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SINCRETISMO E HIBRIDISMO na cultura popular

dossiê
Sergio F. Ferretti

Resumo Abstract
Embora rejeitado por muitos, o conceito de Although rejected by many, the concept of
sincretismo continua sendo utilizado por syncretism is still in use by many research-
pesquisadores e se mostra útil no estudo da ers and it’s proven to be useful for the study
religião e de outros aspectos da realidade so- of religion and other aspect of social reali-
cial. O conceito de hibridismo é considerado ty. The concept of hybridity is considered to
mais moderno e mais amplo, por abordar be more modern and capable of covering a
elementos da cultura não especificamente wider aspect of reality, for approaching
religiosos. As religiões afro-brasileiras e as nonspecifically religious related elements
culturas populares constituem oportunidade of culture. African-Brazilian religions and
fértil para rever reflexões sobre o tema. Que- popular culture offers rich opportunities to
remos discutir ideias em torno destes concei- review thoughts on the issue. We want to
tos e outros correlatos a partir de análises discuss ideas around these and other relat-
antigas e recentes de alguns pesquisadores, ed concepts from the analysis of recent and
tendo em vista sua centralidade na estrutu- old researchers’ works considering its cen-
ra das religiões e de outros aspectos da cul- tral role in our societies’ religious and oth-
tura em nossa sociedade. er cultural structure.

Palavras-chave Keywords
Sincretismo. Hibridismo. Crioulização. Reli- Syncretism. Hybridity. Creolization. Afri-
giões afro-brasileiras. Cultura popular. can-brazilian religions. Popular culture.

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1 Debates sobre sincretismo número de brancos, mulatos e indivíduos
de todas as cores que, em caso de neces-
Apresentamos aqui uma breve revisão sidade, vão consultar os negros feiticei-
bibliográfica de textos sobre sincretismo e ros, mesmo quando, em público, zombam
hibridismo e poderíamos indicar mais ou- deles. Diz que as práticas católicas, como
tros trabalhos. Selecionamos autores para as espíritas e a cartomancia receberam, na
mostrar a relevância do debate, sua conti- Bahia, influência do fetichismo negro (RO-
nuidade durante mais de um século até os DRIGUES, 1935). Devido ao prestígio de
dias atuais e a importância do tema entre seus trabalhos, a ideia de sincretismo como
nós. Diferentes pesquisadores discutem o ilusão da catequese ou como máscara da
assunto com posição diversificada, a favor dominação, permaneceu muito tempo nos
de um ou de outro conceito. Sincretismo estudos afro-brasileiros.
passou a ser identificado com a dominação Herskovits (1969) foi dos primeiros a
colonial e por isso considerado por muitos analisar o sincretismo nos estudos afro
como ultrapassado. Hibridismo é proposto -americanos, que define como forma de
como termo mais amplo. Ambos possuem reinterpretação, assinalando aspectos da
defensores e opositores, daí o interesse de mudança cultural, com transformações
uma revisão da literatura sobre a matéria de valores entre as gerações e apresenta
que apresentamos a seguir. exemplos relacionados com as religiões
Na época das pesquisas pioneiras sobre afro-brasileiras. Herskovits (1969) utili-
religiões afro-brasileiras de Nina Rodri- za o conceito de aculturação e informa
gues, o conceito de sincretismo era utili- que a palavra transculturação2, proposta
zado, mas não chegamos a localizar o uso em 1940 pelo cientista cubano Fernando
desse termo em seus escritos, embora mui- Ortiz, poderia ser empregada para expri-
tas vezes ele discorra sobre o fenômeno uti- mir a ideia de aculturação, se esta não
lizando expressões como fusão, dualidade estivesse tão fixada na literatura antro-
de crenças, justaposição de ideias religio- pológica. Até fins dos anos de 1950, os
sas, associação, adaptação, equivalência de estudos sobre sincretismo religioso no
divindades, ilusão da catequese e outras1. Brasil foram realizados quase sempre na
Rodrigues (1935) afirma ser considerável o perspectiva da teoria da aculturação3, da

1. Em 1901, no Année Sociologique, Marcel Mauss (1901, p. 224) em resenha ao trabalho de Nina Rodri-
gues (1935) recém-publicado em francês, elogia a elegante monografia do médico “baiano” que discute
elementos do sincretismo religioso afro-brasileiro.
2. Segundo Fernando Ortiz (1983, p. 90) “Entendemos que o vocábulo transculturação expressa melhor as
diferentes fases do processo transitivo de uma cultura a outra, porque não consiste somente em adquirir
uma cultura distinta, que é o que a rigor indica a palavra anglo-americana aculturação, mas que o proces-
so implica necessariamente a perda ou o desenraizamento de uma cultura precedente, o que poderia ser
dito como sendo uma parcial desculturação, e, além disso, significa criação de novos fenômenos culturais,
que poderia ser denominada de neoculturação.”
3. A teoria da aculturação foi desenvolvida principalmente pelo antropólogo americano Melville Hersko-
vits nos anos de 1930/50. Para ele a aculturação resulta de contatos contínuos e duradouros entre grupos
de culturas diferentes provocando mudanças nos padrões de um dos grupos ou de ambos. O autor realizou
vários estudos relacionados à aculturação de negros no Novo Mundo (HERSKOVITS, 1969).

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qual Herskovits era um dos principais seguição. Representa a religião dos senho-
teóricos. Para ele, a aculturação nunca res, transformada e apropriada pelos escra-
teve qualidade etnocêntrica, e o termo vos, aproveitando seus poderes no universo
não implica na afirmação de que cultu- do discurso. [...] Quero ressaltar que o sincre-
ras em contato se distingam uma da ou- tismo envolve necessariamente tanto a des-
tra em “superioridade”. truição quanto a reconstrução e, portanto,
Analisando a evolução do conceito de é intrinsicamente político (APTER, 2005, p.
sincretismo, Stewart (2005, p. 264) infor- 178-179).
ma que “ele adquiriu conotações positivas
ou negativas que permaneceram por muito Entre as décadas de 1950 e 1970, Ro-
tempo.” Lembra que, nos anos de 1950, na ger Bastide foi o autor mais conhecido e
antropologia norte-americana, aculturação que mais publicou no campo dos estudos
e sincretismo avaliavam positivamente os afro-brasileiros, interessando-se mais pela
graus de integração entre culturas diferen- preservação da pureza que julgava existir
tes. Comenta as contribuições e a visão po- no candomblé baiano, em oposição à de-
sitiva de M. Herskovits e apresenta críticas sintegração e à mistura que considerava
que começaram a surgir, na década de 1960, encontrar na macumba e na umbanda. Em
sobre tais conceitos e sobre a ideia de mel- diversos trabalhos Bastide (1971), refere-se
ting pot ou cadinho de integração cultural, ao sincretismo, que substitui pelo conceito
que se afirmava existir nos Estados Unidos. de interpenetração de civilizações. Por influ-
Stewart comenta também o discurso da Igre- ência de seus trabalhos, e por outros fato-
ja Católica que, na época do Concílio Vati- res, estudiosos das religiões afro-brasileiras
cano II, passou a ser mais crítica em relação abandonaram o interesse pelo sincretismo,
ao sincretismo. Na década de 1960, o con- passando a valorizar a denominada pureza
ceito de aculturação foi muito criticado nas africana, ou a tendência a valorizar grupos
Ciências Sociais, acusado de desconhecer e religiosos considerados mais tradicionais,
não combater a dominação e o colonialismo. puros e não sincréticos ou continuadores de
A partir daí, a ideia de sincretismo foi con- tradições africanas. Paralelamente ao rela-
siderada ultrapassada e foi suplantada por tivo abandono do termo pelos pesquisado-
outros conceitos e novas teorias. res, o conceito de sincretismo foi criticado e
Comentando a herança de Herskovits, rejeitado por líderes religiosos afro-baianos
Apter (2005) apresenta diversas críticas a em meados da década de 1980.
suas análises sobre o sincretismo nas religi- Em relação aos debates sobre sincretis-
ões afro-americanas. Repensa, entretanto, o mo, Fry (1984, p. 44) afirma:
sincretismo na diáspora africana como uma Penso então que o debate sobre o sincretismo
prática crítica e revisionista, que reconfi- religioso remete a toda uma discussão mais
gura os discursos dominantes com conse- ampla sobre o pensamento brasileiro a res-
quências significativas. Mostra que o Haiti peito do negro e de sua cultura em relação
representa a mais clara ilustração desta re- à cultura brasileira como um todo. Há uma
sistência. Considera que: forte tensão entre uma ênfase numa cultu-
O catolicismo do vodun, do candomblé e da ra nacional homogênea (sincretismo, mesti-
santeria não é uma máscara para esconder çagem) e uma outra nas especificidades cul-
a adoração de divindades africanas da per- turais com vistas a um pluralismo cultural.

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O antropólogo Serra (1995) discute lon- Consorte (1999, p. 78 - 79) constata que
gamente a problemática do sincretismo, o debate sobre o sincretismo se popularizou
analisando, sobretudo, a situação da Bahia. entre nós nas décadas de 1930 e 40 do sécu-
Não concorda que seja apenas uma mistura lo XX, quando interessava apenas aos meios
confusa de crenças heterogêneas relaciona- acadêmicos e à Igreja. A novidade foi que,
das, principalmente, com o uso de símbolos na década de 1980, começou a envolver a
e rituais católicos pelas religiões afro-bra- comunidade do candomblé na Bahia e a ser
sileiras. Propõe: divulgado nos meios de comunicação de
[...] que se chame de “sincretismo”, em senti- massa. Para a autora, que discute a rejeição
do estrito, a todo processo de estruturação de do conceito por líderes religiosos do can-
um campo simbólico-religioso “intercultu- domblé da Bahia, o sincretismo está ligado
ralmente” constituído, correlacionando mo- ao processo de inserção do negro na socieda-
delos míticos e litúrgicos ou gerando novos de brasileira e, consequentemente ao da (re)
paradigmas dessa ordem que assinalem ex- construção da sua identidade.
pressamente outros [...] de maneira a orde-
nar novo espaço intercultural (SERRA, 1995, Em outro trabalho Consorte (2010), co-
p. 197-198). menta a presença e permanência do sincre-
tismo no candomblé, apesar do Manifes-
Para Serra (1995, p. 216), to de 1983 de ialorixás baianas contra o
os seguidores do candomblé que defendem o mesmo. Consta que o sincretismo continua
sincretismo são acusados de incoerência de- presente em muitos terreiros tradicionais da
vido à incompreensão e ao desencontro polí- Bahia, tendo em vista que o catolicismo foi
tico-religioso. incorporado como estratégia de inserção do
negro em nossa sociedade e, por isso, não é
O autor constata que a maior parte apenas um disfarce descartável. Considera,
dos adeptos das religiões afro-brasileiras entretanto, que o antissincretismo é parte
defende a ligação de seu rito com o cul- da tomada de consciência da opressão e
to católico, numa atitude repelida tanto da exclusão do negro e ganhou espaço em
pela Igreja Católica como por certos lí- terreiros de Salvador e de outros Estados.
deres do candomblé. Serra (1995, p. 286) Tornou-se conhecido como reafricaniza-
considera, entretanto, “que a religião ção, como signo da luta do negro contra
dos orixás não é mais sincrética do que a exclusão, embora permaneça o estigma
o catolicismo.” contra as religiões afro-brasileiras, acentu-
Em 1997, foi realizado na Bahia o V ado hoje, sobretudo, pela intolerância das
Congresso Afro-Brasileiro em que foram religiões neopentecostais.
debatidos muitos temas e questões rela- Prandi (1999) divide a história das re-
cionadas ao sincretismo, antissincretismo, ligiões afro-brasileiras em três fases: o pe-
reafricanização, renovação do candomblé ríodo inicial de sincretização; o de bran-
e outros. Um dos livros resultantes deste queamento, com a formação da umbanda,
evento (CAROSO; BACELAR, 1999), reúne entre 1920-30; e o de africanização, a par-
trabalhos de Josildeth Consorte, Reginaldo tir de 1960, com a transformação do can-
Prandi, Sergio Ferretti, Vagner da Silva, domblé em religião universal. Considera
Pierre Sanchis e de outros. que até 1930

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as religiões negras poderiam ser incluídas haver escrito demais sobre este conceito.
na categoria de religiões étnicas ou de pre- Diz que, nos últimos anos, o tema sofreu
servação de patrimônios culturais dos anti- uma série de objeções. Discute o problema
gos escravos negros e de seus descendentes teórico do sincretismo em posições antagô-
(PRANDI, 1999, p. 93). nicas – a de não haver sincretismo, a do
sincretismo como categoria ideológica, a
Só recentemente, segundo o autor, elas do carácter vazio deste conceito e a aceita-
começaram a se desligar do catolicismo. ção descritiva do conjunto desses fenôme-
Afirma que o movimento de africanização nos. Procura analisar modalidades do sin-
do candomblé cretismo católico em Portugal e no Brasil e
procura desfazer o sincretismo com o catoli- do ecletismo religioso brasileiro.
cismo e recuperar elementos rituais perdidos Em outro artigo sobre Sincretismo e
na diáspora, além de reaprender a língua io- Pastoral, Sanchis (1999) discute a atua-
ruba (PRANDI, 1999, p. 97). ção de agentes de pastoral negro na Igreja
Católica, constatando que militantes deste
Silva (1999) comenta a dessincretização movimento, por um lado, rejeitam o sin-
ou reafricanização de alguns segmentos do cretismo tradicional e, por outro lado, para
candomblé, lembrando a utilização religio- resgatar a identidade negra, problematizam
sa da etnografia e do saber acadêmico na o encontro entre catolicismo e religiões de
construção da identidade dos grupos afro origens africanas, considerado como ecu-
-religiosos entre nós. Afirma que menismo popular.
as etnografias realizadas nos terreiros mais Sanchis (2001) tem publicado muitos
afamados contribuem para a generalização trabalhos sobre sincretismo, entre os quais
e valorização da tradição religiosa neles en- “Fiéis e Cidadãos”, coletânea com dois tra-
contrada (SILVA, 1999, p. 151). balhos seus sobre o campo religioso bra-
sileiro e sobre “missa afro” e com textos
Vagner comenta também a realização de outros autores que relacionam o sincre-
de cursos de ioruba e a ida de pais e mães- tismo com pentecostalismos, evangélicos,
de-santo à África. Considera que, se no toré, movimento carismático católico, ju-
passado a reafricanização conviveu com o ventude e modalidades sincréticas. As re-
sincretismo, hoje lideranças importantes do flexões de Pierre Sanchis sobre sincretismo
candomblé afastam influências católicas e em relação à Igreja Católica e a outros as-
ameríndias e outras misturas. Afirma que pectos das religiões no Brasil têm sido mui-
a reafricanização constitui uma tendência to estimulantes e contribuído para ampliar
crescente em várias regiões do país, sobre- as análises deste tema.
tudo em São Paulo e se caracteriza pela re-
tirada de práticas católicas do candomblé. 2 Outros debates
Em trabalho pioneiro, Sanchis (1995)
propôs sair da definição do senso comum O tema do sincretismo continuou sen-
de sincretismo como mistura no campo do do debatido por estudiosos brasileiros e
outro de duas ou mais religiões e operar estrangeiros. Diversos pesquisadores de
uma transposição de nível análoga a que outros países têm publicado obras sobre
Lévi-Strauss fez com o totemismo por já se sincretismo. Stewart e Shaw (2005), após

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apresentarem uma visão sobre a história do novas formas híbridas. Afirma que, numa
conceito que acumulou um peso pejorativo, definição geral, sincretismo é a combina-
afirmam que o sincretismo não é um termo ção de elementos de duas ou mais tradições
com significado fixo, pois seus sentidos fo- religiosas diferentes dentro de uma estrutu-
ram historicamente constituídos e recons- ra específica (STEWART, 2005).
tituídos. Consideram que identificar um Peter Van der Veer (2005) considera
ritual ou tradição como sincréticos é dizer que o termo sincretismo faz parte do de-
pouco, pois todas as religiões têm origens bate sobre religião, refere-se a uma política
compostas e são continuamente reconstitu- de diferença e identidade e que a noção de
ídas. Parece-lhes mais importante focalizar poder é crucial no seu entendimento, se-
o processo da síntese religiosa. Lembram parando as práticas verdadeiras das falsas.
que é necessário confrontar o sincretismo Afirma que o sincretismo é visto positiva-
com o antissincretismo, que se relaciona mente, por alguns, como por promover a
com a construção da autenticidade e com tolerância e negativamente, por outros, por
a noção de pureza e que tanto as tradições promover o declínio da fé pura. Segundo
puras quanto as sincréticas podem ser au- Van der Veer (2005, p. 209),
tênticas. Lembram também que o multicul- o multiculturalismo parece ter substituído o
turalismo não é necessariamente antissin- termo sincretismo no discurso sobre a socie-
crético, como os fundamentalismos e que dade moderna e secular.
o sincretismo participa de negociações de
identidades e hegemonias em situações de Considera, entretanto, que ambos os ter-
conquista, comércio, migrações, casamen- mos pertencem a um discurso de tolerância
tos mistos e resistência cultural. e harmonia.
Stewart (2005) afirma que, com Plutar- Rudolph (2005) afirma que o conceito
co, no séc. I a.C, o termo sincretismo ti- ambíguo de sincretismo pertence ao in-
nha conotações positivas de união ou fusão ventário da terminologia conceptual da
contra o inimigo comum; no século XVII, história da religião e requer exame urgen-
adquiriu conotação negativa, sendo visto te. Apresenta uma análise do significado e
como reunião ou unificação ecumênica en- das origens do termo desde a Grécia aos
tre várias doutrinas cristãs. Diz, ainda, que tempos modernos e sua avaliação em es-
essa visão negativa permaneceu por muito tudos recentes. Como resultado desta aná-
tempo. Para Stewart (2005), na teoria social lise, considera que: 1) o conceito de sin-
contemporânea, processos como globaliza- cretismo desempenha papel de designação
ção, migração e formação de diásporas são universal e relativamente neutra para con-
temas de grande interesse. Neste campo, a tatos culturais e religiosos que podem ser
palavra sincretismo reaparece vinculada a considerados como mistura; 2) seu uso re-
conceitos como hibridação cultural e criou- quer uma terminologia uniforme que não
lização, como meios de capturar a dinâmi- foi ainda estabelecida entre as designações
ca do processo global atual. Lembra que como: simbiose, aculturação, identificação,
a ideia de pureza cultural se tornou total- amálgama, fusão, assimilação, transforma-
mente suspeita na antropologia e acarreta a ção, metamorfose, substituição, ecletismo,
premissa de que não há tradições religiosas síntese, relativismo e outras; 3) a natureza
puras. Todas as religiões inovam e forjam do sincretismo é caracterizada por palavras

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como: transposição, alienação, ambiguida- inversão iniciática e o esquema sacrificial.
de, com acordo, que expressa a dinâmica Afirma que esquema é um conceito da geo-
da religião. Entre os vários tipos de sincre- metria, derivado de tradições funcionalistas
tismos apresentados Rudolph (2005), consi- e neo-kantianas que pode ser sinônimo de
dera que os mais relevantes são: simbiose, categorias de pensamento. Considera que o
amálgama ou fusão, identificação, meta- trabalho com esquemas leva o antropólogo
morfose ou transformação e isolamento. a dizer que, quanto mais a coisa é a mesma,
Berner (2005) afirma que, nos últimos mais ela muda. Diz que esta afirmação tal-
anos, tem havido um crescente interesse vez seja a conclusão de sua reflexão sobre
pelo fenômeno do sincretismo religioso. O a bricolagem africana.
conceito é encontrado com frequência na No segundo trabalho Mary (2000) afirma
discussão das religiões contemporâneas. que, no estudo das religiões, o termo sincre-
Houve a publicação de muitos trabalhos tismo possui, geralmente, conotação negati-
dedicados ao estudo do fenômeno. O termo va, sendo visto como a religião dos outros.
sincretismo, entretanto, costuma ser usado Considera que, nas últimas décadas, a atua-
sem uma definição clara. Constata assim lidade do termo tem se manifestado, vincu-
que é praticamente impossível estabelecer lado à temática da pós-modernidade e que o
uma teoria do sincretismo. Considera ne- sincretismo tem revelado não confusão, mas
cessário definir conceitos próximos de sin- diálogo ecumênico entre culturas. O autor
cretismo, afirmando que diversos têm sido visita longamente obras de Lévi-Strauss e
usados como sinônimos, tais como: asso- Roger Bastide, examinando, entre outras, as
ciação, fusão, identificação, síntese, etc. noções de sincretismo e de bricolagem. Lem-
O francês André Mary publicou, em 1999 bra que o sincretismo afro-americano tem
e em 2000, dois livros refletindo sobre sin- sido atacado pelos missionários neopente-
cretismo a partir de pesquisas que realizou costais como pacto com o demônio e com o
durante dez anos sobre a religião de Eboga paganismo e, pelos intelectuais da tradição
no Gabão. No primeiro livro, (MARY, 1999), negra yoruba ou bantu, como herança da es-
discute a pertinência do termo sincretismo cravidão e uma traição das raízes africanas.
enquanto categoria analítica. Apresenta Hibridismo cultural é um conceito an-
a hipótese de um sincretismo originário, tigo desenvolvido e utilizado, sobretudo
como dado primeiro de que se deve partir, por teóricos da pós-modernidade. O tema
dispensa refletir sobre sua lógica e conside- do hibridismo interessava a Charles Darwin
ra que o sincretismo está em toda parte. O (KERN, 2004), ao estudar o cruzamento de
autor informa que, na África negra, os cul- espécies diferentes e incompatíveis que
tos contra a feitiçaria, no período de início gera seres estéreis. Da biologia, o termo
da colonização, são precursores dos mo- passou a ser aplicado ao estudo das raças
vimentos proféticos que procuram raízes humanas. Atualmente, o conceito continua
nas tradições, provocando uma bricolagem sendo discutido tanto na Biologia quanto
interétnica da qual emerge um sincretismo em outras áreas. Hoje se discute, sobretu-
intercultural. Para apreender o trabalho do, o hibridismo cultural. Os debates sobre
sincrético na análise de mitos, de rituais e hibridismo ressurgem nos estudos pós-co-
de figuras divinas, Mary (1999) adota certo loniais, principalmente no campo da crítica
número de esquemas – o genealógico, o de literária, das artes e na antropologia.

Sincretismo e hibridismo na cultura popular 21


Nestor Canclini (1997), em fins da dé- fins do século XX, associada ao surgimento
cada de 1980, foi dos primeiros a discutir de novos mercados financeiros e ao capital
o hibridismo do ponto de vista político. global. No lugar das expressões tradição e
Canclini (1997) prefere o termo hibridação, modernidade, que têm sido criticadas, Hall
pois considera que sincretismo se refere propõe que se utilize preferentemente o ter-
principalmente a fusões religiosas ou mo- mo hibridismo.
vimentos simbólicos tradicionais, e mesti- Para Hall (2000), o hibridismo, o sin-
çagem se relaciona com mesclas raciais. cretismo e a fusão entre tradições cultu-
Para Canclini (1997), a expansão urbana rais diferentes produzem novas formas de
é uma das causas que intensificam a hibri- cultura apropriadas à modernidade tardia,
dação cultural. Segundo Canclini (1997), a mas possui custos e implica no relativismo,
hibridez tem um trajeto longo na América na perda de tradições locais e no aumento
Latina, desde as formas sincréticas criadas dos fundamentalismos. Segundo o autor, o
pelas metrópoles ibéricas. Inclui entre elas termo hibridismo caracteriza culturas cada
os escritores argentinos do grupo Martin vez mais mistas. Hall (2000, p. 93) afirma
Fierro, o “Manifesto Antropofágico” do Mo- que o hibridismo cultural não se refere ape-
vimento Modernista no Brasil e numerosos nas à composição racial mista de uma po-
artistas atuais do continente. Inclui o grafite pulação e está relacionado com
e os quadrinhos como gêneros constitucio- a combinação de elementos culturais hetero-
nalmente híbridos. Para o autor, a hibridi- gêneos em uma nova síntese – por exemplo,
zação permite a sobrevivência das culturas a ‘crioulização’ e a ‘transculturação.
tradicionais e da cultura de elite. Por des-
tacar a interação crescente entre o culto, o O inglês Burke (2003) afirma que todas
popular e o massivo, sua obra foi bem re- as formas culturais são mais ou menos hí-
cebida pelos pesquisadores de artes visuais, bridas e que a fusão de culturas diferentes
de cultura popular e de cultura de massas. A é uma consequência da globalização, mas
visão de Canclini é basicamente otimista em acredita na reconfiguração de culturas e
relação ao conceito de hibridismo, que con- no surgimento de novas formas de criouli-
sidera criativo, libertário e fertilizador. zação do mundo. Para Burke (2003, p. 14)
O jamaicano inglês Hall (2003), um dos “não existem fronteiras culturais nítidas
que têm escrito mais sobre diversidade cul- entre grupos e sim um contínuum cultural.”
tural e multiculturalismo, considera que Lembra que surgiram muitos teóricos dos
existem muitas sociedades multiculturais e hibridismos. Considera que práticas híbri-
diversos multiculturalismos. O multicultu- das podem ser identificadas na religião, na
ralismo não é algo novo, e, como o sincre- música, na linguagem, no esporte, nas fes-
tismo já estava presente no mundo helêni- tividades e em outras atividades.
co, em termos de interação, entre o centro Diz que:
e a periferia. Os impérios e os sistemas co- Devemos ver as formas híbridas como o re-
loniais são multiculturais, mas o fenômeno sultado de encontros múltiplos e não como o
tem se intensificado após a Segunda Guer- resultado de um único encontro, quer encon-
ra Mundial e nas últimas décadas. Segundo tros sucessivos adicionem novos elementos à
Hall (2003), a globalização também não é mistura, quer reforcem os antigos elementos
algo novo, mas assumiu novas formas em (BURKE, 2003, p. 31).

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Para o autor, o hibridismo se relaciona mito da democracia racial, que consideram
com a ideia de circularidade cultural e com relacionado com a supremacia do branco e
termos ou ideias como empréstimo cultural, do racismo científico. Lembra que sacerdo-
crioulização, imitação, mistura, tradução tes das religiões afro-brasileiras recomen-
cultural, e outros. Apesar de existirem de- dam um processo de dessincretização.
masiados termos e conceitos, parece-lhe que Assunção (2005) considera que, embora
precisamos de um rico vocabulário neste do- o hibridismo pareça ser um conceito mais
mínio pela variedade de situações e contex- atual e adequado, tem o inconveniente,
tos em que ocorrem os encontros culturais. como metáfora biológica, de sugerir um
O antropólogo sueco Hannerz (1997) processo natural de mistura. Lembra ou-
considera que, apesar do tom biológico, tros conceitos como o de transculturação
o termo híbrido é forte principalmente no proposto por Fernando Ortiz e o de diglos-
campo dos estudos literários, relacionan- sia proposto por M. Lienhard. Afirma que
do-se a existência de duas línguas dentro considera o conceito de crioulização (R.
de uma única fala, como comenta Bakhtin Price) como mais adequado, por assumir os
na obra de Rabelais. Afirma que, para Homi processos contraditórios da interação cul-
Bhabba, hibridez sublinha a subversão da tural, por ter a vantagem de se referir ao
autoridade da cultura colonial, mas o uso processo de hibridismo cultural no contex-
em diferentes sentidos analíticos tornou o to do Atlântico Negro e por não sugerir a
termo repleto de ambiguidades. Hannerz mera fusão, mas a possibilidade dinâmica
(1987) diz que culturas ou línguas crioulas de convergência, associação e paralelismo
são aquelas que, surgidas de alguma forma sem mistura.
de duas ou mais fontes históricas extrema- O conceito de hibridismo tem sido dis-
mente diferentes, tiveram algum tempo para cutido por diversos autores inclusive da
se impregnar e desenvolver. Considera Han- área de letras e de comunicações. Outro
nerz (1987) que a macro antropologia que conceito, neste campo, é o de criouliza-
leva em conta o sistema mundial de relações ção. Em trabalho clássico, Mintz e Price
entre centro e periferia, se beneficia com o (2003) desenvolveram a ideia do surgi-
conceito de crioulização que se baseia no es- mento de formas culturais afro-america-
tudo comparativo entre culturas. Parece-lhe nas originais no processo depois designa-
que todo o mundo está sendo crioulizado. do de crioulização. Price (2001) comenta
Continuando o debate sobre o tema, As- críticas a seus trabalhos e sobre a adapta-
sunção (2005) discute conceitos relaciona- ção cultural dos escravos africanos e seus
dos com o hibridismo cultural na cultura descendentes nas Américas. Considera
popular brasileira. Constata que o sincretis- que a crioulização resultaria uma rápida
mo é visto como mistura confusa de cren- assimilação dos escravos africanos numa
ças heterogêneas, sendo considerado como nova cultura híbrida.
o processo pelo qual a religião do coloni- Em artigo sobre crioulização na Bahia,
zador foi imposta e aceita pelo colonizado. Parés (2005) afirma que o conceito tem sido
Relata que o sincretismo atualmente é re- mais utilizado em relação a sociedades do
jeitado por negros, líderes religiosos, inte- Caribe e do sul dos Estados Unidos e consi-
lectuais e militantes anti racistas, que não dera-o criticável pela ambiguidade semân-
aceitam a apologia da mistura e rejeitam o tica. Afirma que

Sincretismo e hibridismo na cultura popular 23


a crioulização conota a ideia de hibridação e com a presença de raízes puras anteriores à
síntese cultural, quando não de assimilação mistura e que é difícil especificar o que não
às práticas e valores dominantes já estabele- é híbrido. Considera que, apesar das críti-
cidos (PARÉS, 2005, p. 93). cas que lhe possam ser feitas, o conceito de
hibridismo constitui um aporte importante
Diz que a crioulização implica novas para a compreensão das misturas.
formas de pensar e falar, novas institui- Inspirado em outros estudos, Engler
ções e identidades em função de oscilações (2009) propõe que se fale em hibridismo de
demográficas. origem – que chama atenção para a história
O historiador francês Gruzinski (2001), interna das instituições (como a mistura de
analisando o enfrentamento do Ocidente raízes religiosas); hibridismo de encontro –
com as sociedades indígenas, marcado por que marca o contexto da interação social e
relações de tipo colonial e por diversas for- cultural e as estratégias de influências entre
mas de misturas, emprega a palavra mesti- os participantes (como por exemplo, a diás-
çagem para designar misturas ocorridas no pora); e hibridismo de refração, que se refere
continente americano entre seres e formas à extensão que as variações entre fenôme-
de vida vindas de quatro continentes. Apli- nos religiosos ou culturais refletem tensões
ca o termo hibridação a misturas dentro de sociais numa cultura ou nação específica. O
uma mesma civilização ou conjunto histó- autor afirma que a cultura brasileira repre-
rico como a Europa Cristã ou a Mesoaméri- senta um importante caso para se repensar
ca. Afirma também Gruzinski (2001) que o as relações religiosas entre raça, classe, sin-
sincretismo religioso é outra forma de mis- cretismo e hibridismo, representando uma
tura ou mestiçagem de crenças e ritos. Con- rica paisagem religiosa e uma complexa his-
sidera Gruzinski (2001) que os termos mis- tória de combinação racial e cultural.
tura, mestiçagem e sincretismo provocam Como vimos nesta revisão, os conceitos
sensação de confusão, suscitam dúvida ou de sincretismo, hibridismo, crioulização e
rejeição. Considera que as dificuldades para outros continuam sendo muito discutidos.
pensar a mistura não são exclusivas das ci- Seu debate demonstra o crescente interesse
ências sociais e que o fenômeno físico da pelo tema, tanto entre estudiosos do Brasil
mistura dos fluidos é um processo imper- quanto de outros países, tendo em vista a
feitamente compreendido pelos cientistas. importância do problema no mundo atual,
Para Engler (2009), o termo hibridismo onde o multiculturalismo está muito pre-
atualmente desempenha papel proeminente sente. Em nossa sociedade, país que dizem
no estudo da religião, especialmente das re- ser mãe do sincretismo, a mistura cultural é
ligiões da diáspora e na teoria pós-colonial, um fenômeno central na religião, na cultu-
por dar maior ênfase à mistura cultural. Diz ra popular, como nas relações sociais, polí-
que sincretismo é a mistura de elementos ticas e econômicas, embora não possamos
religiosos, enquanto hibridismo representa discutir aqui todos estes aspectos. Vimos
uma mistura mais ampla de outros elemen- que os vários autores dão preferência a um
tos culturais, incluindo relações entre reli- ou a outro destes conceitos para estudar a
gião e o contexto histórico, político, social mistura cultural, havendo em geral pouca
e cultural. Lembra que hibridismo se rela- concordância entre os mesmos.
ciona com o discurso racial do século XIX,

24 R. Pós Ci. Soc. v.11, n.21, jan/jun. 2014


3 Sincretismo nas religiões e nas culturas licos e as religiões afro-brasileiras. É uma
populares brasileiras igreja religiofágica ou comedora de reli-
gião, que constitui seu repertório simbólico
Constatamos que o encontro e a mistura ressemantizando pedaços de crenças de ou-
de elementos de diversas religiões e outros tras religiões. Considera que ela não nega
elementos da cultura estão muito presente as entidades religiosas afro-brasileiras, mas
na sociedade brasileira e pode ser eviden- muda-lhes o significado, daí o seu sucesso
ciado no estudo de diferentes manifesta- nas regiões onde as religiões afro-brasilei-
ções religiosas. O sincretismo e o hibridis- ras estão implantadas (ORO, 2007).
mo ocupam posição central na estrutura Abordando outro tipo de experiência re-
religiosa e em diversos aspectos das cul- ligiosa, Moreira (2013) analisa a atuação de
turas populares no Brasil. A problemática Mestre Irineu na consolidação da religião
do encontro e da mistura entre religiões e do Santo Daime. Considera que esta religião
culturas está relacionada com as religiões propagou instigante mescla de elementos
de origens africanas, com o catolicismo culturais heteróclitos e salienta o carácter
popular, com o espiritismo, com as religi- híbrido da rotinização do carisma do Mes-
ões da Nova Era, com os Pentecostalismos tre maranhense. Menciona o hibridismo e o
e com outras religiões, como também com ecletismo nesta religião com a mistura de
as festas populares, como é muito evidente elementos de origens ameríndias, afro-bra-
entre nós. Vimos como os autores citados sileiras, do catolicismo popular, de traços
discutem a dificuldade de se refletir sobre culturais espíritas, esotéricos e outros.
misturas e que nosso país representa uma Podemos apresentar também alguns
oportunidade importante para se discutir exemplos de misturas, hibridismos e sin-
sobre pluralismo, mestiçagem, sincretismo cretismos em diversos aspectos da cultu-
e diálogo entre culturas. ra popular. No Maranhão, a realização de
Silva (2013) tem discutido o fenômeno festas tradicionais costuma ser incluída no
do encontro entre religiões afro-brasileiras calendário religioso das casas de culto afro.
e pentecostais. Em trabalho recente Silva O tambor de mina pode ser considerado um
(2013), faz comentários sobre globaliza- dos elementos importantes de preservação
ção, mestiçagens e hibridismos, discutindo das festas e tradições populares. Muitas
os trânsitos de Exu, seus muitos nomes e festas da cultura local são realizadas nos
mitos e a triangulação mítica entre Europa, terreiros por exigência ou para agradar en-
África e as Américas, num diálogo de longa tidades espirituais. Assim, além dos rituais
duração entre suas cosmologias. Refere-se específicos do culto, os terreiros do Mara-
à aproximação e absorção do sistema afro nhão costumam organizar festas da cultura
-brasileiro pelo neopentecostalismo, sobre- local como o bumba-meu-boi, o tambor de
tudo praticado pela Igreja Universal do Rei- crioula, a festa do Divino Espírito Santo e
no de Deus (IURD). outras que são oferecidas a determinadas
Refletindo sobre a intolerância religiosa entidades cultuadas em cada casa.
IURD em relação às religiões afro-brasilei- O bumba-meu-boi é considerada a prin-
ras, Oro (2007) diz que ela é antropofágica, cipal festa do folclore maranhense, sendo
é a mais católica das igrejas evangélicas e realizada em homenagem aos santos cultua-
se situa a meio caminho entre os evangé- dos no mês de junho. Recentemente foi reco-

Sincretismo e hibridismo na cultura popular 25


nhecida como patrimônio cultural do Brasil. Açores. Em São Luís e em outros lugares
É uma festa que inclui elementos brancos, do Maranhão, a festa do Divino é realiza-
indígenas e negros, contando com a parti- da principalmente nos grupos de culto afro.
cipação de muitas pessoas, com vestimentas Costuma ser realizada em homenagem a
caras e ritmos musicais diversificados. Nos uma entidade importante da casa que é de-
terreiros, costuma ser realizada uma festa vota do Divino. Ocorre durante vários dias,
conhecida como boi de encantado, marcada envolve muitas pessoas, inclui o levanta-
pelos rituais do batizado e da morte do boi. mento de um mastro votivo, mulheres que
Diversas entidades caboclas dos terreiros são tocam caixas cantando versos em homena-
homenageadas com esta festa. gem ao Divino e crianças ricamente vesti-
O tambor de crioula, que também foi das representando personagens do império.
reconhecido como patrimônio da cultu- No dia principal da festa, os participan-
ra imaterial, é uma dança de negros, típi- tes assistem a missa numa igreja católica
ca do Maranhão, em que homens cantam quando o império é coroado. Atualmente,
e tocam tambores de madeira ou de PVC tem sido apoiada por órgãos governamen-
e mulheres cantam, dançam e dão entre si tais como fonte de atração turística, como
uma umbigada ou punga. É uma dança de ocorre com outras manifestações da cultura
divertimento que ocorre em qualquer época popular. Pesquisas recentes Santos (2014)
do ano, inclusive no carnaval e nas festas constatam que, desde fins do século XIX,
juninas. É também oferecida em pagamen- eram realizadas festas do Divino em casa
to de promessa a santos católicos, como de culto afro-maranhenses. O mesmo autor,
São Benedito. Afirma-se que São Benedito, citando outra pesquisa, constata que, atual-
por ser negro, gosta de tambor de crioula mente, das 79 festas registradas atualmente
e é considerado como seu padroeiro. Nos em São Luís, 61 ou 2/3 são promovidas por
terreiros São Benedito, é sincretizado com casas de culto afro-religiosas.
o vodum daomeano Averequete, cultuado As festas religiosas constituem compo-
no tambor de mina. O tambor de crioula é nente importante das religiões populares, em
dançado nos terreiros de tambor de mina, que o sincretismo se encontra intimamente
em homenagem a entidades que o apreciam relacionado e pode ser visto como um para-
como os Pretos-velho e entidades caboclas lelismo entre rituais de origens africanas, do
de origens diversas. Nestas circunstâncias, catolicismo popular e de outras procedên-
pode ocorrer o transe religioso durante seus cias. Paralelismo entre ideias e valores que
toques. Trata-se de uma dança profana de estão próximos, mas não se confundem. Este
divertimento que, ao mesmo tempo, faz sincretismo religioso e cultural, às vezes, é
parte da religiosidade popular e é conside- denominado de hibridismo pelos que prefe-
rada como fator de definição e preservação rem este conceito. As grandes festas popu-
da identidade étnica de negros maranhen- lares brasileiras com o carnaval, o bumba-
ses das classes populares. meu-boi, a festa do Divino, as congadas e
Outra festa popular comum nos terreiros outras se caracterizam pela junção de ele-
do Maranhão é a festa do Divino Espírito mentos de procedências diversas. São festas
Santo, ritual do catolicismo popular, lar- barrocas, como acontece com o desfile das
gamente difundido no Brasil, considerado Escolas de Samba do Rio de Janeiro (CA-
como trazido por portugueses das Ilhas dos VALCANTI, 1994) e outras festas brasileiras.

26 R. Pós Ci. Soc. v.11, n.21, jan/jun. 2014


Concordamos com autores que consideram terreiros, e as festas em geral não se iniciam
as festas populares brasileiras como uma numa sexta-feira. Assim, o calendário dos
continuidade da civilização barroca que dei- santos e do tempo eclesiástico católico cos-
xou marcas profundas entre nós. tuma ser preservado nos terreiros de tambor
Nos terreiros de tambor de mina do Ma- de mina. Nos dias de festas, antes do início
ranhão, são preservadas muitas práticas do dos toques do culto, costuma ser cantada
catolicismo oficial e popular e a participa- uma ladainha em latim, seguida de hinos
ção em rituais da Igreja católica é frequen- aos santos, muitas vezes acompanhadas por
te. Quadros e imagens de santos são expos- banda de música.
tos no altar católico e nas paredes do salão Constatamos que o tambor de mina e,
de danças. Nos dias das principais festas, é sobretudo, os grupos mais tradicionais es-
costume a casa mandar celebrar uma missa tão intimamente relacionados com as prá-
na igreja da qual participam e comungam ticas do catolicismo. Mesmo casas mais
diversas filhas de santo, principalmente as recentes seguem muitas destas práticas.
mais relacionadas com a entidade come- Os poucos terreiros de candomblé de rito
morada na data. Quando morre uma filha nagô, implantados no Maranhão a partir
de santo, realiza-se missa de sétimo dia e, da década de 1980, seguindo práticas do
ao mesmo tempo, os rituais fúnebres na candomblé da Bahia e prestigiados pelos
casa. Os membros do terreiro e seus fami- movimentos negros, negam o sincretismo,
liares são batizados ao nascer, e o batismo afastam-se do catolicismo e estão envolvi-
católico é praticamente um requisito para o dos com o processo de reafricanização.
ingresso no terreiro. Vemos que os terreiros de mina seguem
Os terreiros seguem o calendário da igre- tradições de origens africanas com elemen-
ja, e as festas de cada casa são comemoradas tos de procedência europeia e ameríndia.
nas principais datas dos santos. Quase todos As entidades cultuadas são voduns, orixás
os terreiros realizam festas no dia de Santa e caboclos que costumam ser agrupados em
Bárbara, de Nossa Senhora da Conceição, de famílias. No tambor de mina, estão presentes
Santa Luzia, no dia de Reis, no dia de São muitas formas de encontros entre religiões e
Sebastião, de São João, de São Pedro, de culturas diferentes, como pode ser contata-
Cosme e Damião e outros. Costumam tam- do na categoria encantado4. No Maranhão,
bém realizar rituais na quarta-feira de cin- são cultuadas diversas famílias de entidades
zas, no sábado de Aleluia, na época da festa constituídas por encantados, muitos são reis
de Pentecostes e em outras datas. No período ou príncipes e chamados de gentis (fidalgos).
da Quaresma, não costuma haver festas nos Outros são caboclos, alguns possuem nomes

4. Segundo Mundicarmo Ferretti (2000b, p. 15): “O termo encantado é encontrado nos terreiros de Mina,
tanto nos fundados por africanos, quanto nos mais novos e sincréticos e nos salões de curadores e pajés.
Refere-se a uma categoria de seres espirituais recebidos em transe mediúnico, que não podem ser obser-
vados diretamente ou que se acredita poderem ser vistos, ouvidos ou sentidos em sonho, ou por pessoas
dotadas de vidência, mediunidade ou percepção extra-sensorial. [...] Apresentam-se à comunidade religi-
osa como alguém que teve vida terrena há muitos anos e que desapareceu misteriosamente ou tornou-se
invisível, que se encantou. A categoria encantado do tambor de mina lembra também as histórias de
princesas encantadas divulgadas no folclore dos contos infantis.”

Sincretismo e hibridismo na cultura popular 27


indígenas e diversos são encantados em ani- diferentes de outros, embora quase sempre
mais. No tambor de mina, mesmo voduns os rituais tenham relações com outros de
africanos são conhecidos como encantados. origens diversas. Podemos exemplificar
Entre os encantados homenageados nos ter- com o sacrifício de animais e a dança ritual
reiros do Maranhão, podemos destacar: a nas religiões de origens africanas, que são
família de Dom Luís Rei de França; a famí- típicas destas religiões. Embora, em outras
lia de Dom Sebastião, considerado encanta- religiões, possa haver sacrifícios de animais
do num touro, a família do Rei da Turquia, e danças, estes rituais não são comuns na
também chamado de Ferrabraz de Alexan- maioria como são importantes e frequentes
dria. Existem diversas outras famílias de en- nas religiões afro-brasileiras. Assim, po-
cantados que incluem entre outros, nobres, demos considerar como momentos de não
caboclos, marinheiros, como pode ser visto sincretismo, rituais como a dança e o sacri-
em (FERRETTI, 2000). fício de animais.
Verificamos que, nas religiões afro-ma- O processo de mistura, fusão ou hibri-
ranhenses, há confluência ou mistura de dismo parece ser o mais frequente. Ex. ritu-
elementos culturais e religiosos de proce- ais católicos adotados pelo povo de santo,
dências diversas. Nesta confluência, é fá- como participação da missa, batizado, la-
cil constatar a presença de elementos da dainhas, procissões, apresentações de festas
literatura e da história de origem europeia, de bumba-meu-boi ou de tambor de criou-
com elementos de origens ameríndias e la para entidades espirituais dos terreiros,
brasileiras e, evidentemente, outros de ori- promessas dos brincantes de participar de
gens africanas, representados pelos voduns determinadas festas, o uso de símbolos das
e orixás, que também estão organizados religiões africanas nas missas afros. Nestes
em famílias. Constatamos que mais do que processos, ocorre a utilização ou mistura
grupos religiosos de origens africanas, os dos mesmos rituais em religiões diferentes.
terreiros de tambor de minas constituem O processo de paralelismo ou justaposição
grupos religiosos afro-brasileiros. As tradi- pode ser exemplificado nas relações entre
ções de origens africanas foram desenvol- orixás e santos católicos ou com outras en-
vidas aqui junto com tradições brasileiras tidades. Parece ser dos processos mais co-
nas quais o catolicismo popular está inti- muns e que têm sido mais observados.
mamente relacionado. O processo de convergência ou adaptação
Conforme Ferretti (2013), podemos con- pode ser encontrado nos valores ou ideias
siderar o sincretismo como englobando básicas de manifestações diferentes como
quatro categorias ou processos diferentes, mitos similares, conceitos como obrigação,
que podem ocorrer num mesmo ambiente brincadeira e outros usados na religião e
em momentos ou em rituais específicos, a na cultura popular. No tambor de mina do
saber: separação (não sincretismo); mis- Maranhão, as entidades cultuadas pedem a
tura, fusão ou hibridismo; paralelismo ou realização de festas populares nos terreiros,
justaposição; convergência ou adaptação. os voduns dizem que são devotos dos santos
É oportuno comentar um pouco mais católicos como, por exemplo, Averequete
estes processos. Tanto na religião como na que adora São Benedito. Também se diz que
cultura popular, há momentos hipotéticos São Benedito por ser negro, gosta de tambor
de não sincretismo, quando ocorrem rituais de crioula que é uma dança de negros.

28 R. Pós Ci. Soc. v.11, n.21, jan/jun. 2014


4 Conclusões: relação às religiões de origens africanas no
sincretismo e hibridismos Brasil, em africanização e reafricanização.
A trajetória desses conceitos permite visu-
Bourdieu (2008) afirma que não se pode alizar disputas acadêmicas e políticas, que
buscar o poder das palavras nas palavras, acompanham análises da realidade social.
onde ele não se encontra. A autoridade Sincretismo, cultura, identidade, etnicida-
que se reveste a linguagem vem de fora. de, hibridismo, multiculturalismo e outras
A eficácia simbólica das palavras não está categorias sociais complexas, necessitam
nas formas de argumentação, de retórica e continuar a ser pensadas e repensadas, com
de estilística (BOURDIEU, 2008). A palavra a colaboração de diferentes ciências e cor-
precisa ser apresentada e reconhecida como rentes de pensamento. É importante lem-
legítima, o que depende de condições insti- brar que a própria definição dessas diversas
tucionais para que o discurso seja reconhe- categorias continua constituindo um desa-
cido. A escolha das palavras possui também fio para os especialistas.
importância decisiva. As palavras possuem Constatamos, com vários autores, que o
um significado simbólico, incluem carga conceito de sincretismo, juntamente com o
ideológica, incluem relações sociais de co- de hibridismo e outros, embora negados por
municação e dominação e estão associadas alguns, são importantes para a compreensão
a preconceitos. Para Bourdieu (2008), não de muitos aspectos das culturas e das religi-
existem palavras neutras. Assim, a pre- ões e que o tema remete a cultura brasileira
ferência por um ou outro conceito não é como um todo. Diferentes autores dão prio-
apenas um jogo de palavras ou questão de ridade à utilização de um ou outro destes
terminologia. Segundo Bourdieu (2008), conceitos, de acordo com preferências teó-
a produção e circulação de bens culturais ricas, por razões empíricas, ou pela ênfase
acompanha a unificação do mercado de a aspectos específicos da realidade. Muitos
bens simbólicos. comentam o crescente interesse que tem ha-
Podemos ilustrar a respeito, a preferência vido nos últimos anos sobre este debate.
pelo uso de certos conceitos como religiões Hibridismo remete a uma metáfora bio-
afro-brasileiras – de uso tradicional, ou reli- lógica adotada no século XIX, muitas vezes
giões de matrizes africanas – preferido pelos na perspectiva de imprimir carácter cientí-
membros de movimentos negros. Também fico ao comportamento humano. Apesar de
a preferência pelo conceito de hibridismo, discordâncias, o sincretismo tem a vanta-
considerado mais moderno, ao conceito de gem de ser um conceito que também é usa-
sincretismo, considerado como ultrapassa- do nos terreiros de culto afro, certamente
do, por se acreditar que esteja relacionado por influência dos antropólogos.
com a ideia de dominação colonial. Alguns como Canclini (1997) preferem
Durante mais de um século, através de o termo hibridismo por considerarem que
correntes teóricas diferentes, muita coi- sincretismo está mais relacionado com re-
sa foi escrita sobre o sincretismo. Alguns ligiões e hibridismo com outros aspectos
acham que se deve evitar falar em sincre- da cultura. Originalmente, hibridismo é um
tismo que dizem provocar mal estar em cruzamento fecundo entre variedades ou
vários ambientes. Outros falam em antis- espécies diferentes que pode provocar ano-
sincretismo, dessincretização, ou ainda, em malias. Sincretismo é uma união ou mis-

Sincretismo e hibridismo na cultura popular 29


tura de ideias ou doutrinas heterogêneas, tos similares. Devido ao mito da pureza
ou a fusão de elementos culturais diferentes original, a ideia de mistura, geralmente é
(FERREIRA, 1999). Atualmente, o conceito considerada como um aglomerado indiges-
de sincretismo tem sido evitado e critica- to, sobretudo em relação às religiões. Em
do por muitos líderes religiosos afro-bra- muitos outros aspectos da cultura, como
sileiros e pelos movimentos negros. Outros na alimentação, a mistura ou combinação
conceitos têm sido propostos como criouli- adequada de ingredientes é essencial para a
zação e mestiçagem. preparação de bons pratos. Entre as socie-
Alguns destes termos e outros correlatos dades e culturas, o isolamento é empobre-
possuem conotações específicas em deter- cedor e a mistura, fertilizante.
minadas disciplinas como na biologia, na Podemos concluir dizendo que não reco-
física, na química, na matemática ou na nhecemos a existência de grandes diferen-
linguística. Nas ciências humanas, especial- ças entre sincretismo e hibridismo, embora
mente na antropologia e na história, mui- possam ser diferenciados. Alguns preferem
tas vezes tais termos são utilizados como utilizar sincretismo para eventos especifica-
sinônimos. No campo das ciências huma- mente religiosos e hibridismo para eventos
nas, apesar todos os avanços, e do rigor de outra natureza. A nosso ver, o concei-
dos conceitos utilizados, a separação entre to de sincretismo se encontra estabelecido
os mesmos é diferente do campo das ciên- na literatura e divulgado há muito tempo.
cias exatas e muitas palavras são utilizadas Inspirado em Mauss (1974), podemos con-
como sinônimo de outras. A delimitação de siderar que, em sociedades como a nossa, o
fronteiras, que é importante para o estudio- sincretismo pode ser considerado como fato
so, nem sempre está presente na realidade social total, relacionado com instituições
social. Cada autor convenciona, à sua ma- religiosas, políticas, familiares, econômicas,
neira, o uso das palavras e, com o tempo, estéticas, culturais, que, ao mesmo tempo é
algumas conotações passam a ser adotadas imposto e voluntário. A sociedade brasileira
por outros e se tornam consensuais na área. é complexa e se caracteriza pelo encontro e
Segundo Bourdieu (2008), as palavras não a mistura entre povos e culturas diversas, e
são neutras, constituem bens simbólicos, e este encontro é enriquecedor. Assim a mis-
é preciso uma unificação no mercado de tura e o sincretismo constituem elemento
bens simbólicos. Daí a preferência ou o uso central em nossa sociedade, como pode ser
dos conceitos de hibridismo ou de sincretis- evidenciado, entre outros aspectos, nas reli-
mo pelos diferentes pesquisadores. giões e na cultura popular.
Sabemos que, na religião e na cultu-
ra popular, ocorrem sempre adaptações a
novas circunstâncias e contextos, fusão de
manifestações de diferentes origens, mu-
danças que não são devastadoras ou incoe-
rentes como pode ser imaginado pela lógica
cartesiana. Cremos ser fertilizante a influ-
ência mútua entre tradições distintas, daí a
importância e o interesse de se continuar
repensando o sincretismo e outros concei-

30 R. Pós Ci. Soc. v.11, n.21, jan/jun. 2014


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Recebido em: 08/09/2013


Aprovado em: 14/01/2014

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