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Agora, leia este poema:

PRIMEIRAS PALAVRAS
Escrever é colocar ideias no papel de forma Pronominais
organizada. Ora, as idéias não surgem do nada; elas são Dê-me um cigarro
Diz a gramática
fruto dos processos de comunicação dos quais
Do professor e do aluno
participamos e das informações a que temos acesso
E do mulato sabido
vivenciando experiências, conversando (“trocando idéias”, Mas o bom negro e o bom branco
como se diz popularmente) e lendo, lendo, lendo. Da Nação Brasileira
Mas uma leitura sem compreensão não é leitura. Dizem todos os dias
Ler sem compreender é parar na etapa da decodificação Deixa disso camarada
do sinal gráfico. Para que uma leitura seja eficiente, é Me dá um cigarro
preciso que haja uma interação entre leitor e texto lido, um Oswald de Andrade
atuando sobre o outro, porque ler é atribuir significado; é
construir um significado para o texto lido.
Ao fazermos isso, estamos nos construindo, Compare o primeiro e o último verso do texto.
ampliando nossa leitura de mundo. “Dê-me um cigarro” – forma exigida pela gramática
escolar” (ou seja, a gramática “Do professor e do aluno/E
do mulato sabido”)
LER, ESCREVER. PENSAR
Saber escrever pressupõe, antes de tudo, saber ler “Me dá um cigarro” – forma usualmente empregada pelos
e pensar. falantes (“o bom negro e o bom branco/Da Nação
O pensamento é expresso por palavras, que são Brasileira”)
registradas na escrita, que por sua vez é interpretada pela
No texto, a comparação entre o primeiro e o último
leitura. Como essas atividades estão intimamente
verso exemplifica uma das muitas diferenças existentes
relacionadas, podemos concluir que quem não pensa (ou
entre a língua que a gramática normativa - a “Do
pensa mal) não escreve (ou escreve mal) e que não lê (ou
professor e do aluno/ E do mulato sabido” - considera
lê mal) não escreve (ou escreve mal).
“correta” e a língua efetivamente falada pela maioria das
Você já observou que, apesar do excepcional poder
pessoas.
dos meios eletrônicos de comunicação de massa, não há
Para se comunicar, o falante não precisa,
noticia de que o numero de publicações impressas tenha
necessariamente, dominar as regras da “gramática
diminuído? A cada dia publicam-se mais e mais livros,
escolar”. No entanto, ele utiliza (mesmo sem ter
jornais e revistas. Isso porque a leitura da palavra escrita
consciência disso) uma “gramática natura”, que admite a
ainda é uma das formas mais ricas de informação, já que
construção me dá um cigarro, mas não admite, por
grande parte do conhecimento nos é apresentado em
exemplo, a construção me um cigarro dá. Ou seja, essa
linguagem escrita. É, portanto, lendo que chegamos ao
“gramática natura” possui um sistema de regras que
conhecimento de outros ramos do saber.
formam a estrutura da língua, e que os falantes
A leitura não só nos aproxima dos mecanismos da
interiorizam ouvindo e falando (Celso P. Luft, in Língua e
língua escrita, mas também é fonte inesgotável de idéias
liberdade).
que nos ajudarão na tarefa de escrever: “Os nossos
Podemos, por isso, considerar a existência de
conhecimentos são os germes das nossas produções”,
“duas gramáticas” a natural, cujas estruturas e regras
afirmou o naturalista e escritor francês Buffon (1707-1788).
todos os falantes (inclusive os analfabetos) conhecem e
Ler, portanto, é fundamental para escrever. Mas,
utilizam no dia-a-dia, e a normativa, que pode ser
como já dissemos, não basta ler; é preciso entender o que
definida assim:
se lê. É necessário compreender o sentido da organização
das frases num determinado texto para que se cumpra uma
das finalidades da leitura: a compreensão das idéias, que Gramática normativa – conjunto sistematizado de
se dará a partir do entendimento dos recursos utilizados regras (normas) e orientações para escrever e
pelo autor na elaboração do texto. É bom lembrar que não falar de acordo com o padrão culto da língua.
podemos separar a compreensão da idéia da compreensão
dos recursos, porque ela foi expressa de uma determinada
maneira e não de outra.
TERRA, Ernani & NICOLA, José de – Português VARIAÇÕES LINGUÍSTICAS
de olho no mundo do trabalho vol. único. São Toda pessoa que fala um determinado idioma
Paulo: Scipione, 2004
conhece as estruturas (regras gerais de funcionamento
dele. Isso não significa, no entanto, que todos os falantes
INTRODUÇÃO À GRAMÁTICA de uma língua a utilizem maneira rigorosamente uniforme.
Os quadros a seguir apresentam as mesmas Existe um grande número de fatores (como a idade, o
palavras, ordenadas, em cada caso, em uma seqüência grupo social, o sexo, o grau de escolaridade etc.) que
diferente. interferem na maneira individual que o falante tem de se
1. um dá cigarro me 2. me dá um cigarro expressar. Dizemos, por isso, que em um idioma ocorrem
3. me um dá cigarro 4. me cigarro um dá variações linguísticas.
5. dá-me um cigarro De maneira bastante simplificada, podemos
considerar a existência de três tipos gerais de variações,
Podemos facilmente concluir que apenas as conforme mostra o quadro:
seqüências 2 e 5 têm “sentido”, isto é, transmitem ao leitor
uma idéias compreensível.
Função referencial ou denotativa - transmite uma
Tipo Aspecto ao qual se relaciona informação objetiva sobre a realidade. Dá prioridade aos
dados concretos, fatos e circunstâncias, suprimindo tanto
grupo social ao qual o falante pertence
variação sociocultural as valorações como os sentimentos de quem fala (o
região em que o falante vive durante um emissor). É a função característica do discurso científico e
variação geográfica
certo tempo de qualquer exposição de conceitos. Ela põe em
tempo (época) em que o falante vive evidência o referente, ou seja, o assunto ao qual a
variação histórica
mensagem se refere.

ADEQUAÇÃO E INADEQUAÇÃO LINGUÍSTICA Função expressiva ou emotiva - Reflete o estado de


Quando uma pessoa se comunica com outro(s), ânimo do emissor, os seus sentimentos e emoções.
para que esse ato se realize de forma eficiente, é Exprime-se a partir da perspectiva do emissor, sempre
necessário que ela faça a adequação da linguagem. resultando em textos subjetivos, escritos em primeira
Há situações em que, pelo fato de a relação entre pessoa. Um dos indicadores da função emotiva num texto
os interlocutores ser mais descontraída, mas informal ou é a presença de interjeições e de alguns sinais de
pessoal, pontuação, como as reticências e o ponto de exclamação.
fica mais adequado o emprego de uma linguagem
informal, mais “solta”. Por outro lado, há situações em que Função apelativa ou conativa - Seu objetivo é influenciar
a relação falante-ouvinte é mais impessoal, cabendo aí o receptor ou destinatário, com a intenção de convencê-lo
uma linguagem mais formal, mais “cuidada”. de algo ou dar-lhe ordens. São próprios dessa função os
São inúmeros os fatores que, individualmente ou recursos que podem motivar o ouvinte a praticar uma
combinados, interferem no modo como o falante ajusta sua ação, dar uma resposta ou reagir afetivamente. Está
linguagem às circunstancias do ato de comunicação. Entre permeada de recursos apelativos sutis ou não, tais como
esses fatores destacam-se: o uso do imperativo – Procure! –; do vocativo – Maria,
 o interlocutor - não se fala do mesmo modo com vem cá –; da interrogação – Você já tomou banho? – e
um adulto e com uma criança; de recursos literários frequentes na linguagem da
 o assunto - falar sobre a morte de uma pessoa propaganda.
amiga requer uma linguagem diferente da usada para
lamentar a derrota do time de futebol; Função poética ou estética - É aquela que põe em
 o ambiente - não se fala do mesmo jeito em um evidência a forma da mensagem, ou seja, que se
templo religioso e em uma festa com amigos; preocupa mais em como dizer do que com o que dizer.
 a relação falante-ouvinte - não se fala da mesma O escritor, por exemplo, procura fugir das formas
maneira com um amigo e com um estranho; em uma habituais de expressão, buscando deixar mais bonito o
situação informal e em uma formal. seu texto, surpreender, fugir da lógica ou provocar um
efeito humorístico. Embora seja própria da obra literária, a
função poética não é exclusiva da poesia nem da
literatura em geral, pois se encontra com frequência nas
ELEMENTOS DA COMUNICAÇÃO expressões cotidianas de valor metafórico (O tempo voa)
e na publicidade: “Em tempos de turbulência, voe com
A comunicação confunde-se com nossa própria fundos de renda fixa. “ As gírias dos adolescentes
vida, estamos a todo tempo nos comunicando, seja através também têm sua raiz na função poética: 'Queimei meu
da fala, da escrita, de gestos, de um sorriso e até mesmo filme' com o professor de Geografia.
através do manuseio de documentos, jornais e revistas.
Em cada um desses atos que realizamos notamos Função fática - tem por finalidades estabelecer,
a presença dos seguintes elementos: prolongar ou interromper a comunicação. É aplicada em
situações em que o mais importante não é o que se fala,
- emissor ou remetente: é aquele que envia a mensagem nem como se fala, mas sim o contato entre o emissor e o
(uma pessoa, uma empresa, uma emissora de televisão receptor. Aparece geralmente nas fórmulas de
etc.) cumprimento: Como vai, tudo certo? ou em expressões
- destinatário ou receptor: é aquele a quem a mensagem que confirmam que alguém está ouvindo ou está sendo
é endereçada (um indivíduo ou um grupo). ouvido: sim, sem dúvida, entende?, não é mesmo?.
- mensagem: é o conteúdo das informações transmitidas. Seus objetivos principais são proteger e reforçar o canal
- canal de comunicação: é o meio pelo qual a mensagem de comunicação.
será transmitida (carta, palestra, jornal televisivo)
- código: é o conjunto de signos e de regras de
Metalinguística - é aquela que possibilita a um código –
combinação desses signos utilizado para elaborar a
língua, sinais de trânsito, linguagem braile – referir-se a si
mensagem; o emissor codifica aquilo que o receptor irá
mesmo. É a palavra comentando a palavra, o cinema
descodificar.
falando do cinema, a pintura expressando a pintura. Com
- referente ou contexto: é o objeto ou a situação a que a
a finalidade de garantir que o falante e o ouvinte utilizem o
mensagem se refere.
mesmo código, a metalinguagem é usada em qualquer
aprendizado de uma língua, nas gramáticas e nos
FUNÇÕES DA LINGUAGEM dicionários. Exemplo: “Frase é qualquer enunciado
linguístico com sentido acabado.” Para dar a definição de
O linguista russo chamado Roman Jakobson
frase, usamos uma frase.
caracterizou seis funções de linguagem, ligadas ao
ato da comunicação: