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Tentando ler o Livro do Desassossego

Para Massaud Moisés


(“Mestre, meu mestre querido!”)

Eduino José Orione


Doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo.
Professor de Literatura Portuguesa da Universidade Federal de São Paulo.

Resumo: AbstRAct:
Este artigo investiga, no Livro do desassossego, This article investigates, in the Livro do desas-
de Fernando Pessoa, a relação de três componen- sossego, by Fernando Pessoa, the relationship of
tes textuais: a escrita de si, nascida da melanco- three textual components: the self writing, whi-
lia de um sujeito que perdeu a auto-imagem, e ch was born from a subject´s melancholy who
tenta buscá-la no texto; a meditação profunda lost its self-image, and tries to search it in the
acerca da existência humana (uma filosofia da text; the deep meditation regarded to the human
vida); a reflexão sobre o fazer literário. existence (a philosophy of life); the reflection
about the literary making.

PAlAvRAs-chAve: KeywoRd:
Fernando Pessoa - Bernardo Soares - Escrita de si Fernando Pessoa - Bernardo Soares - Self writing

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Sistematizar o Livro do Desassossego seria de mim e vejo que sou um fundo de poço” (f.401).
empresa inglória porque incompletude e fragmen- Esta última frase, inclusive, evidencia o processo
tarismo são consubstanciais, tanto a esse “livro de pelo qual a escrita de si é posta em ação. Escrever
impressões sem nexo” (f.442)1, quanto a Bernardo sobre si – escrever-se – requer um afastamento de si,
Soares. Mas creio não ser errôneo rastrear uma linha uma “consciência intervalada” (f.31), sem a qual não
de pensamento que nos permita adentrar no labirin- há como perceber-se sem autopiedade, e tampouco
to da obra, que não se constitui apenas como uma tornar o texto um espelho. Em suma: a angústia da
exteriorização dos sentimentos do autor fictício, e não-imagem leva Soares a tentar construir, pela es-
sim como típica escrita de si, vinculada à tradição crita, um auto-retrato possível.
iniciada com Montaigne. Texto e escritor se consti- Em praticamente todo o livro, ele não cessa de
tuem mutuamente: “Sou, em grande parte, a mes- se referir não só a sua inextirpável tristeza, como
ma prosa que escrevo” (f.193); “Eu não escrevo em ainda à náusea que sente diante “da quotidianida-
português. Escrevo eu mesmo” (f.443). Bernardo de enxovalhante da vida” (f.36), e “da humanidade
Soares é um Narciso, cujo texto-espelho, porém, não vulgar, que é, aliás, a única que há” (f.62). Além de
lhe reflete a imagem, e sim a busca dela: “Não tenho vulgares e ignorantes, os homens são inconscientes,
uma ideia de mim próprio (...). Sou um nómada da pois sofrem sem saber disso. “A vida, para a maio-
consciência de mim” (f.107); “Sou navegador num ria dos homens, é uma maçada sem se dar por isso”
desconhecimento de mim” (f.110). Diferentemente (f.405). Inferiores e desprezíveis, não merecem ne-
do médico que, no Ensaio sobre a cegueira, dian- nhuma complacência: “Irrita-me a felicidade de
te do espelho “sabia que a sua imagem estava ali a todos estes homens que não sabem que são infeli-
olhá-lo, a imagem via-o a ele, ele não via a imagem” zes” (f.313). Inconscientes do próprio sofrimento,
(SARAMAGO, 1995, p.38), Soares não vê a própria obtusos quanto ao resto, são o oposto de Bernardo
imagem, tampouco sabe onde ela está; sua escrita- Soares, cuja consciência hipertrofiada é sinal de inte-
-espelho é a tentativa de criá-la. Sendo assim, iden- ligência invulgar. Prova disso é que, nele, a tristeza
tifico três marcas distintivas do livro: 1) a escrita de não paralisa a escrita, antes a potencializa: “Na falta
si, nascida da melancolia de um sujeito que perdeu a de saber, escrevo” (f.87). Mas isto só ocorre porque o
auto-imagem, e tenta buscá-la no texto; 2) a medita- sentimento está submetido ao crivo do pensamento:
ção profunda acerca da existência humana (uma filo- “O que sinto é (sem que eu queira) sentido para se
sofia da vida); 3) a reflexão acerca do fazer literário. escrever que se sentiu” (f.193); “a maioria pensa com
Escrita de si, meditação da existência e arte poética a sensibilidade, e eu sinto com o pensamento” (f.71).
são os pilares dessa obra inclassificável. Desde o primeiro aforismo do livro afirma-se que
O texto é o registro do conhecimento de si. Ber- “a inconsciência é o fundamento da vida”. A maior
nardo Soares está a todo o momento se definindo: parte dos homens é bruta e ignorante por não ter
“Sou uma prateleira de frascos vazios” (f.184); “sou consciência do que é a vida, o que, aliás, ser-lhes-ia
como um viajante que de repente se encontra numa insuportável: “O homem vulgar, por mais dura que
vila sem saber como ali chegou” (f.39); “Sou uma es- lhe seja a vida, tem ao menos a felicidade de a não
pécie de carta de jogar, de naipe antigo e incógnito, pensar” (f.188). A Terra é “um vale de lágrimas, sim,
restando única do baralho perdido” (f.193); “Sou os mas onde raras vezes se chora” (f.405). Para o bem
arredores de uma vila que não há, o comentário pro- dos homens inferiores, “Viver é não pensar” (f.112),
lixo a um livro que não se escreveu” (f.262). Defini- e deles Soares se separa intelectualmente: “Para o
ções paradoxais, pois não definem nada, elas desem- homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver.
bocam no vazio, quando esperavam encontrar algo. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o
Daí as metáforas de inacabamento e esvaziamento, alimento de pensar” (f.71). E acrescenta: “mais vale
esboçando um sujeito problemático que descobre pensar que viver” (f.201).
ser “como o homem que vendeu a sombra, ou, antes, Tristeza e meditação, sentimento que se pensa,
como a sombra do homem que a vendeu” (f.263). A aversão pelos outros (Narciso acha feio o que não é
auto-imagem de Soares é, portanto, uma não-ima- espelho), traço indelével de genialidade – a melanco-
gem. Narciso à procura de espelho, ele fala de si lia é o motor desta escrita: “Tudo, quanto escrevi, é
como se não conseguisse mirar-se em superfície al- pardo” (f.442); “este livro é um gemido. Escrito ele
guma, ou como se aquela em que se vê lhe devolves- já o Só não é o livro mais triste que há em Portugal”
se um rosto irreconhecível. As feições que esboça de (f.412). Todavia, esta tristeza não decorre da limita-
si mesmo são desoladoras (um trapo úmido de lim- ção material de um ajudante de guarda-livros. Ber-
par coisas sujas) e trágicas: sou um “cadáver nado nardo Soares universaliza a sua biografia, tornando-
de minhas esperanças por haver” (f.250); “A minha -a uma experiência humana trans-histórica, o que se
vida é como se me batessem com ela” (f.80); “Invejo nota na emblemática afirmação “a Rua dos Doura-
a todas as pessoas o não serem eu” (f.38). A auto- dores, isto é, a Realidade” (f.102). Ele conhece, a par-
-apreciação é invariavelmente negativa: “Separo-me tir da condição de homem moderno, de lisboeta, de

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empregado comercial – a condição humana. Fecha- ocupam-no totalmente. Ele mostra ser consciente de
do em si mesmo, recluso não no quarto em que mora que os traz em si não apenas ao dizer “Sozinho, mul-
ou no escritório em que trabalha, e sim naquilo que tidões me cercam” (p.441), e sim por reconhecer-se
ele chama de “quinta de muros fechados da minha múltiplo: “Cada um de nós é vários, é muitos, é uma
consciência de mim” (f.338), diagnostica a miséria prolixidade de si mesmo” (f.396); “Cada um de nós
humana, que só é tolerável aos homens porque são é uma sociedade inteira” (f.428); “A alma humana é
inconscientes dela. Como diz o verso de Orides Fon- um manicômio de caricaturas” (f.242). Essa desco-
tela: “A luz é demais para os homens” (1988, p.34). berta da “vasta colônia do nosso ser” (f.396) substitui
Acontece que quanto maior o grau de consciência, a singularidade do eu pela multiplicidade que nele
maior é o desespero que ela desperta; daí a melan- habita; logo, a incorporação dos outros explode o eu
colia do gênio, cuja escrita é meditação nascida da encapsulado.
tristeza. Neste ponto, há uma certa proximidade com
O sofrimento característico da “vida” e da Heidegger, apenas um ano mais jovem que Pessoa,
“obra” de Bernardo Soares (que são uma só) resul- e que viu na existência a substância do homem, cujas
ta de uma inteligência invulgar cujo preço é o tédio, estruturas originárias são o ser-no-mundo e o ser-com-
entendido não apenas como aborrecimento do mun- -os-outros. A primeira neutraliza a distinção sujeito/
do, mal-estar de estar vivendo e cansaço de se ter objeto, pois ser-no-mundo não expressa uma relação
vivido. Tédio é um cansaço de si, gerado, pela per- espacial, antes significa algo como: ser familiar a,
da, na alma, da capacidade de se iludir, e pela “fal- habitar, morar, deter-se (o homem não mora no es-
ta, no pensamento, da escada inexistente por onde paço, e sim o abre). Encontramos uma bela expres-
ele sobe sólido à verdade” (f.263). O fragmento 381 são disso no episódio da partida de um moço do
mostra que o entediado “sente-se preso em liberda- escritório, recriado por Mário Cláudio no romance
de frustre numa cela infinita”; em sua alma não é só Boa noite, senhor Soares. Trata-se do trecho em que
a vacuidade das coisas e dos seres que dói, e sim “a lemos: “Cada coisa que foi nossa, ainda que só pelos
vacuidade da própria alma que sente o vácuo, que acidentes do convívio ou da visão, porque foi nossa
se sente vácuo”. A consciência leva ao tédio por ser se torna nós. (...) Tudo que se passa no onde vivemos
lúcida. “O tédio é a falta de uma mitologia” (f.263). é em nós que se passa. Tudo que cessa no que vemos
Saber-se miserável é perceber-se superior. Estamos é em nós que cessa” (f.279). Posso afirmar tranqui-
próximos de Pascal, em cujos Pensamentos lemos: “A lamente: quando o sol se põe, vou-me embora com
grandeza do homem é grande na medida em que ele; amanheço no amanhecer, anoiteço no anoitecer;
ele se conhece miserável. (...) É, pois, ser miserável despetalando uma flor, arranco pedaços de mim. E
conhecer-se miserável; mas é ser grande saber que convém lembrar que, para que alguma coisa se tor-
se é miserável” (1988, p.132). Como, para Soares, ne, não parte de nós, mas se torne nós, basta que a
mais vale pensar que viver, pois o pensamento faz a tenhamos visto uma única vez: “Tudo que foi, se o
grandeza do homem, surge o lema: “Desconhecer- vimos quando era, é de nós que foi tirado quando se
-se conscientemente, eis o caminho” (f.149). partiu” (f.279).
Como quase toda a humanidade vive incons- A descoberta do ser-com-os-outros suscita, por
ciente de si mesma, a existência humana costuma seu turno, pelo menos duas observações, uma de
ser inverídica. Lemos no fragmento 178: “Povo- cunho sociológico, outra de caráter ontológico. Não
amos sonhos, somos sombras errando através de há como negar que a vida em coletividade tem um
florestas impossíveis, em que as árvores são casas, preço: “O facto divino de existir não deve ser en-
costumes, ideias, ideais e filosofias”. Mais: “Somos tregue ao facto satânico de coexistir” (f.209). Mas o
morte. Isto, que consideramos vida, é o sono da mais grave não é isso. Como acabamos de ver, em
vida real, a morte do que verdadeiramente somos”. função de sermos-no-mundo, tudo “que nos cerca se
Bernardo Soares é lúcido o bastante para ver a vida torna parte de nós, se nos infiltra na sensação da
como ela é: “A vulgaridade é um lar. O quotidiano carne e da vida” (f.167). “Se eu for atropelado por
é materno” (f.200). Contudo, como a “consciência uma bicicleta de criança, essa bicicleta de criança
da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à torna-se parte da minha história” (f.302). Acontece
inteligência” (f.68), a lucidez é tributária do tédio. que não apenas somos-no-mundo, como ainda somos-
Graças a esta consciência da inconsciência, Soares não -com-os-outros, e isto está longe de ser uma mera
apenas enxerga com clareza a vulgaridade dos ho- contingência social; o que está em jogo aqui é a nos-
mens, como também reconhece que somos parte sa própria constituição ontológica. Por isso é que
dela, “porque ninguém é humano sem o ser” (f.235). Soares pergunta: “Conhece alguém as fronteiras à
Atração e repulsa marcam a relação do autor com sua alma, para que possa dizer – eu sou eu?” (f.364).
a humanidade: “Amo-a porque a odeio. Gosto de Ora, como a indefinição do território do eu e a sua
vê-la porque detesto senti-la” (f.71). Soares percebe não-substancialidade são obra do tempo e da “vasta
que os homens são partes integrantes de si mesmo; colônia de nosso ser”, o Livro do desassossego é a ex-

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pressão de um sujeito fluido e múltiplo. que o é, o acabamento de tudo” (f.202). Inclusive,
A fluidez do eu é obra do tempo, que impossi- a recorrente imagem outonal atua no texto como
bilita a constituição de uma auto-imagem, dado que aquilo que Eliot chamou de correlativo objetivo. A
espelho e espelhado são incorporados no devir. Tan- paisagem é símbolo de um estado de espírito. Ela é
to é assim que Manuel Milho constata, no Memorial a imagem externa do mundo interno do escritor – “O
do convento: “a água é o espelho que passa e está outono que tenho é o que perdi” (f.320) – mas pode
parado, e nós que estamos parados é que vamos pas- ser também a sua contra-imagem: “Os dias de sol
sando” (SARAMAGO, 1989, p.234-5). Não por aca- sabem-me ao que eu não tenho” (f.322).
so, Eduardo Lourenço identificou em Alberto Caeiro Por sua vez, a multiplicidade do eu nasce tanto
a incapacidade da linguagem de nomear o real, pois da percepção dos eus que somos ao longo da vida,
nem o nomeador nem a coisa nomeada têm perma- bem como da constatação de que somos-com-os-
nência (2003, p.44). Eis a visão trágica do mundo, -outros. Mesmo numa ilha deserta, estou cercado de
oriunda dos fragmentos de Heráclito. Tudo passa e gente; no meio de várias pessoas, não me livro neces-
nada permanece. Nos mesmos rios entramos e não sariamente da solidão. Heidegger mostrou que “os
entramos, somos e não somos. Este mundo é e será outros” não são o resto dos demais além de mim, do
um fogo sempre vivo, acendendo-se e apagando-se. qual me isolaria. Eles são, na maior parte das vezes,
Filosofia relida por Marcel Conche, segundo o qual a aqueles dos quais ninguém se diferencia propria-
natureza faz e desfaz o que ela faz. Tudo o que veio mente. Em Ser e tempo é dito: “Todo o mundo é
a ser deixa de ser, ou deixa de ser o que era. Tudo na outro e ninguém é si próprio” (1988, p.181). E no
natureza está destinado a nascer e a morrer, menos Livro do desassossego está escrito: “Somos quem
ela, que não é um ser, e sim uma potência. Todas não somos” (f.95); “tudo quanto somos é o que não
as coisas estão “no” rio, mas o rio não está “no” rio somos” (f.255). Conclusão: “A maioria dos homens
(CONCHE, 2001, p.160). De ano em ano, a prima- vive com espontaneidade uma vida fictícia e alheia”
vera volta, e o outono, mas não a mesma primavera, (f.278). Se, por um lado, Bernardo Soares afirma que
nem o mesmo outono. Como diz o poema de Fernan- os outros são para nós mera paisagem, visto que “a
do Paixão: “Sol / sempre novo / ovo / de cada dia” única realidade para cada um é a sua própria alma”
(1991, p.16). A percepção de que o tempo é destrui- (f.35), e por isso cremos ser o centro do mundo, por
ção já existe na lírica clássica. Basta lembrar o verso outro lado ele sabe que é-com-os-outros – daí o seu
camoniano “o tempo o mesmo tempo de si chora”, amor cheio de ódio pela humanidade, que o leva a
ou ainda o início da écloga I, quando Camões, pela falar em “minha dissidência da vida” (f.103). Pedro
voz do pastor Umbrano, formula de modo lapidar Nava, no Baú de ossos, também expressa, pela memó-
a ação do devir: “Um dia a outro dia vai trazendo ria genealógica, este comum pertencimento do eu
/ por suas mesmas horas já ordenadas; / mas quão aos outros, interessado em ver quem “está na minha
conformes são na quantidade, / tão diferentes são na mão, na minha cara, no meu coração, no meu gesto,
qualidade”. Entretanto, o platonismo dos clássicos na minha palavra”. Conhecer-se a si mesmo, falar
cede lugar ao heracliteísmo dos modernos, cuja luci- de si e escrever-se são operações que envolvem to-
dez Eduardo Lourenço exprimiu na frase: “A cons- dos os pronomes: “Meu, teu, seu, nosso, vosso, de-
ciência é um sol sem noite cuja espantosa vigília não les, delas. Eu, tu, ele, nós, vós, eles.” (NAVA, 1974,
permite sono” (2003, p.69). E é ela que leva Soares p.186). Se Bernardo Soares criasse um neologismo
a confessar: “Não choro a perda da minha infância; para se definir, este seria: eutuelenósvóseles...
choro que tudo, e nele a (minha) infância, se perca” Em resumo, há duas razões que fazem de Ber-
(f.266). Ele sabe que “sentir hoje o mesmo que ontem nardo Soares um Narciso à procura de espelho, am-
não é sentir – é lembrar hoje o que se sentiu ontem” bas sintetizadas na frase “Não me conheço porque
(f.94). O eu de outrora não é o eu de agora: “Do que penso” (f.447). A primeira é a existência marcada
sou numa hora na hora seguinte me separo; do que pela “sufocação do vulgar”, por um “tédio de nojo,
fui num dia no dia seguinte me esqueci” (f.448). Há uma angústia de exílio entre aranhas”, que o tornam
uma “revirgindade perpétua da emoção” (f.94), que consciente de seu “amarfanhamento entre gente
o leva a constatar diante de um retrato de infância: real”, e da sua vida como “o lixo alheio que se entu-
“Era outro o quem sou que ali vivia” (f.456). Em sín- lha à chuva no saguão” (f.311-312). A segunda, de-
tese: o eu é fluido por ser tomado pelo tempo, que corrente da primeira, é que a melancolia, que o faz
destrói todas as coisas. “Tudo é nada. (...) Tudo é perceber-se como “um coração que Deus abando-
sombra e pó mexido” (f.202). No horizonte simbo- nou” (f.401), é um traço da genialidade que o torna
lista do Livro do desassossego, a dissolução universal, superior, e, ao contrário dos demais homens, cons-
que não deixa dúvida de que “passaremos todos, ciente de ser múltiplo (tanto um eu a cada momen-
passaremos tudo”, é representada pelos fenômenos to, como um eu-outros). Não por acaso ele declara:
atmosféricos: a noite, a neblina, as nuvens, a chuva, “Vou a falar e falo eu-outro” (f.215); “Minha alma é
e, em especial, o outono, estação que “lembra, por uma orquestra oculta (...). Só me conheço como sin-

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fonia” (f.310). E é a melancolia que o leva a pergun- percebido por algo (“o que em mim”) que está como
tar: “Meu Deus, meu Deus, a quem assisto? Quantos que por “detrás de mim”. Idéia recorrente na poesia
sou? Quem é eu? O que é este intervalo que há entre ortônima: “Entre mim e o que em mim / É o quem
mim e mim?” (f.213); “Quem sou quando sinto? Que eu me suponho, / Corre um rio sem fim”; ou ainda:
coisa morro quando sou?” (f.63). Tais perguntas, por “Quero considerar-me e ver aquilo / Que sou, e o que
seu turno, levantam outros problemas, sugeridos sou o que é que tem”.
pelo fragmento 41: “Verifico que, tantas vezes ale- Diante disso, é fácil identificar um duplo pro-
gre, tantas vezes contente, estou sempre triste. E o cesso na escrita de Bernardo Soares: 1) só me vejo se
que em mim verifica isto está por detrás de mim”. me desdobro; 2) só construo um retrato de mim se
Entre parênteses – e para não esquecer: em Fernando me ficcionalizo. O eu é percebido como algo no in-
Pessoa, (a poesia d) o eu torna-se (a do) o que em mim. tervalo entre mim e mim. O eu é este intervalo: “sou
A tristeza leva Bernardo Soares a abrir uma ja- translato” (f.266). Obviamente, isto equivale a dizer
nela para dentro de si (f.92), e a tornar-se um espec- que, em Fernando Pessoa, o eu não tem substrato
tador de si mesmo (f.221). Ora, ao perscrutar-se, ele ontológico, identidade fixa ou sequer um referente.
não se percebe como eu, e sim descobre que há algo Sendo assim, o eu não exprime integralmente o sujei-
no eu, isto é, o “intervalo entre mim e mim”. O des- to, e é percebido (ou construído), por uma consciên-
dobramento do eu em face de si mesmo é tão nítido, cia voltada sobre si mesma – desdobrada, intervala-
que a descoberta do intervalo “entre mim e mim” da, translata. Em resumo: só há eu desdobrado; só
não só lança luz sobre este algo no eu, como sintoma- há eu ficcionalizado. Por isso o autor pode afirmar
ticamente faz com que este algo não pergunte “quem com tranquilidade: “me converti na ficção de mim
sou eu?” (o que pressuporia um sujeito, agora des- mesmo (...) Só disfarçado é que sou eu” (f.456); “Sou
feito pelo intervalo), e sim “quem é eu?”, “quantos uma personagem de dramas meus” (f.454); “Tornei-
sou?”, “quem sou quando sinto?”, “que coisa morro -me uma figura de livro, uma vida lida” (f.193). Ele
quando sou?”. Tais questões mostram que o eu tor- pode ainda descrever a execução de sua obra nos se-
na-se 3a pessoa, e não mais 1a pessoa. O eu é algo que guintes termos: “Esculpi a minha vida como a uma
é, e não alguém que sou. Não sou eu que sou: há algo estátua de matéria alheia a meu ser”. E tudo isto é
em mim que é, outros em mim que são. Tanto é as- resumido numa sentença lapidar: “Vivo-me esteti-
sim, que este algo pode tomar-se como “o que fingiu camente em outro” (f.114).
em mim que fui eu” (f.276), ou constatar diante do O Livro do desassossego é a escrita da ficciona-
retrato infantil: “Era outro o quem sou que ali vivia”. lização de si. Entretanto, este sujeito que ficcionaliza
“Viver é ser outro” (f.94). Abrindo a janela para o próprio eu lança mão de um procedimento mui-
dentro de si, vigiando a “quinta de muros altos” da to singular, qual seja, a multiplicação dos outros em si.
sua consciência de si, Bernardo Soares não somente Tal processo é sintetizado na frase “Multipliquei-me
se define como o “exílio que sou” (p.193), como se aprofundado-me” (f.93), e detalhado em passagens
vê enquanto um eu desdobrado (1a pessoa tornada 3a), como: “criei em mim várias personalidades. Crio
isto é, como um sujeito que descobre um intervalo personalidades constantemente. (...) Para criar, des-
“entre mim e mim”. Fora isso, ele é ciente de que truí-me; tanto me exteriorizei dentro de mim, que
o uso comum da linguagem não diz quem somos, dentro de mim não existo senão exteriormente. Sou
apenas revela nosso comum pertencimento. “Ser a cena nua onde passam vários actores representan-
uma coisa é ser objeto de uma atribuição” (f.58). A do várias peças” (f.299). A originalidade desta escrita
linguagem cotidiana, denominada por Heidegger de ficcional de si reside, então, no modo como as desco-
“falatório”, é o lugar da coexistência dos homens; bertas literárias e filosóficas da modernidade resul-
contudo, ela não revela o eu, antes o apaga. Soares, tam no eu desdobrado e ficcionalizado de Bernardo
aliás, tem duas noções muito claras acerca dos pro- Soares, que, pelo pensamento e pela escrita, conver-
blemas envolvendo a expressão do eu (a subjetivida- teu-se na ficção de si mesmo (f.456). É como se ele
de) e a maneira como as palavras designam não só fizesse duas afirmações: 1a) a consciência de que
os sentimentos, mas as coisas (a objetividade). A pri- nada sou desperta-me o sonho de ser inúmeros; 2a)
meira tem a ver com o espelhamento dos outros em adquiro alguma identidade graças à ficção pela qual
mim: “Tudo o que sabemos é uma impressão nossa, multiplico os outros em mim. Desnecessário lem-
e tudo o que somos é uma impressão alheia” (f.13). brar que multiplicação ficcional de si é a definição da
A segunda aborda a insuficiência da linguagem: “o heteronímia. O Livro do desassossego é uma arte
que pensamos ou sentimos é sempre uma tradução” poética pessoana. Necessário lembrar que o espaço
(f.433); a “vida prejudica a expressão da vida. Se eu entre mim e mim (autêntico pilar da ponte de tédio),
vivesse um grande amor nunca o poderia contar” no qual o eu se dissipa dramaticamente em outro(s),
(f.114); “Exprimir é sempre errar.” (f.349). O resul- é o solo da poesia do Orpheu. Em Portugal, só é mo-
tado destas constatações leva-o a descobrir que “não dernista o poeta lúcido o bastante para reconhecer-
é quem é” (f.448), e a constatar que o eu só pode ser -se como qualquer coisa de intermédio.

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Eis, então, a linha que perseguimos: escrita de de uma perene e infindável oscilação entre dor e té-
si, meditação da existência, autoconsciência literá- dio. Tragédia que aparenta ser uma comédia, a vida
ria. Como ela não cessa de enovelar-se num pensar é uma penosa viagem, uma lição que nos é dada.
infinito, é preciso retomá-la. Vimos que a melanco- Toda biografia é uma patografia. Dante compôs o
lia que afoga Bernardo Soares no tédio o distingue “Inferno” retratando este mundo. Apenas se o conhe-
com genialidade e potência criativa. Consciente de cimento anula a vontade, ou seja, pela inação ou pela
que somos-com-os-outros, e de que o eu é fluido e fruição artística, alcançamos alguma felicidade. Li-
múltiplo, a consciência criadora multiplica ficcional- ção que Bernardo Soares traz na ponta da língua: “A
mente o eu. Ela sabe que o homem está sob a tutela renúncia é a libertação. Não querer é poder” (f.123);
dos outros, pois somos fruto de uma atribuição e do “A inação consola de tudo” (f.164). O querer-viver
reflexo deles em nós. A vida é uma ilusão que não deve ser reprimido pelo conhecimento, pois toda
se percebe, “um movimento na penumbra” (f.63). ação humana é uma ilusão, por ser obra não do indi-
A humanidade nem sequer sabe que sofre. “Toda víduo, mas da vontade inconsciente que nele atua e
a vida é um sonho” (f.70). Todavia, a originalidade molda-lhe o caráter. Sem a libertação do querer-vi-
do Livro do desassossego não reside na consciência ver não existe libertação da vida e da dor. Não por
de que somos outros, e de que o eu é uma máscara, acaso, este ajudante de guarda-livros não faz nada,
e sim na reversão disso no desdobramento ficcional e sua “autobiografia sem fatos” é um romance sem
do eu: “Aumentar a personalidade sem incluir nela ação. Dado que a literatura nasce do predomínio da
nada alheio (...) sendo outros quando outros são pre- reflexão sobre a ação, da consciência sobre a vonta-
cisos” (f.237). No mais, a obra é original porque tor- de, esta ética da inação está ancorada no domínio da
na aguda a percepção de que aquilo que pensamos escolha refletida. “Conviver é morrer” (f.209). “Agir
ser vida real é, no fundo, vida irreal. Retoma-se o é reagir contra si próprio” (f.247).
fio de uma tradição literária que remonta ao Barro- Schopenhauer detectou ainda uma relação pre-
co, segundo a qual a vida, que é sonho, encontra no cisa entre o grau de consciência e o de dor. O indi-
teatro a sua melhor representação. O circo é a perfei- víduo em quem o gênio reside é o que mais sofre, e
ta “prefiguração da vida” (f.348). “Somos qualquer a superioridade intelectual é uma qualidade isolado-
coisa que se passa no intervalo de um espetáculo” ra. Também para Kierkegaard, a necessidade de so-
(f.63). “Vivemos um entreato com orquestra” (f.86). lidão revela a nossa espiritualidade, e serve para dar
O mundo é um “baile de máscaras” (f.256), e a nossa a sua medida. O Livro do desassossego prova que a
vida “uma série entreinserta de sonhos e romances, solidão é o destino dos espíritos eminentes. Por fim,
como caixinhas dentro de caixinhas maiores” (f.285). em O mundo como vontade e representação lemos
O ponto nevrálgico da argumentação de Soares que a vida e os sonhos são folhas de um livro único.
é o seguinte: se a vida é sonho, devemos assumi-la A leitura seguida das páginas é a vida real. A leitura
como tal, da mesma forma que o eu, descoberto como negligente, que abre o livro ao acaso, é feita quan-
ilusão (por ser fluido e múltiplo) ganha novo estatuto do sonhamos. Mas como a vida e os sonhos come-
quando é ficcionalizado, tornando-se muitos outros çam e acabam ex abrupto, a leitura seguida é apenas
mais. Bernardo Soares sustenta com veemência: “a “uma página isolada, um pouco mais longa do que
vida é absolutamente irreal, na sua realidade direta. as outras” (SCHOPENHAUER, 2001, p.25). A vida
(...) São intransmissíveis todas as impressões salvo se apenas é um longo sonho. Por fim, o aforismo scho-
as tornamos literárias” (f.117). Entrevemos facilmente peaueriano “Não há rosas sem espinhos, mas muitos
que todos os fragmentos brotam de uma mesma certe- espinhos sem rosas” (2003, p.177) parece ter inspira-
za: “Toda literatura consiste num esforço para tornar do Soares escrever “A vida está cheia de paradoxos
a vida real” (f.117). Ninguém melhor que ele – com como as rosas de espinhos” (f.322). Neste sentido,
seu “pobre rosto de mendigo sem pobreza” (f.467), outra bela sentença de Schopenhauer poderia cons-
assolado por “uma indigestão na alma” (f.243) e por tar do Livro do desassossego: “A vida é como uma
“momentos de desolação estomacal” (f.311), e que es- bola de sabão, que conservamos e sopramos tanto
creve embalando-se “como uma mãe louca a um fi- quanto for possível, porém com a firme certeza de
lho morto” (f.155) – é ciente que a vida real é irreal, e que ela irá estourar” (2003, p.188).
que só pode ser autenticada pela literatura. Para en- No século XX, o autor mais próximo de Bernar-
tendermos melhor como a literatura “simula a vida” do Soares talvez seja Émile Cioran. A escrita dos dois
(f.116) por meio de uma “pulverização da personali- é muito contundente, e lê-los é uma experiência qua-
dade” (p.453), é útil um cotejo com outros autores. se insuportável. A literatura de ambos é um tapa na
Proclamando a “futilidade trágica da vida” cara. Crítico ferrenho das ilusões que o homem cria
(f.244), Bernardo Soares se situa no horizonte da para sustentar a existência, Cioran mostra que viver
filosofia de Schopenhauer, com quem os simbolis- é estar cego com relação às próprias dimensões; não
tas aprenderam que a perpetuidade do sofrimento poderíamos existir um instante sem enganarmo-nos.
é central na existência humana, pois esta não passa Iludimo-nos sobre nossa importância. O homem,

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criador de valores, é o ser delirante por excelência, parece levar ao progresso, não mascara a certeza de
vítima da crença de que algo existe. A vida se cria que, como diz Soares, a humanidade é variável, mas
no delírio e se desfaz no tédio, que nada mais é do inaperfeiçoável; oscilante, mas improgressiva. Por
que a percepção tautológica do mundo (ou seja: a isso, “Que D. Sebastião venha pelo nevoeiro, não
ausência de uma mitologia). Os simulacros fazem desdiz da história. Toda a história vai e vem entre
viver, são a vida, que se torna tolerável apenas pelo névoas” (p.515). Quando Cioran pergunta: “Todos
grau de mistificação com que a revestimos. Segundo os seres são desgraçados; mas, quantos o sabem?”
Cioran, só há vida na falta de atenção à vida. Como (1995, p.37), ele retoma vários autores que defende-
vimos, Bernardo Soares não se cansa de apontar a ram a consciência da miséria como sinal da grandeza
inconsciência humana: “Se alguma coisa há que esta humana, e que mostraram o gênio como aquele que
vida tem para nós (...) é o dom de nos desconhecer- mais sofre. Uma alma só se engrandece pela quanti-
mos: de nos desconhecermos a nós mesmos e de nos dade de insuportável que assume. Se o espírito emi-
desconhecermos uns aos outros” (f.255). Resultado: nente desemboca na solidão, o ser verdadeiramente
“Manufacturamos realidades” (f.66). solitário não é o que foi abandonado pelos homens,
Esta coincidência de pensamento faz com que mas o que sofre no meio deles (Bernardo Soares tra-
várias passagens pareçam intercambiáveis entre os balhando no escritório...). A autenticidade de uma
textos de um e de outro autor. Para Cioran, o mun- existência consiste em sua própria ruína, se em nada,
do é um receptáculo de soluços; para Soares, a vida porque, como afirma Cioran, “eu deixo de ser ‘eu’ se
é uma ilha de náufragos (f.198). O filósofo romeno me analiso” (1995, 158). A melancolia, que abre um
constrói imagens de si nas quais Soares se reconhe- espaço entre mim e mim, permite que o filósofo es-
ceria: “Sou um Saara corroído de volúpias, um creva sentenças que Soares assinaria, tais como: “só
sarcófago de rosas” (1991, p.207); “Sou um Jó sem existimos enquanto sofremos” (1995, p.36); “Toda
amigos, sem Deus e sem lepra” (idem, p.93). Nos lucidez é a consciência de uma perda” (1991, p.76);
recônditos da vida psíquica, o português localizou “A autenticidade de uma existência consiste em sua
os “secretos onde a alma é do Diabo” (f.255); já o própria ruína” (1995, p.76); “Abandono-me ao espa-
romeno afirma que “Há corações que Deus não po- ço como a lágrima de um cego. De quem sou a von-
deria contemplar sem perder sua inocência” (1995, tade, quem quer em mim?” (1995, p.156).
p.135). Eis uma sentença que Soares adoraria ter Em suma: o melancólico, que tem a consciência
escrito: “A vida é efêmera e fútil como o suicídio lúcida da própria miséria, é sempre um Narciso à
de uma borboleta” (1991, p.37). A visão do amor é procura de espelho, o qual, em Soares, diferentemen-
idêntica em ambos. Para o filósofo romeno, a vida é te de qualquer outro escritor, constrói-se na multi-
mentirosa, e o amor, “a mentira na mentira”. Que- plicação ficcional de si. A singularidade do Livro do
remos encontrar em outra pessoa o que buscamos desassossego é o desvelamento dos heterônimos. Mas
em vão em nós mesmos. Soares afirma ser o amor a antes de voltarmos a isso, uma palavra acerca do
mais carnal das ilusões (f.363), e que, no fundo, não lugar ocupado por Deus no livro. Na literatura, a
amamos, senão que fingimos amar (f.368). Cioran, crise do eu se dá pelo esgotamento da subjetividade
por seu turno, ficaria feliz se tivesse escrito o frag- romântica. Aliás, o romantismo, para Soares, ainda
mento 112: “Nunca amamos alguém. Amamos, tão- que represente a verdade interior da natureza huma-
-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um na (f.54), é a arte feita com elementos secundários do
conceito nosso – em suma, é a nós mesmos – que pensamento (f.249). A única arte verdadeira é a da
amamos. (...) o onanista é a perfeita expressão lógi- construção (f.250). Na filosofia, o problema é o abalo
ca do amoroso. É o único que não disfarça nem se sofrido pelo cogito, que, no século XVII, sustentava
engana.” E quando Soares desabafa: “Que coisa tão os pilares metafísicos Deus, Mundo e Homem. A
reles e baixa que é a vida!” (f.229), este lamento re- crise do sujeito cartesiano marca o fim da metafísica,
sulta da melancolia lúcida que também leva Cioran dado que, como explica Gilles Deleuze, o eu não sub-
a perceber a vida como um eufemismo para o Mal. siste sem Deus (que lhe garante identidade formal),
A História humana não encerra nenhum sentido, e mas Deus tampouco subsiste sem o eu. Lemos na
nada mais é que uma sucessão de tragédias, como Lógica do sentido: “Não conservamos o eu sem ter
repetia Schopenhauer. Se Pascal afirmou que o ho- que guardar também Deus. A morte de Deus signi-
mem não suporta estar sozinho, e por isso procura o fica essencialmente, provoca essencialmente a disso-
tempo todo a diversão (toda ocupação é divertimen- lução do eu: o túmulo de Deus é também o túmulo
to e esquecimento de si), Cioran vê a História como do eu” (2007, p.302). Em Bernardo Soares, como na
o sangrento produto da repulsa humana ao tédio. poesia ortônima, Deus é pensado por meio da equi-
O homem se irrita mais pela ausência do que pela paração entre fé e razão. Vale o raciocínio: se não
profusão de acontecimentos. Somos mais laboriosos podemos saber que Deus existe, tampouco podemos
que as formigas e as abelhas porque detestamos pen- afirmar que não exista. Se, em Cioran, Deus é a nos-
sar (1995, p.51). Este incessante labor humano, que sa ferrugem, em Soares, é antes um enigma: “Deus é

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o existirmos e isto não ser tudo” (f.22). A derrocada ção de um infinito drama em gente, no qual o sujeito
da crença em Deus pela razão não se sustenta. “A perde sua identidade “outrando-se” nas máscaras
razão é a fé no que se pode compreender sem fé; mas heterônimas. Todavia, no Livro do desassossego, a
é uma fé ainda, porque compreender envolve pres- multiplicação do eu não resulta de uma explosão, e
supor que há qualquer coisa compreensível” (f.176). sim de uma implosão do eu, que sempre é – estetica-
Conclusão: “Passar dos fantasmas da fé para os mente – outros. Sá-Carneiro (um ego em estilhaços)
espectros da razão é somente ser mudado de cela” não compõe uma auto-imagem; Pessoa (uma prolixi-
(f.34). Ecos do poema “Natal”: “Cega, a Ciência a dade de si mesmo) traça inúmeras. Quando Soares
inútil gleba lavra. / Louca, a Fé vive o sonho do seu diz “me exteriorizo dentro de mim”, e “não existo
culto. /(...)/ Não procures nem creias: tudo é oculto”. dentro de mim senão exteriormente”, vemos que a
O mistério da existência é insolúvel: “Depois de to- heteronímia é a manifestação de um sujeito conscien-
dos nós vem o dilúvio, mas é só depois de nós” (f.91). te da ilusão do eu, e que encontra na multiplicação
Como ocorre em outros escritores melancólicos, (exteriorizando-se dentro de si) a sua autentificação
em Soares a lucidez (consciência da inconsciência) como sujeito (só existe dentro de si exteriormente). O
gera a escrita: “Estas páginas são os rabiscos da minha eu vive autenticamente ao viver esteticamente em outro.
inconsciência intelectual de mim” (f.341). Ele também O heterônimo – sonho sonhado por um eu que é so-
possui pares na descoberta do eu-outros. Tampouco é nho – é por isso mesmo a sua verdade; revela-o mas-
exclusiva dele a convicção de que, se a vida é sonho, e carando-o. A vida-sonho é verdadeira apenas como
se a arte – teatro dentro do teatro – é a vida condensada vida sonhada – operação que o exercício poético rea-
e acabada, devemos assumi-la como tal. Entretanto, a liza. Neste sentido, o fragmento intitulado “Maneira
singularidade aqui reside na multiplicação ficcional de bem sonhar” mostra que a ficção heteronímica é
do eu, reflexo metalinguístico da obra pessoana. Ora, produto de um estágio extremo do exercício da ima-
Eduardo Lourenço mostrou que são os poemas que ginação, no qual ocorre “uma dissolução absoluta da
criam os heterônimos, e não estes os poemas. Acres- personalidade”, que permite “escrever de inúmeras
cento apenas que, se o eu cria os heterônimos, estes o maneiras diversas, originais todas” (p.456). Cruza-
revelam (ainda que ele não seja uma essência), pois mos a linha de chegada: “O mais alto grau do sonho
são produto da força imaginativa e de uma inesgotá- é quando, criado um quadro com personagens, vi-
vel capacidade de sonhar. Assim como a melancolia vemos todas elas ao mesmo tempo – somos todas essas
não paralisa a escrita, antes a potencializa, a lucidez almas conjunta e interactivamente” (p.456).
alimenta o sonho: “Posso imaginar-me tudo, porque Dir-se-ia também que a poética do autor de
não sou nada. Se fosse alguma coisa, não poderia Mensagem está sintetizada em “Autopsicografia”, po-
imaginar” (f.171); “O meu mundo imaginário foi sem- ema no qual, sem dúvida, a autoconsciência literária
pre o único mundo verdadeiro para mim” (f.415); “Eu assume a artificialidade (o fingimento) como inalie-
nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, nável à poesia, e diferencia a “expressão volitiva da
o sentido da minha vida. (...) Nunca pretendi ser se- emoção” – a vida –, e a “expressão racional da emo-
não um sonhador” (f.92). Quando Soares afirma que ção” – a arte (f.230). A Arte e a Vida moram na mes-
não sonha e não vive, e sim sonha a vida real (f.326), ma rua, mas em lugares diferentes (f.9). Confessar-
ou quando se orgulha de, em sonhos, ter conseguido -se fingidor, por fingir a dor vivida e fazer sentir a
tudo (f.102), esboça-se uma ética da inação, para a dor lida, é mostrar-se leitor da Poética, na qual Aris-
qual o sonhador é o autêntico homem de ação (f.91). tóteles ensina que o poeta, como o ator e o pintor,
Agir é criar: “Como todo sonhador, senti sempre que é um imitador. Fingimento é mimese, construção
o meu mister era criar” (f.307). O escritor sabe que linguística que gera Caeiro, Reis e Campos. Contu-
“Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos” do, penso que a quintessência do projeto pessoano
(f.348), e que “Matar o sonho é matarmo-nos.”(f.326). encontra-se no verso “O que em mim sente ‘stá pen-
Mais que isso: “Escrever é objetivar sonhos” (f.209). sando”. Inclusive, Soares reitera várias vezes que
A literatura, simulação da vida, é elogiada por ser “a sente com o pensamento: “Sofri sempre mais com a
arte casada com o pensamento e a realização sem a consciência de estar sofrendo que com o sofrimento
mácula da realidade” (f.27). Por tornar a vida huma- de que tinha consciência” (f.93). A melancolia inva-
na digna, ela é “a única verdade” (f.268). de o sujeito que ouve a ceifeira cantar, e faz com que
Dir-se-ia que a poesia do modernismo portu- ele deseje ser ela, mas ainda sendo ele, bem como
guês enveredou por dois atalhos: 1) a implosão do eu ter a alegre inconsciência dela, mantendo a própria
em Sá-Carneiro, cuja obra mostra o dilaceramento de consciência. Eis a síntese da escrita heteronímica:
um sujeito que, dissipando-se por não conseguir reu- da melancolia brota um sentimento consciente de si,
nir-se, vagueia, gira em volta de si, e, angustiado pela que o crivo do pensamento antes potencializa que
pergunta “Onde existo que não existo em mim?”, de- aplaca, e que só pode ser vivido pelo desdobramento
compõe-se numa dispersão de imagens oníricas; 2) a imaginário do eu (“o que em mim”) em outros.
explosão teatral do eu em Fernando Pessoa, encena- Por fim, dir-se-ia que Álvaro de Campos é a

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voz que mais ecoa no Livro do desassossego. É inegá- mas chorar; e para ver realmente é preciso fechá-los”
vel que Bernardo Soares se reconheceria em versos (1995, p.96). A mais bela metáfora do livro aparece
como: “Minha dor é velha / Como um frasco de es- no fragmento 319: “Os momentos mais felizes de
sência cheio de pó. / Minha dor é inútil / Como uma minha vida foram sonhos, e sonhos de tristeza, e eu
gaiola numa terra onde não há aves, / E minha dor via-me nos lagos dele como um Narciso cego”. O
é silenciosa e triste / como a parte da praia onde o texto, portanto, jamais chega a ser um espelho, por
mar não chega”. Contudo, penso ser Ricardo Reis isso o gênio escreve infinitamente. Até morrer.
o autêntico duplo de Soares, cujo texto, por vezes,
são odes prosaicas: “O amor agita e cansa, a ação
dispersa e falha, ninguém sabe saber e pensar em- NOTAS
bacia tudo” (f.446); “Nada pesa tanto como o afecto
alheio – nem o ódio alheio” (f.348); “Não toquemos 1. PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. Org. Richard Ze-
na vida nem com as pontas dos dedos. (...) Tecelões nith. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. Todas as citações
foram retiradas desta edição. Indicaremos o número do fragmen-
da desesperança, teçamos mortalhas apenas” (f.284);
to a que pertencem os trechos citados, ou o número da página, no
“Sê indiferente. Ama o poente e o amanhecer, por- caso dos fragmentos que possuem título.
que não há utilidade, nem para ti, em amá-los. Veste
teu ser do ouro da tarde morta, como um rei deposto
numa manhã de rosas” (f.365). A atitude sobrancei- REFERÊNCIAS
ra de Reis frente à vida – colhendo as flores, ouvindo
as fontes – é típica de quem reconhece, como Soa- CAMÕES, Luís de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,
res, que o destino é decadência (“Nada fica de nada. 2003.
Nada somos.”); logo, a saída é experimentar a eter-
CIORAN. Breviário de decomposição. 2ed. Rio de Janeiro: Rocco,
nidade aceitando a morte. O mais trágico dos heterô- 1995.
nimos, Reis assume a máscara da convenção clássica
para camuflar, em canto sereno, o tédio – sensação CIORAN. Le crépuscule des pensées. Paris: L’Herne, 1991.
física “de que o caos é tudo” (f. 381) – que ronda os
poetas do Orpheu. Os “cadáveres adiados que pro- CONCHE, Marcel. Présence de la nature. Paris: PUF, 2001.
criam” são os mesmos “cadáveres que se aceitam”,
DELEUZE, Gilles. Lógica do sentido. 4ed. São Paulo: Perspectiva,
de Cioran. Além disso, Reis e Soares reconhecem 2007.
que a vida é ilusão (“Somos contos contando con-
tos, nada.”), bem como a necessidade de jogá-la, isto FONTELA, Orides. Trevo. São Paulo: Duas Cidades, 1988.
é, de vê-la e vivê-la como jogo. A fala de ambos é
um monólogo. Apenas o protagonista de O ano da HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Petrópolis: Vozes, 1988.
morte de Ricardo Reis, romance que é o jogo do jogo
LOURENÇO, Eduardo. Pessoa revisitado. 4ed. Lisboa: Gradiva,
do jogo, pode viver, no fim da vida, a convulsão de 2003.
um amor quase adolescente, que o divide entre Lídia
e Marcenda, pois, na poesia de Reis, estas mulheres NAVA, Pedro. Baú de ossos. 4ed. Rio de Janeiro: José Olympio,
são apenas o alter-ego feminino do poeta. Nenhum 1974.
dos dois nunca amou ninguém. O amor só é pos-
sível em Saramago. É provável que os versos que PAIXÃO, Fernando. Fogo dos rios. 2ed. São Paulo: Brasiliense,
1991.
melhor traduzam o autor do Livro do desassossego
sejam os que abrem a ode: “Vivem em nós inúme- PASCAL, Blaise. Pensamentos. 4ed. São Paulo: Nova Cultural,
ros; / Se penso ou sinto, ignoro / Quem é que pensa 1988.
ou sente. / Sou somente o lugar / Onde se sente ou
pensa. // Tenho mais almas que uma. / Há mais eus PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. São Paulo:
do que eu mesmo.”. É inegável que o desespero de Companhia das Letras, 2006.
Soares espelha o de Campos, autor do mais cruel
PESSOA, Fernando. Obra poética. 3ed. Rio de Janeiro: Nova
de todos os versos: “A vida... / Branco ou tinto, é Aguilar, 1990.
o mesmo: é para vomitar”. Contudo, se o poeta-
-engenheiro consegue espelhar-se na diversidade do SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo:
mundo e ser tudo de todas as maneiras, o ajudante Companhia das Letras, 1995.
de guarda-livros continua um Narciso sem espelho,
SARAMAGO, José. Memorial do Convento. 4ed. Rio de Janeiro,
cujos olhos são preenchidos mais por lágrimas do
Bretrand Brasil, 1989.
que por imagens, confirmando que chorar é ter pie-
dade de si mesmo, como diz Schopenhauer, e que, SCHOPENHAUER, Artur. O mundo como vontade e
como mostrou Cioran, “a função dos olhos não é ver, representação. Rio de Janeiro: Contraponto, 2001.

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