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William Nunes Dias

A HOMOSSEXUALIDADE NO CINEMA:
Os aspectos da identidade homossexual masculina no cinema LGBT
contemporâneo

Belo Horizonte
Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH)
2010
William Nunes Dias

A HOMOSSEXUALIDADE NO CINEMA:
Os aspectos da identidade homossexual masculina no cinema LGBT
contemporâneo

Monografia apresentada ao curso de Comunicação Social, do


Departamento de Ciências da Comunicação do Centro Universitário
de Belo Horizonte – Uni-BH, como requisito parcial para obtenção do
título de bacharel em Jornalismo.
Orientador: Fabrício Marques

Belo Horizonte
Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH)
2010
Dedico a minha mãe, Kátia que é a pessoa mais especial da minha
vida, a minha tia e madrinha Selma, por me ter como um filho que
ela não teve e ao meu irmão, Wellerson que sempre esteve ao meu
lado.
Agradeço aos meus queridos amigos, em especial, Andressa Caroline
e Beatriz Paiva que estiveram ao meu lado nessa dura e longa
jornada. Ao meu orientador Fabrício Marques pela dedicação e
paciência que teve comigo e, ao professor Maurício Guilherme, pelas
palavras de apoio e incentivo nesses anos de estudo. Por fim,
agradeço a todas as pessoas que passaram por mim e de certa forma
me marcaram.
“Eu sou homem e nada do que é humano me é estanho”. Terêncio
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 07

2 IDENTIDADE...................................................................................................................... 08
2.1 Conceito de Identidade........................................................................................................08
2.2 As Três Concepções de Identidade de Stuart Hall ............................................................. 10
2.3 Os Cinco Descentramentos da Identidade..........................................................................12
2.4 Identidade e Diferença........................................................................................................14
2.5 Identidade Homossexual.....................................................................................................17

3 MOVIMENTO SOCIAL .................................................................................................... 20


3.1 O Movimento Homossexual e sua história.........................................................................20
3.2 O Impacto da AIDS no Movimento Homossexual............................................................. 23
3.3 Sobre o Movimento Homossexual......................................................................................25
3.4 Em busca de Visibilidade: as Paradas Gays........................................................................27

4 CINEMA .............................................................................................................................. 30
4.1 Cinema e Homossexualidde................................................................................................30
4.2 Homossexuais no Cinema .................................................................................................. 31
4.3 Os festivais LGBT..............................................................................................................33
4.4 A Relação da AIDS e das Paradas do Orgulho Gay com o Cinema LGBT.......................36

5 ANÁLISE DOS FILMES .................................................................................................... 39


5.1 Milk - A Voz da Igualdade: Construção do Personagem - aspectos identitários e
sociológicos...............................................................................................................................39
5.1.1 Construção da Narrativa Fílmica.....................................................................................40
5.2 Orações para Bobby: Construção do Personagem - aspectos identitários e sociológicos..44
5.2.1 Construção da Narrativa Fílmica.....................................................................................45

6 CONCLUSÃO......................................................................................................................49

7 REFERÊNCIAS .................................................................................................................. 50

ANEXOS..................................................................................................................................52
7

1 INTRODUÇÃO

Com este trabalho, iremos perceber como homossexualidade masculina é representada no


cinema. Para isso, buscaremos analisar os filmes Milk – A Voz da Igualdade (Milk, 2008)
dirigido por Gus Van Sant e Orações para Bobby (Prayers for Bobby, 2009) direção de
Russel Mulcahy.

Henrique Codato (2003) esclarece que devemos compreender o cinema como um produto
social e autêntico que produz modelos de comportamento, criando, de certa forma, uma
padronização entre os diversos grupos desenhados nas grandes telas.

Antônio Moreno (2002) nota que, através de um filme, o personagem gay/lésbica será julgado
e classificado, e terá então, atribuído às suas qualidades seu papel dentro da sociedade. Para o
autor, é a partir daí que entram os aspectos sócios-culturais, nos quais o cinema se insere de
maneira muito forte, ajudando na evolução de uma questão, ou, simplesmente, mostrando-a
como uma questão de comportamento desviante, como o homossexualismo.

“Ao construir um modelo único de comportamento, o cinema passa a ser um fato gerador de
exclusão social, a partir do momento em que passamos a entender o mundo de forma
estanque, sem a possibilidade de diversidade”. (CODATO, 2003, p.10)

Os filmes Milk e Orações para Bobby são obras que representam o recorte da realidade, ou
seja, não mostram toda a realidade dos fatos que geraram as suas histórias, mas parte dela.
Eles forem escolhidos, por despertarem um forte impacto no público.

Devemos perceber que apesar de trazermos para a análise dois filmes com finais trágicos, não
podemos reduzir a representatividade dos homossexuais a isso, pois assim, ficaríamos à mercê
da forma como o homossexual é frequentemente representado pelos meios de comunicação de
massa, isso é, de maneira humorística ou trágica, deixando a imagem caricatural ou de
sofrimento de sujeito marginal, sem uma identidade cultural ou social delimitada, como
destaca Codato (2003).
8

2 IDENTIDADE

2.1 Conceito de Identidade

De acordo com Tomaz Tadeu da Silva (2000), a identidade não é uma essência; não é um
dado ou um fato – seja da natureza, seja da cultura. A identidade não é fixa, estável, coerente,
unificada, permanente. A identidade é uma construção, um processo de produção, uma
relação, fragmentada, inconsistente, inacabada. A identidade está ligada a estruturas
discursivas e narrativas.

“O conceito de „identidade‟ é complexo, muito pouco desenvolvido e muito pouco


compreendido na ciência social contemporânea para definitivamente ser posto à prova”.
(HALL, 2005, p. 8)

A identidade está sempre ligada a uma forte separação entre “nós” e “eles”. Essa demarcação
de fronteiras, essa separação e distinção, supõem e, ao mesmo tempo, afirmam e reafirmam
relações de poder (SILVA, 2000).

Como esclarece Silva (2000), dividir o mundo social entre “nós” e “eles” significa classificar.
Para ele, o processo de classificação é central na vida social. O processo de classificação pode
ser entendido como um ato de significação pelo qual dividimos e ordenamos o mundo social
em grupos, classes.

O movimento entre fronteiras coloca em evidências a instabilidade da identidade, é nas


próprias linhas de fronteira, nos limiares, nos interstícios, que sua precariedade se torna
mais visível. Aqui, mais do que a partida ou chegada, é cruzar a fronteira, é estar ou
permanecer na fronteira, que é o acontecimento crítico. Neste caso, a teorização cultural
contemporânea sobre gênero e sexualidade ganha centralidade. (SILVA, 2000, p. 89)

Como Silva (2000) explica, a possibilidade de “cruzar fronteiras” e de “estar na fronteira”, de


ter uma identidade ambígua, indefinida, é uma demonstração do caráter “artificialmente”
imposto das identidades fixas.

O cruzamento de fronteiras e o cultivo propositado de identidades ambíguas, é entretanto,


ao mesmo tempo uma poderosa estratégia política de questionamento das operações de
fixação de identidade. A evidente artificialidade da identidade das pessoas travestidas e das
que se apresentam como drag-queens, por exemplo, denuncia a – menos evidente –
artificialidade de todas as identidades. (SILVA, 2000, p. 89)
9

A identidade não deve ser algo dado pelo outro, pelo diferente, mas sim um conjunto de
características que seja reconhecido pelos que o incorporam; algo que venha a ser assumido
pelos que recebem esses rótulos (CODATO, 2003).

Como esclarece Codato (2003), as identidades confundem-se e fundem-se com as


representações sociais. Se a identidade é construída por meio das práticas sociais de um
indivíduo, deve ser algo inerente a ele, ou seja, aceita por aquele que segue essas
determinadas práticas. Se não for dessa forma, se os chamados “outros” ou os “diferentes”
resolvem dar a esse indivíduo uma identidade, ela deixa de sê-lo e passa a ser meramente,
uma representação social.

Kathryn Woodward (2000) lembra que a complexidade da vida moderna exige que
assumamos diferentes identidades, e que essas diferentes identidades podem estar em conflito.
Segundo ela, podemos viver em nossas vidas pessoais, tensões entre nossas diferentes
identidades quando aquilo que é exigido por uma identidade interfere com as exigências de
uma outra.

Uns dos possíveis conflitos surgem das tensões entre as expectativas e as normas sociais. Por
exemplo, espera-se que as mães sejam heterossexuais. Identidades diferentes podem ser
construídas como “estranhas” ou “desviantes” (WOODWARD, 2000).

Para Stuart Hall (2005), as identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social,
estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até
o século XX visto como um sujeito unificado.

A assim chamada “crise de identidade” é vista como parte de um processo mais amplo de
mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e
abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no
mundo social. Para Hall (2005), as identidades modernas estão sendo “descentradas”, isto é,
deslocadas ou fragmentadas.
10

Como observa o crítico cultural Kobena Mercer 1 (1990), a identidade somente se torna uma
questão quando está em crise, quando algo que se supõe como fixo, coerente e estável é
deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza.

De acordo com Silva (2000), ao chamar a atenção para o caráter cultural do gênero e
2
sexualidade, a teoria feminista e a teoria Queer contribuem de forma decisiva para o
questionamento das oposições binárias masculino/feminino, heterossexal/homossexual, nas
quais se baseia o processo de fixação das identidades de gênero e das identidades sexuais.

Para Elis Regina Araújo da Silva (2004), nesse dualismo, um lado sempre é mais valorizado
que o outro. Os dualismos recebem pesos desiguais num sistema hierarquizado de identidades
e diferenças.

Conforme a autora explica, a divisão binária da sociedade segundo o sexo, não é questionada,
já que é naturalizada. São investimentos, estratégias múltiplas que buscam fixar uma
identidade masculina ou feminina normal e duradoura articulada a modelo único de uma
identidade sexual: a identidade heterossexual.

A construção binária de homens e mulheres, além de naturalizada, é hierárquica e assimétrica


e gira em torno da reprodução como eixo principal de relação entre os sexos definindo as
noções de “normalidade” e “natureza” (SILVA, 2004).

A historiadora Tânia Navarro Swain (2000) aponta que o binário naturalizado de identidades
demarcadas em torno da heterossexualidade e reprodução, traça espaços de identidades
consideradas incompletas, incorretas, incômodas. Deste modo, uma mulher viril, um homem
passivo, pessoas do mesmo sexo que se amam são enquadradas no espaço do erro.

2.2 As Três Concepções de Identidade de Stuart Hall

Hall (2005) discute três concepções diferentes de identidade, as concepções do sujeito do


Iluminismo, do sujeito sociológico e do sujeito pós-moderno.

1
Mercer (1990, apud HALL, 2005)
2
Segundo o professor, Christopher Lane, o termo queer – estranho em inglês – passou a ser utilizado, na década
de 1990, por um grupo de teóricos que desenvolveram um pensamento a respeito da homossexualidade,
enfatizando sua relação com a transgressão. Em português, queer teria um significado próximo ao termo bicha.
11

Segundo o autor, o sujeito do Iluminismo estava baseado numa concepção da pessoa humana
como um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de
consciência e de ação, cujo “centro” consistia num núcleo interior, que emergia pela primeira
vez quando o sujeito nascia e como ele se desenvolvia, ainda que permanecendo
essencialmente o mesmo – contínuo ou “idêntico” a ele – ao longo da existência do indivíduo.
O centro essencial do eu era a identidade de uma pessoa.

“Pode-se ver que essa era uma concepção muito „individualista‟ do sujeito e de sua identidade
(na verdade, a identidade dele: já que o sujeito do Iluminismo era usualmente descrito como
masculino)”. (HALL, 2005, p. 11)

Em seguida, Hall discorre sobre a noção de sujeito sociológico. De acordo com ele, esse
sujeito refletia a crescente complexidade do mundo moderno e a consciência de que este
núcleo interior do sujeito não era autônomo e auto-suficiente, mas era formado na relação
com “outras pessoas importantes para ele”, que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e
símbolos – a cultura – dos mundos que ele/ela habitava.

Como explica Hall (2005), nessa concepção sociológica clássica da questão, a identidade é
formada na “interação” entre o eu e a sociedade.

O autor afirma que a identidade, nessa concepção sociológica, preenche o espaço entre o
“interior” e o “exterior” – entre o mundo pessoal e o público. Para ele, o fato de que
projetamos a “nós próprios” nessas identidades culturais, ao mesmo tempo em que
internalizamos seus significados e valores, tornando-os “parte de nós”, contribui para alinhar
nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e
cultural.

A identidade costura o sujeito à estrutura. Estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos


culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis
(HALL, 2005).

De acordo com autor, o sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade unificada e
estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades,
algumas vezes contraditórias ou não-resolvidas. Correspondentemente, as identidades, que
12

compunham as paisagens sociais “lá fora” e que asseguravam nossa conformidade subjetiva
com as “necessidades” objetivas da cultura, estão entrando em colapso, como resultado de
mudanças estruturais. O próprio processo de identificação, através do qual nos projetamos em
nossas identidades culturais, tornou-se mais provisório, variável e problemático.

Segundo Hall (2005), esse processo produz o sujeito pós-moderno, contextualizado como não
tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma “celebração
móvel”: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos
representados ou interpretados nos sistemas culturais que nos rodeiam.

O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são
unificadas ao redor de um “eu” coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias,
empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo
continuamente deslocadas.

2.3 Os Cinco Descentramentos da Identidade

Hall (2005) elabora cinco descentramentos da identidade, todos de acordo com o sujeito do
Iluminismo. De acordo com ele, a primeira descentração refere-se às tradições do pensamento
marxista. Um dos modos pelos quais o trabalho de Karl Marx foi descoberto e reinterpretado
na década de 1960 foi à luz da afirmação de Marx de que “os homens fazem a história, mas
apenas sob as condições que lhes são dadas”.

Segundo o autor, seus novos intérpretes leram isso no sentido de que os indivíduos não
poderiam de nenhuma forma ser os “autores” ou os agentes da história, uma vez que eles
podiam agir apenas com base em condições históricas criadas por outros e sob as quais eles
nasceram, utilizando recursos materiais e de cultura que lhes foram fornecidos por gerações
anteriores.

O autor assegura que o segundo descentramento no pensamento ocidental do século XX vem


da descoberta do inconsciente por Freud. Hall (2005) afirma que, para a teoria de Freud,
nossas identidades, nossa sexualidade e a estrutura de nossos desejos são formadas com base
em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente.
13

Para Hall (2005), a identidade é algo formado, ao longo do tempo, através de processos
inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento. Existe
sempre algo “imaginário” ou fantasiado sobre sua unidade.

O autor ressalta que a identidade permanece sempre incompleta, está sempre “em processo”,
sempre “sendo formada”. As partes “femininas” do eu masculino, por exemplo, que são
negadas, permanecem com o sujeito/indivíduo e encontram expressão inconsciente em muitas
formas não reconhecidas, na vida adulta. Assim, em vez de falar da identidade como uma
coisa acabada, deveríamos falar de identificação e vê-la como um processo em andamento.

“A identidade surge não tanto da plenitude da identidade que já está dentro de nós como
indivíduos, mas de uma falta de inteireza que é „preenchida‟ a partir de nosso exterior, pelas
formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros”. (HALL, 2005, p. 39)

Já o terceiro descentramento, segundo Hall (2005), está associado com o trabalho do lingüista
estrutural Ferdinand Saussure. O autor lembra que Saussure argumentava que nós não somos,
em nenhum sentido, os “autores” das afirmações que fazemos ou dos significados que
expressamos pela língua.

Nós podemos utilizar a língua para produzir significados apenas nos posicionando no
interior das regras da língua e dos sistemas de significado de nossa cultura. A língua é um
sistema social não um sistema individual. Falar em língua não significa apenas expressar
nossos pensamentos mais interiores e originais; significa também ativar a imensa gama de
significados que já estão embutidos em nossa língua e em nossos sistemas culturais.
(HALL, 2005, p. 40)

O autor lembra que o que modernos filósofos da linguagem, como Jacques Derrida,
influenciados por Saussure e pela “virada lingüística” argumentam que, apesar de seus
melhores esforços, o/a falante individual não pode nunca fixar o significado de uma forma
final, incluindo o significado de sua identidade.

O quarto descentramento principal da identidade e do sujeito ocorre no trabalho do filósofo e


historiador francês Michel Foucault. Numa série de estudos, Foucault produziu uma espécie
de “genealogia do sujeito moderno”.

Segundo Hall (2005), Foucault destaca um novo tipo de poder, que ele chama de “poder
disciplinar”, que se desdobra ao longo do século XIX, chegando ao seu desenvolvimento
14

máximo no início século XXI. Para o autor, o poder disciplinar está preocupado, em primeiro
lugar, com a regulação, a vigilância do governo da espécie humana ou de populações inteiras
e, em segundo lugar, com a vigilância do indivíduo e do corpo.

O objetivo do “poder disciplinar” consiste em manter “as vidas, as atividades, o trabalho, as


infelicidade e os prazeres do indivíduo”, assim como sua saúde física e moral, suas práticas
sexuais e sua vida familiar, sob estrito controle e disciplina, com base no poder dos regimes
administrativos, do conhecimento especializado dos profissionais e no conhecimento
fornecido pelas “disciplinas” das Ciências Sociais. Seu objetivo básico consiste em
produzir “um ser humano que possa ser tratado como um corpo dócil. (DREYFUS 3;
RABINOW 4, 1982 apud HALL, 2005, p. 42)

Hall (2005) observa que o quinto descentramento trata do impacto do feminismo, tanto como
uma crítica teórica quanto como um movimento social.

O autor explica que o feminismo faz parte daquele grupo de “novos movimentos sociais”, que
emergiram durante os anos 1960 (o grande marco da modernidade tardia), juntamente com as
revoltas estudantis, os movimentos juvenis contraculturais e antibelicistas, as lutas pelos
direitos civis, os movimentos revolucionários do “Terceiro Mundo”, os movimentos pela paz
e tudo aquilo que está associado ao ano de “1968”.

Hall (2005) explana que cada movimento apelava para a identidade social de seus
sustentadores. Assim, o feminismo apelava às mulheres, a política sexual aos gays e lésbicas,
as lutas raciais aos negros, e assim por diante. Isso constitui o nascimento histórico do que
veio a ser conhecido como a política de identidade – uma identidade para cada movimento.

Aquilo que começou como um movimento dirigido à contestação da posição social das
mulheres e expandiu-se para incluir a formação das identidades sexuais e de gênero. (HALL,
2005)

2.4 Identidade e Diferença

Silva (2000) assegura que a identidade, tal como a diferença, é uma relação social. Isso
significa que sua definição – discursiva e lingüística – está sujeita a vetores de força, a
relações de poder. Ela não é simplesmente definida; ela é imposta.

3
Dreyfus (1982, apud HALL, 2005)
4
Rabinow (1982, apud HALL, 2005)
15

Para o autor, a identidade e a diferença estão em estreita conexão com relações de poder. O
poder de definir a identidade e de marcar a diferença não pode ser separado das relações mais
amplas de poder. “Podemos dizer que onde existe diferenciação – ou seja, identidade e
diferença – aí está presente o poder. A diferenciação é o processo central pelo qual a
identidade e a diferença são produzidas”. (SILVA, 2000, p. 81)

De acordo com Codato (2003), não podemos caracterizar uma identidade pela semelhança ou
pela diferença. Se falarmos apenas nesses dois fatores, estamos partindo do pressuposto de
que existe um modelo padrão de comportamento, que pode reproduzir identidades iguais ou
dessemelhantes.

Quando falamos de identidade, é necessário falar de diferença, mas devemos substituir o


termo diferença pela diversidade. Acreditamos que diferença nos faz aceitar um modelo de
comportamento hegemônico, passando a entender como diferentes aqueles que não
participam dessa hegemonia. Diversidade também significa pluralidade, a partir do
momento em que passamos a entender o mundo como produto de diversas representações
sociais e de diversas identidades que se manifestam de maneiras variadas. (CODATO,
2003, p.202)

A identidade é marcada pela diferença, mas parece que algumas diferenças são vistas como
mais importantes que outras, especialmente em lugares particulares e em momentos
particulares (WOODWARD, 2000).

As identidades são fabricadas por meio de marcação da diferença. Essa marcação da


diferença ocorre tanto por meio de sistemas simbólicos de representação quanto por meio
de formas de exclusão social. Nas relações sociais, essas formas de diferença – a simbólica
e a social – são estabelecidadas, ao menos em parte, por meio de sistemas classificatórios.
(WOODWARD, 2000, p. 39-40)

O autor lembra que os sistemas classificatórios por meio dos quais o significado é produzido
dependem de sistemas sociais e simbólicos. Os sistemas classificatórios são construídos em
torno da diferença e das formas pelas quais as diferenças são marcadas.

Woodward (2000) esclarece que cada cultura tem suas próprias e distintivas formas de
classificar o mundo. É pela construção de sistemas classificatórios que a cultura nos propicia
os meios pelos quais podemos dar sentido ao mundo social e construir significados. Há, entre
os membros de uma sociedade, um certo grau de consenso sobre como classificar as coisas a
fim de manter alguma ordem social.
16

Segundo a autora, a forma como vivemos nossas identidades sexuais é mediada pelos
significados culturais sobre a sexualidade que são produzidas por meio de sistemas
dominantes de representação.

A identidade e a diferença traduzem-se em declarações sobre quem pertence e sobre quem


não pertence, sobre quem está incluído e quem está excluído. Para Silva (2000), afirmar a
identidade significa demarcar fronteira.

O autor defende que a questão da identidade, da diferença e do outro é um problema social


porque, em um mundo heterogêneo, o encontro com o outro, com o estranho, com o diferente
é inevitável. Mesmo quando explicitamente ignorado e reprimido, a volta do outro é
inevitável, explodindo em conflitos, confrontos, hostilidades e até mesmo violência.

O problema é que esse “outro”, numa sociedade em que a identidade torna-se, cada vez
mais, difusa e descentrada, expressa-se por meio de muitas dimensões. O outro é o outro
gênero, o outro é a cor diferente, o outro é a outra sexualidade, o outro é a outra raça, o
outro é a outra nacionalidade, o outro é o corpo diferente. (SILVA, 2000, p. 97)

Silva (2000) conclui que a “natureza” humana tem uma variedade de formas legítimas de se
expressar culturalmente e todas devem ser respeitas ou toleradas. A incapacidade de conviver
com a diferença é fruto de sentimentos de discriminação, de preconceitos, de crenças
distorcidas e de estereótipos, isto é, de imagens do outro que são fundamentalmente errôneas.

Respeitar a diferença não pode significar “deixar que o outro seja como eu sou” ou “deixar
que o outro seja diferente de mim tal como eu sou diferente (do outro)”, mas deixar que o
outro seja como eu não sou, deixar que ele seja esse outro que não pode ser eu; que eu não
posso ser, que não pode ser (outro) eu; significa deixar que o outro seja diferente, deixar ser
uma diferença que não seja, em absoluto, diferença entre duas identidades, mas diferença
da identidade, deixar ser uma outridade que não é outra “relativamente a mim” ou
“relativamente ao mesmo” mas que é absolutamente diferente, sem relação alguma com a
identidade ou com a mesmidade. (SILVA, 2000, p.101)

Woodward (2000) explica que a diferença pode ser construída negativamente – por meio da
exclusão ou da marginalização daquelas pessoas que são definidas como “outros” ou
forasteiros e não como proposta de heterogeneidade e diversidade. Por outro lado, a diferença
pode ser celebrada como fonte de diversidade, heterogeneidade e hibridismo, sendo vista
como enriquecedora: é o caso dos movimentos sociais que buscam resgatar as identidades
sexuais dos constrangimentos da norma e celebrar a diferença (afirmando, por exemplo, que
“sou feliz em ser gay”).
17

2.5 Identidade Homossexual

Codato (2003) nota que é muito comum, por exemplo, encontramos termos como gay
“homossexual” ou “entendido” para os indivíduos do sexo masculino e “lésbica”, “sapatão”
ou “entendida” para os indivíduos do sexo feminino. Segundo Codato (2003), esses rótulos
passam a ser incorporados na linguagem cotidiana como nomenclaturas comuns dadas àqueles
que se sentem atraídos por pessoas do mesmo sexo.

De acordo com Silva (2004), homens e mulheres, assim somos designados ao nascer. Para ela,
essa construção é excludente e estabelece fronteiras e normas. Ao fugir da regra da
heterossexualidade e assumir um papel diferente, passa-se a ser considerado estranho.

Os homossexuais são sempre tratados de maneira pejorativa, como a utilização de diversos


pseudônimos que acabam por adquirir um significado relevante na construção da
representação social desses indivíduos. Termos como: bicha, veado, gay ou marica, no caso
dos homens; ou sapatão, caminhoneira e fanchona, no caso das mulheres, são utilizados
para diminuir a condição de homossexuais masculinos e femininos. (CODATO, 2003, p. 82
- 83)

Segundo o autor, as identidades nunca são únicas, sempre múltiplas e desordenadas. Talvez
ser homossexual não implique, necessariamente em assumir um único modelo de
comportamento.

Como lembra Codato (2003), apesar de reconhecermos que o desejo homoerótico articula
identidades múltiplas, com pontos de vistas diversos, manifestando-se numa variedade de
práticas, entendemos que o discurso ou sistema cultural criado em torno da identidade
homossexual parte de um lugar específico, onde certos signos podem ser reconhecidos –
como linguajar próprio e vestimentas – apelando para a unidade de uma comunidade,
mostrando a interação e os valores comuns da comunidade e o papel da comunicação neste
sistema e em seu cotidiano.

Segundo Woodward (2000), a forma como vivemos nossa identidade sexual é mediada por
significados culturais sobre sexualidade que são produzidos por meio de sistemas dominantes
de representação.
18

“A heterossexualidade é tida como natural, universal e normal. Consequentemente, outras


formas de sexualidade são constituídas como antinaturais, bizarras e anormais”. (SILVA,
2004, p. 70-71)

Como bem observa Silva (2004), no senso comum, a identidade de gênero (as múltiplas
formas de tornar-se homem ou mulher) e a identidade sexual (as múltiplas formas como são
subjetivadas as orientações sexuais) são compreendidas como idênticas. Nesse sentido, a
lógica é: se for homem, logo é heterossexual; se for mulher, logo é heterossexual. Nesse
sentido, a identidade homossexual passa a ser vista como “falha” grave na identidade de
gênero.

Codato (2003) nota que a identidade homossexual está ancorada à prática sexual, ao coito
anal, no caso do homossexual masculino. É necessário remarcar também que a atividade
passiva é sempre inferiorizada diante da atividade ativa.

“O homossexual passivo é aquele que se coloca em posição feminina, sempre menosprezado


em detrimento da posição masculina, pois o papel masculino é o de penetrar e não o de ser
penetrado”. (CODATO, 2003, p. 79)

Como afirma Judith Butler 5 (1999), ainda que o sexo biológico seja apenas umas das diversas
matrizes identitárias que o ser humano pode utilizar para identificar-se. Para ele, encontrar
semelhanças entre os que nos cercam é apenas uma condição social do indivíduo, que busca
um grupo que apresente características semelhantes às suas.

Codato (2003) lembra que essa caracterização dos iguais pelo sexo biológico é uma
construção social, a partir do momento em que poderíamos buscar outros fatores que
servissem como padrões na construção de identidades, como altura, peso ou cor dos olhos,
por exemplo.
O autor percebe que o estereótipo do efeminado ainda é um fator identitário entre o grupo.
“Parecer homossexual, com trejeitos e gestos mais delicados tem um valor relevante na
construção da identidade homossexual. Aquele considerado bem másculo não ganha o rótulo
de gay, pois dele não se desconfia”. (CODATO, 2003, p. 103)

5
Butler (1999, apud CODATO, 2003)
19

Codato (2003) mostra que, quando se assume a prática homossexual, passa-se a carregar
consigo uma identidade única, elaborada, sem dúvidas, por todos os elementos que
encontramos em uma personalidade, por cada uma das experiências que são vivenciadas
durante a vida, mas também passa-se a assumir todos os padrões que são socialmente
destinados a essa prática social chamada de homossexualidade.

Existe entre os homossexuais um padrão de comportamento específico para que a


identidade homossexual possa ser representada. Mesmo aqueles que se identificam como
gays, esperam encontrar “pistas” que o façam reconhecer um semelhante. Se você é
homossexual, mas não parece com um, sua identidade será questionada entre o grupo.
(CODATO, 2003, p. 77)

A prática da homossexualidade deve ser assumida para que passe a ser vista como uma prática
“normal”. “O fato de assumir sua posição dentro de um conjunto de práticas faz com que o
outro perceba que existem outras formas de manifestação identitária. Aos poucos ao
transformar essa prática num discurso, passa-se também a construir uma identidade”.
(CODATO, 2003, p. 145)

Por fim, o autor ressalta que ser negro é um fator incontestável, pois faz parte do fenótipo de
um indivíduo, é uma característica de sua etnia. Já o fato de ser gay ou homossexual é sempre
contestável, pois, como já dito, é um fator identitário que se origina por meio de uma prática.
Portanto, sua delimitação sempre depende da aceitação daqueles que são construídos sob esse
modelo de representação social.
20

3 MOVIMENTO SOCIAL

Para Evelina Dagnino (2000), os movimentos sociais têm um papel fundamental no


questionamento da fixação dos significados, surgindo um campo de luta no espaço social
entre antagônicas.

Alberto Melucci (2001) esclarece que os movimentos sociais desafiam os códigos culturais
dominantes. Então, as identidades transformam-se em poder nas mãos desses agentes que se
reconhecem e se solidarizam com uma causa, desafiando um poder constituído.

Segundo Melucci (2001), a mobilizações devem ser entendidas como um sistema multipolar
que combina o resultado de objetivos, recursos e limites, ou seja, uma orientação finalizada e
construída das relações sociais no interior de um campo de oportunidades e vínculos, dando
sentido ao agir coletivo, formando um “nós”.

Marcos Ribeiro de Melo (2008) lembra que os movimentos identitários, pós década de 1960,
também conhecidos como novos movimentos sociais, têm proposto a problematizarão das
relações de poder que giram em torno das produções sociais das identidades e das diferenças,
buscando, basicamente, o respeito aos direitos fundamentais e à liberdade dos indivíduos.

De acordo com Maria da Glória Gohn (2000), entre as principais características dos novos
movimentos sociais, destacam-se a criação e a defesa de identidades coletivas que permeiam
as ações dos grupos. Essas identidades seriam definidas pelos membros dos grupos a partir de
suas propostas de intervenção e modificação social.

6
Nas palavras de Ilse Scherer-Warren (1994), os movimentos sociais são laboratórios de
criatividade que produzem novas formas de se pensar a política, o fazer político e a participação
dos indivíduos nesse meio. Contudo, ao incluirmos esses atores, novas e complexas questões
emergem, propondo desafios para o campo teórico-metodológico que abordam esse fenômeno.

3.1 O Movimento Homossexual e sua história

A fundação do grupo Somos, em 1978, é considerada o marco do início da luta política dos
homossexuais em São Paulo no Brasil (GREEN, 2000; TREVISAN, 2000). Embora, desde o

6
Scherer-Warren (1994 apud COSTA, 2007)
21

final da década anterior, boa parte das forças para que isso acontecesse já estivesse se fazendo
presente (GREEN, 2000).

Cristina Câmara (2002) garante que o principal objetivo do grupo era reunir homossexuais
interessados em assumir sua orientação sexual, encontrar seus pares, afirmar a
homossexualidade.

Gustavo Gomes da Costa (2007) observa que o Somos surgiu em um momento de extrema
efervescência política, oriunda do processo de abertura do regime militar, milhares dos
movimentos sociais emergiram em torno de diversas reivindicações coletivas. Juntamente
com a mobilização das mulheres contra o machismo e o sexismo, os homossexuais buscaram,
pela primeira vez no país, politizar a homossexualidade, a fim de romper os limites do gueto e
reivindicar direitos iguais.

Era consenso no movimento homossexual a rejeição a qualquer forma de autoritarismo, fosse


este oriundo da repressão do regime militar, das hostes da esquerda, fosse o ocorrido na
relação entre homem e mulher ou mesmo entre o casal homossexual (COSTA, 2007).

O autor lembra que como outros movimentos sociais da época, o movimento homossexual
dava grande ênfase à sua autonomia em relação a partidos políticos. Também propunha um
modelo igualitário de identidade sexual, rejeitando modelos hierárquicos de relações
sexuais/afetivas presentes na cultura brasileira, observa Peter Fry7 (1982) e reivindicando uma
identidade homossexual na qual se identificariam todos aqueles que eram vítimas da
discriminação e do preconceito independentemente das diferenças dentro da comunidade
homossexual, ressalta Edward Macrae8 (1990).

Marcelo Tavares et al (2006) notam que num segundo momento, marcado por um
esvaziamento do movimento, os grupos mais atuantes parecem ter sido o Triângulo Rosa (do
Rio de Janeiro), o Grupo Gay da Bahia (GGB) e o Atobá (do Rio de Janeiro). A partir de uma
nova conjuntura, sem o controle da ditadura militar, mas com a chegada da Aids ao país,
outras formas de ativismo foram produzidas, com outras demandas.

7
Fry (1982, apud COSTA, 2007)
8
Macrae (1990, apud COSTA, 2007)
22

O enfoque do Triângulo Rosa era promover políticas públicas, leis e ações que pudessem
ajudar a diminuir a discriminação contra os homossexuais, via partidos políticos,
organizações da sociedade civil, OAB, Constituição Federal. Dessa forma, ainda que o
movimento homossexual já tivesse abordado a temática dos direitos, seu significado não
teve a importância que adquiriu com a atuação do grupo neste âmbito. (CÂMARA, 2002, p.
36)

De acordo com Tavares et al (2006), no início da década de 1980, GGB já havia coordenado
uma campanha, com relativa participação dos grupos existentes, pela retirada da
homossexualidade do Código de Classificação de Doenças do Instituto Nacional de
Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS). Dessa ação, o grupo Somos/SP
também participou, mas com uma atuação secundária.

Regina Facchini (2002) observa que a década de 1980 foi marcada por uma rearticulação
desse movimento, que buscou caminhos da cooperação com o Estado na luta contra a AIDS e
abandonou a crítica do autoritarismo, sem deixar de atribuir valor positivo à categoria de
homossexual.

Ainda nesse período, o grupo da Bahia fez a proposta, o encaminhamento e a campanha para
que fosse criada uma lei que punisse a discriminação por “opção sexual”, o termo utilizado na
época (FACCHINI, 2002).

Segundo Tavares et al (2006), no final dos anos 1980, com o crescimento dos casos de Aids e a
demora do governo em produzir respostas à epidemia, o movimento homossexual voltou a crescer
com o aparecimento de novos grupos para preencher esta lacuna, exigindo providências e
tomando a frente em algumas ações.

Para Tavares et al (2006), a luta contra a Aids passou a ocupar um lugar de destaque ainda maior
entre as bandeiras do movimento, em função da dependência que estes passaram a ter das verbas
oriundas do Ministério da Saúde para a continuidade de suas ações. A aproximação entre o
movimento homossexual e o poder público, que já vinha acontecendo lentamente, estava selada.

Isadora Lins França (2006) observa que os anos de 1990 emergem num contexto diferente, em
que o pânico em relação à Aids se ameniza, possibilitando o revigoramento de uma militância
homossexual calcada em outros discursos e estratégias. Multiplicam-se as categorias
nomeadas como sujeitos políticos ao movimento: em 1993, surge a expressão “Movimento de
Gays e Lésbicas”; em 1995, temos o movimento “GLT” (Gays, Lésbicas e Travestis); e em
1999, adota-se em parte do movimento, a partir de São Paulo, a expressão GLBT (Gays,
lésbicas, Bissexuais e Transgêneros). Anos depois, adota-se o termo LGBT.
23

“A inclusão das categorias „bissexuais‟ e „transgêneros‟ (termo que pretendia agrupar travestis
e transexuais), entretanto, não se deu pela demanda desses grupos, mas seguiu uma tendência
internacional”. (FACCHINI, 2002, p.205)

De acordo com Lins (2006), além das grandes categorias presentes na sigla LGBT, há
também subgrupos, incentivados pela proliferação de fóruns e listas de discussão na internet e
pertencentes principalmente ao segmento dos gays, como o grupo dos ursos, judeus gays,
universitários, advogados gays, barbies, jovens homossexuais etc. Várias identidades
convivendo no movimento e na cena homossexual.

Para a autora, a década de 1990, além de expansão deste circuito, trouxe consigo uma
configuração diferente do “gueto” homossexual de outrora: os espaços de consumo e
sociabilidade passaram a incorporar em certa medida o discurso político do orgulho e da
visibilidade, explicitando o seu direcionamento a um público de orientação sexual
determinada e incorporando símbolos popularizados pelos militantes, como a bandeira do
arco-íris. Assim, perde força a grande diferenciação estabelecida pelo movimento a partir da
“invisibilização” dos homossexuais pelo “gueto”, e também as fronteiras do que pode ou não
ser considerado atuação política.

Lins (2006) nota que, se a construção de identidades coletivas sempre foi um aspecto central
do movimento homossexual, que procurava reverter o estigma e a depreciação social que se
abatia sobre as pessoas que se relacionavam com outras do mesmo sexo, deve-se levar em
conta que essas construções nunca se desenvolveram isoladamente, mas sempre em
comunicação com outros atores sociais.

3.2 O Impacto da AIDS no Movimento Homossexual

Embora o primeiro caso de Aids tenha sido diagnosticado em 1981 nos Estados Unidos, só
em 1983, com a morte do estilista Marco Vinícius Resende, o Marquito, a Aids tornou-se uma
realidade no Brasil, lembra Costa (2007).

Segundo o autor, amplamente divulgada na mídia como a “peste gay” ou “câncer gay”, a Aids
reforçou o pânico geral contra a homossexualidade. Entre os homossexuais, a presença da
24

doença gerou muitas dúvidas devido à falta de informação. Com as primeiras mortes, muitos
militantes homossexuais ficaram assustados.

Se, de um lado ela [a Aids] veio reforçar antigos preconceitos que já pareciam
ultrapassados [...], por outro lado, ela, pelo enorme drama social que evoca, coloca as
sociedades e os Estados em confronto direito com a necessidade de implementar [...]
políticas de prevenção, o que os obriga, [...] a lidar diretamente com os grupos gays.
(COSTA, 2007, p. 128)

De acordo com Costa (2007) não foi o mero surgimento da doença “forçou” os governos a
lidarem com o problema. No caso brasileiro, a emergência da doença ocorreu em um contexto
de políticas favoráveis.

O fato de haver na época um governo estatal-SP (Franco Montoro [1983-1987]) interessado


na participação da sociedade civil, aliado a uma equipe de sanitaristas progressistas, explica a
9
resposta relativamente prematura à epidemia no Brasil (TEIXEIRA et al apud COSTA,
2007).

Costa (2007) lembra que como afirmado anteriormente, a presença de uma estrutura de
oportunidades políticas favorável possibilitou os primeiros contatos da militância
homossexual com órgãos estatais. À exceção da participação na Constituinte, esse contato
permaneceu restrito, nos anos de 1980 e em parte da década seguinte, às instâncias estatais de
saúde – secretarias estaduais e municipais de saúde, Ministério da Saúde e, mais
especificamente, o Programa Nacional de DST-Aids (PN DST-Aids).

Como explana Facchini (2002), a crescente desvinculação dos homossexuais como “grupo de
risco” e a manutenção dos recursos do PN DST-Aids possibilitaram a reestruturação do
movimento homossexual em todo o país.

Para Costa (2007), os grupos de prevenção foram um dos responsáveis por desvincular a Aids
da comunidade homossexual. O autor lembra que o aumento do número de casos, na década
de 1990, entre heterossexuais (principalmente mulheres) acabou por "auxiliar" nesse sentido.

Facchini (2002) lembra que devido ao avanço da epidemia e ao processo de desmobilização


dos grupos homossexuais, o caráter da militância homossexual sofreu grande mudança.

9
Teixeira (1997, apud COSTA, 2007)
25

Embora basicamente envolvidos com atividades voltadas ao combate à Aids, vários


grupos mantiveram atividades mais relacionadas à discussão em torno da
homossexualidade. O principal deles foi o grupo Gay da Bahia (GGB), que continuou a se
empenhar em campanhas que não se restringissem apenas ao combate à Aids. (MACRAE
apud COSTA, 2007, p. 126)

3.3 Sobre o Movimento Homossexual

Lins (2006) escreve que o que chamamos de movimento homossexual é, hoje, um sujeito
político bastante complexo, formado por múltiplas categorias identitárias, nem sempre
movidas pelos mesmos discursos. Sem a consideração dessa problemática torna-se difícil
compreender muitas das posições internas ao movimento no que diz respeito ao mercado
segmentado ou mesmo à relação com outros atores sociais que integram o seu campo de ação.

10
De acordo com Anderson Ferrari (2004), o Movimento Homossexual pode ser entendido
como educativo, na medida em que contribui para elaborar novas formas de conhecimento
para além de seus integrantes e para além da homossexualidade,

Frederico Viana Machado e Marco Aurélio Máximo Prado (2005) observam que ao conceituar
o que exatamente chamamos de Movimento LGBT iremos nos deparar com alguns dilemas e
poderemos observar a artificialidade dessa unidade, uma vez que encontraremos um número
de grupos independentes que realizam seus projetos e tentam unir suas forças em atividades
conjuntas quando possível. Esse processo não se faz sem conflitos, e via de regra essas
Organizações Não-Governamentais (ONG‟s) apresentam as mais diversas e/ou contraditórias
posições políticas, definições de homossexualidade, formas de militância e origens históricas.

Nesse ponto notamos que o Estado, como campo institucional de regulação e atuação política
privilegiado, e a sociedade civil como uma força numérica e conseqüente poder na produção
cultural, interpelam-se e vemos surgir um novo sujeito social que redefine o espaço da
cidadania (MACHADO; PRADO, 2005).

Nas palavras de Machado e Prado (2005), vemos que a mediação do sistema capitalista na
construção da visibilidade homossexual deve ser tomada em sua ambigüidade, já que se o
desenvolvimento da comunicação midiática permitiu um aumento da visibilidade, também
produziu imagens estereotipadas de um universo bastante diversificado.

10
Ferrari (2004, apud MELO, 2008)
26

Flávio Santos e Neusvaldo Medeiros (2007) afirmam que o grande desafio do movimento gay
é tentar constituir uma nova identidade coletiva diante das realizações desses eventos (as
paradas) e tentar apaziguar a necessidade inerente ao ser humano de dar sentido à vida e à sua
transitoriedade e, em parte, afrontar a nova força dos fundamentalismos.

Percebendo, portanto, que o caminho democrático, passa a ser a busca do equilíbrio entre a
afirmação das liberdades individuais e o direito de identificar-se, sem com isso degenerar em
comunitarismo agressivo e sectário. Tendo consciência de seu papel e contribuindo nas
transformações estruturais da lógica capitalista sem deixar ser tragado por ela.

Tavares e Andrade et al (2006) notam que para que tenha seus direitos civis reconhecidos, os
homossexuais precisam tornar-se visíveis no espaço público. Em contrapartida, esse
reconhecimento baseia-se na construção de uma identidade que contrapõe o padrão
heteronormativo (normalidade) e associa a homossexualidade aos campos da doença, desvio,
pecado, submissão, crime (anormalidade).

Para Tavares e Andrade (2006), é interessante perceber como a forma atual de fazer militância
convive com um tipo de ativismo característico da primeira fase do movimento. A luta atual
pelo direito a uma lei que reconheça a união entre pessoas do mesmo sexo parece aglutinar a
luta contra a discriminação, a elevação da auto-estima, o reconhecimento da relação afetiva,
tudo isso no formato de um direito, que tem como pano de fundo a discussão sobre direitos
humanos.

Como lembram Santos e Medeiros (2007), o movimento surgiu da ação contra o preconceito
cultivado há anos, sendo ele demonstrado em todas as esferas do convívio social, político e
cultural. Em contrapartida, os homossexuais se mostram de maneira deliberada, à vontade e
dizendo “Eu tenho Orgulho de Ser Gay”, e “Orgulho Sim, Preconceito Não” tomando a
Parada do Orgulho Gay diametralmente antagônica aos valores ou aos códigos culturais
dominantes da sociedade hegemônica.

Melucci (2001) entende que a ação da Parada Gay produz efeitos sobre as instituições, porque
moderniza sua cultura e sua organização. Mas, segundo Flávio Santos e Medeiros (2007), ao
mesmo tempo, as mobilizações levantam interrogações não previstas na lógica da
racionalidade instrumental, que exige somente aplicar e tornar operativo o que foi decidido
por um poder anônimo e impessoal.
27

3.4 Em busca de Visibilidade: as Paradas Gays

Segundo Costa (2007) foi no ano de 1996 que os grupos de São Paulo organizaram primeira a
Parada do Orgulho GLT, que se tornou símbolo do movimento homossexual no Brasil. O
autor lembra, que mesmo depois de uma primeira tentativa frustrada em 1996, em 28 de junho
de 1997, aproximadamente duas mil pessoas seguiram pela Avenida Paulista com o intuito de
atrair a atenção da sociedade e dar visibilidade pública às reivindicações dos homossexuais.

A Parada do Orgulho LGBT passou a acontecer todos os anos, tornando-se parte integrante
do calendário oficial da cidade. Ao reunir aproximadamente um milhão e meio de pessoas,
esse evento passou a ser uma das principais formas de o movimento homossexual afirmar
sua existência como sujeito político. (COSTA, 2007, p. 127)

O autor observa que nos últimos anos, o movimento pelos direitos dos homossexuais tem
ganhado grande visibilidade e importância no cenário político brasileiro, principalmente em
virtude das diversas “Paradas do Orgulho LGBT”, que têm chamado a atenção de todas as
instâncias da sociedade.

11
Para Luiz Mott (2000), em meio à sociedade conservadora e machista, na qual ainda
persistem práticas de violência aos homossexuais, as “Paradas Gays” personificam a
contestação dos códigos político-culturais dominantes, tornando-se o combustível necessário
para o auto-reconhecimento identitário e transformador.

De acordo com Santos e Medeiros (2007), a Parada mostra-se como o momento de fixação
provisória do sentido de ser gay, enquanto emerge como o momento de propiciar o
desvelamento do preconceito que se encontra no cerne da sociedade. Para os autores, é na
ação das Paradas, que os gays afirmam que querem ser aceitos e respeitados, de forma plural e
reflexiva.

Dagnino (2000) garante que os movimentos sociais têm um papel fundamental no


questionamento da fixação dos significados, surgindo um campo de luta no espaço social
entre antagônicas. Melucci (2001) chama atenção para o fato de que os movimentos desafiam
os códigos culturais dominantes. Então, as identidades transformam-se em poder nas mãos
desses agentes que se reconhecem e se solidarizam com uma causa, desafiando um poder
constituído.
11
Mott (2000, apud SANTOS; MEDEIROS, 2007)
28

A Parada é um momento no qual os integrantes criam um espaço público de expressão de sua


identidade compartilhando da liberdade de manifestação pública da forma de ser que, em
outros momentos, está restrita a espaços específicos (guetos) (SANTOS; MEDEIROS, 2007).

A Parada gay, por mais que seja considerada o ápice do movimento, é na verdade o evento
final e realmente festivo, sendo realizada após uma semana de reflexão, fóruns, palestras e
outros debates acerca de assuntos variados e pertinentes às reivindicações e concepções dos
grupos gays, nas palavras de Adriana Nunan 12.

Além da novidade representada pela Parada do Orgulho, o movimento homossexual utilizou


outra forma de mobilização que ficou conhecida como “beijaço”, lembra Costa (2007). O
autor ressalta que neste tipo de ação, os militantes beijam-se em espaços públicos ou privados
onde ocorreram episódios de discriminação contra homossexuais. Os “beijaços” foram
inspirados nos Kiss-in norte-americanos, lembra o autor.

A crescente imagem que o mercado segmentado LGBT passou a ter na mídia e a ênfase no
poder de consumo dos homossexuais (a ideia do pink money) contribuíram também para tais
experimentações (COSTA, 2007). Podemos afirmar que essas experimentações referem-se
aos movimentos de combate ao preconceito.

Esse contexto de maior visibilidade do mercado LGBT e de uma cultura gay (FACCHINI,
2002) somado à presença de aliados nas instituições políticas repercutiu na sociedade civil, o
que revela o aumento expressivo da participação nas Paradas nos últimos anos, nota Sidney
TARROW 13.

Costa (2007) percebe que essas ações tiveram como resultado a maior interlocução com os
poderes públicos e a garantia, mesmo que de forma restrita, de uma legislação favorável à
comunidade homossexual, como a lei 10.948/2001, que pune “toda manifestação atentatória
ou discriminatória praticada contra cidadão homossexual, bissexual ou transgênero”.

O autor observa que no que diz respeito aos repertórios de ação coletiva, o movimento
homossexual inovou nas formas de mobilizações no Brasil. Influenciado pelo exemplo das

12
Nunan (2002, apud SANTOS; MEDEIROS, 2007)
13
Tarrow (2004, apud COSTA, 2007)
29

Gay Pride Parades norte-americanas, o movimento adotou esse tipo de ação para dar
visibilidade à causa homossexual. Com a crescente participação da comunidade homossexual,
assim como de heterossexuais, as Paradas conseguiram atrair a atenção dos meios de
comunicação de massa, inserindo a questão dos direitos homossexuais na pauta de discussão
política.
30

4 CINEMA

4.1 Cinema e Homossexualidade

Codato (2003) explica que um filme é efeito de um processo e por ser processual é que, em
cada uma de suas etapas, carrega ideologias que visam explicar sua estrutura simbólica.
Assim, percebemos que o cinema reflete um lugar de fala, o ponto de vista de quem conta
uma história.

O autor reflete que o cinema nos oferece a chance de vivenciar uma história com começo,
meio e fim; num tempo condensado, limitado, em que muitas vezes anos se passam em
minutos, nos fazendo experimentar sensações que não nos atingem de forma direta, como, por
exemplo, as alegrias de um encontro amoroso ou as tristezas de uma morte trágica, mas que
nos parecem reais, uma vez que as testemunhamos.

Como observa Moreno (2002), um filme geralmente transmite uma mensagem através da
composição e imagem, obedecendo a códigos que são estabelecidos, em grande parte, pela
técnica cinematográfica. Para ele, na construção de planos, por exemplo, a ênfase que pode ter
um plano próximo filmado com grande angular, ou mesmo o destaque de um personagem em
primeiro plano num plano médio de conjunto, são recursos técnicos que têm um objetivo; não
são construídos ao acaso e, se forem, só revelarão a inépcia de seu criador.

Segundo Codato (2003), como um produto cultural, o cinema apresenta a visão de mundo de
diferentes indivíduos e tem uma linguagem que performa uma inteligência verbal e imagética;
um discurso ideológico carregado de diferentes interpretações e significados. Sua leitura se dá
por meio de vivências e experiências anteriores daqueles que assistem à obra, buscando em
suas realidades um sentido para o que é visto e criando uma nova noção de realidade, ou pelo
menos uma nova forma de compreendê-la.

O cinema como resultado de uma produção mental-criativa trará um conjunto das


observações pessoais, críticas construtivas ou negativas, intolerância, idiossincrasias e
preconceitos de seus realizadores. Não obstante, esta visão cinematográfica demonstrará
também uma preocupação com a sociedade à qual pertence e em que provoca estes estados
de manifestação. Que, sintomaticamente, é um reflexo dela ou, no oposto, uma recusa aos
seus valores culturais e sociais. (MORENO, 2002, p. 10)
31

Como observa Codato (2003), um filme depende do olhar seu espectador para ser
interpretado, mas dita regras e modelos de comportamento, pois traz consigo os valores dos
que custeiam sua produção, dando sentido a um discurso específico.

Codato (2003) afirma que o cinema constrói uma realidade por ser massivamente consumido,
gerando um conjunto de representações sociais que passam a permear e dar sentido à noção de
realidade de um grupo, mas também reproduz uma realidade, refletindo aquilo que vem sendo
construído socialmente.

Percebemos a configuração de uma nova oralidade na sociedade moderna, estruturada, sem


dúvidas, pela influencia dos meios de comunicação audiovisuais – cinema, televisão, vídeo
– que utilizam a imagem e o som para informar, entreter, educar e comunicar. Assim, o que
vemos e ouvimos é, mais do que “parece ser” (ALMEIDA 14 apud CODATO, 2003, p. 13)

Luiz Nazário (2007) explica que o cinema sempre serviu de refúgio para os homossexuais
que, sufocados pela realidade, projetaram suas fantasias sobre a tela: a cinefilia é um dos
componentes fundamentais da cultura homossexual.

Codato (2003) nota que na intenção de uma suposta reprodução de uma realidade, não só as
classes sociais dominantes devem aparecer no cinema. Assim, a grande tela começa a mostrar
também as chamadas minorias, que se configuram como realidade ao serem representadas,
mas têm sua imagem exibida de forma parcial, segundo impressões preconcebidas ou
entendidas como padrões de comportamentos fixos.

Temos então os negros, mesmo que representados como escravos e subalternos, as mulheres,
mesmo que ainda submissas ou reproduzindo os papéis de mãe e esposa perfeitas, modelos
tão criticados pelas feministas, e os homossexuais, os gays, as lésbicas, aqueles que mantêm
relações eróticas ou afetivas com pessoas do mesmo sexo, nota o autor.

4.2 Homossexuais no Cinema

Nazário (2007) esclarece que o cinema, enquanto indústria, sempre contou com grande staff
de homossexuais e lésbicas. Contudo, até bem pouco tempo, o cinema apenas sugeria a
existência da homossexualidade. O autor lembra que, a primeira dessas sugestões ocorreu em

14
Almeida (1994, apud CODATO, 2003)
32

The Gay Brothers (1898), de Thomas Edison. No filme, dois homens dançam, alegremente,
uma valsa. Mais focado no tema, e talvez o primeiro filme a abordar diretamente a
homossexualidade.

“Como todo papel pressupõe um comportamento, é este comportamento que vai ser julgado
pela sociedade”. (MORENO, 2002, p. 12). Segundo o autor, pelo fato do homossexual ser um
fator variante entre os conceitos de homem e mulher ditados pela sociedade e, ao mesmo
tempo, ter aparência dos dois, tal comportamento, medido também pelo seu gestual, vai ser
julgado por essa sociedade.

Moreno (2002) nota que se o personagem homossexual é representado de maneira


estereotipada, ou seja, efeminada e vestindo cor-de-rosa, no caso do homem, e masculinizada
e agressiva, no caso da mulher, passamos a deslocá-las de uma representação da diferença,
para uma dessemelhança, gerando assim, uma forma de exclusão social.

Para o autor, essa nova forma de exclusão social, desvinculada aqui de seu caráter econômico,
aparece de forma simbólica, construindo um processo múltiplo de preconceito e
prejulgamento, em que todo o indivíduo identificado como homossexual passa a ser
encaixado nos modelos fornecidos por um produto cultural, no caso o hollywoodiano.

Segundo Nazário (2007), os clichês que cercam os homossexuais tornaram-se, graças às


agressões generalizadas, parte integrante de sua psicologia existencial. O círculo vicioso da
arte que imita a vida e vida que imita a arte impede uma visão “depurada” da
homossexualidade. “O horror causado pelo „amor que não ousa dizer seu nome‟ é tão
profundo que mesmo os atores heterossexuais que interpretam homossexuais costumam ser
estigmatizados”. (NAZÁRIO, 2007, p. 100)

Moreno (2002) afirma que o cinema caricaturiza o papel do homossexual na sociedade, pois,
ao criar e depois fazer crer ao público que aqueles personagens são os mesmos da vida real, o
que fica é a imagem de um ser ridículo, fraco, sem nenhum estatuto legal dentro da sociedade.
E para isso contribui, como discurso desaprovador de um sujeito, ou segmento, que está fora
dos padrões de gestualidade que a sociedade acredita ser o único: o gestual próprio de um
homem ou de uma mulher heterossexual.
33

Na vida real, os personagens que vivem à margem, são os desencontrados, os lúmpen-


operários, os biscateiros. Pessoas que na vida real, são relegadas à categoria de miseráveis;
são os párias da sociedade, o trabalhador que não se realiza, a família que não se realiza, e
no caso dos homossexuais, o ser que não se realiza como tal, devido à sua escolha,
preferência ou orientação sexual. (MORENO, 2002, p. 14-15)

Segundo Codato (2003), ao assistir a um filme, por exemplo, a personagem está sendo vista e
escutada e não apenas lida como em um livro, ressalta o autor. Segundo o autor, no caso de
uma obra escrita, por exemplo, o leitor pode criar imagens particulares deste universo descrito
valendo-se muito mais de sua subjetividade para entendê-la e interpretá-la. Num filme,
entretanto, essas imagens já são dadas, isto é, são frutos da subjetividade de outros. Dessa
forma, como podemos ver e ouvir esse universo, passamos a compreendê-lo como parte do
que chamamos de realidade.

Uma imagem é um universo de sentidos. Ela é uma composição de diferente elementos que,
em seu conjunto e interação dão origem a um ou diversos significados. Propomos que
significado seja aqui entendido como aquilo que produz efeito de sentidos, que dá
elementos para que um sujeito e sua maneira de pensar se manifestem. (ORLANDI 15 apud
CODATO, 2003, p. 13)

Uma fotografia, um filme, um programa de televisão não são, exatamente, um espelho da


16
realidade, como observa Vilches , mas são intermediários na compreensão de mundo de
quem os vê, assista ou observa.

O cinema, em termos geralmente de imagem e de som, ao imitar a vida, procura nas


relações entre os seres, copiar a sua gestualidade, pois é através desta linguagem, a
linguagem do gesto, que ele veste a personagem e comunica à platéia a sua personalidade e,
assim, de maneira mais convincente as mensagens desejadas. (MORENO, 2002, p. 13)

4.3 Os festivais LGBT

Nazário (2007) percebe que vivemos, desde os anos de 1990, o boom da produção com
temática homossexual, de formato e qualidade variada: de melodramas pornográficos a
exercícios explícitos de sadomasoquismo, de comédias baratas a obras-primas
cinematográficas.

Karla Bessa (2007) lembra que um dos pontos de partida do circuito de festivais LGBT, nos
anos 1990, é o fato de serem primeiramente constituídos e constituintes de práticas
representacionais que visam tornar presente, de modo positivo, imagens (função de mimeses,

15
Orlandi (2002, apud CODATO, 2003)
16
Vilches (1997, apud CODATO, 2003)
34

muitas vezes espelhada; noutras, autocrítica e bem humorada) relativas ao universo "homo" e
seus arredores.

Um dos desafios iniciais do "festival" era criar um espaço de produção e exibição de filmes
que estabelecesse um diálogo entre a pluralidade de sujeitos e subjetividades pertencentes à
cena "homo". Promover a ruptura com o padrão estético da sissy (gay efeminado), com
cenas de erotismo entre mulheres – direcionadas para a libido masculina heterossexual –,
ou, ainda, personagens gays vinculadas à criminalidade, monstruosidade, fadadas a finais
trágicos reservados aos que se permitiam participar das mais grotescas perversidades.
(BESSA, 2007, p. 265)

A autora observa que nos anos 1990, em meio à proliferação dos diversos tipos e
especialidades de festivais de cinema, incluindo os que contemplam as mudanças na
tecnologia e formatação dos filmes (curtas, VHS, Digital), destaca-se o boom de festivais gays
e lésbicos.

“A produção de filmes com temática homossexual, encontra vazão num mercado paralelo
formado por mais de 100 festivais de cinema LGBT em todo o mundo, festivais que
funcionam como importante reconhecimento de identidade para seu público específico, mas
que também revelam para um público mais amplo o outro cinema”. (NAZÁRIO, 2007, p.105)

Bessa (2007) nota que a configuração dos festivais LGBT de cinema, naquilo que eles geram
em termos de produção e consumo de bens culturais (materiais e imateriais), interage com a
constituição da cena gay, ou seja, há uma relação entre os festivais LGBT, o circuito
cinematográfico por ele concebido e o modo como essa dinâmica compõe a produção de
subjetividade e suas respectivas marcas de gênero nas urbis contemporânea.

Comecei a pensar nos festivais de cinema como o último refúgio da democracia neste nosso
mundo cada vez mais controlado e manietado, o último lugar onde um verdadeiro discurso
participatório pode ainda valer e onde pessoas de firmes convicções e mentes abertas
podem trocar opiniões, abrir mão do controle e ser mudadas para sempre pelo que acontece
na tela. (RICH 17 apud BESSA, 2007, p. 261)

De acordo com Bessa (2007), permanece a questão se esses festivais estariam na mão do
narcisismo típico da cultura contemporânea ou poderiam ser entendidos como espaços
transgressivos de uma corporalidade e uma subjetividade convencionais já cultuadas pelo cinema.

Nazário (2007) esclarece que no cinema, como na própria sociedade, o desejo homossexual
viu-se impelido a refluir para as margens e para o subterrâneo: somente no cinema marginal e

17
Rich (2000 apud BESSA, 2007)
35

no cinema underground a homossexualidade pôde ser expressa e celebrada sem véus e


máscaras.

Ele lembra que um dos mais antigos é o Festival Internacional do Filme com Temática
Homossexual “De Sodoma a Hollywood” de Turim, em sua 23ª edição em 2008. Em 1995,
em Israel, ultraortodoxos liderados pelo rabino Yitzhak Kulitz protestaram contra a realização
do Festival de Cinema Homossexual e Lésbico promovido pela Cinemateca de Jerusalém,
mas sua diretora Lia Van Leer ignorou as ameaças e manteve a programação.

Já em 1999, como nota o autor, foi criado o Festival de Cinema Gay e Lésbico de Miami. Em
São Francsico, onde o Gay Pride Day leva metade da população às ruas, tem lugar o San
Francisco International Lesbian & Gay Film Festival. No Brasil desde 1992, o Mix Brasil –
Festival de Manifestação das Sexualidades, dirigido por André Fischer e Suzy Capó, são
outros importantes festivais de cinema LGBT.

O mais peculiar dos festivais é o de Tóquio, obrigado a comprar as cópias dos filmes
programados, já que a censura japonesa proíbe a mostra de genitais: seus organizadores têm
de imprimir tarjas pretas sobre os órgãos e editar as cenas de sexo explícito, para uma
platéia que ainda permanece majoritariamente feminina. (NAZÁRIO, 2007, p. 106)

A maioria dos festivais, ao longo de suas edições, desenvolveu uma prática de conversa, de
debate, que os distingue dos demais festivais de cinema, dado o interesse "formativo" que lhe
é inerente (BESSA, 2007).

Segundo Bessa (2007), a demarcação do que hoje se entende por um festival LGBT foi, e
ainda é, objeto de controvérsias. Embora pareça possuir um recorte claro – “gays, lésbicas,
transgêneros e bissexuais”. Algumas produções não abordam diretamente o cenário gay, mas
incluem sexualidades consideradas fora dos padrões de normalidade heterossexual, como as
práticas sado-masoquistas, e foram produzidas e/ou dirigidas por pessoas que se auto-
identificam como gays.

De fato, a controvérsia existiu ao longo da década de 1990 e cada festival formulou suas
“regras” e critérios de inscrição, instituindo uma convenção. Alguns festivais eram mais
abertos a temáticas que "interessariam" ao público majoritariamente homossexual, outros,
mais restritos, limitavam a oportunidade de produção e exibição (concorrendo a verbas para
novos filmes) àqueles diretamente ligados ao tema e à identidade, enfatizando o
compromisso político com uma estética diferente dos filmes comerciais e possibilitando
uma abordagem direta da homossexualidade sem passar pelos subterfúgios clássicos da
indústria cinematográfica. (BESSA, 2007, p. 206)
36

Graças a esses festivais, filmes mais bem produzidos ganharam o circuito alternativo, alguns
arrecadaram fortunas e forçaram, pela lógica do mercado, a introdução da temática em
seriados de TV (NAZÁRIO, 2007).

4.4 A Relação da AIDS e das Paradas do Orgulho Gay com o Cinema LGBT

Nazário (2007) destaca que sob o efeito da AIDS e da pornografia de massa, Hollywood foi
levada a rever sua posição sobre os gays. Um Oscar foi concedido a Filadélfia (Philadelphia,
1993), de Jonathan Demme, protagonizado por Tom Hans e Antonia Banderas, centrado no
drama do amante que agoniza de AIDS.

Embora não haja nenhum erotismo no filme, foi a partir da comoção que ele produziu que
a sociedade tomou consciência de homossexuais que contraem a AIDS e continuam a viver
sua vida condenada, agora, não apenas por Deus, pela sociedade e pela família, como
também pela própria “vida”. (NAZÁRIO, 2007, p. 104)

Desde então, o cinema passou a demonstrar “piedade ecológica” em relação aos gays, essa
“espécie em extinção”, percebe Nazário (2007). O autor observa que, a partir daí, surgiram
“filmes simpatizantes”, nos quais o casal straight é cercado por personagens secundários
gays, que conquistam o público tolerante com sua “doçura”, “inteligência” e “sensibilidade”.

Os ex-perversos, convertidos em “seres de luz”, foram integrados ao mundo normal,


mantendo, é claro, seu erotismo na sombra (NAZÁRIO, 2007).

Para o autor, ao obrigar a sociedade a retirar a homossexualidade da clandestinidade na


tentativa de controlar a epidemia, a AIDS facilitou a explosão das sexualidades reprimidas,
fazendo florescer um vigoroso cinema gay e lésbico, sustentado pelo crescente “mercado
gay”.

Bessa (2007) destaca que, em geral, os festivais dessa natureza priorizam películas sensíveis a
questões como AIDS, discriminação, solidão e desafios e dificuldades de se "assumir" uma
identidade gay, bem como reserva parte do repertório de exibição para filmes com forte
conteúdo erótico.

Desde o início, houve uma ligação entre os Festivais e as Paradas do Orgulho Gay, não
apenas pelo ponto de partida – São Francisco, na década de 1970 –, mas pela referência à
37

constituição de espaços de sociabilidade, de encontro entre gays, lésbicas, transgêneros,


bissexuais, destaca Bessa (2007).

Segundo a autora, nesse sentido, o objetivo era fazer com que cada um saísse do seu próprio
universo – bares, festas e guetos –, criando, em primeira mão, uma tolerância à diversidade
interna da “comunidade”, cujas diferenças nem sempre foram negociadas harmonicamente.

Bessa (2007) esclarece que ao incluir outras marcas de diferenciação (classe, raça e
nacionalidade) – e ao adentrar em práticas eróticas e de estilização corporal
(sadomasoquismo, cross-dressing, usos de tatuagem e piercing), os festivais ganharam um
contorno abrangente que instigou a produção e difusão de toda uma gama de "novas
subjetividades".

Deste modo, para a autora, os festivais atuaram (e continuam atuando) não apenas na
constituição de performances de gênero, mas também na configuração de novas formas de
expressões de prazer, desejo e sexualidade.

Bessa (2007) ressalta que outro dado que liga os festivais às "paradas" é a possibilidade de
construir uma dada visibilidade – ainda que tímida nos anos 1970 e restrita a algumas poucas
cidades (São Francisco, Chicago) e só nos anos 1980 estendida para Nova York, Londres e
Paris – assumidamente exótica (homens seminus, montados como drags, bonecos, mulheres
travestidas), às vezes carnavalesca, ou até grotesca.

De acordo com Bessa (2007), havia uma consciência clara sobre a importância de construir
uma auto-representação, cuja aposta política estava vinculada ao compromisso de subverter a
imagem hegemônica veiculada sobre a homossexualidade pela indústria cinematográfica.

A autora percebe que os festivais investiam e investem na concepção de um cinema-


divertimento, mas, sobretudo, na auto-representação das lutas travadas contra a homofobia, na
crítica à heterossexualidade como norma, e na valorização daquilo que os estereótipos
ridicularizavam – a "sapatona" e seus maneirismos masculinizados, a travesti, as drag queens
e seus exageros visuais, as barbies e seus musculosos corpos, uma população que, por vezes,
se auto-denominou freak e vivia, de um jeito queer.

Bessa (2007) ressalta que esses grupos buscavam a possibilidade de conquistar visibilidade,
cuja conotação não fosse mais a da perversão, mas da ousadia e da beleza de ser e se
38

reconhecer diferente, sem necessidade de vínculos a identidades essencializadas e de


demarcar políticas identitárias em sua construção fílmica.

A autora esclarece que a aparição nos festivais LGBT de diretores, atores e críticos, bem
como o convite a pesquisadores da área da sexualidade, da psique e/ou relacionados com a
temática em questão (violência física contra gays, AIDS etc.), promove outra dinâmica de
projeção-audiência, que descaracteriza a tradicional relação passiva e aumenta as chances de
esclarecimento ou mesmo de germinação de dúvidas (existenciais ou não) que permitirão um
prolongamento da exibição do filme a uma relação maior (engajamento) com o que se
consome em termos de imagem-representação.

Bessa (2007) lembra que a preocupação de engajamento político de realizadores, produtores e


dos que participam dos júris dos festivais, desde o primeiro, realizado em São Francisco
(1976), sempre foi justificada em face de uma leitura de que até meados dos anos 1980 a
maioria dos filmes apresentava uma visão bastante distorcida dos gays, reforçando
estereótipos e (re) alimentando a homofobia. Assim, essa produção cinematográfica deveria
trazer uma nova abordagem, uma afirmação da identidade, bem como tocar nos problemas
candentes enfrentados pelos gays no dia-a-dia.

Como aponta Bessa (2007), a filmografia da década de 1990 colocou em cena a ambivalência
política já presente no propósito dos festivais que, se aposta na construção de identidades de
gênero.

Refletir, sobretudo, sobre as décadas de 1980 e 1990 do século XX implica perceber como
os filmes exibidos estiveram vinculados às lutas (simbólicas ou não) políticas, éticas e
estéticas que vão desde a reposição do "casal", nos moldes dos parâmetros “hétero”, até seu
avesso, como a exploração de técnicas e outros coadjuvantes eróticos, configurando um
jogo com regras, às vezes, rígidas, porém, circunstanciais. (BESSA, 2007, p. 263)

Nas representações do que somos, os vínculos mecânicos entre desejo, prazer e identidade
sexual ainda são acionados, criando a falsa ilusão de uma continuidade e coerência entre estas
diferenças, porém intercambiáveis, esferas da nossa subjetividade. O uso político do termo
queer tem assim uma posição estratégica na luta contra a fixação de identidades trivializadas e
normatizadas pelas práticas/discursos institucionalizados, apesar de sofrer os desgastes das
apropriações da mídia e do mercado nos últimos anos.
39

5 ANÁLISE DOS FILMES

5.1 Milk – A Voz da Igualdade: Construção do Personagem – aspectos identitários e


sociológicos

Baseado em fatos reais, o longa Milk – A Voz da Igualdade mostra a história do primeiro
homossexual assumido a conquistar um cargo público nos Estados Unidos e, mostra o início
do movimento homossexual norte-americano. Harvey Milk é um nova-iorquino que decide se
mudar para São Francisco, pois queria fazer algo de importante em sua vida.

Através do título do filme Milk – A Voz da Igualdade, notamos que Harvey, defendia a
igualdade entre todas as pessoas. Ele lutava para que não somente os homossexuais, mas
também, negros, idosos, entre outros, fossem respeitados e não, colocados à margem da
sociedade.

O longa mostra diversos personagens homossexuais, mas analisaremos o principal deles.


Harvey Milk (interpretado por Sean Penn) tem pouco mais de 40 anos no início da história.
Ele é inteligente, perseverante, luta pelo que acredita, defende as minorias. Quanto ao seu
visual, em um momento da história, após mudar-se para São Francisco, aparece de forma
descuidada, ou seja, com o cabelo e a barba grande e com roupas bastante simples: calça,
jaqueta jeans e botas. Podemos dizer que Milk nesse momento do filme, sofre influências
hippies no seu modo de vestir, já que o mesmo encontra-se nos anos de 1970, década
posterior ao movimento

Ele busca uma nova forma de conquistar votos para sua campanha eleitoral. Com isso, Milk
volta a se vestir da mesma maneira que se vestia em Nova Iorque para trabalhar. Ele
novamente se mostra elegante. Assim como ocorre no filme, Orações para Bobby, o
protagonista utiliza de um meio para expressar-se. Ao longo da história, ouvimos a narração
de Harvey. Ao invés de utilizar um diário, o personagem utiliza um gravador de aúdio.

O cenário principal do filme é a cidade de São Francisco, grande reduto dos homossexuais de
todo o mundo. As ruas são um dos principais cenários do filme, pois são nesses locais que
acontecem as marchas dos manifestantes. Devemos destacar a Rua Castro como o centro
dessas manifestações, pois nesse local, homossexuais oriundos de todo o mundo, começaram
40

a se aglomerar para reivindicar direitos civis, isso nos Estados Unidos. Vale ressaltar que essa
via está em um tradicional bairro católico irlandês, e possui seis quarteirões.

Outro cenário importante é o apartamento de Harvey, usado para as filmagens. Nesse


ambiente, que podemos descrever como pequeno e simples de fato Milk viveu nele. Isso sem
falar que o local que serviu como comitê de campanha do ativista, na vida real era onde se
localizava o seu negócio. Com isso, observamos que o cenário do filme é totalmente urbano.

Apesar de aparecerem alguns beijos e sutilmente relação sexual com pessoas do mesmo sexo,
a obra não tem a sua narrativa focada na vida sexual do personagem protagonista. A narrativa
do filme é construída através da luta de Harvey pelos direitos dos homossexuais na sociedade.

Essa batalha pela igualdade permite a percepção da identidade homossexual de Milk, já que
ao verificarmos a personalidade das pessoas com quem convive, o modo que comportam entre
si, podemos descobrir um pouco mais sobre ele.

No filme, através de alguns diálogos e gestos, notamos a homossexualidade do personagem.


Tal percepção será descrita no item seguinte, ao apontarmos cenas chaves que indiquem a
identidade de Milk e claro, o preconceito sofrido por ele.

5.1.1 Construção da Narrativa Fílmica

Para a construção da narrativa do filme, faremos a separação do filme em duas categorias. A


primeira delas mostrará cenas que denotem o preconceito vivido por Harvey e, outros gays. Já
na segunda categoria perceberemos as vestimentas, os diálogos, os gestos, ou seja, aquilo
indica a identidade homossexual do personagem.

Dentre as cenas que podemos enquadrar na primeira categoria de análise, podemos destacar
de início, a parte em que Milk decide mudar-se para São Francisco, com Scott (namorado dele
no início do filme). Essa cena mostra os dois arrumando a fachada da loja que alugaram na
cidade (loja essa que fica embaixo do apartamento que moram e que serviria como comitê de
campanha). Scott do lado de dentro dela vai ao encontro de Harvey, que está do lado de fora.
Os dois dão um breve selinho na frente de um homem que os veem se beijando e questiona se
são os locatórios da loja. O homem cumprimenta Milk com um aperto de mão, em seguida
41

sem nenhum incômodo limpa sua mão com um pano. Tal comportamento assegura a
afirmação de que aquele personagem é preconceituoso e tem certo nojo de homossexuais.

Na mesma cena, o homem afirma que se Milk abrir a loja, a Associação e a polícia iriam
cassar a licença dele. Milk pergunta: “Sob que lei?”. O homem responde: “Há as leis dos
homens e as leis de Deus neste bairro”. O homem começa a andar e afirma que a polícia de
São Francisco cumpre as duas. Ele sai de cena. Percebemos assim, que o homem justifica a
sua rejeição aos homossexuais, por meio não somente do que para ele a sociedade condena,
mas também através do que aprendera em sua religião.

A cena seguinte evidencia a violência cometida por policiais. Eles entram em um bar de
cidade e agridem homossexuais. Em seguida, temos um depoimento real dado para uma
emissora de TV. Segundo o entrevistado, podiam ser ouvidos gritos, pancadas e
esmagamentos. Ele afirma que essa experiência foi a mais pavorosa que teve em sua vida.

Cenas reais de Anita Bryant. No filme, aparece uma entrevista dela na qual afirma que se
forem permitidos direitos civis aos homossexuais, “logo serão as prostitutas, ladrões, ou
qualquer um. Deus os pôs em uma categoria de moralidade”. Milk está encostado de pé na
parede de seu apartamento assistindo à entrevista dela na televisão. Ao fazer tal afirmação,
Anita coloca os gays, como pessoas ruins, que não fazem parte da sociedade, mas estão à
margem dela.

A cena é de uma reportagem sobre a permissão de demissão de professores homossexuais da


Califórnia. Nessa parte do filme, o senador John Brigss mostra que considera os gays, como
molestadores de crianças e que só pensam em sexo. “Segundo a lei não se pode, a não ser que
se prove que a homossexualidade afeta as crianças e se prove inadequada para as aulas. O
senador John Brigss quer mudar isso”, fala o jornalista. O senador é entrevistado: “Minha
proposta é proteger nossos filhos desses gays pervertidos e pedófilos, que recrutam nossos
filhos para participar desse estilo de vida. Incluindo os que fazem isso em nossas escolas
públicas. Chegou a hora de acabarmos com isso”.

Nesse momento, percebemos mais um cena em que o preconceito é exarcebado. A fala do


personagem é importante, pois ele é um homem público e também porque a sua afirmação foi
42

para a televisão, ou seja, aquilo que disse repercute por todo o mundo e contribui para o
aumento do preconceito.

A continuação da cena mostra alguém questionando o senador: “Como vai determinar quem é
homossexual? O político responde: “meu projeto define procedimentos para identificar os
homossexuais”. Alguém: “É, como? Irá chupá-los, Briggs?”. Ele responde: “Desculpem...
Querem saber? Podem discutir comigo, mas não podemos discutir com Deus”. (ele é vaiado)

Agora, destacaremos trechos que mostrem a identidade homossexual de Harvey. Na cena


Harvey Milk (vestido de terno) conhece um homem na escada da estação do metrô, isso nos
anos de 1970. Na conversa iniciada por Milk, ele diz que é “seu aniversário”, em uma clara
cantada no jovem. Só que o jovem afirma que não gosta de caras com mais de 40 anos.
Harvey contrapõe a resposta do jovem e afirma que aquela é a noite de sorte dele, pois ainda
tem 39 anos até a meia-noite. Em seguida, ele parte para cima e dá um beijo no jovem e os
dois seguem juntos, descendo a escada do metrô. Finalmente o cara se apresenta, o nome dele
é Scott, que será seu futuro namorado. Observamos nesse trecho do filme, o comportamento
homossexual de Milk, tanto através do diálogo dele com Scott, quanto por meio de seu beijo.

A cena seguinte é no apartamento de Milk, os dois bebem e ouvem música. Uma troca de
carinhos começa e mesmo sem mostrar explicitamente uma relação sexual entre os
personagens, sabemos que o ato aconteceu, pois os dois se encontram deitados na cama
conversando. Nessa conversa, Scott olha para o relógio e percebe que agora Milk tem quatro
décadas de vida. Milk responde que tem 40 anos e que não fez nada que o deixasse orgulhoso.

Em uma nova cena, a nova coordenadora de campanha (que entrou após o término de namoro
de Scott com Milk), entrega a Harvey diversos jornais que apoiam sua candidatura. Ele fica
feliz e todos saem para comemorar, em seguida, aparece um homem, Jack, do lado de fora de
sua loja (Jack será o novo namorado de Harvey). Ele está bêbado. Milk o leva para dentro de
seu apartamento. Os dois transam.

Tão fundamental quanto os gestos, os diálogos, de Milk com os outros personagens, para
melhor percebermos a sua homossexualidade, a atuação dele como ativista político é um
importante meio para a nossa melhor percepção.
43

Na cena Scott carrega um caixote e outros materiais pela rua. Milk sobe no caixote e com um
mega-fone fala para um reduzido número de ouvintes. Na ocasião, Harvey discursa sobre os
abusos cometidos por policiais enquanto Scott mostra fotos de homossexuais sendo presos.
De fato, esse é um discurso político. Harvey revela verdadeiramente o seu caráter de ativista
político, já que no discurso anuncia sua candidatura para supervisor da Cidade de São
Francisco.

Em outra parte, ao fundo da cena da marcha dos homossexuais, Harvey narra: “Eu peço, para
que o movimento continue. Porque não é um jogo pessoal. Não é sobre o ego. Não é sobre o
poder. É sobre os que são como „nós‟ aí fora. Não só gays. Mas os negros, os asiáticos, os
idosos, os deficientes, os „nós‟. Os sem esperança. Os “nós” desistem. Sei que você não pode
viver na esperança sozinho, mas sem esperança a vida não é digna de viver. Então você...e
você e você. Tem que dar esperança”. Milk desliga o gravador.

Nos trechos que iremos descrever a seguir, notaremos que Harvey acredita que a união dos
homossexuais, a participação deles na política, contribui para a diminuição do preconceito.
Para ele, todas as minorias devem lutar por seus direitos.

Essa cena é da marcha de homens homossexuais reunidos por seus companheiros de eleições.
Nessa cena, Milk discursa: “Sei que estão com raiva! Eu estou com raiva! Vamos marchar nas
ruas de São Francisco e mostrar a eles nossa raiva! Estou aqui esta noite para dizer... que não
mais nos esconderemos quietos nos armários. Devemos lutar. E não só no Castro. Não só em
São Francisco. Mas onde quer que as Anita forem! Anita Bryant não ganhou essa noite!
Anyta Bryant nos uniu! Ela vai criar uma Força Nacional Gay”.

Temos outra cena. Ela mostra Milk votando, em 1977. Podemos ouvir ao fundo, uma narração
de Harvey: “Pela primeira vez, todos estavam juntos. Os sindicatos, as mulheres, os idosos, os
gays. As minorias. Todos os “S” se apresentaram. Milk vence. Ele é ovacionado pela
população”. Finalmente Milk vence a eleição.

Milk aparece narrando: “É preciso eleger gays. Para que uma criança e outras milhares
tenham a esperança de uma vida melhor. A esperança de um futuro melhor”. Aparecem
muitas pessoas caminhando, carregando cada uma, uma vela. Essas pessoas seguem até a
prefeitura para homenagear Harvey e o prefeito.
44

5.2 Orações para Bobby: Construção do Personagem – aspectos identitários e


sociológicos

Assim como Milk – A Voz da Igualdade, o longa Orações para Bobby é baseado em fatos
reais e, igualmente como o outro, tem um final trágico. No primeiro o personagem principal é
baleado e morto, já no segundo o protagonista suicida-se.

Com isso, podemos perceber que embora o homossexual passe cada vez mais a ser
representado no cinema de forma não estereotipada, por vezes, continua a ter um fim fatídico,
uma espécie de punição da sociedade para a sua sexualidade “desviante”.

No filme Orações para Bobby, o personagem Bobby Griffith (interpretado por Ryan Kelley),
vive com seu irmão mais velho, suas duas irmãs e seus pais em Walnut Creek (cidade do
Estado da Califórnia, nos Estados Unidos), em uma típica casa de classe média norte-
americana. O jovem de 20 anos é visto com bons olhos por todos, pois ele é educado, gentil,
carinhoso, inteligente, bem comportado e com roupas bastante alinhadas.

Claro que Bobby é visto como uma boa pessoa, até o momento que a sua homossexualidade
não é revelada, pois quando isso ocorre, ele deixa de ser visto bem visto e passa a ser
considerado, por parte da sociedade e principalmente pela sua mãe, como um pecador, pois
segunda ela, o filho, não segue os preceitos da Bíblia.

A identidade homossexual do jovem não é claramente percebida no filme, já que ele mesmo é
do tipo reservado e não possui trejeitos que denunciem sua verdadeira sexualidade. A sua
homossexualidade só é realmente percebida porque ele, através de seu diário revela o fato (em
todo filme, o personagem usa o diário como forma de expressar seus sentimentos,
descobrimos o que está escrito, pois ele narra o que escrevera). Claro que com o decorrer do
filme, gestos, olhares e diálogos que denotam que Bobby é gay, acentuam-se.

Ao assistir ao filme, podemos notar que uma das pessoas que mais condena a sua
homossexualidade, é a sua mãe. Em todos os argumentos para condenar o comportamento do
filho, ela utiliza do nome de Deus. Pode ser que isso ocorre não porque queira, mas sim
devido à educação, transmitida de geração em geração, que teve no âmbito familiar e
religioso.
45

5.2.1 Construção da Narrativa Fílmica

Para a construção da narrativa do filme, separaremos o mesmo em duas categorias. Do mesmo


modo que no filme, Milk – A Voz da Igualdade através de algumas cenas, iremos notar algum
comportamento (vestuários, diálogos), que destaquem a homossexualidade do personagem
principal, neste caso, Bobby Griffith. Também analisaremos o preconceito vivido pelo
personagem em sua casa, principalmente através das ações de sua mãe.

A primeira cena do filme que mostra o preconceito vivido por Bobby é a seguinte. O
personagem está suas duas irmãs, seu irmão mais velho e seus pais comemoram em sua casa o
aniversário de sua avó. Em um dado momento, seu irmão pega uma bolsa e a coloca nos
ombros. Ao fazer isso, ele, mesmo sem querer, reproduz um comportamento estereotipado
dos homossexuais, como se todos os homossexuais fossem efeminados. A sua mãe ao ver a
cena ordena que o filho pare de fazer tal brincadeira, pois, segundo ela, aquilo era nojento.
Em seguida, a avó solta: “Se quiserem a minha opinião, os maricas deviam ser todos
alinhados e abatidos”. Essa cena não somente mostrou o preconceito de Mary, mas também
descobrimos que o comportamento praticado por ela, é fruto da educação obtida, dada pela
sua mãe, pelo ambiente.

Em outra cena, após ser revelada por seu outro filho a homossexualidade de Bobby, Mary
aparece em casa. Em conversa com o marido, ela demonstra uma religiosidade fanática. “Este
é um pecado terrível. A Bíblia chama-lhe abominação. No Levítico, se um homem se deitar
com outro homem, devem ser ambos mortos”, explica. Com as mãos ela segura o marido
pelos ombros e esbraveja: “Eu não vou arriscar a união da minha família na próxima vida”.
Por meio dessa cena, podemos destacar que a mãe de Bobby, desaprova a homossexualidade
do filho através daquilo que acredita que a Bíblia, a religião prega, ou seja, para ela a
homossexualidade não é natural, é um pecado condenado por Deus.

Em diversas cenas, percebemos que a mãe de Bobby tenta curar a homossexualidade do filho
através de diversos meios, entre eles, a psiquiatria e bilhetes pregados pela mãe por toda a
casa, bilhetes com termos religiosos, por exemplo, “eu sou puro de coração, estou sempre
com Deus”. Após as inúmeras tentativas da mãe, Bobby escreve em seu diário: “Nada daquilo
que faço parece fazer diferença. Eu tento, ajo como eles, mas parece-me impossível. É um
sentimento horrível acreditar que estamos nos dirigindo para o fogo do Inferno. Pior ainda é
46

todos dizerem-te como a solução é simples. Eles não sabem o que é estar em minha pele”.
Portanto, apesar de todo o esforço de Mary para “curar” seu filho, nenhum efeito é surtido
surge.

Em uma das cenas, Mary Griffith mostra que sente vergonha do comportamento do filho. É
noite, ela está em um restaurante com algumas amigas. Bobby percebe que a mãe saiu da
mesa para que as amigas dela, não olhassem para ele. “Acha que eu não percebi. Você não
quer que as suas amigas me vejam. E agora é tão óbvio... Ou você contou-lhes?” Ela
responde: “Olha para o que tem vestido. E eu te disse outra vez para que não fizesse assim
com o braço (as mãos de Bobby estão na cintura). Faz-te parecer uma moça. E você continua
a fazê-lo”. Bobby argumenta: “Eu sempre me vesti assim”. (na cena, Bobby usa calça jeans,
uma blusa preta e uma jaqueta na cor bege). Nessa parte do filme, percebemos tanto o
preconceito sofrido pelo jovem, quanto atos que identificam sua homossexualidade.

Em outra parte do filme, Janette prima de Bobby, chega a casa dele. Essa parte é importante,
pois pela primeira vez notamos alguém de seu vínculo familiar que não se importa com sua
orientação sexual, mas ainda temos o outro lado, o preconceito familiar. Na mesa em que
todos almoçam, ele argumenta: “Talvez não seja uma escolha, talvez eu simplesmente não
possa fazer nada”. A irmã dele o confronta: “Então quer dizer que roubar não é uma
escolha?”. Bobby: O quê?”. “A Joy (irmã de dele) está certa, Bobby. A Bíblia diz: homens
que cometem atos sem vergonha com outros homens recebem as inerentes penalidades pelos
seus erros”. “Pessoalmente, acho que as pessoas deveriam poder amar quem quiserem”,
afirma a prima.

Nessa cena, Mary mostra que considera a condição homossexual do filho como uma doença.
Bobby vai embora de casa para morar com sua prima, em Portaland (cidade do Estado de
Oregon, nos Estados Unidos). Sua mãe, que está dentro de casa, o vê indo embora, pela
janela, e chora. Após sua saída de casa, o jovem aparece empurrando a cadeira de rodas de
uma idosa no hospital em que está trabalhando. Enquanto que, em sua casa, Mary, que está
lavando as louças, para o que está fazendo para assistir na televisão a uma matéria que
informa: “A maioria dos novos casos parecem estar localizados na comunidade homossexual.
E a SIDA começa a ser conhecida como a doença gay”.
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Como se não bastasse o preconceito obtido através de sua educação familiar, de sua educação
religiosa, Mary reafirma esse preconceito através da mídia, tanto é que ao enviar para Bobby
um presente de aniversário, deixa escrito no cartão que acompanha o pacote: “SIDA – A Ira
de Deus”.

Agora, vemos Bobby dirigindo e parando com seu carro em cima de uma ponte. Ele desce e
caminha sobre ela. Diversos veículos passam por embaixo dela. Enquanto isso, em sua casa,
sua mãe reza por sua cura. Bobby sobe no viaduto, ele fica de costas para a avenida que está
em baixo. Diversas imagens que mostram as sua lembranças são passadas. A última delas é a
da mãe falando: “Eu não quero ter um filho gay”. Ele se joga de costas. O personagem morre
instantaneamente atropelado por um caminhão. Bobby suicida-se, pois, não consegue suportar
as pressões sofridas por ele em sua casa. Sua mãe, ao invés de ajudá-lo, a entender sua
homossexualidade, o atrapalha.

Nesse momento, notaremos algumas cenas que representem a identidade homossexual do


personagem. Na primeira delas, Bobby está em seu carro com uma menina. Ela quer transar:
“Bobby, estou pronta. Quero ir mais longe”. Ele não quer e termina o relacionamento com a
jovem. Ela sai do carro. Em seguida, Bobby segue com seu carro e para em frente ao bar
Armony. Perto desse estabelecimento, o jovem vê dois homens caminhando de mãos dadas e
outro parado na porta do bar, esse homem o chama com a mão. Assustado, ele sai do local.
Podemos notar que essa é a primeira cena do filme em que Bobby de fato demonstra a sua
identidade homossexual. Devemos destacar que antes dessa cena, a única que denuncia
sutilmente a homossexualidade do personagem é a aquela em que através do olhar, ele
desaprova o ato do irmão, que coloca uma bolsa nos ombros no aniversário da avó.

Em uma das cenas, Bobby está em seu colégio. Ele abre o armário para pegar sua mochila. Ao
fechar o armário ele vê um aluno. Claramente, podemos perceber a atração de Bobby pelo
jovem. Nota-se que ele acha esse cara bonito. Podemos identificar a identidade homossexual
do personagem, pois ele olha fixamente (admirado) para o rapaz.

Agora, pela primeira vez, Bobby revela a alguém o que sente, sobre quem realmente é. Na
cena, Ed, seu irmão, chega e avista vários remédios no chão. Ele vai verificar o que ocorreu e
vê Bobby deitado na cama. Ele segura Bobby e desesperado pergunta por que seu irmão fez
aquilo (Bobby pensou em tomar remédios para suicidar-se, mas não teve coragem). Os dois
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conversam por um longo até que Bobby, incentivado pelo irmão, revela a verdade, apesar de
acreditar que todos de sua família irão “odiá-lo” após saberem dela: “Não sou como você, Ed.
Eu continuo tentando. Venho dizendo para mim mesmo que um dia vou acordar e ser
diferente. Mas não é. Eu não sonho com meninas, como você. Sonho com rapazes”. Bobby
não mais esconde o fato de ser gay. Seu irmão, no primeiro momento, não sabe o que falar.
Ele fica consternado e pede a Bobby que converse com mãe deles. Pedido esse, rejeitado pelo
jovem.

Agora, vemos Bobby dentro de um ambiente gay. Ele anda, após ter se desentendido com a
mãe. Ele passa pelo bar gay Armony e entra. Os freqüentadores (homens) olham para ele. O
jovem observa o ambiente. Ele ouve a batida de uma música, fecha os olhos e começa a
balançar a cabeça no ritmo. Um rapaz lhe dá um beijo e diz: “Nunca te vi por aqui antes. Você
é mesmo bonito”. Bobby está meio assustado. Eles se beijam. Bobby: “Tenho que ir”. Rapaz:
“Posso te ligar?” Bobby: “Não”. Bobby sai às pressas do bar.

Podemos considerar os bares, as boates gays, como espaços de socialização para aqueles que
identificam-se como homossexuais. Contudo, esses ambientes podem ser tornar guetos e, para
que essa orientação sexual passe a ser vista como natural, o ideal seria a inclusão deles na
sociedade e não, a segregação por meio desses ambientes.
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6 CONCLUSÃO

Com alto teor dramático os filmes Milk – A Voz da Igualdade e Orações para Bobby de fato
possuem as características que o cinema comercial, principalmente o norte-americano,
contribui para divulgar. Devemos ressaltar que embora, tenhamos analisado apenas dois
longas, através deles podemos perceber os indícios de como a homossexualidade é
representada nesse meio de comunicação de massa.

Embora, destinem aos seus personagens principais, finais trágicos, devemos assegurar que os
filmes escolhidos para análise são um marco na forma com os homossexuais são
representados, pois ambos tratam os homossexuais como indivíduos que possuem suas
particularidades, suas angústias, medos, alegrias, como qualquer heterossexual, e não os
reduzem ao mundo de festas e cores que a sociedade rotineiramente, mesmo que
inconscientemente, os insere.

Através dos filmes escolhidos, podemos notar que cada vez mais os gays deixam de ser vistos
como estranhos, desviantes, pois com a contribuição do cinema, a homossexualidade passa a
cada dia a ser percebida como uma forma natural de expressão da sexualidade, ou identidade
de gênero. Podemos dizer que o cinema, de certa forma, é um espelho da maneira pela qual a
sociedade percebe os homossexuais.

Assim como Codato (2003), devemos destacar o cinema como um importante meio para
aqueles que se percebem homossexuais, pois é através dele que muitos se identificam com
essa identidade. Deste modo, podemos perceber que muitas vezes é nessa mídia que muitos
buscam alguma história, um personagem que possa de certa forma ser co-relacionada com a
sua, e, assim, enxergar-se parte integrante da sociedade.

Podemos afirmar que esses dois longas, representam para o movimento LGBT, um
fundamental meio para a diminuição do preconceito sofrido pelos homossexuais. Para aqueles
que não se enquadram nessa condição sexual, esses filmes apresentam a eles, os gays como
sujeitos comuns, que devem respeitados, independente da sexualidade. Certamente, o cinema
pode ser um importante aliado para o combate ao preconceito, já que através dele, a sociedade
pode de fato, conhecer a homossexualidade.
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7 REFERÊNCIAS

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da subjetividade. Cad. Pagu, Campinas, n.28, p. 257-283, 2007. Disponível em:
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51

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SILVA, Tomaz Tadeu da (org.). Identidade e Diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais.
Rio de Janeiro: Vozes, 2000.

FILMOGRAFIA

Milk – A Voz da Igualdade. Título Original: Milk. Direção: Gus Van Sant. Produção: Bruce
Cohen, Dan Jinkes e Michel London. Distribuidora: Paramount Pictures / UIP, 2008, 02 hs 08
min.

Orações para Bobby. Título Original: Prayers for Bobby. Direção: Russel Mulcahy. Produção:
Chris Taaffe, Damian Ganczewski, Daniel Sladek, David Permut e Stanley M. Brooks, 2009,
1 h 29 min.
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ANEXOS

Cartaz do filme Milk – A Voz da Igualdade (Milk, 2008) disponível em


<http://www.adorocinema.com/filmes/milk>. Acesso em 1 de jun. de 2010. Acesso em 5 de
junho de 2010.

Milk – A Voz da Igualdade (Milk)

Título original: Milk


Gênero: Drama
Tempo de duração: 02 hs 08 min
Ano de lançamento: 2008
Site oficial: http://www.milkthemovie.com
Estúdio:Focus Features / Axon Films / Jinks/Cohen Company / Groundswell Productions
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Distribuidora: Paramount Pictures / UIP


Direção: Gus Van Sant
Roteiro: Dustin Lance Black
Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks e Michael London
Música: Danny Elfman
Fotografia: Harris Savides
Direção de arte: Charley Beal
Figurino: Danny Glicker
Edição: Elliot Graham
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Cartaz do filme Orações para Bobby (Prayers for Bobby, 2009) disponível em <http://
www.mycool.com.br/ptg/wp-content/uploads/2009/11/prayers-for-bobby.jpg >. Acesso em 5
de junho de 2010.

Orações para Bobby (Prayers for Bobby)

Título original: Prayers for Bobby


Gênero: Drama
Tempo de duração: 1 h 29 min
Ano de lançamento: 2009
Direção: Russell Mulcahy

Roteiro: Katie Ford, Leroy Aarons

Produção: Chris Taaffe , Damian Ganczewski, Daniel Sladek, David Permut e Stanley M.
Brooks