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Marc Augé é coordenador de pesquisas

na École des Hautes Études en


Sciences Sociales (EHESS),
que ele presidiu entre 1985 e 1995.
Entre suas obras publicadas,
podemos destacar: Théorie des pouvoirs
et idéologie (Hermann, 1975), Symbole, NÃO-LUGARES
fonction, histoire (Hachette, 1979), INTRODUÇÃO A UMA

Un ethnologue dans le métro ANTROPOLOGIA DA

(Hachette, 1986), Le dieu objet (Flammarion, SUPERMODERNIDADE

1988) e Domaines et châteaux


(Seuil, 1989), além das traduzidas no Brasil:
A guerra dos sonhos: Exercícios de
etnoficção (Papirus, 1998) e Por uma
antropologia dos mundos contemporâneos
(Bertrand Brasil, 1997).

1TRAVESSIA DO SÉCULO · TRAVESSIA DO SÉCULO . TRAVESSIA


MARCAUGE

tradu ção
Maria Lúcia Pcrcirn

NÃO -LU GAR~S


INTRODUÇÃO A UMA
ANTROPOL OGIA DA
SUPERMODERNIDADE

P \ P 1 R 1·
••

~ F D 1T O H \

TI
Titulo ongmal em francês· Non-l1eux- lntroduct1on
a uno anthropolog10 de ta surmodomitó
O IÕdonons du Seuol, 1992

Tradução Mana Lucoa Pereira


Capa· Fernando Comacchoa
Copidesque · Mõnoca Saddy MarMs
Revisão·Ju1,ana Bõa

Dados Internacionais de Catal ogação na Publicação (CIP)


(CAmara Brasileira do Liv ro, SP, Brasil)
Augé, Marc
Nãe>-ligares . Introdução a uma antropologia da~
Marc Augé; tradução Maria Llicia Pereira. - Gamptnas, SP · Papirus.
t 994. - (Coleção Travessia do Sóculo)

B1bhografoa
ISBN 85-308-0291-8

t . Antropologia 2. Etn09ralia 3 Pesquisa an1ropológoca 1 Totulo.


li Sêne

94-2477 CDD-301.072
SUMÁRlO
Índices para catálogo sistemático:

1 Pesquisa antropológica 30t 072

PRÓLOGO 7
O PRÓXIMO E O DISTANTE 13
O LUGAR ANTROPOLÓGICO 43
DOS LUGARES AOS NÃO-LUGARES 71
EPÍLOGO 107
ALGUMAS REFERÊNCIAS 111

41 Edição
2004

Proibida a reprodução total ou parcial


da obra de acordo com a leo 9 610198.
Editora ahloada á Associação Brasileira
dos D1re1tos Reprogrâhcos (ABDRl

DIREITOS RESERVADOS PARA A LiNGUA PORTUGUESA.


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Fone/fax- (t 9) 3272-4500 - Campinas - São Paulo - Brasil
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TI
PRÓLOGO

Antes de pegar o seu carro, Pierre Dupont quis tirar dinheiro


no caixa eletrônico. A máquina aceitou seu cartão e a utorizou-o a
retirar 1.800 francos. Pierre Duponl digitou, então, as teclas que
compuseram 1.800. A máquina solicilou-lhe um minuto de paciên-
cia e depois liberou a quantia combinada lembrando-o de pegar o
cartão. "Obrigada e volte sempre", concluiu ela. enquanto Pierre
Dupont arrumava as notas na carteira.

O trajeto foi fácil : descer até Paris pela auto-estrada A 11 não


apresenta problemas numa manhã de domingo. Ele não teve que
esperar o acesso, pagou com cartão de crédito no pedágio de
Dourdan, contornou Paris pela marginal e chegou a Roissy pela A 1.

Estacionou no 2Q subsolo (ala J). guardou seu cartão de


estacionamento na carteira e depois dirigiu-se aos balcões de em-

TI 7
PRÓLOGO

Antes de pegar o seu carro, Pierre Dupont quis tirar dinheiro


no caixa eletrônico. A máquina aceitou seu cartão e a utorizou-o a
retirar 1.800 francos. Pierre Duponl digitou, então, as teclas que
compuseram 1.800. A máquina solicilou-lhe um minuto de paciên-
cia e depois liberou a quantia combinada lembrando-o de pegar o
cartão. "Obrigada e volte sempre", concluiu ela. enquanto Pierre
Dupont arrumava as notas na carteira.

O trajeto foi fácil : descer até Paris pela auto-estrada A 11 não


apresenta problemas numa manhã de domingo. Ele não teve que
esperar o acesso, pagou com cartão de crédito no pedágio de
Dourdan, contornou Paris pela marginal e chegou a Roissy pela A 1.

Estacionou no 2Q subsolo (ala J). guardou seu cartão de


estacionamento na carteira e depois dirigiu-se aos balcões de em-

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barque da Air France. Livrou-se com alívio de sua mala (20 quilos O embarque deu-se sem problemas. Os passageiros cujo
exatos). entregou a passagem à agente do tráfego, perguntando-lhe cartão de embarque tinha a letra Z foram convidados a se apresen-
se poderia ocupar um lugar de fumante no corredor. Sorridente e tar por último e ele assistiu, divertindo-se ligeiramente , aos leves e
em s ilênc io, ela concordou com um aceno de cabeça, após haver inúteis empurrões dos X e Y na saída da passarela de embarque.
verificado no computador, e depois lhe devolveu a passagem e o cartão Aguardando a decolagem e a distribuição dos jornais. folheou
de embarque. '"Portão de embarque B às 18 horas'", precisou ela. a revista da companhia aérea e imaginou, acompanhando-o com o
Ele se apresentou antecipadamente ao controle de polícia dedo, o possível itinerário da viagem: Heraklion, Larnaca. Beirute.
para fazer umas compras no duty:free . Comprou uma garrafa de Dharan. Dubai. Bombaim, Bangcoc - mais de 9.000 quilômetros
conhaque (uma lembrança da França para seus clientes asiáticos) e num piscar de olhos e alguns nomes dos quais se ouve falar de tempos
uma caixa de charutos (para seu próprio consumo). Tomou o em tempos na atualidade.
cuidado d e pôr a nota junto do cartão de crédito. Lançou um olhar na tarifa de bordo livre de impostos (duty-
Percorreu com o olhar. por um momento, as vitrines luxuosas jree price list). verificou que aceitavam cartões de crédito nos vôos
- jóias, roupas. perfumes -, parou na livraria , folheou a lgumas de longo curso. leu com satisfação as vantagens que apresentava a
revistas a ntes de escolher um livro fácil - viagem. aventura, espio- classe "executiva". da qual a generosidade inteligente de sua firma o
nagem - , e depois retomou sem impaciência seu passeio. fazia gozar ("No Charles de Gaulle 2 e cm Nova York, salões Le Club
permitem que você relaxe , telefone. mande um fax ou use um
Saboreava a impressão de liberdade que lhe davam. ao mesmo
mini l ei° ... Além de uma recepção personalizada e de atenção cons-
tempo, o fato de haver-se livrado da bagagem e, mais intimamente, a
tante, o novo assento Espaço 2000, que equipa os vôos de longo
certeza de não ter mais que aguardar a seqüência dos acontecimen-
curso. foi concebido mais amplo, com encosto e apoio para a cabeça
tos. agora que ele se "enquadrara", colocara no bolso o cartão de
reguláveis em separado ... "). Concedeu um pouco de atenção ao quadro
embarque e declinara sua identidade. "A nós dois, Roissy!" Hoje, não
de comando digital de seu assento Espaço 2000. depois mergulhou
é nos locais s uperpopulosos. onde se cruzam. ignorando-se, milha-
novamente nos anúncios da revista, admirando o perfil aerodinâmi-
res de itinerários individuais, que subsiste algo do encanto vago dos
co de alguns trens, algumas fotos dos grandes hotéis de uma cadeia
terrenos baldios e dos canteiros de obras. das estações e das salas de
internacional, apresentados de maneira meio pomposa como "os
espera. onde os passos se perdem. de todos os lugares de acaso e de
encontro. onde se pode sentir de maneira fugidia a possibilidade
mantida da aventura, o sentido de que só se tem que "deixar acontecer"? • O mlnite! é um serviço de microcomputador acoplado ao telefone que permite
o acesso a fontes de informações oficiais e particulares de todo tipo. (N.T.J

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lugares da civilização" (La Mammounia. em Marrakesh, "que fo1 Visa acabou de tranquilizá-lo ("Aceito em Dubai e onde quer que
palácio antes de ser palace"; o Metrópole, de Bruxelas, "onde os você viaje ... Viaje com confiança com seu cartão Visa").
esplendores do século XIX permaneceram bem vivos"). Depois. caiu Lançou um olhar distraído a algumas resenhas de livros e
num anúncio de um carro que tinha o mesmo nome que sua deteve-se. por um instante. por interesse profissional, naquela que
poltrona, Renault Espace: "Um dia, a necessidade de espaço se faz resumia uma obr a intitulada Euromarketing: "A homogeneização
sentir... Isto nos pega de surpresa. Depois. não nos larga mais. O das necessidades e dos comportamentos de consumo faz parle das
irresistível desejo de ter um espaço para si. Um espaço móvel que fortes tendências que caracterizam o novo ambiente internacional
nos leve para longe. Teríamos ludo à mão e não nos faltaria nada ..... da empresa ... Com base no exame da incidência do fenômeno de
Como no avião. cm suma. "O espaço já está cm você ... Nunca se globalização sobre a empresa européia, sobre a validade e o conteúdo
esteve tão em terra quanto no Espaço". concluía agradavelmente o de um euromarketing e sobre as evoluções previsíveis do ambiente
anúncio. do marketing internacional. inúmeras questões são debatidas." A
Eles já estavam decolando. Folheou mais rapidamente o resto resenha evocava. para terminar. "as condições propícias ao dcsenvol·
da revista. concedendo alguns segundos a um artigo sobre "o hipo· vimenlo de um mix o mais estandardizado possível" e "a arquitetura
pótamo. senhor do rio" que começava por urna evocação da África de urna comw1icação européia".
"berço das lendas" e "continente da magia e dos sortilégios". deu Meio pensativo, Pierre Dupont guardou a revista. O aviso
uma olhada numa reportagem sobre Bolonha ("Em toda parte. ··Fasten seat belt" estava aceso. Ajustou seus fones de ouvido.
pode-se ficar apaixonado. mas em Bolonha fica-se apaixonado pela s intonizou o canal 5 e deixou-se invadir pelo adágio do concerto n 2 l
cidade") . Um anúncio em inglês de um videomovie japonês releve em dó maior de Joseph Haydn. Durante algumas horas (o tempo de
por um instante a sua atenção ("Vivid colors. vibrant sound and sobrevoar o Mediterrâneo. o mar da Arábia e o golfo de Bengala). ele
non-slop action. Make them yours jorever") pelo brilho de suas estaria. enfim, só.
cores. Um r efrão de Trenet vinha-lhe com freqüência à mente desde
que, no meio da tarde, ele o o uvira no rádio, na estrada. e disse para
si mesmo que sua a lusão à "pholo. vieille pholo de majeunesse"
logo não faria mais sentido para as gerações futuras. As cores do
presente para sempre: a câmera congeladora. Um anúncio do cartão

• "F'oto. velha foto da m1nhajuventude". (N.T.)

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TI
O PRÓXIMO E O DISTANTE

Fala-se cada vez mais em antropologia do próximo. Um coló-


quio realizado cm 1987 no Museu das Artes e Tradições Populares
("Antropologia social e etnologia da França"), cujas atas foram publi-
cadas em 1989 com o título dei; Autre et le semblable. notava uma
convergência de interesses dos etnólogos de lugares mais distantes
e daqui. O colóquio e a obra situam-se explicitamente na seqüência
das reílexõcs iniciadas no colóquio de Toulouse em 1982 ("Novos
can1inhos da etnologia da França") e em algumas obras ou números
especiais de revistas.

Isso posto, não fica evidente que, como acontece muitas vezes.
a ocorrência feita de novos interesses. de novos campos de pesquisa
e de convergências inéditas não se baseie, por w11 lado. em certos
mal-entendidos. ou não os provoque. Algumas reflexões prévias sobre
a antropologia do próximo podem ser úteis para a clareza do debate.

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TI
A antropologia sempre foi wna antropologia do aqui e do agora rânco do acontecido que relata, mas o etnólogo é contemporâneo da

O etnólogo em exercício é aquele que se encontra em algum lugar enunciação e do enunciante. A palavra do informante vale tanto para

(seu aqui do momento) e que descreve aquilo que observa ou escuta o presente quanto para o passado. O antropólogo que tem e que deve

naquele momento mesmo. Sempre se poderá questionar. em segui- ter interesses históricos não é, nem por isso. serie/o sen.su, um

da, a qualidade da sua observação e as intenções, os preconceitos ou historiador. Essa observação visa apenas precisar os procedimentos

os outros fatores que condicionam a produção de seu texto: o fato é e os objetos: é evidente que os trabalhos de historiadores como

que toda etnologia supõe um testemunho direto de uma atualidade Ginzburg. Le Goff ou Leroy-Ladurie são do mais elevado interesse

presente . O antropólogo teórico , que apela a outros testemunhos e para os antropólogos. mas são trabalhos de historiadores: têm

a outros campos que não os seus, recorre a testemunhos de etnólogos. relação com o passado e passam pelo estudo de documentos.

não a fontes indiretas que se esforçaria em interpretar. Mesmo o arm Aí está o "agora". Vamos ao "aqui". É claro que o aqui europeu .
chair anthropologisl que somos todos. por momentos. distingue-se ocidental , assume todo o seu sentido em relação ao distante. antes
do historiador que explora um docwnento. Os fatos que buscamos ..colonial", hoje "subdesenvolvido", que as antropologias britânica e
nosjiles de Murdock foram bem ou mal observados, mas o foram . francesa privilegiaram. Porém, a oposição do aqui e do distante (um
e em função de itens (regras de aliança, de filiação. de herança) que modo de grande divisão - Europa. resto do mundo - que lembra
são também aqueles da antropologia "de segundo grau". Tudo o que as partidas de futebol organizadas pela Inglaterra , no tempo em que
afasta da observação direta do campo afasta, também. da antropo- ela possuía um grande futebol: Inglaterra/resto do mundo) só pode
logia, e os historiadores que têm interesses antropológicos não servir de ponto de partida à oposição das duas antropologias
fazem antropologia. A expressão "antropologia histórica" é. pressupondo o que está precisamente em questão: a saber. que se
no mínimo. ambígua. A expressão "história antropológica" parece trata de duas antropologias dis tintas.
mais adequada. Um exemplo simétrico e inverso poderia ser encon- A afirmação segundo a qual os etnólogos tendem a inclinar-se
trado no recurso obrigatório que os antropólogos, os africanistas.
sobre a Europa por causa do fechamento dos campos distantes é
por exemplo, fazem à história. tal como. notadamente, ela se fixou
contestável. Em primeiro lugar, existem possibilidades muito reais
na tradição oral. Todo mundo conhece a fórmula d~ Hampaté Ba
de trabalho na África. na América, na Ásia ... Em segundo lugar, as
segundo a qual. na África, um velho que morre é "uma biblioteca
razões de trabalhar sobre a Europa. em antropologia, são razões
que se queima": porém, o informante, velho ou não, é alguém
positivas. Não se trata, cm caso algum, de uma antropologia por
com quem se discute e que fala menos do passado que daquilo
falta. E o exame dessas razões positivas é que pode nos levar
que ele sabe ou pensa do passado. Ele não é um contempo-
precisamente a questionar a oposição Europa/lugares distantes.

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T
subjacenle a algumas definições mais modernislas da elnologia contemporâneo são passíveis de um olhar antropológico? Em pri-
europeanisla. meiro lugar. essa questão não se coloca unicamente. longe disso, a
Por trás da questão da etnologia do próximo, projeta-se. na propósito da Europa. Quem tiver uma certa experiência em África,
verdade. uma dupla queslão. A primeira é saber se, cm seu estado por exemplo, sabe bem que toda abordagem antropológica global,
atual, a etnologia da Europa pode pretender o mesmo grau de aí, deve levar em consideração uma enorme quantidade de elemen-

sofisticação, complexidade, conceitualização que a etnologia das so- tos em interação, induzidos pela atualidade imediata, mesmo que
ciedades distanles. A resposla a essa pergunla geralmente é eles não se deixem dividir em "tradicionais" e "modernos". Mas
afirmaliva. ao menos por parte dos elnólogos europcanistas e den- também se sabe que todas as formas institucionais pelas quais é

tro de uma perspectiva de futuro. Assim, Martine Scgalen pode se preciso passar, hoje. para apreender a vida social (o trabalho assa-
congratular. na compilação anteriormente cilada, de que dois elnó- lariado, a empresa, o esporte-espetáculo. a mídia ... ) representan1,
logos do parentesco, havendo trabalhado numa mesma região em todos os continentes. um papel cada dia mais importante. Em
européia, possam doravante discutir entre si "como os especialistas segundo lugar. ela desloca completan1ente a questão inicial: não é a
de determinada etnia africana", e Anthony P. Cohen ressalta que os Europa que está em questão, mas a contemporaneidade como tal ,
trabalhos sobre parentesco conduzidos por Robin Fax na ilha de sob os aspectos mais agressivos ou mais desarmônicos da atualida-
Tory e por Marilyn Strathern em Elmdon manifestam , por um lado, de mais atual.
o papel central do parentesco e das estratégias que ele permite pôr É essencial. então, não confundir a questão do método com a
em ação em "nossas" sociedades e, por outro lado, a pluralidade das do objeto. Já se disse com freqüência (o próprio Lévl-Strauss. por
culturas que coexistem num país como a atual Grã-Bi-etanha. várias vezes) que o mundo moderno se prestava à observação etno-
Assim colocada, devemos confessar que a questão é descon- lógica. por menos que estivéssemos em condições de, nele, isolar
certante: em última instância. seria preciso questionar-se seja sobre unidades de observação controláveis por nossos métodos de investi-
um insalisfatório poder de simbolização das sociedades européias, gação. E é conhecida a importância que Gérard A!Ulabe (que, na
seja sobre uma insatlsfatória aptidão dos etnólogos europeanistas época. sem dúvida. não sabia que estava abrindo caminho para a
para analisar. reflexão de nossos polílicos) atribuiu aos vãos de escada, à vida da
escada. nos grandes conjuntos de Saint-Denis e da periferia de Nantes.
A segunda questão tem um alcance totalmente diferente: os
fatos. as instituições. os modos de reagrupamento (de trabalho, de Que a investigação etnológica tenha seus embaraços, que
lazer, de residência), os modos de circulação específicos do mundo também são seus trunfos, e que o etnólogo tenha necessidade de
circunscrever, aproximadamente. os limites de um grupo que ele

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conhecera e que o reconhecerá. é uma evidência que não escapa primeiros -. que os historiadores da micro-história encontram
àqueles que foram a campo. Mas ela tem vários aspectos. O aspecto uma preocupação de etnólogo quando são obrigados a se questionar.
do método, a necessidade de um contato efetivo com interlocutores são também eles. sobre a representatividade dos casos que analisam - a
uma coisa. A representatividade do grupo escolhido é outra: trata-se. vida de um moleiro do Frioul no século XV. por exemplo-. mas que
na verdade, de saber o que aqueles a quem falamos e vemos nos são obrigados. para garantir a representatividade dos casos que analisam.
dizem daqueles a quem não falamos e não vemos. A atividade do a recorrer às noções de ''pistas". de "indícios" ou de excepcionalidade
etnólogo de campo é. des de o inírio. uma atividade de agrin1ensor exemplar. enquanto o etnólogo de campo. se for consciencioso, sempre
do social. de manipulador d e escalas. ele comparatista. em resumo: tem meios de ir ver wn pouco mais longe se o que ele pensou poder
ele confecciona um universo significativo, caso seja necessário, ex- observar no início continua a ser válido ali. Essa é a vantagem de
plorando. por investigações rápidas, universos intermediários. ou trabalhar sobre o presente - modesta compensação para a vantagem
consultando, como historiador. os documentos utilizáveis. Tenta. essencial que os historiadores sempre têm: eles conhecem o que vem
por si mesmo e pelos outros, saber do que pode pretender falar em seguida.
quando fala daqueles a quem falou. Nada permite afirmar que esse A segunda observação diz respeito ao objeto da antropologia.
problema de objeto empírico real, de representatividade. coloque-se mas. desta vez, a seu objeto intelectual. ou. se preferirem. à capacidade
de modo diferente num grande reino africano e numa empresa da de generalização do etnólogo. É evidente que há uma distância consi-
periferia de Paris. derável entre a observação minuciosa desta ou daquela metade da
Duas observações podem ser feitas aqui. A pnmcira diz res- aldeia ou a coleta de um certo número de mitos em uma determinada
peito à história e a segw1da à antropologia. Ambas se referem à população e a elaboração da teoria das "estruturas elementares do
preocupação do etnólogo em situar o objeto empírico da s ua pesqui- parentesco" ou dos ··mitológicos". Não é só o estruturalismo que está
sa, em avaliar s ua representatividade qualitativa - pois, aqui, não em questão aqui. Todas as grandes empreitadas antropológicas
se trata, a bem dizer. de selecionar amostragens estatisticamente tenderam, no mínimo, a elaborar um certo número de hipóteses
representativas. mas de estabelecer se o que vale para uma linha- gerais que, com certeza. podiam encontrar s ua inspiração inicial na
gem vale para outra. se o que vale para uma aldeia. vale para outras exploração de um caso singular, mas que diziam respeito à elabo-
aldeias ... : os problemas de dellnição de noções como as de "tribo·· ração de configurações problemáticas que excedem largamente
ou "etnia" situan1-se nessa perspectiva. A preocupação dos etnólo- esse único caso - teorias da feitiçaria. da a liança matrimonial. do
gos os aproxima e os distingue, ao mes mo tempo, dos historiadores poder ou das relações de produçã o.
da micro-história: digamos, antes - para respeitar a anterioridade dos

19
18
Sem nos pronunciarmos, aqui, sobre a validade desses esfor- Essa precedência do objeto pode levantar dúvidas quanto à
ços de generalização. extrairemos o argumento de sua existência legitimidade da antropologia da contemporaneidade próxima. Louis
como parte consUtulnte da literatura etnológica, para observar que Dumont. em seu prefácio à reedição de La Tarasque, observava,
o argumento da grandeza, quando evocado a propósito das socieda- numa passagem que Martine Segalen cita em sua introdução a
des não-exóticas. diz respeito apenas a um aspecto particular da J;autre et Le semblable. que o ··deslocamento dos centros de Interes-
Investigação, ao método, portanto, e não ao objeto: nem ao objeto se" e a mudança das "problemáticas" (o que chamaremos. aqui. de
empírico nem, ajortiori, ao objeto intelectual, teórico, que supõe mudanças de objetos empíricos e intelectuais) impedem nossas
não só a generalização, mas a comparação. disciplinas de serem simplesmente cumulativas "e podem mesmo

A questão do método não poderia ser confundida com a do chegar a minar sua continuidade··. Como exemplo de mudança de

objeto, pois o objeto da antropologia nunca foi a descrição exaustiva, centros de interesse. ele evoca. mais particularmente, por oposição

por exemplo, de um bairro de uma cidadezinha ou de uma aldeia. ao estudo da tradição popular, a "apreensão simultaneamente mais

Quando foram feitas monografias desse tipo. elas eram apresenta- ampla e mais diferenciada da vida social na França. que não mais

das como uma contribuição a um inventário ainda incompleto e, na separa. absolutamente, o não-moderno do moderno, como, por

maioria das vezes, esboçavam, pelo menos no plano empírico, exemplo, o artesanato da indústria··.
generalizações, mais ou menos escoradas em pesquisas, no conjun- Não estou certo de que a continuidade de uma disciplina seja
to de um grupo étnico. A questão que se coloca. primeiro. a comparável àquela de seus objetos. Tal afirmação seria certamente
propósito da contemporaneidade próxima não é saber se e como se duvidosa se aplicada às ciências da vida. sobre as quais não tenho
pode pesquisar num grande conjunto, numa empresa ou numa certeza de que sejam cumulativas no sentido implicado pela frase
colônia de férias (bem ou mal , chegar-se-á a isso). mas saber se há de Dumont: são novos objetos de pesquisa que a pesquisa faz surgir
aspectos da vida social contemporânea que aparecem hoje como se quando é concluída. E ela me parece ainda mais contestável. a
originando de uma lnvesUgação antropológica - da mesma maneira propósito das ciências da vida social. porque é sempre da vida social
que as questões do parentesco, da aliança, do dote, da troca etc. que se trata quando mudam os modos de agrupamento e de hierar-
impuseram-se, primeiro, à atenção (como objetos Intelectuais) dos quização, e porque se propõem, assim, à atenção do pesquisador,
antropólogos do distante. Convém evocar. a esse propósito. com novos objetos , que têm em comum com aqueles que descobre o
relação às preocupações (sem dúvida legítimas) de método, 0 que pesquisador. em ciências da vida, não suprimir aqueles sobre os
chamaremos de a precedência do objeto. quais ele trabalhava inicialmente. mas sim complicá-los. Isso posto,
a inquietação de Louis Dumont encontra eco naqueles que se

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-
interessa à antropologia. é também porque toda representação do cuja interpretação devem ser integrados. como observa Lévi-Strauss
indivíduo é, necessariamente. uma representação do vínculo social em sua "Introdução à obra de Marcel Mauss", não só o conjunto dos
que lhe é consubstancial. Por isso mesmo. somos devedores da anlro- aspectos desconlínuos sob qualquer dos quais (familiar, técnico,
pologia das sociedades distantes. e ma1s ainda daqueles que ela econômico) poder-se-ia ficar tentado a apreendê-lo exclusivamente,
estudou. por esta descoberta: o social começa com o indivíduo; o mas ainda a visão que tem ou pode ter dele qualquer indígena que
indivíduo depende do olhar etnológico. O concreto da antropologia está 0 vive. A experiência do fato social total é duplamente concreta (e
no extremo oposto do concreto defm.ido por certas escolas sociológicas duplamente completa): experiência de uma sociedade precisamente
como apreensível nas ordens de grandeza das quais são eliminadas as localizada no tempo e no espaço, mas também de um indivíduo
variáveis individuais.
qualquer dessa sociedade. Só que esse indivíduo não é qualquer
Marcel Mauss, discutindo relações entre psicologia e sociolo- um: ele se identifica com a sociedade da qual ele não passa de uma
gia, apontava. todavia. séria '; limitações à definição da expressão, c é significativo que, para dar uma idéia do que entende
individualidade sob a jurisdição do olhar etnológico. Numa passa- por um indivíduo qualquer, Mauss tenha recorrido ao artigo definido,
gem curiosa. ele afirma. na verdade, que o homem estudado pelos evocando. por exemplo. "o melanésio desta ou daquela ilha''. O texto
sociólogos não é o homem dividido. controlado e dominado da elite citado anteriormente nos esclarece sobre esse ponto. O mclanésio
moderna, mas o homem comum ou arcaico, que se deixa definir não é total somente porque o apreendemos em suas diversas dimen-
como uma totalidade: "O homem médio de nossos dias - isto é sões individuais. "física, fisiológica . psíquica e sociológica", mas
verdade sobretudo para as mulheres-. e quase todos os homens porque essa é uma individualidade de síntese, expressão de uma
das sociedades arcaicas ou atrasadas, é um total: ele é afetado cm cultura, ela própria, considerada como um todo.
todo o seu ser pela menor de suas percepções ou pelo menor choque Haveria muito a dizer (e não dissemos pouca coisa aqui e
mental. O estudo desta "'totalidade'' é capital. por conseguinte, para a colá) sobre essa concepção da cultura e da individualidade. Que.
tudo o que não diz respeito à elite de nossas sociedades modernas" sob certos aspectos e cm certos contextos, cultura e Individualidade
(p. 306). Porém, a idéia de totalidade, que tem grande Importância possam definir-se como expressões recíprocas, é uma trivialidade.
aos olhos de Mauss, para quem o concreto é o completo, limita e , seja como for, um lugar comum. do qual nos servimos, por exemplo,
num certo sentido, mutila aquela individualidade. Para ser mais para dizer deste ou daquele que é mesmo um bretão. um inglês ou
exato, a individualidade na qual ele pensa é wna individualidade um alemão. Também não nos surpreende que as reações das
representativa da cultura, uma individualidade padrão. Temos uma individualidades pretensamente livres possam ser apreendidas e
confirmação disso na análise que ele faz do fenômeno social total, a mesmo previstas , com base em amostragens estatisticamente

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significativas. Simplesmente. aprendemos paralelamente a duvidar antropológica. ela tem por objeto interpretar a interpretação que
das identidades absolutas, simples e substanciais , tanto no plano outros se fazem da categoria do outro, nos diferentes níveis que
coletivo quanto no individual. As culturas "comportam-se" como a s ituam o lugar dele e impõem s ua necessidade: a etnia, a tribo. a

madeira verde e jamais constituem totalidades acabadas (por razões aldeia, a linhagem o u qualquer outro modo de agrupan1ento até o

extrÚ1secas e intrínsecas): e os indivíduos, tão simples quanto os átomo elem entar de parentesco, do qual se sabe que submete a

imaginamos, nunca o são o suficiente para não se situar em r elação identidade da filiação à necessidade da aliança: o indivíduo. enfim.

à ordem que lhes atribui um lugar: só exprimem sua totalidade de que todos os sistemas rituais definem como compósito e che io de

um certo ângulo. Além disso, o caráter problemático de toda ordem alteridade, figura literalmente impensável. como o são. em modali-

estabelecida talvez nunca se manifestasse como tal - nas guerras. dades opostas, a do rei e a do feiticeiro.

revoltas, conflitos. tensões - sem o empurrãozinho inicial de uma A segunda ocorrência diz respeito não mais à antropologia.
iniciativa individual. Nem a cultura localizada no tempo e no espaço. mas ao mundo onde ela descobre seus objetos e, mais particular-
nem os indivíduos nos quais ela se encarna definem um nível de mente, ao mundo contemporâneo. Não é a antropologia que.
identiHcação básico aquém do qual nenhuma alteridade seria pensá- cansada de campos exóticos, volta -se para horizontes mais familia-
vel. É bom que se entenda que o "trabalho" da cultura em suas res. sob pena de neles perder sua continuidade. como teme Louis
margens, ou as estratégias individuais no interior dos sistemas Dumont, mas o próprio mundo contemporâneo que, por causa de
instituídos não devem ser levados em consideração na definição de suas transformações aceleradas, chama o olhar antropológico. isto
certos objetos (intelectuais) de pesquisa. Sobre esse ponto. as discus- é, uma reflexão renovada e metódica sobre a categoria da alteridadc .
sões e polêmicas às vezes padeceram de má-fé ou de miopia: Daremos uma atenção particular a três dessas transformações.
observemos simplesmente, por exemplo, que o fato de uma regra A primeira diz respeito ao tempo. à nossa percepção do
ser ou não respeitada, de ela poder ser eventualmente contornada tempo, mas também ao uso que fazemos dele, à maneira como
ou transgredida, nada tem a ver com levar em consideração todas dispomos dele. Para alguns intelectuais, o tempo não é mais. hoje.
as suas implicações lógicas, as quais constituem mesmo um verda- um princípio de inteligibilidade. A idéia de progresso, que implicava
deiro objeto de pesquisas. Em contrapartida. existem outros objetos que o depois pudesse ser explicado em função do antes, encalhou.
de pesquisa que levam em consideração processos de transforma- de certo modo. nos recifes do século XX. ao sair das esperanças ou
ção ou de mudança, distanciamentos, iniciativas ou transgressões. das ilusões que acompanharan1 a travessia do mar aberto no século
Basta saber do que se está falando e basta-nos, aqui, consta- XIX. Esse questionamento, a bem dizer, refere-se a várias ocorrên-
tar que. qualquer que seja o nível ao qual se aplica a pesquisa cias distintas entre si: as atrocidades das guerras mundiais. dos

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totalitarismos e das políticas de genocídio, que não atestam - e isso
primeiro volume dos Lieux de m ém oíre: o que estamos buscando
é o mínimo que se pode dizer - um progresso mora l da humanida-
na acumulação religiosa de testemunhos, documentos, imagens, d e
d e; o fim d as grandes nar ra tivas. dos grandes s istem as de
todos os "sinais visíveis daquilo que foi'', diz ele, em suma. é nossa
interpretação que pretendiam dar conta da evolução d e conjunto d a
diferença. e "no espetáculo dessa diferença o brilho súbito de uma
humanidade, e que não o conseguiram. assim como se extraviavam
identidade inencontrável. Não mais uma gênese, mas o deciframen-
ou se apagavam os sistemas políticos que se inspiravam oficialmente
to de que estan10s à luz do que não somos mais ."
em alguns deles: no total, ou além, urna dúvida sobre a his tória
Essa ocorrência de conjunto também corresponde ao desapa-
como portad ora de sentido, dúvida renovada. poder-se-ia dizer, pois
recimento das referências sartria na e m a rxista do imediato
ela lembra estranhamente aquela na qual Paul l lazard pen sava
pós-guerra. para as qua is o universal era. no final das contas e da
poder descobrir, na junção dos séculos XVII e XVIII, a mola da
análise, a verdade do particular, e ao que poderíamos chamar, após
polêmica entre Antigos e Modernos e da crise da consciência euro-
muitas outras. a sensibilidade pós-moderna, para a qual uma moda
p éia. Porém. se Fontenelle duvidava d a história, s ua dúvida
vale a outra. o patchwork das modas significando a anulação da
r eferia-se essencialmente a seu método (anedótico e pouco seguro).
modernidade como conclu são de uma evolução que se aparentaria a
a seu objeto (o passado só nos fala da loucura dos hom ens) e a s ua
1m1 progresso.
utilidad e (ens ina r aos jovens a época n a qual eles são cha mados a
viver). Se os historiadores. na França, principalmente, duvidam hoje Esse tema é inesgotável, mas pode-se encerrar de outro ponto
da história, não é por razões técnicas ou razões de método (a de vista a questão do tempo. com base na ocorrência banalíssima que
história com o ciência fez progressos). mas porque, ma is funda.men- podemos ser diariamente levados a estabelecer : a história se acelera.
talm ente, eles sentem grandes dificuldades não só em fazer do Apenas temos o tempo de envelhecer um pouco e nosso passado já
tempo um princípio de inteligibilidade, como, mais ainda. em inse- vira história, nossa história individual pertence à história. As pessoas
rir aí um princípio de identidade. da minha idade conheceram , na infância e na a dolescência, a espécie
de nostalgia silenciosa dos ex-combatentes d e 14-1 8: ela parecia
Aliás, vêmo-los privilegiar certos grandes temas ditos "antro-
dizer-nos que eles haviam vivido a his tória (e que his tória!), e que nós
pológicos" (a família , a vida privada. os lugares de memória). Essas
nunca compreenderíamos realmente o que isso queria dizer. 1Ioje. os
pesquisas vão ao encontro do gosto do público por formas antigas,
anos recentes, os 60. os 70, e logo mais os 80. retornam à história
com o se estas falassem a nossos contemporâneos do que eles são,
tão depressa quanto sobrevieram dela. Estamos com a história em
mostrando-lhes o que eles não são mais. Desse ponto de vista.
nossos calcanhares. Ela nos segue como nossa sombra. como a
ninguém se expressa melhor que Pierre Nora, em seu prefácio ao
morte. A história: isto é, uma série de acontecimen tos reconhecidos

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e. depois de feito. pensável. Estaríamos completamente equ ivocados
como acontecimentos por muitos (os BeaUes. 68. a guerra da Argélia.
ao limitar esta análise apenas ao caso da Revolução.
o Vietnã. 81. a queda do muro de Berlim. a democratização dos países
do leste, a guerra do Golfo, a decomposição da URSS). acontecimen- A "aceleração" da história corresponde de fato a uma multi-
tos que podemos pensar que importarão aos olhos dos historiadores plicação de acontecimentos na maioria das vezes não previstos
de amanhã ou de depois de amanhã e aos quais cada um de nós. por pelos economistas. historiadores ou sociólogos. A superabundância
mais consciente que seja de nada representar nesse caso. como factual é que constitui problema. e não tanto os horrores do século
Fabrício em Waterloo.• pode vincular algumas circunstâncias ou XX (inéditos por sua amplitude. m as possibilitados pela tecnologia).
imagens particulares. como se fosse a cada dia menos verdadeiro que nem a mudança dos esquemas intelectuais ou as agitações políticas.
os homens. que fazem a história (pois. senão. quem mais?), não dos quais a história nos oferece muitos outros exemplos. Essa
sabem que a fazem. Não é essa própria superabundância (num superabundância, que só pode ser plenamente apreciada levando-
planeta cada dia menor. e voltarei a isso) que constitui problema para se em conta, por um lado, a superabundância da nossa informação.
o historiador contemporaneísta? e. por outro. as interdependências inéditas do que alguns chamam
hoje de "sistema-mundo". traz incontestavelmente um problema
Precisemos esse ponto. O acontecimento sempre constituiu
para os historiadores. principalmente os contemporâneos - denomi-
um problema para aqueles historiadores que pretendiam mcrgulhá-
nação da qual a densidade factual das últin1as décadas ameaça
lo no grande movimento d a história e concebiam-no como um puro
suprimir todo e qualquer significado. Mas esse problema é precisa-
pleonasmo entre um antes e um depois concebido como um desen-
volvimento desse antes. Esse é. para além das polêmicas. o sentido mente de natureza antropológica.

da análise que François F\Jret propõe sobre a Revolução. aconteci- Ouçamos F\Jret definir a dinân1ica da Revolução como aconte-
mento por excelência. Que nos diz ele em Penser la révolution? Que. cimento. É uma dinâmica. diz-nos ele, "que poderemos chamar de
a partir do dia cm que explode a Revolução. o acontecimento política. ideológica ou cultural. para dizer que seu poder multiplica-
revolucionário "institui uma nova modalidade de ação his tórica. que do de mobilização dos homens e de ação sobre as coisas passa por
não está inserida no inventário desta situação". O acontecimento um superinvestimento de sentido" (p. 39). Esse superinvestimento de
revolucionário (mas a Revolução é. nesse senlldo. exemplarmente sentido, exemplarmente passível do olhar antropológico. é também
factual l não é redutível à soma dos fatores que o tornaram possível aquele que comprovam. às custas de contradições cujo desdobra-
mento ainda não acabamos de observar. inúmeros acontecimentos
contemporâneos; certamente, quando desabam, num piscar de olhos.
• Referência a F'abnclo Dei Dongo. personagem de A cartuxa de Parma dt>
Stendhal. (N T J regimes cuja queda ninguém ousava prever: mas também. e talvez

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-
mais ainda. por ocasião das crises latentes que afetam a vida política, pós-modernidade só nos apresenta o lado "coroa" - o positivo de
social, econômica dos países liberais, e dos quais nos acostumamos um negativo. Do ponto de vista da supermodernidade, a dificuldade
insensivelmente a falar em lermos de sentido. o que é novo não é que de pensar o tempo tem a ver com a superabundância factual do
o mundo não tenha ou lenha pouco ou menos sentido, é que mundo contemporâneo. não com a derrocada de uma idéia de
sentíamos explícita e intensamente a necessidade diária de dar-lhe progresso há muito tempo em mau estado. pelo menos sob as formas
um: de dar um sentido ao mundo. não a determinada aldeia ou a caricaturais que tornam sua denúncia particularmente facilitada: o
determinada linhagem. Essa necessidade de dar um sentido ao tema da história iminente, da história nos nossos calcanhares
presente, senão ao passado, é o resgate da superabundância factual (quase imanente a cada uma de nossas existências cotidianas) apa-
que corresponde a uma situação que poderíamos dizer de "supermo- rece como urna prévia àquele do sentido ou do não-sentido da
dernidade" para dar conta de sua modalidade essencial: o excesso. história: pois é da nossa exigência de compreender todo o presente
Cada um de nós tem, ou pensa ter. o emprego desse tempo que decorre nossa dificuldade de dar um sentido ao passado próxi-
sobrecarregado de acontecimentos que atravancam tanto 0 presente mo: a demanda positiva de sentido (da qual o ideal democrático é.
quanto o passado próximo. O que, observemos. só pode tornar-nos sem dúvida. um aspecto essencial). que se manifesta entre os
ainda mais solicitantes de sentido. Prolongamento da esperança de indivíduos das sociedades contemporâneas, pode explicar parado-
vida, passagem para a coexistência habitual de quatro e não mais xalmente os fenômenos que. às vezes, são interpretados como sinais
de Lrês gerações provocam progressivamente mudanças práticas na de uma crise do sentido, por exemplo, as decepções de todos os
ordem da vida social. Porém, paralelan1enle, eles estendem a me- desiludidos da terra: desiludidos do socialismo. desiludidos do
mória coletiva, genealógica e histórica, e multiplicam para cada liberalismo e. logo mais. desiludidos do pós-comunismo.
indivíduo as ocasiões em que pode ter a sensação de que sua A segunda transformação acelerada. própria do mundo con-
história cruza a I listória e que esta se refere àquela. Suas exigências temporâneo, e a segunda figura do excesso. característico da
e decepções estão liga das ao reforço dessa sensação. supermodernidade. referem-se ao espaço. Do excesso de espaço
É, portanto , por uma figura do excesso - o excesso de poderíamos dizer. primeiro, ainda aí melo paradoxalmente, que é
tempo - que se definirá, primeiro, a situação de supermoderni- correlativo do encolhimento do planeta: dessa colocação à distância
dade , sugerindo que, pelo próprio fato de suas contradições, ela de nós mesmos à qual correspondem as performances dos cosmo-
oferece um magnífico campo de observação e. no sentido lato do nautas e a ronda de nossos satélites. Num certo sentido. nossos
termo. um objeto para a pesquisa antropológica. Da supermoderni- primeiros passos no espaço reduzem o nosso a um ponto ínfrmo
dade, poder-se-ia dizer que é o lado "cara" de uma moeda da qual a cujas fotos feitas por satélite dão-nos justamente a medida exala. O

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mundo, porém, no mesmo tempo, abre-se para nós. Estamos na era Moscou, o Eliseu, 1Wickenhan1, os Pireneus ou o deserto da Arábia:
das mudanças de escala. no que diz respeito à conquisla espacial, é mesmo que não as conheçamos, nós as reconhecemos.
claro, mas também em lerra: os meios de transporte rápidos põem Essa superabundância espacial funciona como uma isca, mas
qualquer capital no máximo a algumas horas de qualquer outra. Na uma Isca cujo manipulador teríamos dificuldade em identificar
intimidade .de nossas casas. enfim, imagens de loda espécie, transmi- (tudo não passa de uma miragem). Ela constitui, para uma larguís-
tidas por satélites, captadas pelas antenas que guarnecem os sima faixa, um substituto dos universos que a etnologia
telhados da mais afastada de nossas cidadezinhas, podem dar-nos transformou tradicionalmente em seus. Desses universos, eles mes-
uma visão instantânea e, às vezes. simu ltânea de um acontecimento mos amplamente fictícios. poder-se-ia dizer que são essencialmente
em vias de se produzir no outro extremo do planeta. Pressentimos. é universos de reconhecimento. É próprio dos universos simbólicos
claro. os efeitos perversos ou as distorções possíveis de uma informação constituir para os homens que os receberam por herança mais um
cujas imagens são assim selecionadas: elas não só podem ser, como melo de reconhecimento do que de conhecimento: universo fechado.
se diz, manipuladas. como a imagem (que não passa de uma entre onde tudo se constitui em signo. conjunlos de códigos dos quais
milhares de oulras possíveis) exerce uma iníluência. possui um alguns têm a chave e o uso, mas cuja existência todos admitem.
poder que excede de longe a informação objetiva da qual ela é totalidades parcialmente fictícias, porém efetivas. cosmologias que
portadora. Além disso. é preciso constatar que se misturam diaria- poderíamos pensar concebidas para fazer a felicidade dos etnólo-
mente nas telas do planeta as imagens da informação. da gos. Porque as fantasias dos etnólogos encontram, nesse ponto. as
publicidade e da ficção, cujo tnbalho e cuja fmalidade não são dos indígenas que eles estudam. A etnologia preocupou-se durante
idênticos, pelo menos em princípio, mas que compõem, debaixo de mui lo lempo em decupar, no mundo, espaços significantes, socieda-
nossos olhos, um universo relativamente homogêneo em sua diver- des identificadas com culturas concebidas. elas próprias. como
sidade. Existe algo mais realista e, num certo sentido, mais totalidades plenas: universos de sentido cm cujo interior os Indiví-
informativo, sobre a vida nos Estados Unidos do que uma boa série duos e os grupos que não passam de uma expressão deles se definem
americana? Também seria preciso levar em consideração a espécie em relação aos mesmos critérios, aos mesmos valores e aos mesmos
de falsa familiaridade que a tclinha estabelece entre os telespectado- processos de interpretação.
res e os atores da grande história, cuja silhueta nos é tão habitual
Não voltaremos a uma concepção da cultura e da individuali-
quanto aquela dos heróis das novelas ou das estrelas internacionais
dade já criticada anteriormente. Basta dizer que essa concepção
da vida artística ou esportiva. Eles são como as paisagens onde os
ideológica reflete tanto a ideologia dos etnólogos quanto a daqueles
vemos evoluir regularmente: o Texas, a Califórnia, Washington.
que eles estudam. e que a experiência do mundo supermoderno pode

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ajudar os eu1ólogos a se desfazerem dela, ou. mais exatamente. a amplifica-se o clamor dos particularismos; daqueles que querem
calcular seu alcance. Porque ela se baseia. entre outras. numa ficar sozinhos em casa ou daqueles que querem reencontrar uma
organização de espaço que o espaço da modernidade ultrapassa e pátria, como se o conservadorismo de w1s e o messianismo dos
relativiza. Ainda aí, é preciso que nos entendamos: assim como a outros estivessem condenados a falar a mesma linguagem - a da
inteligência do tempo, parece-nos , é mais complicada pela supera- terra e das raízes.
bundância factual do presente do que minada por uma subversão Poder-se-ia pensar que o deslocamento dos parâmetros espa-
radical dos modos prevalentes da interpretação histórica. assim ciais (a superabundância espacial) traz ao etnólogo dificuldades da
também a inteligência do espaço é menos subvertida pelas agitações mesma ordem que aquelas encontradas pelos historiadores diante
em curso (pois ainda existem terras e territórios, na realidade dos da superabundância factual. Trata-se de dificuldades da mesma
fatos de campo e. mais ainda, naquela das consciências e das ordem, na verdade, porém, para a pesquisa antropológica, particular-
imaginações. individuais e coletivos) do que complicada pela supe- mente estimulantes. Mudanças de escala, mudanças de parâmetros:
rabundância espacial do presente. Esta se expressa. como vimos. resta-nos, como no século XIX. empreender o estudo de civilizações
nas mudanças de escala. na multiplicação das referências energéti- e de novas culturas.
cas e imaginárias, e nas espetaculares acelerações dos meios de
E pouco importa que sejamos de certo modo beneficiários.
transporte. Ela resulta, concretamente, em consideráveis modifica-
pois estamos longe. cada um por sua vez, de dominar todos os
ções físicas: concentrações urbanas. transferências de população e
aspectos dessas novas civilizações e culturas. e falta muito para isso.
multiplicação daquilo a que chamaremos "não-lugares". por oposi-
Inversamente, as culturas exóticas não pareciam, outrora, tão dife-
ção à noção sociológica de lugar, associada por Mauss e por toda
rentes aos observadores ocidentais que eles não tenham ficado
uma tradição etnológica àquela de cultura localizada no tempo e no
tentados a. primeiro, lê-las por meio das grades etnocentradas de
espaço. Os não-lugares são tanto as instalações necessárias à circu-
seus costumes. Se a experiência distante ensinou-nos a descentrar
lação acelerada das pessoas e bens (vias expressas, trevos
nosso olhar, temos que tirar proveilo dessa experiência. O mundo
rodoviários, aeroportos) quanto os próprios meios de transporte ou
da supermodernldade não tem as dimensões exatas daquele no qual
os grandes centros comerciais, ou ainda os campos de trânsito
pensamos viver. pois vivemos num mundo que ainda não aprende-
prolongado onde são estacionados os refugiados do planeta. Porque
mos a olhar. Temos que reaprender a pensar o espaço.
vivemos uma época. também sob esse as pecto. paradoxal: no pró-
Conhecemos a terceira figura do excesso. em relação à qual
prio momento em que a unidade do es paço terres tre se torna
poder-se-ia definir a situação de s upermodernidade. É a figura do
pensável e em que se reforçam as grandes redes multirraciais.

~7
ego, do indivíduo, que retorna. como se disse, até na reflexão católica: os praticantes querem praticar à sua maneira. Do mesmo
antropológica, visto que. na falta de novos campos. num universo modo, somente em nome do valor individual indiferenciado pode
sem territórios, e de inspiração teórica, num mundo sem grandes ser superada a questão da relação entre os sexos. Essa individuali-
narrativas. os etnólogos. certos etnólogos. após haverem tentado zação dos procedimentos, observemos, nem é tão surpreendente se
tratar as culturas (as culturas localizadas. as culturas à la Mauss) nos referimos às análises anteriores: nunca as histórias individuais
como textos, passaram a só se Interessar pela descrição etnográfica foram tão explicitamente referidas pela história coleliva , mas nunca.
como texto - texto expressivo de seu autor, naturalmente, de modo também, os pontos de identificação coletiva foram tão flutuantes. A
que, se levarmos cm conta James Clifford, os Nuer nos ensinariam produção individual de sentido é, portanto, mais do que nunca,
mais sobre Evans-Prltchard que este sobre aqueles. Sem pôr em necessária. Naturalmente, a sociologia pode perfeitamente pôr em
questão. aqui. o espírito da pesquisa hermenêutica, para a qual os evidência as ilusões das quais procede essa individualização dos
intérpretes constroem a si próprios por meio do estudo que fazem procedimentos e os efeitos de reprodução e de estereotipia que
dos outros. sugerir-se-á que, em se tratando de etnologia e de escapam, totalmente ou em parte, à consciência dos atores. Porém ,
literatura etnológica. a hermenêutica, em suma, corre o risco da o caráter singular da produção de sentido, transmitido por todo um
trivialidade. Não é certo, na verdade. que a crítica literária de aparelho publicitário - que fala do corpo, dos sentidos, do frcscor
espírito desconstrutivista aplicada ao corpus etnográfico nos ensine de viver - e toda tuna linhagem política. cujo eixo é o tema das
muito mais que banalidades ou evidências (por exemplo, que Evans- liberdades individuais, é interessante em si mesmo: ele tem origem
Pritchard vivia na época colonial). É possível, em compensação, que no que os etnólogos estudaram nos outros, sob diversas rubricas, a
a etnologia se desvie. substituindo seus can1pos de estudo pelo saber, o que poderíamos c hamar as antropologias, mais do que as
estudo daqueles que foram a campo. cosmologias. locais, isto é, os sistemas de representação nos quais
são informadas as categorias da identidade e da a lteridade.
A antropologia pós-moderna origina-se (paguemo-la na mesma
moeda) de uma análise da supermodernidade cujo método redutivis- Assim se coloca aos antropólogos. hoje. em novos termos, um
ta (do campo ao texto e do texto ao autor) não passa de uma problema que traz as mesmas dificuldades que aquelas com as
expressão particular. quais entraram em choque Mauss e, depois dele, a totalidade da
corrente culturalista: como pensar em situar o indivíduo? Michel de
Nas sociedades ocidentais, pelo menos, o indivíduo quer um
Certeau, em J;invention du quotidien , fala das "manhas das artes de
mundo para ser um mundo. Ele pretende interpretar por e para si
fazer" que permitem aos indivíduos submetidos às opressões glo-
mesmo as informações que lhe são entregues. Os sociólogos da
bais da sociedade moderna, principalmente a sociedade urbana,
religião puseram cm evidência o caráter singular da própria prática

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desviar-se delas, usá-las e. por uma espécie de elaboração diária . informante privilegia do. em s mna. e arrisca-se a algumas ten tativas
traçar ai seu cenário e seus itinerários particulares. Porém. essas de au to-elno-análise.
manhas e essas artes de fazer - e Michel de Certeau estava cons- Além do peso maior dado. hoje. à referência individual, ou, se
ciente disso - remetem ora à multiplicida de dos indivíduos médios preferirem, à individualização das referências. é aos fatos de singu-
(o cúmulo do concreto) ora à média dos indivíduos (uma abstração). laridade que se deveria prestar aten ção: singula r idade dos objetos.
Freud , do mesmo modo. em suas obras de finalidade sociológica singul a ridade dos grupos ou das pertinências. recomposição de
(Mal-estar na civilização. Futuro de uma ilusão) usava a expressão lugares, s ingu la r idades de tod a ordem. que constituem o contra-
"homem comum" (der gemeine Mann) para opor. um pouco como ponto paradoxal dos processos de relaciona mento. d e aceleração
Mauss. a média dos indivíduos humanos que estão em condição de e d e d eslocal ização muito ra pidamente reduzidas e resumidas. às
tomar a si mesmos por objeto de um processo reflexivo. vezes. por expressões como "h omogeneização - ou mundialização
Entretanto, Freud tem consciência de que o homem alienado - da cultura··.
do qual ele está falando. alienado das diversas instituições. por A questão das condições de realização de uma antropologia
exemplo, a religião. é também todo o homem ou todo homem. a da con temporaneidade deve ser deslocada do método para o objeto.
começar pelo próprio Freud ou qualquer um daqueles que estão em Não que as questões de método tenham uma importância determi-
condições de observar em s i mesmos os mecanismos e os efeitos da n ante. ou mesmo que elas possam ser inteiramente dissociadas
alienação. Essa alienação necessária é também aquela da qual fala daquela do objeto. Porém. a questão do objeto é um preâmbulo. Ela
Lévi-Slrauss quando escreve em sua "Introdução à obra de Marcel constitui mesmo um duplo preâmbulo, pois. a ntes de se interessar
Mauss" que é. a bem dizer, a quele a quem chamamos de saudável pelas novas formas sociais. pelos novos m odos de sens ibilidad e ou
de espírito que é alienado, já que consente em exis tir num mundo pelas novas instituições que podem aparecer como caracterís ticas
definido pela relação com outrem. da contem poraneidade a luai, deve-se estar atento às mudanças que
Sabe-se que F'reud praticou a auto-análise. Hoje , coloca-se afetaram as grandes categorias por meio das quais os homens
para os antropólogos a questão de saber como integrar à s ua an álise pensam sua identidade e suas relações recíprocas. As três figuras
a s ubjetividade daqueles que eles observam. isto é. no final d as do excesso pelas quais tentamos caracterizar a s ituação de s uper-
contas. considerado o estatuto renovado d o indivíduo em nossas modern idade (a superabundância factual. a superabundância
sociedades. saber como redefinir as condições da representatividade. espacial e a individualização das referências) permitem apreendê-la
Não se pode excluir que o antropólogo, seguindo o exemplo d e sem ignorar suas complexidades e contradições. mas sem fazer
Freud. considera-se como um indígena de s ua própria cultura. um dela. tan1bém, o horizonte inultrapassável de uma modernidade

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perdida da qual só leríamos que levantar os vestígios, repertoriar os
isolais• o~ inventariar os arquivos. O século XXI será antropológico,
não só porque as três figuras do excesso não são senão a forma atual
de uma matéria-prima perene. que é a própria matéria da antropo-
logia, mas também porque. nas situações de supermodernidade
(como naquelas que a antropologia analisou sob o nome de "acul-
turação"), os componentes se somam sem se destruírem. Assim,
pode-se tranqüilizar antecipadamente aqueles apaixonados pelos
fenômenos estudados pela antropologia (da aliança à r eligião, da
troca ao poder. da possessão à feitiçaria): eles não estão perto de
desaparecer. nem na África nem na Europa. Mas farão sentido
novamente (farão novamente o sentido) com o resto. num mundo
diferente cujas razões e desrazões os antropólogos de amanhã terão
que compreender. como hoje.

• Isolats: Grupo étnico Isolado ou grupo de seres \ivendo isoladamente. (N.T.J