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Sven Hassel

A Rota Sangrenta
“O oficial russo cai para frente e eu cravo meus dentes em sua garganta. O
sangue corre por sobre meu rosto, mas eu não o noto. Estou lutando por minha
vida. Ele se bate desesperadamente para se soltar. mas eu mantenho meus
dentes cerrados como um buldogue enlouquecido. Minha boca enche-se com
seu sangue. Ele agita-se num longo estertor e um terrível tremor apossara-se de
seu corpo. Seccionei-lhe a carótida... Torço-me para sair de sob seu corpo e
agarro sua metralhadora. Viro-a em direção aos outros, mas o carregador está
vazio.
Com toda minha força atinjo a cara do que está mais perto com o cano da
arma. Dando um agudo grito, ele cal com o rosto numa sangrenta massa.”
Eles eram conhecidos como a unidade mais selvagem de todo o exército
alemão! Naquela mortífera floresta de cactos, Tiny, Porta e o resto deles
encontraram um lugar que Deus esquecera, que rescendia a perigo e a morte...
A ROTA SANGRENTA

Outras obras do autor


O Batalhão maldito
Corte Marcial
Gestapo
Monte Cassino
Morte nas Estepes
OGPU – A Prisão Soviética
A Rota Sangrenta
SVEN HASSEL

A ROTA
SANGRENTA

Tradução de
ANTONIO C. G. PENNA

EDITORA RECORD
Título original inglês
THE BLOODY ROAD TO DEATH

Copyright © 1977 by Sven Hassel

Direitos de publicação exclusiva em língua portuguesa no Brasil


adquiridos pela
DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A.
Rua Argentina 171 – 20921 Rio de –Janeiro, RJ

que se reserva a propriedade literária desta tradução Impresso no Brasil


“Devido à magnitude de nossas perdas em Stalingrado e à catastrófica
escassez de tropas de reserva, nosso Führer decretou que o período de gestação
deverá, com efeito imediato, ser reduzido de nove para seis meses.”
Primeiro-Cabo Joseph Porta falando ao Primeiro-Cabo Wolfgang
Creutzfeldt, em Salônica, na primavera de 1943.
Dedicado a meu comandante de batalhão e amigo, Horst Scheibert,
presentemente general do Corpo Blindado da Alemanha Ocidental.
SUMÁRIO

A FLORESTA DE CACTOS
AS PULGAS
SERVIÇO DE ESCOLTA
CHÁ DARJEELING
ELEVAÇÃO DEMON
O COMISSÁRIO
FOI ASSASSINATO
Se eu não for muito cuidadoso, aquele maldito do Himmler em breve
colocará todos os meus amigos dentro de seus campos de concentração.

Goering ao Generalfeldmarschall Milch


22 de setembro de 1943.

Cantando a plenos pulmões, o Cabo Torpedeiro Claus Pohl sai do bordel.


O Sinal do Leito que Treme, em Pyrgos. Ã distância, pudesse ouvir o barulho
de uma arruaça entre um grupo de marinheiros alemães e alguns soldados das
tropas alpinas italianas.
Claus Pohl abre um sorriso feliz e decide dar uma mãozinha, mas
rapidamente muda de ideia quando seus olhos enxergam uma bonita garota na
qual havia reparado cedo naquela noite.
– Ei, Liebling! – grita ele, sua voz ecoando na quietude da rua à noite. –
Espere pela Marinha! É perigoso abandonar o comboio! – Enfiando os dedos na
boca emite um agudo assobio que põe a correr os gatos da vizinhança.
A garota olha para trás e sorri provocadoramente.
Claus anda mais depressa. No bordel, ele ficara desapontado: havia mais
clientes do que as mulheres podiam dar conta. Assobia de novo e está tão
absorvido pela garota que não repara nos vultos de homens que saíram de uma
rua transversal e o estão seguindo.
A garota dobra numa ruela; quando ele chega à esquina ela parece ter-se
evaporado no ar.
Quatro homens formam um círculo em torno dele.
– Que diabo é isto? – exclama, sacando seu 38.
Um laço, atirado por mãos peritas por detrás dele, enrola-se apertado em
torno de sua garganta. O cabo fica sufocado e cai de joelhos, seus braços
debatendo-se descontrolados. O redondo gorro de marinheiro rola pela rua
como uma roda de automóvel solta.
Uma botinada atinge-o na virilha ao mesmo tempo em que o punho de uma
pistola se abate sobre sua nuca.
No dia seguinte, o Cabo Torpedeiro Claus Pohl é achado por alguns civis
gregos, que alertam a polícia. Seu corpo nu está na sarjeta, a apenas alguns
metros do QG alemão. O reconhecimento é muito difícil, e a identidade do
corpo é revelada pela primeira vez quando a flotilha de Claus descobre sua
falta.
O caso é tratado como uma investigação de rotina, sem importância.
Corpos nus de soldados alemães aparecem nas sarjetas da Grécia todos os dias.
Duas horas mais tarde, três prisioneiros gregos são enforcados em praça
pública como represália.
A FLORESTA DE CACTOS

A seção para a fim de olhar os cadáveres, que incharam grotescamente sob


o sol escaldante. O corpo de um tenente está esparramado sobre a alvenaria de
pedra do poço. Sua língua foi arrancada e sua boca é um grande coágulo de
sangue.
– Deve ter doido pra burro! – acena com a cabeça Porta, apontando para o
oficial morto.
– Teria ficado um camarada caladão, se tivesse sobrevivido – comenta
Búfalo, passando a língua sobre os lábios crestados pelo sol.
– Lá no maldito pomar amarraram alguns deles num par de árvores
forçadas para baixo e deixaram as árvores soltarem-se. Acho que a ideia era
esgarçar os homens – fala Tiny, enxotando as moscas com a manga de seu
uniforme grego.
– Vou cortar-lhes seus fodidos cacetes – promete Skull, sacando uma faca
de paraquedista do topo de sua bota.
– Você é apenas um maldito praça – diz em tom de zombaria Porta. – O
problema com você é que ainda não viu mortos em número suficiente.
– Os amaldiçoados guerrilheiros precisam gozar sua parcela dessa farra –
considera Tiny. – Nós, malditos alemães, poderíamos ter ficado em casa, não é?
Porta força as rígidas mandíbulas do cadáver do oficial tesoureiro para
abri-las. Seu fórceps brilha ao sol e Porta pode juntar à sua coleção mais dois
dentes de ouro.
Tiny apossa-se de um estojo cheio de charutos. Assumindo o ar afetado de
um diretor de companhia, ele acende um grosso charuto brasileiro e desloca-se
para a sombra criada por um Kübel* fechado empurrando primeiro o corpo
ensanguentado do motorista para o lado.
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* Kübel: Caminhão pesado de transporte de tropas, para uso em terreno
acidentado.
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– Até os mortos têm sua utilidade durante a guerra – diz Porta. – Chamam
a atenção das moscas e mantêm-nas afastadas daqueles como nós que ainda
estão vivos.
– Como tem moscas por aqui! – diz Gregor, admirado, quando um denso
enxame levanta-se zumbindo do corpo de um motorista morto.
Porta abre uma lata de atum e joga seu conteúdo para dentro da boca com a
ponta da baioneta.
“Atum é bom para você”, está escrito no lado de fora da lata.
Atrás do comprido edifício encontramos 10 Blitzmädelz*. Estão mortas e
bem arrumadinhas numa fileira; não morreram há mais de um ou dois dias. O
mau cheiro ainda não está muito forte e as aves apenas arrancaram os olhos de
duas delas.
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* Blilzmädelz Moças telefonistas.
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– Eles se divertiram um pouco com elas antes – diz Tiny lubricamente,
levantando uma saia militar cinza-azulada. – Esta pequena perdeu os tampos!
– Cale-se, seu porco! – diz o Velho, virando-se, zangado, para Tiny. –
Você não tem nenhuma pena destas pobres-diabas?
– Jesus! Não conheço nenhuma delas – protesta Tiny. – Você quer que eu
chore até derreter meus olhos por cada putinha morta que encontre, quando
estamos numa maldita guerra? Quer?
– Se eu tivesse estado com esses rapazes guerrilheiros – fala Búfalo, rindo
e com todo seu gordo corpo balançando – eu teria levado um desses belos rabos
comigo e faria um verdadeiro Kraft Durch Freude* duas vezes por dia. Sexo é
uma coisa saudável, dizem nos Estados Unidos.
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*Kraft Durch Freude: Organização de férias nazista.
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Um grito lancinante faz-nos pular e agarrar nossas armas. Pelo morro
abaixo vem correndo uma mulher, a tropeçar, seguida por um homem gordo e
baixinho, brandindo um machado por cima da cabeça.
A faca mourisca do Legionário atravessa o ar como um relâmpago e vai
cravar-se no peito do homem que continua a correr por alguns passos e a seguir
cai como um pedaço de pau.
Para nosso espanto, a mulher atira-se soluçando sobre seu corpo, gritando
pragas em búlgaro ao Legionário.
– Ela diz que você é um maldito assassino – explica Búfalo, que entende
um pouco o búlgaro. – Eles estavam apenas tendo sua usual briguinha diária e o
machado fazia parte dela.
– Que Alá seja bendito! – resmunga o Legionário, limpando sua faca
mourisca na manga. – Quem poderia ter adivinhado?
Um barulhento caminhão Krupp-Diesel avança pela vila banhada de sol.
Um grupo de excitados soldados “500” * salta dele.
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* “500”: Tropas disciplinares (condenados pela Justiça Militar).
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– Eles massacraram todo o maldito batalhão. Nós somos tudo o que sobrou
– grita um primeiro-sargento, todo suado e com o rosto coberto de poeira.
– Quem? – pergunta o Velho, indiferentemente.
– Esses malditos pagãos – exclama, raivosamente, o primeiro-sargento. –
Nosso batalhão chegou aqui de Heuberg há apenas alguns dias e logo no
primeiro contato caímos numa emboscada. Fiquei para trás com minha seção e
escapei.
– Em outras palavras, você correu – diz Porta, rindo sarcasticamente. –
Nosso Adolf não gostaria disso... Se ele chegasse a saber, bem entendido.
– Podemos juntar-nos ao grupo de vocês? – pergunta o primeiro-sargento,
ignorando a piada.
– Vocês têm armas? – pergunta o Velho, de modo brusco.
– Apenas carabinas com 20 tiros por homem – responde o sargento. – Os
prussianos não são por demais generosos com os “500”.
– Há combustível naquilo? – pergunta o Velho, apontando com a cabeça
para o caminhão.
– Não, só anda morro abaixo.
– Então estamos bem – fala, divertido, Porta. – A Wehrmacht da Grande
Alemanha está habituada a coisas que se movem nessa direção.
– Podem ficar se quiserem – diz o Velho, encolhendo os ombros. – Mas
lembre-se de que eu mando aqui!
– Temos que entregar-lhes nossos cadernos de pagamento?
– pergunta um jovem soldado “500”, estendendo o dele.
– Limpe seu rabo com ele, meu filho – sugere Tiny, assumindo um ar
protetor.
– Nós estamos enrabados – diz o Velho para o sargento.
– Nosso caminhão de transporte incendiou-se e está perdido, de maneira
que só nos restam os pés para andar. E uma marcha por sobre as montanhas...
– Você as conhece? – pergunta o sargento, com um sorriso amargo.
– Não – responde, lacônico, o Velho.
– Dizem que lá em cima é o cu do mundo, e que dois dias de sobrevivência
é uma longa vida – diz o primeiro-sargento olhando, preocupado, a massa negra
das montanhas. – Cobras, escorpiões, formigas gigantes e Deus sabe mais o
quê. Os cactos armazenam uma quantidade de veneno suficiente para abastecer
uma fábrica de produtos químicos!
– Você tem uma ideia melhor? – pergunta o Velho, mordendo um pedaço
de fumo de mascar.
– Não. Agora trabalho para você!
– Todo seu pessoal tem experiência de combate?
– Apenas alguns – responde o sargento, com um sorriso cansado. – O resto
deles são trapaceiros e ladrões. Há até um estuprador entre eles!
O Velho suspira e lança uma cusparada marrom de tabaco em direção ao
poço. Ajeita sua Mpi* numa posição mais confortável no ombro.
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* Mpi: Maschinen-pistole: metralhadora de mão.
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– Diga a seus cules que estamos sob regime de conselho de guerra
sumário!
– Corte marcial sumária, hein? – o sargento enrola as palavras na língua.
– Nada de falta de compreensão? – pergunta o Velho, zombeteiro.
– Eu nem pensaria nisso – fala o sargento, com ar maroto.
– Fico satisfeito porque nos entendemos.
À– Que tal umas duas Mpis ou uma LMG?* – pergunta o sargento,
oferecendo um maço de Junos**.
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* LMG: Leichtes Maschinengewehr: metralhadora leve.
** Junos: Marca popular de cigarros.
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– Você pensa que está num maldito arsenal? – resmunga o Velho,
voltando-se nos calcanhares e chutando um capacete que voa pelo ar e vai cair
num cadáver. – Você abandonou seu equipamento por aí – censura-o. – Não há
mais disciplina! Como pode um exercito lutar numa guerra com seu maldito
equipamento espalhado por todo o mapa dessa embrutecida Europa?
– Por Deus! Você está de mau humor hoje – observa Porta, abrindo sua
terceira lata de atum.
O Velho não responde, ajeita sua Mpi no ombro, acende seu velho
cachimbo com enfeite de prata e dirige-se para o reboque de munições, onde o
sargento foi sentar-se com alguns de seus homens.
– Qual é seu nome? – pergunta o Velho, mal-humorado.
– Schmidt. – E depois de uma breve pausa: – Regimento de Linha.
O Velho tira o cachimbo da boca vagarosamente e lança para o lado uma
cusparada escurecida pelo tabaco.
– O que significa isso?
– Pensei que lhe interessaria.
– Não ligo à mínima mesmo que você fosse um marechal de campo!
O Velho se afasta e vem sentar-se com o resto de nós, pedindo seu quinhão
na lata de atum de Porta.
– Diabo! Estou cansado – resmunga Gregor em tom desanimado, limpando
com a manga o rosto mascarado de poeira. – Eis-nos aqui, a flor da Alemanha,
deixando que os untermensch urinem em nossas cabeças. Meu general e eu
nunca teríamos deixado que isso acontecesse. Se o tivéssemos e o nosso
monóculo conosco esses homens-macacos teriam muito com que se preocupar.
– Se as coisas continuarem como estão indo, a maldita Grande Alemanha
vai ser varrida do mapa – diz Búfalo, em tom pessimista – e nós alemães vamos
voltar a ser os personagens atrasados dos contos de fadas de Grimm.
– Nós iremos ser os bichos papões com que se assustam os menininhos
depois do anoitecer – concorda Porta.
– É uma merda de futuro, não é? – suspira Tiny desanimadamente,
arrumando, taciturno, as tiras de cartuchos nas caixas de munição.
Para o lado das montanhas do norte pode-se ouvir fogo de artilharia.
– Os vizinhos estão batendo à porta – cantarola Porta, virando um corpo de
costas para procurar obturações a ouro.
– Você leva o morteiro pesado – ordena Barcelona para um dos “500”.
Barcelona é primeiro-sargento mas não tem muitas oportunidades de fazer valer
seu posto quando está conosco.
– E o que me diz do pássaro negro ali? – pergunta Heide, apontando com
sua Mpi para o padre que está sentado, desenhando círculos na poeira da
estrada.
– Ele poderá ir quando formos ou poderá ficar onde está – responde o
Velho com indiferença.
– Expulse o filho da puta de preto para fora daqui – sugere Tango, um
alemão nascido na Romênia, que era professor de dança em Bucareste. Toda
vez que tem uma oportunidade dá uns passos de tango seguindo o ritmo de uma
orquestra imaginária própria.
– Liquidemos o miserável – grita Tiny. – Estes safados representantes do
céu na terra sempre dão azar!
– Sim, vamos dar um jeito nele. Nunca vi um desses pássaros negros
comprar bilhete para uma viagem sem retorno – brinca Búfalo, suas
gordurinhas tremendo com uma alegria marota.
– Eu direi a vocês quando desejar que alguém seja liquidado – decide o
Velho, friamente.
– Von ficar de olho nele de qualquer forma. A alma e o corpo nem sempre
andam de passo certo – diz Tango, dando alguns passos de dança em círculo. –
O 44º recebeu uma vez um desses pilotos celestiais que não tinha mais ligação
com os poderes celestes do que o próprio diabo possui!
Todo o mundo fita o padre.
– Deixe-me abrir a garganta do safado! – diz Tiny, passando os dedos no
fio de sua faca de combate.
Um esquadrão de He 111 passa roncando sobre nós. Um deles faz uma
curva e retorna.
– Só nos faltava isso, que eles nos tomassem por alguns dos pagãos – diz o
Velho, olhando nervosamente para os aviões de caça.
– Por Deus! Eles estão soltando sua merda! – grita Búfalo, correndo para
abrigar-se entre as casas.
– Abriguem-se! – alerta o Velho, ele próprio correndo para proteger-se por
detrás do muro do poço.
Eu vou atrás de Porta para dentro do poço. A água está gelada; quase me
afogo antes que ele me agarre– Nós dois nos penduramos no balde.
Ouve-se um estrépito e roncos por cima de nossas cabeças. Barulho de
tiros de metralhadoras. O esquadrão inteiro está nos atacando. Parece o fim do
mundo.
Os aviões não se vão enquanto toda a vila não desaparece. Estranhamente
nenhum de nós é sequer ferido. Ataques aéreos arrebentam os nervos mas não
são realmente eficientes. Imprecisos.
– Desde que você não se encontre onde as bombas caem, não há nada com
que se preocupar – diz Porta, rindo e sentando-se na areia exatamente no
mesmo lugar em que estava antes que o ataque começasse.
– Que tal ficarmos por aqui? – sugere o Primeiro-Sargento Schmidt. – A
divisão virá apanhar-nos.
– Será que a fodida da divisão virá? – exclama Porta, zombeteiramente.
– Merde alors! Eles têm muito mais o que fazer – acrescenta o Legionário.
– O que representa para eles uma seção?
– Nós não valemos tanto quanto um punhado de merda de gato seca –
afirma Tiny, atirando uma pedra num gato que está sentado, lavando-se, em
cima do cadáver de um soldado alemão.
– Jesus Cristo! – grita Porta, zangado. – Até os gatos em torno do Mar
Negro perderam todo o respeito pelo Exército alemão!
Como tudo isso vai terminar?
– Em Kolyma! – diz Gregor, com um sorriso, acertando em cheio o gato
com um capacete bem atirado.
– Aquele maldito gato é um maldito gato judeu – considera Tiny. – Ele
poderia até estar pensando em dar uma cagada em cima daquele pobre defunto
alemão.
– O que nós temos que sofrer – fala Heide, torcendo o nariz, zangado.
– O Exército está liquidado – conclui Tiny, acendendo um charuto. – Até
os garotos aviadores de Goering cagam em nossa cabeça!
–– Peguem suas coisas e vamos tocar para frente – ordena o Velho,
levantando-se.
– O corpo humano não foi feito para marchar – protesta Porta, exercitando
seus músculos enrijecidos e gemendo de dor. As montanhas são depressivas.
Toda vez que nós chegamos ao topo do que pensamos seja a última subida,
encontramos uma outra, ainda mais alta, esperando por nós.
A seção ainda não tinha ido muito longe, quando o Velho se lembrou de
que os cantis não haviam sido enchidos. Sem água, a floresta de cactos é morte
certa.
– De volta para o poço – ordena ele, bruscamente.
– Já lhes contei da ocasião em que eu e meu general marchamos através do
Danúbio? – pergunta Gregor.
– Esqueça-se! Já ouvimos essa história pelo menos 20 vezes – corta
Barcelona, irritado.
– Você comia junto com seu general? – pergunta Tango, interessado. Ele
tem uma decidida fraqueza pelos postos superiores.
– Naturalmente – responde Gregor, com condescendência. – Às vezes, nós
até dormíamos na mesma cama com nosso monóculo entre nós dois.
– Seu general era veado? – pergunta Porta, desrespeitosamente.
– Uma pergunta como essa podia colocá-lo frente a uma corte de honra de
campanha – murmura Gregor, insultado.
– Por todos os infernos – exclama Tiny, surpreendido. – Existe realmente
tal espécie de corte?
– Você às vezes tocava em seu general? –– pergunta Tango, com
admiração.
– Eu tinha que despi-lo toda maldita noite, quando ele ia descansar para
estar pronto para a guerra do dia seguinte – responde Gregor, orgulhoso.
– Está em tempo de procurarmos abrigo para nossos malditos rabos
despencados, não acham? – pergunta Tiny, olhando em direção as montanhas,
de cuja direção pode-se ouvir o fogo de metralhadoras.
– Quantos botijões d’água nós temos? – pergunta o Velho, engatilhando
sua engraxadeira*
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*Engraxadeira: designação de gíria pura a metralhadora alemã portátil
Modelo 40.
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– Apenas cinco – diz Barcelona, desolado.
– Em breve estarão acabados – comenta Skull, cuja voz soa como um saco
de ossos secos chocalhando.
– A porcaria da água está escorrendo para fora de você, tão depressa como
entrou – diz Tiny. – Como, diabo, pode um homem ser tão infernalmente
magro? Não posso entender.
– O Skull deveria ir para a América. Faria uma fortuna exibindo-se como
uma vítima dos horrores dos campos de concentração – sugere Porta.
– Parem com o papo por um minuto – rosna o Velho – e escutem. Temos
que passar para o outro lado dessas montanhas com ou sem água. É nossa única
chance.
– Por Jesus Cristo! – intervém o Sargento Krüger – Você não sabe o que
está dizendo! Há uma floresta de cactos com espinhos do tamanho de baionetas.
Teremos que abrir nosso caminho através deles com facões de mato e dispomos
apenas de dois. Eles não vão durar muito. E lá em cima não há uma gota d'água
em lugar nenhum.
– Que diabo você sugere então? – grita-lhe o Velho, desesperado.
– Vamos nos mandar pela estrada – responde Krüger, olhando em volta à
procura de apoio.
– Você está inteiramente maluco – responde o Velho, afastando a proposta
dele com desprezo. – Os donos legítimos deste país estão enfileirados ao longo
das estradas com o firme propósito de nos eliminar.
– Vamos dar-lhes um pontapé nos colhões – sugere Tiny, virando o toco de
charuto entre os lábios e mordendo-o. – Chegou a hora destes vagabundos do
Mar Negro descobrirem quem é que os está visitando.
– Você é um homenzinho valente, não é? – fala Porta, sorrindo e
estendendo a mão para pegar um charuto.
Tiny passa-lhe um sem nada dizer.
Heide tem que fornecer-lhe um pedaço de salsicha de fígado.
Ninguém ousa refugar nada a Porta, quando ele pede algo. Se você deseja
continuar vivo, o mais prudente é manter-se em termos amigáveis com ele. Ele
possui aquela estranha espécie de sexto sentido, aliás só encontrado entre os
judeus, de ser capaz de farejar suprimentos a uma distância de quilômetros.
Soltem-no nu no meio do Deserto de Góbi e ele encontrará o caminho direto
para algo bebível. Talvez não uma cerveja geladinha, mas de qualquer forma
água.
O Legionário chuta os restos de um saco de pão e exclama amargo:
– On les em merde! O batalhão deve encontrar-se em algum lugar do outro
lado daquelas montanhas!
– Talvez – diz o Velho, laconicamente. – Esta é a direção em que nós
vamos de qualquer forma. Agora atenção: não atirem a esmo; atirem apenas
sobre alvos convenientes. Não se esqueçam de que o fogo atrai o inimigo e nós
não desejamos isso!
Do lado norte, parte um som: “plop”, “plop”!
– Oitenta milímetros – opina Búfalo como um perito, assoando o nariz com
os dedos.
“Crac”, “crac” e “crac” de novo!
– Cinquenta milímetros – diz Porta, jogando fora, desapontado, um saco de
pão vazio.
– Quem lhes fornece toda essa merda? – pergunta Gregor, preocupado.
– Traidores italianos e alemães vendem para eles – responde, friamente,
Julius Heide,
– Deveriam ser enforcados. Deveria haver apenas uma forma de punição: a
morte! Nós somos muito molóides. Pensamos como mulheres.
– Em breve você e o Adolf seriam os únicos vivos na Alemanha – diz
Porta, rindo barulhentamente.
– Deus nos ajudará – murmura o padre, olhando para nós.
– Escutem a máquina de rezar funcionando – zomba Skull, jogando um
pedaço de pau no padre. – Deus não ajuda a nós cules: é mais provável que nos
dê um chute no rabo!
– Cristo ajuda a todos que rezam a Ele – responde o padre, tranquilo,
olhando para o deserto castigado pelo sol, onde os edifícios em ruínas ainda
fumegam depois do ataque aéreo.
– Você e suas malditas criaturas celestiais – exclama Tiny, furioso. –
Aqueles que foram liquidados no maldito Morellenschlucht* balbuciavam suas
malditas orações até serem fuzilados e
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* Morellenschlucht: Pátio de execuções militares em Berlim.
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Deus não ajudou em nada os pobres filhos da puta!
– Consegui um contato – grita Heide, girando febrilmente os dials do rádio
de campanha. – Quem diabo é você, seu porra-louca? – grita no aparelho.
– De nada adianta você elogiar-nos! Aqui fala o Exército do Povo. Nós
estaremos limpando vocês, seus merdas alemães, para fora das estradas, muito
em breve.
– Foda-se, seu gorila! – esbraveja Heide.
– Vocês já eram, seus comedores de salsichas! Daqui a 15 minutos vocês
estarão prontos para o moedor de carne!
– Cabeça de bagre! – cospe Heide furioso no rádio. – Você está maluco!
– Vocês já eram, seus comedores de porcos nazistas!
– Que filho da puta audacioso – exclama Tiny, enfurecido. – Vamos lá em
cima atrás dele!
Um apito agudo é produzido no rádio. O contato está desfeito.
– Vocês acham que eles podem nos ver? – pergunta, nervoso, Skull.
– Claro que não – diz Tiny, desdenhoso. – Se pudessem já teriam liquidado
conosco a esta altura.
– Esses não são guerrilheiros comuns – diz, pensativamente, o Velho.
– Filhos da puta comunistas. Vermelhos como um rabo de macaco – brada,
exasperado, Tiny, sacudindo seu punho na direção dos picos das montanhas.
– Será que ninguém pensa que agora seria uma boa ocasião para apontar
seu pênis na direção certa e segui-lo? – diz Porta, juntando seu equipamento.
– O exercício fará bem a vocês – diz Tango, rindo e ensaiando alguns
passos de dança ao longo da praça.
Búfalo estende-se ao comprido na areia quente e abre um volumoso
documento.
– Eu e toda minha família temos que aparecer perante uma comissão de
pureza racial – explica ele. – É porque eu me tornei meu próprio avô!
– Isto é impossível – observa o Velho, divertido, e descansa sua Mpi.
– Nada é impossível no maldito Terceiro Reich. Antes que eu me dê conta
do que está acontecendo, serei meu próprio bisavô. Esperem até que aqueles
rapazes da pureza racial comecem a mexer comigo. Foi culpa de minha mulher,
aquela cadela maluca. Ela tem uma filha crescida pela qual meu pai se engraçou
e com a qual se casou.
– A filha de sua mulher deve ser sua filha – disse o Velho, com uma
expressão de quem não está acreditando muito na história.
– Certo. Certo, mas mesmo assim não muito certo. Ela teve essa filha antes
de nos amarrarmos. E isto significa que meu pai tornou-se meu genro e minha
filha minha mamãe!
– Simples de compreender – diz Porta, rindo. – Sua filha é a mulher de seu
pai.
– Que droga – fala Gregor. – Só porque um homem se casa com uma
mulher que lhe traz uma criança pré-fabricada.
– Isto, meu filho, é só o princípio – suspira Búfalo. – Compreendo melhor
agora os judeus, aqueles espertos filhos da puta. Eles não se casam a não ser
com virgens. Dois caras da Delegacia de Costumes já ficaram malucos com
este caso até agora e mais outros ainda virão. Eles não se conformaram de
chegar à conclusão de que eu e minha velhinha tínhamos um filho que era
cunhado de meu pai,
– Isto é evidente – diz o Velho. – Ele é irmão da mulher de seu pai.
– Sim, e ele não é apenas meu filho, é também meu tio – geme, tristemente,
Búfalo – porque é irmão de minha mãe.
– Sim, porque a mulher de seu pai é a filha de sua mulher – diz,
cordialmente, Barcelona, com um sorriso.
– As coisas se tornaram realmente complicadas – queixa-se Búfalo com ar
infeliz – quando minha filha, esposa de meu pai e minha mãe, teve um filho.
Ele é meu irmão, porque é filho de meu pai, mas é também o filho de minha
filha, o que me torna seu avô.
– Então sua esposa subitamente tornou-se sua avó – anuncia Porta,
alegremente.
– É... situação maluca, não é? – resmunga Búfalo, dirigindo os olhos como
perdido para o céu. – Sou o marido de minha mulher, mas também sou seu neto
porque sou irmão do filho da filha dela, e uma vez que o marido de sua
avozinha deve ser seu avô – e ele agita seus braços desesperado – então é claro
como água que sou meu próprio avô e aquela velha comissão de pureza racial
não entende como isso possivelmente pode ser legitimado. E esta é a razão pela
qual sou acusado de miscigenação... que é uma espécie de incesto.
– Eles vão metê-lo no xadrez meu filho – profetiza Tiny,
ameaçadoramente. – Espero apenas que Adolf não ouça falar de você.
Uma pesada explosão de granadas interrompe esta estranha história de
família. O ruído dos tiros de canhão e as explosões rolam e ecoam
profundamente por toda a montanha.
Nós nos movimentamos; uma nervosa inquietação apossa-se de nós.
– Fiquemos onde estamos – aconselha o Primeiro-Sargento Schmidt. – É
loucura meter-se dentro daqueles cactos. Até os animais mantêm-se afastados
deles.
– C’est le bordel – fala, rispidamente, o Legionário, colérico. – É loucura
ficar aqui. Eles cortarão nossas gargantas antes de sabermos o que está
acontecendo. Os cactos são nossa única chance.
– Eu conheço o caminho. Caminho muito ruim – diz Stojko, do Regimento
de Guardas da Bulgária. Ele foi o único homem deixado vivo de uma
Enfermaria de Cirurgia de Campanha apanhada pelos guerrilheiros. Salvou-se
escondendo-se numa caixa de membros amputados até que os guerrilheiros se
fossem.
– Qual é o tempo de marcha? – pergunta o Velho, esperançoso.
– Três, talvez quatro dias – responde, incerto, Stojko. – Mas devemos ir
muito ligeiro. Não pensar em água.
– A água é o maior problema – queixa-se o Velho, acendendo seu
cachimbo de borda prateada.
– Ouvi dizer que os camelos comem cactos devido ao suco que eles têm –
observa Búfalo.
– Impossible, mon ami – retruca o Legionário. – O suco tem um gosto pior
do que mijo de macaco fervido.
– Será que a gente não poderia habituar-se ao gosto? – pergunta Porta,
interessado. – Eu preferia beber mijo de macaco a morrer de sede!
E todo o dia se passa sem que nós sejamos capazes de chegar a uma
decisão. Os cadáveres emitem um tremendo fedor. O Velho já nos disse várias
vezes para os enterrarmos, mas nós fingimos não tê-lo escutado.
Ele desiste temporariamente e senta-se numa pedra entre Barcelona e o
Legionário.
– Precisamos depositar nossa confiança em Stojko – diz ele com
tranquilidade, observando o búlgaro com seu sujo uniforme cinza-azulado de
guarda, com seus debruns e enfeites vermelhos.
– Ele conhece o mato – diz o Legionário, acendendo, pensativo, um
Caporal. – Estes camponeses das montanhas são mestres em forçar a passagem
por uma floresta de cactos. E onde eles podem ir, nós também podemos,
Gostaria de ver o camponês que é melhor do que nós, soldados regulares.
– Já esteve nesta espécie de mato? – pergunta Barcelona, com um risinho
zombeteiro.
– Non, mon ami – responde o Legionário – mas já ouvi falar muito a
respeito e sei que é pior do que uma viagem com os pés descalços por dentro
dos caldeirões do inferno.
– Eu já estive lá – responde sombrio Barcelona, esfregando com a mão sua
Mpi. – É um inferno depois do outro; o próprio diabo não ousaria meter-se lá. É
um lugar que Deus esqueceu que existia. Depois de algumas horas, você se
convence de que sua vida terminou; o lugar inteiro cheira a morte. A única
coisa viva são répteis venenosos que o atacam logo que o veem. Arranhe-se
num daqueles infernais espinhos e você está liquidado.
– Que perspectiva! Que perspectiva! – exclama Porta, engolindo uma
sardinha inteira.
– Em breve, nós tomaremos conta dessas malditas serpentes e do maldito
cacto – rosna Tiny, com a voz cheia de convicção. – Nós somos alemães, não
somos? Conquistadores, não somos?
Ao cair da tarde, um Kübel todo enlameado entra roncando pela vila. Um
major cm uniforme de camuflagem com uma metralhadora de mão embaixo do
braço salta do veículo e começa a gritar ordens.
– Está na hora de vocês se juntarem e montarem uma barricada para
bloquear a estrada! – E, batendo com os pés no chão:
– Ou pensam que está na hora de fechar o botequim e arriar as portas? A
divisão mandará reforços amanhã de manhã o mais tardar. E você, primeiro-
sargento – ordena o major, virando-se para o Velho – sua cabeça fica
responsável, se esta vila não for mantida!
– Nós não temos muita munição, senhor. Não poderemos manter este
buraco por mais do que uma hora!
– Não teme ensinar o padre a dizer missa – grita o major, ficando com o
rosto vermelho de raiva. – Mantenha a vila ou será enforcado, se não o fizer!
O major faz meia-volta e sobe de novo no caminhão que desaparece na
estrada em enorme velocidade.
– Corre como uma mula com um cacto pregado no rabo – comenta,
risonho, Porta. – Será que ele realmente pensa que vamos brigar com os
vizinhos por causa deste lugar?
– Ele partiu realmente rápido – disse Tango. – Não acreditaria que um
Kübel pudesse atingir tal velocidade.
– Bebês cagões com uma maldita má consciência – declara, zangado, Tiny,
e dá um chute num pé decepado de um cadáver.
– Atitude típica desses filhos da puta bem engraxados! Como adoram nos
mandar quando sentem um cheiro de Valhalla e de uma maldita morte de herói!
– observa Búfalo, melancolicamente.
Sentamo-nos de novo. Skull pega moscas, e depois as come.
Diz que têm gosto de camarão, Convence-nos até a experimentar; nós não
concordamos com ele. Será que foi um pássaro em outra encarnação?
– Allons! – diz o Legionário – Ficar aqui é uma bosta.
– E quem vai aguentar a vila? –– pergunta o Velho, preocupado. – Vocês
ouviram as ordens do major!
– Aquele grandessíssimo filho de uma puta – brada Tiny. – Ele não tem a
porra de uma ideia sobre que porra somos nós! Somos a única porra boa nesta
porra de Exército. Nós todos parecemos à mesma porra na mesma porra de
uniforme.
Numa confusão de animais cobertos de espuma, poeira e sabres brilhando,
uma unidade de cossacos de Vlassov entra trotando na vila. Um primeiro-
sargento de cavalaria faz seu cavalo parar; o animal recua e relincha, nervoso.
– Que unidade vocês? – pergunta o russo em mau alemão.
– A unidade da Santíssima Trindade – responde Tiny, rindo-se
abertamente.
– Não seja confiado, cabo! – rosna o sargento cossaco, dando um golpe
perigoso com seu .sabre em direção a Tiny. – Fique em posição de sentido
quando falar comigo!
– Ora, seu filho de uma porra de um bode do Cáucaso! – responde Tiny,
em tom de desprezo. – Pensa que um cidadão da porra de Hamburgo vai bater
os calcanhares para um merda como você? Seus próprios companheiros vão
enforcá-lo um dia destes, pode contar com isto, filho!
– Primeiro-sargento, puna esse homem – brada o sargento de cavalaria,
estourando de raiva.
– Pare com isso! – diz entre dentes o Velho, rodando nos calcanhares. – Vá
procurar outro lugar para se divertir.
O cossaco puxa as rédeas de seu cavalo de forma que ele empine.
Tiny pula para o lado a fim de evitar ser atingido pelas patas dianteiras.
Espantado, o alemão respira profundamente.
– Que porra é essa? Seu filho de uma porca sifilítica e de uma porra de um
barbeiro de babacas de mulher! Vou ensinar-lhe! – berra Tiny. Dá um soco de
esquerda no focinho do cavalo e ao mesmo tempo agarra-o pelo pescoço e tenta
jogá-lo no chão.
O cavalo se ajoelha e relincha assustado.
O sargento cossaco ataca Tiny com o sabre.
– Maldito macaco assassino – ruge Tiny derrubando o cossaco do cavalo e
atirando-se a ele aos socos. – Maldito filho de uma puta!
– Parem com isso, agora – grita o Velho, levantando sua Mpi:
– Você está pensando que vou deixar este encarquilhado merda de um
renegado liquidar comigo?
Neste momento, um cabo, numa pesada motocicleta BMW, entra na praça
aplicando os freios e parando depois de uma derrapada de lado.
– Meu Deus! Pensei que vocês fossem guerrilheiros. Tudo está muito
confuso. Sou mensageiro do Estado-Maior do 12º de Granadeiros! Eles
cortaram nossa retirada. Os guerrilheiros estão na Estrada 286 e está tudo um
inferno em torno de Karnolbat!
– Para onde você está indo, então? – pergunta Porta curioso.
– Estou me mandando para Malko Sarkovo – diz o mensageiro em tom
confidencial. – E dali vou para Vayasal.
– Isto fica na Turquia – intervém, espantado, Heide.
– Você está absolutamente certo, é lá que fica! – diz o cabo, rindo, o rosto
irradiante. – Já estou saturado desta merda de guerra. Dentro de três dias,
estarei me divertindo com um harém na praia em Tekirdag, e vocês rapazes
podem conquistar o que quiserem até se foder, que não estou ligando. Mas não
contem comigo, entendem?
– Isto é deserção. Irá custar-lhe o pescoço! – exclama Heide, indignado.
– Sem dúvida é verdade, companheiro! – O mensageiro ri. –
Prolongamento da vida, é o que chamo. Quero morrer na cama, como os
fodidos dos generais morrem. Isto é que é democracia.
– Você é um traidor! – confirma Heide, – Você não sabe que a
Constituição diz que é o dever de todo o homem, e seu direito, defender a Pátria
com sua vida?
– Nunca assinei meu nome ao pé dessa lei, meu filho – responde o cabo,
rindo-se. – Aqueles que o fizeram podem lutar a maldita guerra!
– Você não é grato a seu país? – pergunta Heide, indignado.
– O país que se foda! Nunca pedi para ter nenhuma pátria e as roupas que
tive que vestir desde que a pátria assumiu a responsabilidade por meu maldito
guarda-roupa não são aquelas a que cu estava acostumado, de forma nenhuma!
– Dá partida com o pó no pesado motor da BMW, ajusta–se na sela, coloca sua
Mpi em posição e arria o capacete por sobre o rosto. – Querem que eu dê
lembranças de vocês às garotas turcas e ao resto dos fodidos muçulmanos,
rapazes?
– Faça isso – diz Porta, rindo alegremente. – Diga-lhes para deixarem as
portas abertas que estou indo para lá.
– Que tal se eles o mandarem de volta? – pergunta Gregor, com ceticismo.
– Os suecos fazem isso. O que o leva a pensar que os turcos não serão uns
merdas iguais?
– Será conforme a vontade de Alá, como eles dizem lá para onde eu vou,
não é verdade? – responde o cabo, encolhendo os ombros. – Se você chega sem
levar nenhum presente. Estou com o estado-maior, companheiro, e tenho um
bocado de interessantes Gekados como material de leitura para os seguidores
do Profeta.
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* Gekados (Geheime Kommandosachen): Documentos de comando
secretos.
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Algum de vocês, rapazes, quer ir comigo? Há espaço na almofada que fica
por trás desse seu criado.
– Alguém que não possa marchar? – pergunta o Velho, olhando em torno.
– Senhor, senhor! – geme Porta, capengando e usando sua LMG como
muleta. – Senhor, meus pés não valem mais nada. Sou obrigado a andar sobre
meus calcanhares!
– Caia fora. Porta! –– diz o Velho.
Com um ronco que parece um trovão, a BMW desaparece na estrada
poeirenta.
– Acham que ele vai conseguir? – Gregor ainda continua cético.
– Essa espécie de cabos alemães sempre consegue as coisas – afirma Porta,
categoricamente.
– Entende de bússola? – o Velho volta-se para falar com Stojko. – Sugiro
que peguemos o rumo 46. Isto combina com o que você sabe?
– Sargento, eu dizer sim. Bússola coisa boa – responde Stojko, examinando
com interesse o instrumento colocado sobre o mapa. – Nós vamos maneira
Stojko e maneira bússola. Na frente soldados maus, sem divisas. Cortar mato,
afastar cobras.
– Avançar! – grita o Velho, pegando sua engraxadeira e jogando-a sobre o
ombro.
Por algum tempo, seguimos a estrada para Gulumanovo; depois nos
desviamos para os morros e a estrada não é mais do que marcas de rodas.
Uma metralhadora ladra por perto. A coluna para por um momento,
escutando. Procuramos divisar qualquer coisa dentro do mato, sem sucesso.
Nenhum de nós gosta da ideia de ter que marchar através daquele labirinto de
espinhos e de vegetação seca e emaranhado, de aspecto fantástico.
A lua parece pálida e lança longas sombras espectrais.
“Swish, swish!” Os facões de mato entoam sua canção à medida que dois
“500” abrem o caminho através dos cactos.
Estamos tensos e na expectativa; sentimos o cheiro do perigo e da morte.
Mantemos nossas armas prontas para usar.
– Maldito lugar! – sussurra Búfalo, apavorado. – Prefiro Ivan. Pelo menos
o conhecemos!
– C’est un bordel! – exclama o Legionário. – Mas vai ficar pior ainda!
Tiny para tão bruscamente que eu esbarro nele.
– Há alguém nos observando – sussurra ele, com a voz rouca. – Alguns
filhos da puta. Assassinos de uma porra.
– Estás seguro? – pergunta o Velho, ansioso. Ele conhece e respeita os
instintos animais de Tiny.
– Nunca me engano – resmunga Tiny. – Vamos achá-los e cortar a porra
dos colhões deles.
– Não contem comigo – murmura Porta, nervosamente. – Está mais escuro
ali que dentro da babaca de uma puta negra.
– Puta negra, hem? – diz Tiny. – Eu era capaz de encontrar uma delas num
blackout.
Silenciosamente, eles desaparecem entre os troncos sombrios dos cactos.
– Beseff – sussurra o Legionário, apertando a coronha da LMG de encontro
ao ombro.
O tempo passa muito devagar. Após quase quatro horas, um grito de morte
corta o silêncio.
– Que foi isso? – cochicha Gregor, com ar assustado.
Pouco antes do amanhecer, eles voltam carregando um grande porco
selvagem entre os dois.
– Este porra foi o único guerrilheiro que nós encontramos – fala Tiny,
rindo. – Estava quase tão assustado e se mijando como nós.
– Foi amor à primeira vista – exclama Porta, batendo nos quartos traseiros
do porco morto.
– Que foi aquele grito? – perguntou o Velho.
– Foi aqui o nosso amigo – disse Porta, com um sorriso. – Não lhe agradou
muito ter a garganta cortada.
– E os guerrilheiros? – perguntou o Velho.
– Eles estão por aí em algum lugar – confirma Porta, olhando, inquieto,
para a massa fechada de cactos. – Não entendo, porem, como eles podem
movimentar-se através desse troço sem cortar um caminho.
À distância, troveja a artilharia; o ar treme com as explosões.
– Eles certamente continuam a martelar! – diz o Velho, inquieto. – Antes
de descobrirmos onde estamos, eles estarão explodindo todos nós e mandando-
nos para a eternidade.
Um ex-tenente dos “500” planta-se na frente do Velho.
– Bem, primeiro-sargento! E agora? Desistindo? Então eu assumo o
comando. Embora eles tenham tirado meus galões, deve concordar que tenho
mais experiência do que você no comando de tropa.
O Velho acende vagarosamente seu cachimbo de borda de prata e olha para
o oficial, que está plantado à sua frente, balançando-se com ar importante,
demonstrando uma expressão perigosa.
– Soldado! Ninguém nunca lhe disse que você junta os calcanhares e
mantém o corpo ereto quando fala com um superior?
O ex-tenente fica ligeiramente nervoso, mas é teimoso.
– Primeiro-sargento! Pare com essa tolice. Vou assumir o comando e
liderar esta unidade. E chega disso!
Tiny dirige-se para ele.
– Olha aqui, meu filho – ameaça, segurando o ex-tenente pelo colarinho. –
Você não vai assumir o comando porra nenhuma! Meta sua viola no saco e
fique quietinho até que alguém o chame.
– Quebre Q coco dele e deixe a merda correr – sugere Búfalo, lambendo os
beiços.
Tiny empurra o ex-tenente para trás em direção à pele do porco recém-
esfolado.
O padre se ajoelha e começa a rezar com sua voz fininha de sacerdote.
Agita à sua frente um tosco crucifixo feito de galhos.
– Jesus! Lá começa ele de novo – diz Skull, rindo.
Tiny levanta-se em cima de um cotovelo e fixa o olhar nos cactos.
– Aqueles filhos da puta estão de novo a nos observar!
Búfalo pula de pé e, antes que alguém possa impedi-lo, descarrega um
pente inteiro no mato num longo estrelejar.
– Você está maluco, homem? – zanga-se com ele o Velho cheio de raiva. –
– Você vai atrair um batalhão inteiro deles em cima de nós.
– Elas me enlouquecem, essas malditas plantas de cactos. Havia olhos a
nos observar – choraminga Búfalo, suas gordas bochechas tremendo.
– O Coronel “Javali Selvagem” nunca deveria ter-me afastado daquela
comissão como motorista do meu general – suspira, desconsolado, Gregor. –
Ele nunca o teria conseguido, se meu general e nosso monóculo não estivessem
numa viagem de serviço a Berlim. Foi um erro tático termo-nos separado os
três.
– Você poderia até ter vencido a maldita guerra, hem? – fala o Velho,
sorrindo. – Você, seu general e o monóculo de vocês?
– Não teria sido impossível. Nós pertencíamos uns aos outros. Você
deveria ver quando nosso monóculo piscava para um chefe de estado-maior e
nós dizíamos rispidamente: “Venha aqui, senhor, e dê uma olhada no mapa da
batalha...” Isto era o bastante para fazer com que eles começassem a cagar-se
nas calças. Quando tirávamos nossos bonés, os dentes deles começavam a
tremer; nós não tínhamos nem um traço de penugem em nossas cabeças: um
cocô de um verdadeiro oficial prussiano. O oficial intendente era um bestalhão
que nunca deveria ter sido promovido à primeiro-tenente. Para transferir seu
ponto de apoio de tinha que cruzar diversas vezes através de fogo de artilharia
com suas carretas e de forma alguma apreciava isto.
– Herr general – dizia ele, timidamente – como posso atravessar com
minhas unidades motorizadas através do bombardeio inimigo? Só posso usar a
Estrada 77. – E o idiota apontava essa estrada para nós no mapa, como se todos
não soubéssemos onde ficava a maldita 77.
“Meu general enfiou o dedo dentro do alto colarinho de seu uniforme para
afrouxá-lo e respirou profundamente. Com as sobrancelhas levantadas quase até
em cima da testa ele olhou para o intendente e disse: “Se achar melhor, poderá
providenciar para que seus soldados sejam carregados pelo terreno em
palanquins por carregadores cafires, ou talvez deseje que eu resolva .vens
problemas para você? Se está em dúvida sobre o que fazer, sugiro que peça
conselho a seus motoristas.” Tirou o monóculo e de novo o colocou.
“O primeiro-tenente soluçou algo que soava como: “Muito bem, Herr
general! “Os anjos naquele dia cantaram: metade da tropa pelo fim da tarde já
tinha encontrado uma morte de herói”.
“Vacas”!, disse meu general. quando batemos as portas do automóvel com
força e arrancamos, derrubando um par de inocentes ajudantes de ordens.
“Psicologicantente é bom partir deixando uma nuvem de poeira”, explicou
meu general. E enfiamos a mão dentro do uniforme, para todo o mundo ver-nos
como imagens de Napoleão.
“Agora aqueles tolos vão talvez lembrar-se por algum tempo de quem é
que toma as decisões”, disse meu general, ingerindo um grande gole de seu
copo. Nós sempre tomávamos conhaque em copos de cerveja; os copos normais
continham muito pouco para nós.
“Sim senhor, meu general”!, exclamei.
“Eu tornava um copo, não mais”. Meu general não gostava que seu chofer
bebesse demais. Era uma grande responsabilidade dirigir o carro de um general.
mas eu normalmente dava um jeito de virar uns dois ou três copos quando ele ia
para a cama. Um pouco depois disso, nos ganhamos nossa quarta estrela e
assumimos o comando de um grupo de exércitos, mas, perversos como eles são,
o maldito QG do Pessoal mandou folhas de carvalho e galões vermelhos para o
Coronel “Javali Selvagem; se ele já era um horror como coronel ficou pior do
que você possa imaginar como general de brigada”. Fui visitá-lo umas duas
vezes na esperança que lhe dessem uma divisão que ele pudesse conduzir para a
morte e a destruição, mas não o fizeram. Em vez disso, nomearam-no chefe do
estado-maior de minha divisão. Foi meu azar. Meu general voou para Berlim
para agradecer-lhes por sua nova estrela e para mandar fazer novos uniformes,
agora que ele era um general de exército. O “Javali” encontrou-me na sala de
operações, quando voltei do campo de aviação sem meu general e nosso
monóculo, Sorria como o diabo ao ver padres sendo assados nas brasas do
inferno.
Deu-me a escolha de partir imediatamente para o outro lado da linha de
frente ou submeter-me a um julgamento sumário com ele na presidência da
corte de justiça. A sentença já estaria decidida previamente. Eu podia antever o
maldito cadafalso muito bem em seus malvados olhos amarelos.
– O que você havia feito? – perguntou Barcelona, intrigado.
– Quando se é motorista de um general, é fácil ver-se envolvido em coisas
que pode metê-lo em dificuldades. Eu nunca sonhara que o maldito “Javali”
vinha guardando tudo contra mim.
Jogou-me os documentos na cara e, com um horrendo sorriso, acrescentou
de forma a mais paternal possível: “Sargento Martin, se tivesse nascido 20 anos
antes e vivido em Chicago, Al Capone teria encontrado em você uma boa mão
direita. Mesmo agora, qualquer corte no mundo o sentenciaria sem hesitação à
prisão perpétua pelas coisas que você fez.” Em seguida, por 15 minutos, ele me
injuriou impiedosamente. Como subalterno você tem que aguentar essa espécie
de coisa, quando é o chefe do estado-maior que está dando as cartas. Todos
aqueles sentimentos militares primitivos apossaram-se dele. Andava para um
lado e para o outro e cada vez que parava flexionava os joelhos e fazia suas
botas rangerem. Ele possuía as botas mais rangedoras do mundo; feitas
especialmente para tal fim, sem a menor dúvida. Seu nariz era desses que têm
problemas com portas de vaivém e faz você lembrar-se da maldita história de
Roma; seus óculos eram como os faróis de um Horch.
Tomei uma profunda respiração, criei coragem e perguntei se eu poderia
esperar até que meu general e nosso monóculo voltassem de forma que eu
pudesse congratular-me com ele pela quarta estrela. Não são todos os
prussianos que alcançam isto. General de exército é somente para a crème de la
crème. Meu general dizia-me muitas vezes que era mais fácil um assassino
entrar no reino dos céus do que um homem nascido de uma mulher tornar-se
um general prussiano.
“Tive que perguntar duas vezes antes que o ‘Javali’ parecesse haver
entendido o que eu estava pedindo. Enterrou o queixo no colarinho e assoou o
nariz como um rinoceronte preparando-se para atacar.
“Você pensa que sou idiota?, gritou, enraivecido.
“Eu pensava, mas achei que prolongaria minha vida, se eu guardasse tal
opinião para mim mesmo. Ele sabia o que estava fazendo muito bem, o filho da
puta. Se me deixasse esperar para dizer adeus a meu general e nosso monóculo,
aquilo não iria resultar em nada. Seria o mesmo que acontecera na ocasião em
que me pus a rir vendo os generais atirando em suas próprias costas através do
gelo.* Meu general tentou chamar-me de volta várias vezes, mas o maldito
‘Javali’ conseguiu impedir através de suas ligações em Berlim. A vida não é
terrível?
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* S.S. General, do autor.
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Gregor olha para o céu como se algum auxílio pudesse ser esperado dali.
– Já pensou quão poucas vezes você alcança o que deseja?
– Justamente quando tudo vai indo bem para seu lado, você leva um
tropeção. – Ele mostra um par de mãos sujas, feridas e calejadas. – Antes, elas
eram brancas e macias como as de uma freira. Olhe para minhas botas: toda a
merda dos Bálcãs agarrada nelas. Quando estava com meu general, elas eram
polidas como espelhos. – Suspira e enxuga uma furtiva lágrima quando pensa
em suas passadas grandezas. –– Não fui feito para todas essas andanças com a
infantaria – suspira de novo. – No templo de meu coração, queima uma grande
vela por meu general e nosso monóculo, e sei que ele pensa em mim quando se
ajoelha em seu uniforme noturno junto à sua dura cama de vento e confia-se ao
Supremo Senhor da Guerra e reza para que ele abençoe nossa guerra.
Estávamos marchando por cerca de uma hora, quando uma metralhadora
pipocou de dentro do cacto em cima de nós.
– Corram, corram! – grita Skull, histérico. correndo para trás ao longo do
estreito caminho.
– Cale a boca, seu estúpido filho da puta! – repreende Porta, com irritação,
lançando urna granada de mão na direção do fogo de metralhadora. Uma forte e
seca explosão e a arma silencia.
Quase imediatamente, uma outra começa a martelar atrás de nós. O pânico
se estabelece. Uma granada de mão explode em nosso meio, arrebentando com
as pernas de um “500”.
Tiny agarra-se a um cacto. Balas rasgam as espessas folhas em torno dele.
Estou no chão, achatado quanto posso atrás de um formigueiro. Búfalo,
com seus 136 quilos de peso, seu capacete e uma Mpi, desce pela trilha aos
berros. sua Mpi cuspindo fogo. De dentro dos cactos ouve-se uma infernal
gritaria da qual fazem parte os selvagens berros de Búfalo.
– Ele ficou doido – opina Porta, comprimindo-se contra o terreno.
Um pouco mais tarde. Búfalo surge do meio dos cactos, arrastando com ele
dois corpos ensanguentados.
– Que diabo deu em você? – pergunta Porta, olhando, espantado, para
Búfalo, enquanto este limpa sua faca de batalha num dos corpos.
– Fiquei enlouquecido. De tal modo que poderia quebrar cocos com minha
maldita bunda – exclama ele, irritado. – Estes filhos da puta desses
guerrilheiros já vinham mijando em cima de nos há muito tempo; estavam
precisando de umas boas porradas alemãs por cima dos ouvidos.
Bebemos a água de refrigeração de uma das metralhadoras, uma Maxim.
Tinha um gosto horroroso. mas era água.
O sol aparece por detrás das montanhas enquanto continuamos nossa
marcha. todas as coisas assumem um belo colorido vermelho e rosa. Trememos
de frio; as noites são frias mas assim mesmo as apreciamos. Dentro de uma
hora estará de novo quente Como um forno e começaremos a rosnar, mostrando
os dentes uns para os outros. Por volta do meio-dia já nos odiamos. É ao padre
que mais odiamos, com seu eterno rosário e suas orações.
– Deus está conosco! Deus nos ajudará!
– Feche essa matraca! – grita Heide, irritado. – Deus já nos esqueceu!
– Deus está do lado dos malditos vermelhos – afirma Búfalo, usando uma
folha de cacto como ventarola. Ele sua duas vezes mais do que qualquer outro;
duas vezes já tentou deixar o tubo lançador de granadas para trás, mas o Velho
percebeu ambas às vezes e mandou-o apanhá-lo.
Dois “500” vão abrindo caminho com os facões de mato. Cada meia hora
são trocados, pois é um duro trabalho abrir caminho através da floresta de
cactos.
Ao meio-dia, o Velho ordena um alto. A unidade está completamente
esgotada. Um dos “500” morre com terríveis convulsões; em sua bota
encontram uma pequena cobra verde. Porta mata-a e joga-a em cima de Heide
que fica tão assustado que cai desmaiado. A princípio, pensa-se que ele morreu
de um ataque do coração, mas quando se recupera há mais vida nele do que
Porta imaginava: foram precisos dois homens para segurá-lo, enquanto um
terceiro lhe amarrava as mãos.
Depois de uma hora, o Velho manda-nos prosseguir mas o avanço agora é
vagaroso; não conseguimos vencer senão alguns quilômetros até o pôr do sol.
Sem sequer pensar em comer, jogamo-nos no chão e tornamo-nos
inconscientes. Ficamos o dia seguinte inteiro no mesmo lugar; a escuridão caira
antes que acordássemos.
– Vamos fazer um café e tentar recuperar-nos um pouco – sugere Porta,
tirando a rolha de um dos cinco cantis.
Tiny senta-se no meio da trilha com seu absurdo chapéu de feltro na
cabeça, rolando um grande charuto de um canto da boca para o outro.
– As coisas não são tão ruins conto parecem – declara ele. – Esta merda de
cactos onde nós estamos enfiados não é tão ruim como ser queimado até morrer
torrado como um maldito pedaço de toucinho, numa porra de uma trincheira,
por um daqueles malditos lança-chamas. Vocês reclamam por causa do calor
aqui, mas já se esqueceram de quando estávamos em Kilyma, onde, se você
fosse do lado de fora dar uma mijada, a porra do cacete caía gelado? E o que
são essas merdas dessas formigas comparadas com aqueles brutos lobos
siberianos, cuja comida favorita era carne de alemães? Quando penso naquilo,
isto aqui é uma porra de um piquenique comparado com Kilyma.
– Você é por estúpido demais para compreender quão horroroso é este
lugar – diz Búfalo, que transpira como se estivesse numa sauna.
Tiny continua a fumar com seu nariz voltado para cima. Ele bate a cinza do
charuto com um gesto elegante que ele viu homens de negócio fazerem em
filmes americanos.
– Estúpido? Talvez eu seja, talvez não seja! O serviço militar ensinou-me,
meu amigo, que um corpo saudável é necessário, se você quiser sobreviver. Os
miolos crescem sozinhos, meu filho. Se tiver massa cinzenta demais quando
entra para o serviço, você fica biruta antes de saber o que está acontecendo. Os
porras que têm muita cabeça não podem suportar o serviço.
Um escorpião cruza a trilha; Skull esmaga-o com a coronha do fuzil.
O pesado ronco de fogo de artilharia continua sem cessar.
Uma porção de Ju 87 – Sutkas – aparece por cima da montanha; sua carga
de bombas ê perfeitamente visível sob as asas dos aviões.
– Onde quer que eles despejem aquela carga, ela vai causar um bocado de
destruição – diz o Primeiro-Sargento Schmidt, enquanto enche o carregador de
sua Mpi.
O Velho passa uma descompostura num ex-tenente que jogou fora dois
canos extras de armas.
– O primeiro homem que for apanhado abandonando armas será fuzilado –
berra, enraivecido, o Velho.
– Pergunto-me se jamais vão inventar uma Alemanha que seja um lugar
agradável para viver! – diz Búfalo, esmagando um comprido inseto verde sob o
tacão de sua bota.
– Em todo o lugar há divertimento – diz Porta, sem se dirigir az alguém em
particular, e a maior parte dos que estão em volta dele não o entendem. –
Lembro-me do tempo em que estive preso na praça forte de Munique apenas
porque eu desejava ser crismado na igreja. Eles pensavam estar-me punindo,
quando me prenderam, mas estavam inteiramente errados. Aqueles foram dos
mais maravilhosos momentos de minha vida. Momentos dos quais sempre mc
lembrarei com prazer. Passar um tempinho na cadeia é uma necessidade, se
você deseja aproveitar algo da vida.
– Tu o disseste – confirma Tiny, revolvendo o charuto na boca. – Mesmo
nesta maldita guerra em que nos metemos à gente não se aborrece.
– Não está querendo dizer que você gosta dela, não ê? – grita Skull,
escandalizado.
– Por que não? – pergunta Tiny, com uma expressão de felicidade no rosto.
– Não tenho tempo a perder sentindo pena de mim mesmo. Eu me divirto na
guerra. Como vou saber como será a maldita paz? Há alguns que dizem que
será uma porra muito pior do que a guerra. Meu velho avô, que esteve preso
oito anos em Moabitt, por ter ameaçado cortar as bochechas do cu do maldito
Kaiser, disse-me que mesmo em Moabitt podia-se passar uma temporada
agradável.
– Você acha que as formigas se divertem? – pergunta Barcelona, fuxicando
num formigueiro com o cano da Mpi.
– Nenhuma criatura viva pode existir sem se divertir – responde Porta. –
Até os beija-flores de vez em quando dão risadas.
– Eu vi o porra do Detetive-Inspetor Nass sorrir uma vez – continua Tiny –
e isto deveria ser uma coisa quase impossível. Vinagre é sorvete de frutas
comparado com aquele, amargo filho da puta.
– Abaixem-se! – grita Porta, jogando-se como um raio atrás da SMG*.”
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* SMG (Schweres Maschinengewehr): metralhadora pesada.
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Ouve-se um som como de um trovão e balas traçadoras cortam seu
caminho através do emaranhado dos cactos. Eu atiro granadas. Uma Mpi abre
fogo por detrás de um tronco de cacto. Ouvem-se gritos no meio de todo o
barulho e depois um silêncio mortal desce sobre o mato ensolarado. Os grilos
continuam com sua música longa e ininterrupta.
Permanecemos deitados, aguardando.
Heide apoia o lança-chamas numa pedra e manda um jato de fogo
assobiando por entre os troncos dos cactos. Um cheiro enjoativo de óleo
queimado mantém-se no ar aquecido pelo sol. Duas tochas vivas saem
tropeçando de dentro da floresta de cactos e rolam pelo chão em agonia no
meio da trilha. Aos poucos são carbonizados.
– O que, pelo amor de Deus, foi isso? – pergunta Búfalo, espantado.
– Guerrilheiros – diz Porta, rindo. – Qualquer coisa metálica reluziu ou
seríamos nós que teríamos morrido.
Ainda há alguma diabólica sorte do nosso lado. Entre os guerrilheiros
mortos há três soldados búlgaros.
– Parece que os nossos amigos dos Bálcãs nos estão abandonando – diz o
Velho, cutucando os corpos com o cano de sua Mpi.
– Vou cortar sua maldita garganta muito em breve, seu maldito leitor de
Bíblia preto – exclama Tiny, que se meteu numa briga com o padre. E empurra-
o com força bastante para fazê-lo cair de costas e bater com a cabeça num
tronco.
– Você tem que abusar fisicamente de um homem sem defesa? – censura o
Velho.
– E por que não? – responde Tiny, cuspindo no padre. – Quem foi que me
ensinou? Pergunto! Foi o maldito Exército, não foi? Você alguma vez já viu
uma porra de um soldado raso deixar sua raiva dominá-lo. quando se trata de
uma porra de um oficial? Já viu?
– Isto é uma desculpa muito barata – diz Heide, com ar professoral,
tomando subitamente o lado do padre. – Wolfgang Creutzfeldt, você é um mau-
caráter. Sempre brutal, sempre grosso. Não está afinado com o espírito de nossa
nova Alemanha.
– Olhem só para o porra do número um! – rosna Tiny, dando um chute no
padre. – Você pensa que quero acabar como capitão no maldito Exército da
Salvação?
– O que diz a bússola? ›– pergunta o Velho a Stojko.
– Quarenta e seis, como você mandou, sargento. Não fica zangado se eu
digo que você deve levanta seu rabo e anda depressa!
– Vamos tocando – decide o Velho, nervoso. – Stojko vai à frente.
– Por Jesus Cristo! Toque seu rabo para frente, rapaz! – grita Tiny, que
segue logo atrás de Stojko.
Eles descem uma longa encosta; até os “500” se saem melhor agora com
seus facões de mato. A inclinação é tão forte que a gente tem que se aguentar
com força nos calcanhares.
Chegamos a um ponto em que há xisto e temos que usar as cordas de
escalar montanhas de Gregor. O Velho não nos dá um descanso até a noite. A
revista à noite revela que faltam dois homens.
O Velho esbraveja e pede voluntários para voltarem e procurá-los.
Ninguém se apresenta. Muito para trás de nós podem-se ver chamas de
foguetes, e entre nós e as chamas certamente há guerrilheiros.
O padre se levanta e se oferece para voltar sozinho atrás deles.
– Não! – O Velho rejeita a proposta dele, bruscamente. – Os guerrilheiros o
pegariam antes que tivesse ido muito longe e não preciso dizer-lhe o que fazem
com padres.
– Deus me ajudará. Não tenho medo – responde, tranquilo, o padre.
– Deus, Deus, Deus – zomba Tiny. – Seria melhor pôr sua confiança nesta
bela pequena aqui. – E dá um tapinha em sua arma. – Os guerrilheiros não
gostam nem um pouco dela. Uma 42 na mão é melhor do que Deus no céu!
– Devo ir procura-los? – pergunta o padre, ignorando Tiny.
– Já disse que não! – decide o Velho. – Não quero ser responsável por você
ser picado em pedacinhos. – Aponta para o Sargento Krüger do DR – Pegue
dois “500” com você e dê uma batida. Volte dentro de duas horas, com ou sem
eles.
– Que diabo nós temos que nos importar com esses prisioneiros? – reclama
Krüger, com o medo se estampando no rosto.
– Por que deveremos arriscar nossas vidas por eles? Podem ter desertado e
passado para o lado dos guerrilheiros. Esses merdas sem divisas nos ombros
são capazes de qualquer coisa.
– Cale-se – interrompeu o Velho – e vá tocando.
Krüger escolhe dois “500”, bufando de raiva.
– Vão à frente – ordena ele, maldoso. – Como antigos oficiais vocês estão
acostumados a isso. Mas tomem cuidado. Tenho um dedo nervoso no gatilho,
rapazes.
– O que lhe fizemos? – pergunta um deles, em voz fraca.
– Tente alguma coisa, que você verá – grita Krüger com raiva.
Mesmo depois de haverem desaparecido há muito se pode ouvir sua voz
esbravejando.
Tiny dá uma entrada na floresta de cactos e volta com três perneiras
búlgaras e com um kalashnikov russo.
– Onde você encontrou essa presa? – pergunta. curioso, o Velho.
– Ganhei jogando bingo – troça Tiny, que se estira no chão, de barriga para
baixo e continua a rir, parecendo não poder parar.
Dá a impressão de que se sente tremendamente esperto.
Acendem uma fogueira. A madeira está completamente seca, de forma que
não há fumaça traidora.
Porta deseja fazer algum café mas é somente depois de uma arrastada
discussão que o Velho lhe da permissão para usar um pouco da preciosa água.
O café tem um aroma maravilhoso. Ficamos sentados ouvindo o cri-cri dos
grilos e a distante voz da guerra.
– Quando você está com sede o que ajuda é chupar uma pedra – informa o
Legionário.
– É uma beleza sentar-se aqui olhando para dentro da noite – diz Tiny, com
ar sonhador. – Como se fosse à porra de um escoteiro; sempre quis ser
escoteiro.
– As coisas vão endurecer – fala Tango, profeticamente, polindo sua arma.
– A ave negra da morte está vindo para nos pegar – sussurra Gregor,
agourentamente, enquanto escutamos as explosões ao longe, rufando como
tambores, e fazendo tremer os flancos da montanha.
Porta toca suavemente uma melodia em seu piccolo. Tiny saca sua gaita de
boca. Tango dança, usando seu fuzil como uma parceira.
– Quer dormir comigo esta noite? – segreda ele numa pergunta macia para
a arma.
Um bando de estranhos insetos nos ataca. Nossas mãos e braços incham
violentamente a cada mordida. Porta e Tiny cobrem a cabeça e o pescoço com
seus capacetes de lança-chamas, mas o resto de nós não tem proteção. Nossos
rostos em breve estarão irreconhecíveis.
A sede aperta.
– Bon, mes amis! Enquanto puderem suar vocês não morrerão de sede – diz
o Legionário, em tom indiferente. – Quando você para de suar então está em
perigo.
A água só é suficiente para quatro dias, mesmo com o nível baixo de
rações que o Velho estabeleceu. Tango pensa que levaremos, pelo menos, duas
semanas para a travessia. Nós nos movimentamos vagarosamente. Alguns
tentam chupar água dos cactos, mas ficam terrivelmente doentes. Seus
estômagos viram literalmente pelo avesso em acessos de convulsos vômitos.
Krüger volta sem haver encontrado os homens em falta.
– Você os procurou? – pergunta o Velho, suspeitoso.
– Procuramos por toda a parte, Herr sargento! – responde, zangado, o ex-
tenente.
– Você, Sargento Krüger? – pergunta o Velho, incisivo.
– Não deixamos nenhum lugar sem procurar. Será que deveríamos ter
interrogado as formigas para saber se elas haviam comido os homens? – grita
Krüger, explodindo.
– Eles se passaram para o inimigo – diz o ex-tenente de infantaria.
– Feche a boca até que lhe perguntem! – grita o Velho, exasperado.
– Foi aquele estuprador que se fodeu? – indaga Tiny, com um largo sorriso.
– Se você se refere a mim – responde uma voz do meio das sombras, dentre
os “500” – ainda estou aqui!
Dormíramos apenas umas poucas horas, quando as sentinelas nos acordam.
Uma coluna de guerrilheiros passou por nós no escuro sem nos ver.
Apuramos o ouvido, receosos com a escuridão. Não muito longe soam dois
tiros.
– Aprontemo-nos para partir – diz em voz baixa o Velho, atirando seu
equipamento no ombro.
Olho para a retaguarda. Está tão escuro que custo a ver minha mão em
frente ao rosto.
Subitamente, descubro que estou sozinho. Acendo com cuidado minha
lanterna de pilhas. Apenas cactos e insetos. Apuro meu ouvido: nem um som. A
unidade parece ter sido engolida pelo chão. Estão brincando comigo, penso,
Eles são suficientemente loucos, mesmo numa situação dessas.
Escuto novamente: tudo é silêncio, não se ouve nem mesmo o cri-cri dos
grilos. Cuidadosamente, dou alguns passos para frente. Eles se esconderam,
apenas pelo prazer de me verem assustado.
– Que diabo! Apareçam! – grito, não muito alto. – Isto não tem nenhuma
graça! – Nada se move. Será que me perdi deles?
“– O, Velho! – Chamo, baixinho. O suor do medo corre-me pelo rosto.
Ficar sozinho numa terra de guerrilheiros, no meio dessa horrível floresta de
cactos.
– Porta! Apareça, seu patife!
Nada de resposta. E, no entanto, não parece que estou ouvindo uma voz?
Chamo de novo e escuto. Nada. O vento? De vez em quando, sinto um sopro de
ar tocar minhas bochechas. Subitamente compreendo, horrorizado, que estou
sozinho. Inteiramente só!
Perdi minha unidade e eles a mim; não notaram quando fiquei para trás,
talvez ainda nem saibam que desapareci. Eles voltarão, entretanto, quando
descobrirem; o Velho não é capaz de abandonar soldados extraviados. Eles
seriam até capazes de voltar à procura de Krüger.
Fico parado, imóvel, escutando os ruídos da noite. Apenas os ocasionais
sopros do vento, o ruge-ruge das formigas e o zumbido dos insetos. Muitas
vezes durante esta guerra fiquei sozinho, mas nunca desta forma; sempre sabia
onde estava o inimigo e a direção de nossas próprias linhas. Nesta pavorosa
floresta de cactos, o inimigo pode estar em qualquer lugar. Um inimigo
impiedoso. Nossas linhas estão muito longe, nem mesmo sei em que direção.
Podem até ter sido rompidas e o Exército do Sul estar fugindo de volta para a
Alemanha. Preciso tentar encontrar a unidade; na pior das hipóteses atravessar
por conta própria. Preparo minha Mpi e armo uma granada de mão. Preciso
controlar-me, digo a mim mesmo, para não jogar a granada em minha própria
gente. Eles não podem ter desaparecido. já estou com a unidade do Velho há
quatro anos e por quantas coisas nós passamos! Quatro anos, dia e noite, em
todas as espécies de frentes. De fato, nós nos separamos em hospitais de
campanhas uma vez ou outra, mas não por muito tempo. A unidade é a minha
casa! Nela, me sinto seguro. Mesmo quando se está confortavelmente deitado
num leito de hospital, você pode sentir saudades de casa. Com saudades de sua
unidade que está na HKL*. Quando você tinha alta e era mandado de volta com
três linhas vermelhas marcadas em todos seus papéis – isto queria dizer serviço
leve e mudança de ataduras todos os dias – todas as dores e os incômodos
desapareciam à vista dos rostos conhecidos. E lá marchava você para a
principal linha de frente com sua unidade. Mesmo os ferimentos no pulmão,
que muitas vezes quase o afogavam no hospital, não mais o incomodam.
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* HKL (Hauptbampflinie): Frente principal de batalha.
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Você estava de novo em casa. Nada mais importava. Seus companheiros
cuidavam de você; punham-no em SMG ou encarregavam-no de ficar de escuta
no rádio. Isto você podia fazer com uma ferida no pulmão ainda não
inteiramente cicatrizada.
Não vou deixar estas ligações serem quebradas só por haver me perdido
numa maldita floresta de cactos! Eles vão procurar-me tão logo notem que
desapareci. Tango vai olhar para trás, notar minha falta e dar o alarme. Ele ia
exatamente à minha frente.
Seria loucura continuar a marchar na mesma direção; poderíamos
facilmente desencontrar-nos. Será melhor sentar-me e esperar pelo clarear do
dia; à luz do sol, as coisas sempre têm um aspecto diferente.
Não faz muito tempo que me sentei quando um medo-pânico subitamente
se apossa de mim; levanto-me e começo a caminhar vagarosamente para frente.
A todo instante parece-me estar ouvindo vozes; mas é apenas o vento. O
instinto da batalha sopra-me um alerta: não estou mais sozinho!
Silenciosamente tomo posição ao lado de um cacto, minha Mpi engatilhada.
Silêncio. Nada além do silêncio. E uma escuridão esmagadora que parece estar-
me afogando.
Nunca saberei quanto tempo estive ali parado, pronto para a ação. Resolvo
continuar. Da escuridão vem um barulho de aço roçando em aço que repercute
em meus nervos tensos como se fora um tiro. Em silêncio, abaixo-me e puxo
uma granada de seu alojamento em minha bota de cano alto.
– Silêncio, seu merda! – sussurra a bela voz de Porta do meio da escuridão.
– Não fiz de propósito, sua besta! – responde Tiny, com sua voz de baixo,
que ecoa através da floresta.
Alguém ri. Deve ser Barcelona.
Por dentro estou gritando de alívio mas um nó em minha garganta impede
que saia qualquer som.
Movimento-me para frente cautelosamente.
– Pare ou atiro! – grita Porta da escuridão.
– Sou eu! – grito.
Estou de novo em casa. O Velho está com eles.
– Onde, diabo, você estava? – pergunta Porta, com ar de reprovação. – Da
próxima vez não viremos procura-lo.
– Você andava atrás de algum rabo, não é? – pergunta Tiny, rindo. –– É
coisa que há muito pouco por aqui! Talvez você pudesse dar uma trepada num
formigueiro! Iria, no entanto, fazer cócegas em seu velho cacete!
Expliquei-lhes o que havia acontecido.
– Você sobreviverá a isso – diz Porta. – Pensei que desta vez havíamos
finalmente nos livrado de você.
– Ele estará conosco quando recebermos nossos papéis de baixa – diz,
sorridente, Gregor.
Um pouco antes do amanhecer continuamos a marcha. Um dos feridos
morre; falece tranquilo enquanto o carregamos. O Velho quer que enterremos o
corpo.
– Coloquem-no em cima daquilo e ele terá desaparecido antes que a gente
perceba – diz Tiny, prático, apontando para um gigantesco formigueiro. –
Aquelas formigas vermelhas podem acabar com um elefante, enquanto eu como
um ovo cozido.
Mas o Velho é teimoso; quer que o soldado morto seja enterrado.
O padre improvisa uma cruz de dois galhos de cactos.
Zangados, cavamos um buraco e jogamos o corpo para dentro dele. O
túmulo não ficou suficientemente grande e temos que dobrar o corpo e pisotear
nele para fazer com que se acomode.
O padre faz um pequeno sermão e recita o serviço fúnebre pelo morto.
Finalmente, jogamos terra sobre o túmulo e amassamos.
Búfalo coloca um capacete sobre a sepultura; um capacete cheio de mossas
que esteve em serviço desde o princípio.
– La merde aux yíeux – escarnece o Legionário. – Não é qualquer poilu que
tem um enterro tão bacana, com orações e terra jogada sobre ele.
– O agradecimento não e uma coisa que Barras aprecie muito – diz Porta,
em tom ácido.
– Mantenham o Exército fora disso – exclama Heide, amargo.
– Não ligo merda nenhuma para seu Exército – responde Porta, zangado. –
Nada tem feito senão explorar-me desde o primeiro dia em que nos
encontramos!
– Meu Exército, como você o chama. ainda vai pegá-lo – promete Heide. –
Sujeitos mais safados do que você pensaram que podiam urinar nele e que nada
lhes aconteceria.
Uma fileira de corpos – homens do Exército búlgaro – jaz ao longo da
trilha, só esqueletos e uniformes em frangalhos. As formigas já carregaram o
resto.
Porta levanta um dos esqueletos e coloca-o de pé encostado num cacto com
um dos braços apontando para o sul.
– Vai dar um tremendo cagaço no primeiro herói solitário que passar por
aqui, com toda a certeza – diz Tiny, rindo e colocando uma bagana de charuto
entre os dentes da caveira, que parece rir.
Restam-nos apenas algumas gotas d’água; nossa luta é cada vez mais dura
através desse escaldante inferno.
O padre começa a perder o juízo; imagina que é um bispo e que os pés de
cacto são sua congregação. Arrasta-se para frente ao lado da coluna, cantando
os numa voz rouca e rachada, que assusta as negras aves de rapina.
O Velho não pode suportar aquilo por mais tempo: esbofeteia-o
violentamente várias vezes em ambos os lados do rosto.
O padre senta-se no chão e chora como uma criança.
– Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste? – chora com o rosto
voltado para o céu.
– Liquidemos com ele – sugere Julius Heide, friamente. – Estes negros
porcos trazem má sorte. O Führer nos disse que esses santos servos do céu na
terra são desnecessários. Deus pode cuidar de nós sem eles.
– O Adolf disse isso também? – pergunta, com ar duvidoso, Tiny. – O que
não disse o porra daquele merdinha?
Arrastamos o padre conosco; ele nos abençoa e nos promete a vida eterna.
– Bolas para isso, padre – exclama Porta, rodando sua Mpi em volta da
cabeça. – Em vez disso, ajude-nos a agarrar-nos à vida que temos agora,
enquanto for possível.
– Que tal se um par de raios do Senhor caísse na cabeça desses malditos
guerrilheiros que andam atrás de nós? – perguntou Tiny, como sempre com
ideias práticas.
Todos agora estamos chupando pedras, que nos batem contra os dentes;
enquanto fazemos o possível para sugar a última gota de saliva de nossas secas
glândulas. Estamos próximos a ficar loucos de sede.
O Velho promete atirar no primeiro homem que tome um gole de seu
cantil.
No dia seguinte ao meio-dia, Porta pega o Primeiro-Sargento Schmidt
bebendo água as escondidas e leva-o à presença do Velho.
Ele é mandado carregar o pesado lançador de granadas e perde suas
próximas quatro rações de água. Apenas um gole para cada homem, porém
mais valioso para nós do que ouro.
Schmidt consegue mais uma vez roubar água. A princípio, ele leva uma
surra e se o Velho não intervém, eles o teriam matado.
Agora, ele é obrigado a marchar em volta ao sol, enquanto o resto de nós
descansa.
Depois de 30 minutos de andar em círculos, ele começa a gritar e atira-se
ao chão, recusando levantar-se. O Legionário põe-no de pé com golpes da
coronha de seu fuzil e ele começa de novo a andar sob o sol escaldante. Em
breve. Schmidt está engatinhando.
O Legionário dá-lhe um chute nas costelas e bate-lhe com a
cara no chão cheio de poeira.
– Ele vai morrer – diz Gregor.
– E verdade – comenta Skull. desinteressado – e por sua própria culpa, não
é?
Nenhum de nós tem pena dele. O Velho lhe tinha confiado o suprimento de
água e como um primeiro-sargento ele deveria saber o que custava roubar água.
O Velho não teve escolha sobre a questão. Se deixasse Schmidt escapar sem
punição, o resto de nós estaríamos nos atirando uns às gargantas dos outros
antes do cair da noite por causa da água. Nem sempre é divertido comandar
uma unidade e não está nos hábitos do Velho ver um homem cavar sua própria
sepultura. Mas, se ele meramente fuzilasse Schmidt, nós quase nem o
notaríamos; já vimos muitos homens fuzilados. É uma rotina diária para nós; da
primeira vez que vimos um homem fuzilado coin um tiro na nuca ficamos
enjoados. Todos nós. Um tiro na nuca é provavelmente a maneira mais feia de
liquidar um homem. A boca do cano da pistola é colocada na curva do pescoço,
apontando para cima. Ouve-se o tiro e a cabeça quase dá uma volta inteira. Os
miolos escorrem pelo rosto. O corpo endurece e cai como um pedaço de pau; a
face muitas vezes fica quase inteiramente voltada para trás.
Agora, podemos assistir a um homem ser fuzilado com um tiro na nuca
sem nenhuma náusea; podemos até achá-lo divertido. Não porque sejamos
particularmente brutais. Mas porque a guerra nos transformou. Se não o tivesse
feito, há muito estaríamos internados num dos hospícios do Exército. Muitos
acabaram lá.
Schmidt desmaia. O lançador de granadas bate-lhe atravessado sobre a
nuca. Ambas as caixas de projéteis caem-lhe das mãos.
– Bête! Levante-se! – grita o Legionário, num acesso de fúria. Espeta
Schmidt com a baioneta, mas não há reação.
– Filho da puta! Filho da puta de merda! – vocifera Tango, em tom de
desprezo.
– Enfie-lhe um cacto no rabo – sugere Búfalo. – Isto deverá animá-lo!
O Legionário consegue pôr Schmidt novamente de pé:
– A escola da Legião! – diz ele, rindo triunfante. Pouco depois, Schmidt
está morto. Cai como uma folha de papel descendo no ar parado.
Seu corpo e deixado num formigueiro; em breve está inteiramente coberto
por enormes formigas vermelhas.
O Velho dá ordem para recomeçar a marcha imediatamente. No dia
seguinte, atravessamos uma planície coberta de pedras e de xisto. Nem mesmo
cactos podem crescer aqui. Nossas línguas incham na boca como grandes
pedaços de couro seco. Não resta mais do que um gole d”água para cada
homem, depois do que os garrafões estão vazios.
Dois dos 500 caem mortos sem emitir qualquer som. Nem mesmo a usual
sacudidela convulsa. A morte pela sede é uma espécie diferente de morte.
– Por que não poderiam estes filhos da puta ter esticado a canela antes de
terem consumido sua ração de água” – queixa-se Tango.
Por Deus. Você se lembra daquela vez que nos fodemos aquelas garotas
mongóis debaixo de uma queda d’água? – pergunta Porta.
– Eu fuzilo o primeiro que falar sobre água – grita, em voz rouca, Heide.
Skull descobre que o padre tem uma bolsa de pele de cabra cheia d’água
embaixo da roupa.
– Passe essa água, pároco! – solicita o Velho, enérgico, agarrando o padre,
– É água benta – sorri o padre, atoleimado. – Devemos lavar nela os pés
antes de entrarmos no Templo.
Com um pulinho cômico ele sobe numa pedra, levantando a bolsa para o
alto por cima da cabeça.
– Ele não vai lavar os pés de ninguém com aquela maldita água – grita,
enlouquecido, Búfalo.
Fazemos um anel em volta do padre um anel que se fecha sobre ele
ameaçadoramente.
– E água benta – grita ele. – Água benta de Dimitrovgrad!
– Não nos interessa porra nenhuma nem que seja a urina do próprio sumo
sacerdote de Jerusalém! – berra Tiny– Nos dê a água, seu maldito maníaco da
Páscoa,
– Ele está trazendo azar para nós – exclama, furioso, Barcelona. – Quando
eu estava com a Brigada de Montanha, tínhamos que carregar conosco um filho
da puta como ele. Grandes árvores de mogno caíram em nossas cabeças. O
caminhão de transporte de tropas enguiçou. Marchamos sobre um campo
minado que nos fez em pedaços. Em Drutus, uma avalanche rolou sobre nós.
Durou um mês esta agonia! Um desertor russki, um comissário, convenceu-nos
finalmente que tudo era culpa do maldito padre Mas você sabe como são os
rapazes da Brigada de Montanha, é como se todos fossem missionários. Só
queriam cantar salmos pelos pobres que tinham morrido e ninguém disposto a
livrar-se do pároco.
Foi o russki que o executou para nós. Ele tinha sido educado para não ter
escrúpulos morais acerca de liquidar um capelão. Esgueirou-se atrás do padre,
quando este estava examinando um vasilhame de creme coalhado da Geórgia e
bang! Só o que se viu foram os miolos do padre misturados com o creme. E
naquela mesma noite, rapazes, nossa boa sorte voltou.
– Tudo correu como um sonho até que chegamos a Elbruz onde havia um
novo capelão esperando por nós. E lá se foi de novo embora nossa boa sorte.
Oito dias após sua chegada, toda a maldita brigada estava entrando no Valhalla.
Rápido como um gato, o Velho pula para junto do padre, arranca a bolsa de
couro de cabra de suas mãos e atira-a para Porta.
– Você fica responsável perante mim por– seu conteúdo!
– Bem, bem! – Porta faz uma profunda mesura. – Você confia tanto assim
em mim? Nem meu velho pai seria capaz disso. Pelo menos não depois que me
apanhou bebendo de sua garrafa particular de Slivovitz.
Marchamos por uma forte ladeira acima e de novo encontramos cactos. O
enorme corpo de Tiny levanta-se como a parede de uma casa em frente a mim;
sua linguagem faz com que até o ar fique corado em volta dele. Quando ele
para, esbarro nele. Ele leva a SMG, com tripé e tudo, amarrada nas costas.
Parece incansável.
Dá um passo para três dos meus. Seu corpanzil é anormal e seus músculos
enchem-lhe o apertado uniforme. Sua força é extraordinária: ele é capaz de
atirar-se de ombro contra uma parede e derrubá-la. Quebrar tijolos com uma
única pancada seca de cutelo com a mão é brincadeira de criança para ele.
Porta tem a certeza de que o bisavô de Tiny era um gorila que se soltou do
Hagenbeck e violentou a bisavó dele. Ela estava cortando turfa bem em frente
ao Jardim Zoológico, assegura Porta, quando isto aconteceu. Tiny tem muito
orgulho desta anedota.
Embaraço-me numa touceira de espinheiros; abaixo-me para libertar-me e
um galho açoita minha face, arranhando-a fundo e fazendo o sangue correr.
Tropeço e os longos espinhos perfuram-me o uniforme e cravam-se em minha
carne como baionetas.
Porta ajuda-me a desvencilhar-me. A unidade descansa um pouco enquanto
o enfermeiro extrai-me os espinhos venenosos e trata das feridas. Ao
entardecer, estou inchando e tenho febre alta.
Por sorte, o enfermeiro tem um suprimento de soro; e me dá uma injeção
atravessando com a agulha o uniforme e a túnica de camuflagem. Dá-me a
impressão de que a injeção atinge diretamente o pulmão. Cheio de raiva bato
nele com minha Mpi; a agulha quebra, quando ele se afasta para uma distância
segura.
– Seu macaco nojento – brada ele, puxando sua P-38. – Já lhe ensino a
encostar suas sujas mãos no Corpo Médico!
Sua pistola dispara duas vezes antes que os outros se atraquem com ele e
lhe arranquem a arma. O enfermeiro leva muito tempo para acalmar-se e
mesmo depois de esfriar não quer mais tocar em mim.
Um “500” que teve algum treinamento médico remove a agulha quebrada
de minhas costas.
– A morte pela sede é a pior que existe – diz o Legionário, contemplando o
deserto pedregoso no qual o ar reverbera com o calor.
Atingimos uma parede impenetrável de vegetação rasteira; os facões de
mato não conseguem rompe-la.
– Vamos recuar! – decide o Velho, seus dentes cerrados.
O desespero e o medo apossam-se de nós vagarosamente; tudo parece sem
esperança,
Escutamos um tiroteio violento, que parece vir do outro lado das
montanhas. Uma Maxim gagueja furiosamente e uma MG-42 retruca. A trilha
conduz-nos de volta ao mato.
Porta reconhece um lugar pelo qual já passamos antes. Fazemos um alto,
vencidos pela fadiga, e caímos no chão.
O Velho estuda cuidadosamente o mapa, enrugando o cenho e
tamborilando na borda do cachimbo. Stojko senta-se e fica trauteando uma
canção de camponeses.
– Para onde, diabo, está você nos levando? – grita o Velho, zangado,
batendo com o punho no mapa.
– Por que o senhor estar zangado, Herr primeiro-sargento? – pergunta
Stojko, admirado. – Sua maluca bússola de marcha marca sempre 46. Mas a
agulha roda e roda o tempo todo. MHS guardas búlgaros sempre obedecem a
ordens. Apenas soldados patetas pensam por conta própria.
O Velho arranca-lhe a bússola e o mapa.
– Não há nada de errado com a bússola – grita o Velho, com o rosto
vermelho de raiva.
Mas quando Stojko aproxima-se da bússola a agulha começa a rodar como
louca.
O Velho olha para Stojko.
– O que tem você nos bolsos, seu búlgaro assassino? –– pergunta Porta.
– A única coisa que vou usar na fazenda quando acabar a guerra.
O Velho dá uma busca nele e descobre grande parte de um dínamo; seu
magneto, evidentemente, afetava a agulha da bússola. Como um louco, o Velho
esbraveja e atira o magneto bem para longe dentro do mato.
– Primeiro-sargento deve tomar cuidado – adverte Stojko. – Não fazer
grande barulho. Diabo mau do cacto aparece. Corta com facão de mato afiado!
Espírito do cacto não liga se você alemão ou russki. Corta nabo antes você
dizer “Heil Hitler”, eles dizer “Frente Vermelha”. Espírito não gosta homem
louco fazer grande barulho. Tome muito cuidado. Sol desaparece, espírito mau
vem dos cactos!
– Seu mau espírito pode foder-se – vocifera o Velho, louco de raiva.
Stojko benze-se três vezes e dança em roda com estranhos gestos. Isto é
aparentemente uma proteção contra os demônios dos Cactos.
– Não gosto disso – diz-me baixinho Tiny, benzendo-se. Ele tem um
grande respeito por tudo que é sobrenatural.
– Por que, diabo, não tomou o caminho que você conhecia? – grita, furioso,
o Velho.
Stojko sacode, desesperado. a cabeça e faz um gesto abrindo os braços. O
sol brilha em suas largas dragonas de guarda real.
– Sargento manda seguir bússola 46. Stojko pensa é bobagem, mas guarda
real búlgara não pensa sozinha, assim eu não ligar se você bobo. Ordem é
ordem. Sua ordem bússola 46. Eu também vejo agulha maluca, mas não ser
líder. Você líder. Você não dizer: “Vamos para casa caminho curto.” Você
dizer assim nós vai casa.
– Jesus Cristo! – geme o Velho. – Por que, diabo, tive que encontrar-me
com você?
– Ele está certo, sim senhor! – diz Tiny, rindo-se e sacudindo a barriga. –
Mais alguns como ele e não haveria armas bastante para acabar a complicada
maldita guerra que nós começamos.
O Velho sacode a cabeça várias vezes, depois se senta e puxa Stojko para o
lado dele.
– Escute, Stojko! Esqueça-se de tudo acerca de disciplina militar. Você não
é mais um soldado.
– Primeiro-sargento! – Stojko se levanta e começa a limpar a poeira do
uniforme. – Stojko agora vai cuidar fazenda; fazer todo serviço não feito desde
que má guerra começar. Você escreve carta para mim, quando for pra casa
Germânia.
Ele circula em volta de nós, dizendo adeus para todos. O Velho leva alguns
minutos para entender o que está acontecendo; então explode com a intensidade
de uma barragem de artilharia.
– Já lhe dou uma fazenda, seu maluco! Maluco! Você ainda não tirará leite
de suas malditas vacas por mais uns cem anos. Sente-se, seu pateta, sente-se –
O Velho bate com a coronha de sua Mpi no chão ao lado dele. – Escute-me e
fique com sua maldita boca fechada até que eu termine. Qualquer coisa que não
entender, diga. Compreende o que estou dizendo?
– Primeiro-sargento! Não compreende!
– O quê? O que você não compreende? – pergunta o Velho, com o queixo
caído.
– Não compreende o que você quer que eu compreendo diz Stojko, com
um amável sorriso.
O Velho atira seu boné na trilha, chuta violentamente uma caixa de
munições e depois fica olhando por um longo tempo para a cara de Stojko, a
paciente cara de um camponês.
– Você é de novo um soldado. Ordeno-lhe que pense por você mesmo.
Agora! Se há qualquer coisa errada, então me diga o que é!
– Primeiro-sargento: a guerra está errada! Toda a guerra! Eu não
compreendo guerra!
– Jesus Cristo me acuda! – grita o Velho, desesperado. – Eu sei disso/ Mas
há uma guerra e nós estamos nela. Esqueça disso tudo. Estamos no meio de
uma porção de cactos. E só no que podemos pensar agora. Não pense em mais
nada; pense apenas em sairmos do meio desses cactos. Você pode fazer isso? É
nosso único líder. Você sozinho. Eu, e toda a unidade, seguiremos você. É o
chefão. Você me compreende?
– Você me dá estrelas, eu dou ordens. Guarda búlgara não se atreve dar
ordens sem estrelas.
O Velho arranca as estrelas de suas ombreiras e sem hesitação nomeia
Stojko primeiro-sargento interino (sem pagamento).
A unidade apresenta armas.
– Agora eu compreender. Nós dois primeiros-sargentos. – O búlgaro ri,
feliz. – Você primeira vez, nós agora vai pra casa, beber água fresca boa.
Espere aqui, eu vai encontrar caminho cactos.
Nós quase já havíamos desistido de esperar pelo búlgaro, quando ele sai do
mato algumas horas depois. Está sujo e arranhado, mas com urna expressão
satisfeita no rosto de camponês marcado pelas intempéries.
– Eu achar trilha – exclama, feliz. – Caminho duro mas bom caminho. Não
vamos encontrar espírito dos cactos; espírito não gostar de cactos azuis. Cactos
azuis mandam para inferno depressa; muitos escorpiões vivem cactos azuis.
Não tocar cactos azuis; matar escorpiões. Depois, caminho fácil.
– Ombro armas! Em frente, marche! – comanda o Velho, já grudado nos
calcanhares de Stojko.
Todo o espectro dos ruídos da guerra pode ser ouvido à distância.
– Parece como se todo o maldito puteiro estivesse subindo para o céu – fala
Porta pensativo, escutando cuidadoso o troar dos canhões.
– “É melhor tocar pra frente” como disse a donzela quando estava para ser
violentada pela quarta vez – diz, troçando, Tiny.
– Por Deus, rapazes, pensem só se nós pudéssemos encontrar um maldito
transporte de tropas do qual nos pudéssemos apossar – diz Búfalo, sonhador.
– Caminhão, aqui? – comenta Porta. – Cavalos seria tudo o que poderíamos
usar. Quando eles morrem de sede, você pode pelo menos beber seu sangue.
– Tão logo estivermos de volta ao regimento, vou dar parte de doente.
Pense só se parte da cura for beber um barril cheio de água gelada – suspira
Gregor, lambendo os lábios gretados.
– Eu vou consultar em primeiro lugar os doutores da cidade para saber da
condição em que se encontra o velhinho aqui entre minhas pernas – fala Porta,
como sempre libertino. – Imaginem se o coitado estiver permanentemente
incapacitado devido a toda essa falta d’água!
Cruzamos uma interminável sequencia de morros até que chegamos a um
que tem urna aparência diferente de todos os outros. É mais íngreme, mais alto
e completamente chato no topo. Paramos e ficamos admirando-o por uns
minutos; há um ar de ameaça nele que nos perturba.
Stojko descobre uma encosta pela qual se pode subir. Arquejando e
bufando, engatinhamos até em cima. No topo, um fantástico panorama estende-
se à frente. Primeiro, atiramo-nos ao chão para um curto descanso. Estamos
deitados meio adormecidos por apenas 15 minutos, quando o padre começa a
gritar. Lançamo-nos sobre nossas armas, com o primeiro pensamento nos
guerrilheiros. Histérico, o padre aponta para o grande deserto de pedra que se
estende à nossa frente brilhando com o calor.
– Água – grita ele. – Vejam! Vejam! Um lago com cisnes!
O Velho levanta-se e pega seu binóculo. Não há lago algum, apenas pedras
e mais pedras. Pedras aquecidas pelo sol, reverberando.
O padre caminha hesitante para frente, agarrando-se ao longo bastão em
que se apoia. Tropeça e rola pelo escarpado barranco abaixo. A princípio,
pensamos que quebrou o pescoço, mas ele de novo se levanta e lá se vai aos
trancos e barrancos por entre os rochedos. Joga-se ao chão e rola, levantando
poeira em torno de seu corpo que se debate no chão.
– Água! Água! Meu Deus, Tu não me abandonaste!
Mas não é na água que ele está rolando; é na poeira vermelha e seca.
– De pé! – comanda o Velho enérgico, e começa ele próprio a andar.
Temos que usar a coronha de nossas armas para fazer com que alguns se
levantem. Um dos feridos morreu e nós não temos forças para enterrá-lo.
Enterramos o fuzil dele no chão e colocamos seu capacete na coronha. O Velho
tira o disco de identificação do morto e guarda-o no bolso. Os pais receberão a
notícia e lhes será poupada a dor de ficar para sempre esperando, alimentando
qualquer esperança que o filho volte para casa.
O Legionário começa a cantar. Porta tira seu piccolo do cano da bota. Tiny
limpa a gaita de boca contra a palma da mão. Com suas vozes roucas, o resto da
unidade se junta a eles. Soa como um bando de loucos marchando e cantando.

Es waren zwei Legionäre,


Michael und Robert,
sie hatten das Fort verlassen
und suchten den Weg zum Meer.
Sie wolten nie wieder Patrouille gehen,
und nie wieder im Leben auf Posten stehen.

Es waren zwei Legionäre.


Michael und Robert,
Adieu, mon général,
Adieu, Herr Leutnant.*
===============
* Era uma vez dois legionários,
Miguel e Roberto,
que desertaram do forte
e procuraram o caminho do mar.
Nunca mais se arriscariam em patrulhas
nem jamais na vida ficariam de sentinela.

Era uma vez dois legionários,


Miguel e Roberto.
Adieu, mon général,
Adieu, Herr Leumant.
===============
Com olhar apático, observamos o padre que continua deitado na poeira
fazendo movimentos de nadador. Nenhum de nós tem energia para ajuda-lo.
Toda nossa atenção está voltada para dentro de nós.
– Água! – grita o padre. Ri como um louco, jogando a poeira vermelha por
cima da cabeça como se estivesse espadanando na água.
– Vamos quebrar-lhe a cabeça – sugere Heide, levantando a coronha de sua
MG como se fosse um porrete.
– Deixem-no! – grita o Velho, limpando o rosto queimado pelo sol com o
véu de seu capacete tropical.
O sol é impiedoso. Parece cozinhar o tutano de nossos ossos. Dois “500”
começam uma briga; antes que possamos separa-los um deles abriu a barriga do
outro com a baioneta. As entranhas saem pelo corte e os moscardos azul-
esverdeados lançam-se a um novo festim.
O enfermeiro acaba com a agonia do homem mortalmente ferido.
É evidente que não é permitido dar um tiro de misericórdia, mas aqui é
necessário. O Velho custa a decidir o que fazer com o assassino; ele é um ex-
primeiro-sargento. Aprovamos um veredicto de insanidade temporária e
esquecemos o episódio.
O padre desapareceu. Só o notamos quando o Velho pergunta por ele. Dois
homens são mandados de volta para apanhá-lo. Foi preciso uma ameaça de
corte marcial sumária e a Mpi do Velho para fazê-los obedecer.
A noite já estava avançada quando eles voltam e irritados atiram o corpo
do padre no chão, aos pés do Velho.
– Afinal em segurança no seio de Abraão! – cantarola Tango, dançando em
volta do corpo na areia.
– Oh! Coitado do pobre homem! Que tristeza ter que morrer bem no meio
da provação que Deus lhe estava dando – comenta Porta, com um simulado ar
de condolência.
A unidade está de novo a caminho. Stojko e o Velho à frente. As largas
costas cinzentas e esverdeadas de Tiny ainda minha frente. Nada posso ver
além dele; seus ombros balançam com o ritmo do andar de um camelo e suas
costas encurvam-se ao peso da SMG. Nos velhos tempos. a única arma que um
soldado tinha que carregar era um fuzil, mas olhem para nós agora, os soldados
da presente guerra mundial. Metralhadoras, reparos, canos sobressalentes,
canos duplos, pistolas, Mpis, aparelhos para calcular distância de tiro, uma
enorme quantidade de munição. Equipamento de sinalização e, além disso,
objetos pessoais. A única coisa que abandonamos foram as máscaras contra
gases. Não porque fossem particularmente pesadas. mas porque seu estojo é
conveniente para guardar pequenas coisas: cigarros, fósforos, etc. Se
começarem a usar gás sem aviso prévio a guerra terminará abruptamente:
poucos soldados dispõem de uma máscara contra gases. Encontram-se máscaras
abandonadas por toda a Europa.
O deserto de pedra parece interminável. Rochas à direita. rochas à
esquerda. Até onde se pode enxergar à nossa frente, só se vê um infindável mar
de pedras quentes como as profundas dos infernos. O sol cozinha as pedras que
exalam calor como o sopro da boca de um forno. À noite, o frio é de gelar.
Nossos dentes batem de frio. Nenhum pássaro voa por aqui; vemos seus corpos
estirados. com as asas abertas, sendo ressecados pelo sol. Corpos de pássaros
mortos estão por toda parte.
– Pergunto-me o que será que os mata? – indaga Porta, empurrando com
cuidado o cadáver de um grande pássaro preto com o cano de sua Mpi.
– Uma praga! Peste dos pássaros! – diz Heide que, como sempre, é
incomodamente bem informado. – Mantenham suas munhecas afastadas deles.
Seres humanos também podem pegar essa peste!
Apressado, Porta limpa o cano de sua Mpi com a poeira vermelha.
– Praga? Por Jesus Cristo! Isto é uma maldita coisa ruim! – diz Tiny, com
sua voz rouca, examinando o exército de pássaros mortos em nossa volta. –
Guerra e pestilência. Isto é o que manda a maior parte da raça humana para o
beleléu.
– Você pode sobreviver à guerra e às pragas, se conseguir um pouco de
merda de sorte esfregada em você – fala Porta, com um riso cansado,
abanando-se com seu alto chapéu amarelo.
Caímos num sono que mais parece uma morte. Um dos “500” mata-se com
uma granada de mão. É um espetáculo horrível: entranhas espalhadas por toda a
parte. O fato interessa-nos: dá-nos de que falar por algum tempo.
Tiny está certo de que iremos encontrar água. Jura que pode sentir-lhe o
cheiro e esfrega o ar entre o polegar e o indicador.
– Há umidade no ar – afirma com convicção. Quase brigamos por causa
dessa afirmação dele.
Porta descobre um punhado de lesmas meio mortas, de uma cor amarelo-
acastanhada. Têm um gostinho nada ruim. A única coisa é que é preciso engoli-
las rapidamente. Toda a unidade começa a andar de gatinhas a procura das
lesmas, até que Tiny estraga tudo perguntando subitamente a Heide se as
lesmas podem transmitir a peste dos pássaros.
Nós todos vomitamos; somente Porta fica indiferente. Ele recolhe as
lesmas daqueles que não podem comê-las. Jogando-as para cima, ele as pega
com a boca e engole-as como uma cegonha devorando rãs. Dá para ver as
lesmas escorregando por seu longo e magro pescoço.
Só consigo engolir cinco; a sexta começa a movimentar-se em minha boca
e tenho que cuspi-la.
Estranhamente. as lesmas parecem acalmar nossa sede; sentimo-nos
melhor ao retomar a marcha.
Stojko guia-nos para baixo através de uma passagem entre rochedos. As
paredes de granito como torres levantam-se de ambos os lados. O claro céu azul
com seu brilhante e impiedoso sol não é mais do que uma fresta no alto por
cima de nossas cabeças.
– Por Deus! Estamos marchando para um túmulo! – geme, desesperado,
Gregor. Ele está mergulhado no maior abatimento.
Nem mesmo quando Porta inicia uma conversa com ele sobre carros
Ferrari o ajuda.
– Como era aquele comprido modelo esporte Mercedes-Benz de alta
compressão? – pergunto-lhe. – Você e seu general tinham um desses para com
ele correr a frente de batalha?
Gregor apenas me fita com os olhos mortos. Perdeu por completo o
interesse em carros esporte. Mesmo quando lhe pedimos para descrever a
patente móvel de seu general, feita de porcelana de Meissen, não conseguimos
animá-lo e isto em geral era a chave mágica.
Durante o dia, emergimos daquele desfiladeiro e nos encontramos de novo
na planície pedregosa. Sentimo-nos felizes por abandonar a sinistra sombra do
desfiladeiro.
Foi Heide quem primeiro os viu. Esqueletos, centenas deles. O branco dos
ossos brilhando sobre o fundo verde dos cactos. Nem todos são ossos humanos;
há também ossos de mulas. Por todos os lados há equipamento espalhado.
Alguns dos esqueletos ainda têm na cabeça seus capacetes. A maior parte e de
búlgaros, mas também se veem alguns bersaglieri italianos; pode-se reconhece-
los pelos capacetes com um alojamento para as plumas.
– Santa Máfia! O que foi que aconteceu? – pergunta Barcelona, inquieto.
– Só Deus o sabe – responde o Velho. – Provavelmente guerrilheiros e
talvez não tenha sido há muito tempo. O sol, o vento e o ar seco daqui
rapidamente transformam um morto num esqueleto.
– E as formigas – completa Porta.
Nossa dieta torna-se estranha e variada. O Legionário descobre alguns
besouros andando em volta dos esqueletos; são grandes e gordos e têm um
gosto maravilhoso.
– Costumávamos comê-los no deserto – explica ele, partindo um deles.
Mais para a tarde, arrastamo-nos para uma vila onde também há esqueletos
por toda a parte, mas aqui há sinais de luta. Na praça, vemos uma longa fila de
esqueletos enforcados; como estão vestidos, seus corpos ainda estão
preservados.
Porta desaparece com Tiny para dar uma batida nas ruínas.
Custa-nos acreditar em nossos próprios olhos, quando eles voltam com
uma bolsa de couro de cabra cheia d’água.
O Velho tem que conter-nos com sua Mpi. Somos como animais selvagens
e só nos aquietamos quando ele é forçado a atirar num ex-tenente que se recusa
a obedecer suas ordens.
O corpo ensanguentado imobiliza-nos. Será que o Velho ficou louco?
Usualmente, ele consegue manter a disciplina sem ter que recorrer ao uso de
armas. Agora, ele gira com sua Mpi num semicírculo.
– Entrem em linha, seus filhos da puta. Mais alguém procurando uma
passagem para o céu?
Empurrando uns aos outros e rosnando como cães raivosos, entramos em
forma.
Porta entrega ao Velho a bolsa. Um por um enchemos nossos cantis e com
isto a bolsa se esvazia.
A despeito da advertência do Velho, bebemos toda nossa ração
imediatamente. A água tem um gosto horrível. Tiny pensa que mais
provavelmente é urina de jumentos, mas não estamos ligando para isso; mitiga
nossa sede durante algum tempo.
Porta sente-se tão feliz que puxa seu piccolo da bota e começa a toca-lo.
À sombra dos cadafalsos, com suas cargas de esqueletos balançando e
rangendo, nós nos juntamos e cantamos:

O nobre casa da Alemanha,


Iça tuas bandeiras manchadas de sangue.
Que elas drapejem para sempre!
Deus está conosco na tempestade e na chuva.

Todos sentimos dores de barriga devido à água. Por toda a parte, os


homens se abaixam com as calças arriadas.
– Disenteria – comenta o enfermeiro.
Seis homens morrem em consequência. Ficamos prostrados por vários dias,
enquanto a febre se apossa de nossos corpos. O enfermeiro nos fornece aquilo
de que dispõe. Aos poucos nos recuperamos.
Porta encontrou água de novo. Desta vez, o enfermeiro insiste em que seja
fervida. A quantidade não é muita mas ajuda.
– Vejam! O que foi que lhes disse? Não encontramos água? – exclamou,
triunfante, Tiny.
É Búfalo quem primeiro vê os dois homens caminhando à nossa frente.
Estamos quase encostando neles. É estranho que eles não nos vejam. Em
silêncio, os seguimos. Eles se movimentam rápido; é como se estivessem em
alguma missão importante. Caminhamos por toda a noite. A lua derrama sua
pálida luz sobre a vastidão de pedra. Um cão uiva à distância. Onde há cães há
água e geralmente seres humanos.
A casa é uma cabana de adobe construída de encontro a uma escarpa e
parecendo como se a qualquer momento pudesse desaparecer no abismo que
lhe fica por baixo. Os dois homens apressados desaparecem por detrás da casa.
Porta e eu nos esgueiramos atrás deles. A unidade se espalha em posição,
A SMG é colocada por trás de um rochedo. A noite torna-se tensa. Nem um
único som se escuta. É como se as rochas do abismo houvessem engolido os
dois homens. Porta e eu paramos e nos abrigamos atrás de um monte de palha
que nos poderia dar alguma proteção contra balas.
Ouvimos fortes batidas numa porta e uma dura voz corta o silêncio da
noite.
– Delco! Olja! Vocês têm visitas! Saiam e deem-nos as boas-vindas!
Não se ouve uma resposta; apenas o vento noturno continua assobiando
mansinho. De repente, ouve-se o barulho de madeira sendo estilhaçada por uma
coronhada.
– Saiam, suas placentas de cadeias! Vocês não podem esconder-se da nossa
justiça.
– Justiça à noite! – sussurra Porta, com um meio sorriso.
Os dois homens invadem a cabana; suas botas ferradas fazem um barulho
sinistro: a pisada dos carrascos.
– Delco e Olja! Saiam e se defendam, seus traidores sujos! Seus amigos
alemães agora não podem protegê-los!
– Como você pode estar enganado! – cochicha Porta, batendo ternamente
em sua Mpi. – A morte, na maioria das vezes, é o resultado de um erro!
Uma luz aparece através das minúsculas janelas. Bruxuleia e lança longas
sombras; podemos ver muito claramente o homem que está com a luz.
– Que alvo perfeito ele apresenta – diz Porta, levantando sua Mpi. – Pensa
que eu posso ganhar um charuto?
– Acerte-o! – murmuro, retendo a respiração.
– Niet! – sorri Porta. – Vamos descobrir o que estes dois bandidos estão
planejando antes de estourar-lhes os miolos. Um par de paus moles, é isto o que
eles são. Nada mais!
Uma comprida vela começa a queimar preguiçosamente. Num dos cantos
de uma cama baixa sentam-se três pessoas apertadas de encontro à parede. Uma
mulher jovem, um homem e uma criança de uns cinco anos.
– Lá estão Olja e Delco – sussurra Porta. – Traidores, mas sem dúvida
dependendo de que lado você olha a posição deles.
Conheço uma porção de traidores muito decentes, que são mais honestos
do que estes nacionalistas de “cinco minutos depois da meia-noite”. – Coloca
na boca um cigarro.
– Você não vai mostrar-lhes uma luz, vai? – pergunto, apavorado. Porta
olha-me com desprezo, tira uma faísca da navalha de barbear, sopra a faísca
que atinge um pano meio carbonizado e acende seu cigarro na brasa. Este
“isqueiro” russo é feito para fumar de noite em tempo de guerra; primitivo
como aqueles que o inventaram, mas não tem uma chama traidora.
Sopra a fumaça, mantendo o cigarro escondido na concha da mão de forma
que não se pode ver a ponta do cigarro queimando.
– Uma boa brincadeira merece um cigarro – murmura ele.
O homem dentro da casa ri alto e satisfeito.
– Por que você não abriu a porta? Por que tivemos que arrombá-la? Venha
aqui, Ljuco! Toda a família junto e quase sem poder falar de alegria ao ver-nos.
– Seu riso prolonga-se, sempre alto.
Ljuco, o camarada que estava de pé ao lado de uma porta estreita no fundo
da cabana, entra pisando forte. Uma piteira move-se agitada entre seus dentes.
Também está rindo e fazendo um ruído seco. Os carrascos riem-se dessa
maneira, quando contam a história de alguma execução interessante.
– Têm algum schnapps? – pergunta Ljuco, abrindo as portas do armário e
atirando no chão latas e tigelas. Os utensílios de cozinha de qualidade inferior
quebram-se em pedacinhos ao bater nas pedras.
– O que. – o que vocês querem? – pergunta o homem que está sentado na
cama, com voz trêmula. O quarto todo cheira a pavor.
– Ter uma pequena conversa com você, meu caro Delco. Devemos falar em
alemão ou você prefere nossa própria língua? Falemos em alemão. Você por
certo esqueceu sua língua materna depois de todos esses anos que passou com
seus amigos alemães.
– Nada tenho a ver com os alemães – defende-se Delco. – Você pensa que
se tivesse estaria vivendo aqui?
– Delco, queridinho Delco! Que bobagem! Nós todos sabemos acerca de
você. Será que levou uma pancada na cabeça para sua memória estar tão
afetada? Você não se lembra de Peter? De Pone? De Illijeco? De meu irmão?
– Não sei de que você está falando. Sei o que aconteceu com seu irmão,
mas nada tive a ver com aquilo!
– Perda de memória! Caso notável – diz, bruscamente, o homem com a
piteira e o estranho riso seco.
Ele encontrou uma garrafa de Slivovitz e bebe quase a metade antes de
passá-la a seu companheiro.
– Parece ser contagioso. Ninguém mais se lembra de coisa alguma. Essa
doença mostra-se particularmente virulenta em tempo de guerra. E você, Olja,
você também ficou infeccionada com essa perda de memória?
A mulher não responde. O medo estampa-se em seus grandes olhos
aterrorizados, enquanto aperta contra si o menino.
– O ar seco daqui torna os pensamentos tão leves que, talvez, por fim eles
partam voando – diz o homem da piteira, que solta um alto arroto.
– Por que vocês vêm aqui no meio da noite e invadem minha casa? Por que
não vêm durante o dia como homens honestos?
– Delco. Delco, sentimos tanta falta de sua companhia que simplesmente
não pudemos esperar quando finalmente ouvimos dizer que você estava aqui.
Seus amigos alemães tiveram a gentileza de ajudar-nos dando-nos uma carona.
Nós também fazemos uns trabalhinhos para eles, você sabe. Ou talvez você não
soubesse?
Eles estão muito satisfeitos com você e Olja. O SD-Obersturmführer
Scharndt pediu-nos especialmente para visitá-los e cuidar de vocês! E agora
aqui estamos e temos realmente a intenção de cuidar de vocês. – O homem
examina o pobre aposento. – Sua casa em Sófia era muito mais bonita.
O cara de piteira ri-se, com sua risada estranha que lembra uma forca
rangendo ao vento.
Sou companheiro canta com uma voz macia:
Wenn was nicht klappt, dann sag ich unverhohlen,
wie man so sagt “Die Heimat hat’s befohlenl”
Es ist so schön, gar keine Schuld zu kennen
und sich nur einfach ein Soldat zu nennen.*
===============
* E se eu fizer algo errado então poderei dizer,
como sempre: “Foi a Pátria que me ordenou!”.
Isto é tão gostoso e aos soldados muito agrada
pois n inocência é um maravilhoso sentimento.
===============
Sentam-se barulhentamente na mesa e balançam as pernas. Suas bolas de
montaria muito bem engraxadas brilham a luz da vela; de uma certa forma elas
parecem ameaçadoras. Ambos os tipos são soldados embora ainda parecendo
ser em parte paisanos.
– Você não acha aborrecido morar aqui na montanha? – pergunta o homem
da piteira, em tom de zombaria. – Apenas com escorpiões, cobras e os
pequenos animaizinhos vermelhos que devoram corpos para fazer-lhes
companhia?
Com os dedos trêmulos, a moça abotoa sua camisola de dormir até o
pescoço. O menino aperta-se mais de encontro à mãe; ele não compreende
alemão, mas pode sentir a perigosa tensão no ar.
O homem da piteira tira um violão que estava pendurado na parede, senta-
se de novo na mesa e começa a experimentar o instrumento.
– Vocês fazem serões musicais por aqui? – Tira alguns duros e dissonantes
acordes das cordas.
A pequena família aperta-se mais de encontro a parede como se esperasse
que esta pudesse engoli-la, Seus rostos são pálidas manchas. Os grilos cantam
tão alto que quase afogam os selvagens e loucos sons do violão.
Olho incerto para Porta e levanto minha Mpi.
– Ainda não – diz ele, sacudindo a cabeça. – Ainda não é de nossa conta: é
entre os gregos e os búlgaros. Se acontecer algo ilegal, nós interferimos.
Estamos cuidando das coisas pela polícia, que não está conosco desta vez.
Sorrio cansado, desejando estar em qualquer lugar menos ali. Os caçadores
sentem-se triunfantes dentro da cabana; sua presa está encurralada. O menino
deita a cabeça de cabelos encaracolados de encontro ao peito do pai.
– Por que vocês se passaram para o lado desses demônios marrons? –
pergunta o líder.
– Porque pensaram que era vantagem para eles, naturalmente – diz, rindo,
o homem da piteira. – Ele tira o fuzil vagarosamente do ombro, aciona
barulhentamente o ferrolho e retira um pente de balas do bolso, examinando-o
de encontro à luz. As seis balas brilham como se fossem de ouro. – Bonito, não
é? – pergunta ele, quase num sussurro. – Balas alemãs! – Tira uma do pente e
11 estuda cuidadosamente. – Muito novas também: feitas em Bamberg em
1943, e acredito que os números de vocês estão escritos nelas!
Olja chora silenciosamente.
– Nós vimos procurando por vocês há muito tempo – diz, friamente, o
líder. – Não foi senão quando perguntamos por vocês a seus amigos alemães
que tivemos uma pista. Agora, estamos aqui.
– E vocês certamente não estão lá tão alegres por nos ver – acrescenta.
Rindo, o homem da piteira, colocando o pente de balas no fuzil.
– Delco e Olja – diz o líder, como se estivesse saboreando as palavras –
vocês foram sentenciados à morte! Vocês traíram seu povo e nós viemos para
executar a sentença a que foram condenados!
– Não traímos ninguém – grita Delco desvairado, passando o braço em
torno da mulher. – Nosso país é aliado da Alemanha.
Nosso Exército está lutando contra os soviéticos. Sou um policial búlgaro.
– Delco. você entende muito pouco! Você foi um policial, uma pobre
ferramenta dos realistas. O povo búlgaro não deseja lutar pelo rei e seus
vassalos fascistas contra a grande irmandade soviética.
– O rei mandou que lutássemos contra os soviéticos – grita, desesperado,
Delco. Os canos dos dois fuzis levantam-se vagarosamente até que estão
apontando diretamente para ele.
O homem da piteira estoura num riso no qual nada há de divertimento.
– Como as pessoas são estúpidas! – suspira ele. – Simplesmente não
conseguem entender.
Olja chora agora aos gritos e esconde o rosto nas mãos. Delco faz um
movimento para levantar-se, mas deixa-se cair novamente, desanimado. Está
encarando o inevitável. O menino parece diminuir de tamanho, apertando-se de
encontro a seus aterrorizados pais; com os olhos arregalados encara esses
terríveis visitantes que apareceram tão subitamente de dentro da noite.
Uma calma de morte reina no humilde aposento.
O homem da piteira dedilha, sonhador o violão. Subitamente, joga-o ao
chão; as cordas vibram e rebentam. Ele ri seu barulhento riso.
Dois tiros ecoam quase ao mesmo tempo. Olja escorrega do leito; suas
mãos ainda estão apertadas contra o rosto. Delco começa a levantar-se mas logo
cai atravessado no leito, abraçado ao travesseiro. Seu corpo dá um estremeção e
fica imóvel.
Logo após os tiros, desce uma estranha calma sobre o quarto. Os dois
carrascos continuam sentados eretos na mesa por alguns minutos.
Um longo e penetrante grito de pássaro ouve-se da direção da unidade.
Porta responde com um grito de corvo; isto quer dizer que estamos bem.
– Por que você não os chamou aqui? – pergunto, em voz baixa.
– Njet, o Velho arruinaria o último ato e não creio que nosso bom Deus
alemão gostaria disso – diz Porta sinistramente, rindo-se.
– Vamos entrar lá? – pergunto.
– Não. não. Deixemos que eles se divirtam ainda mais um pouco. Aquele
par de merdas!
Os dois carrascos estão agora sentados no leito olhando para o menino, que
carinhosamente passa a mão pelo cabelo do pai.
– Vocês vão fuzilar-me também? Agora estou inteiramente só.
Os dois algozes olham um para o outro inquisitivamente. O homem da
piteira levanta seu fuzil.
– Não! – diz rispidamente o líder, abaixando a arma.
– Por que não? – pergunta, surpreso, o homem da piteira.
– É a melhor coisa a fazer com o pequeno traidor.
Armo uma granada de mão. Se eles matarem o menino eu a atiro; estou tão
furioso que todo meu corpo treme.
– Papai, mamãe, estou tão sozinho! Para onde devo ir? – A voz do menino
treme; é fácil perceber que ele está quase rompendo em lágrimas, A “grande”
guerra endureceu as crianças de uma forma que não é natural. A brutal face da
morte tornou-se para elas uma visão diária.
Os carrascos pulam agilmente da mesa para o chão. O homem da piteira
continua a rir e examina de novo o armário para ver se encontra algo que possa
usar. Em seguida, mexe nos corpos com o cano do fuzil.
Olja ainda respira. Ele aperta o cano do fuzil contra a nuca dela e atira. O
crânio estoura. pedaços de ossos e miolos espalham-se pelo quarto.
Porta olha para mim. Não dizemos nada,. mas concordamos no que deve
ser feito.
Barulhentamente, eles saem da cabana.
Um pequeno cãozinho branco sai correndo de um canto da casa. O homem
da piteira mata-o com dois golpes da coronha de sua arma e joga o corpo para
dentro da cabana.
– Teria sido melhor se matássemos o menino – diz ele depois de darem uns
passos. – Se os alemães vierem, ele poderia identificar-nos, você sabe!
– Tem razão – concorda o líder, – Faça-o então!
O homem da piteira de novo solta sua risada seca. Ao voltar- se, cessa de
rir com um grito sufocado, quando quase se choca com os canos de nossas
Mpis.
– Como vão? – diz Porta. divertidamente, tirando seu chapéu amarelo para
eles.
– Oh! – exclama. Espantado, o homem da piteira.
– Bu! – retruca Porta, rindo.
– Nós temos Ausweís* – diz o líder, nervoso. – Nós estamos a serviço da
SD**.
– Foda-se com seu cartão! – responde Porta brutalmente, batendo com o
cano de sua Mpi no rosto dele e cortando-lhe a bochecha com a alça de mira.
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* Ausweís: Cartão de Identidade.
** SD (Sicherheitsdienst): Serviços de Segurança.
===============
Pressiono o cano de minha arma contra a boca do estômago do homem da
piteira e solto a trava de segurança.
– Vá com cuidado. companheiro, ou arranco suas tripas pelas costas.
Como todos os assassinos, ele tem muito medo da morte.
– O que tencionam fazer? – pergunta o líder, enxugando o sangue do rosto.
– Adivinhe! – diz Porta, rindo brutalmente.
– Devemos dizer-lhe? – pergunto.
Porta cospe no rosto do líder.
– Têm Ausweis, como você diz! E trabalham para a SD, não é? São nossos
amigos, hem?
– De fato somos – diz, veementemente, o homem da piteira, os olhos
traindo-lhe o terror-pânico.
– Bom! Bom! – diz Porta com um riso terrível. – Vocês também eram
amigos dos dois queridos defuntos que estão ali dentro?
– Traidores, eles eram – diz o líder. – Comunistas, espiões soviéticos.
Porta assobia como se estivesse surpreendido.
– E vocês dois deram um jeito na vida deles? Desculpem, meus queridos,
mas não pega. Nós os seguimos a noite inteira. Uma coisa tenho a dizer: vocês
dois sabem como conduzir uma excitante e dramática cena de liquidação. Se cu
fosse critico, daria a vocês nota 10.
– Estávamos apenas obedecendo ordens – gagueja o da piteira, nervoso.
– Ordens? – exclama, zombeteiro, Porta. – E vocês se divertem
obedecendo ordens, não? Olhem aqui, garotos, nós somos pagos para matar.
Pagos pelo Estado alemão, sabem? Eles nos dão divisas em nossos braços e
medalhas em nossos peitos para isso.
Nós somos bons nisso, compreendem? Agora, usualmente, nós apenas o
fazemos por dinheiro, mas vocês, rapazes, vocês são SD e são nossos amigos.
Assim, para vocês, nós o fazemos de graça. Não lhes vai custar um centavo
estourar seus intestinos. É executado por peritos!
Ouvimos o barulho das botas e o chocalhar de equipamento aproximando-
se pela trilha. A unidade aproxima-se com o Velho à frente. Troco um rápido
olhar com Porta e ele assente com um movimento de cabeça.
– Mandem-se, meus amigos – diz ele para os dois carrascos. – Se são
capazes de uma boa corrida, ainda podem salvar-se.
Por um momento, parecem não entender, pois nossas expressões são
amáveis e parecemos bem-intencionados com eles. De repente, eles fazem
meia-volta e disparam a toda velocidade.
– Adeus, rapazes – grita Porta, levantando seu amarelo chapéu cilíndrico.
Nossas Mpis cospem fogo; os dois homens caem e rolam na trilha.
– Que diabo está acontecendo por aqui? – grita o Velho atrás de nós. Ele vê
os corpos. – O que é isso? – pergunta, ameaçador.
– Um par de pagãos – diz Porta, sorrindo. – Eles acabam de matar um
homem e sua mulher. Mandamos que eles parassem mas não obedeceram.
Correram e nós abrimos fogo, de acordo com o regulamento.
O Velho olha-nos suspeitoso.
– Se forjaram uma falsa “tentativa de fuga”, arrumo uma corte marcial em
cima de vocês!
Tiny levanta-se e, com seu risinho curto, mostra-nos três dentes de ouro.
– Vocês deram um bom jeito neles, quase cortaram-nos em dois. Ambos
deviam estar bem loucos para tentar fugir!
O menino ainda está sentado ao lado do corpo do pai, passando a mão pelo
cabelo do morto. Suas mãos estão cobertas de sangue.
– Agora estou sozinho. Para onde devo ir? – repete, automaticamente, as
mesmas palavras, sem qualquer expressão.
O Velho levanta-o e tenta confortá-lo.
– Você virá conosco!
Enterramos os pais do garoto atrás da casa. Damos uma busca na cabana,
mas não há nada que valha a pena saquear. Nem mesmo muita água: apenas
duas bolsas de couro de cabra parcialmente cheias.
– Eles devem apanhar água em algum lugar – diz o Legionário, pensativo,
e continua a busca.
Tentamos perguntar ao garoto, mas ele dá a impressão de que está
paralisado e só faz repetir: “Agora estou sozinho. Para onde devo ir?”
Chegamos de novo aos temíveis trechos abertos de pedras e cascalho.
Numa espécie de clareira, encontramos os corpos de cinco soldados búlgaros.
Quando os tocamos, eles se desmancham em pó.
– Morreram de sede! – diz o Velho, laconicamente.
– Mais provavelmente desertores. Cansados da guerra e de toda esta merda
– conclui Porta.
Tiny procura dentes de ouro; não há nenhum.
– Vamos andando! – reclama Búfalo, desesperado. Nos últimos dias ele se
tornou estranhamente magro.
O médico anda meio transtornado.
– Tudo acabado! Tudo acabado! – resmunga ele, continuamente.
Estamos esgotados pela sede e só podemos marchar alguns quilômetros de
cada vez; após o descanso, é preciso usar as coronhas dos fuzis para fazer-nos
mover de novo.
Um dos “500” é mordido por um escorpião e morre no meio de terríveis
convulsões. Aterrorizados, nós o rodeamos e assistimos à sua morte.
Durante um período de descanso no quarto dia, somos sobressaltados por
um tiro de pistola. O enfermeiro suicidou-se; sua cabeça repousa numa poça de
sangue. Os moscardos azuis já aceitaram o convite para jantar.
– Esta é uma maneira – diz Gregor, numa voz que parece um agouro de
morte.
– Nada de tolices agora – resmunga o Velho, com voz rouca.
Não conseguimos reunir forças para enterrar o enfermeiro. As formigas
vermelhas estão ativas em seu trabalho e, em breve, irão limpá-lo. Dentro de
alguns dias, restarão apenas um uniforme e um esqueleto. Retiramos o ferrolho
de seu fuzil, enterramos o cano no chão e colocamos seu capacete em cima da
coronha.
– Vamos tocando – fala com dificuldade Barcelona. Usa um fuzil como
muleta; um de seus pés está terrivelmente inchado e com um fedor de carne
apodrecida.
À tarde, Tiny e o ex-coronel de cabelos brancos começam a discutir;
parecem um par de galos de briga aprontando-se para a luta.
O ex-coronel atira e a bala passa de raspão pela garganta de Tiny.
O Legionário levanta sua Mpi e derruba o ex-coronel; em seguida, encosta-
se de novo tranquilamente como se nada houvesse acontecido.
O ex-coronel cai de joelhos com ambas às mãos apertando a barriga e o
sangue as ensopando.
– Assassinos! – grita ele, caindo para frente com a cara no chão.
Subitamente, o garoto começa a rir com um riso alto e estridente. Por um
momento, olhamos para ele surpreendidos; a seguir nós também começamos a
rir.
O ex-coronel levanta a cabeça. Seu rosto está torcido; ele gira a cabeça,
olhando para todo o mundo em volta como um palhaço num circo. Nós rimos
com um riso agourento, como o crocitar de um grupo de corvos loucos. O
Velho é o único que não ri; fica observando o ex-coronel morto como se não
pudesse entender o que estava acontecendo.
– O general morreu na maldita madrugada! – grita Búfalo enlouquecido, e
chuta a cabeça do ex-coronel.
Nunca chegamos a saber quem lhe cortou a cabeça. Tango está se
aprontando para dar-lhe um pontapé, quando uma rajada de Mpi fura o chão
próximo a seus pés.
– Chega disso! – rosna o Velho, colocando um novo carregador em sua
Mpi.
Recuperamos o juízo e deitamo-nos no chão ali mesmo. Quando o Velho
ordena para de novo marcharmos, quatro morreram durante o sono.
Nossos pés doem como se estivéssemos marchando sobre vidro picado. À
tarde, encontramos uns cactos cujo suco é bebível. O Legionário o conhece de
seu tempo no deserto. Ficamos tão refrescados que marchamos oito quilômetros
antes de termos que descansar de novo.
Porta caminha na minha frente, resmungando estranhamente.
– Narcejas devem sempre ser penduradas. Suas penas devem ser arrancadas
com muito cuidado; de forma alguma deve-se romper a pele. Pode-se cortar as
asas e jogar fora; a cabeça deve ficar. O bucho deve ser retirado. As sem-
vergonhas muitas vezes se enchem de areia, o que incomoda arranhando entre
os dentes, quando se como a ave; o resto das entranhas deve ser deixado dentro
da ave. Agora, amarre uma tirinha de toucinho em torno de cada ave, coloque
um pouco de sal e pimenta, e meta todo o bando num forno quente. Pelo amor
de Santa Elisabete não deixe, de maneira alguma, que elas permaneçam no
forno mais do que oito minutos. O molho deve ser diluído cuidadosamente
apenas com um pouquinho d’água. O resto é feito na mesa com um pequeno
fogareiro a álcool. Um pouco de manteiga e duas colheres de sopa de conhaque
ajudam bastante. O conhaque deve ser queimado; este conhaque queimado e a
manteiga dão aos monstrinhos seu verdadeiro gosto.
Durante algum tempo, ele anda em silêncio. A seguir lambe os lábios e
lança um olhar para o céu em direção ao sol escaldante.
Marcha como se estivesse completamente sozinho. A seguir, começa de
novo a falar sozinho.
– Espero que se tenha deixado à lebre ficar pelo menos duas horas a
encharcar em aguardente e vinho tinto. As cebolas, a gente mistura com a
manteiga. Duzentos e cinquenta gramas de porco, cortados em grande tiras
devem ser cozidos levemente. Aí então é que entra nosso animalzinho de pés
ligeiros. Vire-o no espeto de modo que fique uniformemente assado; joga-se
então um pequeno punhado de farinha com cuidado sobre o animal. Depois
disso, deve-se deixar tudo assar por pouco tempo. Três copos de vinho tinto,
um pouco de caldo, uma cabeça de alho esmagada e, se não quiser incorrer na
ira de Nossa Senhora de Kazan, não se esqueça do sal e da pimenta. Agora,
deixe que a grande corredora asse no forno por cerca de uma hora, enquanto as
verduras são preparadas: trezentos gramas de cogumelos devem ser picados tão
finos como se tivessem que ser espalhados por sobre os delicados seios de uma
jovem virgem. Junte-se a isso cebolinha cortada fina. Depois, deve-se preparar
as cebolas cortadas e tostadas. A seguir, remove-se a pele de oito tomates sem
sementes e amassa-se bem. Um pouco de rosmaninho por cima e vamos
escolher nosso vinho. Para sobremesa, eu escolheria Hamantaschen que os
judeus consomem deliciados na grande festa de Purim.
– Que diabo de conversa boba está você resmungando por aí? – pergunto,
curioso.
– Estava apenas preparando uma refeição para mim mesmo em minha bem
equipada cozinha!
– Cale-se, por favor – diz Gregor, com uma voz chorosa. – Estou quase
morrendo de fome!
– Se nós jamais voltarmos para casa – fala Porta, parando por um momento
– eu recomendaria à sua atenção um prato de lúcio em molho de manteiga ou
talvez uma truta azul, mas precisa certificar-se de que o peixe deve ser servido
diretamente da água na qual foi cozido e com um legítimo molho holandês.
Como um segundo prato, vocês não ficariam desapontados com um ragout de
mouton preparado à moda francesa. Este prato, no entanto, deve ser servido em
louça de barro. Entre os dois, poderiam provar alguns caracóis da Borgonha,
em seu próprio suco natural. Eles aguçam o apetite. Se tiverem escolhido o
carneiro, deverão, naturalmente, terminar a refeição com crêpes flambées.
– Mais uma palavra e eu lhe estouro suas malditas costelas – brada o
Velho, apontando a Mpi na direção de Porta, que estava começando a explicar
que vinhos ele escolheria para seu recomendado cardápio e por quê.
Um Fieseler Storch localiza-nos; seu piloto circula por cima de nós por
diversas vezes. Estamos estendidos no chão no topo de um platô, num estado de
completa exaustão.
O Velho dispara toda nossa munição de sinalização.
Duas horas mais tarde, o Storch volta e deixa cair bolsas d’água para nós.
No dia seguinte, temos energia suficiente para continuar a marcha.
Uma coluna blindada encontra-nos. Quase nem temos forças para subir nos
caminhões que nos transportam a Corinto. Passamos alguns dias na enfermaria.
As autoridades gregas tomam conta do garoto; nunca soubemos o que
aconteceu com ele. A unidade ofereceu-se para adotá-lo, mas o NSFO*
desaprovou a ideia com um sorriso escarninho. Adotar um untermensch?
Permissão denegada.
===============
* NSFO (Natíonalsozialistischer Führungsoffizier): Funcionário político
(nazista).
===============
Desde o momento em que executou uma ordem do SD, você está amarrado
a nós para sempre. Você me compreendeu? Para sempre... Ninguém abandona
os Serviços de Segurança vivo.
SD-Obergruppenführer Heydrich para o
SS-Hauptsturmführer Alfred Naujock
Abril de 1936

Passa um pouco das 11 horas da manhã de um quente domingo de verão


em 1944.
As ruas de Essen estão vazias e desertas. Soou um alerta. Todo o mundo
está nos porões. Não, nem todos! Uma patrulha SS emerge da Rottstrasse.
Uniformes de cor cinza-rato e caveiras prateadas brilhando em seus bonés. Na
frente deles, marcham dois garotos de 13 anos com as mãos cruzadas atrás do
pescoço.
A patrulha vira em Kreuzekirch Strasse; um pouco adiante chegam a um
pátio em ruína.
– Fiquem ali! – comanda o SD-Unterscharführer, fazendo um gesto com o
cano de sua Mpi em direção à urna parede suja de fuligem.
Os garotos dirigem-se à parede e ficam de pé de encontro a ela, deixando
os braços caírem ao longo do corpo. Os olhos, enterrados profundamente em
seus rostos escaveirados, estão arregalados de terror. Ambos são muito miúdos
e terrivelmente magros.
– Virem os rostos para a parede – grita o Unterscharführer numa voz
estridente e penetrante. – Coloquem as mãos na nuca!
Os homens SD dão alguns passos para trás e levantam suas Mpis. ‘
Os garotos começam a soluçar. Comprimem-se de encontro à parede como
se ali pudessem encontrar segurança.

– Parem! – exclama, subitamente, uma voz – Um civil bem vestido


atravessa, apressado, o pátio.
– O que você deseja aqui? –– pergunta o Scharführer, baixando vagamente
o cano de sua Mpi.
– Você está louco? Não pode fuzilar crianças dessa maneira!
– Não podemos, é? Podemos, e podemos fazer mais do que isso, também!
– Mas são apenas crianças! –– diz o civil, num tom insistente.
– Não me aborreça! – responde o Scharführer. – Pilhagem durante um
ataque aéreo é punível com morte imediata. Não estaria ligando mesmo que
fossem crianças de colo.
– Sou o Professor Kuhlmann, Oberstabsartz e Superintendente do Hospital
de Apoio nº 9 aqui em Essen.
– Ora essa! – diz o Scharführer, rindo e correndo os alhos por seus homens.
– Nenhum de nós está dando parte de doente agora, doutor.
– Proíbo-lhe de fuzilar esses meninos! Está me compreendendo, Herr
Scharführer?
– Deixe de lado o “Herr” – replica o Scharführer, com um brilho perigoso
aparecendo nos olhos. Levanta sua Mpi e pressiona a boca do cano contra a
barriga do professor. – Agora escute-me, seu paspalhão. Para mim você é
apenas um paisano besta e ordeno-lhe que se afaste daqui e depressa!
– E eu lhe ordeno para soltar essas crianças! – grita o professor, ficando
alternadamente vermelho e pálido.
– Vou contar até três – rosna o Scharführer. – Se não se for até três, irá
fazer-lhes companhia. Um...
O professor recua, vagarosamente, um passo de cada vez.
O Scharführer ri, satisfeito, e volta sua atenção para os dois garotos
encostados â parede. Seus magros corpos sacodem-se em convulsivos soluços.
– Fogo! – grita ele, e a voz de comando ecoa em volta do pátio.
Cinco Mpis ladram!
Os garotos caem no chão e uma grande poça de sangue forma-se por baixo
deles, correndo por sobre o concreto do pátio.
O professor sai disparado do lugar, suas mãos apertadas contra os ouvidos.
Os SDs recolocam descuidadosamente suas Mpis nos ombros e marcham
barulhentamente para fora do pátio. Eles nada mais fizeram do que cumprir
ordens.
AS PULGAS

Dois corpos balançam gentilmente para um lado e para o outro movidos


pela brisa quente. As vigas secas estalam.
A Seção nº 2 está sentada embaixo do patíbulo jogando dados. Tiny dá
uma olhada, preocupado, para cima.
– Espero que esses dois porretas não caiam de repente em cima de nossas
cabeças!
Nenhum de nós sabe quem enforcou o general alemão e a mulher russa
com posto de capitão. Todas as pessoas e tudo nesta vila foi morto. Até os cães
e os gatos. A companhia foi enviada para cá numa operação de limpeza. A vila
já era uma cidade-fantasma quando chegamos aqui esta manhã.
Os cadáveres começam a feder com o calor.
Há um patíbulo ainda maior montado atrás do edifício da escola. Dois
guerrilheiros e um homem das SS da Divisão Muçulmana estão enforcados
nele. O muçulmano ainda usa seu fez cinzento.
Um grande número de civis balança, enforcado, nos galhos das árvores no
mato.
O general e a mulher dão a impressão de que foram obrigados a ficar de pé
em cima de barris de vinho que depois foram chutados de debaixo de seus pés.
Uma boa parte do vinho escorreu, mas ainda resta bastante nos barris para
permitir-nos encher nossos cantis.
– Onde, diabo, foi Porta? – pergunta o Velho, tirando um seis.
– Foi caçar – diz Gregor, sacudindo animado o copo de dados por cima de
sua cabeça.
– Nunca pensa noutra coisa – resmunga o Velho. – Dentes de ouro, é só no
que ele pensa!
– Pare com isto, pare, pare! – diz Tiny protestando. – Como vai um infeliz
juntar capital suficiente para enfrentar aquele maldito Mecânico-Chefe Wolf
sem pegar uma maldita pilhagem de vez em quando?
– Dane-se com isto! – exclama, irritado, o Velho, acendendo seu cachimbo
com borda de prata. – Não vou tolera-lo por muito mais tempo, digo-lhe. Pilhar
os mortos é o que isso é, e custa-lhes seus pescoços em qualquer exército, meus
filhos.
Porta aparece na esquina, assobiando alegremente. Traz nos ombros três
peles brancas.
– Este é um buraco miserável – grita ele ao aproximar-se. – Nada a não ser
estas três peles.
O Velho imediatamente compra uma delas. Porta fica com as outras duas
para si mesmo. As noites são frias e nós ficamos com inveja dele.
Tiny pede a Porta para emprestar-lhe uma das peles por metade de uma
noite, de forma que ele também possa experimentar como uma pessoa se sente
dormindo no quente e macio para variar.
– Quando eu tiver gozado delas por algumas noites, acho que vou alugar as
peles – diz Porta do alto de sua posição de proprietário. – Você será o primeiro
da lista, meu filho.
Dormimos numa das cabanas dos camponeses. O Velho suspira feliz nas
profundidades de sua pele.
No meio da noite, despertamos com um barulho infernal. O Velho corre em
volta da cabana aos berros, coçando-se como um condenado. Todo seu corpo
está coberto de mordidas de pulgas. O rosto está semeado de pontinhos
vermelhos que logo se transformam em feridas.
Um pouco depois disso todo o resto de nós estamos de pé, dançando em
roda e a coçar-nos. Milhares de pulgas atacaram nossos indefesos corpos. As
peles estão coalhadas de pulgas.
Corremos para fora da cabana a fim de livrar-nos dos minúsculos
vampiros.
Porta é o único que dorme sem parecer incomodado. Ainda está lá deitado
enrolado em suas duas peles.
Não podemos compreender. Nós fomos mordidos quase até os ossos. Tiny
pensa que talvez seja porque Porta tem os cabelos vermelhos.
– Havia uma puta no Reeperbahn que tinha os cabelos vermelhos e uma
clientela de classe no Café Keese – explica ele. – Rabo quente, nós
costumávamos chamá-la. E ela nunca pegava chatos. Mesmo quando nós todos
tínhamos uma carga deles, ela jamais os pegava. Todos os porras dos
escandinavos que vinham até lá para uma bebida barata voltavam com uma
carga de chatos alemães.
– Se você chegar perto de nós com esses malditos incubadores de pulgas eu
mandarei queimar essas malditas peles – exclama, raivoso, o Velho, coçando-se
como um louco.
– Oh! Oh! – retruca Porta, insultado. – Não há pulgas nessas peles; devem
tê-las trazido com vocês.
Um dia após voltarmos para Corinto, Porta vai andando com as três peles
em cima do ombro, mas não avança muito antes que o Kübel de comando o
alcance.
– O que são essas peles que você leva aí, Porta? – pergunta o Coronel
Hinka, inclinando-se, curioso, para fora do Kübel.
– Herr coronel, são um presente de meu tio sueco, senhor. Deviam ter
chegado para o meu aniversário, mas há ultimamente um atraso no Correio da
Suécia, senhor. O Correio sueco é transportado por renas, senhor.
– Você tem mesmo um tio na Suécia? – pergunta o Coronel Hinka,
admirado. – Eu não sabia disso.
– Herr coronel, a família Porta está espalhada pelo mundo inteiro. O
Sargento Blom encontrou alguns de nós na Espanha, e quando estivemos
estacionados na Itália vimos nosso nome em muitas fachadas de casas. Nós
somos grandes andarilhos, senhor, e nunca ficamos muito tempo no mesmo
lugar.
– Onde vai com essas peles? Pretende vendê-las?
– Herr coronel, meu tio sueco deseja que eu fique quentinho à noite, mas o
bom cobertor ersatz que o Führer nos fornece é quente o suficiente para mim.
Sim senhor, nunca sinto frio de noite, de forma que estou indo agora para
Corinto a fim de vender estas peles.
– Qual é o preço delas? – pergunta o Coronel Hinka, passando a mão por
sobre as peles.
– Herr coronel, para o senhor eu as vendo barato. Um quilo de café, uma
garrafa de schnapps e um pacote de cigarros é o preço.
– Está bem – sorri o Coronel Hinka. – Você pode ir pegar esses artigos no
cassino dos oficiais.
Porta joga a menor das peles na traseira do caminhão e recoloca as outras
duas de novo nos ombros.
– O que é isso? – pergunta, surpreendido, o Coronel Hinka, segurando a
pele menor. – Pensei que estivesse comprando as três.
– Não, senhor, herr coronel. O herr coronel estava comprando apenas uma
pele.
– Você não está sendo meio espertinho demais, Porta? Não acha?
Herr coronel este é um preço muito barato para pagar mesmo por uma
única pele, senhor.
– Não duvido – resmunga o Coronel Hinka. – Muito bem, Fico com as três.
Embora elas sejam muito caras.
– Herr coronel. As peles suecas e tudo o que tem a ver com elas são agora
propriedade exclusiva do Herr Coronel – exclama Porta, colocando as duas
outras peles no banco traseiro, atrás do ajudante.
– O Coronel Hinka vai colocá-lo na cadeia até você apodrecer – profetiza o
Velho, quando Porta lhe conta onde se encontram agora as peles pulguentas.
– Não o obriguei a comprar – diz Porta, rindo, despreocupado. – Ele ficou
maluco para apossar-se delas. Até lhe disse que era mais do que peles que ele
estava comprando, de modo que não tem nada de que se queixar.
– Vender um circo de pulgas como aquele para seu próprio comandante é
puro suicídio – fala Gregor, rindo-se secamente.
Cedinho na manhã seguinte, Porta recebe ordem para apresentar-se no
alojamento do comandante.
O Coronel Hinka recebe-o nu até a cintura e coberto com as marcas de uma
noite lutando com as pulgas.
Ele descompõe Porta durante 20 minutos sem parar.
– Estou ciente – grita ele, finalmente – que você tem uma promissora
carreira de usurário à frente. Mas não experimente nada parecido com isso de
novo comigo senão, e isto eu lhe prometo, sua carreira será cortada da forma
mais abrupta possível. Já esteve em Germersheim. O que achou do lugar?
– Herr coronel – responde Porta, batendo os calcanhares com toda força –
do lado oposto de Reno, Germersheim apresenta uma bela paisagem que evoca
fortemente nosso grande passado imperial. Ainda não ouvi falar de ninguém em
seu juízo perfeito que a acha atrativa, quando vista do lado de dentro.
– Desapareça de minha vista! – berra Hinka, apontando seu indicador como
louco para a porta.
Do lado de fora, Porta encontra o ajudante, ao qual o Coronel Hinka, num
rasgo de generosidade, emprestou uma das peles para passar a noite.
– Você parece ser da opinião – diz mostrando os dentes o torturado oficial
– que meu sangue ê um bom alimento para as pulgas?
– Herr ajudante, nada sei acerca de pulgas. Talvez algum nojento oficial, de
seu estado-maior, tenha chegado perto das peles suecas?
Alguns minutos mais tarde, Porta está solto na rua da vila com suas peles e
suas pulgas.
Subindo a rua adormecida ele encontra o padre, que olha espantado e com
inveja as brancas peles jogadas indiferentemente nos ombros de Porta.
– Essas peles são suas? – pergunta, cauteloso.
– Sim, Herr Uberfeldkappellan – responde Porta. Fazendo uma formal
continência.
O padre passa seus compridos e delgados dedos por sobre os pelos e pensa
que belo pelego elas dariam.
O cavalo do capelão encara Porta, que o encara de volta com o jeitão
calculista de um negociante de cavalos nato.
“Você bem cortado daria uns belos bifes”, pensa ele, e calcula de cabeça
quanto o cavalo renderia, propriamente carneado, no mercado de carnes de
Corinto.
– Essas peles são urna beleza – elogia-as, devotamente, o padre. – Nunca vi
nada tão bonito como elas!
– Sim, são suecas – diz Porta, enfático.
– Mercadorias suecas são mercadorias de qualidade – diz com um sorriso o
conselheiro espiritual militar, inclinando›se sobre o pescoço do cavalo. – Onde
nosso bom primeiro-cabo obteve essas belas peles?
– O senhor meu coronel me deu. Ele as recebeu de uma fazenda de peles na
Finlândia – explicou Porta, abrindo seus grandes e inocentes olhos.
– Então seu coronel tem uma fazenda de peles na Finlândia? – A natureza
desconfiada do padre parecia ter sido despertada.
Por um momento, olha inquisitivamente para o alto e magro cabo perfilado
à sua frente. – Pensei que você tinha dito que as peles eram suecas?
– Desculpe-me, senhor; estas peles são da parte da Finlândia onde se fala
sueco, uma região que eles ali chamam de Nyeland.
– Mas como é que seu coronel veio a tornar-se dono de uma fazenda de
peles na Finlândia?
– Peço-lhe desculpas, senhor, mas a mãe de meu coronel é uma das
grandes filhas da Finlândia. – Porta olha para o padre com uma tal expressão de
tola ingenuidade em seu rosto que seria bastante para fazer mesmo o mais
empedernido carcereiro da NKVD desmanchar-se em lágrimas. – Ela tem
1,85m de altura – acrescenta ele, após uma curta pausa, soltando um alto
suspiro.
– A mãe do senhor meu coronel herdou uma fazenda com toda a espécie de
animais que têm pelo, como ursos polares, zibelinas e todas as raças de animais
que eles têm na parte da Finlândia que fala sueco. Por favor, senhor, conhece a
Finlândia?
O pároco militar teve que admitir que não conhecia.
– Nosso regimento esteve lá uma vez durante a guerra – confidencia Porta,
coçando o cavalo do capelão atrás da orelha. – Nós éramos guerrilheiros
voluntários sob as ordens de um Capitão Guri* que também era guerrilheiro.
Acredite se quiser, senhor. Mas quase todos os vizinhos que encontramos
morreram de ataques do coração, senhor. Era quase que como uma epidemia
que nós carregávamos conosco. Naturalmente, senhor, que esse Capitão Guri
que nós tínhamos não era um alemão mas uma espécie de lapão, e um oficial
muito religioso. Nunca o vi matar um vizinho sem antes rezar uma oração por
sua alma.
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March Battalion, do autor.
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– Sim, sim, que interessante – comenta o padre, pensativo, passando mais
uma vez seus dedos pelas peles. – Estão à venda, cabo?
– Quem, senhor? Eu, senhor? – pergunta Porta, com ar estúpido. A
experiência havia-o ensinado que a estupidez abre muito caminho com os
capelães militares, pois essas santas pessoas são quase sempre pessoas
estúpidas.
– Não, homem, as peles, naturalmente – retruca, sibilante e irritado, o
padre. Há muito tempo que não encontrava um idiota tal como este primeiro-
cabo de cabelos vermelhos. – Quanto você está pedindo por elas?
– Bem, senhor, Herr Uberfeldkappellan, senhor, eu estava pensando em
cinco garrafas de schnapps e três quilos de café. Também estava pensando em
cinco pacotes de cigarros, mas se as peles vão servir a uma boa causa, eu irei
pedir apenas três.
– Não se deve beber álcool – repreendeu o padre com severidade.
– Não, senhor, não! Por meus lábios não passa uma gota. Uso-o para
friccionar meus joelhos, senhor. Ajuda tanto contra o reumatismo grego!
– Lamento não ter schnapps. Cigarros e café também estão fora de
cogitação. Eu lhe darei, no entanto, 500 marcos por elas.
– Não, senhor, desculpe-me, senhor! Mas eu não poderia aceitar menos do
que dois mil marcos – suspira Porta, com ar triste. – Um pobre soldado alemão,
senhor, não tenho nada a não ser minha vida e minhas peles suecas neste
mundo para dar por meu país. E minha vida, senhor, não poderia realmente ser
chama da minha agora, não é? O Führer e o Exército decidem acerca disso,
senhor. Sou o último dos 16 filhos de minha pobre mãe, eu sou, senhor. Todos
os outros 15 foram dados à Pátria, senhor.
– Isto é muito duro para sua mãe – diz o padre com gentileza, pensando nos
horrores da guerra.
– Ela o aceita, senhor, como uma verdadeira mãe alemã – diz Porta,
orgulhoso. – Acha que 15 filhos e o mínimo que ela pode dar para o Führer e
para a Pátria, quando isto significa mil anos de paz e liberdade no futuro. Minha
mãe diz que não é qualquer país no mundo cujo Führer foi-lhe mandado por
Deus via Áustria!
O padre despede-se de Porta um tanto confuso, com as peles penduradas na
garupa do cavalo e sua bolsa com mil marcos a menos.
Porta subitamente descobre que há uma mina de ouro naquelas peles e que
bastava que ele as manipulasse apropriadamente.
Poderia continuar para sempre.
– O que disse o Coronel Hinka? – pergunta o Velho interessado, quando
Porta entra na cabana.
– Não falou muito. Ele tinha passado uma noite difícil com as pulgas. Deu-
me as peles de volta e agora elas entraram para o serviço divino. Não é
qualquer pulgueiro que tem uma oportunidade como esta!
Tiny ri tanto que se engasga com o café.
– Aposto 10 contra um que o padre vai amaldiçoá-lo toda a noite e que as
peles voltam para você amanhã de manhã, sem uma bênção – profetiza Gregor,
esfregando as mãos por antecipação.
Na manhã seguinte, o padre chega galopando no cavalo que espumava.
– Você pagará por isso – grita o padre furioso, lançando as peles na cara de
Porta.
O cabo levanta o braço como se fosse fazer continência, mas em vez disso
dobra o braço e bate com a mão esquerda no lado de dentro do braço, na altura
do cotovelo, configurando uma clássica banana!
– Ainda acerto as contas com você, cabo! – brada o padre, lívido de raiva.
– Não pense que já estou quites com você!
– De volta para o papai, minhas belezinhas – diz Porta, rindo para as
pulgas, enquanto tenta limpar das peles a poeira da estrada.
Só de olhar para as peles já nos dá vontade de começar a coçar, mas entre
Porta e as pulgas parece haver um armistício. São amigos e uns não atacam os
outros.
Uma motocicleta BMW com sidecar desce barulhentamente o morro. No
sidecar está o Mecânico-Chefe Wolf com a pose de um general. Na motocicleta
estão montados seus dois guarda-costas chineses, ambos armados com
kalashnikovs*
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* Kalashnikov: Metralhadora russa do tipo Mpi.
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Wolf estaca numa nuvem de poeira, quando seus olhos caem sobre as
peles.
– O que você tem aí? – pergunta arrogantemente, batendo nas peles com
sua nagajka* uma herança da NKVD.
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* Nagajka: Chibata russa.
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– Que é que há? Esses seus cachorros cagam em seus olhos? Você não
pode distinguir peles quando as vê? – pergunta Porta, desdenhoso.
– Onde você as afanou? – pergunta Wolf, com o intuito de insultá-lo.
– Você está pensando que nós somos todos como você? – retruca Porta
altivamente ao insulto.
– Estão confiscadas – declara, categórico, Wolf. – De acordo com o HDV*
qualquer coisa encontrada no campo deve ser entregue ao mais próximo
armazém do Exército. E isto sou eu, meu rapaz! Compreendeu, recruta?
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* HDV: Regulamento dos Serviços do Exército.
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– Vá-se foder! Meta o dedo no rabo! – responde Porta, em tom de
desprezo. – As Forças Armadas alemãs e eu temos diferentes ideias sobre o que
é propriedade privada e o que pertence aos lambedores de cu do povo alemão.
– Um dia essa sua língua ainda vai fazer seu pescoço esticar – exclama
Heide, advertindo Porta de dentro da cabana onde ele está imerso na leitura de
Mein Kamp! (Minha Luta).
– Quanto quer por elas? – Wolf indaga bruscamente. Pula do sidecar da
BMW, desabotoando a capa do coldre ao aproximar-se. A experiência ensinou-
o a não arriscar nada quando barganhas-se com Porta. Qualquer coisa pode
acontecer.
– Não estão à venda! – Com frieza, Porta não liga para a pergunta e acende
um grande charuto. Na realidade, ele odeia charutos mas pensa que o ajudam a
esconder-se numa nuvem de fumaça num momento crítico e permitem-lhe
soprar uma baforada no rosto do adversário. Al Capone, lá em Chicago, sempre
tinha um charuto na boca quando saía a negócios. Ele é o único entre 16
milhões de italianos que Porta respeita e deseja imitar.
– Não estão à venda? – Wolf não pode acreditar em seus próprios ouvidos;
até seus dois cães de guarda parecem admirados Porta ser dono de alguma coisa
que não está à venda? Impossível.
Ele estaria pronto a vender a si próprio a mercadores árabes de escravos, se
o preço fosse suficientemente alto.
Wolf brinca como se distraído com a LMG* montada no sidecar e, como se
acidentalmente, o cano aponta para Porta.
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* LMG: Metralhadora Leve.
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– Pare com essa merda, seu judeu de sangue açucarado! assobia entre
dentes Wolf, fazendo a metralhadora dar um giro como se estivesse pronta para
ceifar toda a Seção nº 2 numa prolongada rajada. – Estou pronto para comprar
essas peles e quando estou pronto para comprar, eu compro! Compreende? O
que digo é pra valer! Se você não quiser vender, fico com elas sem pagar, está
bem? Será que me estou fazendo entender por essa merda que você tem entre as
orelhas? Ponha-as no sidecar e você pode apanhar meio quilo de maçãs em
troca das peles no próximo dia de pagamento. Pode fazer uma torta de maçãs. E
deve considerar-se feliz por eu não dar parte de você à GEFEPO* por tê-las
roubado.
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* GEFEPO: (Geheime Feldpolizei): Polícia Secreta de Campanha.
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– Você deveria entrar para um circo, garotão Wolf! – diz Porta. rindo e
zombando do outro. – Você seria engraçado caindo de bunda no chão nos
intervalos.
– Eu quero essas peles – rosna Wolf, dando uma chicotada no ar com sua
nagajka.
– Desejo numa das mãos e merda na outra! – fala Porta, empinando o nariz.
Jogando as peles por sobre os ombros, como sinal de que considera o assunto
encerrado, começa a afastar-se, andando pela estrada.
– Olhe aqui, seu palhaço! – grita Wolf, correndo atrás dele.
– Não mije contra o vento, pois lhe cai na cara. Nós dois somos da espécie
que sempre pode fechar um bom negócio.
Porta ignora-o e aperta o passo. O cabo observou que seu amigo, o padre
grego da vila, está perto do campanário e acena-lhe alegremente.
O padre corresponde ao aceno sorrindo e começa a puxar a corda do sino.
O ar se enche com o bimbalhar alegre vindo da igreja. Os habitantes da vila
começam a sair de casa. dirigindo-se à missa.
Wolf bate na testa numa tentativa de fazer sua cabeça funcionar. Ele está
quase estourando de raiva com a teimosia de Porta.
O cabo entra no bar atulhado de gente, que é operado ilicitamente pelo
encarregado da manutenção das estradas, no momento em que um soldado de
infantaria totalmente bêbado é jogado à rua com a ameaça de uma rápida morte,
se tentar voltar.
– Ácido para as amígdalas – ordena Porta batendo no balcão do bar com
sua Mpi.
Um canecão de champanha dos pobres vem deslizando pelo balcão em sua
direção e, com um bem coordenado movimento do braço e do pescoço, ele vira
o canecão e toma-o de um só gole.
Tango aproxima-se dele com Búfalo seguindo-o de perto.
– Sabemos onde há muito vinho – sussurra Búfalo, em segredo. – O grego
pode entregá-lo esta noite e pode-se mandar para a Alemanha em caixas de
munição vazias.
– Nós também temos outro plano – fala Tango, com ar maroto, executando
alguns passos de dança. – E nós podemos mandar para Bielefeld com a marca
GEKADOS em caixotes de zinco selados. Nem os Heinis das SS ousariam
tocá-los!
– Encontrem-me no alojamento do capelão às 11 horas da noite! – diz
Porta, engolindo outro copo. – E mandem-se, meus filhos, deixando-me em
paz. Tenho algo em que pensar.
– Tem mais e você irá comprar! – retruca Tango, olhando
significativamente o Mecânico-Chefe Wolf que entra pela porta fazendo um
barulhão.
Porta sopra fumaça de charuto delicadamente no rosto de Tango.
– Olha aqui, Tango, meu filho: você existe somente porque sou um homem
bondoso. Seu tempo no Grande Exército alemão acaba tão logo eu sinta que
não desejo mais que você continue a respirar o mesmo ar que eu respiro. Filhos
como você, que não podem contar até 20 sem ter que tirar as botas, deveriam
ficar contentes por cada minuto que nós deixamos andarem de pé na face da
terra.
Wolf ri alto, com satisfação. Sempre aprecia uma piada, desde que não seja
contra ele próprio.
– Sabia que você parece bobo quando ri? – pergunta Porta, zombeteiro.
Wolf engole em seco e está para dizer algo grosseiro, quando se lembra das
atraentes peles. Bate no ombro de Porta com afetada camaradagem.
– Durante uma guerra é que é a ocasião de gente de visão fazer negócios.
Conheço muito bem as caixas de zinco; elas são quase minhas mas
naturalmente me afasto e deixo-as para você, e você vender-me as peles.
– Você faria sucesso nas histórias em quadrinhos – diz Porta, chamando
uma bonita garota, de cabelos longos, que está sentada no colo de um sargento
de artilharia.
– O que você deseja? – pergunta a moça com um ar frio em suas belas
feições eslavas.
Porta levanta-lhe o vestido.
– Eu lhe mostro o meu, se você me mostrar o seu!
– Seu porco! – exclama a moça.
– Primeiro-cabo – replica Porta, fazendo uma grande mesura.
– São uma gente culta, esses gregos – diz Wolf, rindo. – Declinam seu
nome logo que você os encontra. Fora de brincadeira, Porta, meu rapaz, o que
diz você a três quilos de caviar, cinco pacotes de Camels e uma caixa inteira de
Slivovitz por suas peles estragadas, e isto é o preço máximo.
– Três quilos de caviar! Minhas orelhas são capazes de se transformar em
nadadeiras e meu cu criar guelras antes que eu acabe de comer tudo isso – fala,
sarcástico, Porta. – Comece a falar de uísque escocês e de café e poderemos
chegar a um ponto de partida.
Começam com uma garrafa de schnapps, e depois de três horas de acesa
discussão, liberalmente regada com ameaças, o negócio está fechado. Tomam
um drinque à saúde e com passos incertos cada um se dirige a seus negócios.
Wolf leva as peles debaixo do braço, decidido a ir para a cama cedo com uma
Blitzmädelz para celebrar a compra das peles.
– Será a trepada mais animada que esses dois já deram em toda sua vida. –
E Porta ri com a expectativa.
– Ele vai arrancar suas tripas – profetiza o Velho, sombriamente.
Porta quase se engasga com a comida ao pensar na noite de Wolf e sua
Blitzmädelz com as pulgas.
– Gostaria que ele emprestasse uma das peles para aqueles malditos
chineses – diz Tiny. – O que eu não daria para que aquele par conhecesse a
porra daquelas pulgas!
No dia seguinte, Wolf está de volta com toda sua quadrilha. A Blitzmädelz
está sentada entre ele e um dos chineses no Kübel
blindado. As pulgas deixaram-no parecendo uma lagosta cozida.
– Que diabo houve com seu rosto? – pergunta Porta, com pretensa
surpresa, examinando, interessado, as feições de Wolf.
– Você não está pensando, seu filho da puta judeu, que vai me embrulhar e
escapar, não é? – grita Wolf, rangendo os dentes e atirando as peles na cabeça
de Porta.
– Pare com sua matraca, Wolf. Você faz mais barulho do que um porco
com suas bolas apanhadas num moedor de carne – responde Porta, com um ar
condescendente. – Você não chegou a ajoelhar-se para que eu lhe vendesse
essas bonitas peles? Eu não queria vende-las.
– Você vai pagar por isso! – brada Wolf, apontando sua Mpi para Porta.
Louco de raiva, ele chuta um dos chineses.
– Relaxe! relaxe! – reprova Porta, em tom paternal. – As pessoas podem
morrer de pressão alta!
– Devolva minhas mercadorias – grita Wolf, fora de si de raiva. – Já lhe dei
de volta seus malditos ninhos de pulgas!
– Você pensa que está falando com um idiota? – retruca Porta, sacudindo a
cabeça e rindo.–Se você quer devolver as peles, é problema seu, mas querer
devolução do pagamento! Nada disso, meu velho! Você não sabia que nós
agora estamos na Grécia?
– Você sabia que havia pulgas naquelas peles! – esbraveja Wolf,
continuando a coçar-se desesperado.
– É verdade – admite Porta, com indiferença.
– Por que não me disse? – indaga Wolf, com voz fanhosa.
– Você não me perguntou, perguntou? – responde, sorrindo, Porta.
Wolf explode num longo uivo animal e lança sobre Porta Sangrentas
ameaças de estranhas e pouco usuais vinganças.
– Você dá uma má impressão tão logo abre sua boca – diz Porta. – Mesmo
um italiano morrendo de fome ficaria com medo de aceitar de graça uma caixa
de espaguete de você!
– Eu lhe puxo o buraco do cu pelas orelhas – promete Wolf, rangendo os
dentes.
– Nós vamos cuspir em seu túmulo – promete Tiny, da escuridão da
cabana.
– Você e um malandro barato, Wolf – zomba Porta – e malandros baratos
sempre levam a pior.
– Quietos, rapazes! – diz Wolf, batendo na cabeça de seus cães de guarda,
os quais estavam babando. –Vocês dois vão ganhar um belo presentinho. Vão
receber a cabeça de um patife filho da puta numa bela caixa cor-de-rosa
amarradinha com bonitas fitas azuis.
– Não acreditaria no que nós vamos pensar em fazer com você – grita Tiny
da janela da cabana.
– Ora vejam só! – Wolf ri zombeteiro e cospe na direção de Tiny. Você?
Pensar? Já vi seus papéis, meu filho. Você tirou 39 de inteligência na escola de
treinamento e mesmo para dar-lhe essa nota tiveram que bater com essa cabeça
cheia de merda que você tem contra um muro de concreto durante 10 dias.
Desde então seu QI vem caindo, devagar mas, constantemente. Você é daquele
tipo que eles têm que escrever o número da bota na testa para poder apanhar um
novo par no almoxarifado. Os estúpidos cientistas de Adolf em Buchenwald
estão começando a ter dúvidas: se ê possível ensinar a um idiota como você a
atirar, talvez eles devessem começar a treinar macacos!
– Fale! Fale! Fale! Você vomita merda como um jornal clandestino vomita
malditas mentiras – grita Tiny, de dentro da cabana. – Estou muito melhor do
que você, Wolf! Tenho papeis que dizem que sou amalucado mas não sou uma
porra de um pateta, meu velho, e não se esqueça disso. Eu sou esperto, sou,
sim, e são os malditos espertos como eu que saem da guerra vivos. Os malditos
educados arranjam uma porra de morte de herói, estou certo?
– Mecânico-Chefe Wolf, você é filho abandonado de uma prostituta de
cinco marcos e como tal nós vamos empurrar com balas os bicos de seus peitos
para trás até saírem pelas costas na primeira oportunidade que tivermos –
promete Porta, solenemente.
– Sobrará uma também para sua maldita cabeça, seu cão sujo
– ecoa Tiny, sentindo-se feliz.
– Vamos empurrar a carga de uma espingarda de chumbo com o cano
cortado pelo seu rabo adentro, Wolf – berra, excitado, Gregor.
– Muito bem, seus comedores de merda! A verdadeira guerra começa agora
para vocês todos – brada Wolf, batendo com a mão em sua Mpi. – Vou pegar
vocês um a um!!
– Se sua mãe era aleijada, então você ê um filho da mãe, Wolf! – grita
Porta, cuspindo pela janela.
– Todo o mundo sabe por que você nunca obtém urna licença – diz Gregor,
triunfantemente. – Você já gastou as babacas de suas cinco irmãs!

As ameaças de Wolf começam a tomar forma naquele mesmo dia.


E por pura sorte que Porta não morre envenenado. Ele apanha dois pudins
pretos do carro do cozinheiro, mas é persuadido a dar um deles para um cão que
o importunava. Dois segundos depois, o cão cai morto. Pálido e tremendo ele
joga o resto da comida para um porco que é despachado para a eternidade tão
rápido quanto o cão.
No dia seguinte, eles encontram escorpiões em suas botas; e no bolso do
casacão de Porta o Velho encontra uma pequena víbora cuja venenosa picada
mata instantaneamente.
Tiny é atirado pelo teto da latrina quando uma mina “S” explode
exatamente no momento em que ele se senta para examinar uma nova coleção
de fotografias pornô.
A coisa fica tão preta que não ousamos sair sozinhos. Nós nem comemos
coisas que vêm em pacotes da Cruz Vermelha, sem antes experimentar primeiro
em outra pessoa.
Tarde da noite, sentamo-nos na cabana fazendo planos para matar Wolf,
mas Porta não aceita nenhuma das sugestões.
Tiny esfrega a testa para cima e para baixo de encontro à parede. Ouviu
dizer que isto ajuda quando uma pessoa tem que pensar profundamente sobre
algum problema.
– Se nos encontrássemos com ele por acidente lá na estrada da montanha –
diz ele, com ar finório – alguma doença a que está sujeita a carne humana
poderia cair sobre ele, não é?
– Sim, ele poderia, por exemplo, ser estrangulado acidentalmente – suspira
Porta, tomando um gole de vodca.
– Um camarada que conheci certa vez em Hamburgo morreu de um ataque
do coração, quando alguns amigos vieram visitá-lo trazendo facas – diz Gregor,
atirando pelo ar uma faca de batalha muito bem afiada.
– Wolf não é assim tão nervoso. E não seria fácil chegar perto dele com
uma faca – murmura Porta, com tristeza. – E eu pagaria bom dinheiro para ter a
oportunidade.
– Pas question! Precisamos descobrir algum método particularmente
refinado para fazê-lo – sentencia o Legionário.
Porta vai para a entrada da cabana e fica olhando para fora. As grandes
lâmpadas elétricas balançam com o vento. Ele pensa qual seria a aparência de
Wolf balançando ali de cabeça para baixo com o pescoço quebrado.
– Aquele velho sujo, filho da puta! – exclama Tiny, batendo com a cabeça
de encontro à parede. – Vou cegar a porra da mãe dele, juro!
– Que diabo nós poderemos fazer? – suspira Porta, deixando-se cair no
degrau da entrada. – Não podemos liquidar com ele.
Ele está tão fortificado como Adolf na Toca do Lobo.
– Todas as quartas-feiras ele sobe a montanha para encontrar alguém – diz,
subitamente, Barcelona. – Escutei, por acidente, de um negro alemão que é
músico na banda do regimento de infantaria.
Tiny deixa escapar um longo e agudo assobio.
– E se a porra de seu motor enguiçasse naquele maldito passo e o patife
saltasse para ver o que havia acontecido com ele?
– Com uma pequena ajuda de alguém, ele poderia cair e ferir-se
gravemente – diz o Velho, depois de pensar por uns momentos.
– Talvez uma longa faca estivesse por ali escondida no mato e ele poderia
abrir sua barriga, não é? – diz, rindo, Tiny, feliz com o pensamento.
– Na barriga não. – Porta rejeita a ideia. – Uma bala na testa! Da maneira
que eles fazem com o gado nos matadouros.
– E depois nós fazemos um embrulho com seu crânio estufado e mandamos
para Creta, para os cães selvagens se alimentarem com ele – conclui Tiny,
jubilante.
– Quanto sangue irá correr daquele filho da puta – brada Gregor, dando
uma risada.
– Vamos dar-lhe um tiro bem no meio de seus olhinhos de rato! – exclama
Tiny, sacando sua Nagan e fazendo pontaria para fora da janela.
– Vocês serão degolados por assassinato! – augura Heide, pessimista.
– Somente aqueles que são apanhados é que são executados – confidencia
Porta. – Rapazes que sabem atirar podem levar a cabo um trabalho sujinho
destes sem nenhuma dificuldade. São da espécie que ainda recebe uma
recompensa e um tapinha rias costas depois.
– Está é a forma que a sociedade deseja que as coisas sejam – acrescenta
Gregor. – São os bobalhões que são enterrados com a cabeça entre os joelhos e
que são chamados de criminosos. Os vivaldinos fazem a mesma coisa e são
elogiados por não ser apanhados.
– Aquele Wolf é o mais covarde porco alemão que já conheci – exclama
Tiny, indignado. – Ontem eu o estava seguindo em Atenas e todo o tempo ele
está se abrigando atrás de mulheres e crianças. Sabe muito bem que nenhum de
nós iria mata-las só para pegá-lo. De qualquer forma, só conheço um de nós que
seria capaz de fazê-lo.
– Quem é esse? – pergunta Gregor.
– Eu – responde Tiny, dando uma grande risada.
– Que tal essa ideia? – diz Tango. – Nós poderíamos mandar-lhe as cabeças
dos chineses em duas caixas de chapéus.
– Suas cinco irmãs e os cachorros seria melhor – sugere Porta. – Ele não
liga porra nenhuma para os chineses!
– Poderia sacudir-lhe os nervos – considera Tiny. – Talvez de uma tal
forma que ele peça nosso perdão e acabe com essa maldita guerra particular.
– Dentro de pouco tempo, descobriremos se ele realmente é bom – diz
Porta, dando uma mordida num grande pedaço de carne de porco.
Naquela mesma tarde um coquetel Molotov é jogado sobre nós quando
estamos a caminho do antro de jogo do padre grego. O uniforme de Tiny pega
fogo e ele somente salva a vida pulando no rio.
Alguns dias mais tarde, Porta consegue licença para visitar um sargento de
sapadores, seu conhecido da escola de explosivos de Bamberg.
Observa, com interesse, preparações para uma importante experiência com
toluol russo. As cargas, sob a forma de bananas, são colocadas pelos sapadores
em volta de um enorme bloco de pedra.
Porta diz mais tarde que o bloco era três vezes maior do que a rocha de
Gibraltar.
O sargento explica a técnica para Porta tão orgulhoso como se ele próprio
fosse o inventor do toluol.
– Isto sempre funciona? – pergunta Porta, curioso. – Não falha nunca?
– Explode sempre – garante o sargento.
Quando tudo está pronto, o pelotão abriga-se. O sargento liga dois pedaços
de fio a uma pequena caixa preta.
– Agora você vai ver uma coisa! – diz ele para Porta, fazendo alguns
pequenos ajustamentos na caixa. Aperta um botão e o enorme rochedo
transforma-se numa grande nuvem de poeira.
– Barbaridade... – exclama Porta cheio de admiração, e o sargento permite
que ele segure o pequeno aparelho na mão.
– Parece um pouco com esses novos controles de rádio em que você aperta
um botão. Aperta-se um e um frescalhão em Paris começa a cantar, aperta-se
outro e você recebe um violino miando como um gato em Viena!
– Você pode fazer esta comparação – ri o sargento – mas o resultado é um
pouco diferente.
Depois de haverem explodido alguns tanques abandonados, Porta ajuda os
sapadores a empacotar os explosivos e toma boa nota de onde seu amigo
sargento guardou o detonador eletrônico.
Ele está de ótimo humor quando consegue parar um anfíbio SS, algumas
horas mais tarde, e obter uma carona. Encosta-se feliz no assento e põe os pés
em cima do para-brisa abaixado. Seu pacote está no assento de trás. repleto de
explosivos suficientes para limpar as ruas de Tóquio na hora do rush.
– Que porra de surpresa! – admite Tiny ao observar com os olhos
arregalados os coloridos terminais, baterias e bananas de explosivo que Porta
vai retirando do pacote. – Que belezinha de rádio de bolso você tem aí – diz ele,
passando a mão apreciativamente por cima do detonador elétrico.
– É isso aí, companheiro. É tão bonito que você dificilmente pode suportá-
lo. Nós vamos sintonizá-lo na estação MS: morte súbita.. – – E Porta ri tanto
que chega a ficar com soluços.
Tiny da um soco na mesa com tanta força que manda para o ar uma das
tábuas, a qual lhe dá uma pancada no queixo. Mas está tão animado com a
próxima liquidação de Wolf que nem nota a violenta pancada.
– É maravilhoso! – exclama ele, brincando descuidadamente com uma
banana de explosivo. – Estas coisas devem ser capazes de nos proporcionar
uma bela explosão!
– Capaz de derrubar o diabo de seu trono – diz Porta, rindo maliciosamente
– e elas vão mandar Wolf, os chineses e seus cães passearem na maior viagem
deste mundo. Quando nós os virmos desaparecerem no horizonte, vamos fazer
uma festa que você nunca viu igual.
– Cuidado para não haver um fiasco – adverte o Velho, pessimista.
– O negócio é de preocupar – concorda Heide, olhando, duvidoso, para
todos aqueles explosivos.
– Vocês são uns loucos, todos vocês – diz Gregor, rindo-se.
– Há aí explosivo suficiente para libertar todo o reino dos helenos da
indesejável presença dos alemães em seu país.
– Se vamos acertar as contas com Wolf, e só pretendo fazer isso – diz
Porta, decidido – uma dúzia de bananas é o mínimo. Conheço aquele filho da
puta. Penso que ele ê o agente da Máfia no Exército alemão. Quando foi
chamado para depor como testemunha numa corte marcial em Bielefeld, o
advogado da defesa disse: “Primeiro-Sargento Wolf: se o senhor tivesse
nascido na Sicília seria um dos três grandes da Máfia.”
– Eu recomendaria que você se assegurasse de que o detonador está
regulado para o comprimento de onda certo – diz Heide, com um tímido
sorriso. – Seria desagradável, se as cargas explodissem debaixo de vocês!
– Nossa Senhora! Jesus Cristo! – exclama Porta, chocado com a ideia e
persignando-se.
– É uma maldita de uma surpresa, como eu já disse antes – fala Tiny, de pó
com o detonador na mão e girando o dial. – É uma maldita surpresa o que nós
seres humanos podemos inventar.
É só uma questão de bater com a cabeça contra a parede por um tempo
suficientemente longo. Uma pequena caixinha como esta, pensem vocês, é
capaz de acabar com a vida de um maldito cão como aquele!
– Por amor de Deus, homem! – grita Porta aterrorizado, arrancando dele o
detonador. – Você pode mandar-nos todos para o inferno virando essa coisa aí.
Que diabo de número estava marcado no mostrador? Fique afastado de coisas
técnicas que você não entende. Isto é apenas para pessoas como eu que
estiveram naquela escola de macacos de explosivos em Bamberg.
– Agora estamos em dificuldade com o maldito detonador – suspira
Gregor, resignado. – Leve essa merda toda para o campo depressa antes que
estoure tudo.
– Nada irá acontecer comigo – diz Tiny, fazendo um elegante gesto com a
mão. – Já tirei a sorte e me disseram que vou morrer de uma morte tranquila e
bonita.
– Para que número devo virá-lo? – pergunta Porta, incerto, virando o
ponteiro no mostrador.
– Coloque em 13 – sugere Tiny, otimista. – Treze é meu número de sorte.
Barcelona também apoia o número 13, e o ponteiro é colocado nesse
número no mostrador.
Colocam tudo em duas grandes caixas de charutos e dão um toque final
amarrando-as com uma fita de seda azul; ao lado das caixas fazem um grande
laçarote com a fita.
– Agora está tudo pronto – diz Porta, entregando o pacote a Tiny. – Parta,
meu rapaz, e entregue seu presente ao neto de Frankenstein!
– O quê? – exclama Tiny, horrorizado. – Você está pensando que nasci na
semana passada? – E empurra o pacote para longe dele cautelosamente. –
Especialmente agora que nós nem sabemos se o maldito radiozinho foi
regulado certo ou não!
– Você disse que 13 era seu número de sorte! – fala Porta, encarando-o
decidido. – E que as ciganas prometeram que você morreria tranquilo! Por que
você então está preocupado?
– Você não deve acreditar em tudo o que ouve, não é? – diz Tiny,
cauteloso. – Isto e só para pessoas doentes.
Sentamo-nos de novo para pensar sobre o assunto. As duas perigosas
caixas de charutos estão em cima da mesa, à nossa frente.
– Descobri! – grita Tiny, o rosto animado. – À noite passada encontrei um
tira italiano que eles chamam “Cara de Macaco”. Segundo ouvi, ele era um
bom sujeito antes que o Exercito fodesse o coitado e lhe desse uma má
reputação. Foi mandado aqui para os gregos como punição por torturar uns
gajos numa certa prisão ao norte de Nápoles. Ele se orgulha disso. Diz como
costumava esmagar-lhes os dedos dos pés, um de cada vez, ou algo parecido
com isso. Chama-se Mario Frodone e está disposto a fazer qualquer negócio.
Dizem que ele desenterra cadáveres depois das execuções e vende-os para uma
fábrica de salsichas, mas não sei se isso é verdade ou não. Mesmo assim,
parece-me um tipo capaz de encarregar-se muito bem de nosso maldito número
um!
– Nada mau, nada mau! – retruca Porta. – Wolf, segundo sei, tem alguns
negócios em andamento com os carcamanos de modo que não pareceria
estranho se um desses comedores de macarrão aparecesse com um presentinho
para ele.
– Eu preferia a prisão perpétua numa cadeia chinesa do que abrir aquele
presentinho – diz Barcelona, rindo e batendo com as mãos nas coxas, divertido
com a ideia.
Pouco tempo depois, Tiny aparece com o cabo de polícia italiano. O
apelido de Cara de Macaco lhe assenta bem. Nenhum de nós jamais viu uma
fisionomia tão brutal e capaz de inspirar tão pouca confiança. Não temos
dúvidas de que ele foi enviado para a Grécia como punição por emprego de
brutalidade.
Porta aperta-lhe a mão com fingida cordialidade.
– Quando você tiver entregue essas duas caixas de charutos, haverá cinco
pacotes de cigarros e três garrafas de schnapps esperando por você aqui.
O Cabo Mario Frodone mostra-lhes num sorriso uma dentadura de belos
dentes brancos e brilhantes. Está certo de que este foi o melhor negócio que já
aconteceu para o lado dele.
– Não deixe que ele recuse o presente – adverte Porta. – O cavalheiro ao
qual se destina o presente é um homem muito desconfiado!
Assobiando alegremente, lá se vai Mario com o pacote debaixo do braço.
Porta permanece na janela com o dedo apoiado levemente no botão de
disparo do detonador.
– Deixe-me aperta-lo! – pede Tiny. – Você sabe como eu gosto de qualquer
coisa que cause um barulhão!
– Não! – interrompe Porta, bruscamente. – Desejo ter o prazer de fazê-lo eu
mesmo. Você vai lá para fora e fica de olho no comedor de espaguete e me dá
um sinal, quando ele tiver entregue os charutos.
Tiny corre para fora e, escondendo-se de canto de casa em canto de casa,
segue o assassino que marcha assobiando alegremente.
Mario atravessa com passo rápido a larga praça, do outro lado da qual a
companhia de transporte de Wolf está acantonada. Todas as entradas para ela
estão inteiramente fechadas, barradas e trancadas, e a guarda atrás dos sacos de
areia foi dobrada.
– Alto! Quem vem lá? – berra Wolf por detrás de uma chapa de aço,
quando se apercebe do assobiador italiano.
– O Cabo da Real Polícia Italiana, Mario Frodone. Bom amigo trazendo
presente de outros bons amigos! – E levanta as duas caixas acima da cabeça.
– Que espécie de presente? – pergunta Wolf, esticando a cabeça
inquisitivamente por cima da chapa de aço.
– Charutos – Mario berra em resposta. – Charutos do Brasil!
– Quem, diabo, está mandando charutos para mim? – pergunta Wolf,
suspeitoso.
– O capitão dos bersuglíeri reais italianos – mente Mario.
– Aproxime-se vagarosamente – ordena Wolf, enérgico – e mantenha meu
presente à sua frente. Nada de truques ou sua cabeça de comedor de espaguete
será estourada!
Mario pode ver claramente cinco ou seis engraxadeiras apontadas para ele.
“Gesu, Gesu! Matai essa gente devagar com câncer, se qualquer coisa de
ruim acontecer com Mario Frodone”, reza em silêncio, com os olhos voltados
para o céu.
Tiny treme de deleitada expectativa e se aproxima mais, a fim de não
perder nada.
Um pouco afastado, um dos Pumas da Companhia está testando seu
aparelho de sinalização.
O Cabo Mario Frodone está na metade da praça, quando o Gefreiter
Schmidt aperta seu botão de enviar mensagens. Seu rádio dá um guincho
seguido por uma longa e maciça explosão.
– Que diabo foi isso? – pergunta o Gefreiter Schmidt, pondo a cabeça para
fora da tampa aberta da torre.
Uma coluna de chamas precipita-se para o céu e toda a praça parece
afundar para dentro do chão. As casas em volta dela desmancham-se. Centenas
de galinhas brancas voam de dentro da granja que é pulverizada numa nuvem
de poeira de tijolo e argamassa.
O cabo real italiano Mario Frodone desaparece sem deixar traços num
colossal cogumelo preto de fumaça que se abre como um guarda-chuva por
sobre a vila.
O Mecânico-Chefe Wolf, sua turma, seus cães policiais lobos, os dois
guarda-costas chineses e cinco tratores são atirados através da parede oposta da
casa e aterrissam nas ruínas do mercado de verduras, a 500 metros de distância.
Wolf está chorando e os guarda-costas chineses juram que irão desertar
para uma vida mais sossegada com uma esquadra de liquidação da NKVD.
Ambos concordam que os alemães têm estranhas maneiras de enviar presentes.
– Jesus Cristo! Que explosão! – grita, sufocado, Tiny. Logo a seguir ele e
carregado para cima e para longe numa gigantesca nuvem de poeira e voa,
suspenso horizontalmente no ar, junto com dois caminhões e um canhão
antitanque, passando por cima da cabana onde Porta ainda está parado, olhando
estupefato para o detonador elétrico que ainda não teve oportunidade de
acionar.
Então a onda de choque atinge a cabana e ela é arrastada para o ar,
juntamente com o resto da rua.
Tropas de salvamento são mandadas às pressas de Atenas. Os guerrilheiros
recebem a culpa, como sempre acontece quando ninguém sabe o que ocorreu.
Nós somos enviados para o Hospital de Apoio n° 9 em Atenas. Wolf com
ambas as pernas num aparelho de tração; Ting coberto de ataduras de forma
que mais parece uma múmia egípcia. O restante de nós com feridas mais ou
menos sérias.
Um mês mais tarde, aparece a seguinte notícia na seção funerária do jornal
de Nápoles Il Gíorno.
Nosso bem-amado filho, irmão, cunhado, primo, tio e amigo Cabo do Real
Corpo Italiano de Polícia Militar Adido ao Quarto Regimento Alpino
Mario Giuseppe Frodone condecorado com a Ordíne militare d’ltalia e com
a Croce di guerra al vrllore militaria por serviços excedentes ao dever militar,
na guerra a que foi forçada nossa amada Pátria, foi chamado de nosso meio de
modo muito, muito súbito, assassinado de forma pavorosa por gente má e
perniciosa. Que a doença e a morte se abatam sobre eles! O soldado assassinado
era filho de Giuseppe e Catarina, amado irmão de Vittoria Maria, Fabia e
Roberto. A família receberá condolências no domingo, às 12 horas, no
Bombolini, Corso Mussolini.
Um pouco antes de darmos alta do hospital, dois soldados russos de
infantaria são a causa de uma tremenda briga no hospital. Eles afirmam que os
250.000 cossacos Vlassiv a serviço da Alemanha valem mais do que duas vezes
o resto do Exército alemão, que a única coisa que sabe é marchar em passo de
ganso quando reunido. Por isto, dizem eles, e que a Alemanha perde todas as
guerras.
– Hip! Hip! – grita um cabo búlgaro de caçadores, jogando um vaso cheio
de urina na enfermeira que entra para ver qual a razão de todo aquele barulho.
A enfermeira, que tem graduação de oficial, agarra-o pelas orelhas e bate-
lhe com a cabeça de encontro à parede. Ele lhe dá um pontapé entre as pernas e
ela rola gritando para baixo de uma cama.
Porta atira-se contra a perna de Wolf engessada. Os dois chineses acodem
em sua ajuda com dois porretes levantados acima da cabeça, mas Porta se
esquiva e as pancadas em vez de atingi-lo acertam no engessado patrão.
Tiny berra como um touro selvagem agitando os braços como as asas de
um moinho de vento, acertando tudo que está a seu alcance, amigo ou inimigo.
Agarra dois russos e os atira no corredor, ao longo do qual Búfalo está
perseguindo um cabo comissionado italiano careca, inteiramente nu, exceto por
suas botas de montanha. Aos berros e gritos, eles caem sobre os dois russos e
deslizam ao longo do corredor bem encerado indo parar numa sala de operações
onde um tenente está sendo preparado para uma operação de apendicectomia.
A mesa de operação, com o tenente em cima dela, desaparece para fora da
sala no terraço que vai dar no jardim. O tenente dispara, tão depressa quanto
pode, andando de quatro e pensando que os russos entraram em Atenas.
Um sargento romeno, com uma cara que mais parece uma caricatura de um
sujeito estourando de raiva, joga seu cachimbo aceso para o ar e abre os braços,
como se estivesse morrendo afogado numa turbulenta correnteza, antes de cair
sem sentidos na escadaria.
Um velho soldado de intendência, que estivera comprando coisas no
mercado negro, aproxima-se capengando, apoiado em muletas, com uma
grande bolsa de compras pendurada no pescoço. O sargento-enfermeiro sobe a
escadaria apressado, com a pistola na mão, no mesmo momento; o velho
soldado, pensando que ele vai atacá-lo, gira a bolsa cheia de mercadorias em
volta da cabeça e bate com ela de cheio na cara do sargento. Ovos, salsichas,
geleia, macarrão, mostarda e uma enorme quantidade de suco de tomate
espalham-se para todos os lados, quando a bolsa se arrebenta na cabeça do
sargento.
Um italiano magro e alto se aproxima aos pulos, com uma cadeira de
dobrar numa das mãos e uma salsicha na boca, com suco de tomate escorrendo.
Vê um dos Vlassovs, julga que os russos chegaram, e quebra a cadeira na
cabeça do cossaco, que cai como se tivesse sido atingido por uma bomba.
Médicos, enfermeiras, ajudantes e pacientes saem correndo pelas escadas e
pelos corredores. Cadeiras, mesas, muletas e frascos de remédios voam pelo ar.
Num piscar de olhos, o hospital parece como se tivesse sido o alvo de um
bombardeio maciço de artilharia. Todas as janelas estão quebradas e não há
uma peça de mobiliário que tenha ficado inteira. Mesmo os dois mais teimosos
blefadores da Enfermaria 19 podem agora ser contados como casos de
“seriamente feridos”.
Tiny corre para salvar a vida, com os chineses de Wolf nos calcanhares.
Um deles brande uma machadinha de cabo curto e não há dúvida de que irá
usá-la, se conseguir apanhar Tiny. Tudo o que se encontra no caminho deles é
impiedosamente destruído.
Entram na grande pista coberta de corridas de bicicletas que os habitantes
do local dizem ser a maior do mundo. De qualquer forma, é de fato muito
grande.
Com um urro de um gorila, Tiny atira-se em cima de uma bicicleta nova
em folha e lança-se sobre seus perseguidores. Eles pulam para escapar, saltando
a barreira da pista e caindo em cima das cadeiras do público.
Tiny pedala com toda sua força e lança-se em direção à grande curva. Seus
pés movem-se como os pistões de uma máquina a toda a velocidade.
– Grande Buda! –– grita Wu, cheio de admiração. – Aquele homem junto
com a bicicleta fazem um bom par!
Numa velocidade estonteante, Tiny entra na curva e sai de novo dela para a
parte reta com o impulso e o ruído de um trem expresso.
Seus perseguidores esquecem de sua raiva à vista do esforço de Tiny. Este,
por sua vez, está em êxtase. Sempre almejou ser um dos grandes astros das
pistas de ciclismo, com o nome e o retrato em todos os jornais. Esta foi à razão
pela qual, quando se alistou no Exército, escolheu uma unidade de ciclistas para
tornar-se um ás dos pedais.
Pisa ainda com mais força nos pedais, bem deitado em cima do guidão e
entra a toda a velocidade na curva que fica logo antes da parte da pista em oito,
que ele enfrenta com uma velocidade que nenhum profissional poderia igualar.
Quando volta para a parte reta no lado oposto, vê, com um choque, que a
pista está bloqueada com uma grande construção de madeira em forma de um
barril. Estão fazendo reparos. Ele procura pelos freios, mas não há freios em
bicicletas de corrida; pedala para trás, mas os pedais rodam livres sem reduzir a
velocidade.
Com uma velocidade de quebrar o pescoço, ele bate na barricada
arredondada e fica por um momento suspenso no ar. Então parece levantar voo
em direção às tesouras de cobertura, dá um salto mortal no ar e aterra de novo
na pista espatifando a bicicleta.
– Pelos sagrados templos da China! – grita Wang, estupefato. – Aquele
gorila está perdendo tempo no Exército!
Um dia depois de deixarmos o hospital, Porta encontra-se com um
intendente do estado-maior que está procurando um presente para seu general.
Por intermédio de Wolf, o oficial de intendência ouviu falar das três peles de
Porta e está ansioso por consegui-las, convencido de que fariam um presente de
aniversário ideal. Wolf planejou tudo muito bem: desta forma ele vai fazer com
que Porta cumpra um longo período numa prisão militar. Que general tolerará
ser mordido quase até morrer pelas pulgas e ainda mais no dia de seu
aniversário?
Rapidamente, concordam quanto ao preço e o intendente parte sorrindo
todo feliz com as três peles.
Dois dias mais tarde, as peles e as pulgas estão de volta com Porta como
usualmente.
O general telefona ao Coronel Hinka e exige que Porta seja severamente
punido.
Porta está de novo requisitado e desta vez o Coronel Hinka determina-lhe
que faça as peles desaparecerem da área do regimento.
Cheio de tristeza, ele vai ate a base naval onde se encontra com um velho
amigo, um marinheiro que não está particularmente interessado nas peles, pois
sempre dorme perto das caldeiras, quando a bordo do cruzador. Um capitão-
tenente da flotilha de lança-minas compra-as no entanto, imediatamente, sem
muito discutir quanto ao preço.
Uma hora mais tarde, seu lança-minas e todas as pulgas deixam o Pireu.
– Espero que as coitadas não enjoem – diz Porta, preocupado, acenando
para elas com uma pequena bandeira grega.
Alguns dias depois, ele escuta do marinheiro que o lança-minas foi
capturado pelos ingleses e toda a guarnição está prisioneira na Inglaterra.
Porta contém com dificuldade uma lágrima ao lembrar-se de que perdeu
para sempre as peles e as felizes pulguinhas. Não tem a menor dúvida de que o
primeiro oficial britânico que as vir irá confiscá-las.
Quando Hinka lhe pergunta, algum tempo mais tarde, o que aconteceu com
as peles e as pulgas, Porta pôde responder sem mentir:
– Herr coronel, lamento informar, senhor, que as pulgas passaram-se para o
lado dos ingleses, senhor!
Hitler proclamou-se a suprema autoridade judicial do Reich.
Deste momento em diante, somente ele decide o que está certo e o que está
errado. E ninguém pode discutir suas decisões.
Dr. Goebbels, 30 de janeiro de 1934

Forte Germtersheím, 24 de dezembro de 1944 No dia 25 de dezembro de


1944, o Major Bruno Schau, que foi condenado à morte no dia 2 de julho de
1944 em Paris, será executado por um pelotão de fuzilamento. A execução terá
lugar no Forte Germersheim, no dia 25-12-44, às 11 horas.

Oficial em comando: Major Klein


Comandante do pelotão de fuzilamento: Tenente Schwarz
Oficial da justiça: Auditor Brandt
Oficial-médico: Stabsarzt Dr. Koch
Padre: Oberfeldkapelan Almann

O pelotão consistirá de 10 homens, somente bons atiradores, destacados


da Companhia nº 2.
Uma companhia de segurança constituída de 50 prisioneiros; 10 homens
destacados de cada companhia.
Um grupo para amarrar o prisioneiro ao poste; um primeiro-sargento e
dois graduados a serem designados.
Uniformes:
Pessoal inferior: Uniforme de serviço, botas de infantaria, capacetes de
aço, duas cartucheiras, baioneta, fuzil K.98.
Oficiais: espada, pistola de serviço e capacete de aço.
Outro pessoal destacado para serviços em conexão com a execução:
Uniforme de serviço e boné de serviço em campanha, cinturão e baioneta.
O Sargento Faber fica responsável pela montagem do poste de execução;
este poderá ser apanhado no almoxarifado da intendência às nove horas.
O Major Schau será informado da hora da execução às nove horas. Seus
desejos quanto à forma de enterro e notícia ao parente mais próximo serão
solicitados. Ele será então levado, manietado de pés e mãos, ao padre, para
consolo espiritual. As algemas não devem ser afrouxadas ou removidas quer
durante o consolo espiritual quer durante o exame médico. O condenado será a
todo o tempo estritamente vigiado por dois suboficiais armados com pistolas
automáticas.
O Ajudante dará a ordem para amarrar o condenado ao poste.
O Primeiro-Sargento Albert fica responsável pelas seis peças de corda, de
um metro e meio cada, a serem presas aos anéis do poste. Ele também deverá
prover uma venda.
O pelotão de fuzilamento formará em frente ao bloco da prisão da
Companhia nº 2 às dez e meia. O comandante do pelotão de fuzilamento,
Tenente Schwarz, é responsável que o deslocamento para a praça de execução
seja feito dentro da mais estrita ordem e disciplina militar. Qualquer espécie
de demonstração, de qualquer origem, será suprimida imediatamente pelos
mais severos meios. Armas de fogo podem ser usadas, se a primeira
advertência não for obedecido. Assobios, resmungos e sinais de olhos devem
ser considerados como demonstrações.
Depois da execução, quatro homens removerão o corpo, o despirão e
colocarão sem roupa no caixão. O equipamento do homem executado será
entregue ao intendente, que ficará responsável pelos reparos do uniforme.
O Suboficial Buchner fica responsável pela colocação do caixão fora dos
muros de proteção do forte às 10:45 horas. Ficará também responsável pela
entrega do caixão, após a execução, às autoridades encarregadas do enterro
no cemitério e obterá disso um recibo. Os documentos necessários serão
obtidos do Ajudante.
O Major Schau será amarrado ao poste por duas cordas cruzando-se no
peito, duas em volta da cintura e duas logo abaixo dos joelhos; as cordas serão
bem apertadas.
O padre acompanhará o prisioneiro até o poste de execução e recitará um
padre-nosso. Ele então se deslocará quatro passos para o lado e o comandante
do pelotão de fuzilamento dará a ordem:
“Apontar!”
O comando “Ã vontade!” não será dado, enquanto o oficial-médico não
haja declarado morto o homem executado. O pelotão de fuzilamento não
arredará pé enquanto o corpo não for desamarrado do poste de execução e
colocado no caixão. Dois homens da Companhia n? I serão destacados para
remover todas as marcas de sangue; para esse fim serão equipados com pás e
panos.
O Sargento Reincke fica responsável pela limpeza do poste de execução e
por seu retorno ao almoxarifado.
Pelo prazo de uma hora antes da execução e até que o caixão seja
removido e as operações de limpeza completadas, a praça de execução fica
interditada a todo o pessoal não encarregado de missões relacionadas com a
execução.
Assinado: Heinicke
Coronel-Comandante
Forte Germersheim
SERVIÇO DE ESCOLTA

– Como você se sente sem a porcaria das estrelas? – pergunta Tiny ao


Sargento Schmidt enquanto marcham pelos planos e pantanosos campos de
alcachofras.
– Está bem, está bem, seu cabeçudo! – resmunga Schmidt, aborrecido. –
Talvez ainda não esteja tão longe à hora de você ir para o xadrez sem as suas
divisas.
– E daí? – responde Tiny, despreocupado, lançando uma cusparada contra
o vento. – A vida com Barras* é uma porra de incerteza.
– Você tem toda a razão – suspira Carl, tristonho. – Há uma semana, eu era
um sargento e agora não sou merda nenhuma, tudo por haver-me recusado a
atirar num bando de gregos fodidos.
– Quem foi e pateta que fez de você um sargento? – pergunta Porta,
sacudindo a cabeça e passando a Carl um pedaço de salsicha de carneiro. –
Recusar-se a atirar nuns paisanos, ora veja!
– Ele vai aprender a obedecer ordens em Germersheim – diz Tiny com um
sorriso malicioso.
– Não acredito que seja tão ruim como dizem – murmura Carl.
– Você já esteve lá? – pergunta Porta, olhando-o com os cantos dos olhos.
– Não; eu tenho ficha limpa.
– Agora certamente você cagou nela, meu filho! – diz Porta – Dez anos
naquele maldito xilindró! – exclama Tiny, divertido.
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* Barras: termo de gíria para designar o Exército.
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Sem parecer impressionado, Porta corta outro pedaço da comprida salsicha
de carneiro.
– Posso contar-lhes muitas coisas sobre Germersheim que não ensinam às
crianças na escola.
– Também sei de urnas historinhas muito bonitas sobre Torgau, Glatz e
Forte Zittau – diz Tiny, rindo e pegando um pedaço de salsicha.
– Tudo conversa fiada! – Carl faz que não liga, teimosamente.
– Você vai ter uma surpresa – sorri Porta. – Já vi os sujeitos mais duros
quebrarem como uma casca de ovo cinco minutos após bater seus calcanhares
em frente ao Cão do Inferno Heinrich.
– Você está de viagem para o lugar onde o diabo assa suas castanhas –
exclama Tiny em voz alta, colocando uma mão encorajadora no ombro de Carl.
– Seu porra de um trouxa, vai arrepender-se de não ter acabado com aqueles
gregos, filho.
Retomam o caminho de Corinto e tentam obter carona num comboio, mas
ninguém para.
Tiny continua a tagarelar acerca de suas experiências em Germersheim.
– Já fiz ordem-unida cinco horas a fio, com água pelo pescoço, e isso sob o
comando pessoal de Iron Gustav*. Tudo o que eu tinha feito fora dar com um
penico cheio na cabeça dele, mas realmente ele não era mau sujeito. É capaz de
quebrar a porra de suas costelas tão ligeiro que nem chega a doer enquanto o
faz.
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* Iran Gustav: personagem de March Battalion.
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– Cuidado com o Cão do Inferno Heinrich – diz Porta, com um tranquilo
sorriso. – Se ele o joga na Cela 42, você entra em passo de ganso e sai como se
fosse carne moída!
– Procure entrar na Ausbildungskompagni* nº 3 – recomenda Tiny. –
Quem a comanda ê o Pulga: Rittmeister Lapp. Ele se locomove com pernas
mecânicas que rangem tanto que você pode ouvi-lo aproximar-se a um
quilômetro de distância. Além disso, é quase tão cego como uma toupeira e isto
é uma boa coisa, porque ele dificilmente pode dizer com quem está falando a
metade das vezes.
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* Ausbilduugskompagni: Companhia de Treinamento.
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Chegam a Corinto ao cair da noite e pegam um trem cargueiro. Chove em
Atenas na manhã seguinte quando chegam à cidade, e o expresso de Salônica
acaba de partir. Suas ordens são carimbadas na RTO e eles concordam em dar
uma olhada na cidade histórica, já que estão ali.
– Temos três semanas – exclama Porta, encantado. – Três belas semanas
com dinheiro para viajar e rações! Entendem o que homens inteligentes podem
fazer com tudo isto?
Entram em todos os bares pelos quais passam.
Carl preocupa-se em perder o trem.
– Meta a viola no saco, filho! – diz Tiny. – Nós, seus superiores,
assumimos inteira responsabilidade. Você ê nosso prisioneiro e estará atrás das
grades na ocasião oportuna. Não se esqueça de que o tempo de viagem faz parte
de sua sentença e o que quer que lhe aconteça enquanto estiver conosco será
melhor do que o tratamento que o Cão do Inferno Heinrich lhe dispensara,
quando colocar as mãos em cima de você.
– Ele não pode se esquecer de que era um primeiro-sargento e que agora
dois primeiros-cabos lhe estão dizendo o que ele deve fazer – diz Porta,
compreensivamente.
– E difícil depois de 10 anos de ser graduado – suspira Carl, apático.
– Bem, agora terá 10 anos na geladeira para acostumar-se – sorri Tiny.
– Lá, você aprenderá o que as divisas de um cabo significam. São eles que
ficam com as chaves dos blocos de celas!
Os três sobem Ermou Epmoy e chegam à Praça Syntagma, que é o ponto
de encontro da classe superior ateniense.
Num restaurante de calçada em frente ao Hotel Grand Bretagne, os olhos
de Tiny caem sobre um cidadão extremamente gordo que se balança numa
cadeira de ferro branca.
– Olhem só o gorducho ali.
Seu grito ecoa por toda a praça. Ele inspeciona com interesse a homem
gordo. Suas nádegas caem para fora, de ambos os lados da pequena cadeira.
– Deve pesar pelo menos 130 quilos – pensa Porta em voz alta, chupando o
lábio inferior entre os dentes.
– Duzentos – estima Tiny. – Coloquem-no em cima de um elefante e ele
entortará as costas do bicho.
– No meio de uma guerra, com racionamento e fome por toda a parte! –
exclama Porta, indignado. – Fico maluco, quando vejo uma coisa como esta.
– Ele muito, muito dinheiro. Muitos navios no Pireu; muitas vilas nas ilhas
– sussurra um engraxate, alertando-os.
Um garçom adulador serve com a colher frutinhas silvestres cozidas no
prato do gordo; outro pulveriza-as com açúcar e um terceiro cobre-as com
creme. Não escondem o fato de que esperam grandes gorjetas.
– Que merda! Vejam como ele come! – exclama Porta, sentindo fome.
– É uma coisa imoral – fala Tiny e, agarrando uma colher, a coloca no
prato de frutinhas três ou quatro vezes; as frutinhas espalham-se para todos os
lados.
O gordo milionário cai de costas, fazendo um barulho que parece uma
locomotiva soltando vapor.
Estabelece-se a confusão. Discos de identificação de cães policiais brilham
do outro lado da praça; do Ministério da Guerra uma patrulha de polícia
combinada grego-alemã vem correndo agitando seus cassetetes.
– Que inferno! Não há paz para os infelizes! – exclama Tiny, irritado,
colocando uma bota em cima da barriga do gordo e apoiando-se nela com todo
seu peso.
– Venham comigo! – grita o engraxate, correndo na frente deles pela Rua
Miltropo abaixo. Entram num quintal e pulam por uma janela aberta para uma
sala onde algumas senhoras estão provando roupas.
– Inspeção de gás! – diz Porta, ajudando o engraxate a pular a janela.
Quando Tiny entra atrás deles, as senhoras começam a gritar.
– Acalmem-se – diz Tiny. – Vamos adiar a leitura dos medidores até a
próxima vez!
– Suas putas de merda! – grita o engraxate, dando uma cusparada no retrato
do rei.
– Você é um pedaço! – fala Porta, beliscando o traseiro de uma das
mulheres.
Ela despeja um punhado de impropérios sobre ele e uma acha de lenha da
lareira passa voando por perto de sua cabeça.
– Mulheres que praguejam e dizem palavrões são as melhores – pontifica
Tiny, com ar de conhecedor. – Tínhamos uma dessas em Sanct Pauli. Quando
ela abria a boca, a merda voava; todo o mundo pensava que ela era uma cadela
por causa disso mas, estavam errados. A Cinderela sabia o que estava fazendo;
acabou casando-se com um barão e foi para a igreja levada por uma parelha de
cavalos brancos como leite. Nunca mais a vimos de novo no Reeperbahn, mas
os gigolôs de luxo costumavam encontra-la nos lugares elegantes ao longo do
Alster; tiravam o chapéu para ela, mas a mulher nunca condescendeu em
responder-lhes o cumprimento. Tinha aquele jeito da maldita classe superior, de
forma que não podia nem respirar profundamente e manda-los tomar no cu.
Apenas respirava bem alto, como uma vaca cheirando o rabo de um touro.
Aqueles gajos mais perigosos de Sanct Pauli ficaram tão indignados que
jogaram fora todos os seus chapéus, de maneira que não mais a
cumprimentavam.
Pararam em frente a uma agência de viagens onde Kraft duch Freude
anunciava viagens para Veneza.
– Ei! Que tal fazer uma viagem a Veneza e dar umas voltinhas numa
gôndola? – pergunta Porta, apontando para um colorido pôster.
– Você perdeu o juízo? – protesta Carl, nervoso. – Não podemos ir a
Veneza, quando devemos ir via Viena.
– E dizer que você foi sargento num batalhão de “500”! – suspira Tiny,
sacudindo, desesperado, a cabeça. – Faça como lhe mandamos, homem, por
amor de Jesus Cristo! Ninguém pode culpar a porra do prisioneiro pelos
arranjos de viagem feitos por sua escolta. Quem. diabo, pode provar que nós
não pensamos que Veneza Ó um maldito atalho para sua cadeia? Não tiramos
10 em geografia, tiramos?
Eles sobem à Acrópole numa carruagem.
– Agora que já estamos por aqui, podemos muito bem ver os panoramas –
diz Porta. – Aqui, onde nós estamos passando neste exato momento, certa vez
marcharam as legiões romanas – explica ele, com um tom dramático em sua
voz.
– E ainda estão por aqui – diz Tiny, pouco impressionado, apontando para
dois bersaglierí subindo penosamente a colina acompanhados de três garotas.
– Oi meninas! Querem uma carona – pergunta Porta, fazendo um gesto de
convite e indicando a carruagem As moças riem e sobem no carro. Os
bersaglieri rosnam como tigres famintos dos quais se tirou a carne.
– Tem alguma coisa a ver lá em cima? – pergunta Porta, apontando para a
Acrópole.
– Não muito, apenas pedras e degraus quebrados onde você pode quebrar
uma perna.
– Volte – ordena Porta ao cocheiro. – Vocês podem dizer-nos o que vocês
já viram e desta forma não perdemos tempo algum.
– Vocês trepam? – pergunta Tiny às pequenas, que preferem não
responder.
Param num restaurante caindo aos pedaços, de propriedade do irmão do
cocheiro. Depois da terceira garrafa de vinho, Tiny e o cocheiro dançam a tjaka
até fazer a casa estremecer.
– Meu marido está na frente de batalha – diz Sula, uma pequena de cabelos
escuros, muito bonita.
– Que frente? – pergunta Porta, querendo ser prático.
– Não sei – confessa ela. – Ele é um oficial; herói grego.
– Posso tocar em você? – pede Porta, aparentemente impressionado. –
Nunca conheci uma mulher de herói antes.
Passeiam pelo parque real, fazendo uma pausa no templo de Zeus, onde
comem uns pássaros dos bosques Seich-Sou. Está quase amanhecendo, quando
sobem pé ante pé as escadas para o apartamento de Katina.
– Não façam barulho, por favor! – diz Katina, em voz baixa. – Haveria
problema se alguém descobrisse que nós estamos com alemães aqui. Neste
quarteirão todos são comunistas.
– Deveriam ser todos fuzilados – diz Tiny, cuspindo numa foice-e-martelo
mal desenhada.
– Frente Vermelha! – grita Porta para uma velha, que está espiando pela
fresta de uma porta.
Ela faz-lhe uma careta e bate com a porta.
– O Partido sempre está certo – sorri Carl e dá um chute na porta.
O apartamento cheira a perfume barato. Sula atira-se de costas num largo
leito e levanta as pernas para o ar mostrando um pedaço das coxas acima das
meias.
Tiny rola os olhos e empurra Katina para cima de uma grande pele de
carneiro que está no chão.
Ela grita indignada, aperta as pernas bem apertadas, puxa as saias por sobre
os joelhos e agarra-se a elas com ambas as mãos.
– Está certo! – exclama Tiny, demonstrando satisfação. – Moças decentes
não tiram suas próprias calças. – Encontra uma pena de ganso e faz cócegas
debaixo do braço dela para fazê-la largar as saias, mas ela não é de sentir
cócegas.
– O que você está querendo fazer? – pergunta admirada. – É alguma nova
espécie de perversão alemã? Estive uma vez com um capitão que me arranhou
com um prego; quando o prego fez marcas nas minhas pernas, ele descarregou
toda sua carga!
– Vou dar um jeito de arranjar-lhe algumas marcas, minha garota! –
promete Tiny, solenemente. – Mas não com nenhuma porra de prego grego, não
senhora! – Pega-a pelos tornozelos e suspende-a como se fosse uma galinha
exposta para venda num mercado siciliano.
Katina vira o corpo no ar como um acrobata e crava-lhe os dentes na
virilha. Com um berro de dor ele a larga e agarra o meio das pernas com ambas
as mãos.
– Preciso fazer xixi – a moça dá uma risadinha e corre para a incrivelmente
pequena privada, cujo uso exige prodígios de equilibrismo.
Tiny corre atrás dela como um touro. De acordo com sua experiência,
espera que ela se atire em seus braços. Seu enorme corpo bloqueia a abertura da
porta.
Ela cantarola alegremente. Ouve-se o pingar de água sobre água.
Tiny enfia um charuto na boca e expele uma nuvem de fumaça.
– Isto já é bastante xixi para uma garota do seu tamanho – diz ele,
impacientemente, e agarrando-a pelos cabelos arrasta-a de volta para o quarto.
Ela dá um grito agudo, chuta-lhe as canelas e quase lhe arranca uma das
orelhas com uma mordida.
– Por Jesus Cristo! Ela me ama! – grita ele, em sua voz de baixo rachada.
– Eu o odeio, seu filho da puta! – reage ela, lutando com todas as forças
para livrar-se dele.
– Você me ama, sua cadela – diz Tiny, sentindo prazer nisso. – Me dá um
beijo! – Tenta rasgar-lhe a roupa, mas esta é feita de material resistente que não
se rompe com facilidade. Ela usa uma saia de malha que estica e estica, quanto
mais ele a puxa.
Katina rola no chão de um lado para o outro até que parece um rolo de
tapete; a luta pela saia é violenta. Casaco, blusa e sutiã há muito já estão em
frangalhos. Ele parece estar querendo dar um nó nela; dá suspiros de paixão
alternados com rugidos de dor. Num momento, ele está de joelhos em cima do
leito; no seguinte, sua cabeça pende da borda da mesa.
De uma certa maneira, eles acabam em cima do enorme guarda-roupa; este
perde o equilíbrio e cai’ com um estrondo de romper os ouvidos.
De repente, os dois estão na cozinha bebendo água. Um grito de terror
alarma toda a casa.
Tiny está pendurado na janela de cabeça para baixo, enquanto ela golpeia
suas partes baixas com um rolo de cozinha.
– Seu porco sujo, inimigo de meu país! – grita ela e derrama uma garrafa
de querosene em cima dele.
Porta e Carl chegam a tempo de evitar que ela ateie fogo nele. Em dois
pulos gigantescos, ambos estão de volta na sala e continuam sua batalha pelo
resto da roupa dela.
– Por Jesus Cristo! Você é a melhor porra de mulher da vida que já
encontrei – arqueja Tiny. dando-lhe uma mordida na coxa. – Mas agora você
vai receber seu quinhão!
Antes que ela dê pela coisa, está reduzida a uma meia e um sapato.
Um amontoado de botas, cintos de couro, meias, sapatos e suspensórios
rolam pelo chão e por baixo da cama.
Há um momento de silêncio. A seguir, ouve-se um grito lancinante e o
largo leito é levantado de um lado, de forma que Porta e Sula são atirados para
fora dele.
Tiny corre em torno do quarto, saindo da cozinha e subindo a estreita
escada com Katina montada nele como se fora um jóquei.
Um pouco mais tarde voltam, arrastando-se pela escada de novo, Tiny com
o lábio superior rachado e um punhado de cabelo preto na mão. Rolam por
sobre a mesa, caem no chão com um estrondo mas não importa o que Tiny faça,
Katina oferece-lhe sempre o lado errado. Com um golpe de luta livre, ele lhe
imobiliza os braços e as pernas, mas de alguma forma ela subitamente se livra
de novo. Chegando perto da janela, ainda agarrados um ao outro, eles quase
caem pela escada de incêndio.
– Se eles caem – comenta Porta, fascinado – nós iremos amanhã a um
funeral!
Misteriosamente, os dois retomam o equilíbrio e caem de volta dentro do
quarto. Katina pula em cima da barriga dele e atinge-o no rosto com o alto salto
de seu sapato. Ele a faz rodopiar como um pião, tentando tonteá-la.
Com um barulho de coisas quebradas, ambos caem por cima do guarda-
roupa e atravessam seu delgado fundo num chuveiro de madeira rachada. O
guarda-roupa vira, suas portas se abrem e lá de dentro sai Katina, com Tiny a
persegui-la, os olhos injetados.
Carl e Thea conseguem encolher-se a tempo, quando os dois passam num
salto por cima de suas cabeças.
Então Tiny consegue ficar por cima dela que abre as pernas e levanta os
pés para o teto.
Ouve-se um barulho como de um padeiro amassando o pão. Chupões,
tabefes, arquejos e respirações entrecortadas.
– Talvez agora tenhamos um pouco de paz – suspira Porta, envolvendo
Sula em seus braços e jogando-se com ela no grande leito onde se põem a
trabalhar energicamente,
Quando ficam com fome, assam umas salsichas no pequeno balcão.
Trocam então de parceiros. Katina vai para a grande cama com Carl e diz-lhe
que ele é o homem por quem ela tem esperado toda sua vida.
Tiny atira-se no chão e diz que está morto, mas Sula puxa-o para cima da
cama e senta-se em cima dele.
Thea e Porta juntam-se a eles e em breve ouvem-se suspiros de satisfação e
gritinhos.
No meio de toda a agitação, um acolchoado se rompe e o quarto fica cheio
de minúsculas penas flutuando no ar como se fossem flocos de neve.
De tanto rir, Sula fica com cãibra na barriga.
Subitamente abre-se a porta com um barulhão e um enorme homem,
completamente careca, com um peixe seco pendurado na mão, irrompe dentro
do quarto.
Katina, que estava agarrada ao pescoço de Carl, livra-se dele e começa a
gritar a plenos pulmões;
– O porco do alemão me violentou!
– Ele fez isso? – brada o careca. Segurando-a pelos cabelos, ele a Joga ein
cima do velho sofá e começa a bater-lhe com apetite com o peixe seco.
Abre então a tampa do sofá e joga-a dentro dele, pega Carl e atira-o em
cima dela e depois senta-se em cima da tampa do sofá para conseguir que ele se
feche completamente.
– Trepem – berra ele, selvagemente. – Fodam até que a porra de seu cabelo
caia e vocês fiquem tão carecas quanto eu! Trepem! Depois eu vou fodê-los aos
dois até que seus rabos fiquem do tamanho de Atenas! – E dizendo isso, cai
pesadamente sobre a mesa.
– Minha mulher é uma puta! – diz ele sem se dirigir a ninguém. – Está
trepando com o inimigo, a vaca! Vou matar os dois! Fodam-me, se não o fizer!
– Assim é que se faz! – diz Porta, com uma voz amigável empurrando uma
garrafa de cerveja até o alcance do marido corneado, que jaz atravessado
soluçando sobre a mesa.
– A Velha Grécia está afundando! – suspira ele. – Nossas mulheres estão
metendo o nariz no rabo do inimigo.
– É verdade! – Porta solta um profundo suspiro. – O povo não tem mais
resistência moral. É porque seu rei os abandonou.
Sula veste-se vagarosamente. Primeiro, puxa suas meias para cima, ao
longo das pernas esticadas, depois coloca umas ligas de cintura listradas de
vermelho e preto. Luta um pouco com o sutiã antes de prendê-lo na frente e
ajeitar nele os seios. Uma pequena saia preta está esticada em cima da mesa.
Tiny está ajoelhado no leito e observa-a interessado; ele ainda está usando
suas botas.
Lá na mesa o homem careca soluça cada vez mais fortemente.
– Isto é um strip-tease às avessas – murmura Tiny deliciado.
– Ê o bastante para fazer todos os 10 dedos dos pés de um árabe castrado
ficarem duros! – diz Porta.
– E transformá-lo num estuprador – completa Tiny.
Sula sorri e sacode a bunda em suas apertadas calcinhas. Ela tem tudo o
que um homem pode desejar que uma mulher tenha e sabe disso.
Tiny arranca a lâmpada elétrica e atira-a na rua. Não fica mais escuro. Ele
não notara que agora já era de novo dia claro.
Um bonde passa ruidosamente pela rua. Dois Messerscmitts roncam no
céu.
Sula rebola em direção ã porta e lança uma caneca d’água sobre o
soluçante corno ao passar por ele. Ao chegar à porta, volta e joga uma metade
de salsicha para Tiny, que está na cama.
– Toma, Fido! – diz ela, provocante.
Antes que ela possa girar a maçaneta da porta, eles já a pegaram e jogaram
de novo em cima da cama; tiram-lhe a roupa muito mais depressa do que ela
poderia imaginar.
Já está quase escuro de novo, quando vão embora. O careca e as três
pequenas despedem-se acenando para eles do balcão.
Os três andam de costas pela rua abaixo e correspondem a seus acenos
enquanto podem vê-los.
– Vai ser aborrecido, quando os alemães saírem da Grécia – diz Sula, com
um profundo suspiro.
– Então chegarão os ingleses – sorri Thea. – Eles também podem ser
divertidos. O uniforme é diferente, mas o resto é o mesmo.
A fim de resguardar as aparências, eles põem as algemas em Carl quando
se aproximam da estação. Afinal de contas, ele é um prisioneiro a caminho do
xadrez.
– Dá melhor impressão – diz Porta, desculpando-se ao fechar as algemas. –
Aqui está a chave extra – acrescenta, colocando a chave no bolso de Carl. –
Assim você poderá sempre retirá-las, se nós da escolta sofrermos algum
acidente ou se a guerra acabar subitamente e nós, em nossa alegria,
esquecermos de libertá-lo.
– Vocês não podem colocar algo em cima delas de forma que todo o
mundo não veja que estou em cana? – resmunga Carl, mostrando as brilhantes
algemas.
– Não, não, homem! – declara Porta. – Se as pessoas não as puderem ver,
então daria no mesmo se não as tivéssemos colocado.
Anime-se agora, mas faça uma cara de quem está abatido. Alguém poderá
dar-lhe algo por piedade, que nós poderíamos depois compartilhar com você.
– Se alguém perguntar, diremos que você quebrou a cabeça de um coronel
– fala Tiny, astuciosamente. – Gente como você é capaz disso!
– Ó, meu Deus! – suspira Carl, com ar triste.
– Agora não fique zangado se nós lhe dermos umas pancadas nas costas
com nossos cassetetes – continua Porta. – Temos que mostrar às pessoas o que
é a disciplina socialista no Exército prussiano. Faça aquela cara de homem mau
– diz ele, cutucando Tiny, quando penetram no edifício da estação batendo
bastante com as botas no chão.
A escolta e seu prisioneiro chamam satisfatoriamente a atenção. A maior
parte das pessoas dirigem a Carl olhares de piedade, enquanto os dois membros
da escolta, fumando seus charutos, são olhados com olhos cheios de ódio.
– Esses porras eram capazes de nos matar, se tivessem coragem – sussurra
Tiny, soprando uma baforada de fumaça no rosto de um homenzinho de chapéu
de feltro.
Uma velha conduzindo porcos amarrados com coleiras faz uma festa no
rosto de Carl e piedosamente passa sua mão pelas algemas.
– As coisas estão pretas para ele, coitado do soldadinho!
Carl balança a cabeça concordando com ela.
– Não se preocupe, meu rapaz! A vida por aqui de qualquer forma não vale
muito e se você atirou num oficial ou roubou os ricos haverá um lugar para
você no céu.
Ela dá uma violenta cotovelada nas costelas de Porta.
– Mas sua espécie vai acabar no inferno! Bancando os importantes e
levando os pobres rapazes para o patíbulo! – E faz de novo uma festinha no
rosto de Carl. – Vá com Deus, soldadinho. Eles não podem enforcá-lo mais do
que uma vez. Leve este pedaço de queijo para sua longa viagem. – E coloca um
grande queijo de cabra redondo embaixo do braço de Carl.
– Chupadores de pau! –– rosnam dois cabos, sentados num grupo, jogando
dados.
– Primeiro-cabo Joseph Portal – diz ele, inclinando-se como se os outros se
houvessem apresentado.
– Olha o trem! O trem! – gritam as pessoas e correm como uma avalanche
ao longo da plataforma.
A polícia tanto militar quanto civil tenta manter a ordem mas é impossível.
A mulher dos porcos acompanhando o trem como se fosse um aríete, os
porcos guinchando do lado dela como se estivessem sendo mortos.
– Será que esta é uma das viagens que se chamam Kraft dureh Freude? –
pergunta Tiny espantado. e gira seus braços como um moinho de vento para
abrir espaço na multidão.
Condutores suarentos correm ao longo do trem fechando as portas
barulhentamente. A bagagem é atirada pelas janelas, os donos correndo atrás
dela.
O trem parte. Todo o mundo o pegou, mas as plataformas dos vagões estão
entupidas. Todo o mundo menos dois gorduchos policiais militares, quero
dizer.
– Temos que embarcar! – gritam eles. Tentam pular para o trem, mas
ninguém abre espaço para eles. Um cai de cara no chão na plataforma e seu
capacete de aço rola para baixo do trem.
Em Lamia, a Cruz Vermelha distribui porco e feijão acompanhado de café
turco. Porta, naturalmente, serve-se três vezes.
Um carro de prisioneiros é engatado no trem; um longo vagão de carga
com as portas hermeticamente fechadas e aberturas apenas para ventilação.
– Duchau, Buchenwald – diz Porta, lambendo sua marmita de folha. – Será
que eles também ganharam feijão?
– Um chute no rabo é o que eles ganham – rosna, amargo, um soldado de
infantaria. Uma freira da Cruz Vermelha deu parte dele por ter tentado servir-se
mais de uma vez. Aquilo irá custar-lhe um ano sem licença e três vezes uma
prisão de três dias.
– Irmãs de caridade de merda! Ela é uma dessas – resmunga um sapador. –
Dá vontade de morrer de rir, não dá?
Em Salônica, o trem tem que esperar horas e é inspecionado
continuamente. De tardinha, anunciam que não partirá antes do dia seguinte:
dinamitaram a linha férrea. Os soldados podem dirigir-se aos quartéis para
comer; os civis fazem fogueiras na plataforma para preparar sua comida.
Depois de uma agradável noite na cidade, os três vão até a estação apenas
para ser informados de que os reparos da linha durarão três dias.
Um PM sardento e com cara de poucos amigos carimba os papéis deles.
– Escolta e prisioneiro – lê nos documentos e olha com ar satisfeito para as
algemas de Carl. – O que foi que esse macaco fez?
Porta julga que o verdadeiro crime, recusa a obedecer ordens, não
impressionará suficientemente o PM sardento e desenvolve uma sanguinolenta
história no seu melhor estilo.
– Um monstro, um verdadeiro monstro, é o que este sujeito é – começa ele,
dando um empurrão em Carl. – Este cara atirou em seu coronel, abriu a barriga
do comandante de sua companhia e comeu-lhe o fígado. Ia continuar com seu
primeiro-sargento, quando o apanharam com o cacete e os colhões do homem
na mão. É um maníaco religioso! – Porta vira os olhos para o céu e aponta o
indicador para a têmpora. – O louco pensava que poderia salvar o mundo
impedindo o povo alemão de reproduzir-se.
– Loucura – exclama, admirado, o polícia. – Não é tão fácil assim parar os
alemães.
– Não – concorda Porta – mas ele era um membro honorário da sociedade
“Chega de Guerra”, de forma que para ele talvez fosse lógico tentar.
– Para onde vocês o estão escoltando? – pergunta o PM, que parece
impossibilitado de afastar os olhos de Carl.
– Germersheim – responde Porta, amavelmente. – Ali, eles darão cabo da
vida dele.
– O maldito o merece – decide o PM, com voz rouca. – Meu pai é um
primeiro-sargento numa tropa de infantaria.
– Ele não perdeu o cacete ainda? – pergunta, rindo, Tiny e dá alegremente
um forte soco na mesa que faz dançarem todos os carimbos.
Pouco mais tarde, ao voltarem para a cidade são interpelados por um
tenente por não fazerem continência direito. Precisam prender Carl a um poste,
enquanto desfilam em frente ao tenente por quatro vezes, fazendo a continência
corretamente. Depois disso, eles fazem continência para todo o mundo em
uniforme que encontram, até carteiros e guardas de jardins.
Depois de algum tempo, têm que entrar no Águia Orgulhosa para descansar
os braços e para beber uma cervejinha.
– Agora você não irá fugir e deixar-nos em dificuldades com o serviço da
prisão militar, vai? – pergunta Porta a Carl, ao remover-lhe as algemas.
– Ele dispararia como uma lebre, se tivesse a chance – afirma Tiny,
batendo com seu caneco no balcão.
– Pare com essa porra desse barulho – adverte o proprietário, um
Volksdeutscher com o emblema do partido na botoeira.
O gigantesco punho de Tiny agarra-o pela gravata.
– O que dá a um merda de um Volksdeutscher o direito de nos dar ordens?
– Vá à merda! – grita, zangado, o proprietário, livrando-se de Tiny. – Eu
vou chamar os PMs!
– PMS? – Porta ri, descansando sua Mpi em cima do balcão e expondo ao
lado dela uma braçadeira de policia militar. – PMs! Com quem pensa que está
falando? Nós somos os malditos PMs, homem! Feche sua matraca ou será você
que vai ser preso e será a primeira e última vez. Quer ser executado em sua
própria pocilga, quer?
– Vamos dar o fora daqui – diz Tiny, cuspindo na cara do dono. – Policiais
honestos não podem beber cerveja num antro como este.
– Obrigado pela bebida – diz Porta, e sai sem pagar.
Um pouco mais adiante na mesma rua, entram no Seio Acolhedor, onde
quem serve são mulheres.
– Nós somos da polícia – proseia-se Tiny, pondo os braços em cima do
balcão de forma que todo o mundo possa ver sua braçadeira de PM.
– O que os cavalheiros desejam beber? – pergunta a moça do bar,
levantando o cotovelo de Tiny para enxugar o balcão.
– Três mistos – ordena Porta, colocando sua Mpi em cima do bar.
– Tire essa engraxadeira daí – rosna a moça do bar.
– Você não gosta de ferramentas? – pergunta Tiny. – Com estas você pode
cancelar dívidas, sabe disso?
Porta tira sua Mpi do balcão sem uma palavra.
A pequena enche três grandes canecões metade com cerveja, adiciona
Slivovitz e suco de tomate à cerveja e mistura com uma haste de vidro.
Os três desejam uns aos outros saúde e esvaziam os canecões em um longo
gole, babando-se todos.
– Tem um gosto horrível – comenta Carl – mas sobe depressa.
– Até este minuto eu tinha minhas dúvidas se a porra desse mundo rodava
mesmo – diz Tiny, admirado. – Mas agora posso sentir muito bem que ele está
fazendo isso. Agarrem-se bem na porra do bar, rapazes, ou vocês são capazes
de cair!
Die Zeit kennt keine Wiederkehr, cantam eles, enquanto cambaleiam pela
Rua Metropolis abaixo em direção ao bordel Verde Turquia. De uma forma
inexplicável, acabam na delegacia de polícia da Rua Nícodemus, onde apertam
as mãos de todos os espantados policiais gregos e dizem-lhes que pediram a
eles que trouxessem lembranças de amigos comuns.
– Quando vai ser enforcado, você tem o direito do consolo espiritual – diz
Tiny quando estão sentados na borda de um chafariz por volta de meia-noite,
pescando peixinhos dourados que Tiny come vivos.
– O regulamento militar cobre todas as eventualidades – diz Porta,
soluçando, e concordando com ele.
Tiny cai dentro do chafariz tentando provar que pode ficar em pé numa
perna só, fazendo um quatro com a outra.
– Muito incômodo por pouca coisa – explica Porta, para uma plateia
invisível.
– Agora você não pense que pode fugir de nós – diz Tiny, ameaçador,
agarrando Carl pela gola e puxando-o para dentro d’água. – Não pense que nós
somos um par de camponeses que temos merda na cabeça em vez de miolos!
– Nos, e conosco o Exercito, não menosprezamos o serviço de escolta –
exclama Porta, com o indicador levantado Continuam a descer a rua
cambaleando e fazem continência para um gato que chamam de Herr General
– Ah! Cá está você! – exclama Porta, abraçando pelo pescoço um sujeito
que passa a caminho de casa. – Você precisa tirar um curso na escola de
infantaria em Hammelsburg e aprender a comer como desjejum velhas botinas
reúnas.
– É muito útil para as pessoas mais tarde na vida – soluça Tiny.
– A solução é a cavalaria – diz com a voz arrastada Carl, tentando montar
todo feliz uma cerca de arame e caindo sempre para o outro lado.
O paisano livra-se deles e continua, apressado, seu caminho rua abaixo.
– Dê lembranças a sua mãe – grita-lhe Porta. – Somente você e eu sabemos
que ela era alemã.
– Precisamos fazer alguém de exemplo – diz Tiny de madrugada, quando
se encontram no mercado de verduras. As carretas todas estão começando a
chegar do campo. Tiny encosta sua P-38 contra a testa de um limpador de rua
que está apoiado em sua vassoura, profundamente adormecido.
– O que você diria, se eu lhe desse um tiro? Gostaria?
– Heil Hitler! Heil Hitler! – grita o lixeiro. É a única coisa que ele sabe em
alemão e descobriu que funciona muito bem com a maioria dos soldados
alemães.
Tiny deixa cair sua pistola ao mesmo tempo que abraça o lixeiro; ao trazê-
lo, acaba caindo num poço de inspeção sem tampão, do qual são necessários
diversos homens para puxá-lo para fora.
– Em Bruxelas, nós apanhamos uns caras disfarçados com uniformes do
Exército da Salvação – conta Porta, para um quitandeiro.
– Pessoal do Exército da Salvação! – exclama Tiny. – Gosto de ouvir falar
deles. Eles são tão bonzinhos. Quando a gente os enforca, eles vão para o
maldito patíbulo sem dar um pio.
O trem para em Stoby. Os guerrilheiros dinamitam a linha.
Unidades da polícia croata enforcam três civis em postes de teletone.
Alguém tem que levar a culpa pelos guerrilheiros que escapam.
À distância, podem-se ouvir metralhadoras matraqueando.
– Estão assaltando outro trem – diz o RTO, batendo com a mão no ombro
do comandante do trem. – O senhor teve sorte, major, por ter ficado retido em
Salônica.
Uma mulher sai correndo a gritar de um vagão; nos seus calcanhares um
soldado bêbado, sem paletó e com a braguilha aberta.
Um soldado de infantaria, encostado num poste de iluminação, mastigando
um pedaço de pão, estica com naturalidade seu pé.
O soldado tropeça e cai espichado na plataforma.
Dois homens da guarda da estação lançam-se a ele como dois lobos
famintos.
– Quer-mc dar os papéis dele, major, de forma a podermos notificar sua
unidade quando o enforcarmos? – pede o RTO.
– Vocês vão enforcá-lo? – pergunta o comandante do trem, surpreso.
– Naturalmente, aqui estamos em campo de batalha. Uma pequena e
sumária corte marcial. Um oficial e dois soldados para julgarem o caso; aos
soldados diz-se qual deve ser o veredicto. Nós já improvisamos uma forca lá na
pedreira. Nada de espetacular, apenas uma viga presa em dois postes. Dá para
enforcar 10 homens de uma vez. Nosso carrasco, que é um civil, ganha cinco
marcos por homem e esta muito satisfeito com a paga.
– Deus do céu! – exclama o comandante do trem, enxugando o suor de sua
testa. – Vocês não esperam um dia ter problemas com isto?
– Por que deveríamos ter? – pergunta o RTO, espantado. – Nossas cortes
marciais são todas de acordo com os regulamentos e todos os julgamentos são
registrados. As pessoas executadas são enterradas em solo consagrado. Tudo
em perfeita ordem. Nós não somos como os da SD. Os piores dos piores aqui
desfrutam do tratamento legal próprio e, poderia acrescentar, consolo espiritual.
Pela tarde, vagões de carga nos quais estão montados canhões automáticos
são acoplados ao trem.
Duas pranchas cheias de areia são engatadas na frente da locomotiva como
proteção contra minas. Os prisioneiros são colocados nas pranchas; se a linha
estiver minada, eles morrerão.
Bastante depois do anoitecer, o trem se movimenta. A velocidade não é
aumentada enquanto ele não entra no Vale do Struma, que é considerado a parte
mais perigosa da rota.
Os prisioneiros que se encontram nas pranchas são fortemente iluminados
como um aviso para os guerrilheiros. Aos poucos os passageiros, embalados
pelo movimento do trem, adormecem.
Porta e um obermaat da marinha estão jogando dados. Ele tem dois anos de
pagamentos atrasados para compensar e o consegue.
No último trecho da viagem, o trem é sacudido pelo estrondo de uma
explosão. Ouve-se um som horrível de metal e madeira sendo estilhaçados. Os
canhões automáticos começam, sintonizados, um violento fogo de revide.
Cascatas de artifícios de iluminação clareiam as encostas das montanhas. O
pesado relâmpago das explosões ilumina o terreno acima dos picos do outro
lado do Struma.
As metralhadoras latem irritadas, enviando riscos de balas fosforescentes
em direção a uma onda de vultos escuros que se despejam pela encosta abaixo e
pulam para dentro do espumoso rio.
– Vejo você no juízo final! – exclama Porta, pulando por uma janela
arrebentada, seguido por Tiny e Carl.
Uma lasca de vidro com o formato de uma cimitarra quase decepa a cabeça
do obermaat da Marinha.
Sangue espalha-se por todo o compartimento. Porta e Tiny engatinham por
baixo do vagão meio virado. Carl atira-se para uma elevação onde está uma
LMG abandonada; carrega-a rapidamente e despeja curtas rajadas contra os
guerrilheiros. Eles agora estão nesta margem do rio.
Um par de morteiros cospe obuses. Por um momento, o ataque é contido,
mas novas hordas descem dos desfiladeiros e encostas da montanha. Parece que
nunca mais se acabam; incessantemente, escuras figuras correm para a frente.
A seção de morteiros acerta a alça e contém o ataque. Gritos agudos estão
suspensos na noite, que esconde da vista o sangrento espetáculo que se
desenrola ao longo dos trilhos.
Os atacantes se retiram tão subitamente corno vieram, com as balas
traçadoras correndo atrás deles. Granadas de mão voam pelo ar e o reflexo azul
das explosões ilumina as encostas e os cortes da estrada de ferro. De repente se
vê a visão fotográfica de um corpo humano suspenso no ar; logo a seguir um
grito de morte ao cair.
Próximo à linha existe uma velha fortificação onde um grupo de
guerrilheiros procurou abrigo. Um par de coquetéis Molotov desaparece em seu
escuro interior. Uma explosão surda e oca se segue e chamas aparecem nas
seteiras da velha muralha. Os sobreviventes saem do abrigo com as roupas em
chamas. As metralhadoras encarregam-se deles.
Porta limpa o suor do rosto e rasteja de debaixo do vagão Junto com Tiny.
A face de Carl foi rasgada por um estilhaço de shrapnel; um enfermeiro repara
o estrago com duas largas tiras de esparadrapo.
– Que merda! – diz Porta. – Aqui estamos nós em serviço de escolta e, de
acordo com o manual, o prisioneiro deve chegar ao destino incólume. Estes
guerrilheiros, no entanto, parece que não leram o regulamento.
Uma ensurdecedora explosão quebra o silêncio e uma chama azulada sobe
aos céus. Dá a impressão de que a montanha inteira se levantou. Grandes
rochas despencam da montanha carregando com elas para o precipício
guerrilheiros e soldados alemães. Com um longo estrondo, a avalanche atinge o
trem e arrasta com ela para dentro do rio diversos vagões.
– Por Deus Todo-Poderoso! – diz, num arquejo, Tiny. – Se nós não
tivéssemos a sorte do próprio diabo não teríamos vivido tanto.
Passada uma hora tudo está acabado. Os guerrilheiros desaparecem na
escuridão. Só restam os mortos.
A possante locomotiva está intata; suas bombas põem-se a funcionar e uma
leve nuvem de vapor projeta-se de seu flanco.
O maquinista e seu assistente estão mortos; o corpo de um deles aparece
pendurado na porta da máquina, com a cabeça deslocada e caída. O outro está
deitado em cima do carvão com a garganta cortada. Eram sérvios, mortos pelos
sérvios, por estar ajudando o inimigo.
Os civis que se encontravam no trem desapareceram sem deixar vestígios.
Os guerrilheiros levaram-nos com eles; antes do anoitecer, seus corpos
mutilados serão encontrados nas ruas da cidade mais próxima. Um aviso!
Os cossacos de Vlassov chegam em seus cavalos cobertos de suor; com os
longos sabres mutilam os corpos dos mortos. Um sargento de cavalaria alemão
com uniforme de cossaco recebe instruções do comandante do trem:
– Esquadrão, em linha! À direita, marche! – grita numa voz estridente. E
muito depois de eles haverem desaparecido da vista, ainda se pode ouvir o
barulho das batidas dos cascos dos animais na estrada.
Um clarão eleva-se ao longe e pode-se ouvir o zangado matraquear das
metralhadoras.
– Agora, eles os estão massacrando – diz, radiante, um sargento de
sapadores, continuando a desmontar sua Mpi.
– Quem está massacrando quem? – pergunta Porta, com ar de desprezo. –
– Os cossacos aos guerrilheiros – fala o sargento, rindo satisfeito.
O vento sopra pelos restos dos vagões avariados com um som que faz
lembrar um bandolim desafinado. Ao longe, cães começam a ladrar. O sol
nasce por detrás da montanha e manda seus quentes raios por sobre o trem
destruído; os corpos nas encostas começam a inchar. Milhões de moscas
enxameiam, brilhando ao sol com sua cor azul-escura, alimentando-se nas
grandes feridas abertas.
– A guerra e uma boa época para as moscas – diz Porta, enxotando um
enxame, que se amontoava em cima de um braço decepado, em cuja mão
faltavam três dedos.
– Onde será que se encontra a porra do resto dele? – pergunta Tiny,
interessado.
– O diabo que o saiba! – diz Carl. – Mas deve ter sido um marinheiro;
olhem só para as tatuagens.
Porta pega o braço e examina a tatuagem com mais atenção.
– Ele esteve em Bangcoc. Isto aqui é chinês. Pena que um braço artístico
como este tenha que ser comido por um enxame de moscas iugoslavas de
merda.
Tiny deita-se confortavelmente de costas, coloca a mão dentro de sua suja
camisa cinzenta e puxa um achatado maço de cigarros; sacode-o
impacientemente até que aparece um cigarro e puxa-o com um par de lábios
ensanguentados que estiveram recentemente em contato com o coice de um
fuzil. Sem nada dizer, oferece o maço aos outros dois; os cigarros são de fumo
inglês e ele os encontrou no corpo de um guerrilheiro.
– Deitados aqui fumando um bom cigarro a gente quase se pode esquecer
de que está numa guerra – diz Carl, sonhador, colocando os pés sobre uma
porta quebrada. – Já repararam como é bonito por aqui?
– Tremendamente bonito – diz Porta satisfeito, puxando o estojo de sua
máscara de gás por baixo da cabeça para formar um travesseiro.
– Talvez a maldita guerra tenha terminado, enquanto nós estamos aqui
deitados – sonha Tiny. – As notícias costumam chegar tarde a lugares como
este.
– Eu bem que gostaria agora de uma morena gordinha – diz Porta
lubricamente, soprando fumaça pelas narinas.
– Quantas babacas existem neste mundo e todas elas estão com as mulheres
– fala Tiny, soltando um longo peido.
– As cantinas do Exército deviam fornecer babacas – raciocina Porta.
– Você deve procurar pegar tudo o que pode, enquanto estamos nesta porra
de viagem de escolta – diz Tiny a Carl. – Uma vez que esteja lá dentro,
companheiro, você está fodido no que diz respeito a isso, para sempre.
– O que quer dizer com esse “para sempre”? – pergunta Carl, tirando o
cigarro da boca. – Estarei de fora de novo em 10 anos.
– Eles o matarão, filho – profetiza Tiny. – Lembre-se do aviso da cigana.
Eles acabam com todos os veteranos. Colocam-no num destacamento de
limpeza de campos minados e isto lhe dá uns cinco dias, se você tiver sorte.
– Por que irão me matar, se eu me comportar direito?
– Quem esteve atrás das grades mais do que um ano já esteve tempo
demais – diz Tiny, com firmeza. – Oficialmente, não há nenhuma prisão na
Alemanha. Não se esqueça de que nós somos um Estado socialista com uma
inclinação para a direita.
– Cambada de porcos! – suspira Carl.
– Agora o que você diz faz sentido! – exclama Porta, rindo. – Nós já
descobrimos isso há muito tempo.
– Quando você está trabalhando na vala comum tem realmente que cuidar-
se – explica Tiny. – Pode acontecer que eles o enterrem junto com os porras
que estão realmente mortos.
– Você viu isso acontecer? – pergunta Carl, duvidoso.
– Não vi de verdade – zomba Tiny. – Li sobre isto nos contos de fada de
Grimm.
– Não vou me meter nas minas ou a escavar valas comuns – diz Carl. –
Não me apresento para nenhum serviço voluntário nem que eles me ponham na
solitária durante todos os 10 anos por isso.
– Você não sabe do que está falando – diz Porta, zombando dele. – Você
será capaz de comer merda para sair daquela solitária.
– Será só a metade de 10 anos de qualquer forma – diz Carl. – A guerra
estará acabada em cinco anos e eu voltarei para casa como um herói.
– Talvez – fala Porta duvidoso, encolhendo os ombros.
– Como você gostaria que ela fosse, esse pedaço de babaca morena de que
você falava? – pergunta Tiny, voltando a assunto de maior interesse.
– Que não fosse muito gorda demais e com o cabelo preto e longo –
responde Carl. – Não suporto essas louras de cabelo ondulado.
– Que se dane o cabelo – diz Porta – pois você não anda atrás disso. Para
mim, elas devem ser gordinhas e com músculos em seus peitos fortes o bastante
para quebrar-lhe a queixada se jogá-los em seu rosto.
– Para mim, deem-me uma alta e magrinha com música no traseiro –
exclama Tiny, alegremente. – Ouvi dizer que as negras são as melhores de rabo
nesta porra deste mundo. Quando elas rebolam as cadeiras, você fica com um
cacete tão duro que pode usa-lo para tirar rolhas de garrafas, para sempre e para
sempre, amem!
Um foguete de sinalização explode ao longe do outro lado da montanha,
mas o barulho não alcança o trem.
– Aqueles bandidos estão armando mais alguma coisa de novo – opina
Tiny. – Não é só para ver suas belas cores que eles disparam esses malditos
foguetes.
– Você acha que eles vão voltar? – pergunta Carl, nervoso.
– Eles não vão desistir enquanto não virarem essa porra desse trem,
espalhando-o por todo o maldito Vale do Struma – diz Tiny, ponderadamente.
– Sugiro que nos movamos daqui rapidamente antes que isso aconteça –
diz Porta. – Realmente, afinal de contas, nós não temos nenhuma coincidência
de pontos de vista com estes caras.
– Você está maluco? Isto seria desertar – sussurra Carl, aterrorizado. – Eu
não poderia fazer isso; sempre cumpri meu dever como soldado.
– Foi provavelmente por causa disso que lhe deram 10 anos – fala Tiny. –
Você nasceu muito ingênuo; faça como nós, e se dará muito melhor.
– Juntemos nossas porcarias e vamos nos mandando – decide Porta
resolutamente, pondo-se de pé. – Há um par de caixas de foguetes de
iluminação naquele vagão avariado. Jogamos uma granada numa delas e assim
que eles começarem a explodir nós seguimos pelos trilhos. Todo mundo vai
olhar para aquele lado e ninguém vai notar que estamos fazendo uma retirada
tática!
– Isto poderá custar-nos as cabeças – suspira Carl, resignado.
– Ou prolongar nossas vidas um bom pedaço – diz Porta, com seu risinho
curto.
– Os espertos sempre abandonam o navio no primeiro bote salva-vidas –
filosofa Tiny, apanhando uma granada de mão. – O comandante ê o idiota que
parte por último.
Carl olha para ele horrorizado ao vê-lo tirar a tampa azul da granada.
– Aguentem-se firmes! – diz, rindo, Tiny. – Aí vem uma trovoada! –
Descreve um arco com o braço e a granada cai precisamente entre as caixas de
foguetes.
Tiny ri quase até ficar engasgado, quando foguetes de sinalização e de
iluminação lançam-se para o ar, assobiando por entre os vagões.
– Até logo, meu amor! A chave fica no peitoril da janela – grita Porta,
pondo-se a correr.
Uma Mpi abre fogo e as balas atingem o chão logo atrás de Tiny que se
embaraçou num arame farpado.
– Job tvojemadj*! – grita Tiny girando sua Mpi, descarrega um pente
completo na direção do trem, onde todo o mundo procura abrigo. Liberta-se do
arame e lança-se, disparado, atrás dos outros.
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* Job tvojemadj (palavrão russo): Vá se foder.
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Quase sem poder respirar joga-se numa estreita valeta no terreno.
– Que filhos da puta de merda! – esbraveja ele. – Os malditos atiraram em
mim! Um de seus próprios porras de patrício!
– Todos os alemães são uns filhos da puta – diz Porta – mas não deixemos
que essas considerações nos detenham– Em breve, eles estarão aqui. Neste
momento, sinto que estaríamos mais seguros com os guerrilheiros do que com
nossa própria gente.
– Em que merda vocês porretas me meteram – diz, enraivecido, Carl. – Ser
fuzilado como um maldito desertor é mais que provável, até mesmo antes de
entrar na cadeia.
Com a respiração entrecortada marcham através de um mato denso e
entram num vale alongado. Quando contornam um rochedo, hitlus assobiam
por sobre sua cabeça. Lá em cima, no topo do morro, está o comandante do
trem ameaçando-os com uma Mpi.
– Estamos indo procurar ajuda, senhor! – grita Porta, encorajadoramente,
agitando seu alto chapéu amarelo.
– Voltem, seus porcos! – grita-lhes o major, com sua voz rouca.
– Na dúvida, ir para casa é o melhor – grita Tiny, com toda a disposição, e
desaparece atrás de uma beirada de morro, ainda tendo tempo para agitar o
braço para o comandante do trem.
Continuam andando o dia todo, evitando vilas e estradas. Por volta de
meia-noite, o céu se ilumina brilhantemente e uma longa e rolante explosão faz
tremer a terra.
– Lá se foi o trem – diz Tiny, olhando para trás.
– Podemos então esquecer de procurar auxílio – diz Porta.
– Com isto liquida-se o assunto – completa, sossegado, Tiny.
– Coitados daqueles infelizes – diz, em voz baixa, Carl.
– São sempre os infelizes que têm pouca sorte – fala Porta, abrindo os
braços. – Mas grandes eras exigem grandes sacrifícios. Nós pertencemos a uma
geração infeliz.
Depois de um pequeno descanso, os três continuam a marcha e pela manhã
seguinte chegam a uma estrada larga. Estão para entrar nela, quando Tiny
levanta a mão e atira-se na vala ao lado da estrada.
Uma Mercedes preta de três eixos passa por eles a toda velocidade e para
dois quilômetros adiante numa fazenda. Cinco homens em uniforme cinza-rato
saltam do carro.
Ouve-se uma curta rajada de Mpi e tudo fica de novo quieto.
– Fantasmas de SDs. – sussurra Tiny. – Não me chamo um primeiro-cabo
da malta grande Alemanha, se eles não estão caçando cabeças!
– Vamos sair daqui – gagueja Carl, sentindo-se infeliz.
– Não é outra coisa que estamos procurando fazer – fala Porta, rindo,
despreocupado.
– Que tal abafarmos aquela porra daquela gôndola deles? Hem? – pergunta
Tiny, lambendo os beiços, pensativo.
– É menos cansativo andar de carro do que marchar – diz Porta.
– Não pensem que vou entrar nessa de roubar um carro debaixo dos
próprios narizes da Gestapo – exclama Carl, indignado.
– Ninguém lhe está pedindo isso – decide Porta, bruscamente. – Você é um
prisioneiro sob escolta. Qualquer que seja a opinião que tenha sobre qualquer
assunto, você faz o que a escolta lhe manda ou será executado sem cerimônias.
– E agora lhe estamos ordenando que siga numa Mercedes preta! –
completa Tiny. com severidade. – Prisioneiros devem obedecer às ordens! Ou
então onde é que vamos parar?
– Seu par de filhos da puta malucos! – grita Carl, sapateando de raiva. –
Darei uma parte sobre tudo isso, quando chegarmos a Germersheim.
– Parte? – Porta ri, alto. – Será uma novela! E ninguém acreditará nela.
– Eles vão mandá-lo para o hospício em Gressen – comenta Tiny.
Aproximam-se cuidadosamente da enorme Mercedes que está parada sob
uma grande árvore praticamente gritando “sou um carro da polícia”.
Carl fica para trás, praguejando contra os dois e quase em lágrimas de
medo.
Porta anda duas vezes em volta do carro na ponta dos pés; está usando sua
braçadeira de PM e distintivo.
– Não vou fazer isso – diz Carl, teimoso, e em voz baixa, empurrando
Tiny.
– Você então fica aqui e explica para a Gestapo quem foi que levou sua
maldita gôndola – diz Tiny, rindo. – Eles vão ficar tão satisfeitos que vão enfiar
o cano de uma Mpi pelo seu rabo adentro! E vão comê-lo no desjejum,
companheiro. Eles fazem isso com prisioneiros, sabe?
Porta faz um sinal para os outros.
– Há quatro vasilhames de combustível de reserva cheios – sussurra ele. –
Podemos ir daqui até o inferno nessa banheira.
– Ela provavelmente também sabe o caminho – diz Carl.
– Roubar da maldita Gestapo! Por Jesus Cristo Nosso Senhor! Estarei de
cabelos brancos, quando chegarmos a Germersheim.
– E Deus nos ajudou tanto que eles deixaram as chaves penduradas na
ignição – diz Tiny, encantado. – Chega-se a pensar que queriam livrar-se dela.
Será que não a roubaram?
– Não chegaremos muito longe com placas da Gestapo – choraminga Carl,
desanimado. – E preta além de tudo! Cheira a Gestapo a quilômetros!
– Quem e que vai dizer que nós não somos da Gestapo? – indaga Tiny. –
Os filhos da puta também usam uniformes do Exército, vocês sabiam?
– É melhor dar-lhe uma empurrada até a estrada – diz Porta, soltando o
freio de mão.
O areião chia sob os largos pneus do carro.
– Ele é pesado pra burro – reclama Tiny, encostando seu ombro na traseira
do veículo.
Porta ajeita-se atrás da direção. Tiny dá um atlético pulo por sobre ele e
senta-se no banco da frente a seu lado. Com a manga do uniforme lustra
cuidadosamente seu distintivo de PM em forma de meia-lua.
Carl sobe para o banco traseiro e procura fazer-se tão pequeno quanto
pode.
– Por Jesus Cristo! Isto não vai dar certo – resmunga, nervosamente.
– E agora precisamos partir em silêncio – diz Porta, examinando o painel
do carro.
– É uma beleza, não é? – diz Tiny admirando o sedã e passando a mão por
sobre o polido painel de instrumentos. – Como eu não gostaria de desfilar pela
Reeperbahn nesta tetéia. O maldito velho Nass perderia seu casaco de couro e
seu chapéu de borda virada só à vista disso.
O motor faz um ruído de aspiração, quando Porta vira a chave de partida.
Para eles parece um ronco, mas nem mesmo as galinhas ciscando por perto se
perturbam.
Porta experimenta afogá-lo mais um pouco, mas o motor apenas morre
largando um forte cheiro de gasolina.
– Se esses porras desses SS saírem, eu disparo neles – diz Tiny, apontando
sua Mpi.
Carl rói nervosamente as unhas e envia para o céu uma prece silenciosa,
embora não seja crente.
O que está errado? – pergunta Porta, limpando o suor do rosto. – Esses
motores de alta compressão dão partida só de olhar para eles, via de regra.
– Talvez seja uma boa ideia a gente dar o fora – diz Tiny, limpando o nariz
com os dedos. – Mesmo que sejamos uma espécie de PM, seria difícil, talvez,
explicar a esses caras SS o que estamos fazendo sentados na porra do carro
deles.
– Não posso entender – queixa-se Porta, sacudindo a cabeça. – Será que
está afogado? Cheira mais do que um maldito campo de petróleo árabe!
– Tente dar-lhe tudo – sugere Tiny, sempre advogado da violência.
Porta puxa violentamente o afogador e aciona a partida. O motor apenas
ronca suavemente.
– Que inferno! – grita ele, empurrando irritado de volta o afogador.
O motor dá partida com um ronco e o cano de descarga solta um tiro como
de um canhão.
– Jesus Cristo! Deve haver uma carga de dinamite debaixo daquele capô! –
exclama Porta.
Um homem da SD sai correndo em direção ao portão, justo quando o carro
começa a movimentar-se.
– Parem! – grita ele. – Este carro é nosso. Parem, seus filhos da puta!
Parar é a última coisa neste mundo que Porta está pensando em fazer.
O carro treme e lança-se para a frente como um projétil ao sair de um
canhão, à medida que Porta pisa fortemente no acelerador.
Uma rajada de Mpi assobia por cima de suas cabeças.
– Não há paz para nós, pobres infelizes! – rosna Tiny, voltando-se
zangado. Levanta o cano de sua Mpi e atira duas curtas rajadas em direção ao
SD que mergulha no chão.
A pesada Mercedes ronca pela estrada abaixo, atacando as curvas com um
longo e crescente assobio; o cano de descarga continua a soltar seus tiros.
– Nossa Senhora de Kazan! – geme Porta. – Já encontrei uma porção de
veículos esquisitos em meu tempo neste maldito Exército, mas este bate todos
eles. Temos que troca-lo de alguma forma antes que ele transforme meus
cálculos em areia.
Tiny põe a sirene a funcionar e olha com ar importante para todos os lados.
– Seus malucos! – lamenta-se Carl, do banco de trás. – Dentro em pouco
teremos toda a Gestapo em nossos calcanhares.
Entram em Brod numa velocidade mais do que respeitável. Porta para
diante de uma grande oficina do Exercito do lado de fora da qual alinham-se
inúmeros carros avariados. Arranca duas placas WH* de um Opel e entrega-as
a Tiny.
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* WH (Wehrmacht-Heer): Exército.
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– Coloque estas no carro em vez daquela porra de placas SS; enquanto
você faz isso, vou dar uma volta por aí.
– Isto e fazer fraude com propriedade do Exército – protesta Carl. – Uma
corte marcial de cafres surdos, mudos e cegos seria capaz de enforcar-nos pelo
que nós fizemos somente até agora.
– Cale a boca! – ordena Tiny. – Você está tremendo como uma porra de
uma geleia, homem!
Porta desaparece, assobiando alegremente, dentro da grande oficina e
encontra-se logo com um mecânico com as divisas de primeiro-cabo.
Um pacote de cigarros desaparece rapidamente no macacão do homem da
oficina. Porta aceita três latas de tinta e uma flâmula triangular da carcaça de
um Horch.
– Você dispõe de autorização para movimentar-se? – pergunta o cabo-
mecânico, que parece ter um bom sentido para coisas práticas.
– Sim – responde Porta, pensativo. – É uma boa ideia. Posso convidá-lo
para compartilhar de algo na cantina?
– Nunca disse não a um convite – responde-lhe o colega. – Você está
vendo aquele escritório envidraçado ali? Quando você entra pela porta da
esquerda, encontra um armário atrás de uma cortina azul. Ali é que são
guardadas as ordens de movimentação. Pegue um pacote; há bastante ordens
num deles para levá-lo pelo menos até a América.
– Tem também carimbos de borracha? – pergunta Porta, com um riso
zombeteiro, quando o terceiro copo segue-se aos dois primeiros. – Quando se
trata de prussianos, ordens que não forem carimbadas não valem mais do que
papel higiênico.
– Quando estiver de posse de suas ordens de movimentação – explica-lhe o
colega, emborcando o copo pela quarta vez – suba as escadas até o primeiro
andar e entre na segunda porta à esquerda. Ali, você encontrará todos os
carimbos de borracha de que jamais necessitará. Pegue um com a inscrição
FPO; estão na prateleira amarela. As cópias estão na prateleira preta. Cuidado
com o Cara de Porco: ele atira em você se o apanha!
– Como vou reconhecer o Cara de Porco – pergunta Porta, prático.
– Pode esperar que ele irá grunhir para você – responde o colega.
– Que a vida seja longa para você e que morra tranquilo! – fala Porta,
encorajadoramente, e ganha dois a dois os degraus do primeiro andar, depois de
haver afanado um pacote inteiro de ordens de movimentação. Chega ao
escritório, examina-o cuidadosamente e, verificando que está vazio, entra com a
maior calma e apanha dois carimbos de borracha.
– O que está fazendo aqui? – soa uma voz de falsete por detrás dele.
Porta respira profundamente, faz uma meia-volta e bate com os
calcanhares.
Um major de engenharia, com uma fisionomia que apresenta uma notável
semelhança com a cara de um porco, está postado à sua frente.
– Senhor – diz em voz alta Porta – desejo informar, senhor, que estou
procurando pelo mecânico-chefe da oficina, Lammert, senhor! – Porta havia
visto o nome na porta envidraçada lá embaixo.
– O que você quer com o chefe?
– Senhor, trago uma mensagem para ele de um amigo, senhor!
– Ele não tem tempo a desperdiçar corri mensagens de amigos; está
engajado em vencer a guerra – grunhe Cara de Porco, atravessado. – O que está
fazendo em meu escritório? – Com os olhos faz um rápido inventário das coisas
soltas pelo escritório.
– Senhor, eu gostaria de ter permissão para usar o telefone, senhor!
– O que pensa que isso aqui é? Uma cabine de telefone? – grita Cara de
Porco. – Vá dando o fora daqui, seu vagabundo, e rápido! Se eu o vir de novo
em minha oficina, mandarei prende-lo!

******
Escondidos atrás de uma parede, eles pintam a Mercedes preta com tinta de
camuflagem do Exército. Para dar maior verossimilhança, Porta dá-lhe algumas
amassadelas com uma marreta. Acabamento do front oriental, ele as batiza.
– Foi uma pena; era um carro tão bonito – comenta Tiny.
Dirigem vagarosamente através da cidade.
– Vamos tomar um café – diz Porta, apontando para um grande e pomposo
edifício que se parece com um hotel de luxo.
Tudo o que lhe falta para isso são as mesas na calçada e guarda-sóis. Ele
faz com elegância a curva até a entrada.
– Não pare! – grita Carl. – Olhe para aquelas sentinelas!
– Jesus! – murmura Porta. – Isto não me parece de forma alguma um lugar
próprio para nós.
– SD! – geme Tiny, amedrontado. – Se alguém perguntar, não estou com
vocês!
Porta dá uma rápida acelerada no motor e o carro lança-se para a frente,
soltando dois colossais tiros pelo cano de descarga que fazem as sentinelas SD
agacharem-se, procurando cobertura. Passam por diversas patrulhas de polícia e
bloqueios de estradas, mas tão logo os guardas notam o galhardete triangular de
comando fazem sinal para o carro prosseguir e, em breve, os três estão fora da
cidade.
No dia seguinte, entram em Kukes onde encontram um Ajutante di
Battaglia italiano* que é o mestre-cuca de uma unidade de estado-maior de alta
posição.
===============
* Ajutante di Battaglia: W.O.
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Com surpresa, descobrem por seu intermédio que estão na Albânia.
– Nós estamos a caminho de Gemersheim via Viena – diz Carl, tristonho.
– Então vocês estão um pouco fora de seu caminho – diz o italiano, rindo.
– Mas agora que estão aqui, por que não comem algo comigo?
Dois ajudantes de cozinha põem uma mesa na calcada debaixo de um
grande toldo com as cores verde, vermelha e branca da Itália.
O primeiro prato é peru com um molho verde.
– Isto era para meu comandante de divisão – informa o italiano cujo nome,
diz-lhes ele, é Luigi Trantino. – Eu lhe darei outro prato. Os convidados de
Luigi têm direito à boa comida.
Saboreiam o peru com vinho de montanha servido num enorme jarro.
. – Sou um bravo soldado – afirma Luigi, apontando para uma fileira de
brilhantes fitas de condecorações em seu peito. – Estas eu ganhei na Abissínia.
– Ah, sim. Você estava ali ensinando aos pretos a verdadeira fé romana? –
pergunta Tiny. Luigi concorda com a cabeça, incapaz de falar com a boca cheia
de peru.
– Eles entendem depressa. Apenas um Deus!
– Naturalmente – concorda Porta, recostando-se e colocando mais um
pedaço de peru na boca escancarada.
– Como é aquela gente por lá? – pergunta Tiny, curioso. – Eles mordem?
– São boa gente – diz Luigi, fazendo um gesto com o garfo. – Eles não têm
mau cheiro, como dizem os americanos. Este negócio de raça não faz sentido.
– A mim também não incomoda – exclama Porta, mergulhando um pedaço
de pão no molho verde.
– Antes da guerra eu tinha um hotel de primeira categoria – proseia-se
Luigi. – Todos os homens importantes vinham comer comigo. Musso comeu
duas vezes. Era um grande harém! Toda a espécie de mulherio! Todas! Depois,
os porcos fascistas fizeram os pacíficos italianos irem lutar na guerra! – suspira
ele. – Os soldados ocupam meu hotel. Fazem-me usar uniforme. Tudo uma
merda! A África é terrível! Durante muitos meses, nunca vi uma zuppa de
calamaro. Não há cultura por lá. Tão ruim como na Alemanha, um italiano
morre de corpo e de alma, se ficar lá muito tempo.
Os ajudantes trazem o próximo prato.
– Pasta com le sarde – anuncia Luigi, orgulhoso. – Isto a Máfia come,
quando seus chefões planejam grandes golpes.
Porta estala a língua.
– Vocês romanos certamente sabem como gozar a vida.
– Nós não somos lá tão ruins – admite Luigi.
– Você tem espaguete? – pergunta Porta. – Sabe: com molho pardo e
coberto com queijo.
– Naturalmente que temos! – E a encomenda é passada imediatamente para
a cozinha. – Quando eu monto um bordello nunca aceito pequenas que não
foram criadas com Spaghetti alla Carbonara – confidencia Luigi, deliciado. –
Lubrifica bem por dentro!
Tiny serve-se de uma enorme porção de espaguete do prato no meio da
mesa. Mastiga, engole e luta bravamente com a massa.
Parece que o espaguete jamais vai desaparecer por sua garganta abaixo.
Vagarosamente, o rosto dele começa a ficar azulado.
– Com isto deve-se comer queijo – diz Luigi, com um ar profissional.
Tiny inclina a cabeça, com a boca inteiramente cheia. Sacode o queijo
sobre o que parece tiras quilométricas de espaguete.
– Ele vai morrer – diz Porta, observando com interesse o rosto arroxeado
de Tiny.
Desesperado, Tiny agarra o espaguete com ambas as mãos e arranca-o da
boca.
– Por amor de Deus! Como é que vocês italianos conseguem continuar
vivos com uma refeição de espaguete? – geme ele.
– Você precisa aprender a comer – explica Luigi. – Veja só! – Como um
relâmpago, ele enrola o espaguete em torno do garfo. – Veja de novo! – diz
novamente cheio de segurança, e repete o truque várias vezes.
Porta e Carl desistem logo, mas Tiny, em sua teimosia. atrapalha-se todo
com o espaguete. Por fim, desiste e passa a comer o resto com os dedos.
– Este é um lugar de merda – declara sombrio Luigi, quando eles já
digeriram em silêncio durante algum tempo. – Os oficiais são todos uns merdas.
Já estou cheio deles; são uns tremendos glutões. Reclamam sempre que o vinho
está muito novo ou que está frio demais. Querem comer pato assado, caça,
lagosta. Eles não parecem saber que estamos no meio de uma guerra de 30
anos, com fome e miséria por toda a parte. Fico tão danado que me dá vontade
de mijar neles.
– Vocês comem e bebem bem – diz uma voz subitamente ao lado da mesa.
– Que diabo é isso? – grita Luigi, e quase não pode acreditar em seus
olhos.
Um negro, preto como carvão, usando um fez vermelho na cabeça, vestido
com uma túnica de uniforme iugoslavo cinza-azulado está de pé na beira da
calçada rindo-se abertamente. No pé esquerdo, calça uma bota de tropa de
montanha italiana; no pé direito, uma comprida bota de montaria de oficial
alemão.
– Vocês comem bem – repete ele, apontando para comida na mesa. –
Deem-me um pouco!
– Os bons modos fazem o homem, meu bom preto velho – diz Porta, com
dignidade. – Você está em companhia de brancos.
– Vá-se foder, alemão! Quer que lhe arrebente os dentes?
– Isto me faz perder a porra da cabeça – grita Tiny, indignado. – Não ê que
a porra dos colonos aprenderam a falar! Está indo para a porra do Reich,
companheiro?
– Se ele está indo para lá, vai ter um choque – diz Porta. – O socialismo
não é o que dizem!
– De onde vem você, negro? – pergunta, curioso, Luigi.
– Foda-se você também, spaguetti. Não perguntei de onde você apareceu,
perguntei? Arranje-me alguma comida! – E puxando uma cadeira, senta-se à
mesa sem esperar por convite, empurrando o prato de Carl para o lado a fim de
abrir espaço.
– Beppo! – grita Luigi para a cozinha. – Traz uma lagosta. Você gosta de
molho forte? – dirige-se ao negro, com um sorriso maroto.
– Posso comer fogo, se quiser.
– Por Deus que eu gostaria de ver isso – exclama Tiny. – Vi alguém fazer
isso no Reeperbahn. mas era uma puta.
– Diabo Especial Vermelho nº 1 – ordena Luigi para a cozinha, com um ar
de expectativa estampado no rosto.
Porta levanta-se e vai para a cozinha ajudar Beppo.
– Chili – ordena ele, esvaziando uma lata inteira de pó no molho. Uma
colher ou duas de pimenta de Caiena e um toque de caril preto. Lembra-se em
tempo de juntar algumas pimentas vermelhas.
– Páprica é cheia de vitamina e – diz Beppo, passando-lhe uma lata grande
do condimento.
– Beleza de comida – diz Porta rindo e terminando com uma enorme
porção de alho em pó.
Beppo ri tanto que quase deixa cair as cinco lagostas ao trazê-las para a
mesa.
– Serviço demorado! – reclama o negro albanês.
– Aqui está o molho especial – diz Porta – mas estou certo de que será forte
demais para você. Apenas homens brancos o suportam.
– Nada é forte demais para mim – brada o negro, proseando-se, e
apanhando uma lagosta arranca a parte carnosa dela, quebra-lhe as garras com
os dentes e mergulha tudo no molho Diabo Vermelho.
Porta observa-o com os olhos arregalados como alguém assistindo a uma
tentativa de suicídio.
– Vocês acham que devemos chamar os bombeiros? – pergunta Beppo,
encarando, firme, sua vítima.
O negro enfia a lagosta na boca e engole-a. Seu rosto fica subitamente
cinzento, endurece, sua boca se abre, e terríveis caretas espalham-se por sua
cara. Por um momento, parece já estar morto.
Tenta falar. Nenhum som escapa-lhe dos lábios.
Polidamente, Porta oferece-lhe vinho.
Ele o agarra e engole o conteúdo do jarro. Agora e que o molho começa
realmente a agir. Corno um foguete, o preto pula no ar, ansiando para respirar,
corre em círculos e depois sai pela cozinha de onde pula para fora através de
uma janela aberta. Emite um longo guincho agudo e para um momento ao lado
da mesa.
Automaticamente, Porta oferece-lhe o jarro de vinho. Ele engole o resto do
vinho e o molho passa a queimar mil vezes mais do que antes.
– A-a-a-a-ah! – berra o preto, como um lobo atingido por uma carga de
chumbo. Com uma das mãos agarra o estômago e com a outra a garganta. Rola
de costas pelo chão agitando as pernas no ar. A bota de alpinista italiano voa
pelo ar. Seu corpo se torce em um arco e ele se arrasta pela rua coleando como
uma serpente. A seguir, fica de novo em pé, pula para dentro do rio e bebe de
sua água como se estivesse tentando esvaziá-lo.
Pouco depois, sai de dentro d’água e sobe um barranco quase vertical como
se fosse um cabrito montes.
– É de espantar o que esses malditos canibais podem fazer quando querem,
não é? – exclama Tiny.
– Que diabo vocês puseram no molho? – pergunta Luigi.
– Uns tranquilizantes que farão dele um bom rapazinho – diz Porta, rindo.
Algum tempo depois, o negro volta. Parece um homem que cruzou o
Deserto de Góbi a pé. Oferece-lhes polidamente sua mão para cumprimenta-los.
– Você já vai embora? – pergunta Porta.
– Vou de volta para a Líbia!
– Fazer o que por lá? – pergunta Tiny.
– A comida por aqui não combina comigo!
As lagostas de Beppo excedem a todas as expectativas deles. Porta elogia-
as entusiasmado.
Luigi segura uma das garrafas como se tora um bastão de marechal.
– Em breve acaba tudo por aqui. Estou pronto para ir-me embora, mas não
voltarei para a Itália um homem pobre! – sussurra ele, confidencialmente.
– Você faz muito bem – diz Porta, lambendo os beiços. – Apenas os tolos
saem de uma guerra mais pobres do que nela entraram.
– A maior parte é idiota – afirma Luigi, mergulhando um
pedaço de lagosta no molho de maionese com alho.
– Deus seja louvado – sorri, feliz, Porra. – É Seu trabalho!
– As coisas serão boas de novo na Itália – afirma Luigi.
– Não estou interessado na guerra. Tenho na Itália aquilo de que necessito.
– Esta é também a maneira como vejo as coisas – concorda Porta. – Tudo o
que eles fazem conosco alemães e com vocês italianos é mergulhar-nos nesta
merda de guerra para morrermos.
– Dê lembranças nossas na Itália – diz Tiny, no meio de uma bocada de
lagosta. – Talvez nós não iremos chegar muito depois de vocês.
– Gesú, Gesú! – exclama Luigi horrorizado, quase engasgando com sua
própria lagosta. – Que a Madre di Christi impeça isso!
– Ele se benze e rola os olhos para o céu, – Espero que o último dos
alemães tenha deixado a Itália antes que eu volte para lá!
– Por quê? Então você não gosta de nós? – pergunta Porta, surpreendido. –
Nós somos aliados e estamos ombro a ombro numa guerra que nos foi imposta.
– Não estou dizendo que os italianos não gostam dos alemães – fala Luigi,
sacudindo a cabeça. – Como nós estamos agora somos bons camaradas, mas
quando se juntam muitos fazem barulho demais e ocupam muito espaço.
– Há algo no que você diz – admite Tiny, lambendo o resto do prato de
maionese de alho.
– Vocês atiram a toda a hora – insiste Luigi – e não compreendem como é
perigoso. Você atira num homem e ele atira de volta em você na maioria dos
casos.
– Isso é verdade – diz Porta, suspirando.
– Vocês querem café ou conhaque? – pergunta Luigi, levantando-se.
– Comi tanto que quase não posso me mover – diz Porta, desabotoando a
cintura da calça. – Adoro comida. Poderia viver apenas para comer!
– Você tem tudo de bom por aqui. – Carl elogia Luigi ao provar seu
conhaque com ar de connoísseur.
– Aqui vai tudo bem – admite Luigi, esticando confortavelmente suas
pernas. – Só desejo liberdade. Talvez os Tommies venham em breve e nos
ataquem com tanta força que nós nem vamos querer reagir.
– Ainda sobrou algum? – pergunta Porta. estendendo seu copo de conhaque
para Luigi. – Só Deus sabe quando veremos de novo uma bebida como esta.
Sorrindo, Luigi enche-lhe o copo até a borda de forma que Porta tem que
inclinar-se para beber. Ele suga a bebida como uma vaca bebendo água.
– Eles estão levando uma boa sapecada agora – diz Tiny, cuspindo na
direção de um cartaz de recrutamento no qual aparece um soldado SS
idealizado.
– Ontem eu vi um general passar por aqui, com uma porção de coisas
saqueadas num caminhão que o seguia. E foi apenas ontem – diz Luigi. – O que
é um bom sinal.
– Há cortes marciais funcionando sumariamente em toda a parte – diz
Porta, deixando escapar um peido barulhento. – Em breve, haverá mais cães de
guarda aqui do que soldados. Mesmo a falta de munição não os faz parar; eles
sempre arranjam uma viga e uma corda. Se poupar o chicote, você estraga a
criança, como dizem os pedagogos.
– O Grande Exército alemão está reduzido a uma merda, como se poderia
dizer – suspira Tiny, atirando para trás por cima da cabeça um pedaço de torta
de maçã para grande júbilo de um cachorro que está por ali e que pronto o
engole.
– Vou terminar esta famosa campanha em Germersheim e levarei
vantagem como uma pessoa politicamente perseguida, quando voltar para casa
– diz Carl, rindo satisfeito. – Isto poderá levar-me longe. Os vilões de ontem
são os heróis de amanhã.
– Não se ria cedo demais – adverte Porta, agourentamente. – Não vai
demorar muito até que todos os idiotas se curem do choque de haver perdido
uma guerra.
– Dizem que toda a porra do Nono Exército desertou para o inimigo – diz
Tiny, em tom de quem confia um segredo.
– O Nono Exército? Este foi derrotado há muito tempo – fala Carl, bastante
admirado.
– O Generalfeldmarschall Von Mannstein está sentado numa montanha na
Polônia chorando como uma criança – revela Porta, confidencialmente.
– Ele não é nenhum Mannstein – fala Tiny, o sabe-tudo.
– Ao nascer chamava-se Levinski, um nome que não agrada nada a Adolf.
Digam vocês o que disserem, mas isto é uma coisa muito surpreendente!
– É uma coisa engraçada. As boas notícias nunca aparecem nos jornais do
Exército – filosofa Luigi.
– O Führer disse que não há mais necessidade de gênios táticos para as
operações – explica Porta. – Agora temos que ter comandantes-de-exercito do
tipo cabeça-dura que nos conduzam à batalha com um feliz grito e que
permaneçam na frente de combate.
– Então isto será o maldito fim de tudo – confirma Tiny, com um ar
importante. – Um exército de carneiros que a nada reage...
– Que amontoado de malditas mentiras nos foram impingidas nos últimos
anos – diz Carl, desanimado.
– Além de uns poucos de nós, todo o mundo acreditou nelas – acrescenta
Porta, sorrindo com seu riso superior.
– E o pior é que muitos ainda acreditam nelas – murmura Luigi.
– Deveriam ser fuzilados – diz Tiny.
– Nossos líderes de guerra perderam o comando de suas rédeas – decide
Porta. – A saúde deles, companheiros!
– Alguma vez tiveram o comando das rédeas? – pergunta Luigi, com ar de
surpresa. – Penso que os alemães sempre foram gente engraçada. De cabeça
quadrada!
– Gröfaz* em breve estará sendo frito em sua própria gordura – diz Tiny,
sempre otimista.
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* Gröfaz (Grosster Feldher: aller Zeiten): o maior líder militar de todos os
tempos (termo de gíria para Hitler).
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– Nós estamos marchando em direção a tempos difíceis – fala Porta. – Em
breve não poderemos fazer meia-volta sem sermos chamados de desertores.
– Eles devem estar todos loucos no QG do Führer – opina Carl.
– Aqueles a quem Deus deseja que se fodam, ele primeiro cega – explica
Porta, com uma voz patética.
Uma companhia de recrutas aproxima-se cantando ao descer a coleante
trilha da montanha. Suas botas e seus equipamentos estão limpos e polidos e
seus capacetes do tipo novo brilhantes, com a águia ao lado.
Porta coça as costas com a baioneta e observa, pensativo, os recrutas que
cantam.
– Quando você vê um bando de heróis alemães arrumadinhos como estes,
todos limpinhos e lustrosos, quase que poderia acreditar que o mito do
heroísmo alemão ainda existe.
– Daqui a três dias, os guerrilheiros terão liquidado com esses garotos –
afirma, lacônico, Luigi.
– Graças a Deus que estávamos aqui no começo – diz Porta – pois de outra
forma não estaríamos vivos agora.
– Os velhos soldados nunca morrem – suspira Carl, espreguiçando-se de tal
forma que a cadeira de vime na qual está sentado quase desmonta.
Tiny solta um longo arroto que faz com que o primeiro-sargento que
comanda a companhia fique imóvel.
– Vocês não sabem fazer continência? – pergunta ele, zangado.
Todos os quatro fazem continência em silencio, mas sem se levantar de
suas cadeiras de vime.
Um barulho de trovoada aproxima-se vindo do leste e rola cada vez mais
para perto, como uma tempestade que rapidamente se aproxima. Uma salva de
projéteis cai com grande estrondo na cidade, levantando para o céu uma chuva
de terra e de fogo. Uma comprida fiada de casas desaparece numa grande
nuvem de cal. A escola do outro lado da rua é levantada do chão, eleva-se no ar
e cai em pedaços vagarosamente. O teto cai intato em cima das paredes
pulverizadas.
O sargento comandante da companhia é cortado em dois e seus pedaços
jogados para cima na encosta da montanha. A companhia de recrutas dissolve-
se num mar de chamas.
Luigi desaparece com espantosa velocidade numa trincheira aberta,
seguido de perto por Porta e Tiny. Carl apanha uma cadeira de vime e cobre
com ela a cabeça na estranha esperança de proteger-se do shrapnel que chove
por todos os lados em volta dele.
O choque de uma granada ao explodir joga-o numa depressão do terreno.
Uma granada consegue um impacto direto na casa na qual se estabeleceu a
cozinha da divisão. Nuvens negras de fumaça sobem para o céu, à medida que a
casa desmorona vagarosamente sobre si mesma. Apenas a chaminé e uma
enorme e brilhante caldeira de cobre permanecem intatas.
O grande toldo verde, vermelho e branco levanta voo e vem aterrar
gentilmente sobre a trincheira.
– As cores da velha Itália! – diz Luigi, orgulhoso. – Elas dão sorte!
Cai uma nova salva. Suas bocas estão cheias de poeira de tijolos. As
árvores da encosta estalam como palitos de fósforos e sobem para o ar. Corpos
em pedaços caem por cima dos telhados.
Um par de cavalos é arremessado longe, encosta acima. A rua transforma-
se num vulcão de pedras e lascas de madeira voando.
– Vamos sair daqui! – grita Porta. – Você vem conosco, Espaguete? Aqui
não se precisa mais de sua arte culinária!
Luigi fica parado pensando por um momento. Depois, coloca na cabeça seu
emplumado chapéu de bersaglieri, lançando um último olhar amoroso ao
colorido toldo.
– Si! Vou agora para casa na Itália!
Carl vem descendo a rua correndo com a cadeira de vime ainda
precariamente cobrindo-lhe a cabeça.
– Quem pelos diabos está atirando tanto? – pergunta ele, excitado.
– Telefone e peça informações – sugere Porta.
Para seu espanto, encontram a Mercedes sem qualquer dano no meio de
toda a destruição.
– O diabo cuida das coisas da Gestapo – diz Porta, rindo, ao deixarem a
cidade a toda velocidade.
Sobem por uma estreita trilha de montanha, o instinto de Porta acautela-o
para não usar a estrada mais larga e pavimentada.
– Para onde vamos? – pergunta Luigi, alisando suas plumas.
– Para um lugar muito distante – murmura, misteriosamente, Tiny.
– Jesus Cristo! Essas guerras modernas são terríveis – fala Porta.
– Você acha que elas tinham mais graça antigamente? – pergunta Carl.
– Completamente diferente, completamente! – responde Porta. – Um cara
chamado Marius derrotou os címbrios, com a ajuda de cães de guerra.
– Isto é uma porra de uma mentira – exclama Tiny. – Mas naquela época
deveria ser muito mais divertido. Cães de guerra! Nós logo daríamos um jeito
neles.
Um major Jaeger fá-los parar e ordena–lhes que lhe deem uma carona.
Tiny passa para o banco de trás entre Carl e Luigi; entram em Kralfero na
frente de um batalhão de caçadores.
O major inspeciona a Mercedes com olhos suspeitosos.
– O que estão fazendo por aqui? – pergunta.
Porta entrega-lhe tranquilamente seus documentos forjados.
– Oh! Oh! – rosna o major, examinando pensativamente as ordens de
movimentação e bilhetes para a estrada de ferro. – Vocês não estão um pouco
fora do caminho para Viena?
– Com o devido respeito, senhor, os guerrilheiros não nos permitiriam
tomar a rota direta – diz Porta, sorrindo amavelmente.
– O que está fazendo esse italiano com o Exército alemão? – rosna o major
em dúvida, e pede os papeis de Luigi.
Este procura desesperadamente em seus bolsos pelos papéis.
O major acena para dois PMs, mas antes que eles cheguem ao carro são
atingidos por uma rajada de fogo de metralhadora.
Sobre a rua chovem granadas de mão; dos tetos, metralhadoras abrem fogo
sobre o batalhão Jaeger. Soldados feridos rastejam gemendo ã procura de
abrigo. Coquetéis Molotov explodem com um som oco; o líquido inflamado
atinge homens e objetos.
– Guerrilheiros! – brada o major, pulando do carro.
Porta faz-lhe uma continência e sorri como um idiota.
– Sim, senhor! Parece que vão liquidar-nos. Parece!
Uma saraivada de balas de metralhadora varre a rua e sacode os corpos dos
homens já mortos.
Porta dá uma marcha à ré no carro de encontro à parede de uma casa, de
onde eles podem observar o drama em comparativa segurança.
Um carro blindado no qual está montado um canhão automático aparece na
esquina metralhando as paredes e os tetos das casas. Granadas de mão voam
pelas janelas para dentro das casas. Um comprido lençol branco desenrola-se de
uma das janelas. Os soldados invadem as portas das casas; pouco depois,
corpos de homens e mulheres são jogados das janelas, batendo no pavimento
com um som surdo.
Dois Pumas lançam-se para a frente, suas metralhadoras despejando
rajadas de balas traçadoras através das janelas.
Subitamente, aparece de novo ali o major.
– Você está preso! – grita ele, apontando a pistola para Luigi, mas cai para
a frente com um arquejo.
Tiny rola para um lado, a fim de evitar que o corpo do major caia em cima
dele.
A Mpi de Carl abre fogo. Uma figura cai de um telhado; logo após ela,
despenca do mesmo lugar uma Mpi.
Uma hora depois, tudo está resolvido. Os prisioneiros são amontoados
numa igreja com os soldados furiosos a rodeá-los.
– Esta cadela matou o Herbert da quarta bateria! – grita um gordo sargento
de artilharia; dá um soco na cara da mulher, rebentando-lhe os lábios e a seguir
dá-lhe um chute entre as pernas.
– Cadela! – gritam os outros. – Acabe com ela!
Um tenente consegue aproximar-se por entre a multidão.
– Atenção! – grita ele, a voz estridente com a raiva.
Os soldados enraivecidos nem o notam até que ele atira para o ar com sua
pistola.
– Os prisioneiros têm que ser tratados corretamente – ordena ele. – Nós não
somos bandidos como o inimigo! Estamos estabelecendo uma corte marcial
sumária e eles todos serão fuzilados, mas primeiro têm que ser julgados.
– Esperem, seus filhos da puta. Nós vamos arrancar-lhes as tripas pelo olho
do cu! – ameaça um sargento de caçadores a três prisioneiros que estão de
encontro a uma parede, com as mãos cruzadas atrás da nuca.
– Por que desperdiçar tempo julgando-os? – pergunta um cabo de um
batalhão de sapadores. Aponta para uma mulher jovem que está de pé num
canto – Aquela cadela ali é minha. Por Deus do céu que ela vai se divertir antes
de morrer.
– Vocês ouviram o que o tenente disse – adverte um sargento de cavalaria a
alguns soldados que estão começando a dar sinais de fazer mais do que
ameaçar. – Nós somos o Herrenvolk, mas não somos brutos!
– Quando Ivan, o untermensch, passar por aqui, esses filhos da puta vão
ver a diferença – exclama um sargento, maliciosamente.
Um soldado alto e magro espeta um rapazinho com o cano de sua Mpi.
– Este porco destruiu nossa viatura-cozinha. Ele é o patife a quem temos de
agradecer por não termos comida quente hoje.
– Amasse a cara dele – sugere uni velho soldado de infantaria com um
salsichão debaixo do braço.
Um oficial auditor estabeleceu-se por detrás do altar que, com a ajuda de
uma bandeira, tinha-se transformado num tribunal. Seus óculos sem aros
refletem a luz para baixo sobre duas fileiras de prisioneiros alinhados a sua
frente. O oficial pigarreia, apanha uma longa lista e com uma vozinha fina
começa a recitar-lhes os nomes. Depois de cada nome, levanta os olhos e diz
solenemente:
– Em nome do Führer e do povo alemão, sentencio-o por morte por
fuzilamento!
Ele repete isso 67 vezes.
Os sentenciados são levados para fora da cidade. Numa cascalheira a dois
quilômetros de Samaila, os sapadores entregam a cada um deles uma pá, para
cavarem um longo fosso como sepultura comum. Esta é a maneira mais prática
de fazer as coisas.
Quando acabam o serviço, limpam as pás antes de devolvê-las a seus
captores. Eles são camponeses pobres e sabem o valor de uma pá.
Um tenente muito jovem está no comando do pelotão de execução. Ele sua
e gagueja nervosamente.
Os prisioneiros são alinhados ao longo da beira da vala comum de forma a
caírem de costas diretamente dentro dela.
– Vamos, vamos! – grita o tenente. – O próximo, o próximo, vamos nos
mexendo aí!
O rapaz que destruiu a viatura-cozinha está tão assustado que cai dentro da
vala e tem que ser puxado de novo para fora por seus companheiros.
Alguns deles começar a cantar a Internationale e a gritar “Nazistas
assassinos!”
O coronel, que veio ver a execução, expressa sua admiração pela conduta
dos prisioneiros.
– Excelente, excelente! – diz ele. – Muitos traidores alemães poderiam
aprender algo com essa gente. Ê um prazer vê-los!
– Deus sem dúvida levará tudo em consideração –– comenta o ajudante,
engolindo com dificuldade.
– Eles o merecem – diz o coronel, um homem profundamente religioso.
Quando o último homem é executado, a terra é jogada sobre os corpos e os
sapadores pisoteiam em cima para acomodá-la.
Porta vai buscar a Mercedes e leva-a para uma estrada primitiva de terra.
Uma ponte na estrada principal foi dinamitada.
Subitamente, ocorre uma tremenda explosão e a estrada abre-se ao meio.
Uma coluna de chamas sobe para o céu. A Mercedes é atirada para cima por ela
e os quatro homens são jogados para fora do carro.
– E agora? – lamenta-se Luigi, sentindo-se infeliz quando estão sentados ao
abrigo de um monte de feno olhando para a Mercedes inutilizada. A única coisa
que resta intata ê o galhardete de comando.
Porta enfia-o em sua cintura, por dentro da camisa; poderá ser-lhes útil em
alguma ocasião.
– E agora? – pergunta Carl, preocupado. – Será que jamais vou chegar a
Germersheim e começar a cumprir meus 10 anos?
– Cada dia que você está conosco é um dia a menos em sua sentença –
conforta Tiny.
– Por que não fiquei com minha própria gente? – lamenta-se, choroso,
Luigi. – Eu ganharia uma nova cozinha divisional.
O Exército italiano nunca faz guerra sem uma cozinha para spaghettí
Carbonara.
Começa a cair chuva quando eles marcham miseravelmente pela estrada. O
frio desce das montanhas. Embaixo, no vale, o Danúbio serpenteia cinzento e
triste, Ao longe. ouvem-se metralhadoras a pipocar.
Ao cair da noite, eles se aquartelam numa pouco convidativa vila nos
arredores de uma aldeia, mas apenas acabam de fechar os olhos Quando são
acordados por um grupo de soldados de infantaria que também estão à procura
de alojamento.
Um tenente esbraveja com eles e ordena-lhes cine mostrem seus
documentos. Estes se queimaram no desastre da Mercedes.
– Amanhã vocês serão entregues à PM – ameaça o tenente. bruscamente.
– Nós somos PMs – diz orgulhosamente Tiny. exibindo sua braçadeira.
No momento em que ele o faz, metralhadoras começam a martelar e
granadas de mão explodem na estrada do lado de fora da casa. Ouvem-se vozes
duras gritando ordens em sérvio.
– Vamos dar o fora – grita o tenente. – Guerrilheiros!
– Vamos sair daqui – sussurra Porta e movimenta-se espertamente pela
porta dos fundos, com seus três companheiros nos calcanhares.
Quando eles saem, um grupo de guerrilheiros entra na vila. Gente com
olhar enlouquecido sai das ruas laterais e coquetéis Molotov são atirados
através das janelas das casas.
– Estão indo em nossa direção? – diz Porta, rindo, pendurando-se num
caminhão de um comboio que está a caminho de Belgrado.
Um pouco antes de chegar a Belgrado, o comboio é atacado pelo ar. O
caminhão no qual eles conseguiram uma carona é desviado para um campo.
Um shrapnel atinge Porta no ombro. O pé de Tiny é esmagado sob uma caixa
de projéteis. Carl tem seu braço quebrado.
Eles se arrastam com todo o otimismo até Belgrado e apresentam-se a um
hospital de campanha. Tiny usa um fuzil como muleta. Luigi tem a esperança
de pegar um trem em Belgrado para a Itália.
– Realmente seria melhor se você também estivesse ferido – diz Porta,
olhando sério para Luigi e brincando com sua Mpi.
– Você receberia um novo jogo de documentos. Em Ubi, eles caem de
novo sob fogo. Uma granada explode em frente a Luigi, rebentando a metade
de seu rosto e um braço. Ele cai gemendo e antes que eles lhe possam dar os
primeiros socorros morre com a hemorragia.
Enterram-no no jardim da casa de um funcionário da estrada de ferro e
penduram o emplumado capacete de bersaglieri numa cruz de bétula plantada
sobre o túmulo.
– Oito dias deve ser suficiente – diz o oficial medico de cara azeda que os
atende no Reserve-Kriegs-Lazarert 109, em Belgrado.
Um artilheiro de flak* diz-lhes com um ar alegre de mau gosto que o
paciente anterior no leito de Porta morreu há apenas uma hora.
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* Flak: canhão antiaéreo.
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– Isto é que é sorte! – exclama Porta, satisfeito. – Não é muitas vezes que
duas pessoas morrem uma após a outra no mesmo leito.
– Eles riscaram meus documentos com tinta vermelha – diz um soldado de
infantaria, de um canto onde está sentado tranquilo, observando uma mosca
que, na cobertura da lâmpada da noite, alisa suas asas. – Vocês acham que eles
vão fuzilar-me, quando eu melhorar?
– É claro que vão fuzilá-lo – diz o cabo de artilharia que está no hospital há
muito tempo. – Você e um caso de ferida autoprovocada. A maior parte dos
caras daqui são birutas – diz ele, voltando-se para Porta. – Se o inimigo pusesse
um espião aqui, ele voltaria e relataria que todo o Exército alemão é constituído
de maníacos. Nós temos aqui um cara do Corpo de Engenheiros (Construções).
Ele foi encarregado de construir uma chaminé para a padaria. De uma estranha
forma, ele acabou de construir a chaminé mas com ele dentro dela e incapaz de
sair de lá. Isto aconteceu numa parte do edifício raramente usada, e ele foi dado
como desertor; se não tivesse acontecido que um padeiro entrasse no quarto
onde ele estava dentro da chaminé, eles nunca o teriam encontrado.
Conseguiram tirar esse biruta lá de dentro com o auxílio de um par de
marteletes pneumáticos Ele ficou na chaminé 12 dias e estava louco furioso
quando o retiraram. Agora, querem que ele confesse que foi uma tentativa de
deserção. Ele diz que não julga que sabia o que estava fazendo e que a
argamassa secou antes que descobrisse onde estava.
– Não podia subir pela chaminé, pois ela estreitava para cima. Agora está
vindo uma comissão de Berlim; fotografaram a chaminé e fizeram desenhos
dela. Tentaram escala-la para certificar-se de que ele realmente não poderia
escapar dessa maneira. Mais ainda insistem em que ele o fez numa tentativa de
deserção.
– Bem, se ele não podia sair da chaminé – diz Porta, em tom sério – seria
difícil desertar!
– É exatamente nossa opinião – fala, rindo, o artilheiro – mas os burocratas
são de opinião diferente. Um PM visita-o diariamente e senta-se em sua cama
gritando-lhe; “Confesse, homem, ou irá sofrer por isso. Você estava tentando
desertar!”
– Eles desejam algum pobre coitado que possam fuzilar, suponho – diz
Tiny, pesaroso. – Uma guerra sem ninguém para executar não é uma porra de
uma boa guerra.
– Há uma porção de gente aqui que está seriamente ferida Eu próprio perdi
ambas as pernas e metade do estômago.
– Você não faz muita questão das rações, então, faz? – diz Porta, com seu
senso prático. – Em tempo de guerra é preciso pensar nessas coisas, sabe?
Como aconteceu?
– Eu estava dormindo num pomar.
– Não parece lá coisa muito perigosa.
– Foi quando um canhão autopropulsor passou por cima de mim – explica
o artilheiro, tristemente.
– Você não está arriscado a ser acusado de automutilação?
– Não, o comandante SP tem que levar a culpa. O pomar era terreno
proibido para exercícios. Tinha sido requisitado pela divisão e eu estava
tomando conta dele. Na ocasião, eu dormia na minha folga do jantar. O chefe
da SP está agora engatinhando na frente oriental descobrindo minas e o
condutor do canhão pegou o dele por dirigir sem cuidado: está na solitária em
Torgau.
– No Bloco B estão os cegos e aqueles que ficaram mudos – diz o
artilheiro. – Eles estão preparando uma enfermaria também para os surdos.
Agora existe apenas um, e eles vão fuzilá-lo na semana que vem. Deixou de
obedecer às ordens: esqueceu-se de colocar seus tampões nos ouvidos. Servia
na artilharia sobre trilhos; a corte marcial reuniu-se à beira de seu leito e
tiveram que mostrar–lhe a sentença por escrito, pois ele não podia ouvi-la lida.
Desde então, ele tem estado a chorar e tentando apresentar-se como voluntário
para qualquer coisa, mas quem deseja um soldado que tem que receber todas as
ordens por escrito?
– Não. Realmente não há tempo para isso, ha? – concorda Porta, pensativo.
– No Bloco A estão aqueles que se ringem de doentes para fugir ao serviço.
A coisa por lá é animada. Logo de manhã cedo eles lhes dão o nº 9 e uma dose
de vomitório, não importa que doença os aflija. A mesma coisa ao fim do dia.
Um caso fingido de tifo morreu disso anteontem. Há um camarada que está
fingindo de maluco há um ano. Tão logo alguém se aproxima dele, põe-se a
rosnar como um cão e atira-se às pernas da pessoa. O caso mais interessante de
todos, porém, e este rapaz no leito aqui ao lado. Quebrou o pescoço, de
verdade, tentando ensinar a seus camaradas como dançar a prisjatska. Tentou
duro demais e, quando chegou na hora do grande pulo no ar, errou o caminho e
voou pela janela. Quebrou um mastro de bandeira ao cair, deu urna cambalhota
e teria aterrado de pé não fora ter virado de novo ao bater no quadro de notícias
do regimento. Desta forma, ele aterrou de coco e quebrou o pescoço. E vai
custar-lhe também uma fortuna. Já lhe disseram que seus danos não podem ser
considerados como consequência do cumprimento do dever e que ele terá que
pagar por todos os estragos que causou e pelo tratamento.
– Isso ira ensiná-lo a manter-se afastado dessas malditas danças russas –
filosofa Porta. – Para mim, prefiro algo mais intimo; pelo menos você tem um
par a quem agarrar-se quando está dançando uma valsa.
– Deveríamos realmente chamar o padre e livrar nossas consciências de
todo o pecado – diz um dragão.
– De forma que a gente possa começar com a ficha limpa. Você está certo!
– concorda Porta.
A porta se abre violentamente, bate de encontro à parede e um soldado
miúdo, em uniforme cinza da Finlândia, entra fazendo grande barulho na
enfermaria. Em seu ombro, ele carrega um uniforme de capitão novo em folha.
Bate os calcanhares e faz continência.
– Cabo de caçadores Jussi Lamio, de Taijala, mandado para cá por engano.
– Pendura o uniforme de capitão no abajur, chega-se para a mesa, corta duas
fatias de um comprido pão e põe entre elas um grosso pedaço de salsichão.
– Algum de vocês esteve em Naesset? – pergunta, entre bocadas.
– Agora dispa-se e meta-se na cama – ordena uma enfermeira entrando na
sala. – Saia de cima desta mesa e retire aquele uniforme do abajur!
– Vocês, cadeias alemãs, são boas para dar ordens! – replica Jussi. – Não
se engane: eu sou o Cabo Lamio, do 3º Batalhão Sissi, e em Kariliuto chamam-
me de o “flagelo de Deus”. Na Karelia, não toleramos que nenhuma cadela
alemã nos diga quando ir para a cama. Se nos queremos sentar-nos na mesa,
nos sentamos na mesa, por Deus do céu. Odeio mulheres tentando nas ordens.
O lugar das mulheres é na cozinha ou então divertindo-nos na sauna!
A enfermeira sacode a cabeça e sai tão logo arrumou a cama.
– Em Naesset nós demos um jeito num batalhão de cadeias de Leningrado,
e muito bem! Elas eram verdadeiras filhas de Satã. Não como essa titica aí que
pensa que pode dar ordens a um cabo finlandês. Quando eu quero sentar-me na
mesa, eu me sento na mesa.
– Mulheres soldados? – Pergunta o artilheiro antiaéreo, admirado.
– Na Rússia não é necessário ter um cacete pendurado entre as pernas para
fazer o sujo trabalho de infante nas trincheiras. Essas cadelas comunistas nos
serviram com suas balas de metralhadoras, enquanto elas duraram. E depois
avançaram com as coronhas dos fuzis. Éramos duas companhias de caçadores
do Batalhão Sissi e ficamos em suas pegadas todo o tempo desde Suomisalmi.
Foi uma marcha dura: muitas vezes estávamos em território inimigo.
Movimentamo-nos tão rapidamente que era difícil viver uma vida normal.
Aquelas russas podiam sentir a nós finlandeses soprando em suas nucas todo o
tempo. Nosso comandante de companhia, filho de pagãos de Lahti, que só tinha
na cabeça morte e mulheres, decidira que iria pegar algumas dessas mulheres
de Leningrado. Pessoas que leem mais do que a Bíblia e sabem do que estão
falando, dizem que é maravilhoso pegar uma dessas cadeias ideológicas num
monte de feno. Talvez devêssemos ter lido alguns desses livros nas bibliotecas
que queimamos em nosso trajeto. Por duas vezes, estamos próximo de pegá-las.
Ai! Mas essas cadeias eram danadas! Você pode sentir no ar esta fanática febre
comunista. Nós lhes prometemos tudo, se elas apenas levantassem as mãos e se
entregassem. Nosso capitão tinha um aparelho para ampliar sua voz e podia
falar russo, de forma que sabiam o que nós lhes estávamos dizendo.
“Veruski roj!”
“Mas elas não arriavam as armas. Não sei quantas vezes ele gritou
“Stoi!”com seu aparelho. Não sou um contador mas foram muitas vezes.
Nenhum homem formado ã imagem de Deus pode persuadir essas cadelas
comunistas a arriar suas armas e terminar a luta.
Jussi lança uma enorme cusparada através da janela e pega uma nova fatia
de salsichão. Ele está mascando tabaco ao mesmo tempo que come.
– Fica gostoso assim? – pergunta Carl, admirado.
– Se não ficasse eu não o faria, não acha? – responde o pequeno finlandês.
despreocupado. mordendo o pão. – Por fim, nós encurralamos aquelas cadeias
contra o mar. onde elas só poderiam voltar para casa nadando – continua ele. –
Mas sua política não as havia feito tão loucas que fizessem isso. Bem, nós
somos cristãos. a maioria de nós, e sentimos que é errado fuzilar mulheres,
mesmo quando elas são umas cadeias-soldados comunistas. Atiramo-nos com
tanta força sobre elas a princípio, mas em breve tivemos que mudar de ideia.
Elas cantam canções pagãs e atiram-se sobre nós com pás de infantaria, de
forma que temos que costurá-las pela frente e pelas costas com nossas balas de
metralhadoras. Nossas Suomis* ficaram rubras. Mas tivemos que continuar até
que todas elas estivessem mortas como arenques na praça de Wiborg.
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* Suomis: jargão para a metralhadora Mpi finlandesa.
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Então confiscamos o que elas tinham e havia muitas coisas boas para levar
conosco. Nosso capitão, aquele filho de um demônio, ficou com todo o cabelo
delas. Disso, ele mandou fazer belas escovas que pendurou nas paredes de sua
casa para recordar-se dessas cadelas-soldados de Leningrado.
A enfermeira volta com dois sargentos do corpo médico que estão ansiosos
por entrar em ação, mas antes que eles possam dizer uma palavra, Jussi desce
da mesa, coloca seu barrete de esquiador finlandês na cabeça, faz continência e
começa em alta voz a cantar:

Foi a guerra que levou nossos pés


Através do granizo, da neve e da chuva.
Nós fomos para onde as balas zunem
Longe da pátria, dos amigos e dos parentes.
A vida aqui nas trincheiras
Não é só pagode,
E talvez no fim
Morra-se pelo que se defende.

– Não diga nada mais – fala ele, voltando-se para a enfermeira. – Já desci
da mesa, tirarei o uniforme de oficial do abajur e irei para a cama. Mas não se
engane: isto eu faço porque desejo, não porque você diz que devo fazê-lo. –
Sem sequer um olhar para a enfermeira e os dois sargentos, ele pendura o
uniforme de capitão finlandês na cabeceira do leito, escova-o cuidadosamente
com uma pequena escova de roupa, dá um polimento no leão finlandês na
lapela e faz continência para ele.
Silenciosamente, despe-se e enrola seu próprio uniforme, como é de hábito
no Exército finlandês.
– Que espécie de uniforme é esse que você tem aí? – pergunta Porta,
interessado.
– Você pode ver que é o uniforme de capitão finlandês de caçadores.
– Por que, diabo, você anda com isto por aí? Você não é capitão! –
comenta Tiny.

– Por Jesus Cristo Nosso Senhor! Esses alemães são estúpidos. Não
entendo como vocês jamais ousaram entrar numa guerra! Vocês nem sabem
que a galinha Ó maior do que os pintos. Quem disse que eu sou um capitão de
caçadores? Se alguém o disse, então eu o declaro um mentiroso. Eu sou um
cabo no Batalhão Sissi e o uniforme eu apanhei no alfaiate em Kuusamo. O
Capitão Rissanen deveria usá-lo para uma bela recepção, mas, louvado seja
Nosso Senhor, nós ainda não pagamos um marco pelo uniforme. O capitão sem
dúvida ainda estará sentado de cuecas esperando por mini. A única coisa que
ele tinha era seu uniforme de combate com o qual vinha perseguindo o inimigo
há muitos meses, de forma que estava meio gasto e manchado. Ninguém pode
ir a uma bela festa com bonitas mulheres e elegantes oficiais de estado-maior
com uma velha túnica de batalha finlandesa de verão, mesmo que ela tenha
estrelas na gola. Mais cedo ou mais tarde, ainda entrego este uniforme a ele.
Acho que devo telefonar-lhe antes de voltar. Devo dizer-lhes que o Capitão
Rissanen pode esquentar a cabeça e ficar muito zangado. Ele esteve internado
por algum tempo no Asilo Lapintahti, próximo a Helsinque, porque, num
acesso de raiva, atirou num guarda-florestal; quando veio esta guerra, porém,
eles verificaram que estavam com falta de oficiais e declararam-no bom de
novo. O coronel tem ordens para não excitá-lo; quando ele não está zangado, é
um homem muito bom. Se não fosse por causa de vocês, estúpidos alemães, ele
teria recebido seu uniforme há muito tempo e teria podido ir a muitos bailes e
festas elegantes.
– Não diga besteiras – fala o artilheiro antiaéreo, rindo. – Como podemos,
nós alemães, ser responsáveis pelo fato de seu capitão não haver recebido seu
uniforme?
– Se você jamais tivesse encontrado seu regimento de artilharia de
montanha SS Nord, não estaria fazendo esta pergunta tola – responde Jussi,
abrindo os braços num gesto desanimado. – Eles me ordenaram seguir com o
regimento, fizeram um barulhão e disseram uma porção de coisas sem sentido
em alemão. Como vocês estão ouvindo, sou capaz de falar um bom alemão,
mas aqueles camponeses não podiam entender-me. Em Culu, eu me vi
subitamente, de uma forma estranha, a bordo de um grande navio que se
chamava S.S Niedeross e nesse navio viajamos por muitos lugares que eu
jamais teria visto, se aquela gente da caveira não me houvesse feito
acompanha-los. Depois, mandaram-me de regimento para regimento. Não é
impossível que não estivessem pensando em meu bem-estar e querendo aliviar
a monotonia desta guerra para mim. Estive em Ssennosero, Kliimasware.
Rovaniemi e Karunki, e então um dia fui mandado para Hammerfest com a
1694 Divisão de infantaria da Turingia. Dali, continuamos de navio, um feio
navio que parecia um penico, e me parecia que todo o mundo estava de certa
forma com medo. Nós nos deslocávamos como se o próprio Satã estivesse atrás
de nós virando o hélice. íamos a terra e rapidamente de novo embarcávamos.
Estivemos em muitos, muitos lugares na Noruega. Não sei o nome de todas as
cidades; elas nada tinham de especialmente notável, de forma que não havia
razão para lembrar-me delas.
“Certa manhã, chegamos a um novo país, a Suécia. Todas as viaturas
foram seladas e esses homens suecos andavam por toda a parte armados e
tentavam parecer muito terríveis. Em vez disso pareciam tolos. Se o inimigo os
tivesse visto, teria ido para a casa tranquilizado.
“Em Engelholm, 23 homens desapareceram. Os alemães diziam que em
Engelholm sempre desapareciam homens, não importa quão cuidadosa fosse a
vigilância. Era como se Engelholm os engolisse. Aquela viagem foi de fato
muito estranha; todo o mundo cantava e sentia-se feliz até que chegamos a
Engelholm, mas tão logo partimos não se via nada a não ser caras tristes e
desapontadas.
“Em Trelleborg. resolvo dar um passeio mas isto é algo que não se deve
fazer se não se é sueco. Naquele país tudo é idiota e ao contrário. Você aguarda
tranquilamente para cruzar a rua olhando para a esquerda, como lhe ensinaram
em casa, e subitamente surge um caminhão que quase lhe arranca o nariz. Você
entra em pânico e começa a correr, sempre olhando para a esquerda, mas esses
demônios continuam a vir em sua direção de onde menos se pode esperá-los.
Quando chega no meio da rua e começa a olhar para a direita, como as pessoas
sensatas fazem, eles correm para cima de você vindos da esquerda,
perseguindo-o como se você fosse um coelho. Fiquei tão brabo que saquei
minha baioneta e comecei a berrar o velho canto de guerra do Exército
finlandês: “Hug ind, nordens drenge!*”
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* Hug ind, etc.: “Á luta, rapazes do Norte!”
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“Acreditem-me quando lhes digo que aqueles suecos corriam. Nossos
vizinhos russos não seriam mais ligeiros. Um de seus policiais com um sabre
pendurado na cintura tentou postar-se em meu caminho.
“Volte para onde você veio! Enfie-se na boceta de sua mãe!, gritei-lhe eu.
“Abra o caminho para os livres filhos da Finlândia!”
“Vieram outros mais e tentaram prender-me, mas sem sucesso. Nenhum
sueco comprido de pernas finas pode fazer parar um cabo de caçadores
finlandês que já mandou mais de cem de nossos vizinhos ateus para o Diabo.
Mas então chegaram os PMS alemães com seus capacetes de aço e toda a
artilharia que podem carregar pendurada em suas costas. Gritaram-me toda a
espécie de palavreado pagão; pareciam russos fazendo uma festa.
“Dívertimo-nos mais ou menos por uma meia hora; o sangue corria
livremente e os uniformes foram feitos em frangalhos. Foi um belo dia.
“Graças a Deus”, falei com meus botões, quando estava de novo a bordo de
meu navio. ‘Agora estamos a caminho da Finlândia novamente, com o
uniforme novo do Capitão Rissanen. Mas iria desapontar-me: fui desembarcado
na Alemanha! “Muito bem, disse para mim mesmo, “agora você vai conhecer a
Alemanha, Jussi. Terá algumas histórias para contar, quando voltar para
Karelia! Mas eles vão pensar que tudo são mentiras. Vocês querem fazer o
favor de escrever seus nomes em minha caderneta de pagamento? Ela está toda
cheia de carimbos. Eu não me sentiria feliz, se eles pudessem encostar-me
numa parede como desertor, quando de novo voltar para casa.
– Você vai precisar de uma enorme montanha de carimbos para que
acreditem nessa história – diz Porta, rindo.
– Deixe que eles duvidem, então – exclama Jussi, batendo com o punho no
cobertor. – A dúvida não causa mal algum; e uma coisa saudável. Que tal se
tivéssemos que acreditar em todas as mentiras que os políticos contam para os
pobres?
“Em Berlim, encontrei um major finlandês, um homem alto e magro com
seu quepe puxado por sobre os olhos como se estivesse receoso de ser
‘reconhecido e levado a encarar uma corte marcial por seus crimes. Era um
homem mau, com esporas e botas de montaria negras, embora não fosse nem
um dragão. Não gosto dessa gente que usa esporas, mas que não recebe nem
uma bicicleta.
Seu rosto refletia o mesmo olhar de todos esses cavalheiros de alta estirpe,
e o militarismo irradiava dele. Proseou-se de que podia mandar-me de volta
para a Finlândia muito rapidamente.
“Dois homens da Missão Militar finlandesa levaram-me para o trem. No
caminho para a estação, demos uma olhada pela cidade e conseguimos tomar
um bom porre finlandês. Depois de alguma discussão com os alemães na
estação, permitiram-nos ultrapassar as barreiras. Os alemães colocaram-me no
trem e lá fui eu. Meus dois amigos finlandeses acenaram e gritaram hurras
enquanto podiam ver o trem se afastar.
“O que aconteceu em Berlim eu não sei – continua Jussi – mas o trem
partiu na direção oposta. Em vez de ir para Helsinque. estou agora em Belgrado
e aqui fui ferido. Eles são loucos por aqui: de todos os lugares atiram nas
pessoas. “Parem. seus filhos de Satã! Eu não sou alemão! Sou um cabo
finlandês de caçadores. que nada tem a ver com essa guerra aqui!”grito-lhes eu,
mas mesmo assim eles continuam a atirar em mim e por fim me atingem, esses
demônios!
Jussi puxa o cobertor por sobre a cabeça, enrola-se numa bola como um
cachorro e dorme imediatamente. Durante o resto de seu tempo no hospital. ele
não dirige mais uma palavra a ninguém.
Bem cedo numa manhã, os três têm alta e lhes são dadas novas ordens de
movimentação. Como diz Porta, eles se tornaram novos homens com todos seus
velhos pecados esquecidos.
Na estação ferroviária dizem-lhes que seu trem não partirá senão muito
tarde à noite e eles vão para o Tri Sesira, onde Porta extravagantemente
encomenda Bosanrk cufe. Comem as almôndegas frias, mas isto não as faz ter
um gosto menos delicado.
Encontram-se com três prostitutas e vão para casa com elas.
– Apenas – diz Carl – para ver como elas vivem.
Tudo o que Porta se recorda deste episódio são as mulheres nuas e uma
cadeira da cozinha que se quebra.
– Está muito bem. Nico, tudo o que nós queremos são alguns tira-gostos –
explica Porta em tom amigável para o maitre em traje a rigor no restaurante de
alta classe Zlatni Bokal. Uma orquestra de cordas toca Strauss e há um aroma
de perfume caro no ar.
Pessoas bem vestidas amontoam-se na sala de espera.
– Meu nome não é Nico – diz o maitre com ar frio.
– Não? A semelhança é notável! – fala Porta, rindo e balançando-se nas
pontas dos pés. – Saia da frente, Nico, e deixe-nos entrar para comer.
– Meu nome não é Nico – rosna o maitre, seu rosto ficando vermelho. –
Meu nome é Pometniks!
Porta inclina-se profundamente e levanta seu chapéu amarelo.
– Primeiro-Cabo Joseph Porta e este é o Primeiro-Cabo Creutzfeldt. Venha
aqui Tiny e cumprimente Monsieur Nico!
– Alô, companheiro! – diz sorrindo e meio tonto Tiny, agarrando a pequena
mão branca do maítre e esmagando-a em sua gigantesca manopla.
Pometniks respira profundamente e endireita sua gravata branca.
– Lamento, Sr. Porta. Este é um restaurante exclusivo. Os senhores não se
sentiriam à vontade aqui e, lamentavelmente, todas as mesas estão ocupadas.
Tiny estoura numa gargalhada sem qualquer sentido e passa a mão pelo
cabelo cheio de brilhantina do garçom-chefe, fazendo o cabelo arrepiar-se.
– Nico, Nico! Você é um número! Ali há uma mesa vazia com duas
cadeiras. – Levanta Pometniks de forma que ele possa ver por sobre as cabeças
e, com uma cadeira embaixo do braço, abre caminho através do restaurante
ricamente atapetado.
O maitre tem que correr para manter-se junto com eles. O homem pragueja
em voz baixa, mas violentamente, em sérvio e alemão.
– Esta mesa está reservada – diz ele, respirando com dificuldade. – Mas os
senhores podem ficar com aquela do canto, porém apenas por uma hora, pois
ela também está reservada.
– E para quando você está reservado, Nico? – pergunta Porta, fazendo-lhe
uma festinha debaixo do queixo.
– Pometniks – corrige ele, sibilando.
– Você quer dizer que não é Nico, o conhecido criminoso sexual?
Inacreditável a semelhança!
– Você é um boa praça! – diz Porta, sorrindo e passando a mão pelo cabelo
do maítre. Depois, tira a túnica do uniforme e pendura-a nas costas da cadeira,
folga a gravata e abre a camisa para coçar seu cabeludo peito.
Os fregueses ficam boquiabertos observando a mesa deles. A orquestra
falha um compasso, quando o maestro esquece de agitar a batuta.
Um garçom miudinho com uma cara que parece a de um ratinho passa-lhes
o cardápio e fica esperando com o lápis pronto.
– Mickey, leve o material de leitura! – diz Porta. – Nós não estamos numa
biblioteca. pois não?
– O nome dele é Mickev? – pergunta Tiny. olhando para o garçom com a
expressão no rosto de um gato esfomeado.
– Não é evidente? – diz Porta. rindo. – Ele nunca poderá passar por perto
de um hospital: eles o colocariam dentro de uma gaiola num minuto com o
resto dos animais para fazer experiências.
– O que os senhores desejam? – pergunta o pequeno garçom, de má
vontade.
– Prase – pede Porta arrogantemente, inclinando-se para trás e balançando
a cadeira.
– Lamento, monsieur, nós não temos leitãozinho assado no espeto.
– Cara de rato: será que você poderia talvez arranjar Djuvic?
– Com muito prazer, monsieur. Deseja com tempero forte?
– Naturalmente, Mickey. Você não está pensando que nós vamos comer
guisado sérvio que não seja forte? Mas sirva-nos primeiro um bom prato de
Poddvarac para abrir-nos o apetite.
– Galinha com sauerkrant antes do guisado? – espanta-se o garçom. – Não
creio que os senhores possam...
– Não pense, homem! – diz, sorrindo, Tiny. – Traga a comida,
companheiro!
– Antes de mais nada traga-nos um pouco de chá de ameixas para tirar a
merda de nossos dentes. É melhor trazer logo duas garrafas – ordena Porta.
O garçom nem acabou de abrir a primeira garrafa e ela já está vazia.
– Esta é a melhor porra de chá que já provei na minha vida! – exclama,
excitado, Tiny.
– Nada tem merda nenhuma a ver com chá – corrige Porta. – É puro álcool.
– Por que então chamam de chá? – pergunta Carl, admirado.
– É porque assim eles não têm que mentir para suas mulheres, quando
dizem que estiveram tomando chá – explica Porta.
Quando terminam a segunda garrafa, Tiny passa o braço pelo ombro de
uma senhora da mesa ao lado, que está com um vestido de cavado decote. e
tira-lhe um dos seios para fora.
Porta começa a cantar uma canção obscena numa voz alta e estridente.
Carl pega a vendedora de cigarros e começa a dançar a spjetka com ela.
Tropeçam e os cigarros espalham-se pelo chão.
O maitre acorre, seguido por dois garçons e um porteiro.
– Já chega! – exclama ele, em voz baixa. – Isto não é um bordel. Ponham-
se na rua!
– Ainda nem comemos – protesta Porta. – Seja um bom sujeito, vamos,
Nico! Mamãe disse que não podíamos vir aqui sozinhos!
– Rua, ou chamo os PMs!
– Não se incomode, nós já estamos aqui! – Porta exibe sua inestimável
braçadeira.
– Ponha-os na rua – ordena o maitre ao porteiro.
O homem estende uma mão de respeitável tamanho em direção a Tiny.
– Vamos embora, não me criem nenhuma dificuldade!
– Dê-lhe um soco nos dentes! – grita Porta, pegando um prato de
sauerkraur na mesa ao lado deles e jogando-o na cara do maitre. Este joga um
copo de vinho tinto em Porta. Dentro de segundos, não há nada mais na mesa
para ser jogado. Tiny recua sua bota ferrada, tamanho 42 e chuta com toda a
força, alcançando a canela do porteiro; este dá um berro e sai dançando pelo
salão.
Dois garçons, vestidos com jaquetas verdes de uniformes de hussardos,
agarram Carl que quebra em suas cabeças uma tábua de picar carne.
A vendedora de cigarros corre e arranha o rosto de Tiny; este atira-a em
cima da orquestra que continua sempre executando a valsa Danúbio Azul.
Porta acerta a mão do maitre com um garfo; uma terrina voa pelo ar
espalhando sopa de carneiro em todas as direções.
Os fregueses riem-se às gargalhadas, pensando que se trata de um show.
No Zlatni Bokal há sempre alguma espécie de show surpresa.
Um general de brigada ri tanto que a dentadura lhe cai dentro da sopa.
Ao saírem, Porta apanha duas garrafas de Slivovitz de uma prateleira,
declarando-as confiscadas pela polícia militar para serem analisadas.
Quanto Tiny passa pelo bufê, um prato de guisado sérvio é empurrado para
fora no local de servir. Ele considera que é um presente. mas enfia sua cabeça
para dentro antes para dizer um muito obrigado.
Ninguém protesta. O maitre fica contente ao vê-los pelas costas. Ele já
estava vendo a hora em que o restaurante seria inteiramente reduzido a cacos.
– Um dia destes eu jogo um coquetel Molotov naquela baiuca! – exclama
Porta ao subirem para uma carruagem e irem para a estação. Dirigem-se para a
sala de espera da primeira classe, onde as cadeiras são mais macias, colocam a
garrafa de Slivovitz e a terrina de guisado entre eles e atiram-se a elas.
– Devíamos voltar lá e arrebentar a cabeça daquele filho da puta do Nico –
exclama Tiny, com a boca cheia de comida. – Depois, devíamos tocar fogo
naquela porra daquele porteiro e vê-lo ser assado. Isto é o que eu penso.
Fizemos um papelão, sim senhor! Deixamos que eles mijassem em nós. Não
representamos a Pátria como deveríamos ter feito!
Um funcionário da estrada de ferro, que se aprestava para expulsá-los da
sala de espera de primeira classe, muda de ideia ao ouvir as observações de
Tiny.
O trem atravessa escuras montanhas e cruza a fronteira sem parar. Dois
dias já se passaram. Fora de Budapeste há uma parada aguardando o sinal para
entrar na estação.
Carl repara em alguns túmulos militares com capacetes enferrujados
pendurados em cruzes baratas.
– Pobres infelizes! – diz ele, melancólico. – A Pátria não da muito a seus
heróis mortos!
– A Pátria é uma porção de judeuzinhos espertos! – afirma Porta.
Uma grande gaivota pousa numa das cruzes e solta um guincho de
protesto, quando um corvo a expulsa dali.
Curioso, o corvo enfia o bico embaixo do capacete, para a fim de alisar
suas penas e a seguir investiga de novo.
– Vejam o que ele está procurando – diz Porta. – Aquele preto safado ainda
não se esqueceu dos bons tempos em que se deixavam os corpos dos soldados
insepultos por tempo suficiente para os corvos comerem sua iguaria predileta:
olhos humanos.
Um soldado romeno mostra-lhes o toco do braço.
– Bang, crash, Germanos! – explica-lhes, numa espécie de língua franca
improvisada, ao mesmo tempo que gesticula com sua mão restante. – Malo
kszenep szepen.* Job tvojemadj! Nic hammnesjov**.
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* Malo, etc... : Muito obrigado.
**Job tvojemadj, etc... : Nós não temos nada para comer.
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O trem entra vagarosamente na estação principal de Budapeste. Tem três
horas de espera, pois os trens de transporte de tropas têm prioridade.
No sujo restaurante da estação, que cheira a soldados que há muito não se
lavam, tentam arranjar alguma comida.
O cardápio é muito elegante. Eles escolhem canja de galinha picante. A
acreditar no menu a canja contém: carne de galinha, aipo, salsão, gengibre seco,
cebola, brotos de feijão, ovos e lascas de limão. Revela-se uma água amarelo-
esbranquiçada na qual a inspeção mais cuidadosa não encontra nem mesmo o
menor traço de gordura na superfície. A canja picante também está fria.
– A sopa está fria – diz Porta, indicando seu prato.
O garçom, em seu seboso dinner-jacket enfia um dedo na sopa para testá-la
e sacode a cabeça com um sorriso.
– Está quente, senhor soldado alemão!
– Está fria, senhor garçom húngaro! – replica Porta.
O garçom vai buscar o cozinheiro, um cara grandalhão, gordo, com cara de
poucos amigos, o qual, sem dizer uma palavra, pega a colher de Porta e
experimenta a sopa.
– Quente – diz o cozinheiro, rindo e mostrando os dentes escuros, e volta-
se para ir embora.
Tiny pega-o por trás pelo colarinho e enfia-lhe a cabeça no prato de sopa.
– Vá bebendo a sopa, seu cigano filho da puta! – grita Tiny, cheio de raiva.
O cozinheiro bebe como um cavalo sedento para evitar afogar-se na sopa.
Derramam os dois outros pratos dentro da calça dele e, seguido por sérias
ameaças de arrebentar-lhe a cara, ele dispara para a cozinha.
Quando saem do restaurante com sua fome ainda sem ser satisfeita, o
veterano romeno vem correndo atrás deles.
– Nich hamm!* – grita ele, desesperado.
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*Nic hamm: nada para comer.
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O trem está mais do que superlotado. Só há lugar na primeira classe. Ali,
eles podem colocar seus pés em cima dos bancos enquanto em todo o resto do
trem os passageiros estão como sardinha em lata; têm até que ficar nos toaletes,
onde se riem das pessoas que desejam usá-los.
– Urine pela janela – recomendam. – Mas não contra o vento, por favor.
Aqui está uma senhora que precisa ir. Alguém tem um bolso de borracha?
Todos os uniformes da Europa Central estão em exposição. PMs com
crachás de meia-lua brilhantes abrem caminho com brutalidade através da
multidão. Cumprimentam discretamente os civis de casacos de couro que usam
as abas dos chapéus caídas sobre os olhos. Gestapo. Há sempre uma verificação
em andamento. Bata com a língua nos dentes descuidadamente e você sentirá
uma pesada mão descansar em seu ombro, quando sair do trem:
– Geheime Staatspolízei.
Sem fazer uma ondinha outra pessoa desapareceu. Há três mil pessoas no
comprido trem expresso que ronca como um trovão, com as luzes apagadas,
através do campo a caminho da Alemanha. Esta, localizada como um tumor no
coração da Europa, com seus quartéis, suas prisões, seus campos de
concentração, hospitais, praças para execuções e cemitérios. Uma terra em que
milhões de pessoas torturadas passam a maioria de suas noites abrigadas nos
porões.
O maquinista da locomotiva toma um gole de sua garrafa térmica de café.
Ele está dirigindo o trem há 18 horas sem um momento de descanso. Os
regulamentos dizem que não se pode trabalhar mais de oito horas, mas se está
cm guerra e há muita falta de maquinistas.
Seu companheiro joga pás de carvão dentro do estômago em chamas que
fica por baixo da caldeira.
Na primeira classe, as pessoas estão se aprontando para deitar. Um coronel
de ceroulas compridas dá ouvidos a um major da polícia secreta.
– Em Odessa nós costumávamos coloca-los de pé num caminhão; quando
este se movimentava eles lá ficavam pendurados – diz o major, rindo. – Era
muito engraçado de ver.
O coronel concorda com a cabeça silenciosamente e continua a espremer
cuidadosamente uma espinha, olhando-se num espelho.
Altos suspiros podem ser ouvidos do outro vagão, onde um engenheiro de
petróleo romeno está cuidando da mulher de um coronel alemão. Ela esteve em
Bucarest para visitar seu marido que está seriamente ferido. O engenheiro a
beija e enfia a mão por seu redondo traseiro. Ela ri e o empurra.
O homem derruba-a de costas em cima do veludo do banco, levanta-lhe a
saia pregueada até aparecerem as ligas que lhe suspendem as meias. Empurra–a
um pouquinho mais para cima; ela se ri excitada, quando ele lhe abre as pernas.
– Não – murmura ela. – Você não deve fazer isso.
Ele passa a mão por trás dela e puxa-a para cima dele. Ao ritmo do balanço
do trem. eles gozam dos prazeres do amor. Num vagão um pouco adiante, uma
enfermeira alemã está deitada com o vestido acima da cintura. Um tenente de
infantaria está com a cabeça enterrada entre suas pernas. Ela enrola as pernas
em torno do pescoço dele e se enrosca toda, gemendo de prazer.
No banco em frente a eles, um oficial de Marinha está puxando para baixo
um par de calcinhas vermelhas da mulher de um conhecido médico de Viena.
Os dedos dela arrancam. nervosos, os botões da braguilha da calça do oficial,
enquanto olha, fascinada, o casal no banco à sua frente.
Porta acaba de terminar a negociação referente a um porquinho preto que
anda numa coleira como um cachorro. Carl e Tiny jogam dados com dois
marinheiros. Usam como mesa caixas colocadas no chão. Entre jogadas, Tiny
passa a mão nas coxas de uma camponesa romena.
– Quando você estiver em Heyn oyer Strasse, pergunte por Alberto, o
Torto. Ele irá ajuda-la a arranjar um trabalho decente. Uma tetéia como você
não deveria queimar-se numa porra de uma fábrica.
– O que irá dizer a Gestapo? – pergunta, nervosa, a moça.
– Mantenha-se afastada deles e que diabo tem você que se incomodar com
o que eles dizem?
Gritos e ruídos como de um órgão soam na noite negra. O maquinista deixa
cair sua garrafa térmica e atira-se sobre o freio.
Seu companheiro já está na porta, pronto para saltar. O coronel em ceroulas
escuta nervoso, com sua escova de dentes na mão. O major pula do leito de
cima e começa, nervosamente, a procurar seu uniforme.
– Aviões! – grita ele. – Os desgraçados não têm nunca paz. Quando não é
uma coisa é outra Já estava em tempo que eles descobrissem esta maldita arma
final!
– O que há? – pergunta a enfermeira, que agora tem sua cabeça enterrada
entre as pernas do tenente.
– Escute! – diz a mulher do coronel a seu engenheiro de petróleo. Sua
bunda nua está virada para cima.
– Para o inferno com eles! – geme o engenheiro, que está quase acabando
de gozar. E pretende acabar, mesmo que toda a Força Aérea Americana ataque
o trem de uma só vez. Agarra-a pelas coxas e empurra tudo o que pode
loucamente para dentro dela.
O oficial de Marinha e a mulher do médico estão no chão. Ela está por
cima dele e tão concentrados no que estão fazendo que nem ouvem as vozes da
guerra do lado de fora.
– Que diabo! – grita Tiny que somente agora conseguiu tirar as calças da
camponesa. – Esses porras desses aviadores não poderiam ter esperado mais
uns 10 minutos?
– Vamos dar o fora – diz Porta, colocando o porquinho preto debaixo do
braço.
Carl joga-se no chão e coloca os braços sobre a cabeça a fim de proteger-se
contra o que está vindo.
Uma jovem nua corre pelo corredor com o amante em seu encalço somente
de meias e uma camiseta.
– O soldado alemão pode tornar-se sujo mas nunca é sujo – diz, orgulhoso,
um general de brigada. Ele está conversando com alguns oficiais húngaros e
romenos num vagão isolado. Eles não ouvem os Jabos*que baixam das nuvens
guinchando e mandando balas traçadoras em direção à linha da estrada de ferro.
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* Jabos: Caças-bombardeiros.
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A próxima onda deixa cair bombas. A terra levanta-se como se fossem
fontes d’água de ambos os lados do leito da estrada de ferro. Pedras, terra e
lama caem como uma cascata sobre o trem.
Na próxima investida, os aviões atingem a máquina. O carvoeiro salva-se
atirando-se para fora. Dando cambalhotas ele desce a rampa, levanta-se num
pulo e corre para o bosque. Não é a primeira vez que salvou a vida desta forma.
Atira-se dentro de uma depressão do terreno e fica observando o trem que
vagarosamente perde velocidade.
– Jesus Cristo, Jesus Cristo! – suspira ele. – Estão fazendo uma limpeza em
condições!
O canhão automático ronca. Outro vagão desce pela ribanceira, cai de lado
e desaparece. Um vagão alemão e um iugoslavo empinam-se um contra o outro
como se num abraço amoroso. Os truques caem sobre os trilhos.
O coronel de ceroulas corre soluçando ao longo dos trilhos. Uma rajada de
balas traçadoras atravessa-o. Como um porco abatido, seu corpo rola pelo
declive abaixo. Um par de rodas soltas passa por cima dele cortando seu corpo
em dois.
O major da polícia corre com sua pasta preta GEKADOS embaixo do
braço: uma pasta que contém sentenças de morte. Atira-se dentro de um buraco,
mas chega lá junto com uma bomba aérea. Nada sobra dele ou de sua pasta
GEKADOS.
A jovem nua abrigou-se sob um vagão virado. O deslocamento causado por
uma bomba desloca o vagão mais para baixo pela ribanceira; a moça é
amassada contra o lado do vagão como manteiga num pão quente.
A enfermeira e o tenente correm ao longo do lado do trem; ninguém nota
que ela só está de meias e ligas. Correm direto para uma rajada de um Jabo e
nem sentem o beijo da morte.
A mulher do médico de Viena e arremessada por uma janela; uma
comprida e afiada lasca de vidro corta-lhe o corpo ao comprido. Suas entranhas
ficam penduradas no vidro estilhaçado da janela.
O oficial de Marinha desapareceu por completo; apenas resta seu boné no
chão do compartimento. A maior parte aos passageiros está espalhada entre os
altos e delgados pinheiros. Os corvos esvoaçam vagarosos, por sobre o trem
destruído.
As bombas abriram caminho para dentro do trem e lançaram os passageiros
para fora por entre as árvores. Choros e gritos levantam-se da massa de carne
esfacelada, miolos, ossos e juntas. O general de brigada está vomitando em
cima de uni cadáver.
Os gritos dos feridos abafam o barulho que ele faz. Usualmente, ele tem
orgulho de sua dureza; já viu bastante sangue em sua vida e está acostumado à
visão de corpos esfacelados. Mas a vista de entranhas vermelho-azuladas,
cobertas com enxames de gordas e satisfeitas moscas, é demais mesmo para um
duro general alemão, que se gloria com o pensamento de uma morte de herói.
Um oficial da SD jaz um pouco afastado dentro do bosque. Olhando
através de uma renda de agulhas de pinheiro pela qual se filtra a luz da manhã,
ele vê os restos de uma mulher empalada numa árvore. Não tem mais braços; as
pernas estão penduradas para um lado como as asas de um pássaro deslizando
no ar. Um chapéu com uma pena azul ainda está em sua cabeça.
A mulher deve ter sido atingida por uma explosão, pensa ele, e não pode
afastar seus olhos do grotesco cadáver balançando em cima da árvore. Ele não
pode mover-se. Uma estaca atravessou-o e o mantém pregado ao chão, mas não
sente nenhuma dor.
Diversos vagões continuam sobre os trilhos; por dentro são como
abatedouros; feridos e mortos numa massa de ossos expostos e carne em
frangalhos.
Um soldado corre ao longo dos trilhos; o sangue jorra de seu ombro.
– Filhos da puta, filhos da puta, vejam o que fizeram com meu braço! –
grita ele, tropeçando e caindo para frente para morrer.
Um cabo, com não mais de 17 anos, está sentado numa porta de vagão
arrancada e olha para suas pernas. Elas estão penduradas por tiras de
ligamentos. Seu rosto está ensanguentado; apenas os olhos tem vida. Toca sua
Cruz de Ferro de 1ª classe. Um mísero pagamento por uma juventude perdida; o
sujo agradecimento da Pátria a uma geração traída.
Um trem de socorro chega da direção contraria e para bem em frente à
locomotiva virada.
Um Oberstabsarzt calçando brilhantes botas de montaria examina
friamente a cena da chacina. Grita algumas ordens e padioleiros saem do trem
com lonas debaixo do braço. Primeiro, os soldados alemães feridos; em
seguida. os soldados alemães mortos. Depois, os civis alemães e por último as
pessoas dos territórios ocupados.
– Jesus Cristo! – exclama Porta, que está sentado num para-brisa entre
Tiny e Carl. – Essas bombas podem realmente fazer uma limpeza! Muito mais
eficiente do que granadas!
– O que é aquilo que ele tem na mão? – pergunta Tiny, apontando para o
corpo de um soldado de cavalaria morto.
Carl inclina-se e abre a mão fechada, aparecem uma nota de cem marcos e
três dados.
– Parece que ele tirou um seis – diz Carl.
– Nossa Senhora de Kalan; – exclama Tiny, admirada.
– Então conquistou um lugar no céu – Considera porta.
– Pobre diabo. Morreu com três Seis e cem marcos no jogo – suspira Carl,
tirando a rolha de uma garrafa de schnapps. Pegou-a quando ela veio voando
pelo ar ao sair do carro-restaurante.
– Aquele porra daquele seu porco está comendo um cadáver – diz Tiny,
rindo
– Sempre esfomeados os porcos – diz Porta, sacudindo a cabeça. – Estão
há muito tempo com os alemães.
Dois padioleiros passam com um tenente morto numa padiola. A perna
dele foi arrancada e eles a colocaram atravessada em cima do corpo; ela cai e
rola pela escarpa abaixo. A comprida e brilhante bota ainda está nela e sem
demonstrar qualquer dano. A espora brilha ao sol.
Carl pega a perna e coloca-a de volta sobre o corpo do tenente.
– Sag’ zum Abschied, Ieise Servus – canta Porta para a padiola com o
tenente morto.
– Uma porção de gente morreu aqui – diz Tiny. – A pátria é uma gulosa
filha da Puta.
– A gente fica arrepiado só de pensar em todas estas pessoas mortas tão
rapidamente – diz Carl.
– Um homem que chora quando vê uma coisa destas acontecer não é um
verdadeiro alemão; não tem tutano – diz Porta, pegando o leitão e colocando-o
embaixo do braço.
– Estou com uma fome danada – fala Tiny. – Será que eles vão-nos dar
algum grude?
Param ao lado dos corpos de duas Blitzmädel*.”
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* Blitzmädel: Moças telegrafistas.
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– Que merda! – exclama Porta. – Que belo par de pernas. O diabo sabe o
que está fazendo, se é isso que ele deseja.
– Colchões de serviço em campanha do Exercito modelo 39-40 – diz Tiny,
levantando, curioso, uma saia. – Há gente que faz coisas com corpos mortos –
confidencia ele, em voz baixa.
– Você está louco? – diz Porta. – Iria direto para o inferno.
Partindo de uma capoeira, eles ouvem imprecações e gemidos. Afastando
os galhos dos arbustos, encontram um suboficial morrendo com uma granada
de 20 mm espetada no peito sem ter explodido.
– Praguejando desta forma e agonizante – fala Carl! escandalizado.
– Se Deus não o receber. o diabo o fará! – exclama Porta, sempre prático.
Padioleiros carregam-no. Um trem-oficina de socorro remove os restos do
destruído expresso.
Em Viena, a viagem deles é interrompida por vários dias. Porta quer ir para
Grinzing.
– Você sempre pode cavar alguma garota por lá – explica aos outros dois. –
Só se tiver a aparência de um Frankenstein de ressaca é que você vai para casa
sem arranjar alguma coisa ali.
Em Munique, encontram um conhecido de Porta. Um cabo dos caçadores
alpinos que está celebrando o dia em que sua mãe quase morreu, há 25 anos. O
porquinho preto é convidado e naquela festa aprende a tomar cerveja.
Chove quando partem de Munique, um dia miserável e úmido. O vagão
cheira a roupas molhadas e corpos azedos.
Carl perdeu seu bom humor; ele não está mais com pressa de chegar.
Os três ficam em pé juntos no corredor, observando a paisagem triste que
desfila com a passagem do trem. Ruínas por toda a parte. Em Stuttgart, têm que
esperar várias horas fora da cidade, enquanto um ataque aéreo está em curso.
– Viva o feliz guerreiro alemão! – diz Tiny.
Porta morde, pensativo, um pedaço de pão.
– Que sorte tivemos de haver nascido na Alemanha – suspira Carl.
melancólico.
– Há alguém por aqui que pense que eu amo a Pátria e a ideia de deixar-me
matar por ela? – indaga Porta. em tom provocador, numa pergunta dirigida em
geral aos outros passageiros que aparentam sentir-se tão miseráveis quanto ele.
Tiny sacode-se de riso e encara um camponês alemão que está servindo-se
de um gole de uma garrafa de schnapps.
– Se você me oferecesse um, acha que eu diria não?
O camponês passa-lhe a garrafa de má vontade.
Tiny toma um grande gole e passa a garrafa para Porta e Carl, que quase
esvaziam a garrafa.
O camponês olha tristonho para o que resta e decide bebê-lo enquanto
sobra alguma coisa.
Numa fria e chuvosa tarde de domingo, os três chegam a Karlsruhe, onde
baldeiam para um pequeno trem local.
Um oficial da RTO, mal-encarado, para-os e pede-lhes seus papéis.
Examina Carl dos pés à cabeça, em tom zombeteiro. A seguir, aponta para o
porquinho preto que acompanha Porta amarrado numa corda.
– O que você tem ai? – pergunta ele.
– Meu cão! – responde Porta, batendo os calcanhares.
– Isto é um sujo porco – protesta o major.
– Não, senhor, ele está limpinho! – pondera Porta.
O major sacode a cabeça e afasta-se com um tilintar de esporas.
E eles viajam apenas por pouco tempo no trem suburbano; os trilhos foram
bombardeados. A 25 quilômetros mais ou menos de Germersheim, decidem
fazer a pé o resto do caminho. Chove de cachorro tomar água em pé. O porco
guincha; eles o cobrem com algumas folhas.
– O bicho está com fome! – diz Tiny.
– Se tivéssemos alguma farinha, poderíamos fazer umas panquecas –
sugere Porta, lambendo os beiços. – Porcos também gostam de panquecas.
– Jesus e Maria, panquecas! Panquecas com açúcar e geleia – exclama
Tiny, excitado. – Talvez se encontre algum rum por aí? E tão gostoso que nem
aguento pensar!
– Seria um belo jantar de despedida para Carl, antes que ele entre no
purgatório – diz Porta. – Nós vamos dar um jeito de fazer panquecas com rum,
açúcar e geleia. Vamos dar um jeito.
– Calem a boca! – diz, rispidamente, Carl. – Vocês me enjoam!
– Você vai comer uma refeição supimpa antes que nós o entreguemos
àqueles filhos da puta na cadeia! – promete, solenemente, Porta.
– Vamos consegui-lo com a porra de nossas engraxadeiras – exclama Tiny.
– Então eles vão entender; esses malditos comedores de salsichas que ficam em
casa vão saber que chegaram visitas da frente leste.
Depois de uns 15 quilômetros, eles param para descansar, ensopados até os
ossos e exaustos, na vala ao lado da estrada.
– Por Deus que estou cansado – geme Carl, sacudindo a água do boné. – Se
minhas pernas não estivessem plenamente visíveis, eu pensaria que as tinha
gasto.
– Você está bem – diz Porta, despejando água das botas.
– Só tem outros 16 quilômetros para andar, mas nós temos que refazer toda
a viagem de novo e quem nos diz que o regimento ainda está em Corfu? Eles
podem ter-se movimentado. Podem estar no norte da Finlândia. Temos que
levar tudo isso em consideração, quando se está viajando a serviço do Exército.
– Nossa Senhora de Kazan! – exclama Tiny, aterrorizado. – De Corfu até o
norte da porra da Finlândia. Não creio que eu consiga.
– Aqueles a quem Deus ama, Ele manda para seu mundo – diz, tranquilo,
Porta.
– Ele certamente que nos ama muito – considera Tiny.
– Vamos procurar algum lugar para secar-nos – fala Porta, levantando-se.

Aqui vem Ele com asas celestiais


Trazendo-vos uma maravilhosa mensagem...

Canta Tiny em alta voz, que ecoa por sobre os campos.


Em Russheim eles alcançam o Reno. Sentam-se no cais molhado e ficam a
observar os barcos fluviais.
– Se pudéssemos pegar um deles – diz Tiny, pensativo – poderíamos viajar
até a Holanda sem fazer força.
– O que iria você fazer na Holanda? – pergunta Porta, espantado. – As
tropas de liberação alemãs estão ali também, você sabe.
– Você é muito tolo – exclama Tiny, agitando os braços no ar. – Não sabe
que, quando está na Holanda, você está bem ao lado do mar? Na estação de
Munique eu vi um mapa que mostra que a Inglaterra não está mais longe da
Holanda do que você pode mijar com o vento a favor.
– Isto seria formidável – suspira Carl. – Dizem que a Escócia é uma beleza.
– Você se divertiria muito ali como um antigermânico – diz Porta, rindo.
– Olhem para a correnteza! – diz Carl, apontando para uma barca fluvial
que passa veloz por eles com uma forte correnteza a impulsioná-la.
– O Reno corre muito – diz Tiny.
– Quem não o faria? – zomba Porta. – Ele está passando pela Alemanha. . –
Em Sondenheim, os três entram numa velha hospedaria cujo dono Porta
conhece de seu tempo de Gerinersheim.
O hospedeiro, um velho, fica louco de alegria quando vê Porta entrar-lhe
pela casa adentro.
Quando sabe para onde Carl vai, ele faz panquecas.
– Nosso Senhor o acuda! – suspira a mulher do hospedeiro. – Ele está indo
para a fortaleza? Será que eles nunca vão parar de colocar gente atrás das
grades, todos esses bons cavalheiros?
– Ontem, partiu um batalhão para o leste – informa o hospedeiro ao trazer
as panquecas.
– Havia com eles um antigo coronel de Karlsruhe – diz a mulher, assoando
o nariz. – Tão bom homem! Sempre tratou bem seus soldados.
– Esta é provavelmente a razão pela qual ele perdeu os galões – considera
Porta. – O serviço da Pátria exige que você seja duro como um aço Krupp ou
nunca você conseguirá fazer ninguém ir para a guerra para ser morto.
– Vocês vieram de muito longe? – pergunta a mulher do hospedeiro,
alisando o avental engomado.
– Pode apostar! – diz Porta. – Viemos da terra dos deuses.
– Realmente? – exclama a mulher sorrindo, sem entender uma palavra do
que ele diz. Serve uma grande porção de panquecas no prato de cada um e
derrama por cima delas uma generosa quantidade de geleia.
– O que está acontecendo por lá? – pergunta o dono da casa, acendendo um
comprido cachimbo de porcelana.
– Ruínas, cadáveres, problemas e o inimigo, mas nós, alemães, ainda
podemos cruzar a fronteira sem um passaporte – diz Tiny, em tom importante.
– Será um grande problema – suspira Porta – quando não se puder passar
sem uma arma em lugar de documentos.
– Há muito tempo que está no Exército? – pergunta um freguês sentado a
um canto.
– Por tempo demais! – confessa Porta. – Já estava com saudades de casa
depois da primeira hora no Exército.
– Os subalternos não são melhores agora? – pergunta a mulher. – Ouvimos
dizer que alguns deles tem sido mortos pelas costas por seus próprios soldados.
– De vez em quando um deles bate a bota desta maneira – admite Tiny. –
Uma bala com capa de níquel na nuca faz impressão mesmo nos mais
estúpidos.
– Os únicos subalternos bons são aqueles que já morreram – diz Porta, com
uma curta risadinha. – Pelo menos ficam de boca calada.
– Deve ser horrível no front – diz a mulher, pensativa.
– Aqui neste mundo a gente pode levar a vida como se quer – diz Porta. –
É preciso apenas adaptar-se.
– É verdade o que dizem sobre o tratamento que eles dão aos prisioneiros
na fortaleza? – pergunta o homem lá do canto.
– Em Torgau, obrigavam-nos a formar uma ponte viva com pranchas em
nossas costas e passavam caminhões sobre elas – diz Tiny, sério, lembrando-se
com a expressão fechada do rosto do inferno que era Torgau.
– Que Deus nos salve! – murmura a mulher do dono da hospedaria e enche
o prato de Carl com panquecas frescas.
Eles passam a noite na hospedaria.
– Já estamos há tanto tempo na estrada que um dia mais ou menos não
pode fazer diferença.
Na manhã seguinte, entram na vila de Germersheim com Carl entre eles.
Um vento frio sopra do rio e ainda chove. Eles levantam as golas de seus
casacões até as orelhas e tremem de frio com os uniformes molhados. Dão uma
parada e lançam uma olhada para o Reno antes de continuar pela íngreme
estrada que leva à prisão militar.
Em frente a um pequeno restaurante, o Corte de Hapsburgo, Carl para
abruptamente:
– Vamos tomar qualquer coisa como despedida? Despedida de vocês!
– Por que não? – responde Porta.
Encomendam salsichas e salada de batata. É a única coisa no menu.
Porta pede cerveja e wildkatze.
Deglutam vagarosamente sua refeição antes de prosseguir em direção à
prisão. Quando estão quase no portão, param hesitantes.
Porta olha para Carl com um ligeiro sorriso.
– Que merda de sorte, companheiro. E só porque não quis matar algumas
pessoas. É mais comum que fazer exatamente o oposto é que manda as pessoas
para a cadeia. Vamos dar um passeio pelo parque?
Sentam-se numa elevação entre as árvores. Porta puxa uma flauta de sua
bota e Tiny a gaita de boca. Juntos tocam em surdina, enquanto observam a
chuva cair:
So weit, so weit ist der Weg zurück ins Hoimatlflmi...

Porta põe a mão no ombro de Carl.


– Dê o fora, se você quiser! Nós não atiraremos e não daremos parte por
uns dois dias que você desapareceu.
– Vocês irão para a cadeia em meu lugar – diz Carl.
– Que diabo! – diz Tiny. – Nós sabemos o que é cadeia.
– Eu não chegaria muito longe. Os caçadores do presídio me pegariam –
raciocina Carl.
– Vai para a porra da Holanda – sugere Tiny. – Você poderia esconder-se
numa porra de um desses barcos do rio e nadar até a Inglaterra. companheiro.
– Você não consegue nadar até a Inglaterra – protesta Carl.
– Alguns caras sortudos já o fizeram – diz Tiny, sempre otimista.
– Com um pouco mais de sorte eu teria nascido em outro lugar que não a
Alemanha – suspira Carl, desesperado.
– A sorte é tudo – diz Tiny, cuspindo a favor do vento.
– Desejo agradecer-lhes por haverem cuidado de mim como fizeram – diz
Carl. – Eu não queria dizer o que disse quando os descompus.
– Nós nos divertimos um bocado, não foi? – pergunta Tiny.
– Você está me dizendo? – responde Carl, com um sorriso tranquilo. – Mas
de uma certa forma eu preferia que a viagem tivesse sido mais curta. Ter estado
com vocês tanto tempo faz com que a cadeia pareça de certa forma pior.
– Você em breve se acostuma com ela – consola-o Porta – Mas não arranje
encrencas com eles. O que quer que me digam para fazer, faça sem perguntar –
Você pode tirar da vida o que desejar desde que se adapte a ela!
– Você não pode ganhar daqueles filhos da puta – diz Tiny, com
conhecimento de causa. – Fui o pior filho da puta que eles jamais tiveram.
Ainda falam de mim mas eles me dominaram dentro de dois meses.
– Mas eles não fizeram um monoide de você – diz Carl com um sorriso
maroto observando o enorme corpo musculoso de Tiny.
– Não ninguém pode fazer isso – diz Tiny, convicto. – Eu seria capaz de
deixar que ele me matassem antes! Não, enxerguei o que tinha que fazer e fiz
tudo que eles me mandaram. Depois disso, eles me deixaram em paz.
– Grato pelo conselho – concorda com a cabeça , Carl. – Lembrarei dele.
– Sou eu que estou pagando – diz Porta. – Wildaktze!
Eles voltam pelo Parque até o Corte de Hapsburg, onde viram vários
wildaktzes.
– Vamos acabar com isso diz Carl, resolutamente. – Já me sinto mais
aliviado agora.
Arrumam seus uniformes e equipamentos e verificam uns aos outros.
– Agora vocês podem entrar lá sem nenhum susto. Vocês estão mais
corretamente uniformizados do que os desenhos do maldito regulamento.
– Os botões das botas! – exclama o dono do Restaurante assustado
O sargento olha para as botas deles. Na de Tiny estão faltando três botões.
Um dos fregueses sai e os consegue. Eles estão prontos para partir.
Colocam suas Mpis nos ombros e localizam Carl entre eles.
– Se eu encontrar aquele Cão do Inferno Heinrich, tiro a merda da cabeça
dele na mesma hora – promete Tiny, batendo em sua Mpi.
– Não faça isso – aconselha o velho sargento do Exército do Kaiser. –
Espere até a guerra acabar. Nas perturbações que vão segui-la, você poderá
acertar suas contas com ele da forma que desejar.
– Então eu sou capaz de puxar-lhe os intestinos pelo olho do cu e enfia-los
na porra de seus ouvidos – grita Tiny, enraivecido.
– Calma, calma! – pede Carl. – Dez anos é o bastante para mim.
Os fregueses vão até a porta para vê-los partir.
O comandante da guarda, um sargento, olha-os com suspeita com seus
frios olhos. Eles entraram num mundo diferente; aqui não há pessoas, apenas
autômatos.
– Levem o prisioneiro para o escritório – rosna ele.
Eles marcham pelo meio do pátio; o portão gradeado fecha-se atrás deles.
Os prisioneiros estão andando em círculo; no centro deste há um sargento com
botas polidas e equipamento de couro brilhando. A capa de seu coldre está
desabotoada; em sua mão ele maneia um longo cassetete de borracha. Com os
olhos apertados, observa quaisquer erros no exercício.
Do Bloco A, ouve-se o barulho de chaves. Aço contra aço e pesadas portas
se fechando. Escutam-se silvos de apitos e comandos em voz dura.
Do lado de fora do Bloco B, estão fazendo ordem-unida. Acelerado e com
mochilas cheias de areia nas costas.
Três homens estão jogados no meio do pátio. Um deles é um coronel que
perdeu a patente; ele tosse e está próximo a morrer.
O sargento dá-lhe um chute nas costelas.
– Seu fracalhão filho da puta! – rosna o sargento, em tom de desprezo.
O coronel está morto.
No escritório, eles encontram o Cão do Inferno Heinrich, o conhecido
Primeiro-Sargento Heinrich Lochte.
Carl esvazia os bolsos e entrega-lhes seu equipamento. Mãos treinadas
revistam-no. Ele assina alguns documentos.
Dois sargentos corpulentos entram no escritório.
O Cão do Inferno Heinrich aponta Carl sem dizer uma palavra e, quase
antes que Porta e Tiny o percebam, a prisão engoliu Carl.
Quando ambos já estão um pouco afastados, um pouco antes de entrar na
Fischerstrasse, voltam-se e olham para a fortaleza.
Cinzenta e lúgubre, ela se agiganta na chuva que despenca do céu.
– É uma boa coisa que estejamos caminhando para longe daquela porra
daquele lugar – diz Tiny, virando a gola do casaco.
– Pobre Carl, pobre coitado – suspira Porta. – Encarcerado por não matar
gente! Belo espetáculo!
– E mesmo, ele não pode nem mesmo ter o prazer de estar ali e pensar que
liquidou algum filho da puta como Heinrich – diz Tiny.
Pegam uma carona num caminhão de um batalhão de sapadores até
Karlsruhe. Em Munique, eles subitamente se lembram do porquinho preto, que
não veem desde o Corte do Hapsburgo. Debatem acerca de ir busca-lo de volta,
mas decidem, afinal, que seria arriscado demais.
Em Budapeste, ficam retidos por três dias devido a terem sido esquecidos
três carimbos em suas ordens de movimentação.
Em Belgrado, visitam o hospital para bater um papo, mas só encontram
rostos desconhecidos.
Ao sair de Niz, metem-se num combate com os guerrilheiros.
Entre Salônica e Atenas, o trem deles é dinamitado.
Em Atenas, o sargento no escritório do RTO olha pensativamente para eles
e folheia suas várias ordens de movimentação.
– Vocês andaram um bocado, não? Parece que vocês tem estado a explorar
e não a escoltar. Continuem a movimentar-se, soldados, vocês ainda têm um
longo caminho a percorrer.
Com um sorriso, ele lhes passa suas novas ordens.
– Brest-Litovsk! – exclama Porta, olhando para os documentos.
– Seu regimento está na Rússia, rapazes – diz o sargento, rindo. – E se
vocês dois levarem tanto tempo regressando para ele quanto levaram se
afastando, a Terceira Guerra Mundial já irá pela metade antes que vocês
cheguem lá.
Assim, eles têm que ir de volta através de Praga, Berlim, Varsóvia, onde
são presos quando Tiny rouba uma galinha que é propriedade de um coronel.
Em Brest-Litovski mandam-nos por engano para Riga. Ninguém quer
acreditar que eles lá estão por engano e são presos. Soltos depois de alguns
dias, os dois são mandados na direção de Minsk.
– Se eles nos mandarem de volta dali – diz Tiny, esgotado – eu me passo
para o lado da porra do inimigo. Preciso voltar para a guerra a fim de poder
gozar da porra de um descanso!
Cedo numa manhã, eles caminham ao longo de uma estrada lamacenta.
Tanques e artilharia roncam ao passar por eles jogam-lhes lama por cima.
À distância, podem ouvir o ruído da linha de frente. Milhares de explosões
pintam o céu de um sangrento vermelho. A parte final da viagem, eles fazem de
motocicleta.
Finalmente, estão de volta.
– Vejo que ainda estão vivos – diz o Coronel Hinka, aparentemente meio
surpreendido. – Como vão as coisas em casa?
– Muito mal, senhor – responde Porta. – Nossos inimigos estão realmente
se divertindo em nossa Pátria. Estão seriamente começando a tomar as coisas
pretas.
– Herr coronel, senhor – diz, sorrindo, Tiny. – Peço licença para informar
que o inimigo finalmente aprendeu a verdadeira dureza dos alemães!
“Sua tarefa É executar as ordens de mim emanadas e não discuti -las.
Voltem para seus trabalhos, senhores, e não se metam em política.”

Hitler para um grupo de generais.


Outubro de 1937

Sem nosso coronel nenhum de nós teria escapado. Eles atiravam em tudo o
que se movia, até mesmo em nossos cães-sinaleiros – explica um prímieiro-
cabo, com os olhos vendados. – Companhias estavam reduzidas a 15 ou 20
homens e havia incêndios por toda a parte. Mais de 500 feridos abrigavam-se
na fábrica. Uma porção deles se matou rolando até os poços dos elevadores e
deixando-se cair. Ninguém tinha nenhuma dúvida sobre o que lhes aconteceria,
se caíssem nas mãos dos russos...
– Mas como é que você se livrou? – pergunta um cabo no meio do grupo
que estava em volta do leito.
– Bem, vejam! Isto foi um caso à parte. Foi sabotagem de ordens, como se
chama, ou morte certa, mas nosso coronel tomou uma decisão firme e ordenou-
nos a retirada. Isto foi depois de ambos os filhos dele terem sido mortos.
Ambos eram tenentes e comandavam companhias. Os feridos teriam que ir
conosco, ordenou o coronel. Eles foram acomodados em trenós e nós
marchamos contra a tempestade de neve. Muitos morreram durante a marcha.
Atravessamos as linhas russas com nosso coronel à frente com sua Mpí
embaixo do braço. Tropas de esquiadores golpeavam-nos todo o tempo. o
coronel encravou todos os canhões de forma a podermos usar os cavalos para
puxar os trenós com os feridos.
– Que diabo está você dizendo, homem? – exclamou um sargento,
indignado. – Inutilizou sua própria artilharia? Que belo comandante, por Deus
do céu!
– Você não esteve lá, camarada. Era preciso ter estado lá para saber o
gosto que tinha. Cossacos com sabres desembainhados e tropas esquiadoras
com Mpis flamejantes! Quarenta e cinco graus centígrados abaixo de zero e
uma tempestade de neve! Você teria adorado, não teria, companheiro?
– Quem é que você está chamando de companheiro? – berra o sargento. –
Você não vê que sou um superior seu?
– Eu hoje não posso ver mais nada, camarada! Perdi meus olhos na
tempestade de neve. Congelados, compreenda. Para mim, você é só uma voz.
– Cego ou não, você ainda é um soldado, primeiro-cabo! – grita o
sargento, com o rosto incendiado. – Ainda pode ficar em posição de sentido.
Componha-se agora ou eu darei parte de você por recusar-se a obedecer a
uma ordem. Deixe-me ver seu livro de pagamento!
O cego entrega o livro de pagamento ao sargento, que anota
cuidadosamente o nome dele e sua unidade num caderninho.
Por toda a volta deles, os soldados estão manifestando seu desagrado.
– Fiquem quietos ou darei parte de vocês todos! – grita o sargento, e a
passos largos afasta-se do hospital de campanha.
– O que aconteceu com esse coronel de vocês que estourou seus canhões?
– pergunta um sapador, que teve ambas as pernas amputadas.
– Um tenente-coronel da GEFEPO apareceu e levou-o no dia seguinte
aquele em que rompemos as linhas. Dois dias depois, ele estava enfrentando
uma comissão de sindicância. Todas as testemunhas estavam a favor dele e o
general comandante da divisão depôs como sua testemunha, mas mesmo assim
eles o fuzilaram no dia seguinte. Vocês sabem qual foi a acusação. Sabotagem
das ordens recebidas.
– Porco! – diz alguém do canto. Ninguém toma o partido do sargento.
CHÁ DARJEELING

Tão logo recebemos ordens para debandar arrastamo-nos até as cabanas e


caímos no chão meio mortos. Supunha-se que a companhia mantivesse a
Elevação do Morto por mais três dias, mas a companhia desaparecera. A maior
parte de nós jaz em sepulturas coletivas; os felizardos estão no hospital de
campanha. A Elevação do Morto é exatamente o que o nome quer dizer. Um
inferno na terra para os sobreviventes.
Nenhum de nós teve energia para ir buscar rações. Um pensamento apenas
nos dominava: dormir! Esquecer os 10 dias por que acabamos de passar.
Entramos no embolorado acantonamento e imediatamente caímos num sono de
morte.
As duras exigências do Exército trazem-nos de novo à realidade. Nosso
novo Spiess*, Sargento-Ajudante Blatz, determina uma chamada. Ele pensa que
ainda está na escola de subalternos em Neuruppin, junto com o Capitão Von
Pader, nosso comandante provisório.
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* Spiess: Gíria alemã para o Sargento-Mor da Companhia.
===============
Resmungando e com ideias assassinas no coração, entramos em forma na
praça.
– Onde está o resto de vocês? – grita Blatz, irritado.
– Eles levarão muito tempo para chegar – diz o Primeiro-Sargento Berner.
desrespeitosamente. – Estão embaixo da terra!
– Faça a chamada! – ordena Blatz ríspido. A chamada é feita várias vezes,
antes de ele se dar por satisfeito.
– Indique o número de mortos! O número de feridos!
– Morreram 125, 19 estão desaparecidos e há 42 feridos. senhor! –
responde gritando o Velho, em rígida posição de sentido.
Blatz empalidece, mas rapidamente se recompõe. Não foi por nada que ele
foi reconhecido como o terror da escola de subalternos. Ele nos leva para um
duro exercício; para animar-nos um pouco, diz ele, e não fica satisfeito
enquanto dois homens não desmaiam.
– Ainda vou pegar esse filho da puta! – promete Gregor, rangendo os
dentes.
– Não, meu filho, o prazer será meu – diz Porta, com um sorriso perverso.
– Primeiro, vou endoidecer esse porra, esse cretino desse maluco – diz
Tiny. – Enchendo o peito e levantando a cabeça ele dá um tremendo berro, para
surpresa de todo o mundo.
– Cooompanhia, alto!
– Quem disse isto? – berra Blatz, seu pescoço enrubescendo.
– Os espi-pi-pí-ritos! – ouve-se do lado onde está Tiny, como um eco.
Blatz explode de raiva e cruza o campo em revista à companhia.
– Você! Qual é seu nome? – ruge Blatz, quase encostando seu rosto no de
Tiny.
– Quem, eu? – pergunta Tiny, assumindo um ar idiota e apontando o dedo
para o próprio peito.
– Você é maluco? – pergunta Blatz, em voz macia.
– Senhor, Herr Sargento-ajudante, senhor, os médicos militares dizem, sim,
senhor, que eu sou, e já conheci tantos quanto pude – responde Tiny, numa voz
meio cantarolante.
– Vá para o mato! Acelerado! – berra Blatz, fora de si de raiva.
Tiny dirige-se para o mato num passinho de malandro, exibindo no rosto
um sorriso estúpido.
– Corra, homem, corra! – grita, desesperado, Blatz. Tiny para e leva as
mãos aos ouvidos, como se estivesse surdo.
– Corra, homem, corra! – repete Blatz.
Tiny trota de volta para a companhia.
– Meia-volta! – grita Blatz. – Em frente, marche! Para o mato!
Tiny continua a vir em direção à Companhia.
– Alto! – ordena Blatz. – Deitado de frente! Vinte flexões! Atenção! Dobre
os joelhos! Estenda os braços!
No fim, ele se confunde com as próprias ordens. O suor corre em seu rosto.
Ele parece uma estátua de arenito corroída pela chuva.
Tiny permanece deitado como se aquela fosse a última ordem que tivesse
recebido. Coloca uma das mãos embaixo do queixo e olha para cima para o
desesperado sargento com a maior naturalidade.
– Eu fico imaginando, Herr primeiro-sargento, senhor, como posso fazer
para todas essas ordens entrarem em minha cabeça com a rapidez necessária.
Eles me disseram, quando eu estava sendo treinado, que uma ordem deve ser
clara. Isto estava no regulamento, diziam eles. Agora, senhor, não posso digerir
todas essas ordens de uma só vez e devo pedir ao primeiro-sargento que tenha a
bondade de dizer agora o que deseja que eu faça por ele, por favor!
Sem dizer uma palavra, Blatz faz meia-volta e marcha com passo decidido
para a reserva da companhia. Pouco depois, ele volta seguindo o Capitão Von
Pader, que ostenta uma expressão extremamente enérgica.
– O que está você fazendo ai deitado fingindo-se de louco? – pergunta Von
Pader a Tiny.
– Herr capitão, senhor, estou obedecendo ordens, sim senhor – responde
Tiny.
– Levante-se, soldado!
Tiny levanta-se como um velho, como um homem bastante idoso,
apoiando-se no fuzil.
O Capitão Von Pader fica roxo de raiva.
– Você está preso por tempo indeterminado! – diz ele, lacônico.
– Por que motivo, senhor, posso saber? – pergunta Tiny, admirado.
– Seu porco! – exclama Von Pader, perdendo o controle.
Lamenta a explosão, tão logo as palavras deixam-lhe os lábios. Um oficial
prussiano deve ser capaz de controlar a raiva.
– Como é isso, Herr capitão, senhor, como é isso? Prendendo um porca por
ele ser o que é? Então em breve todo o Exército alemão estará no buraco, pois
não há nada a não ser porcos nele, não é verdade. senhor?
– Você perdeu o juízo, soldado? – pergunta Von Pader, a voz falhando. –
Quer dizer que todo o Exército alemão é constituído de porcos?
– Bem, senhor, o intendente, Herr Sauer, ele diz que nós todos somos uma
porção de suínos judeus, ele fala, senhor. E o Dr. Müller diz que somos uma
porção de porcos simuladores.
– Sentido! – grita o Capitão Von Pader, seu rosto já tendo virado azul. –
Em frente, marche! Acelerado! Em direção ao bosque!
Tiny desloca-se como se fosse um homem que houvesse! Levado um tiro.
Ninguém pode dizer que ele não está obedecendo às ordens. Ao atingir o
bosque ele vai de encontro a uma árvore e continua correndo no mesmo lugar
contra a árvore, levantando bem os joelhos.
– Dê a volta na árvore! – grita Von Pader, batendo com os pés no chão,
histericamente. – Acelerado! Corra! Dê a volta em torno de todas as árvores!
O diabo apossa-se de Tiny. Ele corre direto para o alto de um morro,
desaparece no vale que lhe fica por de trás, surge no cume de outro morro,
corre em zigue-zague por entre as árvores, relincha feliz e se empina como um
cavalo.
– Alto! Alto! – grita Von Pader, e sua voz falha muito, mas Tiny, que está
muito longe, finge que não está ouvindo e continua a correr, a corcovear e a
relinchar. Desaparece atrás de um morro, mas muito depois de perdê-lo de vista
ainda podemos ouvir seus relinchos.
– No momento em que aquele soldado voltar – desabafa Von Pader – ele
deve ser manietado e mantido preso numa cela até que a polícia militar possa
removê-lo daqui!
A companhia sai de forma. Tiny não mais aparece; os bosques e os morros
parecem tê-lo engolido. Porta diz que ele desertou para Berlim e, pela
velocidade com que se movimentava, já deverá estar lá há muito.
O Capitão Von Pader escreve várias páginas de uma parte sobre a
Companhia nº 5 em geral e sobre Tiny em particular. O Coronel Hinka está
esperando pelo relatório; ele ouviu falar da exibição de rodeio de Tiny por
outras fontes.
O monóculo do capitão cai de seu olho ao espantar-se, quando ouve seu
comandante. exasperado, ao telefone.
– O que anda você fazendo, Von Pader? Ordem-unida com mochilas
carregadas com sua companhia durante um período especial de repouso que eu
ordenei? Quando os homens voltam das linhas de frente, eles tem que
descansar! Descansar! Você está me entendendo? – O coronel bate o telefone
com tanta força que Von Pader quase fica surdo.
– Eles ainda não me conhecem, esses maus soldados – jacta-se Von Pader.
– Mas eles vão me conhecer!
– Devemos mandar a parte para o regimento, senhor? – pergunta Blatz,
inocentemente.
– Eu nunca, nunca jamais, quero ver uma parte relativa àquele horrível
soldado – grita Von Pader furioso, rasgando a parte em milhares de pedacinhos.
– Ele para mim não existe mais. Nunca mais fale do nome dele de novo em
minha presença!
O Primeiro-Sargento Blatz passa pelo alojamento como um rolo
compressor, acabando com jogos de cartas, confiscando suprimentos adquiridos
ilegalmente, solicitando partes de munição gasta dos comandantes de seções, e
distribuindo serviços de limpeza e faxina à direita, à esquerda e ao centro.
Quando, mais para a tarde, já está exausto de tanto dar duro. fica convencido de
que está com a Companhia nº 5 controlada.
– São moles como uns merdas, eles são! – diz para o amanuense da
companhia. – Em breve vou ensinar-lhes a quem eles têm por sargento-mor
agora. Aquelas listas de verificações já vieram do Mecânico-Chefe Wolf?
O amanuense engole em seco. Ele conhece Wolf e pressente a dificuldade
que se aproxima.
– As listas? Já vieram? – repete Blatz.
– Não, Herr primeiro-sargento, e receio que não venham! Wolf pediu-me. .
Bem! Wolf mandou que eu fosse me foder!
– O homem ficou maluco? – diz Blatz, sussurrante; não pode acreditar nos
próprios ouvidos.
O amanuense encolhe os ombros; ele não quer fazer de Wolf um inimigo.
Blatz vai a Wolf. Aquilo é uma questão de disciplina.
Wolf recebe-o reclinado em sua cadeira de molas pessoal, com os pés em
cima da mesa. Acende, indiferente, um grande charuto sem oferecer um a Blatz.
Branco de raiva, Blatz avança sobre ele mas estaca, quando ambos os cães-
lobos mostram suas presas e começam a rosnar ameaçadoramente.
– Que pensa você que tem na cabeça? – pergunta, tremendo de indignação.
– Onde estão as listas de verificações que mandei que você preparasse? Será
que não sabe quem é o sargento-mor nesta companhia?
Wolf ri gostosamente e aponta para Blatz com um sabre de cossaco.
– Vá-se foder e tire o nariz de meu serviço!
– Você vai se arrepender disso! – diz, sibilante, Blatz.
– Mande-se, antes que eu açule os cachorros em cima de você – diz Wolf,
rindo e apontando para a porta.
Blatz deixa-o, praguejando e jurando vingança. Com passos confiantes
marcha pela poeirenta estrada que vai a vila. Passando pelo alojamento do
comandante, ouve um barulhento canto por detrás da casa. Cuidadosamente.
espia pela esquina e vê Tiny, deitado atrás de um canteiro de nabos, cantando
numa alegre voz:

Minha querida, meu amor, minha pomba,


Estou sangrando, estou morrendo de amor.
Vem para cá e nós nunca mais sairemos
Desta silenciosa e solitária cova
Onde eu me encontro frio enterrado na neve...

Blatz está para deixar o lugar e desaparecer, quando o Capitão Von Pader
bate na parede e o chama.
Nada podendo fazer, ele tem que entrar na reserva por menos que deseje
fazê-lo.
– Blatz, tire daí esse idiota cantador! – ordena, furioso, o capitão. – Fuzile-
o, se lhe agradar!
Blatz arrasta os pés, como uma galinha no choco.
– Herr capitão! – gagueja, em tom confuso.
– Isto é uma ordem! Tire esse palhaço daqui! – explode Von Pader, fora de
si. Blatz suspira como um condenado. Com incertos passos ele se dirige para
fazer Tiny sair.
Por detrás da cortina, Von Pader observa o que vai acontecer, em
companhia de uma garrafa de conhaque. Dominar e esmagar um soldado tinha
sido tão fácil para ele, até agora, como matar um mosca. Toma um longo trago
da garrafa. Com um pouco de sorte, em breve estaria de volta a Berlim e então
esses meio-humanos soldados da frente iriam realmente conhecê-lo. Espia
cuidadosamente para fora da janela e vê, satisfeito, que Blatz está falando com
Tiny.
Se alguém pode dominar aquele caipira é o Primeiro-Sargento Blatz, o
terror da escola de formação de subalternos, o Quebra-Osso Blatz!
Von Pader resmungando ri de novo para si mesmo, bebe outro gole da
garrafa de conhaque, e começa a andar para cá e para lá na cabana de teto
baixo; está aquartelado no estilo ao qual um oficial alemão de sangue azul nas
veias tem direito. O dono da cabana, naturalmente, foi expulso e fixou
residência num buraco no chão.
O Barão Von Pader não condescenderia em viver na mesma casa com um
untermensch russo. Ele poderia transmitir-lhe alguma espécie de suja doença.
Dera uns tiros na mulher russa, quando ela criara alguma dificuldade com
relação a uns potes e panelas que queria levar com ela. Para que, diabo, queria
ela potes e panelas? Disseram-lhe que um dos tiros a havia atingido, mas ele
não deixou o sargento-enfermeiro examina-la. Enfermeiros alemães não
deveriam ser obrigados a tocar untermensch. Eles não haviam recebido seu
custoso treinamento para cuidar deles. Nunca seja bom para um russo; isto os
faz atrevidos, como os negros. De chicote, é que eles precisam. E uma
execução de vez em quando não era nada mau. O Capitão Von Pader gostava
de enforcar gente. Já o Coronel Hinka era contra este tipo de coisas. Ele exigia
que os untermensch fossem tratados como os alemães! Muito bem! Aquele
emproado coronel em breve perderia toda sua empáfia, quando o levasse ã Rua
Almirante Schröder. Derrotista, sabotador racial!
Tiny está cantando cada vez mais alto no meio dos canteiros de nabos. O
Primeiro-Sargento Blatz desapareceu.
O Barão Von Pader aperta os lábios, pega sua Mpi de cima da mesa e
afasta as cortinas para um lado. No mesmo instante, uma vidraça estoura atrás
dele e uma granada de mão rola pelo chão. Ele grita de medo e atira-se ao solo.
Tiny corre para dentro da cabana, com sua Mpi engatilhada, para no meio
da sala, olha para seu comandante estirado no chão e para a granada de mão
prestes a explodir. Abaixa-se, pega-a e joga-a para fora pela porta aberta.
Von Pader consegue por-se de pé, limpa com as mãos seu uniforme cinza-
ardósia e volta as costas ostensivamente para Tiny. Este, evidentemente, para
ele, não existe.
Tiny nem está ligando. Tagarela alegremente acerca de jogar granadas,
guerrilheiros e muitas outras coisas que fazem parte da vida atrás das linhas.
– Herr capitão, senhor, estou muito certo de que muitos destes oficiais aqui
estão tentando brincar comigo! Agora se eu pudesse encontrar um rato morto,
que fedesse muito, então nós poderíamos jogá-lo no meio deles. Isto não é
brincadeira estar jogando granadas em mim. é? E com o senhor sendo novo na
função, como se poderia dizer!
O Capitão Von Pader fecha e abre as mãos num esforço para conter sua
raiva. Passa a mão pelo coldre da arma: será que ele deveria atirar neste homem
e dizer que o havia atacado? Decide não fazê-lo.
Porta está sentado cm frente ao Mecânico-Chefe Wolf na comprida e larga
mesa de Wolf, discutindo com ele quatro caminhões e diversas caixas de
suprimentos da cantina. Wolf está comendo uma metade de uma cabeça de um
leitãozinho. Porta está preparando um sanduíche do modo que ele acha que um
sanduíche deve ser feito. Primeiro, um pedaço de pão com uma demão de
gordura de ganso; depois, um bom pedaço de presumo defumado, coberto
com fatias de salsicha e mais qualquer coisa disponível. O conjunto
finalmente coberto com uma camada de geleia de groselha!
Abre completamente suas mandíbulas e consegue manobrar o enorme
sanduíche para dentro da boca. Encontra alguma dificuldade em atravessa-lo
com seus dentes, mas finalmente o consegue.
– Quero vê-lo engasgar! – diz Wolf, animando-o.
Porta consegue deglutir o último pedaço e pega uma galinha sobre a qual
derrama um pote inteiro de geleia.
– Não espere demais, Wolf – diz ele, enchendo a boca com a galinha. – Eu
poderia engolir um porquinho inteiro de bom tamanho, escutá-lo grunhindo
dentro de mim o dia inteiro e acabar cagando-o de novo sob a forma de uma
ninhada completa de leitõezinhos de leite vivos!
– Eu não duvidaria de que você fosse capaz – resmunga Wolf, enojado,
comendo sauerkraut junto com o pé de porco. – Lembre-se apenas, no entanto,
de que é minha comida que está filando e, quanto eu possa lembrar, você nem
foi convidado.
Porta ri gostosamente, descansando as mandíbulas.
– Está perdoado, irmão Wolf, mas eu deveria dizer-lhe que nunca sou
convidado. Não é necessário! Eu venho sem ser convidado, mas estou sempre
vestido para jantar!
Durante algum tempo, comem silenciosamente, olhando um para o outro,
avaliando-se. Os únicos sons que se ouvem são os de ossos sendo partidos e de
vinho descendo pela goela abaixo.
Wolf, que foi bem-educado, bebe de um copo; Porta, direto da garrafa.
Wolf tem seu próprio serviço de jantar particular; Porta está disposto a pegar
sua comida diretamente da panela. A coisa principal, no que lhe respeita, é que
haja bastante.
– Vamos dividir a cabeça do porco? – pergunta ele, cravando uma longa
faca de cozinha precisamente entre os olhos do animal que domina a mesa com
um tomate na boca.
Wolf resmunga algo ininteligível que termina com “merda”.
Porta corta a cabeça do porco em duas parte, ficando com a maior para ele.
Esvazia seu conteúdo com um longo chupão capaz de enjoar estômagos
delicados.
Wolf olha para ele com asco.
– Diga-me, filho: você nunca moce num rancho?
– Naturalmente que sim – diz Porta, rindo. – Existe alguma coisa que não é
servida lá?
Eles se reclinam em suas cadeiras; dois longos e satisfeitos arrotos fazem-
se ouvir. Porta tira suas botas e meias e coloca-as na mesa. Um cheiro acre
emana delas. Olha atentamente para Wolf, que começou a comer um prato de
fumegante pudim de chocolate, e chega para mais perto dele uma das meias,
cujo dedão não prima pela limpeza. Luxuriosamente, agita os dedos dos pés.
Sem lhe dar a menor atenção, Wolf derrama molho de maçã em cima do
pudim.
Porta começa a cortar as unhas dos pés. Aparas de unhas passam zunindo
pelos ouvidos de Wolf.
Os cães-lobos fungam com desprazer e afastam-se da mesa. As meias de
Porta são um pouco mais do que seus sensíveis focinhos podem suportar.
– Que diabo de cheiro é este? – pergunta, subitamente, Wolf, levantando os
olhos da salsicha.
– Cheiro? – pergunta Porta, inocentemente. – Deveria ser esperado, não é?
Em sua companhia?
– Não seja confiado, filho – rosna Wolf, ameaçador. – Não se esqueça de
quem é mecânico-chefe e sargento aqui. E não se esqueça quem e portador da
medalha da Cruz Alemã em prata. Tire essas malditas meias daqui. Quem
jamais ouviu que se colocassem meias em cima de uma mesa de jantar? – Com
seu garfo, ele as atira no chão; elas vão cair perto dos cães que recuam ganindo
e uivando.
– Sei onde existem três tratores – diz Porta, após um longo silêncio. – De
esteiras, do tipo que a artilharia pesada usa.
– Que tratores? – pergunta Wolf, com aparente desinteresse.
– Coisa de primeira classe. Não estão nem estragados por mau óleo ou
querosene. Vieram direto dos Estados Unidos, endereçados a Ivan.
– Que marca? – pergunta Wolf, mergulhando na gordura um pedaço de pão
camponês ucraniano. – Se forem Fords, eu não poderia estar menos interessado.
Tito começou a odiar os capitalistas seriamente, quando eles lhe enviaram
alguns deles. São a vingança da América contra a Europa por nós lhes
havermos mandado todos os nossos indesejáveis.
Porta lava a boca com uma meia garrafa de champanha da Criméia, da qual
ele se serve sem ser convidado.
– Quem está falando acerca de Fords? Estou falando sobre Caterpillars. O
que tem a dizer?
– Você está mentindo – retruca Wolf, antes que possa lembrar-se da
primeira regra do comprador: deixar de mostrar qualquer interesse no que está
sendo oferecido.
Porta abre uma lata de carne, sem pedir permissão, e joga o conteúdo para
dentro da boca com a ponta da baioneta.
– Onde você está guardando esses Caterpillars?
Porta acaba sua lata de carne antes de responder e está evidentemente
gozando da impaciência de Wolf.
– Eu não os tenho. Acontece que apenas sei onde eles estão neste
momento.
– Estamos desperdiçando o tempo um do outro – decide Wolf,
bruscamente. – Você não pode vender algo que não tem.
– Você sempre faz isso, Wolf – diz Porta, com ar sabichão. – Vamos ter
um café para completar depois deste modesto almoço?
– Eu trago a latrina para aqui, se você quiser! – rosna Wolf. – Tire seus
fedorentos pés da mesa, seu filho da puta. Nunca aprenderá a ser educado,
nunca! Colocar os pés ao lado do prato do dono da casa nunca fará de você um
convidado popular. Pensei em oferecer-lhe um emprego quando acabasse a
guerra, mas seria como se soltasse um porco amalucado no meio do infeliz
resto do mundo.
“Mocca! – ordena Wolf a seu criado, um ex-sargento russo, para trazer-lhes
café, embora com má vontade.
– O homem disse café! – grita Porta para o russo.
– Desde que o conheci, eu me converti para o partido tóri, e palavra de
honra que odeio o proletariado socialista das sarjetas – resmunga, amargo,
Wolf.
– Eu bebo somente Java – diz Porta, rindo, sem se sentir de forma alguma
insultado.
– Java? Onde no inferno você acha que eu seria capaz de encontrar Java? –
mente Wolf.
– Tire a merda de seus ouvidos – fala Porta, confiante. – Wolf: você pegou
três sacos de Java há um mês. Poderá enganar todo o Exército alemão o tempo
todo, mas a mim você nunca pode tapear, meu chapa!
– Santos não é bom bastante para você? O pobre perseguido povo alemão
daria seus colhões por uma xícara de Santos. Há. Até alguns Herrenvolk que
nunca provaram uma xícara de Santos.
– Você é realmente um homem mau, Wolf, realmente mau! – fala Porta
sorrindo com jeito cativante. – Em primeiro lugar, não sou um dos pobres e
perseguidos alemães que você mencionou antes. Entre você, eu e o respeitável
público, eles podem foder-se todos no que me diz respeito. Eu venderia amanhã
a todos eles, a Pátria e tudo o que ela contém, incluindo as bandeiras, ao nosso
vizinho Ivan. Não quero sua merda amarga de Santos. Quero Java.
E, meu amigo, se eu não o beber agora, você não terá mais nenhum em
estoque amanhã!
Wolf vira a cabeça e dá um berro pelo sargento russo.
– Igor! Java! Qualidade B!
– Qualidade A, amigo! – corrige Porta.
Um gostoso aroma enche todo o armazém. Com o café, eles comem torta
de queijo.
– Tenho cinco quilos de chá – diz Porta, depois da quarta xícara de café. –
Darjeeling com um pouco de verde misturado, excelente qualidade. Faria um
chinês sair voando com seus bagos tilintando ao som da marcha Radetzky
durante todo o tempo em que estivesse voando!
– Conversa fiada! – comenta Wolf. – Chá é impossível de obter hoje em
dia. Tenho obrigação de saber, pois tentei-o várias vezes. A China é enorme e
está coberta de chá. Meus rapazes chineses me dizem que há o bastante para
eles se afogarem em chá se o desejarem. Mas nós não estamos na China.
– Tenho conexões – proseia-se Porta, desdenhoso. – Eu tenho, Imagine
uma caravana de camelos com um harém completo e alguns vagabundos árabes
ou um submarino inglês completo com projéteis e torpedos? E uma sopa! A
Scotland Yard está nas pegadas do maquinista, de forma que ele topa a parada.
Você poderá viajar à vontade, Wolf!
– Foda-se – rosna Wolf, sem ficar impressionado. – Camelos eu tenho.
Quem deseja camelos hoje cm dia? É atrás de rodas que se anda! Quanto você
quer pelo seu chá?
– Quanto você paga? – retruca Porta, limpando os dentes com sua faca de
combate.
– Dez mil marcos – oferece Wolf, com um brilho ganancioso nos olhos.
Porta reclina-se para trás na cadeira, rindo a bandeiras despregadas.
– Não estou em falta de papel higiênico, Wolf!
O sargento levanta-se sem uma palavra e passa para a sala vizinha. Corre
os dedos ao longo da parede, abre um painel e aparece um cofre. Ele desliga
diversas conexões elétricas e abre o cofre. Qualquer um que tentasse fazê-lo,
seria reduzido a migalhas.
Quando volta, Porta está de pé em cima da mesa mexendo com os
cachorros que rosnam e tentam mordê-lo raivosos. Wolf ri com gosto.
– Pare de tentar dar comida para meus cães, filhinho!
Chuta uma salsicha que está no chão. – Eu poderia fazer você comê-la.
Quanto tempo pensa que levaria para esticar a canela?
– Eu sou bem durinho – replica Porta, sorrindo amigavelmente. – Daria a
mim mesmo uns 30 segundos, calculo.
Wolf enxota os ferozes cães para um canto. Rosnando eles lá ficam,
vigiando Porta, que desce de cima da mesa.
– Olha aí! – diz Wolf, empurrando uma caixa preta para ele.
– Você pode ficar com estes por seu chá.
Porta examina os três grandes diamantes com uma lente de joalheiro.
– Você é engraçado! Seria o melhor número do circo da vila! Você sabe: o
cara que sempre cai de bunda no chão. Mostre esta merda para um judeu de
Amsterdã, Wolf, e ele mandará examina-lo por um médico antes de você poder
dar meia-volta.
– O quê? – pergunta Wolf, insultado.
– Você sabe do que estou falando, sabe muito bem. Natal na Tiffany! Enfie
estes vidros no rabo e guarde-os até que possa fazer negócio com um socialista,
ou qualquer outra espécie de idiota.
– Não entendo uma palavra do que você quer dizer – suspira Wolf, batendo
com a tampa da caixa preta.
– Você parece um jornal com tinta fresca, todo borrado – diz Porta,
zombando do mecânico-chefe.
– Muito bem, esqueça! – concede Wolf. – Admito que eles são de vidro,
mas como poderia eu saber que você não tinha sofrido uma concussão cerebral,
quando foi atingido por aquela explosão em seu caminhão na semana passada.
Os tempos andam duros. Valeu a pena a tentativa!
– Você está me fazendo chorar – diz Porta.
– Não gostaria de um mês de licença? – esgrime Wolf. – Ou talvez de uma
viagem a serviço pela Europa inteira? Que tal uma hospitalização com uma
doença de verdade que nenhum oficial-médico possa curar? Isto é, enquanto
você não quiser que ela seja curada.
– Jesus Cristo, Wolf, você só tem merda no coco! – Porta sacode a cabeça,
resignado. – Se eu quisesse uma licença, eu estaria fora daqui a 10 minutos. Se
eu quisesse dar parte de doente, tenho 10 mil doenças das quais você nunca
ouviu falar, variando desde dores de crescimento até pragas e pestes. Por Deus
que nos escuta, qualquer hospital me receberia em todas as honras, se eu
realmente desejasse recolher-me. O General Sauerbrauch, o chefão, viria de
avião para seguir meu complicado caso tão de perto quanto possível. E viagens
a serviço! Viagens a serviço, eu, Wolf, sou perito em conseguir. Vejamos agora
o que mais tem você naquele cofre!
– Porta, se você se aproximar daquele cofre, seu corpo de judeu ficará com
mais buracos do que uma peneira! Seriam necessários todos os porretas dos
generais médicos do Exército alemão e do Exército russo para tapá-los de novo,
meu filho!
– Muito bem, Wolf, não preciso tirar as botas e contar até 20. Nós não
vamos fazer negócio. – Porta levanta-se e dirige-se para a saída. Aperta o
cinturão da pistola, solta o pino de segurança de sua Mpi e recua. – Felizmente
conheço outras pessoas que sabem o que vale chá Darjeeling e chá verde.
Ofereci a você por consideração a nossas antigas relações, assim não se desfaça
em lágrimas quando eu voltar, dentro de 10 minutos, e lhe disser que vendi o
lote.
– Acalme-se, agora – diz Wolf, sorrindo e tentando mostrar-se agradável. –
De onde você tirou essa ideia maluca de que não quero comprar o chá?
Sentam-se numas almofadas árabes. O chefe da segurança de Wolf serve-
lhes mais café. Aparece uma garrafa de conhaque Napoléon. Charutos surgem
de uma caixa de prata que certa vez pertenceu a um príncipe romeno.
Depois de três horas de duras negociações, o chá muda de mão. Vão buscá-
lo, sorrindo, mas cada um cobrindo o outro com suas Mpis. Eles se conhecem
há muito, muito tempo.
O chá está escondido atrás de alguns grandes fardos de palha em lcolchor.
Wolf experimenta-o ceticamente. Seus peritos em chá, os dois chineses,
examinam-no mais cientificamente e depois de algum tempo declaram que se
trata de Darjeeling com uma mistura de chá verde.
– Onde, diabo, você conseguiu isso? – pergunta Wolf, suspeitoso.
– Da China – responde Porta. – De onde mais poderia ser? É o lugar onde
eles preparam essa espécie de coisa.
– Você nunca esteve na China, Porta!
– Olhe aqui! Jamais perguntei a você onde arranjou a grana para comprar o
chá Darjeeling?
– Há algo de suspeito nisso! – resmunga Wolf, com ar preocupado.
– Chá bom, chá muito bom! – garante Wung. – Eu garanto chá bom. Não
há melhor!
– Acredito – diz Wolf, pensativo. – Mas tenho um instinto mais aguçado
do que 50 judeus. Há algo de errado nisso, que não está certo... Os sinos estão
soando em minha cabeça.
– Esqueça-se então – diz Porta, indiferente. – Eu me livro do chá sem
dificuldade. Então você poderá ver aonde o levaram seus 50 judeus!
Wolf prova de novo na língua o chá e levanta os olhos para o céu como se
esperando um sinal de Deus. O chá é bom; é chá de muito boa qualidade. Ele se
empertiga e olha perversamente para Porta.
– Joseph: se você estiver me embrulhando com esse chá, que Jesus Cristo e
Nossa Senhora de Kazan tenham piedade de você!
Você irá precisar mais do que isso. Necessitará de todos os santos no
maldito calendário para manter-se vivo, filho!
Wolf paga e leva o chá.
Porta dá um passo para embarcar no anfíbio de Wolf, mas os guarda-costas
empurram-no grosseiramente com suas Mpis.
– O negócio está fechado! Não há lugar para você aqui, Porta! Vá a pé
como o resto dos caipiras. Apenas as classes militares superiores andam de
carro.
– Você poderia ter guardado um pouco daquele chá para nós – diz o Velho,
desapontado, quando Porta volta.
– Isto é melhor do que chá! – sorri Porta, mostrando triunfalmente uma
caixa de velhas moedas de ouro. – O chá em breve terá evaporado e este
material amarelo mantém seu valor.
– Que barbaridade! – grita Tiny, espantado. – Há o suficiente aí para
comprar um desses porras todos cheios de passadeiras douradas, com todo seu
estado-maior, de porteira fechada.
– Talvez eu faça isso um desses dias – responde Porta, misteriosamente. –
Esses caras irão valorizar-se muito, quando nossos vizinhos os inimigos
começarem a fazer julgamento de criminosos de guerra.
– Você ajudaria a eles? – pergunta o Velho, com ar de desgosto, acendendo
seu cachimbo de borda de prata.
– Eu ajudo a qualquer um com qualquer coisa, desde que me paguem o
suficiente. A Pátria e uma bandeira drapejante não são minha fraqueza!
– Você venderia sua própria mãe, se tivesse oportunidade – diz Heide, em
tom de desprezo.
– Por que não? – retruca Porta, sorrindo. – Tão logo eles a conhecessem
estariam dispostos a me pagar para aceitá-la de volta. Agora vocês me
desculpem; tenho que me livrar de um par de tratores do Exército.
Wolf tem convidados quando chega Porta. Um oficial da intendência da
Quarta Divisão Panzer do Exército que veio na realidade para comprar sabão
perfumado e garotas. Seus olhos caem num saco de chá e ele se esquece do que
veio fazer.
– O que tem você aí, Wolf? – pergunta, com um olhar cobiçoso.
– Chá – responde Wolf numa voz controlada, com raiva de si mesmo por
não haver escondido a mercadoria. Há limites para o preço que ele pode pedir
ao oficial da intendência.
Porta abre-se num sorriso, quando observa o brilho de cobiça nos olhos do
intendente e começa, sem o menor pensamento de camaradagem, a elogiar a
alta qualidade do chá. Wolf não irá ganhar muito naquele chá e Porta está
francamente feliz com isso.
– Quanto chá há aqui? – pergunta o gordo oficial intendente, sopesando o
saco de chá na mão.
– Um pouco mais de um quilo – resmunga Wolf, desejando que lhe fosse
possível dar um chute nos colhões do intendente.
– Que espécie de preço você estaria pensando em pedir por ele, Wolf? Isto
é para mim!
– Receio não poder vendê-lo, senhor. Não é meu. – Serve conhaque e reza
para que o intendente perca o interesse pelo chá. Começa a descrever os
encantos das senhoritas polonesas e eslavas com quem ele está em contato, –
São verdadeiras macacas em cima de uma cama, senhor. Sabem como rebolar
mais do que se possa imaginar. senhor! – exclama, entusiasmado.
– Voltemos para a questão de quem realmente é o dono do chá – insiste o
intendente, com um olhar maroto por detrás das grossas lentes dos óculos, que
o fazem parecer como um sapo gordo sentado em cima de uma pedra,
aquecendo-se ao sol.
– Desculpe-me, senhor. O chá pertence a um oficial de alta patente. – Wolf
bate no próprio ombro e corre com o dedo por sobre o lado esquerdo do peito
várias vezes, para demonstrar, pelo número de medalhas, de que alta patente se
trata.
– Já ouvi falar de oficiais mesmo de patente muito alta que tiveram suas
coisas roubadas, apesar de suas camadas de medalhas – considera o intendente,
inchando as gordas bochechas.
Em sua consciência, Wolf tem que concordar com ele.
– Senhor, senhor! De maneira alguma. Sou um homem honesto. Nunca
poderia fazer urna coisa destas. – Por um momento, Wolf parece um santo no
vitral.
Porta tosse discretamente ao fundo do cômodo e coloca mais um pouco de
conhaque no copo. Wolf esquecera-se inteiramente dele. Quando o cabo
novamente vira a garrafa sobre o copo, Wolf arranca-lhe a garrafa das mãos e
enche o próprio copo e o do intendente que parece um sapo. Rápido corno um
relâmpago, Porta troca seu copo vazio pelo copo cheio de Wolf.
Wolf lança-lhe um olhar assassino. Uma longa discussão, sobre a questão
do chá, desenvolve-se entre Wolf e o sapo-intendente. Este explica, em voz
agradável, o processo pelo qual poderia, se desejasse, requisitar o chá. Ele é,
naturalmente, o chefe da intendência da Quarta Divisão Panzer do Exército.
Wolf replica com uma bela ameaça oblíqua, que o intendente deixa passar
de lado sem aparentemente nenhuma reação visível. Ele já tem um número por
demais grande de compromissos com Wolf para permitir sentir-se insultado.
Wolf sabe que está segurando o lado certo da corda; se perder para o
intendente, a Quarta Divisão Panzer vai-se junto com ele e a maré montante
levará mais do que uns poucos outros com ele. Ate na Rua Almirante Sehröder
isto seria notado.
Depois de um longo tempo, o oficial intendente parte com seu saco de chá.
Ele se sente nas nuvens, em parte devido ao conhaque, em parte por ter obtido o
chá. Esqueceu-se por completo das tão elogiadas senhoritas. Adora chá e já
calculou que dispõe do suficiente para durar-lhe o resto da guerra, mesmo que
esta se transforme numa guerra de posição, com trincheiras e as formas mais
suaves de gases venenosos.
Wolf tornou-se o feliz proprietário de um enorme urso pardo, que sabe
beber cerveja e atirar granadas de mão.
– Para que você quer esse horrível monstro? – pergunta Porta, divertido,
parado ao lado de Wolf observando o urso, que acabou de chegar como
passageiro de uma grande Mercedes. O motorista, um Oberscharfürer SS, faz
continência quando apeia do veículo. O urso tem um boné verde de oficial da
NKVD na cabeça e dão-lhe imediatamente um engradado de cerveja. Wolf sabe
como receber bem um oficial russo de alta patente.
Porta ri até quase ter cãibras no estômago e em breve torna-se amigo do
urso. Beijam-se no estilo russo. Wolf olha pensativo do urso para Porta. i
– Eu o venderei a você – decide ele. – Ele lhe será enormemente útil no
front. Ensine-o a comer os vermelhos e, quando você estiver num serviço de
limpeza, ele poderá farejar os esconderijos deles para você.
– Até que esta não é uma má ideia – decide Porta, olhando para o urso com
grande interesse. – Ouvi dizer que esses ursos são mais fáceis de ensinar do que
cães ou cavalos. Eu poderia ensiná-lo a fazer a saudação russa com o punho
fechado. Os rapazes de galões dourados iriam adorar, mesmo sem poder punir
um urso russo por ser leal a Moscou. Por quanto sua consciência permitiria a
você separar-se dele?
– Não sei – diz Wolf, vagarosamente. – Ursos estão um pouco fora de
minha linha. Eu o recebi de um circo russo que faliu.
– Eles são uma praga no mercado – diz Porta, com ar de entendido. – A
Sibéria está pululando deles.
– Embora nós não estejamos na Sibéria, Porta – lembra-lhe Wolf.
– Mais cedo ou mais tarde você vai parar lá – adverte Porta,
agourentamente.
– Sim, do jeito que o sol parece deitar-se sobre o Reich alemão, com a forte
possibilidade de um novo movimento dos povos alemães para o norte, você
pode estar certo – diz Wolf, apontando para o urso. – E possível que haja
muitos como ele na Sibéria, mas nem todos eles aprenderam a beber cerveja e a
atirar granadas de mão.
– Você está errado, homem, inteiramente errado! Ainda não ouviu dizer –
continua Porta – que os bares siberianos estão cheios deles até altas horas da
noite?
Eles passam a discutir os Caterpillars, e, quando finalmente chegam a um
acordo e Wolf os vê e descobre que são tão novos que a graxa protetora ainda
nem foi removida, ele exclama, estupefato:
– Que diabo, Porta! Os ianques consignaram estes diretamente para você?
– Não está muito longe da verdade – proseia-se Porta, fazendo um largo
gesto com as mãos. – Eles vieram por via férrea diretamente da terra do próprio
Deus via círculo ártico. Há até uma Bíblia instalada logo atrás dos
carburadores!
– Por Jesus Cristo, homem! – exclama, admirado Wolf. – Continue desta
maneira e você em breve estará se queimando ao sol na companhia dos grandes
gregos em Mônaco!
Voltam para a casa de Wolf a fim de tornar um drinque à saúde da
barganha. O urso enrola-se numa bola em um canto e olha com desprezo para
os cães-lobos. Estes se mantêm a uma distância respeitosa.
– Para provar-lhe que sou seu amigo de verdade – começa Wolf, em tom
solene – vou dar-lhe o urso de presente!
– Isto quer dizer ser amigo? – pergunta Porta, desconfiado.
– Você deseja livrar-se dele, Wolf! Esse urso é invendável e esses garotões
pardos comem mais do que um esfomeado alemão que atravessou as três
últimas guerras. Para ser perfeitamente honesto com você, não estou ligando
muito para seu presente. Certamente vai trazer-me mais problemas do que
prazer. Antes que saiba o que está acontecendo, você se estrepa com um
monstro como este. Lembre-se daquela porquinha que tínhamos. Aquela que
não tivemos a coragem de matar. Se os vizinhos não houvessem capturado
Sophie, nós ainda a teríamos, e aquele garotão pardo ali parece ter muito mais
charme do que Sophie, jamais teve! O Exército não é bom lugar para animais
de estimação. Repare no olhar dele! O que ele precisa é de um bom lar, para ter
a certeza de uma velhice feliz. Por falar nisso, qual é o nome dele?
– Já perguntei, mas ele não diz! Quer vê-lo beber cerveja?
Sem esperar por resposta, Wolf coloca quatro garrafas de Schlosspilz sobre
a mesa e faz um sinal ao urso.
– Você não vai primeiro abrir as garrafas? – pergunta Porta, admirado.
– Não, não, não! O urso faz isso ele mesmo!
O animal movimenta-se até a mesa e com seus dentes morde e tira a
tampinha de uma garrafa; a seguir esvazia seu conteúdo com a velocidade de
um estivador morto de sede, atira a garrafa vazia em cima dos cães-lobos e
pega a seguinte.
– Nossa Senhora de Kazan! – exclama Porta, espantado. – Que eu me
dane! Será que você acha que ele poderia ser ensinado a atirar com um
Kalashnikov?
– Por certo, por certo! – assegura Wolf. – Você pode ensinar a esse urso
tudo o que quiser! Um animal muito inteligente. Ele estava com uma unidade
especial em Moscou antes de vir para o circo.
O urso dirige-se para Porta, põe-lhe a enorme pata no ombro e pespega-lhe
um grande e úmido beijo bem no meio da cara.
– Ele gosta de mim! – diz Porta, entusiasmado. – Não há muitos que
gostem de mim, você sabe?
Porta e Wolf são servidos de café. Eles concordam em pegar os tratores no
meio da noite. De preferência, entre duas e quatro da madrugada; esta é a hora
da noite em que os guardas estão com mais sono.
O grande gatarrão branco de Wolf vem andando arrogantemente do outro
depósito ao lado.
Porta chama-o. Ele adora gatos. Nunca se conformou com a perda de
Stalin*. O gato de Wolf ignora-o por completo. Balança zangado a cauda.
quando Porta o chama de novo e lhe oferece um pedaço de patê.
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 Legion of the Damned. do autor.
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– E um gato francês – esnoba Wolf, em nome do gato. – De Paris!
– Isto é óbvio. Tem um forte senso de patriotismo.
– Você está absolutamente certo – diz Wolf. – Meus prisioneiros franceses
são as únicas pessoas que ele deixa tocá-lo e dar-lhe comida.
– Ele não deixa você tocar nele? – pergunta Porta.
– Non, monsieur! Não pense que ele jamais se conformou de nós lhes
havermos roubado a Alsáeia-Lorena em 1870.
– Aquilo foi uma coisa tipicamente alemã para fazer a bons vizinhos –
admite Porta, solenemente. Observa com admiração o gato, quando este passa
pelos cães-lobos com o rabo em pé e um ar do mais profundo desprezo por
todos os cães em geral e esses dois em particular.
Quando o Capitão Von Pader ouve falar no urso, vai direto ao quartel-
general do comando do regimento.
– Porta e um urso, hem? – O coronel Hinka ri. – Enfrente a questão: nada
há nos regulamentos que o proíba de ter ursos.
– O senhor deseja que ele desfile? – pergunta Von Pader, de crista abatida.
– É sua decisão! Você é seu comandante! – O Coronel Hinka corta a
conversa, desinteressado.
O urso desfila com a companhia; depois de algum tempo, todo o mundo
acostuma-se com ele. A única coisa que o enraivece é a visão de uniformes
cáquis. Estes o transformam de um gigante bem-humorado a uma rosnante
besta selvagem. Os olhos ficam-lhe pequeninos e adquirem um brilho perigoso.
Fazemos urna enorme festa de batizado para ele e damos-lhe o nome de
Rasputin. Há algo no urso que nos recorda o monge russo; especialmente
quando bebe cerveja.
Wolf chega a festa com seu coro particular. Entre canções são feitos
discursos. Heide fica tão embriagado que se deixa converter ao comunismo.
Mais tarde, sente arrepios de consciência e torna-se católico, recebe a
absolvição de Porta. Que certa vez esteve com o Padre Corpoz*
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* padre Corpo: personagem de Wheels of Terror, do autor.
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O Velho levanta-se com dificuldade. Teimosamente tenta sentar-se numa
cadeira de rodas e finalmente consegue. O resultado É formidável: a cadeira,
tendo atravessado o depósito, Tiny abre polidamente as portas duplas e ela rola
rapidamente pelo estreito caminho a baixo até cair dentro do rio.
Imediatamente, organiza-se uma equipe de salvamento.
– Honrados cantores – balbucia o Velho, quando o trazem de volta para
terra. – Aquele homem ali – soluça e aponta, hesitante, para Gregor. – Aquele
homem... aquele homem ali! Ele canta como se fosse um porco! Exatamente
como um porco! – E olha de novo para Gregor. – E tem três cabeças!
Gregor coloca-sc de pé com grande dificuldade. Os schnapps atingiram o
nível de suas amígdalas. De modo inseguro, apoia-se contra um canhão de 20
mm.
– Devo dizer-lhe, senhor! – dá um soluço e tenta cuspir na direção do
Velho. – Devo dizer-lhe que o senhor é o mais estúpido dos estúpidos que
jamais encontrei. O senhor é um verdadeiro merda!
O Velho cai de cara na mesa, com o rosto mergulhado na decoração de
flores.
– Soldados alemães! Que não podem cantar! Sejam fuzilados ao
amanhecer! Não merecem viver! – resmunga ele, Sua voz sufocada pelas
pétalas da decoração da mesa, que ele começa a comer.
– Cantem, seus filhos da puta! – grita Gregor. Ele conseguiu trepar no
pequeno banquinho atrás do 20 min. – Um, dois, três, cantem! Nada mais dessa
embromação – funga ele. – Se nós não podemos cantar, nada mais resta. O
canto é o, a, o, a... porra da coluna vertebral do Exército! – Enquanto fala, imita
os movimentos de carregar o canhão.
– Fuzi... fuzi... fuzilem-me finalmente! – gagueja Porta, sentado ao lado de
Rasputin e perdidamente embriagado.
– Atiro em quem eu gostar e, quando me aprouver, atiro em quem eu quiser
– tartamudeia Gregor e subitamente vomita em cima do canhão.
– Você vai limpar esse canhão – grita Heide, brabo. – Se você é de fato um
graduado, irá limpá-lo, companheiro!
O canhão dispara, atirando um carregador inteiro de balas de 20 mm pelo
teto. Felizmente, elas são balas de penetração e não explosivas.
– Parem de bobagens agora – adverte Wolf, num tom paternal. Uma das
balas arrancou-lhe o boné. – Nós somos um coro sóbrio ocupado em honrar um
batizado e não um clube de tiro enlouquecido pela guerra em exercícios de
milícia no parque da cidade, em uma manhã de domingo.
– O Sargento Beier vai cantar a próxima canção – diz com voz enrolada
Gregor, caindo do canhão.
– Vou mandar prendê-lo pelos PMs! – grita o Velho. Ele está tentando
engolir a longa haste de um cravo, pensando que come um aspargo.
– Sargento Gregor Martin – grita Heide. – Você é uma desgraça para o
corpo de graduados alemães. Os homens riem-se de você! Sargento Martin, é
uma mancha para o corpo!
– Membros do corpo que não compreendem que os soldados devem
permanecer dominados pelo exercício da estrita disciplina nunca deveriam ser
feitos sargentos – exclama Wolf, solenemente.
Tenta levantar-se da cadeira, mas não consegue de modo algum. Em vez
disso, cai para baixo da mesa onde o Legionário já chegou antes dele e está
sentado dando ordens a um esquadrão de camelos. Pensa que está em algum
lugar no Saara.
– Mille díables, você pode sentir o cheiro das tamareiras, mon ami? Elas
estão em flor nesta época do ano. Allah el Akbar, de joelhos para a oração! –
grita, batendo piamente com a cabeça no chão.
Wolf consegue puxar-se de novo para cima da cadeira, cai sobre o pescoço
de Heide e revela para o mundo quão feliz está por haver encontrado de novo
sua irmã mais velha. cujo marido a havia deixado.
– Nós vamos arrebentar esses fodidos soldados! – berra Heide.
– Ele quer se referir a nós – diz Porta, insultado. Põe o braço
amigavelmente em volta dos ombros de Tiny. – Ele não compreende a
verdadeira classificação militar de postos, aquele monte de merda marrom!
O urso levanta a cabeça e rosna ameaçadoramente ao ouvir a palavra
“marrom”.
– Sargento Julius Heide – diz Porta, condescendentemente. – Você tem
merda na cabeça, onde deveriam ficar os miolos. Eu quase que disse que você
era um estúpido como um alemão, mas raramente cuspo para cima.
– Ele é um estúpido bocal – diz Tiny enrolando a língua.
Seus olhos ficam vidrados e ele cai em cima dos cachorros que o mordem
na perna. Felizmente, está por demais bêbado para senti-lo.
– Julius – diz ele, soluçando – você não sabe que nós, cabos, de alguma
forma nos igualamos aos oficiais de estado-maior. Você nem sempre encontra
um suboficial ou um sargento com o estado-maior, nem mesmo um tenente. O
que você encontra é uma dúzia de nós, cabos, agitando-se e mantendo a porra
do moral do lugar alto!
– Tiny sabe do que está falando – elogia Porta. – Nós levamos com
dignidade e orgulho as duas divisas que só são concedidas aos soldados com
matéria cinzenta dentro dos crânios. Escutem, seus merdas de sargentos –
continua ele, numa voz que se sobressai no infernal barulho. – Em alguns leitos
os cabos superam os malditos generais!
– E vocês todos não se esqueçam de que o Comandante Supremo alemão
não é nada mais do que um cabo! – diz Tiny, friamente. – E ele nunca
conseguiu a porra da outra divisa!
– É como eu digo – continua Porta. – É preciso ter muitas células cinzentas
para chegar a ser cabo.
– Que ele se cuide – adverte Tiny, dando um bruto arroto.
– Brüder, ur Freiheit, zur Sonne... – começa Porta a cantar, numa voz
estridente.
– Alta traição! – berra Heide, zangado. – Eu deveria mandar prendê-lo. Die
Strasse frei. SA marchiert... – grita ele, tentando abafar o hino comunista que
Porta ensaia.
– Prenda-os – diz com ar atoleimado Wolf, procurando no chão por seu
cinto e cartucheira.
Seu cão-lobo, Satã, os trás para ele na boca.
Wolf cumprimenta o cão e lhe agradece. Com dificuldade, saca a arma do
coldre. Levanta a pistola na frente dele com ambas as mãos e tenta fazer
pontaria em Heide. O cano vira para lá e para cá, apontando ora para um ora
para outro.
– Sargento Julius Heide, seu cachaceiro, você está preso. Se tentar escapar,
eu atire. – E cai sobre a mesa ao mesmo tempo que a pistola dispara. A bala
assobia ao lado do rosto de Heide e vai cravar-se na parede atrás dele.
Heide, aterrorizado, olha em volta de si.
– Guerrilheiros – sussurra ele, rígido e tremendo de medo.
– Nix partisanski – diz Porta rindo, e depois canta:

Heute sind wir rofen


Morgen sind wir toten

– Que diabo está acontecendo? – gagueja Wolf, balançando-se


perigosamente e descrevendo círculos no ar com o cano da pistola. – Não
acertei em você, Julius? Deixe-me experimentar de novo! Se na primeira vez
você não acerta...
– Fogo! – comanda o Velho, que agora está meio adormecido.
Heide emite um agudo grito de terror e mergulha sob a mesa.
Dois tiros zunem passando por ele.
– Estou ferido, estou morto, padioleiros!
– Você está maluco! – fala Wolf, encostando-se em seu guarda-costas
russo. – Fique esperando, no entanto, Julius, nós ainda o pegamos. Se nos é
permitido liquidar comunistas, por que não a porra dos nazistas?
Prove a ele que você é o mecânico-chefe e também responsável pela
intendência – encoraja Barcelona, que está totalmente feliz, bêbado.
– Direto em frente, objetivo marrom, fogo! – berra o Velho, cheio de
energia.
Wolf pega uma Mpi, vira-a em cima da mesa e descarrega uma rajada.
Copos, garrafas de vinho e cerveja pulam para todos os lados.
– Eu lhe dou um tiro no cacete – promete Wolf, mudando o carregador. –
Você é tão difícil de acertar como aquele maldito gato russo*!
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* Legion of the Damned.
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– Estou morrendo – geme Heide debaixo da mesa, agitando uma bandeira
branca de trégua.
Wolf empertiga-se e faz continência para o guarda-costas russo.
– Sargento Igor, monte em sua bicicleta, vá a Moscou e informe que nós
derrotamos um batalhão nazista!
– Minha bicicleta está com um pneu furado, senhor – replica Igor,
ajudando Wolf a sentar-se numa cadeira de braços, onde ele imediatamente cai
dormindo. Só tem tempo de ordenar a Igor que conserte o pneu furado.
O enfermeiro põe uma atadura em Heide: a ponta de sua orelha esquerda
está faltando.
Pouco tempo depois, Wolf acorda e quer jogar-nos todos fora.
Ele está para açular os cães-lobos em cima de nós, quando o telefone
começa a tocar. zangado e impaciente. Um dos guardas atende.
– O senhor sargento e mecânico-chefe não está aqui – responde ele,
bruscamente, ao telefone. Então subitamente se encolhe, bate os calcanhares e
fica em posição de sentido. Embora pertença ao Exercito russo, é há tanto
tempo um prisioneiro de guerra que pode reconhecer as nuanças vocais e julgar
se elas são perigosas ou não.
– Que merda é essa? – rosna Wolf das profundas da poltrona.
– Inspetor de Polícia Militar Zufal! – diz o russo, com uma voz
pressagiando desastre e morte. Qualquer coisa que tenha o mínimo cheiro de
polícia é mortalmente perigosa em sua mente, particularmente quando ela
aparece entre duas e quatro horas da madrugada. A hora da morte.
– Pergunte a esse maldito tira o que ele pensa que está fazendo telefonando
a esta hora da noite? – berra Wolf, fazendo o teto ecoar. – O filho da puta pode
telefonar amanhã entre 10 e 11 da manhã.
– Gaspodín, o Inspetor Zufall diz que é importante – informa o russo,
fazendo continência com o telefone.
Wolf esbalda-se de rir.
– Faça aquele dobermann-pinscher de um inspetor compreender que pode
ser importante para ele, mas não para este Mecânico-Chefe da Grande
Alemanha.
O russo repete a mensagem de Wolf com uma tal velocidade que o homem
do outro lado não consegue interrompê-lo; a seguir, bate com o telefone e vai
esconder-se correndo para fora do depósito, até que todo o assunto tenha sido
esclarecido.
Pouco mais tarde, o telefone toca novamente.
– Deixe-me atende-lo – diz Porta, confiantemente. – Nós soldados
profissionais não temos que aceitar qualquer merda desses bundas-sujas. –
Arranca o telefone do gancho com a confiança de um Rockefeller no ato de
aceitar uma oferta para um poço de petróleo seco. – Olhe aqui, seu cabeçudo! –
berra no telefone – Chame amanhã entre 10 e 11, se você está tão ansioso para
falar conosco. Nós estamos no meio de uma festa de batizado, de forma que
você pode enfiar atravessado seu negócio você sabe onde! Certo, pode vir até
aqui se quiser, nós o batizaremos também, se desejar. Com quem está falando?
Comigo, sua besta quadrada! Com quem poderia ser? Não tenho o menor
interesse em saber quem você é, de forma se é disto que está necessitando, pode
muito bem deixar de vir. Não dou um peido por você ou por sua corte marcial,
camarada. Já lhe disse isso. Venha se quiser. Não parece ser capaz de se
lembrar do que você mesmo diz. Esta é a terceira vez que diz que está vindo
para aqui. Muito bem, então, por Jesus Cristo, tire seu dedo do cu e venha para
cá. Se você sabe cantar tanto melhor! Fim de mensagem! – Porta bate com o
telefone com decisão. Endereça-nos um olhar superior. – Esses pilantras da
polícia têm que ser tratados com o lado grosso de sua linguagem desde o
princípio. Desta forma, eles em breve estão lambendo sua mão. Agora ele sabe
que somos nós e o Exército que dão ordens por aqui.
– Escutem, escutem! – diz Wolf, com a voz enrolada, da cadeira. Ele tem
no colo um grande buquê de cravos ensopado de cerveja. – Nós concentramos
todo o poder em nossas mãos e quando ganharmos a vitória final chutaremos os
malditos garrafas azuis.
Eles constituem um dreno desnecessário no exchequer.
– Nova canção – ordena Heide, que reuniu o coro num círculo em volta
dele.
Com a voz toldada pela cerveja, eles cantam:

Geht auch der Tod uns dauernd zur Seit’,


geh tes auch drüber und drunter,
braust auch der Wind durch finstere Heid”,
uns geht die Sonne nicht unter.*
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* Embora a morte caminhe a nosso lado
E conosco ande pra cima e para baixo
E embora o vento sopre durante nossa marcha,
Para nós o sol nunca se põe.
===============
– Tiremos os bonés! Vamos rezar! – comanda Porta.
Ajoelhamo-nos sobre a cerveja derramada e os restos de comida.
Solenemente apertamos nossos capacetes de encontro ao peito.
Porta reza por proteção e que nossas almas possam ter permissão de entrar
na morada eterna, quando nossa hora chegar. – Mas primeiro nós vamos acabar
com esta guerra – interrompe Wolf – e depois vamos ter uma conversinha com
Deus.
– Quando estou bem para trás dessas malditas linhas em paz e fora de
perigo, não dou um níquel por toda essa história de Deus – explica Tiny para os
cães-lobos e o urso – mas vocês compreendam, companheiros, enquanto eu
estiver por aqui, onde eles jogam pedaços de ferro incandescente em cima de
sua cabeça e você corre o risco de ser derrubado a qualquer momento,
mantenho-me próximo a Deus e sou tão religioso que vocês nem acreditariam.
Tudo tem seu tempo e seu lugar!
– Nós vamos dar um jeito naquele filho da puta daquele policia – promete
Wolf, com a voz arrastada.
– Mostraremos a ele que caras duros nós realmente somos – diz Gregor,
fazendo força para mostrar uma expressão de bandido.
– Aparentemos dureza. É uma boa ideia – diz, com a voz enrolada, Julius,
abanando-me com os tristes restos de um buquê de rosas.
Gregor bate com os punhos com toda a decisão numa grande poça de
schnapps.
– Beber! Isto é que é bom. Você sabe onde está. Sabe o que vai acontecer.
As mulheres são muito mais perigosas. Você nunca sabe o que vai acontecer a
seguir! Já contei a vocês quando consegui meter-me entre os lençóis com a
garota do meu general? Aquela bandida daquela cadela quase me fez fuzilar.
A porta é aberta com violência. Um homenzinho gordinho com um casacão
grande demais para ele rola para dentro do depósito. Sua cabeça é redonda
como um queijo e lembra a de um porco velho. Suas orelhas são salientes como
os flaps de um avião e são a única coisa que impede que seu gorro de tamanho
exagerado lhe caia inteiramente sobre o rosto. Dirige-se diretamente para Wolf
e acende uma grande lanterna elétrica diretamente em seu rosto, a despeito do
fato de estar o cômodo bem iluminado.
– Mecânico-Chefe Wolf! – afirma ele, numa voz penetrante, desligando a
lanterna.
– E primeiro-sargento – corrige Wolf, deixando cair algumas gotas de
cerveja em cima da cabeça de seu interlocutor.
– Você negocia com chá – afirma o gordinho.
Porta sente-se subitamente apertado. Pressente dificuldades no horizonte.
Dois enormes gorilas em uniforme cinza-ardósia da polícia param-no na porta.
– Está indo a algum lugar, primeiro-cabo? – diz um deles, jogando Porta
para trás com tanta força que ele vai cair em cima da mesa. – Não vá. Nós
vamos em breve divertir-nos um pouco! Você nunca viu nada igual, aposto!
– Quem. diabo, são vocês? – pergunta Wolf condescendente, batendo com
a mão no ombro do homenzinho.
– Zufall, Inspetor Zufall.
– Você parece mesmo isso – diz Wolf, estourando numa gargalhada.
– Você é um verdadeiro comediante – retruca o inspetor. – Em breve. irá
necessitar de todo esse maravilhoso senso de humor.
– Tira seu enorme gorro, passa a mão sobre o crânio inteiramente calvo e
coloca de novo o gorro na cabeça. – Sabe qual é a punição para aqueles que
sabotam o trabalho do estado-maior?
– Colocam o sujeito de encontro a uma parede e o fuzilam – declara Wolf,
sem parar um momento para pensar.
– Nós estamos de completo acordo – sorri o Inspetor Zufall, feliz. – Estou
aqui para investigar um caso desta natureza. – Aponta um gordo dedo para
Wolf, num gesto próprio de promotor público. – E você é o sabotador!
– Não sei o que você quer dizer – murmura Wolf, começando a ver escuras
nuvens acumularem-se no horizonte.
– Naturalmente que não – sorri Zufall, fazendo um esforço heroico para
parecer amável e falhando completamente. Puxa do bolso um grosso caderno
preto de notas. – Você vendeu algum chá para o Oficial-lntendente Zümfe do
Quarto Exército Panzer.
Garantiu-lhe ser chá Darjeeling com alguma mistura de chá verde.
– Isto será proibido? – pergunta Wolf, arrogante, atirando-se para cima de
uma cadeira.
– Não, decididamente não – retruca o inspetor, rindo com um jeito
agourento – mas você se esqueceu de dizer ao oficial-intendente que havia um
pequeno item de surpresa adicionado àquele chá!
Wolf lança um olhar interrogativo a Porta, que naquele momento está
tomando um gole de uma garrafa para animar o espírito.
– Surpresa? Não sei de surpresa nenhuma!
– O Estado-Maior Geral alemão sabe de tudo, no entanto – berra o
inspetor, com o rosto vermelho como um peru. – Eles estão todos em processo
de morrer de tanto cagar; não há privadas que cheguem.
Gregor explode numa gargalhada, que infecciona todo o ambiente; até os
dois gorilas na porta desandam em risadas.
O inspetor sente vontade de rir, porém mais discretamente, Apenas Wolf e
Porta parecem ter perdido o senso de humor; Wolf sempre foi notado por sua
capacidade de ver o lado engraçado de uma piada, particularmente quando esta
se dirige a outra pessoa.
– Onde conseguiu aquele chá? – atira-lhe Zufall a pergunta, quando as
risadas esmorecem.
Wolf aponta, em silêncio, para Porta.
– Ah! sim! Primeiro›Cabo Joseph Porta – murmura o gordo inspetor. – Já
ouvi falar a seu respeito e há muito desejava conhecê-lo.
– É uma honra, senhor – diz Porta, curvando-se de um modo servil.
– E de onde o Herr Porta conseguiu o chá?
– De um paraquedas – responde Porta, falando a verdade.
– Não brinque comigo –– zanga-se Zufall, atravessado. – O chá não cresce
no céu. Vocês dois, negociantes de chá, estão presos. Uma porção de generais
quer assar vocês em fogo lento. Vocês irão amaldiçoar o dia em que entraram
para o negócio de chá.
– Nós só sabemos acerca de chá verdadeiro – defende-se Porta. – Talvez o
intendente tenha posto alguma coisa no chá em seu caminho para o estado-
maior.
– Talvez tenha afetado os estômagos dos cavalheiros. Isto os faria cagar, se
eles não estivessem acostumados a chá de boa qualidade, o senhor sabe –
sugere Wolf.
O Inspetor Zufall sorri com seu falso sorriso.
– O chá foi analisado nos laboratórios. Ele contém um forte purgante, um
laxativo, cujos efeitos nossos médicos não foram capazes de fazer cessar. Antes
de muito tempo, se as coisas continuarem assim, esses cavalheiros terão todos
sido transformados em merda nas privadas.
– Você colocou alguma coisa no chá? – indaga Porta, voltando-se para
Wolf.
– Pensa que sou louco? Sou um negociante, não um maldito sabotador.
– De uma coisa nós estamos certos – suspira o inspetor. – O chá proveio de
vocês dois. Se o inimigo atacasse agora, teria uma fácil tarefa. Graças ao chá de
vocês, todo o estado-maior está fora de ação. Faz agora 16 horas que eles estão
cagando e isto parece ser apenas o princípio. Um grupo de especialistas está
vindo de avião de Berlim. Se a intenção de vocês era sabotagem, tiveram um
sucesso acima de qualquer expectativa. Em todos meus 30 anos na força nunca
vi coisa igual.
– Nada sabemos disso – sussurra Wolf, em voz fraca, pois está sentindo
uma sensação horrorosa de vazio por volta do estômago. Ele quase que pode
ver todo o estado-maior geral sentado numa fileira de latrinas com o
Generalfeldmarschall Model sentado meio para fora, no flanco direito. Em que
outro lugar poderia o Generalfeldmarschall ser colocado numa tal situação?
Porta olha, desconsolado. para o pequeno e superalimentado inspetor.
– O senhor deve compreender que nós nunca iríamos vender chá laxativo.
Mesmo um louco varrido saído das celas acolchoadas de Giessen não iria fazer
uma coisa dessas.
– Também penso assim – responde Zufall. – É por isso que quero saber de
onde você conseguiu o chá. Não imagino que tenha começado uma plantação
de chá aqui na Rússia.
– Comprei esse chá do Primeiro-Cabo Porta – declara Wolf, obviamente
julgando que isto o livra inteiramente.
– E ele caiu do céu para mim preso a um par de paraquedas amarelos –
afirma Porta, ajudando sua explicação com gestos.
– Realmente espera que eu acredite nessa história? – pergunta Zufall, que
está possuído de uma boa dose de saudável desconfiança. Ele só acredita
naquilo que pode ver e sentir. – Por que, diabo, iria alguém deixar cair chá de
paraquedas?
– Obviamente para fazer com que o Exército alemão se borrasse todo – diz
Porta, sem compreender que adivinhou exatamente certo.
– Do que posso concluir de vocês dois, negociantes de chá, não pouparão
esforços para assegurar-se de que deixarão o Exército com respeitáveis fortunas
– diz Zufall, com um sorriso amargo.
– Isto é bem a verdade – admite Wolf, forçando um barulhento riso. – Não
é proibido tentar fazer fortuna, será que é?
– Pessoas honestas raramente enriquecem – considera o inspetor,
filosoficamente.
– Digamos que somente os estúpidos permanecem pobres – sugere,
tranquilo, Porta – e a maioria das pessoas permanece pobre.
– O pessoal pobre é boa gente – diz Zufall, e pensa nele mesmo. –
Funcionários públicos civis não são vistos muitas vezes nos círculos mais
prósperos.
– Não, por Deus do céu! – exclama, espontaneamente, Wolf.
– Meu velho era bom, pobre e um bom funcionário civil. Embaixo de seu
cabelo não havia de fato muita matéria cinzenta, mas ele tinha uma boa
reputação. Ninguém duvidava de que ele era uma pessoa de confiança. Vivia
em paz com Deus e com seus vizinhos. Nos dias santos, lá estava ele na igreja e
à noite você podia ouvi-lo dormindo o tranquilo e pacífico sono dos justos. Se
toda a força policial viesse bater-lhe à porta entre as duas e as quatro da
madrugada, ele continuaria a roncar com todo o conforto. Jamais foi rico.
Nós éramos nove filhos, e ele tinha suas dificuldades para arranjar roupa
para nossas costas.
– Algum de seus irmãos ou irmãs seguiu os passos de seu pai e entrou para
o funcionalismo público? – pergunta Zufall, interessado. Ele se compadece do
velho Herr Wolf.
– De forma alguma – responde Wolf. – Nós todos saímos a nossa mãe no
que se refere a miolos. Tinha um pouco mais de sangue alemão nas veias.
– Judia, talvez? – Zufall deixa a pergunta cair, inocentemente.
– Não poderia jurar que ela não fosse. Mas uma ou duas gotas de sangue
judeu não é coisa que um homem deva desprezar.
Areja o pensamento. E este certificado ariano em breve estará fora de
circulação.
– Você então não acredita na vitória filial! – pergunta Zufall, com uma
estranha conotação na voz.
– Você acredita? – indaga Wolf, rindo.
Os gorilas na porta riem-se junto conosco; mas eles não sabem do que
estão rindo.
– Não é meu desejo responder a sua pergunta neste momento – fala o
inspetor, voltando a cabeça para o lado.
Quando chegam ao quartel-general do estado-maior, a primeira pessoa que
encontram é o intendente Zünfe, que se atira sobre Wolf.
– Chacal, hiena! – ruge ele. – Você será enforcado por isto! Como pôde
fazer uma coisa destas a mim? Sempre o tratei bem, seu sujo filho da puta!
– Eu não queria vender-lhe o chá – afirma Wolf. – Pelo contrário.
Ameaçou-me de confiscá-lo, se eu não o vendesse para você. A dor de cabeça é
sua, se o vendeu para o estado-maior.
Quem sabe? É até capaz de você mesmo ter misturado nele aquele pó de
cagar, Você parece suficientemente patife para tê-lo feito.
– Você é minha testemunha – grita o Cara de Sapo, agarrando o inspetor de
polícia pelo braço. – Este homem está fazendo falsas acusações contra mim. Ele
está trabalhando para o Exército Vermelho e usa armas proibidas pela
Convenção de Genebra.
– Não tem tempo de continuar: precisa ir correndo para o banheiro.
desabotoando a calça na corrida. Todas as privadas estão tomadas e. com um
grito desesperado, ele se lança para as privadas de reserva. Estas também estão
todas tomadas. Com as duas mãos apertando as bochechas rosadas de sua
bunda e com a calça batendo nas botas de montaria, ele se atira para uma janela
aberta onde rosas vermelhas agitam-se com a brisa. Com um suspiro, deixa-se
cair de costas em cima do beiral da janela. O barulho que faz é o de uma
metralhadora a todo vapor.
Constitui uma visão cômica, mas ninguém sente vontade de rir.
Particularmente quando dois generais com suas ombreiras vermelhas aparecem
correndo um atrás do outro e praticamente jogam fora de seus assentos nas
privadas um major e um tenente-coronel.
No Exército Alemão, o posto tem seus privilégios, mesmo nos toaletes.
Porta e Wolf observam, interessados, os dois generais com seus enfeites
dourados; eles têm o olhar parado para a frente, como os olhos mortos de
zumbis.
– Eles parecem um par de gatos afogados – permite-se observar Porta.
– É pena que o cara que pensou nisso não possa estar aqui para ver – fala
Wolf, rindo.
O Sapo volta com a respiração ofegante. Ele tem mais algumas coisas para
dizer a Wolf.
– Você é o maior patife que jamais conheci – soluça, esfregando um punho
ameaçador embaixo do nariz de Wolf. – Você sabe que fui preso por causa de
seu maldito chá? Não, não, não de novo! – grita ele, e lá se vai aos pulos pelo
corredor. Cai num assento ao lado dos generais, empurrando para fora um
sargento de cavalaria que é seu subordinado.
– Diga-me: onde o Generalfeldmarschall Model dá sua cagada? – pergunta
Porta, interessado.
– Ele mandou instalar uma privada urgente em seu escritório – explica
Zufall, desanimado. – Graças a Deus que não provei nada daquele chá. Estive
quase a fazê-lo, mas aquele filho da puta esnobe do ajudante recusou-se a dar-
me mesmo um golinho e expulsou-me do cassino. Ele não gosta de
funcionários civis.
– Se ele soubesse que havia um pó purgativo nele, teria forcado você a
beber um balde do chá! – diz, rindo, Wolf.
– Ele tem algo mais a pensar agora, aquele filho de uma cadela! – diz
Zufall, com ar feliz. – Já desmaiou de tanto cagar.
Porta e Wolf são levados para a policia secreta do Exército, que está num
estado de febril atividade, toda orientada no sentido de descobrir de onde
originalmente veio o chá. Depois de uma hora de interrogatório, ambos são
confinados a celas se aradas. Retiram a água dos vasos sanitários e dessa forma
podem falar um com o outro.
– Nós vamos mostrar a esses merdas de alemães que pelo menos sabemos
como morrer, quando eles nos executarem – grita Porta para dentro do vaso da
privada vazio.
– Sim, precisamos manter as cabeças levantadas – gagueja Wolf,
nervosamente. – Manter um sorriso e aceitar a derrota como aceitamos a
vitória.
– Sim, e algum consolo que esta é a última e maior derrota, e fuzilar-nos
mais de uma vez, eles não podem – diz Porta, com dignidade.
Depois de três dias, os dois concordam em entrar numa guerra de fome,
mas após dois dias disso, os guardas aparecem com sopeiras fumegantes de
sopa de feijão com um grande pedaço de carne de porco flutuando em cada
prato e eles têm que desistir.
– Meu prato favorito – diz Porta, arrependido, e o conteúdo da tigela passa
para dentro de seu encolhido estômago num piscar de olhos.
Planejam uma fuga. Cavar um túnel apresenta dificuldade, uma vez que a
única coisa que têm para fazê-lo é uma colher de pau.
Um cabo malandro entre os guardas da prisão arranja-lhes um par de serras
para ferro; mas antes que cheguem mesmo a começar, todo o negócio termina.
Uma cuidadosa investigação foi feita e as autoridades acham que encontraram a
solução. Um Lancaster inglês MK II foi visto sobrevoando as linhas; há provas
de que deixou cair caixas. A época coincide com o depoimento de Porta. O chá
veio da Inglaterra ou, pelo menos, foi deixado cair pelos ingleses.
– Vocês tiveram sorte – suspira o Inspetor Zufall, abertamente
desapontado. Aponta para uma fileira de fuzis quando se deslocam por um
longo corredor. – Doze desses estavam carregados e prontos para os dois. Vou
ficar de olho em cima de vocês e nós os manteremos carregados por algum
tempo! Acho que vamos ter algum uso para eles.
– A fé move montanhas, dizem – afirma Porta virtuosamente, em tom
religioso.
– Considero vocês dois meus opositores e darei tudo para combatê-los –
conclui Zufall, sombriamente.
– É bom conhecer os inimigos – diz Porta, rindo.
São levados à presença do Generalfeldmarschall Model que agora já se
recuperou suficientemente do chá para ser capaz de manter seu monóculo no
olho de novo. É um homem pequeno, com as feições duras, esguio como uma
mocinha. Sua coragem pessoal é legendária, mas há um ar cômico de mestre-
escola nele. Anda em volta deles durante 10 minutos, observando-os através de
seu grande monóculo.
– Então esta é a aparência de vocês, hem? – começa ele, em seu tom
especial de voz. Parece cuspir as palavras, como se as odiasse.
– Herr Generalfeldmarschall, senhor! – berram Porta e Wolf como se a
urna voz. Batem violentamente os calcanhares. Sabem que, se agora deixarem
uma má impressão, serão jogados para a sucata.
– Vocês atingiram o limite! – diz Model, correndo os dedos por sobre sua
Cruz de Cavaleiro com folhas de carvalho e espada.
– Sim, senhor, Generalfeldmarschall, senhor!
– Se vocês têm mais algum daquele chá terrível sobrando, sugiro que o
mandem como um presente para nossos opositores russos.
– Sim, senhor, Herr Generalfeldmarschall, senhor!
– Eu deveria tê-los pendurado pelos calcanhares...
– Sim, senhor, Herr Generalfeldmarschall, senhor!
– Mas tenciono ser misericordioso com vocês, uma vez que são
parcialmente isentos de culpa neste particular assunto do chá.
– Sim, senhor. Herr Generalfeldmarschall, senhor! – Porta cutuca Wolf.
– Mas há algumas belas coisas ditas acerca de vocês nestas folhas! – Model
bate com a mão numa pilha de relatórios que está na mesa à sua frente.
– Sim, senhor, Herr Generalfeldmarschall, senhor! – Porta
– Com permissão para falar, senhor? Não se deve acreditar em tudo o que
se ouve, senhor! – diz Porta, apressadamente.
Model dá um polimento no monóculo e olha pela janela. Depois, ele se
volta lentamente, ajeita o monóculo no olho, e corre de novo o dedo por suas
condecorações e enfeites dourados.
– Ninguém jamais disse a vocês que as penalidades para negócios de
mercado negro são as mais severas? Que a morte é uma delas, em certas
circunstâncias?
– Sim. senhor, Herr Generalfeldmarschall, senhor, já nos disseram! –
respondem eles, a uma única voz.
Model flexiona os joelhos, anda em volta deles algumas vezes e olha para o
ajudante que está parado, duro como uma figura de cera, de encontro à parede.
Senta-se na beirada da mesa; é tão pequeno que os pés não alcançam o chão.
– Seus métodos de trabalho são bastante reminiscentes de negócios de
mercado negro.
– Com permissão para falar, senhor, não, senhor, nós nada temos a ver com
mercado negro, senhor – exclama Porta. – Não tocamos em coisas quentes e
nunca transgredimos os regulamentos, senhor e, senhor, nós não temos grandes
lucros, senhor!
– Vocês me consideram um tolo?
– Não, senhor, Herr Generalfeldmarschall, senhor!
– Quer-me parecer que vocês estão querendo me pegar por uma perna! De
que você está se rindo, homem?
– Com permissão para falar, senhor, não, senhor, não estou rindo, senhor –
balbucia Porta, com dificuldade. – Peço licença para dizer, senhor, que são
meus nervos, senhor! Quando estou com medo, senhor, parece que estou rindo,
senhor. O sargento-mor, senhor, diz que é um humor patibular, senhor!
– Saiam de minha presença! – ordena o marechal-de-campo, apontando
para a porta.
Uma vez em segurança do lado de fora, eles soltam um longo suspiro de
alívio. Fazem uma correta continência para um general de brigada que se
arrasta pelo lado deles, pálido e com ar torturado.
– Por Jesus Cristo! – diz Wolf, aliviado. – Este foi um aperto! Esses
ingleses são uns porcos sujos!
– Foi uma maldade que fizeram conosco – admite Porta.
– Mas talvez tenhamos oportunidade de dar o troco, um dia destes.
Concordam que seria mau negócio jogar fora o resto de chá. Wolf promete
dar a Porta 20 por cento se este puder livrar-se do chá, mas Porta exige 50 por
cento, com a garantia de que o nome de Wolf não será envolvido, se as coisas
azedarem de novo.
Porta encontra uma divisão italiana e num tempo recorde vende o chá a um
intendente que está organizando transporte de mercadorias ilegais para Milão,
em larga escala.
– Eu estaria fazendo minhas malas para uma viagem à Suécia, se fosse
você – fala Gregor, agourentamente, quando Porta conta-lhe acerca do negócio.
– Quando aqueles espaguetes começarem a cagar, rapaz, você terá toda a
maldita Máfia atrás de você. Não gostaria de estar em seu lugar, rapaz! – diz
Búfalo.
Durante algum tempo, Porta está de malas prontas e disposto a mover-se ao
primeiro sinal. Mas então, sem qualquer aviso, o intendente italiano aparece
com suas plumas ao vento em frente aos depósitos de Wolf. onde Porta está
sentado tomando o café da manhã.
Antes que ele possa fazer um movimento, o italiano está a seu lado. Mas
não há perigo: não é a Máfia que chegou no jipe Fiat, mas um italiano
encantado que o abraça e beija em ambas as faces.
Fica desapontado quando sabe que não há mais chá para vender.
– Você precisa conseguir mais daquele maravilhoso chá, Signor Porta! –
implora o plumífero bersaglierí, agitando as ditas cujas no rosto de Porta. –
Signor camarada, prometo-lhe que a ordem italiana de bons serviços irá ficar
muito bem em seu peito!
Mas Porta não tem mais nenhum chá para fornecer-lhe e não pode
conseguir mais.
Quando o italiano parte, Wolf e Porta discutem o fenômeno.
Porta chega a conclusão de que os ingleses usaram um laxativo altamente
refinado, tão sabiamente composto que, de fato, só fazia efeito em alemães.
“Hitler não é sincero com ninguém. Dentro de poucos anos, ele também o
terá traído, Herr Generaloberstl”

General Ludendorff ao Generaloberst Von Fritsch,


Primavera de 1936

Himmler olha friamente para “Gestapo Müller”, quando ele lhe comunica
que o SS-Obergruppenführer Heydrich foi seriamente ferido numa tentativa de
assassinato em Praga e que deu entrada no Hospital Bülow.
– Ele está vivo? – sussurra em voz rouca Himmler, cerrando os punhos até
que suas juntas ficam azul-escuro. – Voarei para Praga imediatamente! Faça
os devidos arranjos! Mande-me Kaltenbrunner!
– Muito bem, Herr Reichsführer!
Os teletipos esquentam; os serviços telefônicos ficam bloqueados de
chamadas. Em Praga, proclama-se um estado de emergência.
Centenas de prisões são feitas. E como se um ninho de marimbondos
tivesse sido mexido com uma vara.
No RSHAJ na Prinz Albrechtstrasse*, quando chegam as notícias tudo vira
um inferno. Com as sirenes guinchando e as luzes piscando, a limusine preta
de Himmler cruza Berlim a toda velocidade, dirigindo-se para o Aeroporto de
Tempelhofer.
===============
* RSHA (Reichssicherheitshauptamt): Quartel-General dos Serviços de
Segurança do Estado.
===============
Preciso chegar em Praga em primeiro lugar, pensa ele, batendo
impacientemente com as luvas em suas altas botas pretas de montaria.
Em pouco tempo, ele desembarca em Praga e sobe aos pulos os degraus
do Hospital Bülow. Seu rosto está pálido como um lençol e seus olhos,
arregalados.
Dois médicos e uma enfermeira tentam impedi -lo de entrar na sala de
cirurgia, mas ele os afasta brutalmente e, com um chute, abre a porta.
– Saiam – sibila para os médicos que estão para começar a operação.
De boca aberta, eles encaram o homenzinho de uniforme cinza-rato.
– Saiam! – repete ele.
– Mas Herr Reichsführer – gagueja o cirurgião-chefe – O general está sob
anestesia.
– Acordem-no. Preciso falar com ele imediatamente.
– Impossível –– responde o cirurgião-chefe, sacudindo a cabeça. – Levará
três a quatro horas antes que o Reichsführer possa falar com o general.
– Ele deverá estar consciente dentro de no máximo três horas, de forma
que eu possa falar com ele. Se não o estiver, o senhor será executado por
sabotagem – grita Hímmler, numa voz estridente e sai bruscamente da saia de
cirurgia.
O SS-Obergruppenführer Frank vem apressadamente pelo corredor e
apresenta-se a Himmler.
– Frank, assuma imediatamente a posição de Heydrich como
Reichsprotektor da Boêmia e Morávia. Cerque o hospital com soldados SD e,
tome bem nota disso, Frank, ninguém, absolutamente ninguém, nem Deus nem
o próprio diabo, deve entrar ou sair deste hospital sem minha permissão
pessoal, Frank. Sua cabeça responderá por isso!
Alguns minutos depois, o hospital é isolado do mundo exterior.
O SS-Gruppenführer Ernst Kaltcnbruner apresenta-se a Himmler, que
passeia raivoso para cima e para baixo no corredor junto à sala de operações.
– O General-Professor Sauerbruch está a caminho para assumir a direção
do caso – diz, em voz baixa, Kaltenbrunner.
– Por ordem de quem? – pergunta, zangado, Hímmler.
– Do Führer/
– Que inferno! Ele está voando de Berlim?
– Sim, Reichsführer! Já aterrissou em Praga.
Hímmler aperta as mãos com tanta força que as juntas estalam.
– Você sabia que o Führer tinha assinado a nomeação de Heydrich para
Ministro do Interior e chefe supremo de todas as unidades de polícia?
– O quê... – exclama, espantado, Kaltenbrunner.
Himmler confirma com a cabeça, sombriamente.
– E isto não é tudo. Ouvi outras coisas. Volte diretamente para Berlim e
assuma o comando no RSHA. Coloque guardas de segurança em todos os
escritórios de Heydrich. Isole os assistentes pessoais de Heydrich, mas
cautelosamente. Estamos lidando com serpentes venenosas!
– Confie em mim, Reichsführer – diz Kaltenbrunner. – Sei
como lidar com elas.
– Espero que saiba, para seu próprio bem – diz, friamente, Himmler em
resposta.
Duas horas mais tarde, Hímmler inclina-se sobre o leito de Heydrich e fixa
os olhos no rosto pálido, que mais parece uma caveira.
– Heydrich, você pode me ver?
– Muito bem, Herr Reichsführer.
– Onde está sua “caixa de explosivos”? Seus documentos secretos?
Heydrich descobre os dentes ao sorrir; seus olhos rasgados fixam-se
friamente nos de Hímmler.
– Os papéis, seu danado! – rosna Hímmler, impacientemente.
Heydrich fecha os olhos sem responder. Hímmler sacode-o.
– Heydrich, os papéis? Heydrich, escute! Você hoje é o Ministro do
Interior. Você e’ o Chefe Supremo da Polícia alemã. Os papéis?
Depois de algum tempo, Hímmler compreende que Heydrich caiu de volta
na inconsciência. Senta-se como se fora uma estátua de pedra ao lado do leito
e seus olhos não se afastam do rosto comprido e bem marcado com os tortos
olhos mongóis.
Naquela noite, o Professor Sauerbruchy operou Heydrich:
Hímmler não se move do lado do paciente. Cada palavra que ele balbucia
em sua febre é anotada por uma estenografa. Na madrugada do dia 4 de julho,
Heydrich morre sem haver recobrado a consciência.
Hímmler voa de volta a Berlim e comanda pessoalmente a busca pelos
arquivos secretos de Heydrich. Eles jamais são encontrados.
Por ordem de Hitler, é feito um exame post-mortem do cadáver de
Heydrich. O relatório do patologista afirma que a causa da morte foi infecção
dos órgãos principais e do tecido glandular na região do baço. Grãos de
explosivo tinham penetrado no peito. Ê possível que a morte tenha sido
causada por substâncias tóxicas.
A ELEVAÇÃO DEMON

Um surdo ruído, que sobe e desce, soa continuamente, interrompido vez


por outra pelo matraquear de metralhadoras. A terra embaixo de nós parece
tremer como um animal ao morrer.
Ha uma atmosfera de pressão. O medo agarra-se a nossas gargantas. O
único de nós que não parece afetado por ele é Porta, que continua a tocar
alegremente seu piccolo. Mas, à medida que nos aproximamos da linha de
frente, um estranho sentimento de não ligar para nada apossa-se de nós. Isto é
algo que todas as pessoas sentem, quando estão continuamente expostas à
morte de forma violenta e brutal. Marchamos em coluna por três cerrada e
levamos as armas como mais nos agrada.
Tiny marcha com facilidade levando sua SMG ao ombro, como se ela não
pesasse mais do que uma pá.
– Mantenham a distância!
O grito vem da frente, mas nós estamos assustados e inquietos e
marchamos amontoados, imaginando-nos assim protegidos. Do ponto de vista
militar, é loucura marchar dessa forma tão sem intervalo. Uma única granada de
105 poderia acabar com toda a companhia.
Uma infindável coluna de feridos passa por nós, indo na direção oposta. A
maior parte deles é do 104º de Fuzileiros, que foi terrivelmente atingido por
uma inesperada barragem.
– Foram pegados pelas novas granadas sobre as quais tanto se fala –
explica Julius Heide, do alto de sua importância.
– Que novas granadas? – pergunta Porta, com ar de quem não está ligando,
mas incapaz de esconder uma certa curiosidade.
– E sempre gostoso saber por que coisa você pode ser morto.
– Artifícios com ar comprimido – responde Julius, proseando-se. – Elas
podem liquidar com uma companhia num minuto.
Rasputin marcha, vagaroso, ao lado de Porta, sem prestar nenhuma atenção
ao ruído do front.
Há um boato de que nós vamos receber tanques chamados King Tigers.
Heide afirma que eles já estão na estrada de ferro em Kassel. Soube-o por um
camarada do partido. Gregor diz que eles estão apenas em projeto e que a
Wehrmacht não vai mais receber tanques. Os SS é que vão recebê-los. Porta
pensa que eles vão ter que cortar todas as armas mecanizadas. São caras
demais.
Porta escutou que começaram a mandar gente para o Exército Vermelho a
fim de aprender a montar como cossacos.
– Mas e um segredo importante – diz com um gesto acautelador do dedo
indicador. – Não se deve falar sobre isso. Nós nada sabemos!
Nós pouco estávamos ligando se receberíamos tanques ou não. Há
vantagens em pertencer à infantaria.
A companhia faz um alto na orla da floresta. Alguns começam
imediatamente a cavar trincheiras. São os tipos nervosos que se abrigam ao
menor som de uma pedra rolando pela ribanceira abaixo.
A floresta é um lugar de aspecto sinistro. As granadas abriram tremendos
rombos nela. Sobras de material de guerra estão por toda parte.
Porta, que seguiu um pouco em frente para obter notícias, volta estourando
de boatos.
– Nós vamos tomar parte numa porra de uma regata – grita ele, quando
ainda está a uma certa distância. – Quem quer que não saiba nadar tem meia
hora para aprender. Não há barcos suficientes para todos!
– Que bobagem é essa? – diz, sibilando, o Velho, sugando ansiosamente
seu cachimbo com a beira de prata. – Não há nenhum mar no meio da Rússia.
– Pense de novo, Sargento Beier! Há água em outros lugares que não o
mar. Espere até ver o rio que nós vamos ter que cruzar. Há mais água ali do que
você é capaz de imaginar e os pontoneiros dizem que é tão fundo que vai direto
até o inferno!
– E eu que odeio água! – exclama Tiny. resignado. – Será que Rasputin
sabe nadar?
– Pode apostar um doce que ele sabe – responde, orgulhoso, Porta. – Ele
poderia tirar a medalha de ouro soviética de natação, se fosse humano.
Deixaram-no fazer os testes de estilo livre, quando estava na Escola de
Treinamento de Oficiais de Moscou, e ele tirou o primeiro lugar, meu filho!
– É mesmo um rio muito grande? – pergunta Barcelona todo arrepiado. Sua
experiência anterior com rios não foi das melhores.
– Tão largo quanto o Oceano Atlântico – declara, deliciado. Porta, abrindo
os braços para mostrar como o rio é largo.
– Lá vamos nós de novo entrar pela merda – suspira Gregor Martin,
desesperado, atirando-se sobre o capim crescido.
– Devemos aceitar as coisas como elas nos vêm – considera o Velho,
limpando o fornilho de seu cachimbo com a ponta da baioneta.
– Por que nós nos sujeitamos a isso? – pergunta Bareelfimfl,
sacudindo a cabeça.
– Você deveria ser o último a se queixar – zomba Porta. – Sempre foi
maluco por guerra desde que tinha 17 anos de idade. Voluntário na Espanha,
onde você não tinha porra nenhuma de interesse no negócio!
– Sinto ser de meu dever lutar pelos mais fracos – protesta Barcelona. – A
ditadura os estava forçando à escravatura!
– Conversa fiada! Besteira! – rosna Porta. – Há ditaduras por toda a parte,
mas devo admitir que os vermelhos são os mais honestos. Eles se mostram em
suas verdadeiras cores. Eles gostam de ver sangue. Nossa turma também gosta,
mas se esconde por detrás de sua camuflagem marrom.
– Deveria arranjar um psiquiatra para dar uma olhada dentro de sua cabeça,
Barcelona – sugere Tiny. – Talvez ele lhe dessem uma pílula que poderia ajudá-
lo.
– Comandantes de seção ao PC – Ouve-se uma voz Chamar da floresta.
O Velho levanta-se, manobra sua Mpi para o ombro e sai a trote, trocando
rápidas suas pernas tortas. Atravessa direto a lama e a água, tirando fortes
baforadas do cachimbo de borda de prata.
– Mille diubles! – exclama o Legionário. – Vai custar muitas vidas
atravessarmos aquele rio. Se forem um pouquinho espertos, os russos nos
liquidarão antes que cheguemos ao outro lado.
– Somos soldados alemães e faremos o que o Führer nos ordenar – decide,
orgulhosamente, Heide. – Tudo devemos à Pátria. Sinto-me feliz servindo no
Exército; apenas os melhores servem aqui.
– Não ligo nem um cagalhãozinho pela Pátria ou por seu fodido Exército –
afirma Porta, grosseiramente. – Não devo o mínimo a nenhum dos dois. Pelo
contrário, eles é que me devem muito!
– Os pontoneiros não se querem dar ao trabalho de lançar uma ponte sobre
aquele maldito rio de forma que nós possamos marchar através dele sem molhar
uma bota! – diz Tiny, desgostoso, jogando uma pedra em dois soldados de
engenharia que passam por ele bufando com um grande rolo de arame farpado
num pau.
– Para falar a verdade, que diferença faz se você bate as botas seco ou
molhado – considera Barcelona, com ar triste.
– Dizem que é uma morte muito agradável, afogar-se – observa Heide,
apático.
– Por Jesus Cristo, homens, nós afinal de contas temos uma bruta sorte –
exclama Tiny, com ar feliz. – Estávamos pensando que iríamos sobrar de uma
ou outra maneira horrível e agora subitamente descobrimos que nada temos a
nos preocupar. Estamos muito bem! O Führer e nosso bom Deus alemão
providenciaram para que tenhamos uma agradável morte numa porra de um
maldito rio russo!
– Posso contar-lhes algo diferente acerca de afogar-se – intromete-se
Gregor Martin. – Eu e meu general estivemos perto disso quando estávamos
nos exercitando para a invasão da Inglaterra. Lá vamos nós numa dessas
lanchas de desembarque com toda a divisão atrás de nós. A Marinha rebocou-
nos bem para longe mar adentro. Para começar, meu general começou a enjoar.
Quando isto aconteceu, o resto de nós seguimos-lhe o exemplo. Toda boa
divisão Panzer segue seu general em tudo. Ele enjoa, nós enjoamos.
“Vamos para a praia, rapazes”, ordena ele, o rosto bem esverdeado, entre
dois acessos de enjoo. Isto não é lugar para uma divisão Panzer. Deixemos que
a Marinha tome conta de seu maldito mar!
“Ordena-me dar a partida em seu carro de comando Horch, de forma a
podermos livrar-nos daquela banheira que rola e dança, em que os merdas da
Marinha nos meteram, tão logo toquemos em terra. No momento em que
sentimos o fundo da banheira raspar em algo sólido, meu general brada: –
“Arriar os flaps, levantar voo, e vamos dar a esses ingleses algo para se
lembrarem de nós!”
“E como nós levantamos voo! Acreditem, amigos, dentro de um segundo já
havíamos atingido a velocidade máxima com aquele Horch envenenado. O
quepe do uniforme de gala do general, com bordados dourados, saiu-lhe da
cabeça calva e seu bastão de comando voou pelo ar como um miniplanador.
“Mas”, disse a mim mesmo, quando minha cabeça voltou para seu lugar o
suficiente para eu poder enxergar através do para-brisa, “onde no inferno se
meteu a França? Não havia nada em frente de mim senão aquele mar molhado e
perigoso. Nem um sinal de terra.
“Para onde diabos está você me levando, Gregor!”, foi tudo o que meu
general teve tempo de perguntar.
“No minuto seguinte, o Horch estava fazendo uma respeitável imitação de
um submarino. Não era a praia que nós tínhamos raspado com o fundo, mas sim
um maldito e traiçoeiro banco de areia.
Bem, lá estávamos nós a caminho para o fundo, apenas com surpreendidos
peixes franceses a saudar-nos, enquanto mergulhávamos passando por eles. Por
quanto tempo ficamos sentados no Horch gozando a paisagem, não posso
recordar-me. Tinha ouvido dizer que era melhor ficar num carro que afunda até
que ele se encha d’água; então você sai dele tão facilmente como a bosta de
uma vaca. Isto não era problema para nós, pois o carro em que rodávamos
conquistando o mundo era um tipo fechado. Para sublinhar a seriedade da
situação, meu general colocou na cabeça um de seus bonés de campanha e
atarraxou no olho um de seus monóculos de reserva. Apontou para cima, na
direção onde o mundo normal deveria encontrar-se. Sorriu, mostrando os dentes
de cavalo que ele criou durante o tempo que serviu na cavalaria, satisfeito com
obediência dos membros do quartel-general da Companhia de Estado-
Maior. Lá estavam eles, seguindo para baixo atrás de nós. A P-3 e a
estação de rádio.
“Bem, subitamente começamos a subir de novo. Muito em breve
descobrimos como é vantajoso ter guelras quando se vive dentro d'água.
Quando chegamos à superfície, havia uma multidão como no primeiro dia de
uma liquidação numa loja de departamentos.
Apresentei-me para o serviço, fazendo a melhor continência possível.
“Meu general agradeceu-me reservadamente, como de costume, e
determinou-me que conseguisse qualquer forma de transporte adequada para
um oficial-general, a fim de que a invasão pudesse continuar de acordo com os
planos. O pior que pode acontecer a um general é que as coisas não corram de
acordo com os planos, mas era mais fácil dizer do que encontrar um meio de
transporte adequado. Nosso transporte estava no fundo do traiçoeiro Canal da
Mancha.
“Chapinhamos por dentro d’água por algum tempo. Durante a noite, de
novo apareceu a abominável Marinha com suas horríveis lanchas rápidas
respingando água por sobre todos nós, do que evidentemente não
necessitávamos.
“Agora meu general ficou realmente aborrecido. Ele jamais havia
apreciado a Marinha. Considerava que não é natural para seres humanos
movimentarem-se por sobre a água. Se o bom Deus dos alemães tivesse querido
essa espécie de coisa, ele teria providenciado para que o povo alemão nascesse
com nadadeiras nas costas.
“Isto vai ser assunto para uma corte marcial”, disse ele com seriedade,
aparafusando seu quinto monóculo no olho. E realmente explodiu, quando
verificou que eles estavam salvando o pessoal técnico em primeiro lugar.
Perdeu seus últimos três monóculos durante o desabafo e seu boné de
campanha bordado a ouro foi carregado pela água.
“Falei ao motorista de um P-4 que guardasse o boné do general e meu
general nunca se esqueceu disso. Sargento Gregor Martín. você é um herói
alemão”, disse ele, solenemente. “Receberá a Cruz de Guerra por esse fato. Se
tivéssemos mais gente de sua espécie, há muito tempo teríamos feito nosso
inimigo arrepender-se de ter começado esta guerra!”
“Obrigado, Herr general, senhor!”‘, respondi, engolindo a metade do Canal
da Mancha ao fazer-lhe continência.
“Chegamos a praia de madrugada. Ali expulsamos um coronel de
infantaria e seu ajudante de um Kübel e dirigimo-nos direto para o QG do
Corpo de Exercito para queixar-nos da Marinha.
“Soldados de infantaria foram feitos para marchar”, disse meu general,
quando demos um condescendente adeus aos dois pés-de-poeira, que não
pareciam muito felizes por havermos requisitado seu Kübel.
“O exercício de invasão abortou. Eu e meu general teríamos primeiro que
acostumar-nos melhor a essa história de afogar-se, mas não venham me dizer
que morrer afogado é uma morte agradável.
Foi uma experiência que você poderia chamar de amarga. Meu general
sempre dizia que foi por culpa do Supremo Comando que toda a divisão acabou
no fundo do Canal da Mancha. Ele os chamava de cabos ciganos.
– É de esperar que seu general não tenha mais nenhum comando – diz
Heide. – Ele parece ter um ranço de orgulho imperial.
– Imperial! Você pode apostar sua doce alminha que nós tínhamos – grita
Gregor, orgulhosamente. – Nunca me encontrei com o velho Hohenzollern, mas
meu general me contou tanto acerca dele que não posso fazer nada senão gostar
dele. Os imperadores têm que nascer para a função!
– Peguem suas armas! – ordena o Velho, voltando do comandante da
companhia. – A Seção nº 2 vai na frente e vocês podem agradecer a Tiny por
isso, porque ele ficou atravessado com aquele cabeça de bagre do Von Pader!
O ar vibra e treme. A explosão deve ter sido muito longe e muito violenta.
– Má sorte a dos pobres caras que estavam por baixo daquilo – diz
Barcelona.
– Ouçam isso, rapazes! – grita Tiny, admirado. – Escutem os vizinhos se
cagando todos!
– E daí? – diz Gregor.
Quando nós nos movimentávamos para a frente a fim de render a linha,
sempre nos sentíamos zangados com o inimigo; mas, depois de apenas um par
de dias no front, começávamos a desenvolver um sentimento amigo para com o
outro lado. Eles estavam enterrados na mesma lama em que nós e as granadas
não sabiam diferenciar-nos.
Cai uma nova salva. As altas árvores curvam-se sob a onda de choque.
Involuntariamente, nos abaixamos. Alguns começam a colocar seus capacetes
de aço.
– Fazem um belo barulho, não fazem? – diz Tiny. – É surpreendente a
potência que há nas granadas!
Marchamos através da floresta assassinada. Nenhuma casca foi deixada nos
troncos nus das árvores. Quando chegarmos ao ponto mais alto, os russos
poderão ver-nos. Aí é que companhias de homens transformam-se em carne
picadinha. Todo mundo tem medo deste trecho. Tem que ser atravessado em
lances curtos, mas tão logo o primeiro grupo se movimenta, balas traçadoras
alcançam-no vindas do outro lado. Os homens gritam por padiolas; estes são os
que não se movimentaram suficientemente rápido.
– Seção nº 2, avançar! Vamos! Vamos! – grita o Velho, acenando-nos com
sua Mpi. – Corram quanto puderem, se desejam continuar vivos!
Dou um salto para a frente, parecendo que estou quase voando acima do
chão. A metralhadora parece-me incomoda e pesada.
Balas traçadoras passam por mim. Terra e fogo lançam-se para cima como
cascatas. Um salto de alguns metros faz-me aterrar dentro de um buraco de
granada.
Agora, eles estão bombardeando os cimos com artilharia de campanha e
morteiros. A Companhia nº 3 precipita-se diretamente numa salva de granadas.
Seu comandante, o muito estimado Primeiro-Tenente Soest, é atirado para o ar
e seu corpo parece explodir na ponta de uma lança de fogo. A Companhia nº 3 é
varrida em apenas alguns minutos. A maior parte de seus membros fica
esmigalhada sem possibilidade de reconhecimento. As baterias de campanha do
inimigo acertaram a mira nos altos.
Porta e Rasputin chegam correndo numa nuvem de poeira. O urso corre nas
quatro patas em longos pulos; dá a impressão de que quer proteger Porta com
seu corpo; pois, cada vez que o cabo cai no chão, o urso o cobre. Quando
finalmente chegamos em segurança ao outro lado do cume, verificamos que a
ação custou à Companhia nº 5 sete mortos e 11 feridos. Isto é leve em
comparação com as outras companhias do regimento.
– Coitados dos estafetas de suprimentos – exclamo, olhando para aquele
inferno de fogo. – Passar duas vezes por dia através daquilo com as vasilhas de
comida às costas!
É meia-noite e escuro como breu, quando alcançamos o rio.
Em silêncio, subimos para os barcos de assalto. Ninguém tem ilusões
acerca de coisa alguma; já passamos por tal experiência.
– Vamos dar uma volta no porto, rapazes – brinca Porta. – Depois do
passeio uma cerveja grátis. Se você for bonzinho, poderá voltar na próxima
viagem sem pagar!
Ninguém ri.
Tiny instala-se na proa com a LMG. Carrego as cargas explosivas numa
comprida vara.
Julius Heide e eu temos que chegar às posições do inimigo, enquanto a
seção nos dá fogo de cobertura. Amaldiçoo o dia que me apresentei voluntário
para aquele curso de explosivos. Agora estou pagando por isso. É uma viagem
sem volta para o céu. Mesmo assim, quando me apresentei como voluntário o
inferno estava solto na frente, e quando voltei a maioria dos rapazes que eu
conhecera estava morta e bem enterrada.
– Corra quanto puder logo que nós encostarmos na margem – sussurra
Heide, nervosamente, para mim. – Teremos três e meio minutos para chegar até
eles.
Nosso destino depende do que acontecer no primeiro minuto. Então o
inimigo geralmente ainda está confuso, mas depois disto está alerta e sabe que
somos nós ou eles. Os russos tem que nos pegar antes que cheguemos a eles
com nossas cargas.
– Acima de tudo mantenham a cabeça fria – exorta-nos o Velho, num
sussurro. – Não queiram bancar os heróis! A vida curta e vocês ficarão mortos
por muito tempo. Façam o que for necessário e nem um pouco mais acima
disso. – Dá uma palmadinha ligeira no ombro de Julius. – Você e Sven têm que
chegar àqueles postos de defesa com as cargas. Corram como se o diabo viesse
atrás de vocês. Eles não devem ter oportunidade de fechar-se; se o fizerem,
estamos perdidos. Mesmo que sejam feridos 20 vezes ao avançar, vocês ainda
terão que arrastar-se até aquelas posições. Hals-und Beinbruch!
O leve barco arrasta-se num fundo de areia. Num pulo, saltamos pela
borda, corremos no meio da cerração e subimos pela ribanceira acima.
Nossos pulmões estouram com o esforço. Atiro-me atrás de uma grande
pedra; minha velha ferida no pulmão está me incomodando*. Há apenas um
intervalo de 10 metros para completar, mas cada centímetro é cheio de morte e
de perigo.
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* Wheels of Terror.
===============
Uma SMG matraqueia, mas atrás de nós. Eles nos estão dando fogo de
cobertura.
Torres de concreto levantam-se à nossa frente: as fortificações são muito
maiores do que a princípio pensávamos. Empurro a carga através de uma fresta
de observação e puxo a corda que a aciona.
Dando um longo pulo, arremesso-me para baixo procurando abrigo, abro a
boca e enfio os dedos nos ouvidos. A parede cai para o lado contrário. A
explosão é terrível; uma onda de calor passa por cima de mim.
Há um relâmpago de cegar e corpos humanos são jogados para fora do
abrigo blindado. Sinto como se o Diabo me houvesse dado uma mordida e me
cuspido de novo.
Mais duas explosões ocas e onduladas e os dois outros abrigos blindados
estouram como cascas de ovo, Armas automáticas soam com grande estrépito.
Tiny aparece correndo com sua SMG na mão.
– Continue para a frente, sua besta! – grita ele, dando-me um chute
enquanto corre. – Se eles se reorganizarem, vão comer nossos colhões no café
da manhã. Esses pagãos sabem o que os espera!
O Velho avança correndo para frente com o resto da Seção nº 2 espalhada
em largura. Num piscar de olhos, limparam a posição inimiga.
O Capitão Von Pader lança-se pesadamente no chão ao lado do Velho. Está
pálido como a morte e à beira de um colapso nervoso. Está usando seu capacete
de aço ao contrário.
– Por que você não deixa que a companhia se espalhe? – pergunta o Velho,
desrespeitosamente, olhando atravessado para Von Pader. – Do jeito que
estamos bastará um impacto direto e metade da Companhia irá para a sucata.
– Não tente ensinar-me meu serviço, sargento – diz o capitão, ofegante. –
Vou dar parte de você!
– Por todos os santos! – exclama o Velho, em desespero. – Será que tudo o
que tem na cabeça é dar partes? Está na frente, Herr Hauptmann, e é
responsável por 200 soldados alemães. – O sargento se levanta a meio e aponta
para Von Pader com sua Mpi.
– Estou-lhe avisando: se estragar esta ação, eu o substituo no comando!
– Quem você pensa que é? – grita, excitado, Von Pader. – Um piolhento
camponês não pode tirar o comando de um oficial!
– Leia as ordens de seu próprio Führer – retruca o Velho. – As ordens mais
recentes dizem que mesmo um soldado raso pode substituir um comandante de
regimento, se ele julga que esse comandante deixou de cumprir seu dever.
– Nunca ouvi falar disso – resmunga Von Pader, em tom fraco.
– É melhor tirar um dia de folga para ler as ordens, quando voltarmos –
sugere, irônico, o Velho.
Um mensageiro joga-se no chão ao lado deles, arquejante. O sangue
escorre-lhe pela face de um corte na testa.
– Herr Hauptmann, senhor! O quartel-general do regimento deseja saber se
as fortificações aqui foram tomadas?
– Não – responde o Velho por seu oficial-comandante. – O ataque está
parado. A Companhia nº 5 acha-se imobilizada em crateras de granada coçando
os bagos...
– O comandante vai ficar contente em sabê-lo – diz com urna careta o
estafeta, lançando um olhar crítico para o oficial estático, agarrando o capacete
com ambas as mãos.
Porta e o urso escorregam até eles, trazendo consigo muita poeira e folhas
mortas.
– Que, diabo, estamos fazendo parados por aqui? – grita Porta, sem prestar
nenhuma atenção a Von Pader. – Onde está o resto da companhia? Eu e
Rasputin não podemos vencer esta fodida guerra sozinhos!
O Velho faz um sinal para a seção adjacente; o sinal é respondido. A
Companhia nº 5 atira-se para a frente. O Capitão Von Pader é o único que fica
para trás em seu buraco Com os olhos esbugalhados de terror, olha para o
terreno à sua frente que está sendo revolvido pela barragem de artilharia de
campanha. A terra parece subir como uma gigantesca cortina em direção ao
céu. Corpos e equipamento espirram por todos os lados. Chamas irrompem do
chão em enormes gêiseres.
Um canhão com seus seis cavalos é lançado para o ar e vem esborrachar-se
no chão.
O Capitão Von Pader entra em colapso, soluçando. Seu estômago contrai-
se e dá-lhe cãibras. Ele arranca o capacete e rasga a gola da túnica. o pano
sendo despedaçado pelos dedos. Nunca imaginara que o batismo de fogo fosse
algo como isso. Pela primeira vez em sua vida, ele sente que a Pátria pode estar
pedindo demais dele.
O buraco em que ele está metido sacode e se movimenta é como se todos
os diabos do inferno tivessem sido soltos e estivessem urrando juntos. Uma
ensurdecedora explosão é seguida imediatamente por outra. O inacreditável
barulho aumenta num crescendo infernal.
Um corpo cai na frente dele. Sangue, entranhas e miolos respingam-lhe o
rosto, Von Pader grita desesperado, pensando que foi ele próprio que foi
gravemente ferido. Mas é o corpo de um tenente de 19 anos, cujo primeiro dia
no front terminou.
Granadas continuam a cair. Assobiando, uivando, explodindo. Fogo, terra,
rochas, troncos inteiros de árvores, voam pelo ar estamos num gigantesco e
infernal estádio, onde as explosões jogam bola distraidamente com tudo o que
está dentro dele.
– Minha companhia – geme Von Pader, e enterra-se ainda mais
profundamente em sua cratera.
A companhia dele encontra-se muito longe. Está engajada numa feroz luta
pelas posições russas.
Vejo duas cabeças por detrás de uma Maxim e mando uma granada de mão
voando em direção a elas. Observo cuidadosamente que ela não seja devolvida
pelo inimigo; nós não estamos enfrentando recrutas.
A granada voa diretamente para o ninho de metralhadora. Um corpo em
uniforme cáqui é jogado para cima junto com uma SMG.
Pulo para a frente com a LMG embaixo do braço. É um dos modelos
russos, uma excelente arma para combate a curta distância.
Aterro por detrás da parede de sacos de areia do ninho. Sinto falta de ar
quando respiro; aquela maldita ferida no pulmão. Nunca me livrarei dela.
Um sargento russo move-se bem perto de mim, mas antes que ele possa
disparar sua pistola, já lhe esmaguei a cabeça com a coronha de minha LMG.
Febrilmente, preparo outra granada.
Como se estivesse movimentando em câmara lenta, vejo Gregor sair
correndo de dentro do mato, espetar um capitão russo com a baioneta, arranca-
la e atingir o rosto do oficial com a coronha da arma. Um pontapé nas virilhas e
o russo desaparece no fundo de uma trincheira.
Lá em cima, uma SMG matraqueia sem parar. Uma violenta pancada quase
desloca minhas pernas debaixo de mim. Uma bala arrancou todo o lado de uma
de minhas botas; o local arde e sinto uma ferroada, mas é apenas um arranhão.
Se tivesse sido uma bala explosiva, toda minha perna teria desaparecido, penso
horrorizado, enquanto retiro o couro que me está queimando. Se assim tivesse
sido, eu estaria livre de tudo. Ou será que estaria? Agora, eles estão mandando
até amputados de volta para o campo de batalha de novo.
Coin os pulmões chiando e doloridos, lanço-me para a próxima cobertura.
Em alguns minutos, consigo recuperar o fôlego. Estou coberto de sangue.
Aterrorizado, apalpo-me todo. Nada de anormal.
Corremos pesadamente por dentro de uma estreita trincheira, jogando
granadas de mão em abrigos individuais que se abrem a partir dela.
As Mpis cospem fogo. De repente, metade da trincheira explode atrás de
nós. A armadilha funcionou um par de segundos tarde demais: de outra forma
nenhum de nós estaria vivo agora. Um milagre da guerra.
Encontro Porta e o Legionário numa profunda cratera de granada que ainda
está fumegando da explosão. Enchemos nossos carregadores, que metemos nos
bolsos, no canhão de nossas botas, em nossos cintos, por toda a parte.
Gregor e Tiny escorregam para baixo até encontrar-nos. Eles têm uma
porção de cantis russos com eles.
– Eis aqui uma bebida digna de heróis – diz Tiny, distribuindo os cantis
entre todos. – Os vizinhos devem ter recebido suas rações exatamente quando
os visitamos. Que pena, não é?
O urso está deitado junto a Porta. Tem uma feia ferida superficial nas
costas, que nós limpamos e na qual colocamos um curativo. O animal recebe
duas cervejas russas para alívio e quase devora também as garrafas.
– Vocês deviam ver como ele luta – diz Porta, orgulhosamente. – As vezes,
pega dois de uma vez e bate um contra o outro. Os corpos se quebram como se
fossem de vidro.
– O Pravda fará disto uma boa história – fala o Legionário, rindo. – Ele
dirá, sem dúvida, que nós sofremos perdas tão grandes que temos que treinar
animais como soldados.
– Ele deve de fato estar saturado com os bolcheviques – considera Gregor,
coçando o pescoço do urso. – Que tal se nós o enviássemos a uma reunião do
partido? Seria divertido se ele se sentisse da mesma forma acerca de nossos
pavões dourados!
– Estou certo de que se sentiria – considera Porta. – Ditaduras socialistas
não são a menina de seus olhos!
– Vamos embora! Vamos! – grita o Velho, impaciente. – A paz não vai
ficar esperando na esquina até que vocês tenham tempo para ela!
A artilharia lança uma nova barragem muito próxima. Nós nos enterramos
mais nas crateras; terra e pedras chovem sobre nós. Temos que trabalhar duro
para desenterrar-nos de novo. Há um forte odor de ácido pícrico da explosão
das granadas de alto-explosivo.
Afeta nossas gargantas como as emanações de um tanque de ácido. Os
russos recuam. Correm por sobre terreno que foi arrasado. A terra treine como
um animal ferido.
Nossa artilharia pesada em Elipsy bombardeia as posições russas de
retaguarda. Onde caem, esses obuses de 380 mm causam danos indescritíveis:
apenas a concussão é suficiente para reduzir um ser humano a átomos.
Procuro cobertura ao lado de Julius. Ele tem um dos novos MG de 42 e
sente-se tão orgulhoso dele como se o houvesse inventado.
– Nossa Senhora de Kazan! Esta é uma verdadeira arma alemã! – Firma
seus pés contra uma pedra; é difícil ficar parado com o 42. Ri satisfeito. – Com
uma peça como esta, um camarada pode realmente mostrar aos bolcheviques o
caminho para casa!
Uma longa rajada agita o solo em frente a nós. Assustados, escorregamos
rapidamente para o fundo da cratera.
– Esses porcos! – rosna Heide, irritado.
– Deem-me fogo de cobertura – pede Tiny de um outro buraco de granada.
– Você está pronto? – grita Julius, soltando o dispositivo de segurança do
42.
– Cuide apenas de disparar a porra de sua arma, seu recruta! – grita Tiny,
enfurecido. – Mas não vá me atingir, seu porqueira, ou farei de suas malditas
tripas cadarços para minhas botas!
Heide dispara rajadas curtas e bem dirigidas. Tiny passa por nós como um
relâmpago. É um mistério para nós como tal montanha de homem pode mover-
se tão rápido. Ultrapassa-nos como um remoinho e, como usualmente, falando
sozinho.
– Lá vou eu pegá-los, seus pestes filhos de Stalin! E a culpa é de vocês
mesmos!
À Pulo de pé e o sigo. Trepamos por uma escarpa quase vertical. Tiny atira
a LMG pelo topo e joga-se atrás dela.
– Eles gostariam de acertar Tiny, os infiéis malditos cães do inferno – e
joga duas granadas uma atrás da outra – Nós temos o Deus dos alemães do
nosso lado! – berra com toldas as forças dos pulmões. – Já vou aí explodir o
rabo de vocês, soviéticos, direto para o inferno – E esvazia o carregador em
uma longa matraqueante rajada– depois, salta para frente em combate singular.
Ouve-se o barulho de cabeças quebradas. – Você deveria ter ficado na
cama, Ivan, dessa forma teria mantido seus miolos dentro da cabeça!
As metralhadoras latem furiosamente. Granadas de mão cruzam os ares em
ambas as direções. Toca para frente! – grita Tiny, dando-me um empurrão que
me atira para diante.
Lanço uma granada de mão e jogo-me atrás dela quando explode.
Julius Heide está colado a nossos calcanhares, agarrando a 42 nas mãos.
– Está tudo indo bem, não? – grita Tiny e Joga sua faca num soldado de
infantaria que sai de um abrigo com um grande pão embaixo do braço.
Agarro o pão e coloco-o em meu cinturão; tem uma pequena mancha de
sangue, mas esta pode ser cortada.
Estamos na estreita trincheira de ligação, faço uma curva em ângulo reto e
um soldado soviético atira-se correndo sobre mim. Antes de saber o que está
acontecendo, sou derrubado e uma bota ferrada ameaça meu rosto.
Tenho apenas de pensar : Chegou a minha vez! Então, o russo levanta-se
no ar, seus pés chutando o espaço Há um horrível ruído de ossos quebrados e
seu corpo inerte cai em cima de mim.
Um par de pernas peludas esfregam-se em mim e um rosnado interrompe o
barulho da batalha. O urso de Porta salvou-me a vida.
Dois soldados soviéticos ficam boquiabertos olhando para o urso, com um
capacete alemão preso à cabeça, andando em seu trote apressado ao longo da
estreita trincheira de comunicação. Ele se levanta nas patas traseiras e,
apanhando os russos, esmaga-os um contra o outro com sobrenatural força. A
seguir, afasta-se galopando sobre as quatro patas. Há muito que aprendeu a
abrigar-se contra todas as pestes que guincham no ar e o infestam por aqui.
Atira o corpo de um russo para o ar e pisoteia sobre ele quando cai.
Nenhum de nós pode entender o que lhe deu tanto ódio de uniformes
cáquis.
Porta está em suas pegadas. Quando o cabo espreita por sobre o parapeito
da trincheira, o urso permanece abaixado atrás dele, observando-o com
interesse, mas tão logo ele se lança por cima do parapeito, o animal o segue de
perto. Quando Porta se abriga, ele o imita. Executa seu trabalho como um
veterano soldado de infantaria, experimentado na guerra de trincheira, que
nunca se lança num abrigo do inimigo, sem que antes uma granada o tenha
precedido.
Uma granada de artilharia pesada explode num cemitério improvisado
jogando restos de corpos para todos os lados. O terreno todo parece um enorme
matadouro. Pernas destacadas de corpos, cabeças e tripas estão penduradas das
árvores, como se algum louco tivesse tentado decorá-las preparando-as para um
Natal sádico.
Uma seção inteira de carroças de transporte e seus cavalos são jogados para
o alto, explodindo como gigantescos chuveiros. Os postes de telefone quebram-
se como palitos de fósforo, os arames zunindo no ar. Uma casa racha de lado a
lado, de cima a baixo, e cai como poeira. Um lampejo amarelo cegante ilumina
o céu; eles estão explodindo tudo atrás deles. Que algumas centenas de homens
desapareçam com essas explosões não tem aparentemente importância. Josef
Stalin nunca escondeu o fato de que um milhão de vidas não é de importância
no quadro geral. Assim, que significação tem se algumas centenas são
reduzidas ; migalhas no cumprimento do seu plano?
Levo meu braço bem para trás e lanço mais uma granada. Agora, chegamos
aos subúrbios de Jassy. Tem-se a impressão de que a grande ofensiva vai ter
sucesso. Os russos estão em retirada em toda a frente, mas nós chegamos ao
limite de nossa resistência.
Cautelosamente, penetramos pelas ruas desertas. O 104º Regimento de
Fuzileiros vai na frente. Eles têm que abrir seu caminho de casa em casa.
A nossa frente, o Sexto Regimento de Motociclistas e a Seção nº 2 estão
parados na barranca do rio próximo à ponte. Estamos esperando pelo sinal para
avançar de novo, e este breve intervalo salva-nos as vidas.
– Vocês os estão vendo? – grita o Velho, apontando para o céu.
Uma enorme formação de bombardeiros aproxima-se sobrevoando a
cidade.
Temerosos, nós nos agarramos ainda mais firmemente à ribanceira.
No momento seguinte, o ar se enche com um terrível barulho. A comprida
rua com suas altas casas de ambos os lados é levantada para o ar como se por
uma gigantesca mão. Por alguns segundos, tudo parece vibrar como numa
miragem. Depois, ela cai de novo por terra com um barulho ensurdecedor. É
uma visão fantástica. As pessoas fogem pelos campos vizinhos apenas para ser
massacradas pelos Jabos, que roncam em seus voos de mergulho rasos com o
chão.
A grande frota de bombardeiros vira-se para o leste e parece desaparecer
em direção ao sol. A cidade deixou de existir. Converteu-se num amontoado de
vigas, pedras, madeira e ferragens, do qual se projetam pés, corpos, cabeças e
braços.
Um cheiro adocicado é carregado em nossa direção pelo vento.
– O que os militares são capazes de fazer! –– pondera Tiny, solenemente. –
Há meia hora, uma bela cidade com seu mercado e agora nada mais do que a
porra de um grande monte de merda!
Quase sem poder respirar, pulamos para dentro de uma trincheira, onde há
uma fileira de jovens russos, mortos por uma salva de um tanque. Alguns dos
rostos deles estão afundados, chatos como um pedaço de papelão.
Estranhamente, embora não mais tenham perfis, eles retêm a aparência de sua
individualidade e poderiam ser reconhecidos. Os mortos são jovens cadetes de
uma escola de formação de oficiais que permaneceram em seus postos e foram
esmagados por 300 tanques.
O ataque prossegue sem piedade para a frente. A morte aumenta sua
colheita entre as ruínas. Um soldado vestido de cáqui cai com as mãos
agarrando a barriga e o sangue escorrendo entre os dedos.
O pequeno Legionário pula delicadamente por sobre o russo e uma curta
rajada de sua Mpi liquida um outro que vinha correndo na direção dele.
– Vive le mort! – grita o Legionário, fanaticamente.
Tiny responde com uma risada surda e arrebenta a mandíbula de um
capitão.
– Isto talvez vai ensiná-lo a não apontar para Tiny pelas costas de novo,
meu filho! – Abaixa-se justo a tempo de escapar de uma rajada de Mpi. – Esses
patifes soviéticos! – grita, e atira uma granada.
Corro atrás de Porta e atiro-me para dentro de um porão. Do lado de fora
ouvem-se os tiros; balas cruzam em todas as direções.
Argamassa e caliça caem do teto. Algumas canalizações são atingidas;
esguichos d’água caem sobre nós.
Algo vem rolando pelo corredor; eu o agarro e jogo de volta para onde
veio. Ouve-se uma tremenda explosão e uma onda de ar quente passa por cima
de nós.
O Velho bate-me no ombro cm sinal de aprovação. Se eu não tivesse
apanhado aquele abacaxi russo e o jogado de volta, todo nosso grupo teria sido
morto.
Rapidamente. limpamos o porão. Aqueles que ainda estão vivos recebem
um tiro na nuca, quer sejam civis ou militares. Não podemos fazer prisioneiros,
e a dura escola da experiência ensinou-nos que mesmo os mais seriamente
feridos podem reunir força suficiente para jogar uma granada de mão em cima
daqueles que acabam de mostrar-lhes misericórdia. Abrigos e esconderijos são
vasculhados com pente fino. Pegamos tudo o que possa ser útil para nós.
Porta cambaleia sob o peso de dois sacos. Um aroma de café espalha-se em
volta dele.
Tiny arrasta duas pesadas caixas de madeira atrás dele num carrinho de
rodas de uma metralhadora. Sentimo-nos como loucos.
E como se fosse Natal e nos estivessem distribuindo presentes. Abrimos
latas de mantimentos e empanturramo-nos com o que quer que seja seu
conteúdo.
Uma metralhadora matraqueia ameaçadoramente. E um contra-ataque da
infantaria siberiana, mas conseguimos enterrar-nos e eles encontram a morte
em nosso fogo defensivo concentrado. Durante o resto da tarde, nossa seção do
front fica relativamente sossegada.
Chega o Capitão Von Pader e tenta parecer camarada.
– Você se saiu muito bem, Sargento Beier – diz ele, em tom adulador. –
Senti não poder ficar a seu lado durante a última parte do ataque, mas fui posto
fora de ação pela concussão de uma granada – explica ele, com um sorriso
forçado.
O Velho volta-se nos calcanhares e afasta-se sem lhe fazer continência ou
responder-lhe. O Capitão Von Pader segue-o com ar maligno, enquanto o
Velho se distancia.
Tiny levanta-se fazendo um barulhão– Seu rosto está coberto de lama e de
sangue. Perfila-se em frente a seu comandante de companhia, bate com os
calcanhares e faz uma imaculada continência de escola de formação.
– Solicito a Herr Hauptmann permissão para me apresentar, senhor!
O Capitão Von Pader engrola qualquer coisa inaudível. Subitamente,
reconhece quem está postado à sua frente: aquela terrível criatura meio humana
com quem ele havia jurado jamais falar de novo. Aborrecido, ele se vira mas
Tiny segue-o teimosamente, marchando perfilado e fazendo continência.
– Peço permissão para falar ao Herr Hauptmann, senhor!
Silêncio.
– Peço permissão para perguntar, senhor, se é o Herr Hauptmann que está
no comando da Companhia nº 5, senhor?
Silêncio. Eles estão se movimentando mais rápido agora, mas Tiny
necessita apenas dar um passo para cada dois de Von Pader.
– Peço permissão para dizer ao Herr Hauptmann, senhor, uma vez que ele
se parece com o capitão que comanda a Companhia nº 5, verdade, senhor! Será
que estou errado?
Silêncio.
– Primeiro-Cabo Wolfgang Creutzfeldt, Classe IA, apresentando-se de
volta depois de haver batalhado com seus vizinhos, senhor/ Desejo dar parte,
senhor, de como liquidei com quatro oficiais. Também tive o prazer de destruir
uma posição inimiga, senhor!
Desejo informar ao Herr Hauptmann que ainda estou bem de saúde, de
corpo e de alma, e pronto como sempre para dar aos vizinhos uma boa porrada
quando me mandarem, senhor!
O Capitão Von Pader afasta-se dele, mas Tiny passa para seu lado
esquerdo, como manda o regulamento. Von Pader não pode mais conter-se.
– Você está maluco, homem? De onde vem você?
– Desejo reportar, Herr Hauptmann, senhor, que nasci em Sankt Pauli, em
Hamburgo. Por assim dizer, foi ali que pela primeira vez vi a luz do sol! Não
diria que sou louco, em resposta à pergunta que o Herr Hauptmann me fez
antes, mas sempre fui o que se pode chamar de um pouco amalucado! Sempre
está acontecendo uma porção de coisas na família, senhor! Meu velho teve sua
cabeça decepada em Moabitt. ele teve mesmo. Com meu irmão mais velho
aconteceu a mesma coisa. Mas a dele foi em Fuhlsbüttel. Minhas duas irmãs
agora têm um lugarzinho muito confortável com umas moças muito boazinhas,
se o capitão entende o que quero dizer. Elas moram no Reeperbahn. Mas têm a
cabeça tão inchada que não querem ter nada ‘mais a ver com o resto de nós,
senhor! Então, o capitão deve entender como entrei para o Exército, quando não
tinha mais do que 16 anos. Os santos homens que tomavam conta da escola
correcional onde eu estava internado acharam que este era o lugar próprio para
mim, senhor, acharam, sim! Certamente pensaram que não demoraria muito
tempo para eu morrer, isto é o que penso! Herr Hauptmann, senhor, devo
confessar que já fui rebaixado três vezes, mas ainda sou classe IA, e eles me
disseram que esse “I” quer dizer “inteligência”, mas quanto ao “A” eu não me
recordo o que significa, senhor. Desejo dar parte mais, senhor, de que eles
ainda continuam a descontar de meu pagamento...
– Vá para o inferno! – grita Von Pader, procurando sacar sua pistola.
Tiny fica em posição de sentido e faz continência como um idiota.
– Deite-se! – grita Von Pader que, em sua raiva, nada mais encontra para
dizer.
Tiny cai como um pedaço de pau numa poça de água suja e manda uma
onda de lama em cima de Von Pader, que grita como um louco furioso.
Um pouco mais tarde, Tiny está sentado conosco, limpando o cano de sua
metralhadora por dentro.
– As besteiras que aquele sujeito é capaz de vomitar – diz ele, pensativo. –
E sou capaz de apostar que é formado por uma universidade. Graças a Deus que
não sou um desses tipos; não poderia suportá-lo, não poderia!
– Gente com ele deveria ficar contente que exista uma coisa como o
Exército – observa Gregor, tranquilamente. – Eles teriam uma bruta dificuldade
para encontrar trabalho, se não existisse o Exército.
– Sim, eles não poderiam ser usados para muita outra coisa a não ser
carcereiros – opina Porta, despejando água na cafeteira.
O Legionário aparece trazendo uma bela torta que ele fez numa fogueira.
– O que vocês estão cozinhando, Fritz? Cheira bem! – ouve-se das
posições russas, a menos de 100 metros.
– Estamos tomando o café da tarde – grita Porta, em resposta. – Vocês
estão convidados, mas têm que fornecer vocês mesmos o conhaque!
Por alguma razão inexplicável, recebemos ordem de recuar para nossa
antiga posição. Tudo desperdiçado. De nosso ponto de vista, os que morreram,
morreram por nada. Mas nós não somos estrategistas, apenas pés-de-poeira.
Ouvem-se os cavalos relinchando do outro lado; o cheiro deles é carregado
até nós pela brisa.
– Que merda de guerra, rapazes! – exclama Tiny. – Eles mandaram a
cavalaria para salvá-los!
– C’est la guerre! – suspira o Legionário. – Na guerra, qualquer coisa pode
acontecer.
– Um ataque de cavalaria não é a pior coisa que pode acontecer – considera
Porta, otimista. – Poderíamos em breve carnear esses bifes vivos e eles nos
forneceriam comida por muito tempo.
Se você salgar um cavalo velho, ele se conservará por uma dúzia de meses.
Tem que se lembrar no entanto de cozinhar a carne antes de assá-la. Se não o
fizer, ela fica sem gosto.
– Diga-me: como é que transportaria um cavalo salgado com você? ––
pergunta Barcelona, cético. – Algo me diz que este negócio aqui vai
movimentar-se muito em breve.
– Talvez você não tenha reparado na minha limusine aqui – diz Porta, rindo
e apontando para o carro russo de metralhadora. – Tudo o que preciso agora é
um par de homens de jinriquisca, do outro lado e o Obergefreiter (pela graça de
Deus) Joseph Porta será capaz de visitar a Santa Rússia em grande estilo. O
velho Tolstoi dizia que na Rússia você não tem classe, se não tiver um par de
rodas embaixo da bunda. Apenas as classes trabalhadoras usam seus pobres
pés.
O cabo se levanta e vai conversar com os novos recrutas designados para a
seção, dizendo-lhes como eles devem cuidar-se aqui no front. É importante para
todos nós que lhes sejam ensinadas, tão cedo quanto possível. todas as coisas
que não lhes ensinaram nos quartéis. Precisamos deles, e estamos interessados
em que permaneçam vivos por tanto tempo quanto possível, que não se atirem
afoitamente contra uma barragem de artilharia ou que pisem numa mina ou que
façam outro tipo de estupidez.
Somente recebemos a metade das reposições de que precisávamos. Na
Alemanha, estão raspando o fundo da panela há muito tempo. Mesmo os
racistas Waffen-SS estão aceitando voluntários russos. Untermesch... até que se
alistam. Noutro dia encontramos uma unidade de pretos alemães; não eram
capazes de falar uma palavra em alemão. Quando lhes explicamos quão
estúpidos eles pareciam, a única coisa que fizeram foi responder-nos com
felizes sorrisos.
Porta está sentado em cima de um velho formigueiro abandonado; os novos
recrutas fizeram um círculo em volta dele.
– Em primeiro lugar e antes de mais nada, têm que compreender que seu
objetivo aqui é acabar com o inimigo e não, não, repito, deixar que o inimigo
acabe com vocês! Não há nisso nenhum lucro para a Pátria. Esqueçam-se do
que lhes ensinaram em Sennelager. Aqui não temos nenhum uso para heróis.
São de miolos e não de colhões que se precisa para dar-se bem por aqui e
nunca, nunca se esqueça de que nossos vizinhos pagãos também conhecem
todos os truques que já foram inventados! A única margem que você pode ter é
ser mais rápido do que o outro camarada. Liquide com tudo o que não estiver
usando um uniforme alemão. Na dúvida, quando tiver o menor traço de dúvida,
atire, e atire para matar! Não se lance para a frente, repito não se lance para a
frente, num piscar de olhos. Esses camaradas carregam suas armas com balas
de verdade e, lembre-se, estão ansiosos para cortar sua vida com uma pílula de
chumbo bem apontada. Quando se pula por cima da trincheira, para visitar
Ivan, fique com os olhos bem abertos procurando uma cratera de bom tamanho.
Nunca se movimente antes de saber onde está sua próxima cobertura e, quando
a alcançar, cuide de descobrir o mais cedo possível, repito, o mais cedo
possível, de que lado está vindo o fogo. Faça pontaria, mas, pela alma de Santa
Elisabete, seja rápido na pontaria. Então atire, mas despache-se rápido, ou
talvez nunca atirará de novo, meu filho! Ivan diz que os rapazes de Adolf estão
perdendo um homem por minuto. Se isso fosse verdade, a guerra em breve
terminaria; eu talvez desejasse que o fosse, de forma que os que restassem de
nós pudessem ir para casa, mas infelizmente Ivan é tão grande mentiroso como
nós. As mentiras e a guerra marcham juntas e nada há que possamos fazer
acerca disso/ Mentir é uma dádiva de Deus e como tal temos que usá-la. Mas!
A coisa mais importante por aqui é ser mais rápido do que os vizinhos; se você
o for então sairá vivo. Quando atirar, atire para matar! Um homem parcialmente
morto, ou uma mulher, ainda é um perigo para você. Ele ou ela irão felizes para
o inferno, se puderem levar um de vocês junto. – Porta levanta e mostra sua
ferramenta de cavar trincheira. – Não perca isto. É uma das melhores
ferramentas que o Exército jamais lhe deu. Cave com ela na primeira
oportunidade que surgir; cada pá de terra que você cavar prolongará sua vida.
Também pode quebrar a cabeça de um inimigo para você. É também uma
excelente frigideira. Num tanque, você pode usa-la para cagar e manter o chão
do tanque limpo. Frita muito bem um ovo. Nunca use graxa nela; limpe-a com
areia, terra ou capim. – Arreia a pá e levanta um kalashnikov russo. – Quando
estiver fazendo visitas, para ver se Ivan talvez está ganhando peso, cuidado com
sua Mpi; não atire com ela às cegas. No cinema parece muito bem, mas na
realidade é muito diferente. As balas que você dispara de sua Mpi dispersam-se,
e rápido, logo que saem do cano da arma. Não é nada difícil matar 10 de seus
próprios companheiros pelas costas, a uma distância relativamente curta, com
uma rajada de sua Mpi, se você não sabe o que ela pode fazer. E não fique
parado feito a porra de uma vaca, se Ivan surgir de repente à sua frente. Dê-lhe
uma paulada, atire ou apunhale-o! Pense no assunto mais tarde, quando tiver
tempo! Aqui você não tem tempo para pensar!
“Não fique com pena de um vizinho ferido, Ele é capaz de arrancar-lhe a
cabeça com um tiro, com toda a probabilidade, enquanto você o ajuda. Não
entre numa casa sem antes limpá-la primeiro com sua Mpi ou com uma
granada, e o mais importante de tudo: se você está de sentinela no front jamais,
jamais, feche os olhos mesmo por um segundo. Gatos parecem um bando de
elefantes em marcha comparados com o modo como se movem os inimigos: se
eles lhe puserem a mão em cima, você está liquidado!”
Quando eles obtiverem de você o que desejam, e eles o obterão, então você
ganha um tiro! Prisioneiros na guerra de trincheira são um incômodo.
“Agora é muito provável, mais do que provável, que vocês sejam atacados
por unidades de tanques. Se forem, então não abandonem, repito, não
abandonem seu buraco no chão. Procurem ficar mais chatos do que um
linguado. Comecem a correr e na certa vão ser mortos. Há uma porção de
coisas que foram inventadas recentemente, mas ainda não inventaram o homem
que possa correr mais rápido do que uma bala de metralhadora! Ainda não! Se
alguém vier a seu encontro e você estiver em dúvida a que lado ele pertence,
atire! Se cometeu um erro e ele era de nosso lado, foi uma pena! Conforte-se
com o pensamento de que, de qualquer forma, ele não teria vida longa! Se vir
um dos rapazes do outro lado dando um passeio pela trincheira, apreciando a
natureza, por favor, não o pegue. Ele está em seu próprio monte de barro; se
você o matar é assassinato. O que é mais importante é que seus companheiros
cuidarão de acertar as contas com um dos nossos!
“Muito bem! Chega disso. Descubram o resto vocês próprios. Os patetas
não durarão, de qualquer modo, mais do que uma quinzena.
Porta se afasta um pouco na trincheira de comunicação e estaca. Coçando
Rasputin atrás da orelha, dirige-se de novo a eles:
– Há no entanto uma pequena coisa. Sempre, repito, sempre, mantenham
essa parte de vocês que fica entre as orelhas abaixo da crista da trincheira.
Ignorem esse conselho e poderão despreocupar-se acerca de sua próxima
licença. Os atiradores de escol de Ivan nunca dormem. Mostre seu focinho e
você recebe nele uma bala explosiva.
Rindo-se gostosamente, ele se afasta junto com o urso. No canto da
trincheira volta-se de novo e diz:
– Ei, seus merdas, escutem aqui! Se virem algum corpo com dentes de
ouro, eles são meus. Deem parte imediatamente!
– Isso não é proibido? – pergunta um recruta de 17 anos com o emblema
dourado HJ* no peito.
– Sim, se você tirá-los, filho. Nesse caso, é estritamente proibido – diz
Porta, rindo alto.
No decorrer daquela noite, ocupamos a Elevação Demon.
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* HJ (Hitler Jugend): Organização da Juventude Hitlerista.
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Rendemos um regimento de polícia que quase foi liquidado nos quatro
últimos dias. Eles parecem zumbis; você adquire essa aparência, quando fica
sob fogo de artilharia por vários dias. Saem cambaleantes pelo fundo da longa
trincheira. Velhos, velhos homens, parecem eles todos!
Tiny os observa e dá uma cutucada em Gregor.
– Tiraram toda a animação dos coitados dos polícias, não foi? Aqui não é
tão fácil como surrar bêbados.
– Você não gosta de policiais, não e? – pergunta Gregor.
– Não. Eu diria que entre nós nunca se perdeu muito amor... – responde
Tiny, cuspindo na direção deles.
Porta tem um estilhaço de shrapnel na perna; extrai-o com sua faca de
combate e o guarda na carteira.
– Pense o que aconteceria se pegasse o camarada na cabeça – filosofa ele. –
Acabaria com seu hábito de peidar na igreja, não é?
– Sorte, é do que tudo depende – diz Tiny, palitando os dentes com a ponta
da baioneta.
– Se você tiver sorte, mesmo que seja só um pouquinho dela, o shrapnel
acerta em sua perna em vez de seu focinho. Com um pouco mais de sorte. ele
não lhe causa dano algum.
– Pense o que aconteceria, se ele acertasse seu velho penduricalho – diz,
rindo, Gregor – e você não tivesse mais nada com que agradar às garotas!
– Santa Vera de Paderborn! – grita Porta, horrorizado. – Eu preferiria que
me pegasse no focinho. As mulheres e eu não podemos viver um sem o outro.
Nós pertencemos um ao outro, se me permitem dizê-lo assim!
– Uma vez que vocês estão falando de mulheres – intervém na conversa o
Velho. – O furriel diz que um grupo teatral vem visitar o Corpo de Exército.
– Agora é que você nos diz isso. E nós na Elevação Demon – queixa-se
Porta.
Os estafetas da cozinha atiram-se rolando para dentro da trincheira,
tremendo com o choque. Ao cruzarem o campo aberto, dois deles foram
atingidos. Três das vasilhas de comida foram cortadas por balas e a metade das
rações se perdeu.
– Seus patetas! Vocês com certeza ficaram próximos uns dos outros
fazendo um belo alvo para os malditos ateus, suponho! – invectiva-os, furioso,
Porta. – Perdeu-se comida!
– Por que vocês não enfiaram os dedos nos furos das balas e então nós pelo
menos teríamos algo para comer – rosna Tiny, jogando um capacete no estafeta
que lhe está mais próximo.
Todo o mundo está zangado por haver-se perdido comida. O urso quase
arranca um braço de um dos cozinheiros. Nossa seção pôde comer algo porque
Porta conseguiu algumas rações enlatadas russas; elas estão meio podres, mas
ainda dá para comer. Gregor é o único a reclamar, mas ele está acostumado a
rações de oficial-general.
– Você precisa ter estado nessa porra desse Exército há muito tempo para
comer essa merda –– exclama ele, desgostoso, jogando uma lata longe na terra
de ninguém.
O urso é que foi bem tratado; Porta conseguiu-lhe meio balde de mel. Dois
pães secos de ração do Exército são partidos e misturados com o mel. O urso
devora tudo em tempo recorde.
Algo de grande deve estar sendo preparado. Uma corrente de reforços está
vindo da Alemanha. Desde 1939 que o regimento nunca esteve tão próximo de
seu efetivo completo, mas os reforços são de má qualidade. Ou jovens demais
ou velhos demais, e com um treinamento apenas superficial. Entre eles há até
inválidos. Uma perna dura não é mais um obstáculo. O Exército alemão não
está motorizado? Quem precisa de duas pernas?
Na primeira hora. três dos substitutos são reduzidos a poeira em nosso
próprio campo minado. Eles são tão bem reduzidos que ninguém se preocupa
em procurar os restos dos corpos. Os outros permanecem sentados em seus
abrigos, paralisados de terror. Querem ir para casa, dizem.
– Nós também vamos para casa! – diz Porta, rindo. – Fica naquela direção!
– Aponta com o polegar para o oeste. – Mas não estamos indo; vamos ficando
por aqui. Aqui nós sabemos onde o inimigo está. Lá, eles têm cães prontos a
pendurar as pessoas no primeiro galho de árvore!
Quando o fogo de morteiro começa, como usualmente às cinco horas da
tarde, os recrutas enlouquecem e começam a bater com as cabeças nas paredes
dos abrigos. Temos que bater-lhes e torná-los inconscientes. No momento, as
coisas estão comparativamente sossegadas. Os morteiros entram em ação
apenas para salvar as aparências. Nós respondemos com granadas meramente
para ouvir o barulho delas explodindo. Em nossa opinião, estamos tendo um
verdadeiro feriado; podemos sentar-nos pacificamente no fundo da trincheira
aquecendo-nos ao sol. Estamos tendo um belo tempo de outono. Ontem, três
lebres vieram até a borda de nossa trincheira e olharam para nós. Tiny
conseguiu pegar uma delas. Nem mesmo os atiradores de elite atiraram nele
durante aquela fantástica corrida através da terra de ninguém. Quando ele
orgulhosamente a segurou pelas orelhas, aplausos surgiram de ambos os lados
da linha e capacetes de aço foram jogados para o ar. Não é qualquer pê-de-
poeira que pode correr mais do que uma lebre. Dessa maneira, estamos tendo
lebre assada para o jantar de hoje. Porta faz o molho, e purê de batatas com tiras
de carne de porco; sentimo-nos como milionários.
Tiny conseguiu alguns charutos. Passou pela reserva onde haviam sido
suficientemente descuidados para deixar uma janela aberta e se apropriou de
uma caixa de charutos inteira que fora deixada no peitoril. Sabemos que eles
eram propriedade do Capitão Von Pader, o que os faz parecer duas vezes mais
gostosos.
Ouve-se à distância um ruído agourento. As bombas estão caindo a pelo
menos 25 quilômetros de distância, mas mesmo assim o solo treme onde
estamos.
O tempo agradável continua, mas todo o front parece estranhamente
nervoso e a atividade dos atiradores de escol aumenta.
Em um único dia, nove foram atingidos na cabeça só em nossa companhia.
Porta levanta um capacete e imediatamente aparece um furo nele, mas Tiny
acerta o atirador.
Quando se passa pelas posições abertas de metralhadoras, a gente tem que
andar rápido como um relâmpago. Os atiradores siberianos estão de mira nesses
locais e, embora tenhamos alertado os recrutas, eles mesmo assim pegam dois
deles no decurso daquela tarde. Esta espécie de coisa nos incomoda. Parece
bastante desnecessária. Que lhe enfiem uma baioneta durante um ataque, pode-
se entender, mas esse negócio de atiradores de precisão é detestável.
O Capitão Von Pader está meio morto de medo no fundo do abrigo da
companhia. Toda vez que uma granada explode por perto, ele se atira no chão
com as mãos sobre os ouvidos. Olhamos para ele com desprezo. Um
comandante duro e sem entranhas pode-se respeitar, mas não um covarde. O
Coronel Hinka já o chamou duas vezes, mas Von Pader manda-lhe a desculpa
de que o fogo de artilharia é por demais pesado para que ele possa atravessá-lo
para ir ao QG do regimento. O ordenança que nos conta isso quase morre de rir.
Ele é o cabo Müller, ordenança pessoal do Coronel Hinka, apelidado de Menino
Jesus porque é parecido com Cristo.
Junto com um ordenança do batalhão, ele apanhou um balde cheio de
framboesas no caminho entre o QG do regimento e o front.
– E tão pacífico que você poderia divertir-se com uma bela pequena por lá!
– Não está o coronel sendo meio frouxo acerca desse filho da puta medroso
não ir correndo quando ele o chama? – pergunta Barcelona, intrigado.
– Ele está furioso, sim, senhor – responde o Menino Jesus – mas essa
merda de Von Pader tem tão boas conexões na Rua Almirante Schröder que
pode cagar na cabeça de coronéis tanto antes como depois do café da manhã.
Tiny adora as madrugadas. Ele é sempre o primeiro a levantar-se. Nós
vivemos como as melhores famílias na Riviera Francesa, com café e torradas
todas as manhãs. Também vamos caçar, mas não muitas vezes com sorte. A
guerra ensinou aos animais algumas coisas, aumentou sua velocidade, mas
conseguimos pegar um javali selvagem. Nós o assamos, e o aroma invade todo
o front.
Dois dos Ivans pulam para nosso lado, trazendo com eles pepinos. Durante
toda a noite, podemos ouvir motores roncando do outro lado. Estão se
aprontando para algo. Se montarem um ataque com tanques, estaremos
perdidos. Nossos aviões de reconhecimento acusaram longas colunas em
movimento, algumas com até 200 tanques. Estes são do novo tipo Josef Stalin.
Distribuem Panzerfausts* uma arma suicida. Parecem muito eficientes nos
filmes de propaganda, mas a realidade é muito diferente. Se você por acaso
acertar um tanque com uma delas, pode ter certeza absoluta de que será
esmagado pelo próximo tanque. Na maioria dos casos, o foguete ricocheta e,
antes que tenha a chance de carregar de novo, você já está sendo misturado com
as lagartas do tanque. Mas agora já estamos há tanto tempo na frente que não
ligamos ao que vai acontecer daqui a uma hora.
===============
* Panzerfausit: bazuca alemã.
===============
Tiny encosta na escada de assalto e canta com a música do piccolo de
Porta:

Der Sieg ging an uns vorbei,


verbrannte uns die Finger.
Zum Todesschmaus der Wodka fliesst,
doch niemand ist betrunken...
===============
* A Vitória passou por nós,
E queimou nossos dedos ao fazê-lo.
Na festa da morte, corre a vodca,
Mas ninguém fica embriagado...
===============

Uma metralhadora tosse longa e perigosamente. Os morteiros das


trincheiras cospem suas bombas.
Porta tira o piccolo da boca e olha pelo periscópio.
– Dá a impressão de que eles estão preparando algo para nós – diz ele,
pensativo.
– Vamos mandar-lhes uns cartões de visita – sugere Tiny – para ensinar-
lhes a não quererem tornar-se grandes demais em sua ambição. Tudo o que têm
por lá são substitutos. Uma porra de uns merdinhas de uns guardas de Moscou,
mandados para sentir um cheirinho de pólvora antes que seja tarde demais.
Vocês já os viram. Uns porras de colarinho e gravata que têm medo de perder o
friso das calças e ainda não tentaram cagar nas mesmas. – Ele atarraxa o bocal
da granada em seu fuzil e dispara umas duas granadas. A Maxim silencia.
Tiny ri-se, encosta-se de novo na escada e continua com seu canto:

Aufs Wohl ist erster Trunk,


und darauf folgt der zweite,
der fünfte und der zehnte, – dann
der bittere, der Abschiedsschluck... *
===============
* O primeiro brinde é Adeus!
E então segue-se o .segundo
O quinto o décimo, e então
O amargo trago da despedida
===============
O esperado ataque não se concretiza. Passam-se os dias e o bom tempo
continua. Nenhum de nós ousa pensar no inverno, o terceiro inverno na Rússia.
Ninguém que não tenha estado durante um inverno russo nas trincheiras pode
saber o que o inverno é realmente. Mas agora o sol brilha e os coelhos e as
lebres cabriolam por detrás da linha de frente.
Porta e Tiny apossam-se de um alto-falante elétrico portátil e divertem-se
com os russos.
– Russkí tovaritsch! – grita Porta, numa voz que ecoa por todo o front. ––
Sabemos que vocês têm que usar areia para limpar o cu! Venham para nosso
lado e nós lhe mostraremos como poli-los com papel higiênico macio, macio,
gostoso, gostoso!
– Fritz, Fritz! Suas velhas mulheres que parecem salsichas estão levando
salsichas pelo outro lado de nossos rapazes lá em suas casas – retrucam os
russos.
– Isto é ótimo! – responde Tiny, com ar feliz. – Assim elas estarão bem
lubrificadas para nós quando voltarmos para elas!
– Ivan, seu alik* maluco, o que você pensa que os rapazes lá em suas casas
estão fazendo enquanto vocês, patetas, estão por aqui se peidando? – grita
Porta. – Pois eles estão fodendo suas velhas éguas tártaras, de pernas tortas.
Quando vocês voltarem para casa, só vão encontrar ossos e cabelos!
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* Alik (em russo): gíria para o órgão sexual masculino.
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Uma zangada rajada de metralhadora é a resposta.
– Ivan, Ivan, o que podemos fazer para você se comportar? – responde
Tiny em tom de reprovação. – Não morda a mão que o está alimentando com
bons conselhos!
Por horas a fio eles continuam, sem se cansar e sem se repetir uma única
vez.
– Ei, vizinho, seu velho vagabundo! Tire a merda de seus ouvidos e escute
as novidades – grita Porta. – Esta noite vamos visitá-los. Nós embotamos o fio
de nossas facas de forma a que leve mais tempo para abrir-lhes as, gargantas!
– Fritz, seu cabeçudo! Somos nós que vamos aí para capar seus pequenos
cacetes e levá-los de volta para Moscou, a fim de mostrar às pequenas para se
rirem!
Alguns dias mais tarde, essas mensagens gritadas são proibidas pelo QG do
regimento. Em vez disso, jogamos granadas de mão com insultos escritos nelas.
A terra treme como se houvesse um terremoto, quando uma granada de 380
mm cai na seção de trincheira ao lado da nossa.
– Virgem Nossa Senhora! Uma dessas coisas pode certamente escavar um
campo de plantação de batatas – grita Gregor admirado, seguindo com os olhos
a trajetória dos corpos lançados alto no ar.
Dez minutos depois, cai uma outra, desta vez ainda mais perto de nós. A
onda de choque atinge-nos como um vento quente e atira Barcelona no fundo
da trincheira.
– Pela morte de Cristo! – murmura ele ao levantar-se. – É melhor ter uma
conversinha com o piloto celestial, talvez, de forma a estarmos prontos para
uma súbita partida!
– Que tal reforçar as sentinelas? – pergunta o Legionário, olhando para o
Velho, que está pensativamente chupando seu cachimbo de borda de prata.
– Parece que esta guerra, que nos foi imposta, irá ser conduzida com
crescente violência – diz Gregor, imitando o estilo dos comunicados da
Wehrmacht.
Às 11 horas, rendo Porta na SMG. Ao longo do front, tudo está calmo. Não
podemos entender o que significava o violento bombardeio.
Muito para o sul, ouve-se um incessante barulho de fogo de artilharia e
todo o horizonte está pintado de um vermelho sanguíneo. Talvez estejam
tentando um rompimento da frente ali; se o conseguirem, ficaremos pendurados
no ar. Dentro de pouco tempo, eles estarão atrás de nós.
– Vigie, mantenha-se acordado – instrui-me o Velho, quando inicio meu
serviço de sentinela. – Eles capturaram dois homens dos rapazes a nosso lado à
noite passada, sem que eles dessem sequer um gemido. Têm uma metralhadora
enterrada por ali; de vez em quando atiram com ela; assim, mantenha-se bem
abaixado atrás do parapeito.
– Será um bom serviço, se eu puder pegá-la – respondo, puxando o capuz
por sobre meu capacete. À noite, faz frio.
Uma neblina levanta-se do terreno pantanoso; o medo pesa-me no
estômago.
O Velho bate-me no ombro para me encorajar e desaparece
silenciosamente em torno do cotovelo da trincheira, para verificar as outras
sentinelas.
Agora, fico sozinho e assustado. Através do periscópio posso apenas
vislumbrar as linhas russas; dá para sentir a presença de postos avançados.
Tudo parece muito pacífico e de forma alguma perigoso, mas, como um
veterano das trincheiras, sei que não há nada no front que não seja perigoso. A
morte nunca desfruta de um feriado.
Toda a frente está adormecida com um fraco ruído surdo como o de um
pesado ronco de uma pessoa dormindo. Um par de explosões de magnésio
ilumina o terreno. Em sua forte luz, posso ver claramente a estrada mais baixa
atrás das posições russas. Nós a chamamos a Aleia da Morte. Não é toa que a
posição é chamada de “Elevação do Demônio”. Não é realmente um morro mas
a crista de uma dobra do terreno que se estende por 15 quilômetros.
Viro o periscópio. Corpos por toda a parte. Centenas de esqueletos e corpos
parcialmente mumificados. Aparecem isolados ou em amontoados, cobertos
com uma poeira amarela e avermelhada. Logo à minha frente, uma bota
projeta-se do terreno; o resto do corpo está enterrado. É uma bota alemã. Um
pouco mais afastada, uma caveira ri para mim por debaixo da aba de um
capacete russo. Mais para diante, um braço com um farrapo de uniforme cinza-
esverdeado pendurado nele; os dedos da mão apontam acusadoramente para o
céu. Um jovem caçador alemão jaz atravessado por sobre uma roda de canhão
solta; o peso de sua mochila faz com que seu corpo esteja curvado em arco. O
vento brinca com seus cabelos que são mais compridos do que o regulamento
prevê. Ele gritou durante todo o dia e morreu ontem à noite.
Diversos soldados da companhia tentaram trazê-lo, mas tiveram que
desistir e voltaram com a padiola vazia. Os atiradores siberianos não conhecem
o significado da misericórdia.
Para onde quer que eu vire o periscópio, vejo ossos, juntas, braços dos
quais a carne foi arrancada, mãos, vértebras, caveiras sorrindo, olhos parados e
vidrados debaixo de capacetes amassados, corpos frescos, corpos já meio
podres, outros corpos, inchados pelos gases da degeneração, que estouram
como balões, se acontece alguém pisar num deles. A brisa carrega um cheiro
adocicado e enjoativo em minha direção.
Fico sonolento, e tenho uma terrível dificuldade em permanecer acordado.
Minhas pálpebras estão pesadas e inflamadas, mas é perigoso cochilar. Não é
somente punível com pena de morte, mas também no mero piscar de um olho
eles podem estar em cima de você. Podem ter avançado por toda uma trincheira
antes que eu saiba onde estou; muitas vezes tem acontecido de duas
companhias inteiras do inimigo se infiltrarem na trincheira de uma companhia
nossa, e uma vez que eles cheguem a trincheira não são muitos os que ficam
vivos do nosso lado,
Pressiono meus cansados olhos contra a peça de borracha onde se apoiam
os olhos no periscópio, mexo com os dedos dos pés dentro das botas, mordo os
lábios, faço tudo aquilo em que posso pensar para manter-me acordado. De
novo conto os corpos. Há mais do que havia antes? Num instante, estou
inteiramente acordado. O medo escorre como água gelada ao longo de minha
espinha. Por um instante, parece-me ver vultos escuros. Conto-os de novo e
mantenho meus olhos nos corpos. E um velho truque, movimentar-se
empurrando um cadáver à sua frente.
Um par de granadas explode em chamas logo atrás da linha. Linhas de
traçadores vêm assobiando de uma MG escondida. Um morteiro late com seu
barulho surdo. Então, tudo fica de novo quieto. Um coelho, já acostumado com
a guerra, pula em direção à vegetação, parando para cheirar o caçador alemão
morto. Suas longas orelhas se viram, primeiro em direção às linhas russas, de
pois em direção às linhas alemãs.
Ouve-se um tiro. O coelho atingido rola pelo chão. Eu vi o clarão da boca
da arma, o que é bastante para mim. Posso sentir o atirador, pulando de alegria
para o ar lá adiante. Acerto-o; ele não irá mais atirar em coelhos. Deus sabe
quem ele era? Como vivia? Era jovem? Ele era, de qualquer forma, um guarda
e pertencia aos fanáticos.
Examino a MG; verifico se todos os carregadores estão cheios. Nossas
vidas dependem disso. Olho através do periscópio. Algo está se deslocando.
Movimento na terra de ninguém significa inimigo.
Tenho nas mãos a pistola de sinalização. Deveria mandar ao céu um sinal
por segurança? Meu instinto de linha de frente me alerta; todos os nervos de
meu corpo respondem ao alarme.
Pop! Whi-is-shl O clarão do sinal espalha uma luz branca e fantasmagórica
por sobre os mortos que ali jazem na paisagem desolada.
Agora estou inteiramente seguro. Há algo que não está certo na terra de
ninguém. Num pulo, estou ao lado da SMG, arranco a lona de cima dela e
destravo a arma. Cautelosamente, eu me abaixo, pois os atiradores de escol
dispõem da nova mira telescópica a raio infravermelho, e um desses atiradores
siberianos não precisa de muito tempo para tirar uma vida humana.
A MG abre fogo. Uma longa fiada de traçadores, como um colar de
pérolas, dirige-se para as posições russas. Uma bala explosiva rebenta próximo
a mim; amedrontado, caio no fundo da trincheira. Pego minha Mpi e espero um
momento antes de mostrar meu capacete acima do parapeito.
Crack! O tiro estala imediatamente. Lascas de aço zunem-me perto do
ouvido. O capacete salta do cano da arma; há um furo de bom tamanho em seu
lado. Ele está observando minha área; sabe que estou aqui. Agora a pergunta é:
trata-se apenas de um assassino comum ou os tiros têm um significado muito
mais perigoso? Uma patrulha que está limpando o terreno ou talvez mandada
para fazer prisioneiros?
Fico parado, quieto como um camundongo, e aguardo. Não posso ver
muito longe para qualquer dos lados ao longo da trincheira de ligação, mas anos
na linha de frente aguçaram meu ouvido. Poderia ouvir um gato que se
aproximasse nas pontinhas das patas. Apronto minha Mpi e colo-me à parede
da trincheira. Desatarraxo as cabeças de duas granadas, por segurança. Nossa
patrulha também deve estar se aproximando, mas eles também não fazem muito
barulho. Agora, posso ouvi-los. Devem estar a uns poucos metros.
– Senha! – não ouso pedir-lhes a senha em voz alta; os caras do outro lado
da estrada não devem ouvi-la.
– Merda e merda! – escuto a voz de Gregor respondendo baixo. Isso é
melhor do que qualquer senha, pois lhe reconheço a voz.
Subitamente, Tiny está à minha frente empurrando o cano de sua Mpi de
encontro a meu estômago. Deixo escapar um pequeno grito de susto. Nem o vi
nem o ouvi; ele deve ter voado até aqui.
A patrulha traz dois recrutas com ela; eles devem render as sentinelas a
meu lado. Heide dá-lhes instruções explícitas.
– Não mostrem as cabeças acima do parapeito ou suas vidas serão uma
porra muito curta!
A patrulha desaparece tão silenciosamente como surgiu.
– Se vocês apanharem uma mulher soldado me chamem – diz Porta. – Nós
todos daremos uma trepada antes de mandá-la embora.
– Mandá-la embora? – exclama Tiny, contrariado. – O que quer você dizer
com mandá-la embora? O que tem contra Rasputin então? Há meses que aquele
pobre animal não da uma trepada, coitado!
O Velho repreende-nos brandamente. Ele não gosta de conversa suja.
Posso ouvir os recrutas conversando. Eles são loucos e é muito, muito
perigoso. Se as patrulhas de sequestro estão soltas, o barulho de vozes é um
convite, e quem nos diz que eles não estão na terra de ninguém aguardando sua
chance?
No lado do inimigo, um capacete de aço movimenta-se de modo estranho.
Observo-o com curiosidade por meio do periscópio.
Ele desaparece por um momento; a seguir volta a aparecer de novo ao
longo da abertura onde eles instalaram uma SMG. Aquele camarada deve ser o
campeão mundial de estupidez, penso, e sinto um desejo premente de disparar
em cima dele; uma perigosa febre de caçador me queima. O fuzil de precisão já
está em minha mão, mas o instinto de linha de frente me põe de sobreaviso.
Subitamente, não ouso nem me mover em direção à SMG. Há algo que não
compreendo acerca daquele capacete que aparece e desaparece.
Atrai-me como um ímã e, ao mesmo tempo, lança-me um silencioso aviso.
Já levantei meu fuzil a meio, mas abaixo-o de novo cautelosamente. Os recrutas
na seção próxima à minha também viram o capacete; a perigosa febre de caçada
também se apossou deles, que jamais antes atiraram num alvo humano.
Tremendo de excitação, eles camuflam uma fresta para tiro com galhos e
pedaços de capim. Cuidadosamente, descansam seus fuzis sobre ela. Estão
selvagemente excitados; silenciosamente, combinam atirar um depois do outro.
Calmamente, o primeiro deles aperta a coronha de seu fuzil de encontro ao
rosto, leva o gatilho ao primeiro descanso e suspende a respiração; tudo
exatamente como lhe foi ensinado no stand de tiro de Sennelager.
Seu companheiro espera o turno dele ansiosamente. Será seu primeiro
russo. Algo para escrever para casa, finalmente.
Ping! Soa o tiro.
Um longo assobio e uma chuva de centelhas explode em frente aos olhos
do atirador. Um violento golpe atira sua cabeça para trás; ele já está morto,
antes que seu corpo atinja o fundo da trincheira.
Seu camarada dá um grito assustado e se levanta. No momento em que o
faz, sente um golpe no lado da cabeça, como se o estivessem tocando com um
pedaço de ferro em brasa. Seu capacete voa para longe e a bala explosiva
arranca-lhe a metade do rosto.
Compreendo o que aconteceu tão logo ouço o grito e faço soar o alarme.
Toda a seção chega correndo, Porta preparando febrilmente o lança-chamas
na corrida.
– Que diabos está acontecendo por aqui? – pergunta o Velho, afobado. –
Onde está Ivan?
– O filho da puta de olhos apertados liquidou com os dois recrutas –
responde.
– Imbecis –– diz Heide, aborrecido. – E eu lhes disse para manterem suas
cabeças abaixadas.
– C’est la guerre – fala o Legionário, com ar cansado. – Você pode falar
até ficar rouco e mesmo assim eles não compreendem, ou não querem
compreender. Eles têm que aprender pelo caminho mais difícil e então
frequentemente já é muito tarde.
Padioleiros recolhem os corpos e a guarda vai de volta para o abrigo. Em
breve, este intermezzo está esquecido.
Começo a entalhar uma bengala de madeira para manter-me ocupado. Todo
mundo está fazendo bengalas enquanto de sentinela. Algumas delas são
verdadeiras obras de arte. Atrás das linhas, as pessoas estão dispostas a pagar
quase qualquer coisa que você peça por essas bengalas. Bengalas Volchow, elas
são chamadas. Não porque tenham sido feitas por esse rio em particular, mas
porque ali foi que os soldados primeiro começaram a fazê-las.
Um grupo de nuvens cobre a lua e tudo fica completamente escuro.
Algumas rajadas de vento começam a soprar, carregando com elas poeira da
terra de ninguém.
As latas penduradas nas defesas de arame farpado começam a chocalhar,
dando um alerta como se alguém estivesse tentando passar por elas. Espio pelo
periscópio e escuto com toda a atenção, mas não posso ver nem ouvir nada.
Deve ser o vento, penso eu, tentando acalmar-me.
O terreno pantanoso, a sudeste de nossa posição, jaz numa escuridão de
breu. Diz-se que eles construíram urna passagem através dele, abaixo do nível
do solo. Os russos são bons nessa espécie de diabruras.
Ainda resta uma hora para suportar antes que chegue meu substituto. O
turno que me coube é o pior de todos; das duas às quatro. O turno da morte, nós
o chamamos. Se alguma coisa acontecer, é nele que acontece. Apesar disso, se
eles fossem tentar qualquer truque esta noite, já o deveriam ter feito, penso
comigo mesmo. Tiro algumas frutinhas de uma haste de capim onde as prendi;
todo mundo está colhendo frutinhas e amarrando-as em hastes de capim. Porta
recolheu dois grandes baldes dessas frutas. Estamos planejando roubar uma
panela do intendente e fazer schnappr com elas. Temos açúcar, e fermento é
fácil de conseguir.
Mando para o ar um foguete para manter as aparências. Quando ele desce
flutuando no ar, revela uma visão fantástica. A única dificuldade é que você
fica ainda mais nervoso quando o clarão do magnésio se apaga e a escuridão o
envolve novamente. O foguete tem também o efeito de trazer vida ao front por
um curto período.
Dedos nervosos nos gatilhos contraem-se e mandam balas sem destino por
sobre o terreno rasgado pelas explosões. Tendo má sorte, o foguete poderia ser
o último que uma pessoa enviasse para o céu.
Os canhões de tiro tenso roncam e uma série de granadas explosivas
acertam atrás do labirinto de trincheiras. Shrapnel assobia por cima de minha
cabeça e se enterra nas paredes da trincheira. Depois, tudo fica de novo
sossegado.
Um fraco ruído um pouco para diante da trincheira de conexão faz-me
sobressaltar. Pedrinhas rolam para o fundo da trincheira. Num segundo, torno-
me um animal selvagem, tenso e na expectativa, com todos meus sentidos em
alerta, prontos a receber impressões. Poderia ser a patrulha voltando. Ou seria
talvez algum oficial maluco pensando que ele ainda está no quartel e saiu para
inspecionar a guarda? Mais do que uns poucos oficiais novos perderam suas
vidas dessa maneira. É altamente perigoso andar por uma rede de trincheiras à
noite. Von Pader era bem capaz de fazer uma coisa dessas. Ele adoraria pegar
uma sentinela dormindo.
Armo minha Mpi, destravo a segurança, e decido atirar se for Von Pader.
Ninguém poderá provar que o reconheci. Nunca seria um assassinato,
meramente defesa própria. Ele não seria o primeiro idiota a ser morto por uma
sentinela nervosa.
Agora, estou inteiramente seguro de que há alguém na trincheira de
comunicação. Ouço metal batendo contra metal; com passos cautelosos como
os de um gato, ando um pouco para a frente na trincheira. A noite está negra
como carvão; não posso ver mais do que alguns metros à minha frente. Um
animal lança um grito de dentro do pantanal; um grito em resposta ecoa perto.
– Quem vem lá? A senha! – grito eu, nervoso.
Nada de resposta.
Posso perceber uma vasta sombra, um pouco mais adiante ao longo da
trincheira. Aperto o gatilho, mas a arma falha. A perda de uma fração de
segundo é o bastante para fazer o mundo desabar sobre mim.
Uma larga forma escura pula sobre mim; o cano de minha Mpi é afastado
para um lado. Lutar para mantê-lo preso seria loucura e o fim para mim.
Largo a arma e afasto para o lado a Mpi do atacante, da mesma forma que
ele fez comigo.
Uma série de tiros explode no ar. Uma bala arranca a gola de meu capote;
ao mesmo tempo algo atinge-me fortemente no estômago, mas ainda tenho
mobilidade e dou um pontapé que pega meu atacante na virilha. Ele é um
oficial; posso sentir as largas Ombreiras debaixo de minhas mãos. Puxo-o de
encontro a mim e atinjo seu rosto com a borda de meu capacete. Beijo
dinamarquês e como Se chama isso. Não o aprendi na Dinamarca, mas na
escola de batalha em Senne.
O medo da morte dá-me uma força sobre-humana. Mordo, dou chutes e
arranho com minhas unhas. Meu capacete voa; minha Mpi também voou. Não
consigo alcançar a faca de combate em minha bota.
O oficial russo tem uma ligeira vantagem sobre mim devido a seu tamanho
e ele é ligeiro como um relâmpago.
– Ssvinja – esbraveja ele, rilhando os dentes e tentando pôr-me fora de
combate com um golpe de cutelo de mão. Torço-me para um lado, e sua mão
bate numa pedra; ele pragueja, exasperado. Consigo meter meu joelho entre
suas pernas; ele cai para a frente e eu cravo meus dentes em sua garganta. O
sangue esguicha por meu rosto, mas não o noto. Estou lutando por minha vida.
Ele luta desesperadamente para livrar-se, mas cerro meus dentes como um
buldogue raivoso. Minha boca enche-se com o sangue dele. O russo faz um
longo barulho chocalhante e um terrível tremor corre por seu corpo.
Estraçalharei sua garganta. Há uma porção de vultos por trás dele; empurram-se
e tentam passar, mas a trincheira é por demais estreita para permitir sua
passagem.
Subitamente, compreendo que eles estão com medo de atirar enquanto nós
estivermos agarrados um ao outro no fundo da trincheira.
– Socorro! – grito, horrorizado. – Ivan me pegou! Socorro!
Uma Mpi matraqueia, furiosamente, por perto.
– Job tvojemadjl Khrúpkij dfóvol.*
===============
* Khrúpkij dfóvol (em russo): Diabo louco.
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– Socorro! – grito, com toda a força. – Socorro! Ivan está na trincheira!
Eu me torço por debaixo do corpo do russo morto e aposso-me de sua Mpi.
Viro-a contra os outros e puxo o gatilho mas o carregador está vazio. Com toda
a força que me resta, enfio o cano na cara daquele que está mais próximo de
mim; com um grito, ele cai. Seu rosto é uma mancha sangrenta.
– Job tvojemadj – gritam os outros, furiosamente.
Correm para cima de mim; o primeiro deles derruba-me no chão de pernas
para cima com a coronha de sua Mpi. Não me querem mais vivo; sua patrulha
de sequestro fracassou em seu objetivo. Agora, sua finalidade é voltar para sua
trincheira inteiros e matar tantos de nós quanto possível enquanto o tentam.
Uma pá desce num golpe a menos de dois centímetros de meu rosto; evito-
a, rolando no chão. Uma bota ferrada acerta-me no ombro. Engatinho para
baixo da SMG e minhas mãos caem em cima de minha própria Mpi. Estou
quase enlouquecido de pavor; engatilho a arma num relâmpago e disparo-a
várias vezes. Um soldado alto e magro, com um boné verde da NKVD,
derruba-me de novo.
Tenta apunhalar-me com sua faca de combate. Os outros estão por trás
dele. Uma machadinha voa pelo ar atingindo minha Mpi e tirando faíscas que
saltam em torno de nós.
– Job tvojemadj! Djávol!
– Socorro! Socorro!
O soldado com o boné verde levanta sua faca de combate; é uma dessas
compridas facas siberianas, de dois gumes e mortal.
Estou acabado!, é o pensamento que me cruza na cabeça. A coronha de
uma arma desce esmagando o ombro do soldado de boné verde. Ele cai de
costas nos braços de seus camaradas.
Lanço o cano de minha Mpi contra seu rosto; a massa de mira corta-lhe as
feições de cima a baixo. Chamas saem do cano.
O peito do russo que está mais perto é aberto. Mudo o carregador, puxo
para trás o ferrolho e a Mpi dispara de novo antes de enguiçar de uma vez.
– Merda de arma alemã! – amaldiçoo eu; um cartucho gripou. Uso a arma
como um porrete.
– Atirem ao longo da trincheira.! – ouço Porta gritar.
– Estou num canto – grito. – Atirem por amor de Deus! Eles estão me
trucidando.
Estou mergulhado no barulho. Os canos das armas cospem chamas azuis
no meio da escuridão.
Corro para a frente e caio por sobre um russo que está no fundo da
trincheira. A principio, penso que ele está morto, mas está bem vivo e apenas se
abrigando do desesperado fogo na estreita trincheira. Como uma mola de aço
ele pula e dirige-me um golpe com a pá. Consigo atingi-lo no rosto com um
pontapé, que lhe quebra a cara como um ovo. Enlouquecido, chuto-lhe a cabeça
até matá-lo.
A luta na estreita trincheira e desesperada. Todos estão possuídos de uma
cega raiva. Nós batemos, chutamos, usamos as facas, mordemos! Quando os
carregadores se esvaziam, não há tempo de trocá-los; usamos as armas como se
fossem porretes.
No meio do alarido, ouve-se o grito de batalha assassino de Tiny:
– Massacrem-nos! Massacrem-nos!
– Vive la mort!
Porta aproxima-se aos trancos e barrancos, acompanhado pelo urso em
seus calcanhares. Este apanha dois russos, esmaga-os um contra o outro, e atira
rodopiando para o ar seus corpos. Rosna selvagemente mostrando seus terríveis
dentes. As Mpis latem devastadoramente nos apertados limites da trincheira. A
qualquer minuto, granadas de mão podem vir voando pelos ares e fazer-nos em
pedacinhos. Se os russos conseguirem sair da trincheira, eles não se
incomodarão com seus camaradas, vivos ou mortos. Usarão granadas e estas
têm um efeito terrível no confinado espaço de uma trincheira.
Consegui apoderar-me de uma Mpi russa; uma que funciona.
Um homem aparece ao longe na comprida trincheira.
Atiro imediatamente, quer seja amigo ou inimigo; ele cai com um
apavorante grito mortal. Esfrego minha bota em sua cara. É melhor do que
arriscar-me a que uma granada de mão venha atrás de mim.
Ouvimos roucos comandos em russo e passos em corrida rapidamente
desaparecendo.
– Matem os merdas! – grita Porta, da escuridão, e sua Mpi cospe chamas
azuis.
Do outro lado, vem uma serie completa de tiros.
– Eu peguei um infiel! – berra Tiny. – Tire esse maldito Rasputin de cima
dele, faça o favor. O porreta está comendo meu prisioneiro!
– Stoi! Mão para o alto! – grita Gregor, excitado, apontando-me sua Mpi.
– Não atire, sua besta! É Sven!
– Você teve sorte – diz ele, arquejante. – Eu estava justamente me
aprontando para mandar você direto para o distrito russo do inferno!
– Vejam que diabo eu encontrei – exclama Tiny, satisfeito, aparecendo e
trazendo a reboque dele um gigante de um homem em uniforme de tenente
russo.
– Será que ele tem alguns dentes de ouro? – pergunta Horta, interessado,
inclinando-se sobre o prisioneiro. – Disseram-me que os 10 melhores na escola
de treinamento de oficiais têm suas presas obturadas com ouro para mostrar que
pertencem à elite.
– Abra a boca, djádja*, de forma que nós possamos ver se você está entre
os 10 primeiros ou se é apenas a porra de um durák**.
===============
* Djádja (em russo): tio.
** Durák (em russo): bobo.
===============
O oficial russo enraivecido morde a mão de Tiny.
– Não sei se ele tem dentes de ouro ou não, mas bem afiados eles são –
rosna Tiny, limpando o sangue da mão.
– De onde, diabo, vieram eles? – pergunta o Velho, examinando o terreno
por meio do periscópio.
– É óbvio! Através do pântano – responde Heide, com ar superior.
– É verdade – exclama Barcelona admirado. – Eles devem ter canoas nos
pés para atravessar aquilo.
– Como você os descobriu? – pergunta o Velho, olhando para mim.
– Não sei. De repente, eles estavam aqui – respondo, limpando o suor do
rosto com a manga. A reação estava chegando agora.
– Foi você quem mordeu a garganta daquele cara da NKVD? – pergunta
Barcelona, em tom admirado.
Faço que sim com a cabeça e começo violentamente a vomitar.
– Pás mal, mon ami – elogia-me o Legionário e bate com a mão em meu
ombro. – Um homem pode fazer muito com os dentes quando é necessário.
– Uma vez eu mordi um maldito cavalo – anuncia Tiny, solenemente. – Foi
quando eu estava com os malditos dragões. Uma porra de um cavalo branco,
que era da banda de música, meteu-me os dentes no peito, quando eu supunha
que estávamos ficando camaradas. Acabei com o vício dele de peidar na igreja.
“Morda-me, morda-me, seu maldito bode!", gritei em sua comprida cara de
cavalo, e meti meus dentes em seu focinho. Ele se empinou nas patas traseiras
comigo a segui-lo pendurado pelos dentes em seu focinho. Foram precisos dois
malditos sargentos de cavalaria para separar-me da porra do cavalo branco.
Depois disto, os dragões não me quiseram mais e mandaram-me para a
infantaria, que também não ficou comigo por muito tempo. Eles tinham cavalos
que puxavam as metralhadoras, os quais costumavam ter febre de feno, quando
eu me aproximava deles. De forma que foi assim que acabei no maldito
Regimento Panzer.
O Capitão Von Pader aparece trotando em suas botas rangedoras. Ele
chegou até a colocar as esporas e a exibir um chicotinho de montaria debaixo
do braço. Para em frente a mim, abre suas pernas e olha-me da cabeça aos pés
com um riso zombeteiro.
– Então foi você, seu Jonas, que estava de sentinela? Por que, diabo, não
fez soar o alarme?
– Peço licença para informar, senhor, que não tive tempo para soar o
alarme. Eles chegaram dentro da trincheira antes que eu os pudesse ver.
– Você está louco, homem? – grita ele, enquanto sua carinha sem queixo
contorce-se numa careta. – Você, quer dizer que os untermensch podem
surpreender um soldado alemão? A verdade não será que você abandonou seu
posto sem permissão?
– Não, senhor, em nenhum momento estive fora de meu posto.
Ele puxa uma cigarreira dourada do bolso, tira um cigarro e bate-o
pensativamente contra a tampa. Arrogantemente, acende o cigarro e sopra
fumaça em meu rosto.
– Se você não abandonou seu posto, então adormeceu nele – afirma o
capitão, laconicamente. – Em nenhuma outra circunstância poderiam os
umermensch chegar até a trincheira. Providenciarei para que você seja
submetido à corte marcial.
– Herr Hauptmann, senhor, garanto-lhe que este homem não dormiu em
seu posto – interrompe o Velho.
– Pedi sua opinião? – grita o comandante da companhia, enraivecido. Por
um instante, parece que ele vai bater no Velho com seu chicote de montaria.
– Senhor, estou no comando desta seção e é de meu dever defender meus
homens, se eles forem acusados sem razão!
– Ah! Sim! Este é seu dever, pois não? Talvez eu deva pedir-lhe permissão
antes de me dirigir a um de seus porcos? Seu dever é ficar de boca calada e
falar somente quando lhe for dirigida a palavra.
– Enquanto eu for encarregado desta seção, falarei em nome de meus
homens – responde o Velho, com os dentes cerrados.
– Não permitirei que eles sejam acusados sem razão! – Você está
dispensado de seus deveres como comandante de seção e será acusado de
amotinar-se.
– Ora cale-se, seu merda estúpido! – ouve-se uma voz zombeteira dentre as
fileiras dizer. – Nós em breve vamos virar seu cu pelo avesso e passá-lo por
cima de suas orelhas!
– Quem disse isso? Um passo à frente quem falou! – grita Von Pader, com
sua voz esganiçada.
– Foi a maldita velha feiticeira do pantanal – grita Porta, em tom animado.
– Ela vai vir e esfregar lama por toda sua cara um dia destes!
– Toda a companhia será acusada de insubordinação – grita Von Pader, e
escafede-se ao longo da trincheira de comunicação. – Vocês todos terão que
enfrentar muito em breve um pelotão de fuzilamento! – grita ele, quando se
encontra a uma distância segura.
Porta lança uma granada de mão russa na direção dele, sem remover o pino
de segurança.
Von Padel da um grito aterrorizado e lança-se na lama com tanta força que
esta respinga por cima do parapeito da trincheira.
Depois, sai engatinhando nas mãos e joelhos.
– A brincadeira foi longe demais – profetiza o Velho. agourentamente. –
Ele tem amigos em Berlim que podem tornar as coisas quentes para nós!
– Tem merda nenhuma! – diz Tiny, otimistamente. – Também temos umas
porras de camaradas no quartel-general do Führer, não temos?
– Quem é que você conhece no QG do Führer? – pergunta, surpreso,
Barcelona.
– O próprio Führer, como Deus o mandou para liderar-nos, naturalmente –
diz Tiny, de nariz para cima, mirando Barcelona, ao mesmo tempo que chuta
um crânio.
O Capitão Van Pader vai diretamente ao Coronel Hinka para acusar a
Companhia nº 5 de motim. Leva com ele um antigo graduado, o Suboficial
Baum, como testemunha.
O Coronel Hinka recebe-o deitado numa cama de campanha e escuta, sem
dizer uma palavra, o chorrilho de palavras que Von Pader solta. Depois, levanta
as pernas da cama e enfia os pés num velho par de chinelos de palha. Seus
culotes estão sujos e desgastados; há uma notável diferença entre o coronel
maneta e o elegante e perfumado capitão.
– O que este homem está fazendo aqui? – pergunta Hinka, apontando com
a cabeça para o Unleroffízíer Baum que, com uma pose importante, está parado
ereto, às costas de Von Pader.
– Ele é minha testemunha – replica Von Pader, com um sorriso confiante.
– Testemunha? Sua palavra não é para ser acreditada? Sub-oficial, retorne
para sua companhia, Acelerado, homem!
– Mas ele está dirigindo meu carro! – exclama Von Pader, atemorizado.
quando seu ordenança e guarda-costas ê mandado tratar de Suas obrigações.
– Diga-me, Herr Hauptmann, não há certas coisas em relação a este
regimento que você ainda não entendeu inteiramente? Quem lhe disse que você
tem que andar de carro? Você não está ciente de que a gasolina está muito
escassa? Não posso imaginar que seja vital para o esforço de guerra que você
seja movimentado por transporte motorizado onde quer que vá. Marchei como
o resto de nós. Isto é uma ordem, Herr Hauptmann!
Hinka rasga a longa folha de parte que arranca da mão de Von Pader.
– Diga-me uma coisa agora. Você está fora de seu juízo? Vem a mim e
acusa uma companhia de soldados de elite de motim e quer que o melhor
comandante da seção do regimento seja submetido à corte marcial? – Hinka
sacode a cabeça e esfrega as folhas datilografadas contra seu braço postiço. –
Sua acusação não é aceita; é pura fantasia. Devemos rasgá-la em pedaços e
esquecer-nos dela? Ou deveremos continuar com este disparate?
– Herr Oberst, requeiro que minhas acusações sejam encaminhadas ao
comando da divisão.
– Você quer dizer que me considera incompetente? – pergunta Hinka,
numa voz perigosamente branda, sentando-se na borda da mesa.
– Muito bem, Herr Oberst! – responde o Capitão Von Pader, o rosto pálido
como um defunto. E apesar disso seus lábios se movimentam num confiante
meio-sorriso. Pensa em seus amigos em Berlim. Ali, um coronel não vale nada;
pode ser transferido tão facilmente como uma cagada de mosca de um vidro de
janela.
Hinka pega o telefone e determina que o ajudante se apresente a ele
prontamente.
Em poucos minutos, o ajudante, Tenente-Coronel Jenditsch, está na
cabana. Olha estranhamente para Von Pader ao entrar no aposento. O Coronel
Hinka balança-se para a frente e para trás sobre os calcanhares e indaga do
ajudante:
– Quem está no comando interino da Companhia nº 5, Jenditsch?
– Não sei de nenhum comandante interino, senhor – responde o ajudante,
sorrindo. – Até entrar nesta sala acreditava que o Capitão Von Pader estivesse
no comando daquela companhia.
Hinka pula de sua mesa e dirige-se a Von Pader, chegando muito perto
dele.
– Devo entender que o senhor deixou sua companhia, sem comunicar ao
QG do regimento o nome do comandante interino indicado em sua ausência?
Devo acreditar que a Companhia nº 5 está agora na linha de frente sem
ninguém no comando?
– Herr Oberst, eu... – gagueja Von Pader.
– A Companhia nº 5 tem um comandante ou não tem? Sim ou não? – rosna
o coronel, esfregando seu braço artificial.
– Meu sargento-mor sabe que deixei a companhia para dar parte de
amotinação, senhor!
– Você deve estar louco – grita Hinka, fulo de raiva. – Deixou sua
companhia com um subalterno? Que tal o Tenente Pötz que é o comandante da
Seção nº 1?
O ajudante ri para si próprio, pega o telefone e chama a Companhia nº 5.
– Coloquem o Tenente Pötz ao telefone – ordena ele, quando a ligação é
completada. – Tenente Pötz, onde está seu comandante? No posto de comando,
você acha? Vá lá e veja, por favor!
– O ajudante assobia mansamente por entre os dentes, enquanto aguarda
que o Tenente Pötz volte ao telefone. – Alô, Pötz! O comandante não está lá? E
ninguém sabe onde ele se encontra?
Sim, nós sabemos! – diz o ajudante, rindo. – Cheira muito mal! O
comandante do regimento ordena que você assuma o comando interino da
Companhia nº 5. É só isso! – Com um tranquilo sorriso, recoloca o fone no
gancho.
Por um momento, reina um pesado silêncio na cabana. Hinka olha para
fora da janela e enche o cachimbo. O ajudante brinca com um chicote de
montaria. O Capitão Von Pader mexe, inquieto, com os pés, compreendendo
que se meteu numa posição muito perigosa. Uma posição da qual nem seus
amigos em Berlim poderão desenreda-lo. Se o comandante deixar que a coisa
vá a uma corte marcial, ele terá muita sorte se se livrar com um rebaixamento
de posto e destacamento numa unidade de punição em campanha.
– Saia! – grita o Coronel Hinka. – Volte para a nº 5 e Deus o proteja se
você me estragar aquela companhia. Mais tarde falaremos.
– Herr Oberst...
– Cale-se e saia! – vocifera Hinka, furioso. – Ainda não compreendeu que
foi culpado de fugir do cumprimento do dever da forma mais grave possível?
O Capitão Von Pader recua e sai pela porta. O ajudante bate com a porta
após ele sair, quase amassando-lhe o nariz.
O capitão volta aos tropeções para a companhia, andando como um
bêbado. Por mais de uma hora, ele rasteja pelo campo aberto. Quando uma
granada explode em cima de sua cabeça, ele pensa, por um momento, que foi
atingido e que sua calça está cheia de sangue. Elas estão cheias com algo muito
diferente. Ele tira as ceroulas e joga-as fora. Está justamente vestindo a calça de
novo, quando aparecem Porta e o urso.
– Peço licença para apresentar-me, senhor! – exclama Porta, com ar
estúpido. – Primeiro-Cabo Porta e Urso Rasputin a caminho do quartel-general
por ordem do oficial-comandante, senhor!
– Afaste-se de mim! – fala baixo o Capitão Von Pader, com o ar mais
infeliz.
– Licença para perguntar, senhor, Herr Hauptmann – cacareja Porta,
batendo os calcanhares. – Aconteceu algo com seu traseiro que o senhor teve
que jogar fora suas ceroulas? Permissão para dizer, senhor, que um tiro no
traseiro, senhor, pode ser uma coisa muito perigosa, senhor! Devo mandar um
enfermeiro para pôr-lhe uma atadura, senhor?
– Não aconteceu nada – diz o capitão, rispidamente. – Dê o fora daqui!
Porta recua, fazendo uma porção de continências, batendo nas coxas
barulhentamente com as mãos e chocando os calcanhares um contra o outro. O
urso rosna ameaçadoramente. Ele não gosta da cor cáqui que Von Pader criou
para seu uniforme. Pela estreita trilha, desaparecem Porta e o urso.
– Acredite-me ou não, meu velho irmão marrom Rasputin, mas ele cagou
na calça – confidencia Porta ao urso, numa voz suficientemente alta para Von
Pader não deixar de escutar.
Os mais fortes são os melhores e os melhores sobreviverão. Esta é a lei
da natureza. Nós somos os mais fortes. Nós, o povo alemão.

Adolf Hitler, 4 de agosto de 1940

Ouve-se uma forte batida na porta do escritório do SD-


Obersturmbannführer Sojka, no RSHA. Rapidamente, ele esconde uma revista
pornográfica debaixo de alguns documentos relativos a execuções levadas a
cabo em Plötzensee.
– Entre! – grita ele, em seu musical dialeto vienense.
– Heil Hitler, Obersturmlannführer! – saúda o Hamptsturmführer Tölle,
elevando seu braço para o teto com indiferença, no estilo aprovado pelo RHSA.
– Bem, Tölle, o que o traz aqui? Você não veio para me dizer que a guerra
finalmente acabou e que nós vencemos, veio? Quais são as novidades do vasto
mundo aí por fora?
– Nossas tropas estão se retirando para concentrar-se num ataque maciço
ao inimigo. O punho de ferro do nacional-socialismo irá esmagá-lo com› um
grande golpe destruidor.
Tölle coloca uma pasta cor-de-rosa na mesa em frente de Sojka.
– Urgente – diz ele sorrindo e levanta seu braço na saudação nazista.
Sojka abre a pasta e lê:

GEHEIME STAATSPOLIZEI*

de: Staatspolibeistelle Hamburg


Hamburg, 36
Stadthousbrücke 8.
Geheim** Sofort*** 23 de novembro de 1943

===============
* Geheime Staatspolizei: Polícia Secreta do Estado.
** Geheim: Confidencial.
*** Sofort: Urgente.
===============
para: Reichssicherheitshauptamt,
Berlin SW 11
Prinz-Albert-Strasse 8.
Na área de batalha de Zhitormir, o Primeiro-Tenente Albert Wunderlich e
o Sargento Kurt Weith desertaram do Sexto Regimento de Fuzileiros Montados.
Existem provas de que eles se passaram voluntariamente para o 480 Corpo de
Exército russo. De acordo com as parágrafos 99 e 91 b do StGB*, todos os
parentes próximos devem ser presos e interrogados atentamente a fim de
descobrir se qualquer deles tinha conhecimento prévio desse ato traiçoeiro. Na
eventualidade que qualquer um deles tenha tido tal conhecimento, essa pessoa
deverá ser entregue à Corte Criminal e punida de acordo com os parágrafos
98c e 91a, do StGB.
===============
* StGB (Strafgesetzbuch): Código Penal.
===============
Os parentes que não puderem ser inculpados, devem ser aprisionados
como reféns num dos principais campos de concentração como um aviso para
os demais.
Obergrupprfnfiihrer Dr. Müller
Der Chef der Sicherheitspolizei und des SD*
===============
* Chefe da Polícia e dos Serviços de Segurança.
===============
Sojka ri, prazerosamente. Seu dedo aciona alegremente o disco do
telefone.
– Preciso de todos os papéis pessoais referentes ao Primeiro-Tenentc
Albert Wunderlich e ao Sargento Kurt Weith, do Sexto Regimento de Fuzileiros
Montados, Quartel em Krefeld. Todos os parentes em primeiro grau devem ser
presos e escoltados até aqui.
Devem ser presos de acordo com o parágrafo 91a. Tratem do assunto com
diligência, senhores, repito, com diligência! – E Sojka bate o fone.
Cinco horas mais tarde, 12 pessoas inocentes estão a caminho de Berlim.
Nenhuma delas tem qualquer conhecimento do fato de que um parente próximo
desertou.
É tarde da noite quando as pesadas portas da Casa de Detenção de
Moabitt fecham-se com estrondo atrás delas. Nenhuma sabe que inferno na
terra as aguarda.
O COMISSÁRIO

Uma patrulha russa de sequestradores pegou três dos nossos numa noite. O
Primeiro-Tenente Strick, oficial de transmissão, foi um deles.
Numa manhã bem cedo, os russos levantaram uma bandeira branca. Um
sargento conduz um homem em uniforme de campanha cinza até a terra de
ninguém e lá o deixa. É um oficial alemão.
Uma patrulha o traz para nossas linhas: é o Primeiro-Tenente Strick e ele
foi tratado horrivelmente. Onde deveriam ser seus olhos há duas feridas
inchadas e purulentas.
Strick tenta falar, mas só consegue articular ruídos estranhos e agoniados.
Sua boca é um buraco de sangue coagulado de onde a língua foi arrancada.
– Mon Dieu, mon Dieu! – murmura o Legionário, e abandona o abrigo.
– Você compreende o que estou dizendo? – pergunta o Coronel Hinka,
colocando a mão no ombro de Strick. – Preciso fazer-lhe algumas perguntas.
Sacuda a cabeça ou incline-a em resposta. Os outros dois homens estão vivos?
Strick sacode a cabeça, negativamente.
– Eles também foram torturados? – A mão de Hinka fica branca segurando
a pistola no coldre– Seu rosto parece de granito.
Strick acena que sim com a cabeça.
– Foi um russo que o torturou?
Strick sacode a cabeça, negando.
– Foi um comissário?
Strick concorda, demonstrando cansaço; tonteia e teria caído do banquinho
se o ajudante não o amparasse.
O oficial-médico dá-lhe uma injeção e um pouco mais tarde o Coronel
Hinka pode continuar a interrogá-lo.
– O comissário falava alemão?
Strick acena que sim.
– Teve a impressão de que ele em alemão?
Strick confirma, com um aceno de cabeça.
– Ouviu falar seu nome? – Hinka para abruptamente pois compreende que
fez uma pergunta que não pode ser respondida. O Tenente Strick não pode
escrever; os ossos de ambas as mãos foram esmagados.
O Dr. Repp interrompe o interrogatório e determina que o tenente seja
evacuado para tratamento de emergência. Pouco depois de ser admitido no
hospital, ele se suicida. Urna enfermeira esquecera uma faca em sua mesa de
cabeceira; ele abre as artérias e o leito está encharcado de sangue, antes que um
médico possa chegar para estancá-lo.
– Nós vamos pegar aquele porco daquele comissário, mesmo que ele esteja
se escondendo no próprio Kremlin – diz o Coronel Hinka, com a voz dura. –
Precisamos de prisioneiros agora, para saber quem ele é.
Apenas duas horas mais tarde, uma patrulha de combate traz um idoso
capitão russo.
O oficial de informações da divisão, que fala russo fluentemente, vem para
interrogar pessoalmente o capitão. A princípio, o russo fica teimosamente
calado, mas quando vê os rostos ameaçadores que o rodeiam, e quando o oficial
de informações ameaça entrega-lo aos soldados, ele se torna um pouco mais
cooperador.
– Foi o Vojenkom* da 89ª Divisão o responsável pelas torturas – explica o
capitão, com nervosos gestos.
===============
Vojenkom (em russo): Comissário da Divisão.
===============
– Qual é seu nome? – pergunta o oficial de informações. – Nós acreditamos
que ele seja alemão.
– Ele é um antigo oficial alemão que veio para a Rússia com uma missão
militar – diz o capitão. – E nos foi mandado há muito pouco tempo para
arrochar a disciplina. Começou executando dois comandantes de regimento e
submetendo muitos oficiais e pessoal graduado à corte marcial.
– Qual é o nome dele? – pergunta o oficial que faz o interrogatório.
– Era Josef Geis, mas não usa mais este nome – informa o capitão, com um
sorriso. – Agora ele é Vojenkom Josef Oltyn. Ele estabeleceu uma ordem
permanente que todos os oficiais capturados por nossa divisão devem ser
imediatamente fuzilados, logo após haverem sido interrogados.
– Onde ele está agora?
– Escondido em segurança – responde o oficial, com um encolher de
ombros. – Lá para trás no Beresina, em Olszany, num castelo, junto com seu
pessoal.
– Obrigado isto é tudo – diz o interrogador, fechando a pasta.
– Os senhores estão pensando em ir atrás dele? – pergunta o capitão
admirado, esvaziando o copo de vodca que o oficial de informações moveu em
direção a ele.
– Não estamos pensando! Vamos fazê-lo!
– Esqueçam-se disso – diz o capitão, com um risinho curto. – O bom
comissário está muito bem protegido. Depois de alguns quilômetros, seu
comando irá esbarrar com unidades de segurança, e se por acaso. o que não é de
esperar, conseguir passar por esses camaradas, o comando nunca mais voltará.
Vocês terão uma distância de cerca de 130 quilômetros a cobrir e, se não
seguirem as estradas, terão que atravessar terríveis trechos de charcos e
florestas impenetráveis, que somente podem ser cruzados com equipamentos
especiais.
– Você poderá ajudar-nos? – pergunta o oficial de informações. – Não irá
se arrepender, se o fizer. – Oferece ao capitão um charuto e o acende para ele. –
Tão logo nosso comando tenha pegado Herr Oltyn, você poderá regressar para
sua unidade.
– Que garantia tenho disso? – pergunta o capitão, na dúvida.
– Minha palavra de oficial!
O capitão parece estar considerando a oferta em sua cabeça, enquanto
continua a fumar o charuto em silêncio. A seguir, apaga-o. O ordenança do
regimento traz café; o interrogador faz-lhe um sinal e ele traz conhaque.
– Eu os ajudarei a pegar aquele patife! – diz o capitão. – Um dos oficiais
que ele executou era meu amigo do peito.
Ele marca a rota num mapa e previne contra os perigos do Pantanal
Jasiolda.
– Vocês precisam circundá-lo mesmo que isto signifique um desvio de 60
quilômetros. Devem ir por Grolow e depois na direção de Ufda; e é
absolutamente necessário dispor de um bote de borracha para o comando.
Doutra forma, nunca serão capazes de atravessar o Sna; isto sem falar do
Slutsch, onde terão que esconder o bote. Felizmente um bote de borracha é fácil
de esconder – acrescenta, fazendo um gesto com a mão.
– E quanto aos outros rios? – pergunta o oficial de informações. – Eles são
bastante fundos e a correnteza é rápida.
O capitão debruça-se sobre o mapa de novo e marca diversas posições.
– Aqui ficam as passagens a vau; são guardadas mas não muito fortemente.
Quase sempre, apenas uma sentinela. Seu comando deve usar uniformes russos
e carregar armas e equipamento russos. Recomendaria que não enviasse um
comando maior do que uma seção. A estrada de volta será a pior. Tão logo o
Vojenkom seja aprisionado, toda a área será colocada em condição de alerta.
Nós estamos na trincheira prontos a rastejar para a terra de ninguém. O
capitão russo está inspecionando nosso equipamento junto com o oficial de
informações. Aponta para o grande cantil francês que Porta tem na cintura.
– Livre-se disso! É uma loucura!
– Vou morrer de sede – protesta Porta, zangado. – Esses pequenos cantis
russos não levam água suficiente para manter vivo um pardal!
A despeito dos protestos, o cantil francês é substituído por um cantil russo
regulamentar.
Nossa artilharia martela as linhas russas, para mantê-los ocupados. Como
um relâmpago, pulamos nas trincheiras inimigas e liquidamos com as raras
sentinelas em pouco tempo, pois as mesmas estavam se abrigando de encontro
ã parede mais próxima da trincheira.
Porta tem dificuldade em conter Rasputin. O urso pode farejar russos e
Machorka (cigarro russo), e não pode entender por que não os estamos matando
como usualmente.
O fogo de artilharia segue nosso avanço; cai à nossa frente, abrindo um
caminho limpo que podemos seguir.
Os primeiros 25 quilômetros são percorridos com uma velocidade enorme.
O bote de borracha inflável é pesado e desajeitado para carregar e
continuamente temos que trocar os carregadores.
O Velho dá-nos apenas pequenos descansos; deveremos cruzar o Sna antes
do amanhecer.
Meus pulmões arquejam e ansiam. Sinto a punhalada de minha velha
ferida. O único de nós que parece não ser afetado pela velocidade com que
progredimos é o urso. Ele tem tempo para brincadeiras, para trepar em árvores,
e para cair delas, enrolar-se no chão como uma bola e morder o próprio rabo.
Cruzamos o Sna rapidamente e entramos na floresta a leste de Lutszczak.
Subitamente, Rasputin fica de pé farejando o ar. Rosna e move-se para a frente,
cautelosamente.
– Ateus por perto! E próximo! – alerta Porta, num sussurro.
Cautelosamente, seguimos o urso, mas ainda sem ver ou ouvir um sinal do
inimigo.
Com um rosnado, Rasputin desaparece no mato como se tivesse o diabo
em seu encalço.
Algo escuro pode ser visto entre os pinheiros.
– Um lobo ou um cão – diz Porta.
– Maldita tolice! – zanga-se o Velho. – Não temos tempo para desperdiçar,
enquanto aquele porra daquele urso sai por aí atrás de cachorros! Você não vai
jamais crescer e deixar de criar animais de estimação, seu criançola? Gatos,
cachorros, porcos e agora um urso! Qual será o próximo? Uma porcaria de um
elefante, não me admiraria!
– Antigamente costumava-se ir para a guerra montado em elefantes, de
forma que você não devia queixar-se muito deles – fala Porta, rindo. – Aqueles
que tinham os maiores e em maior quantidade eram os que venciam!
– O que faziam eles com a porra dos bichos? – pergunta Tiny, intrigado. –
Comiam-nos?
– Eles eram uma espécie de tanques – explica Heide, lançando-se numa
longa e confusa descrição sobre o uso de elefantes na guerra.
– Deveria ser algo formidável ouvir um bando de elefantes aproximar-se
galopando – considera Tiny. – Onde você aprendeu isso tudo, de qualquer
maneira?
– Lendo – responde Heide. importante.
– No Völkischer Beobachter * suponho – diz Tiny, contendo o riso. – Se
foi ali pode esquecer-se; não se pode acreditar numa maldita palavra do que ele
diz.
===============
* Völkischer Beobachter: jornal nazista.
===============
Ouve-se um barulho de gritos e rosnados por entre as árvores, com galhos
sendo quebrados.
– Que diabo é isto? – diz o Velho, assustado.
Rasputin matou um sargento russo de sinaleiros; ele está transformado
numa posta de carne e sangue, quando lá chegamos pelo mato adentro.
– A questão agora é – raciocina, pensativo, o Velho – se este sinaleiro
encontrou nosso urso por acidente ou se ele nos vinha mantendo sob
observação há tempo e comunicando nossa posição.
– Impossível – responde Porta. – Se ele tivesse estado próximo a nos,
Rasputin nos teria alertado. O cheiro de um ateu a quilômetros dele vira-lhe o
estômago.
– Bem, em breve o saberemos, garanto-lhes – assegura o Velho,
pessimista, acendendo seu cachimbo enfeitado de prata.
Chegamos ao Slutsch bem ã tardinha, mas temos que esperar até meia-
noite para cruzá-lo. Escondemos o bote de borracha no lado oposto e vamos
procurar abrigo no mato que aqui é muito denso. Enrolamos-nos em nossos
sacos de dormir e rapidamente estamos inconscientes.
Logo após o amanhecer, continuamos a progredir em fila indiana. Fazemos
um amplo círculo em torno de Nowojeinia e saímos numa ampla planície onde
o capim é alto como um homem. Uma companhia de infantaria russa passa por
nós à pequena distância; acenam para nós e nós respondemos alegremente. Um
oficial a cavalo examina-nos com seu binóculo.
Rasputin solta um grunhido de advertência.
– Por amor de Deus, mantenha bem preso esse maldito urso! – diz o Velho,
nervoso.
Entramos novamente na floresta. Quando estamos justamente
ultrapassando o topo de um morro, o urso atira-se de barriga no chão, seus
incisivos à mostra, brancos e brilhantes.
– Que, diabo, está acontecendo com esse grandalhão? – sussurra Gregor,
alarmado.
Puxo uma granada de minha bota e a armo.
– Cuidado com essa porra dessa granada – avisa Barcelona.
Rasputin rasteja vagarosamente para a frente com Porta em seu encalço,
mas subitamente recusa-se a continuar. Rosnando baixo, o animal fixa os olhos
numa grande árvore cujo topo é coberto de folhas.
– São os malditos vizinhos – diz, baixo, Porta.
Três russos estão postados em cima da árvore com uma metralhadora
pesada; uma posição de primeira classe foi ali construída e está muito bem
camuflada. Graças ao urso, vimo-la primeiro.
– Derrube-os dali – sussurra o Velho para Porta – mas sem fazer barulho.
Porta se levanta e caminha lépido para a frente pela estreita trilha. Tiny
segura o urso que protesta, rosnando, contra o afastamento de Porta.
Ei, tovaritsch – grita Porta, empurrando seu boné verde para trás da cabeça,
à modo do pessoal subalterno da NKVD.
– Quem é você? – grita uma voz da árvore. – Dê-me a senha!
– Job tvojemad! – responde, gritando, Porta, ao mesmo tempo que aponta
alegremente para ele seu Kalashnikov. – Enfie no rabo sua senha, seu macaco
amarelo. Sabe o que e isso?
Bate com a mão no gorro verde empurrado para trás da cabeça.
Um largo rosto mongol aparece no meio da espessa folhagem.
– No seu rabo, seu camponês moscovita – grita o mongol.
– Vá para casa e aprenda a falar russo direito de forma que os russos
legítimos possam entender o que você diz!
– Desça aqui, seu pica-pau! – grita Porta, sua voz ecoando na floresta. –
Puxarei seu fígado e farei com que ele saia por suas amígdalas!
– O que você quer? – pergunta um sargento, cujo rosto aparece ao lado do
mongol.
– Desçam! Tenho uma importante mensagem para vocês – responde Porta,
com ar de autoridade.
– Não pode transmiti-la daí? – responde o sargento, arrogantemente.
– Idísodar – berra Porta, ríspido, no tom que as pessoas usam quando
sentem que têm uma autoridade por detrás de si. – Dawai, dawail O Sampolit
deseja dizer-lhe alguma coisa.
– Sobre o que ele quer falar comigo?
– Como vou saber, djadja*. Tudo o que ele me disse foi: Cabo Joseph,
mexa seu rabo daqui e vá dizer àqueles três duraks** em cima da árvores que
desejo vê-los. Acho que vocês vão receber um tratamento especial. – Porta ri,
barulhentamente. – Vocês já começaram a acreditar em Deus?
===============
* Djadja (em russo): tio.
** Durak (em russo): idiota.
===============
– Você está sozinho? – pergunta uma voz desconfiada da árvore.
– Djadja, djadja! Será que você machucou a cabeça, trepando nessa árvore?
Vocês podem ver alguém além de mim? Não posso mais continuar a conversar
com vocês seus idiotas. Vou voltar para o Sampolit e dizer-lhe que vocês se
recusam a obedecer suas ordens. Dassvadanja*, seus pequenos duraks!
===============
* Dassvadanja (em russo): Até logo.
===============
– Vá com calma, camarada – grita o sargento, nervosamente, começando a
descer da árvore. seguido de perto pelos outros dois.
Os pés do sargento ainda nem tocaram o chão, quando o urso o pega e mata
com uma mordida. Aterrorizado, o mongol perde o apoio e cai da árvore. O
terceiro soldado consegue puxar sua pistola Tokarew, mas o Legionário é mais
rápido do que ele com dois certeiros tiros de sua Mpi.
O mongol quebrou a espinha e o sangue escorre pelos dois cantos de sua
boca; ele não mais pertencerá a este mundo por muito tempo.
– Nós vamos visitar um Herr Oltyn – explica Porta, com largos gestos dos
braços. – Temos um convite para ele. Você poderia indicar-nos o caminho mais
curto?
O mongol cospe sangue:
– Você quer dizer o Vvjenkom? – pergunta ele, em voz fraca.
– Rapaz esperto! Tirou grau 10! – diz Porta, rindo. – Este é exatamente o
gaspodin que nós estamos procurando!
– Quando vocês entrarem em Olszany, a casa dele é a terceira a partir do
fim da rua larga. Uma casa vermelha com janelas azuis. – O mongol tosse e um
jato de sangue é expelido de sua boca. – Germanski? – pergunta ele, cada vez
mais fraco.
– Você deve ter poderes de vidente – diz Porta. O corpo do mongol agita-
se numa convulsão e ele morre.
– Deve ser uma porra de uma surpresa para um cara ser comido por um
urso no meio de uma guerra – diz Tiny, mexendo nos corpos com o cano de sua
Mpi.
– Uma porção de coisas engraçadas acontecem cm tempo de guerra –
proclama Porta, solenemente. – Lá vem você gozando a vida imensamente e de
repente, puft! Lá vai você para o outro mundo!
– Não me agrada a história daquele comissário naquela casa vermelha – diz
o Velho, com ar pensativo.
– Por que não? – pergunta Porta. – Se um comissário soviético não pode
ser encontrado numa casa vermelha, quem diabo o pode?
– Não e isto o que quero dizer, seu idiota – rosna o Velho, irritado. – O
capitão disse que ele vivia num châreau, e agora ele está sendo rebaixado para
uma casa vermelha. Se você tem um castelo disponível, não é provável que se
mude para uma casa, por mais vermelha que ela seja.
– Você não entende de política! – grita Porta, batendo com seu boné da
NKVD para tirar-lhe a poeira. – Um comissário comunista com o mínimo de
respeito por si mesmo não pode ficar peidando num castelo branco, quando há
uma bela casa vermelha proletária por perto apenas esperando para ser ocupada.
Numa estreita ponte duas sentinelas estão encostadas numa cerca de
madeira meia podre, Divertem-se cuspindo nӇgua por falta de outra coisa para
fazer; estão tão descuidadas que deixaram suas armas encostadas de encontro a
um poste. Não podem sonhar que nada de desagradável possa acontecer ali.
Tudo recende a quietude e paz. As rãs são a única coisa a fazer algum barulho.
– Sacha, resolvi violentar Tanja esta noite – diz um deles. – Amanhã lhe
digo como foi.
– Vai custar-lhe a vida – murmura o outro. Não diz mais nada: sua
garganta foi cortada e seu camarada sofre o mesmo destino. Nenhum dos dois
ouviu Barcelona e o Legionário virem por detrás deles.
– Vem, morte, vem! – cantarola o Legionário com voz fanhosa. fingindo
tristeza. – Isto é o que acontece com soldados de meio expediente que não
sabem que cada minuto da vida de um soldado é perigoso.
– Eles tiveram uma morte rápida e boa – considera Barcelona. – Nem
tiveram tempo de ficar com medo, nem isso!
Cautelosamente, atravessamos Olszany e logo achamos a casa vermelha
onde nos disseram que o Vojenkom vive. Há apenas um homem de guarda; um
cabo de caçadores que está sentado numa pedra num canto da casa, cortando
tiras de um pedaço de porco defumado. Ele se estica com preguiça e boceja
audivelmente; o bocejo é cortado abruptamente pelo garrote de arame do
Legionário.
Porta e Tiny esgueiram-se até uma janela e espiam por um buraco deixado
onde o material de black-out se rompeu. Veem uma sala de teto baixo; um
homem está deitado dormindo num banco de madeira. O comissário. Seu boné
e sua capa colocadas sobre a mesa são inconfundíveis.
– Lá está ele, aquele maldito ex-alemão. deitado e tirando uma soneca com
uniforme de Ivan! – sussurra Tiny, com raiva, cuspindo na janela.
– Nós vamos pegá-lo tão facilmente como o Diabo pega a virgindade de
uma freira em Whitsuntide – diz Porta, resoluto, puxando sua pesada Tokarew
de seu coldre amarelo.
– Não vá foder o negócio agora! – adverte o Velho. – Ele não deve emitir
nenhum som!
– Fique apenas sentado por aqui e continue fazendo seu tricô – acalma
Tiny. – Uma pequena pancadinha entre os olhos com este brinquedo russo e ele
perderá qualquer intenção que tenha de cantar!
– Por amor de Deus, homem, acalme-se! – rosna o Velho. – Joguem um
cobertor em cima da cabeça dele mas não a façam desmaiar ou teremos que
carregá-lo.
– Vamos tratá-lo tão gentilmente quanto uma virgem jovem da qual os
mercadores de escravos estão fazendo um pacote em Hong Kong – diz Porta,
rindo.
– Por que não o matamos logo? – pergunta Tiny. – Por que ter todo este
trabalho com um maldito torturador que está ligado com os ateus. Vão liquidá-
lo de qualquer maneira quando chegarmos com ele em casa. Vamos
simplesmente corta-lo em pedaços e pendurá-los nas malditas paredes. O cacete
dele ficaria bem naquele vaso de flores ali com aqueles pássaros azuis. Eles
nunca terão visto uma flor como aquela antes!
– Vocês comparecerão em frente a uma corte marcial, se alguma coisa
acontecer a ele – ameaça, furioso, o Velho. – Este piquenique foi planejado
para trazer o filho da puta de volta vivo. Uma ordem é uma ordem,
entenderam?
– Não poderíamos pelo menos arranhar um pouco os colhões dele com
nossos pequenos canivetes alemães de Solingen? – pergunta Tiny, desapontado.
– Façam o que eu mandei! – diz o Velho, encerrando a discussão.
– Por que não mandar-lhe um convite por escrito com a suástica e toda essa
porra de pássaros e tudo o mais? – sugere Porta.
– Ele apenas limparia o rabo com isso! – conclui Tiny.
– Peguem-no! – rosna o Velho. – Vocês podem despi-lo e trazê-lo nu se
quiserem, mas nenhum arranhão nele, entenderam?
– Vamos lá – diz Porta – acabemos com os prolegômenos! O começo de
uma festa é sempre em geral o pior!
Na soleira da porta, Tiny volta a cabeça e diz para o Velho:
– Não terá sido nossa culpa se ele morrer de um ataque do coração de pura
felicidade ao ver seus compatriotas!
Gregor está tendo a maior dificuldade para segurar o urso; ele sempre fica
inquieto, quando Porta não está visível.
Sem fazer barulho, eles entram no cômodo de teto baixo.
Uma meia garrafa de vodca atrai a atenção de Tiny; ele a esvazia em dois
goles, sem parar.
– À saúde, tovaritsch – murmura ele, pondo a garrafa de novo no chão
cuidadosamente.
Quando Porta se inclina sobre o homem que está dormindo, este abre os
olhos e um grito meio estrangulado lhe escapa. Seus instintos o alertaram do
perigo. Tiny pula sobre ele e enfia-lhe o gorro verde de comissário na boca. Em
um minuto, estão com o homem amarrado.
– Nada de tolices agora – ameaça Porta – ou lhe cortamos os bagos, e você
sabe quão pouco valem um homem e seus bagos quando separados um do
outro!
– Como vai, tovaritsch – cumprimenta Tiny, fazendo uma continência. –
Você vai fazer uma viagem, camarada, vai para a máfia de Adolf! Há alguém
que está querendo ter uma conversinha com você!
Eles abandonam a cidade em passo acelerado. Tiny dá um jeito de levar um
vidro de tomates em conserva com ele.
Só param quando estão bem dentro da floresta. Tiram então o gorro da
boca do comissário.
– Você ó o Comissário Militar Oltyn? – pergunta o Velho, em alemão.
– Njer, niet, nix panjemajo* – grita o prisioneiro aterrorizado.
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* Njer, niet, nix panjemajo (em russo): Não, não, não entendo.
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– Pare de conversa fiada, filho! – diz Porta, segurando-o pela gola da
túnica do uniforme. – Quando nosso tovaritsch sargento diz que você é Oltyn,
então é muito melhor que você seja Oltyn! Pensa que somos malucos?
– Vire o cu dele pelo avesso por cima das orelhas – sugere Tiny. – Isto, na
certa, o fará pensar melhor!
– Nix Oltyn! – grita o prisioneiro, teimosamente.
– Quem no inferno então é você? – brada o Velho, furioso.
– Politkom* Alexej Viktorowitsch Sinzow. Nix Vojenkom Josef Oltyn!
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*Politkom (em russo): Comissário Político,
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– Confesse, qual era o nome de sua mãe? – brada Porta.
– Anna Georgijewna Poliwanow!
– Que diabo a puta da porra da mãe dele tem que ver conosco? – rosna
Tiny. – Cortem-lhe a barriga e deixemos o urso comer o que ele tem lá dentro.
Rasputin ainda não tomou seu café da manhã.
– Nada disso. Não me digam que vocês pegaram o homem errado! – berra
o Velho, segurando a cabeça com ambas as mãos.
– Dien sûr que si, mon sergent – diz o pequeno Legionário, morrendo de
rir.
– Este maldito aborto soviético poderia pelo menos ter-se apresentado – diz
Tiny, amargo. – Qualquer soldado sabe que é isso o que tem a fazer quando
estranhos vêm inspecioná-lo.
– Escute aqui agora –– diz o Velho, sentando-se resignado ao lado do
aterrorizado prisioneiro. – Então você não é o Vojenkom Oltyn, não?
– Njet, njet – grita o prisioneiro – njet hromoj*!’
===============
* Hromoj (em russo): o “Diabo Capenga”
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– Levante-se, sua beterraba comunista! – grita Porta. – E Deus tenha
piedade, se você capengar.
O prisioneiro corre para cima e para baixo na estrada, sem ‹› menor traço
de capengar. Mas Porta fá-lo marchar em passo de ganso, dançar com Tango
como se fosse uma mulher e ficar de pé numa perna e fazer uma pirueta.
– Njet hromoj – geme o prisioneiro, no meio dos testes. – Eu pequeno
Politkom! Vojenkom Oltyn, ele grande porco!
– Ele está dizendo a verdade – diz Porta, encolhendo os ombros e abrindo
as mãos de ambos os lado do corpo. – Lamento sinceramente, Velho, mas nós
pegamos o pedaço errado da merda soviética. Isto só serve para provar que as
pessoas estão certas quando dizem que esses russos são uns tapeadores de
primeira linha!
– Vamos quebrar-lhe o joelho de forma que ele seja um mal-
dito capenga de ora em diante – sugere Tiny. – Dessa maneira,
podemos leva-lo de volta e jurar que ele é a verdadeira merda,
apenas mentindo. A maldita Gestapo fará ele confessar que é hromoj!
Eles já deram um jeito em sujeitos mais importantes do que ele!
– Bobagem! – resmunga o Velho. – Ein que confusão nos
metemos!
– Vamos voltar para a cidade e perguntar-lhes onde se esconde o grande e
perigoso Sr Oltyn – diz, sorrindo, Porta.
– Nós podemos apenas dizer que somos uns camaradas do mvarítsch que
vieram à cidade para visitá-lo – sugere Tiny.
– Eu desejaria que o diabo se encarregasse dos merdas de vocês dois –
repreende o Velho. – Infeliz de mim que tive a sorte de comandar a seção mais
doida em toda a porra do Exército alemão!
– Bem, você não pode dizer que teve muitos momentos aborrecidos
conosco – considera Tiny. – Se eles lhe derem uma nova turma, em breve você
terá saudades de nós. Não há muitas seções
– Escute aqui, tovaritsch – diz Porta, dando um tapinha na bochecha de
Politkom – você se meteu num erro muito aborrecido.
– Dois – intervém Tango. – O primeiro erro que ele cometeu foi ter nascido
na terra de Stalin!
– Sim – concorda Porta, rindo. – Mas este agora é o último para ele. Nós
vamos ter que espremê-lo, tovarirsch, ou irá mandar todos seus companheiros
comunistas atrás de nós. Deve compreender que devemos a nós mesmos não
deixá-lo escapar!
– Darei minha palavra de honra de não dizer nada – exclama o prisioneiro,
em desespero.
– Não e que ele é um bom sujeito! – diz Búfalo. – Abaixem seus sabres,
rapazes!
O Velho senta-se numa pedra e sacode a cabeça violentamente; está
tentando decidir o que vai fazer.
– Não há nada mais a fazer – diz ele, finalmente. – Esse maldito comissário
de guerra tem que voltar conosco. – Olha para Julius Heide. – Você tem que
descobrir dele onde seu grande colega está se escondendo. E nós vamos pegá-lo
esta noite!
– Imagino que haja um bom hotel por aqui, onde poderíamos descansar e
comer alguma coisa enquanto esperamos que chegue a noite? – pergunta Tiny.
– Não. Receio que não – diz Porta. – Não há bons hotéis nesta área. Os
cozinheiros todos ingressaram no Exército.
– Parem com essa criancice – exclama o Velho, irritado. – É difícil
acreditar que vocês sejam homens crescidos e, além disso, soldados!
– A pessoa tem que ser crescida para ser soldado? – pergunta Tiny. – A
maior parte daqueles que tenho encontrado não parecem ter mais de 12 anos!
– Cale a boca, seu bobalhão! – diz, ríspido, o Velho. – Estamos metidos
aqui num negócio perigoso.
– Não conte então comigo – grita Porta, afastando-se pelo caminho a
dançar cantando: – Estou indo para casa...
Heimat, deine Sterne...
– Que fazemos nós com o prisioneiro? – pergunta Barcelona, de forma
prática.
– Liquidêmo-lo, tão logo obtivermos a informação que desejamos – diz
Heide, friamente.
– Você talvez o fuzilará? – pergunta o Velho, sarcasticamente.
– Por que não? – responde Heide, num tom assassino, puxando sua
Tokarew. – As ordens do Führer de agosto de 1941 estabelecem que todos os
judeus e comissários devem ser mortos com um tiro na nuca.
– O pobre coitado está tremendo como uma geleia de medo e terror – diz
Porta, batendo no ombro do prisioneiro de uma forma amigável. – Ele não é
pior do que ninguém embora tenha arranjado um boné verde para usar. Ele é
apenas esperto, apenas isso, e descobriu que ser comissário é uma boa coisa!
Toda a seção olha para o prisioneiro, que está branco como cal de medo.
Sabe que não podemos deixa-lo ir-se e o que queremos com seu colega.
Febrilmente, ele começa a falar-nos acerca do Vjonkom, que ele pinta tão negro
quanto possível, numa tentativa de nos amolecer.
– Os comunistas, e todos os judeus, são umas pestes! – grita ele abrindo os
braços num gesto de quem tenta convencer.
– Você não pode querer dizer isso – diz Porta, entusiasmado. – Pense em
todas as belas pequenas iídiches que há no mundo. Dê-me agora uma dúzia
delas aqui e veja o que aconteceria!
– É muito óbvio! – diz, rindo, Búfalo. – Ele é um anticomunista e tem sido
um amigo do peito de Adolf a vida toda!
– Ele é um merda de um traidor de sua pátria! – exclama Tiny, com
desprezo. – Para um verdadeiro idealista é uma coisa horrível ouvir corno ele,
que é um Politkom, pode voltar sua língua ferina contra o Tio Joe. – Tiny reúne
todo seu pretenso desprezo numa enorme cusparada.
– Vamos pendura-lo pelos pés e deixar que o bom senso volte à sua cabeça
– sugere Tango.
– Amarrem-no a uma árvore – ordena o Velho. – Assim ele terá pelo
menos a chance de ser encontrado. Se eles não o encontrarem, então o azar foi
dele.
O Legionário e Barcelona amarram o infeliz prisioneiro a uma árvore, Tiny
diz que poderiam tê-lo amarrado num formigueiro; assim pelo menos ele teria
alguma companhia, se não fosse encontrado.
– Devo mandar uma mensagem para o regimento? – pergunta Heide,
pronto no pequeno transmissor de ondas curtas.
O Velho pensa sobre o assunto.
– É um pouco arriscado. Os russos poderiam localizar-nos.
– Impossível – diz Heide, puxando a antena para cima. – Mandarei a
mensagem curta e rápida. Do outro lado, está o Telegrafista-Chefe Müller e
ninguém pode transmitir rápido demais para ele.
O Velho acena sua concordância com a cabeça.
As frequências de ondas curtas estão densamente ocupadas e muito ativas.
Há particularmente uma estação do Exército russo muito potente.
– Pode desistir disso – suspira o Velho, quando ouve aquela confusão de
guinchos e apitos. – Você nunca alcançará nossa gente.
– Deixe que o pessoal de rádio se preocupe com isto – responde Heide,
enfezado, procurando alcançar o extremo da faixa de nossas transmissões. Ele é
um dos melhores telegrafistas do Exercito.
Subitamente, aparece nosso sinal de identificação. A poderosa estação
russa entra continuamente, solicitando, irritada, nossa identificação.
“Job tvojemadj, seus vermelhos de merda!”, manda Heide em Morse,
furioso.
De repente, o sinal de identificação aparece alto e claro.
“P.4-F.6.A.-R. KARLA-, transmita!”
“WERNER”, repete Heide cinco vezes, com curtas pausas, e depois com
uma diabólica velocidade ele manda a mensagem.
O Telegrafista-Chefe Müller é também muito rápido. Apenas os melhores
telegrafistas podem entender uma mensagem mandada com tal velocidade.
Gregor. que é assistente-telegrafista, perde-se logo no princípio da
transmissão e nunca mais consegue segui-la. Resignadamente, fecha seu
caderno de mensagens.
Heide fecha o aparelho e entrega ao Velho a mensagem passada a limpo:
CONTINUE A AÇÃO. COLHA QUANDO MADURA.
COMUNIQUE NA HORA ACERTADA. FIM DE MENSAGEM.
– É inacreditável que os untermenrch tenham projetado um transmissor tão
bom – diz Heide, cheio de admiração, passando a mão pelo pequeno aparelho. –
Estes aparelhinhos soviéticos são fantasticamente bons.
– Sim, não há limite para o que os untermensch podem fazer, quando o
tentam – diz Tiny, batendo em seu kalashnikov com um aceno apreciativo da
cabeça. – Quem tem uma balalaica corno esta, pronta a cantar a porra de sua
música rápida como um raio?
Permanecemos na floresta, cochilando, durante todo o dia. O prisioneiro
nos disse que Oltyn sai do clube de oficiais todas as noites muito alto. O clube
está localizado num pequeno castelo, um pouco afastado da cidade; ele fez um
mapa para nós e deu-nos todos os detalhes. Simplesmente não será possível
errar.
De tardinha, o Velho e Barcelona vão dar comida ao prisioneiro e
encontram-no caído sobre as cordas. Estrangulado!
O Velho perde a cabeça e ameaça fuzilar a todos nós.
– Quero esse assassino e quero-o agora. – berra ele. – Chega! Não suporto
mais isso!
– Assassinos? – responde Porta, sorridente. – Você tem a intenção de
insultar-nos?
– Poderíamos queixar-nos de você por dizer coisas assim – exclama Tiny.
– Assassinos, eu disse! – grita, furioso, o Velho. – Que belo grupo de
malditos enfeites vocês compõem para a nova Alemanha! Matando um pobre
prisioneiro indefeso, seus covardes filhos da puta! Mas vou encontrar o merda
que fez isso! Não há mais do que três entre vocês que sabem usar um fio de
arame!
– Eh, eh! Você não está ficando um maldito técnico? – grita Tiny,
admirado. – Se eu tivesse toda essa capacidade em minha cabeça, teria tentado
entrar para a Kripo. Você é melhor do que Pretty Paul* em qualquer porra de
um dia. Se ele deixa cair o emblema do partido na porra do chão, tem que
convocar toda a maldita seção mais a alfândega mais o pessoal do imposto para
ajuda-lo a achar de novo!
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* Vide Gestapo, publicado no Brasil pela Record.
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– A vida é feia e dura – diz Porta, mal-humorado. – O coitado daquele
rapaz ateu não existe mais. – E finge limpar seus olhos com um sujo lenço.
– Exibicionista de merda! – exclama o Velho, sempre zangado. Põe na
boca um pedação de tabaco e cospe com violência.
– Ele era um comissário. Um instrumento do judaísmo internacional –
rosna Heide, friamente. – Merecia ser liquidado!
– Cale sua suja boca – grita o Velho, com o rosto vermelho como um galo
de briga. – Mesmo que seu Führer tenha ordenado mil vezes que os comissários
sejam fuzilados, eu o levo perante uma corte marcial, se foi você que o fez!
– Meu Führer? – retruca Heide, ameaçador e com os olhinhos quase
fechados. – Seu Führer também, espero, Sr. sargento?
O Velho olha para ele irritado.
– Você votou nele, eu não!
– Será interessante ouvir o que o NSFO terá a dizer disso – responde
Heide, e começa a afinar raivosamente um pedaço de pau com a faca.
Porta corta grossas fatias de um comprido pão russo. Tostamos numa
fogueirinha e comemos com tomates em conserva e alho.
Tem um gosto maravilhoso.
– Esta era a arma secreta da Espanha vermelha durante a guerra civil – diz
Barcelona, dando uma grande dentada no pão.
– Foi por isto que a perderam – goza-o Porta.
A lua já vai alta quando partimos; o luar brilha como seda por entre as
folhas.
Um cão late à distância e Rasputin reage eriçando os pelos do pescoço.
Como sempre, ele vai à frente junto com Porta.
Estranhamente, não há nenhum bloqueio do lado de fora da cidade. Talvez
os russos não possam imaginar a possibilidade de um ataque. Não há nem
mesmo patrulhas de polícia nas ruas. Tudo respira paz e tranquilidade.
Numa rua lateral, um grupo de soldados canta com suas namoradas.
Marchamos em passo ordinário e fazemos continência olhando à direita
para um major que passa. Não é difícil para nós imitarmos soldados russos.
Seus regulamentos de serviço e ordem-unida são cópia fiel dos nossos. O
mesmo passo de ganso com um chute para a frente, o mesmo balanço do braço
para cima até a altura da fivela do cinturão.
Porta nota dois caminhões de transporte de pessoal estacionados num pátio.
– Vamos pegar aqueles dois caminhões – sugere, num sussurro. – Eles nos
darão a chance de uma fuga mais rápida, quando houvermos pegado nosso
prato de carne!
Tiny aproxima-se nas pontas dos pés e dá uma olhada no pátio.
– Há apenas dois porretas meio adormecidos ali – diz, baixo. – Podemos
pegá-los num piscar de olhos!
– Muito bem! – concorda o Velho. – Peguem-nos! Mas nada de barulho!
Dois segundos mais tarde, os dois soldados do corpo de suprimento estão
mortos, estrangulados. Jogamos os corpos num poço.
Empurramos os caminhões para fora do pátio e só damos partida neles,
quando estão na rua.
Com uma velocidade louca atiramo-nos ao longo da estreita rua, mas
ninguém repara em nós; esta é a maneira de os russos dirigirem. Subitamente,
encontramo-nos dentro de um grande quartel.
Algumas sentinelas gritam para nós, quando damos marcha à ré recuando
pelos portões.
– Job tvojemadj! – grita Porta para eles.
Fazendo a volta, caímos numa estreita rua sem saída, na qual há uma
prisão. Um camarada da NKVD parece contente; ele pensa que nos trazemos
prisioneiros, mas temos que desapontá-lo.
– Qual é o destino de vocês? – pergunta o homem, azedo.
– Vojenkom Oltyn – responde Porta. – Será que pode dizer-nos como
chegar até ele, camarada?
O homem da NKVD se aproxima do caminhão da frente.
– Você fala um dialeto infernal. De onde você é? De Tiflis, certamente não.
– Karelia – responde Porta. rindo audaciosamente. – Minha mãe era uma
puta finlandesa e meu pai um alce russo.
– Você tem cara disso mesmo, companheiro – diz, rindo, o guarda da
NKVD, e indica-nos o caminho para o Château.
– Como era mesmo a maldita senha para esta noite? – pergunta Porta,
arriscadamente. – Nós carélios filhos de prostitutas não temos lá muito boa
memória.
– Tamkan* e você responde Papojka**.
===============
* Tamkan (em russo): barata.
** Papojka (em russo): partido.
===============
– Sim, é isso mesmo – acha graça Porta. – É engraçado, não é? Há muitas
baratas por aqui desde que vocês as usam como senha?
– Não – responde o homem da NKVD – nem partidos tampouco! – Oferece
um pacote de Papyros.
Porta passa-lhe seu cantil. Ele toma um bom trago da vodca que o cantil
contém.
Deixamos de marcha à ré a rua sem saída e pouco tempo depois
estacionamos os caminhões escondidos sob umas grandes árvores no parque
que rodeia o castelo.
Porta pendura seu Kalashnikov no ombro pela bandoleira, enterra o
redondo capacete de aço russo até os olhos e dirige-se aos pulinhos, brincando.
em direção a um soldado que está parado próximo a uma escada que conduz ao
castelo. Heide e o Legionário esgueiram-se ao longo da parede de forma a se
colocar atrás da sentinela. Esta tem toda sua atenção fixada em Porta que se
dirige, dançando. em sua direção pelo campo aberto, e cantando
tranquilamente:
Soce yseco
spischu do tebe,
wetsclir blysenko,
letschu do tebe...*
===============
*O sol está se deitando
A noite se aproxima
Apresso-me a voltar para ti
Voo para casa...
===============
Porta dá um chute numa pinha, dribla-a como um jogador de futebol e a
arremessa para a sentinela que a pega habilmente como um goleiro e a passa de
volta. Logo a seguir está morto, após uns poucos estertores das pernas e dos
braços. O Legionário aperta um pouco mais o arame. Arrastam o corpo para os
rododendros, esvaziam-lhes os bolsos e se apossam do que lhes pode ser útil.
– Idiotas! – exclama o Legionário. – Tão logo não ouvem mais os ruídos da
linha de frente, pensam que não há mais perigo e passam a andar distraídos
como as galinhas dentro de um cercado. C’est la guerre!
Porta torna o lugar da sentinela, mas mantém-se na sombra, caso apareça
alguém que conheça o russo.
Um relógio anuncia as horas de sua torre sonoramente, tocando uma
musiquinha.
Um grupo de oficiais sai rindo barulhentamente de dentro do château; um
deles tropeça e rola pela escada abaixo.
– Oh, oh, Nikolajewitsch, você não é capaz de suportar o champanha do
Tovaritsch Oltyn?
Porta faz ombro-arma com a sua Mpi e junta os calcanhares. Um gordo
oficial com uma pelerine verde sobre os ombros leva descuidadamente um dedo
até a aba de seu boné em resposta.
Um halo de alho e schnapps rodeia o grupo, à medida que eles
desaparecem cantando, bêbados, em direção a um comprido edifício.
– Porcos beberrões, untermensch – resmunga Heide, em tom de desprezo. –
Ele está embaixo de um dos caminhões com sua LMG pronta.
Porta pega uma maçã de uma árvore e mastiga-a ruidosamente.
– Ele é maluco – sussurra o Velho. – Faz tanto barulho como um cavalo
comendo um nabo congelado.
Quatro mulheres em uniforme do Exército Vermelho saem rindo do clube.
Uma delas levanta a saia e alivia-se alegremente.
– Nossa Senhora de Kazan! Jesus Cristo Todo-Poderoso! – exclama Tiny,
em voz baixa. – Babacas de mulheres soldados. Vamos levá-las conosco junto
com o porra do hromoj!
As pequenas param perto de Porta e dançam provocadoramente em torno
dele; prometem-lhe toda a sorte de boas coisas, se ele for procura-las quando da
rendição da guarda.
– É melhor que ele não tente – resmunga o Velho, ameaçadoramente.
– Jesus Cristo! – exclama Tiny, quando uma das pequenas passa a mão
entre as pernas de Porta e solta um gritinho de satisfação. – Essas são umas
boas putas!
– Elas gostariam de recolher um carro na garagem delas – murmura
Barcelona.
Alguns oficiais saem do clube, e as pequenas vão-se embora
apressadamente. Os oficiais têm com eles um cão que para, olha em nossa
direção, fareja no ar e começa a rosnar.
Rasputin, que está sentado na boléia de um dos caminhões, começa a dar
uns pulinhos; as molas do assento rangem. Ele mostra os dentes para o cachorro
que corre um pouco em nossa direção.
Uma voz firme chama-o de volta. Um dos oficiais olha com atenção para
Porta quando passa por ele e ordena-lhe que corte o cabelo. Os soldados russos
usam o cabelo à escovinha.
Soltamos as travas das armas, mas o oficial russo continua seu caminho
sem outro comentário.
– Que inferno! – geme o Velho. – Já não estou em condições de suportar
muito disso!
– Excitante, não é? – diz Tiny, respirando profundamente.
– É divertido pensar que aqui estamos nós, não estamos? Bem no meio do
maldito covil do velho “Ivan”. Suficientemente perto para cuspir-lhe na porra
do olho, se quiséssemos.
– Eles eram capazes de cagar-se todos, se soubessem que estamos aqui –
diz Gregor, rindo, sem demonstrar preocupação.
– Quanto tempo vamos ficar por aqui, de qualquer maneira? – pergunta
Tiny, impaciente. – Se fosse eu que comandasse a seção, entraria ali e retiraria
a porra do pedaço de carne que viemos buscar.
– Sim, tente essa espécie de merda e você tem que sair disparando com
uma divisão inteira atrás do seu rabo – diz o Velho em voz sibilante, enchendo,
zangado, seu cachimbo de enfeite prateado.
O vento torna-se mais forte; nuvens cobrem a lua e a escuridão fica
completa.
– O Deus dos alemães está conosco – murmura Barcelona, animado.
– Exato. Ele está. É assim que diz nas fivelas de nossos cinturões – fala,
rindo, Búfalo.
Outro grupo de barulhentos oficiais desce sapateando pelas escadas. Um
tenente magro e miúdo dá uma bronca em Porta por estar com as botas sujas e o
cabelo comprido.
– Apresente-se a mim de manhã para duas horas de ordem-unida de castigo
– ordena o tenente. – Qual é seu nome?
– Soldado Serpelin, senhor! – replica Porta rapidamente, juntando os
calcanhares.
– Lembrar-me-ei de você – promete o tenente, ao voltar-se para ir embora.
– Pode apostar que ele vai... fala Gregor, convencido.
– Meus pés estão ficando dormentes – queixa-se Barcelona.
– Estou deitado em cima de uma pedra – digo eu.
– Jogue-a fora – sugere Gregor, dando um bocejo.
– Ou afaste-se dela – diz o Velho, irritado.
Saio de cima da grande pedra sobre a qual estava deitado e deixo cair
minha Mpi que rola barulhentamente pela ribanceira.
Uma ave do alto de uma árvore solta um grito agudo. Os outros me
amaldiçoam violentamente e me xingam. Apenas Tiny acha graça; ele não se
incomoda com o que aconteça, desde que algo aconteça. Nasceu num domingo
e nada de ruim lhe pode acontecer.
Rasputin está nervoso. Faz força de encontro à grade da janela, que cede
um pouco. Gregor tem que ir lá para aquietá-lo.
Por algum tempo, há silêncio. Do Château ouve-se o barulho da música e
de canções. Um cão uiva longa e lugubremente. Um pelotão de guarda marcha
pela estrada abaixo. Depois, ouvimos ríspidas ordens de comando e o bater de
armas no chão.
– Inferno! – exclama Barcelona. – Agora sim estamos na merda! Porta não
pode ser rendido na guarda! Mesmo que costumem limpar o rabo com areia e
não acreditem em Deus, eles logo vão ver que Porta não é um deles!
– Ele já estará muito longe, quando chegarem até seu posto – diz Tiny,
sempre otimista. – Ninguém que não tenha pura merda debaixo de seu chapéu
iria ficar ali esperando para dizer aos vizinhos que ele veio do outro maldito
lado!
O Velho puxa sua Mpi para a frente dele.
– Você pensa que é a guarda de rendição? – pergunta Heide, nervoso.
– Pode ser – responde o Velho – mas pode também ser uma patrulha. Logo
veremos!
Porta caminha para lá e para cá, batendo com os pés a moda russa. Um
gato vem andando pelo campo aberto à sua frente, com o rabo empinado, e
Porta o chama. Vagarosamente, o gato se aproxima dele. O cabo pega-o no colo
e começa a fazer-lhe festas.
– Estrangulo aquele infeliz, se ele trouxer de volta com ele um gato
soviético! – rosna o Velho.
– Nós faremos uma lavagem cerebral no patife e faremos dele um bom
nazista – fala, divertido, Tiny. – Em breve, expulsaremos dele as ideologias
comunistas. Já temos resolvido casos mais difíceis do que o de um gato
comunista do interior. Faremos com que o patife aprenda o Mein Kampf de cor!
Diversos tanques começam a esquentar seus motores; o ar treme com o
barulho que fazem os pesados motores Otto.
– T-34 – diz Heide, sempre sabido.
Pesados caminhões roncam do outro lado da cidade; passos apressados e
altas vozes de comando podem ser ouvidos.
Apuramos nossos ouvidos, escutando, mas não pode ser nada de sério ou
eles não estariam continuando com sua festinha no clube.
Abrem-se inteiramente algumas janelas e a luz se espalha pelo terreno em
volta do castelo. Ninguém parece preocupar-se com o black-om. Provavelmente
não consideram que a Força Aérea alemã ainda seja perigosa.
Vozes de mulheres gritam, excitadas; ouvimos risos e cantos. Alguém toca
alto um acordeão; ouve-se a batida dos pés de danças russas. As mulheres
gritam de novo.
– Eles agora estão tirando as roupas delas – diz Tiny, lambendo os beiços,
excitado. – Não há nada tão divertido como quando as roupas vão se
amontoando num bolo no meio do chão e todas as bundas começam a pular
para cima e para baixo como um cardume de arenques brilhando sob um sol de
agosto!
– Seu porco sujo – admoesta o Velho. – Você não tem outra coisa em sua
cabeça?
– Vamos dar um pulo até lá para ver, vamos? – fala Tiny. – Eu gosto de ser
o que eles chamam um voyeur!
– Deveria ser divertido – diz Búfalo, rindo, agradado da ideia. – Então,
quando os ateus tiverem feito o serviço deles, nós poderíamos assumir!
– Ouvi dizer que as garotas russas gostam de ficar por cima do homem –
diz Tiny. – Se pudéssemos enfiar nossos tomates para dentro delas, a questão
estaria resolvida de uma vez por todas!
Contemplamos com inveja Porta que está de pé tranquilamente olhando
pela janela aberta. Ele se volta, examina-nos e dá um estalo com a língua.
– Você não acha que devemos cortá-lo um pouco, apenas um pouquinho,
esse peste desse comissário russo-alemão, quando o pegarmos? – pergunta
Tiny, esperançoso.
– Tome cuidado com você! – responde o Velho, sério.
A mim parece que estamos parados ali há horas; todo meu corpo coça e
está dormente.
Diversas corujas esvoaçam em torno das árvores; um mocho orelhudo solta
um grito amedrontador.
Subitamente, uma alta e corpulenta figura aparece no topo da escada do
castelo. Veste uma longa pelerine. Passa a mão em sua cabeça completamente
calva. Um soldado corre, inclinando a cabeça apressado, para trazer-lhe seu
boné e o cinturão da pistola.
– C’est lui*! – sussurra o Legionário, em voz rouca. – Nada de erros agora!
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*C’est lui! (em francês): É ele!
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Nach der Tür zur Hintertreppe


auch als Hintertür bekannt,
lebt im Haus ei schwarzer Kater,
der dort seine Wohnstatt fand...*
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* da porta da escada traseira
Também chamada porta de trás
Vive um sujo gatarrão preto.
Que dorme na soleira da porta.
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canta, em voz alta, o comissário em alemão.
– Nós já vamos dar-lhe uns gatos – rosna Gregor, chupando numa guimba
apagada de cigarro.
O comissário ensaia alguns passos de dança. Está bêbado e dá três passos
para baixo e dois para cima; então de repente estoura numa gargalhada.
Porta sai de dentro dos arbustos, marcha barulhentamente pela trilha
empedrada e joga para o ar seu capacete, bancando o palhaço.
– Que diabo, seu cachorro! – berra o comissário, espantado – Você também
está bêbado, seu filho da puta?
– Job tvojemadj, papai! – grita Porta, rindo como um bobalhão.
– Stoi, seu vagabundo! – grita o comissário.
– Job trojemadj – repete Porta o insulto.
– Stai! – berra o comissário, enraivecido, atirando-se pela escada abaixo. –
Stoí, seu filho de todos os malditos malcheirosos mongóis das estepes! Vou
mandá-lo para a cadeia em Vladimir por causa disso!
Porta para em frente aos lilases onde está escondida a seção.
O comissário joga-se para cima dele.
– Sua maldita hiena de Kalmuk, o que você pensa que vai fazer?
– Calma, papai, calma! – diz, sibilante, Porta, ao mesmo tempo que enfia o
cano de sua Mpi contra a barriga do comissário.
– Que diabo... – começa ele a dizer, mas o resto é abafado pela pesada capa
que é jogada por cima de sua cabeça. Um par de possantes braços envolvem-no,
quase impedindo-o de respirar.
– Você está indo para a casa de sua família, sua rameira das florestas
alemãs! – zomba Tiny. – Para casa, para sua querida Pátria!
O comissário agita as pernas e luta desesperadamente. Gregor e Barcelona
pegam-me as pernas e o derrubam. Tiny abraça-o e cai pesadamente em cima
dele.
– Tomem cuidado aí! – adverte o Velho. – Não o abracem ate mala-lo!
Porta levanta sua tokarew e dá uma coronhada na nuca do comissário.
Com um gemido, o grandalhão desmaia; rapidamente, amarramos-lhe as
mãos atrás das costas. Uma volta e passada em torno do pescoço, que se aperta
ao menor movimento. Como um saco de batatas, o comissário amarrado é
jogado na parte traseira de um dos caminhões.
Tiny senta-se em cima dele. Porta da partida no caminhão com um barulho
que estremece o ar. Um galinheiro ali por perto acorda e protesta,
energicamente, contra o ruído.
– Se sairmos desta, irei à missa todos os domingos de agora em diante –
promete o Velho, solenemente, apertando seus punhos de encontro à sua Mpi.
– Desta vez ele é o comuna certo, não é! – pergunta Tiny, nervoso. – há
tantos por aqui que é muito fácil cometer um erro!
– Certo ou errado, este é o último que venho buscar – diz Gregor, decidido.
– Acho que está certo! – diz Búfalo. – Ele capengava como um bode com
três pernas. Deve ser esse tal de hromoj!
– Ele vai ter uma boa surpresa quando se encontrar de novo com os
conterrâneos dele – diz Barcelona, rindo.
– Então o maldito pássaro vai ter uma boa dor de cabeça – completa Tiny,
secamente.
– Ele será enforcado – confirma Heide, bruscamente.
– Deveria ser enforcado cinco vezes – acrescenta Gregor.
– Siiimm... e com cordas de violino, do modo como fazem em Plötzensee –
sugere, radiante, Tiny.
O outro caminhão segue-nos de perto, com o Legionário na direção. Porta
dirige como um louco; temos que segurar-nos nas bordas do veículo, para evitar
de ser atirados fora.
Logo deixamos Juraciszki para trás. Um pouco depois, Porta passa da
principal para uma estrada lateral esburacada e desigual, mas sem reduzir a
velocidade.
– Ele vai quebrar os infelizes dos eixos – grita o Velho, batendo com a
coronha de sua Mpi na parede da cabina. Porta finge que não ouviu e aumenta
ainda mais a velocidade.
Rasputin está com uma das patas em volta do pescoço de Porta e rosna
amorosamente ao lambe-lo; o urso está contente de revê-lo.
O Velho arrebenta a janelinha entre o caminhão e a cabina com o cano da
Mpi.
– Reduza a velocidade, seu maldito maluco, você está quase nos matando
aqui atrás!
– E daí? Se vocês forem mortos de uma maneira ou de outra, qual é a
diferença? – Ao dizer isso, ele pisa violentamente no freio e nós todos somos
violentamente jogados contra a parede da cabina.
Três PMs russos, cada um deles com sua Mpi engatilhada, fizeram um
cordão na estrada e estão movimentando em círculo uma lâmpada vermelha.
– Passe por cima deles – ordena, energicamente, o Velho.
Porta faz a mudança violentamente e acende os faróis. Os russos ficam
completamente cegos.
O pesado caminhão de transporte de pessoal pula para a frente.
– Vem, morte, vem...! – cantarola o Legionário.
Os três guardas são jogados para o ar. Um deles aterra com uma pancada
seca no para-brisa, mas escorrega logo para a estrada. Sentimos os solavancos,
quando os três jogos de rodas passam sobre o russo.
Os dois outros estão estirados na estrada atrás de nós. Com tremenda
velocidade, Porta lança-se para frente na estreita estrada da floresta e de repente
dá uma guinada na direção.
O pesado veículo meio blindado pula por sobre uma elevação e atira-se a
uma ponte meio apodrecida que balança ameaçadoramente. Sem hesitação, o
outro caminhão nos segue à mesma tremenda velocidade.
Com um barulho soturno, a ponte cai atrás de nós e desaparece dentro do
rio.
– Tudo o que a gente precisa é só um pouquinho de toda a sorte que existe
no mundo para conseguir o que se quer – diz Tiny, satisfeito.
Em breve, saímos de novo numa estrada principal e Porta da uma parada.
– Onde, diabo, estamos? – pergunta ele, olhando em volta.
– Naturalmente que andamos na direção errada – diz o Velho resmungando
e estudando um mapa. – Por que, diabo, você tem que dirigir tão rápido? Está
indo em direção a Rakow. Temos que retornar.
– Voltar? – exclama Gregor, temeroso. – Eu, não!
– Voltar pelo menos 25 quilômetros – diz o Velho. – Temos que ir ate
Gawja, mas não há perigo até cruzarmos o entroncamento de Lida. Ali, eles têm
um posto de inspeção, de acordo com o que disse o capitão. Passaremos a toda
velocidade! É um posto de inspeção comum sem armas pesadas. Eles atiram em
nós, nós atiramos neles. Encolham-se atrás das bordas laterais do caminhão,
com as MGS em posição! Alguma pergunta?
– Chegaremos em casa a tempo para o café da manhã?
– Oh! Cale-se! – rosna o Velho e sobe de novo no caminhão.
Em Wolozyn, Porta sai da estrada e dirige direto até Iwje sem vermos viva
alma.
Está começando a amanhecer, quando nos aproximamos do entroncamento
de Lida.
– Eles vão ter uma festinha que vai cortar-lhes a respiração – diz Tiny,
levantando sua kalashnikov.
– Não conte com os ovos no cu da galinha – adverte o Velho. Mal saíram
as palavras de sua boca, Porta freia violentamente fazendo as rodas derraparem.
Num pulo, ele sai da cabina e abre o capô do caminhão, pretendendo estar
fazendo um reparo.
– O que está acontecendo? – pergunta o Velho.
– Fiquem dentro do caminhão – recomenda Porta. – Metade do Exército do
vizinho está no entroncamento espiando com seus binóculos comunistas. Estão
certamente procurando os homens malvados que pegaram seu hromoj!
Cautelosamente, o Velho posiciona seu binóculo em uma das estreitas
frestas de tiro do caminhão.
– Certamente lançaram um alarme! Não há dúvida alguma!
– diz ele. – Há quatro tanques atrás da casa; agora estão virando suas torres
em nossa direção. Temos que sair deste lugar. Você pode fazer a volta aqui?
– Deixe comigo – rosna Porta. – Agarrem-se aí atrás. Vamos andar e
ligeiro!
– Onde, diabo, estão os outros? – pergunta Barcelona, olhando para trás
para a estrada.
– Pararam antes da curva – diz Tango. – Devem ter visto
os ateus antes de nós.
– Seus porcos fascistas, vocês não vão conseguir sair desta – resmunga o
comissário, que recuperou a consciência.
– Hromoj, fique com a porra de sua boca fechada e só fale quando lhe
falarem! – diz Tiny, pesando fortemente sobre sua barriga. – Doutra forma,
seremos capazes de servi-lo como desjejum para Rasputin!
– Não conseguiremos escapar – murmura Barcelona, tão logo Porta
começa a movimentar-se vagarosamente para a frente.
– Assim que começarmos a fazer a volta, eles nos liquidam com os
malditos canhões dos tanques!
– Nada de ruim pode acontecer comigo – diz Tiny, com segurança. – Terei
uma morte feliz, sem dores. No que respeita a mim, podem atirar quanto lhes
aprouver!
– Faça a volta, por amor de Deus! – grita o Velho, impaciente.
– Ainda não – responde Porta. – Mais adiante, posso fazer a volta em uma
única manobra sem ter que dar marcha à ré.
Tiny dá uma espiada pela borda do caminhão.
– Está formigando de malditos bonés verdes. Eles farão um picadinho de
nós, se nos pegarem!
– Arrancam-lhes os olhos – promete o comissário, desdenhosamente.
– Antes disso, no entanto, cortaremos a porra de sua barriga – garante Tiny,
passando sua longa e afiada faca de combate ao longo do lábio superior do
homem. – E cortaremos você um pouco para cima e para baixo e para os lados
apenas para fazer seus companheiros rirem. E seus malditos braços comunistas
nós os penduraremos em volta do pescoço, de forma que não precisará mais de
uma gravata mesmo que tivesse braços para dar-lhe o nó!
Um dos tanques rola de detrás da casa e posta-se no meio da estrada.
– Aqueles idiotas devem pensar que nós estamos indo direto para eles. –
Porta ri. – Somente um débil mental nisso seria capaz de pensar uma coisa
dessas!
– Eles vão atirar e reduzi-los a migalhas – diz o comissário, rindo,
provocante.
– Olhe aqui, meu comissário cata-vento! – E Tiny belisca-lhe o peito com a
faca. – Depois que tivermos nos divertido com você, faremos uma viagem à sua
cidade e arrancaremos os olhos de sua mamãe para comer com o café da
manhã, eu lhe juro!
– De você, irei encarregar-me pessoalmente! – promete o comissário, roxo
de raiva.
– Você está cheio de merda! – retruca Tiny. – Não tem mais do que cinco
dias de vida! Então, estará balançando na ponta de uma boa corda alemã e os
corvos estarão pousados em seus ombros divertindo-se com você!
Porta anda para frente vagarosamente em primeira. Mordo os lábios,
nervoso, e aperto a metralhadora de encontro ao ombro.
– Segurem-se – grita Porta. torcendo violentamente a direção. O motor
ronca com a rotação máxima.
Entramos a toda velocidade por um campo adentro; o caminhão balança e
está quase virando, mas conseguimos voltar para a estrada.
– Fogo! – grita o Velho, e todas as três MGs abrem fogo contra os
espantados soldados da NKVD que estão no entroncamento. Vários deles caem,
mas então ouve-se uma curta explosão atrás de nós e uma granada explode na
estrada à nossa frente.
Outro canhão do tanque atira e a granada explode mais perto. Então,
fazemos a curva, o caminhão ficando sobre duas rodas e quase virando.
Uns 10 quilômetros adiante, encontramos o outro caminhão para o qual
acenamos sem diminuir a velocidade.
Porta faz uma curva e entra na floresta ao longo de uma estrada que não é
mais do que uma trilha de duas rodas e para debaixo de umas árvores. A
distância, podemos ouvir o ronco dos tanques. Um pouco depois, eles passam
estrepitosamente ao longo da estrada que se dirige para Oszmiana.
– Vamos em frente – ordena o Velho, acenando para o outro caminhão.
Depois de algum tempo, um ronco surdo faz-nos olhar para cima. Voando
baixo por cima de estrada um “Crow”* aproxima-se velozmente. Alça voo
violentamente girando sobre uma asa e em seguida atira-se sobre nós num
uivante mergulho. Vem tão baixo que podemos ver claramente o piloto.
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* “Crow” (corvo): gíria para o avião de reconhecimento Polikaspow P0-2.
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Duas bombas caem atrás de nós, mas não causam outro dano a não ser
jogar para o ar uma grande quantidade de pedras e poeira.
– Aquele infeliz está em contato com os bonés verdes – grita Porta. –
Dentro em pouco, haverá um enxame de tanques atrás de nossos rabos!
– Vou dar um jeito nele – proseia-se Heide, girando para cima sua MG.
– Não conseguirá nem arranhá-lo com essa sua seringa de matar formigas!
– diz Gregor, zombando dele. – Você não sabe que os Crows são blindados
contra fogo de metralhadoras?
– O untermensch na nacela, no entanto, não É – rosna Heide,
maldosamente.
O Crow volta-se de novo contra nós, desta vez mergulhando do lado
contrário.
Heide abre fogo imediatamente; as balas batem e ricocheteiam na
superfície blindada do Crow.
Bombas caem à nossa frente e atrás de nós.
Heide atira como um louco, mas sem atingir o piloto.
– Mais um desses filhos das putas loucos que atiram nas pessoas sem
atingi-las – grita Porta, enraivecido. – Estes são a espécie de idiotas que atraem
sobre nós todas as dificuldades da guerra!
O Crow desaparece com um ronco de arrebentar os ouvidos.
Não mais vemos os tanques. Quando o Crow está fora do alcance do
ouvido prosseguimos, circundando a borda da floresta. Finalmente, a estrada
desaparece num alto capinzal, mas a terra é tão firme que nos possibilita
continuar a mover-nos.
Subitamente, uma enorme sombra se projeta sobre nós. É o Crow, com os
motores desligados, planando sobre nós.
O piloto nos avista e começa a lançar bombas; o shrapnel abre enormes
buracos em ambos os caminhões.
Fugimos tão rápido quanto podemos para o abrigo das árvores. Tiny tem a
MG ao ombro, pronto para atirar no Crow tão logo ele volte.
– Vamos parar com esse hábito dele de peidar na igreja – diz o Velho, em
voz sibilante, com os lábios apertados.
– Lá vem ele! – grita Porta, apontando para o avião.
– Já o tenho! – exclama Tiny, apertando a coronha da arma contra o ombro.
As três MG atiram ao mesmo tempo. Uma longa fiada de trajetórias de
fumaça concentra-se sobre o piloto, que cai para frente. A máquina oscila e
arranca para cima, com o nariz no ar, o que faz com que o piloto seja jogado
para trás.
Satisfeitos, assistimos a seu voo da morte; não há um soldado no Exército
que não odeie os Crows.
O avião voa direto em direção aos altos topos das árvores e segundos após
o silêncio ó rompido por uma tremenda explosão.
Bombas, combustível, tudo a bordo do Crow sobe ao céu num cegante
lençol de chamas. Uma fina coluna de fogo vermelho-amarelada aparece acima
de floresta e se transforma num grande cogumelo preto de fumaça.
– Menos um comunista – diz Heide, fechando as pernas de apoio da
metralhadora.
– Para cima dos caminhões! – ordena o Velho. – Vamos andando. Não vai
demorar até que aqueles tanques estejam atrás de nós.
Um pouco mais tarde, viramos para dentro da floresta. O capim alcança a
metade da altura dos caminhões.
– Esperemos que não haja nenhum tronco atravessado na estrada –
resmunga Porta, nervoso.
– Se houver, nós daremos um salto mortal que num circo valeria muito
dinheiro – considera Búfalo.
Rodamos ao longo do Sehtschara, circundamos Selwa e desaparecemos na
Floresta de Bialowiejer. Agora, a estrada torna-se impossível. A macega densa
cresceu de forma a criar túneis por dentro dos quais passamos, a despeito do
forte sol de agosto, num sinistro crepúsculo verde. Nem Rasputin gosta da
experiência. Torna-se difícil contê-lo, quando um bando de porcos-selvagens
cruza nossa trilha num galope e desaparece na floresta.
Tiny quer atirar neles mas o Velho o proíbe.
– Seus patetas – admoesta ele, quando concordamos com Tiny. –
Comecem a atirar e todo o Exército Vermelho estará em cima de nós. Isto sem
esquecer que há grandes bandos de guerrilheiros nestas florestas!
Só conseguimos mover-nos agora usando a primeira marcha de força.
Constantemente, temos que passar em torno de enormes buracos e subir rampas
íngremes. Os motores estão fervendo.
Paramos por um momento. .Ã distância, podemos ouvir o ronco de pesados
motores. Os tanques estão em nossa pista.
– Assim o Crow estava em contato com aqueles quatro filhos da puta – diz
Tango, esfregando nervosamente o magro peito.
– Boa merda – completa Tiny, olhando para trás na direção dos altos
roncos.
– Agora eles vão pegá-los! – diz o comissário. triunfante. – Tão logo vocês
entraram na floresta estavam liquidá-los!
– Feche sua matraca, seu porra de um traidor sujo – diz Tiny, espetando-o
com a faca de combate – ou senão o urso é capaz de comer seu fígado como
aperitivo!
– Corte-lhe as orelhas – sugere Porta. – Ele não quer escutar o que nós lhe
dizemos, de qualquer modo, então para que precisa de orelhas?
– Em breve, vocês saberão – zomba o comissário. – Em breve, descobrirão
o gosto de ser arrastado atrás daqueles tanques!
– Velho! Deixe-me acabar com esse merda – exclama Porta, zangado.
O Velho não responde.
Agora, podemos ouvir o barulho dos tanques mesmo acima dos ruídos dos
nossos motores; estão ganhando terreno sobre nós constantemente e somos
fáceis de seguir. Nossos largos pneus deixam claras marcas no solo úmido.
– Não pode andar mais depressa? – grita Búfalo, nervoso.
– Por certo, filho – diz Porta, rindo. – Mas vocês cairiam do caminhão!
– A que distância estamos de casa? – pergunta Tiny, impaciente.
– Muito longe ainda – responde o Velho, desanimado.
Porta dá uma freada tão violenta no caminhão que o Velho cai para a
frente, por sobre o capô. Se o para-brisa não estivesse abaixado ele certamente
teria quebrado o pescoço.
Porta parou o caminhão no último momento, exatamente na beira de um
desfiladeiro. Ficamos meio paralisados, olhando, espantados, para o abismo à
nossa frente.
– Até aqui e nada mais para a frente – suspira o Velho, inteiramente
esgotado.
Ele está certo. E impossível fazer meia-volta com o caminhão e ainda mais
impossível contornar este enorme vazio. Atrás de nós, o sinistro ronco dos
motores tornou-se mais alto; a cada momento os tanques se aproximam de nós.
– Evacuem os caminhões – ordena o Velho – e depressa, rapazes!
Agarramos as granadas de mão e a munição, alimentamos todos os
carregadores. Felizmente no caminhão há dois aparelhos automáticos de
carregar e o serviço é feito rapidamente.
– Para o mato e espalhem-se – ordena o Velho.
Porta e Tango despejam gasolina sobre os dois caminhões de transporte,
jogam os depósitos vazios nas cabines e apressam-se a abrigar-se no mato
justamente quando o primeiro dos tanques aponta o focinho na curva. É um
velho Landsverk 30.
– De onde eles tiraram aquilo? – sussurra o Velho, admirado. – Tanto
quanto sei, eles ainda não estavam em guerra com a Suécia quando esses
tanques existiam!
– Não, mas com a Finlândia – responde Heide, que sabe tudo. – O
Regimento de Dragões Nyeland tinha-os em experiência.
O Landsverk manda uma longa rajada de MG por cima dos caminhões na
crença de que nós nos abrigamos do outro lado da ravina. As balas marcam sua
passagem entre as árvores com surdas pancadas.
Dois BA-64 aparecem na curva. Estão próximos um ao outro, o que prova
sua inexperiência. Um pouco atrás deles vem o mais perigoso deles, um
Humber MK II. A tampa da torre levanta-se e um oficial examina
cuidadosamente o terreno.
– Um Starschi Leitenant* – diz Porta. – Deve estar cansado de viver, da
maneira que ele abre a torre antes de saber onde estamos.
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* Starschz Leitenant (em russo): Primeiro-tenente.
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– Provavelmente já sofreu uma lavagem cerebral suficiente pelos
camaradas comunistas, que nem sabe que dia é hoje – comenta Búfalo.
– Eles não deviam usar um sabão tão forte para lavar o cérebro – diz Tiny
em tom sério, destravando a segurança de sua MG.
– Cale a boca! – sussurra o Velho.
O líder russo da coluna de tanques aponta o binóculo direto para nós.
As portas dos outros tanques se abrem. Um gordo sargento sai com
dificuldade do Landsverk.
– Eles escaparam – grita o sargento, desanimado. – A esta altura, já
cortaram o pescoço do hromoj!
– Então que tenham boa sorte! – grita um suboficial do tanque líder BA-64.
Tiny cutuca o comissário, que já foi de novo amordaçado com um boné.
– A porra de seus camaradas não parecem gostar de você. É assim que
acontece com todos os homens ruins. Mijam em cima de você, e nem o notam.
O comissário lança-lhe um olhar assassino.
O tenente levanta o braço e os motores param. Todos os quatro
comandantes de tanques apeiam e dirigem-se aos caminhões de transporte de
tropa abandonados.
– Os cães alemães lançaram gasolina sobre os caminhões, mas não tiveram
tempo de incendiá-los – diz o tenente, rindo, alto.
– Aqui está o boné do hromoj – exclama um cabo, levantando na mão o
boné verde do comissário. – Esperemos que eles consigam liquidar o filho da
puta antes que ponhamos as mãos neles!
Tiny cutuca de novo o comissário e acena com a cabeça
encorajadoramente.
– São verdadeiros camaradas seus, não é?
O Velho levanta na mão uma mina magnética. O Legionário faz com a
cabeça que entendeu e arrasta-se, escondido, até o tanque mais próximo. Porta e
eu temos que encarregar-nos dos dois que chegaram por último. Tenho receio
do Humber e Porta fica com ele. Heide arrasta-se até o Landsverk.
O Velho desaparece no mato denso com o resto da seção. Estou apenas a
dois metros do BA-64 que está mais recuado. Todas as portas estão
inteiramente abertas. Desde que eu chegue até ele sem ser visto, não haverá
problema em colocar a mina através de uma das portas abertas.
O Legionário já está ao pé da lagarta de seu tanque. Em dois pulos, estou
ao lado do meu e jogo a mina através da escotilha.
A explosão e terrível. A onda de choque me pega e me joga de encontro a
uma árvore. Uma torre arrancada do tanque enterra-se no chão a meu lado.
A metade de um homem está esborrachado nela. Por um momento, perco
os sentidos.
Metralhadoras cantam em volta de mim. A seção abre fogo sobre os quatro
comandantes atônitos parados ao lado dos caminhões. Desaparecem num mar
de chamas. Foi uma bela ideia de Porta encharcar os caminhões com gasolina.
– Está vendo? – diz, exultante, Tiny para o comissário, ao ficarmos
olhando para as ruínas fumegantes. – Nosso Deus alemão cuida de nós
direitinho, não cuida?
– Vocês nunca conseguirão chegar – rosna o comissário em sua teimosia. –
Ainda têm que cruzar o Pântano Pripjet!
– Daremos um jeito – proseia-se Porta. – Nós fomos treinados com o
comando especial de travessia de pantanais...
– Idiota – escarnece o comissário. Seu dialeto saxônico irrita-nos
profundamente.
Gregor aconselha-o a aprender um alemão decente antes de ser posto em
frente a uma corte marcial.
– Todos os saxões são traidores – considera Heide, tentando esbofetear o
comissário, que consegue encolher-se a tempo.
– Deixem-no sossegado – diz o Velho. – Vocês podem apresentar-se como
voluntários para o pelotão de fuzilamento, quando a corte marcial o houver
sentenciado.
– E você chama a isso de justiça? – escarnece o comissário. – Sentenciar
um homem antes mesmo que seu caso tenha sido iniciado?
– Sim, e esta espécie de justiça nós aprendemos de vocês, porcos soviéticos
– exclama Búfalo, fazendo um sinal fácil de entender, passando o dedo esticado
em volta do pescoço.
Escorregamos pelo despenhadeiro abaixo e cruzamos o fundo da ravina.
O Velho da duro em cima de nós. Ele nos quer tão longe dos tanques
destruídos quanto possível; tem a impressão de que os russos continuaram em
contato permanente de rádio com sua unidade-mãe.
Acampamos quando cai a noite e dormimos a noite toda e parte do outro
dia. À distância, podemos ouvir unidades de segurança revistando os bosques.
O comissário escuta, com os olhos arregalados. Como qualquer pessoa, ele
se agarra à menor esperança. Não irá aceitar o fato de que nós o mataremos
antes de sermos capturados, mesmo que Tiny a todo o momento o faça cheirar
sua longa e afiada faca de combate.
Tudo o que supérfluo é abandonado de forma a podermos mover-nos mais
rápido. A escuridão é tanta que só podemos ver alguns centímetros a frente do
nariz. O musgo sobre o qual marchamos absorve todo o som; quando andamos,
tudo é silêncio; não se ouve nem o pio de um pássaro nem o coaxar de uma rã.
Fico com medo de ter perdido os outros e paro por um momento. Búfalo
esbarra em mim e no reparo da metralhadora.
– Por que, diabo, está você parado aqui, rapaz? – fala ele zangado,
esfregando-se. – Joga esta coisa fora!
– O Velho mandou-me que a trouxesse – respondo em voz baixa.
– Ele é um sadista infernal – diz Búfalo.
Continuamos a marchar silenciosamente por sobre o musgo espesso; dá-
nos a impressão de estar marchando por sobre uma pesada borracha.
Subitamente, choco-me com as costas de um homem.
– Mushyk sstarashyt borof*! – exclama ele irritado.
===============
* (em russo): Seu caipira, porco-do-mato, preste atenção!
===============
Sem dar uma palavra, cravo minha faca de combate em suas costas. O
russo faz um ruído estertorante e cai.
Apunhalo-o de novo. E preciso, acima de tudo, que não lhe seja permitido
alarmar as outras sentinelas que devem estar colocadas em toda nossa volta.
– Ivan – sussurro, horrorizado, para Gregor que está logo atrás de mim.
Não há dúvida de que a sentinela russa pensou que eu fosse um camarada
estacionado perto dela.
Ficamos deitados, quietos como camundongos, ao lado do corpo. Sangue
quente corre-me pelas mãos.
– Alex! O que está acontecendo? – diz uma voz, nervosa, da escuridão.
Gregor desaparece por sob a folhagem; ouve-se um curto grito assustado e
depois tudo fica de novo quieto.
Gregor cortou-lhe a garganta.
– Negócio sujo – diz ele, limpando a faca de combate na calça. – Devia ter
centenas de litros de sangue nele!
– Alex, Pjotr, fechem suas malditas matracas! – grita uma voz rouca de
dentro do mato. – Vocês devem saber muito bem que estes malditos porcos
alemães estão vindo nesta direção! Depois que os houvermos apanhado, vocês
dois estúpidos filhos da puta podem gritar quanto quiserem!
– Peguem-no! – ordena o Velho.
Porta e o Legionário são engolidos pela escuridão.
Um pouco depois, um horrível grito ecoa pela floresta. E mais um que
morre num longo gorgolejo.
A seção toda se abaixa e sustém a respiração.
– Aqueles dois se foram – zomba o Velho, perversamente.
– Provavelmente cortaram-lhes primeiro os cacetes – diz Tiny, baixo.
– Ele nos viu antes que pudéssemos acabar com ele – fala Porta, surgindo
da mata. – Vamos andando! Eles devem ter ouvido aquele grito até em
Moscou!
– As pessoas deviam aprender a controlar-se mesmo quando estão sendo
mortas – declara Tiny, em voz alta.
– Vocês nunca o conseguirão – declara o comissário, maliciosamente.
– Se você não mantiver sua boca fechada, pessoalmente cortarei a porra de
sua língua de dentro dela – diz Porta, cerrando os dentes.
– Tire as mãos dele e vamos andando! – comanda o Velho. – Toda a
floresta deve estar alarmada por aquele grito!
Conseguimos passar equilibrados por uma estreita ponte. Búfalo, como era
de esperar, cai dentro d’água com enorme espalhafato, e quando Tiny vai ajuda-
lo ele também cai. A correnteza do rio é muito forte e nós temos grande
dificuldade para tirá-los da água de novo. Tiny por duas vezes foge de nossas
mãos e corre para auxiliar Búfalo até que finalmente o colocamos em terra
firme.
– Você fez isso de propósito! – grita Tiny, numa voz que pode ser ouvida a
quilômetros de distância.
O Legionário tem que fazê-lo perder os sentidos com uma pancada de
cutelo com a mão. Quando Tiny está dessa forma é a única coisa a fazer com
ele. Búfalo devera ser prudente e manter-se afastado dele por algum tempo;
Tiny poderia facilmente ter a ideia de enfiar-lhe uma faca nas costas.
Finalmente, chegamos ao outro lado. O chão da floresta aqui é mais fácil
de andar. Subitamente, uma luz brilha na nossa frente.
O Velho para como se tivesse esbarrado numa parede. A chama brilha de
novo e nós vemos rapidamente uma face pálida debaixo de um capacete russo.
Ouve-se uma surda pancada e um fraco gemido; o russo ficou curado para
sempre do hábito de fumar.
A seção se reúne de novo num valo próximo à estrada.
O Velho está obviamente excitado. Fica a abrir e fechar a tampa de seu
cachimbo, um hábito que ele tem quando fica nervoso.
– Sergei, idisodar!* – ouve-se subitamente uma voz gutural exclamar do
outro lado. – Esses cães alemães não estão vindo de forma alguma deste lado!
===============
* (em russo): Venha cá!
===============
– Não esteja tão seguro – ouve-se alguém dizer mais para baixo. – Esses
caras cinza-esverdeados são uns diabos! Nunca se pode estar certo de nada em
relação a eles. Eu desejaria que Nossa Senhora de Kazan lhes desse a todos
uma dose de praga!
– Merda de soldadinhos de chumbo! Sacos de merda amarrados pela
cintura! – rosna Tiny, em tom de desprezo. – Dormindo na porra do serviço,
hem? Deviam ser submetidos à corte marcial. Coitado do porra do Stalin, tendo
que se contentar com uns merdas como estes!
– Que inferno! – exclama o Velho. – Se recuamos, eles abrem fogo em nós
e, no entanto, aqui não podemos ficar. – Coça o queixo pensativamente. –
Vamos andando para a frente como se fôssemos uns deles. Temos que
surpreende-los e pegá-los sem fazer barulho.
– Não poderá haver muitos deles – sussurra Heide. – Ou teríamos escutado
falarem.
Heide está certo. Soldados quando se sentam esperando por alguma coisa,
é-lhes impossível evitar uma certa quantidade de barulho. Um par deles
conversando, armas batendo umas nas outras, alguém tossindo. Pessoas comuns
não chamariam a isso de barulho, mas eles são mais do que suficientes para
alertar um experiente grupo de combate.
Cautelosamente, esgueiramo-nos para o outro lado da estrada um por um
com as Mpis em posição de tiro. Uma delas atira logo atrás de mim; foi como
se minha cabeça explodisse. Porta está atirando a apenas alguns centímetros
dela.
Um grito de horror corta o estampido.
Da escuridão, Mpis cospem chamas azuladas. O zangado estrépido da
fuzilaria dura apenas poucos minutos, depois um silêncio paralisante apossa-se
da floresta. É como se a noite estivesse escutando com toda a atenção depois do
estrondo dos tiros. Ouve-se a poderosa voz de Tiny:
– Tudo limpo! Quatro ateus foram despachados para sempre!
Tango é morto. A primeira rajada das Mpis arrebentou-lhe o peito. Ele
salvou o Velho, que estava logo atrás dele. Ficamos um instante em silêncio ao
lado de seu corpo ensanguentado.
– Agora ele dançou seu último tango – diz Porta, fechando os olhos do
cadáver.
– E ele prometeu ensinar-me o tango. É a melhor dança que existe, ouvi
dizer – diz Tiny, cruzando os braços de Tango sobre o peito crivado de balas do
morto.
Heide esvazia os bolsos de Tango e recolhe seus discos de identificação.
Coisas pessoais vão para a família. Não há muito. Soldados de linha são quase
sempre pobres, sua única messe, os frutos da tristeza e da morte.
Para leste, em direção a Rozany, sobe um sinal luminoso, colorindo o céu
de um vermelho sanguíneo. É tão longe que não se pode ouvir o barulho da
explosão.
Ao longo da estrada de terra, dois semilagartas vêm roncando; seus
holofotes estão dirigidos para a beira da estrada.
Silenciosamente, abaixamo-nos e esperamos até que hajam passado.
Podemos ver claramente os soldados de infantaria, de pé com seus fuzis
prontos.
– Esta espécie de serviço deixa-me nervoso – suspira Porta, empurrando na
boca um punhado de framboesas. – Um piquenique como este e você sabe
como se sente um lobo com uma porção de gente armada urinando nas costas
dele!
– Os nervos podem fazê-lo virar a cabeça – explica Tiny, sério. – Escutei
de um médico psicopata que ajudei a executar em Torgau. Ele me disse que era
algo chamado insulina e diabete que vai voando para a cuca de uma pessoa
quando ela fica assustada!
– Se isso é verdade, então temos diabete sem saber há anos – fala Gregor. –
Não poderia dizer o número de vezes que tenho ficado morto de medo.
No meio da manhã, chegamos à curva do Horyn, mas temos que esperar
até escurecer para arriscar-nos à travessia. O rio é muito largo. Precisaremos de
pelo menos 20 minutos para remar para o outro lado e fazendo muita força nos
remos.
O barco de borracha está onde o deixamos; abrimo-lo e o preparamos para
encher. Deitamos embaixo da espessa mata e tiramos um cochilo. De vez em
quando, jogamos dados e comemos umas latas de conservas.
Porta quer fazer um café, mas o Velho proíbe. O tempo custa a passar,
quando você tem que ficar esperando chegar a escuridão. Não ousamos mover-
nos muito com receio de sentinelas escondidas ao longo do rio. O terreno
parece vazio e deserto mas um batalhão inteiro poderia esconder-se por ali. Um
comando atrás das linhas inimigas não se pode permitir tornar-se descuidado
por um só segundo.
Tiny levanta subitamente a cabeça, escutando.
– O que há? – pergunta o Velho, levantando-se nos cotovelos.
– Há um maldito bando completo de ateus vindo nesta direção – resmunga
Tiny, olhando pela estrada abaixo. – Pelo menos uma porra de uma companhia
deles. E vêm como se Jesus os estivesse expulsando com um chicote do maldito
Templo!
– Tem certeza? – pergunta Heide, duvidoso, agarrando com mais força a
LMG.
– Claro que estou absolutamente certo! – responde Tiny, carrancudo. –
Alguma vez você viu a porra de meus ouvidos se enganarem?
O resto de nós podemos ouvi-los agora. Uma coluna de bom tamanho está
vindo, dirigindo-se diretamente para nós.
– Espalhem-se – ordena o Velho, enérgico. – Procurem camuflar-se com os
galhos e as folhas, e ninguém dê um tiro enquanto eu não fizer o sinal!
Agora podemos ouvir claramente o bater das armas. Cantis chocando-se
contra depósitos de máscaras contra gases; os sons que identificam uma coluna
em marcha.
O suor corre-me pelo rosto. Meus dentes batem como castanholas. Não
temos a menor chance, se eles nos acharem.
– Kamppanjija, pjenje!*
===============
* (em russo); Companhia, Cantar.
===============
Exatamente em frente a nós, eles começam a cantar:
Ty obiciala
mene u wik lubyty
ni s kim ne znatys,
y iosich curatys
Idla mene syty*
===============
*(em russo): Você me prometeu
Para sempre me amar,
Nunca amar um outro,
Virar-se para qualquer outro,
Viver para mim somente!
===============

Quando a companhia cantando passou por nós, o Velho ordenou ao


Legionário para verificar se as sentinelas ao longo do rio haviam sido
reforçadas.
Rapidamente, ele despe seu capote, põe de lado todas as armas, empurra
sua faca de combate na bota e desaparece silenciosamente entre os juncos.
Passam-se quase duas horas e nós começamos a pensar se os russos por acaso o
pegaram, quando ele chega, com a respiração ofegante.
– A 30 metros da barranca aqui adiante há um tolo roncando num buraco –
informa o Legionário, dando uma cusparada no rio. – Um pouco mais adiante
um outro como ele. Também roncando! Dei uma volta pela floresta e quase
esbarrei com um outro, com uma LMG. Merecia que a roubassem dele: roncava
tão alto que poderia ser ouvido à distância. Merde, alors, eu estava tão perto
dele que até um sueco surdo poderia ter-me ouvido!
– E eles os chamam de soldados! – diz Tiny, em tom de desprezo. –
Roncando quando estão de guarda! Eles merecem ter suas gargantas cortadas,
como não!
– Acabem com eles! – ordena o Velho.
Vinte minutos depois, as sentinelas estão mortas. Arame é rápido e
silencioso ao estrangular.
Cautelosamente, colocamos o bote na água. A corrente é tão forte que nos
carrega bem para diante com ela.
Um grito rouco parte da margem oposta:
– Stoi kto!*
===============
* (em russo): Alto, imediatamente!
===============

Uma Mpi abre fogo. O atirador aparece claramente contra o barranco


arenoso.
Porta mata-o com uma curta rajada. Nós já estamos a caminho, fora do
bote, quando se ouvem gritos da margem de onde viemos.
– Germanski, idisodar! – Ouve-se um som surdo imediatamente após e um
sinal luminoso sobe no céu noturno. O rio e ambas as margens colorem-se de
vermelho sanguíneo.
Abrigamo-nos atrás do bote até que o sinal luminoso tenha se apagado,
mas logo após um foguete de sinal espalha estrelas verdes e vermelhas por todo
o céu.
Mais adiante por detrás dos bosques, uma série completa de foguetes sobe
ao ar.
– Que, diabo, eles estão querendo? – murmura Porta, assustado, olhando
para a chuva de luz de um foguete de sinal.
Esvaziamos o bote rapidamente e o empacotamos; temos que leva-lo
conosco para cruzar o Slutsch. Sem um bote jamais poderíamos fazê-lo.
O comissário tenta escapar mas Porta o apanha e joga-o ao chão. O laço é
de novo apertado em torno do pescoço do prisioneiro; tínhamo-lo afrouxado um
pouco, mas ali está de novo a prova de que não se deve nunca diminuir a
vigilância em batalha.
– Se eu fosse ele preferiria ser morto aqui – diz Búfalo. – Quando os
homens da SD o pegarem vão cozinhá-lo vivo em sua própria gordura!
– Temos nossas ordens – diz o Velho, laconicamente. – E vamos cumpri-
las. Depois, eles poderão fazer o que quiserem com o prisioneiro. Ele não teve
piedade do Primeiro-Tenente Strick e dos dois outros!
Cruzamos o Slutsch sem problemas e continuamos rapidamente para diante
através da floresta, depois de destruir o bote.
Durante a noite, alcançamos a margem dos pantanais. O Velho determina
que seja mandada uma mensagem para o QG do regimento.
Heide prepara o transmissor. A chamada completa-se rapidamente.
Esperam-nos de volta no curso das próximas 24 horas.
– Eles devem ter guardas de segurança por aqui, bien sûr que si – diz o
Legionário. olhando cuidadosamente para a densa vegetação de juncos.
– Sem dúvida alguma! – concorda o Velho, em curtas palavras. –
Mantenham distância um do outro, seus infelizes! Quantas vezes tenho que
dizer-lhes isso?
Como usualmente, Porta vai à frente, junto com o urso. Subitamente
levanta a mão, fazendo-nos sinal para parar.
Sem uma palavra, a seção joga-se no chão pantanoso. As rãs coaxam com
um barulho de ensurdecer. Peixes pulam na água verde e lodosa. A distância,
uma metralhadora pipoca. Estamos chegando próximo à linha de frente.
– Stoikto! Quem vem lá? – soa um duro grito em frente a nós.
– Onde, diabo, está ele? – fala baixinho Porta, agarrando-se bem ao urso,
que mostra os dentes e arrepia os pelos do pescoço.
– Dê a senha! Quem está aí?
– Camarada com a sífilis de Leningrado – grita Porta, alegremente, em
russo.
– Senha! – insiste, teimosa, a sentinela de dentro da mata fechada.
– Esqueci-me, companheiro; que tal Job tvojemadj? – diz Porta, rindo alto.
– Qual é sua unidade, seu conversa-fiada?
– Tanques, querido! – grita Porta em sua voz alta que ecoa na floresta.
– Regimento?
– 87º de Guarda – fala Porta, desinteressado.
– Nome do comandante?
– Coronel Cabeça de Bagre – grita Porta, em resposta. – Ele nunca teve a
delicadeza, dadja, de se apresentar a mim!
– Levante-te, seu aborto de Leningrado; você fala como um finlandês
fascista! Levante as mãos bem para o céu ou eu lhe meto uma bala!
Porta fica de pé, deixando sua Mpi no chão, Atirar do ponto onde ele se
encontrava seria suicídio.
– Quieto! – sussurra o cabo para Rasputin. – Fique quieto. Abaixe! Abaixe!
O urso compreende-o e achata-se no chão atrás de uma pedra.
– Avance, seu filho da puta maluco! – grita a invisível sentinela.
Porta avança dois passos, vagarosamente.
– Alexis, de um pulinho até aqui – grita a sentinela. – Está aqui um palhaço
de um soldado de tanques de seu regimento que nem sabe o nome do
comandante. Você deve conhecê-lo!
Porta permanece no mesmo lugar, com as mãos atrás da cabeça.
Uma Mpi dispara. Quem atirou, o Velho nunca descobre.
Porta atira-se no chão, como um raio, sem sair do lugar.
– Germanski, Germanski! – ouve-se o grito histérico de todos os lados em
volta de nós e uma tempestade de fuzilaria se inicia.
O Legionário dá um grito agudo e cai. Seu ombro esquerdo foi
despedaçado. A garganta também foi atingida e o sangue esguicha como de
uma fonte.
São necessárias minha atadura de campanha e a dele para estancar o
sangue.
Tiny e Búfalo atiram-se para a frente como avalanches, atirando com suas
metralhadoras junto à cintura.
Uma sentinela, sentada num buraco, é morta por um chute no rosto.
Rasputin pensa que algo aconteceu a Porta. Com um surdo ronco raivoso,
ele se lança para a frente nas quatro patas e literalmente esmaga uma sentinela
russa.
A floresta está cheia de russos; retiramo-nos em direção ao pantanal,
atirando tão rápido quanto podemos.
A noite cai. Foguetes de iluminação sobem para o céu explodindo com seu
som surdo acima do topo das árvores. A floresta está tão clara como o dia.
Atiro uma granada de mão passando por cima de Porta, que está entre os
fogos cruzados de duas MGs. A granada cai direto num dos ninhos de
metralhadora e esta é jogada para o ar. A munição explode num longo estrondo
oscilante.
Corremos para diante. Rasputin parece ter enlouquecido; sua cabeça e seu
peito estão cobertos de sangue. Ele bate e morde os corpos mutilados.
Finalmente, conseguimos livrar-nos.
Arrastamos o Legionário conosco numa lona. Perdeu tanto sangue que não
mais pode ficar de pé; na maior parte do tempo permanece inconsciente.
Quando acorda, geme de partir o coração; pensa que seu braço foi arrancado.
De nada adianta mostrar-lhe que o braço ainda está no lugar. Mas ele tem sorte:
a bala explosiva atingiu sua arma. Se houvesse atingido diretamente o ombro,
teria arrancado todo o braço.
Uma vez dentro do pantanal, temos condição de descansar um pouco. Um
silêncio ameaçador pesa sobre nós. Não podemos entender para onde foram os
russos, mas eles não podem estar muito longe. Nada se ouve a não ser o coaxar
das rãs.
– Deve haver milhões dessas criaturas – diz Porta, em voz baixa.
– E como são barulhentas – completa Gregor.
Um luminoso eleva-se para o céu. Rapidamente, abrigamo-nos entre os
juncos e ficamos quietos como ratinhos. O menor movimento pode ser visto
com aquele brilho. O urso, no entanto, fica nervoso e se levanta em suas patas
traseiras.
Uma Mpi dispara. Rasputin dá um grito selvagem e cai para a frente.
Porta atira-se na direção dele, ignorando as balas. O urso geme como uma
criança; todo um lado de sua cabeça foi arrancado. Amorosamente, ele lambe o
rosto de Porta, enrola-se numa bola e morre.
Mais dois artifícios de iluminação sobem, mas seu ruído morre
vagarosamente.
– Ivan vai pagar por isto – diz Porta, com a voz sibilante. – Vou cortar a
garganta de cada um desses filhos das putas ateus que eu encontrar de agora em
diante!
Nenhum de nós diz nada. Nós o compreendemos. A seção já gostava
daquele urso. Nós o arrastamos conosco numa lona; é pesado mas
conseguimos. Não suportamos a ideia de deixá-lo para trás como se fosse parte
do lixo da batalha.
Um pouco para trás de nós, incisivos gritos de comando são ouvidos e
armas automáticas disparam. Aparentemente, eles estão mantendo sua coragem
gritando e disparando suas armas. É estúpido da parte deles; tudo o que estão
conseguindo é fazer-nos saber onde se encontram.
– Em breve, deveremos atingir a trilha através do pantanal – diz o Velho,
cansado e desanimado.
– Espero que não tenhamos passado por ela – comenta, preocupado,
Gregor.
Porta está completamente derrubado pela morte de Rasputin. Seu fluxo
usual de conversa estancou. Ele nem responde às perguntas que lhe fazem.
Toda a hora vai até o urso morto e passa carinhosamente a mão por seu lombo.
– Temos que tirá-lo desse desânimo antes que ele fique biruta – fala o
Velho.
– Uma mulher daria um jeito nisso – diz Tiny, que nunca pensa em outra
coisa.
Finalmente, encontramos a trilha através do pantanal. Quando pisamos
nela, a trilha se move sob nossos pés como uma embarcação recebendo peso. É
preciso tomar cuidado; um passo em falso e você cai dentro do charco e está
perdido. Em alguns segundos, a lama verde e mole fecha-se sobre você. Para
sempre!
– Cessar fogo! Cerrar fileiras! – ouve-se gritar uma voz gutural por detrás
de nós. – Estes porcos alemães não podem ter chegado até aqui!
Luminosos são lançados. como pequenos cometas, por sobre a floresta e o
pantanal; uma metralhadora despeja uma longa descarga logo atrás de nós.
O Legionário acorda e lança um estridente grito. Gregor tampa-lhe a boca
com a mão, mas é muito tarde; eles devem tê-lo ouvido.
– Ali! Para a frente! Vamos pegá-los vivos!
Desatarraxo a cabeça de duas granadas e examino meu Tokarew, Vou
precisar dele para mim mesmo. Nenhum de nós deseja cair vivo na mão dos
russos; sabemos o que nos espera atrás das linhas cm uniforme do inimigo.
Tiny coloca o Legionário em seus ombros; é mais rápido do que puxá-lo
atrás de nós. Temos que tomar cuidado para não bater com ele em obstáculos.
Apressamo-nos ao longo da trêmula trilha.
– Eles só podem prosseguir através do pantanal – ouve-se alguém dizer à
nossa retaguarda. – Seção Dobroschin, fazer uma linha de fuzis! Para a frente,
seus preguiçosos!
O Velho levanta a pistola de sinalização acima da cabeça e dispara dois
sinais, um imediatamente após o outro; no céu aparecem seis estrelas
alaranjadas que podem ser vistas a quilômetros de distância.
– Deitem-se – ordena-nos ele. Mas já se ouve um som arrastado corno o de
um longo trem de carga atravessando um túnel.
Uma SMG late perigosamente, mas seu matraqueado é abafado pela
explosão das primeiras granadas. Floresta e pantanal são cortados por uma
parede de fogo. Ferro e terra elevam-se para o céu em frente a nós; árvores
inteiras voam como dardos pelo ar.
O Velho mandou seu sinal exatamente como planejado; ele é um mestre
nisso.
– Pelo menos desta vez eles acertaram na mosca! – Gregor elogia a
artilharia.
A seção continua a rastejar. Temos que manter-nos à frente da barragem
progressiva de granadas se queremos que ela nos proteja e ajude a regressar.
– Em breve, estaremos em casa agora, companheiro – sorri Tiny, maldoso,
empurrando o cano de sua Mpi nas costelas do comissário. – Eles vão capá-lo!
Adolf não gosta que filhos da puta como você engravidem as moças!
– Adolf não entende nada disso – diz Gregor, com toda a falta de respeito.
– O pinto dele parou de crescer, quando ele tinha sete anos!
– Ouvi dizer que ele se alivia olhando para fotos pornográficas que um
companheiro dele do Partido manda-lhe da Escandinávia em pacotes da Cruz
Vermelha – conta Tiny, alegremente.
– Calem a boca – rosna o Velho, azedo, – Ainda não voltamos!
– Matem-mc! – pede o Legionário. – Não aguento mais!
– Vamos mandar examinar sua cabeça, companheiro, quando voltarmos –
diz Tiny. – Você irá para o hospital de qualquer maneira. Em breve, eles
colocarão você novinho em folha. Quando estiver deitado por lá, com aquelas
porras putinhas BDM* passando talco em sua bundinha, você irá gostar!
Uma bateria de órgãos Stalin despeja foguetes. Parece que o próprio núcleo
do mundo está explodindo sob nós. Uma área da floresta é literalmente
arrasada.
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*BDM (Bund Deutscher Mädels): Associação de Moças Alemãs.
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A artilharia alemã continua a atirar sobre as posições russas, a fim de
manter a infantaria nas trincheiras e ajudar-nos a atravessar o front. Os russos
têm uma resposta para isso: eles atiram não só com os morteiros e os órgãos de
Stalin, mas também com sua pesada artilharia de campanha.
Pesadas fumaças sulfurosas atacam nossas gargantas e pulmões.
O cheiro de TNT enjoa-nos. Vomitamos. E como se estivéssemos sendo
estrangulados no fedor pestilencial do alto explosivo.
Uma granada explode perto e jatos de terra são levantados; milhares de
estilhaços brilhantes de aço assobiam pelo ar.
Atiro-me de cabeça para dentro de um buraco de granada quente e
fumegante– Minha garganta arde e meu nariz parece uma ferida aberta. É como
se todos os demônios do inferno tivessem sido soltos de uma só vez e tentassem
virar a terra de dentro para fora. Árvores, pedras, terra, cabanas são jogadas
para cima, caem, e de novo são jogadas para cima.
Tiny agarra um cantil de couro de um cadáver, quando passa por ele
correndo à procura de uma cobertura. Numa cascata de lama, ele rola para
dentro de um buraco de granada. Cheira desconfiado o conteúdo do cantil.
– Ah! Extrato de urina de puta turca! – declara ele, com conhecimento de
causa. – Mesmo assim, algo melhor do que nada!
– Com um arroto, ele passa o cantil adiante. – Por Deus do céu! Como isto
escorou meu orgulho patriótico! – declara ele. – Não há nenhum Deus senão a
Alemanha e Adolf é seu profeta!
– Anotei isso – grita Heide, indignado. – O cadafalso nacional socialista
tremerá de prazer, quando você estiver balançando nele!
Bolas vermelhas de luz elevam-se ao longo de todo o front, mandando para
baixo estrelas por sob o céu escurecido. As granadas estão caindo em uma
barragem fechada, de proteção, como uma parede de fogo e aço subindo da
terra. O mundo explode. Milhares de vulcões nascem continuamente.
Com a cabeça bem abaixada, corremos para a frente, atravessamos os
bloqueios de defesa do inimigo, atirando granadas para trás. As metralhadoras
atiram. Uma longa fileira de minas explode. Estamos então já nos últimos
limites do pantanal.
Um guarda-chuva de foguetes providos de paraquedas desce para o chão,
iluminando a noite como se fosse um dia claro de verão.
– Ldisodar charoscho, germanski* – ouve-se atrás de nós.
===============
* (Em russo): Venham aqui, depressa. Alemães.
===============
Eles conhecem o pantanal e estão em nossos calcanhares. Esta é a maneira
como eles se aproximam, quando saem para pegar prisioneiros.
O Velho para, respirando com dificuldade e levando a mão
ao coração. Está quase entregue. Também ele é muito mais velho
do que nos todos.
– Granadas na cara deles! Tão logo... eles, –. mostrem os malditos focinhos
através dos juncos. –. – ordena ele, arquejante.
Jogo a primeira granada, mas ela explode no charco e não causa dano
algum.
Porta se coloca atrás do corpo do urso morto. A MG-42 matraqueia
sinistramente– Rajadas curtas e bem apontadas atingem os perseguidores que
vêm à frente, jogando-os dentro do lamaçal.
Jogo outra granada que explode no meio de um grupo de inimigos.
Gritos angustiosos rasgam o ar.
Porta manda uma rajada que Corta como uma foice os soldados que estão
amontoados entre os juncos.
Retiramo-nos em lances curtos. Correnios-voltamos-nos e atiramos,
corremos de novo,voltamos e atiramos!
Um estilhaço de granada rasgou o braço do comissário. O sangue corre-lhe
por sobre a mão. Ninguém lhe dá atenção. Não vale a pena. De qualquer forma,
vão enforcá-lo.
Aprontamo-nos para a última arrancada. Estou a meio caminho de
ultrapassar uma trincheira baixa, quando o Velho dá um grito agudo e escorrega
para baixo. Aterrorizado, dirijo-me a ele.
Parece muito mal. Suas costas são uma única ferida. A carne rasgada,
roupas, ossos, couro e sangue. Olha para mim com um fraco sorriso nos lábios.
Acendo um cigarro e coloco-o em sua boca. Heide pula para nosso lado,
abrindo uma atadura de campanha ao chegar. Depois Porta. Pensamos a ferida
tão bem quanto podemos e carregamos o Velho todos juntos. Nem sentimos o
fogo de infantaria concentrado.
– Vou cortar o maldito comissário filho da puta em tirinhas – rosna Tiny,
explodindo de raiva. – Tudo foi culpa desse maldito, sujo, podre traidor!
– Levem-no de volta vivo – geme o Velho, cheio de dores. – Heide, você
fica responsável!
O Velho sabe o que está fazendo. Heide é um escravo dos regulamentos.
Ele preferiria ser rasgado em pedacinhos a não obedecer estritamente a uma
ordem.
Subitamente, aparecem capacetes familiares e uniformes de camuflagem
verde-amarelados em volta de nós. Estendem-se mãos para ajudar-nos a descer
para as posições.
– Nossa Senhora de Kazan! Conseguimos! – geme Porta e deixa-se cair no
fundo da trincheira. Oferecem-nos garrafas d’água. Cigarros acesos são
empurrados nos nossos lábios gretados. Como um relâmpago, a notícia corre ao
longo das linhas.
– Eles voltaram e o trouxeram!
O médico do regimento cuida pessoalmente do Velho e do Legionário. São
imediatamente levados para a retaguarda, e tão rapidamente que quase não
temos tempo de dizer-lhes adeus.
Barcelona assume a seção, e a nº 2 fica satisfeita com a escolha Ele nunca
poderá substituir o Velho, mas tem a experiência que é necessária para um bom
líder de seção.
O comissário é levado direto para o QG do regimento, onde dois oficiais
SD o aguardam impacientemente. Um deles, Sturmbannführer Wall, solta uma
porção de impropérios em linguagem suja e o esbofeteia.
O Coronel Hinka coloca-se entre os dois.
– Eu dou as ordens aqui, Sturmbannführer! – diz ele, energicamente,
empurrando o oficial SD para trás.
– Manda? – rosna Walz. –– Se não estou mal informado acerca deste caso,
o prisioneiro é um comissário político e um desertor da Reichswehr* – Em
outras palavras, isto e um assunto político de nenhuma importância militar.
===============
* Exército alemão antes de Hitler.
===============
– Talvez pudesse ser encarado desta maneira – diz, hesitante, Hinka.
– Então estamos de acordo? – sorri, friamente, o Sturmbannführer. – O
prisioneiro é da responsabilidade do RSHA; aceitarei tal responsabilidade e irei
com ele para Berlim.
– Lamento muito! O prisioneiro permanece aqui até que eu receba uma
ordem por escrito, com relação a seu destino, de meus superiores.
– Tenho tal ordem aqui, Herr Oberst, e espero que o senhor a obedeça –
exclama Walz, triunfante.
– Aceito ordens apenas de meu general-comandante ou do Comandante do
Quinto Exército Panzer – afirma o Oberst Hinka, bruscamente.
– Devo entender então que o senhor se recusa a entregar-nos este
prisioneiro? – pergunta o oficial SD ameaçadoramente, dando um passo em
direção a Hinka.
– O senhor entendeu-me corretamente, Sturmbannführer – sorri Hinka,
sentando-se à vontade na beira da mesa.
– O senhor compreende, Herr Oberst, que este negócio pode custar-lhe
caro? – rosna Walz, vermelho como um peru.
– Penso que o senhor pode deixar isto por minha conta – responde Hinka,
acendendo tranquilamente um charuto.
O oficial SD morde os lábios. Evidentemente tem muita dificuldade em
controlar-se mas sabe que não pode, por enquanto, sobrepor-se a Hinka.
Faz a si mesmo a promessa pessoal de cuidar desse pomposo oficial da
Wehrmacht dentro de pouco tempo. Não está longe o dia em que todo o poder
estará nas mãos do SS-Reichsführer.
– O senhor me permite interrogar o prisioneiro?
– Não!
– O senhor compreende o que está dizendo? – pergunta Walz, estupefato. –
O senhor pretende sabotar o trabalho dos serviços de segurança?
– Quando o senhor me trouxer uma ordem devidamente assinada do
general-comandante, eu me colocarei imediatamente a seus serviços.
– Pode estar seguro de que lhe trarei uma ordem devidamente assinada. –
Sorri com ar perigoso o oficial SD, vestindo vagarosamente suas luvas. – O
senhor ouvira falar de nós, Herr Oberst, e não está fora dos limites da
possibilidade que o senhor acompanhe seu prisioneiro quando ele partir. No
momento, o senhor só pode ser visto como um oficial que tentou obstruir o
trabalho dos serviços de segurança.
Ele volta-se para o lado do prisioneiro, que está de pé entre dois guardas da
PM.
– Nós vamos enforcá-lo 20 vezes antes que você morra! Vamos fazê-lo
implorar pela morte! – E cospe com desprezo no rosto do comissário.
Um segundo após, o punho do comissário atinge em cheio as refinadas
feições do oficial SD, e o sangue espirra de seu nariz quebrado.
Três tiros ecoam um atrás do outro. O comissário cai no chão estertorando.
Uma grande poça de sangue estende-se por debaixo de seu corpo.
Por um momento, estabelece-se uma grande confusão. Os PMs puxaram
suas pistolas, mas não podem decidir quem atirou.
O Coronel Hinka permanece sentado, balançando, descuidado, uma perna.
O ajudante acende um cigarro e começa a soprar anéis de fumaça para o teto.
– Lohse, você é o maior idiota deste mundo! – grita o Sturmbannführer
Walz a seu companheiro. – Por que, diabo, você tinha que atirar naquele
comunista? O que vou dizer em Berlim?
– Talvez que o Hauptsturmführer Lohse liquidou um valioso prisioneiro! –
diz o Oberst Hinka de modo amável, rearranjando o braço vazio de seu
uniforme.
– Vou ter que dar parte disto, Lohse – grita, enraivecido, Wal? – Você já
está na SD há muito tempo! Vão permitir que você continue atirando, posso
assegurar-lhe disso! Mas você irá para a Brigada Dirlewanger*, e lá vai
começar por baixo!
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Dirlewanger Brigade: Conhecida Brigada Penal da SS
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Eles saem sem dizer até logo.
Uma hora mais tarde, o comissário é enterrado, um pouco para dentro da
floresta. Uma tábua com seu nome é enterrada no solo.
O povo sempre tentará encontrar os aspectos positivos de todas as
circunstâncias que, nelas próprias, não são suscetíveis de mudança.

Josef Stalin a Molotov, julho de 1937

A prisão de trânsito de Osmita, que fica quase cinco quilômetros para fora
da cidade de Chita, tem a reputação de ser a prisão mais “segura” do mundo.
De qualquer forma, é a mais sinistra e a mais feia, construída de grandes
blocos de cantaria cinza-escuro. Não e uma prisão no sentido verdadeiro, na
qual os prisioneiros cumpram sentenças, mas um caravançará para aquela
enorme massa de carga de seres humanos que se escoa através dali de toda as
prisões da Rússia em direção à Sibéria.
Em Osmita o prisioneiro encontra, pela primeira vez, o maior caçador de
homens do mundo, o pequeno e sorridente soldado dos comboios siberianos
com a temível nagajka pendurada no ombro. Na maior parte do tempo, ele está
vestido com um grande casacão cinzento que lhe cai até os tornozelos e um alto
boné branco de cossaco com um tampo vermelho, no qual está inserida uma
cruz verde. A despeito de sua pequena estatura, há algo aterrorizante nele. Um
Kalashnikov, com seu tambor circular de balas, está pendurado no peito. Na
ilharga, há um sabre cossaco numa bainha de couro preto. Na sua frente, sobre
o peito, aparece um coldre negro aberto, do qual se projeta a coronha de uma
pistola Nagan. A arma está presa a um cordão branco que passa por ambas as
ombreiras e desce pelo peito.
Quando os prisioneiros chegam a Chita, são entregues à custódia desses
homenzinhos com a cruz verde em seus gorros. É uma experiência chocante
para a maioria deles. Nos trens-prisão para Chita só era permitido aos
soldados baterem nos prisioneiros com ordem de um oficial, mas os
homenzinhos com a cruz verde têm permissão de usar a temida nagajka sob
sua própria responsabilidade e tão logo eles assumem o controle dos
prisioneiros, a nagajka
Começa a assobiar pelo o ar, espalhando terror onde se abate. Antes e o
comboio ter chegado a Osmita, os mais fracos já foram chicoteados até
morrer.
O que acontece dentro dos muros da prisão de trânsito ninguém realmente
sabe.
Os prisioneiros são, de qualquer forma que isso seja Conseguido,
treinados para uma obediência de animais. Quando partem, três Semanas mais
tarde, transportados em centenas de trenós, todo o vestígio de vida
desapareceu de seus rostos:
Estes pequenos soldados-policiais ficaram famosos desde que o grande
deserto siberiano tornou-se o maior centro de extermínio do mundo.
Pelo menos quatro milhões de prisioneiros de guerra alemães passaram
por Chita e foram “educados” em Osmita sob o látego mordente da nagajka,
antes de ser enviados para as minas ao longo do rio Kolyma, na Sibéria, ou
para os acampamentos que se espalham em torno de Novaya Zemla. Apenas
uma porcentagem muito pequena deles voltou para a Alemanha depois da
guerra.
FOI ASSASSINATO?

O Hauptfeldwebel Blatz aventurou-se até a linha de frente para verificar


nosso consumo de munição que ele julga ser alto demais. Em termos gerais,
não está satisfeito com o estado de disciplina entre os homens na linha de
frente. Queixou-se ao NSFO que, para horror dele, mandou-o fazer uma
inspeção no comando das trincheiras.
No dia em que Blatz chegou, o front está inteiramente quieto. Os primeiros
que ele encontra são alguns feridos leves que estão num abrigo.
– Malditos blefadores – grita ele. – Vou esquentar-lhes os rabos de tal
forma que se poderiam fritar ovos neles! Para fora! Em frente, marchem,
marchem! Seus filhos de abutres! – Ele os segue ao longo das trincheiras, fa-los
pular para a frente, com os joelhos dobrados e o fuzil estendido para diante, e
rastejar num perigoso trecho aberto. Estranhamente não há atiradores alertas
nesta manhã particular.
– Onde estão todos esses atiradores de escol siberianos? grita Blatz,
triunfantemente. – Mentiras! Isto é o é! Relatórios arranjados e mentirosos, mas
eles a mim não enganam! Vocês precisam me conhecer melhor! .lá está em
tempo de haver Umas cortes marciais por aqui!
O sangue aparece nas ataduras dos homens feridos; quando alguns chefes
de seção se queixam, são asperamente repreendidos.
– Para mim um homem ferido é um homem que não se pode mover!
Qualquer coisa a menos é simulação! Sangue, vocês estão dizendo?
Antigamente, costumava-se sangrar os doentes. Era saudável! Da mesma
forma, hoje em dia. Sangue demais torna um homem preguiçoso!
Um pouco mais tarde, Blatz decide inspecionar os postos de MG
avançados. Era capaz de ter sorte bastante para dar com um crime que
acarretasse pena de morte.
Finalmente, chega à SMG mais avançada. Mesmo à distância, pode ouvir
um ronco que parece um trovão. Vibra de excitação e regozija-se com a ideia
de prender a sentinela adormecida.
Cuidadosamente, trepa pelo parapeito e deixa-se cair na estreita trincheira
de comunicação. No fundo da trincheira, está a sentinela enrolada numa bola
como um cachorro molhado. Não só está dormindo como teve o arrojo de
enrolar-se numa pele de carneiro e colocar um pequeno travesseiro azul de
penas por sob a cabeça.
Pendurado em cima da metralhadora, está um pedaço de papelão no qual,
com letras grandes e desajeitadas, está escrito:
QUERIDO SENHOR HAUPTFELDWEBEL
POR FAVOR PASSE EM SILÊNCIO!
NÃO PERTURBE ANTES DAS 13 HORAS!
MUITO OBRIGADO, SENHOR!
SEU OBEDIENTE SERVO
OBERGEFREITER WOLFGANG CREUTZFELDT
Blatz não sabe se grita ou chora. Escolhe a primeira opção, que é a arma
experimentada e certa de todo o subalterno quando numa dificuldade. Apenas
continue gritando por tempo suficiente e algo ocorrerá...
Tiny abre um olho e põe um dedo nos lábios.
– Ei! Pare com essa gritaria, homem! Você não vê como estou tentando
tirar uma tora?
– Você está dormindo no posto de serviço! – berra Blatz numa voz que, de
raiva, falha-lhe algumas vezes.
– Naturalmente que estou dormindo! O que há de mal em dormir agora? –
diz Tiny, com um largo sorriso.
– Você admite na minha cara que está dormindo no posto de serviço de
sentinela?
– E por que não estaria? Estava dormindo! E tendo um belo sonho! O
Hauptfeldwebel lá estava, pendurado num arame, e nós nos divertíamos com
ele, com nossos fuzis. Cada vez que acertávamos na mosca, você dava um pulo!
Exatamente como um daqueles bonecos que pulam e que são feitos na Saxônia!
Você sabe!
– Dormir em seu posto de sentinela vai-lhe custar a cabeça, homem! – grita
Blatz, triunfante. – De pé! Você está preso! Nós não temos muita cerimônia
com porcos como você, Creutzfeldt; vai ser submetido a uma corte sumária
quando voltarmos para a companhia e dos três juízes dois vão ser eu e o
comandante da companhia! Você será fuzilado, Creutzfeldt, nós lhe
garantiremos isso!
– Por que o Hauptfeldwebel continua dizendo “nós”? Talvez exista mais do
que um de você? Talvez o Hauptfeldwebel esteja contando com os chatos?
– Você não perde por esperar, seu porco! – exclama Blatz, seguro de si.
– Se o Hauptfeldwebel já está cansado de viver, eu o aconselharia a manter
a cabeça levantada, como está fazendo agora. – Tiny sorri. – Os atiradores
siberianos ficarão felizes de meter-lhe uma bala na cabeça sem qualquer
cerimônia. Faz-me lembrar de um cachorro que tive uma vez... – diz ele,
pensativo.
– Ponha-se logo de pé – berra Blatz, fora de si. – Você está falando com
um superior! E está preso, homem! Se tentar fugir, uso minha arma, e será um
prazer usá-la em você!
– Você bateu com a porra de sua cabeça em alguma coisa quando vinha
para cá? – pergunta Tiny, subitamente parando com sua pantomima. – Parece
uma porra de um bacalhau da Noruega que se perdeu a caminho da Suécia.
Prisão, corte sumária, pelotão de fuzilamento, fuzilado ao tentar escapar... Tudo
isso de acordo com seu maldito regulamento, não ê? Escute aqui, seu merda de
uma desculpa para ser subalterno! Você vem para cá para chutar a porra dos
porcos das trincheiras no rabo e pensa que pode fazê-lo sem problema? Nós
sabemos o que você era antes de juntar-se a esse clube, filho! Um fodido
removedor de merda de um maldito bando de girafas no Zôo de Berlim! Isto é o
que você era!
– Como você sabe... – exclama, atônito.
– Que diferença faz para você? Eu sei e isto é o bastante, seu gorducho! E
há outra coisa que também sei! Você jamais irá ver de novo aquelas girafas!
O sorriso de Tiny tornou-se perigoso, com seus lábios apertados.
– Você está preso – repete, nervoso, Blatz, levando a mão ao coldre da
pistola.
– Tire os dedos dessa pistola de brinquedo! – Tiny levanta o cano de sua
Mpi, ameaçadoramente. – Não tente nada. Nesta coisa aqui há balas explosivas.
Será que você gostaria que seus bagos lhe fossem enfiados pela goela adentro,
Blatz?
– Você está ameaçando um superior? Isto é motim! Levante-se!
Tiny levanta-se vagarosamente e, de súbito, Blatz verifica como ele é
grande.
– Agradaria muito bem a você, não é? – diz Tiny, com um ar malvado. –
Uma corte marcial com você e aquele frouxo do Hauptmann como presidente.
Sentença de morte! Bang! E como você gostaria de amarrar-me no maldito
poste com suas próprias mãos, não gostaria, seu saco de merda?
– Sim, e com certeza ainda o farei! – grita Blatz. – E colocarei a bala de
misericórdia em seu sujo corpo eu mesmo, também!
– Você já perdeu a cabeça, Blatz – diz Tiny, rindo barulhentamente. –
Porco enlouquecido, isto é o que você é! Olhe aqui! Não há ninguém, nem você
nem ninguém mais nessa porra desse Exército que vá amarrar o Obergefreiter
Wolfgang Creutzfeld a nenhuma porra de poste, mas ele é capaz de liquidar
com você e com mais alguns sacos de merda em uniforme como você. Você
não me prendeu, Blatz! Eu prendi você! Você sabia que eu era um comunista
secreto?
– Você está maluco, homem! – exclama Blatz, sentindo um frio subir-lhe
pela espinha. Será que ele está cara a cara com um assassino psicopata? Será
que essas histórias de assassinatos cometidos no front são mesmo verdadeiras?
Não, nenhum soldado alemão bem disciplinado iria fazer uma coisa dessas. –
Deixe-me passar – exclama ele, histericamente, tentando empurrar Tiny para o
lado.
– Que pressa é essa, companheiro? – diz Tiny, friamente. – Vamos
esclarecer alguns pontos antes. Você me prendeu, mas isso foi desaprovado.
Você queria uma corte marcial, nós a teremos aqui. Agora já a tivemos, e tive
que lamentavelmente sentencia-lo à morte. Assim, dentro de cinco minutos
você estará voando para longe do front todo vestidinho corno um dos malditos
anjinhos do Senhor!
– Você está ameaçando um superior seu e recusando-se a obedecer a uma
ordem. Exijo que me deixe passar! Sou seu sargento-mor e seu superior direto –
desabafa Blatz, com o pânico estampado nos olhos.
– Cale-se, seu lixeiro de merda de girafas! Você não é nada mais do que
uma porra de um cadáver tagarela! Vamos lá! Seja homem! Não é a primeira
vez que você toma parte numa execução. Você mesmo disse que muitas vezes
esteve em Morellenschlucht, mas suponho que não e um acontecimento tão
feliz, quando é sua própria execução na qual você toma parte!
– Você não ousaria! – geme Blatz, aterrorizado e parecendo encolher-se
dentro de si mesmo.
– Escute aqui, aborto de girafa, você não me deixou outra escolha na
questão, deixou? Você começou isto tudo. Foi você que começou gritando
acerca de cortes marciais e pelotões de fuzilamento, e toda a porra dessas
loucuras de guerra, e tudo porque eu estava tirando uma pestana! Sou contra
essa porra de pena de morte!
– Socorro, socorro, assassino! – grita Blatz, desesperado.
Tiny olha para ele com frio interesse.
– Eles conhecem essa sua voz de ambos os lados do front. Está pensando
que algum porreta virá para socorrê-lo? Quando você pulou aquele parapeito,
companheiro, todo o mundo sabia onde você iria acabar!
– Então isto é uma trama? – pergunta Blatz, desesperado.
– Como você fala, homem! Porta diz que nós todos estamos sentenciados a
morte desde o momento que nascemos. Deus o decide, e um grande anjo negro
com uma enorme espada flamejante vem a mim quando estou tirando minha
soneca ali e diz: “Hauptfeldwebel Blatz, o número dele foi sorteado/”
Blatz engatinha soluçando ao longo do fundo lamacento da trincheira.
– Camarada Creutzfeldt, não me mate!
– Camarada Blatz, é uma merda, mas tenho que fazê-lo! Fique de pé e
comporte-se direitinho, de forma que possamos fazê-lo rapidamente!
– Camarada, deixe–me viver! Tenho dois filhos em casa!
– Então você tem, camarada Blatz? Você nem é casado! Já-lhe disse que
sabemos tudo sobre você! Nunca trepou com coisa alguma a não ser com uma
girafa fêmea no Zoo de Berlim e nada resultou daquele esforço!
– Camarada Creutzfeldt, não se transforme num assassino comum! Sempre
gostei de você! Você é um bom soldado!
– Sim, e sempre reconheci isso – diz Tiny, rindo cordialmente, e aperta o
trêmulo Blatz contra ele. – Para o inferno com toda essa merda! Providenciarei
para que você tenha um enterro de herói, de forma que a Pátria e toda sua
família fiquem orgulhosos de você!
– Isto é um assassinato – grita o homem condenado, lutando
desesperadamente. Tiny agarra-o firme e, quando ambos estão bem por detrás
da SMG, Tiny faz com que o outro perca os sentidos.
– Agora chegou a sua hora – rosna Tiny para si mesmo, e levanta a cabeça
do homem desacordado acima do parapeito. Os atiradores siberianos estão de
novo atentos e põem quatro balas no rosto carnudo de Blatz.
Em breve, chega a rendição da sentinela.
– O que é isso? – pergunta Barcelona, espantado, apontando para o
cadáver. – Você não o terá matado?
– Pensa que sou biruta? – responde Tiny. – Por que deixar os vizinhos sem
ter o que fazer? Somos membros do mesmo sindicato, não é?
Heide dirige a Tiny um olhar suspeitoso ao inclinar-se sobre o corpo.
– O que você está procurando? – pergunta Tiny ameaçador.
– Marcas de um golpe de cutelo de mão – sorri Heide, venenosamente.
– Você sabe o que acontece a delatores, Julius? – pergunta Tiny, brincando
com sua Kalashnikov.
– Sei – responde Heide, olhando para os quatro buracos de bala com
interesse. – Sei também o que acontece a assassinos!
– Eu também – sorri Tiny. – Já tive na família. Guilhotina em Plötzensee!
É prático: uma pancada, e lá se vai seu pescoço!
– Quatro buracos – pensa Heide, em voz alta. – Ele deve ter ficado de pé
ali o dia inteiro! Eu procuraria uma boa explicação para isso se fosse você,
Tiny. Sei o que aconteceu mesmo sem ter estado aqui!
– Então, o que foi que aconteceu?
Heide pega o corpo e o levanta vagarosamente acima do parapeito. Um tiro
atinge a cabeça do morto. Desta vez é uma bala explosiva que lhe destroça toda
a cabeça.
Chocado, ele deixa cair o corpo e limpa os miolos que lhe caíram no rosto.
Porta ri como uma hiena.
– Você deu a Tiny uma ajuda pouco maior do que tencionava! As provas
desapareceram!
Heide olha, atemorizado, para o rosto esmagado do cadáver.
– Você é minha testemunha – grita ele, com raiva. – Vocês todos viram
aqueles quatro buracos!
– Não, Julius, não! – diz Porta, rindo. – Ele ainda estava vivo quando você
o levantou! Eu tomaria cuidado se fosse você, Julius, meu filho!
– Que bando de patifes! – rosna Heide, evidentemente nervoso.
Tiny iça o corpo com indiferença sobre o ombro. Na enfermaria de
campanha, ele o deixa cair aos pés do sargento-enfermeiro, que retira com
rispidez os discos de identificação e procura nos bolsos pertences particulares.
– Joguem este merda junto com os outros – ordena ele a seus assistentes.
Tiny dirige-se aos pulos, assobiando alegremente, de volta para o abrigo da
Seção nº 2, onde se encontra com Búfalo.
– Bom serviço, camarada! Está todo o mundo falando a respeito. Espero
que não se possa provar nada?
– Ninguém pode – diz Tiny, confiantemente. – Não quando você é do
Reeperbahn e teve o Chefe Nass como professor!
Naquela tarde, Tiny é chamado ao PC onde também está presente um
oficial-auditor.
– Você estava sozinho com o Hauptfeldwebel Blatz no posto de SMG. O
que aconteceu?
– O Herr Hauptfeldwebel deu-me uma bronca porque eu estava abrigado
por detrás do parapeito da trincheira.
– Havia tiroteio?
– Não, senhor, apenas se você fosse louco bastante para levantar a cabeça.
Por este motivo, é que eu me abrigava, senhor.
Tentei explicar isto para o Herr Hauptfeldwebel. Ele pareceu não acreditar
em mim e disse que eu era um filho da puta covarde e que estava com medo
dos untermensch. Disse para eu ficar em posição de sentido e eu fiquei. Uma
ordem é uma ordem, senhor!
– E você não foi atingido? – perguntou o oficial-auditor, olhando para ele,
desconfiado.
– Não, senhor! Fique em posição de sentido com meus joelhos encolhidos,
senhor. O Herr Hauptfeldwebel não queria acreditar que havia atiradores
escondidos como eu estava dizendo, senhor, e quis vê-los ele mesmo. Apontei
para ele onde os demônios de olhinhos fechados usualmente ficam com suas
armas e o Herr Hauptfeldwebel levantou a cabeça para dar uma olhada neles.
Se ele os viu ou não, nós nunca saberemos, não é, senhor? De qualquer forma,
subitamente ouve-se um tiro e lá se vai a cabeça do Herr Hauptfeldwebel,
senhor!
– Você não o segurou acima do parapeito, segurou? – pergunta o oficial-
auditor, ameaçadoramente.
– Senhor! – exclama Tiny, profundamente ofendido.
– Muito bem! Você e o Hauptfeldwebel Blatz não eram exatamente bons
amigos, não é? Pelo menos foi isto que ouvi dizer!
– O Herr Hauptfeldwebel tinha alguma coisa contra mim? – pergunta Tiny,
em tom admirado. – Eu gostava dele. Muitas vezes contávamos piadas um para
o outro.
O oficial-auditor encolhe os ombros, sacode a cabeça resignadamente e
olha de modo incerto para o Hauptmann Von Pader.
– Desapareça! Que Deus o proteja, se eu jamais encontrar uma prova
contra você.
Quando Tiny sai, Von Pader bate com o punho na mesa. – Tudo me diz
que foi um assassinato! Não se pode conseguir nenhuma prova? Será o dia mais
feliz de minha vida aquele em que eu vir esse horroroso sujeito amarrado num
poste em frente a um pelotão de fuzilamento.
– Melhor ainda – grita Von Pader. – Terei o prazer de ser testemunha.
– Herr Hauptmann, em primeiro lugar não temos um assassino...
– O Obergefreiter Creutzfeldt é um assassino – grita Von Pader, com um
brilho selvagem no olhar.
– Não mais do que eu ou o senhor. E apenas vontade que as coisas
aconteçam de sua parte. Não há prova. Pelo contrário. Creio que Creutzfeldt diz
a verdade. O Hauptfeldwebel Blatz agiria exatamente daquele tolo modo.
Von Pader serve conhaque e toma dois copos rapidamente.
Nem nota que o oficial-auditor sequer tocou o dele.
– Meu amigo – diz Von Pader confidencialmente, inclinando-se para a
frente por sobre a mesa. – Tenho conexões em Berlim, Você gostaria de servir
comigo em Berlim em breve? Apenas tenho que fazer uma inspeção no front,
onde haja um pouco de atividade. Depois disso, terei experiência de linha de
frente e posso partir.
– Não entendo bem o que o senhor quer dizer, Herr Hauptumann.
– Não poderíamos nós dois juntos fornecer prova de assassinato?
O oficial-auditor levanta-se rapidamente e veste seu casacão.
– Herr Von Pader, penso que o senhor é o mais infame suíno que jamais
encontrei! Tenho vergonha de vestir o mesmo uniforme que o senhor. Para sua
informação, cada palavra desta conversação será relatada ao Oberst Hinka.
Penso que o senhor terá necessidade de suas conexões em Berlim!
– Você não tem testemunhas – exclama Von Pader, com o rosto vermelho
como um peru.
– Veremos em quem o Oberst Hinka acredita. Você não tem feito amigos
em seu tempo de serviço no 27º Regimento Panzer.
O oficial-auditor bate a porta com tanta força que um pedaço branco de
reboco cai do teto.
O Hauptmann Von Pader pula sobre seu Kübel e corre até os sinaleiros em
Kowel, de onde coloca uma mensagem expressa para Bendlerstrasse.
Seu amigo, o SS-Brigadeführer Ahlendorf, Chefe da SD Inland, promete-
lhe uma imediata chamada para Berlim e uma colocação na SS.
No auge da alegria, Von Pader retorna para sua companhia e decide dar
uma olhada na linha de frente pela última vez. Quem sabe? Talvez ele possa ter
a oportunidade de acertar contas com Creutzfeldt.
– Para onde vamos, senhor? – pergunta seu motorista, o Obergefreiter
Bluhme.
– Para o front!
– Para onde? – exclama Bluhme, pulando de espanto; custa a acreditar em
seus ouvidos.
– Está com os ouvidos sujos, homem? Eu disse para o front!
– Para mim nada custa, senhor – diz, rindo, Bluhme, e dá partida no
veículo com uma velocidade que parece como se ele tivesse todo o interesse em
levar Von Pader para lá o mais breve possível.
– Guarde suas estúpidas observações para você mesmo!
Há uma agitação geral nas trincheiras, quando descobrimos que Von Pader
veio até nós.
Cheio de empáfia, ele passa através da trincheira de conexão, inspeciona os
postos avançados e observa através do periscópio. Então este era o baluarte
aguentando a onda mongol. Subitamente, ele se sente ser um homem maior.
Endireita seu novo capacete de aço.
– Onde está o inimigo? – pergunta a Barcelona.
– A 300 metros nesta direção – diz, sorrindo, Barcelona.
– Mantendo-se bem longe de nossas vistas, os porcos covardes.
Untermensch, isto é o que eles são.
– Não pense que eles já estão cansados da vida, senhor – diz Barcelona,
rindo. – Se o Herr Hauptmann fosse para o outro lado e olhasse através dos
periscópios deles, também nada veria deste lado. A não ser que fosse algum
idiota como o Hauptfeldwebel Blatz.
– Fique de boca calada – rosna Von Pader, irritado. Ele sente o coração
batendo fortemente no peito. Aqui está ele. Um oficial no Exército do Führer.
Um cruzado alemão lutando com as hordas pagãs da Ásia. Em surdina, ele
cantarola Wacht am Rheín.
Barcelona observa-o admirado. Prosseguem ao longo da trincheira de
comunicação, onde Von Pader esbarra com Tiny, que está sentado no fundo da
trincheira com um balde de batatas cozidas quentes à sua frente.
– Você já viveu a maior parte de sua vida, Creutzfeldt. – E Von Pader faz
um gesto significativo, passando um dedo como uma faca em frente à sua
garganta.
– Talvez o Herr Hauptman saiba dizer a sorte, não? – Tiny bate com os
calcanhares mesmo na posição sentado.
Subitamente, uma pancada de gongo enche a trincheira de som.
– Alarme! Alarme de Panzer!
– O que está acontecendo? – pergunta Von Pader nervoso, olhando para
Tiny, que continua a colocar batatas pela boca adentro.
– São os macacos amarelos vindo com a porra de seus blindados, aposto –
responde Tiny, oferecendo a Von Pader uma batata quente. Zangado, ele a joga
fora.
Tiny levanta-se vagaroso e tira a cobertura de sua SMG. Num instante, a
trincheira enche-se de homens.
O ar é sacudido pelo ameaçador ronco dos motores. Uma parede de fogo
sobe um pouco para trás das posições. Uma barragem. As granadas assobiam e
explodem. Mas isto não é nada de novo para os veteranos da linha de frente.
Uma barragem comum de fogo imitando tambores como os russos costumam
montar antes de um ataque blindado localizado, Para o Hauptmann Von Puder
parece como se as portas do inferno se houvessem escancarado. Com os dentes
batendo, ele se joga no chão ao lado de Porta e Tiny, que o olham com prazer.
– Agora ele está se cagando de novo, o maldito pavão – diz, Tiny,
exultante.
Von Pader agarra-se desesperado a seu capacete de aço.
– Ele está se agarrando em seu chapéu de folha, e veja como treme como
uma geleia – fala Porta, rindo.
Caem uma série de bombas de morteiro, jogando um chuveiro de terra
sobre eles.
Von Pader lança um grito de terror convencido de que chegou seu último
momento; não compreende que isto é apenas o princípio. Sempre soube que
muita gente morria na guerra. Era uma maneira de morrer que ele sempre
considerara como algo belo e nobre e não particularmente doloroso. Aquela
maravilhosa morte de herói que ele tantas vezes descreveu para os cadetes. O
que está acontecendo aqui é algo inteiramente diferente. Nada há de belo.
Lama! Guinchantes estilhaços de metal! Restos de corpos! Braços e pernas
arrancados! Sua boca se enche de bile, que corre pelo nariz e desce-lhe ao
queixo. Sua calça há muito está cheia de excremento; seus belos culotes de
montaria cinza-rato feitos sob medida...
A explosão joga-o um pouco mais para diante na trincheira. Porta arrasta-o
de volta e o empurra para baixo no poço onde está a SMG.
– Por Deus, como ele fede! – diz Porta, segurando delicadamente o nariz. –
É assim que acontece com todos esses palhaços bem vestidinhos. Chegam
andando empinados e saem engatinhando do tamanho de um piolho!
– Não me deixem abandonado, camaradas – soluça Von Pader.
– Colocaremos você em frente aos T-34, quando eles chegarem por aqui –
promete Tiny.
– Camaradas, nós somos camaradas!
– Por certo, por certo, Camarada Herbert – diz Porta, rindo. – Não se
esqueça agora disso, quando terminar o barulho, sim?
Von Pader chora e geme sua miséria no trovão do bombardeio. A SMG
atira sobre a onda cáqui dos atacantes, que se aproxima com roucos gritos.
– Uhroeh Stalina! Uhroeh Stalino!
– Levante-se um pouco e dê uma olhada – sugere Porta, cutucando o
soluçante Hauptmann com o pé. – Os vizinhos vêm visitar–nos! É com você
que eles desejam dar uma palavra!
Mas o bravo oficial do Führer permanece embaixo na lama do fundo,
pedindo a dois piolhentos porcos da trincheira que o ajudem.
Uma nova onda de uniformes cáquis russos ataca a rede de arame farpado.
Pás e baionetas brilham. Granadas de mão voam pelo ar. Os T-34 movimentam-
se para a frente como uma manada de búfalos selvagens por sobre os profundos
sulcos feitos no terreno pelas granadas. Com um barulho ensurdecedor, os
pesados veículos atingem a linha do arame farpado.
Param para atirar. Um clarão de cegar e os projéteis despedaçam figuras
vestidas do cinza de campanha.
As Panzerfausts* latem com violência. Gigantes de aço são rachados.
Torres jogadas para o ar, junto com corpos humanos despedaçados.
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* Panzerfaust (em alemão): bazuca.
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A escuridão torna-se mais densa. Subitamente, toda a cena é banhada por
um cegante mar de luz branca. Os T-34 acenderam seus projetores. Algo que
somente os russos fazem. Tem um efeito psicológico sinistro.
As metralhadoras latem. Soldados em uniforme cinza de campanha são
rechaçados e amassados pelas amplas lagartas dos tanques.
– Adeus, Herr Hauptmann – diz. rindo, Tiny, arrancando a SMG de seu
reparo.
Porta joga um par de granadas de mão, faz uma continência gaiata para seu
comandante de companhia e segue Tiny pelo parapeito da trincheira acima.
– Não vão! Não me deixem! – geme o oficial do Führer, que por cinco anos
pregava a honra e a glória de morrer pelo Führer e pela Pátria. Levanta-se e
olha em direção aos monstros de aço que roncam e se aproximam, balançando e
pulando, em sua direção.
Os feixes de luz apanham-no.
– Camaradas, ajudem-me! Não quero morrer!
Um feixe de luz o atravessa; ele aperta as mão contra os ouvidos, gritando
enlouquecido.
A torre de um tanque gira vagarosamente. Uma granada explode e cobre de
terra o aterrorizado oficial. Ele se agita, engatinha para fora da terra e se arrasta,
gritando como um animal ferido, ao longo do campo de batalha.
Um T-34 aproxima-se a toda a velocidade, ruas passa ao lado dele sem o
esmagar.
Von Pader se levanta e corre para a frente, dentro dos feixes cegantes de
luz dos refletores com ambas as mãos apertadas de encontro aos ouvidos.
Perdeu o capacete. O barulho é horrível. Para onde quer que ele se volte, não há
nada senão projéteis de T-34 explodindo e metralhadoras ladrando.
Pula para dentro de uma trincheira e corre aos gritos por dentro da
trincheira de comunicações sem saber para onde vai. Nem vê um T-34 que voa
por sobre um parapeito e aterra com estrondo, alguns metros atrás dele.
No momento seguinte ele é derrubado; as largas lagartas o apunham e o
rolam pelo chão como uma bola, esmagando-lhe as pernas e os braços. Ele não
mais chama pelo Führer ou por nenhuma das pessoas e das coisas que
idolatrava. Geme, soluçando, por sua mãe, de cujas lágrimas, quando ele se
alistou no Exército, ele zombou.
Os T-34 varrem a linha de frente alemã e, no meio da noite, retornam para
suas bases; o sol aparece e colore o céu de vermelho por sobre um front quieto.
A Seção nº 2 repousa apreciando os fracos raios do sol de outono. Em
breve, virá o inverno, o terrível inverno da Rússia.
Porta dá as cartas, pois estamos jogando; de vez em quando damos uma
olhada pelo periscópio. Hoje há mais corpos lá fora; alguns ainda não estão
bem mortos mas não podemos sair para buscá-los. Os atiradores siberianos nos
impedem.
Logo em frente à posição da SMG, vê-se um monte de coisas
ensanguentadas. Uma ombreira prateada com duas estrelas douradas brilha
dentro da massa cinza–avermelhada. Isto é tudo o que resta do orgulhoso oficial
do Führer, o Hauptmann Von Pader.

Este livro foi impresso nas oficinas gráficas


da Editora Vozes Ltda.
Rua Frei Luís, 100 – Petrópolis, RJ.
Sven Hasel. Dinamarquês de nascimento que serviu às forças alemãs na II
Guerra Mundial, inclusive num regimento disciplinar (descrito
maravilhosamente no seu livro Gestapo) deslocado para a luta na frente russa
sob as piores condições de vida e de combate, lavra mais um tento e enriquece a
literatura de guerra com outro excelente romance antibélico, que vem juntar-se
à série de seus livros que tiveram como pano de fundo a conflagração mundial
de 1939/1945, como o mencionado Gestapo e mais Corte Marcial, o Batalhão
Maldito, Monte Cassino e Morte nas Estepes, todos eles publicados em nosso
país pela Record.
Sven Hassel é, definitivamente, um grande especialista no seu gênero
literário e ocupa lugar de destaque entre os melhores escritores europeus do
momento.
A Rota Sangrenta
Eles eram conhecidos como “a unidade do Velho”, composta de soldados
de primeira linha, veteranos de muitas trincheiras.
E ali estavam enfrentando, além do inimigo, cobras, escorpiões e formigas
gigantes que infestavam a floresta de cactos onde se encontravam.
Quando suas rações se esgotaram, aqueles homens, já embrutecidos pela
guerra, chegaram próximo da loucura devido à sede no inferno escaldante que
os cercava. Estavam prontos a matar por um gole d’água...