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Junguiana

v.35-2, p.69-76

Aspectos históricos da alquimia

Nairo de Souza Vargas*

Resumo Palavras-chave
O autor realiza um passeio pelas origens acentua que o psicólogo moderno deve saber Alquimia,
da alquimia e por sua existência em diferentes que, em termos científicos, só pode descrever aspectos
culturas e em diferentes épocas. Reconhece a o processo psicológico, uma vez que a natureza históricos,
alquimia como originando-se de técnicas má- real da psique transcende a consciência como alma da
matéria,
gico-míticas, que surgiram com o despertar da um mistério da vida ou da própria matéria. ■
projeções na
consciência. As diferentes alquimias incorpo-
matéria.
ram diferentes sabedorias, que buscam com-
preender as relações cósmicas do homem com
a matéria. A alquimia precedeu no nível objeti-
vo a química e no subjetivo a psicologia. Toda
matéria tem sua alma, que é perene. Os corpos,
porém, são formas transmutáveis. Acentua que
a física moderna, também como a alquimia,
admite a transmutação da matéria. A leitura que
Jung fez da simbólica alquímica, como projeção
de vivências inconscientes pessoais e arque-
típicas, trouxe uma compreensão psicológica
para o complexo simbolismo alquímico. O autor

* M.D, Ph.D, Médico, Psiquiatra, Professor-doutor do De-


partamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo – FMUSP, Psicodramatista, Mem-
bro-fundador da Sociedade de Psicodrama de São Paulo
– SOPSP, Analista Junguiano, Membro-fundador da Socie-
dade Brasileira de Psicologia Analítica – SBPA, Membro da
International Association for Analythical Psychology – IAAP.
E-mail: <nairosvargas@gmail.com>

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É impossível dizer-se onde, quando e como ciência. Temos então dois polos: a consciência
surgiu a alquimia. Suas origens são várias, instrumental, clara e discriminada, surgindo jun-
imprecisas, difusas e discutíveis. to com a crença no sobre natural da qual a alma
São várias também as versões sobre a eti- humana faz parte. A ideia de que a conjugação
mologia da palavra alquimia. Parece referir-se de opostos, o polo claro, natureza (consciência),
ao Egito (Khem ou khan, nome antigo do Egito) com o polo escuro, sobrenatural (inconsciente),
e o artigo definido árabe “al” dando-al-chimia, é propiciadora de crescimento, vai permear toda
(a terra negra). Parece também prover da raiz a obra alquímica (opus).
grega chemeia, do egípcio chem, negro, que Se a alquimia tem origem nas técnicas ar-
pode referir-se à terra negra (Egito), ao negro caicas mágico-míticas, ela só pode instituir-se
da oxidação dos metais ou ao negro, cor sagra- como um saber, a partir de uma sabedoria que
da dos sacerdotes egípcios que como tintura procura compreender as relações cósmicas do
a preparavam secretamente, daí o termo “Arte homem com a matéria.
Negra” como arte do aperfeiçoamento em bus- A sabedoria pode ser formulada por um ho-
ca do divino. mem, o(a) sábio(a) (tipo Confúcio) que procura
Como mostra Eliade (1979), a alquimia teria compreender estas relações de um modo que
muito a ver com técnicas arcaicas, mágico-míti- pode ou não ser aceito. Com o advento das reli-
cas da humanidade, que devem ter surgido com o giões reveladas, a sabedoria é considerada como
despertar da consciência. Ter instrumentos (como vinda de Deus, sábio e único, que fala pela boca de
pedra e madeiras) e ser capaz de usá-los como seu profeta. Em várias civilizações antigas, encon-
utensílios tem a ver com a tomada de consciên- tramos alquimias que trouxeram valores que foram
cia, adaptação do homem ao seu meio natural. incorporados pela alquimia europeia. O raciocínio
As técnicas, pelo contrário, surgem quando alquímico é principalmente dedutivo e baseado
o homem promove a adaptação do meio natu- em duas premissas estabelecidas a priori: a unida-
ral às necessidades humanas, para atender às de da matéria e a existência de um potente agente
suas consciências. transformador, chamado “pedra filosofal”. Este
A emergência da consciência traz algo destaca- seria capaz de curar as imperfeições dos metais
do da natureza, mas traz também a percepção dos enobrecendo-os para se transformarem em ouro,
limites da própria consciência, ou seja, o medo do símbolo do perfeito e incorruptível. Do postulado
que permanece desconhecido e fora dela, ou seja, da unidade da matéria segue-se que um agente
o medo da noite com seus sonhos e da morte. seria capaz de curar enfermidades no humano e
No escuro da noite, o homem não sabe o que prolongar sua vida. A pedra filosofal seria esta me-
se ater. Daí consciência ter que ver com luz e es- dicina perfeita, com o nome de elixir da vida.
clarecimento de um lado e não ter consciência Havia em várias antigas civilizações técnicas
tem a ver com escuridão e desconhecido de ou- complexas e refinadas, por exemplo, técnicas
tro. Esta vivência interna que se manifesta como com tinturas, vidros coloridos e metalurgia no
consciência também aparece como emoções, Egito que foram assimiladas pela alquimia, pela
como, por exemplo, amor e medo. Este interno qual se acreditava que coisas materiais estavam
assustador se assemelha ao sobrenatural com carregadas com coisas divinas.
deuses, fantasmas e demônios e parece sobre- Na Caldeia, havia a astrologia que associava
viver à morte, pois o ser humano pode pensar e planetas aos metais e ao destino dos homens.
desejar além do que está claro e distinto na cons- A alquimia chinesa desenvolveu técnicas de

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preparo de elixires para tratamento médico e dos pré-socráticos, preocupada com o cosmo, o
prolongar a vida. Ela se consolida quando sobre tempo e a matéria e a filosofia dos neoplatôni-
estas técnicas e também técnicas de metalurgia cos. Para muitos, portanto, a alquimia só adqui-
se aplicassem a sabedoria do Taoísmo. Na alqui- re maturidade com os alexandrinos, quando, ao
mia hindu ocorreram coisas parecidas à chinesa, lado de técnicas antigas, temos um conjunto de
quando, sobre técnicas arcaicas, surgiram inter- doutrinas com afirmações sapienciais e religio-
pretações sapienciais do hinduísmo. sas nos séculos II e III.
Dos sumérios e babilônios vieram as técni- Data também desta época a junção na alqui-
cas para se obtiver metais a partir de minérios mia, da filosofia dos neoplatônicos com a cabala
e a produção de ligas metálicas como o bronze, judaica, a mântica caldaica e a mística egípcia.
realizadas como cerimômias religiosas. Para fun- Havia em alguns autores alquimistas uma verda-
dir o ferro deveria-se esperar a época adequada, deira teurgia, ou seja, a manipulação mágica dos
quando Marte estaria propiciador. Para sua fun- deuses em prol da satisfação dos desejos huma-
dição, o homem deveria estar preparado. Era o nos. Toda matéria é a mesma, nas suas diferentes
momento do Kairos, que iria ser o momento pro- formas de apresentação, inicialmente a mesma
pício para determinadas operações alquímicas. na sua origem, é a “prima matéria”, que por dife-
Houve grande florescimento da alquimia em rentes processos evolucionários adquire diferen-
Alexandria nos séculos II e III, que é considerada tes formas. Toda matéria tem uma alma comum
por muitos como aquela em que atingiu maior que por si só é permanente. A forma externa ou
maturidade e plenitude. Houve algumas propos- corpo, são modos de manifestação da alma do
tas alquímicas no século I A.C., mas difíceis de mundo (anima mundi) e, portanto, formas transi-
identificar e localizar. Reflexões da filosofia gre- tórias e transmutáveis em outras formas.
ga e dos neoplatônicos ampliaram e enriquece- Em essência, estes pontos de vista guardam
ram as percepções dos alquimistas helenísticos. estreita semelhança com os modernos pon-
No século VIII, através da Síria e Pérsia, tos de vista da física moderna. Esta verdadeira
a alquimia penetrou nos países árabes, vinda “alquimia moderna” tem mostrado a possibilida-
principalmente de Alexandria. Entre os árabes, de da transmutação de elementos. A “pedra filo-
floresceu em duas vertentes diferentes, uma es- sofal” seria um fantástico catalisador, capaz de
sencialmente prática, ligada ao artesanato e a provocar transformações na matéria. Um grande
medicina (vertente extrovertida), e outra ligada catalizador seria, por exemplo, um bombardeio
ao misticismo, vista como introvertida e cheia de nêutrons que iniciam a desintegração do Urâ-
de segredos. A primeira, ligada aos sunistas, nio 235 em outros elementos. O que antes era
reduziu-se mais à química, tendo em Al-Razi imaginação agora prova-se.
seu expoente, que introduziu a necessidade de A ideia da transmutação está implícita na
quantificar os materiais. A segunda, ligada aos teoria dos quatro elementos de Aristóteles.
xiitas, teve em Mohamed Ibn-U-mail um grande A natureza busca o aperfeiçoamento. Das ideias
místico, que ficou conhecido como Sênior, seu gregas, pouco parece ter havido uma extensão
nome latino, na alquimia europeia. para a concepção da pedra filosofal e o elixir da
No século X, a alquimia retorna à civiliza- vida como agentes que buscam a perfeição para
ção cristã, pelos árabes na Europa (Espanha o mundo inanimado e animado.
e Sicília), unindo-se à filosofia escolástica e a Um dos primeiros títulos da alquimia helenís-
sapiência cristã. tica é a Physica do pseudoDemócrito que mostra
Para muitos a alquimia, pelo menos a hele- o mago caldeu Ostanes no templo de Memphis
nística, seria filha do encontro da tecnologia e, através de um aforisma zoroastriano, recebeu
química e da mágica dos egípcios com a filosofia as receitas para obtenção do ouro e de elixires

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para a imortalidade, justificados pela teoria gre- alquimistas, também símbolos arquetípicos do
ga dos quatro elementos, da mântica caldaica, inconsciente coletivo. Nelas, assim, aparecerá
da Astrologia e do rito do fogo do zoroastrismo. o coletivo arquetípico, próprio do ser humano,
Na idade média, com influências de outras de maneira exuberante, pois os alquimistas não
alquimias, a europeia tornou-se um grande sis- tinham consciência que eram expressões do seu
tema filosófico que busca penetrar e harmonizar inconsciente. Achavam que eram realmente ex-
os mistérios da criação e da vida. Propõem-se a pressões de alterações na matéria que para eles
relacionar o microcosmo do homem com o ma- era una, e, por conseguinte, não havia nenhuma
crocosmo do universo. crítica ou defesa contra suas expressões.
A alquimia é muito mais que uma forma ru- Esta simbólica expressava tudo aquilo que
dimentar de ciência experimental. A busca da é próprio e eternamente presente na psique in-
transmutação de matéria inanimada, os metais, consciente coletiva, ou seja, a vivência dos ar-
é apenas um objetivo incidental. Com isto ela quétipos, na busca da estruturação da consci-
busca provar sua mais essencial e ampla pro- ência. Por esta razão, Jung identificou em muitas
posta da unidade de todas as coisas. Encon- expressões simbólicas dos alquimistas, expres-
tramos na alquimia uma vasta rede de ideias e sões simbólicas idênticas às que apareciam nos
afirmações na qual se misturam rudimentos de sonhos e imaginações de seus clientes.
química, relacionados com religião, folclore, Como dizia Jung (1991), a psique objetiva é
mitologia, astrologia, magia, misticismo, filoso- autônoma em alto grau, sendo o inconsciente
fia, teologia e outros campos de imaginação e uma realidade psíquica que só aparentemente
experiência humana, ou seja, tudo o que é mani- pode ser disciplinada. É um lado da natureza
festação do inconsciente pessoal e coletivo. que não pode se melhorado nem deteriorado,
Uma das compreensões da simbólica al- podemos auscultar seus segredos, mas não
química é a de que se tratava de projeções do manipulá-los. Fica claro que ambos estavam ex-
alquimista sobre a matéria e suas alterações, pressando símbolos arquetípicos, presentes na
do inconsciente pessoal e de imagem arquetípi- personalidade do ser humano, que sempre exis-
cas expressas pelo seu Self, principalmente de tiram e existirão sempre pois são arquetípicos e
seu processo de individuação. próprios de nossa espécie. Aparecerão, no en-
A associação da alquimia com religião e psi- tanto, com algumas características próprias do
cologia tem mostrado que ela é tão ou mais im- tempo e da cultura de quem os está vivenciando,
portante para a psicologia do que para a quími- porém idênticos na sua essência.
ca. Esta interpretação, proposta por Jung, trouxe A ideia básica da alquimia é que tudo provém
enorme compreensão para os complexos, confu- do Uno. O processo alquímico é uma reconstru-
sos e as vezes incompreensíveis manifestações ção microcósmica do processo de criação ou em
da alquimia. outras palavras uma recriação. Para desmanchar
A compreensão da alquimia como projeções o “corpo” em sua forma atual, a procura da for-
de vivências inconscientes, pessoais e arquetí- ma original do Uno, várias operações eram feitas.
picas trouxe um sentido psicológico importan- Ao nível do individual, o corpo das coisas poderia
tíssimo para a compreensão do riquíssimo, exu- ter a operação de dissolução, chamada solutio e
berante e confuso simbolismo alquímico. Estas seguida da coagulação, a coagulatio. Era a sol-
expressões simbólicas aconteceram em diferen- vite corpora et coagulate spiritum. Havia muitas
tes culturas, em diferentes lugares e diferentes outras operações: calcinatio, putrefatio, coniunc-
épocas, devendo, portanto, estar presentes, para tio etc. Como afirmava Jung, o desenvolvimento
os diferentes alquimistas, além de aspectos pes- e crescimento da personalidade, não pode ser
soais e culturais próprios de vivências de cada completo só à custa das vivências externas. É fun-

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damental que venha da própria personalidade, A imagem central da alquimia é o opus com a
do Self, motivações que os inspirem e promovam qual o alquimista tinha um compromisso sagrado,
seu desenvolvimento e aprimoramento. era a busca do valor supremo, o ouro alquímico.
As íntimas conexões entre o simbolismo alquí- O segredo alquímico não podia ser divulgado
mico e as metáforas das religiões são muito gran- e sua violação seria um crime pois poderia cair
des. Por exemplo, o grande símbolo da união dos em mãos inadequadas que poderiam fazer mal
opostos, expresso por inúmeras metáforas em to- uso dele. As energias transpessoais devem ser
das as religiões, por exemplo, Cristo unido à igre- secretas e sagradas e não apossadas pelo ego
ja, está presente em inúmeros símbolos alquími- que não pode se identificar com imagens arque-
cos, como o casamento do rei e da rainha. Outro típicas o que seria uma inflação, um não conhe-
exemplo, unicórnio, monstro hermafrodita simbo- cer a si mesmo e seus limites.
lizando uma coniunctio opositorum está presente A ideia da prima matéria veio dos filósofos
em várias alquimias. A serpente gnóstica é com- pré-socráticos como um a priori de que o mundo
parável ao mercúrio alquímico ou à água divina, derivava de uma substância original e única da
símbolo que leva todas as coisas à maturação e qual derivava o mundo. Seria da parte desses fi-
desenvolvimento, buscando aperfeiçoamento. lósofos ou uma imaginação, ou um pensamento
irracional, ou uma impressão visual e, portanto,
É o espírito da vida, a anima mundi. Serpente e o
uma manifestação de um fato psíquico arquetí-
chifre do unicórnio são alexipharmakons, ou seja,
pico, projetados na matéria, já que o mundo é
são antídotos contravenenos.
obviamente múltiplo.
A experiência alquímica europeia era mais
A prima matéria sofrendo um processo de
uma “vivencia mágica” do que uma experiência
diferenciação se parava-se em quatro elemen-
científica concreta e repetível. Ela fundamenta-
tos: terra, ar, fogo e água que combinado-se em
va-se na concepção animista da natureza. Nela
proporções variadas formariam todos os objetos
tudo é movido por uma alma, da qual a alma hu-
físicos, os corpos.
mana participa. Isto possibilitou o estreito para-
A alquimia descreve um processo de trans-
lelismo entre o que acontece com a matéria du-
formação química e das instruções para sua
rante sua transmutação e o que acorria na alma
realização. Embora muito variáveis elas coinci-
do alquimista. Como já dissemos, Jung trouxe dem em algumas partes principais desde o co-
uma nova interpretação para os textos e sím- meço da Era Cristã. Seriam quatro os estágios
bolos alquímicos como sendo projeções do in- da opus caracterizados pelas cores originais:
consciente do alquimista sobre a matéria e suas preto (nigredo), branco (albedo), amarelo (xan-
transformações e seus símbolos coletivos de seu tosis) e vermelho (rubedo). No século XV, as co-
processo de individuação. Ele mostra fenomeno- res foram reduzidas a três, caindo em desuso a
logicamente que a opus é uma projeção sobre a xantosis. Dizia-se que apesar de serem quatro
matéria do acontecer psicológico no processo de elementos, as cores eram três. A mudança na
individuação. Este, para Jung (1997), pode ocor- classificação dos estágios foi devida ao signi-
rer na segunda metade da vida, principalmente ficado simbólico do quaternio e da trindade,
em pessoas preocupadas com sua melhoria in- ou seja, foi devida a razões internas psicológi-
terna e desenvolvimento de sua personalidade cas, e não externas.
ou em termos religiosos como a salvação de sua A sequência das fases da opus, nos diferen-
alma. Atualmente, a psicologia analítica fala em tes autores depende em primeiro lugar de sua
processo de individuação ocorrendo em toda a concepção da meta, que são tão variáveis como
vida e vindo do Self, para o crescimento e aper- os processos individuais. Às vezes, trata-se como
feiçoamento da consciência. meta, da obtenção da tintura branca e vermelha,

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às vezes da pedra filosofal, capaz de promover material, por isto a conhece. Haveria um vago fe-
transformações, ou o elixir de vida, a panaceia, nômeno de consciência na matéria.
capaz de curar doenças e prolongar a vida. Estamos diante de um mistério que não con-
O lápis philosophorum é muitas vezes a pri- seguimos compreender. Isto pode nos colocar
ma matéria, ou o meio de produzir ouro, ou um na posição mais humilde e modesta de termos
ser místico chamado Deus terrestris ou Salvator. que descrever fenômenos de acordo com nossos
A opus inicia-se com a evocação da sabedo- conhecimentos atuais e reconhecermos nossa
ria divina, condutora do processo. ignorância em termos científicos da compreen-
A primeira fase, a nigredo, estado confuso são de tais fenômenos.
da matéria é atingida por diferentes operações e Como nos mostra a história, a alquimia exis-
se encerra para muitos quando surgem as “scin- tiu em inúmeras civilizações por séculos e de
tillas, centelhas que brilham e são associadas às certo modo está viva em nossas ideias.
ilhas de consciência”. Através de diferentes ope- Assim, no estudo da obra de Jung, seu livro
rações, evolui-se para a segunda fase, a albedo Psicologia e Alquimia (1991), é de importância
ou fase da prata, na qual se estabelece a ordem fundamental, o que mostra o quanto ela tem
sapiencial esclarecedora com a união dos opos- para nos ensinar sobre a psique humana e seu
tos. Esta evolui para a rubedo, o nascer do sol, funcionamento. De certo modo, nós, analistas
associada à vitória sobre a morte e a redenção junguianos, somos todos alquimistas, porém
da humanidade. com mais consciência de nosso trabalho.
Um dos conceitos básicos da alquimia, além Os alquimistas sabiam que a produção da
da prima matéria, de espaço, tempo e energia pedra filosofal era um milagre que só poderia
de uma partícula, é o conceito daquilo que se ocorrer Deo concendente.
poderia chamar de afinidade química. Era com- O psicólogo moderno deve saber que, em
preendida pela alquimia como uma atração inex- termos científicos, só pode apresentar uma des-
plicável que certas substâncias exerciam sobre crição de um processo psicológico, uma vez que
outras e a repulsão por outras. sua natureza real transcende a consciência, tal
O inconsciente pode fornecer modelos a como o mistério da vida ou da matéria.
que se pode chegar diretamente desde o inte- O psicólogo não explica o mistério, apenas o
rior da personalidade e estes podem se ajustar aproxima um pouco mais da consciência indivi-
a realidade exterior. Von Franz (1980) fala em dual, comprovando com base em dados empíri-
duas explicações possíveis para este fenômeno: cos o caráter real e passível de experiência do
o inconsciente tem conhecimento de outras rea- processo de individuação.
lidades ou ele é uma parte da mesma coisa que Como dizia Jung, é parte da ética do pesqui-
constitui a realidade exterior, pois ignoramos sador poder reconhecer o ponto em que seu sa-
como o inconsciente se liga à matéria. ber chega ao limite.
O inconsciente não material fornece ideias Este limite significa o início de conhecimen-
sobre a realidade material, ou ele próprio está tos mais altos. ■
ligado à matéria sendo um fenômeno dela. Von
Franz pensa que Jung inclinava-se a pensar hipo-
teticamente que o inconsciente tem um aspecto Recebido em: 14/08/2017 Revisão: 07/11/2017

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Abstract

Hysyoric aspects of alchemy


The author describes the origins of Alchemy aspect, matter is transmutable. In this paper, it is
and shows that it was present in several cultures emphasized that modern physics, like alchemy,
and in different times in History. It is acknowled- admits the transmutation of matter. Jung’s com-
ged that Alchemy originated from magical-mythi- prehension of the symbology of alchemy, as a
cal techniques, which arose from the emerging projection of personal and archetypal uncons-
consciousness. Alchemy seeks to understand cious experiences, brought a psychological un-
various aspects of the cosmic relationship of derstanding to the complex alchemical symbo-
man to matter, and each different school of al- lism. The author emphasizes that, in the field of
chemical thought has its own wisdom and brings science, the modern psychologist can only des-
light to valuable elements of this relationship. cribe the psychological process, since the real
Objectively, Alchemy preceded chemistry, and nature of the psyche transcends consciousness
subjectively, it preceded psychology. Matter also because it is one of life’s mysteries as well as
has a soul, which is perennial. But, in its physical one of the mysteries of matter itself. ■

Keywords: Alchemy, historic aspects, matter’s soul, projections on matter.

Resumen

Aspectos históricos de la alquimia


El autor realiza un paseo por los orígenes de son formas transmutables. La física moderna, tal
la Alquimia y su existencia, en diferentes cultu- como la Alquimia, admite la transmutación de la
ras y en diferentes épocas. Reconoce la Alquimia materia. La lectura que Jung hizo de la simbólica
como originaria de técnicas mágico-míticas que alquímica, como proyección de vivencias incons-
surgieron con el despertar de la conciencia. Las cientes personales y arquetípicas, posibilitó una
diferentes Alquimias incorporan diferentes sa- comprensión psicológica del complejo simbolis-
bidurías que buscan comprender las relaciones mo alquímico. El autor señala que una vez que la
cósmicas del hombre con la materia. Respecto a naturaleza real de la psique trasciende la concien-
lo objetivo, la Alquimia precedió a la Química, y a cia, el psicólogo moderno debe saber que solo se
lo subjetivo, a la Psicología. Toda materia tiene un puede describir el proceso psicológico como un
alma que es perenne. Los cuerpos, sin embargo, misterio de la vida o de la propia materia. ■

Palabras claves: Alquimia, aspectos históricos, alma y materia, proyecciones en la materia.

Referências
ELIADE, M. F. Alquimistas. Rio de Janeiro, RJ: Zahar, 1979. JUNG, C. G. O Eu e o inconsciente. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.
(Obras completas de C.G. Jung, v. 2/2).
JUNG, C. G. Psicologia e alquimia. Petrópolis, RJ:
Vozes, 1991. VON FRANZ, M. L. Alquimia. São Paulo, SP: Cultrix, 1980.

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