconteci-
mentos revolucionários.
Posteriormente, no seio da célebre Associação I n - Essa decisão produziu, como seria natural, a re-
ternacional dos Trabalhadores, a c o n c e p ç ã o anarquista volta declarada das federações latinas da A s s o c i a ç ã o :
se afirma energicamente a p ó s uma outra r e v o l u ç ã o as espanholas, as italianas, as j u r á s s i c a s e, em parte, as
— a da Comuna de Paris em 1871. A t o t a l c a r ê n c i a de belgas, contra o Conselho Geral de Londres. Dessa
poder r e v o l u c i o n á r i o de que deu provas o Conselho rebeldia data o movimento anarquista c o n t e m p o r â n e o .
da Comuna, no qual, a l i á s , figuravam, em uma justa Vemos, pois, que o movimento anarquista se re-
p r o p o r ç ã o , representantes de todas as fracções revo- nova cada vez que recebe a i m p r e s s ã o de alguma gran-
lucionárias da época, jacobinos, blanquistas e interna- de lição prática, — donde o derivar a origem de seus
cionalistas, e a incapacidade do Conselho Geral da I n - ensinamentos dos ditames p r á t i c o s da vida social.
ternacional, com residência em Londres, manifesta nas De-facto, dado o impulso a esse movimento dc
suas ineptas e prejudiciais p r e t e n s õ e s a governar o r e n o v a ç ã o de ideias, o Anarquismo procura desde logo
124 P E T E R K R O P O T K I N
O ANARQUISMO E A O Ê N C I A MODERNA 125
elaborar a e x p r e s s ã o geral de seus princípios e esta-
belecer as bases t e ó r i c a s e científicas de seus ensinos. força real, construtiva, empregando a decepção. T ã o
Dizemos científicas as bases dos nossos princípios, não verdadeiro isto é que mesmo o s que sustentam aquele
no sentido da a d o p ç ã o de um v o c a b u l á r i o incompreen- princípio e depreciam o ideal, teem, contudo, uma con-
sível ou no sentido de recorrer ao estafado f o r m u l á r i o cepção qualquer, embora imperfeita, do que desejariam
da metafísica, mas no sentido e x á t o de encontrar os
ver realizado que substituisse aquilo que combatem.
seus sólidos fundamentos nas ciências naturais da épo-
Exemplos não faltam: enquanto uns, trabalhando
ca, das quais, em seu conjunto, constituem um dos
por demolir a autocracia na R ú s t i i Imaginam era seu
florões mais prolíferos.
logar. num íuturo próximo, uma constituição seme-
lhante a inglesa on a alemã, outros sonham com uma
O
república, quiçá submetida a uma potente ditadura do
seu pai lido, on então COm unia tcpúhhca numa i quica,
do tipo da francesa. OU ainda COffl uma república fede*
A o mesmo tempo que essa f e r m e n t a ç ã o de ideia - rativa a n á l o g a às dos Estados Unidos ou do Brasil.
se dá, os anarquistas trabalham por desenvolver e rea- Temos u m terceiro grupo de indivíduos que pensam
lizar o seu ideal. em estabelecer uma maior limitação dos poderes do
NenKuma luta t e r á ê x i t o , — e isto é certo, — se Estado, e, consequentemente, uma mais ampla liber-
inconscientemente praticada, se n ã o tiver u n i objetivo dade para as cidades, vilas e comunas, para as uniões
definido, concreto, a realizar. Nenhuma d e s t r u i ç ã o do o p e r á r i a s e para toda a classe de agrupamentos uni-
existente é possível, sem que, durante o período des- dos entre si por livres federações, de c a r á t e r tempo-
t r u t i v o e das lutas que levam a essa d e s t r u i ç ã o , tenha- r á r i o , cousas estas que jamais se a l c a n ç a r ã o em qual'
mos cabido formular mentalmente o que deve suceder quer república.
ao que pretendemos derrubar. Nem mesmo a critica
Quem se p r o p õ e a atacar o capitalismo tem sem-
teórica do que existe é possível sem que cada um re-
pre na cabeça uma tal ou qual concepção, uma ideia
presente no espírito, mais ou menos nítida, a imagem
vaga ou definida, do que deseja ver substituir-se ao
daquilo que deseja ver em s u b s t i t u i ç ã o ao atualmente
regime do capitalismo b u r g u ê s a t u a l : ou o capitalismo
existente. Consciente ou inconscientemente, o ideal,
do Estado ou uma nova espécie de comunismo esta-
a c o n c e p ç ã o de algo melhor, precede a sua realização,
tista, ou ainda uma federação de associações, mais ou
perdura no espírito daqueles que se a b a l a n ç a m a cri-
menos comunistas, organizadas para a p r o d u ç ã o , a t r o -
ticar as instituições existentes.
ca e o consumo do que é possível obter-se do solo e do
E'. precisamente, o caso dos homens de ação. D i - que, porventura, se fabricar.
zer à s massas: "destruamos primeiramente o capita- Cada partido tem, conseguintemente, uma con-
lismo ou a autocracia e depois pensaremos no que se cepção p r ó p r i a do futuro, — um ideal que lhe permite
deve pôr no seu l u g a r " , é, ingenuamente, enganar-se formular juizos p r ó p r i o s sobre todos os fatos da vida
a si p r ó p r i o e ludibriar os outros. Jamais se criou uma política e económica das nações e que o guia na ave
r i g u a ç ã o dos meios mais adequados de acção para che«
126 P E T E R K R O P O T K I N

gar mais proficuamente e mais rapidamente ao fim


apetecido.
E', portanto, muito natural que o Anarquismo,
posto que o r i g i n á r i o das lutas sociais de todos os dias,
trabalhe rio sentido de concatenar o seu ideal. E, por
sua natureza, esse ideal, esse objetivo, em-fim, os seus
planos de r e o r g a n i z a ç ã o social, logo vieram a distin-
g u i r os anarquistas, nos seus meios de a ç ã o e de pro-
paganda, de todos os partidos políticos e t a m b é m , em
grande parte, dos partidos socialistas que ainda ali-
mentam a estulta ideia de ser possível manter-se o
a n a c r ó n i c o ideal do direito romano e canónico do Es-
tado para o transportar à sociedade futura dos seus
sonhos. SEGUNDA PARTE

O Anarquismo
O A N A R Q U I S M O

On |irin< IplOf

J á vimos dos capítulos precedente p«»t <pu- .crie


de c o n s i d e r a ç õ e s de ordem histórica, etnológica e eco
nomica. bem como pelos ensinamentos da vida mo
derna, foram os anarquistas levados a uma concepção
da sociedade mui diferente da que visam, como ideal,
todos os partidos políticos a u t o r i t á r i o s .
Os anarquistas concebem a sociedade como uma
vasta rede de associações de toda a espécie em cpjc as
r e l a ç õ e s m ú t u a s dos membros que as c o m p õ e m sao re-
guladas, n ã o por leis, — h e r a n ç a de um passado dc
o p r e s s ã o e b a r b á r i e , — n ã o por autoridade, — quer
estas sejam levadas ao poder por eleição, quer por
h e r a n ç a de seus antepassados, — mas organizadas me-
diante convénios ou acordos entre as partes compo-
nentes, livremente aceites e a todo o tempo r e v o g á -
veis, garantidos por h á b i t o s e costumes sociais que
longe de se petrificarem pela lei, pela rotina ou pela
s u p e r s t i ç ã o , incessantemente evoluem e continuamen-
te se ajustam à s novas necessidades de uma vida livre,
pelo progresso das ciências, das invenções e do con
tante engrandecimento dos mais elevados ideais hu
manos.
130 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODKRNA 131

\ b o l i ç ã o . portanto, da autoridade que regulamen- Se é certo que, a t é ao presente, n ã o houve socie-


te a vida e imponha r e s t r i ç õ e s obrigando os outros dade alguma que pusesse em p r á t i c a os princípios
Í\a e x e c r á v e l vontade. S u p r e s s ã o do governo do enunciados, não há negar, por o u t r o lado, que a hu-
homem pelo h o m e m ; substitua-se por uma c o n t í n u a manidade tem vindo lutando, a t r a v é s dos tempos, pela
evolução, ora rápida, ora lenta, como se observa em a sua realização, t ã o manifestas são as t e n d ê n c i a s . Sem-
Natureza, todo o princípio coercitivo, de cristalização pre que certos elementos da sociedade conseguiam, por
e de imobilidade. Liberdade de ação ao indivíduo para algum tempo apear as autoridades opressoras ou eli-
o integral desenvolvimento de todas as suas capacida- minai ai desigualdades que nela se haviam incrustado,
des naturais de modo a assegurar de-fato a sua plena como a escravidão, a servidão, a autocracia, 0 domínio
individualização, isto é, do que nele possa haver de de determinadas castas ou classes; sempre que na so-
pessoal, de original. Por outros t e r m o s : nada de co- ciedade irrompiam novos lampejos de liberdade e de
ação, nada de que resulte uma imposição ao indivíduo igualdade, o povo, as multidões oprimidas, procura-
sob a a m e a ç a do temor ou do castigo, qualquer que vam, n todo o transe, pôr em prática, ao menos par-
seja a forma adoptada, ou de p u n i ç ã o sobrenatural ou cialmente, os pi incípios novos <pu- a incontida mar
m í s t i c a : a sociedade nada solicitará do indivíduo que cha das ideias teria estabelecido.
este n ã o haja livremente consentido, |>ortanto, igual-
Pode-se. p o i i . dizer que o Anarquismo é um certo
dade absoluta de direitos para todos.
ideal de sociedade que difere essencialmente de todos
Em uma sociedade de iguais, onde 0 temor n ã o quantos, a t é hoje, foram preconizados pela maioria
existir, n ã o receamos de modo algum, por parte de dos filósofos, cientistas c chefes políticos que teem
uns poucos indivíduos, a prática de actos anti-sociais nutrido a p r e t e n s ã o de arregimentar a humanidade e
que possam tomar p r o p o r ç õ e s desmedidas e a m e a ç a - governar os homens por meio de leis. E ' certo que
doras à tranquilidade e marcha natural da sociedade. nunca foi o ideal dos privilegiados; mas n ã o é menos
Uma sociedade de homens livres s a b e r á muito me- certo que foi, na m ó r parte dos casos históricos, o
lhor premunir-se contra a p r á t i c a desses actos do que ideal, mais ou menos conscientemente disputado, das
as sociedades actuais que confiam a defesa da sua mo- massas.
ralidade à polícia, aos espiões, à s p r i s õ e s , — aos car- Seria, entretanto, lastimosamente falso dizer-se
cereiros, aos carrascos e seus aguazis. E m vez de que esse ideal societário seja uma utopia no sentido
remediar à pretendida p r á t i c a desses actos, s a b e r á an- em que esta palavra, na linguagem corrente, é em-
tes preveni-los judiciosamente. pregada para significar algo de irrealizável em qual-
T a l é, em síntese, a concepção social, exposta, de- quer época. Tomada no seu sentido corrente c usual,
senvolvida e preconizada pelos anarquistas. a palavra U T O P I A somente d e v e r á limitar-se às con-
cepções sociais unicamente baseadas em simples rácio
cínios teóricos como cousas desejáveis para o ponl i
de vista do escritor, mas nunca aplicar-se ã concep
çÕes baseadas na o b s e r v a ç ã o do que vemoa \i b
132 P K T K K K R O P O T K I N
<) \ O i; A C I Ê N C I A MODERNA 133

ç a r - s c no seio das sociedades humanas. Tais são, para


os Estados Unidos sob o regime republicano. Nesse
exemplificar, as utopias da República de P l a t ã o , o I m -
tempo se considerava néscia utopia, ideia absurda, o
1 ério Católico ou a Igreja Universal dos Papas, o I m -
pretender-se fundai unia sociedade de certa e x t e n s ã o ,
pério Napoleónico, os sonhos delirantes de Uismarck.
que n ã o o fosse poi meio de uma monarquiaI E, t o -
o Messianismo de Mickiewicz c de todos os poetas,
davia, as republicai da toneiica do Norte e do Sul,
que esperam um dia o advento de u m salvador que
traga ao mundo grandes ideias de r e n o v a ç ã o . bem como as da França e di Suiça, provaram, aos
olhos de todo o mundo. <pi< "utopistas" não eram os
Mas seria evidentemente falso aplicar a palavra
republicanos qu< assim leali/avani o seu ideal polí-
U T O P I A a previsões apoiadas, como o s ã o as man-
tico ma-, ain o- i tii em a do i es das monarquias que não
tidas e defendidas pelo Anarquismo, no estudo das
acompanhavam o piogresso da ideias, listes, e n ã o
tendências que notoriamente se manifestam na evo-
aqueles, é que b u a m veidadenos "utopistas". pois-
lução das sociedades em marcha para o futuro e nas
induções que estas, desde já, nos fornecem. Sa imos que, sulados unicamente pelai ittai « s p i m ç õ r s , movi
assim da p r e v i s ã o utopista para entrarmos francamen- dos apenas pelos seus desejos pmnonift, nao en\eip a t

te nos domínios da ciência. ram as t e n d ê n c i a s novas (pie ie vinham niami. l a m i -


nas sociedades, que, ao tempo, se traduziam na ação
No caso que nos concerne é tanto mais falso falar
de sacudir o jugo das t r a d i ç õ e s monárquicas, à s quais
de utopia quanto é certo que as t e n d ê n c i a s que assi-
a t r i b u í a m uma demasiada longa estabilidade sem in-
nalamos teem desempenhado papel extremamente i m -
q u i r i r e m se elas estariam conformes à s necessidades
portante na história das civilizações, pois que. - cum
humanas e n ã o seriam simplesmente o resultado de
pre n ã b o esquecer, — foram essas tendências que de-
determinadas condições históricas t e m p o r á r i a s .
ram origem ao direito consuetudinário, direito que do-
minou na Europa do quinto ao décimo-sexto séculos.
Depois de haverem feito, durante mais de t r ê s sécu-
los, a experiência do Estado, as sociedades civilizadas
modernas reproduzem essas mesmas t e n d ê n c i a s e, pre
cisamente. na o b s e r v a ç ã o destes fatos, que sobrema-
neira devem interessar a quem houver de proceder ao
histórico da nossa civilização, é que nos baseamos para Ouando se estuda a g é n e s e da ideia anarquista ve-
vermos no Anarquismo u m ideal, n ã o ^ ó teoricamente mos, o que j á a c e n t u á m o s no início deste trabalho, que
admissível, como praticamente realizável. ela tem uma diijlla o r i g e m : em primeiro lugar assenta
Argumenta-se-nos que grande distância medeia na crítica das o r g a n i z a ç õ e s h i e r á r q u i c a s e das con-
entre o ideal teórico e a sua p r á t i c a realização. A se- cepções a u t o r i t á r i a s em g e r a l ; secundariamente, na
melhante a r g u m e n t a ç ã o apenas oporemos, a t í t u l o de análise das explícitas t e n d ê n c i a s sociais que irrompem
r e c o r d a ç ã o , o que se passava nos finais do século naturalmente dos movimentos progressivos da huma
X V I I I , exactamente no momento em que se c o n s t i t u í a m nidade, quer pelo que concerne ao passado, quer, IO«
bretudo, pelo ffue respeita ao futuro.
134 P KT K K K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 135

Desde os tempos mais remotos, desde a talada Posteriormente, logo que a i n d ú s t r i a moderna co-
idade da pedra, que os homens se foram apercebendo m e ç o u a desenvolver-se, deparamos a mesma t e n d ê n -
dos inconvenientes resultantes do fato dc u n i certo cia nas uniões o p e r á r i a s que se formaram na Ingla-
n ú m e r o deles adquirir uma autoridade pessoal, ainda terra e na F r a n ç a , n ã o obstante as leis draconianas
mesmo que fossem dos melhores dotados quanto à i n - que terminantemente proibiam tais uniões, e na ela-
teligência, bravura e saber. b o r a ç ã o desses movimentos depara-se-nos igualmente
o mesmo e s p í r i t o popular procurando, por todas as
Desde essas remotas idades que os nossos ante formas, defender-se, desta vez, p o r é m , contra o des-
passados vieram actuando no sentido de criar e desen- potismo capitalista.
volver uma série de instituições que lhes permitiam
Tais foram, nos tempos decorridos, as principais
lutar contra a erecção e p e r m a n ê n c i a de tal autoridade.
correntes populares de c a r á t e r essencialmente anar
As suas t r í b u s , os seus clans e. mais tarde, as comunas
campesinas, as guildes medievais ( c o r p o r a ç õ e s frater- quista.
nais, de artes e ofícios, de mercadores, de c a ç a d o r e s ,
etc.) e, finalmente, as cidades livres que medraram no
período que vai do século X I I ao X V I , foram institui-
ções de defesa surgidas espontaneamente do seio do
povo, e n ã o de chefes, que tinham jior escopo resistir
à autoridade incipiente que ie vinha stibrcptieiamentc
introduzindo nos seus usos c costumes e imposta, ou
por conquistadores estrangeiros, ou pelos p r ó p r i o s
membros da tríbu, do clan ou da cidade.
Essa mesma tendência do povo se fez fortemente
sentir nos movimentos religiosos das m u l t i d õ e s , nota-
damente na sublevação dos hussitas ( p a r t i d á r i o s de
J o ã o Huss) na B o é m i a no século X V e na ação dos
anabaptistas, precursores rj.a Reforma operada no s é -
culo X V I , movimentos estes que. como se sabe. reper-
cutiram decisivamente em toda a Europa.
Mais tarde, no p e r í o d o de 1793-94. a mesma cor-
rente dc ideias e de ação se revelou vigorosa na activi-
dade, notavelmente independente e construtiva, das
" s e c ç õ e s " de Paris e de todas as grandes cidades e n ã o
pequeno n ú m e r o de comunas da F r a n ç a . (Vide a nossa
obra sobre a Grande Revolução.)
O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 137

der o facto de serem raros na antiguidade os pensa-


dores de t e n d ê n c i a s acentuadamente anarquistas.
Desses poucos, o estóico grego Z e n ã o foi um. Pre-
gava a comunidade livre, sem governo de espécie al-
I
guma, em oposição à utopia estatista de P l a t ã o , na
I I
sua célebre República. Zenão, já nesse tempo, punha
em evidência o instinto de sociabilidade que l natu-
reza, segundo o seu parecer, desenvolve em oposição
As ideias anarquistas na história ao instinto egoísta da p r e s e r v a ç ã o do indivíduo. Pre-
via um tempo em que os homens c uniriam por sobre
1'ROUDHON — S T I R N E R as fronteiras e constituiriam 0 "CosnlOI , 0 U n i -
verso, sem necessidade de bus. dc c a m a r á s legislati
Impregnados, como evidentemente o foram, de um vas. de tribunais, de templos, nem sequer de moeda
certo e s p í r i t o anarquista, esses movimentos n ã o se para o i n t e r c â m b i o de seus serviços. As suas p r ó p r i a s
desenvolveram sem deixar sulcos profundos na litera e x p r e s s õ e s parecem-sc. ao que é dado verificar, de
tura escrita. modo notável à s que modernamente empregam os
E , com efeito, os vamos encontrar no grande pen- anarquistas ( 1 ) .
sador chinês que foi L a o - T s è u , «pie morreu 450 anos O bispo de Alba. Marco Girolamo Vita, proles
antes da era actual, e nalguns dos mais antigos filó- Bava em 1553 ideias semelhantes contra o Estado, as
sofos gregos, como A r i s t i p o e os hedonistas, Z e n ã o e suas leis e sua "suprema i n j u s t i ç a " ( 1 ) . Vamos en-
alguns estóicos, quatro séculos anteriores ao calen- contrar as mesmas ideias nos hussitas. especialmente
dário usual. em Chelcicki. no século X V , nos primeiros anabaptis-
Todavia, porque em sua essência o e s p í r i t o anar- tas e seus precursores do século I X que foram os
quista mergulhava raízes nas massas e n ã o nos cená- racionalistas da A r m é n i a .
culos de sábios, — os quais, na verdade, escassas sim- Rabelais. o imortal autor do Gargantuá e Panta-
patias nutriam pelos movimentos populares, — os pen- gruel, na primeira metade do século X V I , e, sobretudo,
sadores da época, em geral, n ã o procuravam extrair o enciclopedista Diderot, na segunda metade do século
a ideia profunda e fundamental em que se inspiravam
tais movimentos.
ti) Vide sobre Zenão a obra do professor G. Adler,
Em todos os tempos, e isto é sabido, os filósofos (ieschichte des Socialismus und Komiminismus von Plato bis
e os sábios preferiram sempre favorecer e justificar (iegenwart, 1899 (História do Socialismo e do Comunismo detdi
as t e n d ê n c i a s governamentais e 0 e s p í r i t o de disciplina Pla tf. o até a época attial).
hierárquica. Constituiu seu predilecto estudo, desde o Vide igualmente o artigo A N A R Q U I S M O publicado RI
"Enciclopédia Britânica", undécima edição. — N <\" h
alvorecer das ciências, a arte de governar e essa é, t]) Vide: Dr. E . Nys, — Recherches sur 1'eionomir
sem dúvida, a r a z ã o por que n ã o nos deve surpreen- litique, Paris. 1898. pag. 222.
138 P E T KR K R O P O T K I N O ANARQUISMO I : A CIÊNCIA MODKRNA 139

X V I I I , desenvolveram as mesmas ideias, as quais, jus- ausência de governo e submeteu a uma severa crítica
to é reconhecer, encontraram certa e x p r e s s ã o p r á t i c a os i n ú t e i s esforços dos homens em procurarem, para si
no tempo da R e v o l u ç ã o Francesa. p r ó p r i o s , um governo tal que pudesse impedir Q do-
Mas foi o b r i t â n i c o W i l l i a m Godwin, — veja-se o m í n i o dós fracos pelos fortes, dos pobres pelos ricos,
que d e i x á m o s escrito nos c o m e ç o s do capítulo X deste e, ao mesmo tempo, permanecer s o b a rigorosa i m
estudo, pag. 109, — quem pela primeira vez e x p ô s , é m pecção dos governado-. \ reiteradas tentativas í e i t a i
1793, os princípios políticos e e c o n ó m i c o s do Anar- em F r a n ç a desde 17 M para obter Be uma ( o n s t i t u i ç & O
1

quismo. Sem empregar na sua exposição esta palavra, modelar que plenamente correspondesse a e s s e desi-
definiu-lhe, entretanto, claramente os princípios, ata- deratum e o malogro da revolução de 1848, forneceram
cando rijamente as leis, provando a inutilidade do Es- a Proudhon vasto arsenal dc preciosos materiais para
tado e, finalmente, sustentando que, só com a abolição fundamentar a sua critica demolidora
dos tribunais, seria exequível a verdadeira J u s t i ç a , — I n i m i g o de todas a s formas de socialismo de Es-
único fundamento real de toda a sociedade. Relativa- tado, das quais, aliás, os comunistas daquele tempo
mente à parte económica, à propriedade, preconizava (1840-1850) nada mais eram do que simples lubdivi
abertamente o comunismo ( 2 ) . soes, Proudhon criticava acerbamente todoi o planoi
de r e v o l u ç ã o contidos nesses e s p é c i m e s de BOCÍalismo
e tomando de Robert Owen o sistema de " b ó n u s de
t r a b a l h o " , desenvolveu a sua c o n c e p ç ã o de Mutua-
Proudhon foi. p o r é m , o primeiro que empregou lismo (pie tornaria inútil, a seu ver. toda a forma de
deliberadamente a palavra " A n - a r q u i a " no sentido de governo político.
O valor m u t a t ó r i o de todos os produtos podendo
(2) Quanto a esta última parte, a exposição íntegra das ser avaliado ou expresso, assim o afirmava o famoso
doutrinas sociais de Godwin, somente se encontra na primeira r e v o l u c i o n á r i o , pela quantidade de trabalho social ne-
edição, publicada em Londres cm 1793, da sua extraordinária c e s s á r i o para os produzir, todas as trocas entre pro-
obra A N E N Q U I R Y C O N C E R N I N G P O L I T I C A L J U S T I C E dutores poderiam muito bem efetuar-se por i n t e r m é d i o
AND I T S I N F L U E N C E O N G E N E R A L V I R T U E AND
H A P P I N E S S (Investigação àcêrea da Justiça Política c da de u m Banco Nacional que aceitasse em pagamento
sua influência sobre a Virtude Geral e a Felicidade) em dois os " b ó n u s de t r a b a l h o " . Similarmente funcionaria
volumes in-4.°. A segunda e terceira edição dessa mesma obra, uma C â m a r a de C o m p e n s a ç ã o (Clearing House), como
publicadas em 1796-1798 em dois volumes in-8.°, em conse- já hoje existem para os negócios b a n c á r i o s em todos
quência das perseguições movidas pelo governo inglês contra
os amigos e cooperadores republicanos de Godwin, não trazem os países, que estabeleceria diariamente, cm um re-
a parte em que o autor cxpunba as suas opiniões comunistas, trospecto demonstrativo, o b a l a n ç o das entrada- <•
atenuando quanto escrevera na primeira contra o Estado e o saídas.
governo.
Pretendia Proudhon que os serviços prestado! pOf
Uma exposição sintética das doutrinas de Godwin pode
ser vista na obra de A. Menger. adiante citada, O Direito «o essa forma entre as diversas entidades produtoras <
Produto Integral do Trabalho, cap. 111 — N. do A. e do T . equivaleriam e, nessa conformidade, o Banco Nacional
O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MOOKRNA 141
140 PKT KK K R O P O T K I N

a An-arquia, como o fizera Proudhon e seus continua-


estaria habilitado a facilitar e m p r é s t i m o s à s associa- dores, é. todavia, certo que uma corrente de pensa-
ções de trabalhadores para incrementar a p r o d u ç ã o , mento anarquista soprava r i j o em todo o socialismo
e m p r é s t i m o s esses que^evidentemente, n ã o o seriam inglês desses anos, como, de-resto bem o nota o pro-
em moeda-dinheiro, mas em " b ó n u s de trabalho", sem fessor b r i t â n i c o F o x w c l l no seu estudo i n t r o d u t ó r i o
intuitos de lucro de qualquer espécie, fornecidos ape- à v e r s ã o inglesa da notável obra tio professor da U n i -
nas com uma sobrecarga, no m á x i m o de u m por cento versidade de Viena, Anton Menger, O Direito ao Pro-
anual, a t í t u l o de cobertura das despesas administra- duto Integral do Trabalho i I i
tivas. Nessas condições, o capital emprestado sem
juros perderia inteiramente o seu c a r á t e r pernicioso e «*
n ã o poderia, portanto, ser empregado como instru- O O
mento de e x p l o r a ç ã o . Proudhon deu ao seu sistema
mutualista os mais largos desenvolvimentos para con- Nos Estados Unidos representava essa I I U M I I Í Í
firmar assim as suas ideias anti-governamentais e anti- tendência Josiah W a r r e n que, a principio, membro da
estatistas. colónia " N e w H a r m o n y " organizada p<u Ohert Owen,
Com toílos os visos p r o v á v e i s . Proudhon n ã o co- se voltou depois contra o comunismo, fundando, 00
nheceu, de-certo. os precursores ingleses do seu sis- ano de 1 8 2 7 . em Cincinnati. um "estabelecimento'*
tema: o fato é que a parte mutualista do seu programa (store) onde os produtos se trocavam na base do va-
fôra. já em 1824, na Inglaterra, exposta e desenvolvida lor dado à s horas de trabalho e dos " b ó n u s de traba-
por W i l l i a m Thompson, (1) — que, de mutualista a l h o " . Institutos desta natureza ainda existiam em
principio, se tornara depois comunista, — e pelos con- 1865 sob as d e n o m i n a ç õ e s de Equity Stores, Equity
tinuadores ingleses da sua obra que foram, para n ã o Village e House of Equity (Estabelecimentos, aldeia e
citar s e n ã o os principais, John Gray (1825-1831), John casa da Equidade).
Hodgskin (1825-1832), J. F. B r a y (1839) e Charles As mesmas ideias de troca, esta baseada na me-
Bray (1841). dida do valor segundo a quantidade de trabalho e x i -
Embora esses autores n ã o houvessem formulado gido para a p r o d u ç ã o das cousas, foram propagadas
na Alemanha em 1 8 4 3 - 4 5 por Moses Hess c K a r l
Griin, e na Suiça por W i l h e l m M a r r , — filiados às
(1) W I L L I A M T H O M P S O N , falecido em 1833. era par- doutrinas do francês Babcuf, — que combatiam as
titlári.» de uma forma de socialismo muito avançado. Deve
ser considerado, com inteira justiça, como o mais eminente doutrinas comunistas a u t o r i t á r i a s de W i l h e l m W c i t -
fundador do socialismo científico moderno. Foi nas suas obras, l i n g expostas na sua obra Garantien der Harmonie
notadamente na "An Inquiry into the Principies of the Dis-
tribution of Wealth most conducive to human Happiness". (1) A edição original. — Das Recht auf den vollcn Ar-
publicada em 1824. que os socialistas posteriores, Saint-Simon, beitserpag, austríaca, é de Viena, 1886. A edição fram • i ahl
Proudhon. Marx e outros, se inspiraram directa ou indirecta- sob o título " L e Droit au Produit Integral du Travall, étadi
mentf Aquela é. certamente, a obra a que Kropotkin se historique", da 2." edição original. Paris, 1900. — 1 do
refere. — X. do T .
142 P i: T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO B A CIÊNCIA MODERNA 143

und Freiheit (Garantias da Harmonia e da Liberdade) Raciocinando como verdadeiro metafísico da e s :

publicada em 1842. • cola de Hegel, Stirner proclamava a integra reabili-


E m completa oposição ao forte comunismo auto- t a ç ã o do " E g o " , a supremacia do indivíduo em t o -
r i t á r i o de W e i t l i n g . que conseguira recrutar um gran- do» os tons, e. por esse caminho, chega na sua obra
de n ú m e r o de adeptos por entre o operariado a l e m ã o , a defender 0 mais completo amoralismo (moral ine-
apareceu em 1 8 4 4 a obra de um hegeliano a l e m ã o , xistente) e preconiza a " A s s o c i a ç ã o dos E g o í s t a s " .
M A X S T l R N E R , cujo verdadeiro nome era Johann P.. todavia, fácil compreender, como clara-
Caspar Schmidt ( 1 8 0 6 - 1 8 5 6 ) , intitulada D e r Einzige mente o demonstraram mais de um autor anarquista
und aein Eigenthum ( O Único c a sua Propriedade), e n ã o anarquista, e há pomos anos ainda o professor
que durante longos anos permaneceu sepulta no o l v i - da I n i \ i .uladr de Ivenues, Vielor Itasch, no seu i n -
do e s ó h á poucos anos redescoberta, digamos, por ter» ante livro l/liidividunlinme Annrehiste Max
Um dos -eus mais ardorosos discípulos, John H e n r y Stirner, publicado p<da bviaii.i de Félix \lcan em
Mackay, autor este de um romance de costumes ope- PH)4. - que esta nova espécie de individualismo ten-
r ár i o s intitulado Os Anarquistas, onde defende as teo- do por exclusivo objecto o pleno desenvolvimento,
rias sociais individualistas ( 1 ) . n ã o de todos s componentes da sociedade, senão uni-
A divulgação da obra de Stirner, que a muitos en- camente de alguns, considerados os melhor «lotados,
tão preocupou, produziu, nos meios anarquistas da sem ter em a t e n ç ã o o direito dc todos a esse mesmo
época, certa s e n s a ç ã o : foi considerada como uma es- pleno desenvolvimento, outra cousa n ã o seria mais
pécie de manifesto dos anarquistas individualistas. do que ura regresso dissimulado, sob os auspícios do
Ela é uma manifesta revolta contra o Estado e con- Estado, ao monopólio da e d u c a ç ã o actual em favor
tra a nova tirania, j á delineada, que seria, indubita- de u m diminuto n ú m e r o de indivíduos, — nobres ou
velmente, imposta se o comunismo a u t o r i t á r i o v i n - burgueses. E m sua simpleza significa isso, nem mais
gasse na sua realização p r á t i c a . nem menos, a concessão do 'direito ao desenvolvi-
mento integral do i n d i v í d u o " a uma casta de p r i v i -
legiados.
(1) — Da obra dc Stirner existem em trances, sob o tí-
, tulo L'Unique et sa Propriété, duas versões, ambas publica- Ora. semelhantes monopólios n ã o p o d e r ã o mau-
das em Paris cm 1900: uma de R. L . Reclaire, editada pela fter-se, a menos que uma legislação monopolista e que
livraria P. V". Stock, constituindo o vol. 28.° da "Bibliotèque o Estado e x e r ç a por coacção, os proteja convenien-
Sociologique" : outra de Henri Lasvignes. edição da "Revue temente, além de que as c o n c l a m a ç õ e s de tais indi-
Blanche".
A novela de Mackay, Die Anarchisten, 1893; original ale-
vidualistas os levam necessariamente à reconstitui-
mão, conquanto o autor fosse escocês, acha-sc traduzida em ção da ideia fundamental do Estado e da autoridade
francês sob o título Les Anarchistes, moeurs de la fin du que t ã o excelentemente haviam criticado e combati-
X I X Slècle, publicada em 1904 pela mesma livraria dc P. V . do. A sua posição é idêntica à de Spencer, que já ea
Stock e constitui o vol. 5.° da referida "Bibliothèque Socio-
logique".
pusemos, e dessa escola de economistas conhecida sob
N. do T . a d e s i g n a ç ã o de "escola de Manchester", que t a m -
144 P E T E K K R O P O T K I N

bem c o m e ç a m por uma crítica severa do Estado, mas


acabam por reconhecer-lhe em cheio a s variadas fun-
ções com o f i m de manter o monopólio da proprie-
dade de que o Estado foi sempre guarda zeloso e forte.
III

AS I D E I A S S O C I A L I S T A S NA I N T E R N A C I O N A L

A FUNDAÇÃO DA " I N T E R N A C I O N A L "

Comunistas autoritários e Mutualistas

O c u p á m o - n o s a t é aqui com o desenvolvimento das


ideias anarquistas desde a R e v o l u ç ã o e do tempo de
Godwin a t é Proudhon. Trataremos agora dos seus
mais amplos desenvolvimentos dc que foi teatro a
A S S O C I A Ç Ã O I N T E R N A C I O N A L DOS T R A B A -
L H A D O R E S , que tantas e s p e r a n ç a s deu ao proleta-
riado universal c n ã o poucas canseiras deu à burgue-
sia nos anos de 1868-70, nas v é s p e r a s da guerra fran-
co-alemã.
Que essa Associação n ã o foi fundada por K a r l
Marx, ou qualquer outra personalidade de destaque,
como nos querem fazer crer os marxistas e os cultua -
dores de h e r ó i s , é um facto já agora mais do (pie pro-
vado. Ela foi a obra do encontro fortuito, em 1862,
cm Londres, de uma d e l e g a ç ã o de o p e r á r i o s france-
ses, vindos para visitar a Segunda E x p o s i ç ã o l ' n u c i -
sai, com os representantes das c o r p o r a ç õ e s íngle I I
de ofícios (Trades Unions), aos quais se agregaram
146 PKTKR K R O P O T K I N O A.NAKoris.Mo i: A C I Ê N C I A MODERNA 147

alguns radicais ingleses para receberem aquela dele- J á em 1830, Kobert Owen intentara organizar na
gação. Inglaterra, além da sua "Grande União Nacional de
Os laços de solidariedade, estabelecidos por via O f í c i o s " (Great National Trades'Union), uma " U n i ã o
desta primeira visita, tornaram-se mais firmes e coe- Internacional de Todos o, O f í c i o s " (International
sos cm 1863 a quando da realização dc um comício de Union of AH T r a d m ) . I <> ;i aia ideia leve de
simpatia p r ó - P o l ó n i a . sendo destas a p r o x i m a ç õ e s que ser abandonada em virtude d.i elvagen pei .egui-
resultou, no ano seguinte, a fundação da célebre As- ções do governo inglês contra a primei™ daquelas
sociação. organi/açi >e
A confirmar quanto dizemos sobre esse facto ca- Todavia, a ideia n.io loi '.emenda em terreno sã
pital da u n i ã o do proletariado universal, referiremos, faro Permanecia latente na Inglaterra e veio a en-
ainda que de passagem, os termos de um interessan- contrai adeptos na branca; depoi do fracasso da re-
te debate relatado em uma das actas das sessões do volução de 18-18 foi. poi alguns pitu cos emigrados
Conselho da " U n i ã o O p e r á r i a I n t e r n a c i o n a l " , reali- franceses, transportada aos Estados I 'nulos onde a pro-
zadas a 13 e 20 de M a r ç o de 1878. Ecarius, u m dos pagaram ardorosamente a t r a v é s (lf mu |omal inlilu
fundadores da Associação, queria que se suprimisse, lado L T N T E R X A T I ( I N A L E .
em um apelo do Conselho, uma frase em que se afir- Embora na maioria mutualistas da escola de Prou
mava ter sido a " I n t e r n a c i o n a l " fundada por ocasião dhon. os o p e r á r i o s franceses vindos a Londres em 1802
da E x p o s i ç ã o Universal de lKoi. substituindo-se por e os membros ingleses das T R A D E S UXIONIS decla
estoutra: "inspirados por esta necessidade (a da u n i ã o radamente p a r t i d á r i o s das doutrinas de Robert Owen,
dos p r o l e t á r i o s de todos o s p a í s e s ) , os o p e r á r i o s fran- não tiveram dúvida em se coligarem e o resultado des-
ceses e ingleses, unidos por um laço de profunda sim- se c o n g r a ç a m e n t o foi a fundação de uma formidável
patia pela Polónia, em 1863, concluíram uma aliança com o r g a n i z a ç ã o o p e r á r i a , criada para o f i m de combater
fins políticos e sociais, resultando de t a l aliança a fun- os p a t r õ e s no terreno económico e para romper com
d a ç ã o da A S S O C I A Ç Ã O I N T E R N A C I O N A L DOS a t á c t i c a de todos os partidos radicais puramente po-
T R A B A L H A D O R E S em Setembro de 1864". Esta líticos ( 1 ) .
ementa provocou, na s e s s ã o de 20 de M a r ç o , uma dis- E m M a r x e outros, essa união das duas principais
c u s s ã o muito animada durante a qual um delegado pre- correntes o p e r á r i a s socialistas da época encontrou deci-
sente, Jung, que assistira à fundação da " I n t e r n a c i o - dido apoio dos remanescentes da o r g a n i z a ç ã o política
n a l " e fora a t é u m dos membros do seu Conselho Ge- secreta dos comunistas-maerialistas que representavam
ral, confirmou que, na verdade, a A s s o c i a ç ã o I n t e r n a - ao tempo o que fora possível conservar das sociedades
cional dos Trabalhadores tivera por início o facto da
r e u n i ã o dos o p e r á r i o s por ocasião da E x p o s i ç ã o de
1862. (1) — Vide: W . Tcherkesoff, — Précurseurs de 1,'lntcr
nationale, (vol. 16.° da "Bibliothéque des Tempu Nouvemn),
BruxelJcs. 1899, — cap. I.
N. do I .
148 P K T K K K R O P O T K I N
O A N AROU is MO K A CIÊNCIA MODERNA 149
secretas organizadas por Barbes e Blanqui em 1830-40,
as quais, paralelamente com as sociedades secretas ale- A A. I . T. se estendeu rapidamente por todos os
mãs, tiveram a sua origem na c o n s p i r a ç ã o de Babeuf países latinos; a sua grande força de combate tor-
em 1794-95. nou-se a m e a ç a d o r a , era irresistível. Quanto à s ideias,
os congressos particulares das suas v á r i a s federações
<• os .inuais ila Associação inteira, proporcionavam
a o s trabalhadores a oportunidade de discutirem em
O leitor deve estar lembrado do que leu no cap. V qUC deveria i o m i In e reali/ai dc lacto a obra
do presente estudo a respeito do que foi o despertar d | R#VoluçAo 'o« • .i 1
l

do e s p í r i t o científico nos anos de 1856-1862, n o t á v e i s Ur i . lai n t t u r e u • • t l r a u U T t n i fartamen-


pelo a d m i r á v e l surto das ciências naturais e da filoso- l. . bem ile ver, a foiça criadora das massas
fia. Foram esses t a m b é m os anos em que se observou
laboriosas na uive l i g a ç ã o de uovai formai de agiu
um despertar quase geral, na Europa e na A m é r i c a ,
das ideias radicais.
pamentos paia n p r o d u ç ã o , >> consumo c a troei
Esses dois grandes movimentos sacudiam igual- Hf
mente as massas trabalhadoras, que e n t ã o c o m e ç a r a m
por compreender (pie s ó a elas incumbia a tareia de
• *
preparar a revolução p r o l e t á r i a . A gloriosa campanha A ideia (pie uma grande revolução estava pres-
de Garibaldi e a consequente independência da Itália, tes a estalar dominava os e s p í r i t o s , mas a respeito
com o apoio da branca, em 185°; a alforria dos servos das formas políticas que essa r e v o l u ç ã o tomaria ou
russos em lKól e a abolição da escravatura nos Estados dot primeiros passos a dar-se quando, porventura, re-
Unidos em 18<>3, haviam impressionado profundamen- bentasse, não se tinha e n t ã o ideia alguma definida,
te todas as almas. concreta. Pelo c o n t r á r i o : no meio da Internacional
A E x p o s i ç ã o Universal de 1862 era tida como uma eram múltiplas e desencontradas as diversas corren-
grande festa da indústria mundial, mas o (pie não se tes socialistas (pie nela predominavam. — donde o
previa era que ela haveria de marcar um novo ponto ser tudo vago e impreciso em m a t é r i a de o r g a n i z a ç ã o
de partida na história das lutas do Trabalho pela sua revolucionária.
e m a n c i p a ç ã o . A g o r a que a Internacional se fundava, ela A ideia que predominava na A. I . T . era a da
iria, sem dúvida, anunciar aos quatro ventos os seus luta directa do Trabalho contra o Capital no terreno
ideais, c o m e ç a n d o pela rutura absoluta com todos os económico, — isto é. a e m a n c i p a ç ã o do Trabalho, n ã o
velhos partidos políticos e a resolução firme em que mediante uma legislação na qual a burguesia tomasse
estavam os trabalhadores de reivindicarem seriamen- parte e concordasse, mas levada a cabo pelos p r ó p r i o s
te a obra da sua e m a n c i p a ç ã o . Ora, tudo isto haveria trabalhadores, dispostos, evidentemente, a arrancar
necessariamente de produzir na época funda impres- dos p a t r õ e s todas as concessões possíveis, forçando
são nos e s p í r i t o s , — e foi precisamente o que se deu. os. por- este ou aquele meio, a capitular definitiva
mente.
150 PKTKK K R O P O T K I N O ANAKÇU IS.MO v. A C I Ê N C I A MODKRNA 151

Mas como a l i b e r t a ç ã o dos trabalhadores '1.. jugo tas) e dos comuni ita a l e t n i e i (Kommunisten-Bund)
capitalista se faria. que formas tomaria a nova orga- p a r t i d á r i o s de Weitling. Ambas essas tendências de-
nização da p r o d u ç ã o c da troca, eis o que n i n g u é m rivavam das t r a d i ç õ e s do fero/ jacobinismo dc 1793.
saberia dizer ao certo. A este respeito, os socialistas Ainda em 1818 sonhavam conquistai um dia, por efei-
estavam t ã o divididos em 1 8 6 4 - 1 8 7 0 quanto já o es- to de alguma con pua. ao, o podei político do Esta-
tavam vinte anos antes, quando os representantes das do, - de certo com o apoio prévio de qualquer dita-
diversas escolas.socialistas se encontraram na Assem- dor, — e estabelecer, fundada no i leio das socie-
bleia da Constituinte Republicana em 1 8 1 8 cm Paris. dade' jacobina >\ ' M , porém desta leita em exclusivo
Como os seus predecessores franceses de 1 8 4 8 . proveito .la classe trabalhadora, uma "ditadura do
cujas a s p i r a ç õ e s foram t ã o admiravelmente expendi • proletariado" Esta ditadura, a nu pensavam, impo
das por V i c t o r C o n s i d é r a n t ( 1 ) no seu livro L e Socia- ria, mediante uma f é n e a legislação, o comunismo.
lismo devant le Vieux Monde, 1 8 4 8 (O Socialismo Nessas condições, a função dc p r o p r i e t á r i o , sob
ante o Velho M u n d o ) , os socialistas da Internacio- o vexame e dureza de toda a espécie de lei rc .tritivas
nal n ã o se arregimentavam debaixo da bandeira de e de pesados impostos, tornar-se-ia de tal i lo d i h
uma única doutrina. Oscilavam entre muitas e distin- cil, s e n ã o i n s u p o r t á v e l , (pie os p r o p r i e t á r i o s . veriam
tas soluções e nenhuma era considerada suficiente- obrigados a renunciar aos seus privilégios e muito
mente justa nem bastante precisa para poder congre- felizes se considerariam se conseguissem livrar-se da
gar os e s p í r i t o s , tanto mais que, — cousa notável, — carga de suas propriedades e poder cedê-la- ao Estado
os presumidamente mais a v a n ç a d o s n ã o haviam ain- Poder-se-ia e n t ã o organizar o " e x é r c i t o de agricul-
da rompido completamente com o endeusamento ao tores" que seriam destinados a cultivar os campos,
Capital e à Autoridade. e a p r o d u ç ã o industrial, dirigida igualmente pelo Es-
Vale a pena fazermos um exame retrospectivo tado, se organizaria sob o mesmo tipo. isto é numa v

dessas diversas correntes socialistas. feição semi-militar.


A p r o p ó s i t o será talvez interessante referir aqui
ft * a circunstância de que ideias a n á l o g a s sobre a agri-
cultura dirigida pelo Estado e praticada por " e x é r c i -
tos de agricultores", muito correntes nessa época,
Havia, primeiramente, o legado directo do jaco- já haviam sido expostas e preconizadas por Napol eão
binismo da Grande R e v o l u ç ã o Francesa, — da conspi- I I I (1808-1873), e n t ã o pretendente ao cargo de pre-
r a ç ã o de Babeuf em 1795, — por outra, das sociedades sidente da República, — como o foi depois em De-
secretas dos comunistas-materialistas (os blanquis- zembro de 1848, — em um panfleto intitulado L ' E x -
tinction du Paupérisme ( A E x t i n ç ã o do Pauperi m o i .
(I) — Sobre V. Considérant vide: S. dc Magalhães Lima. Essas ideias tinham largo curso ao tempo da fun
— O Primeiro de Maio, Lisboa, 1894, pag. 21 e scg\
dação da Internacional e continuaram a circulai altl
N. do A.
152 P KT 1 1 K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 153

da por longo tempo na F r a n ç a com os hlanquistas e senta hoje as funções do Estado em m a t é r i a e c o n ó -


na Allemanha com os lassalianos c social-democratas. mica se tornaria nulo uma vez estabelecido o sistema
de intercambio por meio do Banco do Povo e das
Clearing Houses ( C â m a r a s dc C o m p e n s a ç ã o ) . A edu-
Em diametral oposição a esse jacobinismo comu- cação e a higiene públicas, as empresas n e c e s s á r i a s
nista se levantava a ideia cooperativa de Robert Owen ao bom funcionamento da sociedade, as vias de comu-
que, recusando absolutamente apelar para a acção nicarão, etc.. seriam a obra das comunas indepen-
coerciva do Estado, contava m u i t o mais, para operar dentes,
a revolução e estabelecer uma sociedade socialista, \a ideia de " b ó n u s de trabalho" em sub
com a acção das uniões corporativas (trades unions) stituiçào da moeda para reali/ai todas as o p e r a ç õ e s da
organizadas e federadas entre si. Os p a r t i d á r i o s ingle- economia BOCial, porém, justa posta a ideia do Entado
ses de Owen repeliam o comunismo, é facto; mas, feito proprietário de todas as terras, usinas, cami-
de a c c ô r d o com os p a r t i d á r i o s franceses da escola dc nhos de ferro, fábricas, etc. I I . I M . I ji ido enunciada
Fourier. davam suma i m p o r t â n c i a à s comunidades ou em 1848 por dois n o t á v e i s publicistas, conquanto obsti-
grupos livremente c o n s t i t u í d o s e livremente federa- nadamente ignorados dos socialistas actuais, I onstafl
dos, na posse comum do solo e das fábricas, que po- tin Pecqueur c F r a n ç o i s Vidal, que denominaram Q
riam em imediato funcionamento, bem como dos en- seu sistema económico de colectivismo.
tre p ó sitos do (pie produzissem os seus membros. Es- Vidal, autor dc dois livros que ficaram c é l e b r e s :
tes trabalhariam, em comum ou isoladamente, con- De la Repartition des Richesses, publicado cm 1846.
forme as necessidades ou conveniências da p r o d u ç ã o ; Vivre en travaillant, 1848, foi s e c r e t á r i o da C o m i s s ã o
a r e t r i b u i ç ã o , pelo trabalho no grupo ou na comuna, do Luxemburgo e Pecqueur escreveu um tratado
se faria por meio dos " b ó n u s de t r a b a l h o " , os quais completo sobre a q u e s t ã o , — Economie Sociale, 1838.
representariam a quantidade de horas dispendidas por — em que, com n o t á v e l maestria, desenvolvia o seu
cada u m na cultura dos campos, no trabalho das o f i - sistema em bases legislativas, de tal forma que a A s -
cinas e das fábricas comunais. No caso de p r o d u ç ã o sembleia da Constituinte de 48, de (pie era membro,
fora dos grupos, a comuna por si faria, mediante os nada mais teria a fazer do que votar e sancionar as
mesmos " b ó n u s " , a a q u i s i ç ã o das mercadorias, pro- leis que formulara para realizar a revolução social.
duzidas ou fabricadas individualmente, trazidas aos No momento da fundação da Internacional os no-
d e p ó s i t o s da comuna. mes de Vidal e Pecqueur estavam inteiramente esque-
Essa mesma ideia de r e m u n e r a ç ã o do trabalho por cidos e a t é os seus c o n t e m p o r â n e o s os ignoravam.
meio de " b ó n u s de t r a b a l h o " , como j á a t r á s vimos, Mas as ideias de o r g a n i z a ç ã o social que eles patroei-
fora perfilhada por Proudhon e por todos os mutua- navam j á se haviam propagado largamente e vieram.
listas seus p a r t i d á r i o s , que repeliam a i n t e r v e n ç ã o — essa é que é a verdade, — a ser renovadas com as
coerciva do Estado na sociedade que houvesse de sur- pomposas d e n o m i n a ç õ e s actuais de "socialismo cien
gir da r e v o l u ç ã o . A f i r m a v a m eles que o que repre- t í f i c o " . " m a r x i s m o " e "colectivismo".
<) A X A K O U I S M O E A C I A N C I A MÒOSRNA 155

por n ã o serem elas instituições i m u t á v e i s . Se novas


modificações na estrutura social j á hoje se i m p õ e m ,
n ã o é de estranhar que a m a n h ã se tornem facto
consumado."
A abolição da propriedade privada. proclama-
As Doutrinas Sociais de Saint-Simon vam os san simoiiiatios, poderia ser conseguida gra-
dualmente por meio da aplicação de uma série de me-
Concomitantemente com as diversas escolas so- didas adequadas, mm aliás, já a Grande Revoluçlo
cialistas que acabamos de enumerar, existiam t a m - iniciara Kssas medidas, consistindo na aplicação de
bém as ideias da escola de Saint-Simon que tendo pesados impostos obie a herança, m i mil iriam ao Es-
exercido larga p r e p o n d e r â n c i a sobre os e s p í r i t o s an- tado apropriai se de uma parte, que naturalmente iria
tes de 1848. continuaram a dominar as concepções so- tempre avolumando se, das propriedades oiitroi i trans-
cialistas dos membros da A . I . T . mitidas por via h e r e d i t á r i a de uma a outra g e r a ç ã o A
h e r a n ç a individual, j>or efeito dessa-, medidas, ir-sc-ia
U m grande n ú m e r o de brilhantes escritores, pen- sensivelmente reduzindo de modo tal que. i m pouco
sadores, políticos, historiadores e industriais surgiram tempo, teria desaparecido c os p r ó p r i o s ricos, afinal,
no p e r í o d o de 1830-40 influenciados pelas doutrinas compreenderiam as vantagens que resultariam do d>an-
do san-simonismo. Citaremos os mais n o t á v e i s : A u - donar um privilégio só c a r a c t e r í s t i c o de uma civiliza-
guste Comte na filosofia. Augustin T h i e r r y conto his- ç ã o caduca. O abandono v o l u n t á r i o da propriedade por
toriador e Leonard Sismondi entre os economistas. parte de seus possuidores e a s u p r e s s ã o legal da he-
Pode-se dizer que lodos os reformadores sociais da- rança viriam assim a constituir o Estado san-simoniano
quela época estiveram sob a influência da escola de feito p r o p r i e t á r i o universal das terras e da i n d ú s t r i a ,
Saint-Simon. regulador supremo do trabalho, chefe e director abso-
" O progresso (pie a t é agora a humanidade con- luto das t r ê s grandes funções da vida social a \ r t e , a
quistou, — assim o afirmavam esses pensadores, — Ciência e a I n d ú s t r i a ( 1 ) .
consistiu afinal cm transformar a e s c r a v i d ã o em ser- Cada indivíduo, na sua qualidade de obreiro dos
vidão e esta em salariato". Mas. infalivelmente, tem- ramos supra-mencionados, se converteria em uni fun-
po virá cm que o p r ó p r i o sistema do salariato será, cionário do Estado cujo governo seria composto de
por sua vez. abolido e. com êle, d e s a p a r e c e r á t a m b é m uma hierarquia dos "melhores homens". — os me-
a propriedade individual dos meios n e c e s s á r i o s à pro-
dução. " N ã o tem nada de impossível, — acrescen- (1) — N a exposição que Victor Considérant faz na sua
T

tavam, — a d m í t i r - s e como mui p r o v á v e l , s e n ã o certa. já citada obra, — Le Socialisme devant le Vieux Monde, pafl
< ita nova t r a n s f o r m a ç ã o social, poisque tais e tantas 36 se vê como os socialistas de 1848 compreendiam as ideias
teem sido as fases por que h ã o passado a t r a v é s da dc Saint-Simon e como a maioria delas constitui •> fundo dos
ensinos da social-democracia moderna.
história a propriedade e a autoridade que é lícito su- N. do A.
O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 157
156 P E T 1: R K R O P O T K I N
individual. X ã o obstante os excelentes trabalhos que
lhores na Ciência, na A r t e e na I n d ú s t r i a . A distribui- muitos dentre eles produziram em m a t é r i a de econo-
ção dos produtos se faria neste sistema segundo a mia política, não chegaram, entretanto, a conceber a
fórmula sau-simoniana: " a cada um segundo a sua p r o d u ç ã o das riquezas como um facto social, isto é,
capacidade, a cada capacidade segundo as suas obras." um facto global. Se a tal chegassem, teriam sido, for-
Aparte essas pre vis õe s do futuro, a escola san- ç o s a m e n t e , levados a compreender que é materialmen-
simoniana e a filosofia positiva de Comte, que dessa te impossível determinar, com inteira justiça, I parte
escola deriva, foram as inspiradoras, durante o século que deva sri atribuída a rada um dos produtores na
X I X , de u m sem n ú m e r o de n o t á v e i s trabalhos histó- massa lotai das ii<pie/a piodii/idas
ricos em que se discutiram, de uma maneira verda- Nesse (Minto havia uma profunda divergência «n-
deiramente científica, as origens da autoridade, da trt comunistas i MUI ilmoniano ELm um caso, porém,
propriedade privada e do Estado, obras essas que ain- c.tavani de pleno acordo me e OUtro era na q u e s t ã o
da hoje conservam todo o seu p r i m i t i v o valor. lelativa ao individuo, em «pie, de um lado c ,|< outro,
A o mesmo tempo os san-simonianos submetiam ignoravam completamente <piai os direitos (pie, por
a uma severa crítica toda a economia política clássica Ordem natural dos factos, a este as istiam.
de Adam Smith e Ricardo, conhecida maia tarde pela Quando muito o (pie os comunistas concediam ao
d e n o m i n a ç ã o de ''escola liberal dc Manchester", cujo indivíduo era o direito de eleger os seus administra*
lema era "a n ã o - i n t e r v e n ç ã o do Estado". dores e governantes, cousa que, antes de 1848, n ã o
P o r é m , enquanto combatiam tenazmente o prin- admitiam os primeiros san-simonianos, os quais, a
cipio individualista industria! e de livre c onc orrê nc ia princípio, nem sequer reconheciam o p r ó p r i o direito
dos eitados economistas, incidiam os san-simonianos. dc eleição. Debaixo da bandeira do comunismo auto-
sem talvez o saberem, no mesmo erro quando c r i t i - r i t á r i o , como da do san-simonismo e do colectivismo,
cavam o Estado M i l i t a r e as classes hierarquicamente 0 indivíduo não passavam de um mero funcionário do
organizadas. Acabavam por reconhecer a Oni potência Estado. E com Etienne Cabet, autor de um livro que
do Estado e baseavam o seu sistema social, — como teve certa voga. — Voyage en Icarie, 5.* edição. 1848,
o notara C o n s i d é r a n t , — na desigualdade e na auto- — fundador de uma colónia comunista na América,
ridade e, consequentemente, na necessidade de mau representante perfeito do tipo do comunismo jacobino,
ter uma hierarquia administrativa, chegando a t é a a s u p r e s s ã o do indivíduo atinge o auge.
dar a toda essa hierarquia governamental o c a r á c t e r A-pesar-da bela e p í g r a f e , que vem estampada'
de s a c e r d ó c i o ! nesse livro, a cada um segundo as suas necessidades,
* de cada um segundo as suas forças, topamos a cada
è A passo com a autoridade, o Estado, indo este a t é imis-
cuir-se na cozinha de cada família c o m u n i t á r i a ! N ã o
Diferem os san-simonianos dos socialistas de 48 contente com o fornecer um "Guia do Cozinheiro"
em admitirem que o indivíduo tem, na massa dos bens para uso de cada família, a República acrata de l i a r i a
produzidos pela comunidade, uma parte puramente
158 1* i- T i . R K R O P O T K I N Q ANARQUISMO t A CIÊNCIA MODKRNA 159

vai ate formular uma completa lista dos alimentos da sabedoria m á x i m a . As nossas aceradas críticas res-
aprovados; os vários agricultores e o p e r á r i o s da Repú- pondiam-nos com estas palavras de Cabet:
blica produzem-nos e, em seguida, ela os faz distribuir " N ã o resta dúvida que a comuna para se manter
equitativamente. "Como n i n g u é m , escreve Cabet, po- impõe necessariamente incómodos e t r o p e ç o s de vária
derá ter outros alimentos senão os que a República e q i é c i e . o que n ã o é dc admirar unia vez que a sua prin-
prescreve, concebe-se que n i n g u é m possa consumir se- eipal mis a.» c produzir a riqueza e estabelecer a feli-
n ã o os que ela aprova". (Voyage en Icarie, p a £ . 52). cidade paia i o d o , Ora, para (pie a comuna possa cum-
A comissão administradora chega a t é ao desplante prii o eu d . ' . i n eial. necessário é evitar os duplos
de regular o n ú m e r o de refeições, as horas em que de- rtuprcgoN < a p m d a . ; cumpre economizar e dupli-
vem ser tomadas, o tempo que nelas deve ser gasto, o • * « taittu preciso n p r o d u ç ã o agrícola <• industrial,
n ú m e r o de pratos, a qualidade, a espécie e a ordem i i i rvtdentemeu11 11• < i lário que a Sociedade
por que devem seguidas. Quanto ao v e s t u á r i o , as mes- « o i i e r i i l M ' , iliupoiíha <- • f t j a . t u d o , <|iie nuhmetn i o d a *
ma- m i n ú c i a s : á mesma c o m i s s ã o incumbe o r d e n á - l o an v o i í t u d r n «• l o d i m nu aeçòen it rum regra, « Min ordem
convenientemente, estabelecendo um certo p a d r ã o , e à sua disciplina. 0 bom cidadão deve m< abs
mandando mesmo usar determinado uniforme segundo i i i ic de t u d o que nfto lhe fôi ordenado iVoyage,
• as condições e. a posição do indivíduo na República. pag < Q 3 ) .
Os o p e r á r i o s , fabricando sempre «• constantemente o E o (pie mais lamentável em tudo isto é que,
mesmo objecto, constituem um perfeito regimento, — nos a u t o r i t á r i o s , permanecia a convicção (pie, no fim
" t a l a ordem e a disciplina reinantes", exclama exta- de contas, como o dissera Cabet. '"a comunidade é
siado o famoso Cabet! t ã o possível coexistir com um monarca como com uni
A vista do exposto, inútil será dizer (pie n i n g u é m presidente republicano.*' Foi precisamente essa ideia
poderia publicar qualquer cousa sem o assentimento que adornou o caminho para ô golpe de Estado de
da República, e se a l g u é m se quisesse a b a l a n ç a r ao pa- M i p o l e l o N I e que, muito mais tarde, foi a fórmula
pel de autor, só depois de uni maduro exame e de uma que permitiu aos socialistas a u t o r i t á r i o s consentirem
especial a u t o r i z a ç ã o , devidamente documentada, o con- t ã o facilmente na r e a c ç ã o burguesa.
seguiria !
E' naturalmente de duvidar-se que a utopia de *
Cabet houvesse obtido no seio da Internacional maioria * *
absoluta de p a r t i d á r i o s , mas o que, por outro lado, é
certo é que o e s p í r i t o dessa maravilhosa utopia íicõu. Para completar éste período histórico devemos
í . absolutamente certo. — e n ó s sentiamos muito bem
: mencionar a escola de Louis Blanc que. na época, con-
nas discussões que t r a v á v a m o s com os a u t o r i t á r i o s , so- tava numerosos p a r t i d á r i o s na F r a n ç a e na Alema
bretudo com os comunistas a l e m ã e s , — que mesmo a nha onde era representada por corpo compacto dc
r e g u l a m e n t a ç ã o citada, que hoje nos parece t ã o absur- lassalianos. Estes socialistas, t ã o estatistas quanto 0
da, era. e n t ã o e agora, considerada como a expressar» eram os precedentes, consideravam que a passagem da
160 1' K T B K K R O P O T K I N
< ' ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 161

propriedade industrial das m ã o s do Capital para as do Junho desse ano, eram largamente espalhadas na A . I .
Trabalho poderia efectuar-se, se um governo, o r i g i - T. E r a m , certamente, muito acentuadas as diferenças
n á r i o de uma revolução e inspirado em ideias socia- de opiniões individuais, mas. como acabamos de ver,
listas, prestasse m ã o forte aos trabalhadores para se os p a r t i d á r i o s das diversas correntes estavam de intei-
organizarem por si p r ó p r i o s , estabelecendo, em uma ro acordo para reconhecerem, como base da p r ó x i m a
larga escala e unidas entre si em um vasto sistema ^e r e v o l u ç ã o , um governo forte que, conservando a or-
p r o d u ç ã o nacional, associações o p e r á r i a s cooperativas, gtnizaçfto centralizadora e h i e r á r q u i c a do Estado,
à s quais o governo emprestaria o capital ne cessário. mantivesse, ao mesmo tempo, nas suas mãos toda a
Como forma t r a n s i t ó r i a praticar-se-ia nessas as- vida económica da nação
sociações o princípio de uma r e t r i b u i ç ã o igual para
Kcli/iiieiite ipic .li» lado destas ideias jacobinas
todos os seus membros, conquanto o objectivo final
• los endeti adoi i do Estado, havia ainda, a pesar na
fosse o de chegar, em tempo oportuno, ao princípio
balança, as ideias dos pai t idai i< >•. de boiíriei (• delas
da distribuição dos produtos segundo as necessidades
que em seguida nos ocuparemos
de cada u m dos produtores. Era, como se vê e Consi-
d é r a n t o nota, a p r á t i c a de um san-simonismo comu-
nista sob a tutela governamental de um Estado de-
mocrático.
Amparadas por um largo sistema de c r é d i t o na-
cional, (pie forneceria os capitais n e c e s s á r i o s a uma
taxa de juros ínfima, colocadas assim cm condições
i \ competir eficazmente com a p r o d u ç ã o capitalista,
além de preferidas para as encomendas do Estado, —
essas associações o p e r á r i a s , dentro em breve, ]>ode-
riam e s c o r r a ç a r da indústria o capitalista, substituin-
do-o vantajosamente. E n ã o só na i n d ú s t r i a exerce-
r i a m a sua actividade; na agricultura igualmente fa-
r i a m experiência a n á l o g a estendendo assim o seu
campo de acção. Esse fim e c o n ó m i c o , — digamos,
socialista, — e n ã o o ideal simplesmente d e m o c r á t i c o
dos políticos burgueses, jamais os trabalhadores de-
veriam perdê-lo de vista.
Todas essas ideias, com diversas modificações
nas particularidades que o desenrolar dos factos indi-
cavam, elaboradas no decurso da propaganda socia-
lista anterior a 1848. pelas revoluções de Fevereiro e
O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODKRNA 163

gar de destaque nas obras que tratam da hi st ór i a do


socialismo. O seu primacial p r o p ó s i t o era pôr um ter-
mo ao comércio individual que, exercido unicamente
com a mira nos lucros pessoais, leva, como conse-
quência fatal, à s mais ruinosas e fraudulentas espe-
culações. Para a c o n s e c u ç ã o do seu objectivo, propu-
nha fundar-se uma organização livre nacional para o
A s doutrinas sociais de Charle» Fourier intercambio dc todos os produtos. Esse programa o u -
t i " Mi-, era senão o contido na ideia que a Grande
Fourier, c o n t e m p o r â n e o da Grande R e v o l u ç ã o , da Revolução tentou realizar em 1793 4 depois que o M

qual deduzira as suas ideias essenciais, j á n ã o era v i - povo parisiense houvesse expulsado da C o n v e n ç ã o os
vo ao tempo da A . I . T . A s suas doutrinas tinham, "girondinos" e promulgasse ,i chamada lei do ma-
porem, sido t ã o popularizadas por seus adeptos, espe- ximum.
cialmente por C o n s i d é r a n t que lhes deu certa unidade
Como o deixou escrito Considérant na sua mento
científica, que, cientemente ou n ã o , os e s p í r i t o s mais
rável obra L e Socialisme devant le Vieux Monde, pag
lúcidos da Internacional se deixaram fortemente i n -
38, que nunca será supérfluo recomendar aos locialia
fluenciar pelas doutrinas do mestre ( 1 ) .
tas modernos, Fourier via que o" meio único a «.pôr
Para bem se compreender a influência das d o u t r i - a todas as infâmias da e x p l o r a ç ã o actual estava em
nas sociais de Fourier, cumpre notar que a sua ideia "pôr em relações directas produtor e consumidor
predominante n ã o era a da a s s oc ia ç ã o do Capital, do
mediante a o r g a n i z a ç ã o de a g ê n e i a s comunais inter-
Trabalho e do Talento para a p r o d u ç ã o das riquezas a
m e d i á r i a s , d e p o s i t á r i a s , e n ã o p r o p r i e t á r i a s , dos g é n e -
que se dá tanta i m p o r t â n c i a e se põe sempre em lo-
ros e produtos, tomados directamente das fontes pro-
dutoras, expedindo-o se entregando-os directamente
(1) — E ' hoje já demasiado sabido que Marx e Engels aos consumidores apenas com a adição dos gastos reais
tomaram a parte teórica dos princípios económicos expostos
de transporte, armazenagem e a d m i n i s t r a ç ã o que s ã o
no seu célebre "Manifesto Comunista" da obra de Considé-
rant, Príncipes du Socialigme, manifeste de la Démocratie do sempre insignificantes." Nestas condições, os produ-
X I X . ' Siécle, publicada em 1848. Com efeito, basta compul- tos, naturais ou manufacturados, n ã o seriam jamais
sar os dois "Manifestos" para so ter a prova inconcussa que objecto de especulações.
não só as ideias económicas, mas a própria contextura, foram
extraídas por Marx e Engels da obra de Victor Considérant. J á na sua infância, Fourier, que seus pais colo-
Quanto ao programa de acção prática que se lê no "Ma- caram em uma casa comercial, votara ao c o m é r c i o
nifesto Comunista" dc Marx e Engels, é êle o mesmo, como u m ódio execrávcl por observar de perto as inominá-
o demonstrou o professor C. Andler na edição crítica dessa veis especulações e fraudes cometidas. Desde e n t ã o
obra, do programa das organizações secretas comunistas fran-
cesas e alemãs que continuaram a obra das sociedades secre- j u r o u c o m b a t ê - l o com todas as suas força |
tas de Babeuf e Buonaroti. Mais tarde, durante a Grande R e v o l u ç ã o , poda
N. do A . observar pessoalmente as inqualificáveis especulaCj6ei
164 P )•: T K R K K O P O T K I N t) ANAKOIISMO K A CIKNCIA MODKKNA 165

que M faziam com a compra «los bens nacionais e o Conheceu o grande plano dos "sans-culottes" de
que se praticava, durante I guerra, com a alta de pre- 1793-94 de nacinalizar o comércio, e nessa ideia, sem
ç o s dos g é n e r o s de primeira necessidade. Observou dúvida, se inspirou tornando-se, como dissemos, seu
igualmente, — e observou bem, — que nem a Con- adepto. Michelet, em uma das suas muitas a n o t a ç õ e s
v e n ç ã o jacobina, nem o T e r r o r conseguiram opor um manuscritas citadas por J a u r é s , faz esta curiosa i n -
dique a essas torpes especulações. P ô d e t a m b é m com- t e r p e l a ç ã o : "Quem fez Fourier? nem Ange, nem Ba-
preender como a ausência de um instituto de permu- beuf, única e simplesmente Lyon foi o predecessor de
ta socializada paralizava, nos mais profícuos resulta- Fourier". Melhor diremos hoje: " L y o n e a Revolu-
dos que seriam de esperar-se, os efeitos de uma re- ção de 1793-1794" ( 1 ) .
v o l u ç ã o económica como a que fora a realizada pela
e x p r o p r i a ç ã o dos bens do clero e da nebreza em favor *
da democracia. Por todos estes factos, pôde Fourier * *
entrever claramente a necessidade dc se proceder à
nacionalização do comércio e. apreciando devidamen-
A C O M U N A L I V R E , a municipalidade livre, o
te a tentativa operada nesse sentido pelos " m a l t r a p i -
Falanstério, como a denominava Fourier, resolvia, em
lhos" (sans-culottes) de Paris em 1793-94, fez-se ar-
sua opinião, o magno problema da |>crmuta e da dis-
doroso a p ó s t o l o das suas generosas reivindicações re-
t r i b u i ç ã o dos produtos de primeira necessidade. Po-
volucionárias.
r é m , essa Comuna n ã o seria a proprietária, como ho-
Aliás, éste aspecto particular da personalidade de je o são os negociantes e a t é as cooperativas actuais,
Fourier, isto é, a sua a d e s ã o à s o p i n i õ e s manifestas dos produtos armazenados; seria apenas a sua depo-
dos "sans-culottes" (maltrapilhos), n ã o era conhe- sitária, uma como que a g ê n c i a para recepção e dis
cido no seio da Internacional. I n v e s t i g a ç õ e s h i s t ó r i c a s t r i b u i ç ã o dos produtos, sem poder, contudo, realizai
e bibliográficas recentes informam-nos, todavia, que lucros alguns, sem impor tributos de qualquer espt i l(
um certo L'Ange, leonês, impressionado com o espe- aos consumidores, impedida, portanto, de especulai
c t á c u l o desolador das m i s é r i a s de L y o n durante a re- sobre as flutuações de preços. Atacar o problema so
volução, publicara u m plano de " A s s o c i a ç ã o V o l u n t á - ciai pela permuta e pelo consumo, foi o que fei d l
r i a " extensivo a toda a n a ç ã o . Esta associação teria Fourier o mais profundo pensador socialista.
30.000 celeiros, fartamente nutridos, instalados em
Mas n ã o ficou nisso-o esforço de FouriCl foi
cada comuna, sendo seu objecto a supressão da pro-
a l é m , deu à sua ideia uma maior e x t e n s ã o . Supó qt|<
priedade privada e do comércio privado dos objectos
todas as famílias de uma comuna rural ou indn u • .!
de primeira necessidade, o que viria a estabelecer a
permuta dos produtos pelo seu verdadeiro valor. (1) — Para maiores esclarecimentos, veja-sc I •HAIU»
Teria esse plano de L'Ange inspirado Fourier que que das brochuras de L'Ange fez primeiramente M 1 '
e n t ã o meditava sobre o m e s m í s s i m o problema? eis o pois Jaurés e ultimamente Hubert Bourgin no seu M I
tudo sobre F O U R I E R . editado em Paris em 190
que n ã o se sabe ao certo. Mas é evidente que Fourier
N '
166 I' i T i. K K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 167

— melhor, mixla, — constituiriam uma falange, isto F o r ç o s o é confessar, todavia, que Fourier n ã o con-
é, u m falanstério, que teria em comum as terras, o seguira desenvencilhar-se completamente da influên-
gado. os bens móveis, os instrumentou a g r á r i o s , as cia das ideias estatistas. E ' assim que, para fazer o
m á q u i n a s , e t c , cultivando uns a terra enquanto outros ensaio da sua ideal a s s o c i a ç ã o , para tentar, como êle
se dedicariam aos empreendimentos industriais como o dizia, "uma harmonia simples", e fosse esse ensaio o
se a terra, os bens, as m á q u i n a s e os instrumentos precursor da "verdadeira h a r m o n i a " , — " u m coroa-
fossem propriedade comum e, alem disso, mantendo do poderia intervir nessa r e a l i z a ç ã o " . Poder-se-ia
um cuidadoso registo daquilo com que cada membro conceder mesmo ao chefe político ria F r a n ç a a honra
houvesse c o n t r i b u í d o para a f o r m a ç ã o do capital co- de t i r a r a espécie humana do caos social em que jaz,
mum. de ser, portanto, o fundador da harmonia e o libertador
Dois princípios básicos, dizia, devem absolutamen- do g l o b o " . — assim se exprimia em u m dos sus p r i -
te ser respeitados no í a l a n s t é r i o . E m primeiro logar, meiros escritos. Ainda em 1 8 0 8 repetia a mesma ideia
n ã o deve haver trabalho desagradável. Todo o t r a - na sua obra Théorie des quatre mouvements. Mais
balho deve ser organizado, repartido e diversificado tarde a t é , com o nobre intuito de realizar a sua ideia,
de maneira a ser sempre atractivo. E m segundo logar, para tentar um ensaio preliminar, n ã o hesitou em d i r i -
nenhuma espécie de coacção seria exercida. Em uma gir-se a Luis Filipe (vide a obra de seu discípulo Char-
sociedade organizada segundo o princípio da livre as- les Pellarin, — FOURTER. SA VTE, SA T H É O R T E .
sociação, nenhuma espécie de coacção poderia ser ad- 4.eme edition).
mitida, poivs. sob esse princípio, nem motivo sequer Quanto à 'verdadeira harmonia'*, a "harmonia
haveria para ser exercida. universal", n ã o deveria ter nenhuma espécie de gover-
Com um pouco de a t e n ç ã o inteligente á s necessi- no. Essa "harmonia'* não poderia t ã o pouco estabel-'
dades individuais de cada membro do falanstério e um cer-se à moda de um edifício, "peça por p e ç a " . A trans-
pouco de tolerância para as particularidades dos d i - f o r m a ç ã o deveria ser, em simultaneidade, eminente-
versos caracteres, combinados proficuamente o t r a - mente social, política, e c o n ó m i c a e moral. E quando
balho a g r í c o l a , industrial, intelectual e a r t í s t i c o , os Fourier chegava à crítica do Estado, fazia-o t ã o acer-
membros do falanstério dentro em pouco reconhece- bamente quanto n ó s , anarquistas, a fazemos hoje. " A
riam que, mesmo as paixões dos homens, m a l s ã s e desordem política, assim se exprimia, é simultanea-
perigosas na actual estrutura social e. porisso. ser- mente a consequência e a e x p r e s s ã o da desordem so-
vindo sempre de pretexto ao emprego da força, pode- cial e por ela a desigualdade se converte em iniquidade.
r i a m muito bem constituir uma fonte de progresso O Estado, em nome do qual age o poder, é. funda-
deixadas que fossem a sua natural e x p a n s ã o , procu- mentalmente, por sua origem e princípio, o servidor
rando apenas dar-lhes uma aplicação social útil pela e o protector das classes privilegiadas contra as que
sua t r a n s f o r m a ç ã o em aventuras e empreendimentos o n ã o s ã o " . E , nesse diapasão, continua.
heróicos, em actos de a n i m a ç ã o social, em m u t a ç õ e s Na "sociedade h a r m ó n i c a " que resultaria da apli-
diversas de actividade, etc. cação rigorosa dos seus princípios, toda a coacção te-
lo* I ' I : T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 169

ria de ser banida. A este respeito é deveras de lamen- uma simples concessão ao ambiente r e a c c i o n á r i o da
tar que Fourier faça ainda certas r e s t r i ç õ e s , fale. época, aspecto esse que em nada afectava o essencial
com uma inconsequência singular, de " d i s t i n ç õ e s " e do sistema cuja s í n t e s e se podia formular nos seguin-
" g r a u s " a conferir com o intuito de estimular o ardor tes termos:
ao trabalho, ou e n t ã o quando nos adverte da obediên-
cia à s leis e à s regras n e c e s s á r i a s nas e x p e r i ê n c i a s rela- 1. " — A Comuna, ou seja uma pequena unidade
tivas ao ensaio de aplicação da sua teoria. t e r r i t o r i a l independente, será considerada como
A-pesar-disso, a ideia geral de todo o sistema de a base da nova sociedade socialista;
Fourier é a liberdade absoluta do indivíduo na socie- 2. ° — A Comuna será a d e p o s i t á r i a de tudo que
dade h a r m ó n i c a do futuro. " A liberdade, dizia êle, se produzir nas c i r c u n v i z i n h a n ç a s e a i n t e r m e d i á -
consiste em poder realizar os actos para os quais as ria para todas as permutas. R e p r e s e n t a r á t a m b é m
nossas simpatias nos solicitam. "Se h á indivíduos que a associação dos consumidores e, na maioria dos
se vangloriam de dominar a natureza humana sujei- casos, será m u i provavelmente a célula produtora,
tando-a à s exigências da sociedade actual e que, com a qual p o d e r á constituir-se de um grupo profis-
esse p r o p ó s i t o , a estudam, n ó s n ã o pertencemos a esse sional ou de uma federação de grupos produtores;
n ú m e r o " , acrescenta seu discípulo Pellarin na obra
3. ° — As Comunas se f e d e r a r ã o livremente en-
citada, pag. 222.
t r e si para c o n s t i t u í r e m a F e d e r a ç ã o regional, pro-
* vincial ou nacional:
* * 4. ° — O trabalho t o r n a r - s e - á forçosamente
atractivo, sem o q u ê será sempre uma e s c r a v i d ã o .
E, enquanto essa t r a n s f o r m a ç ã o do trabalho n ã o
Relativamente ao modo de organizar a distribui- fôr conseguida, impossível será qualquer solução
ção dos produtos, Fourier, que depois do fracasso da racional do problema social. N ã o é cousa de du-
Grande R e v o l u ç ã o e durante a espantosa r e a c ç ã o que vidar-se a possibilidade desta t r a n s f o r m a ç ã o :
se lhe seguiu se inclinava para as soluções pacíficas,
insistia sobre a necessidade de reconhecer o princípio 5. ° — Afim-de manter-se a devida harmonia
da a s s o c i a ç ã o do Capital, do Trabalho e do Talento. entre as diversas comunidades ou grupos produ-
De acordo com esse princípio, o valor de cada pro- tores, nenhuma c o e r ç ã o seria necessária. Basta-
duto obtido no F a l a n s t é r i o deveria ser dividido, se- ria, para alimentar essa harmonia, a influência da
gundo o seu modo de ver, em t r ê s partes: uma se opinião pública.
destinaria a remunerar o Capital, outra a recompensar
o Trabalho e a terceira como c o m p e n s a ç ã o ao Talento. Quanto à r e p a r t i ç ã o dos produtos e ao seu con-
A maioria, p o r é m , dos que sustentavam as ideias sumo, as opiniões, na verdade, divergiam bastante. Se-
de Fourier, n ã o ligava grande i m p o r t â n c i a a esse as- ria esse u m assunto que incumbiria à Comuna resol-
pecto particularista do seu sistema, admitiam-no como ver, quer estabelecendo o princípio comunista "a cada
170 I' KT KK K R O P O T K I N () ANARQUISMO E A C I Ê N C I A
V MODERNA 171

um segundo as suas necessidades", quer adoptando em 1839 e 1842, depois por Vidal em 1848, e aos quais
qualquer outro sistema de r e m u n e r a ç ã o segundo os j á tivemos ensejo de nos referirmos ( 1 ) .
resultados. Esta alternativa dos meios de remunera-
ção do trabalho constituiu a essência do sistema co- *
nhecido entre as n a ç õ e s latinas com a d e n o m i n a ç ã o * *
de colectivismo em oposição ao comunismo a u t o r i t á r i o
e n t ã o dominante. Nos escritos.de James Guillaume, que tomou par-
te activa na propaganda do colectivismo, — Idées sur
Com a fundação da A . I . T., a ideia socialista pro- 1'Organisation Sociale, brochura publicada em 1876, na
gredira notavelmente. Primeiramente no Congresso sua monumental obra L'InternationaIe, documents et
de Bruxelas, em 1868, e depois no de Bale. em 1869, souvenirs, 4 vols. publicados em 1905-1910, e, final-
a Internacional, por numerosas maiorias, pronunciava- mente, em u m artigo seu, publicado na Encyclopédie
se abertamente pela propriedade colectiva do solo a r á - Syndicaliste, sob o t í t u l o O Colectivismo da Interna-
vel, das florestas, dos caminhos de ferro, dos canais, cional, — podem ser examinadas todas as modalidades
dos t e l é g r a f o s , das minas, das m á q u i n a s , dos instru- do sentido preciso a t r i b u í d o pelos membros mais acti-
mentos de trabalho, etc. vos da Inetrnacional federalista, — V a r l i n , Guillaume,
De Paepe, Bakunine e seus c o r r e l i g i o n á r i o s , — ao
Aceito o princípio da propriedade colectiva. ímpu- termo " C o l e c t i v i s m o " . Todos eles declaram que. por
nha-sc, para a obter, a e x p r o p r i a ç ã o . Os anti-estatis- o p o s i ç ã o ao comunismo a u t o r i t á r i o , designavam pelo
tas da Internacional adoptaram a d e s i g n a ç ã o de cole- termo "Colectivismo" um comunismo rjão-autoritá-
ctivistas para se distinguirem, com maior calreza, n ã o rio, federalista, anarquista. Denominando-se "cole-
só do comunismo estatista e centralizador de M a r x c ctivistas", afirmavam-ae primeiramente, anti-autori-
Engels e seus sequazes, mas do comunismo francês t á r i o s : n ã o queriam prejulgar a forma que tomaria o
adstrito à t r a d i ç ã o a u t o r i t á r i a de Babeuf e Cabet a consumo em uma sociedade (pie houvesse já realizado
que j á aludimos. a e x p r o p r i a ç ã o da propriedade. essencial, para eles,
era n ã o se pretender previamente encerrar a soc-edade
Por essa época os social-democratas. cuja maio- em um quadro r í g i d o ; a maior latitude a este respeito
ria se compunha de comunistas a u t o r i t á r i o s , n ã o havia ficaria reservada aos grupos mais a v a n ç a d o s .
precisado o seu sistema chamado Colectivismo de E s -
tado. E, ao que bem se pode ver, já nas v é s p e r a s e du- (1) — Vide: C. P E C Q U E U R . — Économie Sociale, des
intérets du commerce, de 1'industrie et de 1'agriculture, et de
rante a r e v o l u ç ã o de 1848, tinha-se completamente des- la civilisatíon en general sous 1'influence des applications de
curado o sentido preciso de e x p r e s s õ e s tais como C a - la vapeur, em 1839; — Théorie nouvelle de 1'économie sociale
pitalismo de Estado e retribuição segundo as horas de et politique: études sur 1'organisation des sociétés. cm 1842;
F. V I D A L , — Vivre en travaillant! Projecta, voies et moyens
trabalho para as incorporar ao termo "colectivismo", de reformes sociales, em Junho de 1848.
que fora claramente definido, primeiro por Pecqueur N. do Ai
O ANARQUISMO K A CIÊNCIA MODERNA 173
172 I ' I T I' K K KllfllTK IN

I n ú d i z m e n u - as ideias lançadas na Internacional tempo, enraizados nas massas p r o l e t á r i a s dos países


à c é r c a da propriedade colectiva n ã o haviam ainda lo- latinos desde 1848, contra o comunismo em geral.
grado o tempo n e c e s s á r i o à sua r e p e r c u s s ã o nas mas- Essa resistência ao comunismo a u t o r i t á r i o , como
sas p r o l e t á r i a s quando estalou a guerra franco-alemã, acabamos de delinear, foi t ã o forte que na Espanha,
dez meses apenas depois do Congresso de Bale, que se por exemplo, em que a Internacional federalista man-
realizara em Setembro de 1869 ( 1 ) . Esse aconteci- tinha relações estreitas com uma vasta federação de
mento m i l i t a r e social fez com que nenhuma tentativa o r g a n i z a ç õ e s o p e r á r i a s corporativas, interpretou en-
séria, no sentido da realização daquela ideia, pudesse t ã o , e mais tarde isso se acentuou, o colectivismo como
efectivar-se durante a curta existência da Comuna uma simples a f i r m a ç ã o da propriedade colectiva ante-
de Paris. pondo-lhe a palavra "anarquia" (anarquia y colecti-
vismo), para melhor definir a ideia anti-estatista que
Dada a derrota da F r a n ç a e o esmagamento da
no movimento predominava, sem, entretanto, p r c j u l -
Comuna em 1871. a Internacional federalista foi levada
gar definitivamenfe 0 modo de consumo. — comunista
a concentrar todos os seus esforços no sustentar da
ou outro, — que pudesse ser aceito por cada grupo
sua ideia fundamental, — a o r g a n i z a ç ã o a n t i - a u t o r i -
separado de produtores e consumidores.
t á r i a das forças p r o l e t á r i a s tendo em vista a luta di-
recta do Trabalho contra o Capital para culminar na E m - f i m , no que respeitava aos meios de passar da
R e v o l u ç ã o Social. Por êstc princípio mais imediato, sociedade actual i l sociedade socialista, os membros
as q u e s t õ e s relativas ao futuro tiveram, necessaria- da Internacional n ã o se preocupavam muito com as
mente, de ser adiadas, e se a ideia do colectivismo, opiniões, demasiado restritas, de Fourier. Sentiam eles
compreendido como comunismo-anarquista, continuou que uma nova s i t u a ç ã o r e v o l u c i o n á r i a se e s b o ç a v a e
a ser propagada por alguns, ela ia, entretanto, de en- palpitava-lhes o advento de uma r e v o l u ç ã o mais pro-
contro, por um lado. ã s concepções do colectivismo- funda e mais generalizada do que fora a de 1848. E
estatista, desenvolvidas pelos marxistas desde que co- nessa o c a s i ã o , proclamavam, far-se-ia tudo que esti-
m e ç a r a m a abandonar as ideias expressas no Mani- vesse ao seu alcance para desapoaeaf, sem esperar as
festa Comunista, e, por o u t r o lado, batia-se, sob a i n - ordens de qualquer governo, o Capital dos monopólios
fluência da poderosa crítica de Proudhon, contra o co- de que se havia apropriado.
munismo a u t o r i t á r i o dos blanquistas e atacava vigo-
rosamente os preconceitos, muito generalizados ao

(1.) — E m suas memoráveis sessões, este Congresso for-


mulara a« duas seguintes proposições: "1.» O Congresso de-
clara que a sociedade tem o direito de abolir a propriedade
individual do solo revertendo este para a comunidade; 2.' O
Conercsso declara mais que. hoje mais do que nunca, há ab-
soluta necessidade de incorporar o solo à propriedade colectiva."
N. do T.
O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 175

— era. incontestavelmente, mais poderosa. Os inte-


lectuais burgueses entrados na Internacional eram de
feição fortemente jacobina e dominavam pela sua in-
fluencia os trabalhadores, componentes igualmente
dessa associação. F o i preciso que um acontecimento
IV social de l a r g o alcance surgisse, como o da Comuna
de Paris, para que ao pensamento r e v o l u c i o n á r i o das
massas p r o l e t á r i a s da Europa e da A m é r i c a fosse dada
O Surto da Comuna uma nova direcção.
*
B \ K U N I N E , — SUAS I D E I A S , SUA I N F L U Ê N C I A * *
0
Pela rápida e x p o s i ç ã o dada nos c a p í t u l o s anterio- Em julho de 1870 sobreveio a t e r r í v e l guerra en-
res acerca do desenvolvimento das ideias socialistas tre a F r a n ç a e a Alemanha a que, loucamente, se aba
pode-se discernir o terreno cm que germinaram e evo- l a n ç a r a m N a p o l e ã o I I I e seus conselheiros para salvar
l u í r a m as concepções anarquistas. D o conjunto desse o I m p é r i o de uma revolução republicana iminente. A
quadro vê-se claramente que. a dentro da Internacio- imediata consequência dessa triste aventura foi a es-
nal, havia uma mescla de ideias de jacobinismo cen- magadora derrota da F r a n ç a e. em seguida, o desmo-
tralista e a u t o r i t á r i o a par das ideias de independência ronar do I m p é r i o , erigindo se em seu logar o governo
local e de federação representadas pela corrente liber- provisório de Tliu-i «• de Gamhctta e o estabeleci-
t á r i a expressa no anarquismo e ambas, afinal, se o r i - mento da Comuna de Paris. Tentativas do g é n e r o des-
ginavam da Grande R e v o l u ç ã o Francesa. túltima ••«• í i / e r a m , pela mesma época, em Saint-Etien-
Se é certo que, por u m lado, as ideias centralistas ne, Nnrbonne e outras cidades do sul da F r a n ç a e,
descendiam em linha recta do jacobinismo de 1793, posteriormente, em Espanha, nas cidades de Barce-
as de acção local independente representavam, por o u - lona e Cartagena (1).
t r o lado, a h e r a n ç a da poderosa a c ç ã o construtiva e Para a Internacional, ou pelo menos para aqueles de
revolucionária das " S e c ç õ e s " de Paris e das comu- seus membros que sabiam pensar e t i r a r dos aconte-
nas de 1793-94 que minuciosamente descrevemos em
nossa obra, publicada em inglês e francês, A Grande O ) — R I C A R D O M E L L A , uni anarquista espanhol de re-
Revolução — 1789-1793 (1). conhecida cultura, contesta Kropotkin nesta assimilação que faz
dos movimentos políticos dessas cidades da Espanha com o
Cumpre, todavia, declarar, em abono da verdade,
facto da Comuna de Paris, asseverando que tais acontecimen-
que a primeira dessas duas correntes, — a jacobina. tos sociais nada tinham de socialistas e muito menos de co-
munalistas. Melhor apreciados os factos, perfilhamos a opinião
(1) — Vide. sobre a versão desta obra, a nossa nota à de R. Mella.
pag. 32. N. do T.
176 P E T E R K R O P O T K I N
(> ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 177

cimentos sociais as lições convenientes, essas subleva-


temente, nem sequer o tempo de se afirmar durante
ções comunalistas foram uma verdadeira r e v e l a ç ã o .
a curta existência da Comuna parisiense.
Levadas a efeito sob o desfraldar da bandeira rubra
E m tais condições, a derrota n ã o se fez esperar e
da R e v o l u ç ã o Social que os trabalhadores, de cima das
a vingança feroz dos burgueses s a n g u i n á r i o s provou
barricadas, defenderam a t é à morte, tais movimentos
mais uma vez que o triunfo de uma comuna popular
subversivos vieram a indicar qual deveria ser, qual
é materialmente impossível se um desenvolvimento pa-
provavelmente seria, nas nações latinas, a conduta dos
ralelo de conquistas no terreno e c o n ó m i c o n ã o inte-
povos no tocante ã forma política da grande r e v o l u ç ã o
ressar vivamente a massa do povo pela instituição da
que se avizinhava. E esta n ã o trará, de-certo, a R e -
Comuna. Para que uma revolução política tenha efi-
pública Democrática, como sc imaginara a de 1848.
cácia, cumpre primeiro enfrentar e realizar a re-
mas a C O M U N A , livre, independente c. sem a me-
volução económica.
nor dúvida, eminentemente comunista.
\o fracasso, a Comuna de Paris deu-nofl
A Comuna de Paris, ao instituir-se, ressentia-se
um ensino a d m i r á v e l . — esclareceu e precisou, nas
naturalmente da confusão de momento reinante nos
nações latinas, as ideias do proletariado revolucioná-
e s p í r i t o s a respeito das medidas e c o n ó m i c a s e políti-
rio. Delas se conclui que a Comuna livre, indepen-
cas que seria n e c e s s á r i o tomar durante uma r e v o l u ç ã o
dente, será a forma política que a Revolução Social
popular para lhe assegurar o completo triunfo. Rei-
realizará efectivamente.
nava na Comuna, como j á a descrevemos, a mesma
Pouco importa que uma nação inteira, um grupo
confusão (pie na Internacional.
de nações vizinhas, sejam c o n t r á r i a s a essa ideia e se
Jacobinos e comunalistas, aqueles centralistas,
oponha,n à sua realização, mas uma vez que os habi-
p a r t i d á r i o s de u m governo forte, e estes federalistas,
tantei de uma região, de um t e r r i t ó r i o , houverem de-
anti-estatistas, tinham iguais rseponsabilidades na su-
• idido, poi uma vontade férrea de querer, comunali-
blevação de Paris e uma vez na Comuna, uns e outros,
zar o consumo, a produção e a permuta dos objectos
em pouco tempo, entravam em conflito. O elemento
precisos ã satisfação <!«• suas necessidades, deverão não
mais combativo estava do lado do grupo formado por
esmorecer na realização da ideia, antes levá-la avante
jacobinos e blanquistas.
e pô-la em e x e c u ç ã o no seu próprio meio social tão
Mas Blanqui jazia na p r i s ã o e nos chefes blan- prontamente quanto possível. I• a / n u l o o. j>ondo, por-
quistas, na sua maioria burgueses, já quase nada res- tanto, todas as suai energiai ao l e r v i ç o de uma grande
tava das ideias comunistas dos seus predecessores, os causa, e n c o n t r a r ã o na sua comuna uma força que j a -
discípulos de Babeuf. Para eles a q u e s t ã o e c o n ó m i c a . mais encontrariam se preferissem previamente arras-
— q u e s t ã o primordial, — era assunto s e c u n d á r i o , dela tar a n a ç ã o toda CÓaq l adesão das r e g i õ e s atrazadas
cuidariam mais tarde, diziam, após o triunfo da Co- hostis ou indiferentes Preferível, evidentemente, é
muna. Prevalecendo esta o p i n i ã o desde o início, a combater estas abei lamente do que ter de conduzi-las
corrente adversa, — o comunismo popular, — n ã o teve arrastadas à maneira de g r i l h õ e s , ferrados aos pés da
nem meios nem tempo para se desenvolver convenien- R e v o l u ç ã o , que só a manietariam.
178 PK TER K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 179

Iremos mesmo a l é m , — u m passo adiante s e r á c u m b i r á promover a R e v o l u ç ã o libertando-a de vez


dado. Compenetrados de que, para regular a marcha da ideia do Estado Centralizador. E esse novo ideal
das comunas livres, n ã o h a v e r á necessidade alguma nada mais é do que a A N A R Q U I A .
de um governo central, poisque, rejeitando u m go- Compreende-se agora o que havia de essencial na
verno nacional, a unidade nacional se o b t e r á mais fa- estrutura da obra de Proudhon, — Idée Générale de Ia
cilmente pela f e d e r a ç ã o das comunas, t ã o pouco s e r á Révolution au X I X Siêcle, — uma ideia profundamen-
n e c e s s á r i o , s e n ã o inútil e prejudicial, um governo cen- te p r á t i c a : a A N A R Q U I A . E nas n a ç õ e s latinas, o
tral municipal. E ' que, com efeito, os negócios que se pensamento dos homens a v a n ç a d o s c o m e ç o u a firmar-
trata de resolver em uma comuna são, por via de se nessa direcção.
regra, muito menos complicados e os interesses dos Mas infelizmente esta tendência somente nas na-
cidadãos menos variados e menos c o n t r a d i t ó r i o s do ções latinas se acentuou: na F r a n ç a , na Espanha, na
que o s ã o em uma n a ç ã o . Itália, na Suiça romanda (a parte onde se fala fran-
O princípio federativo d e v e r á , pois, bastar para c ê s ) , a Bélgica valã. Pelo c o n t r á r i o , os a l e m ã e s t i -
estabelecer o acordo entre os diferentes grupos co- raram da sua vitória sobre a F r a n ç a consequências dia-
munais de produtores, consumidores, permutadores c metralmente opostas, u m ensino totalmente diferente.
outros ainda que as c i r c u n s t â n c i a s e as necessidades I n s t i t u í r a m assim o culto da c e n t r a l i z a ç ã o estatista;
indicarem a sua o r g a n i z a ç ã o . estratificando-se na fase robespierrista, ficaram fieis
* cultuadores do Clube dos Jacobinos tal qual o descre-
* * veram, postoque c o n t r á r i o à verdade dos factos, os
listoriadores jacobinos.
O levante de Paris, que se traduziu na Comuna, O Estado centralizado, hostil mesmo à s t e n d ê n -
veio trazer-nos a solução de u m problema que preocu- . ia de independência nacional, ou regional das suas
pava a quantos r e v o l u c i o n á r i o s sinceros. Por duas diferentes parte componentes; uma forte centrali-
vezes a F r a n ç a tentara realizar uma r e v o l u ç ã o no sen- zação hierárquica c um governo absoluto, férreo, —
tido socialista da palavra procurando impô-la por meio tai> foram as conclusões a que chegaram socialistas
de u m governo central: em 1793-94 quando tentou, e radicais a l e m ã e s . N ã o conseguiram estes alçar-se à
após a queda dos " g i r o n d i n o s " , introduzir o princípio c o m p r e e n s ã o dc que a vitória alcançada sobre a F r a n -
da "igualdade de f a c t o " . — a igualdade real, e c o n ó - ça n ã o era mais do que uma vitória de aguerridos
mica, — aplicando à sua realização medidas legisla- e x é r c i t o s , numerosos b a t a l h õ e s , — obra exclusiva do
tivas severas; a segunda, em 1848, tentando procla- serviço militar o b r i g a t ó r i o adoptado pelo I m p é r i o Ale-
mar, por meio de uma Assembleia Nacional, uma " R e - m ã o com superiores vantagens ao sistema de recru-
pública D e m o c r á t i c o - S o c i a l i s t a " . tamento da F r a n ç a e que, ainda em 1870, vigorava em
Das duas vezes fracassou o intento. A g o r a a vida toda a sua plenitude, — v i t ó r i a obtida à custa da cor-
social nos indica uma nova solução — a Comuna livre. r u ç ã o , e. essa é que é a verdade, em que se encontrava
A ela, e só a ela em sua esfera p r ó p r i a de a c ç ã o , i n - o I m p é r i o napoleónico quando a este j á o a m e a ç a v a
<> A N A R Q U I S M O K A CIÊNCIA MOIM-RNA isl
180 P K T i: K K RO P ( l T K I X

A tendência anarquista, que e n t ã o se desenvolvia


nina revolução iminente que. se n ã o fosse impedida
no seio da Internacional, encontrou em Michel Baku-
pela i n v a s ã o a l e m ã , teria, inquestionavelmente, salvo nine u m defensor arguto, de talento i n c o n t e s t á v e l e
a humanidade inteira da hecatombe de que veio a so- inspirado. E m t o r n o deste notável agitador se agru-
frer as c o n s e q u ê n c i a s . param diversos amigos seus da r e g i ã o do Jura ( S u i ç a ) ,
Foi assim que, nos países latinos, a Comuna de formando um restrito círculo de jovens intelectuais,
Paris deu um forte impulso à ideia anarquista, ao italianos e e s p a n h ó i s , que deram um largo impulso à s
mesmo tempo que as t e n d ê n c i a s a u t o r i t á r i a s do Con- suas ideias.
selho Geral da A . I . T.. rcvigorando-se cada vez inais,
minava fatalmente a força e a unidade subsistentes Possuidor dc vastos conhecimentos de h i s t ó r i a e
na associação, vindo, por essa forma, sem que por tal de filosofia, Bakunine formulou, e m uma série dc
dessem, r e f o r ç a r a corrente anarquista. veementes o p ú s c u l o s , cartas e artigos de jornais, os
Dominado por M a r x e Engels, que encontraram princípios básicos de todo o Anarquismo moderno.
franco apoio nos blanquistas franceses, refugiados em Com uma ousadia inegualável arvorou a bandeira da
Londres a p ó s a derrocada da Comuna. — todos pUTOf t o t a l abolição do Estado com toda a sua opressiva or-
jacobinos, — o Conselho Geral da A . I . T . utilizou os g a n i z a ç ã o , ideal r e t r ó g r a d o e t e n d ê n c i a s funestas. " O
poderes que lhe foram outorgados para dar um golpe Estado, proclamava êle. no passado teria sido uma
de Estado na Internacional. Com easea poderes, es- necessidade histórica, uma i n s t i t u i ç ã o emanada da au-
camoteou o programa de a c ç ã o da A . I . T.. que era, toridade conquistada pela casta sacerdotal. Mas hoje.
como se sabe. a luta directa do Trabalho contra o que o Estado representa a n e g a ç ã o da liberdade e da
< "apitai, substituiudo-o pelo da a g i t a ç ã o política nos igualdade, que só sabe viciar o que empreende, mesmo
parlamentos burgueses. (pu intente pôr em e x e c u ç ã o u m ideia de interesse
Esse golpe de estado foi efectivamente a morte geral. a sua t o t a l e x t i n ç ã o i m p õ e - s c ; é, por seu
da Internacional, mas, em c o m p e n s a ç ã o , abriu Ot olhos turno, uma necessidade histórica o seu desapareci-
a muita gente. Demonstrou á saciedade, mesmo aoa niento Toda a legislação feita dentro do listado, ainda
mais c r é d u l o s , q u ã o absurdo é confiar os seus n e g ó - quando provenha do sufrágio universal, (leve ser re-
cios a um governo, ainda mesmo democraticamente pelida pela simplii i una i a / a o de er sempre elabo-
eleito como o fora o Conselho Geral da Internacional. rada em beneficio da < la a privilegiadas."
Assim se explica como nascera a revolta ataVuiomista A cada n a ç ã o |..>• pc.picna (pie seja, a cada r e g i ã o ,
das federações espanhola, italiana, j u r á s s i c a e belga- a cada comuna, «abe organizarem-se absolutamente
valã, e de algums secções inglesas, contra a autoridade livres e pela forma que melhor entenderem, contanto
opressora do Conselho Geral ( 1 ) .
(pie não con 1111•.1111 uma a m e a ç a á integridade do v i -
zinho "Federalismo" e " a u t o n o m i a " , — palavras
(1) — Consulte-se a respeito a obra já citada de James
Guiflaume, — L'Internationale, em 4 volumes, editada pela li- criadas para encobrir a autoridade do Estado Centra-
vraria de P. V. Stock, Paris, 1905-1910. lizador, — n ã o bastam ao estilo dessas o r g a n i z a ç õ e s .
N. do A.
182 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A < IINCIA MOI.IKNA

A independência completa da Comuna, a federa- q u e s t ã o importante era relegada para segundo plano
ção das comunas livres, a r e v o l u ç ã o social na comuna, como q u e s t ã o s e c u n d á r i a que no futuro seria melhor
os agrupamentos corporativos para a p r o d u ç ã o substi- resolvida pelas comunas interessadas e pelas organi-
tuindo-se à actual o r g a n i z a ç ã o estatista da sociedade. z a ç õ e s do trabalho.
— T a l é, o demonstrava Bakunine, o ideal que surge Com aquelas concepções, Bakunine foi u m ardo-
das trevas do passado, dos escombros da nossa civili- roso propagandista da revolução social cujo advento
zação. O homem, finalmente, c o m e ç a a compreender a m ó r parte dos socialistas de antanho previam e que
que só s e r á verdadeiramente livre na p r o p o r ç ã o em Bakunine, nos seus v á r i o s escritos, convictamente
que o sejam os que com êle convivam. apregoava com palavras de fogo.
Enquanto à s concepções e c o n ó m i c a s , Bakunine foi
um e s t r é n u o comunista; mas, de acordo com seus ca-
maradas federalistas da Internacional e como mera
c o n c e s s ã o ao e s p í r i t o a n t a g ó n i c o reinante que, na
F r a n ç a , o comunismo a u t o r i t á r i o inspirara contra o
comunismo em geral, êle se tlizia "colectivista-anar-
q u i s t a " . P o r é m . o que bem se compreende, n ã o era
um "colectivista" u maneira de Vidal e Pecqueur ou
de seus sequazes modernos que, em s í n t e s e , procla-
mam u m "Capitalismo de Estado". Bakunine enten-
deu o colectivismo no sentido que acima lhe damos e
n ã o no sentido de d e t e r m i n a ç ã o p r é v i a da forma de
d i s t r i b u i ç ã o que os produtores adoptariam nos dife-
rentes grupos c o n s t i t u í d o s , quer fosse a solução co-
munista, quer a dos " b ó n u s de t r a b a l h o " , a dos sa-
lários iguais ou outra qualquer solução inspirada em
m é t o d o diferente. •
A isto devemos acrescentar que um certo n ú m e -
ro de cooperadores, amigos e p a r t i d á r i o s de Bakunine,
nomeadamente V a r l i n , Guillaume e a maioria de ita-
lianos, j á em 1869 se declaravam francamente comu-
nistas-anarquistas. P o r é m , forçados pelas c i r c u n s t â n -
cias de momento, quando as o r g a n i z a ç õ e s revolucio-
n á r i a s da época exigiam a presteza da sua acção e u m
trabalho exaustivo em prol da independência das suas
respectivas federações mais os preocupavam, essa
O ANARQUISMO K A CIANCIA MODKRNA 185

A" medida que os trabalhadores da Europa e da


A m é r i c a melhor se iam conhecendo e estreitavam d i -
rectamente, por sobre as fronteiras, os laços de soli-
dariedade dispensando assim a i n c ó m o d a i n t e r v e n ç ã o
dos governos, melhor iam compreendendo as condi-
ções do problema social e adquirindo o conhecimento
directo das suas p r ó p r i a s forças.
Pressentiam que se o povo entrasse na posse da
A concepção anarquista
terra e os trabalhadores industriais se apossassem das
fábricas e das usinas fazendo-se administradores das
C O M O H O D I E R N A M E N T E SE A P R E S E N T A i n d ú s t r i a s e dirigindo-as no sentido da p r o d u ç ã o do
que é n e c e s s á r i o à vida do país, c h e g a r í a m o s sem d i f i -
Se a revolta contra o Estado, incarnada principal- culdade a poder suprir largamente a todas as necessi-
mente pela classe dos jovens burgueses, tomava, antes dades da sociedade. Garantem perfeitamente a conse-
de 1848 e. depois desta época a t é à Internacional, o cução deste desiderato os recentes progressos da ciên-
c a r á t e r de uma revolta individual contra a sociedade cia e da técnica.
e a sua moral convencional, daí por diante, nos meios
o p e r á r i o s , revestia-se de um c a r á t e r muito mais pro- Tudo leva a crer que a permuta dos produtos,
fundo, a saber: o da i n v e s t i g a ç ã o de uma torma de em uma vasta o r g a n i z a ç ã o internacional de produtores
sociedade liberta por completo da o p r e s s ã o e da ex- e consumidores, se processaria com idênticas facili-
ploração exercidas por certos homens em detrimento dades e em bases bem mais equitativas, uma vez, é
de outros, o que actualmente se pratica sob o patro- claro, (pie n ã o se fizesse com miras no enriquecimento
cínio do Estado. de uma minoria privilegiada. E ' isto cousa de toda
a evidência para aqueles, que desde j á conhecem pra-
Na ideia de seus fundadores o p e r á r i o s , a A . I . T .
ticamente o funcioiuimento actual da usina, da fábrica,
deveria ser, como j á vimos, uma vasta federação de
da mina, da agricultura o d<> comercio.
agrupamentos de trabalhadores que representaria, em
germe, o que poderia ser uma sociedade regenerada A l é m disso, uni n ú m e r o cada vez maior de traba
pela revolução social: uma sociedade na qual o apare- lhadores vai compreendendo que o Estado, com a sua
lhamento actual de governo e de e x p l o r a ç ã o capitalista complexa hierarquia de funcionários, o peso morto
teria por completo desaparecido, substituindo-o os das suas t r a d i ç õ e s históricas, o seu estreito naciona-
acordos livres derivados das relações directas entre lismo, nunca fez outra cousa a t é agora que n ã o fosse
os grupos a u t ó n o m o s de produtores e consumidores. manter e proteger a o r g a n i z a ç ã o de privilégios inau-
E m tais c i r c u n s t â n c i a s , o ideal anarquista passou de ditos e sancionar o p r e s s õ e s de toda a espécie, retar-
um c a r á t e r individual a ser u m ideal eminentemente dando, por sua acção nefasta, o advento de uma nova
60cial. sociedade liberta de monopólios e e x p l o r a ç õ e s .
186 P E T E R K R O P O T K I N () ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 187

As tentativas feitas nos diferentes países com o E ' evidente que uma vez que cessassem de existir
fim de aliviar parcialmente os males sociais dentro da os monopólios c o n s t i t u í d o s e solidificados pelo Esta-
o r g a n i z a ç ã o estatista burguesa, outra cousa n ã o l o - do, este n ã o teria mais r a z ã o de ser. Desta nova
graram mais do que demonstrar, com a maior evi- s i t u a ç ã o surgiriam, certamente, novas formas de
dência, a completa inanidade de semelhantes tenta- agrupamento social desde que as relações entre os
tivas e, porisso mesmo, quanto mais se dilata o campo homens n ã o fossem mais as relações decorrentes da
dessas e x p e r i ê n c i a s , mais avoluma a certeza de que condição de explorados e exploradores. A vida se
a m á q u i n a do Estado n ã o p o d e r á ser utilizada como simplificaria notavelmente se o mecanismo hoje do-
instrumento de e m a n c i p a ç ã o humana. minante com o único f i m de permitir ao rico explorar
o trabalho do pobre, cessasse de existir.
Emerso do curso da história para estabelecer e
A ideia de comunas independentes constituindo-
manter o monopólio da propriedade t e r r i t o r i a l em
se para a o r g a n i z a ç ã o t e r r i t o r i a l e a de vastas fede-
proveito de uma classe que, por esse facto, se tornava
r a ç õ e s corporativas de ofícios para a o r g a n i z a ç ã o de
a classe governante por excelência, — que meios pode
agrupamentos conforme as diversas funções sociais,
o Estado oferecer tendentes a abolir esse monopólio
— ambas mesclando-se e solidarizando-se para satis-
que a classe trabalhadora n ã o encontre na sua p r ó p r i a
fazer as m ú l t i p l a s necessidades sociais, — permitem
força, na força dos seus agrupamentos? A p e r f e i ç o a d o aos anarquistas conceberem logicamente, de uma ma-
no transcorrer de todo o século X I X para assegurar neira concreta, real, precisa, a possibilidade da orga-
As novas classes de ricaços o monopólio da proprie- nização de uma sociedade livre, regenerada pela re-
dade industrial, os privilégios do c o m é r c i o e os fa- v o l u ç ã o social. A estes dois modos principais de orga-
vores dispensados aos institutos b a n c á r i o s , o Estado, nização social adicionaremos ainda u m t e r c e i r o : o dos
fornecedor de " b r a ç o s " a bom preço pela apropria- agrupamentos por afinidades pessoais, agrupamentos
ção indébita das terras pertecentes outrora à s comu- i n ú m e r o s , variados a t é ao infinito, de longa ou e f é -
nas aldeãs e crivando de impostos os pobres cultiva- mera d u r a ç ã o , surgindo de todos os lados para todos
dores, que vantagens pode oferecer para abolir esses os fins e para todos os gostos possíveis, segundo as
mesmos privilégios? Acaso a m á q u i n a governamen- necessidades dc momento, — agrupamentos, aliás, que
tal, essência do Estado, evidentemente montada com já hoje vemos surgirem na sociedade actual fora de
o p r o p ó s i t o de manter tais privilégios, p o d e r á servir todos os c o n v e n t í c u l o s políticos e profissionais.
na actualidade para os abolir? A novas funções n ã o Essas t r ê s espécies de agrupamentos, cobrindo
c o r r e s p o n d e r ã o novos ó r g ã o s ? Acaso estes novos ó r - uma extensa á r e a t e r r i t o r i a l e constituindo uma com-
g ã o s , dado já o p e r í o d o h i s t ó r i c o que atravessamos, plexa rede de actividades sociais, permitiriam, sem
n ã o poderiam e n ã o deveriam antes ser i n s t i t u í d o s dúvida, a satisfação de todas as e x i g ê n c i a s da socie-
pelos p r ó p r i o s o p e r á r i o s nas suas uniões, nas suas dade: o consumo, a p r o d u ç ã o e a troca, e n ã o s ó isso
federações, absolutamente fora de toda a acção e i n - mas a realização dos v a r i a d í s s i m o s meios de comu-
t e r f e r ê n c i a do Estado? nicação, as modernas instalações de toda a espécie, a
186 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 187

As tentativas feitas nos diferentes países com o E ' evidente que uma vez que cessassem de existir
fim de aliviar parcialmente os males sociais dentro da os monopólios constituidos e solidificados pelo Esta-
o r g a n i z a ç ã o estatista burguesa, outra cousa n ã o l o - do, este n ã o teria mais r a z ã o de ser. Desta nova
g r a r a m mais do eme demonstrar, com a maior evi- s i t u a ç ã o surgiriam, certamente, novas formas de
dência, a completa inanidade de semelhantes tenta- agrupamento social desde que as relações entre os
tivas e, porisso mesmo, quanto mais se dilata o campo homens n ã o fossem mais as relações decorrentes da
dessas e x p e r i ê n c i a s , mais avoluma a certeza de que condição de explorados e exploradores. A vida ae
a m á q u i n a do Estado n ã o p o d e r á ser utilizada como simplificaria notavelmente se o mecanismo hoje do-
instrumento de e m a n c i p a ç ã o humana. minante com o único f i m de permitir ao rico explorar
o trabalho do pobre, cessasse de existir.
Emerso do curso da história para estabelecer e
manter o monopólio da propriedade t e r r i t o r i a l em A ideia de comunas independentes constituindo-
se para a o r g a n i z a ç ã o t e r r i t o r i a l e a de vastas fede-
proveito de uma classe que, por esse facto, se tornava
l a ç õ e s corporativas de ofícios para a o r g a n i z a ç ã o de
a classe governante por excelência, — que meios pode
agrupamentos conforme as diversas funções sociais,
o Estado oferecer tendentes a abolir esse monopólio
— ambas mesclando-se e solidarizando-se para satis-
que a classe trabalhadora n ã o encontre na sua p r ó p r i a
fazer as m ú l t i p l a s necessidades sociais, — permitem
força, na força dos seus agrupamentos? A p e r f e i ç o a d o
aos anarquistas conceberem logicamente, de uma ma-
no transcorrer de todo o século X I X para assegurar neira concreta, real, precisa, a possibilidade da orga-
à s novas classes de ricaços o monopólio da proprie- nização de uma sociedade livre, regenerada pela re-
dade industrial, os privilégios do c o m é r c i o e os fa- volução social. A estes dois modos principais de orga-
vores dispensados aos institutos b a n c á r i o s , o Estado, nização social adicionaremos ainda u m t e r c e i r o : o dos
fornecedor de " b r a ç o s " a bom p r e ç o pela apropria- agrupamentos por afinidades pessoais, agrupamentos
ç ã o indébita das terras pertecentes outrora à s comu- i n ú m e r o s , variados a t é ao infinito, de longa ou efé-
nas a l d e ã s e crivando de impostos os pobres cultiva- mera d u r a ç ã o , surgindo de todos os lados para todos
dores, que vantagens pode oferecer para abolir esses os fins e para todos os gostos possíveis, segundo as
mesmos privilégios? Acaso a m á q u i n a governamen- necessidades dc momento, — agrupamentos, aliás, que
tal, essência do Estado, evidentemente montada com já hoje vemos surgirem na sociedade actual fora de
o p r o p ó s i t o de manter tais privilégios, p o d e r á servir todos os c o n v e n t í c u l o s políticos e profissionais.
na actualidade para os abolir? A novas funções n ã o Essas t r ê s espécies de agrupamentos, cobrindo
c o r r e s p o n d e r ã o novos ó r g ã o s ? Acaso estes novos ó r - uma extensa á r e a t e r r i t o r i a l e constituindo uma com-
g ã o s , dado j á o p e r í o d o histórico que atravessamos, plexa rede de actividades sociais, permitiriam, sem
n ã o p'oderiam e n ã o deveriam antes ser instituídos dúvida, a satisfação de todas as e x i g ê n c i a s da socie-
pelos p r ó p r i o s o p e r á r i o s nas suas u n i õ e s , nas suas dade: o consumo, a p r o d u ç ã o e a troca, e n ã o só isso
t e d e r a ç õ e s , absolutamente fora de toda a a c ç ã o e i n - mas a realização dos v a r i a d í s s i m o s meios de comu-
t e r f e r ê n c i a do Estado? nicação, as modernas instalações de toda a espécie, a
188 P i: T i: K K R O P O T K I N *
O ANARQUISMO I: A CIÊNCIA .MOUKRNA M

higiene mais perfeita, a e d u c a ç ã o integral, a p r o t e c ç ã o


E ' precisamente o que sucederá em uma socie-
m ú t u a contra as a g r e s s õ e s , o apoio recíproco, a defesa
dade de iguais. E por ser uma sociedade de iguais
t e r r i t o r i a l , a satisfação, em-fim. das necessidades cien-
n ã o h a v e r á necessidade de coerção, nem sequer o de-
tíficas, a r t í s t i c a s , l i t e r á r i a s c a t é as de d i v e r s õ e s , —
sejo de recorrer a esta se fará sentir. Persuadidos
o conjunto pleno de vida, sempre pronto a responder,
estamos que a liberdade do individuo n ã o necessita
por mil modalidades e a d a p t a ç õ e s , a novas necessi-
dc ser coartada. como actualmente o é. ora pelo temor
dades, a novas influências do meio social c intelectual.
de uma punição legal ou mística, ora pela obediência
a indivíduos reconhecidos como superiores ou a enti-
* dades metafísicas que o medo ou a ignorância cria-
ram, o que tudo redunda, na sociedade actual, em ser-
vidão intelectual. — o maior dos flagelos de que sofre
a humanidade. — na d e p r e s s ã o da iniciativa pessoal,
Se uma sociedade da espécie da que descrevemos no rebaixamento do nível moral, no estacionamento
se desenvolvesse em u m t e r r i t ó r i o assas extenso e no do progresso.
meio de uma população bastante densa, que seriam os
Em um regime igualitário, o homem poderia con-
modos naturais de permitir a variedade incomensu-
fiadamente guiar-se apenas pela sua r a / á o . a qual,
rável dos gostos e das necessidades, em breve v e r i f i -
desenvolvida nesse meio social, receberia necessaria-
c a r í a m o s a absoluta inutilidade da c o e r ç ã o exercida mente o cunho dos h á b i t o s sociáveis desse meio. E
j>ela autoridade, qualquer que fosse. Se inútil para assim facilmente poderia êle atingir a plena evolução
manter a vida económica da novel sociedade, sê-lo-ia de todas as suas faculdades, a í n t e g r a e x p a n s ã o da sua
ainda mais para impedir que se produzissem os actos individualidade, ao passo que o individualismo (pie a
anti-sociais. burguesia de hoje preconiza, para as "naturezas su-
Com efeito, nas nossas sociedades actuais, o maior periormente dotadas", como meio de chegar ao com-
o b s t á c u l o à m a n u t e n ç ã o de um certo nível moral, que pleto desenvolvimento do ser humano, constitui exa-
lhe é imprescindível, reside na carência de igualdade ctamente o maior o b s t á c u l o a esse f i m .
social. Sem igualdade, — "sem a igualdade de f a t o " ,
No seio de uma sociedade que tem por único es-
como se dizia em 1793, — é absolutamente impossí-
copo o enriquecimento individual e que, poriaso mes-
vel generalizar-sc, como conviria, o sentimento de j u s -
mo, e s t á d a n t e m ã o , em seu conjunto, condenada I m i -
tiça. A Justiça envolve necessariamente o reconheci-
séria, o homem melhor dotado vê-se reduzido a uma
mento da igualdade e os sentimentos de igualdade s ã o
rude luta diária só para angariar os meios indispen-
boje a cada passo, a cada instante, desmentidos em
sáveis à m a n u t e n ç ã o da sua existência. Quanto ao
nossas sociedades fundadas e encanecidas no estabe-
parco n ú m e r o dos que conseguem, sobre a realização
lecimento das classes. A p r á t i c a da igualdade é con-
das necessidades primordiais, os meios e o tempo ne-
dição essencial para que o sentimento de justiça se
c e s s á r i o s ao livre desenvolvimento da sua individua-
e n r a í z e nos nossos costumes e h á b i t o s .
lidade, a sociedade actual só lhos garante com esta sub-
P 1: T K R K R O P O T K I N O ANARQUISMO t A CIANCIA MODERNA 191
190

scrviente c o n d i ç ã o : a de submeterem-se incondicional- uma forte t e n d ê n c i a a constituir livremente, fora da


mente ao jugo das leis e dos usos da mediocridade a c ç ã o do Estado e das Igrejas, milhares e milhares de
burguesa, a de n ã o subverterem, por uma crítica de- o r g a n i z a ç õ e s para subvencionar a toda a espécie de
necessidades: e c o n ó m i c a s (sindicatos de ferroviários,
masiado severa ou por actos de revolta, o reino dessa
de o p e r á r i o s , de p a t r õ e s , cooperativas a g r í c o l a s e i n -
mediocridade.
dustriais, de i m p o r t a ç ã o e e x p o r t a ç ã o , e t c ) , políticas,
Somente são admitidos ao "pleno desenvolvimen-
intelectuais, a r t í s t i c a s , educacionais, de diversões, de
to da sua individualidade" aqueles que n ã o oferecerem
propaganda, e muitas outras das mais variadas e s p é -
perigo algum à estabilidade da sociedade burguesa, cies q m \r brevidade, deixamos de mencionar mas
aqueles que lhe forem interessantes sem jamais lhe que todo~ os dias surgem por todos os cantos. E m
serem hostis. resumo: o (pie outrora constituía funções incontro-
versas do Estado ou da Igreja, entra hoje no domínio
da acção das instituições livres.
Essas t e n d ê n c i a s se acentuam a olhos vistos. Bas-
Os anarquistas, dissemos, baseiam as suas previ- tou que uma rajada de liberdade viesse a limitar os
poderes discricionários da Igreja e do Estado para que
sões à c ê r c a do futuro das sociedades humanas nos
imediatamente surgissem aos milhraes as organiza-
dados da o b s e r v a ç ã o .
ções v o l u n t á r i a s . E n ã o é difícil prever, sempre que
De-facto. quando analisamos as t e n d ê n c i a s que
u m novo limite ao poder desses dois seculares i n i m i -
dominam nas sociedades civilizadas desde os finais do
gos da liberdade se impuser, que as o r g a n i z a ç õ e s l i -
século X V I I I . ccrtificamo-nos iniludivelmente que a
vres mais se a l a r g a r ã o e a esfera das suas actividades
tendência centralista e a u t o r i t á r i a é ainda bastante
mais se e s t e n d e r á ,
forte, n ã o só nos meios burgueses mas nos p r ó p r i o s
meios o p e r á r i o s em que estes, tendo recebido uma O futuro e o progresso caminham inegavelmente
e d u c a ç ã o burguesa, tendem a tornar-se, por sua vez, nessa directriz e o Anarquismo, com as suas con-
burgueses, — m a n d õ e s e exploradores. cepções sociais, trabalha precisamente nessa linha.
Felizmente que, a compensar tais t e n d ê n c i a s , ve-
mos acentuarcm-se, n ã o menos fortemente, tanto nos
meios o p e r á r i o s como nos círculos de pessoas i n s t r u í -
das, mais ou menos emancipadas das velharias das
classes intelectuais burguesas, as t e n d ê n c i a s anti-au-
t o r i t á r i a s , anti-centralistas e anti-militaristas, bem
como as ideias de acordos e pactos livremente cons-
tituídos.
Como j á e v i d e n c i á m o s em dois estudos nossos
( A Conquista do P ã o e o Apoio M ú t u o ) , existe hoje
O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 193

gidos por ministros eleitos ou nomeados pelas c â m a -


ras, n ã o é, de-certo, o ideal que visamos. U m a nova
forma de salariato e de e x p l o r a ç ã o , — eis no que daria
a ideia, preconizada por tantos socialistas, da entrega
ao Estado daqueles serviços. N ã o aceitamos, como
V eles o pretendem, que esse seja o meio mais p r ó p r i o
de chegarmos à abolição do salariato e da e x p l o r a ç ã o ,
ou, sequer, uma forma t r a n s i t ó r i a de evolução para
A n e g a ç ã o do Estado esse f i m .
Assim, pois, enquanto o socialismo era compreen-
Cumpre assinalar que, nas suas concepções e c o n ó -
dido no sentido largo c exacto do banimento da ex-
micas, os anarquistas experimentam o efeito do es-
p l o r a ç ã o do Trabalho pelo Capital, os anarquistas
tado caótico em que ainda se encontra o estudo da
marchavam, em ideias e a s p i r a ç õ e s , de acordo com
economia politica. A este respeito n ã o s ã o s ó os anar-
o que eram e n t ã o os socialistas. Divergiam unica-
quistas que lhe sentem as c o n s e q u ê n c i a s , os p r ó p r i o s
mente na q u e s t ã o do c a r á t e r a u t o r i t á r i o , advogado
socialistas-estatistas. entre os quais h á diversas cor-
por eles, ou a n t i - a u t o r i t á r i o , defendido por n ó s , de
rentes dc opinião, se ressentem do facto.
que a sociedade futura, surgida da r e v o l u ç ã o social,
Concordes com os socialistas que permaneceram
se revestiria, — sociedade que, uns e outros, previam
verdadeiramente socialistas, os anarquistas reconhe-
e ardentemente desejavam ver realizada.
cem que 0 sistema actual de propriedade individual do
solo e de tudo é n e c e s s á r i o para produzir, assim como Foram, p o r é m , levados a separar-se completa-
0 sistema actual de p r o d u ç ã o tendo por f i m o lucro mente, obrando em sentidos opostos, quando uma fra-
pessoal, (pie é a natural consequência do sistema em cção, s e n ã o a maioria dos socialistas de Estado, se
voga, constituem um mal, mal este que as nossas so- congregou à volta da ideia de que n ã o se tratava de
ciedades deveriam e s f o r ç a r - s e , quanto antes, por abo- forma alguma, nas suas concepções sociais, da abo-
l i r , se n ã o preferirem sossobrar, como já tantas civi- lição imediata da e x p l o r a ç ã o capitalista, que para a
lizações passadas sossobraram. nossa g e r a ç ã o actual e para a fase de e v o l u ç ã o eco-
n ó m i c a que, neste p e r í o d o histórico, a humanidade
Mas quanto aos meios propostos para que essa
atravessa, trata-se apenas de mitigar, suavizar, essa
t r a n s f o r m a ç ã o se opere, os anarquistas diferem com-
e x p l o r a ç ã o e isso se obteria impondo aos capitalistas
pletamente de todas as fracções em que se dividem
certas limitações legais por meio de leis restritivas.
os socialistas cstntistas. C o m e ç a m os anarquistas por
Ora, a t a l ideia, a semelhante t á t i c a , os anarquistas,
negar que se possa coerentemente encontrar uma so-
pela natureza de seus princípios, n ã o poderiam, de
lução para o problema social na ideia do Estado-Capi-
maneira alguma, aderir.
talista assenhorcando-sc da p r o d u ç ã o ou, no m í n i m o ,
dos seus principais ramos. Os serviços postais ou dos
caminhos de ferro nas m ã o s do Estado actual, d i r i -
194 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 195

Contrariamente a essa tendência dos socialistas as a d m i n i s t r a r á militarmente como é c a r a c t e r í s t i c o


de hoje, mantemos o princípio de que, se quisermos teu.
algum dia chegar à abolição da exploração capitalista, Para quem habituou o e s p í r i t o a reflectir nos fa-
deveremos, desde j á , dirigir todos os nossos esforços ctos sociais, tomados em seu conjunto, n ã o resta a
para essa abolição. Desde hoje, desde o momento menor dúvida sobre o seguinte ponto de toda a evi-
presente, devemos visar a transferência directa de dência e, porisso, considerado u m axioma social: " i m -
tudo que serve para a produção, — minas, usinas, possível preparar uma t r a n s f o r m a ç ã o social, por m í -
meios de comunicação, e, sobretudo, os meios que nima que seja, sem logo dar os primeiros passos no
assegurem a existência do produtor, — das mãos do caminho da t r a n s f o r m a ç ã o almejada, de duas uma: ou
capital pessoal para as das comunidades de produtores nos distanciamos ou nos aproximamos desse caminho.
e consumidores. Visar, e, em consequência, agir. Afastamo-nos desde o momento em que c o m e ç a m o s
a pensar em transferir os meios de p r o d u ç ã o social
Há. todavia, de cuidar-se em que, na transfor-
para a posse dos parlamentos, dos m i n i s t é r i o s , do fun-
mação visada dos meios de subsistência e de produção,
cionalismo do Estado, os quais, por via das suas fun-
estes n ã o caiam nas mãos do Estado b u r g u ê s actual.
ções, f o r ç o s a m e n t e , s ã o hoje os instrumentos do Ca-
Enquanto os partidos políticos socialistas reclamam
pital insaciável a que todos os Estados se submetem
em toda a Europa a incorporação dos caminhos de
c servem. A o c o n t r á r i o , aproximamo-nos quando pro-
ferro, do solo. das minas de ferro e de carvão, dos
dutores e consumidores tomarem conta de per si de
bancos (como já se dá na Suiça) e do monopólio dos
toda a riqueza, social, dos meios e p r o d u ç ã o , como se
álcoois ao Estado b u r g u ê s tal qual hoje é, n ó s vemos
p r ó p r i o s fossem. Evidentemente que nunca chegare-
nesse acto da posse da riqueza comum pelo Estado
mos a destruir os monopólios criando u m novo mono-
burguês um dos maiores obstáculos à realização, em
pólio, — o do Estado. — em benefício de antigos mo-
algum dia, da passagem da riqueza social às mãos dos
nopolistas.
trabalhadores, — produtores e consumidores.
Sustentamos que havendo sido a o r g a n i z a ç ã o es-
Nessa pretensão do programa dos partidos polí- tatista a força de que se teem servido as minorias
ticos socialistas só vemos o meio mais adequado de para estabelecer e firmar o seu poder sobre as massas,
reforçar, em vez de derrubar, o regime capitalista, de n ã o pode, logicamente, ser. ao mesmo tempo, a força
aumentar a sua força na luta contra o operário jus- liberadora que possa destruir esses mesmos privilé-
tamente revoltado. gios. Com efeito, a história nos ensina que, sempre
Aliás é também o que já entrevêem os mais sa- que uma nova forma de vida e c o n ó m i c a surge nas so-
gazes dentre os capitalistas actuais. E , na verdade, ciedades, como, por exemplo, quando a s e r v i d ã o veio
eles compreendem perfeitamente o caso, poisque os a substituir-se à e s c r a v i d ã o e, mais tarde, o salariato
seus capitais, comprometidos, por exemplo, em empre- à servidão, ela era correlata a uma nova forma de
sas ferroviárias particulares, e s t ã o muito mais garan- o r g a n i z a ç ã o p o l í t i c a : uma sociedade socialista, adopte
tidos se constituírem propriedade do Estado que e n t ã o ela o aspecto e c o n ó m i c o comunista ou colectivista,
196 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 197
- J.

n ã o p o d e r á , evidentemente, eximir-se á regra que a mas políticas representadas pelo Estado absorvedor.
h i s t ó r i a ilustra. O homem será e n t ã o levado, por força dos factos, a
elaborar novas formas de o r g a n i z a ç ã o para suprir
aquelas funções outrora privativas do Estado e que
este, a seu bel-prazer, distribuía por entre os seus
áulicos. E enquanto essa obra n ã o se realizar, nada
D e s n e c e s s á r i o recordar que a Igreja e o Estado de útil t e r á sido feito.
foram, a t r a v é s dos tempos, a força política a que as Para facilitar a r e a l i z a ç ã o efectiva dessas novas
classes privilegiadas, logo no nascedouro da sua for- formas de vida social é que o Anarquismo trabalha
m a ç ã o , recorreram para firmarem solidamente a sua com afino- IVla força construtiva das massas popu-
o r g a n i z a ç ã o como classes definitivamente estabeleci- larei < com o poderoso auxílio (pie os conhecimentos
das, armadas, pela crença e pela lei, de todos os pode- m...lemos fornecem, essa a s p i r a ç ã o se d a r á , como,
res para o exercício dos seus privilégios e dos pre- aliás, j á se verificou no passado sempre que fortes
tensos direitos sobre os demais homens e o Estado foi c o m o ç õ e s libertadoras agitaram as populações.
a instituição que melhor serviu para fundar esse se- Tais são as r a z õ e s porque os anarquistas recusam
guro m ú t u o que garantia o uso e gozo desses direitos. aceitar as funções de legisladores ou qualquer outra
Por essas mesmas r a z õ e s , e porque a h i s t ó r i a função, — de servos ou m a n d õ e s , — nas esferas do
no-lo prova, é que nem o Estado nem a Igreja podem Estado. Mais do que convencidos estamos que a Re-
ser hoje a força que d e v e r á demolir os privilégios con- v o l u ç ã o Social n ã o se fará a poder de leia decretadas.
quistados com o seu apoio e a sua s a n ç ã o . Porisso As leis seguem naturalmente na esteira dos factos
mesmo é que, nem aquele nem essa, p o d e r ã o vir a ser consumados e admitindo mesmo, o que é p r o b l e m á t i -
a forma de o r g a n i z a ç ã o que, fatalmente, s u r g i r á quan- co, sejam honestamente seguidas, caso pouco habitual,
do tais privilégios forem, de verdade, abolidos. s e r ã o letra morta enquanto n ã o se produzam as forças
Do mesmo modo que a Igreja nunca p o d e r á ser vivas n e c e s s á r i a s para converter em factos concretos
utilizada como meio de l i b e r t a ç ã o do homem à sub- as t e n d ê n c i a s expressas nas leis.
m i s s ã o incondicional à s velhas s u p e r s t i ç õ e s ou para S ã o essas t a m b é m as r a z õ e s porque um grande
lhe fornecer uma nova ética social livremente .aceite; n ú m e r o de anarquistas, desde os p r i m ó r d i o s da Inter-
do mesmo modo que em todos os homens os senti- nacional a t é nossos dias, tomaram sempre parte activa
mentos de igualdade, de solidariedade e de unidade, nas o r g a n i z a ç õ e s o p e r á r i a s formadas para a luta d i -
que se s o b r e p õ e m a todas as religiões, t o m a r ã o um recta do Trabalho contra o Capital e seu g e n u í n o pro-
dia forma totalmente diferente das que hoje as diver- tector o Estado.
sas igrejas interessadas i m p õ e m quando se acostam Essa luta, de eficácia muito mais positiva do que
a esses sentimentos para os explorar em proveito de qualquer outra a c ç ã o indirecta pela qual se pudessem,
u m clero r e t r ó g r a d o , assim a l i b e r t a ç ã o económica da porventura, obter quaisquer melhorias na vida do ope-
humanidade só se fará d e s p e d a ç a n d o as arcaicas for- rário, abre muito melhor os olhos aos trabalhadores
198 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 199

sobre os prejuízos e defeitos o r g â n i c o s da sociedade comunismo-anarquista, que, essencialmente i g u a l i t á -


actual decorrentes do sistema capitalista que o Estado rio, é, por esse facto, a n e g a ç ã o de toda a autoridade.
ampara. Essa luta, sobre qualquer outra, tem o con- U m a sociedade anarquista de certa e x t e n s ã o n ã o
d ã o de despertar no p r o l e t á r i o de hoje ideias novas seria exequível se n ã o c o m e ç a s s e por garantir a todos
relativas aos modos por que se fará na sociedade f u - um m í n i m o de bem-estar produzido em comum. Co-
tura o processo directo do consumo, da p r o d u ç ã o e da munismo na ordem económica, Anarquismo na polí-
permuta entre os verdadeiros interessados na resolu- tica, s ã o as duas faces de u m mesmo problema, duas
ção do problema sem a p a r t i c i p a ç ã o do capitalista e concepções que reciprocamente se integram.
com inteira exclusão do Estado. Concomitantemente com a corrente comunista
que acabamos de descrever, e que é a principal, existe

uma o u t r a que vê no Anarquismo uma r e a b i l i t a ç ã o
do individualismo. E ' dessa corrente que em seguida
trataremos mais minuciosamente do que já fizemos
A forma que, em uma sociedade emancipada do no cap. I I , ao referirmo-nos à obra de Stirner.
Capital e do Estado, d e v e r á ser adoptada quanto aos
meios de r e m u n e r a ç ã o do trabalho, estabelece, mesmo
entre os anarquistas, diversas correntes de opinião.
E m princípio todos s ã o concordes em repudiar a
nova forma de salariato que fatalmente surgiria se o
Estado tomasse conta de todos os meios de p r o d u ç ã o
t permuta, das terras, das minas, das fábricas, das
usinas, dos caminhos de ferro, dos correios, dos t e l é -
grafos, da e d u c a ç ã o , dos serviços s a n i t á r i o s , do se-
guro m ú t u o , e o mais que ocorreria, se se tornasse,
em-fim, o grande e único organizador e administrador
da agricultura e dos variados ramos da indústria. Se,
a l é m dos que j á possui (impostos, defesa t e r r i t o r i a l ,
religiões estipendiadas, etc.) lhe fossem agregados ou-
tros novos poderes, t e r í a m o s fundado uma nova t i r a -
nia, certamente a mais poderosa de quantas a t é agora
teem existido sobre a face da terra.
A maioria dos anarquistas filia-se à corrente da
solução comunista l i b e r t á r i a . Distingue-se hoje, com
perfeita clareza, que a única forma de comunismo pos-
sível e aceitável em uma sociedade civilizada é a do
O ANARQUISMO E A CIANCIA MODERNA 201

facilmente se obteria em poucos anos pelo trabalho


comunista inteligentemente organizado, para o que
mais n ã o seriam precisas do que quatro ou cinco ho-
ras de trabalho diário, o que permitiria ter livres o u -
tras quatro o u cinco horas destinadas aos prazeres
VI intelectuais ou a r t í s t i c o s .

#
A corrente individualista «= *

A corrente individualista no Anarquismo n ã o pas- A corrente individualista pode subdividir-se em


sa, em nossa opinião, de uma sobrevivência dos tempos dois grupos principais. Primeiramente o grupo dos i n -
passados. E n t ã o , quando os meios de p r o d u ç ã o n ã o dividualistas puros, da escola dc Max Stirner, (pie, u l -
haviam ainda atingido a eficácia que moderna- timamente, encontraram um tal ou qual apoio na be-
mente lhes d ã o a ciência e os progressos técnicos, o leza a r t í s t i c a dos escritos de Nietzsche. N ã o nos
comunismo poderia conjceturar-se sinónimo de m i - ocuparemos com a análise das suas obras.
séria comum e de comum sujeição. J á o d e i x á m o s dito em um c a p í t u l o anterior quan-
Efectivamente, há pouco menos de um século, um to é ultra metafísica, e completamente afastada dos
modesto bem-estar e uns minguados prazeres só eram factos da vida real, a ' ' a f i r m a ç ã o unilateral do indi-
possíveis a um reduzido n ú m e r o de pessoas que explo- v í d u o " ; quanto ela fere os sentimentos de igualdade,
rassem o trabalho de seu semelhante. Essa é, talvez, base de toda a l i b e r t a ç ã o , poisque n ã o há l i b e r t a ç ã o
a r a z ã o porque todos os que, naqueles tempos, goza- onde a l g u é m pretende dominar; quanto esse conceito
vam de uma certa independência e c o n ó m i c a à custa de " i n d i v í d u o " aproxima os que se declaram catego-
dos outros, se arrepelavam na a n t e - v i s ã o do dia em ricamente "individualistas" das minorias de nobres,
que, forçados pelos factos, deixassem de pertencer a padres, burgueses, funcionários, etc. que se julgam
essa minoria de privilegiados ociosos. B a s t a r á dizer, "seres superiores" à s massas e aos quais devemos a
o que justificaria o conceito em que era tido o comu- o r g a n i z a ç ã o do Estado, da Igreja, da Magistratura, da
nismo, que, nessa época. Proudhon avaliava em cinco Polícia, do M i l i t a r i s m o , do Imperialismo e de toda a
sous ( 2 5 c ê n t i m o s ) por dia e por habitante a p r o d u ç ã o secular o p r e s s ã o que sofremos.
total da Franca. O segundo grupo de individualistas-anarquistas
Todavia, essa objecção n ã o subsiste mais hoje. compreende os mutualistas da escola de Proudhon a
Com a imensa produtividade do trabalho humano que que j á t a m b é m nos referimos. Pensam estes ter acha-
é dado observar tanto na agricultura como na i n d ú s - do a solução do problema social em uma o r g a n i z a ç ã o
t r i a (vide a nossa obra C A M P O S . F A B R I C A S E U S I - livre, v o l u n t á r i a , que introduzisse o sistema da per-
N A S ) pode-se prever que u m alto grau de bem-estar muta dos produtos avaliados estes era " b ó n u s de t r a -
202 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 203

b a l h o " . Estes " b ó n u s " representariam o n ú m e r o de A isso acrescente-se as diferenças de energia muscular
horas dispendidas por tal indivíduo em funções reco- e cerebral que os o p e r á r i o s , em conjunto, dispeudem
nhecidas de utilidade pública. nos diversos ramos da p r o d u ç ã o . Tomados na devida
Ora, na realidade, este sistema deixa de ser indi- c o n s i d e r a ç ã o esses factos, ocorre perguntar se é pos-
vidualista no sentido que ao termo, em rigor, cabe. sível admitir-se racionalmente a hora de trabalho
Representa u m compromisso entre o comunismo e o como medida de valor para a permuta dos produtos a
individualismo. Individualismo na r e t r i b u i ç ã o devida que se quer dar o c a r á t e r mercantil.
ao produtor, comunismo na posse coletiva do que Na sociedade actual compreende-se a permuta
serve para produzir, terras, m á q u i n a s , fábricas, etc. mercantil; mas n ã o se compreende uma permuta mer-
E ' este dualismo que, a nosso ver, cria u m o b s t á - cantil quando baseada em um processo de avaliação,
culo i n s u p e r á v e l à possibilidade de ser introduzido e — a hora de trabalho, — que nada tem de mercantil
posto em p r á t i c a o sistema preconizado. E ' absoluta- se a força de trabalho cessa dc ser tratada como mer-
mente impossível a uma sociedade organizar-se na cadoria. A hora de trabalho só poderia servir de me-
base de dois princípios c o n t r a d i t ó r i o s : u m que pre- dida de equivalência dos produtos, ou melhor, para
tende a comunidade do que fôr produzido e outro que os avaliar grosso modo, em uma sociedade que já hou-
pretende individualizar o que vai ser produzido. O sis- vesse admitido o princípio comunista para a m ó r parte
tema é inconciliável, n ã o j á tanto para a p r o d u ç ã o dos produtos de primeira necessidade.
desses objectos de luxo para os quais os gostos e a E se, como concessão à ideia de r e m u n e r a ç ã o i n -
procura variam a t é ao infinito, mas para o que con- dividualista, i n t r o d u z í s s e m o s , além da hora de traba-
cerne ao estrito n e c e s s á r i o sobre que, em cada socie lho "simples", uma r e m u n e r a ç ã o especial para o t r a -
dade, se estabelece uma certa uniformidade de apre balho "qualificado" que exige prévia aprendizagem,
ciação. ou se r e c o r r ê s s e m o s à d e t e s t á v e l p r á t i c a das " p r o m o -
Por outro lado cumpre n ã o perder de vista a imen- ções por m é r i t o " na hierarquia dos funcionários da
sa variedade de m á q u i n a s e de m é t o d o s que, em dife- i n d ú s t r i a , t e r í a m o s desse modo restabelecido integral-
rentes logares, servem para produzir, e isso em uma mente o regime do salariato moderno com todos os
sociedade numerosa e em uma i n d ú s t r i a em via de seus c a r a c t e r í s t i c o s e todos os vícios e defeitos já so-
desenvolvimento, o que faz que, com tal m á q u i n a , a bejamente conhecidos que, por tal, nos leva a procu-
soma de trabalho por ela produzido seja duas ou t r ê s rarmos os meios de o abolir.
vezes maior do que com outra em iguais circuns- A-pesar-de tudo, as ideias mutualistas tiveram na
tâncias. agricultura u m certo sucesso nos Estados Unidos onde
D á - s e o facto apontado, por exemplo, na indústria o sistema, ao que somos informados, continua a ser
actual de tecelagem. As funções de t e c e l ã o s ã o t ã o praticado no meio de algumas poucas o r g a n i z a ç õ e s de
diferentes em r a z ã o das v á r i a s qualidades exigidas no colonos e rendeiros.
seu desempenho, quanto o s ã o os teares, que variam
de t r ê s a vinte, que u m só homem pode superintender.
204 PETER KROPOTKIN* O ANARQUISMO E A. CIÊNCIA MODERNA 205

U m tanto ou quanto aproximados dos mutualis- lidades p r á t i c a s , é absolutamente impossível conceber


tas, veem, em seguida, os individualistas-anarquistas uma sociedade, ou sequer uma simples a g l o m e r a ç ã o de
americanos que, na segunda metade do século findo, seres humanos, em que houvesse, porventura, neces-
foram representados por S. P. Andrews e W . Greene, sidade ou conveniência de fazer em comum a cousa
depois por Lysander Spooner e actualmente por Ben- mais comesinha, sem que os interesses individuais n ã o
jamin R. Tucker (1) que publicou durante largos anos afectem os de muitos, s e n ã o os de todos os membros
em N e w - Y o r k o periódico anarquista individualista dessa sociedade; impossível para n ó s imaginar uma
LIBERTY. sociedade na qual o contacto c o n t í n u o entre os seus
As ideias sociais desta corrente anarquista pro- membros n ã o estabeleça, como resultado, a comuni-
cedem de Proudhon e Spencer. Partem da a f i r m a ç ã o dade dc interesses e n ã o torne materialmente impos-
que a única lei o b r i g a t ó r i a para o anarquista é que sível a sua a c t u a ç ã o sem o reflexo das consequências
êle p r ó p r i o , exclusivamente, se ocupe de seus n e g ó - dos actos de cada um sobre B sociedade de que fazem
cios sem se intrometer nos dos o u t r o s ; que, conse- parte.
quentemente, cada indivíduo e cada grupo teem o di- E m r a z ã o dessas teorias é que Tucker, como Spen-
reito de s o b r e p ô r - s e ao resto da humanidade, de o p r i - cer, depois de haver feito uma excelente crítica do
mi-la, se tanto n e c e s s á r i o , tendo a força à sua dispo- Estado c uma vigorosa defesa dos direitos do indivi-
sição. Se estes princípios, afirma-o Tucker, recebes- duo, embora reconhecendo a propriedade individual so-
sem uma aplicação geral, n ã o ofereceriam perigo a l - bre o solo, chega a reconstituir o Estado com o objecto
gum poisque os poderes de cada indivíduo ficariam de evitar que os cidadãos individualistas se prejudi-
limitados pelos direitos iguais dos demais. quem reciprocamente. E ' certo que Tucker apenas re-
Raciocinar deste modo é, em nossa opinião, sobre conhece ao Estado o direito de defesa dc seus mem-
render u m largo t r i b u t o à dialética metafísica, fazer bros, mas esse direito e essa função bastam, de per
suposições i m a g i n á r i a s ou estendal de ignorância dos si, para constituir o Estado inteiriço, com todas as
factos da vida real. A f i r m a r que a l g u é m possa ter o suas actuais prerrogativas. Foi precisamente por ha-
direito de oprimir toda a humanidade, se para tal tiver ver assumido as funções de "defesa" dos seus mem-
força, que os direitos do indivíduo são apenas l i m i - bros fracos que o Estado, em sua evolução histórica,
tados pelos direitos que igualmente aos outros são se arrogou depois funções agressivas o que Spencer
reconhecidos, é, indubitavelmente, cair em cheio no e T u c k e r brilhantemente combateram.
campo da dialética. A e r e c ç ã o do Estado com suas leis e uma chusma
Para n ó s , que preferimos ficar no terreno das rea- de funcionários encarregados de proteger o indivíduo
lesado; a sua hierarquia, estabelecida para velar pela
(1) — E ' , « I I I !«>(!.• .i I;»M>. di^no de ler-se o seu livro aplicação das leis; as suas universidades, fundadas
Instead of a Book, by a man too bu»y to write one; a frag-
mentarv exposition of philonocal Anarquism, — New-York, para estudar as origens do direito e logo as suas igre-
1807. jas para santificar as doutrinas ensinadas; as diversas
N. do T. classes de polícia com o f i m dc manter a chamada
206 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 207

ordem social; o seu serviço militar o b r i g a t ó r i o em que E n ã o será exagerado prever que quando m o v i -
dispende rios de dinheiro; os seus monopólios, os seus mentos sérios em prol da e m a n c i p a ç ã o dos trabalha-
vícios, a sua tirania, — tudo decorre dessa primeira dores c o m e ç a r e m a acentuar-se nas cidades e nos cam-
premissa : a protecção dos direitos do indivíduo lesado pos, tentativas se f a r ã o no sentido puramente anar-
por outro. quista e essas, sem dúvida, muito mais profundas das
Basta esta breve crítica do Estado para explicar que levou a cabo o povo francês em 1793-94.
p o r q u ê o sistema individualista-anarquista, que só en-
contra aderentes por entre os "intelectuais" burgue-
ses, n ã o os encontra, todavia, em grande n ú m e r o en-
tre a massa p r o l e t á r i a . Postoque r e c o n h e ç a m o s a i m -
p o r t â n c i a da crítica que ao Estado fazem os individua-
listas-anarquistas, isso n ã o nos leva, a n ó s , anarquis-
tas-comunistas, ao ponto de cairmos em cheio no cen-
tralismo e na burocracia em que dariam a reconsti-
t u i ç ã o do Estado por outras vias. Os anarquistas-co-
munistas manteem bem alto o princípio do indivíduo
livre, origem p r i m á r i a de toda a sociedade livre, pois-
que a tendência a recair nos erros do passado, mesmo
entre os revolucionários ditos a v a n ç a d o s , é bastante
característica.
Sem receio dc c o n t e s t a ç ã o , pode-se dizer que no
momento actual o comunismo-anarquista é a solução
que mais terreno ganha entre as massas o p e r á r i a s ,
principalmente nas n a ç õ e s latinas, que e s t ã o interes-
sadas nas q u e s t õ e s de a c ç ã o revolucionária em um f u -
turo mais ou menos p r ó x i m o e teem perdido a con-
fiança nos pretensos benefícios do Estado.
O movimento o p e r á r i o , que permite aos traba-
lhadores de todos os países sentirem-se solidários nas
suas reivindicações, afasta-se das fúteis a g i t a ç õ e s dos
partidos políticos para empregar as suas forças e as
suas a p t i d õ e s em actividades muito mais eficazes, em
contribuir para preparar e esclarecer as ideias, do que
d e s p e r d i ç a n d o - a s no mecanismo e f é m e r o e inútil das
eleições.
O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 209

empolado que mais serve para embair do que para es-


clarecer os espíritos.

VII
Outrora dava-se ao Direito uma origem divina;
mais tarde deu-se-lhe uma base m e t a f í s i c a : hoje, po-
Principais conclusões do Anarquismo r é m , estamos felizmente aparelhados a estudar a o r i -
gem das concepções j u r í d i c a s e o seu desenvolvimento
Fixadas as ideias directrizes e as origens do Anar- a n t r o p o l ó g i c o do mesmo modo por que se estudaria
quismo, daremos agora algumas i l u s t r a ç õ e s que nos a evolução da tecelagem ou os processos de obter mel
p e r m i t i r ã o precisar melhor o logar que as nossas ideias de abelha.
ocupam no movimento científico e social contempo- M e r c ê dos trabalhos da escola a n t r o p o l ó g i c a , ago-
râneo. ra postos ao alcance de todos, é cousa fácil observar
como surgiram os costumes sociais e as concepções do
Quando se nos diz que devemos acatar a L e i , —
direito, a c o m e ç a r pelos selvagens mais primitivos, se-
com maiúscula, — porque "a L e i é a objectivação da
guir-lhe. passo a passo, o gradual desenvolvimento
Verdade", ou nos buzinam os ouvidos com frases des-
a t r a v é s dos códigos desde as mais remotas épocas his-
te jaez: "as leis do desenvolvimento do Direito s ã o
t ó r i c a s a t é aos tempos actuais. Chegaremos e n t ã o a
as leis do desenvolvimento do espirito humano", " o
esta conclusão j á por n ó s anteriormente enunciada:
Direito e a M o r a l são idênticos e só na sua e x p r e s s ã o
Todas as leis teem uma dupla origem, sendo precisa-
d i f e r e m " , escutamos estas sonoras a s s e r ç õ e s com
mente esta circunstância que as distingue dos cos-
aquela mesma r e v e r ê n c i a com que as acolhia iguais o
tumes estabelecidos pelo uso. 08 (piais representam
Mefistófeles do F A U S T O de Goethe.
os princípios de moralidade inerentes a uma deternr-
Embora tendo na devida conta o enorme e s t o r ç o nada sociedade em uma dada época.
intelectual que, para traduzirem os seus pensamentos, A lei simplesmente confirma os costumes criados,
teriam tido os autores dessas frases, que se julgam cristaliza-os nos preceitos j u r í d i c o s : mas, ao mesmo
profundas mas que na verdade nada dizem, tais pen- tempo, aproveita-se deles para introduzir, subrepti-
sadores trilhavam, evidentemente, caminho errado. ciamente, com a sua sanção, algumas novas institui-
Nas suas frases sonoras podemos ver, ainda que as- ções fundadas no interesse das minorias guerreiras e
sentes em bases frágeis, os t e n t â m e n e s de generaliza- governantes. E ' a lei que introduz e sanciona a escra-
ções inconscientes, as quais, aliás, para c ú m u l o da sua vidão ou a divisão da sociedade em castas, que esta-
manifesta insuficiência, mais i n c o m p r e e n s í v e i s se tor- belece a p r e e m i n ê n c i a da autoridade paternal, das clas-
nam devido ao emprego de u m v o c a b u l á r i o de estilo ses sacerdotais e militares, estimula o servilismo para,
210 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 211

finalmente, levar o indivíduo à obediência incondicio- leis escritas e daí o r e p u d i á - l a s todas, n ã o obstante
nal ao Estado. aspirarem, mais e melhor do que todos os legislado-
Amparada por tais meios, a lei consegue desse res, à J u s t i ç a , que, para eles, é o equivalente, repe-
modo impor ao homem, sem que o perceba, um jugo timos, da igualdade, sem a qual aquela é impossível
tal de que só revolucionariamente é possível desem- existir de-facto.
baraçar-se.
T a l é o processo histórico desde os tempos mais
remotos a t é nossos dias. V ê - l o - e m o s em a c ç ã o nas
mais adiantadas legislações actuais, nas falazes leis
o p e r á r i a s em que, ao lado da denominada " p r o t e c ç ã o Quando nos objectam, a pretexto de n ã o reconhe-
ao t r a b a l h o " , que representa o f i m confesso, se firma cermos o "imperativo c a t e g ó r i c o " de que nos fala
habilmente a ideia da arbitragem obrigatória (arbi- K a n t , que, repudiando a L e i , repudiamos a M o r a l , res-
tragem o b r i g a t ó r i a , que contrasenso!) se impõe, por pondemos que a p r ó p r i a linguagem da objecção nos
tantas horas, a obrigatoriedade desse trabalho. E as- é i n c o m p r e e n s í v e l e absolutamente estranha ( 1 ) .
sim se abrem as portas à e x p l o r a ç ã o militar dos ca- K A N T dizia, efectivamente, que a lei moral se re-
minhos de ferro quando declarada uma parede; do sume nesta f ó r m u l a : " t r a t a sempre o i «nitros dental
mesmo modo é a lei que estabelece a s a n ç ã o legal da maneira que a tua COUdttta potta t<>rnar-se uma lei
o p r e s s ã o em que vivem ainda os camponeses da I r - universal". " I s s o . di/ia o filósofo de Kocnigsberg, é
landa, fixando-lhes elevadas taxas para redimirem suas um "imperativo c a t e g ó r i c o " , nina lei inata no ho-
terras das rendas que sobre elas pesam; é ainda a lei mem. Esta linguagem é para nós t ã o estranha e i n i n -
que introduz o seguro contra a doença, a velhice e a t é teligível quanto <> seria para um naturalista que se
contra a falta de trabalho, dando-se assim ao Estado decidisse a estudar a Moral pelo m é t o d o que lhe é
o direito e o dever de fiscalizar diariamente cada acto peculiar.
do o p e r á r i o , o direito de o forçar a n ã o dispor de si Antes, p o r é m , de entrarmos na m a t é r i a , formula-
como, porventura, lhe apraza sem a a u t o r i z a ç ã o legal remos aos nossos contraditores esta p r o p o s i ç ã o : "que
do Estado ou do funcionário que o representa. quereis significar com os vossos i n t e r m i n á v e i s "impe-
E esse sistema p r e v a l e c e r á enquanto uma parte da rativos c a t e g ó r i c o s " ? " N ã o poderíeis, acaso, tradu-
sociedade se a t r i b u i r a faculdade de fabricar leis para zir as vossas a s s e r ç õ e s em uma linguagem clara, com-
toda a sociedade, alargando por essa forma os pode- preensível, como, por exemplo, o fazia Laplace pro-
res do Estado, que constituem os esteios principais do curando meios de exprimir as f ó r m u l a s das altas ma-
Capitalismo. Enquanto se fabricarem leis, forçoso será t e m á t i c a s em uma língua correntia, ao alcance de toda
obedecer-lhes e os resultados, necessariamente, s e r ã o
sempre os mesmos. (1) — Não inventamos a objecção; ela nos foi feita por
C o m p r e e n d e r - s e - á e n t ã o porque os anarquistas, um doutor germânico em polémica que por correspondência
sustentámos.
desde Godwin para cá, teem negado a eficácia das N. do A.
O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 213
212 1 i. T 1: K
1 K R O P O T K I N

desiderato, quauto as desigualdades e c o n ó m i c a s e po-


a gente? Todos os grandes sábios e pensadores assim líticas estabelecidas pela lei se o p õ e m à. sua realiza-
o fizeram; porque n ã o procedeis como eles?' ç ã o , que parte tiveram na evolução dos sentimentos
Cabe perguntar: que se pretende significar quan- humanos a lei. a punição, a p r i s ã o e todos os seus
do se nos fala de " l e i universal" ou de "imperativo executores: o juiz, o policial, o carcereiro, o carrasco.
c a t e g ó r i c o " ? que todo o homem aceita esta ideia: Estudemos, em todas as suas v á r i a s modalidades,
" n ã o faças ao teu semelhante o que n ã o desejarias estas q u e s t õ e s e, necessariamente, concluiremos por
para t i " ? Se assim é, estamos de acordo. Estudemos recusarmos aderir á moral da Lei e à m o r a l i z a ç ã o dos
a q u e s t ã o , como já antes de n ó s o fizeram Hutchinson costumes sociais pelos tribunais e pela polícia. Pre-
e Adam Smith, por processos naturais, indagando don- firamos às grandes palavras, que outra serventia n ã o
de p r o v ê e m as concepções morais subsistentes nos ho- teem senão a de ocultar-nos a superficialidade de u m
mens e como elas se desenvolveram. meio-saber, os factos positivos do conhecimento. Os
Estudemos, em seguida, a t é que ponto a ideia de grandes chavões foram, talvez, inevitáveis em uma
justiça importa na de igualdade. Q u e s t ã o esta, de- certa é p o c a : quanto, p o r é m , á sua utilidade é lícito
veras, importante, poisque somente aqueles que con- duvidar que tivessem alguma.
sideram outrem seu igual p o d e r ã o compreender e aco- No estado actual de evolução do e s p í r i t o humano,
modarem-se á regra: " n ã o faças a outrem o que n ã o podemos com s e g u r a n ç a empreender o estudo das mais
quererias que te fizessem". U m p r o p r i e t á r i o de ler á r d u a s q u e s t õ e s sociais pelo mesmo m é t o d o natural
vos ou um mercador dc escravos n ã o jxxleriam. evi- que um jardineiro ou um b o t â n i c o aplicariam no es-
dentemente, reconhecer a " l e i univcrsab" e o "impe- tudo das condições que mais favoráveis fossem ao
rativo c a t e g ó r i c o " relativamente ao servo ou ao es- crescimento e desenvolvimento de uma planta.
cravo, poisque n ã o os reconhecem como seus iguais. Com esse e s p í r i t o , ponhamos m ã o s à obra!
Se esta o b s e r v a ç ã o é exacta, n ã o será absurdo querer
inculcar ideias de alta ética quando se inculcam, ao *
mesmo tempo, ideias de desigualdade? * *
Analisemos, em-fim. — como o fez Gtiyau, — o
"sacrifício p r ó p r i o do i n d i v í d u o " e investiguc-se o Refiramo-nos agora à s q u e s t õ e s económicas.
que mais, a t r a v é s da história, contribuiu para o desen- Quando um economista da escola clássica nos vem d i -
volvimento dos sentimentos morais no homem. — se zer: " e m um mercado absolutamente livre, o valor
n ã o foram os sentimentos fundadas na ideia igualitá- das mercadorias calcula-se j>ela quantidade de t r a -
ria a respeito do p r ó x i m o ? balho socialmente n e c e s s á r i o para as p r o d u z i r " (veja-
Somente depois de havermos procedido a um es- se Ricardo, Proudhon, M a r x e tantos o u t r o s ) , n ã o
tudo consciencioso destes temas é que poderemos de- aceitamos, n ó s anarquistas, esta a s s e r ç ã o como um
duzir que condições e instituições sociais oferecem dogma pelo simples facto de haver sido enunciada por
melhores resultados para o futuro da humanidade. Sa- esta ou aquela autoridade, ou porque se revista de um
beremos e n t ã o quanto a religião contribui para esse
214 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 215

cunho "diabolicamente socialista" dizer-se que o tra- altura adquire uma velocidade maior do que outra
balho é a verdadeira medida do valor. pedra que caia somente da altura de u m metro, —
" E ' possível que assim seja", respondemos. Mas esses fizeram, sem dúvida, descobertas verdadeira-
n ã o vedes que fazendo tal a s s e r ç ã o sustentais, por esse mente científicas. F o i , precisamente, o que fez Adam
facto, que o valor e a quantidade de trabalho n e c e s s á - Smith tratando da q u e s t ã o do valor.
rio são proporcionais, tal como a velocidade da queda Mas o que viesse, depois de estabelecidos estes
de u m corpo é proporcional ao n ú m e r o de segundos princípios gerais, afirmar que a quantidade de chuva
gastos no percurso? Desse modo, sem talvez dardes caída se mede exactamente pelo n ú m e r o de m i l í m e t r o s
pelo facto, afirmais uma certa r e l a ç ã o quantitativa a que, da média conhecida, houvesse baixado o b a r ó -
entre duas grandezas: trabalho e valor. A d m i t i d o este metro, ou que o espaço percorrido por uma pedra que
princípio ocorre preguntar: "podereis efectuar medi- cai é proporcional ao tempo do seu percurso e que se
ções, cálculos, o b s e r v a ç õ e s , — medidas quantitativas, calcula por este, — afirmaria positivamente uma sé-
— únicas que possam confirmar exactamente a regra rie de tolices. Provaria, ao demais, que o m é t o d o de
no que respeita à s quantidades? i n v e s t i g a ç ã o científica lhe é absolutamente estranho,
Pode-se admitir, de uma maneira geral, que o valor e, portanto, nulo todo o seu trabalho por anti-cienti-
de troca das mercadorias cresça à medida que aumenta fico, ainda que viesse recheiado de palavras as mais
a quantidade de trabalho n e c e s s á r i o para as produzir. escabrosas e x t r a í d a s do mais arrevesado f o r m u l á r i o
São estas as p r ó p r i a s e x p r e s s õ e s de Adam Smith nas científico. F o i isso que fizeram os que enunciaram
conclusões a que chegara nos seus estudos e c o n ó m i - prematuramente as mencionadas teorias do valor.
cos. Mas Smith teve o cuidado de nos advertir que
sob o regime da p r o d u ç ã o capitalista a p r o p o r ç ã o entre *
o valor de troca e a soma de trabalho n e c e s s á r i o n ã o * *
existe.
A f i r m a r , porem, categoricamente que, por conse- Antes do mais, diremos que n ã o é r a z ã o a d m i s s í -
quência, as duas quantidades dadas s ã o proporcionais, vel, desculpa aceitável, o facto da carência de dados
que uma é a rigorosa medida da outra, constituindo n u m é r i c o s e e s t a t í s t i c o s exactos para justificar a su-
isso uma lei da economia política, — é cometer um perficialidade em m a t é r i a económica, isto é, para es-
grosseiro erro. T ã o grosseiro como afirmar, por tabelecer por medidas exactas o valor de tal merca-
exemplo, que a quantidade de chuva que irá cair ama- doria e a quantidade de trabalho n e c e s s á r i o para a sua
nhã será proporcional ao n ú m e r o de m i l í m e t r o s a que produção.
o b a r ó m e t r o houver baixado da média estabelecida No d o m í n i o das ciências exactas conhecemos m i -
para certo logar e uma dada e s t a ç ã o . O que primeiro lhares de casos em que duas quantidades guardam
notou existir uma certa c o r r e l a ç ã o entre o baixo nível entre si uma r e l a ç ã o de dependência de tal ordem que
do b a r ó m e t r o e a quantidade de chuva que c a i ; o que se uma aumenta, a outra aumenta igualmente sem
primeiro reconheceu que uma pedra ao cair de grande que, entretanto, sejam reciprocamente proporcionais.
216 I ' i: T iv R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODI.K.N \

Assim, por exemplo, a rapidez do crescimento de uma s ã m e n t e , o valor de troca e a quantidade de trabalho
planta depende, certamente, dentre outras causas, da n ã o s ã o reciprocamente proporcionais: uma nunca se
quantidade de calor e de luz que recebe. A altura do mede pela outra. É o que j á havia notado Adam Smith.
sol acima do horizonte e a temperatura média diá- Esse economista, depois de haver escrito que o
ria, factos deduzidos a p ó s largos anos de o b s e r v a ç ã o , valor de troca de cada objecto se mede pela quanti-
aumenta ao mesmo tempo e cotidianamente a partir dade de trabalho n e c e s s á r i o à sua p r o d u ç ã o , teve que
de 22 de m a r ç o (para a Europa). O retrocesso dc um aduzir, após um estudo detalhado dos valores mer-
c a n h ã o aumenta na medida que é aumentada a quan- cantis, que se esse era o caso para o regime p r i m i t i v o
tidade de pólvora queimada na carga. E assim suces- da troca (no estado tribal da humanidade), n ã o é o
sivamente. caso no regime capitalista, o que é. perfeitamente
Mas qual o sábio, digno desse nome, que depois exacto.
de estabelecer estas relações, teria a ideia extrava- O regime capitalista do trabalho forçado e da
gante de vir afirmar, sem haver traduzido essas rela- troca com o fito único no lucro destrói essas simples
ções em quantidades numéricas, que, consequente- relações e introduz, na sociedade capitalista, muitos
mente, a rapidez do crescimento de uma planta e a novos factores que vêem alterar por completo as re-
quantidade de luz que recebe, ou o retrocesso do ca- lações entre o trabalho e o valor de troca. Ignorar a
n h ã o e a carga dc pólvora queimada, são quantidades acção desses factores é desfazer a própria economia
proporcionais: que uma aumenta duas, t r ê s . dez ve- política : é embrulhar as ideias e impedir o desenvol-
Kfl enquanto a outra aumenta nas mesmas propor- vimento natural da verdadeira ciência. económica
ções, |>or outras palavras, que as duas quantidades Os mesmos reparos que fizemos à teoria do valor
se medem exactamente uma pela outra, como se afir- se aplicam a quase todas as a f i r m a ç õ e s e c o n ó m i c a s
ma, desde Ricardo, para o que respeita ao valor e ao que circulam hoje como verdades estabelecidas, —
trabalho? sobretudo entre os socialistas, que tanto se jactam
Quem é esse sábio que depois de haver estabele- de científicos. — a que se pretende, como uma impa-
cido a h i p ó t e s e , a suposição, que uma certa r e l a ç ã o gável ingenuidade, dar 0 0 0 0 0 leis naturais. N ã o só sus-
existe entre duas quantidades dadas, ousasse apre- tentamos ser a maioria dessas pretendidas leis inexa-
sentar essa simples h i p ó t e s e como uma lei definiti- ctas, como estamos maii do que certoi que os que
vamente provada? Só os economistas e os legistas, nelas c r ê e m r e c o n h e c e r ã o o seu erro se alguma vez
que n ã o teem a menor n o ç ã o do que seja uma " l e i " tiverem a necessidade dc examinar detidamente as
nas ciências naturais, seriam os únicos capazes de suas gratuitas afirmações, submetcndo-Js, como fa-
a v a n ç a r semelhante p r o p o s i ç ã o . zem os naturalistas, a uma severa crítica, a uma a n á -
Geralmente, a r e l a ç ã o entre duas quantidades é lise quantitativa.
excessivamente complexa para ser expressa em uma
p r o p o r ç ã o a r i t m é t i c a , o que, mais do que em nenhum
outro, é o caso para o valor e o trabalho. Ora. preci- * *
218 I* i: r K K K R O P O T K I N O ANARQUISMO K A CIÊNCIA MODKRNA 219

Toda a economia política adquire, ante a conce- ferro, dos meios de p r o d u ç ã o , e m - í i m , — em tais
pção anarquista, um aspecto completamente diferente casos se d a r ã o estas ou aquelas c o n s e q u ê n c i a - .
do que lhe emprestam os economistas clássicos, quer Ora, a t é hoje a economia política, pelos seus aca-
os do campo b u r g u ê s , quer os social-democratas. Pa- démicos expositores, tem-se limitado a uma simples
ra uns como para outros o m é t o d o científico, indutivo, e n u m e r a ç ã o dos factores daquelas condições, sem,
lhes é absolutamente estranho e daí o seu completo contudo, enumerar c analisar essas mesmas condições,
desconhecimento do que seja uma " l e i n a t u r a l " , n ã o sem examinar como tais condições operam em cada
obstante fazerem p r a ç a do emprego dessa e x p r e s s ã o . caso particular, nem o elemento que m a n t é m essas
N ã o notam, entretanto, que toda a lei natural tem condições. E se alguma vez essas condições são men-
um c a r á c t e r condicional que pode ser expresso nos cionadas, é para serem imediatamente postergadas.
seguintes termos: "se, em a natureza, tais e tais con- N ã o se l i m i t a r a m os economistas a esse como que
dições se produzirem, o resultado s e r á tal e t a l ; se proposital olvido, fizeram peor: representaram os fa-
uma linha recta cortar outra de modo a formar â n g u - ctos económicos, resultantes dessas condições, como
los iguais dos dois lados do ponto de i n t e r s e c ç ã o (na leis fatais, imutáveis. E teem ainda o topete de cha-
geometria euclidiana), os resultados s e r ã o estes ou mar a essas e l o c u b r a ç õ e s C I Ê N C I A 1
aqueles: se os movimentos peculiares ao e s p a ç o i n - Quanto à economia política socialista, os seus ex-
terstelar actuarem sobre dois corpos e, se a uma dis- positores criticam, é certo, algumas das conclusões dos
tância infinitamente grande, n ã o interferir sobre eles economistas clássicos ou e n t ã o explanam certos fa-
um terceiro ou quarto corpos, os centros de gravidade ctos e c o n ó m i c o s diferentemente, p o r é m , igualmente
dos dois corpos t e n d e r ã o a aproximar-se com determi- esquecem as condições expressas e d ã o aos factos de
nada velocidade. — eis a lei da a t r a c ç ã o universal. E uma dada época demasiada estabilidade inculcando-os
assim sucessivamente; sempre um se, sempre uma como "leis naturais". O que é certo é que nenhum
condição realizada ou a realizar-se. desses expositores conseguiu, a t é boje, t r a ç a r uma d i -
rectriz firme <• própria à ciência «la economia; per-
Consequentemente, todas as pretendidas leis e
manece esta ainda a dentro <l«>s antigos moldes, se-
teorias da economia política d e v e r ã o subordinar-se ao
gue os h á b i t o s rotineiros <1«» passado
c a r á c t e r do m é t o d o científico da i n d u ç ã o : admitindo
que se encontra sempre, em uma dada r e g i ã o , u m O mais que essa economia fei ( M a r x na sua cele-
n ú m e r o considerável de indivíduos que n ã o podem sub- brada obra O C A P I T A L ) í«»i tomar as definições da
sistir u m m ê s , ou mesmo uma quinzena sem perce- economia política metafísica e burguesa e declarar
berem u m certo salário e sem se sujeitarem à s con- enfaticamente: "vede bem (pie. mesmo aceitando as
dições de trabalho que o Estado lhes quiser impor, vossas definições, podemos fau d mente provar que o
condições tais que se traduzem em forma de c o n t r i - capitalista explora o trabalhador!*' Frase bem soante
buições e impostos vários, — ou e n t ã o as condições e que se enquadra excelentemente em um panfleto,
daqueles que o mesmo Estado reconhece como senho- mas que está longe de constituir toda a ciência eco-
res do solo, das usinas, das fábricas, dos caminhos de nómica.
I ' i: r i: R K R O P O T K I N
O ANARQUISMO K A ( IÊNCIA MODERNA 221
De u n i modo geral, pensamos que. para se consti-
tuir como ciência, a economia política requerc assen- d ê n c i a s da vida e c o n ó m i c a moderna conclusões t ã o
tar em bases diferentes. Deve, em primeiro logar, ser diversas das suas com r e l a ç ã o ao que é desejável e
tratada como ciência natural e, nessas condições, fazer p o s s í v e l : por outros termos, porque concluímos, no
a aplicação dos m é t o d o s usuais das ciências exactas, nosso socialismo, pelo comunismo libertário, ao passo
e m p í r i c a s , investigando ao mesmo tempo qual a sua que êlcs se deteem no Capitalismo estatista e no sis-
finalidade precisa. Com relação à s sociedades huma- tema do salariato colectivista.
nas, a economia política d e v e r á ocupar posição aná- É possível que estejamos em erro e eles com a
loga à que ocupa a fisiologia relativamente aos ani- r a z ã o . Mas a q u e s t ã o de saber quem e s t á ou não com
mais e à s plantas.
a r a z ã o n ã o se resolve por meio de c o m e n t á r i o s b i -
E tal fisiologia deve ter por escopo o estudo das zantinos sobre o que tal ou qual escritor disse ou
necessidades sempre crescentes da sociedade e dos pretendia dizer ou ainda divagando tolamente à c ê r e a
diversos meios de satisfazê-las. — como o foram no da " t r i l o g i a " de Hegel e menos, certamente, teiman-
passado e como o s e r ã o no presente. Cumpre-lhe ana- do abusivamente no emprego exclusivo do m é t o d o
lisar esses meios, verificar a t é que ponto, o u t r o r a e dialético.
hoje. se ajustaram eles ao fim proposto, e. em segui- A questão unicamente pode ser resolvida estudan-
da. — j á tjue a predição, a aplicação à vida, como o do os factos económicos pelo mesmo método por que
dissera Bacon, é B finalidade dc toda a ciência. — é
se estudam as ciências naturais.
de sua alçada estudar os meios que melhor possam
realizar a soma das necessidades modernas: os meios
de obter, com o menor dispêndio possível de energia, * *
— com economia, — os melhores resultados p r á t i c o s
para a humanidade em geral. E n t r c - p a r ê n t e s e s citaremos, em abono do que
acabamos de dizer, as seguintes passagens de uma car-
ta recebida de um biologista ilustre, professor na Bél-
* gica, que, talvez, melhor p e r m i t i r ã o esclarecer o ponto
* * em q u e s t ã o . Escreve esse professor:

É, pois, evidente a r a z ã o porque a s nossas con- " A medida «pie prossigo na leitura da sua
clusões diferem t ã o grandemente, em tantos aspectos, "obra FIELDS, PACTORIES AND VVORR-
das que adopta a maioria dos economistas, quer bur- "SMOPS ( I ) . cada vez mais me convenço que o
gueses, quer social-democratas; o motivo porque n ã o
reconhecemos como " l e i s " meras c o r r e l a ç õ e s de fa- Ml UriKiii.il me.lis editado, c m segunda edição revis-
ctos expostas por uns e o u t r o s : p o r q u ê a nossa ex ta • alimentada, em \*H2. por Thomas Nelson & Sons Ltd
posição de socialismo difere t ã o radicalmente da sua dc i • • 11<11• \o francesa sob o título CHAMPS, USI-
NES ET \ M I I I K S . publicada em Paris, em 1910, por P
e. finalmente, porque deduzimos do estudo das ten- V. Stock. N. do T .
0 ANAKOI-ISMO i \A MODI.KNA 22.^
P E T E R K R O P O T K I N

"estudo das q u e s t õ e s e c o n ó m i c a s e sociais só é "preender o verdadeiro alcance de uma lei da


" a c e s s í v e l e proveitoso, d'ora-avante, aos que se "Natureza; dominados pela concepção que. erro-
"dedicaram à s ciências naturais ou que se acha- n e a m e n t e , adquiriram do termo lei, imaginam
rem penetrados do espírito dessas ciências. Os "que uma lei, tal como a que Adam Smith for-
" i m b u í d o s exclusivamente da chamada e d u c a ç ã o " m u l o u , tem u m poder fatal a que é impossível
"clássica são absolutamente incapazes dc com- "escapar. Quando, p o r é m , se lhes mostra o re-
"preender o movimento actual das ideias e ignal- "verso dessa lei, isto é, os resultados deploráveis
"mente incapacitados para o estudo de um sem "do ponto de vista da evolução e da felicidade do
" n ú m e r o de q u e s t õ e s especiais. " i n d i v í d u o , replicam: é uma lei inexorável e, na
"maioria dos casos, esta resposta vem acompa-
" A ideia da i n t e g r a ç ã o do trabalho e da
n h a d a de u m tom incisivo t a l que denota bem
"divisão do trabalho no tempo, (ideia, diremos
"o sentimento de uma espécie de nova infalibi-
" n ó s , muito útil para uma sociedade em que se
lidade.
"pudesse trabalhar, ora na agricultura, ora na i n
" d ú s t r i a , ora no trabalho intelectual, de modo a " O naturalista, ao c o n t r á r i o , sabe demais que
"poder variar o exercício e, portanto, desenvol- "a ciência pode anular os efeitos nefastos de
"ver inteiramente a sua personalidade), e s t á vo- "uma pretendida lei natural e que. muitas ve-
"tada a ser uma das pedras angulares da ciência "zes. o homem que violenta a natureza acaba,
" e c o n ó m i c a . H á uma série de factos biológicos ' finalmente, por a l c a n ç a r vitória sobre ela.
"que concordam plnamente com a ideia enuncia- " A gravidade, por exemplo, faz com que os
d a e que bem podemos interpretar como uma "corpos físicos caiam para o centro da t e r r a ; mas
"lei natural (melhor diria, acrescentaremos, que, "essa mesma lei n ã o impede o b a l ã o de subir
"em a natureza, é frequente obter-se. pela apli- "(a aviação moderna, empregando m á q u i n a s mais
c a ç ã o desse meio. uma economia notável de "pesadas do que o ar, é o mais recente exemplo
"forças). "que se |M>de dar) isto. (pie para nós parece t ã o
•'simples, e. para 01 econoniiItaj da escola clás-
"Se examinarmos atentamente as funções v i -
"sica. de difícil c o m p r e e n s ã o . " A lei da divisão
"tais de um ser vivo qualquer durante os diver-
"do trabalho no tempo será. inquestionavelmen-
"sos períodos da sua peculiar existência, e mesmo
t e , o correctivo necessário da lei formulada por
"durante as v á r i a s e s t a ç õ e s e, em determinados
" A d a m Smith (pie p e r m i t i r á a i n t e g r a ç ã o do tra-
"casos, durante os diversos momentos do dia, en-
"balho individual"
c o n t r a r e m o s aplicado o p r i n c í p i o da divisão do
"trabalho no tempo em í n t i m a c o n e x ã o com a
*
'divisão do trabalho entre os ó r g ã o s (lei de Adam
* *
"Smith).
"Os homens de ciência que ignoram as ciên- Utilizando sempre o mesmo m é t o d o que vimos
c i a s naturais s ã o geralmente incapazes de com- anando, o anarquista chega, no que diz respeito
224 I' K T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 225

ás formas políticas das sociedades humanas, notada- romano, o Estado, na sua e x p r e s s ã o romana, n ã o exis-
mente à q u e s t ã o do Estado, a conclusões que lhe são te. O c o n t r á r i o desta verdade histórica deparamos, é
caracteristicamente peculiares. O anarquista n ã o se certo, nos livros escolares didácticos em que se pre-
deixa levar, e muito menos intimidar, por a s s e r ç õ e s tende narrar a h i s t ó r i a atribuindo ao Estado origens
metafísicas tais como: " O Estado é a a f i r m a ç ã o da dos c o m e ç o s do p e r í o d o b á r b a r o . Mas n ã o passa isso
ideia de J u s t i ç a Suprema na sociedade", — " O Esta- de u m produto da i m a g i n a ç ã o dos historiadores em-
do é o instrumento" e o condutor do progresso". — penhados em t r a ç a r a á r v o r e g e n e a l ó g i c a da realeza
"Sem Estado n ã o há sociedade", e quejandas. na E r a n ç a a t é aos chefes dos bandos m e r o v í n g i o s , e
Fiel ao seu m é t o d o , o anarquista procede ao es- na Rússia a t é à casa real de R u r i k em 862. Ora os
tudo do Estado com as mesmas disposições de espí- v e r d a d e i í o s historiadores e s t ã o fartos de saber que o
r i t o com que um naturalista se proporia ao estudo Estado surgiu das ruinas das cidades livres da idade
das sociedades das formigas, das abelhas ou das aves média.
arribadas às margens dos lagos nas r e g i õ e s do Norte.
Pelo breve escorço que a t r á s fizemos da exposi- •
ç ã o dos princípios anarquistas e da crítica à s ideias * *
socialistas estatistas, somos, por via desses estudos,
logicamente levados a conclusões diferentes das dos Por outro lado, o Estado, como poder político e
nossos antagonistas no que concerne às formas po- militar, assim como a J u s t i ç a governamental, a Igre-
líticas do passado e da sua promissora evolução no ja e o Capitalismo s ã o factos e concepções impossí-
futuro. veis de serem estudados separadamente. No decurso
Acrescentaremos apenas que para a nossa c i v i l i - da história estas quatro instituições, — o Estado, a
z a ç ã o europeia, — civilização dos ú l t i m o s quinze sécu- Igreja, a J u s t i ç a e o Capitalismo, — e v o l u í r a m apoian-
los de que somos o r i g i n á r i o s , — o Estado é uma for- do . i reforçando-se reciproamente. S ã o conexas,
ma de vida social que só começou a incrementar-se n ã o surgiram acidentalmente, ligam-se muito bem por
depois do século X V I e ainda assim sob a influência laços de causa e efeito.
de uma série de causas para cujo exame o leitor con- O Estado é. cm suma. unia sociedade de seguro
sultará o nosso estudo O Estado e o seu papel his- m ú t u o concluída entre <» p r o p r i e t á r i o de latifúndios,
tórico (1). a casta militar, o j u i l t 0 padre com o claro objectivo
Antes dessa época e depois da queda do i m p é r i o de se assegurarem mutuamente a-autoridade sobre o
povo e a e x p l o r a ç ã o das massas p r o l e t á r i a s . T a l foi a
(1) — Desta obra há diversas edições: cm inglês, em origem do Estado, tal é a sua h i s t ó r i a , tal é a sua
francês, em espanhol e uma em português, publicada no estrutura actual
Porto em 1924. decalcada sobre a versão castelhana, porisso
muito prejudicada. Oportunamente editaremos uma nova
Imaginar, pois. a abolição do capitalismo man-
versão. tendo o Estado nu nele apoiar-se para esse f i m , —
N. do T . quando é certo que o Estado foi criado simplesmente
226 P E T E R K R O P O T K I N

para pomover a estabilidade e o desenvolvimento do


capitalismo que mais se firma na p r o p o r ç ã o que o Es-
tado lhe presta o seu apoio, — é, em nossa opinião,
abrigar uma ilusão perigosa, como o seria querer rea-
lizar a obra da e m a n c i p a ç ã o dos trabalhadores por i n -
VIII
t e r m é d i o da Igreja ou do Imperalismo.
Certamente houve, na primeira metade do século
X I X , muitos socialistas que incorreram nos devaneios
Meios de acção
de u m cezarismo socialista, t r a d i ç ã o esta, aliás, que
se tem mantido desde o tempo de Babeuf a t é nossos
dias. Mas alimentar semelhantes ilusões, quando en- Ê intuitivo e concludente que se o anarquista
trados no século v i g é s i m o , é, evidentemente, muito difere tanto, quer nos m é t o d o s de i n v e s t i g a ç ã o , quer
infantil. nos princípios básicos, dos sábios encartados como de
seus camaradas social-democratas, deve igualmente d i -
A uma nova forma de o r g a n i z a ç ã o e c o n ó m i c a
ferir deles nos meios de acção.
deve corresponder necessariamente uma nova forma
de o r g a n i z a ç ã o política. Quer a m u t a ç ã o se faça brus- Efectivamente, com as concepções que temos do
camente por meio de uma revolução, quer se faça Direito, da L e i e do Estado, n ã o podemos de modo a l -
lentamente por via de uma gradual evolução, — quais- gum enxergar uma garantia de progresso, e menos
quer dessas m u d a n ç a s , e c o n ó m i c a e política, d e v e r ã o ainda um meio para levar a cabo a obra da r e v o l u ç ã o
marchar paralelamente, em estreita u n i ã o . •ocial, no princípio da s u b m i s s ã o constante do indi-
Cada passo dado para a l i b e r t a ç ã o e c o n ó m i c a , ca- víduo ao Estado. Proclamar, como o fazem comumen-
da verdadeira vitória alcançada sobre o capital será te os críticos Superficiais da sociedade, que o capita-
t a m b é m uma vitória sobre a autoridade: um passo lismo moderno tem a sua origem na "anarquia da
dado no caminho da l i b e r t a ç ã o política, a nossa liber- p r o d u ç ã o " , na doutrina, cara aos economistas da es-
t a ç ã o do jugo do Estado pelo livre acordo, t e r r i t o r i a l , cola liberal, da " n ã o i n t e r v e n ç ã o do Estado". <» qual,
profissional e funcional de todos os interessados. E ao que se pretende, teria praticado a fórmula "dei-
cada passo dado no sentido de arrancar ao Estado o xar correr as cou .as ao sabor dos tempos", — repetir
m í n i m o dos seus poderes e a t r i b u i ç õ e s muito contri- semelhante sandice n ã o podemos porque sabemos n ã o
b u i r á para auxiliar as massas populares a obter uma ser essa a verdade.
vitória completa sobre o Capitalismo. Sabemos perfeitamente que os governos, enquan-
to davam aos capitalistas plena liberdade para se en-
riquec-crent a expensas do trabalho dos o p e r á r i o s re-
duzido., .'i miséria, nunca, nunca, no correr do aécofo
X I X . cm parte alguma do globo, deram aos trabalha-
dores á liberdade- de "proceder como entendessem"
228 P i: T i: k K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 229

da fórmula aventada, porque, se a dessem, eles se e a i n s u r r e i ç ã o dos mineiros de Montceau-les-Mines


oporiam tenazmente à e x p l o r a ç ã o de que são v í t i m a s . em 1883! Que diremos da Bélgica, da Suiça ( s e r á ne-
J A M A I S , E M P A R T E A L G U M A , ESSA F Ó R M U L A c e s s á r i o recordar as v í t i m a s de A i r o l o na p e r f u r a ç ã o
DO " D E I X A R CORRER O M A R F I M " F O I A P L I - do t ú n e l de S. Gotardo?) da Alemanha, da Espanha,
C A D A POR Q U A L Q U E R G O V E R N O D O M U N D O . da Rússia, dos Estados Unidos, países onde é mani-
Todos, absolutamente todos os governos e em todos festa em toda a e x t e n s ã o , e das mais nefastas conse-
os tempos, a teem reservado exclusivamente para uso q u ê n c i a s , a i n t e r v e n ç ã o do Estado em prol da desor-
e abuso dos exploradores. g a n i z a ç ã o social que o capitalismo cria.
Em F r a n ç a , mesmo sob o d o m í n i o da C o n v e n ç ã o
jacobina, t ã o ferozmente revolucionária como se sa-
be, as paredes eram tratadas como " c o a l i z õ e s " , como
* *
" c o n s p i r a ç õ e s para formar um Estado dentro do Es-
tado" e delitos sociais desta ordem eram punidos no
cadafalso! Depois destes exemplos t ã o frisantes, ocor- Por outro lado, basta recordar como o Estado
ridos no p e r í o d o mais revlucionário, ainda ousaremos reduz os trabalhadores, dos campos e das i n d ú s t r i a s ,
falar do império, da realeza restaurada ou mesmo da à vida mais m i s e r á v e l que é possível imaginar por
república burguesa? meio de pesados impostos e monopólios que cria em
Na Inglaterra, em 1813, eram enforcados os pro- favor dos a ç a m b a r c a d o r e s de terras, dos monopolistas
motores de paredes, e ainda em 1834 deportavam-se industriais, dos magnatas a n ó n i m o s das empresas ex-
para a A u s t r á l i a os trabalhadores que tentaram fun- ploradoras, dos pretores encarregados de arrancar o
dar a U n i ã o Nacional dos Ofícios ideada por Robert átimo v i n t é m ao d e s g r a ç a d o , em-fim, de toda uma
Owen. Nas paredes ocorridas nos anos 60 e 70 con- coorte dc parasitas que bem n e c e s s á r i o seria desapa-
denavam-se a trabalhos forçados os paredistas sob recerem.
pretexto, bastante conhecido mas hoje inteiramente Não e s q u e ç a m o s como na Inglaterra se procedeu,
desmascarado, de defender-se a "liberdade do traba- e ainda boje se pratica, para a abolição da |x>sse comu-
lho". nal das terras permitindo ao magnata local, que ou-
trora era um nn-io nu/ «• nunca p r o p r i e t á r i o , murar
H á poucos anos, em 1903, na Inglaterra, uma so-
ciedade de ferroviários, em consequência de uma sen- abusivamente as terras da comuna já com o p r o p ó s i t o
tença judicial, por haver promovido a parede, foi obri- firme dc se aaaenhoreai delas em momento oportuno.
gada a pagar a uma companhia de caminhos de ferro N ã o e s q u e ç a m o s igualmente como. por esses
a bonita soma de £ 26.000 (vinte e seis m i l libras es- ignóbeis proci as comunas aldeãs da R ú s s i a fo-
terlinas ! ) . ram desapossadas das suas terras no reinado do ma-
gnânimo c/ar Nicolau I I a-fim-de fornecer u m bom
Que diremos da F r a n ç a , onde a p e r m i s s ã o para
mercado de " b r a ç o s " aos grandes p r o p r i e t á r i o s de
fundar sindicatos profissionais só em 1884 foi conce-
terras e aos monopolistas das i n d ú s t r i a s .
dida e isso mesmo a p ó s a a g i t a ç ã o anarquista de L y o n
230 O ANARQUISMO E A CIÊNCIA M :KN.\I
P E T E R K R O P O T K I N

Cremos n ã o ser n e c e s s á r i o lembrar como, nos t á r i a s gozaram da liberdade de resistir à o p r e s s ã o (pie


tempos actuais, todos os Estados, sem e x c e p ç ã o de os capitalistas exercem sobre elas. Os escassos direi-
nenhum, na Europa como na A m é r i c a , constituem tos de que gozam foram conquistados à força do va-
vastos monopólios de toda a espécie em favor dos ca- lor e esforço p r ó p r i o s e à custa de infinitos sacri-
pitalistas de cada país, mormente em terras conquis- fícios.
tadas como o Egito, o T o n k i n , o Transvaal e outras. Por conseguinte, se é permitido aos economistas
burgueses afirmar que o sistema da " n ã o - i n t e r v e n -
* ç ã o " existe, — j á que tanto se e s f o r ç a m por provar
* * que a miséria das massas é uma lei natural, — como,
logicamente, podem os socialistas sustentar esse p r i n -
Ante estes factos, porque nos h ã o de vir falar des- cípio perante os trabalhadores?
sa charla da a c u m u l a ç ã o p r i m i t i v a com que M a r x nos A doutrina da " n ã o - i n t e r v e n ç ã o " e, mais do que
assoberba, como se esse impulso dado ao capitalismo ela, o auxílio, o apoio, a p r o t e c ç ã o tem-se praticado,
pertencesse ao passado quando o facto se verifica mes- na verdade, exclusivamente a favor dos exploradores,
mo nos tempos modernos? A realidade é que cada ano, mas nunca em benefício dos explorados. Nem de ou-
desde o passado a t é nossos dias, todos os parlamentos tra forma, aliás, podia ser, poisque uma das principais
do mundo estabelecem novos monopólios em exclu- funções e a m i s s ã o essencial do Estado foi, precisa-
sivo benefício das grandes empresas de transportes, — mente, essa.
vias férreas, terrestres, fluviais e m a r í t i m a s , — com-
panhias de iluminação a g á s e a electricidade, de *
abastecimento de á g u a s e de serviço de esgotos, ex-
clusividade do ensino público, privilégios para certos
institutos públicos, e o mais que ora n ã o nos ocorre. O socialismo, dissemos, qualquer que seja a for-
O impulso dado pelo Estado a todas essas iniciativas ma que adopte em sua evolução para o comunismo.
só tem servido para a l i c e r ç a r as grandes fortunas dos necessita determinai previamente a sua forma própria
maiores capitalistas do mundo. de o r g a n i z a ç ã o politica no futuro. A s e r v i d ã o e a mo-
E m resumo: em parte alguma do mundo, em ne- narquia absoluta evoluíram paralelamente, — é o que
nhuma época da história, teve a m í n i m a aplicação o facilmente se demonstra: unia n ã o podia subsistir
falado sistema da " n ã o i n t e r v e n ç ã o do Estado" nas sem a outra, correlatas, apoiam-se reciprocamente.
v á r i a s actividades sociais. O c o n t r á r i o , sim, é o que Outro tanto ie dá COm 0 capitalismo que não se pode
se tem verificado. O Estado foi sempre, em todos os manter sem s existência de u m poder político, que
tempos, e actualmente o é, o s u s t e n t á c u l o principal e seja o governo representativo m o n á r q u i c o ou repu-
o criador, directo e indirecto, do Capitalismo e do seu blicano.
formidável poder sobre a sociedade. Nunca, desde os N ã o p o d e r á , evidentemente, o socialismo utilizar-
p r i m ó r d i o s da existência do Estado, as massas prole- se dessas arcaicas formas políticas como n ã o p o d e r á
232 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA : <;

aproveitar-se dos velhos ensinamentos da hierarquia quos a t r a v é s de muitas cidades federadas; cm seguida
religiosa ou das j á decaídas teorias do qualquer forma o g á s , a luz, a força eléctrica para as fábricas e usi-
de um governo. — imperial ou ditatorial. nas, as minas c a r b o n í f e r a s , as leitarias de leite puro.
No mesmo momento em que os princípios socia- os rebanhos de cabras para tuberculosos (como já
listas se incorporarem à vida social, será preciso cons- existem em algumas r e g i õ e s ) , os condutores de á g u a
t i t u i r uma nova forma de o r g a n i z a ç ã o política. E, na quente e fria a domicílio, as hortas, pomares e jardins
conformidade desses princípios, é mais do que claro comunais, e t c . etc.
que essa nova forma de o r g a n i z a ç ã o política d e v e r á De-certo n ã o será o imperador a l e m ã o , os impe
depender o menos possível do princípio das represen- realistas ingleses ou os radicais jacobinos instalados
t a ç õ e s , t e r á de ser, sobre as anteriores, mais popular, no poder que governa a Suiça que h ã o de levar por
mais descentralizada, mais próxima do governo do diante essa obra social, — esses teem os olhos voltados
povo por si-mesmo do que qualquer outra forma de para o passado e procuram, pelo c o n t r á r i o , tudo cen-
governo representativo conhecida ou por conhecer. tralizar nas m ã o s do Estado e anular todo o esforço
Foi o (pie o proletariado de Paris procurou realizar de independência t e r r i t o r i a l ou funcional ( 1 ) .
em 1871 ; foi o que tentaram, em 1793-94. as Secções Felizmente, p o r é m , que há, na Europa como na
comunais de Paris e outras menos importantes. A m é r i c a , uma parte progressiva da sociedade, princi-
Incontestavelmente esta t e n d ê n c i a se acentua e palmente entre os homens activos, que trabalha para
predomina hoje nas concepções dos homens libertos do o bem social, que luta denodadamente para abrir no-
preconceito da autoridade. Se observarmos atenta- vos horizontes à vida e ato trabalho comuns, indepen-
mente a vida política actual da F r a n ç a , da Inglaterra, dentemente e fora de todo o p a t r o c í n i o do Estado
dos Estados Unidos e de outros países, notaremos ime- Este movimento tende, cada vez mais. a alastrar-se e
diatamente haver uma decidida tendência a constituir a substituir, em todas as suas funções, o Estado que
comunas independentes, urbanas e rurais, a fundar as- nunca soube cumprir convenientemente nenhuma das
sociações, agrupamentos e federações livres, unidas que se arrogou.
todas entre si, para a satisfação das mais complexas Se a Igreja teve ]w>r missão reter o j x t v o na escra-
necessidades sociais por meio de pactos federativos, vidão intelectual, a do Estado foi. sem dúvida, m a n t ê -
firmados cada u m para um f i m especial e determi-
nado e sem a menor i n t e r f e r ê n c i a do Estado. (1) — Haja vista <>s impernlistas inglesei que fazem o
mesmo na Inglaterra Citemoi um < aso.: cm 1902 conseguiram
E esses agrupamentos sociais, — associações, co- eles abolir uma instituiçio excelente, introduzida aí pelo ano
munas, federações, — tendem cada vez mais a faze- de 1870. qtu- vinha prestando relevantes serviços à causa da
rem-se produtores de toda a espécie de comodidades instrução laica. os SCHOOL BOARDS, que eram conse-
para atender aos i n ú m e r o s gostos e necessidades dos lhos eleitos pelos contribuintes, sem distinção dc sexo. em uma
cidade ou paróquia, a-fim-de proporcionar meios para * difu-
habitantes das cidades e dos campos. Associativa, fe- são «la imtruçlo 00 distrito, especialmente organizados para
derativa e comunalmente se o r g a n i z a r ã o os serviços estabelecer escolas primárias em cada localidade.
de abastecimento dc á g u a , trazida de logares longin- N. do A.
234 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA Montai?* M

lo, sob a p r e s s ã o das necessidades materiais, em uma de bem-estar para todos, nos leva necessariamente a
absoluta escravidão económica. D e s e m b a r a ç a r m o - n o s formular para a luta a t á c t i c a precisa que consiste em
desses dois jugos, — eis o que ora se impõe. elevar, ao mais alto grau possível, o e s p í r i t o de ini-
ciativa pessoal, primeiro no indivíduo e, em seguida,
* no grupo social a que se filiar, — a unidade de a c ç ã o
* * obtendo-se pela unidade do f i m a atingir e pela força
Posto isso, n ã o podemos sensatamente considerar de p e r s u a s ã o que toda a ideia c o n t ê m quando l i v r e -
a s u b m i s s ã o incondicional do indivíduo ao Estado como mente expressa, seriamente discutida e, por f i m . acha-
uma garantia de progresso. E assim sendo, procura- da justa. Esse e s p í r i t o dá à t á c t i c a anarquista u m
mos realizar o progresso pela l i b e r t a ç ã o , t ã o í n t e g r a cunho especial que se traduz praticamente na vida i n -
quanto possível, do i n d i v í d u o : na mais larga ampli- terior do indivíduo e na acção do meio em que houver
tude da iniciativa individual e social e, ao mesmo t e m - de viver.
po, na l i m i t a ç ã o das a t r i b u i ç õ e s do Estado, — nunca Afirmamos resolutamente que trabalhar para o
no seu alargamento. advento de um Capitalismo de Estado, centralizado
A nossa r e p r e s e n t a ç ã o do progresso é uma apro nas m ã o s de u m governo, que, porisso mesmo, se
x i m a ç ã o do ideal da abolição completa de toda a auto- tornaria onipotente, é trabalhar contra a corrente das
ridade governamental que se impôs * sociedades hu-
; ls
ideias modernas, seja, do progresso, que anseia por
manas, sobretudo depois do século X V I , e que nunca novas formas de o r g a n i z a ç ã o da sociedade fora do
cessou dc aumentar e engrandecer as suas a t r i b u i - Estado.
ç õ e s ; a nossa r e p r e s e n t a ç ã o do progresso consiste em Na incapacidade em que se encontram os socia-
uma incessante a p r o x i m a ç ã o do maior desenvolvimen- listas-estatistas de compreenderem o verdadeiro pro-
to possível das t e n d ê n c i a s para o acordo livre, para o blema histórico do socialismo, vemos n ó s um grosseiro
pacto t e m p o r á r i o , em tudo que foi, e ainda é agora, erro de a p r e c i a ç ã o , uma sobrevivência dos preconcei-
função privativa da Igreja e do Estado; a nossa con tos absolutistas e religiosos do passado e contra tal
cepção de progresso e s t á em uma ininterrupta aproxi- tendência nos insurgimos com todas as veras.
m a ç ã o do princípio do desenvolvimento da livre i n i - Dizer aos trabalhadores que p o d e r ã o introduzir na
ciativa individual e colectiva. Temos, da estrutura das sociedade a estrutura socialista, conservando, todavia,
sociedades humanas, a noção de serem algo que nunca a máquina do Estado, mudando apenas os homens no
e s t á definitivamente c o n s t i t u í d o , mas que, transbor- poder; impedir, em logar de auxiliar, que o e s p í r i t o
dando de vida, vive em c o n t í n u a m u t a ç ã o conforme as dos trabalhadores se encaminhe no sentido de procu-
necessidades e as a s p i r a ç õ e s de cada momento h i s t ó - rar novas formas de vida que lhe seriam, porventura,
rico da humanidade. mais adequadas, — é, em nossa opinião, cometer um
Esta maneira de conceber o progresso, assim como erro histórico de evolução que toca as raias do crime
a nossa concepção do que é desejável para o futuro,
que é tudo quanto contribuir para aumentar a soma
236 PETER K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MOM-KNA Dl

Poisque partido r e v o l u c i o n á r i o somos, procuremos rie (1). E ' n o t ó r i o que o movimento partisse do> cam
averiguar exactamente a g é n e s e e a e v o l u ç ã o das re- pónios nas aldeias e visasse especialmente a alxdiçáo
voluções passadas, d e s e m b a r a ç a n d o a sua h i s t ó r i a das da servidão feudal e a r e i n t e g r a ç ã o das terras que lhe
falsas i n t e r p r e t a ç õ e s estatistas que os historiadores
haviam sido arrebatadas, desde 1669, por força do é d i t o
lhe teem a t r i b u í d o a t é hoje.
que sancionava legalmente essa i g n o m í n i a . Desse mo-
Nas h i s t ó r i a s escritas a t é hoje das v á r i a s revo- vimento s a í r a m eles, aliás, triunfantes, sobretudo na
luções ocorridas, o que menos vemos nelas é a acção parte leste da F r a n ç a .
do povo e nada ficamos sabendo à c ê r c a da sua g é - Criada a s i t u a ç ã o revolucionária pelas c o n t í n u a s
nese. As frases que estamos habituados a ler na i n - sublevações campesinas que duraram cerca de quatro
t r o d u ç ã o dessas h i s t ó r i a s sobre o estado de desespero anos, desdobrou-se pelas cidades esse movimento l i -
do povo nas v é s p e r a s da sublevação, n ã o nos elucidam bertador que tinha por finalidade a s u p r e s s ã o da m i -
em cousa alguma como, no meio desse desespero, sur- séria do proletariado o qual, nas suas reinvindicações,
giu no e s p í r i t o popular, e como se elaborou e desen- apelava para uma o r g a n i z a ç ã o nacional em que se f i
volveu, a e s p e r a n ç a de uma melhoria possível de si- zessem a permuta e a socialização da p r o d u ç ã o . Nas
t u a ç ã o , de uma aurora nova. que o redentasse da con cidades, principalmente, o movimento tinha uma acen-
d i ç ã o sofredora em (pie se achava. E assim é que, tuada tendência para a igualdade comunista, embora,
depois de havermos lido essas historietas, que nada por o u t r o aspecto, se visse engrandecer o poder da
esclarecem, se. ]x>rventura. quisermos encontrar a l - burguesia que, sem c o n t e s t a ç ã o , trabalhou inteligente-
guma i n f o r m a ç ã o útil sobre a marcha das ideias e mente para firmar a sua autoridade em s u b s t i t u i ç ã o
do seu despertar no seio do povo. a parte efectiva que da j á e n t ã o estropiada autoridade da realeza e da no-
este tomou nos acontecimentos, hemos de recorrer breza que aquela, sistematicamente, tratava de apear.
ás fontes h i s t ó r i c a s de primeira m ã o . sem o que fica
remos na mesma, como antes. Para t a l . a burguesia lutava desesperadamente, —
às vezes a t é com crueldade quando via periclitar a sua
Referindo-nos. por exemplo, à grande r e v o l u ç ã o supremacia. — com o único objectivo de constituir u m
francesa, n ó s a interpretamos de uma maneira com- Estado jxxleroso, centrali/ado. (pie absorvesse tudo,
pletamente diferente da que a concebe Louis Blanc, que lhe assegurseae i propriedade dos pana que conse-
que a representa sobretudo como um grande movi- guira arrebatar já durante a R e v o l u ç ã o , a plena liber-
mento político dirigido pelo c é l e b r e Clube dos Jaco- dade de explorar os "sem v i n t é m " e a faculdade de es-
binos, quando, na realidade, n ã o foi nada dr.sso. pecular, sem r e s t r i ç õ e s legais, com as riquezas nacio-
Nesse grandioso facto social n ó s vemos antes u m nais, como de-facto se deu. Essa autoridade, esse d i -
grande movimento popular onde foi preponderante o
papel do c a m p ó n i o , — "cada aldeia tinha o seu Robes-
p i e r r e " . como muito bem o disse ao historiador Sch- (1) — Vide a obra do autor, já por vezes referida neste
estudo. — L A ( i K A N D E RÉVOLUTION.
losser o abade G r é g o i r e , relator dos actos da Jacque- N. do T.
238 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 239

reito ã e x p l o r a ç ã o . — digamos esse processo unilate- completo desses sonhos e, a consequência, a ditadura
ral de fazer o que bem entendesse. — a burguesia, militar ( 1 ) .
com efeito, o obteve e para o manter a todo o transe •
criou a forma política correspondente, — o governo
representativo n o Estado centralizado.
Sem de modo a l g u m pretendermos proceder a
Nessa c e n t r a l i z a ç ã o estatista que os jacobinos
uma análise pormenorizada dos diversos movimentos
criaram, encontrou N a p o l e ã o I o terreno fertilmente
r e v o l u c i o n á r i o s do passado, que, de-resto, simplesmen-
preparado para a fundação do seu império. E , cincoen-
te confirmam a nossa maneira de ver nesta q u e s t ã o ,
ta anos mais tarde, N a p o l e ã o I I I encontrava, igual-
b a s t a r á dizer que a concepção que temos da p r ó x i m a
mente, na realização do á u r e o sonho de uma repú-
blica d e m o c r á t i c a centralizada, que, em 1848, teve lar- r e v o l u ç ã o social difere totalmente da de qualquer for-
ga r e p e r c u s s ã o , os elementos indispensáveis à forma- ma de ditadura jacobina ou de uma possível transfor-
ção do Segundo I m p é r i o . m a ç ã o das i n s t i t u i ç õ e s sociais, promovida por qualquer
C o n v e n ç ã o , Parlamento ou Ditadura. De tais elemen-
Dessa força centralizada, que afogou durante se- tos, e essa é que é a verdade, nunca resultou r e v o l u ç ã o
tenta anos toda a vida local, todo o esforço pessoal ela- alguma proveitosa, e se a classe o p e r á r i a actual, nas
borado fora da esfera dos poderes do Estado, — o t r a - suas justas reivindicações, apelasse para esses meios,
balho profissional, o sindicato, a associação privada, estaria j á previamente condenada a ver fracassados
a comuna, — a F r a n ç a ainda hoje se ressente. A p r i - todos os seus esforços sem haver sequer obtido um
meira tentativa para quebrar êssc poderoso jugo do resultado a p r e c i á v e l .
Estado, tentativa que abre uma nova era histórica, fê- Contrariamente ao e s p í r i t o dessas v ã s ideologias,
la o proletariado francês em 1 8 7 1 com o advento da compreendemos a r e v o l u ç ã o , quando iniciada, como
Comuna. uni movimento popular (pie deve, prontamente, tomar
O que exposto deixamos explica claramente, pen- a mais l.ni-.i e x t e n s ã o e durante o qual, cm cada c i -
samos, porque a nossa i n t e r p r e t a ç ã o da história e as dade, em cada vila, em cada burgo da r e g i ã o que o
e s p í r i t o instirreecional se fizer sentir, as massas po-
conclusões que dela tiramos s ã o t ã o diferentes das que
pulares, exclusivamente por si. ponham sem d e t e n ç a s ,
t i r a m os partidos políticos burgueses e o p r ó p r i o par- m ã o s a obra da r e c o n s t r u ç ã o social. O povo, — t r a -
tido socialista. Adiantamos mais: enquanto os socia- balhadores «las cidades «• «l«.s campos, — deverá, con-
listas-estatistas n ã o abandonarem o seu sonho de socia- juntamente, começar, por si próprio, a obra constru-
lização dos instrumentos de trabalho nas m ã o s de um tiva, conforme os princípios aceitos, mais ou menos
comunistas, sem esperar ordens superiores ou planos
Estado centralizado, o resultado inevitável de todas
as suas tentativas para o estabelecimento do Capitalis-
(\ — c) que se verifica actualmente na Rússia Soviética.
mo estatista e do Estado socialista s e r á o malogro N. do T.
240 P i: t K K K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 241

imaginados por altas categorias. Logo que o movimen- a casa habitada, a fábrica em funcionamento, o cami-
to insurreccional estalar, a primeira cousa a cuidar nho de ferro em marcha, os barcos a navegarem (1)
seriamente será a a l i m e n t a ç ã o e o alojamento para I n d i v í d u o s isolados podem, talvez, em casos p a r t i -
todos e, em seguida, organizar a p r o d u ç ã o do imedia- culares, encontrar a e x p r e s s ã o legal, a fórmula, que
tamente n e c e s s á r i o à subsistência, à h a b i t a ç ã o e ao resuma e compendie I ideia da d e m o l i ç ã o das velhas
v e s t u á r i o para toda a gente. formas sociais quando a demolição j á e s t á a caminho
Quanto ao governo, provenha êle da força ou dc de realizar-se. Quando muito p o d e r ã o ampliar a es-
fera dessa obra reconstrutiva e extender sobre todo o
um pleito eleitoral, quer seja uma "ditadura do prole-
t e r r i t ó r i o o que já e s t á feito em uma parte dele. Mas
t a r i a d o " , como se proclamava na F r a n ç a aí pelo ano impor a r e c o n s t r u ç ã o por uma lei, é absolutamente i m -
de 1840 e c o m » ainda se fala na Alemanha; quer seja possível, como bem o provou, em 1789-1794, entre ou-
um "governo p r o v i s ó r i o " , aclamado ou eleito, ou uma tras, a hi st ór i a da r e v o l u ç ã o francesa. Milhares de leis
" C o n v e n ç ã o " , n ã o ponhamos as nossas e s p e r a n ç a s na tais as ditou a " C o n v e n ç ã o " u l t r a - r e v o l u c i o n á r i a que,
por via da r eacção sobrevinda, n ã o chegaram mesmo
a c ç ã o de nenhum desses governos, pois, qualquer que
a executar-se e foram, porisso, l a n ç a d a s ao cesto dos
seja, de a n t e m ã o sabemos que em nada pode rá contri- papeis inúteis.
buir para o ê x i t o da revolução se o povo n ã o se decidir
a proceder energicamente á m u d a n ç a de i n s t i t u i ç õ e s , (1) — Temos um exemplo frisante do que pode, agitado
erguendo o edifício social em bases inteiramente pelos acontecimentos, o espírito colectivo das massas se este
incidir directamente nas cousas a reformar. E ' o da grande
novas. parede que, em 1905, estalou na Sibéria na imensa linha fér-
rea <1«> tran-iberiano. imediatamente após a guerra da Rússia
N ã o o dizemos por ogerisa ou porque tal seja a com o Japão cm 1904. Todo o pessoal operário desse vas-
nossa opinião pessoal, mas porque toda a h i s t ó r i a aí tíssimo caminho de ferro, desde os Montes Urais até Har-
e s t á para nos dizer que nunca os homens guindados a bin, cm uma extensão de mais dc 6 500 quilómetros, dcclarou-
se em parede. < >s paredistas, ao comunicarem o facto ao co-
um governo pela onda revolucionária estiveram à al- mandante em chefe do exercito, o velho Linevitch, assegura-
tura da m i s s ã o que se lhes queria confiar. E esse re- raram-lhe que tudo fariam para o repatriamento rápido do>
regimentos se o general quisesse diariamente entender-se com
sultado é inevitável. a comissão da parede sobre o número de homens, dc cavalos,
dc bagagens que devessem ser embarcados. O general Line-
I n e v i t á v e l , porque, na tarefa da r e c o n s t i t u i ç ã o de vitch aceitou a condição. O resultado excedeu a expectativa'
uma sociedade sobre princípios novos, homens isolados o repatriamento fez-sc na mais absoluta ordem, com menores
acidentes e com maior celeridade do que se fazia antes. E r a
que s ã o , por mais inteligentes e devotados que sejam, um verdadeiro movimento popular em que todos se empe-
teem que fracassar fatalmente. E ' que para essa gran- nhavam à porfia: operários e soldados colaboravam activa-
mente, sem atropelos, nesse imenso trabalho do transporte d<
de obra, é indispensável o espírito colectivo das massas centenas de milhares de homens e isso realizado com exclusãt
obrando sobre as cousas concretas: o campo lavrado, da férrea disciplina militar 1 (Da edição francesa).
242 P E T E R K R O P O T K I N O A N A R Q U I S M O E A C I Ê N C I A MODERNA 243

Durante um p e r í o d o revolucionário emergem ne- A burguesia que. inegavelmente, é muito mais po-
cessariamente das ruinas das formas precedentes, no- derosa, pelo n ú m e r o e pela capacidade, ao c o n t r á r i o
vas formas de vida, p o r é m , n ã o há governo capaz de do que sói afirmar-se na imprensa socialista, nunca
encontrar a e x p r e s s ã o precisa dessas novas formas en- reconheceria o direito de partilhar com os socialistas
quanto estas, por si, n ã o se definirem na obra recons- o poder de que usufrui se não visse nisso a perda da
trutiva das massas que se exerce simultaneamente em influência destes no domínio social e, portanto, a con-
diversos logares. De-facto, quem teria imaginado s e r v a ç ã o da hegemonia da sua classe.
quem poderia adivinhar, antes de 1789, o papel que de- Por outro lado, n ã o é duvidoso imaginar-se que se
sempenhariam as municipalidades, a comuna de P a r i " uma i n s u r r e i ç ã o popular conseguisse dar à F r a n ç a , à
e as suas v á r i a s secções nos acontecimentos revolu- Inglaterra ou à Alemanha um governo p r o v i s ó r i o so-
c i o n á r i o s de 1789-1794? Ora, para o futuro n ã o se le cialista, este, sem a actividade construtiva e espon-
gisla. O mais que se pode é presumir as t e n d ê n c i a s t â n e a do povo, seria absolutamente impotente e, den-
essenciais e aplainar o caminho das reivindicações. tro em breve, um empecilho, um freio, à obra da re-
E ' precisamente o que procuramos fazer. v o l u ç ã o ; serviria antes de degrau para a a s c e n s ã o de
um ditador que representasse a r e a c ç ã o .
*
* * *
* *
E ' evidente que, compreendendo desse modo o
problema da r e v o l u ç ã o social, o Anarquismo n ã o se Estudando-se bem os p e r í o d o s p r e p a r a t ó r i o s das
deixa seduzir por u m programa que tenha por obje í evoluções, chega-se à conclusão que nenhuma revo-
ctivo "a conquista dos poderes p o l í t i c o s " que o Es- lução se originou da resistência ou do ataque de um
tado d e t é m em suas m ã o s . parlamento ou de qualquer outra c o r p o r a ç ã o represen-
Ora, demais sabemos que, por meios pacíficos, t a l tativa. Todas as revoluções se geraram do povo. N u n -
conquista n ã o é possível fazer-se. E n ã o é possível ca r e v o l u ç ã o alguma fez i r r u p ç ã o , armada de capa e
fazer-se porque a burguesia n ã o cederá facilmente, espada, à maneira de Minerva emergindo do c é r e b r o
n ã o r e n u n c i a r á de boa mente aos seus p r i v i l é g i o s ; l u - de J ú p i t e r . Todas tiveram, sobre o p e r í o d o de incu-
t a r á a todo o transe, r e s i s t i r á , em-fim, a t é à ú l t i m a b a ç ã o , a fase de evolução durante a qual as massas,
pela c o n s e r v a ç ã o do seu poder. depois de haverem, a princípio, formulado timidamen-
A ' medida, p o r é m , que os socialistas participarem te as suas exigências, v ã o - s e compenetrando aos pou-
do governo e partilharem o poder com a burguesia, o cos da necessidade de desenvolver u m e s p í r i t o mais
seu socialismo d i m i n u i r á de i m p o r t â n c i a e, consequen- r e v o l u c i o n á r i o , de operar t r a n s f o r m a ç õ e s mais pro-
temente, se e n f r a q u e c e r á o seu poder. E ' exactamente fundas. Fazem-se cada vez mais ousadas, l a n ç a m - s e
o que se e s t á dando, se bem quisermos prestar a t e n ç ã o à s mais i n t r é p i d a s empresas, formulam as mais auda-
aos factos. zes concepções, adquirem progressivamente maior
244 P E T E R K R O P O T K I N O A N A R Q U I S M O E A C I Ê N C I A MODERNA 245

confiança em si e definem melhor o seu programa so- N ã o apenas uma, duas ou dez revoltas semelhan-
cial saindo da letargia de desespero, em que vivem. tes, mas centenas de i n s u r r e i ç õ e s precederam sempre
Q u e s t ã o de tempo apenas para converterem em defi- cada grande revolução. Era inevitável. Jamais as
nidas e x i g ê n c i a s r e v o l u c i o n á r i a s as "humildes peti- ciasses conservadoras fizeram ao povo a m í n i m a con-
ç õ e s " do início. Recordemos o caso da F r a n ç a que c e s s ã o que n ã o fosse precedida de uma revolta mais
só para criar uma minoria republicana que. pelo seu ou menos intensa. A verdade é que sem a rebelião o
poder, se impusesse, necessitou nada menos do que e s p í r i t o humano nunca se teria emancipado dos arrei-
quatro anos. de 1789 a 1793. gados preconceitos em que, por longos séculos, tem
vivido e a revolta, no caminho das conquistas sociais,
No período chamado de incubação v ê e m - s e e n t ã o
é a alentadora da e s p e r a n ç a que anima os homens
indivíduos isolados, profundamente desgostosos à vis-
E essa e s p e r a n ç a , — a e s p e r a n ç a de melhores dias e
ta das i g n o m í n i a s que se passam, se revoltarem aqui e
de s i t u a ç ã o melhor, — foi sempre o manancial das re-
ali, enquanto outros perecem na luta sem resultados
voluções.
a p r e c i á v e i s . P o r é m , os exemplos dessas sentinelas
*
a v a n ç a d a s do progresso teem o supremo c o n d ã o de sa-
cudir o torpor da sociedade, o que j á n ã o é pouco.
Por tais actos de rebeldia, ainda mesmo os mais . Como prova da possibilidade de se realizar uma
satisfeitos da vida, os que, prazenteiramente, a gozam, profunda t r a n s f o r m a ç ã o social sem a m í n i m a comoção
os mais avessos a estudos sociais, pasmam estupefa- revolucionária, cita-se bastas vezes a abolição pacífica
ctos e são, naturalmente, compelidos a indagar: "por- da s e r v i d ã o na R ú s s i a . Mas esquece-sc, ou finge-se
que motivo estes jovens, de um c a r á c t e r impoluto, ignorar, que toda uma longa série de i n s u r r e i ç õ e s de
cheios de vida e de energia, se haviam de rebelar e aldeãos precederam e prepararam o advento dessa
fazerem o sacrifício de suas vidas?" Ante tais a u d á - e m a n c i p a ç ã o de há muito tempo reclamada. Os mo-
cias n ã o é já possível permanecer-se indiferente: há tins populares em prol desse movimento c o m e ç a r a m
que pronunciar-se p r ó ou contra, o pensamento o por meados do século passado, — 1840-50. — como
exige. éco provável do 48 da F r a n ç a o u das sublevações de
E assim, lentamente, esse e s p í r i t o de rebeldia vai 46 na Galícia, — e cada ano mais se avolumavam por
avassalando os indivíduos e formam-se e n t ã o peque- toda a R ú s s i a e adquiriam u m c a r á c t e r de maior gra
nos grupos de p a r t i d á r i o s que se revoltam, ora na es- vidade e violência a t é e n t ã o desconhecida. A t é 1857
pectativa de u m sucesso parcial. — o de vencerem, por durou o estado insurreccional, quando Alexandre I I
exemplo, uma parede e obterem um pouco de p ã o para resolveu, finalmente, e n d e r e ç a r a sua famosa carta à
seus filhos ou o de se d e s e m b a r a ç a r e m de algum fun- nobreza das províncias lituanas em que prometia a l i -
cionário detestado. — ora, e é o caso mais frequente, b e r t a ç ã o dos servos. Ficaram célebres as palavras de
sem e s p e r a n ç a alguma de sucesso: revoltados simples- H e r z e n : "melhor é que a liberdade promane de cima
mente por se lhes haver esgotado a paciência com tan- do que esperar que a imponham de b a i x o " , que o czar
to esperar em v ã o . Alexandre repetia ante a nobreza escravista de Mos-
246 P E T E R K R O P O T K I N

covo e que, afinal, n ã o eram uma platónica a m e a ç a ,


mas antes o reflexo do estado real da questão por cor-
responderem inteiramente a uma realidade p r á t i c a .
S ã o assim os precedentes das grandes r e v o l u ç õ e s .
Como regra geral podemos dizer que o c a r á c t e r de IX
cada revolução se determina pelo c a r á c t e r e f i m das
insurreições que a precedem. Vamos mesmo mais longe.
Podemos estabelecer como facto h i s t ó r i c o que nenhu- Conclusão
ma r e v o l u ç ã o séria jamais se produziu se, uma vez
c o m e ç a d a , n ã o se prolongar por u m sem n ú m e r o de Sem entrar em mais longos desenvolvimentos,
i n s u r r e i ç õ e s locais e se a f e r m e n t a ç ã o social n ã o tomar cremos que o que deixamos exposto neste trabalho
o c a r á c t e r insurreccional em vez de tomar o de v i n - b a s t a r á para dar uma ideia do que seja o Anarquismo,
g a n ç a s pessoais, como foi o caso da R ú s s i a nos anos do seu programa de a c ç ã o e, finalmente, do logar que
de 1906-1907. ocupa na corrente do pensamento moderno e das suas
relações com a ciência actual.
Consequentemente, esperar que a r e v o l u ç ã o so-
O Anarquismo representa u m ensaio de aplicação
cial venha como quem espera u m presente de Natal,
das g e n e r a l i z a ç õ e s científicas que o m é t o d o indutivo-
isto é, sem que venha precedida das i n s u r r e i ç õ e s que
dedutivo das ciências naturais fornece para a aprecia-
caracterizam o e s p í r i t o r e v o l u c i o n á r i o , é afagar uma
ç ã o das instituições humanas. N ã o só isso: o Anar-
e s p e r a n ç a ilusória, é absurdo e pueril. Por outro lado
quismo, baseado nessas a p r e c i a ç õ e s , é ainda um prog-
impedir de se produzirem essas i n s u r r e i ç õ e s , s ó por se
n ó s t i c o certo dos aspectos da marcha futura da huma-
dizer que se prepara uma sublevação geral, é dema-
nidade para a liberdade, a igualdade e a fraternidade
siado criminoso.
no sentido dc obter a maior soma de felicidade para
Procurar, p o r é m , persuadir os trabalhadores que cada uma das unidades que c o m p õ e m as sociedades
limitando-se à a g i t a ç ã o eleitoral e ao estravasamento humanas.
de todo o seu fel de amarguras apenas em actos de O Anarquismo é o resultado inevitável do bri-
i n s u r r e i ç ã o parcial, v ã o obter os benefícios que s ó uma lhante movimento intelectual operado nas ciências na-
r e v o l u ç ã o social lhes pode dar, benefícios que só as turais que, tendo início nos finais do século X V I I I , se
nações historicamente r e v o l u c i o n á r i a s conseguiram, — viu depois paralizado pelo triunfo da r e a c ç ã o que do-
é querer, inutilmente, o p ô r u m dique à a c ç ã o do es- minou na Europa em seguida ao fracasso da revo-
p í r i t o revolucionário, é tornar-se, deliberadamente, um lução francesa e veio, sessenta anos mais tarde, a re-
estorvo à obra da r e v o l u ç ã o e do progresso, estorvo florescer com todo o vigor que hoje ostenta. O r i g i -
t ã o funesto quanto o f o i , em todos os tempos, a Igreja nando-se da filosofia naturalista do mesmo século
X V I I I , só veio a cimentar as suas bases depois do re-
248 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 249

nascimento das ciências que se produziu nos meados pério romano e da Grécia e de outros muitos centros
do século X I X e que, como é sabido, deu um vigoroso de civilização do Oriente e do E g i t o .
impulso ao estudo, assente em bases naturalistas, das A autoridade que se constituiu no decurso da his-
i n s t i t u i ç õ e s e das sociedades humanas. tória para unificar em u m interesse comum o senhor,
o juiz, o soldado e o padre e que, a t r a v é s de todos os
As pretendidas "leis c i e n t í f i c a s " com que se da-
tempos, foi u m impedimento à s tentativas do homem
vam por satisfeitos os metafísicos a l e m ã e s dos anos
para instaurar uma vida mais segura e mais liyre, - -
de 1820-1830, n ã o encontram guarida nas concepções
essa autoridade n ã o pode converter-se em arma de
anarquistas. O Anarquista só reconhece como legíti-
l i b e r t a ç ã o , como n ã o podem erigir-se em instrumen-
mo m é t o d o de i n v e s t i g a ç ã o o científico e o aplica a
tos da obra da r e v o l u ç ã o social o cesarismo, o impe
todas as ciências geralmente designadas como ciên-
rialismo ou a Igreja.
cias h u m a n i t á r i a s . T a l é o aspecto científico do Anar-
quismo* E m economia política, o Anarquismo chegou à
c o n c l u s ã o que o mal social da nossa época n ã o se o r i -
Utilizando esse m é t o d o , bem como os resultados gina tanto do facto do capitalista se apropriar do "su-
das i n v e s t i g a ç õ e s recentes, obtidos g r a ç a s à aplicação per-valor" ou do lucro, ilicitamente adquirido, das
desse m é t o d o , intenta o Anarquismo reconstruir todo suas o p e r a ç õ e s , mas do facto de ser possível, em uma
o edifício científico relativo ao homem e rectificar as o r g a n i z a ç ã o social qualquer, obter-se tais proventos e
n o ç õ e s comuns que se teem sobre o direito, a justiça, regalias. O "super-valor" existe simplesmente por
etc. Baseado nos dados que as modernas investiga- que falta a milhões de indivíduos o estritamente ne-
ções e t n o l ó g i c a s e a n t r o p o l ó g i c a s nos fornecem, alar- c e s s á r i o à e x i s t ê n c i a c porque, para obterem o indis-
gando-as, p o r é m , quanto possível, e apoiando-se na pensável à vida, s ã o forçados a vender a sua força de
obra dos seus predecessores do século X V I I I , o A n a r - trabalho e as suas capacidades mentais a u m preço
quismo se colocou ao lado dos que pugnam pelos di- vil tal (pie torna possível aqueles excessos com que se
reitos do indivíduo contra o Estado e da sociedade locupleta o capitalista.
contra a autoridade a qual, apenas por h e r a n ç a h i s t ó -
Eis porque pensamos que em economia o primeiro
rica, tem dominado aquela. Utilizando ainda os docu-
capítulo a ser estudado é 0 que tratar do consumo
mentos históricos que a ciência moderna tem vindo ar-
antes do da p r o d u ç ã o e. na revolução, o primeiro de-
quivando, o Anarquismo demonstrou à saciedade que
ver que incumbe é o de regular o consumo de modo
a autoridade do Estado, que dá azo à o p r e s s ã o sob
a garantir a todos moradia e alimento. Os nossos
que vivemos e que cada dia aumenta mais, outra cousa
avoengos de 1793-1794 haviam tido a n í t i d a compreen-
n ã o é s e n ã o uma superstrutura, nociva e inútil, que.
são deste magno problema.
para os europeus, data somente dos séculos X V e X V I ,
Quanto à p r o d u ç ã o d e v e r á ser organizada de ma-
uma superstrutura elaborada em benefício exclusivo
neira a que as primordiais necessidades de todos os
do capitalismo e dos senhores da terra a qual, nos
membros da sociedade fiquem plenamente assegura-
tempos antigos, foi a causa p r ó x i m a da queda do i m -
das e n ã o possa dar-se, na sua satisfação, o menor
250 P E T E R K R O P O T K I N

hiato. Por essa r a z ã o t a m b é m o Anarquismo n ã o pode


considerar a futura r e v o l u ç ã o como uma s u b s t i t u i ç ã c
da moeda corrente por " b ó n u s de t r a b a l h o " , nem uma
s u b s t i t u i ç ã o dos capitalistas actuais pelo Estado-capi-
talista. Na r e v o l u ç ã o que se aproxima, os anarquistas
vêem u m primeiro passo para a r e a l i z a ç ã o do comu-
nismo libertário, sem a m í n i m a i n t e r f e r ê n c i a , é claro,
do Estado.
S ã o exactas as conalusões do Anarquismo? A
resposta nos s e r á dada, em primeiro logar, pela crí-
tica científica e honesta dos fundamentos em que pro-
cura apoiar-se e, em seguida, pela vida p r á t i c a . H á um
ponto, pelo menos, em que o Anarquismo e s t á abso- TERCEIRA PARTE
lutamente no caminho da verdade e da recta r a z ã o .
E ' quando considera o estudo das i n s t i t u i ç õ e s sociais
como um c a p í t u l o das ciências naturais, é quando se
divorcia completamente da metafísica e adopta, em
seu logar, como único m é t o d o de raciocínio, o mesmo
m é t o d o que serviu de fundamento a toda a ciência
moderna e a toda a filosofia natural. Seguindo esse N ó t u l a s Explicativas
m é t o d o , os erros em que, porventura, haja incidido o
Anarquismo s e r ã o facilmente corrigidos. A verifica-
ção, p o r é m , das nossas conclusões somente é possível
pela aplicação do m é t o d o científico indutivo-dedutivo,
— m é t o d o segundo o qual se edificaram as ciências e
se elabora, no momento presente, uma concepção
científica do universo.
Parece-nos ter amplamente justificado as nossas
ideias que nos levam a conceber a possibilidade do
funcionamento de uma sociedade que, aceitando o co-
munismo por base de sua o r g a n i z a ç ã o económica, re-
nunciasse de vez à a n a c r ó n i c a o r g a n i z a ç ã o centralista
e h i e r á r q u i c a que se chama o E S T A D O .

FIM
N Ó T U L A S E X P L I C A T I V A S

O Glossário que se segue compilou-o um cama-


rada que o destinou à edição a l e m ã da nossa obra,
publicada em 1904. Revendo agora essas Notas, desen-
volvemo-las para a presente edição inglesa.

A N A B A P T I S M O — M o v i m e n t o popular religio-
so do tempo da Reforma protestante. Era, como esta,
dirigido contra a autoridade da Igreja Católica, mas
foi, na sua e x p r e s s ã o , muito mais longe do e n c a b e ç a d o
por L u t e r o . Os anabaptistas propugnavam pela mais
ampla liberdade individual em m a t é r i a de religião e
moral e, no d o m í n i o social, proclamavam a igualdade
e a abolição da propriedade privada. Repudiavam toda
e qualquer reforma de c o e r ç ã o , — o juramento, a jus-
tiça t r i b u n í c i a . 0 serviço militar e toda a espécie de
obediência ao governo. tudo, e m - í i m , que conside-
ravam hostil aos principiei do cristianismo.
Geralmente, os historiadores só consideram este
movimento depois que foi objecto das p e r s e g u i ç õ e s
movidas em Zwickau, em 1520. Mas, na verdade, devia
a sua origem ao movimento iniciado no século X I V
por J o ã o \, — um dos precursores da Refor-
ma, que negou a t r a n s u b s t a n c i a ç ã o , o primeiro que
traduziu a Itíhlia em inglês, — bem como ao movi-
mento suscitado pelos hussitas ( p a r t i d á r i o s de J o ã o
254 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 255

Huss) na Boémia, nos finais do mesmo século X I V . tíficos realizados na segunda metade do século X I X
M u i t o antes de L u t e r o haver afixado nos portais da para estudar, sgundo o ponto de vista das ciências na-
igreja de W i t t e n b e r g as suas célebres teses teológi- turais, as origens e a evolução das i n s t i t u i ç õ e s e das
cas, já uma surda revolta contra a Igreja, o Estado e concepções sociais, sem apelar para uma i n t u i ç ã o so-
a L e i , ainda que favorável aos senhores feudais, ger- brenatural ou procurar preencher as lacunas dos nos-
minava nos e s p í r i t o s dos artífices das cidades e das sos conhecimentos com os termos de um incompreen-
aldeias, que tiveram a oportunidade de ouvir os co- sível v o c a b u l á r i o metafísico.
m e n t á r i o s da Bíblia.
Os anabaptistas contituiam a ala esquerda do mo- B A B E U F — F r a n ç o i s Noel (1764-1797), comu-
vimento, ao passo que os luteranos representavam a nista f r a n c ê s ; tomou parte na Grande R e v o l u ç ã o ; pu-
fracção moderada, favorecida pelos príncipes e senho- blicista, editou um jornal, L e Tribun du Peuple, no
res. Durante a Grande Guerra Campesina (1525), na qual propugnava pela revolução social. Depois da que-
cidade de M ú n s t e r , com J o ã o de Leyde e T o m á s da do partido de Robespierre, fundou, com Buonarot
Mtinzer, os anabaptistas se declaram em franca rebe- t i , Sylvain Marechal, D a r t h é e outros, uma sociedade
lião contra todas as autoridades c o n s t i t u í d a s . secreta comunista que tinha por f i m apoderar-se do
Estes dois movimentos foram sufocados pelo ex governo e constituir um d i r c t ó r i o que deveria introdu-
t e r m í n i o em massa em que pereceram milhares de zir o comunismo em bases políticas nacionais. A cons-
anabaptistas, 100.000 contam alguns historiadores. p i r a ç ã o foi descoberta e Babeuf, como D a r t h é , foram
Mais tarde, um movimento a n á l o g o , porem revestido fuzilados em 1797. Vide a obra de B u o n a r o t t i , —
de aspectos mais pacíficos, se produziu na Inglaterra Corwpiration de 1'Êgalité, dite de Babeuf, em 2
e o mesmo movimento, de formas mais ou menos co volumes, editada em Bruxelas em 1828.
munistas, se instaurou na Á u s t r i a , na Holanda, na
R ú s s i a pelos menonitas e a t é na Groenlândia. Para B A C O N — F r a n ç o i s (1561-1626), grande filósofo
complemento desta curta notícia vejam-se as obras inglês, considerado como o pai do método indutivo de
a l e m ã s de Keller, Hase e Cornélius e o excelente re- i n v e s t i g a ç ã o científica. E m face da escolástica e da me-
sumo escrito em inglês por Richard Heath, — A N A - tafísica que, ao tempo, dominavam como soberanas,
B A P T I S M , — publicado em 1895. demonstrou êle que a descoberta e a i n v e n ç ã o só po-
deriam progredir quando o e s p í r i t o humano se habi-
A N T R O P O L O G I A — Ciência que estuda o homem tuasse a considerar a o b s e r v a ç ã o e a i n v e s t i g a ç ã o expe-
em sua c o n s t i t u i ç ã o física nos diversos climas, em sua.* rimental, livre e m e t ó d i c a , como os ú n i c o s meios de
r a ç a s , seu desenvolvimento físico e e v o l u ç ã o das suas descobrir as leis naturais, de compreender as causas
instituições e concepções sociais, morais e religiosas. dos f e n ó m e n o s e o poder de os predizer. A e r u d i ç ã o es-
O estudo dessas instituições e concepçõs constitui a colástica, meramente palavrosa, devia, porisso mesmo,
ciência chamada Etnologia. Por "Escola A n t r o p o l ó - ser proscrita, poisque o verdadeiro saber só pela indu-
g i c a " compreende-se o conjunto dos trabalhos cien- ção pode ser adquirido. Só por u m estudo acurado dos
256 I ' i: T K R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 257

factos, só por unia continuidade de c o m p a r a ç õ e s e ex- x ã o e entregue ao da Á u s t r i a que, por sua vez, o en-
clusões, sobre que se fundam as g e n e r a l i z a ç õ e s "indu- viou, em 1852, ao czar russo. Dois annos de p r i s ã o em
zidas", é possível encontrar o t r a ç o comum, geral, aos uma fortaleza a u s t r í a c a , onde esteve pregado a uma
factos observados, competindo, em seguida, ao obser- parede, e seis na fortaleza de S. Petersburgo (hoje:
vador atento, verificar a e x a c t i d ã o das induções, sub- Leningrado), só e m 1 8 5 6 f o i , por morte do czar Nico-
metendo-as à prova de novas pesquisas e do exame de lau I , posto em liberdade. Exilado depois para a Sibé-
novos factos que a o b s e r v a ç ã o e a experiência conti- ria, onde, aliás, o governador, Muravioff A m u r s k y , o
nuamente nos oferecem. T a l foi a ideia fundamental recebeu muito bem, conseguiu de lá evadir-se em 1 8 6 2
da obra de Bacon que permitiu considerá-lo, mui jus- por Vladivostok para v i r a encontrar-se em Londres
tamente, o pai da ciência moderna como ela se desen- com seu mais dilecto amigo Alexandre Herzen e t o -
volveu no decurso do século X I X . A esse m é t o d o de- mar parte nas a g i t a ç õ e s r e v o l u c i o n á r i a s (pie, por esse
ve a ciência moderna as suas maiores descobertas. V i - tempo, se desenrolavam pela Europa. E m breve se fez
de mais adiante I n d u ç ã o . membro da célebre A s s o c i a ç ã o Internacional dos T r a -
balhadores, dentro da qual, durante longo tempo, foi
B A I N — Alexander ( 1 8 1 8 - 1 9 0 3 ) , um dos princi- a alma da F e d e r a ç ã o J u r á s s i c a , composta principal-
pais representantes ingleses do sistema de filosofia que mente de socialistas da Suiça romanda. Esse grupo,
procura fundamentar-se, n ã o em especulações abstra- de acordo com as federações espanhola, italiana e bel-
ctas e metafísicas, mas nos factos das ciências natu- ga (oriental e central) representava, em flagrante
rais, que estuda as faculdades do e s p í r i t o humano e o oposição ao Conselho Geral da Internacional, chefiado
grau de certeza dos nossos raciocínios baseando-se por M a r x , as ideias de federalismo, de hostilidade ao
sobretudo na fisiologia e na psicologia fisiológica. S ã o Estado e de acção directa na luta contra o capital, o
suas principais obras: M i n d and Body (o e s p í r i t o e que provocou a rutura dessas federações com o Con-
o corpo), The Senses and the Intellect (os sentidos e a selho Geral sendo este transferido, em 1872, pelos mar-
i n t e l i g ê n c i a ) , Deductive and I n d u c t í v e Logic (lógica xistas para N e w - Y o r k onde, afinal, sucumbiu.
dedutiva e indutiva). E m p o r t u g u ê s existe deste au- As federações latinas, que firmaram entre si um
tor A Ciência da E d u c a ç ã o . pacto federalista, conseguiram ainda assim manter a
vida da Internacional a t é 1878, depois do que, tenaz-
B A K U N I N E — Michel ( 1 8 1 4 - 1 8 7 6 ) , publicista po- mente perseguida por todos os governos, desapareceu
lítico russo, r e v o l u c i o n á r i o e agitador infatigável. Par- do c e n á r i o do movimento o p e r á r i o . F o i e n t ã o que essas
ticipou de todos os movimentos r e v o l u c i o n á r i o s do seu federações deram origem, de u m lado, ao movimento
tempo, da Alemanha, da Suiça, da F r a n ç a , da Itália, da anarquista moderno, e, de outro lado, ao movimento
Á u s t r i a , da Polónia. Na r e v o l u ç ã o de Dresden, em sindicalista actual.
1849, foi figura proeminente pelo que foi mimoseado S ã o obras principais de Bakunine: Deus e o E s t a -
com uma c o n d e n a ç ã o à m o r t e ; convertida a s e n t e n ç a do, editado em francês, em Genebra, em 1 8 8 2 , por
em p r i s ã o p e r p é t u a foi extraditado pelo governo sa- seus ínclitos amigos Cafiero e Reclus; A ideia do
258 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 259

Estado e o Anarquismo (em russo); Cartas a um ci- B E R N A R D — Claude ( 1 8 1 3 - 1 8 7 8 ) , sábio fisiolo-


dadão francês (a p r o p ó s i t o da guerra franco-prussia- gista francês, n o t á v e l n ã o só por suas descobertas em
n a ) ; O Império Knut-Germanico e muitos outros fisiologia, mas principalmente pelo e s p í r i t o materialis-
o p ú s c u l o s . S e n ã o a sua obra completa, ao menos a ta em que concebeu os seus estudos nos quais pro-
maioria mais importante de seus escritos, se encontra cura interpretar todos os processos da vida, fisiológica
na edição francesa em 5 volumes, editada por James e psíquica, por processos fisíco-químicos. T o r n a r a m -
Guillaume, — Oeuvres, — publicada em 1902-1913, por se célebres as suas Lições de Fisiologia Experimental,
P. V . Stock, da Bibliothèque Sociologique", que me- obra publicada cm 1855, os seus estudos sobre os efei-
rece ser compulsada. Uma biografia completa do autor tos das m a t é r i a s t ó x i c a s , em 1857, e os de fisiologia
a escreveu em a l e m ã o o dr. M a x Nettlau em 3 gros- do sistema nervoso, em 1858.
sos volumes, da qual existe publicada uma e d i ç ã o - r e s u -
mo sob o t í t u l o — " M i c h a e l Bakunin, Eine biogra- B E R T H E L O T — Marcclin ( 1 8 2 7 - 1 9 0 7 ) , q u í m i c o
phische Skizze", Berlim, 1 9 0 1 . francês que abriu u m novo caminho à química por
suas n o t á v e i s s í n t e s e s dos corpos o r g â n i c o s , isto é,
por u m e s f o r ç a d o trabalho de l a b o r a t ó r i o , combinan-
B É L Y A I E F F — ( 1 8 1 0 - 1 8 7 3 ) , historiador russo; do, em diferentes p r o p o r ç õ e s , o h i d r o g é n i o , o oxigénio,
narrou, melhor do que qualquer o u t r o historiador, a o carbono e o azoto, conseguiu associar diversas subs-
vida interior das cidades-rèpúblicas da idade média. t â n c i a s que entram na c o m p o s i ç ã o dos corpos vivos
— Novgorod e Pskov, — em uma obra, em 4 volumes, ou s ã o por eles produzidos, — hidro-carbonatos, a ç u -
intitulada Narrações da História da Rússia. Escreveu, cares, álcoois, óleos, é t e r e s , corpos graxos, etc. Toda
já nas v é s p e r a s da l i b e r t a ç ã o dos servos russos uma a sua obra foi uma bela i l u s t r a ç ã o do princípio da
excelente História dos Camponeses na Rússia e pu- unidade das forças físicas que constitui a maior con-
blicou t a m b é m u m importante trabalho sobre os Anais quista do século X I X e dessoutra conquista que se
Russos. chama a teoria mecânica do calor. E m virtude das
convicções hauridas dc seus n o t á v e i s estudos, Berthe-
B E N T H A M — Jeremy ( 1 7 4 8 - 1 8 3 2 ) , publicista i n - lot conservou, a t é ao f i m da sua vida, as mais i l i m i -
glês que a C o n v e n ç ã o elevou à categoria de cidadão tadas e s p e r a n ç a s no porvir da ciência quanto a reali-
francês por seus trabalhos n o t á v e i s de reforma da le- zar o bem-estar da humanidade. Na sua filosofia e nas
gislação. Fundador da escola filosófica inglesa deno- suas aplicações à vida, Berthelot permaneceu um fiel
minada O Utilitarismo, que considera o bem-estar do discípulo das t r a d i ç õ e s dos enciclopedistas. Publicou
maior n ú m e r o como o f i m da sociedade e que a moral nada menos do que 1 . 2 0 0 m e m ó r i a s e s ã o obras p r i n -
deve ter por objecto demonstrar ao indivíduo que o cipais suas: Química Orgânica fundada na Síntese,
interesse pessoal coincide com o interesse social. A em 1 8 6 0 ; Lições sobre os Métodos gerais da Síntese,
maioria de suas obras foi traduzida em francês sob em 1 8 6 4 ; Lições sobre Isomeria, em 1 8 6 5 ; Síntese Quí-
o título Oeuvres Completes, em 1845, Bruxelas. mica, em 1875.
260 P E T E R K R O P O T K I N O ANAKOIISMO | A C I Ê N C I A MODERNA 261

B L A N C — Louis (1811-1882), socialista francês, sa em forma cadenciada, isto é. em verso ou em t r í a -


publicista e historiador. A miséria das massas, dizia das, uso este que ainda modernamente subsiste em
êle, tendo por causa o individualismo da sociedade certos povos n ó m a d a s da Ásia ocidental. Na Irlanda
actual e a c o n c o r r ê n c i a burguesa, comercial e indus- os g u a r d i ã e s da lei. encarregados especialmente de re-
trial, exige a o r g a n i z a ç ã o do trabalho sobre as bases ter por aquela forma a lei tradicional, chamavam-se
da solidariedade e a igualdade de salários o que per- brehons oa quaifl sabiam combinar esta função social
m i t i r á a cada u m a satisfação de todas as necessida- com a de sacerdote. A colecção de leis irlandesas, com-
des e o trabalho segundo as suas faculdades. Pela sua pilada u n s inc.id<- do século V e conhecida sob a deno-
n o t á v e l obra sobre a Organização do Trabalho, t o r - minação de Senchus Mor (A Grande Antiguidade),
nou-se o chefe incontestado da escola socialista da é um d o . documentos mais n o t á v e i s dentre as muitas
é p o c a ; com Pecqueur e Vidal, citados no decorrer des- colecções similares de leis comuns não escritas da-
ta nossa obra, foi um dos promotores do socialismo quele período. Alguns historiadores modernos apre-
organizado pelo Estado. Nomeado membro do gover- sentam os brehons e outro-, recitadorei a n á l o g o s da
no provisório pela revolução de 24 de Fevereiro de 1848, lei como legisladores, i n t e r p r e t a ç ã o (pie nada tem de
foi o fundador da " C o m m i s s ã o dos Trabalhadores" correcta. Legisladores eram as assembleias populares
que se localizara em Luxemburgo. Perseguido por mo- que criavam os precedentes da lei por suas decisões,
t i v o do golpe de Estado de 48, foi obrigado a refu- ao passo que os brehons irlandeses, os Knung escandi-
giar-se na Inglaterra, onde residiu a t é 1870, em que en- navo-. 01 knyaz russos eram aqueles aos quais se con-
t ã o regressou a F r a n ç a . Suas principais obras: Orga- fiava a r e t e n ç ã o dos textos da lei nas antigas formas
nisation du Travail, em 1840; Histcire de la Révolu- quaifl guardiães dela.
tion Française, em 12 volumes. 1847-62; Histoire des
Dix Ans ( h i s t ó r i a do reinado de L u i s Filipe), em B U C H N E R — L u d w i g K a r l (1824-1899). natu-
1830-40. ralista e filósofo materialista a l e m ã o , mui especial-
mente conhecido pela sua famosa obra, bíblia do ma-
B R E H O N — E m todas as povoações livres, n ã o terialismo moderno. Força e Matéria, cuja primeira
conquistadas pelo i m p é r i o romano e que n ã o tinham edição a l e m ã apareceu em 1855 c que, traduzida em
lei alguma escrita, — gauleses, celtas, saxões, eslavos, quase todas as l í n g u a s conhecidas, fez um ruidoso su-
finlandeses, etc. — a lei tradicional, isto é, as decisões cesso nos meios cultos. Essa obra representa um en-
tomadas em várias c i r c u n s t â n c i a s pelas assembleias saio de filosofia atomista-materialista de i n t e r p r e t a ç ã o
populares, era retida m n e m ò n i c a m e n t e e de p r e f e r ê n - do Universo, fundada nos dados da ciência moderna:
cia conservada por determinadas famílias, c o r p o r a ç õ e s escrita em linguagem acessível a todos os entendimen-
fraternas e guildes especiais. Competia-lhes recitarem tos teve a obra larga r e p e r c u s s ã o em todos os países
ante o povo a lei tradicional durante as festas popula- cultos. O autor, ardoroso defensor do darwinismo, po-
res que as assembleias federais promoviam. Para me- pularizou as doutrinas naturalistas do famoso pensa
lhor se fixar na m e m ó r i a , a lei tradicional era expres- dor inglês Carlos D a r w i n . Dentre as suas muitas obras
262 O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 263
P E T E R K R O P O T K I N

<lestacam-se: a j á citada Força e Matéria; O Homem nizadores das sociedades secretas políticas dos comu-
segundo a Ciência; L u z e Vida; Na Aurora do Século nistas franceses e italianos.
X X , todas estas existentes em edições portuguesas.
A l é m dessas, em francês, v á r i a s , como: L a Vie Psychi- B U R N O U F — Emile (1821-1907), helenista fran-
que des Betes; Nature et Science. E m 1885 publicou cês. Publicou em 1872 u m importante trabalho i n t i t u -
um n o t á v e l estudo sobre o amor e as suas relações lado L a Science des Religions fundado em bases ra-
no mundo animal que é um ensaio sobre a vida social cionalistas.
e os instintos sociáveis dos animais. Por todos os seus
muitos trabalhos científicos, contribuiu poderosa- C A B E T — Etienne (1788-1856), comunista fran-
mente para a difusão do conhecimento de uma con- cês que desenvolveu as suas ideias no j o r n a l que fun-
cepção d i n â m i n a da Natureza e, porisso. merece os dou L e Populaire (1833-45) e publicou em 1840, sem o
nossos justos incómios. seu nome, a sua principal obra Voyage en Icarie em
que e x p ô s o seu ideal c o m u n i s t a - a u t o r i t á r i o . Reeditada
a obra v á r i a s vezes, a edição de 1842 e as que se lhe
B U F F O N — Georges Louis (1709-1788), natura- seguiram c o n t ê e m uma análise dos princípios socia-
lista francês, fundador da anatomia comparada. F o i listas dos predecessores de Cabet, incluindo os da Re-
talvez o primeiro que tentou fundar u m sistema inte- volução Francesa. E m 1848 ensaiou a aplicação prática,
gral da Natureza dando-nos uma d e s c r i ç ã o completa no Texas ( A m é r i c a do N o r t e ) dos princípios que for
do mundo animal nas bases da anatomia comparada. mulata c mais tarde no Illinois, tentativas estas que
U m dos principais serviços que prestou à ciência foi o n ã o tiveram ê x i t o algum postoque a colónia Jovem
de uma severa oposição à s p r e t e n s õ e s da Igreja, pondo Icaria ainda existisse nos anos 50 e tantos do século
u m t e r m o à s e s p e c u l a ç õ e s t e o l ó g i c a s em m a t é r i a de findo. Sobre a obra de Cabet leia-se: F. Bonnaud, —
ciências naturais. Principal obra sua : Histoire Natu- Cabet et son oeuvre, Paris, 1900.
relle, 1749-1788, cujos primeiros volumes são uma ex-
posição geral da sua c o n c e p ç ã o da Natureza e, porisso C L A U S I U S — Rudolf (1822-1888), físico a l e m ã o ,
desde logo perseguida pela Igreja. n o t á v e l por seus trabalhos de óptica, electricidade e.
especialmente, sobre a teoria mecânica do calor con-
B U O N A R R O T I — Filipo (1761-1837), j u r i s t a ita- siderado como estado v i b r a t ó r i o da m a t é r i a , de que
liano. Sob a influência de Rousseau promoveu a p r o - descobriu uma das leis fundamentais. A sua principal
paganda revolucionária, sendo expulso de v á r i a s pro- obra é u m Tratado da Teoria Mecânica do Calor, em
víncias da Itália. E m Paris, em 1796, associou-se à 2 volumes.
c o n s p i r a ç ã o comunista a u t o r i t á r i a de Babeuf, cuja his-
tória êle p r ó p r i o nos conta na sua obra Gracchus B a - C O M T E — Auguste (1798-1857), fundador do Po-
beuf et la Conspira ti on des Egaux, Bruxelas, 1828, 2 sitivismo. A s suas obras principais s ã o : Cours de Phi-
vols. Nos anos de 1830-40 foi u m dos principais orga- losophie Positive, 1830-1857, em 6 volumes, obra mo-
264 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 265

numcntal que representa um esforço inaudito para fun- * g à v e l m e n t e uma profunda influência sobre toda a ciên-
dar uma filosofia sintética doa omhei-imentos humanos cia e filosofia da segunda metade do século X I X . Os
sob u m ponto de vista estritamente científico. A sua principais continuadores da obra comteana foram J.
segunda grande obra S y s t é m e de Politique Positive S. M i l l . na Inglaterra, e Emile L i t t r é , na F r a n ç a .
ou Traité de Sociologie instituant la Religion de l ' H u -
manité, em 4 volumes, publicada em 1851-56, é uma C O N S I D É R A N T — Victor (1802-1893). escritor
aplicação social da Filosofia Positiva. Diametralmente socialista francês, discípulo e continuador das d o u t r i -
oposta ao e s p í r i t o que ditou a Filosofia, a sua Política nas e da obra de Fourier. Editou e dirigiu L e Pha-
Positiva tinha igualmente por f i m , como já o seu t í t u - lanstére, cm 1832, L a Phalange, em 1836 e L a D é m o -
lo indica, a c o n s t i t u i ç ã o de uma nova religião em que cratie Pacifique, cm 1843. TentOU fundar u m Falans-
a Humanidade" é o objecto de culto. tério no Tcxa--. Em uma série de obras dc alto valor
O termo positivo tinha, na concepção de Comte. social desenvolveu as ideias de Eourier que êle repro-
o seguinte significado: todo o saber humano começa duz fielmente. j>orêm. com melhor ordem, clareza e
por concepções teológicas, como, por exemplo, quando m é t o d o . As suas obras principais s ã , , : D e s t i n é e So-
o homem quere a t r i b u i r à a c ç ã o de uma divindade irada ciale, em 1834: Théorie de l'éducation naturelle et at-
o ribombar do t r o v ã o ou quando pretende explicar to- trayante, em 1845; Bases de Ia politique positive: ma-
ds os f e n ó m e n o s da Natureza como actos da vontade nifeste de l'école sociétaire fondée par Fourier, em
dos deuses. V e m em seguida a fase metafísica que a t r i - 1841 : Príncipes du Socialisme: manifeste de la D é m o -
bui todos 01 fenómenos físicos à acção de uma força cratie Pacifique, em 1843 e 1847. serviu de base h ela-
abstracta, i m a g i n á r i a , estranha aos factos, como as b o r a ç ã o do célebre Manifesto Comunista a t r i b u í d o a
chamadas força vital, alma da Natureza, etc Vem, M a r x e Engels. o que hoje e s t á sobejamente demons-
finalmente, a fase positiva em que se firma o saber trado: L e Socialisme devant le Vieux Monde, em 1848.
c o n s t i t u í d o , certo, averiguado, com absoluta proscri- que é uma revista das diversas escolas socialistas co-
ção da ideia das causas finais e das substancias. Nesse nhecidas naquele tempo, Sobre a obra de Victor Con-
período, a ciência positiva apenas se preocupa com es- sidérant leia-se: Efuberl Bourgin, — Victor Considé-
tabelecer as leis segundo as quais os f e n ó m e n o s se rant, son ceuvre, Lyon, 1909.
sucedem invariavelmente seguidos de determinadas
c o n s e q u ê n c i a s . A s a f i r m a ç õ e s da Filosofia Positiva D A R W I N — Charles (1809-82), naturalista inglês
baseiam-se somente na e x p e r i ê n c i a ; recusa-se formal- o mais afamado dos tempos modernos que produziu
mente a pretender o conhecimento do que esteia fora ti ma verdadeira revolução nas concepções naturalistas
do alcance da experiência. Filosofia Positiva sendo a com a publicação das suas n o t á v e i s obras sobre a Ori-
s í n t e s e das seis principais ciências, — as m a t e m á t i c a s , gem das Espécies pela Selecção Natural na Luta pela
a astronomia, a física, a química, a biologia e, final- Existência, publicada em 1859: Descendência do Ho-
mente, a sociologia, — rejeita inteiramente toda a mem e Selecção Sexual, em 1871 : Das Variações nos
crença no sobrenatural. A obra de Comte exerceu ine- animais e nas plantas domésticas, em 1868.
266 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 267

A t r a n s m u t a ç ã o ou t r a n s f o r m a ç ã o das espécies D I D E R O T — Denis (1713-1784), filósofo francês


sob a influência do meio ambiente, o uso ou desuso Perseguido por haver publicado em 1746 um volume
dos ó r g ã o s em novas condições de existência, era ma- de Pensamentos Filosóficos, foi mais tarde encarcera-
t é r i a que j á havia sido enunciada pelo g é n i o audaz de do por motivo de uma nova obra, saída em 1749, i n t i -
Buffon, verdades proclamadas e defendidas, desde tulada Cartas aos Cegos. Concebeu o projecto da fa
1809, por Lamarck e que depois encontraram u m par- mosa Enciclopédia, obra imensa para aquele tempo
t i d á r i o e s t r é n u o em Isidore Geoffroy Saint Hilaire. que, todavia, conseguiu levar a bom termo após vinte
D a r w i n explicou a descendência natural das espé- e um anos dc um trabalho exaustivo (1751-1772), com
cies pela selecção natural que, durante o período da o concurso dos mais n o t á v e i s homens de ciência da
luta pela existência, cada espécie trava combatendo época a-j>csar-da o|>osição e das intrigas contumazes
as c i r c u n s t â n c i a s adversas do clima e outras espécies do clero e das autoridades civis.
inimigas ou rivais.
Todas as espécies de plantas e animais que hoje E N C I C L O P E D I S T A S — A palavra se aplica aos
enxameiam a terra descendem, por via de e v o l u ç ã o e fundadores e colaboradores da famosa Enciclopédia
selecção, de formas primevas extremamente simples Francesa iniciada em 1751. Imensa publicação dirigida
por D'Alembert e Diderot, monumento científico que
A obra de D a r w i n , apoiada por t r i n t a anos de pa- foi uma verdadeira m á q u i n a de guerra posta ao ser-
cientes i n v e s t i g a ç õ e s , de continuas e variadas obser- viço das idias filosóficas do século X V I I I , foram seus
vações e e x p e r i ê n c i a s , impós-se à a t e n ç ã o dos sábios. principais colaboradores Buffon, Condillac, Helvetius,
Ganhou rapidamente os s u f r á g i o s dos homens i n s t r u í - D'Holbach, Mably, T u r g o t , etc. O Discurso Prelimi-
dos ; n ã o obstante a s i s t e m á t i c a oposição das acade- nar, redigido por D'Alembert, é u m a d m i r á v e l quadro
n ias, das universidades e das igrejas, o princípio da s i n t é t i c o dos conhecimentos humanos na aurora da
" l u t a pela e x i s t ê n c i a " que, por sua natureza, convi- R e v o l u ç ã o e constitue, sob esse ponto de vista, a obra
dava a ser mais facilmente aceite pela sociedade actual capital da filosofia do século X V I I I .
do que o é o da a c ç ã o directa do meio e o da f o r m a ç ã o Com efeito, a i m p o r t â n c i a dessa monumental obra
das espécies sob a influência do meio ambiente aos n ã o e s t á somente no facto de representar u m ensaio
quais Lamarck ligava maior i m p o r t â n c i a . O p r ó p r i o sintético de todo o saber da época c de tratar as ciên-
D a r w i n , à medida que especializava as suas investiga- cias naturais, as m a t e m á t i c a s , a h i s t ó r i a , a arte, a lite
ções, veio a reconhecer a e x a c t i d ã o das o b s e r v a ç õ e s de ratura com uma mesma objectividade e imparcialidade
Lamarck naquele sentido, isto é, em reconhecer a su- a t é e n t ã o desconhecidas, mas principalmente por ser
premacia do factor a c ç ã o do meio sobre o da chamada o arauto do pensamento irreligioso e racionalista de
" l u t a pela e x i s t ê n c i a " que seus vulgarizadores exage- todos os pensadores franceses daquele tempo. O ter-
raram em demasia. A obra de D a r w i n O r i g e m do mo enciclopedistas se dava n ã o s ó aos que colabora-
H o m e m teve em língua portuguesa uma t r a d u ç ã o sin- vam na Enciclopédia, mas, por e x t e n s ã o , a todos os
tetizada que se editou no Porto em 1917. que partilhavam as ideias por ela enunciadas.
268 PETER K R O P O T K I N O A N A R Q U I S M O F, A C I Ê N C I A MODERNA 269

F E C H N E R — Gustav ( 1 8 0 1 - 1 8 8 7 ) . fisiologista e blica a sua Théorie des Quatre Mouvements em que


filósofo a l e m ã o . Postoque metafísico e discípulo de expõe a filosofia geral da sua doutrina, os princípios
Schelling, iniciou, em todo o caso, u m estudo sério da essenciais e a parte critica. Em 1822 publica o seu
psicologia em bases puramente fisiológicas, experi- Traité de l'Association Domestique-agricole, em que
mentais: Para este pensador, a M a t é r i a e o E s p í r i t o o autor dá mais amplos" desenvolvimentos â doutrina
são de idêntica natureza e como tal regidos pelas mes- que formulara. No Nouveau Monde Industriei, publi-
mas leis, representam somente duas maneiras diferen- cado em 182*>. reproduz, sol» uma forma mais m e t ó -
tes sob as quais concebe a inteligência humana os fe- dica e mais p e d a g ó g i c a , o «pie deixara escrito na obra
n ó m e n o s comuns a ambos aqueles princípios. A rua anterior.
obra Elementos de P s i c o - F í s i c a , publicada em 1 8 6 0 ,
Uni falanstério, que realixava unia parte das dou-
gozou de larga a c e i t a ç ã o .
trinas de Fourier. se fundou em Guise sob os auspí-
cios de Godin Leniaire. A ' influência das ideias de
F O U R I E R — F r a n ç o i s Charles ( 1 7 7 2 - 1 8 3 7 ) . Com Fourier se deve a fundação de uma escola importante
Saint-Simon e Robert Owen é considerado um dos p r i n - de socialismo que contava nas suas fileiras com pen-
cipais fundadores do socialismo c o n t e m p o r â n e o . F o u - sadores da i m p o r t â n c i a de C o n s i d é r a n t . Pierre Leroux
rier. ao inverso de Saint-Simon, formou o seu e s p í r i t o e outros que. por sua vez. fizeram numerosos discí-
nfuito mais pela e x p e r i ê n c i a da vida do que pela lei- pulos. Para c o m p r e e n s ã o das doutrinas e da obra de
tura dos livros, pOVOO «leve aos filósofos e reforma- Fourier consulte-se a obra de Hubert l i o u r g i n , —
dores sociais do seu tempo. F O U R I E R , Paria, 1905.
O essencial da doutrina de Fourier reside no p r i n -
cipie» do pleno e livre desenvolvimento da personali- G O D W I N — W i l l i a m ( 1 7 5 6 - 1 8 3 6 ) , escritor poli
dade humana como condição p r i m á r i a para conseguir- tico e historiador inglês. De um modo geral podemos
se a felicidade e a virtude, ao passo que a miséria e o considerar Godwin como o primeiro socialista cientí-
crime são os resultados inevitáveis da coacção e dos fico dos tenqnis modernos em cujos escritos se encon-
o b s t á c u l o s que se o p õ e m ao desenvolvimento da na- t r a m em germe as ideias essenciais peculiares ao socia-
tureza humana e que a sociedade actual impõe como lismo e anarquismo c o n t e m p o r â n e o s . A sua principal
condição imprescindível da satisfação das necessida- obra A n Enquiry concerning Politicai Justice and its
des. Donde resulta, para Fourier, a necessidade de Influence on General Virtue and Happiness ( I n q u é r i t o
uma r e c o n s t r u ç ã o inteira da sociedade sobre novas sobre a j u s t i ç a política e a influência desta sobre a
hasea de c o o p e r a ç ã o activa. virtude e a felicidade geral), em 2 volumes. I/ondres,
A doutrina social de Fourier aparece-nos pela vez 1793, em que o autor e x p õ e , com muita clareza e acer-
primeira, em c u r t o resumo, nos finais do ano de 1 8 0 3 to, as ideias do comunismo anarquista. Por " j u s t i ç a
cm um artigo intitulado Harmonia Universal, publi- p o l í t i c a " , Godwin compreende u m estado social em
cado em u m jornal de L i o n e depois completada em que a vida fosse apenas regida pelos princípios de mo-
subsequentes artigos no mesmo jornal. E m 1 8 0 8 pu- ralidade e de verdade. Demonstra naquela sua obra
270 P E T E R K R O P O T K I N O A N A I . Q U I S M O E A C I Ê N C I A MODERNA 271

que todo o governo, j á pelo facto da sua p r ó p r i a exis- formar-se em calor, magnetismo, som e movimento
tência, j á pela sua i n t r í n s e c a natureza, impede o de- mecânico.
senvolvimento da moralidade pública e a n t e v ê o dia
Grove ousou propor a q u e s t ã o de saber se a p r ó -
em que cada qual, liberto de toda a coacção, guiado
pria g r a v i t a ç ã o não seria uma resultante dessas d i -
t ã o somente pelos princípios da r a z ã o , a c t u a r á no sen-
tido do bem comum. Por esta p r o c l a m a ç ã o de p r i n - versas espécies de vibrações. Todo o progresso me-
cípios e sob a falsa a c u s a ç ã o de professarem um repu- cânico realizado na segunda metade do século X I X
blicanismo jacobino, Godwin e seus p a r t i d á r i o s esti- foi c o n s t i t u í d o por uma série de aplicações deste p r i n -
veram a m e a ç a d o s de trabalhos forçados pelo que o cípio de física, — o da t r a n s f o r m a ç ã o das diversas
nosso autor teve de suprimir na segunda e terceira forças físicas.
edição da sua citada obra (1796-1798) as passagens
HABCKEL Ernst (1843-1919), célebre biolo-
que se viam na primeira relativas ao comunismo.
gista e filósofo a l e m ã o . Foi um dos primeiros e dos
Para u m estudo mais amplo da obra de Godwin mais entusiastas discípulos de Darwin e pouco depois
veja-se: C. Kegan Paul, — W . Godwin, his Friends da publicação da obra deste sobre a origem das e s p é -
and Contemporânea, 2 volumes. London, 1876: Ray- cies, Haeckel publicava em 1866 u m n o t á v e l trabalho
mond Gourg, — William Godwin, Paris, 1908. U m sobre a Morfologia Geral, seguido de outros n ã o me-
resumo da sua doutrina se lê na obra de A n t o n M e n - nos importantes como a H i s t ó r i a da C r i a ç ã o N a t u r a l
ger, — L e Droit au produit integral du travail, Paris, em que estabelece a escala dos diferentes e s t á d i o s de
1900. e v o l u ç ã o dos seres vivos, desde o mais rudimentar or-
ganismo a t é ao homem. Na ú l t i m a fase da sua activi-
G R O V E — W i l l i a m Robert (1811-1896). físico i n - dade científica propendeu para o Monismo filosófico
g l ê s que escreveu em 1842 uma n o t á v e l m e m ó r i a e em sobre que escreveu uma interessante monografia i n t i -
1856 um livro sobre a unidade e c o r r e l a ç ã o das forças tulada O Monismo, laço entre a Religião e a Ciência,
físicas com o intuito de provar que o som. o calor, a profissão de f é de um naturalista, na qual ataca vigo-
luz, a electricidade, o magnetismo e a acção química rosamente a c o n c e p ç ã o dualista da Natureza. As suas
n ã o s ã o s u b s t â n c i a s independentes ou entidades sepa- obras tiveram larga voga e muito mais haveria a es-
radas, como a t é e n t ã o se julgava, mas simplesmente perar da sua obra se o seu e s p í r i t o n ã o se confinasse
formas diversas do movimento v i b r a t ó r i o das molé- demasiado na metafísica do hegelianismo que o levou
culas de que todos os corpos são c o n s t i t u í d o s Todas a formular uma bizarra concepção do E s p í r i t o como
as diferentes formas v i b r a t ó r i a s da m a t é r i a , outrora uma e m a n a ç ã o da M a t é r i a em vez de se ater como t

chamadas de forças, podem transformar-se umas em nos primeiros anos da sua vida científica, a uma con-
outras, poisque todas são modos diversos de movimen- c e p ç ã o puramente dinâmica do universo.
to mecânico. O movimento mecânico pode transfor- As obras de Haeckel acham-se quase todas tra-
mar-se em som, luz, calor, electricidade e magnetis- duzidas em p o r t u g u ê s , editadas pela L i v r a r i a Char-
m o ; por sua vez a luz e a electricidade podem trans- dron, do Porto. S ã o elas: História da Criação Natu-
272 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 273

ral, Enigmas do Universo, Maravilhas da Vida, O Mo- peores formas do reaccionarismo político e religioso
nismo, A Origem do Homem, Religião e Evolução, S ã o obras principais de H e g e l : Fenomenologia do E s -
todas, aliás, dignas de serem lidas. pírito, 1 8 0 7 ; Lógica, 1 8 1 2 ; Filosofia do Direito, da
História e da Natureza, 1 8 2 1 , e v á r i a s obras póstu-
H E G E L — Georg W i l h e l m (1770-1831).. filósofo mas, quase todas traduzidas em francês.
metafísico a l e m ã o que exerceu n o t á v e l influência nas
ideias do século X I X durante o p e r í o d o r e a c c i o n á r i o H E L M H O L T Z — Herman L u d w i g ( 1 8 2 1 - 1 8 9 4 ) .
que se seguiu à r e v o l u ç ã o Francesa. Para esse filó- grande fisiologista e físico a l e m ã o . Publicou em 1847
sofo, a Ideia é o princípio universal que se manifesta uma notável obra sobre a c o n s e r v a ç ã o da força que foi
nas diversas fases do ser. O seu sistema divide-se em um dos mais notáveis trabalhos que serviu de funda-
t r ê s ciclos de pensamento: o primeiro compreende a mento a filosofia materialista científica dos meados
L ó g i c a , — a ciência da ideia pura (idee an sich); o do século X I X . Além de vários trabalhos sobre óptica,
segundo a Filosofia da Natureza em que a ideia se acústica e electricidade em (pie era especialista, dei
exterioriza nos f e n ó m e n o s naturais; finalmente o ter- xou-nos uma importante ó p t i c a Fisiológica, publicada
ceiro, a Filosofia do E s p í r i t o em que o filósofo pre- em 1856-66.
tende mostrar-nos como a ideia pura (idee ausser
sich), depois dc se haver exteriorizado em a Natureza, H E R Z E N — Alexander ( 1 8 1 2 - 1 8 7 0 ) . escritor po-
IC retrai com.» Espírito (idee an und fiir sich) e atin- lítico russo. Exilado por largos anos em uma provín-
ge assim a sua perfeita realização. Estes t r ê s ciclos cia oriental da Rússia, perseguido por suas opiniões
da Ideia são conhecidos como a tese, a a n t í t e s e e a políticas, deixou o país para ir viver na F r a n ç a e I t á
síntese. O mal que esta filosofia produziu afastando- lia travando amistosas relações com todos os socia-
se completamente das i n v e s t i g a ç õ e s científicas inau- listas e radicais a v a n ç a d o s . A p ó s o fracasso da revo-
guradas nos finais do século X V I I I e sancionando, por lução de 1848, escreveu uma obra a d m i r á v e l , — De
uma nova autoridade, quer as bíblicas i n t e r p r e t a ç õ e s l'autre rive, — em que faz a crítica da r e v o l u ç ã o sob
da Natureza, quer as irisantes e l o c u b r a ç õ e s baseadas o ponto de vista socialista. E m Paris foi o auxiliar
t ã o somente no uso e abuso de termos puramente me- precioso de Proudhon na fundação do jornal L e Peu-
tafísicos de sentido vago e impreciso, podemos melhor ple, vindo a ser expulso da F r a n ç a em j u n h o de 1849
apreciar no facto das novas pesquisas científicas, b r i - para se estabelecer na Inglaterra onde fundou o p r i -
lhantemente iniciadas nos finais do século X V I I I . não meiro jornal russo intitulado Free Russian Press e,
terem tomado o impulso devido e desejado na p r i - mais tarde, o Kololcol (O Sino) tendo por colaborado-
meira metade do século seguinte. A péssima influên- res, de c o m e ç o , os seus dedicados amigos Ogareff e
cia que essa d e t e s t á v e l filosofia deixou a podemos ver Turgueneff e depois Bakunine, j o r n a l esse que, ata-
t a m b é m em m a t é r i a política quando os hegelianos cando vivamente a servidão e a autocracia, exerceu
sustentam, no seu calão filosófico, "que tudo o que uma poderosa influência na R ú s s i a em prol da liber-
existe é racional", desculpando, por esse modo, as t a ç ã o dos servos. Em 1863, por ocasião da subleva-
274 O A N A R Q U I S M O E A C I Ê N C I A MODERNA 275
P E T E R K R O P O T K I N

ç ã o polaca, tomaram corajosamente parte a seu lado. meiro a propugnar por uma concepção irreligiosa e
Herzen, que possuia vastos conhecimentos de h i s t ó - absolutamente materialista do universo.
ria e filosofia, foi u m dos mais c o n s p í c u o s escritores
do seu tempo na Europa; as suas obras, traduzidas H O L B A C I I — Barlo d'-Pattl Henri ( 1 7 2 3 - 1 7 8 9 ) ,
em francês e a l e m ã o , s ã o de u m valor i n e s t i m á v e l , n ã o filósofo materialista c ateu. u m dos mais famosos co-
falando j á do seu alcance político-social que ê alta- laboradores da Enciclopédia Francesa na qual e x p ô s
mente significativo. S ã o elas, entre outras, Cartas da uma inteligente i n t e r p r e t a ç ã o do conhecimento da
França e da Itália, a sua auto-biografia Passado e Natureza em bases puramente materialistas, que am-
Pensamentos, que s ã o de uma beleza estilística i n - plamente desenvolveu na sua principal obra, publica-
comparável. da em 1770, S y s t é m e de la Nature. Nas obras subse-
quentes demonstrava que a religião não é somente i n ú -
t i l , mais do que isso, nociva á verdadeira moralidade
H O B B E S — Thomas ( 1 5 8 8 - 1 6 7 9 ) , u m dos mais e felicidade do povo. Vejam se, além da já citada, as
originais escritores políticos e filósofos ingleses. Re- suas obras: L e Christianime Devoilé, L a Morale U n i -
tintamente realista ao tempo em que j á se esboçava a verselle; L a Politique Na tu rei le.
r e v o l u ç ã o de 1648, f o i , talvez porisso, obrigado a re-
fugiar-se na F r a n ç a . A s suas obras principais s ã o :
H U T C H E S O N — Francis ( 1 6 9 4 - 1 7 4 7 ) . filósofo e
D e Cive, publicada em 1 6 4 2 ; D e Corpore Politico, em
moralista irlandês, u m dos mais n o t á v e i s represen-
1 6 5 8 - 5 9 ; Leviathan, em 1 6 5 1 . Nesta ú l t i m a obra. de
tantes da escola de filosofia conhecida pela denomi-
u m i n c o n t e s t á v e l valor, o autor se pronunciava em
n a ç ã o de Filosofia escocesa, que assentava o seu sis-
filosofia pelo materialismo, em moral pelo egoismo
tema de ética no princípio da simpatia r e c í p r o c a E m
e em política pelo despotismo. " O direito, afirmava
suas obras procurava provar que, se é certo podermos
êle, é a força e nada existe de intrinsecamente justo
classificar os motivos que impelem a nossa vontade
o u i n j u s t o " . Dos homens primitivos tinha a opinião que
em egoistas e a l t r u í s t a s , são, todavia, estes que me-
eram seres em guerra c o n t í n u a uns contra os o u t r o s :
recem a nossa a p r o v a ç ã o e os actos que deles decor-
na desconfiança e no receio que os homens tinham
rem e isso em r a z ã o de possuirmos naturalmente o
uns dos outros e na sua comum miséria via êle a prin-
"sentimento m o r a l " . S ã o obras suas: Enquiry into the
cipal causa da origem do Estado. Sustentava que uma
origin of our ideas of Beauty and Virtue; Essay on
forte autoridade teria sido n e c e s s á r i a para assegurar
Nature e Conduct of Passions and Affections.
a paz e melhorar as condições de e x i s t ê n c i a dos ho-
mens.
H U X L E Y — Thomas H e n r y ( 1 8 2 5 - 1 8 9 5 ) , célebre
Consequentemente, era p a r t i d á r i o a c é r r i m o dos naturalista inglês que muito se distinguiu na defesa
direitos absolutos do rei, ao mesmo tempo que era u m que fez da teoria de evolução formulada por D a r w i n
inimigo dclarado da Igreja como autoridade política em que se evidenciou um dos mais ardorosos parti-
d á r i o s do transformismo, devotando-se mais especial-
F o i ambem, entre os filósofos de notoriedade, o p r i -
276 1 RT K R
1 K R O P O T K I N
O ANARQUISMO K A C I Ê N C I A MODERNA 277

mente em provar as afinidades existentes entre o ho-


mem e os macacos antropoidcs. Dentre as suas m u i - de seus predecessores, foi, de verdade, quem primeiro
tas obras destacam-se: Man's Place in Nature; Com- formulou com e x a c t i d ã o a medida do equivalente me
parative Anatomy; Science and Religion, quase todas cânico do calor. Vide adiante Theoria Mecânica do
traduzidas cm francês. Calor.

J A C O B I N O S — D e n o m i n a ç ã o dada aos membros K A N T — Emmanuel ( 1 7 2 4 - 1 8 0 4 ) , célebre filó-


de u m clube político, chamado " A m i g o s da Constitui- sofo a l e m ã o (pie. pelos seus escritos, exerceu, e ain-
ç ã o " , que exerceu enorme influência durante o pe- da hoje é n o t ó r i a , profunda influência em todo o
r í o d o da R e v o l u ç ã o Francesa de 1789-94. No n ú m e r o século X I X . Autor de t r ê s obras que ficaram céle-
de seus membros contava com os elementos a v a n ç a - bres na história da filosofia: Crítica da Razão Pura;
dos da época, — republicanos e r e v o l u c i o n á r i o s da bur- Crítica da Razão Prática e Crítica do Julgamento. Co-
guesia, — sob a directriz de Robespierre. L u t o u va- mo todos os grandes filósofos, empreendeu a reforma
lentemente contra a realeza e, mais tarde, sustentan- do conjunto dos conhecimentos humanos. Em seus
do sempre a obra de Robespierre. combateu o cha- primeiros trabalhos ocupou-se de preferência «las ciên-
mado Clube dos Cordeliers, com o qual, aliás, depois cias naturais e. quase concomitantemente com Laplace
se fundiu. O Clube dos Cordeliers, fundado em 1 7 9 0 formulou a hij)ótese da origem do nosso sistema solar
por Danton, Marat, H é b e r t , Chaumcttc c Demoulins. pela nebulosa incandescente. A notoriedade de Kant o r i -
tinha a sede nas ruinas do antigo convento do< fra- gina-se principalmente do sistema de filosofia critica
des franciscanos, donde lhe veio o nome, (actualmente que e x p ô s na j á citada Crítica da R a z ã o Pura em que
Museu Dupuytren) e a êle pertenciam os membros o autor se propõe resolver a q u e s t ã o fundamental
mais em evidência da Comuna de Paris. Durante o dos princípios e limitações do saber humano, proble-
p e r í o d o terrorista, o Clube dos Jacobinos tornou-se ma este a «pie chegou do modo (pie passamos a expor
uma espécie de Tribunal de A c u s a ç ã o . A p ó s a queda Existem, afirmava êle. dois mundos diferentes: 1.° o
de Robespierre e do seu partido em Julho de 1794, — mundo dos fenómenos físicos que se produzem no tem
9 de Thermidor, — foi, por ordem da r e a c ç ã o cam- po e no espaço e que. somente pelas sensações, conhe-
peante, fechado. O termo " j a c o b i n o " ficou desde en- cemos, donde, de acordo com o seu idealismo crítico,
t ã o sendo, por e x t e n s ã o , aplicado aos p a r t i d á r i o s de o seu transcendentalismo, serem apenas fenómenos sem
um governo r e v o l u c i o n á r i o fortemente organizado existência real em si-mesmos; 2 . ° o mundo das ideias
com ideias centralistas e dominadoras e ainda hoje inatas, — "a cousa em s i " , — (dinge an sich) que
o termo tem esse significado, — o do tipo do autori- conhecemos no tempo, mas n ã o no e s p a ç o . Por outras
t á r i o político perfeito. palavras: o enigma do mundo consiste em resolver a
"cousa em s i " que se oculta por d e t r á s dos fenóme-
nos percebidos pelas nossas sensações e a resolução
^ J O U L E — James Prescott ( 1 8 1 8 - 1 8 8 9 ) , físico in- só se encontra na filosofia m o r a l ; no mundo dos fe-
glês que, sem conhecer cousa alguma dos trabalhos n ó m e n o s deparamos uma m a t é r i a adequada aos nos-
O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 279
278 P E T E R K R O P O T K I N

te da ciência oficial u n i v e r s i t á r i a , principalmente do


sos sentidos e uma forma determinada para o nosso
célebre Cu vier ( 1 7 6 9 - 1 8 3 2 ) , continuando-se, n ã o obstan-
entendimento que, porisso, n ã o nos pode fornecer o
te as provas em c o n t r á r i o , a pregar nas academias e
conhecimento do Absoluto. Para chegar a perceber o
universidades a invariabilidade das espécies de que,
mundo das "cousas em s i " , estuda a o r i g e m das ideias
morais (Crítica da Razão Prática, 1 7 8 8 ) . Nesta obra aliás, o grande Cqmtc era p a r t i d á r i o , a t é que a opi-
procura o autor demonstrar que a nossa r a z ã o pos- nião pública, estimulada pela obra de D a r w i n e pelo
sui a faculdade de ditar leis a si mesma e o dever de despertar geral das ciências naturais no p e r í o d o de
todo o homem provido de senso moral consubstancia- 1855 a 1862, forcaram os sábios e as universidades a
se na obediência ao chamado imperativo categórico mudarem de opinião. S ã o obras principais de L a m a r c k -

resultante da essência p r ó p r i a do nosso e s p í r i t o , o qual L a Flore Française, 1 7 7 8 ; Histoire Naturelle des Ani-
imperativo nos prescreve tratar os outros de tal modo maux sans vertèbres, 1 8 1 6 - 2 2 ; Philosophie Zoologique,
que a nossa a c ç ã o possa converter-se em uma lei ge- 1809.
ral. Da ideia do senso moral inato deduz K a n t , por L A P L A C E — Pierre Simon ( 1 7 4 9 - 1 8 2 7 ) , de to-
meio da sua metafísica, as ideias de livre-arbitrio, de das as épocas u m dos maiores m a t e m á t i c o s e a s t r ó -
imortalidade e de Deus. Na sua filosofia do Direito nomos. Ocupou-se principalmente das q u e s t õ e s de me-
pretende demonstrar-nos que o respeito absoluto da cânica celeste; reuniu em um corpo dc doutrina os
liberdade moral deveria constituir o fundamento de t o - trabalhos esparsos de N e w t o n , Halley, G a i r a u t , d'Alein-
da a vida social e da e x i s t ê n c i a do Estado e indica co- bert e Euler sobre as consequências da g r a v i t a ç ã o
mo fim do futuro desenvolvimento h i s t ó r i c o da hu- universal a que adicionou trabalhos e o b s e r v a ç õ e s pes
manidade o estabelecimento deste ideal de liberdade. soais de alto valor. Tornou-se sobretudo célebre pelo
sistema c o s m o g ó n i c o que desenvolveu na sua princi-
K O S T O M A R O F F — Nicolas ( 1 8 1 7 - 1 8 8 5 ) , brilhan- pal obra Exposition du s y s t è m e du monde, publicada
te historiador russo, fundador da escola federalista de em 1 7 9 6 , em que nos fornece a explicação puramente
estudos históricos russos. m e c â n i c a da origem do nosso sistema p l a n e t á r i o . E m
outra de suas obras, — Mécanique Celeste, — em 5
L A M A R C K — Jean Baptiste ( 1 7 4 4 - 1 8 2 9 ) , célebre vols. 1799-1825, d á - n o s a explicação materialista do
naturalista francês. Assentou as bases de uma nova sistema do mundo pela g r a v i t a ç ã o universal. Publicou
classificação das plantas e dos animais. ainda, em 1 8 1 2 , um o u t r o n o t á v e l estudo intitulado
Na sua Filosofia Zoológica, formulou, antecipan- Théorie Analytique des Probabilités e um grande n ú -
do-se a D a r w i n , a ideia do transformismo, isto é, da va- mero de m e m ó r i a s científicas. Todos os seus trabalhos
r i a ç ã o c o n t í n u a das espécies vegetais e animais, da s ã o uma maravilha de pensamento claro e de grande
sua e v o l u ç ã o gradativa sob a a c ç ã o do meio e do uso lucidez.
ou desuso de determinados ó r g ã o s que dessa evolução
L A V O I S I E R — Antoine Laurent ( 1 7 4 3 - 1 7 9 4 ) ,
resultam. Estas novas concepções naturalistas encon-
traram, como é fácil presumir, forte oposição da par- ilustre q u í m i c o francês, considerado mui justamente
280 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 281

como dos grandes fundadores da química moderna. ç ã o da sua brilhante Revue Positive e outros traba-
É dele o conhecido aforismo científico: "nada se per- lhos similares, n ã o se enfeudando, p o r é m , à ú l t i m a fei-
de, nada se c r i a " , que estabeleceu fundado no conhe- ç ã o de Comte no que respeita à religião da humani-
cimento de uma lei científica a t é e n t ã o ignorada, — dade, que o filósofo estabelecera na Politique Positive.
a da c o n s e r v a ç ã o da m a t é r i a . Deve-se-lhe a nomen- L i t t r é é ainda o autor e m é r i t o do Dictionnaire de la
clatura química em voga e que tanto contribuiu para Langue Française, obra monumental a que consagrou
o desenvolvimento ulterior da ciência química, o co- cerca de t r i n t a annos de trabalho assíduo.
nhecimento da c o m p o s i ç ã o do ar e a descoberta da
c o m p o s i ç ã o da á g u a . E m física deu-nos trabalhos no- L O M O N O S S O F F — Michel Vassilivitch (1711-
t á v e i s , principalmente a respeito do calor e das pro- 1765), n o t á v e l literato russo dos mais variados esti-
priedades dos corpos no estado gasoso. Fez parte da los, t ã o n o t á v e l que se disse com justa r a z ã o que só
c o m i s s ã o encarregada de establecer o sistema m é t r i - por si representava uma universidade; um dos cria-
co decimal que usamos. A sua principal obra é : Traito dores da ciência e da literatura russas. A u t o r de m u i -
élémentaire de Chimie, publicada em 1789. tas e estranhas odes, de uma g r a m á t i c a russa, que a t é
e n t ã o n ã o havia, de uma geografia física das r e g i õ e s
L E W E S — George H e n r y (1817-1878), fisiologis- polares em que j á aventava a teoria mecânica do ca-
ta e filósoso inglês, ardoroso discípulo de Comte. F o i lor, de v á r i a s obras de h i s t ó r i a , de física, de química,
um dos que assentaram as bases de uma psicologia de mineralogia.
fundada no estudo fisiológico do c é r e b r o e dos centros
nervosos. S ã o obras principais suas, traduzidas em L Y E L L — Charles (1797-1875), afamado g e ó l o g o
f r a n c ê s : Physiologie de la Vie comune, 1870; L a Base inglês. A sua n o t á v e l obra Principies of Geology, pu
physique de 1'esprit, 1877; Histoire Biographique (po- blicada em 1838, admiravelmente escrita e nas edições
pula ire) de la Philosophie, 1845 j Vie de Goethe e uma sucessivas que teve sempre consideravelmente enri
Exposition des Príncipes de la Philosophie de Comte, quecida, traduzida em todas as l í n g u a s europeias, mar-
1853. ca uma época distinta na geologia. Nessa obra de
monstrava o autor que as modificações da crosta ter-
L I T T R É — Maximilien Emile (1801-1884), eru- restre eram devidas à a c u m u l a ç ã o dos detritos das
dito filólogo e filósofo positivista francês assas conhe- lentas t r a n s f o r m a ç õ e s físicas que se produzem de con-
cido, médico e publicista n o t á v e l por todos os seus t í n u o na superfície da terra, contrariamente ao que
trabalhos. Os seus estudos sobre religião e filosofia sustentavam os sábios dos c o m e ç o s do século X I X
suscitaram polémicas ardentes e quando eleito mem (Georges Cuvier e Leopoldo von Buch entre outros)
bro da Academia Francesa provocou a d e m i s s ã o de que a t r i b u í a m essas modificações a cataclismos ines-
Monsenhor Dupanloup, clerical de fama. L i t t r é foi perados que d e s t r u í a m os animais e as plantas exis-
um dos principais representantes da filosofia de Au- tentes na terra e após os quais se produzia uma nova
guste Comte â qual muito popularizou com a publica- " c r i a ç ã o " de seres vivos, — teoria bíblica. Quando
282 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 283

D a r w i n publicou em 1 8 5 9 a sua famosa obra sobre a u n i v e r s i t á r i o s e a c a d é m i c o s . S ã o obras suas: Village


Origem da» Espécies, L y e l l , admirador de D a r w i n , Communities in the East and West; Lectures on the
prontamente aderiu à s novas doutrinas naturalistas e Early History of institutions.
publicou a sua segunda obra, que constituiu u m as-
sombro, — Antiquity of Man, — publicada em 1863, M A R X — K a r l ( 1 8 1 8 - 1 8 8 3 ) , célebre economista
em que acceitava o facto como provado da existência a l e m ã o , chefe da escola social-democrata do socialis-
de u m período glaciário que os sábios da época per- mo. F o r ç a d o a deixar a Alemanha por suas opiniões
sistiam em negar atribuindo os d e p ó s i t o s desse p e r í o políticas expressas tio periódico A Gazeta Renana de
do ao " d i l ú v i o " mencionado na t r a d i ç ã o mosaica que que foi primeiramente colaborador e depois redactor
se lê na Bíblia. L y e l l veio a confirmar assim a ideia chefe, refugiou-se na França em 1843. E m Paris, de
já enunciada na F r a n ç a por alguns ousados cientistas. c o o p e r a ç ã o com Arnold Ruge. fundou uma revista re-
— Boucher de Pertes, por exemplo, — que sustenta- digida em a l e m ã o , — O s Anais Franco-AIemães, —
vam a existência do homem sobre a terra em u m pe- de que apenas se publicaram dois n ú m e r o s , sobre-
ríodo em que a Europa yivia ainda sob u m clima gla- saindo-se na capital francesa por seus artigos socia-
cial e se encontrava habitada de mamutes, r a n g í f e r e s , listas. Expulso da F r a n ç a em 1 8 4 4 e da Hélgica em
ursos das cavernas e outros grandes animais afeitos 1848, conseguiu penetrar na Alemanha em 1848-49, on-
aos climas frios. Essa obra, n o t á v e l por todos os t í - de publicou a Rheinische Zeitung, sendo esse o p e r í o d o
tulos, de uma extrema ousadia para a época pelas teo- mais importante da sua a c ç ã o como jornalista. A reac-
rias emitidas, exerceu profunda influência no desen- ção dominante na Alemanha forçou-o a abandonar o
volvimento posterior da ciência moderna, contribuin- p a í s , indo refugiar-se em Londres, onde fixou residên-
do, talvez como nenhuma outra, para o desbravar dos cia e travou relações com Frederic Engels, depois o
o b s t á c u l o s que, na sua sabida c o n t u m á c i a , as diversas seu mais dilecto amigo. A quando da fundação da I n -
confissões teem imposto à s conquistas do pensamento ternacional, em setembro de 1864, foi encarregado da
e da liberdade. r e d a c ç ã o dos Estatutos e nomeado membro do Conse-
lho Geral da célebre Associação, que e n t ã o assentava
M A I N E — H e n r y Summer ( 1 8 2 2 - 1 8 8 8 ) , jurista os seus arraiais na capital inglesa. De todos os seus
inglês e afamado investigador da vida e do direito escritos, a obra pela qual ficou conhecido o seu nome
c o n s u e t u d i n á r i o da comuna aldeã. A sua obra: — é O Capita], cujo primeiro volume apareceu em 1 8 6 7 ,
Ancien Droit et Coutume Primitive, publicada em 1 8 6 1 , ao qual se seguiram mais t r ê s outros volumes, todos
em francês em 1883, fez s e n s a ç ã o em toda a Europa p ó s t u m o s . O primeiro volume dessa obra c o n t ê m a
culta onde, sob a influência dos ensinos do direito ro- análise assas sabida da g é n e s e do capital e que veio a
mano, n i n g u é m se interessava pelos aspectos do d i - constituir o fundamento das ideias da social-democra-
reito que Maine oferecia a estudo. A-pesar-de n o t á - cia. Acha-se traduzida em quase todas as l í n g u a s eu-
veis, os estudos de Maine, que é o criador de uma es- ropeias e na portuguesa foi publicada em Lisboa, em
cola de direito, continuam a ser ignorados dos meios 1912, uma edição do resumo em francês de Gabriel
-•;r
O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 285
284 P E T K K K R O P O T K I N

M E N D É L É E F F — D m i t r i (1834-1907), n o t á v e l
Deville. Surripio dessa edição se fez uma em S. Pauto químico russo, mais conhecido pela sua descoberta da
recentemente sem lhe declarar a o r i g e m ! A Gráfico- chamada " l e i da periodicidade dos elementos". E ' ho-
Editora U N I T A S publicou em 1932 o resumo feito por je assas conhecido que todos os corpos que se encon-
Carlos Cafiero. Muitas outras são as obras de M a r x , t r a m à superfície da terra, o r g â n i c o s (vivos), quer
entre as quais citaremos: Misére de la Philosophie, i n o r g â n i c o s ( d e s t i t u í d o s de vida) se d e c o m p õ e m em
em 1847, resposta a Proudhon; Critique de 1'Economie 80 ou 90 corpos simples ou princípios chamados ele-
Politique, em 1857. O célebre Manifesto Comunista, mentos, os quais entram em um infinito n ú m e r o de
publicado em 1848, de c o l a b o r a ç ã o com Engels, de combinações. U m exame atento do sistema de M e n -
que existem edições em todas as línguas, merece men- déléefí sugere a verificação de dois princípios impor-
ç ã o especial. Para completa elucidação das origens des- tantes: 1.° o de ser já a molécula de cada elemento,
sa peça cumpre ao leitor estudioso consultar: W . dos citados 80 ou '*>, um sistema complexo de molécu-
Tcherkesoff, — Pages d'Histoire Socialiste (doctrines las menores, ou melhor dito. de á t o m o s , em c o n t í n u o
et actes de la social-démocratie), Paris, 1896, edição movimento i n t e r n o ; 2.° que na estrutura dessa> com-
dos Temps Nouveaux; L e Manifeste Comuniste, in- posições existe uma certa periodicidade, isto é. uma
troduction et commcntaire, par Charles Andler, Pa- r e p e t i ç ã o s i s t e m á t i c a da estrutura fundamental. Essas
ris, 1901, vols. 9-10 da Bibliothèque Socialiste. descobertas fizeram a v a n ç a r m u i t í s s i m o a ciência quí-
Da obra, vida e a c ç ã o social de K a r l M a r x leiam- mica. É igualmente de suma i m p o r t â n c i a a concepção
se: Affonso Costa, — A Igreja e a Questão Social, de Mendéléeff sobre o é t e r cósmico considerado como
Coimbra, 1895; Silva Mendes, — Socialismo L i - m a t é r i a , os á t o m o s em v i b r a ç õ e s t ã o r á p i d a s que n ã o
bertário ou Anarquismo, Coimbra, 1896; principal- permitem fixar-se em c o m b i n a ç õ e s q u í m i c a s perma-
mente: Emilio Costa — K a r l Marx, (da Colecção. nentes.
"Homens e I d e i a s " ) , Lisboa 1930, em que o autor es-
tuda detalhadamente a obra de M a r x . M É T O D O I N D U T I V O - D E D U T I V O — É o processo
adoptado por toda a ciência moderna para a elabora-
ção do conhecimento positivo; é, especialmente, o m é -
M A U R E R — George L u d w i g (1790-1872). his- todo seguido nas ciências naturais a que devemos os
toriador a l e m ã o , fundador de uma escola que se dedi- imensos progressos científicos em geral do século
cava com particular cuidado ao estudo da comuna al- X I X . Consiste esse m é t o d o nos seguintes processos
deã e urbana e que, sobre este assunto, nos deu uma de i n v e s t i g a ç ã o :
enorme massa de trabalhos sérios. É obra principal de 1. ° Pela o b s e r v a ç ã o e pela experiência procura-
"Maurer uma " I n t r o d u ç ã o à h i s t ó r i a do instituto da se adquirir um conhecimento p e r f u n t ó r i o dos factos
propriedade comunal da terra, da aldeia e da cidade" e dos f e n ó m e n o s que nos propomos estudar;
publicada em 1854, seguida de outras mais sobre o 2. ° E m seguida apreciam-se e discutem-se am-
mesmo tema. plamente os factos registados e trata-se de ver se eles
286 P E T E R K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A C I Ê N C I A MODERNA 287

n ã o conduzem a uma g e n e r a l i z a ç ã o , a uma indução deduzem-se as posições de cada planeta em tal ou tal
(do l a t i m : inducere), ou à f o r m u l a ç ã o de uma h i p ó t e - momento no seu movimento em redor do sol, compa-
se que permita unir ou englobar os f e n ó m e n o s obser- ram-se em seguida as posições calculadas com as posi-
vados, isto é, se das o b s e r v a ç õ e s feitas n ã o p o d e r á re- ções reais e, uma vez conseguida esta c o n c o r d â n c i a ,
sultar uma a f i r m a ç ã o geral que possa abranger o v e r - s e - á se a hipótese formulada se confirma em to-
maior n ú m e r o e a maior e x t e n s ã o de factos. E x e m p l o : dos os pontos. Se, porventura, na d e t e r m i n a ç ã o do
depois de ter observado uma massa enorme de factos cálculo da velocidade da marcha dos planetas resulta-
concernentes aos movimentos dos planetas, Kepler foi rem da hipótese diferenças m í n i m a s comparadas com
levado a formular uma g e n e r a l i z a ç ã o e a aventar uma os f e n ó m e n o s observados, p r o c e d e r - s e - á , pelo mesmo
hipótese na suposição de que todos os planetas se m é t o d o , a novas i n v e s t i g a ç õ e s a t é encontrar a r a z ã o
movem, ao longo das suas respectivas elipses, em re- do erro ou novas causas que venham a modificar a
dor do sol, dos quais é este o centro; D a r w i n , igual- hipótese dada;
mente após i n ú m e r a s e pacientes o b s e r v a ç õ e s , formu- 5.° Finalmente, depois de todas as verificações
lou a sua h i p ó t e s e da descendência por via de evolu- feitas, a hipótese passa a ser considerada teoria geral,
ç ã o de um tronco comum a todas as espécies de plan- lei, quando aboslutamente confirmada por u m con-
tas e animais que ainda existem e que existiram no j u n t o enorme de factos e o b s e r v a ç õ e s , quando achado
passado e que se encontram nas camadas g e o l ó g i c a s o porquê, a causa de que procedem. Para o que res-
da t e r r a ; peita à astronomia, a h i p ó t e s e kepleriana t o i aceite
3. ° Da h i p ó t e s e formulada, ou de diversas hipó- como uma lei, isto é, como relação permanente entre
teses dadas, deduzem-se as c o n s e q u ê n c i a s , ou melhor factos, que se confirmou pelos séculos adiante; a i n -
as deduções (do l a t i m : inducere), que permitam pre- d u ç ã o de Newton à c ê r e a da g r a v i t a ç ã o universal se
dizer e prever novos factos atinentes à espécie estu- é hoje uma teoria provada, uma lei, é que os facto-s
dada. As h i p ó t e s e s dadas s e r ã o tanto mais correctas as o b s e r v a ç õ e s em a b u n d â n c i a a confirmaram na ge
e exactas quanto o forem as i n d u ç õ e s , — as generali- neralidade, ainda que alguns p a r e ç a m , à primeira vis-
ç õ e s , feitas; ta, c o n t r a d i t ó r i o s . Além de que, na conformidade do
4. ° Compararemos então as deduções com os factos m é t o d o exposto, a e x p r e s s ã o lei da gravitação n ã o nos
observados ou os f e n ó m e n o s provocados de acordo com parece absolutamente correcta, poisque a causa do fa-
o que ficou dito no § 1.°. Se n e c e s s á r i o fôr procede-se cto universal denominado Gravitação ainda n ã o foi
a novas o b s e r v a ç õ e s e e x p e r i ê n c i a s para verificar se a descoberta, apenas e s t á enunciada, somente entrevista
h i p ó t e s e e s t a r á conforme aos factos observados. E as- T a l é, em resumo, o m é t o d o hoje empregado por
sim se a c e i t a r á , r e j e i t a r á ou modificará a h i p ó t e s e le- todas as ciências que se prezam de exactas.
vantada a t é que, e m dado momento, na concordância
dos factos, se haja, finalmente, encontrado uma que M I L L — John Stuart ( 1 8 0 6 - 1 8 7 3 ) , famoso eco-
satisfaça plenamente e corresponda ao estado actual nomista e filósofo inglês filiado á escola filosófica
dos nossos conhecimentos. Assim, da h i p ó t e s e de Kepler de Auguste Comte. U m dos representantes mais emi-
288 P i: t E • K R O P O T K I N O ANARQUISMO K A CIÊNCIA MODERNA 289

nentes do " e m p i r i s m o " , isto é, do sistema baseado na de pensadores radicais. S ã o obras principais suas:
o b s e r v a ç ã o directa e na experiência dos factos. No Outline of a Rational System; T h e Book of the New
seu System of Logic admiravelmente desenvolveu a Moral World e Revolution in the Mind and Practice
teoria do m é t o d o indutivo-dedutivo que acima dei- o. the Human Race.
x á m o s exposta. P a r t i d á r i o em ética das ideias de J. •
Bentham, desenvolveu-as superiormente na sua ma- P R O U D H O N — Pierre Joseph (1809-1865). so-
gnífica obra Utilitarianism. É autor de muitas outras cialista francês, o crítico mais veemente do sistema
obras entre as quais: Principies of Politicai Economy; capitalista c do Estado, como de todas as doutrina-
Essay on Liberty (desta existe uma belíssima v e r s ã o estatistas e a u t o r i t á r i a s do comunismo e do socia-
portuguesa) e Representative Government. lismo. Do seu sistema mutualista dissemos o bas
tau te no texto desta obra (cap. I I da 2." parte) para
MOLESCHOTT — Jacob (1822-1893), fisiolo- n ã o termos de õ repetir nesta nótula. S ã o obras
gista materialista h o l a n d ê s . Escreveu em língua ale- principais de Proudhon Qu eot-ce que Ia Propriété?.
mã muitas obras populares para d i v u l g a ç ã o da filo- 1840; S y s t è m e des Contradictions Économiques, 184o
sofia materialista, no n ú m e r o das quais se destaca a L e s Confessions d'un révc!u*ionnaire, 1849; Idee Gén v
sua Kreislauf des Lebens (circulação da vida), publi- rale de la Revolution au X I X Síèrlc, 1849; De la Justice
cada em 1852, de que existe uma v e r s ã o francesa. dans la Revolution et dans 1'Église, 1858: De la Capa-
O W E N — Kobert (1771-1858), u m dos principais cite Politique des Classes ouvrièies, 1864. etc.
fundadores do socialismo moderno, especialmente u m
dos promotores do movimento cooperativo e da orga- R I C A R D O — David (1772-1823), economista in
nização o p e r á r i a que êle tentou, desde 1830-31, t o r - glês da escola que a ciência u n i v e r s i t á r i a denomina
nar n ã o só nacional, extensiva ao t e r r i t ó r i o inglês, de clássica. Depois de Adam Smith (vide adiante
mas internacional pelo que teve de sofrer persegui- é s t e nome), foi quem melhor defendeu a teoria da
ções inauditas. Por essa sua tentativa pode ser con- medida do valor pela quantidade de trabalho neces-
siderado como um dos precursores da A s s o c i a ç ã o I n - sária e igualmente uma teoria da renda do solo á>
ternacional dos Trabalhadores, a que j á bastas vezes quais os economistas u n i v e r s i t á r i o s atribuem certo
neste trabalho nos temos referido. Ensaiou fazer a valor científico. Sua obra principal: On the Princi-
aplicação dos seus princípios sociais em uma manu- pies of Politicai Economy and Taxation, publicada
factura e vila cooperativas publicando uma vasta em 1817 e de que uma v e r s ã o francesa se publicou
quantidade de escritos de propaganda e jornais popu em 1819.
lares. Com Fourier e Saint-Simon foi um dos t r ê s
grandes fundadores do socialismo v o l u n t á r i o , anti- R O U S S E A U — Jean Jacques (1712-1778). céle-
estatista e exerceu uma profunda influência sobre os bre filósoí ( escritor socialista francês. U m dos
e s p í r i t o s da época, principalmente na Inglaterra, onde precursores da Grande R e v o l u ç ã o ; por suas ideias de-
as suas ideias inspiraram a t é hoje u m grande n ú m e r o m o c r á t i c a s e d e í s t a s exerceu uma inegualável i n -
I' K T I N K ROPO T K I N 0 ANARQUISMO K A CIÊNCIA MODKRNA 291

fluência sobre os e s p í r i t o s n ã o só do seu tempo, (Ro aderiram os mais brilhantes e s p í r i t o s da época, pensa-
bespierre foi desse n ú m e r o ) , mas sobre os pensado- dores eminentes, entre os (piais podemos c i t a r : o filó
res radicais de todo o século X I X e ainda boje. atra sofo Auguste Comte o historiador Augustin T h i e r r y e
vés das suas obras, se sente a sua poderosa influên- o economista Leonard Sismondi, a l é m de um grande
cia. Pregou o regresso à vida simples e natural, à n ú m e r o de filantropos do século X I X . No § 2.° do
igualdade, à p r o c l a m a ç ã o das instituições d e m o c r á t i - cap. I I I desta nossa obra desenvolvemos as doutrinas
cas e republicanas; preconizou a necessidade de unia sociais dc Saint-Simon para onde remetemos o leitor.
sólida e d u c a ç ã o baseada no conhecimento cientifico Obras principais: S y s t è m e industriei, 1821-22: Caté-
a par de um trabalho manual e, finalmente, procurou chisme des industrieis, 1823; Opinions littéraires, phi-
assentar os fundamentos de uma religião natural (pie Iosophiques et índustrielles, 1825.
substituísse a Igreja cristã dominante. E m Leon
Tolstoi, o e x t r a o r d i n á r i o pensador russo que pode SCHELLING Friedrich (1775-1854). filósofo
ser, a certos aspectos, reivindicado como anarquista, a l e m ã o do período da reacção Tentou edificar um
teve Rousseau um ardoroso adepto. Obras principais si tema de filosofia natural que representasse a iden-
dc Rou seau : De l'origine de 1'inégalité parmi le$ hom- tificação da natureza e do e s p í r i t o e desse uma signi-
mes, 1753; Emile, 17<>2; L e Contrat Social, 1762; N o u - ficação mais real ao vocabulário metafísico empre-
velle Heloise, romance, 1759; Mes Confessions, obra gado por seu» antecessores no (pie. aliás, foi frus-
p ó s t u m a . Na Profession de foi d'un vicaire savoyard, trado.
um doi episódios mais n o t á v e i s do Emile, Rousseau
procura demonstrar a necessidade de uma religião t o - SÉGUIN Mare (178o-1875). engenheiro fran-
da pessoal, fundada exclusivamente na a d m i r a ç ã o da c ê s , inventor da caldeira tubular e autor de uma con-
Natureza e no sentimento interior. cepção das forças físicas (pie. em parte, o estudo das
vibrações do é t e r confirma. Vide adiante Teoria Me-
< A I N T - S I M O N — H e n r i Claude (1760-1825). um cânica do Calor.
dos grandes fundadores, com Fourier e Owen, do so-
cialismo do século X I X . Procurou basear as conclu- S M I T H — Adam (1723-1790). célebre economis-
sões socialistas a que chegara em um sólido estudo ta e filósofo escocês, discípulo de Hutcheson. conhe-
das relações e c o n ó m i c a s como se teem apresentado cido, sobretudo, como fundador da escola liberal da
nas sociedades humanas e nas leis do seu natural de- economia politica assente em bases científicas que
senvolvimento. A sua crítica do sistema e c o n ó m i c o magistralmente expôs a sua obra clássica The
n

capitalista foi t ã o arguta e de bases t ã o científicas Wealth of Nations (a riqueza das n a ç õ e s ) , publicada
que os que hoje se denominam "socialistas científi- • in 1778 e de que existem t r a d u ç õ e s em v á r i a s lín-
cos " ou marxistas nada trouxeram de novo, limita- guas, obra essa que gosou de uma justa r e p u t a ç ã o .
ram-se a seguir e repisar o que Saint-Simon deixara Nela o autor defendeu a tese de ser o trabalho a
escrito. E m F r a n ç a , à escola chamada s ã s i m o n i a n a . única fonte da riqueza social, desenvolveu a teoria
PETER K R O P O T K I N O ANARQUISMO E A CIÊNCIA MODERNA 293

do valor baseada nas leis da oferta e da procura, de.- m b a r a ç a d a das ideias estatistas e d i n á s t i c a s com
preconizou a ideia da liberdade do c o m é r c i o , a con- que. em geral, «is legislas e os historiadores, emhui-
c o r r ê n c i a elevada à altura de um principio e atacava daa ideia do direito romano, costumam adornar
OB o b s t á c u l o s múltiplos que os governos o p õ e m ao .as nar/açõc.s «pie nos d ã o dos p e r í o d o s primitivos das
natural desenvolvimento das i n d ú s t r i a s e do c o m é r - sociedade^ gaulesas, germanas, escandinavas, esla-
cio. Para Adam Smith, finalmente, a riqueza é o re- vas, etc. para afl distinguir dfta que eles classificam de
sultado do trabalho c o capital produto do trabalho bárbaras, durante «" apos , i queda do i m p é r i o romano.
acumulado. Assas conhecido como economista não o ts: Lettrcs sur 1'histoire de France, 1820:
é tanto como filósofo, a-pesar-de notabilíssima a sua Récits des Temps Mérovingicns, 1840; Histoire de la
obra T h e Theory of Moral Sentiments, publicada em Formation et des progrês du Tiers- Etat, 1853, abri-
1759. na qual expunha, com uma largueza de vistas ram uni n >vo caminho à i n t e r p r e t a ç ã o «la história da
pouco comum, a origem p r i m á r i a dos sentimentos F r a n ç a e da Europa em geral, que infelizmente, n ã o
morais que êle fazia derivar do princípio da simpatia foi seguida pela ciência Universitária. Com uma vas-
ta i nidição soube combinar admiravelmente as suas
para com os nossos semelhantes, simpatia essa que
Ulatas opiniões sobre história com unia arte descritiva
achava puramente natural no homem. Por demasia-
e d r a m á t i c a de poeta. Além das obras acima enume-
do ousada na concepção, a obra de Smith foi poster-
radas, publicou, em 1821. uma história da conquista da
gada a t é ao presente por todos os moralistas reli-
Inglaterra pelos normandos e uma colectânea de do-
giosos.
cumentos de alto valor para a formação da história
SPENCER — Herbert (1820-1003). eminente f i - do Terceiro Estado.
lósofo inglês, u m dos maiores pensadores do século
X I X . que expôs e desenvolveu um vasto sistema de T E O R I A M E C Â N I C A DO C A L O R — Uma das
filosofia evolucionista sintética a que já longamente maiores aquisições da ciência moderna. Esta teoria
nos referimos cm dois capítulos desta nossa obra. explica os diversos fenómenos do calor demonstrando
E ' longa a lista de suas obras, citaremos apenas as que são os resultados das vibrações das moléculas dos
principais que se acham traduzidas em f r a n c ê s : Pri- corpos físicos em que vemos a temperatura elevar-se.
meiros Princípios; Princípios de Biologia; Princípios Quando a soma dessas vibrações, invisíveis a olho nu,
por exemplo, em um pedaço de ferro, em um líquido
de Psicologia; Princípios de Sociologia; A Moral
qua! píer, ou em um ;, ás. podemos observar perfeita-
r
Evolucionista; A Educação; O Homem contra o E s -
mente o aumento de temperatura desse- c >rpos. í ) ca-
tado; Introdução à Ciência Social, etc.
lor é. portanto, um modo especial v i b r a t ó r i o do m o v i -
T H I E R R Y — Augustin (1795-1856). notável his- mei t o e todo •< a t r i t o produz u m aquecimento, calor.
toriador francês, discípulo de Saint-Simon. Foi quem Quando, por exemplo, vemos uma locomotiva em mo-
primeiro estudou, nas crónicas c documentos o r i g i - vimento parar dc repente a sua marcha, g r a ç a s ã a c ç ã o
nais, a história verdadeira das instituições primitivas de : iderosos freios de que é dotada, o movimento
P K T V. K KlO?OTRl M
O A N A R O I .SMO I A CIÊNCIA MODERNA 295
se transforma em fricção sobre os trilhos e vai rea-
parecer sob a forma de calor no aquecimento dos t r i - aplicações que encontra nas ciências p r á t i c a s e nas
lhos e das rodas donde vemos saireni faúlhas de fogo i n d ú s t r i a s . A o sábio a l e m ã o F r e d é r i c Mohr (1806-
(jue outra cousa n ã o s ã o senão p a r t í c u l a - de ferro 1879) se deve. eni 1837. uma notável m e m ó r i a sobre
aquecidas e arrancadas a o s trilhos. , natun ui do Ctloi (Ueber die Natur der Warme).
A quantidade exacta de movimento necessário Da importância dos trabalhos científicos deste sábio
para elevar a temperatura de u m l i t r o de á g u a a um dá conta a obra de Buchner, L u a e Vida, — na
grau c e n t í g r a d o chama-se " o equivalente mecânico conferência acerca da circulação das forças.
do calor". A teoria mecânica do calor j á havia sido
entrevista no século X V I I I e n ã o apenas entrevista, V O G T — K a r l (1817-1895). naturalista suíço, po-
mas a t é formulada com certa precisão. Mais tarde, lítica» «• professor de geologia » zoologia. Tomou
t

na segunda década do século X I X , foi expressa posi- parte activa na r e v o l u ç ã o de ISIS na Alemanha. A u -
tivamente pelo engenheiro francês Mare Seguiu S é - tor de várias obras científicas de filosofia materia-
nior, homem de grande talento mas incompreendido lista, de (pie foi u m excelente vulgari/ador, fez se u m
do seu tempo c do seu meio e que. porisso. os con- denodado c a m p e ã o das doutrinas evolucionistas de
t e m p o r â n e o s n ã o o souberam apreciar devidamente. D a r w i n logo (pie foi publicada a obra deste sobre a
E m uma nota á t r a d u ç ã o francesa da obra de Groye. o r i g e m das espécies em 1859. Dentre muitas obras
— Corrélation des Forces Physiques, — Séguifl obsei que publicou distinguem-se: A f é do mineiro e a
vou que j á no ano de 1800 u m t i o seu. o " c i d a d ã o Ciência (Kóhlerglaube und Wissenschaft) (pie forte
M o n t g o l f i e r " proclamava "que o movimento n ã o influência exerceu no p e r í o d o do despertar das ciên-
pode ser aniquilado nem criado, que a força e o caló- cias naturais (1856-1862). Publicou ainda, traduzi-*
rico s ã o m a n i f e s t a ç õ e s , sob formas diversas. d< uma em M I M Lessons sur l'Homme; Lettres Zooio-
giques etC
só e mesma causa".
O médico a l e m ã o . Robert Mayer (1814-1878). foi
talvez o primeiro que em 1842 formulou, de uma ma- W A L L A C E — A l f r e d Russel (1822-1913). n o t á v e l
neira precisa, clara e completa, a teoria mecânica do naturalista inglês que. ao mesmo tempo que D a r w i n ,
calor, mas aconteceu-lhe o mesmo que a Seguiu. — expunha j á em 1857, em uma m e m ó r i a que enviava
n ã o foi compreendido; os sábio- daquele tempo re- da Asia. aonde fora fazer estudos naturalistas, a
cusaram-se a aceitar-lhe as teorias científicas. Joule teoria da evolução das espécies pela selecção natural
(vide seu nome neste Glossário) em 1856 procedeu a na luta pela vida. Daí o ser considerado u m emulo
n o t á v e i s experiências para a medição do equivalente de Darwin e a sua obra Darwinism, publicada em
mecânico do calor, ãfaa somente em 1860 é que es- 188°, é uma a d m i r á v e l exposição científica da m a t é r i a
ta teoria científica, (pie representa a maior com, em forma acessível. S ã o ainda obras n o t á v e i s suas:
da ciência do século X I X , foi compreendida e conver- The Malay Archipelago, 186°: Contributions to the
tida em doutrina corrente pelo grande n ú m e r o de theory*of Natural Selection, 1855-70. P a r t i d á r i o que
fora na sua mocidade das ideias de Robert Owen. de-
I* !. T K k K k O P O T K I N
o MARXISMO K

SES r DEPOIS
fendia ainda nos ú l t i m o s anos dc sua vida. o prin- MARX — de Var
cípio da nacionalix.ac.ao do solo. E m 1875 publicou Tcherkesoff
um m e m o r á v e l estudo sobre os f e n ó m e n o s psíquicos Dctte livro. que .ir.i'i.1
anormais, — On M i r a c l c and M o d e r n Spiritu&lism, aer editado pela Biblioteca P
metheti. constam, alem de V
que causou s e n s a ç ã o no mundo intelectual pela sua l i o u documentação aobre
inteira a d e s ã o á s doutrinas dominantes do espiritua- origois <|i> marxismo, dc V
Ian Tcherkesoff. doi» out
lismo científico. importante» trabalhos dc Pa
Cilie c Rodolfo Rocker, tol
o mesmo asttiTo.
X A M A N E S — De xamanismo que, por influên-
A DÔR U N I V E R S A L —
cia franee a, alguns escrevem chaman, chamar; ismo, de S e b a s t i ã o F a u r e
mu que OfientaHatas mais autorizados escrevem xa-
Xova «liçío. cm papel tu
man, xamanismo. E' o nome com que se designam perior. grande formato, co
um prefacio de Jt>*i Oitici
os bruxos e feiticeiros das v á r i a s populações do desta olira em que Schattiã
X o r t c da Asia. S u p õ e - s e terem c o m é r c i o com as r- Fanrc demonstra, com argu
mento» intofismaveia, onde et
cas negras da Natureza c mediante as p r á t i c a s dc que tão e o o I I S a« cautas do ma
Mtar t daa inquictaçõet hu
usam idmite-se terem o |K»der dos esconjuras e los mana .
encantamentos para afastar toda a espécie de infor- 1 groato vol. . . . 8$00n
t ú n i o s . As modernas teorias do Ocultismo pretende-
r ã o explicar melhor o facto! COMUNISMO LIBER-
T Á R I O — de E r r i c o
Malatesta

Nesta época de traniio>a c


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