Anda di halaman 1dari 118

Copyright © 1999 de Douglas Wilson

Publicado originalmente em inglês sob o título


Joy at the End of the Tether: The Inscrutable Wisdom of Ecclesiastes
pela Canon Press,
P.O. Box 8729, Moscow, ID 83843, EUA.

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por

EDITORA MONERGISMO
Centro Empresarial Parque Brasília, Sala 23 SE
Brasília, DF, Brasil – CEP 70.610-410
www.editoramonergismo.com.br

1ª edição, 2015

Tradução: Marcos Vasconcelos


Revisão: Felipe Sabino de Araújo Neto e Rogério Portella
Capa: Márcio Santana Sobrinho
Projeto gráfico: Marcos R. N. Jundurian
Adaptação para e-book: Felipe Marques

PROIBIDA A REPRODUÇÃO POR QUAISQUER MEIOS,


SALVO EM BREVES CITAÇÕES, COM INDICAÇÃO DA FONTE.
 
Todas as citações bíblicas foram extraídas da
Versão Almeida Revista e Atualizada (ARA), salvo indicação em contrário.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Wilson, Douglas
Alegria no limite das forças: a inescrutável sabedoria de Eclesiastes / Douglas Wilson,
tradução Marcos Vasconcelos – Brasília, DF: Editora Monergismo, 2015.
Recurso eletrônico (ePub)
Título original: Joy at the End of the Tether: The Inscrutable Wisdom
ISBN 978-85-62478-39-0

1. Bíblia 2. Antigo Testamento 3. Eclesiastes


CDD: 230
Este livro é dedicado, com imensa e calorosa afeição,
a todos os tolos da CRISTANDADE.
Sumário

Prefácio
1 De profundis
2 O significado da alegria
3 Sabor de nada
4 No limite das forças
5 A formosura no momento certo
6 O silêncio do desespero
7 Sacrifícios de tolos
8 Justo juízo
9 Alminhas pequenininhas & juízos rigorosos
10 Andando nos corredores do poder
11 Ame sua esposa
12 Use a cabeça, amigo
13 Tempo de ser velhote
14 A conclusão
Prefácio à edição
brasileira

No ano de 2013 preguei o livro de Eclesiastes de forma sequencial e


expositiva.1 Foi uma enorme alegria, uma enorme tristeza e um desafio sem
precedentes para este ainda jovem pregador. Parece-me ter sido um grande
desafio para a igreja também, que ouviu com paciência o que a Bíblia tinha a
nos corrigir, ensinar, repreender e preparar para toda boa obra por meio desse
livro tão perturbador. Espero que, ao final, todos tenham saído mais sábios.
Muitos cristãos amam os Salmos, orientam-se com Provérbios e se empolgam
com Cântico dos Cânticos… Mas poucos são os que utilizam Eclesiastes
como guia para a vida. De fato, é um livro com suas dificuldades; ele
aparenta um mau humor, e mesmo um pessimismo que parece não ter lugar
na vida do povo de Deus.
Escolhi fazer a exposição de Eclesiastes por diversas razões. Entre elas, o
fato de esse livro me assustar. Eclesiastes foi escrito pelo sábio rei Salomão
como uma profunda reflexão acerca da vida. Ao examinar como a vida
debaixo do sol é ao mesmo tempo bela e frustrante, deleitosa e ardida, doce e
acre, ele nos leva a uma jornada intrigante onde somos constantemente
desequilibrados e confrontados com nossa situação debaixo do sol. Ao
mesmo tempo, ele, de vez em quando, abre a cortina da realidade e nos
lembra de que acima do sol está nosso sentido, nossa origem, nosso
arquétipo, nossa vida, nosso caminho, nossa verdade.
Um dos livros que me ajudou tremendamente nessa tarefa homilética foi
este livro de Douglas Wilson. Ele é um escritor exímio que nos chama a
investigar a vida a partir das lentes um tanto estranhas de Salomão. Profundo
conhecedor da cultura e um hábil analista do mundo à luz das Escrituras,
Wilson tem ótimos insights que nos enriquecem e desembolam nossa mente
diante de Salomão. O autor amorosamente nos convida a investigar as
palavras do rei, prometendo nos ajudar caso nos sintamos perdidos no trajeto.
Com certeza será prazeroso (e um pouco dolorido) examinar o livro de
Wilson junto com o de Salomão. Mas será valioso para sua vida agora e o
porvir. Pregar Eclesiastes, ler Eclesiastes, pode ser exaustivo. Mas deve ser
feito. É como ter alegria no limite das forças.
— Emílio Garofalo Neto, MDiv, PhD
Pastor da Igreja Presbiteriana Semear
Brasília-DF, 11 de março de 2015
1 Disponível em <http://www.ipsemear.org/assunto/eclesiastes/>.
CAPÍTULO 1
De
profundis1
Das profundezas clamo a ti, SENHOR.
SALMOS 130.1

A palavra profundeza vem do latim profundus, que significa profundo. A


maior parte de alegria no mundo é bem o contrário disso: superficial e rasa.
Se for golpeada com força, com certeza fará um barulho oco. Devemos
destacar também que o pensamento profundo demais é melancolia. Desses
dados devemos concluir que ser profundo significa ser triste e que a alegria é
uma perda de tempo superficial.
O grande filósofo hebreu que escreveu este livro, chamado Eclesiastes,
convida-nos à alegria, mas à alegria pensante, que não retrocede diante de
questões difíceis. Ele nos chama à meditação, mas à meditação que não leva
ao desespero. E, como ele mostra repetidas vezes, fechando todas as vias de
fuga, só os crentes podem desfrutar da vaidade que nos cerca por todos os
lados.

São exatamente estas as palavras de Deus.


1Palavra do Pregador, filho de Davi, rei de Jerusalém: 2Vaidade de
vaidades, diz o Pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade. 3Que proveito
tem o homem de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?
(Ec 1.1-3)
O autor jamais se chama pelo nome Salomão, mas Qohelet — que
significa ajuntador, agregador ou pregador. Apesar disso, Qohelet identifica-
se aqui como filho de Davi e rei de Jerusalém. Mesmo sem nos envolvermos
na descrição detalhada do debate entre os estudiosos, inexiste razão definitiva
para não atribuir o livro a Salomão.
A esse Salomão foi concedida grande sabedoria da parte do Senhor, mas,
apesar disso, no curso da sua vida, ele também caiu em grandes vilezas. No
período de sua apostasia, introduziu na vida pública de Israel a idolatria de
algumas das esposas estrangeiras. O livro de Eclesiastes foi escrito na sua
velhice; um repúdio arrependido da apostasia anterior. Não obstante, tamanha
apostasia foi lastimosa e seus efeitos sobre as gerações seguintes a Salomão
foram mais duradouros que o impacto do seu arrependimento.

Ora, além da filha de Faraó, amou Salomão muitas mulheres estrangeiras:


moabitas, amonitas, edomitas, sidônias e heteias, mulheres das nações de que havia
o SENHOR dito aos filhos de Israel: Não caseis com elas, nem casem elas convosco,
pois vos perverteriam o coração, para seguirdes os seus deuses. A estas se apegou
Salomão pelo amor. Tinha setecentas mulheres, princesas e trezentas concubinas; e
suas mulheres lhe perverteram o coração. Sendo já velho, suas mulheres lhe
perverteram o coração para seguir outros deuses; e o seu coração não era de todo
fiel para com o SENHOR, seu Deus, como fora o de Davi, seu pai. Salomão seguiu a
Astarote, deusa dos sidônios, e a Milcom, abominação dos amonitas. Assim, fez
Salomão o que era mau perante o SENHOR e não perseverou em seguir ao SENHOR,
como Davi, seu pai. Nesse tempo, edificou Salomão um santuário a Quemos,
abominação de Moabe, sobre o monte fronteiro a Jerusalém, e a Moloque,
abominação dos filhos de Amom. Assim fez para com todas as suas mulheres
estrangeiras, as quais queimavam incenso e sacrificavam a seus deuses. Pelo que o
SENHOR se indignou contra Salomão, pois desviara o seu coração do SENHOR,
Deus de Israel, que duas vezes lhe aparecera. E acerca disso lhe tinha ordenado que
não seguisse a outros deuses. Ele, porém, não guardou o que o SENHOR lhe
ordenara. (1Rs 11.1-10)

No aspecto exterior, observamos esse pecado descrito nas histórias da


Escritura. Constatamos também as terríveis consequências que afligiram
Israel nos séculos que se seguiram a Salomão. Vemos esse pecado em seu
aspecto íntimo, interior, e o consequente arrependimento, nas páginas de
Eclesiastes. O que a queda de Salomão – e a queda de Israel – significa? A
resposta surpreendente é que ela não significa nada – vaidade. Como todo
pecado e incredulidade, ela deu em… nada.
O livro demanda consideração criteriosa. Ao contrário dos liberais
textuais, devemos assumir uma única voz ao longo de todo o texto do livro.
Ao contrário dos pietistas, devemos rejeitar a tentação de aceitar as passagens
“edificantes” e passar por cima das que parecem difíceis. E, ao contrário dos
hereges, devemos rejeitar a supervalorização dos textos difíceis à custa da
ortodoxia difusa do livro.
O livro de Eclesiastes tem quatro seções, ou divisões, básicas. Na
primeira, Eclesiastes 1.2—2.26, a experiência de Salomão mostra que a
satisfação não pode advir de nada ao alcance do poder e da competência do
homem. Nos capítulos 3.1—5.20, Deus é soberano sobre tudo. E, então,
prossegue respondendo as objeções a essa doutrina (sempre ofensiva). Na
terceira parte, Eclesiastes 6.1—8.15, aplica-se a doutrina, de sorte que só o
Deus soberano dá a capacidade para se desfrutar desse desfile de vaidades.
Sem o entendimento do Onipotente, e sem perceber seus atributos, natureza e
caráter, o mundo não é nada, senão uma permanente vexação de espírito. E,
por fim, Eclesiastes 8.16—12.14 remove diversos obstáculos e inúmeras
preocupações de cunho prático.
Ao longo de todo o livro, podem-se ouvir dois grandiosos refrães. Quando
chegarmos a entender seus significados, então teremos a ciência de que não é
possível encontrar o sentido da vida tateando na escuridão. Em vez de vermos
o livro como uma série de declarações desconjuntadas, e às vezes
contraditórias, devemos primeiro estar prontos a ouvir os temas que
abrangem o ensinamento do livro inteiro. Esses temas estão espalhados pelas
quatro seções.
O primeiro refrão resume-se à expressão “debaixo do sol” – de suma
importância, que ocorre vezes sem conta. “Debaixo do sol” é o ambiente no
qual reina a vaidade e deve ser entendido como o mundo em si mesmo. O
homem sábio sempre considerará e refletirá acerca do que acontece “debaixo
do sol”. Nesse lugar, o trabalho não traz proveito (1.3; 2.11; 2.22); nada é
realmente novo (1.9); tudo é vão (1.14; 4.7); o trabalho é penoso (2.17); a
fadiga é odiosa, pois outra pessoa colhe seu fruto (2.18); há o risco do estulto
se beneficiar do trabalho dos outros (2.19,20); a igreja e o Estado são
juntamente corruptos (3.16); os homens, é óbvio, são oprimidos (4.1); quem
ainda não nasceu goza de particular vantagem (4.3); a popularidade é sempre
transitória (4.15); as riquezas causam dano a seus possuidores (5.13); os ricos
não conseguem desfrutar da própria riqueza (6.1); não há como conhecer as
gerações futuras (6.12); os homens dominam sobre os outros e destroem a si
mesmos (8.9); o trabalho é incompreensível (8.17); o bom e o mau morrem
da mesma maneira (9.3); as emoções morrem conosco (9.6); o tempo e o
acaso acometem a todos nós (9.11); os ingratos desprezam os benefícios da
sabedoria (9.13); e os governantes estabelecem a cega insensatez do
igualitarismo (10.5).
Tudo isso – e muito mais circulando por aí – ocorre debaixo do sol. Esses
lembretes persistentes espalhados por todo o livro fazem de Eclesiastes a
ruína absoluta dos tolos alegres.
Mas há outro tema, outro refrão, igualmente notável, que os cínicos não
conseguem captar. É o refrão que assinala os grandes feitos de Deus. Debaixo
do sol, a vaidade é o cetro de Deus (5.18; 8.15; 9.9). A quem o teme, ele
concede o dom de poder desfrutar de fato da grande banda marcial da
futilidade – com as tubas da vaidade roubando a atenção para a retaguarda.
Deus concede ao sábio o dom de observar, com uma risada santa e grata, uma
futilidade atrás da outra. Resumindo tudo, a atividade furiosa do mundo é
quase tão sem sentido quanto os shows alucinantes no intervalo da decisão do
campeonato de futebol americano. O sábio, porém, pode estar lá e se deleitar.
É esse o dom de Deus. O sábio perceberá o quanto essa questão é, vezes sem
conta, martelada por todo o livro. Aos poucos, começa-se a compreender que,
na realidade, esse é um livro de profundo… otimismo. “Sei que nada há
melhor” (3.12,13); “Pelo que vi não haver coisa melhor” (3.22); “Eis o que
eu vi: boa e bela coisa é” (5.18,19); “Então, exaltei eu a alegria” (8.15); “Vai,
pois, come com alegria o teu pão” (9.7-9).
Todas essas coisas são feitas por pessoas que temem a Deus debaixo do
sol, da mesma maneira que os infelizes suarão e trabalharão sem cessar
debaixo do sol. Mas a diferença, como sempre, deve ser achada na soberania
e na graça de Deus. É por isso que o fundamento doutrinal da alegria –
alegria que resiste até que as forças se acabem – deve ser entendido antes de
tudo. Quando o homem o entende, e só depois disso, ele pode comer seu pão,
beber seu vinho, e regozijar-se. Pode ser que ele dê duro cavando um buraco
que outra pessoa, algum dia, vai tapar. Mas se ele for sábio, entenderá que
esse trabalho é vão e se alegrará nele de qualquer maneira. Esse é o dom de
Deus. Como é possível? A questão merece ser considerada.
1 Aqui não há notas de rodapé. O capítulo fala por si mesmo.
CAPÍTULO 2
O significado
da alegria
Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça.
JOÃO 7.24

evemos guardar a nós mesmos. Crentes sinceros e conscienciosos


D precisam resistir a dois erros de interpretação, na medida em que
buscam entender esse pequeno livro de sabedoria. O primeiro erro é o
de tratar a palavra vaidade como os existencialistas modernos a tratariam,
com o significado de falta absoluta de sentido. É óbvio que, do princípio ao
fim, incluindo-se Eclesiastes no meio do caminho, a Bíblia rejeita tal erro. E,
mais ainda, se Salomão estivesse arrazoando acerca da total falta de sentido
de absolutamente tudo, então por que deveríamos confiar em seu argumento?
O qual se acha também debaixo do sol. Como seria possível alguma coisa, ou
alguma palavra, significar a total falta de sentido? Toda vez que alguém
proclamar que esse negócio de verdade não existe, quem o escuta deveria
sempre se perguntar se quem fala acredita mesmo que seu discurso seja
verdade. Salomão é sábio demais para cair na idiotia do relativismo
existencial moderno. Nesse livro, portanto, vaidade não quer dizer o absurdo
final e cabal; há algo mais em vista, que consideraremos no devido lugar.1
Mas o outro erro, comum entre os fiéis, é o de tirar conclusões piedosas e
edificantes de imediato sem permitirmos antes que a força das observações e
argumentos de Salomão opere na alma. Não devemos nos precipitar para
cuidarmos dessa ferida específica de modo superficial. A falta de sentido
generalizada, do modo como Salomão a apresenta, precisa agir com
profundidade nos ossos. Devemos deixar a Palavra realizar esse trabalho
antes de corrermos para tornar Eclesiastes uma caixinha de surpresas de
citações que nos inspiram. Se não formos criteriosos, cairemos na cilada de
escrever disparates piedosos afirmando que Salomão queria dizer que em
baixo é em cima em vez de dizer que em baixo é em baixo. Pode ser uma
experiência dolorosa ler a obra de comentadores piedosos trabalhando
esforçadamente no lugar errado quando tentam lixar as áreas ásperas de
Eclesiastes – que precisa estar lisinho para ser edificante.
Se quisermos evitar essas armadilhas, temos de começar examinando
algumas páginas adiante. A primeira divisão do livro (Ec 1.2—2.26) pode ser
subdividida em três seções. Em breve consideraremos a primeira dessas
subseções (1.4-11). Mas antes de abordarmos esses versículos, devemos olhar
adiante para a conclusão da primeira divisão para vermos aonde o argumento
de Salomão está nos levando. Aqui, formatei em itálico uma modificação da
versão bíblica inglesa Authorized Version.2

Não há no homem nenhum bem [inerente] pelo qual ele comeria e beberia, e sua
alma gozaria do bem no seu labor. Vi também que isso procedia da mão de Deus.
Pois, quem pode comer, ou se alegrar, à parte dele? Porque Deus concede a
sabedoria, o conhecimento e alegria ao homem que é bom à sua vista; mas ao
pecador ele dá o trabalho de juntar e de acumular, para que ele o dê àquele que é
bom diante de Deus. Isso também é vaidade e agarrar o vento. (Ec 2.24-26)

Obviamente, precisamos começar com os problemas de tradução. Em


muitas traduções, a seção começa com “Nada é melhor…”. Os estudiosos
inseriram aqui a palavra melhor, apesar de ela não existir no texto hebraico.
Isso se faz porque essa expressão é repetida várias vezes no livro e presume-
se simplesmente que foi deixada de fora nesse lugar. No entanto, da forma
que está, deveria ser traduzida como “Não há no homem nenhum bem
[inerente] pelo qual ele…”.
Além disso, o versículo 25 não deveria ser “mais do que eu”, referindo-se
a Salomão, mas, antes, “à parte dele”, referindo-se a Deus. Essa é a
interpretação seguida por oito manuscritos hebraicos, a Septuaginta, a
Siríaca, a Copta e a tradução de Jerônimo para o latim. É também a
interpretação que melhor se encaixa no contexto do argumento.
Assim, a mensagem aqui é dupla. Deus é quem dá as coisas, Deus é quem
concede a capacidade para desfrutá-las. São dons distintos… da mesma
maneira que a lata de pêssegos e um abridor de latas são dádivas distintas. Só
o primeiro é dado ao incrédulo. Ao crente são dados os dois, o que é apenas
outra forma de dizer que ele recebeu a capacidade de desfrutar. Se nos
lembrarmos de que essa é a conclusão do argumento de Salomão na seção,
isso pode nos ajudar a entender sua intenção na medida em que ele expõe as
premissas.

Bem-aventurados os que guardam suas prescrições


4Geração vai e geração vem; mas a terra permanece para sempre.
5Levanta-se o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar, onde nasce de novo. 6O

vento vai para o sul e faz o seu giro para o norte; volve-se, e revolve-se, na
sua carreira, e retorna aos seus circuitos. 7Todos os rios correm para o mar, e
o mar não se enche; ao lugar para onde correm os rios, para lá tornam eles a
correr. 8Todas as coisas são canseiras tais, que ninguém as pode exprimir; os
olhos não se fartam de ver, nem se enchem os ouvidos de ouvir.
9O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada
há, pois, novo debaixo do sol. 10Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê,
isto é novo? Não! Já foi nos séculos que foram antes de nós. 11Já não há
lembrança das coisas que precederam; e das coisas posteriores também não
haverá memória entre os que hão de vir depois delas. (Ec 1.4-11)
Como temos considerado, a vaidade não se refere à absoluta falta de
sentido, mas, vemos agora, refere-se à repetitividade inescrutável. Na noite
passada, você lavou os pratos, e eles estão aí de novo. Você trocou o óleo do
carro três meses atrás, e agora troca de novo. Tudo é vaidade. Esta camisa foi
lavada ontem.
Salomão percebe que as gerações vão e vêm – um grupo de pessoas
substitui o outro (v. 4), sem consciência real um do outro (v. 11). Debaixo
delas, a terra permanece obstinadamente no mesmo lugar (v. 4). Quando a
história de grupos de pessoas que viveram antes de nós esbarra em nós, por
breve tempo nos divertimos ou ficamos intrigados, mas nada chegamos a
aprender de verdade. Além disso, esperaremos sempre que nossos sucessores
procedam da mesmíssima maneira para conosco. Esvaímo-nos de suas
memórias, como incontáveis gerações esvaíram-se da nossa. Isso acontece
sempre, e sempre, e sempre. Como disse o outro, a única coisa que
aprendemos com a história é que não aprendemos com a história.
O sol nasce, põe-se, e corre de volta para nascer de novo. Como o
hipócrita em suas orações, o sol se mete em vãs repetições. O sol que nasceu
na manhã de hoje é o mesmo que Abraão, Odisseu, Davi, Paulo, Voltaire,
Isaac Watts, e Robert E. Lee viram. E quando o sol se vai, ficamos na
expectativa de vê-lo novamente. Ele, não necessariamente, espera ver-nos
outra vez.
As correntes de ar que circulam nas altas camadas da atmosfera também se
movimentam em círculos – o mundo natural, segundo parece, roda em
círculos. E nós também. O que acontece lá em cima vem cá para baixo. O que
acontece cá embaixo vai lá para cima uma vez mais. Esse é o significado de
vaidade. Como disse alguém no rádio, as rodas de fiar têm de girar e girar.
Pode-se buscar em vão por alguma novidade no clima. A água evapora-se,
chove, evapora-se, e chove de novo, e o oceano nunca transborda. Para nós, o
mundo inteiro é uma gigantesca ilustração desenhada em um quadro-negro.
Observe-a, assim como Salomão a observou, e aprenda uma lição monótona e
cansativa.
Podemos tentar escapar da repetição dizendo que ela não existe. Podemos
ignorar o passado e dizer: “Veja, isto é novo” (v. 9-11). O último de todos
“seja lá o que for” ecoará quando chegar o salvador que há de nos tirar do
temporário abatimento pós-moderno, da profunda depressão. Talvez a
Internet, ou os computadores, ou os arranha-céus, ou o ativismo ambiental,
ou o snowboarding, ou outra coisa qualquer nos salve. Mas isso não ajuda.
Mesmo quem pratica snowboarding precisa retornar ao topo do monte mais
uma vez.
E, além de tudo, até esse erro é uma repetição. Quem diz que encontrou
algo de novo está sendo um tanto velho. Tão certo quanto o sol nasce, os
homens continuarão a cometer os mesmos erros, menos aqueles a quem Deus
concede sabedoria. Todas as manhãs a insensatez desponta no horizonte.
Mais uma vez. Manhã, luz do sol. Hora de servir o café de novo. Tudo
novamente.
Para ser sábio, o homem tem de conhecer suas limitações. “Todas as
coisas são canseiras tais, que ninguém as pode exprimir” (v. 8). O crente
sábio é quem conhece o limite da sua força. É apenas mediante a sabedoria
dada por Deus que ele consegue desfrutar dessa limitação, dessa restrição,
dessa vaidade. Não obstante o sábio possa vir a gozar dessa vaidade, não
consegue expressá-la de fato.
1 Se o livro de Eclesiastes apresentasse o termo vaidade com o significado de absurdo total e absoluto,
ele, então, teria pouquíssimas argumentações e mais referências à torrada com manteiga, truta arco-íris,
acompanhadas das profecias veladas tentadas por Walt Whitman na poesia. Sendo de longe bem mais
coerente com a “cosmovisão do absurdo”, o que, é claro, tornaria o livro incoerente.
2 Tenho uma imensa dívida com Walter Kaiser a respeito desse procedimento e pela forma como ele
tratou os problemas de tradução de Eclesiastes 2.24-26. Leia seu breve e excelente comentário sobre
Eclesiastes (Walter Kaiser, Ecclesiastes: Total Life [Chicago: Moody Press, 1979], 43-45).
CAPÍTULO 3
Sabor
de nada
Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que
dará o homem em troca da sua alma?
MATEUS 16.26

egundo nossas luzes, a teoria é clara e simples: nada vemos ao redor,


S exceto repetição inescrutável. Mas aqui, é-nos oferecida a vivência de
Salomão proporcionando-nos melhor compreensão do mundo como um
palco giratório vazio.

Tomara sejam firmes os meus passos, para que eu observe os teus


preceitos!
12Eu, o Pregador, venho sendo rei de Israel, em Jerusalém. 13Apliquei o
coração a esquadrinhar e a informar-me com sabedoria de tudo quanto sucede
debaixo do céu; este enfadonho trabalho impôs Deus aos filhos dos homens,
para nele os afligir. 14Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do
sol, e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento. 15Aquilo que é torto
não se pode endireitar; e o que falta não se pode calcular. 16Disse comigo: eis
que me engrandeci e sobrepujei em sabedoria a todos os que antes de mim
existiram em Jerusalém; com efeito, o meu coração tem tido larga experiência
da sabedoria e do conhecimento. 17Apliquei o coração a conhecer a sabedoria
e a saber o que é loucura e o que é estultícia; e vim a saber que também isto é
correr atrás do vento. 18Porque na muita sabedoria há muito enfado; e quem
aumenta ciência aumenta tristeza. (Ec 1.12-18)
Tem início a descida ao inferno. Salomão impôs a si mesmo a missão
particular de entender tudo (1.12-18). Ele aplicou o coração a buscar (v. 13),
trocou ideias com ele quanto a isso (v. 16) e o fez ir em busca do
conhecimento (v. 17). Esse é o testemunho do mergulho na loucura e na
estultícia. Ele caiu longe de Deus com os olhos abertos, observando à sua
volta o todo tempo. A investigação toda foi um empreendimento triste,
produzindo resultado lamentáveis.
O tolo empenha-se para corrigir o que está torto, mas Salomão, de olhos
abertos, viu a impossibilidade de endireitar o torto (1.15). E por que não?
Olhando adiante, saberemos que Deus o fez torto (7.13). Esse trabalho
enfadonho é, portanto, criado por Deus (1.13). Há um propósito por trás da
falta de sentido – é propósito e intento de Deus que os pecadores não sejam
capazes de endireitar o que ele fez torto.
Circula por aí a ideia popular de que Deus está acima de toda a bagunça
tortuosa daqui de baixo torcendo nervosamente as mãos sobre o mundo que
deu errado. Toda vez que uma calamidade despenca sobre nós, algum
ministro piegas sente-se na obrigação de obter algum tempo no ar para
garantir que “o coração de Deus foi o primeiro a se despedaçar”. A teologia
“vamos-deixar-Deus-fora-da-responsabilidade-de-toda-essa-coisa-ruim”
procura, de maneira superficial, defender a honra de Deus. Se Deus não está
mesmo aqui, então não podemos culpá-lo pelo problema do mal.1 Assim
arrazoamos no íntimo, imaginando que o homem, mediante seu livre-arbítrio,
fez alguma coisa torta que Deus, por razões diversas, não é capaz de
endireitar. O problema com essa ideia é que Salomão a enuncia ao contrário.
O homem não pode endireitar o que Deus entortou. Contrário a nossos
modernos apóstolos evangelicais da vida mansa, Deus nos deu esse “duro
trabalho” (v. 13; TB).
Gostamos de pensar que Deus não “produz” terremotos. Asseguramos ao
mundo incrédulo que não servimos ao Deus que causa desastres naturais ou
qualquer outro tipo de desastre. Temos só um minúsculo problema com essa
tese. “Sucederá algum mal à cidade, sem que o SENHOR o tenha feito?”
(Am 3.6).
Sem dúvida, a sabedoria é algo incômodo. Dentro desses limites, a
sabedoria consegue apenas nos mostrar que Deus decidiu nos capturar na
armadilha da existência sem sentido. Assim, qualquer investigação inteligente
do mundo e de seus prazeres só servirá para multiplicar as tristezas (1.18). O
tolo pensa estar acorrentado à muralha de um calabouço; o inteligente sabe
que, na verdade, é um labirinto. Prazeres, deleites, sensações e todos os seus
primos, apenas despacharão o homem, primeiro nessa missão do tolo, e
depois na outra.

Bendito és tu, SENHOR; ensina-me os teus preceitos.


1Disse comigo: vamos! Eu te provarei com a alegria; goza, pois, a
felicidade; mas também isso era vaidade. 2Do riso disse: é loucura; e da
alegria: de que serve? (Ec 2.1,2)
Ele chega primeiro a uma conclusão e depois à outra. Salomão procurou
descobrir de forma sistemática que sentido havia debaixo do sol, à parte da
bênção e do dom de Deus. Usando inteligência e sabedoria, buscou sondar as
profundezas da loucura e de toda estultícia. Talvez nisso seja possível
encontrar algum tipo de resposta (1.17). Para tanto, em sua sabedoria apelou
a vários recursos.
O primeiro recurso foi o riso. Talvez seja possível encontrar na comédia a
solução para o problema apresentado por este mundo cíclico, talvez um lugar
mais vibrante se pudéssemos acrescentar-lhe a trilha sonora do riso. Sem a
inteligência e a sabedoria de Salomão, estamos tentando a mesma coisa em
nossos dias. Talvez achemos a salvação na comédia, mas a onipresente trilha
de risadas por trás de todos os nossos programas de humor proporciona um
comentário pertinente em nossos dias – ela não passa do comprido aguilhão
para cutucar o gado da comédia, informando atentamente ao rebanho o
instante em que deve explodir em alegres mugidos. É a hora da risada, diz
nosso invisível senhor.
Mas a risada é vazia e as piadas inevitavelmente ocas. Os que fazem
piadas de nós desconhecem a situação debaixo do sol, quando são estúpidos,
ou ignoram o quão tudo é sombrio, quando quase não são engraçados. O
humor debaixo do sol só consegue preservar o próprio senso de… humor…
mediante a insensatez cega.

Regozijo-me com o caminho dos teus testemunhos


3Resolvi no meu coração dar-me ao vinho, regendo-me, contudo, pela
sabedoria, e entregar-me à loucura, até ver o que melhor seria que fizessem
os filhos dos homens debaixo do céu, durante os poucos dias da sua vida.
(Ec 2.3)
Talvez baste só uma garrafa de vinho para causar o efeito desejado.
Experimente tomar duas. Mas que nada (2.3). Se esse paliativo particular
fosse removido, toda a nossa indústria de música country iria à falência.
Pouco tempo depois da Queda, os homens descobriram como se esquecer de
seus problemas buscando um agradável zumbido entre as orelhas. Às vezes o
zumbido vinha de uvas, outras vezes de cereais, e, ainda em outros casos, de
vários tipos de vegetação.
Por vários motivos, não é fácil para os cristãos americanos concordarem
com isso. O primeiro motivo é não entenderem de fato o problema do modo
apresentado por Eclesiastes. Se alguém pensante observasse como o mundo é
de fato acharia que todos devem se embebedar. Depois que tudo passasse,
veria também que não resultaria em nenhum bem, mas, como nos mostra
Salomão, seria compreensivelmente algo a se tentar. A linha de raciocínio faz
lembrar o apóstolo Paulo. Se Cristo não ressuscitou, a coisa mais lógica a
fazer é comer e beber e se divertir o quanto for possível a um pedaço de
protoplasma sem sentido. Se aqui, a única coisa a ser levada em consideração
for o que vemos debaixo do sol, então não faz nenhum sentido lutar em
defesa dos valores tradicionais.
O segundo motivo é que passamos maus bocados para entender a
diferença entre pecado e crime. Os americanos são naturalmente
intrometidos. Se algo for desaprovado, ou seja, se for considerado pecado, o
próximo passo a dar é afirmar “devia existir uma lei”. É claro que outras
pessoas adotam a suposição cômoda de que, seja lá o que for não deve ser
crime, então seja lá o que for também não deve ser pecado.
Antes de tratar da questão de Salomão sobre o vazio do zumbido, por
favor, deixe-me tratá-la à parte de algumas questões polêmicas. Não devia
existir o combate às drogas e as drogas não deviam ser ilegais. A cocaína
deveria estar prontamente à disposição em supermercados e lojas de
conveniência – e, se tivéssemos aprendido as lições de Eclesiastes, nós a
estocaríamos na seção de idiotices. Mas alguém vai vasculhar a Bíblia em
vão na caça de alguma indicação de que Deus quer que haja penalidades civis
para o uso de drogas, pura e simplesmente. Um em cada dois adolescentes
poderia ficar tão alto quanto os passarinhos, e esse dado continuaria sem ser
da conta do magistrado civil. Permanece a mera questão de se esse tipo de
coisa deveria ser crime ou não.
Salomão nos mostra a esterilidade do vinho como anestésico mental.
Simplesmente não funciona. O mesmo se aplica a tudo que se possa usar com
o mesmo propósito de torpor. Por isso um sábio como Salomão não achou
nenhum contentamento nele. E, como todo pecado, o resultado é vazio.
A embriaguez é tão vazia quanto a garrafa depois da bebedeira. O Novo
Testamento classifica o uso de drogas no mesmo escaninho: vazio. A palavra
é pharmakeia, da qual derivou a nossa farmácia, e as nossas traduções
convencionais às vezes são estranhas. Por exemplo, em Gálatas 5.20, é quase
sempre vertida para feitiçaria ou bruxaria. Mas Thayers dá a primeira
definição como “uso ou administração de drogas”, a segunda como
envenenamento e a terceira, bruxaria. Liddel e Scott fazem a mesmíssima
coisa. Definem a primeira, como uso de “drogas, poções e feitiços”. A
segunda definição é envenenamento ou bruxaria.
Há uma conexão com feitiçaria, mas essa conexão se dá por intermédio de
drogas. Nos tempos bíblicos, as práticas do ocultismo eram usualmente
atividades veladas associadas com drogas. Saindo do vernáculo para o grego,
se perguntássemos que palavra grega descreveria as práticas de nossos
modernos capelães militares, a resposta seria pharmakeia.
Podemos raciocinar por analogia. O uso de drogas é vetado por visa levar
a um estado condenável – confusão mental – como uma das aplicações
ilegítimas do álcool.2 “E não vos embriagueis com vinho, no qual há
dissolução, mas enchei-vos do Espírito” (Ef 5.18). O álcool tem pelo menos
cinco usos bíblicos legítimos: sacramental (Mt 26.27,28), comemorativo
(Sl 104.15), medicinal (1Tm 5.23), estético (Jo 2.10) e a sede (Jo 19.28-30).
Desses usos, o único para as drogas é o medicinal – e o uso para que se
recorre às drogas é o uso negado ao álcool.
Embora o uso de drogas tenha apenas uma aplicação legítima, quando
consumidas de maneiras ilegítimas ainda podem ser usadas pelas mãos do
Deus soberano para mostrar ao homem quão inútil é sua vida. Nessa seção, a
busca de sentido no vinho empreendida por Salomão, levou-o exatamente a
essa conclusão. Em nossos dias, é comum ocorrer a mesma coisa. Muitos
procuram achar alguma espécie de sentido para a vida na ingestão de várias
substâncias. Se a abordagem viver-melhor-por-meio-de-químicos se dá
mediante líquidos, fumaça, agulhas ou palha o resultado é sempre o vazio. O
tolo sempre descobrirá maneiras de achar uma saída, mas quando consegue
chegar lá, está sempre no fundo do poço.
Outros deleites epicuristas também se incluem nesse caso. Por óbvio, é
provável que os banquetes reais associavam a busca de sentido ao prazer de
comer; observe 1 Reis 4.22,23.
22Era, pois, o provimento diário de Salomão trinta coros de flor de farinha e

sessenta coros de farinha; 23dez bois cevados, vinte bois de pasto e cem carneiros,
afora os veados, as gazelas, os corços e aves cevadas.

Eram necessárias 35 mil pessoas para consumir tudo isso. A dotação de


Salomão era considerável e impressionante. Talvez fosse possível encontrar
aí o sentido da vida. Comer e beber, comer e beber, loucura e insensatez. A
resposta é sempre a mesma: não.
Como o vinho, a comida é uma criação. Mais adiante em nosso estudo
chegaremos à função comemorativa dos dois, mas por enquanto vemos que
boa comida, bom café e bom vinho estão todos destinados ao mesmo lugar,
que, na maioria dos casos, é o sistema de esgotos sanitários. Como substituto
para o sentido transcendente, a comida tem um desempenho tão indigente
quanto o do vinho. No entanto, em toda cultura malsucedida no que tange ao
sentido, o esnobismo relacionado aos melhores restaurantes é sempre um ator
essencial.

Meditarei nos teus preceitos


4Empreendi grandes obras; edifiquei para mim casas; plantei para mim
vinhas.5Fiz jardins e pomares para mim e nestes plantei árvores frutíferas de
toda espécie. 6Fiz para mim açudes, para regar com eles o bosque em que
reverdeciam as árvores. 7Comprei servos e servas e tive servos nascidos em
casa; também possuí bois e ovelhas, mais do que possuíram todos os que
antes de mim viveram em Jerusalém. (Ec 2.4-7)
Salomão também procurou encontrar sentido para a vida na execução de
grandes realizações – “Empreendi grandes obras…”. Salomão edificou casas,
plantou vinhedos, jardins, pomares e cavou poços de água; possuiu servos,
rebanhos, prata e ouro. Algumas dessas obras de Salomão ainda podem ser
vistas hoje pelos turistas que desejam admirar ruínas ozymandianas. Mas
depois de construídos todos os monumentos, e toda obra impressionante
concluída, somente os tolos não reconhecem o vazio. Ambrose Bierce certa
feita definiu sarcasticamente que um mausoléu é a última e mais divertida
insensatez dos ricos. Sebna era alguém importante e para comprovar isso
erigiu uma sepultura para si (Is 22.15-19). Nós até já achamos uma verga
dessa sepultura. Pare com isso! Grande coisa!
Mas a busca de sentido no prazer não precisa de uma ética juvenil
malcomportada e insensata, como a dos membros de fraternidades
universitárias americanas. É possível ser um hedonista em busca de sentido e
valor máximos em prazeres estéticos não grosseiros ou ostentosos. Talvez
seja possível encontrar sentido passeando em um primoroso jardim japonês,
contemplando lances de xadrez, ou problemas de geometria. Apesar de ser
com certeza mais refinado, os resultados ainda dão no mesmo: sempre vazio.
Hoje, essa espécie de indivíduo, comprometido com a construção de
projetos como ele era, seria louvado pelo “espírito público” e pela dedicação
ao “serviço público”. Mas no final do dia tudo quanto ele teria feito seria
construir edifícios ocos para todas as pessoas ocas viverem neles.

Terei prazer nos teus decretos


8Amontoei também para mim prata e ouro e tesouros de reis e de
províncias; provi-me de cantores e cantoras e das delícias dos filhos dos
homens: mulheres e mulheres. (Ec 2.8)
Tatear em busca de sentido mediante o cultivo do refinamento é
compulsão estética. Salomão adquiriu músicos, homens e mulheres, e todo
tipo de instrumento (2.8). Sem dúvida, esses músicos da corte eram
excelentes em seu mister. No entanto, após o realizarem, tudo terminava de
fato e o salão enchia-se uma vez mais de um vazio silencioso. Nós hoje
procuramos resolver esse problema recusando-nos a permitir a existência do
silêncio em toda parte, mas o silêncio ainda consegue se intrometer em
momentos inconvenientes. Mas trabalhamos com ardor seguindo avante.
Rodeamo-nos de ruídos agradáveis o tempo todo. Houve um tempo no qual
só os reis tinham condição de ter músicos à sua disposição para
proporcionarem o agradável som tocando ao fundo, mas agora, graças à
tecnologia, podemos levá-lo a toda parte. Podemos ter música no interior de
todo e qualquer espaço vazio imaginável. Buscamos a paz pela eliminação da
própria ideia de um momento de paz.
Salomão tinha um gosto refinado – ele obteve músicos talentosos. Nossos
gostos não são tão refinados – adquirimos sistemas de som automotivo
capazes de chacoalharem nossos ossos até ficarem frouxos com as
estrondosas vibrações dos alto-falantes graves. Em ambos os casos, porém,
sentido e propósito não são um problema acústico.
Pessoas com sensibilidades refinadas talvez torçam o nariz para a música
pop estúpida e o garoto que se delicia com a coisa talvez revire os olhos
adolescentes só ao pensar em música erudita. Mas tudo isso é inútil e
causador de desvios.

Não me esquecerei da tua palavra


9Engrandeci-me e sobrepujei a todos os que viveram antes de mim em
Jerusalém; perseverou também comigo a minha sabedoria. 10Tudo quanto
desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei o coração de alegria
alguma, pois eu me alegrava com todas as minhas fadigas, e isso era a
recompensa de todas elas. 11Considerei todas as obras que fizeram as minhas
mãos, como também o trabalho que eu, com fadigas, havia feito; e eis que
tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do
sol. (Ec 2.9-11)
Então, o mesmo Salomão que se havia engrandecido, também começou a
debater-se. Ele buscou com empenho qualquer tipo de prazer. Teria deixado
algo de fora? Não mesmo. Salomão afirmou que fazia tudo quanto lhe
agradava (2.10). Ele permitiu-se qualquer prazer imaginável que um rei na
sua posição poderia desejar. São grandes as possibilidades de Salomão ter
cedido a todo tipo de vício. Mas nada de bom resultou disso. Quando um
prazer legítimo é desfrutado à parte do dom de Deus, nada bom pode
proceder dele. E quando Deus permite o gozo de prazeres ilegítimos, ele
nunca dá junto com eles o contentamento. Em cada caso, a única coisa
restante é a nódoa na consciência e o lançamento do pecado na contabilidade
divina. Lançamento cujo total, como sempre, é zero.
Pense um pouco acerca do que Salomão podia fazer na posição em que
estava. Devemos pensar brevemente a respeito do que ele provavelmente fez.
Ele tinha mil mulheres, todas totalmente dele, e de boa aparência. Ele tinha
mais dinheiro do que alguém conseguiria gastar. Dispunha de tempo para ir à
caça de todo prazer possível em cada recanto de seus palácios.
Mas tudo era um montão de nada. “Considerei…”. Quando estava nas
últimas, Salomão viu que não teve nenhum lucro. E, uma vez que corremos
atrás da mesma coisa, também nada lucramos. Essa estrada já foi palmilhada
antes. Quando chegamos no fim da linha, a estrada simplesmente acaba,
quase sem espaço para darmos meia-volta no carro.

Visão geral e revisão


Primeira divisão (1.2—2.26): O contentamento não pode proceder de nada
que esteja na capacidade do homem. Esse argumento pode ser confirmado em
dois lugares. Primeira subdivisão (1.2-11): A natureza mostra uma repetição
inescrutável. Segunda subdivisão (1.12-2.11): A experiência vazia mostra a
Salomão que a experiência é vazia.
Segunda divisão (3.1—5.20): Deus é soberano sobre tudo quanto existe.
Todo os que sustentam essa doutrina têm sido sempre obrigados a responder
objeções a ela, e Salomão não é diferente.
Terceira divisão (6.1—8.15): A doutrina tem sempre a finalidade de ser
aplicada e, portanto, Salomão põe em prática sua doutrina, qual seja: só a
soberania de Deus concede a capacidade de desfrutar a vaidade.
Quarta divisão (8.16—12.14): A última seção remove vários obstáculos e
desencorajamentos e trata de questões de interesse prático.
1 Pode-se encontrar uma boa representação desse tipo de pensamento na obra de Clark Pinnock e
outros tipos de “abertura de Deus”. Completamente à parte da heresia envolvida nessa abordagem
minúscula, em que o argumento de Eclesiastes como um todo é levado em conta, outro problema
fundamental deve vir à mente. Essa heresia não é apenas um erro cometido pela mente, é também um
erro do coração. É um estraga prazeres doutrinários. O fato de isso ser uma teologia presunçosa não
carece de mais documentação senão a de ser InterVarsity Press que está publicando essa coisa.
2 A questão em tudo isso é de confusão mental, razão por que a discussão não tem ligação com cafeína,
tabaco ou sorvetes. Mas, uma vez que o tabaco anda a passos largos para ser declarado droga pelos
feitores federais, também é importante que a esse respeito pensemos aqui biblicamente. As drogas, a
que nos referimos antes, são todas alteradoras do estado mental. Com relação ao café e ao tabaco, ou
outra coisa qualquer, a questão não é a perda da razão, porque eles não são agentes alteradores do
estado mental. A questão, que também não é da conta dos magistrados, é outra ― a perda da alegria. É
difícil demais subjugar o corpo (Rm 6.12) sem lhe dar em troca uma porção de dependências extras.
Não me deixarei dominar por nenhuma, assegura Paulo (1Co 6.12,13). Mas se a alegria do apóstolo não
for feita refém por seja lá o que for, ele pode seguir o exemplo de muitos dos mais eficazes servos do
Senhor, agradecer a Deus por essa sublime criação, o tabaco, e fumar como uma chaminé para a glória
de Deus.
CAPÍTULO 4
No limite
das forças
Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?
MARCOS 8.36

omo cortesia da Roma antiga, certo epitáfio resume bem a situação:


C “Banhos, vinho e casos de amor – essas coisas machucam o corpo, mas
fazem a vida valer à pena. Aproveitei os meus dias. Diverti-me e bebi o
quanto quis. Antes eu não era, depois eu era, e agora, uma vez mais, nada
sou, mas não dou a mínima!”. Na beira do abismo, vemos o grito desafiador
de outro tolo que sabe das coisas. Mas mesmo o tolo consciente não enxerga
longe o bastante.

Cumprirei os teus decretos; não me desampares jamais


12Então, passei a considerar a sabedoria, e a loucura, e a estultícia. Que
fará o homem que seguir ao rei? O mesmo que outros já fizeram. 13Então, vi
que a sabedoria é mais proveitosa do que a estultícia, quanto a luz traz mais
proveito do que as trevas. 14Os olhos do sábio estão na sua cabeça, mas o
estulto anda em trevas; contudo, entendi que o mesmo lhes sucede a ambos.
15Pelo que disse eu comigo: como acontece ao estulto, assim me sucede a

mim; por que, pois, busquei eu mais a sabedoria? Então, disse a mim mesmo
que também isso era vaidade. 16Pois, tanto do sábio como do estulto, a
memória não durará para sempre; pois, passados alguns dias, tudo cai no
esquecimento. Ah! Morre o sábio, e da mesma sorte, o estulto!
Considere os resultados do experimento até aqui. Salomão já viu que o céu
é impenetrável. Assim, deu a volta e passou a experimentar tudo o que
poderia comer, beber, fumar ou com quem dormir, e descobriu que não pode
encontrar sentido nesses prazeres. Ele agora se volta (v. 12) e olha
panoramicamente para trás, para o território pelo qual viajou.
Isso o faz afirmar o óbvio. Vemos que, mesmo na experimentação do
pecado, Salomão não se tornou relativista. A despeito da falta de sentido, ele
conclui que a sabedoria é melhor que a estultícia. É melhor galgar o
precipício de olhos abertos que com eles fechados. É melhor, como diz o
outro, ser Sócrates com fome que um porco saciado. Todo indivíduo
acostumado a pensar percebe de forma instintiva que essa é a melhor opção,
mas defender essa escolha debaixo do sol é uma questão das mais arriscadas.
Por que razão seríamos rejeitados se alguém se prontificasse a nos converter
em uma vaquinha satisfeita? Ou em uma tartaruga de aquário?
Mas tanto o sábio como o estulto têm o mesmo destino. Embora a
sabedoria seja melhor, Salomão ainda não sabe nos dizer o porquê disso. A
partir do que ocorre ao sábio e ao estulto aqui, debaixo do sol, os resultados
se afiguram os mesmos. Os dois tipos de homem morrem. Ambos são
sepultados. Ambos apodrecem. No entanto, é possível perceber uma
diferença. O sábio tem olhos na cabeça, e o estulto é cego. E, não obstante, os
dois ainda morrem (v. 16). Essa diferença, portanto, faz a diferença, como
veremos. Não é possível achar a redenção nem mesmo na reputação póstuma
(v. 16). Debaixo do sol, em algum momento, a sabedoria deixa de respirar da
mesma maneira que a insensatez (v. 14-16). A esse respeito, chegará o
momento em que o sábio, tanto quanto o estulto, assumirá serenamente a
mesma temperatura do ambiente.
Salomão reconhece que a posição do sábio é melhor, mas não sabe dizer
por quê. Todos os dados que consegue achar debaixo do sol mostram que o
sábio e o estulto acabam na mesma sepultura. Assim, Salomão expressa
preferência pela sabedoria; uma preferência parada no ar, à boa moda
kantiana. O imperativo categórico, a voz imperativa provinda do vazio, tem
de ser obedecida. Ao mesmo tempo, o sábio se aborrece, pois não tem razão
para confiar na própria razão e sabedoria nenhuma para fundamentar a
própria sabedoria.

Não escondas de mim os teus mandamentos


17Pelo que aborreci a vida, pois me foi penosa a obra que se faz debaixo
do sol; sim, tudo é vaidade e correr atrás do vento. 18Também aborreci todo o
meu trabalho, com que me afadiguei debaixo do sol, visto que o seu ganho eu
havia de deixar a quem viesse depois de mim. 19E quem pode dizer se será
sábio ou estulto? Contudo, ele terá domínio sobre todo o ganho das minhas
fadigas e sabedoria debaixo do sol; também isto é vaidade. 20Então, me
empenhei por que o coração se desesperasse de todo trabalho com que me
afadigara debaixo do sol. 21Porque há homem cujo trabalho é feito com
sabedoria, ciência e destreza; contudo, deixará o seu ganho como porção a
quem por ele não se esforçou; também isto é vaidade e grande mal. 22Pois
que tem o homem de todo o seu trabalho e da fadiga do seu coração, em que
ele anda trabalhando debaixo do sol? 23Porque todos os seus dias são dores, e
o seu trabalho, desgosto; até de noite não descansa o seu coração; também
isto é vaidade. (Ec 2.17-23)
Isso irritou tanto a Salomão que ele chega a dizer que não dava a mínima
[à vida].1 “Pelo que aborreci a vida” (v. 17). Essa é a falta de sentido anterior
à dádiva de Deus que a faz deleitosa. Aqui, a palavra empregada para
“aborreci” abrange a ideia de desprezo e desdém. De fato, ele não poderia dar
a mínima. Salomão está preparando o caminho para que cheguemos à grande
verdade. O dom divino não manda embora a falta de sentido; o dom de Deus
torna essa vaidade deleitosa.
Mas, nesse ínterim, somos instados a atentar para os tolos que virão
depois. Ao morrerem, os sábios têm de deixar o quanto fizeram para os
outros. E, eles serão sábios? Quem sabe? O resultado é aflição (v. 17),
desesperança (v. 20), dores (v. 23), desgosto (v. 23) e fadiga (v. 23). Salomão
entrega o coração ao desespero (v. 20). Ele se desespera em busca de uma
saída debaixo do sol. Da mesma forma que antes se entregara ao prazer,
assim ele agora cede ao desespero.

O teu servo considerou nos teus decretos


24Nada há melhor para o homem do que comer, beber e fazer que a sua
alma goze o bem do seu trabalho. No entanto, vi também que isto vem da
mão de Deus, 25pois, separado deste, quem pode comer ou quem pode
alegrar-se? 26Porque Deus dá sabedoria, conhecimento e prazer ao homem
que lhe agrada; mas ao pecador dá trabalho, para que ele ajunte e amontoe, a
fim de dar àquele que agrada a Deus. Também isto é vaidade e correr atrás do
vento. (Ec 2.24-26)
Essa é a conclusão da primeira parte do argumento de Salomão. A
sabedoria dele debaixo do sol, e todas as suas experimentações, levaram-no a
um impasse. Mas um impasse para o homem não é um impasse para Deus.
Portanto, qual é a conclusão?
Lembre-se da controvérsia sobre a tradução deste trecho no começo do
livro.

Não há no homem nenhum bem [inerente] pelo qual ele comeria e beberia, e sua
alma gozaria do bem no seu labor. Vi também que isso procedia da mão de Deus.
Pois, quem pode comer, ou se alegrar, à parte dele. Porque Deus concede a
sabedoria, o conhecimento e alegria ao homem que é bom à sua vista; mas ao
pecador ele dá o trabalho de juntar e de acumular, para que ele o dê àquele que é
bom diante de Deus. Isso também é vaidade e agarrar o vento. (Ec 2.24-26)

Não dá para imaginar que o homem seja um poço artesiano. Ele não tem
em si mesmo nada que o capacite para desfrutar seus confortos de criatura;
não tem nenhuma capacidade inata para o prazer. Ademais, é Deus quem faz
isso – foi ele quem impôs sobre nós essa lei inexorável (v. 24,25). Quem é
capaz de se deleitar, até mesmo na própria comida, à parte de Deus?
Deus sempre dispensa os seus dons com soberania e graça sublimes. Os
dons são sabedoria, conhecimento e alegria. A sabedoria é graça, e o
conhecimento é também graça, mas note-se de forma especial o último desses
dons: alegria. A alegria é um dom supremo de Deus neste mundo sem
sentido. Os serafins sentiam alegria na presença de Deus, mas honestamente,
é isso o que se deve esperar. No entanto, não é aos anjos que ele socorre. Foi-
nos dado o privilégio de experimentar a alegria aqui, no meio do caos em
curso, desobediente e que imbeciliza. Alegria, sem dúvida, mas mirabile
dictu, a alegria está aqui.
Nesse meio tempo, qual é a tarefa do pecador? Ele é chamado para
acumular pencas de coisas, para ajuntar essas boas coisas aos montes,
empilhadas umas sobre as outras. Coisas com as quais só os piedosos estão
autorizados a se alegrar.
E quem herdará todos esses bens mundanos? Poucos versículos acima, não
foi possível responder a essa pergunta. Antes do dom de Deus, quem sabe se
é o tolo quem herdará os bens do sábio? Segundo nosso entendimento, quem
pode dizer se o sábio ou o tolo o herdará? Mas de acordo com a fé, a resposta
agora é clara: os bons diante de Deus. Os perversos são entregues às próprias
aflições.
Em uma de suas canções, Bob Seger diz que a cabeça tem dois buracos
através dos quais se espera que entre a luz. E então, é? Como é possível a
piedade não investigada ser diferente das cegas apalpadelas do estulto? Qual
é a marca registrada da sabedoria no mundo caído? A resposta é a alegria no
limite das forças. Mas antes de podermos aprender o que é a alegria no limite
das forças, precisamos saber que limite é esse. O Senhor é bom, mas nós não
o somos.

Visão geral e revisão


Primeira divisão (1.2–2.26): O contentamento não pode ser seduzido por
nada criado pela capacidade ou astúcia do homem. Primeira subdivisão (1.2-
11): A natureza repete-se sempre e sempre por nenhuma razão particular que
possamos ver. Segunda subdivisão (1.12-2.11): Salomão sabe, pela dura
experiência, que sensações e sentimentos são vazios. Terceira subdivisão
(2.12-2.26): A sabedoria é melhor, mas só Deus sabe por quê. Deus concede
um dom maravilhoso: a alegria acorrentada a uma muralha.
Segunda divisão (3.1—5.20): Todo o mundo quer que Deus seja soberano.
Ninguém parece querer que ele seja soberano em tudo e sobre tudo. Seja
como for, Salomão insiste na doutrina e defende-a das objeções.
Terceira divisão (6.1—8.15): Deus é soberano sobre tudo, e por isso tem o
poder de conceder a alegria aqui em baixo. Assim, Salomão aplica sua
doutrina de que só o Deus soberano dá a capacidade para se desfrutar a
vaidade.
Quarta divisão (8.16—12.14): Por fim, assim como devem fazer todos os
mestres excelentes, Salomão volta para remover os vários obstáculos e
desencorajamentos, e para tratar das questões de interesse prático.
1 Obviamente, neste mundo vão, “ele não dava a mínima” significa o mesmo que “ele não dava a
mínima”. E não se surpreenda que, se ele não melhorar significa que não nos surpreenderíamos se ele
melhorasse.
CAPÍTULO 5
A formosura no
momento certo
Sucederá algum mal à cidade, sem que o SENHOR o tenha feito?
AMÓS 3.6

ma ilustração comum sobre os caminhos de Deus e o entendimento


U humano é a do tapete no tear. Da perspectiva de baixo pouco se
enxerga, a não ser emaranhados e nós. Mas de cima, pode-se ver a
beleza da estampa da obra no tear. Como mostrou Salomão, vivemos nossa
vida debaixo do tear, e tudo quanto enxergamos é vaidade. Portanto, como é
possível discernir a estampa na parte de cima? A única resposta possível é
mediante a fé no Deus soberano.

Não me deixes fugir aos teus mandamentos


1Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito
debaixo do céu: 2há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e
tempo de arrancar o que se plantou; 3tempo de matar e tempo de curar; tempo
de derribar e tempo de edificar; 4tempo de chorar e tempo de rir; tempo de
prantear e tempo de saltar de alegria; 5tempo de espalhar pedras e tempo de
ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar; 6tempo de
buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de deitar fora; 7tempo de
rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar; 8tempo de
amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz. 9Que proveito
tem o trabalhador naquilo com que se afadiga? 10Vi o trabalho que Deus
impôs aos filhos dos homens, para com ele os afligir. (Ec 3.1-10)
A despeito da infelicidade de se tornar famosa por causa da banda
americana de roque The Byrds, essa passagem permanece uma expressão
magnífica da maneira como os homens vivem a vida perante o Senhor.
Começamos agora a segunda seção do argumento de Salomão e, portanto,
devíamos uma vez mais examinar à frente a conclusão da segunda etapa. É
indispensável que continuemos a manter os olhos em onde estamos indo. “Eis
o que eu vi: boa e bela coisa é comer e beber” (Ec 5.18-20). Jamais se deve
esquecer que este é um livro de exuberante, intensa e vigorosa alegria. Ao
chegar às conclusões sobre a alegria, Salomão não dá um salto existencialista
na escuridão. Não tira um elefante da cartola. O que ele afirma, resulta de
suas premissas.
O fundamento dessa alegria é o princípio da soberania divina. Ora, os dias
de nossa vida estão nas mãos de Deus. Aqui, o primeiro versículo afirma que
há tempo e ocasião para tudo debaixo do sol (v. 1). Assim, quem reparte
esses tempos e ocasiões? Todos os trabalhos daí resultantes são dados por
Deus (v. 10); ele é quem tudo faz formoso no tempo devido (v. 11); as ações
inescrutáveis (v. 11) de Deus duram eternamente (v. 14). Se for bom, foi
Deus quem o deu. Se for trabalho duro, então também foi Deus quem deu.
Resumindo, é ele quem reparte nosso quinhão, e uma vez que o faz, é para
sempre. A partir do nosso ponto de observação, a contemplação de qualquer
coisa (incluindo o fluxo das marés) é vaidade. Mas quando nos lembramos de
que Deus pôs todas as coisas onde agora estão, tudo (incluindo o fluxo das
marés) é formoso (v. 11). O leitor criterioso dará uma olhada adiante no
versículo 14. Deus faz tudo isso para que os homens temam diante dele.
Quem lê a situação sem sentir temor, é porque se esqueceu do Deus vivo.
Essa célebre passagem, porém, não é um conjunto de instruções dadas a
nós. Não é nenhuma agenda. Antes, é uma descrição das determinações de
Deus. Não está nos dizendo que agora é tempo de semear e, alguns meses
depois, que é tempo de nos apressar, correr à messe e ceifar. Está nos dizendo
que fomos postos no mundo que não foi criado nem organizado por nós, e
que esse mundo tem diversos ciclos repetitivos, aos quais fomos designados
por alguém mais. Estamos debaixo da autoridade dessas repetições e fomos
postos sob essa autoridade pela mão e propósito de Deus.
É claro, há tempo de nascer e tempo de morrer. Quem define esses
tempos? Quem prescreveu e organizou o próprio nascimento? Deus
estabelece o dia do nosso nascimento e o do nosso funeral (v. 2). Ninguém,
antes de nascer, pode ser visto sentado em alguma mesa no mundo espiritual
preenchendo o requerimento da sua vida. Ninguém demandou o dia do
próprio nascimento – ele foi imposto a cada um de nós. Esse conhecimento é
tão negligenciado quanto óbvio. “Visto que os seus dias estão contados,
contigo está o número dos seus meses; tu ao homem puseste limites além dos
quais não passará” (Jó 14.5). Se mostrassem a Salomão um homem cujos dias
não estivessem ainda determinados, ele se espantaria com o prodígio e ia
querer saber se aquele quem estava sendo apresentado ainda estava no
capítulo 1, enchendo a cara de vinho.
Mas Deus não só se importa com o homem. Sua soberania estende-se a
tudo e sobre tudo. Conforme ensinou nosso Senhor Jesus, ela inclui os
cabelos da nossa cabeça e os passarinhos em nosso gramado sendo
perseguidos pelo gato do vizinho. Aqui, Salomão mostra que a duração da
vida das plantas no campo é determinada por Deus. Há tempo de plantar e
tempo de colher. Deus designa o dia do nascimento de cada planta e o dia do
funeral de cada planta (v. 2). Visto como essa doutrina fede em nossas
narinas, tendemos a estudar argumentos para descobrir uma saída. Mas Deus
só prometeu livramento para as tentações, não para as doutrinas
desagradáveis ao paladar. “Não se vendem dois pardais por um asse? E
nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai. E, quanto a
vós outros, até os cabelos todos da cabeça estão contados” (Mt 10.29,30).
Não ceifamos na primavera nem semeamos no inverno. Não agimos assim,
porque Deus determinou como deve ser.
Vemos tempo de matar e tempo de curar, os quais vêm também da mão de
Deus. Deus supervisiona quando os homens são executados ou quando são
mortos na batalha. Ele determina quando os homens são levantados e
restaurados (v. 3). Quem poderia dizer que só morreu porque Deus desviou o
olhar por um instante? Quando os homens são tragados pela engrenagem
trituradora da guerra, os estultos que os cercam pensam traçar o próprio
destino. Mas cada flecha, cada bala, segue a trilha ordenada antes que os
mundos fossem feitos. O rei Acabe achou que poderia frustrar as palavras de
Deus vestindo roupas diferentes — como se Deus estivesse se esforçando
para ver a batalha de longe. Mas uma flecha atirada ao acaso feriu o rei por
entre as juntas da armadura, e nenhuma palavra do profeta caiu por terra
(1Rs 22.28,34). Em tempos de guerra, o homem acha-se no ápice da soberba.
Ele é todo jactância, pois acha que derrotou o inimigo – ou pensa que pode
fazê-lo. Mas não controlamos nosso destino na guerra. Deus é quem traz a
guerra e Deus é quem traz a paz uma vez mais (v. 8).
Há tempos em que os homens derrubam e destroem, seguidos por tempos
nos quais edificam novamente. Quando um e outro ocorrem, Deus está
presente. Se é destruição, então Deus estava na destruição. Se é edificação,
então o Senhor estava na edificação (v. 3). “O conselho do SENHOR dura para
sempre; os desígnios do seu coração, por todas as gerações” (Sl 33.11). Os
homens podem se vangloriar no que constroem, ou no que destroem, mas em
ambos os casos, o Senhor está por trás deles, manejando-os como
instrumentos de suas poderosas mãos. A Assíria vangloriou-se no seu poder
para destruir Israel? Foi o Senhor quem brandiu o machado (Is 10.15). Algum
homem se vangloria da capacidade de ir a outra cidade e fazer fortuna lá? Ele
deveria testemunhar que o resultado depende da vontade de Deus (Tg 4.13-
17).
Vem o tempo de chorar; volta o tempo de sorrirmos. Nossas lágrimas de
pesar, e as ocasiões que as originaram, procedem da mão de Deus. O mesmo
ocorre com o riso (v. 4). “Eu sou o SENHOR, e não há outro. Eu formo a luz e
crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas”
(Is 46.6b,7). Quando as calamidades chegaram e as lágrimas escorreram, o
Senhor estava nelas. Quando o regozijo trouxe alegria, o Senhor estava nele.
Essa doutrina tem limites bem afiados e definidos, e mais de uma pessoa
cortou-se nela.
Chesterton certa vez comentou que se for verdade que alguém tem prazer
em esfolar um gato, então devemos negar que Deus existe, como faz o ateu,
ou negar a existência de comunhão entre Deus e o homem, como faz o
cristão. Comentou ainda que os novos teólogos entendem que negar o gato
seja uma solução adequada.1 De modo comparativo, a calamidade e o mal
nos confrontam no mundo como fatos brutos. Quem pretende preservar o
Deus da Bíblia e ainda fingir que ele não é soberano sobre tudo não presta
atenção ao argumento ou aos próprios jornais. O problema do mal é um dos
que atormenta os refinados pensadores dos departamentos de filosofia ao
redor do mundo. Gostaria de sugerir a algum crente audacioso que, no
próximo jantar do corpo docente, se levante e proponha um brinde ao
problema do mal. Será uma proposta muito abençoada.
Não é de surpreender, pois isso significa que a lamentação procede da
vontade divina. Deus determina o tempo de lamentar. Passa-se algum tempo,
e então ele determina que se dance (v. 4). Quando a alma do homem for
abatida, ele pode voltar-se para Deus em lamentação. “Por pão tenho comido
cinza e misturado com lágrimas a minha bebida, por causa da tua indignação
e da tua ira, porque me elevaste e depois me abateste. Como a sombra que
declina, assim os meus dias, e eu me vou secando como a relva” (Sl 102.9-
11). E quando a oração for respondida, sua felicidade deve também ser
atribuída à bondade de quem a concedeu. “[Para] pôr sobre os que em Sião
estão de luto uma coroa em vez de cinzas, óleo de alegria, em vez de pranto,
veste de louvor, em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem
carvalhos de justiça, plantados pelo SENHOR para a sua glória” (Is 61.3).
Rasgamos nossas vestes por causa da aflição. Isso procede do Senhor. A
aflição é dom seu, tanto quanto a restauração (v. 7).
Às vezes espalhamos pedras, e em outras vezes as ajuntamos. Deus institui
o tempo de destruição; Deus institui o tempo de edificação (v. 5). Quando cai
uma edificação, pela intenção do homem ou não, o Senhor foi quem
determinou o tempo. Tudo que se constrói é fútil à parte do bom propósito de
Deus. “Se o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam;
se o SENHOR não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela” (Sl 127.1).
Sustentar um ao outro procede de Deus. O abraço é dado desde o céu. A
abstinência também procede dele. Quando deixamos de abraçar, estamos
cumprindo sua vontade designada (v. 5). A esposa prudente vem do Senhor
― e também a atraente. Quando abraçamos um ao outro, recebemos um dom
precioso. Quando a brecha se abre, ainda estamos sob seu decreto.
Algumas pessoas fazem fortuna vivendo em uma época favorável ao
lucro. Outras perdem demais. A prosperidade é dom de Deus, como a queda
da bolsa de valores (v. 6). Deus nos permite acumular até o máximo. Ele
determina o dia em que lançaremos fora, sem jamais pensar a respeito depois
(v. 6). É Deus quem dá o poder para obter riquezas (Dt 8.18). E quando os
homens se esquecem dele, é ele quem lhes traz a calamidade financeira:
“Maldito o teu cesto e a tua amassadeira” (Dt 28.17). A agitação do mercado
de ações revela o orgulho arrogante melhor que quaisquer outras coisas
menores. Acreditamos que podemos injetar capital na Dow Jones para
sempre e fazer dinheiro a passos rápidos sem cessar… mas não podemos. Os
ciclos ordenados por Deus para tudo no mundo caído e insensato voltarão de
novo, e muito milionário empalidecerá de incredulidade. “Como pôde
acontecer isso?”. Amigo, preste atenção ao mundo. Como não poderia
acontecer?
Deus permite que o homem não diga nada, ficando em silêncio. Deus lhe
dá as palavras para que fale (v. 7). “O coração do homem pode fazer planos,
mas a resposta certa dos lábios vem do SENHOR” (Pv 16.1). O homem pode
achar que sabe qual a importância do que afirma, mas só Deus conhece de
fato o rumo das palavras. Silêncio e eloquência são ambos dados por ele –
para cumprir o bom propósito e vontade do Senhor.
Relacionamentos que se formam estão sob o desígnio da sua vontade
soberana, e os que se dissolvem também procedem dele (v. 8). Houve um
tempo no qual Evódia e Síntique eram íntimas, mas terminaram rompendo.
Mas, debaixo do sol, jamais reataram novamente. O tempo para as amizades
e o tempo para as discórdias estão todos designados. Nossa responsabilidade
de evitar discórdias banais jamais põe em risco a soberania do Senhor sobre
nossa obediência ou desobediência. Gostamos de combater essas verdades
óbvias porque consideramos ameaças à santidade do caráter divino dizer que
Deus está acima de tudo. Mas lembre-se, ele é Deus.
Em tudo isso, em cada aspecto da vida, o Senhor Deus é totalmente
soberano. Não faz tal afirmação para contender com os infelizes irmãos que a
questionam, mas porque ela é o fundamento da argumentação de Salomão. O
que, por sua vez, significa que é o fundamento de toda alegria inteligente
possível.

Os teus testemunhos são o meu prazer, são os meus conselheiros


11Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade
no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez
desde o princípio até ao fim. 12Sei que nada há melhor para o homem do que
regozijar-se e levar vida regalada; 13e também que é dom de Deus que possa
o homem comer, beber e desfrutar o bem de todo o seu trabalho. 14Sei que
tudo quanto Deus faz durará eternamente; nada se lhe pode acrescentar e nada
lhe tirar; e isto faz Deus para que os homens temam diante dele. 15O que é já
foi, e o que há de ser também já foi; Deus fará renovar-se o que se passou.
(Ec 11.13-15)
A eternidade foi implantada em nosso coração. Deus nos fez em
relacionamento com ele, e nada que fizermos poderá alterar isso. Ele é
sempre aquele que nos fez, e nós somos sempre os que foram feitos. Ele é
sempre o Criador, e nós somos sempre criados. O fato de o “mundo” ter sido
colocado em nosso coração não significa que o entendamos. A realidade é o
contrário. Homem nenhum é capaz de descortinar a obra que Deus realiza do
princípio até o final. A resposta fiel é entregar-se de braços abertos pela fé
(não pelo desespero) e desfrutar o momento. Isso só pode ocorrer se uma das
obras que Deus estiver fazendo for a comunicação da fé verdadeira a algum
pobre tolo debaixo do sol.
Ora, Salomão vê mediante a fé o proveito das coisas e o trabalho imposto
por Deus (v. 9). O que Deus faz é formoso a seu tempo (v. 11). Por que razão
queremos entender tudo isso? Deus pôs a eternidade no nosso coração
(v. 11), o que desperta em nós uma sede desesperada sem que haja água. Mas
mesmo com essa sede pelo que é eterno, o homem não é o ponto de partida
do conhecimento e não o pode ser. Temos de começar com Deus, e não com
alguma antiga divindade qualquer. Temos de começar com o Deus que tudo
governa, aquele que tudo arranjou em um formoso lugar. Temos de adorar
aquele que dirige todas as coisas para sua glória final. Até mesmo o pecado e
o mal? Até mesmo o monstruoso e o feio? A resposta tem de ser sim —
somos chamados para lembrar que a lista apresentada pela sabedoria inclui
curar e matar, guerra e ódio, choro e riso. Deus a tudo controla perfeitamente.
Resistimos ao ouvir essas coisas porque somos soberbos. Dizemos que
não queremos a santidade de Deus impugnada, mas na verdade não queremos
que nossa autonomia seja restringida. Se Deus designa todos os períodos da
vida do homem, então homem nenhum pode viver para si mesmo, e ninguém
consegue encontrar dentro de si a fonte da sabedoria. Se Deus decreta todas
as coisas, então não podemos fugir dele, nem mesmo nos afundando na
depravação absoluta. O homem que abraça o mal, vê-se uma ferramenta na
mão do Onipotente. O homem que rejeita o mal e segue a sabedoria, vê-se
um filho, na família do Onipotente. A única opção que não temos é a de
obstaculizar e restringir os propósitos divinos.
Os que dizem que o Deus santo não pode manejar uma ferramenta má
passaram a acreditar na autoridade dos próprios sofismas. A Bíblia nos
informa que Deus é santo, e a Bíblia nos diz que Deus usa o ímpio com as
mãos como um machado. Deus usou os malignos assírios para julgar os
judeus; Deus usou Herodes, Pôncio Pilatos, e todos os judeus para
condenarem seu Filho; Deus usou Judas para trair o Senhor; Deus usou
Absalão para coabitar com as concubinas de Davi. A lista é extensíssima e
bem menos agradável do que alguns cristãos desejariam.
Que devemos então fazer? Essa doutrina é o fundamento da alegria.
Regozije-se, faça o bem, como seu pão, beba seu vinho. Creia no Deus
soberano e desfrute dessas inescrutáveis repetições (v. 15). É dom de Deus
(v. 13). Lembre-se de seus juízos (v. 15) e sente-se para comer.

Visão geral e revisão


Primeira divisão (1.2—2.26): A satisfação, é claro, não poder advir de
nada que esteja ao alcance do poder do homem; podemos saber disso
assistindo ao canal do tempo e observando nossa própria vida dando voltas e
voltas.
Segunda divisão (3.1—5.20): Deus é soberano sobre tudo; Salomão
responde a objeções à doutrina. Primeira subdivisão (3.1-15): Na sua
soberania, Deus coloca todas as coisas em um formoso lugar com um olho
perfeito e inerrante.
Terceira divisão (6.1—8.15): Salomão segue o modelo bíblico e aplica sua
doutrina segundo a qual só o Deus soberano concede a capacidade de
desfrutar a vaidade.
Quarta divisão (8.16—12.24): A última seção ataca e remove vários
problemas, e chega penetrantemente às questões práticas.
1 G. K. Chesteron, Orthodoxy (London: Bodley Head, 1908), cap. 2.
Capítulo 6
O silêncio
do desespero
Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes
de todos os homens.
1 CORÍNTIOS 15.19

a consideração do livro de Eclesiastes, a questão não é de fato como


N resguardar o livro de contradizer outras porções mais “respeitáveis” da
Escritura. A tarefa é lê-lo de forma a não contradizer a si mesmo.
Estamos chegando a trechos do livro comumente mal interpretados porque os
leitores tentam mantê-los em pé isoladamente, por si mesmos, e não como
parte de um argumento sustentável.
Para entender o argumento devemos nos lembrar da natureza das
perguntas difíceis. O sábio sempre se lembrará dos limites estabelecidos por
Salomão no decorrer de todo o livro e as conclusões por todo ele as quais o
autor insta com o leitor para que as deduza. Essas conclusões não são as
mesmas a que chegaríamos, se deixados ao nosso próprio conselho. Se
formos largados à nossa sabedoria carnal não raciocinaríamos a partir das
premissas da maneira como ele faz. Nesta seção, vemos uma vez mais o
estranho tipo de conclusão de Salomão, desta vez em 3.22: “Pelo que vi não
haver coisa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras, porque essa é
a sua recompensa; quem o fará voltar para ver o que será depois dele?”. É
isso que devemos fazer. Como poderemos fazê-lo? É dom de Deus. Quando
chegamos à conclusão do argumento, e não sentimos vontade de nos alegrar,
isso significa apenas que, fomos deixados para trás na nossa estultice,
incapazes de manter o passo. Lembrem-se de que todas as objeções ensaiadas
nesta seção continuam simplesmente no lugar em que Salomão as abandonou
de modo deliberado.
Além disso, a natureza dessas antiquíssimas questões e objeções serve
para mostrar como de fato nada há de novo debaixo do sol.
Ensina-me os teus preceitos
16Vi ainda debaixo do sol que no lugar do juízo reinava a maldade e no
lugar da justiça, maldade ainda. 17Então, disse comigo: Deus julgará o justo e
o perverso; pois há tempo para todo propósito e para toda obra. (Ec 3.16,17)
Assim, a primeira objeção dá um passo à frente. “Mas... vemos maldade
nas cortes”. Como é possível afirmarmos que Deus se assenta no trono da alta
justiça quando nossos juízes, estabelecidos sobre a terra para refletirem essa
justiça, não se preocupam em cumpri-la (3.16)? Como é possível ele estar lá
em cima, se eles estão cá em baixo? Os problemas no judiciário não
começaram com os juízes liberais do presente século; Salomão conheceu
muitos que torciam as palavras por trás da tribuna. Agora, a perversidade dos
juízes fornece matéria-prima para a difamação da verdade. Salomão, porém,
apressa-se em acrescentar que Deus consertará tudo no juízo final (3.17).
Quando os homens se apartam da Palavra de Deus e são investidos de
poder, passam a acreditar que eles próprios são a lei. A forma como se
vestem completa a ilusão, tanto para nós como para eles. Durante algum
tempo após a transição, todos ainda cantamos mantras como a regra da lei,
não de homens, mas ninguém mais a entende. Não é possível encontrar
nenhuma forma para trazer os homens debaixo da lei a despeito das
extravagâncias e desejos de homens caprichosos, à parte do reconhecimento
formal do rígido mestre da lei bíblica.
Os cristãos, que deviam ser os mais conhecedores, têm-se batido já há
alguns anos, para votarem no menor de dois males. Uma facção quer dirigir
rumo ao penhasco do juízo de Deus a cem quilômetros por hora, ao passo que
a fiel oposição quer reduzir a velocidade para sessenta. Cristãos trabalhadores
e simplórios fazem das tripas coração para colocar o último grupo no poder.
E então, quando assumem o controle, condescendem com o grupo alijado e
estabelecem a velocidade moderada e bem respeitada de noventa
quilômetros.1
A Bíblia, porém, proíbe a investidura de um soberano – seja governante ou
juiz – que não tema a Deus. “Procura dentre o povo homens capazes,
tementes a Deus, homens de verdade, que aborreçam a avareza; põe-nos
sobre eles por chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinquenta e chefes de
dez” (Êx 18.21). Em vez disso, temos dado posse a tolos e imbecis, homens
que não temem a Deus, que adoram o engano, o suborno e dinheiro por fora,
e depois nos perguntamos por que nossas campanhas em prol dos valores
tradicionais parecem sempre ficar presas no atoleiro. “Por que, ó Senhor, não
nos livras dos secularistas?”. Claro que a resposta é que não temos deixado
de votar neles. Somos semelhantes aos que querem ser salvos do afogamento
desde que possam continuar no fundo da piscina.
Mas a oposição que Deus supre contra a tirania nas cortes é o
conhecimento do juízo vindouro. Não surpreende que governantes e juízes
que não creem nessa justiça não sejam refreados por ela. Mas o que há de
estranho são os incontáveis milhares que acreditam nessa justiça e creem que
ela seja irrelevante nas considerações políticas. Só o tolo investe alguém com
verdadeiro poder sobre os semelhantes, quando a pessoa não teme a Deus:
“Então, disse comigo: Deus julgará o justo e o perverso” (v. 17).
Esse versículo prometendo justiça é de suma importância à medida que
nos acercarmos da próxima seção, pois muitos presumem que Salomão tem
uma perspectiva inteiramente centrada no mundo e em seus acontecimentos.
Como mostra a passagem, o juízo final está por demais evidente em todo esse
livro sapiencial. E, é claro, devemos também nos lembrar do último versículo
do livro. Assim, a resposta à objeção fundamentada na existência da opressão
judicial é que o dom de Deus concede sabedoria no juízo final. Esse
conhecimento da justiça final põe em perspectiva toda monstruosidade
judicial. Em dias nos quais ela prolifera como cardos à luz do sol, carecemos
de encorajamento.

Faze-me atinar com o caminho dos teus preceitos


18Disse ainda comigo: é por causa dos filhos dos homens, para que Deus
os prove, e eles vejam que são em si mesmos como os animais. 19Porque o
que sucede aos filhos dos homens sucede aos animais; o mesmo lhes sucede:
como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo fôlego de vida, e
nenhuma vantagem tem o homem sobre os animais; porque tudo é vaidade.
20Todos vão para o mesmo lugar; todos procedem do pó e ao pó tornarão.
21Quem sabe se o fôlego de vida dos filhos dos homens se dirige para cima e

o dos animais para baixo, para a terra? 22Pelo que vi não haver coisa melhor
do que alegrar-se o homem nas suas obras, porque essa é a sua recompensa;
quem o fará voltar para ver o que será depois dele? (Ec 3.18-22)
Outra objeção se apresenta como voluntária: “Mas… tanto os homens
como os animais morrem”. Esse é o teste da mortalidade (3.18). Deus
assegura que possamos ver com nossos olhos que descemos à terra da
mesmíssima maneira que os cães e os porcos. Portanto, com base em quê
dizemos haver diferença entre nós? A única base possível é a declaração
transcendente, vinda de fora do sistema, a declaração feita pela Palavra de
Deus. Quando lemos o versículo 21, nos lembramos do versículo 17.
Salomão acabou de nos ensinar a respeito de um juízo final. Mas dados os
parâmetros de autonomia, que diferença há? Essa não é uma questão
relativista. Salomão não pergunta: Quem sabe? Quem pode dizer? Deve-se
entender isso como tendo em si uma declaração indicativa implícita. O
espírito do homem vai para cima; o espírito do animal vai para baixo. Mas
quem sabe disso? Deus sabe, mas o homem por si mesmo não é capaz de
saber.
Os homens sabem que estão em uma categoria à parte da dos animais. O
argumento de Salomão é que eles, em razão da epistemologia abraçada, não
têm como saber disso de forma consistente. Observe o que acontece ao
cadáver de cada um deles. A imago dei não retarda o processo de
apodrecimento. Portanto, se for para isso que olhamos a fim de descobrirmos
essa imagem, então não chegaremos a nada, exceto ao desespero. Em última
análise, a única coisa que o cientista consegue medir é a velocidade com que
apodrecemos. O conhecimento do juízo final e da maneira como os homens
na qualidade de homens se postarão de pé diante de um grande trono não é
deduzido da dissecação de sapos.
Alguns verdinhos entusiasmados têm corrido para engolir a reductio [ad
absurdum]. “Beleza”, dizem eles, “o homem não é diferente dos animais.
Toda vida está no mesmo nível”. E então seguem adiante insistindo conosco
para que salvemos as baleias, como se fôssemos responsáveis por elas ou
algo parecido. É possível negar a singularidade do homem, mas não é
possível fazê-la desaparecer. Os homens sempre serão homens, mas à parte
da consciência do juízo final, não podem ter a esperança de prestarem conta
razoável de si mesmos como homens.
Assim, precisamos nos lembrar de dar uma olhada lá na frente em 12.7. A
resposta a essa objeção à mortalidade é que o dom de Deus concede o
conhecimento acerca da nossa vida após a morte.

Fortalece-me segundo a tua palavra


1Vi ainda todas as opressões que se fazem debaixo do sol: vi as lágrimas
dos que foram oprimidos, sem que ninguém os consolasse; vi a violência na
mão dos opressores, sem que ninguém consolasse os oprimidos. 2Pelo que
tenho por mais felizes os que já morreram, mais do que os que ainda vivem;
3porém mais que uns e outros tenho por feliz aquele que ainda não nasceu e

não viu as más obras que se fazem debaixo do sol. (Ec 4.1-3)
No entanto, as objeções não param. “Mas… os homens são oprimidos”.
Os homens não são oprimidos especificamente pelas cortes, como discutimos
antes. São oprimidos de forma geral por toda a vida nos negócios, no
casamento, em diferentes relacionamentos, por qualquer um que detenha o
poder (4.1). É melhor estar morto ou não ter nascido do que ser oprimido
dessa maneira (4.2,3).
Os que já morreram estão em melhores condições que os homens vivos,
ou que ainda não nasceram. Na vida, os opressores detêm o poder, e sabem
usá-lo. O oprimido pode clamar e continuar a achar que não tem consolador.
Nascemos para a aflição, como as faíscas das brasas voam para cima.
Nada pode ser realizado negando-se a existência da tribulação. A única
atitude que devemos tomar é ansiar a morte, quando estaremos fora do
alcance do opressor. Salomão já nos tinha lembrado do juízo, e nos fará
lembrar dele uma vez mais. Se entendermos isso, se nos lembrarmos, então
deixaremos o deserto e alcançaremos a consolação.
Portanto, a resposta aqui é que o dom de Deus concede consolação.

Favorece-me com a tua lei


4Então, vi que todo trabalho e toda destreza em obras provêm da inveja do
homem contra o seu próximo. Também isto é vaidade e correr atrás do vento.
5O tolo cruza os braços e come a própria carne, dizendo: 6Melhor é um

punhado de descanso do que ambas as mãos cheias de trabalho e correr atrás


do vento. (Ec 4.4-6)
Assim surge outra objeção. “Mas… os homens são invejosos e
preguiçosos”. Este é realmente o outro lado do problema anterior: antes,
vimos o poderoso chutando o impotente, mas agora vemos o impotente
cuspindo em quem exerce o domínio criativo. Quando o homem trabalha
duro, e realiza muita coisa, seus vizinhos o invejam (4.4-6). Quem inveja é
quase sempre um canibal, devorando a si mesmo (v. 5). Mas o trabalho duro,
puro e simples também não consegue satisfazer.
Quando alguém trabalha com afinco – e o faz bem – seu próximo
desdenha dele. “Para você, falar é muito bom – você consegue fácil!”. É claro
que consegue fácil, pois tem dado duro e agora goza do fruto do seu labor.
Seu próximo vê isso como injusto e atormenta-se demais com o problema.
Surgem, então, os demagogos inescrupulosos e prometem fazer os ricos
pagarem sua “cota justa”. Isso é um ritual complexo e de longo prazo no qual
os pobres são tosquiados em nome da tosquia dos ricos. Os pobres permitem
que isso aconteça porque ficam cegos pela própria inveja. Qualquer um que
pretenda controlar as engrenagens do Estado, para melhor levar a efeito sua
pilhagem, sempre promete fazer os grandes empreendimentos pagarem
impostos – e os invejosos vibram com isso. Mas, é claro, empresa nenhuma
jamais pagou impostos sem os repassar para os consumidores e assim o
invejoso termina pagando pelo saque que ele mesmo apoia com todo ardor.
Mas não tenha pena dele. Esse indivíduo é um tolo invejoso e merece tudo
quanto recebe, tanto de bom como de duro.
O sábio detesta toda forma de inveja. A resposta dada por Salomão é que o
dom de Deus concede satisfação ao trabalho duro de cada um.

Escolhi o caminho da fidelidade


7Então, considerei outra vaidade debaixo do sol, 8isto é, um homem sem
ninguém, não tem filho nem irmã; contudo, não cessa de trabalhar, e seus
olhos não se fartam de riquezas; e não diz: Para quem trabalho eu, se nego à
minha alma os bens da vida? Também isto é vaidade e enfadonho trabalho.
9Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho.
10Porque se caírem, um levanta o companheiro; ai, porém, do que estiver só;

pois, caindo, não haverá quem o levante. 11Também, se dois dormirem


juntos, eles se aquentarão; mas um só como se aquentará? 12Se alguém quiser
prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; o cordão de três dobras não se
rebenta com facilidade. (Ec 4.7-12)
Ainda mais um argumento. “Mas... os homens são solitários”. O avarento
obcecado pelo trabalho é solitário e industrioso, mas não tem razão para agir
como age (4.7,8). O homem foi feito para viver em comunidade e a solidão é
um grande mal. Trabalhar juntos trás satisfação, é frutífero, evita prejuízos,
lhe mantém aquecido, defende e preserva a unidade (4.9-12).
O homem trabalha para acumular sem parar, para fazer uma pergunta
básica: por que estou fazendo isso? Ele acumula uma pilha de dinheiro, mas
não tem ninguém com quem a compartilhar. Ele não se permite casar ou ter
filhos, porque o afastariam do trabalho. Não se permite ter amigos, porque
todos os seus motivos seriam suspeitos. Ele teria condição de pagar o almoço
de todos no restaurante, mas ninguém quer se sentar com ele. Tudo bem, ele
também não quer se sentar com ninguém.
Mas o companheirismo é algo amável. Deus nos criou para a amizade, e
há uma maldição em todas as coisas que impedem as pessoas de fazerem
amizades. Um dos cúmplices nesse caso é o empenho para fazer dinheiro em
grande escala.
A resposta, portanto, é que o dom de Deus concede companheirismo.

Tenho os teus juízos diante de mim


13Melhor é o jovem pobre e sábio do que o rei velho e insensato, que já
não se deixa admoestar, 14ainda que aquele saia do cárcere para reinar ou
nasça pobre no reino deste. 15Vi todos os viventes que andam debaixo do sol
com o jovem sucessor, que ficará em lugar do rei. 16Era sem conta todo o
povo que ele dominava; tampouco os que virão depois se hão de regozijar
nele. Na verdade, que também isto é vaidade e correr atrás do vento.
(Ec 4.13-16)
Então, a última objeção é apresentada. “Mas… a fama é transitória”. Isso é
o original bíblico da célebre máxima de Warhol, segundo a qual cada um terá
seus quinze minutos de fama (v. 4). O rei velho tornou-se irredutível e
indisposto para ouvir conselhos. Foi trocado por um jovem seguido por
multidões… mas que, por sua vez, se tornará impopular.
É assim que acontece, e é normal. É como Deus o designou. Quando nos
recusamos ser varridos com cada nova excitação política, quando tomarmos
conhecimento de que tudo isso já aconteceu muitas vezes antes, teremos
crescido em alguma medida na sabedoria. Conforme expressou Agostinho,
em nossas questões importantes, os mortos são sempre substituídos pelos que
estão morrendo. Os impopulares de hoje são sempre trocados pelos ainda não
impopulares. Mas serão, e por isso o sábio deve buscar melhor ponto de
observação. A resposta aqui é que o dom de Deus concede a aceitação com
ele.
Devíamos acolher bem o silêncio do desespero. O desespero humano não
tem autoridade para contradizer o que Deus nos dá. Só pode contradizer o
que ele vivencia, ou seja, a vida debaixo do sol. Sem Deus e sem sua Palavra,
que podemos dizer a respeito dessas coisas? Temos que silenciar. Devemos
desesperar… do nosso próprio desespero.

Visão geral e revisão


Primeira divisão (1.2—2.26): A essa altura, devíamos saber que a
satisfação não poder provir de nada ao alcance do poder do homem.
Segunda divisão (3.1—5.20): Visto que Deus é soberano por cada mínima
coisa do último instante, Salomão deve responder a objeções à doutrina.
Primeira subdivisão (3.1-15): Na sua soberania, Deus coloca todas as coisas
no lugar com perfeição de juízo. Segunda subdivisão (3.16—4.16): São
replicadas seis objeções à soberania de Deus.
Terceira divisão (6.1—8.15): Depois de havê-la estabelecido, Salomão
aplica a doutrina de que só a soberania de Deus concede a capacidade para se
desfrutar a vaidade.
Quarta divisão (8.16—12.14): A última seção do livro é uma miscelânea,
removendo diferentes obstáculos e abordando conselhos práticos.
1 Alguns anos atrás, um amigo produziu um comentário fortuito que, para algumas pessoas, talvez
pareça refletir a fé deficitária na democracia americana. Ele disse: “Claro que ele é corrupto. Ele é
candidato a presidente, não é?”. O tempo passou e eu gostaria de alterar seu comentário só um pouco.
Algumas pessoas, as cristãs em particular, logo que entram no sistema político, não são de fato
corruptas, ainda. Elas têm testemunhado os problemas da vida pública e querem fazer a diferença.
Nossas atrapalhadas e mal resolvidas questões públicas conseguiram espaço lateral suficiente para que
algumas almas puras arregacem as mangas decididas a se meter lá dentro para fazerem as coisas
funcionarem. Isso é como achar que “o remédio para a prostituição é encher de virgens as casas de
tolerância”, como comentou certa vez H. L. Mencken (Notes on Democracy [New York: Knopf,
1926]). Ainda assim, não tem jeito. O sol se levanta e o sol de põe, e a uma sociedade em declínio
jamais faltarão reformadores e patriotas às pencas. Eles ou falham, e conservam a pureza, ou têm
sucesso, e descobrem que essa coisa toda é bem mais complexa do que achavam antes. No fim das
contas, eles entraram para fazer a diferença, e só podem fazer a diferença se ficarem por perto, e só
podem ficar por perto se aprenderem a jogar o jogo. A Senhorita Realística é uma coisinha linda e
sedutora, mas sempre tem filhos feios. Quando o câncer da corrupção já está bem avançado na
sociedade, os crentes podem ser manobrados para que se enfeitem com os botões de campanha dos
menos corruptos. Comparações do tipo relativo entre “horrível” e “não tão ruim” podem parecer
bastante austeras, além de imporem às campanhas políticas um elevado valor de entretenimento, mas
ainda não refletem os padrões da lei de Deus.
CAPÍTULO 7
Sacrifícios
de tolos1
Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno.
MATEUS 5.37

imos que o tema de Eclesiastes é a existência da alegria e do prazer


V pela graça, mediante a fé, não por meio de obras, para que ninguém se
glorie. As admoestações encontradas nessa passagem não são a maneira
como adquirimos a alegria, mas as características dela. O estulto aproxima-se
de Deus de modo inconsistente com a verdade, a sabedoria ou a alegria. O
sábio ouve, e ouve tudo.
As objeções teóricas quanto à soberania de Deus foram tratadas na seção
anterior. Salomão volta-se agora para alguns obstáculos práticos que
impedem a compreensão dessa verdade. Obviamente, pelo menos duas coisas
podem interferir na percepção da gloriosa verdade sobre quem Deus é. A
primeira diz respeito ao que pensamos de Deus, e a segunda, como vivemos
diante de Deus. Portanto, nessa parte Salomão acautela-nos para que não
ofereçamos a adoração prática dos estultos.

Percorrerei o caminho dos teus mandamentos


1Guarda o pé, quando entrares na Casa de Deus; chegar-se para ouvir é
melhor do que oferecer sacrifícios de tolos, pois não sabem que fazem mal.
2Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar

palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu, na terra;
portanto, sejam poucas as tuas palavras. 3Porque dos muitos trabalhos vêm os
sonhos, e do muito falar, palavras néscias. (Ec 5.1-3)
Vamos voltar e considerar o tolo em seu culto. A religiosidade adora
encher linguiça diante do Senhor. Religiosos adoram fazer orações prolixas.
Para a carne, um pressuposto natural na religião é que Deus fica de algum
modo impressionado com o montante de palavras, e tudo isso apesar da
expressa injunção bíblica contrária (5.1-3).
Nosso Senhor orou noites inteiras, algumas vezes. “Naqueles dias, retirou-
se para o monte, a fim de orar, e passou a noite orando a Deus” (Lc 6.12).
Somos instados a orar sem cessar (1Ts 5.17) e a perseverar em oração
(Cl 4.2). No entanto, nossas lições bíblicas introdutórias sobre a oração
enfatizam a brevidade. Ser um guerreiro na oração — que expressão
horrorosa para algo tão maravilhoso! — não é o mesmo que ser tagarela,
loquaz, verboso, e assim por diante. Os crentes precisam primeiro aprender a
oferecer poucas palavras. Isso exige pensamento organizado. O fato de os
tolos serem verbosos quando oram não é uma lei modificada só porque as
palavras “em nome de Jesus, amém!” vêm atreladas ao final das orações.
Quando Jesus ensinou seus discípulos a orar, ele lhes deu uma oração bem
simples e breve. Somos mais sábios que tudo isso e, portanto, nossas palavras
jorram sem fim. Mas ele conhecia o coração dos homens, e por isso
acrescentou uma advertência expressa: “E, orando, não useis de vãs
repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão
ouvidos” (Mt 6.7). “Ué”, a gente se pergunta, “que significa isso?”.

Ensina-me, SENHOR, o caminho dos teus decretos


4Quando a Deus fizeres algum voto, não tardes em cumpri-lo; porque não
se agrada de tolos. Cumpre o voto que fazes. 5Melhor é que não votes do que
votes e não cumpras. 6Não consintas que a tua boca te faça culpado, nem
digas diante do mensageiro de Deus que foi inadvertência; por que razão se
iraria Deus por causa da tua palavra, a ponto de destruir as obras das tuas
mãos? 7Porque, como na multidão dos sonhos há vaidade, assim também, nas
muitas palavras; tu, porém, teme a Deus. (Ec 5.4-7)
Os tolos também adoram fazer votos impensados. Conversar sobre o que
você vai fazer é uma forma boa e barata de melhorar a reputação aqui em
baixo na igreja. Imagine uma tática semelhante à empregada pelos falecidos
Ananias e Safira. Esta seção de Eclesiastes refere-se a um compromisso
financeiro, mas quando o emissário do templo vem buscá-lo, a história
contada por quem fez o voto agora é outra (v. 4-7). Sonhadores gostam de
falar, e faladores gostam de sonhar. Pague o que você votou, Deus não se
agrada de tolos. Você não quer colocar Deus contra si mesmo no seu
trabalho. Tema ao Senhor.
É caso de não pouco espanto tão poucas pessoas se preocuparem em saber
se Deus é contra ou a favor da obra que elas estão tentando realizar. A oração
do sábio busca o favor do Senhor sobre a obra realizada. “Seja sobre nós a
graça do Senhor, nosso Deus; confirma sobre nós as obras das nossas mãos,
sim, confirma a obra das nossas mãos” (Sl 90.17).
O tolo desconsidera esse dever e ignora os desdobramentos de ter votado a
Deus algo que não cumpriu. Se Deus resolvesse destruir o empreendimento
de alguém, acaso teria alguma dificuldade para fazê-lo? Se Deus decidiu que
a ruína financeira acometerá outro tolo hoje, seria o tipo de coisa que algum
analista financeiro poderia interromper?

Dá-me entendimento, e guardarei a tua lei


8Se vires em alguma província opressão de pobres e o roubo em lugar do
direito e da justiça, não te maravilhes de semelhante caso; porque o que está
alto tem acima de si outro mais alto que o explora, e sobre estes há ainda
outros mais elevados que também exploram. 9O proveito da terra é para
todos; até o rei se serve do campo. (Ec 5.8,9)
Os religiosos tolos também manifestam ingenuidade. Quase de imediato
vêm à lembrança os liberais teológicos. É preciso certo tipo de mente para
achar que a paz mundial pode ser prenunciada se todos nos dermos as mãos e
concebermos pensamentos felizes. Os braços são para abraços e algumas
pessoas pensam que visualizar a paz mundial tem um impacto e tanto. Mas
olhe ao redor; veja os jornais. Os homens são oprimidos o tempo todo – os
sábios não se espantam nem ficam amargurados quando isso acontece
(v. 8,9). O problema se estende até o topo. Mas lembre-se de também que o
rei, como qualquer outra pessoa, depende da agricultura.
O sábio, portanto, não se torna amargurado por causa dos pequenos tiranos
que ele vê nas províncias. As mesmas regras prevalecem em Washington. As
pessoas se candidatam porque almejam posições que lhes permitam começar
a roubar dinheiro com uma retroescavadeira. Isso está de algum modo
infectado em nossa nação exatamente pelo nosso excelente sistema de dois
partidos, o que significa que temos debates renhidos sobre qual deveria ser a
cor da retroescavadeira. Somente Deus, supremo acima de todos, está imune
a tais corrupções.
Alguns homens são atraídos para o centro do poder político só para se
desiludirem com a chocante avareza encontrada lá. Muitos outros se sentem
em casa com a corrupção. Os sábios sabem disso sem que fiquem
amargurados.

Inclina-me o coração aos teus testemunhos


10Quem ama o dinheiro jamais dele se farta; e quem ama a abundância
nunca se farta da renda; também isto é vaidade. 11Onde os bens se
multiplicam, também se multiplicam os que deles comem; que mais proveito,
pois, têm os seus donos do que os verem com seus olhos? (Ec 5.10,11)
Isso tem ligação com a cobiça. A concupiscência exige sempre cada vez
mais, e ainda mais e mais (v. 10-17). Mas como Salomão nos ensina aqui…
você não pode levar nada consigo. Esse bem conhecido clichê é ignorado na
mesmo proporção em que é enunciado – e quase sempre pelas mesmas
pessoas. Mas quem ama a fartura da prata dorme com falsos amantes que não
podem satisfazer (v. 10). O crescimento de bens traz consigo o crescimento
de contadores, advogados, funcionários, gerentes, e hostes de consultores
com um olhar faminto nos olhos (v. 11).
Os que constroem impérios o mais das vezes se descobrem segurando um
urso feroz pelas orelhas. Quanto mais fazem, menos são capazes de fazer.
Quanto mais controle acumulam, menos poderosos se sentem. Isso é porque a
vaidade de crescer, a futilidade da prata e do ouro, tem vida própria. O
homem pode trabalhar arduamente para adquirir dinheiro, só para descobrir
no final do dia que, na verdade, foi o dinheiro quem o adquiriu.
Poucos homens têm riquezas, e bem menos as controlam quando as têm.

Vivifica-me no teu caminho


12Doce é o sono do trabalhador, quer coma pouco, quer muito; mas a
fartura do rico não o deixa dormir. 13Grave mal vi debaixo do sol: as riquezas
que seus donos guardam para o próprio dano. 14E, se tais riquezas se perdem
por qualquer má aventura, ao filho que gerou nada lhe fica na mão. 15Como
saiu do ventre de sua mãe, assim nu voltará, indo-se como veio; e do seu
trabalho nada poderá levar consigo. 16Também isto é grave mal: precisamente
como veio, assim ele vai; e que proveito lhe vem de haver trabalhado para o
vento? 17Nas trevas, comeu em todos os seus dias, com muito enfado, com
enfermidades e indignação. (Ec 5.12-17)
Os cavadores de valas, diz-nos Salomão, dormem melhor que os ricos
dominados pela ansiedade (v. 12). O rico tolo é destruído pelas próprias
bênçãos (v. 13). Se esse rico tem um filho, este nascerá nu – da mesma
maneira que estará o seu pai quando nascer no mundo por vir (v. 14,15). O
homem chega ao mundo desprovido de bens e o deixa desprovido de bens.
No intervalo, enquanto possui todas as suas coisas, não consegue dormir
porque se preocupa com elas. Que grande negócio. Mas se ele trabalha duro e
aflige-se e preocupa-se demais, pode ter a certeza de que suas excelentes
roupas (pelo curto tempo que as possui) não passam de belo papel de
embrulho paras as úlceras (v. 17).
A isso, Salomão denomina grave mal. Aqui está o sujeito; lá se foi ele.
Trabalhou o tempo todo para o vento sibilante, mourejando para acumular
seu tesouro inalienável... de brisa enlatada. Para alcançar essa recompensa,
fez refeições no escuro, suportou momentos de tristeza e raiva, e acrescentou
tudo ao seu mal-estar. Antes ele que eu.
A exortação vem sem rodeios. Tema a Deus e rejeite a estupidez da
ganância… a grande gargantilha da sabedoria serena.

Desvia os meus olhos, para que não vejam a vaidade


18Eis o que eu vi: boa e bela coisa é comer e beber e gozar cada um do
bem de todo o seu trabalho, com que se afadigou debaixo do sol, durante os
poucos dias da vida que Deus lhe deu; porque esta é a sua porção. 19Quanto
ao homem a quem Deus conferiu riquezas e bens e lhe deu poder para deles
comer, e receber a sua porção, e gozar do seu trabalho, isto é dom de Deus.
20Porque não se lembrará muito dos dias da sua vida, porquanto Deus lhe

enche o coração de alegria. (Ec 5.18-20)


A conclusão dessa linha de argumentação irônica é paz e alegria. Nos
versículos 18-20, as frases cruciais são estas: “e lhe deu poder para deles
comer” e “isto é dom de Deus”. Deus, como parte da bondade da sua graça,
mantém o homem ocupado com seus afazeres, concedendo-lhe alegria. O fato
de alguns homens poderem recebê-la do jeito que vem, sem que se angustiem
a todo instante em busca do sentido último para as coisas, é dom de Deus
(v. 20).
Precisamos retornar e dar uma olhada no terreno coberto pelos argumentos
de Salomão. Segundo a razão carnal, essa é realmente uma conclusão
estranha. Salomão está expondo diante de nós o que viu, e isso inclui a
descrição nos versículos que levam a essa conclusão. Mas inclui também o
que ele vê nessa conclusão. É agradável e gracioso erguer a taça e comer um
bom pão. O homem pode receber sua porção de trabalho debaixo do sol, e
pode recebê-la com alegria. Quando recebe o que é dado por Deus – e só
nesse caso – o homem pode se regozijar plenamente. Sua porção é suave,
quando recebida como dádiva. Mas se for deixada por aí, sem ser examinada,
tida por banal, o acúmulo só acrescentará desespero.
Quando Deus concede a capacidade de se alegrar, o homem pode
prosperar, mesmo vivendo seus dias debaixo do sol moribundo.

Visão geral e revisão


Primeira divisão (1.2—2.26): Nós, junto com o Rolling Stones, podemos
não ter satisfação. Nada ao alcance do poder do homem pode capacitá-lo a ter
prazer.
Segunda divisão (3.1—5.20): O livro de Eclesiastes é explicitamente
calvinista. Deus é soberano sobre tudo, mas as objeções devem ser
respondidas. Primeira subdivisão (3.1-15): Na sua soberania, Deus dispõe
todas as coisas conforme seu bom conselho. Segunda subdivisão (3.16—
4.16): Seis objeções à soberania de Deus são levantadas e respondidas.
Terceira subdivisão (5.1-20): Dada a soberania de Deus, é preciso aplicações
e cuidados práticos.
Terceira divisão (6.1-8.15): Salomão aplica sua doutrina segundo a qual só
Deus concede a capacidade para se desfrutar a vaidade.
Quarta divisão (8.16—12.14): A última seção do livro remove vários
obstáculos e desencorajamentos.
1 Quando não tiver o que dizer, não fale.
CAPÍTULO 8
Justo
juízo1
É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no
reino de Deus.
MATEUS 19.24

emos muitas iniquidades e injustiças evidentes na forma como Deus


V governa o mundo. Por isso concluímos (embora alguns não o
verbalizem) que Deus é injusto. Uma grande parte do nosso problema é
que pesamos a evidência com balanças erradas. Por exemplo, pensamos que
se cometeu injustiça só porque alguém é rico e outro é pobre. Mas há mais
coisas por trás da história.

Ajudem-me os teus juízos


1Há um mal que vi debaixo do sol e que pesa sobre os homens: 2o homem
a quem Deus conferiu riquezas, bens e honra, e nada lhe falta de tudo quanto
a sua alma deseja, mas Deus não lhe concede que disso coma; antes, o
estranho o come; também isto é vaidade e grave aflição. 3Se alguém gerar
cem filhos e viver muitos anos, até avançada idade, e se a sua alma não se
fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, digo que um aborto é mais
feliz do que ele; 4pois debalde vem o aborto e em trevas se vai, e de trevas se
cobre o seu nome; 5não viu o sol, nada conhece. Todavia, tem mais descanso
do que o outro, 6ainda que aquele vivesse duas vezes mil anos, mas não
gozasse o bem. Porventura, não vão todos para o mesmo lugar? 7Todo
trabalho do homem é para a sua boca; e, contudo, nunca se satisfaz o seu
apetite. 8Pois que vantagem tem o sábio sobre o tolo? Ou o pobre que sabe
andar perante os vivos? 9Melhor é a vista dos olhos do que o andar ocioso da
cobiça; também isto é vaidade e correr atrás do vento. 10A tudo quanto há de
vir já se lhe deu o nome, e sabe-se o que é o homem, e que não pode
contender com quem é mais forte do que ele. 11É certo que há muitas coisas
que só aumentam a vaidade, mas que aproveita isto ao homem? 12Pois quem
sabe o que é bom para o homem durante os poucos dias da sua vida de
vaidade, os quais gasta como sombra? Quem pode declarar ao homem o que
será depois dele debaixo do sol? (Ec 6.1-12)
Os limites da prosperidade são estabelecidos por Deus. A prosperidade
não é necessariamente boa (Ec 6.1-12). Queremos avaliar tudo que desfila
diante de nós de maneira simplória, e afirmar que bênçãos materiais são
sempre uma bênção e que a adversidade é sempre uma maldição. Não é
forçosamente assim. Não temos como dizer com certeza a disposição de Deus
acerca de alguém com base na condição exterior.
Todos conhecemos o homem que tem tudo. Muitas vezes Deus concede ao
homem bênçãos exteriores em profusão – sem que lhes dê as papilas
gustativas espirituais para terem prazer no que têm. Essa é uma amarga
aflição da parte do Senhor. Aqui, se tivermos compreendido o argumento,
vemos de forma metafórica alguém sem as papilas gustativas com recursos
para frequentar os restaurantes mais chiques. O mais excelente chefe de
cozinha do mundo pode lhe servir apenas um mingau de aveia frio e escuro.
Vemos um homem sexualmente impotente casado com uma mulher bonita.
Os sábios fariam bem em guardar o coração, recusando-se a desejar o leito
onde nada acontece. Às vezes, as pessoas mais invejadas são quase as mais
infelizes sobre a face da terra. Para elas, melhor seria jamais terem nascido
(v. 1-6).
A lei da reciprocidade é óbvia. Trabalhamos para comer e comemos para
trabalhar. Mourejamos um círculo pequeno e apertado. A boca e o estômago
demandam isso de nós. É melhor desfrutar do que se tem que ter “desejos
ociosos de cobiça”. Mas à parte da graça de Deus, não é possível termos
prazer no trabalho, só para podermos comer (v. 7-9).
Todos estamos debaixo da mão de Deus. O homem não consegue escapar
dessa condição. O que o homem é “já se lhe deu o nome”. O homem tem
braços curtos demais para poder lutar boxe com Deus. À parte do dom
divino, quanto mais o homem luta contra suas condições, mais aumenta a
vaidade (v. 10-12).
Se Deus não conceder a capacidade de se deleitar, então o homem não
pode saciar a si mesmo. Como Tântalo no Hades, tudo que ele estende a mão
para colher, desvia-se para longe do seu alcance. É um fato nu e cru que, na
verdade, Deus dá muitos bens aos homens aos quais não é dada a capacidade
correspondente de comer desses bens. O bom Senhor dá a seu povo um
abridor de latas para acompanhar as latas de peras com que o presenteia. Mas
para o incrédulo, não dá forma nenhuma de prazer genuíno. Em sendo assim
o caso, não importa quantas latas o homem possa acumular. Medimos a
satisfação por aquilo que podemos acumular em pilhas, ou pelo que nos é
dado para desfrutar? Que fará o rico incrédulo? Lamber a foto da pera que
está no rótulo?
O tolo não pode desfrutar da bondade da terra. O sábio pode fazê-lo, mas
não por causa de alguma sabedoria inerente. Ele é o recipiente de uma
dádiva.

Os teus juízos são bons


1Melhor é a boa fama do que o unguento precioso, e o dia da morte,
melhor do que o dia do nascimento. 2Melhor é ir à casa onde há luto do que ir
à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os
vivos que o tomem em consideração. 3Melhor é a mágoa do que o riso,
porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração. 4O coração dos sábios
está na casa do luto, mas o dos insensatos, na casa da alegria. 5Melhor é ouvir
a repreensão do sábio do que ouvir a canção do insensato. 6Pois, qual o
crepitar dos espinhos debaixo de uma panela, tal é a risada do insensato;
também isto é vaidade.
7Verdadeiramente, a opressão faz endoidecer até o sábio, e o suborno
corrompe o coração. 8Melhor é o fim das coisas do que o seu princípio;
melhor é o paciente do que o arrogante. 9Não te apresses em irar-te, porque a
ira se abriga no íntimo dos insensatos. 10Jamais digas: Por que foram os dias
passados melhores do que estes? Pois não é sábio perguntar assim. 11Boa é a
sabedoria, havendo herança, e de proveito, para os que veem o sol. 12A
sabedoria protege como protege o dinheiro; mas o proveito da sabedoria é
que ela dá vida ao seu possuidor. (Ec 7.1-12)
Nos provérbios acima temos um contraste com o argumento anterior.
Como a prosperidade não é sempre uma bênção, também a adversidade não é
sempre algo ruim (Ec 7.1-12). Estamos acostumados com a imagem da
criança rica e mimada com um cômodo da casa da família lotado de
brinquedos caros. Ela se senta lá no canto furiosamente mal-humorada.
Entrementes, do outro lado da cidade, outra criança em pleno contentamento
com a bondade da vida, corre pelo quintal a tarde inteira, ocupada
maravilhosamente com um graveto. O quarto cheio de brinquedos é uma
bênção? Só na superfície. A pobreza do graveto é uma adversidade? De jeito
nenhum – é a chave retorcida e nodosa que abre as portas de muitos mundos.
Muitos de nós nos lembramos com grande carinho quão abençoados éramos
com tão ricos brinquedos.
O bom homem deseja ter um bom nome. O unguento precioso é uma
grande bênção, mas o bom nome é melhor (v. 1). Se alguém tivesse de
escolher entre os dois, a escolha seria simples... se a pessoa fosse sábia.
O dia da morte se aproxima de nós. O dia do nascimento parece prometer
grandes coisas. Mas o dia da morte é melhor (v. 1). Está alguém angustiado
por acercar-se da morte? Se viveu em sabedoria, sua morte inevitável é lucro.
O viver é Cristo, e o morrer é lucro. Mas o dia da morte só é melhor para
quem sabe que é assim e por que razão é assim.
O luto e o banquete procedem do Senhor. Mas o luto é melhor que o júbilo
vazio. O mundo insípido dos programas de humor e as gargalhadas nas séries
de comédias da TV e shows de stand-up são um monte de nada (v. 2-4). O
homem que sabe estar de luto sabe também o sentido da sólida risada. Mas se
não conhece a sabedoria do luto, não haverá risadas que bastem para
preencher sua alma.
Admoestações e repreensões causam outro tipo de adversidade. Mas é
melhor ouvi-las que escutar as canções animadas dos insensatos (v. 5,6). No
tempo de Salomão não existiam as rádios pop, mas não é difícil resumir o que
ele teria pensado a respeito delas. Caso lhe fosse oferecida a escolha entre
ouvir um sábio enumerando as suas falhas e ouvir as Spice Girls tentando
cantar alguma coisa, a escolha seria fácil.
O sábio, submetido à opressão, é capaz de perder o juízo ou de ser
corrompido pela propina (v. 7). Poderíamos desejar viver no mundo em que a
sabedoria fosse forjada em aço inoxidável e jamais degenerasse… mas não
vivemos.
A sabedoria é indispensável para se saber o que são fins e o que são
começos. O soberbo de espírito vangloria-se no começo. O paciente vê e
compreende (v. 8). Nesse aspecto, o ímpio Acabe tinha certa dose de
sabedoria. Quem veste a armadura não deveria se gabar como quem a tira
[1Rs 20.11]. A aflição de compreender algo com total clareza é muito melhor
que o prazer de se vangloriar de algo antes que aconteça.
Os insensatos não entendem a paciência nem a frustração. Os justos não
são os que jamais ficam irados. Mas os justos certamente não têm pressa para
se irar. Quem logo se ira, põe na porta de casa uma placa onde se lê:
“Residência do Insensato” (v. 9). O homem que se encoleriza com facilidade
é apenas propaganda ambulante da insensatez: “A ira do insensato num
instante se conhece, mas o prudente oculta a afronta” (Pv 12.16). Somos
convocados para estar prontos a ouvir, mas para demorar a falar e a ficar com
raiva. No incidente do homem da mão ressequida, nosso Senhor ficou irado,
mas o resultado final da indignação foi a cura e a glória atribuídas a Deus. O
resultado final da ira do homem é louça quebrada.
Devemos entender também a aflição do momento presente. Por que
deveríamos lastimar a “mau rumo” que os eventos tomaram? Por que não
estamos mais nos “bons tempos de antigamente”? A resposta é que Deus não
quer que estejamos. Ele é o Governador de tudo. Talvez seja preciso que haja
mais aflição (v. 10-12).
Talvez os dias bons do passado não fossem tão bons assim. E mesmo
quando fossem, não devemos nos revoltar contra a sabedoria divina na sua
providência. Foi Deus quem decretou que esses dias chegassem ao fim.

Eis que tenho suspirado pelos teus preceitos


13Atenta para as obras de Deus, pois quem poderá endireitar o que ele
torceu? 14No dia da prosperidade, goza do bem; mas, no dia da adversidade,
considera em que Deus fez tanto este como aquele, para que o homem nada
descubra do que há de vir depois dele. 15Tudo isto vi nos dias da minha
vaidade: há justo que perece na sua justiça, e há perverso que prolonga os
seus dias na sua perversidade. (Ec 7.13-15)
Corra em busca da percepção da sabedoria. Considere a obra de Deus em
tudo isso. O sábio jamais recalcitra contra os aguilhões. Quem poderá
endireitar o que Deus entortou? Que homem poderia torcer o mundo para o
lado contrário ao que o Onipotente o torceu? É indispensável deixarmos que
essa doutrina central do livro entre profundamente em nossa alma. A coisa
está entortada? Então, foi o Senhor Deus que a fez assim. Mas por quê? Se
ele quisesse que soubéssemos o porquê, ele nos teria dito. O mais perto que
chegamos da explicação está em Romanos 9:

Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu
poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a
perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos
de misericórdia, que para glória preparou de antemão, os quais somos nós, a quem
também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?
(Rm 9.22-24)

A explicação definitiva é que Deus faz todas as coisas para glorificar seu
nome e exaltar sua majestade. Mas a despeito de várias razões para a
tortuosidade do mundo, a verdade é que a Bíblia ratifica a soberania de Deus
sobre o que está torcido. Ele é verdadeiramente o único Senhor.
Devemos receber nossa prosperidade como se procedesse dele, porque
procede dele (v. 14). Mas no dia da adversidade, devemos também nos
lembrar da nossa doutrina acerca da soberania divina. Foi Deus que fez tanto
um dia como o outro (v. 14). O Senhor traz a primavera, e o Senhor traz os
terremotos. O Senhor concede mais um ano de vida, e o Senhor designa o dia
do luto. Jó aconselhou sua esposa da forma correta. Ela estava falando como
se tivesse adotado a teologia da mulher insensata. “Mas ele lhe respondeu:
Falas como qualquer doida; temos recebido o bem de Deus e não
receberíamos também o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios”
(Jó 2.10). A igreja hoje está dominada pela teologia de mulheres tolas. Deus
nunca faz coisas ruins; ele só faz coisas boas. Ele faz as flores e os gatinhos,
não o trovão, o raio nem a chuva azul.
Adoramos a Deus, que é Sabedoria Inescrutável. O que vemos não encerra
a questão.

Visão geral e revisão


Primeira divisão (1.2—2.26): A satisfação não vem de dentro do homem.
Segunda divisão (3.1—5.20): Deus é soberano sobre todas as coisas. As
objeções são descartadas.
Terceira divisão (6.1—8.15): Salomão aplica sua doutrina de que só o
Deus soberano concede regozijo na vaidade. Primeira subdivisão (6.1—7.15):
Devemos avaliar da forma apropriada nossa condição exterior.
Quarta divisão (8.16—12.14): A última seção soluciona os problemas
restantes.
1 Idem à nota anterior.
CAPÍTULO 9
Alminhas
pequenininhas &
juízos rigorosos
Vendo isto, indignaram-se os discípulos e disseram: Para que este desperdício? Pois
este perfume podia ser vendido por muito dinheiro e dar-se aos pobres.
MATEUS 26.8,9

imos na seção anterior que nada é como parece aos nossos olhos. A
V prosperidade pode ser o mal camuflado; o homem pode estar rodeado
de riquezas nas quais não se deleita. A adversidade pode ser o meio
pelo qual Deus traz grandes bênçãos; como sabia Rutherford, quando no
porão da angústia, o homem é capaz de encontrar os vinhos mais seletos de
Deus. Todas as situações não são o que parecem ser.
Nesta seção, vemos que os homens não são o que aparentam ser. Podemos
chegar a conclusões erradas acerca do mundo ao nosso redor, porque
julgamos com base nas experiências externas. Cristo, porém, proíbe todos os
juízos superficiais.

Tenho esperado nos teus juízos


16Não sejas demasiadamente justo, nem exageradamente sábio; por que te
destruirias a ti mesmo? 17Não sejas demasiadamente perverso, nem sejas
louco; por que morrerias fora do teu tempo? 18Bom é que retenhas isto e
também daquilo não retires a mão; pois quem teme a Deus de tudo isto sai
ileso. 19A sabedoria fortalece ao sábio, mais do que dez poderosos que haja
na cidade. 20Não há homem justo sobre a terra que faça o bem e que não
peque. 21Não apliques o coração a todas as palavras que se dizem, para que
não venhas a ouvir o teu servo a amaldiçoar-te, 22pois tu sabes que muitas
vezes tu mesmo tens amaldiçoado a outros. (Ec 7.16-22)
O que significa ser demasiadamente justo? É claro que Deus é
perfeitamente justo, mas não significa que ele exagera. Com certeza, Salomão
aqui não se refere à piedade, retidão ou sabedoria genuínas. Ele fala do que,
com muita frequência, se passa pelo que é justo. Então, o que significa isso?
Falando sem rodeios, sendo curto e grosso, significa… um crente “legal”.
Crente pedante. Crente santarrão. Crente rigoroso. Crente cara-amarrada.
Crente cricri. Crente insuportável. Crente melindroso. Crente só-minha-
doutrina-é-a-certa. Crente sabe-tudo. Crente ostentação. Crente hora-
tranquila-todo-dia-senão-eu-vou-pro-inferno. Crente metido. Crente certinho.
Crente não-crente.
O fato de Cristo ter feito uma obra extraordinária ao demolir a reputação
dos fariseus, quase sempre oculta de nós que, antes dos ataques do Messias,
eles, de modo geral e por causa da vida piedosa que levavam, gozavam de
bom conceito no meio do povo. Eram um grupo bem respeitado de teólogos
conservadores. Na religião, o que agrada aos homens não é necessariamente o
mesmo que agrada a Deus. O que os homens admiram, nem sempre é o que
Deus admira. “Mas Jesus lhes disse: Vós sois os que vos justificais a vós
mesmos diante dos homens, mas Deus conhece o vosso coração; pois aquilo
que é elevado entre homens é abominação diante de Deus” (Lc 16.15).
Não devemos ser autônomos, seja para o bem ou para o mal. Não devemos
ser voluntariosos para o mal. É suicídio. Também não devemos ser
voluntariosos para fazer o que definimos como bem. É autodestruição
(v. 16,17). Todos sabemos a respeito de sujeitos que levantam o punho contra
o céu e de como, depois, há um agudo suspiro por todo o santuário. Mas nós,
então, nas garras do que sentimos ser certo e verdadeiro, fazemos exatamente
o contrário do que a Bíblia diz para fazermos. Os exemplos dessa
religiosidade eram muitos nos dias de Cristo, e a tribo deles não parece ter
diminuído de lá para cá. Dizemos que o corpo é o templo do Espírito Santo e,
portanto, nos abstemos do tabaco. Paulo disse que estava falando sobre a
imoralidade sexual, além de acrescentar que não falava a respeito de nenhum
outro tipo de pecado, seja qual for. Mas ainda nos sentindo dispostos a
considerar que fumar tem de ser impiedade, e por isso nos agarramos às
nossas convicções. Cristo disse que não orássemos para ser vistos pelos
homens, mas marcamos reuniões de oração na escadaria do congresso
nacional torcendo para que alguma rede de notícias as divulgue. Dizemos que
o álcool tem de ser pecado porque algumas fanáticas do século XIX
decidiram assim. O Senhor produziu cerca de seiscentos litros do melhor
vinho para ajudar na continuação das festividades. E a sabedoria é justificada
por seus filhos [Lc 7.35].
O antídoto contra essa religiosidade é o temor de Deus, e não a moderação
pagã. Se o homem teme a Deus sinceramente, não cairá na insensatez
religiosa (v. 18). A verdadeira sabedoria é força, ao passo que o desejo de
parecer sábio é suicídio. A verdadeira sabedoria, como poderiam dizer os
jovens esqueitistas de hoje, “detona” a casa (v. 19). E veja que eles nada
sabem a esse respeito.
A agitação dos que não conhecem a Deus pode ser bem grande. As
mentiras, os fingimentos e as hipocrisias podem ser tão lustradas a ponto de
reluzirem como o mármore. Além disse, um dos maiores fingimentos em toda
essa balbúrdia é a noção de que as pessoas envolvidas na bagunça religiosa
não pecam. Mas todo o mundo peca. Julguem os homens conforme a
Escritura, diz Salomão, e não pelo que aparentam ser na igreja (v. 20). Todos
pecam.
Por isso Salomão nos adverte para não exagerarmos os pecados dos
outros. Supõe que alguém ouviu outra pessoa amaldiçoá-lo? Não dá para se
preocupar – deixe para lá o desrespeito dele. Pode ser que quem escutou já
fez o mesmo uma ou duas vezes. Não se deve correr por aí aplicando os
procedimentos disciplinares de Mateus 18 a tudo que se move (v. 21,22). Há
um zelo pela retidão que desconhece o próprio espírito (Lc 9.55).
A conclusão é que nem tudo quanto é “reto” é tão bom. Nem tudo que é
“pecado” é tão mal. Só os tolos precipitam-se em tirar conclusões piedosas e
edificantes.

Venham também sobre mim as tuas misericórdias


23Tudo isto experimentei pela sabedoria; e disse: tornar-me-ei sábio, mas a
sabedoria estava longe de mim. 24O que está longe e mui profundo, quem o
achará? 25Apliquei-me a conhecer, e a investigar, e a buscar a sabedoria e
meu juízo de tudo, e a conhecer que a perversidade é insensatez e a
insensatez, loucura. 26Achei coisa mais amarga do que a morte: a mulher cujo
coração são redes e laços e cujas mãos são grilhões; quem for bom diante de
Deus fugirá dela, mas o pecador virá a ser seu prisioneiro. 27Eis o que achei,
diz o Pregador, conferindo uma coisa com outra, para a respeito delas formar
o meu juízo, 28juízo que ainda procuro e não o achei: entre mil homens achei
um como esperava, mas entre tantas mulheres não achei nem sequer uma.
(Ec 7.23-28)
Embora a sabedoria suprema esteja acima e além do sol, Salomão
alcançou grande entendimento mediante a sabedoria que há debaixo do sol
(v. 23). Ele testava e investigava a sabedoria por meio da sabedoria. Ao
mesmo tempo, quando disse “tornar-me-ei sábio”, a sabedoria fugiu dele
imediatamente (v. 23,24). Apesar das limitações, é-lhe possível conhecer
algumas coisas – como a perversidade da insensatez. Ele passa a tratar da
insensatez sexual.
Há uma mulher que caça à noite, em cuja armadilha se cai com prazer.
Como o caçador que conhece a presa, a mulher imoral sabe como conseguir
os resultados desejados (v. 26a). “Cova profunda é a prostituta, poço estreito,
a alheia. Ela, como salteador, se põe a espreitar e multiplica entre os homens
os infiéis” (Pv 23.27,28). Não que a tarefa seja assim tão difícil… não mais
que cair de cara no chão. Só o prazer de Deus pode livrar o homem das suas
garras. Os homens imorais dizem a si mesmos que estão escapando das
restrições divinas no instante exato em que caem na armadilha que ele lhes
preparou (v. 26b). Certo escritor comentou que o homem em rebelião contra
Deus erguerá contra ele o punho, nas agitações ou revoluções civis, ou o falo,
em suas fornicações insolentes.1 Nessas fornicações, eles se revoltam contra a
maturidade sexual e manifestam sua ignorância bestial da imago Dei.
Nisso, os homens em suas fornicações e adultérios imaginam escapar de
Deus: “Cova profunda é a boca da mulher estranha; aquele contra quem o
SENHOR se irar cairá nela” (Pv 22.14). Mas o único a escapar é o que agrada a
Deus (v. 26). Os tolos acreditam ter encontrado a liberdade sexual justo
quando Deus os capturou com o próprio ídolo deles, pequeno e desejado,
para lançá-los contras as rochas. A excitante sensação de liberdade é apenas
temporária – é queda livre com a morte ao final.
Quanto a isso, Salomão pode falar por experiência própria. Na busca pela
sabedoria, ele achou um homem entre mil, mas nenhuma mulher (v. 28). Em
outro lugar Salomão enaltece a sabedoria feminina (na verdade, ele
personifica a sabedoria como uma mulher em Provérbios 8). Mas em sua
busca, Salomão não achou quase nenhum homem de integridade na corte, e
no restante da investigação, levada a cabo na maior parte do tempo com as
luzes baixas, não achou em seu harém nenhuma mulher de integridade. Essa
observação não pode servir de base para a soberba masculina. Mesmo com
essa amostra limitada de pessoas, os homens são só um décimo de um por
cento melhores que as mulheres. O argumento é claro: os homens de
integridade na corte de Salomão eram raros demais, e as mulheres de
integridade, inexistentes.

Não tires jamais de minha boca a palavra da verdade


29Eis o que tão-somente achei: que Deus fez o homem reto, mas ele se
meteu em muitas astúcias. (Ec 7.29)
O coração do homem tem inventado muitos artifícios. Na nossa criação,
fomos feitos na retidão de Adão. Ele se rebelou, e daí em diante continuamos
a usar os dons concedidos por Deus para destruir a nós mesmos. Alguns deles
são óbvios, como a corda da malícia e da rebelião. Usamos nossa rebeldia
como meio para enforcar a nós mesmos, como o fez Judas, de uma árvore
alta.
Outro tipo de artifício é o truque da justiça própria. O veneno de efeito
retardado que corrompe e polui o homem interior. Os religiosos tomados pela
justiça própria são, para usar as palavras de John Randolph, como o peixe
morto à beira-mar sob o luar. Eles “brilham e fedem” ao mesmo tempo. O
que os religiosos estimam não é o que Deus estima. Nossas orações precisam
de oração. Nossas lágrimas precisam ser lavadas. Nosso arrependimento
carece de se arrepender.
Deus nos fez retos, mas temos ido em busca de muitas artimanhas. A
retidão do Outro é a única resposta.

Visão geral e revisão


Primeira divisão (1.2—2.26): A satisfação não vem de dentro do homem.
Segunda divisão (3.1—5.20): Para quem acaba de se juntar a nós, Deus é
soberano sobre todas as coisas, ou seja, Deus é Deus. Salomão responde às
perenes objeções a essa doutrina não objetável.
Terceira divisão (6.1—8.15): Só Deus concede a capacidade para se
desfrutar da vaidade. Primeira subdivisão (6.1—7.15): Devemos avaliar da
forma apropriada nossa condição exterior. Segunda subdivisão (7.16-29):
Devemos avaliar os homens apropriadamente.
Quarta divisão (8.16—12.14): A última seção lida com vários detalhes e
as preocupações que ainda restarem.
1 O autor foi Malcolm Muggeridge, mas não consigo me lembrar onde foi que ele disse isso.
CAPÍTULO 10
Andando nos
corredores do poder
Naquela mesma hora, alguns fariseus vieram para dizer-lhe: Retira-te e vai-te daqui,
porque Herodes quer matar-te. Ele, porém, lhes respondeu: Ide dizer a essa raposa
que, hoje e amanhã, expulso demônios e curo enfermos e, no terceiro dia, terminarei.
LUCAS 13.31,32

À medida que consideramos as evidentes iniquidades de nossa vida debaixo


do sol, esta seção de Eclesiastes nos ensina que temos de avaliar a situação da
forma apropriada — a aflição nem sempre é má, e a prosperidade nem
sempre é boa. Pela mesma razão, temos aprendido que devemos avaliar o
homem da forma correta. Os justos nem sempre são tão justos assim, e os
ímpios nem sempre são tão maus quanto podemos achar. Agora, é
indispensável vermos que o governo pautado na retidão, mesmo no mundo
caído, poderia melhorar algumas das evidentes iniquidades. Ao mesmo
tempo, sabemos que a atenuação do mal não é o mesmo que sua remoção
total… e, de qualquer maneira, essa possível diminuição do mal nem sempre
ocorre.

Também falarei dos teus testemunhos na presença dos reis


1Quem é como o sábio? E quem sabe a interpretação das coisas? A
sabedoria do homem faz reluzir o seu rosto, e muda-se a dureza da sua face.
2Eu te digo: observa o mandamento do rei, e isso por causa do teu juramento

feito a Deus. 3Não te apresses em deixar a presença dele, nem te obstines em


coisa má, porque ele faz o que bem entende. 4Porque a palavra do rei tem
autoridade suprema; e quem lhe dirá: Que fazes? 5Quem guarda o
mandamento não experimenta nenhum mal; e o coração do sábio conhece o
tempo e o modo. 6Porque para todo propósito há tempo e modo; porquanto é
grande o mal que pesa sobre o homem. 7Porque este não sabe o que há de
suceder; e, como há de ser, ninguém há que lho declare. 8Não há nenhum
homem que tenha domínio sobre o vento para o reter; nem tampouco tem ele
poder sobre o dia da morte; nem há tréguas nesta peleja; nem tampouco a
perversidade livrará aquele que a ela se entrega.(Ec 8.1-8)
A Palavra aconselha tanto ao rei como ao cortesão, e, portanto, aqui
encontramos instrução para quem pode vir a influenciar o soberano. Isso não
supõe a aprovação “de fio a pavio” do rei no poder agora. Na verdade, ela
presume o contrário. O sábio, na presença do rei, pode exercer sua
capacidade de interpretação e sua sabedoria lhe faz brilhar a face (v. 1). São
transmitidas várias instruções ao cortesão que goza dessa posição – o que
deve proceder com sabedoria na corte.
A primeira coisa a considerar é o Juramento de Lealdade.1 Lembre-se de
que nenhum voto de lealdade a um pecador pode ser absoluto, não obstante
seja genuíno e conforme a lei. O cortesão deve ser leal por causa do seu
juramento (v. 2). A perfídia é a moeda corrente dos traficantes de poder; os
piedosos não devem ter parte nenhuma nela.
O cortesão sábio tem de evitar cair sobre a própria espada, fugir à
mentalidade “tudo ou nada”; não deve ter pressa em se ausentar da corte
(cheio de zelo pelas propostas rejeitadas); nem deve se envolver com projetos
malignos (v. 3). Se os relativistas forem à caça de mentes ocas, os piedosos
não devem reagir edificando mentes de madeira sólida. Flexibilidade e
prudência não podem ser confundidas com transigência e medo.
A prudência restringe o homem da mesma maneira que o juramento. O rei
tem poder. Quem está em posição de lhe responder com afoiteza (v. 4)?
Prudência não é necessariamente covardia ou transigência. Dessa maneira, o
cortesão escolhe suas batalhas com cautela, com cuidado para não morrer em
cada outeiro. O cortesão deve manter o silêncio e obedecer às ordens do rei,
discernir o tempo e o lugar certos para se mover – isso é sabedoria. A
proximidade do sofrimento não muda isso (v. 5,6).
O perverso rei Acabe tinha um ministro justo que alguns crentes
demitiriam como um transigente covarde. De que maneira alguém piedoso
poderia servir no governo desse homem? A nossos olhos, o raciocínio parece
certo, mas a Bíblia vai no sentido contrário do nosso juízo.

Acabe chamou a Obadias, o mordomo. (Obadias temia muito ao SENHOR, porque,


quando Jezabel exterminava os profetas do SENHOR, Obadias tomou cem profetas,
e de cinquenta em cinquenta os escondeu numa cova, e os sustentou com pão e
água.) (1Rs 18.3,4)

O cortesão é um breve vapor dando conselho ao rei que é um breve vapor


– ninguém sabe absolutamente nada do que acontecerá nos dias por virem
(v. 7). Todo o mundo, rei e cortesãos igualmente, está em guerra contra a
morte. Ninguém é capaz de preservar o espírito no corpo, nem consegue a
dispensa do combate que se avizinha, o qual todos irão perder (v. 8). Todas as
batalhas políticas devem ser mantidas no devido lugar. Ninguém é capaz o
bastante para lutar a batalha final entre a luz e as trevas aqui debaixo do sol, e
ninguém devia fingir que está tentando.

Assim, observarei de contínuo a tua lei, para todo o sempre


9Tudo isto vi quando me apliquei a toda obra que se faz debaixo do sol; há
tempo em que um homem tem domínio sobre outro homem, para arruiná-lo.
10Assim também vi os perversos receberem sepultura e entrarem no repouso,

ao passo que os que frequentavam o lugar santo foram esquecidos na cidade


onde fizeram o bem; também isto é vaidade. 11Visto como se não executa
logo a sentença sobre a má obra, o coração dos filhos dos homens está
inteiramente disposto a praticar o mal. 12Ainda que o pecador faça o mal cem
vezes, e os dias se lhe prolonguem, eu sei com certeza que bem sucede aos
que temem a Deus. 13Mas o perverso não irá bem, nem prolongará os seus
dias; será como a sombra, visto que não teme diante de Deus. 14Ainda há
outra vaidade sobre a terra: justos a quem sucede segundo as obras dos
perversos, e perversos a quem sucede segundo as obras dos justos. Digo que
também isto é vaidade. 15Então, exaltei eu a alegria, porquanto para o homem
nenhuma coisa há melhor debaixo do sol do que comer, beber e alegrar-se;
pois isso o acompanhará no seu trabalho nos dias da vida que Deus lhe dá
debaixo do sol. (Ec 8.9-15)
Apesar de tudo, a perversidade impera algumas vezes. Há ocasiões em que
os homens dominam sobre outros homens para feri-los. É verdade que
existem políticas imbecis e perversas (v. 9). Os perversos são às vezes
sepultados com grandes honras e homenageados com feriados nacionais,
depois de emporcalhar a vida inteira o lugar da “santidade”. Isso,
provavelmente, refere-se ao tribunal. Nesse lugar, a justiça devia ter sido
garantida, mas não foi (v. 10). Mas depois os perversos são por sua vez
esquecidos. Isso também é vaidade.
Sabemos como devia funcionar – a justiça rápida provê um dissuasivo
para o crime (v. 11). Castiguem-se os insensatos e o simples aprenderá a
sabedoria. Recusem-se a fazer assim e a insensatez reinará. A insensatez é
sábia o bastante para reconhecer a hora da oportunidade. Vivemos agora na
época em que o valor dissuasivo da rápida justiça é negado pelos iluminados.
Mas os piedosos sabem o que enxames de sociólogos ignoram, ou seja, que o
castigo rápido e impreterível dissuade os perversos. Essa verdade óbvia é
aqui enunciada por Salomão.2
O homem precisa se lembrar do juízo vindouro. O sucesso repetido no
pecado não descarta a realidade da justiça final (v. 12,13). Embora pareça que
a injustiça triunfe – às vezes os homens bons perdem, e os maus vencem
(v. 14) – esse triunfo aparente também é vaidade.
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Deve desfrutar desse dom divino a
quem ele foi concedido. A conclusão da questão? O que deve fazer o homem
no mundo de reis poderosos e de pessoas perversas que parecem se dar bem
nele, escapando das consequências? Deve se preparar para celebrar, deve se
regozijar — deve comer, beber e alegrar-se todos os seus dias debaixo do sol
(v. 15). Outra vez, Salomão chega a uma conclusão inesperada. O fato de os
homens exercerem o poder, às vezes com injustiça, é ocasião para festejar e
desfrutar a vida com qualquer um a quem foi concedido o dom dessa
sabedoria.

Visão geral e revisão


Primeira divisão (1.2—2.26): A capacidade de desfrutar qualquer coisa
não surge de dentro do homem.
Segunda divisão (3.1—5.20): Sabemos que Deus é soberano sobre todas
as coisas, mas pelo fato de algumas pessoas detestarem saber disso, Salomão
responde as objeções à doutrina.
Terceira divisão (6.1—8.15): Só Deus concede a capacidade de desfrutar
da vaidade. O ensinamento é aplicado. Primeira subdivisão (6.1—7.15):
Devemos avaliar da forma apropriada a condição exterior dos homens.
Segunda subdivisão (7.16-29): Também devemos avaliar os homens
apropriadamente. Terceira subdivisão (8.1-5): O pecado de homens
poderosos pode tapar a visão da paisagem.
Quarta divisão (8.16—12.14): Ainda podem restar vários obstáculos e
desencorajamentos na mente de alguns, e por isso Salomão trata dessas
preocupações práticas.
1 O ministro socialista Francis Bellamy publicou o Juramento de Lealdade (à bandeira e república
americana) em 1892. Alunos do ensino fundamental recitaram-no pela primeira vez na dedicação da
Feira Mundial de Chicago em 1892. Em 1945, o Juramento foi adotado pelo 79º Congresso, e nesse
mesmo ano acrescentam-lhe as palavras “debaixo de Deus”. Além disso, a bandeira dos EUA, o alvo
do juramento, se ofereceu proteção mediante uma emenda à Constituição proibindo que ela seja
queimada. A emenda proposta, como o próprio Juramento, representa um equívoco bem-intencionado
do significado da verdadeira lealdade. Leve em consideração a palavra indivisível. Esse vocábulo não
reflete um desejo caridoso — “que a nação jamais seja dividida”. Antes, a palavra significa “incapaz de
ser dividido”. Isso representa uma reivindicação otológica e ultrapassa em muito o desejo bíblico de
estabilidade política. A mesma distinção pode ser observada entre o sonho pagão vazio, “Que o rei viva
para sempre”, e o desejo e esperança cristãos, “longa vida ao rei”.
O problema da reivindicação é sua inverdade. Os EUA, como toda e qualquer nação entre os homens,
são capazes de divisão. Podemos nos opor ou apoiar tal divisão se e quando ela ocorrer, mas todos
deviam concordar que, com muito mais certeza, não é uma impossibilidade. Mas se não é uma
impossibilidade, então por que a alegamos? Os confederados e os ianques mantinham perspectivas
diferentes sobre a conveniência da separação, mas concordavam de fato sobre uma coisa. Eles
concordavam que a coisa poderia acontecer ― por isso houve a guerra. Qualquer um que acredite na
indivisibilidade dessa nação tratará todas as tentativas de secessão como o equivalente cívico de uma
máquina de movimento perpétuo.
Nossa cultura está correntemente em rebelião contra as leis do céu. A Bíblia nos diz que o trono se
estabelece pela justiça. O trono não se estabelece fazendo alunos do ensino fundamental dizerem coisas
inverídicas, ou metendo as pessoas no xilindró, caso elas queimem a bandeira. Tronos não são
estabelecidos por juramentos ou castigos. A Escritura nos diz que bendita é a nação cujo Deus é o
Senhor. A Bíblia diz: “Tira da prata a escória, e sairá vaso para o ourives; tira o perverso da presença
do rei, e o seu trono se firmará na justiça” (Pv 25.4,5). Os cristãos devem ser cidadãos leais, mas antes
devem entender o fundamento da lealdade.
2 Algumas pessoas pretendem nos dizer que a pena capital não tem valor dissuasivo. Mas certamente,
no mínimo, ela não dissuade quem é executado?
CAPÍTULO 11
Ame
sua esposa1
Os teus beijos são como o bom vinho,
vinho que se escoa suavemente para o meu amado...
CÂNTICO DOS CÂNTICOS 7.9

evemos ter em mente que Salomão não está apenas se repetindo pelo
D livro inteiro. Seu argumento, convincente e irrefutável, edifica. Ao
longo de toda a argumentação, ele retorna muitas vezes às lições
básicas que devemos aprender, se quisermos nos tornar sábios, mas ele
também sempre amplia esse fundamento.

Terei prazer nos teus mandamentos


16Aplicando-me a conhecer a sabedoria e a ver o trabalho que há sobre a
terra – pois nem de dia nem de noite vê o homem sono nos seus olhos –,
17então, contemplei toda a obra de Deus e vi que o homem não pode

compreender a obra que se faz debaixo do sol; por mais que trabalhe o
homem para a descobrir, não a entenderá; e, ainda que diga o sábio que a virá
a conhecer, nem por isso a poderá achar. 9.1Deveras me apliquei a todas estas
coisas para claramente entender tudo isto: que os justos, e os sábios, e os seus
feitos estão nas mãos de Deus; e, se é amor ou se é ódio que está à sua espera,
não o sabe o homem. Tudo lhe está oculto no futuro. 2Tudo sucede
igualmente a todos: o mesmo sucede ao justo e ao perverso; ao bom, ao puro
e ao impuro; tanto ao que sacrifica como ao que não sacrifica; ao bom como
ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento. 3Este é o mal que há
em tudo quanto se faz debaixo do sol: a todos sucede o mesmo; também o
coração dos homens está cheio de maldade, nele há desvarios enquanto
vivem; depois, rumo aos mortos. (Ec 8.16—9.3)
A despeito do que pensamos, Deus é Senhor. Voltamos agora à verdade
estabelecida no começo do livro. Uma vez mais, a sabedoria preconizada por
Salomão não é possível à parte do claro reconhecimento da soberania divina
sobre todas as coisas. Uma vez que seu coração buscava o conhecimento,
Salomão dedicou-se a essa tarefa. Ele se dispôs a conhecer a obra realizada
sobre a terra. Trabalho que ele impôs a si mesmo, resultando em noites
insones (v. 16).
Mas o homem é incapaz de saber. O resultado foi a percepção de que o
homem não pode compreender o que Deus está fazendo (v. 17). Isso é
sabedoria, sabedoria descoberta por um homem sapientíssimo. O sábio sabe
identificar o que não pode ser conhecido. Salomão não se refere às ações de
Deus do outro lado do universo (que, na verdade, ninguém acha que sejamos
capazes de conhecer), mas a seu governo sobre nossa vida, aqui e agora.
Deus impõe limitações ao homem (v. 17) e não só a Salomão e seus
empreendimentos. Olhe o tanto que quiser a seu redor; você não sabe o que
está acontecendo.
A Sabedoria não procura explicar a soberania de Deus. Ironicamente, os
que aceitam essa verdade são comumente acusados de tentar explicar a
mecânica da soberania de Deus acerca de “tudo quanto acontece”. Mas essa
nossa capacidade é algo que rejeitamos com ênfase absoluta. Nessa parte do
livro, Salomão afirma sem rodeios que Deus controla todas as coisas. Ele não
diz como Deus faz isso. Só mesmo uma tremenda besta quadrada poderia
pretender explicar o modo como Deus se revela por meio de suas obras.
Pensar sobre o que acontece diante de nós, não pode nos levar a conclusão
nenhuma. Tendemos a assumir, repetindo Shakespeare, que a história de
todas as coisas é uma fábula contada por um idiota, repleta de fúria e tumulto,
sem significado. Antes, é uma fábula contada a idiotas. Justos e ímpios estão
na mão de Deus. Não somos capazes de dizer o que ocorre por meio do que
lhes acontece, até onde podemos ver (9.1). Deus me ama ou me odeia? A
pergunta não pode ser respondida apelando-se a “bênçãos” e “maldições”
externas. O teste verdadeiro é a sabedoria – a atitude sincera de gratidão e de
fé.
O homem que amaldiçoa e o que abençoa recebem chuva (v. 1). A luz do
sol brilha sobre o fiel e sobre o infiel (v. 2,3a). Isso é uma “mal”, mas é um
mal que casa com a bondade essencial de Deus. Confrontados com essa
realidade, devemos honrar a Deus como Deus e render-lhe graças.
Levantarei as mãos e meditarei nos teus decretos
4Para aquele que está entre os vivos há esperança; porque mais vale um
cão vivo do que um leão morto. 5Porque os vivos sabem que hão de morrer,
mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco terão eles
recompensa, porque a sua memória jaz no esquecimento. 6Amor, ódio e
inveja para eles já pereceram; para sempre não têm eles parte em coisa
alguma do que se faz debaixo do sol. (Ec 9.4-6)
Não obstante, o pecado é loucura. Observe como Salomão rechaça a
sabedoria e autonomia humanas. Embora não consigamos perceber nenhuma
diferença entre o justo e o ímpio, é loucura limitarmo-nos à nossa
perspectiva. É loucura ignorar Deus. Todavia, os homens vivem assim ao
mesmo tempo em que sabem que cada um deles morrerá! A loucura vive sem
fé, sem olhos.
Hoje, ao ouvir a voz de Deus, o homem não deve endurecer o coração.
Quando morre o ímpio, extingue-se a esperança. Ao homem está ordenado
morrer uma só vez, vindo, depois disso, o juízo. Nesse contexto, Salomão diz
que estar vivo como um cachorro ordinário é melhor que estar morto e
acabado… embora as pessoas consideradas grandes possam achar que você
esteja morto. Quando a vida cessa, acaba a oportunidade de aprender a
sabedoria. A parte que cabe ao morto ficou para trás (v. 4-6). Quando a vida
acaba, também acaba a oportunidade de arrependimento.

Meditarei nos teus decretos


7Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe gostosamente o teu vinho,
pois Deus já de antemão se agrada das tuas obras. 8Em todo tempo sejam
alvas as tuas vestes, e jamais falte o óleo sobre a tua cabeça. 9Goza a vida
com a mulher que amas, todos os dias de tua vida fugaz, os quais Deus te deu
debaixo do sol; porque esta é a tua porção nesta vida pelo trabalho com que te
afadigaste debaixo do sol. (Ec 9.7-9)
A conclusão, uma vez mais, só pode vir da mão do Deus soberano. Só ele
pode conceder dádiva tão gloriosa neste mundo fútil. “Vai…”. A razão da
admoestação é clara: “Deus já de antemão se agrada das tuas obra” (v. 7).
Começamos com a justificação, depois avançamos para como devemos
crescer na santificação – em conformidade com a Palavra de Deus.
O teor do que devemos fazer nessa santificação é claro. Primeiro, devemos
comer nosso pão (v. 7), e comê-lo com alegria. Segundo, devemos beber
nosso vinho com o coração cheio de alegria. Por acaso, a palavra hebraica
para vinho é yayin – bebida alcoólica. Nossas roupas devem ser sempre
alegres. Devemos cuidar de nós mesmos.
Passando a tratar dos relacionamentos, Salomão diz que os homens devem
viver alegremente com sua esposa por todos os seus dias estúpidos. Achamos
que isso pareceria terrível em um cartão de aniversário de casamento –
porque somos governados mais pelo sentimento que pela sabedoria. Como
isso é possível? À parte da graça de Deus, não é possível.
A linguagem do romantismo sentimental não é a linguagem da Bíblia.
Quando os homens entendem a futilidade da existência terrena e a
compreendem da forma como Salomão a apresenta para nós, estarão
preparados para se deleitar com seu pão pela primeira vez, e podem ficar
maravilhados com a vermelhidão do vinho e achar graça disso com uma
alegria sábia e satisfeita. Devem amar sua esposa, não porque o amor sexual
seja eterno, mas, ao contrário, porque não é. No mundo das criaturas, só
podemos desfrutar do que não adoramos.
Mas só poderemos ter prazer em nossa vida tola quando entendermos que
ela é a porção a nós designada pela sabedoria infinita. Só poderemos entender
de fato que é a nossa porção quando tivermos fé no Deus que a concede.
Essas coisas, as quais devemos desfrutar, são passadas para nós pela mão de
Deus. Assim, aqui está a palavra do Senhor. Deus já aprovou sua obediência.
Cheio de gratidão – coma seu pão, beba seu vinho, vista-se de branco, e faça
amor com sua esposa.

Visão geral e revisão


Primeira divisão (1.2—2.26): A satisfação não procede do homem.
Segunda divisão (3.1—5.20): Deus é soberano sobre todas as coisas.
Terceira divisão (6.1—8.15): Visto que é soberano, Deus pode conceder a
capacidade para se desfrutar da vaidade. Salomão aplica essa doutrina.
Quarta divisão (8.16—12.14): São tratados vários obstáculos e
desencorajamentos. Primeira subdivisão (8.16—9.9): As inconsistências
ainda restantes não devem abater nossa alegria.
1 Eu sei, a maior parte deste capítulo não foi sobre casamento.
CAPÍTULO 12
Use a
cabeça, amigo1
Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até
agora
ROMANOS 8.22

onsiderando o que nos tem sido ensinado neste livro sapiencial acerca
C da vida debaixo do sol, e a despeito de quaisquer pequenas falhas e
incoerência restantes, devemos trabalhar com total empenho, e isso com
um bom senso fundamentado e honesto.

Lembra-te da promessa que fizeste ao teu servo


10Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças,
porque no além, para onde tu vais, não há obra, nem projetos, nem
conhecimento, nem sabedoria alguma. 11Vi ainda debaixo do sol que não é
dos ligeiros o prêmio, nem dos valentes, a vitória, nem tampouco dos sábios,
o pão, nem ainda dos prudentes, a riqueza, nem dos inteligentes, o favor;
porém tudo depende do tempo e do acaso. 12Pois o homem não sabe a sua
hora. Como os peixes que se apanham com a rede traiçoeira e como os
passarinhos que se prendem com o laço, assim se enredam também os filhos
dos homens no tempo da calamidade, quando cai de repente sobre eles.
(Ec 9.10-12)
O tempo e o acaso têm cada um deles a sua vez. Devemos trabalhar duro
agora porque a noite vem, quando ninguém pode trabalhar (9.10). Somos
chamados ao dever de trabalhar e não ao dever de predizer resultados. A
palavra hebraica aqui para acaso (pega) não se refere à aleatoriedade
filosófica, mas significa apenas “ocorrência”. O evento não é planejado por
nós. No que tange a nós, tudo pode acontecer.
Dizer que as coisas ocorrem por “acaso”, se não for apenas uma figura de
linguagem usada por nós, é ser incoerente tanto do ponto de vista teológico
quanto do filosófico. Tudo que ocorre é causado por alguma coisa. A Bíblia
ensina que é causado por alguém. Dizermos que algo ocorre por acaso
significa apenas confessar nossa ignorância da causa.
Queremos ter alguma medida de controle. Queremos nós mesmos
estabelecer as probabilidades. Mas Salomão sabe que os resultados não são
previsíveis por nenhum dos que vivem debaixo do sol. “Quem teria
imaginado que…?”. Os resultados de todos os nossos esforços estão
completamente nas mãos de Deus.
O tempo em que teremos de cessar nosso labor se abaterá sobre nós (9.12).
A morte chega de repente, portanto, trabalhe como se essa noite estivesse
chegando… porque ela está.

A tua palavra me vivifica


13Também vi este exemplo de sabedoria debaixo do sol, que foi para mim
grande. 14Houve uma pequena cidade em que havia poucos homens; veio
contra ela um grande rei, sitiou-a e levantou contra ela grandes baluartes.
15Encontrou-se nela um homem pobre, porém sábio, que a livrou pela sua

sabedoria; contudo, ninguém se lembrou mais daquele pobre. 16Então, disse


eu: melhor é a sabedoria do que a força, ainda que a sabedoria do pobre é
desprezada, e as suas palavras não são ouvidas. 17As palavras dos sábios,
ouvidas em silêncio, valem mais do que os gritos de quem governa entre
tolos. 18Melhor é a sabedoria do que as armas de guerra, mas um só pecador
destrói muitas coisas boas. (Ec 9.13-18)
A lição da singela situação descrita pode ser a de ingratidão ou a de
conselho não aceito. Aqui, seria preferível a última. A sabedoria do homem
poderia ter salvado a cidade, mas seu conselho não foi aceito. Mas a
sabedoria ainda é melhor que a insensatez, mesmo quando é deixada fora de
uso. A voz do sábio é melhor que a gritaria do demagogo ― mas um único
pecador também pode causar uma tremenda confusão.

Todavia, não me afasto da tua lei


1Qual a mosca morta faz o unguento do perfumador exalar mau cheiro,
assim é para a sabedoria e a honra um pouco de estultícia. (Ec 10.1)
Chegamos agora a um ataque furioso de um provérbio. Salomão martela
esse argumento repetidas vezes, fixando-o com muitos pregos, conforme
menciona mais tarde (12.11). Trabalhe duro, insiste ele, diante do Senhor
com um bom senso honesto. Os provérbios nos estimulam ao bom senso.
As moscas mortas no unguento têm uma lição para dar (10.1). A pequena
insensatez do homem sábio e muitíssimo mais visível que a mínima sabedoria
do tolo. O sábio, é claro, tem mais a perder. Ketchup na camisa branca é
muito visível.

Lembro-me dos teus juízos de outrora


2O coração do sábio se inclina para o lado direito, mas o do estulto, para o
da esquerda. 3Quando o tolo vai pelo caminho, falta-lhe o entendimento; e,
assim, a todos mostra que é estulto. (Ec 10.2,3)
A sabedoria está à mão (10.2). Ela manifesta uma criteriosa destreza, ao
passo que a insensatez se atrapalha. A insensatez conserva a posição de
destaque (10.3). O insensato não consegue descer a rua sem se atrapalhar nas
pernas. Enquanto vivemos e respiramos manifestamos o que somos. Se
formos insensatos, o povo vê quando a gente chega. Se formos sábios, essa
competência também é visível.

Os teus decretos são motivo dos meus cânticos


4Levantando-se contra ti a indignação do governador, não deixes o teu
lugar, porque o ânimo sereno acalma grandes ofensores. 5Ainda há um mal
que vi debaixo do sol, erro que procede do governador: 6o tolo posto em
grandes alturas, mas os ricos assentados em lugar baixo. 7Vi servos a cavalo e
príncipes andando a pé como servos sobre a terra. (Ec 10.4-7)
Manter a cabeça no lugar é importante (10.4). O cortezão sábio não entra
em pânico ao primeiro sinal de problema. Isso é bom, pois a estupidez
geralmente tem o controle dos lugares elevados (10.5-7). O igualitarismo
procede do topo, e a negação da nobreza é a insensatez dos nobres. O espírito
igualitário predomina no Ocidente desde os dias da Revolução Francesa, e
questionar sua legitimidade pode fazer este nosso livrinho incorrer em
alguma proibição oficial ou coisa parecida.
Embora todos os homens permaneçam diante do trono do juízo de Cristo
em pé de igualdade, e embora nossas cortes de justiça devam refletir a mesma
imparcialidade, prevalece o fato de que alguns homens e mulheres são
superiores a outros homens e mulheres. Alguns são nobres, outros não.
Alguns são inteligentes, outros não. Conquanto todos sejam portadores da
imagem divina, não é comum todos terem os mesmos dons e habilidades. É
uma insensatez peculiar de alguns nobres negar o óbvio e procurar entronizar
o homem comum, tudo em nome do “povo”. Em sua manifestação moderna,
nós a chamamos democracia. É uma velha vestimenta, Salomão a chamava
insensatez.
O igualitarismo demanda de nós esforços hercúleos ao tentarmos conciliar
nosso dogma com a maneira como o mundo está estabelecido. A insensatez
do igualitarismo é a fonte principal dos ismos modernos – feminismo,
socialismo, fascismo, racismo, comunismo etc. Como bem disse o poeta,
mantenha distância de todos os ismos, com a exceção do iatismo.

Lembro-me, SENHOR, do teu nome


8Quem abre uma cova nela cairá, e quem rompe um muro, mordê-lo-á
uma cobra. 9Quem arranca pedras será maltratado por elas, e o que racha
lenha expõe-se ao perigo. 10Se o ferro está embotado, e não se lhe afia o
corte, é preciso redobrar a força; mas a sabedoria resolve com bom êxito.
(Ec 10.8-10)
O mundo está repleto de ações de consequência (10.8,9). Devemos
conduzir nosso trabalho com vigilância. O perigo espreita por todos os lados.
É bom trabalhar de forma inteligente (10.10). Vemos nesse provérbio um
pouco do entendimento salomônico. Aquele rapaz está tentando derrubar a
árvore com um bastão de beisebol.
Se o lenhador parasse para afiar o machado, cortaria as achas de lenha um
pouco mais rápido. Se ele fizesse um pouco de manutenção, o carro rodaria
por mais tempo. Se ele pensasse com antecipação, não seria surpreendido por
desastres e problemas inescrutáveis com tanta frequência.

Eu disse que guardaria as tuas palavras


11Se a cobra morder antes de estar encantada, não há vantagem no
encantador. (Ec 10.11)
É bom ser cauteloso. Deve-se sempre tratar o fofoqueiro com cuidado,
como quem lida com uma cobra venenosa. O fofoqueiro é uma cobra
perigosa. A língua é um fogo infatigável aceso pelo inferno. O problema não
precisa ser tratado com malícia. Um escrevinhador também pode causar
muitos danos. Muitas vidas são despedaçadas com a língua.

Volto os meus passos para os teus testemunhos


12Nas palavras do sábio há favor, mas ao tolo os seus lábios devoram.
13As primeiras palavras da boca do tolo são estultícia, e as últimas, loucura

perversa. 14O estulto multiplica as palavras, ainda que o homem não sabe o
que sucederá; e quem lhe manifestará o que será depois dele? (Ec 10.12-14)
A conversa vazia não leva a lugar nenhum. O insensato começa com a
alienação mental e termina com a imbecilidade – e faz uma bela viagem entre
uma e outra. As palavras do sábio estão em gritante contraste com isso.
Os insensatos são loquazes. Os fatos nus e crus podem ser expostos diante
dele, mas ele não os compreende. Não podemos prever o futuro, mas quem
consegue transmitir isso ao insensato? Ele teima em comprar livros que
preveem o futuro, quase sempre de livrarias evangélicas especializadas em
escatologia, marcas da besta, computadores na Bélgica e os pequenos códigos
de barra usados nos supermercados.

Não me esqueço da tua lei


15O trabalho do tolo o fatiga, pois nem sabe ir à cidade. (Ec 10.15)
Algumas pessoas são esmagadas por nada. Vemos aqui mais algum
entendimento. Esse menino é capaz de se perder até na escada rolante.

Companheiro sou de todos os que te temem


16Ai de ti, ó terra cujo rei é criança e cujos príncipes se banqueteiam já de
manhã. 17Ditosa, tu, ó terra cujo rei é filho de nobres e cujos príncipes se
sentam à mesa a seu tempo para refazerem as forças e não para bebedice.
(Ec 10.16,17)
A nobreza arruinada procede da nobreza arruinada. Todo o cuidado é
pouco com príncipes e presidentes que gostam de mulheres promíscuas e de
cocaína.

Ensina-me os teus preceitos


18Pela muita preguiça desaba o teto, e pela frouxidão das mãos goteja a
casa. (Ec 10.18)
O rapaz preguiçoso não chega a nada. A ociosidade destrói, mas o
insensato não é capaz de ver isso. Seus olhos estão fechados ao que se
revelou.

Ensina-me bom juízo e conhecimento


19O festim faz-se para rir, o vinho alegra a vida, e o dinheiro atende a
tudo. (Ec 10.19)
O dinheiro, como disse o outro, fala. Banquetes e vinho têm limitações
debaixo do sol. O dinheiro não. Nesse ponto Salomão recorre a uma
hipérbole.

Creio nos teus mandamentos


20Nem no teu pensamento amaldiçoes o rei, nem tampouco no mais
interior do teu quarto, o rico; porque as aves dos céus poderiam levar a tua
voz, e o que tem asas daria notícia das tuas palavras. (Ec 10.20)
Naquela época e agora, as paredes têm ouvidos. A prudência requer que
guardemos a língua no que diz respeito às pessoas no poder. Certo passarinho
poderia abrir o bico para o Washington Post, e coitado de mim por causa dos
comentários que fiz acima sobre presidentes, mulheres promíscuas e cocaína.
É só uma pequena ilustração homilética.

Tornou-se-lhes o coração insensível, como se fosse de sebo; mas eu me


comprazo na tua lei
1Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás.
2Reparte com sete e ainda com oito, porque não sabes que mal sobrevirá à

terra. (Ec 11.1,2)


O negócio da generosidade é governado pelo Senhor com resultados
previsíveis. Jogar o pão às águas não significa dar comida aos patos. Salomão
exorta-nos para que tratemos as esmolas como um negócio, um investimento
no Senhor. Aquele que dá aos pobres está na verdade dando a Deus.
Pensar de trás para frente às vezes pode ser divertido (11.2). Há quem diga
que a vida é incerta e por isso devemos comer a sobremesa primeiro.
Salomão ensina aqui que, pelo fato de a vida ser incerta, devemos dar
primeiro a sobremesa.

Ensina-me para que aprenda os teus mandamentos


3Estando as nuvens cheias, derramam aguaceiro sobre a terra; caindo a
árvore para o sul ou para o norte, no lugar em que cair, aí ficará. (Ec 11.3)
É assim que as coisas são, diz ele. Receba a vida do jeito que ela vier. É
isso aí. E cá estamos. Tive uma deliciosa imagem do sentido de Eclesiastes
alguns meses atrás. Eu estava olhando a estrada que passa em frente à nossa
propriedade, e um sujeito em uma camionete seguia deliberadamente para o
sul. “Bem”, pensei eu, “lá vai ele!”.

Na tua palavra tenho esperado


4Quem somente observa o vento nunca semeará, e o que olha para as
nuvens nunca segará. (Ec 11.4)
Quando se trata de trabalhar, basta agir com empenho e vontade.
Desculpas existem aos montes. Está calor demais. Está frio demais. É tarde
demais.

Os teus juízos são justos


5Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam
os ossos no ventre da mulher grávida, assim também não sabes as obras de
Deus, que faz todas as coisas. 6Semeia pela manhã a tua semente e à tarde
não repouses a mão, porque não sabes qual prosperará; se esta, se aquela ou
se ambas igualmente serão boas. (Ec 11.5,6)
Lembre-se de suas limitações (11.5,6). Deus controla e faz tudo, e ele não
nos fez privar dos detalhes. Reconheça o que você não sabe (quase tudo), e
aplique-se ao que sabe (ao deveres designados). Trabalhe com empenho
nesses deveres, pois não sabe o que vai acontecer, se você vai para a direita
ou para a esquerda.
Lembre-se sempre que Eclesiastes está em guerra contra a insensatez da
autossuficiência. A chave para a sabedoria é dar-se conta do que não
sabemos.

Visão geral e revisão


Primeira divisão (1.2—2.26): A satisfação não surge do nada.
Segunda divisão (3.1—5.20): A soberania é do Senhor. Salomão responde
às objeções a essa ideia.
Terceira divisão (6.1—8.15): O desfrutar da vaidade é dom de Deus.
Quarta divisão (8.16—12.14): A última seção lida com vários problemas.
Primeira subdivisão (8.16—9.9): Com certeza, as inconsistências não devem
jamais diminuir o nosso gozo. Segunda subdivisão (9.10—11.6): Temos de
trabalhar com empenho e permanecer sensíveis a despeito das situações.
1 Aqui também não há notas. Perdoe-me.
CAPÍTULO 13
Tempo de
ser velhote1
O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro no Líbano. Plantados na
Casa do SENHOR, florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice darão ainda frutos,
serão cheios de seiva e de verdor, para anunciar que o SENHOR é reto. Ele é a minha
rocha, e nele não há injustiça.
SALMOS 92.12-15

alomão apresenta-nos agora a importantíssima introdução à questão da


S velhice. A sábia preparação para ela começa muitos anos antes, nos dias
da juventude.

Na tua lei está o meu prazer


7Doce é a luz, e agradável aos olhos, ver o sol. 8Ainda que o homem viva
muitos anos, regozije-se em todos eles; contudo, deve lembrar-se de que há
dias de trevas, porque serão muitos. Tudo quanto sucede é vaidade. 9Alegra-
te, jovem, na tua juventude, e recreie-se o teu coração nos dias da tua
mocidade; anda pelos caminhos que satisfazem ao teu coração e agradam aos
teus olhos; sabe, porém, que de todas estas coisas Deus te pedirá contas.
10Afasta, pois, do teu coração o desgosto e remove da tua carne a dor, porque

a juventude e a primavera da vida são vaidade. 12.1Lembra-te do teu Criador


nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos
dos quais dirás: Não tenho neles prazer; 2antes que se escureçam o sol, a lua e
as estrelas do esplendor da tua vida, e tornem a vir as nuvens depois do
aguaceiro. (Ec 11.7—12.2)
A injunção é clara – alegrem-se e obedeçam. Salomão dirige-se aos jovens
para os encorajar a duas coisas: uma é característica da idade deles, a outra
não. Primeiro ele diz: “Alegrem-se agora!”. A luz do dia e o vigor da
juventude são realmente doces. Desfrute-os (v. 7). Para os jovens, esse é um
conselho fácil de seguir.
Mas depois ele bate em uma tecla mais sombria: “enquanto podem”. O
homem que tem se alegrado por muitos anos ainda assim deve se preparar
para os muitos dias vindouros… dias de escuridão e vaidade (v. 8). Não
podemos escapar da mentira mentindo para nós mesmos a respeito dela.
Devemos recebê-los da mão de Deus – e com a mente tranquila.
Salomão chega à “conclusão”. De várias maneiras os jovens são instados a
abraçarem a juventude e a rejeitarem o mal. Ele os chama para serem cheios
de energia e retidão. Regozijem-se na juventude, diz ele, e lembrem-se do
juízo divino (v. 9). Removam de si a angústia e o mal (v. 10). Embora nossa
juventude seja vaidade, ela deve ser desfrutada. Esse gozo só é possível se
você se lembrar do Criador agora, antes que cheguem os dias de dificuldades
(12.1,2).

Meditarei nos teus preceitos


3No dia em que tremerem os guardas da casa, os teus braços, e se
curvarem os homens outrora fortes, as tuas pernas, e cessarem os teus
moedores da boca, por já serem poucos, e se escurecerem os teus olhos nas
janelas; 4e os teus lábios, quais portas da rua, se fecharem; no dia em que não
puderes falar em alta voz, te levantares à voz das aves, e todas as harmonias,
filhas da música, te diminuírem; 5como também quando temeres o que é alto,
e te espantares no caminho, e te embranqueceres, como floresce a
amendoeira, e o gafanhoto te for um peso, e te perecer o apetite; porque vais
à casa eterna, e os pranteadores andem rodeando pela praça; 6antes que se
rompa o fio de prata, e se despedace o copo de ouro, e se quebre o cântaro
junto à fonte, e se desfaça a roda junto ao poço, 7e o pó volte à terra, como o
era, e o espírito volte a Deus, que o deu. (Ec 12.3-7)
Assim chegamos à queda da grande casa. Salomão nos leva à analogia
ampliada, retratando os problemas associados ao feroz ataque da velhice. Ele
compara a desintegração do corpo à miséria de uma grande casa em
desespero crescente.
Os “guardas da casa” não funcionam (12.3). Mãos e braços tremem por
causa da fraqueza ou da paralisia. Os “homens fortes” lutam (12.3). As
pernas se curvam sob o peso da idade. Os “moedores” não cumprem mais o
trabalho que lhes cabe (12.3). Os dentes perdem a capacidade de mastigar.
Passa a ficar muito escuro, escuro demais para poder enxergar (12.3). Os
olhos perdem a visão. As portas estão “fechadas” (12.4). Pela falta dos
dentes, a boca se dobra para dentro. Tudo quanto se pode ouvir são sons ao
longe (12.4). O som da mastigação é baixinho.
Há mais um problema, o do “sono leve” (12.4). Os idosos são notórios
pelo sono leve. As “filhas da música” se vão (12.4). A capacidade de se
deleitar com a música declina.
Um novo medo ataca, o medo de alturas (12.5). Os que agora são velhos
têm medo de tropeçar e cair. Uma queda pode ter consequências muito piores
que antes.
A “amendoeira” floresce (12.5). A cabeleira agora está branca ou cinzenta.
A pessoa aflita é agora um gafanhoto coxo (12.5). As pernas, agora, dobram-
se sob o peso da idade.
Obviamente, vemos o declínio sexual (12.5). O desejo pela atividade e
satisfação sexual acaba-se. O hebraico aqui é “o fruto da alcaparra [um
afrodisíaco] não funciona”. Nenhum dos velhos truques funciona mais. Essa
é uma notícia particularmente difícil para os modernos profetas e apóstolos
da autonomia sexual. Mas não importa mesmo, quer gostem ou não. Chega a
hora na qual esse ídolo em particular está totalmente acabado.
Todas essas coisas são preparatórias para morrer e para a morte (12.5).
Antes que chegue esse momento, lembre-se do seu Criador (v. 6). E assim
chega a morte (12.6). Aqui, as imagens obscuras indicam com toda a clareza
o ponto de ruptura da criação maravilhosa — o corpo humano. O pó do nosso
corpo voltará à fonte, e nosso espírito subirá para Deus (v. 7).

Seja o meu coração irrepreensível nos teus decretos


8Vaidade de vaidade, diz o Pregador, tudo é vaidade. 9O Pregador, além
de sábio, ainda ensinou ao povo o conhecimento; e, atentando e
esquadrinhando, compôs muitos provérbios. 10Procurou o Pregador achar
palavras agradáveis e escrever com retidão palavras de verdade. 11As
palavras dos sábios são como aguilhões, e como pregos bem fixados as
sentenças coligidas, dadas pelo único Pastor. 12Demais, filho meu, atenta: não
há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne. (Ec 12.8-12)
Esse comunicado sobre a vaidade é… vaidade (v. 8). O ensinamento
recebido em Eclesiastes não é fortuito – os provérbios foram arrumados em
ordem e ensinavam conhecimento ao povo (v. 9). Da forma mais enfática
possível, este não é um livro de desespero niilista – são palavras de verdade
(v. 10). Salomão diz que nos martelou para a sabedoria, e esses pregos foram
fixados com precisão, sendo todos eles direcionados por Deus (v. 11). Os que
vierem a se arrepender da insensatez devem deixar que Salomão a defina para
eles com exatidão.
E, adverte-nos ele, se não formos ensinados por um pequeno livro como
este, a extensa fila dos grandes e grossos livros que ainda restam não será
nada, a não ser canseira e enfado (v. 12).

Visão geral e revisão


Primeira divisão (1.2—2.26): A satisfação não está em nós.
Segunda divisão (3.1—5.20): Deus é soberano sobre tudo. Objeções
respondidas.
Terceira divisão (6.1—8.15): Salomão aplica a doutrina segundo a qual
Deus é quem dá prazer na vaidade.
Quarta divisão (8.16—12.14): Vários obstáculos e desencorajamentos são
abordados. Primeira subdivisão (8.16—9.9): As incoerências restantes não
devem diminuir nossa alegria. Segunda subdivisão (9.10—11.6): Temos de
trabalhar com empenho e permanecer sensíveis a despeito das incongruências
restantes. Terceira subdivisão (11.7—12.12): Devemos nos preparar para a
longa jornada ao longo da velhice para a eternidade.
1 Nadica de nada.
CAPÍTULO 14
A
conclusão1
Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez. Se todas elas fossem relatadas
uma por uma, creio eu que nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam
escritos.
JOÃO 21.25

Guardarei os testemunhos oriundos de tua boca


13De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus
mandamentos; porque isto é o dever de todo homem. 14Porque Deus há de
trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas,
quer sejam más. (Ec 12.13-14)
Assim Salomão encerra o livro. Eis a conclusão de tudo – é este o ponto a
que chegamos no final da argumentação. Tema a Deus, preconiza Salomão, e
faça o que ele diz. Essa é nossa porção, e nosso tudo, e quando a recebemos,
recebemos alegria das mãos de Deus.
Devemos observar que essa é a conclusão de Salomão. A dedução a qual
ele nos traz nesse lugar decorre das premissas. Para quem não acompanhou a
argumentação, é uma tentação afirmar que Salomão apenas incorreu em
desespero existencial e deu um salto de fé edificador. Mas não foi assim que
ele agiu. A lembrança do juízo final é a conclusão do seu argumento, e
devemos nos lembrar de que as capacidades de argumentação de Salomão
eram consideráveis.
Portanto, Deus julgará as coisas secretas, todas elas, quer boas quer más.
Mas como é possível a ideia do julgamento de tudo, em todas as suas
minúcias, trazer prazer e encorajamento em qualquer lugar, em especial no
meio da vaidade?
Eis, aqui, a palavra do Senhor: é o dom de Deus.
1 Zero.