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Apresentação

O livro que o leitor tem em mãos é obra de um estudioso de longa data


dos assuntos a que se dedicou Bakhtin, o que o situa entre outros autores já
conhecidos do público brasileiro que também se dedicaram à compreensão do
pensador russo. Um manuseio, mesmo que rápido, da Cronologia que compõe
o apêndice desta edição brasileira revela a importância dos estudos de Augusto
Ponzio. O leitor encontrará aqui um caminho seguro para realizar seu encontro
com os vários Bakhtin que conhecemos ou desconhecemos. Somente um autor
que conhece profundamente as temáticas bakhtinianas – e que jamais se limita a
ler apenas a teoria que abraça – poderia escrever A revolução bakhtiniana.
Por isso este não é um livro sobre Bakhtin, mas um livro em que Ponzio
dialoga com Bakhtin e o pensamento contemporâneo. Ele produz encontros que
não ocorreram e faz dialogarem diferentes perspectivas, numa triangulação em que
a voz que relata não é inaudível. Ao contrário, se faz presença para dirigir-se a nós,
seus leitores. Por isso Ponzio não afirma somente reafirmando ou reproduzindo
o já dito dos autores que convida para o diálogo, mas afirma a sua voz por entre
as vozes e a estas fornece novos contextos e novos matizes. Nesse sentido, seu
texto é profundamente bakhtiniano: suas contrapalavras não são ecos, não são
repetição, mas modos de compreensão que abrem caminhos acrescentando elos
nessa cadeia infinita de enunciados que se entrelaçam por entre direções variadas.
Que a metáfora dos elos de uma cadeia infinita não nos engane: a direção dos
sentidos produzidos nas compreensões da palavra alheia que alimenta a palavra
própria não é linear, antes reticular. Nas palavras de Ponzio, a todos e aos muitos
ecos do passado se juntam também aqueles sequer ainda produzidos:
A revolução Bakhtiniana

Todo texto, escrito ou oral, está conectado dialogicamente com outros textos.
Está pensado em consideração aos outros possíveis textos que este pode propor-
cionar; antecipa possíveis respostas, objeções, e se orienta em direção a textos
anteriormente produzidos, aos que aludem, replicam, refutam ou buscam apoio,
aos que congregam, analisam, etc.
A ressurreição dos sentidos não se realiza como um retorno do previsível
dentro de uma seqüência linear, mas como raiz que dá sustento a um novo que
surge alternativa e aleatoriamente, ocupando espaços não previstos em tempos
às vezes distantes. Entre a minipéia e o romance polifônico não se traça uma
linha de sucessão, mas são traçáveis inúmeras linhas de invenção, cujos caminhos
podem ser percorridos quando entra neste processo não uma dialética que se
fecha na síntese da consciência única e idêntica, mas um diálogo que não se fecha.
Por isso, em Bakhtin, os sintomas dos retornos, dos inacabamentos, das faltas de
conclusões. Nas palavras de Ponzio:
A obra de Bakhtin, segundo Todorov, não tem um desenvolvimento, num sen-
tido estrito: mudam-se os temas de interesse e as formulações, porém, apesar de
algum desvio e alguma mudança, o discurso bakhtiniano se volta continuamente
sobre si mesmo. É como se cada uma de suas partes contivesse o conjunto, a
totalidade (aberta) a qual pertence, de tal forma que se poderia dizer que entre
o seu primeiro ensaio e último, ou seja, desde 1919 até 1974, seu pensamento
permanece fundamentalmente o mesmo, de maneira que podemos encontrar
frases idênticas escritas num intervalo de tempo de cinqüenta anos.
A falta de desenvolvimento a que se refere Todorov não é uma dogmática rei­
teração das mesmas idéias, mas tem o sentido que o próprio Bakhtin dava ao
romance de Dostoievski: “o espírito do autor não se desenvolve, não ocorre”,
“não existe uma dialética de um só espírito” que siga relações de teses, antíteses
e sínteses. Não se encaminha para uma única e definitiva conclusão na qual todas
as partes da obra tenham que ser funcionais.
Aqui, neste livro, a reflexão corre solta sem perder profundidade. Aqui,
neste livro, não é proibida de antemão a entrada de ninguém, evitando-se o
pensado em nome da rigidez do caminho teórico único. Há rigor, não rigidez.
O autor tratou de ir cercando, com diferentes ancoragens, os temas, os problemas,
para desenhar compreensões abertas a serem nada mais do que fios a retomar em
estudos que sempre prosseguirão: na aventura do pensar só há inconclusibilidade
e responsabilidade com as respostas que virão.
Pelas mãos de Ponzio participamos de encontros de Bakhtin comVigotski,
com Freud, com Peirce, com Propp, com Blanchot, com Lévinas, na sala de visitas
preparada pelo autor-anfitrião. As perspectivas de um e outro são distintas e não

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apresentação

se trata de construir um ecletismo teórico, como se a posição do autor fosse


uma esponja que tudo recolhe. Não se trata de compaginar concepções, mas de
não excluir do amplo diálogo as muitas possibilidades de compreensões que a
complexidade da linguagem, da cultura e da arte exige e da qual é palco. Ao fazer
dialogarem os autores, o ponto de encontro é apontado por aquele que patrocina
o encontro. Por exemplo, é Ponzio quem nos faz ver que Bakhtin e Blanchot se
cruzam na defesa do jogo constante entre a estabilidade e a instabilidade. Dizer
que o jogo é constante é afirmar a concomitância entre ambas: estabilidade e
instabilidade. Os propósitos de Peirce e Bakhtin são distintos, mas no pensamento
de ambos o interpretante ou a contrapalavra são conceitos essenciais, e ambos
são modos de abertura e fechamento na construção das compreensões.
Nesse modo de expor e de se expor, Ponzio nos entrega um livro denso
sem perder leveza: o leitor é convidado a participar do diálogo, trazendo suas
próprias contrapalavras mesmo quando estas não estejam enfileiradas segundo um
estudo prévio dos autores aqui presentes. Como a busca é dos lugares de encontros
e desencontros, somos apresentados a cada autor através dos temas que os ligaram.
Nesse sentido, A revolução bakhtiniana, não sendo um livro introdutório, é uma
introdução e uma apresentação de Bakhtin e um diálogo seu com a ideologia
contemporânea, como o subtítulo faz prever. Da leitura do livro saímos não só
informados sobre Bakhtin e os demais autores, mas também aprendemos como
promover, responsivamente, encontros semelhantes àqueles aqui patrocinados.
Esse me parece ser o convite que nos faz o autor.
Ponzio recentemente soou em português do Brasil: em julho de 2007
foi publicada a obra Fundamentos de filosofia da linguagem, trabalho em co-autoria
com Patrizia Calefato e Susan Petrilli. Trata-se de tradução de Ephraim F. Alves
de obra publicada na Itália em 1994. Na introdução à edição brasileira, o autor
faz um alentado estudo de vários trabalhos na área da semiótica, especialmente
na perspectiva de Thomas Sebeok, aproximando estudos aparentemente distantes
das noções de semiosfera como aqueles produzidos por Ferruccio Rossi Landi
nas décadas de 1960 a 1980 e os conceitos seminais elaborados anteriormente por
Bakhtin, cuja recepção no Ocidente se dará principalmente a partir da década de
1980.Vai ainda além, atualizando seus Fundamentos com incursões pelas questões
da tradução, do hipertexto e das relações entre semiose e ética.
A revolução bakhtiniana chega à edição brasileira após 11 anos de sua publi­
cação italiana em 1997, seguida um ano depois pela publicação espanhola. Na
Itália o livro teve como contexto de sua recepção as edições de textos do Círculo
de Bakhtin e de inúmeros estudos neles inspirados: a Cronologia apresentada em

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A revolução Bakhtiniana

apêndice mostra o interesse e a presença dos estudos bakhtinianos na vida inte­


lectual italiana e a importância do trabalho de Augusto Ponzio. Também aqui o
livro cai em terreno fértil: nossas estantes de obras ‘bakhtinianas’ vêm crescendo
continuadamente, inclusive com obras de excelentes estudiosos brasileiros.∗ Entre
nós, a influência de Bakhtin nos estudos da linguagem, na literatura, na lingüís-
tica e nos estudos culturais já foi demonstrada pelo trabalho de Maria Teresa de
Assun­ção Freitas (O pensamento de Vygotsky e Bakhtin no Brasil ).Tudo isso permite
prever que a palavra ponziana não se recolherá ao silêncio do impresso e às folhas
do livro, mas fomentará o diálogo já persistente entre todos os que se preocupam
com a linguagem e com a cultura.

João Wanderley Geraldi


Professor livre-docente da Unicamp

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Nota do Editor (N.E.): A Editora Contexto publicou duas obras sobre esse autor, Bakhtin:
conceitos-chave e Bakhtin: outros conceitos-chave, ambas organizadas por Beth Brait.

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