Anda di halaman 1dari 263

.Jo .r ti G II ii h e/' 11/ i:

MERQUIOR
o
Liberalismo
Antigo e Moderno

... Eu admirava cm Mcrquior


um dos espíritos mais vivos
c melhor informados
de nosso tempo.

Claude Lévj-Strauss

320.51
M5671
CMS
''Effe lá/ro rle.JOf! GI/I/!Je/"///e Ale/C////ór t-; 1I///tI jlt'fljl/ÚII
úlo.i-li", t' t'fli//II/I.mlt' .ro!5lt' 1/ !JúlólÚ t' t'/'o/;I(ilo
tlaleonÍlli/Jeral tlnfle o Jéátlo XVllao It!//I)JO jJre.re/lle.
CO///!?;!'I" I///Itl t'//Ol///{; l':fjl/t'ZII fie :i;jrJI//ltlf-ik.r . _..
'!"l/ljJít't'll f/c'lllt'/llt'lllt' rOI/t/c'IIItlfi; -- (DI/! 1)('1I('IIJ/II('
aprnenlaçdo tlOJ le///aJ o?tllraú tio /Í'f;e;;;lú//lo, LUerü-e,
aJJ;/7/, OJ 7///1/5 dltOJ eloglOJ. "

ERNEST GELLNER
ProfeSsor
Cambridge Universicy

"Um /;i;ro i;wporldll/e jo!5re /1//1 1//oVI///elllo


fimdH/Zenlal tia polít;(;t7 b-/otkma:
, .. E.1i:;l7io m/I/
t'l'//{/;(,jo, liol'lÚ t' IJ;lI,tlrJ. "
. I
!!
PIERRE M~\NENT
Colkge Je France, Paris

I 'Mertj'lliorjôrça-noJ ale/J.?~rar C/lle O /Í'f;ertTlú///o 10//


.ritlo /1m movimenlo In/é'maciona!. EJJe /Íi;ro é 11/7/
'Iollr de jôrce', o prot/;t/o f"1e III/II/ //fte/lle pO(/c:ro.!'1 é·'
elegan/e in/é'//-d//Zen/e t.r von/afie 6'/// ///elo (71////
ex/raortli/Jtírio 1/I/mero tk C/11111Ii'lf, "

JOHN A. HALL
Profcs5or ele S()(iolo~ía
Ihrvard LJnivn5ity

~t&
--
EDITORA
NOVA
FRONTEIRA

SEMPRE
UM BOM
LIVRO
Sumário

Prefácio - Roberto Cam pos..................................................................... 1

1 D e fin iç õ e s e p o n to s d e p a r t i d a ............................................ 15
Liberalismo....................................................................................... 15
Liberdade e autonom ia................................................................... 21
Três escolas de p ensam ento.......................................................... 27
O indivíduo e o Hslado................................................................... '>2

2 /l.v raízes do liheralismo.................................................. ,'(r>


1*«imeiras lonles m odernas............................................................ ‘i.r>
O legado do Iluminismo........................ ........................................ 49

3 L ib e r a lis m o clássico, 1 7 8 0 - 1 8 6 0 ..................................... 05


Locke: direitos, constMilimcnlos c confianç,! .............................. (>0
De Locke a Madison: humanismo cívico
e republicanismo moderno ........................................................... 69
Whigs e radicais: o nascimento da idéia liberal democrática ... 76
Os primeiros liberais franceses: de Constant a Guizot.............. 82
O liberalismo analisa a democracia: Tocqueville....................... 87
O santo libertário: John Stuart M ill............................................. 95
Em direção ao liberalismo social: Mazz.ini e Herzen ................. 101
Os discursos do liberalismo clássico............................................ 105
4 Lihcralisvios covscma dores............................................
Conservadorismo liberal e liberalismo conservador..................
Liberais conservadores evolucionistas: Bagchot c Spencer......
O liberalismo consfntlor de nações; Sarmienlo <• Alberdi.......
O segundo liberalismo francês: de Rcmusat a R e n a n ...............
Sciniliberalisino: do ReciilssUial alemão a Max W c b c r...............
Croce e O rte g a ................................................................................
Conclusão .........................................................................................

5 Dos novos liberalismos aos neoliberalismos................


As reivindicações do liberalismo social........................................
De Kelsen a Keyncs: liberalismo dc esquerda no entre guerras
Karl Poppcr e uns poucos moralistas liberais do após-guerra ..
Neolibcralismo como neoliberismo: dc Mises a llayek,
e a leoria da escolha pública..........................................................
I.iberalismo sociológico: Aron e DahrendoiT..............................
Os neocontratnalistas: Rawls, No/.ick e B obbio.........................
C onclusão........................................................................................

C.oiichtMio...................................................................................................
Cronologia....................................... ;.........................................................
Notas e, referências bibliográficas.... :..........................................................
Leitura complementar......................í.........................................................
Índice..........................................................................................................
Prefácio
Merquior; o liberista

“Este é u m livro liberal so b re o liberalism o, escrito


p o r a lguém q u e acred ita q u e o liberalism o, se e n te n d id o
a p ro p ria d a m e n te , resiste a q u a lq u e r viiiíicação.”
— Mc rr ji ii or , nn i n t r o d u ç ã o ;io l.jhrrniisin - OI.il m u i N rw

A p a rtid a d e Jo s é G u ilh e rm e M erquior, aos '19 anos, n o ap o g eu d a


| >i i «li il ividíii Ir, pare< '«'• um i i iir l deíipn ilIVii >, Dt-ilfi Ia/. de.wan <oi
sas, Fabrica gênios e d epois q u e b ra o m olde. As vezes dá v on lade
d e a g ente, c o m o n o p o e m a d e M urilo M endes, in tim a r o C ria d o r
a n ã o re p e tir a p iada d a Criação...
L egou-nos u m a rica o bra, q u e vai d a crítica literária à filosofia,
à sociologia e à ciência política. E screvendo em inglês e francês,
co m (luência igual à exibida em sua língua naliva, M e rq u io r (em
hoje c o m o sociólogo um a projeção internacional s o m e n te c o m p a ­
rável à alcançada em sua época p o r G ilberto Frcyre, em seus pio­
neiro s estu d o s sociológicos. Só q u e mais diversificada, pois que
a b ra n g e im p o rta n te s excursões na filosofia e na ciência política.
Omagnum opm de M erquior é s e m d u v id a 0 liberalismo - nn-
t i ^ t i tt «'mci í Io q u a n d o a in d a r m l i a i ü . i d o i u<i M é x ic o , n u m
c u r t o p e r í o d o d e q u a t r o meses, S o m e n t e u m a p r o d i g i o s a e r u d iç ã o

a c u m u la d a lh e p e r m i t i r i a d e s e n h a r c m tã o p o u c o t e m p o esse c atc-
d r a le s c o m u r a l q u e d e s c re v e a lo n g a e x ig u c z a g u e a n le p e r e g r in a ç ã o

7
2 0 liberalismo - anligo e moderno

h u m a n a e m busca d a sociedade jaberta. Talvez M e rq u io r p re sse n ­


tisse q u e o ro n d av am as Parcas e q u e se im p u n h a u m esforço d e
c o ro a m e n to d e obra.
Faltava-nos, em relação ao liberalism o, aquilo q u e T o y n b e e j
cham ava d e visão “p a n o râ m ic a ao invés d e m ic ro sc ó p ic a ”. Essa
lacuna foi p re e n c h id a pelo sobrevôo intelectual d e M erquior, que
cobre mula m enos que (rés séculos. Seu livro será um a indispen­
sável referência, pois q u e analisa as d iferen les v ertentes do libe­
ralism o com sobras d e eru d iç ão e im e n sa c ap acid ad e d e avalia­
ção. Mais do q u e u m a simples história das idéias, é u m ensaio de
crítica filosófica.
A publicação d a versão brasileira do Libem/ism - O/d and New
n ã o p o d e ria vir n u m m o m e n to imais o p o rtu n o . E q u e o m u n d o
assiste a g o ra à vitória do liberalism o e m suas d uas faces — a d e m o ­
cracia política e a ec o n o m ia d e m e rc a d o — n ã o a p e n a s co m o d o u ­
trina intelectual, cuja evolução M e rq u io r traça c o m m aestria, mas
co m o praxe política.
N o A n n u s Mirabilis d e 1989 pode-se dizer que, ao ru ir o m u ro
de Berlim, term in o u a q u e ria fria e n tre o capitalism o e o co m u ­
nismo. Este deixou d e ser u m paradigm a. E p a ra alguns um pesa­
delo, p a ra o u tro s u m a nostalgia, p a ra n in g u é m u m m odelo.
O A n n u s Mirabilis d e 1989 será visto, em perspectiva, co m o u m
dos g ra n d e s divisores d e ág u a d a história, com p arável talvez ao de
1776, q u a n d o c o m eç o u a desenhar-se a g ra n d e passagem do m e r­
cantilism o p a ra o capitalism o liberal e a d e m o crac ia constitucional.
Este século, q u e alhures ch am ei d e “século esquisito”, assistiu
ao fe n e c im e n to e à re ssu rre iç ã o d o lib eralism o . O lib eralism o
e c o n ô m ic o p re g a d o em 1776 p o r A dam S m ith s o m e n te viria a
loniai-se a doiit) ina vitoriosa em m eados d o século XIX. ( lonti iliuiu
p a ra o fortalecim ento da d em o cra cia política e p a ra a p ro sp e rid a d e
d a belle époque.
O s desafios socialistas era m d o u trin á rio s antes q u e práticas de
governo. A revolução Soviética d e 1917 iniciava a “era coletivista”
Prefácio - Merquior, o libemla 3

d e esq u erd a , e n q u a n to o nazi-facismo viria a r e p re s e n ta r u m “cole-


tivism o” d e direita.
A g ra n d e dep ressã o dos a n o s 30 e n fra q u e c e u o capitalism o
liberal e surgiu o keyn esianism o co m o d o u trin a salvadora. E ste se
baseava e n tr e ta n to n u m a sobrecst.imação d a c ap acid ad e d os gover­
nos d e g e stio n a r a e c o n o m ia através d e u m a “sin to n ia fina” das
variáveis m acroeconôm icas.
O ueoliberalism o e c o n ô m ic o só ressurgiria c o m o prnxis política
n a d é c a d a d os 80. Se o p e r ío d o e n tre 1920 c 1980 foi a “e ra coleti-
vista”, c o m o a ch am o u Paul J o h n s o n , e n tra m o s nesta últim a déca­
da na id a d e liberal. O u , co m o M e rq u io r faz n o ta r p ito re sc a m e n te ,
“nos úllim os anos da d écada d e 1!M0, os socialism os fizeram o p a­
pel d e juizes; nos úllim os anos d a d é c a d a d e 1980, eles p ró p rio s
estão s e n d o ju lg a d o s ”.
E m fo rm o so e stu d o rec en te, o g ra n d e p a tr o n o d a e c o n o m ia
liberal, M ilton F rie d m a n , in te r p re ta a o n d a d e liberalism o e c o n ô ­
m ico q u e s o p ra n o m u n d o c o m o a “te rc e ira m a r é ”, d e sd e o A nnus
Mirabilis d e 1776.
Nesse, (rês coisas a c o n tec e ram sim u lta n e am e n te, sem q u e os
c o e lân e o s p ercebessem suas co nseqüências majestáticas — o nasci­
m e n to d o liberalism o ec o n ô m ico , o desla n ch e d a R evolução In ­
dustrial e a criação d e u m m o d e lo d e d e m o c ra cia política pela Re­
volução A m ericana. Q u e m vivesse n o a n o 1776 n ã o saberia q u e u m
livro — A riqueza das nações — e u m c u rto d o c u m e n to político — a
D eclaração d e Filadélfia — dos reb eld es n o rte-a m e ric an o s m u d a ­
ria m a face d o m u n d o .
Essa foi a p rim e ira m aré. Viria d epois a “m a ré coletivista”, que
invadiu a m a io r p a rte deste século. F ried m a n d á a essa m aré, qu e
e x p a n d iu o intervencionism o do Kslado e a p e q u e n o u as liberda­
des d o indivíduo, o n o m e d e marr fabinna. E q u e ele atrib u iu o fer­
m e n to in telectual d o coletivism o à fundação d a S ociedade Fabiana
pelos socialistas ingleses, em 1883. Estes pregavam a “m a rc h a gra­
d u a l p a r a o socialism o”. T al im p u ta ç ã o é arbitrária, pois talvez se
4 O liberalismo - antigo e nodem o

possa dizer qno o grande desafio ao liberalismo proveio d o Manifesto


comunista d e M arx e Engels, d e 1848. A “terceira m a r é ”, q u e está
d e s p o n ta n d o n a atual dé c ad a com a ressurgem cia do liberalism o
econ ôm ico , teria c o m eçado c om o u tro livro — O caminho da servidão
— d e Mayek, publicado em 1(> M.
F rie d m a n a p o n ta características interessantes nessas m arés d a
história. A “p rim e ira ” é q u e elas com eçam co m o u m fe n ô m e n o
p u r a m e n te intelectual; um desafio h erético às d o u trin a s correntes.
A nos 011 d écadas se passam antes de se tra n sfo rm a re m cm ação
política. A dam Sm ith achava que, ao p re g a r o livre com ércio, esta­
va p re g a n d o u m a utopia. E n tre tan to , 70 anos depois, c om a abro-
gação da Lei do Milho na Inglaterra, liberava-se o com ércio d e grãos
e. 8(> an o s d epois, a In g la te rra e a França assinavam o tra ta d o
C o b d e n de livre com ércio.
A fe rm en ta ç ão coletivista, q u e no c o n tin e n te e u r o p e u c o m e ­
çou com Marx e na Inglaterra com os fabianos, com eçaria a inva­
dir o m u n d o c o m o c o l a p s o da velha o rd e m n a .Segunda ( í u c iia
M undial e com o a dvento d a Revolução Russa, quase 70 anos d e ­
pois d o M anifesto com unista. O golpe quase m o rta l n o liberalismo
seria a Cirande D epressão dos anos 30. Foi a falência da e m p re sa
privada q u e a n em izou o liberalism o, da m esm a form a q u e nesta
d é c a d a a falência do E stado c o m eç o u a m a ta r o coletivismo. As
teorias d e Ilayek tiveram q u e h ib e rn a r '10 anos. D u ra n te esse p e ­
río d o , além d o m arx ism o , vicejou o ke y n e sian ism o , q u e sobre-
estim ava a capacidade dos governos d e m a n ip u la r in stru m e n to s
fiscais p a ra estabilizar a e c o n o m ia e evitar o d esem p re g o .
A “o u tr a ” característica interessante, se g u n d o F rie d m a n , é que
as novas m arés se fo rm a m q u a n d o as antigas atin g em seu apog eu.
O m arx ism o e o fabianism o n asc eram q u a n d o o liberalism o d e ra
ao in u n d o quase u m século d e p ro s p e rid a d e ec o n ô m ic a e p ro p i­
ciava c resc e n te lib e rd a d e polílica. A m a ré n eo lib cra l c o m e ç o u ,
p a r a d o x a lm e n te , no au g e d o in te rv e n c io n ism o govern am ental,,
d u r a n te a Seg unda C.nerra M undial. E n tre ta n to , só nesta década
Prefácio - Merquior, o liberista 5

dos 80 após fracassadas d u a s experiências coletivistas, o nazismo


c o co m u n ism o , e u m a e xp e riê n cia dirigista — o keynesianism o — é
q u e o n e o lib e ra lism o c h e g o u a o p o d e r político. A eleição d e
M a d a m e T h a tc h e r n a I n g la te rr a e d o p r e s id e n te R e a g a n nos
Estados U n id o s m arco u o divisor d e águas.
A terce ira característica é q u e os p e río d o s d e liberalism o eco­
n ô m ic o in d u z e m u m certo g ra u d e lib e rd ad e política, e n q u a n to o
coletivism o e co n ô m ico é h a b itu a lm e n te associado ao d esp o tism o
político, co m o aco n te ce u co m H itle r e Stalin.
S e rá a p r e s e n te asc en sã o n e o lib e ra l a p e n a s u m re flu x o d a
m a ré ou estarem os lace a u m fe n ô m en o histórico novo, o casam ento
d a d e m o c ra c ia po lítica c o m a e c o n o m ia d e m e rc a d o ? Francis
Fukuyam a, fun cionário d o D e p a rta m e n to d e Estado, n u m artigo
intitulado "O lim da histó ria”, q u e p rovocou g ra n d e controvérsia,
p r e te n d e q u e a história d o p e n s a m e n to sobre os p rincípios fun­
d am e n ta is q u e governam a organização política e social estaria ter­
m inada al ravés da vitória d o lil ici alisim >p o lllim <• <•< ouóm ii o. Ijiím>
m arcaria não só o lim d a Cluerra Fria m as a prevalência d e u m for­
m a to político-social c o m características d e “s u s te n ta b ilid a d e ” e
“u n iv ersab ilid ad e”. F u ku yam a d á mais ênfase ao liberalism o polí­
tico. Mas o f e n ô m e n o é m ais a b ra n g e n te , pois q u e se to r n o u
ta m b é m vitoriosa a e c o n o m ia d e m e r c a d o s o b re os reg im es
dirigistas. E prec isam e n te a co njugação do liberalismo político com
o lib e ra lism o ec o n ô m ic o , q u e se p o d e c h a m a r d e “capitalism o
d e m o c rá tic o ”.
A n tes d e se ca n d id a ta r à condição d e ideologia universal, o
liberalism o político-econôm ico teve, e n tre ta n to , d e e n fre n ta r p e ri­
gosos desafios n este século. U m sério desafio “in te r n o ” foi a g ra n ­
d e d ep ressã o dos anos 30, q u e criou dúvidas so b re a e c o n o m ia de
m e rc a d o e e n co ra jo u e x p e rim e n to s dirigistas. M uitos falaram e n ­
tão n o “fim d o capitalism o ”. Mas houve dois desafios “e x te rn o s ” —
o nazism o, p rin c ip a lm e n te no p la n o político, c o c o m u n ism o , p rin ­
c ip a lm e n te n o plano econô m ico.
6 O liberalismo - antigo e moderno

C o n ju ra d o s esses desafios, co m o se p u lta m e n to d o nazism o e


a ag o n ia d o co m unism o, n ã o h á ideologias alternativas q u e pos­
sam c o m p e tir c om o liberalism o d e m o c rá tic o n a am b iç ão d e se
universalizar co m o fo rm a definitiva d e governo. Esse, o fato novo
n a histó ria d a h u m a n id a d e .
R e sta m poucas dúvidas d e q u e esse fo rm a to político-social se
co nsolide neste fim d e m ilênio. A té m esm o p o r exclusão. Falha­
ram as ideologias alternativas. O socialism o “re a l” exibiu dois in­
g re d ie n te s funestos — a m á q u in a d o te r r o r e a ineficiência e c o n ô ­
mica. O s ex p erim en to s ideológicos d o T e rc e iro M u n d o , co m o o
fu n d ain e n talism o islâmico, só tro u x e ra m violência e p o b rez a. O
p o p u lism o n a cionalóide, tão e n c o n tra d iç o n a A m é ric a L atin a |e
África, tro u x e u m rosário d e fracassos. F inalm ente, o nacionalis­
m o n ão tem , p o r sua p r ó p ria natureza, características universalizjí-
veis. Pode-se aliás Calar n u m a “crise do n acio n a lism o ” pois cstc fiJn
d e século nos a p re se n ta contrastes esquisitos. E nfraquece-se d e u m
lado, o nacionalism o d o estado-nação. O q u e se fo rtalece é o “n a ­
cionalism o das etnias”, b u sc a n d o afirm ação d e id e n tid a d e , preselr-
vação d a lín g u a nativa e a u to n o m ia adm inistrativa, sem in firm a r
e n tre ta n to o desejo cie in te g ra çã o em b locos ec o n ô m ic o s maiores.!
C ada vez m ais se re co n h e c e o “p a ra d o x o d e D aniel Bell”: “o estado-
n ação é g ra n d e dem ais p a ra os p e q u e n o s p ro b le m a s e pequeno;
dem ais p a ra os g ran des p ro b le m a s ”.
D e n tro dessa cosm ovisão pode-se c o n sid e ra r os países c o m o
divididos em dois g ra n d e s grup os: os q u e a tin g iram o estágio d e
“tra n q ü ilid a d e sistêm ica”, nos' quais n ã o estão e m j o g o as opções
institucionais básicas; os conflitos re m an e sc e n te s se re fe re m a pra-j
gram as partidários, p e rso n a lid ad es e p rio rid a d e s na alocação de!
recursos. D en tro dos limites da condição h u m a n a , ter-se-ia atinjJjij
do, após u m a busca secular, urna fo rm a d e g o v e rn o q u e p e rm ite
conciliar o tríplice objetivo d a lib e rd ad e política, eficiência econôj
m ica e razoável satisfação social (n o sen tid o d e q u e n e n h u m siste­
m a alternativo oferece m elh o re s perspectivas d e bem -estar social).
Prefácio - Merquior, o liberista 7

As áreas d e tranqüilidade sistêmica seriàm b asicam ente a Norte-


A m érica, a A ustralásia, o Japão e a E u ro p a O cidental. E s u rp re e n ­
d e n te neste fim d e século o ressurgim ento do liberalismo econôm ico
c o m o idéia-força. Ele d e s b a n c o u o k e y n e sian ism o , o estatism o
assistencial, o p la n e ja m e n to dirigista e, finalm ente, a social-demo-
cracia, pois q u e as ec o n o m ia s e u ro p é ia s m o d e rn a s se c o n fo rm a m
c a d a vez m ais aos princípios d a e c o n o m ia d e m e rc a d o , substituin­
d o a ig u a ld a d e pela eficiência. Exceto n o Brasil, o n d e as idéias
ch eg am c o m atraso, co m o se fossem queijos q u e necessitem enve­
lh e cim en to , a social-dem ocracia n ã o é p e rc e b id a c o m o o últim o
re d u to d o dirigism o e sim c o m o o p rim e iro capítulo d o liberalismo.
São variados os ró tu lo s d os governos e u ro p e u s — conserva­
dores, liberais, social-democralas, democratas-crislãos, centro-dircila
e socialistas. Mas a integração prevista p a ra 1992 traz e m b u tid a u m a
h a rm o n iz a ç ã o d e políticas à base <lc dois p rincíp ios d a m o d e rn a
e c o n o m ia d e m e rca d o ; o “glob alism o”, pois as fábricas se to rn a m
globais, e os m ercad o s financeiros, integrados; e o “clientelism o”,
pois q u e o s o b e ra n o será o c o n s u m id o r e n ã o o p la n e ja d o r. O
socialista francês Michel R o card, ex-Prim eiro M inistro, se diz u m
“socialista d e livre m e rc a d o ”. Felipe Gonzales, o socialista espanhol,
fala n u m socialismo suppiy side, d e nítida p re o c u p a ç ã o proclutivista,
a ntes q u e distributivista. H á m e n o s ênfase so b re a in d e p e n d ê n c ia
e m ais s o b re a “in te r d e p e n d ê n c ia ”.
O fim d a histó ria co m o ideologia, observa Fukuyam a, não sig­
nificaria o fim dos conflitos. A p e n a s estes dificilm ente seriam co n ­
flitos globais. Serão o p r o d u to d e nacionalism os locais, d e tensões
religiosas c o m o o fu n d a m e n ta lism o islâmico, d a f ru s tra d a bu sca
terc eiro -m u n d ista d e u m a terce ira via e n tre o capitalism o e o socia­
lismo. S o m e n te será capaz d e p ro v e r tran q ü ilid a d e sistêmica o for­
m a to d e govern o que apresente duas características: sustentabilidade
e universabilidade. Em ou tras palavras, e preciso u m a ideologia não
e x c lu d e n te ba se a d a em m é to d o s consensuais e susceptível d e u n i­
versalização c o m o paradigm a.
8 O liberalismo - antigo e. moderno

A m a io r p a rte d o m u n d :>, e n tre ta n to , se acha cm estado <jlé


intranqüilidade sistêmica, cor n vários processos o cm vários g ra u l
de tra n sirã o , li o m ie o c o rre 110 in u n d o socialista e na üiandlé
1 M
maioria dos países que ,sc (jonvcncionou cham ar de “tercei ’0
m u n d o ”. As duas g ran d es potências socialistas, a U n iã o Sovictic;> e
a C hina, estão cada qual à sua m a n e ira b u sc a n d o u m íò rm a to po li­
tico e social estável. A C hina com eçou pela re fo rm a eco n ô m ic a m as
sofre dc paralisia política. A Uijião Soviét ica fez a sua gíasnosl políti
mas fracassou em sua perestròika econôm ica, pois a e c o n o m ia de
m e rc a d o ain d a é u m a visão longínqua. Os países pós-cornunistíis
da E u ro p a O rie n ta l estão te n ta n d o tu n a transição sim ultânea do
a u to ritarism o político p a ia a d em o cra cia representativa, e da eco­
n o m ia d e c o m a n d o p a ra a e c o n o m ia d e m erc ad o . A franja asiática
e x p e rim e n ta ta m b é m u m p ro cesso de transição: C o ré ia d o Sul e
Taiw an são econ om ias d e m e rc a d o e m fase d e dem o c ra tiz aç ã o p o ­
lítica. T ailândia, Malásia e In d o n é sia co m b in a m resquícios au to ri­
tários na política, com ensaios d c ec onom ia fie m ercado. A índia é
um a g ra n d e e robusta dem ocracia política, mas, d o m in a d a p o r um a
buro cra cia socializantc, está longe d e se p a re c e r c o m u m a e c o n o ­
m ia d e m ercado.
N a A m érica Latina, p ra tic a m e n te inexiste o capitalism o d e ­
m ocrático. E v erd a d e q u e h o u v e u m rc flo re sc im e n to d a d e m o ­
cracia. As dita d u ra s estão fora d c m o d a, só re s ta n d o C uba, co m o
caso teratológico. N o sul d o c o n tin e n te , o Brasil, a A rgentina, o
U ru g u ai e o P eru fizeram sua transição dem ocrática. Mas n e n h u m
desses países aceita a disciplina d a e c o n o m ia d e m e rc ad o . T o d o s
insistem em controles b u ro crático s, m a n té m in ch ad as m áq u in as
estatais e se p ro te g e m através d e reservas d e m erc a d o . Essas são
características das sociedades “m ercantilistas”.
Aliás, apenas três países — Chile, Bolívia e M éxico — a d e rira m
e xplicitam ente ao id eário d a e c o n o m ia d e m e rc a d o e, se c o m p le ta ­
d a sem tra n s to rn o sua liberalização política, se rã o os p rim e iro s
e xem plos d e capitalism o d e m o crátic o na América Latina.
Prefácio - Merquior, o lilwrislu 0

A vit.óriíi atual d o liberalism o so b re ideologias alternativas é a


culm inação d e um longo e c o m p le x o histórico q u e Mer<|uior nos
desvenda, e m seu g ra n d e m ural, co m fma p e rce p çã o das nuances
tlc pensam ento. Sem deixar, aliás, de nos advertir tle que o re­
n a sc im en to d e mais lib e rd ad e e conôm ica — a tend ên cia lib e r is ta ...
n ã o significa u m golpe d e m o r te p a ra os im pulsos igualitários. A
so c ie d a d e , diz ele, p e rm a n e c e ca ra c te riz a d a p o r u m a “dialética
c o n tín u a , e m b o r a cam biante, e n tre o crescim en to d a lib e rd a d e e o
ím p e to e m d ireção a u m a m a io r ig u a ld a d e ”.
D ife re n te m e n te das utopias radicais, q u e sim plificam b a rb a ra ­
m e n te a realidade, o liberalism o c o m p o rta um a larga variedade de
valores e crenças. Isso deriva da d ifere n ça p e rc e b id a nos o b stác u ­
los à lib e rd a d e e n o p ró p r io co nceito d e liberdade, a c o m e ç a r pela
clássica distinção d e Isaiah B erlin e n tr e a liberdade negativa (ausên­
cia d e coerção) e a liberdade positiva (presença de opções). C om o n ota
M e rq u io r, h á estágios históricos na busca da liberdade.
A prim eira é a liberdade co n tra a opressão, lula im em orial. A
se g u n d a é a lib erd ad e d e participação política, invenção da d e m o ­
cracia a teniense. A terceira é a lib erd ad e d e consciência, p e n o sa ­
m e n te a lcançada n a E u ro p a e m re su ltad o d a R e fo rm a e das g u e r­
ras d e religião. A qu arta, m ais m o d e rn a , é a lib e rd a d e d e auto-
rcalização, possibilitada pela divisão d o trabalho e o su rg im e n to da
so cied ad e d e consum o .
São lum inosas as páginas d e M e rq u io r so b re o “liberalism o
clássico”, co m seu tríplice c o m p o n e n te : a teoria dos direito s h u m a ­
nos, o constitucionalism o e a e c o n o m ia liberal. M uito mais q u e u m a
fó rm u la política, o liberalism o é u m a convicção, q u e e n c o n tro u sua
e x pressão p rátic a mais c o n c re ta com a fo rm a ç ão d a d em o cra cia
a m ericana, cujos patriarcas c o m b in a ra m , n a fo rm aç ão d a repú bli­
ca, as lições d e Locke sobre os direitos h u m a n o s, d e M o n te sq u ie u
so b re a divisão d e p o d e re s e d e R ousseau sobre o c o n tra to d e m o ­
crático. U m a curiosa observação d e M e rq u io r é a d ife re n ç a voca­
cional e n tr e os teóricos do liberalism o, Os liberais ingleses eram
10 0 liberalismo - anligo e moderno

p rincipalm en te econom istas e filósofos morais (A dam Sm ith e Stuart


Mill), os liberais franceses, p rin c ip a lm e n te h isto ria d o res (G uizot e
Tocqueville) e os liberais alem ães, p rin c ip a lm e n te juristas. N a teo­
ria inglesa, lib e rd a d e significaria in d e p e n d ê n c ia ; n a francesa,
au to g o v ern o ; na alemã, auto-realização.
C o m e x tra o rd in á ria eru d iç ã o , M e rq u io r disseca as diversas
linguagens liberais: — a dos direitos h u m a n o s, a d o h u m a n ism o cí­
vico, a dos estágios históricos, a d o m ilitarism o e a tia sociologia
histórica. São originais suas observações sobre o su rg im e n to , no
século <|ue m edeia e n tre 18IÍ0 e 1‘KH), do “con serv ad o rism o libe­
ral”, q u e cra Ciei ao individualism o e à lib erd ad e d e consciência,
mas se <'<>111:>j>i<>11 de pessim ism o q u a n to à dem ocracia d e massas.
No delicado balanço e n tre as duas vertentes do liberalism o — o
libertarianism o e o dem ocratism o — os conservadores liberais, com o
S p e n ce r e líourke, privilegiaram a prim eira. Knlre os m o d e rn o s,
Max VVeber na A lem anha, lle n e d e tto ( r o c e na Itália e O rte g a y
G asset n a Espanha, ao enfatizarem a im p o rtân c ia do “c arism a” e
das “elites culturais” pa ra viabilizar a dem ocracia, in c o rre ria m n a ­
quilo q u e M e rq u io r c h am a d e “curiosa alergia q u e sen te o intelec­
tual m o d e r n o diante da so ciedade m o d e r n a ”.
Coisa paralela o c o rre ria r e c e n te m e n te n o seio d o m arxism o,
c o m o o assinalou Jo s é G u ilh e rm e em sua im p o rta n te o b ra s o b re o
Marxismo ocidental. D e sa p o n ta d o s c o m a inflexão totalitária d o so­
cialismo soviético, os m arxistas ocidentais n a A le m a n h a e F rança
a b a n d o n a r a m sua crítica obsessiva ao fo rm a to d e m o c rá tic o das
e c o n o m ia s liberais, p a ra se c o n c e n tr a r e m n a crítica cu ltu ral ao
p ro d u tiv ism o e tecnicism o d a so c ie d ad e b u rg u e sa . E m o rd e n te , e
c o rre to , o veredicto d e P erry A nderson: o M arxism o O cidental,
a d o ta o “m é to d o co m o im p o tên c ia , a a rte co m o consolação e o
pe.s.simi.smo co m o <|iiie,s(rm'ia”. ]
São lum inosas as c o n sid eraçõ es d e M e rq u io r sobre os princi­
pais idiom as tio liberalism o no após-guerra: a crítica d o historieis-
mo, (P oppcr), o p ro fe sío antitolalitário (Orwell e Cnmus), a étifa
Prefácio - Mcrquior, o liberista 11

d o p lu ra lism o (Isaiah B erlin), o neo-e v o lu c io n ism o (H ayek) e a


sociologia h istórica (Aron).
O m ais fascinante dos capítulo s d o magnum. opus d e M erq u io r,
e m p a rte p o r se tra ta r d e te rr e n o m e n o s p alm ilhado, e m p a rte p o r ­
q u e conheci p esso alm en te alguns dos atores, é o in titu lad o “Dos
novos libcralism os aos n co lib cra lism o s”. M e rq u io r exam ina e ru d i­
ta m e n te u m a das antigas tensões dialéticas d o liberalism o: a tensão
e n tr e o crescim en to d a lib e rd a d e e o im pulso d a igualdade. N ada
m e lh o r p a ra se e n te n d e r a d iferen ça e n tre o “novo lib eralism o ” e o
“n e o lib era lism o ” do q u e c o n tra sta r lo rde Kcynes com I layck. S o ­
b re am b o s M e rq u io r redigiu b rilh an tes vinhetas, g e nero sas dem ais
110 toc a n te a Kcynes, e ge n ero sa s d e m en o s no to ca n te a Hayek.

C o m o e sabido, Keyncs favorecia intervenções governam entais para


c o rre çã o d o m e rc ad o , e n q u a n to H ayek descrevia esse c o m p o rta ­
m e n to c o m o p re su n ç o so “c o n stm tiv ism o ”. Para este fim, a função
d o go v ern o é apenas "p ro v e r u m a e stru tu ra p a ia o m erc a d o <• lor-
n e c e r os serviços q u e este n ão p o d e p r o v e r ”.
Em nossas últim as conversas senti q u e J o sé G u ilh e rm e se to r­
nava c a d a vez m ais “lib e rista ”. N e ste cre d o , c o m u n g á v a m o s. O
“liberista” é aqu ele q u e a cred ita que, se não h o u v e r lib e rd a d e eco­
nôm ica, as o u tras lib erd ad es — a civil e a política — d esap arecem .
N a A m é ric a L atina, a c o n c e n tra ç ã o d e p o d e r e c o n ô m ic o é u m
exercício liberticida. N osso diagnóstico so b re a m oléstia brasileira
e r a c o n v e rg e n te . A o Brasil d e h o je n ã o falta lib e rd a d e . Falta
liberism o.
Dois dos m estres — R a lf D a h r e n d o r f e R a y m o n d A ro n — cujo
p e n s a m e n to M e rq u io r desfibrila c o m b rilho, n u m capítulo cha m a­
d o “o lib eralism o so c io ló g ic o ”, fo ram no ssos am ig o s co m u n s.
D a h r e n d o r f e ra n o fim dos anos 70 o p re sid e n te d a L o n d o n School
o f E conom ics, o n d e M e rq u io r estudava para d o u to r a d o em socio­
logia. “N ã o sei p o r q u e ”, dizia-mc D ah re n d o rf, “pois tem mais a e n ­
sin a r d o q u e a a p r e n d e r ”.
D a h r e n d o r f gostava d e d e b a te r c o m M e r q u io r suas teses
12 O liberalismo - antigo e moderno

prediletas so b re o conflito social m o d e rn o : a disp u ta e n tre os q u e


advogam m a io r “lib e rd a d e d e escolha” e os q u e q u e re m u m m aio r
“elenco d e d ireito s”. O u , co m o n o ta M erquior, a oposição básica
e n tre provisions (provisões) e m litlem ents (intitulam entos). Trata-se,
n o p rim e iro caso, de alternativas d e ofe rta d e bens, u m conceito
increm entai. N o scgunclo, d o direito d e acesso aos bens, uni con­
ceito distribui ivo. N u m a an títese feliz. M e rq u io r fez n o ta r q u e a
R evolução Industrial foi u m a revolução de “provisões", e n q u a n to
ít Kcvoluçáo h a n c e s a loi uma revolução tle “inliltilíUiiniloM". Mills
p e rto d e nós a década dos 70 teria sido um p e río d o em q u e preva­
leceram as pre o c u p a çõ es com os “in titu la m e n to s”, e n q u a n to a dé-
g u I í i (Iom HO iiíisÍNliti ;i uma mudança do polílicas, um quaÍM pa;w’,iiaiíi
a a c e n tu a r a p ro d u ç ã o mais q u e a distribuição, ou seja, as provi­
sões antes q u e os “in titu la m e n to s”. A nova C onstituição brasileir^,
d e 1988, exem plifica aliás m u ito b em esse conflito. As lib erdad es
econôm icas são restringidas. As garantias sociais am pliadas. Só que
se to rn a m inviáveis.
C o m A ron , eu m e e n c o n trav a fre q ü e n te m e n te n u m g ru p o dp,
debates p re sid id o p o r I le n r y Kissinger. E se m p re A ro n m e p e r
guntava pelo seu discípulo dileto, “o jovem q u e tin h a lido tu d o ’j.
Mas o im p re ssio n an te em Jo s é G u ilh e rm e não era a absorção de
leituras. Era o m etabolism o d às idéias, N ã o se resignava ele a sc
um “e sp e c ta d o r en g a jad o ” coujio, com exagerada m odéstia, se de
crevia seu m estre Irancés. Era ími ativista. Por isso passou da "coi
vifção liltentl” à "prcgiiçrto lilníral",
E m pcnliou-se nos últim os, te m p o s na dupla tarefa — a ilumín;
çao do liberalismo, pela busca le suas raízes lilosolicas, e a desmi
lificação do socialismo, pela de miticia do seu íracasso histórico, Iss
o levou várias vezes a esgrim asiintelectuais com as esq u e rd a s brasi­
leiras, exercício em q u e sua aVassalante su p e rio rid a d e provocava
nos contenclores a mais dolorífica das feridas — a ferida d o orgulho.
N ão é fácil discutir com nossos p a tru lh a d o re s d e e sq u e rd a , viciados,
n a “se d u ç ão d o m ito e n a tira n ia d o d o g m a ”, co n fo rta v e lm e n te
Prefácio - Merquior, o liberista 13

e n c ru s ta d o s n a “m íd ia ” e b r a n d in d o eficazm ente d u a s arm as: a


a d ulação e a intim idação. C o o p ta m idiotas, ch am ando-os d e “p r o ­
gressistas”, e in tim id a m patrio tas, cham an do-os d e “e n tre g u ista s”.
M e rq u io r só se desiludiu q u a n d o d esco b riu q u e n a e s q u e rd a brasi­
leira a in d a h á g e n te q u e n ã o se d á c o n ta d e q u e caiu o m u ro de
Berlim...
M e rq u io r n ã o passou da po lêm ica d e idéias ao ativism o polí­
tico, circunscrito q u e estava p o r suas funções diplom áticas. C o m o
se cn<|iiii(|rari;t e|c em nosso c o n fu so p a n o ra m a |»<>lfli< o? C e n a
m e n te e n tr e os “liberais clássicos”, ou “libertários”, se u sarm o s a
classificação de David N olan, ou seja, aqueles q u e d esejam p re se r­
var a lib e rd a d e q u e r co n tra o a u to rita rism o político, q u e r co n tra o
in terv en cio n ism o ec o nôm ico. O liberal clássico, ou o “liberista”,
te rm o q u e M e rq u io r gostava d e usar re p o rtan d o -se à controvércia
nos a n o s 20, n a Itália, e n tre E in au d i e C roce, e m q u e o p rim e iro
d e fe n d ia a in co m p a tib ilid a d e e n tr e lib e rd a d e política e in terv en ­
c ionism o e c o n ô m ic o , e n q u a n to a o s e g u n d o n ã o re p u g n a v a essa
coexistência. O liberal d ilc rc d o “c o n se rv a d o r”, pois este adm ite
re striç õ e s à lib e r d a d e po lítica e m n o m e d o Lradiciunalismo, cio
organicismo e d o ceticismo político. O s tradicionalistas a c re d itam que
a sa b ed o ria política é dc n a tu re za histórica e coletiva c reside nas
instituições q u e p assam o teste d o tem p o . Os organicistas acredi­
tam q u e a sociedade é mais d o q u e a som a d os seus m e m b ro s e
Irm íi.VjIiii 1 *1 llillltu hlipi ihil ,111 iln im lhliliio. K <>h <iilloic.S (In
ceticism o político <leseouliam d o p e n sa m e n to e leoria aplicados à
vida pública, especialm ente q u a n d o direc io n ad o s para ambiciosas
uhn.n_i•> ,i.
O a n típ o d a d o liberal clássico é n a tu ra lm e n te o “socialista",
q u e a c re d ita q u e cabe á so ciedade red istrib u ir o p r o d u to d o traba­
lho dos indivíduos e adm ite c o erção política para g a ra n tir utopias
igualitárias.
Seria ilusório p e n sa r q u e n a classe política brasileira existam
posições dessa nitidez. A tribo mais n u m e ro sa é d aqueles que N olan
14 O liberalismo - antigo e moderno

ch am aria de “liberais de esqujerda”. Estes a c red itam na liberdade


política, mas adm item iutcrv<|ncões econ ôm icas s e c u n d o divcrsUs
vertentes: a v e rte n te assistencialista, q u e acredita n o governo b e n ­
feitor; a Vertente nacionalista', a vertente protecionista", e finalm entej
a v erten te c.nrjmrathnsta, subdividida p o r sua vez e m três grupos:
corporativistas em presariais, os sindicais e os bu rocrático s. Ess
diversos matizes co lo rem a fa |m a a b u n d a n te dos falsos liberais.
A m o r te d e M erquior, d epois d e m eses e m q u e co rajo sam en te
c o m e u o p ã o d a tristeza e b e b è u as águas d a aflição, a b re u m e n o r ­
m e vazio cultural e m nossa paisagem , o n d e os arb u sto s são m u ito
mais n u m e ro so s do q u e as árvores. J
Agora, n a tristeza desse vazio, só nos resta p a ra fra se ar M anuel
B andeira. “Cavalinhos a n d a n d o . Cavalões c o m e n d o . O Brasil poli-
tic a n d o .” J o s é G u ilh e rm e m o r re n d o . E ta n ta g en te ficando.

R o b erto C am pos
Rio d e J a n e iro , m aio de 1991
1

Definições e pontos de partida

L iberalism o

N ietzschc disse q u e ap en as seres a-históricos p e rm ite m u m a d efi­


nição n o v e rd a d eiro sen tid o d a palavra. Assitn, o liberalism o, u m
fe n ô m e n o histórico com m u ito s aspectos, dificilm ente p o d e ser
d e fin id o . T e n d o ele p r ó p r i o m o ld a d o g r a n d e p a r te d o n o sso
m u n d o m o d e r n o , o liberalism o reflete a d iversid ade d a história
m o d e rn a , a m ais antig a e a re ce n te . O alcance d e idéias liberais
c o m p r e e n d e p e n sa d o re s tão diversos e m fo rm a ç ã o e m otivação
q u a n to T ocqucville e MilI, Dewey e K cyncs, e, em nossos dias,
H ayek e Rawls, p a r a n ã o falar e m seus “an tep assad o s d e eleição”,
tais c o m o Locke, M o n te sq u ie u e A d a m S m ith .1 É m u ito m ais fácil
— e m u ito m ais se n sato — descrever o liberalism o d o q u e te n ta r
defini-lo d e m a n e ira curta. P a ra su g erir u m a te o ria d o liberalism o,
an tig o e m o d e r n o , deve-se p r o c e d e r a u m a descrição com parativa
d e suas m anifestações históricas.
Em seu influente ensaio d e 1929 A rebelião das massas, o filó­
sofo esp an h o l O rte g a y G asset p ro c la m o u o liberalism o “a fo rm a
s u p r e m a d e gen e ro sid a d e: é o direito asseg u rad o pela m aioria às
m in o ria s e, p o r ta n to , o a p e lo m ais n o b r e q u e já re sso o u no
planeta... A d e te rm in a ç ã o d e <<>nviv< i m m o Inimigo <• ainda, o

15
16 0 liberalismo - antigo e modemo

q u e é mais, co m u m inim ig o fra c o ”. A d e c la ra ç ã o d e O r te g a


p ro p o r c io n a u m p re â m b u lo conveniente p a r a a nossa a b o rd a g e m
histórica p o rq u e c o m b in a com felicidade os significados m oral e
político d a palavra liberal. E m b o r a d e n o te o b v ia m e n te política
liberal — as regras liberais d e jo g o e n tre m a io ria e m in o ria —, o
d ito d e O rleg a tam bém utiliza o p rim e iro significado c o rre n te do
adjetivo liberal em q u a lq u e r d ic io n ário m o d e rn o . Assim, reza o
W ebster: liberal (1) o rig in aria m e n te a p ro p r ia d o p a ra u m h o m e m
livre: hoje em dia, ap enas em “artes liberais”, “ed u c aç ão liberal”;
('.!) m ão aberta. A declaração d e ( )rlef>;i reslilui o .sentido
moral da palavra a seu sentido polílico — bastante apropriadam ente,
j á que “liberal” com o ró tu lo político n asceu nas Cortes espanholas
de 1810, n u m p a rla m e n to q u e se revolta c o n tra o absolutism o.
‘Em sua idade d e o u ro , o século XIX, o m o v im e n to liberal
atuava em dois níveis, o nível de p e n sam en to e o nível de sociedade.
C onsistia n u m c o rp o d e d o u trin a s e n u m g ru p o d e princípios que
su sten ta m o fu n c io n a m e n to d e várias instituições, algum as antigas
(com o parlam en tos) e o u tras novas (com o lib e rd a d e d e im prensa).
P o r co nsenso histórico, o liberalism o (a coisa senão o n o m e) surgiu
n a In g la te rra n a luta política q u e cu lm in o u n a Revolução G loriosa
de 1688 c o n tra Jaime II. Os objetivos dos vencedo res d a Revolução
G loriosa eram tolerância religiosa e governo constitucional. A m bos
tornaram -se pilares d o sistem a liberal, espalhando-se com o te m p o
pelo O cidente. .
N o século q u e m e d e ia e n tre a R evolução G loriosa e a g ra n d e
R evolução F ran cesa d e 1 789-1799 , o lib eralism o — o u m e lh o r,
pro to lib eralism o — era c o n sta n te m e n te associado c om o “sistema
in g lê s” — ou seja, u m a fo rm a d e g o v e rn o f u n d a d a em p o d e r
m o n á rq u ic o limitado e n u m b o m grau de liberdade civil e religiosa.
N a Inglaterra, em bora o acesso ao p o d e r Tosse c o n tro la d o p o r u m a
oligarquia, fora re fre a d o o p o d e r arbitrário , e havia mais liberdade
geral tio que em qualquer outra parte tia 1'ktropa. Visitantes cís-
trangeiros inteligentes, co m o M ontesquieu, q u e ali esteve em 1730,
Definições e pontos de partida 17

compx e e n d e r a m que, n a Inglaterra, a aliança e n tre a lei e a liber­


d a d e p r o m o v ia u m a s o c ie d a d e m ais sadia e p r ó s p e r a d o q u e
q u a isq u e r das m o n a rq u ia s c o n tin en ta is o u das virtuosas, marciais,
m as p o b re s repúblicas d a a n tig u id a d e re m o ta. O s p e n sa d o re s do
assim c h a m a d o Ilum inism o escocês — David H u m c , A d a m Sm ith
e A dam F erg uson — divisaram as vantagens d o g o v e rn o su b m etid o
à lei e d a liberd ade de o pin ião o riu n d o s das atividades espontâneas
d e u m a sociedade civil dividida e m classes, m as a in d a assim imóvel.
A co m p a raç ão com a G rã-B retanha convenceu m uitos protoliberais
d<- q u e o g o v ern o deveria p ro c u ra r a p enas a lu a r inin im am en le,
/.ciando pela |>az e segurança.
F o rq u e nasceu co m o um p r o te s to c o n tra os abusos d o p o d e r
estatal, o lib eralism o p r o c u r o u in s titu ir ta n to u m a limitação d a
a u to rid a d e q u a n to u m a divisão da a u to rid a d e . U m g ra n d e antili-
beral m o d e rn o , o ju ris ta e teórico político alem ão C arl Schmitl ,
re su m iu isso m u ito b e m em sua Constitutional Theory d e 1928, o n d e
escreveu q u e a constituição liberal revela dois p rincípios mais im ­
p o rtan tes: o princípio distributivo significa q u e a esfera d e liber­
d a d e individual é em princípio ilimitada, e n q u a n to a capacidade qu e
assiste ao governo de intervir nessa esfera é em principio limitada.. Em
o u tras palavras, tu d o o q u e n ã o fo r p ro ib id o p ela lei é p e rm itid o ;
dessa f o r m a o ôn u s d a justificação cabe à in terv en ção estatal e n ã o
à ação individual. Q u a n to ao p rin c íp io d e organização d a consti­
tuição liberal, Schm itt escreveu q u e seu objetivo consiste e m fazer
vingar o princípio distributivo. Tal princípio estabelece u m a divisão
d e p o d e r (ou po deres), u m a d e m a rc a ç ã o d a a u to rid a d e estatal em
esfera d e c o m p e tê n c ia — classicam eilte associada com os ram os
legislativo, executivo e judiciário — pa ra re fre a r o p o d e r m e d ia n te
o jo g o d e “pesos c c o n tra p e so s'’. Divide- sv; a autoridade de maneira a
manter limitado o poder.
D epois d a Revolução Francesa e d o seu in terlú d io d e d itad u ra
jacobina, o pensamento liberal (já agora chamado por tal nome)
e n fre n to u novas am eaças à liberdade. O liberalism o b u rg u ê s lutara
18 O liberalismo - antigo e moderno

co n tra o privilégio aristocrático, m as n ã o estava p r e p a ra d o p a ra


a c eitar u m a am p la fra n q u ia e suas co n seq ü ên cias d em ocráticas.
P o r ta n to , a o r d e m liberal civil a c o lh e u aq u ilo q u e B en ja m in
C o n sta n t, o m a io r dos teóricos liberais do início d o século XIX,
ap elid o u “lejuste m i l i e u u m c e n tro político, a m eio cam in h o e n tre
o velho absolutism o e a n o v a dem ocracia. O liberalism o tornou-se
a d o u trin a d a m o n a rq u ia lim itada e d e u m g o v e rn o p o p u la r igual­
m e n te lim itado, j á q u e o sufrágio e a re p re se n ta ç ão e ra m restritos
a cidadãos prósperos.
Esse o rd e n a m e n to b u rg u ês, n o en ta n to , n ã o passou d e u m a
fo rm a histórica transiente, q u e foi logo su b stitu íd a pelo sufrágio
universal m asculino. O ad v e n to d a d e m o c ra c ia n o O c id e n te in­
dustrial a p a rtir da d éc ad a d e 1;870 significou a p reservação defini­
tiva das conquistas liberais: lib e rd a d e religiosa, direito s humano;;,;
o rd e m legal, governo represe n ta tiv o responsável, e a legitim ação
d a m obilidade social. Assim, a sociedade vitoriana tardia, os Estados
I I
U nidos d o após-guerra, e a T e rc e ira R epública francesa inaugtj-!
ra ra m am plas e d u ra d o u ra s experiências em d e m o c ra cia libera ,!
u m a m is tu ra política-histórica. A Suíça, a H o la n d a e os países
escandinavos seguiram p elo miesmo cam in h o , m uitas vezes antes, j
A Itália un ificada voltou-se para a política liberal; a Espanha co r
seguiu estabilizar u m g o v e rn o liberal, e as g ra n d e s m o n a rq u ia s
cen tro-européias, Á ustria e A le m a n h a , desviaram-se d a autocraci;
p a ra constituições semiliberais.
N e m tod as as conquistas d em o cráticas resultaram d e força
e x p lic itam en te liberais. O s toilies ingleses d u r a n te o g o v ern o di
Disraeli, o reacionário Bismarck,' e o auto c rá tic o N a p o le ão III ou
in tro d u z ira m o u zyudaram a in tro d u z ir o sufrágio m asculino quase
universal, fre q ü e n te m e n te c o n tra a v o n ta d e das elites liberais. De
fo rm a a lg u m a o Estado d e m o c rá tic o liberal foi a p enas o b ra dos
liberais. Mas isso pro v a a p e n a s q u e a lógica d a lib e rd a d e algum as
vezes u ltrap assa os interesses e p re co n c e ito s dos p a rtid o s lib e ra is,.
co m o se a história fizesse vingar o liberalism o m e s m o c o n tra os
Definições e pontos de partida 19

liberais. A o e n d o ssa r a d e m o crac ia re p re se n tativ a e o plu ralism o


político, tanto os conservadores q u a n to os socialistas, q u a isq u e r que
fo sse m seus objetivos, c e d e r a m d e f o r m a p a te n te a p rin c íp io s
liberais.
N o século XX, o p ro g re sso geral d o liberalism o d e m o c rá tic o
tem sido m en o s co n sta n te d o q u e foi no século passado. A violenta
tu rb u lê n c ia política causada p ela “g u e r ra civil e u ro p é ia ” d e 191 4 -
1945 p ro v o c o u o colapso d e d em o c rac ias mais rec en tes, tais co m o
a Itália e a A lem anha. P o ste rio rm e n te, os dilemas d a m o d e rn iza ç ão
n a A m érica L atina e em o u tro s lugares o ca sio n aram m ais d e um
eclipse d a dem ocracia, a p a r tir d e m e a d o s d a d é c a d a d e 1960 até
m e a d o s dos anos 80. N ão o b stan te, a d e m o c ra cia liberal p e r m a n e ­
ceu a o r d e m civil “n o rm a l” das socied ades industriais, c o m o se vê
n a re c o n s tru ç ã o ap ó s-g u erra d a A lem a n h a , Itália c J a p ã o , assim
c o m o n a fase final d a política d e m o d e rn iz aç ão dos listados recem-
induslrializndos.
Em 1989, o m u n d o te s te m u n h o u o colapso d o socialism o es­
tatal, o g ra n d e rival d a d e m o c ra c ia liberal. Isso o c o r re u d ep o is de
u m d o lo ro so p ro cesso de re f o rm a e d e crise d e id e n tid a d e . No
O c id e n te , e m con traste, ouve-se m uitas vezes falar n u m a crise cul­
tural, m as p ra tic a m e n te n in g u é m p ro p ô s com s e rie d a d e u m a m u ­
d a n ç a co m p le ta d e instituições. P o r mais d e u m século, a d e m o ­
c racia te m sido o c rité rio d a le g itim id a d e n o m u n d o m o d e rn o .
A gora, pensa-se q u e o p lu ralism o social e político das dem ocracias
liberais é algo m ais específico: o ú n ic o princípio v e rd a d e ira m e n te
legítim o d e g o v ern o em socied ades m o d ern as.
O liberal italiano Luigi E inau di costum ava cara cte riza r a so­
ciedade liberal p o r dois aspectos: o gov ern o d a lei e a a n a rq u ia rios
espíritos. O liberalism o p re s s u p õ e u m a g ra n d e variedade de valores
e crenças, c o n tra ria n d o o p acto m o ral alegado p o r co n se rv a d o res ou
presc rito p ela m a io ria das u to p ia s radicais. M o n te sq u ie u , e m Do
espírito das leis (1748), in sin u o u q u e a In g late rra m o d e r n a e ra ani­
m a d a p o r u m a b a talh a conflitu osa d e “todas as paix õ e s irífrenes”.2
20 0 liberalismo - antigo e rnodertio |

| |

O liberalism o clássico, tal co m o o d e A d am Sinith, a c h o u q u e i


. .I
com petição levaria a u m m u n d o quase n e w to n ia n o d e equilíbrio
social. Liberais ulteriores, conio M ax W eber, resolveram salientai'
a irred u tib ilid ad e dos conflitos!de valores, ao invés d a consecuçãci
d o eq u ilíb rio . H á liberalism os d e h a rm o n ia s e liberalism os d e
dissonâncias. Mas, em am bos os casos, o liberalism o esp o sa u m á
opinião liberal d a luta h u m a n a . |
N a m e d id a em que a organização liberal se desenvolveu com
0 passar d o te m p o , o significado d o liberalism o alterou-se m uito.
H oje e m dia, o q u e a palavra liberal g e ralm e n te significa n a E u ro ­
p a c o n tin en tal e n a A m érica L atin a é algo d e m u ito diverso d o q u e
significa nos Estados U nidos. D esde o Nmu Deal d e Roosevelt, o
liberalism o am e ric an o adquiriu, nas festejadas palavras de R ichard
1 lolstadter, “um tom social-democrálico”. C) liberalismo nos Eslados
U nidos a p ro x im o u -se d o liberal-socialism o — u m a p r e o c u p a ç ã o
igualitária q u e n ã o chega ao a u to rita rism o estatal, m as qu e, n o
e n ta n to , p re g a u m a ação estatal m u ito além da con dição m ínim a,
de vigia n o tu rn o , exaltada pelos velhos liberais. E m to d a a história
da sem ântica liberal, n e n h u m episódio foi mais im p o r ta n te d o q u e
essa m u d a n ç a am ericana de significado.
P o r o u tro lado, a significação d e liberalism o n a sua renovação
atual, tan to nos Eslados U nidos co m o e m outras partes, m a n té m
apenas u m a tê n u e ligação co m a c o r re n te principal d o significado
am ericano, e m esm o, m uitas vezes, dele se aparta. N o d e c o rr e r de
quase m eio século, o p ró p rio liberalism o tornou-se u m c a m p o d e
idéias e posições a ltam en te diversificado. M esm o antes d e Keynes
e R oosevelt — prov avelm ente o teó rico e o estadista q u e mais fi­
zeram p a ra m od ificar o legado d o século XIX — o liberalism o j á
c o m p re e n d ia d istin ta m e n te mais d e u m significado.
Definições e pontos de partida 2}

Liberdade e a utonom ia

E ste livro tr a ta d e lib eralism o , n ã o d e lib e rd a d e . Mas n e n h u m


e stu d o so b re o liberalism o p o d e o m itir u m exa m e d os diversos
significados d e liberdade e autonom ia. A lé m disso, p r e c is a m e n te
p o r q u e lib erd ad e, c o m o liberalism o, te m m ais d e u m significado,
selecionar os sentidos o u espécies d e a u to n o m ia p o d e d e algum a
m a n e ira ilu m in a r as variedades d o liberalism o.

T ip o s de a u to n o m ia *

O q u e é a u to n o m ia ? N u m trab alh o so b re te o ria social (d ife re n ­


te m e n te d e u m a o b r a sob re filosofia geral), a p rim eira coisa a la­
zer é d esca rta r o velho dilem a d e livre-arbítrio versus d ete rm in ism o .
D esde M o n te sq u ie u , te m sido c o stu m e iro e m discussões d e liber­
d a d e social evitar discu tir esse e sp in h o so p ro b lem a. A fastando-se
a q uestão filosófica d o livre-arbítrio, p o d e m o s focalizar o tem a mais
e m p íric o , m ais s e n sa to d e a u to n o m ia e não-auton,o m ia e n tr e
m e m b ro s in te ra g en tes d e u m a d a d a c o m u n id a d e .
A n a lis ta s m o d e r n o s da lib e r d a d e in s is te m na i m p o r t â n c ia dessa
dim e n sã o social. A ção livre é u m a ação q u e p a rte d e u m m otivo

(*) O a u t o r , n o s s u b títu lo s d e s te capítulo, u s a freedom e liberly c o m o p alav ras n ã o


sin ô n im as, m a s n o te x to o r a as u s a c o m o s i n ô n im o s o r a as d iferen cia. O m e s m o
o c o r r e n a g e n e r a l i d a d e d o s textos e m inglês, o u e m inglês falado. C o m o n ã o
sin ô n im a s , freedom e liberty estão n a M a g n a C a rta e n o tex to d a D ec la ra ç ã o de
D ire ito s, d o s é c u lo X V II. A d is tin ç ã o q u e o d ic io n á r i o Funli a n d W agnalVs
estabelece e n t r e freedom e liberty consiste e m q u e a p r im e ira é ab so lu ta, e n q u a n to
a s e g u n d a é relativa. Freedom, diz o d ic io n á r io , “é a a u s ê n c ia d e c o n s t r a n g i ­
m e n t o ” . Liberly “é a r e m o ç ã o o u o c o n t o r n o d e c o n s t r a n g i m e n t o ”. E v e r d a d e
q u e, m ais a d i a n t e n o texto, o a u t o r m o s t r a q u e existe, e m teoria, u m a d if e re n ç a
e n t r e l i b e r d a d e negativa (ausênc ia d e c o n s tr a n g i m e n to ) e li b e r d a d e positiva.
Mas, c o m o a in tro d u ç ã o dessa idéia co m p lic a ria a q u e s tã o , lim ita m o s esta ao
q u e e.stá nos dieioitái ios. A o rigem da pal;ivia Hhnty, on lilicrdadc, c ld>rttit\, q u r
eiti latim, c o n f o r m e o d icionário ,S;uaiva, p o d e siguilicar "so ltu ra”, "liv iaiu rn to ".
T e n d o isso e m co n ta , p r o c u r a m o s u m a p alav ra p a r a freedom, e n ã o n o s o c o r re u
m e l h o r d o q u e autonom ia, q u e significa, c o n f o r m e a sua e tim o lo g ia, a li b e r d a d e
d e determ inar-se, o u seja, a ausência d e c o n stra n g im e n to . T a m b é m nesse se n tid o
fig u ra autonom ia n o A urélio. (N. d o T.)
22 O liberalismo - antigo e moderno

desejado o u de u m m otivo n e u tro . U m a ação a q u e falta lib erd a d e


eqüivale a u m a ação e x ec u ta d a n ã o e x a ta m e n te “c o n tra nossa li­
b e r d a d e ”, m as o riu n d a d e u m m otivo n ão desejado. Algum as ações
n ã o livres são forçadas pela v o n ta d e d e outras pessoas. P o rta n to , a
lib e rd a d e social p o d e se r de fin id a co m o “a ausência d e c o n stra n ­
g im e n to e d e re striç ão ”. Aqui, constrangimento e restrição referem -se
ao efeito, n o espírito d e q u a lq u e r agente, das ações d e o u tra s pes­
soas, se m p re q u e esse eleito o p e re eo m o um m otivo não desejado
no eo m p o t la m e n to de tal agente. ' A presença d e um a alternativa
q u e p e rm ita escolha é u m e le m e n to d e fin id o r d e u m a ação livre.
A u to n o m ia é, p o rta n to , estar livre d e coerção: im plica q u e os
ou tro s n ã o im peçam o c urso d e ação q u e escolhem os. T e n d o cm
m e n te esse significado geral, podem -se relacionar pelo m e n o s q u a ­
tro principais m aterializações d e a u to n o m ia n o curso d a história.
, A p r im e ir a m a te ria liz aç ão d e a u to n o m ia é a lib e rd a d e d e
opressão com o in terferência arbitrária. Consiste n a fruição livre de
direitos estabelecidos e está associada a u m sen tid o d e dignidade.
É u m a velha e, n a v erdade, im em orial e universal espécie d e senti­
m e n to e c o m p o r ta m e n to . O c a m p o n ê s v in c u lad o à te rra , cujos
direitos tradicionais, p o r escassos q u e fossem , e ra m re sp e ita d o s
p e lo s e n h o r feudal, e x p e rim e n ta v a tal a u to n o m ia ta n to co m o o
p ró p rio sen h o r, q u a n d o seus privilégios e ra m re c o n h ec id o s pelo
rei. U m b o m exctnplo disso a p arec e n a e scritu ra (Atos 21: 27 -3 9 ).
T e n d o criado u m tu m u lto ao dirigir-se à m u ltid ã o e m Jeru sa lé m ,
Paulo d e T arso foi aç o itad o p o r o rd e m d e u m g en eral ro m a n o .
C o m o p ro testo , disse: “Será iegal açoitar u m h o m e m q u e é ro m a ­
n o e llão foi c o n d e n a d o ? ” As palavras d o ap ó sto lo m o stra m que
ele se sentia legalm ente com direito a um certo grau d e respeito, ruja
violação significava o p ressão n ão a p enas p a ra ele mas, n a v erdade,
p a ra a cu ltu ra d a Rom a im perial. j
É precisam ente desse tipo d e liberdade que q u alq u e r indivíduo
m o d e r n o espera fruir q u a n d o exerce papéis sociais proteg idos pela
lei e pelo costum e. V am os cham á-la d e liberdade como intitulamentó.
Definições e pontos de partida 23

Mas e m b o r a a fruição d a lib e rd a d e c o m o in titu la m e n to im p lique


u m a a p re e n sã o d e direitos e d ê o rig e m a u m se n tim e n to d e digni­
d a d e , te m p o u c o a ver c o m o p rin c íp io m u ito m ais r e c e n te d e
d ireitos h u m a n o s universais. O sujeito desses ú ltim os e o h o m e m
c o m o tal, e n q u a n to o p o r ta d o r d o in titu la m e n to e ra e é se m p re
individualm ente situado, e n tra n h a d o em posições sociais específicas
(e h isto ric a m e n te variáveis).
O ,sej_>tmdo lipo d e a u to n o m ia , a liberdade d e |>ai licipar na
adm inisl i açao dos negócios da c o m u n id a d e cm q u a lq u e r nível,
estendeu-se a q u a lq u e r nacional livre nas cidades antigas tais com o
as gregas, e foi p o r esse m otivo c o nhecid o, d e sd e o início, com o
liberdade política (polis siguilica “c id a d e ”).
A terceira é a liberdade de consciência e crença. H isto ric am e n te ,
tornou-se, e d e m o d o d u r a d o u r o , relevante p r im e iro c o m o u m a
reivindicação d e leg itim id a d e d a dissidência religiosa (da R o m a
papal o u o u tras Igrejas oficiais) d u ra n te a R e fo rm a e uropéia. Antes
disso, q u a se to d a s as reivindicações d e in d e p e n d ê n c ia religiosa
e ra m tratadas c o m o h e re sia e subjugadas c o m êxito. E m b o ra difi­
c ilm ente se possa dizer q u e fosse essa a in ten çã o dos g ra n d e s re­
fo rm a d o re s L u te ro e Calvino, a R e fo rm a in a u g u ro u u m a id a d e de
pluralism o religioso. Isso foi, p o r sua vez, secularizado n o m o d e rn o
d ireito d e o pinião, tal co m o refletido n a lib erd a d e d e im p re n sa e
n o d ireito à lib erd ad e intelectual e artística.
A q u a rta e últim a lib e rd a d e é a m aterialização d a aspiração
d e q u e tem os d e viver com o nos apraz. Os m o d e rn o s n ão se sentem
livres .simplesmente porque seus direitos são respeitados, ou porque
suas cre n ç a s p o d e m se r liv re m e n te exp ressas, ou p o r q u e , com
lib e rd a d e , to m a m p a rle no p ro c e sso de decisão coletiva. ftssas
p esso as ta m b é m se se n te m livres p o r q u e d irigem sua vida m e ­
d ia n te o p ç ã o pessoal d e tra b a lh o e lazer. Liberdade de realização
pessoal 'trad u z a essência «Io assunto. A questão, realçada p o r J o h n
Plam cnatz, consiste em q u e as pessoas g e ra lm e n te se p r o p õ e m
objetivos e p a d rõ e s de excelência q u e p o u c o tê m a ver c o m o b em
24 O liberalismo - antigo e moderno

c o m u m o u até m e sm o com a afirm ação púb lica d e c ren ç a — obje­


tivos e p a d rõ e s d e u m c a rá te r individualista o u privado, m as que,
a in d a assim, absorvem g ra n d e p a rte dos esforços deles.4 i
N o ssa classificação d e espécies d e a u to n o m ia segue, grosso
modo, a o rd e m histórica d e q u a n d o a p a rec era m . N o se n tid o acim a
indicado, estar livre d e o p re ssã o é u m a e xperiência im em orial. A
lib e rd a d e política n o nível estatal p a re c e te r sido u m a invenção de
A tenas, n a é p o c a clássica. A lib e r d a d e d e c o n sc iê n c ia e n tr o u a
afirmar-se, prim eiro , d u r a n te a R e fo rm a e as g u e rra s d c religjião
q u e se lhe seguiram , e q u e a to rm e n ta ra m a E u ro p a até meados] do
século XVII. P or fim, adveio a d issem inação d a lib e rd a d e indivi-
i ' ;
dualista. A lib erd ad e c o m o realização e c o n q u ista pessoais, ccjris-
tru íd a c o m base e m u m a a m p la privacidade, é u m a te n d ê n c ia blsm
m o d e rn a , alicerçada n a crescente divisão do tra b a lh o na socicd;tde
in d u stria l e, m ais r e c e n te m e n te , n a e x p a n sã o d a s o c ie d a d e |cie
c o n su m o e d o te m p o d ed ic ad o ao lazer. j [
C abem aqui pelo m e n o s d u a s ressalvas. Em p rim e iro luglai',
u m a m a rg e m razoável d e liberdade d e op inião fazia p a rte d a antiga
lib erd a d e política. N o início d o século V a.C., a vida política grega
incluía o c onceito d e iwgorià, lib e rd ad e d e e x pressão n ã o co m ò
contraposição à censura, mas com o o direito d e falar c om liberda db
n a assem bléia d e cidadãos.5 ijlé m disso, deve-se evitar a im press ãó
J
de q u e faltava n o m u n d o an tigo c o m o u m to d o a lib e rd a d e indi V I-
dualista, a q u a rta espécie de! lib e rd a d e e m n ossa tipologia. M; 1!>,
te n d o e m m e n te essas ressalvas, a nossa classificação cronológi ca
dc a u to n o m ia s parece sustentável.

T ipos de liberdade

R e lem b re m o s agora, b rev e m en te, u m as p oucas definições famosas


de lib erd ad e na literatu ra liberal:
1. “L ib e rd a d e é o d ire ito d e lazer aq u ilo q u e a lei p e r m i t e ’.’
(M ontesquieu, Do espírito das leis, livro 12, cap. 2).
Definições e pontos de partida 25

2. “L ib e rd a d e significa o b e d iê n c ia à lei q u e n ós nos prescreve­


m o s ” (Rousseau, Contrato social, livro 2, cap. 8).
3. L ib e rd a d e m o d e r n a é a “fru iç ã o pacífica d a in d e p e n d ê n c ia
individual o u p riv a d a ” (B enjam in C o n stan t, Liberdade antiga e
moderna).
F ilósofos p o lític o s ( p o r e x e m p lo , N o r b e r to B o b b io ) d istin ­
gu e m , c o m freqüência, u m conceito clássico liberal d e lib e rd a d e de
u m c o n c eito clássico democrático d e lib erd ad e. N o conceito liberal,
lib e rd a d e significa ausência d e coerção. N o co nceito dem o c rátic o ,
significa autonom ia, a saber, o p o d e r d e a u to d e te rm in a ç ã o .6
Em sua fam osa c o n ferên cia d e 1958 c m O x fo rd , “Dois co n­
ceitos d e lib e r d a d e ”, Isaiah B erlin o p ô s lib e rd a d e negativa a liber­
d a d e positiva. Ele definiu a lib e rd a d e negativa co m o e sta r livre de
coerção. A lib e rd a d e negativa é s e m p re lib e rd a d e contra a possível
in terferên cia d e alguém . São ex em p lo s disso a a u to n o m ia d e fn iir
intitu lam en to s (co n tra possíveis abusos); a a u to n o m ia d e expressar
crenças (em o p osição à censura); a lib e rd a d e d e satisfazer pessoal­
m e n te gostos e a livre p ro c u ra d e objetivos individuais (em oposição
a p a d rõ e s im postos). A lib e rd a d e positiva, p o r o u tr o lado, é essen­
c ialm e n te u m desejo d e governar-se, u m a nseio d e a u to n o m ia .
C o n tr a ria m e n te à lib e rd ad e negativa, n ão é lib e rd ad e de, m as li­
b erd a d e para: a aspiração ao autogoverno, a decidir com a u to n o m ia
e m vez d e se r ob je to d e decisão. E n q u a n to a lib e rd a d e negativa
significa in d e p e n d ê n c ia d e in terferên cia, a lib e rd a d e positiva está
rela c io n a d a à in c o rp o ra ç ã o d o controle.
O filósofo canadense C harles T aylor corrigiu Berlin advertindo
q u e am bas as espécies de lib erd ad e, positiva e negativa, são com
freqüência caricaturadas no calor dos d ebates ideológicos.7 Críticos
d a lib e rd a d e positiva, p o r exem plo, te n d e m a salientar q u e os p a r­
tidários d a lib e rd a d e positiva te rm in a m ju stifica n d o o go v ern o ti­
rânico das elites “esclarecidas” a firm a n d o objetivos h u m a n o s “ver­
d a d e iro s ” o u “m ais nobres" (com o a form ação d o “novo h o m e m ”
sob o c o m unism o). Inspirados p o r elevados ideais d e h u m an id a d e ,
26 U liberalismo - antigo e moderno

esses u tó p ico s g e ralm e n te revelam-se so m b rio s virtuosi d o substilu-


cionismo moral: em n o m e d e nossa mais elevada fo rm a d e ser, eles
sim p lesm en te d e cid e m a nossa vida, em nosso lugar. Mas, r e m a ­
tados defen so res d a lib e rd ad e negativa, são tão cegos q u a n to os
an te rio re s a certas d im en sõ es psicológicas com pulsivas da liberda­
de d e escolha. C o m o o bservou Taylor, à p rim e ira vista a lib erd ad e
positiva é u m “conceito a ser p o sto em p rá tic a ”, e a lib erd a d e n e ­
gativa u m “conceito d e a p ro v e ita m e n to d e o p o r tu n id a d e ”. T u d o
0 q u e se req u er, p a r a a lib e rd a d e negativa, é a au sên cia d e obstá­
culos significativos, n ã o se im p o n d o q u a lq u e r real execução.
Além disso, n a bu sca d e m eus objetivos liv rem ente escolhidos
(liberd ade negativa) posso e nfrentai' b arre iras internas (p o r e x e m ­
plo, o m eu desejo d e viajai' p o d e chocar-se c om a m in h a preguiça).
Assim, o p ró p rio uso d a lib e rd a d e negativa p o d e c om fre q ü ê n c ia
envolver m u ito c o n tro le pessoal, e, p o rta n to , a psicologia d a liber­
d a d e positiva.
Pen sa d o re s liberais d e inclinação mais histó rica ta m b é m c o n ­
cluíram q u e a distinção e n tre lib erd ad e positiva e negativa n ão é
tão nítida. Bobbio, p o r exem plo, acha q u e a lib e rd a d e co m o in d e ­
p e n d ê n c ia e a lib e rd ad e c o m o a u to n o m ia p artilh a m u m m e sm o
cam po, um a vez q u e am bas implicam au to d eterm in a çã o . A própria
história criou u m a progressiva in tegração d e am bas as form as de
lib e rd a d e — a tal p o n to que, em nossa era social-liberal, podem -se
concebei' as duas c o m o perspectivas c o m p le m e n ta re s. O q u e q u e r
q u e o indivíduo possa decidir p o r si m esm o deve ser d eix ado à sua
v o n ta d e (o q u e suslenta a liberdade negativa ou “liberal"); e o n d e
q u e r q u e haja necessidade de decisão coletiva, dela deve partici­
p a r o indivíduo (o que sustenta a liberdade posiliva o u “dcm ocrá-
1 ira " ). I ui li) bem i<*iit.i<!< >, l'»ol il lii i c o m 11li <|ii< • <ada uma das duas
d o u trin a s re sp o n d e a u m a qu e stão diferente. A lib e rd a d e negativa
relaciona-se com a queslão: “Q u e significa se r livre pa ra o indiví­
d u o c o n sid era d o isoladam ente?” A lib e rd ad e positiva relaciona-se
com o u tra questão: “Q u e significa p a ra o indivíduo ser livre co m o
Definições e pontos de partida 27

membro de um todo?”s N a d e m o c ra cia liberal, am bas as q u e stõ e s são,


é obvio, e stre ita m e n te a p a re n ta d a s, e o significado das respostas
q u e se lhes d á está longe d e se r acadêm ico.

Três escolas de pensam ento

O u tra m a n e ira de realçar as diferenças e n tre espécies d e au to n o m ia


e lib e rd a d e — f o r m a essa m ais p ró x im a d o te r r e n o fam ilia r d a
h istó ria das idéias — é d iferen c ia r três principais escolas d e p en sa­
m e n to so b re a liberdade. C a d a u m a identifica-se co m u m g ran d e
pais e u ro p e u — Inglaterra, F rança e A lem a n h a .9

Inglaterra

A escola inglesa d e teo ria d a lib erd ad e, q u e vai d e H o b b e s e Locke


a B e n th a m e Mill, vê a lib e rd a d e c o m o ausência d e coerção, ou
(na fam osa o p in iã o d e H o b b e s) a ausência d e obstáculos externos.
Q u a n d o classificou tal a u to n o m ia c o m o lib e rd a d e social, H o b b e s
d e lib e ra d a m e n te chocou-se co m a tradição h u m a n is ta — a a d o ra ­
ção d e valores cívicos e, p o rta n to , a a u to d e te rm in a ç ã o e a liber­
d a d e põlüica (a nossa seg u n d a lib erdad e histórica, o u u m a liberdade
“r o u s s c a u n ia n a ”). Esta n o çã o p o d e ser seguida até a dem ocracia
da polis e n u n c a m o rre u in te iram en te . N a Id a d e M édia, u m a cida­
d e e ra tida co m o livre q u a n d o p o d ia fazer sua p ró p r ia lei {“cÂvitas
libimi qutut possil sibi lege.m facerc"). Mas o ideal d e g o v e rn o político
foi re a n im a d o — e m u ito re fo rç a d o — pelos h u m a n istas d a Renas­
cença, p rim eiro c m F lo rc n ç a 1,1 e depois no r c s l o d a K t i r o p a .
I lobbcs, e sc re v e n d o e n q u a n to raiava a g u e n a civil inglesa,
p r o c u r o u d e s e s p e r a d a m e n te d isso cia r o c o n c e ito m o d e r n o d e
lib e rd a d e dessa tradição. C ritico u ta n to Maquiavel co m o o p o eta
M ilton p o r suas opin iões r epublicanas e re d efin iu lib e rd a d e , des­
c a rta n d o o en tusiasm o cívico. Em vez d e exaltar a v irtu d e cívica,
28 O liberalismo - antigo e moderno

llo b b e s louvou a lib erd a d e não política, o u civil. Sustentava que,


unva voz instituído o governo, a liberdade deixa d e ser u m assunto
de a u to d e te rm in a ç ã o para con stituir algo a ser (ruído “ 110 silêncio
das leis".
E crucial a frase d e H o bbes, p o rq u e iguala lib erd ad e com tu d o
o q u e a lei p e rm ite pelo sim ples fato d e q u e n ã o proíbe. A liber­
d a d e política, o q u e frustra sua p ró p ria d e finição, fora se m p re
c o n ce b id a co m o lib erd ad e por meio d a lei (c legislação), e m lugar
d e algo exterior à lei. A fo rm u la çã o d e l lo b b es é a fo n te da idéia
inglesa d e lib e rd a d e negativa, e m b o r a sua fo rm u la ç ã o clássica
d e n tro d o p e n s a m e n to liberal te n h a sido feita p o r u m francês —
M o ntesquieu.

F rança

A escola “francesa” d e liberdade, com o u m m o d e lo teórico, prefere


R o u sseau a M o n tesq u ieu . Jean-Jacques R o u ssea u , filho d a livre
G en eb ra , nascido calvinista co m o Milton, r e to r n o u a M aquiavel e
ao p rin c íp io republicano. P a ra ele, a fo rm a mais elevada d e liber­
d a d e consistia n a a u to d e te rm in a ç ã o , e a política devia refletir a
a u to n o m ia da p ersonalidade. R ousseau era u m individualista tão
radical q u a n to qualquer um; n a realidade, com o principal p recursor
d o ro m an tism o , ele foi o mais im p o rta n te o r ig in a d o r d o indivi­
dualism o em literatura e religião. Mas ao tra ta r d e lib e rd a d e social,
ck* ]>ôn o cidadão num plano limito mais elevado do q u e o btngtiL-s
— c a liberdade política, b e m acim a d a a u to n o m ia civil. A eloqüência
de seu Contrato social redirecio nou o conceito de liberdade d a esfera
civil p a ra a esfera cívica. E m b o ra R ousseau n u n c a te n h a previsto
algo co m o revolução, m uito dò te rr o rism o ja c o b in o revolucionário;
de 1793-1794 foi ex ecu tad o e m seu n o m e . I
M uitos d e fe n d e ra m a idé a d e q u e R ousseau foi u m a espécie
d e esquizóide ideológico: u m iniciad or do individualism o n a cul-j
tura, p o r u m lado, e u m prec u i so r d o totalitarism o, p o r o u tro . Mas
Definições e pontos de partida 29

essa n o çã o é c o m p le ta m e n te in fu n d a d a . R ousseau n u n c a cogitou


q u e a d e m o c ra cia (ou república, palavra q u e ele p refe ria ) limitasse
a lib e r d a d e .11 O v erd ad eiro objel ivo de sua exa lta rã o da liberdade
dem o crática em d e trim e n to da lib erd ad e liberal não consistia iiiiin
preju ízo ao individualism o, m as n a d estru ição d o particularismo. O
p artic u la rism o refletia o e n c a n to d e u m a velha força n a política
francesa: patriinoni/dismo.
A m o n a rq u ia francesa, p o r m u ito te m p o aco ssada pelo p r o ­
b le m a d e c o n tr o la r u m a o r d e m social dividida, e la b o ra ra u m c o n ­
ceito p a trim o n ia l d o p o d e r. A so b e ra n ia significava p ro p r ie d a d e
p riv a d a e m g ra n d e escala — e o rei e ra o ú n ico p ro p rie tá rio . A
centralização foi u m p ro b le m a m a io r p a ra os reis franceses d o que
p a ra os reis ingleses. N a In g la te rra a aristocracia feudal centralizou-
se ela p ró p ria , e a c o ro a firm ou-se a p a rtir d a fo rte posição p r o ­
p o rc io n a d a pela co n q u ista n o r m a n d a , m as n a F ra n ç a a fra g m e n ­
tação e r a a regra. Disso resultava q u e havia vários p a rla m e n to s
regionais n a França, em con traste co m o velho p a rla m e n to nacional
inglês. E m seu esforço e m p ro l d a centralização, a C o ro a francesa
c o m p r o u a aristocracia com u m a v e n d a n o to ria m e n te m aciça de
cargos públicos, e o resultado foi u m a estru tu ra inteira de interesses
p a ilia ila ris la s <: d c posições desiguais.1'
O p e n s a m e n to político m o n a rq u is ta q u e surgiu p rim e iro na
França, tal co m o o d a Republique d e J e a n B odin, d e 1576, te n to u
utilizar o co n c eito d e so b e ran ia p ara c o m b a te r a a n a rq u ia feudal.
Mas os inim igos d o p o d e r m onáitjiiico, com o os htigtienolcs no
século XVI, son havam co m fortalecer os p arlam en to s, c o m o ins­
tituições públicas capazes d e re fre a r a C oroa. A c o n trib u iç ão es­
tratégica d e R ousseau p a r a a história do discurso político consistiu
e m u s a r o fru to d o p e n s a m e n to d e Bodin — so b e ra n ia não divi­
d id a e indivisível — p a ra elim in ar o p o d e r dos g o v ern an tes com o
fonte d e opressão particularista, e m vez dc fortalecê-lo. N;is palavras
inteligentes d e Ellen Meiksins W oods: “O n d e B o din s u b o rd in o u a
p a rtic u larid ad e d o povo à (p reten sa) universalidade do go v ern an te
30 O liberalismo - antigo e moderno

(m o n árq u ic o ), R o usseau su b o rd in o u a p a rtic u la rid a d e d o gover­


n a n te à univ ersalidade d o p o v o .”13
R o usseau a rm o u u m a p o d e ro s a retó ric a e m defesa d a liber­
d a d e política ou d em o c rá tic a c o n tra o c aráte r o d io so d o privilégio
— algo q u e os p rim eiro s liberais co m o M o n te sq u ie u n ã o estiveram
a c im a d e s u ste n ta r. Mas R o u sse a u p re o cu p av a-se ta n to co m a
n ecessidade d e d esp atrim o n ializar o p o d e r q u e p e r d e u d e vista a
o u tr a qu e stã o chave: a d o alcance d o p o d e r. Pois, c o m o observou
C onstant, “a legitim idade do gov ern o d e p e n d e ta n to do seu objeto
q u a n to d a su a fo n te ”.14 C on sta n t c o m p r e e n d e u que, ao focalizar
quase exclusivam ente a fo n te d a a u to rid a d e (so b era n ia po pular),
o co n tra to social d e Rousseav p o d e ria ser usad o co m o a rm a contça
a lib e rd a d e co m o in d e p e n d ência, p o n d o e m risco a a u to n o ih ia
pessoal e a vida da individualidade. A lib erd a d e política era ccJisa
boa, se mais não fosse p o rq u e g arantia a in d ep en d ên c ia individt|al.
J o h n Locke, u m a geração dep ois d e H o b b cs, e n te n d e r a isso. Mias,
d e sd e que se quisesse u m a ljb erd ad e total, esta ta m b é m teria db
florescer além da esfera cívica, 1 1 0 silêncio d a a u to rid a d e , p o r assmi
dizer. M o n te sq u ie u ensino u pie a a u to rid a d e deveria ser dividida
p a ra n ã o ser tirânica; C o n sta n t advertiu q u e a so b e ra n ia tin h a dp
ser lim itada p a ra n ão ser despótica. R ousseau colocara a democlrá-
cia n o lugar d a autocracia. Ò p ró x im o passo consistia e m a talh ar
o d e sp o tism o dem ocrático.

A le m a n h a \

B em n o início d o século XIX, u m ilustre h u m a n ista e dip lo m ata


alem ão, b a rã o W ilhelm von H u m b o ld t (irm ão mais velho d o g ra n ­
d e n a tu ra lista A lex a n d re von H u m b o ld t e f u n d a d o r da U niver­
sidad e d e Berlim .pelou p a ra lim itar em vez de sim p lesm en te
c o n tro la r a aut< >1 idade central. N o livro On lhe Lim its o f State Action,
H u m b o ld t ex p rim iu u m te m a liberal p r o f u n d a m e n te sen tid o : a
p re o c u p a ç ã o h u m a n ista d e fo rm a çã o d a p e rso n a lid a d e e ap erfei­
Definições e pontos de partida 31

ç o a m e n to pessoal. E d u ca r a liberdade, e libertar p a ra e d u c a r — esta


e ra a idéia d a Büdung, a c o n trib u içã o g o e th ia n a d e H u m b o ld t à
filosofia m o ra l.15
O ideal B ü d u n g é in c riv e lm e n te im p o r ta n te n a h is tó ria d o
liberalismo. Além d e exercer fo rte influência em p e n sad o re s liberais
q u e d e ix aram sua m arca, c o m o C o n s ta n t e J o h n S tu a rt Mill, ele é
a e stru tu ra lógica p o r trás d e u m conceito alem ão d e lib e rd a d e qu e
tem p o r m u ito te m p o prevalecido.16 O conceito está e stre ita m e n te
ligado à lib e rd a d e política p o r q u e ta m b é m salienta a a u to n o m ia ;
c o n tu d o , n ã o gira e m to rn o d a participação política, m as e m to r­
n o d o d e s d o b r a m e n to d o p ote n cial h u m a n o .
I m m a n u e l Kant, o sábio d e K ó nigsberg em cujos a p o sen to s
a u ste ro s e n co ntrava-se u m r e tr a to d e R ousseau, a firm o u q u e o
ho m e m , n ão co m o animal mas co m o pessoa, devia “ser c onsiderado
u m fim em si m e s m o " . ^ Islo cra o u lra d im e n sã o chave <lo,s rm i
coitos alem ães d e liberdade: autotdin ou realização pessoal. Kaul
colocou a autotelia n o c e n tro d a m o ralidade. E m b o ra n u n c a tenha
c o n fu n d id o política c o m m oral, K ant d e fe n d e u o re p u b lica n ism o
c o m o u m a o rd e m social-Iibcral em q u e a in d e p e n d ê n c ia pessoal
p elo m e n o s a lim en taria u m a o r d e m legal mais p ró x im a d a m o ra ­
lidade d o q u e as egoístas m o n a rq u ia s beligerantes d e seu tem p o .
Q u a n d o G. W. F. H e g el (1770-1831 ), o m a io r d os filósofos
pós-kantianos, escreveu su a Filosofia do direito e m 1821, transferiu
a a u to te lia d e K a n t d o c a m p o d a ética p a ra o c a m p o d a política, e
d a p e s s o a p a r a o E stad o. Id e alizo u e n tã o o E stad o c o m o u m a
m aterialização m u n d a n a d o Espírito, u m p ro g re sso d a razão no
curso d a história. H á lib e rd a d e n o E stado co n ce b id o p o r Hegel,
m as é lib e rd a d e racional — n ã o a p en a s in d e p e n d ê n c ia d a coerção,
mas lib e rd a d e co m o u m p o d e r em desenvolvim ento d e realização
pessoal, a p r ó p ria essência d a B ü d u n g n u m a elevada versão polí­
tica. Pois o m e sm o o c o rre n a m o ra lid a d e d e K a n t e n a B ü d u n g de
H u m b o ld t, e ta m b é m n a política d e Hegel: nos três casos h á u m a
direção c o m u m , a autotelia. Essa e ra a alm a d o c o n c eito alem ão
32 O liberalismo - antigo e moderno

d e liberd ade. N ão h á dúvida d e q u e era lib e rd a d e positiva, u m a


vez q u e constituía d a fo rm a mais conspícu a u m e x e m p lo d e “Jiher-
i
d a d e p a r a ”; mas tratava-se d e lib e rd a d e positiva co m u m a ênfase
cultural. !
R esum ind o: a teoria inglesa dizia q u e a lib e rd a d e significava
in d e p e n d ê n c ia. O conceito francês (de R ousseau) consistia e m que
lib erd a d e é au to n o m ia. A escola alem ã replicou a isso q u e a liber­
d a d e é realização pessoal. O am b ie n te político d a teoria francesa
residia n o p rincípio dem ocrático; e o d a te o ria alem ã era o Estado
“orgânico”, u m a m istura de elem entos tradicionais e m odernizados.

0 indivíduo e o Es lado

P ara nos ap ro x im arm o s d a história concreta, p recisam os esboçar


u m a tipologia d ife re n te d a p rim eira. Pois é possível d istinguir dois
p a d r õ e s liberais p rin cip ais n o in te rio r d a evolução política oci­
dental; especificam ente, dois p a d rõ e s básicos n o re lac io n am en to
e n tre Estado e indivíduo.
H á neste p o n lo um p a ra d ig m a inglês e u m francês. A distin­
ção e n tre os dois liberalism os co m u m matiz nacional, u m inglês e
o o u tr o francês, foi tra ç a d a co m vig or n a Hislory o f European
Liberalism d e G u id o d e R uggiero, q u e foi a o b r a p a d rã o sob re o
assunto 110 p e río d o <lc e n tre guerras. De R uggiero observou que,
e n q u a n to a espécie inglesa de liberalismo favorecia p o r inteiro a
lim itação do p o d e r estatal, a variedade francesa p ro c u ra v a forta­
lecer a a u to rid a d e estalai p a ia g a ra n tir a igualdade d ia n le da lei.
A versão francesa procu rava lam b ém a dem o lição da o rd e m "feu­
d a l” b e m su sten ta d a pelo privilégio social e p e lo p o d e r d a Igreja.
Essa d ife re n ç a tem raízes sociais. E m b o ra a e s tru tu ra social
inglesa conservasse u m a f o r te b a se d e classe, a h ie r a rq u ia dos
E stados característica d a so ciedade tradicional fora logo c o rro íd a
p ela e m erg ên cia de agricultores livres e p ela ig u alm en te p reco ce
Definições e pontos de partida 33

conversão d a n o b re z a ao capitalism o a g rá rio .18 Isso, ju n ta m e n te


co m a realização p re co c e d e u m E stad o un itário , e stabeleceu u m
m o d e lo n o qual o E stado se apoiava e m indivíduos in d e p e n d e n te s,
cujo re la c io n a m e n to c om o Estado e ra mais associativo d o q u e su­
b o rd in a d o . As classes superiores inglesas era m sen h o ras do Estado.
A so ciedade francesa, e m contraste, m an tev e u m a e stru tu ra
h ie rá rq u ic a fe chada p o r m u ito tem p o . Q u a n d o a R evolução p ri­
vou essa e s tru tu ra d e su a legitim idade política, a lógica d a situação
to r n o u necessário o m o do Estado para, libertar o indivíduo, g a ra n ­
tindo-lhe os direitos. O n o v o Estado, que, ao q u e se p re te n d ia ,
in c o rp o ra v a a v o n tad e geral, m antinha-se alto e p o d e r o s o com o
ú n ica fo n te d e a u to rid a d e legítima, em g ra n d e p a r te inacessível à
m ediação d e instituições associativas q u e p e rten c iam à sociedade
civil. C o m o conseqüência, e n q u a n to n a Inglaterra o relacionam ento
Estado-indivíduo e ra b a sic am en te de sco n tra íd o , n a F ran ç a tornou-
se m u itas vezes tenso e dra m á tic o , fazendo com q u e os cidadãos
en tra sse m em c h o q u e com o p o d e r estatal e m solidão h e ró ica e
rebelde, c o m o u m p e rso n a g e m n u m a tragédia clássica. Nesse m eio
te m p o , o Estado, q u e se tra n sfo rm a ra n u m a sede zelosa d a vontad e
geral m e d ia n te as ficçõcs de representação o n ip o te n te {asscmbléiime)
e d e g o v ern o plebiscitário (bo n a p artism o ), oscilou e n tr e d e m o c ra ­
cia e d e s p o tis m o .19 Disso re su lto u a p re o c u p a ç ã o d e liberais fran ­
ceses, co m o Tocqueville, d e aclim atar n a F ran ça u m a tr a m a asso­
ciativa d o m o d elo a m e rica n o q u e p udesse IVear o p o d e r estatal.
V oltarem os a e n c o n tra r esses dois m odelos, esp ec ialm en te o fran­
cês, q u a n d o se g u irm o s a s o rte d o liberalism o n o s dois ú ltim o s
séculos, ta n to na Europa c o m o alhures.
2
As raízes do liberalismo

Este capítulo e os três seguintes se rã o os capítulos d e c a rá te r mais


histórico n este livro d e perspectiva histórica. D evotarei aqui duas
seções p a ra assinalar algum as raízes d o liberalism o d a R e fo rm a ao
Ilum inism o e o co m eç o do século XIX; os capítulos 3, 4 e 5 p r o ­
p o rc io n a m u m a visão generalizada d a te o ria liberal d e sd e os tvhigs
d e p e ru c a até os neoliberais d e dias ulteriores. N o d e c u rso d e três
séculos, o liberalism o enriqueceu-se v e rd a d e ira m e n te e m tem as e
e m tópicos, m as o e n riq u e c im e n to da d o u trin a liberal r a ra m e n te
foi u m p ro c e sso linear. M uitas vezes, p ro g re sso s n u m a d ire ç ã o
fo ra m c o n tra b a la n ç a d o s p o r retrocessos. Q u a lq u e r im p re ssão de
triunfalism o deve ser evitada, p o rq u e o liberalism o teve d e a p r e n ­
d e r coisas im p o rta n te s com o desafio d e ideologias rivais.

Prim eiras fontes m odernas

O liberalism o clássico, ou liberalism o em sua fo rm a histórica o ri­


ginal, p o d e se r to sc a m en te caracterizado c o m o u m c o rp o d e fo r­
m ulações teóricas q u e d e fe n d e m u m Estado constitucional (ou seja,
u m a a u to r id a d e n a c io n al c e n tra l c o m p o d e r e s b e m d e fin id o s e

35
36 O liberalismo - antigo e. moderno

lim itados e u m b o m g ra u d e c o n tro le pelos go v ern ad o s) e u m a


am p la m a rg e m d e lib erd ad e civil (ou lib e rd ad e n o se n tid o hobbe-
siano, individualístico e x am in ad o no capítulo 1). A d o u tr in a libe­
ral clássica consiste e m três elem entos: a teo ria do s direitos hum a-
I
nos; constitucíonalism o; e “ec o n o m ia clássica” (grosso modo, o ra m o
de co n h e c im e n to in a u g u ra d o p o r A d a m Smith, sistem atizado p o r
David R icardo e ilustrado, e n tre o u tro s escritores, p o r Mill). Tra­
tarei dos direitos e constitucíonalism o nesta seção, e d a e co n o m ia
clássica n a próxim a.

D ireitos e m odernidade

A luta form ativa do liberali smo foi a reivindicação d e direitos j—


religiosos, políticos e econc micos — e a tentativa d e controlar! o
|
p o d e r político. A cultura m o d e rn a é n o rm a lm e n te associada á rjma
profusão d e direitos individuais-, historicam ente, p o d e m o s dizer ]ue
a lib e rd a d e se relacio na com o a d v en lo da civilização m odei na,
prim eiro n o O cidente e, depois, em outras partes do m u n d o . Par ei:e
seguir-se a fó rm u la d e q u e lib e rd a d e é igual a m o d e rn id a d e q u e 'é
igual a individualism o. Sem m e d o d e e rrar, p o d e m o s p ro c u ra r as
raízes do liberalismo n a e xperiência histórica d a m o d e rn id a d e . Mas
o n d e com eçar? U m a vez a d m itid o q u e a escala e c re sc im e n to são
a m arca distintiva d a m o d e rn id a d e , o n d e se e n c o n tr a o p o n to èm
que isso se passou, o divisor d e águas histórico?
Foi d a d a u m a re sp o sta a essa q u e stã o p e la assim c h a m a d a
escola reacionária d a teoria social — os publicistas franceses com o
Maislre c Honald que escreviam em reação Iioslil à ('.rande Revo­
lução. A o p in iã o deles consistia em q u e os males da R evolução
rem o n tav a m — através d o llu m in ism o — à Reforma protestante do
século XVI. O g ra n d e c u lp a d o original fo ra L u tero , q u e so ltara o
d e m ô n io d o individualism o. D esde e n tão , a r g u m e n ta r a m eles, a
crítica e a a n a rq u ia e n tra ra m a so lap a r a o r d e m social e os seus
alicerces, os princípios d e a u to rid a d e e h iera rq u ia . Esses reacio­
Aí raízes do liberalismo 37

n á rio s c o n c o r d a r ia m co m a n o ssa e q u a ç ã o d e m o d e r n id a d e e
lib e rd a d e , m as a julgavam em te rm o s fo rte m e n te d erro g a tó rio s.
Mas outros, até m e sm o p ro testa n te s fiéis, viram a R e fo rm a não
c o m o in icia d o ra d a m o d e rn id a d e , mas, n o m áxim o, co m o u m im ­
p o r ta n te a n tep assa d o d a m esm a. H egel foi u m e x e m p lo típico e
d e g r a n d e in flu ê n cia. P a ra H eg e l, o c ristian ism o , c o m a su a
m etafísica d a alm a, foi o b e rç o h istó rico d o p rin c íp io d a indivi­
dualidade. A lib erd ad e g rega fora u m a con quista gloriosa, mas não
desenvolveu a individualidade h u m a n a . A R e fo rm a tro u x e consi­
go u m a fo rte afirm ação d a consciência individual, disse Hegel, mas
m e sm o n o O c id e n te cristão a lib e rd a d e c o m o individualidade não
alcan çou u m a fo rm a ativa até a R evolução e N a p o leã o . Foi e n tão
q u e a “so ciedade civil” c o m p o sta p o r indivíduos m u n d a n a m e n te
in d e p e n d e n te s re c e b e u sua legitim ação a p ro p ria d a , m ais visivel­
m e n te n o C ó d ig o d e N ap o le ã o , o d ir e ito civil d a E u r o p a pós-
revolucionária. A ntes d a q u ele m o m e n to , a individualidade, a for­
ça m o to r a na c u ltu ra da m o d e r n id a d e , vivera p o r m u ito te m p o
co m o u m a crisálida. Portanto, o divisor d e águas m o d e rn o n ã o fora
ta n to 1500 q u a n to 1800 — u m d eslo c a m e n to considerável.
O te m a p ro te s ta n te d a inviolabilidade d e consciência foi u m a
c ontrib uição p o d e r o s a e sem inal p a ra o cred o liberal. Mas será que
n a h istó ria das instituições liberais o vínculo e n tre consciência e
lib e rd a d e e r a tão r e to e d ireto ? As seitas p ro te s ta n te s q u e sus­
ten tav am a lib e rd a d e d e consciência d ia n te d a in transig ência ca­
tólica re c a ía m m u itas vezes, elas p r ó p ria s , n a in to le râ n c ia e n a
re p re ssã o . A m o r te n a fo g u e ira d o m é d ic o M iguel S erv etu s n a
C.enebra c:\lvi nista (1553) to rn o u -se tuna arnsc râlrbtr d o f u r o r
p ro te sta n te co n tra a heresia; d e p r o n to , a persegu ição e n tr o u em
prática, c o m o E rasm o triste m e n te previra, e m am b o s os cam pos,
a R e fo rm a e a C o n tra -R e fo rm a . C o m p re e n s iv e lm e n te , o p e n s a ­
m e n to político d e v a n g u ard a re sp e ito u p o r u m te m p o a lib erd ad e
religiosa, e m b o ra tem esse ta n to o fanatism o co m o te m ia o p o d e r
— o te m p o q u e se a lo n g o u d e R ic h a rd H o o k e r (1 5 5 4 -1 6 0 0 ), o
■?<S O liberalismo - aruigu v nioae.ino

principal d e fe n s o r d a solução elisabetana, alé H o b b e s e Spino/.a


e m m e ad o s d o século XVII.
P o u c o antes d a P rim e ira G u e r ra M undial, o p r o e m in e n te teó­
logo p ro te s ta n te liberal E rn st T roeltsch (1865-1923) advogo u com
vigor q u e a m o d e r n a c u ltu ra religiosa se ap a rta sse d a R eform a.
D esafiando as devoções das classes m édias alemãs, q u e ad orav am
a luta d e L u te ro c o n tra R o m a c o m o u m a p relibação d a liber­
d a d e m o d e rn a , a T ro e ltsc h a R e fo rm a p a re c e u f u n d a m e n ta l­
m e n te n ã o m o d e rn a . L o n g e d e a n u n c ia r o plu ralism o m o d e rn o ,
disse T ro e ltsc h , seus líd e re s tin h a m s u s te n ta d o fo rte s c renças
teocráticas dignas d a Id a d e M édia. T ro e ltsc h estava d e lib e r a ­
d a m e n te c o n tr a d iz e n d o seu p r o fe s s o r em G õ ttin g e n , A lb re c h t
Ritschl (1822-1889). Para Ritschl, L u te ro lib e rta ra o cristianism o
do r e tra im e n to místico, ao re d ire c io n a r as energias religiosas no
sen tido do serviço n o m u n d o e no sen tid o d a estrita observância
das obrigações d e cada u m p a ra c om a família, o trab a lh o e o Esta­
do. Mas, seg u n d o Ritschl, o indivíduo levava u m a vida religiosa
prin cipalm ente p o r meio de sua participação na Igreja estabelecida.
Tal n ã o se dava, replicou T roeltsch: a v erd a d e ira fé te m o rig em na
ex p e riê n c ia pessoal. N a Inglaterra, em co n tra ste co m a A le m a n h a
lu te ra n a , a dissidên cia ealvinista lo g ro u c ria r u m a m b ie n te fie
reform a ousada. Mas, no todo, o individualism o p ro te sta n te vin­
gou apenas nos m ovim entos místicos esp o n tân eo s <lo .século XVIII,
c o m o o pielism o. Na revisão d e T roeltsch, o p ro te sta n tism o m o ­
d e r n o , p o r ta n to , m u ito p o u c o devia à fid e lid a d e a u to r itá r ia à
escritura d a R e fo rm a .1
A lguns ram os tia R eform a p re íig m a ra m o pluralism o liberal
m o d e r n o e o seu resp eito ao indivídu o h e te ro d o x o . Poucas seitas
c o m o os socinianos, u m a c o rre n te ítalo-polonesa do s p rim ó rd io s
d o século XVII, e p e n sa d o re s c o m o M ilton, o p o e ta -p ro fe ta do
p u r ita n is m o inglês, p re g a v a m a to le râ n c ia m u ito a cim a d e sua
época. N a “A eropagitica” (1644), su b titu la d a “u m discurso a favor
da lib erd a d e d e im p re n sa livre d e licença”, a defesa d a lib erd ad e de
Aç raízes do liberalismo 39

consciência d c sdobrou-se n u m a rg u m e n to a favor da lib e rd a d e de


opinião.
A to le râ n c ia religiosa tornou-se ta m b é m a p e d r a a n g u la r do
sistem a p ro to lib era l d e Locke. S ua Carta acerca da tolerância (1689),
ch eia d e sim p atia p elo s d issid en te s a rm in ia n o s, d e c la ro u q u e a
p erse g u içã o é c o n trá ria à c a rid ad e e, p o rta n to , n ã o cristã. Locke
su b lin h o u q u e o c u id ad o d a alm a cristã r e q u e r “p e rsu asão in te rn a ”
e, assim, u m livre co n se n tim e n to , ao invés d e coerção.
N a “teo logia n a tu ra l” d e W illiam Paley (The Principies o f M oral
a nd Political Philosophy, 1785), a a rg u m e n ta ç ã o a favor d a to le râ n ­
cia tornou-se utilitária, afirm a n d o q u e “a p ró p r ia v e rd a d e resulta
d a discussão e d a c o n tro v érsia”. N esse m eio tem p o , o m ais desta­
c a d o philosophe, o deísta Voltaire, salientou em seu p r ó p r io Traüê
sur la tolérance (1763) que, e n q u a n to a to lerân cia n u n c a p ro v o c a ra
u m a co n v u lsão social, a in to le râ n c ia c au sara m u ito s b a n h o s de
sangue. Assim, a tolerância, tão a rd e n te m e n te ad v o g ad a pe lo p u ­
rita n o d e fo rm a çã o J o h n Locke, torno u-se o ob jeto d e just ificações
seculares. A luta pelos direitos religiosos alim en to u a idéia d e di­
reitos individuais gerais, u m a das p ró p ria s fontes d o liberalismo.

Direitos: direito n a tu r a l r consentim ento

A principal f o r ç a na I c g it im a ç a o c o n c e i t u a i da m o d e rn a id é ia de
d ireitos foi a m o d e rn iza ç ão d a teoria d e direito natural. A noção
d e u m d ireito n a tu ra l era m u ito antiga. P o d eria ser e n c o n tr a d a n a
filosofia estóica, nas obras d e C ícero (n o ta d a m e n te De republica e
Dc. officiis), na jurisp ru d ên cia im perial ro m a n a (n o ta d a m e n te Claio
e U lpiano), e nos p a d re s d a Igreja. A c o n te n ç ã o básica d a teoria
d o d ire ito n a tu ra l é a d e q u e existe u m a lei mais alta, “u m a razão
reta (recta ralio) se g u n d o a n a tu r e z a ”, co m o disse C ícero (em De,
republica, livro 3, cap. 22). Essa ra zã o tã o im u táv el a p lic a d a ao
c o m a n d o e p ro ib iç ã o é “d ire ito ” p o r q u e p e rm ite às pessoas dife­
re n c ia r o b e m d o m al c o n su lta n d o n ã o mais d o q u e suas cabeças e
40 0 liberalismo - antigo e moderno

corações, seu senso m oral in tern o . O p ró p rio C ícero sugerira q u e


havia u m p a re n te sc o entro tal direito natural e o direito das gentes
— na realidade, um direito c o n su e tu d iu á rio da h u m a n id a d e (jtts
commune).
H á d iferenças significativas e n tre a teoria d o direito n atu ral
dos antigos (jusnaturalism o clássico) e elaborações ulteriores, m e ­
dievais e dos p rim ó rd io s da e ra m o d ern a. Antes do Principado (que
se iniciou com A ugusto no século I a.C.), os ro m a n o s tin h a m tido
a lib e rd a d e n a co n ta d e u m d ireito cívico con quistado, e m vez de
considerá-la*um atrib u to inato dos seres h u m a n o s .2 Mas, poucos
séculos depo is, o c o r re u u m a m u d a n ç a co n ce itu a i n o Digesla, o
c o n ju n to d e p re c e d e n te s q u e in teg rav a o Corpus Ju ris Civilis de
Ju stin ian o , d o século VI. Incluía u m a definição d a lib e rd a d e co m o
“a faculdade n atu ral q u e nos assiste d e fazerm os aquilo q u e q u e r e ­
m o s”. Essa definição era u m a p refig u ração d a lib erd a d e negativa,
fo rm u la d a e m linguagem p a te n te m e n te ju sn atu ralista.
O conceito d e direito sofreu m odificações ainda mais p r o fu n ­
das d u r a n te a transição d a A n tig u id ad e p a ra a Id a d e M édia. Nossa
noção de direito d e n o ta u m a reivindicação caracterizada, m uitás
vezes relativa a coisas (com o o direito d e p ro p rie d a d e ), e tem u m
forte lado subjetivo. O conceito ro m a n o d c im , em contrapo sição,
era b e m objetivista.i<Ulpiano, n o século 111 a.D., e os Ivslilvla diziam
“que a ju stiç a é a d ete rm in a ç ã o c o n tín u a e d u ra d o u r a d e atrib u r
a cada u m seu ius" (o fam oso p rin cíp io suum cuique Iribuere). Isto
significava sim plesm en te q u e ú m ju iz devia se m p re b u sc a r a solu­
ção ju s ta d e u m a disputa. Os com entaristas m edievais das Inslilutc’,,
co m o Azo d e B o lo n h a (cerca d e 1200), e n te n d e ra m q u e o d ito d c ■
U lpiano significava q u e as pes: ;oas deviam re sp e ita r as respectiva;
reivindicações. Levados p elo em a ra n h a d o d e relações feudais, ju ri.|
tas medievais te rm in a ra m p o r mesclar dois conceitos q u e original
m e n te e ra m distintos n o direito ro m a n o : ius e dom inium , ou pre
p ried ad e . Inicialm ente, o domi üum referia-se ap enas a possessõe
e não a relações interpessoais. Mas n o século XIII o g ra n d e glosado
Aí raizes do liberalismo 41

A cúrsio c o n ce b eu o dom inium c o m o q u a lq u e r ins in re. (huilquer


direito q u e podia ser d e fe n d id o erga trmnrs — isto é, co n tra qual­
q u e r o u tra pessoa — e q u e p o d e ria ser a lienado p o r seu p ró p rio
p ro p rie tá rio veio a se r c o n sid e ra d o u m direito d e propriedade.
N a b aixa Id a d e Média, essa fusão criativa d e ius e dom inium
foi a p r o f u n d a d a . P or sua vez, p e n s a d o r e s n o m in a lista s c o m o
G e rso n em Paris m istu raram o con ceito d e nus com a faculdade
n atu ra l d e libertas. De a c o rd o c o m R ich ard Tuck, u m lu m in a r n a
histó ria d a te o ria d o direito n atural, o re su lta d o final d a resistên­
cia ao evangelism o franciscano resid iu n a conclusão d e q u e os in­
divíduos tê m direitos d e dom inium so b re suas vidas e bens. Esse
direito d e c o rre n ão d o d ireito civil o u d o in te rc u rso social, mas da
própria natureza das pessoas c o m o seres h u m a n o s .4
N o início d a Id a d e M o d e rn a , os conceitos d e d ire ito n atural
influenciavam p rim a riam e n te o direito público ,5 Mas o ro b u sto novo
conceito d e direitos naturais c o m o reivindicações subjetivas d e largo
a lcance logo in v a d iu a te o ria d a o r d e m social, e o m o d e lo do
“co n trato social” em ergiu com o a versão política d a teoria do direito
natural. O m o d e lo d o c o n tra to social, q u e e ra u m a p e ça central
n o p rim e iro p e n s a m e n to político m o d e r n o d e H o b b e s a Rousseau,
serviu idéia d e direitos natu rais c o m vigor. Suas prem issas in­
dividualistas, c o m o coisa d istin ta d e suas c o n c lu sõ e s políticas,
rev elaram -se in g re d ie n te s cruciais n a a sc en são d o p e n s a m e n to
liberal.
O co n tra tu a lism o n ão n a sceu a u to m a tic a m e n te d o c onceito
m edieval d e direitos subjetivos e d e sua m o ld u ra jusn atu ralista . E m
vez disso, o c o rre u u m novo f e n ô m e n o . O je su íta Francisco Suárez
(15 48-1617), o prin cip al publicista d a C o n tra-R efo rm a, ta m b é m
re c o n h e c ia q u e L u te ro e M aquiavel haviam p o sto d e lad o o direito
natural. A visão s o m b ria d e L u te ro so b re a p ec a m in o sid a d e h u m a ­
n a dificilm ente e ra com patível com o p re ssu p o sto ju sn a tu ra lista d e
q u e as pessoas, e m b o ra caídas, p o d ia m a p r e n d e r a vontade d e Deus
e dessa fo r m a refletir a ju stiça divina ao o r d e n a r a sociedade. N e m
42 0 liberalismo - antigo e moderno

a razão do Estado d e M aquiavel dava lugar a critérios d e u m a ju s ­


tiça p r e te r n a tu r a l.0 C o n se q ü e n te m e n te , Suárez e o u tro s a cred ita­
vam q u e o contra-ataque católico c o n tr a p ro te sta n tism o e secula-
rism o exigia u m total re to r n o à perspectiva d o d ire ito natural.
S uárez n ã o esq u eceu as fo rm a s q u e assum ira a te o ria legal n a
baixa Id a d e M édia. Iniciou seu tra ta d o De Legibus ac Deo Legislatòre
(“S o b re as leis e D eus legislaidor”, 1612) o b se rv a n d o q u e iiis n ão
significava apenas “o q u e é d ireito ”, mas tam b ém d e n o ta “u m a ce l a
capacidade m o ral q u e todos p o s s u e m ”. Ilustrou essa capacidade
m e n c io n a n d o o ap eg o do p r aprietário a suas posses. A lém disso,
c o m p r e e n d e n d o o q u ã o fu n cio n a is e r a m tais d ire ito s n a con
vência, Suárez viu q u e tam b é m os católicos necessitavam dess
direitos p a ra resistir ao p o d e r p ro te s ta n te nos países re fo rm a d o s.
Suárez teve dificuldades em con ce b e r q u e os direitos subjetiv ok
[
cstavam su b o rd in a d o s a u m c o n ju n to holístico, u m to d o moralj-
social defin id o p o r u m a visão tradicional d e direito n atu ral. Essa
síntese d e to m ism o e n o m in a lism o d e O c ca m d e u ao m u n d o ibé­
rico u m c u n h o político d u ra d o u r o .
C o n te m p o r â n e o d e Suárez, o h o lan d ês H u g o G ro tius (158&-
1G45) era de o u tra opinião. N a sua g ra n d e o b ra d e 1625 De iure belli
ac pacis (“S o b re a lei d e g u e rra e p a z ”), ele definiu o E stado ou a
sociedade política co m o “u m a c o m u n id a d e d e direitos e so b era ­
nia ” (II. IX. VIIÍ. 2). O Estado e ra u m g ru p o s e p a ra d o do re sto d a
h u m a n id a d e p o r d ire ito s p a rtic u la re s. G ro tiu s p ro p ô s-se salvar
p a d rõ e s m orais universais d o ceticismo renascentista. P ostulou u m a
ética m inim alista, co m p o sta ap enas d e dois princípios: a legitimi­
d a d e d e auto p rese rv a ção e a ilegalidade d o d a n o arb itrá rio feito
aos outros. Isso d e u origem a u m a nova visão d a teoria d e direito
natural. E xa ta m en te co m o M aquiavel s e p a ra ra a análise política d a
ética, G rotiu s red e fin iu o d ireito n a tu ra l à p a rte d a teologia.
G rotius, co m o auxiliar e conselheiro d o g ra n d e estadista J a n
van O ld e n b a rn e v e lt, passara m u ito s a n o s te n ta n d o p re v e n ir u m
c h o q u e e n tre os calvinislas o r to d o x o s e a m in o ria a rm in ia n a na
As raízes do liberalismo 43

H o la n d a . E m 1612, O ld e n b a rn e v e lt to r n o u G rotius, q u e m al a tin ­


gira os tr in ta an o s d e id a d e, c o n se lh e iro p e n sio n ista (p rim e iro
ex ecutivo) d e R o tte rd a m . I n fe liz m e n te , sete a n o s m ais ta r d e
O ld e n b a rn e v e lt fracassou m iserav elm en te e m c o n te r o am bicioso
p r ín c ip e d e N assau, u m h e r ó i d o s calvinistas, e foi e x e c u ta d o .
G rotius (d ep o is d e trair o seu chefe) foi c o n d e n a d o à prisão p e r ­
p é tu a , e esca p o u n u m a g ra n d e cesta q u e a sua d e v o ta d a esposa
e n v ia ra à p risã o ch e ia d e livros. T e r m in o u su a e x istê n c ia n u m
naufrágio, c o m o e m b a ix a d o r d e C ristin a d a Suécia à França, m as
foi re v ere n c ia d o e m to d a a E u ro p a c o m o f u n d a d o r d o d ireito in­
ternacio nal. N a o u sa d a re fo rm u la ç ã o d o ju s n a tu ra lism o feita p o r
G rotius, o direito n atu ral n ão m ais se apoiava n a n a tu re z a das coi­
sas, mias n a n a tu re z a do h o m e m . A cim a d e tu d o , G ro tiu s re c o rre u
a o ju s n a tu ra lis m o p a ra d a r u m a explicação individualista d a socie­
d a d e — o c o n trá rio m e sm o d a visão holística d e Suárez.
Essa a b o rd a g e m p u r a m e n te individualista fora, n ã o h á dúvida,
o c e rn e d o con tratualism o. A a u to r id a d e legítim a p a sso u a se r e n ­
c arad a c o m o coisa f u n d a d a e m p actos voluntário s feitos pelos sú­
ditos d o Estado. C o m o H o b b e s escreveu n o De Cive (cap. 14, p. 2),
as o brigações d e c o rre m de p ro m e ssas — isto é, d e op ç õ es claras
praticadas p e la v o n tad e individual. G rotius ain d a acreditava (com o
n ã o o c o r re u n o caso d e H o b b e s) n a sociabilidade n a tu ral; mas,
co m o G rotius, H o b b e s r o m p e u co m a velha visão d a sociedade e
d a o r d e m política. R ejeitando a id é ia d e o rd e m n atural, H o b b e s
p a rtiu d o in d iv íd u o e viu a so ciedade c o m o u m a coleção d e indiví­
d u o s .7 Essa f o r m a racionalista e individualista d e m o d e rn iz a r o
direito n a tu ra l8 to r n o u o ju sn a tu ra lism o , nas palavras a g o ra ve n e ­
ráveis d e O tto G ierke, “a força in telectual q u e fin alm e n te dissol­
veu a visão m edieval d a n a tu re z a dos g ru p o s h u m a n o s ”.9
O ra, o p e n s a m e n to p ro to lib e ra l e ra u m a m istu ra d o co n tra ­
tualism o d e L ocke e d o c o nstitucionalism o d e M ontesquieu. J o h n
Locke (1632-170 4), o p rim e iro p e n s a d o r liberal q u e teve g ra n d e
influência, teorizou u m co n tra to social q u e estabeleceu u m governo
44 O liberalismo - antigo e modernu

legal e m term o s individualistas, c o m o o fizera H o b b es, e m b o r a o


Leviatã (1651) p ro p u se sse a m o n a rq u ia ab so lu ta e n q u a n to Locke
d e fe n d ia u m governo lim itado. A p esa r d e to d o o individualism o
q u e partilh av a m , n o e n ta n to , h á to d o u m m u n d o d e d ife re n ç a
c onceituai e n tre H o b b e s e Locke — u m , absolutista, o o u tro , u m
p ro to lib eral —, e o p o n to crucial d a q u e stão consiste n a reelabo-
ração frutífera p o r p a rte d e Locke d a n o ç ã o d e c o n sen tim en to .
A necessidade d e c o n se n tim e n to c o m o base p a ra a legitimi­
d a d e viera à to n a e m te o ria política b e m antes d e Locke, p rim e iro
n o livro d e Marsílio d e P á d u a Defensor Pacis (1324) e d e p o is no
m o v im e n to conciliar antipap ista no in te rio r da Igreja, no século
XV. Marsílio sustentara que, ig u alm en te n o Estado e na Igreja, as
pessoas — ou sua m aioria — po ssu em o direito d e eleger, “corri­
gir", e, se necessário, d e p o r os gov ernantes, fossem seculares ou
eclesiásticos. A O ccam (cerca d e 1300-1349) é g e ra lm e n te atrib uí­
do o m é rito da p rim eira derivação d a legitim idade g overnam ental
do c o n se n tim e n to baseado no direito natural. Mais tarde, vários
g ra n d e s teó ric o s c o n to I lo o k e r, Suárcz, e o a le m ã o Joluum
A lthusius (m o rto em 1038), u m dos pais d o federalism o, tam bém
julgaram o c o n se n tim e n to co m o a lo n te da obrigação política.
A reconsideração do direito natural p o r G rotius e I lobbes fora
a c o m p a n h a d a p o r u m a forte ênfase na vontade. Esse velho con­
ceito a g o stin ia n o 10 fora m uito realçado pela im portância d ad a pelo
nom inalism o de O ccam à idéia de direitos subjetivos. Nominalistas,
inclusive O ccam , haviam c e le b ra d o o livre-arbítrio h u m a n o junta­
m e n te com o d e Deus. Suárez bu sc ara a te n u a r o papel da v ontade
n o m ito do direito natural; m as os occam istas estim avam q u e o di­
reito n a tu ra l era ob rig a tó rio p o r ser tido co m o a v o n ta d e d e Deus.
A idéia d e co n se n tim en to com o origem d a au to rid a d e legítima
implica von tade politicam ente expressa. Mas o co n se n tim en to p o d e
variar e m to rn o d e dois eixos. E m p rim e iro lugar, o c o n se n tim e n to
p o d e se r c o n cebido ta n to n u m a base individual co m o corporativa.
Em seg u n d o lugar, o c o n se n tim e n to a u m go v ern o p o d e ser d ado
As raízes do liberalismo 45

seja d e u m a vez p o r todas, seja p e rió d ic a e c o n d ic io n alm e n te , caso


e m q u e p o d e ser re tira d o (ou n ão) se g u n d o a o pin ião dos cidadãos
q u a n to à q u a lid a d e do d e s e m p e n h o g o v e rn a m e n ta l.
N o caso d a m aioria dos prévios p e n sad o res d o co n sentim ento,
e ste e ra u m a to c o rp o ra tiv o d a c o m u n id a d e q u e fo ra e fe tu a d o no
p a s s a d o .11 A o rig in a lid a d e d e H o b b e s e L ocke consistia e m su­
b lin h a r o c o n s e n tim e n to pelo indivíduo. A inovação p o r p a r te d e
Locke (n o seu Segimdo Iratado sobre o governo, p u b lic ad o e m 1689)
consistiu em fazer o c o n s e n tim e n to (m esm o tácito) p e rió d ic o e
condicional. A o b ra d e Locke, p a ra citar u m dos seus m ais capazes
intérpretes m o d e r n o s ,12 in au g u ro u “a política de confiança”. Locke
e n c a ro u os go v ern an tes c o m o c u ra d o re s da cid a d a n ia e, d c fo n n a
m em orável, im agin ou um d ire ito à resistência e m e sm o à revolu­
ção. Dessa m an eira, o c o n se n tim e n to tornou-se a base d o co n tro le
d o governo.
O coril i atual ismo d e Locke re p re se n to u a ap o te o se d o d irei Io
n atu ral n o s e n tim e n to individualista m o d e rn o . H o b b e s antes dele
e Rousseau d e p o is im ag in aram c o n tra to s sociais em q u e os indi­
víduos alienariam p o r in te iro seu p o d e r em favor d o rri ou da
assembléia. P or c o ntraposição, em Locke os direitos pessoais p ro ­
vêm d a n atureza, co m o dádiva d e Deus, e estão lo n g e d e dissolver-
se n o pactf) social. E n q u a n to os m e m b ro s d o pacto, no caso de
I Iobbes, a b a n d o n a m todos os seus direitos exceto um — suas vidas
—, os indivíduos d e Locke só a b a n d o n a m 11111 direito — o direito
d e fazer justiça com as p ró p ria s m ãos — e c onservam todos os o u ­
tro s .1'5 A o sacralizar a p r o p r ie d a d e c o m o direito n a tu ra l a n te rio r à
associação civil e política, Locke realçou u m a ten d ê n c ia q u e j á tinha
q u in h e n to s a nos d e idade: a fusão pós-clássica de ius e dominiurn, de
d ireito e p ro p rie d a d e . E n tro n iz a n d o o d ireito d e resistência, ele
a m p lio u o p rin cíp io individualista d e v o n ta d e e c o n se n tim e n to . E
c o n se n tim e n to , em lugar d e tradição, é a prin cip al característica
d a leg itim id ade e m política liberal.
7o O liberalismo - mitigo t’ moderno

C onstitn cio n a lism o

E o ba sta n te , n o q u e diz resp eito ao e le m e n to d e direitos, o pri


m e iro e m ais im p o r ta n te dos três c o m p o n e n te s d o liberalism c
clássico. Q u a n to ao segundo co m p o n en te, constitncionalismo, po d e
ser consideravelm ente mais breve. U m a constituição, escrita ou não,
consiste nas n o rm a s q u e regem o g o v e rn o .14 E a m e sm a coisa q u e
o go v ern o d a lei, q u e su sten ta a exclusão ta n to d o exercício do
p o d e r a rb itrário q u a n to do exercício a rb itrá rio d o p o d e r legal.
Diversas teo rias q u a n to às raízes o c id e n ta is d a d o u tr in a
c onstitucionalista e d e sua legitim idade fo ra m a p resen tad a s. N o
século XIX, o g ra n d e h isto ria d o r William Stubbs (1829-1901), d e
O xford, alim entou devotam ente a idéia d e q u e o p arla m e n to gótico
fo ra u m a assem bléia política. R e fu ta n d o Stubbs, o p ro fe sso r d e
C a m b rid g e F re d e ric k W illiam M a itla n d (1 8 5 0 -1 9 0 6 ) d e m o liu a
lenda e estabeleceu q u e o p a rla m e n to medieval inglês fora, cm vez
disso, csscncialm ente u m a c o rte d e justiça. O e stu d o clássico d e
A. V. Dicey, The J.axo o f lhe Constituiion (1885), m o stro u q u e o g o ­
verno d a lei era a essência d o constitucionalism o.
Stubbs, em sua m o n u m e n t al Constilulional I-Jislory o f Medieval
F.tigland (187 3 -1 8 7 8 ), lam béln d e u c ré d ito ;i otilra c mais i itíjle
lenda: a idéia d e q u e a libere a d e inglesa p rovin ha d e u m t ron<í:o
de lib e rd ad e (eitlôníca, e port m to anglo-saxã. "A lib e rd a d e estava
n o sa n g u e ”, escreveu m u ito a n te s do s n o r m a n d o s e tia M agoa
Carta.
O pupilo d e M aitland cm C am b ridge, J. 11. Figgis. re sp o n d e u
com u m a te o ria mais séria. Kl^e seguiu o constitucionalism o, a 1 'i:
d a liberdade, ale os laços co n tratu a is d o feudalism o. Q u e m ai
i
arg u m en tav a Figgis, p o d e ria tér d a d o à so ciedade medieval, com
sua econom ia m d im e n ta r, o privilégio (especialm ente n a Inglaterr;
de u m Estado centralizado circunscrito p o r garantias fu n d a m e i
tais p a r a seus súditos? A e ru d iç ão m o d e r n a d isc o rd o u d a opinião
d e Figgis. T u d o b e m c ontado; o J a p ã o ta m b é m tivera e stru tu ra s
As raízes do liberalismo 47

feudais, mas n ã o desenvolveu q u a lq u e r coisa co m o o constitucio-


nalism o ocidental. O h isto ria d o r con stitucio nal a m e ric a n o Charles
Mcllwain reagiu à te o ria feudal ao realçar o p ap el do direito ro ­
m a n o n o p e n s a m e n to político m edieval.15
Mais re c e n te m e n te , B rian T ie rn e y esco lh eu u m a explicação
alternativa. N a su a o p in iã o , as raízes d o c o n stitu c io n a lism o no
O c id e n te fo ra m a m p la m e n te eclesiásticas. Figgis su b lin h ara a linha
d e p e n s a m e n to d e G e rso n a G rotius, d o conciliarisino n o século
XV ao jusn atu ralism o m o d e rn o d o século X V II.16 T ierney, n o e n ­
tan to , m o s tro u q u e as d o u trin a s conciliares co m o o c o n se n tim e n to
se to rn a ra m conh e cid as m uito an tes d a e ra d e G erson, nas glosas
so b re d ire ito c a n ô n ic o d e sd e 1200. N a q u e la época, u m d e b a te
a cirrad o e n tro u a o p o r p a rtid ário s d a teocracia p apal e d efen so res
d o p o d e r eclesiástico e até m e sm o a u to rid a d e s seculares in d e p e n ­
dentes. Em Platão, A ristóteles e C ícero, o p ro b le m a d a o rig em d a
o brigação foi p o sto à so m b ra pela q u estã o d o m e lh o r regim e. Mas
pelo m e n o s d e sd e J o ã o de Paris (1255-13 06), u m dos p rim eiro s
tomistas, o p ro b le m a jusnaturalista d e legitimidade, vinha p r e o c u ­
p a n d o a filosofia política. O p rim e iro p e n s a m e n to político m o d e r ­
no, d e H o b b e s e Locke a R ousseau, devotou-se a isso. Tais p e n sa ­
d o res aproxim avam -se do p ro b le m a da -legitim idade (em sua res­
posta, a d o u trin a d o conseiilinieiilo), tmni espírito individnali.sla,
e n q u a n to seus p red ec c sso rcs medievais estavam sob o e n c a n to d a
hieijarquia e d o todo.

Conclusão

N o ssa b u sc a das raízes d os c o n c e ito s d e d ire ito s e c o n stitu c io ­


nalism o d e u n u m q u a d r o d e c e rta fo rm a irônico. Iniciam os nosso
in q u é rito seguros n o co n h e c im e n to d e q u e a lib erd ad e m o d e rn a ,
o fe n ô m e n o histórico q u e é, a u m te m p o , fu n d a m e n to e re su ltad o
d o m ovim ento liberal, está ligado ao crescim ento d o individualismo.
C om o o individualismo n ã o floresceu em larga escala antes da Idade
48 0 liberalismo - antigo e moderno

M oderna, voltamo-nos p a ra a m o d e rn id a d e co m o o divisor d e águas


d a lib e rd a d e n o seu s e n d d o p le n a m e n te c o n te m p o râ n e o . D a d o o
p a p e l essencial d a R e fo rm a n o p ro g re sso d a lib e rd a d e d e cons-
ciência, era lógico q u e a estudássem os. Mas o (em po d c L u tero ie
d e Calvino revelou-se n o m á ximo u m p ró lo g o à cu ltu ra d o indivi-
dualism o, j á q u e o teocratisu o d a R e fo rm a era fu n d a m e n ta lm e n te
autoritário, seja n o conform ism o luterano, seja n o dinam ism o social
das seitas puritanas. Seguimc s e n tã o H egel e T ro eltsc h e situam os
a liberdade m o d e rn a na nova religiosidade d o misticismo cio século
XVIII e n a socied ade civil d á E u ro p a pós-revolucionária (e, n ã o
preciso dizê-lo, dos Estados Unidos).
C o n tu d o , q u a n to mais f u n d o p e n e tráv a m o s nas raízes d os di­
reitos e do constitucionalism o, mais acham os q u e decisivos desv ós
con ceituais haviam sido realizados n a q u e le p r o lo n g a d o e a in d a
so m b rio lab o ra tó rio d a c u ltu ra ocidental: a Id a d e M édia. Azo d e
B olonh a, A cúrsio, O c ca m e G e rso n m ostraram -se qu ase tão im ­
p o rta n te s q u a n to os p r im e iro s c o n tra tu a lista s e ju s n a tu r a lis ía s
m o d e rn o s — G rotius, H o b b es, P u fen d o rf, Locke e R ousseau. N ão
obstante, n o p e n sa m e n to político m o d e rn o , assim co m o n a c ultura
política m o d e rn a , n ã o se tra to u a p en as d e c o m b in a r a idéia d e di­
reitos e c o n se n tim e n to , am bas já p resen tes nos juristas e filósofos
medievais. Tal com bin ação, p o r mais valiosa q u e fosse, tinha um a
dim en são adicional, d istin ta m e n te pós-medieval: u m a visão d a so­
ciedade individualista, não-holística e não-hierárquica. E m últim a
instância, é isso q u e sep ara o m u n d o d e Locke d o m u n d o d e São
T om ás de A quino, d e O ccam e de G erso n — e traz o c o n tra to social
dos p rim e iro s p e n sa d o re s m o d e rn o s p a ra p e r to do nosso p ró p rio
universo liberal d em ocrático .
As raízes do liberalismo -19

0 legado do Iluminismo

M uitas vezes se diz q u e o liberalism o d e c o rre e m g ra n d e p a rte


d o Ilu m in ism o . Isto e, em g r a n d e p a rte , v e rd a d e , m as, p a ra
c o m p re e n d ê -lo , d e v e m o s r e m e m o r a r a n a tu re z a d a q u e la era
intelectual. U m d e seus mais im p o rta n te s in té rp re te s, Paul I-Iazard,
a rg u m e n to u q u e o Ilu m in ism o foi b a sic am en te u m a tentativa de
sub stitu ir a religião, a o r d e m e o classicismo p ela razão, p e lo p r o ­
gresso e pela ciência.17 A poiou-se n o novo senso d e ex p a n são do
d om ínio sobre a natu reza e a sociedade q u e to m o u co n ta d a E uropa
p o r volta d e m e a d o s d o século XVIII, n a esteira d e u m notável
c rescim en to d e p o p ulação, c o m é rcio e p r o s p e rid a d e q u e se seguiu
a u m a e ra d e d e p re ssão e conôm ica. C o m o tal, o Ilu m in ism o signi­
ficou acim a d e tu d o u m a “re c u p e ra ç ã o d o a le n to ”, n a form ulação
c o rre ta d e P e te r Gay.18 A o m e sm o te m p o q u e se d e sd o b ra v a na
o b ra d e V oltaire e D iderot, H u m e e A d am Sm ith, L essing e Kant,
o Ilu m in ism o ju n to u u m a co m p lex a coleção d e idéias q u e a b ra n ­
giam direitos h u m a n o s, g o v e rn o co nstitucio nal e liberismo, 011 li­
b e rd a d e econôm ica. O p e n s a m e n to d o Ilum inism o veio a coincidir
com a m a io r p a rte dos in g re d ien te s d o c re d o liberal clássico, sem
ser se m p re liberal em term o s e strita m e n te políticos.
“Nous cherchovs d/ms ee sièele à Utul perfeclmmirr": o c o m e n tá rio
d e V oltaire a respeito das re fo rm as penais hu m a n itárias advogadas
p o r C esare B eccaria — u m do s p o n to s altos d o p e n s a m e n to re fo r­
m ista n a q u e le século — ca p ta a essência d a época. N a m a io ria dos
casos, os philosoph.es e ra m au to res voltados p a ra a prática. C om a
exceção d e Kant, não alcançaram a estatura intelectual d e Descartes
o u Leibniz, d e G ro tiu s o u H o b b e s , m as tin h a m objetivos bem
d ife re n te s. O j o g o q u e jo g a v a m se cham ava m e lh o ria m e d ia n te
reform a. A prim eira coisa em q u e acreditavam e ra a perfectibilidade
do h o m e m , e, p o r isso, do m u n d o . M esm o Rousseau, d e q u e m não
se p o d e d iz e r q u e ac re d ita sse n o p ro g re sso , e r a re la tiv a m e n te
e s p e r a n ç o s o n o q u e diz r e s p e ito ao h o m e m , d e s d e q u e fosse-
50 O liberalismo - antigo e moderno

a d o ta d o o c o n tra to social certo o u co n se g u id a a ed u ca çã o certa


(com o estipulou n o Emile, seu tra ta d o ped ag ó g ico d e 1762, publi­
cado n o m e sm o a n o em q u e o foi o seu catecism o republicano).
N a m e d id a e m q u e p ro c u rav a m p ô r em prática a p erfectibilidade,
os philosophes aproxim aram -se d a essência d a fam osa identificação
k an tian a d o Ilum inism o com a em an cip ação d a h u m a n id a d e em
relação à tirania e à su p e rstiçã o .19

P ensa rnento p o lü ico

Locke refo rçou sua teologia dos direitos nalurais com u m a p r e o ­


cu p ação clara pelo g ov ern o d a lei. N e n h u m a o u tr a estratégia se
aju staria à sua in c o rp o ra ç ã o d o c o n s e n tim e n to c o rp o ra tiv o no
g ra n d e tem a liberal d e c o n se n tim e n to (revogável) co m o co n tro le
(periódico). Nessa m edida, Locke, o paladino dos direitos, tam bém
se inclinou para o constitucionalism o. Mas só com M ontesquieu
veio um a explicação in te ira m en te d e sa b ro c h ad a do constilucii>na-
lismo, pois Do espírito das leis ofereceu o q u e o Segundo tratado de
Locke n ão foz: u m a a m p la c o n sid e ra ç ã o d e c o m o d is trib u ir a
a u to rid a d e e de co m o lhe re g u lar o exercício, d e sd e q u e se qu i­
sesse a u m e n ta r o u a p e n a s p r e s e rv a r a lib e rd a d e . E m re su m o ,
M o n tesq u ieu d e u ao pro to lib eralism o aquela p r o fu n d id a d e insti­
tucional q u e lhe faltava n a tradição contratualista. P o r causa disso,
e ta m b é m p o r causa de seu p o d e r o s o esboço d e u m a justificação
sociológica d a lei e d a política, M o n tesquieu, o se g u n d o g ra n d e
a n te p a ssa d o d o liberalism o clássico d ep o is d e Locke, é c o rre ta ­
m e n te tido n a c onta de u m dos iniciadores do Ilum inism o.
O bloco histórico fo rm a d o p e la R enascença e o B arroco, o
in te iro flo re sc im e n to d a “civilização d a c o r te ” n a “E u r o p a das
capitais”, ' 0 te s te m u n h a ra u m a g ra n d e m u d a n ç a n o conceito d a lei.
O a c o lh im en to m u ito d ifu n d id o d a ju r is p ru d ê n c ia ro m a n a co n tri­
b u iu p a ra a e m erg ên c ia d e u m a nova relação e n tre gov ern o e n o r­
m as legais. E n q u a n to a n tes havia sido e n c a ra d o p rin c ip a lm e n te
As raízes do liberalismo 51

c o m o u m a sim ples e s tr u tu r a d a a çã o g o v e rn a m e n ta l, o d ire ito


p a sso u e n tã o a se r visto sob n o v a luz, co m o u m instrumento de
p o d e r .21 A ideo lo g ia política m ais característica d o Ilum inism o, o
d e sp o tism o esclarecido, lan ç o u la rg a m e n te m ã o dessa no v a p ers­
pectiva — a visão “m aquiavélica”, p o r assim dizer — das n o rm a s
co m o instrum entos do poder. Mas as form ulações clássicas d a teoria
do d espotism o esclarecido subm etiam o p o d e r m o n á rq u ic o e a nova
a b o rd a g e m in stru m e n ta l d a lei ao clim a d e o p in iã o g e ra d o pela
ideologia d a lib e rd a d e e d o a p e rfe iç o a m e n to .22
Assim, o locus classicus d o co n ce ito d e d e sp o tism o esclarecido,
o Essay on lhe Form o f Government and lhe Duties o f Sovereigns (1771)
(que F red eric o o G ra n d e escreveu c m francês p a ra q u e V oltaire o
lesse), p r o p o r c io n o u u m a b ase c o n tra tu a lis ta im plícita em sua
ênfase nos deveres m onárquicos. R epresentava o rei c o n to o pri­
m eiro fu n c io n á rio d o listado, m oral se n ão legalm ente responsável
p e ra n te os seus súditos, q u e ele c h eg o u a c h a m a r d e “cid a d ã o s”.
( )s p i op < inenlcs principais d o al >s<>li il ismo progressista na Kuropa
ocidental, os econom istas franceses co n h ec id o s co m o lisiocratas
(e m b o ra não endossassem o co n c e ito d e c o n tra to social), fizeram
u m a distin ção e n tre o “d e sp o tism o legal” e o sim ples despotism o,
fa la n d o e m u m a m o n a r q u ia fu n c io n a l c o m o u m a au to c rac ia ,
id e n tific a d a c o m a p r o te ç ã o d a lib e rd a d e e d a p r o p r ie d a d e ,
abstendo-se inteligentem ente d e meter-se n o jo g o livre d o m ercado.
N o discurso d o d e sp o tism o esclarecido, o q u e F red erico su blinhou
foi “esclarecido” e n ã o “d e s p o tis m o ”. G raças ao im p ac to d o Ilumi-
nism o, o absolutism o sofreu u m a curiosa m eta m o rfo se n u m p a ra ­
doxo: a u to cracia responsável — n o nível d e legitim idade sen ã o no
nível d o exercício real d o p o d e r .23
As teorias políticas dos philosophes dividem-se em três posições
principais. V oltaire (e p o r u m te m p o D id ero t) esteve p e r to d a m o ­
n a rq u ia esclarecida, co m o os fisiocraías e o am igo deles, T urgot.
U m a id é ia p ro to lib e ra l, u m a e sp é cie d e m o d e lo p a r la m e n ta r
anglófilo foi su sten ta d o , com m uita influência, p o r M ontesq uieu,
52 0 liberalismo - antigo e moderno

com a sua tese constitucionalista d a necessid ade d e u m a sep ara­


ção d e p o d e re s. P o r fim, u m a posição republicana, fo rte m e n te d e­
m ocrática em espírito, e n c o n tr o u e m R ousseau seu p re g a d o r.2'1 A
u to p ia d e H olbach, Elhocracia (1776), c o m b in o u opalhos m oralista
e anticom ercialista d e R ousseau c om a defesa d e co rp o s re p re se n ­
tativos (com o p a rla m en to s) q u e p artilh ariam d a soberania, co m o
u m a m a n e ira d e p re v e n ir o d esp o tism o m o n á rq u ic o — o q u e não
difere m u ito d e M o ntesqu ieu. O q u e mais im p o rta é q u e lições ex­
traídas d e Locke (direitos naturais), M o n te sq u ie u (divisão d e p o ­
deres) e R ousseau (o ele m e n to d e m o c rá tic o ) com b inaram -se n u m
novo sistem a re p u b lic an o erigido n a ép oca na A m érica in d e p e n ­
d e n te — e e n tã o a ju d aram a m o ld a r as o piniões constitucionais da
Revolução Francesa.
A in d a assim, falando d e m o d o geral, o llu m in ism o não foi cm
essência u m m o v im e n to político. E ra d e o rien ta ç ão prática, m as
seu zelo re fo rm ista dirigia-se mais a códigos penais, sistem as dé
educação e instituições econôm icas d o q u e à m u d a n ç a política. Isso
e ra v erd a d e tam b é m fo ra d a França. G ib b o n realizou-se prin cip al­
m e n te e m “história filosófica”, Beccaria e m re fo rm a penal, Lessing
e m crítica teatral, estética e filosofia d a história, e K ant e m teoria
d o c o n h e c im e n to e ética. H u m ê deixou u n s po u co s ensaios m edi
tados além d e sua Hislory o f E nglland e sua o b ra crucial em filosofia,
mas escreveu co m o u m tory, coriserv ad o r utilitário, e não co m o um
m o d e r n iz a d o r político. C o m o verem os, havia m e sm o u m Ilumi
nism o cmmmiador. P or fim, se quiserm
< os identificar as principais
contribuições do llum inism o à c(osm ovisão liberal, tem os d e voltar-; j
nos p a ra o u tr a á rea — a teoria d a história. Nesse p o n to , em q u e ,
pe se m algum as intuições d e Voltaire que d e sbravaram te rre n o , de
longe a o b r a p rincipal foi d a d a pelo llu m in ism o escocês
As raízes do liberalismo 53

P en sa m en to histórico e econômico

O Ilum inism o ch am o u a sua m a n e ira d e e n carar os acontecim entos,


o u a sucessão das épocas, e m busca d e significados mais p ro fu n d o s
e d e am p las m atizes, d e “h istó ria filosófica”. Seu c o n te ú d o p ri­
m o rd ial e ra a histó ria d a civilização, m as isso, p o r sua vez, tinha
u m foco mais específico, a “histó ria d a sociedad e civil”, p ara fra ­
se a n d o o título d o livro d e 1767 d e A d a m F erguson. In flu en ciad o s
pe lo interesse d e M o n te sq u ie u p o r causas sub jacentes das form as
sociais, os h istoriadores filosóficos escoceses co m o Ferguson, A dam
S m ith e J o h n Millar c o n stru íra m e n tre eles u m a teo ria d e d e se n ­
volvim ento d a h u m a n id a d e e m estágios. A lguns e sq u e m a s d e es­
tágios su b lin h aram m o d o s d c subsistência, co m o os q u a tro siste­
m as d e m a n u te n ç ã o de Millar (e d e seu m e stre Sm ith), d a caça e
d o p a sto re io até a agricultura, e e n tã o a “so cied ade c o m e rc ial”. A
seq ü ên c ia d o p r ó p r io F erg u so n conc en tro u -se antes n a condição
dos costum es e distinguiu três estágios: selvagem, b á rb a ro e polido.
Os teóricos sociais escoceses insistiram n u m p rogresso d a vida b ru ta
à vida refinada. Foi com F e rg u so n e com o fam o so d iscu rso de
R ousseau Discurso sobre a origem e osfundam entos da desigualdade entre
os homens (1754) q u e a expressão “so ciedade civil” e n tr o u e m u m a
n ova c a rre ira sem ântica. O n d e a palavra civil em sociedade civil
c o r r e s p o n d e r a a n te s a civilas, e possuía tr a d ic io n a lm e n te u m
significado “político ”, em R ousseau e Ferguson civil relacionava-se
c om civilitas, significando “civilidade” ou “civilização”. C o m o tal,
referia-se à condição da moral e dos m o dos sem q u alq u er necessária
c o nexão com a política. (I Iegel o Marx, su b se q ü e n te m e n te , firm a­
ra m “so c ie d ad e civil” nesse se n tid o n ão político.)
O c a m in h o da vida b n ila ao re fin a m e n to descrito nos esque­
m as dos escoceses era ta m b ém u m c a m in h o da p o b rez a à p ro s p e ­
ridad e. U m a passagem b rilh an te ao fim d o Livro I d e A riqueza das
nações d e A d a m S m ith (172 3-1 790) declara q u e m esm o o “c a m p o ­
nês frugal e tra b a lh a d o r ” n u m a so cied ade com ercial vivia m uito
54 0 liberalismo - antigo e moderno

m e lh o r d o q u e “u m rei afric ano, s e n h o r a b so luto das vidas e li her­


d a d e s d e dez mil selvagens n u s ”. O se g re d o d a s u p e r io rid a d e ,
m e sm o das cam adas mais baixas d a “sociedad e civilizada”, d|isrs e
SitiiÜi, devia-se à p ro d u tiv id a d e m u ito m ais elevada d e sua divisão
d o trabalho. Vários autores ija época partilhavam essa com p ree n sã o
d e q u e a força e c o n ô m ica significava novos e m elh o re s padrões d e
vida m e sm o p a ra as massasj trab a lh ad o ras. Locke, p o r ex em plo ,
observou que, e m b o ra controlassem g ra n d e s extensões d e terra,
os chefes índios alimentavamj-se, vestiam-se e habitavam p io r d o q u e
u m d ia rista inglês, s im p le sm e n te p o r q u e este p e r te n c ia a u m a
ec o n o m ia em q u e a p ro d u ç ã o d a terra, m e d ia n te a in d ú stria e;a
p ro p rie d a d e , era tão m ais adiantada.
P o d e m o s ver q u e o llu m in ism o estava d e sc o b rin d o o u inven­
ta n d o a econom ia. Mas o g ra n d e texto básico d a e co n o m ia clássica,
A riqueza das nações (1776), n ão e ra in te ira m e n te original e m sua
análise e receita d e m ecanism os d e m erc ad o . Isso fora d e sc o b e rto
p o r liberistas convictos c o m o os fisiocratas. S m ith d e d ic o u su a
magnum opus ao líd er fisiocrata François Q u e sn ay (1694-1774), o
m é d ic o d e M ad am e d e P o m p a d o u r. A c o n trib u iç ão d o p r ó p r io
Sm ith consistia no seu exam e c u id a d o so da divisão d o trab alh o
co m o fator subjacente da p ro s p e rid a d e m o d ern a.
A criação d a e c o n o m ia clássica foi a c o m p a n h a d a p o r u m a
considerável m u d a n ç a d e valores. N a é p o c a em q u e S m ith, u m
p ro fe sso r d e filosofia m o ral e m Glasgow, se d ed ic o u à eco nom ia,
o c o rria u m d e b a te e n tre os philosoph.es a respeito d o b o m ou m au
luxo. V oltaire e I lu m e justificavam o luxo apoiando-se em m o ti­
vos utilitários (p o rq u e produzia em pregos), mas D iderot e Rousscau
o achavam p io r d o q u e inútil — julgavam-no prejudicial. U m a velha
sab e d o ria histórica atrib uía ao luxo a cu lpa p e la debilitação e, p o r ­
tan to , pelo declínio d e g ra n d es im périos, sen d o R o m a o caso mais
co nspícuo. C o n tra esse h u m a n ism o m oralista, o u tro s escritores
afirm avam u m a nova visão q u e legitimava a riqueza. A defesa da
o p u lên c ia p u n h a m uitas vezes a m a g n â n im a lab o rio sid ad e d e eo-
A í raízes do liberalismo 55

incrcianlcs c artesãos diligfnl.es n o lugar da clica frugal da virtude


cívica su sle n lad a p o r m oralistas c o m o R ousseau, a p o ia n d o um a
ética d o tra b alh o f u n d a d o no p rincípio d o ideal cívico. Mas os p a r­
tidários d a riqueza afirm avam algum as vezes q u e o bem -estar social
n ã o era ta n to o re su lta d o d e q u a lq u e r virtude, privada ou cívica,
q u a n to u m a co n seq ü ên c ia n ã o in ten cio n a l d e m uitos atos egoís­
tas. A rg u m en tav am q u e a p ró p ria bu sca d e in teresse pessoal leva­
va à p r o s p e rid a d e geral e, e m últim a instância, à h a rm o n ia social.
Essa lin h a d e arg u m e n ta ç ã o , b e m c o n h e c id a d e sd e a o b r a de
B e r n a rd M andeville Fable o f fíees, d e 1714, e seu le m a perv erso,
“vícios privados, benefícios p ú b lic o s”, foi r e to m a d a p o r H u m e e
Smith. C o rrig in d o Rousseau, S m ith assinalou que, e m b o ra os ricos
pro cu rasse m satisfazer seus desejos infinitos p o r p ura vaidade, seus
estôm ago s n ã o e ra m m aiores q u e os estô m ag o s dos p o b res, e eles
n ã o p o d ia m , através d o seu c o n s u m o , e s fo m e a r o resto , c o m o
Rousseau sugerira e m seu Discurso sobre a desigualdade. A o contrário:
o gosto p e lo luxo, p o r tolo q u e fosse, dava e n e rg ia à e c o n o m ia, e
assim fazendo criava u m a riq u eza m u ito d ifu n d id a e m b o r a desi­
gual. A lém disso, ec onom ias e m expan são , q u e ta n to M o n te sq u ie u
q u a n to G ib b o n rec o n h ec ia m , n ão e ram susceptíveis dc: colapso
co m o tin h am sido os antigos im périos: as artes d o c o m ércio logra­
vam êxito o n d e havia fracassado o gên io d a g u e rra .25
P o u co a p o u co , tira n d o p ro v eito d o c rescen te d escréd ito da
idéia d e glória marcial, os interesses passaram à frente com o u m novo
p a ra d ig m a ético, c o m o “d o m a d o r e s d e p a ix õ e s”. O p e n e tr a n te
e stu d o d e A lbert O. H irsc h m a n , As paixões e os interesses: argumen­
tos políticos a fa v o r do capitalismo antes de seu triunfo, faz S m ith so­
bressair p r o e m in e n te m e n te . Mas, n u m sentido, S m ith é o b a n d i­
d o d a história, pois ele não p artilhava d a opinião d e M o n te sq u ie u
(ta m b é m a b ra ç a d a pelo p rincip al e c o n o m ista escocês a n te r io r a
Sm ith, o m ercantilista sir James S le u a rt) d e q u e o su rto d a socie­
d ad e com ercial traria mais o rd em política co n tro la n d o paixões mais
selvagens e tu rb u le n ta s da espécie “feu d al”. Ao c o n trário , Smith
56 O liberalismo - antigo e moderno

pensava q u e os im pulsos n ã o econôm icos estavam atrelad os à ta­


refa d e a lim e n ta r “o desejo d e m e lh o ra r sua c o n d iç ã o ” d e cada
h o m e m . A vaidade e o anseio d e estim a in stigaram a m a io r p a rte
da h u m a n id a d e a b u sc a r riquezas p o r m eio d e trabalho á rd u o ( “the
toü and bustle o f this world”, nas palavras d e Sm ith). P o rta n to , p a ra
Sm ith, o p r ó p r io “in te re s s e ” to rn o u -se u m a pa ix ã o tão a r d e n te
q u a n to a velha aspiração d e glória, e, ao m e sm o tem po, a m otiva­
ção e c o n ô m ica deixa d e se r u m su sten táculo a u to m á tic o da estabi­
lid a d e social, co m o nos o u tro s casos ideológicos e stu d a d o s p o r
1lirsch m an .-’’
Deve-se to m a r o c uidado d e não su g e rir d e fo rm a excessiva­
m e n te som bria unia im agem faustiana ou d em o n ía c a da o p in iã o
d e Smith q u a n to ao capitalism o e m erg en te. A d esp eito de to d a a
sua agud a consciência de algum as sérias “desvantagens d o espírito
c om ercial”, lais co m o os eleilos e n to rp e c e n te s d e larclàs simples
na crescente divisão do trabalho (suas observações p re n u n c ia m a
crítica da alienação, p o r Marx), Smitli apegou-se à idéia iluminista
de que o com ércio era um c a m in h o a b e rto para a m elhora. C om o
escreveu e m A riqueza das nações'.

“O com ércio e as m an u fa tu ra s in tro d u ziram g ra d u a lm e n te a


o rd e m e o bom governo, e com eles a lib e rd ad e e a segurança
d os indivíduos, e n tre os h ab ita n te s d o c am po, q u e haviam
antes vivido n u m a con d iç ão quase c o n tín u a d e g u e r ra com
seus vizinhos, e d e d e p e n d ê n c ia servil em relação aos seus
s u p e rio re s.” (Livro 3, cap. 4.)

Se S m ith estava longe d e a p re se n ta r u m q u a d ro o tim ista d o capi­


talismo nascente n a sua psicologia d a econom ia, sua sociologia d a
e co n o m ia d e fe n d ia a s u p e rio rid a d e d o “espírito co m ercial”.
N este p o n to , te m o s d e sa lie n ta r pelo m e n o s dois aspectos:
lib e rd a d e e justiça. Q u a n to à liberdade, Sm ith n ã o deixa dúvida
de q u e ju lg av a q u e o q u a rto estágio n a m a rc h a da civilização, a.
sociedade com ercial, significava u m a u m e n to em in d e p e n d ê n c ia ,
As raízes do liberalismo 57

u m a vez q u e re d u z ia d rastic am e n te o grau d e d e p e n d ê n c ia pessoal


c a ra cterístic o d a m a io r p a r te das relaç õ es sociais n a so c ie d a d e
agrária. C o m o H u m e , S m ith a trib u iu p o u c a im p o rtâ n c ia à sa u d a ­
d e h u m a n ista d e u m m u n d o d e cid ad an ia d e elite, u m re in o d e
v irtu d e cívica su ste n ta d o pelo tra b a lh o escravo ou, n o m ínim o, p o r
relações d e clientela. S m ith n u n c a e sq u ec e u q u e o a r d o r d e c o n ­
quista das legiões ro m a n a s n ã o to r a re su lta d o d e opção, m as u m a
saída p a ra o e n d iv id a m e n to c o n stan te das sociedades agrárias q u e
se apoiavam n o trab alh o escravo e (oram (orçadas a apreendei- a
te rr a e o la b o r d e seus vizinhos. A so ciedade antiga, a d e sp eito de
to d o o re q u in te d e sua ílo r — a d e m o c ra c ia d a cidade —, fora u m a
p la n ta estéril, incapaz d e cre sc im e n to su ste n ta d o ou d e u m a li­
b e rd a d e d u ra d o u ra .
Na cosm ovisão clássica da ideologia cívica, a j>mxis, a ação de
h o m e n s livres, foi colocada m uito acima da poirsis, a p ro d u ç ã o ou
tra b alh o m anual. Por q u e motivo? P o rq u e e n q u a n to o objetivo da
poiesis reside no p r o d u to e, p o rta n to , em algo q u e ultrapassa a ati­
vidade- q u e o produz, a praxis ou ação é um lim em si mesma. Smith
foi o p rim e iro teórico social de im p o rtâ n c ia a in v erter essa valori­
zação: em A riqueza das nações, a práxis d e políticos, ju ristas e sol­
dad o s é re d o n d a m e n te depreciada, e n q u a n to a p ro d u ç ã o passa por'
cima. O c o m é rc io e a m a n u fatu ra, e n ã o a prá tic a d a política o u a
atividade guerreira, p ro p o rc io n a m o m o d elo d a atividade m eritória.
E essa m u d a n ç a d e valores implicava o a b a n d o n o d a p r o p e n s ã o
elitista in c o rp o r a d a à s a u d a d e cívica.
O s ideólogos cívicos, aos quais vo ltarem os n a p ró x im a seção,
e ra m acim a d e tu d o a d o ra d o r e s da v irtu d e . Sm ith, n o e n ta n to ,
o p to u p e la ju s tiç a a cim a d a v irtu d e . A o fazê-lo, seguia a m a io r
p re o c u p a ç ã o de o u tra tradição de discurso q u e rivalizava com a do
h u m a n is m o cívico: a trad ição de ju r is p r u d ê n c ia d o direito natural,
q u e foi crucial, c o m o vimos, n a fo rm a ç ã o d o conceito d e direitos.
Foi fu n d a m e n ta l n o e m p re e n d im e n to analítico d e S m ith a eluci­
dação do c re sc im e n to econôm ico. C o n fo r m e declara a b e rta m e n te
58 0 liberalismo - antigo e moderno

n o título in teiro d o seu g ra n d e livro, Uma investigação sobre a natu­


reza e causas da riqueza das nações, ele estava f u n d a n d o a te o ria do
desenvolvim ento. Mas u m a das principais coisas q u e ele c o m p ro ­
va é que, u m a vez q u e a socied ade com ercial leva d a p o b re z a à
p ro sp e rid a d e , sem necessidade seja d e conquista seja da so m b ria
perspectiva d e declínio, o m esm o estágio m ais elevado d e civiliza­
ção, e m b o ra c erta m e n te desigual n o q u e diz resp eito à e stru tu ra
d a sociedade e, e m g ra n d e parte, n ã o virtu oso ein sua m oral, era
b e m m e n o s injusto d o q u e fo ra o seu p re d e c e s s o r agrário. Pois
todo s os seus m e m b ro s pelo m e n o s p o d ia m gozar d e igual acesso
aos m eios de subsistência, devido à difusão geral d a p ro sp e rid a d e .
J u n ta m e n te consideradas, as passagens tão fam osas sobre a “m ão
invisível” n a Teoria dos sentimentos morais (1759) d e Sm ith e em A
riqueza das nações significam u m a p e rc e p ç ã o d e q u e o indivíduo que
p ro c u ra os seus p ró p rio s interesses p o d e n ão intencionalm ente- a
u m te m p o , levar a u m p o n to m áx im o a riq u eza d a sociedade e a
d a r a distribuí-la d e fo rm a m;jiis a m p la .’7
A realização d e S m ith con sistiu e m e n f r e n ta r co m êx ito o
p ro b le m a d o direito n atural j- ju stiç a — em te rm o s d e u m a noya
espécie d e e c o n o m ia políticaj — a te o ria d o c rescim en to — e em
m o stra r q u e, pelo m en o s e m perspectiva histórica, a responsabili­
d a d e pela jusliça disliibuliva ou seja, o equilíbrio e n lre diieil >■1
e necessidades — p o d e ria cab< r àquilo q u e ele ch a m o u “o sistem a
de lib e rd a d e n a tu ra l” e a sua evolução e sp o n tâ n e a em direção a
p ro sp e rid a d e e ao bem-estar, V e rd a d e iro iluminista, A d am S m ith
co nferiu ao te m a do progressc su a p ro f u n d id a d e socioeconômicà.j
P ro m o to r cio p e n sa m e n to libcsral, Sm ith in tro d u z iu a idéia d o prÓH
gresso n a defesa d o liberisnlo. N ã o e sp a n ta q u e ele te n h a sido u n i
crítico pe rsisten te d o privilég ío e d a p ro te çã o . C o m o pilares cn-
cadeados d a sociedade pré-m onderna, o privilégio e a p ro te ç ã o nãío;
fo r a m m u ito atingidos pelos porta-vozes d a v irtu d e cívica. Mas
to rn a ra m -se alvos n a tu ra is d o lib era lism o e n q u a n to a voz da,
m o d e rn id a d e .
As raízes do liberalismo 59

Progresso e liberismo

O s tem as d e p ro g re sso e liberism o, tão p ro e m in e n te s em Smith,


fo ra m substanciais acréscim os aos dois e le m e n to s form ativos do
c re d o liberal, direitos e constitucionalism o. Politicam ente, o libe­
ralismo p o d ia restringir-se aos dois últim os. Mas o liberalismo, além
d e se r u m a d o u tr in a política, e ra ta m b é m u m a cosm ovisão, id e n ­
tificada com a cre n ç a n o p ro g resso . O llu m in ism o p r e s e n te o u o
liberalism o c o m o te m a d o p ro g re sso , p rin c ip a lm e n te te o riz ad o
pela e co n o m ia clássica. E n tre I lu m e e Sm ith, o llu m in ism o escocês
a c resce n to u à te o ria d e direitos d e Locke e à crítica d o d e sp o tism o
p o r M o n te sq u ieu u m a p o d e ro sa estru tura: u m a n ova explicação d a
história ocidental. Seu significado consistia n o p ro g resso m e d ia n te
o c o m é rc io q u e p r o s p e r a v a n a lib e r d a d e — n a lib e r d a d e civil,
individual, moderna.
O p ro g re sso era sem dú v id a u m a c re n ç a iluminista, m as será
q u e e ra ta m b é m u m a c re n ç a liberal? O g r u p o id e o ló g ico de
d ir c ito s /c o n s titu c io n a lis m o /p ro g r e s s o /lib e r is m o su g ere q u e sim.
C o n tu d o , alguns críticos a r g u m e n ta ra m q u e a id eologia d o p r o ­
gresso era, d e fato, tu d o m e n o s libertária. Faz m uitos anos, n u m
e stu d o q u e d e u o q u e pensai', The Liberal M ind, K enrieth M inog ue
d istinguiu “dois liberalism os”. Um é u m a rejeição libertária d e tra­
dições inform ativas, mas é difícil d istin g u ir o o u tro d o u to p ism o
au to ritário ou d o d e sp o tism o das receitas progressistas. Este te n ­
d e a ser u m a busca in to le ra n te d e eficácia, o rd e m e h a r m o n ia .'” O
“espírito lib e ral” te n d e com fre q ü ê n c ia p a ra o feio p e c a d o estig­
m atizado p o r M ichael O a k c sh o tl c o m o ctmslrutíxrísmo racionalístico,
o u p la n e ja m e n to social em g ra n d e escala d e u m a espécie abstrata,
salvacionista a priori.~9
O d ifu n d id o re fo rm ism o d o llu m in ism o ch eg o u p e rto d e u m
liberalism o e m p re e n d e d o r , m as não, creio eu, p e rto d e sua carica­
tu ra n eo c o n se rv a d o ra . Pois u m a a b o rd a g e m histórica m o stra que
a v e rd ad eira exp e riê n cia das re fo rm as esclarecidas tin h a u m sabor
60 0 liberalismo - antigo e moderno

d istin ta m e n te libertário. A luta do Volta ire c o n tra a to rtu r a e a


censura, a hum anização dasSpráticas penais p o r Beccaria, a retirad a
d e a p o io estatal à p erseguição o u discrim inação religiosa, a elimi­
n ação d e privilégios d e castas e guildas, a liberalização d o com ércio,
a abolição d a servidão n a Á ustria d e José não fo ra m vistas co m o
m e d id as despóticas, a n ã o Ser pelos interesses ob v ia m e n te p re ju ­
dicados n o processo, mas co m o avanços n a v erd ad e libertadores.
O im p e ra d o r Jo s é 11 d a Áustria, in q u ie to e p r o n to a sacrificar-se,
e ra c e rta m e n te u m autocrata, m as sua revolução pelo alto (e m b o ra
d e n e n h u m a fo rm a liberal em seus m é to d o s), se ria m e n te te n ta d a
(e q u e falhou em g ra n d e parte), c o n tin h a u m a perspectiva g e n u ín a
d e em a n cip a ç ão p a ra c a m p o n eses e p ro testa n te s, judeus e o h o ­
m e m do povo. Via d e regra, m esm o q u a n d o e ra iliberal, o llumi-
nism o term inav a p o r desbravar te r re n o p a ra instituições mai.*> li­
vres e (n o co n ju n to ) u m a so ciedad e m e n o s desigual. Sc o o u sád o
refo rm ism o dos d é sp o tas esclarecidos não era libertário em sua
intenção, a m aior p arte d e seus resultados a judou a a u m e n ta r a
liberdade e a igualdade.
P o litic a m e n te falan d o , o q u e c a u so u u m a re a ç ã o c o n tr a o
Ilum inism o n ã o foi n e m pro g resso n e m re fo rm a, m as revolução,
n a fo r m a d e violência ja c o b in a . A v e rd a d e ira m aterializa çã o
histó rica — e histérica — d o salvacionism o a u to ritá rio n ão foi o
re fo rm ism o esclarecido, mas o volu n tarism o jacobino: a teim osa
tira n ia d a v irtu d e a d m in is tr a d a p o r R o b e s p ie rr e e S a i n t j u s t . 30
Ideolo gicam en te, os fanáticos jacobinos e ra m mais p ró x im o s do
discurso d a virtude do h u m a n ism o cívico d o q u e d o h e d o n ism o
m u ito po u co virtuoso dos que, co m o H u m e e Sm ith, legitimavam
costum es m ercantis. Em contraste, o p re g a d o r quintessencial do
prog resso, C o n d o rc e t (1743-1704), e ra filosoficam ente um segui­
d o r d e Ilu m e . Ele p o u c o se im p o rta v a co m a virtude, e em sua
política te n to u realçar dois elem en to s — c o n h e c im e n to e co n se n ­
tim e n to — q u e e ra m in te ir a m e n te e s tra n h o s ao voltinlarism o,
ja c o b in o . C o n d o rc e t p o d e ser co n sid e ra d o o p ró p r io o p o sto de
Av raízes do liberalismo 61

R o b csp ierre. A antítese q u e p u n h a cm c o n traste os seus republi-


canism os simbolizava o abism o e n tre o ja c o b in ísm o e a principal
c o r re n te d o Ilum inism o.
Q u a n to m ais se m e d e a distância q u e sep a ra o Ilu m in ism o do
jac o b in ísm o , m ais se valoriza o chão c o m u m q u e pisavam o Ilumi-
n ism o e o liberalism o. C o m p ree n siv e lm en te, n a R estau ração e n a
França d e O rléans (1815-1848), alguns dos liberais mais avançados
c o m o C o n sta n t estavam p le n o s d a h e ra n ç a ilum inista. A m e sm a
feliz co m b in aç ão d e Ilum inism o e liberalism o p o d e ser e n c o n tra d a
n a mais p u r a a rte d a época, d e Goya a B eethoven.

R o m a n tism o

Goya, B e e th o v e n e S te n d h a l n ã o fo ra m ro m â n tic o s, m as to d o s
co n stitu íra m forças principais n a cu n h a g e m d o ro m a n tism o . N a
França, a escola rom â n tica nasceu a la d a à política légilimisle ou de
R eslauração. O g r a n d e crítico Sainte-Betive e sc re v ru q u e o ro ­
m a n tism o é o m o n a rq u is m o e m política. C o n tu d o , d e u m p o n to
d e vista e u ro p e u , V ictor H u g o ac e rto u mais q u a n d o d e c la ro u q u e
o ro m a n tism o e ra o liberalism o e m literatura. Pois o p ró p rio H u g o
lid e ro u a tra n sfo rm a ç ã o d o r o m a n tism o fra n c ês d e m o n a rq u is m o
a liberalism o d e vanguarda.
O q u e fez com q u e o liberalism o e o ro m a n tis m o se m istu­
rassem ? U m e stu d o r e c e n te d e N an cy R o se n b lu m p r o n ta m e n te
r e s p o n d e u q u e foi a experiência e a ap reciação d o individualism o
m o d e rn o . Os dois m o v im en to s coincid iam n o fato d e q u e am bos
acalentavam a in tim id ad e. A im aginação ro m â n tic a só p o d ia flo­
rescer d e n tro d e u m p ro fu n d o respeito pelas fantasias pessoais; p o r
isso o r o m a n tism o era. liberalism o em literatura, n a sua desconsi­
d eraç ão d o d e c o ro clássico e n a su a subversão d e regras clássicas.
Igualm ente o liberalismo sustentava q u e o d o m ín io pessoal era algo
d e inestim ável em si m esm o e n ã o a p e n a s u m m eio p a ra o u lro
objetivo.31
62 O liberalismo - antigo c moderno

N ã o espanta, p o rta n to , q u e u m m oralista liberal im p o rta n te


co m o J o h n S tu a rt Mill fosse b u sc ar a o rig e m d e sua p re o c u p a ç ã o
com a individualidade e sp o n tâ n e a e m raízes rom ânticas. O indi­
vidualism o p o d ia revestir-se seja d e u m a m á sc a ra d e cálculo
(B entham ), seja d e u m a ap a rê n c ia expressivisla (seu la d o ro m â n ti­
co), m as havia lugar n o liberalism o p a r a am bas as coisas. (N a ver­
d ad e , c a d a u m a dessas im agens, a racionalista-utilitarista e a
expressivista-romântica, c o rr e s p o n d e a u m a escola “n a cio n a l” do
p e n sa m e n to liberal. E n q u a n to o liberalism o utilitarista p e rte n c e ao
conceito inglês d e lib erd a d e c o m o in d e p e n d ê n c ia social, o libera­
lismo d e expressão re le m b ra o conceito g erm ân ic o dc lib erd ad e
c o m o nufotelia psicológica e cultural.)
As origens rom ânticas on p roto-rom ânticas d o individualism o
m o d e rn o foram c o n v in ce n te m en te d escobertas pelo livro d e Colin
C am pbell, d e 1987, The Rom antic Rlhic and. lhe Spirit o f M odem
(A )v si< m e rism C am pbell c o m eça p o r dizer q u e a história literária
tinha p o r m u ito te m p o m o s tr a d o que, p o r volta d e m e a d o s d o
século XVIII, as classes m édias inglesas estavam re in te rp re ta n d o o
p ro testan tism o d e u m a m a n e ira q u e e r a a n tes se n tim en tal d o q u e
calvinista. C o n tra ria m e n te ao ascetism o a u stero do espírito p u ri­
tano, essa nova devoção viu o prazer com o u m com panheiro natural
d a virtude e alim e n to u sen tim en to s d e sim patia, b e n e v o lê n cia e
melancolia. Instalou-se o sentim entalism o, q u e logo seria refo rça ­
do pelo m o v im e n to evangélico. J o h n W esley (1703-1791), o fu n ­
d a d o r d o m etodism o, e ra u m a rm in ia n o — isto é, u m o p o s ito r d a
d o u trin a calvinista da pred estinação, na qual não se podia d e se n ­
tra n h a r o pe ca d o d o destino. Wesley realçou a paixão e a profecia,
tra n sfo rm a n d o o d ra m a d a conversão pessoal n u m p r o tó tip o d a
ex periência rom ântica. T ip icam en te, tornou-se u m a d m ira d o r d e
R ousseau, o p re g a d o r d a religiosidade in tern a.
A te o ria d a ética ro m â n tic a , p o r ta n to , p a r te d o r e c o n h e c i­
m e n to d e q u e o p ro te sta n tism o foi h u m a n iz a d o (e m o d e rn iz a d o ) -
pe lo m isticism o — u m p ro cesso q u e m o ld o u a c u ltu ra m o d e rn a
As raízes do liberalismo 63

tan to q u a n to a racionalização do m u n d o a c a rre ta d a pelo capitalis­


m o ascético. A ética d o tra b alh o c o n stru iu a e c o n o m ia e a te c n o lo ­
gia m o d e rn a s, m as a ética ro m â n tic a faz co m q u e c o n c o rd e m p o r
força d e u m a d e m a n d a p e rp é tu a , protéica, d ita d a p e lo h e d o n ism o
m o d e rn o .
A fase r o m â n tic a d o individualism o n ã o se lim ito u a doces
h e d o n is m o s e a dev a n e io s. T a m b é m veio d e u m a f o r m a m ais
escura, ligada a u m a visão u m ta n to severa d a e conom ia. O p ro te s ­
tantism o evangélico, f u n d a d o p o r Wesley, n u m espírito otim ista,
a rm in ian o , c h e g o u ao final do século XV111 com u m â n im o mais
som brio. Pouco mais (arde, o c re d o evangélico, e m b o ra mantivesse
i a p e g o à f é cm vc/ d e a p e g a r nr a<> rilual, cliocon m c c o i i i o

d císm o d o u.-ólogo William 1’aley, tão im p o rta n te na sccubti i/açao


da posição de Locke a favor d a tolerância. A N atural 7'heology (1802)
d e Paley foi o p o n lo mais alio q u e o o tim ism o religioso da época
atingiu. Em oposição a essas alegres perspectivas, o p ro testan tism o
evangélico p ro c la m o u u m a ép o ca d e expiação, u m a visão d o e r ro
re d im id o p o r vicissitudes apocalípticas. N essas sinistras circ u n s­
tâncias, a b a n c a rr o ta p asso u a ser in te rp r e ta d a co m o u m sinal d e
p unição, e os c ren tes evangélicos e ra m to d o s Iiberistas, u m a vez
q u e encaravam o m e rc a d o co m o a rm a po tencial c o n tra o pecado.
C o m o observa o seu qualificado estudioso, Boyd H ilton, o catas-
tro fism o evangélico e ra mais d ifu n d id o e n tre os re n d e iro s funda-
m entalistas p ro te sta n te s d o q u e e n tre os p rim e iro s industriais, que
e ra m m uitas vezes d e â n im o mais secular e te n d ia m a e sp o sa r a
e c o n o m ia ricardiana n o lu gar do se n tim e n to trágico da vida inspi­
ra d o p elo d ra m a d o p e c a d o e d a salvação.u N a m e d id a em q u e o
evangelismo p ro te sta n te m a d u ro era u m ro m a n tism o religioso, sua
sin gular justificação teológica do liberism o p ro p o rc io n o u ao libe­
ralism o m ais d e u m p o d e r o s o laço com a c u ltu ra rom ân tic a. So­
m e n te n a s e g u n d a m e ta d e do século XIX, c o m o su rto d e u m a
m e n ta lid a d e m elhorista, a É poca d a Expiação c o m e ç o u a r e tro c e ­
der. Mas, antes q u e isso ocorresse, ela havia to r n a d o ro m â n tic o o
64 0 liberalismo - antigo e moderno

espírito de p a rte substancial das classes m édias vitorianas. E p o rq u e


tal ro m a n tiz a ç ã o e ra u m im p u lso f o r te m e n te individualista, ela
c o n trib u iu d e fo rm a significativa p a ra q u e se alçasse a u m a c ultura
liberal.
3

Liberalismo clássico, 1780-1860

“S en h o r, o p rim e iro whig foi o d ia b o .”


— Do Doutor Johnson a James Boswcll, 28 de abril de 1778

Seg u in d o a pista d e ele m e n to s chaves n o c re d o liberal, tais co m o


o c o n c eito d e direito s individuais, o g o v e rn o d a lei, e o consti-
tucionalism o, ch eg am o s a u m a re p re se n ta ç ã o b a sta n te a b ra n g e n te
d o pro to liberalismo — u m c o n ju n to ideológico d e valores e insti­
tuições q u e h isto ric a m e n te d e sb ra v o u o c a m in h o p a ra a o r d e m
social-libcral in te ira m e n te d ese n v o lv id a q u e se to r n o u a fo rm a
a v a n ç ad a d e g o v e rn o n o O c id e n te n o século XIX. N o nível do
p e n s a m e n to político p ro p ria m e n te dito, esses ele m e n to s seriam
in c o rp o ra d o s , c o m g ra u s d ife re n te s d e ênfase, n o s escritos dos
principais p e n sa d o re s clássicos liberais — d e Locke e M o n te sq u ie u
aos federalistas am ericanos, e d e B enjam in C o n sta n t a Tocqueville
e J o h n S tu a rt Mill.
O s liberais clássicos, to m a d o s em co n ju n to , d e ra m duas c o n ­
tribuições decisivas ao desenvolvim ento d o p e n sa m e n to liberal. Em
p rim e iro lugar, fu n d ira m traços liberais n u m a advocacia c o e re n te
d a o rd e m social-liberal secular q u e estava en tã o to m a n d o fo rm a
n o s g o v e rn o s re p re s e n ta tiv o s d a é p o ca . E m se g u n d o lu g ar, in ­
tro d u z ira m e d esen v o lv era m dois o u tro s tem as n o p e n s a m e n to

65
O liberalismo - a ntig o e moderno

j
liberal: dem ocracia e libertariánismo.* Jun tos, esses temas essenciais
constituíram u m a defesa d o iiidivíduo não apenas c o n tra o goverUó
opressivo, m as ta m b é m c o n tra in tro m issõ es d e constrangim eritó
social. i |

Locke: direitos, consentim entos e confiança j


j
O De Civ.e d e H o b b e s divide-se em três p artes, cada u m a das quais
n o m e a d a se gundo u m conceito chave n o cenário ideológico em qtie
se desenvolveu o liberalismo: libertas, polestas c religio. O objetivo de
H o bbes consistia em definir as relações e n tre p o d e r estatal (jmlestm),
p o r u m lado, e lib e rd ad e (a u to n o m ia c o m o in d e p e n d ê n c ia ) e reli­
gião (p o d e r ideológico), p o r o u tro . H o b b e s distinguiu duas causas
ideoló gicas d a g u e r ra civil inglesa. O s in te lec tu a is a c a d ê m ic o s
ensinavam aos m agnatas d o reino m odelos antigos d e lib erdad e
cívica. N u m nível social mais baixo, os “sa n to s ” p u rita n o s disse­
m in a ra m o direito d e d o g m atiza r em n o m e d e u m a inspiração di­
vina. O s intelectuais cívicos v oltaram a d a r vida à idéia aristotélica
d e q u e a cidade é n a tu ra l — o q u e q u e r dizer q u e os h o m e n s são
n a tu ra lm e n te anim ais sociais. Mas, nas circunstâncias d a Inglaterra
d e 1640, o resu lta d o foi p u r a d e so rd e m . O s p u ritan o s, ta m b é m ,
to rn a ra m sua fé u m m otivo d e subversão e regicídio. G om o o bis­
p o Sam uel B utler disse em seu H udihras, seu “teim oso g ru p o d e
santos e rr a n te s ” estava d e stin ad o a “p ro v a r sua d o u trin a o rto d o x a ,
p o r m eio d e golpes e pancadas apostólicos”.
V en d o tu d o isso, H o b b e s d e d u z iu q u e o princípio d a o rd e m
política n ão p o d ia d e c o rr e r seja d a n a tu rez a seja d a G ra ç a .1 T in h a
de se r u m a arte, com a léenica da lei e d e um c o n tra io social
possibilitando ao Estado h u m ilh a r os g ra n d e s cio reino, rebeldes,

(*) L i l x T l a t i a n i s n m : I V i i x í p i o o u d o u t r i n a d o l i b e r t á r i o ( c m in g lê s , l i h n t a i ian), <>n


seja, pessoa q u e s u s te n ta a i d é i a da l i b e r d a d e d c v o n t a d e . ( N . d o T . )
Liberalismo clássico, 17HO-1860 67

e os fanáticos religiosos, e evitar q u e a so ciedad e tom basse n o caos.


N o fro ntispício d o Leviatã, o so b e ra n o gigante, “rei d e to d o s os
filhos do org u lh o ", leva u m a e sp ad a e u m báculo: m a n e ja ta n to o
p o d e r espiritual q u a n to o te m p o ral, j á q u e tem d e re fre a r a u m só
t e m p o u m a a risto c ra c ia g u e r r e ir a e as seitas carism áticas. P a r a
p ro te g e r libertas, potestas devia c o n tro la r a farisaica religio}
O s sucessores pro to lib e rais d e H o b b e s m a n tiv e ra m seu p rin ­
cípio teórico — co n tra tu a lism o —, m as a b a n d o n a r a m sua receita
política, absolutism o. N a m o c id a d e d e Locke, b e m afastado o ris­
co d e u m a g u e r ra civil, se n tira m q u e os am eaçava o u tro p ro b le ­
ma. O q u e a g o ra p re o c u p a v a os am igos d a lib e rd a d e era q u e o rei,
a tu a n d o co m o u m auto c ra ta, viesse a u sa r o Estado não co m o um
á rb itro m as c o m o u m a monocracia — u m a c o n c e n tra ç ã o d e p o d e r
político e ideológico. E ra isso q u e significavam as inclinações cató­
licas d a sucessão S tuart, n a pessoa d e J a im e II. J á a libertas n ão se
enc o n tra v a p ro te g id a pela potestas; ao co n trá rio , potestas am eaçava
r e c o rr e r à religio p a r a e sm a g a r libertas.
A lu ta c o n tra a autocracia S tu a rt tornou-se crítica p o r causa
d a crise d a Exclusão, p o r volta d e 1680. (Estava e m jo g o a possível
exclusão, pelo P arlam ento, d a ascensão ao tro n o d o d u q u e d e York,
q u e cinco anos m ais ta rd e se to rn a ria Ja im e II.) Iniciou-se nesse
m o m e n to a b re c h a e n tre tones e whigs. E ram torres os partid ários do
rei; e ra m whigs aqueles q u e resistiam às políticas d a coroa. Em 1680
foi im presso u m tra ta d o escrito m u ito antes p o r um c o n te m p o râ ­
n e o d e H obbes, sir Robert: Filmcr. Seu título era cristalino: Patriarca:
um a defesa do poder natural dos reis contra a liberdade inatural do povo.
F ilm er a firm o u q u e a sociedade n ã o passava d e u m a família a m ­
pliada. P o rta n to , to d a a u to rid a d e e ra d e n a tu re z a p a tern al, o que,
naqueles dias d e p re d o m ín io m asculino n ã o q u e stio n a d o , signifi­
cava n atu rez a paterna. Para Locke, u m e ru d ito p ro fu n d a m e n te e n ­
volvido com a oposição whig p o r m eio d a associação d e to d a a sua
vida com o p rim e iro c o n d e d e Shafslebm y, no e n ta n to , esta a n a lo ­
gia e n tr e a u to rid a d e política e p a te rn a e ra c o m p le ta m e n te falsa.
òS U liberalismo - antigo e moderno

L ocke dev o to u o p rim e iro d e seus Dois tratados sobre o governo


a u m a re m atad a refutação da tese patriarcal. Para Locke, a liber­
d a d e do povo e ra b em “n a tu ra l” — na realidade, era u m d o m dc
Deus ao ho m em . O p o d e r m o n á rq u ico e ra mais necessário do que
natural, e existia p ro e m in e n te m e n te p a ra a p ro te ç ã o das liberda­
des naturais dos cidadãos. O capítulo 15 do Segundo tratado sep ara
e n fa tic am en te “p o d e r civil” dos dois o u tro s tipos d e dom ínio: p o ­
d e r paternal e p o d e r despótico. U m a velha tipologia, en d o ssad a
p o r G rotius (em De iure belli ac paris, livro 2, cap. 5), dissera q u e o
p o d e r sobre o povo p o d e provir d e Iròs Ibntes: nascim ento, c o n ­
se n tim e n to e crim e. O p o d e r p a tern al resulta d o nascim en to , o
p o d e r despótico, igualado com o d o m ín io so bre escravos, provem
alegadam ente da conquista em guerras justas; daí ser a escravatura
u m a p u n iç ã o p o r agressão injusta. C o m q u e se p a re c e o p o d e r
“civil” (isto é, político), com o tipo p ate rn a l ou com o tipo d e sp ó ­
tico? Foi ad a m a n tin a a re sp o sta d e Locke: com n e n h u m dos dois,
pois o p o d e r político b ro ta in te ira m e n te d o c o n se n tim e n to . O ra,
c o m o N o rb e rlo lio b b io sagazm ente obsei"vou, e n q u a n to a singu­
la rid ad e do patriarcalism o d e Film er era a fusão falaz d e p o d e r
político e p o d e r p a te rn a l, o o b s c u re c im e n to d a distinção e n tr e
p o d e r político e dom inação despótica e ra coisa d a lavra d e H obbes.
O De Cive d e H o b b e s n ã o fez distinção e n tre o so b e ra n o e o se­
n h o r de escravos, p o r q u e a m b o s os tipos d e p o d e r apoiavam-se,
n o fund o, n u m c o m prom isso , fosse n u m c o m p ro m isso e n tre in­
divíduos j u r a n d o o b e d iê n c ia em tro c a d e paz, ou d e pessoas
vencidas q u e p ro m e tia m servir d e sd e q u e lhes fossem p o u p a d a s
as vidas.3
O s Dois tratados desenvolveram , a u m te m p o , u m a teo ria do
c o n se n tim e n to e u m a te o ria d a confiança. A teo ria d o c o n se n ti­
m e n to re s p o n d ia p e la leg itim id ad e d o g o v e rn o (e c o m p a ra v a ó
ab solutism o à g u e rra social). A teoria d a confiança m ostrava co m o
os g o v e rn a n te s e súditos deviam c o m p r e e n d e r o seu relacioná-,
m e n to recíproco. N e n h u m a das duas teorias jam ais foi a b a n d o n a d a
Liberalismo clássico, 1780-1860 69

pelas tradições liberais su b se q ü e n te s, a p e sa r d e sua diversidade.


T a m b é m in a u g u ra ra m u m novo, v e rd a d e ira m e n te sem inal tipo de
telos, o u fim, e m te o ria política. Pois, e n q u a n to os p e n s a d o re s
a n tig o s e m ed iev ais e sc re v e ra m c o m u m objetivo p la tô n ic o d e
idealizar u m a b o a sociedade, e e n q u a n to H o b b e s se p re o c u p a v a
c o m a c o n q u ista d a o rd e m , a filosofia política d e Locke foi a pri­
m e ira a lta m e n te in flu e n te q u e objetivou o e sta b e le c im e n to das
con dições d e liberdade.

De Locke a M adison: h u m a nism o cívico


e republicanism o moderno

O f u n d a m e n to das teorias d e Locke, de confiança e c o n sen tim ento,


consistiu em sua teologia dos direitos naturais. Mas a teo ria dos
direitos e m lin g u ag em d o direito n a tu ral n ã o foi a única espécie
de discurso q u e os whigs p ra tica ra m ; inim igos d o ab so lu tism o e
defensores d a tolerância, eles foram os p rim eiros liberais n a história
m o d e rn a . U m a espécie d e id io m a antiabsolutista, diverso e vasta­
m e n te a p re ciad o , foi a ideologia d o h u m a n is m o cívico o u r e p u ­
blicanism o clássico. T a m b é m ela d e ix o u u m a p r o f u n d a m a rc a n o
liberalism o clássico.
O p e n sa m e n to político anglo-saxão en tre a Revolução Gloriosa
e a p ublicação d a constituição am erica n a já foi e n c a ra d o c o m o um
c a m in h o d ire to d e Locke a B en th am — isto é, d o liberalism o dos
direitos n atu rais à d em o crac ia utilitária. Essa visão tradicional foi
fo rm u la d a p elo inglês H a ro ld Laski e p elo am e ric an o Louis H artz.4
H a rtz e n te n d e u q u e os pais fu n d a d o re s a m e ric an o s e ra m fervoro­
sos seguidores d e Locke. T a n to os liberais c o m o os m arxistas pas­
sara m a c o n ta r u m típico c o n to tuhig n o qual a lib e rd a d e era im ­
p u lsio n a d a pelos ventos d a história; s u b lin h a ra m a n a tu re z a p r o ­
gressiva d a so cie d ad e com ercial e das instituições p arla m e n tares,
am bas ajudadas p o r m o d e rn o s conceitos d e direitos.
70 0 liberalismo - antigo e moderno

Mas r e c e n te m e n te J o h n Pocock, d a U n iv e rsid a d e J o h n


H opkins, p r o p ô s u m a m agistral revisão desse e n te n d im e n to . O
principal livro d e Pocock, The M achiavellian M oment (1975), criou
to d a u m a escola n a h istó ria d o p r im e ir o p e n s a m e n to político
m o d e rn o .5 Pocock c o m p r e e n d e u q u e L ocke era u m teo rista d o
c o n se n tim e n to dem a siad o radical p a ra se r o p e n s a d o r oficial d a
Revolução Gloriosa. T a m b é m qu estio n o u a re p re se n ta ção lockiana
d o rep u b lican ism o d a In d e p e n d ê n c ia . Pocock desco b riu u m a p e ­
q u e n a n o b re z a angustiada, cheia d e dúvidas q u a n to à ascensão d o
capitalismo. Sua refin ad a cid adania apegou-se ao h u m a n ism o cívi­
co co m o u m refúgio c o n tra o c om ércio e a co rru p çã o .
A p e q u e n a nobreza republicana, m uito c o n h ec ed o ra de Cícero,
P lularco e Políbio, Calava flu e n tem en te u m vocabulário cívico jle
lib e rd a d e e cidadania. Iniciando-se co m o “p a r tid o d o c a m p o ”
dirigido p o r B olingbroke (1678-1757), o líder lory no re in a d o d a
rain h a A n a (que mais tarde o rie n to u a oposição a W alpole e ac|o-
lh e u os n o m e s e m in e n te s d i lite r a tu ra clássica, Swilt e P o p e)
aquelas bocas re p u b lic a n a s <:sl.avam rep leta s d e ideais d e a u to
g o v e rn o virtuoso. Eles injuria am o c o m p a d rio g o v e rn am en tal c a
c o rr u p ç ã o m inisterial. Seus ev an g e lh o s c o m o tex to s modern<
foram os Discursos sobre Tilo \lJvio d e M aquiavel (o b ra pó stu m a;
1531) e o livro Oceana d e H a rrin g to n (1656), a voz repub licana no
p u ritan ism o inglês.
E central n a análise d e Pocock a idéia d e q u e o m o m e n to crí­
tico m aquiavélico in a u g u ro u u m “novo p a ra d ig m a ” n a conceitua-
lização de política. O paradigrijia m aquiavélico a tribuiu prim azia aò
tempo. A ntes de Maquiavel, a lis ã o ocidental d e política girara e m
to rn o d e valores intem porais. M esm o em Florença as opiniões rivais
d e G uicciardini, o elitista, e G iannotti, o pop ulista, p ro c u ra v a m
a in d a u m a constituição imutável, equilibrada, u m d iq u e d e o r d e m
c o n tra o m a r d a história. M aquiavel foi o p rim e iro a voltar-se o u ­
s a d a m e n te para a história, e n ão d ela se afastar. C o n scien te do
imprevisível in ter-relacionam ento d a fo rtu n a e d a c o ra g e m , fortuna
Liberalmno clássico, 1780-1860 7/

e virlu, favoreceu a inovação política. N a d a m e n o s p o d ia salvar


F lo ren ça d a d u p la a m ea ç a d e conquistas estran geiras e d o d e s p o ­
tism o dos Mediei. O s velhos valores d a m o n a rq u ia universal, co m o
s o n h a d o s p o r D ante, tin h a m d e acabar. A re p ú b lica ou se to rn a ria
h e ró ic a o u p ereceria.
P a ra Pocock essa ética cívica u m ta n to tensa p e r m e o u to d a a
trad ição atlântica d e discurso. L onge de ser individualista o capi­
talista, a firm o u , a p rim e ira id eo lo g ia a m e ric a n a foi h u m an ista-
re p u b lic a n a n a e ste ira d a a p ro p r ia ç ã o ing lesa d os te m a s m a ­
quiavélicos. D u ra n te o in te rre g n o p u rita n o , J a m e s H a r rin g to n co­
m e ç a ra a p re o c u p a r-s e c o m o f u tu r o do s p r o p r ie tá r io s in d e ­
p e n d e n te s, a p e q u e n a n o b re z a cujo slatus crescera co m o fim do
feudalism o. H a rrin g to n q u e ria p ro sse g u ir (contra Crom w ell) com
milícias da p e q u e n a nobreza (um a idéia favorila no p e n s a m e n to
d c Maquiavel), e suspeitava q u e a p r o p rie d a d e com ercial ac a rre ta ­
va d e p e n d ê n c ia . D u ra n te a R esta u ra ç ã o S tu a rt, m u ito s neo-
h a rrin g to n ia n o s im aginavam q u e ho u v e ra n o passado u m a “a n ti­
ga c o n s titu iç ã o ’', um passa d o gótico d e lib e rd a d e p o v o a d o p o r
g u e rre iro s p ro p rie tá rio s d e terras. (O p r ó p rio H a rrin g to n n u n c a
acred ito u n o m ito d a antiga constituição.) Mas, de o u tra form a, eles
c o n c o rd av am co m os re p ublicanos d a p e q u e n a n o b re z a puritana:
os n e o -h a rrin g to n ia n o s opu seram -se a u m exército p e rm a n e n te ,
criticaram a c o rru p ç ã o ministerial, e mais ta rd e resistiram às duas
p rin c ip a is “in stitu içõ es c o m e rc ia is” q u e haviam sido criadas n a
v ira d a d o século, o B anco d a In g la te rra e a dívida nac io n al. O
“p a rtid o d o c a m p o ” re p ublicano, j á Velho whig p o r volta d e 1680,
tom ou-se tory q u a n d o Bolingbroke, d e rro ta d o n a sucessão d a ra in h a
A n a p o r whigs hanoveriano.s, saiu d o p o d e r c o m o a n tag o n ista de
R o b e rt W alpole.
Pocock a rg u m e n to u q u e essa ideologia d o p a r tid o do c am po
sobreviveu até tard io s re p u b lic a n o s e radicais d o século XVIII.
O bservou q u e T h o m as Paine iniciou seu Os direitos do homem ( 179 I)
d e n u n c ia n d o o crédito, aquele p esad elo d os hu m an istas cívicos. E
72 0 liberalismo - antigo e moderno

P ocock in te r p r e to u o a n tife d e ra lism o e a n tig o v e rn o f o r te d e


Je ffe rso n e M adison c o m o u m a n ova versão d a d o u trin a d o py.rti-
do do cam po. E m oposição ab com ercialism o georgiano, sua jovem
A m érica nasceu “com p a v o r d a m o d e r n id a d e ”.
N ão faltaram críticas à tése d e Pocock. O p e rito d e O x fo rd em
assuntos d o século XVII, Keith T h o m a s, re s p o n d e u que, antes| da
Revolução Gloriosa, as questões centrais em a rg u m en ta ç ão política
haviam sido soberania, obrigação e o direito d e resistência — u m
léxico h o b b e sia n o e lockiano, dificilm ente u m léxico hum anista-
re publicano.6 Isaac Kram nick, u m dos principais críticos de Pocock
nos anos 1980, afirm ou q u e <» repu b lic an ism o c lássico, com sua
ênfase nas elites agrárias e seu estado d e esp írito nostálgico, p o u ­
co tin h a a o fere c er à baixa classe m é d ia u r b a n a cuja p r o p r ie d a d e
e ra red u zid a e móvel (isto é, com ercial) e cujo esp a n ta lh o e r a o
privilégio político e social — o m o n o p ó lio d a p e q u e n a no breza. De
fo rm a n ã o s u r p r e e n d e n te , essas cam ad as m ais baixas a p o ia ra m
radicais igualitários com o Wilkes e Paine. K ram nick insistiu e m que,
a desp eito d e to d o o seu a ta q u e à co rru p ç ã o , os radiciais co m o
P aine deviam mais a Locke d o q u e à ideologia cívica.7
E m sua o b ra mais recente, o professor Pocock m u d o u d e foco.
Em vez d e investigar a sobreviv^pcia d o rep ublicanism o clássico,
passou a aplicar seus notáveis p o d e re s analíticos ao “w h iguism o”8
m o d e rn o . Os velhos w/rigs, p o d e m o s re le m b rar, haviam in v entado
o m ito da antiga constituição. R e sp o n d e ra m os tories d a R estaura­
ção q u e n u n c a h o u v e ra tal coisa, o q u e im plicava q u e o p o d e r
m o n á rq u ic o podia crescer, co m o o fizera no c o n tin en te, d e se m ­
b araç ad o das liberdades ancestrais. Agora, n u m passo inteligente,
os ivhigs m o d e rn o s da é poca de Walpole a d otaram q uietam ente essa
tmy e v eterana e x o n eraç ão da antiga constituição — e lançaram ao
m a r a ética cívica. E screvinhadores niliigs m o d e rn o s, couio joseph
A ddison, um a das leituras favoritas d e A dam Smith, o p u se ra m a
e d ucação, as boas m a n e iras à v irtu d e “p rim itiv a ”. Daniel Defoe
(fam oso p o r causa do Robinson Crusoe) tro co u a milícia cívica pelo
Liberalismo clássico, 1780-1860 73

c ulto das m aneiras; e os ilum inistas escoceses c o m p le ta ra m isso


e difica n d o sua explicação p o r estágios d a evolução h u m a n a .
E m 1988, e m b rilh a n te c o n fe rên c ia n a Escola de E c o n o m ia e
d e C iência Política d e L o n d re s, Pocock re tra to u u m “Ilum inism o
c o n s e r v a d o r in g lê s”.9 C o m H u m e , G ib b o n e S m ith c o m o suas
figuras centrais, esse Ilum inism o c o n se rv a d o r te n to u d e f e n d e r a
a d m in is tra ç ã o h a n o v e r ia n a dos a ta q u e s das contra-elites, ta n to
religiosas c o m o radicais-republicanas. Mas sua ideologia e ra u m a
espécie definitivam ente liberal-moclernizadora. N u m sentido, tinha
alicerces hobbesiano s, pois insistia n a o rd e m política c paz social
sob a inteira p ro te ç ã o d o p o d e r so b e ra n o . Nesse m eio (em po, p o r
c ontraste, as colônias am ericanas, feridas pela afirm ação britâ n ic a
d e p o d e r im perial, r e to r n a ra m a u m discurso lockiano. J e ffe rs o n
re c o r re u a u m a lin g u a g em d e d ire ito n a tu ra l e à tese d a a n tig a
constitu ição p a r a asseverar que, estabelecendo-se n a A m érica, os
c o lonos ingleses haviam in gressad o n o estad o d a n a tu re z a e, p o r ­
ta n to , gozavam d e lib e rd a d e p a ra c ele b ra r u m c o n tra to social; a
a u to rid a d e b ritâ n ic a prevalecia so b re suas capacidades federativas,
m as n ã o s o b re suas c ap ac id ad e s legislativas (o u seja, taxação).
P o c o c k r e c o n h e c e u e x p lic ita m e n te q u e o p o p u lis m o lockiano,
c o n to rn a d o n a In g la te rra em 1688, foi a d o ta d o pelos in su rre to s
a m erica n o s nas décadas d e 1700 e 1770.
C o m o David Epstein d e m o n s tro u em The Political Theory of
“The Federalisl” (1984), os au to re s d c The Federalisl Papers (James
M adison, A le x a n d e r H a m ilto n e J o h n Jay) e n q u a d ra ra m -se m u ito
n a tradição d o p o p u lism o lockiano. Epstein p e n o u p a ra m o stra r
q u e eles haviam p r o p o s to u m a fo rm a d e g o v e rn o “estrita m e n te
repub licana” ou “inteiram ente popular"; que a república am ericana,
em ta m a n h o e sistem a, não p o d ia deixar d e ser m uito d ife re n te
d e u m a antiga d em o cracia (do que d e c o rre ra m os tiros d e tocaia
d o The Vederalist. n o a n liq u a ria n ism o d e R ousseau); q u e a a rg u ­
m e n ta ç ã o rep u b lic a n a do The Federal,isl funda-se n u m a psicologia
realista q u e c o m p re e n d e os im pulsos políticos d c pessoas e não
74 O liberalismo - antigo e moderno

a p e n a s seus im pu lsos econôm icos; e que, e n q u a n to a a n tig a d e ­


m o c rac ia em p e q u e n a s repúblicas passou p o r cim a d o p ro b le m a
d a ju stiç a e m favor d o b e m co m um , as “sociedades civilizadas” não
p o d ia m evitar u m a g ra n d e p o rç ã o d e d iv ersid a d e e, e m c o n se ­
qüência, Hnham d e resolver o p ro b le m a d e g a ra n tir o b e m d e cada
p a rte — ’Cr, justiça.10
Equipa.. .ido gov ern o p o p u la r com um a am pia i cpiibliea fe­
deral, o The Fede ralis t Papers ten to u lidar com a tarefa d e equilibrar
interesses e facções, lib e rd a d e e justiça. C o m o escreveu M adison,
“a u m e n ta n d o a e sfera”, “inclui-se u m a m a io r v ariedade de partes
e in te re s s e s ”, t o r n a n d o assim m e n o s prov ável u m a u s u r p a ç ã o
m ajoritária dos direitos dos outro s. Mas H am ilto n e M adison ti­
n h a m consciência d e q u e essa solução federal significava, despedir-se
do republicanismo clássico. C o m p r e e n d e r a m q u e u m a re p ú b lic a
g ra n d e e h e te ro g ê n e a d im inuiria a necessidade d e virtu de cívica
e n fra q u e c e n d o as “facções” n o in te rio r d e u m vasto c o n ju n to n a ­
cional. A lém disso, H a m ilto n contava c om u m a paixão específica
— o a m o r ao p o d e r e à fam a — p a ra a tra ir os ricos e virtuosos à
vida pú b lica, m e sm o q u e n u m a s o c ie d a d e co m ercia l a v irtu d e
pudesse constituir n o m áxim o “ap enas u m gracioso acessório da
riq u e z a ”. E n q u a n to J e ffe rs o n so n h av a com a v irtude ag rá ria no
in te r io r d e u m a a u ta r q u ia n a A rc á d ia d e R o u ssea u , H a m ilto n
a p ro fu n d a v a a a p r e e n s ã o psicológica d o liberalism o e M adison
tratava de inventar u m a m aquinaria rep u b lican a que; se a d ap tava á
m o ral m últipla d e u m a sociedade com ercial. Jefferson p e r m a n e ­
c e u escravo d a d e m o c ra c ia local d ire ta , m as os r e p u b lic a n o s
federalistas apegaram -se ao govern o representativ o. Q u e ria m e m ­
p re g a r a lib erd a d e política p a ra p r o te g e r e fo rta le ce r a a u to n o m ia
civil largam ente. Em o u tras palavras, preocupavam -se e m recorrejr
ao conceito “fran c ê s” d e lib e rd a d e c o m o u m m eio d e f o m e n ta r a
e xperiência d a lib e rd a d e “inglesa”.
' E m te rm o s políticos, havia b a sta n te lu g a r n o liberalism o clás-.
sico p a r a e le m e n to s d a id e o lo g ia cívica, c o m o ta m b é m p a r á
Liberalismo clássico, 1780-1860 75

princípios liberalistas-progressivistas cie o rig e m ilum inística, p a r a


n ã o falar em crenças em direitos n a tu ra is q u e p a rtia m d e Locke e
P aine. N o caso a m e ric a n o (o ú n ic o e x e m p lo m a io r d a im p le ­
m e n ta ç ã o re p u b lic a n a n a época), u m novo e le m e n to c onceituai
m o stro u -se n ã o m e n o s im p o rta n te : a p r e o c u p a ç ã o con stitu cio -
nalista. Tal p r e o c u p a ç ã o ultrapassava a velha idéia p o lib ia n a de
e q u ilíb rio social refletid o u;i c o n stitu iç ã o (com a aristocracia
r e p re s e n ta d a n o S e n a d o e o povo nos comícios) e seguiu o conse­
lho de M o n te sq u ie u d e separai' e e q u ilib rar os poderes ou ra m o s d a
a u to rid a d e soberana. O te m a constitucional llui d e M o n tesq u ieu
a M adison. Mas n o caso d e M o n te sq u ie u (co m o n o d e Locke) o
e sp e ctro q u e assom brava a lib erd ad e ain d a e ra o d e sp o tism o la­
te n te d o p o d e r m o n árq u ico . E m The Federalist, e m e rg iu a p re o c u ­
p ação c om u m novo perigo: o p o d e r m ajo ritário d e se n fre a d o . A
m e sm a p re o c u p a ç ã o re a p a re c e u n a crítica d e B enjam in C o n sta n t
a R ousseau: n ã o b a sta tr a n s fe r ir o p o d e r — im põe-se ta m b é m
c laram en te delimilá-lo.
D elim itar o p o d e r era, é claro, o fu n d a m e n to lógico d o jogo
d e Locke d e confiança e c o n se n tim e n to . E, nestes últim os anos,
p are ce q u e assistimos à vingança d e Locke das in te rp re ta ç õ e s qu e
o deslocaram d o c â n o n e dos p rim ó rd io s do repu b lica n ism o a m e ­
ricano. Assim, co m o diz T h o m a s Pangle, a ren ovação a m eric an a
d o ideal re p u b lic a n o significava u m a obrig ação sem p re c e d e n te s
de a ssegurar liberdade privada e econôm ica, n u m o u sa d o a b a n d o ­
n o ta n to d a tradição p ro te s ta n te q u a n to d a tradição clássica. Mas
esse a b a n d o n o nutria-se n a igxialação sutil d e L ocke d o D eus bí­
blico co m a lei racional d a n atureza. A busca d a felicidade e a p r o ­
teção d a p ro p r ie d a d e e ra m os m otivos lockianos q u e figuravam n o
c e n tro d a visão m o ral d o re p u b lic an ism o m o d e r n o .11
76 0 liberalismo - antigo e. moderno

W h i g s e radicais: o nascim ento


da idéia liberal democrática

O republicanism o liberal n a A m érica dos pais fu n d a d o re s am p lio u


a idéia lockiana d o E stado sob o aspecto d e que, d ife re n te m e n te
d e Locke, ele estipulou q u e todos os postos seriam eletivos. Taijn-
b é m ac en o u com u m substantivo p otencial d em o c rá tic o no intle-
í
rio r d e instituições liberais. P o r últim o n a o rd e m , mas nao e m im ­
p o rtância, c o n te m p lo u u m a e c o n o m ia liberista. Foi c o rre ta m e n te
q u e se p erc e b eu q u e a fed e raç ão a m e ric an a era a form a mais livj
j á assum ida p o r um Estado whig e, co m o tal, a u m te m p o atraiu
rc p u g n o u o c o n se rv a d o r Simc:n Bolívar (1 783-1830), o u n ific a d o r
e principal lib erta d o r no sul cIo H em isfério.
Este 6 uni b o m p o n lo em nossa história para d a r um a vista <
olhos no nascim ento, c.roscinue n to e tra n sfo rm aç ão d o wliiguism
c o m o o ancestral histórico do liberalismo. Vimos q u e o partidari
m o xvhig nasceu da afirm ação d e direitos c o n tra o p o d e r morui
quico e linha, pelo m en o s, dois objetivos: lib e rd a d e religiosa
gov ern o constitucional. Depois d e lu ta re m co m êxilo c o n tra cjs
Stuarts, os whigs nesse sentido g o v ern aram a Inglaterra de W alpole
ao mais velho Pitt, ou, em terínos dinásticos, sob os dois p rim e i­
ros Jo rg e s (1714-1760). F o m e n ta ra m o com ercialism o e a e x p a r-
são e consolidação d o p rim e iro Im p é rio britânico. Im pelidos p a ra
a oposição n o lo n g o re m a d o jle J o r g e III, c o n seg u iram re to r n a r
b re v e m e n te ao c o m a n d o e m 1806, dirigidos pelo a d ia n ta d o libe­
ral Charles Ja m e s Fox (1749-1806), o g ra n d e o p o sito r p a r la m e n ­
tar d o jo v e m Pitt. í
A q u ela a ltu ra j á havia u m elen co re co n h e c ív el d e p o s iç õ e i
whigs. Em p rim eiro lugar, figurava u m la titu d in arism o m oral, uma.
relutância em aceilar q u e há u m a m e lh o r m aneira d e viver ou um
bem co m u m suscelível d c definição p o r q u a lq u e r m o n ism o élico,
Em segundo, figurava o individualismo, com a conseqüente rejeição
de visões “orgânicas” d a sociedade. Em terceiro, havia o governo
Liberalismo clássico, 1780-1860 77

responsável — a saber, a q u e le q u e se p o d ia c h a m a r a p r e s ta r c o n ­
tas. E m q u a r to lugar, figurava u m apelo ilu m inista em favor do
p ro g re sso e d o liberism o (ou u m a p re fe rê n c ia pelo liberism o justi­
ficada pela c re n ç a n o progresso). A p rim e ira posição whig, o Iati-
tu d in a rism o m oral, e ra e stra n h a ao código d e valores dos re p u b li­
can os “cívicos” h a rrin g to n ia n o s. N e m fo ra m a se g u n d a e a q u a rta
dessas posições suste n ta d a s p o r re p u b lic an o s cívicos; e ra m a p enas
individualistas p ela m e ta d e, e basica m en te estavam in o c e n tes de
progressivisino, inclinando-se antes a c o n te m p la r a história co m o
u m a p ro m essa om inosa d e decad ê n c ia m oral e d e declínio político.
Mas n o c o n te x to inglês d a R evolução G loriosa, tão sin g u lar 110

c o n ju n to d a E u ro p a, a terceira posição w hig — a saber, gov ern o


responsável — logo torno u-se u m p rin c íp io p a rtilh a d o e foi a b a n ­
deira d os torins d e B olingbroke depo is d e 1714, e x ata m e n te co m o
fora um p ro g ra m a whig contra a c o ro a Sluarl.
D u ra n te a d é c a d a d e 1830, os whigs voltaram ao p o d e r , diri­
gidos p o r dois lordes, G rcy <• M elbournc. A dolaram a prim eira I,ei
d a R efo rm a (Ileform Bill), em 1832, alarg an d o a fran q u ia em favor
clas classes m é d ia s su p e rio re s. Foi nessa é p o c a q u e se e n tr o u a
c h a m a r os whigs d e “liberais”. A d esp eito d a escala m o d e sta d a re ­
fo rm a eleitoral, a m u d a n ç a d e whigs p a ra liberais estava vinculada
a u m a m u d a n ç a na direção da democracia, j á q u e as velhas batalhas
whigs e m favor d a liberdade d e religião e d o governo constitucional
haviam sido la rg a m e n te vencidas. Mas algum as o u tra s conotações
estão contidas n a substituição d o ró tu lo liberal p elo ró tu lo whig. N o
nível d a elite política, a lid e ran ç a liberal e sc o rre g o u g ra d u a lm e n te
das m ãos de aristocratas co m o Russell e P a lm e rsto n , e foi assum i­
d a p o r u m a rq u ib u rg u ê s , W illiam G la d s to n e (1 8 0 9 -1 8 9 8 ), q u e
provinha realm ente d o torism o liberista “h e ré tic o ” d e Peel. N o nível
ideológ ico, a m u d a n ç a d o lip o d e P a lm e rsto n pa ra o tipo de
G lad sto n e significava um a m u d a n ç a de d esp re o c u p a ç ã o do llumi-
n ism o (tin g id a d e d e sc re n ç a ) pela alta se rie d a d e d a v irtu d e
vitoriana. O liberalism o tornou-se em g ra n d e p a rte u m a espécie d e
7,S O lihcralismo - antigo /• moderno

evangelism o leigo, cheio d e ca m p a n h a s reform istas e m p re e n d id a s


c o m o causas m orais.
O secularism o olím pico dos whigs c o m o pessoas distintas dos
liberais e tam b ém seu gosto p o r c o m p ro m isso s elitistas sobrevive­
ram um p o u c o mais do out.ro lado d o Atlântico. Na A m érica |de
antes d a guerra, havia u m p a rtid o whig an tes q u e a q uestão do sólo
livre d e escravidão o dissolvesse. Seu princip al líder, H e n ry Clay,
e n ca b eç o u a oposição ao p a rtid o d e m o c rático d e Anclrew Jacksón,
u m m o v im e n to ja c k so n ia n o q u e re p re se n tav a os direitos dos Esta­
d os e o p o p u lism o d e fronteira. C o n tu d o , e x a ta m e n te co m o n a
Inglaterra de m ead os do século os whigs patrícios do Riform Clvb
in g re ssa ra m n a g r a n d e c o r r e n te d o lib e ralism o b u rg u ê s d e
G ladstone, na dé c ad a d e 1850 os whigs am ericano s, com seu grito
de co m b a te (“L ib e rd a d e e U n iã o ”, d e D aniel W ebster), ingressa­
ra m n o p a rtid o rep u b lic a n o d e Lincoln. A m bas as evoluções do
whiguism o p a ra o liberalism o foram feitas n o in te rio r d e u m h o ri­
z onte dem ocrático.
Inicialm ente, a p r o p o s ta d em o c rá tic a n ã o foi o b ra seja dos
whigs seja dos liberais. A lém d a fó rm u la am e ric a n a d o federalism o
rep u b lica n o , a idéia d e d em o cra cia rep re sen tativ a tin h a pelo m e ­
nos três fontes. U m a era a e sq u e rd a d e Locke, tal co m o in c o rp o ­
ra d a n a teoria d e direitos naturais d e T o m Paine (1737-1809), o
m ilitante de duas revoluções, a am ericana e a francesa. C riado com o
u m t/uaker d e Norfolk, Paine acreditava, c o m o Locke, q u e os h o ­
m ens form am sociedades para assegurar seus direitos naturais, e
n ão p a ra deles se d espirem . O u tra fonte era a dem ocracia plebis­
citaria rei oilteiiila<Ia p o r ( lo ild o rre l, o filiilo.so/thi’ g iio n d tiin que
m o rre u vítima do t e n o r jacobino. Em terceiro lugar, a d em o cracia
ta m b é m foi p ro m o v id a p ela escola m ilitarista fu n d ad a em L o n d res
p o r Jeremv lie n th a m ( I 7-1 <S- 1832). 1’aine e B entham são, com fre­
qüência, ap elid ad o s d e p e n s a d o re s “radicais”, e, n a verdade, os
utilitaristas passaram a se r c o n hecidos c o m o “radicais,filosóficos”. .
Q u a n d o o p artid o liberal britânico se fo rm o u depois da Refonn B ill
Liberalismo clássico, J 780-1860 79

e a rejeição das leis do m ilh o (1846), ele tin h a três principais co m ­


p o n e n te s: whigs co m o Russell (o p rim e iro -m in istro d a R eform a),
ex-lories liberistas c o m o G ladstone, e radicais b e n th am itas. Assim,
o registro e m p íric o histórico justifica e n c a ra r os militaristas co m o
m e m b ro s d a g ra n d e família liberal.
O p rim e iro g o lp e ideológico d e B e n th a m foi su a crítica do
g ra n d e ju ris ta W illiam Blackstone (1723-1780). As conferências de
Blackstone e m O x fo rd haviam p ro p o rc io n a d o u m a exposição lúcida
e h u m a n a d a lei c o n su etu d in ária. Mas seus p ressu p o sto s jusnatu-
ralistas (grotianos) e seu constitu cionalism o c o n se rv a d o r irrita ra m
o jovem B en th a m (A F m g m m l on Govem m enl, 1776), m e rg u lh a d o
c o m o estava n o re fo rm ism o esclarecido d e H elvécio e Beccaria.
B en th a m rejeitou a ênfase d e Locke nos direitos naturais, dos quais
z o m b o u co m o “tolices c o m base em n a d a ”. D e Locke, disse ele, a
lei devia r e c e b e r os seus princípios, d e Helvécio o seu co n te ú d o .
Tal c o n te ú d o e ra u m a re g ra d e utilidade, s e m p re c o rr e s p o n d e n d o
à razão e logo igualada “à m a io r felicidade do m a io r n ú m e r o ”.
O s d o n s d e B e n th a m ao liberalism o in c lu e m u m en tusiasm o
p e la a d m in istra ç ã o in telig en te e p e la r e f o r m a judiciária e, mais
im p o r ta n te d o q u e isso, u m a visão mais a m p la das finalidades do
Estado, o qual p a ra ele devia p ro m o v e r o bem -estar e a igualdade
e ta m b é m fazer v ig o rare m a lib e rd a d e e a segurança. A advocacia
q u e B e n th a m fez pela d em o crac ia foi ca racteristicam en te a n im a­
d a p o r u m espírito rijo. Ele não teve dificuldades em a d m itir q u e
as m aiorias p o d e m estar c o m p le ta m e n te erradas. A lo n g o prazo,
n o e n ta n to , o c o n s e n t i m e n t o g e r a l é o sinal mais se g u ro <le ulili
d a d e geral p o rq u e a m aioria, te n d o um interesse natural em sua
m a io r felicidade, ta m b é m tem in tere sse e m d e sc o b rir e c orrigir
erros. A lém disso, co m o o gov ern o d em o c rá tic o frustra “interes­
ses sin istros”, é mais provável q u e se d e sc u b ra m e r r o s .1"’
O q u e o c o r re u c o m o in dividualism o liberal e m tu d o isso?
B e n th a m n u n c a p a ro u d e a r g u m e n ta r q u e o ô n u s d a prova cabia
aos q u e desejavam lim itar a b u sc a p riv a d a d a felicidade. Julgou
82 O liberalismo - antigo e moderno

Os prim eiros liberais franceses: de C onsíani a G uizol

V o ltem o -no s a g o ra p a ra a so rte d o lib eralism o fora d o m u n d o


anglo-saxão. N a A le m an h a d o início d o século XIX, existiam pelo
m e n o s dois ram os principais d e p e n s a m e n to liberal: o repu blica­
n ism o c o sm o p o lita do s p a n fle to s p ó s-rev o lu c io n ário s d e Kant,
n o t a d a m e n te su a Paz perpétua (1795), e o lib eralism o fíilã u n g
(b re v e m e n te e x a m in a d o lio cap ítu lo 1) d o g r a n d e h u m a n is ta
W ilhelm vo n H u m b o ld t (e m b o ra o ensaio ju venil d e H u m b o ld t
so b re os limites d o E stado té n h a sido publicad o m u ito mais taide).
Mas, n a A le m an h a, até a devolução d e 1848, a filosofia p o l ítica
d o m in a n te e ra hegeliana, e H egel n ã o e ra u m liberal. Antes, sua
Filosofia do direito (1821) re p re s e n to u u m a g ra n d e tentativa dfc in­
serir a “sociedade civil” m o d e rn a , com seu vigoroso individualism o
b u rg u ê s, n a e s tru tu ra d e i im E stado holista q u e ac o m o d ari, as
hierarquias tradicionais <lo ;m ligo regime, C o m o Nuárez dois s ll-
los antes, H egel te n to u cav; algar duas épocas. S ua síntese ace OU

in te ira m e n te a o b ra d a R evolução le g itim a n d o a sociedade Dür-


guesa. C o n tu d o , ele se distt inciou das c onseqüências política de
1789, e rejeitou en laticam e ite a idéia d o c o n tra to social — o pro-
p rio p o n to essencial d o libèralism o e d a dem ocracia, de Locke a
R ousseau. S ua deificação d o E stado n ã o foi d e q u a lq u e r fo rm a
socialm ente reacion ária (e, d e fato, o pôs em conflito com os çon-
• * !
servadores prussianos), m as ta m b é m n ã o e ra com patível co m o
con ceito liberal d e lib erd ad e política.17 |
A mais fo rte alternativa p a ra o hegelian ism o — nacionalism o
germ ânico, q u e com eço u, n o esforço d e g u e r ra c o n tra N apolèão,
n os discursos apaix o n a d o s d e J o h a n n Fichte (1762-1814) — c o r­
re sp o n d ia ainda m en o s às p re o c u p a çõ e s liberais. Em 1793, Fichte
escreveu elo giando a Revolução Francesa e o ex tre m o <o n lia lu a
lisino. Mas, poucos anos mais tarde, ele redefiniu a liberdade co m o
o desenvolvim ento do “mais a lto ” ser d e u m a pessoa, lo u v o u o
E sta d o ético, ata c o u a m o d e r n id a d e c o m o a “id a d e d a peca-
Liberalismo clássico, 1780-1860 83

n iin o sid a d e a b so lu ta ”, c pôs a razão d e E stad o a serviço d e um


ostensivo nacio nalism o a u to ritário , q u e h m e io n a v a p o r m eio da
ed u c aç ã o c o m p u lsó ria até o se n tim e n to d e nacionalidade. Nesse
p ro cesso , ta m b é m e n c o n tr o u te m p o p a r a fa b ric ar u m op ú scu lo
anlilibcrista, The CÀosed Gommercial State (1800). Assim, a eloqüência
d e Fichte e m p e n h o u o nacionalism o alem ão n u m a longa anim osi­
d a d e c o n tra o liberalism o.
E n q u a n to o liberalism o levava u m a vida m iserável n a A lem a­
nha, n a França pós-napoleônica a d o u trin a liberal floresceu até mais
d o q u e o c o rr e r a d o o u tro lado d o canal. D e C o n s ta n t a G uizot e
Tocqueville, os liberais d e m a io r prestígio d a é p o c a fo ra m fran c e­
ses, co m o c o n tin u a ra m a ser até o a p o g e u político d e J o h n Mill,
p o r volta d e 1860. M esm o antes da R estauração, a F rança já c o n ta ­
ra c o m contribuições liberais originais, à p a rte d o p rotoliberalism o
aristocrático d e M on tesq u ieu e d e sua d ifu n d id a influência in ter­
n acion al. (M oiilesquieti era leitura o b rig a tó ria para M adison,
C o n sta n t, Hegel, Bolívar e Tocqueville, p a ra só falar em alguns.)
T o m e m o s, p o r exem plo, o caso m uito interessante d o p a d re Sieyès
(1748-183 6). Sieyès foi o principal responsável, n o início d a revo­
lução, p e la elab oração de u m novo conceito d e legitim idade. Ele
definiu a a u to rid a d e legítim a n a nova F rança e m term os d e sobe­
r a n ia na c io n al. Isso n ã o e r a n e m r e m o ta m e n te igual à “a n tig a
c o n stitu iç ã o ” — p r e c e d e n te e p rescriçã o (as p ró p ria s coisas q u e
E d m u n d B u rk e c en su raria a Revolução d e te r a b a n d o n a d o ) não
significavam m ais d o q u e u m a lo n g a o p re s s ã o u s u r p a tó r ia n a
França. A re p re se n ta ç ã o foi re d irig id a c o n tra a hierarquia: o voto
e a elegibilidade fo ra m p red ic ad o s à p ro p rie d a d e , e n ão mais ao
status. In im ig o j u r a d o d o privilégio, Sieyès m is tu r o u a n e bulosa
v o n ta d e geral d e R ousseau com algum a coisa b e m anli-rousseau-
niana: a representação, l o d o podei' para o T erc eiro Estado! Assim,
o g ra n d e p ro b le m a c m Rousseau — o p o d e r so b e ra n o não dividi­
d o , m e s m o q u a n d o tr a n s fe r id o d o rei ao p o v o — p e r m a n e c ia
intacto. Mas Sieyès era u m a d m ir a d o r d a lib e rd a d e m o d e rn a . Ele
84 O liberalismo - antigo c mçderno

c oloco u b r ilh a n te m e n te A d am S m ith c o n tr a R onsseau. Se a d e ­


m o cracia direta é u m a n ac ro n ism o , afirm ou, deve-se isso a qíie,
n u m a sociedad e civilizada, a divisão d o tra b a lh o ta m b é m se aplica
à política. S e n d o re p re s e n ta d o , o povo p o d e dedicar-se a o u tra
coisa. A política não é 11111 dever —c um ofício, uma função confiada
p o r m uitos a uns poucos g o v e rn a n te s.18
O o u tro g ra n d e p a d r in h o do liberalism o francês é u m a m a­
drin h a, G erm aine, M a d a m e d e Staêl (1766-1817), a cintilante filha
do b a n q u e iro suíço N ecker, o últim o, mais in teligente c mais p o ­
p u la r d os m in istro s d e Luís XVI. Sua m ã e q u a se casou-se com
G ib b o n e m L ausannc; ela casou-se co m u m d ip lo m a ta sueco, e
tornou-se depois a m an te, p rim e iro , d e B enjam in C o n sta n t (libe­
ralismo) e depois d e August. Schlegcl (rom an tism o). Kxilada p o r
N apoleão, M adem oiselle d e Staêl c o n v e rte u seu a m o r filial em
u m a in flu en te avaliação d a Revolução. Suas Considéralions sur ia
Révolulion Française (o b ra p ó stu m a , 1818) contavam u m a história
sim ples. H o u v e ra u m a b o a re volução e m 1789, q u e a c a rr e to u
igualdade civil e governo constitucional, alinhando p o r isso a França
c om a In g la te rra (Staêl ju n to u -se assim à ilustre c o m p a n h ia dos
liberais anglófilos franceses q u e inclui V oltaire, M o n te s q u ic u e
Guizot). A dveio en tã o u m a revolução má, suja, 1793, q u e tro u x e
consigo o T e rro r e um igualitarismo violento. Sua história era m uito
nova p o rq u e ro m p e u ao m esm o te m p o com a c o n d e n a ç ã o p o r
atacado tradicionalista da Revolução e com a defesa da esq u e rd a
i p• i r o im■m s m o ,
<ln !1*
G om o liberal, G e rm ain e era um a w/ug, nao um a dem ocrata.
Sua anglofilia política era u m a m a n eira d e evitar o republicanism o.
E sob o e n ca n to dos rom ântico s alem ães (que ela introdu ziu na
E uropa num livro notável, I)r VAIlemagiic., em 1800) ela valori/ou a
religião. Pois a liberdade exige m oralidade e a m oralidade alimenta-
se d a fé, em b o ra, é claro, tal fé fosse u m p rin c íp io p ro te sta n te e
não u m a intolerância papista. N ão e sp a n ta q u e os idéologes, a pro-
gênie d e C o n d o rce t, zom bassem da religião — pois era m republi­
Liberalismo clássico, 1780-1860 85

canos. O s liberais a m a d u re c id o s são d e m e lh o r alvitre. Tocqueville


re le m b ra ria esse laço e n tre a lib e rd a d e e o cristianism o.
B en jam in C o n sta n t, c o m o foi in d ic ad o (capítulo 1), p o p u la ri­
zou a idéia da lib e rd a d e m o d e r n a co m o u m fe n ô m e n o individua­
lista. Suíço p ro te s ta n te c o m o sua am iga O e rm a in e , ele ta m b é m
salientou as fo ntes religiosas d a liberdade. Mas seu liberalism o era
m e n o s patrício, m ais p r a tic a m e n te d e m o c rá tic o d o q u e o dela.
T u d o b e m co n sid erad o , sua teorização rica e p e n s a d a m arco u dois
p o n to s decisivos. P rim eiro , a vindicação d a lib e rd a d e m o d e rn a , e,
se g u n d o , a lim itação institucional d a a u to rid a d e . Essa foi sua solu­
ção à m o d a d e M o n tesq u ieu , so m b re a d a p o r Sieyès n a sua fase
tardia, d o D iretório, p a ra o p ro b le m a ro u sse a u n ia n o d a so b e ra n ia
n ã o dividida. Insistam os a in d a u m a vez nesse p o n to . R ousseau,
a d v e rtiu C o n sta n t, está certo q u a n to à fonle d a a u to rid a d e , q u e
é o c o n tra to social co m o u m sím bolo dc so b e ra n ia p o p u la r. Mas
e sq u ec e u d e lim itar a extensão d a m e sm a a u to rid a d e ; e isso deix ou
in d e te r m in a d o o assu nto crucial das relações e n tre g o v ern an tes e
g o v e rn a d o s.20
E screv endo ap ós os surtos ditatoriais n a Revolução Francesa,
C o n s ta n t p e rc e b e u , e m p a rtic u lar, q u e o ideal r e p u b lic a n o de
R o u sseau d a a p ro p ria ç ã o coletiva d a so b e ra n ia absoluta, e m esm o
o p ró p rio governo da lei, tão elogiado desd e M ontesquieu, podiam
p o r sua vez se r a p ro p ria d o s p o r m inorias tirânicas q u e governas­
sem cm n o m e d e todos p o r causa da justiça; e nessa m edida ele
eslava | )t e|tai adi i ,i ioni|>ei n,'to «<> com o i epulilii an ísm o , mas
ta m b é m com o p e n s a m e n to liberal prévio.
E n tre C o n stan t, seu g ra n d e constitucionalista após Sieyès, e a
ascensão d e Tocqueville, o liberalism o (Yancês p ro sp e ro u e n tre os
assim c h am ad o s “d o u trin á rio s ”. Seu líder Ibi Royer-Collard (17(>.‘5-
1845), que, co m o C o n stan t, e n ca ro u a so b e ra n ia c o m o u m perigo
potencial. O r a d o r cativante, Royer-Collard era constitucional, mas
n ã o d e v o to d o p o d e r p a rla m e n ta r; p a ra ele, a C âm ara, d ife re n ­
te m e n te d a assem bléia d e Sieyès, n ão tin h a a u to rid a d e sobre os
86 O liberalismo - antigo e moderno

m inistros. C o m o liberal d a R estauração, Royer-Collard julgou a


Revolução com m e n o s benevolência d o q u e C o n stam e d o q u e
M adnm e de Slael. Kle apreciou a conquista da igualdade civil, mas
a c h o u ([ite o d e sa p a re c im e n to do antigo regim e dissolvera a socie­
dad e, desb ra v an d o o terren o p a ra a centralização adm inistrativa.
O c o n tro le do p o d e r n a sociedad e atom ista am en d ro n tav a-o — o
m esm o fantasm a que a sso m b raria Tocqueville.
Do círculo “d o u trin á r io ” proveio o p rincipal m inistro d e Luís
Filipe (1830-1848), François G uizot (1787-1874 ).21 P ro te sta n te e
h is to ria d o r a ca d ê m ico o r iu n d o d a b u rg u e sia provincial, G uizot
explicou a história ocidental em term o s d a ascensão d a sua p r ó ­
p ria classe. A revolução d e 1789 n a d a mais fizera do q u e d e cla ra r
o seu advento, tal co m o o c o rre ra em 1688 n a Inglaterra. A civiliza­
ção m o d e r n a refletia a força d e dois im pulso s distintos, u m nacio­
nal e o o u tro liberal. A c o n stru çã o d a nação ap o n ta v a p a ra a u n i­
dad e, e n q u a n to a luta pela em an cip ação h u m a n a fazia com q u e a
lib erd ad e crescesse.
G uizot justificou o absolutism o francês com fu n d a m e n to s his­
tóricos, p o rq u e este m u ito a ju d o u o im pulso nacional. C o n tu d o ,
lam e n to u que o absolutism o paralisara o im pulso liberal cercean d o
a R efo rm a na França. Em 1789, a ado ç ão d o p rincípio d a r e p r e ­
sentação nacional p r o m e te u liberalizar o país, m as os ja c o b in ó s c
N ap o le ão estragaram tu d o . C o n se q ü e n te m e n te , 1789 estabelecera
u m a sociedade m as n ã o u m Estado. C o u b e à revolução d e 1830 a
tarefa d e c o m p le ta r a G ra n d e Revolução, im p la n ta n d o a m o n a r­
qu ia constitucional e u m gov ern o responsável. Mas, co m o m inis­
tro d e Luís Filipe, G uizot foi p e rse g u id o pela perspectiva d e o u tro s
levantes revolucionários e, p o rta n to , recusou-se teim osam entle a
am p lia r a franquia. C o m o d o b ro d a p o p u la ç ã o da Ing laterrr > ;l
F ran ça tin h a m uito m e n o s eleitores do q u e esta últim a depois eja
Reform Bill.
O calvinista q u e havia ei n Guizot. levou-o a a b a n d o n a r a vc lia
glorificação liberal d a so b eran ia p o p u la r, com seus fundam enteis
Liberalismo clássico, 1780-1860 87

d e p re ssu p o sto s otim istas q u a n to à n a tu re z a h u m a n a . Ele substi­


tuiu a sob erania p o p u la r p o r um a in e rilo rrá tira “so b e ra n ia da ra-
/ao". A política devia sei deixada ã.'i "rapa< idades" das elile.s b u r ­
guesas, e n q u a n to 11111 p ro g ra m a nacional d e ed u c a çã o básica ele­
varia g ra d u a lm e n te o resto d a nação a p a d rõ e s m orais e intelectuais
dignos d a in teira cidadania.
De fo rm a b a sta n te estra n h a , e n q u a n to em te o ria o seu p arla­
m e n ta rism o e ra mais avançado do q u e os d o u trin á rio s d a R estau­
ração, a prática política d e G uizot e ra b a sta n te reacionária, resu l­
ta n d o e m linha d ire ta n a revolução d e 1848. O liberalism o francês
nasceu, n o salão d e M ad am e d e Staél, co m o u m a r u p tu r a m o d e ra ­
d a co m o exorcism o re a cio n á rio d e 1789. G uizot conferiu-lhe u m
a s p e c to d e m a s ia d o c o n s e rv a d o r — tão c o n s e r v a d o r q u e m u ito
parecia, n a prática senão no espírito, com o reacionarism o sob nova
form a. N ã o foi sem razão q u e ele te n to u fazer su rg ir u m a aristo­
cracia e n d in h e ira d a co m o u m a nova e legítim a classe governante.
Sob sua die ta oligárquica e au to ritária, podou-se o liberalism o de
seus g e rm e s d e m o c rá tic o s. C o m o jovem h is to r ia d o r sob a Res­
tauração, G uizot s a u d a ra os efeitos niveladores d a ascensão b u r ­
guesa. Mas co m o estadista, opôs firm e m e n te a lib e rd a d e à d in â ­
m ica d a igualdade. N o íim, d eixou o liberalism o francês m u ito
atrás d e C o nstant.

O liberalism o a na lisa a democracia: Tocqueville

O u tra figura elevada e n tre os liberais franceses ao lado d e Constant,


Alexis d e T o c q u e v ille (1 8 0 5 -1 8 5 9 ), od ia v a G u iz o t e to r n o u a
igualdade e a d em o crac ia as principais p re o c u p a ç õ e s dc sua obra.
Tocqueville descreveu-se co m o “um liberal de nova esp écie”. E, na
v erd ade, cie diferiu significativam ente d e seus p redccessores fran­
ceses. Ele foi, se lanlo, lão fervoroso e ap a ix o n a d o q u a n to qual­
q u e r deles q u a n d o se tra to u da vida da liberdade, salien tan d o que
8S O liberalismo - antigo e moderno

“u m a nação q u e n a d a p e d e d e seu g o v ern o além d a preservação


d a o r d e m j á está escravizada e m seu c o ra ç ã o ”. A lém disso, ele
m an te v e u m a p re o c u p a ç ã o sincera co m a base m oral das institui­
ções liberais e especialm ente p o r sua fu n d a m e n ta ç ã o religiosa. Se
B en jam in C onstant, p ro te sta n te , fez d a religião u m a p re o c u p a ç ã o
d e toda u m a vida, Tocqueville provavelm ente ainda foi mais devoto;
seus d o c u m e n to s ín tim o s m o stra m q u e a sua fo rm a ç ã o jansenista
m o ld o u sua visão do ho m em e da m oral. N e m foi m e n o s anglófilo,
e m seu a m o r à a u to rid a d e p irlam entar, d o q u e q u a lq u e r d o s libe­
rais constitucionais q u e o pi ecederam .
i
Em o u tro s aspectos inqjortan tes, n o en ta n to , T ocqueville eh-
tro u p o r u m c a m in h o u m t^nto d ife re n te dos seus antecessords
Ele não hesitou, p o r exem plo, em elogiar o passado feudal. Áõs
olhos desse n o b re n o rm a n d q , a aristocracia nada tinha d e mal ^i|n
si m esm a. E seu desp re zo pelas classes m édias constituiu u m traço
aristocrático p ersisten te nesse estran h o liberal-dem ocrata. A ava­
liação nostálgica p o r Tocqueville d a lib e rd a d e feudal fez c om q u e
ele pintasse o an tig o regimtj n ão a p e n a s c o m o a condição, njas
c o m o a p ró p ria causa d a R evolução Francesa. U m a trad ição cen­
tralista despótica alim e n ta d a 'p e lo ab solutism o, te n d o em a scu lad o
a aristocracia, reafirm ou-se com os ja c o b in o s e N apoleão, a p enas
p a ra n o v a m e n te engo lir a lib erd ad e francesa n o S e g u n d o Im pério.
Tal foi a tese d e seu e stu d o O antigo regime e. a revolução, d e 1856: E
desnecessário dizer que, nessa interpretação, 1789, com o 1848, nao
passou de u m episódio; a longo prazo, a F rança sofria d e u m a p r o ­
p e n s ã o c rô n ic a p a ra o g o v e rn o a u to ritá rio . A razão p a ra tan to
consistia, na o pinião d e Tocqueville, na atom i/.ação d a socied ade
a c arreta d a pelo centralism o adm inistrativo (o qual cu id o u d e dis­
tinguir da centralização funcional do governo, necessária â u n id a d e
nacional). C o m o se p o d e ver, Tocqueville e n dossou o lam ento, caro
aos doutrinários, d e u m a “sociélé en poussière", com a exceção d e que
situ o u sua causa n ã o n o c h o q u e d a R evolução, m as n u m p r o ­
longado crescim ento da tirania adm inistrativa sob o absolutismo.
Liberalismo clássico, 1780-186!) 89

A lém disso, e n q u a n to Royer-C ollard preocupava-se c o m o Estado,


Tocqueville focalizou o estad o d a so ciedad e e tornou-se o soció­
logo d o liberalism o clássico.
U m a s e g u n d a d iscre p ân cia crucial e n tr e T ocqueville e os li­
berais a n te rio re s ligava-se ao p ro b le m a do individualism o. Vale a
p e n a r e le m b r a r q u e a palavra individualism o fe z u m d e seus p ri­
m eiros a p a re c im e n to s em língua inglesa n a tra d u çã o , p o r H e n ry
Reeves, d e A democracia na America d e Tocqueville (o rig in alm en te
p u b lic a d a e m duas partes, em 1835 e 1 8 4 0 ) . E m francês, o ter- i,
m o surgiu m u ito m ais cedo, nos escritos reacio n ário s d e J o s e p h
d e M aistre. A p a rtir d e 1825, o te rm o foi (Y eqüentenicnte ouvido
e n t r e os discípu los d e Saint-S im on, f u n d a d o r e s d o socialism o
tecnocrático.
T ocqueville estabeleceu u m a distinção e n tre egoísm o e indivi­
dualism o. Egoísm o, disse ele, é u m a categoria m oral, é u m vício.
Individualism o é u m conceito sociológico, q u e d e n o ta u m a falta,
n ã o d e virtude per se., m as d e virtude pú b lica o u cívica. E u m a dis­
posição pacífica q u e se p a ra u n ia pessoa d e seus concidadãos, tro ­
c a n d o a so ciedade p elo p e q u e n o g ru p o d a família e d e amigos.
E n q u an to o egoísm o aflige todos os tempos, o individualismo é u m a
característica d a so ciedade democrática. Em sua viagem à A m érica,
Tocqueville a d m iro u o vigor cívico das reuniões m unicipais n a Nova
Inglaterra. Mas nelas divisou antes u m corretivo do q u e u m reflexo
d e dem ocracia. A qu e stão p o d e se r facilm ente resolvida se tiver­
m o s e m m e n te o significado d a palavra democracia e m Tocqueville.
A lg u m as vezes, ele e m p re g o u o te rm o e m se u s e n tid o po lítico
n o rm a l, d e u m sistem a rep resen tativ o fu n d a d o n u m a m p lo sufrá­
gio. Mas, com mais freqüência o e m p re g o u com o um sinônim o para
so ciedade igualitária, coisa c o m q u e ele n ã o designava u m a socie­
d a d e d e iguais, m as u m a so ciedad e e m q u e a h ie ra rq u ia j á n ã o era
a re g ra do p rincípio aceito d e e s tru tu ra social.
N esse con te x to d e m o crátic o T ocqueville divisou o individua­
lism o co m o u m a p atologia social, u m a u to ce n tra lism o difu n d id o ,
90 O liberalismo - antigo e moderno
I
Ii ;

o r iu n d o d e u m a sociedade igualitária d o m in a d a p o r m aterialism o,


c o m p etiçã o e ressen tim e n to . Em seu O antigo regime ele j á e n c o n ­
tro u o individualism o n a sociedade privilegiada d e antes d a Revo­
lução. N u m capítulo in teiro (livro 2, cap. 8) d isc o rre u so b re a m a­
n e ira pela qual os franceses se tin h a m to rn a d o a u m te m p o mais
sem elhantes e m ais isolados, fra g m e n ta n d o a n ação em p e q u e n o s
g ru p o s fie interesse q u e tinham inveja uns dos o u tro s que desbas-
tara m te rr e n o p a r a o “v e rd a d e iro in d iv id u a lism o ” d a so cied ade
de m o c rá tic a m o d e rn a .
N ão sc p o d ia d istinguir tal antipatia p e lo individualism o seja
em C onstant ou Gui/.ot. Para eles, o individualism o era u m a coisa
boa, o coração da “lib erd ad e m o d e rn a ", no sen tid o d e C onstan t.
Tocqueville não ig norou d e q u a lq u e r fo rm a o valor da in d e p e n ­
dência pessoal, m as suas dúvidas q u a n to ao c rescim en to do indivi­
d ualism o em sociedade, de m o c rá tic a — ou seja, m o d e rn a — m o s­
tram q u e ele m anteve distância com relação à alta estim a q u e os
burgueses tinham pela liberdade negativa e p o r seu m od elo d e homo
oeam om im s. U m a ó tim a in te r p r e ta ç ã o re c e n te p o r Jean-CIaude
L a m b e r t r 3 focaliza a o riginalid ade d a a b o rd a g e m de Tocqueville
tio p ro b le m a d o individualism o. D ife re n te m e n te d e reacionários
c o m o Maistre c Bonald, q u e censuravam a revolução p o r ter d e­
sencadeado o individualismo, Tocqueville a p o n to u um a fonte social
para ele o nivelam ento das "condiçoes" ou, em sua linguagem , a
tendência dem ocrática.
T a m b é m p o r isso, Tocqueville sentiu forte desconfiança pelas
classes m édias (que haviam sido sagradas p a ra G uizot) pois eram
as p o rta d o ra s naturais d o individualism o reforçado. A isto se o p u ­
n h a u m a tradição de p e n sa m e n to q u e louvava os efeitos civiliza­
dores da ascensão d a burguesia. M ontesq uieu, a p ró p ria principal
refe rê n cia d e Tocqueville, p e n so u n o espírito com ercial co m o u m
c ria d o r de o rd em , paz c m o d e raç ã o (“a dom esticação das paixões”,
u m te m a analisado p o r H irsc h m a n )."1 C o n sta n t, e m sua juv entude
c m E d im b urg o, su c u m b ira ao en c a n to d o estadialism o escocês c
Liberalismo clássico, 1780-1860 91

c e le b ro u o co n traste e n tr e o “espírito d e c o n q u ista ” e o “espírito


d e c o m é rc io ”.25 P a ra Toccjueville, n o e n ta n to , é a dem ocracia, não
o com ércio, q u e a d o ç a as m an eiras — m as ao p re ç o de u m indivi­
dualism o isolaeionista. Tocqueville n ã o aceitou a c ren ça ilum inista
n a fo rç a civilizadora d o c o m é rc io , m as ta m b é m n ã o se g u iu a
idealização c o n serv ad o ra (tão p r o e m in e n te em B urke) d a Igreja e
da cavalaria 11a Idade Média c o m o fatores de re fin a m e n to , pilares
idos d e u m m u n d o n o b r e d e sfig u ra d o p e la ascensão d o vu lgar
com ercialism o.
Tocqueville transform ou o estado d e espírito an tib u rg u ês n u m
p o te n te m otivo cultural. T o d a a sua vida ele d e u d c o m b ro s d ia n ­
te d a exaltação liberista d o hovio oeconomiais p ro fe ssad a p o r eco­
nom istas co m o Say e Bastiat. C o m o L am berti sugere, seu gosto pela
in d e p e n d ê n c ia parecia m u ito mais com o h e ro ísm o ro m â n tic o ce­
le b ra d o p o r seu p rim o dista n te C h a te a u b ria n d , u m m o n a rq u ista
legitim ista que se to rn o u liberal depois de 1830, do q u e com o e.thos
b u rg u ê s d e Gur/.ot. O liberalism o d e Tocqueville, c o m o o d o eco­
n o m ista suíço S im o n d e de Sism ondi (1773-1842), era d e n atu re za
política, n ão econôm ica.
C o m 36 anos d e idade, Tocqueville, fam oso pela publicação
d e /I democracia na América, ingressou n a A cadem ia c o m o o “novo
M o n te sq u ie u ”. C o m o viu R aym ond A ron, Tocqueville tirou de Do
espirito ilas leis nm a perspecl iva crítica da inlet pi claça<>da igualda­
de. Nas m o n a rq u ia s d e M o ntesquieu , a lib e rd a d e estava ata d a às
distinções e n tre classes sociais d o re in o e o se n tim e n to feu dal da
h o n ra . Os d esp o tism o s d e M o n te sq u ieu , p o r o u tr o lado, e ra m sis­
te m a s d o m in a d o s p e la ig u a ld a d e n o in te r io r d a servidão geral.
T ocqueville definiu a d e m o c ra cia pelo im p ulso p ara a igualdade, c
d e m o n s tr o u q u e a ig ualdade n ão re su lta (necessariam ente) em li­
b e r d a d e . A d e m o c ra c ia g e ra o individualism o, e individualism o
significa aspirações m aterialistas e falta d e virtudes cívicas. No en ­
te n d e r d e L am berti, T ocqueville escreveu o q u e seria o últim o ar­
r o u b o d o h u m a n ism o cívico.
92 O liberalismo - antigo e moderno

O q u e mais receava <> lib eralism o francês q u e p re c e d e u


I o< 11uevi He ei a o <le.spi >1i.si i io, a I i i ania do l’.sl ado, N is.v • ( !oum ;m(
])mu n ditei ia de 1,ocke, Monles<|uieu e Jclieison. Mas Tocqueville
desco b riu u m a nova am e aç a à liberdade: o co n fo rm ism o d e o p i­
nião. O “instinto d e m o c rá tic o ”, u sa n d o o centralism o co m o ala­
vanca, parecia p ró x im o a nivelar espíritos, assim co m o classes e
condições. A se g u n d a p a rte d a A democracia na América falou de
“u m a nova espécie d e d e s p o tis m o ”: a “tirania d a m a io ria ”. U m a
do c e servidão p o d ia d u ra r, sob a tu tela b e m -in te n c io n a d a d e u m
Estado p aternalista — m as n e m p o r isso deixaria d e ter p o r conse­
q ü ên cia a privação d a liberdade.
Salientando excessivamente os perigos d a igualdade, Tocqueville
p o d e p a re c e r u m tan to p ró x im o d e seu d e te sta d o G uizot, o liberal
a u to ritá rio an tid em o crático . C o m o observou Jo h n Plam enatz, era
u m tan to falacioso dizer q u e o passado feudal fora mais desigual,
m as tam b ém mais livre d o q u e a so ciedade francesa depois d a cen­
tralização absolutista. Pois se o passado íc u d a l era c e rta m e n te m e ­
nos igual d o q u e a so cied ade m o d e rn a , n ã o e ra ele d e q u a lq u e r
fo rm a mais livre, a m en o s q u e se limite a lib e rd a d e aos escalões
su p e rio re s d a e s tru tu r a so c ia l.'1’ O q u a n to T ocqueville se tin h a
afastad o , em sua n ostalgia aristocrática, d a le a ld a d e à visão ;do
llu m in ism o exibido p o r liberais franceses anteriores! C onstan t, ^m
1805, escreveu to d o u m ensaio so b re a perfectibilidade da h u m a n i­
dade. Perfectibilidade, a firm o u ele, n ã o e ra mais d o q u e a te n d ê n ­
cia p a r a a ig u a ld a d e .27 Estps e ra m p r e c is a m e n te valores qjue
Tocqueville não partilhava, oü sobre os quais era m uito ambivalente.
P o r o u tro lado, Tocqueville e ra mais o tim ista q u e Guizot juo
q u e diz respeito ao p o d e r institucional d a liberdade. Ele encarava
a le g rem en te an tíd o to s c o n tn j o im pulso centralista. Daí suas p re s­
crições esperançosas d e aulojtçoverno local e de associação volun­
tária — as duas coisas, ju n ta m e n te com os efeitos (ônicos da relj-
gião, q u e ele elogiou co m o garantias a m ericanas d e lib erd ad e n;i
d em o cracia social. O “novo líberal”, em sum a, e ra u m pessimisi aj,
Liberalismo i lássico, 17 8 0 -1 8 6 0 93

mas nào um íalalisla. ' l’<><<|<i<•vi11*• <■<>11H<>u m esm o em <|iie a o rd e m


social coriYlu geraria a liberdade. Na America, p en so u , cosluiuc.s
liberais tinham to r n a d o livres as instituições políticas; na f ia n ç a ,
livres in stitu içõ e s p o d ia m c ria r c o stu m e s liberais. Isso ta m b é m
m u ito se pa re cia com M o n te sq u ieu , pois este tinha, c o m o se sabe,
p e rg u n ta d o co m o p o d ia m as leis a ju d ar a f o rm a r o c a rá ter d e u m a
n ação (Do espírito das leis, livro 19, cap. 27). A causalidade social é
u m a via d e m ã o dupla.
T ocqueville p o u c a a te n ç ã o d isp e n so u ao in d u stria lism o e m e r­
g e n te d e seu te m p o . Viajou p a r a P ittisb u rg h , m as ig n o ro u suas
usinas d e aço (o u tro s visitantes franceses d a época, c o m o Michel
C hevalier, fo ra m m u ito mais curiosos); c o n ste rn o u -o a vida fabril
d e M an chester, m as seu p e n s a m e n to n ã o u ltra p asso u a re p u g n â n ­
cia m oral. M esm o suas observações mais p erceptivas so b re a in­
dustrialização revelaram-se estra n h a s à sua principal c o n te n ç ão , a
m a rc h a p a ra m a io r ig u ald ad e e a n ecessid ade d e e sco lh e r c n lrc a
lib e rd a d e e o d e sp o tism o b e n ig n o co m o fo rm a d e so ciedade d e­
m ocrática. T ocqueville c o m p re e n d e u q u e o ind u strialism o te n d e
a fortalecer os efeitos n ã o liberais d a centralização adm inistrativa,
e n fra q u e c e n d o a posição d o o p e rá rio . Q u a n to mais avança a divi­
são d o trab alho, ta n to mais d e p e n d e n te ela to rn a o servo d a m a ­
quinaria. (N ão estam os longe das teses d e alienação d e Marx.) A
lo n g o prazo, n o e n ta n to , os tra b a lh a d o res, n a d a mais d o q u e pela
p u r a fo rça d e seu n ú m e ro , tornar-se-ão c re sc e n te m e n te assertivos
e inq uietos, e p re ssio n a rã o o E stado a ap re ssar o passo d o nive­
lam en to . Estabelecer-se-á u m Leviatã tutelar, fe c h a n d o u m a co rdo
e n tre u m p rin cíp io a m p la m e n te form al d e so b e ra n ia p o p u la r e p
pro g resso u lte rio r d o cenfralism o bu ro c rátic o . C o m o se p o d e ver,
o valor p rofético desse cen ário só p o d e re fo rç a r a teoria dem ocrá- »
tica n o se n tid o d e Tocqueville. Por contraste, o u tra s variáveis fo­
ra m p o r ele ignoradas."H
A p a r tir d e 1840, a o b ra d e Tocqueville afastou-se da d e m o ­
cracia p a r a focalizar cad a vez m ais a revolução.29 Poder--se-ia dizer
94 O liberalismo - antigo e moderno

q u e seus sofisticados devaneios sociológicos acab aram p a rtilh a n d o


a obsessão d e G uizot co m am eaças revolucionárias. Isso é u m tan­
to irônico, p o r q u e o liberalism o francês c o m e ç a ra d e sc a rta n d o a
d e m o n iz aç ão rea cio n á ria da Revolução. Sente-se aqui a p e n liari-
d a d e d o liberalism o clássièo francês: u m a re fe rên cia c o n sta n te à
Revolução, suas origens, suá infindável seqüela. D iferen tem en te dos
liberais ingleses e n tre Lock|e e Mill, os franceses n ã o estavam justi­
fican do u m a o r d e m social| m as tateavam cm busca d e u m a , no
c urso cheio d e altos e baixos d a política francesa d e W aterloò a
Sedan. Os conservadores franceses eram em geral reacionários q< u e
q u e ria m ex tirp ar c o m p letarh en te a o b ra da Revolução. O s libe r.iis,
p o r o u tro lado, q u e ria m p ô r te rm o à Revolução sem acabar vn
ela — isto é, sem p re ju d ic a r suas co n q u istas sociais. Nisso, p i l o
m en o s, C onstant, G uizot e Tocqueville co n cord avam , m as a in d a
havia m u ito d e sa c o rd o quar ito aos m é to d o s d e n o rm aliz a r a liber-
1 !
d a d e política n o m u n d o d; igualdade civil criado pela Revolução
(ou, nas palavras de Tocqueville, p o r ela raLilícado). Tocqueville
foi capaz de relacionar alguns “instintos liberais” n a evolução d e­
m o c rá tic a d a so cied a d e m o d e rn a . Mas b a sic a m e n te deixou-ôsi à
so m bra, e so b re tu d o d e ix o u a im pressão d e q u e co m o a m ig o sin­
cero da lib erd a d e ele estava ap enas resig n ad o à d em o cracia com o
igualdade.
E o p o r tu n o dizer a in d a algo antes d e nos d esp e d irm o s dos li­
berais clássicos franceses. A p o u ca afeição d e G uizot pelo laissez-faire
e a a titu d e m o rn a d e Tocqueville para com a so ciedade com ercial
parec e m su ste n tar aqueles q u e afirm am q u e <> p rim e iro liberalis­
m o nâo foi um a ideologia d a burguesia m ercantil e industrial, mas
o in s tru m e n to de u m a aristocracia d e c a d e n te o u de u m a cam ada
culta mais interessada na razão e n o d e b a te livre do q u e no lucro,
m ercad o e progresso. A descrição lam b e rü a n a d e Tocqueville com o
u m h u m a n ista cívico ta rd io c o n c o rd a com tal in te rp re ta ç ã o revi­
sionista, à qual u m e ru d ito italiano, E tto re C u o m o , de v o to u todo
u m livro.30 N e n h u m deles cita Pocock, m as am bas as o bras p a re ­
Liberalismo clássico, 1780-1860 95

cem sugerir tem as p ocockianos q u e persistem m u ito além d e seu


p e r ío d o q u e vai d e H a rr in g to n a Jefferso n .

O santo libertário: J o h n S tu a rt M UI

O s textòs q u e c o ro a ra m o liberalism o clássico, os d e J o h n S tu art


MilI (1 8 0 6 -1 8 7 3 ), m an ife stam u m a influência con.spícua d e
Tocqueville. Mill foi u m fran c ó íilo q u e amava-clois a spectos d o
p e n s a m e n to fra n cê s d e q u e ele triste m e n te sentia falta n a Ingla­
te rra — teoria c política progressiva de um tipo radical. C e d o na
vida ele n a m o ra v a idéias saint-sim onianas ou, m e lh o r dizendo, o
el.hos saint-sim oniano. Em su a Autobiography, o clássico d o g e n ê ro
n o século, Mill escreveu d e fo rm a c o m o v e n te a resp e ito d e sua cri­
se m e n ta l d e 1826, q u a n d o so fre u u m a d e p re s s ã o n e rv o sa p o r
p assa r a d u v id ar d o valor d e sua form ação a rquiintelectu alisla e
d e sse c a n te d irig id a c o m zelo p o r seu pai J a m e s , u m fe rv o ro so
b e n th a m ita .
A busca d e se n tim e n to p o r p a rte d e Mill e m lu g a r d e p u r a
a n álise levou-o a d e s c o b rir C o le rid g e , Carlyle e Saint-Sim on.
C oleridge, o f u n d a d o r d o ro m a n tis m o inglês, era c o m o tal o p r ó ­
p r io c o n trá r io d e B e n th a m . Carlyle, o f u tu r o sábio d e Chelsea,
a ta c o u o m a m o n ism o , o “elo a r g e n tá rio ” (capitalismo), e a “Era
M e c â n ic a ” (in d u strialism o ). S u a p r o s a fla m e ja n te (em Sartor
Rnsarlus, 1833, e Pasl and Pre.senl, 1843) n ã o p o u p o u o utilitarism o
d e B en th am e James Mill; satirizou o “cálculo g e ra d o r de felicida­
d e ”, a aferição b e n th a m ita d o p ra z e r e d a d o r co m o u m horrível
“re b o lo d e caixa” (em inglês, grinding-rniU). O tro c ad ilh o n ão dei­
x o u d e te r efeito n o jo v e m Mill, q u e estava em com pleta, e m b o ra
tardia, rebelião edípica. O saint-sim onism õ oferecia-lhe u m tipo
m u ito d ife re n te d e progressivism o, co m u m a m ística d o altruísm o
e sacrifício e m lu g a r d a fria satisfação o b je tiv a d a p e la ética
utilitária.31
96 O liberalismo - antigo e moderno

Mill, te n d o e sg o ta d o su a veia ro m â n tic a , e n tr o u n a id a d e


m a d u ra co m o o a u to r d e duas obras-prim as racionalistas, o System
o f Logic (1843) e os Princípios de economia política (1848), os quais, a
d e sp eito d e seu agnosticism o, tornaram -se c o m p ê n d io s n a a in d a
clerical O xbridge. E m anteve-se íiel ao individualism o liberal em
sua rejeição firm e d a tec n o c ra cia a u to ritá ria re c o m e n d a d a pelo
m a io r dos saint-simonianos, A uguste C om te (1798-1857). C erca do
início d a d é ca d a d e 1850, n o e n ta n to , ele se e ngajou em questões
práticas, d e q u e se a p ro x im o u co m u m espírito d e liberalism o cie
e sq u e rd a m ilitante. A m u d a n ç a d e se n tim en to s em Mill d e c o rre u
d e sua reação entusiástica às revoluções d e 1848 — u m a sublevação
q u e a p av o ro u e x tre m a m e n te C o m te, m as q u e Mill esperava q u e
torn asse rep u b lica n a to d a a E uropa. T a m b é m estava m u ito sob a
influência d e sua m u lh er, P larriet Taylor, u m a d e v o ta libertária. À
sua m e m ó ria está d e d ic a d o o m ais fa m o so en saio d e Mill: On
Liberty (1859).
On Liberty deve a Tocqueville seu p e rm a n e n te cu id a d o com a
tira n ia d e o p in ião . T e m e n d o a pe rsp ec tiv a d a u n if o r m id a d e
“ch in esa”, Mill ch am o u a a ten çã o p a ra a n ecessidad e d e preservar
“os a n ta g o n ism o s d e o p in iõ e s ”. Em seu tr a ta d o mais político,
(lonsiileratioiis o n Re/iresnitulh'!' ( imiei ii i/ienl ( I S ( i l ) , e l e d e f e n d e u
re p re se n ta ç ão proporciona! co m o sistem a eleitoral com o objetivo
de g a ra n tir resp eito pela diversidade ideológica. Mill ta m b é m p a r­
tilhava c om Tocqueville u m resp eito pela m oral cívica e um a fé no
valor educativo da participação dem ocrática. Mas aqui term in a a
principal c o n co rd â n c ia e n tre os dois p e n sa d o re s liberais clássicos
tardios. As respectivas visões d o m u n d o estavam m u ito longe de
se re m id ênticas. Mill e n d o s s o u ta n to o a la rm e d e T ocq ueville
d ia n te d o despotism o social e m vez d e político q u a n to o a n tíd o to
de Tocqueville, a saber, d e m o c ra cia participatória; mas n a d a tin h a
d a nostalgia aristocrática d o francês, n e m d e sua inclinação reli­
giosa. Filho d e u m fu n cio n á rio público q u e v en cera p o r seus p r ó ­
prios esforços e ele p ró p rio u m b u ro c ra ta n o m esm o d e p a rta m e n to
Liberalhmo clássico, 1780-1860 97

(o M inistério d a índia), Mill tin h a u m a expe riê n c ia e u m a visão


m u ito diferentes; e c o m o e c o n o m ista ele tam b é m salientou o libe-
rism o , u m te m a liberal m u ito ig n o r a d o pelos teó rico s políticos
fran ceses (d is tin ta m e n te d e teó rico s e co n ô m ico s). Significativa­
m e n te, Mill n ã o a lte ro u e m seus Princípios a defesa d o laüsez-faire
c o m o u m a prá tica geral, nas sete edições d a obra, d u r a n te a sua
vida. Q u a isq u e r que fossem as simpatias socialistas sentidas nos seus
anos m ad u ro s, estas n u n c a im plicaram q u a lq u e r d eslo ca m e n to seu
p a r a o dirigism o.
Representalive Government é u m curioso a b a n d o n o d o breviário
d e J a m e s Mill p a ra a dem ocracia, o Essay on Government d e 1820. O
jovem Mill m an te v e o sufrágio universal, m as n e m o valor igual d o
voto, n e m o voto secreto. P ara c o n fe rir m a io r p e so aos ed u ca d o s
— u m p ro p ó s ito elitista —, re c o rre u a u m sistem a d e votação plural
q u e fazia com q u e os mais b e m qualificados p u d e sse m d a r mais
d e u m voto e re c e b e r votos d e m ais d e u m distrito eleitoral. Essa
ten tativ a d e e q u ilib ra r a p a rticip aç ão e a c o m p etê n c ia , o acesso
d em ocrático e o governo esclarecido,32 decorria n a realidade d e um
objetivo liberal que estava m uito distante d o objetivo d e Jam es. Pois
James Mil! prescrevia a d e m o c ra cia para m in im iz ar a o p ressão,
e n q u a n to Jolm Mill a p r e s o evia para m a x im iz a ra re sp o n sa b ilid a ­
de.'^' Pela m e sm a razão, J o h n Mill d e sc arto u os votos secretos.
A in d a assim, a distância e n tre a dem ocracia qualificada de J o h n
Mill e o a pelo d e seu pai e m favor do sufrágio universal m u ito nos
revela q u a n to à evolução d a inclinação liberal. C o m o assinalou J o h n
B urrow , nos cautelosos arranjos d e Mill em favor d o au to g o v e rn o
re p resen ta tiv o p ro te g id o c o n tra a tiran ia m ajoritária, resta po u co
d a ap o sta utilitarista n a rac io n alid a d e d a h u m a n id a d e , e m últim a
instância.^4 O ficialm ente, ele p o d ia falar c o m o u m h e rd e ir o fiel do
progressivism o d o Ilu m in ism o e d e seus m estres utilitaristas, mas,
n o c o ra çã o , Mill, c o m o T ocqueville, e r a u m liberal pessim ista.
R e s e n h a n d o o s e g u n d o v o lu m e d e A democracia n a América, na
Edinburgh Revieiu (1840), Mill o b je to u q u e T oc q u e v ille havia
‘AY O lilw m hsm o - antigo r niotlcmo

e x agerado o im p a cto d a igualdade e su b estim a d o o d in am ism o d o


com ércio. Afinal d e contas, disse Mill c om sarcasm o, o C an a d á
francês e ra u m a sociedade tão igualitária q u a n to os Estados U ni­
dos, e m b o ra lhe faltasse o em p re sa ria d o móvel, aquela sede im pa­
ciente d e pro gresso, q u e ta m b é m era tão c onspícu a n a In glaterra
desigxialitária. N a aparência, isso p arece u m cordial regresso ao peã
do Ilum inism o ao progresso. Mas Mill j á n ão via a so ciedade co­
m ercial co m o u m a idade d e m elhoria. Em seu ensaio “Civilization”
(1836), a firm o u q u e seu efeito era u m a u m e n to n a d e p e n d ê n c ia
d e cada u m d a sociedad e e u m geral “a fro u x a m e n to d a e n e rg ia
individual”. N ã o é necessário dizer q u e tal visão e n tró p ic a d a his­
tória opunh a-se fo rte m e n te ao p rim e iro utilitarism o. A angústia
histórica não era o forte d e B entham .
O pessim ism o subjacente de Mill não o im p e d iu d e fo rm u la r
reivindicações progressistas. Ele p ro p ô s a re fo rm a ag rária co m o
u m a solução pa ra a q u e stã o irlandesa, e cooperativas d e p r o d u to ­
res co m o um a m a n eira d e d em o cratiza r a p ro p rie d a d e . Escreveu
u m opú sculo fem inista a paixonado, The Subjection ofW om en (1869).
D esde o dia em q u e foi p reso na adolescência p o r d istribuir p r o ­
p a g a n d a em favor d o c o n tro le d a n atalid ade, seu zelo refo rm ista
n u n c a se abateu; e n a d é c a d a cie 1860 ele e ra o d e p u ta d o p ro g re s­
sista e m W estm in ste r. Assim, o q u e resu lta difere co n sid erav el­
m e n te d a s ín d ro m e d e Tocqueville, j á que, a d esp eito d e to d o o
seu elitismo, a com plexão política d e Mill e r a m u ito mais a d ia n ta ­
d a do q u e a de Tocqueville. E p o r essa razão q u e tantos a in d a o
ju lg a m , co m o n u n c a seria poíjsfvel ju lg a r Tocqueville, u m a p o n te
intelectual e n tre o liberalismo, clássico e o socialism o liberal.
On Liberty foi interpretadja co m o u m m anifesto d o individua­
lismo. Proibiu a interferência; d o Estado n o c o m p o r ta m e n to quej
só interessa à p ró p ria pessoa, exaltou a lib e rd a d e d e “p r o c u r a r oi
seu p ró p rio bem à sua p ró p ria lm a n e ira ”. Mill viu a liberdade como;
coi.su essencial ao autodesenvôlvím ent.o, u m lem a que to m o u de
e m p ré stim o a H u m boldt. Uma; individualidade desim pedida e unia
/ Jhrrali.YUio r.InssitiK / 7 S 0 - ! H(A) 99

e sfe ra a b r a n g e n te d e p riv a c id a d e são necessárias à c u ltu ra d a


pe rso n a lid ad e . A lém disso, ele d e m o n s tr o u q u e a lib e rd a d e é a m ­
p la m e n te in s tru m e n ta l n o f o m e n to d o p ro g re sso . S eu objetivo,
co m o u m liberal militarista, ou seja, c o m o alguém q u e não argu­
m entav a a p a rtir d e q u a lq u e r posição de “direito n a tu ra l”, consis­
tia e m p r o p o r c io n a r à lib e rd a d e u m lugar cen tra l em utilid ade,
d e m o n s tr a n d o seu p a p e l chave n a felicidade e n a fo rm a ç ã o do
c ará ter.35 D epois q u e Mill a b a n d o n o u o conceito passivo d o espí­
rito s u ste n ta d o p o r B e n th am e p o r seu pai, sua p r ó p r ia idéia de
felicidade to rn o u -se inseparáv el d a atividade, e d a ativ id ad e d e
escolha em p artic u la r.36
Esse traço alem ão d e liberalism o autotélico com binou-se com
u m a p re o c u p a ç ã o p o r a u to n o m ia (lib erd a d e política) e c o m u m
g osto p e la exp e riê n cia e pelo e x p e rim e n to . A lib e rd a d e era, e n tre
o u tra s coisas, u m a a b e r tu ra à ex p e riê n c ia n o sen tid o d e q u e esta
significava u m a disposição a se r crítico, se r livre d e p re c o n c e ito e
d e d o g m a. O co n serv ad o rism o e ra pat a Mill, acim a d e tudo, um a
m á epistem ologia, fu n d a d a n a intuição em vez de o ser n a indução,
em sa b ed o ria acolhida e crença n ã o exa m in a d a em vez d e o ser
n u m tipo inquisitivo d e espírito. Mill prescreveu ao m e sm o te m p o
e x p e rim e n ta ç ã o m o ral e força d e caráter, a p e la n d o assim p a r a os
dois lados d a alm a vitoriana, o ascético e o estético, ou, cm term os
d e H e in ric h H e in e e M atthew A rn o ld , o h e b ra ic o e o helênico.
H a rm o n iz a n d o o liberalism o dos Princípios c om o indutivism o
d a Logic, On Liberty tornou-se logo u m a Bíblia libertária. Mill en ­
trelaçara vários ra m o s d o p e n s a m e n to liberal. L ib e rd a d e política,
a u to n o m ia negativa, au tod e sen v o lv im e n to , lib e rd a d e c o m o intitu-
la m e n to , lib e rd a d e d e o p in iã o , lib e rd a d e c o m o a u to g o v e rn o ,
lib erd a d e co m o privacidade e in d e p e n d ê n c ia . O velho apelo p ro ­
testa n te p a ra a consciência, u m a fo rm a secularizada, nele figurava,
e o m e sm o o c o rria com a a b o rd a g e m ilum inística da lib erd ad e
c o m o o in s tru m e n to d e prog resso. Na verdade, On Liberty loi a d ­
m ira v e lm e n te c o m p le m e n ta d o p e la o b ra s o b re Rcjiivsciiltidiie
1U0 U liberalismo - anltgo e moavmo

Government, yí\ q u e o p rim e iro foi u m p r o te sto c o n tra a tirania de


op in ião e o se g u n d o u m a receita c o n tra a tirania d a m aioria.
Eruditos, n o e n ta n to , discutem c alo ro sam en te a au ten ticid ad e
d a m e n sa g e m d e Mill. G ertr u d e H im m elfarb nos Estados U nidòs
e M aurice Cowling n a Inglat erra re tra ta ra m Mill c o m o u m radical
in te rm ite n te , m esm erizad o pela insuportável sab ich o n a e p r e te n ­
siosa H a rrie t T aylor p a ra re p u d ia r seu p r ó p r io re p ú d io ju v e n il d a
superficialidade utilitarista. f F. A. H ayek e, m ais re cen tem eritç,
J o h n Gray c e n su ra ra m Mill p o r te r s e p a ra d o irrealisticam ente |a
individualidade d os contextos sociais o da tradição cultural. Outrojí,
firm ados n u m a leitura mais çuidadosa do g ra n d e ensaio d e 18M,
re jeitam essa acusação. Mill p o d e te r a lim e n ta d o ideais elitistas
utópicos, m as em On Liberly ele c o m p e n so u seus receios d e urna
tira n ia d e o p in iã o m ajoritária co m u m a insistência explícita n a né-
cessidade d o auto d ese n v o lv im en to geral e e vita n d o inculcações d e
q u a lq u e r espécie. 58
N a década d e 1860, Mill voltou a dissociar-se d a posição d e
C o m te p o r ca u sa das te n d ê n c ia s “lib e rtic id a s” d e ste. Assim,J o
cientificism o d e C o m te — u m s o n h o d e d e sp o tism o esclarecido cio
século XIX — serviu p a ra rea lça r p o r c o n tra ste as in ten ç õ e s do
p ró p rio Mill. A Igreja positivista teria significado paternalism o , e
patern alism o e ra precisam en te aquilo q u e Mill m ais q u e ria rejeitar,
em n o m e d a lib e rd ad e individual. A crítica d e M acaulay — d e q u e
ele e x a g e ra ra em su a re p r e s e n ta ç ã o d o c o n f o rm is m o em u m a
idade d e caracteres fortes e u n i tan to excêntricos — é m uito mais
a d eq u ad a.
O e ru d ito de O x fo rd L arry S ie d e n to p estabeleceu u m a distin­
ção instrutiva e n tre os ram o s francês e inglês d o liberalism o clássi­
co su m ariad o s p o r T ocqueville e Mill. Os ingleses e ra m prin cip al­
m e n te filósofos d o esp írito , c o m o os dois Mills, e su a p r ó p r ia
a b e rtu ra à evolução pacífica d a sociedade inglesa fez com q u e seu
liberalism o fosse mais p o b re em c o n te ú d o sociológico e histórico..
Por contraste, a escola fran cesa era c onstituída p o r h isto riad o res e
Liberalismo clássico, 1 7 8 0 -1H6U 101

ju rista s, e seus liberais te n d ia m a tra ta r as instituições políticas em


fu n ç ã o das c o n d iç õ e s sociais. T a m b é m , p re s ta ra m u m a a ten çã o
especial à m u d a n ç a h istó rica e a d o ta ra m g e ra lm e n te u m a perspec-
tiva c o m p a r a tis ta .''
A an títese d e S ie d e n to p o p õ e u m liberalism o psicológico a u m
liberalism o histórico-sociológico, justificando-se a p e s a r d o g ra n d e
interesse d e Mill p ela história francesa (M ichelet) o u p e la sociolo­
gia p olítica (Tocqueville). Mas, se n os voltarm os p a r a a h istó ria
in te r n a d o liberalism o inglês, n ã o se p o d e n e g a r q u e o p ro g ra m a
liberal d e Mill, a p e sa r d e toda a sua inegável reticência d ia n te da
d em o cracia, ultrapassava a m p la m e n te em espírito social e escala
m o ra l a fó rm u la whig, p ela qual n a d a mais sentia d o q u e o m aio r
d esprezo . Nisso, c o m o em m uitas o u tras coisas, Mill p e rm a n e c e u
fiel ao im pulso progressista do círculo bentham ita. M uito respeitado
p o r G lad sto n e, cujo biógrafo, J o h n Movley, e ra discípulo d e Mill,
J o h n S tu a rt Mill sim bolizou a d e sp e d id a final d o liberalism o d e seu
lo n g o passa d o patrício.

E m direção no liberalism o social: M a z zin i e íferzen

E a p ro p r ia d o re m a ta r nossa vista d e olhos d o liberalism o clássi­


co re la n c e a n d o o u tra s p artes d a E u ro p a. C erca d e m e ad o s do sé­
culo, d u a s figuras, am bas e m ig rad a s cln L o n d re s, destacaram -se
c o m o g ra n d e s e influen tes paladinos d a liberdade. U m era o italia­
n o G iu se p p c Mazzini (1805-1 872), quase e x a ta m e n te c o n te m p o ­
râ n e o d e Mill. O o u tro e ra o russo A lex a n d e r H e rz e n (1812-1870).
Mazzini c o n trib u iu c om duas coisas p a r a o catecism o liberal:
n acio n a lism o e ju v e n tu d e . E m seu te m p o d e e stu d a n te , ele se u n iu
à seita d o s carb o n ário s, q u e travava u m a luta secreta p a ra unificar
a Itália e libertá-la d a Áustria. Mas, em 1831, f u n d o u a jo v e m Itália,
u m a organização q u e ra p id a m e n te se d ifu n d iu fazendo cam p an h a
p o r u m Estado republicano u n itário em to d a a península. Por volta
1UJ (J liberalismo - antigo e moderno

d o fim d a década, Mazzini teve d e exilar-se, e e m L o n d re s escre­


veu ensaios mais tarde coligidos com o The Duti.es o f M an (1860). Seu
to m m o ral era claro, e o livro dirigia-se aos tra b a lh a d o re s, a des­
p e ito d a ênfase d e Mazzini n a luta e n tre geraçõ es e m vez d a luta
d e classes.
P o rq u e a seus olhos o liberalism o n ão significava mais do q u e
u m vulgar liberism o m aterialista, Mazzini considerava-se u m o p o ­
sito r d a escola liberal. Sua visão s o c io e c o n ô m ic a d e c o rr ia d e
Sism ondi e d os socialistas c o m u n itá rio s n a indústria, c onduzidos
p o r R o b e rt O w en (1771-1857). E seu d e m o c ra tism o estava tingi­
do d e social-cristianismo à m o d a de Charles Kingslcy (1819-1875)
e L am ennais (1782-1854). Em sua Histoiy o f Europaan IJberalisrn, De
R u ggiero censurou-o p o r esp o sar u m antiindividu alism o m ístico
in te ira m e n te in a d e q u a d o à Itália a trasad a d a época.'10 Mas co m o
social-crislão q u e era, Mazzini foi in tra n s ig e n te n a rejeição d o
socialismo, q u e ele julgava iliberal e ta m b é m am oral p o r causa d e
seu m aterialism o.
A Revolução d e 184 8-18-19 — a "Prim avera do Povo” — lo r­
nou Mazzini um Iriúnviro m u n a república ro m a n a d e eu ila d u r a ­
ção. Mas a unificação seria fin a lm e n te c o n tro la d a pe lo liberal-
c o n se rv a d o r co n d e Cam illo C avo ur (1810-18(31) em benefício do
re in o p ie m o n te s, p o n d o d e lado o g e n e ro so re p u b lic an ism o de
Mazzini e G aribaldi (1807-1 882). N o liberalism o a lta m e n te idea­
lista d e Mazzini, a causa n a c io n a l do Risorgimento e ra p e rfe ita ­
m e n te com patível c om u m h u m a n ita rism o universalista e u m a fe­
d e ra çã o euro péia. Mazzini gozava d e im en so prestígio, e n o a p o ­
geu d o vitorianism o ele constituía u m a v e rd a d e ira consciência d o
re p u b lic a n ism o liberal. N ele G a n d h i divisou, ju n ta m e n te co m
Tolstoi, u m a d e suas inspirações ocidentais.
D ep o is d o fracasso d a rev o lu çã o d e 1848 veio a Letter o f a
Russian to M azzini (1849), d e H erzen . D eixando a Rússia p a ra o
exílio dois a n o s antes, H e rz e n , q u e estivera sob o e n c a n to d o ,
hegelianism o em seu país, d ec re ta ra , c o m o h egelian o d e e sq u e rd a
Liberalismo clássico, 1780-1860 103

radical, q u e a b u rg u e sia n ã o tin h a “g ra n d e passado e n e n h u m fu­


tu r o ”. E ra u m a classe sem tradição, incapaz d e substituir a e c o n o ­
m ia política p e la h o n r a aristocrática. Q u a n d o o socialismo foi m i­
serav elm en te d e r ro ta d o em 1848, ele viu a E u ro p a b u rg u e s a co m o
u m a nova R o m a d ec ad e n te, os socialistas c o m o os p rim e iro s cris­
tãos p e rse g u id o s , e os eslavos c o m o os novos b á rb a ro s . D eses­
p e ra n ç a d o d e seu antigo historicismo, I-Icrzen escreveu e m From lhe
Other Skore q u e a história n ã o tem finalidade — e tan to m e lh o r p a ra
a lib e rd a d e ind ividual, q u e p o d ia d iz e r b o n s v e n to s a levem a
q u a lq u e r u to p ia q u e exigisse g ra n d e s sacrifícios e m benefício do
futuro.
T e n d o p e r d id o to d a e s p e ra n ç a d e u m a re volução p r o p r ia ­
m e n te dita n a E uropa, H e rz e n n ão se to r n o u apolítico o u re fo r­
mista. T o rn o u -se a p e n a s eslavóíilo (antes d e seu exílio ele fo ra u m
p r o e m in e n te o cid en talista). E sc re v e n d o a M ichelet, M azzini e
Prouclhon e ao socialista alem ão G e o rg H erw eg h (até q u e desco­
briu q u e I-íerwegh e a bela s e n h o r a H erzen gostavam dem a siad o
um d o o u tro ), H erzen d ifu n d iu sua concepção, <■ com eço, d e um
socialismo russo.’11 G om o os prévios eslavóíilo,s, I lerzen sa u d o u o
fato d e q u e os “b á rb a ro s ” russos n ã o haviam sido contagiados pelo
direito ro m a n o e p elo direito d e p r o p rie d a d e . A Rússia, p r o m e ­
teu, n u n c a seria n e m p ro te s ta n te n e m burguesa. Ao m e sm o tem ­
p o , afastou-se d a o rto d o x ia eslavófila, a c h a n d o q u e a c o m u n a al-
de ã e ra u m a instituição d em a sia d o tediosa, estú p id a e conserva­
dora, e o u s o u m e sm o ce leb rar a selvagem m o d e rn iz a ç ã o d e P ed ro
o G ra n d e , o ja c o b in o co ro ad o .
C e rc a d a d é c a d a d e 1860, E lerzen d e m o n s tr o u u m a c o m ­
p re e n s ã o notável d a evolução social d o O cid en te. N u m a série de
artigos p o lêm icos dirigidos ao ro m a n c ista T u rg u en ie v , Ends and
Beginnings, c o n sid e ro u a e ra d a burguesia, c o m o tin h a m feito MíII
e Tocqueville, c o m o o re in o d a m e d io crid a d e. Mas salientou que
a ascensão das classes m édias estabilizara o capitalism o e p r o m o ­
ve ra o avan ço social e m a te rial das massas; e foi até p re v e r o
104 0 liberalismo - antigo e moderno

e m b u rg u e sa m e n to dos tra b a lh a d o res n u m a e ra d e p ro s p e rid a d e


difundida. P re g o u ao czar re fo rm as sem violência. C o n tu d o , n o
esp ectro político russo d a época, ele estava definitiv am ente n a ex­
tre m a e squerda. Q u a n d o foi fu n d a d a em 1861, a p rim e ira o rg a n i­
zação revolucionária, T e r r a e L ib erd ad e, to m o u e m p re s ta d o seu
título d a a m p la m e n te lida revista d e H erze n , The Bell.
H erzen deixou u m testam ento político em suas I.alters to an Old
Comra.de (1869). Dirigidas a B akunin, fo ra m n a realidade escritas
c o m o autocrítica, p rin c ip a lm e n te d e suas a titu d e s d e sa le n ta d a s
d epois d e 1848. R estab elecendo u m a q u a n tid a d e razoável d e his-
toricismo, H e rz en passou a en c ara r o Estado e a p ro p rie d a d e co m o
algo h isto ric am en te funcional, espécies d e d eg raus p a ra o d e se n ­
volvim ento h u m a n o . Ele cen su ro u nas v ang uard as revolucionárias
a sua tentativa “p e tro g ra n d is ta ” d e im p o r sua v o n ta d e às massas.
C o n d e n o u r e d o n d a m e n te o co m u n ism o p o r sua idéia d e igualdade
d e “escravo d e g a le ra”, e disp en so u su a b ê n ç ã o — p a ra a fúrià de
B akunin — à m o d e ra ç ã o d a Prim eira Internacion al. H erzen , 'não
s e n d o n e m constitucionalista n e m u m a pessoa versada e m e c o n o ­
mia, n u n c a foi u m liberal n o inteiro se n tid o ocidental, m as isso não
o im p ed iu d e c o n trib u ir p o d e ro s a m e n te p a r a a visão libertária no
c re d o liberal. ! J
Nossos q u a tro liberais clássicos tardios, a p esar d e to d a a dife­
ren ça que os separava, partilhavam algum as idéias c om uns. C) jli-
beral conservado r Tocqueville ensinou ao elitista Mill o valor cívico
d o a u to g o v ern o e os perig o s d o p o d e r m ajoritário. Mazzini gosta­
va d e Mill o bastante p ara c< nvidá-lo (em vão) a seu lar d e e m i ^ a -
do em Blackheath. E H e rz e n julgava Mazzini digno d e re c e b e r u m a
d e suas principais avaliações d a situação p ó s-1848. O p r ó p r io a n o
d e 1848 e n c o n tr o u to d o s Os q ü a tro d o lado rep u b lica n o , e m b o ra
c o m esperanças e atitu d e s diferentes. H avia u m a lo n g a distância
e n tre o tím ido constitucionalism o m o n á rq u ic o e o censo oligár-
quico d e Royer-Collard e G uizot e m b o r a n ã o tão afastados da
política dos p rim eiro s militaristas.
Liberalismo clássico, 1780-1860 105

Os discursos do liberalism o clássico

M u ito d ep o is d o au g e d o liberalism o clássico ta rd io — o flores­


c im e n to d e T ocqu eville, Mill, M azzini e H e r z e n n a m e ta d e d o
scculo XIX — W illiam B u tler Yeats p e r g u n to u n u m p o e m a cha­
m a d o “O S á b io ”:

O q u e é whiguismo?*
U m a espécie d e espírito nivelador, ra n c o ro so , racional,
Q u e n u n c a espia pelo o lho d e santo,
O u p e lo o lh o d e u m b ê b ad o .'12

Yeats, é claro, n ã o e ra liberal, whig o u q u a lq u e r o u tr a coisa; e tal­


vez fosse p o r isso q u e criticou c o m o “w h ig u ism o ” algo q u e era
r e a lm e n te m ais p a re c id o c om b e n th a m ism o , n a o p in iã o d e seus
op o sito res. Q u a n to ao liberalism o clássico d e m e a d o s d a e ra vito­
riana, este tin h a c e rta m e n te pelo m e n o s dois santos — Mazzini e
Mill. E eu gostaria d e p r o p o r o nosso h e d o n ista lírico H erzen, com o
u m b o m ca n d id a to p a ra o lugar d e “b ê b a d o ” do liberalism o. U m a
coisa, n o en ta n to , n e n h u m deles n u n c a foi — u m whig. O q u e n o ­
vam en te a pen as m o stra q u ão e xtenso havia sido o cam inho trilhado
p e lo liberalism o, m e s m o n a q u e la fase.
N u m to m mais sério, p o d e ría m o s d o m e sm o m o d o con cluir
d a n d o ên fase à diversidade con ceituai do liberalism o clássico. O
p rim e iro liberalism o clássico já conhecia pelo m e n o s (r ês lipos de
discurso teórico: teoria dos direitos naturais, republicanism o cívico,
e h istó ria e m fases, co m o n a e c o n o m ia política e n a teoria social
d o llu m in ism o escocês. A evolução d a d o u trin a liberal m anifestou
u m progressivo d e s p re n d im e n to d a ideologia cívica, até q u e um
p rim e iro rep u b lic a n ism o a m e ric a n o , u m ju sn a tu ralism o lockiano
m ais o piniões favoráveis a estádios (o te m a d a sociedad e com ercial

(*) D o o rig in a l whiggery. (N. d o T.)


106 O liberalismo - antigo e módemo

o u civilizada), levou a m e lh o r. E ntão, p o r volta d e 1800, os bén-


tham itas colocaram-se a uma! m a io r distância d o discurso cívico e
| ;
<» liberalism o voltou falar <jom a voz da utilidade, e nao comj à
voz d os direitos ou da virtn<l<|r cívica.
O s p rim e iro s liberais franceses, re to m a n d o a perspectiva <jk
estádios, criaram ain d a u m n|)vo m o d o , a teo ria política d a socie
d a d e com ercial, mais tip ic am en te em C onstant. Q u a se to dos os jli
berais clássicos franceses escreveram n u m id io m a histórico, fu h
d a n d o suas afirm ações n u m a a p re e n sã o com paratista, à m o d a de
M o ntesq uieu, das causas subjacentes d e m u d a n ç a m acropolítica..
As análises d e Tocqueville fo ra m sim p lesm e n te a fo rm a mais sutil
desse m o d o histórico-sociológico de discurso político. Mill c o n h e ­
cia e adm irava essa aliança d e liberalism o e histór ia teórica, nuis
e m sua p ró p ria o b ra re to r n o u à a b o rd a g e m utilitária. |
P o r volta d e 1870, som avam cinco os discursos d o liberalismo,
e m b o ra e m mais d e u m caso eles estivessem com b inados: direitos
naturais, rep ublicanism o cívico, econom ia política, história utilitá­
ria e história com paratista. O prim eiro tinha raízes medievais e u m a
d ecolagem ju sn atu ralista d o século XVII. O m o d o cívico originou-
se no h u m a n ism o renascentista. K os três discursos rem a n esce n te s
b ro ta ra m do Ilum inism o, com M ontesquieu, H u m e e Sm ith co m o
suas principais fontes teóricas. Em g ra n d e s traços, tal e ra o perfil
conceituai d o liberalism o clássico.
Mas n ã o é suficiente assinalar o e n riq u e c im e n to do discurso
d e te o ria política d o p ro to lib e ra lism o ao liberalism o clássico tar­
dio. Subjacente à fo rm a pela qual os p rim e iro s liberais clássicos se
dirigiam à n atu re z a d a o r d e m social e ao significado d a lib erd ad e
n o século XIX havia u m g ra n d e divisor a p a rtir dos dias d e Locke,
M o ntesq uieu e Smith. Esse divisor foi causado pe lo im p ac to das
revoluções atlânticas do fim d o século XVIII e m teoria política.
As revoluções am ericana e francesa in tro d u z ira m 11111 novo princí­
pio d e legitim idade, basea d o na soberania nacional em vez de o ser
em direitos dinásticos, n a teo ria liberal.
Liberalismo clássico, 1780-1860 107

E a q u i foi R ousseau, m u ito m ais d o q u e os p rim e iro s liberais


ou p ro toliberais, q u em deu a co n trib u iç ã o decisiva. D a n d o uma
lo rç ã o d e m o c iá lic a ao d is c u rso c o u lra tu a lis ta do s d ireito s,
R ousseau foi o p rincipal a n te p a ssa d o d a idéia d e q u e a naçâo, e
n ã o o rei, era a sed e em ú ltim a instância da a u to rid a d e política. A
q u e stã o a g o ra consistia e m co m o conciliar a an tig a p re o c u p a ç ã o
liberal e m lim itar o p o d e r c om o novo princípio pós-revolucionário
d e le g itim id a d e . T al fo i a ta re fa q u e e x e rc ito u os e sp írito s d e
C o n s ta n t e Guizot, Tocqueville e Mill, e os to r n o u “liberais clássi­
cos” n u m se n tid o m o d e rn o .
4

Liberalismos conservadores

Consnvad-orismo liberal e liberalismo conservador

O l e g a d o d o lib e ra lism o clássico era u m e q u ilíb rio e n l r e d e m o c r a


l i s m o e l i b e r l a r i a n i s m o . A s p r i m e i r a s c o n q u i s t a s ( Io j >i o l o l i b e r a
lismo, tais c o m o o resp eito do s direitos e o g o v e rn o co nstitucio­
nal, fo ra m preservadas. Mas d e M ad ison e R e n d ia m a C o n stan t,
Tocqueville e Mill, foram efe tu a d o s claros p ro g re sso s n o escopo
social e n o alcance m o ra l d o c re d o do liberalism o. E n q u a n to o
ro b u sto o tim ism o histórico d o llu m in ism o foi se ria m e n te a te n u a ­
d o e n tr e a e ra dos federalistas e ulilitaristas e a era dos g ran d es
liberais vitorianos, o liberism o foi g e ra lm e n te su ste n ta d o e os libe­
rais clássicos fo ra m b a sic a m e n te fiéis à p ro m e s sa d e m o c rá tic a e ao
p o te n c ia l lib ertário d a idéia liberal. O liberalism o clássico c o n d u ­
ziu sua inventiva institucional, sua im aginação conceituai e sua força
analítica n u m e stad o d e esp írito leigo. M esm o q u a n d o os seus teó­
ricos, co m o C o n sta n t e Tocqueville, a trib u íra m g ra n d e im po rtân cia
à religião, seu m o d o d e teo rizar j á n ã o e ra d ita d o p o r p re o c u p a ­
ções teológicas. Pelo m e n o s nisso, o e spírito leigo d o llu m in ism o
im pôs-se m u ito c o e re n te m e n te .
O liberalismo clássico não o c u p o u to d o o palco d o p ensam en to
liberal. P o r volta d e m e a d o s d o século XIX, e m e rg ira m várias

109
110 0 liberalismo - antigo e moderno

c o n c ilie s liberais q u e d iferiam c o n sid e ra v e lm e n te das posições


e m o d o s d e d isc u rso dos liberais clássicos, r e p r e s e n ta d o s p o r
T ocqueville e Mill. As novas c o rre n te s e ra m ta m b é m b a sta n te dis­
tintas dos desenvolvim entos tard io s co n h ecid o s co m o “novo libe­
ralism o ” e caracterizados p o r seu c o n te ú d o “social”. Tais c o rre n ­
tes, algum as das quais e ra m c o n te m p o râ n e a s d o últim o estágio do
liberalism o clássico, p o d e m se r re u n id a s sob u m único ró tu lo ra­
cional: liberalismo conservador.
Q u a n d o o d u q u e de N ew castle pediu-lhe q u e a b a n d o n a sse o
velho ró tu lo whig, lo rd e RusselI, o prim eiro -m in istro da Reform fíill,
rep lic o u q u e whig tin h a a v a n ta g e m d e dizer e m u m a ú n ic a sílaba
o q u e liberal conservador diz em s e le .1 Ksla respo sta e n c e rra clara­
m e n te a distância e n tre o w higuism o institucional e o classicismjo
lib e ra l e m su a lo r m a v ito ria n a final. O e s p írito d e m o c rá tic o ;e
r e p u b lic a n o d o lib e ra lism o clássico d esv iara o lib eralism o d o
c o nserv ad o rism o whig, social e politicam en te. Mas qual e ra a dife­
rença, caso houvesse, e n tre o!liberalism o co n se rv a d o r e o conser­
vadorismo liberal? !
O c o n se rv a d o rism o liberal e ra u m p r o d u to m u ito inglês, je
c o m o tal m u ito diverso d o co n se rv a d o rism o c o m p acto , reacio n á­
rio d o c o n tin en te. N a p rim e ira m e ta d e d o século XIX, a m aioria
d o s c o n se rv a d o re s c o n tin e n ta is ain d a resistia ao g o v ern o repr^-i
sentativo, responsável, e à lib e jd a d e religiosa, e n q u a n to os c o n se r­
vadores b ritânicos cstavam te n ta n d o pre se rv a r o a c o rd o antiabso-
lutista d e 1688. O con se rv a d o rism o b ritâ n ic o , c o m o observa u m
d e sta c a d o in té rp re te m o d e rn o , A n th o n y Q u in to n , a b ra n g e pelo
m enos três doutrinas. A prim eira é o tradicionalismo, a crença de qu e
a sa b e d o ria política é de algunjia form a d e n a tu re z a histórica e co­
letiva e reside em instituições cjue passaram p e la p rovação d o te ir-
p o. A segxmda é o organicümo, a! idéia d e q u e a sociedade é u m t o d o , ;
e n ã o ap en as u m a som a d e suas p artes o u m e m b ro s, e co m o tal
possui u m valor d e finitiv am en te m u ito s u p e rio r ao indivíduo. Á.
terc e ira é o ceticismo político, n o sentido d e u m a d e sco n fian ça d ò
Liberalisjnos conservadores 111

p e n s a m e n to e d a te o ria q u a n d o aplicados à vida pública, especial­


m e n te c o m am plo s p ro p ó sito s inovadores."
C o m o lo rd e Q u in to n e m u ito s p re d e c e sso re s su b lin haram , n a
trad ição con se rv a d o ra b ritânica, o tradicionalism o e o organicism o
são, am b os, posições ílexíveis. As tradições n ã o im p e d e m a m u ­
d a n ç a adaptativa, e o o rg an icism o n ã o exclui a m odificação p a rc e ­
la d a das instituições e p ro c e d im e n to s . A m aio ria d o s co n se rv a d o ­
res co n tin en tais, e m con traste, sain do d e u m a re p u g n â n c ia ráb ida
à R evolução Fran cesa e seu co ntág io , te n d ia a p e trific a r a tradição
n u m edifício in te m p o ra l e a te r as instituições n a c o n ta d e inalte­
ráveis. E m sua tentativa d e fo rçar a so cied ade e u r o p é ia a re c u a r
p a r a o A nligo Regim e d epo is de um q u a rto d e século d e m u d a n ç a
política e social (1 7 8 9 -1 8 1 5 ), eles Coram va/.ados n u m a a titu d e
a lta m e n te d o u trin á ria e m e sm o visionária, dificilm ente com patível
com o p r u d e n te ceticism o d o s con serv ad o res institucionais.
R e a c io n á rio s c o n tin e n ta is c o m o Jo se p h d e M a istre (1 7 5 3 -
1821), Louis d e B o n ald (1 754-1840), F ried rich G entz (17 6 4-1 83 2 )
e A d a m M u lle r (1 7 7 9 -1 8 2 9 ) fo ra m g ra n d e s a d m ir a d o r e s de
E d m u n d B u rke (1729-1797). B urk e foi o p rim e iro crítico p ro e m i­
n e n te da: R ev o lu ção e m suas a m p la m e n te lidas Reflexões sobre a
revolução em França (1790), e é g e ra lm e n te c o n sid e ra d o o pai do
c o n se rv a d o rism o inglês. Iro n ic a m e n te , no e n ta n to , p re g a n d o u m a
re sta u ra ç ã o sem co m p ro m isso s d a au to c ra c ia e d a h ierarq u ia, os
p e n sa d o re s d a R estauração francesa e seus sósias alem ães n a d a ra m
c o n tr a a c o rre n te d o p r ó p r io p rin c íp io b u rk ia n o d e legitim idade:
prescrição, a u to rid a d e c o n sa g ra d a pela co ntin u id a d e .
A essência d o a ta q u e d e Burke c o n tra a Revolução consistia
e m q u e os revo lu cio nário s franceses tin h a m q u e rid o passar a b o r ­
rach a n o passado, e m vez d e revigorai' os velhos direitos c o n tra o
a bsolu tism o m o n á rq u ic o . O re sp e ito d e B urke p e la tradição não
e r a s e m p r e re a c io n á rio . R e c o r r e n d o ao m e s m o a r g u m e n to em
favor dos velhos direitos, ele d e f e n d e r a os in su rre to s am ericanos
quinze an os antes. A lém disso, o seu con serv ad orism o, e x atam en te
112 0 liberalismo - antigo e moderno

co m o e ra po litic a m e n te liberal, ta m b é m e ra e c o n o m ic a m e n te m o ­
d e rn o : n in g u é m m e n o s d o qufe A d a m S m ith elogiou-o p o r sua
p e rfe ita c o m p r e e n s ã o d a econjom ia liberal. B u rk e e r a u m lohig
institucion al da d écada d e 1770, q u e se (o rn a ra tory p o r q u e na
d é c a d a d e 1790 os ‘‘n ovos whigs", c o m o ele os apelidava, e ra m
pessoas co m o Fox, a d m ira d o re s d a Revolução.
' | ^ '
E típico da tendência conservadora cio e spirito d e lin rk e o falo
de q u e ele substituiu u m a ênfasj: histórica n a trad ição inglesa pela
ênfase co sm o p o lita d o Ilu m inism o escocês n o s estágios d a civili­
zação.'5 Ele ta m b é m b o to u n o lug ar do d e sp re z o ilum inista whig
pela su perstição u m a rev erência p e la religião. A in d a mais, e m vez;
d e ligar o re fin a m e n to com a ascensão d o com ércio, c o m o o íize-j
ra m os philosophes, B u rk e foi u m cios c ria d o re s d a reavaliação
ro m â n tic a d a fé e d a cavalaria m edievais co m o fatores d a civiliza-;
ção — u m te m a a q u e logo seria c o n fe rid o m u ito b rilh o n a p ro sa
m ágica d o m a io r c o n se rv a d o r liberal, o visconde F rançois-R ené de
C h a te a u b ria n d (1768-1848).
A inclinação d<‘ Burke pela o rto d o x ia religiosa e pela socie­
dad e o rg ânica tornou-o um v e rd a d e iro co nserv ado r, unia ve/. qu e
isso significava o p r ó p r io o p o s to d e dois traços p e rs is te n te s n a
c o rre n te principal d o liberalism o, o lalitu d in arism o m oral e o in­
dividualismo. Além disso, a nostálgica visão histórica d e Burke não
era equilibrada p o r uma aceitação da d em ocracia. IVIo <<>ni rái ío,
co lo can do u m a c u n h a e n tre re p re s e n ta ç ã o e delegação, Burke lo­
g ro u m a n te r seus m o d e lo s p a r la m e n ta ie s se p a ra d o s p o r u m a
g ra n d e distância de exigências radicais e ulilitárias p ara a dem o-
c.rat.izaçao d o p o d e r. Isso p reserv o u seu con serv ad o rism o liberal a
u m a g ra n d e distância d o liberalism o clássico, tan to política co m o
conceitualm cnfc.
B u rk e re a c e n d e u a cha m a d a “antiga c o n stitu iç ã o ”. N ão obs­
tante, su ste n to u um conceito an tes flexível, adaptável d a tradição,
a b rin d o esp aço p a ra m udança na continuidade. P rovavelm ente, o
mais fam oso d e seus epigram as ainda é “Um Kslado sem m eios de
Liberalismos covscmadorcs 1l j

jilg u m a m u d a n ç a n ã o d isp õe de m eios p a r a conservar-se”, u m a jó ia


m u ito citad a das Reflexões. S ua d efesa d a an tig a c o n stitu ição e ra
m u ito m ais sofisticada d o q u e os a rg u m e n to s d aqueles q u e se lim i­
tavam a a firm a r u m c o n ju n to imutável d e n o rm a s q u e, p re su m i­
velm ente, haviam sido re sta u ra d a s e m 1688.
A p ersp ectiv a b u rk ia n a d e m u d a n ç a na c o n tin u id a d e foi usa­
da p o r u m h is to ria d o r whig, H e n ry H allam (1 7 77 -18 5 9), e m sua
in flu e n te C om tilutional History o f England, q u e co b riu o p e r ío d o a
p a r tir d a acessão d os T u d o r até a m o r te d e J o r g e 11 em 1760.
H allam desenvolveu a tese d a a ntiga co nstitu ição c o n tr a a p o p u la r
History o f England (1 75 4 -1 7 62 ) d e H u m e . O p e n s a m e n to do mais
i m p o r ta n te h is to r ia d o r whig, T h o m a s M acaulay (1 8 0 0 -1 8 5 9 ),
form ou-se c o n tra esse p a n o d e fu n d o b urk ian o. E m 1830, Macaulay
divisou b rilh a n te m e n te a n e cessid ade d e o p o r a resistência tory à
re fo rm a eleitoral tra ta n d o criativ am en te d o m ito d a an tig a consti­
tuição. A q u e la altu ra, os iories estavam a p re s e n ta n d o a Revolução
G loriosa (o rig in alm en te u m m o v im e n to antitory) c o m o u m a rra n jo
p a ra to d o s os tem p os. Macaulay e m p r e e n d e u d e m o n stra i' q u e era
u m a solução p a ra o tempo dela e, c o m o lal, ap e n a s um a fase de
sábios ajustes políticos à m u d a n ç a histórica. Assim, e m suas m ãos
o tem a b u rk ia n o d e m u d a n ç a na c o n tin u id a d e tran sform o u-se p o r
sua vez n a idéia d e u m a c o n tin u id a d e d e m u d an ça. C o n tr a o apelo
lorv â tradição p a ia resistir à refo rm a, Macaulay afirm o u um a ttu
dição de reforma. N esta perspectiva, a sa b e d o ria d e 1688 p ro p o rc io ­
n ou um p re c e d e n te para a Rc/onn llill de 18'í2.
A p a rtir d e e n tã o , os c o n s e rv a d o re s liberais ex p rim iran i-sc
c o m fre q ü ê n c ia na língua d e B urke. O jurista sir 1 len ry M aine
(1 8 2 2 -1 8 88 ) j u n l a m e n lc com o h isto ria d o r católico lo rd e A clon
(1 8 3 4 -1 9 02 ) são exem plos. A tarefa q u e M aine a tribu iu a si p ró ­
p rio consistia e m d e m o lir as idéias ro u sse a u n ia n a s so b re o estado
d a natureza, exibido co m o fu n d a m e n to p ara u m c o n trato social que
justificava a igualdade universal. M aine e ra u m liberal conservador,
não um c o n se rv a d o r, e p artilh av a a c re n ç a d e M acaulay no
114 O liberalismo - antigo e moderno

pro gresso. Isso a p a re c e u eiri seu célebre co n ceito cie u nia evolu­
ção “<]<.' slalu.s a c o n tr a io ”, cx p oslo p rim e ira m e n te em seu livro de
1861, Ancient Law. A h u m a n id a d e , escreveu M aine, evoluíra de um
estad o social em q u e Iodas as relações eram go v ern ad as p o r .sialus
m im a e stru tu ra fam iliar p a ra u m a fase cm q u e o m o d e r n o indivi­
d u a lism o p r o s p e r a so b re a p r o p r ie d a d e pessoal. Em Popular
Government (1885), M aine d e p lo ro u a p ersp ectiv a d e u m re tro c e s­
so socialista nesse processo d e crescente individualização. Assim,
em M aine e n o u tro s, a rg u m e n to s b u rk ia n o s serviram ao objetivo
n ã o b u r k ia n o <le ind ivid ualism o, e r r a d a m e n te e n c a ra d o c o m o
a m e a ç a d o pela dem ocracia.
As p re o c u p a ç õ e s de lo rd e A cton não eram m tiilo diferentes.
N o b re de gen ealog ia e u ro p é ia , John D alberg, b a rã o A clon, foi
ed u c a d o co m o católico sob a direção d o h isto ria d o r liberal Ignaz
von D ollinger e, cm ú ltim a instância, tornou-se p ro fe sso r régio de
H istó ria em C a m b rid g e . H u m a n ista católico, ele c o m b a te u o
absolutism o papal (q u e foi d e c la ra d o “infalível” pela Santa Sé em
1870) e c o n d e n o u o “m o d e rn o confessionalism o" ju n ta m e n te com
o n a c io n a lism o , u m a te n d ê n c ia iliberal. Mas, c o m o b u rk ia n o ,
c o m b in o u religião, lib e rd a d e e trad ição . Seu a n tin a c io n a lis m o
levou-o a su ste n ta r o federalism o; olh o u n o stalg icam en te p a ra a
Igreja m edieval co m o o b a lu a rte da lib e rd a d e n o m u n d o feudal.
Mas e n q u a n to p a ra o u tro s h isto ria d o re s liberais o federalism o era
a p r ó p r ia g aran tia d e u m a participação política co m o a da polis, o
fed erâlism o d e A cto n foi id e alln en te 'dirigido p a ra uijn p ro p ó sito
m uito diferente; pois devia ser utn obstáculo à dem ocracia m ediante
u m a m ultiplicação whig d e ce n tro s d e p o d e r.'1
Liberalismos cotiservadores 115

Liberais conservadores evolucionislas:


liagchol c Spcnccr

N em Iodas as desconfianças so b re a d e m o c ra c ia e ra m burkianas.


As d écad as d e 1860 e 1870 te s te m u n h a ra m ta m b é m o u tr a espécie
d e liberalism o co nserv ado r: a espécie utilitária. Tal e ra a posição
d e W a lte r B a g e h o t (1 8 2 6 -1 8 7 7 ), u m b a n q u e ir o , e c o n o m ista ,
jo rn a lista e teórico político q u e ed ito u The. Eeonomüt d e sd e 1861 até
m o r r e r . B a g e h o t v in h a d e u m a fam ília b a n c á ria provincial não-
con(orm isl;i, c foi e d u c a d o no University College hen tliainita de
L o n d res. Km seu livro The English Covslüution (1867), e x prim iu
receios d e que, com a p ró x im a e x ten são da franq u ia (q u e efetiva­
m e n te se m aterializou cm 1867 e I<SS-i), am b o s os partid os, co n ­
se rv a d o r e liberal, lu tariam pelo a p oio dos tra b a lh a d o re s — algo
q u e Bagehot: encarav a co m o u m “p e rig o ” p a ra a lib erd ade.
C o m o M aine, B agehot c o lo c o u a e vo lução social c o n tr a o
p ro g re ss o dem o crático . Ele dividiu sua leald a d e e n tr e inovação e
estabilidade, r e c o rre n d o ao d arw inism o social p a ia frear a d e m o ­
cracia. A e sta b ilid a d e , disse ele sem ro d e io s, apoiava-se n u m ?
im e n s u rá v e l estu p id ez; n u m c o n ju n to d e h á b ito s f o r m a d o p o r
práticas sociais se d im e n ta d a s p o r fo rça d o e s tra n h o p restígio de
instituições, p a r a o u tro s efeitos inúteis, co m o a m o n a r q u ia o u os
L o rd e s (as p a rte s “dignificadas” e m c o n tra p o siç ã o às p artes “efi­
c ien tes” d a constituição). P o r q u e m otivo, n a v erd ad e, p e r g u n to u
ele, deviam “u m a viúva isolada e u m jo v e m d e s e m p r e g a d o ” (a sa­
b e r, a ra in h a V itória e o p rín c ip e d e Gales) a tra ir ta n ta atenção?
Se o faziam era p o rq u e a Inglaterra “não podia ser g o v e rn a d a ” sem
o efeito estupidificante da coroa. Igualm ente, as classes governantes
p o d ia m p e r m a n e c e r n o to p o m e d ia n te astuciosas práticas eleito­
rais, m a n ip u la n d o os aspectos dignificados da o rd e m política para
co n se g u ir resp e ito aos p o d e re s e m vigor. Em Physics and Polilirs
(1872) B a g e h o t co n feriu a esse m aquiavelism o cético u m a torção
darwinista: ele re p re se n to u o êxito social e nacional co m o exem plos
/ /<> O liberalismo - antigo e moderno

d a “sobrevivência d o mais cap az” e a p o io u a fu n ç ã o social d a fo r­


ça ju n to à fra u d e institucional.
Essa espécie d e liberalism o utilitário c o n se rv a d o r d e fala fra n ­
ca torn o u -se u m ta n to m alig na n a o b r a d o ju iz J a m e s F it/jam cs
S te p h e n (1829-1894), irm ã o m ais velho d e Leslie S te p h e n e tio de
V irginia W oolf. G ra n d e c o d ificad or d a lei pen al, S te p h e n receb eu
u m a educação igual à d e Mill em C am b rid ge, e m b e b e n d o a Logic
e os Princípios de economia política d e Mill. Mas im pacientou-se com
o ta rd io m o ra lism o d e Mill e n ã o gostava d a se n tim e n ta lid a d e
vitoriana, d e p lo ra n d o q u e o h o m e m estava-se to r n a n d o cada: vez
“mais sensível c m en os am b ic io so ”. Alguns d e seus obiter dicta. siio
boas m áxim as de á sp e ro individualism o, c o m o "N ão é a m o r q u e
desejam os da g rand e massa da h u m an idad e, mas respeito e justiçít”.
Mas, ai d e nós!, ele p e n d e u dem asiado para o o u tro lado. Seu ensaio
! |
c o n tra Mill, Liberty, lufvnlityl Fralem üy (1873), z o m b o u d e t.od:is;as
três coisas, a firm a n d o q u e i força, e n ã o a lib e rd a d e , g o v e rn a a
vida social: os h o m e n s d ev em se r coagidos a se re m h o n e sto s p o r
castigos legais d a espécie m ais d u ra. S te p h e n criticou Mill p o r te r
u m a visão dem asiad o favorável d a n a tu re z a h u m a n a . Mas a re p re
sen tação alternativa bestial Jde S te p h e n foi m e n o s u m a p ro fu n d a ­
m e n to d o q u e u m a p ato lo g ia d o liberalism o. D epois d e algum as
ca m p a n h a s apaixo n ad as em! favor d e açoites nas escolas e, é cl iro ,
a p e n a d e m orte, o ju iz S te p h e n (que p a ra d o x a lm e n te e ra u m te rito
indu lgen te no tribunal) te rm in o u seus dias n u m hospital de d oentes
m entais — u m a glosa a p r o p r ia d a d o deseq uilíb rio q u e estava tr ins-
f o rm a n d o o u tilitarism o d e u m estad o d e espírito lib e rta d o r |m
e stad o d e espírito punitivo.®
A posição co n se rv a d o ra liberal d e lon g e mais influ e n te n o fim
d o sécu lo foi a rtic u la d a p e lo p ai d o e v o lu c io n ism o c o m o ri
ideologia geral, H e rb e rt S p e n c e r (1820-1903). S p e n c c r nasced no
D erby industrial, n u m lar wesleyano, e seguiu e n tã o a e n gen haria.
T o rn o u -s e u m c o la b o r a d o r d o The Economist. T o d a a su a vida,
apegou-se te n a z m e n te a u m a idéia m inim alista d o E stado e u m a
Liberalismos conservadores 117

fo r m a m ax im alista d e liberism o. T a m b é m e ra u m individualista


e x tre m o e u m v e rd a d e iro h e r d e ir o d o d e sp re z o b e n th a m ita p elo
privilégio aristocrático e p e la h ie ra rq u ia espiritual. C o n tu d o , h o u ­
ve p e lo m e n o s d u a s fases n o c a m in h o q u e S p e n c e r seg u iu p a r a
ju stific a r seu individualism o, seu an tiestatism o, e seu liberism o.
O livro d o jo v e m S p e n c e r Social Slalistics (1850) revela u m a
teoria d e direitos n aturais extraída d e William G odw in (1756-1836),
a u to r d e PolilicalJíislice (1793). G od w in é g e ra lm e n te tido n a c o n ta
d e pai d o a n a rq u is m o inglês e, c o m o pai d e M ary Shelley, avô de
E ra n k e n sle in ; seu p o n to d e p a r tid a foi o p r o to - a n a r q u is m o d e
T h o m a s Paine, para q u e m a so cied ad e era um bem , ma.s o g ov ern o
u m inal. A d o u tr in a d os d ire ito s n a tu ra is foi p o sta d e la d o p o r
B en th am (“tolices com base ein n a d a ”), mas S p e n c e r fo rm u lo u três
objeções c o n tr a o utililarism o.
Em p r im e ir o lugar, S p e n c e r a c re d ita v a q u e o “cálculo d a
p r o p o r ç ã o d a felicidade”, a aferição d a felicidade geral d o m aio r
n ú m e r o , e ra u m a ta re fa im possível. E m s e g u n d o lugar, re je ito u
firm e m e n te o re fo rm ism o b e n th a m ita , j á q u e significava u m c o n ­
ju n t o d e m u d a n ç a s estatais (legais e gov ern am entais). E m terceiro
lugar, a firm o u a p reex istên cia d e direitos, e m vez d e insistir, co m o
fizera B e n th a m , em q u e os direitos são criados pela lei. U san d o
estas p re s s u p o siç õ e s, o jo v e m S p e n c e r e x traiu d e u m a “lei de
lib e rd a d e ig u al” a p r o p r ie d a d e p riv ad a e o laíssez-faíre, o sufrágio
universal, e u m “d ire ito d e ig n o r a r o E s ta d o ” — no fu n d o , u m
direito individualista d e retirar-se, tonto mais razoável p o rq u e , com o
disse ele, “n a m e d id a em q u e p ro g rid e a civilização, os go vernos
d e c a e m ”.;
A os olho s d e S p en cer, a ú n ic a fu n ção dos g ov ern o s é a defesa
dos cidad ão s c o n tra agressores, ta n to estrang eiro s co m o d om ésti­
cos. Mas q u a n d o e x a m in o u a legislação liberal d e p o is d e 1860,
S p e n c e r a c h o u q u e o go v ern o, d e q u a lq u e r form a, n ã o se tinha
c o n fin a d o a essa fu n ç ã o legítim a. P a tro c in a n d o a p r o m o ç ã o d o
b em -estar p o r m eio d a legislação industrial e m uitas outras m edidas
11S O liberalismo - antigo e, moderno

filantrópicas, os liberais haviam p e rd id o d e vista a posição tradi­


cional d o liberalism o c o n tra a coação. A revelação dessa trajçáo
liberal fo rm a o c e rn e d o livíro The M an versus the State, o best-s^íler
d e S p e n c e r d e 1884. !
N a op inião d e S pencer, a am pliação da legislação d e bem-est;ar
— “u m excesso d e legislação”, co m o afirm o u n u m ensaio do íjinal
d a d é c a d a d e 1860 — só p o d ia levar ao d esp otism o . “E m bo ra já não
te n h a m o s idéia d e coagir os h o m e n s p a ra o seu b e m espirili^al",
escreveu ele, “ain d a nos ju lg a m o s ch am ad o s a coagi-los p a ra ojseu
b e m material." A b o rre c id o pela aquisição d e casas p a ra a m unici­
p alid ad e e pela p ro p rie d a d e estatal d e ferrovias, S p e n c e r d e p lo ro u
e m voz alta a perspectiva d e “u su rp a ç ã o pelo E sta d o ” d e to d as as
indústrias, que, em sua op in ião, am eaçava “s u s p e n d e r o processo
d e a d a p ta ç ã o ” e seu resultad o , a seleção natural. Além disso, o
c rescim en to d o E stado acarretav a b urocracia, e a bu ro c ra c ia era
p a r a ele algo d e in trin se c a m e n te c o rru p to . P o r o u tro lado, o esta-
tism o d o bem -estar ta m b é m era im oral. A fé m o d e r n a n o go v ern o
n ã o passava de “u m a fo rm a sutil d e fetichism o”.0
D o lado d a razão, p o r c o n tra ste , en con trav a-se a evolução,
“a disciplina b e n e fic e n te e m b o ra severa” a q u e estava sujeita toda
a vida, e q u e fu n cio n a m e d ia n te o d u r o m é to d o d a sobrevivência
dos m ais aptos. C o m o m uitas vezes foi o bservado, a leoria social
de S p e n c e r to rceu o d a rw in ism o p o rq u e a firm o u m e n o s q u e o
conflito evolucionário o c o rre u na so cied ade c o m o o c o rre na n a tu ­
reza do q u e devia f u n c io n a r p a ra q u e a civilização p rog redisse.
N u m a história d e idéias liberais, n o e n ta n to , o im p o rta n te é que,
n a m e d id a em q u e ele a d e r iu in te ir a m e n te ao ev o lu cio n ism o ,
a b a n d o n o u sua p rim e ira p re o c u p a ç ã o igualitária co m a lib e rd a d e
geral e o sufrágio universal. Passou a ser u m crítico severo d o go­
verno m ajoritário; ch am o u a crença em m aiorias p a rla m e n ta re s de
a m a io r superstição política d a época; e d e clarou que, no futuro, a
função d o v e rd ad eiro liberalism o seria “im p o r um lim ite ao p o d e r
d o P a rla m e n to ”.
Liberalísmos conservadores 119

Assim, q u a n d o o darw inism o social prevaleceu co m p le ta m e n te


sobre sua prim itiva teoria d e direitos, S p en cer alcançou u m a espécie
d e u tilitarism o social. M as esse u tilitarism o social resu lto u, n o seu
caso, p re c isa m e n te n o o p o s to d a v a rie d a d e b e n th a m ita : u m a des­
c o n fian ça d a d e m o c ra c ia rep resen tativ a. N o final d o século, em
to d a p a r te e m q u e se sen tiu a e x te n sa influên cia d e S p e n c e r, o
liberisrno e o liberalism o fo ra m vistos c o m o coisas c o n trá ria s à
d e m o cracia. Dos g ra n d e s m ag n atas c o m o J o h n D. R ock cfeller e
A n d r e w C a rn e g ie aos in te le c tu a is lib erais n a E u r o p a e nas
A m éricas, o co n ceito d e evolução, com a sobrevivência do s mais
aptos, foi c itado in finitam en te. M uitos o u tro s, d e p o e ta s vitoria­
n o s a po p u listas russos, n ã o o b sta n te , p u s e ra m a idéia e m dúvida.
Um dos pais d a sociologia am erican a, Willinm (iralm in S u m m e r
(1840-1910), da U niversidade d e Yale, d eclaro u c e le b re m e n te que,
a d esp eito d e to d a a sua d ureza, a lei d a sobrevivência d o m ais apto
n ã o e ra o b r a d o h o m e m e, p o r ta n to , n ã o p o d ia se r a b -ro g ad a pelo
hom em .

0 liberalism o construtor de nações: Sarm iento e Alberdi

O liberalism o c o n se rv a d o r — a fuga d a d e m o c ra c ia — ta m b é m es­


lava no espírito d e m uitos liberais latino am erican o s da época. Mas
ta m b é m q u a s e p o d ia to rn a r-se c o n s e rv a d o ris m o liberal. Essa
o p ç ã o foi m a is c o n s p íc u a n o c o n tr a s te e n tr e d ois a rg e n tin o s,
D om in g o s S a rm ie n to (1 8 1 1 -1 8 88 ) e j u a n B autista A lb erd i (1810—
1884). A m b o s e ra m liberais n a d é c a d a d e 1840, p o r q u e se o p u se ­
ra m à lo n g a d ita d u ra d o c a ud ilh o J u a n M an u el d e Rosas, q u e foi
d e p o s to em 1852.
O g ra n d e livro de S arm ien to Famvflo, t:wilim(no on bnrbnrw, de
1845, igualou a au to c ra c ia católica d e Rosas com o ru ralism o, e a
lib e rd a d e com a civilização u rb a n a . Fam ndo a p re se n to u a situação
arg e n tin a c o m o um d ra m a em alos, com a violência d o barbaris-
120 0 liberalis7tio - anligo e moderno

1110 agrário irro m p e n d o n u m a id ade de refin am en to e d e pro g resso


citadino. C o m o exilado n o Chile, n o e n ta n to , S a n n ie n to estava
longe d e apoiai' os liberais locais: em seu jornal, El Progreso, ele
elogiou o a u to rita rism o esclarecido d o regim e d e Santiago, fu n d a ­
d o p o r D iego Portales, e salientou a n ecessidade d e u m g ov ern o
forte e estável. D eixando d e la d o a tradicional p re o c u p a ç ã o liberal
com pesos e con trap eso s, S a rm ie n to a d m iro u a fusão m ajoritária
<lo executivo e d o legislativo n o go v ern o de A ndrew |a< kson. I liua
viagem à E u ro p a e o fracasso d e 1848 eo nv enceram -n o d e q u e a
d em o cracia n ã o era viável em países m u ito iletrados.
Mas a d e c e p ç ã o com a E u ro p a resu lto u em mais d o qu e isso.
D epois d e 1848, co m o H erzen , S a rm ie n to m u d o u seu m o d e lo p o ­
lítico. D e sc o b rin d o a p o b re z a u r b a n a e a riq u eza ru ra l n a E u ro p a
industrial, S a rm ie n to suavizou sua d ico to m ia cidade-cam po e e m ­
b a rc o u n u m a d e sc o b e rta tocquevilliana d a A m érica do N o rte. Di­
fe re n te m e n te d e Tocqueville, n o e n ta n to , S a rm ie n to a c h o u q u e os
Estados U n id o s e ra m u m a d e m o c ra c ia (no se n tid o social) m as não
u m a rep úb lica — um a vigorosa civilização fu n d a d a n o m e rc a d o e
n a escola.7 S a rm ie n to to rn o u -se g r a n d e am ig o d o p e d a g o g o d a
Nova In g la te rra H o ra c e M an n (1796-1859). A ú n ica m a n e ira de
su p erar a b arb árie, p ensou, consistia e m co n stru ir a igualdade, pois
a igu aldad e n ã o e ra ta n to o fru to c o m o a c on d ição d o p ro g resso .
A sua re c e ita so cio po lítica to rn o u -se a s o c ie d a d e d o m ic ilia r d a
fro n te ira e m vez de ser a re d e d e cidades históricas. P ro p rie d a d e
a m p la m e n te d istrib u íd a , cscohts o n ip re s e n te s , e c o m u n id a d e s
u rb an o -ru rais deviam p r o p o r c io n a r a co lu n a dorsal d a libe rd a d e
e d a civilização.
À m o d a d e Tocqueville, S arm iento qu e ria injetar virtud e cíviça
n a repú b lic a m o d e rn a . Foi p o r isso q u e ele co g ito u em c o n c e d e r
fran qu ia a im igrantes — os ag en tes naturais, a seus olhos, d o p r o ­
gresso n a civilização d os P am p as a rg e n tin o s. Mais ta rd e n o século,
d epois d e seu p r ó p r io m a n d a to presidencial, vitorioso m as a m a r­
go (1 868-1874), ele c o m p re e n d e u q u e as elites in d ígen as haviam:
Liberalismos conservadores 121

retido u m a h e g e m o n ia oligárquica e q u e o trab alho estran geiro n ã o


a d q u irira q u a lq u e r cidad an ia. A ceitou e n tã o o p rin c íp io d e u m
sistem a p a tríc io d irig id o p o r criollos p r o e m in e n te s e im ig ran tes
p ro p rie tá rio s, até o m o m e n to em q u e a ed u c a ç ã o central, seu a n i­
m o civilizador fav orito, a m p liasse a b a se social d a re p ú b lic a .
S a rm ie n to n u n c a prev iu que, q u a n d o a p ro s p e rid a d e e a in stru ç ã o
alcançassem as crianças filhas d e im igrantes, co m o o c o rre u m u ito
ced o 110 século seguinte, elas ingressariam em política m im c e n á ­
rio social f o rte m e n te diverso da d e m o cracia d o m éstica d e q u e ele
tan to g o stara nos Estados U nidos. À quela altura, d e q u a lq u e r for­
m a, a m a io r p re o c u p a ç ã o dc S a rm ie n to pa re c ia ter-se desviado d a
v irtu d e cívica p a r a a m a n u te n ç ã o d a o rd e m . O h o m e m q u e se fez
p a rtid á rio d e B e n ja m in Frank lin tornara-se u m a d m ir a d o r d a críti­
ca d e n e g r id o r a d e T a in e à R evolução F rancesa. O h o m e m q u e
so nh av a c o m a d e m o c ra c ia te rm in o u u m v e rd a d e iro liberal c o n ­
servador, c o lo c a n d o a a u to rid a d e tão alto co m o a lib e rd a d e cívica,
tão p ró x im a d e B a g e h o t q u a n to d e Tocqueville.
O o u tr o pai f u n d a d o r d o liberalism o a rg e n tin o , A lberdi, n u n ­
ca su c u m b iu a ilusões dem ocráticas. C ritic o u a pre g a ç ã o p e d a g ó ­
gica de S a rm ie n to c o m o sim p lesm en te u m a nova fo rm a d e d o m í­
nio colonial dos eruditos, a velha tentativa eclesiástica d e a rre b a n h a r
o p ov o sob u m a d ire ç ã o m o ra l vinda d e cima. A lb erd i in te r p r e to u
o b a rb a rism o ru ra l co m o o re sse n tim e n to das velhas elites d eslo ­
cadas pelo declínio d a e c o n o m ia colonial e q u e re c o rria m , em d e ­
sesp ero d e causa, ao m ilitarism o oligárquico. A cim a d e tu d o , ele
fustigou a a d o ra ç ã o livresca de S a rm ie n to d a e d ucação c o m o u m a
so lu ção nacional. S a rm ie n to , iro n izo u A lberdi, q u e ria livrar-se das
c o n seq üên cias d a p o b re z a antes d e p ô r te rm o à p r ó p r ia pobreza.
N ão e ra a esco larid ade, disse A lberdi, m as u m a ed u c a ç ã o objetiva
n as artes d o p ro g re ss o , a p rá tic a q u o tid ia n a d a vida civilizada, qu e
salvaria a A rg e n tin a d o atraso e d a d e so rd e m .
C o m o S a rm ie n to , A lberdi ficou im p re ssio n a d o c o m a realiza­
ção am ericana. Mas e m vez d e seguir T ocqueville, ele p re sto u mais
122 O liberalismo - antigo e moderno

aten ção a M ichel Chevalier (1806-1879), o saint-sim oniano liberista


q u e adiv in h o u e avaliou o fu tu ro in d ustrial dos Estados U nidos.
A lberdi sen tia fo rte aversão pela re tó ric a liberal. Ridicularizava as
rev o lu ções.latin o-am erican as p o r se u “caligrafism o”, su a a titu d e
im itativa co m relação a idéias e prin cípio s e u ro p e u s inaplicáveis à
A m érica d o Sul, u m a so c ie d a d e e m q u e a I n d e p e n d ê n c ia hiivia
co n ceb id o u m casam en to d e sa stra d o e n tre o p ro g re sso d o século
e u m a h e ra n ç a hispânica atrasad a.8
C o m o N atalio B o tan a m o s tro u in te lig e n te m e n te , A lb erd i es­
tava a d a p ta n d o B urke à to a d a d a im igração. S e g u n d o ele, a única
m a n e ira d e d e te r o caligraíi$ino e e rra d ic a r ta n to a p o b re z a ccJmo
a violência consistia n a Iravlplanlação das cu ltu ras eu ro p é ia s a c e r­
tadas p a ra a A rg e n tin a . “G o v e rn a r é p o v o a r ”, escreveu em jstfu
p ro g ra m a p a r a a constituiçãp pós-Rosas de 1853, as Bases e ponlps
de partida para a organização política da República argentina. D ado ujn
a m b ie n te social e m o ra l a p r o p r ia d o — u m a idéia m u ito m ontes-
q u ie u n ia n a —, a repú b lica p ro sp e ra ria . D ife re n te m e n te d o apelo
dc S a rm ie n to à virtude cívica, A lb erd i n ã o se p re o c u p a v a co m !a
legitim idade d e c o n te ú d o , m as c o m a leg itim id ade d e am bientí;:
q u e se e n x e rta sse n a A rg e n tin a o c o n te x to social a p r o p r ia d o , e
adviria o p ro g re sso .9 \
E q u a n to à liberdade? I lá dois tipos d e liberdade, disse Alberdi,
u m a e x te rn a e o u tr a internai A lib e rd a d e e x te rn a resid e n a in d e ­
p e n d ê n c ia nacional. A lib e rd a d e in te r n a consiste n a in d e p e n d ê n ­
cia pessoal e n o dire ito d e e sc o lh e r os p ró p rio s go v e rn a n te s. O
g ra n d e p r o b le m a da política pós-colonial d a A m érica d o Sul é a
sua in cap acid ad e d e discern ir q u e o b o m m é to d o p a ra c o n q u ista r
e m a n te r a lib e rd a d e e x te rn a é in e p to q u a n d o se tra ta d a criação
d e lib e rd a d e in tern a. Esse m é to d o , a q u e re c o r r e r a m os libeijta-
d ores, e ra a e spada. Seus h e rd e iro s espirituais, os caudilhos, agiàm
com o libertadores arm ados depois d e conquistada a independência,
c o que resultava era falta de lib e rd a d e n o in te rio r d r suas fro n ­
teiras. A lberdi re c o m e n d o u um m é to d o alternativo, a p ro d u ç ã o
Liberalismos conservadores 123

capitalista: “Só os países ricos são livres, e só os países o n d e o tra­


b a lh o é livre são ricos.”10 B o m leitor d e M o n te sq u ie u e C o n sta n t,
A lb e rd i p re fe ria o co m é rc io à conquista.
S eu libe ra lism o foi p rin c ip a lm e n te u m a rejeição d o E stad o
p atrim o n ia l. O rei d a E sp a n h a p o ssu íra to d a a te rra n a A m é ric a
d o N o rte , a n te s m e sm o q u e fosse d esc o b e rta , m as o solo e ra res
nullius, te r r a d e n in g u é m , d isp o n ív el p a r a q u e m q u e r q u e a
ocu passe e n e la trabalhasse. A lberd i im p u g n o u essa n o ç ã o “polí­
tica”, estatista-patrimonialista d a p ro p rie d a d e , d e aco rd o co m a qual
s e r rico consistia em te r u m a concessão d a c o ro a o u d e seus su­
cessores. Q u e ria substituí-la — ta n to e m m e n ta lid a d e social c o m o
em d ireito — p o r u m a c o n c e p ç ã o lo ck ian a d e p ro p r ie d a d e co m o
u m d ire ito n atu ral, b r o ta n d o antes d o la b o r individual d o q u e do
favor d a corte.
A crítica d e A lb e rd i ao p a trim o nialism o, ju n t a m e n te co m seu
co n ceito d e “d u as lib e rd a d e s”, fig u ro u n u m a “p a le s tra ” d a d a p o r
u m a p e rso n a g e m fictícia, Luz d o Dia, e m seu ro m a n c e d e 1871
Peregrinación de L u z dei D ia en América, s u b in titu la d o “V iagens e
a v en turas d a v e rd a d e n o N ovo M u n d o ” — n a realidade, u m a críti­
ca a c e rb a à p re sid ê n c ia d e S arm iento . C o m o se p o d ia e s p e ra r de
u m a posição tão “lo c k ia n a ”, A lberdi atrib u iu g ra n d e valor à socie­
d a d e civil. C o m efeito, B o ta n a a c erta ao d izer q u e a p rim e ira re ­
g ra d a le g itim id a d e a lb e r d ia n a é q u e a so c ie d a d e civil é m ais
im p o rta n te q u e o E stado — algo q u e u m h o m e m d e m e n ta lid a d e
cívica co m o S a rm ie n to n ã o eng o liria facilm en te. A lb e rd i q u e ria
p o v o a r a A r g e n tin a c o m im ig ra n te s d e s p ro v id o s d e d ire ito s
políticos. Devia se r m u ito a b e rta a lib e rd a d e civil, p en so u , m as al­
ta m e n te re strita a lib e rd a d e política. E m g ra n d e m ed id a, A lb erdi
foi m e n o s o le gislado r d e 1853 d o q u e o m e n to r d o p ro g re sso n ã o
d e m o c rá tic o fin-de-siècle nos Pam pas.
N o c e rn e da c o n te n d a d e A lberdi co m S a rm ie n to eslava a
dife re n ç a em seus m o d elo s sociopolílicos d e p o is d e m e a d o s do
século. C o m o vim os, a p ó s 1848 S a r m ie n to a d e riu ao m o d e lo
124 0 liberalismo - antigo e moclemo

am erican o. A lberdi, e m con traste, encontrava-se sob o e n c a n to do


|
S e g u n d o Im p é rio francês e d e seu progressivism o iliberal. Aceitava
— e m e sm o q u e ria — a política a uto ritária, d e sd e q u e tro u x esse u m
advism o e c o n ô m ic o d e sim p e d id o . F o rçad o a e sc o lh e r e n tre liber­
d a d e e p ro g re sso , diz M ariano G r o n d o n a , A lb e rd i o p ta ria pelo
p rog resso , pois igualava a p rim e ira co m o s e g u n d o ." É esse o r o ­
teiro clássico d o co n serv ad o rism o liberal, ou, talvez se deva dizer,
d o conservadorism o liberista, te n ta n d o resistir à m a ré dem ocrática.
N o c o n ju n to , A lberdi e m e rg iu c o m o u m a esp écie d e saint-
sim o n ia n o b u rk ia n o : u m elitista co n stitu c io n a l, d o ta d o d e u m a
consciência a g u d a das raízes da a u to rid a d e , e c o n tu d o p r o f u n d a ­
m e n te e n a m o ra d o d o pro g re sso e c o n ô m ic o n a id a d e d a in d u stria ­
lização. Pois, co m o Macaulay e M aine, A lberdi n ã o e ra u m verda­
d e iro co nserv ad o r: n ã o havia e m seu co ração a m o r ao passado,
n e n h u m ro m an tism o organicista, n e n h u m a reverência p ela religião
estabelecida. Político au to ritá rio e social-conservador, A lberdi era
in te ira m e n te isento de co n se rv a d o rism o cultural. Mas, ao p re g a r
o centralism o, A lberdi e n treg av a reféns ao fu tu ro . Pois q u a n d o as
m assas im ig ra n te s se to r n a r a m le tra d a s (n u m triu n fo ta rd io da
u to p ia p ed a g ó g ic a de S arm ien to ), a sua d e m a n d a d e cid a d a n ia e
resistência patríc ia d e u o rig e m a u m c onflito d e facções d e n a tu r e ­
za c o n c e n tra d a — e x a ta m e n te aquilo q u e a estratég ia m a d iso n ia n a
e m p r o l d e u m a rep ú b lic a fe d e ra l p r o c u r o u p r e v e n i r .12 Infeliz­
m e n te , a re ssu n ç ã o d a grave lu ta p olítica d e p o is d o co lap so d a
“o rd e m c o n se rv a d o ra ”, em 1916, te n d e u a re p ro d u z ir o conflito
c ru e n to , faccional — com a exceção d e qu e, desta feita, os an ta g o ­
nistas c ia m antes lo ira s sociais mais <lo qu e re g io n a is.1'
Para c o m p r e e n d e r este longo processo d e d ecad ência política
n u m país q u e era um a das terras p ro m e tid a s d e I!)()() e HKM), d e­
vem os voltar-nos pa ra a e n c ru z ilh a d a s a r m ie n tia n a /a lb e r d ia n a .
A lberdi q u e ria n e g a r a c id ad ania a suas futuras m assas im igrantes,
se n d o estas ob rigadas a re te r sua nacio n a lid a d e (em sua m aioria,
italiana). N a A rgentina, país e m q u e a p o rc e n ta g e m e stran g eira era
Liberalismos conservadores 125

m u ito m a io r q u e n os E stados U n id o s, os im igran tes n ã o e r a m co-


n acio nais, e n ã o gozavam d e fra n q u ia s políticas. N u m país a m ­
p la m e n te d e sp ro v id o d a e s tru tu ra institucion al liberal dos países
anglo-saxões, os im ig ra n te s n ã o -c id a d ã o s q u e e n c h e r a m o país
in q u ie ta ra m m u ito a b u rg u e sia nativa. A é p o c a d e re fo rm a liberal,
sob os “radicais” d e Irigoyen (19 16-1930), e ste n d e u as fra n q u ia s
políticas, m as d e ix o u a m assa d a classe tra b a lh a d o ra d e s p id a de
r e p re se n ta ç ã o política — e, p o rta n to , suscetível d e m obilização d e ­
m agó g ica p e la e s q u e rd a fascista d e P e ró n .
P o r volta d o fim d a S e g u n d a G u e r r a M undial h o u v e u m a q u e ­
b r a d e c o ra g e m e n tr e as oligarquias e x p o rta d o ra s . Estas haviam
g o v e rn a d o n ã o d e m o c ra tic a m e n te d e sd e a D ep ressão d e 1930, e
j á n ã o as g a ra n tia u m m e rc a d o p r o te g id o n a G rã-B retanha. As eli­
tes locais to rn a ra m -se te m e ro sa s d a lu ta d e classes. P o r o u tr o lado,
n a A rg e n tin a , o tra b a lh o p o ssu ía u m a fo rç a d e u n iã o de Jacto,
m e sm o an tes d e P e ró n , q u e n a d a tin h a d e se m e lh a n te seja n o B ra­
sil, seja n o México. O c e n á rio re su lta n te incluiu ta n to u m reg resso
ao p ro te c io n ism o d u r a n te o go v ern o d e P e ró n (desta feita, c o n ­
tenção in d ustrial e co rpo rativ ista d a classe tra b a lh a d o ra ) c o m o u m
p o d e r d e veto investido nos sindicatos m u ito d epois d a p rim e ira
q u e d a d o p e ro n is m o (1955). E m b o ra incapaz d e go v ern ar, o o p e ­
rário era capaz d e im p e d ir o u tras classes d e im p le m e n ta r refo rm as
e co n ôm icas. O m e d ita d o e s tu d o d e C arlos W aism an Reversal o f
Development in A rgentina explica a m e c â n ic a d essa e s ta g n a ç ã o
m u tilan te, q u e con stitu i a g o ra o m a io r desafio d a d e m o c ra c ia pós-
p r r lo r in n a .1.'1
Kmbora fosse rad icalm en te nao ( icn u íico lançar Ioda a culpa
lias p o rtas d a ideologia, p arece m u ito óbvio que- um n ú m e r o de
o p ç õ e s estratég icas p ra tic a d a s há um sécu lo p o r u m p a tric ia d o
liberista m as iliberal c o n d e n o u d e a n te m ã o to d a a c u ltu ra política.
De u m a f o r m a b a s ta n te in teressante, as instituições liberais têm
falhado p o r m u ito te m p o n a A rgentina, n ã o p o rq u e o E stado é forte
(e m b o ra o eslalismo o te n h a sido), m as p o r q u e , nas palavras d o
126 O liberalismo - antigo e moderno

cientista p o lítico G u illerm o 0 ’D onnell, as forças sociais têm “colo­


n iz a d o ” a ação d o E stado e m vez d e p e r m itir q u e f u n c io n e u m
m ín im o d e c o n tra to social.’5

O segundo liberalismo francês: de R ém u sa t a R e n a n

N esse m e io te m p o , o liberalism o francês p e rm a n e c e u p ro fu n d a ­


m e n te histórico p o r q u e foi, an tes d e mais nada, u m diálogo co m os
fan tasm as d a R evolução Francesa. Õ s liberais franceses so rria m
d ia n te d e 1789 e rosnavam d ia n te d e 1793 — b end iziam a co n qu is­
ta d a igu ald ad e civil, m as am aldiçoavam o T e r r o r ja c o b in o , co m o
u m r e to r n o ao d e sp o tism o e u m a a m eaça velada à p ro p rie d a d e .
N a esteira d a R evolução d e fevereiro d e 1848 e da su b se q ü e n te
g u in a d a p a r a o go v ern o b u rg u ê s au to ritá rio , a in te rp re ta ç ã o libe­
ral de 1 7 8 9-1 7 94 tornou-se nacio nal po p u lista nas pág in as e x u b e ­
rantes d a História da revolução: da queda da Bastilha à festa defederação
(1847-1853). O p o s ito r d o S e g u n d o Im pério , M ichelet (1798-1874)
lu to u e m d u as fren tes e m suas obras. O seu p o p u lism o colocou-o
c o n tra anglófilos co m o Guizot, q u e re p re se n ta v a m a plu to cracia
orleanista. Mas o seu liberalism o e n tr o u em c h o q u e co m socialis­
tas n e o ja c o b in o s co m o Louis Blanc (1811-1882), u m líd er d a es­
q u e rd a e m 1848. A nova o n d a d e ideólogos liberais q u e ating iram
a id ad e intelectual d epois d e 1848 n ã o seguiu e x a ta m e n te o libera­
lismo d e e sq u e rd a d e M ichelet, m as ta m p o u c o p e rm a n e c e u sim­
p le sm e n te nas posições whiggish d a m aio ria d e seus predecesso res.
A evolução p o d e se r m e d id a p o r u m relance n o m ais jo v e m
“doctrinaire”, C harles de R é m u sa t (1797-1875). P o r volta d o fim da
R estauração, u m a voz in flu e n te n o j o r n a l liberal saint-sim oniano
d e P ierre L ero u x, Le Globe, R é m u sa t n ã o elogiou n e m o A n t go
Regim e n e m a R evolução. N-<ji ép oca, a té m e sm o C o n s ta n t parecia-
lhe de m a sia d o c o n d e s c e n d e n te p a r a c o m o Ilu m in ism o e, p o r ta n ­
to, d e p o u c a valia p a r a com i g e ra ç ã o m o d e r n a e suas tendências
Libeiuliòtnos conservadutes

espiritualistas e ro m â n tic a s. E m to d o o d e c o r r e r d o re in a d o de
Luís Filipe (1 8 3 0 -1 8 4 8 ), R é m u s a t te n to u fazer co m q u e seu ex-
c o m p a n h e iro o “doclrinaire" G u izot liberalizasse a política d o “rei
b tu g u é.s”. M;i.s falh o u, c a p ro x im o u .we d r seu A d o lp h e
T h iers (17 0 7-1 87 7 ), h isto ria d o r liberal d a Revolução e principal
rival d e G uizot. E m 1840, c o m o m in is tro d o g a b in e te d e c u r ta
d u ra ç ã o d e T hiers, ele d e u o rd e n s p a r a o a p risio n a m e n to d o in­
q u ie to so b rin h o d e N ap o leão , Luís N ap o leão , q u e havia te n la d o
e n c e n a r u m golpe.
D epois q u e T h iers, p o r sua vez, lo g ro u p ô r abaixo Luís Filipe
e G u izo t e m 1848, R é m u sa t lid e ro u u m a m u d a n ç a id eológica im ­
p o rta n te . Pela p r im e ira vez e n tre os liberais franceses, ele ace ito u
o p rin c íp io re p u b lic a n o c o m o u m a f o r m a h istórica d e s o b e ra n ia
nacional. Afinal d e contas, a r g u m e n to u ele, o g o v e rn o re p r e s e n ­
tativo responsável e ra o q u e mais convinha, seja qual fosse a sua
(p referiv elm en te) v estim en ta m o n á rq u ic a . Assim a rep ú blica, com
o seu potencial d em ocrático, tornou-se aceitável à principal c o rre n te
d o liberalism o o rle a n ista n a França. Isso in iciou u m desenvolvi­
m e n to q u e te r m in o u n a dissociação d a re p ú b lic a d o iliberalism o
ja c o b in o . R é m u s a t foi u m a fig u ra chave n a tra n siç ã o liberal d a
m o n a rq u ia c on stitu cio n al ao rep u b lic a n ism o liberal.
A p r ó p r ia re p ú b lic a sucum biu. O p â n ic o b u rg u ê s d ep ois das
d e s o rd e n s d e j u n h o d e 1848 c o n d e n o u o n ov o reg im e e a b riu ca­
m in h o p a r a a d ita d u ra im perial. Mas Luís N a p o le ã o estava lon g e
d e p a rtilh a r o c re d o reacio n ário . Ele q u e ria m u ito colocar a glória
b o n a p a rtis ta a serviço d a n o v a fé política — o nacionalism o. Assim,
e m 1859, decidiu fazer b rilh a r seu tro n o arrivista a ju d a n d o C av ou r
(m as n ã o Mazzini) a u n ificar a Itália, a c re s c e n ta n d o nesse p ro c e s­
so N ice e S a b ó ia à F ran ça. E m 1860, ele fez c o m q u e M ichel
C hevalier assinasse u m tra ta d o d e livre c o m é rc io c o m a In g laterra,
a p la c a n d o dessa f o r m a o a larm e lo n d rin o d ia n te d o novo ativism o
francês n o c o n tin e n te . L ogo católicos e o u tro s u niram -se à p re s ­
são liberal p a ra to r n a r o regim e p a rla m e n ta r. C o m o co nseq üên cia,
/28 O liberalismo - antigo e moderno

a a re n a política tornou-se o sten siv am en te m ais a n im ad a, n a ;últi­


m a d é c a d a d o im p ério , co m m u itas in terv en ções liberais.
O astucioso Luís N a p o le ã o c o m p re e n d e u ra p id a m e n te q u e a
religião e ra u m cim e n to p o d e r o s o p a ra o a p o io c o n se rv a d o r.1Em
c o nseq ü ên cia, p e rm itiu à Igreja te n ta r c o n tro la r a educação, iSua
a rre m e tid a im perialista n o |México, q u e te rm in o u n u m fiascp ém
1867, foi e m p r e e n d id a p a r á a g ra d a r aos católicos. D esd e o início,
o S e g u n d o Im p é rio estivera sob a ta q u e d o s católicos liberais. O
c o n d e C h arles d e M o n ta le m b e rt (1 8 1 0 -1 8 7 0 ), q u e combateji.u o
p a rtid o u ltra m o n ta n o , o u papista, ta n to n o p a r la m e n to co m ó na
prestigiosa Académie Française, salientou q u e o g o v e rn o d e u m lío-
m e m q u e agisse e pensasse p o r to d o o m u n d o e ra u m a idéia pagã,
in c o rp o ra d a n os césares ronjianos, e obviam ente incom patível com
a lib e rd a d e cristã (De.s aU lud^fim ati X IXhne sièele, 1852). Rémusjit,
ta m b é m u m académicien, assinalou q u e o socialism o pa re c ia prós-
p e r a r não cm i erras p ro testan tes, mas em países co m o a Ftançjn,
o n d e o E sta d o fazia valer a o r to d o x ia católica. Isso equivaliaj a
atualizar a tese de Staêl-Conptant, d e q u e a lib e rd a d e religiosa e p
u m a rrim o da libe rd a d e ger; il. Rémusat: e n c e rro u sua carreira pp-
lítica co m o m inistro d o Exter ior d u ra n te a c u rta p resid ência (18 7 1-
d e seu am igo d e lo n g a d a ta T hiers, o v e n c e d o r selvagem cia
C o m u n a V e rm e lh a d e Paris n a p rim av era d e 1871.
A m o d e rn iz a ç ã o d a fó rm u la liberal política c o u b e ao p erito
ju r íd i c o E d o u a r d L abo u lay e (1 8 1 1 -1 8 8 3 ), q u e e m se u liv ro jd e
p r o g r a m a d e 1863, The Liberal Party, a d a p to u o liberalism o ao ísu-
frágio u n iv ersal.10 L aboulaye n ã o e ra u m anglófilo político. Em vez
disso, p e rte n c ia à escola a m ericana, ace ita n d o o presid en cialism o
n u m sistem a dc separação d e p o d e re s e r e c o m e n d a n d o calorosa­
m e n te a d escentralização . R eivindicação d e stin a d a a um fu tu ro
b rilh a n te n a retó rica, se n ã o n a p rática, d a T e rc e ira R epú b lica
(1871-1940), a a u to n o m ia local seria ra p id a m e n te e n tro n iz a d a pela
influ e n te o b ra — L a France Nouvelle (1868) — escrita p o r u m dos
discípulos d e T hiers, L ucien Prévost-Paradol (1829-1870).
Liberalismos conservadores 129

O m ais sério tra b a lh o h isto rio g ráílco daq ueles ano s (além d e
O antigo regime d e Tocqueville) foi intitu lad o L a Révolution Française,
q u e foi p u b lic a d o p o r u m exilado liberal, E d g a rd Q u in e t (1 8 0 3 -
1875), e m 1865. V ítim a, c o m o seu am ig o M ichelet, d a re p re ssã o
im perial, Q u in e t d esafiou a o p in iã o q u e e n tã o p revalecia d e q u e a
h istó ria m o d e r n a fran cesa e ra a m a rc h a triu n fa n te d a bu rg u esia.
A m a rg u ra d o p e la n ova o n d a d e a u to rita rism o sob N a p o le ã o III,
Q u in e t n ã o q u e ria m o n a rq u ia lib ertad o ra. E ra claro, observou, q u e
a n o b re z a p e r d e r a os seus direitos, m as o p ov o n ã o r e c e b e ra d irei­
to algum . P io r d o q u e isso, n o to u ele, o T e rc e iro E stad o francês
p re ju d ic a ra a d em o cracia, ao aliar-se c o m a c o ro a absolutista, to r­
n a n d o , d e s d e o inicio, a c o ro a iliberal. Q u in e t a b a lo u o m ito
bislorio gráfico da b urg uesia <• d o liberalism o d e e sq u e rd a p r o n lo
p a ra novas e m e n o s classistas reivindicações, n a m assa d o p e n sa ­
m e n to rep u b lican o .
Mas o “se g u n d o liberalism o” francês tornou-se c o n se rv a d o r n a
p ro s a ética d e u m dos m ais lidos p e n s a d o re s d o século, E rn e st
R e n a n (1 823-1892). T a m b é m nascido d e u m a família h u m ild e n a
B retan ha, e e d u c a d o co m o u m orientalista, R e n a n q u a se to m o u
o rd e n s m as p e r d e u a fé. E n tão , te n d o tr a ta d o C risto c o m o u m
h o m e m , u m g u r u e n c a n ta d o r, e m sua Vida cieJesus d e 1863, ele foi
expulso d e sua c á te d ra universitária, p a ra tornar-se u m herói dos
intelectuais e d os livres-pensadores.
R e n a n é algum as vezes descrito c o m o positivista, m as tu d o o
q u e partilhava co m C o m te (cujo estilo lh e desagradava) e ra u m a
neg ação d o so b re n a tu ra l, u m culto d a ciência, c u m a visão d a civi­
lização e m três fases. R e n a n co n sid erav a C o m te u m re d u c io n ista
infiel à “infinita v aried ad e da na tu re z a h u m a n a ” e d o lo ro sa m e n te
ignaro d e história e filologia.17 Sua g ra d u a ç ã o ia d e um a ép oca de
fé, seg u in d o p o r u m a d e crítica, a u m a é p o c a final d e “sín te se ”,
q u e e ra a u m te m p o científica e religiosa. O p r o b le m a chave de
R e n a n consistia e m fu n d a m e n ta r a fé, d e p o is d e esvaziar a religião
tradicional. Ele v a rio u e n tre o ceticism o e a nostalgia, sem nad a
130 O liberalismo - antigo e moderno

d a q u e la a rd o ro sa fé secular típica d a “religião d a h u m a n id a d e ’’ d e


C om te. Sua Oração na Acrópole (1876) foi u m clássico d o hum an ism o
vitoriano, ex alta n d o a G récia an tig a co m o o b e rç o d a razão ei da
beleza. Mas e m O fu tu ro da ciência, escrito e m 1848 m as pu b licad o
42 an o s depois, cie descreveu a ciência c o m o u m a nova religião
d o sa b e r q u e estava to m a n d o o lug ar de antigos d o g m a s no cora­
ção d o h o m e m m o d e rn o .
E m 1848, R e n a n sim patizou c o m os rep ub licano s. Mas a h u ­
m ilhante d e rro ta d a França d ian te d a Prússia em 1870 e, ain d a mais,
a C o m u n a V erm elh a levaram -no a u m a b a tim e n to . A C o m u n a foi
u m a “h o r r e n d a p a ró d ia d o T e r r o r ”, escreveu ele, visivelm ente es­
q u e c id o d e q u e a vivência real fo ra a q u ela a q u e o te r r o r branco
r e c o rre ra p a ra dizim ar os p a rtid á rio s d a C o m u n a d e Paris. Deci­
d iu e n tão tro car a d epressão pela investigação e identificou as raízes
d a d e c a d ê n c ia francesa. ( ) q u e resultou loi u m livro c u rto , Réformc
intellectuelle et morale (1871), a m p la m e n te lido c o m o u m evangelho
d a re g e n e ra çã o nacional.
R e n a n d istinguiu d u as p rincipais causas d e declínio: d e m o ­
cracia e materialism o. A França su cum bira p o rq u e estava tornanclo-
se eg o ísta e cética, e x a ta m e n te c o m o R o m a caíra nas m ãos dos
b á rb a ro s p o r falta d e alg um a coisa q u e os ro m a n o s am assem . O
país navegava p ara a m e d io c rid a d e . R e n a n tin h a d u as críticas à d e ­
m ocracia. Prim eiro, d e n u n c io u sua genealogia revolucionária com o
direito “a b straio ”, desprovido d e história; co m o os reacionários,
11111

q ueria p ô r term o , d e um a vez p o r todas, ao “fetichism o d e 1789".


Sua seg u n d a linha de a ta q u e consistia n u m a crítica m oral da tradi­
ção revolu cion ário -dem ocrática u s a n d o o vezo racial q u e era tão
c o m u m n a época. Insistindo n o su b stra to celta d o san g ue francês,
a firm o u q u e a raça gaulesa — d ife re n te m e n te da alem ã — detesta
h ie ra rq u ia . O gosto g e rm â n ic o p e la c o n q u ista e s e n tim e n to de
p r o p r ie d a d e estava se n d o su b stitu íd o a oeste d o R e n o pelas forças
n iv e la d o ra s d o socialism o (q u e b r o ta v a m d o e g o ísm o ) e d a d e ­
m ocracia (o riu n d a s d a inveja). A d em ocracia, n o e n ta n to , “n e m
Liberalismos conservadores 131

disciplina, n e m resu lta e m a p e rfe iç o a m e n to m o ra l”, e assim n ã o


e ra d e a d m ira r q u e a m o ra l fran cesa e o m o ra l francês estivessem
m inado s. A A lem an h a, p o r c o n tra ste , v in ha vivendo n o b r e m e n te
e m p ro l d a ciência e d a guerra.
Essa co n fu sã o foi c o ro a d a pelos devaneios d e R e n a n s o b re os
dois tipos d e so c ie d a d e q u e ele d e p a r o u co m o p revalecen tes n a
época. E n q u a n to a so c ie d a d e a m ericana, jo v e m e d e s p ro v id a d e
história, fundava-se n a lib e rd a d e e n a p ro p rie d a d e , a P rússia p ro s ­
perav a so b re a ciência e a h ie ra rq u ia .
N a a ltu ra d o fim d a dé c a d a , R e n a n , a g o ra u m m e m b r o d a
A cad em ia e m u ito h o n r a d o pelos m eios anticlericais d a T e rc e ira
R epública, c h e g a ra a u m a c o rd o co m a dem o cracia. Mas o diálo­
go d e 1878 q u e m a r c o u a su a re c o n c ilia ç ã o m o r n a , “C a lib ã ”,
m o s tro u q u e ele ain d a via o povo c o m o a p o p u la ç a e esta c o m o
u m m o n s tr o , d e u m a m a n e ir a q u e não . d ife ria m u ito d a visão
elitista d a psicologia coletiva e lab orada p o r Gustave Le B o n (1841-
1931) — q u e e ra u m a tentativa racista d e d e stru ir “o m ito d e m o ­
crático”. A d iferen ça consistia e m q u e a g o ra R e n a n acreditava q u e
as m assas p o d e r ia m ser “d o m a d a s ”, o q u e fazia com q u e o f u tu ro
p e rte n c e sse à R epú b lica e n ã o à R evolução. P o rta n to , a lim itação
d o sufrágio q u e ele a co n selh ara exp licitam en te n a Reforme intellec-
tuelle et morale p o d ia ser a ten uad a. S ua fam o sa c o nferên cia “O qu e
é lima n ação?”, feita em 1882 na S o rb o n n e , la m b é m se distanciou
d o racism o q u a se histórico da Reforme. R ecusando-se a a ceilar o
c o n c e ilo g e rm â n ic o da nação c o m o u m a c o m u n id a d e racial,
R en an — m e sm o sem e n d o s s a r a idéia ro u s se a u n ia n a d e n ação
co m o u m a u n id a d e política fu n d a d a n a v o n ta d e geral — definiu-a
c o m o “u m plebiscito d e todos os d ia s”, u m p ro lo n g a d o ex em p lo
d e co n sen so tácito.
E n tre m e n te s, a d e m o c ra c ia a in d a o deixava frio. R e n a n p re ­
faciou seu livro Nouvelles études dlústoire réligieuse (1884) r e c o n h e ­
c e n d o q u e o p ro g re sso d a e d u c a ç ã o básica m inava a su p e rstiç ã o e
fom entava a ascensão de u m a m entalid ad e científica — e aind a assim
/ J2 O liberalismo - aiiligo e moderno

não creditou isso aos esforços dem ocrál ico.s da T r n c i r a Kepúblit a,


mn regim e d e prolcssoi cs d c cs< ola se jamais houve a lg u m .1,1 No
c o njunto, a im agem de R enan p e rm a n e c e u p risioneira da sep ara­
ção im plausível q u e p ratico u e n tre liberalism o e dem o cracia, nu m
m o m e n to e m q u e m u ito s liberais fra n c e se s estavam p r o n to s a
acolher u m a visão am pliada da lib e rd a d e política. S e n d o possivel­
m e n te o m a io r a rtista d a p r o s a n ã o ficcional fra n c e sa d e sd e
C h a te a u b ria n d , o legado ideológico d e R en an foi tão re tró g ra d o
p a ra o liberalism o q u a n to a política d e Guizot. Felizm ente, o libe­
ralism o francês 11 0 últim o q u a rte l d o século c o n to r n o u o u igno­
ro u la rg a m e n te suas obsessões.

Semiliberalismo: do R c c h l s s l a a l alemão a M a x Weber

J á fo ram m e n c io n a d o s dois conceitos d o liberalism o alem ão. U m


consiste n a idéia de H u m b o ld t dos “limites d o E sta d o ”, o riu n d o
da n o ção não-intervencionista d o E stado co m o u m “vigia n o t u r n o ”
(Nachlwãchlarslaat). O o u tr o re sid e n a lib e rd a d e c o m o a u to te lia
individual, o u a u to d e te r m in a ç ã o — u m c o n c e ito k a n tia n o q u e
H u m b o ld t f u n d iu no h u m a n ism o de W e im a r n a f o rm a d a idéia de
Bildung, o p rin c íp io d e c u ltu ra pessoal. A filosofia po lític a dcls
gran d es pós-kantianos, n o ta d a m e n te Ficbte e Hegel, afastou-se do
liberalism o, o q u e faz com q u e te n h a m o s d e re g re ssa r a K an t p a ra
a p r e e n d e r as sem en tes do p e n s a m e n to liberal alem ão, p o r volt
de m e a d o s d o século XIX.
O co n ceito chave consistè aq u i n o Rechlsstaal, o “E stado d
d ire ito ”, ’9 u m a alternativa g e rjn â n ic a p a r a o g o v e rn o d o d ire it
Pois e x a ta m e n te co m o os liberais ingleses haviam sido principal
m en te econom istas e filósofos m orais (com o Smith, Mill e Bageliotj,
e os liberais franceses em sua m aio ria h isto ria d o re s (c o m o Guizojt
e Tocqueville), os publicistas a cm ães d e te nd ências liberais cran!
p rin c ip a lm e n te juristas.
Liberalismos conservadores 133

E m b o ra o Icrn m (cuba sido c u n h a d o ( p o r KarI W clckcr) cm


IH I ,H, a ide ia d c lu ‘<hts\l<i<it pci Icucc a cpo ca <le K anl. 1>»‘11<>la pelo
m e n o s q u a tro coisas: um a rra n jo c on stitu cio n al capa/, d e g a ra n tir
segu ran ça c q u e d o ta o sistema legal d e regularidade; a sacralização
dos d ireito s públicos subjetivos n a lei positiva; u m a despersonali-
zação da lei, s u p la n ta n d o a velha identificação d a lei com o gover­
n a n te , p e lo r e c o n h e c im e n to d o d ire ito c o m o u m a n o r m a q u e
obrigava ta n to o g o v e rn a n te co m o o g o v e rn a d o ; a p a rtic ip a ç ã o d o
c id a d ã o , p o r in d ir e ta q u e fosse, n o p ro c e s s o legislativo.20 O
Rechlsslaal assim c o n c e b id o im p licava d o is p rin c íp io s liberais
básicos: d ire ito s individuais e c o n stitu c io n a lism o n o s e n tid o d o
g o v e rn o d a lei.
A ascensão d o co n ceito d e u m “E stad o d e d ire ito ” foi u m a
re a ç ã o c o n tra a idéia d o Polizeislaat, o “E stad o d e polícia” (n o sen­
tid o clássico d e “polícia”, isto é, civilizado, polido).* O Polizeislaat
e ra o “E stado m o ra l” d o absolulism o esclarecido o u d a m o n a rq u ia
c o n stitu cio n al hegeliana, se n d o am b o s E stados d ev o tado s explici­
ta m e n te à felicidade dos súditos. O p rim e iro p e n s a m e n to liberal
opôs-se f o r te m e n te a essa visão p atern alista. C o n s ta n t f o rm u lo u
u m a exigência fa m o sa d e qu e o E stado se lim itasse a g a ra n tir a
o r d e m e a seg u ran ça, e n q u a n to a re sp o n sa b ilid a d e p e la felicidade
pessoal e m u m a so cied ad e livre c ab eria aos cidadãos ( “nous nous
chargerons d ’être heureux').~] H avia u m p a re n te sc o claro, p o rta n to ,
e n tr e o “E stado d e d ire ito ” e o E stado vigia n o tu r n o d o p rim e iro
liberalism o e m am b as as m arg en s d o R eno.
O p ai d a te o ria d o Rechlsslaal foi R o b e r t v o n M o h l (1 7 9 9 -
1875), u m ju ris ta d e H e id e lb e rg m u ito ativo e m política liberal. (Ele
foi m in istro d a J u stiç a d u r a n te o b reve g o v e rn o d o P a rla m e n to de
F ra n k fu rt n a R evolução d e 1848.) M ohl dividiu o direito estatal em
dois ram os, o constitucional e o adm inistr ativo, a b rin d o lugar dessa
f o rm a p a r a o co n ceito de u m “E stado legal” f u n d a d o e m direitos.

(*) A palavra: figura, n es se s e n lid o , 110 d ic io n á rio d e L a u d e lin o F re ire. (N. d o 'I'.)
/ >7 () liberalismo - antigo e moderno

Em 1859, a firm o u q u e “o indiv íd u o é tão p o u c o ab sorv id o pelo


<o n ju n to c o m o o ser h u m a n o p e lo c id a d ã o ”.2' M ohl não estava
in te ira m e n te satisfeito com o individualism o d e K ant, p o rq u e , em
sua o p in ião , o g ra n d e filósofo d im in u íra a d im e n sã o política dos
direitos individuais. j j
O lib eralism o d o c o n c e ito d e RuchLsstant foi c ritic a d o p o r
Friedrich Ju liu s Stahl ( 1802-Í18G1), teórico c o n se rv a d o r q u e ejnsi-
nava em Berlim. T a m b é m Stahl favorecia o g o v e rn o c o nstitucio­
nal, m as asseverou qu e, p o r m e io d a lei, c o m p e tia ao E sta d ó io
d ire ito d e d e te r m in a r e gair a n tir o e sc o p o e os lim ites d a a< áo
g o v e rn a m e n ta l, assim com io os d a e sfe ra d a lib e rd a d e d e s eus
cid ad ão s — nessa o rd e m . Issso só p o d ia significar u n i a ta q u e o
Rechtsstaat liberal, u m ataqUe cujo significado p olítico to r n o i ■ie
de m a sia d o claro q u a n d o Stahl, e m sua anti-hegeliana Filosofia
direito, de 1846, deu-se ao trabalho d e dissociar o “Estado d e direi
d o “E stado p o p u la r d e R ousseau e R o b e sp ie rre ”, u m a “a b e r r a ç ip
em q u e o po v o p e n sa q u e seus p a d rõ e s n ã o são “lim itad os | >or
q u a lq u e r b a rre ira legal”.
O objetivo dos liberais alemães sulistas Karl von R otteck (1775
1840) e Karl W elcker (1 7 9 0 -18 6 9) consistia e m fo rtalecer o esco­
p o d a lib e rd a d e política n o in te rio r d o “E stado d e d ire ito ”. Seu
Dicionário político (1 834-1848), c o n ju n ta m e n te ed itad o , tornou-se
o mais prestigioso co rp o d o liberalism o alem ão. R otteck e W elcker
era m liberais constitucionalistas e am b o s p e r d e r a m suas cáted ras
em H e id e lb e rg p o rq u e exigiram g ov ern o rep re se n ta tiv o m o d e rn o .
O co n serv ad o rism o alem ão a u to ritá rio era tão fo rte que, o mais
das vezes, os liberais sulistas, q u e sustentavam o p in iõ es antiprus-
sianas, co m o as de Mohl, tin h a m d e lu tar c o n tra m e d id a s reacio­
nárias e m vez d e p r o p o r re fo rm a s liberais a b ra n g e n te s.2'5
C o m a ascensão d o S e g u n d o Reich, d o m in a d o pelos prussia­
nos, o liberalism o alem ão p asso u a ser d isting u id o com dificulda­
d e d o co n serv ad o rism o liberal o u n ã o tão liberal. A qu ele q u e mais
desafiava Stahl, R w lo lf von Gneist (1816-1895), re ito r da Faculda­
Lwciultsmos cumeivadures lií

d e d e D ireito d e B erlim , é u m ex em p lo . E m seu tra ta d o clássico,


Der Rer.htsst.aat (1872), ele c e n su ro u o sistem a p a rla m e n ta r francês
p o r im plicar u m triu n fo d a política e m d e trim e n to d a consciência
legal. A França, afirm ou G neist, su b m e te ra o executivo à assem ­
bléia nacional, e o su b m e tid o , p o r sua vez, tratava d e sp o tic a m e n te
a cidadania; assim, d e fo rm a p arad o xal, o povo s o b e ra n o vivia sob
u m g o v e rn o a rb itrá rio .2'1 G neist lu to u em d uas frentes: à sua d irei­
ta, c o n tra o co n se rv a d o rism o d e Stahl, e, à sua e sq u e rd a , c o n tra o
liberalism o ocidental. Exaltou as re fo rm a s d e Bism arck c o m o u m a
terc e ira via e n tr e os privilégios feudais d o s Junkers e o g o v e rn o lo­
cal eletivo se g u n d o o m o d e lo ocidental. A defesa feita p o r G neist
d o sistem a g e rm â n ic o , d esp ro v id o d e p o d e r p a rla m e n ta r m as com
trib u n a is executivos, foi r e to m a d a p o r u m e ru d ito m ais jo v e m ,
H e in ric h vo n T reitsch ke (1834-1896). T reitsch k e d e fin iu liberdade
c o m o a u to n o m ia no interior d o E stado, n ã o exterior a ele, descar­
ta n d o e n fa tic a m e n te o conceito d e vigia n o tu rn o .
Em to d o o seu desen v olv im en to havia u rna baixa conspícua: a
a u to n o m ia d o s direitos individuais. A m ais fo rte escola legal n a se­
g u n d a m e ta d e d o século XIX, a positivista legal, ergueu-se e m ple­
n o declínio d o co n ceito de cidadão. Figu ra d irig e n te d o positivis­
m o legal g u ilh e rm in o , Paul L ab an d , d e E strasbu rgo (1838-1918),.
s im p le sm e n te n e g o u a existência d e dire ito s públicos subjetivos —
a n o ç ã o m e s m a q u e m otivara a criação d o p rin cíp io d o Rechtsstaat.
O m a io r n o m e n a te o ria g u ilh e rm in a d o E stado, G e o rg Je llin e k
(1 8 52 -19 1 1), d e H e idelberg, fez distin ção e n tre d uas espécies de
direitos pessoais. H á direitos q u e têm a n a tu re z a d e u m licere (do
latim p a ra “ser lícito”) e h á d ireito s q u e eqüivalem a u m posse (“ser
capaz de, te r o p o d e r ”). O s p rim e iro s são d ireito s priv ado s, en ­
q u a n to os ú ltim o s são direitos públicos in e re n te s ao status d o in­
divíduo. D ife re n te m e n te d e licere, q u e p e rm a n e c e in te ira m e n te ao
a rb ítrio d a pessoa, os direitos posse são ao m e sm o te m p o d ireito s e
deveres — e a afirm ação d e tais d ireito s n ã o im plica u m re c o n h e c i­
m e n to , à m o d a d o d ire ito n atu ral, d a in d iv id u alid ad e absoluta.
/ 36 O liberalismo - antigo e moderno

N esse p o n to , o fan ta sm a d e H egel p rev aleceu o b v ia m e n te so b re a


s o m b ra d e K ant e Locke. O liberalism o ju r íd ic o alem ão, im p re g ­
n a d o d e m u ita reticência d ia n te d o individualism o, revelou-se no
m áxim o u m sem iliberalism o. ;
N a época pós-bism arckiana (1890-1918), u m a nova g eração d e
liberais e n tro u a q u e stio n a r o statu quo político. Em te rm o s d e in­
fluência m u n d ia l p ó stu m a, n e n h u m deles u ltra p a sso u o sociólogo
(d ip lo m a d o co m o h isto ria d o r ju ríd ic o ) M ax W e b e r (1864-1920),
q u e se to r n o u a estrela mais b rilh a n te n o firm a m e n to acad êm ico
de H e id e lb e rg depois da virada d o século. Um dos p rim e iro s gol­
pes d e W e b e r n a luta política foi u m e stu d o d a in ép cia e c o n ô m ic a
e política d a classe d o sJ u n k m , a leste d o Elba. Sua crítica d a m e n ­
t a l i d a d e “ l é i i d a l " ftuiki’)' e d o st/ihis <> l i g á r q u i c < > < <m l i u l i a u m a <>] >çã< >

tan to p a ia o capitalism o q u a n to p ara o liberalism o. De m o d o mais


amplo, W eber desaliou a oslritüint aulorilária do Reicli gtiílherm ino
a p a rtir d e um a posição naeional-liberal avançad a. N u m a aula
m ag n a p ro n u n c ia d a em Kreiburg em 1895, ele c e n s u ro u todas as
classes sociais p o r sua im a tu rid a d e política, no q u e diz resp eito a
p ro m o v e r os interesses d a A le m a n h a co m o u m a potência. N u m a
série d e a rtigo s q u e escreveu n a é p o c a d a g u e rra , Parlamento e
pvtwmo (1917), advogou um r e g i m e p a rla m e n ta r co m o um meio
d e se le c io n a r a ve rd a d e ira lid erança, e su g eriu q u e o g o v e rn o
au to c rá tic o de Bism arck e sua e stru tu ra institucional haviam p ri­
vado a A lem an h a de um a b o a e d ucação política. D ife re n te m e n te
d e Tocqueville e Mill, W eb er foi m u ito u m “liberal d o p o d e r ”, sus­
te n ta n d o o u sa d a m e n te o g o verno , o d o m ín io d a elite, e a h ege­
m o n ia nacional.
E m b o ra W e b e r não ignorasse o fato d e qu e m esm o os líderes
mais criativos necessitam d e a p o io social e têm d e tra b a lh a r n u m
co ntexto de classes, um e le m e n to nietzschiano em seu p e n sa m e n to
fez c o m q u e ele encarasse a liderança co m o u m a rrim o p a ra hie-
ra rq u iz a r m o d o s de vida. Para ele, co m o p a ra Nietzsche, a criação
de valores implicava h ie ra rq u ia e d o m in ação . Sua visão histórica
Liberalismos conservadores 137

e ra u m a f o r m a b r a n d a d o Kulturpessim üm us. A m o d e r n id a d e e ra o
re in o d a racionalização — o c re sc im e n to c o n tín u o , d ifu n d id o de
ra c io n a lid a d e in s tru m e n ta l (a a d a p ta ç ã o ideal “dos fins aos m e io s”
e m ação social), e m c o n tra ste com c o m p o rta m e n to g o v e rn a d o p o r
valores absolutos, tradição, 011 se n tim e n to . Aos olhos d e W e b e r, a
m o d e rn id a d e ta m b é m significava u m crescim ento de racio nalid ade
form al, u m n ú m e r o crescen te d e n o rm a s cuja aplicação exige p e rí­
cias específicas. Essa espécie d e perícia e m n o rm as era, ta n to q u a n to
a eficiência, a alm a d o vasto processo social d e burocralização. W e b e r
alim entava graves desconfianças q u a n to à m a rc h a d a racionaliza­
ção p o rq u e ela p o d e ria firm a r u m d o m ín io dos m eios sobre os fins,
e n q u a n to a b uro cracia p od eria tra n c a r a so ciedade m o d e r n a n u m a
"gaiola de feiro " dc sei vidao.
C o ntra essa perspectiva gelada, W eber discerniu dois antídotos;
vocação (u m talento) e carism a. R o b ert Eden, n u m exam e m u ito
lúcido d o p e n s a m e n to político d e W eber, acred ita q u e sua ênfase
no “ta le n to ” e ra u m a re sp o sta ao individualism o d e m o n ía c o d e
Nicl/.sche.2r’ O co n ceito d e vocação era, é claro, u m a velha idéia
lu teran a, m as W e b e r conferiu-lhe novo e n c a n to usan do -a p a ra es­
b o ç a r u m a dialética e n tr e a in dividualidade e a ascensão d o p ro fis­
sionalism o em i i o s s o lem po. Isso la m b e m o habilitou a reconsli-
tuir o e.lhos ascético d a id ad e h e ró ic a d a burguesia, tão b e m re tra ­
ta d o em su a o b r a mais co nh ecida, A élica protestante e o espírito do
capitalismo ( I 9 0 /l).
E m seus e scrito s políticos ta rd io s, “ta le n to ” e c a rism a são
m isturados, co m o n a clara advertência de “Política co m o vocação”,
publicado e m 1919: “há apenas a opção: dem ocracia com liderança
(1'uhri’rdcmokratie) com a ‘m áq u in a’ (partidária), ou dem ocracia sem
lid e ra n ç a — o u seja, o d o m ín io d os ‘políticos p ro fissio n a is’ sem
u m a vocação, sem as qualidades carismáticas internas que so m ente
elas c o n stitu e m u m líd e r.” A ú n ic a m a n e ira de evitar “o d o m ín io
b u ro crático d e sc o n tro la d o ” era u m a política do carisma, mais bem
exem plificada p o r líderes com o G lad sto ne e Lloyd G eorge. W eber
/ ><S’ O liberalismo - avtigo e modcnw

ansiava p o r ccsarism o eletivo, lid erança plebiscitaria; e no d e b a te


constitucional n o co m eço d a República d e W eim ar ele prescreveu
u m a p re sid ê n c ia forte q u e bro tasse d o sufrágio universal.
O liberalism o de W e b e r n ã o c o n tin h a q u a lq u e r teo ria d e di­
reitos natu rais e n e n h u m a m o r p ela d em o cracia. W e b e r rejeito u o
socialism o p o rq u e , in d e p e n d e n te m e n te d a revolução (a qual, n o
caso dos social-dem ocratas alem ães, ele p e rc e b e u q u e e ra mais re­
tórica d o q u e am eaça), o socialismo e n g e n d ra ria u m p la n e ja m e n ­
to social a m p lo e, p o rta n to , m ais burocracia, p o r m ais q u e fossem
d e m o c rá tic a s as suas in te n ç õ e s. A p r ó p r ia d e m o c ra c ia , e m sua
opinião, n ã o acarretaria q u a lq u e r verdad eira distribuição d e p o d er,
ap en as u m declínio d e chefes locais e u m a ascen são d o líd e r ple-
biscitário, devido à e m e rg ê n c ia d e g ra n d e s m á q u in a s p artid árias
p a r a e n fre n ta r o sufrágio e m m a s s a / 0 Im p re ssio n o u W e b e r a d e­
m o n stra ç ã o p o r M oisei O stro g orski e R o b e rt M ichels (seu a lu n o
em H eidelberg) d o p apel re p re se n ta d o pelas oligarquias partidárias
e m g ra n d e s d e m o c ra c ia s m o d e rn a s , c o m o a G rã -B re ta n h a ê os
E stados U nidos. Essa c o m p re e n s ã o levou-o a e n c a ra r com m e n o s
e n tu sia s m o o P a rla m e n to c o m o u m s e le to r d e líd eres, e m b o r a
p e rm a n e c e sse convicto d o p ap el d a C â m a ra n o c o n tro le d a ad m i­
nistração e n a p ro te ç ã o dos direitos civis.
W e b e r p o d ia se r u m analista m u ito a rg u to d e c o n ju n tu ra s p o ­
líticas e d e e stru tu ra s sociopolíticas, co m o se vê e m seus c o m e n tá ­
rios so b re a Revolução R i i . s s í i de 1005, 11a sua c o n c citu ali/ação d o
E stado, e na sua a b o rd a g e m p io neira d o p a trim o n ia lism o em sua
m agnnm opus, Economia e sokkdade. Mas seu lugar na história d o li­
beralism o é u m tan to p reju licado pela ausência, ta n to e m seus jes-
critos sociológicos q u a n to :X)líticos, d e q u a lq u e r persp ectiv a qu e
ligue a legitim idade dos re g m es e dos g o v ern an tes à c on d ição rfeal
dos governados. S e m p re a n si )so q u a n to à lib e rd a d e d o h o m e m cul-
tural, W e b e r p a re c e te r m u itas vezes ig n o ra d o o alcance c o n c re to
d a lib e rd a d e so cial.'7 Ele n; io p r o p o rc io n o u , e m po ucas palavras,
q u a lq u e r visão d e baixo p a r a cima. Mas se o liberalism o deve Ser
Liberalismos conservadores 139

fiel à sua p re o c u p a ç ã o com o c o n tro le d o p o d e r, ele tem d e p e r­


m a n e c e r a te n to ao p o n to d e vista d a q u e le q u e e s tá p o r baixo. Só
isso, com efeito, classifica o liberalismo d e liderança de W e b e r co m o
u m liberalism o c o nserv ad o r. E n q u a n to o seu individualism o e o
seu d issab o r p e lo E stado g u ilh e rm in o salvaram -no d o sem ilibera-
lism o d os ju rista s Staatslehre, inclusive d e seu colega d e H e id e lb e rg
Jellinek, a sua falta fu n d a m e n ta l d e instintos d em o crático s colocou-
o atrás d a sab ed o ria, e n ã o ap e n a s das esp eran ças, d o s clássicos d a
liberd ad e.

Croce e Ortega

Em su a so c io lo g ia h istó ric a c o m o u m to d o , p o d e -se d iz e r q u e


W e b e r foi o h o m e m q u e c e le b ro u a paz e n tre o histo ricism o ale­
m ão, com sua paixão p elo significado sing u lar do s fe n ô m e n o s so­
ciais e culturais, e o positivism o c o m o u m a b u sc a d e explicação
causai e m ciência social. E ra b e m d ife re n te a a titu d e d o p rincipal
c o n te m p o r â n e o d e W e b e r n a Itália, o filósofo e h is to r ia d o r
B e n e d e tto C ro c e (1 866-1952), p a r a c o m a tradição positivista. De
fo rm a b a sta n te e stran h a, o italiano m erid io n al C ro ce estava m uito
m ais p r ó x im o d o d e s p re z o c o r r e n te p e la e xp licação causai n o
Historimtus d o q u e o p ru ssia n o W eber. T o d o o historicism o p e n d ia
p a ra a in te r p r e ta ç ã o c efetivam eut.e d e senv o lv eu a c o n c e p ç ã o
dualista d o conhecim ento, se g un d o a qual a lógica das hum anid ad es
é e ssen cialm en te alheia à p r o c u r a d e realidades q u e caracteriza a
ciência n atu ral. V indo d e u m a escola d e p e n s a m e n to a b e rta m e n te
neo-idealista, os hegelianos d o sul d a Itália, C ro ce estava o rg u lh o ­
sam en te m e rg u lh a d o em antipositivism o e, nessa condição, deu seu
p rim e iro p asso fazend o saltar as versões mais d e te rm in a n te s do
m arxism o (em Malerialismo histórico e a economia de K arl M arx, 1900).
O positivism o, p a ra C roce, e ra p a rte d e u m q u a d r o mais am ­
p lo d e e r r o intelectual, r e m o n ta n d o ao p e n s a m e n to ju sn a tu ra lista
MO O liberalismo - antigo e moderno

e ao racionalism o d o Ilum inism o. N a o p in iã o d e C roce, a razão


d o século XVIII fora d em a sia d o ab stra ta e rígida e e ra definitiva­
m e n te inferior, co m o a p re e n sã o d e Iodas as coisas lm m anasj à ra­
zão histórica c o n c re ta forjada p o r volta d c 1800- Aos /ihiltmplws do
Ilum inism o, C roce o p õ e o jcontra-Iluminismo d c Giamballisla, y ic o
(.1668-1744), que fora redejscoberlo p o r rom ânticos co m o Mie íélel..
C ro c e exaltou o p ró p rio Risorgimenlo c o m o u m m a ra v í l^oso
.i
in te rlú d io ro m â n tic o entre dois estágios negativos — o Ilum ir i^m o
i. •
(jacobinism o, franco-m açoin a ria e fan atism o igualitário) e a triste
id a d e d o positivism o n o fim d o século XIX. O p ró p r io jin-de ■siècle
d e C ro ce ab u n d av a e m virulentas c o rre n te s antipositivistas, mks a
v e rd a d e é q u e o p ró p r io C roce incluiu a d e m o c ra c ia e n tre os p'rin-
cípios m ais c o n ta m in a d o s pela “fraseologia positivista” e su p.s vi-'
sões d o h o m e m e d a so cied ade “p r o f u n d a m e n te e rra d a s ”. El( en-
d ia a d e p re c ia r a ala m ais i o m â n tic a d o Risorgimenlo — a escola de
Mazzini, a qual, C roce serjtia p ra z e r e m dizê-lo, n u n c a p e n e tra ra
cm Nápoles. Seu anl imazzinism o, q u e logo seria parlilh a d o pélos
fascistas, p o u c a sim patia m o s tra ra p elo re p u b lic a n ism o de e sq u e r­
d a — pelo c o m p o n e n te d e m o crático d a h e ra n ç a liberal. P ara d ro c e ,
o e sp írito d e m o c rá tic o d a ig ualdad e e ra tão sim plista q u a n to “abs­
tra to ”, e ele se pôs ao lado dos Im périos centro-europeus na G ran d e
G u e rra , p o r q u e su stentavam crenças histórico-políticas m uito'm ais
sólidas.28 O ad ven to p ós-g uerra da d e m o c ra c ia polílica, a c o m p a ­
n h a d o co m o o foi p o r um a o n d a belicosa d e lula dc: classes, só p o ­
dia agravar as desconfianças d e C ro c e q u a n to à dem ocracia.
Assim, co m o h e rd e iro d a ala d ire ita d o Risorgimenlo (“la destra
storica”), C roce estim ava tão p o u c o a d e m o c ra c ia q u a n to W eber.
Mas, co m o W eber, ele veio a aceitar se não p r o p r ia m e n te gostar
d a ação re c íp ro c a dos m ecanism os d em ocrático s. Em 1923, dois
anos antes de lançar u m m anifesto de intelectuais antifacistas, Croce
seguiu o teórico c o n s e rv a d o r elitista G a e ta n o M osca (1 8 5 8 -1 9 41 )
n u m a defesa das instituições liberais.29 A nova posição intelectual
eslava fadada a refletir-se n a sua p ró p ria qu alid a d e d e liberalismo.
Liberalúmos cojiseruadores 141

C ro c e escreveu du as ob ras notáveis so b re o século d e seu nasci­


m e n to e fo rm ação , u m a História da Itália de 1871 a 1915 (1925) e
u m a História da Europa no sóailo X IX (1932). Klc q u e ria escrever
h istória filosófica cornó "a h istória d a lib e rd a d e ” d e u m “p o n to d e
vista ético-político” — u m p ro g ra m a acloniano, p o r assim dizer. Mas
ta m b é m q u e ria d e m o n s tr a r o m otivo p o r q u e o liberalism o Talhou,
e m ú ltim a instância, ao d a r o rigem a u m a resistência b em -sucedida
d o facismo, u m a d ita d u ra a que, depois d e algum a hesitação, C roce
resolveu resistir. Ele p e n s o u q ue, e m seus dias heró ico s, o lib era­
lismo, p a r a se d e f e n d e r c o n tr a a o p re ssã o id eo ló g ica d o s m eios
tradicionalistas, la n ç a ra a o p in iã o d e q u e os valores são subjetivos
e q u e os fatos são n e u tro s e m m a té ria d e valor. Mas o p r o b le m a
consistia, n o e n ta n to , e m qu e, ao fazer isto, o liberalism o, a lo n go
p razo, so lap ara a sua p r ó p r ia convicção m oral.30
C ro c e e ra o sím bolo vivo d o p e n s a m e n to anticlerical e n tr e os
não-socialistas italianos. N ã o o b sta n te , ele p are c ia su g e rir q u e al­
g um c o n se n so m oral, em lugar d a fé, alim entasse a c h a m a liberal,
d e sd e q u e coubesse a ela in fla m a r u m m o v im e n to político c o m o o
fizera n o Risorgimento. T a m b é m , p o r causa d o seu altivo d esp rezo
p e lo m aterialism o e m ética, C roce in trod u ziu u m a c u n h a conceituai
e n tre liberalism o e liberismo, o p r ó p r io te rm o co m q u e d en o ta v a
“lib e rd a d e e c o n ô m ic a ”. Em seu livro Etica e política (1922) e em
o u tro s textos d a d écada de 1920, insistiu em q u e o liberalism o não
flevia s e r igualado à idade e fê m e ra d o laissa-fairr ou, d c um m o d o
geral, a p ráticas e interesses ec o n ô m ic o s. E m seu e n sa io “L ibe­
ralism o e lib e r is m o ” (1928), C ro c e sa lie n to u q u e , e n q u a n t o o
liberalism o é u m p rin cíp io ético, o liberism o n ã o p assa d e u m p re ­
ceito e c o n ô m ic o que, to m a d o e q u iv o c a d a m e n te p o r u m a ética li­
beral, d e g ra d a o liberalism o a u m baixo h e d o n ism o utilitário.
C ro c e torn ou -se o mais c o n h e c id o dos o p o sito re s liberais do
reg im e d e M ussolini. S ua fa m a n a E u r o p a d epo is d a publicação de
sua Estética (1902) fo rç o u o fascism o a respeitá-lo. O principal in­
telectual fascista e ra o seu ex-amigo, o filósofo Ciovamii Cenlile.
1'I2 O liberalismo - antigo e moderno

C o m o m in istro d a E ducação d e M ussolini (posição q u e o p ró p rio


C ro c e o c u p a r a p re v ia m e n te n o g a b in e te d o astu cio so prim eiro -
m in istro Giolitti), G entile a p ro p rio u-se d o co n ceito h eg elian o d o
“E stad o é tic o ” c o m u m fra n c o â n im o antiindividualista. T e n to u
ta m b é m p ro v a r qu e o d ire ito histórico — liberalism o italiano tradi­
cional — fo ra tu d o m e n o s individualístico, o q u e fazia c o m q u e o
fascismo fosse u m a v e rd a d e ira c o n tin u a ç ã o d o g e n u ín o liberalis­
m o italiano.
C ro c e teve o b o m se n so d e r e f u ta r a m istificação fascista
q u a n to ao “E stado étic o ” c h a m a n d o h o n e s ta m e n te ate n ç ã o p a ra
os e le m e n to s d e coerção in e re n te s a todos os Estados. N isto ele
seguiu T reitsch ke (cuja Política ele traduzira) e m anteve-se p ró x i­
mo <la lam osa definição d e W ebei de q u e o E stado é o m o n o p ó lio
da co erção no in ic lio r do um d a d o território. R e le m b ro u igual­
m e n te a fascista fábula política e m to rn o d a consciência q u e tin h a
M aquiavel da polílica co m o esfera d e força e d e c o n d ito .
N o lad o negativo, 110 e n ta n to , C ro ce m a n ife sto u u m a indife­
re n ç a básica p elo con ceito liberal dos limites d o E stado e d o p o ­
dei', te rm in a n d o nu m a n o ção d e lib e rd a d e quase mísiica, provi-
dencialista. fa lo u da lib e rd a d e c o m o a revelação d o Espírito da
história c o n c re ta — algo ap e n a s m en o s n eb ulo so tio q u e o seu ori­
ginal hegeliano e q u e d ificilm ente levava a u m a análise em pírica
d a lib e rd a d e e da coerção.'" Para evitar o v o lun tarism o irraciona-
lista d e G e n tile (m e sm o a n te s q u e se se p a ra sse m p o r causa d o
fascismo), C ro ce red u ziu seu “historicism o a b so lu to ” a u m a teolo­
gia leiga d a lib erdad e, “u m a religião d a lib e rd a d e ”, e m ú ltim a ins­
tância intraduzível — co m o a cu so u u m m arxista cro ciano , A n tô n io
Gramsci;í~ — n a linguagem prá tic a d a práxis real. A m e ritó ria o p o ­
sição d e C roce ao fascismo e sua defesa d a individualidade m o ral
d ia n te d o h olism o au to ritá rio colocaram seu liberalism o, a despei­
to d e seus aspectos co nserv ado res, a b o a distância d o c o nservado ­
rism o liberal d e V ilfredo P a re to (1 848-1923), se n d o M osca o fu n ­
d a d o r d a te o ria elitista. S ua h isto rio grafia liberal c o m o u m épico
Liberalismos conservadores 143

d a “vida m o ra l” d o O c id e n te m o d e r n o d eix a tra n s p a re c e r u m es­


p írito q u e n ã o se p o d e a c h a r e m q u a lq u e r coisa e s c rita p e lo
“n e o m a q u ia v é lic o ” M osca, a p e sa r d e su a ta rd ia aceitação d e insti­
tuições liberais.53 Mas, n o final das con tas, o in sp irad o “historicis­
m o d a lib e rd a d e ” d e C ro c e n ã o foi u m g ra n d e g a n h o teórico, e n ­
q u a n to seu e x orcism o d o lib erism o p a re c e u m ta n to in a d e q u a d o
em nossa id a d e d e liberalização eco nô m ica.
N a E spanha, u m a influência h eg e m ô n ic a d a espécie q u e C roce
exerceu n a Itália p e rte n c e u p o r m u ito te m p o a Jo sé O rte g a y Gasset
(1 8 83-1955). O rte g a é m ais c o n h e c id o e m te o ria política c o m o o
a u to r d e A rebelião das massas (1929). A n alisan do a so c ie d a d e m o ­
d e rn a , O rteg a afirm ou que. pela p rim e ira vez em história registra­
da, a civilização viera a rejeitar o p rin c íp io da elite. A so c ie d a d e de
massas c h a b ita d a p o r criaturas e n la tu a d a s , e m b o r a psicologica­
m e n te estejam u m p o u c o p e rd id a s n o m e io d a tecnologia. S eu tipo
h u m a n o geral leva a u m a afirm ação d o s d ireitos d a m e d io c rid a d e .
S ete a n o s a n te s, e m seu p a n fle to E spanha invertebrada, O r te g a
c e n su ra ra seu p r ó p r io país p o r sua “a risto fo b ia ”, p e lo fato d e q u e
evitava e dep reciava o n m elh ores. D epois da d e rro ta trau m á tic a
d ia n te dos Estados U nidos na R evolução C u b an a d e 1898, p rolife­
ra ra m n a E sp a n h a diagnósticos introspectivos d a “d o e n ç a nacio­
n al”; a d ecad ên cia tornou-se u m leilmotiv d a alta cu ltu ra espanhola.
O rte g a q u e ria ir tão longe q u a n to possível n u m a a b o rd a g e m mais
radical: a b u sc a das antigas raízes d o m al esp anh o l.
O rte g a c o m e ç o u p o r d e sfe c h a r u m tiro a lo n ga distância n a
dem o cracia. A ideo log ia d em o crática, disse ele, te m o h á b ito de
p e rg u n ta r: o q u e deve ser u m a sociedade? M as o v e rd a d e iro p r o ­
b le m a resid e e m decidir: em q u e consiste u m a sociedade? O q u e a
c o nstitu i — o u m e lh o r, c o m o p o d e u m a so cied ad e ser? Essa p r o ­
b lem ática constitutiva e ra típica d o s n e o k a n tia n o s, co m os quais o
jo v e m O r te g a e s tu d a r a e m M a r b u r g o im e d ia ta m e n te a n te s d a
g u erra. O ra, a E sp a n h a fo ra o u tr o r a u m g ra n d e Estado; u m Esta­
do, co m o R om a, capaz d e criar sistem as integrativos ain d a mais
144 O liberalismo - mitigo e moderno

a b ra n goe n te s,7das Sete C olinas ao Lácio e d a Itália a to d o o Medi-


te rrâ n e o . Tais Estados n ã o se f u n d a m ap en as n a força; p a r a qu e
u m E stad o seja tão integrativo, im põe-se q u e haja u m “p ro je to su­
gestivo d e vida e m c o m u m ” — co m o a p ro lo n g a d a luta d e Castela
c o n tra os m o u ro s. D aí a e n e rg ia c o m a qual a E spanha, a p a rtir do
fim d a R econquista, e m p r e e n d e u a c o nq u ista d a Itália e especial­
m e n te d a A mérica.
C o n tu d o , to d o esse e sfo rç o r e q u e r u m a aristo c ra c ia , disse
O rtega, u m a liderança qu e c o n ta com o a ssentim ento — e mais: com
o a c o m p a n h a m e n to entusiástico — d o povo. S em aristocracia, não
p o d ia h aver fo rm a ç ã o d e E stad o o u e x p an são d e E stado — n e m
m e sm o re a firm a ç ã o n a c io n a l. A E sp a n h a , d e p o is d e Filipe III,
tornara-se hesitante, c o n se rv a d o ra e e sp iritu a lm e n te estreita. Em
lo d o lu g ar haviam su rgid o p articu larism o s — n o g overno, nas re­
giões, nas classes sociais. N u m vôo d e fantasia social n ã o in dig no
d e R en an , O rte g a cism ou n a fra q u e z a dos visigodos, a tribo | g er­
m â n ic a q u e se e s ta b e le c e ra n a p e n ín s u la . D ife re n te m e n te j dos
francos, afirm o u , os visigodos haviam sido c o n ta m in a d o s pela de­
cadência rom ana. A cim a d e tu do , faltava-lhes o instinto franco p a ra
seguir líderes vigorosos, e m co n q u ista e d o m in ação . E ra u m a jbena
q u e a E sp a n h a n u n c a tivesse c o n ta d o c o m o feu dalism o certo!, dis­
se ele. O rte g a n ã o se d ig n o u a explicar c o m o u m a a sc e n d ê n c ia tão
p o b r e chegara a inventar o ‘ p ro jeto sugestivo” tan to da R econquista
co m o d a C onquista. Ele c h ego u a z o m b a r d a R eco nq u ista, p e rg u n ­
ta n d o co m o se p o d ia c h a m a r con q uista a u m e m p re e n d im e n to qu e
exigira ta n to te m p o (oito séculos) p a r a te r êxito. O rte g a coi íclui
q u e a ascensão “visigótica” d e 1500 apoiara-se n u m a fo rça arti: içial
— e, p o rta n to , n ã o e ra d e e sp a n ta r q u e a d e c a d ê n c ia se tivesse gò
instalado, j á n a a ltu ra d e f|600. A E sp a n h a p e rm a n e c e ra um ; na-
ção d e cam p on eses, avessa a se r g o v e rn a d a pelos aristoi, pelos nc-
lhores: e ra u m a sociedade a risto fób ica q u e p ro d u z ir a tão p o u co s j.

g ra n d e s h o m e n s q u a n to a Rússia. Significativam ente, su a m e lh o r I


a rte e ra a a rte p o p u la r — ofícios, danças, o q u e cabia a o povo.
Liberalismos conservadores 145

A rebelião das massas escreveu aristofo bia e m letras garrafais. O


h o m e m d a massa, disse O rtega, e ra a m ed io crid ad e te n ta n d o im p o r
a m e d io c rid a d e , u m n iv elam en to niilista e m n o m e d o dem ocratis-
m o. O m u n d o d o h o m e m d o p o v o estava a p o n to d e se r g o v ern a­
d o p o r “g e n te in fa n til” co m o os a m e ric a n o s e os russos; os p rim e i­
ros limitavam-se a m asc a ra r seu prim itivism o p o r trás das inven­
ções mais m o d e rn a s . P o r u m m o m e n to , O rte g a d efin iu barbarismo
co m o u m a falta d e n o rm a s. Mas ta m b é m n o s disse q ue, e n q u a n to
G récia e R o m a fracassaram p o r q u e lhes faltaram p rin cíp ios, nós,
os m o d e rn o s, estam o s fracassan d o p o r q u e nos faltam h o m e n s —
os arisíoi, é claro.
O rte g a n ã o e ra d e f o rm a n e n h u m a u m elitista social. Esforçou-
se se ria m e n te p a r a explicar q u e o seu p leito em p ro l das elites era
u m a q u e stã o cultural, c não u m p re c o n c e ito social a favor das clas­
ses su p erio res; as novas elites, especificou, dev eriam fundar-se n a
excelência, e n ã o n o d in h eiro . P o r q u e e n tã o to d a a raiva c o n tra a
d em ocracia? A re sp o sta d e O rte g a é u m a tautologia, p o is p a re c e
resid ir e m sua equalização a m p la m e n te im plícita d a d e m o c ra c ia
com u m a civilização a le g a d a m e n te estéril, a c u ltu ra vito ria n a d a
razão e d o pro g resso . E m seu livro mais original, O tema moderno
(1923), O rte g a ap licou u m a crítica n ietzschian a à c u ltu ra e u ro p éia.
N ietzsche d e s c o b rira a a u to n o m ia dos valores d a “vid a ” n u m a civi­
lização p r o p e n s a à a d o ra ç ã o d a c u ltu ra e c o n tra tal civilização. O
culturalism o e ra p a r a ele u m cristianism o se m D eus, pois aos olhos
b u r g u e s e s (aq u e le s q u e N ie tz sc h e a p e lid o u im o r ta lm e n te d e
“filisteus d a c u ltu ra ”) o re in o d a c u ltu ra gozava d o m e sm o status
tra n sc e n d e n ta l a n te s a trib u íd o à d iv in d a d e cristã. O tema moderno
foi u m ap elo d e tr o m b e ta p a ra q u e se ro m p e ss e com o fan atism o
d a c u ltu r a e m b e n e fíc io d a “ra z ã o v ita l”; e esse racio vitalism o,
p re g a n d o “a n ecessid ad e d e su jeitar a razão à vida”, to rn ou -se a
b a n d e ira filosófica d e O rteg a.
O g r a n d e c u r s o r d e O rte g a n o en saísm o e sp a n h o l foi Miguel
d e U n a m u n o (1864-1936), u m a fig u ra ce n tra l e m b o ra solitária na
116 O liberalismo - antigo e moderno

geração a n tid e c a d e n te d e 1898. U n a m u n o vilipendiara o “San ch o


P an cism o” d a civilização m b d e rn a : seu positivism o, seu naturalis­
m o, seu em p irism o . E n tre p n a m u n o e O rteg a, havia u m abism o
pessoal. O rte g a detestava o h o m e m mais velho p o r causa dej seu
á sp e ro ro m an tism o ; o sofisticado filósofo d e classe m é d ia su p eriò r,
u m a estrela d a alta sociedade m a d rile n h a , n ã o p o d ia e sc o n d e r s|eu
d esp rezo pe lo d u ro , inflexível h u m a n is ta provincial q u e foi exila­
d o p e la d ita d u ra m ilitar d e P rim o d e R ivera (1 9 2 3 -1 9 30 ) n os úl­
tim os espasm os d a m o n a rq u ia e span ho la. Em vez d a síntese espe- :
rançosa e m b o ra indefinível de O rtega, o “raciovitalismo”, U n a m u n o
oferecia u m a franca aversão, u m a a b e rta re p u g n â n c ia p e lo rdC|io-
nalism o. O rte g a , e m c o n tra ste , insistia n o v alor d a ciência è |da
tecnologia e zom bava d e U n a m u n o p o r colocar São J o ã o d a C ruz
(isto é, o m isticismo espanhol) c o n tra D escartes (o racionalism o do
p e n sa m e n to m o d e rn o ). A lém disso, U n a m u n o e ra u m individua­
lista radical, q u e q u e ria tra n sfo rm a r a E sp an h a n u m “povo d e e u s”
(unpueblo deyos). Isso, é óbvio, chocava-se com os so n ho s d e O rteg a
de p ro jeto s nacionais.'M
Mas O tema moderno n ã o é ap e n a s u m a crítica d o culturalism o.
É u m livro q u e ta m b é m q u e stio n a em term o s n a d a equívocos o
cu lto u tó p ic o d o re v o lu c io n a rism o . E m seus p rim e iro s artig o s,
O rteg a n ão esteve acim a d e citar o dito d e seu m estre d e M arburgo,
H e r m a n n C o h e n (1842-1918), d e q u e as revoluções são “te m p o ­
radas d e ética e x p e rim e n ta l”. Mas, nos an o s vinte, u m d e seus mais
vivos ensaios, “M irabeau o u o e stad ista” (1927), se p a ra decid ida­
m e n te a a rte d o estadista d o rev olucionarism o. O estadista é mais
que u m h o m e m d e ação, disse O rteg a. D ife re n te m e n te d o intelec­
tual, o estadista deve se r u m h o m e m d e ação, mas u m h o m e m com
visão. C o n tu d o , a visão d o estadista é a lta m e n te realista e p ra g m á ­
tica, n e m u m p o u c o co m o o p ro g r a m a intelectualista d o ideólogo.
O revolucionário, p o r o u tr o la d o (c o m o R o b e sp ie rre , q u e O rte g a
c h a m o u d e “chacal”), é u m c a m a ra d a trap a lh ã o q u e te rm in a ob­
te n d o e x a ta m e n te o o p o s to d o q u e intencionava. D evem os, neste
Liberalismos conservadores 147

p o n to , n os p e r g u n ta r se o a n ti-rev o lu cio n arism o ap rio rístic o d e


O rte g a c o n c o rd a c o m o q u e diz a história. Eu, p o r ex em p lo , n ã o
p osso p e n s a r e m L ê n in co m o alg u ém q u e ob tev e o o p o sto d o q u e
q u e ria — m as e x a ta m e n te o c o n trá rio . E m te rm o s mais gerais e a
lo n g o p razo, a o bservação d e O rte g a d e q u e o culto d a revolução
ia a c o n tra p e lo d a m o d e r n a c u ltu ra o c id e n ta l m ostrou-se u m a o p i­
n iã o in eg av elm en te p resciente.
A política real d e O rte g a so fre u u m a evolução curiosa. N a j u ­
v e n tu d e , ele fo ra a tra íd o p e lo socialism o ético de seus p ro fe sso re s
n eo k a n tia n o s, e escreveu com sim p atia a re sp e ito d a lin h a antiin-
dividualista e an tiu tilitarista dos “novos liberais” ingleses. Seus h e ­
róis e ra m socialistas reform istas q u e e n d ossavam o princípio, d o
E stado e d a n acio n alid ad e, co m o F e r d in a n d Lassalle (1 8 2 5 -1 8 6 4 )
e E d u a r d B e rn ste in (1 8 5 0 -1 9 3 2 ).35 E ntão, c o m e ç a n d o talvez com
su a r e s e n h a d o livro d e G e o rg Sim m el Schopenhauer e Nietzsche, d e
1908, o jo v e m O rte g a c o m e ç o u a p isa r e m te rre n o v irtu a lm e n te
n ã o d em o crático.
D c início, O r te g a te n to u c o n ju g a r se u socialism o e se u
nietzschianism o. E m seu ensaio d e 1913 “Socialism o e aristo cra­
cia”, declaro u: “S ou u m socialista p o r a m o r à aristo cracia”. U m a
vez q u e o p o d e r capitalista não tin h a ro sto e e ra m aterialista, des­
p ro v id o d e calor in te rn o , o socialism o tin h a d e b rilh a r c o m o u m
a p e rfe iç o a m e n to m o ra l d a h u m a n id a d e . Mas, d u r a n te a d é c a d a d e
1920, a p osição d e O r te g a p asso u a te r m atizes c re s c e n te m e n te
con servad o res. Ele n a m o r o u a R epública, m as p rin c ip a lm e n te de
u m a posição direitista,36 e e n tã o to m o u p o r su a p r ó p r ia iniciativa
o c a m in h o d o exílio a p a rtir d o início d a g u e rra civil até o fim da
g u e rra m u n d ial. D epois, d u ra n te su a ú ltim a década, recusou-se a
a tu a r c o m o u m foco d e resistência liberal, c o m o fizera C ro c e n a
Itália fascista. C o rno W e b e r e d ife re n te m e n te d e Croce, O rte g a e ra
u m n a cio n alista. N o v a m e n te c o m o C ro c e , su a visão b u r g u e s a
patrícia salvou-o d e c o m placência p a r a c o m a política plebéia de
m obilização n o fascismo, e x a ta m e n te c o m o o agnosticism o deles
/7<S' 0 liberalism o - a n tigOo e moderno

os se p a ra ra d o clericalism o d ireitista q u e a b e n ç o o u ta n to o in cré­


d u lo M ussolini c o m o o devo to g e n e ra l F ran co, “c a u d ilh o d a E spa­
n h a p ela graça d e D e u s”.
O rte g a sabia co m o im p e d ir q u e seu elitism o cultural d e g e n e ­
rasse e m reação política. Disse ce rta vez que, e n q u a n to to d a in te r­
p re ta ç ã o d em o c rá tic a d e u m a o r d e m viva d ife re n te d a esfera d o
direito pú b lico é plebeísm o, to d a c o n c e p ç ã o n ã o d e m o c rá tic a d o
d ireito pú b lico é tirânica. O m e sm o p e n s a d o r que, e m A desumani-
zação da arte (1925), localizou u m e le m e n to “a risto crático ” d a arte
m o d e r n a e m sua v o lu n tá ria o b s c u rid a d e lúdica d e p e n s a m e n to ,
co m o escreveu e m Mirabeau, p e n s o u q u e a “v e rd a d e ira realid ad e
histórica é a n ação e n ã o o E sta d o ” — u m axio m a n o rm a tiv o em
vez d e descritivo. O b rilh o d e A desuwanização ad vém log icam ente
(e n ã o ap en as c ro n o lo g icam en te) e n tre 0 tema modemo e A rebelião
das massas, pois e n q u a n to a n atu reza lúdica da a rle m o d e rn a a to r­
na 11111 sím bolo d c valores da vida co n lra o culluralism o vitoriano,
o h e rm e lism o das form as m o d ern istas re p re se n ta um insulto deli­
b e ra d o ao espírito vulgar e d e m ó tic o do h o m e m d o povo. Assim,
n o fim, a fo rm a pela qual O rte g a foi hostil ao estatism o fascista
implicava ta n to a tradicional p re o c u p a ç ã o liberal pela esfera social,
e m co n tra p o siç ã o à política, q u a n to a re p u g n â n c ia d o elitista cul­
tural p ela política p o p u lista — m e n o s p o rq u e é u m a política não-
liberal do q u e p o r q u e é p lebéia.

Conclusão

O lib e ra lism o clássico d e sd o b ro u -se n u m a série d e discu rso s


con ceitu ais. O s teó ricos liberais fala ra m as líng u as do s d ire ito s
n a tu ra is (L ocke e Paine), d o h u m a n is m o cívico (Je ffe rso n e
Mazzini), d a história p o r estágios (Smith e C onstant), d o utilitarism o
(B e n th a m e Mill), e d a sociologia histórica (Tocqueville). C o m tais
discursos, o liberalism o clássico p r o g re d iu d o w higuism o — a m e ra
Liberalismos conservadores 149

exigência d e lib e rd a d e religiosa e g o v e rn o con stitucion al — p a r a a


d em o çracia, o u a u to n o m ia co m u m a a m p la base social.
E m c o n tra ste , os liberais co n serv ad o res, d e sd e cerca d e 1830
a 1930, p ro c u ra v a m g e ra lm e n te retardara democratização d a política
liberal. Sob esse aspecto, assinalaram u m reg resso a posições whig.
O liberalism o w hig e ra esse n c ia lm e n te u m liberalism o d e r e p r e ­
sentação lim itada, restritiva. O s whigs n o rm a lm e n te c o n c o rd a ria m
c o m K ant, liberal re p u b lic a n o e co nstitucional, e m q u e “o e m p r e ­
g a d o d o m éstico , o balconista, o tra b a lh a d o r, o u m e sm o o b a rb e i­
ro n ã o são... m e m b ro s d o E stado, e assim n ã o se qualificam p a r a
se r c id a d ã o s”, 17 c o m o f u n d a m e n to d e q u e tais pessoas subsistem
m e d ia n te a v e n d a d e seu tra b a lh o e, p o r ta n to , n ã o c o n ta n d o co m
u m a base d e p ro p rie d a d e , n ã o são in d e p e n d e n te s o b a s ta n te p a ra
o exercício d e direitos políticos. A d e m o c ra c ia censitária, a despei-
lo d e toda a in co n g ru ên cia da Crase, p e rm a n e c e u a pressup o sição
p a d rã o lio liberalism o w h ig — e Ibi p re c isa m e n te isto que, d e Paine
e B entham a T ocqueville, o liberalism o clássico ultrapassou.
O s liberais co n se rv a d o re s e ra m neowhigs. D iferiam d o s c o n ­
servadores, liberais o u não, p ela fidelidade aos traços básicos d a
visão liberal d o m u n d o , co m o o individualism o e o latitudinarism o,
e n a rejeição d o h olism o e d a a u to rid a d e religiosa. Mas coincidiam
c o m os c o n s e rv a d o re s n a su a in c lin a ç ã o c o n tr a a d e m o c ra c ia .
Assim, a am p liação cau telo sa das franq u ias políticas in v e n ta d a p o r
r e fo rm a d o re s whig co m o Macaulay tin h a u m escopo e significação
m e n o s q u e dem o cráticos; e os su b se q ü e n te s liberais c o m o M aine
e A c to n te n ta ra m r e c o r r e r ao liberism o (M aine) o u ao federalis­
m o (A cton) c o n tra a m a ré d em ocrática. N e m e ra m d e m o c ra ta s os
evolucionistas utilitaristas co m o B agehot, S te p h e n e Spencer; o qu e
q u eriam , a n te s disso, e ra s u b m e te r a d e m o c ra c ia a p ro p ó sito s não-
dem o c rá tic o s (B agehot) o u a ela resistir em n o m e d a g a ra n tia d a
sobrevivência d o s m ais ap tos (S te p h e n e S pencer). Ig u a lm e n te , a
evolução d o s e g u n d o liberalism o francês, d e 1830 a 1870, parecia,
d e u m a po sição tocquevilliana, u m a involução, pois se a aceitação
150 O liberalismo - antigo e moderno

p o r R é m u sa t d o p rin c íp io re p u b lic a n o foi u m passo considerável


d a d o n o c a m in h o d a d e m o c ra c ia (c o m o o r e c o n h e c im e n to p o r
Laboulaye d o sufrágio universal), a equalização p o r R e n a n d a d e ­
m ocracia com d ecad ên cia to m o u a direção oposta. Seu m o v im en to
re acio n ário foi ap en as e m p a rte desfeito p o r sua re n d iç ã o m o r n a
e final ao cu rso d e m o c rá tic o d a T erc e ira R epública. O sem ilibera-
lism o dos ju rista s alem ães, c o m seu te m a d e direitos sob co n tro le,
foi a in d a o u tro ex em p lo d o r e ta r d a m e n to c o n se rv a d o r n o in te rio r
d o liberalism o, e assim foi a prim azia d a o r d e m so b re a lib e rd a d e
n a fó rm u la d e A lb erd i d e c o n stru ç ã o d e nações. F in alm en te, os
p rim e iro s liberais co n se rv a d o re s d o século XX, tais c o m o W eber,
C ro ce e O rteg a, relu tavam tod o s, o u e ra m am bivalentes d ia n te da
dem ocracia. Seu dissabor p e la política d e m assa o u c u ltu ra iguali­
tá ria levou-os a po sições m e n o s lib erais-dem o cráticas q u e as de
T ocqueville, Mill e Mazzini, n o fim d o liberalism o clássico. Pois
o n d e Mill q u e ria u m a d e m o c ra c ia qualificada e x a ta m e n te p ó rq u e
sonhava co m u m a d e m o c ra c ia d e qu alid ad e, os liberais conserva­
dores tend iam a b rig ar com o p ró p rio princípio dem ocrático, o qual
estavam p re p a ra d o s a e sp o sa r n o m áx im o p o r causa d e m otivos
racionais, e não co m o u m a v e rd a d e ira p referên cia. j

O resultado claro d a inflexão co n serv ad ora d a d o u trin a lixrral,


p o rta n to , foi u m re c u o a b e rto o u in te rn o , m an ifesto o u c o b e rto
d a d e m o c ra c ia liberal. E m seu c a rá te r discursivo, acrescentaijam -
se três o u tro s m o d o s à série d e discursos liberais: o id io m a b irkia-
no, c o m o e m Macaulay, M aine, A lberdi, R e n a n e A cton; a lingua­
gem “d arw inista”, c o m o e m S pencer; e o historicism o, d e raízes
elitistas, d e W e b e r e O rteg a. Pois e n q u a n to o loco d e C ro ce n a
odisséia d a vida m o ra l o cid e n ta l (“vita morale”) a in d a se p a re c ia
I ^ j
v ag a m e n te com a velha visão progressiva, p o r estágios, d o histori-
cism o liberal, o apelo d e W e b e r ao carism a e o an seio d e O rteg a
p o r aristocracias culturais fo ra m a n tes casos com p lex os d a revolta
m o d e rn is ta c o n tra a m o d e r n id a d e — a curiosa alergia q u e sen te o
intelectual m o d e r n o diánt:e d a socied ad e m o d e rn a . ! ;
5

Dos novos liberalismos


aos neoliberalismos

/l.v reivindicações do liberalismo social

S e g u n d o A lb e rt Dicey (1 835-1922), o ju r is ta liberal q u e escreveu


o clássico The L aw o f the Constitution, a r e fo rm a legal n a In g la te rra
c o n h e c e u duas fases d u r a n te o século XIX. De 1825 a 1870, seu
objetivo foi p r im a r ia m e n te a m p lia r a in d e p e n d ê n c ia individual.
D esde e n tã o , visou à ju stiç a social. Dicey, u m liberal co n se rv a d o r
am ig o d e sir H e n ry M aine, d e p lo ro u o sallo d o laissezfaire pai a o
“coletivism o”. O u tro s partilh a ra m seu relato d o salto sem e n d o ssa r
a avaliação q u e fez dele. E ram os “novos lib erais” d e 1880, convic­
tos d e q u e o “individualism o mais velho’’ j á não era válido n o c o n ­
texto social d o industrialisino tardio. C o m e ç a ra m o q u e u m deles,
Francis C harles M o n ta g u e (1858-1935), ch am o u d e “revolta co n tra
a lib e rd a d e negai iva” — a p ró p ria coisa a in d a tão central n o libera­
lismo lib ertário d e M ill.1
T eó ricos c o m o M o n ta g u e reje ita ra m a visão evolucionista dos
sp e n c e ria n o s, o u so d o d a rw in ism o c o m o u m a elegia a o valor
am eaçad o d o individualismo. N o livro The Lim its of Individual Liberty
(1885), M o n ta g u e a rm o u u m a re fu ta ç ã o habilidosa da analogia em
q u e se p redicav a o darw inism o social. A livre com petição, afirm ou,

75/
/ () liberalismo - antigo e mo/lemo

deixava im p o te n te s os fracos. Mas n a so c ie d a d e os fracos estao


longe d e se re m os piores. De q u a lq u e r form a, d if e re n te m e n te d o
qu e acontece n a natureza, em jsociedade as vítimas d a evolução não
são in te ir a m e n te e lim in ad as, m as p e r m a n e c e m c o m o u m p e so
m o rto n o co rp o social. E n tã o jp o r q u e não os ajudar, especialm er te
p o rq u e a sua d e g ra d a ç ã o te rrú in a p o r p re ju d ic a r o co n ju n to ?
A defesa q u e M o n ta g u e fez d o liberalism o social estava longe
de ser antiindividualística. M ò n ta g u e p e n s o u q u e nos te m p o s m o ­
d e rn o s as pessoas d ife re m e m suas p e rso n a lid a d e s (se n ã o e m suas
vestimentas) mais d o que diferiam n o passado; n a Id ade M édia, sujas
diferentes ro u p a g e n s re c o b ria m m u ito m ais u n ifo rm id a d e — cava­
lheiro, b u rg u ê s e c a m p o n ê s ten d ia m a p a rtilh a r a m e sm a vida in­
te rio r o u a falta desta. N ão é verd ad e, a r g u m e n to u M on tag ue, qjie
a sociedade m o d e r n a é d e tal fo rm a o rg a n iz a d a q u e deixa p o u ç o
espaço p a ra a lib e rd a d e individual. O q u e é d e s a fo rtu n a d o é q u é a
sociedade está o rg a n iz a d a p a ra a con secu ção d e d in h e iro , m as d e ­
so rg an izad a p a ia q u a lq u e r o u tr a finalidade. A m esm a fé indivi­
dualista in sp iro u as fam osas / .cclurrs on lhe Principies <>/ l'olitienl
Oblignlion p ro n u n ciad as em O xfo rd p o r T h o m a s I lill G re e n (1836-
1882) em 1879 (p u b lic a d a s p o s tu m a m e n te e m 1886). A m o r te
p re m a tu r a d e G re e n n ã o im p e d iu q u e sua red efin ição d o liberalis­
m o se to m a s se m u ito influ e n te a n tes d a G ra n d e G u e rra . Filho d e
u m clérigo d e Y orkshire, G re e n a d o to u o hegelianism o n a O x fo rd
de m e a d o s d a e ra vitoriana. Mas seu heg elian ism o e ra u m tan to
peculiar. Pois e n q u a n to re tin h a a id éia d o m e stre d e q u e a h istó ­
ria é u m a lon g a lu ta pelo a p e rfe iç o a m e n to h u m a n o , ele p ô s u m
acento kan tian o na a u to n o m ia individual. T a n to em ética co m o em
teoria política, G re e n salientou o valor ab so lu to d a pesso a c o m o a
fo n s el origo das c o m u n id a d e s hu m an as.
O novo liberalism o era tão individualista q u a n to o d e Mill. N ão
obstante, ta m b é m implicava u m a crítica dos p ressu p o sto s filosófi­
cos d e Mill. C o m o M ontague, G re e n opôs-se a u m a re p re se n ta ç ã o
d o qu e é h u m a n o na qual o c o n h e c im e n to é, em últim a análise,
Dos novos liberalismos tios neobbmthsmm 153

re d u z id o a sensações, e a m o ra lid a d e a im pulsos, e q u e e n c a ra a


so cied ad e c o m o u m a m o n to a d o d e indivíduos. Isso consistia n u m
a ta q u e fran co ao e m p irism o , ao u tilitarism o, e à trad ição ato m ista
d e Bentham-M ill, u m a ta q u e levado a d ia n te e m n o m e d o idealis­
m o à m o d a alem ã.
G re e n insistiu e m q u e a ação racional é d ita d a pela v o n ta d e e
o p ç ã o d e u m a fo rm a q u e ultrap assa o seg u ir sim p le sm e n te o dese­
jo o u a paixão. Ele estava lo n ge d a base h u m a n a d a ética utilitária
(e d o fa m o so d ito d e H u m e : “A razão é e deve se r escrava das p a i­
x õ e s”). P a ra G re e n , os fins racionais d a c o n d u ta im plicam a c o m ­
p r e e n s ã o d e q u e , q u a n d o falam o s e m lib e r d a d e c o m o algo d e
inestim ável, p e n sa m o s n u m p o d e r positivo d e fazer coisas m e ritó ­
rias o u delas u su fru ir. P o rta n to , a lib e rd a d e é u m co n ceito positi­
vo e su b sta n tiv o , e n ã o u m c o n c e ito fo rm a l e n egativo. N esse
se n tid o , o idealism o d o no v o liberalism o foi efetivam en te u m a re ­
volta c o n tra a lib e rd a d e negativa n o se n tid o d e Locke e d e Mill,
fu n d a d a n a idéia h o b b e sia n a d e lib e rd a d e c o m o ausência d e im­
p edim en to. G reen cam inhava de unia pre o c u p a ç ã o com liberdade dc
p a ra um a estim a n o v a m e n te d e sp e rta d a d e liberdade para.
Q u e d izer q u a n to a suas opiniões a re sp e ito d o Estado? O li­
b eralism o clássico fizera re c a ir o p e so d a ju stificação so b re a in te r­
ferên cia estatal. N o rm a lm e n te , o E stado devia d e ix a r q u e a cida­
d an ia livrem ente tratasse d e seus negócios. Sua in terferên cia só era
legítim a e m b en efício d a se g u ra n ç a individual, co m o u m a g a ra n ­
tia d a livre d e te rm in a ç ã o pela so cied ad e d a m a io r felicidade p a ra
o m a io r n ú m e ro . G r e e n n ã o e ra tão m inim alista. A fu n ção d o Es­
tado , en sin o u , devia co n sistir n a “re m o ç ã o d e ob stá c u lo s” a o au-
to d e se n v o lv im e n to h u m a n o . Isso e ra ta tn b é m u m a idéia alem ã,
d e c o r r e n te d e H u m b o ld t.2 O Estado n u n c a se p o d ia p ô r n o lu g a r
d o esforço h u m a n o p a r a a Büdung, o u c u ltu ra pessoal, m as p o d ia
e devia “p ro m o v e r co n d iç õ e s favoráveis à vida m oral".
G re e n acreditava q u e, e m sua f o rm a clássica, o liberalism o es­
tava se to r n a n d o “o b s tru tiv o ”, n a m e d id a em q u e sua receita poli-
154 O liberalismo - antigo e moderno

tica m in im alista tornava-se c re s c e n te m e n te o b so leta devido à p e ­


n e tra ç ã o cad a vez m a io r d o direito n a so cied ad e n o m e sm o passo
e m q u e a civilização p ro g re d ia . A seus olhos, os receios d e Maine-
Dicey-Spencer q u a n to a tal te n d ê n c ia e rrav am o alvo, q u e consis­
tia n a qualidade d a in te rfe rê n c ia estatal, e n ã o n o fato d e q u e esta
se verificava. G re e n p e n s o u q u e é b o a coisa a “re m o ç ã o d e obstá­
culo s” m e d ia n te re fo rm a s esclarecidas q u e possibilitassem a m a io r
n ú m e r o d e indivíduos gozar d e mais altas liberdades. Deve-se estar
p r e p a ra d o para violar a letra d o velho liberalism o p a ia sei’ liei a
seu espírito — o a m p a ro à liberdade individual. Isso exigia fortalecer
o acesso à o p o rtu n id a d e .
C ra n e B rinlon cham ou G re e n de um salvador do liberalismo,'1
K isso ( Jreen Ioi, p o rq u e m u d o u pressu po stos e q ueria alici a r p rá ­
ticas, sem re n e g a r os valores básicos da d o u trin a . For exem plo,
e m b o ra não.fosse p a rtid á rio d o laissez-faire, ele não a b a n d o n o u o
liberism o. C o n sid e ro u a p r o p rie d a d e privada um a rrim o essencial
ao desenvolvim ento d o caráter, e resistiu à c ren ça socialista de que
o capitalism o é a causa fu n d a m e n ta l d a p o breza. C o n v e n c id o de
q u e a in d e p e n d ê n c ia e c o n ô m ic a alim e n ta a a u to co n fian ça, dese­
j o u c o n v e rte r os tra b a lh a d o re s e m p e q u e n o s p ro p rie tá rio s; e c o m o
a d m ira d o r sincero d o liberalista quaker J o h n B rig h t (1811-1889),
ele m an teve u m a visão en fa tic a m e n te n ã o -whi<r.
o7an tiaristocrática d a
h istó ria inglesa.4
N o fu n d o , a idéia q u e G re e n tin h a d e a p e rfe iç o a m e n to social
consistia e m q u e as classes m édias iriam a te n c io sa m e n te a ju d a r os
p o b re s a se to rn a re m b o n s c conscienciosos b urg ueses — o qu e não
é tão d istan te d o p ró p rio elitism o cívico de Mill. C o m o Mill, G reen
su b lin h o u a participação política c o m o u m a ob rig ação m oral.:Seus
in té rp re te s m o d e rn o s estão certos: G re e n d e u ao liberalism o u m
re c o m e ç o d e vida c o n ju g a n d o os valores básicos dos direitos e li­
b e rd a d e s individuais co m u m a nova ênfase n a igu a ld a d e d e o p o r ­
tun idad es, e no elhos d e c o m u n id a d e .5 A o fazê-lo, ele n ã o c o n fe riu

ao no v o liberalism o v ito riano ta rd io q u a lq u e r inflexão socialista.


Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 155

Isto o c o r r e r ia u m p o u c o m ais ta r d e , n a te o ria social d a Belle


É p o q u e , e m a m b a s as m a rg e n s d o cana] da M ancha. Mas, c o m sua
filosofia idealista a lta m e n te espiritual, G re e n escreveu o p ró lo g o
m o ral ao liberalism o social d e 1900. Pode-se d izer q u e a ca rta ori­
ginal p a r a o E stad o social b ritâ n ic o , tra ç a d a p elo liberal W illiam
B everidge (1879-1963) n o Reforrn Club (o n d e m ais p o d e ria ser?) em
1942, reflete u m a p re o c u p a ç ã o g ree n ia n a em equilibrar a segurança
social co m a lib e rd a d e individual. G r e e n foi o pai d o reverdeci-
m e n to d o liberalism o mais e x a ta m e n te n a m odificação d o q u e na
negação d o c re d o clássico.
N a França, a tra n sfo rm a ç ã o clica d o liberalism o m im a d ire ­
ção social'liberal e m b o ra não socialisla (q u e c o m e ç o u tia Grã-
B retanh a com o e n c a n lo das l.iu lm fs d e G re e u ) assum iu a form a
d e republicanismo. C latide Nicolet, n o .seu livro notável L ld ê e répu-
hlicaine an /'rance, d istinguiu três espécies de p e n s a m e n to re p u b li­
c a n o p o r volta d e 1870.*’ P rim eiro , h o u v e o re p u b lic a n ism o ro ­
m ân tic o d o espírito d e 1848. Este subdividia-se, p o r sua vez, em
diversas posições políticas: n e o g iro n d in o s co m o Q u in e t; n eo d an -
tonistas c o m o M ichelet e V ictor H u g o (1802-1885), o p o e ta e legi-
tim ista q u e se to r n o u u m inim igo fero/, do S e g u n d o Im p é rio ; e
n eo ja c o b in o s c o m o o socialista Louis Blanc. Em s e g u n d o lugar,
h o u v e os re p u b lic a n o s espiritualistas c o m o os acad êm ico s E tien ne
V a c h e ro t (1 80 9 -1 8 9 7 ) e Ju le s S im o n (1814-1896), q u e p e r d e r a m
suas cadeiras p o r q u e se re c u sa ra m a p re s ta r ju r a m e n t o d e fideli­
d a d e ao re g im e im perial.7 E m 1859, V a c h e ro t p u b lic o u L a démo-
cratie (significando a república) e Sim on, La liberlé, d uas bíblias do
liberalism o d e e sq u e rd a n a época. Ao lado de V acherot e Sim on,
pode-se co locar C harles R e n o u v ie r (18 15-1903), u m prolífico filó­
sofo n ã o acadêm ico. R en o u v ie r e m e rg iu das batalhas de 1848 com
u m a p o siç ã o filosófica q u e p a rtilh a v a m u ito s p rin c íp io s ético-
políticos, se n ã o p ressu p o sto s m etafísicos, c o m o rep u b lic a n ism o
espiritualista. E m ú ltim o lugar, c o m o u m te rc e iro g ru p o , havia o
re p u b lic a n is m o positiv ista d e J u le s F erry (1 8 3 2 -1 8 9 3 ) e l.eoti
/ 56 0 liberalismo - antigo e moderno

G a m b e tta (1 8 3 8 -1 8 8 2 ), líd eres r e p u b lic a n o s d a jo v e m T e rc e ira


República.
D o p o n to d e vista d a teoria liberal, os casos mais in te re ssa n ­
tes n essa variegada série re p u b lic a n a são os d e S im o n , R e n o u v ie r
e Ferry (sem c o n ta r com a re in te rp re ta ç ã o d a R evolução F rancesa
p o r M ichelet e Q uin et). S im o n p r e g o u o sufrágio universal, gover­
n o responsável, e lib erd ad es locais. Ele era p r o f u n d a m e n te hostil
ao revo lucio n arism o e ao jac o b in ísm o , c o n tr a p o n d o o ideal r e p u ­
b licano ao co m u n ism o in su rre c io n a l d e A ug u ste B lanqui (1 8 0 5 -
1881). Q u a n to à e co no m ia, ele e ra favorável à c o m p e tiç ã o e n ã o
ao dirigisme d e Louis Blanc. O p o d e r legítim o d o E stado devia ser
m a n tid o n u m nível d e u m “m ín im o d e a ç ã o ”. E m b o ra fosse ó a u ­
to r d a Politique radicale (1868), S im o n denom inava-se u m “rèpu-
blicano p r o fu n d a m e n te m o d e r a d o ”. O p o d e r gov ern am ental es-
creveu, devia se r “fo rte maS restrito, fo rte porque re s trito ”.
C o m o Sim on, Jules Feí ry serviu co m o m in istro nas p rim eiras
décadas d a T erc e ira R epública. T e n d o a rr u in a d o as transações
íin an ceiras d o fam oso prel cito d e Paris d e N a p o le ã o III, n u m a
11
série d e artigos p a ra Le Te ■nps (coligidos e s p iritu o sa m e n te c o m o
Les comp/es pintas/.iques tl'U, •lussmann, u m tro c a d ilh o fu n d a d o na
i
b em -co n h ecid a ó p e ra cômi ca Les contes fantasliques d ’Hoffnuènti),
Ferry foi ele p ró p r io n o m e a d o pre fe ito d a capital d e p o is d a q iied a
d o im p ério. Mas o seu m a io r trab alh o foi o q u e e x e c u to u cç>rao
m in istro d a E ducação n a d é c a d a d e 1880, im p la n ta n d o a im pres­
s io n a n te cadeia d e escolas leigas qu e, n a frase d e E u g e n Wejaér,
tra n s fo rm a ra m os ca m p o n e se s e m franceses. O r iu n d o d e u m m eio
b u rg u ê s p ro te sta n te , Ferry e ra u m liberal anticlerical p a ra quejrr a
ação d o E stado q u a n to a o p ro b le m a social devia se r preferi vèl-
m e n te “higiênica” a “te ra p ê u tic a ”: o go v ern o deveria encor; íjâr
arran jo s d e seg u rança social, m as sem te n ta r re m e d ia r d ire ta n en-
te necessidades sociais.8 Ferry c o n c e b e u a re p ú b lic a c o m o Uma
alavanca d o pro g resso ta n to m o ra l q u a n to m aterial. A rep ú blica
e ra ao m e sm o te m p o u m a o r d e m e u m ideal p re d ic a d o s n ã o em
Dos novos liberalismos aos neolíberalismos 157

d ireito s n aturais, m as n a evolução d o espírito e d a sociedade,


co m o n o positivism o d e C o m te. Mas Ferry sub stituiu a u to p ia de
C o m te d e g o v e rn o científico p e la política liberal; e c o n c e b e u o
ethos re p u b lic a n o c o m o u m se n tid o d e missão, civilizando a socie­
d a d e m o d e rn a .
Ferry e ra m ais u m estadista d o q u e u m teórico. R enouvier, e m
contraste, n a d a mais era q u e u m intelectual. N asceu e m M ontpellier
co m o C o m te (e e s tu d o u sob a d ire ç ã o deste n a Escola Politécnica)
e m o r r e u n o m e sm o a n o e m q u e m o r r e u S pencer, m as a f o rm a d e
seu espírito n ã o p o d e r ia se r m ais d ife re n te q u e a d e q u a lq u e r u m
dos dois. R en o uv ier era u m kan tian o livre qu e acreditava q u e a ética
é u m a o brigação, e q u e os d everes são m ais im p o rta n te s q u e os
direitos. N a su a ju v e n tu d e , ele c o m p ô s Le m anual republicain de
1,’homme et du ciloyen (1848), u m catecism o socialista p a r a p ro fe sso ­
res p rim á rio s. T en do -se re tir a d o d a política d u r a n te o S e g u n d o
Im p é rio , p u b lico u L a science de la morale (1869). E m sua o p in iã o , o
h o m e m racio n al estava o b rig a d o a assinar (p o r assim dizer) dois
co ntrato s: u m consigo p ró p rio , e sta b e le c e n d o u m “g o v e rn o in te r­
n o ” d e c o m p o rta m e n to ; o o u tro , c o m os o u tro s ag en tes m orais,
seus s e m e lh a n te s , fu n d a d o na justiça assim c o m o o re s p e ito
k a n tia n o — q u e r dizer, co m o u m c o m p ro m isso d e n ã o re d u z ir os
o u tro s a sim ples m eios p a ra fins d e terceiros. N esse co n te x to , o
socialism o veio a significar u m telos racional, m as n ã o u m prin c í­
p io d e o rg anização social. N u m a o b r a de ficção política, Ucronie
(1876), q u e d e sc re v ia a saga d a h u m a n id a d e c o m o p o d e r ia te r
o c o rrid o , R e n o u v ie r igualou a felicidade h u m a n a com o r e c o n h e ­
cim e n to g en eralizad o d a lib e rd a d e individual. C o m b a te u os cléri­
gos católicos e elogiou o p ro te sta n tism o p o r sua ênfase n a cons­
ciência individual. E m seu livro Esquúse d ’une classification systéma-
tique des doclrines philnsophiqu.es (1885), ele distinguiu du as espécies
d e filosofia: a filosofia d a coisa —infinitista, naturalista e necessilávia
— e a filosofia d a consciência — fm itista, p e rso n alista e libertária.
O s dois ú ltim o s adjetivos e n c e rra m a essência d o liberalism o ético
158 O liberalismo ~ (iiuttro <- moderno

de R enouvier. E ra u m a teorização b a sta n te a p a r e n ta d a com o [es­


p írito d o idealism o d e G re e n n a Inglaterra. j
E n q u a n to n a G rã-B retan ha o novo liberalism o d e te n d ê n c ia
social d e 1900 foi estim u la d y p o r instituições d e serviço públic<j>,
co m o o T o y n b e e Hall, n a F ran ça o equivalente local d o liberalis­
m o social — o rep ub licanism o ético — foi p o d e ro s a m e n te catalisado
p ela c a m p a n h a d e direitos h u m a n o s lan çad a p o r m e io d a q u estão
Dreyfus (1896-1898). N o e n ta n to , e m te rm o s intelectuais, o p ap el
q u e a filosofia d e O x fo rd r e p r e s e n to u n a G rã-B retan h a foi re p r e ­
s e n ta d o n a F ran ça p e la a sc e n d e n te disciplina d a sociologia. C o m o
n o caso inglês, o individualism o, u m esteio d o p e n sa m e n to libe­
ral, não estava n a d a m o rto n a França. Poder-se-ia m e sm o dizer que,
n a verd ade, ele se fortaleceu n u m a s p o ucas dim en sões, a n tes que,
fin alm ente, fosse negligenciado n a teoria social francesa. O s libe­
rais franceses d o p rincíp io e d e m e a d o s do século haviam m uitas
vezes sido in diferentes ao liberism o, com exceção d e econ o m istas
com o Jean-Baptiste Say (1767-1832) e Frédéric Bastiat (1801-1850),
u m am igo dos livre-cambistas d e M an ch ester, mas p assou a c o n ta r
c o m u m púb lico m ais am plo. U m clássico d o liberism o fen-de-siècle,
L ’É lat moderne (1890), p o r Paul L eroy-B eaulieu (1 8 3 4 -1 9 1 6 ),
tornou-se u m besl-seller.
O c h o q u e e n tre intelectuais repu b lican os e forças reacionárias
n a socied ad e fran cesa q u a n to ao d e stin o d o capitão D reyfus susci­
to u u m a r u p tu r a n a o p in iã o nacio nal cjue levou m u ito s espíritos
p o n d e r a d o s a m e d ita r so b re a c o nd ição m oral d a so cied ad e m o ­
d e rn a . O fu n d a d o r d a escola sociológica francesa, Em ile D u rk h e im
(1 858-1917), foi u m d efen so r, e n ã o u m d e tra to r, d o individualis­
m o; mas, co m o u m analista d a an om ia, a c on d ição d e au sên cia de
n o rm a s, o curso m o ral n a civilização urbano-industrial, D u rk heim
p ro c u ro u p ro te g e r a so cied ade fo rta le c e n d o associações profissio­
nais e, d e m o d o mais geral, elo g ian d o diversas form as de solida­
ried ad e social. N a m u d a n ç a d o p erso n a lism o d e R eno u vier p a ra o
solidarism o de D urkheim , o hrilho elico <lo liberalism o (Io lim <lo
Dos novos liberalismos aos ncolibendísmos 159

século XIX foi b e m p reserv ado . A p a ssa g e m p a ra o socialism o, se


defin id o em te rm o s d e c o n tro le estatal, foi m ais u m a vez evitada,
mas o perfil d o liberalism o social to rn ou -se mais nítido.
A política favorita e n tre os se g u id o re s d e D urk heirn e ra o so­
cialismo liberal d e J e a n J a u r è s (1 85 9 -1 9 14 ), u m dreyfusista p a ra
q u e m o socialism o e ra u m rem ate, e n ã o u m a negação, d o indivi­
d ualism o. Mas p e lo m e n o s u m m e m b r o p r o e m in e n te d a escola de
D u rk h e im , C élestin R ouglé (18 7 0-1 9 40 ), te n to u a b e r ta m e n te co­
lo car a sociologia a serviço do liberalism o. Seu ensaio d e 1902, “La
crise d u lib éralism e”, foi u m a re p re s e n ta ç ã o in telig en te d a situa­
ção ideológica. Ele c o m p re e n d e u q u e os ataq u es direitistas c o n tra
a lib erd ad e, p o r u m lado, e o su rto a n a rq u is ta através d a d é c a d a
d e 1890, p o r o u tro , estavam im p e lin d o os liberais p a r a a ang ú stia
d a u n id a d e . B o ug lé q u e ria evitar u m a e n tre g a liberal a u m a d e m a ­
siada a u to rid a d e estatal, m o s tra n d o q u e as raízes sociais d a liber­
d a d e m o d e r n a e ra m tão fortes e saudáveis q u a n to variadas. Ele viu
n a so cied ad e m o d e r n a u m p ro cesso d e d iferen ciação d e valores,
d e m ultiplicação d e fins (“politelism o”), tan to q u a n to u m a crescente
divisão d o trab alho . Mas a p ro liferação d e fins n ã o p rejud icava a
u n id a d e social, p o r q u e m u ito s objetivos d ife re n te s p o d ia m se r al­
cançad o s pelos m e sm o s m eios.9 A o m e sm o te m p o , o c re scim en to
d a lib e rd a d e c o m o a u to n o m ia d e escolha fundava-se n u m a e x p a n ­
são significativa d a igualdade, co m o B ouglé m o s tro u n u m inteli­
g e n te e stu d o d e 1899, Idées égalilaires. C o m essa espécie d e a rg u ­
m e n to s p e n e tr a n te s , B o ug lé resistiu á p r e o c u p a ç ã o d o p r ó p r io
D u rk h e im co m a ale g a d a u n id a d e p e r d id a d a m o d e r n a — o u seja,
liberal — sociedade. Mas, co m o a te o ria sociológica co m o u m to d o
e n tro u p o r u m cam in h o d iferente d c sua índole liberal-democrática,
suas defesas e q u ilib ra d a s d o libe ra lism o p e r m a n e c e r a m a m p la ­
m e n te ignoradas.
Pode-se ligar legitim am en te o durklieim iaiiism o com o libera­
lismo, in d e p e n d e n te m e n te de rótulos, p o r causa da fidelidade geral
d a escola ao individualism o co m o a m o d e rn a m atriz d c valores.
!(>() O hbnalünzo - antigo e moderno

No au g e d a q u estão Dreyfus, o p r ó p r io D u rk heim , e m b o r a lutasse


p a ra dissociar a m e n sag em d a sociologia d o individualism o estreito,
“com ercialista” d e S p encer, re a firm o u em te rm o s inequívocos o
individualism o co m o a legítim a fé d a so cied ad e m o d e r n a .10
O u tr a p o n te e n tre a sociologia e a trad ição liberal foi a a titu ­
d e d u rk h e im ia n a p a r a c o m o E stado. N a v erd ad e, a re sp o sta à glo­
rificação a le m ã d o E stad o deveu-se p rin c ip a lm e n te a o u tr o
d u rkh eim ian o in d e p e n d e n te , o teórico jurídico L éo n D uguit (1859-
1928). Ao m e sm o te m p o qu e rejeitava a idéia d o mestr e d e u m a
consciência coletiva, Duguit re c o rre u à ênfase d e D u rk h eim nas
associações da sociedade civil p a ra d e sm a n te la r a mística da so b e­
rania nacional e a sua aura eslatista. C o m o D urkheim , ele criticou
R ousseau e Kant p o r passarem p o r cim a d o b erço e da a rm ação
social d a a u to n o m ia individual. Mas e m seu Traité de droit conslilu-
lionnel (1911), ele atacou o Staalslehrc alem ão p o r falar n o E stado
co m o u m sujeito legal d o ta d o d e u m a p e rso n a lid a d e mais elevada.
O conceito q u e D uguit fo rm u lo u d o E stado colocava a fu n ção d o
serviço público n o lugar d o imperium d a so beran ia. Sua influência
e n tre os fu ncio nário s públicos e a e s q u e rd a m o d e r a d a n o p e río d o
de e n tre g u erras foi e n o r m e .11 C o n fe rin d o a o “so lid arism o ” u m a
face legal, ele tra n s p o rto u o p e n s a m e n to re p u b lic a n o francês p a ra
o limite e n tre liberism o social e co m u n ita rism o . Talvez u m ró tu lo
e x p e rim e n ta l — liberalismo m arginal* — qualificasse b e m a sua p o ­
sição, q u e foi d e g ra n d e im p o rtâ n c ia n a h is tó ria d o s e n tre la ç a ­
m en to s d a teoria política e a filosofia jurídica.
Pode-se dizer d e M aitland, h isto ria d o r ju ríd ic o d e C am b rid gc,
q ue alcan ço u u m p o n to sim ilar d e c h e g a d a p o r u m c a m in h o muif
to d iferente. M aitland r o m p e u com a p ia le n d a whig d e q u e os di­
reitos corp o rativ os (lei d a associação, e m D uguit) estavam ligados
ao m u n d o p r é - m o d e r n o d a tra d iç ã o e p r e s c r iç ã o .12 M a itla n d
í
a p re n d e u com G icrke q u e esse n ã o e ra o caso. P equ enas unidade.H

(*) T ra d u ç ã o livre d e fiin g e lib m ü h m . (N. d o T.)


Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 161

a u tô n o m a s n ã o e ra m a n tig u id ad e s “te u tô n ic a s” — e ra m criaturas


d a so c ie d a d e c o m e rc ia l m o d e rn a . O c o n s e rv a d o r liberal M a m e
acreditava q u e a c o rp o ra tiv id a d e e ra u m a n o ç ã o antiga, q u e re ­
cen dia a Gemeinschafl e, p o rta n to , não-individualista. Mas M aitland,
e m estu d o s c o m o Township a nd Borough (1898), m o s tr o u q u e a
c o rp o ra ç ã o e ra u m c onceito m u ito m ais rece n te . A o fazê-lo, aju­
d o u a estabelecer u m a base jurídica p a r a os su p o rtes institucionais
d o liberalism o social, c o m o sindicatos e associações.
O liberalism o social p ro p r ia m e n te d ito floresceu nos p rim e i­
ros anos d o novo século p rin c ip a lm e n te graças “aos dois H o b s ”,
J o h n H o b s o n (1 8 5 8 -1 9 4 0 ) e L e o n a r d I Fobhousc (1 8 6 4 -1 9 2 9 ).
H o b so n e ra u m ensaísta prolífico e escrevia alto jornalism o. Per­
tencia à e sq u e rd a d o Partido Liberal inglês e, n u m a defesa d a li­
b e r d a d e positiva n ã o d ife re n te d a d e G ree n , q u e ria q u e o g o v e rn o
criasse o p o rtu n id a d e igual. Mas f u n d a m e n to u o novo liberalism o
n a evolução, e m vez d e fundam entá-lo em LIegel, d a n d o ênfase ao
c re sc im e n to org ânico. E m Work and Weallh (1914), re c o n h e c e u o
m é to d o evolucionista “em todos os processos o rg â n ic o s”, d o fru to
d o carvalho ao carvalho, d e ruídos selvagens à sinfonia, e d a tribo
prim itiva ao E stado federal m o d e r n o .13 D a m e sm a form a, n a o p i­
nião d e H o b so n , a visão q u e G re e n tin h a d o capitalism o a in d a era
e x cessivam ente b e n ig n a . H o b s o n , e m c o n tra ste , viu o m e r c a d o
c o m o u m a fo n te d e d e sp e rd íc io e d e s e m p re g o — males p a r a os
quais a p o u p a n ç a sozin ha n ã o e ra u m a solução. A crítica d o m e r ­
cad o feita p o r H o b so n tem sido fre q ü e n te m e n te in terp reta d a co m o
p re c u rs o ra d o keynesianism o. Mas, d e fato (com o Lionel R obb ins
o bserv o u faz m u ito te m p o e P e te r C larkc relem b ro u ), o p ro b le m a
su rge n o e n te n d e r d e Keynes q u a n d o as p o u p a n ç a s deix am d e se
t o r n a r in v estim en to s, e n q u a n to p a r a R o b s o n a d ificu ld a d e real
consiste e m q u e o investim ento p o d e tornar-se excessivo em relação
ao c o n s u m o .H
H o b so n h e r d o u o conceito d e s u b c o n su m o d e u m a tradição
lib erista q u e r e m o n ta v a a Say, c o n t e m p o r â n e o d e R icardo na
th'.'. ( ) li b e r a l i s m o - a n t i g o e mo der no

I1'rança. Em seu livro m ais b e m c o n h e c id o , Irnperialism (1902),


escrito c o m o reação à G u e r r a d o s B ôeres, H o b s o n re a c e n d e u a
antiga c o n d e n a ç ã o liberista, m a n c h e s te ria n a d e política e x te rn a
agressiva e in terv en ção militar. Mas ta m b é m reviu o diagnóstico
de M a n c h e ste r. E n q u a n to p a r a C o b d e n e B rig h t o m ilitarism o
brotava d a am bição aristocrática, H o b so n salientou o u tra causa: m á
distribuição d a renda. A riqueza e as p o u p an ç as excessivas levavam
ao s u b c o n s u m o e, p o r ta n to , a o im p e ria lism o c o m o u m a saída.
A ntes d o conflito dos B ôeres, H o b s o n e seu am ig o H o b h o u s e ,
co m o novos liberais, partilhavam a visão coletivista dos Fabianos
(os W ebbs e Slraw). Q u a n d o os W ebbs, co m o o u tro s liberais re­
form istas tais c o m o A squith e H a ld a n e , declararam -se favoráveis
à ação im perialista na África ((o Sul, os dois Ilo b s afastaram -se
d e le s.15 O p ro testo a ntiim peria isla d e H o b so n tinha u m veio de
KuUitrpessim.isimts — d e p lo ro u a raição dos trab a lh a d o res aos inte-
lectuais na. oposição à g u e rra e força d o jingoísm o em sociedad e
industrial avançada.
Na opinião d c I lobson, o i •médio eslava à mão: im p o n h a (a-
xação redistributiva, e terá cons u m o c ju stiç a e m casa ju n ta m e n te
com paz n o exterior. Seu ensaio d e 1909 “T h e Crisis o f Liberalism
foi escrito em defesa d a refo rir a social (o e m b riô n ic o Estado so­
cial d e Lloyd G corge). O q u e H o b so n pleiteava e ra a lg u m a p r o
p rie d a d e pública d o solo, q u e perm itisse h abitação decen te; trans­
p o rte público; n e n h u m m on o p ó lio ; u m a re d e nacional d c escolas
públicas (no sentido continentaj); e u m sistem a legal mais ju s to . A
redistribu ição fiscal d a receita faria a tarefa, d e u m a m a n e ira que
n ã o se assem elhava re m o ta m e n te a revolução; e n q u a n to o capita­
lismo, u m a vez re g e n e ra d o e reg u lad o , n ã o devia c e rta m e n te ser
su bstituído p o r u m sistem a ec o n ô m ico in te ira m e n te diverso.
A fidelidade ao liberalismo foi, afinal d e contas, até m a io r no>
caso do o u tr o H ob. C o m o G rc e n , Hobhou.se era o filho d e um;
pastor de aldeia. D iferentem ente d e ITobson, ele e ra u m acadêm ico
e fun dou a p rim e ira cadeira d e sociologia n a Escola d e E c o n o m ia
Dos novos liberalumos aos neoliberalismos 163

e C iência Política d e L o n d re s, em 1907. E ra urn evolucionista do


“e sp írito ” — q u e r dizer, u m evolucionista q u e dava ênfase à e m e r­
gência d e form as mais n o b re s d e existência em vez d e sa lie n ta r a
aspereza da sobrevivência d os mais aptos. C o m o os saint-simonianos
e os an arq u istas m ais h u m a n o s , n o ta d a m e n te K ro p o tk in (1 8 4 2 -
1921), H o b h o u s e desejava a rd e n te m e n te d e m o n s tr a r q u e a socie­
d a d e p ro g rid e p o r força d a cooperação h u m a n a e d a superioridade,
e m últim a instância, d o a ltru ísm o sobre o egoísm o.
O livro d e H o b h o u s e Liberalism, d e 1911, tornou-se o evange­
lho d a n ova religião, a trib u in d o à lib e rd a d e positiva no sen tid o
g re e n ia n o u m fu n d a m e n to evolucionista. Seu ideal consistia n u m a
sociedade orgânica q u e p ro p o rc io n asse à m aioria d e seus m e m b ro s
“u m a igualdade viva d c d ire ito s” com o p o rtu n id a d e s a b u n d a n te s
p a r a o a u to d e s e n v o lv im c n to individual; a p rin cip al m a q u in a r ia
institucional, c o m o n o caso d e H o b so n , e ra m agências d e bem -
e sta r social financiadas p o r u m a taxação so cialm e n te o rien ta d a.
H o b h o u se acreditava q u e o p io r da luta d e classes j á passara, um a
vez q u e a (ardia riqueza vitoriana podia p e rm itir um a am pla distri­
buição, e n q u a n to sindicatos responsáveis m anifestavam u m a cres­
c en te capac id a d e d e praticar- a dem ocracia.
C o m o e m to d o n o v o liberalism o, os direito s h o b h o u s ia n o s
e ra m co n c e d id o s pela sociedade, m as sua fu n ç ão residia em auxi­
liar o c re sc im e n to d a in d iv id u alid a d e . H o b h o u s e o c u p a v a u m a
posição a m eio c a m in h o e n tre G re e n e Mill, sensível ao c onceito
q u e o p rim e iro tin h a d a lib e rd a d e c o m o o direito que se te m d e
p ro d u z ir “o m e lh o r d e si m e s m o ”, m as d isp o sto a re c o n h e c e r que,
q u a n d o se tra ta d e d e c id ir q u e m é o m e lh o r ju iz no caso, a única
f o rm a liberal razoável d e lidar c om o p r o b le m a consiste e m g a ran ­
tir a lib erd a d e pessoal n o sentido d e Mill. H o b h o u s e te n to u fo r­
m u la r u m a ética evolucionista c o m o u m a base p a ra o livre coleii-
vismo. Mas, n o fu n d o , m o stro u certa am bivalência c om relação aos
sin d ica to s, p o r q u e estes p o d ia m a g ir m o v id o s p o r interesses
particularistas e m vez d e lu tar p elo b e m c o m u m . C o m o G reen, ele
Ib4 U liberalismo - antigo e moderno

divisou o b e m c o m u m co m o u m a n o r m a mais elevada q u e ojs o b - ;


i
jetivos individuais, m as este n ã o devia ser igualado, à m a n e ira d e ;
D urkheim , a q u a lq u e r v o n ta d e suprapessoal. N a L o n d re s d o te m ­
p o d a g u e rra , o u v in d o o e stro n d o das b o m b a s alemãs, H o b h o ú se
raivosam ente travou-se coni I legel e escreveu to d o u m volumej, The
Metaphysical Theory o f lhe State (1918), co m o u m a refu tação d ó tri­
b u to d e B e rn a rd B o n sa n q u e t (184 8-1 923) e d e o u tro s hegelianos
britânicos a o “e u coletivo”. !
N a prática, esses distinguos, p o r indicativos q u e fossem d a ca­
pa cid ad e q u e tin h a o e m p irism o d e sobreviver à síntese d e Mill,
n ã o im p o rta ra m em m uito. Mas o c a m in h o conceituai aberto; p o r
conceitos hegelianos, co m o o eu mais elevado d o “Estado é tic o ”,
p o d ia a b rig ar im plicações p e rfe ita m e n te iliberais. Fraucis I le r b e r t
Bradley (1846-1924), o principal neo-idealista, escreveu u m ensaio
m u ito inílu en te, “M in ha posição e seus dev e re s” (coligido em seus
Elhical Studi.es, 1876), q u e re d u zia o eu m o ral a u m a alim entação
social d o eu so b re a consciência d a fu nção h u m ild e q u e se tem no
in te r io r d o o rg a n is m o social. B o n s a n q u e t, so b a influência d e
Bradley, d ec laro u q u e “as mais p ro fu n d a s e mais elevadas realiza­
ções do h o m e m n ã o p e r te n c e m ao ser h u m a n o p a rtic u la r e m seu
r e p u g n a n te iso la m e n to ” (prefácio a The Philosophical Theory o f the
State) — o q u e era sem dúvida antiindividualism o no mais alto grau.
O exorcism o p ra tic a d o p o r H o b h o ú s e d o fa n ta sm a d e H egel foi
u m a o p o r tu n a reafirm ação d c v e rdades liberais.
G re en e H o b h o ú s e partilhavam , co m o se isto ela fosse, u m a
versão social d o conceito alem ão d e lib e rd a d e c o m o autotelia, a
qual, co m o sabem os, é com patível c om a lib e rd a d e c o m o a u to n o ­
m ia (política) m as dela difere. Mas H o b h o ú se , c o m o o líder m oral
do liberalism o na Belle Kpoque, sofreu um a evolução sutil. Dife­
re n te m e n te d e I lobson, ele não viveu para ver a irru p ção da Se­
g u n d a G u e rra M undial. Mas, depois d e 1918, co m eço u a te m e r os
p o d e re s crescentes do Estado e se a p ro x im o u tan to do liberism o
com o do liberalismo político tradicional.11’ Em conseqüência, a idéia
Dos novos liberalismos aos neoliberalisrnos 165

alem ã d e lib e rd a d e p e r d e u algum te rr e n o im p o rta n te em seu p e n ­


s a m e n to q u a n d o re g re sso u , c o m reservas, à m escla m illian a d e
a p e rf e iç o a m e n to h u m a n o c o m os c o n ce ito s clássicos ingleses e
franceses d e lib e rd a d e c o m o in d e p e n d ê n c ia pessoal e c o m o au-
to g o v e rn o coletivo. Assim, o “novo lib eralism o ” aproxim ou-se do
liberalism o clássico.
T u d o b e m p o n d e r a d o , o novo liberalism o, inclusive o libera­
lism o social dos dois H obs, n ã o se ap re se n ta v a c o m o m u ito estra­
n h o a o p e n sa m e n to de Mill. Os novos liberais q u eriam im p le m e n ta r
o potencial p a ra o desen volv im en to d o in divíduo q u e fo ra caro a
Mill em se g u im e n to a H u m b o ld t, e ao íazê-lo p e n s a ra m n o direito
e n o Estado co m o instituições habililadoras. Esta p re o c u p a ç ã o com
a liberdade positiva levou-os a ultrapassar o Estado minimalista. Mas
n ão e ra m d e q u a lq u e r fo rm a hostis, c o m o qu estão d e princípio,
seja a o individualism o, seja ao liberism o; e su a p re o c u p a ç ã o cívica
já estava p re s e n te e m T ocqueville e Mill. Eles c e rta m e n te se livra­
ram d a p rim e ira estatofobia liberal, m as n ão e ra m estatistas. C o m
o beneficio d o rec u o n o tem po, o liberalismo social da Belle E p oque
se p are ce mais c o m o liberalism o clássico d o q u e c om o socialis­
m o d a v e rte n te prin cip al — pelo m e n o s antes q u e o socialismo se
transform asse c o n sc ie n te m e n te em social-democracia.

De Kelsen a Keynes:
liberalismo de esquerda no entre guerras

N a F rança, o porta-vo z d o radicalism o c o m o liberalism o d e es­


q u e r d a foi u m c o n te m p o r â n e o dos dois Flobs, Em ile C h artier, co­
n h e cid o co m o Alain ( IHG8-M).r>1). Alain p e rc o rre u um a l o n g a car­
reira, e n sin a n d o filosofia em liceus, evita n d o d e lib e ra d a m e n te a
S o rb o n n e . D reyfusista, lu to u n a G r a n d e G u e rra , m as to rnou-se
e n tã o um crítico feroz d o nacionalism o belicoso, u m a das posições
p a d rõ e s d a Direita. N a d éc a d a d e 1920 seu dissabor pela estru tu ra
I<>:' O liberalismo - antigo e moderno

França. Em seu livro m ais b e m c o n h e c id o , Im perialism (1902),


escrito co m o reação à G u e rr a do s B ôeres, H o b so n r e a c e n d e u a
an tiga c o n d e n a ç ã o liberista, m a n c h e s te ria n a d e p olítica e x te rn a
agressiva e in terv en ção militar. Mas ta m b é m reviu o diagnóstico
de M an c h e ste r. E n q u a n to p a r a C o b d e n e B rig h t o m ilitarism o
brotava d a am bição aristocrática, H o b s o n salientou o u tra causa: m á
distribuição d a renda. A riqueza e as p o u p a n ç as excessivas levavam j
ao s u b c o n s u m o e, p o r ta n to , a o im p e ria lism o c o m o u m a saída.
A ntes d o conflito dos Bôeres, H o b s o n e seu am ig o H o b h o u s e ,
co m o novos liberais, partilhavam a visão coletivista dos Fabianos
(os W ebbs e Slvaw). Q u a n d o os W ebbs, co m o o u tro s liberais re­
form istas tais c o m o A squith e H a ld an e , declararam -se favoráveis
à ação im perialista na África <(o Sul, os dois Ilo b s afastaram -se
lfí O ......................
deles.15 p ro te sto a ntiim .............isla
peria d e H o b so n tin h a u m veio de
KuUurpessiniistmts — d e p lo ro u a raição dos trab a lh a d o res aos inte-
Iectuais n a oposição à g u e rra e força d o jingoísm o em sociedad e
industrial avançada.
Na opinião d c I lobson, o i •médio estava à mão: im p o ith a Ia-
xação redistributiva, e terá cons u m o c justiça em casa ju n ta m e n te
com paz n o exterior. Seu ensaio d e 1909 “T h e Crisis o f Liberalism
foi escrito em defesa d a refo rir a social (o e m b riô n ic o Estado so­
cial d e Lloyd G eorge). O q u e ilo b s o n pleiteava e ra algum a p r o ­
p rie d a d e pública d o solo, cjue perm itisse h abitação d ecente; trans­
p o rte público; n e n h u m m on o p ó lio ; u m a re d e nacional d c escolas
públicas (no sen tido continental); e u m sistem a legal mais ju sto . A
redistribu ição fiscal d a receita faria a tarefa, d e u m a m a n e ira q u e
n ã o se assem elhava re m o ta m e n te a revolução; e n q u a n to o capita­
lismo, u m a vez re g e n e ra d o e re g u la d o , n ã o devia c e rta m e n te ser!
substituído p o r u m sistem a e co n ô m ic o in te ira m e n te diverso. j
A fidelidade ao liberalismo foi, afinal d e contas, até m a io r noj
caso do o u tr o H ob . C o m o G re e n , H o b h o u s e era o filho d e um;
pastor de aldeia. D iferentem ente d e H o b so n , ele e ra u m acadêm ico
e fundou a p rim e ira cadeira d e sociologia n a Escola d e E co n o m ia
Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 163

e C iência Política d e L o n d res, em 1907. E ra urn evolucionista do


“e sp írito ” — q u e r dizer, u m evolucionista q u e dava ênfase à e m e r­
g ência d e form as mais n o b re s d e existência e m vez d e salien tar a
aspereza d a sobrevivência d os mais aptos. C o m o os saint-simonianos
e os an arq u istas m ais h u m a n o s , n o ta d a m e n te K ro p o tk in (1 8 4 2 -
1921), H o b h o u s e desejava a r d e n te m e n te d e m o n s tra r q u e a socie­
d a d e p ro g rid e p o r força d a cooperação h u m a n a e d a superioridade,
e m ú ltim a instância, d o altruísm o so b re o egoísm o.
O livro d e H o b h o u s e Liberalm n, d e 1911, tornou-se o evange­
lho d a nova religião, a trib u in d o à lib e rd a d e positiva no sen tid o
g re e n ia n o u m fu n d a m e n to evolucionista. Seu ideal consistia n u m a
sociedade orgânica q u e p ro p o rc io n a sse à m aioria d e seus m e m b ro s
“u m a igualdade viva d e d ire ito s” com o p o rtu n id a d e s a b u n d a n te s
p a r a o a u to d e s e n v o lv im e n to individual; a p rin cip a l m a q u in a ria
institucional, c o m o n o caso d e H o b so n , e ra m agências d e bem -
e star social financiadas p o r urna taxação so cialm en te o rien ta d a.
H o b h o u se acreditava q u e o p io r da íuta d e classes j á passara, um a
vez q u e a (ardia riqueza vitoriana podia p e rm itir um a am pla distri­
buição, e n q u a n to sindicatos responsáveis m anifestavam u m a cres­
c en te capacidade d e p ra tic a r a dem ocracia.
C o m o e m to d o n o v o liberalism o, os d ireito s h o b h o u s ia n o s
e ra m co n ce d id o s pela sociedade, m as sua fu n çã o residia em auxi­
liar o c re sc im e n to d a in d iv id u alid a d e. H o b h o u s e o c u p a v a u m a
posição a m eio ca m in h o e n tre G re e n e Mill, sensível ao conceito
q u e o p rim e iro tin h a d a lib e rd a d e c o m o o d ire ito q u e sc te m d e
p ro d u z ir “o m e lh o r d e si m e s m o ”, mas d isp o sto a re c o n h e c e r que,
q u a n d o se tra ta d e d e c id ir q u e m é o m e lh o r ju iz no caso, a ú nica
fo r m a liberal razoável d e lid a r c om o p r o b le m a consiste e m g ara n ­
tir a lib e rd a d e pessoal n o sentid o d e Mill. H o b h o u s e te n to u fo r­
m u la r u m a ética evolucionista co m o u m a base p a ra o livre coleii-
vismo. Mas, no fu n d o , m o stro u certa am bivalência c om relação aos
sindicatos, p o r q u e estes p o d ia m ag ir m o v id o s p o r interesses
particularistas e m vez d e lu tar pelo b e m c o m u m . C o m o G reen, ele
164 u liberalismo - antigo e moaemo

divisou o b e m c o m u m co m o u m a n o rm a mais elevada q u e os o b ­


jetivos individuais, m as este n ã o devia se r igualado, à m a n e ira d e
D urkh eim , a q u a lq u e r v o n ta d e suprapessoal. N a L o n d re s d o tem ­
p o d a g u erra, ouvin d o o e stro n d o das b o m b a s alemãs, H o b h o ú se
raivosam ente travou-se coni Ile g e l e escreveu to d o u m volume!, The
Metaphysical Theory o f lhe Stale (1918), co m o u m a refu tação d ô tri­
b u to d e B e rn a rd B o n sa n q u e t (18 4 8 -1 9 2 3 ) e de o u tro s hegeliano s
britânicos ao “e u coletivo”. !
N a prática, esses distinguos, p o r indicativos q u e fossem d a ca­
p acidade q u e tin h a o e m p irism o d e sobreviver à síntese d e Mill,
n ã o im p o rta ra m em m uito. Mas o c am in h o conceituai a b e rtq p o r
conceitos hegelianos, co m o o eu mais elevado d o “Estado étic o ”,
p o d ia a b rig ar im plicações p e rfe ita m e n te iliberais. Francis I le r b e r t
Bradley (1846-1924), o principal neo-idealista, escreveu u m ensaio
m u ito influente, “M inha posição e seus dev e re s” (coligido e m seus
Ethical Studi.es, 1876), q u e re d u z ia o eu m o ral a u m a alim entação
social d o eu so b re a consciência d a fu n ção h u m ild e q u e se tem no
in te rio r d o o r g a n ism o social. B o n s a n q u e t, sob a in flu ê n c ia d e
Bradley, d e c la ro u q u e “as mais p r o fu n d a s e mais elevadas realiza­
ções do h o m e m n ão p e rte n c e m ao ser h u m a n o p a rtic u lar e m seu
r e p u g n a n te iso la m e n to ” (prefácio a The Philosophical Theory o f lhe
State) — o q u e ora sem dúvida antiindividuali.smo no mais alto grau.
O exorcism o p ra tic ad o p o r H o b h o ú s e d o fan ta sm a d e H egel foi
u m a o p o r tu n a reafirm ação d e v erdades liberais.
G reen e H o b h o ú s e partilhavam , c o m o se isto ela fosse, u m a
versão social d o conceito alem ão d e lib e rd a d e c o m o autotelia, a
qual, co m o sabem os, é com patível co m a lib e rd a d e co m o a u to n o ­
m ia (política) m as dela difere. Mas H o b h o ú s e , c o m o o líder m oral
do liberalism o na Iielle E poque, sofreu tinia evolução sutil. Dife­
re n te m e n te d e I lobson, ele não viveu p ara ver a irru p ção da Se­
g u n d a G u e rra M undial. Mas, depois d e 1918, co m eço u a te m e r os
p o d e re s crescentes do Estado e se a p ro x im o u tan to do liberism o
com o do liberalismo político tradicional.1(1 Em conseqüência, a idéia
Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 165

a le m ã d e lib e rd a d e p e r d e u algum te rr e n o im p o rta n te em seu p e n ­


sa m e n to q u a n d o re g re sso u , c o m reservas, à m escla m illiana d e
a p e rf e iç o a m e n to h u m a n o co m os c o n c e ito s clássicos ingleses e
franceses d e lib e rd a d e c o m o in d e p e n d ê n c ia pessoal e c o m o au-
to g o v e rn o coletivo. Assim, o “novo lib eralism o ” apro xim o u-se do
liberalism o clássico.
T u d o b e m p o n d e r a d o , o novo liberalism o, inclusive o libera­
lism o social dos dois H ob s, n ão se a p re se n ta v a c o m o m u ito estra­
n h o a o p e n sa m e n to de Mill. Os novos liberais q u eriam im p le m e n ta r
o potencial p a ra o d esenvo lvim ento d o in d iv íd u o q u e fo ra caro a
Mill e m se g u im e n to a H u m b o ld t, e ao fazê-lo p e n s a ra m n o d ireito
e no Estado co m o instituições habililadoras. Esta p reo c u p a ç ã o com
a liberdade positiva levou-os a ultrapassar o Estado minimalista. Mas
n ã o e ra m d e q u a lq u e r fo rm a hostis, c o m o qu e stã o d e princípio,
seja ao individualism o, seja ao liberism o; e su a p re o c u p a ç ã o cívica
já estava p re s e n te e m Tocqueville e Mill. Eles c e rta m e n te se livra­
ram d a p rim e ira estatofobia liberal, m as n ã o e ra m estatistas. C o m
o benefício do recuo n o tem po, o liberalismo social da Belle E poqu e
se p a re c e mais c o m o liberalism o clássico d o q u e com o socialis­
m o d a v e rte n te principal — pelo m e n o s antes q u e o socialismo se
transform asse co n sc ie n te m e n te em social-democracia.

De Kelsen a Keynes:
liberalismo de esquerda no entre guerras

N a F rança, o porta-voz d o radicalism o c o m o lib eralism o d e es­


q u e r d a foi u m c o n te m p o r â n e o d os dois H obs, Emiie C h a rtier, co­
nh ec id o co m o Alain (1 8 6 8 - 105 1). Alain p e rc o rre u u m a lo n g a car­
reira, e n sin a n d o filosofia em liceus, evitan d o d e lib e ra d a m e n te a
S o rb o n n e . D reyfusista, lu to u n a G r a n d e G u e rra , m as tornou-se
e n tã o u m crítico feroz d o nacionalism o belicoso, u m a das posições
p a d rõ e s d a Direita. N a d é ca d a d e 1920 seu dissabor pela e stru tu ra
/66 U liberalismo - antigo e moderno

.social rep u b lic an a d ito u livros c o m o Le citosen contre les pcnivoírs


{ 1926), em q u e o sin g u lar (“o cidadão") e típico: pois a q u alid a d e
d o liberalism o d e e sq u e rd a d e AJain não era, co m o no caso dos
dois H obs, u m a m o d u la ç ã o d o individualism o em p re o c u p a ç ã o
social. Era antes u m ata q u e m oral co n tra o p a rla m e n ta rism o co r­
ru p to , à m e d id a q u e a C â m a ra rep u b lican a se p e rd ia em e scânda­
lo após escândalo. O individualism o d e Alain era áspero, b e ira n d o
o a n arquism o. Para ele a d em o cra cia não era o resultado (Inal n o ­
b re de u m repu b lic a n ism o pedagógico, c o m o e m S im o n e Ferry;
era, d e fo rm a mais im ediata, u m a estratégia antielúista, u m a a rm a
c o n tra o de sp o tism o tan to militar q u a n to político. () ensaísm o d e
Alain p ro p o rc io n a v a mais raiva do q u e te o ria política, mas foi alta­
m e n te in flu en te n o p e río d o d e e n tre g u e rra s e u m a leitura decisi­
va p a r a a geração (nascida n o início d o século) d e Sartre, S im one
Weil e R ay m o n d A ron.
N a Itália, o liberalismo de esq u erd a e ra m enos m oralista e mais
historicam ente o rien ta d o . A m o rte p re m a tu ra (com o u m exilado
antifascista) d e Piero G obetti (1901-1926) privou a e sq u erd a liberal
de u m líd er im aginativo. Em 1924, dois anos d e p o is d a fascista
M archa so b re R om a, o jovem tu rin ês G o b e tti coligiu u ns p o u co s
ensaios sob o título (já d a d o a u m h e b d o m a d á r io ) The Liberal
Revolulion. Seus veredictos históricos e ra m ba sta n te duros: o Ri-
sorgimento fo ra u m fracasso, e a política p arla m e n ta rista c o rr u p ta
no governo d e Giolitti, n a Belle É p oq ue, fo ra u m sim ples prefácio
ao fascismo. Q u a n to ao p re se n te , os liberais e os re p u b lic an o s -f a
“direita histórica” — n ã o afinavam com os novos tem pos. O s socia­
listas eram im p o te n te s e os c o m unistas b u rocráticos, e n q u a n to os
nacionalistas se to rn a ra m presas d e u m a retó rica vazia. C o m o o
m arxista G ram sci, G o b e tti sò n h o u co m u m a revolução social ita­
liana, a p ro m e ssa n ã o c u m p rid a d o Risorgimento. Mas ele tin h a cm
vista u m a revolução italiana Ique, d ife re n te m e n te d a francesa, sé­
ria p re fe re n c ia lm e n te p o p u la r em vez d e b u rg u e sa e a in d a assim
d ife re n te m e n te d a russa ■ liberal em vez d e com unista.
Dos novos liberalismos aos neoltberalismos 167

Q u a se d a m e s m a id a d e q u e G o b e tti, C ario Rosselli ( 1 8 9 9 -


1937) ta m b é m m o r re u m oço — assassinado p o r b a n d id o s fascistas
n a França. Seu objetivo, com o declarado e m Liberal Socialism (1928),
e r a re sg a ta r o socialism o d o m a rx ism o . E n q u a n to o m a rx ism o
o p u se ra o socialism o ao liberalismo, Rosselli insistiu em q u e o s o ­
cialismo só podia su p e r a r sua d e rr o ta d ia n te d o fascismo ag indo
co m o v e rd a d e iro h e r d e iro d a idéia liberal. O socialismo tin h a de
te r a liberação c o m o objetivo, e o Estado liberal — improvável, mas
d e q u e n ão se devia desistir — co m o m eio. Essa te n d ê n c ia liberal-
socialista a lim e n to u o e fê m e ro P a rtid o delFAzione, fu n d a d o e m
1942 pelo filósofo a cadêm ico C u id o C alo g ero (nascido em 1904).
O p artid o estava d estin a d o a ser o b erç o político do jo v e m N o b e rto
B obbio, cuja o b r a discutirem os ao e n c e rr a r este c a p ítu lo .17
N o m u n d o alem ão, o liberalism o d e e sq u e rd a significou an ­
tes d e mais n a d a u m a d o u tr in a política c o n v en ie n te à R epública
d e W e im a r — a q u e la o r d e m in stitu c io n a l frágil q u e n a s c e ra d a
d e r ro ta d o R eich g u ilh e rm in o e d o e s m a g a m e n to d o socialism o
verm elho. O m a io r n o m e n a te o ria política e ju r íd ic a d e W e im a r
foi o d e u m austríaco, H an s K elsen (1881-19 73), q u e te rm in o u
seus dias c o m o p ro fe sso r de direito em Berkeley depois d e codi­
ficar a co nstituição d a república austríaca (1920) e d e servir com o
ju iz n o T rib u n a l C onstitucional. R e b e n to d e u m a família ju d i a d a
Galícia, Kelsen lecionava em C olô nia q u a n d o H itler subiu ao p o ­
der. Q u a n d o ele p ublicou seu livro Teoria pura do direito (1934), o
re ito r d a Escola d e D ireito de H arvard, R oscoe P o u n d , cham ou-o
d e “in q u estio n av elm en te, o m a io r ju r is ta d a é p o c a ”. N o m ínim o,
ele e ra o m ais influente, de sd e a In g la te rra até a A m érica L atina
e o Ja p ã o .
K elsen r e e s tr u t u r o u a tra d iç ã o d o po sitiv ism o ju ríd ic o . O
p ositiv ism o ju r íd ic o afa sto u o d ir e ito n a tu r a l re c o n h e c e n d o a
co n tin g ê n cia do laço q u e liga o d ire ito à m o ralid a d e . Mas, te n d o
s e p a ra d o o d ire ito d a ética, os positivistas ju ríd ic o s mais velhos
e sg o ta ra m as n o rm a s e m fatos, r e d u z in d o d ireitos e obrigações a
; ■m -ximeni.os d o acaso. Kelsen, pelo c o n trá rio , salientou a
;'.a.;ureza normativa do direito. Para que u m a exigência se revista
.'.e legalidade (para que não fosse sem elhante, digamos, à o rd e m
d ad a por u m b an d id o arm ad o ), tal exigência tem de ser autoriza-
•!a p o r u m a n o rm a ju ríd ic a fundada, p o r sua vez, em toda u m a ca­
deia de outras norm as.
i iomo se aplica a filosofia jurídica de Kelsen à esfera política?
(> <(íiicoito crucial aqui é o do Estado, pois u m a dim ensão vital d o
Estado consiste cm ser este um a e stru tu ra d e norm as. Km 1900,
feilinek se a p ro p riara do gosto n e o k a n tian o p o r u m dualism o de
lato e valor para p r o p o r um a teo ria que dividia o Estado: u m a
ih rh tslrlm lidaria com o Estado com o u m co rp o de leis, e n q u a n to
um a Soziullehre preocupar-se-ia com o Estado com o um a institui­
ção social. Kelsen rejeitou essa dualidade. Em seu lugar, apresen­
tou uma idéia p u ra m e n te ju ríd ic a do Estado: o Estado era igual à
o rd e m jurídica. O neo k an tian o reinan te nos anos de en tre guerras,
Krnsi Cassirer, ensinara a distinção en tre conceitos de substância
e conceitos de função. Assim o átom o , disse Cassirer discutindo a
física m oderna, não é, p a ra falar com p ro p rie d a d e, q u alq u e r nú­
cleo substancial — é a p en as u m Funktionsbegrijfen, u m co nceito
funcional usado pela análise científica. Da m esm a forma, o Estado
keiseniano é apenas u m a idéia lógica útil: o conceito d e u n idade
i !o sistem a ju rídico.
Kelsen recorreu m uito à m odernização epistemológica: tentou
f u n d a r sua teoria jurídica e política em novas abordagen s do co­
nh ec im e n to . Depois d a d éc ad a d c 1880, a epistem ologia austríaca,
graças a E rnst M ach (18.-58-1916), estava re c o m e n d a n d o qu e se
colocassem os Funklionsbegríffen no lugar dos conceitos causais.
Kelsen viu o m arxism o co m o u m p ro g ra m a causalístico, naturalís-
tico para a ciência social, tão m ais duvidoso p o r causa de sua he­
rança hegeliana historicista. O m arxism o juntava o a nacro nism o
de p o stu la r essencialismo causai com u m a mística d e profecia his-
íorica. T u d o isso foi su g erid o p o r Kelsen, n u m a crítica poderosa,
/•'.-« h - ' t ' í i.v !■:' n : n ; i i S H i t !S nos !U 'o :;h r;a ':s !í:,^ l ‘!l>

SíKintismus and Slaat (Soriali.snio e o listado, 1920). Os marxistas se


equivocaram a respeito cias relações e n tre Estado e sociedade de
duas m aneiras. Prim eiro, re d u /ir a m o Estado à expressão de for­
ças sociais, to r n a n d o assim u m p a ra d o x o a sua fam osa reivindica­
ção da abolição final do Estado. Em segu ndo lugar, os marxistas
erravam ao afirm ar que havia u m a contradição ( Widerspmch) e n ­
tre o Estado e a sociedade. Pois a sociedade é para o Estado o que
um conceito mais am p lo é para um conceito mais estreito, co m o
“m a m ífe ro ” p a ra “hom em ". O relacion am ento, p o rta n to , é de dis­
tinção e implicação, e não de contradição: é u m Gegmsa/z, não um
Widersprvch.
Kelsen ta m b é m c om bateu as opin iões da direita antiliberal,
n o ta d a m e n te os escritos do jurista r e n a n o C arl Schm itt (1 8 8 8 -
1987). Schm itt descobriu u m a coincidência e n tre o E stado e a so­
ciedade. Na sua o b ra de 1931 Der Hiiter der Verfassung (O guardião
da Constituição), ele afirm ou que, e n q u a n to as instituições liberais
do século XIX não se haviam alterado, a situação sociopolíiica real
fora p ro f u n d a m e n te modificada. U m a m u d a n ç a principal consis­
tia p rec isam en te e m que já não se podia discern ir o q u e era políti­
co do q u e e ra social. A sociedade tornara-se Estado n a m ed id a em
que o E stado m o d e rn o atuava c re sc e n te m e n te com o u m a agência
e conôm ica, u m Estado previdenciário , u m a fonte d e cultura, e
assim p o r diante. Do Estado absolutista dos séculos XVII e XVIII,
e do “Estado n e u tr o ” do século seguinte, a c o n te ce ra u m salto, em
política e u ro p éia, p a ra o “Estado to ta l”. Aos olhos d e Schm itt, o
Estado total, p o r su a vez, devia ser to ta lm e n te politizado, c om
poucos limites liberais con stitucio nais.18
Para Kelsen, em contraste, o Estado é e p e rm a n e c e s e n d o um
g ru p o específico n o in te rio r d a sociedade, a associação p a ra o d o ­
m ínio (Herrschaftsverband). Mas, co m o o sistem a legal de governo,
o Estado reflete a n atureza d e u m a o r d e m ju ríd ic a que, co m o o
direito positivo, regula sua p ró p ria criação. O sistema jurídico com o
E stado d e n o ta u m processo m ed ia n te o qual as n o rm a s se to rn a m
■-m \e/. mais concretas, te r m in a n d o t'in in stru ç õ e s específicas
a a;:: idas p o r indivíduos autorizados (os agentes do Estudo). N um
a ;lgo 'publicado cm 1922, na revista de Freitd Imago, Kelson valeu-
da psicologia d e massa da psicanálise para salientar que Frcud
• ü .s i taguia c o rre ta m e n te a massa primitiva, transitória, (jue seguia
\;:u u e iu e caudilhos (com o a h o r d a primitiva, em To/em e. laba,
' a i 2), das massas artificiais, estáveis, que substituem o líder p o r
p rincíp io abstrato. Para Kelsen, o Estado p re ssu p õ e a segunda
■■■spécie, institucional, de massa e c o rre sp o n d e à especificação in~
:a:aam eiue norm ativa d e seu princípio diretor.
A nomogênese — o processo de form ação dc n o rm a s — é crucial
para Kelsen. Em 1920, o m esm o ano em que prim e iro publicou
Ví1~j:ilisinlus m ui Slaat, ele ed ito u um clássico en tre as m o d e rn a s ex-
pi :siçõos com re sp e ito à d e m o c rac ia: Yon Wesen and Weri dar
■''■•suokmlie {Da essência e do valor <la democracia). A dem ocracia, se-
nido Kelsen, é u m a espécie particular d e n o m ogênese: renion-
:.mdo à distinção kantiana e n tre a u to n o m ia e heteronom ia, Kelsen
destacou a form a pela qual as constituições regulam a p ro d u ç ão
de n o rm a s n u m d a d o Estado o u sistema jurídico. Q u a n d o o desti-
natario d e tais n o rm a s não to m a p a rte em sua elaboração, o siste­
ma e h e te rô n o m o . Q u a n d o tom a, o sistema é au tô n o m o . Politica­
m ente, a h e te ro n o m ia significa autocracia, e a au to n o m ia, d e m o ­
raria. A dem ocracia, na m ed id a em que implica o prin cípio de
auio;n>verno, é u m processo d e n o m ogênese autônom a.
N a d écad a d c 1920, Kelsen ta m b ém deixou claro q u e a d e ­
m ocracia liberal é fruto d e u m a visão relativista. O pluralism o p o ­
lítico im plica um p o u c o d e re co n h ec im en to de perspectivism o, de
crenças m enos que absolutas, arg u m en to u . A dem ocracia pluralista
:• a o rd e m social a d e q u a d a a u m a cultura m arcada pelo q u e W eber
o '[c o ra d a m e n te ch a m o u d e “o politeísmo de valores”. Assim Kelsen
—o liberal d e e sq u e rd a nos tu rb u le n to s anos de W eim ar — acres­
c entou u m a rg u m e n to epistem ológ ico à sua esclarecida defesa j u ­
rídica d o Estado d e m o c rá tic o .19
!':(>s iwvos liheraiisinos ih--i.\':bí,ralh'}n>s i, l

W oodrow Wilson (1856-192-1) não é u ni no m e n o rm a lm e n te


incluído cm enciclopédias cio p e n sam e n to político. mas m odificou
a índole d o liberalism o a m e ric an o . Os pais fu n d a d o re s haviam
c o m p re e n d id o o c o n tra to social rep u b lican o com o u m m eio de
resolver o u h a rm o n iz a r m o d erad o s conflitos de interesses. Pode-
se dizer que Wilson foi o p rim e iro g ra n d e líder a m erica n o que se
lornou insatisfeito com esse ideal sensato de consenso utilitário.
C'.omo u m a c a d ê m ic o p r o e m in e n te , ele in tro d u z iu n a política
am erican a o que a ideologia de campus tan to estim aria m eio sécu­
lo mais tarde: a ética da convicção, a política do princípio. Seu
so n h o de d e m o c ra c ia de liderança abriu c a m in h o p a ra o refor-
m ismo patrício d o segundo Roosevclt.
O p ro g ra m a real de Wilson, "A nova lib e rd a d e ”, q u e foi for­
m u lad o c o m a a ju d a do juiz Louis R randeis e c o n q u isto u p a ra
Wilson a Casa B ranca em 1912, evitou a tacar o capitalismo, con­
c e n tra n d o seu louro
O nos Oyran des trastes. W ilson fustigou
O os “inte-
resses especiais” do g ra n d e negócio e p ro m e te u leis q u e favore­
cessem os h o m e n s e m ascensão c o n tra aqueles que já estavam em
cima — u m a ó tim a reprise política do S o n h o A m ericano, sem a
aspereza d o conflito de classes que a inda estava p re se n te no movi­
m en to populista. M esm o o u to p ism o de sua posição in ternacional
na C o n ferê n c ia d e Paz em Versalhes era c o e re n te com o tradicio-
nalismo, d e últim a instância, d e suas opin iões políticas: pois co m o
R ichard H o fsta d te r divisou, exata m en te co m o a e sp e ra n ç a wilso-
niana de co m p etição sem m o n o p ó lio re tro c e d e u ao capitalism o de
m ead o s d o século, seu pacifism o depois d e 1918 objetivava res­
ta u ra r o equilíbrio m undial de p o d e r ro m p id o pela g u e rra .20
N u m p lano e stritam en te teórico, a variação esq u erd ista no li­
beralism o am e ric a n o deve mais a um o u tro acadêm ico c o n te m p o ­
râneo, J o h n Dewey (1859-1952). Pedagogo ilustre, Dewey m udou-
se para a recém -fu n d ad a U niversidade d e Chicago q u a n d o tinha
trinta e p o u co s anos, e instalou ali sua fam osa Escola L aboratório .
No início do século, foi para C olúm bia. Ele era u m p ragm atista de
iso e erro, para <]ueni o objetivo era mais o ap e rfeiçoam ento
•In que a perfeição, e um crílico e lo q ü e n te , e m b o ra algumas vezes
ia n l, d o a fasta m e n to da filosofia c o m relação ao m u n d o ativo.
iYansformou o nam o ro ocasional do liberalism o clássico (com o o
de Mill) com princípios socialistas numa. sim patia mais forte. Seus
livros, n o ta d u m e n te Democracy and E dw alion (1916) e Freedom and
('.uiture (1939), ajudaram esquerdistas c o m o Sidney fío o k a se li­
vrarem do d ogm a m arxista sem a b a n d o n a r inclinações socialistas.
A leoria do im pulso em Hiim an Xalure and (Imidticl (1922), um
(ra ta d o so b re psicologia social, foi o a u g e d o p ra g m a tism o de
í Vwev. Para Devvey, a verdade é a eficácia. T o d a realidade é relati­
va ao hom em , e todos os fins hum anos são inianent.es, com n e n h u m
fim além e n e n h u m absoluto. Dewev esb o ço u o seu p rag m atism o
co m o u m “in stru m e n ta lism o ” pa ra d a r ênfase a que o c o m p o rta ­
m e n to e o co n h ec im e n to não passam d e in stru m e n to s de a d a p ta ­
ção ã experiência, e de transform ação dela. Ler Hegel ensinou-lhe
um sentido de inter-relação e ta m b é m u m a visão a ltam ente dinâ­
mica d a realidade. Dewey partiu p a ra desafiar a “tradição clássica”
de Platão à sín d ro m e m o d e r n a d o e m pirism o e utilitarismo. A tra­
dição clássica p re ssu p u n h a q u e o universo era essencialm ente fixo
e imutável, en q u anto, em m atéria de co n h ecim en to , dava prim azia
a contem plação individual. C o n tu d o , p a ra Dewey o “criticism o”,
significando a aplicação d o se n tid o de adap tação a pro b lem a s de
c o m p o rta m e n to , consistiu n u m processo d e investigação m e d ia n ­
te o qual se escolhe a espécie de ação capaz de tra n sfo rm ar u m a
si inação p e rtu rb a d o r a n u m a condição integrada. O criticism o é
assim, p r e e m in e n te m e n te , u m a atividade social, u m m é to d o sus­
te n ta d o d e intercâm bio inteligente.21
A m oral e a política são, p o rta n to , tanto sociais q u a n to ex p e ­
rim entais. O mais elevado b e m h u m a n o é o c rescim en to d c tal
a d a p ta ç ã o coletiva. A n a tu re z a h u m a n a é social d e sd e o in íc io ,
e m b o ra n em p o r isso m en o s individualizada. O livro d e Dewey
huiandualism Old and New, d e 1930, censurou a “cultura p e cuniária”
lins m n m liberulismns nos n>-oUbera!hmos 173

cia aos.su época corno unia “perversão" cio individualism o perfecti-


vo; assim, Dewey m anteve o valor d a individualidade e n q u a n to re­
jeitava .sua antítese à sociedade. E fácil d istinguir o motivo p o r que,
se a m oral e a política são assim en ten d id a s, a dem ocracia liberal
de um forte cu n h o espiritual reform ista tornou-se, p a ra Dewey, a
o rd e m .social mais legítima. O q u e Kelsen acabou p o r valorizar em
n o m e do pluralism o dos valores, Dewey exaltou com o u m regim e
mais bem a d a p ta d o à realidade de m ud ança.
Em 1938, Dewey fez b o m uso de seu saudável instrum entalis-
m o n u m a c u rta polêm ica com Trotsky. No co m eço daqu ele ano, o
g ra n d e exilado soviético escreveu uni ensaio intitulado ‘‘A m oral
deles e a n o ssa”. Era, entre outras coisas, u m a defesa re ta rd a d a da
a titu d e m u ito criticada de T rotsky na reb elião d e K ro n sta d t de
1921. Não há critérios morais,’ a rg Ou m e n to u Trotskv,
■ fora da história
e in d e p e n d e n te s do h o m e m social. A n ã o ser no caso d e m a n u ­
tenção da fidelidade a absolutos religiosos, ex tra m u n d a n o s, deve-
se reconhecer que a m oralidade é u m p ro d u to do desenvolvim ento
social. Mas isso não constitui licença p a ra q u e se re c o rra a u m raa-
quiavelismo vulgar. Pelo contrário, n e m lodo fim é legítimo. Antes,
ele p ró p rio tem d e ser justificado. P o rta n to , a conclusão cio ensaio
d e T rotsky foi devo tada a afirm ar a s u p e rio rid a d e d o fim m arxista
— a libertação d a hum anidade.
Dewey aceitou o p o n to de p a rtid a d e T rotsky — a rejeição da
ética absolutista, religiosa ou não. Em sua resposta, “Meios e fins”,
publicada n a m e sm a revista, The New International, Dewey salien­
to u que o fim, no sentido das conseqüências, p ro p o rc io n a os ún i­
cos c ritérios p a r a a moral. Mas se os m e io s são justificados na
m e d id a e m q u e conduzem a fins ap ro p ria d o s, é p o r isso m esm o
mais necessário exam inar cada m eio c om m u ito c u id a d o p a ra d e ­
te rm in a r in te ira m en te quais seriam as suas conseqüências. E fora
e x ata m en te isso q u e Trotsky deixara d e fazer. E xaltando a luta de
classes e m e sm o o te rro r revolucionário c o m o m eio p a ra a liber­
tação h u m a n a , T rotsky prejulgara os m eios d e u m a m a n e ira aprio-
iffrfa ifs n n cu ih ^o e moderno

-: ::. a. Pois não havia razão p o r si só evidente para d eclarar que a


ima de classes era o único m eio de conseguir a m elh o ra subsiancial
iia condição h u m a n a .” A resposta de Dewey constituiu urna tra n ­
qüila vitória lógica do p ragm atism o sobre o d o g m a revolucionário.
Com a irru p ção da guerra, a figura central no liberalismo de
esqu erda para o m u n d o de expressão inglesa não foi n em Dewey
nem Kelsen, m as John M aynard Keynes (! 8 8 3 - 19-1 (i). Não o
iüosoio-pedagogo, nem o jurista, mas o econom ista que reform ulou
a econo m ia política t.ornou-se a principal referência do liberalismo
reconstruído. Em seus Esxays ín Persuasion (1931), Keynes escreveu
que "o p ro b le m a político tia h u m a n id ad e consiste em c o m b in ar
três coisas: eficiência econôm ica, justiça social e liberdade indivi­
d u a l ”. O ú ltim o p rin c íp io m o stra a força de sobrevivência das
preoc upações d e Mill, m esm o depois de m eio século de especifi­
cações sociais-liberais. O se g u n d o apenas provava q u e os novos li­
berais da D epressão não a b a n d o n a ria m as inquietações hum an as,
hum anitárias e hum atústicas d a geração Hobhouse-Duguit-Dew ey
(os m estres sociais-liberais qu e haviam nascido p o r volta de 1860),
Mas o prim e iro ele m e n to — eficiência ecônom ica — foi um a lição
am arga extraída cios traum as da g u e rra e d a depressão mundiais.
Keynes deu ao liberism o o rto d o x o o golpe de m o rte com seu
livro The lind o f Lamez-faire, de 1926. Mas já em 1919, com o pri­
m eiro re p re se n ta n te d o T e so u ro britânico na C onferên cia de Paz
de Paris, ele d isc o rd a ra rad ic alm en te d a política aliada d e so b re ­
carregar a A lem anha; afirm ou em The Economic Consequences ofthe
Pvace que o capitalism o vitoriano fora apenas um caso especial,
sendo o capitalism o n o rm a lm e n te frágil e instável. Em m eados d a
década de 1920, Keynes c o m p re e n d e u que o p o d e r leninista esta­
va historicam ente de cid id o a d estru ir o capitalismo (a despeito das
táticas d e c o m p ro m isso d a NEP) e que o fascismo sacrificava a
dem ocracia p a ra salvar a sociedade capitalista. Restava um a tercei­
ra opção, que era salvar a dem ocracia renovando o capitalismo. Esta
veio a ser co n h e c id a e p ra tic ad a co m o “keynesianism o”.
O rcvisionism o e c o n ô m ic o de Keynes brotava cie algo mais
a m p lo que co n sid e ra ç õ e s econôm icas e políticas: e ra p r o f u n d a ­
m e n te vinculado a u m a revolução na m oral. J o h n M a y n a rd p e r­
tencia a u m a b r ilh a n te g e ra ç ão de e ru d ito s de C a m b rid g e (foi
a lu n o do g ra n d e e c o n o m ista Marshall e de A. C. Pigou) d e te rm i­
n ad o s a in g re ssa r n u m a o u sa d a n e g a ç ã o d a m o ral vitoriana.
C onsideravam -se “im o ralislas” e in sp ira ra m o assim c h a m a d o
g ru p o de B lo o m sb u ry , o círculo literá rio lo n d rin o d e V irgínia
VVoolf e E. M. Foster.
N a a u ro ra cio século, em C am bridge, o filósofo G. E. M o ore
(1873 -1958) s o la p a ra a ética tradicional. Em seu in flu e n te livro
Principia ethica (1903), M oore afirm ou q u e não há definição q u e
se a d a p te ao “b e m " a n ã o ser diversas form as de “falácia naturalís-
tica”. Sugeriu e n tã o q u e se p o d e m fruir delícias em “d e te rm in a d o s
estados de consciência... com o os prazeres das relações h u m a n a s e
o gozo de belos o b je to s”. C om o logo re p a ro u o c o m p a n h e iro de
Keynes, L ytton Strachey, isso lançou fora a ética clássica e o cris­
tianismo, ju n ta m e n te co m Kant, Mill, S pe n ce r e Bradley, sem n a d a
dizer d a m o ra lid a d e convencional em m atéria d e sexo."'1 C o m o
Strachey, o jo v e m Keynes não estava acim a de situar “os prazeres
das relações h u m a n a s ” em aventuras hom ossexuais. N u m a total
relação c o n tra o ethos vitoriano, eles atrib u íra m u m a im p o rtâ n c ia
m e n o r ao c o m p o rta m e n to e exaltaram e x a tam e n te o q u e os seus
antepassados ascéticos, filisteus, que haviam sido severos dissidentes,
p rotestantes, o b e d ie n te m e n te evitaram: relacio n am en to s pessoais
e experiências estéticas. O avô cie Virgínia Woolf, sir Jam es S tephen,
fora u m típico vitoriano: dizia-se que ce rta vez p ro v a ra u m c h a ru to
e o achara tão delicioso qu e nun ca fu m o u outros. Os im oralistas
d e C am b rid g e e B loom sbury passaram a entregar-se fu rio sa m e n te
a prazeres pecam in osos.
Os c o n te m p o râ n e o s socialistas de Keynes, os Fabianos co m o
os W ebbs e G e o rg e B ern ard Shaw, culpavam o capitalism o pelos
males sociais. K eynes apontava p a ra eles u m a causa psicocullural,
/ o O liberalismo - antigo e moderno

a ética puritana. Sua A teoria geral do emprego, do juro e da moeda


(1936) tra to u do p ro b le m a d o d e se m p re g o su b v e rten d o a dou tri­
na econôm ica. Keynes basica m en te aceitou a m icro ec o n o m ia de
Marshall, m as c o m p le m e n to u a m icro ec o n o m ia — teoria do valor
ou d e p re ç o — com u m novo g rau d e ate n çã o a níveis gerais de
renda, p ro d u ç ã o e em p reg o . Influenciado pela idéia de Marshall
de q u e explicando crescim entos e crises a análise e conôm ica tem
de ser sep arad a de outras áreas d a econom ia, Keynes viu no nível
d e receita, e n q u a n to variável d e p e n d e n te , o p ro b le m a crucial.
D esafiando a equalização convencional de p o u p a n ç a com investi­
m e n to , m o stro u q u e a p o u p a n ç a , além d e se r c om fre q ü ê n c ia
m e n o s im p o rta n te p a ra o investim ento do que o crédito, podia
exceder a necessidade d e investim ento.
N o ce rn e da e c o n o m ia clássica estava a Lei de Say, que afir­
mava q u e a o fe rta cria a sua p r ó p r ia d em a n d a . T radução: to d a re ­
ceita é gasta; o din h eiro n ã o gasto e m bens de co n su m o é p o u p a ­
do m as não en te so u rad o , j á q u e n e n h u m p ro p rie tá rio racional d e
p o u p an ças desejaria m a n te r u m saldo que n ã o produzisse receita.
Keynes, n o e n tan to , m o s tro u q u e e m algum as circunstâncias o di­
n h e iro é en teso u ra d o , se n ão p o r o u tro motivo, p o r não constituir
a p en as u m m e io de troca, m as ta m b é m u m a som a d e valor p ara
p ro pósitos especulativos (u m m eio d e ad q u irir bens n o futuro).
Assim, deixada a si m esm a, a taxa d e p o u p a n ç a não significaria alto
investim ento, a c a rre ta n d o a re d u ç ã o d o d e sem prego. P o r conse­
guinte, Keynes p ro p ô s “a eutanásia d o capitalista” e “u m a sociali­
zação u m ta n to a b ra n g e n te do in v e stim e n to ”, com o a resp o sta cri­
ativa d o capitalism o à insistência socialista n a socialização d a p ro ­
dução. C om o foi observado, a p rescrição de Keynes residia em que
o E stado controlasse os gastos e a d e m anda, em vez de c o n tro la r a
p r o p rie d a d e e a oferta. A lém disso, a concentração n a d e m a n d a
a greg ada m u ito fazia p a r a d e s a rm a r a luta de classes, j á q u e u m a
d e m a n d a fo rte levaria a u m te m p o a altos lucros e ao p le n o e m ­
p re g o , com salários crescentes.
Dos n m m liberalismm aos neoiiberalism os 177

O diagnóstico d e Keynes foi, com efeito, m uito britânico. As


singularidades d a situação — o p apel chave d e s e m p e n h a d o pelo
d inheiro, a quase-ausência d e investim entos e de acum ulação de
capital — e ra m traços britânicos. J á foi dito que, e m b o ra Keynes
gostasse de p e n s a r e m si m e sm o com o o coveiro que e n te r ra r a a
econom ia ricardiana, ele estava apenas adaptando-a. O que R icardo
tin h a p rin c ip a lm e n te feito fo ra analisar com o o resultad o d a riva­
lidade e n tre latifundiários e industriais d e te rm in a a taxa d e acu­
m ulação de capital. Keynes, hostil à City*, substituiu o latifundiá­
rio pelo financista e se c o n c e n tro u no nível d e e m p re g o , em vez
de fazê-lo n a taxa de acu m ulação.21
Mas o k ey n esian ism o p r o je to u a análise d e c u rto p ra z o de
Keynes (sua te o r ia e ra d e fe itu o sa no que diz re s p e ito a ciclos
com erciais e r e ta r d a m e n to s ) n u m a receita d e longo p ra z o p a ra
c re sc im e n to e d e se n v o lv im e n to , ap o ian d o -se e m p re ssu p o sto s
duvidosos q u a n to à d e m a n d a e ao consum o. O p r ó p r io Keynes
superestim ou a racionalidade de políticas econôm icas ad o tad as p o r
governos d em ocráticos — ele ignorou, n u m a palavra, o q u e Sam uel
B rittan c h a m o u graficam en te d e “as conseqüências econôm icas d a
d e m o c ra cia ”, as m últiplas distorções acarretadas p o r pressões de
g ru p o s de in teresses capazes d e fazer prevalecer, o u d e b lo q u ea r,
o m e rc a d o político d e m o c rá tic o .25 Keynes não quis q u e o governo
invadisse a esfera m icro econôm ica. Mas tal o co rreu , m uitas vezes
e m n o m e d o p r ó p r io Keynes, a tu a n d o ó governo d ire ta m e n te so­
b re salários e preços. Keynes p ro c u ro u a origem das baixas nos
in sd n to s e n te so u ra d o re s de u m a classe d e “capitalistas”. C o n tu d o ,
M ilton F ried m an , esc ru tin a n d o a história m o n e tá ria dos Estados
U n id o s, e n tr e a v itó ria so b re os C o n fe d e ra d o s e os a n o s d e
E isen how er, d e s c o b r iu q u e a in stab ilid ad e d e ç o r r e r a p rin c ip a l­
m e n te d e inconstâncias n o suprimento de din h eiro — e, p o rta n to , do
c o m p o rta m e n to g o v ern am en tal mais do q u e q u a lq u e r o u tra coisa.

(*) A p a r t e d e L o n d r e s o n d e se estab eleceu a c o m u n i d a d e d e n egó cio s. (N . d o T .)


/ '/'.V O liberalismo - antigo e moderno

O p a ra d o x o de Keynes consiste n o seguinte: e m b o ra tivessem


o b tid o lucros fabulosos, os capitalistas vitorianos haviam p re fe ri­
d o investir a consum ir; e q u a n d o os trab alh a d o re s atravessaram a
m aio r miséria, o b e d e c e ra m ao invés d e se revoltarem . N a d a disso
subsiste, via d e regra, n o capitalism o m o d e rn o , pós-keynesiano. J á
não h á mais au to d o m ín io . H o je e m dia, o p ró p rio se to r público,
com seus exércitos b u rocrático s, “cabala” p a ra c o n seg u ir m aiores
gastos governam entais, a lim e n ta n d o a in d a mais a “crise fiscal do
E stado”. Iro n ic am en te, as receitas d e Keynes, o a n tip u rita n o , só
fu n cio n a ra m e n q u a n to a ética p u r ita n a — a saber, ascetism o e abs­
tenção — se m anteve com o força viva n a so cied ade capitalista.

K arl Popper e. uns poucos moralistas


liberais do após-guerra.

T ecnicam ente, sir Karl 1’o p p e r (nascido cm Ií)()‘_?) nao c um lilóso-


fo político, mas u m crítico severo d e filosofias políticas associadas
a u m a cre n ç a p a rtic u la r — hisloric.ismo. O historicisino p o d e ser,
grosso modo, descrito co m o a teoria d a lógica, ou significado global,
d a história. P o p p e r, n o e n tan to , o define c o m o u m a a b o rd a g e m
da ciência social com a finalidade d e predição. Tal a b o rd ag e m é p ara
ele in te le c tu a lm e n te insustentável e m o ra lm e n te re p u g n a n te . A
dedicató ria d e sua m onografia The Povrrty o f Hisloricism, d e 1957,
reza: “Aos inum eráveis h o m e n s e m u lh e re s d e todos os credo s ou
nações ou raças q u e caíram vítitnas d a cre n ç a fascista ou c o m u n is­
ta nas Inevitáveis Leis do D estino H istó rico .” O p r ó p rio P o p p e r, o
b rilh an te filho d e p ró sp e ro s ju d e u s lu teran o s d e Viena, fora u m
m e m b r o in d e p e n d e n te d o assim c h a m a d o C írculo d e V iena de
positivistas lógicos lid e r a d o p o r M oritz Schlick (1 8 8 2 -1 9 3 6 ) é
R u d o lf C a rn a p (1891-1971), q u a n d o fugiu d a Áust ria p o u co anlcs
do Anschluss nazista. Passou a g u e rra n a N ova Zelândia, j á a u to r
d e u m clássico d a e p iste m o lo g ia m o d e r n a , A lógica da pesquisa
Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 179

científica (1934), e e n tã o lecionou, d e sd e 1945, n a Escola d e Eco­


n o m ia e Ciência Política d e L o n d res.
E m The Poverty o f Historicism, c o m o e m su a prévia longa c o n ­
tribuição p a ra a teoria social, A sociedade aberta e seus inimigos (1945),
P o p p e r te n to u esta b elec er u m laço e n tre o h istoricism o e o totali­
tarism o. Ele viu o m arxism o, em particular, co m o u m historicism o
e c o n ô m ic o , p r o p o r c io n a n d o a cosm ovisão p a ra u m a u to p ia totali­
tária. A idéia d e P o p p e r consistia e m q u e os revolucionarism o s to ­
talitários d o no sso século, a d esp e ito d e todas as suas p re te n sõ e s à
n o v id ad e radical, são n o fu n d o m o n stro s políticos fu n d a d o s em
raízes p r o f u n d a m e n te arcaicas. A lógica da pesquisa científica r e ­
p re s e n to u o racionalism o crítico co m o a disposição p a r a expor-se,
e n f re n ta n d o o risco d e falsificação. D ife re n te m e n te dos neopositi-
vistas d e Viena, P o p p e r considerava a falseabilidade, e n ão a verifi­
cação, o critério do c o n h e c im e n to científico.
A "sociedade aberta" <’■ análoga, em m atéria de sociedade, a
essa ousadia intelectual. K tuna cultura livre p en san te, altam en te
individualística, em q u e as pessoas se responsabilizam pelas deci­
sões u m a s das outras. A so ciedade a b e rta d e P o p p e r é, c om efeito,
u m a versão mais individualística do “criticism o” de Dewey co m o
u m a fo rm a d e vida. O o p o sto d a sociedade a b e rta é o Iribalismo, os
espaços sociais d o m in a d o s p o r d ogm as e m vez d e o sere m pela ex­
p e rim e n ta ç ã o científica. A projeção d o espírito tribalista n o p e n ­
sa m e n to alim en ta crenças falsas co m o o historicism o, q u e P o p p e r
c o n sid e ra falso p o r q u e afirm a leis gerais so b re u m fe n ô m e n o —
to d o o p ro c esso histórico — q u e é sin gular p o r definição.
N a m e d id a e m q u e a crítica d e P o p p e r c o n té m u m a justifica­
ção d e u m a certa espécie d e sociedade e d e política, ela é, d e fo rm a
p a ten te , u m a defesa conseqüencialista d a d em o cracia liberal — algo
n ã o m u ito d ista n te d a p o siçã o d e Mill em On Liberty. L u ta n d o
c o n tra “soluções finais”, totalitárias, P o p p er preconizou “re m e n d a r
socialm ente aqui e ali”. Mas é inequívoca a inclinação reform ista
d a política d e P o p p e r, m esm o se seu tom cauteloso tran sm ite u m a
ISO O liberalismo - antigo e moderno

ou duas notas d e p ru d ê n c ia desiludida. Assim, ele fala c o n sta n te ­


m en te d a necessidade de q u e se elim ine a m iséria, em vez d e se
p ro c u ra r e m vão elevar a felicidade ao m áxim o. Seu m inim alism o
é h u m a n itá rio , o q u e fru stra o e scopo g e n e ro so d a d e m o c ra cia
bentham ita. Mas, de fato, a cautela d e P o p p e r é mais epistemológica
do q u e social. N a d a h á n a essência d a sociedade a b e rta q u e im peça
u m a a m p la r e fo rm a social, desd e q u e se p r o c e d a com consciência
clara d o custo-benefício. A observação sarcástica e m u ito citada de
que P o p p e r é u m revolucionário em ciência m as u m tím ido re fo r­
m ista e m sociedade parece-m e d e sp ro v id a d e fu n d a m e n to .
N o e n ta n to , é v e rd a d e q u e P o p p e r m a n té m su a id é ia d e
d em o cracia de m asia d o p ró x im a d e u m a n o ç ão estre ita m e n te p r o ­
ce d im e n ta l, n ã o d ife re n te d a fam osa re d e fin iç ã o d e J o s e p h
S c h u m p e te r (a d em o cracia é m e n o s u m m é to d o d e au to gov erno
do q u e u m a luta com petitiva p elo voto d o povo). A d e m o cra c ia d e
P o p p e r é, acim a d e tudo, u m m eio p a ra m u d a r o p o d e r sem vio­
lência. E e x ata m e n te co m o deveríam os te n ta r r e d u z ir a m iséria ao
m ínim o d e p referên c ia a elevar a felicidade ao m áxim o, nos c u m ­
p riria p e rg u n ta r, n ã o co m o p o d e m o s a rra n ja r b o n s governantes,
mas d e q u e m a n e ira m inim izar bs prejuízos q u e eles nos p o d e m
causar. P o p p e r ta m b é m ressalto t o “p a ra d o x o d a d e m o c ra c ia ”
o fato d e q u e a d em o crac ia p o d e suicidar-se v o ta n d o n a tirania,
co m o o c o rre u n o fim melancólic o da R epública d e W eiinar.
P o p p e r p e rm a n e c e p rin c ip a lm e n te u m epistem ologista, u m
teórico da ciência (nos seus últim os escrilos, co m o Conhecimento
objetivo, 1972) da evolução, a u m le m p o natural e hum ana. Sua obra
p o u c o tem a o fe re ce r n o q u e diz respeito a u m a análise d a estru ­
tu ra d a política ou d a n atu re za d a au to rid a d e . Alguns críticos sa­
lientaram q u e a sua analogia ciejntífíca é fraca p a ra tra ta r d e p r o ­
b lem as sociais, já q u e questões dessa n atureza, d ife re n te m e n te de
indagações científicas, n ã o existem , via d e regra, em iso lam en to e,
p o rta n to , c om elas não se p o d e lidar co m u m espírito d e d e s p re n ­
dida objetividade.20 T a m b é m se p o d e criticar o âm ago d a posição
Dos novos liberalismos aos neoliberalLstnos 181

d e P o p p e r, as suas afirm ações q u a n to ao h istoricism o e o totalita­


rism o. Foi exatam ente o q u e fez lo rde Q u in to n . Reavaliando os três
principais inim igos d a so ciedade a b e rta n os te rm o s d e P o p p e r —
Platão, H egel e M arx —, Q u in to n ac h a q u e n e n h u m deles foi to ta­
litário (o m áx im o q u e se p o d e dizer é q u e Platão e H egel fo ra m
a u to ritá rio s); q u e P latã o foi a p e n a s m u ito m a r g in a lm e n te u m
historicista; e que, e m b o ra H egel fosse defin itiv am en te u m a u to ri­
tário, seu au to rita rism o n ã o d e c o rre d o seu historicism o.27 T u d o
isso m e parece" m u ito b e m observado.
N o m e sm o a n o e m q u e P o p p e r p u b lic o u A sociedade aberta
(1945), ta m b é m foi p u b lic a d o A revolução dos bichos, a p rim e ira fá­
b u la política escrita p o r G eorge Orwell (1903-1950), o p se u d ô n im o
d e Eric Blair. C on tava a história d e u m a revolução d e b o n s anim ais
q u e é b e s tia lm e n te tr a íd a p o r p o rc o s stalinistas. E m b o ra te n h a
atin g id o u m público m a io r com esse livro, O rw ell vinha p o le m i­
z a n d o c om a e sq u e rd a — e no interior dela — p o r quase u m a década.
N ascid o n a ín d ia n o q u e c h a m o u “a classe m é d ia alta mais
b a ix a” — o u seja, a classe m é d ia alta sem d in h e iro —, O rw ell tinh a
u m a ed ucação eto n ia n a, m as n ã o lo g ro u ingressar n o m u n d o de
O xbridge. Eoi policial n a B irm ânia até 1927, o q u e só o to rn o u
antiim perialista. D epois disso, levou a vida d e u m escritor a u tô n o ­
m o co m p o u c o s fundos, fazendo trabalhos su b altern o s e, u m a e
o u tr a vez, convivendo com vagabundos, inclusive com u m a passa­
g e m p o r u m a favela parisiense. O livro q u e r e p ro d u z essas ex p e ri­
ências, Na pior, m Paris e em Londres (1933), ntoslrou seu gênio pant
o jornalism o d e ficção c p a ra a a p re e n sã o m oral de ap erto s sociais.
E m A caminho de W igan (1937) ele descreve a desgraça d o d e se m ­
p re g o e an u n c ia q u e se c o n v erte ra ao socialismo (e n tre a B irm ânia
e seus anos d e m arginalid ade, ele se qualificara d e tory anarquista).
Então, Orwell foi p a ra a g u e rra civil d a E sp anha, d o lado rep u b li­
cano . V oltou c om u m livro — Homage to Catalonia (1938) — q u e
desafiou a b e rta m e n te a tentativa stalinista d e d o m in a r a esquerda.
D u ra n te a S e g u n d a G u e rra M undial, m an te v e a posição esquerdis-
/ S2 O liberalismo - antigo e moderno

la inde p e n d e n te , aju d an d o Anei,irin Revan a edilar Tribunc. Em The.


Lion a nd the Unicom, exaltou u m a tradição radical d e patriotism o,
ag arran d o co m sofreguidão a o jlo rtu n id a d e d e ro u b a r a Union Jack
das m ãos conservadoras e imperialistas.
Mas a fam a m u n d ia l d e Orwell vem d e q u e ele d esv en d o u a
hipocrisia com unista. S ua seg u n d a ficção política, M il novecentos e
oitenta e quatro (1949), to r n o u -se a m o d e r n a d isto p ía clássica, o
c o n to p erfeito p a ra q u e as pessioas se acau telem c o n tra as tendên-
cias totalitárias q u e funcionava:m em n o m e d o re d e n c io n ism o co­
m u n ista . P a rtic u la rm e n te , o qp e O rw ell fez p a ra d esm itific ar a
“N ovilíngua”* — a desca rad a d eso n e stid a d e intelectual e m b ru lh a ­
d a nas “nobres m e n tira s” do partido — é coisa d e q u e não se p o d e
e sq u e ce r, u m a m arav ilh o sa p ro e z a d a Ideologiekritik. E seus e n ­
saios r e to m a r a m m u ito s tem as liberais: c e n su ra , violência, lin^'
gua g e m ofuscante.
Orw ell acreditava q u e era d a m aio r im p o rtân cia “d e stru ir o
m ito soviético”. Será q u e isso fazia dele u m liberal? T e m o s aqui
um p ro b le m a de autodefm ição . O Orwell m a d u ro se m p re pensou
em si m esm o co m o u m socialista d e m o crata, nestes m esm os ter­
m os. As suas o piniões e ra m m u ito a p re se n ta d a s com a r e p u g n â n ­
cia q u e D. H. L aw rence sentia p ela civilização industrial m o d e rn a ,
c e rta m e n te u m grave desvio d a cosm ovisão d a p rincipal c o rre n te
d o liberalismo. P o r o u tro lado, Orwell n u n c a a lim e n to u inclinações
tradicionalistas. D u r a n te to d a a su a vida, escrev eu c o m o u m
“libertário igualitário”, m u ito mais p ró x im o d o liberalism o p o p u ­
lar d e W illiam C o b b e tt do q u e d e q u a lq u e r coisa p e rte n c e n te seja
ao ethos p atrício c o n se rv a d o r o ü whig seja ao novo elitism o tecno-
crático dos Fabianos. Ele foi, acim a d e tu d o e sem p re, u m crítico
m o rd a z d e todos os elitismos — inclusive, é claro, o elitism o dos
intelectuais radicais.28

(*) “N o v ilín g u a”: a p e lid o d a d o p o r O n v cll à lin g u a g e m cria d a p elo E studo totalitá­
rio d e M il novecentos e oitenta e quatro.
Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 183

N u m aspecto básico, Orwell foi m u ito u m liberal: seu a m o r


p elo individualism o d e se n fre a d o . Em Inside the Whale (1941), ele
escreveu q u e o ro m a n c e é p ra tic a m e n te u m a f o rm a p ro te sta n te de
arte, p o rq u e é o p r o d u to d o indivíduo a u tô n o m o . Foi d e tal posi­
ção — u m valor central p a rtilh a d o p o r Locke e Mill, H o b h o u s e e
K eynes — q u e a p ro s a cristalina d e O rw ell exibiu sua crítica m o ra l
irresistível d a id eocracia socialista. O socialista típico, escreveu ele,
é “u m h o m e n z in h o e m p e rtig a d o c o m u m trab alh o d e executivo”,
u su a lm e n te a b stêm io e vegetariano. É claro q u e n ã o se tratava d e
su g e rir q u e o farisaísm o é e n d ê m ic o aos socialistas, m as d e m o s­
tr a r o q u a n to p o d e ser p e d a n te a m e n ta lid a d e d e alguns autode-
signados salvadores d a h u m a n id a d e . Previsivelm ente, vários e n tre
eles te n ta ra m re b a ix ar o O rwell m a d u r o c o m o u m p ra tic a n te p r e ­
conceituoso d a g u e rra fria e u m b u rg u ê s d e c a d e n te — e essa espécie
d e exercício veio à to n a d e m a n e ira o p o rtu n ístic a em M il novecen­
tos e oitenta e quatro.’9 Talvez a m e lh o r resp o sta a tais investidas d e
má-fé e n tre intelectuais radical-chic, seja re le m b ra r tra n q ü ila m e n te
a inab alada p o p u la rid a d e d e Orwell n a E u ro p a oriental. Orwell,
afinal, n ã o foi n e n h u m teórico, n em fo rm a lm e n te liberal — m as o
liberalism o n ã o p o d e dispensar a verve ética d e seu libertarianism o.
T a m b é m cristalina foi g ra n d e p a rte d a p ro s a d o rom ancista,
te a tró lo g o e ensaísta A lb e rt C am us (1913-1960), a p a re lh a fra n ce ­
sa d e Orw ell c o m o u m m oralista liberal m e n o s n o n o m e . U m “pied
noir” (francês colonial d o n o r te d a África), C a m u s passou u m a in­
fância ó ría d e pai n u m b a irro o p e rá rio d e Argel. Mas, d u r a n te a
O cu p aç ão , o b rilh a n te jo v e m j á estava escrevendo p a ra o Combat,
j o r n a l d a Resistência.
E m 1942, C am us publicou u m longo ensaio, “O m ito d e Sísifo”,
e x o r ta n d o o h o m e m m o d e r n o , ateu, a e n fre n ta r o desafio d o ab­
su rd o . O c e rn e d o a b s u rd o era, é claro, a m o rtalid a d e, e Cam us,
p o r c au sa disso e d e se u e x tra o r d in á r io r o m a n c e O estrangeiro
(1942), foi logo incluído e n tre os existencialistas. N o e n ta n to , seu
existen c ia lism o e r a m e n o s c o m o o d e S a rtre , q u e a c e n tu a v a a
/.S’7 O liberalismo - antigo e moderno

incessante e m b o ra fútil inquietação d a consciência h u m a n a , do que


um reg resso à m o ra l pagã. C a m u s e x alto u o Sul, o e sp írito d o
M editerrâneo: lucidez e sensualidade, u m se n tim e n to d e tragédia
c um g osto p ela m edida. “N e n h u m h o m e m é u m h ip ó crita e m seus
p ra z e re s ”, escreveu em seu ú ltim o , p ó s tu m o r o m a n c e , A queda
( 1956). A m o rte e o sol — tal foi a a re n a existencial d e Cam us. Em
1957, aos 44 anos, ele se to rn o u o mais jovem g a n h a d o r d o P rê ­
mio N obel desd e Kipling.
N a d é ca d a d e 1950, n o q u e ele p r ó p rio c h a m o u d e seu seg u n ­
do ciclo, o m oralista.que havia nele, não d ife re n te m e n te d e Orwell,
travou u m a polêm ica c o n tra o m arxism o, q u e e ra e n tã o a m a ré alta
do m u n d o intelectual francês. C am us divisou o h isto rirism o m ar­
xista com o um ;ilil>i, uma fuga pseu<l<xientíliea da carga da liber­
dade. Km Llum une reonlté ( Ií).r>I), seu s e g u n d o en saio de m aio r
im portância, C am us declarou, co n tra Niet/.sche, q u e IMalão estive­
ra certo. Pois a história n ão tem consciência, e c o n se q ü e n te m e n te
tem os d e o lh ar p a ra o u tra parte, d esd e q u e q u eira m o s e n c o n tra r
critérios p a ra a h u m a n id a d e d e nossos atos e instituições. Os stali-
nistas e os existencialistas sartrianos pareciam -lhe todos prisionei­
ros da história — o que o levou a u m a am arga polêm ica com o g rupo
d e Les Temps M odemes, a m u ito p re stig ia d a revista d e S artre. A
b re ch a foi logo alargada pelo im p a c to d a tragédia argelina. S artre
e seus seguidores a p o iaram o anticolonialism o integral d e escrito­
res co m o Franz F a n o n (1925-1961); C am us, d ilacerad o e n tre “a
ju stiç a e su a m ã e ”, fid e lid a d e pessoal e p rin c íp io d e m o c rá tic o ,
acabou p o r escolher u m silêncio farisaicam ente c o n d e n a d o pela
esq u erd a parisiense.
C am us re c o n h e c e u c om p ra z e r o p apel d e s e m p e n h a d o p o r
M arx n o d e s p e rta r d e nossa m á consciência social. Mas avisou que
n e n h u m a verdadeira dialética ja m a is p o d ia afirm ar, seja u m fim da
história, seja u m fim p a ra a história. O idealism o revolucionário
levava a slogans e, p o rta n to , ao T e rro r, in d ife re n te ao sofrim ento
h u m a n o . E ra m e lh o r ter revolta do q u e revolução: o esforço nítido
Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 185

e lúcido p a r a d izer n ã o ao a b su rd o d a vida e aos m ales d a socieda­


de. E ra isso o q u e r e c o m e n d a v a o “p e n s a m e n to solar”, e m vez d a
n e b lin a d a fé revolucionária. O ctavio Paz, o g ra n d e escrito r m exi­
cano, re su m iu e e n riq u e c e u m ais ta rd e essa antítese e n tre o histo ­
ricism o d a revolução e a ética “p re se n tista ” d a revolta. C a m u s era
v e rd a d e ira m e n te se m e lh a n te a O rw ell e m seu anseio p o r u m a p o ­
sição in d e p e n d e n te d e e s q u e rd a e, acim a d e tudo, e m seu d o m de
p e n e tr a r a re tó ric a d a revolução. E m sua notável p e ç a Les justes, de
1950, os revolucionários são p e rso n a g e n s b u rg u esas q u e n ã o bus­
cam ta n to a ju s tiç a c o m o a autojustificação. A in d a necessitam os
dessa espécie d e realism o m o ra l.30
O m u n d o latino, nas décadas d o após-guerra, conlou com pelo
m enos mais um notável m oralista liberal: Salvador de M adariaga
( I HK(> - 1Í)7H). M uilo mais velho q u e (him us e m e sm o O rw ell,
M adariaga foi um prolílico liom cni d e letras esp an h o l q u e c o n tri­
b u iu p a r a o e s ta b e le c im e n to d a Liga das N ações. R e p u b lic a n o
m o d e r a d o , p u b lic o u e m 1937 u m e n saio p o lític o , A narquia ou
hierarquia, q u e c o n tin h a a sab edoria histórica d e u m liberal c o n ­
servador d e c epcion ado. Em tem pos e u ro p e u s mais antigos, pensou
M an dariaga, o E stado fo ra c o m o u m a planta. Mas o Estado m o ­
d e rn o , filho das revoluções inglesa, a m eric an a e francesa, fundava-
se n o p rin c íp io d o c o n tra to . O p ro b le m a consistia e m q u e a d e ­
m ocracia, p a ra se r estável, necessitava ser orgânica: n ã o a p e n a s a
so m a d e o p in iõ es passageiras, mas o f ru to m a d u r o d o convívio.
Q u a n to a plebiscitos, estes e ra m e rr a d o s p o r q u e d e p e n d e m d a
massa, e n ã o d a n ação o rg ân ica — e ta m b é m p o rq u e , sem dúvida,
o liberal don Salvador estava h o rro riz a d o com o ab u so dos plebis­
citos e m m ã o s fascistas. O te sta m e n to político d e M adariaga foi De
la angustia a la libertad (1955). O livro criticava a excessiva c o n ­
fia n ça d o liberalism o v ito rian o n a h a r m o n ia n a tu r a l e final dos
egoísm os individuais. As Erínias fascistas e os flageladores c o m u ­
nistas ap roveitaram -se d o vácuo resultan te. P o rta n to , dever-se-ia
a b a n d o n a r o su frág io un iv e rsa l e c o n s tr u ir e m seu lu g ar um
ISti () liberalismo - antigo e moderno

Irdcralism o geral, u m a p irâ m id e d e associações locais e industri-


•iis. Ki a n o v am en te o organicism o, n u m estad o d e â n im o u m tan-
(o m elancólico.
O m o ralista liberal d a G rã-B retan ha n ã o e ra nascido n o país.
Sir lsaiah Berlin, p ro fe sso r e m O x fo rd , nascido e m 1909, p ro v é m
<!c u m a fam ília ju d i a d e Riga, q u e se in stalo u n a In g la te rra e m
co n seq ü ên cia d a Revolução Russa. N os anos d a g uerra, serviu na
E m baixada b ritân ic a e m W ashington, d e o n d e seus relatórios cha­
m aram a a te n çã o d e n in g u é m m e n o s q u e Churchill. E m 1946, ser- :
vindo e m M oscou, a b a n d o n o u as relações ex terio res p a ra p a ssa r a
u m a vida acadêm ica p r o lo n g a d a e distin ta n o A li Souls College. Sua
o b ra n o te r re n o d a h istó ria das idéias, e sp ecialm en te so b re p e n sa ­
d o re s c o m o Marx, Vico, H e r d e r e H e rze n , é u m a realização singu­
lar. B erlin a ju d o u a resg atar a filosofia d e O x fo r d d o bizantinism o
d a análise lingüística; n ã o re c e o u fo rm u la r n o v a m e n te alg um as
g ra n d es questões “m etafísicas”.
E m 1953, B erlin p ro n u n c io u u m a fam o sa c o n ferê n c ia so b re
a inevitabilidade h is tó ric a .n A tônica d e seu a ta q u e n ã o diferia
m u ito d a posição anli-hislorieista d c P o p p e r; parecia-lhe e n g a n o ­
sa a busca d e leis q u e possibilitassem a p re d iç ã o em história, e a
crença n u m destino histórico resultava n u m a atrofia do sentim en to
d e re sp o n sa b ilid a d e . E n q u a n to P o p p e r sa lie n ta ra os d e feito s
epistem ológicos d o historicism o Berlin — escrevendo po u c o s anos
antes d a publicação d e The Poverty o f Historicism — ace n tu o u o lado
m oral d o problem a. Sua mais b :m c o n h e c id a con trib u iç ão teo­
ria política é u m a o u tr a conferên cia, “Dois conceitos d e liberda­
d e ” (1958), q u e codificou p a r a os países anglo-saxões a distinção
e n tr e lib e rd a d e negativa e (liberdade) positiva, o u lib e rd a d e de e
lib e rd ad e p a ra ? 2, C o m o vim os n o capítulo 1, B erlin igualou a li­
b e r d a d e negativa à a u sê n c ia d é c o n s tra n g im e n to , e a lib e rd a d e
positiva à p r o c u ra d e fins racionais — o que, e m sua opinião, ab re
o c am in h o p a ra o u tr a igualização decisiva, a d a lib e rd a d e co m a
razão.
Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 187

B erlin a firm o u que, d e Platão a M arx, prevaleceu n o p e n sa ­


m e n to ocidental a idéia d o universo c o m o u m to d o inteligível g o ­
v e rn a d o p o r u m só princípio, com a im plicação d e q u e c u m p ria
ao h o m e m o r d e n a r su a vida, social e pessoal, d e a c o rd o co m essa
e s tru tu ra cósm ica unitária. B erlin q u e stio n o u in te n c io n a lm e n te tal
objetivism o e m m a té ria d e valores. C o m o W e b er, ele p ensava q u e
os significados d e últim a instância n ã o estão ali, nas coisas; eles são
d ad o s — o u im p o sto s — p elo h o m e m ao m u n d o . A lém disso, o u n i­
verso é irresg atav elm en te plural; daí o s e g u n d o e rr o d a tradição
filosófica o cidental — seu monismo. R e je ita n d o esse m o n ism o m o ­
ral ligado a u m a h ie ra rq u ia d e valores, B erlin p re fe riu a p ro fu n d a r-
se e m Maquiavel, q u e e n fr e n ta r a a im possibilidade d e conciliar a
ética pa g ã d a virtu e fo rtu n a c om a m o ral cristã d a transcendência.
É inevitável o p lu ralism o d e valores, insistiu B erlin — e, e m conse­
qüência, ta m b é m o são o conflito e a escolha. N a su a o p in ião , o
q u e dificulta as co n c ep çõ e s d e “lib e rd a d e positiva” é que, te n ta n ­
d o re fo rm u la r to d o s os valores co m o aspectos d e u m a d a d a “li­
b e r d a d e racional", elas re ca em n o m o n ism o m o ral — e m uitas ve­
zes, e m seu n o m e, e m práticas autoritárias, p o r mais n o b re q u e seja
o seu objetivo original.
B erlin é u m lib e rtá rio e lo q ü e n te . C o m o P o p p e r , O rw ell e
C am us, p o u c o te m a d izer so b re o lado institucion al d a lib erd ad e.
Vista n u m a pe rsp ec tiv a histórica, a lib e rd a d e positiva n o se n tid o
geral d e lib erd a d e para m e re c e u m ju lg a m e n to mais b o n d o s o do
q u e o q u e lh e d is p e n s a B erlin. P a ra sir lsaiah, a longa, m aciça
“bu sc a m o d e r n a d a felicidade” é, n o fu n d o , “u m anseio p o r staius
e r e c o n h e c im e n to ” d istin to d e ( e m b o r a n ã o se m rela çã o co m )
q u a lq u e r das d u a s lib erdad es. A in d a ássim, q u e m n e g a ria q u e a
c o n q u ista d e crescentes intitu lam en to s, a m ultiplicação das o p o r­
tu n id a d e s d e vida, e o c e rc e a m e n to d e laços tribais e tradicionais
fo ra m a m p la m e n te e x p e rim e n tad o s p o r m ilhões c o m o u m a fruição
d a liberdade? N a prática histórica, a fo m e d e c o n sid eração é q u a­
se inseparável do senso d e realização pessoal e d o se n tim e n to cie
/.ViV O liberalismo - antigo e. moríimo

livrar-se de grilhões.33 Se assim é, h á u m a explicação sociológica da


liberdade q u e desafia a antítese d e Berlin.
De m o d o assaz interessante, a o b r a mais notável d e ética lib o
ral d e s d e Rawls, o r e c e n te livro d e J o s e p h Raz The M orality o f
Freedom (1987), rea firm a o p lu rralismo d e valores, salien ta n d o a in
co m e n su ra b ilid ad e do valor tãc en fatizada p o r Berlin. C o n tu d o , c
tra ta d o d e Raz, n u m passo m ú ito p o u c o b e rlin ia n o , c o m b in a ;i
aprovação do pluralism o d e valores com u m a co n v in cen te defesa
d a a u to n o m ia , d a lib e rd a d e positiva. Raz co n sid e ra preciosa a auj
to n o m ia, p o r q u e m u ito s d iferen tes m o d o s d e vida são d ignos de­
vi ver, c o m o Mill e Berlin, p ro fu n d o s a d m ir a d o re s d a v aried ad e
h u m a n a , sabiam. A singular con trib u iç ã o d e Raz a essa escola d e
p e n s a m e n to m o ra l consiste em s e p a ra r o elogio d a v aried ad e fun-j
d a d a n a a u to n o m ia d e u m a visão dem a siad o individualística das
c o m petências e realizações h u m an as, e em a m p u ta r a defesa d a li­
b e rd a d e civil d e suas prem issas ulililai islas millianas. Para o histo­
riad o r d e idéias, a o bra de Raz loree de form a irônica as idéias mais
caras a Berlin. O q u e Berlin m anteve b e m s e p a ra d o — pluralism o
d e valores e liberdades positivas — Raz e n g e n h o s a m e n te u n iu .34

Neoliberalismo como neoliberismo:


de Mises a Hayek, e a teoria da escolha pública

S eg u n d o W a lth e r R alhenau, o fim d a velha E u ro p a e m 1914-1918


significou que, desd e então, “a e c o n o m ia torno u-se o d e stin o ”.35
Nos anos d e e n tre guerras, havia duas principais reações à am eaça
d e h e g e m o n ia institucional econôm ica: u m a era o socialismo esta­
tal, q u e te n to u p ô r te rm o à “a n a rq u ia d a p r o d u ç ã o ”, e a o u tra era
o fascismo, u m a tentativa d e atre la r o capitalism o ao fascínio do
nacionalism o ou racismo. C o n tu d o , a longo prazo, prevaleceu a
econom ia. Meio século depois da ascensão das autocracias de I liller
e d e Slalin, os Estados c o n q u ista d o re s ou p e re c e ra m ou se d era m
Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 189

c la ra m e n te p io r d o q u e E stados c o m e r c ia n te s .É claro q u e a polí­


tica pro sse g u e, m as n ã o d e té m o im p u lso a u tô n o m o das forças
econôm icas.
O s p rim e iro s desafios teóricos à reação a n tie c o n ô m ic a p a rti­
ra m d e u m austríaco, L udw ig von Mises (1881-1973). Seu livro de
1922 Die Gemeinwirlschafl (A economia comunal-, tr a d u z id o co m o
Socialism) fo rn e c e u m u n iç ã o essencial c o n tra os m o d ism o s q u e fa­
voreciam u m a su p e r-reg u la m en taçã o d a eco n o m ia. Mises foi atraí­
d o p a r a a e c o n o m ia pelas obras d e Carl M e n g e r (1840 -1921), fu n ­
d a d o r, j u n ta m e n te c o m je v o n s , W alras e M arshall, d a escola neo-
clássica. O jo v e m Mises p a rtic ip o u d o se m in á rio antebellum d e
E u g e n vo n Bohm -Bawerk, u m form idável crítico d e Marx. O capí­
tulo c en tra l d o Socialism d e Mises consistia n u m a crítica feroz à
u to p ia socialista d o cálculo eco n ô m ico , d eix a n d o d e lado o m erca ­
do. Em 1927, Mises pub lico u u m volum e in titu lad o em alem ão
Liheraiismus, mas cuja essência <: mais bem tran sm itid a pela tra d u ­
ção inglesa: lÂberalism in lhe Classúal. T m dition. Este e ra m u ito
a n tag ô n ico a Mill. Em seu e ru d ito trata d o so b re d in h eiro , Mises
c u n h o u o te rm o calalüico p a ra d e n o ta r fe n ô m e n o s d e câm bio — a
alm a d o m ercado.
Discípulo d e Mises, F rie d ric h A ug ust v o n H ayek (nascido em
1899) tra n s fo rm o u o catalítico n u m a visão d o m u n d o . Mas H ayek
u ltra p asso u explicitam ente Mises su b lin h a n d o (em seu prefácio a
Socialism) q u e n ão fo ra m “p en e tra ç õ e s racionais em seus be n efí­
cios gerais q u e levaram â difusão d a e c o n o m ia d e m e r c a d o ”. Isso
é H ayek autêntico: c o m o A d a m F ergu so n c A dam Sm ith, ele p e n ­
sa q u e o p ro g resso d e c o rre das ações d o h o m e m , m as n ão d o d e ­
sígnio d o h o m e m .
N ascido em Viena, H ayek alçou-se a u m a c á te d ra n a Escola de
E c o n o m ia d e L o n d re s e m 1931, se g u in d o dali p a ra Chicago em
1950, e fin alm en te p a ra E reibu rg em 1960. E m 1974, j á aposenla-
do, foi agraciado com o Prêm io Nobel d e Economia. Sen livro 1’iirr
'riici/iy ofCajiil/il. (19-1 I) relleliu o estado de espírito anlikeynesiano
I'H) 0 liberalismo - antigo e. moderno

da e co n o m ia d a Escola d e E co n o m ia d e L o n d re s (o n d e , d e fo rm a
b astante curiosa, a ciência política n a ép o ca estava sob a iníluên-
cia esq u erd ista d e Laski). Em 1944, Hayek, n a d a n d o c o n tra a c o r­
ren te, p u b lico u O caminho da servidão, n o qual a cu so u o planeja­
m e n to e o E sta d o p re v id e n c iá rio d e le v a re m à tiran ia. K eynes
declarou-se “sim p ático e m te r m o s g e ra is” aos s e n tim e n to s q u e
a nim avam o livro, o q u e a p en a s d e m o n s tra q u ã o p o u c o ele se ti­
n h a afastado d o c red o liberal. Mas o p ro g n ó stic o d e H ayek e ra o b ­
v iam en te m u ito e x agerado. Iro n ic a m e n te , suas p ró p ria s críticas
ulleriores à dem ocracia p o d e m ser in te rp re ta d a s co m o refutação
d a tese d e O caminho. Se a d e m o c ra c ia d e sim p e d id a , c o m o ele
pensa agora, milila co ntra o m ercad o , pelo m e n o s ela obv iam ente
sobreviveu em vez d e p erec er d u ra n te o p io lo n g a d o <resi im ento
d o E stado social.
O livro c o m p leto d e H ayek sobre te o ria política foi p u blicado
em 1960 c om o título Os fundam entos da liberdade. U m tra ta d o n a
fo rm a clássica, ele desafiou a b e rta m e n te a in te rd içã o analítica da
filosofia política. E n q u a d ro u o m e rc a d o e o p ro g re sso n u m a m ol­
d u r a evolucionista. H ayek p a rtiu p a ra a p re s e n ta r o m e rc a d o co m o
u m sistem a sem rival de inform ação: preços, salários, lucros altos
e baixos são m ecan ism os q u e d istrib u e m in fo rm a çã o e n tre ag en ­
tes eco n ô m ico s d e o u tr a fo rm a incapazes d e saber, j á q u e a m assa
colossal d e fatos e c o n o m ic a m e n te significantes está fa d a d a a
escapar-lhes. A intervenção d o Estado é m á p o r q u e faz com q u e a
re d e d e inform ações do sistema de preços em ita sinais enganadores,
além d e re d u z ir o escopo d a ex p erim e n ta ç ã o econôm ica. Q u a n to
ao progresso, este o c o rre através d e u m a m iríad e d e tentativas c
erros feitos pelos seres h u m a n o s, pois a evolução social p ro c e d e
m e d ia n te “a seleção p o r im itação d e instituições e hábitos bem - !
su ce d id o s”.37 G en eralizan d o seu d isc e rn im e n to do papel d o m e r­
cado, H ayek su sten to u q u e os p ro b le m as h u m a n o s c o m o um (odo
são de m asia d o com plexos e m utáveis p a ra serem d o m in a d o s de
form a “construtivista” pelo intelecto h u m a n o . Tal racionalism o é
Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 191

u m g ra n d e erro , e m b o r a te n h a sido f o m e n ta d o d e sd e a R evolu­


ção Francesa p o r tantos p ro g ram as para a sociedade perfeita. C o m o
o c o n se rv a d o r liberal M ichael O ak esh o tt, seu c o n te m p o râ n e o n a
Escola d e L o n d re s,38 H ayek colocou o cosmos, o u o r d e m criativa,
e sp o n tâ n e a , m u ito acim a d a táxis — o a rra n jo in te n c io n al das u to ­
pias racional is tas.
N a d é c a d a d e 1970, H ayek fo rtale ce u essas o p iniões n u m a es­
p lê n d id a trilogia, Law, Legi-slation and Liberty (1973-1 979), “u m a
nova exposição cios p rincípios liberais d e justiça e e c o n o m ia polí­
tica". A sum a d e H ayek co n té m m uitas coisas boas, inclusive um
ataque fascinante a Kelsen a respeito do conceito d e justiça. Encerra
um a reafirm ação cordial d o liberismo. As duas únicas funções dc
um g o v ern o legítimo consistem , s e g u n d o I layek, "em p ro v e r um a
e s tru tu ra p a ra o m e rc a d o , e p ro v e r serviços q u e o m e rc a d o n ão
p o d e fo rn e c e r”. Isso, aliás, m o s tra q u e Hayek, a d e sp eito d e to d o
o seu d e te r m in a d o a b a n d o n o d a “m ira g e m d a justiça social”, não
se lim ito u a r e tr o c e d e r a u m p u r o fav o re cim en to d o laissez-faire o u
a o E stado vigia n o tu rn o .
Law, Legislation and Liberty rea firm o u ta m b é m o q u e veio a ser
c o n h e c id o c o m o a tese d a indivisibilidade d a liberdade, graças a
o u tra estrela d e Chicago, o e co n o m ista M ilton F rie d m a n (nascido
e m 1912). O q u e se a firm a é que, a m e n o s q u e se o b te n h a o u se
m a n te n h a a lib e rd a d e ec o n ô m ica , as o u tra s lib e rd a d e s — civil e
p o lític a — se d e sv a n e ce m . E m Capitalistno e liberdade (1962),
F rie d m a n a r g u m e n to u q u e , dispersando-Se o p o d e r , o jo g o d o
m e rc a d o equ ilibra co n ce n tra ç õ e s d e p o d e r político. O ra, o E stado
liberista evita p o r definição to d a te n d ê n c ia d e se colo car o p o d e r
e c o n ô m ic o nas m ãos políticas d o E stado. A lição é clara: o liberis­
m o p o d e n ã o ser u m a con d içã o suficiente, m as é c e rta m e n te u m a
c o n d iç ã o necessária d e lib e rd a d e global — tal é a m e n sa g e m d o
g ra n d e e x p o e n te d e Chicago.
Tive o privilégio d c e sta r p re s e n te ao j a n t a r d o c e n té sim o
a n iv e rsá rio d o Reforrn Club. (E m seus a p o se n to s, seja d ito d e
192 O liberalismo - antigo e moderno

passagem , lo rd e Beveridge traçou seu fam oso relatório, a M agna


C arta do Estado social britânico, algo d e m u ito mais liberal em sua
p rim e ira concep ção d o que e m sua c ondição atual.) A com issão
d e d ire to res de nossa venerável instituição, o lar social d e Macaulay
e G ladstone, teve a b rilh a n te idéia d e escolh er co m o o ra d o r u m
m e m b r o notável, q u e estava, ele p ró p rio , na realidade, celeb ran ­
d o 50 anos d e parlicipação n o Club, n a quele m esm o verão. Tratava-
se, é claro, d c F. A. Ilayek, tão vivo co m o se m p re aos 84 anos. C o ­
m eçou contando-nos q u ão grandes foram seus esforços intelectuais,
e m sua ju v e n tu d e e m Viena, d edicados a libertar-se d o fascínio cie
M arx e Freud.
D e fato, o terceiro volum e d e Law, Legislation and Liberty ter­
m in a com u m a crítica d o construtivism o d o m arxism o e do a n a r­
q u ism o la ten te d o freu dianisjno. C o m relação ao im p ac to d e ste
ú ltim o (a d e sp e ito das p ró p r ia s dúvidas d e F re u d e m ensaios1
mais tardios com o O mal-estar da civilização), H ayek preocupa-se com
a im p e n sa d a ru ín a d a repressão e m n o m e d a sa ú d e psicológica,
re s u lta n d o em no ssa é poca p erm issiv a c o m “selvagens não-
d o m esticado s q u e se re p re s e r tam co m o alienados d e algum a cc|i-
sa q u e n u n c a a p re n d e ra m , e :hegam m e sm o a to m a r a si a corís-
tru ç ão d e u m a ‘c o n tra c u ltu ra ’ ’.3!> N a o p in iã o d e Ilayek, p a ra criar
e m a n te r u m a o rd e m social si jsceptível d e crescim en to co n stan te
e d e fre q ü e n te m elhora, as pessoas não se devem ap enas su b m e te r
a sacrifícios de instintos, mas lêm ta m b é m d e a b a n d o n a r “m uitps
se n tim e n to s que era m aliment o p a ra o p e q u e n o g r u p o ”, tais co m o
tendências inatas p a ra agir erri co n ju n to n a b u sc a d e objetivos cò-
m uns. Pois a civilização, diz Hayek, é u m a “sociedade abstrata”, que
se a póia m u ito mais em n o rm a s a p re n d id a s d o q u e n a bu sca de:
finalidades com uns. O fun cio n am en to d e sua m e lh o r corporificaçao;
n u m a explicação evolucionista — o m e rc a d o — im plica u m respei­
to p o r n orm as, mas n ão q u a lq u e r so lid aried ad e e s p o n tâ n e a /10
O significado m ac ro -h istó ric o disso destaca-se c o m grande,
clareza: deve-se e n te n d e r o h o m e m prim itivo co m o supersocializado
Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 193

— u m ca m arad a sociável, m as excessivam ente gregário, p o r violento


q u e seja o u fosse — e, c o m o tal, in a p to p a ra a fria m a n ip u laç ã o de
n o rm a s q u e d istin g u em os m e m b ro s d a so cied a d e abstrata. P o r­
tanto, a m a rc h a d a civilização p re ssu p õ e, além d o c o n tro le dos ins­
tintos, u m a b o a m e d id a d e distância d e se n tim e n to s “tribais”, de
c o m u n id a d e e “c o m u n a lid a d e ” — em re su m o , d e Gemeinschaflshist.
I-Iayek é o u ltra d o liberism o e n tre os neoliberais pós-Keynes.
Sua crílica c o n tu n d e n te d os so n h o s igualitários e seu r e p ú d io
quixotesco à d em o cracia m ajoritária (substituída p o r u m a versão
co nd ic io n ad a, “d e m a rq u ia ”) são tidos g e ra lm e n te n a c o n ta d e fa­
to re s q u e o co lo ca m n a c o m p a n h ia d e liberais c o n se rv a d o re s.
C o n tu d o , H ayek não se consid era u m conservador. U m epílogo ao
livro Os fundam entos da liberdade leva p re c isa m e n te o título “P o r
q u e n ão sou u m c o n serv a d o r”. O liberalismo, adverte Hayek, “não
é c o n trá rio à evolução e m u d a n ç a ”, e n q u a n to o co n serv ad o rism o
tem dem asiado apego à autoridade, se n d o g eralm en te len iente e m
m até ria d e co erção e, m uitas vezes, ig n o ra n te e m eco n o m ia, d e ­
m asiado nostálgico e p re fe re n c ia lm en te a n tid e m o c rá tic o ao invés
d e antiestatista.
O ú ltim o p o n to te m u m asp ec to irô n ico , j á q u e o p r ó p r io
H ayek tornou-se n a velhice m e n o s q u e entu siasta q u a n to à d e m o ­
cracia. Mas, tendo-se em vista todos os p o n to s, a fó rm u la d e H ayek
re su m e b rilh a n te m e n te d iferen ças reais e n tre o liberalism o e suas
alternativas. Elas te n d e m a enevoar-se p o r causa d o eosLume (m ui­
to en co ra ja d o pela p ro p a g a n d a socialista) d e ver o conservadoris­
m o , o liberalism o e o socialism o c o m o p o n to s q u e se su c e d e m
n u m a linha. N ão, diz H ayek, isso é u m a ilusão óptica: a v e rd a d e
c onceituai nos o briga a vê-los d e p re fe rê n c ia c o m o ângulos d e um
triângulo.41 E ntão, as discrepâncias e n tre c o n serv ad o rism o e libe­
ralism o tornam -se tão claras q u a n to as q u e se p aram o liberalism o
d o socialismo.
C o m o S am uel B rittan p erce b eu , h á u m abism o e n tre dois ele­
m e n to s n o p e n s a m e n to d e H ayek. U m e le m e n to é a valorização
194 O liberalism o - a n tig o e moderno
\

liberal clrí.s.sic.) d e g o v e rn o lim itado, m ercad o s livres e o go v ern o j

d a lei. O o u tr o é u m a mística burkiana, q u e a firm a m uitas vezes, j

m ais d o q u e prova, a sa b e d o ria oculta d e institu ições h á m u ito j

existentes. O ra , isso re p re s e n ta u m p ro b le m a d e peso, pois, se em j


seu evolucionism o b u rk ia n o H ayek d e fe n d e o p ro g re sso e o mer- ;
cado p o rq u e p ossuem u m a espécie d e sabed oria in ere n te, c o m que
fu n d a m e n to pode-se negá-la às instituições h á m u ito existentes qud
H ayek ta n to detesta, co m o c o n tro le d a re n d a , c o n tro le d e preços|
e taxação progressiva? N ã o p o d e ria a abolição destas desequilibrar!
to d a u m a sociedade?42 A lém disso, n ã o será v e rd a d e q u e a maio-J
ria dos E stados previdenciários não se fu n d a ra m c o m base em um;
planejam ento abra n g e n te e consciente? Em o utras palavras, não são
eles ta m b é m o re su lta d o d e m uitas evoluções imprevistas? |
Estas são ap enas u m as po u ca s in terro g a çõ e s suscitadas p ela
cega c onfiança d e H ayek n a ciência d a evolução co m o tradição. Se
a evolução é u m a tradição cósmica, tu d o — m esm o o q u e e m b a ra ­
ça o m e rc a d o e, p o rta n to , solapa in d ire ta m e n te a lib erd ad e — p o d e
ser a b e n ç o a d o p o r seu critério. P o r o u tro lado, se evolução é sele­
ção, p o r q u e lo d o o espalhafato a respeito d e e x p e rim e n to s sociais
que, se g u n d o essa teoria, serão d e q u a lq u e r fo r m a abandonados?1
N ã o e sp a n ta q u e H ayek te n h a sid o d u r a m e n te criticado p o r causa
d a c o n tra d iç ão e n tre o seu fideísm o evolucionista e o p apel que
atribui à razão crítica.43
H ay ek é, n a tu ra lm e n te , u m m a n te n e d o r d o in dividualism o
m o ra l e, p o rta n to , d o plu ralism o d e valores. Ele ach a que, exceto
n o q u e diz respeito a âm bitos b e m delim itados, não h á necessidade
d e a c o rd o q u a n to a objetivos: “n ã o p o m o s e m vigor u m a escala
u n itá r ia d e objetivos c o n c r e to s ”, escrev eu ele, “n e m te n ta m o s
g aran tir q u e algum a o p inião particu lar so b re o q u e c mais e o que
é m e n o s im p o rta n te go vern e to d a a so c ie d a d e ”. 11 Isso soa com o
Berlin — individualism o libert ário em seu jo g o favorito, a rejeição
de g ran d es definições substanciais sobre o b e m co m um . Km vez
disso, H ayek é p artidário da nomocracia'. aquilo d e q u e necessitamos
Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 195

são a n tes regras d o jogo d o q u e vnlores <■ objetivos partilhados.


Q u a n d o todas as contas são feitas, a lib erd ad e, p a r a H ayek, é, n o
fu n d o , u m in s tru m e n to d e p rog resso; o m é rito s u p re m o d o indiví­
d u o “h ay e k ian o ” é c o n trib u ir (in c o n scien te m e n te) p a ra a evolução
social. Essa o p in iã o solapa o direito q u e assistiria a H ayek d e ser
u m liberal n a m esm a liga q u e Locke e H u m b o ld t.45 O neoliberism o,
assim c o m o o neo-ev olucionism o, te r m in a p o r m in a r o p r ó p rio
â m ag o d a ética liberal.
N a lite ra tu ra liberista, m uitas vezes e n c o n tra m o s g ra n d e s elo­
gios a H ayek n os textos d a assim c h a m a d a te o ria d a o p ç ã o p ú b li­
ca. O principal n o m e nesse con texto é Ja m e s B uchanan, a u to r (com
G o r d o n T ullock) d e The Calculus o f Consent (1962) e d e Cost and
Choice (1969). C o m o eco nom ista, a influência d e B u c h a n a n n o re­
nascim ento liberista só p e rd e a prim azia p a ra a d e M ilton Friedm an.
Sob a inspiração d a o b ra so b re finanças públicas c o n stru íd a pelo
e c o n o m ista escand inavo ncoclássico K n n t Wicksell (1851-1926),
B u c h a n a n co n cen tro u -se n a política como troca. E m Liberty, M arket
and State, u m a seleção reccntc de seus escritos, B u c h a n a n salien­
to u o p a p e l d a escolha pública co m o u m a “perspectiva sobre polí­
tica q u e e m e r g e d e u m a extensão-aplicação d o s in s tr u m e n to s e
m é to d o s d o e c o n o m ista p a ra e m p r e e n d e r a divisão coletiva o u d e
n ã o m e r c a d o ”. O q u e re su lta é u m a p e n e tra ç ã o crucial nas causas
dos fracassos g o v ern am en tais (devido b asicam ente à te n d ê n c ia p o r
p a r te d e políticos eleitos e d e bu ro crac ias p a rk in so n ia n a s d e criar
déficits o rça m e n tá rio s), u m a c o m p re e n sã o tão significativa p a r a a
ciência política q u a n to foi p a ra a e c o n o m ia a te o ria dos defeitos
d o m e rc a d o . B u c h a n a n m u ita s vezes cita H ayek, m as ele é u m
liberista q u e n ã o hesita e m in v en ta r “n o rm a s p a ra u m jo g o j u s t o ”,
inclusive u m a visão sóbria <le laxações d e transferências v e d u c a ­
ção pública c o m o m o d e ra d o re s ria d esig u ald ad e social.”11’
O u tra s im p o rta n te s obras liberistas incluem o trabalh o d e dois
franceses, H en ri Lepage (Tomorrow, Cnpilalism, 1978) c Guy S orm an
(La nouvelle richesse des nalions, 1987), co m o ta m b é m a excelente
196 O liberalismo - antigo e moderno

o b r a d o sociólogo P e te r B erger, The Capitalist Revolution - Fifty


Propositions about Prosperity, Equality a nd Liberty, d e 1986. O discí­
p u lo a m e ric a n o d e Mises, M urray R o th b a rd (Man, Economy and
State, 1970; Ethics o f Liberty, 1982), tem sido, d e longe, o mais in­
sistente d e fe n so r do liberism o c o m fu n d a m e n to s libertários.47

Liberalismo sociológico: A ron e D a lm m d o rf

A sociologia tem sido m uitas vezes tida n a c o n ta d e u m tanto hostil


ao liberalism o. N o s E stados U nidos, R o b e r t Nisbet su b lin h o u
e n e rg ic a m e n te as afinidades e n tre a sociologia clássica e o c o n se r­
vadorism o, n a m ed id a em q u e am bas as c o rre n te s, a disciplina e a
ideologia, reagiam contra os efeitos d e ru p tu r a d a industrialização
e d a secularização, dois f e n ô m e n o s e m g eral s u s te n ta d o s pelo
principal veio d o lib e ra lism o .18 Vimos, c o n tu d o , q u e a figura d o ­
m in a n te d e W eber, u m liberal conservador, p e rte n c e ao m esm o
te m p o ao Grunderzeit d a sociologia e à lin h a central d o liberalism o
alem ão.
Pelo m en o s u m dos p are s d e W eber, co m o pai f u n d a d o r d a
sociologia, G e o rg Sim m el (1858-1918), m e re c e se r co n ta d o e n tre
os liberais ( e m b o ra u m liberal an tes apolítico d o q u e político),
e n q u a n to n a escola sociológica francesa g e ra d a p o r D u rkheim te­
m os o caso in teressan te d e Bouglé, q u e j á discutim os. N a socio­
logia pós-clássica am erican a, T alcott Parsons foi u m liberal mode-j
r a d a m e n te c o n s e rv a d o r (e c o m o tal foi c ritica d o p e lo falecido
Alvin G o u ld n e r'19), e R o b e r t M e r to n ta m b é m é u m liberal, e n ­
q u a n to D aniel Bell tro co u seu e sq u e rd ism o juv enil p o r posições|
liberais: n a França d e nossos dias, R a y m o n d B o u d o n , e, p ro g re s­
sivam ente, Alain T o u ra in e p o d e m ser classificados co m o tal, e m ­
b o r a s o m e n te B o u d o n , creio, aceitaria o rótulo. Aqui, n o e n ta n ­
to, n u m exam e c u rto d o p e n s a m e n to liberal d e sd e a g uerra, limi­
tarei m in h a discussão a dois intelectuais mais militantes, R aym ond
Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 197

A r o n e R alf D a h re n d o r f. Talvez p o r se e n g a ja re m a f u n d o e m
política ( D a h re n d o rf literalm ente, e A r o n p o r m eio d e décadas de
jo rn a lis m o político), fo ra m levados a d e s d o b r a r sua o b r a socioló­
gica em alguns ensaios, p ro fe ssa n d o a b e rta m e n te o c re d o liberal,
a o qual am b o s fizeram co n trib u içõ e s m u ito im p o rtan tes.
É curiosa a posição d e R a y m o n d A ro n (1 90 5 -1 9 8 3 ) n a histó­
ria d o p e n s a m e n to liberal. E m bora sociólogo, A ron era a ltam e n te
crítico d o q u e cham ava dc. sociologismo, a negligência d os aspectos
específicos d a política em teorias q u e afirm am d e te rm in ism o s so­
ciais. Em contraste, A ro n salientou q u e a principal diferenciação
e n tre as sociedades m o d e rn a s reside na o rd e m política. T o d a s as
socied ades industriais, assinalou, são m u ito se m e lh a n te s 11 0 nível
cu ltural e n o tipo d e forças produtivas. Elas d ife re m é n o seu siste­
m a d e g o v e rn o .50 A ro n n u n c a e sq u ec e u a alternativa p o sta em re­
levo p o r seu h e ró i Tocqueville: q u e as so cied ad es d e m o crática s
p o d e m ser gov ernadas seja d e fo rm a livre seja d e fo rm a despótica.
E screvendo c o m o u m M o n te sq u ie u d a so cie d a d e industrial,
A r o n exibe so b e rb a s h ab ilid ad es c o m p ara tistas. D e p o is d e u m a
notável o b ra d e ju v e n tu d e so b re a filosofia d a histó ria (Introduction
à la philosophie critique de VHistoire, 1938), ele d e ix o u sua p rim e ira
m a rc a n o c e n á rio in te rn a c io n a l co m u m a crítica p e n e tr a n te d a
ideologia “progressiva”. Em 0 ópio dos intelectuais (1955), ele ata­
co u q u a tro mitos: o m ito d a esq u erd a, o m ito d a revolução, o mito
d o p ro le ta ria d o , e o m ito d a n e cessidade histórica. Mas logo tro ­
caria a Ideologiekritik p o r u m a análise a p ro fu n d a d a d a sociedade
in d u s tria l m o d e r n a . E sta foi o b je to d c sua fam osa trilogia da
S o rb o n n e , iniciada co m Eighteen Leclures on Industrial Society (proT
m a n d a d a s em 19 55-1956, publicadas e m 1962).
A ro n divisou o in dustrialism o co m o u m feixe d e q u a tro p r o ­
cessos básicos: u m a crescente divisão d o trabalho; a cu m u lação de
capital p a r a investim ento; contab ilid ad e e p la n e ja m e n to racionais;
e a sep araç ão d a e m p re s a d o c o n tro le fam iliar. Podem -se re c o ­
n h e c e r com facilidade as fontes teóricas: D u rk h e im em p rim e iro
198 U liberalismo - antigo e moderno

lugar, M arx e m seg u n d o , W e b e r e m terceiro, e S c h u m p e te r e m


quarto. A crescentem -se a p r o p rie d a d e p riv a d a d os m eios d e p r o ­
dução, o m otivo d o lucro, e u m a e c o n o m ia descentralizada, e se
o b té m o capitalism o. Mas, co m o b o m sociólogo, A r o n ta m b é m
re p a ro u e m algum as im p erfeições d a te o ria social clássica, co m o
q u a n d o cen su ro u Tocqueville p o r deixar q u e sua p re o cu p aç ão com
a igualdade o fizesse fec h a r os olhos à h ie ra rq u ia industrial. j

A sociologia política d e A r o n c o m e ç a n u m a e n c ru z ilh a d a ;


conceituai o n d e questões tocquevillianas a lim en tam u m a espécie
d e análise in sp ira d a p o r Elie I-Ialévy (1870-193 7) e M ax W eber. O
te s ta m e n to in te le c tu a l d e Halévy, The Era o f Tyranni.es (1938),
transm itiu a A r o n o tem a do d e sp o tism o m o d e r n o (fascista ou co­
m unista), e n q u a n to W eber, d o c ^ n h ec im en to d e cuja o b ra ele foi
p io n e iro n a França, ofereceu-lhe perspectivas frutíferas so b re o
p o d e r, o Estado, e g rupos d c slalus. Assim a rm a d o , A ro n desven­
d o u as o rn a m e n ta ç õ e s d a democ representativa, d a n d o m ui­
tas vezes início a avaliações q u e desbravavam c a m in h o d o j o g o do
p o d e r e n tre p artid o s e governos, p o r u m lado, e d e forças sociais
com o sindicatos e as inle.lligentsiàs, p o r o u tro . <
O principal objetivo das con ferências d e A r o n n a S o rb o n n e
n ão foi ta n to a sociologia d o industrialism o per se q u a n to u m a in­
vestigação das diferentes espécie;* d e o r d e m política no in terio r do
m u n d o industrial. O passo inicial d o tríptico d e A ro n so b re a so­
ciedade industrial foi a sua c o m p re e n s ã o d e que, c o n tra ria m e n te
à im ag em q u e faziam d e si m estnos, os bolchevistas, lo n g e d e re ­
p re s e n ta re m os trabalhado res, e ra m u m a nova classe governante.
Em o u tra s palavras, M osca e P a re to (a classe go v ern an te, a circula- I ;
ção das elites) desm entiam Marx. C o m o divisou R o b e rt C o lquhoun, j

seu m inu cioso e c o m p e te n te co m entarista, esse c o n fro n to P a r e t o / j

M arx e a te o ria d o crescim ento e c o n ô m ic o e la b o ra d a p o r C olin j


Clark c seu discípulo francês, J e a n Fourastié, foram os dois princi- j
pais e le m e n to s n a base teó rica d e A r o n p a ra as Eighteen Lectures e ■
o q u e se lh e seguiu.51
Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 199

A trilogia d e A ro n alcança r e a lm e n te sua conclusão lógica no


fim d o te rc e iro to m o , Democracy and Totalitarianism (1965; p r o ­
n u n c ia d a e m 1957-1958), o n d e ele a p re s e n ta u m a d ic o to m ia das
o rd e n s políticas industriais. P o r u m lado, os regim es con stitu cio ­
nais pluralistas tê m u m a constituição, c o m p e tiç ão p a rtid á ria e p lu ­
ralism o social re c o n h e c id o s. P o r o u tro , n as id eo cracias, h á u m
m o n o p ó lio d o p o d e r, revolução e m vez d e u m a co nstituição em
fu n c io n a m e n to , ab so lu tism o b u rocrático , e o p a rtid o do Estado.
Segue-se e n tã o u m a tipologia d a liberdade, com a posição d e cada
principal o r d e m política industrial p a ra c om os tipos d e liberdade.
Assim, os reg im es constitucionais pluralistas g a ra n te m a liber­
d a d e e n q u a n to segurança, a lib e rd a d e d e opinião, a lib e rd a d e p o ­
lítica, m as preocupam -se m e n o s c om a liberdade n o trabalho e com
a m o b ilid a d e social. P o r contraste, os regim es d e p a rtid o estatal
violam c om m u ita fre q ü ên c ia as p rim e ira s três espécies d c liberda­
de. Em re su m o , as políticas livres são a p e n a s m o d e r a d a m e n te
igualitárias, m as as ideocracias são r e a lm e n te h o rro ro sas.
O u tr a d im e n sã o d a o b ra a ro n ia n a — ta m b é m c o n h e c id a p o r
sua e x tra o rd in á ria c o n trib u iç ão à política intern ac io n al — consiste
p re c is a m e n te n u m a reflexão c u id a d o sa s o b re a lib e rd a d e e m si
m esm a. D ois livros ressaltam : Un assai sur la liberte (1965) e Estudos
políticos (1972). N a se g u n d a das coletâneas, A ro n , e n tre o u tra s coi­
sas, critica H ayek e B erlin em n o m e d o realism o sociológico. A m ­
bos os volum es c o n tê m u m a d efesa e ilustração d o q u e A ro n cha­
m a d e “a síntese liberal d e m o c rá tic a ” — u tn am álg am a d e direitos
civis e políticos tradicionais com m o d e rn o s direitos sociais, q u e ele
re p re s e n ta c o m o direitos “c ré d ito s” (droits-créances). O q u e A ro n
q u e r p ro v a r é qu e, em nosso te m p o , o g o v e rn o d a lei n ã o p o d e
possivelm ente esgotar as funções d o Estado; a nom ocracia d e H ayek
tem d e a b rir esp aço p a ra as inevitáveis tarefas sociais e d e forneci­
m e n to d e in fra -e stru tu ra ligadas ao Estado m o d e rn o .
E m sua velhice, a b a lad o p e lo re n a sc im e n to d o irracionalism o
ideológico e m 1968, A ro n reg ressou a u m a sua antiga preocupação:
’()() 0 liberalismo - antigo e moderno

o fe n ô m e n o d e “ideo cracia”, o im pulso totalitário d e regim es radi­


cais. T e n d e u a rejeitar a visão esq u e rd ista da d ita d u r a Ieninista
co m o u m “desvio” re su ltan te d o atraso social e político d a Rússia.
Km lugar disso, A ro n c o r re ta m e n te re tra ç o u as raízes d o au to rita ­
rism o soviético até a p r ó p r ia d esconfiança d e M arx d o d in h e iro e
das m ercadorias; u m a d esco n fian ça q u e os seus seguid ores do g ­
m áticos p u se ra m em prática p a r a d e stru ir a a u to n o m ia institucio­
nal, e, p o r ta n to , a resiliência d a ec onom ia. Um d e seus últim o s li- I
vros, Plaidoyer pour une Europe decadente (1977), é u m a polifonia
conceituai sutil e n tre o declínio d a détente Leste-O este, a d e p re s­
são d a d é c a d a d e 1970, a n a tu re z a d o p e n s a m e n to d e Marx, e o
p apel d o m arxism o co m o ideologia estatal.
A ro n foi u m em in e n te intelectual doublé d e u m m agistral jor­
nalista político. D eixou u m a g ra n d e o b ra e rra n te , sem inal em pelo
m e n o s três áreas: política e x te rn a , filosofia d a história, e sociolo­
gia política. Seu liberalismo lúcido, m uitas vezes ciínslico, se m p re
de m asiad o cônscio das contra d iç õ e s d a m o d e rn id a d e , m arca u m a
re to m a d a meritória d o m e lh o r e le m e n to n a trad ição d o liberalismo
francês: sua a p re e n sã o d a história, sua h abilid ade d e in te rp re ta r e
avaliar am plas e stru tu ras d e m u d a n ç a. P o r m u ito te m p o vitim ado
pelo fanatism o ideológico em seu p ró p rio país, estigm atizado p o r
S artre e pelos com unistas c o m o u m atlanticista servil, tornou-se,
na altura d o íim de sua vida, o s;tnto p a d ro e iro d o notável renasci­
m e n to liberal n a França.52
Ralf D a h r e n d o r f disse certa vez q u e R aym ond A ron “habita
seu p an teao ". <) p a n le a o e, dc lato, respeitável: la m b e m inclui
Ilu m b o ld t, Tocqueville, W eber, Keynes, Beveridge e Sclm m peter.
V erem os q u e inspiração c o m u m D a h re n d o r f extraiu d e tal plêiade.
Nascido em 1929, o jo v em D a h r e n d o r f g a n h o u u m a p e rm a n ê n c ia
num c a m p o <le c o n c e n tra ç ã o p o r ser d e m a sia d o travesso com o
colegial anlinazisla. C o m o e stu d a n te d a Escola d e E cono m ia de
L ondres, assistiu às aulas d e P o p p e r e d o sociólogo T. FI. Marshall,
cujo livro Cilizenship and Social Class (1950) contava a história do
Dos novos libemlismos nos nrotibcml.ismos 201

pro g re sso m o d e r n o dos direitos: direito s civis co n q u istad o s n o sé­


culo XVIII, direitos políticos ga n h o s n o século XIX, e os direitos
sociais estabelecidos e m nosso século. D ahren dorf, sem p re u m b o m
liberal-social, foi ativo e m política, n a A le m a n h a e n a C o m u n id a ­
d e E c o n ô m ica E uropéia, d e 1965 a 1974, q u a n d o se to r n o u u m
b rilh a n te d ir e to r d a Escola d e E c o n o m ia d e L o n d re s p o r to d a u m a
década. E a g o ra r e ito r d e St. A n th o n y ’s College e m O x fo rd , e re ­
c e n te m e n te foi feito cavalheiro.
O p rim e iro livro d e D a h r e n d o r f A? classes sociais e seus confli­
tos na sociedade industrial (1955), te n c io n o u p r o p o r c io n a r o capítu­
lo n ã o e sc rito e m O capital d e M arx: o c a p ítu lo s o b r e classe.
D a h r e n d o r f aceitou a le g re m e n te a ênfase m arxista n a lu ta d e clas­
ses, m as m o s tro u q u e as classes antagô nicas n ã o prec isa m ser g ru ­
pos econôm icos. A o co n trá rio , o conflito e co n ô m ico é ap enas u m a
espécie d e u m g ênero: a lu ta pelo p o d e r. A quela altura, graças à
influencia dc: Parsons e do otilros, lodo o discurso da principal
c o rre n te d a teoria sociológica consistia n a coesão social e n a com-
p a rtic ip a ç ã o e m valores. N ão , disse D a h r e n d o rf : o co n flito é
e n d êm ico , p o r causa d e diferenças n o acesso ao p o d e r. A qualidade
d e tais diferenças m uda; o fato d a assim etria d o p o d e r n ã o m uda.
E m g ra n d e m e d id a Parsons v inha e n c o b rin d o o q u e W e b e r sabia:
o q u a n to o p o d e r m o ld a a sociedade.
Mas e n q u a n to W e b e r tivera alguns êxtases tolstoianos q u e o
levaram a d e m o n iz a r o p o d e r, D a h re n d o rf apreciava, se n ão o p o ­
dei', pelo m enos o condito (que gira <'i\i to rn o do poder). N um texto
de 1902 so b re “Incerteza, ciência e d e m o c ra c ia ”,’'1'' ele desenvolve
o a rg u m e n to a lta m e n te “p o p p e r i a n o ” d e q u e a ú n ic a re sp o sta
a d e q u a d a à incerteza é a necessidade “de m a n te r u m a p lu ralid ad e
de padrões d e decisão, e u m a o p o rtu n id a d e para que eles interajam
/■ eu trem cm com/iiii(iio" (grilos meus), ( ionl ndo, o eoiillilo, p aia ser
frutífero, r e q u e r u m m ín im o d e h o m o g e n e id a d e social. Na Ale­
m a n h a d c W c im a r as elites n ã o foram capazes d e articu lar essa
saudável espécie d e com petição. T u d o o q u e p u d e ra m re u n ir foi
202 O liberalismo - antigo e moderno

u m cartel d e angústias, q u e solapava c o m p le ta m e n te o jo g o d e m o ­


crático. Tal foi a tese d o livro d e D a h r e n d o r f Society and Democracy
in Germany (1965).54
S egu indo as ondas de p ro te sto dos últim os anos da <lé< ada de
1 *.)(’>() e a d e pressão eco nôm ica da O K Cl) depo is tia prim eira crise
do p e tró le o em 1973, D a h r e n d o r f ingressou n u m a tentativa p e r­
sistente d e analisar a nova con d iç ão das m o d e rn a s dem o cracias in­
dustriais. De algum a form a, ele se vê r e to m a n d o o exam e m in u ­
cioso d e A ron do industrialism o após-guerra, e, d e lato, poucos
o u tro s cientistas sociais m antiveram -se in teirad o s d e u m a c o m p re ­
ensão mais p r o f u n d a d e ten d ên c ia s recentes. T rês livros e m parti­
cular e n c e rra m as opiniões d o últim o D a h re n d o rf: A nova liberda­
de (1975), Life Chances (1979) e The M odem Social Conflict (1988).
Life Chances, u m a coletânea d e ensaios, incluí u m so b re a abdica­
ção d a social-democracia. D a h r e n d o r f atribui u m p apel m e n o r ao
conflito e la m e n ta a p e r d a d e “vínculos”, d e raízes q u e d ã o senti­
d o a “o p ç õ e s” individuais. H á u m a d esco nfiança q u a n to ao cresci­
m e n to e à m o d ern ização rápid a. C o m o foi visto p o r J o h n Hall, o
tom n ã o está distante d o ethos “pós-industrial” do ú ltim o Daniel Bell,
e m b o ra D a h r e n d o r f seja m ais enfático n o q u e diz resp e ito ao p a­
pel d a iniciativa n o “m e lh o ra m e n to d a s o c ie d a d e ” q u e ele e n c a ra '
c o m o u m a c u ra p a ra rec en tes m ales capitalistas.
The M odem Social Conflict tan to glosa co m o refina o diagnós­
tico d o p re s e n te . P a ra D a h r e n d o r f, o c o n flito social m o d e r n o
o c o rre e n tre os d efen so res d e mais escolha e aqueles q u e d e m a n ­
d a m m ais direitos. A o p o siç ã o chave está e n tr e “p ro v isõ e s” e
“in titu la m e n to s”. Provisões são “o s u p rim e n to d e alternativas em
dadas áreas d e atividade”. São “coisas”, passíveis d e crescer o u d e
dim inuir; é u m conceito econôm iço. Intitulam entos, p o r o u tro lado,
são b ilhetes d e e n tra d a , direito s d e acesso a q u a is q u e r b e n s o u
profissões. D a h r e n d o r f to m a o c dnceito d e e m p ré stim o a A m artya
Sen, o p e rito d e O x fo rd e m po W e za e fo m e, q u e d e m o n s tr o u que
a m a io r p a rte das fo m es n ã o o c o rre u p o r falta d e a lim en to m as
Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 203

p o r falta d e acesso a o alim en to. D ife re n te m e n te das provisões, q u e


são relativas a crescim ento, os in titu la m e n to s traçam linhas e b a r­
reiras. C o m o bilhetes d e e n tra d a , o u se os tem , o u não. A R evolu­
ção Industrial fretou u m a revolução d e provisões, e n q u a n to a Re­
volução fra n c e sa (oi nina revolução d e intitiilam enlos. A década
d e 1970 loi u m p e río d o d e política d e in titu la m en to , e n q u a n to a
d e 1980 te s te m u n h o u u m desvio p a r a provisões, p a r a a escolha de
p referên cia ao acesso. As reform as keynesianas concentraram -se n a
m a n u te n ç ã o d e intilulam cntos — basicam ente, o direito fo m e n ta d o
p e lo E stad o d e tra b a lh a r; n a d é c a d a d e 1980, p o r c o n tra ste ,
S c h u m p e te r prevaleceu, pois esses fo ra m anos d o e m p re sá rio c o n ­
quistador, d a fé anim al “s c h u m p e te ria n a ” n o crédito e n a inovação.
A rm a d o c o m esses dois conceitos básicos, D a h r e n d o r f re p re ­
sen ta a so c ied a d e c o n te m p o r â n e a ocidental. (N ão diz m u ito sobre
o Ja p ã o .) Preocupa-se a c e rta d a m e n te c o m o “capitalism o d e cassi­
n o ” (n a in teligente frase d e S usan S trange) e c o m a teim o sa p r e ­
se n ç a d e u m a “subclasse” m in o ritá ria , m ais visível n o s E stad o s
U n id o s e n a G rã-B retanha d o q u e n a E u ro p a, a in d a assim d o lo ­
r o s a m e n te n ã o -in te g ra d a e m to d a p a rte . D a h r e n d o r f vê m u ita s
pessoas e n tre g u e s a “dois vícios”: g a n h a r d in h e iro fácil e drogas.
A d v e rte c o n tra os fu n d a m e n ta lism o s nacionalistas e o “seu a taq u e
às forças civilizadoras d e c id a d a n ia e m nom e de d ire ito s
m in o ritário s ou d e a u to n o m ia cultural, religiosa ou é tn ic a ”. Refle­
te se n sa ta m e n te so b re os conflitos an ô m ico s d e nossa sociedade,
im p re g n a d a d e violência e c o rru p çã o : dt: nações o n d e cidades in­
tern as têm áreas “p ro ib id a s” e d e c u ltu ra social q u e a g o ra tam b é m
exibe áreas sim bolicam ente “p ro ib id a s ”, áreas "ta b u s’', co m o a ab­
solvição dos c u lpados e a d e sc arad a infração à lei q u e floresce e n ­
tre a ju v e n tu d e .
D a h r e n d o r f n ã o faz m o ra l a resp e ito d e tu d o isso. A ntes, es­
creve c o m o u m p re o c u p a d o Aufklãrer das últim as luzes d o século
XX, ansioso p o r c o m p r e e n d e r e m elh o ra r. S eu ensaio so b re a d é­
cada d e 1980 re stau ro u co m p letam en te seu senso d e conflito social
204 O liberalismo - antigo e tnodemo

sem a b a n d o n a r o alarm a cultural d e seus escritos dos anos setenta.


i
S u b lin h an d o a in d a u m a vez q u e “o conflito é lib e rd a d e (e) tam-j
bé m u m a condição d e p ro g resso ”, ele censura o corporativism o da;
dé c a d a d e 1970 p o r te r “tra n s f o rm a d o in titu la m e n to s em inte-j
resses seccionais, p aralisando assim o p ro cesso d e provisões em
e x p a n sã o ”.55
A cim a d e tudo, D a h re n d o r f segura c om m ão firm e tendências
estruturais. Ele é m u ito destro , p o r exem plo, e m p e n s a r so b re o
de sem p re g o . M ostra q u e o d e se m p re g o é e m g ra n d e p a rte efeito
d e p r o f u n d a m u d a n ç a tec n o -e co n ô m ica . A p e n a s n a A lem a n h a ,
e n q u a n to o PIB multiplicou-se q ra tro vezes d e 1950 a 1986, a som a
de trabalho per capita, depois de crescer até os últim os ano s d a dé-
cada d e 1950, decaiu: assim, u m a vasta n ova riqueza foi p ro d u z id a
co m m u ito m en o s esforço hu m : mo. N a ép oca d e Keynes, a rra n jar
trabalho parecia a m e lh o r m a n e ira d e re m e d ia r ta n to a depressão
e c o n ô m ica q u a n to a m iséria social. E m nossos dias, n o e n ta n to ,
com o d e clara d o em The M odem Social Conjlicl, “o trab alh o já não é
a solução óbvia p a ra os problerr as sociais, m as u m a p a rte d o pró-
p rio p r o b le m a ”.
O m u n d o q u e D a h r e n d o rf íão b e m descreve já n ã o é, exceto
resid u alm en te, u m a a re n a de h ta d e classes n o sen tid o tradicio­
nal. As tensões e n tre “a classe m a jo ritá ria ” — os d o m in a n te s assala­
riados o p e rá rio s e executivos — e a subclasse n ã o g e ra m conflito
e m a lin h a m e n to . A situação c o n trá ria p assou a se r a d e “u m do m i­
n a n te â n im o social-dem ocrático re p re s e n ta d o p o r m uitos d iferen ­
tes p a rtid o s políticos, e tentativas episódicas d e fugir d o g ra n d e
consenso, seja p o r inovação o u a rte d o em p resariad o , seja p o r u m a
d em o cracia fu n d a m e n ta l e estilos d e vida altern ativos.”51’ Em re­
sum o, há o a rraigado bem-fazer social da classe m ajoritária, seus
desafiantes Ihatchei istas e a e o n l rac.ull.ura: o p a rtid o yuppie e o
p a rtid o neo-hippie.
D a h r e n d o r f não está feliz co m essas opções. Ele so n h a com
u m a “a lte rn a tiv a radical lib e ra l”, d e c r e ta n d o m u ito necessárias
Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 205

“sociedades civis n o se n tid o clássico do te r m o ” co m o passos p a ra


u m a so cied a d e civil m undial, capaz d e lidar co m o abism o q u e se­
p a ra o N o rte d o Sul. Tais c o m o os vê, os anos n o v e n ta am eaçavam
ser u m p e río d o conflituoso, u m a p r o lo n g a d a b ata lh a cam pal em
to rn o d e novas reivindicações d e cidadania, c o n tra sta n d o co m a
a p a re n te calm a social dos a n o s o itenta. N ã o se in c o m o d e m , diz sir
R alf o A gonista — m e lh o r aceitar e c o n te r o conflito d o q u e negá-
lo o u ignorá-lo.
Esse liberalism o radical terá d e ser algo b asta n te am bicioso em
escopo e escala, algum a coisa d efin itiv am en te além d a p o p p e r ia n a
“ação d e r e m e d ia r s o c ia lm e n te a q u i e ali”. P e n s a n d o e m seu
p a n te ã o , D a h r e n d o r f su g ere q u e a inovação política p o d e advir,
c o m o a co n te c e u com Keynes e Beveridge, c o m o receitas radicais
específicas p r o p o r c io n a d a s no in te r io r d e u m a e s tr u tu r a geral
co n serv a d o ra o u não-revolucionária. O essencial é m u d a r o siste­
ma, n ã o destruí-lo, e assim p ro v o c a r co nseqüências regressivas. De
q u a lq u e r form a, “o liberal q u e deixa d e b u sc a r novas o p o rtu n id a ­
des d eixa d e ser u m liberal”.57

Os neocontratualislas: Rawls, Nozick e Bobbio

As principais linguagens d o liberalism o de sd e a g u e r ra tê m sido a


crítica d o h istoricism o (P opp er), o p r o te sto antitotalitário (Orwell
e C a m u s), a ética d o p lu ra lism o (B erlin), o n e o -e v o lu c io n ism o
(Hayek), e a sociologia histórica (A ron). P o r volta d e 1970, estan­
d o o a r a in d a im p re g n a d o d o volu ntarism o ro m â n tic o das revol­
tas estu d a n tis, havia espaço p a ra u m a nova espécie d e discurso
neoliberal: a linguagem dos direitos e d o c o n tra io social. Sen tom,
no gigantesco tratado de J o h n Rawls Uma teoria da justiça (1971), foi
a colhido co m o o novo evangelho dos liberais — esp ecialm en te no
s e n tid o a m e r ic a n o d a palavra. E lo go o tra n q ü ilo R o usseau d e
H a rv a rd fez sensação q u a n d o sua fó rm u la liberal foi r u id o sa m e n te
206 0 liberalismo - antigo e modemò

c ontestada, em n o m e d o individualism o libertário, pela teo ria d e


direitos d e R o b e rt Nozick. E n tre m e n te s, n a E u ro p a, o chefe da
Escola d e T urim , N o rb e rto B obbio, alcançou u m público in te rn a ­
cional com seu longo intercurso com os clássicos d o contratualism o.
N ascido e m B altim ore e m 1921, J o h n Rawls tin h a 50 a n o s de
idade q u a n d o seu g ra n d e livro tornou-se <» a ssu n to d e Iodos nas
universidades. T e n d o e stu d a d o em Princelon, Rawls já estivera em
H a rv a rd p o r u m a década. Seu g ra n d e r e to rn o à ética no rm ativ a
ro m p e u o u sa d a m e n te c om as tím idas m inúcias d a a b o rd a g e m lin­
güística d a filosofia m oral. E Uma teoria da justiça n ã o foi o b ra
m en o s atrev ida e m objetivo: n a d a m e n o s q u e u m a alternativa ple­
n a m e n te desenvolvida p ara o utilitarismo. A natureza coniratualista
d o e m p r e e n d im e n to d c Rawls m ostrou-se n u m p la n o processual,
pois lót tias lécnicíiK q u e e m p r e g o u p u r a d e d u z i r p r in c í p io s deJuN-
tiça q u e Rawls a d o to u u m a posição contratualista. Assim m esm o,
e ra u m c o n tra to social m u ito diverso d o c o n tra to social d a prim ei­
ra tradição m o d e rn a , j á q u e seu p ro p ó sito n ã o consistia n o estabe­
lecim ento dc au to rid a d e e obrigação legítimas, co m o em H o bbes,
Locke ou Rousseau, m as em firm a r regras d e justiça.
A principal afirm ação d e Rawls é d e q u e p o d e m o s alcançar
princípios sólidos de justiça social p e n s a n d o e m q u e regras a d o ta ­
ríamos, c o m o seres racionais, n u m a hipotética “posição o riginal”.
Em tal situação imaginária, as pessoas não c o n h e ce riam seu lugar
na sociedade, n em seus p ró p rio s talentos e habilidades: antes pelo
c o n trá rio , teriam d e agir c o b ertas p o r um “véu d e ig n o râ n c ia ”.
Assim tem dc ser pa ra g a ra n tir “justiça co m o e q ü id a d e ”. Pois em
tal condição, com o eu não saberia se sou rico ou p o b re , m a cho ou
fêmea, b ra n c o ou prelo, inteligente ou b u rro , eu deveria m e sentir
forçado a agir c om p ru d ê n c ia e, p o rta n to , a e scolher princípios qu e
não favoreçam q u a lq u e r g ru p o à custa de o u tro s. As pessoas na
posição original não são altruístas — tu d o o q u e sabem , devido ao
véu d e ign o râ n c ia, é q u e seus in tere sses p o d e m chocar-se n u m
m u n d o e m q u e a escassez te n d e a prevalecer. A lém disso, sabem
Dos novos liberalisinos aos neoliberalismos 207

ta m b é m q u e alguns “b e n s p rim á rio s ” — uns p o u c o s direitos e li­


berdades, p o d ere s e oportu n id ad es, u m m ín im o d e re n d a e respeito
p ró p rio — são m eios necessários p a ra u m a vida d e c e n te e desejável.
D a d a essa situação, é provável q u e o p a c tu a n te esco lha dois
prin cípios d e justiça: (1) a c ad a u m deve c a b e r u m d ireito igual ao
m á x im o d e lib e r d a d e c om patível c o m m e d id a se m e lh a n te p a ra
outros; e (2) só dever» ser perm itidas desigualdades sociais até o n d e
beneficiem os m e m b r o s m e n o s favorecidos d a so cied a d e — o q u e
Rawls ape lid a “o p rin cíp io d a d ife re n ç a ”, e m c o n tra ste co m a série
d e identidad e-de-lib erdad e q u e o c o rre n o p rim e iro princípio .
S e g u n d o Rawls, indivíduos n u m lim bo social d e v e ria m p re fe ­
rir lais p rincípios p o rq u e seguiriam um c rité rio “m a x im ín im o ”:
e s ta n d o in te ir a m e n te in c e rto s q u a n to às c o n s e q ü ê n c ia s d e su a
opçfw), ttomuilmeule nunimiwuiU* o petigo tio sorem prcjiuUcmlos.
P o r isso considerarão u m a hip ótese d e risco máximo, garan tin d o que
cad a d esig u ald ad e beneficie os menos favorecidos e n tre os pactuan-
tes. O “m a x im ín im o ” é, p o rta n to , u m a apólice d e seguro.
Rawls trilha u m te r re n o fam iliar tan to n o p rim e iro prin cípio
(em q u e a lib e rd a d e é d efin id a c o m o a u to n o m ia e n q u a n to in d e ­
p e n d ê n c ia m ais direitos políticos) q u a n to ao a trib u ir a o p rim e iro
p rin cíp io p rio rid a d e so bre o seg u n d o , a d esp e ito d e to d o o espíri­
to igualitário d o últim o. N a se g u n d a p a rte d e Uma teoria da justiça,
q u e trata d e instituições, é m u ito observável esse típico equilíbrio
liberal a m e ric a n o , q u a n d o Rawls c o n te m p la u m a d e m o c ra c ia
constitucional e u m a eco n o m ia livre — e c o n tu d o a b re espaço p a ra
u m re g im e liberai socialista.
T u d o isso n ã o a g ra d o u a e s q u e rd a . Rawls foi a c u sa d o d e
igualitarism o superficial, m uito abaixo tios verdadeiros níveis de
justiça distributiva.58 O u tro s radicais divisaram n o co n tra to d e Rawls
u m reflex o d o e sp írito d o c o n s u m is m o .59 N a ép o c a , R o n a ld
D w orkin, o filósofo ju ríd ic o , foi q u a se o ú n ic o n o c a m p o “p r o ­
gressista” a sa u d a r a “posição orig in a l” d e Rawls c o m o o fu n d a ­
m e n to d o d ireito p a ra “resp eito e c u id ad o iguais”.60
20S O liberalismo - antigo e. moderno

T a m b é m não faltam <i ílic as d o lado liberal. Daniel Kell, o so­


ciólogo d e 1 Iarvard, esc reveu u m co m en tai io adm irai ivo, mas la­
m e n to u q u e Rawls parecia p o stu la r u m a e c o n o m ia estacionária.1’1
Falando d e m o d o geral, a fuga ao risco, n o h ip o té tic o c o n tra to so­
cial d e Rawls; parece d e m asiado d istan te de u m a so ciedade m o ­
derna, individualística, p a ra p r o p o r c io n a r u m a n o r m a relevante.
C om o é natural, dificilmente seria ju s to censurar Rawls p o r sua falta
d e realism o em seu confessado Gedankenexperiment. Mas os soció­
logos não se p o d e m im p e d ir d e q u estio n a r o grau d e aplicabilidade
de tais princípios a sociedades tão com plexas q u a n to as industriais.
E m sua o b r a mais tardia, Rawls historicizou co n sid era v e lm e n te a
sua te o ria , a tr ib u in d o seus “b e n s p r im á r io s ” a a g e n te s m o ra is
kantianos, capazes d e agir d e a c o rd o com a ju stiç a social sem dei­
xar d e perseguir seus próprios ideais do b em .1’2 Rawls m anteve a sua
posição antiutilitarista p o rq u e os re b e n to s d e B e n th a m sé) adm i­
tiam u m b em , a felicidade.
R o b e rt Nozick, o mais jo v e m dos principais teóricos liberais
a q u i discutid os, n a sc e u n o B ro o k ly n em 1938. E stu d o u em
C o lu m b ia e P rin c e to n e fo i d e sig n a d o p a r a H a rv a r d e m 1965.
C o m o Rawls, é a u to r d e u m só texto, Anarquia, Estado e utopia
(1974). N ozick elogia Rawls p o r te r c u m p rid o “u m g ra n d e p r o ­
gresso co m relação a o u tilita ris m o ”. Mas, a p a r tir desse p o n to ,
am bos divergem d e m aneira cruc ial. A se g u n d a p a rte d e Uma teo­
ria da justiça esboçou u m a consideração d e talentos individuais e
seus frutos co m o ativos sociais e c o n te m p lo u a le g itim id a d e da
distribuição d a riqueza e m largo alcance. C o m o libertário radical,
Nozick discordou. De a cordo com Ie, cada pessoa está “in titulada”
a conservar aquilo q u e tem — a mè:;nos q u e te n h a sido injuslam en-
te a d q u irid o — e o q u e q u e r q u e a isso
; se possa a c re sc en ta r n o fu-
turo. N ozick com eça com u m Kstacd o da natureza, m as à m o d a de
Locke mais d o q u e d e H o bbes. Ni'i se g u n d a p a rte d o livro, q u e é,
co m o o tra ta d o de Rawls, u m a a p t a institucional, N ozick d efe n ­
d eu u m a idéia “m in arq u ista ” d o Estado. T e m d e haver u m Estado,
Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 209

mas a p e n a s p ro te c io n ista e, em p a rticu la r, sem d ire ito a taxai.


(Nozick e q u ip a ra o im posto d e r e n d a ao trabalho (orçado.)
Nozick está convicto, c o m o diz logo d e saída, d e q u e “a ques­
tão f u n d a m e n ta l d a filosofia política, q u e stã o esta q u e p re c e d e o u ­
tras questões so b re c o m o o Estado deve ser org anizado, é sab er se
impõe-se q u e haja u m E sta d o ”. O objetivo d e Anarquia, Estado e
utopia consiste e m desenvolver u m a defesa do E stado m ín im o em
d u as fre n te s. C o n tr a os a n a rq u ista s, q u e n ã o q u e r e m s a b e r d e
q u a lq u er Estado, Nozick em penha-se em d e m o n stra r que pode haver
u m E stado legítim o com patível c om a liberdade. C o n tra os antiin-
dividualistas, p o r o u tro lado, ele q u e r d e m o n s tr a r q u e o b o m Es­
tad o n ão precisa c erce ar os direitos individuais naturais.
Nozick é u m m e stre d o raciocínio conjectural. S u p o n h a m o s,
diz ele, q u e n u m a d a d a sociedade a m e ta d e d a p o p u laç ão tem dois
olhos, e n q u a n to a o u tra n ão tem n e n h u m . N ão será extravagante
p e n s a r (p re su m in d o q u e os tra n sp la n te s d e olhos n ã o co n stitu e m
p ro b le m a ) q u e cada pessoa p e r te n c e n te à p rim e ira m e ta d e deve­
ria p e r d e r u m o lho e m favor d e cada p e sso a d o g ru p o sem olhos?
O ra, co m o assiste a to d o s u m direito à in te g rid a d e d o p ró p rio cor­
po, o m e sm o deve o c o rr e r c o m o q u e q u e r q u e seja feito o u p r o ­
d u zido p o r ele: q u e c a d a pesso a conserve o q u e te m e q u a lq u e r
p r o p rie d a d e q u e disso lhe possa leg alm en te advir. N ozick opõe-se
a “teorias p a d ro n iz a d a s” da justiça, q u e estipulam a d istribuição de
riqueza ou receita c o n fo rm e as características das pessoas (com o
os “m en o s favorecidos” d e Rawls). S u p o n h a m o s, escreve Nozick,
q u e to d o s n u m a c o m u n id a d e igualitária d e c id a m d a r ao fam oso
d esp ortista Wilt C h am b erlain u m q u a rto d e dólar p a ra fazê-lo jo g a r
basquete. Isso p ro p o rc io n a ria a C h am b erla in u m a e n o rm e fo rtu n a
— m as c o m o m a n te r o p a d rã o sem fru stra r a liberdade individual?
A legitim idade política, na v e rd a d e a legitim idade d e todos os
a rra n jo s sociais, fundam enla-sc' p a ra Nozick n u m a exigência
absolutista d e c o n se n tim e n to voluntário. C o m o ele escreve, p a ra ­
fra se a n d o Marx, “d e cada u m c o m o escolhe, p a r a cada u m co m o é
210 0 liberalismo - antigo e moderno

escolhido”. O u , d e fo rm a um p o u c o mais elab o rad a, “d e cad a u m


seg u n d o escolhe fazer, p a ra c a d a u m se g u n d o o q u e faz p a ra si
m esm o (talvez co m a aju d a c o n tra ta d a d e o u tro s) e o q u e o u tro s
p o r ele fazem e resolvem lhe d a r d o q u e lhes foi p reviam en te dado...
e a in d a n ã o tra n s fe rira m ” . 63 A re g ra p rin c ip a l é s e m p re o c o n se n ­
tim e n to individual livre. E óbvio q!ue n ã o se tem d ire ito a u m a bela
m u lh e r o u a u m b o n ito m a rid o sc p o rq u e se necessita d e tal; por-
tan to , p o r q u e cargas-d’água, p e r ju n ta N ozick, sente-se u m a pes­
soa in titu lad a a u m a receita d e subsistência, só p o r q u e d e la neces­
sita, se, p a ra obtê-la, a lib e rd a d e d o s o u tro s tem d e ser cerceada?
Isto b a sta p a ra os velhos a rg u m e n to s a re sp e ito d e n ecessid ad e e
m o re rim o n to . r tam b ém q u a n to à tradicional ênfase social-liberal
nas con d içõ es p a ra a lib e rd a d e c o m o au to d e se n v o lv im e n to . N ão
esp a n ta q u e essa espécie d e rá p id o castigo te n h a irrita d o intelec­
tuais liberais nos E stados U n id o s.1M P ara Nozick, a u to p ia só p o ­
d e ria ser (co m o ele explica n a p a rte 3) u m a co n d iç ã o lib e rtá ria de
negócios, com cada indivíduo escolhendo sua forma de vida.
N o rb e rto B ob bio (nascido e m 1909) é u m ilu stre te ó ric o polí­
tico. A m p la m e n te trad u zid o n a A lem an h a, E sp a n h a e A m érica La­
tina, seus livros co m eçam ag o ra a r e c e b e r a a te n ç ã o q u e m e re c e m
n a F ran ça e n o m u n d o anglo-saxão. P re g a n d o u m a ex p an são da
d e m o c ra c ia p a ra várias áreas d a vida social, B o b b io a firm a q u e a
“p assagem d a d em o cracia política p a ra a social-dem ocracia” deve­
ria ser c o n sid e ra d a algo d e m e lh o r e d e m ais viável d o q u e p ro ­
postas radicais d e su b stituir a d e m o c ra c ia rep re se n ta tiv a pela d e­
m ocracia direta. Em co n seq üên cia, escreve, “o atual p ro b le m a do
d e s e n v o lv im e n to d e m o c rá tic o j á n ã o se p o d e lim ita r a p e n a s à
q u e stã o d e quem vota, m as a n te s d e onde se v o ta ” . 65 O processo
de m o c rá tic o d e to m a d a d e decisões fo ra da po lítica e dos parla­
m e n to s é e n c a ra d o com u m b o m c o m p le m e n to p a ra as d e m o c ra ­
cias liberais d e nossos dias.
B ob b io ad verte c o n tra tra n s fo rm a r em fetich e a d em o cracia
direta. Pois n em os referend o s, n e m as assem bléias p o p u lares, nem
Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 211

os m a n d a to s im perativos d e d escen d ên cia ro u sse a u n ia n a se d a ria m


b e m e m n o sso a m b ie n te m o d e r n o . O s r e f e r e n d o s n ã o te ria m
q u a lq u e r p o ss ib ilid a d e d e e n f r e n ta r to d a a c a rg a d e leg islação
c o m p lex a d e u m a so ciedad e tec n o b u ro c rá tic a ; as assem bléias p o ­
p u la re s são ex clu íd as te n d o e m vista a escala d e m o g rá fic a d a
m a io ria d o s países m o d e rn o s . O s m a n d a to s revogáveis p o d e ria m
se r vantajosos p a r a o a u to rita rism o , e os m a n d a to s im p erativ o s j á
existem n a fo rm a d e disciplina p a rtid á ria p a rla m e n ta r — e m d e tri­
m e n to d a d e m o c ra c ia . P o rta n to , B o b b io c o n c o rd a c o m o velho
a ta q u e d e K autsky c o n tra o “d e m o c ra tism o d o u tr in á r io ”: n a socie­
d a d e m o d e rn a , o ideal n o b re m as im praticável d o g o v ern o d o povo
pelo povo revela-se u m a “u to p ia re a c io n á ria ”.
Em O fu tu ro da democracia (1984), lJobbio relacio n a três o b s­
táculos à democracia: o incremento de problem as políticos que
re q u e re m p erícia técnica p a ra sua solução; a difusão d a b u r o c r a ­
cia, instigada p o r exigências p o p u lares <0 1 1 1 0 as expressas pelo volo;
e a p r ó p r ia p re ssã o im p o sta p o r tais reivindicações se m p re cres­
cen tes so b re a cap a c id a d e q u e assistiria aos g o v ern o s d e go vern ar.
Em re su m o : tecnificação d o g o v e rn o , h ip e r tr o f ia b u ro c rá tic a , e
q u e d a d a p ro d u ç ã o g o v ern am en tal.
Esses o bstáculos, p o r su a vez, im p e d e m a d e m o c ra c ia m o d e r­
n a d e lib e ra r os b e n s q u e o rig in a lm e n te p re te n d e : a u to g o v e rn o
t r a n s p a r e n te f u n d a d o n a c id a d a n ia a u tô n o m a . D isso a d v ê m as
“pro m essas n ã o c u m p rid a s” d a dem ocracia. P ara com eçar, h oje em
dia os a to re s p o litic a m e n te im p o rta n te s j á n ã o são indivíduos, m as
g ru p o s (com o p a rtid o s c sindicatos). E n q u a n to a p articip ação in­
dividual n a escolha d e re p re se n ta n te s n ã o passa d e u m a so m b ra
d o p re c e ito liberal, a p r ó p r ia re p re se n ta ç ã o esp e lh a o jo g o d e g ru ­
p o s d e in teresses e não tem mais um caráter predominantemente políti­
co. P o r fim , a p rá tic a real das liberd ad es políticas n ã o c o rre sp o n d e u
a o s o n h o d e Mill d e ed u c a ç ã o através d a dem ocracia: a apatia, em
vez d o civismo in sp ira d o , difundiu-se, la rg a m e n te in culcad a pelos
mass Media e pela in d ú stria cultural.
212 O liberalismo - antigo e moderno

B o bb io insiste e m d ifu n d ir ta n ta d e m o c ra c ia q u a n to possível


através d e to d o o tecido social. Esta com binação d e realism o q u anto
aos lim ites d a de m o c ra c ia e a b u sca d e novos espaços d em o cráti- ;
cos le v a ra m alg u n s críticos, n o ta d a m e n te o n e o m a rx is ta P erry
A n d e rso n , a e r ro n e a m e n te in te rp re ta r a posição d e B obbio com o
u m c rip to c o n se rv a d o rism o .1’1’ Mas é essa p ró p ria ênfase n a dem o- '
cracia q u e co n fe re à categ o ria d e liberalism o p r ó p r ia d e B obbio
u m sa b o r m u ito d iferen te das prévias encarn açõ es italianas d a idéia
liberal, co m o o liberalism o e c o n ô m ic o d e P a re to e o liberalism o
ético d e C ro ce. O lib eralism o d e B o b b io é d e fin itiv a m e n te d e
esq u erd a, co m o o d e G o b etti, Rosselli e C alogero. Mas, d ife re n te ­
m e n te de to d o s eles, B obbio atrib u i a prim azia a u m liberalism o
d e “d ire ito s” a p a re n ta d o com a trad ição anglo-saxônica. A cim a de
tu d o , B obbio exibe algo d e novo, em p r o fu n d id a d e e e m escala,
com relação à ép o c a d e G o b etti e Rosselli: u m a n u tr id a po lêm ica
com o m arxism o.
O p rim e iro c ap ítu lo d e Qii.nl socialismo? (1976) c o n fro n ta a
ausência, n o m arxism o, d e u m a te o ria d o E stado socialista e de
d e m o c ra c ia socialista. P o r q u e m o tiv o falta ao m a rx ism o u m a
teoria do Estado? Bobbio pode p ensar em duas razões. Km pr imeiro
lugar, a /irimazia tio /xnli/lo. A v erd ad e histórica consiste em que
o m ovim ento o p e rá rio revelou-se mais interessado na conquista do
podei' d o ([iie em sua su b se q ü e n te organização e exercício. C om o
conseqüência, devotou-se m u ita a ten ção ao p a rtid o revolucionário,
mas p ra tic a m e n te n e n h u m a ao listado p o rv ir. Kscreve Bobbio: “Se
o E stado está d e stin a d o a d e sa p a re c er, o novo E stado o riu n d o das
cinzas d o E stado b u rg u ê s d e stru íd o — a d ita d u ra d o p ro le ta ria d o
— n ã o passa d e u m E stado d e transição. Se o novo E stado é transi­
tório, e, p o rta n to , efêm ero , torna-se m u ito m e n o s im p o rta n te o
p ro b le m a d o seu m e lh o r fu n c io n a m e n to ” . <>7 P o r fim, B obbio en ­
fatizou q u e a fo rm a p ela qual o p o d e r é c o n q u ista d o n ã o p o d e ser
in d ife re n te ao seu fu tu ro exercício.
Em 1954, B obbio e n tro u em c h o q u e co m G alvano delia Volpe
Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 213

(1895-1968), epistem ologista m arxista e c o m en tarista de Rousseau,


q u a n to ao co n ceito d e lib erd ad e. D elia V olpe salien tara a necessi­
d a d e d e u m a “m a io r lib e rd a d e ” socialista m u ito além das lib e rd a ­
des civis d e o rig e m b u rg u e sa , q u e ele estig m atizo u co m o p u ro s
“valores d e c lasse”. B o b b io c o n v in c e n te m e n te opôs-se a essa
“id entificação d a d o u tr in a liberal d o E stad o c o m u m a id eo lo gia
b u rg u e sa d o E sta d o ”. In sistin do em q u e re d u z ir os d ireito s civis a
privilégios b u rg u e se s e ra c o m e te r u m a falácia gen ética, B o bb io
d e c la ro u q u e a te o ria lib e ra l d o E sta d o lim ita d o — lim ita d o ao
m esm o te m p o pelas g aran tias individuais e pelos co n tro les in stitu ­
cionais — e ra u m a b a rre ira n ã o a p e n a s p a ra a m o n a rq u ia ab so lu ta
“m as p a r a q u a lq u e r o u tr a fo rm a d e g o v e r n o ”; e q ue, visto q u e
ta m b é m e ra u m a te o ria d o E stad o representativo, o c re d o liberal
significava a p ossibilid ade d e u m acesso ao p o d e r, a b e rto a to d o s
os g ru p o s sociais.
A e s s ê n c ia d o p e n s a m e n to p o lític o d e B o b b io é u m d iá lo g o
c o n s l a n t e c o m o s c lá ss ic o s, d e Platão, A r i s t ó t e l e s e C í c e r o a W e b e r
c K e lse n . T a n t o os a n t i g o s c o m o t a m b é m o s p r i m e i r o s c l á s s i c o s
m o d e r n o s , c o m o M a q u ia v e l e B o d in , A ltliu siu s e l l a r r i n g t o n , sã o
c n c o n t n u lo s cm suas p á g in a s com ta n ta IV c q ü cn c ia q u a n to
T o c q u e v i l l e e M o s c a , S c h u m p c l c r , M.ilil c M a c p h e r s o n . C o n t u d o ,
e m B o b b io o c o n s ta n te i n te r c u r s o c o m o s a n tig o s d a te o r ia p o líti­
ca n ã o é n u n c a u m a re p u g n â n c ia à so c ie d a d e m o d e rn a , c o m o o
f o i, p o r e x e m p l o , e m L e o S tr a u s s . A e s t r u t u r a c lá ss ic a é e s p e c i a l ­
m e n t e v is ív e l e m listado, governo, sociedade ( 1 9 8 5 ) , o q u e liá d e m a i s
p r ó x im o , a tu a lm e n te , d e u m id e a l c o m p ê n d io d e te o ria p o lític a
m o d e r n o . N e le , B o b b i o s u r g e c o m o u m g r a n d e e su til c o d if i c a d o r ,
c o m m u ita s v isõ e s p e n e t r a n t e s d o p e n s a m e n t o p o lític o a tra v é s d a
h is tó ria o c id e n ta l.
B obbio tem sido co rre ta m e n te elogiado p o r haver “re o rie n ta d o
a te o ria política italiana, desviando-a d e sua p re o c u p a ç ã o trad icio ­
nal, quase exclusiva, com jo g o s d e p o d e r (a linhagem m aquiavélica)
p a ra u m exam e m ais a te n to d o E stado c o m o u m co m plex o instiiu
2II O libntilisimi - antigo r motlrriio

cio n al”.wl Mas ta m b é m está m u ito alerta à cli.slribuição societária do


p o d e r. In c o rp o ra as observações d e M osca, n o fim d e sua História
das doutrinas políticas (1933), q u a n to à resiliência e a desejabilidade
d e regim es em q u e os p o d e re s político, ideológico e eco nô m ico
estejam se p a ra d o s u m d o o u tro ; e n o ta q u e o g o v e rn o p a rtid á rio
m o n o crático d o tipo leninista n ã o m anifesta distinção e n tre regnum
e sacerdotium.
O b o m E stado, se g u n d o B obbio, exibe cinco características.
P rim eiro , vive n u m a m b ie n te policrático. Isso q u e r dizer q u e seu
ú n ico m o n o p ó lio d e p o d e r é o uso d e força legítim a — q u a n to ao
resto, co m o u m E stado liberal, resigna-se a te r p e rd id o o m o n o p ó ­
lio d a id eo lo g ia e d a ec o n o m ia . Em se g u n d o lugar, a lém d e c o n h e ­
c e r essas “lim itações ao" p o d e r estatal, ele ta m b é m tem , n ã o é
p reciso dizer, “lim itações do" p o d e r estatal: os p eso s e contrapesos:
constitucionais, o c o n ju n to d e direitos civis invioláveis, e assim pori
diante. Em te rc e iro lugar, d e u m p o n to d e vista d o d ire ito públi-i
co, é u m E stado cujos súditos p a rtic ip a m (n ão im p o rta d e q u e dis­
tância) n a sua elab o ração d e n o rm as; n a lin g uag em k an tian a de
Kelsen, sua nomogênese é autônoma, n ã o h e te rô n o m a . (P ara Kelsen,
o leitor se lem b rará, é esse o se n tid o da d em o cracia.) Em q u arlc
lugar, é tam b ém d e m o c rá tic o no sen tid o m ín im o d e q u e possui
u m a larga cidad ania e d e q u e Seus cidadãos p o d e m re a lm e n te e s ­
c o lh e r e n tre eq u ip es políticas q u e c o m p e te m em to rn o d e p ostos
te m p o rá rio s. E, em q u in to lugar, é u m E stad o re sp e ito so dos d i ­
reitos civis e cívicos, inclusive, jé claro, dos d ire ito s m in o ritário s e
d a livre expressão d e oposiçãoj
B o bb io n ã o é a p e n a s u m p e n s a d o r po lítico m as u m filósofo
ju ríd ic o m u ito p ro e m in e n te — u m v e rd a d e iro su cessor d e K elsen
e u m igual de I I. L. A. H art. A n tes d e e n s in a r filosofia política ertt
T u rim , lecionou direito d u ra n té m uitos anos (1938-1972) em Siena,
P á d u a e n o v a m e n te e m T u rim . Teoria delia norma giuridica (1958;
e ta m b é m Dalla stn itlura alla\funzione (1977), e n tr e o u tro s, são
m a rc o s d o p e n s a m e n to ju r íd ic o m o d e r n o . D alla strutlura alta
Du.i iiiiiui.s hhnnl!\»n)\ an\ nrnlihnnlisvms 2/ r>

ju n zio n e c m u aud az a fa sta m e n to da a b o rd a g e m e sln ilm a ü s fa de


K elsen e H a r t c o m o ob jetivo d e c o m p r e e n d e r o n o v o p a p e l
d e s e m p e n h a d o p e lo d ire ito n o in te r io r d e u m a p aisag em social
d o m in a d a p e la e c o n o m ia m ista e o E stad o p rev id en ciário .
C o m o u m p e rito em inteiro d o m ín io d o a rm a m e n to conceituai
d a te o ria social clássica, B obbio investigou a h istó ria d a idéia de
so cied ad e civil a p a r tir dos p rim e iro s teóricos m o d e rn o s d o direito
n a tu ra l até H e g e l e G ram sci. A aplicação p o r B o b b io d o co n ceito
a te n d ê n c ia s m o d e rn a s p a rte d o a g o ra fam iliar (e m u ito m arxista)
u so an titético: so cied ad e civil versus o E stado. E m Estado, governo,
sociedade ele a firm o u q u e o m u n d o c o n te m p o râ n e o te ste m u n h o u
u m a v e rd a d e ira eslatificação da sociedade devido, inter alia, a o cres­
c im e n to d o E stad o social. P o r o u tr o lado, o c re sc im e n to d e g ru ­
pos d e in teresse e o rganizações d e m assa capazes d e p re s s io n a r o
E sta d o e, m u ita s vezes, d e p a r tic ip a r d e suas d e c isõ e s a latere
a c a r r e to u u m a ig u a lm e n te e n é rg ic a socialização do Estado. O co­
m e n tá rio filosófico d e B ob bio é im pecável. C o n tra ria m e n te à pre-
d ição d e H egel, a rg u m e n ta ele, n ã o foi o E stado co m o u m a totali­
d a d e ética q u e assum iu u m a so cied ad e civil frag m e n ta d a . Em vez
disso, n u m a g ra n d e m e d id a , são as forças sociais d e b aix o q u e
p e rm e a ra m a esfera mais alta d a a u to rid a d e e s ta ta l/"
O e le m e n to ascen d en te, o invasor social d o E stado m o d e rn o ,
te m c o m fre q ü ê n c ia u m a n a tu re z a c o n tratualista. Isso in sp ira mais
u m , p a rtic u la rm e n te forte, d isc e rn im e n to “ju r íd ic o ” b o b b ia n o , to­
c a n d o d e sta feita n a dicolom nx público-jmvado, tão p r o e m in e n te em
d ireito . W e b e r divisara q u e há, p o r assim dizer, dois m e io s p rin c i­
pais d e alcan çar decisões coletivas. Se é possível p re s u m ir q u e as
p a rte s são b a sic a m e n te iguais n o p o n to d e p a rtid a , p rev alece o go­
v e rn o m ajoritário . Se n ã o — c o m o n o Slãndestaal m edieval —, e n ­
tão os g ru p o s d e in teresse te n d e m a e stab elecer u m ac o rd o , evi­
tan d o o jo g o n u lo d e litígios resolvidos pela reg ra d a m aioria. T en d o
em m e n te a política p a rla m e n ta r italiana, B obbio d eclara q u e essa
lógica d e a c o rd o e (c rip to )c o n tra to verifica-se em m u ito s sistem as
216 O liberalismo - antigo e moderno

p a rtid á rio s h o je em dia, m ais n o ta d a m e n te e n tre g o v ern o s e fo r­


ças sociais . 71 A alm a d o g o v ern o do E stado p rev id en ciário é o co n­
tra to social.
U m e n sa io in te iro e m 0 fu tu ro da democracia, “C o n tr a to e
c o n tra tu a lis m o n o d e b a te d e h o je em d ia ”, este n d e -se s o b re o
c re sc e n te e n tre la ç a m e n to d a “ló jica p riv atista d o c o n tr a to ” e a
“lógica publicista d a d o m in a ç ã o ” Mas ao m e sm o te m p o B obbio
se recu sa a a b r a n d a r as diferenças e n tre o velho e o no v o c o n tra ­
tualism o. Nossos c o n tra to s sociais, a d v e rte ele, n u n c a p o d e m es-:
q u e c e r a base individualista d a so cied ad e m o d e r n a — u m a base,
apressou-se a acrescentar, q u e n ã o é m ais “b u rg u e s a ”. Ele tam b ém
assinala q u e o im pu lso a sc e n d e n te d a idéia d o c o n tra to social m o ­
d e rn o im plica u m a base social mujito mais am pla d o q u e jamais (oi
p e rm itid o p e lo s rapporls de force jq u e pre v a le c e m n o te m p o dos
castelos, guildas e estados. |
T a n to as d im en sõ es políticas c o m o legais d a o b ra d e B obbio
estão im p re g n a d a s d e u m a espécie m o d e rn a d e social-liberalism o.
De tod o s os co ntratu alistas n eo liberais vivos, B ob b io é o q u e mais
se a p ro x im a d e c o m b in a r u m a b u sca d a ju stiç a e u m gosto pela
igualdade c o m u m firm e senso d e e stru tu ra s institucionais, tipos
de regim e, e seu respectivo valor, e m p iricam en te avaliados. Ele não
p articip a d e q u a lq u e r p o rç ã o d a rá p id a “e s ta to fo b ia ” d e o u tro s
neoliberais, mais velhos (Ilayek) ou mais jovens (No/.ick) d o q u e
ele. A q u e stã o q u e B obbio dirige à e sq u e rd a em geral — quais são
as regras d e governo? — n ã o p o d e se r evitada pelos v erd ad eiro s
am igos d a liberd ad e. Pois, co m o u m d c seus in té rp re te s m ais co m ­
peten tes, Celso Lafer, o bservou, n e n h u m e m p e n h o p ela libertação
coletiva, p o r mais valioso q u e seja, p o d e jamais resolver a u to m a ti­
cam e n te a q u e stã o to rtu ra n te tia conslitutio libertalis — a n atu re z a e
e stru tu ra d o p o d e r e,sl;ilal,7'~ Alguns tipos d e E stado c o n t ê m c o n ­
troles institucionais do po d er; o u tro s sim plesm ente n ão os contêm .
E p o rq u e c o m p re e n d e in te ira m e n te isso q u e B obbio afirm a qu e
)) 1S
“toda democracia Ogenuína é necessariamente um a democracia liberal . '
Dos novos Ubrmlismos aos twoíibmilisnios 217

O liberalism o d e B obbio n ã o c o b re to d o s os p rin cip ais p r o ­


b lem as n a a g e n d a n eolib eral. Se q u ise rm o s p o n d e r a r o p a p e l d o
m e rc a d o o u as com plicações d o jo g o in te rn a c io n a l d o p o d e r, d e ­
vem os antes voltar-nos p a ra H ay ek o u p a ra A ro n . Mas B o b bio fez
algo d e inestim ável: ele re a firm o u e n e rg ic a m e n te a ligação e n tre
o liberalism o e a dem o cracia. “A p rá tic a d a d e m o c ra c ia ”, diz ele,
“é u m a c o n se q ü ê n c ia h istó rica d o liberalism o... to d o s os E stados
d e m o c rá tic o s existen tes fo ra m o rig in a lm e n te estados lib erais.” E
B ob b io vê c o rre ta m e n te a atual re d e sc o b e rta d o liberalism o “com o
u m a te n tativ a d e ju stificação d o liberalism o e x isten te c o n tr a o so­
cialism o e x iste n te ” . 74
E n q u a n to nos an o s d o ap ó s-g u erra a h u m a n id a d e c o m p a ro u
os m uitos defeitos e deficiências da o rd e m liberal com as radiosas
p ro m essas m ateriais e m orais d o p ro g ra m a socialista, 40 a n o s mais
ta r d e to rn o u -se im p o ssív el n ã o levar e m c o n ta as d e sa stro sa s
c o n se q ü ê n c ia s d o socialism o estatal e as im p e rfe iç õ e s d a social-
d em o cracia. N o s ú ltim o s an o s d a d é c a d a d e 1940, os socialism os
fizeram o p ap el d e juizes; n o s últim os a n o s d a d é c a d a d e 1980, eles
p ró p rio s estão se n d o ju lg ad o s. A lém disso, e n q u a n to a c o m p a ra ­
ção após-guerra foi u m exercício d e p e n sa m e n to (já q ue u m d e seus
term o s e ra p u ra m e n te ideal), a nossa está fa d a d a a ser a m p la m e n ­
te u m a avaliação d o s re g im e s a lte rn a tiv o s ex isten tes. R ic h a rd
Bellamy diz q u e B obbio trava-se com “a q u e stã o de: q u e arran jo s
institucionais são necessários p a ra q u e as pessoas n ã o a p e n a s m u ­
d e m a sua co n dição social, m as p a ra q u e o p te m p o r fazê-lo ? ” . 75 Sua
insistência n a d e m o c ra c ia real, sua c o m p re e n s ã o d a alte ra d a posi­
ção histó rica d o socialism o p o d e m irrita r m u ito s radicais, m as elas
p e rm a n e c e m a única o p o rtu n id a d e d c sobrevivência para o liberal-
socialism o co m o u m a p ro p o sta significativa.
E n tre n ie n le s, as p re o c u p a ç õ e s esq u erd istas liberais de B obbio
acrescentam -se à resistência leórica às novas form as d e liberalism o
con servad o r. C) ensaio d e q u e ex traím o s nossa últim a citação, sig­
nificativam ente intitulado “Velho e novo liberalism o'’, é d e fato um a
218 O liberalismo - antigo e moderno

crítica breve dos liberalism os co n serv ado res, v itorianos (Spencer)


e c o n te m p o râ n e o s (Hayek). B obbio p re te n d e que, n e g a n d o ao Es­
tado m esm o o m e n o r p ro p ó sito social, S p e n c e r e fe tu o u u m a re­
d u ç ã o a r b itrá ria d o d ire ito p ú b lic o a d ire ito p e n a l. O ra , p a ra
Bobbio, c om o p a ra H egel, q u a lq u e r re tra im e n to d o d ire ito p ú b li­
co é sinal d e d e c a d ê n c ia política, real (co m o n o início d a Id a d e
M édia) o u in telectu al (com o n a te o ria social d e S pencer). Q u a n to
a Hayek, B ob b io o ataca p o r causa d e su a ta c ita m e n te cíclica idéia
d a .história — seu in g ê n u o d u a lism o d e b o as e m ás fases (boas,
q u an d o o E stado se retira; más, sem p re q u e cresce). D iferen tem en te
de Rawls, o n e o c o n tra tu a lism o d e B obbio desafia a b e rta m e n te os
neoliberais conservadores.

Conclusão

O novo liberalism o d e 1880 ou 1 0 0 0 consistiu cm três elem en to s


na l i b e r d a d e p o s i t i v a , u n i a | » r < * « x u p a ç a o c o m
e s s e n c i a i s : u m a «'m i f a s e

a justiça social, e 11111 desejo de substituir a econ o m ia d o lai.ssez-jtiin'.


Tal g ru p o d e novos objetivos e p re ssu p o sto s levou a u m a nova vi­
são política liberal, e n q u a n to as velbas reivindicações de direitos
individuais haviam a b e rto espaço para exigências mais igualitárias.
N o p e río d o d e e n tre guerras, esse liberalism o m od ificad o receb eu
novo im pulso d e vida graças a p e n s a d o re s influ en tes c o m o Kelsen
e Keynes.
Em c o n tra ste , os triu n fa n te s “n e o lib e ra lism o s” d e cerca de
1980 tin h a m u m a m e n sa g e m m u ito d ife re n te . O s n e o lib e ra is
“hayekianos” te n d e m a d esco n fiar d a lib e rd a d e positiva c o m o u m a
perm issão p a ra o “co n stru tiv ism o ”, julgam a justiça social u m co n ­
ceito d e sp ro v id o d e significação, d e fe n d e m u m re to rn o ao liberis-
m o, e re c o m e n d a m u m papel m ín im o p a ra o Estado. Q u a n to aos
n eo co n lralu alistas q u e se alçaram à fam a na d é c a d a d e 1970, al­
guns deles, c o m o Rawls e Bobbio, estão e sp iritu a lm e n te p ró x im o s
Dos novos liberalismos aos neoliberalismos 219

às inclinações igualitárias d o novo liberalism o, e n q u a n to o u tro s,


com o N ozick, ap aren tam -se an tes c o m os neoliberais. T a m b é m se
pocle in te r p r e ta r os sociólogos liberais co m o pessoas q u e são sen­
síveis à n ova d ic o to m ia neoliberal. E n q u a n to A ro n foi essencial­
m e n te o crítico d o to talitarism o , p a rtilh a n d o m u ito s p re ssu p o sto s
o u p rescrições liberais, a o b ra escrita d e D a h r e n d o r f to m o u c o rp o
e m reação à n eg lig ên cia n eo lib eral das reivindicações igualitárias.
Conclusão

U m a vista geral, m e s m o tão n e c e ssa ria m e n te in c o m p le ta q u a n to


esta, d a h istó ria três vezes secu lar das idéias liberais m o stra, acim a
d e tu d o , a im p re ssio n a n te variedade d o s liberalism os: h á vários ti­
p o s históricos d e c re d o liberal e, n ã o m e n o s sígnificantes, várias
espécies d e discurso liberal. Tal d iversid ad e p a re c e d e c o r r e r p rin ­
cip a lm e n te d e d u a s fontes. Em p rim e iro lugar, h á d ife re n te s o b s­
táculos ã lib erd ad e; o q u e assustava 1 .ockc — << ab.soliili.sim> — já
n ão cru o b v ia m e n te o q u e assustava Mill ou, ainda, Hayek. Em se­
g u n d o lugar, h á d ife re n te s conceitos d e lib erd ad e, o q u e p e rm ite
u m a red efin ição p e rió d ic a d o liberalism o.
Este livro te n to u re p re s e n ta r os d e lin e a m e n to s das prin cip ais
lin g u ag en s e p o siçõ es históricas d o liberalism o. Iniciam os re le m ­
b r a n d o alguns ele m e n to s form ativos, m ais b e m c h a m a d o s prololi-
beralismos, e q u e r e m o n ta m à p rim e ira Id a d e M o d e rn a o u m esm o,
em alguns casos, à Id ad e M édia o cid en tal, tais c o m o a n o ç ã o de
direitos e as reivindicações d e constitucionalism o, ou o h u m a n ism o
d a R enascença, c o m o na' id eo lo g ia cívica d o p rim e iro re p u b lic a ­
nism o. O a u g e d a p rim e ira Id a d e M o d e rn a , o llu m in ism o , c o n tri­
b uiu com u m a visão secular, p rogressiva da história, e n q u a n to o
m o v im e n to ro m â n tic o su b se q ü e n te salientou o valor d o indivíduo.
O p e n s a m e n to liberal clássico e sta b e le c e u a d o u tr in a c o n s­
tru in d o a teoria da lib erd ad e m o d e rn a (C o n sta n t) e esp ecifican d o
a e s tr u tu r a d a o r d e m p o lítica livre, graças aos pais fu n d a d o re s

221
(> liberalismo - antigo e modernp

am ericanos e sua red efin ição d o con ceito d e rep ú b lica em term o s
<lc go v ern o re p re se n ta tiv o em lrrg a escala. E n tre m e n te s, e c o n o ­
mistas clássicos, d e S m ith a R icardo, leg itim aram a lib e rd a d e eco­
nôm ica — o u tr o te m a p rin c ip a l d o liberalism o em su a fo rm a clássi­
ca. A lém disso, os liberais clássicos a c re sc e n ta ra m dois novos fo-
i
cos: in ic ia ra m a te o riz a ç ã o d á d e m o c ra c ia , d e B e n th a m a
T ocqueville, e desenvolveram as p re o c u p a ç õ e s libertárias d o indi­
vidualism o liberal, m ais n o ta d a m e n te n a o b ra d e J o h n Mill.
Em m e a d o s d o século XIX, oi ;o rre ra u m a im p o rta n te inflexão
n a te o ria lib eral, q u a n d o o m ec o d a d e m o c ra c ia levou m u ito s
p e n s a d o re s p r o e m in e n te s a d e f e n d e r e m u m liberalismo distinta­
mente conservador. Foi esta a posição q u e prevaleceu d e B ag eh o t a
S p en cer. E sta posição c o m p re e n d e u a m a io r p a rte das o p in iõ es
germ ânicas q u a n to ao Rechtsslaal, e ta m b é m o im pacto m ais tard io
dos influentes filósofos latinos C ro ce e O rtega. Falando em term o s
gerais, o liberalism o c o n se rv a d o r p ro d u z iu u m a versão elitista da
idéia liberal.
O s últim os anos do século X IX te ste m u n h a ra m u m se g u n d o
im p o rta n te desvio d o parad ig m a clássico, desta feita n o se n tid o das
reivindicações igualitárias dos nonos liberais, co m o a firm a d o p o r
p re stig io so s p e n s a d o r e s c o m o G re e n , p o r vo lta d e 1880, e
H o b h o u se , n a a ltu ra d e 1910. M uito d e sua posição in telectu al foi
p reserv ad a pelos g ra n d e s liberais d e e sq u e rd a d o p e río d o d e e n ­
tre guerras, com o Kelsen n a E uropa, Keynes n a Inglaterra, e Dewey
nos Estados U nidos. O s anos d o apó s-g u erra assistiram à ascensão
de u m a crítica liberal d o totalitarism o (a ser d istin g u id a d a crítica
conservadora) nos escritos de P o p p e r e d c m oralistas c o m o Orwcll,
Caimis e Berlin.
As ú ltim as d u a s d é c a d a s to r n a r a m m a n ife sto u m fo rte
re n a sc im e n to d o liberalism o. H o u v e u m a ev id en te re to m a d a d o
d iscu rso c o n tra tu a lis ta dos d ire ito s, c o m o e m Rawls, B o b b io e
N ozick. U m a escola m u ito d iv ersa d e p e n s a m e n to d e sa fio u a
p reo cu p ação social d o novo liberalism o, a rticu lan d o u m a p o d e ro sa

1
C onclusão 223

d e fe sa n e o lib e ra l d o m e rc a d o e u m a c rítica c o n v in c e n te d o
b u ro c ra tism o .
N a m e d id a e m q u e a investida n e o lib e ra l significa u m re g re s­
so a o liberalism o, sen ão ao laissezfairc, esta pa re c e estar m u ito b e m
e n tr in c h e ir a d a n u m a é p o c a d e lib e ra liz a ç ã o c o r r e n te , c o m o se
to r n o u a nossa. N o e n ta n to , c o m o os g loriosos a c o n te c im e n to s n a
E u ro p a o rie n ta l cm 1989 (o rn a ra m e sp a n to sa m e n te claro, a v o n ta­
d e c o n te m p o râ n e a d e lib e rd a d e é u m m o v im e n to a m p lo e p a re c e
valorizar a lib e rd a d e civil e política ta n to q u a n to os m ais altos p a­
d rõ e s d e vida d e p e n d e n te s d e g ra n d e s influxos d e lib e rd a d e eco­
n ô m ica. N e m o su rto o u re n a sc im e n to d e m ais lib e rd a d e e c o n ô ­
m ica — a te n d ê n c ia liberista — significam o d o b re d e finad o s p a ra
im pulsos igualitários, seja n o cam p o d a arg u m en tação o u n a prática.
C o m o foi o b se rv a d o p o r alguns d istin to s sociólogos co m o A ro n
o u D a h re n d o rf, a n o ssa so cied ad e p e rm a n e c e cara c te riza d a p o r
u m a dialética c o n tín u a , e m b o ra cam hiante, e n tre o c rescim en to d a
lib e rd a d e e o ím p e to em d ireção a u m a m a io r ig u ald ad e — e disso
a lib e rd a d e p a re c e e m e rg ir m ais fo rte d o q u e e n fraq u ecid a.
Cronologia
o

1688 R evolução G lorio sa n a G rã-B retanh a


1689 L ocke, Carla acerca da tolerância
1690 L ocke, Segundo tratado
1 7'I.S D o esjiirilo das leis
1762 R o u s s e a u , C.onlralo social
1 7 7 5 -1 7 8 3 R e v o lu ç ã o A m e ric a n a
1776 Sm ith, A riqueza das, nações
1787 O s E stad o s U n id o s r e ú n e m a C o n v e n ç ã o C o n s titu ­
c io n a l
1 7 8 7 - 1788 T h e Federalisl r«j>crs
1789 T o m a d a d a Bastilha; inicia-se a R evolução F rancesa
B en th am , Uma introdução aos princípios da moral e da
legislação
1791 D eclaração de D ireitos a d o ta d a nos E stados U nidos
Paine, Os direitos do homem
1795 K ant, Paz perpétua.
1799 G o lp e d o 18 B rilm ário n a França; inicia-se o re in a d o
d e N ap o leão 1
1810-1816 Inicia-se a lu ta d a A rg e n tin a p e la in d e p e n d ê n c ia
1814-1815 O C o n g resso d e V iena cria a C o n fe d e ra ç ã o
G erm ân ica
1815 N ap oleão d e rro ta d o e m W aterloo
C o n stan t, Príncipes de polilique

224
Cronologia 225

1817 R icardo, Princípios de economia política


1818 Dc SlacI, Considerai,imis su r la Révohdion Française
1820 J a m e s Mill, Essay on Government
1821 N ap o leão m o rre cm Santa I lelcna; o M éxico
c o n q u ista sua in d e p e n d ê n c ia d a E sp an h a
1828 Guizot., Ilisloire générale de la civilizai ion en Europa
1830 M o rre Sim ón Bolívar
1832 A p ro v a d a n a G rã-B retan h a a Reform Bill
1 8 34-1848 R o tteck e W elcker, Dicionário político
18 35-1840 T ocqueville, A democracia na América
1837 V itória so b e ao tro n o b ritân ico
18 4 7 -1 85 3 M ichelet, História da revolução: da queda da Bastilha à
Jesla de federação
Í 8 I8 Revoluções da França d e 18 18; lem início a S eg u n d a
R epública
1850 Iler/.en , From the Other Shore
1852 Inicia-se o re in a d o d e N ap o leão III
I íu m b o lt, On the Linvils o f the State (ob ra p ó stu m a )
1853 Nova G onsliluição p ro m u lg a d a na A rg en lin a
1855-1861 M acaulay, Ilistory o f F.ngland
1859 J o h n S tu a rt Mill, On Liberty
J. S im o n , L a liberte
1860 Mazzini, The Duties o f M an
1861 J o h n S tu a rt Mill, Represenlative Government
1867 A d o ta d a n a In g la te rra a Reform B ill
B agehot, The English Constitution
1868 Isabel II abdica, e estabelece-se n a E sp a n h a u m a
m o n a rq u ia c o n stitu cio nal
1871 U n ifica çã o d a A le m a n h a
1884 A d o ta d a n a G rã-B retan h a a Reform B ill
S p c n c e r, The M an versus lhe State
1885 Dicey, The Lato o f lhe Constitution
1886 G re e n , Lectures on the Principies o f Political Ohligalíon
Y> O liberalismo - antigo e. moderno

1899 Bouglé, Idées égalitaires


1900 Jellinek, Allgemeine Staatslehre
1903 R enouvier, Personnalisme
1906 A cton, Lectures on M odem History
1909 H o b so n , “T h e Crisis o f L iberalism ”
1911 H o b h o u se , Liberalism
1 9 14 -1 9 1 8 P rim eira G u e rra M undial
1917 W eb er, Parlamento e. governo
1919 A ssinatura d o T ra ta d o d e V ersalhes
1920 Kelsen, O f lhe Essence and Value o f Democracy
1924 G obetti, The Liberal Revolulion
1927 Mises, Liberalism
D e R uggiero, History o f European Liberalism
1928 R o s s e l l i, L ib era ! Socialista
1929 Q u e b ra da bolsa nos E stados U nidos
O rteg a, A rebelião das massas
1930 Dewey, In d ivid w d h m Old and New
1931 Keynes, Essays in Persuasion
1932 C roce, História da Europa no século X IX
1933 H itle r ascen d e ao p o d e r n a A le m a n h a
1 9 3 6-1 9 3 9 G u e rra Civil Esparjhola
1 9 39-1915 S eg u n d a G u e rra iviundial
1945 P o p p e r, A sociedadl aberta e sem inimigos
1951 C am us, L 'homme revolte
1958 Berlin, “Dois con ceito s d e lib e rd a d e ”
1960 Hayek, Os fundam entos da liberdade
1962 B u c h a n a n e Tulloék, The Calculus o f Consent
1965 A ro n , Un essai stír \a liberte
1971 'Raw ls, Uma teoria àa justiça
1974 Nozick, Anarquia, Estado e utopia
1979 D a h re n d o rf, Life Chances
1984 B obbio, O fu tu ro da democracia
1987 Raz, The M oralüy o f Freedom
Notas e referências bibliográficas

Capítulo 1
1. Cf. D . J . M a n n i n g , Liberalism ( L o n d r e s : D e n t , 1976), p. 9.

2. M o n t e s q u i e u , Do espírito das leis, tr a d . F e r n a n d o H e n r i q u e C a r d o s o e


L c ô n c i o M. R o d r ig u e s '( B r a s ília : E d i t o r a d a U n i v e r s i d a d e d e B rasília,
1082), livro 19, c a p . 27.

3. Cf, John Pliimemilz, Coustml, Fnrdow and h ditia tl Obligation (1938;


reimpressão, O xford c Nova Y o rk : O xford U n i v e r s i ty P re s s , 1968),
p. 125. P a r a i m i a a n á l i s e o r i e n t a d a e m p i r i c a m e n l e d a l i b e r d a d e n o
in te r i o r d a i n te r a ç ã o social, v e r Felix O p p e n h e i m , Dimensions o f Freedom:
A n Analysis (N o v a Y ork: St. M a rü n \s Pre ss, 1961), e s p e c i a l m e n t e cap . 6.

4. J o h n P l a m e n a t z , M a n an d Society: A Criticai E xa m in a tio n o f Some


Im portant Social and Political Theori.es from Machiavelli to M arx (N o v a
Y ork: M c G ra w -IIill, 1963), vol. 1, p p . '1 9 -5 0 e 4 1 5 —116.

5. M . I. F inley, A política do mundo antigo, tra d . Á lv a ro C a b r a l (R io d e


J a n e i r o : Z a h a r E d it o r e s , 1985).

6. P o r e x e m p l o , N o r b e r t o B o b b io , “ K a n t e !e d u e l i b e r t a ”, e m s e n Da
Hobbes a M arx (1 9 6 4 ; N á p o le s : M o r a n o , 1971), p. 147.

7. C h a r le s T a y lo r, “W h a t ’s W r o n g w ith N e g a ti v e L ib e r t y ”, in A l a n R y a n ,
ed ., The Idea ofFreedom - Essays in H onour oflsaiah Berlin ( O x f o r d e N o v a
Y o rk : O x f o r d U n iv e r s ity P re ss , 1979), p p . 1 7 5 - 1 9 3 .

8. B o b b io , “K a n t e le d u e lib e rta " (v e r n o t a 6 a c im a ), p. M 9.

9. P a r a u m e x a m e d o s l ib e r a lis m o s e m d iv e r s o s “c o n te x t o s i n t e r n o s ”,
v e r M a u r i c e C r a n s l o n , Freedom: A Neto Analysis ( L o n d r e s : L o n g m a n s ,
1953).
228 O liberalismo - antigo e moderno
\

10. P a r a u m r e la t o e r u d i t o d o h u im a n is m o civil n a R e n a s c e n ç a ita lia n a ,


v e r H a n s B a r o n , The Crisis o f tfie Early Italian Renaissance ( P r i n c e t o n :
P r i n c c t o n U n iv e r s ity Pre ss, 19pfi).

11. P a r a u m a c rítica d a s in te r p r e ta ç õ e s “to ta litá ria s" e r r ô n e a s d e R o u s s e a u ,


v e r o m e u Rousseau an d Weber; Tiuo Sludies in the Theory o f Legitimacy
( L o n d r e s e B o s to n : R o u tle d g c | & K e g a n P a u l, 1980), p p . 3 5 - 3 7 ; e d .
b ra s.: Rousseau e Weber: dois escudos sobre a teoria, da legitimidade, tr a d .
M a r g a ri d a S a l o m ã o (R io d e J a n e iro : K d ito ra G u a n a b a r a , IODO). P a ra
u m a re c e n te in te rp re ta ç ã o d o d e m o c ra tism o d e R o u sseau , v e r J a m e s
M ille r, Rousseau, Dreamer o f Democracy (N e w H a v e n : Y ale U n iv e rsity
P re ss , 1984). '

12. E lle n M e ik sin s W o o d s , “T h e S t a te a n d P o p u l a r S o v e r e ig n t y in French;1
P o litic a l T h o u g h t : A G e n e a l o g y o f R o u s s c a u ’s G e n e r a l W ill” , Ilistory\
o f Polilical Thought 4 ( v e r ã o d e 1983), p. 2 8 7 . O p r o b l e m a d o geral!
versus o p a r t i c u l a r e m R o u s s e a u e a n te s d e le foi c o n v i n c e n t e m e n t e
e x a m i n a d o p o r P a tric k R ilcy c m The General W ill fíefore Rousseau: The
Transform a ti on o f the D ivine into the Civic ( P r i n c e t o n : P r i n c c t o n 1
l Iniversily Press, 198f>), e s p e c i a l m e n t e o ca p. 5. P a ra u m a b o a a n álise
d o p e n s a m e n t o p o lític o tr a n c e s d e llo d i n a R o u s s e a u , ve r N a n n e rl ().
K c o h a n e , 1’hi/osophy a n d th/’ State in 1‘m titr: The Re/iaissa/t/e to the
Enlightenm enl ( P r i n c e t o n : P r i n c e t o n U n iv e rs ity P re ss, 1980).

13. W o o d s , T h e S t a t c a n d P o p u l a r S o v c r c i g n t y ” ( v e r n o ta 1 2 acim a), p. 3 0 5


( p a r ê n t e s e s a c r e s c id o s e t e m p o s v e rb a is m u d a d o s ) .

H. B e n j a m i n C o n s t a m , Cours dcpolitir/ue eonstitiitioune/le, ed . F.. I .aboul aye


(Paris: C u i l l a u m i n , 187'-!), vol. I, p p. ‘_!79 ~‘-!80; c i t a d o e m S l e p l i e n
H o l m e s , Benjam in Constant and the M aking o f M odem Liberalism (N e w
I liiven: Vale ( iniversily Pie:w, lOH-l), p, ÍIN,

I.r>. Q u a n t o à te o r i a d a Bildung, v e r W . M. B r n f o r d , Tlie German Traditimi


o f SelfC ultivation ( C a m b r i d g e : C a m b r i d g e U n iv e rs ity P re ss , 1975).

Hí. Cf. L e o n a r d K r i e g e r , The G erman Idea o f Freedom ( C h i c a g o : T h e


! fniversity o f C h ic a g o Press, 1957).

17. I m m a n u e l K a n t, MetaphtsiraJ Principies ofV irtue, tr a d . }. W . F.llington


( 1797; I n d ia n a p o lis : B ob b s-M errill, 1964), p . 97; e d. b ra s.: Fundamentos
da metafísica dos costumes, t r a d . L o u riv a l d e Q u e i r o z I le n k e l , p re f.
A lo n s o B e rta g n o li (R io d e |;m e ir o : T e c n o p r i n l , 1987).
Notas e referências bibliográficas 229

18. Cf. A la n M a c f a rla n e , The Origins ofEnglish Individualism ( O x f o r d e N o v a


Y ork: O x f o r d U n iv e rs ity P re ss , 1978).

19. Cf. Jacqucs Julliard, La Faule à Ronssean - essai su r les conséquenccs


hlstoriques de Vidée de souveraineté populaire (Pa ris: Se u il, 1985).

Capítulo 2
1. K nist T r o e l t s c h , Die liedeulungdes Protestantismosfiir die F.ntslehnng der
Modemen Welt ( M u n i q u e : O l d e n b u r g , 1906). P a r a u m e x c e l e n t e e x a ­
m e d a s o p i n i õ e s d e T r o c l t s c h , v e r H a r r y L ie b e r s o h n , Fale and Utopia
in German Sociology 1870-1923 ( C a m b r i d g e , M a ss a c h u se tts : M I T P re ss,
1988), c a p . 3.

“Libertas” as a Political Idea al Ronte during the Late


2. C h . W irs z u b s k i,
Republic and the Early Principate ( C a m b r i d g e : C a m b r i d g e U n iv e r s ity
P re ss, 1950).

3. M ic h e l V illey, La formation de la pensée juridique moderne (P a ris:


M o n t c b r e t i e n , 1971)).

•I. K ic lia n l T ii r k , N atural Higbls 'llieimex: Th rir Origin and Deoelo/imenl


(C a m b r i d g e : C a m b r i d g e Univei.sily 1‘ress, 197!)), p . 2'1.

5. O t t o G ie r k e , Natural Law and lhe Theory of Sociely, 1500 to 1800, tr a d .


E r n e s t B a r k e r (1 9 1 3 ; r e im p r e s s ã o , C a m b r i d g e : C a m b r i d g e U n iv e rsity
P re ss, 1934), p . 3(5.

The lumridations of Modem Political Thoughl, vol. 2, The


(>. Q u e n t i n S k in n e r ,
Age of Itefoi niatiou (C a m b i id g r: C a m b r i d g e ( Jniversily Press,
c a p . 5, e s p e c i a l m e n t e p. 143.

7. Paul l i . Sigmmid, N a t u r a l Lrtui in l ' i ) l i t i n t l T h o i i g / i l ( ( lam biitl^c,


M a s s a c h u s e tts : W i n t h r o p , 1971), p . 80.

8. A l e s s a n d r o P a s s e r i n d ’E n trc v e s , Natural Law ( L o n d r e s : H u l c h i n s o n ,


1951), c a p . 3.

9. G ie r k e , Natural Law and lhe Theory ofSociety (v e r n o t a 5 a c im a ), p. 35.


10. A l b r e c h t D ih le , lh e Theory of the Will in CÀassical Anliquity (B e rk eley :
U n iv e rs ity o f C a li f ó r n i a P ress, 1982).

I 1. S ig in n n d , Natural Laie in Political lliought (v e r n o t a 7 acim a), p p . 7(>, 81.


?.'.}() O liberalismo - antigo e moderno

12. J o h n D u n n , Locke (O x f o r d : O x f o r d U n iv e r s ity Pres.s, 1984), c a p . 2.

l.-i. N o r b e n o lk ib b i o , "11 n u x l e l l o gii)snaluralisli< o ", iu N. B o b b io e M.


B o v c ro , Socielà eslntn nella filosofia politica moderna (M ilão: II S a g g ia to re ,
1979), p . 88; e d . b tas.: “O m o d e l o j u s n a l u n i l í s l a ”, iu Snrínltul.e« listado
na filosofia política moderna, Iratl. C a rlo s N e ls o n C o n t i n h o (S ã o P a u lo :
E d ito n iB r a s ilie ii.s e , 1987).

14. K e n n e t h W h e a r e , M odem Consiituti.ons (O x f o r d : O x f o r d U n iv e r s ity


P re ss, 1966).

15. C . H . M c IIw a in , Constitxitionálism A ncienl a n d M odem ( N o v a Y o rk :


C o r n e ll U n iv e rs ity P re ss, 1940).

16. J. N. Figgis, Studies ofPolilical Thought from Gerson to Grotnis(Cambridge:


C;nnl)rid|>e Universily Press, I*107): Brian Tim icv, ÍMirfon. I.um mui
lhe (immlli nf ( 'oiislihitiiiind Thought, 11 ‘Xl ll>*<t>(( lambi i<l^c; ( lanil >i ii Ige
Universily Pres.s, lí)82), p. -10.
17. P a u l H a /.a rd , E u r o p e a n T h o u g h t in t h e E i g h t e c n l h C c n l u r y (1 9 4 6 ;
r e im p r e s s ã o , L o n d r e s : 1 lo llis & C a r ie s , 1954); O pensamento europeu no
século X V III (de. Montesquieu a Lessing), Irad. C a rlo s G r i f o B a b o (L is­
b o a : P r e s e n ç a , 1974).

18. P e t e r G ay, The Enlighlenment: A n Interpretation (N o v a Y ork: K n o p f,


1966).

19. I m m a n u c l K a n t, “ W h a t is E n l i g h l e n m e n t ? ”, in H a n s R eiss, e d ., KanVs


Political W rüings (1784; r e im p r e s s ã o , C a m b r i d g e : C a m b r i d g e U n i v e r ­
sity P re ss, 1970).

20. P a r a o c o n c e i to d e civilização c o r te s ã , v e r N o r b e r t Elias, The Court


Society (1 9 6 9 ; r e im p r e s s ã o , O x f o r d : B lackw ell, 1983), e d . p o r t .: A so­
ciedade da corte, tr a d . A n a M a r ia A lves (L isb o a: E s t a m p a , I m p r e n s a
U n iv e r s itá r ia , 1987); G iu lio C a r io A r g a n , The. E.urope o f the Capitais
1 6 0 0 -1 7 0 0 ( G e n e b r a : Sk ira , 1964).

21. G i a n f r a n c o P o g g i, The Development o f the M odem State: A Sociological


Inlroduction (L o n d r e s : H u t c h i n s o n , 1978), p. 73; e d . b ra s.: A evolução
do Estado moderno: um a introdução sociológica, tr a d . Á lv a ro C a b r a l (R io
d e J a n e i r o : Z a h a r E d it o r e s , 1981).

22. A. G o o d w in , u m a vista d e o l h o s i n t r o d u t ó r i a a The New Cambridge


M odem History, vol. 8, 1 7 6 3 - 9 3 ( C a m b r i d g e : C a m b r i d g e U n iv e rs ity
P re ss, 1971). !
23. Leonard Krieger, A n Essay on the Tiieory of Enlightened Despotism
(Chicago: Tfi<- (jjiiv<')sífy of Cbícago JVcss, 197,v>, p. Ifí,

24. Maurice Cranslon, Philosofihm and Pamphlelems: Palitical Theory of the


Enlightenmmt (Oxford: Oxford University Press, 1986), introdução.

25. Cf. apêndice a Gibbon, publicado em 1781, ao capítulo 38 de seu


Decline and Fali ofthe Roman Empire. Gibbon acrescentou que, mesmo
se (contra todas as probabilidades) a sociedade mercantilista da Euro­
pa caísse em mãos de novos bárbaros, restaria a América, que j á esta­
va cheia de instituições européias.

26. Albert O. Hirschman, The Passions and the Interests: Political Arguments
for Capitalism befnre Its Triumph (Princeton: Princeton University Press,
1077), |>|>. 100 I 13; cil. 1>r.im.: Às paixócs c os interesses: (rrfnminitos polí­
ticos a favor >!o capitalismo antes de seu triunfo, l i . n l . I ,úciii ( l ;mi[>rllo ( R i o
d e J a n e i r o : P a z c Ver ia , 1979).

27. D. D. Raphael, Adam Smith (Oxford: Oxford University Press, 1985),


p. 71. Para um excelente exame das opiniões de Smith sobre a socie­
dade mercantilista como “desigual e não-virtuosa mas não injusta”,
ver o capítulo introdutório em Istvari Muni cMichael Ignntieff, Weallh
and Virtue: The Shaping of Political Economy in the Scottúh Enlightenment
(Cambridpc: Cambridge University Press, 1983).

28. Kenneth Minogue, The Liberal Mind (Londres: Methuen, 1963),


pp. 61-68.

29. Michael Oakeshott, Ralionalism in Politics and Olher Essays (Londres:


Methuen, 1962).

30. Ghita Ionescu, Politics and the Pursuit of Happiness: A n Inquiry into lhe
Involvement of Human Beings in the Politics of Industrial Society (Londres:
Longman, 1984), cap. 4.

31. Nancy Rosenblum, Another Liberalistn: Romanticism and the Recon-


struetion of Liberal Thought (Harvard University Press, 1988).

32. Colin Campbell, The Romantic Ethics and the Spirit of Modem Consum-
erism (Oxford: Blackwell, 1987), pp. 203-205.

33. Boyd Hilton, The Age o f Atonement: The Influence of Evangelicanism on


Social and Economic Thought, 1785-1865 (Oxford: Clarendon, 1988).
' O liberalismo - antigo e modemo

('a p ítu lo 3

1. P i e r r e M a n e n t, Histoire intellectuelle du libéralisme (Paris: C a lm a n n -L é v y ,


1987), p p . 5 5 - 5 6 ; e d . b r a s .: H istória intelectual do liberalis?no (R io d e
J a n e i r o : E d i t o r a I m a g o , 1990).

2. S e g u n d o J . G. A. P o c o c k ( “C o n s e r v a tiv e E n l i g h t e n m e n t a n d D e m o -
c r a t i c R e v o lu t i o n s : T h e A m e r i c a n a n d F r e n c h C a s e s in B r i ti s h
P e r s p e c ti v e ”, in Government an d Opposition 2 4 [ in v e r n o d e 1989], p. 83),
o n o m in a l is ta H o b b e s o p ô s - s e à filo so fia g r e g a e à e s c o lá s tic a p o r q u e ,
e n c o r a j a n d o a c r e n ç a n a r e a l i d a d e d a s e ssê n c ia s, e le s a li m e n t a v a m
a firm a ç õ e s cssencialistas c o n t r a a a u to r i d a d e d o s o b e r a n o . A in d a assim J
n a é p o c a d e O ccam , o n o m in a lis m o fo ra u sa d o p a ra so la p a r a causa
d o a b s o l u li s m o p a p a l.

3. B o b b io , Da Hobbes a Marx (v<T n o i a 0, n i p , 1), p p , 8 8 -90,

•4. I l a r o l d Laski, Political Thoughl in Englaml: From Loche to fíentham (N o v a


Y o rk : H o lt, 1920); L o u is H a r t , The Liberal Tradition in America: A n
Interpretation o f American Polit. cal Thought since lhe Revolution (N o v a
Y o rk : H a r c o u r t , B ra c e , 1955).

5. J . G . A. P o c o c k , The M achiavell'ian M oment: Florentine Political Thought


and. the Atlantic Repu.bti.can Tradition ( P r i n c e t o n : P r i n c c t o n U n iv e rs ity
P re ss , 1975

6. K e ith T h o m a s s o b r e P o c o c k , N nu York Review o f Books (2 7 d e f e v e r e ir o


d e 1986).

7. Is a a c K r a m n i k , “R e p u b l i c a n R e v is io n i s m R e v i s i t e d ”, i n Am erican
Historical Review 8 7 (19 8 2 ).

8. J . G . A. P o c o c k , Virtue, Gommerce a n d History: Essays on Political Thought


and History, Cb.iefly in the F.ight\r»lh C entm y ( C a in b r i d g e : C a m b r i d g e
U n iv e rsily Press, 1985).

9. P o c o c k , “C o n s e r v a tiv e E n lig lil.o n m c n t" (v e r noi.ii 2 a cim a).

10. Davicl F. E p s te in , The Political Theory o f “The Federalist ” ( C h ic a g o : T h e


U n iv e r s ity o f C h i c a g o P re ss , 1984), p p . 5, 6, 79 e 92.

11. T h o m a s L. P a n g le , The Spirit o f M odem Republicanism (C h ic a g o : T h e


U n iv e rs ity o f C h ic a g o P re ss , 1988). i
Notas e referências bibliográficas 233

12. R o s s H a r r i s o n , Bentham (L o n d r e s : R o u t l e d g e & K e g a n P a u l, 1983),


c a p . 8.

The Pursuit of Certainty (Hume, Bentham, Mill e


13. S h irle y R o b i n L e tw in ,
Beatrice Webb) ( C a m b r i d g e : C a m b r i d g e U n iv e rs ity P re s s , 1965).

14. E líe H a lé v y , The Growth of Philosophical Radicalism, 1901-1904 (N o v a


Y o rk : M a c m illa n , 1928).

Laissezfaire and State Intervention in Nineteenlh Century


15. A r t h u r J . T a y lo r ,
Britain ( L o n d r e s : T h e E c o n o m i c H i s t o r y S oc iety , 1972), p . 36.

16. E ric H o b s b a w n , Indvstry and Empire (L o n d r e s : W c i d c n f e l d & N ic o ls o n ,


1968), c a p . 12; e d . b ra s.: Da revolução industrial inglesa ao imperialismo,
tr a d , D o n a l d s o n M. G a r s c h n g e n , sei. e c o o r d . F e r n a n d o L o p e s d e
A l m e i d a o F ra n c is c o R e g o C h a v e s F e r n a n d e s (R io d e j a n e i r o : F o re n se -
UtiivciKlülfiii, 11)70),

17. Q u a n t o a o p e n s a m e n t o p o lític o d e H e g e l, v e r J o a c h im R itte r, Hegel and


theFrenchRevolution, tr a d . d e R. W in f i e ld (1 9 5 7 ; r e i m p r e s s ã o , B o s to n :
Between Tradition and Revolution: The
M IT , 1982); M a n f r e d R ie d e l,
Hegelian Transformation of Political Philosophy ( 1 9 6 9 ; r e i m p r e s s ã o ,
C a m b r i d g e : C a m b r i d g e U n i v e r s i ty P re ss , 1984); G c o r g e A r m s t r o n g
K elly, ídealism, Polilics and History: Sonrces of Hegelian Thought
(C a m b r i d g e : C a m b r i d g e U n iv e rs ity P re ss , 1969); d u a s se le ta s e d ita ­
d a s p o r Z. A . P e lc z y n s k i, HegeVs Political Philosophy: Problems and
Perspectives (1 9 7 1 ) e The State and Civil Society: Studies in HegeVs Political
Philosophy (1 9 8 4 ), a m b o s p u b l i c a d o s p e la C a m b r i d g e U n iv e r s ity Press;
N o r b e r t o B o b b io , Studi hegeliani (T u r im : E in a u d i, 1981); M i c h e la n g e lo
B o v e r o , Hegel e il problema, político modetno (M ilão: A n g e li, 1985).

18. Q u a n t o a Sieyès, v e r B ro n is la w B a cz k o , “L e c o n t r a t soc ial d e s F ra n ç ais:


S ie y ès et. R o u s s e a u ”, in K. M. B a k e r , e d .. The French Revolution and, the
( ' r m t i t n i o f 'M o i l e m P o l i t i c a l < 'iil h n e , vol. I (Nov;i York: l ’e i g a m o u , I9 H 7 ),
pp. 49 3 -5 1 3 .

19. A e s s e r e s p e it o , v e r A d o l í o O m o d c o , Studi suWelà delia Restaurazione


( T u r im : E in a u d i , 1970), p p . 3, 2, e e s p e c i a l m e n t e p. 230.

2 0 . S o b r e C o n s t a n t , v e r a i n t r o d u ç ã o p o r M a r e e i G a u c h e t à s u a e d iç ã o
De la liberte ck.cz les
d o s e s c r it o s e s c o lh i d o s d e B e n j a m i n C o n s t a n t ,
modemes (P aris: L iv re d e P o c h e , 1980); S. H o l m e s , Benjamin ('oiislnnt
234 O liberalismo - antigo e moderno

and theM akingofModem Liberalism (v e r n o t a 14, c a p . 1); e P a u l Basticl,


Benjamin Constant et sa doctrine (Pa ris: A . C o lin , 1966).

2 1. S o b r è G u i z o t , v e r P i e r r e R o s a n v a ll o n , Le Moment Guizot (P a ris :


G a l li m a r d , 1985).

2 2 . J a m e s T . S c h le ife r, The Making of Tocqueville's “Democracy in America


( C h a p e i HilI: U n iv e rs ity o f N o r t l i C a r o l i n a P re ss , 1980), c a p . 18; m a s
v e r K o e n r a a d S w art, “I n d i v id u a l is m i n t h e M i d - N i n e t e e n t h C e n t u r y ”,
Journal of the History of Ideas ( j a n e i r o / m a r ç o d e 1962), p p . 7 7 - 9 0 .

2 3. J e a n - C l a u d e L a m b e r ti , Tocqueville and lhe Two Democracies, t r a d . A.


G o l d h a m m e r (1983; r e i m p r e s s ã o , H a r v a r d U n iv e rs ity P re ss , 1989).

24 . M o n t e s q u i e u , Do espírito das leis (v e r n o t a 2, c a p . 1), liv ro 5, c a p . 7.

25. V e r C o n s t a n t , “D e 1’e s p r i t d e c o n q u ê t e e t d e 1’u s u r p a t i o n d a n s le u rs


r a p p o r t s a v ec Ia c iv iliz a tio n e u r o p é e n n e ”, in G a u c h e t , De la liberte chez
les modemes (v e r n o t a 20, c a p . 3).
Dictionary of the
20. J o h n P la m e n a tz , “L ib e ra lis m " , in P h ilip W ie n e r, e d .,
History of Ideas (N o v a Y o rk : S c r i b n e r ’s, 1973), vol. 3, p . 5 0.

27. C o n s t a n t , “D e la p e r f e c ti b i l it é d e 1’e s p è c e h u m a i n e ”, in G a u c h e t , De la
liberte chez les modemes (v e r n o t a 2 0 , c a p . 3), p p . 5 8 0 - 5 9 5 .

2 8. H u g h B r o g a n , Tocqueville ( L o n d r e s : F o n t a n a , 1973), p . 75.

2 9. S c h le ife r , The M akingof Tocqueville's “Democracy in America” (v e r n o t a


2 2 a c im a ), c a p . 18.

30. E t t o r e C u o m o , Profilo dei liberalismo europeo ( N á p o l e s : E d iz io n i


S c i e n d f i c h e Ita lia n e , 1981).

31. R . J . I Ialliday, /o/í?í Stuart Mill ( L o n d r e s : A lle n & U n w in , 1976), c a p . 1.

32. C o m o e x p l i c a d o p o r D e n r tis F. T h o m p s o n , John Stuart Mill and


Representative Government ( P rin c e to n : P r i n c e t o n U n iv e rsity Pre ss, 1976),
p . 195.

33. W illia m T h o m a s , Mill (O x f o r d : O x f o r d U n iv e rsity P re ss, 1985), p. 111.


34. J . W . l iu r r o w , Whigs and Liberais: Continuity a n d Change in Jinglish
Political Tkm ight ( O x f o r d : C l a r c n d o n , 1988), p. 106.

35. A la n R yan, /. S. M ill ( L o n d r e s : R o u t l e d g e & K e g a n P a u l, 1974), c a p . 5.


Notas e referências bibliográficas 235

3 6. J o h n G ra y , Mill on Liberty: A Defence ( L o n d r e s : R o u t le d g e & K e g a n P a u l,


1983), p . 4 5.

37. M a u ric e C o w lin g , Mill and Liberalism ( C a m b r i d g e : C a m b r i d g e


On Liberty and
U n i v e r s i ty P r e s s , 1 9 6 3 ); G e r t r u d e H i m m e l f a r b ,
Liberalism: The Case of fohn Stuart Mill (N o v a Y o rk : 1974). V e r J . B.
S c h n e e w i n d , e d ., M ill - A Collection o f Criticai Essays ( N o v a Y o rk :
M a c m i l la n , 1 9 6 8 ), p a r a o e x a m e , p o r R. J . H a llid a y , d a c r ít i c a d e
C o w l i n g , p p . 3 5 4 - 3 7 8 ; v e r C. L. T e n , M ill on Liberty ( O x f o r d :
C l a r e n d o n , 1980), p p . 1 4 5 - 1 6 6 , p a r a u m e x a m e t a n t o d e C o w lin g c o m o
d e H im m elfarb . On Liberty é o a s s u n t o d a s e l e t a e d i t a d a p o r A . P h illip s
G r if f ith s ( C a m b r i d g e : C a m b r i d g e U n iv e rs ity P re ss , 1983).

3 8. C. L. T e n , M ill on Liberty (v e r n o t a 3 7 a c im a ), p . 173.


39 . L a r r y S i e d e n t o p , “T w o L ib e r a l T r a d i t i o n s ”, in A. R y a n , e d ., The Idea of
Freedom (v e r n o t a 7, c a p . 1), p p . 1 5 3 - 1 7 4 .
40. C u i d o d e R u g g i c r o , llislory of European Liberalism, t r a d . R . G.
C o l li n g w o o d (1 9 2 5 ; O x f o r d : O x f o r d U n iv e rs ily P re ss, 1927), vol. 1,
c a p . 4, s e ç ã o 2.

Alexander Herzen and the Birth of Revolutionary Socialism,


4 1. M a r t i n M a lia ,
1812-1815 ( O x f o r d : O x f o r d U n i v e r s i ty P re s s , 1961).
The Winding Stair and Other Poems
4 2 . W . B. Y e a ts, “T h e S e v e n S a g e s ”, i n
(1 9 3 3 ), in The CollectedPoems ofW. B. Yeats ( L o n d r e s : M a c m illa n , 1977).

Capítulo 4
1. D o n a l d S o u t h g a te , The Passingof the Whigs, 1832-1886 (L o n d r e s : 1962),
c it a d o e m B u r r o w , Whigs and Liberais (v e r n o t a 3 4, c a p . 3), p . 12.
The Politics of Imperfection: The Religious and Secular
2. A n t h o n y Q u i n t o n ,
Traditions of Conservative Thought in England from Hooker to Oakeshott
( L o n d r e s : F a b e r , 1978), p p . 5 6, 60.

3. J . W . B u r r o w , A Liberal Descent: Victorian Historians and the English Past


( C a m b r i d g e : C a m b r i d g e U n iv e rs ily P re ss , 1981), p . 28.

4. B u r ro w , Whigs and Liberais (v e r n o l a 3 4 , c a p . 3), p. 132.


5. S o b r e J a m e s S t e p h e n , v e r J a m e s C o í a i a c o ,James Fitzjames Stephen and
the Crisis of Victorian Thought ( L o n d r e s : M a c m illa n , 1983).
<<> O lib e ra lis m o - a n tig o e m o derno

li. Ilcrbcrt Spencer, “Over-legislation”, in Essays: Scienlific, Polilical and


Sprndative (Londres: 1868), vol. 2, p.50. Quanto a reavaliações recentes
dc Spencer, ver AA. W ., History ofPolitical Thought 3.3 (1982).
7. Devo esta interpretação de m udança de modelo da evolução dc
Sarmiento à aula inaugural do professor Tulio Halperin Donghi, ain­
da não publicada, da cátedra Simón Bolívar, na Universidad Nacional
Antónoma de México, em abril de 1989. Para uma boa análise de te­
mas liberais em Sarmiento, ver Paul Verdevoye, Domingo Faustino
Sarmiento, edncatenr et publiciste ( I f i W - I S ‘>2) (Paris: 196-1).

8. Q u a n t o a e s t e c o m e n t á r i o , v e r A l h e r d i , “ Del u s o d e Io c ô m i c o c n S u d
A m é r i c a ”, El In ic ia d o r l ( B u e n o s A ir e s, 15 d e j u l b o d e 1 8 3 8 ), c i t a d o
p o r G e r a l d M a r t i n n o c ap . 18 d e I.eslie Betliel, ed., The Cambridge
II isto >y o f Lati n America, vol. 3, 1'iiim Independente to c. LS7()(( '.aml>i'i< Ige:
C a m b r i d g e U ni v e r si ty Pres s, 1985).

9. Natalio Botaria, La trailición republicana: Albmli, Sarmiento y Ias ideas


políticas de su tiempo (Buenos Aires: Sudamericana, 1984), p. 486.
10. Mariano Grondona, Los pensadores de la libertad: dc John Locke and Robert
Nozick (Buenos Aires: Sudamericana, 1986), pp. 102-103.
11. Grondona, Los pensadores (ver nota 10 acima), p. 112.
12. Botana, La tradición republicana (ver nota 9 acima), pp. 480-481.
13. Para uma vista breve da evolução política da Argentina na época,
ver meu ensaio “Patterns o f Statc-Building in Brazil and Argentina”,
in jo h n A. Hall, ed-, States in History (Oxford: Blackwell, 1986),
pp. 264-288.
14. Carlos H. Waistnan, Reversal of Development in Argentina: Postwar
Counter-revolutionary Policies and Their Structural Consequences
(Princeton: Princcton University Press, 1987).
15. Louis Girarei, Les LibérauxJratlçais (Paris: Aubier, 1985), pp. 188-189. j
16. E. K. Bramstcd e K. J . Mclhuish, Western Liberalism: A History in Docu-
mentsfrom Locke to Croce (Nova York: Longman, 1978), pp. 398-399.
17. Para uma boa avaliação do relacionamento entre Renan e o positivismo,
ver D. G. Charllon, Positivist Thought in Franee itiiringtlie Second Lmpitr,
1 8 5 2 -1 8 7 0 (Oxford: Oxford University Pres.s, 1959), pp. 100-106; c
W. M. Simon, Enropcfin Po.sitivism in the N inelem th C m lury (lilutca:
Cornell University Press, 1963), pp. 95-99.
N o la s e. re ferências b ib lio g rá fic a s 237

18. Ver as excelentes observações de Laudyce Rctul, “Renan entre revo-


lution et republique”, Commenlaire 39 (outono de 1987).
19. Tomo de empréstimo a tradução de Rechtsstaat proposta por Gottfried
Dietze em Two Concepts of the Rule of Law (Indianapolis: Liberty Fund,
1973), em quem muito do que segue sobre Mohl e Stahl está funda­
mentado.
20. Quanto a essa caracterização, ver Kenneth Dyson, The State Tradition
in Western Enrope (Oxford: Martin Robertson, 1980), p. 123.
21 . Ilonjamin Coii.slanl, “Do la liberte dos anciens comparée à celle des
modemes" (181!)), in Ganchei, Dela liberte chez les modemes (ver nota 20,
cap. 3), p. 513.
22. Citado cm Diel/.e, Two (Umerpts o f lhe R ute o f L a w (ver nota 19 acima),
p. LM.

23. Bramsted e Melhuish, Western Liberalism (ver nota 16, cap. 4),
pp. 389-390.
24. De Ruggiero, History ofEuropean Liberalism (ver nota 40, cap. 3), vol. 1,
cap. 3, seção 4.
25. Robert Eden, Political Leadership and Nihilism: A Study o f Weber and
Nietzsche (Tampa: University Presses of Florida, 1984).
26. David Beetham, Marx Weber and the Theory of Modem Politics (Londres:
Allen & Unwin, 1974), cap. 4.
27. Quanto a esse caráter “hipodemocrático” da teoria de Weber sobre a
legitimidade, ver o meu Rousseau and Weber: Two Studies in the Theory
of Legitimacy (ver nota 11, cap. 1), pp. 130-135 e 197-198; e resenha
feita do original em inglês por Wofgang Mommsen em Government and
Opposition 17 (inverno de 1982).
28. Norbcrto Bobbio, Profilo ideologi.co dei nmwcenlo, vol. 9, Storia delia
letteratura italiana (Milão: Garzanti, 1969), pp. 161-162.
29. Quanto ao contexto histórico do pensamento político de Croce e de
suas atitudes, ver H. Stuart Hughes, Conscioiisness and Society: the
Rmienlation of lium/mnSocial Tlumghl, ISVO-1930(1958; reimpressão,
Londres: Paladin, 1974), pp. 213-229.
30. Quanto a esse ponto, ver Richard ISellamy, Modem Italiau Social Tkemy:
ídmlogy and Politics fmm Pareto to the 1'reseut (CambridgT: 1’olily, 1987),
pp. 91-92.
238 O liberalism o - antigo e moderno

31. Para uma excelente discussão crítica, ver Norberto Bobbio, Politica e
cultura (1955; reimpressão, Turim: Einaudi, 1980), cap. 13.

32. Para uma referência curta à dívida de Gramsci para com —e crítica de
— Croce, ver o meu Westerm Marxism (Londres: Paladim, 1986),
pp. 96-98; ed. bras.: O marxismo ocidental, trad. Raul de Sá Barbosa
(Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987).
33. Quanto a Mosca, ver Norberto Bobbio, On Mosca and Pareto (Genebra:
Droz, 1972); Hughes, Consciomness and Society (ver nota 29, cap. 4)>
cap. 7; c Goraint Pariy, Political Elites (Londres: Allen & Unwin, 19(59)j,
pp. 30-42. , j

34. A nmior parte da literatura filosófica sobre Unamuno e Ortega e tej


diosa e cpigónica. F.ntre as exceções incluem-se Alejandro Rossi ii al.\
José Ortega y Gasset (Cidade do México: Fondo de Cultura Econômica1,
1984); J, Ferrater Mora, Unamuno (Berkeley: University o f Califórnia
Press, 19(52); Martin Nozick, Unamuno (Nova York: Twaync, 1971)1
Rockwell Cray, The Impemliv^of Moámiily: An Intrllalm l fífoflraphy of
fosé Ortega y Gassei (Berkeley: lUniversity of Califórnia Press, 1989); | )
Atulrew O o b s o n , An Introduction to the Polilics anil Philosophy ofjosé j
Ortega y Gassel (Cambridge: Gambridge University Press, 1989); po- |
dem ser encontrados excelerites retratos intelectuais de ambos em I
Ernst Robert Curtius, Kritischç Essays zur europãúche Literatur (Berna: j
Francke, 1954); e ju a n Marichkl, Teoria e historia dei essayismo hispânico [
(Madri: Alianza, 1984). Ilá cm lonescu, Politics and lhe Pursuit of
Happiness (ver nota 30, cap. 2), uma excelente discussão sobre j
Unamuno. )
]
35. Para uni exame do socialismo juvenil de Ortega, ver Fernando
Salmerón, “El socialismo dei jbven Ortega”, in Rossi et al.,Josê Ortegi
y Gassel (ver nota 34 acima), pp. 111-193.
36. Ver Guillermo Morón, Historia polüica deJosé Ortega y Gasset (Cidadtj:
do México: Oásis, 19(50). I
37. Immanuel Kant, “On the Common Saying: ‘This May Be T ruc in
Theory, But It DoesNot Apply in Practice’” (1793), in Hans Reiss, ed.,
KanVs Political Wrilings (Cambridge: Cambridge University Press,
1970), p. 78. |
N otas e referências bibliográficas 239

Capítulo 5
1. F. C. Montague, The Limits of Individual Liberty (Londres: 1885), p. 2.

2. Como observado por Vittorio Frosini, La Ragione dello stato: studi sul
pensiero politico inglese contemporâneo (1963; reimpressão, Milão: GiuíTré,
1976), p. 33.

3. Crane Brinton, English Political Thought in the Nineteenth Century


(Londres: 1949).

•I. A esse re sp e it o , v e r lio l x i I !■< <lesliall, llrilhh 1.iberulism; IJhnnl Tlioti^hl


frorn the UvlOs to l ()80s (Nova York: I ,nngm;\n, 1986), p. 39.

5. Ver Mdvin Ridiler, The Polüirs of (Umxcience: 71 íl. Green and Ifis Age
(Londres: Weiclenfeld & Nicolson, 1964).

6 . Claude Nicolet, L 7dée réfmblicaine m France (1789-1924): essai d 'histoire


critique (Paris: ('.allimard, 1982), pp. 1.52-157. Ver também John A.
Scott, llnptíl/lkan Ideas and the Liberal Tradilim in Franco. 1870-191-t
(Nova York: 1952).

7. Theodore Zcldin, France 1848-1945, vol. \, Ambilion, Love and Polilics


(Oxford: Clarendon, 1973), p. 483.

8 . Ibid., pp. 629-630.

9. Quanto ao conceito de politelismo, ver C. Bouglé, Leçons de sociologie


sur Vévolution des valeurs (Paris: A. Colin, 1922). Bouglé criou o con­
ceito em 1914! Quanto ao liberalismo de Bouglé, ver William Logue,
“Sociologie et polili<|iie: le liberalisine de Célestiti Bouglé”, linnie
Françake de Sociologie 20 (1977), pp. 141-161. Sobre o politelismo, ver
W. Paul Vogt, “Un durkheimien ambivalent: C. Bouglé”, no mesmo
núm ero da Revue Française, pp. 123-139.

10. Para tim exame de .suas afirmações, ver Sleven Lukes, Evdle, Durkheim,
1 lis Life and Work; A IlLüorical and CMlical Study (1973; reimpressão,
Harmondsworth: Penguin, 1975), pp. 338-344.

11. Quanto a Duguit, ver Dyson, The State Tradition (ver nota 20, cap. 4),
pp. 145-149.

12. Burrow, Whigs and Liberais (ver nota 34, cap. 3), pp. 142-152.
'■10 () Liberalismo - antigo e moderno

1 Quanto ao organicismo liberal de Hobson, ver Michael Frecden, The


New Ubera/isni:
cap. 3.

14. Cf. Petcr Clarke, Liberais and Social Democrats (Cambridge: Cambridge
University Press, 1978), pp. 230-234. i
lf>. Pcter Clarke, “In Honor of Ilobson”, Times Literary Supjilernent (24 dc‘
março de 1978), uma resenha de Frccden, The New Liheralism. !

16. Cf. Michael Freeden, Liberalism Divided: A Study in British Political


Thought 1914-1939 (Oxford: Oxford University Press, 1986).

17. Um comentário curto e excelente sobre essas posições italianas de


esquerda liberal pode ser encontrado no livro de Bobbio Profilo
ideologko dei novecmto (ver nota 28, cap. 4), pp. 186-198, 209-216.

18. Três bons volumes sobre C. Schmitt —um dos mais capazes desafiantes
do liberalismo em nosso século — são o livro de Joseph Bendersky,
CarlSchmitt, TheoristJortheReich (Princeton: Princeton University Press,
1983); a edição especial de Telos 72 (verão de 1987); e a seleta editada
por Giuscppe Duso, La política oltre lo stato: Carl Schmitt (Veneza:
Arsenale, l!)HI).

19. Para uma informação inteligente sobre os antecedentes da teoria


política de Kelsen, ver a longa introdução de Roberto Racinaio à tra­
dução italiana de Sozialismus und Staat (Bari: De Donato, 1978).

20. Q uanto a Wilson, ver Richard Hofstadter, The American Political


Tradition, and the Men Who Made ít (Nova York: Knopf, 1948, 1973),
cap. 1 0 .

21. Para uma boa explicação da filosofia de Dewey, ver James Gouinlock,
John Dezuey's Philosophy ofValue (Nova York: Humanities Press, 1972).

22. Para uni bom resumo do ensaio de Trolsky e da resposta de Dewey,


vero livro magistral de Baruili KneiPaz The Social and Political Thought
of l.eon Trotsky (Oxford: (llarendon, 1978), pp. .r>.r>(i—5(>7.

23. Robert Skidelsky chama a atenção para esse fundo de visão do mundo
no primeiro fascículo de sua biografia, John Maynard Keynes, Ilopes-
Betrayed 1883-1920 (Londres: Macmillan, 1983).
N otas e referências bibliográficas 241

24. Devo essa observação a Marcello de Cecco de Siena. Ver sua contri­
buição n Robert Skidelsky, ed.. The Erul of lhe Keynesian Era (Londres:
Macmillan, 1077), p. 22.
25. Cf. Samuel Brittan, The Economic Consequences ofDemocracy (Londres:
Temple Smith, 1977).
26. Quanto a essas críticas, ver Bhikhu Parekh, Conlemporary Political
Thinkers (Oxford: Martin Robertson, 1982), pp. 149-152.
27. Ver o capítulo de Anthony Quinton sobre Popper (“A política sem
essência”) em Anthony de Crespigny, Filosofia política contemporânea,
trad. Yvonejean (Brasília: Editora da Universidade dc Brasília, 1982).
Para um excelente exame crítico do anli-historicismo de Popper, ver
Burleigh Taylor Wilkins, Has History Any Meaning? A Critique of Popper ’s
Philosophy of Histoiy (Ithaca, Nova York: University Press, 1978).
28. Michael Walzer, The Company of Critics: Social Criticism and Political
Cornmitment in the Twentieth Century (Nova York: Basic Books, 1988),
cap. 7.

29. Ver, p or exemplo, os ensaios vergonhosamente mal editados por


Christopher Norris, como Inside lhe Myth - Orwell: Views on Ortuell from
the l.ep1 (I .ondres: I .awieure Sc Wisliarl, 198-1), Pai a uma melhor aná­
lise, ver Bernard Crick, George Ortvell: A Life (Londres: Secker &
Warburg, 1981); [effrey Meyers, ed., George Orwell: The Criticai flerilage
(Londres: Routledge, 1975); Alex Zwcnlling, Orwell and lhe Lefl (New
Haven: Yale University Press, 1974); George Woodcock, The Cryslal
Spirit: A Study of George Orwell (Nova York: Schoken, 1984); e Simon
Leys, Orwell ou Thorreur de la politique (Paris: Hermann, 1984).
30. Quanto a Camus, ver Philip Thody, Albert Camit.s 1 0 3 0 - 1 0 6 0 (Londres:
Hamish Hamilton, 1961). Uma avaliação sensata, judiciosa do proble­
ma da guerra argelina pode ser encontrada no capítulo 8 de Walzer,
Company of Critics (ver nota 28 acima).
31. “ I l isl o rí cal Ino vilab ilily" loi p r i m e i r o p u b l i c a d o e m 19,r>'l pe la ( ) x l o r d
Un i v e rs i ty Press; loi r e i m p r e s s o e m Isaiali Ber lin , Quatro ensaios sobre
a liberdade, t r a d . W a m b e r l o l l u d s o n F e r r e i r a (Brasília: líd. U n i v e r s i ­
d a d e d e Brasília, 1981).

32. Também reimpresso cm Quatro ensaios sobre a liberdade (ver nota 3 1


acima).
’ O liberalismo - antigo e moderno

33. ( ;C. Merquior, Rousseau and 'Weber: Two Studies in the Theory ofLegitimacy
(ver nota 11, cap. 1), pp. 82-83.
>1. Joseph Raz, The Morality of Freedom (Oxford: Olarendon, 1987).

35. Para um excelente exame de Ralhenau, ver Dagmar Barnomv, Weitnar


InteUct tmil.s tintl lhe I hifiit of i\ hideniity ( U l m n n i n ^ l i m: I m l i . i i i a t Inívri níi v
Press, 1988), cap. 1.
30. Cf. Richard Rosecrance, The Rise o f the Trading State: Commerce and
Conquest in the Modem World (Nova York: Basic Books, 1986).
‘(7. F. A. I layek, The ConstiliUion of Liberty (Londres: Routledge, 1900),
p. 59; ed. bras.: Osfundamentos da liberdade, trad. Anna Maria Capovilla
ejosé ítalo Stelle, superv. e introd. Henry Maksoud (Brasília: Ed. Uni­
versidade de Brasília; São Paulo: Visão, 1983).
38. Ver Michael Oakcslioll, Rationalism in Folitics and Other lissays (ver
nota 29, cap. 2).
39. F. A. Hayek, Law, Legislation and Liberty, vol. 3, The Political Order of a
Free People (Chicago: The University o f Chicago Press, 1973-1979),
p. 174.
40. “The Three Sources of Human Values” (Londres: London School of
Economics, 1978).
41. Hayek, The Constitution of Liberty (ver nota 37 acima), p. 398.
42. Samuel Brittan, The Role and Limits of Government Essays in Political
Economy (Londres: Temple Smith, 1983), cap. 3.
43. Para uma crítica sóbria nessa linha, ver Dallas L. Clouatre, “Making
Sense of Hayek” (uma resenha tio livro de Gray), Criticai Review 1
(inverno de 1987), pp. 73-89.
44. F. A. Hayek, Studies in Philosophy, Politics and Economics (Londres:
Routledge, 1967), p. 165.
45. Sobre essa linha de crítica, ver Atithony de Crespigny, “F. A. Hayek:
Liberdade para o progresso”, in Filosofia política contemporânea (ver
nota 27, cap. 5).
46. James Buchanan, Liberty, Market (ind State - Political Economy in the
1980s (Nova York: New York University Press, 1985), pp. 19 e
123-139.
N otas e referências bibliográficas 2-13

47. Henri Lcpage, Tomorrow, Capilalism: The Economics ofEconomic Freedom


(La Salle: Open Cotirl, 1982); Guy Sorman, La nonvelle richcssc des
nations (Paris: Fayard, 1987); Peter Berger, The Capitalisl Rmmlution
(Nova York: Basic Bookfi, lílttO); c M unay N, Rotlibmd, Man, liimomy
and State (Menlo Park, Califórnia: Institui c For Human Studics, 1970),
<• Kthiex ofl.Umly (A llaulli I liglihinilit, N .|,; 111111i<i11ílí<-m 1' i f í i n, I t í H l í ) .

48. Robert Nisbet, The Sociological Tradition (Nova York: Basic Books,
1966).
49. Alvin Gouldncr, The Corning of Crisis of Western Sociology (Nova York:
Avon Books, 1970).
50. A questão sobre a autonomia da política está bem salientada em Ghita
lonescu, “Um clássico m oderno”, in Filosofia política contemporânea (ver
nota 27, cap. 5).
51. Robert Colquhoun, Raymond Aron, vol. 2, The Sociologist in Society,
1955-83 (Londres e Beverly Hills: Sage, 1986), pp. 85-86.
52. Quanto a Aron, ver especialmente Gaston Fessard, La philosophie
historique de Raymond Aron (Paris:JulIiard, 1980); e Robert Colquhoun,
Raymond Aron, vol. 1, The Philosopher in History, 1905-55, e vol. 2, The
Sociologist in Society, 1955-83 (Londres e Beverly Hills: Sage, 1986).
Obras chaves de Aron a respeito do nosso curto exame são The Opium
of the Intellectuah (Nova York: Doubleday, 1957); Eigliteen Lectures on
Industrial Society (1967) e Democracy and Totalitarianism (1968), ambos
de Londres: Weidenfeld e Nicolson; An Essay on Freedom (Nova York:
World, 1970), ed. port.: Ensaio sobre as liberdades (Lisboa: Aster, 1965);
e Estudos políticos, trad. Sérgio Bath, pref. José Guilherme Merquior,
apres. Rolf Kuntz (Brasília: Ed. Universidade de Brasíllia, 1985).
53. Coligido de Ralf Dahrendorf, Essays in the Theory of Society (Stanford
University Press, 1968); ed. bras.: Ensaios da teoria da sociedade (Rio de
Janeiro: Zahar, 1974).
54. Para um excelente resumo das opiniões de Dahrendorf sobre conflito
social, ver John A, Hall, Diagnoses ofimr Time: Six Vimas of Our Social
Condition (Londres: Heinemann, 1981), cap. 5.
55. Ralf Dahrendorf, “Tertium Non Datur: A Commcnt on the Andrew
Shonfield Lectures”, in Government and Opposition 24 (primavera de
1989), pp. 133, 135.
244 O lib e ra lis m o - a n tig o e m oderno

56. Ibid., p. 172.


57. Ibid., p. 18.
58. Cf. Brian Barry, The Liberal Theory of Justice: A Criticai Examination of
the Principal Doctrines in “A Theoiy of justice” IryJohn Rawls (Oxford:
Oxford University Press, 1973).
59. Quanto à acusação de consumismo, ver C. B. Macpherson, Democratic
Thnoty: lissays in Retrieval (Oxford: Oxford University Press, 1973),
cap. 4, p. 3.
60. Ronald Dworkin, TakingRightsSerionsly (Londres: Duckworth), cap. 6 .
61. Daniel Bell, The Cultural Contradiction of Capitalism (Nova York: Basic
Books), cap. 6 in fine.
62. Cf.John Rawls, “Kantian Constructivism in Moral Theory’',/<mrna/ of
Phüosophy 77 (11)80); e “The Basic Libetlies and Tlieir Priority", in S.
M. McMurrin, ed., The TmmerLi ■dures on íímnan Vnlues (l fniversity of
Utah Press, 1982), vol. 3.
63. Robert Nozick, Anarchy, State a nd Utopia (Nova York: Basic Books,
1974), p. 160; ed. bras.: Anarquia, Estado e utopia (Rio dejaneiro: /.aliar,
1991).
64. Quanto a típicas críticas liberais, ver a resenha de Brian Barry em
Political Theory 3 (agosto de 1975). Para uma seleta crítica, ver Jeffrey
Paul, ed., ReadingNozick: Essays o i “Anarchy, State and Utopia " (Oxford:
Blackwell, 1982).
65. Norberto Bobbio, Quale socialismo? (Turim: Einaudi, 1976), pp. 15,100;
ed. bras.: Qual socialismo? - debate sobre uma altematixia (Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1983).
66 . Ver Perry Anderson, “The Affinities of Norberto Bobbio”, New Left
Reviexu 170 (julho-agosto de 1988), e minha refutação “Defensa dc
Bobbio”, in Nexos 1 (Cidade do México, 1988).
67. Bobbio, (hiale socialismo? (ver nota 65 acima), p. 10.
68 . A resposta de Bobbio a Delia Volpe, “Delia liberta dei moderni
comparata a quella dei posteri” (uma alusão espirituosa à famosa con­
ferência de Constant) e o próprio texto de Delia Volpe, “II problema
delia liberta equalitaria nello sviluppo delia moderna democrazia”,
N o ta s e referê ncias b ib lio g rá fic a s 245

estão reimpressos em Alessandro Passerin cTEntrèves, ed., La libertà


política (Verona: Edizioni di Comunità, 1974).

69. Anderson, “The Affmities of Norberto Bobbio” (ver nota 66 , cap. 5),
p. 19.

70. Norberto Bobbio, Stato, governo, società: per una teoria generale delia
politica (Turim: Einaudi, 1985), pp. 16, 41-42; ed. bras.: Eslado, go-
vmut, sociedade: paru uma teoria geral d.a politica (Rio de Janeiro: Paz o
Terra, 1988).

71. Ibid, p. 109; ver também Norberto Bobbio, 1J futuro delia dem,ocrazi.a
(Turim: Einaudi, 1984), pp. 132-138; ed. bras.: Ofuturo da democracia:
uma defesa das regras do jogo, trad. Marco Aurélio Nogueira (Rio de
Janeiro: Paz c Terra, 1989).
72. Cf. Celso Lafer, Ensaios sobre a liberdade (São Paulo: Perspectiva, 1980).

73. Norberto Bobbio, Politica e adtura (ver nola 31, cap. A), p. 178.
74. Bobbio, IIfuturo delia democrazia (ver nota 71 acima), p. 111.

75. Richard Bellamy, Modem Italian Social Theory (ver nota 30, cap. 4),
pp. 165-166.
Leitura complementar

A lite ra tu ra d o liberalism o cresce m ês a mês. As m on o g rafias, sele­


tas e su m ário s históricos m e n c io n a d o s nas n o tas aos cinco cap ítu ­
los n ã o voltarão a ser m e n c io n a d o s aqui, em p a rtic u la r as h istórias
d o liberalism o p o r De R uggiero, Laski, M anning, C larke, G irard,
M an n en l, l''reeden e B urrow . M o d e rn a m e n te , p o d e m se e n c o n tra r
relatório s históricos globais em R. D. C u m n iin g , H um an N nture and,
Ilishny: A Study oj"the Denelopinent. ofIJberal. Political T/iought ( ( .'hicugo
U niversity Press, 1969), Nicola M atleuci, II liberalismo in u n mondo
in trasformazione (B olonha: II M ulino, 1972), M assim o Salvadori, The.
LiberalHeresy, Origins andHistoricalDevelopmeni (Londres: Macmillan,
1977), G eo rg es B u rd eau , Le li.béralisme (Paris: Seuil, 1979), e vol. 3
d e J e a n J a c q u e s Chevalier, História do pensamento polüico (Rio d e
Ja n e iro : Z ah ar E ditores, 1982-1983). A a b o rd a g e m d e Salvadori,
assim c o m o o livrete d e J. Salwyn Sch ap iro , Liberalism, Jts M eaning
and Ilisto/y (Nova York: V:m No.straud, I9(i5), a n te r io r ;i el<\ c o n ­
centra-se n a ideologia social e n a história das instituições liberais
ta n to q u a n to n a teo ria liberal. Esta é, p o r co n traste, assu n to d o li­
vro d e G iu se p p e Bedeschi, Sloria. dei. pensiero Uherale (Bari: Later/.a,
1990), u m a história recente que cobre o liberalismo d e Locke a C roce
e K elsen.
R eavaliações críticas d o liberalism o escritas d e u m p o n to d e
vista radical inclu em A n th o n y A rblaster, The Ri.se a nd Decline o f
Western Liberalism (O xford: Blackwell, 1984). A n te rio r a este, o li­

246
L eitu ra com plem entar 247

vro d e R o b e rt Paul Wolff, The Poverty o f Liberalism (B oston: Ileaeon


Press, 1968) critica o p e n s a m e n to liberal e x a m in a n d o os co n ceitos
d e liberdade, tolerância, lealdade e p o d e r. O livro d e Kirk F. K o e rn e r
Liberalism and Its Critics (L o n dres: C ro o m H elm , 1985) d e fe n d e o
liberalism o c o n tra as críticas d e M a c p h e rso n , M arcuse, S trauss e
O a k e sh o tt. O livro d e J o h n G ray Liberalism (M ilton Keynes: l h e
O p e n U n iv ersity Press, 1986) a c re s c e n ta u m a e x c e le n te an álise
c o n ceitu ai d a lib e rd a d e , m e rc a d o e E stad o a u m a u to riz a d o esb o ço
h istó rico d o p e n s a m e n to liberal. O livro d e J o h n A. H all Liberalism
(L ondres: P aladin, 1987) é u m a te n tativ a só b ria e p e n e tr a n te de
defesa m o d e ra d a d e idéias e instituições liberais e m te rm o s d e so­
ciologia h istórica, e m b o ra ta m b é m d iscu ta as o rigen s intelectu ais
d a d o u tr in a liberal.
A d é c a d a d e 1980 assistiu a notáveis resp o stas à re sta u ra ç ã o ,
p o r Rawls, d o co n tratu alism o . E n q u a n to o livro d e A tny G u tin a n
Liberal Equality (C am bridg e: C a m b rid g e U niversity Press, 1980)
d e fe n d ia um igualilarism o liberal p ró x im o ao socialism o d e m erca
do, B race A ckerm an, em Socialjustice in the Liberal State (New H aven:
Yale U niversity Press, 1980), re to m a v a o co n tra tu a lism o con jectu ral
d e fo rm a e x tre m a d a , im a g in a n d o u m p la n e ta de co lo n o s p io n e iro s
co m s e n tim e n to s antiutilitários, n e n h u m a fo rtu n a h e rd a d a , e n e­
n h u m início d e vida privilegiado. P o r o u tr o lado, a o b ra d e Micliael
S and el Liberalism and the Lim its o f Justice (C am bridge: C am b rid g e
U niversity Press, 1982) q u estio nav a u m p rin c íp io m etafísico subja-
c e n le a le g a d a m rn le a Ioda a lia d iç a o liberal, inclusive a Rawls: a
p rio rid a d e o n to ló g ic a d o ego; e ele, p o r c o n seg u in te, p ro p õ e u m a
su b stituição c o m u n itá ria d o individualism o liberal. A seleta Liber­
alism, Reconsidered, e d ita d a p o r D ouglas M aclean e C la u d ia Mills
(T otow a, New Jersey: R ow an & A llanlield, 1983), ex a m in a os p re s­
su p o sto s filosóficos d o cre d o liberal e m diversos ensaios p o r, e n tre
o u tro s, R o n a ld D w orkin, T h e d a S kocpol e C h ris to p h e r Lasch.
A o b ra d e LIarvey C. M ansfield The Spirit o f Liberalism (H arv ard
U niversity Press, 1978) é u m in telig en te ex am e “stra u ssia n o ” q ue
.‘ ’ 7 < V O liberalismo - antigo e moderno

term ina co m u m a crítica ac> “liberalism o d c p e p in o ” d c Rawls c


Nozick. O livro d e G o t t f r i e d O i c l / e / .ihrralism Pm/ter and Projirr
Li bem lis in (John Ilo p k in s U niversity Press, 1985) ex a m in a
M ontesquieu, Sm ith, Kant e J e ffe rs o n co m o teóricos d a lib e rd a d e
responsável, resp eito sa à lei. C) livro d e M ichael Wal/.er Sphrres o f
Justice: A Defense o f Pluralism and Equality (Nova York: Basic Books,
1983) p ro p o rc io n a u m a defesa n ova e sen sata d a ju stiç a d istributiva
f u n d a d a n o p lu ralism o liberal. O m ais in sisten te m a n te n e d o r do
liberalismo co m fu n d a m e n to s lib ertário s tem sido o discípulo a m eri­
cano d e Mises, M urray R o th b a rd (Man, Economy and State, M enlo
Park, C alifórnia: In stitu te fo r H u m a n Studies, 1970).
O s p alad in o s liberistas franceses são G uy S o rm a n (La soluííon
libérale [Paris: Fayard, 1984]) e H e n ri L ep ag e (Demain le libéralisme
[Paris: Livre d e P oche, 1980]). S erg e-C h risto p h e K olm (Le contrat
social libéral [Paris: PUF, 1983]) é m ais igualitário, e n q u a n to Jean -
M arie Benoist (Les outils de la liberte [Paris: Laffont, 1985]) te n d e antes
p a ra u m a vizinhança n e o c o n se rv a d o ra d e p e n sa m e n to . O s neoli-
berais franceses a in d a n a casa d o s 40 an os fo ra m p re c e d id o s pela
o b ra prolífica d e Jean-F rançois Revel, u m crítico a rg u to d o totali­
tarism o e d o estatism o; mas, co m ex ceção d e B enoist, d isc u te m o
liberalism o d e p re fe rê n c ia c o m o u m a p rá tic a social a o invés d e
abordá-lo em suas prem issas filosóficas. A política liberal ta m b é m
foi revista n a In g laterra p o r G eorge W atson em Theldea ofLiberalism:
Studies fo r a New M ap o f Politics (L o n d res: M acm illan, 1985) e n a
A m érica p o r R o b e rt B. R eich em The Resurgent Liberal a nd Other
Unfashionable Prophecies (N ova York: R a n d o m H o use, 1989). Final­
m ente, vale a p en a m encio n ar q u e alguns desenvolvim entos na assim
ch am ad a filosofia p ó s-m o d e m a (rataram d a n atu re z a d e u m a cu ltu ­
r a liberal, m ais c o n sp ic u a m e n te ria o b r a re c e n te d o filósofo a m e ri­
can o R ich ard R orty (Contingency, Irony and Solidarity [C am b rid g e
U niversity Press, 1989]).
índice

Absolutismo, problemas políticos na,


Hobbes sobre, 67 124-125
Polizeistaat e, 133 Aristocracia, Ortega e, 144
Tocqueville sobre, 8 8 Aron, Raymond, 197-200
veja também Despotismo Autogoverno, local, Tocqueville
esclarecido sobre, 92
Acton, lorde, 113-114 Auto-interesse, no lluminismo,
Acúrsio, sobre dominium, 41 teoria econômica do, 55-56
Alain, 165-166 Autonomia, tipos de, 21, 22
Alberdi, Juan Bautista, 119, opinião autotélica de Mill
121-124 sobre, 99
Alemanha, Auto-realização, liberdade de, 23
liberalismo de esquerda na, veja também Autotelia; Bildung;
167-170 Liberdade
teoria da liberdade na, 30-32 Autoridade,
teóricos do século XIX, 82-83, fontes de legitimidade da, 83
fundada no consentimento, 44
132-139
limitações institucionais da,
América,
84-85
populismo lockiano na, 73
Montesquieu, como regular o
republicanismo na, 70, 71,
exercício da, 50
73-74
nação como fonte de, 107
veja também Estados Unidos (da reação liberal à, 17
América) Rousseau e, 30
América do Sul, Alberdi sobre Autoritarismo, de Fiditc, 82-83
movimentos dc libertação na, Autotelia, 31-32, 62
122 Bildung e, 132
Anarquismo, de Godwin, 117 liberais ingleses e, 164
Argélia, ocupação da, liberais
franceses e a, 183, 184 Bagehot, Walter, The English
Argentina, Constitution, 115
liberalismo na, 119-126 Bell, Daniel, sobre Rawls, 208

249
''() O liberalismo - antigo e moderno

licniham, Jeremy, escola Carlyle, Thornas, sobre


ulilitarista de, 78-81 utilitarismo, 95
líerlin, Isaiah, 186-188 Cassirer, Ernst, 168
“Dois conceitos de liberdade”, Ceticismo, político, no
25 conservadorismo inglês, 1 1 0
Bildung, 82, 132, 153 Chartier, Émile. Veja Alain
conceito alemão de liberdade Ghevalier, Michel, Alberdi e,
e, 31 121-122
Blackstone, William, crítica de Cícero, Marco Túlio,
Bentham a, 79 De officiis, 39
Bobbio, Norberto, 205, 210-218 De republica, 39
Dálla struttura alia funzione, Comércio,
214, 215 do ponlo dc vista do
Estado, governo, sociedade, 213, Iluminismo, 56-58
215 liberalismo e sociedade
O futuro da democracia, 2 1 1 comercial, 94
Qual socialismo?, 212 veja também Burguesia
sobre liberdade negativa e Competição, papel da, no
positiva, 26 liberalismo clássico, 2 0
Bodin, Jean, Republique, 29 Comte, Auguste, Mill e, 100
Bolingbrooke, visconde de, 70 IComuna Vermelha dc Paris. Veja
Bolívar, Simón, 76 França ;'
Bonaparte, Luís Napoleão, 127 Comunismo, Herzen sobre, 104
Bosanquet, Bernard, 164 Condorcet, marquês de,
Bouglé, Célestin, “La crise du democracia plebiscitaria do, 78
libéralisme”, 159 filosofia republicana do, 60-61
Bradley, Francis Herbert, 164 Consciência,
Buchanan, James, 195 direitos individuais e, 37
Burguesia, liberdade de, 23
Herzen sobre, 103 Consentimento,
Tocqueville sobre, 90-91 como origem da autoridade
Burke, Edmund, 111 legítima, 44
Burocracia, Weber sobre, 137 legitimidade do governo e, 44,
Butler, Samuel, Hudibras, 6 6 209
segundo Locke, 45
Campbell, Colin, The Romantic segundo Nozick, 209
Ethic and. the Spirit of Modern teoria do, 6 8
C.oimtmrrism, (>2 ( lonsei vadori.smo,
Canms, Albrit, 183-185 I layek sobre, 103
Capitalismo, Inglaterra e continente
do ponto de vista do comparados, 1 1 0 - 1 1 1
Iluminismo, 56 na Alemanha, 134
Hobson sobre, 161 veja também Conservadorismo
veja também Comércio liberal; Tory, partido
Carisma, teoria de Weber sobre, Conservadorismo liberal, na
137 Grã-Bretanha, 110-114
ín d ice 251

Constant, Benjamin, Croce e, 140


Liberdade antiga e moderna, 25 definição tocquevilliana de, 91
limites institucionais da direta, 2 1 0
autoridade, 85 Hayek sobre, 193
sobre autoridade legítima, 30 liberais conservadores e, 149
sobre o espírito comercial, liberal, a partir da década de
90-01 1870, 1H
sobre o Estado, 133 Mill sobre, 96
sobre o juste milieu, 18 origens intelectuais da, 78-79
Constitucionalismo, 46-47 Ortega sobre, 143
no liberalismo clássico, 46 Popper sobre, 180
nos Federalist Papers, 75 Renan sobre, 130
princípios mais importantes Sièyes sobre, 83
do, 17 Spencer e, 118-119
Construtivismo, 59 W eber e, 138
crítica de Hayek ao, 190 Desemprego, D ahrendorf sobre,
Contra-Reforma, direito natural 204
e a, 41 Despotismo,
Contrato social, da maioria, 75, 91, 96
Bobbio sobre, 216 esclarecido, 51
direito natural e, 41, 43, 45 Dewey, John, 172-174
Rawls sobre, 205 Human Nature and Conduct, 172
veja também Contratualismo Individualism Old and Neiv, 172
Contratualismo, Dicey, Albert V., 151
Bobbio sobre, 216 The Law of the Constitution, 46
Estado social e, 215-216 Dicionário político (Rotteck e
Hobbes sobre, 67 Welcker), 134
veja também Contrato social Digesta, definição de liberdade no,
Corporação, origens da, 160 40
Croce, Benedetto, 139-143 Direito, como instrumento do
poder estatal, 51
Dahrendorf, Ralph, 196, 200-205 veja também Lei
As classes sociais e seus conflitos Direito canônico,
na sociedade industrial, 2 0 1 constitucionalismo no, 47
“Incerteza, ciência e origens do, 47
democracia”, 2 0 1 Direito natural,
Life Chances, 202 comércio e, na opinião de
Thr Modrrn Sncial ('miftirt, '202 Sinilh, 57-58
Dai winismo .social, 115, 1 1 H -I 10 iiio<!<*l'iia l e o r i a d e d i r e i t o s e,
liberalismo social e, 151-152 39 -45
Democracia, D ireito R o m a n o ,
Alain sobre, 166 influência na teoria européia
Bagehot sobre, 115 do Estado, 50
Bobbio sobre, 210-212, 213 liberdade no, 39-41
conseqüências econômicas da, Direitos,
177 m odernidade e, 36-39
O liberalismo - antigo e. moderno

sociais, Aron sobre, 199 Ferry sobre o, 156-157


teoria do direito natural e, Green sobre o, 153
39—15 Humboldt sobre o, 132
veja também Direitos humanos na sociedade industrial, 199
Direitos humanos, Nozick sobre o, 208-209
conservadorismo alemão e, 134 o indivíduo e o, 32-33
liberdade como intitulamento poder do, e liberdade, 6 6
e, 22-23 Spencer sobre o, 117
no liberalismo clássico, 3C> teoria de Bobbio sobro o,
veja também Direitos 212-216
Divisão de poderes, teoria de Jellinek do Estado
como demarcação da dividido, 168
autoridade estatal, 17 teoria de Kelsen sobre o,
segundo Bobbio, 213 168-170
Dominium, 40, 4-5 Weber sobre o, 136
“Doutrinários”, 85 veja também Autoridade
Dreyfus, questão, 158 Estado policial.
Duguit, Léon, 160 Veja Polizeistaat
Durkheim, Émile, 158-159 Estados Unidos (da América),
Durkheimiana, escola, 159-160 Albcrdi sobro os, 121
Dwoikin, Ronald, sobre Rawls, liberalismo nos, 171
207 liberal-socialismo nos, 2 0
partido whig nos, 77-78
Economia, Sarmiento sobre os, 120
liberalismo clássico e, 35-36 Ética, grupo de Bloomsbury e a,
política e, no século XX, 175
188-189 Evangelismo, justificação do
teorias iluministas de, 53-58 liberismo, 63
veja também Capitalismo; Evolucionismo,
Comércio: Investimento de Hayek, 191
l'l<Mu ai.aii, tnmhein I >ai wiiii.snn >Miri.il
segundo Renan, 13 1 F.xisteiieialismo, de Camus c
segundo Sarmiento, 121 Sartre, 183-184
Einaudi, Euigi, sobre sociedade Expressão, liberdade de, na Grécia
liberal, 19 antiga, 2 1
Elite, Ortega sobre a rejeição
moderna da, 143 Fascismo, Croce e o, 141
Escolha pública, teoria da, 188, Federalismo, nos Federalist Papers,
195 74
Espanha, liberalismo na, 143-148 Federalist Papers, The, 73-74
Estado, Ferguson, Adam, sobre “sociedade
aristocracia e, segundo Ortega, civil”, 53
144 Ferry, Jules, 156-157
Constant sobre o papel do, 133 Feudalismo,
deificação hegeliana do, 82 opinião romântica dos
durkheimianos e o, 160 conservadores sobre, 112-114
índice 253

origens do constitucionalismo conservadorismo liberal na,


no, 46 109-114
Tocqueville sobre, 8 8 Crise da Exclusão (c. 1680), 67
Fichte, Johann, 82 Guerra Civil na, 6 6
Figgis, j. H., sobre as fontes do liberalismo conservador na,
constitucionalismo, 46 115-119
Filtner, sir Robert, Patriarca, 67 liberalismo de esquerda na,
Fisiocratas, 51 174-178
França, liberalismo social na, 151-155,
Comuna de 1870, 130 156-165
conceito de poder estatal, Revolução Gloriosa, 16, 113
32-33 teoria da liberdade na, 27
liberalismo de esquerda na, teóricos do século XIX, 95-101
165-166 Grécia, antiga, liberdade de
liberalismo do após-guerra e expressão na, 24
Aron, 199 Green, Thomas Hill, 152-155
liberalismo inglês clássico Grotius, Hugo, De iure belli ac
comparado, 1 0 0 - 1 0 1 pacis, 42
republicanismo liberal na, Gui/.ot., François, 86-87
155-160
Revolução de 1830, Guizot e a, Halévy, Elie, The Era of Tyrannies,
86-87 198
teoria da liberdade na, 28-30 Hallam, Henry, 113
teóricos do século XIX, 83-87, Hamilton, Alexander, 73-74
126-132 Harrington, James, Oceana, 70
veja também Revolução Ilayek, Fricdrich August von,
Francesa 188-196
Frederico o Grande, rei da Bobbio sobre, 218
Prússia, Essay on the Eorm of Law, Legislalion and Liberty,
(Uwmnnml and the fhities of 101-192
Sirortt’i/>ns, í>I <>raminho da snvidim, 10 0
Freud, Sigmund, Os fundamentos da liberdade,
I layek sobre, 192 190, 193
Kelscn sobre, 170 Hegel, G. W. F.,
Friedman, Milton, ('ajiilalismo e IHIttsofia do direito, rejeição do
liberdade, 191 contrato social, 82
Hobhouse sobre, 164
C.entile, Giovanni, 141-142 sobre o cristianismo e
Gneist, Rudolf von, Der individualidade, 37
Rechtsstaat, 134-135 sobre o Estado, 31
Gobetti, Piero, 166 Hegelianismo,
Godwin, William, 117 Green e o, 152
Governo responsável, conceito na Grã-Bretanha, 164
inglês de, 77-78 Helvécio, igualitarismo de, 79
Grã-liretanha, Herzen, Alexander, 101, 102-104
conceito de poder estatal, 32 Ends and Beginnings, 103
254 O liberalismo - antigo e. moderno

Leltrrs to an Old C.omradc, 10-1 Individualidade,


Historicismo, modernidade e, 37
crítica de Berlin ao, 186-187 segundo Hegel, 37
crítica de Popper ao, 178 segundo Mill, 62, 98
Croce e o, 139 veja também Individualismo
do liberalismo francês, 126 Individualismo,
Hobbes, Thomas, Bentham sobre, 77-80
De eive, 43, 6 6 como valor whig, 76
Leviatã, 44, 67 durkheimianos e, 159-160
sobre liberdade e autonomia, liberais-sociais franceses e,
27 158-160
Hobhoúse, Leonard, 161, Mill sobre, 98-99
162-163 Orwell sobre, 183
Liberalism, 163 romantismo e, 61-62
Hobson.John, 161 Tocqueville versus Guizot e
Imperialism, 162 Constant, 89
Work and Wealth, 161 Indivíduo, o Estado e o, 32-33
Hugo, Victor, sobre o Industrialismo,
romantismo, 61 Aron sobre, 197, 199
Humanismo cívico, 57-58 atitude de Tocqueville para
liberalismo clássico e, 105-107 com o, 93
na Inglaterra, 69, 70, 76 D ahrendorf sobre, 202
Tocqueville e o, 91, 94 Inglaterra. Veja Grã-Bretanha
Humboldt, barão Wilhelm von, 82 Instrumentalismo, de Dewey, 172
o Estado como “vigia noturno”, Intitulamento,
132 conceito de, 203
On lhe Limits of State Action, 30 liberdade como, 2 2
Hume, David, 52 Investimento, teoria de Keynes
sobre, 176-177
Idealismo, no pensamento de Jsegoria, 24
Green, 153 Itália,
Iluminismo, ; liberalismo conservador na,
jacobinismo e, 60-61 I 139-143
liberalismo e, 49-61 liberalismo de esquerda na,
na Inglaterra, 73 166-167
veja também Iluminismo escocês liberalismo do século XIX e
Iluminismo escocês, 17 nacionalismo na, 1 0 1 - 1 0 2
“história filosófica”, 53-54 Ius, 45
Imigração, ponto de vista liberal conceito romano tardio de, 40
latino-americano de, 1 2 0 - 1 2 2 , Suárez sobre, 42
124
Imperialismo, os liberais-sociais e Jacobinismo, tirania da virtude
o, 161-163 sob o, 60-61
Independência, Jaurès, Jean, 19
segundo Tocqueville, 91 i Jefferson, Thomas, agrarismo de,
veja também Liberdade 74
índice 255

Jellinek, Georg, 135 Liberalism o de esquerda,


José II da Áustria, imperador, na Alemanha, 167-170
revolução a partir de cima, 60 na França, 165-166
Jusnaturalismo, 40, 43 na Grã-Bretanha, 174-178
veja também lus na Itália, 166-167
Justiça, crescimento econômico e, Liberalismo social, 101-104
57-58 na França, 155-160
Justiça social, teoria de Rawls na Grã-Bretanha, 151-155,
sobre, 206 160-165
Justiniano, Flávio Petro Sabácio, Liberdade,
Corpus Juris Civilis, 40 Alberdi sobre, 122-123
Berlin sobre, 187-188
Kant, Immanuel, sobre autotelia, como intitulamento, 22-23
31 de consciência, 23
Kelsen, Hans, 167-170 definição segundo o Direito
Sozialismus und Staat (Socialismo Romano, 40
e o Estado), 169, 170 de opressão, 2 2
Von Wesen und Wert der de participação, 23
Demokratie (Da essência e do econômica, veja Liberismo
valor da democracia), 170 estrutura industrial do Estado
Keynes, John Maynard, 165, 174 e, 199
A teoria geral do emprego, do juro Green sobre, 153
e da moeda, 176 Hobhouse sobre, 163
Essays in Persuasion, 174 indivisibilidade da, 191
Kramnick, Isaac, sobre o Mill sobre, 98
republicanismo do século negativa versus positiva, 25, 26
XVIII, 72; para Hayek, 195
poder estatal e, 6 6
Laband, Paul, 135 política, 23, 27
Laboulaye, Edouard, 128 religião e, 84
Lafer, Celso, 216 social, 2 2
Latitudinarismo moral, do partido sociedade comercial e, 56
whig, 76 í teoria de Croce sobre, 142-143
Legitimidade, 47 teorias nacionais da, 27-32
Lei, j Tocqueville sobre, 90-93
Kelsen sobre o Estado e a, 168 Weber sobre, 138
Locke sobre o governo da, 50 Liberismo, 49, 218
veja também Direito; Rechtsstaat como valor whig, 76
Leroy-Beaulieu, Paul, L ’Etat Croce sobre liberalismo e, 141
modeme, 158 Green sobre, 154
Liberalismo j Hayek e, 191-193
definição de Ortega sobre, 15 Keynes e, 174
nos Estados Unidos, 20 progresso e, 59
origem dò, 16 protestam ismo e, 63
veja também Liberalismo de os sociais-liberais franceses e o,
esquerdaj Liberalismo social 158
;? '> 6 O liberalismo - antigo e moderno

ulilitarismo e, 81 Croce e o, 139


I .ibertarianismo, | Kelsen sobre, 168-169
Rerlin e, 187 | polêmica de Bobbio com o,
como legado do liberalismo 212-213
clássico, 109 Massa, o homem da, Ortega sobre
influência de Mill sobre o, 99 o, 145
no liberalismo iluminista, 59 Mazzini, Giuseppe, 101-102, 103
Locke, John, Croce sòbre, 140
Carta acerca da tolerância, 39 Mercado, Hayek sobre, 189
Dois tratados sobre o governo, 6 8 Michelet, Jules, História da
Segundo tratado sobre o governo, revolução: da queda da Bastilha à
sobre direitos naturais, 45 festa de federação, 126
sobre civilização e Mill, James, 81.
prosperidade, 54 Essay on Government, 97
sobre o contrato social, 43 Mill, John Stuart, 95-101 1
sobre o governo da lei, 50 Autobiography, 95
Luta de classes, Considerations on Representative
segundo Dahrendorf, 201, 204 Government, 97
veja também Marxismo On Liberty, 96, 98
Lulcro, Murlinho, Milton, John, “Aeropagitit::!”, ;IH
Ritsch sobre, 38 Minogue, Kenneth, The Liberal
sobre a pecaminosidade Mind, 59 :
humana, 41 Míses, Ludwigvon, 189
Luxo, Modernidade, Weber sobre, 137
debate iluminista sobre o, 55 Mohl, Robert von, 133
segundo os philosophes, 54 Monarquia,
centralização da, 29
Macauley, Thomas, 113 limitada, 18
Madariaga, Salvador de, Monismo, rejeição de Berlin ao,
Anarquia ou hierarquia, 185 . 187
De la angustia a la libertad, 185 Montague, Francis Charles, 151
Madison, James, 74- Montalembert, conde Charles de,
Maine, sir Henry, 113 128
Maitland, Frcderick William, Montesquieu, Charlcs-Louis de
origem da corporação, Secondat, barão de,
160-161 Do espírito das leis,
sobre o parlamento medieval, sobre a liberdade, 24
46 sobre a sociedade inglesa,
Maquiavel, Discursos sobre Tito 19
Lívio, 70 sobre como regular o
Marshall, T. H., Citizenship and exercício da autoridade, 50
Social Chvis, 200 influência de, 83
Marsílio de Pádua, Defensor Pacis, sobre a igualdade em
44 monarquias, 91
Marxismo, sobre a separação de poderes,
Camus sobre, 184-185 75
índice 257

sobre o espírito comercial, 90 Paley, William,


Moore, G. E., 175 Natural Theology, 63
Moralidade, The Principies of Moral and
polêmica entre Dewey e Political Philosophy, 39
Trotsky sobre, 173-174 Parlamento, papel medieval do, 46
veja também Ética ■ Participação, liberdade de, 23
Mundo clássico, Smith sobre o Particularismo. Veja
fundamento econômico do, 57 Patrimonialismo
■I ' " Patriarcalismo, defesa da
Nação, como;fonte de autoridade monarquia e do, 68
política, 107 ‘ Patrimonialismo,
Nacionalismd,, ■■ rejeição de Alberdi ao, 123
l.viís Napoleão r, 127 Koiisseim e o, 28-2!)
na Alemanha, e liberalismo, Paulo de Tarso, sobre os direitos
82-83 i: ; dos cidadãos romanos, 22
Nicolet, CIaudc\ L 'Idée républicaine Pa/, Octavio, 185
en l-rance, .155 i■ Philosophes,
Nietzsche, Friedrích, Ortega crença na perfectibilidade do
infhicnciaçlo por, 145 ' homern, 49-50
Nlsbet, Robert, 19(i teorias «‘coiiAmicas dos, 54
Nomogênese,1Kelsen e a, 170 teorias políticas dos, 51
Nozick, Roberl, Anarquia, Estado o Pluralismo tle valores, 188 ■
utopia, 208 Berlin e o, 187
Pocock,John,
Oakeshott, Michael, sobre sobre o “whiguismo”, 72-73
construtivismo, 59 The. Machiavellian Mormnt,
Occam, Guilherme de, 44 sobre republicanismo clássico,
Oldenbarnevelt, Jan van, 42, 43 70
Opção pública. Veja Escolha : Poiesis,. 57
pública Política, na visão de Maquiavel,
Organicismo, , 70-71
de Madariaga, 185-186 Polizeistaat, 133
no conservadorismo inglês, 110 Popper, ICarl, 178-181, 186
Ortega y Gasset, José, 139-148 A lógica da pesquisa cientifica,
A desumanização da arte, 148 179
A rebelião das massas, 145 Poverty of Historicism, 178-^179
O tema moderno, 146, 148 Positivismo,
sobre o liberalismo, 15-16 Croce e o, 139
Orwell, George, 181-183 Kelsen sobre o, 19
A revolução dos bichos, 181 legal, 135
Inside the Whale, 183 Mill e o, 100
Mil novecentos e oitenta e ipiat.ro, Renan e o, 129
182 Praxis, 57 ' •
Progresso,
Paine, Thomas, sobre Soticdade e Alberdi sobre, 124
direitos naturais, 78 Hayek sobre, 190
258 O liberalismo - antigo e moderno

idéia do, 59-61 no século XVIII, 71


Propriedade, nos Federalist Papers, 74
Alberdi sobre, 123 os liberais-sociais franceses e,
como direito natural, 45 155-158
Green sobre, 154 Revolução,
Locke sobre, 45 Camus sobre, 184
Suárez sobre, 42 crítica de Ortega ao culto da,
Protestantismo, 146
evangélico, 63 Revolução de 1848, 96, 102
liberismo e, 62-63 Revolução Francesa,
Provisões, conceito de Burke sobre, 111
(Dahrendorf), 202, 203, 204 conceito de poder estatal e a,
33
Quinet, Edgar, La Révolution conservadorismo e a, 111
Française, 129 Guizot sobre, 86
Quinton, Anthony, liberais franceses c a, 126
sobre o conservadorismo liberais franceses tardios e a,
britânico, 111 93-94
sobre Popper, 181 Madame de Staêl sobre, 84
veja também Jacobinismo
Raciovitalismo (Ortega), 145 Ricardo, David, Princípios de
Rawls, John, Uma teoria da justiça, economia política, 81
206 Risorgimento,
Raz, Joscph, The Morality of Croce sobre o, 140
1'rrnlom, 18H Ma/.zini c o, 102
Realização pessoal, liberdade de. Rit.schl, Albeit, sobre Lulero, 38
Veja Auto-realização; Autotelia Romantismo,
Rechtsstaat, 132-135 liberalismo e, 61-64
Reconquista, Ortega sobre a, 144 Mill e, 95-96
Reforma, Rosselli, Cario, 167
individualismo e a, 37 Rotteck, Karl von, 13'1
legitimação da dissidência Rousseau, JeanJacques,
religiosa, 23 Constant sobre, 85
protestante, 48 Contrato social, sobre a
Religião, liberdade, 25, 28, 29
Burke e, 112 Discurso sobre a origem e os
conservadorismo e, 128 fundamentos da desigualdade
c o Estado, Hobbes sobre, entre os homens, 53
66-67 Émile, 50
Rémusat, Charles de, 126-127, nação como sede da
128 autoridade, 107
Renan, Ernest, 129-132 Royer-Collard, 85, 86
Renouvier, Charles, 156, 157-158 Ruggiero-, Guido de, History of
Republicanismo, European Liberalism, 32
na América, 52, 105 Rússia, teóricos do século XIX,
na França pós-1848, 127 101-104
índice 259

Saint-simonismo, Mill e o, 95 Stephen, James Fitzjames, Liberty,


Sarmiento, Domingos, 119-121, Equality, Fratemity, 116
123 Stubbs, William, Constitutional
Facundo: civilização ou barbárie, History of Medieval England, 46
119-120 Suárez, Francisco, De Legibus ac
Sartre, Jean-Paul, Camus e, 183 Deo Legislatore, 42
Schmitt, Carl, Subconsumo, teoria de Hobson
Constitutional Theory, 17 sobre, 161-162
Der Hüter der Verfassung (O Sufrágio universal, 18, 97
guardião da Constituição), 169 Summer, William Graham, 119
Sen, Amartya, 202
Servetus, Miguel, 37 Taxação, redistributiva,
Siedentop, Larry, sobre o Hobhouse e, 163
liberalismo clássico, 100 Hobson e, 162
Sieyès, padre, conceito de Taylor, Charles, 25
legitimidade, 83 Textos Federalistas. Veja The
Simon, Jules, 155-156 Federalist Papers
Sistema inglês de governo, 16 Thiers, Adolphe, 127
Smith, Adam, A riqueza das nações, Thomas, Keith, sobre a discussão
53-58 política do século XVII, 72
Soberania popular, 84, 85, 86 Tierney, Brian, raízes do
veja também Autoridade constitucionalismo, 47
Socialismo, Tirania, da maioria. Veja
colapso na década de 1980, 19, Despotismo, da maioria
217 Toc<i<irville, Alexis de, 87-95
liberal, nos KUA, 20 A deviocracia na América, 8!)
Mazzini e o, 102 Mill sobre, 96-98
Ortega e o, 147 O antigo regime e a revolução, 88,
rejeição de W eber ao, 138 90
Sociedade, segundo Ortega, 143 Tolerância religiosa, Reforma
“Sociedade aberla” (Popper), protestante e, 38, 39
179-180 Tory, partido,
“Sociedade civil”, origem do, 67
legitimação histórica da, 37 perspectiva histórica do, 113
significado no Iluminismo, 53 Totalitarismo,
Sociologia, Aron sobre, 200
ideologia política e, 196-197 historicismo e, 179
liberalismo francês e a, 158 Tradiciohalismo, no
Spencer, Herbert, 116-119 conservadorismo inglês, 110
Bobbio sobre, 218 Treitschke, Heinrich von, 142
The Man versus the State, 118 Tribalismo, Popper sobre, 179
Staél, Madame Germaine de, Troeltsch, Ernst, sobre a Reforma,
Considérations sur la Révolution 38
Française, 84 Trotsky, Leon, Dewey e, 173
Stahl, Friedrich Julius, Filosofia do
direito, 134 Ulpiano, Instituta, 40
260 O liberalismo - antigo e lIlodrrno

UnamUl1o, Miguel de, 145-146 Weber, Max, 13G-139


Utilitarismo, G2 "Política como vocaç,io", 137
crescente conservadorismo do, Weimar, República de,
116 Dahrendorf sobre, 201
crítica de Green ao, 153 liberalismo de esquerda na,
democracia e, 78 167
liberalismo clássico e, 106 Welcker, Karl, 134
ol~jeçôes de Spencer ao, 117 WesJeY,John, G2
reforma social e, 79 Whi,li, partido,
teoria do contraio social de nos EUA, 77-78
Rawls e, 205, 207 origem do, 67
veja tarnbérn Bentham,jeremy Whiguismo,
antiahsolutismo e, 69
Vacherot, Étienne, 155 liberais conservadores e, 148
Valores, pluralismo de. Veja liberalismo e, 76-78
Pluralismo de valores liberalismo clássico e, 105
Vocação, teoria de, Weber sobre, Pocock sobre, 72
137 Yeats sobre, 105
Volpe, Galvano delI a, 212
Voltaire, Traité .I'ur la toltirana, 3D Yeats, William Butler, sobre
Vontade, consentimento e,44 whiguismo, 105·