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Survival Kit
EDITOR CHEFE
ARNO ALCÂNTARA

REDAÇÃO E CONCEPÇÃO
MARCELA ANDRADE

DIREÇÃO DE CRIAÇÃO
MATHEUS BAZZO

DESIGNER
JONATAS OLIMPIO
Survival Kit

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS - WRL TREINAMENTOS

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Médico psiquiatra formado pela Universida-
de Federal do Rio de Janeiro. Trabalhou como
Dr. Italo Marsili

psiquiatra forense canônico no Tribunal


Eclesiástico de São Sebastião do Rio de Janei-
ro. Italo já ministrou os cursos “Os 4 tempe-
ramentos”, “Afetividade infantil e harmonia
familiar”, “Faça a coisa certa” e “Segredos
da suplementação”. Atualmente, além de
atender como psiquiatra em seu consultório
particular no Rio de Janeiro, Italo se dedica
à produção de conteúdo para o seu canal
no Youtube, tendo recebido o prêmio Digital
Awards Brasil 2018, na categoria Redes So-
ciais. Italo é pai de 6 filhos (and counting…).
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SUMÁRIO EM 2019, QUERO QUE VOCÊ
TENHA A OUSADIA DE MUDAR......................... 5
PARE DE FAZER FOFOCA E
RECLAMAR DAS COISAS!...................................... 13
VOCÊ SE SENTE DESVALORIZADO?
ENTÃO PRECISA LER ISTO.................................... 23
EM BUSCA DE SENTIDO E
DA MELHOR PERFORMANCE............................ 36
COMECE O DIA
COM PRESENÇA........................................................ 46
VOCÊ TEM ANDADO COM
PESSOAS INVALIDADORAS?................................ 60
COMO GERAR ENERGIA
NO DIA A DIA................................................................ 74
COMO ACELERAR A CONQUISTA
DOS SEUS OBJETIVOS........................................... 87
RECEITA PARA NÃO SE FRUSTRAR
COM OS OBJETIVOS DE ANO NOVO................ 96
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EM 2019,
QUERO
QUE VOCÊ
TENHA A
OUSADIA
DE MUDAR
Não passam de traidores As oportunidades passam
nossas dúvidas, que nos na nossa frente de vez
privam, por vezes, do que em quando. Quando elas
fora nosso, se não tivéssemos passam, você tem duas
receio de tentá-lo. ou opções: ou você se caga
nas calças, ou você as
- William Shakespeare - agarra.
“Medida por medida”
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- Mairo Vergara -

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Vou confessar uma coisa para vocês: eu adoro
planejamento de ano novo. Se, por um lado, a diferença
entre o dia 31 de dezembro e o dia 1º de janeiro é de
apenas uma folhinha no calendário, por outro, é
importante estarmos inseridos nesses marcos – seja
nos marcos cosmológicos, seja nos marcos civis.

Eu sempre reforço a importância de anotarmos as


coisas, e agora não é diferente: gostaria que você
escrevesse aquelas coisas que você fez bem neste ano,
aquelas coisas que você poderia ter feito melhor, e
também elegesse dois pontos nos quais você vai bater
firme no ano que vem.

Então, quero que você escolha duas coisas, duas


áreas, em que é preciso melhorar, e anote.

Essas coisas têm de ser de domínios importantes.


Quais são os domínios importantes da vida? Há vários,
como a religião, os relacionamentos, a vida financeira,
a vida familiar, a vida profissional, a saúde. Preciso que
você escolha algum ponto de um desses domínios,
para estabelecermos a meta que você vai perseguir
diariamente no ano que vem.

Por que isso é importante? Porque isso é um símbolo


da sua capacidade de mudança. Se eu me acostumo
a nunca estar bem disposto, a nunca estar bem, se
eu acho que acabo frustrando todas as metas que
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estabeleço, que, enfim, eu não consigo mudar, isso vai
criando um desânimo, e pode entrar no nosso espírito
uma predisposição ruim, uma sensação de: “É, estou
aqui remando contra a maré, e as coisas não estão indo
muito bem”.

Aqui está o ponto central: isso NÃO é verdade.


Podemos de fato mudar, podemos nos transformar
ao longo da jornada da nossa vida, e essa é a
nossa tarefa pessoal. Minha tarefa pessoal é ajudar
você a se transformar, a sair diferente de quando
entrou, a sair melhor. É para isso que estamos aqui.
Essa transformação passa por um melhoramento
intelectual. Tenho muito conteúdo preparado, de boa
qualidade, que transmitirei a você ao longo deste ano.

A outra coisa que eu quero de fato dar para


você é essa esperança, essa capacidade, essas
ferramentas de mudança pessoal para ajudar no
amadurecimento da personalidade e no controle
da emotividade.

O sentido de tudo isso é ir preparando nosso intelecto


para que a nossa personalidade, a nossa vida, a nossa
biografia faça sentido no final de tudo.

Então eu quero que você escolha dois pontos e os


anote, para ir conferindo ao longo do ano que se inicia.
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Como exemplo de metas que você pode se propor,
temos, por exemplo, aquelas que mudem o nosso jeito, o
nosso mau jeito. Pessoas, por exemplo, mal-humoradas,
pessoas que têm dificuldade de ser simpáticas. Se você é
assim e acha que isso atrapalha sua vida, pode se propor
um belo exercício: sorrir para as pessoas antipáticas,
por exemplo. Ou então, para aqueles que acordam de
mau humor, estabelecer como meta acordar sorrindo.
Ora, não há razão para acordar de mau humor. A vida
é um dom, é o lugar que nos foi dado para poder agir,
servir aos outros, para que possamos desenvolver
nossa biografia, nossa personalidade. Por que ter mau
humor nesta vida? Uma meta para os mal-humorados,
então, pode ser esta: acordar sorrindo.

Alguns vão dizer que isso é artificial, mas a verdade é


que, quando mudamos o nosso estado biológico, quan-
do mudamos a forma como fazemos as coisas exte-
riormente, ativamos mudanças bioquímicas, o nosso
estado muda. É uma via de mão dupla: quando muda-
mos nosso estado de espírito, mudamos nosso com-
portamento; muitas vezes, quando mudamos nosso
comportamento, mudamos nosso estado de espírito.
Muitas vezes é mais fácil mudar o comportamento,
acordar sorrindo e falar: “Hoje serei bem-humorado.
As pessoas que estão ao meu redor não merecem que
eu seja intratável, eu não mereço ser assim”. Essa pode
ser uma meta. Outra meta possível é melhorar inte-
lectualmente. Separe um tempo diariamente para a
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leitura, ou para assistir a um podcast, além deste, que
possa de fato acrescentar um valor em sua vida.

Banho frio e não reclamar não são metas de ano novo;


são metas de vida. Isso é para fazer sempre, todo dia,
todo ano.

Não tente parecer bonitinho ao escolher os pontos


de melhora. Olhe sinceramente para onde você
precisa melhorar. Seus pontos de melhora podem
parecer bobos, mas isso não importa; eles têm de ser
verdadeiros. Também não importa se os pontos que
você escolheu são fáceis ou difíceis; o que importa é
o seu tesão por perseguir o resultado durante um ano
inteiro. É para escolher apenas dois; três, no máximo.
Se você escolher mais do que isso, você está com treta
e eu vou te mandar para aquele lugar.

• A GRANDE SACADA •

Selecionar 2 pontos de mudança para perseguir ao


longo do ano de 2019 lhe dará a confiança de que é
possível mudar para melhor.

• APLICAÇÃO PRÁTICA •

Selecione 2 pontos de mudança, de domínios


importantes, para perseguir ao longo do ano de 2019.
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Exemplos de domínios importantes: Religião/Vida
Espiritual; Vida Intelectual; Relacionamentos; Convívio
Familiar; Saúde; Vida Financeira; Trabalho.

• 1º ponto de mudança:

• Área:

• Com relação a essa meta…Como estou hoje?

• Como quero estar daqui a 1 ano?

• O que posso fazer para que isso aconteça?


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• 1º ponto de mudança:

• Área:

• Com relação a essa meta…Como estou hoje?

• Como quero estar daqui a 1 ano?

• O que posso fazer para que isso aconteça?

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AH, DR. ITALO, EU NÃO
CONSIGO MUDAR!
BUÁ, BUÁ.
GENTEM, O FRACASSO
ESTÁ SUBINDO À CABEÇA.
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PARE DE
FAZER
FOFOCA E
RECLAMAR
DAS COISAS!
Quando todo mundo quer saber é
porque ninguém tem nada com isso.

- Millôr Fernandes -
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Para que você se torne uma pessoa mais presente,
exercendo o domínio sobre os seus afetos, é preciso
reprogramar algumas disposições habituais de
agir no mundo. Se não ajustarmos certas disposições,
nosso “jeito”, nosso temperamento, há uma grande
chance de que nossas melhores intenções sejam
frustradas.

Vou contar um caso que ouvi há alguns dias, de uma


senhora que não conseguia emagrecer. Ela é cozinheira
gourmet, daquelas que vão à casa das pessoas e
preparam o cardápio da semana. Essa senhora cozinha
muito bem, mas não conseguia emagrecer. Então, foi
à nutricionista e disse: “Não sei por que não estou
emagrecendo. Eu não como nada, só belisco um
pouquinho. Fico o dia inteiro cozinhando, acabo não
parando, não me sento para almoçar, para tomar café
da manhã, para jantar, porque, se eu parar para fazer
isso, não dou conta do meu trabalho. Vou provando um
pouquinho das coisas que cozinho para as famílias, e
isso é tudo que eu como ao longo do dia. Não como mais
nada além disso.” A nutricionista, muito sabiamente,
falou o seguinte: “Vamos fazer assim: antes de
começarmos a dieta, você vai levar esta balança aqui
e, sempre que for provar alguma coisa, vai colocar
uma medida igual na balança, para vermos quanto, no
final do dia, você está ingerindo.” A cozinheira então
me contou: “Você não imagina o quanto eu como por
dia! Só de prova de comida, eu como um quilo e meio.”
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Tudo que ela ia beliscando ao longo do dia somava
um quilo e meio. Ora, ela não emagrecia porque comia
muito. Mas até então ela achava que quase não comia,
só “beliscava” um pouquinho. É como muitos pensam:
“É só um pouquinho. Isso não me afeta, não altera o
meu comportamento, meu corpo.”

Temos o mau hábito de dar por pressupostas muitas


coisas em nossa vida. “Eu já ajo bem, já examinei o
problema, tal coisa não acontece comigo, tal risco não
existe para mim.” A verdade é que certos hábitos
em nossa vida destroem nossa disposição para
interagir com as pessoas que convivem conosco,
e hoje vamos falar sobre dois deles. Por experiência
de atendimento, por experiência de família, por
experiência pessoal, sei que esses maus hábitos estão
presentes em quase todo mundo do território nacional.
E, se essas coisas estiverem de fato presentes no dia a
dia, na dianteira da nossa atuação, nossa capacidade de
interação positiva com os outros acaba se deteriorando.

Dois hábitos que destroem nossa capacidade de


amar

Proponho a você um desafio semelhante àquele da


cozinheira: quero que você ponha na balança a
quantidade de vezes que você se queixa. Passe a
reparar quantas vezes você reclama ao longo do dia –
expressamente ou apenas mentalmente. Queria que
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você contabilizasse isso, a partir de hoje. E por que
razão? É porque uma pessoa que habitualmente vai
botando reclamações na “bagagem” chegará ao final do
dia com a carga muito pesada. E a pessoa não consegue
se livrar daquilo, porque a queixa, a reclamação, tem
pouco potencial para nos ajudar a melhorar como
pessoas.

Reclamação e queixa prejudicam nosso status de


percepção. A cabeça e o corpo ficam vibrando em uma
espécie de “modo de operação negativa”. Dificilmente
sai alguma coisa boa de uma pessoa que só se queixa.
Ela vai nutrindo, ao longo da vida, uma característica
de pessimismo, de olhar para tudo com um olhar
negativo, um olhar meio cinza. Essa pessoa terá pouca
capacidade de abraçar a vida com disposição,
com energia, com alegria. Se na fronteira dos meus
relacionamentos está uma tendência a me queixar,
não terei condições de entregar um grande valor para
aqueles com quem convivo. Reparem que, em geral,
não queremos conviver por muito tempo com uma
pessoa que tem sempre uma reclamaçãozinha a fazer,
que sempre se queixa de algo. Convivemos com essas
pessoas por necessidade.

Acontece, aí, uma coisa muito simples: se somos


reclamões, fatalmente traremos essa característica
para os círculos mais íntimos da nossa convivência,
e o mais natural é que nosso marido, nossa esposa,
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nossos filhos, nossos amigos, também passem a nutrir
uma disposição de se afastar de nós. E chegará um dia
em que você não vai entender por que essas pessoas
não querem conviver com você. Ora, quem gosta de
conviver com quem só reclama? Você se sentaria a uma
mesa que só tenha reclamões? Ou preferiria se sentar
a uma mesa onde estejam pessoas mais animadas, que
param para ouvir, que perguntam como está a nossa
vida? Sabemos que, no ambiente profissional, na vida
em família etc., as pessoas que só reclamam são, em
geral, as menos confiáveis, porque daqui a pouco
estarão reclamando de nós.

O desafio dos 8 dias

Contar o número de queixas é importante. E, depois


que você tiver uma média de quantas vezes reclama de
algo por dia, é a hora de aceitar o desafio dos oito dias.
Por oito dias, aceite o desafio de não reclamar de
nada. “Ah, isso é artificial.” É mesmo, é artificial. É um
exercício, um exercício artificial. Por acaso não vamos
à academia de ginástica fazer exercícios artificiais que
depois vão dar um efeito bom para o nosso corpo? É a
mesma coisa aqui. Espero que você aceite o desafio de
não se queixar por 8 dias (e olha que são só 8 dias).

Por 8 dias, não vale reclamar do cosmos, da política,


da economia, do patrão, do empregado, do vizinho.
Se você observar um movimento de queixa, recue
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e diga: “Eu aceitei um desafio. Tenho o desafio de
fazer com que meus filhos, no médio prazo, queiram
ficar perto de mim. Tenho o desafio de fazer com que
meu marido, minha esposa, no médio prazo, queira
conviver comigo; que as pessoas com quem trabalho
queiram conviver comigo. Eu entendi que uma pessoa
que se queixa é uma pessoa chata, uma pessoa que não
acrescenta nada, uma pessoa que, no final das contas,
vai ficar sozinha – ou vai atrair outras pessoas que
só se queixam.” No desafio de 8 dias, se você se pegar
reclamando, terá de pagar uma prenda. Estabeleça
para si mesmo uma punição – tem de ser algo sério,
algo que tenha o poder de coibir o vício de reclamar.

“Fulano é muito bom, mas...”:


Pare agora mesmo de fofocar

Quase todo mundo fofoca. Provavelmente, aprende-


mos isso em casa. Com a graça de Deus, algumas pes-
soas podem ter uma família onde não há fofoca, mas,
habitualmente, nosso ambiente familiar é um ambien-
te de fofoca. Geralmente, um está sempre falando do
outro. Repare se não é assim: quando abrimos a boca
para falar de outra pessoa, começamos de um modo
neutro: “Essa pessoa é muito boa, etc e tal, mas...” E
a coisa vai descambando. A fofoca raramente vai dar
em elogio, em exaltação, em reconhecimento das vir-
tudes do outro. Em geral, a pessoa fofoqueira termina
falando mal do outro, mas com um ar de “eu sou uma
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pessoa ponderada, estou apontando um defeito em
fulano pelo bem dele, seria melhor que esse defeito
não existisse.” Existe também aquele sujeito que não
reclama, mas é o engraçadão do grupo, está sempre
fazendo uma fofoca, falando uma coisa má do outro.
Esse é o fofoqueiro disfarçado.

Na verdade, fofoca é coisa de invejoso. Quando co-


meçamos a nutrir inveja, começamos a fofocar. Re-
parem que fofocamos principalmente das pessoas de
quem temos inveja. Fofocar é ruim. Quem fofoca bate
o martelo sobre o juízo que faz da outra pessoa. O fofo-
queiro vai se fechando para a percepção do outro.
Começa a aparecer no nosso peito um sentimento de
inveja, e nos fechamos para as bênçãos da vida, para
as coisas boas que a vida oferece. As pessoas que têm
a fofoca como hábito vão se tornando cada vez mais
incapazes de perceber que estão vivas, que a vida é
boa, que estamos no mundo para desenvolver nossos
talentos, ajudar os outros, crescer, devolver algo para
a sociedade, para aqueles que amamos, para a família,
para o cônjuge. As pessoas que não têm essa capacida-
de de se sentir vivas são, em geral, as pessoas que estão
entregues à queixa e à fofoca. O espírito de queixa
rouba de nós a capacidade de amar, de agir, de ser
grato pela vida. Se queremos demonstrar amor
para as pessoas do nosso convívio, entregando-
-lhes nossa personalidade inteira e as fundações
com as quais elas possam construir a sua própria
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vida, eis aí dois pontos dos quais devemos cuidar:
a reclamação e a fofoca.

Afinal, não é para isso que estamos aqui, como pai,


como mãe, como professor, como educador, como
marido e como mulher? De algum modo, nós somos
suporte, um suporte amoroso para que os outros
possam desenvolver sua personalidade, sua biografia.
Se não estamos aqui para isso, provavelmente nossa
vida de fato não está sendo bem vivida. Quando uma
pessoa diz que a vida está sem sentido, ou que não se
sente viva, que os dias estão passando como a água que
passa por debaixo da ponte, sem deixar marca – essa
pessoa em geral tem razão, sua vida está sem sentido
mesmo. Não estou aqui para ser animador de torcida.
Não vou ficar falando que a coisa é boa, se não for. Para
ganharmos essa capacidade, essa disposição de encarar
a vida, uma boa dica é parar de se queixar e de fazer
fofoca. Esse é um exercício excelente, que, se praticado
com afinco, pode nos transformar ao longo deste
ano. Não existe essa história de “ficou velho, não
muda mais”. Isso não é verdade. Podemos mudar
até o último dia da nossa vida, no último segundo da
nossa vida, e, às vezes, basta um exercício desses para
a gente mudar. Repare que, se estamos desocupados,
ficamos fofoqueiros; se estamos muito ocupados, nos
queixamos da vida. Mas há, no meio disso, uma coisa
chamada vida – essa vida maravilhosa, que está pronta,
que está pedindo para ser vivida, para que entremos
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nela e consigamos produzir, entregando o melhor
para os que convivem conosco, para as pessoas que
amamos, para a sociedade.

• A GRANDE SACADA •

Os hábitos de reclamar e fazer fofoca roubam de nós a


capacidade de amar, de viver com mais abertura para
as bênçãos da vida, e, no fim, nos tornamos pessoas
desagradáveis, com quem ninguém quer conviver.

• IDÉIA EM AÇÃO •

PARE de RECLAMAR
Passe a observar quantas vezes você reclama de alguma
coisa ao longo do dia, seja expressamente ou apenas
mentalmente.

PARE de fazer FOFOCA


Passar oito dias sem reclamar de nada, de NADA, não
importa o que aconteça. Por oito dias, não reclamar
do trânsito, da política, da comida fria, do feijão sem
bacon, das manias do cônjuge e dos filhos.

• APLICAÇÃO PRÁTICA •

Registre em um caderno, em seu diário, “journal”, ou o


que o valha, diariamente e por oito dias, as ocasiões em
que você teve o ímpeto de reclamar de alguma coisa,
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mas conseguiu se conter. Observe como se sentiu
depois, ao notar o seu autocontrole vencendo essa
má inclinação. Sua percepção da situação concreta
teria sido afetada caso você entrasse no estado de
reclamação?
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VOCÊ SE
SENTE DES-
VALORIZA-
DO? ENTÃO
PRECISA
LER ISTO
Suportai-vos uns aos outros e
perdoai-vos mutuamente, toda
vez que tiverdes queixa contra
outrem.

- Colossenses 3:13 -
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Hoje eu quero comentar com vocês o resultado de
uma pesquisa encomendada por algumas empresas
para informar qual é o maior motivo pelo qual as pes-
soas pedem demissão. Tratava-se de um questionário
aberto, a pessoa podia escrever o que quisesse.

Podemos pensar em vários motivos pelos quais uma


pessoa pede demissão: baixo salário, carga horária
muito pesada, medo de ir para o trabalho, enfim, há
várias opções. Mas o incrível é que 70% das pessoas
que responderam ao questionário afirmaram que
o principal motivo pelo qual estavam pedindo
demissão era não se sentirem valorizadas.

Vamos pensar um pouco: a pessoa está ali empregada,


ganhando seu dinheiro; ela empenhou energia,
estudou para aquilo, se formou, se dedicou, procurou
emprego, foi chamada, levanta cedo todos os dias, se
prepara para o trabalho, busca cumprir sua tarefa,
mas, depois de um tempo acaba não se sentindo
valorizada. Então a pessoa faz o quê? Pede para sair.
70% das pessoas que pedem para sair alegam que não
estavam se sentindo valorizadas.

Essa pesquisa nos serve de alerta. As áreas de estudo da


família, da pedagogia e da interação pessoal carecem,
muitas vezes, de estudos científicos. Não é fácil
encontrar estudos consistentes nas áreas da interação
humana, dos relacionamentos, da afetividade, da
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pedagogia, da educação. Muitas vezes os estudos a
que recorremos são de outras áreas, e é dali que temos
de derivar nossas observações, é dali que extraímos
o conteúdo que será trabalhado para criar uma base
de conceitos, uma base teórica. Geralmente é assim
que funciona. Por isso, todo esse campo da empresa
traz para nós uma série de critérios, de conteúdo,
de estudos muito interessantes, como é o exemplo
desse estudo que mencionei: 70% das pessoas que
abandonam o barco tomam essa decisão porque não
estão se sentindo valorizadas.

Quando paramos para olhar as interações humanas,


seja de pais e filhos, seja de marido e mulher, vemos
que muitas vezes as pessoas estão incomodadas
e insatisfeitas – estão reclamando, buscando
compensações em outros lugares, nas amizades ou
em outros relacionamentos, em traições, ou estão
buscando compensações no trabalho porque não se
sentem valorizadas dentro de casa. Isso nós vemos
acontecer com frequência. Infelizmente, é uma
realidade. Como mudar essa realidade na nossa vida?

Em primeiro lugar, é preciso evitar cair em uma cer-


ta tentação. Quando procuramos um curso sobre rela-
cionamento, sobre interação de pai e filho, ou quando
assistimos às lives do Dr. Italo, há sempre a tentação de
projetar no outro o que estamos ouvindo. Quando eu
digo que 70% das pessoas que abandonam o barco
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o fazem porque não estão se sentindo valorizadas,
temos a tentação de pensar imediatamente: “Eu
também passo por isso, fulano não me valoriza.
Meu filho não me valoriza. Meu marido não me
valoriza. Minha esposa não me valoriza.” Essa é a
primeira tentação que aparece: a de projetar no outro
o conteúdo que estamos ouvindo.

Para resolver isso, podemos tentar fazer o contrário e


pensar o seguinte: “Será que eu estou valorizando meu
filho, minha filha, meu marido, minha esposa? Será
que eu, quando olho para ele, estou tentando encon-
trar dentro daquele espírito, daquela biografia, daque-
la pessoa, o valor que ela tem?” Em vez de projetar no
outro uma insatisfação, podemos primeiro sondar em
nós mesmos, investigar em nós quais são os pontos
que podemos de fato mudar. A mudança pessoal de
fato está na nossa mão; a mudança do outro, muitas
vezes, não. O outro vai precisar de um estalo, de um
start para que ele mude. E muitas vezes esse estalo,
esse start, só acontece a partir da nossa mudança em
primeiro lugar.

O outro precisa da nossa atenção

Se 70% das pessoas que abandonam o barco o fazem


porque não estão sendo valorizadas, como eu posso
agir para que o outro perceba que eu o valorizo? Há uma
coisa fundamental – uma coisa que, se conseguirmos
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trabalhar diariamente, nos ajudará a vencer. Que coisa
é essa? É a atenção.

Parece muito simples, mas a atenção é o primeiro mar-


co de que estamos valorizando o outro. Uma pessoa
que recebe atenção naturalmente vai se sentir valo-
rizada. Não precisamos de grandes recursos para que
possamos fazer com que o outro note que o amamos.
Há um livro do Gary Chapman chamado “As cinco lin-
guagens do amor”. É um livro muito bom, recomendo
que vocês o leiam. Esse livro ensina que cada pessoa
tem um modo distinto de reconhecer o amor, de reco-
nhecer que está sendo amada, que está sendo valori-
zada – seja seja pelos presentes que podemos lhe dar,
seja pelas palavras afirmativas que lhe dirigimos, seja
pelos serviços que lhe prestamos.

Isso tudo é verdade, o Gary Chapman está certo. Mas há


uma coisa que é anterior a todas as cinco lingua-
gens do amor, que é a atenção. Por exemplo, uma
das linguagens do amor que Gary Chapman sinaliza
no livro é “dar presentes”. Muitas pessoas se sentem
valorizadas quando recebem presentes. Mas acontece
o seguinte: antes desse presente, é preciso que exista
um esforço de estar atento, de estar presente. No nosso
idioma podemos fazer um trocadilho útil: muitas ve-
zes a pessoa não quer presente, mas presença; ela não
quer ganhar um presente; quer, sim, ganhar a nossa
presença. Presente e presença são coisas que a gente
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sempre tem de trabalhar para que aquele presente que
oferecemos seja reconhecido como um valor. Muitas
vezes, antes de dar o presente para alguém, temos de
ter oferecido nossa presença. E isso nós oferecemos
através da nossa atenção. Conheço muitas mulheres
que dizem: “Fulano me deu um presente só para com-
pensar um erro antigo.” Ou seja, a pessoa não conse-
gue valorizar o presente que está recebendo porque
sabe que a outra pessoa não lhe dispensou a atenção
necessária.

A dica muito clara que daremos hoje é a seguinte:


como garantir que estamos presentes em uma
relação – seja com um amigo, com um filho, com
nosso marido, esposa, namorado, namorada?
A resposta é: se conseguimos lhes dar atenção.
Como podemos notar se estamos dando atenção
ou não? A primeira providência é tomar posse da
totalidade da nossa consciência quando entramos
em uma relação humana.

Isso não chega a ser um desafio, mas é um convite: a


primeira coisa que temos de observar, quando entramos
em uma relação – qualquer que seja ela, pode ser uma
relação com o flanelinha que está guardando o nosso
carro, uma relação com a secretária de um consultório
médico, uma relação com o chefe, com o subordinado,
com a esposa, com o filho –, é preciso prestar atenção
no seguinte: eu entrei ali com a totalidade do meu
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olho? Essa é a primeira coisa que temos de observar.
Quando eu entro em um lugar para interagir com uma
pessoa, eu busco olhar para ela com o meu olho? Ou
estou olhando para ela com uma série de projeções,
com uma série de expectativas, com a periferia da
minha alma? Aqui está o ponto: se entramos em
um lugar e não conseguimos acessar o nosso olho,
se nosso olho não bate no olho da outra pessoa,
na alma da outra pessoa, na biografia da outra
pessoa, podemos ter certeza de que não estamos
atuando com a totalidade da nossa presença.
Isso é um sinal de que ainda não dominamos
essa função do nosso espírito. Necessariamente,
as pessoas com as quais interagimos vão se sentir
desvalorizadas, porque elas estão de fato sendo
desvalorizadas de alguma forma. Não estamos
conseguindo encontrar o valor da pessoa humana
do outro lado.

Esse é o exercício que vamos propor hoje: conseguir


recrutar a totalidade do nosso olho. Isso é um exercí-
cio que podemos ir fazendo ao longo de toda a nossa
vida. Sempre podemos melhorar isso. Muitos pro-
blemas de desobediência e irritação infantil são
resolvidos quando simplesmente o pai e a mãe
conseguem virar essa chave. Eles conseguem, ao
longo de uma, duas, três semanas, recrutar a to-
talidade do próprio olho para observar, para es-
tar em contato, para tocar no filho. Muitas vezes,
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conseguimos resgatar casamento assim, conseguimos
reacender uma coisa que estava apagada. Consegui-
mos despertar uma coisa que estava adormecida se
um dos dois – e aqui está a maravilha, basta um dos
dois – começar a se exercitar assim. Se um dos dois co-
meça todo dia, ao longo de uma, duas, três semanas, a
olhar para o outro, a procurar o outro, o outro começa
a ser encontrado. E, quando o outro é encontrado, ele
começa a falar a partir do lugar em que nós o encon-
tramos. Isso parece uma coisa à toa, mas não é. Isso é
um recurso psicológico, um fenômeno psicológico.

Se entra no meu consultório um sujeito com uma man-


cha de ketchup na blusa, meu olho bate na mancha
de ketchup e naturalmente a pessoa pára e olha para
onde eu olhei. Não é assim que funciona? Em geral as
pessoas olham para onde a gente está olhando. Se nós,
em um relacionamento, começamos a olhar dia
após dia para o centro da outra pessoa, essa outra
pessoa começa a olhar para o seu próprio centro,
começa a falar a partir dali. Ela já não vai agir a par-
tir da sua periferia. Isso parece poesia, parece abstrato,
mas isso é uma das coisas mais concretas que existem
em relacionamento humano. Isso aqui muda destino,
consegue mudar a qualidade da interação, levar mes-
mo nossos relacionamentos para um outro nível. Isso
é a primeira coisa. Parece abstrato, mas não é. Isso é
muito concreto.
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Queria propor que vocês anotassem ao longo dos dias:
“Eu realmente comecei a reparar no meu olho e come-
cei a recrutá-lo quando eu começava a interagir com
as pessoas.” Queria que vocês escrevessem a mudança
que vão reparar na qualidade da interação. É curiosís-
simo, as pessoas que estão ao nosso redor começam
a melhorar. Muito do segredo de consultório é isso: a
pessoa chega aqui e eu estou olhando para ela. Eu fico
uma hora olhando para a pessoa. Eu estou olhando
para a totalidade do espírito dela, olhando para a to-
talidade da sua biografia. Eu tento não me dispersar e
a pessoa vai melhorando. É uma coisa que parece má-
gica, parece bruxaria, mas é só tecnologia, tecnologia
psicológica. É assim que a coisa acaba funcionando.
Esse é um recurso de tecnologia psicológica que eu es-
tou dando para você. Vamos começar a olhar para o
outro com o olho, essa é a primeira coisa.

Ponha seu smartphone em seu devido lugar

Existe um outro exercício que talvez possa dar uma


métrica mais palpável. É algo que está à mão de todo
mundo. Todos nós temos um smartphone hoje em dia,
não é? E não há nada que roube mais nossa atenção do
que isso. Quando vamos interagir com qualquer pes-
soa, temos de nos policiar bastante quanto a isso. Por-
que a todo momento aparece um pop-up: três, quatro
notificações aparecendo no Whatsapp: será algum pa-
ciente grave? Será minha mãe querendo falar comigo?
Survival Kit

31
Será minha esposa querendo falar comigo? O que está
acontecendo? É minha secretária? O que está aconte-
cendo? Ficamos desatentos. Assim, não conseguimos
envelopar a outra pessoa com toda a nossa atenção,
com tudo o que ela merece.

Por isso, quero propor um desafio para quando você


for a um almoço ou a um jantar com seu filho, com
sua esposa, com seu marido: deixar o celular no carro.
Pessoal, ninguém morre. Deixar o celular no carro
e estar ali, na totalidade, com a pessoa que está à
nossa frente. Isso pode doer – “Não, não consigo. Não
consigo deixar o celular no carro, vai que...” Esse “vai
que alguém precisa” é que acaba matando as relações
que estão na nossa frente. Por causa desse “vai que al-
guém precisa de mim”, você acaba não dando atenção
para alguém que de fato precisa de você e está na sua
frente: seu marido, sua esposa, seu filho, sua filha ou
um amigo que está precisando de você. Aqui, sim, já
se trata de um desafio. O primeiro não é um desafio,
é um convite permanente. Este é um desafio: convide
seu marido ou sua esposa para jantar. Peça a alguém
ficar com as crianças se for possível. Peça uma comi-
da boa em casa, não sei qual é a rotina de vocês. E aí
você deixa seu celular no carro e não entre com ele no
restaurante. Ou, se vocês forem pedir uma comidinha
em casa, deixe o celular na gaveta de um cômodo a que
vocês não têm acesso. E vocês vão ver que uma hora
e meia, duas horas, sem o celular por perto, dá uma
Survival Kit

32
qualidade de interação magnífica. Muitas vezes, para a
relação com filho ou filha é a mesma coisa. Não conse-
guimos estar na totalidade da nossa presença ali com
eles porque estamos sendo roubados, a nossa presen-
ça está sendo roubada, sugada por esses dispositivos.

Para podermos amar com a totalidade do nosso espírito,


temos de envelopar o outro com a totalidade da nossa
atenção. Deste modo a pessoa se sentirá valorizada,
porque de fato a estaremos valorizando. Não se trata
apenas do sentir; isto é algo do ser. Muitas vezes a
pessoa não se sente valorizada porque não está sendo
valorizada mesmo.

É preciso internalizar alguns recursos que nos


permitam mudar realmente a nossa mentalidade,
nosso comportamento, e ir para um outro nível na
qualidade da nossa interação. Queremos evitar
o automatismo, pois o olhar automático não
funciona para relacionamento humano. Uma
pessoa humana tem algo que é distinto de todas as
outras coisas – como, por exemplo, deste copo aqui.
Este copo não pode me surpreender: eu sei do que ele
é feito e sei para que serve. Gente, pessoa, não é assim.
Pessoa, ser humano, sempre tem dentro dele uma
capacidade de superação, uma capacidade de
mudança, uma capacidade de nos surpreender.
Entrar “no automático” no relacionamento é igual a
dizer que a outra pessoa é um objeto, que a outra pessoa
Survival Kit

33
é um copo. “Eu já sei do que você é feito e para que você
serve.” Isso é sempre falso: não sabemos do que o outro
é feito; não sabemos para que o outro serve. Somos
seres animados, há sempre a capacidade de mudança.
Por isso esse olhar tem de estar sempre renovado em
qualquer relacionamento, seja com o frentista que
abastece o nosso carro ou com o nosso cônjuge. É uma
pessoa que está ali; não é um ser inanimado, não é um
poste. Essa postura acaba matando a nossa capacidade
de ser humano também. Você não tem de estar o
tempo inteiro com a pessoa, mas, durante o tempo
em que estiver, você tem de estar por inteiro com ela.
Recrutando nosso olho e botando o smartphone
na gaveta, você vai perceber que a outra pessoa vai
mudando também. Isso é um princípio psicológico,
como eu disse. Cresce a árvore no terreno para o
qual a gente mais olha. Esse também é um princípio
psicológico. Se estamos olhando para a outra pessoa
como um terreno baldio, um terreno feio, um terreno
pouco arado, vai nascer erva daninha. Se estamos
olhando para a outra pessoa como um terreno bom,
positivo, onde a terra tem vigor, então nasce árvore
frondosa, com frutos. Esses são princípios psicológicos
que podemos sempre usar.

• A GRANDE SACADA •

Para que as pessoas com quem convivemos se sintam


valorizadas, precisamos lhes dar atenção. Dar atenção
Survival Kit

34
a uma pessoa significa relacionar-se com ela tentando
olhar para sua biografia inteira, para a totalidade de
sua história, evitando o automatismo e abrindo-se
para a possibilidade de que ela nos supreenda.

• IDÉIA EM AÇÃO •

Em vez de se sentir desvalorizado, inverta a chave e


pergunte-se: será que você tem valorizado as pessoas
com quem convive? Será que tem conseguido lhes dar
atenção, ou tem lidado com elas “no automático”?

• APLICAÇÃO PRÁTICA •

Procure “recrutar a totalidade do seu olho” ao lidar com


uma pessoa do seu convívio. Registre suas mudanças
de percepção sobre ela, e também as mudanças que
você perceber nas reações da própria pessoa, como
resposta à sua nova atitude de abertura.

Survival Kit

35
EM BUSCA DE
SENTIDO E
DA MELHOR
PERFORMANCE
“Dá de ti. Dá de ti quanto puderes:
o talento, a energia, o coração.
Dá de ti para os homens e as mulheres
como as árvores dão e as fontes dão.
Não somente os sapatos que não queres
e a capa que não usas no verão.
Darás tudo o que fores e tiveres:
o talento, a energia, o coração.
Darás sem refletir, sem ser notado,
de modo que ninguém diga obrigado
nem te deva dinheiro ou gratidão.
E com que espanto notarás, um dia,
que viveste fazendo economia
de talento, energia e coração!”...

- Giuseppe Ghiaroni -
Survival Kit

36
Para não frustrar aqueles 2 pontos de mudança que
você decidiu perseguir ao longo do ano de 2019, é preci-
so que você recrute a totalidade do seu coração, da sua
atenção, do seu espírito, da sua biografia. Você pode
aprender uma série de conteúdos interessantíssi-
mos, mas, apesar disso, não estar bem preparado,
não ter dentro de si aquele mindset, aquela men-
talidade capaz de fazer essas conquistas perdura-
rem, e isto é o mais importante.

Muitas vezes, conseguimos vencer dificuldades


pontuais em nossa vida, mas repararmos que, no
geral, as coisas não melhoraram muito. Enfim, não
basta conseguir fazer alguma coisa; é preciso
saber absorver o benefício daquilo. Todo mundo
já teve essa experiência de alguma forma. Por isso é
importante que você crie uma disposição para que
possa de fato aproveitar essas mudanças que virão no
decurso da sua vida.

Eu lhe darei dicas bem práticas, mas de vez em quando


será preciso voltar a esse ponto sobre a mudança de
mentalidade, para que as alterações pontuais em sua
vida sejam integradas na sua história como um todo.
A idéia aqui é montar o quebra-cabeça inteiro; não é
pegar pequenas peças do quebra-cabeça e deixar aqui
e ali desconectado da nossa história.

Esqueça JÁ o plano B
Survival Kit

37
Vocês conhecem os famosos planos B, os planos alter-
nativos que temos em nossa cabeça. Uma máxima que
vem do mercado financeiro, e que todo mundo prova-
velmente já ouviu, afirma que você não deve colocar
todos os ovos na mesma cesta. Todos já ouviram isso
de algum modo, e isso parece frase de gente muito
ponderada, muito experiente, que conhece a vida. A
verdade é que isso só serve para o mercado financeiro
– e, mesmo assim, nem sempre; às vezes o melhor a
fazer, mesmo no mercado financeiro, é colocar os ovos
na mesma cesta. Mas, para o mercado financeiro e in-
vestimentos, em geral essa frase serve.

Já nos outros domínios da nossa vida, em geral essa


idéia de não botar todos os ovos na mesma cesta – ou
seja, não aplicar todos os nossos recursos em uma
coisa só – impede que nossa vida progrida, faz com que
estejamos sempre presos no mesmo estado, faz com
que olhemos para os anos anteriores e percebamos
que estamos cometendo os mesmos erros, tendo as
mesmas dificuldades, que nossa vida não progride e
parece que não faz muito sentido.

Então, essa é a primeira idéia que deveríamos


demolir da nossa cabeça. Na maior parte dos
domínios da nossa vida, o verdadeiro progresso,
a alta performance, a realização de um sentido,
dependem justamente de que coloquemos todos
os ovos na mesma cesta.
Survival Kit

38
Que ovos são esses, que cestas são essas? Por exemplo,
na vida profissional. Se eu não me dedicar a uma só
coisa até levá-la à excelência, a tendência é que eu
me torne uma pessoa frustrada. Se eu ficar pulando
de galho em galho, não conseguirei atingir o nível de
performance, de excelência, que eu de fato poderia
atingir. Não serei capaz de entregar o meu melhor.
E, para que eu possa entregar o meu melhor, eu
preciso de tempo dedicado intensivamente e
exclusivamente àquilo. É assim em quase tudo na
nossa vida.

Se eu penso assim: “Eu vou ser psiquiatra, vou me


dedicar a atender em consultório”, e já no primeiro ano
eu penso: “Quer saber? Eu vou fazer outra coisa. Na
verdade, não vou ser psiquiatra. Vou me especializar
em outro domínio da medicina.” O que vai acontecer?
Na verdade, eu não vou ser nem uma coisa nem outra.
Porque eu não tive tempo de levar à excelência essa
minha atuação de psiquiatra em consultório. Isso serve
para a vida profissional, serve para a vida em família
e serve para a educação de filho também. Se nos
lançamos em um casamento, em um relacionamento,
com um plano B na cabeça (“Se não der certo aqui,
eu pulo fora”), daqui a pouco vou tocar minha vida
de outro modo, vou encontrar outra pessoa, ou então
decido que fico melhor sozinho... O que aconteceu?
Não programamos nossa cabeça para de fato investir
tudo o que poderíamos investir.
Survival Kit

39
Muita gente pensa que, se investir tudo em uma
coisa só, tem grandes chances de se frustrar,
de dar com a cara no chão. Mas, em geral, é
o contrário que acontece. Em geral ficamos
frustrados e arrependidos quando sabemos, no
fundo, que não investimos tudo o que poderíamos
ter investido em um projeto. Quando investimos
tudo que poderíamos ter investido em um projeto, e o
projeto não vai adiante, em geral ficamos tranquilos:
“Eu fiz tudo o que eu podia ter feito. Eu não entrei na
história com reservas, eu não guardei uma parte do
meu coração, do meu intelecto, com mesquinharias.
Não. Eu entreguei tudo que eu poderia ter entregado,
e, se a coisa não aconteceu do melhor jeito, eu fico
tranquilo.”

Isso acontece em educação de filhos também. Às ve-


zes ficamos com medo de nos entregar completamen-
te ao projeto de estar ali com as crianças, cortar uma
ou outra coisa de benefício próprio, de hobby que a
gente tinha, ou de convívio com outras pessoas que às
vezes não são tão relevantes assim. Muita gente pen-
sa: “Daqui a pouco os filhos crescem e aí eu não sei
o que fazer da minha vida.” É verdade, os filhos vão
crescer, mas essa história de não saber o que fazer da
nossa vida é uma falsidade do pensamento. Se apren-
demos desde já, com filho pequeno, com filho maior,
a funcionar desse modo, com esse hábito de dar tudo,
apostando tudo, não deixando o nosso coração com re-
Survival Kit

40
servas, não deixando nossa cabeça com reservas, con-
vertemos isso em um hábito. Daqui a pouco, quando
nossos filhos forem embora, a ausência deles não irá
nos deprimir, porque há um motor aqui dentro cha-
mado motivação, ou seja, conseguiremos sempre atu-
ar, conseguiremos fazer as coisas com o nível máximo.

As pessoas que se dedicaram completamente aos


filhos – de verdade, sem reservas –, que entregaram
tudo no casamento, para os filhos, para o trabalho,
enfim, que entregaram tudo de si, quando
se aposentam, ou quando os filhos crescem,
continuam conseguindo encontrar sentido na
vida, porque é o jeito que elas aprenderam a viver.
Elas aprenderam a pegar qualquer realidade da vida
e transformar isso em projeto pessoal no qual vão
entregar tudo que podem entregar. As pessoas não se
sentem vazias.

O custo de oportunidade e a pergunta:


Para quem estou acordando hoje?

Outra queixa bastante comum é sobre a falta de sentido


da vida: “Minha vida não está tendo muito sentido.
Estou sentindo um vazio.” Obviamente, excluídas
as doenças, que são coisas orgânicas, em geral essas
reclamações acontecem quando a pessoa não está
acostumada a colocar todo o coração, toda a sua
energia no projeto que ela entendeu que é relevante
Survival Kit

41
para ela. Aqui aparece um segundo conceito, que é o
custo de oportunidade. Às vezes as pessoas colocam
tudo, apostam tudo no trabalho, mas isso acaba tendo
um grande custo para a saúde ou para a vida familiar, e
logo, é evidente, essas pessoas vão ficar frustradas em
médio prazo, porque apostaram na coisa errada. Daí
entra o conceito de custo de oportunidade. Temos de
observar com muita cautela e precisão quais são
aqueles projetos em que podemos de fato apostar
tudo, porque esses projetos vão, por assim dizer,
“pagar bem”. Esses projetos fazem sentido? Esses
projetos me ajudam a entregar o que eu tenho de
melhor? Eu ajudo a melhorar os demais quando
me dedico com constância, energia, com toda a
vitalidade, a esse projeto? É nisso que temos de
pensar.

Se embarcamos nos projetos – seja a nossa vida em fa-


mília, em um relacionamento, o trabalho – tendo um
plano B, não vamos entregar o que podemos entregar
de melhor. Esse é o ponto central. Temos de entregar
tudo com a máxima excelência. Ter plano B, por exem-
plo, na educação de filhos, plano B em vida de família
com o nosso marido, com a nossa esposa, com nosso
noivo, namorada, em geral não funciona. Isso é uma
coisa que temos de demolir da nossa cabeça. Temos
de ver quais são aqueles planos B que vamos cultivan-
do ao longo da nossa história e que estão nos traindo,
tirando de nós a capacidade que temos de entregar o
Survival Kit

42
que temos de melhor para nós mesmos, para os que
convivem com a gente, para as outras pessoas.

Há várias perguntas que é bom nos fazermos todos


os dias quando acordamos. “Quem precisa de mim
hoje? Para quem eu estou acordando? Quem
precisa que eu apareça hoje?” Essa motivação
extrínseca é boa. Evidentemente, temos motivações
intrínsecas, que temos de saber cultivar também,
para não pararmos quando as motivações extrínsecas
cessarem.

Há motivações externas que é bom conhecer e


cultivar, e uma delas só descobrimos quando fazemos
essa pergunta habitualmente: “Quem precisa que eu
apareça hoje?” Daí nos ocorrem nomes – nome do
filho, da esposa, do esposo etc. É bom nos cercarmos
de lembretes dessas pessoas; por exemplo, vale a pena
colocar como tela de fundo do celular a foto daquela
pessoa ou daquelas pessoas que precisam que a gente
apareça. Isso nos dá, muitas vezes, uma energia para
acordar: “Eu preciso aparecer. Se eu não aparecer,
essa pessoa vai ter uma vida pior no dia de hoje.” Isso
pode ser a sua motivação, pode ser o que está faltando
para você acordar com energia e motivação. Então, é
preciso saber quem precisa que você apareça, quem
precisa que você entregue o que você tem de melhor.
Essa é uma pergunta que você precisa fazer.
Survival Kit

43
Outra coisa que você deve fazer é botar no papel,
escrever mesmo, quais são os planos B que lhe roubam a
capacidade de entregar o seu melhor. Vale a pena de fato
escrever isso, precisamos ter essas coisas registradas.
Às vezes, quando as coisas estão só na nossa cabeça,
elas somem; mas, se a gente baixa um aplicativo, o
Evernote, ou escreve no note do nosso smartphone
(cada um tem a sua ferramenta de registro), enfim,
quando escrevemos, em geral conseguimos concretizar
essas coisas de verdade. Precisamos tomar nota mesmo:
“Quais os projetos em que estou envolvido hoje? Eu
tenho algum plano B para esse projeto? Será que não
é esse plano B que está me tirando a capacidade de
produzir melhor, de entregar um melhor resultado?”
Temos de pensar sobre isso.

• A GRANDE SACADA •

A idéia de ter sempre um plano B não funciona para


a vida. Na vida, a única maneira de obter êxito em
algum projeto é lançando-se a ele integralmente e sem
reservas.

Para isso, é preciso que você avalie com cuidado quais


projetos valem realmente a pena.

• IDÉIA EM AÇÃO •

Pare um pouco e pense se você tem conduzido a


Survival Kit

44
relação com seu cônjuge ou namorado(a), a educação
de seus filhos, ou sua vida profissional, com planos B
na cabeça. Pergunte-se sobre a razão de você alimentar
esses planos alternativos.

APLICAÇÃO PRÁTICA:

Pense naquele plano B que você tem em mente. Agora,


elimine-o do seu imaginário. Que ações você teria de
tomar, nesse novo cenário? O que seria necessário
fazer?

Survival Kit

45
COMECE
O DIA COM
PRESENÇA

Quem cedo e a tempo ao pouco não se


obriga, tarde por muito menos se afadiga.

- Goethe, trad. de Alberto Ramos -


“Lenda da Ferradura”
Survival Kit

46
Agora vamos falar sobre como começar o dia com
presença – como esses 90 minutos iniciais do nosso
dia determinam todo o restante do dia, como esse dia
vai determinar a semana, como a semana determina
o mês, como o mês determina a vida, e como a vida
concreta que levamos determina todo o sentido
daquilo que fazemos.

Planejando bem os inícios:


A importância de planejarmos bem o início do dia

É uma verdade filosófica que um pequeno erro no


princípio vai se tornar um grande erro no fim. Se um
navio sai do Rio de Janeiro rumo a Lisboa com um erro
de 1 grau na saída, esse navio não vai parar em Lisboa,
mas na ponta sul da África, provavelmente. Por isso é
importante tomar muito cuidado com os inícios, com
tudo que está iniciando. Não é aquele cuidado obsessi-
vo da pessoa que tem medo de tudo, mas o cuidado da
pessoa com coragem, com visão, que sabe que tem de
garantir muito bem o começo dos projetos, para que
eles cheguem até o final realizados.

Quantas vezes já abandonamos projetos na nossa vida


porque não cuidamos bem do início, de como iríamos
começar a coisa?

Vou dar um exemplo pessoal. Um dos meus projetos


era cuidar da minha saúde, entrar na academia.
Survival Kit

47
Antes de entrar na academia, eu já sabia de coisas
que haviam me paralisado antes. Faço academia de
manhã e venho direto para o consultório. Então,
naturalmente, vou precisar ter a roupa de ginástica,
shampoo, sabonete etc. organizados previamente,
porque vou tomar banho na academia e seguirei direto
para o consultório. O que poderia me paralisar aqui,
que é muito simples? Por exemplo, não ter uma bolsa,
onde vou carregar o shampoo, a toalha, o tênis etc. É
nesse nível mesmo. Muitas vezes, ficamos paralisados
diante da vida, não vamos para o próximo nível, não
cumprimos as nossas tarefas, por falta de previsão de
coisas desse tipo. Muitas vezes, não nos doamos 100%
para os nossos filhos, para nosso marido, para nossa
esposa, para nossos amigos, porque negligenciamos
essas pequenas tarefas do início.

Se eu tivesse me matriculado em uma academia sem


comprar uma bolsa, ter separado uma bermuda, uma
blusa, uma toalha etc., certamente, ao acordar, eu
ia achar tudo difícil, com aquele monte de crianças
dormindo em casa, a esposa organizando as coisas dela,
enfim. Essa rotina de ter de arrumar as coisas, pensar
de improviso pela manhã, organizar tudo na última
hora, me atrapalharia de tal modo, que eu certamente
deixaria de cumprir aquela tarefa que me propus.

Por isso eu convido vocês a pensar e escrever:


“Quantas vezes eu abandonei coisas na vida porque
Survival Kit

48
elas eram um mero desejo, mas não estavam escri-
tas em lugar nenhum?” Outra coisa que é impor-
tante sabermos: se a coisa é só um desejo, mas não
está no calendário, então ela não é absolutamente
um desejo. Ela tem de estar escrita em algum lu-
gar, porque, se não, nem um desejo essa coisa é.
Isso é importante saber. Faz sentido para você? Se
eu não escrevi, se não tive tempo, não gastei tempo
para escrever a coisa, para planejar minimamente,
então não posso esperar que aquilo se realize sozi-
nho. O importante é estar planejado para começar o
processo de cumprimento. Eu preciso cumprir aquela
atividade. Para que eu possa cumprir, ela precisa estar
planejada, a fim de que eu consiga visualizar o proces-
so, sobretudo os inícios.

Então vamos lá: qual é o projeto que todo dia eu


enfrento? Esse projeto que todo dia eu enfrento chama-
se VIVER. Todo dia eu preciso cumprir uma jornada de
um dia, uma jornada de 18 horas, 12 horas, enfim, não
sei quantas horas produtivas você tem no seu dia. O
fato é que todos os dias, sempre, você vai despertar e
vai permanecer acordado até o final do dia, quando
então você finaliza essa jornada.

Nós temos essa unidade, que é a unidade do dia, e


por isso precisamos planejar bem o seu início. Às
vezes nos esquecemos desse detalhe. Se eu não
planejo o início de cada dia, pode ser que, no final
Survival Kit

49
de uma semana, ou de um mês, eu tenha 7 ou 30
dias de fracasso. Porque eu não planejei o início
dessa unidade, que é o dia. O dia é a partida para
construirmos a capacidade real de estar presente dentro
da nossa vida. Isso não é poesia, não é filosofia, não é
bruxaria: isso é tecnologia. Isso é fundamental para que
possamos ter uma vida plena – plena de sentido, uma
vida em que que possamos servir verdadeiramente aos
outros, uma vida em que encontremos amor e que nos
permita dar amor também.

Muitas vezes a origem de nossas impaciências e


frustrações com os filhos, ou de nossa desesperança
no nosso relacionamento, é porque não tivemos a
coragem, a consciência, de que precisávamos planejar
o início do nosso dia.

Essa dica vai para todas as pessoas que começam o dia


um pouco, digamos assim, reativamente. A primeira
coisa é viver a nossa agenda. Isso não é um convite
ao egoísmo, ao egocentrismo, não é um convite para
abandonar o altruísmo, a sua capacidade de serviço.
Pelo contrário, é um convite para que você se organize
e, assim, se organizando, você verá que vai sobrar mais
tempo livre, mais energia para você se dedicar a todos
os projetos.

Sua vida está sendo sequestrada pela agenda dos


outros?
Survival Kit

50
A primeira coisa é não sermos reativos à agenda dos
outros. Veja bem: todos os dias nós acordamos, e todos
os dias vai haver centenas de demandas recaindo so-
bre nós. As primeiras demandas que podem recair so-
bre nós, a que podemos agir apenas reativamente, são:
todo o conteúdo que está dentro do Whatsapp, na cai-
xa de e-mail, no smartphone. Veja se faz sentido para
você. Uma boa parte das mensagens que recebemos
não são respostas a algo que damos, mas sim deman-
das espontâneas: uma pessoa que chama para fazer
tal coisa, uma pessoa que pede um favor, uma pessoa
que manda ler algo que não pedimos. Temos de ser es-
pertos: não podemos começar o nosso dia dentro da
agenda de outra pessoa.

Se eu começo o meu dia abrindo o Whatsapp, antes de


fazer qualquer outra coisa, o que estou comunicando
para a minha cognição, para o meu corpo, para a minha
biografia? Estou comunicando para mim mesmo que
o importante no dia é a agenda dos outros, e não a
minha agenda. Eu acordo e a primeira coisa que eu faço
é atender a demanda de outra pessoa, uma demanda
que não estava na minha escala de prioridades. Esse é
o ponto central.

Temos de ter uma escala de prioridades, uma lista de


coisas que tenham importância, que teremos de fazer.
Se não tenho essa lista, se não sei o que é prioridade na
minha vida, provavelmente vou viver reativamente,
Survival Kit

51
atendendo às demandas dos outros. Então, quando
chegar o final da semana, do mês, eu vou olhar para
dentro de mim e perguntar: “O que eu fiz nessa semana?
O que eu fiz nesse mês? Cadê a minha vida?” Claro
que eu tenho uma vida, eu faço as coisas, as coisas
acontecem, mas cadê aquele centro? Cadê a minha
voz? Cadê aquela agulha que foi costurando com a
linha da minha vontade, da minha inteligência, esse
tecido que é a vida? Então vamos tendo uma série de
retalhos, uma série de pedaços que não vão dar uma
unidade para a nossa vida. E, quando olho para essa
realidade, não consigo me enxergar ali.

Por isso é fundamental não despertar de manhã


reativamente. Precisamos começar nosso dia com
presença. Esse é um conselho que estou dando para
vocês, com base nas pessoas que atendo e que já
treinei – pessoas que conquistam as coisas na vida:
não começar o dia reativamente.

Como gerar energia:


O ritual de presença nos primeiros 90 minutos do
dia

A segunda coisa, que pode parecer maluquice, é a


seguinte: essa energia que temos, ou não temos,
não aparece ou desaparece: ela se cria. Criamos a
nossa energia (com exceção daquelas pessoas que
têm depressão grave, ansiedade grave, problemas
Survival Kit

52
clínicos). A maior parte das pessoas como nós, que
não apresenta questões graves da psiquiatria, pode
gerar uma quantidade de energia. Mas não se gera
uma quantidade de energia simplesmente pela força
do querer, não é assim que funciona. O que podemos
é gerar uma inclinação, uma disposição, que faz com
que tenhamos essa energia que nos capacita a realizar
as atividades diárias.

Para que possamos gerar essa energia – insisto


mais uma vez, pois não podemos deixar isso passar
–, devemos ter um ritual de presença nos primeiros
90 minutos do dia. A palavra-chave é presença. Pode
ser que tenhamos rituais de dispersão. Por exemplo,
esse ritual de despertar e já olhar o Whatsapp. Isso é
um ritual de dispersão, não de presença.

O que é um ritual de presença? Vou dar um exemplo


para uma pessoa que tem as primeiras horas do dia
mais ou menos tranquilas (alguém já levou as crian-
ças para o colégio ou as crianças acordam mais tarde).
Você acordou e está ali, somente você, sem mais nin-
guém. O ritual de presença, por exemplo, é simples:
você acorda, abre os olhos, levanta da cama. Pode ser
que façamos esse primeiro movimento completamen-
te na intuição, não estejamos presentes no primeiro
movimento do dia, que é se levantar. É como dirigir:
muitas vezes você dirige da casa para o trabalho, do
trabalho para casa, mas não está atento exatamente à
Survival Kit

53
rua, ao trajeto. Você vai meio no automático, reagin-
do (não posso bater nesses carros aqui, tenho de che-
gar ali, tenho de parar quando o sinal fecha), mas você
não está 100% presente na situação. Em geral é assim.
Você está executando a função, mas não está presente.

Minha chamada para os primeiros 90 minutos do dia


é tentarmos estar presentes ao máximo, o quanto for
possível. Esse primeiro movimento do dia é fundamen-
tal para termos o domínio da nossa presença. A pri-
meira coisa que devíamos fazer é levantar conscientes
do nosso movimento corporal. Isso não é obsessão, é
só para marcar no nosso cérebro, no nosso espírito, no
nosso jeito de viver, que queremos estar presentes em
cada segundo de nossa vida; é o primeiro comunicado
cognitivo que iremos passar para nós mesmos. Então,
antes de me levantar da cama, vou pensar: “Vou me le-
vantar.” Não precisa verbalizar, só precisa estar atento
aos movimentos. Você se levanta, percebendo o que
está fazendo, gira na cama – basta você estar atento.
Vai se levantar, ficar em pé, ir até o banheiro. “Vou la-
var o rosto, escovar os dentes”. Independentemente da
sua rotina ao acordar, o convite é estar atento a cada
coisa.

Você pode ter esse mindset, essa mentalidade de pre-


sença total. Isso muda a qualidade da nossa vida, muda
a produtividade no nosso dia. Isso muda aquela queixa
que muita gente tem: “Puxa, sou muito esquecido. Não
Survival Kit

54
lembro de nada.” Provavelmente aquelas pessoas que
sempre repetem que são esquecidas, descartando-se
que tenham de fato alguma doença, não devem fazer
esse exercício de presença. Muitas vezes estamos vi-
vendo o nosso dia, mas não estamos presentes dentro
de nós mesmos, na nossa vida. Então, o que podemos
fazer? Despertar e levantar com total presença logo
nos primeiros minutos do dia.

Se você tem filho pequeno em casa e foi ele que o acor-


dou, aí não temos o que fazer, estamos ali para servi-lo
mesmo, então vamos acordar olhando para ele, para
a demanda dele. Ah, não foi meu filho que me acor-
dou, foi o despertador que tocou. Hoje a maioria dos
despertadores é o próprio celular, então aqui vai um
desafio: não olhar o conteúdo, apenas desligar o alar-
me e levantar. E, ao levantar, fazer isso com presen-
ça. Quando for fazer o café, prestar atenção na água
caindo no copo. Quando for ligar a cafeteira elétrica,
prestar atenção no barulho do botão, no movimento.
Isso pode parecer um pouco obsessivo no início, mas,
com o tempo, com a prática, você verá a coisa fluindo
naturalmente, você vai tendo um sentido de presen-
ça, e a sua produtividade, no médio prazo, vai decolar,
disparar.

“Ah, não tenho energia.” Não temos energia porque


estamos em uma vida dispersa. Mandamos energia
para todos os lados, menos para o foco da nossa
Survival Kit

55
atividade, do nosso interesse, do nosso coração, da
nossa demanda verdadeira nesta vida. O que podemos
fazer para vencer a nossa falta de energia, vencer a
dispersão, é estar profundamente presente em cada
movimento. Aqui falo primeiro dos movimentos
corporais no nosso dia, nas tarefas simples: prestar
atenção no café, no barulho da cafeteira, no barulho
da manteiga passando no pão, prestar atenção nos
nossos primeiros movimentos. Isso é um ponto. Por
outro lado, não estar reativo às demandas de outras
agendas. Para que isso? Para ser uma pessoa mais
obsessiva? Não. Para ter mais tempo livre.

Quando nós estamos presentes com energia e foco,


acabamos por ter mais tempo livre na nossa vida.
Conseguimos aproveitar melhor os momentos,
porque não estamos sempre correndo atrás de prazo,
correndo atrás de resultados, tendo de tapar buraco,
enxugar gelo. Vamos perceber que, quando agimos
assim, estando mais presentes nos primeiros
minutos, nos entregaremos mais, estaremos mais
disponíveis para nossos filhos, nosso cônjuge, a
qualidade das interações humanas melhora muito.
Às vezes a gente resolve vidas só com esse exercício da
presença matinal. Uma pessoa presente é uma pessoa
que consegue se entregar, que está presente para as
demandas dos outros quando essas outras demandas
fizerem sentido.
Survival Kit

56
Esse é o exercício da semana. É uma atividade que
parece simples. Obviamente, uma pessoa com mais
energia e atenção é mais produtiva que uma pessoa
sem energia, sem atenção. Isso é senso comum. O que
ocorre é que nem sempre o senso comum é uma prática
comum. É claro que é melhor não matar do que matar.
É melhor não roubar do que roubar. É evidente, é senso
comum, mas, para muitas pessoas, não é uma prática
comum. O truque acontece quando o senso comum
torna-se uma prática comum. Iremos nos tornar uma
pessoa que está em outra categoria. Há pessoas que já
alcançaram um certo nível e querem ir para o próximo,
e outras que estão iniciando. Isso serve tanto para os
iniciantes quanto para os avançados.

Como lidar com os imprevistos, as demandas exter-


nas? Estando presentes. Muitas vezes não consegui-
mos planejar nossa rotina. Um vendedor externo, por
exemplo, cada dia deve estar em uma cidade, em um
bairro – ele não sabe, recebe a agenda do dia na hora.
Eu acordo, meu filho está doente, minha esposa pede
algo, meu marido pede algo. Uma coisa que é sem-
pre domínio nosso, que sempre depende da gente,
é a atenção, a presença total que vamos recrutar da
nossa atenção, do nosso espírito, da nossa biogra-
fia, e colocar intensivamente naquela atividade.
Isso depende de nós.

Aquele exercício de não reclamar que propusemos dias


Survival Kit

57
atrás já acabou, pois já se passaram oito dias. Devemos
renová-lo por mais oito dias. Muitas vezes a reclamação
é a maior fonte de dispersão do nosso espírito. Quando
reclamamos, jogamos nossa atenção para um mundo
de fantasia que não existe. Aquele mundo, “Ah, podia ser
de outro jeito, mas não é.” Então vamos tentar colocar
a intenção total em cada atividade que fazemos.

• A GRANDE SACADA •

Ter um ritual diário para os primeiros 90 minutos após


despertar é fundamental para que vivamos o dia mais
presentes aos nossos atos, com mais autocontrole e
foco. Com o tempo, esse hábito nos ajudará a tomar
as rédeas da nossa vida, passando da mera reatividade
à posição de alguém que de fato está planejando seus
passos e construindo sua história ativamente.

• IDÉIA EM AÇÃO •

Desenvolva um ritual de presença para os primeiros


90 minutos após despertar. Esteja maximamente
presente a cada ato, por mais simples que seja:
levantar-se da cama, alongar o corpo, preparar o café.
Evite, nesses primeiros minutos, dispersar sua atenção
com mensagens de Whatsapp, e-mails etc. Aproveite
esses minutos iniciais do dia para praticar o foco e
a concentração que você deseja que se tornem uma
constante no seu modo de viver.
Survival Kit

58
• APLICAÇÃO PRÁTICA •

Procure visualizar, vivamente e em detalhes, o seu


ritual de presença para a manhã do dia seguinte.

Anote as ações que você irá EVITAR nos primeiros 90


minutos do dia.

Survival Kit

59
VOCÊ TEM
ANDADO COM
PESSOAS
INVALIDADO-
RAS?

Aqueles que nada têm nada podem


partilhar; os que não vão a lugar algum
não podem ter companheiros de viagem.

- C. S. Lewis -
“Os quatro amores”
Survival Kit

60
Vamos falar agora sobre toda a realidade que envolve
nossas necessidades básicas, necessidades psicológicas,
necessidades de preenchimento, de se sentir pleno.
Não sei se vocês conhecem um autor chamado Mihaly,
do campo da psicologia positiva. É um autor bem
interessante. Não estou recomendando que vocês o
leiam, porque ele lida com conceitos que precisam ser
muito bem compreendidos e bem trabalhados. Dentre
os conceitos que ele aborda, existe o de “flow”, que é
bem interessante.

Segundo esse conceito, existem alguns momentos


na vida, algumas atividades nas quais conseguimos
mergulhar com tal domínio, com tal profundidade,
que atingimos um outro patamar de operação, que
ele chama de “flow”. O autor dá como exemplo os
maestros, que precisam de um grande domínio técnico,
de uma atenção monstruosa aos diversos momentos
da orquestra, e de uma tal presença, que todos os
naipes da orquestra precisem olhar para ele; o maestro
vai conduzindo os músicos com uma segurança, com
uma intensidade, com uma entrega que o lança nesse
estado que o autor chama de “flow”.

Para que possamos atingir o estado de “flow”, preci-


samos nos esforçar por adquirir o máximo de ferra-
mentas, o máximo de capacidade, de competência
técnica, e temos de nos entregar a uma atividade
de fato desafiadora. Ele diz que é justamente na arti-
Survival Kit

61
culação entre uma grande competência e um desafio
verdadeiro que conseguimos atingir plenamente o es-
tado de “flow”. Se somos jogados em um desafio verda-
deiro sem ter todas as competências, vamos nos tor-
nar ansiosos, tensos, desorganizados. E se, por outro
lado, temos muitas competências mas nos lançamos a
um desafio baixo, vamos entrar num estado de apatia,
de morosidade, enfim, num estado pouco alerta.

Então, vamos imaginar que um grande tenista, o Guga,


vá jogar tênis comigo. Eu não tenho a mínima noção
de tênis, não sei nem segurar uma raquete direito. E do
outro lado está alguém que tem todas as competências,
todas as habilidades, sendo muito pouco desafiado
por mim, que não tenho competência e habilidade
nenhuma no tênis. O Guga não vai conseguir entrar
no estado de “flow”. Mas imaginem o Guga no final
do torneio de Roland-Garros, competindo contra um
outro jogador igualmente bom. Para que ele possa
se entregar àquela atividade, para que possa estar ali
presente, ele vai ter de adquirir o estado de “flow”. Ele
estará na situação de ser maximamente desafiado,
tendo todas as competências já desenvolvidas na
sua pessoa. Do encontro entre o desafio máximo
e a competência máxima vem o estado de “flow”,
que, segundo o Mihaly, é um estado fantástico, um
estado de preenchimento, de plenitude.

O supremo desafio:
Survival Kit

62
A vida em família

Uma das situações na vida que nos convocam a tomar


posse desse estado de “flow” é, precisamente, todas as
realidades que envolvem a nossa vida familiar, a vida
doméstica. Quando entra um bebezinho na nossa
vida, ou quando estamos desenvolvendo uma criança
de quatro, cinco, seis anos, vemos que ela nos convoca,
ela chama a nossa atenção, a nossa biografia, a nossa
atividade, a nossa atitude, para um desafio, que é o
de conseguir fazer com que aquela criança cresça de
modo harmônico, de modo saudável, de tal modo que
consigamos suprir todas as suas necessidades, atender
a todas as suas demandas.

Por isso, esse estado de pai, de mãe, de educador, já nos


recruta, automaticamente, para um grande desafio. E,
para que não fiquemos ansiosos, para que não pe-
reçamos, não nos desorganizemos, não fiquemos
desestimulados, loucos, só podemos fazer uma
única coisa: adquirir uma série de competências.
Temos diante de nós um grande desafio, uma grande
demanda, e esse desafio não vai ceder, não vai dimi-
nuir. Uma criança continua demandando de nós con-
forme o tempo passa. Em primeiro lugar, uma criança
demanda de nós o nosso físico – precisamos acordar
várias vezes, a criança faz xixi, faz cocô, temos de lim-
par, de cuidar etc. Depois, há uma demanda relaciona-
da ao desenvolvimento intelectual, e precisamos estar
Survival Kit

63
atentos às várias dimensões daquela criancinha: inte-
lectual, espiritual, afetiva.

Essa demanda é muito grande, e não conseguimos


baixar o seu nível. Às vezes, no trabalho, é possível
baixar. Se me contrataram para ser CEO de uma
empresa XYZ e eu vejo que não estou dando conta
daquilo, é simples: eu peço demissão e vou para um
cargo de gerência, um cargo inferior. Mas pai e mãe não
podem se demitir da função. Teremos de ficar lá para
sempre. Nós precisamos necessariamente adquirir
algumas competências para poder entrar nisso que o
Mihaly chama de estado de “flow”.

Em um dos livros dele, “The Evolving Self” (creio que


não há tradução desse livro), há uma teoria muito
interessante. Lá no meio do livro ele coloca uma
pirâmide em cuja base estão nossas necessidades
básicas; depois vêm as necessidades psicológicas,
e depois a necessidade de plenitude. Isso é muito
interessante, ele dá um giro no conceito. Necessidades
básicas são necessidades de comida, descanso etc. As
necessidades psicológicas, sobre as quais eu queria
falar aqui hoje, se não são supridas, nos impedem de
evoluir, de adquirir competências importantes.

Segundo o Mihaly – e eu concordo com ele –, não


basta termos todo o domínio técnico-ferramental
para abordar, por exemplo, uma situação com uma
Survival Kit

64
criança. Imagine só: eu tenho uma excelente formação
na pedagogia, na psicologia, tenho uma base teórica
bem sólida, mas não tenho as minhas necessidades
psicológicas atendidas. Ou seja, não conseguirei
entregar meu melhor “eu” naquela atuação.

Então, vamos recapitular: se temos um desafio na


vida, um desafio de trabalho, de relacionamento,
um desafio enquanto pais, não é suficiente
possuir todo o ferramental para abordar o
problema. Precisamos também estar nós mesmos
construindo a nossa própria personalidade. E como
fazemos isso? Atendendo às nossas necessidades
psicológicas e à necessidade de plenitude. Se não
construímos também esse edifício interior, não vamos
conseguir entregar o melhor que podemos, porque, se
eu tenho a melhor serra elétrica do mundo, mas não
estou forte o suficiente para segurá-la e manejá-la, ela
de nada valerá, e não vou conseguir cortar a árvore.

Essa é uma analogia útil para que entendamos que


nós precisamos estar atentos, também, para a nossa
formação interior. O Mihaly separa essas necessidades
interiores em duas: existem as necessidades psicológi-
cas e a necessidade de plenitude. Eu gostaria de falar
sobre um ponto muito interessante relacionado às ne-
cessidades psicológicas.

Dize-me com quem andas


Survival Kit

65
e eu te direi quem tu poderás te tornar

O autor diz que nossas necessidades de estima, de au-


to-estima, precisam ser atendidas. Precisamos con-
viver com pessoas que nos estimem, que gostem
de nós. Isso não é egoísmo, mas uma necessidade hu-
mana. Vivemos em uma comunidade humana, não é
bom que o homem esteja só, não é bom que criemos
as coisas sozinhos, pois, em algum momento, vamos
perecer, não vamos chegar tão longe quanto podería-
mos. É bom estarmos em companhia.

Aí está o ponto: companhia de quem? Essa é uma


coisa importante. Essa é uma máxima que devemos
guardar na nossa cabeça, que eu levo para a minha
vida, que é o seguinte: se eles não sonham, acorde. Se
eu convivo com pessoas que não sonham, que não
têm projetos, que não têm essa dimensão do apoio
mútuo em projetos, em sonhos, em perspectivas,
eu acordo: opa, tem alguma coisa errada aqui, eu
tenho de acordar. Não posso continuar vivendo
com essas pessoas desse modo. Se os outros não
sonham, acorde.

Quando eu começo a conviver com pessoas muito “pé


no chão”, muito concretas, muito cheias de tarefas
objetivas, que não têm a capacidade de projetar, de sonhar,
de entender os projetos nos quais eu estou envolvido,
eu tenho, de algum modo, de reposicionar essa pessoa
Survival Kit

66
na minha vida. Por quê? Porque essas pessoas levam
a gente para baixo mesmo. Se começamos a conviver
só com gente que não sonha, que não tem projeto, que
não tem uma perspectiva de transcendência na vida,
nós começamos a ficar esquisitos, a diminuir, a nos
preocupar só com as coisas deste mundo, e tudo acaba
nos afetando, no final das contas.

Dito de outro modo: os pessimistas não são pessoas


muito razoáveis. São pessoas que terminarão tristes. São
pessoas que não completam, que não alcançam, que
não entregam. Os pessimistas não são pessoas mais
“realistas” – uma coisa não tem nada que ver com a
outra. A realidade pode ser vista de vários ângulos.
Os pessimistas escolhem ver a realidade segundo
suas deficiências, suas limitações, as limitações do
ambiente. Os que sonham são pessoas que em geral
alcançam. Aquela frase de para-choque de caminhão,
“Quem sonha, conquista”, está certa. Se eu nem sonho,
eu nunca vou conquistar.

Então, esse é o exercício de hoje: faça uma lista das


pessoas que convivem com você e se pergunte se elas
têm sonhos, se elas entendem os seus sonhos, ou se
elas sempre invalidam os seus projetos, de tal modo que
você nem consegue mais se expressar. Se você convive
com pessoas assim, então você tem um grande desafio,
que é mostrar para elas que os seus sonhos podem
colocar você para frente, funcionam na verdade como
Survival Kit

67
um motor, não são coisas aleatórias.

Então, a primeira coisa que temos de ter na


cabeça é o seguinte: antes de sentar e programar
os objetivos muito concretos, temos de ter nosso
objetivo grande, a finalidade, o objetivo de longo
prazo, o sentido. É isso que chamamos de “sonho”,
no fim das contas. É isso que eu quero, no fim das
contas. Então, eu preciso saber quais são as pessoas
com as quais eu vou conviver, e se elas são pessoas
invalidadoras, pessoas que vão roubar de nós os nossos
sonhos.

Pessoas que roubam de nós os nossos sonhos são


pessoas que nos roubam de nós mesmos, pessoas
que não nos ajudam. Como já dizia Santo Tomás de
Aquino, amizade é querer as mesmas coisas e rejeitar
as mesmas coisas. Amigo é aquele que ama o mesmo
que você e odeia o mesmo que você. Então, se você
convive com pessoas que não sonham, acorde. Isso é
muito importante. Você tem de entender que fulano,
beltrano e sicrano são pessoas que têm mais dificuldade
de fazer projetos, de ter um projeto de longo prazo, ou
transcendente, enfim, um projeto que importe.

Educar filho tem sempre essa dupla dimensão. Quando


educamos uma criança, ficamos em uma tensão, no
meio de um caminho. Um dos extremos desse caminho
é o “get things done”, pois há certas coisas que devemos
Survival Kit

68
fazer sempre: a criança sempre tem de estar vestida,
alimentada, com o cabelo cortado, com a gaveta em
ordem etc. Essas são as coisas materiais relacionadas à
educação de filho, e são importantes, é preciso ter um
método para que sejam alcançadas.

Porém, em educação de filho, é preciso ter um outro


objetivo, de longo prazo, que é o da transcendência:
aonde eu quero que meu filho chegue? Quem eu quero
que ele seja? Essa pergunta pede uma resposta que
sempre transcende o mundo sensível. A resposta a
essas perguntas – quem eu quero que fulano seja? Quem
eu quero ser para essa pessoa? – sempre transcende as
coisinhas que eu tenho de fazer no dia-a-dia. Porém,
se eu só respondo a essas perguntas, se eu só tenho
o sonho, sem ter a articulação com as coisas a fazer
no dia-a-dia, eu vou me perder também, não vou
alcançar meu sonho.

Aqui está uma grande sabedoria sobre educação


de filho e sobre projetos de vida. Precisamos ter
essa necessidade psicológica da estima atendida
– precisamos saber que as pessoas nos valorizam,
valorizam aquilo que temos de mais superior, que
são os nossos sonhos, nossos projetos, o interior da
nossa alma. Precisamos dessa necessidade psicológica
sempre atendida. Quando essa necessidade psicológica
é atendida, nossa personalidade vai se formando, e
então torna-se possível alcançar aquela necessidade
Survival Kit

69
de plenitude.

Para que a necessidade da estima seja atendida,


precisamos de pessoas ao nosso redor. Precisamos
montar um time de pessoas que validam nossos
sonhos. Pessoas que estão ali querendo saber o que
temos na cabeça, quais são os nossos sonhos, os nossos
projetos, qual o nosso próximo passo, o que estamos
fazendo para alcançar o próximo passo – enfim, onde o
nosso coração de fato pulsa. Precisamos ter a sabedoria
de montar esse time.

Temos de perder a mania tipicamente brasileira de


“não vai dar certo”, essa mania de dizer para alguém
que tem um sonho, um projeto: “Ah, cara, esqueça isso,
vá fazer um concurso público.” Nada contra concurso
público, mas o concurso público muitas vezes é
um símbolo dessa incapacidade de sonhar, de dar o
próximo passo, de acreditar na nossa própria potência
– validados, apoiados por outras pessoas. Então, essa
é a idéia de hoje: a necessidade psicológica da estima.
E, para que tenhamos essa necessidade suprida – para
que tenhamos força para entregar o melhor de nós, o
melhor serviço, o melhor produto –, precisamos ter a
sabedoria de nos cercar de pessoas que não invalidam
os nossos sonhos.

Na educação de filho, nós temos um grande sonho:


queremos que nosso filho seja um bom cidadão, seja
Survival Kit

70
uma boa pessoa, um bom pai de família, uma pessoa
que entregue valor, uma pessoa plena, feliz. Isso é
um grande sonho. Se nos cercamos de pessoas muito
“racionais”, com muito “pé no chão”, não conseguimos
dar o próximo passo. Não conseguimos mesmo. Então,
precisamos nos cercar de pessoas que também
saibam sonhar. E, se não temos essas pessoas, então
precisaremos criar em nós essa energia para que
as pessoas em volta olhem e digam: “Caramba, é
possível sonhar. Isso dá certo.” Sonhar, ter projetos,
ter expectativas, é algo contagiante. Se uma pessoa
que sabe sonhar aparece em um ambiente, o ambiente
vai se transformando positivamente, as pessoas
vão se elevando, ganham mais dinheiro, ficam mais
felizes, se amam mais, a coisa vai melhorando. É uma
contaminação positiva que se gera no ambiente.

E se essa pessoa invalidadora for a sua mãe? Seu


cônjuge? Alguém com quem você terá de conviver,
seja por um vínculo de sangue, de compromisso, de
amor? Então você vai ter de gerar em si mesmo essa
energia de contágio. Mas, para isso, teremos de fazer
aquilo que falamos nas aulas passadas: focar e criar essa
energia logo pela manhã, para que os nossos sonhos
não sejam como bolhas de sabão, que começam a se
elevar e explodem. Nossos sonhos têm de ser como as
águias: robustos, pesados; as asas batem e eles de fato
sobem. Têm de ser sonhos com consistência.
Survival Kit

71
O sonho do qual eu estou falando aqui não é uma coisa
vazia, sem substância. Estamos falando de um sonho
de educação, de ter uma família grande, de ter um
trabalho que faça sentido, o sonho de uma entrega boa
da nossa própria vida. Isso é sonho com substância,
com consistência, que se parece mais com as águias,
que são pesadas, mas cuja estrutura permite que elas
subam no mais alto do céu, diferente dos sonhos bolhas
de sabão, sem consistência. Quando começamos a
nutrir esses sonhos, as pessoas ao nosso redor vêem
que dá para pegar carona no nosso sonho, e daqui a
pouco estão seguindo o seu próprio caminho, também
para cima.

Alguém aqui está lembrando uma máxima do


coaching: você é a média das cinco pessoas com as
quais você mais convive. Isso tem uma grande razão
de ser. Então, nós precisamos nos cercar de pessoas
que também saibam sonhar, que joguem a gente para
cima. E, por outro lado, não podemos restringir a
nossa convivência às pessoas fantásticas; temos uma
responsabilidade neste mundo, e, por vários motivos,
não devemos afastar aquelas pessoas a quem podemos
ajudar.

• A GRANDE SACADA •

É uma verdade psicológica que precisamos ter nossa


necessidade de estima atendida. Por isso, precisamos
Survival Kit

72
nos cercar de pessoas que saibam valorizar nossos
sonhos, nossos ideais. As pessoas capazes disso são
aquelas que também, por sua vez, têm sonhos e ideais,
e por isso devemos ter cuidado com aquelas pessoas
que só se ocupam das “coisinhas” do dia a dia e são
incapazes de sonhar.

• IDÉIA EM AÇÃO •

Procure cercar-se de pessoas que alimentem sonhos


do mesmo quilate que os seus.

• APLICAÇÃO PRÁTICA •

Pense nas pessoas com quem você mais convive e


liste-as mentalmente. Elas validam ou invalidam seus
sonhos? Elas vêem o valor dos seus projetos?

“E se essa pessoa invalidadora for a sua mãe? Seu cônjuge?


Alguém com quem você terá de conviver, seja por um vínculo
de sangue, de compromisso, de amor? Então você vai ter de
gerar em si mesmo essa energia de contágio. Mas, para isso,
teremos de focar e criar essa energia logo pela manhã, para
que os nossos sonhos não sejam como bolhas de sabão, que
começam a se elevar e explodem. Nossos sonhos têm de ser
como as águias: robustos, pesados – as asas batem e eles de
fato sobem. Têm de ser sonhos com consistência.”
Survival Kit

73
COMO GERAR
ENERGIA NO
DIA A DIA
Survival Kit

74
Um conceito recorrente em minhas exposições é o de
energia. Realmente, alguns coaches, algumas pessoas
que se propõem a falar sobre esse assunto acabam
não fundamentando esse conceito, como eu mesmo
até agora não havia fundamentado. Então muitas
pessoas acabam entendendo energia no sentido de
que há uma energia circulante no ambiente, e que
nós a catalisamos, como se fôssemos uma pilha, e a
estocamos para usar nos momentos de necessidade.

Definitivamente, não é disso que estou falando,


sobretudo porque não sabemos com segurança se as
coisas funcionam realmente assim. Tudo que falamos
aqui são coisas que conseguimos demonstrar – ou
cientificamente, ou antropologicamente.

Não sei se você já teve essa experiência, mas imagine


que você esteja em um período meio difícil, se sentindo
um pouco triste, sem energia, sem disposição, um
pouco perdido, sem saber direito o que fazer, e aí lhe
ocorre a idéia de entrar no Youtube e digitar “discurso
motivacional”, ou qualquer outra palavra-chave
relacionada ao tema da motivação. O que acontece
quando vemos essas coisas? Nós ouvimos aquele
famoso discurso motivacional do Mel Gibson para
aquelas tropas, antes de partirem para uma missão,
quando ele diz que será o primeiro a pisar no solo e o
último a sair, e de fato ficamos mais motivados.
Survival Kit

75
Repare que esses vídeos e discursos motivacionais
só funcionam em momentos nos quais, geralmen-
te, não precisamos da motivação. No momento em
que precisamos da motivação, esses discursos so-
mem e não nos ajudam. Então, você está ali à noite
assistindo a um vídeo motivacional e toma a decisão:
“É isso! Amanhã vou acordar na hora certa, serei uma
pessoa diferente, vou beber menos, vou ter uma vida
mais saudável, vou abraçar meus filhos – amanhã se-
rei um novo eu!” Daí o que acontece é que, no dia se-
guinte, o despertador toca e você o coloca no modo
“soneca”, e tudo volta ao que era antes.

Em geral, esses discursos motivacionais não se


apresentam quando mais precisamos deles. E, se
eu estou aqui, é porque uma das minhas funções é
justamente – tanto nas minhas sessões no consultório
quanto nos cursos que eu dou, e aqui com vocês – fazer
com que isso funcione, não pela força de um discurso
hipnótico (isso é algo que eu não utilizo), mas por uma
transformação que deve ocorrer dentro de cada um de
nós. Isso é possível fazer.

Motivação:
mais que uma realidade puramente mental

Ocorre que esses discursos motivacionais atingem


nossa cabeça, nosso campo linguístico. Eles afetam
nossa mente, por assim dizer. Nós ouvimos o discurso,
Survival Kit

76
guardamos o discurso na memória, e esse processo
vira um processo mental, por assim dizer. Acontece
que o intelecto, ou os processos mentais, não são
capazes, no dia a dia, de nos inclinar a conquistar
aquele bem árduo, ou aquele bem difícil – como, por
exemplo, entrar em uma dieta e permanecer nela, fazer
um compromisso de ser mais carinhoso com nosso
cônjuge, ou ensinar nosso filho a dormir sozinho, ainda
que ele acorde várias vezes durante a noite e volte para
nossa cama.

Para que consigamos ser constantes e nossa


motivação possa de fato aparecer no mundo,
precisamos recrutar em nós mesmos um domínio
de atuação que não é mental. Esse é o truque, e
é isso que escapa a muita gente que faz discursos
motivacionais ou até coaching de motivação. Na
maior parte das vezes, o discurso não é suficiente
para que a pessoa permaneça motivada, produzindo,
num estado de performance alta. E por quê? Porque
a mente funciona de um jeito diferente dos nossos
afetos. Aquele movimento que nos inclina para a
conquista daquele bem chamado “bem árduo”,
ou seja, para a conquista de uma coisa difícil, é
um movimento do domínio afetivo. É o domínio
afetivo que trabalha com os conceitos de simpatia e
antipatia. O que vamos dizer agora é muito importante
para que entendamos como funciona o fenômeno da
motivação.
Survival Kit

77
O domínio da mente – o intelecto, o domínio mental,
a inteligência – se debruça sobre o mundo e extrai dele
os conceitos de verdade e falsidade. Se dois de meus
filhos começam a brigar, eu tenho de intervir e fazer
um juízo, saber a verdade daquele fato, saber quem
está certo, quem está agindo com honradez. Essas
informações conceituais como honradez, lealdade,
nobreza, verdade e falsidade respondem ao intelecto, à
mente. Para outras noções, como simpatia e antipatia
– por exemplo, o debruçar-se sobre algo, o querer
conquistar algo, o querer permanecer em uma dieta, o
querer permanecer sendo fiel –, o que deve atuar não é
o conceito de fidelidade, mas o desejo de fidelidade. Não
é o conceito de laboriosidade, mas é o desejo de bem
trabalhar. Esse desejo de algo, essa inclinação, esse
apetite, essa fome ficam no domínio afetivo, que,
por sua vez, trabalha com os conceitos de simpatia
e antipatia, não com os conceitos de verdade e
falsidade.

Quando estou diante de uma briga entre dois filhos, eu


olho para a situação e meu intelecto extrai a verdade e
a falsidade do que está acontecendo. Quem está certo
e quem está errado? Já o meu afeto, o meu domínio
afetivo, que trabalha com os conceitos de simpatia e
antipatia, não funciona assim. Ele não consegue captar
a verdade da situação. Por quê? Porque o afeto não
se inclina para a verdade; ele é uma inclinação do
desejo. Ele vai se inclinar para aquilo que é simpático
Survival Kit

78
e declinar, afastar-se daquilo que é antipático.

Portanto, se à noite minha mente pensou que a


pontualidade é uma virtude, uma coisa importante,
uma coisa boa, isso se passa no nível mental, estou
trabalhando com o conceito de verdade. Minha cabeça
pensou isso durante a noite. Então eu fui dormir
e, no dia seguinte, acordei. Quando eu acordo, eu
preciso de um movimento do meu apetite, do meu
desejo, para que eu possa despertar e levantar na
hora. Ocorre que, na hora que eu estou deitado, é mais
simpático continuar deitado. É mais simpático ficar
descansando. É antipático levantar. Ou seja: o conceito
de pontualidade é só um conceito mental, mas quem
vai lá e se inclina para que no final eu conquiste esse
conceito é o meu apetite, o meu afeto.

Por isso, para que tenhamos motivação, não é tão


importante trabalhar no nível mental ou intelectual.
Vejam que coisa estranha. É mais importante,
para que eu possa estar motivado e conquistar
habitualmente as coisas, despertar no meu desejo
um hábito, o hábito de permanecer produtivo.
Quem domina esse hábito é o afeto, o apetite, o
desejo, e não a cabeça, a mente.

Vejam que coisa curiosa. Podíamos pensar que era


o contrário: se eu entendi a coisa, se eu dominei
intelectualmente o problema, eu vou lá e consigo fazer
Survival Kit

79
o que é necessário. Mas na prática, por experiência,
sabemos que não é assim. Nós já entendemos uma
série de coisas na vida – já entendemos que temos de
trabalhar direito para ganhar dinheiro, já entendemos
que temos de tratar o filho assim ou assado –, mas na
hora H, não conseguimos executar aquilo. Por quê?
Porque temos um hábito afetivo, um hábito do nosso
apetite de aderir àquilo que parece mais simpático no
momento, e não ao que parece antipático.

Existe uma coisa chamada janela de hesitação. Sempre


que estamos na situação de sair de um estado de
conforto para um estado de desconforto, ou de um
estado simpático para um estado antipático, nosso
cérebro entra nessa janela de hesitação e tenta nos
defender, tenta nos deixar em um estado de pouco risco.
Quem precisa ir lá e dizer para o cérebro que ele pode
operar de outro modo é justamente esse movimento
afetivo, esse movimento do peito, do apetite. É isso
que temos de treinar.

Quando eu falo do conceito de energia, estou


falando sobre essa verdade antropológica, essa
verdade do apetite. A realidade do apetite precisa
estar bem ordenada. Uma pessoa que ordena bem
o apetite, que sabe inclinar o seu afeto não só para
aquilo que é simpático, mas também para o que é
antipático, com vistas a uma resposta boa no longo
prazo, é a pessoa que habitualmente vence essa
Survival Kit

80
janela de hesitação, que habitualmente consegue
inclinar o seu apetite para aquilo que vai colocá-la
no trilho da felicidade, da produtividade no médio/
longo prazo; a pessoa que habitualmente faz isso é
a pessoa que terá a percepção de energia. A energia
é, na verdade, uma percepção de energia – uma
percepção daquele sujeito que habitualmente ordena
o seu apetite de acordo com o seu intelecto. Em geral,
quando eu ordeno o meu peito de acordo com a minha
mente, eu tenho uma percepção de energia. E, para
isso, eu preciso do tal do foco, sobre o qual eu estava
falando.

Gerar energia:
como fazer o apetite trabalhar a nosso favor

Muitas vezes, conseguimos dar um “tilt”, um curto-


circuito bom no nosso cérebro, fazendo um exercício
como aquele da aula passada, o exercício da presença
total. Quando já acordamos tomando posse da nossa
presença, não damos ouvidos a essa parte do cérebro
que faz com que só nos inclinemos para as coisas
simpáticas, e não para as coisas antipáticas. Ou seja, é
mais simpático ficar dormindo do que levantar quando
estamos cansados, mas podemos “dar a volta” no nosso
cérebro, não lhe dando ouvidos nesse momento, nos
levantarmos da cama e começarmos a gerar energia.

O que é gerar energia? Gerar energia significa


Survival Kit

81
mobilizar todo o meu apetite para fazer o que
eu tenho de fazer, independentemente de ser
simpático ou antipático ao meu afeto. Ou seja, o
afeto, o peito ou o apetite nos inclina para o que é
simpático e nos afasta do que é antipático, mas é o
mesmo movimento – o movimento do apetite – que
está em curso, tanto para se mover quanto para se
esquivar. Ambos os movimentos precisam de uma
energia. Gerar energia significa pegar essa capacidade
do apetite, essa capacidade de querer, de desejar,
modelá-la e botá-la para frente, agindo sempre a meu
favor.

Para que consigamos fazer isso habitualmente, um dos


exercícios que ajudam é o que passei ontem. Quando
eu abro os olhos de manhã e tomo posse da minha
corporalidade, quando foco em cada movimento
corporal, estou treinando meu apetite para que ele
fique adestrado a uma capacidade mental. A mente
consegue, de algum modo, controlar, coordenar, balizar
essa minha força, essa energia, de tal modo que nosso
cérebro não nos prenda no looping da hesitação.

Há uma autora que acho muito interessante chamada


Mel Robbins. Ela afirma que todo esse fenômeno da
motivação é um lixo. É a autora que popularizou o
termo “janela de hesitação”, e ela ensina uma técnica
bastante interessante, que é a técnica da contagem
regressiva: nesse meio tempo da hesitação, se eu
Survival Kit

82
fizer uma contagem regressiva (cinco, quatro, três,
dois, um), eu saio da hesitação. Ela não explica com
esses termos, mas o que ocorre é que, nesse meio tempo,
tomamos posse do nosso apetite e o colocamos para
trabalhar a nosso favor. Usamos a fome para sempre
nos alimentar, e não para rechaçar as realidades que
são antipáticas.

A verdade é que, muitas vezes, precisamos das coisas


antipáticas para que nos tornemos produtivos. Por
exemplo, é claro que é antipático acordar no meio
da noite para limpar um filho que sujou a fralda e
acordou chorando, ou para amamentar um filho que
acordou com fome. É claro que isso é antipático, mas
eu preciso me mover. Eu posso fazer isso sem energia,
a contragosto, reclamando, sem ter recrutado o apetite,
atendendo a esse chamado apenas por um motivo
mental (“eu sei que é importante”, “é verdade que,
se eu não for, ele morre de fome, então eu tenho de
ir”). Mas isso é burrice, por quê? Porque podemos agir
usando também o recurso afetivo; podemos querer
ir, mesmo que nos seja antipático. Soa estranho, mas
essa é a verdadeira essência da motivação. Podemos
fazer as coisas antipáticas com vontade, com desejo,
com energia. No médio prazo, nos tornaremos pessoas
mais produtivas, mais felizes, pessoas que conseguem
transformar o ambiente.

O recurso meramente mental não é suficiente para


Survival Kit

83
que façamos todas as coisas antipáticas na nossa vida;
com base nele, faremos somente as muito necessárias,
como amamentar um filho que está com fome, limpar
um filho que está sujo. Mas e as outras coisas? Daí
começamos a ter planos B na nossa cabeça. “Poxa,
eu preciso mesmo levantar agora e receber a minha
esposa que acabou de chegar do trabalho? Não, não
preciso, vou ficar aqui, estou cansado – mas é verdade
que seria bom se eu fosse lá...” Mas o meu movimento
afetivo diz que ir lá é antipático, eu estou cansado, não
quero ir, ou estou vendo um filme no Youtube e não
quero interromper. Afinal, a pessoa não morre se eu
não for lá recebê-la.

Bater no apetite
até ele ver quem é que manda

Para conseguir fazer o que é antipático, precisamos


mobilizar o apetite, esse afeto, o peito. Precisamos ter o
desejo de ir lá e ficar com a pessoa. Como podemos fazer
isso? De um lado eu tenho a percepção mental: “Seria
bom levantar-me e ir cumprimentar minha esposa”.
Essa é uma percepção mental, é uma verdade. Daí
entra a janela de hesitação, porque é mais confortável,
mais simpático, permanecer deitado vendo o filme.
Então, o que eu posso fazer?

Há duas coisas que eu posso fazer nesse momento.


Posso fazer o exercício da presença total, que dá um
Survival Kit

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curto-circuito no cérebro, recruta o nosso afeto e o co-
loca em ação para fazer, desejando fazê-lo, aquilo que
é verdade. Portanto, podemos usar o exercício da pre-
sença total naqueles cinco segundos em que eu tive a
percepção do que eu deveria fazer, mas é mais simpá-
tico fazer outra coisa: eu paro e tomo presença do meu
corpo, da minha respiração, dos meus músculos, tomo
presença da chegada da minha esposa. Se isso for fei-
to, nós damos a volta na nossa mente, no nosso cére-
bro, que quer nos deixar em uma posição de conforto,
e então conseguimos executar as coisas.

A outra coisa que eu posso fazer é usar a estratégia


da Mel Robbins, a estratégia do lançamento: fechar
os olhos e contar de um até cinco, em contagem
regressiva. É outro modo de tomar presença. Isso nos
ajuda a vencer a janela de hesitação, a tomar posse do
nosso apetite e a ter essa percepção de uma energia a
mais.

• A GRANDE SACADA •

A percepção de energia acontece quando nosso apetite


passa a desejar fazer aquilo que sabemos ser o certo
a se fazer no momento, aquilo que nos tornará mais
produtivos, aquilo que contribuirá para sermos quem
desejamos ser. Geramos energia quando fazemos
coincidir o movimento do intelecto, que detecta a
verdade, e o movimento do peito, que deseja realizá-la.
Survival Kit

85
• IDÉIA EM AÇÃO •

Para conseguir gerar energia, portanto, é preciso vencer


aquele movimento que nos inclina ao que é mais
simpático no momento e nos distrai do que sabemos
ser o melhor a se fazer. Diante da janela de hesitação,
podemos colocar em prática o exercício da presença
total, executando com a máxima atenção aquilo que
devemos fazer, ou utilizar a técnica da contagem
regressiva.
Survival Kit

86
COMO
ACELERAR A
CONQUISTA
DOS SEUS
OBJETIVOS
Survival Kit

87
Agora vamos falar de coisas simples, muitas delas
você talvez já pratique, mas é o conjunto da obra que
importa para que possamos acelerar a conquista
daquilo que queremos – seja uma saúde melhor, um
relacionamento melhor, uma espiritualidade melhor,
enfim.

Hoje, pela manhã, eu estava falando com uma pessoa


que perdeu o emprego há seis meses e agora está
querendo voltar a trabalhar, mas está encontrando
dificuldades. Vamos pensar aqui. Qual é o objetivo
dessa pessoa? Ela quer conquistar um novo emprego.
Isso está no grande domínio do trabalho. Aqui, é
importante fazer uma distinção: essa pessoa não tem
um problema financeiro – ela tem uma reserva, não é
esse o problema. A questão aqui é o trabalho.

Para que conquistemos nossas metas, precisamos


distinguir algumas etapas: metas diárias, metas
semanais, metas mensais, metas anuais. No
exemplo da conquista de um trabalho, uma meta
anual não faz muito sentido, mas as metas diárias, sim:
há certas coisas que ele pode fazer diariamente para
conquistar esse objetivo (assim como semanalmente
e mensalmente).

Ocorre que, quando perguntamos para as pessoas


sobre essas metas, elas em geral não sabem
responder. “O que você faz todos os dias para o
Survival Kit

88
seu relacionamento melhorar?” Isso vale para os
relacionamentos, para a convivência com os filhos
etc. “O que você faz diariamente, semanalmente,
mensalmente, anualmente, para melhorar seu
relacionamento com seu cônjuge, com seus filhos?” E,
dentro da categoria “relacionamento com o cônjuge”,
precisamos especificar: estamos falando da conversa,
da comunicação entre o casal? Estamos falando da
questão sexual entre o casal? Para que alcancemos
nossos objetivos, eles precisam ser claros.
Objetivos enevoados não valem, pois eles não
têm a concretude necessária para que possamos
persegui-los. Portanto, para conseguir acelerar a
conquista de um objetivo, precisamos lhe dar um
nome concreto.

Então, imaginemos que o objetivo é melhorar a


conversa, a comunicação entre o casal: conseguir que
um fale e seja ouvido, que o outro fale e seja ouvido,
que, enfim, haja uma interação entre o casal. Bem,
ter esse objetivo só na cabeça não resolve o problema.
É preciso transformá-lo em metas, fazer planos e
conseguir concretizá-los. E, para isso, ajuda muito
estabelecermos as metas diárias, as metas semanais,
as metas mensais e as metas anuais. Então podemos,
por exemplo, colocar como meta diária “enviar uma
mensagem para ele/ela”. Todo dia! Isso vai ajudando
a estabelecer uma comunicação, a criar um hábito
de diálogo. Pode ser uma mensagem de texto pelo
Survival Kit

89
Whatsapp mesmo. Nós sabemos como é a vida de
muitos casais hoje: muitas vezes, o marido e a esposa
saem cedo para trabalhar, chegam em casa cansados
e, quando conversam, é sobre quem vai levar o filho
ao pediatra, quem vai comprar o quê etc. Os assuntos
ficam girando em torno dessas coisas muito materiais,
que desgastam a relação. É preciso ter cuidado para
que nossas conversas em família não se resumam a
cobrar do outro o que ele deve fazer, o que ele deixou de
fazer etc., ou seja, ter cuidado para não aparecer para
o cônjuge apenas como o cobrador. Usar o Whatsapp
para essa comunicação, para lembrar ao outro o que
ele tem de fazer, pode ser de grande ajuda: a mensagem
fica mais leve, pode ser permeada de símbolos que a
tornem mais simpática, e, quando o casal se encontrar
pessoalmente, poderá falar sobre outras coisas. Então,
esse é um exemplo de meta diária para reestabelecer
um diálogo com o cônjuge.

E a meta semanal? O casal pode combinar de, toda


semana, reservar um tempo para ficar junto, sem
mais ninguém – sem os filhos, sem os amigos. Para
que isso aconteça, o casal terá de colocar esse tempo
a sós como meta, porque, na correria do dia a dia,
tudo concorrerá para que o plano se frustre. É preciso
planejar, programar, priorizar o momento a dois. Esse
é só um exemplo do que pode funcionar para melhorar
a comunicação entre o casal. Por que é importante
estabelecer uma meta semanal? Porque só assim
Survival Kit

90
certos hábitos se consolidarão entre o casal. Na meta
diária, se eu falho um dia, é fácil recuperar no outro.
Na meta semanal, se eu falho uma semana, fica bem
mais difícil retomar na semana seguinte, e a tendência
é que aquele objetivo se perca. Por isso é importante
fixar, priorizar uma meta semanal. O mesmo vale para
a meta mensal.

O êxito na obtenção de um objetivo depende desse


planejamento – a coisa não acontece espontaneamente
como um espirro. Em geral, somos mestres em não
planejar bem, querer coisas demais e nos queixar
porque elas não acontecem. Então, voltando ao
caso que eu dei primeiro como exemplo, no domínio
do trabalho: se aquela pessoa não tiver metas diárias,
semanais e mensais, o trabalho não vai aparecer do
nada. Simplesmente não vai acontecer. Podemos
mencionar um outro domínio, o espiritual. Muitas
vezes, a pessoa até sabe que precisa ter uma conexão
maior com Deus, com a divindade, com o sentido, com
a transcendência, para que os seus atos neste mundo
não sejam vazios; ela até se lembra dessas coisas, e se
lembra de um momento da vida em que ela mantinha
uma prática espiritual, e que aquilo lhe fazia bem,
mas, com o passar do tempo, foi deixando aquilo de
lado, até o ponto de nem se lembrar qual foi a última
vez em que rezou com devoção. Aí está um domínio
importante para vivermos uma vida com sentido. O
fervor, a devoção, dificilmente vêm espontaneamente.
Survival Kit

91
Também no domínio espiritual, precisamos de
metas diárias, semanais, mensais e anuais. Então,
por exemplo, uma prática diária pode ser fazer uma
oração ao acordar e antes de dormir. Como meta
semanal, a pessoa pode começar a participar de um
grupo de formação, de oração etc., ou um trabalho de
caridade uma vez por semana. E, mensalmente, pode-
se planejar um retiro, um momento de recolhimento,
ou estabelecer a meta de ler um livro por mês sobre
aquele tema que lhe interessa.

O ponto é: sem estabelecer metas diárias, semanais,


mensais e anuais, o tempo vai passar sem que
a pessoa se dê conta, sem que ela se aproxime
efetivamente do seu objetivo. E, de repente, ela
se depara com o fim do ano – “Caramba, já estamos
em dezembro!” –, e não ficou nem um centímetro
mais próximo daquilo que desejava. Surpreender-se
com o passar do tempo é sinal de que você não anda
se planejando bem, não tem vivido cada dia com a
intensidade necessária para recolher as oportunidades,
articulá-las em sua própria vida e atribuir-lhes um
sentido de transcendência. A pessoa que tem práticas
diárias, semanais, mensais e anuais vai marcando
o ritmo da sua própria vida, toma posse das coisas,
tem a tensão da vida na mão. Essa pessoa não vai
se surpreender quando chegar dezembro, não vai
sentir que o ano passou por ela como um vento.
Essa pessoa vai saber o que fez durante o ano – vai
Survival Kit

92
saber que ajudou pessoas, que serviu, que construiu
algo, que avançou num determinado sentido. Esse é
um dos truques de uma vida plena, cheia de sentido.
E aqui está o pulo do gato: ter metas diárias, semanais,
mensais e anuais.

Você pode até querer ficar com essas metas só na sua


cabeça, mas eu duvido da sua cabeça assim como eu
duvido da minha. Pode até ser que você seja o Kasparov
e tenha todas as coisas articuladas na cabeça, mas, em
geral, eu duvido disso. É bom ter um caderninho, um
caderninho de notas, ou, se você preferir, pode usar o
smartphone, o Evernote, enfim.

E quais são os grandes domínios nos quais vale a


pena ter esses objetivos claros e essas práticas diá-
rias, semanais, mensais e anuais? São cinco gran-
des domínios: saúde, relacionamento, espiritual,
financeiro, trabalho. O ideal é que você consiga,
em uma folha de papel, articular todos esses domí-
nios com suas respectivas metas diárias, semanais,
mensais e anuais. Você irá ajustando esse arranjo ao
longo do tempo, corrigindo as metas quando verificar
que elas não estão funcionando. A diferença entre uma
vida medíocre e uma grande vida pode ser de apenas
um passo: basta ajustar um passo para que a coisa en-
grene. Todas essas coisas que estou falando aqui po-
dem ser óbvias, mas são coisas que, em geral, as pesso-
as não fazem. E, para fazer, basta sacudir a preguiça e
Survival Kit

93
botar na ponta do lápis. Quando fazemos isso, adquiri-
mos uma métrica para avaliar nosso próprio desenvol-
vimento, e adquirimos uma paz, um conforto, porque
vamos vendo o passo a passo.

• A GRANDE SACADA •

Para viver uma vida cheia de sentido, precisamos


de objetivos claros em cada um dos cinco grandes
domínios da existência (saúde, relacionamento,
espiritual, financeiro, trabalho) e de uma métrica que
nos permita mensurar se estamos nos aproximando
ou nos afastando desses objetivos.

• IDÉIA EM AÇÃO •

Registrar por escrito os seus objetivos em cada um


desses cinco domínios e desdobrar cada um desses
objetivos em metas diárias, semanais, mensais e anuais.
O ideal é fazer essa articulação em uma só folha, para
facilitar a visualização do conjunto.
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• APLICAÇÃO PRÁTICA •

Survival Kit

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RECEITA PARA
NÃO SE
FRUSTRAR
COM OS
OBJETIVOS
DE ANO NOVO
Survival Kit

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Aproveitando esse momento de fim de ano, vamos
falar sobre os tipos de objetivo que existem, para que
consigamos traçar planos de ano novo que funcionem
(todo mundo já está cansado daqueles planos que
traçamos na cabeça, mas que nunca colocamos em
prática).

Em geral, os objetivos se classificam em cinco tipos:

coisas que queremos criar,

coisas que queremos adquirir,

coisas que queremos experimentar,

coisas que queremos aprender,

coisas que queremos manter ou melhorar.

Dificilmente um objetivo escapa a um desses tipos. Ter


clareza sobre isso é muito importante. Se tomarmos
como exemplo o clássico objetivo de “perder peso”,
que é a ambição de tantas pessoas, veremos que esse
objetivo faz uma interface entre o experimentar, o
adquirir e o melhorar.

Como eu disse, dificilmente um objetivo escapa a es-


ses tipos. É importante ter clareza sobre isso, porque,
se meu objetivo é criar alguma coisa (quero criar uma
Survival Kit

97
empresa, um programa de rádio, uma logomarca para
minha empresa etc.), eu preciso saber que o criar de-
manda um esforço em geral maior. Você vai precisar
de um tempo de planejamento, para só então partir
para a criação da coisa. Isso é diferente, por exemplo,
de um objetivo de manter ou melhorar. Imaginemos
que o objetivo desse ano é ter uma casa limpa. Manter
uma casa limpa é um objetivo de manutenção.

Quando o objetivo é de criação, você precisa plane-


jar; precisa pensar em todos os passos, em todos
os recursos necessários que terá de organizar para
criar algo. Suponhamos que você queira criar um ca-
nal no YouTube com dicas sobre viagens para a família.
Você vai criar, ou seja, vai partir do zero. Na etapa de
planejamento, você terá de fazer uma ampla pesqui-
sa sobre sites de viagens, nacionais e internacionais,
traduzindo, salvando os links, compilando tudo. Esse é
um trabalho de busca de fontes. Antes de botar a mão
na massa, é preciso compilar os recursos que você irá
utilizar, para que a criação tenha uma continuidade
no tempo.

A pessoa que pretende criar algo deve estar em


um momento da vida com muita energia, porque
a criação demanda uma grande disposição e uma
disciplina. Então, se você está agora em um momento
da vida um pouco atrapalhado, vivendo de maneira
atabalhoada, se está sem energia, com uma doença
Survival Kit

98
etc., talvez (e isso é somente um “talvez”) não seja
um bom momento para se colocar um objetivo de
criação, evitando assim se frustrar. As metas de criação
demandam uma energia tão grande, que é bastante
provável que uma pessoa que se encontre em um
momento conturbado da vida não consiga entregar o
que prometeu, e isso só vai gerar frustração.

Por outro lado, se a sua situação é a de alguém que veio


compilando informações nos últimos anos, acumulan-
do conteúdo, se preparando para um projeto, aí sim,
esse talvez seja o momento de botar a mão na mas-
sa, sem medo. Esse é um outro elemento das metas de
criação: existe o componente do medo. Saímos de uma
situação confortável, conhecida, e vamos para um am-
biente em que nos expomos, em que colocamos a cara
à tapa, o corpo em risco. Há sempre a possibilidade de
um fiasco, mas isso significa apenas que precisamos
tomar cuidado, estar atentos.

Alguém escreveu aqui que o seu objetivo para o ano


que vem é ter bastante paciência na educação dos
pequenos. Essa não é uma meta de criação: paciência
é uma virtude que essa pessoa deseja adquirir ou
melhorar, dependendo do caso. Então, essa pode ser
uma meta de aquisição ou de melhora. Suponhamos
que seja um objetivo de melhora. Esse é um objetivo
que pode ser muito bom, desde que tenha metas claras.
Isso é algo importante: objetivos de manutenção
Survival Kit

99
têm de ter uma frase, por exemplo: “Eu sei que eu
sou paciente quando...”, “Eu sei que eu adquiri a
paciência se...” É preciso haver uma declaração de
aquisição, uma declaração de êxito.

Se os objetivos que estão na nossa cabeça não me


permitem formular uma frase assim, formular uma
métrica, então eles não são bons objetivos, porque eu
não terei como aferir se os conquistei ou não, se me
aproximei deles ou não.

Por exemplo, no caso da paciência: “Eu sei que eu sou


paciente quando... não grito com meus filhos se eles
fazem bagunça no banho”; “Eu sei que eu adquiri a
paciência se... eu não gritar com meus filhos quando
eles não me obedecerem”, enfim. Você tem de ter
suas frases, suas declarações de cumprimento. Se eu
não tenho essas declarações de êxito, meu objetivo
é ruim. Junto com o objetivo, formule a declaração
de êxito. Isso é muito importante. O desejo vira um
objetivo se, embaixo dele, você conseguir escrever
essas declarações de êxito. No exemplo da casa limpa:
“Eu sei que minha casa está em ordem quando...” A
organização da casa é um valor, mas é ainda uma coisa
muito etérea, pouco concreta. Temos de concretizar
nosso objetivo em uma declaração de êxito.

Essas são ferramentas que aplicamos para que as pes-


soas não se frustrem. Muitas vezes, nos colocamos
Survival Kit

100
certos objetivos, mas eles não são claros; são simples-
mente um primeiro movimento dos afetos, de uma
vontade meio caduca, meio cega, e é por isso que, na
maior parte das vezes, não conseguimos alcançá-los.

Outro tipo de objetivo é o de aquisição. É ótimo querer


adquirir coisas. Geralmente, esses objetivos estão
relacionados a dinheiro. Então, imaginemos que vem
aí mais um filho e vocês precisam de um carro maior,
ou que você queira um armário para organizar melhor
sua cozinha. Ou imagine que você queira adquirir
uma casa na serra, na praia, enfim. Nesses casos, a
primeira coisa é saber quanto dinheiro precisaremos.
Se eu quero uma casa na praia, mas ela custa 800 mil
reais e foge totalmente do meu orçamento, esse não
é um bom objetivo, porque dificilmente irei alcançá-
lo. Mas suponhamos que você queira um armário
para organizar as roupas dos seus filhos e ele custa
4.000 reais. Você vai botar no papel: em quantas
vezes eu vou dividir esse valor? Quando será o melhor
momento para fazer esse gasto? Janeiro, fevereiro?
Em geral, os objetivos de aquisição, quando não são
planilhados, serão objetivos frustrados: ou vamos nos
frustrar porque demos um passo maior que a perna,
gastando mais do que podíamos, ou porque vamos
simplesmente chegar à conclusão de que não teremos
dinheiro mesmo.

É ótimo ter objetivos de aquisição, porque a métri-


Survival Kit

101
ca financeira é uma métrica muito boa. É fácil eu
saber se estou me aproximando do objetivo. As mé-
tricas financeiras são excelentes para nos colocar
no eixo, para que conquistemos as coisas.

Outro tipo de objetivo é o de experimentar: você quer


ter uma experiência. Fazer um trabalho voluntário
para experimentar a generosidade, a gratidão. Conhe-
cer uma outra cultura. Isoladamente, esses objetivos
não são bons, porque não temos uma métrica para
eles, não sabemos exatamente se conquistamos ou
não aquilo. Temos uma idéia de que aquilo vai nos fa-
zer bem, mas não temos certeza de ter conquistado o
resultado. Por isso, o ideal é que a meta de experiên-
cia venha junto de uma aquisição, de uma melho-
ra, de uma criação.

E, por fim, há um tipo de objetivo que é ótimo, eu


sempre recomendo que vocês tenham um objetivo
assim, que é o de aprendizado. Quero aprender um
novo idioma, quero aprender ferramentas novas para
educar meus filhos, quero aprender como organizar a
rotina das férias etc.

Tendo na cabeça essas cinco grandes dimensões


dos objetivos, aumentamos nossa capacidade de
organização. Isso nos ajuda a ter mais clareza, a não
nos frustrarmos, a conquistar nossas metas.
Survival Kit

102
• A GRANDE SACADA •

Ter uma boa idéia não basta para que a concretizemos.


É preciso saber o tipo de meta que nos propomos, o que
ela demandará de nós, e ter uma métrica para aferir se
estamos nos aproximando ou afastando dela.

• IDÉIA EM AÇÃO •

Registre por escrito os seus objetivos, identifique o tipo


a que pertencem, trace um plano para conquistá-los e
estabeleça uma métrica para aferir sua conquista. Faça
isso por escrito – planilhando, se for o caso. Quanto
mais concreto o plano, melhor.

• APLICAÇÃO PRÁTICA •

Objetivos para o Tipo O que é preciso fazer Métrica


ano novo (se houver várias etapas, detalhe o seu
plano à parte)

Organizar minha cozinha Aquisição Adquirir um armário --

Ser mais paciente com Melhora Não gritar com eles Eu sei que eu fui paciente
meus filhos quando...
Survival Kit

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Survival Kit

104
GUERRILHA
WAY
O QUE É

PARA QUE SERVE

POR QUE VOCÊ


NÃO PODE FICAR
DE FORA
Survival Kit

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Guerrilha Way é um programa de assinatura mensal
-- um “boost” para ajudar você a colocar em prática o
conteúdo transmitido nas minhas lives diárias.

Ao assinar o programa, você receberá semanalmente:

• 1 apostila de estudos baseada principalmente na


transcrição das lives, e

• 1 Caderno de Ativação - um material idealizado


para que você pratique, durante a semana, o
coração do que foi transmitido na semana anterior.

Além disso, ao assinar o Guerrilha Way, você terá


acesso em primeira mão às minhas aulas mensais
-- um encontro para ir marcando as etapas da nossa
trajetória juntos. Todo mês, nós nos reuniremos para
que você possa fazer um balanço da sua evolução,
identificar as falhas e providenciar as correções de
percurso.

Assinando o Guerrilha Way, você garante que aquele


arsenal de conteúdo transmitido diariamente nas lives
não ficará mofando em algum recanto do seu cérebro,
mas será incorporado à sua vida, para que você consiga
de fato se transformar ao longo deste ano.

É isso que eu quero para você. É para isso que eu


trabalho. É por isso que eu quero ver você no Guerrilha
Survival Kit

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Way. Inscreva-se: guerrilhaway.com.br

Tmj!

Italo Marsili

Survival Kit

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italomarsili
Survival Kit

guerrilhaway.com.br

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