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Samira
. V árias funções podem ocorrer numa
mesma mensagem, uma vez que, atualizando
concretamente possibilidades de uso do código,
entrecruzam-se diferentes níveis de linguagem .
A emissão, que organiza os sinais físicos em

Chalhub
forma de mensagem, colocará ênfase em uma
das funções - e as demais dialogarão em
subsídio .
Cada capítulo deste livro destaca uma das
funções da linguagem e as exemplifica, .
procurando mostrar esse conjunto articulado, ,.,

FUNCOESDA
onde uma função marca a qualidade da
mensagem e outras marcam o contraponto.
Samira Chalh!Jb, professora da Pontifícia
Universidade Càtóli.ca de São Paulo, é autora de
artigos sobre Teoria da Literatura e análises de

LINGUAGEM
textos de Litera,tura Brasileira . Publicou, na Série
Principias, A metalinguagem . 1' ,
f

Comunicações Lingüísti ca Literatur a


- ·
ISBN 85-08-01866-5 N.Cham 800.1 C436f ll .ed.
Autor: Chalh b, Samira,
Título: Funç0es da linguagem

l llllllllllllllll~lllll l l l lll
0221536~
PUC Minas - SG
Direção
Benjamin Abdala Junior
Samira Youssef Campedelli Sumário
Preparação de texto
José Roberto Miney
Arte
1. A mensagem das funções da linguagem_ 5
Direção e A mensagem e seu perfil 5
projeto gráfico/miolo
Antônio do Amaral Rocha
Diálogo das funções 8
Coordenação de Composição
(Produção/Paginação em Vídeo) 2. Função referencial 9
Neide Hiromi Toyota
O quê: referente 9
Capa
Ary Normanha Mensagem referencial 10
A ciência, a arte realista, o jornal 11
No "campo" do referente, a emoção poética__ 13
3. Função emotiva __________ 16
Quem: emissor em detalhes, _________ 16
Emoção e arte 18
A solidão _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ 20
EDITORA AJI'ILIADA
4. Função conativa __________ 22
Para quem: receptor ____________ 23
Impresso nas oficinas da A persuasão da mensagem _________ 23
Gráfica Palas Athena A sedução da mensagem __________ 25
O quadrinho do leitor bidu, _ _ _ _ _ _ _ __ 26
ISBN 85 08 01866 5 5. Função fática ___________ 28
Onde: canal 28
O cotidiano fático _____________ 28
O canal da arte ______________ 30
2001

Todos os direitos reservados pela Edttora Ática


6. Função poética _ _ _ _ _ _ _ _ __ 32
Rua Barão de lguape, 11 O- CEP 01507-900 Como: mensagem _____________
Caixa Postai 2937 -CEP 01065-970
32
SãoPaulo-SP Na poesia o fundamental é ... a poesia 34
Tei.: OXX 11 3346-3000- Fax: OXX 11 3277-4146
Internet http://www.atica.com.br
Selecionar e combinar ___________ 36
e-mail: editora@atica.com.br Estranhamente ... 38
Solidão _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ 40
A poética do inconsciente 41
O chiste _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __
O lapso - - - - - - - - - - - - - - 43
0 sonho _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ ___ 45
42
1
7. Função metalingüística _______ 48 A mensagem das
Com o quê: código ----------------------- 48
A moda é metalingüística 51
funções da linguagem
Linguagem-objeto e metalinguagem ______ 52
Objeto metalingüístico --------------------- 55
8. Vocabulário crítico _________ 57
9~ Bibliografia comentada _ _ _ _ _ __ 61
A mensagem e seu perfil

Diferentes mensagens veiculam significações as mais di-


versificadas, mostrando na sua marca e traço, no seu efeito,
o seu modo de funcionar.
O funcionamento da mensagem ocorre tendo em vista
a finalidade de transmitir -- uma vez que participam do pro-
cesso comunicacional: um emissor que envia a mensagem a
um receptor, usando do código para efetuá-la; esta, por sua
vez, refere-se a um contexto. A passagem da emissão para
a recepção faz-se através do suporte físico que é o canal.
Aí estão, portanto, os fatores que sustentam o modelo
de comunicação: emissor, receptor, canal, código, referen-
te, mensagem.
Nem sempre foi assim.O psicólogo austríaco Karl Büh-
ler compusera esse modelo de forma triádica, apontando três
fatores básicos: o destinador (mensagens de caráter expressi-
vo), o destinatário (mensagens de caráter apelativo) e o con-
texto (mensagens de caráter comunicativo).
Roman Jakobson, no ensaio Lingüística e poética 1 , am-

1
JAKOBSON, Roman. Lingüística e comunicação. São Paulo, Cultrix, 1969.
V. "Bibliografia comentada".
6 7

plia essas funções de três para seis, complementando o mo- Um fragmento da Ode (Explicita) em defesa da poesia
delo de Bühler. Para isso, Jakobson enfocao perfil da men- no dia de São Lukács de Haroldo de Campos2 retoma o bem-
sagem, conforme a meta ou orientação (Einstel/ung) dessa -dizer da natureza da poesia:
mesma mensagem em cada fator da comunicação.
Assim, as atribuições de sentido, as possibilidades de in- [... ]
terpretação - as mais plurais - que se possam deduzir e ob- porque não tens mensagem
e teu conteúdo é tua forma
servar na mensagem estão localizadas primeiramente na e porque és feita de palavras
própria direção intencional do fator da comunicação, o qual e não sabes contar nenhuma estória
determina o perfil da mensagem, determina sua função, a fun- e por isso és poesia
ção de linguagem que marca aquela informação. como cage dizia
ou como
há pouco
Ênfase no fator determina Função da linguagem
augusto
Referente F. Referencial o augusto:
Emissor que a flor flore
F. Emotiva
o colibri colibrise
Receptor F. Co nativa e a poesia poesia
C a n a l - - - - - - - - - - - - - - F. Fática
Mensagem F. Poética Essas mensagens possuem um modo singular de forma-
Código F. Metalingüística rem um organismo, uma organização própria que as sig-
nifica como mensagem: um conjunto de signos arquitetô-
Mensagens de caráter emotivo são assim qualificadas nicos não se confunde, evidentemente, com a estrutura mu-
porque pode-se observar, na forma de organizar os sinais que sical, que por sua vez se diferencia da escultura. A isso McLu-
a compõem, a orientação para o emissor: ''Você não serve han apontará que é a própria estrutura da mensagem que
para nada!" seguramente informa sobre o estado de ânimo permite aquela organização de signos e não outra (conferir
do remetente e não sobre o destinatário para quem se fala "Canal da arte", no capítulo 4). Isso implica pensar que lin-
- aí marcado pelo signo "você"; por sua vez, a emissão guagens estruturam-se em função do fator para o qual estão
marca-se pela exclamação e pela seleção lexical centrada em inclinadas. A propaganda, por exemplo, marca-se fundamen-
"não serve" e "nada".
talmente pela persuasão - isto é, pela intenção de seduzir
No entanto, nem só de mensagens verbais vive o ser hu-
mano. A linguagem participa de aspectos mais amplos que o receptor. A organização, portanto, da mensagem da pro-
apenas o verbo. paganda, seja qual for o veículo que a estruture - televisão,
O corpo fala, a fotografia flagra, a arquitetura recorta revista, outdoor, rádio-, imporá um perfil conativo a essa
espaços, a pintura imprime, o teatro encena o verbal, o vi- linguagem.
sual, o sonoro, a poesia -forma especialmente inédita de
linguagem - surpreende, a música irradia sons, a escultura 2
CAMPOS, Haroldo de. A educação dos cinco sentidos. São Paulo, Brasi-
tateia, o cinema movimenta etc. liense, 1985.
8

Diálogo das funções

Numa mesma mensagem, porém, várias funções podem


2
ocorrer, uma vez que, atualizando concretamente possibili-
dades de uso do código, entrecruzam-se diferentes níveis de
linguagem. A emissão, que organiza os sinais físicos em for-
Função referencial
ma de mensagem, colocará ênfase em uma das funções -
e as demais dialogarão em subsídio. Assim, um dos fatores
prevalecerá, certamente - digamos, o código e a função que
desenha a forma de mensagem compreende a metalingüísti-
ca: mas essa mensagem assim qualificada como determinan-
temente metalingüística, porque viabiliza concretamente o uso
do código, produzirá também, na cena da linguagem, a en-
trada, em diálogo, de outras funções e, no conjunto, tere- O quê: referente
mos as funções de linguagem hierarquizadas.
Na comunicação diária, por exemplo, além da referen- Para falarmos de função referencial usaremos de um ar-
cialidade da linguagem - o que torna a mensagem oral ime- tifício didático, que separa dois níveis de linguagem, denota-
diatamente compreendida -, há pinceladas de função
tivo e conotativo, apontando-lhes as diferenças e oposições.
conativa, ou seja, de diálogo com alguém, ou através de uma
ordem, ou através de um narrar, mas, ao mesmo tempo, es- A conotação da linguagem é mais comumente compreen-
se diálogo vem caracterizado por traços emotivos. dida como "linguagem figurada". Se dissermos "pé da me-
Cada capítulo desse livro colocará ênfase em uma das sa", estamos nos referindo à semelhança entre o signo pé-
funções; observe-se, no entanto, que a predominância de um que está no campo orgânico do ser humano - e o traço que
dos fatores determinará a predominância de uma função da compõe a sustentação da mesa, no campo dos objetos. Um
linguagem. As outras funções são viabilizadas a pertencerem signo empresta sua significação para dois campos diversos,
àquele conjunto. Em cada exemplo procuraremos mostrares- uma espécie de transferência de significado. Assim, a lingua-
se conjunto articulado, onde uma função marca a qualidade gem "figura" o objeto que sustenta a mesa, com base na si-
da mensagem e as outras marcam o contraponto, para dese- milaridade do pé humano e essa relação se dá entre signos.
nharem o diagrama relaciona! da mensagem. Se as funções
Por outro lado, a denotação tenta uma relação e uma
dialogam, não há mensagem solitária na sua marca ...
aproximação mais diretas entre o termo e o objeto. O pé do
animal, o pé do ser humano seriam signos denotativos, lin-
guagem correlacionada a um real, que responderia sempre
à pergunta "que é tal objeto?" com o nome Glo objeto, sem
figuração ou intermediários.
10 11

Não nos alongaremos aqui na discussão sobre lingua- Essa linguagem de primeiro grau manifesta, precisamen-
gem e realidade: ela permeia toda a questão da filosofia, da te, a relação de co-realidade do signo, dirigindo-se ao signi-
arte, da religião, da psicanálise; é uma questão ancestral. No ficado dos objetos - denotatum.
entanto, é possível desde já, desconfiar dessa relação ingê- É com essa forma de linguagem - comunicação direta
nua entre signo e realidade como algo direto, sem interme- - que instrumentamos nosso cotidiano, quando nos referi-
diários. A partir da afirmação de Saussure acerca da mos a situações que nos rodeiam, quando conversamos: sem
arbitrariedade do signo em relação ao objeto, podemos per- perceber, construímos mensagens de uso automatizado, sem
ceber como não é fácil fazer afirmações categóricas e abso- ruídos de comunicação, mensagens legíveis.
lutas a respeito da representação da realidade através do Numa dada mensagem é impossível observarmos as fun-
signo. Porque se convencionou nomear "árvore" o objeto ções em estado puro - são articuladas entre si, cruzando-se
que conhecemos como tal, e não por outro signo? Portanto, o jogo hierárquico dessas funções. Há o predomínio de um
levemos em conta que, apenas por necessidade didática, en- dos fatores e, como você já percebeu, aqui o referente domi-
viamos a essa cisão - linguagem legível, denotativa e lingua- na esse tipo de mensagem, a mais comum, uma vez que ela
própria é o instrumento de nossa comunicação cotidiana. No
gem figurada, conotativa.
Observemos, então, que referente, objeto, denotação são entanto, em um bate-papo informal, quantas exclamações
emotivas não percorrem o diálogo entre as pessoas? O que
termos que se relacionam por semelhança, embora não se-
implica dizer que emoções também são objetos referenciais!
jam sinônimos. Referente e contexto respondem a um do que
se fala? Fala-se sobre um objeto referido ao mundo extralin-
güístico, mundo fenomênico das coisas - coisas essas sem-
A ciência, a arte realista, o jornal
pre designadas por expressões referenciais, denotativas. A
idéia aqui é de transparência entre o nome e a coisa (entre
Por outro lado, o uso da função referencial da lingua-
o signo e o objeto), de equivalência, de colagem: a lingua-
gem é uma das dominantes do discurso científico. Aqui, a
gem denotativa referencial reflete o mundo. Seria, assim, tão intenção é produzir uma informação teórica - História, Fí-
simples? sica, Filosofia - com a finalidade de transmitir conhecimen-
tos acerca de seu objeto de estudos. O uso de signos para a
História, para a Física, para a Filosofia implica um código
Mensagem referencial cujo referente é específico para cada um desses campos. Isto
é, a transmissão legível e denotativa dessas mensagens pos-
Diz Jakobson que a tarefa dominante de numerosas sui uma dimensão cognitiva, para aquisição do conhecimen-
mensagens é organizar os signos em função do referente. A to. Daí que o uso da função referencial marca-se, lingüis-
linguagem denotativa seria, então, construída em bases con- ticamente, com o traço da 3~ pessoa do verbo, ou seja, de
vencionais, elaborada em função de uma certa repetibilida- quem ou do que se fala.
de das normas do código, produzindo informações definidas, Os noticiários de rádio e televisão têm nuclearmente, a
claras, transparentes, sem ambigüidades. função referencial organizando a estrutura da mensagem.
12 13

Uma vez mais, como aí concorrem outras dimensões - no Na poesia clássica, caracterizada pela épica, a função cogni·
rádio, a voz, na televisão, a imagem- não podemos afir- tiva ou referencial é associada preferentemente à poética,
mar uma referencialidade pura do fato, da notícia, mas a produzindo-se uma poesia de 3:' pessoa, impessoal objetiva
descritiva 1 • ' '
ocorrência de outros elementos, tal como a expressão facial
do apresentador, a entonação da voz do locutor etc: mescla- E exemplifica com um fragmento de Os lusíadas, de Camões,
-se a referencialidade com a posição do emissor. analisando (isto é, tendo uma postura metalingüística diante
A chamada arte realista (que se propõe a retratar a rea- do texto) o efeito poético (a função poética) da descrição (re-
lidade tal como se apresenta) tenta também descrever o refe- ferente) do reino marinho.
rente, repetindo-o. Na música, as canções que contam/cantam
uma narrativa de teor emotivo, sofrem a interferência da fun- 11
No Campo" do referente, a emoção poética
ção referencial.
Tom Zé, cantor e compositor da nossa MPB, disse muito Em Lembrança rural, de Cecília Meireles, o referente
bem:"Todo compositor brasileiro sofre de complexo de épi- - o rural, o campo - é descrito enquanto quadro, paisa-
co". Nesse sentido, ao lado da função referencial está a gem. Sendo lembrança, conforme a indicação do título, as
emotiva. impressões visuais que restaram na memória provocarão a
Um bom exercício de função referencial argumentativa tentativa de recuperar, descritivamente o real, o referente, mas
é a leitura dos editoriais de jornal: são textos verbais bem as digressões do emissor marcam sua presença.
construídos, de estrutura linear, sintaxe clara, onde, na in- Lembrança rural
trodução, apresenta-se uma tese que vai ser defendida e de-
Chão verde e mole. Cheiros de relva. Babas de lodo.
monstrada no desenvolvimento, para se concluir da A encosta barrenta aceita o frio, toda nua.
veracidade incontestável da tese, na parte finai do texto. Po- Carros de bois, falas ao vento, braços, foices.
rém, mesmo em textos altamente impessoais, algo se marca: Os passarinhos bebem do céu pingos de chuvas.
a argumentação, por exemplo, é uma forma de persuadir o Casebres caindo, na erma tarde. Nem existem na história
9o mundo. Sentam-se à porta as mães descalças.
receptor do ponto de vista do emissor. Concorrem, portan- E tão profundo, o campo, que ninguém chega a ver que é triste.
to, três funções de linguagem. No editorial, pontua-se tanto A roupa da noite esconde tudo, quando passa...
a posição da empresa jornalística diante do fato discutido, Flores molhadas. Última abelha. Nuvens gordas.
como a tentativa de fazer o leitor concordar com o argumen- Vestidos vermelhos, muito longe, dançam nas cercas.
Cigarra escondida, ensaiando na sombra rumores de bronze.
to. Barthes já dizia que o signo não é neutro ... nem ino-
cente. E isso nos lembra a velha discussão das teorias da lin- Debaixo da ponte, a água suspira, presa ...
Vontade de ficar neste sossego toda a vida:
guagem: o signo que denomina apontando para o real, já não para andar à toa, falando sozinha,
é representação? enquanto as formigas caminham nas árvores ...
No livro A arte no horizonte do provável, seu autor, Ha- (Cecília Meireles)
roldo de Campos, identificando as funções de linguagem em
diálogo na poesia, aponta: 1
São Paulo, Perspectiva, 1977. (Co!. Debates.)
14 15

Aí dialogam a função referencial, a poética e a emoti- marcando sua posição, ao selecionar o verbo "suspirar" e
va, esta em menor grau ("Vontade de ficar neste sossego to- o adjetivo "presa", resultando:
da a vida" ou "É tão profundo, o campo, que ninguém chega
Debaixo da ponte, a água suspira, presa ...
a ver que é triste"). No entanto, não é o real puramente des-
crito, é um ponto de vista sobre o campo e isto percebe-se O referencial do poema é organizado sintaticamente e
na seleção do léxico e no modo como as frases são combina- marcadô emotivamente, resultando em um rosto da mensa-
das para resultar na montagem de um quadro. O primeiro gem que se marca pelos três traços: referencial, poético e
verso, por exemplo, constrói-se com três sintagmas nominais emotivo.
de estrutura idêntica:
Chão verde e mole. Cheiros de relva. Babas de lodo.

Ou, o terceiro verso que procede a uma enumeração por vír-


gulas, apresentando os objetos da paisagem:
Carros de bois, falas ao vento, braços, foices.

Neste poema, de registro descritivo-referencial, as qua-


lidades dos objetos aí apontados são da ordem do sensorial
-tato, visão, som, olfato -, convidando o receptor a pin-
tar o quadro rural, distribuindo os elementos do campo aqui
e ali - o emissor escolheu e combinou certos elementos para
compor o conjunto - numa espécie de colagem dos resíduos
que ficaram na lembrança.
No diálogo das funções de linguagem, diremos, então,
que propondo uma descrição do contexto campo, a função
referencial aí se apresenta, porém, articulada a um certo modo
de organizar, selecionando o conjunto lexical- "chão, en-
costa, carros de bois, foices, braços, casebres, flores, abe-
lhas, nuvens, cigarras, ponte, água, formigas, árvores" ... -
e combinando-o numa formulação sintática, que é a justa-
posição desses elementos na forma de uma montagem/ cola-
gem, o que resulta num cuidado poético com a linguagem -
afunção poética. Ainda observa-se um modo de ver/lembrar
esses itens, qualitativamente, o que marca o ponto de vista
do emissor, a função emotiva. Quando aponta "água" e
"ponte", por exemplo, contextualiza seu ponto de vista
17

3 Todos conhecemos a canção e, na memória afetiva, ale-


tra de "Detalhes", de Roberto Carlos e Erasmo Carlos da qual
transcrevemos fragmentos, o suficiente para percebermos o al-
to Ú:or emotivo - não apenas na letra, mas na frase musical
Função emotiva e no acompanhamento - que reborda a música. A mensagem
organiza-se, centralmente, na posição do emissor, marcado pelo
traço indiciai do pronome em 1~ pessoa, ao mesmo tempo que
envia seus sentires, lembranças, expressões e confissões a uma
2~ pessoa, aqui apontada pelo "você", a amada. "Eu", "nos-
so amor passado" e "você" - são os eixos que organizam a
expressividade de "Detalhes", onde o eu adivinha o presente
da amada ("você vai lembrar de mim", "você vai ver detalhes
de nós dois a toda hora presentes", "desesperada você tenta
Quem: emissor em detalhes até o fim" etc.), presente esse cuja principal caracteristica é a
ausência do eu - o emissor que insiste em estar presente nos
Não adianta nem tentar detalhes da vida da amada.
Me esquecer Não só pelo referente- pelo tema da presença/ausência
Durante muito tempo em sua vida
Eu vou viver do amor - essa música configura uma mensagem emotiva, mas
Detalhes tão pequenos de nós dois também a interpretação e o acompanhamento são revestidos
São coisas muito grandes pra esquecer
E a toda hora vão estar presentes da mesma expressão dos sentimentos de saudade e perda. O
Você vai ver conjunto todo da mensagem concorre, portanto, para aflorar
[...] sentimentos e embalar emoções.
Eu sei que um outro deve estar falando
Ao seu ouvido Há uma direção do emissor para o receptor - "você vai
Palavras de amor como eu falei ver", a "culpa é sua", "você vai lembrar de mim", numa es-
Mas eu duvido pécie de chamada desse receptor a ser incluído, pelas vivências
Duvido que ele tenha tanto amor
E até os erros do meu português ruim em conjunto e, agora, pelas lembranças, na mesma atmosfera
E nessa hora você vai expressiva. Ai temos a ocorrência de duas funções de lingua-
Vai lembrar de mim
[... ]
gem: aquela centrada na emissão, função emotiva, e a função
Se alguém tocar seu corpo como eu conativa, localizada nesse "você".
Não diga nada A função emotiva, portanto, tem seu Einstellung no emis-
Não vá dizer meu nome sem querer
À pessoa errada sor que deixa transparente as intenções do seu dizer, marcando-
Pensando ter amor nesse momento -se em 1~ pessoa; comparece também numa fala marcada pela
Desesperada você tenta até o fim interjeição ("extrato puramente emotivo da linguagem", diz-
E até nesse momento você vai
Vai lembrar de mim -nos Jakobson acerca da interjeição), pelos adjetivos, que apon-
(...] tam o ponto de vista do emissor, daquele que fala, por alguns
18 19

advérbios, por signos de pontuação - tais como exclamação, Amor, então,


reticências. A função emotiva implica, sempre, uma marca sub- também, acaba?
jetiva de quem fala, no modo como fala. Por isso, as canções Não, que eu saiba
O que eu sei
populares desditosas são mensagens que acabam provocando é que se transforma
a emoção do tipo epidérmico- falam adjetivamente, adver- numíi matéria-prima
bialmente, das perdas amorosas. que a vida se encarrega
de transformar em raiva
As novelas, em sua maioria, traçam seu núcleo de ação Ou em rima
e seus personagens na expressão dramática de sentimentos, afe-
tos, emoções, cuja finalidade é co-mover o espectador. (Paulo Leminski, Caprichos & Relaxas)
A pintura expressionista- conferir Van Gogh- escorre Aqui Paulo Leminski diz do mesmo tema que "Detalhes"
interjeição emotiva - no traço angustiado, na cor forte, na de- - o amor que acaba. Marca o texto também em 1~ pessoa.
formação do objeto, no modo como esses elementos limitam- Questiona e, portanto, inclui o receptor. Mas, enquanto para
-se, comprimidos, no espaço da tela e da moldura, ou buscam Roberto Carlos e Erasmo Carlos há uma ordem para manter
libertar-se do espaço da tela. a lembrança viva na ausência, a ausência celebrada por Le-
minski constrói-se na rima, matéria-prima desse poema. "De-
talhes" "conta" uma história e canta; Leminski diz, no breve
canto-instante, que o amor perdura. A canção "Detalhes"
Emoção e arte alonga, o poema de Leminski, curto, rima.
O artista não é um inspirado que, tomado pela mágica
Há um mito de senso comum que identifica arte e jun- da emoção vai expressar seus ocultos pensamentos. Fernan-
ção emotiva e, nesse sentido, a arte expressaria sentimentos do Pessoa disse: "o que em mim sente está pensando". Seu
e pensamentos do autor, que, tomado de "inspiração", diz gênio está no trabalho competente da organização do códi-
o que o mortal dos homens não sabe dizer, uma vez que o go, no desenho de uma linguagem do inédito - seja ela mú-
artista aí é o privilegiado pela vocação poética: ser o porta- sica, poesia, pintura etc.
-voz para os homens, dessa entidade mágica e inspirada que Mesmo no quadro da poesia romântica --! a poesia do
o faz dizer coisas indizíveis. eu, por excelência- a função emotiva deverá ser acessória,
No entanto, há outra postura que concebe arte como cedendo lugar ou sendo
construção: a emoção se dá diante das relações novas que se
determinada pela função poética ou configuradora da mensa·
percebem na escultura, na pintura, no poema. Emoção esté- gem "sem o que" a informação estética não se realiza [...] e
tica que faz o receptor defrontar-se com o novo, o original, o poema romântico não assumirá o estatuto estético da poe·
causando-lhe a surpresa do estranhamento (ostrânienie). As- sia, mas permanecerá no grito, na lágrima, na explosão emo·
tiva, na retórica do coração. A fraqueza de boa parte do
sim, a característica do poético não é a emoção, apesar de
Romantismo poético no Brasil e fora dele está nesse dissídio
todo o equívoco a respeito da identificação da arte ser ex- entre a motivação emocional e a capacidade do exercício da
pressão dos sentimentos. função propriamente poética (diagramadora, configuradora) por
20 21

parte de alguns de seus nomes mais conhecidos, ainda hoje


A fotografia fixa um objeto, mas, ao fixá-lo, revela mo-
responsáveis pela imagem falsa do que seja poesia e do que vimentos de emissão: o emissor escolheu o objeto, preparou
seja o ofício do poeta perante um público leigo e condiciona- tecnicamente a máquina, incidiu maior ou menor intensida-
do pela rotina petrificante das antologias escolares e das his-
tórias da literatura 1 • de de luz, angulou, permitiu sombras ... as marcas aí se fa-
zem visíveis. Relações entre a referência e os traços do
emissor, ·mas, sobretudo, cuidado e zelo com a mensagem.
A solidão

Foto de Eduardo Nascimento, publicada em Antonina dos meus dias.


Curitiba, Secretaria do Estado da Cultura e do Esporte do Paraná,
Funarte, 1980.

1
CAMPOS, Haroldo de. A arte no horizonte do provável, cit., p. 148.
23

4 Outro exemplo é a consciência da função da leitura -


que incorpora o leitor no texto, dando-lhe espaço para, nas
descobertas, co-laborar com a emissão que, nesse aspecto está
intimamente ligada ao trabalho com o código e com a men-
Função conativa sagem- e não com os sentimentos- e vai resultar, moder-
namenté, nas estreitas relações das funções poética e
metalingüística.
Lembremo-nos, uma vez mais, que uma mensagem -
seja qual for o material de que é feita - envolve diferentes
funções em diálogo. Uma das funções seguramente determi-
nará o perfil da mensagem, mas as outras complementam,
dialogam, articulam, relacionam diferentes níveis de lingua-
gem numa mesma mensagem. Assim, já afirmamos, mais aci-
Para quem: receptor ma, um possível diálogo determinante na função conativa.
Ela pode desenhar uma mensagem de configuração emotiva,
Quando a mensagem está orientada para o destinatá- mas, a consciência de possuir um receptor, nas articulações
rio, trata-se aí da função conativa. Esta palavra tem sua ori- de linguagem, implica que a função conativa também pode
gem no termo latino conatum, que significa tentar influen- conectar-se com a poética e com a metalingüística.
ciar alguém através de um esforço. A função conativà é De todo, importa dizer que a função conativa marca-se
gramaticalmente pela presença do imperativo e do vocativo
também chamada de apelativa, numa ação verbal do emis-
e pela 2~ pessoa do verbo. É revelada também nas fórmulas
sor de se fazer notar pelo destinatário, seja através de uma
mágicas ou encantatórias - as que se expressam em forma
ordem, exortação, chamamento ou invocação, saudação ou
de desejo: "Fique com Deus" ou "Vá para o inferno!"
súplica.
Talvez pudéssemos pensar que o diálogo - a forma mais
correntemente comum de conação - no quadro da estética A persuasão da mensagem
romântica (a mais confessional) é, na verdade, uma lingua-
gem de superfície que resulta em monólogo emotivo- onde Freqüentemente, desde que há tentativa de convencer o
o emissor é receptor de si próprio. A amada perdida em "De- receptor de algo, a função conativa carrega traços de argu-
talhes" comparece através do pronome você e da descrição mentação/persuasão que marcam o remetente da mensagem.
de alguns possíveis comportamentos imaginariamente descri- Para a linguagem da propaganda, por exemplo, as mensa-
tos pelo emissor - que está mais interessado em extravasar gens construídas visam essencialmente atingir o receptor. Pos-
suas fantasias. Assim, seu espaço como receptor é passivo, suem, no seu ato de configuração dos signos, características
apesar de representada por você - marca chamativa da fun- de função poética, visando sensibilizar o público pela beleza
ção conativa. da argumentação. Por trás da mensagem publicitária há sem-
24 25

PERTURBAÇOES INTESTINAIS pre o imperativo do consumo da mercadoria apresentada, di-


ferentemente da função estética da arte, que não intenciona
persuadir para fins de consumo. A publicidade apropria-se,

N PERTURBAÇOES INTESTINAIS F, para formulação de sua linguagem, e é próprio dela, dos ní-
veis gráfico, visual e sonoro dos signos, conforme o canal que

~ N~=e~·QBA.(E:)'\11~rJN.._g , c medeia ·a informação: outdoor, revista, televisão, rádio e


outros.
Esta bula de remédio criada por Décio Pignatari revela
predominantemente no traço gráfico-visual o desenho da dan-

)EN , OF ça das letras que compõem o nome do produto Disenjórmio


e o seu efeito- comprovado no canal-, se o receptor usá-
lo. Não será preciso mais nenhuma mensagem com signos ver-

ISEN~ORI
bais, dado que a imagem e seu movimento persuadem, na sua
demonstração, do resultado do uso do produto. Concorre aí,
na dominância, enquanto finalidade, a função conativa; mas
a função estética é o suporte para persuadir o receptor.

JISEN-.f'ÓRM A sedução da mensagem

DISENFÓRMIO Seduzir o leitor, possuindo-o na própria mensagem, em


forma de convite direto - essa é a arte fascinante de Macha-
do em Memórias póstumas de Brás Cubas.
Neomlcin• Di•enfórmio pedl8trlco
Antibiótico de pequena absorçio e de poderoM açlo no Neomicina 25 mg; Ftalilaulfatiazol125 mg; SutfacUuina
125 mg; Pactina 20 mg; Homatropina 0,1 mg; Veiculo
Cap. XXXIV - A uma alma sensível
comba'- ao. difwentes agentes da infecçlo intestinal.
para 5 cml,
Ft•lilsult•tluol
Sulfa de balu tolubilidada e de grande ultihdada na Há aí, entre as cinco ou dez pessoas que me lêem, há aí uma
Dlaenlórmio comprimidos
reduçlo da flora patog6nica.
Neomicina 50 mg; Ftalilsulfatiazol250 mg: SuiWiazina alma sensível, que está decerto um tanto agastada com o ca·
Sulladluln•
Completa a t•ap6utica atingindo os focos _ct. origem 250 mg; Pectlna 30 mg; Homatropina 0,5 mg. pítulo anterior, começa a tremer pela sorte de Eugênia, e tal·
das infeçç6M: lntntinais, bem como o. bac•loa di~n­
t6ricoa loealiu.da. profundamente na mucosa intestinal. vez ... sim, talvez, lá no fundo de si mesma, me chame cínico.
Pectina Eu cínico, alma sensível? [ ... ] Não, alma sensível, eu não sou
Hidrw.to de carbono ot;tido de frutas citricu_ de era.ito
cínico, eu fui homem;[ ...] Retira, pois, a expressão, alma sen·
antitóJiico (dimlm,. a obiOI"Çio de toxinu) • ••ntom,bco
(atua como conttipante).
Homatropln•
f2l Procienx sível, castiga os nervos, limpa os óculos, -que isso às vezes
Anti~ .rteaz naa manifestaçOes dolorosas lnatituto Farmadutico. dlt Produlol Clentmco. Xawler
João Gomes Xawier & C&.. LtdL
é dos óculos, - e acabemos de uma vez com esta flor da moita.
dec:orren... daa int.eçon inteatina•a.
Cap. XCVI(...)
Ela batia nervosamente com a ponta do pé no chão; aproximei·
PIGNATARI, Décio. Poesia pois é poesia; 1950-1975. São Paulo, ·me e beijei·a na testa. Virgília recuou, como se fosse um bei·
Duas Cidades, 1977. jo de defunto.
26 27

Cap. XCVII - Entre a boca e a testa não vê: que a piada infame, desenhada, não é dita, mas acon-
Sinto que o leitor estremeceu, - ou devia estremecer. Na·
tecida. Esse ver fica por conta do leitor que "acompanha" Bidu
turalmente a última palavra sugeriu-lhe três ou quatro refle- percorrendo os quadrinhos, uma vez que já foi convidado a
xões.[ ...] fazê-lo: "Queridos leitores, acompanhem-me por favor!"
Receptor aí é o leitor incluso nas tramas e tecidos do tex-
to memorial de Brás Cubas. No capítulo XXXIV somos os elei-
tos privilegiados cinco ou dez leitores, chamados de "alma
sensível". Qualidade de "fino leitor", aquele que percebe os
meandros por entre as superfícies.
Entre as duas seqüências de capítulos (XCVI e XCVII),
um intervalo para nossa reflexão, espaço entre a boca e a tes-
ta, entre o pensamento e a fala, inclusos que fomos, leitores,
no sentir do emissor/narrador acerca do nosso estremecimento.
Modo sedutor de fascinar - a requisição conativa que Brás
opera nesta Memórias, forma moderna de significar a função
conativa, redimensionando, democraticamente, a cooperação
do leitor no ato da leitura.

O quadrinho do leitor bidu

Bidu, personagem criada por Maurício de Sousa para


nomear o cachorro sabido, na sua esperteza, convoca o lei-
tor, que aqui se faz bidu e adivinhão, pois vê o que Bidu
29

5 conectares entre uma expressão· e outra e dão a ilusão de que


emissor e receptor comunicam-se. Na verdade, o gesto afir-
mativo que re-envia a mensagem recebida, a repetição redun-
dante dessas expressões, mantém os interlocutores falantes
Função fática em contato, sem produzir respostas a essas perguntas,
fixando-os na sintonia do canal. No momento de uma apre-
sentação social, a fórmula "muito prazer" é altamente fáti-
ca; passa a ter significado somente depois que as pessoas têm
um conhecimento entre si. Se "como vai" obtiver respostas
do tipo "hoje estou mal, pois ontem tive um acesso de tos-
se", não estará cumprindo sua função fática de cordialidade
e contato entre as pessoas.
As conversas ao telefone, monossilábicas, apenas afir-
Onde: canal mam estar o receptor ouvindo a mensagem. Se do outro
Se a mensagem centrar-se no contato, no suporte físico, lado da linha sobrevir o silêncio, aquele que fala, logo
no canal, a função será fática. O objetivo desse tipo de men- perguntará: "Alô, está me ouvindo?" Os comportamentos
sagem é testar o canal, é prolongar, interromper ?u reafir~ar fáticos são compulsivos, repetitivos; na fila do elevador,
a comunicação, não no sentido de, efetivamente, mformar ~Ig­ cada um que chega toca o botão de chamada - o que é
nificados. São repetições ritualizadas, quase ruídos, balbucios, desnecessário e nada informa ao robô que já está pro-
gagueiras, cacoetes de comunicação (mesmo gestuais), fór~u­ gramado.
las vazias, convenções sociais, de superfície, testando, assim, O traço característico da faticidade é a tautologia,
a própria comunicação. Diz Jakobson: isto é, dizer que o que é, é; "Puxa, como esta frio hoje,
o empenho em iniciar e manter a c?munic~ção é típico ~a~ não?"
aves falantes; dessarte, a função fát1ca da)mguagem é~ un~­
ca que partilham com os seres huma~os. E também a pr!m~l­ Jakobson apresenta um exemplo curioso de fatici-
ra função verbal que as crianças adqu1rem; elas t~m tendenc1a dade - quando o mais importante não pode ser dito, diz-se
a comunicar-se antes de serem capazes de ouv1r ou receber
comunicação informativa1 •
algo que substitui, por nada dizer, o que poderia ser di-
to. O exemplo, já antológico, refere-se a um encontro de
namorados:
O cotidiano fático
- Bem - disse o rapaz.
Certos "tiques" da fala podem caracterizar-se como fá- - Bem, cá estamos- disse ele.
ticos: "certo?, entende?, não é?, tipo assim etc." São -Cá estamos- confirmou ela- não estamos?
- Pois estamos mesmo - disse ele. - Uupa! Cá estamos.
- Bem - disse ela.
1 JAKOBSON, Roman. Lingüística e comunicação, cit., p. 127. - Bem! -confirmou ele.- Bem!
30 31

O canal da arte A arte de vanguarda, num de seus momentos co .d


rou a folha branca como o lugar-espaço para prod'UZlr . n~I ~­
f - Sigm-
O emissor, ao codificar signos que serão o instrumento ICaçao, chamando a atenção do leitor a dar estatuto ao canal
ado e que • neste li'mi'te , pas-'
de seu trabalho, o faz no suporte físico- o canal- tendo que· sempre . automatiz
fora tão
em vista que a mensagem, assim organizada, será recebida se:a entr_e a. m.etal~nguagem e a informação estética. Mallar-
e decodificada pelo receptor. Dessa forma, estão estrutura- me: neste l~mlte, Imprime em Un coup de dés uma espécie
dos os elementos mínimos de um processo comunicacional, de Ideografia da arte - um livro de páginas soltas, a ordem
onde emissor, mensagem, receptor, canal e referente com- ~o recepto~ reoperan~o na montagem a estrutura de uma par-
t~tura musical, no cuidado e seleção dos tipos gráficos e na
põem um conjunto - uma linguagem.
Se for pintura, os elementos estruturados, os signos or- :.mtaxe d~sconstr~ída. Mallarmé, simbolista francês, radica-
Iza o ~ew - o livro - e a página ganha outra dimensão
ganizados no suporte tela compõem uma mensagem onde os na medida em que se desautomatiza o uso. '
traços dessa linguagem se fazem presentes - o pincel, a tela, na página branca rodeado d 'IA ·
cores, composição em figuras, composição icônica. Entre uma d ,Veja · bo silêncio, • o si encw
a pagma ranca. E um texto que, se faz com que o receptor
pintura a guache e uma pintura a óleo a percepção do desti-
atente ao can~l como .uso d~ espaço, envia sinais para perce-
natário observa diferenças de sentido. É preciso lembrar que bermos tambem uma mtenciOnalidade cuidadosa com a men-
em Understanding media McLuhan lança um dos pilares de sag~m. Ao repetir o silêncio, faz o silêncio aparecer silenciado
sua teoria sobre os meios de comunicação, the medium is the Ao mformar que o canal pode ser usado de forma não fáti~
message - "o meio é a mensagem" -, observando que é ca, estrutura-se o texto poética e metalingüisticamente.
na natureza mesma do meio de comunicação que reside o fun-
cionamento da mensagem e que esta é determinada, no seu silêncio silêncio silêncio
sentido e na percepção do receptor, pelas características do silêncio silêncio silêncio
meio, ou por outra, do canal, na qual está organizada. As- silêncio silêncio
silêncio silêncio silêncio
sim, uma pintura a guache surpreende um sentido diverso de
silêncio silêncio silêncio
uma pintura a óleo, apesar de ambas terem o mesmo refe-
(Eugen Gomringer)
rente. A mesma notícia veiculada pela televisão produz efei-
tos diferentes se informada pelo rádio. Ainda: a obra Iracema
do romântico José de Alencar, por exemplo, se lida no meio
impresso - o livro - caracteriza-se diferentemente do filme
Iracema, apoiado na obra alencarina, dirigido por Bodans-
ki. Não há julgamento de valor- o livro é melhor, o filme
é ruim - que sustente as diferenças de tradução, pois trata-
-se aqui de sustentação no meio, no canal: o que é peculiar
ao cinema, isto é, movimentar o enredo pela imagem, difere
do modo como o enredo se fixa no meio impresso - o livro.
33

Mark lvânovitch - no conto, este nome não tem função signi-

6 ficativa; no entanto, o fato de vir o prenome seguido sempre


de patronímico, acrescenta-lhe uma conotação respeitosa, e
isto condiz com a sua apresentação como "pessoa inteligen-
te e lida".

Função poética* Oplevâniev- relaciona-se com plievát, cuspir, e oplievát, co-


brir Ele cusparadas. Corresponderia a algo como Ocuspes.
Priepolovienko- no caso, parece relacionar-se com pol, soa-
lho, e não com "sexo", nem com "metade", que lhe são ho-
mônimos.
Solovienko- devido à condição humilde, parece ligar-se mais
a sol do que a soliviéi (rouxinol) ou às ilhas Solovki, famosas
pelo mosteiro ali existente e como lugar de degredo político.
Zinóvi Prokófievitch - o nome não tem significado especial,
mas o uso do patronímico está de acordo com a afirmação do
narrador de que ele procurava a todo custo ingressar na alta
sociedade.
Okeanov - tem relação com Okeán, oceano.
Como: mensagem Súdbin- relaciona-se com sudbá, destino, e isto não vem fo-
ra de propósito no caso de um escrivão. Num texto brasileiro,
Sabemos que uma das atualizações discursivas da lin- poderíamos ter o nome Escrivino.
Kantarióv - no caso, não parece significativo.
guagem é a sua configuração poética, quando o fator predo- Riemnióv- vem de riémen, cinto. Se eu quisesse misturar ele-
minante é a mensagem, com um modo muito peculiar de mentos russos e portugueses, teria Cintóv.
mostrar-se. O que primeiramente se mostra, podemos dizer Porfiri Grigórievitch - não tem significado específico.
Zimovéikin - lembra zimá, inverno, e zimovát, hibernar, e às
assim, é a realidade da palavra no que ela tem de concreto 0 vezes seu aparecimento, no conto, tem qualquer coisa de uma
E qual é a realidade sensível e concreta da palavra? lufada de ar gélido. (Uma possibilidade: Hibernóv.)
Vejamos alguns exemplos de função poética na prosa. larosláv llitch - não é propriamente significativo, mas laros-
1 láv era o nome de vários príncipes da antiga Rússia, e laros-
Bóris Schnaiderman, no seu livro Dostoievski Prosa Poesia , lávl é o nome de uma antiga cidade, cujo nome foi dado em
vai-nos apontando os nomes das personagens e sua relação homenagem a larosláv, o Sábio, e tudo isto matiza o colorido
com a significação da estrutura do conto- "0 senhor Prok- semântico das palavras de Ustínia Fiódorovna, no sentido de
que ela conhecia "larosláv llitch em pessoa".
hartchin" -, recuperando, portanto, a idéia de "concretu- Avdótia- era simplesmente um nome muito comum entre as
de" do signo: pessoas de condição humilde.

Ustínia Fiódorovna - o prenome tem relação, pelo som, com São relações entre o nome próprio e o papel da perso-
ustói, que significa pilar; a palavra é bastante usada no plural,
com o sentido de base, fundamentos. Mais uma vez, Haroldo
nagem, concentrados, evidentemente, na escolha que o nar-
de Campos lembra uma correspondência: Sustentina. rador faz do léxico da língua, que o tradutor aproxima
concretamente do significado original. Segundo a perspecti-
* Para complementar o estudo· acerca da função poética e da função me_ta- va de Bóris Schnaiderman, Dostoievski apresenta um limite
lingüfstica, consultar A metalinguagem, de minha autoria. São Paulo, Ati- entre prosa e poesia, configurando nos seus romances e con-
ca, 1986. (Série Princípios, n. 44.)
1 São Paulo, Perspectiva, 1982. V. "Bibliografia comentada". tos estruturas da função poética, como no exemplo dos
34 35

nomes próprios que o analista-crítico apontou. Certamente, A análise: na pena e na folha de outro poeta - Augusto de
quando a prosa espelha desenhos poéticos no seu sintagma, Campos2 , que nos diz, na decomposição da peça, ser ela for-
ela está mais próxima da poesia, uma vez que incorpora pro- mada de vinte letras (quatro vogais com oito ocorrências, qua-
cedimentos poéticos. tro consoantes com doze ocorrências).
Então, é possível observar função poética fora da poesia? Para tanto, ele explora: a) a curta dimensão das linhas (cons·
Qualquer sistema de sinal, no sentido de sua organiza- truícfas, exceto a última, de um, dois ou três sinais gráficos (in·
cluídos os parênteses)); b) o ícone das letras "I" e "f", e em
ção, pode carregar em si a concentração poética, ainda que menor grau "s" e "i", além dos próprios"()"; c) a ambigüida·
não predominantemente. Uma foto pode estar contaminada de do signo tipográfico "I", que tanto pode corresponder à le·
tra "I" como ao numeral "1". Além disso, através de um hábil
de traços poéticos, uma roupa pode coordenar, na sua mon- recorte das linhas, o poeta iconiza o movimento da folha cain·
tagem sintagmática, o equilíbrio de cor, corte e textura do do - o "I" que vem da primeira linha, passando pelos "ff" sub·
tecido, um prato de comida pode desenhar, sensualmente, a seqüentes-, rodopiando na inversão das letras "af" (final de
"leaf") e "fa" (início de "falls") até desaparecer na última li·
forma e cheiro do cardápio, uma arquitetura pode exibir re- nha. Ao nível semântico, a microarquitetura do poema proje·
lações de sentido entre o espaço e a construção, a prosa pode ta, na antepenúltima linha, a palavra "one" (um), reforçada pelo
"I" (um, numeral) da linha seguinte. Repare-se que a disposi-
aspirar à poeticidade ... mas na poesia, os emotivos que me ção tipográfica criada por Cummings enseja, por um lado, a
perdoem, ela é fundante e fundamental, nos diz isso o mes- leitura inversa, embora entrecortada, da direita para a esquer-
tre Jakobson. da, da frase a leal falls; por outro lado, através da construção
tmética I (a leaf falls) one/iness e da ambivalência do "I" (se-
guido do artigo indefinido "a", na primeira linha, e precedido
pelo numeral "one", na penúltima), introjeta e retrojeta a idéia
de isolamento no texto, contribuindo para recriar a unicidade
Na poesia o fundamental é a poesia e a simultaneidade das sensações objetivas e subjetivas que
a experiência do poeta sobrepôs 3 •
O poeta: e. e. cummings.
A "intradução,, de Augusto de Campos:
O referente: sobre a solidão (loneliness) e l(a ao
a folha que cai (a leaf falls)
Ie (I
O poema af r
fa o
l(a 1)1
11
Ie
a) (fia
af e.
fa one
I ai)
11
lneaa Houcl.e
s)
one 2
I Sobre E.E. Cummings, ver desse autor 40 Poem(a)s. Trad. Augusto de
Campos. São Paulo, Brasiliense, 1986.
3
iness Idem, ibidem, p. 26-7.
36 37

A função poética explicada pelo tradutor: A função poética projeta o princípio de equivalência do eixo
de seleção no eixo de combinação.
[... ]ousei tentar uma recodificação não-ortodoxa do poema em
letraset, utilizando um tipo Mecanorma holandês (Spring 152) Sabemos que selecionar e combinar são os "dois nodos
cujo design de letras retorcidas me pareceu acentuar as ca- básicos de arranjo utilizados no comportamento verbal" e
racterísticas i cônicas da composição. Animado por esse exer-
cício pictotipográfico, e com seu reforço, cheguei a arriscar correspondem ao paradigma e sintagma, respectivamente, ou
uma "intradução"(não-tradução? tradução interna ou interior à metájÓra e metonímia ou, ainda, à condensação e deslo-
ou íntima?) do texto. camento.
[...]a espacialização adotada permitiu isolar do texto, à manei-
ra cummingsiana, segmentos de significado, criando leituras em Na feitura poética - técnica de sabedoria daquele que
camada (no caso, sobressaem as palavras "so" - que pode ser desenha a poeticidade da mensagem - o poeta seleciona, es-
lida como "só" - e "aí"); entre várias soluções, acabei optan- colhe dentre/por entre/ os elementos expostos no código
do por evidenciar o numeral "I" já na segunda linha. Um olhar-
·de-errata poderá vislumbrar na penúltima "estrofe" uma suges- aqueles que vai utilizar para compor o sintagma, o encadea-
tão da palavra "haicai" - micrometalinguagem embutida no mento, a combinatória.
poema. O design das letras, que, por associação, pode conta- Cummings escolhe quatro vogais, Augusto o tradutor-
minar de alguma forma outras letras ( o "o" e o "c" isolados,
especialmente), além dos "I" e "f" privilegiados, dá-me a ilusão
-criador incorpora as cinco vogais; Cummings seleciona qua-
de recuperar algo dos ícones perdidos. E a folha cai (ou parece tro consoantes, Augusto recorta sete. Desta seleção combina-
cair) dentro e fora dos parênteses, da 2~ à 5~ linha •
4
-se o léxico "loneliness" /"a leaf falls"e, em português, "so-
Podemos considerar esse poema, feito na verticalidade litude" /"folha cai".
solitária da página, como uma pintura ("exercício pictotipo- Ora, qual o modo concreto e sensível de "expressar"
gráfico"): exposto visualmente, com o cuidado significativo a solidão de uma folha que cai?
de desenhá-lo na folha, de escolher - dentre as possibilida- "Imprimindo" no suporte da folha de papel, pintando
des da língua- as letras do código e combiná-las, singular- através dos tipos gráficos e, ao mesmo tempo, isolando na
mente, para produzir, em rápida percepção, o sentido da folha, a folha que cai, solitariamente, una e única no seu lento
solidão. Aí se configura uma metáfora visual de um motivo parafuso vertical.
já bastante tradicional em literatura, que é o tema da soli- As equivalências (de que fala Jakobson na definição da
dão. Mas o modo de construir a metáfora é novo e desauto- função poética) são aqui muito "visíveis": duplicação da
matiza a sensibilidade do leitor. energia tipográfica do I - capturado pelo tradutor5 como

Selecionar e combinar 5
Observemos que a tradução, feita por A. de Campos, é uma recriação e,
portanto, exercício de função poética:"[ ... ] tradução de textos criativos se-
Os elementos da mensagem efetivamente utilizados são rá sempre recriação, ou criação paralela, autônoma, porém recíproca. Quanto
equivalentes aos elementos do paradigma potencialmente uti- mais inçado de dificuldades esse texto, maís recriável, maís sedutor enquan-
to possibilidade aberta de recriação. Numa tradução dessa natureza, não
lizáveis. Há uma espécie de coincidência entre o que foi es- se traduz apenas o significado, tr'aduz-se o próprio signo, ou seja, sua fisi-
colhido do paradigma e o que foi justaposto no sintagma. calidade, sua materialidade mesma (propriedades sonoras, de imagética vi-
Conforme nos diz Jakobson, ao definir a função poética: sual, enfim, tudo aquiio que forma, segundo Charles Morris, a iconicidade
do signo estético, entendido por signo icônico, 'aquele que é de certa ma-
neira similar àquilo que denota')". (CAMPOS, Haroldo de. Metalinguagem.
4
Idem, ibidem. p. 29-30. Rio de Janeiro, Vozes, 1970.)
38 39

um número, o 1 (e ... não são o mesmo na sua diferença?), Há um pedido e uma sedução neste poema: aquele
a coincidência sonora do f/s, além da analogia entre o obje- "eu"solitário no verso demanda um olhar mais demorado
to sobre o qual se fala e o modo de construção (entre o o para ele. Que expectativa amorosa e emotiva contém esse eu
quê e o como). Assim, podemos afirmar que a seleção para- lírico, que diz saber do dentro e do fora de outros olhares?
digmática, nesse exercício visual de Cummings, foi operada Parece que vai descrever-se emotivamente, quando - estra-
por equivalências e similaridades dos traços não só tipográ- nhamente - de dentro do centro do poema, vira do avesso,
ficos como também sonoros; o sintagma exibe, na constru- fura o espelho lírico da emoção e pede uma atenção mais per-
ção ~ertical, seu modo de contigüidade, de combinatória. sistente ao espelho poético:
Por isso, dizemos que, na função poética, a mensagem
está voltada para si mesma: as características físicas do sig- este poema me olha
no, seu estatuto sonoro, visual, são privilegiadas, decorren- Equivalência sonoro-gráfica do pOEMA que ME o(LH)a
do um sentido não previsto numa mensagem de teor em figura-espelho das letras; equivalência semântica criada
puramente convencional, por exemplo. O poema de Cum- pela similaridade sonora de dENTRO do CENTRO, a sedução-
mings é um flagrante da solidão - condensa, com tão pou- -pedido de entrar no texto, a equivalência da leitura do lei-
co uma combinatória de sentidos que quebra a expectativa tor, olhando, em movimento análogo da visão, de-morando
de' velhos e surrados significados. É preciso estar atento aos
o olhar rítmico no ritmo deslocado do poema.
signos - estes revelam, no seu arranjo, sua própria pedago-
A função poética, portanto, fundamenta a essência da
gia de aparição, criando um espanto no seu bem-dizer(-se).
poesia, aponta um poema como poema, através dos meca-
nismos de similaridade:
Estranhame nte ... -Que são as rimas senão eco do ritmo?
- Que são anagramas senão figuras gráfico-sonoras via-
O admirável espanto provocado pelo bem-dizer a natu- jando pelo tecido textual?
reza poética é o que os formalistas russos chamaram de os- - Que são metáforas senão sentidos até então impossí-
trânienie, "estranhament o": um tempo de olhar para o veis de serem sentidos?
poema, percorrendo-lhe as significações plurais e (im)possí- - Que são aliterações senão insistência do significante?
veis, o tempo perceptivo da leitura do receptor. [... ]
desse nó de nós
eu a poesia
quando olho nos olhos sister incestuosa
sei quando uma pessoa
prima pura impura
está por dentro ou está por fora
em que
quem está por fora siamesmos
não segura uni·
um olhar que demora somos
de dentro do meu centro outro
este poema me olha (Haroldo de Campos, ''Jeest un autre ad augustum'', em Edu-
(Paulo Leminski, Caprichos & Relaxas) cação dos cinco sentidos)
40
41

Equivalências sonoras, "a hesitação entre o som e o sen-


tido" de que nos diz Valéry, figura paranomástica, esquele-
to essencial e medular que configura a poesia, em:
sibilância - desse/nós/ sister /incestuosa/ siamesmos/
somos/e
bilabial surda - poema/prima/pura/impura ...
"mesmice" sonora, circular, conectando som e sentido/pa-
ranomásial voltada a sensualidade sígnica para si mesma em
"siamesmos", mensagem expondo sua nudez icônica, "pri-
ma", isto é, originariamente única, e onde o objeto do qual
se fala é gêmeo "siamês" do modo de falar.
Assim, um "poema poético" exibe o princípio poético
da similaridade - revelada e descoberta - no sintagma:
-similaridade do som: rimas, metrificação, figuras sono-
ras {aliteração, coliteração ... );
- similaridade na seleção lexical, formando um dicionário
interno, onde uma palavra tem como referência outra pa-
lavra, no contexto do poema;
- similaridade na construção sintática que pode provocar pa-
ralelismo, equivalência, montagem coordenada, monta-
gem subordinada;
- similaridade na figuração retórica do poema, comporta-
mento metafórico, paranomástico, quebras metonímicas ... A poética do inconsciente

Desde a psicanálise de Sigmund Freud, especialmente nas


Solidão obras Interpretação dos sonhos {1900), Psicopatologia da vida
cotidiana (1901), Os chistes e sua relação com o inconsciente
A fotografia fixa a solidão dos objetos - eis aí a esco- (1905), o inconsciente fala 6 , isto é, é "estruturado como uma
lha do emissor, barcos vazios, rodeados de água e de som- linguagem" (Lacan) e o tom de sua fala é poético. Se, como
bra, sua marca já apontada na página 20. De novo, o cui-
dado zeloso com a mensagem, sua composição sintática, seu 6
design, sua flagrante sombra da qualidade sensível. A refe- "O inconsciente freudiano é a soma dos efeitos da palavra num sujeito"
CESAROTIO, Oscar & LEITE, Márcio Peter de Souza. O que é psicanálise.
rência se desloca, a poeticidade condensa. São Paulo, Brasiliense. (Co!. Primeiros Passos.)
42 43

diz Freud, o sonho é a via régia (real) para o inconsciente, Lacan remonta o diagrama freudiano:
a possibilidade de olhar a palavra que escapa da nossa inten- FAMI LI ON ÁRIO
ção como palavra poética, indica-nos que semelhanças há en- FAMI LI AR
tre o escape do inconsciente, atos falhos, chistes, sonhos, Ml LI ON ÁRIO

lapsos e a expressão estética. O termo jamilionário inexiste no código, mas segura-


Como se realiza essa similaridade? mente, há de se convir, existe topologicamente no efeito-
Dissemos que há palavras que escapam da nossa inten- -palavra do sujeito que enunciou o dito.
ção: tropeçamos em algum termo, trocamos por outro, es- Há desconcerto pelo equívoco e o enigma aí produzido
quecemos, produzimos ambigüidade no receptor quando provocará o riso, uma vez "desvelada" a significação.
enunciamos um termo plurissignificativo - portanto, inú- . Ora, a significação está na formação da palavra: esta
meros são os níveis do discurso em que a intenção escapa deixa um resíduo que lhe é linearmente "familiar" e opera
quando escapam "equívocos". O inconsciente atua. p,or _uma estrutura composta de familiar e milionário, pela
E submetidos e assujeitados a essa fala que logra fazer tecmca de condensação.
aparecer uma linguagem escondida, insuspeitada, ignorada, A palavra milionário rebela-se contra a sua supressão,
dizemos mais, dizemos menos - revelando-se aí o desejo, aparecendo, exibindo-se na formação familionária, fundindo-
-se ao mais similar sonoramente, o jamiliu..r. O sintagma li-
que mesmo interdito no seu ocultamento, evidencia o sujeito
near: "R. tratou-me bastante familiarmente, tanto quanto
diante do seu dito.
possível para um milionário", revela-se condensado, breve
substituído pela palavra-montagem à primeira escuta inau~
dível, e, após, desvelada, provocando prazer.
O chiste Na verdade temos uma poética da forma-liberadora - que
rompe a linearidade do dito, recolocando de forma condensa-
Freud observa relações estruturais entre o Witz e o in- da o princípio poético da similaridade e da equivalência. Do
consciente, apontando a técnica similar entre eles, que é a do aparente sem sentido, ao sentido analógico na montagem do
significante 7 • Lacan revisita o chiste de Henrich Reine, co- termo novo - de um lado, atendendo às exigências do incons-
ciente, que escapa, e, de outro, na evidência de elementos ver-
mentado por Freud (Os chistes e sua relação com o incons-
bais usufruindo a técnica poética do dichten (condensar).
ciente, 1905).
Lacan reflete: "Familionário - ato falho ou criação
Um agente de loteria, pobre, vangloria-se do modo co- poética?"
mo o Barão de Rothschild o tratara:
[... ] tão certo como Deus deve olhar por mim ... tratou-me de
igual para igual, de modo bastante familíonário. O lapso

7
Jacques. Lasjormaciones de/ inconsciente. Buenos Aires, Nueva
No chiste escapa o dito prazeroso, no lapso escapa o que
LACAN,
Visión, 1979. desejava ser dito: entre o esquecimento e seu substituto,
44 45

algumas formações do inconsciente de efeito metafórico e me- . meto~~mia - a fragmentação do nome esquecido que
tonímico. habitou vanos outros nomes
Segundo Lacan, no esquecimento de um nome, o pró- são sim~lares ao processo de arranjo da função poética. o
prio, e conforme Freud aponta em Psicopatologia da vida n?me Signorelli, paradigmáti co, ocultado no seu impossível
cotidiana8 , não se encontra, tal como no chiste, a produção dizer-se, lapso do esquecimento, libera-se nos seus substitu-
de um novo sentido, mas falta algo- esse algo será encon- tos, deslocando-se, fragmentando-se.
trado, operando-se um trabalho na cadeia significante.
Assim, ao nome Signorelli, esquecido, produzem-se subs- . . Tal como no sintagma, há aí nexos, exatidão, cadeia sig-
mficante, que, no retorno ao nome achado, reenvia, em pre-
tituições que são contaminadas sonoramente, tais como Bot-
ticelli, Boltrafio, Bósnia, Herzegovnia, Trafoi - verdadeiros sença, o que falta,_ o ausente.
passeios anagramáticos, contenção de sons e letras, o senti- . A po~sia exibe, no sintagma, não o acaso, mas a neces-
sidad~. Exibe as possibilidades ocultas, em equivalências, do
do faltante:
paradigma - e, porque comprime e desloca mais mostra
Botticelli/ Boltrafio Herzegovnia Não é só o flagrante da beleza, mas é, sobretudo, o fia~
Boltrafio Trafoi Bósnia grante da técnica.
Bósnia
onde os pedaços de Signorelli acham-se esparzidos erratica-
mente. Lacan aponta que Signor corresponde a Herr mas tam- O sonho
bém é, na verdade do dito que Freud não pode escutar -
quando escrevia o caso -, a inicial do nome de Sigmund, São determinantes da semiose onírica os processos de
o sujeito ocultado no esquecimento de seu próprio nome, su- condensação e deslocamento, conforme indica Freud na In-
jeito dividido em espelhos - sílabas, porque implicado na terpretação dos sonhos (1900). No complexo quadro da cul-
deslembrança tura ~ com o advento das ciências da linguagem, Lacan pôde
ler trus mecanismo s- através do Jakobson da poética- co-
Herzegovnia
mo metáfora e metonímia, ampliando esses conceitos para
Signo r
o campo da psicanálise.
Sigmund
. . Essa ~ialogia de campos da linguagem mostra-nos quão
O nome interdito na substituição de outro nome apresentou similares sao os desvendamentos dos mecanismos do sonho
o caminho do deslocamento metonímico. e da poética - isto é, do modo como é efetivada a lingua-
As operações de acesso à linguagem: gem - criação, rompedora da lógica linear e captadora de
metáfora - na substituição do nome próprio por outro uma analógica da metáfora e do deslizamento.
nome próprio; Para Freud o sonho é o texto do sonho e o acesso deci-
frador ao inconsciente. Ao relato do sonho fica atenta a es-
cuta do analista, e o crítico atento fica diante do dito poético.
8FREUD, S. A psicopatologia da vida cotidiana. Rio de Janeiro, !mago.
(Edição Standard Brasileira das obras Psicopatológicas Completas de Sig- Posturas similares, a do crítico e a do analista: ambos diante
mund Freud, v. 6.) do enigma a ser decifrado.
46 47

A ação sígnica do sonho não obedece a padrões lineares Se recordo quem fui
outrem me vejo
- uma vez que a noção de tempo e de contexto desloca-se
da referencialidade cognitiva, carregando desta os resíduos (Ricardo Reis)
impressivos, recortando molduras encenadas. Que as palavras se esfregam libidinosamente, contami-
Afragmentação , o deslocamento correspondem ao sin- nadas do desejo sempre deslocado e perdido:
tagma, ao corte diacrônico, à metonímia; a condensação, a
identificação correspondem ao paradigma, ao corte sincrô- [... ]nessas minhas mais pequenas chamadas de ninharias co.
mo veremos verbenas açucares açucenas ou circunstâncias
nico, à metáfora e à substituição. so~enas tudo isso eu sei não conta tudo isso desaponta não
As imagens pictóricas, as palavras- coisas, o cenário, se1 m~s ouça como canta louve como conta prove como dan·
as personagens, o contexto-, cena do sonho, são efeitos de ça e n~o peça que eu te guie não peça despeça que eu te guie
uma extração do cotidiano, da vida perceptiva, das impres- desgUie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe me
sões que imprimem marcas e sintetizam-se em outra cena, que esq~eça me largue me desamargue que no fim eu acerto que
embute e encapsula todo o contexto de que, potencialmente, no f 1m eu conserto e para o fim me reservo e se verá que estou
certo e se verá que tem jeito e se verá que está feito que pelo
fragmentos originários fazem parte. torto fiz direito [... ]
Quando um traço se cola a outro, quando se conden-
(Haroldo de Campos, Galáxias)
sam, há algo de identificável neles, pois o nexo se dá com
base na lei de analogia.
Um texto reverbera suas escolhas, manifesta uma pre-
sença, ecoando as possibilidades ausentes. Quando Jakob-
son diz, "projeção do eixo da similaridade no eixo da
combinação", diz dos subditos originários que lá estão em
estado de repouso, diz do trabalho operador da emissão -
a retirada do código, a montagem na mensagem.
O trabalho poético, hieroglifado (hierogrifado), tal como
o texto do sonho, está sob a pele das palavras, anagramadas,
alogicamente analógicas, palavras sob/entre ecos de palavras:
Sonhei com o mar, sonhei com Ornar

Que o analista diante do texto do sonho é como o críti-


co perplexo dos descaminhos surpresos do texto poético:
"E deu·se a entrada dos demônios", quis Guimarães Rosa, per·
mitindo uma escuta do real: "Deus e a entrada dos Demônios".

Que a errância poética mostra a fissura do sujeito des-


dobrado e reduplicado na pérola do eu inacessível, lembra-
do, especularizado:
49

7 Uma mensagem de nível metalingüístico implica que a


seleção operada no código combine elementos que retornem
ao próprio código.
É necessário observar que o termo código sai do seu ter-
Função metalingüística ritório lingüístico e assume, livremente, conotações mais am-
plas- aliada à noção de linguagem. Por exemplo, a pintura
é um código, linguagem que desvenda liberdade infinita de
combinatórias, numa relação repertório e uso do código. A
história da pintura mostra como diversificados materiais en-
tram na composição de seu paradigma, de seu código: cada
novo quadro incorpora técnica, invenção, surpresa, origina-
lidade, ampliando as possibilidades de seleção/combinação
Com o quê: código do código pictórico.
Cada quadro é, portanto, um modelo de linguagem pic-
O conceito de código abrange noções do campo da lin- tórica.
güística, da teoria, da informação, da teoria da comunica- Os sistemas de sinais implicam linguagem, implicam sa-
ção: é um sistema de símbolos com significação fixada, ber a natureza dos signos que a compõem - o que significa
convencional, para representar e transmitir a organização dos possuir repertório para operar com o código e produzir in-
seus sinais na mensagem, circulando pelo canal entre a emis- formações originais. Ou, o contrário -quando o emissor
são e a recepção. usuário desconhece o material à disposição, produz mensa-
Uma língua é um código, os sinais de trânsito também: gens de baixo teor informativo.
este, mais artificial, no sentido de tecnicamente construído. Mensagens de perfil metalingüístico operam, portanto,
Já a/língua pressupõe certo desenvolvimento, uma história com o código e o presentificam na mensagem.
entre o individual e o social, ambos interagindo para a trans- Poesia, por exemplo, é uma forma especial de lingua-
formação do código língua. gem. A poesia recebe sua forma de poema, o modo de o poe-
Estão no código os elementos que serão manipulados pa- ma fazer-se poesia. Uma poesia que fala do ato criativo, da
ra a formação da mensagem: ao longo desse trabalho, pude- dificuldade de seu material- palavra-, do conflito pedre-
mos observar que, de acordo com a sintaxe que o emissor goso diante da folha branca como "uma pedra no meio do
organizar os signos, qualificará seu trabalho na mensagem. caminho" (Drummond), da dificuldade desconfiada do ato
Se retirar, escolhendo do código, elementos sígnicos que com- de poetar, da palavra que é de uso de todos e que, no poe-
ponham um modo de dizer o fator emissor, por exemplo, sa- ma, necessita ser singular e exata para bem dizer-se, dizendo
bemos que esse modo - combinação - resultará numa sua natureza: são temas metalingüísticos na órbita do
mensagem de caráter emotivo. criador-emissor.
50 51

para que Assim, mensurando a originalidade, o poeta parodia o


fazer poesia? dito, o redito, o tresdito, "palavra de segunda mão", tradu-
[...... ]
se em mim
zindo a tradução de Fernando Pessoa da Tabacaria.
fio e pavio O que se faz aí, neste poema de referência metalingüís-
do óbvio tica, é trazer para a mensagem a semântica do código poe-
epígono sim sia, um falar sobre poesia no poema.
"inocente" inútil
[...... ]
em vez de ácido
água com açúcar A moda é metalingüística
[ ...... ]
por que A moda e seu objeto roupa também operam metalin-
poesia?
güisticamente no círculo de sua história. Barthes2 nos diz que
se sou a roupa é um sistema de sinal:
personagem de bijuteria o paradigma, peças modelares; seria blusa, sapato, saia,
palavra de segunda mão calça, camisa, chapéu, vestido, chale, meia, casaco ... o que
tradução da tradução da tra
compõe o guarda-roupa;
"no soy nada o sintagma é a reunião de peças escolhidas, combinató-
nunca seré nada ria no suporte corpo de quem veste: aquela calça com aquela
no puedo camisa, com aquele blazer, com aquela meia, com aquele sa-
querer ser nada" pato etc.
Mera praga
A roupa, enquanto sistema de sinal, compõe uma men-
sagem, uma vez que, no suporte corpo do usuário, há um
(Régis Bonvicino, Sósia da cópia) 1
recorte da seleção do código (mesmo quando não seleciona-
Poesia contamina e eis o poeta falando da finalidade da para combinar, a displicência informa a displicência ... ).
poética. A poesia como exatamente inútil, mas imprescindí- Essa linguagem, portanto, comunica, mas sobretudo infor-
vel no sistema de circulação de bens. Para que, então, fazer ma, enquanto moda, a história da roupa.
poesia? Para escutar como "açúcar" rediz "ácido" - são, Na verdade, a moda mostra o modo como recupera o
semanticamente opostos, mas "mera praga" sonora, sons em- tempo, o passado e o reinterpreta.
pestados que se esfregam uns nos outros; para que "fio" e Sua natureza é de duração efêmera, transitória, mutan-
"pavio" sejam o "óbvio", o óbvio impossível no poema exa- te: é do tempo que a moda fala o tempo todo, pois aponta
to, uma vez que (o poeta sabe) ao bom poeta não é dado ser no presente "estar na moda" o passado que "esteve na mo-
epígono, mas prógono. da". Sobretudo hoje, na era da informática, o ritmo de

1 2 BARTHES,
São Paulo, Max Limonad, 1983. Roland. Sistema da moda. São Paulo, Nacional/Edusp, 1979.
52

mudança é cada vez mais rápido, e o passado que a moda


recupera é o passado cada vez mais recente.
A moda fala da moda. "Ombros estruturados", isto é,
ombreiras em 1980, rediz a década de 30. A minissaia, hoje,
são os curtíssimos vestidos franjados e molengos dos anos
20. A moda pic-nic torna presente os anos 50.
Assim, a novidade não é o novo, é o repetido - a mo-
da se alimenta, metalingüisticamente, de seu próprio mate-
rial, já havido e dito como moda. É da sua natureza lidar
com o ritmo do tempo e fazê-lo sempre presente. O que ela
lança como novo é o que uma vez, na história, já tinha sido
novo: agora, com leve mudança, a moda é, por isso mesmo,
muito antiga.

Linguagem-objeto e metalinguagem

Todos os sistemas de sinais são passíveis de interpreta-


ção metalingüística. Jakobson nos diz que podemos obser-
var dois níveis de linguagem:
a linguagem-objeto - que fala de objetos estranhos à
linguagem; e
a metalinguagem (termo proposto por Alfred Tarski,
1930) que fala da linguagem como tal 3 •
Falamos em português - metalinguagem - a respeito
da língua portuguesa -linguagem-objeto. Na verdade, essa
operação metalingüística é de uso cotidiano: quando emis-
sor e receptor necessitam verificar se se utilizam do mesmo
código, o discurso focaliza o código. "Não entendi o que você
quer dizer'', convida o receptor a reoperar, com outras pala-
vras, o tema da conversa, tornando-o mais legível.
A função metalingüística é uma equação: em termos ge-
rais, a linguagem-objeto (o tema) é tratada com a linguagem

3
JAKOBSON, Roman. I! metalinguaggio come problema linguistico. In: __ . Releitura feita por Ornar Khouri, em edição do autor, do poema
Lo sviluppo del/a semiotica. Milano, Studi Bompiani, 1978. de Oswald de Andrade.
54 55

do tema. O poema, por exemplo, assunta o poema, onde A


(o poema) é igual a B (assunto poema no poema).
Na verdade, aqui caberia lembrar a tese de Charles San-
ders Peirce, segundo a qual todo signo traduz-se em outro
signo, que o desenvolve mais amplamente ou mais conden-
sadamenie.
É o que faz a crítica - a literária, por exemplo,
~ comporta-se metalingüisticamente diante do seu objeto de

o estudo.
É o que faz a tradução: recupera a qualidade sensível

3
do original e a surpreende na recriação do (novo) texto.
É o que faz o dicionário: tenta dar conta o mais ampla-

r:
mente possível das relações de significância das palavras.
Então ...
uma obra·prima da literatura nada mais é do que um dicioná·
rio em desordem.
(Jean Cocteau)

Objeto metalingüístico

..,j Não se pode negar que a página aqui é a sua própria

o significação: ela empresta a transparência de que precisamos


para atravessar esse humor amoroso de Oswald que Ornar
Khouri desenha. Isto significa que o canal é a página como

3 suporte, para esse signo transparente e, somente pelo toque


e suspensão da folha na luz, os dois sentidos, a visão e o ta-
to, são requisitados do fruidor para a compreensão, digamos,
desse objeto.
Objeto metalingüístico que opera em sintonia com o ca-
nal - função fática, portanto -, mas que é efeito de um
trabalho poético com a própria mensagem. A emoção poéti-
ca se acha na exclamação "ah!" vermelha e gigante, como
56

um flagrar interjetivo. Esse espanto próprio do que é estra-


nho - portanto, um objeto que surpreende pelo inusitado
uso do sensível da mensagem - carrega em si o princípio da
função poética já que, pelo olho tátil, expõe o lado palpável
8
do signo. Ora, esse olho tátil que toca o objeto é o do frui-
dor. Nesse sentido, o receptor participa com o gesto corpo-
. Vocabulário crítico
ral de suspender a página contra a luz - e através do círculo
da letra a e da letra o enxerga o outro lado do amor, o hu-
mor - ao mesmo tempo que co-labora no trabalho do emis-
sor. Função conativa, portanto.
Cruzamos na significação desse objeto textual as fun-
ções fática, conativa e poética, que sustentam, nuclearmen-
te, o que é mais significativo na composição impressa dessa
mensagem: sua concretude metalingüística. Analógica (lógica): associação e combinação de imagens, se-
Por que é um objeto metalingüístico? Tomemos código jam sonoras, visuais, verbais. Entrelaçam-se, por seme-
como linguagem e observemos que houve uma recriação, ou, lhanças, o signo apontador do objeto, intermediando
por outra, uma tradução do dístico interpretante- mas, essa analógica é pura surpresa, ade-
Amor re sentidos "nunca dantes navegados", desabitados de ter-
Humor ritórios sígnicos já cristalizados e reconhecidos.
Aquilo que se pode contar é simbólico, digitalizável, linear:
de Oswald de Andrade. O que Ornar Khouri fez foi outra
mensagem da mensagem. Eis aí a equivalência metalingüísti- princípio, meio e fim. Nosso alfabeto é digital, sim, mas
ca, onde o poema relâmpago oswaldiano é retomado como em vista de um espaço relaciona} os ''demônios tipográfi-
referência do objeto metalingüístico de O. Khouri. cos" [p/ b/ d/ q], por exemplo, são analógicos ... São pen-
samentos de formas.
A lógica analógica aproxima e relaciona paisagens de dis-
tantes arqueologias.
Cadeia significante: sob o ponto de vista da Lingüística e da
Semiologia, refere-se ao âmbito do sintagma, do que está
reunido e combinado, no nível do texto manifesto. Aspa-
lavras têm, entre si, nexos de ligação, encadeiam-se.
Sob o ponto de vista da psicanálise lacaniana, a concep-
ção não difere quando se trata de combinatória manifes-
ta. Mas a questão que aí se propõe é: o modo como o
sujeito, submetido a essa cadeia significante, é por ela
58 59

representado. O conceito de significante, para Lacan, temporal do sintagma. A palavra, enquanto símbolo me-
formula-se: "o significante representa um sujeito para ou- tonímico, é formada por partes dos sons, os fonemas. Na
tro significante", o que implica que o sujeito aí está - cadeia significante, as palavras relacionadas entre si são,
na cadeia- em substituição e deslocado, já que é o signi- na verdade, partes do léxico de uma língua. Metonímia é
ficante que o traça, marcando-o. um dps modos de pensar: deslocando continuamente o
Ícone: denominação de certa característica do signo que man- pensamento, deslocamento onde uma coisa se segue à ou-
tém relações de similaridade/analógicas com seu objeto, tra, seqüencialmente e numa combinatória linear.
segundo a Semiótica de Peirce. O signo icônico é um dos Para sermos mais exatos, o primeiro pensador dessas for-
princípios poéticos da linguagem, mas também a estrutu- mas foi Sigmund Freud quando apontou a condensação
ra da fotografia, cinema, escultura, equações algébricas, e o deslocamento nos processos oníricos. Segue-se Saus-
diagramas, arquitetura etc. são sistemas de sinais icônicos. sure, com as noções de paradigma e sintagma; e Peirce,
com as associações por similaridade e contigüidade - re-
Metáfora: podemos pensar a metáfora (também a metoní-
tiradas de David Hume.
mia) como figura retórica, mas a ampliação do conceito
Então, Roman Jakobson, o poeta da Lingüística, sistema-
é o que interessa, quando se trata de uma semiótica da ar-
tiza as noções de metáfora e metonímia em "Dois aspec-
te. Assim, a metáfora é um dos processos de associação
tos da linguagem e dois tipos de afasia''. (Lingüística e
por similaridade, um dos eixos da linguagem e uma das
formas - analógica - de inteligir sensivelmente os fenô- comunicação, Cultrix, São Paulo, 1969.)
menos do universo. Supõe capacidade de substituição, ope- Paradigma: na utilização da linguagem, uma das operações
rando por semelhanças, as mais longínquas. do usuário é a seleção dos elementos que compõem o pa-
Décio Pignatari, em seu clássico exemplo (em Comunica- radigma (ou modelo) daquele sistema. A escolha é feita
ção poética, Cortez & Moraes, São Paulo, 1977), aponta: entre várias alternativas que mantêm traços de similarida-
José é águia, onde a "semelhança não está nos próprios de entre si. Selecionar, escolher com base na operação de
signos, mas nas coisas ou objetos- no caso, uma pessoa semelhança, implica a capacidade de substituir.
e uma ave - designados por eles". Em seguida indica Ao paradigma corresponde o plano metafórico da lingua-
Aguilar é águia, mostrando a relação som-sentido, ou se- gem - pois a metáfora realiza-se com base substitutiva
ja, a paronomásia, que caracteriza o eixo da similarida- analógica ou similar, condensando a significação.
de, onde "há uma transposição ou tradução entre objetos, O termo código, assim como língua, equivale, num uso
para uma semelhança de sons entre os próprios signos que livre associativo, a paradigma.
designam esses objetos". Peirce chama de ícones os sig- Paronomásia: relações de significação do som; diz Valéry,
nos organizados por similaridade. "hesitação entre o som e o sentido", como elemento nu-
Metonímia: conceito que, prevalecendo no sintagma, na ca- clear e fundante de todo bom poema, que tece a gama de
deia significante, implica tomar a parte pelo todo. É uma plurivalências da instância sonora. A sonoridade de um
associação por contigüidade. Peirce chama de símbolos a texto, numa operação de mapeamento de sua textura, são
esses signos que se organizam na contigüidade linear e ondas ampliadas de significação: ritmo, corte, rimas,
60

repetições aliteradas, coliterações, resíduos de anagra-


mas etc.
Semiose: do grego semeion, aplica-se à noção de significa-
9
do, daí sema, semântica, disciplina que, exatamente, es-
tuda as relações de significado do signo. No entanto, Peirce Bibliografia comentada
aponta que "o significado de um signo é outro signo",
operação que é, fundamentalmente, do "interpretante".
Semiose é, então, uma produtividade contínua de cons-
trução dos sentidos sígnicos, tradução de um signo por ou-
tro, seja no mesmo código, seja atravessando um código
a outro. As imagens pictóricas do sonho - condensadas
ou deslocadas - sofrem uma "tradução", cujo efeito é
o relato do sujeito sonhante.
Sintagma: é já o efeito da operação de seleção, é a combina- CAMPos, Haroldo de. Ideograma Anagrama Diagrama; uma
ção, reunião dos elementos do paradigma em um contex- leitura de Fenollosa. In: - . Ideograma (Lógica Poesia
Linguagem). São Paulo, Cultrix, 1977.
to, a mensagem.
A característica dos elementos no sintagma é a contigüi- Nesse artigo, especialmente, Haroldo de Campos opera a
dade das seqüências, que apresentam elementos de nexos poeticidade da linguagem do ideograma: um texto de pra-
zer, capturando o Oriente.
entre elas - nexos de subordinação, ou nexos de coor-
denação. CHALHUB, Samira. A metalinguagem. São Paulo, Ática,
Corresponde, operativamente, à metonímia a capacidade 1986. (Série Princípios, 44.)
de ligar elementos, deslocá-los e seqüenciá-los. Nesse livro, a concepção de metalinguagem ultrapassa o
Também o sintagma pode ser associado, livremente, à modelo comunicacional e abrange a poética e a semióti-
mensagem e à fala (paro/e, para Saussure). ca. A junção poética e a metalinguagem são estudadas no
seu inter/intra-relacionamento, mais especificamente di-
rigidos à Literatura.
FERRARA, Lucrécia D' Aléssio. A estratégia dos signos. São
Paulo, Perspectiva, 1981.
A autora aborda, entre outros, a arquitetura como siste-
ma de sinal, apop-art, as concepções sobre a natureza da
arte - signos esses estrategicamente operados tanto pela
emissão, quanto pela posição do crítico-analítico-criador.
FREuo, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Rio de Janei-
ro, !mago, 1972. (Col. Standard Brasileira, v. 4 e 5.)
62 63

Para captar a Psicanálise - a da linguagem, através da linguagem e pensamento, sob a ótica do pensador semió-
operação de interpretação dos relatos dos sonhos que tico, Charles Sanders Peirce.
Freud fez. ScHNAIDERMAN, Bóris. Dostoievski Prosa Poesia. São Pau-
Essa obra responde, operacionalmente, à questão: como lo, Perspectiva, 1982.
ler um texto? Evidentemente, sob a ótica do crítico literá- O autor aborda, além do conceito operacionalizado de Po-
rio empenhado na busca do concreto da linguagem. lifonia no texto de Dostoievski, a reflexão acerca dos li-
JAKoBSON, Roman. Lingüística e comunicação. São Paulo, mites de gênero entre prosa e poesia através da concretude
Cultrix, 1969. da função poética no gênero narrativo.
São dois os artigos fundamentais para a compreensão das
funções da linguagem- "Lingüística e poética", onde Ja-
kobson opera no campo da Poética e "Dois aspectos da
linguagem e dois tipos de afasia", onde estuda o duplo
caráter da linguagem: a seleção e a combinação.
__ .Diálogos. São Paulo, Cultrix, 1985.
Como indica o título, são conversas nas quais o sábio rus-
so resume, em suma, a inter-relação das ciências com a
linguagem, onde esta é fundante e fundamental. Um livro
necessário e um texto de prazer.
ProNATARI, Décio. A metalinguagem da arte. Escrita,
n. 9, s.d.
Nesse artigo o autor usa o conceito amplo de metalingua-
gem, partindo da questão "o que é arte?", refletida sob
o ângulo das relações entre arte e ciência, tendo como pon-
to de partida a Revolução Industrial.
A tese proposta é de que a "metalinguagem artística ne-
cessariamente nasce do diálogo com as ciências e deriva
de noções científicas - estrutura, ritmo, equilíbrio, espa-
ço etc."
SANTAELLA, Maria Lúcia. Produção de linguagem e ideolo-
gia. São Paulo, Cortez, 1980.
Proponho sobretudo a leitura do capítulo "Apontamen-
tos para a questão do ícone; a dimensão do concreto", on-
de a autora trabalha a dialética signo e vida e a
manifestação da epifania, apontando as reflexões entre
Série Fundamentos
• Fundamentação teórica avançada, aprofundando a abordagem da matéria.
• Abordagem crítica e detalhada de um tema - ou conjunto de temas correlatos
- de uma determinada disciplina.
• Alguns dos mais destacados autores nacionais e estrangeiros de cada área.
• Subsídios para o acompanhamento de programa completo de uma disciplina.
Veja, agora, nossos últimos lançamentos:

38. Introdução à filosofia da arte 63. Os cláss1cos da políttca - Vol. 2


17. A llngua escrita no Brasil
Edith Pimentel Pinto Benedito Nunes Organizador: Franctsco C. Weffort
18. Cultura brasileira 39. História Geral e do Bras•! 64. Semtóttca e ftlosofia da linguagem
Temas e situações Francisco lg/ésias Umberto Eco
Alfredo Bosi 40. Classes soctais e movimento 65. Manual de radiOJOrnallsmo
operário Jovem Pan
1 9. Pensamento pedagóg1co Edgard Carone
brasileiro Maria Elisa Porchac
Moacir Gadotri 41. Estéttca da recepção e história da 66. Técnicas de codtftcaçâo em JOrnalismo
20. Constituições brasileiras e literatura Mflrio L. Erbolato
Cidadania Regma Zilberman 67. Análise estrutural de romances
Célia Galv6o Quirino & 42. Leitura brasileiros
Mana Lúcia Montes Perspectivas interdisctplmares Affonso Romano de Sant'Anna
21 . H1stóna da lingua portuguesa Regina Zllberman & Ezeqwe/ 68. Os métodos em sociologia
I. Séculos XII, XIII, XIV T. da Silva forgs.) Raymond Boudon
Amini Boamain Hauy 43. A natureza e a lógtca do 69. Htstória da indústria e do trabalho
22. História da língua portuguesa capitalismo no Brasil
11. Século XV e meados do Robert L He1/broner Victor Leonardi & Foot Hardman
70. A linguagem do corpo
Século XVI 44. g~~h-~~f~c~~[;~c~erbo inglês Pterre Gutfaud
Dulce de Faria Pa1va
23. História da lingua portuguesa 45. A 1deologta 71 Introdução à psicolingúísttca
111. Segunda metade do Raymond Boudon Leonor Scliar Cabral
século XVI e século XVII 46. Dramaturgia 72. Teoria semiótica do texto
Seg1smundo Spma A construção do personagem Diana Luz Pessoa de Barros
24. Históna da lingua portuguesa Renata Pallottim 73. A Revolução Francesa
Carlos Guilherme Mata
~;~~~~ ~edÓt!~~7r~a~;~d§o
IV. Século XVIII 47 8
Rolando Morei Pmto . 7 4 Etnomatemát1ca
25. História da língua portuguesa 48. Diretto e Just•ça Ubiratan O 'Ambrosio
V. Século XIX A função soc•al do Jud1c1ário 75. Freud
Nilce Sant 'Anna Martins José. Eduardo Fana (org.) Rotand Jaccard
26 H1stóna da língua portuguesa 49. Teona do romance 76. A escola de Frankfurt
VI Século XX Dona/do Schüler Paui-Laurent Assoun
Edtrh Ptmerirel Pmto 50. O roteinsta profissional 77. Brasil - anos de cnse ( 1930-1945)
27. Admtnistração estrafégica TV e cinema Edga_~d t;arone
Luis Ga1 Marcos Rey 78. L•nguistlca htstónca
28. A tragédia 51. Balanço de pagamentos e Carlos Albeno Faraco
Estrutura & históna divida externa 79. A filosofia contemporânea
Benedito Nunes
lJ':~aNf~~ad~;~;~;tte!édios
Paulo Sandroni
52. A estilística 80. Semiótica básica
29. DICIOnário de teoria da narrativa José Lemos Monteiro John Deely
Carlos Reis & 53. Revoluções do Brasil 81. História da política exterior do Brasil
Ana Cristma M. Lopes Contemporâneo ( 1922+ 1938) Amado Lwz Cervo e Clodoaldo Bueno
30. Introdução à economia Edgsrd Carone 82. lbn Khaldun
mundtal contemporânea 54. O significado da Segunda Yves Lacoste
Geraldo Müller Guerra Mundtal 84. Comictdade e riso
Ernest Mandei Vladímlf Propp
31. ~e~~~ ~u~;~rativa 55. Produção e transferência 85. Os marxismos depots de Marx
32. Classes, regimes e •deolog1as de tecnologia Pierre e Moniqúe Favre
Roberr Henry Srour José Carlos Barb1en 86. O romance polictal
33. AIDS 56. Marx Boi/eau+Narcejac
87. A literatura infanttl
~~~~tê~~~té~~ e~f;~r:agem
8 Pierre Fougeyrollas

Roberr J. Pratt
57. A violêncta
Yves Michaud 88. ~:~~rZ~~a~~t~~i~~~a
34. Sociologia do negro brasiletro 58. A superstição literatura mfantil/juventl
Clóvis Moura Françotse AskeVJs-Leherpeux Nelly Novaes Coelho.
35. Aprendizagem e 59. A agressão 89. N.ovos rumos em psicodrama
PlaneJamento de ensino Gabriel Moser Da/miro Manuel Bustos
Wtlson de Faria 60. Geografia das CIVilizações 90. Z:::NUCe~;~i'S~e;r~~ ~~z:~j~ 1951-1954
36. Sociolog•a da soc•ologia Rolsnd J. -L. Breton
Octavio lanni 61 . A enunc1açãq 91. A htstória da tamllia
37. A forl'!lação do Es~ado Jean Cervom James Casey
oopuhsta na Aménca Lattna 62 Os clássicos da polittca - Vol 1 92. Para uma geografia crittca na escola
Octav10 lanni Organizador: Franctsco C. Weffort José William Vesentim
O Impressionismo
Juan José Balz1
A Semana de Arte Moderna
Neide Rezende
sá't( A Revolução Mexicana
Marco Antomo Wla
pB.1NCíP10S Japão - Ontem e hoje
SergiO Bath
As Missões
Julio Ouevedo
O Príncipe - Roteiro de leitura
Januano Mega!e
Primeiras estórias - Roteiro
Como analisar narrativas de leitura
Când1do V1lares Gancho
Oãc10 Amômo de Castro
Inconfidência Mineira
Sonetos de Camôes -Roteiro
Când1da Vilares Gancho de leitura
Vera V1lhena de Toledo AntoniO Med1na Rodngues
O sistema colonial A rosa do povo & Claro
José Robeno Amaral Lapa enigma - Roteiro de leitura
A unificação da Itália Franc1sco ActlCar
John Gooch A ilustre Casa de Ramires- Roteiro
A posse da terra de leitura
Când1da Vilares Gancho José de Paula Ramos Jr
Helena Oue~roz F Lopes Construtivismo - De Piaget a
Vera Vilhena de Toledo Emilia Ferreiro
As origens da Primeira Guerra Mar~a da Graça Azenha
Mundial A Guerra Civil Espanhola
Ruth Hen1g Martm Bhnkhorn
As origens da Segunda Guerra A partilha da África
Mundial J M MacKen11e
Ruth Hemg Luis XIV
O Antigo Regime J H. Shennan
VVIham Doyle A Gue<ra dos Trinta Anos
Formação de palavras em S!ephen J Lee
português O Simbolismo
Valter Kehd1 Á~aro Cardoso Gomes
Maquiavelismo China - Entre o Oriente e o Ocidente
Sérg1o Balh Rogéno Haesbaen
APoética de Aristóteles A imagem da realeza
llg~a M1htz da Costa Marcos AntoniO Lopes
Conquista e colonização Guia prático do atfabetizador
da América espanhola Marlene Carvalho
Jorge LUIZ Ferre1ra
A literatura expressionista alemã
Vozes verbais Clâud1a Cavalcanti
Arrun1 Boa1na1n Hauy
O movimento operário norte-americano
A década de 50 - Populismo e Jorge Ferre~ra
metas desenvolvimentistas no Brasil
Marly Rodngues Palavra e discurso
Mar~a Aparecida Baccega
A década de 60 - Rebeldia,
contestação e repressão política A Revolução Científica
Mar~a Hekma Simões Paes P. M. Harman
A dé<ada de 70 - Apogeu e crise da Lutero e a Reforma alemã
ditadura militar brasileira Ke1th Randell
Nadme Haben Wittgensteín
A década de 80- Brasil: quando a João da Penha
multidão voltou às praças Imprensa alternativa
Mar~ Rodrigues R1valdo Ch1nem
Grande sertão: veredas- Roteiro A queda do Império
de leitura Marco Anton1o Wla
Kathnn Ho!zermavr Rosenf1eld