Anda di halaman 1dari 52

Universidade Federal do Triângulo Mineiro

Isabela Pissinatti

Agripina Menor, uma aliada no estudo sobre gênero e na desconstrução da figura da mulher criada pelo imaginário masculino na historiografia

UBERABA

2017

Universidade Federal do Triângulo Mineiro

Isabela Pissinatti

Agripina Menor, uma aliada no estudo sobre gênero e na desconstrução da figura da mulher criada pelo imaginário masculino na historiografia

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade Federal do Triângulo Mineiro como requisito parcial para graduação no Curso de Licenciatura em História, orientado pelo Prof. Dr. Alex Degan.

UBERABA

2017

Isabela Pissinatti

Agripina Menor, uma aliada no estudo sobre gênero e na desconstrução da figura da mulher criada pelo imaginário masculino na historiografia

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade Federal do Triângulo Mineiro como requisito parcial para graduação no Curso de Licenciatura em História, orientado

pelo Prof. Dr. Alex Degan.

de

de

BANCA EXAMINADORA

Prof. Dr. Alex Degan - Orientador

Universidade Federal do Triângulo Mineiro

Profa. Dra. Cláudia Regina Bovo

Universidade Federal do Triângulo Mineiro

Profa. Dra. Leandra Domingues Silvério Universidade Federal do Triângulo Mineiro

Agradecimentos

Não posso apresentar o seguinte trabalho sem agradecer aqueles que permitiram que este fosse possível. Primeiramente gostaria de agradecer à minha família que sempre esteve ao meu lado independente das minhas escolhas, especialmente ao meu pai e minha mãe, que sempre me deram a liberdade para que fosse quem eu quisesse ser. Mãe, você foi minha inspiração neste trabalho, e é minha inspiração de mulher na vida.

Quero agradecer também a todos os meus amigos, especialmente os de Uberaba, que me ajudaram a esquecer os problemas em momentos difíceis e que também estavam ao meu lado quando precisei de apoio. Aos meus professores, que foram o caminho e o exemplo para que eu seguisse em frente e me apaixonasse cada vez mais pela História.

Mas quero agradecer a uma pessoa que me motiva a ser uma pessoa melhor todos os dias: meu irmão, Gabriel. Você é e sempre será a razão da minha vida, e eu não consigo, e nem me arrisco, em expressar em palavras o amor que sinto por você.

Sumário

Resumo

7

Abstract

8

Introdução

9

Capítulo 1 – Uma discussão sobre gênero

12

1.1 A importância da discussão de gênero

12

1.2 A sexualidade como forma de opressão à mulher

15

1.3 As mulheres na historiografia

17

Capítulo 2 – Agripina, uma ameaça à ordem

22

2.1 As mulheres romanas na constituição da família

22

2.2 Agripina Menor na visão de Suetônio

24

2.3 Adultério na Roma Antiga

31

2.4 Agripina na historiografia atual

35

Capítulo 3 – Gênero, sexualidade e poder

38

3.1 Gênero e sexualidade nos dias atuais

38

3.2 Discussões de gênero e sexualidade no mundo romano

40

3.3 Agripina e seus estereótipos

43

3.4 Reflexões

finais

46

Considerações finais

48

Referências

50

7

Resumo

Apesar de a discussão sobre gênero ser uma discussão contemporânea, precisamos repensar o papel da mulher em outras épocas e sociedades, principalmente porque essas mulheres aparecem na historiografia para nós através de uma visão masculina, que as utilizavam e ainda utilizam como instrumento retórico, sem se preocupar com a individualidade dessas mulheres. Para tanto, a visão de Suetônio em sua obra “A Vida dos Doze Césares” sobre Agripina Menor, foi utilizada para desconstruir a forma como as mulheres eram retratadas e os estereótipos utilizados nessa caraterização. A historiografia ainda retrata as mulheres de forma machista e baseado em comportamentos que se esperam da figura feminina. Graças a diversas discussões e reflexões filosóficas, essa visão está se desconstruindo e já podemos perceber essas mulheres contando a sua própria história, mas ainda não alcançamos a igualdade de gêneros.

Palavras chaves: Identidade de Gênero, Mulheres, Historiografia

8

Abstract

Although the discussion of gender is a contemporary discussion, we need to rethink women’s role in other times and societies, specially because these women appear in historiography for us through a male view, that used to use them and still use as a rhetorical instrument without worry with the individuality of these women. For this, the vision of Suetonius in his work "The Twelve Caesars" about Agrippina the Younger, was used to deconstruct the way women were portrayed and the stereotypes used in this characterization. Historiography still portrays women in a sexist way and based on behaviors expected of the female figure. Thanks to many discussions and philosophical reflections, this vision is deconstructing itself and we can already see these women telling their own story, but we have not yet reached gender equality.

Key words: Gender Identity, Women, Historiography.

9

Introdução

Durante o curso de História me identifiquei muito com a História Antiga, e desde então, diversas indagações surgiram, assim como a necessidade de se produzir uma pesquisa voltada para esta área. Percebi então, que a História Romana (período escolhido no trabalho), não estava tão distante do meu contexto e poderia me ajudar a compreender questões cotidianas do meu tempo. E dentre essas questões atuais, uma que me chama muito a atenção e com a qual me identifico é a discussão sobre gênero, neste caso, focando o papel da mulher na historiografia, em nossa sociedade e na Roma Antiga.

Ser mulher nesses contextos envolve sofrer diversas opressões e exclusões, principalmente do campo político formal. Fomos, muitas vezes, apagadas da História ou retratadas pelos homens, e difamadas através de nossa sexualidade.

“[

]na

produção da história temos a necessidade de fontes,

documentos, vestígios. Contudo, quando se trata das mulheres esses materiais são frequentemente apagados, desfeitos, destruídos, ou seja, existe uma falta de informações sobre o gênero feminino. Além disso, existe uma falta de dados não apenas sobre as mulheres e a mulher, todavia sobre sua existência concreta e sua história singular. Por outro lado, temos uma abundância de testemunhos ou discursos sobre as mulheres, essa documentação por muitas vezes produzidas pelos homens, isto é, muito se fala das mulheres. Portanto, as imagens do gênero feminino, desta feita, será uma construção do imaginário dos homens (COELHO 2015, p. 4).

Esse interesse em discutir sobre gênero e sexualidade surgiu de indagações atuais que se iniciaram ao longo só século XX, quando as denúncias contra as desigualdades sociais, a intolerâncias de cunho sexual e racial ampliam-se.

Desde a década de 1970, importantes discussões filosóficas estimularam uma revisão de conceitos e valores tradicionais, dentre eles os dos códigos sexuais e o do regime de verdades instituído sobre as relações de gênero. Dentre essas abordagens e debates, buscam-se novas referências para se entender os significados atribuídos à feminilidade e à masculinidade e rejeita-se , embora essas ideias ainda estejam

10

arraigadas no senso comum, como se as concepções e valores morais sobre a sexualidade fossem e sempre tivessem sido os mesmos. (FEITOSA, 2008, p.123 )

A ideia, a partir destes pressupostos, é a de trazer uma reflexão sobre como a mulher era (e ainda é) retratada pela historiografia e como isso está refletido em nossa sociedade. Para isso, encontrei em Agripina Menor (mãe do imperador Nero), um objeto de estudo e uma aliada na desconstrução da visão das mulheres romanas que exerceram papéis considerados masculinos.

Agripina Menor é sempre lembrada por ser mãe do imperador Nero e umas das esposas do Imperador Cláudio, assim como muitas mulheres são reconhecidas através de suas relações com homens considerados importantes pela História. Mas Agripina foi muito criticada e atacada por exercer funções que não eram comuns de mulheres. Ela encarou os papéis pré-determinados pela sociedade de que as mulheres não poderiam se envolver com a política formal ou utilizar sua sexualidade como jogo político, e foi em busca de seus objetivos, tanto que conseguiu colocar seu filho, Nero, no poder.

Todos as fontes que temos sobre ela, que a denunciam como uma mulher adúltera e ambiciosa, foram produzidas por homens, sendo que a maioria não era nem mesmo contemporânea à sua época. Essas denúncias e difamações nos mostram o quanto a mulher era desvalorizada por seu gênero. E o que me surpreende, infelizmente, são as semelhanças entre como as mulheres eram tratadas na Roma Antiga, e como somos vistas pela sociedade hoje. Apesar das diferenças temporais e culturais, ainda podemos ver que o caminho para a igualdade de gêneros é longo, mas já conquistamos muito.

Para tanto, o trabalho foi dividido em três capítulos, onde o primeiro trata de uma discussão sobre gênero e uma reflexão sobre as desigualdades entre os sexos. No segundo, faremos uma análise da construção da figura feminina a partir do imaginário masculino através de como Suetônio retrata Agripina Menor em sua obra “A Vida dos Doze Césares”, e quais são os estereótipos utilizados para caracterizá-la. Já o terceiro, e último, traz uma reflexão sobre os dois primeiros, fazendo uma análise de como a construção de gênero pode ser utilizado como relação de poder e como isso afeta os sexos.

11

As desigualdades de gênero e a forma como as mulheres são retratadas na historiografia sempre me incomodaram de certa forma, ainda mais por eu ser uma mulher dentro do campo acadêmico. Portanto, o objetivo do trabalho é repensar nas relações de gênero e tentar desconstruir a visão das mulheres que foi construída pelo imaginário masculino.

12

Capítulo 1 – Uma discussão sobre gênero

1.1 A importância da discussão de gênero Trazer uma discussão sobre gênero é com certeza um desafio, porém um

desafio que deve ser enfrentado para que novos diálogos permitam novas

perspectivas. Enquanto historiadores e historiadoras, temos o dever de buscar

um sentido para o que estamos vivendo hoje; e problematizar questões e

dialogar com essas fontes para que a História se torne cada vez mais um

“lugar” onde possamos nos identificar enquanto sujeitos.

Quando lemos a famosa frase de March Bloch “A História é a ciência dos

Homens no tempo” talvez não pensemos sobre a identidade desses “homens”,

mas a historiografia muitas vezes é seletiva com relação aos seus

personagens.

O objetivo deste trabalho é tratar com maior ênfase o papel e os desafios das

mulheres na construção historiográfica, porém isso não quer dizer que a

discussão de gênero é algo exclusiva do feminismo. O problema aqui é que

não se trata de uma perspectiva naturalizada, gênero é construção histórico-

cultural-social, uma forma de classificação que, segundo Joan Scott, sugere

uma relação entre categorias que torna possíveis distinções ou agrupamentos

separados.

Primeiramente precisamos definir alguns conceitos sobre a definição do termo

“gênero”. A palavra é originária do latim e significa “descendência, origem”, um

conjunto de seres que possuem a mesma origem ou que se acham ligados por

uma ou mais particularidades. De modo geral, as pessoas em nossa sociedade

são divididas em dois gêneros: homens e mulheres. Aparentemente e a

princípio essa divisão se baseia em nossas genitálias, como se a única

particularidade que nos segrega é um pedaço de nossos corpos. E a partir do

momento em que somos divididos nessas duas caixinhas, somos ensinados a

cumprir nossos papéis: as mulheres têm a capacidade para dar à luz e os

homens têm uma força muscular superior.

13

Ao longo do tempo esse termo tem significado muito mais do que isso. Com a proliferação dos estudos sobre sexo e sexualidade, "gênero" 1 tornou-se uma palavra particularmente útil, pois oferece um meio de distinguir a prática sexual dos papéis sexuais atribuídos às mulheres e aos homens.

Acontece que a maioria desses estudos são produzidos por mulheres, já muitas vezes não somos representadas por nós mesmas. Não faltam fontes sobre mulheres na História, porém em quase todas elas as mulheres são as depoentes: esposas, filhas, mães, netas ou amantes dos homens que realmente “fizeram história”. São representadas como as guardiãs da memória, como se esse trabalho secundário fosse digno o suficiente para evitar maiores discussões.

Obviamente as mulheres contemporâneas (assim como algumas outras de diversos períodos) não se conformaram com esse papel e produziram (e continuam produzindo) diversas pesquisas e debates a respeito da nossa importância. É como se tivéssemos que provar o tempo todo que merecemos ser reconhecidas pela História, assim como outras minorias, já que muitas vezes nossa história é vista apenas como uma história “militante”, um tópico.

Já sabemos quanto o feminismo, o movimento de mulheres e o

de gays e lésbicas têm contribuído para que as reflexões sobre

gênero sejam implementadas de forma interdisciplinar. O

campo historiográfico, entretanto, tem sido um dos mais

resistentes. A acusação de ser uma “história militante”,

portanto, não “científica”, continua a assombrar, mesmo

quando há muito já se abandonou a certeza da neutralidade. É

ainda interessante refletir como, da mesma forma, outras

categorias como “classe”, “raça/etnia”, “geração” também são

tributárias de movimentos sociais e, obviamente, ligadas a

contextos específicos; no entanto, não parecem sofrer a

mesma “desconfiança” e desqualificação. (PEDRO, 2011, p.70)

1 Segundo Scott, “(1) o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos e (2) o gênero é uma forma primária de dar significado às relações de poder, As mudanças na organização das relações sociais correspondem sempre a mudanças nas representações de poder, mas a mudança não é unidirecional” (ibidem, p.85). É um emento constitutivo das relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos, “uma forma primária de dar significado às reações de poder” (Scott, 1990)

14

Os historiadores e historiadoras têm adotado os estudos de gênero em seus trabalhos, mas o mais comum, segundo Joana Maria Pedro, é apenas incluir a categoria “mulher”. A partir desses trabalhos que incorporam as diferenças de gênero podemos observar os impactos dos acontecimentos sobre homens e mulheres, a forma como a fonte é constituída, os dados que podem ser coletados e a maneira como se vai criticar a fonte. “Historiadores de fama internacional, como Eric Hobsbawm e Roger Chartier, além de outros, vêm afirmando que a Revolução das Mulheres foi um dos grandes acontecimentos do século XX, e que a dominação de gênero permeia as relações.” (PEDRO, 2011, p.270)

No campo acadêmico, observa-se ainda tensões e conflitos que se expressam nas disputas entre categorias como “feminismo” e “gênero”. A maior parte da história das mulheres tem buscado de alguma forma incluir as mulheres como objetos de estudo, sujeitos da história. “Tem tomado como axiomática a ideia de que o ser humano universal poderia incluir as mulheres e proporcionar evidência e interpretações sobre as várias ações e experiências das mulheres no passado.” (SCOTT, 1992, p. 77)

No espaço aberto pelo recrutamento de mulheres, o feminismo logo apareceu para reivindicar mais recursos para as mulheres e para denunciar a persistência da desigualdade. As feministas na academia declaravam que os preconceitos contra as mulheres não haviam desaparecido, ainda que elas tivessem credenciais acadêmicas ou profissionais, e se organizaram para exigir uma totalidade de direitos, aos quais suas qualificações presumivelmente lhes davam direito. Nas associações das disciplinas acadêmicas, as mulheres formavam facções para pressionar suas exigências. (Essas incluíam maior representação nas associações e nas reuniões de intelectuais, atenção às diferenças salariais entre homens e mulheres e um fim à discriminação nos contratos, nos títulos e nas promoções.) A nova identidade coletiva das mulheres na academia anunciava uma experiência compartilhada de discriminação baseada na diferenciação sexual e também admitia que as historiadoras, como um grupo, tinham necessidades e interesses particulares que não poderiam ser

15

subordinados à categoria geral dos historiadores. (SCOTT,1992, p. 69)

Os historiadores e historiadoras que estudam mulheres têm que lutar a todo

tempo para provarem que seus estudos são qualificados de história. Os outros

historiadores não feministas acabaram por confinar a história das mulheres em

um campo separado, como se dissesse respeito apenas ao sexo e à família. A

história das mulheres acaba se tornando um campo político, já que, segundo

Joan Scott, a história do pensamento feminista recusa a construção hierárquica

da relação entre masculino e feminino, e os historiadores e historiadoras desta

área estão posicionados para desenvolver o gênero como uma categoria

analítica. Graças a este debate, as feministas começaram a encontrar aliados

acadêmicos e políticos.

Não penso que devemos deixar os arquivos ou abandonar o estudo do passado, mas acredito, isto sim, que devemos mudar alguns de nossos hábitos de trabalho, algumas questões que temos colocado. Devemos examinar atentamente nossos métodos de análise, clarificar nossas hipóteses de trabalho, e explicar como a mudança ocorre. Em vez da busca de origens únicas, temos que pensar nos processos como estando tão interconectados que não podem ser separados. (SCOTT, 1995 p. 85)

Discutir questões como essas enriquecerá a História com novas perspectivas e

rejuvenescerá as velhas, assim as mulheres terão maior visibilidade como

criadoras de sua própria identidade e de outras identidades sociais. Além disso,

ainda segundo Scott, “esta nova história abrirá possibilidades para a reflexão

sobre atuais estratégias políticas feministas e o futuro (utópico), pois ela sugere

que o gênero deve ser redefinido e reestruturado em conjunção com uma visão

de igualdade política e social que inclua não somente o sexo, mas também a

classe e a raça.” (SCOTT, 1995, p.93)

1.2 A sexualidade como forma de opressão à mulher Outro aspecto que vamos discutir sobre a história das mulheres é a sua ligação

direta com a sexualidade, o modo como a produção historiográfica retrata

essas personagens como vítima ou rebelde a partir deste ponto.

16

Como a historiografia é um dos reflexos da sociedade podemos perceber a todo o momento e em qualquer lugar o quanto a mulher é oprimida ou colocada em segundo plano, principalmente quando tenta assumir papéis que são consi- derados masculinos, e Scott (1995) confirma isso, já que na medida em que a mulher aspire à atuação no âmbito público, usurpando os papéis masculinos, transmuta-se em força do mal e da infelicidade, dando lugar ao desequilíbrio da história. Existem duas visões básicas sobre a mulher, aquela de um ser puro, capaz de gerar a vida e cuidar da sua família, e a da depravada, enxerida, que busca por atenção. Tanto que muitas vezes quando uma mulher consegue um cargo superior a um homem normalmente ela é acusada de ter conseguido tal posição através de relações sexuais com algum superior, e não por ser capaz. Quando uma mulher está em posição de poder (como a ex-presidente Dilma Roussef), é constantemente atacada com ofensas como “vadia”, “puta”, “mal amada” e muitas outras. Quando uma mulher decide ter seu filho sozinha porque foi abandonada pelo companheiro é humilhada pela sociedade.

E isso quando a mulher consegue se expressar, pois muitas vezes há um silenciamento, que pode acontecer de forma sútil, como no caso da atual Presidente do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia Antunes Rocha que ao defender uma colega, a ministra Rosa Weber (que estava sendo interrompida

pelo ministro Luiz Fux), declarou “Foi feita agora uma pesquisa, já dei ciência à ministra Rosa, em todos os tribunais constitucionais onde há mulheres, o número de vezes em que as mulheres são aparteadas é 18 vezes maior do que entre os ministros…” (ROCHA, 2017). Além disso existem diversos termos

mansplaining” que foram

criados para sinalizar o machismo nas relações e qualificar o comportamento masculino em relação a uma mulher em diferentes situações.

como “manterrupting”, “bropriating”,
como “manterrupting”,
“bropriating”,

gaslighting” e

Foi lançado até mesmo um aplicativo pela agência de publicidade BETC chamado “Woman Interrupted” que contabiliza quantas vezes mulheres são interrompidas por homens. O que motivou essa ideia, segundo a agência, foi um debate entre Trump e Clinton, na qual a candidata foi interrompida mais de 50 vezes pelo adversário. Os resultados mostram que os homens atrapalham a

17

fala das mulheres em situações de trabalho com muito mais frequência do que

o contrário.

A revista “Virgina law Review” também publicou um estudo onde professores

da Universidade de Northwestern analisaram 15 anos de transcrições da

Suprema Corte americana e chegaram a conclusão de que os homens

interrompem as falas das juízas mulheres com três vezes mais frequência que

do que fazem com outros juízes. Nos últimos 12 anos, quando mulheres

ocuparam 24% das cadeiras do tribunal, 32% dessas situações resultaram na

interrupção das juízas, enquanto apenas 4% das vezes representaram

interrupções feitas por elas.

Esse silenciamento pode acontecer de formas mais extremas também, tanto

que o Brasil é o quinto país com a maior taxa de feminicídio do mundo.

“Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de assassinatos

chega a 4,8 para cada 100 mil mulheres. O Mapa da Violência de 2015 aponta

que, entre 1980 e 2013, 106.093 pessoas morreram por sua condição de ser

mulher. A mulheres negras são ainda mais violentadas. Apenas entre 2003 e

2013, houve um aumento de 54% no registro de mortes, passando de 1.864

para 2.875 neste período. Muitas vezes, são os próprios familiares (50,3%) ou

parceiros/ex-parceiros (33,%) os que comentem os assassinatos.”

Todos esses dados comprovam o quanto as mulheres ainda são oprimidas de

diversas formas, inclusive na historiografia. E isso é uma conclusão de diversas

análises de diversos períodos e sociedades, como o Império Romano, que será

o foco da relação deste trabalho. Quando repensamos essas fontes a partir de

um olhar atual, percebemos que cada uma reflete um ponto sobre determinada

sociedade, e esses pontos, quando discutidos, permitem que se abram novos

caminhos para uma História mais inclusiva.

1.3 As mulheres na historiografia O Império Romano se tornou o maior Estado do Mundo Antigo e construiu

valores culturais e sociais, criando uma hierarquia da figura masculina sobre a

feminina, assim, cristalizou-se uma sociedade patriarcal e masculina.

18

Devido a essa diferenciação, as fontes historiográficas, quando se trata de mulheres, são normalmente apagadas, destruídas, e por isso há uma falta de informações sobre elas. Um exemplo é a autobiografia de Agripina Menor que foi perdida e hoje só temos os escritos de homens sobre ela. Segundo Fabiano de Souza Coelho, há uma falta de dados não apenas sobre as mulheres, mas sobre sua existência concreta e sua história singular. Por outro lado, temos uma abundância de testemunhos ou discursos sobre as mulheres, essa documentação por muitas vezes produzidas pelos homens, portanto as imagens do gênero feminino eram uma construção do imaginário masculino. E Renata Barbosa, em seu artigo “Gênero e Antiguidade: representações e discursos”, compartilha da mesma visão:

É evidente que, tanto na historiografia, em geral, como na Antiguidade romana, em particular, existem trabalhos sobre mulheres ou sobre aspectos a elas relacionados, porém a maior parte deles contempla as “mulheres célebres”, que mantiveram relações com homens famosos, as mulheres da casa imperial em Roma, ou, ainda, aquelas que se destacaram, positiva ou negativamente, por “aspectos especiais”, tais como beleza, bondade, fidelidade, infidelidade, etc. É o caso da submissão da mulher e do seu aparecimento, por um lado, como figura de desordem e, por outro, como criatura benéfica. Essa linha de investigação, além de marginal, não atesta na verdade o que foi a vida da mulher ao longo da história, mas, pelo contrário, identifica-se como uma história vista pelo olhar masculino. (BARBOSA, 2002, p. 353)

Segundo Lourdes Conde Feitosa, em sua obra Gênero e sexualidade no mundo romano: a antiguidade em nossos dias, precisamos considerar como as indagações sobre gênero e sexualidade no mundo romano integram um conjunto de discussões recentes sobre o conhecimento histórico e resultam em novas visões sobre o passado e a forma de organizar e desenvolver pesquisas históricas; buscar compreender como as relações estabelecidas entre o feminino e o masculino geram um conhecimento da complexidade das relações históricas e sociais romanas; e refletir sobre as questões do tempo atual.

Desde a década de 1970, importantes discussões filosóficas estimularam uma revisão de conceitos e valores tradicionais, como as relações de gênero. A

19

pauta era a reinvenção de si, das diferentes possibilidades de ser viver e experimentar novas interpretações. E isso, segundo Feitosa, resultou, também, em um novo olhar sobre o passado e a maneira de se organizar e desenvolver as pesquisas históricas. Até os anos 1960, grande parte da historiografia, e de maneira geral a que tratava da Antiguidade, pouca atenção destinou a elas, já que a preocupação corrente era com as cenas de guerras e as disputas políticas. As exceções se davam em alguns estudos relacionados às mulheres chamadas célebres, como, por exemplo, as histórias de Messalina, de Cleópatra, de Lívia ou Penélope, sendo que o interesse estava na relação que possuíam com homens poderosos e famosos.

Com as discussões feministas surgiu uma reelaboração dos princípios teóricos das Ciências Humanas, até então pouco atentos às experiências femininas. O

conceito de documento histórico ampliou-se e isso permitiu que as experiências

e visões femininas se tornassem uma perspectiva histórica. “Sobre a História Antiga Romana, esses estudos têm permitido rever as áreas de atuação

tradicionalmente atribuídas às mulheres, as diversas formas de atuação política

e os fundamentos, composição e participação dos grupos sociais nas variadas esferas da organização social.” (FEITOSA, 2008, p. 125)

As reflexões pós-modernistas influenciaram as discussões epistemológicas femininas e essas ganharam complexidade e a ideia de uma essência feminina ou masculina tornou-se insuficiente para justificar os diferentes interesses de cada um deles em grupos socioculturais variados. E isso põe em discussão a ideia da supremacia do poder do “homem” sobre a “mulher”. (FEITOSA, 2008)

Desde os gregos na Antiguidade até o início do século XX, o sexo feminino era representado como uma fraqueza da natureza. E na historiografia não era diferente, as mulheres também eram tratadas em termos de desigualdade, inferioridades jurídicas e políticas e de emancipação.

As mulheres e os escravos tinham um papel passivo, pois tanto na cultura grega quanto na cultura romana o papel ativo estava associado a um homem adulto livre.

20

Segundo Coelho, as mulheres eram condicionadas a esfera privada, tinham protagonismo no âmbito da casa e da religião; elas eram controladas pelos seus pais, maridos, parentes ou tutores; e várias regras lhes eram impostas, em particular, as mulheres das boas famílias, diferente das cortesãs, servas, prostitutas e escravas.

A autoridade maternal romana estava condicionada pelo

paterfamílias; na legislação em Roma, esse detinha o direito de

vida e morte sobre seus filhos, poderia escolher as pessoas que ele iria se casar e tinha o direito de administrar a propriedade de seus filhos e nomear tutores para acompanharem seus dependentes. (COELHO, 2015, p.12)

Os estudos e a utilização de diversas fontes têm sido fundamentais para entender a participação das mulheres romanas no espaço social. A presença de mulheres abastadas (identificadas pelo nome de suas famílias) é, segundo Feitosa, comprovada através da política de benefícios e de construções públicas; no apoio financeiro a jogos e na distribuição de alimentos; nas relações pessoais, desenvolvidas por meio do sistema de clientela; no patrocínio a corporações de ofício e no gerenciamento de propriedades particulares e de negócios familiares. Já as menos abastadas, possuíam atividades como taberneiras, tecelãs, vendedoras, cozinheiras, açougueiras, perfumistas, enfermeiras, entre outros.

Também encontram-se referências da participação feminina

em discussões políticas em escrutínios locais.

pesquisam ajudam a repensar a ideia do confinamento feminino ao lar, dedicada a fiar a lã e administrar a casa e,

portanto, distante da vida pública, do fórum, do centro das decisões políticas e de poder. A própria caracterização da casa romana como um espaço privado, destinado ao descanso e restrito à convivência familiar, agora é discutida sob um ponto

de vista arqueológico. Wallace-Hadrill, por exemplo, considera

que no interior dessas casas aristocráticas desenvolviam-se articulações políticas e relações de clientelismo com pessoas de diferentes estratos sociais, recebidas em espaços específicos de acordo com a sua posição social. Com isso, o próprio âmbito da casa integraria as duas extensões e levam a

Essas

(

)

21

supor que mulheres estavam mais próximas de discussões políticas do que o imaginado. (FEITOSA, 2008, p.127)

As pesquisas atuais ajudam a repensar a ideia do confinamento feminino ao lar, dedicada a casa e, distante da vida pública e do centro das decisões políticas e de poder. Como era comum as pessoas trabalharem e morarem no mesmo local, homens e mulheres permaneciam juntos grande parte do tempo, tecendo outros tipos de relações que não correspondem à divisão tradicionalmente estabelecida. Então ou esses homens não participavam das discussões políticas tanto quanto as mulheres que ali viviam, precisamos rever as análises para incluir essas situações que não se enquadravam nos padrões.

Portanto, devemos sempre repensar a historiografia a partir de novos olhares e de como interpretamos o mundo hoje, as teorias são visões sobre as sociedades, por isso estão sempre em constante mudança, e devem sempre mudar. Assim, compreender as relações entre homens e mulheres, a partir da perspectiva de gênero nos leva a trabalhos que vem sendo produzidos nas últimas décadas. (COELHO, 2015)

A discussão sobre gênero pode colaborar com a análise dos comportamentos sociais, já que, ao contrário dos autores antigos, que utilizam a diferença biológica para justificar a inferioridade de um dos sexos, podemos perceber estas diferenças dentro da categoria, como situações e concepções produzidas, reproduzidas e transformadas ao longo do tempo nos diversos contextos sociais. E a partir disso, criar novos estudos com novos olhares e fazer da história da mulher e de suas atividades não só uma história à parte, mas uma um aspecto essência e inseparável da história global.

Capítulo 2 – Agripina, uma ameaça à ordem.

2.1 As mulheres romanas na constituição da família

22

Historicamente a mulher deve ser afastada das instâncias de poder e se submeter aos trabalhos domésticos e de criação dos filhos. Essa visão persiste até hoje. Muitas vezes, quando uma mulher consegue chegar a uma posição de poder, é silenciada ou julgada, como se não pertencesse àquele lugar. Esse desrespeito com a mulher é um problema histórico e reflete a desigualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres. Desde os gregos na Antiguidade até o início do século XX, as mulheres eram representadas como uma carência, defeito, uma fraqueza da natureza. (PERROT, 2013, p. 63).

A mulher é vista como um ser puro capaz de gerar a vida, mas se ela trabalha

e precisa tirar licença maternidade isso se torna um motivo para a diferença de salário entre homens e mulheres. E a mulher romana também sofria diversas injustiças e tinha seu papel determinado pela sociedade, que era basicamente de manutenção da família.

Segundo Leda Pinho (2002), a família romana era um organismo religioso, social, econômico e, sob certo aspecto, até militar, reunido debaixo da autoridade de um pater familias vivo. Podemos definir a expressão família romana como "um grupo de pessoas sob o mesmo lar, que invocava os mesmos antepassados” (VENOSA, 2001, p. 18).

A família romana representa um padrão da entidade familiar no Ocidente. O

pater familias detinha tríplice autoridade: era chefe político, sacerdote e juiz.

Para ser pater famílias o homem tinha que gozar de plena capacidade jurídica. Ele detinha um direito quase absoluto sobre seus filhos e descendentes diretos. Tinha poder absoluto na família e exercia um patriarcado monogâmico e autocrático.

A mulher normalmente era alieni iuris, que são os sujeitos subordinados aos

sui iuris, aqueles que são sujeitos de direito. Nesse contexto, o papel designado à mulher é de inferioridade em relação ao homem. Pinho relata em seu texto que a mulher romana não podia ser tutora de impúberes, adotar filhos ou testemunhar um testamento. Além disso, elas estavam sempre sob tutela. Elas "eram consideradas incapazes para a prática dos atos da vida civil; necessitavam, sempre, de um tutor que lhes representasse os direitos na

23

sociedade romana (tutela perpétua). Jamais podiam ocupar qualquer cargo público”. 2

A situação a que estavam submetidas era sempre de

subordinação e dependência: se "solteiras, eram consideradas

alieni juris e permaneciam sujeitas ao pátrio poder do chefe (pater) de sua família de sangue"; se casadas "saíam da esfera

do poder do pater de sua família, mas ficavam submetidas ao

manus (autoridade) do marido". Se porventura "o marido fosse,

também, o pater (chefe) de sua família, a sua mulher passava

a ser considerada sua "filha" (loci filia = no lugar de filha), ficando em igualdade de condições com os próprios filhos. Se

o chefe da nova família fosse o sogro, ela passava a ser

considerada sua "neta" (loci nepolis)." Semelhante condição "de dependência da mulher só desapareceu no direito justinianeu”. Enfim, as relações pessoais entre esposos reduziam a mulher a alieniiuri: estava sempre sujeita a um pater familias (pai, tutor, irmão, marido, sogro etc.) (PINHO,

p.278)

Elas também eram responsáveis por auxiliar e incentivar seus maridos, inclusive de servirem como intermediárias entre os maridos e as partes externas, como Annelise Freisenbruch (2014) nos mostra neste trecho de seu texto sobre as mulheres da família de Augusto:

O fato de uma mulher poder servir de guardiã do acesso ao

marido de certa forma não era algo novo na política romana. Durante a era republicana, várias mulheres da elite de fato agiram como patronas e intermediárias entre os maridos e parte externas. Cícero, por exemplo, recorreu a MúciaTércia ao buscar aliança com seu marido, Pompeu, e até mesmo

Cleópatra supostamente tentou ganhar o apoio de Lívia e Otávia durante as negociações posteriores a Áccio com seu captor Augusto, oferencendo-lhes joias de presente e expressando a esperança de que elas demonstrassem simpatia para com ela. Tais arranjos, porém, sempre haviam conduzidos longe dos olhos do público, e mulheres como Múcia Técia jamais teriam sonhado em receber o reconhecimento público por seus esforços com a construção

2 Rolim, Luiz Antonio. Op. cit., p. 139.

24

de estátuas ou através de outras honras oficiais (Freisenbruch, 2014, p. 74)

Já as mulheres da Dinastia Júlio-Cláudia na Domus Caesarum, como nos

mostra Sarah Azevedo em seu texto “A Domus Caesarum e as mulheres da

Dinastia Júlio-Cláudia” (2012), tinham também a função de transmitir

legitimidade por meio do estabelecimento de casamentos e geração de filhos

legítimos.

A sucessão é uma preocupação constante no jogo político, e era uma das

funções do imperador como pater familias, já que ele determinava casamentos

e adoções.

Viúvas da Domus Caesarum, que apresentavam condições de se casar

novamente e que tinham filhos que eram potenciais herdeiros do império,

representavam, ao mesmo tempo, uma ameaça e uma garantia. (AZEVEDO,

2012). Mas por mais, que as mulheres fossem prejudicadas juridicamente, o

estudo da Domus Caesarum apresenta mulheres fortes e que “faziam política”

dentro de outras estruturas não tão formais, mas igualmente importantes. E

uma dessas mulheres foi Agripina Menor.

2.2 Agripina Menor na visão de Suetônio Agripina nasceu no ano 15, filha de Germânico e Agripina Maior, ela foi bisneta,

filha, irmã, esposa e mãe de césares. Ela se casou três vezes: com Domício

em 28, com quem teve seu único filho, Nero; com Passieno Crispo em uma

data desconhecida; e em 49, casou-se pela terceira e última vez com o tio e

então imperador Cláudio, contra quem ela planejou um envenenamento a fim

de dar o império ao filho. “Agripina é reconhecida 3 pela sua ambição e soberba,

motivos pelos quais teria se dado sua queda, assinalada pelo matricídio. A

personagem de Agripina representa um elemento importante na elaboração da

crítica a Cláudio e Nero.” (AZEVEDO, 2012, p. 132)

3 Agripina foi alvo de vários estereótipos e descrita como uma mulher adúltera e ambiciosa nas fontes de sua época e mesmo depois, já que Suetônio, por exemplo, escreveu sobre ela em seu livro “A Vida dos Doze Césares” 62 anos após sua morte.

25

Os relatos que temos sobre Agripina Menor foram escritos por homens em uma época em que as mulheres tinham poucos direitos e a desigualdade de gênero era gritante. Um desses homens foi Suetônio.

Caio Suetônio Tranquilo nasceu entre os anos de 68 e 71 d.C. Considera-se que tenha nascido em uma cidade no Norte da África, mas que teria ido para a cidade de Roma, onde teria sido educado. Atuou no período de Trajano e Adriano e ocupou cargos como o de funcionário responsável por efetuar pesquisas para o imperador, escrever discursos e dar conselhos referentes à oratória); a guardião da biblioteca imperial; e ainda o cargo de secretário imperial. Escreveu o livro “As Vidas dos Doze Césares” no período que vai de 119 a 122 d.C., época na qual ele teve acesso à documentação devido aos cargos ocupados, onde narra sobre a vida dos imperadores.

A obra de Suetônio Sobre as vidas de Césares, tradução literal do latim De vitis Caesarum, mais conhecido em português como Vidas dos Doze Césares, é o conjunto de doze biografias que inclui a de Júlio César e os onze primeiros imperadores do Império Romano: Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio, Nero, Galba, Otão, Vitélio, Vespasiano, Tito e Domiciano.

O que se constata historicamente é que Suetônio elaborou as “Vidas do Doze Césares” a partir das fontes retiradas do meio palaciano – ali ele buscou e registrou o conjunto de acontecimentos do Império, os quais passa a descrever minuciosa e detalhadamente.

A obra deve ser considerada como o amadurecimento político do autor, que, ao fazer a histórica avaliação política do império, representado pelas duas casas mais significativas (Júlio- Claudiana e Flávia) pendeu muito mais para a democracia e pela liberdade do que pela monarquia ou pela aristocracia, talvez ainda em razão de seu espírito de “eques romanus” oposto a esta última. A formação complexa de Suetônio, dividido entre a origem eqüestre, a proximidade com o Senado e a presença nos círculos aristocráticos, por força do interesse literário, não lhe facultaram a total liberdade de se definir por uma opção política clara. Mas, ressalte-se, aqui, o fato de não haver nenhum indício de adesão (restrita ou irrestrita) a

26

qualquer tipo de regime totalitário na sua biografia. (SOBRAL, 2007, p.11)

Percebe-se não uma biografia isolada ou a história de um cidadão-imperador, mas um universo de acontecimentos relativos a doze governantes, que transformaram a vida dos povos envolvidos, no período que circunscreve a ascensão de César ao poder até a queda de Domiciano.

Em sua obra, o papel das mulheres varia de acordo com a posição social e a posição na família. Elas também eram usadas como forma de avaliação de um imperador, já que um imperador avaliado de forma negativa pode ter sido influenciado por uma mulher considerada má. Como no caso de Agripina, que aparece na obra de Suetônio, assim como nas obras de Tácito. Ambos possuem uma visão negativa sobre ela, mas Tácito a descreve como uma mulher extremamente ambiciosa que fazia de tudo para obter poder. Enquanto Suetônio tem uma visão um pouco menos agressiva e foca em sua relação com Cláudio e Nero. Ou seja, a “mulher” pode aparecer enquanto instrumento retórico, já que a figura da mulher aparece como uma figura narrativa nas obras de Tácito e Suetônio. Eles não se preocupam em retratar as mulheres enquanto indivíduos, e sim utilizá-las como uma fonte para retratar os homens aos quais estas estavam ligadas.

Após retornar do exílio depois de ser condenada por adultério, Agripina pôde casar-se novamente, além de receber uma herança de seu falecido marido (o primeiro, Domício) e recuperar o filho que estava sob os cuidados de uma tia. A primeira possibilidade de um novo matrimônio para Agripina é mostrada por Suetônio. O homem em questão era Galba, o futuro imperador.

Ele se dedicou as leis, bem como a outros estudos liberais. Igualmente dedicou-se ao matrimônio; mesmo depois da morte de sua esposa Lépida e dos dois filhos que tiveram, ele permaneceu viúvo. E ele não foi tentado por nenhuma união posterior, nem mesmo Agripina, que não muito após a perda de Domício tentou obviamente conquistar Galba, antes mesmo da morte da esposa dele. A mãe de Lépida, junto de um grupo de matronas, a repreendeu severamente e foi tão longe a ponto de esbofeteá-la. (Suet. Galb. 5, 1)

27

Aqui, Agripina é apresentada por Suetônio como uma mulher que tentou conquistar um homem casado. Em sua primeira aparição no livro de Suetônio, Agripina já é retratada como uma potencial adúltera, que utilizava da sedução como artimanha política.

Porém, o segundo casamento de Agripina é com Caio Salústio Passieno Crispo, que morre poucos anos depois, deixando para Agripina e seu filho Domício (Nero) uma fortuna. Agripina então é acusada de envenenar o próprio marido para receber a herança.

Outra acusação contra Agripina são suas desavenças com outras mulheres da corte. Essas desavenças entre mulheres são sempre usadas como forma de apontar as futilidades femininas e a falta de capacidade de lidar com os problemas de forma racional (como se os homens não tivessem rivalidades entre si). Uma de suas desavenças se deu com a esposa de seu tio (o imperador Cláudio), Messalina. Nero, filho de Agripina era considerado um rival de Britânico, filho de Messalina, e Suetônio deixa isso claro:

Quando sua mãe [Agripina] retornou do exílio e se reinstalou, ele [Nero] tornou-se tão proeminente devido à influência dela que foi revelado que Messalina – esposa de Cláudio – havia enviado um emissário para estrangulá-lo durante seu cochilo diurno, considerando-o um rival de Britânico. Um adicional a este boato era que o possível assassino foi afugentado por uma cobra que saiu por baixo do travesseiro. O único fundamento para esta narrativa era que havia sido encontrada próxima a sua cama, perto do travesseiro, uma pele de serpente; no entanto, pela vontade de sua mãe, ele incluiu essa pele em uma pulseira de ouro que usou por muito tempo em seu braço direito. Porém, quando a memória de sua mãe tornou-se odiosa para ele jogou-a fora, posteriormente a procurou em vão. (Suet. Nero. 6, 4)

Cláudio era visto como um imperador que se deixava influenciar pelos libertos e por suas esposas, e Suetônio destaca essa influência em seu texto: “Porém esses e outros atos, e de fato quase toda a condução de seu principado era ditada não muito por seu próprio julgamento, mas por suas esposas e libertos, tendo em vista que ele quase sempre agia em concordância com os desejos e

28

interesses destes.” (Suet. Claud. 25, 5) Por isso, tanto Suetônio quanto Tácito retratam Cláudio como um imperador fraco, já que segundo eles, Cláudio não conseguia controlar seus inferiores. Um bom imperador e pater famílias era aquele que se impunha e era ativo em todos os âmbitos.

Após a execução de Messalina 4 , que foi sua esposa e retratada na historiografia como uma mulher adúltera e ninfomaníaca, Cláudio foi à busca de uma nova esposa. Ele queria provar seu pertencimento à Domus Augusta, porém, ele não tinha um vínculo real com Augusto. Portanto, Cláudio decide casar-se com sua sobrinha Agripina, já que esta possuía a origem nobre que ele buscava.

Porém, Suetônio nos traz isso de outra forma, como se Cláudio tivesse sido seduzido pela sobrinha, que se aproveitou de seu parentesco para se aproximar do tio e se tornar sua escolhida. E destaca que a união não foi bem aceita, por ser considerada incestuosa 5

No entanto, ele não poderia privar-se de mais uma vez planejar um novo casamento, mesmo com Petina, a quem ele tinha anteriormente descartado e com Lólia Paulina, que tinha sido a esposa de Caio César. Mas sua afeição foi ludibriada pelos encantos de Agripina, filha de seu irmão Germânico, auxiliada pelo direito de trocar beijos e as oportunidades de carinhos oferecidas por sua relação [familiar]; e no encontro seguinte do Senado ele subornou alguns membros a proporem que ele deveria ser compelido a se casar com Agripina, sendo esta união de interesse máximo para o Estado e para o restante [dos cidadãos] estava permitido contrair matrimônio similar, que até aquele tempo era considerado incestuoso. E ele se casou com ela passado apenas um dia; porém nenhum outro seguiu seu exemplo, salvo um liberto e um centurião, cujo casamento ele compareceu em pessoa junto de Agripina. (Suet. Claud. 26,3)

Tácito também aponta que Cláudio privilegiou Nero e deixou de lado seu próprio filho, Britânico, devido à influência de Agripina. Ela também conseguiu o

4 Executada por traição, adultério, libertinagem e

acusação de conspiração.

5 Os romanos consideravam o incesto algo indecente

29

perdão de Sêneca, que estava no exílio, para que este fosse tutor de seu filho. Além disso, ela convenceu Cláudio a adotar Nero. Agripina tinha consciência do funcionamento das manobras políticas do império. (AZEVEDO, 2012) Ela sabia como funcionava o jogo político e fez tudo para conseguir chegar ao poder, assim como muitos imperadores fizeram. Agripina era praticamente uma pater famílias, e buscou seus objetivos através de artimanhas que foram realizadas por muitos homens também, que inclusive foram elogiados por suas condutas. Acontece que, por ser mulher e ter assumido papéis que eram considerados masculinos, Agripina foi difamada e apontada como um ser disposto a tudo para conseguir o que queria, ambiciosa e maléfica. Portanto, ela não foi condenada por suas ações, e sim por ser mulher e ter ousado interferir em um meio considerado masculino.

É preciso destacar aqui que Suetônio não foi contemporâneo de Agripina Menor, ele nasceu 10 anos após sua morte e escreveu “A Vida dos Doze Césares” na época da dinastia dos Antoninos e teve prestígio na corte do imperador Adriano. Portanto, as críticas feitas à dinastia-claudiana não foram contemporâneas a esses imperadores, e sim a uma dinastia que se considerava superior.

Na tradição historiográfica vemos personagens femininas que apresentam um comportamento louvável, enquanto outras são consideradas malignas. Segundo Azevedo (2012), a superação da natureza feminina significa que a mulher alcançou virtudes viris, anulando vícios próprios da natureza feminina.

Um exemplo disso são as representações de Agripina Maior e de Agripina Menor. A primeira representa uma esposa exemplar, sempre disposta a auxiliar o marido e visar o bem da República.

E, ao mesmo tempo em que sua figura representa um modelo de conduta feminina, reforça a imagem positiva de Germânico. Na narrativa taciteana, as esposas leais ao marido, por seu comportamento leal, enfatizam as qualidades do marido que, por ser virtuoso, estimula a esposa a um comportamento igualmente virtuoso. (AZEVEDO, 2012, p.76)

30

“Enquanto Agripina Menor, apresentando um comportamento reprovável, atribui um valor negativo a Cláudio, e consequentemente ao seu governo, o comportamento de Agripina Maior reflete as qualidades de Germânico.” (AZEVEDO, 2012)

Segundo Fischler (1994), citado por Sarah Azevedo (2012):

Os retratos destas mulheres contam-nos mais sobre atitudes sociais dos romanos do que como viviam as mulheres da elite:

eles nos possibilitam entender, de maneira mais completa, relações de gênero e sua ligação com estruturas de poder em Roma, assim como atitudes masculinas a respeito de gênero e poder que influenciaram na descrição das mulheres presentes na literatura clássica. (FISCHLER, p.115, 1994)

Quando uma mulher da elite tinha acesso ao poder era considerada ameaça à ordem, além disso, elas foram caracterizadas como uma forte influência ao comportamento dos homens, sendo responsabilizadas muitas vezes pelos atos destes.

Agripina foi acusada de desempenhar seu papel de matrona de forma errada, ela representa uma inversão desse estereótipo, e enfatiza como a mulher podia ser considerada símbolo de desordem e ameaça. As mulheres contribuíam para a imagem da família e do pater famílias, portanto, se uma mulher tivesse uma imagem negativa ela comprometia toda a família. As difamações dessas mulheres surgiam a partir de rumores e intrigas que acabavam sendo levadas para a literatura.

A representação da mulher como símbolo da ordem imperial, feita através da propagação de um ideal imperial, ajuda a explicar a existência da inversão, utilizada por historiadores em suas narrativas deste período, fazendo delas símbolos de desordem e fatores explicativos para a queda de imperadores. (AZEVEDO, 2012, p.89)

Mesmo não sendo considerada natural, a intervenção feminina na política acontecia, e muitas mulheres assumiram papéis ativos. Porém, como aponta Nuno Simões Rodrigues em seu texto “Agripina e as outras”, a historiografia

31

oficial muitas vezes omite essas mulheres, e mesmo quando aparecem são retratadas de forma negativa.

Uma análise dos principados de Gaio, Cláudio e Nero permite concluir que existiam redes de poder e de intervenção política, nas quais as mulheres se destacaram como peças fundamentais e determinantes nos destinos do Império. (RODRIGUES, 2008, p.283)

Uma dessas mulheres foi Agripina Maior, que além de ter tido acesso ao campo político, encontrou apoios importantes.

É inesquecível o retrato que Tácito nos dá dessa mulher, grávida, num acampamento militar ao lado do marido, e intervindo na refrega como qualquer soldado, auxiliando os feridos e todos os que caíam em combate por Roma. A mulher no auge da sua feminilidade, como sugere o estado de gravidez, reveste-se com uma máscara viril. (RODRIGUES, 2008, p. 285)

Agripina Menor era filha de Agripina Maior e irmã de Calígula, e até chegou a escrever um livro de suas memórias, que chegou a ser lido por Suetônio e Tácito, mas que se perdeu e não temos como ter acesso. Ela se dedicou à política e conseguiu realizar muitos de seus interesses, inclusive colocar seu filho (Nero) no poder. Porém, em 59 d.C., Agripina Menor se tornou vítima dos interesses políticos da corte.

Apesar de ter conseguido a aliança matrimonial do filho com Octávia, a descendente direta de Cláudio, Agripina não pôde evitar que emergissem interesses paralelos, protagonizados por outras figuras na corte. Essa outra facção, representada por Tigelino, que veio a ser prefeito do pretório de Nero, não tardou em manobrar de modo a afastar os primeiros conselheiros do princeps, entre os quais se encontravam Séneca e a própria Agripina. Um dos primeiros movimentos estratégicos foi o afastamento de Britânico e Octávia. A partir desse momento, Agripina soube que, mais cedo ou mais tarde, chegaria a sua vez. Por outro lado, derrubada a imperatriz, nada poderia consolidar melhor a nova facção junto do centro do poder do que a angariação de uma nova consorte imperial. (RODRIGUES, 2008, p.291)

32

Na historiografia antiga, as mulheres que tiveram uma vida política ativa são

normalmente tidas como figuras antipáticas, com exceção daquelas que

ficaram ao lado de seus maridos de forma submissa. Gaio, por exemplo,

chamava sua avó, Lívia de “Ulisses de saia”, já que ela ocupou papéis que

eram considerados masculinos.

2.3 Adultério na Roma Antiga

Umas das principais acusações contra Agripina foi a de ela ser uma mulher

adúltera. E o adultério da mulher é um tabu tanto na Roma Antiga quanto hoje.

Em uma entrevista para o jornal da USP, Sarah Fernandes Lino de Azevedo

conta que em seu trabalho (AZEVEDO, 2017) ela investiga um aspecto do

passado que nos ajuda a entender um pouco do comportamento da sociedade

atual: a questão do adultério. Ao estudar sobre as concepções de adultério

registradas na Lex Iulia de Adulteriis (Lei Júlia sobre adultério), Sarah

encontrou diferenças de tratamento entre gêneros naquela sociedade.

Essa lei foi promulgada por Augusto, em 18 a.C. e definia o adultério como

uma relação sexual entre uma mulher casada e um homem que não era seu

marido. Ambos eram incriminados, a esposa adúltera e o homem que cometia

a ofensa contra o marido dela. “Se condenados, a lei previa que fossem

relegados para ilhas diferentes, parte de seus bens era confiscada – ao

homem, metade de sua propriedade; à mulher, metade de seu dote e um terço

de seu patrimônio”, explica a pesquisadora durante a tese.

Aline Rousselle, em seu livro “Pornéia: sexualidade e amor no mundo antigo”,

onde ela fala sobre questões sobre o corpo feminino e as relações entre

sexualidade e sociedade, cita a uma lista de mulheres com as quais os

romanos podiam ter relações sexuais fora do casamento sem incorrer na pena

do estupro ou do adultério. Eles podiam dormir com as escravas, as prostitutas

e atrizes, os proxenetas e suas mulheres, as mulheres condenadas por

adultério, todas essas mulheres, mesmo no caso de serem concubinas de

outro homem, e finalmente, a mulher que – concubina ou esposa de seu patrão

– deixou-o por outro homem. Com exceção desses casos, um romano não

pode ter relações sexuais com uma mulher livre, a não ser que este peça que

se case com ele ou se torne sua concubina. (ROUSSELLE, 1984, p.100)

33

Já a mulher, uma matrona, é obrigada à fidelidade. Seu marido poderá acusá-

la de adultério se descobrir que ela tem amantes. Porém, ela não pode fazer o mesmo, mesmo que ele seja realmente um adúltero: “uma mulher, em Roma não pode promover ação na justiça em casos de adultério.” (ROUSSELLE, 1984, p.113)

O marido pode ter relações passageiras ou duradouras com escravas ou mulheres “sobre as quais não se comete estupro”. Pode não ter nenhuma relação e consagra-se à continência. Pode, finalmente, ter uma ou várias concubinas. Nada disso dará à esposa motivo justificado para um repúdio unilateral. (ROUSSELLE, 1984, p. 114)

Precisamos ressaltar aqui também que em Roma, as esposas muitas vezes são crianças. Os homens podiam ter relações sexuais com meninas de menos

de 12 anos, e estas eram consideradas responsáveis por seus atos, inclusive o

de consentir em dormir com homens mais velhos.

Na Roma Antiga existiam dois modos de lidar com uma mulher adúltera: pela morte, prevista pela lei com certas condições, como o fato de somente o pai poder matar a filha, ou pela transformação da mulher adúltera em prostituta. A mulher condenada como adúltera não podia casar novamente com um homem livre e mudava de estatuto jurídico. “Ela passava para a categoria jurídica dos infames, que era a categoria jurídica das prostitutas”, aponta Azevedo (2017).

A noção do adultério em Roma é uma concepção patriarcal, que estava

registrada na legislação e restringia o campo de opções sexuais da mulher.

“Podemos ver muito bem, estudando a liberdade sexual do homem, onde se situa a liberdade da mulher. Mas pode-se chamar de liberdade uma relação sexual na qual uma mulher não pode escolher o seu parceiro?” (ROUSSELLE, 1984, p.112)

“O homem casado poderia ter relações sexuais fora do casamento, com escravas, concubinas, prostitutas. Mas isso não era uma opção válida para mulheres”, destaca Sarah na entrevista para o jornal da USP (2017).

34

Encontrar textos escritos por mulheres da época não é uma tarefa fácil, portanto temos que nos basear nos escritos dos homens para entender um pouco dessa questão.

Ao estudar sobre Agripina, que foi considerada uma mulher adúltera e imoral, Sarah Azevedo compreendeu que esta havia se tornado um alvo dos legisladores na tentativa de controlar a influência feminina na política local, já que ela rompeu barreiras ao interferir neste espaço e também no âmbito sexual.

Para os romanos, a castidade de uma mulher era considerada sagrada, tanto que existiam as chamadas “virgens vestais”, sacerdotisas responsáveis pelos cuidados do templo dedicado à deusa Vesta, a deusa dos lares, que garantia a paz na Roma antiga. O poder destas mulheres se dava ao seu voto de castidade. “As vestais ficavam num templo do lado do fórum e eram responsáveis por manter o fogo aceso por meio de rituais que garantiam a segurança da cidade”, conta Azevedo (2017) , “se elas perdessem a virgindade e fossem julgadas culpadas, elas eram enterradas vivas”.

Havia uma dualidade na visão sobre a mulher: as puras, castas e descentes e as adúlteras, prostitutas e imorais. A sexualidade de uma mulher refletia em sua reputação e podia ser o motivo de sua condenação. Seu corpo era controlado pelo Estado como se fosse um bem material. Portanto, a figura da adúltera era uma contradição que deveria ser eliminada.

Mas isso não é algo exclusivo do passado, resquícios desse tratamento à sexualidade mulher ainda existem. No Brasil, por exemplo, somente em 2005 o chamado crime de adultério, previsto até então no artigo 240 do Código Penal, foi revogado.

O adultério continua sendo motivo da maioria dos casos de violência contra a mulher. Segundo uma pesquisa feita pelo Datafolha e encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança, divulgada no primeiro semestre de 2017, uma em cada três mulheres sofreu algum tipo de violência no último ano. São 503 mulheres brasileiras vítimas a cada hora.

35

Uma outra pesquisa, citada na tese, realizada pela Fundação Perseu Abramo

(FPA), nos anos de 2001 e 2010, revelou que 31% (2001) e 35% (2010) dentre

as mulheres que declararam já ter tido relações fora do casamento/namoro

afirmaram que o motivo principal foi “por vingança/ porque o marido/namorado

tinha amantes/para provocar ciúmes/ porque brigaram”. Ela revelou também

que 40% dos homens que já bateram em mulheres afirmaram que o fizeram

com objetivo de “controlar a fidelidade”.

Ainda hoje, no Brasil, a infidelidade da mulher é considerada um desrespeito à

honra dos homens. Somos iguais perante a lei, mas na prática, a desigualdade

de gênero nos assombra todos os dias.

Tal como na Roma de 2 mil anos atrás, no Brasil do século 21 “a infidelidade

feminina vem justificar a violência masculina”, aponta Sarah. “A letra da lei trata

os gêneros em igualdade, mas isso não é o que a gente vê com os números de

violência contra a mulher”, argumenta.

2.4 Agripina na historiografia atual

Agripina morreu no ano de 59 d.C. e foi muito admirada e reconhecida pelos

romanos até o momento em que começou a exercer papéis considerados

masculinos. Ela se tornou um exemplo clássico da participação da mulher no

jogo político romano e foi muito difamada por isso, assim como por sua conduta

sexual.

Discutir gênero é muito importante, mas deveriam haver outra formas de se

chegar até a História da Mulheres. Não acredito que estudar as mulheres

somente através das relações de gênero nos permita chegar a todos os

âmbitos dessa discussão. Quando analisamos a vida da Agripina, por exemplo,

percebemos que além das opressões de gênero, ela foi mãe, esposa,

participou da política e enfrentou diversas acusações, enfim, foi um indivíduo

com uma história própria.

Agripina é vista como um monstro na tradição textual, uma mulher disposta a

tudo para chegar ao poder, como se os imperadores não tivessem essa mesma

ambição. Mas por ser mulher, Agripina foi usada como exemplo para

36

demonstrar o mal que as mulheres não dominadas podem fazer para a realização dos seus desejos insaciáveis.

Agripina é apresentada na tradição textual como um verdadeiro monstro. Criada no centro do poder, atravessou os reinados de Calígula, Cláudio e Nero sempre no centro das disputas sangrentas que envolveram estes imperadores. Era irmã de Calígula, casou-se com seu tio, Cláudio, a quem assassinou para levar seu filho Nero, que ordenou que a matassem. Foi morta com cerca de 43 anos. Todos conhecem a fama desta domina. A imagem que temos dela deriva desta tradição textual e, especialmente, das leituras que foram feitas destas fontes. Mais tradicionalmente, Agripina é retratada como uma mulher odiosa porque buscou a todo custo o poder, especialmente usando da sua beleza para manipular os homens e de seu poder para aterrorizar as mulheres, os libertos e os escravos. Assim, Agripina seria o símbolo da malícia e da desfaçatez das

mulheres em geral. (FAVERSANI, 2013, p.7)

Filósofos, médicos e poetas da antiguidade colocaram as mulheres em posição

de inferioridade em relação aos homens nos quesitos psicológico, fisiológico e anatômico. Segundo Giulia Sissa em seu capítulo sobe a diferença dos sexos

no livro “História das Mulheres” (1993), “(

mulheres, as grande filosofias e os saberes mais autorizados consagraram as ideias mais falsas e mais desdenhosas a respeito do feminino.” (SISSA, 1990, p.86) Tudo o que se disse e se escreveu no debate sobre o feminismo de Platão chega a esta evidência; façam elas o que fizerem, e podem tentar fazer tudo, fá-lo-ão menos bem.(SISSA, 1990)

os grandes homens dizem mal das

)

Enquanto o pensamento erudito se limitar a reconduzir, em forma de certeza, o preconceito da inferioridade feminina, enquanto a identificação com o modelo masculino servir para fazer realçar as impotências das mulheres, cairemos na armadilha do sexismo, para o mais ou para o menos. (SISSA, 1990, p.121)

37

37

38

Capítulo 3 – Gênero, sexualidade e poder

3.1 Gênero e sexualidade nos dias atuais Tanto na Antiguidade quanto nos dias de hoje, a sexualidade faz parte das

relações sociais e é discutida de forma desigual. Lourdes Conde Feitosa traz

essa discussão em seu texto “Gênero e sexualidade no mundo romanoonde

ela propõe uma busca pela compreensão das relações estabelecidas entre os

universos femininos e masculinos, bem como das relações com o próprio

corpo, desejos e sentimentos, propiciam um conhecimento do heterogêneo, do

diverso e da complexidade que envolviam as relações sociais e históricas

romanas. (FEITOSA, 2008)

refletir sobre povos que já viveram tem sentido porque oferece perspectivas para pensarmos a sociedade contemporânea e avaliarmos os interesses e as motivações que estimularam as pesquisas de outros momentos históricos.”(FEITOSA, 2008,

p.122)

Diversas denúncias contra as desigualdades sociais, sexuais e raciais e as

formas de dominação do capitalismo ampliaram-se ao longo do século XX.

Nesse ambiente, tornaram-se mais frequentes as lutas contra as diferenças de

grupos marginalizados pelas estruturas instituídas. (FEITOSA, 2008, p.123)

A partir dai (principalmente a partir da década de 1970), diversas discussões

levaram a uma desconstrução de valores que eram considerados tradicionais,

inclusive a questão da sexualidade e de gênero. E isso promoveu um

questionamento sobre as definições do que é “ser homem” e “ser mulher” já

estas são construções sociais e comportamentais, e também sobre os

diferentes tipos de sexualidade e manifestações sexuais,

Colocava-se em pauta o tema da reinvenção de si, das possibilidades de se viver diferentemente do que se vive, experimentando-se a si mesmo a partir de livres escolhas e de novas interpretações, e isso resultou, também, em um novo olhar sobre o passado e a maneira de se organizar e desenvolver as pesquisas históricas. (FEITOSA, 2008, p.123)

E

graças às abordagens feministas, o papel da mulher foi colocado em debate

e

passou-se a discutir as relações de poder e a questionar a ideia de

39

inferioridade da mulher e do seu papel na sociedade. E essas discussões também foram levadas para o campo acadêmico, já que na historiografia (e aqui vamos falar sobre a historiografia sobre Antiguidade) até a década de 1960, as mulheres não recebiam muita atenção, já que elas não faziam parte da “verdadeira história” (a história que trata das guerras e das disputas políticas). Quando elas apareciam eram esposas, mães, filhas ou amantes de homens célebres, mas nunca como sujeito que possuíam uma história própria.

Essas discussões feministas vieram acompanhadas de uma reelaboração dos princípios teóricos das Ciências Humanas, até então pouco atentos às experiências femininas. Alargou-se o conceito de documento histórico e, além dos tradicionais escritos oficiais, também ganharam valor documental a iconografia, a numismática e muitos outros vestígios arqueológicos, permitindo, desde então, “trazer para a História” as experiências e os olhares femininos. (FEITOSA, 2008,

p.124)

A partir destas reflexões que valorizavam a diversidade, passou-se a aceitar

diversos perfis de feminilidade e de masculinidade e isso colocou em discussão

a noção de superioridade do “homem” sobre a “mulher”. Já a ideia da imposição masculina não consegue responder à diversidade de comportamentos e situações históricas.

Relembrando o conceito de gênero por Scott, percebemos que este está ligado a questões relacionadas às mulheres, porém expressão “gênero” também nos remete que qualquer dado sobre as mulheres nos leva a buscar informações sobre os homens, portanto, um implica o estudo do outro em uma perspectiva relacional. Esse estudo tornou-se em nossos dias atuais uma relevante perspectiva teórica no interior da pesquisa histórica. Essa categoria de análise da história é conceituada por Cemin (2003), como a construção cultural e simbólica das relações entre homens e mulheres, indicando que existem atribuições naturais para homens e mulheres que sejam fundadas biologicamente, porém, ao contrário dos autores antigos, que utilizam as diferenças biológicas para justificar as inferioridades da mulher perante o homem, a categoria de gênero veio para mostrar que trata-se de uma

40

construção com base histórica, cultural e social, e que são diferenças culturais

que infelizmente privilegiam os homens e oprimem as mulheres.

Ao que nos parece, uma forma de fazer uma história mais crítica sem partir do senso comum, está na tendência de levar em consideração tanto o masculino como o feminino na análise histórica, buscando a relação entre ambos os sexos em cada sociedade, fazendo da história da mulher e de suas atividades não só uma história à parte, mas sim procurando dar-lhe um status, ou seja, seu lugar na história global. (BARBOSA, 2006,

p.362)

3.2 Discussões de gênero e sexualidade no mundo romano

A sociedade do Império Romano, o maior Estado do Mundo Antigo, foi fundada

sobre valores patriarcais e masculinos, onde a figura do homem estava sempre

acima da figura da mulher. Assim, podemos compreender o comportamento

das mulheres, em sua maioria, a partir de registros masculinos. A imagem da

mulher passou a ser feita a partir de uma construção do imaginário masculino,

já que muitas das fontes que foram produzidas por mulheres foram apagadas.

(PERROT, 2013). Além disso, no âmbito da historiografia as mulheres são

tratadas em termos de desigualdade, inferioridades jurídicas e políticas e de

emancipação (THOMAS, 1993, p. 134). Desde a Antiguidade até o início do

século XX, a mulher era representada como um defeito da natureza.

Através da análise de poesias, mitos, romances e até mesmo da arqueologia, o

estudo sobre os sexos na Antiguidade vem sendo conduzido de forma

sistemática. Existem muitos desafios no estudo sobre as mulheres, até porque

a maioria das fontes sobre elas foram produzidas por homens, provando o

privilégio que eles tinham (e ainda têm) em relação à produção de documentos

e fontes históricas.

É evidente que, tanto na historiografia, em geral, como na Antiguidade romana, em particular, existem trabalhos sobre mulheres ou sobre aspectos a elas relacionados, porém a maior parte deles contempla as “mulheres célebres”, que mantiveram relações com homens famosos, as mulheres da casa imperial em Roma, ou, ainda, aquelas que se destacaram, positiva ou negativamente, por “aspectos

41

especiais”, tais como beleza, bondade, fidelidade, infidelidade, etc. (BARBOSA, 2006, p.353)

Neste trecho, Renata Cerqueira Barbosa relata um pouco de como as mulheres eram retratadas de forma a ser sempre uma “sombra” de seus parceiros, por fugirem dos padrões estipulados ou por estarem muito dentro deles. Essa linha de investigação, além de marginal, não atesta na verdade o que foi a vida da mulher ao longo da história, mas, pelo contrário, identifica-se como uma história vista pelo olhar masculino (CIRIBELLI, 1995, p. 138).

A tradição mitológica greco-latina guardou esta visão marginal sobre a figura feminina de forma explícita. Como exemplo, podemos recuperar a narrativa de Prometeu (COMMELIN, 1997, p. 99-101). Este deus astuto engabelou Zeus, retirando do carro do Sol o fogo divino, entregando-o aos humanos. Enfurecido, Zeus ordenou que Hefesto forjasse um instrumento para sua vingança: uma mulher dotada de todas as perfeições. Instruída pelos deuses e deusas, esta figura feminina ganhou uma caixa bem fechada e a orientação de Zeus para que a mesma fosse entregue a Prometeu. Esta mulher recebeu o nome de Pandora (do grego pan, tudo, e doron, dom). Desconfiado, quando Prometeu avistou Pandora e sua caixa misteriosa, não aceitou nenhuma corte sedutora. Epimeteu, seu irmão, desmanchou-se diante dos encantos de Pandora, tornando-a sua esposa. Com o tempo a caixa da danação foi aberta, liberando todos os males possíveis como uma artimanha da vingança de Zeus pelo roubo do fogo.

Dentro da tradição judaica, a presença feminina também recebeu uma atenção pejorativa. Na narrativa do Gênesis, Eva é apresentada como uma dócil personagem, mas manipulada pelo Satã, que a convenceu a comer o fruto proibido da Árvore do Conhecimento. Eva também teria sido a responsável por induzir Adão a cometer o mesmo delito. Como punição Deus expulsou o casal do Édem, marcando seus descendentes com o estigma da impureza (UNTERMAN, 1992, p. 94-95). Ainda sobre este ciclo mitológico, a posterior tradição rabínica anotou ainda a presença perturbadora de Lilith, a primeira esposa de Adão. Lilith reivindicou igualdade em relação ao marido; após o fracasso de seu pleito, partiu para um ressentido exílio, convertendo-se em um espectro demoníaco (UNTERMAN, 1992, p. 153-154). Assim, em ambas as

42

tradições antigas as mulheres foram retratadas enquanto seres malignos que trazem aos homens a avidez do desejo, o fim do contentamento e da autossuficiência.

Já no plano religioso, a mulher nunca ocupou o primeiro lugar, apesar de terem um papel importante nesta área. Um exemplo disso são as Vestais, que eram mulheres submetidas à obrigação da virgindade (já que uma mulher só era considerada pura se fosse virgem). A sexualidade feminina sempre foi reprimida de forma que ainda hoje uma mulher virgem é considerada uma mulher pura.

Em relação ao comportamento sexual, a cultura romana entendia esse aspecto

a partir da passividade e da atividade, na qual este último estava sempre ligado ao homem adulto livre, tanto nas relações heterossexuais quanto nas homossexuais, e o papel da passividade cabia a mulher e escravos (CARVALHO, 2012). O comportamento sexual representava status, quem estava acima na hierarquia mantinha um papel ativo. E, naquele contexto o termo “homossexualidade” não existia e um homem podia ter relações sexuais com outro homem 6 e isso não definia sua identidade sexual, desde que este exercesse um papel ativo, já que a passividade sexual masculina, segundo Sêneca, é uma “indecência e crime para os livres, fatalidade para o servo e obrigação para o liberto” 7 . No caso do adultério, as mulheres eram severamente castigadas (podendo até serem condenadas a morte), mas o homem não era obrigado a ter relações sexuais apenas com sua esposa. No entanto, o homem, casado ou não, deve respeitar uma mulher casada; não por respeito a esta, e sim ao seu marido. Um homem deveria respeitar o que era de outro, sua falta é essencialmente contra

o homem que tem poder sobre a mulher. (BARBOSA, 2006)

A sociedade romana tinha um significativo desprezo pela mulher, portanto, elas eram condicionadas ao campo do privado, controladas pelos seus familiares ou tutores; e uma série de proibições e deveres lhes eram impostas para que elas

6 A relação sexual entre dois homens era considerada uma prática erótica compatível com o casamento com o sexo oposto, não excludente, pois, da relação com as mulheres.

7 Impudicitia in ingenuo crimen est, in servo necessitas, in liberto officium. SÊNECA, Des Controverses, IV, 10.

43

se tornassem mulheres das boas famílias. E, mesmo em casa, que era

considerado o lugar da mulher, a autoridade era exercida pelo pater familias; já

sem exagero nem paradoxo, a

a mulher era unicamente um

objeto” (CIRIBELLI, 1995, p. 145).

mulher em Roma não era sujeito de direito [

no casamento, Ciribelli nos relata que “[

]

]

A maior das virtudes entre os romanos era a virilidade, a virtude política; os romanos desde a infância eram educados para serem dominadores; sempre e em qualquer lugar os romanos deveriam impor esse ideal de dominação sobre si mesmo e sobre os outros povos; essa dominação deveria ser até no campo sexual, pois o cidadão romano (civis romanus) adulto nunca deveria ser submisso (CANTARELLA, 1994, p.

98).

3.3 Agripina e seus estereótipos

O estereótipo da mulher que apresenta uma sexualidade transgressora pode

ser visto na caracterização de diversas personagens romanas, como é o caso

de Agripina Menor. E esse caráter fez com que Cláudio fosse visto como um

imperador fraco que não conseguia controlar a própria esposa e estabelecer a

ordem em sua casa. A sexualidade da mulher é mostrada como um elemento

essencial na criação de sua reputação e, consequentemente, na de seu

marido.

Aqui, podemos analisar a questão do gênero através de uma perspectiva

relacional. Ao mesmo tempo que Suetônio constrói uma Agripina, ele constrói

um Cláudio. Na visão suetoniana, não há como compreender o homem sem

compreender sua relação com as mulheres, e vice e versa.

O termo “gênero”, através de uma noção relacional, não permite que se possa

compreender os sexos de maneira separada. “Segundo esta visão, as

mulheres e os homens eram definidos em termos recíprocos e não se poderia

compreender qualquer um dos sexos por meio de um estudo inteiramente

separado.” (SCOTT, 1995, p.72) Assim, Natalie Davis afirmava, em 1975:

Penso que deveríamos nos interessar pela história dos homens como das mulheres, e que não deveríamos tratar somente do sexo sujeitado, assim como um historiador de classe não pode

44

fixar seu olhar apenas sobre os camponeses. Nosso objetivo é compreender a importância dos sexos, isto é, dos grupos de gênero no passado histórico. Nosso objetivo é descobrir o leque de papéis e de simbolismos sexuais nas diferentes sociedades e períodos, é encontrar qual era o seu sentido e como eles funcionavam para manter a ordem social ou para mudá-la. (DAVIS, 1975, p.90)

Entretanto, devemos tomar cuidado, como aponta Joan Scott (1995), pois essa visão remete a reciprocidade na interpretação dos gêneros, mas o termo “gênero” também é utilizado como uma forma primária de dar significado às relações de poder. Como haver uma reciprocidade justa nas interpretações de gênero se há uma enorme desigualdade de gênero instaurada? Essa utilização pode enfatizar o fato de que o mundo das mulheres faz parte do mundo dos homens, que ele é criado nesse e por esse mundo masculino, como se dependêssemos da visão dos homens para existirmos na História.

Assim, as mulheres, de maneira geral, aparecem, tanto na documentação contemporânea, quando na antiga, sendo relacionadas aos homens célebres, como suas esposas, filhas ou amantes, sem levar em consideração que essas figuras masculinas devem sua ascensão a elas também. Nero só se tornou imperador graças à mãe, assim como Cláudio só entrou para a Domus Augusta devido seu casamento com Agripina, que tinha uma descendência direta com Augusto. E, assim como este utilizou Agripina para conquistar seu lugar na Domus Augusta, Agripina utilizou essa descendência para entrar no jogo político. Ela passou por três governos de três imperadores ligados a ela:

Calígula, seu irmão; Cláudio, seu marido; e Nero, seu filho), e sempre teve um papel ativo na política. É importante lembrar também, que as mulheres eram essenciais na garantia das sucessões, pois a legitimidade dos filhos era garantida pela figura feminina.

Agripina foi alvo de estereótipos na obra de Suêtonio (mulher adúltera, ambiciosa e incestuosa) e um deles é o que indica seu comportamento sexual desviante. Quando o historiador faz uso deste estereótipo e relaciona sexo com política, Agripina aparece como uma ameaça à manutenção da ordem.

45

Segundo Tácito 8 , a conduta sexual de Agripina está relacionada com a

ambição e também é apontada por suas relações incestuosas com o irmão, o

tio e até mesmo com o filho. Seu casamento se deu por motivos dinásticos, já

que Cláudio queria dar continuidade a Domus Augusta. Porém, como Cláudio

era seu tio, e o incesto não era aceito pela opinião pública, precisou-se de uma

sanção por parte do Senado para que o casamento pudesse ser realizado. 9

Mas mesmo tendo sido aprovado, o casamento de Agripina e Cláudio contribui

para a fortalecer a imagem de Agripina como incestuosa.

A figura de Agripina como incestuosa, compreendida em um contexto de crítica a Nero, denota a incapacidade do imperador em manter a harmonia das relações políticas, sociais e até sexuais dentro de sua domus. Referimo-nos às relações

sexuais porque, além da presença do tópos que relaciona sexo

e política e da recorrente crítica à interferência de Agripina na política, as relações sexuais estabelecidas pelos membros da domus Caesarum poderiam ter implicações políticas, na medida em que possibilitavam a determinação de matrimônios

e sucessões. (AZEVEDO, 2012, p.135)

O fato de uma mulher utilizar sua sexualidade no jogo político ser considerado

algo repugnante, é reflexo de uma ideia da construção de gênero, que utiliza a

noção de que as motivações sexuais humanas são “instintivas” ou “naturais”,

para justificar comportamentos femininos e masculinos. Como se o homem

tivesse a necessidade de ter relações sexuais com diversas mulheres porque

faz parte de sua natureza, e como se a mulher fosse instintivamente submissa.

Até porque, não haveria como comprovar a legitimidade das sucessões e

descendências sem a garantia da fidelidade da mulher. Portanto, a sexualidade

do homem é considerada uma virtude, enquanto a da mulher, uma maldição.

3.4 Reflexões finais Graças aos crescentes estudos sobre as mulheres podemos compreender

melhor a participação delas no espaço social. Podemos identificar as mulheres

ricas, que eram identificadas pelo nome da sua família e também por meio da

8 Tac. Ann.

9 Cabe lembrar que o incesto, para os romanos, é tido como um ato imoral, que atenta contra a harmonia das relações humanas e divinas

46

política de benefícios e de construções públicas; no apoio financeiro a jogos e na distribuição de alimentos; nas relações pessoais, desenvolvidas por meio do sistema de clientela; no patrocínio a corporações de ofício e no gerenciamento de propriedades particulares e de negócios familiares. (FEITOSA, 2008)

Já as menos abastadas, exerciam atividades como tecelãs, vendedoras, taberneiras, açougueiras, cozinheiras, enfermeiras, perfumistas, etc. Há também referências da participação das mulheres em discussões políticas em escrutínios locais. Lourdes Feitosa (2008) nos prova isso através de Bernstein (1987), que afirma que na Pompéia romana, foram encontrados cartazes de propagandas eleitorais, denominados programmata, e grafites nas paredes onde as mulheres indicavam os seus candidatos e manifestavam o seu apoio. Elas também discutiam e opinavam sobre a política local, mesmo sem poderem, legalmente, participar das eleições.

As pesquisas contemporâneas ajudam a repensar a ideia do confinamento feminino ao lar, dedicada a fiar a lã e administrar a casa e, portanto, distante da vida pública, do fórum, do centro das decisões políticas e de poder. Segundo Laurence (1994), não há como separar o público do privado nas casas menores. Muitas vezes, as pessoas trabalhavam e moravam no mesmo local, e isso fazia com que homens e mulheres permanecessem juntos grande parte do tempo.

Essas pesquisam ajudam a repensar a ideia do confinamento feminino ao lar, dedicada a fiar a lã e administrar a casa e, portanto, distante da vida pública, do fórum, do centro das decisões políticas e de poder. A própria caracterização da casa romana como um espaço privado, destinado ao descanso e restrito à convivência familiar, agora é discutida sob um ponto de vista arqueológico. (FEITOSA, 2008, p.127)

Wallace-Hadrill (1994), por exemplo, considera o âmbito doméstico um lugar que nos mostra o quanto as mulheres estavam próximas da política, já que muitas vezes a casa funcionava como uma espécie de comércio onde surgiam discussões políticas e relações de clientelismo com pessoas de diferentes estratos sociais com visões diferentes.

47

Essa discussão sobre sexualidade é uma discussão contemporânea, já que até o século XIX essa expressão nem existia. Porém, podemos utilizá-la para discutir questões culturais sobre a forma que as pessoas lidavam com seus corpos, sentimentos e vontades. O estudo sobre a sexualidade permite uma historicidade do corpo e da prática sexual e como isso se encaixava nas relações sociais.

Assim, precisamos repensar as fontes dos trabalhos acadêmicos e parar de enxerga-las como algo sagrado e imutável. Compreender as relações entre homens e mulheres, a partir da perspectiva de gênero nos leva a trabalhos fecundos e profundos que vem sendo produzidos nas últimas décadas. (COELHO, 2015)

48

Considerações finais

Para finalizar, discutir sobre gênero e sexualidade é importante para refletirmos sobre nossos próprios conceitos e concepções e de como podemos encontrar na Antiguidade um repertório que nos ajudam a repensar as questões do mundo contemporâneo.

Ser mulher, tanto na Antiguidade quanto hoje é sofrer diversas opressões e silenciamentos, inclusive no campo historiográfico, mas, importantes discussões filosóficas, desde a década de 1970, permitiram uma revisão de valores tradicionais, expressaram uma vontade de libertação e promoveram questionamentos com relação aos padrões determinados pela sociedade. Se reinventar passou a ser uma possibilidade, e isso resultou, também, em um novo olhar sobre o passado e a maneira de se organizar e desenvolver as pesquisas históricas. (FEITOSA, 2008)

As discussões feministas exigiram uma revisão do papel da mulher na História, procurando dar voz a essas personagens e permitir com que outras mulheres pudessem se identificar com o campo historiográfico. Questionar as relações de poder foi muito importante para que grande parte da historiografia, que até a década de 1960 dava pouca importância às mulheres, pudesse enxerga-las como peças essenciais para se compreender a História, como indivíduos, e não apenas como esposas, mães ou filhas de homens considerados importantes.

Com a influência das reflexões pós-modernistas e a valorização do diverso e do heterogêneo no interior das sociedades, as discussões das epistemologias femininas ganharam complexidade e a ideia de uma essência feminina ou masculina tornou-se insuficiente para justificar os diferentes interesses de cada um deles em grupos socioculturais variados. A aceitação de diversos perfis de feminilidade e de masculinidade põe em discussão a ideia da supremacia do poder do “homem” sobre a “mulher” à medida que a noção generalizante de imposição masculina não pode dar respostas satisfatórias à diversidade de comportamentos e situações históricas. (FEITOSA, 2008, p.125)

49

Graças a esses estudos, podemos conhecer uma Antiguidade Romana mais dinâmica, complexa e mais próxima de nós do que imaginávamos. Além disso, as novas abordagens sobre as fontes possibilitam que enxerguemos novas relações entre gêneros e sexualidade.

Meu interesse em discutir sobre essa questão veio de algumas decepções com relação à retratação de personagens históricas e também pelas desigualdades de gênero que percebemos todos os dias. Ao tentar buscar um novo olhar sobre as mulheres do passado percebemos que elas sempre fizeram parte da História, mesmo quando foram colocadas de lado pela historiografia. Fomos, por muito tempo, retratadas por homens, mas hoje mostramos que somos (e sempre fomos) capazes de contar nossa própria história.

50

Referências

AZEVEDO, Sarah Fernandes Lino. A Domus Caesarum e as mulheres da Dinastia Júlio-Cláudia. In: História, Retórica e Muheres no Império Romano: um estudo sobre as personagens femininas e a construção da imagem de Nero na narrativa de Tácito. Ouro Preto: EDUFOP/PPGHIS, 2012.

. O adultério, a política imperial e as relações de

gênero em Roma (31 a.C – 68 d.C.)

Ciências Humanas (FFLCH) da USP, 2017.

(31 a.C – 68 d.C.) Ciências Humanas (FFLCH) da USP, 2017. . São Paulo: Faculdade de

. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e

BARBOSA, Renata Cerqueira. Gênero e Antiguidade: representações e discursos. In: Sedução e conquista: a amante na poesia de Ovídio. Universidade Federal do Paraná, 2002.

BERNSTEIN, F. S. The public role of Pompeian women. Michigan: Ann Arbor, 1987 e SAVUNEN, L. Women and elections in Pompeii. In: HAWLEY, R.;

CANTARELLA, E. Bisexuality in the Ancient World. New Haven and London:

Yale University Press, 1994.

CARVALHO, R. Trocando de sexo: uma reflexão sobre gênero nas Metamorfoses de Ovídio. In: LEITE, L. R.; SILVA, G. V.; CARVALHO, R. Gênero, religião e poder na Antiguidade: contribuições interdisciplinares. Vitória: GM, 2012, p. 58-70.

CEMIN, A. et al. Imaginário de gênero e violência em Porto Velho. Revista do Centro de Hermenêutica do Presente, Porto Velho, ano 1, n. 28, jan. 2003.

CIRIBELLI, Marilda C. Reflexões sobre a história da mulher em Roma. Phoînix, Rio de Janeiro: Sete Letras, 1995.

História, Sexualidade e Literatura no Império

Romano: Análise das representações de gênero nos livros das Metamorfoses de

nos livros das Metamorfoses de COELHO, Fabiano de Souza . Ovídio. Fato & Versões, v. 7,

Ovídio. Fato & Versões, v. 7, p. 1-15,n. 2015.

COMMELIN, Pierre. Mitologia Grega e Romana. São Paulo: Martins Fontes,

1997.

DAVIS, Natalie Zemon. Women's History in Transition: The European Case. Feminist Studies, 1957.

51

FAVERSANI, Fábio. Gênero, documentos e interpretações: Um estudo sobre Agrippina minor. Conferência apresentada no Ciclo Mare Nostrum, promovido pelo LEIR-MA-USP, em 2013.

FEITOSA, L. C. Gênero e Sexualidade no Mundo Romano: a Antiguidade em nossos dias, História: Questões & Debates, Curitiba, n. 48/49, p. 119-135, 2008.

FISCHLER, Susan. Social Stereotypes and Historical Analysis: The Case of the Imperial Womem at Rome. In: ARCHER, Léonie; FISCHLER, Susan and WYKE, Maria (ed.) Womem in anciente societies: an illusion of the night. New York:

Routledge, 1994.

FREISENBRUCH, Annelise. As primeiras damas de Roma: as mulheres por trás dos césares. Record: Rio de Janeiro, 2014

LAURENCE, R. Roman Pompeii: space and society. London: Routledge, 1994.

LEVICK, B. Women in Antiquity.

London: Routledge, 1995

MELLOR, R. 2011. Tacitus'

Annals. Oxford: Oxford University Pres s

Tacitus' Annals. Oxford: Oxford University Pres s PEDRO, Joana Maria. Relações de gênero como categoria

PEDRO, Joana Maria.

Relações de gênero como categoria transversal na

historiografia contemporânea.

Topoi (Rio J.)

[online]. 2011, vol.12, n.22

PACHECO, Denis. Roma antiga tratava com rigor infidelidade, mas só da mulher. Universidade de São Paulo: Jornal da USP, 2017

PERROT, Michelle; GEORGES, Duby. História das mulheres no Ocidente. Vol. 1: A Antiguidade. Edições Afrontamento: Porto, 1993.

.Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2013.

PINHO, Leda. A mulher no direito romano: noções históricas a cerca de seu papel na constituição da entidade familiar. Monografia apresentada ao Prof. Dr. José Sebastião de Oliveira como requisito parcial para aprovação na disciplina Direito Civil, do Curso de Pós-graduação em Direito Civil, em nível de Mestrado, da Universidade Estadual de Maringá – UEM, 2002.

ROUSSELLE, Aline. Pornéia: sexualidade e amor no mundo antigo. Editora brasiliense: São Paulo, 1984.

52

RODRIGUES, Nuno Simões. Agripina e as outras: redes femininas de poder

nas cortes de Calígula, Cláudio e Nero. Universidade de Lisboa, Gérion: 2008.

SCOTT, Joan Wallach. História das Mulheres. In: CARDOSO, Ciro Flamarion,

VAINFAS, Ronaldo. Peter (Org.). Domínios da história: ensaios de teoria e meto-

dologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação &

Realidade. Porto Alegre, vol. 20, nº 2,jul./dez. 1995.

História das mulheres. In. BURKE, Peter.(Org.) A Escrita da

História: Novas Perspectivas. São Paulo: Unesp. 1992.

SISSA, Giulia. Filosofias do género: Platão, Aristóteles e a diferença dos

sexos. In: PERROT, Michelle; GEORGES, Duby. História das mulheres no

Ocidente. Vol. 1: A Antiguidade. Edições Afrontamento: Porto, 1993

SÉNECA. Des Controverses. IV. 10. Paris: Librairie Garnier Frères, 1932.

SOBRAL, Aldo Eustáquio Assir. Suetônio revelado: o texto narrativo biográfico e

a cultura política em “As Vidas dos Doze Césares”. Rio de Janeiro: Universidade

Federal do Rio de Janeiro, 2007.

SUETÔNIO Tranqüilo, Caio. As Vidas dos Doze Césares. São Paulo: Atena, 4ª

edição, s/d.

TEIXEIRA, Laura Leonor Firmiano. Lívia e Agripina Menor: A presença feminina

no jogo político. Universidade Federal de São Paulo: São Paulo, 2013

THOMAS, Y. A divisão dos sexos no direito romano. In: DUBY, G., PERROT,

M. (Orgs.). História das Mulheres no Ocidente. v. 1: A Antiguidade. Porto:

Afrontamento, 1993, p. 127-199.

UNTERMAN, Alan. Dicionário Judaico de Lendas e Tradições. Rio de Janeiro:

Jorge Zahar Editor, 1992.

WALLACE-HADRILL, A. Houses and society in Pompeii and Herculaneum.

Princeton: Princeton University Press, 1994.