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Cadernos de Psicanálise – SPCRJ, v. 33, n. 1, p.

63-71, 2017

Artigos

Somos todos adotados? Parentalidade, família e filiação


Rosa Guedes Lopes,I, * Tania Coelho dos SantosII
I
Psicanalista. Pós-doutorado (PNPD/CAPES) no Programa de Doutorado em Psicanálise, Saúde e Sociedade/UVA
(Rio de Janeiro, Brasil). Doutorado em Teoria Psicanalítica/PPGTP/UFRJ (Rio de Janeiro, Brasil). Membro da
Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental/AUPPF (Brasil). Vice-presidente do Instituto
Sephora de ensino e pesquisa de orientação lacaniana/ISEPOL (Rio de Janeiro, Brasil).
II
Psicanalista. Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental. Presidente do
Instituto Sephora de Ensino e Pesquisa de Orientação Lacaniana/ISEPOL (Rio de Janeiro, Brasil). Psicanalista Membro
da École de La Cause Freudienne, da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise, Brasil

Resumo: O artigo trata das filiações natural e adotiva na teoria e na clínica psicanalítica a partir dos desdobramentos de uma
interrogação mais ampla sobre os efeitos da revolução cultural e sexual subsequente aos acontecimentos de maio/1968. A
psicanálise define a família como efeito do desejo sexual decorrente da incidência dos complexos de Édipo e de castração no
homem e na mulher. Por isso, se contrapõe às ideologias revolucionárias que pregam a filiação afetiva e a paternidade sociológica.
Nas famílias naturais, em que os filhos são concebidos através da relação sexual, o exercício da autoridade parental funda-se na
certeza de um direito instituído pelo laço de sangue e não apenas pelo desejo e pelo amor. Como os pais adotivos se autorizam a
exercer a função de pai e de mãe? Esse ponto merece cuidado, pois não é possível abolir as consequências das diferenças relativas
ao modo como uma criança é concebida.

Palavras-chave: Psicanálise; adoção; parentalidade; família; filiação.

Are we all adopted? Parenting, family and filiation


Abstract: The article deals with natural and adoptive affiliations in theory and practice on the psychoanalytic clinic, from the
unfolding of a broader question about the effects of the cultural and sexual revolution subsequent to the events of May 1968.
Psychoanalysis defines the family as an effect of sexual desire resulting from the incidence of Oedipus and castration complexes
on both man and woman. Therefore, it opposes the revolutionary ideologies that preach the affective affiliation and the
sociological paternity. In natural families, in which children are conceived through sexual intercourse, the exercise of parental
authority is founded on the certainty of a right instituted by the bond of blood and not just by desire and love. How do adoptive
parents authorize themselves to perform the function of father and mother? This matter deserves carefulness, for it is not possible
to abolish the consequences of differences concerning the way a child is conceived.

Keywords: Psychoanalysis; adoption; parenting; family; filiation.

A questão que dirigiu esta pesquisa sobre a prestígio de filosofias antimetafísicas que rejeitam
filiação na teoria e na clínica psicanalítica foi extraída toda referência à ideia de homem ou de universal,
dos desdobramentos de uma interrogação mais bem como dissolvem a definição tradicional da
ampla acerca dos efeitos da profunda revolução verdade como adequação à coisa. Acrescentaríamos
cultura e sexual que sobreveio aos acontecimentos de uma outra observação sobre a interpretação da lei
maio de 1968 em todo o mundo. O aspecto mais geral como proibição, no rastro desta desconstrução dos
e mais importante desta pesquisa foi observado por universais, que conduziram as diferenças geracionais
Ferry e Renault (1988), em sua análise acerca do e sexuais a serem sumariamente revogadas. Os
pensamento 68. Diz respeito ao crescimento do efeitos de um mesmo refrão – “é proibido proibir” –

* Endereço para correspondência: Universidade Veiga de Almeida. Rua Ibituruna - lado par – Maracanã. Rio de Janeiro, RJ – Brasil. CEP: 20271020. E-mail:
r.guedeslopes@gmail.com, taniacs@openlink.com.br
Rosa Guedes Lopes, Tania Coelho dos Santos

são a crescente e metonímica reivindicação do feminina lutava para ultrapassar os limites impostos
reconhecimento de novos direitos, que nenhuma às formas de vida possíveis, reduzidas até então à
ordem jurídica está à altura de garantir. Quanto mais, família tradicional. Aqueles indivíduos que aderiram
mais. E mais ainda... aos movimentos libertários do final dos anos 1960
A ordem jurídica tinham o objetivo de escapar ao destino único, quase
obrigatório, de casar-se e ter filhos. Os papéis sociais
A constituição brasileira de 1967 entendia que
tradicionais eram recusados por constrangerem a
uma família somente constituía-se quando era
liberdade de viver e de experimentar diferentes
precedida pelo casamento indissolúvel de um homem
modos de estar com os outros e de compartilhar a
e uma mulher. Observe-se que a constituição zelava
vida sexual e social (COELHO DOS SANTOS, 2001,
pela manutenção da ordem social. As
2008). Na era da contracultura, vale lembrar a
responsabilidades civis para com os cidadãos – tais
ousadia do Festival de Woodstock, nos EUA, e o
como: saúde, educação, assistência aos incapazes –
ineditismo das sociedades alternativas como a Vila de
assentavam-se nas relações de parentesco. Pela
Arembepe (Camaçari, BA), onde foi fundada a
emenda constitucional de 1977, a separação dos
primeira e mais famosa aldeia hippie do Brasil. A
cônjuges tornou-se possível desde que “comprovada
revolução cultural e sexual parecia anunciar o fim da
em juízo, e pelo prazo de cinco anos, se fosse anterior
família hierárquica tradicional baseada em laços
àquela data”. O direito à separação dos casais
consanguíneos.
implicou num afrouxamento das obrigações
Hoje é, no mínimo, curioso constatar que todo
parentais. Elas precisam ser estabelecidas em
aquele anseio por novos modos de ser e de viver que
acordos judiciais relativos à guarda das crianças e o
não imitassem o modelo tradicional refluíram.
provimento de suas necessidades por meio de
Observamos que são muitos os indivíduos que estão
pensões. Na constituição de 1988, a definição do
tentando reviver os papéis antigos, tão duramente
núcleo familiar mudou. Foram reconhecidas como
criticados, para adaptá-los às novas modalidades de
entidades familiares tanto a “união estável entre
parcerias sexuais e de constituição do laço familiar.
homem e mulher” quanto “a comunidade formada
Tudo se passa como se aqueles antigos papéis
por qualquer dos pais e seus descendentes”.
pudessem ser deslocados de seu contexto social para
Redefiniu-se a família como o produto seja de uma
se encaixarem nos novos comportamentos sexuais e
união heterossexual estável, seja do laço entre um
sociais. Será que as roupas que os hippies inventaram
dos genitores e seus filhos. Apesar de a Constituição
para simbolizar sua liberdade em relação à sociedade
de 1988 quebrar o paradigma da indissolubilidade do
de consumo vestiriam bem os corpos sarados,
casamento enquanto o único modo de legitimar a
malhados das academias, nos dias de hoje? O que
formação de uma família, manteve os princípios tanto
caracteriza a moda e o estilo de vida hoje em dia é
a diferença sexual, quanto da diferença geracional.
algo do tipo “tudo junto e misturado”. Embora uma
Embora esta definição de família retratasse a
vestimenta simbolize valores dominantes numa certa
célula do laço social, não obrigava ninguém a viver
época e o modo de vivê-los, praticá-los, transmiti-los
deste modo, nem impedia que se inventassem outras
a outros indivíduos, pode-se deslocá-la de seu
maneiras de ser e de viver tais como as dos
contexto e encaixá-la em outro completamente
celibatários, a dos casados sem filhos ou a dos
diferente. Embora certos valores sejam estabelecidos
solteiros com vários parceiros sexuais, inclusive do
a partir de um certo consenso social, pode-se esvaziá-
mesmo sexo. Não era o caso – no que se refere a estes
los de seu sentido e reutilizar seus símbolos como
indivíduos - de constituir novos tipos de famílias, mas
peças avulsas. Tradicionalmente, não se ia ao cinema
de inventar e manter estilos de vida diferentes da
vestido como se fosse à praia. Esse comportamento
família hierárquica, monogâmica e patrimonialista
foi forjado no consenso, no bom senso social.
burguesa. Estes indivíduos desejavam, talvez, novos
Atualmente, por exemplo, no Colégio Pedro II11, um
laços sociais sem assimetria ou hierarquia de papéis
reitor enfurecido com o impeachment da ex-
sociais e sem a obrigatoriedade da monogamia na
presidente Dilma Rousseff, manifesta seu repúdio ao
união conjugal. No início dos anos 60, o movimento
golpe parlamentar (o famoso libelo: Fora Temer!)
pela liberação da sexualidade e pela emancipação

1 Disponível em: <http://g1.globo.com/rio-de- uniforme-escolar-por-genero.html>. Acesso em: 24 set. 2016.


janeiro/noticia/2016/09/colegio-pedro-ii-acaba-com-obrigacao-de-

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abolindo a distinção do uniforme escolar em civilização e não aplaudimos necessariamente toda


conformidade com o sexo. Meninos e meninas, e qualquer mudança de costumes.
segundo o novo dress code, poderão vestir-se de No que se refere à família, caminhamos
acordo com sua preferência, com calças compridas ou rapidamente na direção da “filiação afetiva” e da
com saias. Também não devemos mais nos referir a “paternidade sociológica” em detrimento do vínculo
eles como o aluno ou a aluna, conforme seu sexo. São biológico ou “natural”. Hoje, muitos indivíduos
alunx, isto é, indivíduos cujo sexo é indeterminado. acreditam que o afeto é muito mais importante do
O reitor do Colégio Pedro II não inventou esta que o vínculo biológico para a constituição das
fluidez de identidades sexuais. O século XXI - relações de parentesco (NERI, 2014; MARTINS, 2016).
diferentemente dos séculos XIX e grande parte do Alguns autores chegam mesmo a afirmar que os laços
século XX - caracteriza-se pela emergência de uma afetivos são “os verdadeiros laços que tornam alguém
forte horizontalidade e “liquidez” nos laços afetivos um ‘pai’.” (NERI, 2014).
e sexuais, além de uma crescente customização do Na contramão destas ideologias revolucionárias,
uso dos papéis sociais. O psicanalista Jacques-Alain nossa experiência como psicanalistas,
Miller fez uma leitura deste estado de nossa frequentemente, não nos permite dar o nosso aval a
civilização ocidental por meio do axioma: o Outro este modo de pensar. Para esclarecer este ponto de
não existe (MILLER et al., 2005). Viveríamos, vista, neste artigo vamos nos limitar a tratar do
segundo ele, num tempo aberto a todas as problema da adoção e da filiação natural. As famílias
redefinições de nossas identidades, sem o lastro da naturais são aquelas constituídas por casais que se
tradição e sem que a função norteadora do Nome- conheceram, se casaram, engravidaram por meio de
do-Pai nos oriente. Esta tese, em que pese sua uma relação sexual e acreditam que seus filhos,
extraordinária capacidade de explicação do bem- concebidos por meio da reprodução sexuada, se
estar e do mal-estar na contemporaneidade, não faz parecem com papai ou mamãe. O exercício da
justiça à parte considerável da humanidade que não autoridade parental funda-se na certeza de um direito
compartilha esta visão de mundo. Embora os instituído pelo laço de sangue e não apenas pelo desejo
movimentos sociais que se seguiram aos e pelo amor. Quanto aos pais adotivos, como se
acontecimentos de maio de 1968 em vários lugares autorizam a exercer a função de pai e de mãe? Esse é
do mundo tenham contribuído para erguer uma um ponto que merece ser abordado com cuidado. Não
revolução cultural (COELHO DOS SANTOS, 2016b), é possível abolir as consequências das diferenças
ela não se impôs a todos hegemonicamente, nem relativas ao modo como uma criança é concebida.
pode abolir as forças inconscientes em que Vamos analisar essa questão à luz da perspectiva
repousam as diferenças sexuais e geracionais. dos filhos. A experiência analítica ensina que, quando
Fenômenos políticos recentes, tais como a eleição as crianças percebem que seus pais não são
de Donald Trump nos Estados Unidos, o Brexit na exatamente como elas gostariam que fossem, fazem
Inglaterra e outros que ainda estão por despontar, fantasias de serem filhos adotivos. Isto permite que
mostram que uma maioria silenciosa assiste, sem sonhem que seus verdadeiros pais teriam sido
aderir necessariamente, ao curso revolucionário e pessoas mais nobres ou mais ricas ou mais
globalizante da história recente. Por esta razão, inteligentes, enfim, pessoas bem melhores do que
neste artigo, não partilhamos desta tese e seus pais são na realidade. As fantasias servem para
defendemos que vivemos sob o desmentido auxiliar as crianças a lidar com suas dúvidas sobre a
(COELHO DOS SANTOS, 2016a) ou até sob a origem da vida, a sexualidade e a morte. Uma criança,
foraclusão do Nome do Pai (COELHO DOS SANTOS, filha de uma drogadita, que foi abandonada pela mãe
2016c). Logo, pretendemos nos manter sob o crivo e, por isso, foi adotada por outra mulher, consegue
da lógica mais essencial da teoria e da prática fantasiar que seus pais eram o rei e a rainha de
psicanalítica, como se verá nas páginas que se Arendelle? Ou ela tenderá muito mais a refletir os
seguem. Devemos, inclusive, a Jacques-Alain Miller, efeitos do abandono primário, fantasiando acerca de
o axioma de que “não há clínica do sujeito sem sua origem menos privilegiada. Em suas fantasias, se
clínica da civilização” (MILLER; MILNER, 2006, p.30). identificam muito mais com João e Maria ou com O
Por esta razão, diferentemente da razão sociológica patinho feio. Sentem-se como estranhas no ninho e
que muitos psicanalistas abraçaram, nós mantemos esta estranheza é geralmente atestada na realidade
uma leitura crítica dos fenômenos subjetivos na pela diferença da cor da pele, pela textura do cabelo,

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pelos comentários das pessoas que percebem a questão. Do que ela se ocupa são outros objetos
diferença entre as características genéticas do filho e pequeno a: as crianças, junto a quem, então, o pai
intervém, excepcionalmente, no bom caso, para manter
dos pais adotivos.
na repressão, [...] a versão que lhe é própria de sua pai-
Como a psicanálise define a filiação? versão. Única garantia de sua função de pai; que é a
função de sintoma [...]. Para isto, basta aí que ele seja
A descoberta do inconsciente não deve nos
um modelo da função. Aí está o que deve ser um pai, na
servir de um guia prático para determinar a medida em que só pode ser um modelo da função. Ele
maneira como cada um vive a sua vida. A só pode ser modelo da função realizando o tipo. Pouco
psicanálise faz parte da visão de mundo científica importa que ele tenha sintomas, se acrescenta aí o
(FREUD, 1933 [1932]). Ela não produz e não [sintoma] da perversão paternal, isto é, que a causa [do
seu desejo] seja uma mulher que ele adquiriu para lhe
pretende produzir uma nova visão de mundo que fazer filhos e que com estes, queira ou não, ele tem
seja só dela. Por isso, não inventa costumes, não cuidado paternal. A normalidade não é a virtude
cria valores e nem dita modos de viver. Além disso, paterna por excelência (Lacan, 1974-1975).
não faz apologia de ideologias e nem se coordena, O que é que Lacan revela sobre o laço indissolúvel
seja ao “politicamente correto”, seja ao entre a sexualidade e a parentalidade nesta
“politicamente incorreto”. Não lhe cabe inventar passagem?
laços sociais, nem criar fórmulas para uma vida Primeiro ponto: a causa da família é sexual.
mais feliz. Se ela se abstém de aconselhar, não é
Para pensar a constituição familiar não se deve
porque seja neutra. A experiência ensinou a Freud
partir da criança, nem de sua necessidade de ter uma
que os complexos de Édipo e de castração são os
família, cuidados e amor. Devemos partir do desejo
fundamentos da constituição subjetiva. E, da
sexual de um homem por uma mulher, ambos vivos e
determinação de seus efeitos inconscientes,
sexuados. Ora, o desejo é determinado por uma
ninguém escapa. Estes efeitos são a base da
representação inconsciente – o fantasma -, cujas
constituição de todas as famílias. Se, por um lado,
coordenadas dependem de como cada um responde
não cabe ao psicanalista classificar qual é a melhor
à incidência do complexo de castração sobre o
família, por outro, ele deve fazer aparecer a
complexo de Édipo. Os primeiros objetos de amor e
estrutura familiar existente em cada caso clínico
de rivalidade de uma criança são sempre sua mãe e
para extrair dela as coordenadas do desejo
seu pai2. As escolhas de objetos posteriores serão
inconsciente que a determina. É somente assim
determinadas pelas experiências infantis, pelo apego
que ela pode, eventualmente, facultar o
“sexual da criança em relação a cada um dos pais e
surgimento da responsabilidade que cabe aos
aos outros que cuidam dela” (COELHO DOS SANTOS;
indivíduos que as constituem.
ZEITOUNE, 2011, p.88). Freud conceituou como
Vamos tentar separar agora aquilo que
sexualidade infantil a estrutura fantasmática que
consideramos essencial – os complexos inconscientes
resulta das primitivas fantasias da criança em relação
– daquilo que consideramos natural
à sexualidade dos seus pais.
(psicologicamente) ou tradicional (sociologicamente)
Como ela é construída? Ela é o resultado da pesquisa
falando. Os papéis sexuais, quando se leva em conta
que a criança realiza nos primeiros anos da sua infância,
o núcleo do inconsciente, isto é, os complexos de
“que culmina com a descoberta da diferença sexual e
Édipo e de castração não são apenas convenções
com a construção de fantasias sobre a relação entre os
sociais. Existe neles algo do real, do desejo e do gozo
sexos” (COELHO DOS SANTOS; ZEITOUNE, 2011, p. 88).
próprios aos sexos feminino e masculino. Sobre os
Na infância, a descoberta da diferença anatômica
papéis de pai e mãe, trazemos uma referência do
existente entre os sexos é simbolizada através da
último ensino do psicanalista Jacques Lacan.
presença e da ausência do pênis. As crianças constroem
Um pai só tem direito ao respeito, senão ao amor, se o- uma dialética entre os sexos, que Freud nomeou pelo
dito amor, o-dito respeito, estiver [...] père(pai)-
par opositivo fálico X castrado. É um momento
versamente orientado, quer dizer, feito de uma mulher
objeto pequeno a que causa seu desejo; mas o que essa traumático porque desencadeia a fantasia da castração.
mulher pequeno a acolhe [...] nada tem a ver na Meninos e meninas acreditam inicialmente que todos os

2 “Assim como a libido objetal inicialmente ocultava de nossa observação a primeiras satisfações sexuais autoeróticas são experimentadas em relação
libido do ego, também em relação à escolha de objeto nas crianças de tenra com funções vitais que servem à finalidade de autopreservação” (Freud,
idade (e nas crianças em crescimento), o que primeiro notamos foi que elas 1914, p.103).
derivavam seus objetos sexuais de suas experiências de satisfação. As

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seres humanos têm pênis, mas que alguns foram lógica, substitutiva e compensatória, que um filho se
“castigados” e privados dessa parte do corpo porque torna objeto do desejo dela. Com o objetivo de ser
fizeram alguma coisa errada. Logo, o desejo amada e de receber um filho como dom de amor ela
inconsciente se estrutura e gira na fantasia em torno poderá, então, consentir à posição de objeto para a
desse órgão. Um órgão que supostamente todos teriam qual é convidada pelo desejo de um homem.
tido, mas que alguns perderam. Na fantasia, então, Segundo ponto: a escolha do parceiro não é
trata-se sempre ou de não perder ou de recuperar o que indiferente.
Lacan (1956-1957) nomeou como falo ().
As consequências psíquicas dos complexos de
A constatação da ausência de pênis nas meninas
Édipo e de castração desenham as coordenadas para
desencadeia no menino a fantasia de que o órgão
o desejo inconsciente que determinarão a escolha do
esteve ali, mas foi cortado. Por esta razão, o menino
parceiro sexual que, então, não poderá ser qualquer
é afetado pela angústia de castração, pois lhe parece
um. A função do falo aponta as condições “a que
lógico que ele também possa vir a ser punido por seus
serão [necessariamente] submetidas as relações
desejos por meio do mesmo castigo. A angústia o
entre os sexos” (LACAN, 1958, p.701). O falo é o
conduz a abandonar o investimento sensual que
significante que fornece a medida do que tanto o
dirigia aos objetos parentais: o amor pela mãe e a
homem quanto a mulher devem desejar. Sua lógica
hostilidade pelo pai, seu rival. O amor pela mãe é
opositiva dá lugar à crença de que o homem tem o
recalcado e poderá ressurgir na puberdade,
falo e de que a mulher é o falo. Esta crença é
endereçado a uma outra mulher. A hostilidade com o
responsável por viabilizar o “encontro” entre os
pai, nos melhores casos, vai levá-lo a identificar-se ao
sexos. Ela fundamenta a certeza necessária para que
rival, que é o tipo ideal do seu sexo. Aqui, castração
um faça do outro o objeto do seu desejo. Faz com que
põe fim ao complexo de Édipo. O pai, aquele homem
nós sempre acreditemos que iremos encontrar do
que a mãe deseja e que o ameaça com a castração, é
lado do outro aquilo que nos falta.
o portador do falo. Os investimentos libidinais infantis
Terceiro ponto: os papéis sociais decorrem do Édipo e
em pai e mãe, nos melhores casos, são dissolvidos
da castração.
graças à proibição do incesto e do parricídio.
Convertem-se no capital com o qual os antigos Enquanto símbolo da diferença sexual, a lógica
objetos sexuais se mantêm investidos na fantasia. Os fálica permite construir as representações com as
objetos de amor e de rivalidade se tornaram matrizes quais nós definimos os papéis sociais de cada um dos
inconscientes. Durante o período de latência, seres sexuados. Do lado masculino, a lógica fálica leva
reaparecerão nas cenas dos sonhos e dos devaneios o homem a colocar uma mulher no lugar de objeto
até que a chegada da puberdade permita que eles causa (a) do seu desejo. Esta estrutura faz com ele se
sejam novamente reencontrados na realidade. dirija a ela acreditando poder recuperar, por meio do
Quanto às meninas, diferentemente, o complexo corpo feminino, o objeto incestuoso perdido. O falo
de castração as introduz no complexo de Édipo. que ele supostamente tem depende da causa, do
Confrontadas à diferença entre os sexos, sentem-se objeto que ela é, para entrar em ereção. Contudo, no
incompletas sem um pênis. Esta ausência é percebida jogo que encena com ela, ele
como uma inferioridade, desencadeando um finge ter o que não tem e que, na verdade, deseja. Por
ressentimento dirigido à pessoa supostamente esse motivo, ele encarna o ideal masculino do herói. A
demanda masculina comporta a identificação com a
responsável pela sua insuficiência narcísica, a própria
posição viril, porém como potência desde sempre
mãe. Sua demanda de amor é, então, deslocada para perdida (COELHO DOS SANTOS; ZEITOUNE, 2011, p.99),
o pai, de quem espera receber algum tipo de pois ela precisa ser atestada por aquela a quem ele
compensa A interdição do incesto frustra a realização endereça seu desejo. É a palavra dela que atesta a
deste objetivo inconsciente. Na puberdade, as hora da verdade (LACAN, 1971).
meninas deverão ser capazes de fazer a diferença Do lado feminino, é à criança que o desejo da
entre o pai e o parceiro amoroso. O fracasso edípico, mulher se dirige, embora, para alcançar este fim, ela
nas meninas, não dissolve o complexo de Édipo, precise encontrar o representante de seu próprio
necessariamente. O desejo de ser amada e desejo no corpo daquele “a quem sua demanda de
indenizada persiste inconscientemente e, muitas amor é endereçada” (LACAN, 1958, p.701). Para isto,
vezes, é deslocado para um homem. É por meio desta o órgão masculino deve ter adquirido para ela o valor

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de objeto fetiche em direção ao qual irão convergir fazer filhos” (LACAN, 1974-1975). Para executar esta
“uma experiência de amor [...] e um desejo que ali tarefa, o homem encarna o modelo de sua própria
encontra seu significante” (LACAN, 1958, p.701-702). père (pai)-versão, ou seja, ele realiza o tipo para o
Esta estrutura permite que a mulher consinta com a qual seu desejo o destina. É esta cartografia singular
posição de objeto que o desejo masculino lhe que retira a criança do anonimato, marcando-a com o
endereça. Se ela é o objeto que falta a ele, isto tem o significante do desejo do Outro, seu pai na realidade.
efeito de positivá-la, pois permite fazer dela um Quinto ponto: a família é um aparelho de
objeto amado. Então, se, de um lado, ela não tem o transmissão da castração (LACAN, 1956-1957).
pênis, de outro, imagina ser o falo que ele precisa. A
A sexualidade é o que condiciona o desejo
posição de objeto possibilita que ela seja amada pelo
humano. É isso que a família conjugal transmite.
que ela supõe ser para ele e que a criança que ela
Trata-se da “transmissão de uma constituição
deseja venha ao mundo como dom deste amor. Ela
subjetiva”, do que é ser homem ou mulher. Isto
consente em ser objeto do desejo do homem porque
implica sempre “a relação [do sujeito em vias de
o que lhe interessa são os filhos que ele pode lhe dar.
advir] com um desejo que não seja anônimo” (LACAN,
As coordenadas do desejo provam que,
1969, p.369), ou seja, com o desejo de um homem e
embora a função fálica esteja em jogo para ambos os de uma mulher que se prestaram a encarnar o papel
sexos, a constituição do objeto a [que causa o desejo]
que lhes cabia. O fato de que a reprodução é biológica
não se dá da mesma maneira no homem e na mulher
(COELHO DOS SANTOS; ZEITOUNE, 2011, p.100). não é suficiente para constituir um sujeito. A
É o que permite a Lacan (1972-1973) afirmar que existência do inconsciente dá provas de que há
“a relação sexual não existe”, pois o encontro entre sempre desencontro, incompreensão, mal-entendido
os sexos não é complementar. entre os sexos. Esta é a razão pela qual, nesse jogo, a
criança se destina a suprir o que falta à concepção
Quarto ponto: a criança responde “ao que há de
biológica da reprodução: a própria libido.
sintomático no casal” porque “pode representar a
verdade” deste casal (LACAN, 1969, p.369). A adoção e seus impasses

A verdade em jogo no casal parental é que as Desde sempre, a clínica das famílias adotivas dá
crianças vêm ao mundo como suplência ao fato de provas de que elas não produzem paternidade,
que o desejo de um não é correlato do desejo do maternidade e filiação do mesmo modo que as
outro. Portanto, não é por causa do amor que os famílias consanguíneas. Tanto as crianças adotadas
casais têm filhos, embora este sentimento tenha o quanto os adultos adotantes, especialmente as mães,
papel de suplementar a não reciprocidade entre os precisam sempre executar um trabalho psíquico a
desejos. O amor permite acreditar na existência de mais de simbolização. Por mais eficaz que tenha sido
uma continuidade entre o desejo masculino e o a adoção, não há um caso em que isso não precise ser
feminino (LACAN, 1972-1973). Então, tal como o considerado. Do lado do adotado, ter sido
amor, a criança vem em suplência ao lugar de uma abandonado por quem o trouxe ao mundo situa a
ausência imaginária, pois, biologicamente falando, ao criança, de saída, como objeto desprezado pelo
corpo de uma mulher não falta nada. Nós Outro, e não como objeto desejado, afetando sua
acreditamos que ele é imperfeito porque, na infância, autoestima. É comum encontrarmos o fantasma de
interpretamos a diferença sexual pela oposição fálico não ser sido um objeto suficientemente belo, bom ou
X castrado. É sobre esta lógica que construímos o adequado para preencher a falta fálica da mãe
fantasma da castração, que justifica a razão pela qual biológica. Esta insuficiência constitutiva explicaria
uma criança seja desejada como objeto substituto do porque foi deixada e porque corre sempre o mesmo
pênis que sua mãe não recebeu (Lacan, 1956-1957). risco com a mãe adotiva.
Do lado paterno, o valor da criança se coordena ao Este é, por exemplo, o caso de Paula. Como menos
valor de objeto que uma mulher adquire no desejo de de dois anos, logo que aprendeu a formar frases, ela
um homem. É porque ele deseja aquela mulher que já perguntava recorrentemente à sua mãe adotiva:
ele interfere na relação da criança com a mãe para “Você está feliz comigo?”. Outro efeito comum é a
separá-las. O que chamamos de “cuidado paternal” vontade de esquecer tudo o que aconteceu. Uma
resulta da responsabilidade dele para com o próprio adolescente adotada é atendida por causa de seus
desejo que o levou a adquirir “uma mulher para lhe problemas de memória: “o esquecimento de
pequenas ou grandes coisas reflete o sentimento de

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Somos todos adotados? Parentalidade, família e filiação

sentir-se esquecida, perdida, jogada fora”. Um dia, ela adotadas tentam se proteger de novas perdas criando
perguntou à analista: “O que você faz para lembrar uma espécie de muro de afastamento, surge nas
tudo o que eu falo?”. Querendo, na verdade, mães adotivas um sentimento de rejeição e
perguntar: “Você não vai se esquecer de mim?” (DA insegurança em relação à capacidade de executar
ROSA, 2008, p.101). Alguns confessam, claramente, bem a missão de educar. Estes sentimentos
que o dia em que souberam da adoção nunca deveria dificultam que se “apropriem” da educação do filho
ter existido: “Foi o pior dia da minha vida”, disse ou, até mesmo, se “apropriem” do próprio filho.
Pedro à analista. Outros, ainda, como Lili, Temem ser demasiadamente exigentes com alguém
empreendem verdadeiras odisseias para tentar saber que já passou por muitas dificuldades. Em outros
se a mãe biológica teria se arrependido do que fez e, casos, a falta de semelhança física provoca na mãe
assim, resgatar para si algum traço de dignidade adotiva um estado de estranhamento que pode
como objeto de desejo da mãe. Lili soube da adoção acompanhar o trabalho psíquico de adoção daquela
aos cinco anos, durante um rompante de raiva da mãe criança por um tempo muito longo. Como
adotiva diante da sua insistência em pedir um irmão: consequência, elas têm dificuldade para inscrever a
“Desta barriga não sai nenhuma criança!”. Como criança na fantasmática familiar (DA ROSA, 2008,
efeito, ela não parava mais de falar que era adotada p.102). Lúcia, por exemplo, só se deu conta de que
– na escola, em casa, na rua, com qualquer estranho passou dois anos procurando no seu filho adotivo um
– até que os pais proibiram que continuasse a contar traço identificatório que lhe permitisse adotá-lo
isso para os outros. Em análise, já adulta, lembrou-se depois que o encontrou: “Eu não sabia o que estava
da empregada em um leito hospitalar quando tinha procurando, mas a alegria de Lucas me fez lembrar de
onze anos. Na ocasião, supôs que ela havia feito um mim mesma. Na hora não entendi por que isso me
aborto e recordou-se de que passou muito tempo trouxe paz. Depois me dei conta de que procurava por
interrogando-a para saber se ela havia sentido culpa. alguma coisa nele que se parecesse comigo, que o
Quando a analista lhe perguntou por que queria saber identificasse a mim, já que não posso me apoiar em
isso, respondeu: “A culpa humaniza. É a coisa mais um traço biológico”.
importante que a gente tem. Será que minha mãe Toda mãe adotiva precisa metabolizar
teve culpa por ter me dado para outra mulher?”. psiquicamente a impossibilidade de gerar em jogo na
A famosa, bem-intencionada e politicamente sua decisão de adotar. É esse trabalho psíquico que
correta explicação da adoção como filiação possibilita dissolver o sentimento de insuficiência que
proveniente do coração é outro problema encontrado poderia recair sobre o ego, vestido com as
com frequência. Ela nega o nascimento como fruto da costumeiras autoacusações. Elas, frequentemente,
sexualidade dos pais, como se pudéssemos ser filhos recaem sobre a criança adotada, instaurando um
de um amor romântico e não do desejo sexual. O circuito infernal de acusações dirigidas ao outro,
adulto, capaz de pensar abstratamente, sabe que se autoacusações e sentimentos de culpabilidade. “A
trata de uma metáfora. Mas a criança não entende fantasmática da família adotiva, tanto para pais como
assim. Se não veio da barriga, ela então pode dizer: “Eu para filhos, depende das condições de desejo dos
não nasci. Fui adotada” ou, ainda, “Acho que meus pais pais, da possibilidade destes inscreverem seus filhos
não tiveram um filho biológico porque o sexo entre na amarragem simbólica familiar, inscrevê-los em
eles não era bom”. uma história que já começou a ser contada muito
Do lado da mãe adotiva, o sofrimento também antes da chegada deles” (DA ROSA, 2008, p.108-109).
não é menor. Ter como filho uma criança que não foi O real retorna no mesmo lugar. O que é abolido,
gerada no próprio ventre, mas no de outra mulher, desmentido, recusado, foracluído do simbólico retorna
desperta os fantasmas derivados do complexo de no real. Um dos fundamentos da diferença sexual é
castração feminino e os ressentimentos da relação imaginário, mas, ao mesmo tempo, é real, isto é,
primária da mulher com a sua mãe. São comuns anatômico. A anatomia é um destino a ser subjetivado,
sentimentos de inferioridade em relação às mães interpretado, aceito e encarnado. A diferença sexual
biológicas e insegurança em desempenhar a tarefa de não se reduz à causa significante, isto é, aos nomes de
criar os filhos. Falam de si como “árvores que não dão homem ou de mulher. A dívida da sexualidade com a
frutos” (na linguagem popular são chamadas de natureza, como quisemos demonstrar, acaba sendo
“figueiras do inferno”), “corpos defeituosos”, que “só reconhecida de um modo ou de outro. Fica evidente
possuem casca”... E, quando algumas crianças que as manobras neuróticas, psicóticas ou perversas

Cadernos de Psicanálise – SPCRJ, v. 33, n. 1, p. 63-71, 2017 69


Rosa Guedes Lopes, Tania Coelho dos Santos

não evitam que o real retorne justamente onde o COELHO DOS SANTOS, T. Desmentido ou inexistência do
simbólico não quis reconhecê-lo. Outro: a era da pós-verdade. aSEPHallus Revista de
Se a psicanálise ainda tem algo a dizer sobre as Orientação Lacaniana, n.22, p.4-19, 2016a. Disponível em:
<www.isepol.com/asephallus>.
condições psíquicas da filiação, certamente não é
para tomar partido de uma ou de outra causa, nem ______. A psicanálise é revolucionária ou conservadora?
para fazer coro com as ideologias relativistas que aSEPHallus Revista de Orientação Lacaniana, n.23, p.4-21,
desenlaçam a causa das uniões sexuais entre os seres 2016b. Disponível em: <www.isepol.com/asephallus>.
humanos e a causa da filiação. Cabe-lhe,
______. O Outro que não existe: da verdade verídica,
simplesmente, desnudar a estrutura que correlaciona verdades mentirosas e desmentidos veementes. Revista
o relativismo politicamente correto contemporâneo a Ágora (no prelo). 2016c.
uma série de desmentidos e revelar as consequências
COELHO DOS SANTOS, T.; ZEITOUNE, C. da M. Amor,
disso sobre a subjetividade e o laço social. Pois, como
impasses da sexuação e ato infracional na adolescência.
sabemos muito bem, não há clínica do sujeito sem
Revista Tempo psicanalítico, v.43, n.1, p.85-108, 2011.
clínica da civilização. Como bem observou Dufour, o
crescimento da individuação, da privatização e da DA ROSA, D. B. A narratividade da experiência adotiva –
pluralização da família resulta na desarticulação fantasias que envolvem a adoção. Revista Psicologia clínica,
inédita dos laços de conjugabilidade e dos laços de v.20, n.1, p.97-110, 2008. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/pc/v20n1/07.pdf>. Acesso em:
filiação (DUFOUR, 2008).
24 set. 2016.
Como analistas, não podemos contribuir para
semelhante desarticulação, sob pena de DUFOUR, Dany-Robert. O divino mercado. Rio de Janeiro:
desmentirmos os fundamentos de nossa própria Companhia de Freud, 2008.
ciência. Freud nos exortou a não abandonar a visão de FERRY, L.; RENAUT, A. Pensamento 68 – ensaio sobre o anti-
mundo da ciência e a não cairmos na tentação de humanismo contemporâneo. São Paulo: Ed. Ensaio, 1988.
fazermos de nossa disciplina uma ideologia. Lacan, por
sua vez, nos convocou a não recuar diante da psicose. FREUD, S. (1933 [1932]). Novas conferências introdutórias
sobre psicanálise. Conferência XXXV – “A questão de uma
Ao que nós acrescentaríamos, sobretudo, que não
Weltanschauung”. ____. Obras Completas. Rio de Janeiro:
devemos recuar da psicose ou da perversão quando ela
Imago, 1977. v.XXII.
se apresenta como um fenômeno de civilização.
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objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
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Somos todos adotados? Parentalidade, família e filiação

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Recebido em: 12 de abril de 2017


Aceito em: 02 de novembro de 2017

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