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MANUAL DE

PRÁTICA
PENAL 2ª FASE
do Exame de Ordem

 Principais peças
 Teses de defesa
 Provas passadas resolvidas, passo a passo 1ª EDIÇÃO
MANUAL DE PRÁTICA PENAL
2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 1
SOBRE NÓS
No começo, éramos menos de dez.

Após a alegria da aprovação, convidamos mais alguns


amigos. Aprovados, trouxeram os amigos dos amigos.

Desde então, o ciclo se repete. No início, conhecíamos


os aprovados pelos nomes. Hoje, não sabemos dizer
quantas são as histórias de sucesso.

Este manual foi escrito para que você, querido leitor,


em breve, esteja do lado de cá, ajudando as futuras
gerações após a sua aprovação.

Até o dia da vitória, conte com o nosso apoio.

O seu sucesso é imprescindível para que a nossa


corrente jamais acabe.

Assinado,

Apenas um elo.
SOBRE A 1ª EDIÇÃO
Comentamos todas as provas passadas, peças e ques-
tões. No entanto, em razão de um orçamento aperta-
do – não temos patrocinadores -, tivemos um limite de
cem páginas para a primeira edição. De coração partido,
tivemos de escolher quais peças estariam na primeira
edição. Optamos por uma de cada, e mais de uma das
principais. As questões, infelizmente, ficaram de fora.

Todavia, com este manual, o leitor tem o suficiente


para a aprovação na segunda fase do Exame de Ordem.
Apesar da limitação de páginas, conseguimos abordar o
que há de mais importante na preparação.

Muita atenção às teses de defesa cobradas nas provas


passadas. A FGV é repetitiva no que pede. Há mais de
dois mil anos, Sun Tzu já dizia: conheces teu inimigo e co-
nhece-te a ti mesmo; se tiveres cem combates a travar,
cem vezes será vitorioso. Quem conhece as provas pas-
sadas do Exame de Ordem está mais próximo da apro-
vação. Por esse motivo, fizemos um levantamento de
tudo o que já caiu como tese de defesa (ou acusação).

Também fizemos um resumo ensinando quais são as


principais peças de prática penal. Embora, em um pri-
meiro momento, a maior preocupação do examinando
diga respeito à identificação da peça cabível, você, lei-
tor, perceberá que o reconhecimento da peça a ser feita
é tarefa fácil. Isso porque as peças não se confundem.
Cada uma tem um momento processual específico e
um objetivo a ser buscado.

Por fim, a cereja do bolo: como resolver as provas passa-


das do Exame de Ordem, passo a passo. Consideramos
a parte mais importante deste manual. Ao longo desses
anos, descobrimos alguns erros sempre presentes nas
provas de quem fez as edições passadas do Exame de
Ordem. Para que isso não volte a ocorrer, atenção às
dicas trazidas nos comentários, a cada trecho dos mo-
delos elaborados.

3
A ESCOLHA DO
VADE-MÉCUM
Para a solução das provas passadas, decidimos uti-
lizar apenas o vade-mécum, afinal, o leitor não terá
o Google ou outras facilidades na segunda fase do
Exame de Ordem. O nosso escolhido foi o da Editora RT,
10ª edição, de 2018, para a OAB e concursos – aquele
das carinhas.

Entretanto, a escolha não foi por acaso. Como ninguém


gosta de sofrer por não encontrar um determinado as-
sunto no vade-mécum, fizemos um levantamento das
principais publicações do mercado. O procedimento foi
o seguinte: fizemos o sorteio de algumas provas pas-
sadas e, com os enunciados impressos, procuramos as
livrarias mais próximas de nossas casas. Por lá, havia os
seguintes vade-mécuns:

Vade-Mécum OAB - Saraiva - 16ª edição - 2018.

Vade-Mécum Penal - Saraiva - 2ª edição - 2018.

Vade-Mécum Penal - JusPodivm - 3ª edição - 2018.

Vade-Mécum OAB e Concursos - RT - 10ª edição - 2018.

Vade-Mécum Universitário - Rideel - 24ª edição - 2018.

Vade-Mécum Blog Exame de Ordem - Rideel - 2018.

Vade-Mécum Concursos/OAB - Método - 5ª edição - 2018.

Resolvemos as provas selecionadas com cada um dos


vade-mécuns da lista, e o da RT demonstrou ser o me-
lhor, com as remissões mais úteis. Tivemos a impressão
de que os organizadores fizeram um levantamento das
primeiras provas da FGV ao elaborá-lo. Contudo, mes-
mo no escolhido, encontramos alguns problemas.

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Enquanto elaborávamos este texto, a Rideel passou
a oferecer o vade-mécum missioneiro, do professor
Nidal. Tivemos a oportunidade de conversar com ele a
respeito da publicação e, aparentemente, é melhor do
que o da RT, utilizado neste manual – mas, como ain-
da não está disponível, não o adotamos, por enquan-
to. A JusPodivm também lançou um novo vade-mécum
para a OAB. Pela descrição trazida no site, parece trazer
algumas novidades, mas não tivemos como analisá-lo.
Talvez, em uma próxima edição do manual.

Portanto, a nossa conclusão, por enquanto, é a seguin-


te: dos vade-mécuns analisados, o da Editora RT é, sem
dúvida alguma, o melhor do mercado. Exceto em um
momento ou outro, não tivemos dificuldade para resol-
ver as provas passadas com ele. Todavia, pelas informa-
ções dadas pelo professor Nidal, o vade-mécum por ele
lançado será o melhor para o XXVII Exame de Ordem,
pois solucionou – segundo ele - problemas graves dos
demais vade-mécuns, a exemplo da falta de um índice
remissivo nas Súmulas do STF e do STJ.

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OS ERROS MAIS COMUNS
NO EXAME DE ORDEM
Em todas as provas, alguns erros se repetem em nos-
so grupo de estudos. Para que o leitor não repita esses
mesmos erros, os dez mandamentos da segunda fase
do Exame de Ordem:

1º. Mencione o juízo, a comarca ou o Estado do enun-


ciado: se o enunciado disser que o processo está tra-
mitando na 1ª Vara Criminal da Comarca de Vila Bela
da Santíssima Trindade/MT, qualquer peça deverá ser
a ela endereçada, com todos esses dados, e não à 1ª
Vara Criminal da Comarca ... ou XXX.

2º. Não corrija a incompetência no endereçamento:


se o processo está correndo em uma vara da Justiça
Estadual, mas a competência é da Justiça Federal, en-
derece a peça ao juízo incompetente e, como tese, sus-
tente a incompetência. Se, no exemplo, a peça estiver
endereçada à Justiça Federal, o juiz federal não saberá
o que fazer com a sua petição, afinal, não há nenhum
processo com ele.

3º. Não faça uma peça desorganizada: imagine ter de


corrigir dezenas ou centenas de peças. Em algum mo-
mento, o examinador ficará cansado e não empreende-
rá muito esforço para entender a sua resposta. Em con-
sequência, quem fizer uma peça desorganizada sofrerá,
provavelmente, prejuízos à nota por erro de correção.
Facilite a vida do examinador e evite erros de correção
em sua peça.

4º. Não faça hieróglifos em sua peça: embora a tia


do jardim de infância se esforçasse para entender gar-
ranchos, não espere a mesma postura do examinador.
Perdemos as contas das histórias de reprovação por
não ter o examinador compreendido o que o examinan-
do quis dizer.

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5º. Não escreva com outras palavras o que está escrito
na lei, em Súmula ou no enunciado: o Exame de Ordem
não é o ambiente para momentos de criatividade. Se
a lei fala em diminuição, diga diminuição em sua peça,
e não em redução ou outro sinônimo. Entenda: o exa-
minador utilizará no gabarito as mesmas palavras da
fundamentação por ele adotada. Não há como pontu-
ar sinônimos. Em uma prova passada, um examinando
decidiu substituir exclusão da ilicitude por extinção da
ilicitude. O motivo: não repetir o que diz a lei para não
parecer que simplesmente copiou o que está no vade-
-mécum. A consequência: recebeu zero no quesito. No
entanto, no Exame de Ordem, o que se pontua é exata-
mente o uso das mesmas palavras da lei, ou Súmula ou
do próprio enunciado do problema.

6º. Fale tudo em duplicidade: este erro é clássico quan-


do o assunto é reprovação. Em algumas peças (ex.: me-
moriais), o gabarito da FGV tem uma peculiaridade:
tudo o que é dito no do direito também é pontuado no
do pedido¸ em duplicidade. Se houver um quesito para
a absolvição no do direito, outro igual estará no do pe-
dido. No XXIII Exame de Ordem, por exemplo, a absol-
vição foi pontuada no quesito n.º 4-A, avaliado em três
décimos, e no quesito 11.1, avaliado em um décimo.
Portanto, quem pediu a absolvição somente no do pe-
dido, recebeu apenas um décimo. Para receber todos
os quatro décimos, também deveria ter falado da ab-
solvição no do direito. O lado bom disso: ao identificar
um pedido, o examinando tem dois quesitos do gabari-
to garantidos.

7º. Sustente todas as teses favoráveis: outro clássico


da reprovação. Quando é publicado o gabarito, muitos
dizem: percebi a tese X, mas não a aleguei por pensar
que estava errada. Sempre que perceber alguma tese,
alegue-a. Se ela não estiver no gabarito, nenhum ponto
será perdido. O problema é se a tese estiver no gabarito
e o examinando não a sustentar, quando a pontuação
será perdida.

7
8º. Aprenda a contar prazos: em uma prova passada,
um examinando estava perguntando qual é a melhor
técnica para saber em qual dia da semana caiu uma de-
terminada data. Outro perdeu noites de sono memori-
zando quais foram os anos bissextos da última década.
Não há motivo para isso. Entenda: os dias da semana só
existem quando a banca os mencionar no enunciado.
Se a banca disser que o dia 4 de fevereiro foi uma se-
gunda-feira, considere a informação como verdadeira.
Por outro lado, se dito que a intimação ocorreu no dia
4 de fevereiro, mas sem qualquer menção ao dia da se-
mana, a contagem deverá considerar que não existe dia
da semana. Outro erro em relação ao prazo se dá em
peças com prazos diversos para a interposição e para as
razões, a exemplo da apelação. Ao interpor uma apela-
ção, a data das duas peças (interposição e razões) deve
ser a mesma, e não o prazo de cinco dias para a interpo-
sição e oito para as razões. Entenda: é possível interpor
a apelação em um dia e juntar as razões em outro (por
isso o CPP prevê os dois prazos). Contudo, no Exame de
Ordem, as duas estão sendo oferecidas no mesmo dia,
no mesmo ato, devendo a data ser igual.

9º. Leia tudo a respeito da tese defendida: se o cliente


foi condenado pelo crime de furto, por exemplo, leia
tudo a respeito do art. 155 do CP – inclusive as remis-
sões. Isso porque a resposta pode estar em alguma
Súmula do STF ou do STJ, cuja remissão foi feita após
o dispositivo. Ademais, leia as disposições gerais a res-
peito do delito. No furto, por exemplo, nas disposições
gerais (CP, arts. 181, 182 e 183), há até causas de isen-
ção de pena.

10º. Saiba utilizar o índice alfabético-remissivo: o


índice remissivo é um Google em seu vade-mécum.
Com ele, é possível encontrar com facilidade qualquer
tema em suas mais de duas mil e quatrocentas páginas
(no caso do vade-mécum da RT, utilizado na elabora-
ção deste manual). Se, em algum momento da prova,
o leitor passar a chacoalhar o vade-mécum em busca
de resposta, como quem tortura alguém em busca de
confissão, pare tudo e respire fundo. Não há como en-
contrar a resposta com a leitura, página por página, do
vade-mécum. Sem o índice remissivo, é impossível loca-
lizar as respostas.
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I. COMO
IDENTIFICAR A
PEÇA CABÍVEL
Um dos maiores receios de quem inicia o preparo para a segunda fase do Exame de Ordem é a cor-
reta identificação da peça cabível. A preocupação é justa, afinal, ao errar a peça, não há como evitar
a reprovação.

Todavia, em prática penal, confundir as peças é algo praticamente impossível. Dizemos isso por-
que, em regra, a FGV pede um pequeno grupo de peças – as principais -, e cada uma destas peças
tem um momento processual específico, inconfundível. Vejamos quais foram as peças cobradas nas
provas passadas:

Exame de Ordem 2010.2: resposta à acusação.

Exame de Ordem 2010.3: recurso em sentido estrito.

IV Exame de Ordem: pelação.

V Exame de Ordem: apelação.

VI Exame de Ordem: relaxamento da prisão em flagrante.

VII Exame de Ordem: apelação.

VIII Exame de Ordem: resposta à acusação.

IX Exame de Ordem: memoriais.

X Exame de Ordem: revisão criminal.

XI Exame de Ordem: recurso em sentido estrito.

XII Exame de Ordem: apelação.

XIII Exame de Ordem: apelação.

XIV Exame de Ordem: memoriais.

XV Exame de Ordem: queixa-crime.

XVI Exame de Ordem: agravo em execução.

MANUAL DE PRÁTICA PENAL


2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 9
XVII Exame de Ordem: memoriais.

XVIII Exame de Ordem: apelação.

XIX Exame de Ordem: contrarrazões de apelação.

XX Exame de Ordem: memoriais.

XXI Exame de Ordem: resposta à acusação.

XXII Exame de Ordem: apelação.

XXIII Exame de Ordem: memoriais.

XXIV Exame de Ordem: agravo em execução.

XXV Exame de Ordem: na prova nacional, resposta à acusação; na reaplicação,


em Porto Alegre/RS, apelação.

XXVI Exame de Ordem: memoriais.

Com base no levantamento anterior, é possível perceber que a banca sempre cobra as mesmas
peças. A apelação foi cobrada em sete edições da prova (oito, se considerarmos quando caiu na
forma de contrarrazões). Memoriais, seis vezes (sete, se incluída a reaplicação em Porto Velho/RO).
Contudo, não se trata de coincidência. A FGV sempre pede as peças que comportam o maior núme-
ro possível de teses – portanto, mais difíceis. Para as provas futuras, isso não deve mudar. Dizemos
isso porque, quando a banca quer fazer uma prova realmente difícil, ela exagera no número de teses
que devem ser sustentadas, mas cobra as peças principais, que são as que, de fato, comportam plu-
ralidade de teses. Veja os seguintes exemplos:

(a) Carta testemunhável: a peça nunca caiu em uma segunda fase. É cabível quando, interposto
um outro recurso, o juízo recorrido indefere a remessa deste recurso à instância superior.
Ou seja, tudo o que o examinando tem de fazer é demonstrar que o recurso anteriormente
interposto obedece ao que a lei determina (tempestividade, legitimidade etc.). Se o recurso
denegado foi um recurso em sentido estrito, basta a leitura dos arts. 581 a 591 do CPP para
localizar a resposta.

(b) Memoriais: a banca pode pedir diversas nulidades (na citação, na audiência etc.), causas
de extinção da punibilidade (ex.: prescrição), várias teses de mérito (crime impossível, erro
de tipo etc.) e teses de excesso na punição (pena-base no mínimo legal, atenuantes, afas-
tamento de majorantes, sursis etc.). Portanto, se a FGV quiser fazer uma prova realmente
difícil, optará por memoriais, que comporta as mais diversas teses, e não por uma peça
desconhecida, como a carta testemunhável, que não tem muito o que ser pedido.

Para a identificação da peça cabível, o leitor deve, antes de mais nada, identificar o rito processual
trazido no problema. Geralmente, a banca traz o rito comum, aplicável a praticamente todos os de-
litos (roubo, furto, estupro etc.). Veja o seguinte exemplo:

No dia 1º de janeiro de 2018, João foi preso em flagrante pela prática do crime de roubo.

Na lavratura do auto de prisão em flagrante, a autoridade policial não permitiu a comunicação do


preso com seu advogado.

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 10
Peças cabíveis: o relaxamento da prisão em flagrante, por existir ilegalidade no flagrante. O objeti-
vo é demonstrar a ilegalidade da prisão e assegurar a soltura de João. Se o flagrante estivesse dentro
da legalidade, mas ausentes os requisitos da prisão preventiva, a peça seria a liberdade provisória,
onde seria sustentada a ausência dos requisitos para a conversão do flagrante em preventiva.

Concluído o inquérito policial, o Ministério Público ofereceu denúncia contra João pela prática do
delito de roubo.

A denúncia foi recebida e João foi citado para se manifestar.

Peça cabível: por ter sido citado, trata-se da primeira defesa a ser oferecida no processo. Ou seja,
resposta à acusação, em que o examinando deve buscar vícios processuais (especialmente, no rece-
bimento) e a absolvição sumária.

Recebida a resposta à acusação, o juiz designou data para a realização da audiência de instrução
e julgamento. Concluída a audiência, as partes deveriam ter oferecido, oralmente, suas alegações
finais. No entanto, em razão da complexidade do caso, o magistrado preferiu as alegações finais
por escrito.

Peça cabível: em regra, as alegações finais devem ser oferecidas oralmente. Todavia, em alguns
casos, isso não é possível – imagine, por exemplo, um processo com dez réus. Para essas situações,
o juiz permite as alegações finais por escrito, ou por memoriais. Em memoriais, o examinando deve
buscar tudo o que for favorável ao acusado: teses de falta de justa causa, nulidades, causas de ex-
tinção da punibilidade e, subsidiariamente, em caso de condenação, benefícios referentes à pena a
ser aplicada.

Recebidos os memoriais, o juiz condenou João pela prática do delito de roubo.

Peça cabível: sempre que o enunciado tratar de uma decisão de juiz de primeira instância, veja se
não é o caso de recurso em sentido estrito (CPP, art. 581). Caso a decisão do magistrado não esteja
no rol de hipóteses, que é taxativo, faça apelação. Em apelação, temos uma situação mais confortá-
vel em relação aos memoriais. Isso porque, em memoriais, ainda não sabemos o que o juiz decidirá.
Por isso, devem ser pedidas todas as teses possíveis. Em apelação, no entanto, o enunciado traz a
decisão do juiz, bastando rebater o que diz a sentença. Ou seja, o enunciado da peça já diz quais
são as teses de defesa que devem ser sustentadas. Ademais, se o problema disser que a outra parte
ofereceu apelação ou outro recurso (RESE, agravo em execução etc.), o examinando deve oferecer
contrarrazões ao recurso interposto, em exercício do contraditório.

A apelação foi julgada pelo Tribunal de Justiça, que manteve a condenação do réu.

Peças cabíveis: da decisão do TJ (ou do TRF), em julgamento por acórdão, há mais de uma peça cabí-
vel, a depender do caso proposto. Pode ser o caso de recurso extraordinário ou de recurso especial,
por exemplo, que nunca caíram. O objetivo será sempre a reforma do acórdão em benefício do réu.
Entretanto, cada um desses recursos tem como fundamento diplomas legais diversos.

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 11
A sentença condenatória transitou em julgado. Durante a execução da pena, foi proferida decisão
pelo juízo da execução penal, em desfavor do apenado.

Peça cabível: das decisões do juízo de execução penal, apenas o agravo em execução é cabível.
Não há outra peça a ser oferecida. O objetivo da peça é fazer com que algum benefício da execução
da pena seja assegurado ao condenado (ex.: progressão de regime).

Durante a execução da pena, descobriu-se uma filmagem, em que é visto Francisco praticando o
roubo, sem qualquer envolvimento de João.

Peça cabível: após o trânsito em julgado da sentença condenatória, só é possível voltar a discutir o
mérito do processo por revisão criminal. Nela, o examinando deverá buscar o que é de direito do
condenado – que pode ser a absolvição ou a aplicação de alguma causa de diminuição, por exemplo.

Portanto, veja que cada peça do rito comum tem um momento adequado e um objetivo específico.
Se o enunciado descrever que houve audiência de instrução e julgamento, a peça não será a respos-
ta à acusação. Por outro lado, se houver decisão do Tribunal de Justiça, não caberá apelação. Enfim,
as peças não se confundem. Cada uma é cabível em um determinado momento processual.

O Tribunal Transitada em
Realizada audiência de julgou o caso: julgado a sentença
Prisão em flagrante:
instrução e julgamento, recurso especial, condenatória, o
relaxamento ou
mas não há sentença: recurso extraordinário condenado quer
liberdade
memoriais e mais algumas rediscutir o mérito:
peças revisão criminal

A pena está em
Denúncia oferecida execução e algum
Há sentença
e recebida pelo juiz e benefício foi denegado
condenatória:
o réu citado: pelo juiz competente:
apelação
resposta à acusação agravo em
execução

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 12
Há outras peças que devem ser estudadas (ex.: carta testemunhável), mas apenas por descargo de
consciência, caso a FGV venha a cobrá-las. Todavia, do rito comum, as principais peças são as apon-
tadas no esquema acima.

Dentre os ritos especiais, um com grande chance de cair é o rito do júri. A maior dificuldade deste
procedimento é por ser dividido em duas fases – a primeira, de instrução, e a segunda, perante o
Tribunal do Júri, com Conselho de Sentença, para julgamento. Contudo, as peças também não se
confundem. Veja o exemplo a seguir.

No dia 1º de janeiro de 2018, João dispara tiros contra Mário, causando a sua morte. João é preso
em flagrante.

Peças cabíveis: seja qual for o rito, se o problema descrever apenas a prisão em flagrante, as pe-
ças cabíveis serão o relaxamento da prisão em flagrante e a liberdade provisória. Poderia ser um
habeas corpus, mas a banca nunca pediu a peça – talvez por não ser privativa de advogado. Ademais,
em uma hipótese mais complexa, poderia ser o caso de recurso em sentido estrito ou de recur-
so ordinário constitucional, mas vimos com mais calma a discussão no tópico sobre os resumos.
De qualquer forma, o objetivo sempre será o mesmo: a soltura da pessoa presa.

Concluído o inquérito policial, o Ministério Público ofereceu denúncia contra João, pela prática do
delito de homicídio. João foi citado para oferecer a defesa cabível.

Peça cabível: por ser a primeira defesa do processo, João deve oferecer resposta à acusação, da mes-
ma forma como ocorre no rito comum.

Realizada a audiência de instrução, o juiz proferiu sentença de pronúncia.

Peças cabíveis: ao final da primeira fase do rito do júri, o juiz tem quatro opções: (a) absolver su-
mariamente; (b) impronunciar; (c) pronunciar; e (d) desclassificar para outro delito – inclusive,
não doloso contra a vida, quando o juiz do júri passa a ser incompetente. Como já explicado, sempre
que houver decisão de juiz de primeira instância, deve ser verificado se não é hipótese de recurso
em sentido estrito. A pronúncia e a decisão que conclui pela incompetência do juízo (na desclassifi-
cação) estão expressas no art. 581 do CPP, nos incisos II e IV. As duas outras decisões, a impronúncia
e a absolvição sumária, não estão no rol, e devem ser atacadas, portanto, por apelação. Na primeira
fase do rito do júri, o objetivo é evitar que o réu seja julgado pelo Tribunal do Júri (segunda fase).

João foi julgado e condenado pelo Conselho de Sentença.

Peça cabível: da decisão do Conselho de Sentença, no Tribunal do Júri, a única peça cabível é a ape-
lação, que pode ter por objetivo a realização de um novo julgamento ou a correta aplicação da pena
ao condenado.

No rito do júri, o examinando deve estar atento às fases. Na primeira, em que pode existir até de-
cisão do Tribunal de Justiça (ou do TRF), na hipótese, por exemplo, de julgamento de recurso em
sentido estrito contra a pronúncia, as peças cabíveis são as mesmas do rito ordinário, exceto contra

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1ª EDIÇÃO
I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 13
a decisão do juiz, que comporta apelação e recurso em sentido estrito. Na segunda fase, não tem
segredo: cabe apenas apelação contra a decisão do Conselho de Sentença. De resto, é tudo igual:
se a decisão for do juízo da execução penal, agravo em execução; se o objetivo é voltar a discutir o
mérito, revisão criminal.

1ª fase do rito do júri:

O TJ ou TRF julga a Transitada em


Realizada a audiência,
apelação ou o recurso julgado a sentença
Prisão em flagrante: o juiz não profere
em sentido estrito: condenatória,
relaxamento e decisão, mas abre
recurso especial, o condenado quer
liberdade provisória prazo às partes:
extraordinário ou rediscutir o mérito:
memoriais
outras peças revisão criminal

Em execução penal
Realizada a audiência
por crime doloso contra
Denúncia oferecida e e ouvida as partes,
a vida, algum benefício
recebida e o réu citado: o juiz decide:
é rejeitado pelo juízo das
resposta à acusação apelação ou recurso
execuções penais: agravo
em sentido estrito
em execução

Além das peças mencionadas, outras situações podem surgir. Se o enunciado descrever a prática de
um delito sem que tenha havido o oferecimento de denúncia ou queixa, e estando o examinando
na posição de acusação, pode ser o caso de queixa-crime. Na Lei de Drogas e no rito dos crimes
funcionais, há a defesa prévia (Lei n.º 11.343/06) e a defesa preliminar (CPP, art. 514), que devem
ser apresentadas após o oferecimento da denúncia, mas antes do seu recebimento, e têm como
objetivo convencer o juiz a não receber a petição inicial. De qualquer forma, seja qual for a peça,
não há como confundi-las. Para que o leitor se sinta mais seguro, a seguir, elaboramos um resumo
das possíveis peças para a próxima segunda fase. Ademais, sugerimos que busque resolver todas as
provas passadas, para melhor assimilar o cabimento das peças de prática penal.

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 14
PRINCIPAIS PEÇAS DE PRÁTICA PENAL

1. FASE PRÉ-PROCESSUAL
Considere como fase pré-processual todos os momentos anteriores ao recebimento da denúncia ou
queixa. Entenda: quando alguém (ex.: Ministério Público) oferece uma petição inicial, buscando a
condenação de alguém, o juiz pode ou não a receber. O recebimento é, portanto, a decisão em que
o juiz diz que a petição inicial oferecida está dentro do que manda a lei, com fundamento no art. 395
CPP. Vez ou outra, a lei exige do leitor a distinção de oferecimento para recebimento. No art. 25 do
CPP, é dito que a representação é retratável até o oferecimento da denúncia. Já o arrependimento
posterior (CP, art. 16), causa de diminuição de pena, é possível até o recebimento da denúncia ou
queixa. Na fase pré-processual, por não existir ação penal em andamento, o seu objetivo jamais será
a absolvição do acusado.

1.1. Relaxamento da prisão em flagrante e liberdade provisória


O relaxamento foi a peça cobrada no VI Exame de Ordem. Das peças possíveis para uma segunda
fase, é das mais fáceis. Isso porque tudo se resume a demonstrar que a prisão em flagrante foi ilegal
e que, por isso, o cliente deve ser solto. Atualmente, com a realização das audiências de custódia,
é uma peça sem muita serventia – se, na audiência, o juiz fizer a conversão do flagrante em preven-
tiva, deverá ser impetrado habeas corpus contra a decisão ao tribunal competente. De qualquer
forma, se a FGV voltar a exigir o relaxamento, provavelmente será descrita situação em que a pessoa
está presa há vários dias, sem que tenha havido audiência de custódia ou encaminhamento do auto
de prisão em flagrante ao juiz competente.

Como identificar: o problema descreverá situação em que o cliente foi preso em flagrante, e nada
mais será dito. Não há denúncia, audiência, sentença. Não há nada, apenas a prisão em flagrante.

Como não confundir com a liberdade provisória: o relaxamento da prisão em flagrante é a peça
cabível contra a prisão em flagrante ilegal. E como chegar a tal conclusão? A prisão em flagrante é
disciplinada nos artigos 301 a 310 do CPP. Se o enunciado contrariar algum dos dispositivos men-
cionados, não haverá dúvida de que a prisão em flagrante é ilegal. Também pode ser indicada a
ilegalidade em razão de falta de justa causa (ex.: prisão por fato atípico). Por outro lado, se o enun-
ciado não mencionar qualquer ilegalidade, mas descrever que o preso tem residência fixa, trabalha,
é primário – enfim, não oferece qualquer risco ao que se tutela no art. 312 do CPP -, a peça será a
liberdade provisória.

Base legal: art. 310, I, do CPP e art. 5º, LXV, da CF.

Objetivo: a reta final é alcançada com a soltura do cliente preso. Não é a hora de falar em absolvição
ou em pena a ser aplicada em caso de condenação. Tudo o que se busca é a soltura em razão da ile-
galidade da prisão em flagrante – ou ausência dos requisitos da preventiva, na liberdade provisória.

Teses de defesa: em relaxamento, a tese é a ilegalidade da prisão em flagrante, que pode ser formal,
quando violado o procedimento do flagrante - por exemplo, o encaminhamento do auto de prisão
em flagrante à Defensoria Pública, previsto no art. 306, § 1º, do CPP -, ou material, quando o mérito
da situação tem relevância. Exemplo: no flagrante preparado, a Súmula 145-STF entende que se
trata de crime impossível (CP, art. 17).

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 15
Prazo: não existe. Enquanto o cliente estiver preso, é possível o relaxamento.

Endereçamento: ao juiz da vara criminal. Se o problema nada disser, use a fórmula genérica: Vara
Criminal da Comarca ... ou XXX. Fique atento à competência da Justiça Federal – quando a peça
deverá ser endereçada ao Juiz Federal da Vara Criminal da Seção Judiciária ... ou XXX – e à compe-
tência do júri – hipótese em que a peça será endereçada à Vara do Júri ou à Vara do Tribunal do Júri,
que pode ser federal ou estadual.

Alvará de soltura: sempre que o cliente estiver preso, e a sua tese disser respeito à soltura, peça a
expedição de alvará de soltura. É o meio pelo qual ele poderá ser solto.

Relaxamento e liberdade provisória: um problema de nomenclatura. Durante todos esses anos, não
houve uma única prova em que algum examinando não tenha perguntado em nosso grupo a respei-
to da distinção dessas nomenclaturas. Entenda: sempre que uma prisão for ilegal, deverá ocorrer o
seu relaxamento (CF, art. 5º, LXV). Portanto, relaxar uma prisão significa cassá-la em razão de algu-
ma ilegalidade. Isso pode ocorrer em qualquer momento processual e em todas as peças. Em um
habeas corpus, por exemplo, por excesso de tempo na prisão, busca-se o relaxamento da prisão.
Ocorre que, na prática penal, criou-se uma peça de mesma nomenclatura: o relaxamento da prisão
em flagrante, cabível, como o próprio nome já diz, contra a prisão em flagrante, e tem como objetivo
o relaxamento de uma prisão ilegal. A mesma situação ocorre com a liberdade provisória. Dizemos
em liberdade provisória a pessoa que aguarda, em liberdade, o julgamento do seu processo. É possí-
vel requerê-la em qualquer momento processual, em várias peças, desde que ausentes os requisitos
da prisão preventiva (CPP, art. 312). Na prática penal, há uma peça intitulada liberdade provisória,
cabível contra a prisão em flagrante, onde, o que se busca, é a concessão da liberdade provisória.

Liberdade provisória com ou sem fiança: outra dúvida muito comum é em relação a pedir ou não
o arbitramento de fiança em liberdade provisória. Sobre o tema, não há mistério: leia os arts. 323
e 324 do CPP, que tratam das situações em que a fiança não é cabível. Quando não for vedada,
será permitida, devendo ser pedida. Simples assim.

Relaxamento, liberdade provisória, habeas corpus, recurso em sentido estrito e recurso ordiná-
rio constitucional. Uma situação que muito nos preocupa é a confusão em relação a essas peças.
Isso porque, no art. 581, X, do CPP, está previsto que cabe recurso em sentido estrito da decisão
denegatória de habeas corpus. Acontece que, para que seja cabível o RESE, a decisão em habeas
corpus tem de ter sido proferida, necessariamente, por juiz de primeiro grau. Se quem decidiu o
HC foi o TJ ou o TRF, não caberá RESE ao STJ (o RESE só é julgado por TJ ou TRF). Portanto, se tiver
havido prisão em flagrante ilegal ou ausentes os requisitos da preventiva, se houver decisão do juiz
de primeiro grau denegando o HC, deve ser interposto recurso em sentido estrito. Caso esse mes-
mo juiz tenha denegado o HC e, em decisão ao julgar o recurso em sentido estrito, o TJ ou o TRF
tenha negado provimento ao RESE, a peça cabível será o recurso ordinário constitucional, ao STJ (CF,
art. 105, II, a). Por fim, se tiver sido impetrado HC ao TJ ou ao TRF ou, até mesmo, ao STJ, existindo
decisão denegatória, o recurso será o recurso ordinário constitucional, com razões endereçadas à
instância superior. A tese, no entanto, sempre será a mesma: a ilegalidade da prisão ou a ausência
de requisitos da preventiva, como seria em um relaxamento da prisão em flagrante ou em uma li-
berdade provisória.

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1ª EDIÇÃO
I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 16
Estrutura básica da peça:

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da ... Vara Criminal da Comarca ...,

No endereçamento, muita atenção ao juízo competente. Cuidado com a competência da Justiça


Federal e do Tribunal do Júri, nos crimes dolosos contra a vida. Além disso, veja se o enunciado não
faz menção a alguma vara específica (ex.: Vara de Proteção à Mulher Vítima de Violência Doméstica).

Nome ..., estado civil ..., profissão ..., residente no endereço ..., vem, por seu advogado, requerer o
Relaxamento da Prisão em Flagrante, com fundamento no art. 310, I, do Código de
Processo Penal, e no art. 5º, LXV, da Constituição, pelas razões a seguir expostas:

Por não existir um processo em trâmite, o cliente deve ser qualificado. Jamais invente dados.

I. DOS FATOS

(...)

No tópico dos fatos, faça apenas um resumo do enunciado. Não é o momento para sustentar teses
de defesa.

II. DO DIREITO

(...)

No tópico do direito, se houver mais de uma tese a ser sustentada, divida-o em subtópicos (ex.: preli-
minar de nulidade, falta de justa causa por erro de tipo etc.). A FGV tem tradição em errar ao corrigir
as peças. Apesar de o examinando ter dito o que consta no gabarito, a pontuação não é atribuída –
já vimos situações em que, mesmo após os recursos, a banca manteve o erro de correção. Por isso,
quanto mais fácil de encontrar as teses em sua peça, menor será o risco de o examinador errar ao
corrigir a sua prova.

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1ª EDIÇÃO
I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 17
III. DO PEDIDO

Diante do exposto, requer o relaxamento da prisão em flagrante, em razão nulidade do auto de


prisão em flagrante, e a expedição do alvará de soltura.

No VI Exame de Ordem, o gabarito exigiu que fosse pedido o relaxamento em razão da nulidade
(ou ilegalidade) da prisão em flagrante e a expedição de alvará de soltura.

Comarca ..., data ....

Advogado ..., OAB....

Jamais invente dados no fechamento da peça. Quando for o caso, atenção à data. É comum a banca
pedir para que a peça seja oferecida no último dia de prazo.

1.2. Queixa-crime
Foi a peça do XV Exame de Ordem. Por ser uma peça de acusação, muitos dos participantes do gru-
po tiveram dificuldade com peculiaridades que não existem em peças típicas da defesa. Para que o
leitor não perca pontuação nas pegadinhas da queixa, cuidado: (a) devem ser qualificados o quere-
lante (autor da ação) e o querelado (quem praticou a infração penal); (b) deve ser mencionada a pro-
curação com poderes especiais, com fundamento no art. 44 do CPP; (c) ao tipificar a conduta (ou as
condutas) praticada pelo querelado, explique o porquê de ter concluído pela prática de determinado
crime; (d) procure tudo o que for prejudicial ao querelado (qualificadoras, motivos para aumento da
pena-base, agravantes e majorantes); (e) nos pedidos, requeira o recebimento da queixa, a citação
do querelado e a sua condenação e a fixação de indenização.

Como identificar: o problema descreverá a prática de um delito de ação penal privada, sem que
exista qualquer medida judicial em andamento. Não existe queixa, citação, audiência, sentença,
acórdão. Não há nenhum procedimento em trâmite. Ademais, o enunciado apontará que você é ad-
vogado da vítima, devendo adotar a medida judicial cabível em busca da condenação do criminoso.

Ação penal privada subsidiária: no XV Exame de Ordem, a banca não dificultou e trouxe crimes de
ação penal privada. No entanto, pode acontecer de a banca descrever a inércia do Ministério Público
diante de um crime de ação penal pública, sem o oferecimento de denúncia no prazo legal (CPP, art.
46). A estrutura da queixa subsidiária é a mesma da queixa em ação privada. No entanto, o exami-
nando deverá ter cuidado com as seguintes especificidades: (a) na fundamentação da peça, mencio-
ne os arts. 29 do CPP, 100, § 3º, do CP e art. 5º, LIX, da CF. Provavelmente, a banca exigirá qualquer
dos três, alternativamente. Ademais, diga expressamente que se trata de queixa-crime subsidiária;
(b) no do direito, faça a exposição de o porquê ser cabível a queixa-crime. Mencione o prazo do art.
46 do CPP e aponte as datas trazidas no enunciado, para demonstrar que o MP permaneceu inerte

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I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 18
durante o prazo legal para o oferecimento da denúncia; (c) no do pedido, além dos pedidos da quei-
xa, requeira a intimação do MP.

Base legal: no XV Exame de Ordem, a banca aceitou os seguintes dispositivos: art. 30 do CPP; art.
41 do CPP; art. 100, § 2º, do CP; art. 145 do CP (por se tratar de crime contra a honra). Para a queixa
subsidiária, a banca provavelmente exigiria o art. 29 do CPP; o art. 100, § 1º, do CP; e o art. 5º, LIX,
da CF.

Objetivo: a condenação do criminoso. O grande desafio da peça é a correta identificação do(s) de-
lito(s) praticado(s). No XV Exame de Ordem, foram cobrados os crimes contra a honra. Não nos
surpreenderia se a banca voltasse a pedi-los, embora existam outros delitos de ação penal privada
(ex.: art. 167 do CP).

Teses: em regra, a FGV traz hipóteses em que o examinando está na condição de advogado do infra-
tor. Por isso, em peças em que é necessário acusar, a dificuldade acaba sendo um pouco maior em
razão da falta de prática. Entretanto, é o mesmo processo feito na busca por teses de defesa, mas na
via inversa. O primeiro passo é demonstrar a justa causa. Para isso, será necessário identificar qual
foi o delito praticado pelo querelado. Muita atenção aos verbos utilizados pela banca no enunciado.
Exemplo: se o problema diz que o querelado subtraiu algo, temos a prática de furto (CP, art. 155) ou
de outro delito que utilize o verbo subtrair. Por outro lado, se for falado em apropriar-se, o crime
pode ser a apropriação indébita (CP, art. 168) ou outro que traga em seu teor o verbo apropriar.
Além disso, veja se a conduta se adequa ao que está disposto no tipo penal. Exemplo: se o enuncia-
do descrever crime contra a honra consistente em fato, o crime será o de calúnia (CP, art. 138) ou o
de difamação (CP, art. 139), pois ambos falam expressamente em fato. A injúria (CP, art. 140) nada
diz a respeito de fato, podendo ser descartado de plano.

Sobre as nulidades processuais, em queixa, o examinando deve tomar cuidado para não as provocar.
O CPP exige, em seu art. 44, a procuração com poderes especiais para o oferecimento da queixa.
Por isso, se ausente a mencionada procuração, haverá nulidade em desfavor do querelante. Para
não errar, sempre leia todos os dispositivos a respeito da queixa no CPP (podem ser localizados pelo
remissivo do CPP).

Em extinção da punibilidade, o principal cuidado em queixa-crime diz respeito à decadência. No XV


Exame de Ordem, a banca não exigiu que fosse falado que a peça foi proposta dentro do prazo legal
(CPP, 38). Todavia, por precaução, se cair queixa em sua prova, é interessante que seja criado um
tópico a respeito, para o caso de a banca resolver atribuir pontuação.

Por fim, em excesso na punição, o objetivo é a busca pela pior situação possível ao acusado. Faça
a análise do art. 59 do CP e veja se não é possível que a pena-base seja fixada acima do mínimo.
Também veja se não há alguma qualificadora, agravante ou causa de aumento de pena em desfavor
do querelado. Para isso, leia todo o capítulo onde está previsto o crime apontado em sua petição
inicial. Ademais, leia os arts. 61 e 62 do CP, onde estão previstas as agravantes genéricas. Também
é possível pedir o regime adequado, mais gravoso que o aberto, se acatados todos os seus pedidos,
com fundamento no art. 33, § 2º, do CP.

Prazo: em regra, o prazo para o oferecimento da queixa é de seis meses, contados do dia em que se
descobre a autoria (e não do dia em que é praticado o delito). Pode ocorrer de a banca descrever
uma data de prática do crime e outra do dia em que o querelante descobriu a autoria do delito,
devendo ser calculado o prazo decadencial com base neste último evento. Ex.: no dia 1º de janei-
ro, o querelante foi ofendido em uma rede social; no dia 5 de fevereiro, descobriu quem escreveu

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I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 19
a mensagem. O prazo decadencial será contado do dia 5 de fevereiro, quando descobriu a auto-
ria. Outra situação que pode causar problema é a contagem do prazo decadencial. Imagine que o
enunciado diz que a autoria do delito foi descoberta no dia 5 de fevereiro, e que a queixa deve ser
oferecida no último dia de prazo. Qual seria a data correta? 5 de agosto? Por ser prazo material (CP,
art. 10), deve ser desconsiderado o último dia da contagem. Portanto, se a autoria foi descoberta no
dia 5 de fevereiro, o último dia de prazo será o dia 4 de agosto. É irrelevante para a contagem dos
meses se um deles tem mais ou menos de trinta dias. Outra curiosidade do prazo decadencial é o
fato de ele não ser prorrogável – se o último dia for um domingo, não haverá prorrogação para o dia
útil seguinte, segunda-feira. Se a ação for proposta pelo CADI – cônjuge, ascendente, descendente
ou irmão -, o prazo será contado do dia em que descobrir(em) a autoria do crime. Por fim, na queixa
subsidiária, o prazo de seis meses é contado do dia em que esgotado o prazo para o oferecimento
da denúncia pelo MP (CPP, art. 38, caput, parte final).

Endereçamento: a principal pegadinha em queixa-crime pode ser a definição entre a competência


dos Juizados Criminais (rito sumaríssimo) e de vara criminal comum (rito ordinário ou sumário).
São crimes de menor potencial ofensivo, de competência dos Juizados, os que a pena máxima não
seja superior a dois anos e as contravenções penais (Lei n.º 9.099/95, art. 61). Para a correta análise,
o examinando deve considerar a pior situação possível para o querelado. Exemplo: o querelado pra-
ticou o delito de calúnia (CP, art. 138), com pena de dois anos – o teto de competência dos Juizados.
Todavia, o delito foi praticado na presença de várias pessoas, devendo ser aumentada em um terço
(CP, art. 141, III). Com a majorante, a pena ultrapassou dois anos, sendo de competência da vara
comum, e não dos Juizados.

Estrutura básica da peça:

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da ... Vara Criminal da Comarca ...,

Como os crimes de ação penal privada não têm pena elevada, o examinando sempre deverá ter cui-
dado com a competência dos Juizados Especiais.

Nome ..., nacionalidade ..., estado civil ..., profissão ..., residente no endereço ..., vem, por seu
advogado (procuração com poderes especiais anexada, conforme art. 44 do Código de Processo
Penal), oferecer Queixa-Crime, com fundamento no art. 30 do Código de Processo Penal, contra

Para obter a pontuação pela procuração com poderes especiais, basta dizer que ela está anexada e
mencionar o art. 44 do CPP. Sobre a fundamentação da peça, a FGV aceitou os arts. 30 e 41 do CPP
e os arts. 100, § 2º, e 145 do CP. O art. 145 foi aceito no XV Exame de Ordem por ter sido o caso de
crime contra a honra.

Nome ..., nacionalidade ..., estado civil ..., profissão ..., residente no endereço ..., pelas razões a
seguir expostas:

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I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 20
Em queixa-crime, devem ser qualificados o querelante e o querelado.

I. DOS FATOS

(...)

Mesmo na queixa, entendemos ser interessante a descrição minuciosa dos fatos ocorridos no do di-
reito, quando sustentada a tese condenatória. Para o tópico dos fatos, basta o resumo do enunciado.

II. DO DIREITO

(...)

No XV Exame de Ordem, a banca pontuou a exposição dos fatos criminosos. Além de ser requisito
da queixa (CPP, art. 41), a banca queria saber se o examinando sabia quais fatos geraram a imputa-
ção a ser feita ao querelado – no caso, difamação e injúria. Por isso, deveria o examinando fazer a
descrição dos fatos e apontar o delito praticado para cada um deles, com a devida fundamentação.
Também deveria ser sustentada causa de aumento de pena e o concurso de crimes, pela prática de
dois delitos. Como sempre, é importante a divisão da peça em subtópicos. Quem fez a divisão do
tópico do direito em da difamação e da injúria, provavelmente recebeu a respectiva pontuação.
No entanto, quem não fez essa divisão, e sustentou os dois delitos em conjunto, talvez tenha sofrido
prejuízo na nota por erro de correção. Infelizmente, o examinador da FGV não se esforça muito para
localizar as respostas.

III. DO PEDIDO

Diante do exposto, requer:

(a) A designação de audiência preliminar ou de conciliação;


(b) A citação do querelado;
(c) O recebimento da queixa;
(d) A oitiva das testemunhas ao final arroladas;
(e) A condenação pelo crime XXX, com fundamento no art. XXX, com o aumento
de pena do art. XXX;

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I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 21
(f) A fixação de valor mínimo de indenização, com fundamento no art. 387, IV,
do Código de Processo Penal.

O pedido pode ser um problema em queixa-crime. No XV Exame de Ordem, a banca pontuou o pe-
dido de audiência de conciliação, do art. 520 do CPP, aplicável aos crimes contra a honra. Também
foram pontuados a citação do querelado e o recebimento da queixa. Como havia testemunhas,
elas deveriam ter sido arroladas – em sua prova, se houver a necessidade de produção de provas
(não apenas testemunhas, mas documentos ou perícias), não esqueça de a requerer. Outro pro-
blema que atingiu muitos examinandos foi o pedido de condenação. Isso porque muitos pediram,
em relação à difamação e à injúria, a condenação pelos crimes dos arts. 139 e 140 do CP. Entretanto,
a FGV não interpreta respostas. Era necessário dizer: a condenação pelo crime de difamação, do art.
139 do CP, e pelo crime de injúria, do art. 140 do CP. Nunca diga as coisas pela metade. O exami-
nador não interpreta respostas. Por fim, o pedido de fixação de indenização, que também deve ser
sustentado em queixa.

Comarca ..., data ....

Advogado ..., OAB ....

Rol de testemunhas:

(a) Nome ..., endereço;


(b) Nome ..., endereço.

Fique atento à data pedida pela FGV. Pode a banca exigir que o examinando ofereça a queixa no
último dia de prazo.

1.3. Defesa prévia da Lei n.º 11.343/06 e a defesa preliminar dos crimes funcionais
A defesa preliminar do art. 514 do CPP caiu na época em que o CESPE aplicava a prova. Já a defesa
prévia da Lei de Drogas nunca foi cobrada. Nas duas peças, previstas para procedimentos especiais,
o objetivo é o mesmo: convencer o juiz a não receber a petição inicial oferecida pela outra parte
(denúncia ou queixa). O ponto-chave da peça é o art. 395 do CPP, que traz as situações em que o juiz
deve rejeitar a inicial: (a) inépcia; (b) falta de pressuposto ou de condição para o exercício da ação
penal; (c) falta de justa causa para o exercício da ação penal.

Como identificar: como as duas peças são da fase pré-processual, quando ainda não houve o rece-
bimento da inicial, o problema dirá que o denunciado foi notificado, e não citado, da denúncia ou

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I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 22
queixa. Na defesa prévia da Lei de Drogas, o cliente terá sido denunciado por crime previsto na Lei
n.º 11.343/06 (ex.: tráfico de drogas) e ainda não houve o recebimento da denúncia, mas apenas a
notificação do denunciado sofre o oferecimento da petição inicial. Na defesa preliminar dos crimes
funcionais, o problema descreverá uma denúncia por um dos delitos previstos nos arts. 312 a 326
do CP. Além disso, esclarecerá que o denunciado foi notificado, mas que não houve o recebimento
da denúncia até o momento (ou, simplesmente, dirá que a denúncia foi oferecida, sem qualquer
menção ao recebimento).

Base legal: da defesa prévia, o art. 55 da Lei n.º 11.343/06; da defesa preliminar, o art. 514 do CPP.

Objetivo: o não recebimento da denúncia ou queixa oferecida. Para isso, o examinando deve con-
vencer o juiz de que está presente alguma (ou mais de uma) hipótese de rejeição do art. 395 do CPP.

Teses de defesa: todas as teses devem ser analisadas. Em falta de justa causa, quando o objetivo é
desconstituir o delito, atenção às exigências da Lei de Drogas, que trata, por exemplo, da perícia a
ser feita na droga para demonstrar a materialidade do delito. Ademais, as teses mais comuns podem
estar presentes: o erro de tipo (CP, art. 20, caput), o erro de proibição (CP, art. 21), a coação moral
irresistível (CP, art. 22) etc. Procure demonstrar ao juiz que falta justa causa para o exercício da ação
penal (CPP, art. 395, III).

Em inépcia (CPP, art. 395, I), veja se o enunciado fala em denúncia genérica ou em denúncia sem
a descrição dos fatos ou com redação contraditória. Caso a inépcia da inicial seja uma das teses,
o enunciado descreverá claramente o vício a ser apontado em sua defesa.

Quanto à falta de pressuposto ou condição para o exercício da ação penal, analise se quem ofere-
ceu a denúncia é a pessoa que detém legitimidade – por exemplo, Promotor de Justiça oferecendo
denúncia por crime que deveria ter sido denunciado pelo MPF, ou o Ministério Público oferecen-
do denúncia sem que a vítima tenha representado, em crime de ação penal pública condicionada.
Pesquise também se a denúncia ou queixa foi oferecida ao juiz competente.

Por fim, faça uma cuidadosa análise das causas de extinção da punibilidade (prescrição, decadência
etc.), pois é grande a chance de a banca exigir alguma delas se vier a cobrar defesa prévia ou de-
fesa preliminar.

Prazos: são dez dias para a defesa prévia da Lei de Drogas e quinze dias para a defesa preliminar dos
crimes funcionais.

Endereçamento: se a FGV nada disser, Vara Criminal genérica. Todavia, se for mencionado, por exem-
plo, que a denúncia foi oferecida ao juízo da Vara de Drogas da Comarca de São José/SC, tanto a vara
quanto a comarca deverão estar no endereçamento da peça. Além disso, cuidado com a competên-
cia da Justiça Federal.

Estrutura básica da peça:

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da Vara Criminal da Comarca ...,

Observe se o enunciado não diz qual é a vara onde a denúncia ou queixa foi oferecida.

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I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 23
Nome ..., já qualificado nos autos, vem, por seu advogado, oferecer defesa prévia / defesa
preliminar, com fundamento no art. 55 da Lei n.º 11.343/06 / no art. 514 do Código de
Processo Penal, pelas razões a seguir expostas:

Por já ter sido denunciado, não é necessário qualificar novamente o acusado. Para a peça da Lei
de Drogas, a legislação diz expressamente defesa prévia. No entanto, na peça do art. 514 do CPP,
o legislador fala em responder por escrito. Por ser defesa preliminar um termo genérico para defe-
sas pré-processuais, optamos por essa nomenclatura. Todavia, caso venha a ser a peça da segunda
fase, a banca terá de aceitar quem disser resposta escrita, com base no que diz o CPP, ou resposta
preliminar, outro termo genérico para a mesma hipótese, ou, até mesmo, defesa prévia, como na
Lei de Drogas.

I. DOS FATOS

(...)

Como sempre deve ser feito, apenas resuma o enunciado no dos fatos.

II. DO DIREITO

(...)

Por serem peças que comportam várias teses em conjunto, procure dividir o tópico do direito em
subtópicos. Uma boa forma de divisão é com base no art. 395 do CPP: (a) inépcia; (b) falta de pres-
suposto processual ou condição para a ação; (c) falta de justa causa.

III. DO PEDIDO

Diante do exposto, requer a rejeição da denúncia oferecida, com fundamento no art. 395,
I, II e III, do Código de Processo Penal.

Subsidiariamente, em caso de recebimento da denúncia, requer a intimação e oitiva das testemunhas


ao final arroladas.

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I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 24
O principal objetivo das peças é a rejeição da inicial, com fundamento no art. 395 do CPP.
Subsidiariamente, sustente tudo o que for de interesse do denunciado, em caso de recebimento da
inicial (veja o art. 55, § 1º, da Lei n.º 11.343/06 e o art. 515, parágrafo único, do CPP). Na defesa dos
crimes funcionais, atenção ao art. 516 do CPP, que também fundamenta a rejeição da inicial.

Comarca ..., data ....

Advogado ..., OAB ....

Rol de testemunhas:

(a) Nome ..., endereço ...;


(b) Nome ..., endereço ....

Sempre observe se a banca não pediu o oferecimento da peça no último dia de prazo.

2. FASE PROCESSUAL
Após o recebimento da denúncia ou queixa, o primeiro ato é a citação do, agora, réu, para que ofe-
reça a sua defesa ao longo de toda a instrução penal. A partir do recebimento, o objetivo principal
passa a ser a absolvição do acusado. Dos vinte e cinco Exames de Ordem elaborados pela FGV, des-
consideradas as reaplicações, em vinte deles a banca trouxe peças da fase processual. A resposta à
acusação, os memoriais e a apelação são campeões isolados na disputa pelas peças mais cobradas.

2.1. Resposta à acusação


Em nossa opinião, consideradas as mais cobradas pela banca até o momento, é a peça mais fácil da
fase processual. Isso porque, em memoriais e em apelação, como a instrução já está em fase avan-
çada, muitas nulidades podem ter surgido ao longo da marcha processual. Em resposta à acusação,
houve apenas o recebimento da inicial e a citação do acusado, não existindo outros atos judiciais que
devem ser analisados em busca de nulidades. Além disso, o objetivo principal da peça é a absolvição
sumária, com fundamento no art. 397 do CPP. Portanto, desde o começo, o examinando já sabe o
que deve ser encontrado: (a) excludente da ilicitude; (b) excludente da culpabilidade; (c) atipicidade;
(d) causa extintiva da punibilidade.

Como identificar: uma queixa ou denúncia oferecida e também recebida, e o cliente foi citado para
oferecer a defesa. Não se fala em audiência, em sentença e em mais nada.

Base legal: a peça está fundamentada nos arts. 396 e 396-A do CPP. Em algumas provas, a FGV acei-
tou os dois artigos. No entanto, na última vez em que caiu RA, a banca aceitou apenas o art. 396-A
– que, inclusive, foi aceito todas as vezes. Por isso, é a fundamentação mais segura: o art. 396-A do
CPP. No rito do júri, cuidado: a RA está fundamentada no art. 406 do CPP.

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I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 25
Objetivo: a princípio, a absolvição sumária, com fundamento no art. 397 do CPP. No entanto, há po-
sicionamento do STJ que entende pela possibilidade de se pedir a rejeição da inicial (já recebida) em
RA, com fundamento no art. 395 do CPP. Como teses subsidiárias, podem ser pedidas a desclassifi-
cação para delito menos gravoso, embora não seja o momento processual adequado, e a produção
de provas – especialmente, testemunhas apontadas no enunciado.

Teses de defesa: o art. 397 do CPP dá o rumo do que deve ser procurado em RA. O dispositivo
fala em: atipicidade (inciso III), exclusão da ilicitude (inciso I) e exclusão da culpabilidade (inciso II).
Portanto, nos três primeiros incisos, o art. 397 descreve situações em que falta justa causa para a
ação penal por inexistência do crime. Equivocadamente, o legislador falou em o fato narrado evi-
dentemente não constitui crime, no inciso III, como se na exclusão da ilicitude ou da culpabilidade
permanecesse existindo o delito. Considerando que o crime é composto por (a) fato típico, (b) ilici-
tude e por (c) culpabilidade, a ausência de qualquer dos três faz com que o delito deixe de existir.
Aparentemente, a intenção do legislador foi a criação de um inciso para cada um destes elementos
constitutivos: (a) fato típico: inciso III; (b) ilicitude: inciso I; (c) culpabilidade: inciso II.

No fato típico (inciso III), algumas teses podem ser pedidas em sua prova: a ausência de dolo e culpa;
a falta de nexo de causalidade (atenção às causas supervenientes, do art. 13, § 1º, do CP); o erro de
tipo essencial (CP, art. 20, caput); a coação física irresistível; o princípio da insignificância (causa de
atipicidade material) etc.

Na ilicitude (inciso I), as principais excludentes estão nos arts. 23 a 25 do CP – a legítima defesa,
o estado de necessidade, o estrito cumprimento do dever legal e o exercício regular de direito.
No entanto, há outras espalhadas pela legislação, a exemplo do art. 128 do CP, em relação ao aborto.

Na culpabilidade (inciso II), deve ser sustentada a inexigibilidade de conduta diversa (por exemplo,
por coação moral irresistível, do art. 22 do CP) ou a ausência de potencial consciência da ilicitude
(como ocorre no erro de proibição essencial, do art. 21 do CP). O inciso II determina que a exclusão
da culpabilidade é causa de absolvição sumária, salvo inimputabilidade. A ressalva se dá pelo seguin-
te: na inimputabilidade em razão de doença (CP, art. 26), ao final da instrução, após realizado exame
pericial, se ficar constatado que o réu, na época dos fatos, não tinha noção do que fazia (por exem-
plo, em virtude de esquizofrenia paranoide), o juiz o absolverá, mas aplicará medida de segurança
– a chamada absolvição imprópria. Como em RA ainda não há perícia, não tem como sustentar a
inimputabilidade por doença na peça – aliás, até pode sustentá-la, para pedir a realização de perícia,
mas não para absolver o réu sumariamente. Caso, todavia, a inimputabilidade se dê pela idade (CP,
art. 27), o examinando deverá sustentar a nulidade no recebimento da inicial, pois a conduta confi-
gura ato infracional, e não crime.

Ademais, o momento processual da RA não é o adequado para sustentar vício no recebimento da


inicial, com fundamento no art. 395 do CPP, afinal, já houve o recebimento da denúncia ou queixa.
No entanto, há jurisprudência do STJ dizendo que é possível, sim, em RA, sustentar a rejeição da
inicial. O entendimento da Corte Superior faz sentido: se tiver ocorrido alguma nulidade no recebi-
mento, não poderá ser dito que houve a preclusão, visto que o art. 395 do CPP traz erros insanáveis.
Por isso, em sua prova, se tiver alguma tese de rejeição, com fundamento no art. 395 do CPP, não
deixe de sustentá-la.

Outro ponto que merece destaque já foi polêmico em provas passadas. O art. 396-A, § 1º, do CPP
determina que as exceções devem ser processadas em apartado. Portanto, se houver uma exceção
de incompetência (CPP, art. 95, II), devem ser oferecidas duas peças: a RA e a exceção, que deverá
ser processada em apartado. Todavia, em Exame de Ordem, a banca nunca exigirá a elaboração

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1ª EDIÇÃO
I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 26
de duas peças. Ou é uma ou é outra. Agora, imagine o seguinte: o enunciado descreve a citação
do acusado. Em uma rápida leitura, percebe-se a existência de várias teses de absolvição sumária,
conforme o art. 397 do CPP. Ou seja, não resta dúvida: a banca quer a elaboração de RA. No entan-
to, há uma tese de incompetência do juízo a ser sustentada. O examinando, então, se vê em um
dilema: ou faz exceção e sustenta a incompetência ou faz RA e alega as teses de absolvição sumária.
Nesse caso, como proceder? Se, com base no enunciado, tiver certeza de que há tese de absolvição
sumária, faça a RA e, no corpo da peça, sustente a incompetência como uma das teses defensivas.
Não faça as duas peças. Além disso, se o réu foi citado e deve ser elaborada a primeira defesa do
processo, não existe questionamento de que a RA é cabível – e a banca terá de aceitá-la de qualquer
jeito. Só faça a exceção se o enunciado disser expressamente que não é para fazer RA. Seria errado
a banca pedir a incompetência no corpo da RA, mas deixe esse questionamento para quem perder
a pontuação e se sentir prejudicado. Por segurança, alegue a incompetência. Na pior das hipóteses,
se não for objeto de quesito, nenhuma pontuação será perdida.

Mais uma polêmica em RA diz respeito à possibilidade de emendatio libelli (CPP, art. 383), quando o
juiz, sem modificar a descrição do fato contida na denúncia ou queixa, poderá atribuir-lhe definição
jurídica diversa, ainda que, em consequência, tenha de aplicar pena mais grave. Ou seja, a possibi-
lidade de desclassificação de um delito para outro já em RA. Apesar de entendimentos, por alguns
autores, no sentido de não ser possível, se o enunciado trouxer tese de desclassificação, peça. É a
mesma situação da exceção: na pior das hipóteses, a banca não atribuirá pontuação para a tese,
e nenhum ponto será perdido, caso o leitor a sustente. O problema é a omissão, caso o tema seja
objeto de avaliação no gabarito.

Por fim, uma situação curiosa em RA: a do inciso IV, que fala em absolvição sumária em razão de
extinção da punibilidade. Em qualquer outra peça (memoriais, apelação etc.), as causas de extinção
da punibilidade devem ser declaradas, dando fim à ação penal, mas não ensejam a absolvição do
acusado. Por isso, se ocorrer a prescrição, por exemplo, não é correto dizer que o réu foi absolvido
– a absolvição dá a entender que a inocência foi efetivamente comprovada, o que não ocorre em
uma prescrição ou em caso de morte do agente. Entretanto, por força do que dispõe o art. 397, IV,
do CPP, em RA, a extinção da punibilidade é causa de absolvição sumária, e não de mera declaração.

Prazo: dez dias.

Endereçamento: em regra, a banca diz qual juízo mandou citar o acusado. Se isso não acontecer em
sua prova, faça o endereçamento genérico, à Vara Criminal. Cuidado com a competência da Justiça
Federal e a do Tribunal do Júri.

Estrutura básica da peça:

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da ... Vara Criminal da Comarca ...,

Observe se o enunciado não disse em qual juízo o processo está tramitando e qual é a comarca.

Nome ..., já qualificado nos autos, vem, por seu advogado, oferecer Resposta à Acusação,
com fundamento no art. 396-A do Código de Processo Penal, pelas razões a seguir expostas:

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I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 27
O art. 396-A sempre foi aceito como fundamentação para a peça. Por isso, é a escolha mais segura.
Em se tratando de RA do júri, utilize o art. 406 do CPP.

I. DOS FATOS

(...)

Como sempre, apenas resuma o enunciado.

II. DO DIREITO

(...)

No tópico do direito, faça a divisão em subtópicos. Em todas as oportunidades em que a FGV trouxe
RA para a segunda fase, havia pluralidade de teses, pontuadas individualmente. Quanto melhor or-
ganizadas as teses, menor a chance de o examinador errar na correção.

III. DO PEDIDO

Diante do exposto, requer a absolvição sumária do acusado, com fundamento no art. 397,
I, II, III e IV, do Código de Processo Penal.

Subsidiariamente, requer a intimação e a oitiva das testemunhas ao final arroladas.

Em RA, a absolvição é sumária. Também se fala em absolvição sumária na hipótese do art. 415 do
CPP, no rito do júri. Nas demais hipóteses, quando a absolvição estiver fundamentada no art. 386
do CPP, diga apenas absolvição, sem ser sumária. Perdemos as contas de quantas pessoas tiveram
quesitos anulados por adicionar ou retirar a palavra sumária do pedido.

Comarca ..., data ....

Advogado ..., OAB ....

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I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 28
Rol de testemunhas:

(a) Nome ..., endereço ...;


(b) Nome ..., endereço ....

Cuidado com o prazo. A FGV sempre pede a peça no último dia de prazo. Além disso, lembre-se de
arrolar as testemunhas, caso o problema as mencione.

2.2. Memoriais
Em regra, ao final da audiência, as alegações finais devem ser oferecidas oralmente. O advogado e a
outra parte (MP ou querelante) sustentam ao juiz ou ao secretário de audiência, com a própria voz,
o que desejam pedir. Acontece que, em certas situações, é inviável o oferecimento das alegações
orais. Imagine um processo com dez réus. Como todos os advogados têm de oferecer as alegações
finais, a audiência demoraria muito para ser concluída. Para esse tipo de situação, o juiz permite que
as alegações finais sejam oferecidas por escrito – ou por memoriais.

Como identificar: terá ocorrido a audiência de instrução, mas a sentença não foi proferida. Se estiver
na posição de advogado de defesa, terá havido manifestação do Ministério Público (mas o enuncia-
do não dirá que o MP ofereceu memoriais), sendo a sua vez de apresentar as alegações finais.

Base legal: em regra, o art. 403, § 3º, do CPP. Todavia, se, ao final da audiência, o juiz tiver ordenado
a realização de alguma diligência (ex.: algum exame imprescindível), o fundamento será o art. 404,
parágrafo único, do CPP.

Objetivo: na condição de advogado de defesa, o foco é a absolvição do acusado, com fundamento


no art. 386 do CPP. Também é o momento para sustentar nulidades e causas de extinção da puni-
bilidade. Por fim, considerando que o juiz não absolverá o cliente, deve ser pedido tudo o que for
de interesse em relação à pena a ser aplicada – a maior dificuldade em memoriais, pois são muitos
pontos que devem ser analisados.

Teses de defesa: em falta de justa causa, o examinando deve buscar a absolvição do acusado. O art.
386 do CPP dá uma boa pista do que deve ser pedido: falta de provas, excludentes da tipicidade,
da ilicitude etc. Alguns exemplos de teses: crime impossível (CP, art. 17), atipicidade material por
insignificância, legítima defesa, erro de proibição inevitável etc.

Em nulidades, o examinando terá de fazer uma análise completa, desde o recebimento da denún-
cia ou queixa até o desfecho da audiência. Cuidado com situações em que o direito de defesa foi
cerceado – falta de apresentação de RA; o juiz não quis ouvir uma testemunha importante arrolada
pela defesa; o advogado de defesa renunciou e o juiz nomeou a Defensoria Pública, sem que ouvis-
se previamente o acusado etc. As causas de nulidade ensejam a nulidade do processo desde o ato
viciado. Se houver pedido de anulação dos atos, observe se o recomeço da instrução não ensejará
a prescrição.

Em extinção da punibilidade, devem ser analisadas as causas gerais, do art. 107 do CP. O examinan-
do também deve observar se o delito da denúncia não tem alguma causa extintiva da punibilidade

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I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 29
especial, a exemplo do art. 312, § 3º, do CP. As causas de extinção da punibilidade devem ser decla-
radas, dando fim ao processo.

Por fim, a grande dificuldade em memoriais: as teses subsidiárias, para evitar excessos na punição.
O primeiro passo é a análise do delito apontado. Se for o caso de desclassificação, deverá ser feita a
análise completa do novo dispositivo encontrado. Ademais, em relação à pena, o examinando deve
sustentar:

(a) O afastamento de qualificadoras (ex.: CP, art. 121, § 2º) e o reconhecimento de privilégios
(ex.: CP, art. 317, § 2º).

(b) A fixação da pena-base no mínimo legal, com base no art. 59 do CP.

(c) O afastamento de agravantes e o reconhecimento de atenuantes (as genéricas estão nos


arts. 61, 62, 65 e 66 do CP).

(d) O afastamento de majorantes (ex.: CP, art. 157, § 2º) e o reconhecimento de causas de di-
minuição (ex.: CP, art. 14, II).

(e) Regime inicial de pena mais brando, com fundamento no art. 33, § 2º, do CP.

(f) A substituição de pena privativa de liberdade por restritiva de direitos (CP, art. 44).

(g) O sursis (CP, art. 77).

Sempre que elaborar memoriais no rito comum, o examinando deverá fazer esse passo a passo,
em busca da melhor situação possível ao réu, caso venha a ser condenado.

Memoriais no júri: no rito de julgamento dos crimes dolosos contra a vida, ao final da primei-
ra fase, o juiz tem quatro opções: (a) pronunciar; (b) impronunciar; (c) absolver sumariamente;
(d) desclassificar.

Na pronúncia, o juiz submete o acusado a julgamento perante o Tribunal do Júri. Não é algo que
interesse à defesa, que busca dar fim ao processo imediatamente. A impronúncia (CPP, art. 414) é
interessante, pois dá fim ao processo por falta de provas – mas uma nova denúncia pode ser ofereci-
da posteriormente. A absolvição sumária (CPP, art. 415) é o melhor desfecho possível para a defesa,
pois faz coisa julgada material, impedindo que, futuramente, o réu seja acusado novamente pelos
mesmos fatos. Por fim, a desclassificação é de interesse da defesa quando a nova tipificação for de
delito menos gravoso – em especial, se for crime que não é de competência do Tribunal do Júri.

Portanto, em memoriais do rito do júri, o examinando não terá de sustentar teses referentes à pena
(embora possa, desde já, procurar afastar qualificadoras). Não é o momento para discutir regime pri-
sional ou atenuantes. Em vez disso, mantenha o foco em absolver sumariamente o acusado (as hipó-
teses estão no art. 415 do CPP), em impronunciá-lo (CPP, art. 414) e em desclassificar o seu delito
para outro menos gravoso (ex.: homicídio doloso para homicídio culposo).

Prazo: cinco dias.

Endereçamento: ao juízo onde tramitou o processo. Se não constar no enunciado, use a fór-
mula genérica.

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I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 30
Estrutura básica da peça:

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da ... Vara Criminal da Comarca ...,

Cuidado com a competência do juiz do júri e com os processos da Justiça Federal. Observe as infor-
mações trazidas no enunciado do problema. A FGV costuma trazer todos esses dados.

Nome ..., já qualificado nos autos, vem, por seu advogado, apresentar Alegações Finais por
Memoriais, com fundamento no art. 403, § 3º, do Código de Processo Penal, pelas razões a
seguir expostas:

Atenção ao art. 404, parágrafo único, do CPP, quando, ao final da audiência, o juiz determinou outras
diligências. Sobre a nomenclatura da peça, não há problema em dizer apenas memoriais, mas a FGV
tem adotado a expressão alegações finais por memoriais.

I. DOS FATOS

(...)

Um simples resumo do enunciado é suficiente.

II. DO DIREITO

(...)

A divisão do tópico do direito em subtópicos é de fundamental importância, especialmente em me-


moriais, em que sempre são pedidas muitas teses de defesa. Inclusive, nos gabaritos recentes, a FGV
tem exigido menção expressa às palavras preliminarmente, mérito e subsidiariamente, para a indi-
cação da ordem de relevância de cada tese sustentada. Além disso, como sempre é dito, a banca
erra bastante ao corrigir as provas. Quanto melhor organizada a sua peça, menor a chance de algum
equívoco por parte do examinador.

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I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 31
III. DO PEDIDO

Diante do exposto, requer:

(a) A nulidade dos atos instrutórios, desde a audiência, quando ocorreu o vício à
ampla defesa;
(b) A declaração da extinção da punibilidade pela prescrição, com fundamento no art. 107,
IV, do Código Penal;
(c) A absolvição do acusado, com fundamento no art. 386, inciso, do Código de
Processo Penal;
(d) Subsidiariamente, a fixação da pena-base no mínimo legal, com fundamento no
art. 59 do Código Penal;
(e) O reconhecimento da atenuante da menoridade relativa, com base no art. 65, I,
do Código Penal;
(f) O afastamento da causa de aumento do art. X do Código Penal;
(g) A substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos, conforme
art. 44 do Código Penal;
(h) A suspensão condicional da pena, com fulcro no art. 77 do Código Penal.

Exceto no rito do júri, nunca peça a absolvição sumária em memoriais. Jamais utilize o art. 397 do
CPP em suas alegações finais.

Comarca ..., data ....

Advogado ..., OAB ....

A banca costuma pedir a peça no último dia de prazo. Fique atento!

2.3. Apelação
Foi a peça mais cobrada até hoje no Exame de Ordem. Já caiu para o advogado de defesa, para o
assistente de acusação e, até mesmo, para o oferecimento de contrarrazões ao recurso. Para não a

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confundir com o recurso em sentido estrito, deve sempre o examinando fazer a leitura do art. 581
do CPP. A apelação é um recurso residual, cabível quando não existir outro, específico, para atacar a
decisão a ser recorrida.

Como identificar: o problema descreverá uma sentença condenatória ou absolutória, ou uma de-
cisão definitiva ou com força de definitiva, desde que não seja cabível recurso em sentido estrito.
A sentença pode ter sido proferida por magistrado, em vara criminal, ou a condenação (ou absolvi-
ção) pode ter partido de Conselho de Sentença, no rito do Tribunal do Júri.

Base legal: em regra, art. 593 do CPP. No rito do júri, no final da primeira fase, o fundamento é o art.
416 do CPP – no entanto, também no rito do júri, se a decisão for do Conselho de Sentença, a ape-
lação terá por fundamento o art. 593, III, do CPP.

Objetivo: em apelação, o que se busca é a reforma da decisão recorrida. Por isso, o seu objetivo será
derrubar, ponto a ponto, a sentença do juiz – o enunciado a descreverá, minuciosamente.

Teses de defesa: em memoriais, o examinando tem de esgotar as teses de defesa. Tudo o que for
possível sustentar deve ser alegado na peça. Por isso, consideramos a peça mais difícil para uma
segunda fase. Em apelação, a situação é mais simples, pois já temos uma decisão judicial, em que é
delimitado o que deve ser sustentado. Para não sermos repetitivos, pedimos ao leitor para que leia
o que foi dito sobre as teses de defesa em memoriais. Tudo o que foi dito lá é aplicável à apelação,
na condição de advogado de defesa.

Assistente de acusação: em uma das edições do Exame de Ordem, a FGV trouxe hipótese de ape-
lação interposta pelo assistente de acusação, no rito do júri. O objetivo principal da peça era a
pronúncia do acusado, para submetê-lo ao julgamento perante o Tribunal do Júri. Caso venha a cair
no futuro, no rito comum, não tem dificuldade: busque demonstrar a justa causa, para assegurar
a condenação, e sustente teses desfavoráveis ao réu em relação à pena – pena acima do mínimo
legal, qualificadoras, agravantes, majorantes e regime mais gravoso. Para identificá-la, o enunciado
descreverá situação em que há sentença favorável ao réu e você, na condição de advogado da vítima
(ou de sua família), deve adotar a medida cabível.

Contrarrazões de apelação: quando uma das partes interpõe recurso, em respeito ao contraditório,
deve ser dado prazo para que a outra se manifeste. Se a defesa interpõe um recurso em sentido
estrito, a outra parte (MP ou querelante) tem o direito de ser ouvida, para que possa rebater as
razões do recorrente. A mesma situação acontece com a apelação. Se uma das partes interpõe ape-
lação, a outra tem de se manifestar sobre o recurso, para que o julgador do recurso ouça os dois
lados. Adicionamos as contrarrazões ao tópico da apelação, por já ter caído no Exame de Ordem,
mas poderia ser repetido em todos os tópicos que tratam de recursos (contrarrazões em agravo em
execução, por exemplo).

Prazo: cinco dias para a interposição (CPP, art. 593) e oito dias para as razões (CPP, art. 600). Essa
distinção ocorre porque, em processo penal, é possível que a parte interponha a apelação e, em mo-
mento posterior, ofereça as razões de apelação. Na segunda fase, duas situações podem surgir:
(a) a defesa foi intimada da sentença, devendo o recurso ser interposto em cinco dias (o examinando
deve elaborar uma peça de interposição e outra de razões); (b) a defesa já fez a interposição do re-
curso, no prazo de cinco dias, e ocorre a intimação para o oferecimento de razões, no prazo de oito
dias (o examinando deve elaborar uma peça de juntada e uma de razões).

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I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 33
Endereçamento: a interposição deve ser oferecida ao juiz onde correu o processo, que pode ter
sido informado no enunciado – caso contrário, deve ser feito o endereçamento genérico. As razões
devem ser endereçadas ao TJ ou ao TRF.

Estrutura básica:

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da ... Criminal da Comarca ...,

A interposição deve ser endereçada ao juiz sentenciante.

Nome ..., já qualificado nos autos, vem, à presença de Vossa Excelência, interpor Recurso de
Apelação, com fundamento no art. 593, (I, II ou III), do Código de Processo Penal.

Requer seja recebido e processado o recurso, com as razões anexadas, e encaminhado ao Tribunal
de Justiça do Estado ....

O gabarito justificado da FGV costuma falar em recurso de apelação, mas não há problema em dizer,
apenas, apelação. Cuidado ao fundamentar a peça – na primeira fase do rito do júri, a fundamenta-
ção está prevista no art. 416 do CPP.

Comarca ..., data ....

Advogado ..., OAB ....

O prazo de interposição é de cinco dias. Se a apelação já tiver sido interposta, e a banca exigir apenas
a juntada das razões, se for pedido que a peça seja oferecida no último dia de prazo, a contagem
deve ser de oito dias.

Razões de Apelação

Egrégio Tribunal de Justiça do Estado ...,

Colenda Câmara,

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I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 34
Douto Procurador de Justiça,

Em que pese o inegável saber jurídico do Juiz de Direito da ... Vara Criminal da Comarca
..., a sentença condenatória não merece prosperar pelas razões a seguir expostas:

Se o enunciado informar o Estado, enderece a peça ao respectivo TJ ou TRF. Ademais, é interessante


deixar bem claro que o que se busca é a reforma da sentença recorrida.

I. DOS FATOS

(...)

Basta um resumo do enunciado.

II. DO DIREITO

(...)

Em apelação, sempre são pedidas muitas teses de defesa. Por esse motivo, é sempre interessante a
divisão em subtópicos. Além disso, no XXII Exame de Ordem, por exemplo, a banca exigiu menção
expressa às palavras: preliminarmente; no mérito e subsidiariamente, para indicar a ordem de análi-
se das teses sustentadas. Portanto, além de a banca já ter pontuado a divisão, ela é importante para
evitar erros de correção por parte do examinador.

III. DO PEDIDO

Diante do exposto, requer seja conhecido e provido o recurso de apelação.

No XXV Exame de Ordem (reaplicação em Porto Alegre/RS), a última vez em que a banca exigiu a
peça, o gabarito pontuou apenas os pedidos de conhecimento e provimento do recurso. No XXII
Exame de Ordem, a última prova em que a FGV trouxe apelação em uma prova nacional, também
só foram pontuados os pedidos de conhecimento e provimento. No entanto, em edições mais an-
tigas, o gabarito exigiu que o examinando especificasse o que estava sendo pedido (absolvição,

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I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 35
regime mais brando etc.). Se cair apelação em sua prova, como sempre sustentamos que é melhor ir
além, pois o excesso não causa prejuízo, o melhor é pedir, além do conhecimento e do provimento,
os pedidos individualizados. Caso não tenha tempo suficiente, peça apenas o conhecimento e o pro-
vimento, e torça para que a banca mantenha a forma de pontuação da apelação das últimas provas.

Comarca ..., data ....

Advogado ..., OAB ....

Atenção à data, pois a banca sempre pede o último dia de prazo.

2.4. Recurso em sentido estrito


O recurso em sentido estrito caiu em apenas duas edições do Exame de Ordem. Em ambas, a banca
trouxe casos em que o recurso foi interposto contra sentença de pronúncia, quando o juiz, no final
da primeira fase do rito do júri, determina a submissão do acusado por crime doloso contra a vida
a julgamento perante o Tribunal do Júri. Isso deve ter ocorrido porque, das situações elencadas no
art. 581 do CPP, é a que comporta as teses mais complexas – em falta de justa causa, por exemplo,
é possível o gabarito pontuar, ao mesmo tempo, erro de tipo, ausência de conduta, falta de nexo
causal, excludentes da ilicitude, da culpabilidade... enfim, se a banca quiser, é possível uma peça
com muitas teses simultâneas de defesa.

Como identificar: o problema descreverá uma decisão judicial presente no rol de hipóteses do re-
curso em sentido estrito, do art. 581 do CPP.

RESE e agravo em execução: o art. 581 do CPP descreve situações de recurso em sentido estrito con-
tra decisões típicas da execução penal. Todavia, considere-as tacitamente derrogadas. Se a decisão
for proferida pelo juízo da execução penal, a peça será o agravo em execução, do art. 197 da Lei n.º
7.210/84, e não o RESE, ainda que prevista no art. 581 do CPP.

Base legal: art. 581 do CPP.

Objetivo: a reforma da decisão recorrida. Se o RESE foi interposto contra a decisão que denega
habeas corpus (art. 581, X), o objetivo será a concessão do HC. Se interposto contra a decisão que
não recebe a queixa (inciso I), o objetivo será o recebimento da inicial. Se o RESE for interposto
contra a decisão de pronúncia (inciso IV), o objetivo será a impronúncia ou a absolvição sumária.
Portanto, o objetivo é contradizer o que foi decidido pelo juiz da decisão recorrida, para que seja
concedido pelo TJ ou TRF o que o juízo a quo denegou.

Teses de defesa: o que norteará a tese a ser defendida é o que se busca no recurso em sentido estri-
to. Se o juiz pronunciou o acusado por entender que há justa causa, o objetivo será a demonstração
da falta de justa causa – por exemplo, por estar provado não ser o recorrente o autor do delito. Se há
excesso na imputação – o réu foi pronunciado por homicídio doloso, mas a hipótese é de homicídio
culposo -, deve ser sustentado que o delito apontado não é o correto, devendo haver a desclassifi-
cação e remessa dos autos ao juízo competente, se for o caso de incompetência. Também é possível

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I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 36
sustentar teses de nulidade. Portanto, o que guiará a busca por teses é a própria fundamentação
adotada pelo juiz ao decidir contra os interesses do seu cliente.

Prazo: em regra, cinco dias para a interposição e dois dias para as razões.

Endereçamento: a interposição ao juiz da decisão recorrida e as razões ao tribunal (TJ ou TRF).

Estrutura básica:

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da ... Vara Criminal da Comarca ...,

A peça deve interposição deve ser endereçada ao juízo da decisão recorrida.

Nome ..., já qualificado nos autos, vem, à presença de Vossa Excelência, por seu advogado,
interpor Recurso em Sentido Estrito, com fundamento no art. 581, (inciso), do Código de
Processo Penal.

Requer que Vossa Excelência se retrate de sua decisão, nos termos do art. 589 do Código de
Processo Penal. Caso não haja retratação, requer seja processado e encaminhado o recurso,
com as inclusas razões, ao Tribunal de Justiça do Estado ....

O juízo de retratação é uma das características do RESE. Por isso, nas duas edições em que a peça foi
cobrada, a banca o pontuou.

Comarca ..., data ....

Advogado ..., OAB ....

Cuidado com a data, pois a banca sempre pede que a peça seja interposta no último dia de prazo.

Razões de Recurso em Sentido Estrito

Egrégio Tribunal de Justiça,

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I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 37
Colenda Câmara,

Douto Procurador de Justiça,

Em que pese o saber jurídico do Exmo. Senhor Juiz de Direito da ... Vara Criminal da
Comarca ..., a decisão recorrida merece ser reformada, pelas razões a seguir expostas:

Se o enunciado disser o TJ ou TRF em que o processo está tramitando, deve haver menção expressa
a ele no endereçamento das razões.

I. DOS FATOS

(...)

Basta o resumo do enunciado.

II. DO DIREITO

(...)

A mesma dica das demais peças: procure dividir o tópico do direito em subtópicos, para facilitar a
correção e evitar erros do examinador.

III. DO PEDIDO

Diante do exposto, requer seja conhecido e provido o recurso, para que seja desclassificado o delito
de homicídio doloso para o de homicídio culposo.

Nas últimas vezes em que a banca trouxe recursos na segunda fase, o gabarito exigiu do examinando
os pedidos de conhecimento e provimento do recurso, sem que fosse necessário especificar o que se
pede. No entanto, no XI Exame de Ordem, última edição em que caiu um RESE, o gabarito pontuou

MANUAL DE PRÁTICA PENAL


2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 38
a individualização dos pedidos (absolvição sumária, impronúncia etc.). Como o que é dito em exces-
so não causa prejuízo, o ideal é que, no tópico do pedido, sempre sejam especificados os pedidos,
além do requerimento de conhecimento e provimento.

Comarca ..., data ....

Advogado ..., OAB ....

Atenção à data, caso a banca peça o oferecimento do recurso no último dia de prazo.

2.5. Recurso ordinário constitucional


A peça nunca caiu no Exame de Ordem, mas há chance de ser cobrada. Trata-se do recurso cabível
contra a decisão que denega habeas corpus, habeas data, mandado de injunção e mandado de
segurança, em única ou última instância. Não é de difícil elaboração. As teses são facilmente identi-
ficáveis. Todavia, poderia causar surpresa, pois não é das mais cotadas para uma segunda fase.

Como identificar: tem de existir uma decisão denegatória em habeas corpus, habeas data, mandado
de segurança ou mandado de injunção, e o problema deve esclarecer que o recurso deve ser inter-
posto contra essa decisão, especificamente. Atenção à hipótese do art. 102, II, b, da Constituição,
que prevê o ROC em crime político (veja a Lei n.º 7.170/83).

ROC em RESE em HC: pode ter ocorrido de o habeas corpus ter sido denegado pelo juiz de primeiro
grau e, dessa decisão, foi interposto recurso em sentido estrito. Da decisão do tribunal, que nega
provimento ao recurso em sentido estrito, é possível recorrer por recurso ordinário constitucional.

Base legal: ROC ao STJ, art. 105, II, a, b e c, da CF; ROC ao STF, art. 102, II, a e b, da CF. E ao TJ ou
TRF? Não cabe ROC, mas recurso em sentido estrito, da decisão que denega habeas corpus (CPP, art.
581, X).

Objetivo: é a concessão do que foi denegado em habeas corpus e nas demais peças já mencionadas.
Se o habeas corpus foi impetrado para o trancamento da ação penal, o objetivo será a reforma da
decisão denegatória para que seja trancada a ação.

Teses de defesa: a tese a ser sustentada é o próprio motivo de interposição do recurso. Se foi im-
petrado um habeas corpus para que fosse reconhecida a ilegalidade da prisão em flagrante, a tese
é esta, a ilegalidade do flagrante, que pode ser de natureza material (ex.: crime impossível, do art.
17 do CP) ou de natureza processual (ex.: inobservância do art. 306, § 1º, do CPP). Por outro lado,
se impetrado habeas corpus contra o recebimento da denúncia, quando se tratar de crime já pres-
crito, a tese será o reconhecimento da prescrição e a rejeição da inicial. Um outro exemplo: se foi
impetrado um mandado de segurança para a restituição de coisa apreendida, mas o writ foi denega-
do, deve ser interposto ROC para que a coisa seja restituída. Portanto, em ROC, a tese a ser susten-
tada estará expressa no enunciado do problema, mas como fundamento para a decisão do juiz que
proferiu decisão contrária aos interesses do cliente. Sobre o habeas corpus, veja o art. 648 do CPP.

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 39
Prazo: para o ROC em habeas corpus, o prazo permanece de cinco dias (Lei n.º 8.038/90, art. 30).
Nos demais casos, devem ser observadas as disposições dos arts. 1.027 e 1.028 do NCPC.

Endereçamento: a interposição, ao tribunal recorrido; as razões, ao tribunal que julgará o recurso


ordinário constitucional.

Estrutura básica:

Excelentíssimo Senhor Desembargador Presidente do Tribunal de Justiça do Estado ...,

Da decisão denegatória de HC, o ROC sempre será interposto perante um tribunal.

Nome ..., já qualificado nos autos, vem, por seu advogado, interpor Recurso Ordinário
Constitucional, com fundamento no art. 105, II, a, da Constituição Federal c/c o
art. 30 da Lei n.º 8.038/90.

Requer seja processado o recurso, com as razões anexadas, e encaminhado ao Superior


Tribunal de Justiça.

É preciso ter cuidado com a fundamentação, pois é diversa para cada uma das hipóteses – até mes-
mo em caso de decisão denegatória de habeas corpus, em que os dispositivos constitucionais não
são os mesmos se o ROC é interposto ao STF ou ao STJ.

Comarca ..., data ....

Advogado ..., OAB ....

Observe se o enunciado não pede o recurso no último dia de prazo. Ademais, cuidado com o ROC
em HC e com o ROC nas demais hipóteses, visto que os prazos não são iguais.

Razões de Recurso Ordinário Constitucional

Colendo Superior Tribunal de Justiça,

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1ª EDIÇÃO
I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 40
Douta Turma,

A decisão denegatória proferida pela Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado,


objeto deste recurso, merece ser reformada pelas razões a seguir expostas:

Como fazemos em qualquer outro recurso, é preciso ter cuidado com o endereçamento ao tribunal
competente. Além disso, é sempre bom frisar o desejo de reforma da decisão recorrida.

I. DOS FATOS

(...)

Basta um resumo do enunciado.

II. DO DIREITO

(...)

É sempre interessante a divisão do tópico do direito em subtópicos, para evitar erros de correção da banca.

III. DO PEDIDO

Diante do exposto, requer seja conhecido e provido o recurso, bem como seja expedido alvará
de soltura.

A FGV tem pedido em gabaritos de recursos apenas o conhecimento e o provimento do recurso.


De qualquer forma, é melhor especificar os pedidos (o trancamento da ação penal; o relaxamento
da prisão em flagrante etc.). Ademais, se o cliente estiver preso – e o recurso foi interposto para
conseguir a sua liberdade -, peça expressamente a expedição de alvará de soltura.

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 41
Comarca ..., data ....

Advogado ..., OAB ....

Sempre tenha cuidado com a data, visto que a banca costuma pedir o oferecimento da peça no úl-
timo dia de prazo.

3. FASE PÓS-PROCESSUAL
Para a última fase, veremos o agravo em execução, o único recurso cabível contra decisões do juízo
da execução penal, e a revisão criminal, peça a ser ajuizada para rediscutir o mérito de sentença
condenatória transitada em julgado.

3.1. Agravo em Execução


Foi cobrada em dois Exames de Ordem. É o recurso a ser interposto contra decisões do juízo da exe-
cução penal. Por isso, ainda que a decisão a ser recorrida esteja no rol do art. 581 do CPP (recurso
em sentido estrito), a peça a ser feita será o agravo em execução.

Como identificar: o enunciado descreverá uma decisão denegatória de benefício proferida pelo ju-
ízo da execução penal.

Base legal: art. 197 da Lei n.º 7.210/84.

Objetivo: a concessão do benefício negado pelo juízo da execução (progressão de regime,


por exemplo).

Teses de defesa: não é a peça para se discutir falta de justa causa. Portanto, não tente absolver o
condenado ou coisa do tipo. Limite-se aos pedidos típicos da execução penal (progressão de regime,
saída temporária, livramento condicional etc.). Também é possível sustentar causas extintivas da
punibilidade – abolitio criminis, por exemplo, conforme art. 107, III, do CP.

Prazo: o art. 197 da LEP não estabelece prazo para a interposição e para as razões do agravo. Por isso,
doutrina e jurisprudência têm adotado os mesmos prazos gerais do recurso em sentido estrito: cinco
dias para a interposição e dois dias para as razões. A respeito do assunto, veja a Súmula 700-STF.

Endereçamento: a interposição é endereçada ao juízo da execução penal e as razões são endereça-


das ao tribunal (TJ ou TRF). Sobre o tema, cuidado com a Súmula 192-STJ – se o presídio for federal,
Justiça Federal; se estadual, Justiça Estadual, pouco importando a justiça onde o apenado foi julgado
e condenado.

Estrutura básica:

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da Vara de Execução Penal da Comarca ...

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1ª EDIÇÃO
I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 42
Muito cuidado com a pegadinha da Súmula 192-STJ, já mencionada.

Nome ..., já qualificado nos autos, vem, por seu advogado, interpor Agravo em Execução,
com fundamento no art. 197 da Lei n.º 7.210/84.

Quando a banca cobrou a peça, o gabarito falou em Lei n.º 7.210/84, e não em Lei de Execução
Penal. Por isso, acreditamos ser a escolha mais segura.

Pede que Vossa Excelência se retrate de sua decisão e, caso não o faça, que encaminhe o recurso,
com as inclusas razões, ao Tribunal de Justiça do Estado ....

Em agravo em execução, é possível a retratação do juiz – a banca pontua o pedido de retratação.

Comarca ..., data ....

Advogado ..., OAB ....

O agravo em execução tem os mesmos prazos gerais do recurso em sentido estrito: cinco dias para
a interposição e dois dias para as razões.

Razões de Agravo em Execução

Egrégio Tribunal de Justiça do Estado ...,

Colenda Câmara,

Douto Procurador de Justiça,

Em que pese o saber jurídico do ilustro julgador da Vara da Execução Penal da Comarca ...,
a decisão merece ser reformada pelas razões a seguir:

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1ª EDIÇÃO
I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 43
Se o enunciado apontar o TJ ou TRF onde o processo está tramitando, deve ser mencionado expres-
samente no endereçamento das razões.

I. DOS FATOS

(...)

Basta resumir o enunciado, como feito nos demais modelos.

II. DO DIREITO

(...)

Embora, em agravo, não tenha muito o que ser pedido, procure fazer a divisão em subtópicos, para
uma melhor correção da prova. Tome cuidado com o tempo ao buscar as teses em execução penal,
pois, em regra, os vade-mécuns não têm índice alfabético-remissivo na LEP.

III. DO PEDIDO

Diante do exposto, requer seja conhecido e provido o recurso, para que seja concedida a progressão
de regime.

No XXIV Exame de Ordem, última vez em que caiu a peça, a banca aceitou os pedidos de conheci-
mento e provimento ou a concessão da progressão de regime, a tese da peça. A FGV tem pontuado
apenas os pedidos de conhecimento e provimento, sem que seja necessário especificar o que se bus-
ca. No entanto, em sua prova, por segurança, peça, além, do conhecimento e provimento, também
os pedidos individualizados (concessão de livramento condicional, por exemplo).

Comarca ..., data ....

Advogado ..., OAB ....

Atenção ao prazo de interposição, que é o mesmo do recurso em sentido estrito.

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 44
3.2. Revisão criminal
Caiu em apenas um Exame de Ordem. A revisão criminal equivale à ação rescisória do CPC. É o meio
pela qual uma sentença já transitada em julgado pode voltar a ser rediscutida. No entanto, atenção:
é peça que pode ser interposta somente em favor do condenado. Se alguém é absolvido de um
homicídio e, anos depois, aparece uma filmagem que demonstra que o acusado é, sim, o homicida,
nada poderá ser feito.

Como identificar: há uma sentença condenatória transitada em julgado e o condenado quer voltar a
discutir o mérito da causa, seja para reconhecer alguma nulidade processual, para ser absolvido ou
para melhorar a sua situação prisional.

Novatio legis in mellius e revisão: é preciso ter cuidado para não fazer confusão. Se, durante a exe-
cução penal, sobrevier nova lei, mais benéfica (novatio legis in mellius), compete ao juízo da execu-
ção aplicá-la – em caso de decisão denegatória, deve ser interposto agravo em execução. A mesma
regra vale para a situação de abolitio criminis, quando a lei posterior deixa de considerar crime
determinada conduta. Nesse sentido, veja a Súmula 611-STF. A revisão criminal não é a peça cabível
para a aplicação de nova lei durante a execução penal.

Base legal: art. 621 do CPP.

Objetivo: depende de qual inciso do 621 do CPP a sua revisão foi embasada. Se houver prova nova
da inocência do condenado, pode ser pleiteada a absolvição. Por outro lado, se não foi reconhecida
alguma causa de diminuição de pena (ex.: o arrependimento posterior, do art. 16 do CP), o objetivo
será a diminuição da pena.

Teses de defesa: a identificação das teses em revisão é tarefa das mais fáceis. Isso porque, para que
seja possível a revisão, o enunciado terá de descrever a sentença condenatória proferida contra o
revisionando, com todos os detalhes. Considerando que as hipóteses de cabimento da revisão são
apenas aquelas do art. 621 do CPP, basta fazer o cruzamento de informações: o que assegura o art.
621 e o que foi injusto na sentença condenatória. Para isso, o examinando deverá fazer a análise do
caso proposto, como faria em qualquer outra peça. Se o agente praticou um furto, leia a respeito do
delito e descubra se não era cabível alguma causa de diminuição de pena. Se a pena-base foi fixada
acima do mínimo legal, veja se não houve algum equívoco. Para a hipótese de revisão por violação
da lei (art. 621, I), a pesquisa é mais extensa, pois terá de ser estudada se a sentença foi ou não
justa, com base em toda a legislação. Já em caso de prova nova (art. 621, III), o próprio enunciado
dirá que prova é essa, bastando fundamentá-la. Além da justa causa, da extinção da punibilidade e
de excessos na punição, devem ser analisadas eventuais nulidades, que também ensejam o ofereci-
mento da revisão.

Prazo: não existe. A qualquer tempo pode ser oferecida. Imagine que, há trinta anos, um indivíduo
cumpriu pena por um roubo. Passado todo esse tempo, surge uma prova nova, que demonstra,
sem dúvida alguma, que ele é inocente. Há interesse em ser absolvido? É claro que sim, até para
pleitear indenização pela condenação injusta.

Endereçamento: a peça nunca será endereçada ao juiz de primeira instância. Se quem condenou o
revisionando foi o juiz de primeira instância, a revisão será proposta no TJ ou no TRF. Em uma ação
originária do STJ ou do STF, caberá ao próprio Tribunal Superior o julgamento da revisão criminal.

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1ª EDIÇÃO
I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 45
Estrutura básica:

Excelentíssimo Senhor Desembargador Presidente do Tribunal de Justiça do Estado ...,

Como já dito, a peça jamais será endereçada ao juiz de primeira instância. Observe quem julgou o
caso para determinar a competência: TJ, TRF, STJ ou STF.

Nome ..., nacionalidade ..., profissão ..., residente no endereço ..., vem, por seu advogado,
propor Revisão Criminal, com fundamento no art. 621, (inciso), do Código de Processo
Penal, pelas razões a seguir expostas:

O revisionando deve ser qualificado, pois se trata de petição inicial.

I. DOS FATOS

(...)

Basta resumir o enunciado.

II. DO DIREITO

(...)

É sempre interessante a divisão do tópico do direito em subtópicos, para uma melhor correção
da prova.

III. DO PEDIDO

Diante do exposto, com fundamento no art. 626 do Código de Processo Penal, requer:

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I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 46
(a) A desclassificação do crime de furto qualificado para o de furto simples;
(b) A incidência da causa de diminuição de pena do arrependimento posterior.

No X Exame de Ordem, a banca pontuou a expressa menção ao art. 626 do CPP. Além disso, devem
ser individualizados os pedidos, não sendo o caso de mero pedido de provimento, como é feito
nos recursos.

Comarca ..., data ....

Advogado ..., OAB ....

Como não tem prazo, não haveria como a banca exigir o oferecimento em seu último dia.

DEMAIS PEÇAS
Por economia de espaço, tivermos de nos limitar às principais peças possíveis para a segunda fase
do Exame de Ordem. Entretanto, o leitor poderá encontrar outros modelos em nosso endereço:
www.cadernodeprova.com.br.

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
I. COMO IDENTIFICAR A PEÇA CABÍVEL 47
II. COMO
IDENTIFICAR
AS TESES
Para a segunda fase, o grande desafio é aprender a identificar as teses de defesa ou de acusação.
No entanto, é possível facilitar essa tarefa com a análise das teses cobradas nas provas passadas,
pois a FGV é muito repetitiva no que pede, conforme levantamento a seguir. Fizemos o estudo de
trás para frente, do último Exame de Ordem para o primeiro. Isso porque, nas primeiras provas,
percebemos uma prova semelhante ao Exame de Ordem elaborado pelo CESPE, a banca que ante-
riormente aplicava a prova – provavelmente, nas primeiras provas, a FGV quis manter o padrão da
banca anterior. No entanto, com o tempo, a FGV criou um padrão próprio de prova, com foco no CP e
no CPP – o CESPE costumava pedir legislação penal especial – e em algumas Súmulas do STJ e do STF.

XXVI Exame de Ordem


Peça: memoriais.

Nulidade: ausência de intimação do réu. O seu advogado renunciou ao mandato e o juiz nomeou a
Defensoria Pública, sem que o réu fosse ouvido. A banca exigiu menção à violação do princípio da
ampla defesa, com fundamento no art. 5º, LV, da CF ou no art. 564, IV, do CPP.

Falta de justa causa: atipicidade em razão de o acusado não ter iniciado os atos executórios do deli-
to de estupro. A sua conduta foi até a preparação. A tese exigia do examinando o conhecimento do
iter criminis.

Excesso na punição: (a) afastamento da qualificadora do art. 213, § 1º, do CP; (b) pena-base no mí-
nimo legal, com fundamento no art. 59 do CP; (c) afastamento da agravante do art. 61, II, f, do CP;
(d) reconhecimento da atenuante da confissão espontânea, do art. 65, III, d, do CP; (e) redução da
diminuição de pena da tentativa ao máximo (CP, art. 14, parágrafo único), em razão de o réu ter fi-
cado distante da consumação; (f) fixação de regime semiaberto ou aberto, com fundamento no art.
33, § 2º, do CP; (g) aplicação da suspensão condicional da pena, do art. 77 do CP.

XXV Exame de Ordem (reaplicação em Porto Alegre/RS)


Peça: apelação.

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
II. COMO IDENTIFICAR AS TESES 48
Nulidade: o réu não foi interrogado e não participou da produção de provas, em violação ao princí-
pio da ampla defesa, nos termos do art. 5º, LV, da CF.

Falta de justa causa: absolvição pelo crime de falsificação de documento por ser absorvido pelo
delito de estelionato, conforme Súmula 17-STJ. A banca exigiu a menção expressa ao princípio
da consunção.

Excesso na punição: (a) redução da pena-base ao mínimo legal, por ser o dolo inerente ao tipo
penal; (b) reconhecimento da atenuante do art. 65, I, do CP, em razão da idade avançada do réu;
(c) reconhecimento da tentativa, por ser o estelionato crime material, e não foi obtida a vantagem
ilícita; (d) substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos, com fundamento no
art. 44, II, do CP; (e) suspensão condicional da pena, com fulcro no art. 77, § 2º, do CP.

XXV Exame de Ordem (nacional)


Peça: resposta à acusação.

Nulidade: a citação por hora certa foi feita de forma errada pelo oficial de justiça, com fundamento
nos arts. 362 do CPP e 564, III, e, também do CPP.

Falta de justa causa: (a) crime impossível, com fundamento no art. 17 do CP; (b) legítima defesa de
terceiro, dos arts. 23, II, e 25 do CP.

XXIV Exame de Ordem


Peça: agravo em execução.

Excesso na punição: (a) o delito de associação para o tráfico não é hediondo ou equiparado, con-
forme a Lei n.º 8.072/90; (b) afastamento da reincidência, com fundamento no art. 63 do CP; (c) o
requisito objetivo para a progressão de regime é o cumprimento de um sexto da pena; (d) o exame
criminológico não é obrigatório, com fundamento na Súmula 439-STJ e na SV-26.

XXIII Exame de Ordem


Peça: memoriais.

Nulidade: não foi oferecida a suspensão condicional do processo, do art. 89 da Lei n.º 9.099/95.
O gabarito exigiu a menção ao art. 28 do CPP.

Falta de justa causa: erro de tipo, com fundamento no art. 20 do CP.

Excesso na punição: (a) pena-base no mínimo legal (CP, art. 59); (b) reconhecimento da atenuante da
menoridade relativa, do art. 65, I, do CP; (c) reconhecimento da atenuante da confissão espontânea,

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
II. COMO IDENTIFICAR AS TESES 49
do art. 65, III, d, do CP; (d) reconhecimento da causa de diminuição do arrependimento posterior,
do art. 16 do CP; (e) aplicação do regime inicial aberto, conforme art. 33, § 2º, c, do CP; (f) substitui-
ção da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos (CP, art. 44).

XXII Exame de Ordem


Peça: apelação.

Nulidade: o juiz nomeou a Defensoria Pública para a defesa do réu, mas não o intimou previamente
para ter a oportunidade de nomear um advogado de sua confiança.

Falta de justa causa: absolvição do crime apontado na denúncia em razão da desistência voluntária,
do art. 15 do CP.

Extinção da punibilidade: por existir tese de desclassificação, ocorreu a decadência em relação ao


delito menos gravoso. Por isso, sempre que for feita a desclassificação de um crime para outro,
é importante fazer a análise das teses em relação ao novo delito encontrado.

Excesso na punição: (a) desclassificação; (b) pena-base no mínimo legal, pois atos infracionais prati-
cados na adolescência (e as medidas socioeducativas) do réu não podem ser utilizados como maus
antecedentes; (c) reconhecimento da atenuante da menoridade relativa (CP, art. 65, I); (d) reconhe-
cimento da atenuante da confissão espontânea (CP, art. 65, III, d); (e) afastamento da majorante do
art. 157, § 2º-A, I, do CP, pois o simulacro não justifica o aumento de pena pelo emprego de arma
de fogo; (f) redução da diminuição de pena da tentativa ao máximo; (g) a suspensão condicional da
pena, do art. 77 do CP; (h) aplicação do regime inicial semiaberto ou aberto, com fundamento na
Súmula 718-STF, na Súmula 719-STF ou na Súmula 440-STJ.

XXI Exame de Ordem


Peça: resposta à acusação.

Extinção da punibilidade: prescrição, com fundamento nos arts. 107, IV, 109, IV e 115, todos do CP.

Falta de justa causa: (a) atipicidade material em razão do princípio da insignificância; (b) estado de
necessidade, conforme art. 24 do CP.

XX Exame de Ordem (reaplicação em Porto Velho/RO)


Peça: memoriais.

Falta de justa causa: (a) a coisa perdida não pode ser objeto material do delito de furto; (b) não é
possível a desclassificação do delito de furto para o de apropriação de coisa achada em razão da ele-
mentar (quinze dias) exigida para a prática deste delito; (c) atipicidade material e razão do princípio
da insignificância.

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
II. COMO IDENTIFICAR AS TESES 50
Excesso na punição: (a) pena-base no mínimo legal, pois medidas socioeducativas por atos infra-
cionais não podem ser consideradas como maus antecedentes; (b) reconhecimento da atenuante
da menoridade relativa (CP, art. 65, I); (c) reconhecimento da atenuante da confissão espontânea
(CP, art. 65, III, d); (d) reconhecimento da causa de diminuição intitulada furto privilegiado, do art.
155, § 2º, do CP; (e) substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos (CP, art. 44);
(f) fixação do regime aberto, com fundamento no art. 33, § 2º, c, do CP; (g) suspensão condicional
da pena (CP, art. 77).

XX Exame de Ordem (nacional)


Peça: memoriais.

Falta de justa causa: a coação moral irresistível, com fundamento no art. 22 do CP. O enunciado
exigiu do examinando a explicação de que se trata de hipótese de inexigibilidade de conduta diver-
sa, excludente da culpabilidade, fundamentação doutrinária da tese. Por isso, é importante que o
examinando conheça a estrutura do crime, conforme a teoria tripartida.

Excesso na punição: (a) pena-base no mínimo legal, pois inquérito policial não pode configurar cir-
cunstância judicial desfavorável, em razão do princípio da presunção de inocência; (b) reconheci-
mento da atenuante da idade avançada, conforme art. 65, I, do CP; (c) reconhecimento da atenuante
da confissão espontânea (CP, art. 65, III, d); (d) reconhecimento da atenuante da coação irresistível
(CP, art. 65, III, c); (e) aplicação da causa de diminuição de pena do art. 33, § 4º, da Lei n.º 11.343/06;
(f) aplicação do regime inicial aberto, com fundamento na inconstitucionalidade do art. 2º, § 1º,
da Lei n.º 8.072/90; (g) substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos.

XIX Exame de Ordem


Peça: contrarrazões de apelação.

Nulidade: a apelação do MP é intempestiva, com fundamento no art. 593 do CPP.

Excesso na punição: (a) pena-base no mínimo legal, pois inquéritos e ações penais em trâmite não
justificam o reconhecimento de circunstâncias judiciais desfavoráveis, sob pena de violação do prin-
cípio da presunção de inocência, com fundamento no art. 5º, LVII, da CF ou na Súmula 444-STJ;
(b) afastamento da agravante da gravidez da vítima em razão de o recorrido não saber dessa con-
dição no momento da prática do delito; (c) afastamento da agravante da embriaguez preordenada,
pois a bebida não teria sido ingerida com o objetivo de cometer crime; (d) a fração de aumento da
majorante do roubo não pode ser aumentada com base, exclusivamente, no número de causas de
aumento, com fundamento na Súmula 443-STJ; (e) manutenção do regime semiaberto, pois a gravi-
dade em abstrato do delito não justifica o regime mais severo, com fundamento na Súmula 718-STF,
na Súmula 719-STF e na Súmula 440-STJ.

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
II. COMO IDENTIFICAR AS TESES 51
XVIII Exame de Ordem
Peça: apelação.

Excesso na punição: (a) reconhecimento do crime único em substituição ao concurso de crimes,


visto que o crime do art. 213 do CP é um tipo penal misto alternativa; (b) aplicação da pena-base
no mínimo legal, pois o juiz utilizou a violação da liberdade sexual, que é inerente ao tipo penal
de estupro, para exasperar a pena acima do mínimo; (c) aplicação da pena-base no mínimo legal,
já que ações penais em trâmite não configuram circunstância judicial negativa, com fundamento
na Súmula 444-STJ ou no princípio da presunção de inocência; (d) reconhecimento da atenuante
da menoridade relativa (CP, art. 65, I); (e) reconhecimento da atenuante da confissão espontânea
(CP, art. 65, III, d).

XVII Exame de Ordem


Peça: memoriais.

Extinção da punibilidade: prescrição, com fundamento nos arts. 107, IV, 109, IV e 115, todos do CP.

Falta de justa causa: atipicidade do furto de uso.

Excesso na punição: (a) pena-base no mínimo legal, pois ações penais em trâmite não justificam
o reconhecimento de maus antecedentes, sob pena de violação do princípio da presunção de ino-
cência; (b) reconhecimento da atenuante da menoridade relativa ou a atenuante da confissão es-
pontânea, do art. 65, I e III, d, do CP, alternativamente; (c) regime inicial aberto (CP, art. 33, § 2º, c);
(d) substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos (CP, art. 44).

XVI Exame de Ordem


Peça: agravo em execução.

Excesso na punição: (a) afastamento da hediondez do delito; (b) concessão do livramento condicio-
nal, pois presentes os requisitos legais, conforme art. 83, I, do CP; (c) não obrigatoriedade do exame
criminológico, conforme Súmula 439-STJ.

XV Exame de Ordem
Peça: queixa-crime.

Justa causa: a prática dos delitos de difamação (CP, art. 139) e de injúria (CP, art. 140).

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
II. COMO IDENTIFICAR AS TESES 52
Punição adequada: (a) incidência da majorante do art. 141, III, do CP, por ter sido o delito pratica-
do por meio que facilite a divulgação da ofensa; (b) incidência do concurso formal de delitos (CP,
art. 70).

XIV Exame de Ordem


Peça: memoriais.

Falta de justa causa: atipicidade da conduta por erro de tipo (CP, art. 20, caput).

Excesso na punição: (a) pena-base no mínimo legal; (b) reconhecimento do crime único em substi-
tuição ao concurso de delitos, por ser o estupro um tipo penal misto alternativo; (c) afastamento da
agravante da embriaguez preordenada; (d) reconhecimento da atenuante da menoridade relativa;
(e) regime inicial aberto, pois a imposição de regime inicial obrigatoriamente fechado aos delitos
hediondos é inconstitucional.

XIII Exame de Ordem


Peça: apelação.

Falta de justa causa: absolvição do delito de violação de domicílio por ser absorvido (princípio da
consunção) pelo furto qualificado.

Excesso na punição: (a) afastamento da agravante da reincidência, conforme art. 63 do CP; (b) re-
dução da pena pela aplicação do princípio da consunção; (c) fixação de regime inicial aberto (CP, art.
33, § 2º, c); (d) substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos (CP, art. 44).

XII Exame de Ordem


Peça: apelação.

Falta de justa causa: atipicidade material em razão do princípio da insignificância.

Excesso na punição: (a) reconhecimento da causa de diminuição do art. 155, § 2º, do CP, intitulada
furto privilegiado; (b) pena-base no mínimo legal, por ter o juiz considerado a reincidência para
elevá-la e também como circunstância agravante, em hipótese de bis in idem; (c) afastamento da
agravante da reincidência, com fundamento no art. 63 do CP; (d) fixação de regime inicial aberto,
com fulcro no art. 33, § 2º, c, do CP ou na Súmula 269-STJ; (e) substituição da pena privativa de li-
berdade por restritiva de direitos (CP, art. 44) (f) desenvolvimento a respeito da aplicação apenas da
pena de multa, conforme art. 155, § 2º, do CP.

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
II. COMO IDENTIFICAR AS TESES 53
XI Exame de Ordem
Peça: recurso em sentido estrito.

Excesso na punição: desclassificação do delito de homicídio doloso (CP, art. 121) para o de homicí-
dio culposo em delitos de trânsito (CTB, art. 302). O padrão de resposta exigiu a explicação entre as
modalidades de dolo e de culpa, com fundamento no art. 18 do CP.

X Exame de Ordem
Peça: revisão criminal. No entanto, por um equívoco do enunciado, a banca teve de aceitar a peça
de justificação.

Excesso na punição: (a) desclassificação do delito de furto qualificado para o de furto simples;
(b) reconhecimento da causa de diminuição do arrependimento posterior (CP, art. 16); (c) fixação de
regime inicial semiaberto, com fundamento na Súmula 269-STJ.

IX Exame de Ordem
Peça: memoriais.

Nulidade: inobservância do rito da Lei n.º 9.099/95, com a anulação do processo desde o recebi-
mento da denúncia.

Extinção da punibilidade: o reconhecimento da tese de nulidade, em razão do tempo decorrido,


dá causa à prescrição.

Falta de justa causa: falta de prova suficiente para a condenação.

Excesso na punição: (a) afastamento da agravante da gravidez por se tratar de hipótese de erro so-
bre a pessoa (CP, art. 20, § 3º); (b) afastamento da agravante da reincidência.

VIII Exame de Ordem


Peça: resposta à acusação.

Falta de justa causa: atipicidade da extorsão por ausência da elementar vantagem indevida.

Extinção da punibilidade: em razão da tese de desclassificação de extorsão para o exercício arbi-


trário das próprias razões, de ação penal privada, ocorreu a decadência. Por esse motivo, é sempre
importante, quando houver tese de desclassificação, a análise das teses em relação do novo de-
lito encontrado.

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
II. COMO IDENTIFICAR AS TESES 54
Excesso na punição: desclassificação do crime de extorsão para o delito de exercício arbitrário das
próprias razões (CP, art. 345).

VII Exame de Ordem


Peça: apelação (na condição de assistente de acusação).

Justa causa: a ré não poderia ter sido sumariamente absolvida por inimputabilidade, pois não era a
única tese de defesa, conforme o art. 415, parágrafo único, do CPP. Por ter sido a inimputabilidade
declarada em razão do estado puerperal, o gabarito exigiu que o examinando explicasse que essa
condição é elementar do delito de infanticídio, do art. 123 do CP.

VI Exame de Ordem
Peça: relaxamento da prisão em flagrante.

Nulidades: (a) violação do direito de comunicação entre o preso e o advogado e a família, com fun-
damento no art. 5º, LXIII, da CF e art. 7º, III, do Estatuto da OAB; (b) não encaminhamento do auto
de prisão em flagrante ao juiz competente e à Defensoria Pública, no prazo de vinte e quatro horas,
como determina o art. 306, § 1º, do CPP (a banca também aceitou o art. 5º, LXII, da CF).

Falta de justa causa: a única prova contra o preso em flagrante foi obtida em violação ao direito
de não produzir prova contra si, conforme art. 5º, LXIII, da CF e art. 8º, 2, d, do Decreto n.º 678/92
(Pacto de San José da Costa Rica).

V Exame de Ordem
Peça: apelação. Em virtude da redação confusa do enunciado, a banca também aceitou quem fez
embargos de declaração.

Nulidade: vedação à reformatio in pejus, com fundamento no art. 617 do CPP.

Extinção da punibilidade: prescrição.

Falta de justa causa: atipicidade material em razão do princípio da insignificância.

Excesso na punição: (a) afastamento da qualificadora do abuso de confiança ou a desclassificação


para o furto simples; (b) aplicação da causa de diminuição denominada furto privilegiado, do art.
155, § 2º, do CP; (c) substituição da pena privativa de liberdade em restritiva de direitos ou a sus-
pensão condicional da pena ou a diminuição da pena por bis in idem (a banca trouxe as teses em um
mesmo quesito, alternativamente).

Obs.: para quem fez embargos de declaração, as teses eram a obscuridade e a contradição da sen-
tença recorrida.

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
II. COMO IDENTIFICAR AS TESES 55
IV Exame de Ordem
Peça: apelação.

Nulidade: (a) inobservância do art. 226, II, do CPP; (b) ausência de apreensão da arma para a reali-
zação da perícia, conforme art. 158 do CPP.

Falta de justa causa: prova insuficiente (CPP, art. 386, V ou VII).

Excesso na punição: (a) fixação da pena-base no mínimo legal (CP, art. 59); (b) afastamento da ma-
jorante do emprego de arma de fogo (CP, art. 157, § 2º-A, I); (c) Fixação de regime mais benéfico
(CP, art. 33, § 2º);

Exame de Ordem 2010.3


Peça: recurso em sentido estrito.

Nulidade: (a) ilegalidade na decretação da interceptação telefônica, com fundamento no art. 2º da


Lei n.º 9.296/96; (b) ilicitude por derivação da prova testemunhal (CPP, art. 157, § 1º); (c) vício na
mutatio libelli por violação aos arts. 384 e 411, § 3º, do CPP.

Falta de justa causa: insuficiência de prova por ausência de prova pericial.

Exame de Ordem 2010.2


Peça: resposta à acusação.

Nulidade: (a) incompetência da Justiça Estadual (CF, art. 109, V); (b) nulidade da decretação da
interceptação telefônica, com fundamento nos arts. 2º e 5º da Lei n.º 9.296/96 (a banca também
exigiu o art. 93, IX, da CF); (c) ilegalidade da busca e apreensão por constar no mandado informações
genéricas; (d) inépcia da denúncia, em violação aos arts. 8º, 2, b, do Decreto 678/92, 5º, LV, da CF e
41 do CPP.

Falta de justa causa: (a) não houve a prática do delito do art. 239, parágrafo único, da Lei n.º 8.069/90
em virtude da ausência de dolo. Portanto, conduta atípica; (b) não ficou configurada a justa causa
para persecução penal pela prática do delito do art. 317, § 1º, do CP.

Além de conhecer as teses já cobradas, é importante que o examinando adote um sistema para a
identificação das teses. Não há uma fórmula ideal. Cada profissional tem o seu próprio método para
localizar as teses de defesa ou de acusação. Caso o leitor ainda não tenha um sistema próprio, expli-
caremos o nosso, que funciona muito bem.

Dividimos as teses em quatro grupos:

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
II. COMO IDENTIFICAR AS TESES 56
(a) Falta de justa causa: na fase processual, enseja a absolvição do acusado. Na pré-processu-
al, impede o recebimento da petição inicial (CPP, art. 395, III). O primeiro passo é a análise
do delito sob a ótica da teoria tripartida, que considera o crime composto por tipicidade,
ilicitude e culpabilidade. Em tipicidade, podemos buscar a ausência de conduta (ex.: erro de
tipo essencial, do art. 20, caput, do CP), de nexo causal (ex.: art. 13, § 1º, do CP) e a atipici-
dade material (ex.: princípio da insignificância), entre outras teses. Em ilicitude, buscamos
as excludentes (as genéricas, do art. 23 do CP, e as especiais, a exemplo do art. 128 do CP).
Por fim, em culpabilidade, podemos sustentar a inimputabilidade (ex.: art. 28, § 1º, do CP),
a ausência de potencial consciência da ilicitude (ex.: por erro de proibição inevitável, do art.
21 do CP) e a inexigibilidade de conduta diversa (ex.: coação moral irresistível, do art. 22 do
CP). Também como falta de justa causa, podemos sustentar a falta de provas suficientes em
desfavor do acusado.

(b) Extinção da punibilidade: as gerais estão previstas no art. 107 do CP, mas há outras espe-
ciais, a exemplo do art. 312, § 3º, do CP.

(c) Nulidades: identificado o procedimento descrito no enunciado (prisão em flagrante, ação


em trâmite no rito do júri etc.), fazemos a leitura, no CPP (ou em lei especial, se for o caso),
de como a legislação determina a sua realização.

(d) Excesso na punição: fazemos o passo a passo da aplicação da pena. Primeiro, o afastamen-
to de qualificadoras e o reconhecimento de privilégios (os verdadeiros, como o previsto no
art. 317, § 2º, do CP). Em seguida, a análise da pena-base, para que seja fixada no mínimo
legal (CP, art. 59). O próximo passo é a análise de agravantes (para afastamento) e de ate-
nuantes (para reconhecimento), com fundamento, em regra, nos arts. 61, 62, 65 e 66 do
CP. Na terceira fase, a análise das causas de aumento (para afastamento) e de diminuição
(para reconhecimento), a exemplo da tentativa (CP, art. 14, parágrafo único) ou do intitula-
do furto privilegiado (que, em verdade, é causa de diminuição de pena, do art. 155, § 2º, do
CP). Também deve ser avaliado o regime inicial de cumprimento de pena, com fundamento
no art. 33, § 2º, do CP. Na sequência, é feita a análise da substituição da pena privativa de
liberdade por restritiva de direitos (CP, art. 44). Por fim, o estudo do sursis, do art. 77 do CP.

Com o passo a passo acima, a pesquisa é feita de forma sistematizada, sem que nada seja esquecido.

Para o estudo da justa causa, além do estudo das provas passadas, é importante que o examinando
estude teoria do crime. É possível encontrar o assunto em qualquer livro de Direito Penal – mesmo
em sinopses para concursos. Como não é um assunto novo, é possível o estudo em livros mais an-
tigos, não sendo necessária a aquisição de obras de 2018. Além disso, é importante que o exami-
nando leia o que diz o dispositivo legal. No furto, por exemplo, a conduta consiste em subtrair. Se o
problema disser que o agente se apropriou, a tese de defesa será a atipicidade do furto por não ter
havido a subtração. Em regra, é possível elaborar as teses apenas com o que diz o vade-mécum.

Para a nulidade, é importante a leitura das provas passadas, mas não há motivo para um estu-
do exaustivo dos procedimentos do CPP e da legislação especial. Isso porque, no dia, você terá o
vade-mécum. Se o enunciado falar, por exemplo, em realização de acareação, basta confrontar os
arts. 229 e 230 do CPP com o enunciado para identificar a nulidade.

Em extinção da punibilidade, as causas gerais são aquelas do art. 107 do CP. Geralmente, a banca
cobra a prescrição e a decadência (CP, art. 107, IV), mas pode ser tese alguma outra, a exemplo

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
II. COMO IDENTIFICAR AS TESES 57
da retroatividade da lei que deixa de considerar o fato criminoso (abolitio criminis, do art. 107, III,
do CP) ou de causas especiais da extinção da punibilidade, como ocorre no art. 312, § 3º, do CP.

Por fim, em excesso na punição, deve ser buscado tudo o que for favorável ao acusado em caso de
condenação. Algumas atenuantes, como a menoridade relativa e a confissão espontânea, foram
cobradas muitas vezes em provas passadas. Para assimilar todos os pedidos referentes à pena – em
memoriais, são muitos -, a melhor forma é a prática. Depois de resolver umas cinco ou seis peças,
os artigos referentes à pena não sairão mais de sua cabeça.

Caso esteja na condição de acusador (ex.: queixa-crime), a ideia é a mesma, mas na via inversa:
(a) evite nulidades; (b) aponte não ter havido a extinção da punibilidade; (c) demonstre a justa cau-
sa; (d) sustente a adequada punição ao criminoso (pena-base acima do mínimo, agravantes, regime
mais gravoso etc.).

Para a correta identificação das teses, é imprescindível a identificação das palavras-chave no enun-
ciado. Se o problema fala em citação, é bem provável que tenha havido alguma nulidade no proce-
dimento. Para confirmar, basta ir ao índice alfabético-remissivo do CPP e descobrir onde a citação é
tratada no CPP. Sempre leia as remissões abaixo dos dispositivos localizados, pois a resposta pode
estar em outro dispositivo, lei ou em Súmulas do STF ou do STJ.

Para saber onde iniciar a busca, veja se o enunciado menciona algum artigo. Se sim, comece por ele
(ou por eles). Caso contrário, separe as palavras-chave do enunciado e as procure no índice alfabé-
tico-remissivo do CP ou do CPP – se a tese disser respeito ao crime ou à aplicação da pena (tese de
direito material), inicie pelo CP; caso trate de vícios no procedimento (tese de direito processual),
comece pelo CPP.

Um erro comum na sustentação de teses é a forma como elas são expostas. Na segunda fase do
Exame de Ordem, não basta mencionar a tese e a sua fundamentação. É necessário explicá-la e dizer
suas consequências. Veja, por exemplo, os quesitos n.º 5 e 6 do último Exame de Ordem, que exigi-
ram: no mérito, a absolvição de Lauro, pois não foram iniciados atos executórios do crime de estupro,
sendo certo que os atos preparatórios são imponíveis. Ou seja, não bastava dizer que não ocorreu a
execução do delito. O examinando tinha de explicar que não houve o início da execução e que atos
preparatórios são imponíveis e que, em razão disso, deve ocorrer a absolvição do réu.

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
II. COMO IDENTIFICAR AS TESES 58
III. PEÇAS
PASSADAS
RESOLVIDAS
VI EXAME DE ORDEM
1. No dia 10 de março de 2011, após ingerir um litro de vinho na sede de sua fazenda, José Alves
pegou seu automóvel e passou a conduzi-lo ao longo da estrada que tangencia sua propriedade
rural. Após percorrer cerca de dois quilômetros na estrada absolutamente deserta, José Alves
foi surpreendido por uma equipe da Polícia Militar que lá estava a fim de procurar um indivíduo
foragido do presídio da localidade.

2. Abordado pelos policiais, José Alves saiu de seu veículo trôpego e exalando forte odor de álcool,
oportunidade em que, de maneira incisiva, os policiais lhe compeliram a realizar um teste de
alcoolemia em aparelho de ar alveolar. Realizado o teste, foi constatado que José Alves tinha
concentração de álcool de um miligrama por litro de ar expelido pelos pulmões, razão pela qual
os policiais o conduziram à Unidade de Polícia Judiciária, onde foi lavrado Auto de Prisão em
Flagrante pela prática do crime previsto no artigo 306 da Lei 9.503/1997, c/c artigo 2º, inciso II,
do Decreto 6.488/2008, sendo lhe negado no referido Auto de Prisão em Flagrante o direito de
entrevistar-se com seus advogados ou com seus familiares.

3. Dois dias após a lavratura do Auto de Prisão em Flagrante, em razão de José Alves ter permane-
cido encarcerado na Delegacia de Polícia, você é procurado pela família do preso, sob protestos
de que não conseguiam vê-lo e de que o delegado não comunicara o fato ao juízo competente,
tampouco à Defensoria Pública.

4. Com base somente nas informações de que dispõe e nas que podem ser inferidas pelo caso
concreto acima, na qualidade de advogado de José Alves, redija a peça cabível, exclusiva de ad-
vogado, no que tange à liberdade de seu cliente, questionando, em juízo, eventuais ilegalidades
praticadas pela Autoridade Policial, alegando para tanto toda a matéria de direito pertinente ao
caso. (Valor: 5,0)

1. IDENTIFICANDO A PEÇA
Não há denúncia, citação, audiência, sentença... enfim, não há nada. Apenas a prisão em flagran-
te de José Alves. No último parágrafo, o enunciado não deixa qualquer dúvida: deve ser elabo-
rada a peça cabível para buscar a liberdade do cliente. Seria um habeas corpus? Não. Veja que

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 59
o enunciado diz que deve ser peça exclusiva de advogado. Considerando ter havido a prisão em
flagrante, mas nenhuma decisão de juiz, duas são as peças cabíveis: relaxamento da prisão em fla-
grante ou liberdade provisória. A primeira, relaxamento, é cabível contra a prisão em flagrante ilegal;
a segunda, liberdade provisória, contra a prisão em flagrante dentro da legalidade, mas ausentes
os requisitos da prisão preventiva. Atualmente, em razão da audiência de custódia, em que o juiz,
caso faça a conversão indevida de flagrante em preventiva, caberá habeas corpus ao respectivo tri-
bunal, dificilmente o relaxamento e a LP voltariam a cair em uma segunda fase do Exame de Ordem.
Como o enunciado descreve uma série de irregularidade no flagrante, a peça cabível no VI Exame de
Ordem era o relaxamento da prisão em flagrante.

2. IDENTIFICANDO AS TESES DE DEFESA


Na peça denominada relaxamento, temos um único objetivo: a soltura do cliente em virtude da
ilegalidade da prisão em flagrante. Como deve ser sempre feito, a busca é iniciada pelos disposi-
tivos legais mencionados no enunciado. Temos dois: o art. 306 da Lei n.º 9.503/97 e o art. 2º, II,
do Decreto n.º 6.488/08. O art. 306 do Código de Trânsito Brasileiro trata da condução de veículo
automotor sob a influência de álcool. Contudo, algumas remissões interessantes foram feitas pelos
organizadores do vade-mécum: o art. 5º, LXIII, da CF, que trata de um importante direito do preso:
o de ficar calado, assegurada a assistência da família e de advogado. A outra remissão é ao art. 8º, 2,
g, da Convenção Americana de Direitos Humanos, que trata do direito de não ser obrigado a depor
contra si mesmo. Como o enunciado fala que José Alves foi obrigado a fazer o teste de alcoolemia,
é a primeira tese a ser sustentada. Pelas remissões feitas pelos organizadores, está bem evidente
que, quando fizeram a montagem do vade-mécum, foi feito o estudo de provas passadas do Exame
de Ordem. Infelizmente, nas demais peças, mais atuais, os organizadores parecem não ter feito esse
mesmo estudo. Destarte, com base no levantamento feito, concluímos que a prova consistente em
teste de alcoolemia é ilícita, com fundamento no art. 157 do CPP (no remissivo do CPP, é de fácil lo-
calização a remissão ao art. 157, em provas, na página 608) e, portanto, é ilegal a prisão em flagrante
de José Alves.

Além disso, em busca de nulidades processuais, procuramos por prisão em flagrante no remissivo
do CPP. O índice faz remissão aos arts. 301 a 310 do CPP. Sem muito esforço, da leitura dos dispositi-
vos, algumas teses foram localizadas: o prazo máximo de vinte e quatro horas, que foi ultrapassado
(CPP, art. 306, § 1º), e a comunicação à Defensoria Pública e ao juiz competente (CPP, art. 306, § 1º).
Ademais, no art. 304, uma remissão importante: ao art. 5º, LXII, da CF, que determina que a prisão
de qualquer pessoa e o local onde se encontre serão comunicados imediatamente ao juiz competen-
te e à família do preso ou à pessoa por ele indicada, direito violado na prisão de José.

Em conclusão, temos o seguinte: (a) José Alves não poderia ter sido obrigado a fazer o teste de alco-
olemia, pois a Convenção Americana de Direitos Humanos (Dec. n.º 678/92), no art. 8º, 2, garante ao
preso o direito de não depor contra si mesmo. Nesse mesmo sentido, o art. 5º, LXIII, da Constituição,
que assegura ao preso o direito ao silêncio, bem como a comunicar-se com a família e o advogado;
(b) a única prova contra José foi obtida em violação á lei. Portanto, ilícita, conforme art. 157 do CPP;
(c) o art. 306, § 1º, do CPP determina que, em vinte e quatro horas, o auto de prisão em flagrante
deve ser enviado ao juiz competente e à Defensoria Pública, caso o preso não tenha sido assistido
por advogado, e José já está preso há dois dias, sem que nada disso tenha ocorrido; (d) a prisão de
José deveria ter sido comunicada à família e ao advogado (CF, art. 5º, LXII); (e) por fim, José não po-
deria ter ficado incomunicável, conforme o já localizado art. 5º, LXIII, da CF.

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 60
3. MONTANDO A PEÇA

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da ... Vara Criminal da Comarca ...

Comentário: por não ter o enunciado trazido qualquer menção à vara competente ou à comarca,
devem ser adotadas as reticências ou XXX, como determina o edital.

José Alves, nacionalidade ..., estado civil ..., profissão ..., residente no endereço ..., vem,
por seu advogado, requerer o Relaxamento da Prisão em Flagrante, com fundamento no art. 5º,
LXV, da Constituição, pelas razões a seguir expostas:

Comentário: por ser uma peça inicial, o requerente deve ser qualificado. Cuidado para não inventar
dados: em momento algum foi dito, por exemplo, que José é brasileiro. Sobre a fundamentação,
a FGV aceitou o art. 5º, LXV, da CF ou o art. 310, I, do CPP.

I. DOS FATOS

(...)

Comentário: a divisão em dos fatos, do direito e do pedido não é pontuada pela banca. Entretanto,
gostamos de utilizá-la. Como a correção da FGV é muito ruim, quanto melhor organizada a sua peça,
menor a chance de erros de correção – a banca errará de qualquer forma, mas o prejuízo será menor
se a sua peça estiver bem estruturada. Como já dito, a descrição dos fatos não é pontuada pela FGV
– na queixa-crime, há uma situação especial, tratada no modelo da peça. Portanto, limite-se a um
resumo do enunciado. Não perca muito tempo em sua elaboração. Não é o momento de sustentar
teses de defesa. Considerando a irrelevância do tópico dos fatos, em nossos modelos adotamos ape-
nas as reticências, mas por economia de espaço. Em sua prova, é claro, faça o resumo do enunciado.

II. DO DIREITO

(a) Da ilicitude da prova.

Como exposto acima, a prisão em flagrante de José Alves foi, inegavelmente, ilegal.

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1ª EDIÇÃO
III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 61
O primeiro motivo disso se dá em razão da forma como foi realizado o teste de alcoolemia.
Os policiais militares o obrigaram à realização do teste, em violação ao art. 8º, 2, g,
do Decreto n.º 678/92, que assegura ao preso o direito de não depor contra si mesmo, e ao art. 5º,
LXIII, da Constituição Federal, que garante o direito ao silêncio. Por ter sido a prova
obtida em violação à lei, deve ser reconhecida a sua ilicitude, com fulcro no art. 157 do Código de
Processo Penal e, em consequência disso, a ilegalidade da prisão em flagrante, que deve ser relaxada.

Comentário: o VI Exame de Ordem reflete uma outra época da prova, com teses que exigem algum
conhecimento doutrinário ou jurisprudencial sobre o assunto. Da leitura dos artigos mencionados,
não dá para extrair, com exatidão, a tese do direito de não produzir prova contra si. No formato
atual, todavia, a prova pode ser respondida apenas com o que consta na lei, salvo em um ou outro
momento, quando a banca traz posicionamentos jurisprudenciais, especialmente.

Além disso, há uma série de outras violações à Constituição e ao Código de Processo Penal,
causando a ilegalidade da prisão em flagrante.

(b) Da ilegalidade da incomunicabilidade do preso.

O Sr. José Alves está em situação de incomunicabilidade, sem contato com o seu advogado ou
família, em discordância do que prevê o art. 5º, LXIII, da Constituição Federal.
Aliás, não houve nem mesmo a comunicação de sua prisão ao juiz competente e à família ou à pessoa
por ele indicada, como impõe o art. 5º LXII, da Constituição Federal.

(c) Da ilegalidade do excesso de prazo e da ausência de comunicação à Defensoria


Pública e ao Juiz competente.

Ademais, ele está há dois dias preso, sem que o auto de prisão em flagrante tenha sido encaminhado
à Defensoria Pública, visto que não foi assistido por advogado, ou ao juiz competente, no prazo de
vinte e quatro horas, como determina o art. 306, § 1º, do Código de Processo Penal.

Em razão do relato acima, a prisão em flagrante é ilegal, devendo ser relaxada.

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1ª EDIÇÃO
III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 62
Comentários: sempre que uma tese é sustentada, não basta mencioná-la. O examinando deve ex-
plicá-la – o que é, quais os requisitos e consequências. Nos últimos Exames de Ordem, a banca tem
pontuado a transcrição do que diz a legislação ao ser sustentada uma tese, como pode ser percebido
em peças mais atuais ao longo deste manual.

III. DO PEDIDO

Com base no que foi dito, requer o relaxamento da prisão em flagrante e a expedição de alvará
de soltura.

Comarca ..., data ....

Advogado ..., OAB ....

Comentário: para que alguém seja liberado da prisão, é necessário que seja expedido alvará de
soltura pela autoridade competente. Por isso, é essencial pedi-lo, quando for hipótese de soltura do
cliente – embora, na prática, em um processo real, não exista essa necessidade, pois o juiz expede
o alvará de ofício.

XV EXAME DE ORDEM
1. Enrico, engenheiro de uma renomada empresa da construção civil, possui um perfil em uma
das redes sociais existentes na Internet e o utiliza diariamente para entrar em contato com
seus amigos, parentes e colegas de trabalho. Enrico utiliza constantemente as ferramentas
da Internet para contatos profissionais e lazer, como o fazem milhares de pessoas no mundo
contemporâneo.

2. No dia 19/04/2014, sábado, Enrico comemora aniversário e planeja, para a ocasião, uma reu-
nião à noite com parentes e amigos para festejar a data em uma famosa churrascaria da cidade
de Niterói, no estado do Rio de Janeiro. Na manhã de seu aniversário, resolveu, então, enviar
o convite por meio da rede social, publicando postagem alusiva à comemoração em seu perfil
pessoal, para todos os seus contatos.

3. Helena, vizinha e ex-namorada de Enrico, que também possui perfil na referida rede social e
está adicionada nos contatos de seu ex, soube, assim, da festa e do motivo da comemoração.
Então, de seu computador pessoal, instalado em sua residência, um prédio na praia de Icaraí,
em Niterói, publicou na rede social uma mensagem no perfil pessoal de Enrico.

4. Naquele momento, Helena, com o intuito de ofender o ex-namorado, publicou o seguinte co-
mentário: “não sei o motivo da comemoração, já que Enrico não passa de um idiota, bêbado,

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 63
irresponsável e sem vergonha!”, e, com o propósito de prejudicar Enrico perante seus colegas
de trabalho e denegrir sua reputação acrescentou, ainda, “ele trabalha todo dia embriagado!
No dia 10 do mês passado, ele cambaleava bêbado pelas ruas do Rio, inclusive, estava tão bêba-
do no horário do expediente que a empresa em que trabalha teve que chamar uma ambulância
para socorrê-lo!”.

5. Imediatamente, Enrico, que estava em seu apartamento e conectado à rede social por meio
de seu tablet, recebeu a mensagem e visualizou a publicação com os comentários ofensivos de
Helena em seu perfil pessoal.

6. Enrico, mortificado, não sabia o que dizer aos amigos, em especial a Carlos, Miguel e Ramirez,
que estavam ao seu lado naquele instante. Muito envergonhado, Enrico tentou disfarçar o cons-
trangimento sofrido, mas perdeu todo o seu entusiasmo, e a festa comemorativa deixou de ser
realizada. No dia seguinte, Enrico procurou a Delegacia de Polícia Especializada em Repressão
aos Crimes de Informática e narrou os fatos à autoridade policial, entregando o conteúdo im-
presso da mensagem ofensiva e a página da rede social na Internet onde ela poderia ser visu-
alizada. Passados cinco meses da data dos fatos, Enrico procurou seu escritório de advocacia e
narrou os fatos acima.

7. Você, na qualidade de advogado de Enrico, deve assisti-lo. Informa-se que a cidade de Niterói,
no Estado do Rio de Janeiro, possui Varas Criminais e Juizados Especiais Criminais.

8. Com base somente nas informações de que dispõe e nas que podem ser inferidas pelo caso con-
creto acima, redija a peça cabível, excluindo a possibilidade de impetração de habeas corpus,
sustentando, para tanto, as teses jurídicas pertinentes. (Valor: 5,00 pontos)

9. A peça deve abranger todos os fundamentos de Direito que possam ser utilizados para dar res-
paldo à pretensão.

1. IDENTIFICANDO A PEÇA
O problema traz situação incomum no Exame de Ordem. Geralmente, o examinando está do lado da
defesa do acusado. Todavia, no XV Exame de Ordem, o advogado deveria agir em defesa da vítima.
Como não existe denúncia ou queixa, citação, audiência, sentença ou qualquer outro ato de nature-
za processual, só resta uma peça: a queixa-crime, para dar início à ação penal.

2. COMO IDENTIFICAR AS TESES


O sistema de teses sugerido pelo manual pode ser adotado também pela acusação, mas de maneira
inversa. Se o acusado tem interesse na falta de justa causa, a acusação quer o oposto: a demonstração
de justa causa. No mesmo sentido, a acusação tem de analisar se não ocorreu a extinção da punibi-
lidade em seu desfavor e deve evitar nulidades processuais e buscar pela pior condenação possível.

Para a justa causa, temos primeiro de identificar qual foi o crime (ou os crimes) praticado por Helena.
Nos três primeiros parágrafos, nenhuma informação relevante. No entanto, no quarto, a resposta:
Helena disse em uma rede social, a um número indeterminado de pessoas, que Enrico é um idio-
ta, bêbado, irresponsável e sem vergonha. Na mesma mensagem, afirmou que no dia 10 do mês

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 64
passado, ele cambaleava bêbado pelas ruas do Rio, inclusive, estava tão bêbado no horário do expe-
diente que a empresa em que trabalha teve que chamar uma ambulância para socorrê-lo. Os demais
parágrafos não adicionam informação relevante para a caracterização da justa causa.

Acreditamos que até mesmo um leigo perceberia que se trata de calúnia, de injúria ou de difamação.
Por isso, começamos a nossa busca por essas três expressões, e as encontramos no remissivo do CP,
com remissão aos arts. 138, 139 e 140 do CP. Na calúnia (art. 138), o agente imputa a alguém falsa-
mente fato definido como crime. Não foi o caso, pois Helena não disse que Enrico praticou algum
crime. Na difamação (art. 139), o agente imputa a alguém fato ofensivo à reputação. Por fato, en-
tenda uma situação determinada (ex.: Fulano, casado, encontrou-se com a amante em um motel).
É a hipótese do enunciado, quando Helena disse que, no dia 10 do mês passado, ele cambaleava
bêbado pelas ruas. É um fato, inclusive com menção ao dia em que ocorreu. Em regra, para a con-
figuração da difamação, não importa se o fato é ou não verdadeiro – na calúnia, o CP fala em falsa-
mente, o que não consta na descrição da difamação. Por fim, na injúria (art. 140), o agente ofende
a dignidade ou o decoro de alguém, mas não fala em fato, como ocorre na calúnia e na difamação.
Destarte, a injúria é a mera ofensa, e foi o que ocorreu quando Helena disse que Enrico é um idiota,
bêbado, irresponsável e sem vergonha. Temos, então, a imputação a ser feita: difamação, do art. 139
do CP, e injúria, do art. 140 do CP.

O próximo passo é a análise da extinção da punibilidade – principalmente, a decadência e a prescri-


ção. Se refletirmos, a banca não poderia trazer algo nesse sentido, afinal, se já tiver havido um ou
outro, não haverá peça a ser oferecida. De qualquer forma, embora a banca não tenha pontuado
a decadência no XV Exame de Ordem, não haveria problema em criar um tópico para dizer que a
queixa-crime foi oferecida no prazo legal.

Sobre as nulidades processuais, devemos aprender sobre os requisitos da queixa-crime, para que o
juiz não rejeite a inicial, com fundamento no art. 395 do CPP. Para isso, procuramos por queixa no
remissivo do CPP, pois se trata de tese de direito processual. Um dos tópicos encontrados na expres-
são queixa fala dos elementos da peça, com remissão ao art. 41 do CPP. O dispositivo traz algumas
observações importantes: a queixa deve ter a exposição dos fatos criminosos, a qualificação do acu-
sado, a classificação do delito e o rol de testemunhas. Logo após o art. 41, no art. 44 – sempre leia os
dispositivos próximos ao artigo encontrado na remissão -, o CPP determina que a procuração, para
o oferecimento de queixa-crime, deve ter poderes especiais. No remissivo do CPP, junto à queixa,
encontramos a palavra querelante, com remissão ao art. 521 do CPP, que trata da audiência de con-
ciliação nos crimes contra a honra.

Em excesso na punição, que é o que se evita quando se está na defesa do acusado, mas se busca
quando do lado acusatório, devemos encontrar: qualificadoras, motivos para elevar a pena-base,
agravantes, causas de aumento e regime prisional mais gravoso. O primeiro passo é a análise do
capítulo onde estão localizados os delitos de acusação – o Capítulo V do Título I da Parte Especial
do CP, que contém os arts. 138 a 145 do CP. Feita a leitura dos dispositivos, percebe-se ter havido a
causa de aumento do art. 141, III, do CP: quando o crime contra a honra é praticado por meio que
facilite a divulgação, a exemplo da internet. Lidas as agravantes genéricas, do art. 61 do CP, nada é
encontrado (elas podem ser facilmente localizadas pelo remissivo do CP).

Por fim, um apontamento de extrema importância, que causou prejuízo a muitos examinandos no
XV Exame de Ordem. Sempre que o enunciado trouxer hipótese de prática de dois ou mais delitos,
deverá ser feita a análise do concurso de crimes, para a indicação de qual das hipóteses deve ser
aplicada ao caso concreto. Helena praticou dois crimes – difamação e injúria. Por essa razão, deve-
mos especificar a regra de concurso de crimes a ser adotada. Para isso, procuramos por concurso

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 65
de crimes no remissivo do CP (por influenciar na pena, é tese de direito material), e encontramos
remissões aos arts. 69 e 70 do CP. No art. 69, o CP descreve situação em que o agente pratica duas ou
mais ações ou omissões. No art. 70, quando o agente, com uma única ação ou omissão, pratica dois
ou mais crimes. Segundo o enunciado, Helena, em uma única mensagem, praticou os dois delitos.
Portanto, deve incidir o art. 70 do CP, que disciplina o concurso formal.

3. MONTANDO A PEÇA

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito do Juizado Especial Criminal da Comarca de


Niterói/RJ,

Comentário: o endereçamento da peça gerou muita polêmica na época. Pelo fato de o crime ter sido
praticado na internet, muitos entenderam que a competência seria da Justiça Federal. Entretanto, o
fato de um crime ser praticado na internet não atrai, por si só, a competência da Justiça Federal, esta-
belecida pelo art. 109 da Constituição. Como a situação descrita no enunciado não encontra amparo
nas hipóteses previstas, em rol taxativo, no mencionado dispositivo constitucional, a competência
é da Justiça Estadual. Ademais, quanto ao Juizado Criminal ser competente, uma análise deve ser
feita: mesmo com a incidência da causa de aumento do art. 141, III, do CP e do concurso formal (CP,
art. 70), a pena não ultrapassa dois anos. Por isso, é competente o JECrim (Lei n.º 9.099/95, art. 61).

Enrico, nacionalidade ..., estado civil ..., engenheiro, residente no endereço ..., por seu advogado
- procuração com poderes especiais anexada, com fundamento no art. 44 do Código de Processo
Penal -, oferece Queixa-Crime, com fulcro no art. 41 do Código de Processo Penal, contra:

Helena, nacionalidade ..., estado civil ..., profissão ..., residente no endereço ..., pelas razões de
fato e de direito a seguir expostas:

Comentário: em nossa pesquisa, descobrimos que a queixa-crime deve qualificar a vítima, o cri-
minoso e deve ser ajuizada com procuração com poderes especiais. Para receber a pontuação da
procuração especial, a FGV exigiu apenas que o examinando dissesse que existe procuração com
poderes especiais de acordo com o art. 44 do CPP em anexo ou menção acerca de sua existência no
corpo da qualificação. Na época, muitos examinandos fizeram a procuração, algo totalmente desne-
cessário – e capaz, até mesmo, de causar a anulação da peça. Em relação à fundamentação da peça,
a banca aceitou os arts. 30 ou 41 do CPP ou os arts. 100, § 2º, ou 145 do CP, alternativamente.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 66
I. DOS FATOS

(...)

Comentário: ao longo deste manual, destacamos várias vezes que o tópico dos fatos deve apenas
trazer um resumo do enunciado, pois a banca não atribui pontuação. Na queixa-crime, por conta do
art. 41 do CPP, que exige a descrição dos fatos, uma ressalva deve ser feita. Para a FGV, o que importa
é que o examinando descreva os fatos e consiga vinculá-los ao tipo penal imputado ao querelado.
No caso desta queixa, a FGV pontuou quem descreveu em que consiste a difamação e a injúria, com
menção às ofensas feitas por Helena. Portanto, não significa que o tópico dos fatos foi pontuado,
mas que o gabarito pontuou a menção aos fatos no corpo da peça. Para nós, o melhor é a descrição
minuciosa dos fatos, com o objetivo de pontuação, no tópico do direito. Para o dos fatos, entende-
mos melhor fazer um simples resumo do enunciado.

II. DO DIREITO

(a) Do crime de difamação.

Segundo o art. 139 do Código Penal, pratica o delito de difamação o agente que imputa a
alguém fato ofensivo à reputação. Como já relatado, no dia 19 de abril de 2014, a querelada
publicou, em uma rede social, que o querelante, no dia 10 do mês passado, (...) cambaleava bêbado
pelas ruas do Rio, inclusive, estava tão bêbado no horário do expediente que a empresa em que
trabalha teve que chamar uma ambulância para socorrê-lo. Destarte, houve evidente imputação de
fato desonroso à reputação de Enrico, devendo a querelada ser condenada pelo crime de difamação.

(b) Do crime de injúria.

Na mesma mensagem, a querelada ofendeu a dignidade do querelante, ao chamá-lo de idiota,


bêbado, irresponsável e sem vergonha. De acordo com o art. 140 do Código Penal, pratica o
crime de injúria o agente que ofende a dignidade ou o decoro de alguém.

Comentário: no gabarito, a FGV exigiu a descrição do delito de injúria e a descrição do delito de di-
famação. Portanto, o que a banca queria do examinando era a descrição dos delitos, para que fosse

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1ª EDIÇÃO
III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 67
esclarecido em que eles consistem. Bastava fazer a transcrição do que dizem os arts. 139 e 140 do
CP. Fizemos a divisão em tópicos para evitar erros de correção, o que é bem comum na segunda fase
do Exame de Ordem.

(c) Da causa de aumento de pena.

O art. 141, III, do Código Penal determina que as penas dos crimes contra a honra
aumentam-se de um terço se o crime é cometido na presença de várias pessoas, ou por meio que
facilite a divulgação da calúnia, da difamação ou da injúria. Como os delitos foram praticados na
internet, deve incidir a majorante.

Comentário: no item 4.3, onde foi pontuada a majorante, a banca trouxe a transcrição do inciso III
do art. 141.

(d) Do concurso formal de crimes.

Por fim, por ter praticado, mediante uma só ação, dois delitos – o de difamação e o de injúria -,
deve ser considerada, na condenação, o concurso formal de crimes, com fundamento no art. 70
do Código Penal.

Comentário: a banca exigiu apenas que fosse dito ter havido o concurso formal, com fundamento no
art. 70 do CP, sem maiores explicações.

III. DO PEDIDO

Diante do exposto, requer:

(a) A designação de audiência preliminar ou de conciliação, com fundamento no art. 521


do Código de Processo Penal;
(b) A citação da querelada;
(c) O recebimento da queixa-crime;

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 68
(d) A intimação e a oitiva das testemunhas ao final arroladas;
(e) A condenação da querelada pelo crime de difamação, do art. 139 do Código Penal,
e injúria, do art. 140 do Código Penal, com o aumento de pena do art. 141, III,
do Código Penal, em concurso formal de delitos, conforme art. 70 do Código Penal;
(f) A fixação de valor mínimo de indenização, nos termos do art. 387, IV, do Código
de Processo Penal.

Comentário: em queixa-crime, é preciso ter cuidado com os pedidos. Em seu vade-mécum, faça a re-
missão ao art. 387, IV, do CPP, abaixo do art. 41 do CPP, que trata da queixa-crime, para não esquecer
do pedido de indenização. Ademais, um erro muito comum: o pedido de condenação com menção à
fundamentação, mas não ao nomen juris dos delitos. No gabarito, a banca exigiu expressamente que
fosse pedida a condenação por difamação e por injúria. Quem disse apenas condenação ao crime do
art. 139 do CP, por exemplo, perdeu a pontuação.

Comarca ..., data ....

Advogado ..., OAB ....

Rol de testemunhas:

(a) Carlos, endereço ...;


(b) Miguel, endereço ...;
(c) Ramirez, endereço ....

Comentário: não foi o caso do XV Exame de Ordem, mas a FGV pode exigir que a queixa-crime seja
oferecida no último dia de prazo. Para não cair em pegadinha, atenção: em regra, o prazo decaden-
cial de seis meses é contado do dia em que descoberta a autoria, e não da prática do delito (embo-
ra as datas possam coincidir). Por ser prazo material, o último dia deve ser descontado. Portanto,
ao contar o prazo de seis meses, se o primeiro dia de contagem é o dia 6 de janeiro, o último dia de
prazo será o dia 5 de julho. Mais um detalhe: no prazo decadencial, não há prorrogação de prazo
para o dia útil seguinte. Caso a banca faça alguma pegadinha com prazo decadencial com termo
final em um sábado, o enunciado provavelmente informará que, na comarca, há plantão judiciário,
devendo a peça ser oferecida no sábado (ou no domingo ou feriado). Por fim, não esqueça do rol de
testemunhas. A banca atribui pontuação a ele.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 69
XXV EXAME DE ORDEM (NACIONAL)
1. Patrick, nascido em 04/06/1960, tio de Natália, jovem de 18 anos, estava na varanda de sua casa
em Araruama, em 05/03/2017, no interior do Estado do Rio de Janeiro, quando vê o namorado
de sua sobrinha, Lauro, agredindo-a de maneira violenta, em razão de ciúmes.

2. Verificando o risco que sua sobrinha corria com a agressão, Patrick gritou com Lauro, que não
parou de agredi-la. Patrick não tinha outra forma de intervir, porque estava com uma perna en-
faixada devido a um acidente de trânsito.

3. Ao ver que as agressões não cessavam, foi até o interior de sua residência e pegou uma arma de
fogo, de uso permitido, que mantinha no imóvel, devidamente registrada, tendo ele autorização
para tanto. Com intenção de causar lesão corporal que garantisse a debilidade permanente de
membro de Lauro, apertou o gatilho para efetuar disparo na direção de sua perna. Por circuns-
tâncias alheias à vontade de Patrick, a arma não funcionou, mas o barulho da arma de fogo
causou temor em Lauro, que empreendeu fuga e compareceu à Delegacia para narrar a conduta
de Patrick.

4. Após meses de investigações, com oitiva dos envolvidos e das testemunhas presenciais do fato,
quais sejam, Natália, Maria e José, estes dois últimos sendo vizinhos que conversavam no portão
da residência, o inquérito foi concluído, e o Ministério Público ofereceu denúncia, perante o juí-
zo competente, em face de Patrick como incurso nas sanções penais do Art. 129, § 1º, inciso III,
c/c. o Art. 14, inciso II, ambos do Código Penal. Juntamente com a denúncia, vieram as principais
peças que constavam do inquérito, inclusive a Folha de Antecedentes Criminais, na qual consta-
va outra anotação por ação penal em curso pela suposta prática do crime do Art. 168 do Código
Penal, bem como o laudo de exame pericial na arma de Patrick apreendida, o qual concluiu pela
total incapacidade de efetuar disparos.

5. Em busca do cumprimento do mandado de citação, o oficial de justiça comparece à residência


de Patrick e verifica que o imóvel se encontrava trancado. Apenas em razão desse único com-
parecimento no dia 26/02/2018, certifica que o réu estava se ocultando para não ser citado e
realiza, no dia seguinte, citação por hora certa, juntando o resultado do mandado de citação e
intimação para defesa aos autos no mesmo dia.

6. Maria, vizinha que presenciou a conduta do oficial de justiça, se assusta e liga para o advoga-
do de Patrick, informando o ocorrido e esclarecendo que ele se encontra trabalhando e ficará
embarcado por 15 dias. O advogado entra em contato com Patrick por email e este apenas con-
segue encaminhar uma procuração para adoção das medidas cabíveis, fazendo uma pequena
síntese do ocorrido por escrito.

7. Considerando a situação narrada, apresente, na qualidade do advogado de Patrick, a peça jurídi-


ca cabível, diferente do habeas corpus, apresentando todas as teses jurídicas de direito material
e processual pertinentes. A peça deverá ser datada do último dia do prazo. (Valor: 5,00)

8. Obs.: a peça deve abranger todos os fundamentos de Direito que possam ser utilizados para
dar respaldo à pretensão. A simples menção ou transcrição do dispositivo legal não con-
fere pontuação.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 70
1. IDENTIFICANDO A PEÇA
O enunciado fala em oferecimento de denúncia e em citação do réu, mas parou por aí. Não há
audiência, tampouco sentença. Portanto, é a primeira defesa a ser oferecida pelo réu: a resposta
à acusação.

2. IDENTIFICANDO AS TESES DE DEFESA


Em resposta à acusação, o principal objetivo é a absolvição sumária do réu, nos termos do art. 397
do CPP. Seguindo o sistema adotado neste manual, o primeiro passo é a busca por teses de falta de
justa causa, para a desconstituição do crime. No primeiro parágrafo, nenhuma informação relevan-
te. No segundo e no terceiro parágrafos, a evidente resposta: Patrick agiu para defender Natália.

No quarto parágrafo, mais uma tese de falta de justa causa: o laudo pericial da arma de Patrick
concluiu pela total incapacidade de efetuar disparos. Portanto, mesmo afastada a legítima defesa,
a arma jamais causaria lesões em Lauro.

A primeira tese não é difícil de fundamentar: a legítima defesa consta expressamente no índice alfa-
bético-remissivo do CP, com remissão ao art. 25 do CP. Como até mesmo um leigo diria legítima de-
fesa, não há motivo para fazer a pesquisa passo a passo para a localização da expressão. Em relação
à arma que não funciona, é bem provável que o leitor já saiba a resposta. De qualquer forma, como
a ideia deste manual é a demonstração de como localizar as respostas apenas com o vade-mécum,
fizemos duas pesquisas. Pelo remissivo do CPP, não conseguimos encontrar o caminho até a respos-
ta no tópico sobre perícias. Os organizadores poderiam ter feito menção à perícia dos instrumentos
do crime, com remissão ao art. 175 do CPP e, neste dispositivo, remissão ao art. 17 do CP, que dis-
ciplina o crime impossível. Penso que, dessa forma, o examinando encontraria com maior facilidade
a tese a ser sustentada. De qualquer forma, considerando que o enunciado não fala em impossível,
e fazendo de conta que o examinando nunca ouviu falar do assunto, fizemos a busca pela expressão
genérica crime(s), no remissivo do CP, e, dentre as remissões, a nossa resposta: impossível: art. 17.

Os demais parágrafos não trazem mais teses de falta de justa causa. Em seguida, foi feita a pesquisa
por extinção da punibilidade, mas nada foi encontrado. Após, foi feita a busca por nulidades pro-
cessuais – especialmente em relação ao recebimento da inicial, nos termos do art. 395 do CPP -,
e percebemos que o enunciado indica claramente algum problema em relação à citação de Patrick.
Ocorreu a citação por hora certa, mas o oficial de justiça agiu de forma correta? Para encontrar a
resposta, procuramos por citação no remissivo do CPP, e a localizamos, com remissão ao art. 362
do CPP, que trata da citação por hora certa. O dispositivo esclarece que a citação por hora certa só é
possível quando o réu se oculta para não ser citado – e não foi o caso, afinal, Patrick não estava no
local no momento da diligência. Além disso, o dispositivo do CPP determina que o procedimento é
disciplinado pelo antigo CPC, mas logo abaixo os organizadores fizeram remissão ao NCPC: arts. 252
a 254. No art. 252 do CPC, o dispositivo determina que a citação por hora certa só é possível quando
o oficial de justiça, por duas vezes, houver procurado o citando, mas o enunciado informa que só
houve uma busca, no dia 26/02/2018.

Com relação ao excesso na punição, por não ser o momento processual para sustentar teses referen-
tes à imposição de pena, não há o que pedir.

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3. MONTANDO A PEÇA

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da Vara Criminal da Comarca de Araruama/RJ,

Comentário: como o enunciado diz qual é a comarca, ela deveria ter sido mencionada no
endereçamento.

Lauro, já qualificado nos autos, vem, por seu advogado, apresentar Resposta à Acusação,
com fundamento no art. 396-A do Código de Processo Penal, pelas razões a seguir expostas:

Comentário: se um dia abrir um manual de prática para o Exame de Ordem e encontrar a peça com
outra nomenclatura (defesa prévia, defesa preliminar etc.), descarte-o. A FGV não aceita qualquer
expressão diversa da resposta à acusação. Quanto à fundamentação, no XXV Exame de Ordem,
a banca adotou o art. 396-A. Entretanto, no XXI Exame de Ordem, foram aceitos os arts. 396 e 396-A.
Em nossa opinião, a peça é fundamentada pela conjunção dos dispositivos. O correto seria dizer
396 e 396-A. Entretanto, considerando que, em todas as edições em que a peça caiu, o art. 396-A
foi aceito como resposta, é a escolha mais segura – e, de fato, a banca não pode negar que a peça
também encontra amparo no art. 396-A do CPP.

I. DOS FATOS

(...)

Comentário: a divisão em dos fatos, do direito e do pedido não é pontuada pela banca. Entretanto,
gostamos de utilizá-la. Como a correção da FGV é muito ruim, quanto melhor organizada a sua
peça, menor a chance de erros de correção – a banca errará de qualquer forma, mas o prejuízo será
menor se a sua peça estiver bem estruturada. Como já dito, a descrição dos fatos não é pontuada
pela FGV – na queixa-crime, há uma situação especial, tratada no modelo da peça. Portanto, limi-
te-se a um resumo do enunciado. Não perca muito tempo em sua elaboração. Não é o momento
de sustentar teses de defesa. Considerando a irrelevância do tópico dos fatos, em nossos modelos,
adotamos apenas as reticências, mas por economia de espaço. Em sua prova, é claro, faça o resumo
do enunciado.

II. DO DIREITO

(a) Preliminar de nulidade na citação

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 72
Como relatado acima, o réu foi citado por hora certa. Entretanto, houve evidente violação ao
art. 362 do Código de Processo Penal, visto que não houve ocultação, requisito para a
realização do procedimento. Além disso, o oficial de justiça fez uma única diligência, e o art. 252
do Código de Processo Civil exige que o citando seja procurado por duas vezes em seu domicílio.
Dessa forma, deve ser reconhecida a nulidade da citação.

Comentário: nas primeiras provas, a banca não costumava exigir a divisão da peça em subtópicos
(preliminares, mérito etc.). Entretanto, no gabarito do XXV Exame de Ordem, o gabarito fez a divi-
são e a pontuou – no quesito de n.º 3, a palavra preliminarmente é mencionada expressamente.
Por isso, é importante que o examinando também divida a peça em subtópicos, pois a banca pode
pontuar a divisão (o que tem ocorrido com frequência). Ademais, como a ideia é demonstrar ao
leitor, de forma honesta, como resolver a peça, um equívoco cometido em nossa resposta: a FGV
exigiu que a nulidade da citação fosse fundamentada no art. 564, III, e, do CPP. Em nossa pesquisa
por teses, deveríamos ter procurado por nulidade no índice remissivo do CPP, mas não o fizemos.
Teríamos perdido dez décimos pelo vacilo. O vade-mécum também contribuiu para o erro. Abaixo do
art. 362 do CPP, os organizadores deveriam ter feito remissão ao art. 564, III, e, pois, é evidente que,
se a tese a ser sustentada envolvesse a citação por hora certa, a nulidade deveria ser fundamenta-
da. De qualquer forma, mantendo a honestidade deste texto, elaborado para evitar que você, leitor,
erre em sua prova, o nosso equívoco foi mantido na elaboração do modelo.

(b) Mérito: atipicidade da conduta e exclusão da ilicitude.

A absolvição sumária do acusado é necessária, pois os fatos narrados na denúncia não


constituem crime.

Isso porque não se pune a tentativa quando, por ineficácia absoluta do meio, é impossível
consumar-se o crime – ou seja, crime impossível, com fundamento no art. 17 do Código Penal.
O exame pericial da arma de fogo apreendida concluiu pela total incapacidade de efetuar disparos.
Portanto, Lauro jamais teria sido atingido pelos disparos, já que a arma não funciona.

Comentário: os quesitos 6 e 7 do gabarito dizem muito sobre a forma como a prova é corrigida pela
FGV. No quesito de n.º 6, a banca exigiu que o examinando dissesse: não há que se falar em punição
da tentativa. Ou seja, o examinando tinha de transcrever o que diz o art. 17 do CP, que diz que não se
pune a tentativa. Por isso, sempre que sustentar alguma tese, use as exatas palavras do dispositivo
legal que a fundamenta. A banca atribui pontuação pelo uso das mesmas expressões do texto legal.
No quesito n.º 7, foram pontuadas as expressões absoluta ineficácia do meio utilizado (transcrição

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1ª EDIÇÃO
III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 73
do art. 17 do CP) e a arma de fogo não era apta a efetuar disparos, transcrita do enunciado da peça.
Por esse motivo, evite escrever o que diz o texto legal ou o enunciado com outras palavras. Repita o
que consta da lei e do enunciado.

Além do mais, o réu agiu em legítima defesa de direito de terceiro, causa de exclusão da ilicitude,
pois apenas utilizou os meios necessários para repelir injusta agressão atual, devendo ser absolvido
sumariamente, com fundamento no art. 25 do Código Penal.

Comentário: ao sustentar uma tese, o examinando deve explicá-la. É necessário dizer em que con-
siste, quais os requisitos e as suas consequências. No gabarito, a FGV exigiu que fosse dito que a
legítima defesa é causa excludente da ilicitude, informação que consta acima do art. 23, no Código
Penal. Também exigiu que fosse explicado quais os requisitos para o seu reconhecimento, utilizando
as exatas palavras do art. 25 do CP: uso moderado dos meios necessários para repelir injusta agres-
são, atual, a direito de outrem. Por fim, a banca pontuou a menção expressa à absolvição sumária.
Portanto, como já dito, ao sustentar uma tese de defesa, sempre explique o que é, quais os requisitos
e as consequências. Quanto à absolvição sumária, não faça confusão: quando a absolvição estiver
fundamentada nos arts. 397 e 415 do CPP, diga absolvição sumária; todavia, quando fundamentada
no art. 386 do CPP, diga apenas absolvição. Por fim, uma outra observação: a banca costuma pon-
tuar tudo em duplicidade. A absolvição sumária foi pontuada no do direito e também no do pedido.

III. DO PEDIDO

Diante do exposto, requer:

(a) Seja reconhecida a nulidade da citação por hora certa, com fundamento no art. 564,
IV, e, do Código de Processo Penal;
(b) A absolvição sumária do réu, pois o fato narrado evidentemente não constitui crime,
com fulcro no art. 397, III, do Código de Processo Penal;
(c) A absolvição sumária do réu em razão da existência de manifesta causa excludente da
ilicitude, com fundamento no art. 397, I, do Código de Processo Penal;
(d) A intimação e oitiva das testemunhas ao final arroladas.

Comentário: a tese de nulidade da citação foi pontuada pela banca no do direito, mas o examinador
esqueceu de repeti-la no do pedido – vez ou outra, isso acontece. Acreditamos que a tese não deveria
constar do gabarito, visto que a nulidade foi suprida, não tendo havido prejuízo ao réu. De qualquer
forma, no Exame de Ordem, sempre sustente as teses encontradas, ainda que pareçam absurdas.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 74
Quando o enunciado descreveu os equívocos do oficial de justiça, estava evidente que o vício na
citação seria objeto de pontuação. Sobre a absolvição, cuidado: em resposta à acusação, ela sempre
será sumária. Quem disse apenas absolvição perdeu a pontuação. Outro erro comum é imaginar
que, sustentado um pedido de absolvição, não há necessidade de sustentar outros. Todavia, se hou-
ver em sua prova três, quatro, cinco teses absolutórias, todas deverão ser fundamentadas, de acor-
do com os incisos do art. 397 do CPP. Por fim, cuidado: em resposta, a FGV sempre pontua o pedido
de intimação das testemunhas.

Comarca, 9 de março de 2018.

Advogado ..., OAB ....

Rol de Testemunhas:

(a) Maria, endereço ...;


(b) José, endereço ...;
(c) Natália, endereço ....

Comentário: para o cálculo do prazo, não importa o dia da juntada do mandado aos autos, mas
quando a citação ou intimação foi efetivamente realizada. O enunciado não fez pegadinha nesse
sentido, mas fica o alerta. Como a citação foi feita no dia 27 de fevereiro, e não há informação a
respeito de dia da semana, devemos fazer a contagem corrida: 28, 1º, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9. Caso o
enunciado informasse o dia da semana, o examinando teria de verificar se o começo ou o final do
prazo não coincidia com sábado ou domingo, quando deveria ser prorrogado ao primeiro dia útil
seguinte. Exemplo: se o enunciado dissesse que o dia 28 era um sábado, o primeiro dia de contagem
seria o dia 2, segunda, e o prazo final seria o dia 11. Quanto ao ano ser ou não bissexto, só considere
a hipótese se o enunciado disser expressamente que se trata de ano bissexto. Caso contrário, ainda
que o ano seja bissexto (o próximo será em 2020), o examinando deverá desconsiderá-lo. Só existe
no mundo o que consta do enunciado.

XXI EXAME DE ORDEM


1. Gabriela, nascida em 28/04/1990, terminou relacionamento amoroso com Patrick, não mais
suportando as agressões físicas sofridas, sendo expulsa do imóvel em que residia com o compa-
nheiro em comunidade carente na cidade de Fortaleza, Ceará, juntamente com o filho do casal
de apenas 02 anos. Sem ter familiares no Estado e nem outros conhecidos, passou a pernoitar
com o filho em igrejas e outros locais de acesso público, alimentando-se a partir de ajudas
recebidas de desconhecidos. Nessa época, Gabriela fez amizade com Maria, outra mulher em
situação de rua que frequentava os mesmos espaços que ela.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 75
2. No dia 24 de dezembro de 2010, não mais aguentando a situação e vendo o filho chorar e ficar
doente em razão da ausência de alimentação, após não conseguir emprego ou ajuda, Gabriela
decidiu ingressar em um grande supermercado da região, onde escondeu na roupa dois pacotes
de macarrão, cujo valor totalizava R$18,00 (dezoito reais). Ocorre que a conduta de Gabriela foi
percebida pelo fiscal de segurança, que a abordou no momento em que ela deixava o estabele-
cimento comercial sem pagar pelos bens, e apreendeu os dois produtos escondidos.

3. Em sede policial, Gabriela confirmou os fatos, reiterando a ausência de recursos financeiros e


a situação de fome e risco físico de seu filho. Juntado à Folha de Antecedentes Criminais sem
outras anotações, o laudo de avaliação dos bens subtraídos confirmando o valor, e ouvidos os
envolvidos, inclusive o fiscal de segurança e o gerente do supermercado, o auto de prisão em
flagrante e o inquérito policial foram encaminhados ao Ministério Público, que ofereceu denún-
cia em face de Gabriela pela prática do crime do Art. 155, caput, c/c Art. 14, inciso II, ambos do
Código Penal, além de ter opinado pela liberdade da acusada.

4. O magistrado em atuação perante o juízo competente, no dia 18 de janeiro de 2011, recebeu a


denúncia oferecida pelo Ministério Público, concedeu liberdade provisória à acusada, deixando
de converter o flagrante em preventiva, e determinou que fosse realizada a citação da denuncia-
da. Contudo, foi concedida a liberdade para Gabriela antes de sua citação e, como ela não tinha
endereço fixo, não foi localizada para ser citada.

5. No ano de 2015, Gabriela consegue um emprego e fica em melhores condições. Em razão disso,
procura um advogado, esclarecendo que nada sabe sobre o prosseguimento da ação penal a
que respondia. Disse, ainda, que Maria, hoje residente na rua X, na época dos fatos também era
moradora de rua e tinha conhecimento de suas dificuldades. Diante disso, em 16 de março de
2015, segunda-feira, sendo terça-feira dia útil em todo o país,

6. Gabriela e o advogado compareceram ao cartório, onde são informados que o processo estava
em seu regular prosseguimento desde 2011, sem qualquer suspensão, esperando a localização
de Gabriela para citação.

7. Naquele mesmo momento, Gabriela foi citada, assim como intimada, junto ao seu advogado,
para apresentação da medida cabível. Cabe destacar que a ré, acompanhada de seu patrono,
já manifestou desinteresse em aceitar a proposta de suspensão condicional do processo ofere-
cida pelo Ministério Público.

8. Considerando a situação narrada, apresente, na qualidade de advogado(a) de Gabriela, a peça


jurídica cabível, diferente do habeas corpus, apresentando todas as teses jurídicas de direito
material e processual pertinentes. A peça deverá ser datada no último dia do prazo. (Valor: 5,00)

9. Obs.: a peça deve abranger todos os fundamentos de Direito que possam ser utilizados para dar
respaldo à pretensão. A simples menção ou transcrição do dispositivo legal não confere pontuação.

1. IDENTIFICANDO A PEÇA
Gabriela foi denunciada, citada e mais nada ocorreu. Não houve audiência ou sentença ou qualquer
outro acontecimento que poderia fazer com que houvesse dúvida em relação à peça cabível. Por ser
inegavelmente a sua primeira manifestação na ação penal, a peça cabível é a resposta à acusação.

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2. IDENTIFICANDO AS TESES DE DEFESA
Iniciando a pesquisa por falta de justa causa, nada foi encontrado no primeiro parágrafo, que ape-
nas descreve a situação de penúria vivida pela ré. No segundo parágrafo, está bem clara a tese a ser
sustentada: Gabriela tentou furtar dois pacotes de macarrão, no valor de R$ 18,00, para salvar a vida
do filho, doente em razão da ausência de alimentação. Dos demais parágrafos, nada mais se extrai,
a não ser o crime apontado na denúncia: o de furto simples (CP, art. 155, caput) na forma tentada
(CP, art. 14, II), onde deve iniciar a nossa pesquisa. Da leitura do art. 155 do CP, nada é extraído,
nem mesmo das remissões do vade-mécum. Há menção à Súmula 567-STJ, que pode ser cobrada
em provas futuras, mas que não interessa à defesa de Gabriela e nem há informações suficientes
no enunciado para mencioná-la na peça. O art. 14, II, também não traz qualquer informação impor-
tante. De qualquer forma, a tese está bem clara: Gabriela agiu em estado de necessidade. No índice
remissivo do CP, não tivemos dificuldade em localizá-lo, com remissão aos arts. 23, I, e 24 do CP.
Ao ler os dois dispositivos, não há dúvida de que é a tese a ser sustentada. A outra tese é o princípio
da insignificância – quando o enunciado fala em furto e em valores, é bem provável que o gabarito
pontue o princípio. Como não tem previsão legal, não há como fundamentar a tese. É importante
que o examinando conheça a consequência da aplicação do princípio (atipicidade material). A banca
sempre pontua.

Em seguida, buscamos por causas de extinção da punibilidade. Considerando que o enunciado traz
muitas datas, acendeu em nossa cabeça o alerta da prescrição. A conduta ocorreu no dia 24/12/10 e
a denúncia foi recebida no dia 18/01/11, mas a citação ocorreu somente no dia 16/03/15. O enuncia-
do não teria trazido um prazo tão amplo sem que alguma tese surja disso. Para confirmar a teoria,
pesquisamos por prescrição no índice remissivo do CP, e alguns tópicos chamaram a atenção: (a) an-
tes de transitar em julgado a sentença: art. 109; Súm. 220, STJ; (b) redução dos prazos de: art. 115;
(c) termo inicial da prescrição antes de transitar em julgado a sentença final: art. 111.

O art. 109 do CP determina que a prescrição, antes do trânsito em julgado, é calculada pela pena má-
xima cominada ao delito. No furto (CP, art. 155, caput), a pena máxima é de quatro anos. Segundo o
art. 109, IV, a pena que não excede quatro anos prescreve em oito anos. Todavia, entre o recebimen-
to da inicial e a citação, passaram-se pouco mais de quatro anos. A seguir, fizemos a leitura do segun-
do artigo localizado em nossa pesquisa: o art. 115, que determina a redução do prazo prescricional
pela metade quando o criminoso, na época dos fatos, tinha menos de vinte e um anos. É o caso de
Gabriela, que tinha vinte anos na época em que a subtração ocorreu. Portanto, o prazo prescricional
é de quatro anos (metade de oito anos), e o possível crime praticado pela ré já está prescrito. O art.
111 apenas confirma a teoria, ao tratar do momento em que começa a correr a prescrição (que foi
interrompida pelo recebimento da denúncia, conforme art. 117, I, do CP).

O próximo passo é a busca por nulidades processuais. Como estamos em resposta à acusação, deve-
mos tentar apontar, principalmente, erros no recebimento da inicial, com fundamento no art. 395
do CPP, mas o enunciado não traz qualquer vício a ser sustentado.

Por fim, em relação ao excesso na punição, não há muito o que sustentar em resposta à acusa-
ção. Com base no enunciado, poderíamos sustentar, subsidiariamente, a tese do furto privilegiado,
do art. 155, § 2º, do CP. Todavia, não é o momento processual adequado. Ainda não é a hora de sus-
tentar causas de diminuição ou atenuantes. De qualquer forma, quem a alegou, não teve prejuízo,
pois a banca não retira pontuação de quem diz além do que é pedido no gabarito.

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3. MONTANDO A PEÇA

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da Vara Criminal da Comarca de Fortaleza/CE,

Comentário: mais uma vez, a banca exigiu a menção à comarca onde o processo está tramitando.
Quem não falou em Fortaleza, Ceará, perdeu a pontuação do endereçamento.

Gabriela, já qualificada nos autos, por seu advogado, vem à presença de Vossa Excelência
oferecer Resposta à Acusação, com fundamento no art. 396-A do Código de Processo
Penal, pelas razões a seguir expostas:

Comentário: jamais utilize expressão diversa de resposta à acusação. Falar em defesa prévia,
por exemplo, é certeza de reprovação. Sobre a fundamentação, a banca aceitou, em algumas edi-
ções, os arts. 396 e 396-A do CPP. Entretanto, na última prova em que caiu RA, a banca adotou ape-
nas o art. 396-A, que esteve presente em todas as provas. Por isso, é a escolha mais segura.

I. DOS FATOS

(...)

Comentário: a divisão em dos fatos, do direito e do pedido não é pontuada pela banca. Entretanto,
gostamos de utilizá-la. Como a correção da FGV é muito ruim, quanto melhor organizada a sua
peça, menor a chance de erros de correção – a banca errará de qualquer forma, mas o prejuízo será
menor se a sua peça estiver bem estruturada. Como já dito, a descrição dos fatos não é pontuada
pela FGV – na queixa-crime, há uma situação especial, tratada no modelo da peça. Portanto, limi-
te-se a um resumo do enunciado. Não perca muito tempo em sua elaboração. Não é o momento
de sustentar teses de defesa. Considerando a irrelevância do tópico dos fatos, em nossos modelos,
adotamos apenas as reticências, mas por economia de espaço. Em sua prova, é claro, faça o resumo
do enunciado.

II. DO DIREITO

(a) Da extinção da punibilidade pela prescrição.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 78
Como relatado acima, a conduta descrita na denúncia ocorreu no dia 24 de dezembro de 2010.
A denúncia foi recebida no dia 18 de janeiro de 2011 e, apenas no dia 16 de março de 2015,
mais de quatro anos depois, a ré foi citada. Dessa forma, ocorreu a prescrição, causa de extinção da
punibilidade, com base no art. 107, IV, do Código Penal.

Segundo o art. 109, IV, do Código Penal, prescreve em oito anos a pena não superior a
quatro anos. É o caso do furto, conforme art. 155, caput, do Código Penal. Ocorre que,
na época dos fatos, Gabriela tinha menos de vinte e um anos, devendo o prazo prescricional ser
reduzido pela metade, com fundamento no art. 115 do Código Penal.

Dessa forma, Gabriela deve ser absolvida sumariamente em razão da extinção da punibilidade.

Comentário: para a FGV, não basta a menção à tese. É necessário que o examinando explique o que
é, requisitos e consequências. A prescrição é tratada no Título VIII do Código Penal, que trata das
causas da extinção da punibilidade – é a natureza jurídica da prescrição, que deveria ser mencionada
na resposta. Ademais, o examinando tinha de explicar, passo a passo, como concluiu pela prescrição,
inclusive com menção ao fato de já terem se passado mais de quatro anos. Sobre a consequência,
a resposta à acusação tem uma peculiaridade que não existe em nenhuma outra peça: a prescrição
é causa de absolvição (sumária). Em todas as outras peças, não se absolve por prescrição, que deve
ser declarada.

(b) Mérito: da atipicidade material e da exclusão da ilicitude.

Como consta na denúncia, o alimento subtraído por Gabriela valia ínfimos R$ 18,00
(dezoito reais), não tendo havido lesão relevante ao objeto material tutelado, o patrimônio.
Destarte, deve a ré ser absolvida sumariamente, visto que o fato narrado na denúncia não constitui
crime em razão de sua atipicidade material.

Também não houve crime em virtude da exclusão da ilicitude pelo estado de necessidade,
com fundamento no art. 24 do Código Penal. Isso porque a subtração do alimento ocorreu para
salvar terceiro – o próprio filho – de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 79
de outro modo evitar, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se, razão pela qual
deve ser absolvida sumariamente.

Comentário: como sempre deve ser feito, foi falado na natureza jurídica do estado de necessidade
(causa de exclusão da ilicitude). A banca atribuiu quatro décimos a quem a mencionou (quesito
n.º 5). Além disso, foram explicados os requisitos do estado de necessidade, utilizando sempre as
mesmas palavras da lei, e a consequência: a absolvição sumária, pois a banca costuma pontuá-la
em duplicidade.

III. DO PEDIDO

Diante do exposto, requer:

(a) A absolvição sumária pela extinção da punibilidade, conforme art. 397, IV,
do Código de Processo Penal;
(b) A absolvição sumária pela atipicidade material da conduta, com fundamento no art. 397,
I, do Código de Processo Penal;
(c) A absolvição sumária pela exclusão da ilicitude, do art. 397, III, do Código de
Processo Penal;
(d) Subsidiariamente, a intimação e oitiva das testemunhas ao final arroladas.

Comentário: se houver mais de uma causa de absolvição, o examinando deve fundamentar uma a
uma, como foi feito acima. Sobre as testemunhas, como sempre faz em RA, a banca trouxe um que-
sito para o arrolamento. Não foram exigidos os nomes das testemunhas, mas, com base no enuncia-
do, poderíamos arrolar Patrick, o ex-companheiro, e Maria, a amiga, para demonstrar que, na época
dos fatos, ela estava passando por dificuldades financeiras.

Comarca, 26 de março de 2015.

Advogado ..., OAB....

Rol de testemunhas:

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 80
(a) Patrick, endereço ...;
(b) Maria, endereço ....

Comentário: o enunciado informa que a citação ocorreu no dia 16 de março, uma terça-feira. Para
ter certeza da data, o examinando teria de fazer um calendário em sua prova (a não ser que consiga
fazer de cabeça), da seguinte forma: (a) 16, terça-feira; (b) 17, quarta-feira (quando começou a con-
tagem dos dez dias); (c) 18, quinta-feira; (d) 19, sexta-feira; (e) 20, sábado; (f) 21, domingo; (g) 22,
segunda-feira; (h) 23, terça-feira; (i) 24, quarta-feira; (j) 25, quinta-feira; (k) 26, sexta-feira (encer-
ramento do prazo). Considerando que o enunciado não diz que o dia 26 foi feriado, é a data a ser
indicada no fechamento da peça.

XXVI EXAME DE ORDEM


1. Em 03 de outubro de 2016, na cidade de Campos, no Estado do Rio de Janeiro, Lauro, 33 anos,
que é obcecado por Maria, estagiária de uma outra empresa que está situada no mesmo prédio
em que fica o seu local de trabalho, não mais aceitando a rejeição dela, decidiu que a obrigaria
a manter relações sexuais com ele, independentemente da sua concordância.

2. Confiante em sua decisão, resolveu adquirir arma de fogo de uso permitido, considerando que
tinha autorização para tanto, e a registrou, tornando-a regular. Precisando que alguém o subs-
tituísse no local do trabalho no dia do crime, narrou sua intenção criminosa para José, melhor
amigo com quem trabalha, assegurando-lhe que comprou a arma exclusivamente para ameaçar
Maria a manter com ele conjunção carnal, mas que não a lesionaria de forma alguma. Ainda es-
clareceu a José, que alugara um quarto em um hotel e comprara uma mordaça para evitar que
Maria gritasse e os fatos fossem descobertos.

3. Quando Lauro saía de casa, em seu carro, para encontrar Maria, foi surpreendido por viatura
da Polícia Militar, que havia sido alertada por José sobre o crime prestes a acontecer, sendo efe-
tuada a prisão de Lauro em flagrante. Em sede policial, Maria foi ouvida, afirmando, apesar de
não apresentar documentos, que tinha 17 anos e que Lauro sempre manteve comportamento
estranho com ela, razão pela qual tinha interesse em ver o autor dos fatos responsabilizado
criminalmente.

4. Após receber os autos e considerando que o detido possuía autorização para portar arma de
fogo, o Ministério Público denunciou Lauro apenas pela prática do crime de estupro qualifica-
do, previsto no Art. 213, §1º c/c Art. 14, inciso II, c/c Art. 61, inciso II, alínea f, todos do Código
Penal. O processo teve regular prosseguimento, mas, em razão da demora para realização da
instrução, Lauro foi colocado em liberdade. Na audiência de instrução e julgamento, a vítima
Maria foi ouvida, confirmou suas declarações em sede policial, disse que tinha 17 anos, apesar
de ter esquecido seu documento de identificação para confirmar, apenas apresentando cópia de
sua matrícula escolar, sem indicar data de nascimento, para demonstrar que, de fato, era Maria.
José foi ouvido e também confirmou os fatos narrados na denúncia, assim como os policiais.
O réu não estava presente na audiência por não ter sido intimado e, apesar de seu advogado ter
se mostrado inconformado com tal fato, o ato foi realizado, porque o interrogatório seria feito
em outra data.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 81
5. Na segunda audiência, Lauro foi ouvido, confirmando integralmente os fatos narrados na de-
núncia, mas demonstrou não ter conhecimento sobre as declarações das testemunhas e da víti-
ma na primeira audiência. Na mesma ocasião, foi, ainda, juntado o laudo de exame do material
apreendido, o laudo da arma de fogo demonstrando o potencial lesivo e a Folha de Antecedentes
Criminais, sem outras anotações. Encaminhados os autos para o Ministério Público, foi apresen-
tada manifestação requerendo condenação nos termos da denúncia.

6. Em seguida, a defesa técnica de Lauro foi intimada, em 04 de setembro de 2018, terça-feira,


sendo quarta-feira dia útil em todo o país, para apresentação da medida cabível.

7. Considerando apenas as informações narradas, na condição de advogado(a) de Lauro, redija a


peça jurídica cabível, diferente de habeas corpus, apresentando todas as teses jurídicas perti-
nentes. A peça deverá ser datada do último dia do prazo para interposição. (Valor: 5,00)

8. Obs.: a peça deve abranger todos os fundamentos de Direito que possam ser utilizados para
dar respaldo à pretensão. A simples menção ou transcrição do dispositivo legal não con-
fere pontuação.

1. IDENTIFICANDO A PEÇA
O enunciado descreve a realização de audiência de instrução e julgamento, mas não menciona ter
havido sentença. Portanto, as partes deveriam oferecer suas alegações finais, por memoriais. Como
o Ministério Público já as apresentou, é o momento das manifestações finais da defesa.

2. IDENTIFICANDO AS TESES DE DEFESA


Seguindo o sistema de busca de teses sugerido, o primeiro passo é a identificação das teses de falta
de justa causa – se o leitor conseguir fazer a análise das quatro teses ao mesmo tempo, melhor,
mas não temos essa capacidade. O primeiro parágrafo é irrelevante. No segundo parágrafo, algumas
informações importantes:

(a) Lauro adquiriu uma arma de fogo, mas de forma lícita.

(b) Há uma testemunha, José, a quem Lauro confidenciou o seu plano.

No terceiro parágrafo, mais informações que devem ser consideradas:

(c) Lauro foi surpreendido ao sair de casa por policiais, antes de praticar qualquer ato executó-
rio do delito de estupro.

(d) Maria disse ter dezessete anos, mas a idade não foi comprovada por documento de
identidade.

No quarto parágrafo, merecem destaque os seguintes pontos:

(e) O Ministério Público denunciou Lauro pela prática de estupro qualificado, previsto no art.
213, § 1º c/c o art. 14, II, c/c art. 61, II, f, todos do Código Penal.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 82
(f) Em audiência, novamente, Maria não comprovou ter dezessete anos.

(g) Também em audiência, José confirmou a confidência feita por Lauro.

No quinto parágrafo, Lauro confessou os fatos descritos na denúncia. Os demais parágrafos do enun-
ciado não têm qualquer dado relevante referente à justa causa.

Na falta de justa causa, o objetivo é desconstituir a infração penal. O primeiro passo é a leitura do
art. 213 do Código Penal, afinal, é o delito a ser afastado. Da leitura do dispositivo, a resposta pode
ser alcançada: ocorre o crime de estupro (CP, art. 213, caput) quando o agente: (a) constrange al-
guém; (b) mediante violência ou grave ameaça; (c) a ter conjunção carnal; (d) ou a praticar ou per-
mitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. Veja a situação de Lauro:

- Maria foi constrangida? Não.

- Houve violência ou grave ameaça? Não.

- Ocorreu conjunção carnal? Não.

- Houve a prática de ato libidinoso diverso? Não.

Então, o que fez Lauro? Apenas cogitou a prática de um delito. Aliás, foi além: até comprou a arma
de fogo, como ato preparatório, mas parou aí. Entretanto, o enunciado fala em tentativa de estupro,
com fundamento no art. 14, II, do Código Penal. O dispositivo não deixa dúvida: só se fala em ten-
tativa quando iniciada a execução do delito, o que não aconteceu. Só se fala em execução quando
praticada a conduta prevista no tipo penal (na hipótese, constranger). É a tese de justa causa a ser
sustentada: não houve a prática do crime de estupro por não ter havido ato executório.

Ademais, há mais um ponto a ser esclarecido. Na denúncia, o Ministério Público pediu a qualifica-
dora do § 1º do art. 213 do Código Penal, aplicável quando a vítima é maior de catorze e menor de
dezoito anos. Como vimos, nas duas vezes em que Maria foi ouvida, não foi demonstrado, por docu-
mento, a sua idade (dezessete anos). No gabarito, a FGV não pediu a fundamentação da tese, mas é
interessante fundamentar tudo o que é dito, pois a banca pode exigi-la. No § 1º, os organizadores
do vade-mécum não trouxeram qualquer remissão nesse sentido – algo que poderia ser consertado
em futuras edições. Fazendo de conta que estávamos em ambiente de prova, começamos a busca
pelo vade-mécum. Inicialmente, por ser questão referente à identificação da vítima e a documentos,
iniciamos a busca pelo índice alfabético-remissivo do CPP. Procuramos por identidade e por iden-
tificação, mas sem sucesso. O próximo passo foi a procura pela palavra prova, pois o problema é
a forma como a idade da vítima foi comprovada: por histórico escolar, onde nem mesmo constava
a data de nascimento. Encontramos a expressão prova no remissivo do vade-mécum e, dentre os
vários tópicos elencados a respeito do tema, um parecia esclarecer o meu problema: estado das pes-
soas, com remissão ao art. 155, parágrafo único, do CPP. O dispositivo da remissão diz que o estado
das pessoas será demonstrado conforme estabelecido pela lei civil. No art. 155, o vade-mécum faz
algumas remissões, mas em nenhuma foi esclarecido onde, na lei civil, estão as regras referentes
à identificação. Ainda que a banca não tenha exigido a fundamentação da tese, pensamos que o
vade-mécum poderia ter feito remissão, no § 1º do art. 213, ao art. 155, parágrafo único, do CPP;
à Lei n.º 12.037/09, que, em seu art. 2º, traz uma lista dos documentos de identificação civil (ela está
na página 1.884 do vade-mécum); e à Súmula 74-STJ, que, embora trate da idade do réu, por ana-
logia, teria dado mais segurança ao examinando em sua resposta (inclusive, no gabarito justificado,
a FGV faz menção ao enunciado do STJ).

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1ª EDIÇÃO
III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 83
Em seguida, temos de fazer a análise das causas de extinção da punibilidade. As causas gerais são
aquelas do art. 107 do Código Penal. Todavia, sempre que estiver tratando de um delito, procure ler
as disposições gerais a seu respeito, pois pode haver alguma causa que afaste a infração penal ou
a punibilidade – geralmente, as disposições finais estão, obviamente, ao final do título ou capítulo
onde está o tipo penal. Em relação ao estupro ou à conduta de Lauro, contudo, não há o que alegar
nesse sentido. Obs.: quando o enunciado trouxer muitas datas, veja se não é o caso de decadência
ou de prescrição, duas causas extintivas da punibilidade.

O próximo passo é o levantamento das nulidades processuais. O interessante das teses de nulidade
é que a banca não tenta ocultá-las. Da leitura do enunciado, uma frase se destaca: o réu não estava
presente na audiência por não ter sido intimado e, apesar de seu advogado ter-se mostrado incon-
formado com tal fato, o ato foi realizado, porque o interrogatório seria feito em outra data. É claro
que o réu, principal interessado, deveria ter sido intimado da audiência. Entretanto, o problema:
como fundamentar a resposta? Começamos a pesquisa por audiência e, no remissivo do CPP, en-
contramos um tópico referente ao adiamento da audiência por ausência do defensor. Não foi o caso,
visto que o advogado de Lauro estava presente, mas poderia ser uma boa pista. Fizemos a leitura
do dispositivo indicado pelo índice remissivo (o art. 265, § 1º, do CPP), e confirmamos que, de fato,
a ausência do defensor pode fazer com que a audiência seja adiada, mas nada diz a respeito do réu.
Abaixo, uma remissão ao art. 456 do CPP, que não esclareceu a dúvida. Por isso, voltamos ao índice
remissivo do CPP, dessa vez em busca de intimação, pois o enunciado diz que Lauro não foi intimado.
No tópico intimação, no remissivo, alguns tópicos chamaram a nossa atenção: instrução criminal;
adiamento, designação de dia e hora pelo juiz, com remissão ao art. 372 do CPP; nulidade, com
remissão ao art. 564, III, o, do CPP. O art. 372 do CPP nada esclareceu. Fizemos, então, a leitura do
art. 564, III, o, do CPP, que trata da nulidade por falta de intimação de sentenças e despachos de que
caiba recurso. Não foi o caso, mas como deve ser feito sempre que uma remissão for feita, fizemos a
leitura integral do art. 564, e, dentre as hipóteses, há uma genérica, no inciso IV, que fala em falta de
ato essencial do processo. Restava, então, uma última coisa: demonstrar que o réu deveria ter sido
intimado, como ato essencial. No remissivo, na expressão intimação, o vade-mécum faz remissão ao
art. 370 do CPP. No art. 370, caput, a resposta: para as intimações, deverão ser observadas as regras
referentes às citações (arts. 351 a 369), que, em seus artigos, não deixa dúvida acerca da obrigato-
riedade da citação e da intimação. Ademais, logo abaixo do art. 370, o vade-mécum faz remissão ao
art. 5º, LV, da Constituição, que assim dispõe: aos litigantes, em processo judicial ou administrativo,
e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos
a ela inerentes.

Por fim, as teses de excesso na punição, muito importantes em memoriais. A ideia é buscar tudo o
que for interessante ao acusado em caso de condenação. Para uma análise sem furos, é interessante
o seguinte passo a passo:

(a) Há alguma qualificadora a ser afastada? Sim, a do art. 213, § 1º, do Código Penal, pois não
ficou demonstrado, por meio hábil, que a vítima tinha dezessete anos na época dos fatos.

(b) Há algum privilégio? Não.

(c) Há circunstâncias judiciais relevantes, nos termos do art. 59 do CP? Não. Portanto, deve ser
a pena fixada no mínimo legal.

(d) Há agravante a ser afastada? Sim. O Ministério Público pediu a condenação de Lauro pela
agravante do art. 61, II, f, do CP, aplicável na hipótese de com abuso de autoridade ou pre-
valecendo-se de relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade, ou com violência

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 84
contra a mulher na forma da lei específica. Perceba que a agravante não diz apenas contra
a mulher, mas contra a mulher na forma da lei específica. Qual lei? Evidentemente, a Lei
Maria da Penha (Lei n.º 11.340/06, cuja remissão foi feita no vade-mécum, logo após a estu-
dada agravante). Em momento algum o enunciado descreve hipótese da citada lei especial.

(e) Há atenuante? Sim. Veja o que diz o enunciado: na segunda audiência, Lauro foi ouvido,
confirmando integralmente os fatos narrados na denúncia. Ou seja, confessou, fazendo jus
à atenuante do art. 65, III, d, do Código Penal (a fundamentação pode ser facilmente encon-
trada no índice remissivo do Código Penal, que tem um tópico específico para a confissão).

(f) Há causa de aumento a ser afastada? Não.

(g) Há causa de diminuição? Sim. A tentativa é causa de diminuição de pena – de acordo com
o art. 14, II, do Código Penal, a pena deve ser diminuída de um a dois terços. Segundo a
jurisprudência, a diminuição deve ser fixada proporcionalmente à aproximação a consuma-
ção do delito. No exemplo, Lauro ficou muito distante da consumação do estupro. Por isso,
a diminuição deve ser a máxima: dois terços. Obs.: por mais que o leitor não conhecesse a
forma como deve ser fixada a diminuição na tentativa, é evidente que, na condição de ad-
vogado, deverá ser pedido sempre o melhor ao cliente – no caso, a diminuição ao máximo
da pena.

(h) Qual regime prisional deve ser fixado? O tema é tratado no art. 33, § 2º, do CP, que traz qual
regime deve ser aplicado, levando-se em consideração o quantum de pena aplicado. Como
ainda não há sentença, devemos considerar a pena em abstrato, tendo por base que todos
os nossos pedidos serão atendidos. Pedimos o afastamento da qualificadora, devendo ser
aplicada a pena do caput do art. 213 do CP: de seis a dez anos. Como foi sustentada a pena
no mínimo legal, sem agravante, Lauro deveria ser condenado à pena de seis anos. Todavia,
também pedimos a diminuição da tentativa ao máximo: dois terços. Matemática não é a
nossa paixão, mas não é difícil o cálculo: se retirados dois terços de seis, restam dois anos.
Segundo o art. 33, § 2º, c, o regime deve ser o aberto. Acerca do regime prisional, duas
observações. A primeira, uma reclamação em relação ao vade-mécum: não há um tópico
regime no remissivo do Código Penal. Encontramos remissão ao art. 33 do CP no tópico
pena(s). A segunda, quanto à questão do regime inicial nos crimes hediondos (que é o caso
do estupro). Embora exista previsão legal de que o regime inicial de pena para esses crimes
deve ser o fechado (Lei n.º 8.072/90, art. 2º, § 1º), o dispositivo foi considerado inconsti-
tucional pelo STF. Ainda sobre a fixação do regime, atenção à Súmula 269-STJ; à Súmula
440-STJ; à Súmula 718-STF; e à Súmula 719-STF.

(i) É possível a substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos? Não, con-
forme art. 44, I, do CP.

(j) É possível a suspensão condicional da pena? Sim. Atendidos todos os nossos pedidos,
a pena de Lauro ficará em dois anos e, portanto, possível o sursis, nos termos do art. 77 do
Código Penal.

(k) O réu está preso? Não. Se estivesse, deveríamos pedir alvará de soltura, visto que pedimos
o regime inicial aberto ou o sursis.

Em resumo, a nossa pesquisa rendeu o seguinte levantamento de teses:

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 85
(a) Falta de justa causa: Lauro não praticou o crime de estupro qualificado, pois não houve o
início da execução do delito, visto que a vítima não foi em momento algum constrangida.
Ademais, o único ato preparatório, consistente em aquisição de arma de fogo, ocorreu den-
tro da legalidade.

(b) Nulidade: o réu deveria ter sido intimado da data da audiência, com fundamento nos arts.
370 do CPP, sob pena de nulidade por se tratar de ato essencial do processo, com funda-
mento no art. 564, IV, do CPP, em virtude de violar o direito à ampla defesa, previsto no art.
5º, LV, da Constituição.

(c) Excesso na punição: (a) afastamento da qualificadora do art. 213, § 1º, do CP, devendo
Lauro ser condenado por estupro simples, do art. 213, caput, do CP, por não ter havido
comprovação da idade da vítima, nos termos da lei civil, como determina o art. 155, pará-
grafo único, do CPP; (b) a pena deve ser fixada no mínimo legal, com fundamento no art.
59 do Código Penal, já que as circunstâncias judiciais são favoráveis; (c) deve ser afastada
a agravante do art. 61, II, f, do CP, pois o crime não foi praticado em situação de violência
doméstica; (d) o reconhecimento da atenuante da confissão espontânea, do art. 65, III, d,
do CP; (e) a redução da tentativa (CP, art. 14, II) ao máximo legal, de dois terços, em razão
da distância da consumação, devendo a pena ser fixada em dois anos; (f) o regime inicial
deve ser o aberto, com fundamento no art. 33, § 2º, c, do CP; (g) deve a execução da pena
ser suspensa, nos termos do art. 77 do CP.

3. MONTANDO A PEÇA

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da Vara Criminal da Comarca de Campos/RJ,

Comentário: o gabarito exigiu do examinando apenas que fosse dito Vara Criminal da Comarca de
Campos/RJ. Portanto, o uso de Excelentíssimo, de Doutor, de Senhor ou de qualquer outra forma
respeitosa de tratamento é irrelevante para a nota. Fica a critério de cada um a adoção de um estilo
próprio, mas em nada influenciará na correção da prova. Ademais, como o enunciado diz expres-
samente a comarca, ela deveria ser mencionada no endereçamento. Quem disse comarca ... não
pontuou. Só use reticências ou XXX, como determina o item 3.5.9 do edital, quando não souber em
qual comarca o processo está tramitando.

Lauro, já qualificado nos autos, vem, por seu advogado, apresentar Alegações finais por
Memoriais, com fundamento no art. 403, § 3º, do Código de Processo Penal, pelas razões
a seguir expostas:

Comentários: (i) em alguns modelos que encontramos em livros, os autores disseram processo ... aci-
ma da qualificação. No entanto, não é algo pontuado pela banca. Fica a critério de cada um. É mera
questão de estilo. (ii) Em memoriais, o réu já está qualificado. Por isso, não é necessário qualificá-lo

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 86
novamente – mas, se o fizer, não haverá prejuízo à nota. (iii) Não precisa falar em procuração em
memoriais. Novamente, questão de estilo, que a banca não pontua. (iv) Não há problema em dizer
apenas memoriais. Ninguém reprovaria em razão disso. Todavia, a FGV tem adotado a expressão
alegações finais por memoriais em seus gabaritos. Para dançar conforme a música, preferimos ado-
tá-la também. (v) Escrevemos Código de Processo Penal por extenso, mas o próprio gabarito fala em
CPP. Nunca soubemos de alguém que tenha sofrido prejuízo na nota por usar a forma abreviada.
Contudo, vez ou outra, soubemos de alunos que disseram CP em vez de CPP, e, é claro, o quesito foi
zerado, afinal, CP é o Código Penal. Por extenso, pensamos que seja mais difícil errar dessa forma.

I. DOS FATOS

(...)

Comentário: a divisão em dos fatos, do direito e do pedido não é pontuada pela banca. Entretanto,
gostamos de utilizá-la. Como a correção da FGV é muito ruim, quanto melhor organizada a sua
peça, menor a chance de erros de correção – a banca errará de qualquer forma, mas o prejuízo será
menor se a sua peça estiver bem estruturada. Como já dito, a descrição dos fatos não é pontuada
pela FGV – na queixa-crime, há uma situação especial, tratada no modelo da peça. Portanto, limi-
te-se a um resumo do enunciado. Não perca muito tempo em sua elaboração. Não é o momento
de sustentar teses de defesa. Considerando a irrelevância do tópico dos fatos, em nossos modelos,
adotamos apenas as reticências, mas por economia de espaço. Em sua prova, é claro, faça o resumo
do enunciado.

II. DO DIREITO

(a) Preliminar de nulidade

Como apontado nos fatos, o réu não foi intimado para a primeira parte da audiência de instrução
e julgamento, quando foram ouvidos Maria, vítima, e José, testemunha. Com fundamento no
art. 370 do Código de Processo Penal, Lauro deveria ter sido intimado para o ato processual,
hipótese que caracteriza omissão de formalidade que constitui elemento essencial do ato, causa de
nulidade processual, com fundamento no art. 564, IV, do Código de Processo Penal. Por
não ter participado da audiência, foi violado o direito de Lauro à ampla defesa, com fundamento no
art. 5º, LV, da Constituição Federal, devendo o processo ser anulados os atos da instrução.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 87
Comentário: no levantamento de teses, preferimos iniciar pela falta de justa causa, por ser, em
regra, a tese que dá mais trabalho para ser identificada e fundamentada. Entretanto, nulidades pro-
cessuais e causas de extinção da punibilidade impedem a apreciação do mérito. Por isso, quando
presentes (por exemplo, a prescrição), sustente-as preliminarmente. Inclusive, no gabarito do XXVI
Exame de Ordem, a banca exigiu que fosse dito preliminarmente. Além disso, observe que fizemos
a transcrição do art. 564, IV, do CPP. Tem um motivo: de vez em quando, a banca exige a redação
integral do dispositivo de fundamentação da tese. Perdemos as contas de quantos alunos perderam
pontos por não terem feito isso, ou por escrever o que diz a lei, mas com outras palavras. Por isso,
ao sustentar uma tese, procure utilizar as mesmas palavras que da lei ao justificar o que está sendo
defendido. É grande a chance de a banca exigir alguma palavra que conste da redação legal.

(b) Da atipicidade da conduta

Conforme o art. 213 do Código Penal, o crime de estupro consiste em constranger alguém,
mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou permitir que com ele se pratique outro
ato libidinoso. Como relatado na denúncia, Lauro não chegou a praticar a conduta de constranger,
momento em que teria início a execução do delito de estupro.

Não há, tampouco, tentativa. Segundo o art. 14, II, do Código Penal, a tentativa ocorre
quando, iniciada a execução, o delito não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente.
Não foi o caso, pois, como já dito, Lauro não iniciou a execução.

Em relação ao ato preparatório de aquisição de arma de fogo, a conduta é atípica. Lauro adquiriu
arma de uso permitido e a registrou, tornando-a regular.

Portanto, é imperiosa a sua absolvição, com fundamento no art. 386, III, do Código de
Processo Penal.

Comentário: mais uma vez, utilizamos as palavras da lei e do próprio enunciado para sustentar as
teses. Como já esclarecido, é comum a banca exigir na exposição da tese alguma palavra ou expres-
são constante da lei ou do próprio enunciado do problema. Além disso, uma observação importante,
que sempre causa prejuízo aos examinados: em algumas peças (em memoriais, principalmente),
a banca pontua os pedidos em duplicidade. Uma vez no do direito, quando sustentada a tese, e a
outra no do pedido, quando o pedido é efetivamente feito. No XXVI Exame de Ordem, a banca pon-
tuou a absolvição em dois quesitos: no quesito n.º 5 (0,30) e no quesito n.º 14 (0,30). Ou seja, mais
de dez por cento da nota da peça dizia respeito ao pedido de absolvição, que deveria ser feito duas
vezes. Quem fez apenas no do pedido, recebeu metade da nota.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 88
(c) Da pena

Subsidiariamente, em caso de condenação pelo delito de estupro, deve ser afastada a qualificadora
do art. 213, § 1º, do Código Penal, aplicada quando a vítima é maior de catorze anos e menor
de dezoito anos. Isso porque, ainda que Maria, a vítima, tenha dito ter dezessete anos na época
dos fatos, tal fato não foi comprovado documentalmente. Segundo o art. 155, parágrafo único,
do Código de Processo Penal, a comprovação do estado das pessoas deve se dar na forma
estabelecida em lei civil, o que não ocorreu, devendo ser afastada a qualificadora, pois não há prova
nos autos da idade da vítima.

Comentário: pode parecer contradição pedir absolvição e, ao mesmo tempo, uma melhor aplicação
de pena. Em um caso real, poderia o advogado deixar de alegar as teses de dosimetria, pois o juiz
deve aplicá-las de ofício – e, se não o fizesse, seria possível discutir o assunto em apelação. Todavia,
no Exame de Ordem, é imprescindível sustentá-las. Aliás, no gabarito do XXVI Exame de Ordem,
a banca exigiu a menção à expressão subsidiariamente. Novamente, perceba a repetição do que diz
o texto legal, pois a banca, vez ou outra, a pontua. Sobre pedir tudo em repetição em memoriais,
o afastamento da qualificadora foi pontuado em dois quesitos: no de n.º 7 e no de n.º 14.1.

Ademais, deve a pena ser fixada no mínimo legal, em seis anos, conforme art. 213, caput,
do Código Penal, já que as circunstâncias judiciais são favoráveis.

Na denúncia, foi pedida a condenação pela agravante prevista no art. 61, II, f, do Código
Penal, que torna mais gravosa a pena quando o delito é praticado contra mulher, na forma de lei
especial, o que não aconteceu no caso em debate.

Deve ser reconhecida, ainda, a atenuante da confissão espontânea, com fundamento no art. 65, III,
d, do Código Penal, pois Lauro confirmou integralmente em juízo os fatos narrados na denúncia.

Comentário: em memoriais, a FGV sempre pede a pena no mínimo legal, com fundamento no art.
59 do CP. A respeito das agravantes e das atenuantes, muito cuidado: nas hipóteses de atenuantes
em que a doutrina e a jurisprudência adotam alguma denominação (confissão espontânea, me-
noridade relativa etc.), é necessário utilizá-la. A banca sempre pontua. No XXVI Exame de Ordem,
por exemplo, a banca exigiu a expressão confissão espontânea no quesito n.º 10, embora o Código
Penal não adote qualquer nomenclatura ao tratar da atenuante.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 89
Ademais, o crime de estupro não se consumou por razões alheias à vontade do agente, devendo ser
reconhecida a tentativa, conforme art. 14, II, do Código Penal. Considerando que o agente
ficou distante da consumação, deve a pena ser reduzida ao máximo, em dois terços, com fundamento
no art. 14, parágrafo único, do Código Penal.

Em relação ao regime inicial de cumprimento da pena privativa de liberdade, deve ser fixado o
regime aberto, com fundamento no art. 33, § 2º, c, do Código Penal. Quanto à determinação
de regime inicial obrigatoriamente fechado, prevista no art. 2º, § 1º, da Lei n.º 8.072/90,
a Lei dos Crimes Hediondos, o Supremo Tribunal Federal declarou a inconstitucionalidade
do dispositivo.

Comentário: apesar de o gabarito do XXVI Exame de Ordem não ter tratado da inconstitucionalidade
do regime inicial obrigatoriamente fechado para crimes hediondos, achamos válido mencioná-lo,
visto que a FGV já pediu a tese em provas passadas. Na dúvida se algo estará ou não no gabarito,
peça. O que for dito em excesso não gera prejuízo. O problema é a omissão.

Por fim, o réu faz jus à suspensão condicional da pena, nos termos do art. 77 do Código Penal,
em razão de a pena privativa de liberdade ser inferior a dois anos, não havendo qualquer causa
impeditiva para a concessão do benefício.

Comentário: no gabarito do XXVI Exame de Ordem, a FGV não fez qualquer exigência, mas é sempre
interessante mencionar os requisitos para a concessão de determinado benefício. Já aconteceu de
a banca pontuar.

III. DO PEDIDO

Comentário: os pedidos são a consequência lógica da exposição feita no do direito. Portanto, o que
estiver no do direito deverá, necessariamente, refletir consequência no do pedido. Aliás, como já
dito, a banca costuma pontuar, em algumas teses, em duplicidade. É o caso dos memoriais, em que
cada assunto é tratado em dois quesitos. Por isso, ao sustentar uma tese, o examinando já sabe que
também pontuará no do pedido, ao repeti-la.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 90
Diante do exposto, requer:

(a) A nulidade dos atos da instrução por cerceamento de defesa, visto que o réu não foi
intimado para a audiência de instrução e julgamento, com fundamento no art. 564, IV,
do Código de Processo Penal.
(b) A absolvição de Lauro pelo crime de estupro – art. 213 do Código Penal -,
com fundamento no art. 386, III, do Código de Processo Penal, em razão de o fato
não constituir infração penal.
(c) Subsidiariamente, o afastamento da qualificadora do art. 213, § 1º, do Código
Penal, pois não há prova nos autos da idade da vítima.
(d) A aplicação da pena-base no mínimo legal, com fundamento no art. 59 do Código
Penal, já que as circunstâncias judiciais são favoráveis.
(e) O afastamento da agravante do art. 61, II, f, do Código Penal, por não ter havido
violência doméstica contra a mulher.
(f) O reconhecimento da confissão espontânea, com fundamento no art. 65, III, d,
do Código Penal.
(g) A diminuição da pena ao máximo, em dois terços, em virtude da tentativa, com base no
art. 14, II e parágrafo único, do Código Penal.
(h) A aplicação do regime inicial aberto, com fundamento no art. 33, § 2º, c,
do Código Penal.
(i) A suspensão condicional da pena, com fulcro no art. 77 do Código Penal.

Comentário: no gabarito do XXVI Exame de Ordem, a banca não pontuou a fundamentação legal em
várias das teses. Todavia, por segurança, decidimos por mencionar os dispositivos que sustentam as
teses, afinal, em regra, a banca os pontua. Como já dito, o que estiver em excesso não gera prejuízo.
Da forma feita acima, a pontuação seria dada integralmente, apesar de termos dito a mais do que o
exigido. Sobre a absolvição, cuidado: em memoriais, sempre peça a absolvição com fundamento no
art. 386 do CPP, salvo no rito do júri, em que a absolvição será a sumária, do art. 415 do CPP. Jamais
utilize o art. 397 do CPP em memoriais. Além disso, atenção: na absolvição do art. 386, jamais diga
absolvição sumária. Uma curiosidade do gabarito: a banca esqueceu de incluir o sursis nos pedidos.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 91
Comarca, 10 de setembro de 2018.

Advogado ..., OAB ....

Comentário: jamais invente o nome da comarca. Se o problema disser onde tudo se deu, pode men-
cioná-la no fechamento. No entanto, como a banca nunca pontuou a menção à comarca ao final,
diga apenas comarca ..., ou local .... É suficiente. Por fim, observe se a peça não deve ser datada
no último dia de prazo. A banca sempre atribui pontuação. Obs.: muitos examinandos surtam com
questionamentos a respeito de o ano ser bissexto, ou com a possibilidade de a banca exigir uma
data ocorrida há muitos meses ou anos, o que inviabilizaria a aferição do dia da semana. Todavia,
não há motivo para preocupação. Isso porque só existe no mundo o que existir no enunciado. Se o
problema disser que o dia 5 de janeiro de 1900 caiu em uma terça-feira, é verdade. Se disser que a
intimação se deu no mês de fevereiro, mas sem qualquer menção ao ano ser bissexto, ignore o dia
29. Em resumo: trabalhe exclusivamente com as informações do enunciado. Esqueça o mundo real
em relação ao calendário.

XX EXAME DE ORDEM – REAPLICAÇÃO (PORTO VELHO/RO)


1. Bruno Silva, nascido em 10 de janeiro de 1997, enquanto adolescente, aos 16 anos, respondeu
perante a Vara da Infância e Juventude pela prática de ato infracional análogo ao crime de tráfi-
co, sendo julgada procedente a ação socioeducativa e aplicada a medida de semiliberdade.

2. No dia 10 de janeiro de 2015, na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, Bruno se encontrava
no interior de um ônibus, quando encontrou um relógio caído ao lado do banco em que estava
sentado. Estando o ônibus vazio, Bruno aproveitou para pegar o relógio e colocá-lo dentro de
sua mochila, não informando o ocorrido ao motorista. Mais adiante, porém, 15 minutos após
esse fato, o proprietário do relógio, Bernardo, já na companhia de um policial, ingressou no co-
letivo procurando pelo seu pertence, que havia sido comprado apenas duas semanas antes por
R$ 100,00 (cem reais). Verificando que Bruno estava sentado no banco por ele antes utilizado,
revistou sua mochila e encontrou o relógio. Bernardo narrou ao motorista de ônibus o ocorrido,
admitindo que Bruno não estava no coletivo quando ele o deixou.

3. Diante de tais fatos, Bruno foi denunciado perante o juízo competente pela prática do crime de
furto simples, na forma do Art. 155, caput, do Código Penal. A denúncia foi recebida e foi formu-
lada pelo Ministério Público a proposta de suspensão condicional do processo, não sendo aceita
pelo acusado, que respondeu ao processo em liberdade.

4. No curso da instrução, o policial que efetivou a prisão do acusado, Bernardo, o motorista do


ônibus e Bruno foram ouvidos e todos confirmaram os fatos acima narrados. Com a juntada do
laudo de avaliação do bem arrecadado, confirmando o valor de R$ 100,00 (cem reais), os autos
foram encaminhados ao Ministério Público, que se manifestou pela procedência do pedido nos
termos da denúncia, pleiteando reconhecimento de maus antecedentes, em razão da medida
socioeducativa antes aplicada.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 92
5. Você, advogado(a) de Bruno, foi intimado(a), em 23 de março de 2015, segunda-feira, sendo o
dia subsequente útil.

6. Com base nas informações acima expostas e naquelas que podem ser inferidas do caso con-
creto, redija a peça cabível, excluída a possibilidade de Habeas Corpus, no último dia do prazo,
sustentando todas as teses jurídicas pertinentes. (Valor: 5,00 pontos)

7. Obs.: O examinando deve indicar todos os fundamentos e dispositivos legais cabíveis. A mera
citação do dispositivo legal não confere pontuação.

1. IDENTIFICANDO A PEÇA
O enunciado esclarece que houve audiência. Além disso, o Ministério Público fez a sua declaração
final, pedindo a condenação nos termos da denúncia. Ainda não existe sentença – senão, seria ape-
lação. Portanto, não há qualquer dúvida: o examinando deveria oferecer memoriais.

2. IDENTIFICANDO AS TESES DE DEFESA


Seguindo o sistema sugerido no manual, começaremos pela busca às teses de falta de justa causa,
quando temos por objetivo, em memoriais, a absolvição, com fundamento no art. 386 do CPP – ou
no art. 415 do CPP (absolvição sumária), no rito do júri.

No primeiro parágrafo, embora o texto fale a respeito da prática de ato infracional quando Bruno
era adolescente, nenhuma tese de falta de justa causa está presente. No segundo, uma informação
importante: Bruno encontrou o relógio. É sempre importante estar atento ao verbo utilizado pelo
enunciado. Se fosse falado em subtraiu, a história seria outra. Entretanto, só se encontra o que está
perdido. Bruno encontrou um relógio perdido dentro do ônibus. Foi a sua conduta.

No terceiro parágrafo, outra informação relevante: o crime apontado na denúncia é de furto, com
fundamento no art. 155, caput, do CP. No quarto parágrafo, mais um dado importante: o relógio foi
avaliado em R$ 100,00 (cem reais) – quando o enunciado da FGV fala em baixos valores, ainda mais
em um furto, é claro que o princípio da insignificância estará entre as teses de defesa. Os demais
parágrafos não trazem qualquer informação importante em relação à justa causa para a ação penal.

Para início de pesquisa, o art. 155, caput, do CP, único dispositivo mencionado no enunciado. Da lei-
tura, algumas pistas: a conduta consiste em subtrair. Em momento algum foi dito que Bruno sub-
traiu o relógio, mas que o encontrou. Portanto, a princípio, não praticou o delito de furto. Além
disso, o dispositivo fala em coisa alheia. Entretanto, é alheio é aquilo que pertence a alguém. Para
Bruno, a coisa estava perdida. Temos, aparentemente, uma primeira tese: Bruno deve ser absolvido
do delito de furto simples, visto que não subtraiu o relógio. Ademais, pensou que se tratava de coisa
perdida. Por precaução, fizemos a leitura de todo o art. 155 do CP (sempre leia tudo a respeito do
delito objeto do enunciado), mas não obtivemos informações relevantes. Também fizemos a leitura
de todas as remissões feitas pelo vade-mécum, no caput do art. 155, mas nada aproveitamos.

Aproveitando as palavras-chave do caput do art. 155 do CP (subtrair e coisa alheia móvel) e tam-
bém o verbo utilizado no enunciado (encontrar), fizemos uma busca no índice alfabético-remissivo
do CP. Em subtração (não havia subtrair), nenhuma remissão útil. A palavra encontrar não está no

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remissivo. Por fim, ao procurarmos por coisa alheia móvel, encontramos a palavra coisa, e, dentre
as remissões, uma que se encaixa com perfeição: achada; apropriação: art. 169, II. Da leitura do
dispositivo, com facilidade é extraída a resposta: quem acha coisa alheia, deve devolvê-la, mas tem
um prazo de quinze dias para tanto. Ou seja, Bruno também não praticou o delito de apropriação de
coisa achada (CP, art. 169, II).

Por fim, a questão do valor do relógio. O princípio não tem previsão legal. Por isso, não há como
fundamentá-lo. O examinando deveria conhecer o princípio e a sua consequência jurídica, apesar de
não poder ter acesso a material doutrinário. Na época da prova, muitos alunos relataram ter perdido
a pontuação referente à insignificância por incerteza quanto ao valor. Para os Tribunais Superiores,
é ínfima a quantia de R$ 100,00? Não havia como ter certeza durante a prova. Por isso, fica a dica:
na dúvida, peça a tese. Se a insignificância não estivesse no gabarito, quem a sustentou não perderia
pontuação. Entretanto, como estava, quem foi omisso perdeu seis décimos, mais de dez porcento da
nota da peça. A insignificância tem como consequência a atipicidade material da conduta – ou seja,
nenhum delito foi praticado.

A seguir, analisamos o enunciado em busca de causas de extinção da punibilidade, mas não há nada.
Depois, procuramos por teses processuais de nulidade, mas também não há nada nesse sentido.

Por fim, as teses de excesso na punição, sempre presentes em memoriais. Não há qualificadoras
(o MP pediu a condenação por furto simples) ou privilégios. Ao analisar a pena-base, com base no
art. 59 do CP (o artigo pode ser facilmente localizado em pena(s), no remissivo do CP, na p. 513),
um ponto relevante: o MP pediu o reconhecimento dos maus antecedentes em virtude de ato infra-
cional praticado na adolescência. Para localizar a resposta, começamos a busca pelo índice remis-
sivo do Código Penal (a questão é material, referente à pena, e não processual) pela palavra pena.
Procuramos em todos os tópicos, mas nada encontramos. O próximo passo foi a leitura do art. 59
do CP e de todas as remissões feitas no artigo, mas nada da resposta. A pesquisa alcançou um beco
sem saída, e há uma razão para isso: a resposta está na jurisprudência do STJ, e não em lei. Como,
então, o examinando poderia acertar a resposta? Há duas possibilidades: uma pesquisa sobre rein-
cidência e, com base no art. 63 do CP, decidir que, por analogia, só haveria maus antecedentes na
hipótese de novo crime, quando é possível dizer que alguém é reincidente, ou sustentar a tese sem
fundamentação alguma. Como já dissemos, na dúvida, sustente a tese. No gabarito, a FGV pediu
que o examinando sustentasse a aplicação da pena base no mínimo legal, destacando que a conde-
nação em ação socioeducativa não gera maus antecedentes ou circunstância judicial desfavorável.
Ou seja, quem pagou para ver, mesmo sem fundamentação, ganhou a pontuação do quesito (três
décimos). A pena deveria ser requerida no mínimo legal por ausência de maus antecedentes ou de
circunstâncias judiciais negativas.

Em seguida, agravantes e atenuantes. O MP não sustentou agravantes. Todavia, Bruno confessou a


conduta, fazendo jus à atenuante da confissão espontânea (CP, art. 65, III, d). Além disso, na época
dos fatos, tinha apenas dezoito anos. Portanto, deve ser atenuada a pena em virtude da menoridade
relativa (CP, art. 65, I).

Não havia causas de aumento de pena. Contudo, havia uma causa de diminuição a ser sustentada,
subsidiariamente: a do art. 155, § 2º, do Código Penal, erroneamente intitulada furto privilegiado.
Ao tratarmos do art. 155, caput, foi dito: sempre leia tudo o que o dispositivo diz a respeito do delito,
com todos os seus parágrafos, alíneas e incisos. No XX Exame de Ordem, que assim agiu, localizou
a tese da causa de diminuição.

O próximo passo é a fixação do regime inicial de cumprimento de pena. Como pedimos a pena
mínima (CP, art. 155, caput) e a diminuição de pena (CP, art. 155, § 2º), a pena ficou abaixo de um

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ano, devendo ser imposto o regime inicial aberto (CP, art. 33, § 2º, c) – já vimos como o dispositivo
poderia ser localizado na correção do XXVI Exame de Ordem.

A seguir, a análise da substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos (CP, art.
44). Como os requisitos estão presentes, deveria ser pedida em favor de Bruno. Por fim, a última
análise ao ser fixada a pena: a possibilidade de suspensão condicional da pena, do art. 77 do CP, que
também era cabível, subsidiariamente à substituição do art. 44 do CP.

3. MONTANDO A PEÇA

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da Vara Criminal da Comarca de Belo


Horizonte/MG,

Comentário: o gabarito exigiu do examinando que fosse dito Vara Criminal da Comarca de Belo
Horizonte/MG. Portanto, o uso de Excelentíssimo, de Doutor, de Senhor ou de qualquer outra forma
respeitosa de tratamento é irrelevante para a nota. Fica a critério de cada um a adoção de um estilo
próprio, mas em nada influenciará na correção da prova. Ademais, como o enunciado diz expres-
samente a comarca, ela deveria ser mencionada no endereçamento. Quem disse comarca ..., não
pontuou. Só use reticências ou XXX, como determina o item 3.5.9 do edital, quando não souber em
qual comarca o processo está tramitando.

Bruno Silva, já qualificado nos autos, vem, por seu advogado, apresentar Alegações finais por
Memoriais, com fundamento no art. 403, § 3º, do Código de Processo Penal, pelas razões a
seguir expostas:

Comentários: (i) em alguns modelos que encontramos em livros, os autores disseram processo ...
acima da qualificação. No entanto, não é algo pontuado pela banca. Fica a critério de cada um.
É mera questão de estilo. (ii) Em memoriais, o réu já está qualificado. Por isso, não é necessário qua-
lificá-lo novamente – mas, se o fizer, não haverá prejuízo à nota. (iii) Não precisa falar em procuração
em memoriais. Novamente, questão de estilo, que a banca não pontua. (iv) Não há problema em
dizer apenas memoriais. Ninguém reprovaria em razão disso. Todavia, a FGV tem adotado a expres-
são alegações finais por memoriais em seus gabaritos. Para dançar conforme a música, preferimos
adotá-la também. (v) Escrevemos Código de Processo Penal por extenso, mas o próprio gabarito fala
em CPP. Nunca soubemos de alguém que tenha sofrido prejuízo na nota por usar a forma abreviada.
Contudo, vez ou outra, soubemos de alunos que disseram CP em vez de CPP, e, é claro, o quesito foi
zerado, afinal, CP é o Código Penal. Por extenso, pensamos que seja mais difícil errar dessa forma.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 95
I. DOS FATOS

(...)

Comentário: a divisão em dos fatos, do direito e do pedido não é pontuada pela banca. Entretanto,
gostamos de utilizá-la. Como a correção da FGV é muito ruim, quanto melhor organizada a sua
peça, menor a chance de erros de correção – a banca errará de qualquer forma, mas o prejuízo será
menor se a sua peça estiver bem estruturada. Como já dito, a descrição dos fatos não é pontuada
pela FGV – na queixa-crime, há uma situação especial, tratada no modelo da peça. Portanto, limi-
te-se a um resumo do enunciado. Não perca muito tempo em sua elaboração. Não é o momento
de sustentar teses de defesa. Considerando a irrelevância do tópico dos fatos, em nossos modelos,
adotamos apenas as reticências, mas por economia de espaço. Em sua prova, é claro, faça o resumo
do enunciado.

II. DO DIREITO

(a) Atipicidade da conduta

Conforme exposto, Excelência, não houve a prática do crime de furto, do art. 155, caput,
do Código Penal, visto que o réu não subtraiu a coisa, mas a encontrou, sendo imperiosa a sua
absolvição. Além disso, tratava-se de coisa perdida, que não pode ser considerada objeto material
do delito de furto.

Ademais, não é o caso de prática do delito de apropriação de coisa achada, do art. 169, II,
do Código Penal, visto que, para a configuração do crime, deve o agente, após encontrar a coisa
perdida, não a restituir ao dono ou legítimo possuidor ou à autoridade competente no prazo de quinze
dias. Não foi a hipótese em debate, pois Bruno ficou poucos minutos com a posse do relógio,
não sendo o caso de desclassificação do delito de furto para o de apropriação de coisa achada.

Por fim, a conduta é materialmente atípica em razão do princípio da insignificância. Segundo


laudo pericial juntado aos autos, o relógio está avaliado em R$ 100,00 (cem reais),
devendo incidir o referido princípio.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 96
Comentário: a primeira observação é a respeito da organização do tópico do direito em subtópicos.
A FGV tem tradição em errar ao corrigir as peças do Exame de Ordem. Por isso, quanto mais orga-
nizada a peça, menor a chance de erros de correção. Além disso, veja que falamos que não houve a
prática do crime de furto. Neste ponto, uma observação importante, que sempre causa prejuízo às
notas de muitos examinandos: nunca diga as coisas pela metade. Não diga não houve a prática do
crime da denúncia, mas não houve a prática do crime de furto. Não faça referências. No gabarito,
a FGV exigiu do examinando a absolvição do crime de furto, e não a absolvição do crime da denúncia.
Outra observação relevante é a respeito de fazer os pedidos duas vezes, uma no do direito e outra
no do pedido. É essencial que o examinando faça isso, pois a banca tem por hábito pontuar tudo em
duplicidade – a absolvição, por exemplo, foi pontuada nos quesitos 3 e 12 do gabarito.

(b) Pena a ser aplicada em caso de condenação

Comentário: em memoriais, os pedidos referentes à aplicação da pena são importantíssimos. A ban-


ca sempre atribui pontuação alta a eles – no XX Exame de Ordem, por exemplo, as teses referentes
à pena totalizavam metade da nota da peça.

Subsidiariamente, em caso de condenação, deve a pena ser aplicada no mínimo-legal,


com fundamento no art. 59 do Código Penal, visto que as circunstâncias judiciais são favoráveis
ao réu. Além disso, o fato de ter praticado ato infracional quando adolescente não é suficiente
para a caracterização de maus antecedentes.

Comentário: em memoriais, a banca tem exigido que o examinando diga, expressamente, que se
trata de pedido subsidiário ao de mérito.

Além do mais, estão presentes duas causas atenuantes. A primeira diz respeito à idade do réu, que na
época dos fatos tinha apenas dezoito anos, fazendo jus à atenuante da menoridade relativa, do art. 65,
I, do Código Penal. Também tem direito à atenuante da confissão espontânea, por ter confessado os
fatos relatados na denúncia, com fundamento no art. 65, III, d, do Código Penal.

Comentário: embora o CP não fale em menoridade relativa ou em confissão espontânea, as duas


expressões estão consagradas na doutrina e na jurisprudência. A FGV sempre exige menção a elas
quando trata a respeito. Portanto, não diga a atenuante do art. 65, I, do CP, mas a atenuante da
menoridade relativa, do art. 65, I, do CP.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 97
Deve ainda ser reconhecido a causa de diminuição intitulada furto privilegiado, do art. 155, § 2º,
do Código Penal, aplicável quando o criminoso é primário e é de pequeno valor a coisa furtada,
devendo o juiz substituir a pena de reclusão pela de detenção, ou diminui-la de um a dois terços,
ou aplicar somente a pena de multa.

Comentário: o quesito n.º 8 da prova em correção, tratado no parágrafo acima, diz muito a respeito
de como funciona a segunda fase do Exame de Ordem. O primeiro ponto que destacamos é o fato de
a banca ter exigido, no gabarito, a expressão furto privilegiado, que não existe no CP. Trata-se de cria-
ção doutrinária. Entretanto, antes de o leitor imaginar em memorizar todas as expressões doutriná-
rias existentes, um alerta: a banca exige apenas expressões muito conhecidas, e a maioria já caiu em
provas passadas. Por isso, ao resolver provas anteriores, o examinando conhecerá o suficiente para
as provas futuras. O segundo ponto é a exigência de que o examinando explique o que está sendo
pedido e quais as consequências. Em um caso real, bastaria dizer: que seja reconhecida a causa de
diminuição do art. 155, § 2º, do CP. Entretanto, no Exame de Ordem, a FGV quer que seja explicado
o assunto (no caso, a causa de diminuição) e quais as suas consequências. Como fazer isso: apenas
repita o que diz o dispositivo que fundamenta a tese. No gabarito, a banca exigiu que o examinando
pedisse uma das consequências do § 2º do art. 155: substituição da reclusão por detenção ou causa
de diminuição de pena ou aplicação exclusivamente da pena de multa.

Observada a pena a ser aplicada, verifica-se que o regime inicial de cumprimento de pena é o
aberto, com fundamento no art. 33, § 2º, c, do Código Penal.

Ainda em relação à a pena a ser aplicada ao réu, percebe-se possível a substituição da pena
privativa de liberdade por restritiva de direitos, com fundamento no art. 44 do Código Penal.

No entanto, caso Vossa Excelência entenda pela impossibilidade da substituição da pena privativa
de liberdade por restritiva de direitos, é cabível a suspensão condicional da pena, com fulcro no art.
77 do Código Penal.

Comentário: o parágrafo acima foi elaborado de acordo com o que dispõe o gabarito da FGV. No en-
tanto, seria interessante dizer quais são os requisitos do art. 44 do CP, pois a banca poderia exigi-los.
Isso talvez não tenha ocorrido em razão da extensão do texto, dividido em três incisos. A mesma
observação vale para o sursis, do art. 77 do CP.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 98
III. DO PEDIDO

Diante do exposto, requer:

(a) A absolvição do crime de furto, com fundamento no art. 386, III, do Código de
Processo Penal, em razão de a conduta do réu não constituir infração penal;
(b) Subsidiariamente, a aplicação da pena-base no mínimo legal, com fundamento no
art. 59 do Código Penal;
(c) O reconhecimento das atenuantes da confissão espontânea (CP, art. 65, III, d)
e da menoridade relativa (CP, art. 65, I);
(d) O reconhecimento da forma privilegiada do furto, com fundamento no art. 155, § 2º,
do Código Penal;
(e) O regime inicial aberto para o cumprimento da pena privativa de liberdade;
(f) A substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos, com fulcro no
art. 44 do Código Penal;
(g) Não sendo o caso de substituição, a suspensão condicional da pena (CP, art. 77).

Comentário: em memoriais, sempre peça a absolvição com fundamento no art. 386 do CPP – salvo
no rito do júri, em que a absolvição deve ser a sumária, do art. 415 do CPP. Quanto aos demais pe-
didos, foi curiosa a forma como a banca os exigiu. Isso porque, além de não ter exigido fundamenta-
ção, trouxe no gabarito expressões doutrinárias para se referir a eles: menoridade relativa, confissão
espontânea e sursis. Por isso, é de grande importância o estudo de provas passadas, para conhecer
o que a FGV costuma pedir na segunda fase.

Comarca, 30 de março de 2015.

Advogado ..., OAB ....

Comentário: como sempre faz, a banca exigiu a peça no último dia de prazo. No XX Exame de Ordem,
foi informado o dia da semana em que ocorreu a intimação: 23 de março, segunda-feira. No entanto,
se o dia 23 caiu em uma segunda, o prazo final (28) será em um sábado, devendo haver a prorroga-
ção para o primeiro dia útil seguinte (segunda, 30). Se não constasse no enunciado o dia da semana,
o prazo seria contado sem considerar o final de semana, e o prazo final seria o dia 28.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 99
XX EXAME DE ORDEM (NACIONAL)
1. Astolfo, nascido em 15 de março de 1940, sem qualquer envolvimento pretérito com o aparato
judicial, no dia 22 de março de 2014, estava em sua casa, um barraco na comunidade conhecida
como Favela da Zebra, localizada em Goiânia/GO, quando foi visitado pelo chefe do tráfico da
comunidade, conhecido pelo vulgo de Russo.

2. Russo, que estava armado, exigiu que Astolfo transportasse 50 g de cocaína para outro trafican-
te, que o aguardaria em um Posto de Gasolina, sob pena de Astolfo ser expulso de sua residência
e não mais poder morar na Favela da Zebra. Astolfo, então, se viu obrigado a aceitar a determi-
nação, mas quando estava em seu automóvel, na direção do Posto de Gasolina, foi abordado
por policiais militares, sendo a droga encontrada e apreendida. Astolfo foi denunciado perante
o juízo competente pela prática do crime previsto no Art. 33, caput, da Lei nº 11.343/06. Em que
pese tenha sido preso em flagrante, foi concedida liberdade provisória ao agente, respondendo
ele ao processo em liberdade.

3. Durante a audiência de instrução e julgamento, após serem observadas todas as formalidades


legais, os policiais militares responsáveis pela prisão em flagrante do réu confirmaram os fatos
narrados na denúncia, além de destacarem que, de fato, o acusado apresentou a versão de que
transportava as drogas por exigência de Russo.

4. Asseguraram que não conheciam o acusado antes da data dos fatos. Astolfo, em seu interro-
gatório, realizado como último ato da instrução por requerimento expresso da defesa do réu,
também confirmou que fazia o transporte da droga, mas alegou que somente agiu dessa forma
porque foi obrigado pelo chefe do tráfico local a adotar tal conduta, ainda destacando que resi-
dia há mais de 50 anos na comunidade da Favela da Zebra e que, se fosse de lá expulso, não teria
outro lugar para morar, pois sequer possuía familiares e amigos fora do local. Disse que nunca
respondeu a nenhum outro processo, apesar já ter sido indiciado nos autos de um inquérito
policial pela suposta prática de um crime de falsificação de documento particular.

5. Após a juntada da Folha de Antecedentes Criminais do réu, apenas mencionando aquele inqué-
rito, e do laudo de exame de material, confirmando que, de fato, a substância encontrada no ve-
ículo do denunciado era “cloridrato de cocaína”, os autos foram encaminhados para o Ministério
Público, que pugnou pela condenação do acusado nos exatos termos da denúncia.

6. Em seguida, você, advogado (a) de Astolfo, foi intimado (a) em 06 de março de 2015, uma
sexta-feira.

7. Com base nas informações acima expostas e naquelas que podem ser inferidas do caso con-
creto, redija a peça cabível, excluída a possibilidade de Habeas Corpus, no último dia do prazo,
sustentando todas as teses jurídicas pertinentes. (Valor: 5,00)

8. Obs.: O examinando deve indicar todos os fundamentos e dispositivos legais cabíveis. A mera
citação do dispositivo legal não confere pontuação.

1. COMO IDENTIFICAR A PEÇA


O enunciado menciona a realização da audiência de instrução e julgamento e em manifestação final
do Ministério Público, mas ainda não há sentença. Portanto, cabíveis memoriais.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 100
2. IDENTIFICANDO AS TESES DE DEFESA
No primeiro parágrafo não há nada relevante. O segundo parágrafo é o ponto-chave de toda a
peça: Astolfo foi denunciado pela prática do delito de tráfico de drogas, do art. 33, caput, da Lei
n.º 11.343/06, por estar transportando cinquenta gramas de cocaína. Entretanto, assim agiu em
razão de ter sido ameaçado por Russo, que, armado, o obrigou a praticar o delito – o enunciado não
deixa qualquer dúvida ao dizer que Astolfo se viu obrigado a aceitar a determinação.

Para início de pesquisa, deve ser feita a leitura do artigo mencionado no mandado (Lei n.º 11.343,
art. 33, caput). Todavia, o dispositivo não traz qualquer informação relevante. Da leitura do enun-
ciado, fica evidente que a tese de defesa é o fato de Astolfo ter sido obrigado a praticar o crime.
A dúvida é: como encontrar a fundamentação para a tese? Por se tratar de tese de direito mate-
rial, devemos começar pelo índice alfabético-remissivo do CP. Procuramos por determinação e por
outras expressões trazidas no enunciado, mas sem sucesso. Também procuramos por concurso de
pessoas, mas, novamente, não tivemos êxito. Por fim, fizemos a leitura do tópico genérico do CP:
crime(s), em busca de uma forma de fundamentar a tese, e, logo no começo, a provável resposta:
coação irresistível e obediência hierárquica: art. 22. Da leitura do dispositivo, não há dúvida: é a res-
posta. Por precaução, fizemos a leitura das remissões feitas abaixo do artigo, e uma boa surpresa:
os organizadores informaram o inciso para fundamentar a absolvição: art. 386, VI, do CPP.

Quanto à tese de desclassificação para o art. 28 da Lei n.º 11.343/06, em nenhum momento o enun-
ciado diz que Astolfo sustentou que a droga seria para consumo pessoal. Por isso, não havia motivo
para sustentá-la – entretanto, quem a alegou, não sofreu prejuízo na nota, pois a banca não des-
conta pontuação quando é dito além do que o gabarito pede. Outra possível tese seria o princípio
da insignificância em razão da pequena quantidade de droga. Por não ser aceita a tese em relação
ao tráfico de drogas em Tribunais Superiores, a banca não a exigiu. Todavia, quem a sustentou,
não sofreu prejuízo na nota.

Feita a leitura dos demais dispositivos, não há outras teses de falta de justa causa, de extinção da
punibilidade ou de nulidade. Por isso, o próximo passo é a análise das teses de excesso na punição,
subsidiárias, para o caso de condenação.

Inicialmente, deve ser sustentada a pena no mínimo legal, por estarem ausentes as circunstâncias
judicias negativas do art. 59 do CP. Sobre este dispositivo, logo abaixo dele, os organizadores do
vade-mécum fizeram remissão à Súmula 444-STJ. Tem um motivo: em mais de uma edição da prova,
a banca exigiu a aplicação da súmula, cuja redação é a seguinte: É vedada a utilização de inquéritos
policiais e ações penais em curso para agravar a pena-base. Considerando que o enunciado informa
que Astolfo foi indiciado (ou seja, há inquérito policial contra ele), é uma tese a ser sustentada.

Não há qualificadoras. Não há verdadeiros privilégios, mas está presente a causa de diminuição de
pena erroneamente intitulada tráfico privilegiado, do art. 33, § 4º, da Lei n.º 11.343/06. Por mais
que o vade-mécum da RT não tenha índice alfabético-remissivo na Lei de Drogas (uma falha comum
em todos os vade-mécuns), bastava a leitura integral do art. 33 para localizar a tese – como já dito,
ao estudar um artigo, faça a leitura integral, em busca de pegadinhas.

Não há causas de aumento. Há uma causa de diminuição, já comentada anteriormente. O MP não


sustentou agravantes. Todavia, há três atenuantes: art. 65, I, III, c, e III, d, do CP. A primeira diz res-
peito ao fato de Astolfo ter mais de setenta anos na data da sentença. A segunda é a da confissão es-
pontânea. Por fim, a terceira, da prática de crime sob coação não irresistível. Caso o leitor não tenha
descoberto esta terceira atenuante, a dica de sempre: se um dispositivo estiver em sua resposta,

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 101
faça a sua leitura integral. Se o art. 65 estará em sua peça, leia tudo o que ele diz. Quem assim fez,
percebeu a atenuante da coação.

O próximo passo é a análise do regime inicial. Na época do XX Exame de Ordem, o STJ entendia que o
reconhecimento da causa de diminuição do art. 33, § 4º, não afastava a equiparação a hediondo do
tráfico de drogas – havia até súmula nesse sentido, atualmente cancelada. Por isso, a FGV exigiu que
fosse sustentada a tese de que a previsão de regime inicialmente fechado para crimes hediondos e
equiparados é inconstitucional (Lei n.º 8.072/90, art. 2º, § 1º). Considerando o atual entendimento,
devemos fazer a análise com base, tão-somente, no art. 33, § 2º, do CP. Como a pena mínima do
tráfico de drogas é de cinco anos, e que pedimos a diminuição do § 4º, o regime inicial será o aberto,
conforme art. 33, § 2º, c, do Código Penal.

A seguir, a análise da substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos, do art.
44 do CP. O vade-mécum esclarece, logo abaixo do § 4º, que o art. 1º da Resolução 5/2012 (DOU
16.02.2012), do Senado Federal, suspendeu a execução da expressão “vedada a conversão em penas
restritivas de direitos” do § 4º do art. 33 da Lei n.º 11.343/06, declarada inconstitucional por deci-
são definitiva do STF. A remissão é importante, pois a FGV exigiu no gabarito a menção à Resolução
5/2012 do Senado Federal.

Por fim, a análise do sursis, do art. 77 do CP. Todavia, caso aplicada a diminuição mínima do § 4º,
a aplicação do instituto não será possível. Logo, não consta do gabarito.

3. MONTANDO A PEÇA

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da Vara Criminal da Comarca de Goiânia/GO,

Comentário: muitos perderam pontos no endereçamento em razão de ter inventado dados – o que
poderia, em caso extremo, causar a anulação da prova por identificação. Em muitas comarcas pelo
Brasil, há varas especializadas em delitos de drogas. Isso se dá com base na legislação de organiza-
ção judiciária de cada Tribunal de Justiça. Em Rio Branco/AC, por exemplo, há uma Vara de Drogas
e Acidentes de Trânsito, dois assuntos sem qualquer ligação, mas que, por particularidades do TJAC,
foram unidos em uma vara única. No Exame de Ordem, muitos endereçaram à peça ao Juiz de Direito
da Vara de Drogas. Entretanto, o enunciado não traz essa informação. Por isso, o gabarito exigiu o
endereçamento à Vara Criminal. Ainda que exista em Goiânia uma vara especializada em tráfico de
drogas, para o Exame de Ordem, ela não existe, afinal, não está no enunciado.

Astolfo, já qualificado nos autos, vem, por seu advogado, apresentar Alegações finais por
Memoriais, com fundamento no art. 403, § 3º, do Código de Processo Penal, pelas razões a
seguir expostas:

Comentário: não sabemos se foi a intenção do examinador, mas ao falar em juntada de laudo pe-
ricial após a audiência de instrução e julgamento, o enunciado dá a entender que os memoriais

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 102
deveriam ser fundamentados com base no art. 404, parágrafo único, do CPP. Entretanto, como não
ficou muito claro, a banca aceitou tanto o art. 403, § 3º, quanto o art. 404, parágrafo único. Também
aceitou quem mencionou, em conjunto com o art. 403, § 3º, o art. 394, § 5º, do CPP e o art. 57 da
Lei n.º 11.343/06.

I. DOS FATOS

(...)

Comentário: a divisão em dos fatos, do direito e do pedido não é pontuada pela banca. Entretanto,
gostamos de utilizá-la. Como a correção da FGV é muito ruim, quanto melhor organizada a sua
peça, menor a chance de erros de correção – a banca errará de qualquer forma, mas o prejuízo será
menor se a sua peça estiver bem estruturada. Como já dito, a descrição dos fatos não é pontuada
pela FGV – na queixa-crime, há uma situação especial, tratada no modelo da peça. Portanto, limi-
te-se a um resumo do enunciado. Não perca muito tempo em sua elaboração. Não é o momento
de sustentar teses de defesa. Considerando a irrelevância do tópico dos fatos, em nossos modelos,
adotamos apenas as reticências, mas por economia de espaço. Em sua prova, é claro, faça o resumo
do enunciado.

II. DO DIREITO

(a) Da coação moral irresistível

Como já relatado, o réu praticou o delito por ter sido coagido por Russo, traficante, que ameaçou
expulsá-lo de sua casa se não fizesse o transporte da cocaína. Portanto, deve Astolfo ser absolvido
em razão da coação moral irresistível, por exclusão da culpabilidade, conforme art. 22 do Código
Penal, deve ser punido somente o autor da coação.

Comentário: como já dito, em memoriais, a banca quase sempre pontua em duplicidade o pedido
– a absolvição foi pontuada nos quesitos 3 e 11 do gabarito do XX Exame de Ordem. Outro ponto
que destacamos é o quesito 3.1, que exigiu que fosse dito que a coação moral irresistível é causa ex-
cludente da culpabilidade. O art. 22 do CP não diz nada nesse sentido. Como poderia o examinando
chegar a tal conclusão, apenas com pesquisa no vade-mécum? Eis, aí, a importância das remissões
feitas pelo vade-mécum. Logo abaixo do art. 22, os organizadores do vade-mécum fizeram remissão
ao art. 397, II, do CPP. Embora seja o dispositivo a ser adotado na absolvição sumária, em resposta à
acusação, veja o que diz a sua redação: a existência manifesta de causa excludente da culpabilidade
do agente, salvo inimputabilidade.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 103
(b) Da pena

Subsidiariamente, em caso de condenação, é necessária a fixação da pena no mínimo legal,


pois é vedada a utilização de inquérito policial para agravar a pena-base, em respeito ao princípio
da presunção de inocência, conforme Súmula 444-STJ.

Comentário: mais uma vez, a banca exigiu que fosse dito, de forma expressa, a palavra subsidia-
riamente. Em relação à forma como sustentada a tese, adotamos as palavras da Súmula 444-STJ,
para o caso de a banca as exigir. Além disso, veja que, para a FGV, não basta sustentar a tese: é ne-
cessário explicá-la. No gabarito, foi exigida a menção ao princípio da presunção de inocência, como
fundamento da tese. Para ficar ainda mais completo, poderíamos ter mencionado o art. 5º, LVII,
da Constituição.

Ademais, deve ser reconhecida a atenuante do art. 65, I, do Código Penal, pois o réu era
maior de setenta anos na época da sentença. Também deve ser reconhecida a atenuante da confissão
espontânea, conforme art. 65, III, d, do Código Penal. Por fim, deve ser aplicada a
atenuante da coação resistível, do art. 65, III, c, do Código Penal.

Comentário: embora a doutrina fale em atenuante da senilidade, expressão claramente discrimi-


natória, a banca não a exigiu. Bastava dizer atenuante do art. 65, I, do CP. Quanto à atenuante da
coação resistível, é algo óbvio: pedimos, inicialmente, a coação irresistível. Caso o juiz não a acate,
entendeu que a coação foi resistível, como dispõe o art. 65, III, c.

Há, ainda, causa de diminuição de pena em favor de Astolfo, com fundamento no art. 33, § 4º,
da Lei n.º 11.343/06, devendo a pena ser reduzida de um sexto a um terço, visto que o réu é primário,
de bons antecedentes e não se dedica às atividades criminosas e nem integra organização criminosa.

Comentário: a FGV foi justa e não exigiu que fosse dito tráfico privilegiado, expressão doutrinária.
Também recebeu a pontuação quem disse causa de diminuição, que é do que se trata o art. 33, § 4º.
Como costuma fazer, a banca trouxe no gabarito em que consiste a causa de diminuição, com seus
requisitos. Por isso, foi feita a transcrição do que diz o dispositivo.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 104
O regime inicial a ser fixado é o aberto, com fundamento no art. 33, § 2º, c, do Código
Penal. Caso não seja reconhecida a causa de diminuição de pena do art. 33, § 4º, da Lei
n.º 11.343/06, hipótese em que seria mantida a equiparação a hediondo do tráfico de drogas,
o regime não poderia ser fechado, pois foi declarado inconstitucional o disposto no art. 2º, § 1º,
da Lei n.º 8.072/90, que impõe obrigatoriamente o regime inicial fechado aos crimes hediondos
e equiparados.

Comentário: considerando a mudança na jurisprudência do STJ, a resposta foi adaptada ao atual


posicionamento. Foi feito pedido subsidiário de regime, caso não reconhecida a causa de diminuição
do art. 33, § 4º. Entretanto, analisadas as provas passadas, percebe-se que a banca não costuma
pontuar o pedido subsidiário de regime caso alguma outra tese não seja reconhecida. No gabarito
do XX Exame de Ordem, foi exigido apenas o regime aberto, tendo por base a ideia de que a tese de
reconhecimento da causa de diminuição foi acatada.

Além disso, é possível a substituição da pena privativa por restritiva de direitos, com fundamento
no art. 44 do Código Penal, pois o STF declarou inconstitucional a vedação prevista no
art. 33, § 4º, da Lei n.º 11.343/06, objeto da Resolução 05/2012 do Senado Federal.

Comentário: o pedido de substituição não é novidade. É comum cair em memoriais, como tese
subsidiária. No entanto, a banca exigiu menção à Resolução 5/2012 do Senado Federal que, como já
comentado, consta expressamente das remissões feitas pelo vade-mécum, ao tratar do art. 33, § 4º.

III. DO PEDIDO

Diante do exposto, requer:

(a) A absolvição do réu, com fundamento no art. 386, VI, do Código de


Processo Penal;
(b) Subsidiariamente, a aplicação da pena-base no mínimo legal, com fundamento no
art. 59 do Código Penal e na Súmula 444-STJ;
(c) O reconhecimento da atenuante do art. 65, I, do Código Penal e da confissão espontânea
(CP, art. 65, III, d) e da coação resistível (CP, art. 65, III, c).

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 105
(d) A aplicação da causa de diminuição do art. 33, § 4º, da Lei n.º 11.343/06;
(e) A fixação de regime inicial aberto, com fundamento no art. 33, § 2º, c,
do Código Penal;
(f) A substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos, do art. 44
do Código Penal.

Comentário: por precaução, todas as teses foram fundamentadas, mas a banca apenas exigiu men-
ção a artigo na absolvição.

Comarca, 13 de março de 2015.

Advogado ..., OAB....

Comentário: como sempre faz, a banca exigiu a peça no último dia do prazo, e foi mencionada o dia
da semana (sexta-feira, com contagem de prazo a partir da segunda-feira seguinte).

XXII EXAME DE ORDEM


1. Desejando comprar um novo carro, Leonardo, jovem com 19 anos, decidiu praticar um crime
de roubo em um estabelecimento comercial, com a intenção de subtrair o dinheiro constante
do caixa. Narrou o plano criminoso para Roberto, seu vizinho, mas este se recusou a contribuir.
Leonardo decidiu, então, praticar o delito sozinho.

2. Dirigiu-se ao estabelecimento comercial, nele ingressou e, no momento em que restava ape-


nas um cliente, simulou portar arma de fogo e o ameaçou de morte, o que fez com ele saísse,
já que a intenção de Leonardo era apenas a de subtrair bens do estabelecimento. Leonardo,
em seguida, consegue acesso ao caixa onde fica guardado o dinheiro, mas, antes de subtrair
qualquer quantia, verifica que o único funcionário que estava trabalhando no horário era um
senhor que utilizava cadeiras de rodas. Arrependido, antes mesmo de ser notada sua presença
pelo funcionário, deixa o local sem nada subtrair, mas, já do lado de fora da loja, é surpreendido
por policiais militares. Estes realizam a abordagem, verificam que não havia qualquer arma com
Leonardo e esclarecem que Roberto narrara o plano criminoso do vizinho para a Polícia.

3. Tomando conhecimento dos fatos, o Ministério Público requereu a conversão da prisão em fla-
grante em preventiva e denunciou Leonardo como incurso nas sanções penais do Art. 157, § 2º,
inciso I, c/c o Art. 14, inciso II, ambos do Código Penal.

4. Após decisão do magistrado competente, qual seja, o da 1ª Vara Criminal de Belo Horizonte/MG,
de conversão da prisão e recebimento da denúncia, o processo teve seu prosseguimento regular.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 106
O homem que fora ameaçado nunca foi ouvido em juízo, pois não foi localizado, e, na data dos
fatos, demonstrou não ter interesse em ver Leonardo responsabilizado. Em seu interrogatório,
Leonardo confirma integralmente os fatos, inclusive destacando que se arrependeu do crime
que pretendia praticar. Constavam no processo a Folha de Antecedentes Criminais do acusado
sem qualquer anotação e a Folha de Antecedentes Infracionais, ostentando uma representação
pela prática de ato infracional análogo ao crime de tráfico, com decisão definitiva de procedên-
cia da ação socioeducativa. O magistrado concedeu prazo para as partes se manifestarem em
alegações finais por memoriais. O Ministério Público requereu a condenação nos termos da de-
núncia. O advogado de Leonardo, contudo, renunciou aos poderes, razão pela qual, de imediato,
o magistrado abriu vista para a Defensoria Pública apresentar alegações finais.

5. Em sentença, o juiz julgou procedente a pretensão punitiva estatal. No momento de fixar a


pena-base, reconheceu a existência de maus antecedentes em razão da representação julgada
procedente em face de Leonardo enquanto era inimputável, aumentando a pena em 06 meses
de reclusão. Não foram reconhecidas agravantes ou atenuantes. Na terceira fase, incrementou
o magistrado em 1/3 a pena, justificando ser desnecessária a apreensão de arma de fogo, bas-
tando a simulação de porte do material diante do temor causado à vítima. Com a redução de
1/3 pela modalidade tentada, a pena final ficou acomodada em 4 (quatro) anos de reclusão.
O regime inicial de cumprimento de pena foi o fechado, justificando o magistrado que o crime
de roubo é extremamente grave e que atemoriza os cidadãos de Belo Horizonte todos os dias.
Intimado, o Ministério Público apenas tomou ciência da decisão.

6. A irmã de Leonardo o procura para, na condição de advogado, adotar as medidas cabíveis.


Constituída nos autos, a intimação da sentença pela defesa ocorreu em 08 de maio de 2017,
segunda-feira, sendo terça-feira dia útil em todo o país.

7. Com base nas informações expostas acima e naquelas que podem ser inferidas do caso concre-
to, redija a peça cabível, excluída a possibilidade de habeas corpus, no último dia do prazo para
interposição, sustentando todas as teses jurídicas pertinentes. (Valor: 5,00)

8. Obs.: a peça deve abranger todos os fundamentos de Direito que possam ser utilizados para
dar respaldo à pretensão. A simples menção ou transcrição do dispositivo legal não con-
fere pontuação.

1. IDENTIFICANDO A PEÇA
O enunciado diz expressamente que já há sentença condenatória ainda não transitada em julgado.
Portanto, qualquer outra peça pode ser descartada: não tem como ser resposta à acusação ou me-
moriais, por exemplo. A hipótese descrita no enunciado também não comporta recurso em sentido
estrito (CPP, art. 581). Trata-se, sem dúvida alguma, de apelação (CPP, art. 593). Ao identificar a peça,
caso seja a apelação, procure descobrir se não está na posição de assistente de acusação (quando
terá de ser feito pedido de habilitação) ou de apelado (se a outra parte tiver recorrido, o examinando
terá de elaborar contrarrazões ao recurso de apelação interposto). O XXII Exame de Ordem, todavia,
não tem pegadinha: o examinando deveria apelar contra a sentença condenatória em favor do réu
condenado.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 107
2. IDENTIFICANDO AS TESES DE DEFESA
Iniciando a busca por falta de justa causa, que, em apelação, é causa de absolvição, não há nada re-
levante no primeiro parágrafo. No segundo parágrafo, o ponto-chave: Leonardo iniciou a execução
do delito de roubo inicialmente desejado, mas, antes de subtrair qualquer quantia, arrependeu-se
de sua conduta ao perceber que o funcionário estava em uma cadeira de rodas. Para não deixar
qualquer dúvida, o enunciado fala expressamente que Leonardo estava arrependido. Os demais
parágrafos não têm mais teses de falta de justa causa.

Com base nas informações trazidas no enunciado, começamos pela capitulação da denúncia: art.
157, § 2º, I, do CP (atualmente, art. 157, § 2º-A, I) c/c art. 14, II, também do CP. Em relação à falta de
justa causa, o art. 157 não traz qualquer informação relevante. O art. 14, II, por outro lado, dá uma
pista: só há tentativa quando o agente queria a consumação, mas não a alcança por razões alheias à
sua vontade. Não foi o caso do denunciado, afinal, o roubo não se consumou porque Leonardo não
quis. Em seguida, procuramos pela palavra arrependimento no remissivo do CP, pois o enunciado a
mencionou expressamente, e a encontramos, com remissão ao art. 15 do CP, que é a nossa resposta.
O vade-mécum teria sido mais útil se, no art. 14, II, houvesse remissão ao art. 15 do CP – como a FGV
sempre cobra os dois assuntos em conjunto, tanto na primeira quanto na segunda fase, os coorde-
nadores poderiam ter feito essa ponte entre eles.

Em seguida, fizemos a busca por teses de nulidade. De tudo o que é descrito no enunciado, um
ponto parece fugir da normalidade: a renúncia do advogado de Leonardo no momento em que de-
veria oferecer as alegações finais, em audiência. O juiz imediatamente abriu vista para a Defensoria
Pública, sem adotar qualquer outra medida. Agiu corretamente o magistrado? Começamos a busca,
no remissivo do CPP, por renúncia, mas não encontramos a resposta. Também procuramos por ad-
vogado e por defensor. Neste último, encontramos remissão aos arts. 261 a 267 do CPP. Da leitura
do art. 263, a possível resposta: a nomeação de defensor ocorrerá quando o acusado não tiver ad-
vogado, mas o juiz deve resguardar o direito do réu a nomear alguém de sua confiança, o que não
aconteceu no caso descrito no enunciado, causando prejuízo à ampla defesa.

O próximo passo foi a pesquisa por extinção da punibilidade, mas nada foi encontrado. Por fim,
um levantamento de extrema relevância em apelação contra sentença condenatória: a verificação
de excesso na punição. Em memoriais, o examinando deve atirar para todos os lados, precavendo-se
de qualquer excesso. Na apelação, contudo, por já existir condenação, é possível identificar o que
deve ser combatido.

O juiz fixou a pena-base acima do mínimo legal em razão de Leonardo ter praticado ato infracional
quando adolescente. Por mais que o examinando não tenha a menor ideia de como fundamentar
a tese, seria possível sustentá-la, pelo menos, no do pedido, quando geralmente a banca não pede
fundamentação, exceto na absolvição. Bastava contradizer o juiz: a pena-base deve ser fixada no
mínimo legal pois a existência de medida socioeducativa por ato infracional não é motivo idôneo
para o conhecimento de maus antecedentes. Foi exatamente a resposta exigida pela FGV, no quesito
de n.º 6. De qualquer forma, é sempre interessante fundamentar o que é dito. Começamos pelo re-
missivo do CP – como a discussão é a quantidade de pena, a tese é de direito material. Em pena(s),
encontramos o tópico cálculo da: art. 68. O próprio art. 68 faz remissão ao art. 59 do CP, que fala
que os antecedentes devem ser considerados pelo juiz ao fixar a pena-base. Abaixo do dispositivo,
o vade-mécum traz uma série de remissões – inclusive às Súmulas 440 e 444 do STJ, mencionadas
expressamente no padrão de respostas da FGV, mas que ficaram de fora do gabarito. O art. 59 do CP
não esclarece a resposta. A tese de que o ato infracional não pode ser considerado mau antecedente

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 108
é jurisprudencial. Por isso, o examinando deveria pagar para ver, sustentando a tese sem saber,
ao certo, se o posicionamento é correto. Para ir mais a fundo, poderia ter procurado por reincidên-
cia. O tema é tratado no art. 63 do CP, que determina existir reincidência quando ocorrer novo crime
(ou seja, crime + crime). Como houve ato infracional e crime, não há reincidência – e, consequente-
mente, maus antecedentes.

Outro ponto importante é o crime a ser imputado a Leonardo. Isso porque, como constatado, houve
desistência voluntária (CP, art. 15). Segundo o dispositivo, na hipótese, o agente não deve respon-
der pelo delito inicialmente pretendido (roubo), mas somente pelos atos já praticados (no máximo,
ameaça). Quando houver tese de desclassificação de um delito mais gravoso para outro, com pena
menor, o examinando deve fazer a análise das quatro teses (falta de justa causa, extinção da puni-
bilidade, nulidade e excesso na punição) em relação ao novo delito. Em uma prova passada, quan-
do havia pedido de desclassificação, tinha havido a decadência do delito menos gravoso. Ou seja,
o examinando deveria sustentar a desclassificação, do mais gravoso para o menos gravoso, e em
seguida a decadência do menos gravoso. No caso em estudo, não existe qualquer tese a ser susten-
tada especificamente em relação à ameaça (CP, art. 147).

O ponto seguinte da sentença é o não reconhecimento de agravantes e atenuantes. Como o próprio


juiz não reconheceu agravante, não cabe a nós, da defesa, a pesquisa por alguma. Todavia, o não
reconhecimento de atenuantes nos interessa. Segundo o enunciado, Leonardo confessou os fatos da
denúncia, devendo ser reconhecida a confissão espontânea (CP, art. 65, III, d). Além disso, na época
dos fatos, ele tinha dezenove anos, devendo incidir a atenuante da menoridade relativa (CP, art.
65, I).

O enunciado traz uma causa de diminuição, a da tentativa (CP, art. 14, II). De acordo com o art. 14,
parágrafo único, na tentativa, a pena deve ser reduzida de um a dois terços. O magistrado reduziu
a pena em somente um terço, mas não justificou o motivo de sua decisão. Por isso, devemos bus-
car a redução máxima, de dois terços, mais vantajosa. Além do mais, Leonardo foi condenado pelo
roubo majorado pelo emprego de arma de fogo, com fundamento no art. 157, § 2º, I, do CP (atual
art. 157, § 2º-A, I). A majorante deve ser afastada por não ter havido o efetivo emprego de arma de
fogo, mas apenas a simulação. Mesmo com a mudança promovida pela Lei n.º 13.654/18, a reflexão
permanece válida.

O juiz fixou o regime inicial fechado, sob o argumento de que o crime de roubo é extremamente
grave e que atemoriza os cidadãos da cidade todos os dias – ou seja, considerou a gravidade em abs-
trato do delito, que, como já vimos na Súmula 440-STJ (uma das remissões do art. 59 do CP), não é
motivação idônea para a fixação de regime prisional mais gravoso.

Por fim, considerando que o roubo é crime praticado mediante violência ou grave ameaça, não tem
como sustentar a substituição de pena, do art. 44 do CP. Quanto ao sursis, um cálculo deve ser feito:
o roubo tem pena mínima de quatro anos, quantum a ser considerado, pois pedimos a pena no mí-
nimo legal. Se considerada a diminuição máxima da tentativa, de dois terços, a pena ficaria abaixo
de dois anos, sendo, portanto, cabível o benefício do art. 77 do CP.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 109
3. MONTANDO A PEÇA

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da 1ª Vara Criminal da Comarca de Belo


Horizonte/MG,

Comentário: o enunciado diz expressamente que a sentença foi proferida pelo juiz da 1ª Vara
Criminal da Comarca de Belo Horizonte/MG. Por isso, o examinando deveria fazer menção expressa
a essas informações no endereçamento.

Leonardo, já qualificado nos autos, vem, por seu advogado, interpor Recurso de Apelação,
com fundamento no art. 593, I, do Código de Processo Penal.

Requer a juntada e processamento das razões anexadas e o encaminhamento ao Tribunal de


Justiça do Estado de Minas Gerais.

Comentário: não há problema em dizer apenas apelação, mas a banca tem trazido no gabarito a
expressão recurso de apelação. Por isso a adotamos. O gabarito não exigiu menção ao TJMG na in-
terposição, mas o padrão publicado pela banca falou em encaminhamento do feito para a instância
superior ao tratar da interposição.

Comarca, 15 de maio de 2017.

Advogado ..., OAB ....

Comentário: muitos examinandos têm dúvida em relação à data a ser inserida na interposição. Deve
ser obedecido o comando do enunciado, com data no último dia? Ou a data final deve ser menciona-
da apenas nas razões? Reflita: em processo penal, é possível oferecer interposição e, em outra data,
as razões (CPP, art. 600). Contudo, nada impede que a apelação já seja interposta com as razões.
Quando isso ocorrer, tudo será feito na mesma data, é claro. No enunciado, está evidente que é o
que deve ser feito, afinal, não há como oferecer as razões no Exame de Ordem seguinte. Por isso,
a mesma data deve ser escrita na interposição e nas razões. Quanto à data, a intimação ocorreu no
dia 8 de maio, uma segunda-feira. O prazo de cinco dias começou a correr no dia 9, terça-feira, que o
enunciado esclarece ser dia útil, mas o prazo final cai no dia 13, sábado, devendo ser interposta a
apelação na segunda-feira, 15.

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1ª EDIÇÃO
III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 110
Razões de Apelação

Egrégio Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais,

Colenda Câmara,

Douto Procurador de Justiça,

Comentário: de tudo o que foi dito acima, apenas duas informações são relevantes: a expressão
razões de apelação e o endereçamento ao Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Todo o
restante não vale qualquer pontuação. Por isso, fica a critério de cada um o estilo a ser adotado nas
razões de apelação.

Apesar do inegável conhecimento jurídico do Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da


1ª Vara Criminal da Comarca de Belo Horizonte, Minas Gerais, a sentença recorrida deve
ser reformada pelas razões a seguir expostas:

Comentário: é interessante dizer expressamente que deseja a reforma da sentença recorrida, pois a
banca pode trazer algum quesito a respeito no gabarito.

I. DOS FATOS

(...)

Comentário: a divisão em dos fatos, do direito e do pedido não é pontuada pela banca. Entretanto,
gostamos de utilizá-la. Como a correção da FGV é muito ruim, quanto melhor organizada a sua
peça, menor a chance de erros de correção – a banca errará de qualquer forma, mas o prejuízo será
menor se a sua peça estiver bem estruturada. Como já dito, a descrição dos fatos não é pontuada
pela FGV – na queixa-crime, há uma situação especial, tratada no modelo da peça. Portanto, limi-
te-se a um resumo do enunciado. Não perca muito tempo em sua elaboração. Não é o momento
de sustentar teses de defesa. Considerando a irrelevância do tópico dos fatos, em nossos modelos,
adotamos apenas as reticências, mas por economia de espaço. Em sua prova, é claro, faça o resumo
do enunciado.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 111
II. DO DIREITO

(a) Preliminar de nulidade por nomeação de defensor público.

Como relatado acima, encerrada a audiência, o advogado do apelante renunciou ao mandato.


Considerando que o art. 263 do Código de Processo Penal determina a nomeação de defensor
público quando o acusado não tiver advogado, mas resguardado o seu direito de nomear alguém
de sua confiança, deveria o magistrado ter intimado o apelante para nomear novo advogado para
o oferecimento das alegações finais e, caso não o fizesse, aí, sim, deveria ser nomeado defensor,
sob pena de violação ao princípio da ampla defesa. Portanto, devem ser anulados todos os atos
processuais desde as alegações finais.

Comentário: a banca exigiu a menção expressa à palavra preliminarmente (quesito 4). Por isso, em-
bora a divisão do tópico do direito em subtópicos não seja uma exigência legal, a FGV tem pontuado
quem assim faz.

(b) Mérito: desistência voluntária.

Como esclarecido, Leonardo pretendia, de fato, praticar o crime de roubo, do art. 157 do
Código Penal. Todavia, iniciada a execução do delito, o apelante se arrependeu de sua conduta
e a abandonou antes de concluir a execução. Por essa razão, deve ser reconhecida a desistência
voluntária, com fundamento no art. 15 do Código Penal, hipótese em que o agente deve responder
apenas pelos atos já praticados, razão pela qual é imperiosa a sua absolvição pelo crime de roubo.

Comentário: a FGV aceitou como resposta a absolvição do roubo ou a desclassificação para o crime
de ameaça. Caso situação semelhante ocorra em sua prova, sustente as duas teses: a absolvição
como tese principal e a desclassificação como tese subsidiária. É grande a chance de a banca exigir
do examinando todas as teses possíveis, e não uma ou outra.

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 112
(c) Pena a ser aplicada.

Subsidiariamente, caso Vossas Excelências entendam pela condenação, é imprescindível que


a pena-base seja fixada no mínimo legal, pois a prática de ato infracional ou a existência de
medida socioeducativa não é motivação suficiente para o reconhecimento de maus antecedentes,
com fundamento no art. 59 do Código Penal.

Comentário: o gabarito exigiu menção expressa à palavra subsidiariamente (quesito 6). Sobre a fun-
damentação adotada (art. 59), decidimos por adotá-la por ser o dispositivo onde é tratada a pena-
-base, mas o gabarito não o pontuou.

Deve ser ainda reconhecida a atenuante da menoridade relativa, pois o apelante tinha dezenove anos
na época dos fatos, com fundamento no art. 65, I, do Código Penal, e a atenuante da confissão
espontânea, do art. 65, III, d, do Código Penal.

Comentário: no quesito de n.º 7, a banca exigiu do examinando a expressão menoridade relativa,


que não tem previsão legal. Por isso é muito importante a leitura de provas passadas, para que o
examinando conheça as expressões doutrinárias sempre exigidas pela banca na segunda fase.

Além disso, deve ser afastada a causa de aumento de pena do art. 157, § 2º-A, I, do Código
Penal, pois não houve o emprego de arma de fogo pelo apelante, mas apenas a simulação de estar
portando uma, não existindo qualquer prova de que, em algum momento, ele realmente a utilizou.

Comentário: a tese permanece válida, mesmo após a mudança promovida pela Lei n.º 13.654/18.

Em relação à causa de diminuição de pena pela tentativa, deve haver a sua redução ao máximo,
em dois terços, pois o apelante em muito se distanciou da consumação do delito de roubo,
com fundamento no art. 14, II e parágrafo único, do Código Penal.

Considerando a pena a ser aplicada ao apelante, faz ele jus à suspensão condicional da pena,
com fundamento no art. 77 do Código Penal, visto que a condenação não ultrapassará dois anos.

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2ª fase do Exame de Ordem
1ª EDIÇÃO
III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 113
Caso não seja acatado o pedido de suspensão condicional da pena, deve ser imposto o regime inicial
aberto, com fulcro no art. 33, § 2º, c, do Código Penal, não sendo a gravidade em abstrato do
delito motivo idôneo para a fixação e regime mais gravoso, conforme a Súmula 440-STJ.

Comentário: em tese, o mais correto é sustentar a tese de regime prisional após sustentar o sursis,
afinal, se houver a suspensão, não haverá regime algum. De qualquer forma, não há prejuízo caso
seja feita a inversão. Sobre a Súmula 440-STJ, ela foi localizada em nossa leitura do art. 59 do CP.
Fizemos a leitura da Súmula no vade-mécum e ficamos surpresos ao descobrir que os organizado-
res não fizeram remissão às Súmulas 718 e 719 do STF, que também tratam do assunto. No gaba-
rito, a FGV aceitou qualquer uma delas, alternativamente. Entretanto, se houvesse a cumulação,
o vade-mécum não teria ajudado eficientemente.

III. DO PEDIDO

Diante do exposto, requer seja conhecido e provido o recurso, com expedição de alvará de soltura.

Comentário: no XXII Exame de Ordem, a FGV exigiu apenas que o examinando pedisse o conheci-
mento e o provimento do recurso. Entretanto, no XVIII Exame de Ordem, a banca trouxe no gabarito
todos os pedidos que deveriam ser feitos, além do conhecimento e do provimento (reconhecimen-
to de atenuante, redução de causa de diminuição etc.). Por precaução, caso volte a cair apelação,
é melhor elaborar o rol de pedidos, além do pedido de conhecimento e provimento. Se o rol não es-
tiver no gabarito, nenhum ponto será perdido. Contudo, caso seja exigido, não haverá prejuízo – no
XVIII Exame de Ordem, o rol de pedidos valia seis décimos. Quanto ao alvará de soltura, fique alerta:
exceto em prisão temporária, a única forma de fazer com que alguém saia da prisão é por alvará de
soltura, expedido pelo juiz competente. Como sustemos o sursis e o regime aberto, e considerando
que o apelante está preso, é imprescindível requerer o alvará de soltura em sua peça – embora,
em um caso real, seja algo automático, que não depende de provocação.

Comarca, 15 de maio de 2017.

Advogado ..., OAB....

Comentário: como já dito, é interessante mencionar o último dia de prazo na interposição e


nas razões.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 114
XIX EXAME DE ORDEM
1. No dia 24 de dezembro de 2014, na cidade do Rio de Janeiro, Rodrigo e um amigo não identifica-
do foram para um bloco de rua que ocorria em razão do Natal, onde passaram a ingerir bebida
alcoólica em comemoração ao evento festivo. Na volta para casa, ainda em companhia do ami-
go, já um pouco tonto em razão da quantidade de cerveja que havia bebido, subtraiu, mediante
emprego de uma faca, os pertences de uma moça desconhecida que caminhava tranquilamente
pela rua. A vítima era Maria, jovem de 24 anos que acabara de sair do médico e saber que estava
grávida de um mês. Em razão dos fatos, Rodrigo foi denunciado pela prática de crime de roubo
duplamente majorado, na forma do Art. 157, § 2º, incisos I e II, do Código Penal.

2. Durante a instrução, foi juntada a Folha de Antecedentes Criminais de Rodrigo, onde consta-
vam anotações em relação a dois inquéritos policiais em que ele figurava como indiciado e três
ações penais que respondia na condição de réu, apesar de em nenhuma delas haver sentença
com trânsito em julgado. Foram, ainda, durante a Audiência de Instrução e Julgamento ouvidos
a vítima e os policiais que encontraram Rodrigo, horas após o crime, na posse dos bens subtra-
ídos. Durante seu interrogatório, Rodrigo permaneceu em silêncio. Ao final da instrução, após
alegações finais, a pretensão punitiva do Estado foi julgada procedente, com Rodrigo sendo
condenado a pena de 05 anos e 04 meses de reclusão, a ser cumprida em regime semiaberto,
e 13 dias-multa. O juiz aplicou a pena-base no mínimo legal, além de não reconhecer qualquer
agravante ou atenuante. Na terceira fase da aplicação da pena, reconheceu as majorantes men-
cionadas na denúncia e realizou um aumento de 1/3 da pena imposta.

3. O Ministério Público foi intimado da sentença em 14 de setembro de 2015, uma segunda-feira,


sendo terça-feira dia útil. Inconformado, o Ministério Público apresentou recurso de apelação
perante o juízo de primeira instância, acompanhado das respectivas razões recursais, no dia 30
de setembro de 2015, requerendo:

i) O aumento da pena-base, tendo em vista a existência de diversas anotações na Folha de


Antecedentes Criminais do acusado;

ii) O reconhecimento das agravantes previstas no Art. 61, inciso II, alíneas ‘h’ e ‘l’, do
Código Penal;

iii) A majoração do quantum de aumento em razão das causas de aumentos previstas no


Art. 157, §2º, incisos I e II, do Código Penal, exclusivamente pelo fato de serem duas
as majorantes;

iv) Fixação do regime inicial fechado de cumprimento de pena, pois o roubo com faca tem as-
sombrado a população do Rio de Janeiro, causando uma situação de insegurança em toda
a sociedade.

4. A defesa não apresentou recurso. O magistrado, então, recebeu o recurso de apelação do


Ministério Público e intimou, no dia 19 de outubro de 2015 (segunda-feira), sendo terça feira
dia útil em todo o país, você, advogado(a) de Rodrigo, para apresentar a medida cabível.

Com base nas informações expostas na situação hipotética e naquelas que podem ser inferidas do
caso concreto, redija a peça cabível, excluída a possibilidade de habeas corpus, no último dia do
prazo, sustentando todas as teses jurídicas pertinentes. (Valor: 5.00)

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 115
1. IDENTIFICANDO A PEÇA
O enunciado informa que houve audiência de instrução e julgamento e sentença condenatória.
Portanto, em tese, parece ser o caso de apelação. No entanto, no quarto parágrafo, o texto diz que
já houve o prazo para recurso, mas a defesa (você) não recorreu. O Ministério Público ofereceu re-
curso de apelação, e nada mais aconteceu. Logo, é o momento para rebater o que o MP pediu em
sua apelação, o que deve ser feito em contrarrazões de apelação (CPP, art. 600).

2. IDENTIFICANDO AS TESES DE DEFESA


As contrarrazões são, sem dúvida alguma, uma das peças mais fáceis de prática penal. Dizemos isso
porque o objetivo da peça é derrubar os argumentos apresentados pela outra parte. Por essa razão,
a banca tem de trazer, já no enunciado, as teses que devem ser contrariadas. Os pedidos do MP
foram os seguintes:

i) O aumento da pena-base, tendo em vista a existência de diversas anotações na Folha de


Antecedentes Criminais do acusado;

ii) O reconhecimento das agravantes previstas no Art. 61, inciso II, alíneas ‘h’ e ‘l’, do
Código Penal;

iii) A majoração do quantum de aumento em razão das causas de aumentos previstas


no Art. 157, §2º, incisos I e II, do Código Penal, exclusivamente pelo fato de serem duas
as majorantes;

iv) Fixação do regime inicial fechado de cumprimento de pena, pois o roubo com faca tem as-
sombrado a população do Rio de Janeiro, causando uma situação de insegurança em toda
a sociedade.

O primeiro ponto é a pena-base, que o Ministério Público quer que fique acima do mínimo legal,
com base em anotações nas folhas de antecedentes criminais do acusado. Por ser tese de direito
material, referente à quantidade de pena, começamos a análise pela expressão pena(s), presente
no remissivo. Dentre os tópicos, o que melhor se adequa é o que diz cálculo da: art. 68. O art. 68 do
CP apenas faz remissão ao art. 59 do CP, que não esclarece a dúvida. Todavia, o vade-mécum traz
algumas remissões importantes. Dentre elas, a Súmula 444-STJ, que fundamenta a resposta.

O segundo ponto é o reconhecimento das agravantes do art. 61, II, h e l, do Código Penal. Da leitura
dos dispositivos, descobrimos que o Ministério Público quer a incidência das agravantes da gravidez
da vítima e da embriaguez preordenada. O enunciado afirma que a vítima estava em seu primeiro
mês de gravidez – e é notório que, com tão pouco tempo, a gravidez não é facilmente perceptível.
Além disso, no primeiro parágrafo, o enunciado afirma que o apelante ingeriu bebida alcóolica, mas
não o fez para criar coragem para a prática do delito, quando se falaria em embriaguez preordenada.

O terceiro pedido do MP é pelo aumento da majorante com base no número de causas de aumen-
to. Para a resposta, o examinando deveria fazer a leitura do que diz o vade-mécum em relação às
majorantes mencionadas. No art. 157, § 2º, o vade-mécum faz remissão à Súmula 443-STJ, que traz
a resposta desejada.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 116
Por fim, o MP pediu a fixação de regime inicial fechado com base na gravidade em abstrato do crime
de roubo. A resposta está na Súmula 440-STJ, já localizada na leitura do art. 59 do CP. Os organiza-
dores deveriam ter também feito remissão às Súmulas 718 e 719 do STF, que tratam sobre o tema e
também foram abordadas pelo gabarito da prova.

Sem muita dificuldade, conseguimos contrariar tudo o que foi dito pelo Ministério Público. Todavia,
a análise se deu exclusivamente em teses de direito material, referentes à imposição de pena. Por
precaução, deve ser feita a busca por teses de direito processual. Segundo o enunciado, o Ministério
Público foi intimado da sentença no dia 14 de setembro, mas só fez a interposição da apelação no dia
30 do mesmo mês. Considerando que o prazo de interposição da apelação é de cinco dias (CPP, art.
593), e que o MP ofereceu o recurso dezesseis dias depois, é evidente que o recurso é intempestivo.

3. MONTANDO A PEÇA

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da Vara Criminal da Comarca do Rio de Janeiro/RJ,

Comentário: como a intimação para o oferecimento das contrarrazões partiu do juiz de primeira
instância, a ele deve ser endereçada a petição de juntada.

Rodrigo, já qualificado nos autos, vem por seu advogado requerer a juntada das Razões do
Apelado anexadas, com fundamento no art. 600 do Código de Processo Penal, e o posterior
encaminhamento ao Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.

Comentário: no CPC, o legislador adotou expressamente o termo contrarrazões. No CPP, no entan-


to, não há qualquer menção às contrarrazões, mas às razões do apelado. Por isso, a FGV aceitou as
duas expressões no gabarito. Contudo, como o CPP fala em razões do apelado, optamos por ela em
nosso modelo. Em relação à juntada, entenda: só falamos em interposição quando um recurso está
sendo oferecido. Para levar qualquer outro documento aos autos, temos de fazer uma petição de
juntada. É a forma como se faz anexar ao processo um determinado documento – por exemplo, se o
advogado quiser juntar aos autos um comprovante de endereço, deve fazer uma petição de juntada.

Comarca, 27 de outubro de 2015.

Advogado ..., OAB ....

Comentário: muitos erraram o prazo por adotar para o cálculo o prazo de cinco dias, que é o prazo
para a interposição do recurso de apelação. Contudo, o examinando não deveria interpor apelação,

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 117
mas juntar aos autos suas contrarrazões. O prazo é de oito dias, conforme art. 600 do CPP. A intima-
ção ocorreu no dia 19, segunda-feira. Para averiguar se não há pegadinha com prazo final no final de
semana, é necessário elaborar um calendário (salvo para quem consegue fazer de cabeça): (a) 20,
terça-feira, primeiro dia de prazo; (b) 21, quarta-feira; (c) 22, quinta-feira; (d) 23, sexta-feira; (e) 24,
sábado; (f) 25, domingo; (g) 26, segunda-feira; (h) 27, terça-feira (último dia de prazo). O enunciado
não faz qualquer ressalva em relação ao dia 27 (feriado, por exemplo), devendo ser considerado o
último dia de prazo.

Razões do Apelado

Egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro,

Colenda Câmara,

Douto Procurador de Justiça,

Comentário: de tudo o que foi dito acima, só importam a expressão razões do apelado, que poderia
ser também contrarrazões de apelação, e o endereçamento ao TJRJ.

O recurso de apelação interposto pelo Ministério Público não merece prosperar, pelas razões a
seguir expostas:

I. DOS FATOS

(...)

Comentário: a divisão em dos fatos, do direito e do pedido não é pontuada pela banca. Entretanto,
gostamos de utilizá-la. Como a correção da FGV é muito ruim, quanto melhor organizada a sua
peça, menor a chance de erros de correção – a banca errará de qualquer forma, mas o prejuízo será
menor se a sua peça estiver bem estruturada. Como já dito, a descrição dos fatos não é pontuada
pela FGV – na queixa-crime, há uma situação especial, tratada no modelo da peça. Portanto, limi-
te-se a um resumo do enunciado. Não perca muito tempo em sua elaboração. Não é o momento
de sustentar teses de defesa. Considerando a irrelevância do tópico dos fatos, em nossos modelos,
adotamos apenas as reticências, mas por economia de espaço. Em sua prova, é claro, faça o resumo
do enunciado.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 118
II. DO DIREITO

(a) Da preliminar de intempestividade.

O recurso de apelação interposto pelo Ministério Público não pode ser conhecido em virtude
de sua intempestividade. Segundo o art. 593 do Código de Processo Penal, o prazo para a
interposição de recurso de apelação é de cinco dias. No entanto, o Ministério Público,
apesar de intimado no dia 14 de setembro de 2015, apenas fez a interposição do seu recurso no dia
30 de setembro, quinze dias depois, sendo inegável a intempestividade do recurso.

Comentário: o gabarito trouxe a palavra preliminarmente de forma expressa, demonstrando que,


apesar de a lei não fazer tal exigência, de divisão do tópico do direito em subtópicos, a banca atribui
pontuação para quem assim faz.

(b) Do mérito dos pedidos.

O apelante pede a exasperação da pena-base acima do mínimo em razão da existência de inquérito


policial, em que o apelado foi indicado, e em três ações penais em trâmite em seu desfavor.
Todavia, conforme a Súmula 444-STJ, é vedada a utilização de inquéritos policiais e ações
penais em curso para agravar a pena-base, sob pena de violação ao princípio da ampla defesa.

Comentário: quando a FGV exige a Súmula 444-STJ, o gabarito tem trazido a menção ao princípio
da ampla defesa, que não consta expressamente na Súmula. No quesito n.º 5, o gabarito pontou a
transcrição do que diz a mencionada Súmula, razão pela qual frisamos a dica: procure repetir o que
diz o dispositivo adotado em sua fundamentação, pois a banca costuma pontuar o uso das exatas
palavras utilizadas pelo legislador ou pelos Tribunais Superiores, no caso das Súmulas.

Ademais, o apelante também sustenta a aplicação da agravante do art. 61, III, h, do Código
Penal, pelo fato de a vítima estar grávida na época dos fatos. Todavia, o argumento do recorrente
não merece ser acolhido, pois o apelado não conhecia a gravidez da vítima. Outra agravante
sustentada é a da embriaguez preordenada, do art. 61, III, l, do Código Penal, que também
deve ser rejeitada, afinal, o apelado não ingeriu bebida alcoólica com o objetivo de prática do delito.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 119
Comentário: para a FGV, não basta fazer menção à tese. O examinando deve explicar o porquê de
sua incidência. No quesito da agravante da gravidez da vítima, o gabarito exigiu que fosse falada
da vedação à responsabilidade penal objetiva, mas o examinador não foi tão maldoso, e também
aceitou quem disse apenas que o apelado não conhecia a gravidez da vítima. Quanto à embriaguez,
foram aceitos três argumentos, alternativamente: não bebeu para cometer o crime; não bebeu para
aumentar a sua coragem; a embriaguez foi voluntária ou culposa.

O recorrente também sustenta o aumento da pena do crime de roubo em fração mais alta com
fundamento no número de majorantes presentes no caso em discussão. Todavia, de acordo com
a Súmula 443-STJ, o aumento na terceira fase de aplicação da pena no crime de roubo
circunstanciado exige fundamentação concreta, não sendo suficiente para a sua exasperação a mera
indicação do número de majorantes, devendo ser rejeitado o argumento do apelante.

Comentário: o gabarito traz a redação da Súmula 443-STJ. Por isso, é sempre importante fazer trans-
crições, como já explicamos.

Por fim, o apelante pede a fixação do regime inicial de pena fechado, com fundamento na
gravidade em abstrato do delito de roubo. Entretanto, como prevê a Súmula 440-STJ,
fixada a pena-base no mínimo legal, é vedado o estabelecimento de regime prisional mais gravoso do
que o cabível em razão da sanção imposta, com base apenas na gravidade abstrata do delito, devendo
ser mantido o regime fixado em sentença, o semiaberto.

Comentário: o gabarito também aceitou como fundamentação as Súmulas 718 e 719 do STF.

III. DO PEDIDO

Diante do exposto, requer:

(a) O não conhecimento do recurso de apelação em razão da intempestividade;


(b) Subsidiariamente, caso conhecido, não seja dado provimento ao recurso, mantendo-se a
sentença recorrida, em sua integralidade.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 120
Comentário: o enunciado traz uma tese preliminar de direito processual, que enseja o não conheci-
mento do recurso, e algumas de direito material, em que o pedido a ser feito é o e não provimento.

Comarca, 27 de outubro de 2015.

Advogado ..., OAB....

Comentário: por precaução, é interessante mencionar o último dia de prazo tanto na juntada quan-
to nas razões.

VII EXAME DE ORDEM


1. Grávida de nove meses, Ana entra em trabalho de parto, vindo dar à luz um menino saudável,
o qual é imediatamente colocado em seu colo. Ao ter o recém-nascido em suas mãos, Ana é
tomada por extremo furor, bradando aos gritos que seu filho era um “monstro horrível que não
saiu de mim” e bate por seguidas vezes a cabeça da criança na parede do quarto do hospital,
vitimando-a fatalmente. Após ser dominada pelos funcionários do hospital, Ana é presa em fla-
grante delito.

2. Durante a fase de inquérito policial, foi realizado exame médico-legal, o qual atestou que Ana
agira sob influência de estado puerperal. Posteriormente, foi denunciada, com base nas provas
colhidas na fase inquisitorial, sobretudo o laudo do expert, perante a 1ª Vara Criminal/Tribunal
do Júri pela prática do crime de homicídio triplamente qualificado, haja vista ter sustentado o
Parquet que Ana fora movida por motivo fútil, empregara meio cruel para a consecução do ato
criminoso, além de se utilizar de recurso que tornou impossível a defesa da vítima. Em sede de
Alegações Finais Orais, o Promotor de Justiça reiterou os argumentos da denúncia, sustentando
que Ana teria agido impelida por motivo fútil ao decidir matar seu filho em razão de tê-lo achado
feio e teria empregado meio cruel ao bater a cabeça do bebê repetidas vezes contra a parede,
além de impossibilitar a defesa da vítima, incapaz, em razão da idade, de defender-se.

3. A Defensoria Pública, por sua vez, alegou que a ré não teria praticado o fato e, alternativamen-
te, se o tivesse feito, não possuiria plena capacidade de autodeterminação, sendo inimputável.
Ao proferir a sentença, o magistrado competente entendeu por bem absolver sumariamente a
ré em razão de inimputabilidade, pois, ao tempo da ação, não seria ela inteiramente capaz de
se autodeterminar em consequência da influência do estado puerperal. Tendo sido intimado o
Ministério Público da decisão, em 11 de janeiro de 2011, o prazo recursal transcorreu in albis
sem manifestação do Parquet.

4. Em relação ao caso acima, você, na condição de advogado(a), é procurado pelo pai da vítima, em
20 de janeiro de 2011, para habilitar-se como assistente da acusação e impugnar a decisão.

5. Com base somente nas informações de que dispõe e nas que podem ser inferidas pelo caso
concreto acima, redija a peça cabível, sustentando, para tanto, as teses jurídicas pertinentes,
datando do último dia do prazo. (Valor: 5,00)

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1ª EDIÇÃO
III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 121
1. IDENTIFICANDO A PEÇA
O processo está na primeira fase do rito do júri, em primeira instância, quando apenas quatro prin-
cipais peças são cabíveis: resposta à acusação, logo após a citação; memoriais, em após a audiência
mas antes da decisão do juiz; apelação, em caso de decisão judicial de absolvição sumária ou im-
pronúncia; e recurso em sentido estrito, se houver decisão judicial de pronúncia ou desclassificação.
No terceiro parágrafo, o enunciado não deixa dúvida: o réu foi absolvido sumariamente, hipótese de
apelação (CPP, art. 416). Todavia, o Ministério Público, que deveria ter apelado, nada fez. Por esse
motivo, no quarto parágrafo, o enunciado informa que você, advogado, foi procurado para atuar
como assistente de acusação, para recorrer contra a sentença de absolvição sumária. A peça a ser
feita é a apelação, já que o MP nada fez.

2. IDENTIFICANDO AS TESES
A tese a ser defendida – na hipótese, de acusação – é a demonstração de que o juiz errou. Para isso,
o enunciado dá a resposta: a ré foi absolvida por ser inimputável em razão do estado puerperal.
O primeiro passo é a leitura do artigo que fundamenta a denúncia. A inicial acusa a ré de homicídio
qualificado por motivo fútil, pelo emprego de meio cruel e por ter utilizado recurso que impossibi-
litou a defesa da vítima. Como o enunciado não diz o artigo (embora, provavelmente, todos saibam
onde está o homicídio no CP), começamos a busca pelo remissivo do CP, onde encontramos o homi-
cídio doloso, com remissão ao art. 121 do CP. Da leitura do art. 121, contudo, nada se extrai.

O próximo passo é aprender a respeito da inimputabilidade, que foi o motivo da absolvição sumária
da ré. Do remissivo do CP não é possível extrair a resposta, em inimputabilidade. Por isso, fizemos a
busca pela expressão no remissivo do CPP, e, surpreendentemente, não encontramos a inimputabi-
lidade no remissivo, uma grave falha do vade-mécum da RT – das duas vezes em que a inimputabi-
lidade é mencionada no CPP, uma delas é a resposta. De qualquer forma, imaginando o cenário de
prova, continuamos com a busca – e, por sorte, ainda temos muitas palavras-chave para a pesquisa
pelo vade-mécum (absolvição, júri, apelação etc.). Curiosamente, o vade-mécum da RT também não
tem a palavra júri no remissivo, o que nos faz crer, em comparação ao restante do vade-mécum, que
o responsável pela organização do remissivo do CPP não foi muito caprichoso. Em seguida, procura-
mos por absolvição no remissivo, onde encontramos uma remissão relevante: júri; sumária; hipóte-
ses: art. 415, I a IV. Da leitura do dispositivo, no parágrafo único, a resposta: na primeira fase do júri,
não é possível a absolvição sumária com fundamento em inimputabilidade, salvo quando for a única
tese defensiva. Considerando que a Defensoria Pública também sustentou a negativa de autoria
(terceiro parágrafo), o art. 415, parágrafo único, é a tese a ser sustentada para evitar a absolvição.

O juiz também embasou a absolvição no fato de o estado puerperal caracterizar a inimputabilidade.


Procuramos por puerpério, por estado puerperal, por inimputabilidade e por imputabilidade, mas
nem sinal da resposta. Por fim, procuramos por gravidez, onde encontramos remissão às expressões
aborto e crimes contra a vida e, neste tópico, a remissão ao infanticídio, onde o estado puerperal
tem relevância jurídica. Segundo o art. 123 do CP, a mãe que mata o próprio filho sob a influência do
estado puerperal pratica o delito de infanticídio, não sendo hipótese de absolvição sumária, como
ocorreu, mas de desclassificação de um delito para outro.

Não há motivo para mais pesquisas, afinal, foi combatido tudo o que constava da decisão de absol-
vição sumária, não havendo mais o que sustentar em desfavor da ré.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 122
3. MONTANDO A PEÇA

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da 1ª Vara Criminal/Tribunal do Júri


da Comarca ...,

Comentário: o enunciado não diz qual é a comarca, devendo ser adotado o que o edital determina:
reticências ou XXX. Quanto à vara, embora esquisita a nomenclatura, o enunciado fala em 1ª Vara
Criminal/Tribunal do Júri, devendo ser adotada no endereço – inclusive, o gabarito a mencionou
expressamente.

Nome ..., pai da vítima, profissão ..., estado civil ..., residente no endereço ..., vem, por seu advogado,
requerer a habilitação como assistente de acusação e, neste mesmo ato, interpor Recurso de Apelação,
com fundamento no art. 416 c/c o art. 598, ambos do Código de Processo Penal.

Requer, ainda, sejam juntadas e processadas as razões anexadas, e encaminhadas ao Egrégio


Tribunal de Justiça do Estado ....

Comentário: o enunciado não diz o nome do pai da vítima. Quem disse Fulano ou coisa do tipo,
provavelmente, teve a peça anulada por identificação. Outra peculiaridade do VII Exame de Ordem
é a necessidade de habilitação como assistente de execução. No padrão de prova, a banca aceitou
que fosse feita uma peça avulsa de habilitação, mas a FGV não poderia exigi-la, afinal, seriam duas
peças, uma de interposição e uma de habilitação, o que não pode acontecer. O item 3.5.1.1 deter-
mina que a prova é composta de uma peça prática, e não duas ou mais. Acerca da fundamentação,
a FGV aceitou os arts. 416 e 593, I, do CPP, desde que cumulados com o art. 598. Sobre o assistente,
poderia ser feita menção ao art. 268 do CPP, mas o gabarito não o exigiu (o dispositivo poderia ser
encontrado no remissivo do CPP em assistente do Ministério Público).

Comarca ..., data....

Advogado ..., OAB ....

Comentário: por ter sido uma das primeiras provas da FGV, foi feita uma salada em relação ao últi-
mo dia de prazo. O Ministério Público foi intimado no dia 11 de janeiro de 2011, e o seu último dia
de prazo para a interposição de apelação foi o dia 16 de janeiro. O prazo de três dias do assistente
(CPP, art. 600, § 1º) começou a correr após o prazo do Ministério Público. Ocorre que, até então,

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 123
a FGV não havia definido se consideraria ou não os dias da semana do calendário real, o que, evi-
dentemente, influenciaria no prazo. Inicialmente, a banca disse que aceitaria cinco datas diferentes,
mas, no final das contas, optou por excluir a data do gabarito definitivo.

Razões de Apelação

Egrégio Tribunal de Justiça do Estado ...,

Colenda Câmara,

Douto Procurador de Justiça,

Em que pese o inegável saber jurídico do Juiz de Direito da 1ª Vara Criminal/Tribunal do


Júri da Comarca ..., a sentença que absolveu sumariamente a ré não merece prosperar, devendo
ser reformada, pelas razões a seguir expostas:

Comentário: é importante dizer expressamente que deseja a reforma da sentença recorrida. Usamos
reticências em razão de o enunciado não informar qual o TJ onde o processo está correndo.

I. DOS FATOS

(...)

Comentário: a divisão em dos fatos, do direito e do pedido não é pontuada pela banca. Entretanto,
gostamos de utilizá-la. Como a correção da FGV é muito ruim, quanto melhor organizada a sua
peça, menor a chance de erros de correção – a banca errará de qualquer forma, mas o prejuízo será
menor se a sua peça estiver bem estruturada. Como já dito, a descrição dos fatos não é pontuada
pela FGV – na queixa-crime, há uma situação especial, tratada no modelo da peça. Portanto, limi-
te-se a um resumo do enunciado. Não perca muito tempo em sua elaboração. Não é o momento
de sustentar teses de defesa. Considerando a irrelevância do tópico dos fatos, em nossos modelos,
adotamos apenas as reticências, mas por economia de espaço. Em sua prova, é claro, faça o resumo
do enunciado.

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1ª EDIÇÃO
III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 124
II. DO DIREITO

Conforme esclarecido acima, o Juiz de Direito da 1ª Vara Criminal absolveu sumariamente


a ré em razão de sua inimputabilidade. No entanto, segundo o art. 415, parágrafo único,
do Código de Processo Penal, só é possível a absolvição sumária na primeira fase do rito do júri
por inimputabilidade quando for a única tese de defesa e, como exposto, a ré também sustentou a tese
de negativa de autoria.

Ademais, o estado puerperal não é hipótese de inimputabilidade, mas elemento do delito de


infanticídio, do art. 123 do Código Penal, sendo imperiosa a pronúncia da ré por homicídio
qualificado, como consta na denúncia, ou por infanticídio.

Comentário: não cabe ao examinando analisar se o estado puerperal é ou não capaz de gerar a
inimputabilidade – até porque, não há informações suficientes no enunciado para qualquer mani-
festação nesse sentido. De fato, ter agido sob o estado puerperal é elemento constitutivo do tipo
penal previsto no art. 123 do CP, mas não havia motivo para sustentar a tese desclassificatória, que
nem é de interesse da acusação. Além disso, ficou constatado o estado puerperal, mas em momento
algum foi dito que Ana praticou o delito por ele influenciada. Em verdade, nas primeiras provas (é o
caso do VII Exame de Ordem), a FGV ainda estava aprendendo a elaborar o Exame de Ordem. Até al-
cançar o padrão atual, que não comporta muitos questionamentos, muitos erros foram cometidos.
De qualquer forma, como o gabarito exigiu que fosse sustentada a tese desclassificatória, decidimos
inclui-la ao modelo da peça.

III. DO PEDIDO

Diante do exposto, requer seja conhecido e provido o recurso, para que seja reformada a sentença de
absolvição sumária e pronunciada a ré nos termos da denúncia.

Comentário: o gabarito do VII Exame de Ordem fugiu do padrão atual da prova. Primeiro, não foram
pontuados os pedidos de conhecimento e provimento do recurso. Além disso, a banca pontuou a
menção ao que o examinando busca – no caso, a pronúncia da ré. Em apelação, na última vez em
que a peça caiu, a banca exigiu apenas os pedidos de conhecimento e provimento.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 125
Comarca ..., data ....

Advogado ..., OAB....

XI EXAME DE ORDEM
1. Jerusa, atrasada para importante compromisso profissional, dirige seu carro bastante preocupa-
da, mas respeitando os limites de velocidade. Em uma via de mão dupla, Jerusa decide ultrapas-
sar o carro à sua frente, o qual estava abaixo da velocidade permitida.

2. Para realizar a referida manobra, entretanto, Jerusa não liga a respectiva seta luminosa sinaliza-
dora do veículo e, no momento da ultrapassagem, vem a atingir Diogo, motociclista que, em alta
velocidade, conduzia sua moto no sentido oposto da via. Não obstante a presteza no socorro
que veio após o chamado da própria Jerusa e das demais testemunhas, Diogo falece em razão
dos ferimentos sofridos pela colisão. Instaurado o respectivo inquérito policial, após o curso
das investigações, o Ministério Público decide oferecer denúncia contra Jerusa, imputando-lhe
a prática do delito de homicídio doloso simples, na modalidade dolo eventual (Art. 121 c/c Art.
18, I parte final, ambos do CP).

3. Argumentou o ilustre membro do Parquet a imprevisão de Jerusa acerca do resultado que pode-
ria causar ao não ligar a seta do veículo para realizar a ultrapassagem, além de não atentar para
o trânsito em sentido contrário. A denúncia foi recebida pelo juiz competente e todos os atos
processuais exigidos em lei foram regularmente praticados.

4. Finda a instrução probatória, o juiz competente, em decisão devidamente fundamentada, deci-


diu pronunciar Jerusa pelo crime apontado na inicial acusatória. O advogado de Jerusa é intima-
do da referida decisão em 02 de agosto de 2013 (sexta feira).

5. Atento ao caso apresentado e tendo como base apenas os elementos fornecidos, elabore o re-
curso cabível e date-o com o último dia do prazo para a interposição. (Valor: 5,0)

6. A simples menção ou transcrição do dispositivo legal não pontua.

1. IDENTIFICANDO A PEÇA
Como ocorreu a audiência e já existe decisão judicial, talvez venha a apelação em mente. No entan-
to, a apelação é peça residual, cabível quando não for hipótese de recurso em sentido estrito. Por
essa razão, sempre que o problema disser que há uma decisão do juiz de primeiro grau, leia o rol
do art. 581 do CPP. Uma das situações previstas no dispositivo é a sentença de pronúncia, decisão
proferida pelo juiz no enunciado. É a peça a ser feita.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 126
2. IDENTIFICANDO AS TESES DE DEFESA
A pronúncia faz com que o réu seja submetido ao julgamento perante o Tribunal do Júri. Em recurso
em sentido contra a pronúncia, o objetivo é evitar esse julgamento. Os arts. 414 e 415 do CPP, que
tratam da absolvição sumária no rito do júri e da impronúncia, dão um norte em relação ao que deve
ser buscado: (a) prova da inexistência do fato; (b) prova de não ser o réu autor ou partícipe do delito;
(c) o fato não constitui crime; (d) demonstração de causa de exclusão do crime ou isenção de pena;
(e) inimputabilidade, quando for a única tese defensiva; (f) falta de provas suficientes de materiali-
dade ou de autoria. Além disso, como o Tribunal do Júri julga apenas crimes dolosos contra a vida,
a desclassificação é uma tese sempre presente – por exemplo, homicídio doloso em lesão corporal
ou em homicídio culposo.

De qualquer forma, para sistematizar a pesquisa, adotamos a metodologia sugerida ao longo do


manual: falta de justa causa, extinção da punibilidade, nulidade processual e excesso na punição.

Em falta de justa causa, o objetivo é desconstituir o delito imputado ao réu. Jerusa foi denunciada
por homicídio doloso, com fundamento no art. 121, caput, do Código Penal.

No primeiro parágrafo, o enunciado diz que a ré dirigia dentro do limite de velocidade da via. Ao fazer
uma ultrapassagem, Jerusa esqueceu de dar seta e, em razão disso, atinge Diogo, motociclista, cau-
sando a sua morte. Portanto, sem muita reflexão, é possível perceber que não houve dolo em sua
conduta. No parágrafo seguinte, ela confirma não ter ligado a seta e complementa, informando que
não havia observado o fluxo contrário do trânsito, apenas confirmando a teoria do homicídio culpo-
so. Todavia, como fundamentar a resposta? O primeiro passo é a leitura do dispositivo da denúncia –
o art. 121 do CP. No § 3º do art. 121, a possível resposta: homicídio culposo. No entanto, após o § 3º,
o vade-mécum faz algumas remissões – dentre elas, ao art. 302 do Código de Trânsito Brasileiro.
Da leitura do dispositivo, não há dúvida de que foi o delito praticado por Jerusa.

Em seguida, procuramos por teses extintivas da punibilidade e de nulidade, mas nada foi encon-
trado. Por fim, quanto ao excesso na punição, o recurso em sentido estrito contra a pronúncia não
comporta pedidos relacionados à pena (pena-base, regime prisional, sursis etc.). A única tese de
excesso na punição presente já foi identificada, que é a desclassificação do homicídio doloso para
o homicídio culposo. Sobre a desclassificação, cuidado: sempre que a sustentar, faça a análise das
quatro teses também em relação ao delito novo. Veja se não ocorreu a prescrição ou se faltou algum
requisito legal (por exemplo, representação, na ação pública condicionada, ou o exame pericial,
se for delito que deixa vestígio).

3. MONTANDO A PEÇA

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da Vara do Júri da Comarca ...,

Comentário: no enunciado, a banca não informou em qual vara o processo está tramitando.
Portanto, até mencionar Vara Criminal, de forma genérica, não seria errado, pois, em comarcas
menores, é comum que exista uma única vara, onde são julgados todos os processos criminais da
comarca – inclusive, aqueles da primeira fase do rito do júri. Entretanto, o examinando deve estar

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 127
sempre atento aos questionamentos que, sem dúvida alguma, estarão no gabarito. Como se trata
de processo em trâmite no rito do júri, é claro que a banca pontuaria a menção ao júri no endere-
çamento. Por isso, poderia ser dito Vara do Júri, Vara do Tribunal do Júri ou, até mesmo, como o
gabarito sugeriu: Vara Criminal do Tribunal do Júri. Além disso, uma observação importante: quando
há tese de incompetência, é comum o examinando endereçar a peça ao juiz correto, competente,
para corrigir a incompetência apontada no problema. Entretanto, se houver tese de incompetência,
a peça deve ser endereçada ao juízo onde a ação está tramitando (o juiz incompetente) e, no corpo
da peça, deverá ser sustentada a tese de incompetência.

Jerusa, já qualificada nos autos, vem, por seu advogado, interpor Recurso em Sentido Estrito,
com fundamento no art. 581, IV, do Código de Processo Penal.

Requer sejam juntadas as razões anexadas e que Vossa Excelência se retrate de sua decisão,
com fundamento no art. 589 do Código de Processo Penal. Caso contrário, pede o
encaminhamento do recurso Tribunal de Justiça do Estado ....

Comentário: o recurso em sentido estrito comporta retratação do juiz que proferiu a decisão recor-
rida – é o denominado juízo de retratação. Por ser uma peculiaridade do recurso em sentido estrito
e de uns outros poucos recursos, a FGV pontua o pedido de retratação.

Comarca ..., 9 de agosto de 2013.

Advogado ..., OAB ....

Comentário: o problema informa que a intimação ocorreu no dia 2, uma sexta-feira. Portanto, o pra-
zo de cinco dias para interposição começou a correr na segunda, 5, tendo como prazo final o dia 9,
sexta-feira. Se o problema dissesse, por exemplo, que dia 5 é feriado, o prazo começaria a correr no
dia 6, com final no dia 10, sábado, hipótese em que encerraria no primeiro dia útil seguinte – 12,
segunda-feira.

Razões de Recurso em Sentido Estrito

Egrégio Tribunal de Justiça do Estado ...,

Colenda Câmara,

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1ª EDIÇÃO
III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 128
Douto Procurador de Justiça,

Em que pese o inegável saber jurídico do Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da Vara do
Júri da Comarca ..., a sentença de pronúncia não merece prosperar pelas razões a seguir:

Comentário: de tudo o que foi falado acima, só o que importa é o endereçamento da peça ao TJ e a
menção às razões de recurso em sentido estrito. Também é sempre importante a menção expressa
ao desejo de reforma da decisão recorrida.

I. DOS FATOS

(...)

Comentário: a divisão em dos fatos, do direito e do pedido não é pontuada pela banca. Entretanto,
gostamos de utilizá-la. Como a correção da FGV é muito ruim, quanto melhor organizada a sua
peça, menor a chance de erros de correção – a banca errará de qualquer forma, mas o prejuízo será
menor se a sua peça estiver bem estruturada. Como já dito, a descrição dos fatos não é pontuada
pela FGV – na queixa-crime, há uma situação especial, tratada no modelo da peça. Portanto, limi-
te-se a um resumo do enunciado. Não perca muito tempo em sua elaboração. Não é o momento
de sustentar teses de defesa. Considerando a irrelevância do tópico dos fatos, em nossos modelos,
adotamos apenas as reticências, mas por economia de espaço. Em sua prova, é claro, faça o resumo
do enunciado.

II. DO DIREITO

Como relatado, Excelências, não houve dolo na conduta da recorrente, que provocou a morte da
vítima. Por ter sido imprudente ao dirigir o seu automóvel, não deu seta e não observou o fluxo
contrário do trânsito, causando a trágica colisão.

Só se fala em crime doloso, com fundamento no art. 18, I, do Código Penal, quando o agente
quer o resultado ou assume o risco de produzi-lo. Já no crime culposo, previsto no art. 18, II,
do Código Penal, o agente dá causa ao resultado por imprudência, negligência ou imperícia.

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1ª EDIÇÃO
III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 129
Destarte, não houve homicídio doloso, do art. 121, caput, do Código Penal, mas o crime do
art. 302 do Código de Trânsito Brasileiro, que consiste em praticar homicídio culposo na direção
de veículo automotor, devendo ocorrer a desclassificação e a remessa ao juízo competente,
visto que o homicídio culposo não é de competência do Tribunal do Júri, com fundamento no
art. 5º, XXXVIII, d, da Constituição Federal.

Comentário: em um caso real, não seria necessário explicar ao magistrado em que consiste um cri-
me doloso ou culposo, ou a competência do Tribunal do Júri para o julgamento dos crimes dolosos
contra a vida. Entretanto, como o Exame de Ordem é uma prova em que se testa o conhecimento
jurídico do examinando – ou a sua habilidade em localizar respostas no vade-mécum -, tudo o que
for dito deve ser explicado e fundamentado. A tese é a ausência de dolo? Explique em que consiste
o dolo. Além disso, sempre diga qual é a consequência da tese sustentada.

III. DO PEDIDO

Diante do exposto, requer seja conhecido e provido o recurso, para que seja desclassificado o delito
imputado à recorrente, de homicídio doloso, do art. 121, caput, do Código Penal, para o crime de
homicídio culposo, do art. 302 do Código de Trânsito Brasileiro, com a devida remessa dos autos
ao juízo competente.

Comentário: em peças sem muitas teses, a banca tem de atribuir pontuação aos demais aspectos,
a exemplo do pedido. Pensando nisso, fizemos o pedido completo, e não apenas o conhecimento
e provimento.

Comarca ..., 9 de agosto de 2013.

Advogado ..., OAB ....

Comentário: é interessante mencionar o último dia de prazo na interposição e nas razões.

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1ª EDIÇÃO
III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 130
XXIV EXAME DE ORDEM
1. Lucas, 22 anos, foi denunciado e condenado, definitivamente, pela prática de crime de associa-
ção para o tráfico, previsto no Art. 35 da Lei nº 11.343/06, sendo, em razão das circunstâncias
do crime, aplicada a pena de 06 anos de reclusão em regime inicial semiaberto, entendendo o
juiz de conhecimento que o crime não seria hediondo, não tendo sido reconhecida a presença
de qualquer agravante ou atenuante.

2. No mês seguinte, após o início do cumprimento da pena, Lucas vem a sofrer nova condenação
definitiva, dessa vez pela prática de crime de ameaça anterior ao de associação, sendo-lhe aplica-
da exclusivamente a pena de multa, razão pela qual não foi determinada a regressão de regime.

3. Após cumprir 01 ano da pena aplicada pelo crime de associação, o defensor público que defen-
de os interesses de Lucas apresenta requerimento de progressão de regime, destacando que o
apenado não sofreu qualquer sanção disciplinar.

4. O magistrado em atuação perante a Vara de Execução Penal da Comarca de Belo Horizonte/MG,


órgão competente, indefere o pedido de progressão, sob os seguintes fundamentos:

a) o crime de associação para o tráfico, no entender do magistrado, é crime hediondo, tanto


que o livramento condicional somente poderá ser deferido após o cumprimento de 2/3 da
pena aplicada;

b) o apenado é reincidente, diante da nova condenação pela prática de crime de ameaça;

c) o requisito objetivo para a progressão de regime seria o cumprimento de 3/5 da pena apli-
cada e, caso ele não fosse reincidente, seria de 2/5, períodos esses ainda não ultrapassados;

d) em relação ao requisito subjetivo, é indispensável a realização de exame criminológico,


diante da gravidade dos crimes de associação para o tráfico em geral.

5. Ao tomar conhecimento, de maneira informal, da decisão do magistrado, a família de Lucas pro-


cura você, na condição de advogado(a), para a adoção das medidas cabíveis.

6. Após constituição nos autos, a defesa técnica é intimada da decisão de indeferimento do pedido
de progressão de regime em 24 de novembro de 2017, sexta-feira, sendo certo que, de segunda
a sexta-feira da semana seguinte, todos os dias são úteis em todo o território nacional.

7. Considerando apenas as informações narradas, na condição de advogado(a) de Lucas, redija a


peça jurídica cabível, diferente de habeas corpus e embargos de declaração, apresentando to-
das as teses jurídicas pertinentes.

8. A peça deverá ser datada no último dia do prazo para interposição. (Valor: 5,00)

9. Obs.: a peça processual deve abranger todos os fundamentos de Direito que possam ser utili-
zados para dar respaldo à pretensão. A simples menção ou transcrição do dispositivo legal não
confere pontuação.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 131
1. IDENTIFICANDO A PEÇA
Sempre que o enunciado disser que a decisão foi proferida pelo juízo da execução penal, o recurso
será o agravo em execução. Desconsidere qualquer outro recurso.

2. IDENTIFICANDO AS TESES DE DEFESA


Em agravo em execução, já não há mais como falar em falta de justa causa. Portanto, temos que
fazer a análise somente das causas de extinção da punibilidade, das nulidades processuais e de
eventuais excessos na execução.

Feita a leitura do enunciado, não se extrai causa de extinção da punibilidade ou alguma nulidade ocor-
rida. Destarte, tudo se resume a encontrar benefícios ao condenado, para melhorar a sua situação.

No primeiro parágrafo, temos o delito praticado pelo recorrente (associação para o tráfico, do art.
35 da Lei n.º 11.343/06), a pena a ele aplicada (seis anos) e o regime inicial de cumprimento da pena
(semiaberto). Ademais, foi dito que o crime por ele praticado não é hediondo. Todas essas informa-
ções influenciam no cumprimento de pena e na concessão de benefícios na execução.

No segundo parágrafo, foi dito que Lucas sofreu nova condenação pelo crime de ameaça. A ideia é
fazer com que o examinando conclua equivocadamente pela reincidência. Todavia, perceba que o
crime de ameaça foi praticado antes da associação para o tráfico. Logo, não houve reincidência.

No terceiro parágrafo, o pedido da Defensoria Pública, em favor de Lucas: a progressão do regime.


O juiz indeferiu a progressão com base nos seguintes argumentos: (a) o crime de associação para o
tráfico é hediondo, devendo o livramento condicional ser concedido após o cumprimento de dois
terços da pena; (b) o apenado é reincidente; (c) o requisito objetivo para a concessão da progressão
seria o de três quintos de cumprimento de pena, por ser reincidente e em virtude de o delito de
associação ser hediondo; (d) quanto ao requisito subjetivo, entendeu o juiz pela imprescindibilidade
do exame criminológico. Os demais parágrafos não têm informação relevante.

Apenas pela leitura do enunciado, o examinando percebe o que deve ser pedido, afinal, a decisão
do juiz já traz os argumentos que devem ser combatidos. Se houvesse índice alfabético-remissivo
das Súmulas do STJ e do STF e da legislação penal especial (incluída a LEP), as respostas a todos os
questionamentos poderiam ser localizadas em poucos minutos. Contudo, em razão dessa inexplicá-
vel omissão dos vade-mécuns disponíveis no mercado, a pesquisa será um pouco mais trabalhosa.

O primeiro passo é a leitura do dispositivo mencionado no enunciado: o art. 35 da Lei n.º 11.343/06.
O artigo não diz muito, mas o vade-mécum faz várias remissões. Duas são relevantes: o art. 112 da
LEP e a Lei dos Crimes Hediondos. No art. 112 da Lei n.º 7.210/84, uma dica importante: a progres-
são do regime pode ocorrer após o cumprimento de um sexto da pena. Ainda no art. 112, várias
remissões foram feitas, mas duas se destacam: a Súmula 439-STJ e o art. 2º, § 2º, da Lei n.º 8.072/90.
A Súmula 439-STJ é esclarecedora: admite-se o exame criminológico pelas peculiaridades do caso,
desde que em decisão motivada. Um dos argumentos do juiz já foi derrubado: o exame criminológico
não é obrigatório. A seguir, a leitura do art. 2º, § 2º, da Lei n.º 8.072/90, a Lei dos Crimes Hediondos,
que estabelece que, se hediondo o delito, a progressão deve ocorrer após cumprimento de dois
terços da pena, se primário o condenado, ou três quintos, se reincidente. E como saber se o crime
do art. 35 da Lei de Drogas é hediondo ou equiparado? Basta a leitura do art. 1º da Lei n.º 8.072/90,

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 132
que traz um rol de quais crimes são hediondos – e a associação para o tráfico não está entre eles.
Além disso, não é equiparado a hediondo, pois não é mencionado no art. 5º, XLIII, da CF. Conclusão:
o crime de associação para o tráfico não é hediondo, pois não está no rol da Lei n.º 8.072/90, e, por
isso, a progressão deve ser feita com fundamento no art. 112 da LEP, que exige apenas um sexto de
cumprimento de pena, não sendo obrigatório o exame criminológico para a sua concessão.

O próximo passo é o livramento condicional, também citado na decisão recorrida. Embora a defesa
não tenha requerido o benefício – e, talvez por isso, não foi pontuado no gabarito -, é importante
fazer a análise, visto que o enunciado o menciona expressamente. Por ser tese de direito material,
começamos a busca pelo remissivo do CP. Nele, encontramos a expressão livramento condicional,
com remissão ao art. 83 do CP. O art. 83 traz três prazos diversos: um terço de cumprimento da pena,
se o condenado não for reincidente em crime doloso; metade, se reincidente em crime doloso; dois
terços, se condenado por crime hediondo ou equiparado. Portanto, para a análise do livramento
condicional, esbarramos em uma dúvida, que foi objeto da sentença: Lucas é reincidente? Por ser
tese de direito material (diz respeito à imposição de pena), começamos a busca pelo Código Penal,
mas nos deparamos com um erro grave no vade-mécum da RT: não existe a palavra reincidência no
remissivo do CP. Por isso, tivemos de fazer q pesquisa na genérica expressão pena(s) e, dentre os
tópicos, a possível resposta: reincidência: arts. 63 e 64; Súm. 269, STJ. No art. 63, a resposta: só é
reincidente quem pratica novo crime depois de transitar em julgado a condenação por outro. Não
foi o caso de Lucas, pois a ameaça foi praticada antes do trânsito em julgado da sentença pela asso-
ciação para o tráfico. Lucas não é reincidente, podendo fazer jus ao livramento condicional após o
cumprimento de um terço de sua pena. Considerada a condenação de seis anos e o cumprimento
de um ano, como informa o enunciado, Lucas não faz jus ao benefício por não ter cumprido o tempo
mínimo de pena. Obs.: desde o início, já era possível chegar à conclusão de que não cabe o benefí-
cio, visto que Lucas não cumpriu o prazo mínimo possível. No entanto, por ter o enunciado falado
expressamente da reincidência e do livramento condicional, a pesquisa foi necessária.

3. MONTANDO A PEÇA

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da Vara das Execuções Penais da Comarca de


Belo Horizonte/MG,

Comentário: por ter o enunciado mencionado a vara e a comarca, o gabaritou exigiu que fossem
citadas expressamente.

Lucas, já qualificado nos autos, vem, por seu advogado, interpor Agravo em Execução,
com fundamento no art. 197 da Lei n.º 7.210/84, a Lei de Execução Penal.

Comentário: o gabarito não falou em Lei de Execução Penal, mas só em Lei n.º 7.210/84. Em outra
edição da prova (XVI Exame de Ordem), a banca também trouxe apenas o número da lei no gabarito,

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 133
sem qualquer menção à expressão Lei de Execução Penal. Por isso, quando voltar a cair, fundamente
a peça na Lei n.º 7.210/84.

Requer sejam juntadas as razões anexadas e que Vossa Excelência se retrate de sua decisão. Caso
contrário, pede o encaminhamento do recurso Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais.

Comentário: o art. 197 da LEP não estabelece o procedimento a ser adotado para o recurso. Por
isso, doutrina e jurisprudência entendem pela adoção do procedimento do recurso em sentido es-
trito, que prevê juízo de retratação (CPP, art. 589). Nas remissões do art. 197, os organizadores do
vade-mécum fizeram remissão aos dispositivos do recurso em sentido estrito.

Comarca ..., 1º de dezembro de 2017.

Advogado ..., OAB ....

Comentário: o prazo para a interposição do agravo em execução é de cinco dias, conforme Súmula
700-STF (no vade-mécum, no art. 197 da LEP, a Súmula é mencionada). A intimação ocorreu no dia
24 de novembro, sexta-feira, e o prazo começou a correr no dia 27, segunda-feira, tendo por fim o
dia 1º de dezembro.

Razões de Agravo em Execução

Egrégio Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais,

Colenda Câmara,

Douto Procurador de Justiça,

Apesar do inquestionável saber jurídico do Juiz de Direito da Vara das Execuções Penais
da Comarca de Belo Horizonte, Minas Gerais, a decisão que não concedeu a progressão não
merece prosperar pelas razões a seguir expostas:

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 134
Comentário: a banca apenas pontuou o endereçamento, ao TJMG. De qualquer forma, em recurso,
é sempre interessante sustentar a reforma da decisão recorrida.

I. DOS FATOS

(...)

Comentário: a divisão em dos fatos, do direito e do pedido não é pontuada pela banca. Entretanto,
gostamos de utilizá-la. Como a correção da FGV é muito ruim, quanto melhor organizada a sua
peça, menor a chance de erros de correção – a banca errará de qualquer forma, mas o prejuízo será
menor se a sua peça estiver bem estruturada. Como já dito, a descrição dos fatos não é pontuada
pela FGV – na queixa-crime, há uma situação especial, tratada no modelo da peça. Portanto, limi-
te-se a um resumo do enunciado. Não perca muito tempo em sua elaboração. Não é o momento
de sustentar teses de defesa. Considerando a irrelevância do tópico dos fatos, em nossos modelos,
adotamos apenas as reticências, mas por economia de espaço. Em sua prova, é claro, faça o resumo
do enunciado.

II. DO DIREITO

Portanto, Excelências, há equívoco na decisão que rejeitou a progressão do regime ao recorrente.


Isso porque o crime de associação criminosa, do art. 35 da Lei n.º 11.343/06, não é hediondo,
visto que não consta do rol do art. 1º da Lei n.º 8.072/90, tampouco dos delitos equiparados a
hediondo, do art. 5º, XLIII, da Constituição Federal. Destarte, deve ser afastada a
hediondez apontada na decisão.

Destarte, a progressão de regime deve se dar após o cumprimento de um sexto da pena, como prevê
o art. 112 da Lei n.º 7.210/84. Além disso, o recorrente ostenta bom comportamento carcerário,
comprovado pelo diretor do estabelecimento.

O magistrado determinou que a progressão não poderia ser concedida por falta de exame
criminológico, considerado imprescindível pelo julgador. Todavia, segundo a Súmula
439-STJ, é admitido o exame criminológico pelas peculiaridades do caso, desde que em decisão
motivada. Logo, não há obrigatoriedade.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 135
O julgador ainda embasou a sua decisão no fato de o recorrente ser reincidente. Contudo, de acordo
com o art. 63 do Código Penal, só se verifica a reincidência quando o agente comete novo crime,
depois de transitar em julgado a sentença que, no País ou no estrangeiro, o tenha condenado por crime
anterior. No caso em debate, a prática do crime de ameaça foi anterior ao trânsito em julgado da
sentença condenatória pelo crime de associação para o tráfico, devendo ser afastada a reincidência.

Dessa forma, como se vê, é inegável o direito do recorrente à progressão do regime, do regime
semiaberto ao aberto.

Comentário: apesar de o livramento condicional não ter sido objeto de pedido pela defesa, como o
enunciado o cita expressamente, em um ambiente real de prova, teríamos sustentado a tese, só por
precaução. Não haveria prejuízo à nota. A banca não desconta pontuação do que é dito além do ga-
barito. Sobre os demais argumentos, em todos os quesitos, o gabarito pontua a transcrição do que
é dito nos dispositivos legais e na Súmula 439-STJ. Outro ponto que chamou a atenção foi a criação
dos quesitos de afastamento da reincidência, de não obrigatoriedade do exame criminológico e do
afastamento da hediondez. Isso porque, em verdade, havia um único pedido a ser feito: a progres-
são do regime. Os demais argumentos apenas a embasam. Todavia, a FGV exigiu que fossem feitos
pedidos individualizados, atribuindo pontuação a cada um deles. Portanto, ao sustentar uma tese,
se a ela for composta por outras teses, além do pedido principal, resultante da junção de todas elas,
faça os pedidos individualizados, em cada uma delas.

III. DO PEDIDO

Diante do exposto, requer seja conhecido e provido o recurso, para que seja concedida a progressão
do regime.

Comarca ..., 1º de dezembro de 2017.

Advogado ..., OAB ....

Comentário: por precaução, especificamos o que é pedido (a progressão). No entanto, a banca deu
os pontos para quem pediu apenas o conhecimento e o provimento. Quanto à data, é sempre inte-
ressante mencioná-la na interposição e também nas razões.

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 136
X EXAME DE ORDEM
1. Jane, no dia 18 de outubro de 2010, na cidade de Cuiabá – MT, subtraiu veículo automotor de
propriedade de Gabriela. Tal subtração ocorreu no momento em que a vítima saltou do carro
para buscar um pertence que havia esquecido em casa, deixando o aberto e com a chave na ig-
nição. Jane, ao ver tal situação, aproveitou-se e subtraiu o bem, com o intuito de revendê-lo no
Paraguai. Imediatamente, a vítima chamou a polícia e esta empreendeu perseguição ininterrup-
ta, tendo prendido Jane em flagrante somente no dia seguinte, exatamente quando esta tentava
cruzar a fronteira para negociar a venda do bem, que estava guardado em local não revelado.

2. Em 30 de outubro de 2010, a denúncia foi recebida. No curso do processo, as testemunhas


arroladas afirmaram que a ré estava, realmente, negociando a venda do bem no país vizinho e
que havia um comprador, terceiro de boa-fé arrolado como testemunha, o qual, em suas decla-
rações, ratificou os fatos. Também ficou apurado que Jane possuía maus antecedentes e rein-
cidente específica nesse tipo de crime, bem como que Gabriela havia morrido no dia seguinte
à subtração, vítima de enfarte sofrido logo após os fatos, já que o veículo era essencial à sua
subsistência. A ré confessou o crime em seu interrogatório.

3. Ao cabo da instrução criminal, a ré foi condenada a cinco anos de reclusão no regime inicial
fechado para cumprimento da pena privativa de liberdade, tendo sido levada em considera-
ção a confissão, a reincidência específica, os maus antecedentes e as consequências do cri-
me, quais sejam, a morte da vítima e os danos decorrentes da subtração de bem essencial à
sua subsistência.

4. A condenação transitou definitivamente em julgado, e a ré iniciou o cumprimento da pena em


10 de novembro de 2012. No dia 5 de março de 2013, você, já na condição de advogado(a) de
Jane, recebe em seu escritório a mãe de Jane, acompanhada de Gabriel, único parente vivo da
vítima, que se identificou como sendo filho desta.

5. Ele informou que, no dia 27 de outubro de 2010, Jane, acolhendo os conselhos maternos,
lhe telefonou, indicando o local onde o veículo estava escondido. O filho da vítima, nunca men-
cionado no processo, informou que no mesmo dia do telefonema, foi ao local e pegou o veículo
de volta, sem nenhum embaraço, bem como que tal veículo estava em seu poder desde então.

6. Com base somente nas informações de que dispõe e nas que podem ser inferidas pelo caso con-
creto acima, redija a peça cabível, excluindo a possibilidade de impetração de Habeas Corpus,
sustentando, para tanto, as teses jurídicas pertinentes.

1. IDENTIFICANDO A PEÇA
Por ter ocorrido o trânsito em julgado da sentença condenatória, e como não se trata de recurso
a ser interposto contra o juízo da execução penal, a única peça cabível é a revisão criminal (CPP,
art. 621). Até seria possível falar em habeas corpus após o trânsito em julgado, mas o enunciado
esclarece que o remédio constitucional não seria aceito como resposta. Entretanto, a FGV também
aceitou quem elaborou petição de justificação. O que ocorreu: o enunciado traz como prova nova
o testemunho do filho da vítima. Para a colheita desse depoimento, o antigo CPC previa o proce-
dimento intitulado justificação (art. 861). Por ser imprescindível à tese a ser sustentada na revisão

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 137
criminal a oitiva dessa testemunha, a banca aceitou quem fez pedido de justificação para a realiza-
ção desse procedimento, prévio à revisão. A banca teve de assim fazer por perceber o equívoco do
enunciado, mas é inegável que o objetivo do examinador, quando elaborou a prova, era a exigência
da revisão criminal.

2. IDENTIFICANDO AS TESES DE DEFESA


A revisão criminal é admitida em três hipóteses (CPP, art. 621): (a) quando a sentença condenatória
for contrária ao texto expresso da lei penal ou à evidência dos autos; (b) quando a sentença conde-
natória se fundar em depoimentos, exames ou documentos comprovadamente falsos; (c) quando,
após a sentença, se descobrirem novas provas de inocência do condenado ou de circunstância que
determine ou autorize diminuição especial da pena.

Da leitura do enunciado, alguns questionamentos são extraídos: Jane foi presa na fronteira entre
Brasil e Paraguai, após subtrair um automóvel e tentar levá-lo ao exterior, onde o venderia. Ela foi
condenada à pena de cinco anos, mas o enunciado não diz qual foi o crime. No entanto, deixa claro
que a pena ficou acima do mínimo legal, pois havia circunstâncias judiciais e agravantes em seu des-
favor. Por fim, no quinto parágrafo, é dito que Jane se arrependeu de sua conduta e que, em virtude
de uma ligação telefônica, o filho da falecida vítima conseguiu restituir o veículo subtraído.

O primeiro passo é a identificação do tipo penal da sentença condenatória. Considerando que o


enunciado diz que Jane subtraiu um automóvel, pensamos que, no máximo, o examinando teria
dúvida em relação ao roubo e ao furto. Após pesquisa no remissivo do CP, fizemos a leitura dos
dois dispositivos: o art. 155, que tipifica o furto, e o art. 157, que criminaliza o roubo, ambos do CP.
No furto, há uma qualificadora, com pena de três a oito anos (§ 5º), se houver subtração de veículo
e caso este venha a ser transportado para o exterior. No art. 157, há uma causa de aumento igual,
em um terço, caso o automóvel subtraído seja levado ao exterior. Como vimos, a pena de Jane ficou
acima do mínimo legal em virtude das circunstâncias judiciais negativas. No roubo, em que a pena
mínima é de quatro anos, apenas a majorante, por si só, faria com que a pena ultrapassasse os cinco
anos informados no enunciado. Já no furto qualificado, com pena mínima de três anos, seria pos-
sível a pena de cinco após o aumento da pena-base e da incidência da agravante da reincidência.
Portanto, não há dúvida: Jane foi condenada pelo crime do art. 155, § 5º, do Código Penal, e a pena
ficou acima do mínimo em razão de circunstâncias judiciais negativas e da agravante da reincidência.

Em um primeiro momento, quanto à justa causa, devemos questionar: Jane praticou o delito de
furto qualificado por ter levado o automóvel ao exterior? Perceba que, no art. 155, § 5º, é dito que
a qualificadora será aplicável caso o veículo venha a ser transportado para outro Estado ou para o
exterior. No exemplo do enunciado, não houve a efetiva transposição da fronteira dos países. Logo,
o crime foi o de furto simples, do art. 155, caput, do CP, devendo ser afastada a qualificadora.

Outro ponto é o arrependimento de Jane, que restituiu o veículo subtraído, no dia 27 de outubro
de 2010, três dias antes do recebimento da denúncia que ensejou sua condenação. Por ser tese de
direito material, procuramos por arrependimento no remissivo do CP, e encontramos remissões aos
arts. 65, III, b, 15 e 16 do CP. Após breve leitura, é fácil constatar ter havido o arrependimento pos-
terior, do art. 16 do CP.

Por fim, devem ser analisadas as consequências do que é pedido. Por ser tese a desclassificação para
o delito de furto simples (CP, art. 155, caput), com pena mínima de um ano, e também a causa de

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III. PEÇAS PASSADAS RESOLVIDAS 138
diminuição do arrependimento posterior (CP, art. 16), com redução de um a dois terços, ainda que
não tenha como fazer uma análise cuidadosa da pena-base, mesmo no pior cenário, com pena aci-
ma do mínimo legal, Jane faria jus a regime mais benéfico do que o fechado, devendo ser sustentado
na peça.

3. MONTANDO A PEÇA

Excelentíssimo Senhor, Desembargador Presidente, do Tribunal de Justiça do Estado do


Mato Grosso,

Comentário: a banca pontuou apenas a menção ao TJMT, mas é muito importante que o endere-
çamento seja feito ao Desembargador Presidente do TJ – isso, é claro, quando o TJ for competente
para julgar a revisão.

Jane, estado civil ..., profissão ..., residente no endereço ..., atualmente presa na unidade ...,
por seu advogado, propõe Revisão Criminal, com fundamento no art. 621, I, do Código de
Processo Penal, pelas razões a seguir expostas:

Comentário: por ser uma petição inicial, o requerente deve ser qualificado. Quanto à fundamenta-
ção, temos duas teses: uma de decisão contrária à lei, pela condenação por furto qualificado, e uma
de prova nova, pelo testemunho do filho da vítima. Por isso, a banca aceitou duas fundamentações:
art. 621, I ou III, do CPP.

I. DOS FATOS

(...)

Comentário: a divisão em dos fatos, do direito e do pedido não é pontuada pela banca. Entretanto,
gostamos de utilizá-la. Como a correção da FGV é muito ruim, quanto melhor organizada a sua
peça, menor a chance de erros de correção – a banca errará de qualquer forma, mas o prejuízo será
menor se a sua peça estiver bem estruturada. Como já dito, a descrição dos fatos não é pontuada
pela FGV – na queixa-crime, há uma situação especial, tratada no modelo da peça. Portanto, limi-
te-se a um resumo do enunciado. Não perca muito tempo em sua elaboração. Não é o momento
de sustentar teses de defesa. Considerando a irrelevância do tópico dos fatos, em nossos modelos,
adotamos apenas as reticências, mas por economia de espaço. Em sua prova, é claro, faça o resumo
do enunciado.

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II. DO DIREITO

Portanto, como esclarecido acima, a revisionanda praticou, em verdade, o crime de furto simples,
do art. 155, caput, do Código Penal, e não pelo delito de furto qualificado, do art. 155, § 5º,
do Código Penal. Isso porque a qualificadora só deve incidir quando o veículo automotor vier a
ser transportado para outro Estado ou para o exterior, o que não aconteceu no caso em discussão,
visto que Jane foi presa na fronteira entre Brasil e Paraguai, não tendo havido a efetiva
transposição da fronteira. Destarte, a sentença condenatória foi contrária ao texto expresso da lei,
conforme art. 621, I, do Código de Processo Penal, devendo ocorrer a desclassificação.

Além disso, de acordo com o filho da vítima, Nome ..., no dia 27 de outubro de 2010, três dias
antes do recebimento da denúncia, Jane ligou para ele e informou onde estava o veículo subtraído.
Em razão disso, da conduta da revisionanda, o bem subtraído foi restituído ao proprietário, fazendo
jus, assim, à causa de diminuição de pena intitulada arrependimento posterior, prevista no art. 16
do Código Penal, aplicável quando, em crime cometido sem violência ou grave ameaça à pessoa,
o agente repara o dano ou restitui a coisa, desde que o faça antes do recebimento da denúncia,
por ato voluntário, devendo a pena ser diminuída de um a dois terços. Dessa forma, temos hipótese
de descoberta de prova nova, após a sentença condenatória transitada em julgado, que autoriza a
diminuição especial da pena, caracterizada, portanto, situação que dá ensejo à revisão criminal,
com fundamento no art. 621, III, do Código de Processo Penal.

Comentário: nos itens 3.1, 3.2 e 4 do gabarito, avaliados em dois pontos e setenta e cinco décimos
(mais da metade da nota da peça), a FGV bem demonstra como é feita a avaliação no Exame de
Ordem. Para receber a pontuação, não bastava a menção às teses da desclassificação e do arrepen-
dimento posterior. O examinando tinha de explicá-las, detalhadamente, esmiuçando os requisitos
e as consequências. Sobre a nova pena ser fixada, o examinando poderia sustentar a pena-base no
mínimo legal, apesar de o enunciado não trazer informações suficientes nesse sentido.

Julgada procedente a revisão criminal, deve ser fixado o regime semiaberto à revisionanda em
virtude da nova pena a ser estabelecida, com base no art. 33, § 2º, b, do Código Penal,
e na Súmula 269-STJ, que admite a adoção do regime prisional semiaberto aos reincidentes
condenados à pena igual ou inferior a quatro anos se favoráveis as circunstâncias judiciais.

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Comentário: se houver fixação de regime prisional e a tese envolver modificação da pena aplicada,
o examinando deve analisar o regime prisional a ser aplicado. Em virtude da reincidência, Jane não
poderia ter como regime inicial o aberto. Todavia, o enunciado tem um problema: se imposta a pena
mínima do furto simples, de um ano, diminuída pelo arrependimento posterior, Jane poderia, até
mesmo, já ter cumprido a sua pena – ela cumpriu quatro meses do total. Por outro lado, ainda que
não cumprida integralmente a pena, com a desclassificação, poderia ser pedido o regime inicial se-
miaberto e, em razão do tempo de pena já cumprido, a progressão de regime para o aberto – e não
haveria progressão per saltum, pois o regime fechado inicialmente fixado não seria mais considera-
do. Mas a FGV não quis complicar, e o gabarito exigiu apenas o regime semiaberto, com fundamento
na Súmula 269-STJ, que poderia ser facilmente encontrada no art. 33, § 2º, b, do CP, que trata do
regime semiaberto.

III. DO PEDIDO

Diante do exposto, requer seja julgada procedente a revisão criminal, com fulcro no art. 626 do
Código de Processo Penal, a fim de que seja:

(a) Desclassificado o delito de furto qualificado para o de furto simples;


(b) A diminuição de pena em razão do arrependimento posterior;
(c) A fixação de regime inicial semiaberto.

Comentário: atenção ao art. 626 do CPP, exigido pela banca no gabarito. Além disso, fosse necessá-
ria, deveria ser requerida a expedição de alvará de soltura.

Comarca ..., data ....

Advogado ..., OAB ....

GABARITOS DAS PEÇAS RESOLVIDAS


Em razão do limite de espaço, optamos por disponibilizar os gabaritos das peças resolvidas em nosso
site: www.cadernodeprova.com.br. O leitor poderá encontrar outras provas resolvidas no endere-
ço. Em caso de dúvida, entre em contato: cadernodeprova@gmail.com.

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