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Análise: O caráter

visionário de ‘Grande
Sertão’, marco da literatura
LGBTI
Sobre Diadorim, há quem afirme que é um “caso de identidade sexual equivocada”, mas tal compreensão
pode dizer mais sobre medos ante novas narrativas de gênero do que sobre o personagem de Guimarães
Rosa

Amara Moira, Especial para o Estado

19 Fevereiro 2019 | 03h00

João Guimarães Rosa, autor de 'Grande Sertão: Veredas' Foto: Acervo pessoal

Ao longo das 600 páginas de Grande Sertão: Veredas (1956), apenas dois
homens olharam para Diadorim, “tão galante moço, as feições finas caprichadas”
e não acharam nele “jeito de macheza, ainda mais que pensavam que ele era
novato”, mas esses dois mudaram logo de opinião ao sentirem o belisco do seu
punhal no gogó: “Oxente! Homem tu é, mano-velho, patrício!” (pág. 175-6). Fora
esses dois, ninguém mais teve suficiente coragem para questionar seu gênero ou
ironizar o juntos que andavam ele e Riobaldo: “Dissesse um, caçoasse, digo –
podia morrer” (pág. 44).
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Quem morreu, no entanto, foi Diadorim e, ao deixarem seu corpo nu para lavá-
lo, percebem que “Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita” (pág.
615); a partir dali, o tratamento que o narrador lhe dispensa muda para o
feminino. O intrigante é pensar que Riobaldo, sabendo de antemão o corpo que
se escondia sob as vestes, só tenha decidido trazer a informação ao interlocutor
nas páginas finais do livro, usando as 600 restantes para abordar seu sofrimento
em ver-se apaixonado pelo amigo.

“Homem muito homem que fui, e homem por mulheres! – nunca tive inclinação

pra aos vícios desencontrados”, relata, escancarando então a atração física que
sentia: “A vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro
do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente – tentação
dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava” (pág. 162-3). Passagens de igual
teor são recorrentes, alguns dos trechos mais belos do livro.

Por que narrar a história guardando apenas para o final essa revelação? A
resposta oficial, dada pelo próprio, é ter desejado que o interlocutor só a
soubesse “no átimo em que também só soube” (pág. 615), de maneira a fazer com
que sentíssemos o que ele sentiu.

Possível que só tenha tido coragem de narrar semelhante história por conhecer
seu desfecho. De qualquer forma, não se pode deixar de notar o quanto a
memória desse tormento, mesmo passados tantos anos, ainda se fazia viva.

Me pego então a pensar em quem conviveu com a dupla, se teriam acreditado


nisso, e nos sentidos que a palavra “homem” possui. “Homem” como quem tem
pênis, a própria existência de Diadorim entrava semelhante definição, pois
mostra o quão arbitrário é tentarmos inferir o genital alheio. Riobaldo conduz
pesquisas em relação à infância de Diadorim, mas não encontra indício desse
segredo, fora o registro batismal de “Maria Deodorina da Fé Bettancourt
Marins”... mesma pessoa?

O que é ser homem senão existir como homem, reconhecido enquanto tal pela
comunidade em que vive? O que é ser homem senão imaginarem que você tem
pênis e que nasceu com ele, visto que no mais das vezes só nos resta imaginar?

Eis como existiu Diadorim até ver-se morto e enfim despido. Desconhecemos
suas motivações, o que não nos impede de constatar o óbvio: que ele, tendo
nascido com vagina, existiu como homem, uma definição não psicológica, mas
política de transgeneridade.

Diadorim não nos deve explicações, mas sua existência traz questões à maneira
como compreendemos o gênero. A visibilidade alcançada por pessoas trans
atualiza o Grande Sertão, marco da literatura LGBTI, dando-lhe um caráter
visionário. Longe do punhal de Diadorim, Riobaldo e críticos podem querer
afirmar que se trata apenas de um “caso de identidade sexual equivocada”, mas
tal compreensão parece-me dizer mais sobre seus medos ante novas narrativas
de gênero do que sobre o personagem de Rosa.

É ESCRITORA E PROFESSORA TRANS