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LUIZ CARAMASCHI

NOVA PERSPECTIVA
DA FILOSOFIA
Pede sempre conselho ao sábio".
Tob 4,19

"São Boaventura considera a filosofia como um itinerário da mente


para Deus".
Julián Marías

Associação Filosófica “Luiz Caramaschi”


PIRAJU-SP
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PRÓLOGO

Ainda que só, contra todos, havemos de gritar esta formidolosa


verdade da qual, um dia, como um raio, tivemos comunicação. Este
mundo nosso em decadência busca ansiosamente salvar-se do caos
que se aproxima; contudo, isso só será possível com uma nova
mensagem, e é a deste livro.
G. William Kessler, falando da urgência com que os industriais hão
de adaptar-se a era dos microprocessadores (que são computadores
tão miúdos, que cabem, folgados, na ponta de um dedo), disse: "Não há
tempo a perder, e os que não fizerem o esforço de reconversão e
reaprendizagem estarão perdidos". Tal qual com a filosofia que,
abandonada há dois séculos, cobra, agora, o seu preço, com juros. A
mensagem gritada neste e noutros livros, terá de ser ouvida em meio ao
estridor de um mundo pululante que não sabe mais para onde ir.
Tem razão Joelmir Beting: "Se o homem continuar falhando, quem
pilotará a espaçonaveTerra I rumo ao terceiro milênio?"

O autor
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PREFÁCIO
É com imenso prazer que apresentamos ao público mais uma obra
do eminente filósofo, professor Luiz Caramaschi. Esta obra é
endereçada às pessoas que buscam a sabedoria pelos caminhos da
razão, mas que, não conseguindo orientar-se em meio à congérie de
verdades menores, se encontram em obscuridade, vivendo,
consequentemente, angustiadas.
Estes poucos pensadores que ainda restam no mundo, tentam
organizar-se em grupos de estudo, mas não conseguem justificar a
obra de um Criador divino, a partir da idéia da Evolução. Ou se
aceita a idéia mística da Criação num simples ato do Criador, ou se
aceita a idéia da Evolução a partir do movimento da matéria cósmica
até sua excelsitude na vida humana, mas que termina sem a
esperança de uma vida post-mortem. Esta síntese foi feita pelo professor
Caramaschi; e só lhe foi possível, graças aos atuais conhecimentos
científicos de que dispomos hoje, os quais alteraram os conceitos
filosóficos basilares do passado.
O professor é autor de UM ESTUDO DE NOSSO TEMPO, obra
em que apresenta um estudo sócio-filosófico grandemente abrangente
do estado atual de nossa civilização, concluindo, sem devaneios
proféticos nem visões apocalípticas, que ela poderá fechar seu ciclo, se
não houver uma reversão geral da ordem atual. Nesta obra, dá
novos enfoques da mesma magnitude, sobejamente esclarecedores,
que ajudarão antever essa hecatombe, e, se possível, evitá-la, ou, na
impossibilidade de impedi-la, como comportar-se frente à fatalidade.
Perigo maior que as bombas nucleares ou até a já sonhada
bomba de anti-matéria, é, para o autor, a dissolução moral que
campeia por todas as camadas sociais, e isto, por se haver perdido
os eternos padrões de conduta moral que deveriam nortear nossos
destinos para todo o sempre.
Por tratar-se de um pensador de nossa cultura, com a
experiência de nossos problemas, não despreza o mundo da matéria,
nem o valor do desenvolvimento científico e tecnológico, nem defende
formas de misticismos vazios de ação que rejeitam a realidade do
mundo, como se fosse possível ao homem ocidental abandonar tudo a
que conquistou até o momento, e ainda, como se nisto consistisse o
mal.
O professor Luiz não é um pensador fatalista que acredita na
irreversibilidade da ordem, nem é um progressista que crê que tudo dará
certo, por haver uma como que mão de Deus guiando a história. Crê,
isto sim, que a história depende exclusivamente de nós, e que o
desenvolvimento espiritual de cada um só virá com a busca da
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sabedoria e da virtude, única maneira de se conseguir a perene


felicidade. Tem esperança que sua síntese das filosofias vigore no
futuro, e acredita na possibilidade de que a tecnologia ainda possa
permitir meios de comunicação com os desencarnados.
Esta capacidade de conciliar o ideal com a realidade é
resultante da sua visão abrangente de pensador, aliada à sua grande
erudição; isto coloca o filósofo Luiz Caramaschi em situação vantajosa
para os ocidentais que, na falta de outros meios, buscam orientar-se
com as doutrinas de místicos orientais não cristãos. Por isto, na falta de
uma filosofia nossa, cristã, de cariz moderno, muitos insistem em
modelos orientais como meio de desenvolvimento espiritual, o que, como
diz o professor, não está errado, mas destoa da nossa cultura que é,
eminentemente, racional.
NOVA PERSPECTIVA DA FILOSOFIA trará ao leitor que
desfruta do prazer de pensar, uma enorme claridade que lhe possibilitará
fazer, com ânimo resoluto, sua caminhada evolutiva. Tomará
consciência de que não existem fórmulas mágicas para essa caminhada,
tendo de contar com o seu esforço próprio, tal qual nô-lo ensina a
maravilhosa mensagem de Richard Bach, em sua obra Fernão Capelo
Gaivota.
O autor mostra um estilo vigoroso, polêmico, no
desenvolvimento sempre lógico de suas idéias; como se fora um
maestro à frente de sua orquestra, vai destacando as opiniões ora
deste, ora daquele pensador, conseguindo que o concerto de idéias,
como o de sons, se torne numa vigorosa e bela sinfonia.

OS EDITORES
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CAPÍTULOS

I - Filosofia e Religão
II - O Sistema
III - O Arqui-Sistema
IV – O Ternário
V - Tudo é Absoluto e Relativo
VI - Homem – Mundo - Deus
VII - Alertismo
VIII - Desatinos
IX - Conciliação de Opostos
X - O Unidualismo
XI - Ente Biológico e Sócio
XII - Alma e Corpo
XIII - Pensamento e Linguagem
XIV - A Moral Objetiva de Confúcio
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I - FILOSOFIA E RELIGIÃO
A filosofia nasceu no dia em que o primeiro homem, saindo da
alteração em que vivem todos os animais selvagens, a duras penas, se
pôs só consigo em solidão meditativa. Este homem foi o primeiro a
ordenar o mundo para si, segundo sua perspectiva, e esta sua aventura
possibilitou-lhe congregar os demais homens em torno de si, pelo que se
sublimou, sobre todos, como chefe militar, legislador e sacerdote. A
filosofia nasceu, pois, na noite anterior ao dia em que os homens se
reuniram em tribo, unificados por um chefe fundador de uma religião,
por intermédio do qual Deus deu o primeiro código ético regulador dos
costumes.
Deste modo, as religiões não surgiram no ar, e sim, nas cabeças
de uns pensadores, de sorte que as revelações são o modo com que os
primitivos filósofos-profetas deram suas verdades como vindas da parte
de Deus; os resultados finais (síntese) de suas lucubrações foram,
então, apresentadas sob a forma de máximas inquestionáveis,
peremptórias, dogmáticas. A intuição que relampagueava na mente do
iluminado, era tida por voz de Deus.
Esta é a razão por que as falas de Deus se mantêm ao
nível da cultura da época. Se no tempo de Moisés fossem conhecidos
os micróbios, certamente que o Gênese faria referência a eles. Adão,
que pôs nome a todas as alimárias da Terra, também teria que nomear
os animálculos e plantas unicelulares. Como Moisés não tinha
conhecimento da assombrosa e pululante existência de micro-
organismos, Jeová ficou impedido de falar-lhe sobre este assunto. Não
custaria ter acrescentado Deus um versículo ao livro primeiro de
Moisés, assim, por exemplo: "Eis que também tenho criado espécies
várias de seres invisíveis aos olhos, animais e plantas simples que
caberiam dezenas, centenas e milhares deles no exterior de um grão-de-
areia". Também nada falou sobre os trilhões de infra-partículas que
constituem um globo de poeira suspenso no ar, que dança numa réstea
de luz, porque tais infra-partículas componentes de tal grão de pó,
então, ainda não se conheciam, nem as conhecia o Espírito revelador, se
foi este quem inspirou Moisés. Como? não as conhecia o Espírito?
Logo, tinha este, como nós agora, limitações quanto ao saber?
Sim, porque se tratava de um Espírito, que não do próprio Deus,
visto como, sendo Deus infinito e eterno, diretamente não
pode comunicar-se com o finito e temporal seja este um Espírito,
seja um homem. A linguagem de Deus para o místico fautor de
religião é a mesma linguagem do Ser para o pensador. Há uma
linguagem muda do Ser, que o filósofo procura traduzir para a
fala humana. Daí que, quando Deus fala ao homem, é o homem que
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fala em nome de Deus, e, com isto, dá o melhor de si. Pois que o homem
intuiu Deus, como o intuiu? Para intuí-lo, teve de desinverter-se, teve
de deixar de ser o que é, pelo menos em projeto. Só depois que o
homem se negou a si mesmo de animal, de dragão, de egoísta ignorante,
de perverso, é que pôde projetar esse SI INVERTIDO em Deus.
Deus é a projeção invertida do homem. Deus é o homem pelo avesso. Se
dermos, porém, que Deus é o direito, então, o avesso fica sendo o
homem, e salvar-se é desinverter-se desse negativo.
Deus é para a moral... que cria e mantém a civilização, o mesmo
que os postulados, para as matemáticas, e os primeiros princípios, para
as ciências. Neste sentido de axioma, de postulado, de primeiros
princípios INDEMONSTRÁVEIS..., Deus "é uma criação do homem,
que capitalizou na idéia de Deus o melhor de suas aspirações e de
seus valores. A reivindicação humanista, longe de diminuir Deus,
contenta-se com reclamar dele o que o homem lhedeu do melhor que
em si tinha".
Eis, pois, que, como diz Gusdorf, "na realidade, metafísica e
religião ocupam o mesmo espaço mental". É por isto que "a experiência
metafísica só é possível, se fundamentada na experiência religiosa".
Consequentemente, "o feiticeiro é o primeiro filósofo, e a religião é o
berço da metafísica". Esta é a razão por que "o filósofo tradicional,
companheiro de viagem do teólogo, vê em Deus o objeto supremo de
uma reflexão, que, toda quanta, se organiza em relação a ele" (...) "A
filosofia, toda quanta, é teologia, ou seja, manifestação do plano divino
na ordem do mundo, ao nível dos seres, das coisas e dos pensamentos".
Não há, pois, dizer que a filosofia surgiu com Tales, em Mileto, no
VI século antes de Cristo, como se antes disto não se tivesse pensado
coisa alguma. Tudo nasceu nas lucubrações dos pensadores, religiosos
ou filósofos; e como lucubrar é trabalhar à noite em meditações
prolongadas e profundas, é estudar com afinco, é aprender... graças a
exaustivos esforços mentais, segue-se que a coruja de Minerva já
mantém seu vôo levantado na noite que precede o alvorecer da
civilização; e depois de esta ter executado seu duro labor, no seu
fim, ao cair de nova noite, outra vez a coruja alça de novo o seu vôo.
Não há razão para dizer-se que o filósofo esteve ausente nos
albores da civilização, senão que, graças ao trabalho noturno e
fastidioso dele, foi possível o amanhecer dela. Como o filósofo não
trabalha no vazio cultural, seu labor noturno (isto é, de olhos fechados
para meditar) começa na undécima hora, e se resume em organizar
a síntese da civilização transata, sobre que se firma para novo
arranque para si inicial, porém, continuativo para a visão da história.
Gênio criador e organização social formam o par dialético da
civilização, um atuando sobre o outro, desde a origem. A civilização é
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um processo dinâmico que possui na sua estrutura a interação do


dualismo gênio criador e organização social, não se podendo
precisar qual dos termos veio antes, tal qual o martelo e a tenaz...,
dado que a mão fechada que esmurra é martelo, e a que pega, tenaz.
Todavia, como nos primórdios, os pensadores tinham de lidar
com mentes infantis, sugestionáveis, místicas, não racionais, que ainda
não sabiam perguntar por que?, não tiveram por onde senão apresentar
suas filosofias sob a forma de máximas dogmáticas, peremptórias,
vindas, como diziam, da parte de Deus; deste modo tiveram origem as
religiões. Daí, a conclusão já enunciada atrás de que os primeiros
fautores de religiões foram os primeiros filósofos.
A filosofia difere da religião só quanto ao modo de apresentar a
verdade; enquanto que os construtores de religiões ocultam suas
cadeias de raciocínios, os filósofos as expõem, e isto, porque as mentes
já, então, se fizeram racionais, como aconteceu a partir do VI século
antes de Cristo, na Grécia. Daqui vem que a teologia não é outra coisa
que a exegese das máximas existentes no contexto de uma religião. Em
vez de o teólogo partir duma intuição própria, como fazem os
pensadores, assenta o seu discurso nos postulados da fé construídos
por outros. Por esta razão o teólogo é primo irmão do filósofo, como o diz
Gurdorf.
Por causa deste parentesco próximo entre teologia e metafísica,
como diz Gusdorf, "as diversas religiões, a ascética, a mística, o
ocultismo nunca deixaram de influir nos filósofos; aqueles mesmos que
praticaram "a idolatria da razão", segundo uma fórmula de Masson-
Oursel, tais como Descartes, Spinoza, Leibniz, Kant, ressentiram-se,
em grau diverso, dessas influências aberrantes". Não podem ser
"aberrantes" tais "influências", se considerarmos que os filósofos não
podem ater-se apenas aos dados da natureza, do mundo, mas têm que
ultrapassá-los, indo-se até seus horizontes escatológicos além dos
quais se oculta Deus. O que é intuitivo não pode ser demonstrado ou
reduzido a discurso; daí que até os primeiros princípios das ciências e os
postulados matemáticos, porque indemonstráveis, entram na conta do
que Gusdorf chama "mitos" ou "influências aberrantes".
A filosofia, desde os seus primórdios até hoje, oscila ao longo do
eixo Heráclito-Parmênides; o primeiro sintetiza todos os pensadores que
buscam o fundamento das coisas numa substância original.
Parmênides, contrapondo-se a estes últimos, encabeça todos os
filósofos que, desprezando a substância, só se atêm às essências
vazias, como sendo o ser-das-coisas.
Sócrates, o pensador sem doutrina filosófica, preocupava-se com
o homem da rua, com o passante; mas o homem não é redutível a
princípio de razão, a discurso, primeiro, porque, sendo ele o próprio
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fundamento, não pode ultrapassar-se, sair de si, pôr-se frente a si,


tornando-se num objeto: sua natureza de sujeito questionador é
inalienável; segundo, porque se mostra, em todos os seus aspectos como
devir heracliteano. O sonho grego de que a realidade do mundo podia
ser apreendida só com a inteligência, com a razão, continuou a iludir os
pensadores todos até Augusto Comte que escreveu: "Mostrarei que
existem leis tão determinadas para o desenvolvimento da espécie
humana como para a queda de uma pedra".
Mas este sonho positivista, e também do fisicalismo, do
cientismo, do idealismo, foi desmentido pela história pela qual se
comprovou isto: o homem e as ciências humanas, das quais fazem parte
a história, a economia e a política, não possuem leis determinadas
como as ciências exatas. Tais ciências humanas, cujas leis e decretos
podem ser feitos e revogados pelos próprios homens, não deviam
chamar-se "ciências", e sim, "disciplinas", como é o caso da
filosofia, simples disciplina do espírito. O mundo, e mais ainda o
homem, não é integralmente redutível a princípios de razão; sempre
sobra um imenso resíduo irredutível que é aquele que diz respeito à
substância e ao substancial.
Os gregos acreditaram e ensinaram a crer em duas coisas:
primeiro, que há uma realidade por detrás das aparências; segundo,
que essa realidade poderia ser apreendida pela razão. E, então,
procederam a ruptura entre o real e o aparencial, entre a essência e
a existência, entre o ser e o não-ser. O existencialismo contempo-
râneo tenta operar a união do quebrado, pondo em foco o homem; ora, a
ruptura deu-se lá na Grécia, mais ou menos no ano 500 a.C., nas
doutrinas de Heráclito e Parmênides. Se foi lá que se quebrou o
cântaro, lá ter-se-á que procurar os cacos. O caminho do conhecimento
terá que ser feito do simples para o complexo, e não vice-versa;
conseqüentemente, o homem, como máxima complexidade, terá que ser
o ponto de chegada, e não, o de partida.
Sócrates, com enunciar sua sentença: "conhece-te a ti
mesmo", não é o começo, senão o fim da sabedoria. O homem não
tem feito outra coisa senão procurar conhecer-se, e quando olha o
mundo, o faz de seu mirante antropológico, mirante que varia de situação
para cada pensador, e ainda dentro das coordenadas do espaço e do
tempo. Deste modo, a antropologia esforça-se por conhecer o homem
como totalidade; mas esta totalidade varia com a cultura; e a cultura
varia de acordo com cada nova retomada do Ser, Deus, sempre para
além das fímbrias do horizonte que cada vez mais se alarga... na
medida em que o homem ascende na vertical, ao desenvolver sua espiral
evolutiva. Eis aí três variáveis (homem total, cultura e Ser) inacessíveis
às formulações científico-matemáticas.
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O Jeová tribal, ciumento, vingativo e sanguinário era horizonte


longínquo do mundo hebreu; o Deus-Razão-Pura era o horizonte dos
filósofos de uma Grécia pós-mitológica; o Deus-Pai amoroso e solícito
é o horizonte distante do mundo cristão. Conforme for a intuição de Deus,
assim, não só será o homem, mas, também, a sua justificação do mundo.
Como, logo, há o homem de conhecer-se a si mesmo, se tal
conhecimento depende de outras coordenadas, de outras conquistas?
Como dizer que Sócrates, com sua sentença: "conhece-te a ti
mesmo", é o começo da sabedoria?
Primeiro o mundo é ofertado ao homem, na infância, sob a forma
da linguagem, das fórmulas e dos ritos sociais; depois que ele deu esta
primeira grande volta ao mundo cujo horizonte é Deus, o homem, já
maduro, volta a si, para estar só consigo em solidão, a fim de pôr em
ordem sua vida, seu universo pessoal, dando xeque-mate à verdade.
Depois de o homem filosófico percorrer, sem descanso, os lados do
triângulo Deus-Mundo-Homem, por fim, arma o seu sistema, constrói a
sua crença, e se põe a vivê-la, que este é o fim. Se esta crença leva o
homem a programar sua evolução, sua desinversão de egoísta e mau,
então estará ele caminhando para a sabedoria; e quando esta
sabedoria se lhe tornar presente, atual, vivencial, fáctica, habitual,
automática como um segundo instinto, terá o homem dado sua última
volta e chegado finalmente a si como indivíduo sábio e santo. Então,
poderá o homem conhecer-se a si mesmo, porque será estável na
conduta, nos atos; porque estará fixado num determinismo superior
que livremente escolheu, em que livremente se pôs e em que fica para
sempre.
Só podemos conhecer racionalmente o que é fixo, imutável,
determinístico, intransformável; ora, o homem, em evolução, é um
vir-a-ser, não-fixo, um ente inacabado, no dizer de Nietzsche; daqui vem
sua ininteligibilidade. Logo, o "conhece-te a ti mesmo" é inaplicável ao
homem em processo evolutivo, pelo que esta sentença socrática não
pode constituir no começo, senão, no fim da sabedoria. Coerente com
isto, sentencia Gusdorf: "Dize-me qual é o teu Deus, dize-me qual é o
teu mundo, dir-te-ei quem és". Se no conhecimento próprio estivesse o
fundamento primeiro da sabedoria, o homem precisaria primeiro
conhecer-se, para depois lançar-se no conhecimento do mundo e de
Deus. No entanto, as experiências com o primitivo e com a criança
demonstram que, primeiro, o homem se mostra aberto ao outro e ao
mundo; mostra-se alter-ado (sendo outro - Ortega), antes de ser si
mesmo, autêntico.
O caminho que leva o homem a si, é o outro; e o último outro
que ele enxerga, ao tempo da sua primeira tomada de si, é aquele
outro-si refletido no espelho a cuja frente se põe pela primeira vez, e se
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reconhece. O espelho produz na criança e no primitivo a integração da


personalidade, visto como nem um nem outro tem consciência do
próprio corpo como totalidade. Perguntado a um ancião duma tribo
primitiva qual a melhor coisa que tivera do contato com a civilização,
ele respondeu: "O que vós nos trouxestes foi o corpo". E acrescenta
Gusdorf: "Com efeito, a noção de corpo faz ascender a um novo
mundo conceptual; ela fixa a idéia pessoal, até então difusa e
indeterminada, e implica a aceitação de uma estrutura de
inteligibilidade e de ação. Nossa concepção do corpo próprio resulta
de um verdadeiro drama cultural"; mais: "Há outrossim, nesta tomada
de posse do corpo, uma experiência privilegiada, para a qual as recentes
pesquisas, com justiça, chamaram a atenção: de fato, o encontro da
criança com o espelho dá lugar a uma espécie de afinação na tomada
de consciência do ser pessoal como totalidade vivida".
Para o homem poder conhecer-se a si mesmo, havia-se de pôr
frente a si, como objeto a ser conhecido. Ora, o homem não pode sair
de si, em bilocação, de modo que ficasse, de uma parte, o si, e da
outra, o outro si espelhado. Não sendo isto possível, o jeito é estudar-
se nos outros, "consoante uma famosa sentença de Schiller, "se queres
conhecer-te a ti mesmo, observa os outros".
"O espelho subministra a possibilidade de um conhecimento e
reconhecimento de si, do qual poderá resultar certo senso da
identidade pessoal. O homem, ao contrário do animal, é o ser que
conhece sua imagem como imagem, ser igualmente capaz de se
interessar pelas imagens, e de se comportar em conformidade com
imagens". Do que fica exposto, claramente se infere que a noção de
corpo próprio, longe de ser um ponto de partida da experiência humana,
representa antes o termo de lenta e operosa elaboração do ser
pessoal".
Se o conhecimento de si mesmo implica numa grande volta de si
a si, do si ignorante ao si sábio, não poderá conhecer-se a si mesmo
senão aquele que deu volta ao mundo. Conseguintemente, Sócrates,
com sua máxima “conhece-te a ti mesmo”, não pode ser o começo,
senão o fim da sabedoria, porque o homem que chegou a conhecer-
se plenamente, esse terá chegado ao termo do saber. Todos pensam
que se conhecem sob todos os aspectos: no entanto, nem sob o aspecto
físico o homem se conhece, e o espelho lhe dá apenas uma parcela
desse conhecimento. O cinema é mais que o espelho, porém, a tela ainda
não dá o que o homem é, dado que seu aspecto pode variar conforme o
efeito das luzes. É de Caravaggio (Miguel Ângelo) a frase: "anjo ou
demônio não passam de efeitos de luz" (Filme). Por esta razão, "o
romancista Francisco Mauriac, após ver-se retratado em movimento
na tela, declarou: "Ao ver-me pela primeira vez, fiquei banzado.
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Imaginamos ver-nos num espelho, mas não nos vemos. Quando vi


entrar em meu salão aquele ancião, pensei que fosse um irmão mais
velho, e não consegui dissimular a consternação. Conhecemos tão mal
o nosso aspecto físico, como o som da nossa voz. É desconcertante".
Se, pois, a consciência de si fosse o primeiro passo para a
conquista do saber, havia-se de afirmar: dize-me como és, e dir-te-ei
como é o teu mundo e o teu Deus. Mas não. Como o primeiro
conhecimento de si próprio é o ponto de chegada de uma volta que se dá
ao mundo e a Deus, conduzido pelos elementos próximos do contorno
social, a sentença não pode ser "conhece-te a ti mesmo", e sim:
conhece o mundo e Deus, e conhecer-te-ás.
Esta coerência, no entanto, é apenas discursiva, quer dizer:
meras palavras não traduzem a realidade de si, realidade vivida;
para ser verdadeira, a frase teria de construir-se deste modo: dize-me
como resolutamente vives tuas convicções profundas,
inquestionáveis, do teu mundo e do teu Deus, e dir-te-ei quem
és. Porque a sabedoria não consiste no saber intelectual puro, não
valendo o que o homem pensa, fala ou escreve, e sim, o que ele vive
com toda a pujança e plenitude do seu ser interior, do seu
sentimento, da sua paixão, de sua crença inquestionável, de onde
necessariamente, brotam as obras de sua vida. Mostra-me, pois,
como invariavelmente ages, e dir-te-ei quem és, porquanto tuas
palavras, ainda que belas, nobres e sábias, podem ser produtos de
mera erudição, engenho e arte. Tu não és o que aparentas ser em teu
discurso, porque as obras da tua vida francamente te desmentem. Tu és
um esquizóide, visto como dizes uma coisa, e fazes outra. A isto, fale
Fritz Khan: “Bernard Shaw dedicou a vida ao ideal de redimir a
sociedade humana das suas fraquezas sociais e morais. Ele próprio
não só era interesseiro, mas pouco se lhe dava mostrar que o era.
Acumulou uma grande fortuna de que outra vez, o esquizóide não
soube fazer uso; vivia frugalmente como um monge. Nem mesmo os
seus subalternos fiéis e dedicados aproveitaram o que quer que fosse
dessa riqueza. Shaw pagava-lhes, pelo contrário, "salários de fome",
contra os quais reclamava nas suas obras. "Ele era o último homem a
quem poderia ocorrer a idéia de aumentar ordenados - diz uma sua
biógrafa. - Ocupava-se demais de escrever sobre economia". "Os ideais
dos homens estão, em primeiro lugar, no papel" (Bernard Shaw).
"Shaw lembra muito a Schopenhauer de quem tinha quer o
senso crítico acerado e a elegância de expressão, quer a extravagância
e o egoísmo mesquinho. O filósofo do pessimismo dormia, com o revólver
carregado na mesa de cabeceira. Pregava nos seus escritos a futilidade
dos bens materiais; era, no entanto, impiedoso na cobrança de
aluguéis; e, no aposento onde escreveu de maneira incomparável sobre
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triunfar das paixões, atirou uma inquilina escada abaixo, de maneira


tão desastrada, que teve de lhe pagar uma indenização".
Eis, pois, que o homem não é o que aparenta ser por suas
palavras, mas, aquilo de que dão testemunho suas obras; ao falar, o
homem mostra o que almejaria ser; porém, suas obras atestam o
que ele realmente é. Daí que Jacques Maritain, em se referindo a
Descartes, declara ser prejudicial ao metafísico o conhecimento ou a
"recordação, minuciosa em demasia de sua figura de homem de carne e
osso”. O gentil-homem chamado Renée do antigo povoado francês de
Poiton, é aquele que tinha uma filha natural, e escreveu um tratado de
esgrima, e compôs o libreto de um bailado, que se interessou por música,
por poesias, antes de tornar-se no grande Descartes. Tudo isto que faz o
homem privado, particular, deve ser silenciado, conforme o entende
Jacques Maritain. Contudo, quando o fundador do idealismo metafísico se
encontrou a si mesmo, passou a chamar-se Descartes, e este nome
público suplantou o do homem privado, porque o autor em que se revela
como aspiração superior, vale muito mais que a pessoa concreta, ainda
carente de forças para viver o seu ideal. Tal o entende Gusdorf, para
quem “o homem não prejudica a obra, porque a obra remete para o autor
e não para o homem, - e o autor vale incomparavelmente mais que o
homem. Socrates é o nome público daquele outro Sócrates particular,
marido de Xantipa, assim como Platão é pseudônimo de Isócrates. Pois
bem: como seriam os indivíduos particulares ocultados sob os nomes
ilustres de Sócrates e de Platão? Não é sem motivo nossa curiosidade
porque toda filosofia se embasa na vida privada de cada pensador, nas
suas experiências pessoais, sobretudo na grande experiência do
despertar que, ao filósofo, se lhe afigura como um cataclisma, como um
abalo sísmico interior, como uma parada do tempo, como que uma
entrada no infinito e na eternidade. À-toa não foi que o primitivo nome
dado à filosofia era aléthea que quer dizer revelação, patentização,
desnudamento, apocalípse. O transporte experimentado pelo místico
fundador de religião, é o mesmo êxtase gozado pelo filósofo que, por um
instante fugacíssimo, sente ruir todo o seu universo pessoal ao toque
regenerativo do infinito e da eternidade. E quem, num único ato do
espírito, fixa e determina a verdade, em meio a um incêndio de paixão, em
meio a um delíquio de supremo gozo, não se sente disposto a falar no
próprio nome, que seria isto uma profanação; daí que o místico e o
filósofo falam em nome de Deus.
Platão partiu de Parmênides e de Sócrates; este, porém, de quem
teria partido para as suas conclusões? Seria, acaso, do seu Demônio com
o qual, segundo diz, se comunicava? O certo é que Sócrates já sabia
tudo, quando se apresentava como não sabendo nada, porque saber
perguntar é já saber por metade; e ao conduzir o interrogatório de modo a
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forçar o interlocutor a andar por onde onde Sócrates, de antemão, queria


que ele andasse, prova, não saber por metade, e sim, um saber por
inteiro.
Disto se conclui que Sócrates não ensinava a desentranhar a
verdade universal oculta em cada homem pelo esquecimento, desde a
sua primeira encarnação, pelo que o aprender se reduzia a um simples
recordar, como alardeava; em lugar disto, Sócrates obrigava a quem se
pusesse em questão com ele, a descobrir a verdade que ele queria que
fosse descoberta. O grande mestre procurava fazer que o discípulo
tivesse a mesma surpresa que ele próprio tivera, quando, de súbito,
descobrira a sua verdade, quando tivera a sua aléthea, tal o poético,
sonoro e belo nome, em sua origem, antes que Pitágoras o banalizasse
no termo prosaico, prático e vulgar filosofia.
De que teria partido Sócrates para chegar às suas inabaláveis
convicções que, para não traí-Ias, preferiu a morte? Que homem há,
digno deste nome, que não se empolgue face a tal exemplo de grandeza
de alma, e que não dê toda a razão a Gusdorf que afirma ser
imensamente preferível "ser Sócrates caído em desgraça do que
porco satisfeito"?
Porco satisfeito? Mais perigoso que este, é o porco sempre
insatisfeito, conforme o entender do "filósofo Wayne Kílbourne, para
quem o nome científico do bicho-homem, animal racional, é "porcus
bipedus". Uma espécie impertinente, encontrada na maioria das partes
habitáveis do planeta e até nas partes teoricamente não-habitáveis,
como o gelo polar, o deserto e a floresta.
"É o animal mais forte da natureza, mais forte que o leão ou
o tubarão: vive no frio e no calor, ao nível do mar ou no pico da
montanha, na mata, na lama, na areia, na pedra, no asfalto e na Lua.
Seu estômago é de aço: consome carnes e vegetais, álcool e leite, líquidos
e sólidos, sal e açúcar, licor e pimenta, azeite e café e tudo ao mesmo
tempo. Um elefante morreria na metade do almoço do "porcus
bipedus".
"Quando caí a noite, ele deixa os parques da cidade atulhados
de jornais, latas, plásticos, dejetos e porcarias várias, para a família
que venha depois, com seus porquinhos, fazer a competente limpeza.
Deixa os faróis de seu carro cegaram os semelhantes, adora
presenciar o choque de automóveis de terceiros e abre o escape para
jogar barulho nos ouvidos do próximo e fumaça nos pulmões do
mundo.
"Ele e manadas de parceiros da espécie se precipitam para
bloquear o tráfego em torno de um acidente, de um incêndio ou de um
desabamento. E arregalam os olhos, com uma curiosidade gulosa,
quando a ambulância recolhe um cadáver ou um bombeiro resgata um
15

ferido.
“Mas o traço marcante dessa curiosa espécie animal, penso eu,
é o canibalismo: o "porcos bipedus" é devorador de si mesmo. Ele mata
o semelhante em nome da lei, em nome dos direitos humanos, em nome
de Deus. Faz a guerra em nome da paz.
"Respeita a trégua de Natal no meio da guerra, marca a data
do cessar-fogo com um mês de antecipação, condena a bomba atômica
e aplaude a dinamite de fabricação caseira, condena não o ato de
matar, mas a forma mais ou menos escandalosa de matar o próximo.
Censura a divulgação do ato do amor, mas divulga a cabeça do inimigo
cortada a faca". (Joelmir Beting – Na prática prática a teoria é outra).
O que pode tirar o homem da condição de porco, satisfeito ou
não, é a filosofia ou a religião vivida..., uma vez que uma e outra
desloca o eixo da vida para longe da satisfação dos grosseiros apetites.
Ou isto, ou o homem será "porcos bipedus", porco de chiqueiro, atufado
de alimentos, sempre empanturrado e faminto sempre. Daí que, tanto
para a religião operativa como para a filosofia, "a função é a
mesma: assegurar à pessoa a paz consigo, com os outros e com o
mundo; e se as purificações do sábio se afiguram mais razoáveis
que as vias e os meios do Xamã primitivo, é simplesmente por ter
mudado o contexto da cultura; mas as atitudes profundas, as
exigências e as satisfações são da mesma ordem".
Todos os filósofos e criadores de religiões tiveram sua aléthea,
diferindo os pensadores dos místicos só na maneira de exporem suas
verdades. Todos tiveram a sua surpresa, e, suprimi-la, "suprimir a
admiração equivale a cometer uma espécie de pecado contra o espírito
(...) O primeiro filósofo foi o primeiro que se deixou colher pela surpresa,
e de modo definitivo, para toda a raça dos filósofos, pois a ele se deve o
arranque inicial”. Buda teve a sua revelação quando meditava debaixo
da árvore Bó. O príncipe Moisés, tendo matado um egípcio, fugiu para
Midiã, onde se pôs a reorganizar suas idéias. E já se tendo casado com
uma das filhas de Jetro, e estando a apascentar o rebanho do sogro, eis
lhe sobreveio sua aléthea, face a visão da sarça ardente no topo do
Horeb em que subira. Um acidente de carruagem de que fora vítima,
suscita em Pascal a sensação de achar-se à beira dum abismo, e,
mito ou não, tal experiência radical provocou toda a revolução de idéias
que transformaram o físico-matemático e inventor, no filósofo que foi,
de cariz místico. Daí por diante a expressão "abismo de Pascal",
passou a ser usada quando se tem por frente problemas sociais e morais
profundos e difíceis, que apavoram aos que os enfrentam. O Zaratustra
de Nietzsche se vê retratado num saltimbanco que dança numa corda
estirada no espaço. O primeiro mago toque do absoluto em Descartes,
que lhe suscitou a crise que, um ano mais tarde, lhe produziu a série de
16

sonhos premonitórios, foi seu encontro com o sábio holandês Beeckman;


o segundo "tremor de Terra" teve-o ele quando examinava um simples
pedaço de cera. Folheando o "Tratado do Homem" de Descartes, numa
livraria, Malebranche teve o estalo e exclamou: "também eu sou
filósofo!" (Gusdorf). Rousseau dá consigo na estrada da totalidade,
quando, indo visitar Diderot preso em Vincennes, lê, no "Mercure de
France”, a noticia de um concurso aberto pela Academia de Dijon.
Kierkegaard e Nietzsche nos dão conta desses fulgores de intuição,
desses "pentecostes", desses "sismos" que sacodem a personalidade
em suas bases mais profundas, fazendo em pedaços o universo
pessoal das certezas estabelecidas, das vivências mais familiares, do
consenso, dos costumes, de tal sorte, que Descartes se vê compelido a
formular uma moral provisória, enquanto punha em ordem sua casa
interior. Também, Spinoza, na "Reforma do Entendimento", antes de
qualquer investigação teórica, traça, para si, um código de conduta
que vai desde a higiene física e mental, até a reforma monetária,
pois a revelação implica na instituição de uma nova vida radical, de
um homem renovado.
Não é sem motivo que o homem tocado pelo Absoluto, que teve
seu instante de graça e de verdade, tenha a sensação de parada do
tempo, de penetração na eternidade, de ter podido furtar, como
Prometeu, um pouco do sacro fogo celeste que lhe abrasa agora todo o
seu ser na paixão-gozo de um extraordinário êxtase. A totalidade
envolve, enlaça o extático, infundindo-lhe uma consciência nova,
inflamando-lhe não só a inteligência, mas também o coração. E
quando, após a experiência radical, a epifânia, o pentecostes, o homem
se vê só, então se reconhece como não sendo mais como os outros
homens, pois carrega consigo uma mensagem que não sabe como
transmitir. O prosaico Moisés, guardador, das ovelhas de Jetro,
escalando o Horeb até o topo, teve, lá, a sua experiência do Absoluto, e
tanto que a teve, ficou sublimado, porque homem comum não fica
sendo quem contemplou o infinito, e sentiu no próprio peito, a
eternidade. Nimbado da luz divina, Moisés não poderia mais falar em seu
próprio nome, ainda que a mensagem celestial trazida no peito e na
mente, tivesse o estilo, a cultura e a tonalidade do revelador. Tal homem
que ficou sublime, renovado, não mais podia alhear-se, omitir-se...; tinha
no mundo uma missão. O satírico Voltaire já dizia que "Deus criou o
homem, e este pagou-lhe na mesma moeda". Seja então: a idéia de
Deus surgiu na mente humana, mas quando surgiu, teve isto de
inusitado: divinizou o próprio homem, desinvertendo-o de dragão
sanhudo e mau, pondo-o acima do animal feroz que sempre foi; e se
chega a perder Deus, nesse ponto, de novo, vira bruto.
Cumpre, pois, ao antigo habitador da caverna platônica, de
17

sombras irreais, tanto que pode receber sua porção da luz eterna,
retornar para junto de seus irmãos aos quais tenta, em vão, contar sua
experiência fabulosa que logo é tida por mito, alucinação, disparate,
desatino. Sofre, ao constatar a impossibilidade de reduzir o que é volume
consciencial ao terraplano da razão. Contudo, não pode parar,
esporeado que se acha por sua paixão. Por fim constrói o seu sistema, e
nele repousa, cuidando que ele seja tudo; no entanto, a história o
desaponta, mostrando-lhe que outros sistemas se criaram no passado,
e, no futuro, outros se criarão como o seu. Porém, nas trevas do seu
tempo, ele, o homem do absoluto, do infinito e da eternidade, agitará
seu facho sem descanso, pois que foi tocado pela arquiluminipotente
e fulgurante mão de Deus.
Não só a filosofia, senão também as ciências, sobretudo as mais
exatas de todas, as matemáticas, se apóiam em postulados e axiomas
indemonstráveis. Porém, os homens da caverna platônica, como apenas
racionais, presos ao terra-terra da razão discursiva, exigem a
demonstração do fundamento em que se firma o pensador. A base não
demonstrada, então, é tida por mito. Não reparam eles que as várias
geometrias, a euclidiana e as não euclidianas, se alicerçam na
intuição ou mito indemonstrável de como é o espaço. Não se podendo
saber como é o espaço real, objetivo, como totalidade, supõem-no com
determinada forma, e, sobre esta, o postulado se alicerça. Como o
universo (espaço objetivo) pode ser intuído como tendo diferentes
formas, sobre cada uma delas se pode enunciar um postulado, cada um
dos quais produzindo uma geometria diferente, consistindo isto,
segundo D'Alembert, "no escândalo da geometria". À-toa não é que o
matemático Bertrand Russel afirma: "A matemática é a ciência na qual
nunca sabemos de que está falando, nem se o que diz é verdadeiro".
Os físicos, os químicos e os biologistas também, por sua vez, lidam com
o espaço, com o tempo, com a causalidade, com a substância, etc.;
não reparam, contudo, que, ao tentarem explicar estes fundamentos,
fazem metafísica, a mesma contra a qual se insurgem em nome da
racionalidade. Para tais homens, vale a pena relatar, aqui, a parábola
da Abelha e da Formiga; ei-la:
Certa feita uma formiga, depois de muito cansada de andar
sobre a superfície duma bola, dependurada por um fio, parou, e refletiu
consigo: - "Tudo é superfície infinita, sem princípio nem fim para todos
os lados. A esfera total que procuro, absolutamente, não existe!"
Proposta a questão a uma abelha que acabara de pousar na
superfície, ela respondeu: - "Sim, a esfera existe; eu a vi quando voava
para cá". A formiga, incrédula, sorrindo, concluiu consigo: - "Eis aí um
mito...; o mito da esfera sonhado pela abelha!".
Tal, o homem de ciência, ocupado com suas insignificâncias que
18

cada vez mais se amiúdam em demanda do pouco mais que nada.


O que passar disto é mito. Chega a hora, porém, que precisa reportar-se
ao que não pode provar, e se pergunta: o que é o espaço, o tempo, a
causalidade, a vida, a energia e a matéria? Que é a inteligência, que
me possibilita chegar às minhas conclusões e descobertas? Aí, então, já
se acha ele a fazer filosofia.
O matemático, ufano, sentencia, dogmático: só é verdade o que
pode ser provado. Prove ele, então, os postulados e os axiomas em que
se baseia, pois, dada a sua afirmação peremptória, uma vez que os
postulados e os axiomas não se podem provar, não são verdadeiros.
O materialista cuida que a matéria é tudo; todavia, quando lhe
perguntamos o que é matéria, ele nos responde, surpreso da nossa
ingenuidade, que a matéria é puro movimento! Mas logo franze a
catadura preocupado, ao lhe tornarmos: o que vem a ser um movimento
puro? Palavras vazias, porque um movimento puro é um movimento
de nada; ora, o nada não se move. A idéia de movimento implica na
existência de algo que se move; impõe a existência de um móvel.
Todavia, agora, o móvel é o nada? o nada se move, e dele surge algo
que também se move, produzindo um algo maior, e assim por diante...
até o universo? Se a matéria principia pelo nada, então ela é ilusão
fósmea, puro calidoscópio ou lanterna mágica; sua realidade é um
sonho! o universo é nada. Tal, o fundamento "sólido" em que, seguro
de si, se firma o materialista.
Se ele, no entanto, procurando evadir-se ao torno com que o
apertamos, nos disser que o fundamento da matéria é a energia; que as
ondas muito curtas, quando frenadas, se encurvam sobre si em
remoínho, tornando-se elétrons e partículas nucleares, neste caso, é
fazer-lhe ver que esteve enganado o tempo todo, visto como, cuidando-se
materialista, na verdade foi além, e é energista. E à pergunta nova de o
que é a energia, ele nos dirá (e não há outra coisa a dizer) que nem
a energia, nem a matéria, se reduz a princípio de razão, a discurso
racional, por que, estando sujeita uma e outra ao devir, ao tornar-se
heracliteano, é um não-ser. Ora bem: sendo a energia e a matéria
inacessíveis à razão, segue-se que são transracionais. O ente que não
alcança o que pode a razão, é irracional; todavia, aquilo que
transcende aos domínios da razão, não é sub, mas supraracional.
Como o dado em que se funda o materialista é transracional, então, ele
se porta como o matemático, como o filósofo, como o místico de quem
se ri, uma vez que, não fugindo à regra, aceita seu fundamento
intuitivo, de fé. Cada um tem o seu absoluto, e o do energista é o
movimento dinamomaterial.
Esta é a causa por que Aristóteles já dizia que precisarmos, de
fato, filosofar; e se dissermos não ser necessário filosofar, então, ainda
19

precisamos filosofar para demonstrar esta nossa afirmação. Daí que o


homem é o animal metafísico, uma vez que precisa sempre justificar
suas afirmativas, seus atos e sua conduta com razões, e isso é filosofia.
Poderá, no entanto, o homem eximir-se do trabalho de pensar,
transferindo esta obrigação a um outro ao qual seguirá de fé, por
sugestão, sem nunca perguntar por que? E se acontecer de esse outro,
ao qual se tomou por infalível, estar errado? Acaso, a crença na
infalibilidade de Calvino, não produziu, por parte dos norte-americanos, o
genocídio dos peles vermelhas? A crença cega em Gobineau e em
outros racistas, não resultou, para os alemães, no mito da "super-raça"
ariana, motivando o genocídio de mais de seis milhões de judeus? Esta
crença, sem nenhuma base científica, não provocou a discriminação
racial, perpétua causa de perturbações, nos Estados Unidos? E o sério
problema das castas, na Índia, de que crença errônea nasceu? E os
totalitarismos de direita e de esquerda, com base em Hegel? E a
beatice da razão? O fisicalismo e o cientismo, por desventura, não
são outras tantas crenças perniciosas, dos modernos tempos?
Instalada a dúvida, eis de novo o homem obrigado a filosofar.
Acaso não é melhor, co-filosofando, acompanhar os raciocínios dos
pensadores, reparando bem de que intuições partiram, claras ou ocultas,
e ver até que ponto da verdade tais intuições alcançara, do que seguir
de fé os místicos cujas intuições, em vez de se explicitarem em
raciocínios, se mostram apenas como sentenças peremptórias,
dogmáticas?
Calvino meteu os norte-americanos em torpe engano, quando
fez a onisciência de Deus absoluta, com que a mente divina passou a
conhecer o futuro. O futuro, então, estava escrito na mente de Deus, no
seio do universo, nas entranhas da história. Daí vinha que os homens
estavam classificados em salvos e perdidos. E a complacência com que
Deus vê os salvos, leva-o, com larga mão, a abençoá-los. Tal bênção,
negada aos precitos, manifestava-se sob a forma de riqueza ou de
renome. A riqueza passou, então, a ser um sinal de salvação, e a
pobreza, de perdição. Ser rico, logo, era estar salvo, e foi assim que o
Evangelho de Cristo encontrou sua contraditória no diabólico Anti-
Evangelho de Calvino para quem "é mais fácil passar um camelo pelo
fundo de uma agulha, do que um pobre entrar nos céus". Todo o
genocídio praticado contra os pobres e precitos peles-vermelhas e contra
os réprobos negros, nos Estados Unidos, tem este fundamento, afora
aquele outro, o racismo de Gobineau.
Tal qual estes dois estapafúrdios, a predestinação e o racismo,
outro já, no mundo, se está evidenciando; ei-lo:
Joelmir Beting concorda com Hannes Alfven, Prêmio Nobel de
Física de 1970, em que "o homem está ficando cada vez mais
20

ignorante", e dá o porquê. Porque, como diz, citando Alfven, "durante


séculos não fizemos outra coisa que acumular conhecimentos. Da
fissura do átomo ao mecanismo da vida. Do entendimento da psicologia
do homem ao entendimento das leis que regem a sociedade. Os jornais,
as revistas e as estações de rádio e televisão, atualizando a escola e
complementando o livro, mantém-nos em dia com tudo o que acontece e
informa-nos do que pensam todos a respeito de tudo(...) Enquanto cresce
a sabedoria da Humanidade no seu conjunto, decresce a sabedoria
relativa do homem isolado. Simplesmente porque existem quantidades
cada vez maiores de conhecimentos que ficam fora do alcance de
cada homem em particular, mesmo na faixa estreita do conhecimento
especializado". E, seguindo esta mesma linha de pensamento,
comenta Joelmir: "Sem os especialistas, não conseguimos sequer
manter nossa casa em funcionamento. Antes, o homem era capaz de
produzir o óleo e fazer a lamparina. Hoje, fica no escuro ao primeiro
curto-circuito. O leitor será capaz de consertar a geladeira, o televisor, a
máquina de escrever ou o liquidificador? Será capaz de fazer sabão,
torrar café, tirar manchas de esferográfica, curar o braço quebrado ou
botar meia sola nos sapatos? Saberá o leitor do que é feito e como é
feito o paletó de tergal, o barbeador elétrico, o carpete de sua sala ou o
bi-iôdo do farol de seu carro?".
Quer isto dizer que o mundo está ameaçado de soçobro, porque
o homem moderno não tem cabeça para ser oniespecialista, isto é,
especialista em tudo? E se tivesse? se a humanidade fosse toda feita de
gênios? Pois, então, cada um teria, como agora, de cuidar do seu
setor exclusivo, e todo o resto do seu saber ficaria ocioso...; e ainda
assim, tal sabença seria meramente intelectual, porque o saber prático
(e a prática faz o mestre) seria de todo impossível. Quer dizer que
todos, então estamos perdidos, dada a inviabilidade de nos tornarmos
senhores de todas as especialidades existentes?
Ainda Joelmir: "Somos todos especialistas e todos vítimas da
ditadura de outros especialistas. E como especialistas, queimamos na
especialização constante todo o tempo disponível para sondar a periferia
de nossos conhecimentos".
Contudo, se fôssemos senhores de todas as especialidades
existentes, ainda assim seríamos "vítimas da ditadura de outros
especialistas", como sempre aconteceu desde que principiou qualquer
divisão do trabalho, sendo esta a razão de o dentista e o barbeiro
precisarem valer-se de colegas para tratar dos próprios dentes e cortar
os próprios cabelos. Se o coração de Zerbini precisasse de uma
intervenção cirúrgica, para Zerbini seria muito melhor que toda a sua
perícia técnica estivesse, não consigo, mas com aquele em cujas
mãos se põe. Também, aqui, não é possível dizer, como os fariseus:
21

"Médico, cura-te a ti mesmo" (Luc. 4, 23). Desgraça grande é que um


homem, havendo podido salvar os outros, venha, ele próprio, a perder-se.
E ainda, que adiantaria um homem que trabalha nos correios, ser hábil
eletricista e fotógrafo, se não tem à mão as ferramentas dos dois ofícios
para consertar o motor elétrico da enceradeira ou fazer a própria
fotografia? E tudo, por ventura ou desventura, não foi assim, desde que
houve a divisão do trabalho?
Eis, pois, recolocado o ancião problema, qual o da quadratura
do círculo, que é o da impossibilidade da auto-suficiência. Então, por
qual caminho seguir? Que? Destruir todas as máquinas, retornando à
indiferenciação, ao artesanato, como queria Gandhi, ou voltar à floresta
da ilha do "bom selvagem" de Rousseau? Que? continuar tecnófilos
sábios-ignorantes, até o soçobro final na barbárie, revertendo-nos,
todos, nos verdadeiramente "maus selvagens" dos primórdios?
Por nenhum destes dois caminhos o problema se resolve: nem
pela tecnofobia que sonha com ver destruídas todas as máquinas, nem
pela tecnofilia que almeja atuar nos genes, produzindo super-
cérebros capazes de dominar, exaustivamente, toda a ciência e toda a
tecnologia. Ainda que isto fosse possível, o super-cientista-tecnólogo não
seria sábio. Não é no exaustivo domínio da superfície que está a
sabedoria, e sim, única e exclusivamente na conquista da outra
dimensão, a altura. Para o homem racional, não de fé, só na
filosofia pode ser achada a salvação; e o mundo rui, hoje, porque
abandonou o cultivo da filosofia, face à crença nova do cientismo
tecnológico, elevado à condição de absoluto. Só pode ser sábio,
aquele que se posta no centro da esfera dos conceitos, para onde todas
as linhas se convergem, e jamais, nunca, o que, como a formiga da
parábola, se põe a andar sem fim na superfície. O pancientismo
absoluto não é sabedoria, porque esta é volume consciêncial, no passo
que aquele não vai além do planimétrico da razão. A sabedoria não se
subordina à produção de melhores cérebros, superiores aos dos
homens bem dotados, já existentes no mundo; ela é uma aquisição
que implica em pôr-se o homem noutra atitude mental, a que o impele no
rumo da totalidade, e não no da periferia da esfera onde as ciências se
filamentam, se pulverizam e se dissolvem. À força de investigar cada
vez mais a respeito do cada vez menor, o especialista corre o risco de
tornar-se ignorante, e será quando o objeto da sua pesquisa se tornar
nulo ou nada. Diz Bertrand Russell, falando deste quase nada, que
"agora, devido principalmente a dois físicos alemães, Heisenberg e
Schrodinger, os últimos vestígios do velho átomo sólido se derreteram, e
a matéria se tornou tão fantástica como qualquer coisa que se
manifestasse numa sessão espírita". Coerente com isto, advertiu um dos
componentes de um congresso de físicos: "Procuramo-nos explicar
22

reciprocamente algo que nós mesmos não entendemos". Um outro


sarcasticamente exclamou: "A física é difícil demais para os físicos!"
Em que ficamos? Pois não há outro caminho senão este: os
homens do futuro hão que ser cientistas-tecnólogos e filósofos ao
mesmo tempo; cientistas-tecnólogos pelas especializações que
fragmentam e dividem, e filósofos pela visão unitária que a tudo coor-
dena e integra na unidade. A solução implícita na obra de Joelmir
Beting e na de Hannes Alfven, a da criação de super-cérebros...
capazes de dominar todo o saber científico-tecnológico, não leva a lugar
nenhum, e mais uma vez cientistas pretenderam fazer-se filósofos...
de repente, em vez de irem perguntar o que pensam sobre o assunto os
verdadeiros filósofos que são uns especialistas em generalidades
integradas, isto é, não apenas uns eruditos, meros depositários
mnemônicos de um ecletismo intelectual, absolutamente carentes de
convicções superiores, mas homens que vivem a integração, que se
extasiam frente ao unismo, que gozam da contemplação da unidade
total.
Não se pode acionar o leque, pegando-o pelos bordos, e sim,
pelo cabo. Tal qual com a verdade..., que não pode ser apreendida na
periferia onde ela se fragmenta em quintilhões de verdades menores,
mas, no centro, sobretudo, o centro que reúne os cabos de todos os
leques-doutrinas. Se, ao invés de leque, compararmos cada sistema
existente no mundo a uma pirâmide de base hexagonal, domina o todo
quem se postar no ponto central que reúne os vértices de todas as
pirâmides arrumadas numa pinha. Ir no rumo do centro da pinha de
pirâmides, é encaminhar-se para a sabedoria, avançar para a periferia,
em direção às bases delas, é ocupar-se do cientismo de que nasce a
tecnologia e a divisão do trabalho..., trabalho que, sem perigo para quem
domina o todo, pode ir até à automação e à robotização. O ócio que,
altamente, prejudica o ignorante, favorece o sábio.
Todos os sistemas filosóficos são necessários à construção da
síntese total, porque cada um deles mostra o Universo de um mirante,
de uma perspectiva. Daí que, como diz Gusdorf, "o filósofo de mérito é
aquele que em si realiza, por um momento, a conjunção das paralelas.
Seu êxito é o resultado de uma justificação da existência, que
transfigura o mundo, irradiando num sentido de verdade persuasiva que
a todos empolga". Portanto, "a investigação filosófica impõe-se como
tarefa justificar a existência, por outras palavras tende a assegurar uma
correspondência entre a vida humana e uma verdade que a fundamente
em valor. Não se trata de jogo de idéias, mas de tentativa para assumir
a realidade humana integral e elevá-la de sua desordem congênita a
uma ordem onde se exprima a obediência do espírito. A existência
empírica é a ocasião inicial e a saída terminal, ao mesmo tempo que o
23

critério. O mito platônico da caverna descreve a odisséia do filósofo que


transita das incertezas do conhecimento usual à contemplação da
verdade, e que volta de novo a ocupar seu posto na caverna entre os
demais homens, onde sua presença daí por diante deve significar a
visitação dos valores superiores de que ele teve comunicação". Eis,
portanto, que "a meta da filosofia só pode encontrar-se na justificação do
mundo e no equilíbrio de uma teodicéia". Daí que os verdadeiramente
filósofos, os que se dedicam à contemplação metafísica, continuarão,
como sempre foi, a dar forma nova, atualizada, à verdade, coetânea
da cultura e a constituir uma como auditoria onde as ciências vão
buscar suas definições basilares como as de "tempo, de espaço de
objetividade, de causalidade, de individualidade, etc.", que é como já
dizia o físico L. de Broglie.
O marxismo, mais ainda que Augusto Comte, intenta tocar a
finado pela morte de Deus, da fé e da metafísica. Sua pretensão é a do
extremado cientismo objetivo da realidade material. Com isto, ele
personifica a mais tenaz esperança do século XIX. No entanto, Voltaire
já dizia: "Se quereis discutir comigo, defini os vossos termos". Então,
digam os marxistas o que significam as palavras "matéria", "dado
biológico” e "dado humano", utilizados por Marx? E ainda, que
respondam a esta questão: pode a finitude bastar-se a si mesma, sem
algo maior de que ela proceda, e em que se fundamente? A
consciência de finitude supõe que ela foi ultrapassada; e quem
ultrapasse, vencendo o limite, cai em algo maior que existe em projeto ou
esperança. Do mesmo modo que o nazismo tinha na raça um absoluto, e
em face dela o indivíduo era nada, o marxismo fez do operariado outro
absoluto, também com total desprezo para com o homem isolado. Raça
e operariado se tornaram entes abstratos de razão, tal qual a
humanidade em geral que é outra abstração. Foi pensando nisto que
Henry Fonda declarou: "É mais fácil amar a Humanidade do que amar
ao próximo".
O absoluto fica sempre sendo o último termo da jornada do
espírito que medita; ainda quando se ocupa ele de negar Deus, para
negá-lo, o supõe... e esta suposição fundamenta toda a alegação
negativista. A este respeito, diz Gusdorf: "A recusa do Criador estriba
no fato de a criação ter falhado: o mal, o sofrimento, a injustiça
encontram-se por toda a parte no mundo humano. Daí a agressividade
contra o Pai: Muito antes da análise de Freud, já Dostoiewiski
mostrara a ligação entre o parricida e o regicida na afirmação
niilista".
O problema se resolve com saber-se que o homem, na ânsia de
dotar Deus de atributos infinitos, pôs nele qualidades conflitantes. Se
Deus é amor, e o amor é substância, e a substância é livre,
24

mutável, Deus é livre, mutável, pelo amor que é. E desta substância-


amor, livre e mutável tudo se fez..., e tudo o que foi feito, continuou
sendo livre e mutável... Mas se o amor fosse fixo, não, livre, imutável,
ele não poderia ter-se mudado, individuado nos filhos da primeira
criação. Deus, então, estaria só consigo... sem a sua criação ...
porque criar é mudar algo em algo, e só pode mudar, o que for
mutável.
O ser móvel, não fixo, mutável, é ser livre... livre para mudar.
E o que é livre, não determinado, móvel até para tornar-se no oposto,
possui ação imprevisível. A onisciência de Deus, portanto, não pode
dominar aquilo que, por natureza, desde sempre, é livre. Daí que, não
podendo criar Deus filhos do nada, porque seriam sempre nada, os
criou da sua substância-amor; sendo o amor livre, mutável, os filhos
sairiam, necessariamente, livres, não condicionados, não de-
terminados. Como onde há liberdade, não há previsão, Deus não pode
prever... a não ser por "cálculo" de probabilidade..., o que vai
acontecer. Ora bem: os filhos caíram porque livres, e livres porque a
onipotência de Deus não era tanta que os pudesse fazer escravos, não
livres, visto como os fez do amor que é, o qual é livre. Com esta
liberdade, a "onisciência" de Deus se limitou a só que é fixo, e, só por
isto, pode ser previsto.
Deus não pode ser absolutamente todo-poderoso, porque não
pode tornar o amor fixo, determinado, que, se o fizesse, ele próprio
cessaria de ser livre, dado que ele é o amor. Deus não pode ser
absolutamente onisciente, porque não pode prever, com toda
certeza, como irá agir aquele que, por natureza, é livre..., porque feito
da substância-amor, desde sempre, livre. Ora bem: ou se sai por este
caminho, ou não haverá solução para atributos conflitantes. Não,
"credo quia absurdum", como dizia Tertuliano, mas, creio porque a
intuição, que é suprarracional, o aprova. Os postulados matemáticos,
não sendo demonstráveis, hão que ser aceitos de fé. Ora, a ninguém
ocorreria dizer que os postulados, os axiomas e os primeiros
princípios das ciências são absurdos, por cridos de fé (“credo quia
absurdum”).
Queira ou não queira, o homem se vê empenhado em tais
problemas, podendo o Absoluto apresentar-se sob vários nomes, por
ser o último termo da hierarquia, nada mais sendo admitido acima dele.
Super-Homem, Raça, Proletariado, Humanidade, Liberdade, Ciência,
Razão Absoluta, Vontade Absoluta, Eu Absoluto, Harmonia Absoluta,
etc., onde estiver o horizonte distante, aí estará o Absoluto, no topo da
hierarquia, e este será o Deus. "O revoltado, tal como Camus o retratou,
luta com a sombra de Deus, que é ainda a imagem de Deus. Satã e seus
consócios negam a Deus, não porque digam que Deus não exista, pois
25

nele "crêm, e estremessem" (Tiago 2, 19), mas crêm para ser a


negação, a contraditória, a adversativa daquilo que crêm. Também
Lusbel, para ser contra, precisa daquilo contra o que se põe, precisa
duma Referência que responda à pergunta: contra quem? Até para
negar é preciso supor o que nega.
Antes, por conseguinte, de o cientista usar a lupa ou o
microscópio no quase nada em que se ocupa, será obrigado, ainda que
esperneando, protestando, a empregar a luneta de alcance para situar,
no horizonte longínquo metafísico, os primeiros fundamentos da sua
especialidade. Esta é a razão por que técnico de nenhuma especialidade
poderá nortear o mundo para algum objetivo, por faltar-lhe a visão de
conjunto que só a filosofia pode dar. “Tal como o rei Midas, que ao
simples contacto transformava em ouro os objetos mais vulgares, o
metafísico eleva ao absoluto tudo aquilo em que toca". Mais: "Carecendo
de objeto específico, não possui (a filosofia) domínio próprio, pelo qual
motivo se esquiva a toda tentativa de localização que pretendesse situá-
la antes aqui do que ali. A falar verdade, a metafísica em toda a parte se
sente em sua casa, corre pelas ruas com Sócrates, não desdenha de
nada nem de ninguém. Basta a presença do filósofo para revestir de
nova dignidade tudo aquilo em que ela toca, dado que qualquer objeto,
por mínimo que seja, mercê deste contacto, escapa a si mesmo para se
abrir a possibilidades imprevisíveis".
Aqui está como nada é isolado, tudo se relaciona e interliga em
hierarquia, até o absoluto. Porém, isto o tecnólogo puro não pode
enxergar, uma vez que "cada consciência especializada obriga ao uso
de antolhos". Conseqüentemente, o fisicalismo, o cientismo, o
tecnicismo e as caóticas ciências sociais, não podem salvar o mundo.
Urge dar a palavra, de novo, embora que tarde, aos filósofos, agora que
se comprovou o fracasso do positivismo que erigiu a ciência em
absoluto, fazendo, com isto, a pior filosofia que já existiu. Daqui não há
fugir "a sabedoria é uma exigência".
Os desertados da fé, por causa de uma teologia que não se
renova, insuficiente para a atualidade já madura; teologia comodista, de
salvação só pela fé, que, por isto, faz ponto de partida em figuras de
retórica como, por exemplo, "o sangue de Cristo nos salva", como se o
sangue sem a doutrina sem a efetiva vivência do amor salvasse quem
quer que fosse; teologia que se perde, portanto, na pregação do amor
recíproco só entre Cristo e o homem, mas não entre o homem e o
homem (próximo); teologia de atalho paulino da salvação pela fé,
ficando o amor, a indistinta integração de todos pelo amor, como
coisa de somenos; os desertados de tal fé só podem achar novo norte
na filosofia que, de modo renovado, justifique o mundo o qual, ainda,
apesar (ou por causa) de tantas seitas religiosas em disputa, continua
26

danosamente pervertido e mau.


Visto o homem, por bem ou por mal - por bem, isto é, por
vontade própria; e por mal, ou seja, arrastado pelas orelhas ou pela
beiçorra - visto o homem, queira ou não queira, ter que filosofar, o
melhor será fazê-lo, prazerosamente, que é quando se instala o hábito
dos vôos condoreiros que levam o acrólogo, vez por outra, a sobrevoar
o mundo, a estar só consigo nas alturas, mui distante do bulício da
cidade. Tome cada um exemplo no "estóico filósofo grego Cleanto (que)
implorava de Zeus e do Destino a graça de seguir, por sua própria
vontade e sem desfalecimento, os caminhos que lhe traçaram;
"porque", acrescenta ele, "se eu perder a coragem e me revoltar, terei
que segui-los exatamente do mesmo modo". Assim, com a filosofia à
qual se há de ir, rindo ou chorando, visto como ela se impõe como
uma necessidade urgente, não sendo dado ao homem furtar-se a esse
imperativo.
27

II - O SISTEMA
Desde que ocorre o "sismo" numa pessoa, desde que chegou a
sua hora da verdade, a sua aléthea, ela entra em desequilíbrio
intelectual e emocional, visto como o "tremor de terra" abala o
universo pessoal em seus fundamentos. A crença que o indivíduo é,
("porque o homem é a sua crença" - Ortega) - crença que se não
confunde com religião discutível; a crença que o homem é, não posta
como objeto de discussão, uma vez abalada, obriga o homem a pôr-se
em solidão, a criar pensamentos novos, a construir nova crença em
que ele esteja em descanso. Esta crença é o novo universo pessoal, o
sistema em que o indivíduo repousa.
No entanto, a pregação do sistema novo cria adeptos, faz pro-
sélitos, organiza escola. Ainda que o pensador tenha para si não haver
dito a última palavra, porque a história demonstra que os sistemas se
sucedem no tempo, os adeptos, os discípulos se fazem ardorosos
defensores do sistema, e alguns, até fanáticos. De um lado, então,
temos o estabelecido, o sistema velho que resiste ser desalojado pelo
novo, e, de outro, o novo que fere o combate decisivo.
Moisés escrevera que viria outro profeta como ele, e que quando
isso ocorresse, que tal profeta novo fosse ouvido. Não adiantou nada
esta recomendação, porque, quando veio Cristo, contra este se
levantaram os escribas e os fariseus, exatamente os que deviam dar
cumprimento aos ditames de Moisés. O sistema mosaico resistiu pelo
seu misoneísmo à Boa Nova trazida aos homens. O cristianismo
mostrou-se um anti-sistema, relativamente ao sistema de Moisés. A idéia
do Deus-Jeová ciumento e vingativo, tinha que ceder o lugar ao Deus-
Pai amoroso e solícito. O misoneísmo, a resistência ao novo, porém,
matou Jesus, aos Apóstolos todos, exceto João Evangelista.
O cristianismo alastrou-se pelo mundo, graças ao trabalho
de S. Paulo, o Apóstolo, segundo Gusdorf, "o inventor da teologia".
Primeiro na Judéia, depois na Grécia, depois em Roma, a nova idéia foi
aceita por poucos e barrada por muitos, e os mártires se
sucederam, pois a Boa Nova de Cristo crucificado era escândalo
para os judeus e loucura para os gregos, conforme o disse o mesmo
Paulo.
Caída a civilização greco-romana, o cristianismo mostrou-se
como crisálida da civilização sucessora, a ocidental, em que ainda
estamos. Os deuses gregos foram amalgamados pelos santos da
cristandade, o Evangelho passou a ser objeto de discussão de teólogos,
organizou-se a Igreja, e esta começou a combater com ferro e fogo,
toda sorte de interpretação que não fosse a sua, a dos teólogos
organizados que agiam em nome do Absoluto, de Deus.
28

Eis, pois, que organização é sistematização, é codificação, é


construção da unidade total ou absoluta. E os absolutismos, sejam
religiosos, sejam filosóficos, sejam políticos, são a causa de todo o
genocídio perpetrado em todos os tempos e lugares. Genocídio é
qualquer crime praticado contra a humanidade, tendo em vista
destruir, seja no todo, seja em parte, grupos étnicos, raciais ou
religiosos.
Calvino, em sua Reforma religiosa, fundamentava seu sistema
na premissa de que Deus é onisciente. Disto decorre que Deus
conhece não só o passado, senão, também, o futuro.
Consequentemente, ele sabe, de antemão, quais os homens que se hão
de salvar, e quais os que se hão de perder. Logo, os homens já se
acham, aos olhos de Deus, inexoravelmente classificados em
predestinados e precitos. Este mesmo pensamento enunciou-o Vieira:
"Todos os homens quantos há, e houve, e há de haver no mundo, ou são
predestinados que se hão de salvar, ou são precitos que se hão de
perder". Os salvos, os eleitos, os predestinados à salvação, já, nesta
vida, recebem o amparo e proteção divinos, conferindo-lhes Deus o bem-
estar, por meio das riquezas, do renome e do prestígio.
E vai já Calvino folhear a Escritura, em busca dos pontos que
comprovem este raciocínio seu absolutista, tais como os em que a
Bíblia faz distinção entre filhos de Deus e filhos dos homens: "Viram
os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, e tomaram
para si mulheres" (Gên. 6, 2); "Havia naqueles dias gigantes na terra,
e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos
homens, e delas geraram filhos"; (Gên. 6, 4). Na parábola do
mordomo infiel Jesus faz separação entre filhos deste mundo e filhos
da luz (Luc. 16, 8), e em Mateus 15, 26, Cristo declara não ser bom
lançar o pão dos filhos aos cachorrinhos, isto, depois de afirmar que
veio para "as ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mat. 15, 24). As
ovelhas da casa de Israel, ainda que perdidas, serão salvas por
estarem a isto predestinadas; os precitos ou condenados são
cachorrinhos aos quais não é bom desperdiçar o pão dos filhos. Eis
aí: filhos da luz, filhos de Deus, os filhos e ovelhas perdidas da
casa de Israel, são os predestinados à salvação; pela recíproca,
os filhos dos homens, os filhos deste mundo, os cachorrinhos,
são os condenados sem remissão possível, porque de tal modo os
antevê a presciência divina.
Esta é a razão por que “o senhor sustém os justos” (Sal 37,
17); “o Senhor conhece os dias dos retos, e sua herança
permanecerá para sempre” (Sal 37, 18); “não serão envergonhados
nos dias maus, e nos dias de fome se fartarão” (Sal 37, 19); “fui
moço, e agora sou velho; mas nunca vi desamparado o justo, nem a
29

sua descendência a mendigar o pão”. (Sal 37, 25); “o justo florescerá


como a palmeira, crescerá como o cedro do Líbano” (Sal 92, 12);
“a luz semeia-se para o justo, e a alegria para os retos de coração”
(Sal 97, 11); “a maldição do senhor habita na casa do ímpio, mas a
habitação dos justos ele abençoará” (Prov 3, 33); “a memória do
justo é abençoada, ma so nome dos ímpios apodrecerá” (Prov 10,
7); “transtornados serão os ímpios e não serão mais, mas a casa
dos justos permanecerá (Prov 12, 7); “nenhuma desgraça
acontecerá ao justo” (Prov 12, 21); “ao justo não é bom punir”
(Prov 17, 26); “nem oprimir o justo no juízo” (Prov 18, 5); “a vereda
dos justos é plana” (Is 26, 7). Portanto, conclui Calvino, as riquezas
são um sunal de salvação. Pela recíproca, a pobreza é sinal de
perdição.
Ora, ninguém quer ficar sem o sinal do eleito, e tocam todos
os calvinistas, por todos os meios, a buscar as riquezas,
empregando até a usura que, na Idade Média, era tida por um
pecado tão feio como a da fornicação. Co isto, se forjaram todas as
regras do capitalismo moderno, com bancos, títulos, promissórias,
ações, etc., conforme o diz Vianna Moog em “Bandeirantes e
Pioneiros”.
Em contrapartida, os pobres, os aflitos, os famintos, os
deserdados da sorte, todos eram precitos, réprobos, esquecidos de
Deus, condenados aos infernos sem remissão possível, pois como
havia de frustrar-se a previsão divina? Os índios eram precitos,
réprobos, filhos do Diabo. Por que logo, não matá-los? Por que
gozar dos bens da vida, quem já se achava abismado na morte
eterna? E os negros? Como seria possível aos salvos brancos
ligarem-se a eles, já, de si, demônios pretos reluzentes?
Para reforço da tese calvinista, o conde de Gobineau e
outros tinham escrito a respeito da superioridade da raça branca
sobre as demais. Por mais isto, o negro e o índio deviam ou ser
escravos, ou exterminados. Os “salvos” se fizeram absolutos, e os
brancos, idem. E por causa destes absolutismos estúpidos, os
Estados Unidos estão pagando quanto tomaram emprestado a
Calvino e Gobineau.
Sempre o alvo da filosofia foi o absoluto; contudo, os
filósofos não fizeram outra coisa que absolutizar um ou outro aspecto,
uma ou outra perspectiva do Ser, visto que cada filósofo se postou num
mirante que dá para o universo. Desde que Parmênides descobriu na
doutrina de Heráclito a contradição lógica de o que é, não é, porque
tudo muda sempre num devir constante, ele assentou que o ser é, e o
não-ser não é, tirando desta intuição basilar toda a sua filosofia dos
dois mundos: o inteligível da razão, e o sensível dos sentidos. Esta
30

dicotomia praticada no real constituiu o pecado original da filosofia, de


que decorre os demais pecados, haja vista, o de fracionar o Ser nos
vários absolutos, cada um tendente a encher, só, consigo, o universo
inteiro. Desde Parmênides, então, só o mundo inteligível ou mundo
racional passou a ser o que vale. E o resto imensamente maior
igualmente importante? Pois todo esse "resto'* foi havido como sendo o
mundo de irrealidades, o mundo de sombras (Platão), o mundo
do não ser. Desde aí, cada sistema filosófico passou a constituir-se
um absoluto, detentor exclusivo da verdade, e, como tal, não podia
transigir com os outros sistemas igualmente absolutos. Daí que todo
absolutista é um surdo que fala mas não escuta, não sendo
possível o diálogo, e sim só o monólogo de solipsista.
Descartes, partindo do seu cogito, geometrizou o mundo, e deu o
seu sistema como um absoluto; o racionalismo puro, cartesiano, e se
fazendo absoluto, outra vez, deixou de lado o imenso "resto" da
natureza, relegado ao quadro das "idéias obscuras", porque não
redutíveis a discurso, a princípios de razão. Embora Descartes cuidasse
haver dito a última palavra, seguiu-se a ele toda a cadeia de
filósofos idealistas até Kant que, outra vez, imaginou haver dado o
xeque-mate final à verdade. Não o deu, porém, e Schelling achou que o
absoluto é a Harmonia; Fichte, que ele é o Eu; para Schopenhauer e
para Nietzsche, o absoluto é a Vontade, e para Hegel, a Razão.
O mundo cansado de absolutismos, deu razão a Augusto
Comte que, por sua vez, fez do saber científico, positivo, outro absoluto.
Contra o absolutismo capitalista, opõe Marx o operariado como outro
absoluto, em nome do qual, de novo, se praticou toda a sorte de
barbaridades genocídicas, e ainda hoje há campos de concentração
nos países comunistas.
Disse Hegel que "todo o real é racional, e todo o racional é
real". Sendo a história uma realidade, uma facticidade, é racional.
Então, demarcou-se, a priori (que é a moda idealista), o caminho
pelo qual andaria a história. Criaram-se, deste modo, os Estados a
priori, absolutistas, o nazi-fascismo pela direita, e, pela esquerda, o
comunismo. Mas a história desenvolve-se pelo ensaio-e-erro animal
(Toynbee), donde vem que a civilização é uma empresa humana, e
será do modo como a fizerem os homens, para o bem ou para o mal.
Como era de esperar-se, os dois absolutismos estatais, o da direita
e o da esquerda, não deixaram de apresentar o saldo vultoso de
genocídios nos tempos modernos.
Se, como diz Hegel, "quanto mais geral mais real, e quanto
menos geral menos real", Deus seria a máxima generalidade, e, por
conseguinte, a realidade suma, absoluta. Abaixo de Deus, o mais
geral é o Estado. Daí que o chefe de Estado se faz por eleição
31

divina. A história, que é racional (Hegel), movida por uma como mão
de Deus, coloca no poder o melhor, e o mais apto. Assim, a história
ou a vida (?) elevou ao poder Hitler, e este, como vinha da parte de
Deus (!), se fez absoluto num Estado absoluto. Fanatizado o povo
alemão com esta nova crença, e ainda, com a da "super-raça"
ariana, com base em Gobineau e demais racistas, a Alemanha
afrontou o mundo com a Segunda Guerra. De Nietzsche os ideólogos
alemães tiraram a moral da força: "a justiça é o desassombro do
forte;... ser justo é ser forte". De Hegel tiraram o Estado absoluto; e o
mundo viu o quanto lhe custou em sangue, dores e lágrimas, tal
absolutismo.
Os sistemas, os absolutismos, como se vê, foram as causas
de todos os males do mundo, e de todos os crimes praticados contra a
humanidade. Sempre, por toda parte, uma nação, um Estado, uma
religião, um povo, uma filosofia, uma raça se fizeram absolutos. Face a
isto, basta darmos largas ao pensamento, focalizando o transcurso do
homem no espaço e no tempo, para constatarmos ser o genocídio uma
constante da história. Povos inteiros constituídos de civis, velhos,
mulheres e crianças, foram passados pelas armas, ou escravizados,
ou expatriados, sempre quando aconteceu serem dominados,
militarmente, por um outro povo mais forte que se fez absoluto.
Lá no Egito, o povo hebreu que ia bem sob a dominação dos
hiczos, caiu em desgraça, quando estes hiczos foram expulsos pelos
egípcios; e como se não bastasse a escravidão de que foram vítimas,
os israelitas ouviram, atônitos, perplexos, a leitura do decreto que
mandava serem mortos todos os machos nascidos do povo
escravizado.
É popularmente famosa a matança dos inocentes, por Herodes,
na esperança de que Jesus estivesse no meio deles; também o é o
expatriamento e escravidão dos judeus em Babilônia, até que Ciro, o
persa, os libertou, e, mais tarde, sua dispersão pelo mundo, após a
queda de Jerusalém, no ano 70 d. C., por Tito Vespasiano.
Dos que adoravam o bezerro-de-ouro fabricado por Arão, com
as arrecadas trazidas dos egípcios, nenhum houve que ficasse em
pé; e em seu furor de intolerância, até as Tábuas da Lei o absolutista
Moisés quebrou, quando viu seu povo retornando à idolatria egípcia.
Ganhou notoriedade a tentativa romana, selvagem, medonha, de
sufocar e fazer extinguir o cristianismo nascente, nas arenas.
Todavia, tanto que venceu o cristianismo e se fez absoluto, eis surge
no seu seio o malsinado Tribunal do Santo Ofício ou Santa
Inquisição, criado com o fim de acabar, por meio de horrendas
torturas e fogueiras, com os hereges, isto é, com aqueles que
distoavam do pensamento oficial da Igreja absoluta. O morticínio de
32

protestantes na "Noite de São Bartolomeu", em França, ficou famoso


como ato discricionário e absolutista do Estado e da Igreja. Contudo,
"quando Luis XIV, recorrendo aos métodos do barbarismo, extirpou o
Protestantismo do solo espiritual da França nada mais fez do que
limpar o terreno para uma colheita alternativa de cepticismo. A
revogação do Édito de Nantes foi seguida, no prazo de nove anos, pelo
nascimento de Voltaire" (Toinbee). A matança dos índios peles-
vermelhas, nas duas margens do Mississipi, é assunto fartamente
explorado pelos próprios norte-americanos em filmes de cinema,
embora procurem eles, às mais das vezes, torcer a verdade histórica
que atesta sua bárbara selvageria. Afinal, quem habitava a terra
antes, eram os índios; os norte-americanos vieram depois, e a
possuíram pela força, porque a mundo é dos fortes, porque,
conforme o diz Nietzche, "a justiça é o desassombro do forte".
O fenômeno histórico do absolutismo é generalizado, e Toynbee
transcreve em sua obra "Um Estudo de História", a carta absolutista e
egocêntrica do Imperador da China, Chien Lung, escrita ao Rei
Jorge III, antes que a Inglaterra, um século mais tarde, ditasse o
tratado de comércio com a China, em termos ingleses, e à boca
dos canhões ingleses. E que comércio foi esse? A Inglaterra
absolutista e imoral impôs à China comprar-lhe seus produtos, entre
os quais o ópio...; e por causa da recusa da China, em comprar este
narcótico, a Inglaterra fez-lhe guerra, a "guerra do ópio".
Como Ch'ien Lung e os chineses, "os judeus também sofreram
da ilusão de não serem um, mas o "povo eleito". Aqueles que
chamamos "nativos", chamavam eles "gentios", e chamavam os
gregos "bárbaros". Sempre, por toda parte, a inspiração do absoluto. As
pirâmides egípcias que, de certo, sobreviverão ao próprio homem,
estavam lá antes de Abraão, são atestados de autocracias
absolutas; "as pirâmides imortalizaram esses autocratas, não como
deuses eternos, mas como causadores do emagrecimento dos
pobres. A sua má reputação transmitiu-se ao folclore egipcíaco, até
alcançar o seu verdadeiro destino, nas páginas imortais de Herôdoto".
Não há povo vencido em batalha decisiva, contra o qual não se
tivesse praticado o genocídio por parte do vencedor absoluto que, até,
não raro, se fazia passar por deus.
Por que, assim? Porque a natureza animal de que o homem
emergiu em parte, e em parte se acha ainda submerso, atesta-nos que
Nietzsche tem razão, e a "justiça é o desassombro do forte", e, quando
não pode a força, pode a astúcia que é a mentira, o engano, o ludíbrio, a
falsidade. "Porque (como diz Vieira) os homens são mais feras que as
feras, e mais demônios que os mesmos demônios. Os demônios não
têm carne nem sangue, porque são espíritos; as feras não têm
33

entendimento nem vontade, porque se governam por instinto; e os


homens são piores demônios que os demônios, porque são demônios
com carne e sangue, e são piores feras que as feras, porque são feras
com entendimento e vontade". Porque, como diz Wayne Kilbourne, "o
nome científico do bicho-homem, animal racional, é "porcus bipedus".
Porque o homem é dragontino desde a sua empírea inversão, e, de
todo, esse dragão não se desvirou do avesso, negando-se de perverso
e mau.
A crença na força absolutizou-se num Deus-de-Força, Deus
guerreiro e Senhor dos exércitos; Deus-Sol (Osiris) cuja esposa era Isis,
dos quais nasceu Horos que era um falcão, ou homem com cabeça de
falcão... de cariz agressivo, olhos coruscantes, asas poderosas e garras
e bico temerosos, ameaçadores. Muitos faraós se deram como sendo a
encarnação de Horos. Deus-Força-Vital, Deus-da-Fecundidade..., donde
os cultos fálicos, donde, também, as deusas... e as orgias de
bacantes ... e a prostituição sagrada. Deus-Fogo-Devorador, Deus-Luz-
Calor filho de Deus-Raio; Deus Sol-da-Força, fanal do universo; Deus-
Razão-Pura, Deus-Beleza, Deus-Harmonia, Deus-Vontade, Deus-
Razão, Deus-Sol-da-Vida, Deus-Sol-de-Justiça, Deus-Pai-de-Amor,
Deus-de-Misericórdia, Deus-Amor ou Amor-que-é-Deus. Eis a seqüência
da evolução humana... tomada em função do seu Horizonte, da sua
Referência. Ainda hoje Cristo é representado com a cabeça irradiando
luz solar, e seus Santos, mais modestos que ele, nimbam-se da luz
lunar de suave albor.
Mas, de todo ainda hoje não se acabou da história o capitulo
da força, e quando se procura justificar a um homem que ele deve
tornar-se sábio, a motivação infalível é a de que saber é poder; é a
de que o homem se fez poderoso na face da Terra, não por ser
bom, mas por sua inteligência; na natureza não há lugar para a
bondade, exceto a do animal por suas crias, não lhe ficando mui
distante o homem. Também a justiça se apóia na força... em que
teve origem, sendo ela, outrora, a vontade do forte, do poderoso, para
quem a justiça era sua espada..., a mesma cuja ponta é fulcro da
balança que, ainda hoje, Têmis tem na mão.
"Ser justo é ser farte", o entendia Nietzsche, em vez de ser
forte é ser justo; em lugar de dizer que o homem justo é forte,
Nietzsche dizia que "o homem forte é justo"..., não importando que
arbitrariedades viesse a praticar.
Ser justo é ser sábio, dizia Platão, certo de que a sabedoria
é tudo. Ser justo é ser bom, enuncia Cristo, para quem, o amor, a
caridade, o perdão são a força do justo. Contudo, a teoria levantada
da prática vivida pelos cristãos, é outra, diferente daquela de Cristo;
ou, como diz Joelmir Beting, "na prática a teoria é outra". Basta um
34

lanço de olhos sobre o nosso mundo de violências, para ver quanto


ainda estamos distanciados de Platão, de Cristo.
Que horrores não se praticaram na noite dos tempos, quando
tribos inimigas de homens primitivos se defrontavam? O homem gastou,
para formar-se, do tronco macacóide, um milhão de anos; todavia,
desde há cem mil anos ele se acha, biologicamente, tal qual é hoje.
Contudo, a história da civilização data apenas de dez mil anos. Se o
aparecimento do homo sapiens data de cem mil anos (descontados
os novecentos mil da sua formação), e sua história tem apenas dez
mil anos, que teria feito ele com o seu varapau, com o seu machado
de pedra, com o seu arco e flecha, com o fogo que domesticou, durante
noventa mil anos que a próto-história silencia? Por que se fez ele
antropófago, quando seus ancestrais hominidas macacóides não o
eram? Por que inaudita desgraça foi aflorar o troglodita das cavernas
do esclarecido povo alemão, de sorte que, com sua conivência, sem
nenhum protesto, seis milhões de judeus indefesos pereceram, por
todas as maneiras..., agora que os recursos da tecnologia ampliou os
poderes do "bicho-homem", do "porcus bipedus", para além dos da
imaginação? Estaria, acaso, certo Buffon para quem "o homem é um
macaco degenerado"? Depois de tudo o que nos atesta a história,
que se deve entender por civilização? Por que acontece o
genocídio? Qual a causa dessa enfermidade social que, moralmente,
nos coloca abaixo do gibão.
O macaco dócil, meigo, amigo do homem, como uma criança
de boa índole e comportada?
O sistema é a causa, porque todo o sistema tende a ser um
absoluto, seja ele político, religioso, filosófico. Como, então, evitar o
genocídio? Pois não pode ser senão evitando os absolutismos de
quaisquer carizes. Logo, é evitar os sistemas. E a história o
demonstra: os sistemas todos são relativos, donde vem que seus
absolutismos são um erro de perspectiva que consiste em tomar o
horizonte distante como sendo o lugar em que a Terra chata se
acaba. O horizonte circular, rodeando o observador por todos os lados,
a este se afigura como os bordos elevados de desmedida escudela. A
forma redonda da Terra, até há pouco, a todos passava por uma
abstração, porque a experiência de televisar e de fotografar a Terra
das alturas e da Lua, é de ontem.
Augusto Comte pretendendo relativisar tudo, caiu no engano de
fazer do saber científico, positivo, outro absoluto. Pensou ele poder
reduzir a vida, o homem individual e coletivo a puros princípios de
razão tão exatos, quanto os das ciências físico-matemáticas.
"Mostrarei que existem leis tão determinadas para o
desenvolvimento da espécie humana como para a queda de uma
35

pedra" (A. Comte). Porém, a história o desmentiu, mostrando que a


antropologia, a ciência do homem, a bem dizer, não é ciência, visto
como se abre num leque de ciências ainda mais particulares, cujas
leis valem só para o aqui e o agora..., e não, para o "daqui a
pouco", e para o "ali mais além". Leis forjadas pelo homem, e por ele
revogadas, a cada passo, na política, no direito, na economia, na
história, são leis com letra minúscula, ou "leis"..., assim, entre
aspas..., que a gente escreve com um complacente sorriso.
Hegel fez da razão um absoluto; no entanto, sua "lei" histórica
da tese, antítese e síntese, se reduz ao ensaio-e-erro animal. Pois
claro: começa-se por fazer uma tentativa que não dá certo - é a
tese; depois se vai fazer exatamente o contrário, o oposto, que
também não dá - é a antítese; só, então, se vai juntar o certo da tese
com o certo da antítese para construir-se a síntese. Que é isto, senão
ensaio-e-erro?
Dir-se-á, então, que, neste caso, nem o próprio pensamento é
racional, dado o seu princípio de contradição que o leva a
proceder, também, dialeticamente, por tese, antítese e síntese. E está
certa esta conclusão, porque o pensamento dialético faz em abstrato,
o que o animal faz em concreto. O ensaio-e-erro abstrato é
pensamento; o pensamento concreto é ensaio-e-erro. Daí serem os
filósofos concordes em que a ação é uma reflexão ou meditação
enfraquecida, no passo que a contemplação ou reflexão é uma ação
reforçada. O tempo marca o ritmo do movimento, porque a ação é mais
lenta que o pensamento. E como a velocidade do ato de pensar
aumenta sempre, chegamos a intuição relampagueante, quase que
sem tempo. A intuição, pois, é o raciocínio elevado de potência,
veloz como o raio. Usando a mesma relação vista entre ação e
pensamento, podemos definir a intuição como um raciocínio
reforçado, e, o raciocínio, como uma intuição enfraquecida. De outro
modo: a ação é morosa, o raciocínio, rápido, a intuição,
fugacíssima. Ou ainda: a ação é linear, a razão, superfície, e a
intuição, volume. Daí o intuitivo sentir-se como que levantado sobre o
planimétrico da razão, e em tudo o que toca, como o rei Midas, se
transforma no ouro da totalidade (Gusdorf). Deste modo, o
pensamento, quanto à velocidade, acha-se escalonado do animal ao
gênio. O pensamento-muscular de um homem intelectualmente inferior,
não poderia, nunca, entender como é o desenrolar do raciocínio
num cérebro de gênio, que, de um estalo, salta toda a cadeia que
parte duma premissa e vai às suas mais remotas conseqüências.
Ou, vice-versa, quando, de um fato isolado qualquer, se remonta ao
princípio absoluto, geral, abstrato, como o coriscar de um raio. Tal o
diz Milton: "Pelo discurso enquanto o homem pesquisa, / o anjo pela
36

intuição longe penetra".


Como é impossível reduzir o volume ao plano, sem a perda
duma dimensão, o intuitivo esfalfa-se por explicar suas visões, sem que
as possa alcançar o pensamento racional. Para o pensamento
discursivo, os dados imediatos da consciência não passam de mitos, tal
qual ocorreu com a formiga da parábola, que não dispunha dos
recursos da abelha para cientificar-se de que a esfera existe.
Face a tudo isto, ficou clara a nossa afirmação de que o
pensamento discursivo faz em abstrato, o que o animal faz em
concreto, donde vem que a ação é um pensamento lerdo, tardonho,
moroso, enfraquecido, no passo que o pensamento é uma ação
abstrata, velocíssima, tanto mais fugaz, relampagueante, quanto mais
se acerca da intuição do gênio. Ora bem: a história não se
desenvolve in abstractu, e sim, in concretu; então ela procede como
o animal ao resolver os seus problemas, in concretu, pelo ensaio-e-
erro.
Não sendo a história racional, todos os sistemas políticos
construídos a priori, exclusivistas, intolerantes e totalitários, são
antinaturais, arbitrários e errados. A absolutização filosófica de um
ponto de vista, de uma perspectiva, foi a causa que continua atuante
ainda, de todos os genocídios registrados ou não pela história.
Dado que o sistema, tido por absoluto numa época, mostra-se
superado e relativo na época seguinte; dado que a aceitação de um
sistema, como absoluto, é a causa da violência genocídica praticada
contra os partidários doutros sistemas; o caso seria de exclamarmos:
Abaixo o sistema! Nada de sistema!... Mas, que é um sistema? Um
sistema é uma unidade. E, então, que é uma unidade?
Peguemos na mão um objeto qualquer: uma caneta-tinteiro,
por exemplo. Examinando-a, verificamos que ela é uma unidade, um
todo. Porém, esse todo, essa unidade compõe-se de unidades menores
que são o tubo de tinta, a pena, a tampa e a presilha. A pena e o
tubo de tinta são unidades fundamentais ou essenciais, porque sem
elas a caneta não escreve, já a tampa com sua presilha são unidades
acessórias; a tampa serve para proteger a pena e para alongar a
caneta, quando em uso; a presilha, para fixar a caneta nos bordos
do bolso do paletó ou da camisa, quando a carregamos. Todavia, a
pena, em si mesma, também é uma unidade, tal como o tubo de
tinta, como a tampa e como a presilha. Então, podemos fazer o
seguinte enunciado, verdadeiro, para o qual não há exceção: toda
unidade resulta da integração de unidades menores.
O corpo humano é uma unidade composta de unidades
menores que são os órgãos; cada órgão resulta, também, da integração
de unidades menores, podendo-se ir até às células, às moléculas, aos
37

átomos. Do mesmo modo que descemos, podemos subir: elétrons e


prótons formam átomos; átomos mais átomos dão moléculas. Átomos,
moléculas, moléculas gigantes, micela, célula, órgão; corpo humano;
eis como podemos enunciar a mesma verdade vista da perspectiva
oposta: toda unidade entra na composição de unidades maiores.
O enunciado completo agora: toda unidade resulta da integração de
unidades menores, e integra-se nas unidades maiores.
Este enunciado, embora verdadeiro, merece ainda um reparo.
Quando uma unidade se associa a uma outra para ambas formarem
uma terceira, esta última, resultante da combinação, não é uma
soma, e sim, um produto; porque, na unidade-sistema resultante,
aparecem propriedades novas não encontráveis nas unidades isoladas.
Basta examinar, ao microscópio, as maravilhosas e variadas
formações cristalinas da neve, para concluirmos que aquele
complexo não existe nem nos átomos de hidrogênio, nem no de oxigênio
isolados que, depois, se combinaram para formar a molécula de
água. Como apareceram componentes novos no produto da reação que
não existiam nos reagentes separados, segue-se que uma integração
não é uma soma, mas, um produto. Toda unidade-sistema, pois, é um
produto; e quando esta se combina à outra, forma outro produto. Então,
agora, o enunciado completo fica assim:
Todo sistema é um produto resultante da combinação entre
si de dois outros sistemas menores, e, ao mesmo tempo, é o
combinador que, com seu combinando, forma outro produto,
que é o sistema maior.
Feito este reparo, podemos prosseguir com a explanação sintética,
simplista, que vínhamos fazendo.
A unidade-homem se associa à sua oposta e complementar
unidade-mulher, ambas de igual valor, para formarem uma outra
unidade de espécie superior, que é a família. O homem é igual à mulher
em importância, em valor, porque ambas unidades, homem e mulher,
pertencem ao mesmo nível hierárquico, porém, opostas e
complementares. Iguais em importância, iguais em valor, mas desiguais
por função.
Assim, podemos entender que há uma hierarquia de valores: a
caneta, como uma unidade, é mais importante, de mais valor, que suas
partes separadas. O homem e a mulher isolados são menos importantes
que a família; as famílias, em separado, são menos importantes que o
grupo social que as integra em unidade. Eis a hierarquia ascendente de
valores: homem, mulher, família, grupo social, comunidade civil, cidade,
Estado, Nação, Sociedade das Nações. Outro exemplo: elétron, próton,
átomo, molécula, grão-de-terra, rocha, planeta, sistema solar, sistema
galáctico, sistema de galáxias, universo físico.
38

Qualquer que seja o nosso ponto de vista, deparamos sempre com


hierarquias de unidades. E unidade é sinônimo de organização, de
cosmo, de universo, de sistema, de mundo, de ser. Pela recíproca, a
ausência de unidade é desorganização, imundo (não-mundo), caos,
não-ser. Tudo isto, agora, numa visão panorâmica, unitária, em função
do homem:
Nosso universo material nasceu num ponto minúsculo onde pôde
formar-se a primeira partícula subatômica, no seio caótico do arquidilúvio
de energias acantonantes, vindas da periferia dos espaços. Formaram-se,
primeiro, os elétrons, e, pouco mais, os prótons..., simples de começo, e
mais complexos depois. E quando o Colosso Primitivo se expandiu,
diminuindo a pressão e o calor medonhos, então, puderam os átomos
formar-se. Agora os átomos se combinam formando moléculas que são
novas construções, novos cosmos, novas unidades, novos sistemas
superiores, hierarquicamente, em relação aos dos átomos. Elétrons,
prótons, átomos, moléculas, moléculas gigantes, micela, vírus, célula. As
células são universos, unidades, mundos, cosmos, sistemas que
integram, na sua estrutura, toda a hierarquia descendente de sistemas
ou unidades menores.
Os entes unicelulares, nas bases da vida, se reproduzem e
se associam em colônias; as colônias invaginam-se, e pela abertura
boca-ânus, os alimentos entram, e saem as dejeções. Pouco mais,
que é após milhões de anos, a forma invaginada colonial,
semelhante a um saco, abre-se na extremidade oposta; o saco
rompe-se no fundo, tomando-se no tubo verminoso. Tais vermóides
se difundem pelas águas, variam, mutam-se, saindo duma espécie
destes, presume-se, os seres cartilaginosos, um dos quais evoluiu
para seres superiores: peixes, anfíbios, répteis, aves, mamíferos e
homem.
Os homens se associam em clãs, em tribos. As tribos juntam-se
entre si, formando cidades-estados, e estas se unificam em Estados. As
Nações-Estados da atualidade ir-se-ão integrar na Unidade Mundial,
no Estado Ecumênico, na Federação das Nações, porque a Lei
cósmica, ou Eros, que é o princípio de integração, impõe a unidade,
a ordem (órgão, organismo, cosmo, sistema), e organização é
sempre unificação, integração em unidade superior.
O caos existe, enquanto não se forma o cosmo, o sistema, o
mundo cujo antônimo é imundo ou caos. As primeiras unidades
formadas são cosmos, porém, rodeadas pelo caos do que ainda está
por formar-se. Deste modo, no nível dos átomos, há ainda o caos
molecular; no nível das moléculas, há ainda o caos das micelas. A
organização em sistema vem de baixo para cima, quando está em
processo a evolução. Isto no universo, isto na vida, no social, na
39

política, nas idéias, na filosofia. Ou o sistema, ou o caos.


Todo o sistema é totalitário de si abaixo, relativamente ao que
totaliza; é relativo, porém, de si a cima, com vistas à unidade maior
totalizante que o engloba. Nenhum sistema é totalitário em relação a
outros sistemas paralelos, sobretudo, o oposto, colocado no mesmo
nível hierárquico, com o qual terá de integrar-se para a formação de
um todo ou sistema maior.
Deste modo, está correta a observação de Gusdorf, embora não
o esteja a sua ironia. Diz sua observação que "o absoluto não o é
absolutamente, e o relativo não o é senão relativamente"; isto foi
que ele observou da leitura dos filósofos; agora, a sua ironia: "de
sorte que o pensador, brincando com as palavras que previamente
dotou de elasticidade suficiente, pode prometer a seus discípulos a vida
eterna". Isto quer dizer: com tal artimanha ou matreirice, o filósofo
"pode prometer a seus discípulos a vida eterna" que, certamente, não
existe, porque, em verdade, "morreu acabou". Então, se é assim,
mandemos às urtigas o homem, o mundo e Deus, passando nós a
viver sem perguntar, como o faz o animal, em vez de azucrinar-nos
com escaldantes pensamentos, com importunas insônias, com
trabalhosas noites indormidas. Conquanto atilado, o erudito Gusdorf não
viu isto: nada a ver com ele, se não tivesse participação nenhuma do
absoluto
Se o absoluto o fosse absolutamente; se o relativo não
tivesse, sendo-lhe, desde sempre, inligado, estanque, separado,
bastando-se a si mesmo, sendo absolutamente relativo, não haveria
passo entre a criatura e o Criador e vice-versa, sendo ambos
estranhos um ao outro. Não havendo a relação Criador-criatura, nem
o Criador seria Criador, nem a criatura, criatura. Neste caso, a
criatura ter-se-ia feito a si mesma; ou melhor: a criatura era desde
sempre, com que ela ficaria sendo absoluta. Onde estaria, então, o
relativo? Como se poderia ter idéia do Absoluto para além da
natureza também absoluta?... um Absoluto absolutamente
desnecessário, e, por isto, sem nenhuma precisão de ser invocado
como fundamento?
Fazendo a natureza um absoluto, ela fica sendo Deus,
instância suprema de apelação, última referência do homem, e foi
fundado nela que Trasímaco, Nietzsche e Maquiavel deduziram a
moral da força, a moral da astúcia. De fato, Deus se acha imanente
nesta natureza, neste universo nosso conhecido, porém, invertido;
contudo, a criação não é só o para nós visível; ela abrange o
universo maior e invisível em que habitam os dois terços de anjos
não caídos. Nosso universo mais aquele dos anjos formam o que
chamamos a natureza, a criação. Nesta, Deus se acha imanente,
40

porque a tirou da sua Substância-Amor. Afora este aspecto de


imanência, há o maior, da transcendência, pelo qual Deus é o Ser...
absoluto, eterno e infinito, muito e muito além de universo e criação
finitos, e temporais, e causais.
Eis, então, que "o absoluto não o é absolutamente", porque
se acha presente em parte, em parte enfrascado no relativo. Se
assim não fosse, o relativo seria estranho a Deus, como coisa alheia
ao Ser por excelência. Pela mesma razão, "O relativo não o é senão
relativamente", visto participar do Ser absoluto com o qual se acha
substancialmente conjugado como a onda e o oceano, como o corpo
do homem e a terra donde ele saiu. Não se trata, pois, de estar
"brincando com as palavras", senhor Gusdorf.
Para que dois sistemas se integrem, é preciso que sejam
opostos e complementares; porém, enquanto ainda não se integram
na unidade maior, são rivais e brigam entre si. A luta de dois
sistemas antagônicos é o esforço para alcançar a síntese, para
tomar possível a integração. O antagonismo é caos, e dura enquanto
não se formar o cosmo ou sistema de espécie superior integrante. Os
vários sistemas filosóficos são absolutistas, porque se olham de si
abaixo; são absolutos em relação (?) a tudo aquilo que totalizam;
brigam entre si, porque não se integraram ainda na unidade, no
sistema maior totalizante. A um lanço de olhos, nenhum filósofo tem
razão, porque todos se acham separados, adversários, em regime
mútuo de exclusão; de outro lanço, todos estão certos, e têm razão,
porque a gente os vê interligados, integrados no meta-sistema que os
engloba a todos. Achar o nexo, o modo de conciliação, de interligação,
de integração de todos os sistemas na unidade-mor, é o que, no
momento, cumpre fazer..., e com urgência!
Se tudo é unidade ou sistema, sem nenhuma exceção, e onde não
houver sistema ou unidade, há o caos, já se vê, a causa do
genocídio não pode ser procurada no sistema, como há pouco o
fizemos, e sim na intransigência, na intolerância, no egoísmo de
quem faz, do seu, um tudo, de quem faz, do seu, um sistema absoluto.
Se um sistema, não importa que lugar ocupe na hierarquia, se fizer
absoluto, ele excluirá tudo o que não é si, e terá aquele que se lhe
opõe, por contra-sistema, por anti-sistema, por inimigo que lhe
cumpre eliminar.
O genocídio, pois, resulta da intransigência daquele cujo egoísmo
não se expandiu ainda, do ignorante, do fanático, do que faz do seu
arbítrio, lei. O homem de egoísmo dilatado, de vistas amplas, largas, o
homem sábio, ainda que se ache a serviço de um sistema..., porque
lhe cumpre associar-se, será magnânimo, indulgente, tolerante,
porque harto entende que o seu é um apenas, dentre tantos, estando
41

sempre disposto a procurar o entalhe ou dente com que o seu se


ligue a todos, e, sobretudo, ao sistema oposto, inimigo fidagal do
seu.
Salomão, por esta causa, permitiu às mulheres - concubinas e
esposas - do seu harém (mais harém político que lascivo, pois não
podia o sábio recusar as concubinas e as esposas que os reis
vizinhos lhe ofertavam, como selo dos tratados de amizade grande)
... por esta causa permitiu a tais mulheres darem culto aos deuses
pátrios de suas terras natais. Não agiu o grande rei "por idólatras
belas iludido", como pensara Milton (Paraíso Perdido - Canto 1),
porque o sábio não se ilude quando cede às necessidades
exigentes da cultura de outrem. Foi também por esta causa que
Cristo se deixou batizar por João no batismo do arrependimento (!),
e quando João, surpreendido, lhe diz: eu devo ir a ti, e tu vens a
mim?! Cristo lhe responde: João, deixa por agora... as razões... que
são de costume, de consenso, de cultura, pois me é agora útil
pertencer à tua seita, à seita dos essênios.
Tal qual, Salomão, o rei sábio, propiciou a tão difícil paz,
porque recalcitrou contra o exclusivismo de quantos fanáticos havia
então, os quais se sucederam pelo tempo em fora, a condenar aquele
que tolerou conviver com todos os de outros deuses, por considerar a
estes como subalternos do seu grande Deus de Amor, que, para si,
já não era mais o Deus ciumento, vingativo e sanguinário de
Moisés. Contudo, ninguém, nunca, até hoje, entendeu isto, até que esta
pena veio para fazer justiça a Salomão...; "a quem honra, honra"
(Rom. 13, 7). Por esta causa, muito mais que as outras conhecidas,
propaladas, disse Deus que outro homem não houve, nem outro existiria
maior que Salomão.
Os discípulos de Cristo, vendo um homem que curava em nome de
seu Mestre, logo lho proíbem (Luc. 9, 49). Jesus condena-os, porque
nem todo seguidor de passos é discípulo, haja visto Judas; mas, é
seguidor, quem o prova ser por obras; ora, o homem a quem proibiram
curar, era seguidor por obras, o que é mais, e não seguidor de
passos, como Judas. Daí vem: quem não é contra, é a favor; não pode,
disse Cristo, um homem curar em meu nome, e logo mais, falar mal de
mim.
Mas, quem contra? Os de Samária eram contra, e Tiago e João
já os queria queimar, não com menos que com o fogo do céu, tendo
Cristo de os acalmar com dizer-lhes: "não sabeis de que espíritos
sois" (Luc. 9, 55). Pois não sabiam mesmo... e eram do espirito de
intolerância qual Elias furibundo, manipulador do raio elétrico
celeste, Elias que fez matar, num só dia, quatrocentos profetas de
Baal.
42

Visto que as obras são a pedra-de-toque dos homens, e só por


elas se sabe quem é ouro, quem, prata, quem, ferro, quem, potássio ou
sódio, ambos moles como a cera, Cristo estabelece quem será
cristão de verdade, na "parábola dos dois filhos" (Mat. 21, 28-32). O
primeiro disse que não ia trabalhar na vinha, porém, arrependido,
foi; o segundo prontificou-se a ir, mas não foi. Então, pergunta Jesus:
qual dos dois fez a vontade do pai? Acaso, na separação entre os
cabritos e as ovelhas, o critério de juízo será as fés, as seitas, as
religiões que uns e outros têm? Por certo que não, e os homens
são aprovados pelas obras boas que fizeram, e reprovados pelas
mesmas obras que, omissos, deixaram de fazer. Com isto, fica
entendido: não importa o rótulo da religião ou seita, e sim, fazer,
com obras, a vontade do Pai, Deus, ainda que, com palavras, haja
negado praticá-las. As obras justificam a fé, não, vice-versa, porque
pode haver fé sem obras, e diga-o o mundo grande que aí está...,
porém, não pode haver obras sem crença..., eis a verdadeira fé, a
inquestionável, a não posta em discussão por ser interior, por ser a
crença que somos, e na qual estamos (Ortega). O juízo tinha que
ser, como está anunciado, em função de obras, porque o homem é o
que faz, e, nem sempre, o que diz... falando ou escrevendo. Eis,
portanto, que as obras pias são o denominador comum de todas as
fés.
Todavia, cumpre avançar mais: a parábola do bom samaritano
mostra o "plus ultra" da fé, que é o amor, e o samaritano aparece
como exemplo da piedade executiva, sem sombra de religião que é
discutível, ou de fé exterior. Porque o amor está acima da fé, por isso,
independente até da crença que somos, estaremos sempre prontos a
socorrer aos que amamos. Podemos armar, então, esta cadeia de
valores: as fés exteriores que enchem o mundo, não valem nada, não
produzem frutos nenhuns, exceto os do fanatismo intransigente com
sua farta colheita de maldades. Na escala, tais fés, ou têm valores
negativos, ou são zeros. Subindo deste ponto, as obras nascidas da
crença que somos, se boas, são filantropia. No nível supremo, porém,
as obras filhas do amor entranhado que sentimos, nascidos da
compaixão samaritana, essas são a verdadeira caridade, o alvo
supremo e fim último do cristianismo. As obras nascidas das fés
exteriores, praticadas por ostentação farisáica, são barro; as nascidas
da crença que somos, são prata; as nascidas do amor que
sentimos, são ouro; quanto vai do barro, à prata, ao ouro, vai da
ostentação mundana, à filantropia e à caridade.
Por faltar o amor no mundo, a indulgência, a tolerância, é que a
história está referta de tragédias, de violências e de genocídios. Tal
como o homem ainda é, ignorante, invertido, perverso, egoísta e mau,
43

as guerras e o genocídio só terão fim com a federação das nações,


com a unificação delas num sistema único; a intolerância danosa
terá fim, quando as religiões, com base na moral e nas obras, se
irmanarem; a filosofia voltará a nortear o mundo, quando ela for o
meta-sistema que ora inauguramos... ainda por crescer, frondejar, florir
e frutificar. Ou isto, ou o caos... do qual estamos perto, agora que a
tecnologia nos promete que a auto-destruição, se acontecer, será
total.
44

III - O ARQUI-SISTEMA

Vimos os prejuízos que podem acarretar os sistemas; e também,


que não se pode fugir a eles, porque, na natureza, no mundo, no
universo, tudo é sistema, seja no grande, seja no pequeno. E ainda
que, sendo o sistema organização, ordem, harmonia, cosmo, a ausência
dele é desorganização, desordem, desarmonia, acosmismo, caos.
Apresentamos, então, duas soluções: uma próxima e outra remota.
A próxima consiste na imediata e efetiva vivência do Evangelho que
ensina e exemplifica a tolerância, a indulgência para com todo o
sistema que não é o seu de cada um. A longo prazo (que é a solução
remota), é necessário, com urgência, principiar o longo, largo e
exaustivo trabalho da síntese, da integração de todos os sistemas no
sistema-mor, no arqui-sistema, no meta-sistema, visto que as
violências, genocídios e guerras resultam do caos, e este, de ainda
não se haverem integrado todos os sistemas na unidade-mor que a
todos agasalhe, harmonize e pacifique.
Não há meio possível, já o vimos, de fugir aos sistemas, porque
tudo o que existe, e o que é, se constitui num sistema que integra
sistemas menores, e entra na constituição de sistemas integrantes
maiores. Isto, para a matéria inorgânica, para a matéria viva, para o
espirito, para a consciência e para o social. Se as construções
matemáticas partem de um postulado, por sua natureza intuitiva,
indemonstrável, e, as ciências, dos primeiros princípios, também
improváveis, e, as religiões, de afirmações dogmáticas, de pontos
de fé, segue-se que tais postulados, tais primeiros princípios, tais
enunciados primários das religiões são as unidades ideológicas
absolutas, de que se deduzem todas as conseqüências que são as
partes menores do discurso. Deste modo, tudo se nos mostra
hierarquizado em unidades ou sistemas, a um só tempo individuais e
coletivos. No topo de qualquer hierarquia damos com um absoluto, dado
que, nessa direção, nada mais pode ser alcançado; ninguém pode
ultrapassar os postulados, os primeiros princípios, as bases da fé.
Cada hierarquia forma um leque cujo cabo é um absoluto. Todos
estes absolutos que são os cabos, hão de juntar-se num ponto
central. Os leques todos como que se fincam por seus cabos numa
esfera central, que é o Todo Absoluto do qual participam os sistemas
todos ou leques menores. Contudo, a expressão volumétrica do leque
é a pirâmide; então, todas as pirâmides, como pinhões, se juntam,
por seus vértices, no centro de uma esfera de conceitos ou pinha.
Cada pirâmide isolada é, em si, um universo cuja variedade se
unificou no vértice, formando uma unidade absoluta. A união, pelos
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vértices, de todas as pirâmides, faz que o centro seja a união de


todos os absolutos. O Todo assim formado é o Absoluto por
excelência, absoluto com letra maiúscula, ou Deus, frente ao qual,
os outros absolutos, os que se referem ao topo de cada hierarquia,
são todos relativos. Os outros absolutos, ou cabos de leques, ou
vértices de pirâmides, só são absolutos em relação ao sistema
unitário e particular que formam; todavia, esses todos menores são
parciais ou relativos em referência ao Absoluto supremo que os
congrega, que os integra na Unidade total.
Entender uma coisa é ligá-la a um todo maior de que faz parte
integrante e em que funciona. O todo dá sentido à parte. A visão que
enxerga a coisa como parte de um todo maior, é a filosofia, por sua
natureza sistemática, unitiva, organizadora. A visão que desce da
coisa como unidade para os pormenores, é a ciência que fragmenta,
desintegra e analisa a estrutura até seus últimos limites. Esta, a
diferença entre filosofia e ciência.
Uma estrutura em leque podemos observar numa árvore, seja do
tronco acima, seja dele abaixo. Do tronco acima, depois dos galhos
que se bi, tri, tetrafurcam em galhos menores, vêm as folhas, cada
uma, outra vez, com cabo, nervura maior de que sai o leque de
nervuras menores, até os bordos; vêm as flores que também são
unidades de unidades menores; vêm os frutos que são universos no
semtido etimológico da palavra uni + verso, ou seja: a unidade mais
a sua contraparte pluralidade.
Do tronco abaixo, as raízes se fracionam em raízes menores até
as radículas e pêlos absorventes. Sem estes ínfimos pêlos das
radículas, e sem os estômatos das folhas, o vegetal não vive. O
vegetal se abre para fora, em busca da luz, do ar, da terra. O
animal se fecha para dentro, invagina-se, tornando-se num saco,
porque é ladrão, e todo ladrão precisa de um saco (Fritz Kahn).
Nesta máquina invertida, em relação ao vegetal, que é o animal, os
pelos absorventes recobrem as paredes intestinais, e, nos pulmões,
minúsculos alvéolos põem o sangue em contato com o ar.
O cabo do leque, chamado sistema circulatório sanguíneo, é o
coração; o cubo do leque sistema nervoso, é o cérebro; e há outros
sistemas como o digestivo, o renal, o linfático, o neuro-motor, o
muscular, etc., todos conectados à unidade maior que é o organismo
animal.
Do elétron ao universo, tudo é sistema, e sistema significa
organização, unidade, universo. Onde não houver unidade, norma,
coerência, organização, aí estará presente o caos. As filosofias todas
são leques ou sistemas, porém, separadas, independentes, estanques, e
por esta razão, antagônicas, exclusivistas quanto à posse da
46

verdade, e, por isto, briguentas.


O mal - eis o ponto - não reside na existência de sistemas
diferentes até à oposição, mas de eles não se acharem integrados ainda
na unidade maior ou arquisistema que, constituído, poria ordem no
caos. Achar o nexo que liga os sistemas todos na unidade, esse é o
trabalho que se impõe fazer. O caos reina até enquanto não vem a
codificação, a integração dos leques separados, antagônicos, discordes,
na unidade global.
Pensar é organizar idéias, dispô-las em hierarquia, arranjá-las
em unidade, em sistema. Como cada coisa se nos mostra como
unidade, como organização, em nosso espírito, o mundo se reflete como
é, como sistema. Daí que a filosofia é uma visão do mundo, da
qual se extrai uma norma de conduta. Se tal visão não confere
unidade (sistema); se cada faceta da realidade não se encaixa em
outra, em outra, em cadeia, em hierarquia, até uma generalização
(sistema), como guiar-nos em meio à congérie ou anarquia?
O animal se guia pelo instinto que o mantém acorrentado na linha
rígida do determinismo; mas o homem, como é forçosamente livre; livre,
queira ou não queira; livre até para fazer-se escravo; não poderá
guiar-se a não ser pela razão que lhe organiza a crença (sistema).
Que, logo, significa uma filosofia não-sistemática, sonho dos
pensadores existencialistas contemporâneos? Pois significa que tal
filosofia não conclui nada, não dá uma visão unitária do mundo, não
norteia ninguém, nem mesmo o pensador que se acha a construí-la.
Platão foi o primeiro filósofo não sistemático visto como seus
"Diálogos" sempre ficavam em aberto, dando a entender que o
pensamento dialético seu continuava, indefinidamente. Não concluindo
nada, sua doutrina não pode ser burocratizável nas normas e nas
instituições. Quando a Igreja precisou organizar o cristianismo em
termos filosóficos, preferiu Aristóteles a Platão. Não foi por motivos
lógicos, e sim, pedagógicos esta preferência, nota Huberto Rohden.
Escreve Gusdorf, não sem uma ponta de ironia: "O filósofo marcha
com o seu tempo, com os homens deste tempo. Deve afastar a tentação
de monopolizar a razão em seu proveito, à maneira de um mestre-
escola seguro de seu saber no meio de criancinhas às quais
ensinasse um catecismo de sua fabricação".
Se "o filósofo marcha com o seu tempo, com os homens deste
tempo", quem antecipará o futuro com planejamentos? As filosofias têm
sido sempre, certas ou erradas, antecipações do tempo, antenas da
história que sondam e criam o porvir. Se o pensador tiver por missão,
andar lado a lado com o rebanho humano que não sabe para onde ir; se
sua missão for só fazer bonitos e substanciosos ensaios da situação
presente, sem concluir nada, sem sintetizar nada, quem apontará o
47

rumo a ser seguido péla história? Acaso, terá esta, eternamente, de


seguir a esmo o seu caminho, desenvolvendo-se pelo método do
ensaio-e-erro animal, como sempre o foi no passado? Se o homem
tem que se fazer mais humano, superando-se a si mesmo, é preciso que
alguém, antecipando-se às massas, mostre o que é ser mais humano,
como fazê-lo e por que deve o homem humanizar-se, o que só é
possível em função de um Horizonte luminoso, transcendente, de um
Rumo. Em outras palavras, Gusdorf aconselha ao filósofo deixar de sê-
lo para transformar-se em elemento do rebanho como todos...
Aconselha nada menos, que o pensador se contente apenas com ser
professor de filosofia, analista de situações dadas, ensaísta, crítico,
evitando, por todos os meios, emitir sua opinião, a pretexto de que a
verdade não pertence a ninguém, não adiantando nada correr atrás
dela, visto que ela, arisca, esquiva, nos foge sempre do alcance da
mão, embuçando-se nas brumas do horizonte longínquo que nos cerca
por todos os lados...
Como poderá um homem dar seu testemunho da verdade, se
acreditar que ela, toda quanta, é relativa, que os sistemas são
prisões, que o edifício da verdade e o dos valores têm que ser revistos e
refeitos de contínuo, pelo que os andaimes das construções devem ficar
onde estão ad perpetuam? Seriam, acaso, os andaimes, mais
importantes e perenes que a obra? Quem teria esperança de morar,
ainda que por pouco tempo, na casa cuja construção nunca termina,
porque o engenheiro, mudando, sempre a planta, ordena aos
edificadores a derribarem o feito, a fim de o refazer de outro modo, e,
logo refeito, logo é demolido, assemelhando-se a filosofia ao inútil
trabalho de Sisifo ou à tela de Penélope?
Querendo, Gusdorf, reduzir a metafísica à antropologia, escreve:
"Idêntica conclusão se impõe em toda a parte: a consistência dos
conceitos metafísicos não é afiançada senão graças à ignorância,
consciente ou não, da realidade humana, e a metafísica só se
salva, se esquecer o seu objeto”. Os destaques são nossos.
Ora bem: o objeto da metafísica é o ser; esquecer o seu objeto,
é esquecer o ser. Este objeto, por sua natureza infinita, não é definível,
delimitável, conceituável, pelo que a metafísica não é ciência. Porém,
se a metafísica não se ocupar do seu objeto, ocupar-se-á de que?
do homem? Mas, então, ela vira antropologia; neste caso, o objeto da
metafísica fica sendo o homem. Que nome, logo, se deve dar ao estudo
que consiste em procurar a eterna Referência humana, o ser de que o
homem se deriva, visto como este não se basta a si mesmo? E
acrescenta Gusdorf ao dito anterior, mostrando como deve proceder o
metafísico. Diz:
"Por conseguinte, muito dificilmente consegue o homem prescindir
48

verdadeiramente de Deus, isto é, repudiar toda vocação à


transcendência e toda nostalgia da totalidade. Parece que a
existência humana não pode verdadeiramente aceitar-se sem uma
forma ou outra de justificação, e toda justificação da existência
ultrapassa a existência. A referência à divindade serve de fundamento
a uma obediência neste mundo, e conduz a configurações positivas e
claramente apreensíveis na experiência concreta. Por isso o metafísico,
em vez de perder o tempo especulando sobre a natureza e atributos de
Deus, deve interessar-se pelas repercussões da afirmação teológica no
humano. A atividade de cada homem é o espelho onde se reflete, de
modo mais ou menos fiel, a resolução previamente tomada de sua
atitude em face da transcendência".
Se "o metafísico, em vez de perder o tempo especulando sobre a
natureza e atributos de Deus, deve interessar-se pelas repercussões
da afirmação teológica no humano", então, qual é o trabalho do
antropólogo? Ora, as intuições dos místicos dão azo às revelações; os
teólogos fazem fundamento nas falas confusas dos místicos, sobre o
que erigem as suas sistematizações; e as massas humanas seguem,
em rebanho, os teólogos, os pastores, pelo que a religião se torna
ação social, cristalizando-se nas instituições. Agora é, então, como
quer Gusdorf, que aparece o filósofo para joeirar nesta seara de
confusões dos místicos e dos teólogos? Acaso também as religiões não
são sistemas tão prejudiciais, quanto os da filosofia, porque não
integrados ainda? Contudo, se os filósofos se ocuparem de desenvolver
suas próprias intuições que não diferem das dos místicos, quanto à
tomada do Ser, portanto, de especular sobre a natureza e atributos de
Deus, igualmente podem, por sua vez, nortear a mente e a conduta
humanas, guiando, em parte, a história, não deixando que ela seja
escrita só pelos místicos, pelos teólogos e pelos ínscios políticos e
tecnólogos.
De um lado, como vimos, o prejuízo dos sistemas, por causa de
eles, antagônicos, estarem em guerra entre si, cada um se propondo a
ser dono exclusivo da verdade. De outro lado, a impossibilidade de uma
filosofia não sistemática, que não conclui nada, que não forma
unidade de idéias, que não orienta ninguém, que se propõe a construir
uma casa em que, nunca, ninguém pode morar, ainda que por pouco
tempo. Também as constituições de um país se sucedem no tempo, não
havendo nenhuma que perdure para sempre. Então, seria o caso de
formar-se uma comissão para estudar e redigir uma constituição que
nunca termine, a pretexto de que não adianta acabá-la, porque logo
será modificada. Como as constituições, também as leis se mudam,
donde vem que não se devem promulgá-las. Como resolver o problema?
Pois não há de ser de outro modo que não seja criar o arqui-
49

sistema, no qual se agasalhem todos os sistemas. Dir-se-á impossível


esta empresa, porque os sistemas se excluem por oposição, por
antagonismo; mas atentemos: toda unidade, sem exceção, se compõe
de duas outras unidades menores, opostas, antagônicas, que brigam
entre si, até enquanto não se integram na unidade-maior. É natural o
conflito dos opostos, visto como cada unidade luta por achar na
contrária aquilo que lhe falta, e com a qual se complete na síntese
da unidade hierarquicamente superior. Elétrons e prótons lutaram entre
si, no seio do antigo caos, para que se formassem os átomos; estes, se
polarizam, eletricamente, para prosseguir a guerra, até que se
formem as moléculas, e, assim por diante, nunca, ninguém viu
iguais se unirem em organismo, e, se o fazem, é só para formar o
aglomerado mecânico, homogêneo, da quantidade, nunca, porém, da
qualidade. Só o qualificado, diferenciado, se arregimenta na unidade,
entra na hierarquia, e, ainda que pequeno, vale mais que o grande,
quando este é homogêneo, indiferenciado. A ciência que pode
submeter a fórmulas matemáticas parte do universo físico, de vasta
dimensão, foi barrada em seu intento de formular, quando pretendeu
fazer o mesmo com a vida, com o homem. Porque o universo físico,
embora imensurável, é mais simples, mantendo-se no sopé da hierarquia
da vida, do instinto, da consciência, sobre os quais o homem se levanta,
e se sublima.
O mundo não pode mais, por muito tempo, ficar perdido na
confusão de vozes, ou de sons instrumentais. Cumpre surgir um regente
que dê início à nova Sinfonia, que faça cantar o Coral. Todos os
filósofos têm sua razão, e sistema nenhum constitui erro total.
Integrar todas as razões numa só razão geral, nisto se cifra o
esforço do filósofo do amanhã. Todavia, tal arqui-sistema que é a
síntese das filosofias, por sua própria natureza, não é um Sistema
fechado, exclusivista, intransigente, que, se o fosse, não daria
razão a ninguém, não toleraria o diálogo franco, democrático. Não,
pois, um Sistema fechado, mas, aberto... às especulações futuras
que devem revisá-lo, corrigí-lo, enriquecê-lo; não, uma circunferência,
porém, uma espiral.
O próprio Allan Kardec que pregava a necessidade de uma
filosofia isenta do espírito de sistema, ao codificar a Doutrina Espírita,
organizou-a, unificou-a como sistema. Reuniu ele as peças do
quebra-cabeça (fenômenos espíritas) no leque da Doutrina. Seu
sistema escatológico desde a origem, não pode deixar de ingerir no
campo filosófico, onde, ele e os Espíritos deixaram, também, Doutrina
formulada. A não ser assim, então, não organizou nada, não
sistematizou coisa nenhuma, e os fenômenos espíritas, e a filosofia que
os interpreta, continuam, ainda, no mesmo caos ininteligível de antes.
50

Agarrando-se, porém, os espíritas, entre eles, um nosso crítico, à


frase de Kardec, segundo a qual a filosofia deve isentar-se do
espírito de sistema, não reparam que seu próprio mestre
sistematizou. Só ele, Kardec, podia por norma, organizar a congérie
fenomênica no Código unitário; quanto aos outros, é para fazerem
filosofia não conclusiva, não unificada, que fique em suspenso, isto é,
isenta do espírito de sistema. Não põem tento em que Kardec pretendeu
formular sua Doutrina, de parceria com os Espíritos, em sistema
aberto, e, com isto, tornou-a suscetível de ser revista e corrigida até
mesmo no que diz respeito ao seu anti-sistematismo, visto como
(não o sabia Kardec) o anti-sistema é o outro nome do caos. Mas
aferrados ao que o magister dixit, fizeram da revelação dos Espíritos
dogmas de fé, e, com isto, se tornaram surdos, solipsistas, não
admitindo pudesse "O Livro dos Espíritos", já não se diga ser revisto
e corrigido, mas, nem mesmo, comentado de modo diferente de como já
o fizeram as "autoridades" (teologos?), porque, como vozeiam, essa
obra é inexpugnável. A Bíblia - os crendeirões repetem entre si - é
uma bigorna que tem quebrado muitos martelos; sê-lo-ia, também, "O
Livro dos Espíritos"?
Pois bem: "O Livro dos Espíritos" admite a evolução; não,
todavia, a involução, pelo menos de modo explícito; lá está a
involução, mas de modo implícito, e ninguém o enxergou. Claramente
fala do Caos como começo de tudo, porém, não explicita como, de
que, por que, por quem e quando se originou o Caos. Alguns exegetas
afirmam, baseados em si mesmos, que a centelha divina desceu do
alto, e dela se formou o Caos; acrescentam, no entanto, que tal
centelha ou emanação divina era inconsciente. Dado que o fosse,
perguntamos: era organizada, ou não? Se nos disserem: era
organizada, suspeitam logo a dificuldade de como o orgânico, vindo de
Deus, foi desorganizar-se, tornando-se no Caos! Se disserem que era já
inorgânica a tal emanação ou centelha divina, caem nesta outra
ponta do argumento bicórneo ou cornuto: então, o inorgânico, o
inorganizado, o Caos, já se achava no seio de Deus? Contudo, se,
modestamente, disserem: não o sabemos; neste caso, cabe perguntar--
lhes: e como sabem que a origem primeira de tudo esteve numa
centelha divina inconsciente que, descendo do alto, deu origem ao
Caos de que saiu o universo? Porque, se não for explicado isto, Deus
fica culpado pela existência do Caos, da ignorância, da injustiça e
do sofrimento no mundo. Ora, toda filosofia se encaminha a ser uma
teodicéia que quer dizer justiça de Deus.
Não vale a ironia de Maritain quando diz, da "Teodicéia" de
Leibniz, que "este nome é duplamente mal escolhido: primeiramente,
porque a Providência de Deus não tem necessidade de ser "justificada"
51

pelos filósofos; em seguida, porque as questões que tratam da


Providência e do problema do mal não são as únicas nem as mais
importantes do que a teologia natural tenha de se ocupar". Não é Deus
que precisa da justificação dos homens, e, sim, os próprios homens que
precisam, para si, justificar Deus; nossa justificação não é, pois, para
o uso dele, senão para o nosso próprio uso; esta justificação é feita
para atender à necessidade humana, que não à divina. Porque, se
foi Deus que criou o mundo mau, como pode ele ser bom? Em
segundo lugar, as questões que tratam da Providência e do problema
do mal, da injustiça, da dor, não são, de fato, as únicas, porém, são
as mais importantes, sim, senhor Maritain, tratadas pela teologia
natural, uma vez que, das soluções dadas a estes problemas,
decorrem as soluções dos outros, quaisquer, que possam vir. Deus é
bom ...; o mundo é mau ...; e Deus criou o mundo, tirando-o do Caos...,
por Evolução!... Que filosofia é a espírita, que não justifica a
existência do Caos em face de Deus?
Esta é .a causa por que o Espiritismo se impossibilitou para fazer a
síntese das filosofias, e ainda, o casamento entre ciência e religião,
conforme fora o sonho de Kardec. Não resolveu ele o problema mais
cruciante de todos, que é o de saber quem é o culpado remoto pelas
dores e misérias do mundo, uma vez que o homem não pediu para ser
criado feliz..., e muito menos, desgraçado, a partir do Caos, nem
explica como o que é divino foi tornar-se Caos que é a negação, ponto
por ponto, do que Deus tem de ser.
Não reparou Kardec, nem os sectários seus, que o ser
sistemático é próprio daquele que tudo enxerga em totalidade; que isto
é característica do filósofo, que não, da maioria dos homens. Qualquer
um pode ser professor de filosofia, mero repetidor dos compêndios;
não pode, todavia, ser pensador, isto é, aquele que faz de sua vida
um perene exercício de pensar... em termos de totalidade.
E para que não se diga que nisto estamos só, leiamos em
Toynbee aquilo que fez dele um dos maiores historiadores
contemporâneos: "Devi meu sucesso à instrução altamente
inteligente que recebi em Wootton Court de um dos assistentes, H.
J. Haselfoot. Ensinou-me a pensar por mim mesmo". Mais: "Recusei-me
a ser encurralado dentro de um campo de conhecimentos
arbitrariamente delimitado. O Sr. Haselfoot salvou-me disso, ensinando-
me, uma vez por todas, a considerar um problema em totalidade".
Ainda: "A "totalidade" era a chave de sua grandeza (de Smuts),
assim como o era a da de Einstein. Einstein fez suas descobertas que
marcaram época reunindo coisas que espíritos menores tinham deixado
separadas. Sir Winston Churchill é outro grande homem do mesmo filão
não-moderno. A ampliação de vistas destes três grandes homens é
52

um elo entre si que transcende as diferenças de suas personalidades e


suas carreiras. Todos três ter-se-iam sentido à vontade se tivessem
nascido no mundo de Políbio, Catão, o Censor e Arquimedes". Ainda
isto: "Tal como o filósofo da história islâmica do século XIV Ibn
Khaldum, e o filósofo ocidental da história do século XVIII Vico,
Freeman tinha o dom de "ver o mundo em um grão de areia".
Se, pois, não existissem as mentes talhadas a enxergar tudo em
termos de totalidade, o homem não teria ainda saído da barbárie
mais hedionda, visto como, neste caso, não se podiam ter criado as
religiões, todas tendentes a domar o "porcus bipedus", a negar a
animalidade natural, substituindo-a pelo humanismo sobrenatural. As
religiões, no entanto, uma vez tornadas instituições sociais, fecham-se
em sistemas exclusivistas, intransigentes, intolerantes, decorrendo
disto, todos os genocídios registrados ou não pela história.
Entretanto, assim como os vários deuses dos diversos povos,
animistas primeiro, e politeístas depois, se juntaram na síntese do Deus
único, cuja promoção se foi melhorando através dos tempos, assim
também os sistemas filosóficos todos terão de encontrar seu
denominador comum no meta-sistema que a todos integra na unidade.
Os sistemas produzem males, porque não se acham integrados no
sistema-mor que não pode consistir na visão, embora totalizante, de
aspectos isolados ou parcelas da verdade. De um plano superior,
cumpre enxergar todos os sistemas, cada um possuidor duma porção
totalizada da verdade, e procurar, nessa visão de conjunto, por quais
entalhes os sistemas se coligam num organismo único. Ver-se-á,
então, jubilosamente, que todos os filósofos estiveram a falar da
mesma coisa, por linguagens diferentes.
Esta é a promoção máxima do Ser, de Deus; porém, promoção não
é senhorio, não é posse, e sim, apenas, reconhecimento, constatação,
tornada do Ser. Coerente com isto, diz Gusdorf "A consciência nunca
abarca a totalidade da estrutura que ela promove". É assim que
promover não é abarcar, como falar a respeito de alguma coisa, não é
dizer o que ela é. Nenhuma promoção será maior do que a intuição
global que vê-sentindo aquela UNIDADE em que todas as hierarquias,
todas, sem exceção, se reúnem. E se com o andar dos tempos vier a
descobrir-se algo absolutamente novo, inédito, essa ignota hierarquia
nada mais será que nova pirâmide a encher consigo o corpo da
esfera-pinha. Como a consciência não pode abarcar aquilo mesmo
que promove, o Absoluto Total ser-nos-á sempre o Rumo a ser
seguido em nossa jornada de volta para Deus. Eis, pois, como Deus se
nos mostra como o Ultra-Horizonte, para uso do pensamento e dos
valores, e é em função dele que todas as demais realidades se situam.
O homem pode falar a respeito de Deus, promovendo-o para além da
53

concepção humana, do mesmo modo que fala do Sol e do núcleo


atômico; no entanto, não pode dizer o que são Deus, o Sol e o próton.
A conciliação entre fé e razão não pode ser feita de modo
direto, porque, se a fé se funda na razão, a fé é ciência; pelo
contrário, se a razão se alicerça na fé, tal razão é exegese mística,
e teologia; sua dialética ou cadeia de argumentos lógicos serve só
para dilucidar um ponto de fé. A conciliação se faz pelo conhecimento
de que Deus é Essência e Substância a um tempo, como qualquer
objeto real, sem nenhuma exceção. E Deus, como Substância é o Amor.
O Amor, logo, é a Energia-Substância primordial que os filósofos
préparmenídicos procuravam, de que tudo se fez. "Não há mais que uma
só matéria-prima; / pode variar de consistência e formas, / e em
diferentes graus alcançar vida / nos entes que a viver são destinados. /
Quanto eles mais do Eterno se aproximam, / ou quanto mais a aproximá-
lo tendem, / tanto mais se refinam, mais se apuram: / cada um gira na
esfera que lhe é própria / té que o corpo em espírito se muda / nos
termos às espécies designados" (Paraíso Perdido – Milton).
Não, fé ou sugestão, ou aceitação duma idéia com base no
princípio de autoridade, mas o amor, como experiência vivida do
princípio de integração (eros), isto é, como sentimento e vivência. Aí,
então, Deus que é suprarracional, ou intuitivo, ou consciencialmente
volumétrico, e está inextricavelmente ligado à sua Substância-Amor,
pode dar-se ao homem como Rumo a ser seguido, procurando este, o
homem, identificar-se, cada vez mais, com a natureza do Rumo. A
Grande Realidade da qual todas as demais decorrem, que se oculta
por detrás do Horizonte longínquo, não pode ser buscada só com a
razão, porque ela não é só Essência, Essência pura, como pensavam
os gregos, mas, também, com o coração; porque ela é a Substância-
Amor. Neste empreendimento, o homem tem de agir como um todo
em que entrem suas mais egrégias conquistas morais, estéticas, éticas,
volitivas, racionais e axiológicas. Ser sábio e amoroso, ou gênio e
santo, eis o fim do homem.
Igualmente, o objetivo da civilização é criar uma comunidade de
sábios e de santos sobre a Terra. A fé e a razão que se excluem,
como opostos, só podem ligar-se graças a um denominador comum que
é o amor. Ver-se-á, então, que a inteligência busca o nexo (eros); a
fé busca a união, a conexão com Deus (religare); daí que razão e fé
buscam uma e a mesma coisa - eros, amor. Neste alto nível, o ponto de
coincidência entre os opostos razão e fé, é o amor, porque este
participa da fé como sentimento, e o mais excelso; e também o
amor participa da razão, por ser, como ela, unitivo, conectivo,
buscando um e outro, razão e amor, o nexo que unifica e integra. Fale
Gusdorf:
54

"Tudo leva a crer, escrevia o teórico surrealista André Breton,


que existe um certo ponto no espírito, desde o qual deixam de ser
percebidos contraditoriamente a vida e a morte, o real e o imaginário, o
passado e o futuro, o comunicável e o incomunicável, o alto e o baixo
(...) Em vão se procura descobrir para a atividade surrealista outro móbil
que não seja a esperança de poder vir a determinar esse ponto". E
comenta Gusdorf, dizendo que esse ponto procurado no espírito por
André Breton, é o mesmo que os teólogos dão o nome de coincidentia
oppositorum, reconhecido, por eles, como sendo um dos atributos da
divindade.
Esse ponto de coincidência de oposições (coincidentia
oppositorum), que os teólogos dão como sendo um atributo da
divindade, e que André Breton supõe achar-se no espírito, é aquele
que nunca deveria ter sido bisseccionado na coisa pelos dois filósofos
extremos, parentéticos, da filosofia - Heráclito e Parmênides. Porque
Heráclito termina a cadeia dos filósofos substancialistas que
tentavam responder à pergunta: quem existe? Buscavam estes uma
substância primária, fundamental por excelência, da qual tudo o
mais apareceu, depois, por transformação. Todavia, Parmênides, em
vez de responder a questão proposta: quem existe (temporal),
respondeu a pergunta não formulada: quem é?
Cometeu-se, aqui, o pecado original da filosofia, e a fixação do
Ser, por Parmênides, durou até nossos dias. No entanto, qualquer objeto
é-nos dado como um todo constituído de essência e de substância,
sendo esta a primeira e mais fundamental coincidentia oppositorum
que não está longe, mas perto; que não se situa nas alturas
inacessíveis somente, em Deus, como também, aqui, ao alcance da
mão, em qualquer objeto; não só no passado mundo grego, porém,
agora e no futuro, para sempre.
Quando um objeto se espelha em nosso mundo psíquico, subjetivo,
como imagem, não vem separado em seus dois aspectos essência
e substância, e sim, se nos dá como totalidade numa já
coincidência de oposições. Daí que ninguém consegue transmitir o
conhecimento de uma coisa a outrem que não tenha tido nenhuma
experiência ou vivência dessa coisa, ou de outra semelhante. E assim
como cada um tem suas experiências das coisas, todos têm a
experiência do mundo como totalidade. A experiência totalizante do
mundo (intuição), todo mundo a tem, como base de sua crença...,
esta que é inseparável do indivíduo. O homem é a sua crença (Ortega),
e age em função dela, e, se acontece não possuir convicção
nenhuma, fica impedido de agir, de escolher, de decidir-se em meio
à congérie do mundo. Quem escolhe, quem se decide por um caminho,
não o faz a esmo, mas, impelido por sua crença que lhe segreda, no
55

íntimo, ser correto o que intenta fazer. Como o mundo é feito de coisas
que são unidades formadas do dualismo essência e substância, a
física e a metafisica já vêm ligadas desde a origem; já vem realizada a
coincidentia oppositorum desde sempre, a qual, depois, o homem
separou. Aqui, também, "não separe o homem o que Deus ajuntou", ou
melhor: o que Deus criou unidos. O ter separado o casal conteúdo e
forma, essência e substância constituiu o crime de lesa-natureza
pelo qual o homem paga hoje.
A chave, portanto, que os teólogos procuram em Deus, e André
Breton, no espírito, perdeu-se no ano 520-530 a. C., pelos dois homens
que, como parêntesis da filosofia nascente (Ortega) viveram nos dois
extremos opostos do mundo grego, Eléa e Éfeso.
Conta-se que, certa feita, na China, um discípulo perguntou a seu
mestre qual a diferença entre o sábio e o ignorante. Nenhuma,
respondeu o mestre; e acrescentou: a diferença que existe, não é entre
o sábio e o ignorante, e sim, entre um e outro e o homem comum. O
ignorante olha para uma montanha, e a enxerga montanha; para uma
árvore, e a sabe árvore; para um lago, e o tem por lago. Já o homem
comum que cursa escolas e se diploma nas universidades, diz que a
montanha não é montanha, que a árvore não é árvore, e que o lago
não é lago. Tudo o que era antes puro e simples, passa a ser intrincado
e complexo depois. Porém, sábio é todo aquele que, prosseguindo a
meditar, juntou o disjuntado, percebeu a hierarquia do universo
acima e abaixo de si, enxergou a perspectiva das coisas a partir de
sua situação, e sabe havê-las infinitas, organizou a unidade do
mundo para si. Esse olha para a montanha, e a enxerga montanha;
para uma árvore, e a sabe árvore; para um lago, e o tem por lago. De
maneira, conclui o mestre, que a diferença não está entre o sábio e o
ignorante, mas entre ambos e o homem comum que, não sendo mais
ignorante, não chegou ainda a ser sábio.
Aquela junção do primitivo e da criança entre o eu, o corpo e o
mundo, que o racionalismo disjuntou, cumpre ao sábio juntar de novo,
com que a sabedoria fica sendo um como animismo superior, tal como
o sentem o poeta, o místico e o sábio. Daí que o poeta faz também
falarem as coisas, e São Francisco de Assis chamava ao lobo de
irmão lobo, à serpente, de irmã cobra, e ao próprio corpo de irmão
corpo. Quem chama ao próprio corpo de irmão corpo, por certo, não
admite antagonismo, inimizade e luta entre o espírito e a matéria, entre
o eu e o mundo, nele já se tendo realizado a coincidentia
oppositorum.
Envergonha-se, Plotino, de estar enfrascado num corpo o qual
nunca deixou fosse pintado, porque, como afirmava, isso seria fazer
perpetuar-se uma sombra, uma irrealidade. Anaxarco, caído em
56

desgraça, por ofender a um tirano, teve como pena ser triturado até a
morte. Em meio ao seu martírio, bradava: "não é a pessoa de
Anaxarco, e sim, só o corpo de Anaxarco que trituras!" Para fazê-lo
calar-se, manda o tirano que lhe cortem a língua. Ele, porém,
decepando-a com os dentes, atirou-a à cara do algoz. O estóico
Epicteto, escravo de um senhor desumano, bradava, ao tempo em que o
amo lhe torcia o braço: "Se apertares mais, quebras-me o braço!"
Até que o braço se partiu, e ele concluiu, vitorioso: "Eu não disse
que se quebraria?" Brava e linda prova da inviolabilidade da pessoa,
da filosofia! Não pode nada o bruto contra o espírito liberto! Explêndida
imagem da inviolabilidade filosófica.
No entanto, não se pensava então, que, sem o corpo, não se tem
acesso ao mundo. Porém, para que mundo?, se a este também se
desprezava, como irrealidade, como sombra, como não-ser?, visto
como o real era apenas o inteligível, e não, o sensível? A
agressividade contra o mundo, por causa de existir nele o sofrimento, a
injustiça, estendeu-se ao próprio corpo que também é mundo, daqui se
projetando contra Deus, autor de tudo, e, por isto, responsável pelo
mundo e pelo homem. Schopenhauer, então, anseia pelo
aniquilamento, como sumo bem, e Buda não lhe fica atrás com seu
Nirvana. Nietzsche e Sartre assentam que não há Deus; e, se houvesse,
Deus seria o próprio homem. Nietzsche sonha, então, com o super-
homem que retorna ao bruto, ao instituir sua moral negativa da força
e da astúcia, ou ambas num tempo. Sartre, contudo, "mais generoso",
reconhece e concede o mesmo direito de ser deus, a qualquer outro
homem ou próximo. Só que, porque não pode fazer-se super-homem
para obrigar os outros homens a se ajoelharem à sua frente, tem gana
de matá-los a todos. No entanto, caindo em si, conclui que, matar os
outros, não os impede de que tenham existido, e, a não poder matar
também a essa memória odiosa, repulsiva, então, idealmente, fere o
golpe contra o próprio peito, e morre. A não poder ser deus sozinho,
prefere a morte, o nada, o não-ser. Este é o destino - a morte - de
querer ser deus, seja para Sartre, seja para Nietzsche, seja para
Satanás. Nestes casos, a morte resultou dum erro de perspectiva, de
não saber situar-se entre as coisas, na hierarquia do universo.
Gusdorf; citando Barth, afirma que "só Deus pode falar de
Deus". Ora bem: "Se só Deus pode falar de Deus", cabe perguntar:
falar a quem e por quem? Deus não pode falar aos homens de um
modo direto, e, sim, só indiretamente, através de suas obras, como o
entendia o salmista: "Os céus proclamam a glória de Deus, e o
firmamento anuncia as obras de suas mãos" (Ps. 19, 1). Daí que
também Pascal, para onde quer que olhasse, encontrava Deus. Sua
intuição, de estalo, remontava a todo o instante, da coisa vista, à
57

Referência absoluta. Em toda obra, Deus deixou a sua assinatura, direta


ou indiretamente. Todavia, nisto, Deus sofre uma redução, porque
manifestar glória e apresentar obras, não é mostrar, inteiro, o grande
Sujeito da glória e da operatividade. Contra Davi e Pascal, no entanto,
que olham ao longe, ao largo, estarão Nietzsche e Schopenhauer (e o
próprio Pascal... quando olha ao perto) para os quais a vida é uma
lanterna mágica, pois, ao lado da harmonia e beleza, mostra a mais
horrenda fealdade amoral, própria de uma vida madrasta, egoísta, que,
invariavelmente, confere a palma da vitória aos mais fortes e aos mais
astutos. Se Deus criou a vida, e tal vida, que pensar dele? Fora isto, o
Deus que se revela aos homens, o faz também através de homens,
como o foram Moisés, Davi, Cristo, Pascal, Schopenhauer e Nietzsche.
Para pôr fim a esta dificuldade, os teólogos fizeram de Cristo um
deus, ficando, deste modo, solucionada a questão: agora Deus pode
falar de Deus... e um contar para o outro, o que este ainda não sabe (?)
Suposto que Cristo é um deus, para falar a homens, teve de empregar a
linguagem de homens, obrigando-se a permanecer nos limites humanos,
se quisesse, como quis, ser compreendido. Contudo, um deus que
desce tanto, que tanto se apouca, cessa de ser deus, para tornar-se
homem. No entanto, para saber-se se Cristo era deus, nenhuma
autoridade é maior que ele próprio; e em nenhum lugar ele declarou-se
deus, e sim, apenas, Filho de Deus (João 10, 36). E quando se
pretendeu que ele fosse havido por um deus, sua resposta foi, aos que
propunham a questão, que eles também eram deuses: "Sois deuses"
(João 10, 34). Então fica entendido: se Cristo é um deus, nós também o
somos; se não o somos, ele também não o é. Se não é deus, então é
homem, posto que genial, santificado, amoroso, sábio. "Se só Deus
pode falar de Deus", tornamos a perguntar: falar a quem e por
quem?
Digamos que seja falar aos homens pelos profetas dos quais
Cristo é o maior. Ora, o profeta é um sensitivo intuitivo (consciência
volumétrica), inspirado por idéias suprarracionais. Para reduzir o que é
volume consciencial ao planimétrico da razão, próprio do homem
comum, outra vez, isso só será possível por apoucamento, pelo que a
fala de Deus desce de potência, fica enfraquecida, relativizada na fala
humana. Assim como o poeta tem uma sensibilidade especial para ver
a harmonia e beleza nas coisas mais simples, o filósofo possui igual
sensibilidade, só que para enxergar a totalidade nas coisas, ou seja,
"ver o universo num grão de areia". Ou o homem pode falar de Deus,
quer dizer, falar a respeito de Deus, do que ele sente ser Deus, do que
ele entende de Deus, sem afirmar que ele é, ou Deus também fica
impedido de falar ao homem.
E não poderia Deus falar de si a um seu igual, porque não há
58

esse igual. Só pode falar de si consigo, em monólogo, solilóquio, em


puro solipsismo, que é ocupar-se de "pensar pensamentos", conforme o
entendia Aristóteles. Se Deus não pode falar de si ao homem, nem
por suas obras, linguagem do Ser, então, toda a revelação é fala
humana levada a conta de divina. Todavia, se pode falar de si por
suas obras ao sensitivo da totalidade, feito o contato, a sintonia,
achado o denominador comum da palavra, da linguagem muda do Ser
traduzida para a linguagem humana, neste ponto, Deus se revela ou se
desvela, e o homem também pode falar de Deus.
Deus não é Essência pura... sem matéria alguma, como o
entendiam Aristóteles, todos os escolásticos, e ainda todos os idealistas
modernos, que, se o fosse, seria pura idéia, pura abstração, apenas
ficção, existente só na mente do homem, sem objetividade, sem
realidade exterior. Acaso é isto difícil de entender? Ele não é Essência
pura, senão também Substância-Amor. Não é ele um puro Ente de
razão, e sim, também, um Ente existencial, substancial, real de
verdade, objetivo. Para apreendê-lo, pois, no nível e dentro dos
limites do humano, uma vez que em todos os níveis ele está presente,
o homem terá de empregar-se a si mesmo como um todo em que
entrem sua razão, sua vontade, sua sensibilidade estética,
axiológica e de totalidade, seus sentimentos todos mais egrégios,
sobretudo, destes, o mais excelso que é o amor.
Desde quando, com Parmênides, a filosofia praticou a ruptura
entre essência e existência, entre ser e substância, tomando, como
real, só o ser de razão, a essência pura, imaculada de mundo, tudo,
inclusive a ciência de Deus, ficou reduzido a meio saber. Procurava-se,
nos primórdios, até Heráclito, quem existe, e, de Parmênides em diante,
respondeu-se, não à pergunta, quem existe?, mas, quem é?
Ora bem: a essência se opõe à existência, como tese e antítese,
como partes oponentes e complementares de todas as coisas, sem
nenhuma exceção. Ambas, forma e conteúdo, são irredutíveis entre si,
mas de cujo casamento in-dis-so-lúvel, i-nex-tri-cá-vel, surge a
síntese do objeto real, da coisa como realidade objetiva no mundo
objetivo. Esta verdade inconteste, inexorável, aplacadora, vale
também para Deus. Por causa deste pecado original da filosofia, ou
seja, o de separar, e tomar por real a essência que, por sua natureza, é
i-de-al, nunca mais foi possível tirar Deus do imobilismo parmenídico,
tornando impraticável conciliar filosofia e religião, embora o objeto da
razão seja o mesmo do da fé... que a teologia, em vão, tenta aclarar.
Não mais "credo quis absurdum", mas, creio por ser suprarracional,
dado que a razão não pode ultrapassar os seus próprios
fundamentos intuitivos que hão de ser aceitos de fé..., e isto, não só
para a religião, como, também, para a filosofia, para as ciências e
59

para as matemáticas.
Fora esta, há outra razão: o que é suprarracional, nem por isto é
absurdo, porque o absurdo está nos domínios em que pontifica a razão;
absurdo é o ilógico, o contrário à razão, ao bom senso, no passo que o
suprarracional simplesmente é tudo o que, tendo visos de verdade
(intuição), se acha fora da jurisdição da racionalidade. Hajam vista o
amor, a vontade, os sentimentos todos, a intuição, a vida, que, embora
irredutíveis a princípios de razão, embora ininteligíveis, não são
absurdos. Onde não alcança a razão, alcança a fé que não passa de
um sentir ininteligível da verdade, de um dado imediato e primário da
consciência.
Não há pensamento sem o pré-refletido das imagens carreadas ao
espírito pelos sentidos... sentidos que sentem o sensível. O sentir
está antes e depois do pensar, quer dizer: está no pré-refletido das
imagens, e na intuição suprarracional, pejada, toda quanta, de
jubilosa emoção, de êxtase supremo. "Alegria, alegria, lágrimas de
alegria!", tal foi a nota encontrada, cosida às vestes de Pascal, quan-
do lhe foram trocar o cadáver. Ora, as experiências do místico, e tal
místico, não são absurdas, embora possam ser tidas por "irracio-
nais". É de Pascal a frase de que "o coração tem razões que a razão
não alcança".
Recapitulando: cada sistema isolado se nos afigura como uma
pirâmide de base hexagonal, como os alvéolos dos favos das abelhas; a
altura da pirâmide é aquela que permita juntá-las todas pelos seus
vértices no centro duma pinha ou esfera. Portanto, a altura da pirâmide
é igual ao raio da esfera. Vista por fora, tal pinha assemelhar-se-á a
uma bola de futebol, dessas cujo envoltório de couro é formado por
hexágonos e pentágonos cosidos entre si pelos bordos. Doze
pentágonos e vinte hexágonos, por nós contados, enchem a superfície de
uma bola normal de futebol. Essa pinha é a síntese total formada por
todos os sistemas-pirâmides particulares que se integram na unidade
representada pelo ponto que une todos os vértices. Nesta figura
imaginária, ideal apenas, todos os vértices das pirâmides se reúnem
num ponto comum, no centro da pinha. Esse ponto é o Absoluto
supremo, o Deus-Uno, como Essência pura, portanto, sem realidade
existencial, sem objetividade, por consistir em pura idealidade, subjetiva.
Não sendo Deus, porém, pura idéia, forma pura, sem conteúdo, temos
que ele, como Substância, enche consigo o espaço infinito, dentro e fora
do universo físico, este que é finito e curvo.
Aquela pinha que intuímos é ilimitada, e toda quanta constitui o
Deus-Essência-Lei. Como ilimitada, nossa razão não pode abarcá-Ia;
então é que recortamos, dentro da infinita, uma pinha menor, agora
abarcável pela inteligência. Ambas pinhas, a infinita e a limitada,
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como se vê, têm seus centros coincidentes, e são semelhantes. No


centro está o Absoluto, punctiforme, que se abre para a base de cada
pirâmide, consequentemente, para a periferia da pinha, onde situa o
relativo, onde o princípio unitário do centro, se fragmenta em princípios
cada vez menores os quais ainda se filamentam mais e mais até
chegar aos casos particularíssimos da Lei, na periferia da esfera. A
ciência que fragmenta para analisar, vai na direção da periferia, para
os casos específicos da Lei que tudo rege desde o centro da pinha.
Esta pinha, não esquecer, é ideal, conceptiva, imaginária, sem
existência real, não indo além de simples recurso imagético de
expressão do pensamento.
Assim é como intuímos a Divindade: imaginariamente
punctiforme como Essência, por sua natureza inespacial, intemporal,
fixa, imutável, ideal, abstrata, e, infinita como Substância que, como
tal, é existencial, temporal, espacial, concreta, objetiva, real, enchendo,
consigo, o espaço-tempo absolutos.
Como Substância, portanto, a figura muda polarmente de
significação, passando a ser real, porque Deus, considerado como
Substância, sendo infinito, não pode ser punctiforme. A idéia de Deus-
Substância como foco central irradiativo de energia, o tornaria
prisioneiro de um ponto de máxima intensidade; ora, o infinito oceano
energético de intensidade igual, não pode expandir-se a partir de um
ponto irradiativo, ainda que esse ponto fosse muitas vezes maior que
o Sol. O centro da pinha é só ideal; más, se quisermos, esse centro
unitário se superpõe ao infinito periférico da Substância. Não é na
periferia ilimitada que a Substância se mostra como caos, e sim, no
centro do universo; é aqui que a Substância se fragmenta em
unidades cada vez menores até pulverizar-se no relativo onde imperam
os casos particulares da Lei. A Unidade suprema da Lei (o ponto
central da pinha) coincide com o Infinito-Substância, e não, com o
centro substancial do universo onde, outrora, esteve o caos mais inteiro.
A ciência que fragmenta, pulveriza, desintegra tudo para analisar,
só pode conhecer cada vez mais os casos particulares da Lei. Ao
proceder assim, ela se encaminha na direção do caos, até que o
encontra mesmo nas partículas subatômicas, na ocasional permuta de
gens entre cromossomos por ocasião da divisão-redução celular, no
movimento brauniano, que é quando começa a retirar-se a Lei, e a
imperar a incoerência, a indeterminação, o acaso. O rumo que leva à
Lei unitária que tudo integra na Unidade suma, não é esse em que
a Substância se pulveriza até o acaso ininteligível; é o oposto, isto
é, o que leva às unidades orgânicas cada vez maiores até o infinito.
Como idealidade subjetiva abstrata, como Essência pura
inespacial e intemporal, Deus está no centro, e o relativo, na periferia.
61

Como realidade substantiva, concreta, Deus se acha na periferia


infinita, e o Caos no centro. Os espíritos celestes que se inverteram por
terem trocado o amor no egoísmo, no ponto que se ia desintegrando
(porque o egoísmo dissocia), foram-se encaminhando para o centro
substancial em que, depois, se achou o Caos. Por isso é que a evolução,
partindo do Caos, do centro do Universo físico, se encaminha para a
periferia, subindo-se a planos de vida e de consciência cada vez mais
altos.
Tais planos interpenetram-se, mas não se interatuam, do mesmo
modo como as ondas hertzianas de freqüências diferentes podem ocupar
o mesmo lugar no espaço, sem sem interferirem. As energias se
individuam por freqüências, por comprimentos de ondas; as
inumeráveis espécies de matéria em que a substância se manifesta,
individuando-se por raios de curvatura.
Variando seu raio de curvatura, a matéria poderá subir ou descer
nos níveis do universo. A porção de matéria de um objeto, se
desencurvada, torna-se irrelevante em relação à matéria do nível em
que antes estava; daí que um espírito desencarnado, usando a energia
ectoplásmica de um médium, pode desencurvar a matéria do nosso
mundo, tornando-a, não só invisível para nós, como ainda pode fazê-la
atravessar as paredes de aço duma caixa forte, como atravessa um raio
de luz uma placa de vidro.
Um espírito excelso, querubínico, se o desejar, poderá descer,
atravessando todos os níveis da subastância que coexistem todas no
mesmo espaço, sem se sair do lugar. Modificando sua estrutura
vibratória, alterando o raio de curvatura de sua matéria perispiritual,
desce ou sobe (mas não em extensão, espacialmente), percorrendo tais
níveis, sem locomover-se do lugar. Daí que aparecem e se somem das
vistas daquele que, como nós, estiver prisioneiro de um dado nível de
existência. Variando o raio de curvatura da própria substância de que
são feitos, aparecem no nível que desejam visitar.
Quanto menos encurvada for a matéria, de raio de curvatura mais
longo, tanto mais será leve, rarefeita, quintessenciada, no rumo da
periferia; quanto mais encurvada, de raio de curvatura mais curto, mais
será densa, pesada, indo-se no rumo do centro do sistema a que se
refere. O mundo celeste situa-se na periferia, e o inferno mais completo
está entranhado no centro substancial, na prisão que tende a ser um
ponto. Segue-se que, em qualquer nível, o ente tem um corpo
substancial, orgânico: de matéria desencurvada, se habita planos altos,
felizes; de matéria densa, compacta, pesada, se seu lugar é nível baixo,
inferior. Correlato com esse corpo, há sempre um mundo e um
horizonte além do qual se oculta Deus.
Inúmeros corpos podem ocupar o mesmo lugar no espaço, se suas
62

matérias tiverem raios de curvatura diferentes. Dois corpos do mesmo


raio de curvatura não podem ocupar o mesmo lugar no espaço.
Qualquer que seja o nível do universo, os entes sensitivos-
racionais ver-se-ão frente a uma realidade objetiva formada pelos
próprios entes possuidores de um corpo, pelo mundo que os cerca, e
por Deus como Horizonte longínquo, este, de acepção plurimodal,
polimorfa. Plotino, Anaxarco e todos os demais desprezadores do
corpo, por considerá-lo sombra, irrealidade, não-ser, ter-se-iam
desapontado ao ver-se com um corpo de matéria na vida espiritual,
após a morte física. Enganaram-se pensando que poderiam viver fora
do espaço e do tempo como essências puras, como formas
abstratas, como idéias sem suportes, sem substâncias, e
pensarem sem cérebros! Como foi possível imaginarem tamanho
absurdo? pensarem que a pura idealidade pudesse existir, viver, sem
o suporte, sem a instrumentação da substância?
Por mais elevado que seja o nível, as entidades espirituais,
ainda que sejam querubins e serafins, terão sempre Deus como
Horizonte distante, rodeando o mundo que as cerca por todos os
lados. Ainda para a mais alta hierarquia celeste, Deus está presente
em tudo como imanência, e ao mesmo tempo distante, inacessível,
como transcendência fulgurante, enceguecente. Embora o ente seja
um grande arcanjo, um grande serafim, não abarcará o Absoluto
absolutamente; promove-o, mas não o compreende, pela mesma
causa por que um neurônio cerebral, ainda que fosse altamente
dotado de razão, não poderia entender o universo-cérebro de que faz
parte, e muito menos ainda o homem em que vive, para quem
trabalha e de quem depende!
Tal, a nossa intuição da Divindade, e o ponto altíssimo a que a
promovemos; ela está presente em tudo pela participação, imanência
ou panenteísmo, e infinitamente distante como transcendência que
fulgura em dilúvio de luz a inundar a inteira esfera celeste do trans-
universo. Dez mil milhões de Entidades rutilam, individuadas do
oceano enceguecente, Demiurgos criados e criadores para, desde aí,
seus distritos governarem, anos-luz quintilhões distantes dos limites
do universo. O universo nosso está no centro, aprisionado, e no
centro do universo esteve, outrora, o mais inteiro, rude e turbulento
Caos.
Tais Demiurgos criados e criadores podem viajar pelo Universo
com velocidade infinita...; infinita... em relação ao nosso sistema
de referência que é o da matéria densa, cujo limite de velocidade é a
da luz (Einstein). Aquela velocidade com que os Demiurgos (espíritos
celestes) percorrem o Universo, é infinita, segundo a nossa
referência; para a referência de seu mundo de luz, tal velocidade
63

também demanda tempo. Até em nosso mundo "os segundos-mosca são


mais curtos que os segundos-homem. Para cada sistema e cada
criatura, o metrônomo do tempo bate em outro compasso". Mais:
"Também o ser vivo vive no ritmo do tempo que corresponde ao seu
sistema de referência. Ele vive rápido em mundos leves, e devagar em
mundos pesados (...) No satélite de Sírius, um homem viveria mais
vagarosamente, mas proporcionalmente mais tempo" (Fritz Kahn, O
Livro da Natureza). Como nos altos níveis do Universo, "os mundos são
leves", os entes vivem rapidamente, isto é, com tempo mais curto, mais
velozes; só que não há, aí, nem dores, nem aflições, nem mortes..., mas
vida eterna, isto é, autorrenovável de contínuo.
64

IV - O TERNÁRIO

Voltaire disse que "Deus criou o homem, e este pagou-lhe com a


mesma moeda". Então, se o homem criou Deus, tirando-o de si,
acaso não tirou de si também o Diabo? O próprio Voltaire podia, em dois
tempos consecutivos, ser deus e demônio, em dois tempos, podendo
ser o criador de ambos. "Desabusado, feio, fátuo, jactancioso,
devasso, inescrupuloso e às vezes até desonesto - Voltaire era
homem possuidor dos defeitos de seu tempo e de seu país, mal lhe
faltando um só deles. E no entanto esse mesmo Voltaire foi
infatigavelmente bondoso, dedicado, pródigo de sua energia e de sua
bolsa, tão pronto a auxiliar os amigos como a esmagar os inimigos,
capaz de matar com uma penada e sentindo-se desarmado à primeira
iniciativa de reconciliação - tão contraditório é o homem!" (Will Durant,
História da Filosofia). Este gênio esquizóide, gavroche; com um golpe
de pena, podia ter criado deus, e com outro ter criado o diabo,
ambos tirando de si mesmo, visto que era em dois tempos, demônio
e anjo.
Mas, que altiva ciência! Se tudo o que o homem cria, tira-o de
si mesmo, então, a lei que diz: "os raios vetores varrem áreas iguais
em tempos iguais", é uma criação ou invenção de Kepler. O
enunciado que afirma ser "o quadrado da hipotenusa igual à soma
dos quadrados dos catetos", Pitágoras o inventou. De igual modo, o
que afirma que "um segmento traçado, paralelamente, à base de um
triângulo, divide seus lados em partes proporcionais", é invenção de
Tales. Quem teria inventado o "Pi", que é a relação entre a
circunferência e o seu diâmetro?
Contudo, estamos já a ouvir o surdo murmúrio, murmúrio ululante,
que diz que coisas tais não são invenções, nem criações do
homem, porém, suas descobertas. E Deus, porque também não é uma
descoberta do homem? descoberta nascida da observação que
mostra claro ser preciso existir um Criador de tudo? visto que nada se
cria por si mesmo, nem a si se basta? Acaso o Ser de Parmênides não
surgiu duma cadeia de raciocínios lógicos, tal qual os enunciados
científicos de Kepler, de Pitágoras e de Tales? Se o homem criou Deus,
criou também a ciência, a técnica que, por isto, têm validade só dentro
da esfera humana..., donde vem que a alavanca de Arquimedes, por
ser pura invenção de homem, não tem aplicação no universo; logo, as
alavancas planetárias, e as das estrelas, e as inúmeras que se integram
no sistema ósseo muscular das aves, dos mamíferos, são pura ilusão.
Ao girar, cada planeta forma um campo, em seu redor, que se atrita,
pelos bordos, com os campos dos vizinhos, e todos são arrastados ou
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movidos pelo campo solar que se engasta com o da Via-Láctea, com o


das galáxias todas, com o campo universal. A força que, vinda de fora,
move o universo, essa mesma move a Terra. Cada planeta "forma
em torno de si mesmo um campo de espaço. Estes campos são,
segundo Einstein, "entrosados um no outro" e, ao girarem os planetas
em torno do Sol, esses campos entrosados deslocam um ao outro
como rodas dentadas. O sistema solar é máquina de espaço e se o
espaço fosse visível, teríamos a impressão de vivermos no interior de
enorme relógio celeste". Como o sistema planetário solar é parte
ínfima da via-láctea, e esta, forma com suas miríades de irmãs
galáxias, o universo, este é o grande relógio de Voltaire para quem
Deus é o Arquirelojoeiro. Se o universo é máquina de campos
engrenados, então, possui ele alavancas, e estas foram postas, lá,
por Arquimedes que as criou (?!), por volta do ano 237 a. C., porque
se o homem criou Deus, que é mais, criou também o universo, que é
menos. Se, como afirma Kant, “nós pomos às coisas as suas
essênciais", igualmente, pomos ao universo as suas leis, que são
essênciais, sem as quais ele cessa de ser, e é caos.
Quando a massa do universo, em seu giro e transformação fatais,
chegou ao grau preciso, a dinâmica da vida a fecundou, brotando
dela todos os vegetais, os animais todos, e, destes, nós. Conhece o
homem hoje a sua fraca origem, filho ele que é da natureza, filho da
vida, vindo primeiro da vivente gelatina, dos animais depois, escala
acima, de modo que tudo o que nele há, surgiu, plasmou-se, aos
crus tormentos e embates da existência. Seu olho formou-se por
influência e ao influxo da luz, e, como o olho, todos os demais aparelhos
e órgãos vitais.
Antes que a máquina fotográfica fosse uma invenção humana,
o olho, que é uma câmara fotográfica, há quatrocentos milhões de
anos, foi criado pela Natureza... dentro da qual age Deus, por meio
do seu complexo de leis, de princípios, e de substâncias... , ele que,
também, se acha muito além das fímbrias do horizonte, embuçado na
sua inacessa e infinita transcendência. O coração é uma bomba
hidráulica, antes da bomba hidráulica inventada pelo homem, e os
peixes de velocidade têm forma de submarino, milhões de anos antes
que tais navios existissem... , tal qual ocorrendo com as aves e o avião.
Fritz Kahn diz que "o universo é matemática tornada substância",
mas isto, entendamos bem, cinco ou mais bilhões de anos antes do
aparecimento do homem.
A peste idealista apegou-se ao homem moderno desde Kant...,
para quem "nós é que pomos às coisas as suas essências"...; para
quem, por conseguinte, a matemática do universo, pô-la, nele, o
homem...; para quem, portanto, as leis da alavanca
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consubstanciadas nos corpos celestes e nos corpos animais, aí, as pôs


Arquimedes...; para quem, logo, "os raios vetores varrem áreas
iguais em tempos iguais", porque Kepler pôs isso no coração do átomo e
no do universo. Porque tudo tira o homem de si..., também, de si, tirou
Deus. Por esta razão fazemos nossa a fala de Bertrand Russell
quando escreve: "Kant goza de reputação de haver sido o maior dos
filósofos modernos, mas, na minha opinião, não foi senão uma
desgraça".
"Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra?
Dize-mo, se é que tens inteligência."
"Quem deu as medidas para ela, se é que o sabes? ou quem lhe
lançou o cordel?"
"Sobre que foram firmadas as suas bases? ou quem assentou a
sua pedra angular, quando os astros da manhã me louvavam todos
juntos, e quando todos os filhos de Deus estavam transportados de
júbilo?"
(...)

"Acaso és tu o que depois do teu nascimento deste lei à estrela


d'alva, e o que mostraste à aurora o seu lugar?" (Jó 38, 4 a 12).
Se o homem criou deus, deus é a criatura, e o homem, o criador.
Com isto, o homem fica sendo mais que deus, pois o criou a ele. Contudo,
esse homem mais que deus, pois que criou o próprio deus, não se criou
a si mesmo, nem o universo, e isto é dissuasivo. Quem, logo, teria
criado o universo, e nele, o homem que criou, depois, o próprio deus?
Eis aí a petição de princípio que se remonta até o postulado intuitivo,
primígeno da mente humana que, em sua simplicidade, diz: tudo o
quanto há formado, Deus criou...
***
Desde quando, faz dez mil anos, principiou o arvorecer da
civilização, o então já homo sapiens passou a apoiar-se num triângulo
cujos lados são: o próprio homem, o mundo e Deus. Os três termos
são irredutíveis entre si, e a tentativa, ou de rejeição, ou de
redução de qualquer deles, cria dificuldades insuperáveis, obrigando
uma retomada, em que o termo descartado reaparece com outro nome.
Se Deus for deixado de parte, ele ressurge, depois, com nomes
diferentes tais como Razão (Parmênides, Hegel), Eu Absoluto
(Fichte), Liberdade (Sartre), Super-homem (Nietzsche),
Proletariado (Engels, Marx), Positivismo (Augusto Comte),
Cientismo (racionalistas modernos), Natureza (Spinoza) e até a
Técnica poderá vir a ser um deus, o Gólem impiedoso que tritura o
homem por entre suas engrenagens. Fale Joelmir Beting:
67

"Os três astronautas pousam de para quedas no Pacífico com a


suavidade de um beija-flor. Acoplada ao satélite de comunicações, a
televisão brasileira coloca a imagem, o som e as cores do momento
histórico no conforto distante de meu escritório (...)
"A televisão brasileira faz subir o fundo musical de "Danúbio
Azul" e eu me transporto, em espírito, para o cinerama do Majestic,
momento culminante de "2001, Uma Odisséia no Espaço". Vejo o
homem-macaco arremessar o osso do mastodonte e vejo o osso, solto
graciosamente no ar, dissolver-se em um veículo espacial, o
"Discovery". Nas fímbrias do infinito e do mistério, a espaçonave viaja
rumo a Júpiter sob o comando não mais do homem-macaco, mas do
homem-máquina ou da máquina-homem, o computador HAL 9000, de
vigésima geração. Um robô que pensa, que toma decisões, que canta,
ri, chora, ama, odeia e mata. Um homem perfeito.
"O "Discovery" faz parada de reabastecimento na Lua e as
câmeras de Stanley Kubrik fazem um corta-luz para o grande enigma
não desvendado do filme: o monolito negro, que acompanha o bicho-
homem do primata ao astronauta, das cavernas da pré-história às
crateras da Lua. A viagem prossegue na direção das estrelas e
termina na perdição do super-homem, o jovem astronauta que destrói
o computador, ao mesmo tempo patrão, guia, amigo e assassino,
mas não consegue libertar-se de si mesmo. Um feto do super homem,
guardado numa placenta de vidro faiscante, contempla a Terra
pequenina e azul, flutuando no infinito. E a Terra, grão de areia na
vastidão do Universo, não tem a mínima importância. Nem ela nem
sua incorrigível criatura, o bicho-homem".
"Mas serás tu que leis a Deus promulgues?" (Milton, Paraíso
Perdido - Canto V).
"Acaso és tu o que depois do teu nascimento deste lei à estrela
d'alva, e o que mostraste à aurora o seu lugar?" (Jó 38, 12).

***
A intuição que já o primitivo tivera de Deus como instância
suprema reguladora de seus atos, foi havida como invenção do próprio
homem, pelo que foi este quem criou Deus, e não, vice-versa. E
todos os deicidas, ou anunciadores de que Deus morreu (Nietzsche,
Sartre), não atinaram que a obra sai ao autor. Se o homem foi o que
criou Deus, este seria como é o homem egoísta, astucioso, embusteiro,
falso, hipócrita, perverso e mau, que fez da própria inteligência a
arma suprema para vencer e esmagar. Deus sairia, então, como é o
homem - um "porcus bipedus"! Em vez, porém, de o homem projetar-se
em Deus, ou criar Deus segundo sua própria imagem de "porcus
bipedus", ao invés disto, negou-se primeiro a si mesmo, e essa
68

negação de si projetou-a em Deus que, daí em diante, ficou sendo a


instância superior de apelação, o primo árbitro, o supremo padrão de
que saíram todas as instituições. Dizer que foi criado Deus pelo homem
segundo a própria imagem deste, é rebaixar a Deus à besta fera que
o homem realmente é. Contudo, sabendo-se animal feroz, e o pior de
todos, propor o homem a sua negação mais extrema como paradigma
de conduta, como modelo a ser seguido, como padrão de vida, e
dizer: tudo isso é Deus; acaso é isto criar Deus segundo sua própria
imagem e semelhança? Como foi possível o homem projetar-se invertido
em Deus? Para que o fez? Em que se baseou ele para provocar sua
própria inversão? Quem disse ao homem que ele estava invertido? Foi
Deus? Logo, a intuição de Deus que teve o homem, é a de que Deus
é o homem pelo avesso!
Se o homem criara Deus, este sairia como saiu o super-homem
de Nietzsche, o super-bruto que se punha para além do bem e do mal,
fazendo da sua vontade ou capricho, suprema lei. E que lei era esta?
Mostrou-a, logo, ele: a lei natural da força e da astúcia que tripudia
sobre a justiça e a bondade, tidas estas por fraquezas: "ser justo é
ser forte", sentencia ele. Eis a verdade: o que, de fato, o homem
criou segundo sua própria imagem, foi o Diabo; depois intuiu Deus
como sendo a oposição polar de Satanás. A primeira experiência do
homem em evolução não foi a do céu, senão a do inferno; não, a de
Deus, mas a do Demônio com quem se defrontava a cada passo, e era
cada semelhante tão feroz e bruto, como si mesmo.
Sartre, também, depois de ter dado Deus por morto, assentou que
o fim do homem é ser deus, porque, só assim terá liberdade plenária,
absoluta, e não relativa como agora é. Para realizar este velho sonho
de Satã, seria preciso, como diz, matar todos os homens, para depois
poder reinar sozinho. "Reinar é o alvo da ambição mais nobre,/ inda
que seja no profundo Inferno:/ reinar no Inferno preferir nos cumpre/ à
vileza de ser no Céu escravos" (Milton, Paraíso Perdido, Canto 1).
Todavia, para Sartre, em seu intento de ser o sumo homicida, porque,
como diz, ainda que matasse os homens todos, não poderia evitar que
eles tivessem existido e na impossibilidade de destruir, também, esta
memória insofrível, idealmente, volta contra si a arma suicida,
anelando pelo aniquilamento próprio, pelo nada.
Nietzsche quer Deus morto, para retornar à besta feroz, ao
"porcus bipedus", sem bem nem mal, num mundo em que impere a
força, porque, como diz, a bondade é fraqueza. Sartre anunciou que
Deus morreu, e, por isto, e também por não poder ser deus, tinha de
morrer, por sua vez, que esta é a sina de quem mata Deus. O homem
criou deus à sua imagem e semelhança? Eis o deus criatura do homem!
deus que, ou é o bruto ansioso por ver-se livre das peias da moral, ou é
69

um deus suicida, porque o egoísmo próprio o impede de partilhar a sua


divindade com seus semelhantes. Sim, o homem criou seu novo deus,
matando o antigo, e esse novo deus criado, deus moderno, saiu ao
criador, saiu ao próprio homem, um demônio que, ou destrói tudo, ou
inteiro se aniquila.
Quando o homem primitivo assentava um golpe de martelo no nariz
do grande urso das cavernas, hibernado em seu sono, matando-o, para
devorar-lhe o sangue, as carnes e as gorduras, podia ter ficado apenas
nisso, à semelhança do que fazem os outros animais predadores. Mas
não; preocupava-se com o seu ato, e quis justificá-lo, que isto é próprio
do homem, por isto chamado "animal metafísico". Raciocinou, então,
que o urso dava a própria vida para que sobrevivesse o homem. Então,
era o urso um deus? O termo "deus" deriva-se do verbo dar, diz Vieira;
é Deus porque dá. E a vida é o máximo que se pode dar. Não é que o
urso desse a própria vida, senão que, por força, lha tomavam; porém,
assim como a professora ensina às crianças, ainda hoje, que a
vaca nos dá o leite, o boi e o porco, as carnes e as gorduras, o
carneiro, a lã, não acudia ao homem primitivo que o urso era vítima
de um assalto a mão armada praticado por um ladrão.
Esta justificativa ou racionalização, própria do homem, fazia da
morte do urso um exemplo de generosidade, pois só um deus seria
capaz de morrer para a salvação da espécie humana, ameaçada de
extinção pelo frio e pela fome. À generosidade tanta, o homem
retribuia com o sacrifício de hóstias humanas cujas carnes também
eram devoradas em honra do deus morto. Assim nasceu a antropofagia.
Ora bem: por detrás de toda esta selvageria horripilante, uma
idéia não humana ou sobre-humana já desponta: a generosidade
extrema de sacrificar-se por outrem. Acaso havia, então, algum
homem generoso a tal extremo? Se a generosidade não tinha ainda
exemplo entre os humanos, e só num deus podia achar-se, pode ser que
Deus seja criação da mente humana, e o é, como intuição, em razão
do que tem isto de inusitado: tal criação se revelou, desde o início,
como negação do egoísmo fechado, intransigente e perverso, como
inversão do homem natural. Comodista como é a natureza, a vida, o
homem, como foi este criar uma coisa tão antinatural e incômoda como
é a moral, para depois submeter-se a ela tascando o freio qual
irrequieto e ríspido corcel? Acaso precisava ter criado o homem, para
si, tão formidoloso azorrague, com que se pune por sua animalidade?
A intuição de Deus relampagueou na mente do primeiro gênio,
forçando-o, ainda que apenas em projeto, a negar-se de dragão
sanhudo e mau, e, assim ao negativo do que in natura é, projetou-se
em Deus; esta projeção, refletindo-se de Deus, reoperou sobre ele,
gênio, civilizando-o; tal super-homem fez-se, depois, fermento da
70

massa humana, civilizando-a, também, até o quanto ela suportou


civilizar-se; por este meio, pela sucessão de tal fermento no tempo e no
espaço, a humanidade chegou ao estado em que hoje a vemos.
Todavia, o quanto que a civilização ocidental pode absorver de
Cristo, ainda se acha muito aquém da meta, porque o nosso cristianismo
via Sócrates, via Paulo, deu no socratismo cristão e no paulinismo. Sem
Deus, pois, não há civilização porque esta se apóia na moral, e não há
moral sem Deus. Deus, logo, se constitui numa vital necessidade para o
homem.
Dir-se-ia, no entanto, que o homem das cavernas não cultuava o
urso, por ver nele o símbolo da generosidade, mas por medo. A fúria
do espírito do urso, pela morte violenta que lhe deram, precisava ser
aplacada; daí os cultos, as oferendas, as hóstias do sacrifício, as
pompas funerais com que todos iam a enterrar a cabeça do urso
amortalhada. Foi o medo, e não, a generosidade, que deu azo aos cultos
primitivos.
O medo é um sentimento conhecido de todos os animais; porém,
medo metafísico? medo escatológico? Medo do espírito vivente que
não morre com o corpo? Sobrevivência da alma, seja do urso, seja do
homem? Possibilidade de essa alma vivente atuar no mundo humano,
fazendo o bem ou o mal? Viabilidade de fazer-se sentir? de comunicar-
se? Então, o feiticeiro, que é o primeiro sacerdote e filósofo, veste a
pele do urso, e, em seu nome, dita leis morais, impõe a disciplina, cria
instituições, tudo a mando do deus morto-vivo que fez prova de
generosidade, deixando-se matar para que os homens tivessem vida.
Escapa-se de uma ponta e já se cai na outra do bicórnico problema;
e por quaisquer destes caminhos escatológicos, os cultos primitivos
já se encaminham a pôr freios à animalidade grosseira, principiando
por domar a besta, tornando-a menos bruta e mais civilizada.
Homens inteligentes feitos para ver tudo em termos de
totalidade, sempre os teve o mundo; e vestidos com peles de ursos
os feiticeiros-sacerdotes-filósofos acharam meios fáceis de
transmitir os resultados de suas próprias intuições, de suas
lucubrações a respeito de si, do mundo, dando tudo como sendo
falas do próprio Deus.
O homem, mundo e Deus, eis o delta luminoso, o triângulo
equilatero perfeito, que tem de ser mantido em harmonia, e quando
se altera um dos lados, mudam-se também os outros dois. E se um
dos lados desaparece, cessa o triângulo, desequilibra-se o sistema
humano, obrigando-se o homem a retomar o termo descartado que
reaparece sob outro nome.
O materialismo, para usar a expressão de Georges Gusdorf,
“rejeita Deus e atufa o homem no mundo; após o que, cumpre-lhe
71

reencontrar a pessoa e restabelecer um absoluto tanto mais temível


quando o afirmamos como positivo e natural”. Esta pessoa a ser
reecontrada é Deus que toma o nome de proletariado, não o
concreto e real, que este é transformado em coisa como tudo o
mais, mas, o ideal, genérico, abstrato; este proletariado abstrato é o
que, tomando o lugar do absoluto, se torna num deus em cujo
nome uma minoria dominante, não proletária, estabelece uma
ditadura estatal, o comunismo..., este que é o primo irmão do outro
Estado absoluto hegeliano, o nazi-fascismo. Ainda Gusdorf:
“O panteísmo atufa o homem e o mundo em Deus, e, em
seguida, esfalfa-se por reencontrar aquilo que ele próprio ocultou”.
E o que ele ocultou foi o aspecto transcendente da Divindade, pelo
que a Natureza, o Mundo e o Universo se transformam em Deus.
Se o homem e o mundo são atufados em Deus, como o fizera
Espinosa, a Natureza toma o lugar de Deus, e tudo o que for natural
passa a ser divinamente certo. Com isto, se perde a noção da
hierarquia de valores (axiologia), não havendo nenhuma instância
superior a que se apelar; cessa, então, de ter sentido o bem e o
mal, visto como tudo segue o determinismo da Natureza, inclusive o
homem que não pode fugir à sua determinação histórica inviolável,
pelo que não tem responsabilidade, nem culpa, não sendo passível
de nenhuma punição. Um mundo sem férreas leis morais, não se
mantém; daí que Leibniz, conquanto admirador e amigo de
Espinosa, não sabia o que dele pensar. Gusdorf ainda:
"O misticismo ignora o mundo e atufa o homem em Deus; só que
depois precisa absolutamente de voltar a dar sentido ao mundo e de
distinguir o homem de Deus". Quando um homem se recolhe à
contemplação da Divindade, deixa, por isto mesmo, de viver para o
mundo e para o próximo. O anacoreta, que significa "o homem que
vive só", isola-se, então, num lugar ermo; e se acontece de o número de
eremitas crescer ao seu redor, ele constrói uma torre, ou aproveita uma
grossa coluna das ruínas do passado, para viver no cimo dela; é o
estilista. À força de buscar Deus, o Bem supremo, daí, beatitude,
deixa-se de conviver com o próximo cuja presença, em vez de amada,
se torna aborrecida. O mundo é, então, desprezado, como demônio,
e Deus é intuído como o anti-mundo, o socrático sumo Bem.
"O racionalismo (continua Gusdorf) substitui o homem, o mundo
e Deus por uma razão arvorada em chave universal de interpretação
dos mesmos, mas, logo a seguir, não consegue dar explicação do
mundo real, da pessoa concreta e de Deus, que constituem outros
tantos desafios à reta razão".
Considerado Deus como Razão pura, por isto mesmo, deixa ele
de ter existência real, uma vez que, como Ente puro de razão, se
72

torna abstrato, sem substância, não havendo, para si, espaço, e


tempo, e mutabilidade. Para ser objetivo, real, necessita Deus de
substância, e esta, desde Parmênides, foi considerada não-ser.
Logo, esse Deus-Razão-Pura não existe, mas é; somente é no
pensamento do homem, como pura idealidade subjetiva. Se, conforme
o afirma Kant, "nós é que pomos às coisas as suas essências", o
mundo e Deus só passam a ser, quando o homem os põe, e põe-nos só
como entes puras de razão. Conseqüentemente, no homem, na razão
humana, eles são, e não, fora dela. O homem, deste modo, se faz o
fundamento; porém, não ainda o homem integral, senão, apenas, o
homem como pensamento. Sendo o homem a matriz de tudo, Deus é
criação humana, como o entendia Voltaire..., não lhe ocorrendo
então, como racionalista, como idealista, que a visão do mundo pudesse
sugerir ao homem alguma coisa, nem ao menos, como ele próprio o
entendeu depois, que o grande relógio do universo impunha haver seu
Construtor.
Deus e o mundo, assim, se atufam no homem, com que passa
este a ser "a medida de todas as coisas", como já pensava o sofista
Protágoras; com isto, o homem se tornou última instância, padrão
supremo, e, porque se põe no lugar de Deus, não é muito que
expluda na arrogante frase de Nietzsche: "Se houvesse Deus, como
suportaria eu não ser Deus?". E Sartre, a seu modo, vendo-se na
impossibilidade de ser deus, por reconhecer o mesmo direito nos demais
homens, anseia pelo aniquilamento próprio, pelo niilismo total, e,
assim, a não poder ser deus, antepõe a morte, o nada! Só a morte
própria, como o afirma, pode acabar com a insofrida angústia e
nostalgia da existência de outrem, e, ainda que se o matasse, não
se poderia evitar a memória de ele ter existido ...
A era do Positivismo, do Fisicalismo e do Cientismo, começou com
Augusto Comte, e a filosofia caiu no ridículo; a metafísica passou a ser
um termo quase tão pejorativo quanto o de sofista que, por ironia, quer
dizer sábio. A ciência passou a ocupar o lugar de Deus, e o mundo e o
homem tinham que ser demonstrados em termos de ciência positiva.
"Mostrarei (dizia A. Comte ufano) que existem leis tão determinadas
para o desenvolvimento da espécie humana como para a queda de
uma pedra". Tais leis, todavia, estão sendo esperadas até hoje, e, em
vez de se realizarem os vaticínios de Augusto Comte, o que se verificou
foi o completo aturdimento e ineficácia das ciências sociais. Porém,
como o afirma Joelmir Beting, "civilização do bode expiatório,
preferimos atribuir aos avanços da tecnologia moderna e não aos
fiascos das ciências sociais a culpa por todos os males do mundo".
O próprio Augusto Comte, no entanto, que dobrara, a finados, pela
morte da metafísica, teve que retomar o que descartou, fazendo, ele
73

também, metafísica, e da pior espécie, tão ruim, que não a subscreveria


um homem das cavernas, por faltar a ela uma dimensão, a altura.
Pretendeu ele instituir uma religião sem a esperança de vida após a
morte, cujo objetivo do culto era a Humanidade, in abstracto, à qual deu
o nome de Grande Ser. Depois desta primeira "pessoa" da trindade,
vinha a segunda nominada Grande Meio, e era o Espaço; a terceira
"pessoa" era o Grande Fetiche que simbolizava a Terra. O mais tudo
eram caricaturas grotescas dos símbolos e liturgias do catolicismo.
Por ironia dos tempos, este fetichista que prestava culto às coisas
brutas como a Terra e o Espaço, foi o que desferiu o golpe contra a
filosofia, pondo-a no ridículo, se bem que por pouco tempo. Riu-se ele
com os seus positivistas de tudo o quanto manteve a humanidade
surpreendida, admirada, de tudo o quanto a animou e a fez viver, e
também morrer, nas pessoas dos mártires venerandos.
A história implacável, no entanto, o desmentiu. Sua religião não
teve adeptos, por não dar consolação a ninguém. A antropologia não
conseguiu reduzir o homem a princípio de razão. As ciências
humanas se fracionaram em radículas, e a unidade do homem
perdeu-se no caos das discussões. Então, a Religião da Humanidade,
sem Deus e sem esperança de vida eterna, suscitou no mundo uma
insofreável gargalhada, e, desde aí, o Positivismo se viu corrido,
envergonhado, e seus adeptos passaram a ocultar-se sob o nome de
agnósticos..., como se fosse possível ao homem viver sem definir-se,
sem sua tomada pessoal de posição em face de si mesmo, do mundo
e de Deus, sem uma crença que, certa ou errada, lhe guiasse os
passos, lhe norteasse a vida.
O agnóstico declara o Absoluto inacessível ao espírito humano, o
que não é verdade, porque o homem não possui apenas a razão,
senão, também, o sentimento, o coração, não apenas a
racionalidade, e sim, também, a intuição. Não alcançamos Deus com a
nossa inteligência, é certo, mas o assinalamos e o promovemos, com
um único ato do espírito, a intuição que é a mais alta e categórica
afirmativa da conjuntura mente-coração. Outro não é o sentido de
suposto que quer dizer sub-posto, posto por debaixo como
fundamento. E ninguém, jamais, provou o fundamento que, se o
fizesse, ele não seria o suposto, para ser a prova discursiva que se
apoia num suposto anterior, indo, descendo, até um alicerce
inacessível à razão, porém, que a fundamenta. Sem o suposto,
portanto, não teríamos ciência, visto que todas supõem, pontos de
partida inacessíveis à razão, indemonstráveis que são os primeiros
princípios e os postulados. Os agnósticos afirmam ser o Absoluto
inacessível ao espírito humano? Mas, que quer dizer "espírito"? Por
ventura é a razão? Neste caso, não são também inacessíveis ao
74

espírito humano os primeiros princípios das ciências, os postulados e


os axiomas matemáticos? O caso é, então, de eles repudiarem as
matemáticas e as ciências, como o fazem com a metafísica, com a
religião, pois, tanto quanto estas, aquelas se fundamentam em
premissas que hão de ser aceitas de fé... por indemonstráveis!
Nenhuma ciência e nenhum homem, por conseguinte, pode prescindir do
dado suprarracional, da suma Referência. Na ciência, o Absoluto se
acha no seu ponto de partida improvado e improvável, mas suposto,
e, por isto mesmo, chamado primeiros princípios e postulados. No
homem, o Absoluto é a Referência que fundamenta sua tomada de
posição frente ao mundo, frente a si, e frente a seus semelhantes.
O agnóstico, ou porque o é, ou porque se cuida só racional, em
negando a Referência suma, fica padecendo de agnosia metafisica
que é a perda do senso de ver as coisas em conjunto, em termos de
totalidade; e como só este senso pode dar a significação das coisas,
do mundo e do homem, a agnosia metafísica vem a ser a perda da
capacidade de reconhecer estas significações. O mundo mental do
agnostico é chato, cinzento, nostálgico, sem significação, sem valor,
nem relevo, nem perspectiva e hierarquia; a vida lhe parece um "muito-
barulho-para-nada", na expressão de Schopenhauer. Cessado o
sentido de hierarquia que tudo integra em cadeia ascendente de
unidades, até totalizar-se no Absoluto, o agnosíaco se toma de tédio, de
angústia, face a seu mundo que se aplaina num relativismo infinito.
Foi este achatamento do mundo que levou Augusto Comte a
tentar o suicídio pelo afogamento nas águas do Sena, só não ocorrido
porque o salvou um homem ao qual, logo, o mundo deve toda a obra
comteana. Nesta obra o pensador francês pretendeu erigir a
relatividade em única lei absoluta enunciando que tudo é relativo. Ora
bem: no próprio enunciado vai escondido, implícito, aquilo que o
desmente e prova o seu contrário; porque, se tudo é relativo, nada é
absoluto; por conseguinte, o princípio que enuncia: "tudo é relativo",
é relativo também. Se tudo é relativo, essa relatividade atinge o próprio
enunciado, pelo que ele também se torna relativo. Se o enunciado
que nega o absoluto é relativo, então, é que há o absoluto, frente
ao qual o resto é relativo. Em que se baseia quem afirma ser tudo
relativo? acaso, no próprio relativismo? Quem está imerso no relativo
não possui autoridade para afirmar nada sobre o absoluto... de que
não tem experiência, e, se, ousado, sentenciar que "tudo é
relativo", nesse ponto deixou implícita a afirmação de que seu
enunciado também o é. A formiga da parábola, depois de exausta de
tanto andar na superfície da bola dependurada pelo fio, também
concluiu que tudo é superfície chata, ilimitada, sem princípio nem fim
para todos os lados. De nada lhe valeu dizer-lhe a recém-chegada
75

abelha, que a esfera existe, pois a enxergara antes de pousar ali. Como
as experiências são intransferíveis, não houve meio de a abelha
explicar para a formiga o que vem a ser a esfera cuja superfície ela
esteve o tempo todo a esquadrinhar. Contra Augusto Comte que diz
ser tudo relativo, iremos demonstrar como também tudo pode ser
absoluto.
Os termos do triângulo Homem-Mundo-Deus, como temos visto,
são irredutíveis entre si, e se foram aperfeiçoando através dos tempos,
ora a ênfase recaindo sobre um mais que sobre os outros. Contudo, o
equilíbrio subsiste, se for mantido o triângulo perfeito, equilátero, ou
delta luminoso..., luminoso pela sabedoria que encerra em manter
sempre a igualdade dos lados, não tolerando deformação, isto é,
que um dos lados suplante os demais; sabedoria que consiste na
compreensão de que o homem não é o mundo, por ser o sujeito
cognoscente, a pessoa; de que o mundo não é o homem, por ser o
objeto cognoscível; que o homem não é Deus, porque não é
autônomo, nem pode bastar-se a si mesmo, nem pode ser instância
suprema de apelação para si. Para regular sua vida individual e
coletiva, precisa reportar-se a uma instância superior não humana.
Finalmente, que o mundo ou a natureza não é Deus, porque é relativo,
e ainda, por cima, invertido ou no avesso. Por este motivo, se
considerarmos o mundo como instância superior de apelação, nossa
moralidade, com base na natureza invertida, amoral, egoísta e má,
terá que ser como a de Nietzsche, de Trasímaco e de Maquiavel que
sentenciam: "Ser justo e bom é ser forte"; "a bondade cristã é
fraqueza; ela é invenção dos fracos para manietar os fortes"; "a
justiça e a bondade são o desassombro do forte"; "melhor é ser temido
que amado". Eis, pois, que, como se pode observar, embora na vida, no
mundo, haja coisas boas e belas, ao lado destas há a feiura extrema,
o sofrimento e a maldade sem nome. Fora isto, o Deus de que a
natureza participa sob a forma de imanência ou panenteísmo, não é
todo o Deus, visto como ficou de fora o Absoluto que é Deus no seu
aspecto de transcendência.
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V - TUDO É ABSOLUTO E RELATIVO

Absoluto e relativo são termos que se opõem e se excluem, como


contrários, embora possam achar-se presentes no espírito de um mesmo
observador, em duas visões opostas dele, pelo que tudo se lhe mostra
relativo e absoluto, em dois tempos consecutivos; também podem, estes
dois termos, ser considerados ao mesmo tempo, desde que sejam
dois os observadores, dependendo só da atitude psicológica, do
mirante mental, em que se postarem eles. Um elétron, considerado
em si mesmo, como uma unidade isolada, estanque, é um absoluto;
considerado, porém, em função do átomo que ele forma com seu par
oposto e complementar, que é o próton, é relativo, pois, para formar o
átomo, ele pede esse outro termo do mesmo nível hierárquico, mas
contrário e complementar, com o qual se associa. Assim, também, um
átomo, separado de tudo o mais, para um estudo analítico, ou seja, dele
abaixo, fica sendo um absoluto; não, porém, se o considerarmos em
referência à molécula, em função desta, porque, neste caso, o átomo
exige o companheiro de características e de polaridade opostas, com
o qual se relaciona, formando a molécula.
Numa visão de síntese ou indutiva, que é a que vai do particular
para o geral, os elétrons e os prótons são relativos, e só podem ser
entendidos em função daquilo que formarão, combinados, e esta
função ou referência é o átomo. Não sendo o átomo um absoluto,
para a visão de síntese, ele se relaciona com outro átomo de
polaridade oposta, e desta junção nasce a molécula.
A unidade maior, resultante da integração das duas menores, é
sempre a referência ou a função que torna inteligível essas unidades
menores que são quais são, por causa daquilo que, combinadas,
hão de formar mais acima. Não se poderia entender a diferença
específica entre o homem e a mulher, se ambos não fossem talhados
um para o outro, com vistas à formação da família. A mulher não é
em referência ao varão, ou em função do homem, como escreve
Ortega, porque, neste caso, o varão seria em referência a que? Acaso
é o homem um absoluto, paradigma ou termo de avaliação da mulher? E
por que padrão deve ser o homem avaliado? Ambos, homem e mulher,
são em referência à família, em função da família, pois, esta é que
dita as normas de comportamento e de ser de um e de outro do par
humano. Fugir à norma é desfazer a união, é destruir a família. Cada
um do par, portanto, terá de pôr-se no seu devido lugar, no seu posto;
terá de manter e aprimorar sua diferença específica corpórea e
mental, que nisto só se cifra a norma. Isto é claro como o Sol.
No entanto, escreve Ortega: "Porque assim como a mulher não
77

pode em nenhum caso ser definida sem referi-Ia ao varão, tem este o
privilégio de que a maior e a melhor porção de si mesmo é
independente por completo de que a mulher exista ou não. Ciência,
técnica, guerra, política, esporte, etc., são coisas em que o homem
se ocupa com o centro vital de sua pessoa, sem que a mulher tenha
intervenção substantiva. Este privilégio do masculino, que lhe permite
em ampla medida bastar-se a si mesmo, talvez pareça irritante. É
possível que o seja. Eu não o aplaudo nem o vitupero, mas tampouco o
invento".
É certo que Ortega não o inventa, mas tampouco o explica; e,
fazer isto, explicar, é exercer a sua função como pensador. O próprio
Ortega, falando da presença das duas metades de uma maçã que nos
pode ser apresentada, diz que só enxergamos, da maçã, a parte voltada
para nós; a outra metade, a oculta, conquanto não nos esteja
presente à vista, está-nos compresente, visto como a imaginação
completa a parte faltante, apresentando-nos a maçã como um todo. Em
nosso mundo das imagens, a maçã se nos mostra inteira, e não, apenas,
como meia maçã, porque, aí, no psíquico, se fundem, na unidade, o
presente visto com o compresente imaginado. De igual modo,
podemos estar muito tranqüilo a ler em nosso gabinete, abstraído do
resto do mundo; suposto que, nesse momento, poderosa máquina ice
nossa casa, e a leve para os ares, de modo que, em chegando nós à
porta, damos com o espaço vazio. Acaso poderíamos continuar com
nossa leitura? Daí que o gabinete que nos é presente, se vincula, em
nosso subjetivo, com o resto da casa e arredores, e estes, com a rua,
com a cidade, isso tudo como compresentes. Face a isto, do próprio
Ortega, para onde vai o privilégio do varão que consiste em "que a maior
e a melhor porção de si mesmo é independente por completo de que a
mulher exista ou não"?... se ela é sempre compresente ao homem, em
todas as atividades deste? Suponhamos que Deus, sabendo que agora
o homem não mais está só, como no Éden, pois se satisfaz com sua
ciência, sua técnica, sua guerra, sua política, seu esporte, etc.; se
Deus concluísse, então, que tais "coisas em que o homem se ocupa
como centro vital de sua pessoa, sem que a mulher tenha intervenção
substantiva", são bastantes a dar-lhe cabal contentamento,
resolvesse, por um passe de mágica, suprimir todas as mulheres do
mundo, que faria o homem com sua "ciência, técnica, guerra,
política, esporte, etc."?
Se é que "o forte da mulher não é saber, mas sentir"; se é que
"o centro da alma feminina, por bastante inteligente que seja a
mulher, está ocupado por um poder irracional"; se, "a idéia (...) de que o
homem valioso tem de enamorar-se de uma mulher valiosa, em sentido
racional, é pura geometria"; se, "tudo que é humano, é sexuado", donde
78

haver, até, "um "ensimesmamento masculino e outro ensimesmamento


feminino" se, "dentro da mulher não há meio-dia nem meia-noite: é
crepuscular. Por isso, é constitutivamente secreta. Não porque não
declare o que sente e lhe sucede, mas porque normalmente não
poderia dizer o que sente ou lhe sucede. É para ela também um
segredo"; se, "toda a vida psíquica da mulher está mais fundida com o
seu corpo do que no homem; isto é, a sua alma é mais corporal mas,
vice-versa, o seu corpo convive mais constante e estreitamente com
seu espírito; isto é, seu corpo está mais transido de alma"; se, "a
atração erótica que produz no varão não é, como sempre nos disseram
os ascetas, - cegos para tais assuntos, - suscitada pelo corpo feminino
enquanto corpo; ao contrário, desejamos a mulher porque o corpo d'Ela
é uma alma"; se, como estamos vendo, a mulher se mostra tão oposta
ao homem, tendente a ser "um gênio do tronco-cerebral", no dizer de
Fritz Kahn, ou, como disse Victor Hugo: "o homem é a inteligência, e a
mulher, o coração", em que sentido estaria certa a observação de
Ortega, de que "a mulher não pode em nenhum caso ser definida
sem referi-la ao varão". (Todas as citações são de Ortega).
E ainda o confirma Ortega noutro lugar, ao dizer: "porque, com
efeito, essa intimidade que descobrimos no corpo feminino e que vamos
chamar de "mulher", se nos apresenta de início como uma forma
de humanidade inferior à varonil". E ainda: "Não existe nenhum outro
ser que possua esta dupla condição: ser humano e sê-lo menos que o
varão".
Por que há o homem de ser o padrão de humanidade, pelo qual a
mulher será avaliada? Em que alicerce se firmaram os filósofos para
julgar a mulher inferior ao homem?
Eis a resposta: porque todos deram como excelente a razão;
os sentimentos não contavam; o corpo era mundo, e o mundo, não-ser. A
mulher é mais corporal que racional; logo, menos humana..., visto
como humanidade é idêntico a racionalidade. A excelência da razão
é tanta, que o Deus de Aristóteles, de Santo Tomás e de Santo
Agostinho, se ocupa de pensar pensamentos...
Fazendo excelente a racionalidade, cai-se até no absurdo de
dizer, como o fez Ortega: "Alguma vez, a mulher se adianta um
pouco: Aspásia. Por que? porque aprendeu o saber dos homens, porque
se masculinizou". Eis o absurdo: a mulher que se masculiniza,
adianta-se um pouco, como se adiantou Aspásia, a exemplo de Vênus
de Milo "que é uma figura másculo-feminil, uma espécie de atleta
com seios".
E quando a excelência não é a racionalidade, passa a ser a
força, outra virtude do varão bronco das pósteras idades; "quando o
germano destes séculos se ocupa em idealizar a mulher, imagina a
79

valquíria, a fêmea beligerante, virago musculosa que possui atitudes


e destrezas de varão". Com tal mentalidade, não é muito que Platão
propusesse a pederastia como forma alta de união; que o homem
acabado, completo, pusesse o seu amor num jovem belo e discreto,
isto é, culto, antes que numa mulher. Por que? Pois não pode ser por
outra causa senão que tal jovem se sente arrebatado pelas coisas
altas e belas do intelecto, da arte, do espírito. Com este se podia,
então, manter um comércio, não só físico, como também, e sobretudo,
intelectual. Com a mulher é impossível este intercâmbio, porque, não
sendo ela essencialmente racional, desdenha estas coisas. O homem
altamente dotado de espírito, ao unir-se a uma mulher, tem de deixar
de lado o que mais fortemente é, para tornar-se num homem vulgar,
ou seja, tem de falar sobre banalidades e miudezas tolas, que só por
isto se interessam as mulheres, enquanto mulheres.
Eis, pois, a pederastia, como decorrência do primado que assenta
a razão como excelente, ao tempo em que desdenha do sentimento que
é substancial, e de tudo aquilo que, por ser mais corporal, por isso
mesmo é menos intelectual, menos alto, menos nobre. Aqui está o
silogismo na forma analítica: Deus é razão pura..., pura essência
sem matéria alguma... e vive, por isto, ocupado só em pensar
pensamentos. Ora, o homem é feito mais para a raciona]idade que a
mulher. Portanto, o homem possui quota maior de perfeição, sendo, a
mulher, um homem inacabado (Aristóteles). A virago é mais homem
que mulher; por conseguinte, ela, em se aproximando mais do ser do
homem, fica superior às demais mulheres (Ortega), embora não
chegue ainda a ser um moço belo e discreto com o qual se possa ter
uma união deleitável, no entender de Platão. O mesmo silogismo,
agora, na forma sintética: Deus é razão pura; ora, os pederastas
(ativo e passivo) são racionais; logo, a união entre estes é mais alta,
para o deleite e perfeição, do que a união com mulheres que, menos
nobre, atende apenas às exigências da natureza bruta, animal, com
vistas à procriação.
Assim o entendiam os antigos. Contudo, está errado, porque Deus
não é essência pura, senão também substância, unicamente, pela
qual objetivamente existe. Dado que o fiel da balança, na mulher,
pende mais para o corpo, para o sentimento, para o amor, ela se
aproxima mais de Deus por este aspecto do que pelo da
racionalidade. Já o homem pende mais para a razão do que para o
sentimento. Na família é que se dá a convergência destes dois
contrários: homem e mulher, razão e sentimento, racionalidade e
amor, inteligência e coração. A mulher, portanto, não é em referência ao
varão, cópia carbonada dele, imitadora servil do homem, porque Deus
não é razão pura, sendo este o motivo remoto de a mulher não
80

poder ser comparada ao homem; terá ela que ser definida em


relação ao sentimento, ao amor, e não, em referência à
racionalidade. Conseqüentemente, as mulheres masculinizadas, viragos,
racionais, são inferiores, do mesmo modo que os homens efeminados. E
se os homens reclamam de as mulheres não prestarem atenção às
coisas do intelecto, elas, por sua vez, protestam contra o alheiamento
dos homens em relação a elas próprias e à família.
E há mais isto, conforme já o demonstramos nestas e outras
páginas: não há ser real sem essência e substância; não há entidade
objetiva sem alma e corpo. E assim como a fechadura não é mais
importante do que a chave para fechar a porta, e vice-versa; nem a
porca, mais que o parafuso, para apertar a peça; nem o elétron
mais que o próton para formar o átomo; de igual modo, alma e
corpo são igualmente importantes para formar o homem, e este e a
mulher são igualmente importantes para formar a família. A mulher é
igual ao homem em importância, em valor, porém, diferente por
função. A referência de valor da mulher não é o varão; a mulher não é
em função do homem, e sim, ambos, em referência ou em função da
família.
Ou cada um do par humano é considerado individualmente,
separado para uma visão de análise, pelo que se torna um absoluto, não
se referindo a nada para além de si, ou é olhado em referência à
família, e, aí, o homem é igual à mulher em valor, em importância,
conquanto ambos sejam diferentes funcionalmente, como soem ser todos
os binários que se integram numa unidade hierarquicamente superior.
Para a visão de síntese, tudo é relativo, porquanto vai juntando
partes em todos maiores, e estes, em outros, até perder-se num Horizonte
inacessível. Subindo-se por essa escala de relações ter-se-á de chegar a
uma Unidade total que não terá outro termo de relação ao qual se
associe, por ser única; conseqüentemente, não haverá referência para
esta Unidade última que é o Absoluto. A esta última Unidade inacessa,
último termo da nossa determinação, da nossa promoção, damos o nome
de Absoluto por excelência ou Deus, além do qual não há mais subir. Se
o próprio universo físico total é relativo, há de ser em relação ou em
função de Algo maior que ele. Deste modo, pelo próprio
estabelecimento de relações, chegará o momento em que o Absoluto se
nos impõe como Horizonte intransponível e ignoto. Ignorado, mas,
existente, porque a mente nossa o determinou, o promoveu, teve de o
promover... para não se perder a si mesma no caos mental preludiada
pela agnosia metafísica.
Do exposto, vem esta conseqüência: o cético é um mentiroso,
porque, se não cresse em nada, se não tivesse crença nenhuma
unificando, sistematizando, o seu saber, não poderia orientar-se na vida,
81

não poderia agir, estaria impedido de escolher, de decidir-se, de viver.


Ora, ele está bem vivo e bem confiante, e anda agindo e discutindo, por
aí, seu não vivido negativismo, e ainda justificando sua conduta e suas
ações; justificando-as em função de que? em referência a que? se não crê
em nada e em dúvida põe tudo? Mas, se justifica sua vida, conduta e
ações em função de Algo, como, logo, não crê em nada?
Fritz Kahn declara que "ser céptico é o nível mais elevado que se
pode atingir no pensamento. Poder-se-ia dizer, portanto: "O cepticismo é
a religião do homem culto". Por causa, como dissemos, de o cético ser
um mentiroso, o mesmo Fritz Kahn escreve noutro lugar: "Ë preciso
banir do mundo o sofrimento. Não pretendemos ser filhos da natureza;
timbramos em sermos rebeldes contra ela". Ora bem: se é nosso dever
rebelarmo-nos contra a natureza para a corrigir, porque a julgamos
errada ou falha, em que nos basearemos para esse nosso juízo, ou
nos alicerçaremos para esse nosso feito? Em nós próprios? mas nós
somos produtos da natureza, e o produto que se rebelar contra o
produtor será destruído por ele... Então, nos basearemos nalguma
verdade fora de nós? Todavia, que verdade pode haver para quem,
pondo tudo em dúvida, declara ser este estado de dúvida, de ceticismo,
o mais alto, tido até como "a religião do homem culto"? Quem tudo
põe em dúvida, não pode reformar nada; mas, se pretende reformar
alguma coisa, tem que partir de alguma crença (que é o homem),
pelo que tal homem não é cético. E não sendo cético, e tal se
declarando, é mentiroso.
O agnóstico é outro mentiroso, porque, se, como diz, o Absoluto é
inacessível ao espírito humano, ele não deixa de ter o seu absoluto
em que ele fundamenta sua ciência (primeiros princípios), sua
matemática (postulados e axiomas), e em que se apóia para
justificar suas ações, sua conduta, sua vida. O "Grande Meio" de
Augusto Comte é o Espaço; e que é o Espaço se não uma intuição
indemonstrável, um absoluto? A Terra é o "Grande Fetiche"; mas por
que "Grande", se a própria ciência positiva sabe que ela é apenas
parte, e ainda ínfima, de um todo imensamente maior? A
Humanidade é o "Grande Ser"; porém, se o próprio homem isolado,
individual, ou ele, no seu aspecto social, não pode ser reduzido a
fórmula de ciência positiva, a princípio de razão, acaso os
positivistas sabem o que vem a ser a Humanidade? Todo mundo sabe o
que é a Humanidade, do modo como Santo Agostinho sabia o que é o
tempo: "Se ninguém me perguntar o que é o tempo, eu sei o que é
o tempo; mas se alguém me perguntar o que é o tempo, eu não sei o
que é o tempo". Então, que é a Humanidade? Para saber-se o que ela
é, precisar-se-ia saber o que é o homem..., e este, até agora, não
se deixou reduzir a princípio de razão, a discurso racional, a fórmula
82

de ciência.
Todo mundo sabe tudo e não sabe nada; sabe tudo em grosso,
intuitivamente, como um absoluto; tanto que apura a vista sobre o que
julga saber, já não sabe nada, que tudo, então, se perde num
relativismo ilimitado. Sócrates dizia nada saber, e, de fato, não o
sabia mesmo, exaustivamente, em visão de análise; mas sabia tudo
em grosso modo, em visão de síntese; ou então, também era outro
mentiroso, como o cético, e como o agnóstico; porque, se nada
sabia, como alardeava, então, como coordenava o seu questionário,
habilidosamente, de modo a fazer que e interlocutor chegasse onde
ele queria que chegasse? Um homem que nada sabe, tem que ser
um mudo; falou, para si ao menos, sabe o que diz, e, se, em
falando, disser que nada sabe, já disse uma coisa notável: disse ter
consciência da sua própria ignorância, porque, quem não sabe
nada de fato, nem que não sabe não sabe. E em dizendo ter consciência
da extensão infinda do quanto ignora, já mentiu de novo, porque
nenhum homem pode ter consciência da vastidão de tudo o quanto
ignora. Daí que, chegar a ter consciência da própria ignorância, é ser
sábio, e o sábio, em tal grau, ainda está por nascer no mundo. A
consciência da própria ignorância só a pode ter aquele que, tendo
esgotado todos os recursos da razão, das ciências todas, ainda que
em grosso, vislumbrou seu Horizonte inacesso, Deus, um Horizonte que
sempre se alarga, afastando-se para mais longe, cada vez mais
longe a cada nova retomada, nova determinação, nova promoção.
Esse Horizonte é Deus, como extremo Absoluto. Não horizonte espacial,
somente, mas, Horizonte sob todas as acepções. Quem chegou a
tanto, pode dizer, exausto de infinda caminhada, e com a
simplicidade e humildade de um sábio, que sabe que não sabe.
Esta é a visão de síntese, ou indutiva, que leva ao Absoluto, e
por tal caminho, o homem intui Deus. Nesta visão, tudo é relativo no
sentido de que, exceto a última, todas as demais unidades se
relacionam em cadeia hierárquica ascendente, até o Horizonte.
Na visão oposta, ou de análise, ou dedutiva, tudo se nos mostra
como todos decomponíveis em todos menores. Agora, então, tudo é
absoluto, visto como, cada unidade é vista como um todo isolado; não
a vemos, agora, em relação àquilo que, com sua contrária, havia de
formar, que é um todo maior. Nesta visão de análise, cada unidade
posta a exame, já se nos mostra como um todo unitário, independente
de qualquer referência a um todo superior. Um físico nuclear, ao estudar
determinado átomo, considera-o como unidade não relacionada.
Diverso do químico que procura combiná-lo com outros átomos
diferentes, para obter uma molécula composta, e, depois, uma outra
complexa da cadeia do carbono; o físico nuclear não enxerga o mesmo
83

átomo em termos de relação, mas, em termo de absoluto cuja estrutura


tenta desvendar com o auxílio de seus instrumentos e de seus
cálculos.
Um mesmo rio pode ter significações diferentes: para um
geógrafo que o relaciona com os demais rios de uma bacia
hidrográfica; para uns pescadores que enxergam o rio em termos de
pescado; para um biologista que colhe, com uma pipeta, um pouco de
água para a análise do seu plancto. Para o geógrafo, o rio é
relativo na cadeia dos demais rios associados na formação da bacia
hidrográfica cujo regime fluvial ele estuda. Para os pescadores, o rio é
um absoluto, cujas águas dão os peixes de que se sustentam, pois no
pescado se baseia a economia de suas vidas individuais, familiares
e comunitárias. Já o biologista estuda o plancto, e, deste abaixo, analisa
as espécies microscópicas e larvárias que formam este piso ecológico
sobre o qual se apóiam as demais espécies vivas do rio, até os peixes
que são o ponto de partida das atividades sócio-econômicas dos
pescadores. Aí está, como o rio pode ser absoluto e relativo,
dependendo só do mirante de que se o vê.
Um biólogo que põe os olhos sobre um animálculo, abstratamente,
pode ter duas visões opostas, uma absoluta e outra relativa. A visão
relativa relaciona o bichinho com outros, segundo uma hierarquia
ascendente de espécie, gênero, família, ordem, classe, filo e reino.
Ainda sua visão introspectiva o pode levar às relações ecológicas,
ou às relações de comportamento frente aos estímulos, ou então, a
situar o vivente num ponto da escala evolutiva, evocando sua
história biológica até ali, vendo, ainda, como, a partir dele, surgiram
espécies superiores, graças às mutações, adaptações e seleções...
ocorridas durante milhões de anos. Tem razão Ortega: "O "sentido" de
uma coisa é a forma suprema de sua coexistência com as demais, é sua
dimensão de profundidade. Não, não me basta ter a materialidade de
uma coisa; necessito, além disso, conhecer o "sentido" que tem, quer
dizer, a sombra mística que sobre ela verte o resto do universo".
Neste ponto pode, nosso biologista, suspender seu pensamento
relacionativo ou relativo, e ater-se ao aspecto absoluto do animal,
com que o enxerga como um todo independente. Dele abaixo, vê o
sistema estrutural de órgãos, de aparelhos, de células, de gens, de
moléculas. Neste aspecto, o ente vivo em acurada observação, não se
relaciona a nada, não se refere a coisa alguma para cima, e antes,
resulta, é o ponto culminante, o absoluto para onde se converge na
unidade o leque universal interior, ou as cadeias todas de
relacionamentos inferiores. E ainda, qualquer destas unidades
inferiores, se posta sob exame, fica, também, absoluta, não
relacionada, porque o intento é enxergar do nível dela para baixo.
84

Nosso biólogo poderá, então, dizer de si consigo: este animálculo que eu


cuidava fosse um nada no universo, na verdade é também um
universo no nada,... tal qual escreveu Fritz Kahn da Terra em que
habitamos. Bem se expressou Ortega: "Para quem o pequeno nada é,
não é grande o grande".
Que é, pois, absoluto, e que é relativo? senão pontos de vista,
um que relaciona em cadeia, para cima, e outro que desmembra,
disjunta, desvincula, dissocia, desintegra e analisa para baixo? Se
quem olha para cima, a escala de relações, conclui que tudo é
relativo, o outro que, no topo da escada, olha tudo em unidades
mentalmente dissociadas, cada uma como um todo em si mesma,
poderia, igualmente, afirmar que tudo é absoluto. Quem teria razão?
Pois não pode ser senão aquele que, no meio da escada, olhando para
cima e para baixo ao mesmo tempo, com dupla cara do deus Jano,
afirmasse que tudo é relativo e absoluto ao mesmo tempo. Tudo,
pois, é relativo e absoluto para quem olha uma mesma coisa, em
tempos sucessivos, um dela acima, e outro dela abaixo.
Por que estaria interessado o lavrador em estudar todo o complexo
sócio-econômico que nasce do milho produzido na sua e nas demais
roças? Conhecer a terra, o adubo próprio, as pragas do milharal, os
inseticidas eficientes, boas sementes que dêm boa produção, a técnica
do plantio e a do trato, tudo são análises, para si, que se totalizam
numa palavra - MILHO. Este é o seu objetivo em que se ocupa todo o
tempo com pensamentos, cuidados, preocupações e trabalhos; este, o
seu absoluto, enquanto produtor.
Tudo o que é do milho acima, não lhe interessa, enquanto
produtor; interessa-lhe, sim, quando se põe na atitude de vendedor
do seu produto, e é, então, quando entra na cadeia das relações
da qual seu milho é apenas um elo.
Enquanto produtor, o milho é o objetivo, o horizonte para o qual se
canalizam todos os esforços e aspirações. Se o lavrador fosse um
primitivo, e não visse nada além do horizonte-milho, certamente que
faria a festa dele, com cerimônias religiosas, danças litúrgicas,
distribuição de alimentos e bebidas vindas do milho, pois sendo este o
mantenedor da vida humana e da dos animais domésticos
indispensáveis, por isto, era um deus..., deus porque dá. Jacó fez voto
de que seu Senhor seria seu Deus, se lhe desse pão, vestido e amparo
(Gê. 28, 20), porque, como anota Vieira, "A etimologia deste nome
Deus deriva-se do verbo dar: chama-se Deus porque dá". Daí, que,
como diz Toynbee, "a retirada e o regresso anual do milho, foram
traduzidos em termos antropomórficos no ritual e na mitologia, como é
testemunhado pelo rapto e pela ressurreição de Dionísio, Adônis e
Osíris, ou qualquer outro que possa ser o nome local atribuído ao
85

espírito universal do milho ou deus do ano, cujo ritual e cujo mito, com
o mesmo grupo de personagens representando o mesmo drama sob
nomes diversos, se encontra tão difundido como a própria prática da
agricultura".
Também o milho será um absoluto para o biólogo especializado
em genética que, de há muitos anos, o estuda no laboratório com o fim
de obter uma espécie dadivosa e rica em proteínas, qual a
"triticale"..., espécie intermediária entre o trigo e o centeio, obtida
graças às modificações produzidas nos cromossomos de ambos. Para
tal pesquisador não interessam as muitas cadeias de relações em
que o milho aparece encaixado; seu milho também é um absoluto,
visto que o vê dele abaixo.
Esta é a razão por que o absoluto do homem das cavernas tinha
que ser o urso, pois foi no dorso deste grande animal pacato, herbívoro
como se sabe hoje, que cavalgou toda a cultura da Idade da Pedra. O
urso era a referência, ou tudo era em referência ao urso; por isto, o
homem fê-lo deus, vendo nele aquela generosidade que o próprio
homem primitivo não possuía. Depois do urso, foi o milho, com sua
vida, e morte, e ressurreição anual. Depois foi o fogo cujo calor e luz
aquece e ilumina, fogo do céu no raio, fogo da terra no vulcão, fogo
da vida nas entranhas animais, fogo renovador da inteira natureza -
igne natura renovatur integra. Por último foi o Sol, o gerador do fogo, o
deus da claridade, antropomorfizado nos mitos solares, como o de
Sansão cuja força residia na fulva cabeleira, como o de Hércules
transformado em chamas no cimo do Eta na Tessália.
A última instância de que o homem, absolutamente, depende,
foi sendo o seu Absoluto, o seu último Horizonte, o seu Deus. Por isto,
não é muito que o Homo technicus moderno tenha hoje feito da
ciência uma deusa nascida, qual Minerva armada, da cabeça de seu
pai absoluto que são os primeiros princípios e os postulados, por sua
natureza indemonstráveis. A deusa promete tudo ao homem:
comodidade, conforto, poder e abundância de riquezas, não, porém, a
felicidade, porque esta não é exterior. Também ela diz ao homem,
como o Demo a Cristo: dar-te-ei tudo, se prostrado me adorares.
Contudo, deve responder-lhe o homem, como Cristo o fez: Vade retro,
Satana!... que nem só de comodidade e pão vive o homem, mas de tudo
o que, com sensibilizá-lo, o arrasta para Deus! Eis, pois: com Deus, a
ciência é sabedoria, e, sem Deus, é luciférica loucura, é o riso de
Satanás...; por isto, com ela e sem Deus, o homem, irremediavelmente,
está fadado a perecer. Porque como agudamente observou Ortega, "a
técnica é consubstancialmente ciência, e a ciência não existe se não
interessa em sua pureza e por ela mesma, e não pode interessar se as
pessoas não continuam entusiasmadas com os princípios gerais da
86

cultura. Se se embota esse fervor - como parece ocorrer -, a técnica só


pode perviver um pouco de tempo, aquele que lhe dure a inércia do
impulso cultural que a criou. Vive-se com a técnica, mas não da
técnica. Esta não se nutre nem se respira a si mesma, não é causa sui,
mas precipitado útil, prático, de preocupações supérfluas, não
práticas". Eis que o positivismo das ciências, das técnicas se reportam a
um não positivismo dos primeiros princípios, dos postulados, da
cultura, sendo esta o resultado de um flanar criador, não utilitário,
não prático. Este embasamento cultural, metafísico, das ciências
(estas, ocultadas por detrás das técnicas), é inalienável, porque,
como disse Ortega, a técnica que "é consubstancialmente ciência",
“não se nutre nem se respira a si mesma", pelo que se torna absurdo e
loucura pretender ser só positivo.
Todavia, em tal loucura, em tal sonho de louco, tresvariou a
excelsa inteligência de Augusto Comte, e, pretendendo ser positivo,
ficou impedido de ir além da Humanidade (Grande Ser), do Espaço
(Grande Meio) e da Terra (Grande Fetiche). Contudo, este
fetichismo em que recaiu, para castigo de sua soberba intelectual,
está abaixo daquele do primitivo donde partiu ele para os seus estudos,
porque, para o grande pensador francês, a porta da sobrevivência da
alma esteve hermeticamente fechada. E se a questão era ser
positivo, objetivo, aderente aos fatos, nada mais positivo,
inquestionável e fáctico do que o urso das cavernas.
Por mais estas razões, que não só aquela já exposta, deixa de ser
justa a ironia de Gusdorf quando transcreve o pensamento dos filósofos,
de Platão a Lavelle, que disseram: "O absoluto não o é
absolutamente". Não é que os filósofos dotaram as palavras de
suficiente elasticidade, para, depois, prometerem a vida eterna a
seus discípulos, a qual, certamente, para Gusdorf, não existe. É que
as palavras têm que ser elásticas mesmo, para acomodar-se a um
pensamento dinâmico, móvel, flexível, a fim de que o condor, com seus
adejos de asas, possa estar já na terra firme, já nos altos céus.
Absoluto e relativo se opõem como o infinito e o zero
matemáticos que, em si, não dizem nada, só passando a ter
validade dentro dum contexto, dentro duma situação. Uma coisa pode
ser absoluta ou relativa, dependendo de como a enxergamos; se de
baixo para cima, numa hierarquia ascendente de unidades, ela é
relativa, visto como há sempre uma unidade ao lado dela,
complementar, com a qual se relacione, e uma outra maior, acima
dela, à qual se reporte, se refira. A última referência é o Absoluto
por excelência, Deus.
De Deus abaixo, numa visão de escala descendente, tudo é
absoluto, porque qualquer unidade em que se ponha os olhos, não se
87

liga, não se relaciona a nada, uma vez que a intenção da análise


não é formar unidades maiores, e sim, observar de que unidades
menores se constitui qualquer todo cuja estrutura é nosso intento
conhecer.
88

VI - HOMEM-MUNDO-DEUS

Tudo, pois, é hierarquizado: dois sistemas opostos e


complementares integram-se, para formar um sistema maior que, por
sua vez, com o seu contrário, forma um outro sistema ainda maior, e
assim por diante, até o Absoluto, sendo este uma intuição. Do
Absoluto abaixo, todo sistema é decomponível em dois sistemas
menores, hierarquicamente iguais em importância, iguais em valor,
mas opostos e complementares; e cada elemento do par de menores, a
seu turno, pode ser decomposto em outros dois, ainda menores, até o
último limite do ser, em que ele, ínfimo, se torna como nada.
Conseqüentemente, a missão de cada ser consiste em manter-se no
posto que ocupa na hierarquia de um universo perfeito, estável, ou
subir para esse lugar, se o universo em que se acha, está em
evolução. Fale Ortega: "A rigor, a rebelião do arcanjo Lusbel não
houvera sido menos se em vez de empenhar-se em ser Deus - o que
não era o seu destino - se houvesse obstinado em ser o mais ínfimo
dos anjos, que tampouco o era. (Se Lusbel tivesse sido russo, como
Tolstoi, teria talvez preferido este último estilo de rebeldia, que não é
mais nem menos contra Deus que o outro tão famoso)" .
Nesta onímoda hierarquia, cada ser ou coisa tem o seu lugar,
não sendo permissível a desordem, seja pela rebelde descensão a
posto inferior, seja pela usurpação indébita de nível superior. Buda e
Schopenhauer buscavam o aniquilamento próprio, o não-ser, e isto é,
sair da hierarquia para descer a último, a ínfimo, a nada. Lusbel,
aspirando o grau supremo, em vez de subir-se mais e mais, arrojou-
se de cabeça ao fundo abismo, ao centro do universo, em tempestuosa
agitação, até que, todo transformado em puro dinamismo, em energia
pura, sua divina substância, se tornou no caos. Não vale, pois, tornar
absoluto, seja o mundo, seja o homem; e se Deus é reconhecido como
Absoluto, é por necessidade desta instância superior que vale como a
última Referência do homem, pela qual este se justifica a si mesmo,
e, também, o mundo. Esta última Referência que é a intuição da
divindade, varia, portanto, com o desenvolvimento do homem, como o
atesta sua história. Só Deus é um fim em si mesmo, não o homem, nem
o mundo; no entanto, o fim que todo homem busca é sua felicidade, e
todos os seus esforços se canalizam a realizar este fim. Se a
Referência do homem e do mundo é Deus, este é o fim do mundo e o fim
do homem. Não fim no sentido de que o homem e o mundo possam vir a
ser Deus, mas fim no sentido de que o homem e o mundo venham a ser
o que Deus, inexoravelmente, impõe que um e outro seja.
Sendo Deus o fim do homem, deveria este buscar o Ente sumo,
89

perder-se nele, desprezando o mundo? Não, porque o fim do mundo


também é Deus, cumprindo ao homem ir para Deus com o mundo, e não
separado deste. Não pode o homem dissociar-se do mundo, porque
sempre o leva consigo na porção de matéria do seu próprio corpo
inalienável, visto que a substância jamais se divorcia da essência,
nem a matéria da alma, seja nesta vida terrenal, seja no supremo
nível do mais alto céu.
Porém, como o homem é egoísta, ele tem urgência de ser feliz;
quer ser feliz por atalhos; e sendo Deus o sumo Bem, o místico
despreza o corpo, o mundo, os homens, e se atufa em Deus, não
achando aí mais que o vazio. Não vê, o anacoreta, que o mundo é
mau, porque se acha invertido por efeito da queda que aconteceu. Os
fautores da queda são os culpados pela inversão do mundo; como,
agora, querem ir diretamente para Deus, deixando o mundo que, por
sua culpa, está invertido? Desenganem-se todos, que a felicidade só
pode ser alcançada por aproximação, e a longo prazo! Não há
atalhos possíveis para o céu! Cristo é modelo de vida moral,
expoente de civilização, padrão de conduta social, não, porém,
substituto. A fé que salva o homem... de estar em mundos
inferiores (infernos), não é vazia, mas cheia de conteúdo vivencial
nos moldes deixados em termos de vida e de conduta, por aquele
que, por excelência, é a Pedra Cúbica do edifício da civilização
ocidental. O ato devocional é o continuado esforço de realizar o
propósito, já assumido, de desinversão do homem natural, ignorante,
egoísta e animalesco, no homem sobrenatural, desinvertido, amoroso e
sábio.
Por conseguinte, para ser possível a felicidade plena, só
realizável por aproximação e a longo prazo, o homem terá que
manter o equilíbrio do triângulo luminoso, equilátero. A
concentração só em Deus, embora seja este o sumo Bem, cria o
anacoreta egoísta que, para perder-se no amor divino, despreza o
corpo e o mundo, invalidando-se para com o próximo que também
possui parte do mundo em seu próprio corpo. Ou então, se se preocupa
com o próximo, este passa a ser a Humanidade em geral, sem corpo,
anônima, distante, in abstracto, o Leviatã de Hobbes, o Grande Animal
de Alain. Neste sentido é que se entende a frase de Henry Fonda: "É
mais fácil amar a Humanidade do que amar ao próximo".
Rousseau vivia falando do amor à humanidade, porém,
indispunha-se com todo o mundo. Quem seria, então, a sua
"humanidade"? Tolstoi, como o declarava sua esposa, vivia trancado
num aposento, a escrever sobre o amor de Deus e do próximo; no
entanto, não convivia, não dialogava, não tolerava a presença de
ninguém. Quem era, neste caso, o "próximo" para Tolstoi?
90

Schopenhauer se ocupava em escrever sobre a piedade; contudo, no


aposento em que escrevera, com arte suma, incomparável, sobre como
triunfar das paixões, atirou com uma sua inquilina escada abaixo,
desastradamente, pelo que lhe teve de pagar uma indenização. Era
impiedoso na cobrança de aluguéis, embora estivesse a escrever,
exatamente, sobre a futilidade dos bens materiais. Que vinham a ser a
"piedade" e o "desprendimento" para Schopenhauer? Os devotos ou
crentes de todas as religiões vivem a bater nos peitos, a emocionar-se
até as lágrimas com os exemplos e ditames de Cristo; porem, em suas
vidas, não fogem à regra de Rousseau, de Tolstoi e de Schopenhauer,
como se a religião nada tivesse a ver com a vida. Quem e, então, o
próximo?
O próximo é o outro que segue a meu lado, ou vem ao meu
encontro, em sentido oposto ao meu, em qualquer lugar. Esse outro é o
primeiro dado da criança, antes de ela integrar-se em sua personalidade
ao passar pela experiência de ver o último outro refletido no espelho,
que é si mesma.
Ninguém, pois, pode fugir de referir-se a um Absoluto, porque,
quando se resigna a não ir além, para ter-se num limite do ainda
concebível, esse limite se torna Absoluto, por não ter nenhuma
referência acima, por não se referir a nada mais além. Não se referindo
a nenhum outro termo, cessa de ser relativo; não tendo mais ponto de
referência acima, fica único, e isto é ser Absoluto.
Desde o urso das cavernas, o homem foi deslocando o seu
Absoluto para mais além. Quando os clãs, cada um com o seu deus
particular, se integraram em tribos, os deuses também se reuniram num
concilio, cada um com a incumbência de governar uma porção da
natureza, segundo a concepção tribal - era o politeísmo. E ao integrar-se
as tribos nos primeiros Estados, os deuses, outrora iguais em poder, se
submeteram à autoridade de um chefe único, estando aqui a base do
monoteísmo.
O que ia acontecendo na terra tinha seu correspondente no céu e
vice-versa; o próprio conquistador militar levava o estandarte do seu
deus, e se fazia acompanhar de seus profetas-feiticeiros-
conselheiros, de modo que, ao fazer-se vencedor e chefe dos
vencidos, neste mesmo ponto seu deus se fazia o deus sobre os demais
deuses. Ciro, o persa, antes de tomar uma cidade pelas armas,
tomava-a pelos deuses dela, isto é, após acampar-se nas
vizinhanças, levantava altares aos deuses daqueles aos quais ia
submeter, e a estes deuses oferecia sacrifícios. Ora, não faltavam
espiões adversários que corriam a levar a nova à cidade, e, da parte
desta, não havia a certeza de que não ofendera a seus próprios
deuses, e que chegara, então, a hora do castigo.
91

As consultas aos oráculos anteciparam sempre as batalhas, e


as respostas dos deuses sempre eram favoráveis de ambos lados, com
o que se mantinha levantado o moral das tropas. Sempre os chefes
militares tiveram de haver-se com as superstições de seus soldados
todos crendeirões. Diz Cervantes, no Quixote, que Cipião, em chegando
à África, tropeçou e caiu, o que foi logo tido, por seus soldados, como
um mau agouro. Contudo, Cipião, solerte, abraçando-se com a terra,
gritou, para que todos o ouvissem: "Não me poderás fugir, África,
porque te agarrei com meus braços".
Quando o enviado de Senaqueribe, rei dos assírios, se chegou aos
muros de Jerusalém, dirigiu seu discurso ao povo desta cidade, contra
Ezequias, seu rei, nesse tempo, usando, entre outras, destas
palavras: "Não queirais dar ouvidos a Ezequias, que vos engana,
dizendo: O Senhor nos livrará. Acaso os deuses das gentes lvraram
as suas terras da mão do rei dos assírios? Que é feito do deus de
Emath, e do deus de Arfard? Que é do deus de Sefarviam, e de Ana, e
de Ava? Acaso livraram eles da minha mão a Samaria?" (2
Reis 18, 32-34). Por que tal discurso? Porque Senaquerib, harto,
entendia que o moral do povo e o dos soldados, funda-se na crença
da proteção divina; minar esta crença é vencer por metade o inimigo.
Esta primeira batalha, pois, feita só de palavras, suscitou o rebate
de Ezequias que foi ao templo, prostrou-se frente a seu Deus, e
levantando para o alto as cartas que tinha recebido do rei assírio,
orou. E o comentário ao pé da página da Bíblia diz isto: "Ezequias
estende as cartas do assírio ante Deus, como que pedindo castigo
pelas blasfêmias que continham". Como se isto não bastasse, manda
Ezequiel seu secretário de estado e seu mordomo-mor irem ter com
Isaías, o profeta desse tempo, do qual trouxeram a resposta de que
Senaqueribe levantaria o cerco, por causa de um fato que lhe ia
acontecer, vindo da parte de um espírito que lhe mandaria o Senhor.
O conquistador assírio retornaria à sua terra onde iria perecer a
espada. Dito e feito. No acampamento de Senaqueribe, sem causa
conhecida, na mesma noite, morreram cento e oitenta e cinco
homens. Vendo isto, o assírio levantou o acampamento, e se foi para
Nínive, onde, estando no templo a orar a seu deus Nesroch, foi morto a
estocadas por seus dois filhos Adramalec e Sanasar. Eis aí, o final
de uma batalha que foi decidida ao nível dos deuses, que não de
homens.
Falando a Ciaxares, diz Ciro, o persa: "Meu tio, vós e todos,
concordam em que o êxito de uma batalha está mais vinculado ao
ânimo do que às forças físicas". E a prova disto temo-Ia na peleja de
Amaleque contra os israelitas. Mandou Moisés que Josué,
acompanhado de homens valentes, fosse ao encontro de Amaleque,
92

enquanto ele, Arão e Hur subiram ao outeiro, levando na mão a


vara do Senhor, de modo que os três estivessem visíveis no cimo do
monte, ao amanhecer. Principiada a peleja, aconteceu que "quando
Moisés tinha as mãos levantadas, vencia Israel: se porém as
abaixava um pouco, vencia Amaleque" (Ex. 17, 11). Como as mãos
de Moisés se mostrassem pesadas de cansaço, não houve outro jeito
senão que as sustentasse erguidas, de um lado, Arão, e do outro,
Hur. Então, à vista das mãos suspensas de Moisés, os homens de
Josué derrotaram os de Amaleque. As mãos de Moisés paradas no ar,
infundindo confiança aos amigos e terror aos inimigos, decidiram,
mais que as armas de Josué, a sorte da batalha, porque as vitórias
dependem mais dos ânimos que das armas (Ciro); e como os ânimos
dependem das crenças, conforme o provaram, por atos, Moisés e Ciro,
então, as vitórias dependem das crenças mais do que das armas.
Porque "somos as nossas crenças" (Ortega); porque "a crença é o
guia da ação" (Peirce). A fórmula virgiliana: "possunt guia posse
videntur (Eles podem porque crêem poder) é válida para este caso.
Harto, isto entendeu o gênio político de Constantino, para unificar as
forças profligadas do Império Romano debaixo do símbolo da Cruz que
vira em sonho, ou inventara ter visto, na qual lera a mensagem: In
hoc signo vinces (Com este sinal vencerás).
Se o filósofo existe entranhado no fundador de religiões, deixa
de ter sentido a fala de Hegel de que "a tomada de consciência da
universalidade em idéia supõe a realização da universalidade de fato,
a realização de um quadro de existência tal que a exigência
intelectual nele possa manifestar-se, em alguns, na segura calma do
lazer, fruto de uma técnica e de uma cultura já muito avançadas".
Esta é a interpretação hegeliana para a frase latina "primum vivere,
deinde philosophari"; quer dizer: primeiro ganhar a vida; depois,
entregar-mo-nos as especulações filosóficas. Gusdorf diz que "Hegel
não possuía a virtude da ironia"; mas foi Hegel o que, irônico,
confirmou sua tese de que precisamos ganhar a vida, primeiro, para,
depois, filosofar; disse ele: "Adotei como estrela guieira a frase bíblica,
cuja verdade a experiência fez-me reconhecer: "Procurai antes de tudo
alimento e vestuário, que a isso se vos acrescentará o reino do
Céu". Para um tal homem, pois, a idéia vem depois da ação.
Disto decorre outra falha hegeliana, e é a de fundamentar a
experiência metafísica na necessidade. Afirma ele que "a necessidade
de se ocupar do pensamento puro pressupõe longo caminho já
percorrido pelo espírito humano; podemos dizer que ela é a
necessidade da necessidade já satisfeita, da necessidade de não
sentir necessidade (...)" Não é a necessidade que move o homem
superior, e sim, o prazer. Miguel Ângelo não esculpiu o seu "Moisés" por
93

necessidade, senão pelo prazer de criar. Fale, a isto, Fritz Kahn:


"Viver é prazer; por isso vivem as criaturas. Voar é prazer; por isso os
seres voam. Não há outra razão para o vôo. A teoria de que os
animais ou os homens voam, porque voar traz vantagens, é uma das
costumeiras explicações superficiais da natureza, excogitadas pela
mentalidade mercantil dos homens do século XIX. Dédalo afivelou as
asas, não porque não houvesse outro meio de transporte para a
travessia do Helesponto, mas porque ele era um "inventor de coisas
belas" e, conseqüentemente, inventou - além da serra e do torno de
oleiro - o vôo; como Leonardo da Vinci criou, além da "Madona dos
Rochedos" e da "Orelha de Dionísio", submarinos e aviões, porque
também era "um inventor de coisas belas". Mais: "Para a maioria das
criaturas, há só os dois estímulos mencionados por Schiller:
"fome e amor" (...) "Os insetos, porém, trabalham pelo prazer de
trabalhar (...) “Laboriosidade de abelha” é o superlativo dum elogio.
E a Bíblia reza: "Vai ver a formiga e aprende, ó preguiçoso".
Não foi a tecnologia e o desenvolvimento da civilização que
propiciaram o lazer; este existiu sempre. A contínua caça de
alimentos e de conforto como fim, e não, meio, que escraviza o homem,
forçando-o a mourejar dezesseis horas por dia, é invenção do homem
civilizado. Se não estão à cata de alimentos, os animais brincam ou
dormem. Um bando de macacos e de homens primitivos, não fazem
exceção a esta regra, não havendo, nunca, para uns e outros, as crises
de super produção que são absurdos geradores de miséria e guerra.
Um leão não trabalha; nem o tigre; nem o burro. "Trabalhar como
burro" é expressão humana sem sentido na natureza, pelo que se
devia acrescentar: trabalhar como o burro que o homem obriga a
trabalhar... Tal como o trabalho prazeroso, diletante da formiga e o
da abelha, é o pensamento; quando ele surge, pensar é prazer, e só
por isto os filósofos pensam... já citamos este trecho de Ortega neste
livro, e agora vem, de novo, o mesmo trecho noutra situação; ei-lo: "A
técnica é consubstancialmente ciência, e a ciência não existe se não
interessa em sua pureza e por ela mesma, e não pode interessar se as
pessoas não continuam entusiasmadas com os princípios gerais da
cultura. Se se embota esse fervor - como parece ocorrer, - a técnica só
pode perviver um pouco de tempo, aquele que lhe dure a inércia do
impulso cultural que a criou. Vive-se com a técnica, mas não da
técnica. Esta não se nutre nem se respira a si mesma, não é causa suí,
mas precipitado útil, prático, de preocupações supérfluas, não práticas".
Onde, pois, de Hegel, que "o filósofo seria (...) o obreiro da
undécima hora, que se beneficia do trabalho de outrem sem no
mesmo tomar parte, uma espécie de capitalista que vive dos juros
da civilização"?
94

Onde, isto, se o pensador está oculto no fundador de religião, no


legislador moral dos primórdios, sem cujo trabalho não há civilização?
Se a ciência, a técnica, nascem dos princípios gerais da cultura,
como precipitado útil, prático, de preocupações supérfluas, não
práticas, no dizer de Ortega, como inverter a proposição, como faz
Hegel, e dizer: "a tomada de consciência da universalidade em idéia
supõe a realização da universalidade de fato"? que "a necessidade
de se ocupar do pensamento puro pressupõe longo caminho já
percorrido pelo espírito humano", em sentido coletivo? que "o chefe
militar, o técnico, o engenheiro, o legislador, o administrador são,
anteriormente ao filósofo, os pioneiros dos tempos novos,
organizadores de uma realidade humana em larga escala"?
Os filósofos existiram sempre... ocultos nos fundadores de
religiões, e se houve algum que, antes da madureza dos tempos, expôs
sua doutrina, esta doutrina perdeu-se por falta de receptores
despertos para a racionalidade, de prosélitos que a não deixassem
desaparecer. Dizer que, saídos do ar, "o chefe militar, o técnico, o
engenheiro, o legislador, o administrador são, anteriormente ao filósofo,
os pioneiros dos tempos novos, organizadores de uma realidade
humana em larga escala" é colocar o carro diante dos bois, porque
ninguém faz nada sem um norte, sem uma visão geral do mundo, ou
seja, uma visão do mundo em termos de totalidade, seja mística, seja
filosófica.
Se o fato é anterior ao pensamento; se os homens são movidos
por necessidades materiais, antes das espirituais, não teria sentido o
que se lê em Toynbee: "Homens e mulheres procuravam
entusiasticamente o martírio como um sacramento, um "segundo
batismo", um meio de perdão para os pecados e um caminho seguro
para o Céu. Inácio de Antióquia, um dos notáveis mártires cristãos do
Séc. II, designou-se a si próprio como "trigo de Deus" e anelava pelo
dia em que pudesse ser "triturado pelos dentes das feras e por elas
transformado em puro pão de Cristo".
Onde a satisfação das necessidades fundamentais, aqui, como
objetivo primordial da vida? onde a ação antes da idéia? onde, que a
civilização nasce do militarismo, como se fosse possível tirar tudo do
ar? Não há, pois, modo de separar o aspecto místico do político-militar
nos primórdios de uma civilização; nem o do fundador de religião, do
fundador de império. E se o filósofo, tirando a máscara de cera,
donde "sem cera", donde "sincero", se mostra qual é, no fim do último
ato, é porque ele já existia, oculto, na personagem do fautor de religião,
na do teólogo, na do legislador, na do sacerdote, na do chefe político-
militar desde o início. Não pode ser de outro modo, porque a filosofia
é uma visão geral do mundo da qual decorre uma forma de
95

conduta; sem tal visão não há conduta que conduza, que encaminhe,
que faça andar, progredir, que civilize. O homem é mais filósofo do
que se imagina; "o homem é um animal metafísico"
(Schopenhauer). Ou, então: "A inteligência humana é filósofa por
natureza" (Huberto Rohden – Filosofia Universal).
Os homens seletos, inteligentes, estudiosos, pensadores, que
sempre todos os povos tiveram, puseram em Deus o melhor de si, e,
desse Deus, essa mesma luz refletiu-se, agora autorizada, sobre o
coletivo, sob a forma de preceitos morais, ou, de outro modo: tais
homens tiveram a intuição de Deus, e a de como esse Deus tinha de
ser. O homem seleto lucubra sobre o mundo, sobre si; forma sua
síntese, e conclui que há um Deus, o qual se mostra, desde logo, não a
imagem e semelhança do homem, mas, a sua negação, a negação
de si animal, de si egoísta, de si "porcus bipedus". Então, a fala
humana se despersonifica de homem, se desumaniza, para
resplandecer com luz divina, que é como agora se reflete
peremptória, inconcussa, com força para impôr-se nas consciências,
nas vidas, nos costumes, nas instituições.
O Deus de Moisés era tribal; e como os demais deuses tribais,
tinha seu povo eleito. Este povo eleito entrava em guerra com outras
tribos, e era, então, que Jeová vestia suas armaduras de ouro
resplendentes, armava-se do seu trem, do carro seu, da sua
espada, e ia pôr-se à frente das colunas dos valentes, como Senhor
dos Exércitos. Se perdia uma batalha, a culpa era do povo por
causa de alguém que ofendeu o Senhor. Foi o que sucedeu quando foi
perdida a batalha contra a cidade de Ai. Acã escondera alguns
despojos da cidade de Jericó. Por tal crime foi ele apedrejado e
queimado juntamente com os tais despojos, filhos, filhas, bois,
jumentos, ovelhas, e a tudo o quanto tinha, até a tenda. Acã, e
família, e pertences, foram o bode expiatório, e pagaram por um
erro tático de Josué que subestimou o poder de guerra de Ai. Os
homens que enviara a espionar a cidade disseram: "Não suba todo o
povo, mas vão só dois ou três mil homens, e destruam a cidade: por que
se há de fatigar debalde todo o povo contra tão poucos inimigos?"
(Jos. 7, 3).
Quando ia Josué entrar na terra da Promissão, fez-lhe frente Siom,
rei de Hesebom. Então, escreve Moisés: "E naquele tempo tomamos
todas as suas cidades, e as destruímos, e matamos todos, homens,
mulheres e crianças; não deixamos ninguém". (Deut, 2, 34). O
mesmo que a Siom, rei dos amorreus que habitavam Hesebom,
aconteceu a Ogre, rei de Basã. Toda a terra de Argobe com suas
sessenta cidades pertencentes ao reino de Ogre, com capital em Basã,
foram tomadas: "E os destruímos, como tínhamos feito a Siom, rei de
96

Hesebom, destruindo todas as cidades, homens, mulheres e crianças"


(Deut. 3, 6).
Referente às leis de guerra, escreve o Senhor: "Porém, das
cidades destas nações, que o Senhor teu Deus te dá em herança,
nenhuma coisa que tem fôlego deixarás com vida. Antes destruílas-
ás totalmente: aos heteus, e aos amorreus, e aos cananeus, e aos
perizeus, e aos heveus, e aos jebuseus; como te ordenou o Senhor teu
Deus" (Deut. 20, 16 e 17). De Jericó, cujas muralhas caíram por
efeito do toque de buzinas, nada ficou em pé, ou saiu vivo, exceto a
prostituta Raabe e sua família, porque guardou e escondeu os
espiões enviados par Josué.
Este Senhor Jeová que decretava massacres hediondos, ainda
teve o bom senso humano-divino de imprimir na pedra o Decálogo, e,
neste, com mão poderosa, escreveu pela primeira vez: "Não
matarás".
Depois vem Jesus, na mesma cadeia, e proclama que Deus é Pai
de perdão, amoroso e solícito, decorrendo, disto, o ideal de fraternidade,
porque, sendo Deus o Pai comum de todos os homens, por sua
paternidade, todos os homens se tornam irmãos entre si. E como,
aos olhos de Deus, todos os seus filhos são iguais, e seu amor não
distingue ninguém, com a fraternidade, se impõe a igualdade. Um
Deus que é Amor, não pode fazer exceção de pessoas, seja por
causa da raça, da cor, do sexo, da língua, da religião, da
nacionalidade, de situações quaisquer. Se todos somos irmãos, se
todos somos iguais, sem distinção, todos, logo, somos livres, sem
servidões quaisquer, porém, responsáveis.
O ermitão, enfrascado em Deus, ainda que este é o sumo Bem,
não pode justificar a fraternidade, porque a questão não reside em que
seja Deus o sumo Bem, este que deu azo à vida de anacoreta como
beatitude; a questão se radica em ser Deus Pai amoroso. No entanto, o
eremita, embora se diga cristão, troca a Referência de Cristo pela de
Aristóteles que diz ser Deus o sumo Bem. Como, daqui, agora, se vai
deduzir a fraternidade? Por isto é que sua vida de reclusão voluntária,
de solidão total, de ausência de diálogo, de ojeriza para com o mundo,
para com o corpo, para com o próximo, prova que sua tomada de
Referência não é o Deus-Pai-Amor de que decorre a fraternidade, e
sim a concepção grega de Deus-Sumo-Bem de que ela não decorre.
O idealista metafísico, não podendo reduzir o mundo concreto, real,
vivencial, fenomênico, e menos ainda o homem, a princípio de razão,
perde-se na sua contemplação metafísica das essências puras,
imaculadas; com isto, fica padecendo das dúvidas de Descartes, até
sobre se o homem existe ou não. "Descartes, contemplando desde a
janela o movimento da rua, pergunta, numa página célebre, como
97

poderá obter a certeza de que os transeuntes não são meros


fantoches, puras aparências sem conteúdo interno". Eis o homem que,
para o pensador do cogito, se situava entre as idéias obscuras
desprezíveis. Como haver, logo, porta para a fraternidade no sistema de
tal geometrizador do mundo? para quem, o Absoluto, era o mesmo
Deus-Relojoeiro de Voltaire?
O divórcio entre coração e mente, entre existência e essência,
entre conteúdo e forma, para só esta ser considerada, deu um sistema
unilateral que só pode completar-se com um outro sistema cujo centro
fosse o sentimento. Na pinha dos conceitos, a pirâmide cartesiana opor-
se-ia, pelo vértice, àquela cuja base estaria situada em posição
antípoda na esfera - a de Rousseau, a de Pascal, por exemplo.
Descartes põe de lado o homem, como idéia obscura, visto como esse
não se reduz a discurso racional, a princípio de razão. À-toa não é que,
quando ele estava em seu retiro, na Holanda, não visse ninguém,
embora passeasse, como turista, pelo cais de Amsterdã, entre
marinheiros, estivadores e vendedores ambulantes, ouvindo só a zoada
de suas arengas infindáveis. "Poderia ali ficar a vida inteira, escreve ele
a seu amigo Balzac, sem jamais ser visto de quem quer que fosse (...)
Quanto aos homens que ali enxergo, considero-os como consideraria as
árvores que crescem nas florestas dessa região, ou os animais que
nelas pascem. E o ruído de sua balbúrdia interrompe tanto meus
devaneios como o faria o sussurro de um regato - Carta de 5 de maio de
1631". E acrescenta noutro lugar, referindo-se a este seu retiro: "pude
viver tão solitário e isolado como nos mais remotos desertos".
O sistema cartesiano, geometrizando a natureza, funcionou bem no
reino da matéria bruta, sujeito, como é, a leis determináveis, a princípios
físico-matemáticos, a princípios de razão, a discursos. Mostrou-se
impotente, todavia, ao penetrar os umbrais da vida, e desta acima, a
tudo o quanto é humano e social. Não se deteve, porém, Descartes, e
pretendeu mecanizar a vida, e entendê-la em termos de maquinaria. Os
animais, pois, são máquinas vivas que se suprem a si mesmas de
energia. E como, sob protestos dos místicos, já Lineu classificara o
homem no grupo dos primatas, um pouco antes de os evolucionistas
afirmarem ter vindo ele dos animais inferiores, então, La Mettrie "tomou
de Montaigne e Gassendi a tese de que o homem pertencia ao Reino
Animal, aceitou a de Descartes de que os animais eram máquinas
animadas e concluiu: "O homem também é uma máquina".
Ah! premissas! quanto há de falso em ti, tanto vai nas
conseqüências tuas! "Somos traídos pelo que há de falso em nós"!
(Meredith).
Aqui está por que escreveu Voltaire: "O Chanceler Bacon mostrou
o caminho que a ciência deve trilhar... Mas depois surgiu Descartes e
98

fez justamente o contrário: em vez de estudar a natureza, quis adivinhá-


la... Ele, o melhor dos matemáticos, criou apenas romances no
terreno da filosofia..."
Eis a conclusão do quanto temos dito: só é sábio aquele que
expungiu da sua crença, do seu sistema-verdade, todas as verdades
falsas, tidas por verdadeiras, substituindo-as só por verdades
verdadeiras. Porém, isto é obra do estudo persistente, da dedicação
constante, do tempo de aplicação e da madurez espiritual. O objetivo da
vida é a felicidade... que é um prazer íntimo continuo; mas só pode
ser feliz quem for sábio; logo, o objetivo da vida é a sabedoria, e ser
feliz é ser sábio ... Porque o sábio não erra; e quem não erra, ainda que
sofra por amor daqueles por quem luta, em si mesmo, é feliz. O homem
não é uma autarquia, e, por isto, por causa mesmo desta consciência,
embora sábio, não pode ser feliz sozinho, isolado dos demais; daí que,
repetimos, embora sofra por amor daqueles aos quais está ligado, em si
mesmo, é feliz.
Ser humano é ser capaz de padecer tormentos e de sentir gozos
morais, mentais e estéticos; é ser capaz de ter sofrimentos ou prazeres
extrasensoriais, metafísicos, isto é, desligados das zonas em que
pontificam os sentidos. Dos centros do córtex frontal em atividade,
vibrando com idéias, saem fibras nervosas que carreiam a energia
neuro-elétricas desses centros para os outros vários, dentre os quais os
centros do prazer em que, os gozos, até ao êxtase, podem chegar; ou
então, as fibras condutoras da neuro-energia podem encaminhar-se aos
centros da dor, e esta pode ir até o paroxismo. Paroxismos de dor e
êxtases de prazer para-sensoriais, só o homem os pode ter, por causa de
sua sui generis capacidade de abstração. Por isto, tais tipos de gozos e
de sofrimentos apenas caracterizam o humano, podendo, por isto, nesta
esfera, ser nobres ou plebeus.
A repetição do ato de ocupar-se com pensamentos altos, nobres,
grandes; de entusiasmar-se com os nobres feitos, com os atos de
heroísmo; de emocionar-se frente ao belo, face a harmonia, cria o
hábito destas virtudes que, em princípio, não diferem dos vícios com sede
na mesma zona frontal, como a ambição do poder, como a sempre
esporeada cobiça de possuir mais e mais, como o jogo, como o
alcoolismo, como a gula, como os sentimentos de inveja e de
vingança, como a luxúria. Tudo isto faz parte do humano inferior;
plebeu, mas que o animal não tem, por faltar-lhe a zona frontal do
cérebro, sede da abstração, da imaginação, da fantasia, zona donde
partem os estímulos neuroelétricos desta espécie não exterior, não
sensorial, para os centros nervosos do prazer e da dor. Os animais
inferiores só podem ser estimulados pelos sentidos, gozando só dos
prazeres sensoriais que lhes propicia seu ambiente natural.
99

Conseqüentemente, a felicidade é uma continuada alegria


interior oriunda da estimulação constante, embora fraca, que uma
mentalidade produz; essa mentalidade, a que pode aliar-se o
aplauso da consciência, é uma como atmosfera-interior-mental-
emotiva, ou um estado de consciência, ou a crença que é o
homem, ou o seu conjunto-verdade feito só de verdades verdadeiras,
do qual se expungiram todas as verdades falsas tidas por verdadeiras.
Tal, o sábio, o só que pode ser feliz, calmo, sereno, sem as desordens
interiores oriundas de dragontinas paixões. Contudo, tal homem pode ter
aflições, padecer dores, sofrer tormentos, martírios, visto como se acha
sujeito a outras fontes de estimulação que podem ser, primeiro, as
sensoriais, quando estas, por intensas, se ligam aos centros nervosos da
dor; e ainda, para estes centros, podem canalizar-se estímulos
neuroelétricos provindos dos centros morais do córtex, quando tais
centros se acham excitados pela piedade, pela compaixão, sobretudo,
pela visão do sofrimento de um ente amado.
Deste modo, a felicidade e também a infelicidade têm seu ponto de
excitação no córtex frontal, sede das operações abstratas, filosóficas,
meditativas, onde ocorrem pensamentos grandes, mas, também, sede
das manias, dos vícios, das vilãs paixões. A corrente constante que
desta instância superior, instância do humano, flui para os centros do
prazer, ou centros da dor, cria a atmosfera psíquica a que damos o
nome de estados de consciência, de estados de espírito, estados
emocionais em que se sente euforia ou depressão, alegria ou tristeza,
coragem ou medo, orgulho ou modéstia, desprendimento ou inveja, etc.
Quando Cristo declarou estar o reino do céu dentro de nós, mostrou que
aquele é um estado de consciência, de felicidade e alegria, e não
lugar (embora, também, o haja), em que tudo são belezas. Aquele
que possuir esta consciência, este estado emotivo proveniente de
correntes nervosas oriundas do lobo frontal cortical... que se acha, de
contínuo, excitado por uma idéia de verdade, tal sujeito é feliz, ainda
que na dor, porque, "sofrer não é o mesmo que ser infeliz". A recíproca,
também, é verdadeira; harto, isto, entendendo, Milton, quando tal
escreve de Satã:
"O horror medonho, a dúvida terrível,/ confundem-lhe os turbados
pensamentos/ que lhe acendem o Inferno dentro d'alma:/ o Inferno traz
em si, de si em torno;/ não pode um passo dar fora do Inferno,/
porque, onde quer que vá, leva-o consigo!".
Um mesmo estímulo, pois, idéo-cortical, pode causar alegria em
um, e sofrimento em outro; daí que "o pecador impenitente sofre a
vontade de Deus, ao passo que o santo goza a vontade de Deus",
dependendo somente de para onde se destina a corrente nervosa vinda
do córtex frontal. É assim que, a um mesmo estímulo, um sofre, e outro
100

goza, dependendo só do condicionamento pré-formado na mente, de


como esta endereça o estímulo a campos diferentes, do prazer ou da
dor. Também, uma mesma excitação pode causar sofrimento e prazer a
um mesmo homem, desde que atuando em tempos diferentes: ninguém
gosta de beber aguardente, nem fumar ou mascar tabaco pela primeira
vez; tais estímulos, logo, vão atuar nos centros da dor; com a
repetição do ato de fumar, de mascar e de beber, instala-se o hábito,
e o que dantes causava sofrimento, causa, agora, prazer. Os cães de
Pavlov que, antes dos condicionamentos, sofriam ao receber choques
elétricos, como sinal de comida, passaram, depois, a sentir alegria ao
serem submetidos a eles, e tanto que sacudiam suas caudas
satisfeitos. O presenciar este fato, Sherrington fez o seguinte
comentário: "Agora compreendo a alegria com que os mártires cristãos
dirigiam-se ao suplício!". Ninguém se admire, logo, de Rousseau gozar
ao ser azorragado, nem cuide que a tortura da cruz tinha para Gestas, o
mesmo efeito do mesmo suplício para Cristo.
Os estímulos exteriores, dos sentidos, ao chegarem ao cérebro, aí
são interpretados, antes de reconduzidos para os centros do prazer ou
da dor, conforme uma como "lógica da vida". Como a vida busca o
prazer, a alegria, a felicidade, sua "lógica" pode virar a chave dos
condutores nervosos, carreando o impulso, em vez de para os centros da
dor, para os centros do prazer; o impulso, então, que havia de ser
doloroso, segue outro destino e vai produzir gozo, gerar felicidade. É
assim que o masoquista sente gosto quando apanha, e os mártires se
extasiavam ao ser triturados pelas máquinas terríveis, ou pelos dentes
das feras. A isto fale Sêneca: "A perpétua infelicidade só tem isto de
bom: que endurece por fim os que incansavelmente persegue". Por
que se mostravam invencíveis os cristãos? Porque só "a desventura é
grave para aqueles a quem chega inesperadamente; facilmente a
suporta quem sempre a espera. Assim, também o ataque de um exército
inimigo dispersa os soldados tomados de surpresa; mas se preparados
para a guerra antes da guerra, ordenados e prontos repelem a primeira
investida, que é a mais furiosa". E diz-nos mais o grande estóico: "Às
pessoas que me queiram assustar, acumulando diante de mim todos os
males, é preciso responder assim: se formos suficientemente fortes
contra uma só desgraça, o seremos igualmente contra todas”.
Os estados de consciência são puros sentimentos, puros
estados emocionais; os loucos os têm variáveis, pelo que ora riem,
ora choram, ora se enfurecem, ora se saturam de unção mística...
Qualquer fanático de qualquer seita religiosa possui o estado de
consciência que se origina de sua crença, em razão do que se ri ou se
apieda dos demais homens enredados, segundo crê, nas malhas do
erro, do engano, da ilusão. Estados de consciência, portanto, são
101

respostas emocionais a determinadas idéias dominantes.


Que é, então, alegria e sofrimento? A maravilha não está em que
haja centros do prazer e da dor, e sim, que haja centros de
interpretação e de comando de estímulos, sejam os oriundos dos
sentidos exteriores, sejam os íntimos, secretos, subjetivos, gerados no
córtex frontal.
James Olds o demonstrou: trinta e cinco por cento do volume
cerebral é constituído por centros do prazer; sessenta por cento dos
centros são neutros; e o restante cinco por cento se constitui de centros
da dor. Experiências que Olds fez com ratos, gatos, cães, porquinhos-
da-índia, peixes, macacos, carneiros, golfinhos e até com homens
(doentes mentais), mostraram que a mesma corrente elétrica produz
gosto ou desgosto, aproximação ou fuga, num gesto indicativo de "pare-
continue", se, alternativamente, a chave liga o fio que vai para o centro
do prazer, ou o que se destina ao centro da dor.
Os animais preferem os choques elétricos prazerosos à nutrição e
ao sexo; e quando eles mesmos aprendem a operar o "botão-prazer",
fazem-no tantas vezes, que caem, exaustos, e dormem; porém, outra
vez despertos, tocam, de novo, a acionar a chave elétrica até o
esgotamento total e a morte. Eis a que ficam reduzidos prazer e dor: a
puros estímulos neuro-elétricos!
A vida busca o prazer, não, a dor; mas se a dor insiste em
azucrinar o ente vivo, a vida vira a chave e faz, da dor, prazer; este
prazer, logo, para ser virtude, deve alimentar a vida, justificá-la, fazê-
la desejável. No entanto, há prazeres que podem conduzir à degradação,
à extinção, à morte; quando tal ocorre, tais prazeres são vícios, e
não, virtudes. Um exemplo disto temos no animal que opera a chave
elétrica para sentir prazer, preferindo este seu vício à alimentação e ao
sexo. Este seu prazer conduz ao esgotamento, à morte, pelo que,
portanto, é vício, e não, virtude. Entre os insetos, as formigas
vermelhas, escravocratas (Formiga rufa), ficam tão viciadas pelas
exsudações do escaravelho Lomechusa, cultivados por elas, que, às
vezes, passam a dar mais atenção às larvas do escaravelho do que às
próprias, vindo, por isto, a extinguir-se o formigueiro. Nem sempre,
pois, a natureza é sábia, visto que tal desvio conduz à morte.
Outras formigas há que juntam grãos, para que, fermentados,
produzam uma espécie de "cerveja" com a qual se embriagam. Deste
modo "a produção de álcool entre as formigas é um exemplo
clássico dos paralelismos da natureza. As formigas fizeram cerveja,
antes que os homens a produzissem; os homens produziram cerveja,
antes de descobrirem a das formigas. À vista destes fatos, é lícito dizer
que o fabrico de cerveja faz parte da "evolução" inevitável dos
acontecimentos universais".
102

De tudo isto decorre o paradoxo perfeitamente compreensível de


que se pode ser feliz, apesar do sofrimento, e ser infeliz, ainda que
sem ele, ou até sentindo algum prazer. Conseqüentemente, a recíproca
também é verdadeira: nem sempre gozar é ser feliz; as lágrimas de
alegria de um demônio que se compraz com a desgraça alheia, não são
indícios de felicidade.
Aquele, portanto, que expungiu do seu conjunto verdade todas
as verdades falsas; que, coerente com esta operação mental, trocou os
vícios e defeitos todos pelas perfeições e virtudes correlatas; que
reduziu a um mínimo os prazeres físicos, mantendo os só necessários à
subsistência de si e da espécie, sublimando as energias excedentes
para os campos do espírito, da moral, da estética e do intelecto,
esse tal é o sábio-santo, o só que para sempre pode ser feliz.
Como, pois, pode alcançar a felicidade, e conduzir outros a ela,
quem se transvia da viela da verdade construindo uma "filosofia"
antivital de revolta, niilismo e desespero? Quem, por pura vaidade
intelectual, faz uma anti-filosofia, uma "filosofia" de angústia, rebelião
e nada, acaso pode ser feliz e semear, nos corações e nas mentes, a
felicidade?
Sartre e Nietzsche, cada um a seu modo, querendo ser deus, via o
próximo, o primeiro, como concorrente, e o segundo, como meio. A não
poder ser deus sozinho, Sartre desejava a morte, no passo que
Nietzsche via no próximo o meio de realizar o super-homem. Como,
então, justificar a fraternidade entre os homens, se, para Sartre, o outro
era obstáculo insuperável, e, para Nietzsche, o outro era degrau de
escada feito para ser pisado.
Fundado naquela Referência cristã, no Deus-Pai-Amor, de que
decorre imediatamente a fraternidade universal, torna-se-nos inteligível
a fala de São Francisco de Assis, quando chamava ao lobo de irmão
lobo, à serpente, de irmã cobra e ao próprio corpo, de irmão corpo,
porque, como dizia, tudo são criaturas de Deus. Firmando-nos naquela
Referência, somos forçados a reconhecer a igualdade de direitos entre
os homens. Se todos somos irmãos, todos somos iguais, e igualmente
livres, e responsáveis; e esta consciência nos predispõe a lutar contra
quaisquer tiranias, e onde houver um escravo, de certo modo somos
também um pouco escravo na humanidade desse a quem nos cumpre
defender.
A frase de Cristo que diz, num sentido místico, eclesiástico: "Tudo
o que ligares na terra será ligado no céu, e tudo o que desligares na
terra será desligado no céu" (Mat. 18, 18), pode ser entendida, também,
como forma de construção filosófica, porque, do modo como for intuída a
Referência, a Premissa transcendental, transcorrerá e tomará corpo na
Terra, e assim será como tudo, ao menos em projeto,
103

O que ligamos na Terra, em sentido filosófico, são as coisas


entre si, numa visão onímoda, hierarquizada, da próxima à remota, ao
horizonte, e além deste até o Absoluto, este como intuição, da qual se
deduz, depois, uma forma de conduta pessoal, e um sentido pragmático
do agir e do fazer social. Assim, o que foi ligado na Terra também se
ligou no céu, por um processo indutivo. Contudo, pode relampaguear na
mente do homem, a intuição da divindade, e, coerente com esta, com
o que a divindade é, tudo se vai ligando e harmonizando cá na Terra.
Se, em tal visão Deus se mostra como essência pura sem matéria
alguma, como Ente puro de razão, logo, como anti-mundo, neste caso,
o homem, em intenção ao menos, desprezará o mundo, o corpo, para
atufar-se em Deus, como o faz o anacoreta. Se, em tal visão
relampagueante, Deus mostrou possuir matéria ou substância, sendo
esta na mais alta forma de EnergiaAmor, neste caso, desta Energia-
Substância, saiu tudo, e dessa intuição tudo se deduz. E como, no
mundo, existe a ignorância, a injustiça e o sofrimento, então, o mundo
é entendido como que virado no avesso, invertido, emborcado, e, como
parte do mundo, o corpo só se compraz quando se lhe satisfazem os
grosseiros apetites, e, por extensão, a pessoa se mostra aviltada nos
vícios só humanos, como a ambição do mando, a cobiça do ter, o
orgulho de ser, o ciúme, a inveja, a gula e a luxúria. Harto, entende, o
homem, então, que os apetites corporais hão que ser sobriamente
satisfeitos, e os impulsos excedentes hão de sublimar-se nas virtudes
todas, que nisto se cifra a desinversão. Deste modo, os gozos, os
prazeres, em se sublimando, se transferem para as zonas superiores do
intelecto, da moral e da estesia. Eis aí, como tudo o que se ligou no
céu, ligou-se também na Terra. Da intuição do Deus-Pai-Amor sai o
corolário da fraternidade entre os homens; de serem os homens irmãos
nasce a igualdade que ainda se reforça pelo amor igual de Deus a
todos; como entre irmãos, como entre iguais não pode haver senhores e
escravos, todos hão de ser igualmente livres.
Aqui está, de modo novo, em que princípio se pode fundar o
ternário: fraternidade, igualdade e liberdade. Mude-se a Referência
transcendental, e tudo o mais será mudado. E, por esse caminho,
a filosofia do humanismo democrático, de inspiração cristã do
Deus-Pai-Amor, se torna até em direito positivo na "Declaração
Universal dos Direitos do Homem", seja a francesa, seja a inglesa,
seja a norte-americana. Esta foi a coisa (ainda, em parte, em projeto)
mais grandiosa acontecida no planeta, perto da qual são nada as
idas à Lua, e a descoberta, pesadelo do mundo, da energia nuclear. Se
aplicados aqueles princípios contidos nas Declarações, fica garantido o
perpetuar da civilização, apesar das bombas atômicas; se não
aplicados, retornaremos, sem remédio, à barbárie..., ainda que se não
104

empreguem bombas atômicas..., porque o crescimento demográfico das


nações civilizadas (como no Egito das pirâmides, como na Roma dos
Césares), cairá a zero, e é o fim. Fale Ortega:
"A forma que na política representou a mais alta vontade de
convivência é a democracia liberal. Ela leva ao extremo a resolução
de contar com o próximo e é protótipo da "ação indireta". O liberalismo é
o princípio de direito político segundo o qual o Poder público, não
obstante ser onipotente, limita-se a si mesmo e procura, ainda à sua
custa, deixar espaço no Estado que ele impera para que possam viver
os que nem pensam nem sentem como ele, quer dizer, como os mais
fortes, como a maioria. O liberalismo - convém hoje recordar isto -- é a
suprema generosidade: é o direito que a maioria outorga à minoria e é,
portanto, o mais nobre grito que soou no planeta. Proclama a decisão de
conviver com o inimigo; mais ainda, com o inimigo débil. Era
inverossímil que a espécie humana houvesse chegado a uma coisa tão
bonita, tão paradoxal, tão elegante, tão acrobática, tão antinatural".
105

VII – ALERTISMO

Verificando os filósofos existencialistas o que já tinha visto


Heráclito, que tudo muda e nada está quedo; que revoluções
ocorrem nas próprias ciências, mesmo até nas mais exatas como as
matemáticas; que os sistemas, como exclusivistas, escravizam as
consciências, bitolando o pensamento; que os filósofos, cuidando-se
cada um depositário exclusivo da verdade, não dialogam, e, como
surdos, só sabem falar, mas não escutam o que outros têm a dizer;
que os sistemas se têm mostrado tão funestos, com criar ardorosos
defensores, como as "guerras santas" perpetradas por fanáticos;
concluíram por criar uma filosofia sempre em aberto, nada
concludente, imune ao espírito de sistema.
E já foi visto no capítulo precedente, todos estes e ainda outros
males dos sistemas, e, ao mesmo tempo, a impossibilidade de se os não
erigir, visto como eles são unidades, e onde não houver unidade aí
estará presente o caos. Face a isto, opinamos pela construção de um
meta-sistema, aberto e democrático, que irmane e concilie todos os
sistemas na unidade total. Achado o denominador comum, a chave
conciliatória, todos os sistemas passam a ter razão. Porque, como
escreve Gusdorf, "a verdade metafísica é o denominador comum dos
metafísicos: ela os aparenta por detrás das polêmicas em que se
envolvem, os desmente a uns pelos outros, ao mesmo tempo que os
verifica mutuamente pela convergência da mais essencial e generosa
intenção que manifestam". Assim, em nosso esforço de conciliação,
temos que opôr um sistema a outro sistema, a tese à antítese, para ver
o que sobra para a síntese. Pois que a história, como o pensamento,
progride por tese, antítese e síntese, não há como não bater um com
outros sistemas opostos.
No entanto, a dialética hegeliana demonstra que o
desenvolvimento da história, como o do pensamento, se faz por tese,
antítese e síntese. Por causa disto, de o pensamento ser dialético, os
sistemas filosóficos também se organizam segundo a dialética. O
existencialismo, logo, é antítese do que? Por que surgiu e como se
colocou a filosofia contemporânea nomeada existencialismo, senão
como reação aos absolutismos, sobretudo, o de Hegel? Tal sustenta o
existencialista Gusdorf que, em apoio de nossa tese, escreve: "Tanto o
existencialismo como a fenomenologia brotaram de uma revolta contra o
imperialismo do universal afirmada com intrepidez quase monstruosa
na filosofia de Hegel". Eis, pois, que o não sistematismo existencialista é
reação antitética aos absolutismos dos sistematizadores. Aí está: contra
a tese dos absolutismos, os pensadores existencialistas e
106

fenomenologistas opuseram a antítese dos relativismos situacionistas.


Quer dizer: querendo fugir à unidade, ao sistema, caiu-se na antítese
da não-unidade, do não-sistema, do anti-sistema, do caos de uma
construção ideológica sempre em desenvolvimento, sobre a qual nada de
sólido se pode edificar. O filósofo existencialista não tem resposta para
nada, porque ainda nada concluiu nem concluirá, por saber que, fazer
isso, é pretender imobilizar o tempo, fixar a história na repetição
contínua, o que é impossível, uma vez que tudo muda e nada é. Mas,
então a história tem de acontecer por acaso, para depois se ir saber
como aconteceu? Tem que ser assim, porque já não há pensadores que
a antecipem em projeto. Tem que ser assim, porque o imperativo da vida
não admite esse estado intermediário de nem sim nem não; esta
precisa decidir-se por uma estrada; certo ou errado, ela nos impõe
escolher uma via, e, se não for possível escolha, porque os filósofos se
omitem, de medo, tomamos por caminhos quaisquer, ainda que arris-
cados, nem que seja o de Nietzsche, dado que a vida refuga o de
Buda e o de Schopenhauer que a levariam à anulação. O mundo precisa,
com urgência, de um norte-filosófico; os homens se mostram famintos
e sedentos de novas nutrições do espírito, enfastiados que se acham
frente aos velhos alimentos, de há muito já remastigados, e os
existencialistas ficam só a observar o homem em suas andanças ao
acaso, pelo que sua história se vai escrevendo sem nenhum
planejamento, por puro ensaio-e-erro! Tudo, então, tem que ser
improvisado?
Ora bem: o sistema que se opõe polarmente ao pessimismo
decadente é o progressismo otimista. Se a doutrina schopenhaureana
vingasse em nosso mundo, como seria ele? Nosso mundo seria habitado
só por homens primitivos, porque os civilizados ter-se-iam de todo
desaparecido. A doutrina de Schopenhauer, tomada de Buda, conclui,
com o famoso mestre da índia antiga, que o mal reside no desejo de ser.
Ser é mau, e não-ser, bem. Daí que Buda recomenda uma guerra sem
quartel contra todos os desejos, até que, finalmente, o próprio desejo de
ser receba seu golpe decisivo, se anule, com que se entra no Nada
Além ou Nirvana. Schopenhauer, em seu livro "O Mundo como Vontade
e Representação", assenta que só sairemos deste nosso "muito-
barulho-para-nada", quando houvermos entrado num estado de não
querer absolutamente coisa alguma; nem de viver, nem de morrer,
porque, como o afirma, muitas vezes o que deseja a morte, e a
busca pelo suicídio, não é um sujeito que não quer mais viver, e sim,
um a quem a vida negou o desejado. Como a morte pelo suicídio, não é
espontânea, natural, ocorrida para um indivíduo que viveu só para
cada dia mais reforçar-se na intenção de não querer a vida, em vez de
o suicida encontrar o nada, pelo contrário, resídua dele algo após a
107

morte, que o traz de novo à vida. A cadeia de reencarnações (já agora


é Buda) não cessa enquanto não for anulado o último desejo, o de ser,
pela suave, espontânea e natural anulação inteira no não-ser. O
último desejo atuante é o de chegar ao não-ser que, uma vez
conseguido, acaba também com este último desejo, porque quando nada
se é, nada se deseja.
Nesta forma de budismo, Buda se viu só e o budismo vingou nas
formas mahaiana e outras, porque logo se achou jeito de torcer as falas
de Buda para acomodar aos imperativos da vida. Se o mundo
aceitasse tal doutrina por verdadeira, e a pusesse em prática, em escala
geral, certamente que não nasceria mais nenhum homem no mundo, e,
suavemente, os que ainda vivem, ir-se-iam, pouco a pouco, para sempre,
dormindo no nada, ficando nosso planeta para os povos selvagens que
ainda se acham iludidos com as petas, engodos e artimanhas que lhes
arma a vida.
Deste modo os povos primitivos estariam cheios da energia que os
impele a ir por diante até o esgotamento; seria como afirma Lessing, em
seu involucionismo, que toda civilização tende para nada, como um
punhado de folhas de chá continuamente refervidas. Cada civilização se
mostra mais degradada que as anteriores, até que o pêndulo da vida
social queda-se, imóvel, no seu ponto de repouso. Cessado o impulso
que fazia ir por diante, tudo para. O que era pura potência no início, vai-
se diluindo, desgastando em ato, em movimento, e quando todo o impulso
primitivo se houver exaurido, transformando-se em puro ato, o próprio
movimento cessa para sempre.
Não para sempre, afirma Nietzsche, de quem Spengler tomou sua
doutrina do periodismo... pelo qual a civilização é cíclica como a vida de
um organismo biológico. Não para sempre, diz Nietzsche, porque, no
ponto de repouso, tudo se inflama outra vez, tudo se reverte, de
novo, na antiga potência, e se toma de férvida energia, de nova vida,
em eterna recorrência, em eterno retorno. Não, a anulação, o
aniquilamento de Schopenhauer, mas o poder, a vontade de poder, visto
como poder é ser. Tudo e todos querem poder, e nada há que aspire a
fraqueza. Até o budista mais compenetrado que deseja chegar ao Nada,
não o conseguirá sem o cultivo da vontade de poder. Quem não
consegue o que deseja, é porque não pode; daí que a vontade se
canaliza, primeiro, à posse de poder ... porque poder é ser; e ainda que o
ser queira anular-se, ainda para isto, precisa poder para o realizar, e
só o fará se o puder. Porém, nada do que é vivo deseja a anulação, e
antes, pelo contrário, quer poder, cada vez mais poder. Tudo se
encaminha, então, a criar o pináculo do poder que é o super-homem,
e este se posta para além do bem e do mal. E, sem as peias das morais,
todas conducentes a criar fracos, forjadas por estes contra os fortes, o
108

super-homem desfraldará seu rubro estandarte em que seu ínclito


emblema se vê bordado em ouro: um forte leão jubado tendo à boca
um cordeiro; e para que mais se aclare, está escrito seu lema, sua
moral ingente: "a justiça é o desassombro do forte!"
Opondo-se às doutrinas pessimistas de Buda, de Lessing, de
Spengler e de Schopenhauer, Nietzsche assenta a sua da vontade de
poder, e foi nesta forma, e não na de Schopenhauer, que o povo alemão
a sentiu e a viveu. Para criar o super-homem, fez-se preciso criar a
super-raça, forjar o Estado absoluto hegeliano, e o resultado final disto,
todos sabem: o sanhudo e fulvo leão germânico abocanhou o cordeiro
judeu, arremetendo-se, depois, contra o resto da humanidade. Mas teve o
pago merecido: as nações, unidas, tosaram-lhe a juba, após haver-lhe
arrancado as unhas e os dentes.
O mundo, pego desprevenido na Primeira Grande Guerra, mal
recobrado das danosas perdas, poi acossado pela Segunda, de que
também saiu vencedor. Triste vitória essa que apenas foi dos males o
menor. Duas vezes altamente ferido, o mundo dá-se pressa em estudar
como fazer para eliminar do planeta a anacrônica instituição da guerra.
Arnold J. Toynbee salvou-se de ser morto na Primeira Grande
Guerra, como o foram os seus brilhantes colegas de universidade, por
causa de uma disenteria que o desqualificou para o serviço militar.
Bebera ele duma fonte poluída, na Grécia, quando andava por lá, a pé,
com cantil e farnel, lápis e caderno, visitando as ruínas e os lugares
históricos. Saciada a sede e levantando a cabeça, deu com um pastor
que o espreitava, fazia tempo já, e só agora o camponês o avisou que a
água não prestava. Veio a disenteria que o maltratou por seis anos,
tornando-o impossibilitado para ir morrer nos campos de batalha, onde
pereceram todos aqueles jovens talentosos que Toynbee
saudosamente relembra no seu livro "Experiências". Aquela água
poluída, para Toynbee, foi como o "grão-de-areia de Pascal", porque,
graças a ela, Toynbee foi contratado peio Governo inglês para estudar
as causas da guerra. Assessorado por sua segunda esposa, também
funcionária do Governo, ambos trabalharam trinta anos, antes,
durante e depois da Segunda Grande Guerra. Paralelamente,
Toynbee ia fazendo uma obra particular que saiu em dez volumes
com o título despretensioso de "Um Estudo de História". Desses dez
volumes, um erudito fez uma condensação em quatro, com o mesmo
título, revistos por Toynbee que elogiou a perícia do condensador; e, em
sua modéstia, escreve que não faria melhor do que o fez o seu colega de
pena. Esta condensação está editada em português.
O trabalho que o mandou, o Governo, executar, se socorria da
obra particular do grande historiador, e vice-versa. Ao tempo de
"Experiências", contava Toynbee oitenta anos, e ainda é lúcido, e ainda
109

escreve. Água poluída de Toynbee ... grão-de-areia de Pascal.


Toynbee sistematizou a história, fazendo o estudo de cada tema
à vista de vinte civilizações, fora as interrompidas, e as metidas em beco-
sem-saída. Não fez história descritiva, em sucessão cronológica, em vez
disto, manuseou os acontecimentos como se foram coisas,
mostrando a relação entre eles, às vezes, tão distantes no tempo,
como no espaço. Fez filosofia da história, isto é, viu a história em termos
de totalidade, mostrando por que, por quem e como as civilizações
nascem, crescem, decaem e morrem. Em sistematizando a história,
Toynbee, de certo, ficou incurso na condenação dos existencialistas
que são anti-sistemáticos, visto como querem descrições apenas,
constatações de fatos, não, todavia, conclusões que se enfeixem em
unidade, em sistema. Esta é a razão por que, como diz Ortega,
estamos sem filosofia desde Augusto Comte, a não ser naqueles
grupos fechados onde ela é ainda cultivada. As grandes questões que
o tempo nosso colocou, estão por responder-se, como se a vida
pudesse esperar os existencialistas terminarem, por pouco tempo que
fosse, sua infindável teia de Penélope. Contudo, eles estão tranqüilos,
porque lhes residuou do idealismo a crença progressista, crença não
posta em discussão, porque a crença é o homem, de que tudo vai
bem sob a proteção de leis ... ainda que ignoradas. (O Estado de S Paulo
de 23 de outubro de 1975 noticiou o falecimento de Arnold J. Toynbee ao 86
anos de idade).
Quando Descartes abriu o ciclo da filosofia idealista, a partir do seu
cogito, não pôde ainda deixar de referir-se ao realismo ao afirmar: eu sou
uma coisa que pensa. O conceito de coisa, externa, objetiva é
resíduo realista de que Descartes não pôde, de todo, desvencilhar-se.
Tal qual, os existencialistas conservam ainda um resíduo idealista, e é a
crença de que tudo vai bem, não precisando de os filósofos se
preocuparem.
Deste modo, o ser anti-sistemático decorre de ser progressista,
porque, se tudo, necessariamente, vai como tem que ir, inútil será
organizar sistemas com vistas a guiar e controlar a vida, segundo um fim
proposto. Basta abandonar-mo-nos à correnteza, e ela levar-nos-á,
onde, forçosamente, queiramos ou não, teremos que chegar. Sabedor
disto, de antemão, o pensador não precisa preocupar-se com chegar
em lugar algum, e "a marca do gênio consistiria pois na vontade de
não querer chegar ao termo, no propósito tenaz de deixar sempre em
aberto a investigação”. Gusdorf toma de Hegel a idéia de que a
"filosofia é condicionada por um estado de civilização. A tomada de
consciência da universalidade em idéia supõe a realização da
universalidade de fato, a realização de um quadro de existência tal que a
exigência intelectual nele possa manifestar-se, em alguns, na segura
110

calma do lazer, fruto de uma técnica e de uma cultura já muito


avançadas". Assenta Gusdorf, fundado em Hegel, que "o chefe militar,
o técnico, o engenheiro, o legislador, o administrador são, anteriormente
ao filósofo, os pioneiros dos tempos novos, organizadores de uma
realidade humana em larga escala. Os fundadores de impérios, de
cidades e de dinastias, reúnem imensas extensões de terras e grupos de
homens, submetendo-os à obediência de um poder centralizado".
Tudo isto acontece sem precisão nenhuma de filosofia orientadora,
porque... a razão histórica (Hegel) tudo arranja, tudo ordena, tudo
constrói. Sem nenhuma precisão, por fim, aparece a casta dos filósofos,
perfeitamente dispensáveis e inúteis, conforme se infere do que Hegel
diz, e Gusdorf transcreve: "A necessidade de se ocupar do
pensamento puro pressupõe longo caminho já percorrido pelo
espírito humano; podemos dizer que ela é a necessidade da
necessidade já satisfeita, da necessidade de não sentir necessidade
(...) Nas calmas regiões do pensamento, em que este a si mesmo se
encontrou e só para si mesmo é, calam-se os interesses que agitam a
vida dos povos e dos indivíduos". Daí que "o filósofo seria pois o obreiro
da undécima hora, que beneficia do trabalho de outrem sem no mesmo
tomar parte, uma espécie de capitalista que vive dos juros da
civilização".
Não é, pois, preciso que a filosofia norteie o mundo, que ele vai, por
si mesmo, para onde tem de ir. O filósofo é um sujeito que emprega seu
lazer em pensar, pensar por pensar, como poderia ocupar-se de criar
peixinhos em aquários. Tudo segue os trilhos de um fatalismo
progressista; de um determinismo histórico, de uma razão histórica
ou de uma história racional. Justifica-se, deste modo, a prece de
Cleanto, o estóico fatalista, que "implorava de Zeus e do Destino a graça
de seguir, por sua própria vontade e sem desfalecimento, os caminhos
que lhe traçaram; “porque”, acrescenta ele, "se eu perder a coragem e
me revoltar, terei que segui-los exatamente do mesmo modo".
Mudaram-se os tempos, os lugares e os homens, mas a velha idéia
fatalista ressurge, como a Fênix, renovada.
"A idéia progressista (diz Ortega) consiste em afirmar não somente
que a humanidade, - um ente abstrato, irresponsável, inexistente que
então se inventou, - progride, o que é certo, mas também progride
necessariamente". Mais: "Caminhando assim, segura, para sua
plenitude, a civilização em que embarcamos seria como a nau dos
feácios de que fala Homero, a qual, sem piloto, navegava direito ao
porto. Esta segurança é o que estamos pagando agora".
Por causa da adoção como "verdade" incontestável, indiscutível,
por ser uma "crença", deste galho do idealismo, o progressista não se
abala ante a convulsão do mundo. Estejamos todos tranqüilos, não
111

havendo nada que temer, pois uma como mão divina guia a história,
não precisando o homem de preocupar-se. Existe uma Razão atrás da
história... pelo que ela é racional (Hegel); daí que a história é
determinística, havendo, logo, o determinismo histórico (Marx, Engels).
Contudo, outra é a verdade...
Quando Toynbee era ainda jovem, ele, considerado um dos
maiores historiadores contemporâneos,... porém, fale ele próprio: "Mas
quando procurei no seu livro (de Spengler) uma resposta para a
minha pergunta sobre a gênese das civilizações, comprovei que ainda
me restava trabalho por fazer porque, nesse particular, Spengler me
parecia dogmático e determinista ao ponto de se tornar obscuro.
Segundo ele, as civilizações surgiram, se desenvolveram, declinaram
e, finalmente, soçobraram em absoluta conformidade com um ciclo
invariável sem que, para isso, houvesse explicação alguma. Era,
precisamente, uma lei da natureza que Spengler havia descoberto e
que devemos aceitar, confiando na palavra do mestre: ipse dixit". E
mais adiante: "Essa visão cíclica da marcha da história se arraigou de
tal maneira nos espíritos e nas inteligências dos gregos e dos hindus
inclusive Aristóteles e Buda - que chegaram a admiti-la como
verdadeira sem pensar que era necessário prová-lo". E, noutro lugar:
"Spengler, cujo método consiste em estabelecer uma metáfora e
em prosseguir argumentando como se a referida metáfora fosse uma
lei baseada, por sua vez, em fenômenos observados, afirma que
todas as civilizações passam pelas mesmas idades sucessivas pelas
quais passa um ser humano; mas a eloqüência com que disserta
sobre o referido tema de modo algum contribui para prová-lo, e já
frisamos que as sociedades se não podem comparar, sob qualquer
aspecto que seja, a organismos vivos. Subjetivamente, as sociedades
são campos inteligíveis de estudo histórico. Objetivamente, são o
terreno comum entre os respectivos campos de atividade de um
determinado número de seres humanos individuais, que são eles
mesmos organismos vivos, mas que não podem fazer surgir
magiamente, da interseção das suas próprias sombras, um gigante
à sua imagem e semelhança, nem insuflar, a seguir, nesse corpo
sem substância, o sopro da sua própria vida".
Ora, se o ser social não é como um organismo biológico, sujeito
às leis biológicas do nascer, desenvolver-se, maturar, declinar e morrer,
então, a gênese, desenvolvimento e colapso das civilizações não podem
ser buscados na biologia. Contudo, esse "Grande Animal" de Alain,
esse Briareu do social, de muitas cabeças, não anda às tontas,
porque segue uma só cabeça em que se reúne a minoria criadora.
Essa minoria pensa com seus cérebros objetivos, concretos, cérebros
que evoluíram de baixo, com a evolução do sistema nervoso. E ainda os
112

portadores desses cérebros, os homens líderes, não podem decidir


por quais caminhos o Colosso coletivo deve andar, sem uma crença
dominante, sem um sistema nascido da determinação de uma
Referência, de um Rumo que se perde no Horizonte longínquo -
DEUS. Daqui, da determinação desta Referência absoluta, decorre a
interpretação do mundo, e desta visão do mundo nasce e se impõe
uma forma de conduta humana individual e coletiva. Quando se tenta
suprimir essa Referência suma, outra coisa passa a ocupar-lhe o lugar,
como absoluto, que pode ser a Razão (Parmênides, Hegel), Eu
Absoluto (Fichte), Positivismo, Cientismo (Augusto Comte), Liberdade
(Sartre), Super-Homem (Nietzsche), Proletariado (Engels, Marx), etc.
Aquilo que for posto como último termo, isso fica absoluto, visto não
se referir a nada mais acima de si. Um homem que não tivesse
nenhuma referência acima de si, ficaria absoluto, e decretaria, sem
rebuços, ser ele "a medida de todas as coisas", como já dizia o sofista
Protágoras.
Uma civilização não existe sem os princípios morais que a
sustentem, os quais se inscrevem sob a forma de códigos éticos, e
estes se restringem mais ainda nos códigos de leis civis. Estas leis
civis são de máxima atuação porque contam com a máquina do
Estado, apta a fazer valer a justiça, se preciso, pela força. Aqui bate
o ponto: não há princípios morais sem Deus, - na gênese e
desenvolvimento de uma civilização; e depois de tais princípios se
formarem, ainda que se suprima Deus, eles continuam existindo
durante todo o tempo que permanecer atuante a inércia do impulso
inicial. E sem princípios morais não se podem escrever códigos
éticos, e sem estes não são possíveis leis civis, porque a vigência, de
fato, destas, depende do beneplácito da maioria. Os legisladores fazem
as leis, mas só a conscientização e o consenso coletivos lhes
possibilitam o cumprimento. O braço da justiça é forte só na
proporção em que lhe confere força o Briareu; fora disto, a lei é
letra morta... de que há inúmeros exemplos ...
Quando, todavia, aquela minoria criadora é, pela obra dos
demagogos, substituída por uma minoria apenas dominante, o
Briareu perde o entusiasmo, o encanto, e não sabe mais como
conduzir-se; as cabeças outrora unificadas na cúpula separam-se
em muitas cabeças que se põem a brigar entre si, provocando a
formação de vários partidos beligerantes (guerras civis, guerras
intestinas), e o Colosso cai por terra ferido de morte. Aí, então,
chegam os abutres que já espreitavam à, distância (bárbaros), para
cevar-se no organismo moribundo, sobre o qual desferem o golpe de
misericórdia.
Como o sistema nervoso e o cérebro têm história biológica, e a
113

inteligência evoluiu com o cérebro, a razão é histórica. A isto fale


Ortega: "Eu penso que é urgente inverter a fórmula de Hegel e dizer
que, bem longe de ser a história "racional", acontece que a própria
razão, a autêntica, é histórica". Pois como a razão é histórica, tem
história, evoluiu com o sistema nervoso e com o cérebro, segue-se que
essa razão que é histórica, é a que faz a história. Por que método a
faz? Pelo método animal do ensaio-e-erro, por tentativas e falências.
O que diz Toynbee à página 42 de "A Civilização Posta à Prova",
pode ser expresso desta forma: a história procede por ensaios-e-
erros como o aprendizado animal. E assim como o animal tira
experiências dos erros para não os repetir, um dia a história
acertará a mão. Logo, não há fatalismos históricos ou ciclos
determinados. Daí que é preciso ficar de sobreaviso; daí o nosso
alertismo que é também o de Ortega.
Tudo, pois, depende de nós, e só de nós, para o bem ou para
o mal. E para que não estejamos só, outra vez Toynbee: "Através de
nossos próprios esforços, temos o caminho aberto para proporcionar
à história, em nosso caso, uma oportunidade nova e sem
precedentes. Como seres humanos, somos dotados de liberdade de
escolha e não podemos transferir nossa responsabilidade para os
ombros de Deus ou da Natureza - nosso dever é carregá-la em nossos
próprios ombros". Mais: "Esses enigmas (os da história) podem ser
difíceis de decifrar mas eles nos ensinam claramente o que mais
necessitamos saber. Eles nos dizem que nosso futuro depende,
sobretudo, de nós próprios. Nós não estamos, simplesmente, à mercê
de um destino inexorável".
A esta mesma conclusão chegaram Antonio Delfim Netto e Joelmir
Beting, como se pode ver no diálogo travado entre ambos na obra
deste último, "Na Prática a Teoria é Outra". Pedimos vênia ao
preclaro Autor para transcrever essa parte do diálogo, por ser um
valioso reforço à tese nossa de que a profissão de profeta é um
equívoco. Ei-lo:
Joelmir - Max era um futurólogo?
Delfim - Também um, futurólogo.
Joelmir - Acredita em futurólogo?
Delfim - É uma bola de cristal de duas pernas. Brilhante e
redonda como Herman Kahn.
Joelmir - Ou como Malthus?
Delfim - Também como MaIthus. Se Malthus tivesse sido levado a
sério, Herman Kahn não teria nascido. Seu avô teve 12 filhos.
Joelmir - Qual é o maior pecado da futurología?
Delfim - O de tentar fazer o passado governar o futuro,
ignorando o presente. O de menosprezar as vontades camaleônicas
114

da sociedade, que se transfigura no tempo e no espaço. O de


desconhecer a própria natureza humana, o que tem levado muita
gente a ignorar, por exemplo, que dois cubanos socialistas podem
ser tão bons ou tão maus cubanos como dois cubanos capitalistas.
O rótulo não faz a sociedade, muito menos o homem. A reforma da
sociedade deve ser precedida pela reforma do homem isolado.
Tentar inverter o processo é o mesmo que pretender erguer uma boa
parede com maus tijolos.
(...)
Joelmir - Me perdoe a insistência no tema. O professor Mário
Henrique Simonsen é partidário da mesma tese: a futurologia adora a
construção apocalíptica. Tem mais charme, diz ele.
Delfim - A catástrofe sempre emociona, mesmo quando
prometida com um máximo de previsão e um mínimo de hipóteses.
Joelmir - Simonsen diz que o futurólogo é uma cartomante
recheada de álgebra...
Delfim - Bem sacado.
Joelmir - Diz ainda que o conteúdo das formulações da
futurologia parece aos leigos e aos incautos, por causa de seu recheio
algébrico, bem mais fundamentado que a simples leitura de um
baralho. Os modelos que prevêem o futuro da humanidade, segundo
uma trajetória imutável e inabalável por hipóteses acessórias - o
determinismo histórico de Marx, a teoria estagnacionista dos
estruturalistas modernos ou o mundo dicotômico de Wiener e Kahn -
possuem uma grandiosidade apocalíptica que emociona e fascina.
Delfim - Mas só emociona e fascina a alguns pseudo intelectuais
ensopados de falso tecnicismo. Como é falso e apocalíptico, por
exemplo, a última novidade bibliográfica da futurologia, o "The Limits
to Growth", editado pelo pessoal do M.I.T., por encomenda do Clube
de Roma.
Joelmir - Já li a coisa. E uma espécie de aritmética do fim do
mundo.
(...)

E por aí se alonga o diálogo muito interessante, culto e


fecundo, mostrando, por exemplo, que Herman Kahn fazendo
profecia para o ano 2.000, viu caducar sua obra aos 5 anos de
existência; que o mundo anda cheio de sentenças tolas como a que
"o mundo marcha para o socialismo", quando mais correto seria
dizer que "o socialismo marcha para o mundo", isto é, que ele cada
dia avança mais para a forma de regime da maioria das nações,
saindo, paulatinamente, do seu desvio histórico, do seu anti-
naturalismo, do seu beco-sem-saída. Quando falham as previsões
115

socialistas, a culpa cabe aos homens que não souberam caminhar de


acordo com o que lhes estava predito, donde vem que errados são os
homens, não as previsões.
As profecias só são tais, para os profetas; para os que as
cumprem, são programações. Cristo disse ter vindo dar cumprimento
às Escrituras e aos Profetas, e executou, de fato, toda a
programação do que sobre ele estava escrito. E os evangelistas não
cessam de advertir, por exemplo, quando Cristo declarou: - "Tenho
sede", foi para cumprir uma predição (João 19, 28). Igualmente,
Cristo se dependurou nos braços, recusando-se a apoiar, com os pés, no
suporte da cruz (como), e disto resultou sua morte imediata por
colapso cardíaco (insuficiência coronária), como cientificamente hoje se
demonstra, e isto, para cumprir-se o ponto que diz: "nenhum dos seus
ossos será quebrado" (João 19, 36). Morto, Jesus, não foi preciso
praticar contra ele o crurifrágio, isto é, tornou-se desnecessário
quebrar-,lhe as pernas, como aconteceu aos ladrões que o ladeavam,
porque no outro dia era sábado, e os corpos não podiam estar nas
cruzes. Quebradas as pernas aos ladrões, não mais puderam eles
apoiar-se nos pés, e morreram dentro de vinte minutos, também, de
colapso cardíaco. (Werner Keller, A Bíblia Tinha Razão).
Cristo praticou contra si uma forma inusitada de crurifrágio, para
que se cumprisse o predito de que "de seu corpo não seria quebrado
osso algum"; pela mesma razão, de cumprir as Escrituras, disse: -
"Tenho sede". No entanto, os homens modernos são tão teimosos,
contumazes, que, deles, não se pode vaticinar coisa alguma, porque
eles se obstinam em não cumprir as predições. De que adianta fazer
previsões para o futuro, se os homens não as cumprem?
Evidentemente, a culpa cabe aos homens, não às previsões... Os
profetas estão certos..., os homens, sim, é que são uns errados...
Objetou-nos um crítico do qual o nome não declaramos, porque,
expressamente não nos autorizou; mas ficamos-lhe grato por essa
sua colaboração; escreveu-nos ele: "Se tudo depende de nós,
iremos fatalmente à destruição. Pois não é o homem, segundo o
próprio Sr. Caramaschi: "Este ser devorador de semelhantes"? Essa
antropofagia (herança animal do homem) se revela de tal maneira
entranhada em nossa contextura atual que confiar só no homem é
absurdo".
Já o dissemos: o homem não pode prescindir de uma
Referência, de uma Instância suprema de apelação, para interpretar
o mundo, regular sua conduta e guiar seus passos. Contudo, essa
Instância não se põe em campo para resolver quaisquer problemas
humanos. A Referência suma, o Absoluto, é Instância de
regulação, e não serventuária do homem. Donde vem que o
116

homem não pode valer-se, a não ser, de si mesmo. Porém, se olvidar a


Referência, se se fizer a si mesmo absoluto, de fato, vai parar no
caos. No entanto, uma vez que Deus mantém a liberdade, neste
ponto surge a responsabilidade, em lugar do determinismo
irresponsável. Se não há uma mão de Deus guiando a história; se
não há o determinismo no momento da escolha do caminho a seguir, e
sim, só depois de desencadeado o processo; se, em lugar do
determinismo, há a liberdade de escolha de uma entre as muitas
alternativas que nos apresenta a vida; se, depois de desencadeado o
processo nascido de uma escolha errada, não podemos tornar atrás,
desfazendo o feito, então, precisamos estar alertas!
A não ser assim, de quem devemos esperar? de Deus? Pois,
por que não resolve ele, então, os problemas nossos? Por que deixa ele
os homens se entredevorarem, mutuamente, brindando-se com a
morte em ferinas guerras? Por que permite, neste caso, até as
"guerras santas" perpetradas, de ambas partes, em seu nome?
Acaso, logo, é com a anuência dele que os fortes e os astutos
(animal ou homem) prevalecem, tripudiando, sobre os pacíficos, ou
brandos, ou fracos, ou dóceis? Por que é egoísta a vida desde os seus
mais remotos fundamentos, desde sua mais remota origem neste
mundo? Se a mão de Deus guia a história, que pensar dele quando
a vemos referta de erros, de loucuras, de violências, de maldades?
De tudo isto, qual será a conclusão?
A conclusão é esta, e não há outra: se o homem não se puser
em guarda, em vigilância; se não se propuser a sofrear suas próprias
impulsões animalescas, sua selvageria, "iremos fatalmente à
destruição". Eis o nosso alerta... que se mantém equidistante do
otimismo progressista, e do pessimismo conducente ao nada de
Buda, de Sartre e de Schopenhauer. In medio stat veritas.
Não, porque afirmamos que de nós tudo depende, e só de nós,
que sejamos materialistas. Ninguém se iluda: neste "nós" incluem-se,
também, os espíritos desencarnados que, sem ser Deus, ajudam na
obra arquigigantesca da reconstrução do mundo, no ingente esforço
do desenvolvimento da civilização, ao tempo em que elaboram a
desinversão de si próprios de egoístas que são, em sábios, em
amorosos. Não, portanto, "depois de mim o dilúvio", porque este,
sem remédio, de pronto, atingiria aos que amamos; e destruída a
civilização, teríamos todos de recomeçar de novo na barbárie. O mundo
é a nossa escola de aperfeiçoamento, de desinversão, na carne ou fora
dela. A destruição total do mundo nos privaria a nós, homens e espíritos,
do campo de experiências de alto nível que atingimos, à custa de tantas
fadigas, dores e de lágrimas. Não, logo, "depois de mim o dilúvio",
porque não há esse "depois de mim"; a vida continua após a morte do
117

corpo de matéria densa, e o homem desencarnado continua jungido às


contingências terrenais, porém, noutras esferas..., visto como a Terra
não é só o globo físico de compacta matéria...
As experiências pessoais que lastreiam uma convicção profunda,
não se transferem, e podem ser havidas por mitos. Haja vista a
experiência da abelha da parábola, que não pode ser transmitida à
formiga. Mito ou não, tínhamos de consignar este testemunho, real para
uns, e mito escatológico para outros.
Ortega, quando afirma que a filosofia, toda quanta, está metida
entre dois parênteses iniciais - Heráclito e Parmênides -, conclui, a
seguir: "Quer isto dizer que a filosofia começa com um monumental
acaso, pois começa ao mesmo tempo, inclusive talvez exatamente na
mesma data, em dois homens que, sobre pertencer à mesma geração,
vivem nos dois extremos opostos do mundo grego - Eléa e Éfeso; e
começa em cada um com sentido oposto, de modo que suas doutrinas
representam, desde logo e para sempre, as duas formas mais
antagônicas de filosofia que é dado imaginar, como se alguém - o
Acaso? - houvesse concordado em deixar toda a futura filosofia inclusa
desde a primeira hora neste parênteses inicial".
Não acreditamos que estes dois pensadores iniciais tenham-se
reencarnado por acaso. Bergson também cai neste engano. Verificando
que as civilizações se desenvolvem graças à atuação de minorias
criadoras que encantam, fazendo dançar as multidões aos magos sons
de suas harpas de ouro celestiais, sai-se, também, com a descabelada
hipótese do acaso; diz ele: Para que se dê a gênese e o
desenvolvimento de uma civilização, "um duplo esforço é exigido:
um esforço por parte de certas pessoas no sentido de realizar uma nova
criação, e um esforço por parte das restantes no sentido de adotarem e
de se adaptarem a ela. Pode chamar-se civilização a uma
sociedade, logo que estes dois atos de iniciativa e esta atitude de
docilidade se verifiquem simultaneamente. Evidentemente, é mais difícil
satisfazer o segundo do que o primeiro requisito. O fator indispensável
que não exerceu o seu comando nas sociedades não-civilizadas, não
foi, segundo todas as probabilidades, a personalidade superior (não
há razão plausível para que a natureza não tenha tido um certo
número destes felizes caprichos em todas as épocas e em todos os
lugares). O fato que se não verificou, foi mais provavelmente o de se
não ter proporcionado uma oportunidade para que os indivíduos desta
casta pudessem mostrar a sua superioridade e bem assim, de, nos
outros indivíduos, se não ter manifestado qualquer disposição para
seguir a sua liderança".
Conquanto o que vamos afirmar não seja um dado da experiência
para o historiador, o filósofo, como é mais livre, utilizando-se da
118

intuição, pode adentrar-se por este caminho, e é o seguinte: a ser


verdade isto de Bergson, citado por Toynbee, que os indivíduos
superiores aparecem graças aos "felizes acasos" da natureza, que é
idêntico a "felizes caprichos"; e certo, como é, que a gênese e
desenvolvimento da civilização se devem à existência de indivíduos
superiores, então, não só a gênese, como ainda o desenvolvimento
da civilização se deve a estes "felizes acasos", ou "felizes caprichos",
ou a estas "causas fortuitas ou ocasionais". Logo, a gênese e o
desenvolvimento das civilizações, remotamente, são produtos do Acaso.
E como uma civilização entra em colapso por motivo da sua
incompetência em replicar, com sucesso, a determinado repto
(Toynbee), temos que o que faltou, e se existiam, não foram
seguidos, foram os indivíduos superiores ... para mostrar como replicar
ao repto com acerto. A história, por conseguinte, é feita graças à
influência desses indivíduos superiores que aparecem por acaso; e
quando a civilização se desfaz, é por causa da ausência deles, ou
por não serem seguidos. O Acaso, deste modo, fica sendo o absoluto,
o termo de referência a que tudo se reporta, porque tudo está na
dependência dos indivíduos superiores, e estes, na dependência dos
caprichos da natureza que age ao acaso. Negada esta tese, não há
como não se cair nesta outra: a da causa espiritual.
A causa espiritual da gênese e progresso, como a da
decadência e morte das civilizações, foi posta de lado por Bergson
e Toynbee, bem como a da gênese da filosofia, por Ortega, criando
a situação sumamente incômoda para os filósofos, e revoltante para os
místicos, de todas as coisas sublimes, soberbas, extraordinárias, se
originarem ao toque mágico do Acaso. Se fosse dado, em definitivo, o
Acaso como supremo criador, como absoluto, teria então chegado a
hora de encerrar a filosofia com um egrégio epitáfio mui digno dela.
Porque a filosofia, até hoje, não fez outra coisa que opor a Lei ao
Caos... que é este onde nada se repete, e tudo acontece por
acaso, por capricho da natureza, por causas fortuitas ou ocasionais.
A não ser deste modo, outro é o caminho, e a causa primeira é
espiritual.
Quando os espíritos superiores hão por bem reencarnar-se em
qualquer meio, este, ainda que semi-morto, renasce, ressurge,
recresce, viceja, e se desenvolve. A Renascença simplesmente não
teria acontecido, se aquela plêiade de espíritos brilhantes não se
tivessem reencarnado. A estagnação medieval ter-se-ia prolongado
até os nossos dias, na melhor das hipóteses, porque, na pior, teria
já o mundo soçobrado na barbárie... de que ainda agora não se
acha muito distante.
Já dizia Cervantes que os grandes feitos para os grandes
119

homens se reservam. Textualmente: "As grandes façanhas para os


grandes homens estão guardadas". Sem os grandes homens, o
mundo não anda, e, na carência deles, sobrevem o "deserto de
homens e de idéias" (Osvaldo Aranha).
O “deserto de homens e de idéias” surge quando, depois, a
massa invade os postos de comando como demagogos; aí, então, os
espíritos criativos se recusam a reencarnar-se em tal meio, que
seria perder esforço e tempo, pois não seriam ouvidos. Se é difícil ao
espírito seleto guiar as massas, ainda que estas se disponham a
segui-lo; como poderá ele conduzi-las, quando elas se acham
desorientadas pela gritaria dos demagogos? Então, os espíritos
superiores se recusam reencarnar-se... e é o fim da civilização.
Os demagogos são homúnculos que, para as massas, substituem,
com vantagem, os espíritos criadores. "Homúnculo é o autêntico filho
bastardo de Wagner, do erudito livresco: criatura, dotada de
inteligência, mas sem vitalidade biológica. Esses homúnculos sabem
que quem deseja com gosto ser ouvido há-de aos gostos da turba
acomodar-se. Sabem isto, e o aplicam, porém ignoram que... – o
caminho à beleza não vai através da erudição livresca -.... Viver com
gosto é de plebeu: o nobre aspira a ordenação e a lei” (Goethe –
Fausto). Agora, Sêneca: "É preciso sermos sábios, não eruditos: a
sabedoria ensina o homem a gozar de seu tempo, a erudição ensina a
perdê-lo; a primeira ensina a viver bem e frutuosamente, a outra a
viver mal e vadiamente. A cultura pode e deve ser um aviamento
para a sabedoria, não um fim. Finalidade da vida humana não é ter
tantas noções que não servem para nada: é ter a força de resistir
ao mal, de - superar as asperezas da existência e de receber a dor
como um tesouro do espírito".
Homúnculo é o homem-massa enfatuado por um saber superficial,
sem autenticidade, porque não se deu ao, para ele, penoso trabalho
de, em solidão, repensar, meditar profundamente, digerir e assimilar
as coisas lidas, transformando-as em substância espiritual própria,
do mesmo modo como os alimentos ingeridos se transformam em
substância corporal. Como as massas não sabem distinguir os
demagogos dos homens autênticos, seletos, que são si mesmos, estes
perdem o tempo. Daí que os espíritos superiores procuram reencarnar-se
noutra parte, acontecendo o que Goethe pôde observar da história:
"Trata-se de uma fuga, em que os diversos povos como vozes entram
sucessivamente".
Onde se reencarnarem os espíritos superiores, aí estarão as vozes
dominantes do coral.
Embora superiores, tais espíritos não são infalíveis, como não o
eram os deuses gregos dos quais “Já citava Homero, como
120

provérbio muito antigo, que "os moinhos dos deuses moem devagar". Os
moinhos dos deuses são o destino histórico". Ocorre então que cada
surto de progresso se cristaliza nas instituições, usos e costumes, os
quais reagem (misoneísmo) contra quaisquer inovações. Os inovadores,
por isto, são desprezados, proscritos e mortos” ( Ortega e Gasset – O
homem e a gente). A esse respeito, diz Herbert Wendt, em “À procura de
Adão”: "Empédocles, o Fausto grego, que fundou a doutrina dos
elementos, constitutivos do mundo e esboçou uma teoria quase
darwiniana das origens, morreu exilado político no Peloponeso.
Anaxágoras, o primeiro pensador que concebeu uma origem do mundo
em nebulosas remuinhantes, foi levado ao tribunal como herético e só
pode escapar da condenação à morte graças à influência do
estadista Péricles. Os sessenta escritos de Demócrito, em que estava
consignada a concepção universal da ciência exata da natureza,
incluindo tudo, desde a Fisiologia à doutrina atomística, e onde o pai
dos materialistas atenienses se revelou o antepassado de todos os
grandes físicos desde Galileu e Newton, Dalton e Faraday, até Bohr e
Einstein, foram destruídos na fogueira da censura (dizem que Platão
causou pessoalmente esse primeiro ato-de-fé da História Cultural)".
"Os moinhos dos deuses moem devagar"... e acabam por moer os
próprios deuses que, para não serem moídos, se recusam a reencarnar-
se... onde os mortos matam os vivos... mortos, no sentido de Cristo
que mandava deixar aos mortos o encargo de enterrar os seus mortos, e
mortos no sentido de, quando vivos, na reencarnação pregressa, terem
sido os criadores das instituições que agora resistem (misoneísmo),
e, para salvaguardar-se, matam os inovadores. Os mortos neste duplo
sentido de mortos ambulantes e de mortos ilustres, os primeiros do
presente, e os segundos do passado, crucificaram Cristo e
assassinaram Sócrates. E quando já não há mais deuses para cuidar
do moinho, porque todos foram moídos, então ele pára... e é o fim
da civilização.
Os deuses e os homúnculos movem a história; os primeiros fazem-
na andar, e os segundos, a desandar. Certamente que não
exageramos ao classificar de homúnculos os césares romanos quase
todos, que se cuidavam "divinos", e, no entanto, eram doidos,
sanguinários, hipócritas, devassos (Calígula, Nero, Cômodo,
Heliogábalo, etc.), homúnculos apenas e não deuses. "Calígula - diz
Sêneca - (que a natureza degenerou, penso eu, para mostrar quanto
pode o máximo dos vícios no máximo da prosperidade) gastou em um
dia só para um almoço dez milhões de sestércios; e, embora
ajudado pela fantasia de seus cortesãos, pôde a custo encontrar a
maneira de converter o tributo de três províncias em um almoço" . A
ocupação do poder por tais arrematados monstros, impedia a
121

aproximação da elite criadora. Catão rejubilou-se quando lhe


impuseram suicidar-se, tal qual Sócrates, ao ser condenado à morte,
pois nem um nem outro podia mais salvar a Cidade da destruição já
pronta e destinada.
Engels e Marx assentaram que os fatores econômicos governam a
história. Pode isto ser verdade, se definirmos economia como sendo a
ciência humana que estuda os meios que têm por fim satisfazer todas
as necessidades. Como o que cada um busca é o bem-estar, a
felicidade, a economia seria a ciência da busca da felicidade. Definida
a economia deste modo vago, amplo, então Cristo foi o maior economista
visto como ensinou o único caminho possível que leva à felicidade,
e este caminho é o do amor fraterno, prático, atuante, vivencial, e não
o apenas retórico, livresco, literário.
Todavia, a ciência econômica, tal como pensava Marx e ainda
entende o vulgo, não tem nada a ver com as riquezas espirituais, e
menos ainda, com as que se fundam na esperança de outra vida, ou as
do outro mundo. Ela se ocupa das riquezas materiais com as quais se
pode comprar o conforto, o bem-estar. Consequentemente, todos
aqueles que se sacrificam neste mundo, por um ideal sublime,
padecendo pobreza e desconforto (santos, sábios, filósofos, cientistas,
artistas, educadores, etc.), constituem exceção à pretensa "lei"
histórica de Marx. E como todos estes dos parênteses só agem por
motivos espirituais; e como eles integram a minoria criadora que faz
avançar a civilização, segue-se que a história não anda por motivos
econômicos, mas, por motivos espirituais.
Então, esteve errado Marx em suas observações? Não. Marx
tem razão. Na decadência, os motivos econômicos, de fato, movem a
história. O homem-massa, como ignorante, como egoísta fechado na
sua miopia, não poderia enxergar outra coisa além de suas
necessidades materiais. De tais homens se pode dizer, com Sócrates,
que "vivem para comer, e não, que comem para viver". Referiu-se a
esta casta de homens, Cristo, quando exclamou: "deixa aos mortos o
encargo de enterrar os seus mortos". Foi pensando nestes mortos
ambulantes que enchem as ruas, em cujas almas nenhuma chama arde,
que Cúrio Dentato proferiu esta sentença anotada por Sêneca: "Prefiro
estar morto, a viver morto". E Gusdorf: "É imensamente preferível (...)
ser Sócrates caído em desgraça do que porco satisfeito". Aqui está
como, de fato, os motivos econômicos são os únicos que fazem andar
os mortos (!)
Seria, então, que os mortos escrevem a história? Seriam os mortos
que a fazem andar? que lhe dão vida? Não lhe dão vida, dão-lhe a
morte; não fazem a história, senão a desfazem; não a fazem andar,
mas, desandar. Na decadência duma civilização, os mortos escrevem
122

a história, e, então, por motivos exclusivamente econômicos; porque,


tendo sido afastada a elite criadora dos postos de comando, tal elite é
substituída por uma minoria dominante, toda feita de mortos ou
homúnculos. Estes, espiritualmente mortos, visam apenas o
econômico: buscam enriquecer-se mais e mais, preparam exércitos,
fazem guerras de conquistas, "colonizam" outros povos, criando, com
isto, o efêmero Estado universal. As massas ignaras tomam tudo isso
por desenvolvimento, por progresso, não lhes ocorrendo ser isso sinal de
decadência, de prenúncio de morte, como os profetas não cessam,
então, de anunciar.
Pouco mais, e os da cúpula do poder principiam a brigar entre si,
levantando facções contrárias entre o povo, que são as guerras
civis. Vem o enfraquecimento, as "colônias" libertam-se, armam-se como
resposta ao repto da ocupação sofrida, e, então, os "bárbaros"
caem sobre o colosso enfraquecido e o liquidam. Está morta a
civilização; os mortos a mataram!
Como diz Ortega, "já nos tempos dos Antoninos (século II) o
Estado gravita com uma antivital supremacia sobre a sociedade. Esta
começa a ser escravizada, a não poder viver mais que em serviço
do Estado. A vida toda se burocratiza. Que acontece? A
burocratização da vida produz sua diminuição absoluta - em todas as
ordens. A riqueza diminui e as mulheres parem pouco. Então o
Estado, para subvencionar suas próprias necessidades, força mais a
burocratização da existência humana. Esta burocratização em segunda
potência é a militarização da sociedade. A urgência maior do Estado é
seu aparato bélico, seu exército. O Estado é, antes de tudo,
produtor de segurança (a segurança de que nasce o homem-massa,
não se esqueça). Por isso é, antes de tudo, exército. Os Severos, de
origem africana, militarizaram o mundo. Faina vã! A miséria aumenta,
as matrizes são cada vez menos fecundas. Faltam até soldados. Depois
dos Severos, o exército tem de ser recrutado entre estrangeiros" (...)
"Os estrangeiros tornam-se donos do Estado, e os restos da sociedade,
do povo inicial, tem de viver escravo deles, de gente com a qual não tem
nada que ver. A isso conduz o intervencionismo do Estado: o povo se
converte em carne e massa que alimenta o mero artefato e
máquina que é o Estado. O esqueleto come a carne que o rodeia. O
andaime se torna proprietário e inquilino da casa".
Como, todavia, civilização é integração, eros ou amor; como
"civilização é, antes de tudo, vontade de convivência. É-se incivil e
bárbaro na medida em que não se conte com os demais. A barbárie
é tendência à dissociação. E assim todas as épocas bárbaras tem
sido tempo de espalhamento humano, população de mínimos grupos
separados e hostis". Como civilização é integração, é "vontade de
123

convivência", então, uma idéia nova, um novo poder espiritual,


normalmente, uma religião, há muito cultivada pelo povo sofredor
durante o interregno, firma-se, e é a crisálida de que sai a civilização
substituta daquela que morreu sob o império dos mortos.
"É, com efeito, muito difícil salvar uma civilização quando lhe
chegou a hora de cair sob o poder dos demagogos. Os demagogos
têm sido apenas os grandes estranguladores de civilizações. A grega e
a romana sucumbiram nas mãos desta fauna repugnante, que fazia
Macaulay exclamar: "Em todos os séculos, os exemplos mais vis da
natureza humana deparam-se entre os demagogos".
Desde que sustentou Cristo que "nem só de pão vive o homem",
aquele que vive só de pão, não é vivo, é morto. Nenhum cristão morreu
na arena para ter qualquer vantagem material. Nenhum herói se
sacrificou e morreu pela pátria ou por uma idéia, esperando benefícios
que não fossem para outrem. Todos os conhecimentos naturais,
científicos e técnicos que realmente colocaram o homem no seu pedestal
de homo sapiens, resultaram de atividades diletantes, não econômicas,
que não tinham outro objetivo que não fosse a pura diversão, o prazer, o
jogo, o flanar criador. Benjamim Franklin, ao fazer saltar faíscas
elétricas do cordel umedecido de seu papagaio, não estava ainda,
sequer, pensando em pára-raios, do mesmo modo que Hertz não
cuidava ainda do telégrafo sem fio, quando, por puro prazer,
pesquisava as ondas elétricas. Se fosse, então, perguntado a ambos
para que serviam suas experiências, poderiam responder com a
pergunta de Edison, em idênticas circunstâncias: "para que serve
uma criança?". Edison ganharia muito mais se, ao invés de
"perder tempo" (?!) com invenções que o mantiveram sempre na
pobreza, se dedicasse a ser um simples comerciante, ou gerente de um
banco, ou médico, ou advogado. Quando Darwin, com apenas 21 anos
de idade, ainda estudante, "perdia seu tempo" em estudar qualquer
animálculo no microscópio, meses a fio, com pertinácia e paciência,
acaso o fazia por motivos econômicos? Enquanto seus colegas de
estudo vadiavam, bebiam e dançavam, lá estava ele preso ao seu
"passatempo" predileto, e quando todos, de há muito, já estavam
dormindo, ele continuava acordado, com a cabeça em fogo,
lucubrando, lucubrando... Ninguém, jamais, nunca, viu um gênio que,
por seu próprio esforço, se tivesse enriquecido, donde a definição
popular para ele: "gênio é aquele que, sabendo todas as coisas,
não sabe ganhar a vida". A criança humana, curiosa e
inteligentemente criadora, que desaparece no adulto insípido,
prosaico e vulgar, permanece criança no gênio para quem tudo são
maravilhas; esta é a causa por que os gregos simbolizaram a
filosofia na coruja de Minerva, a ave de olhar deslumbrado.
124

Rimo-nos da afirmação de Marx, de que a história se


desenvolve por motivos econômicos, quando vemos Cristo e
Sócrates, todos os heróis e todos os mártires morrerem por suas
idéias venerandas! Depois, eis-nos, já, sério, ao constatar que, de fato,
Marx tem razão, e, efetivamente, os motivos econômicos governam a
história,... acentuadamente, na decadência das civilizações, visto como,
nesse tempo, o poder material substitui o poder espiritual, no mesmo
passo em que a minoria criadora, por obra dos demagogos, se
transforma em minoria dominante, toda, constituída de homúnculos.
Então, com o surgir do "deserto de homens e de idéias", vêm as guerras
de conquista de que decorre o efêmero Estado universal que
preludia o soçobro final da civilização. Um pouco antes tem lugar o
intervalo de tempo (interregno) durante o qual se forma uma religião
no seio do povo sofredor, e este novo poder espiritual é a crisálida de
que nasce a civilização substituta. Quem, pois, com Marx, se ocupar só
com os períodos decadentes da história, pode, com ele afirmar que a
história se move por motivos econômicos. Se, no entanto, o enfoque
da mente recair sobre a gênese e desenvolvimento das civilizações,
ver-se-á que, aí, predominam os motivos espirituais.
Predominam, dissemos, porque ambos poderes nunca estão sós.
A civilização, como tudo, possui dentro de si o binômio essência e
substância que se manifesta sob a forma de poder material e poder
espiritual. Assim como, na física, a potência dinâmica (P) é um
produto da velocidade (v) pela força (f) - P = vf -, de sorte que,
quando aumenta a velocidade cai a força e vice-versa, o mesmo
ocorrendo com a potência elétrica (W = E.I), em que o Wat (W) resulta
da voltagem (E) pela intensidade da corrente (I), pode estabelecer-se
que uma civilização é um produto do poder espiritual pelo poder
material. O enunciado diz, então, que o poder material (m) cresce na
proporção com que cai o poder espiritual (s) e vice-versa, para uma
dada potência (P) civilizatória - P = ms. No entanto, esta potência
também se vai aumentando pelo aumento alternado do poder material e
do poder espiritual. Cada surto de desenvolvimento espiritual
corresponde a um outro do poder material que, por sua vez, suscita novo
surto de desenvolvimento espiritual. Esta alternância faz desenvolver-
se a civilização. Por isto, quando, como agora se verifica um
crescimento como que hipertrófico do poder material, o equilíbrio só
será possível, com uma retomada do desenvolvimento do poder
espiritual. Conseqüentemente, se nossa civilização não soçobrar agora,
vítima do desastre atômico, podemos augurar uma volta à filosofia, tão
intensa, quanto ela, no momento, é desprezada. Estamos exatamente
no ponto em que vai acontecer uma segunda Renascença qual a
ocorrida no fim da Idade Média, ou, então, nosso desastre será
125

completo pela Terra inteira.


As civilizações caem a nada, quando a hipertrofia do poder
material anula o espiritual. Pela mesma razão, é impossível que só
cresça "s" (poder espiritual), porque, como essência que é, precisa
possuir a sua correlata substância "m". Nas artes se vê bem isso:
quando uma nova idéia surge, ela se reveste de um estilo novo que é
rico no fundo e pobre na forma. Com o correr do tempo, a forma
cresce, enfuna-se, dominando tudo com aparatosas vestes. Foi deste
modo que o grande estilo barroco conceptista, próprio para
pensamentos grandes, se degenerou no gongorismo e no rococó. A
ingente clava de Hércules reduziu-se a nada nas mãos dos pigmeus,
apenas dela conservando a forma, não, porém, o conteúdo, o valor e
a força prodigiosos. Também, o homem, na mocidade é rico de energia
vital mas vazio de experiência, de sabedoria; na velhice, decai a
energia orgânica no ponto em que a experiência e a sabedoria
crescem. A beleza do jovem, diz Ortega, "o admirável do moço é o
seu exterior; o admirável do homem feito é sua intimidade". O jovem é
belo por fora, no passo que o velho o é por dentro, quando se ocupou
este em valorizar-se.
Hegel diz que a história é racional; no entanto, ele próprio se
refuta, porque sua lei histórica se resolve numa não-lei. Segundo ele,
a história se desenvolve pelo método dialético da tese, antítese e
síntese. Começa-se por uma tentativa que é a tese; depois, como as
coisas não dão certo, vai-se fazer exatamente o oposto que é a
antítese. Como, também, não se atinge o objetivo, então se junta o que
há de bom da tese, com o bom da antítese, construindo-se a síntese. E
esta síntese é a tese do movimento seguinte.
Conseqüentemente, a história desenvolve-se por tentativas e
falências, por puro ensaio-e-erro animal. Onde, logo, a racionalidade da
história? Este automatismo quase físico pode ser razão, mas razão
embrionária, concreta, muscular, feita, toda, de movimento objetivo,
de ações, pelo que a meditação da história é a mesma meditação
do animal toda feita de ações diretas, de atos e de gestos físicos,
nomeada ensaio-e-erro. Essa meditação enfraquecida do animal e
da história está tão distante da razão plena, da sabedoria, quanto
dista a inteligência do animal da humana. E isto porque, como diz
Ortega, longe de a história ser racional, acontece que a mesma
razão humana é histórica. Conseqüentemente, a história estará tão
mais cheia de erros, quanto mais for o homem ignorante. Logo, se o
mundo se povoasse de sábios, a história seria racional, e, ao invés
de o homem fazer primeiro, como agora é, para ver no que dá;
agir, para depois pensar, primeiro pensaria, para depois agir. Não,
a ação direta que é a ação sem pensamento, mas a ação indireta
126

que é pensar para depois agir. Levar para o pensamento abstrato o


ensaio-e-erro, isso é razão; porque o pensamento dialético é um
ensaio-e-erro in abstracto. Não, a fórmula: segue-se o pensar ao
agir, mas, o inverso: segue-se o agir ao pensar.
Podemos, agora, chegar a uma generalização maior que englobe
as duas meias verdades na unidade. A primeira diz que a história se
desenvolve por motivos espirituais. A segunda, que os motivos
econômicos governam a história. Cumpre-nos encontrar o
denominador comum que harmonize, na unidade, estas duas
contradições. E esse denominador comum é o egoísmo que é
constante, tanto na fase ascendente da civilização, como na
decadente; o egoísmo faz subir, e o egoísmo faz descer, no ponto em
que seu interesse se desloca, ora para o econômico, ora para o
espiritual.
O motivo, pois, que move a história tanto na ascensão, como na
decadência, é o egoísmo porque a história é o relato dos feitos
realizados pelo homem que é um ente vivo, saturado, das células acima,
por uma vida que é egoísta desde os seus mais remotos fundamentos
neste nosso mundo.
Qual, pois, a diferença de um e de outro egoísmo, visto ser
este o pulsionador da história, tanto na ascensão da sociedade, como
na sua decadência? Na sua ascensão, a história se move ao impulso
dum egoísmo sábio; na sua decadência, ela anda por efeito dum
egoísmo ignorante, tal, a diferença que vai entre elite criadora e
minoria dominante. Ambas minorias, a criadora e a dominante são
egoístas, porque ambas são vivas, e a vida é egoísta; porém, a
minoria criadora tem seu egoísmo expandido, pelo que assesta sua
luneta de alcance, para enxergar, ao longe, ao largo, uma meta
espiritual distante; a minoria dominante, ao contrário, atacada de
miopia, como a toupeira, só sabe farejar motivos materiais...
Se a história não é racional; se não é determinística; se não
há nela outra "lei" que não seja a do egoísmo, o supremo
imperativo da vida, então, a história está em nossas mãos, e será
como a fizermos, para o bem ou para o mal. Se somos livres para
fazê-la, de um modo ou de outro, não há fatalismos ou determinismos
históricos. Se a história será como a fizermos, é preciso planejá-la. Em
lugar do progressismo idealista que acha que a história vai como terá
de ir, temos de pôr o alertismo pelo qual a história terá de ser
planejada, organizada e controlada como qualquer empresa. A
história, logo, é o relato dos empreendimentos ou feitos humanos cujos
planejamentos, execuções e controles ficam inteiramente à mercê da
nossa sabedoria em efetivá-los. Ou isto, ou a história desenvolver-se-á,
como o foi sempre, por tentativas e falências, por puro ensaio-e-erro
127

animal. Conseqüentemente, quanto mais sábio for o homem, menos


erros conterá sua história. Então, numa sociedade de sábios, a
história será racional.
Mas, sabedoria não é ciência, visto como esta se encaminha a ver
o particular cada vez menor, procurando conhecer "mais e mais a
respeito do menos e menos" (W. Durant). A sabedoria está no rumo
oposto, na filosofia, na generalização. E só poderá ver o geral quem se
puser à distância ou nas alturas, em aquilino vôo, em vôo de condor.
A fabulosa escolha de Salomão mostrou que era ele sábio antes
mesmo de pedir a Deus sabedoria. Para saber pedir é preciso ser
sábio; e o sábio, quando pede, pede mais sabedoria. "Que queres
que te dê?" - disse-lhe Deus. E que pediria o homem ignorante,
qualquer desses que enchem as ruas, se um deus lhe aparecesse,
como o gênio da garrafa de Aladim, e lhe autorizasse a fazer um
pedido? Sem hesitação pediria riqueza, pediria para acertar sozinho
na loteria, porque todos querem dinheiro a mancheias; pediria poder,
porque todos querem ser poderosos; pediria glória, porque todos
estimam a ostentação. O rei Midas não pediu sabedoria, mas
riquezas, e os deuses o castigaram com fazer que tudo o que ele
tocasse, imediatamente, se transformasse em ouro. Perto de morrer de
fome e sede, implorou o rei lhe fosse retirado esse privilégio
exorbitante. Não consta, porém, que Salomão tivesse precisado pedir
que Deus lhe diminuísse o saber, embora tivesse chegado a
entender, como o escreveu, que "melhor é o dia da morte que o do
nascimento", e que "o aumento de sabedoria implica no aumento da
capacidade de sofrer", porque, mesmo a esse preço,
incomparavelmente, vale mais a pena ser sábio que ignorante. Pois
claro: a insensibilidade que impede o sofrimento, igualmente, impede
o gozo, a alegria. Ora, ninguém gostaria de chegar ao não-sofrimento
pelo caminho de tornar-se pedra, só porque as pedras não sofrem.
Contudo, Salomão pediu um coração reto e justo, para que? Pois
como ele próprio o disse: "para poder julgar este teu grande povo".
Pediu um coração reto e justo, e Deus lhe diz que lhe satisfaria o
pedido fazendo-o sábio; porque ter coração reto e justo é ser sábio.
Ora, ter coração reto e justo é ser virtuoso; mas a suma das virtudes,
a mais excelsa, de que todas as demais decorrem, é o amor; logo,
a sabedoria é o amor. O amor do povo era o preeminente interesse
de Salomão, e, para o julgar, para ser juiz íntegro, perfeito, pediu um
coração reto e justo, e Deus lhe dá sabedoria.
E porque Salomão pediu sabedoria, isto é, um coração reto e
justo, e, não, riquezas, nem poder, nem glória, nem que Deus lhe
pusesse nas mãos seus inimigos, juntamente com a sabedoria veio-lhe
a glória, veio-lhe a riqueza, o poder, a honra, e até a paz lhe veio,
128

porque o rei sábio soube transformar os mais ferrenhos inimigos em


amigos fiéis.
O egoísmo que está já nas bases da vida, e em toda ela, não
cessa de existir no santo e no sábio, só que, com a sabedoria e a
santidade, o egoísmo se expande, tornando-se egoísmo dilatado.
Quando Cristo manda o moço rico vender tudo o que possuía,
dá-lo aos pobres, para depois segui-lo, acrescenta: "e terás um
tesouro no céu". Ora, abrir mão do menos para ter o mais, não é
desprendimento vazio, mas egoísmo sábio ou dilatado. Quando foi
perguntado a Ciro, o persa, por que não se apoderava das riquezas dos
solos conquistados, e antes, as deixava sob a guarda dos mesmos
monarcas conservados em seus tronos, tornados, apenas, vassalos,
respondeu: "O resultado de nossa avidez de riquezas seria dar-nos
uma posse efêmera; entretanto que, se desprezando-as, nos fizermos
senhores dos territórios que as produzem, adquiriremos uma posse
constante". A esta mesma conclusão chegou Golias quando disse a Ciro:
"Não me admiro que possuindo nós maior porção de taças, de vestidos
e de ouro, sejamos contudo inferiores a vós. Nós curamos de amontoar
riquezas; vós de vos fazerdes mais valorosos". Eis a diferença entre o
ter e o ser; o sábio busca ser... mais valoroso, e o ignorante procura
ter... mais riquezas. O sábio anseia pelo eterno da sua auto-construção,
no passo que o ignorante almeja o efêmero (riqueza ou poder) que
não pode levar consigo para o oriente eterno, e serve só para enchê-
lo de maus costumes, de vícios, dos quais, com dores, terá de despojar-
se. Egoísta um, egoísta o outro, mas o egoísmo de Ciro era sábio ou
dilatado; sua recusa em apoderar-se da parcela, era porque tinha
em vista o todo. À-toa não é que Deus chama a Ciro de seu ungido
(Isaías, 45, 1 e 2). E La Mettrie: "A virtude é o egoísmo munido de
óculos de alcance"!
Demonstrado que a história se torna cada vez mais racional, na
proporção em que os homens que a fazem vão ficando mais sábios,
temos isto de novo, de inédito, de original: a civilização é uma empresa
humana. Como tal, funda-se no triângulo planejamento, organização
e controle. Este ternário, por sua vez, se apóia e anda sobre as cinco
rodas de quaisquer empresas: criatividade, liderança, motivação,
comunicação e padrão. Nenhuma empresa se desenvolve, se não
forem postos em funcionamento estes requisitos.
Da falta de criatividade, esta que sempre está ligada à liderança,
pois só lidera quem puser em movimento as forças criativas de si e de
outrem, desta falta de criatividade vem a falta de liderança, e, com
esta, dá-se a queda da motivação, da comunicação e do padrão. É por
isto que, quando a minoria criadora, pela obra dos demagogos, é
substituída por uma minoria dominante, não criadora, cessa a
129

liderança, e os chefes de Estado não causam mais admiração e


respeito. Aquela lira de ouro que a minoria criadora sabia dedilhar, a
cujos magos sons a multidão feliz dançava, torna-se em bastão de
comando militar nas mãos do chefe, não líder...
O bastão, de início, serve de batuta para marcar o compasso, sem
música, sem deleite, sem entusiasmo, sem esperança. E quando a
multidão sai do compasso, então é agredida com o bastão, impelindo-a
à rebelião ativa. Caída a criatividade, portanto, cai, também, a
liderança; o líder é substituído pelo chefe cuja virtude é a força, cuja
voz é a de comando do sargento instrutor.
Sem a criatividade, perdida a liderança, anulada a motivação,
com transformar-se a lira de ouro no chicote, a comunicação se torna
como a dos que edificavam a torre de Babel. Por causa de a
comunicação ter-se tornado balbúrdia, os padrões de produção e de
qualidade caíram a zero, isto é, a obra da construção, seja da torre, seja
da civilização, pára, cessa, arruina-se e se desfaz em nada. Roma,
antes de cair, não tinha homens com que encher uma praça de
centuriões, obrigando-se, para isso, a contratar mercenários bárbaros,
porque as matrizes que se fecharam para a prole, puseram-se ao serviço
das orgias, ao mesmo tempo em que os homens e as mulheres de
Roma se acharam divididos pelas querelas políticas infindáveis e
guerras civis. Significa isto que o padrão de conduta moral, social ou
cívica caiu a zero; foi como uma confusão de línguas, porque ninguém
mais entendia ninguém.
Caído a nada o padrão que é o estatuto ético e legal; desfeito o
controle, a organização cai no caos. Como, de há muito, cessaram a
criatividade, a liderança, o controle e a organização, o
PLANEJAMENTO, também, se torna de emergência, reduzindo-se a
improvisação, pelo que é substituído pela ação direta que é a ação
sem pensamento, ou a ação antes do pensar. A fórmula da ascensão:
segue-se o agir ao pensar, inverte-se, e fica como é na decadência:
segue-se o pensar ao agir. Então, primeiro se faz de qualquer jeito,
cega e irracionalmente, para depois colher os resultados absurdos. Ora,
isto é puro ensaio-e-erro animal. E se homens racionais passam a agir
e a pensar por atos cegos como os animais inferiores, não é muito que
a civilização com que se adornam, se torne pó e nada. "Caiu, caiu a
grande Babilônia", anuncia o Anjo ao Autor do Apocalipse
(Apoc. 18, 2), e a Babilônia ficou sendo o símbolo de todas as
grandezas humanas votadas à destruição irremediável, quando sua
história passa a mover-se só por motivos econômicos, materiais. Nenhum
espírito superior, então, se reencarna no seio de um povo, quando sua
civilização, por tal motivo, se torna decadente, porque é impossível
salvá-la, e os maiores que o tentaram - Cristo e Sócrates - foram
130

assassinados, após um arremedo caricatao de justiça digna de homens


que se tornaram bestas quais aqueles de Ulisses que Circe transformou
em porcos, sem muito trabalho, como ela própria o disse.
Sendo a civilização um livre empreendimento, uma empresa,
que visa esta? Qualquer empresa visa o lucro. E qual seria o lucro da
civilização? Pois não pode ser outro que não o bem-estar, a
felicidade. Pois bem: só se pode ser feliz quando se é sábio que é o
mesmo que santo, ambos termos derivados de sabor (experiência,
vivência). Fale, então, Toynbee: "Nenhuma civilização conhecida
chegou a atingir o objetivo da civilização. Nunca houve uma
comunidade de santos sobre a Terra". Todavia, quando houver, essa
sociedade não terá termo, porque a história não é,
necessariamente, cíclica. O homem, individual e coletivo, é livre para
semear violências, dores e males; não o será, porém, na hora de
colher os funestos resultados. Nossa civilização ocidental pode acabar
já, ou pode perdurar para sempre, transformando-se, mas, sem cair,
dependendo de nós, e só de nós, para o bem ou para o mal.
Por que haveria de tornar-se em nada uma civilização em que os
homens se fizeram santos e sábios? E, pela recíproca, por que haveria
de perdurar uma sociedade que se transformou em pandemônio, em que
os homens, bestificados, saltitam ao som duma pandorga? Eis que a
verdade menor de Spengler se acha englobada na verdade maior de
Toynbee. Para Spengler, a civilização faz seu ciclo como a vida de um
organismo biológico. Isto é uma figura, uma metáfora, diz Toynbee,
porque uma sociedade, sob nenhum aspecto, se assemelha a
organismos vivos. Sob nenhum aspecto? Pois aí está um: a evidência
histórica mostra que as civilizações nascem, crescem, chegam ao
apogeu, e depois declinam e morrem, abrindo e fechando um ciclo, pelo
que se poderia dizer: ao menos nisto, elas se assemelham a organismos
biológicos.
Vem Toynbee, e explica que a cadeia pode ser quebrada, se a
sociedade se constituir de homens que aspiram a sabedoria que é o
mesmo que santidade. Santo é o que possui as virtudes todas, não só
as que se derivam do sentimento sublime, como as que nascem da
consciência cívica ou social. E se um tal santo-sábio ocupasse o
supremo poder numa tal sociedade, primeiro que tudo, ele teria a
consciência de que cargo vem de carga... que se leva às costas, não,
cômoda montaria que o carrega a ele. Cargo é função, da qual o
homem é o órgão. E o órgão que não executa a sua função, seja por
que motivo for, deve ser alijado, como imprestável, pela vida. Os órgãos
vestigiais são os que cessaram de existir por falta de função. Homem e
função não se separam, porque cada um é o que faz. O nome
deriva do ofício; daí que, quando a João Batista se perguntou quem
131

era, ele respondeu com o que fazia: eu sou a voz que clama no
deserto! Porque o homem é o que faz.
E o sábio-santo teria esta alta consciência que o tornaria
constantemente preocupado com a plena felicidade de todos. Não
seria intransigente, mantendo-se aberto às inovações que os gênios
trouxeram para maior alegria de todos, pois estaria ciente de que
tudo muda, não se repetindo nunca as situações. Cada homem de
tal comunidade, ainda utópica, ficaria ocupado com a sua função que
ele próprio escolheu, por ser-lhe aprazível executar. Tudo seria, então,
um flanar criador. Como fecharia seu ciclo uma tal civilização?
E como não se fecharem os das civilizações transactas, se os
homens não levavam os cargos, senão que estes carregavam a eles?
Como não se fecharem, se ignorantes se apoderavam do poder; se
todos aspiravam relevantes posições de mando, sem se perguntarem
nunca se eram competentes; se todos queriam enriquecer-se, por
qualquer meio, sem meditar sobre o perigo da posse de riquezas; se
todos queriam tudo, contanto que não fosse o duro labor do cultivo
das virtudes e do saber? Spengler tem razão, ao supor ser necessário o
desenvolvimento cíclico da história, porque a experiência histórica o
comprova; todavia, errou ao situar a causa do ciclismo, que não é
porque a sociedade seja como um organismo biológico, e sim, porque
as massas são ignorantes, e, por isto, confundem o homem seleto,
autêntico, criativo e bom, com o demagogo que prega todas as
virtudes, mas não pode viver nenhuma. Daí que a minoria criadora se
troca pela minoria dominante; daí que os planejamentos se substituem
pela ação direta, pelas soluções de emergência, fazendo que a
civilização desande para o seu ocaso. Tem que ser assim, não pode ser
de outro jeito, enquanto o homem for ignorante.
A solução está na sabedoria, que só esta se associa à virtude na
sua forma mais excelsa que é o amor vivido, não o apenas retórico ou
literário. Agora se compreende por que dissemos com Huberto Rohden
ser Platão o filósofo do futuro. Platão afirmava ser necessário ao
iluminado, isto é, ao que viu a luz fora da caverna, retornar a ela para
ajudar a seus irmãos aturdidos pela visão das sombras irreais,
gritando-lhes: "eu vi brilhar a luz"! Platão, ao contrário de todos os
filósofos que sempre buscaram na filosofia o desprendimento da
vida, pregava a necessidade fraterna de o iluminado tornar à caverna
a fim de ajudar a seus irmãos; para ele a sabedoria não é vazia de
obras, mas, operosidade concreta com vistas a melhorar a sorte dos
homens. A sabedoria é um chamamento à ordem, e não, nunca,
evasão do mundo; ela é presença no presente, esteja o homem na
carne ou fora dela. A sabedoria tem que ser militante, e o pensador
tem de sentir-se impelido, não só a interpretar o mundo, mas a
132

transformá-lo no sentido civilizatório.


Há mais de dois mil anos Platão dissera que a solução de todos
os problemas estava na posse da sabedoria; afirmou ser necessário
ao sábio inflamar-se do amor que o motive a ir ajudar aos iludidos
das sombras, aos prisioneiros da caverna; chegou ao extremo de propor
que os filósofos fossem reis, ou os reis, filósofos, mas filósofos, já se
vê, de vida ativa e sábia, e não, filósofos de erudição, de teoria oca,
vazia de conteúdo vivido – doctor cum libro.
De Sócrates, de Aristóteles, pôde sair o ideal socrático-cristão de
um Deus-Sumo-Bem, pelo que cumpria ao místico isolar-se, a fim de
atingir este objetivo, este fim - a beatitude. Falseou-se, deste modo, o
ideal de Cristo, o ideal de Platão que, para os gregos, era estultícia. "Nós
pregamos a Cristo crucificado, diz Paulo, que é escândalo para os
judeus, e loucura para os gregos" (I Cor. 1, 23). Para os judeus,
escândalo, porque eles esperavam um Salvador militarista que
fizesse o mundo ajoelhar-se a seus pés. Tal futurismo messiânico de
um Estado universal belicoso, calhava bem aos involuídos judeus,
não lhes ocorrendo que nenhum Estado desta espécie perdurou
jamais. Como não se escandalizarem de um Messias fracassado, de
um Cristo pregado numa Cruz? E para os gregos? "Sob o ponto de
vista do filósofo, a encarnação do auto-sacrifício - o Cristo
Crucificado - é uma personificação da loucura". Acaso "não é no
desprendimento da vida que consiste o verdadeiro alvo da filosofia? E
não são os esforços em prol do desprendimento individual e a
salvação social reciprocamente incompatíveis, ao ponto de se excluírem
mutuamente? Como pode alguém propor-se a salvar a Cidade da
Destruição, quando está justamente lutando para ser livre?" (Toynbee –
Um estudo de história).
Se o ideal da filosofia para todos os pensadores foi alcançar o
desprendimento da vida, fugindo da Cidade em vias de cair, Platão
propõe o inverso disto, ou seja, que o filósofo fosse rei, preocupado,
justamente, portanto, com salvar a Cidade da destruição. Por outras
palavras, Platão propõe, como fim da filosofia, o mesmo que alcançou
Toynbee após exaustivo estudo de civilizações comparadas, de filosofia
da história, ou seja, que o homem tem que ser sábio-santo, porque só
este, movido pelo amor, tornaria à caverna, a fim de ajudar a seus
irmãos. Nisto se cifra a verdade.
"Que é a verdade?" - pergunta Pilatos a Cristo; e este baixa a
cabeça em silêncio; por quê? Porque Pilatos, simples homúnculo ele
também, e representante de uma minoria dominante, não merecia a
resposta... que Cristo se cansara de dar com palavras e atos de sua
vida; a verdade não estava, então, por achar-se; de há muito ela se
encontrava no meio dos homens: a verdade é o amor.
133

A este mesmo resultado chegou Gusdorf para escrever:


"Nenhum filósofo descobre radicalmente a verdade, pela simples razão
de que a verdade já se encontrava entre os homens, quando estes
se lembraram de formar entre si uma sociedade humana. A graça da
comunicação, atestada pela palavra, é o começo e o fim da filosofia.
A palavra de verdade a ninguém pertence em regime de propriedade
exclusiva, porque constitui o patrimônio comum da humanidade
inteira. O filósofo é um dos que se impõe a tarefa de manter a honra
da linguagem, mas só lhe é dado desempenhar-se de seu ministério
no seio da comunidade. Pelo que, seja qual for a concepção que
forme de sua obra, ele manifesta um senso de verdade, confere à
verdade uma linguagem não contra os outros, mas com eles e por
eles, não de maneira definitiva, mas trilhando sempre as vias da
cultura na história do mundo". Mais: "O filósofo de mérito é aquele
que em si realiza, por um momento, a conjunção das paralelas. Seu
êxito é o resultado de uma justificação da existência, que transfigura
o mundo, irradiando num sentido de verdade persuasiva que a todos
empolga".
De sorte que o homem pode chegar ainda a viver a verdade
que já conhece em teoria, pelo que se tornará sábio. E não se faz
preciso acrescentar que é, apenas, humanamente sábio, pela mesma
razão por que, quando falamos da sabedoria das células do córtex
frontal, não precisamos acrescentar que se trata de elas serem
apenas neuronicamente sábias, nem que as células do fígado são
hepaticamente, sábias. A sabedoria se encontra em todos os níveis, e,
em todos, se pode ser sábio. Esta é a primeira forma de
participação segundo a qual a Sabedoria suma, a Sabedoria absoluta,
ao mesmo tempo que é transcendência e se oculta, inacessa, para
além do Horizonte distante, também é imanência pelo que se acha
difundida ou infundida em todos os níveis da Criação.
A Sabedoria está imanente nas coisas, como essência, e é nesta
primeira forma que o homem a apreende, numa segunda leitura do
dado, para, depois, armar suas generalizações que chegam a divisar
as fímbrias dum Horizonte inacessível, Deus, sua eterna Referência
que lhe dá sentido ao mundo, e lhe norteia a conduta, a vida. Contudo,
esta sabedoria humana, já de nível superior, aqui não pára: verifica o
homem que a essência só não basta; só a essência não é a coisa
posta para exame, porque esta possui também uma substância.
Nesta terceira leitura do real, nota ele que a substância não se reduz a
discurso racional, a princípio de razão. Então, repara que, para
apreender a coisa como um todo, precisa agir também como um todo em
que entram seus sentidos, inteligência, sensibilidade, emoções e
sentimentos. Terceira leitura, sim, é esta, porque a primeira foi só
134

sensível ou sensorial onde tudo são sensações; a segunda, só


racional ou inteligível; esta última é a que integra as duas anteriores
numa percepção intuitiva-unitária em que o homem age como um todo,
e não como quando vigorava a seqüência do sensível primeiro, e do
inteligível depois.
Com esta consciência tridimensional, intuitivo-sintética, o homem
sente-pensando ou pensa-sentindo que em todas as coisas há uma
tensão de forças oponentes e complementares em equilíbrio. Toda
unidade existe graças a este regime de tensão Interna resultante de
contradições em harmonia, de discórdias concordes, a que o sábio
Hesíodo deu o nome de Eros, e é o princípio universal de integração.
E já vem Platão, e diz que o universo está cheio de Eros, e vai
movido por Eros. Ora, Eros é o Amor, e esta é a segunda forma de
participação, já não mais só pela essência, mas também, pela
substância que, na sua expressão mais excelsa e primária, é o
amor.
Esta tensão erogênita que tudo integra em unidades, ainda não
pôde construir, em definitivo, a unidade mais complexa e maior do social,
no nível humano, e por esta causa as civilizações enfermam-se,
definham e morrem. Eros e Anti-Eros revezam-se, entre si, no comando,
nascendo e crescendo as civilizações sob o influxo ou signo de Eros, e
decaindo e morrendo, quando impera Anti-Eros.
Ora bem: o social se constitui de indivíduos humanos, e se estes
não se integrarem por Eros, pelo Amor, a sociedade não se forma, e,
se constituída, desfaz-se em nada, no ponto em que cessa de atuar
nos indivíduos o agente integrador. É por isso que, quando a minoria
criadora, alicerçando-se em motivos espirituais, erogênitos, consegue
unir, fundar e desenvolver uma civilização, esta sobrevive, sã, só até o
ponto em que essa minoria criadora, pulsada por Eros, é substituída
por uma minoria dominante, carente de espiritualidade, de amor, que,
por isto mesmo, volve sua atenção para o econômico somente, para
só objetivos materiais. Quando acontece isto, é, então, chegada a hora
de a civilização fechar seu ciclo, entrar em colapso, fenecer, finar.
Nenhuma civilização pôde manter-se até hoje, porque, como já dizia
Nietzsche, se bem que noutro sentido, "o homem é um animal
inacabado". Como, logo, manter-se a civilização, se o homem não
está inteiramente feito? Como construir um edifício com tijolos crus,
ainda não cozidos ao tremendo fogo? O homem é um animal
inacabado? Pois a isto acrescentamos que, quando ele se houver
completado, quando tiver encerrado o seu acabamento, não mais será
animal, porque, como diz Fritz Kahn, "o homem é um animal em vias
de desanimalizar-se". Se "o homem é um animal inacabado", e luta por
''desanimalizar-se'', por realizar-se, então, seu acabamento não se
135

completará no biológico, e sim, no espiritual, pelo que ele se tornará,


não um animal acabado, porém, um não-animal, ou seja, um sábio e
santo, e ainda, santo porque sábio. Se todo homem tem isto ainda por
fazer, que é a sua transposição biológica, se tem que atravessar o
Rubicão, negar-se de animal, então, também, ele passa a ser uma
empresa.
E esta empresa da própria realização integral não pode efetivar-
se sem um planejamento que visa um objetivo: a desanimalização, a
conquista da sabedoria e da santidade. E isto não pode acontecer, se o
homem não organizar os recursos, e sua própria vida. Após o
planejamento e a organização, ainda não conseguirá o seu intento, se
descurar do controle próprio, que é idêntico a vigilância sobre si, ou
seja, estar alerta. Eis armado o delta do sistema empresarial. Todavia,
move-se qualquer empresa graças a cinco rodas engrenadas que são:
criatividade, liderança, motivação, comunicação e padrão.
Deste modo, o homem cuja empresa é fazer-se a si mesmo, terá
que ser criativo, visto como o labor da autoconstrução não pode ser
delegado a um substituto, ainda que este seja Cristo; e toda
estratégia e tática são necessárias para usar as oportunidades todas,
todas as situações, e os próprios impulsos passionais num sentido de
bem. Se não for criativo, somente reagirá, como faz o animal, não
exercendo, porém, atuação sobre o meio, de modo benéfico e
decisivo, como minoria criadora, porque, ao fazer-se a si mesmo, o
homem modifica o seu contorno.
Terá de eleger o melhor de si, inteligência e coração, para que
estes eleitos liderem os sentimentos subalternos (impulsos, emoções,
paixões) que não devem ser combatidos, mas domesticados e
utilizados, como os provincianos fazem com os burros e os cavalos, já
de montaria, já de tração de seus veículos. Ora, como as paixões, os
sentimentos, o querer, são os que puxam pelo carro da vida, então, é
estar alerta e liderar as paixões. Uns querem enriquecer-se, outros, o
poder; porém o filósofo há de ocupar-se da aquisição do saber e da
prática das virtudes, não se acomodando na animalidade pela
justificação, pela racionalização mas, esforçando-se por transpor o
Rubicão do biólogo. Não, vida anacorética, e sim, comunitária, pois
só esta possibilita a cada um fazer-se, ao tempo em que executa uma
função não só socialmente útil, mas ainda aprazível. E só em
sociedade é que cada homem pode testar-se, de contínuo, isto é,
controlar os resultados positivos de sua auto-empresa. Ocasiões não
faltam de verificar se os recalcitrantes corcéis das paixões, das
emoções, dos sentimentos anti-sociais, se acham sob o controle de
invencíveis rédeas. Um estado de fúria passional, em vez de
canalizar-se a produzir estragos, pode ser recalcado de momento, e
136

depois, sublimado (catarse) em formas inócuas ou criativas no campo


da arte.
Será preciso motivar-se para o que convém, segundo o
planejamento, porque para o que não convém, já se está, por
natureza, propelido, arremessado; e a maior motivação é a própria
meta do planejamento; porém, o reforço pode vir de boas amizades,
bons livros, boa música, bons filmes cinematográficos, de reuniões
filosóficas e religiosas, de teatros, de palestras, e tudo isto é já
comunicação associada à motivação.
Não pode o homem prescindir, como se vê, da comunicação
com os outros, porque sua empresa, embora particular, pessoal,
pendente só do seu querer, do exercício da sua liberdade, não se
acha isolada do meio social e do mundo, ambos situacionistas ou
contingentes. E há de comunicar-se também consigo mesmo, em
retiro temporário, para recompor-se, para a retomada de posição,
para o reforço do propósito, para o estudo, para a meditação,
conferindo, com o livro, o observado, discutindo de si consigo os prós
e os contras do que há de fazer.
Agora, finalmente, o mais importante é o padrão, porque põe a
máquina da auto-empresa em ligação com o exterior, visto como ele,
o padrão, não pode achar-se no próprio empresário, ainda que sua
empresa é si mesmo. Ninguém o tem em si, nem no social, mas, no
Horizonte inacessível que é Deus. A alta consciência do
Deus-Pai-Amor fez de Jesus um padrão vivido. Esse verdadeiro
Super-Homem pela sabedoria e pela santidade, é o modelo humano
mais alto para aquele que deseja desanimalizar-se, desvirando-se de
dragão egoísta e mau, em sábio e amoroso. Cristo é modelo e
exemplo, padrão de como viver, não, todavia, substituto, porque a
empresa de transpor o Rubicão da animalidade, do biológico, é
própria de cada um, não podendo ser efetivada por procuração.
A glosa comum da teologia achou jeito de acomodar os textos
sacros, esparsos, com o egoísmo de todos, forjando uma cômoda
doutrina de salvação pela fé. Paulo foi o primeiro teólogo, apesar de
não ter participado da presença humana, vivida, de Cristo. Na falta
disto, teve de valer-se dos textos; e pregando aos gentios precisou
simplificar a promessa de salvação, reduzindo-a a termos de fé.
Deste modo, ficou muito mais fácil de seguir a Cristo... de viés,
segundo a interpretação paulina, do que seguir diretamente o grande
Modelo, o grande Padrão sobre-humano de conduta. 0 resultado
disto, ai está, nos sectarismos cristãos vigentes, em que não se vêem
os homens trabalhando noite e dia por desanimalizar-se, por desvirar-se
de dragões egoístas, desamorosos, e antes, todos, aceitando a
substituição de Cristo, e ainda se justificam, por meio de uma fingida
137

humildade comodista, ao dizerem que os homens são maus por


natureza, por natureza pecadores, e que só a mediação
incomparável e gratuita de Cristo, os pode salvar. Não vêem que a
natureza tal qual é, invertida, egoísta e má, tem de ser desnaturada,
desvirada do avesso, para ficar como ela é no alto empíreo de onde
caiu, de envolta com Satã e seus consócios, no atro abismo, medonho,
horrível, o turbulento Caos. Por causa de degradarem Cristo de padrão
supremo de conduta, a fácil substituto, como se a desviragem do
dragão que cada um, em si, tem de executar, pudesse ser feita por
substituto, por procuração,... por causa disto, as igrejas organizadas
encheram seus templos de homens e de mulheres egoístas,
desamorosos, intransigentes, fanáticos, fazedores até de "guerras
santas", quanto mais de outras guerras; não obstante tudo isto, todos
se acham cônscios de estar garantidos quanto à salvação que cuidam
ser gratuita, e o não é. Alguns, mais atrevidos, chegam a dar-se o
nome pomposo de "santos de Deus" (?!) Quer dizer: nem sábios nem
santos, mas salvos.
Eis o jogo teológico acomodatício: Adão pecou, ofendendo a Deus;
este exige a reparação, decretando a morte espiritual do homem;
pois claro: Adão não morreu, biologicamente, e de imediato, após
comer o fruto proibido. A humanidade se fez herdeira do pecado de
Adão, como ele, condenada à morte espiritual, visto como a morte
corporal não é condenação divina, mas, lei da natureza, extensiva,
também, aos brutos que não comeram do proibido fruto. Para resgate do
homem, Cristo se oferece a morrer em seu lugar, não morte espiritual,
conforme o exige o decreto divino, mas morte só biológica. Apesar
da disparidade da proposta (morte biológica de Cristo por morte
espiritual do homem), Deus aceita, Cristo morre, e o homem fica
isento de culpa, fica redimido, fica salvo, bastando apenas crer...
em Cristo. Ninguém repara que a morte espiritual de Adão, de que se
fez herdeira a humanidade toda, não podia ser executada num
inocente, ainda que este o pedisse a Deus, pois se o homem, sendo
injusto, não faz isso, como o faria Deus? A justiça-vingança pode ser
executada num terceiro, e é quando o vingador, não podendo atingir,
diretamente, o culpado, fere alguém que, igualmente, faça o culpado
sofrer. Só tal justiça poderia fazer a culpa hereditária, como a de
Adão, e, pelo pai, e com este, paga o filho. Porém a justiça corretiva,
como a que a do homem pretende ser, não pode ser aplicada senão
naquele que a ela fez juz. Seria, então, a justiça humana superior à
divina? E se a sentença, para Adão, era a morte espiritual, como
aceita Deus a troca desigual da morte espiritual que é mais, pela só
biológica que é menos? Tudo isto não sabe a sofisma teológico; a
acomodação bem própria a tranquilizar o ânimo inatento do "porcos
138

bipedus"?
Acaso, foi isto que Cristo ensinou, e exemplificou, em toda sua
vida? A doutrina de Cristo, toda quanta, se funda no amor vivido, e a
quem tem a disposição do samaritano da parábola, não se vai
perguntar, como o não fez Cristo, qual é a sua fé! Por ventura,
quando Cristo fala do Juízo, em que os cabritos e as ovelhas se põem,
por suas obras, uns à direita, e outros à esquerda, ele diz alguma coisa
relativamente à fé, ao dar sua sentença irrecorrível? Não fé, mas
amor, porque este pode irmanar todos os homens de todas as religiões
da Terra, enquanto que as diferentes fés os separam em igrejinhas
irreconciliáveis e briguentas. Quem não é contra mim, já dizia Jesus,
é por mim; quer dizer: quem não é contra o Amor que Cristo
personificou, é por ele, não importando se é xintoísta, se tauísta, se
cristão, se muçulmano, porque, onde houver amor, Deus, aí, está
presente, visto como "Deus é o amor" (I João, 4, 8). Marta se ocupava
em honrar a pessoa de Cristo, correndo de um lado para outro, a
arrumar a casa. Maria, sentada aos pés do Mestre, aprendia sua
doutrina. E quando Marta pede a Jesus mandasse Maria ajudá-la,
teve a resposta de que a escolha de Maria foi a melhor; por que?
Porque Cristo se honra mais em ter seguidores de vida, que
cultuadores. E se a condição que impõe é a de seguí-lo no exemplo, já
se vê, Cristo não é substituto naquilo que a cada um cumpre fazer
para salvar-se.
Cristo, logo, não morreu pelos homens, em substituição, e sim, pelo
seu ideal, este, sim, é o que nos salva, cumprindo-nos a empresa
dificílima de vivê-lo na prática. Daí que Cristo não é substituto, porém,
modelo, exemplo vivo, padrão de vida efetiva, atuante, valendo muito
pouco as retóricas, as literaturas, as zumbaias, os hinos entoados por
corais. A salvação não está nos empolgamentos vazios de obras, no
zumbrir-se, no trinar formosos hinos, porém, na reforma radical de cada
um, no transpor o Rubicão do biológico, no negar-se de animal, no
desinverter-se de dragão.
Não só crer em Cristo, mas, sobretudo, crer a Cristo, crer ao
que ele diz, crer ao que ele manda, como bem o notou Vieira, para
que não sejamos, como diz o padre, cristãos de meias. Honras,
louvores, zumbaias sejam prestados a Cristo; cantem-se hinos e
aleluias em seu nome; em seu nome entoem todos os corais, que
tudo isto são reforços da motivação, valendo, por isto, mais para os
cultuadores que para o próprio cultuado. Não se olvide, no entanto, o
excelente, o fundamental, que é a vivência dos preceitos que tornam
possível transpor o Rubicão para sempre, porque nisto só, e em
mais nada, se cifra a salvação pessoal, o acabamento do homem, a
base indispensável da salvação social, da sobrevivência indefinida da
139

civilização, agora, para sempre, isenta da roda do tempo, do


"moinho dos deuses" que, moendo tudo, finalmente a reduz a pó. Se
a perda das virtudes, nos anjos, se deu no ponto em que se
inverteu o amor no egoísmo, disto resultando a rebelião que fez do
céu inferno, a inversão do egoísmo animai no amor divino, fará a
integração que muda este nosso inferno terrenal em céu.
Eis a função do sábio como mantenedor da paz, da concórdia
entre os homens; sua missão é atualizar sempre a eterna mensagem
da não-violência, alertando (alertismo!) as sociedades humanas,
sempre expostas a cair na barbárie. Não é ele, o filósofo, logo,
personagem inútil, supérflua, dispensável, e antes, desempenha papel
fundamental no desenvolvimento da história. Ele é o que consegue
apreender o infinito e a eternidade numa fórmula de aplicação a este
mundo ao qual a verdade precisa aclimatar-se, operando-se, da parte
da verdade, uma redução, e, da parte do mundo, uma elevação.
VIII - DESATINOS

Por causa do seu progressismo, de idear a história como


fenômeno necessariamente cíclico, determinístico; por achar que a
mão de Deus guia os acontecimentos humanos, um nosso opositor
cujo nome não nos autorizou declarar, acha normal a desorientação
dos moços, a insurgência deles contra o estabelecido, a revolta
agressiva contra os velhos, "coroas", "quadrados", "antiquados", que
acreditam no casamento e coisas que tais, a que eles chamam
"caretices", e tudo isto, sem proporem nada em substituição. Não
se trata da normal hesitação do moço que não sabe ainda por onde
tomar, e sim, de uma atitude ativa de destruição, e isto, sem
apresentar nada que possa ficar nos lugares das demolições.
Quando o que é velho cai, invariavelmente, foi desalojado pelo
novo; não é preciso destruir o passado; basta criar o futuro. Pois
agora se viu o inaudito de se repudiar o passado, sem ao menos,
que fosse, ter planejado o futuro! Destruir por destruir é puro
vandalismo. Bem se expressou W. R. Inge, citado por Toynbee: "As
antigas civilizações foram destruídas por bárbaros de importação; nós
criamos os nossos próprios bárbaros". Mais: "Sem instituições, as
sociedades não poderiam existir. Na verdade, as próprias sociedades
são instituições da mais elevada espécie. O estudo das sociedades e
o estudo das relações entre instituições são uma e a mesma coisa".
Agora, Ortega: "Sem mandamentos que nos obriguem a viver de um
certo modo, fica nossa vida em pura disponibilidade. Esta é a horrível
situação íntima em que se encontram já as juventudes melhores do
mundo". Ainda: "Se você não quer submeter-se a nenhuma norma, tem,
140

velis nolis, de sujeitar-se à norma de negar toda moral, e isto não é


amoral, mas imoral. É uma moral negativa que conserva da outra a
forma em oco".
Até os "gangsters" possuem uma regra, uma lei, uma ordem,
entre eles, que lhes proporciona a sobrevivência própria; e se alguém
do bando criminoso quebra a norma, sem demora seu cadáver é
achado, misteriosamente, nalgum recanto da cidade grande. Até o
inferno, em seus vários níveis, é organizado para o mal, e se
acontecesse anarquizar-se totalmente, retornaria logo ao antigo
Caos... e seria o fim do próprio inferno, ou seja, sua danação total.
Portanto, subsiste ele, graças ao pouco que nele há de céu, de ordem e
de lei, e se ocorresse cessar totalmente a ordem de imperar, o inferno
desceria mais ainda em grau de danação, e indo por esta via, sua
loucura se tornaria cada vez mais louca, até que, em fim, se
acabaria no atro abismo do não-ser extremo, no mais arrematado
Caos.
Ser é ordem, é essência, é lei, e se esta não houvesse nos
níveis vários do inferno, seria este já o inorganizado Caos. Deste
modo, até o mais baixo inferno, o mais profundo, para ser, necessita
participar, ainda que em grau ínfimo, da ordem, da essência e da
lei. Dragontino é o homem cuja percentagem de demônio supera, em
muito, a de anjo. Abaixo de anjo, pode o homem, a caminho de
santificar-se, possuir, em si, ainda boa quota de dragão. Assim, a
vitória suprema do mal, a rebelião contra as regras todas, todas as
normas, poria termo até ao próprio inferno, revertendo-o na Noite
antiga, no atro abismo, no primevo Caos.
Organizar-se no mal (e a vida o fez no egoísmo) é até mais
fácil, porque, como todos somos maus por natureza, ao fazê-lo, apenas
damos largas aos nossos próprios atávicos pendores. Queremos uma
coisa, e fazemos outra; estendemos a nossa mão para obra benfazeja,
e, com a nossa sombra, segue o sombra negra da garra do demônio
entranhado em nós. O vangloriar-nos da superioridade própria, do valor
pessoal reconhecidamente meritório, a vaidosa ostentação do benefício
praticado, da esmola dada, o desalentar-nos ao considerar ingratos
àqueles que não reconhecem, nem se lembram, do bem que lhes
fizemos, são exemplos corriqueiros entre os humanos, do demonismo
em nós, que espera sempre imediata recompensa. "Ah! habitam duas
almas no meu peito!" - exclamava Goethe. "Miserável homem que eu
sou (gritava, angustiado, São Paulo), pois o bem que quero fazer, não
faço, e o mal que não quero, esse eu faço!"
Organizar-se no bem, eis a dificuldade suma, visto como temos de
agir contra a nossa própria natureza dragontina, donde vem que a
construção do bem implica em termos de nos negar a nós mesmos de
141

egoístas, de maus, em trabalharmos na desinversão do que ainda


possa residuar em nós de avesso, de dragão, de animalidade feroz.
Milton, agora: (Paraíso Perdido, Canto II)
Oh! que vergonha para a estirpe humana!
Firme concórdia reina entre os demônios:
E os homens, na esperança de alcançarem
A ventura do Céu, vivem discordes,
A racional essência desmentindo.

Nossa luta prossegue após a morte física, podendo-se, em


qualquer nível espiritual, subir ou descer. Céu e inferno acompanham-
nos, dentro e fora de nós; eles dentro de nós, e nós dentro deles, assim
na Terra como nos planos espirituais. No céu também há vários níveis
que são as "muitas moradas" da "casa do Pai", de que nos fala
Jesus, e será tanto mais céu e menos inferno, quanto mais se sobe
nos níveis, e tanto mais inferno e menos céu, quanto mais se desce
neles. Cristo, ao estabelecer sua doutrina, fez uma síntese tão
resumida, que poucos se deram ao trabalho de verificar a extensão
espantosa e difícil do que ele nos propôs: "Quem quiser vir após
mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me". Negar-se, tomar a
cruz própria e seguir. Negar-se de dragão egoísta e mau, é apenas um
propósito... que se efetiva quando se toma a cruz própria da
desinversão, o que só é possível no tempo e a longo prazo. Segui-
lo, é mais: é dar-se ao infindável trabalho de ajudar os outros, por
amor, integrando a minoria criadora na qualidade de salvador
menor.
E ao invés de tudo isto, a mocidade moderna se entrega aos seus
desatinos e irresponsabilídades demolidoras? E nos vem o nosso
prezado crítico dizer, dogmaticamente, sem apresentar razões, que a
mocidade "sempre foi assim"? Contudo, ele tem razão, que, de fato,
sempre foi assim... nos períodos de decadência, porque, sem minoria
criadora, não há mais quem inspire pensamentos grandes, e, na
falta destes, qualquer bugiaria serve para matar o tempo.
Em uma de suas últimas edições de dezembro de 1971, o "Diário
de São Paulo" publicou o seguinte:
Falando do conflito das gerações diante de uma associação de
classe, o médico inglês Ronald Bibson começa sua conferência por
quatro citações:
Primeira - "Nossa juventude adora o luxo, é mal educada,
caçoa da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos.
Nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam
quando uma pessoa idosa entra, respondem a seus pais e são
142

simplesmente maus".
Segunda - "Não tenho mais nenhuma esperança no futuro de
nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque essa
juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível”.
Terceira - "Nosso mundo atingiu seu ponto crítico. Os filhos não
ouvem mais seus pais. O fim do mundo não pode estar muito longe".
Quarta - “Esta juventude está estragada até o fundo do
coração. Os jovens são malfeitores e preguiçosos. Eles jamais serão
como a juventude de antigamente. A juventude de hoje não será capaz de
manter nossa cultura".
Somente após ter lido as quatro citações, todas aprovadas pela
assistência, foi que o conferencista revelou a origem delas: A
primeira é de Sócrates, 470-399 antes de Jesus Cristo; a segunda,
de Hesíodo, 720 antes de J. C.; a terceira é de um sacerdote
egípcio que viveu no ano 2.000 antes de J. C.; a quarta, descoberta
só recentemente sobre um vaso de argila, nas ruínas da Babilônia,
tem mais de 4.000 anos de existência".
Que pretendia provar o médico inglês Ronald Bibson? Pois não
pode ser outra coisa que a tese do nosso prezado crítico, segundo a
qual a "mocidade foi sempre assim". E concordamos com o
enunciado, desde que lhe seja feita esta adição: nos períodos de
decadência. Pois claro! quando é que a mocidade pode adorar o
luxo, cultivar o ócio, tornar-se preguiçosa, atrevida, insuportável,
tirânica para com os pais, malfeitora, estragada até o fundo do
coração? Quando é que ela passa a caçoar das autoridades
constituídas, dos mais velhos e das coisas todas respeitáveis? Acaso
é quando tem de trabalhar duro, para ganhar o sustento? Ou é
quando foi possível chegar a um grau de riqueza que propiciou o
lazer? E não é exatamente neste ponto que se verifica o entardecer
da civilização?
Acaso, quando a Grécia nascia, em sua fase homérica, ou
quando ela, decadente, caiu sob o tacão macedônico de Alexandre,
ou sob o poder de Roma, os moços eram quais os das citações?
Acaso, os jovens egípcios continuaram vadios, insolentes, atrevidos,
irreverentes, insubmissos debaixo da férrea mão dos hiczos que
dominaram o Egito quinhentos anos da 15.ª à 17.ª dinastia? Os
jovens babilônicos estavam estragados até o fundo de seus corações,
eram malfeitores, viciados e preguiçosos, incapazes de conservar a
cultura de que eram herdeiros, mesmo debaixo do poder estrangeiro
de Ciro, ou Xerxes, ou Alexandre Magno? Diga-nos, alguém, que a
mocidade israelita que Moisés conduzia no deserto, quarenta anos,
era como a descrita nas citações! ou então, a mocidade da Hélade
da idade heróica! ou a da Babilônia do tempo de sua fundação, em
143

que o amorreu Sumuabum se fez cabeça duma dinastia cujo sexto


rei foi o famoso Hamurab ou da Esparta belicosa! ou da Pérsia do
tempo da educação de Ciro! As juventudes citadas por Ronald Bibson,
são como a de agora, da qual diz Ortega: "A juventude de agora,
tão gloriosa, corre o risco de arribar a uma madureza inepta. Hoje
goza o ócio florescente que lhe criaram gerações sem juventude". Ou
então, como escreve Joelmir Beting: "Néo-cínicos de formação, os
"hippies" frequentaram a universidade como bons filhotes da fartura, e
são capazes, intelectualmente, de produzir riqueza. Mas não há
maneira de fazê-los ganhar a vida pelas vias convencionais. Eles
brincam de ser pobres porque sabem que numa sociedade rica, como
aquela em que vivem, poderão deixar de brincar de pobreza
quando, tocados pela idade, decidirem mudar de vida. É o que já
faz a primeira leva deles, sobrevivente do ócio, do tédio, do cio e
da doença, a sarna, por exemplo. Nos países pobres ou nas
camadas pobres da população ianque, não há como brincar de
pobreza sem risco de se ficar irremediavelmente pobre".
Sim, sempre foi assim, e, nos períodos decadentes, como agora,
as coisas esdrúxulas se sucedem nos costumes, nas modas, nas
artes, e qualquer sujeito que inventou uma tolice, arranca aplausos
delirantes da ignara multidão. Os ídolos de nada sobem e caem todos
os dias, porque feitos da massa que nada pode dar. Explora-se o
sexo, sob todos os ângulos, e nações cultas, hodiernas, quais
Sodoma e Gomorra, promovem seus festivais de pornografia, numa
recrudescência inaudita dos impulsos e instintos bestiais. A par das
maravilhas da técnica que possibilitou a tela panorâmica e a
televisão, ambas em cores, não há programas e filmes bons a se
assistir, porque a nulidade se postou nos lugares onde havia de estar
as minorias criativas. O grande "deserto de homens e de idéias",
então, se estende à frente no social, e alguns raros infelizes que
têm algo de bom a dizer, esbarram com as muralhas dos
mercantilismos editoriais, porque aqui também estão alojados os
homens do lucro certo, carentes de ideal superior. Infeliz do espírito
criativo que se viu compelido a reencarnar-se num tal tempo
decadente. Melhor lhe fora, se lhe fosse dado escolher, ter ficado nos
páramos espirituais à espera de que se liquide o ciclo de civilização,
em todas as áreas, para depois retomar novo corpo de matéria
densa, a fim de ajudar a promover o renascimento cultural. Tem razão
o nosso crítico: sempre foi assim.
Falta de religião? Sim, é a falta de religião a causa próxima,
porém, o desinteresse pela religião se radica numa causa mais remota,
e é o de ela, a religião, não ter sabido replicar com acerto e sucesso
ao repto da Teoria Científica da Evolução. A tecnologia que
144

possibilitou o industrialismo e a automação, e se encaminha para a


robotização, essa vem depois, em segundo plano, porque o homo
sapiens se mostrou homo faber desde o início da sua jornada
evolutiva. A tecnologia, pois, não é um mal, em si, que, se o fosse, não
teria permitido a vinda do homem até onde ele se acha hoje. O mal
não reside na tecnologia, em si, mas no mau uso do ócio e da riqueza
que ela proporciona. A culpa nunca deve ser posta numa coisa inerte,
exterior, como se esta tivesse autonomia para agir; a culpa tem que
ser buscada no próprio homem que, devendo ser o agente atuante e
modificador, ao invés disto, se faz dócil paciente das contingências e
das situações. Se, de senhor que sempre deve ser, fica escravo, não
é muito que todos os desastres lhe aconteçam.
Todavia, as religiões convencionais não puderam nem poderão
replicar ao repto da Evolução, por causa do princípio enunciado por
Toynbee, "a lei segundo a qual aqueles que replicam com sucesso a
um repto se encontram em posição pouco propícia para replicar com
sucesso ao repto seguinte". As várias igrejas reagiram ao
esvaziamento de seus templos (cursilhos, TLC, avivamentos
espirituais, músicas de estilo moderno, etc.), porém, mantiveram-se
ineptas para replicar ao repto que continua reptando. Os métodos
fanatizantes da hipnose, da dopagem psíquica, todos de fundo
emocional, de insuflar de novo a fé, não passam de arcaísmos. Os
condicionamentos hipnóticos duram pouco tempo; daí que a dopagem
psíquica, fanatizante, alcançada pelos caminhos da hipnose, precisa
de reforço contínuo; então, se recomendam reuniões periódicas;
estas, porém, se tornam enfadonhas por faltar o componente
intelectual. E como a hipnose se baseia no princípio da autoridade,
só funcionando de cima para baixo, e não, vice-versa, só a reunião
dos fanatizados não produz aquele efeito de deslumbramento, de
surpresa, de encontro, de aléthea, de "tremor de terra", de "abalo do
universo pessoal", de desnudamento, de apocalipse, de quando
atuaram os fanatizadores autorizados com suas palestras
contundentes, com suas "matracas" aturdidoras, etc.
As "lavagens cerebrais" não valem contra as convicções científicas
que voltam, de contínuo, a instalar-se, produzindo a dúvida, a não-fé.
O homem amadureceu para a racionalidade, e sem um fundo de
razão (filosofia), a fé não se enraíza. O repto da Evolução continua
reptando no mental, tornando-se inútil todos os esforços fanatizadores
de cunho meramente emocional. Com emoções não se combatem
idéias. Sendo a Evolução uma idéia, só no plano das idéias poder-se-á
dar a competente resposta, solucionando o enigma surgido,
apaziguando a consciência e o coração. Todavia, a resposta ainda não
veio da parte das religiões instituídas, e o mundo social oscila em
145

suas bases, dando visos de que vai cair.


Não obstante, sendo tudo isto inédito na história, vem nosso
crítico e sentencia dogmático, fundado na sua fé na historia cíclica,
base do seu arcaísmo: "Foi o que sempre aconteceu e não temos razão
alguma de pensar que agora será diferente". Eis como procede o
futurólogo: projeta o passado no futuro! Todavia, tem razão o nosso
nobre opositor: sempre aconteceu de as civilizações caírem por não ter
sabido responder a um dado repto, e "não temos razão alguma de
pensar que agora será diferente". Não o será, por certo, e o mundo não
soube replicar ao repto da Evolução; consequentemente, ou aceita esta
solução que o levará de retorno, à religião, ou tudo estará perdido.
Porque, desde que ficou assente que está havendo a Evolução a
partir do Caos mais inteiro, este pensamento se impõe, inexorável:
parte da primeira Criação inverteu-se, derrocou-se, desfez-se,
transformando-se no Caos, de onde, agora, nasce a Criação segunda,
feita pela Evolução. Este dado escatológico não pode ser afastado,
porque, se Deus "criou" (!) o Caos, em primeira instância, então
"criou" a sua negação mais extrema, ficando culpado pela existência
do Acaso, rei do mundo, pelos erros, danos, dores e misérias do
universo, porque onde houver vida, aí estará presente o sofrimento. A
ser verdade isto, Deus se compraz nas aflições, dores e agonias de suas
criaturas, não sendo o Amor, e sim, o Egoísmo, o Absoluto. Se for assim,
Moloque é o deus verdadeiro, supremo árbitro da vida, cuja lei é a
força, a astúcia e a violência, daí que, invariavelmente, dá a palma
da vitória e da vida aos fortes e aos astutos. A moral que ele impõe,
portanto, é a da força, e desta "religião" natural, Nietzsche é seu
maior profeta.
Veja-se, agora, tudo isto pelo avesso: o profeta maior é Cristo, e
Deus é Amor, e tudo o que criou, tirou-o de si, da sua Substância-Amor.
Deu a liberdade, porque livre é o Amor, já em Deus, já no criado, e,
neste, livre, até para inverter-se no seu contrário, no egoísmo
desintegrador. E aconteceu esfriar-se e inverter-se o amor, numa parte
dos filhos da primeira Criação. Tornado o amor no egoísmo, sobreveio
a desintegração, daqui se originando o Caos. Dar a liberdade, não é
bem o que aconteceu: sucede que o amor é energia-substância,
fazendo parte do "Campo Unificado", embora Einstein não tivesse
levado a tanto a sua generalização. E já vimos que a substância se
opõe à essência polarmente, sendo esta deterministica, fixa,
imutável, e, aquela livre e transformável. E não podia Deus fazer
fixo o Amor, porque, se o fizesse, nem os filhos, nem o universo em
que estes habitavam podia ser criado, visto como criar é transformar
algo em algo, no caso, o amor nos filhos e no universo.
Aqui encalharam a filosofia e todas as religiões. Este, o repto
146

cuja resposta não se deu, gerando toda a confusão moderna, a Babel, a


gritaria em que todos têm razão, como diz Ortega, só que a razão de
uns é a que os outros perderam. Sem norte fora de si, todos se fizeram
juízes, e também julgados. A estupidez tomou conta de tudo e cada
homem fez-se a si mesmo padrão e medida de todas as coisas. Daí
que, como o anota Ortega, "o escritor, ao tomar da pena para escrever
sobre um tema que estudou intensamente, deve pensar que o leitor
médio, que nunca se ocupou do assunto, se o lê, não é com o fim de
aprender algo dele, mas, pelo contrário, para sentenciar sobre ele
quando não coincide com as vulgaridades que este leitor tem na
cabeça". Por que assim? Porque "o característico do momento é que
a alma vulgar, sabendo-se vulgar, tem o denodo de afirmar o direito
de vulgaridade e o impõe por toda a parte". Agora Joelmir Beting: "Se o
homem continuar falhando, quem pilotará a espaçonave Terra 1
rumo ao terceiro milênio?".
***
Também, quanto à Arte Moderna, nosso prezado opositor acha
que a frase de Aníbal Machado está correta: "Não sabemos definir o
que queremos, mas sabemos discernir o que não queremos". A isto,
dissemos em "Um Estudo do Nosso Tempo": "como se pode fazer
alguma coisa, se não se sabe o que se quer?" E veio a resposta do
nosso crítico: "Da rejeição do erro nasce a busca do certo".
Achamos que esta frase está invertida: da busca do certo vem
a rejeição do erro. A posse do certo antecede o abandono do erro, do
mesmo modo como, ao caminhar em terreno inseguro, só se deixa o
apoio do pé de trás, quando já se tem firmado no da frente. O
passado é sempre a segura retaguarda, no passo que o porvir é cheio
de incertezas, dúvidas, enganos, onde se tacteia e sonda com
planejamentos. Saltar de cabeça no futuro, sem sondagens prévias,
sem meditado estudo, sem auscultações, é pular no escuro. Segue-se
o agir ao pensar, e não, vice-versa. Ação sem pensamento prévio, só
os animais a têm. Até o chimpanzé reflete um pouco antes de tomar as
decisões; Kohler o demonstrou. Antes da ponte sobre o rio ou abismo,
a planta, o cálculo, a maqueta, o orçamento, a previsão do material,
o custo da mão-de-obra e da maquinaria, o padrão de produção e
de qualidade que hão de ser seguidos, o organograma da empresa,
o cronograma da obra, e até a previsão das dificuldades todas
prováveis. O pensamento antecede a obra; segue-se o agir ao pensar.
Porém, como estamos decaindo, degradando, imaginou-se a ação
direta, que é a ação sem pensamento, a improvisação. Ortega: "A
civilização não é outra coisa senão o ensaio de reduzir a força à
última ratio. Agora começamos a ver isto com bastante clareza, porque
a "ação direta" consiste em inverter a ordem e proclamar a violência
147

como prima ratio; a rigor, como única razão, é ela a norma que
propõe a anulação de toda norma, que suprime tudo que medeia entre
nosso propósito e sua imposição. É a Carta Magna da barbárie".
Porque, como se há de saber que uma coisa está errada, senão à
luz nova do certo? O padre Vieira já dizia: "Quem estima vidros,
cuidando que são diamantes, diamantes estima, e não vidros; quem
ama defeitos, cuidando que são perfeições, perfeições ama, e não
defeitos". Como fazer para um homem convencer-se de que seus
"diamantes" são vidros? Pois há de ser mostrando-lhe os diamantes
verdadeiros. Apresente-se, igualmente, a um homem, a verdadeira
perfeição, a verdadeira beleza, e ele se convencerá de que esteve o
tempo todo tomando defeitos e feiuras por perfeições e belezas.
Ora, por quais caminhos os artistas modernos se convenceram
de que as artes clássicas, barrocas, românticas são erros? Erros de
cuja rejeição virá a busca do certo? O que é o certo, então, e o que é o
errado, em arte? Mostrem os artistas modernos as suas artes
verdadeiras, e todos, boquiabertos, rejeitarão o errado.
Fomos, certa vez, ao Ibirapuera, visitar uma exposição de Arte
Moderna. Pusemos de lado, quanto possível, nosso preconceito, fazendo
tábua rasa do que sabíamos em matéria de arte. De início, pusemo-nos
a pensar que as várias artes são formas de comunicação, formas de
expressão dos pensamentos e das emoções, formas de
linguagens. Iríamos, portanto, procurar as mensagens dos artistas.
Nosso segundo pensamento foi o de que uma forma nova de arte, ou de
expressão, ou de estilo, nasce da necessidade de expressar idéias
novas. Armados destas duas verdades basilares, apodísticas,
intuitivas, axiomáticas, entramos a ver as coisas.
Onde, as idéias novas? Aqui, se nos deparou, numa tela, massa
informe de confusos traços, em que não se podia divisar feições,
nada agradável à vista, e após o impacto estético, fomos ver o título,
e era: "Mulher Frente ao Espelho". Noutro canto, havia umas como
árvores, retas, altas, todas de bronze fundido, e entre os troncos se viam
pernas magras, esguias, disformes, sobre as quais se divisava algo
parecido ao D. Quixote que a arte clássica consagrou. Por baixo, o
título: "D. Quixote na Floresta". Numa de muitas telas semelhantes,
cuidadosamente emolduradas, só se viam traços retos, paralelos,
cortados, perpendicularmente, por outros, nas cores branca, preta e
vermelha. E o título: Estudo em Preto, Branco e Vermelho”. Dentre
tanta coisa vista, uma apenas salvou-se em meio a tanta vacuidade de
forma e fundo: era uma peça, ou de metal, ou moldada em barro ou
gesso, recoberta com tinta metálica, em que uns anéis grossos e
irregulares se entrelaçavam nas três dimensões do espaço; o título:
"Representação do Espaço-Tempo". Como absolutamente não temos
148

idéia de como representar o Espaço e o Tempo, porque ambos são


abstrações, intuições puras de Infinito e Eterno, portanto,
irrepresentáveis, então, salvou-se para nós a "loucura fingida"
(Monteiro Lobato) do artista.
O que não querem os artistas modernos é um como que maná
israelita, porque este alimento, embora "vindo do céu", como Moisés
fizera crer, de fé, causava o fastio. Os modernistas, porém, não
atinaram que o fastio não provém da forma, mas da idéia. Cansamo-
nos das concepções clássicas, barrocas, românticas, hoje obsoletas, por
não se coadunarem com o "Brave New World" (Toynbee), por não se
afinarem com o turbilhão moderno da tecnologia, com o mundo do
homem-coisa que corre para nada, para lugar nenhum, aturdido
pelo espectro da máquina, ama e senhora sua, da sua vida, do seu
destino. Os israelitas sonhavam com retornar às paneladas do Egito,
e isto é arcaísmo. O futurismo em arte constitui em por o maná em novo
vasilhame, de aspecto inusitado, esdrúxulo, bizarro, porém, o conteúdo
desta nova forma continua sendo o velho purgativo.
Em desespero, os modernistas se fizeram idealmente iconoclastas,
repudiando todo o passado estético. Contudo, não poderão fazer
absolutamente nada, porque se acham vazios de idéias. Na falta
destas, expuseram idéias velhas, medíocres, surradas, em forma
nova, extravagante, excêntrica, esquisita. Ninguém os entende: então,
eles escrevem um libreto para dar os necessários esclarecimentos.
O homem-massa é um primário em todas as suas manifestações
culturais; ele não entende a Arte Moderna - pintura, poesia, escultura -
porque não há nela, para ele, nada o que entender. Desde que, como já
aconteceu, pôde uma tela, em exposição, ficar quinze dias de cabeça
para baixo, sem que ninguém o percebesse, a conclusão é a de que
os quadros modernistas são para ser vistos, somente, e não,
entendidos. Este equivoco leva o medíocre, que não entende de Arte
Moderna, a pretender, também executa-la, uma vez que borrões,
sentenças sem sentido, palavras sem nexo, misturadas, formas
grotescas encontráveis até na natureza, tudo isso ele pode fazer. Assim,
os poucos que podem dizer alguma coisa por tais meios, confundem-
se com os que não têm mensagem nenhuma a transmitir.
Ninguém move guerra aos modernistas, por duas razões: a
primeira é por que, para combater, é preciso fundar-se em alguma
coisa em função da qual o modernismo está errado; e ninguém possui
essa alguma coisa de novo; e pretender retornar ao passado é
arcaísmo. A outra razão é que o homem está escarmentado: a história
demonstra que ele perseguiu o que julgara errado e mau, e a coisa
se mostrou certa e boa. Para não cometer tais enganos, melhor é omitir-
se, embora não goste, não se sinta bem com o que está acontecendo. E
149

se, de repente, esses artistas malucos são gênios incompreendidos,


antecipadores do porvir distante? Combatê-los, então, seria arriscar-se
a entrar para a história numa forma negativa como Judas, como Bruto
e como os julgadores de Sócrates. Não! Melhor é omitir-se, deixando os
artistas em paz! Ponha-se, no entanto, alguma coisa na cabeça vazia
desse homem, agora, amodorrado na matéria, e ver-se-á como ele
se animará de nova vida, saindo-se a campo, indo até ao sacrifício,
como sempre aconteceu.
O Classicismo nasceu da concepção aristotélica que vê o mundo
em planos paralelos e estanques; daí que a arte clássica (na música
se observa bem - Corelli, Vivaldi, Bach) se mostra em movimentos
isolados dos quais se pode tirar um trecho sem que se perceba a falha.
Por isto é que se torna possível a variação contínua. Da visão
platônica convergente a um ponto, se bem que via Aristóteles, saiu o
Barroco; aqui, as partes são conectadas a um todo, e inter-
dependentes. Tire-se um trecho a um sermão de Vieira, e ver-se-á que
lhe fica faltando uma parte; não, todavia, se a mutilação for
praticada numa oração de Cícero, porque, aqui, as partes são
coordenadas e de igual valor. O sermão é como uma árvore, já dizia
Vieira, com raízes, tronco, galhos, varas, folhas, flores e frutos.
Numa reação contra o Classicismo, e fazendo uma arte subjetiva,
individualista, surgiu o Romantismo, soberbo nas adjetivações, como
soberbas eram as construções em leque dos filósofos idealistas,
subjetivos Fichte, Schelling e Hegel. Todavia, historicamente, o
Romantismo é havido como estando em germe nas obras de
Rousseau, Chateaubriand e Mme. Stael. O ideal de volta à natureza
de Rousseau, o ideal do "bom selvagem", deu azo, também, ao
Arcadismo, todo simples, ingênuo; bucólico, que canta em prosa ou
verso ao som da flauta doce do pastor, como na antiga Arcádia grega.
Eis, pois, que, "para o século XVIII, a felicidade não estava apenas
na compreensão da Natureza e no regresso do Homem às suas sábias
leis. A perfeita integração Homem-Natureza só o "bom selvagem"
realizava (daí sua entusiástica apologia na pena dos intelectuais e
muito especialmente dos poetas setecentistas); na verdade, o fugere
urbem só se poderia praticar, de fato ou em espírito, até certo
ponto, e como solução circunstancial de paz e prazeres da alma e
do corpo, porque o civilizado tinha de viver a sua vida urbana".
Não importa que o artista não tenha consciência disto: o mundo
ressumbra uma forma de filosofia que invade todos os recantos, os
lugares todos, como ocorre com uma luz de dada cor, ao iluminar
todo um ambiente, dando-lhe sua constante tonal. A cultura ora está
sob a influência de um signo filosófico, ora sob a de outro. O artista
não pode conceber a partir do nada; alguma crença o há de inspirar.
150

E a Arte Moderna, de que concepção filosófica (visão do mundo)


surgiu? Que luz se achava, então, acesa sobre o mundo? Que signo a
influenciou? Pois, não havia luz, havia trevas! Seu signo é o
cepticismo. Nasceu da visão agnóstica de que o mundo é uma
confusão em que o homem está perdido; daí as deformidades, a
pobreza ideológica, a ausência de mensagem construtiva, a feiura, o
caos. A arte, antes, inspirava-se em um ou outro sistema; a Arte
Moderna se inspira no antisistema, na negação, no não-ser. Isto
mesmo diz Ortega, por outras palavras: "Vê-se então que uma das
maneiras que o passado emprega para nos inspirar é o incitamento
a que façamos o contrário daquilo que ele havia feito. Isto é o que
se chamou desde Hegel o "movimento dialético", em que cada novo
passo consiste somente na mecânica negação do anterior. Certamente
essa inspiração dialética é a forma mais estúpida da vida humana,
aquela em que precisamente andamos mais perto de nos
comportarmos como um automatismo quase físico. Exemplo deste
modo é o que hoje se costuma chamar "arte atual", cujo princípio
inspirador é simplesmente fazer o contrário daquilo que a arte sempre
havia feito; portanto, propôs-nos como arte algo que é,
substancialmente, "não-arte". Agora, Toynbee: "A tendência
predominante para abandonar as nossas tradições artísticas não é
uma conseqüência da falta de competência técnica; trata-se do
abandono deliberado de um estilo que está perdendo o seu
ascendente sobre uma geração que surge, porque a referida geração
está deixando de cultivar a sua sensibilidade estética nas linhas
tradicionais do Ocidente. Expulsamos voluntariamente das nossas almas
os grandes mestres que foram os espíritos familiares dos nossos
antepassados; e, ao passo que nos deixamos empolgar pelo entusiasmo
autocomplacente do vácuo espiritual que criamos, um espírito africano
tropical, na música, na dança e na estatuária, conseguiu efetuar uma
aliança diabólica com um espírito pseudo-bizantino na pintura e no
baixo-relevo, e entrou a habitar uma casa que encontrou varrida e
mobiliada. A decadência, na sua origem, não foi de caráter técnico,
mas de caráter espiritual".
Eia pois! que faça, então, a Arte Moderna, as suas bagatelas,
ocas de idéias, vazias, boas só para os "novos ricos" que as
guardarão para a posteridade, se o houver, e isto servirá de
documentação probatória de que a nossa foi uma época
decadente... também neste terreno. Por que nossa dúvida sobre se
haverá posteridade? Fale Toynbee:
"No Ano da Graça de 1947, os Estados Unidos e a União Soviética
são as encarnações opostas do tremendo poder material do homem
contemporâneo; "suas fronteiras se estenderam através de toda a Terra
151

e suas palavras alcançaram os quatro cantos do mundo", mas na


boca desses alto-falantes não se houve a "doce voz pequenina". São
ainda o cristianismo e as outras religiões superiores que nos podem
servir de guia; é das regiões imprevistas que poderão sobrevir as
palavras e os atos salvadores".
A Arte Moderna nasceu do vazio espiritual, e é um dos muitos
fantasmas vestidos de morte, que, com seu horrível e formidoloso
alfange ameaça nossa civilização ocidental. "Será duro na verdade,
encher de novo o vácuo espiritual que se cavou nos nossos corações
ocidentais, mercê da progressiva decadência da crença religiosa que
se vem extinguindo há cerca de dois séculos e meio".
Nosso prezado opositor recomenda-nos "rever durante algum
tempo todos os seus (nossos) cadernos, sem se deixar iludir pela música
de Sereia das frases e períodos bem construídos, etc". E nos adverte:
"O assunto que enfrenta nesse trabalho é terrivelmente exigente"; ainda
mais ... e inclui-se, por gentileza: "as deficiências de formação cultural
de todos nós, brasileiros, quer formados ou não em estudos
universitários, devem alertar-nos quanto aos perigos de um mergulho
nas profundezas da problemática do mundo atual".
Não há como não agradecer a boa intenção do conselho nascido,
como tudo o mais, do otimismo progressista, e da visão da história
cíclica, guiada por ainda ignoradas leis, ou pela mão de Deus.
Segundo esta perspectiva tão jocunda, tudo deve "ficar como está, para
ver como é que fica". Se a mão de Deus guia a história, por que dar a
público nosso livro? por que não guardá-lo nalgum canto... a fim de
servir de pasto às traças e de ninho aos ratos? Não seria, acaso,
temeridade grande, grande contra-senso, imiscuirnos na obra divina?...
dado que Deus é quem escreve a história? Mendel, também, quando
polinizava as flores de suas ervilhas, com o fim de descobrir suas leis
de genética, certo dia, foi assaltado pelo escrúpulo místico de estar
interferindo na obra divina da criação. Além do mais, raciocinou,
estava cruzando irmãos entre si, o que é ação abominável. E já ia dar
em nada sua pesquisa científica, quando, tomando conhecimento dos
receios de Mendel, seu superior o desassombra, dizendo-lhe que Deus
permite a ciência para o bem dos homens; e que não se pode
estender ao reino vegetal, as leis morais do nível humano.
Nosso crítico, ao contrário do superior de Mendel, tenta assustar-
nos, não só mostrando que, como brasileiro, somos deficiente quanto à
cultura, como ainda que é perigoso mergulharmo-nos na
problemática do mundo atual. Contudo, se tal receio manietar a todos,
quem irá tentar as soluções dos problemas colocados pelo nosso tempo?
Se, como o demonstramos, o futuro depende de nós, e só de nós, para o
bem ou para o mal, como omitir-nos, como alhear-nos ao que é mais
152

importante? Se não possuirmos a coragem intelectual de arrostar com


as críticas, fundadas ou não, a que fica reduzida a generosidade que
devemos ter para com o nosso próximo? Cristo, também, podia
simplesmente ter cruzado os braços, para não correr com o risco de ter
que abri-Ios numa cruz! Sócrates podia não ter sido condenado, e,
depois de preso para a execução, podia ter fugido, quando seus
discípulos, após haverem subornado os guardas da prisão, o
convidaram a isso! Que diria Platão a este comodismo, a esta omissão,
produtos do medo e da concepção errônea de que a história,
necessariamente, é cíclica, e vai guiada pela mão de Deus? ele que
recomendava ao que viu a luz fora da caverna de sombras irreais,
a retornar a ela a fim de ajudar a seus irmãos?
Uma das quatro causas estudadas por Vianna Moog, em sua
valiosa obra "Bandeirantes e Pioneiros", do nosso atraso, foi a crença
enraizada em nós de que éramos inferiores, por causa da nossa
miscigenação racial. Tudo começou com Gobineau, o primeiro a exaltar
as qualidades do homem nórdico, e acabou na desgraça do mundo,
quando Hitler pretendeu fundar um Estado universal sob o tacão
truculento da "super-raça" ariana. Por esta e outras razões, "os
europeus se consideram a si próprios como sendo o "Povo Eleito" e
não se envergonharam ao admiti-lo. Todas as civilizações do passado
pensaram o mesmo de si próprias e de suas próprias heranças; e ao
verem os gentios, uns após outros, rejeitando as suas a fim de a
substituírem pela da Europa, os europeus, sem nenhuma hesitação, se
felicitaram a si próprios e aos convertidos à sua cultura" (Toynbee). É
por esta razão que os estrangeiros, há muito radicados no Brasil, não
aprendem a falar corretamente a nossa língua. Precisam mostrar que
são filhos doutras terras...; e falar corretamente o português do Brasil,
poderia fazê-los confundir-se com a "sub-raça" brasileira. A escrever,
aprendeu logo; porque não há maneira de se fazerem distintos,
distinguidos, pela escrita; falar, corretamente, não o conseguem,
porque lhes não interessa alcançar a correção...
Esta crença de que somos insuficientes quanto à cultura ("as
deficiências de formação cultural de todos nós brasileiros"), faz do
brasileiro um temeroso do ridículo - "o estúpido medo brasileiro do
ridículo" (Vianna Moog). Este medo do ridículo que ensombra o brilhante
espírito de nosso crítico, pairava já na alma de Joaquim Murtinho. "De
fato, ainda em 1897, Joaquim Murtinho, no seu famoso relatório do
Ministério da Indústria, com o qual conquistaria a pasta da Fazenda,
acautelava o governo contra qualquer excesso de otimismo em
relação às possibilidades industriais do Brasil: "Não podemos, como
muitos aspiram, tomar os Estados Unidos da América do Norte como tipo
para nosso desenvolvimento industrial, porque não temos as aptidões
153

superiores de sua raça, força que representa o papel principal no


progresso industrial desse grande povo”. Pretender mais, ao ver do
grande ministro de Campos Sales, era “pretender demais". “Até Rio
Branco, o grande Barão do Rio Branco, depois de passar vinte anos
sem visitar o Brasil, não consentia negros ou mulatos no Itamarati,
porque era preciso que o estrangeiro não julgasse o Brasil um país
de mestiços" (Vianna Moog).
Ficamos sensibilizados com a nobreza de alma do nosso crítico
quando ele se mostrou apreensivo, temeroso, para o nosso bem, de que
viéssemos a ser objeto de risotas sardônicas, de riso escarninho, ao
enfrentar um trabalho de exigência suma, só capaz de realizá-lo a
pena renomada de algum autêntico europeu de cultura vasta. E de
bom grado estaríamos nós nos dessedentando nas obras, sobre este
assunto, elaboradas por algum homem desse velho e grande povo. Mas
os europeus estão muito ocupados em cavar suas próprias sepulturas,
ao cultivar o materialismo, ou então, a filosofia niilista, de angústia e
nada, de Sartre e outros, e ao promover seus festivais de pornografia,
suas noitadas de libertinagem (troca de esposas, sexo em grupo,
homossexualismo e aborto legalizados, etc.), em conseqüência do
que se está verificando a queda do índice de natalidade, e crescendo
o número de neuróticos e de suicidas. Tudo isto, porém, posto que
horrível, o pior não é, visto poder corrigir-se a tempo. O pior consiste em
que os pensadores europeus sabem qual a única coisa a fazer para
sua salvação, mas perderam a esperança e a fé em si mesmos, quanto a
consegui-lo. Eis a confissão de um filósofo europeu, Georges Gusdorf:
"Não há, de maneira alguma, certeza absoluta de que o pensamento de
amanhã consiga sair do atual beco sem saída, pois parece cada vez
menos provável que um metafísico de gênio possa ser capaz de operar
a síntese de um saber de dia para dia mais extenso e mais
complexo".
Sabem, então, que o único caminho a seguir é o da síntese, mas,
perdendo a esperança, a fé, duvidam que alguém a possa realizar.
Atascados, cada vez mais, numa cultura envisgante, num "saber de
dia para dia mais extenso e mais complexo", estão, por isto mesmo
impedidos de enxergar que a síntese não está na extensão da
superfície, mas, na outra dimensão, a altura. Na parábola da "Abelha
e da Formiga", quanto mais a formiga andava esquadrinhando a
superfície da bola dependurada por um fio, tanto mais duvidava
pudesse existir a esfera que buscava. Veio voando a abelha, e pousou
na superfície. Interrogada sobre se a esfera existe, ela disse que sim,
pois a vira quando ainda estava no ar, voando. Tal, a síntese que é
esférica para ser global. Andando na superfície de "um saber de dia
para dia mais extenso e mais complexo", os pensadores terão de
154

concluir, qual a formiga, que tudo é superfície ilimitada, sem fim para
todos os lados, sendo improvável que apareça um inseto de asas, isto é,
"um metafísico de gênio", para operar a síntese.
A Europa já não tem minorias criadoras, capazes de ocupar-se
de pensamentos grandes, e a tal cultura européia em que o nosso
crítico deposita sua fé, não vai além de erudição livresca, sem vitalidade,
tendente a reduzir os europeus aos homúnculos de Wagner, já citados
neste escrito. "O europeu está só, sem mortos viventes perto de si; como
Pedro Schlehmil, perdeu sua sombra. É o que acontece sempre que
chega o meio-dia". Descoroçoado de que uma síntese das filosofias entre
si, e delas com a religião, pudesse vir da Europa dividida, decadente, o
recurso foi um indígena brasileiro pegar da pena e fazer o insigne
trabalho para si primeiro, mas que poderá servir a muitos outros, como
ele, também, necessitados.
Só uma coisa lamentamos em nosso crítico, conquanto lhe
respeitemos a opinião: é que ele, sendo espírita evangélico, quanto a
esta parte, tivesse posto de lado o Espiritismo... e mais o Evangelho, no
passo em que Cristo diz: "O vento assopra onde quer, e ouves a sua
voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo
aquele que é nascido do Espírito" (João, 3, 8). Que Espírito? Ora!
pois se trata do Espírito que se reencarna! A lição estava sendo
ministrada a Nicodemos!
O vento sopra onde quer, tal qual o Espírito que toma corpo
na matéria densa em nova vida corporal...; e quer soprar ou
reencarnar-se onde possa constituir-se, ao tempo em que ajuda a
elevação do meio. Deslocada, assim, a cultura para o Espírito que se
enriquece de muitas existências corporais, fica sem sentido
arrebanhá-lo com todos os que, numa nação, padecem de deficiências
culturais. Essa é a finalidade das reencarnações; ser homem novo,
continuamente renovado, liberto da erudição maciça, livresca, doutras
vidas das quais conserva apenas o sumo da verdade e da virtude.
Sem esta periódica destilação, o bagaço da cultura, a pura erudição,
apegar-se-ia ao Espírito, impedindo-lhe os vôos para o alto, a
conquista do que só cumpre saber, e é que na vivência efetiva,
atuante, da sabedoria-amor, consiste a salvação alcançada, não
duma feita, mas por aproximações. Daí que, de quando em quando, se
deixa o corpo de matéria densa, e, com ele, a bagagem embaraçante
das muitas noções que não servem para nada. A cultura, deste modo,
pouco a pouco, se destila, entesourando-se na sabedoria. A meta
distante, longínqua, não é ser filósofo, o eterno amante da sabedoria;
o fim supremo é possuir a amada, ter posse dela, ser humanamente
sábio, e não, ficar de longe, eternamente, a adorá-la, como
D. Quixote a Dulcinéia, como Platão a “Sofia", como Dante a Beatriz.
155

Possuir a amada, e não apenas ser eternamente amante, eis o objetivo.


Ser sábio é o fim supremo, e não, o ter cultura infinda. Adquirir
asas, ganhar a outra dimensão, eis a meta da ambição mais nobre. Daí
que cultura e criatividade são coisas mui diversas. O velho Nicodemos,
culto, mestre em Israel, precisava morrer, nascer de novo, simples, leve,
noutra condição, para reencetar a falida conquista do Reino celestial.
Procura ele a Cristo à noite, só, às escondidas, e ainda que achava ter,
Jesus, vindo da parte do Eterno Pai, não tivera o heroísmo, a coragem
de romper com o passado, face à nova luz, buscando o Mestre com o
Sol em pino, e em meio à multidão.
O moço rico estava acorrentado às riquezas, tal como Nicodemos à
sua posição. Um e outro precisaria reencarnar-se, um na pobreza, para
desfazer a cobiça, o outro, no anonimato, para golpear a ambição.
Cumpria a ambos despojarem-se do bagaço inútil que impede o passo
para a sabedoria, pois o poder e a riqueza são amarras invencíveis
para o que está ainda por tornar-se sábio. Tal como a riqueza e o
poder, a cultura não vivida, a livresca apenas, o apenas ouropel do
saber, e não o ouro verdadeiro, pode ser empecilho à conquista da
dimensão terceira, porque o peso, quanto maior, maiormente impede
o vôo para o alto. Daí que, de quando em quando, a alma ainda
impura, ignorante, precisa ser posta a fermentar neste mundo,
passando, depois, pelo destilador das expiações ou provações, a fim
de que se evole apenas a quinta-essência espiritual. Se comparado a
metal, a ganga impura da erudição precisa acrisolar-se no cadinho
em brasa, para que residue apenas o ouro puro da sabedoria. Se a
pedras preciosas se compara, é imprescindível o atrito da lapidação, e,
aqui, no mundo, os homens se lapidam mutuamente de contínuo.
A cultura é passado, mas passado que passou, e não, de certo,
passado que ainda está por vir. Em Cristo temos o exemplo deste
paradoxo, do passado que é futuro, do tendo sido que permanece
estando a ser. Faz quase dois mil anos que lançou o maior dos
Mestres a sua estupenda antecipação que está ainda por efetivar-se. Só,
individualmente, alguns dentre os humanos, santos e sábios se
tornaram, ganhando, assim, a terceira dimensão. A grande massa
humana, com nome de cristã, arrasta-se na planura das instituições,
sem, contudo, substancialmente, melhorar-se. Ovídio já dizia: "Vejo
qual é o melhor caminho e minha consciência diz-me que este é o
melhor, contudo é o pior caminho que eu sigo". E Toynbee:
"Nenhuma civilização conhecida chegou a atingir o objetivo da
civilização. Nunca houve uma comunidade de santos sobre a Terra".
Se o destino humano é atingir a dimensão terceira da
consciência, a cultura destilada, a cultura-qualidade, a sabedoria, e,
no entanto, a humanidade em massa apenas se mantém no nível
156

planimétrico da cultura-quantidade que se fossilizou nas instituições,


Cristo permanecerá como antecipação pelo tempo em fora, nada
importando o arrastar dos anos, ficando fácil de entender-se o paradoxo
de ele ser passado e futuro juntamente. Em Cristo há criatividade
potencial que é a sabedoria ainda por efetivar-se, porque o estado
hiperconsciencial que ele inaugurou, foi reduzido ao planimétrico da
razão, e seu vôo altivo, condoreiro, mediocrizou-se no andar no chão
com pés rasteiros. Nesta descida da supina altura, nesta acomodação,
perdeu o Evangelho quanto era e tinha. Foi possível até as "guerras
santas" e a "Santa Inquisição", e, em nome de Deus, e pela causa do
Evangelho-Amor (?!), torturas sem conta, horrendas, medonhas, foram
perpetuadas. Os urros dragontinos, os rouquenhos brados, os ais sem
conta das torturadas vítimas, ecoaram por todo este nosso inferno
terrestre. O terrível dragão sanhudo, sanguinário, hipócrita, devasso,
vestido de cristão, cevou, assim, seu hórrido sadismo.
Outros cristãos, de índole mais branda, propuseram uma salvação
por curto atalho, pela fé apenas, sempre de modo a que, na caverna sua,
não fosse o dragão importunado. O egoísmo satânico racionalizou seus
atos, justificando-os em termos do Evangelho, e até um Calvino houve
que pregou ser a posse das riquezas caminho certo para o céu, visto
como, sendo a riqueza um sinal de salvação, a conquista dela era a
melhor maneira de agradar a Deus. Eis como a planimétrica cultura,
em lugar de bárbaros fazer civilizados, fê-los regredir ao seu ainda
mais antigo estado de selvageria.
Qualquer doutrina que deixe em paz o egoísmo ignorante, que não
perturbe o animal não sepulto ainda, mas ainda vivo no homem, é por
este prontamente aceita. A culta Alemanha, ainda ontem, torrou judeus,
seis milhões contados, e os camisas negras da culta Itália, sob as vistas
complacentes, omissas e até anuentes do Papa, o "Vigário de Cristo",
massacraram os abissínios, a pretexto de levar-lhes a cultura, o
Evangelho, a civilização. Que vem a ser a frase do nosso estimado
crítico, quando fala das "deficiências culturais de todos nós brasileiros"?
Abaixo a cultura-quantidade, planimétrica, verniz superficial apenas
que recobre a animalidade, dando visos de civilizado ao que não passa
de torvo demônio, dragão qual é, terrível, feroz, hipócrita, sanhudo,
sanguinário. O caminho que propomos, propô-lo, antes, Cristo, e,
conquanto dificílimo, é o único que nos cumpre palmilhar.
A cultura, portanto, é extensão superficial que, quando larga,
grande, perde-se nos horizontes longínquos onde a terra se confina com
o céu. Pertence ela ao passado, no passo que o futuro é domínio da
criatividade, e será como o criarmos, para o bem ou para o mal; e se
o não criarmos, o passado agarrar-nos-á pela garganta, sufocando-
nos, sob a forma de arcaísmo. Como o bifrontal deus Jano, somos
157

compelidos a olhar para frente e para trás. Para frente, no entanto, as


brumas densas, a incerteza, o penhasco ou árvore que nos encobre a
perspectiva em plano raso. Conseqüentemente, só poderá criar quem
dispuser de asas com que se levante às alturas, e veja o que os de
pés rasteiros não podem enxergar.
Se o passado (cultura) é a superfície, vem depois desta o volume
que, no nível consciencial, é a intuição. As mentes criativas operam
aí, havendo, como as aves, as de grande e as de pequeno porte. Como
as águias e os pardais no aéreo espaço, as minorias criadoras se
mantêm no vôo da intuição; paralelamente, os homens de cultura,
quando não possuem veia criativa, se comportam como o jabuti e a
gazela, no que diz respeito a cobrir distâncias, exíguas ou extensas,
sem abandonarem, nunca, a planície. A cultura nesta forma chata,
plana, emplastante, sem a sua destilação em qualidade, jamais,
nunca, poderá ser a base da criatividade. Esta forma de cultura-
quantidade, pesada, condicionadora, até serve de empecílio ao futuro,
visto como leva ao homem culto a só pensar com a cabeça alheia,
buscando para as situações novas, idéias velhas, respeitáveis sim,
mas já mumificadas.
No entanto, esta dicotomia que fazemos entre cultura e
criatividade, só em teoria é possível, porque, em realidade, ambas
coexistem, pequenas ou grandes, em cada indivíduo humano, embora
possa haver também a nulidade cultural, ou a criativa, ou ambas
juntamente.
Dado que cultura e criatividade, respectivamente, constituem o bi
e o tridimensório da consciência; que a razão bidimensional é
raciocínio, no passo que a consciência volumétrica é intuição; que a
cultura é própria do passado estratificado nas consciências e nas
instituições, enquanto que a intuição penetra as brumas e incertezas
do futuro, fica sem sentido a fala circunspecta, ponderada, fria,
conselheira, do nosso nobre crítico, quando adverte: "as deficiências de
formação cultural de todos nós, brasileiros, quer formados ou não
em estudos universitários, devem alertar-nos quanto aos perigos de
um mergulho nas profundezas da problemática do mundo atual".
Face ao que expusemos, esta é a conclusão: aquilo que o nosso
crítico dá como sendo nossa fraqueza, isso mesmo é a nossa força!
Porque, como o demonstrou Toynbee, a minoria que respondeu com
sucesso dado repto, nele se fixa, ficando, por isto, impedida de
responder ao repto seguinte. É assim que todo o sucesso traz, já,
consigo, o germe da derrota posterior, dado sua fixação no estabelecido.
O fracasso reside no arcaísmo futurista, isto é, na tentativa de
projetar o passado no futuro, ou ainda, em tentar resolver os problemas
do futuro com os dados e métodos do passado. O peso da tradição
158

impede os avanços criativos, donde vem que o novo não pode impôr-se a
não ser com luta. Nosso crítico pensa deste modo arcaísta-futurista, e
por isso é que acha que os problemas do nosso tempo podem resolver-se
por meio da cultura que é passado. No entanto, o repto do momento
histórico exige a futurização criativa, a criatividade, que não, a
transposição do passado para o futuro. A história biológica demonstra
que o homem não se fixou na especialização, na repetição contínua do
passado, como o fizeram as demais espécies; continuou evoluindo,
ficando, no biológico, para sempre inacabado. A este seu inacabamento,
a esta sua falta de especialização, se deve toda a sua glória, e ele
próprio não suspeita até onde poderá chegar. O homem que diz
conhecer suas limitações, como o nosso crítico o fez, está parado, tal
como se acham as espécies biológicas inferiores. O homem
permaneceu criança, tão curioso como os filhotes dos mamíferos,
sobretudo a criança humana. Na idade adulta, o homem comum pára
de evoluir, tornando-se prosaico e vulgar, enquanto o gênio continua de
olhar deslumbrado, insaciável de saber, pela vida em fora.
Tomemos dois fatos históricos para objetivar esta teoria: Golias de
Gahat, vencedor de todas as batalhas que empreendera, morreu às
mãos de Davi, quando este empregou técnica nova de combate.
Vendo o jovem pastor sem armaduras, escudo, espada e lança avançar
ao seu encontro, Golias, em vez de alarmar-se, como o faria uma
mente criativa, ficou ofendido: - Acaso sou eu um cão, para vires contra
mim com um pau? Não enxergara, então, a funda danosa, nem a sacola
das pedras. Até esqueceu-se o gigante de baixar a viseira, e foi que
Davi, rodando a funda no ar, encaixou-lhe uma pedra na testa, pondo
o colosso por terra desmaiado. Depois foi só cortar-lhe a cabeça, para
o que se valeu da própria enorme espada de Golias.
Ciro, cavalgando largo tempo ao lado de seu pai, foi sendo por
este interrogado sobre o que aprendera da arte militar com os mestres
escolhidos que tivera. Ciro nada conhecia, e seu pai cuidou estivesse em
perigo o Império Persa, nas mãos de tal incompetente. Todavia, Ciro era
um gênio, e este, porque criativo, rompe sempre por inusitados
caminhos. Contra carros de guerra, Ciro mandava abrir fossos atrás do
exército; e quando os carros inimigos avançavam, a frente da coluna se
abria, deixando-os passar, fechando-se, depois, sobre eles; caídos nos
fossos, e mortos os guerreiros condutores pela infantaria, os carros
temíveis deixavam de existir. Era a vez, agora, da cavalaria, e Ciro
ordenava cortar os jarretes a todos os cavalos, pondo os cavaleiros a
pé. Atacava, Ciro, então, com seus carros de guerra, com sua
cavalaria e infantaria ligeira, armada de chuços, de broquéis e de
espadas, e era o fim deste inimigo. Porém, noutra batalha, outra
era a estratégia da qual os generais só tomavam ciência pouco antes
159

da peleja.
Tal, o quanto pode a inventividade; não, pois, só a cultura, que é
tradição e passado, mas, sobretudo, a criatividade que é futuro. E não
poderá criar o novo, quem tiver demasiado apego ao velho, e este só
serve ao futuro, depois de destilado, valendo só a quinta-essência, e
não, o bagaço inútil da erudição maciça.
Não temos, pois, que imitar, servilmente, os estrangeiros, e sim,
romper por caminhos próprios, aproveitando apenas a essência da
pesada cultura do Velho Continente. A Europa se acha referta de
passado, de tradição, de cultura, no passo que nós, brasileiros,
conquanto não sejamos primitivos, ainda estamos cheios de futuro,
de esperanças, de anseios. Tenhamos mortos-viventes perto de nós, mas
não nós sob o império deles, senão eles, sob o nosso, ou seja, o
conhecimento deles para o nosso uso, impedindo que eles, sob a forma
de respeitável tradição, nos sufoquem, nos matem, como crucificaram
Cristo, como assassinaram Sócrates.
Ora bem: "a problemática do mundo atual", ainda por solucionar,
acaso é passado? Futuro é que é, não se podendo resolvê-la sem
futurizar criativamente..., e disto a Europa está impedida por sua própria
fraqueza..., condicionada que se acha ao passado com o qual nossos
problemas atuais e futuros não se resolvem. A esta fraqueza, no
entanto, nosso crítico dá como sendo força! Ele acredita nas pesadas
armas de Golias; nós depositamos mais fé na funda de Davi. Ele crê na
velha arte bélica de Cambises, pai de Ciro; nós temos confiança
neste, cujo gênio sempre surpreendia o adversário, e, a tal ponto, que,
depois, não mais precisava dar batalhas, bastava o mito..., e as
muralhas se rendiam ao conquistador.
O Brasil está na vanguarda do Terceiro Mundo que é a
civilização ainda do porvir. Desde agora fica extinta a dependência
nossa em relação ao Velho Mundo! Creiamos nisto, e energias
profundas, ainda ignoradas, por-se-ão em movimento! Nenhum homem
poderá conhecer suas próprias limitações, a menos que se tenha
encarapaçado como os entes todos que buscaram esta ilusória
proteção, porque "ser humano é ser capaz de transcender a si pró-
prio" (Toynbee – “Experiências”). É agora a vez do amoroso filho, já
adolescente, preparar-se para arrimar a Grande Mãe, a Europa, que o
alimentou, com seu leite, quando ele era ainda pequenino.
Não é isto sonho lindo, róseo, vaporoso, pura mística de um povo
que anseia por desenvolver-se, por auto-afirmar-se. Já tem solidez
palpável, até mesmo para europeus. Fale Toynbee:
"Uma visão antecipada da estrutura da futura cidade mundial já
pode ser vista em Brasília, a nova capital do Brasil, construída de
acordo com um plano, porque foi planejada no que era um sertão
160

virgem. O planejador de Brasília, Sr. Lúcio Costa, articulou esta


vanguarda de Ecumenópolis em quadras. Estas são seções bastante
pequenas para tornar possível aos habitantes de cada quadra
conhecerem-se pessoalmente. Uma quadra é auto-suficiente, no
sentido de não ser atravessada por avenidas abertas ao tráfego de
rodas mecanizado. As crianças podem portanto ir a pé de casa à escola
sem sair da quadra, e as mulheres podem fazer as compras e a
lavanderia dentro dela, sem o risco de serem atropeladas".
Mais: O jornal "Le Monde", de Paris, do dia 27 de dezembro
de 1973, publicou dois trabalhos com o título: "A correção monetária
pode ser aplicada na França?". E nossa "Folha de S. Paulo"
transcreveu, em português, esses dois artigos, na íntegra, em sua
edição de domingo, 30 de dezembro de 1973. Citados trabalhos
principiam assim: "O gosto pela simplificação leva muita gente a falar
hoje do Brasil em termos de "milagre econômico”, de "novo Japão",
de "gigante que se levanta"... Tudo isto é verdade e o Brasil merece
medalha de ouro do crescimento. Mas, como fez para merecê-la?"

A análise de Jean Soublin, economista e banqueiro, entra,


depois, em pormenores da técnica econômica relativa ao tabelamento
de certos valores como: salário mínimo, aluguéis, remuneração da
poupança, juros bancários, imposto sobre renda, previsão para o
futuro; até que o economista francês se admira face ao paradoxo de
a nossa economia expandir-se ao mesmo tempo em que faz cair a
inflação.
Desta análise de Jean Soublin, o ex-ministro Albin Chaladon
extraiu um relatório que enviou à Comissão de Finanças da
Assembléia Nacional (francesa), que termina com estas palavras:
"Os países da Europa, que manifestam uma ausência completa
de imaginação criativa diante desse problema, como diante de
tantos outros, deveriam manifestar interesse em analisar de perto e
levar em consideração a revolução intelectual que se realiza no
Brasil em função de uma maneira de pensar, onde o pragmatismo
não exclui a faculdade de inversão".
Os destaque são nossos, e servem como antítese à opinião do
nosso preclaro crítico. Uma faceta da "problemática do mundo atual" é
a inflação que os europeus, não sabendo resolver, intentam imitar o
Brasil, não obstante "as deficiências de formação cultural de todos
nós, brasileiros, quer formados ou não em estudos universitários".
Duvidosos de que os problemas modernos pudessem resolver-se com
métodos antigos, os brasileiros, resolutos, arrostaram com os perigos de
um mergulho nas profundezas dessa problemática do mundo atual. O
resultado desse arrojo brasileiro, foi a criação de um sistema não só
161

elogiado, mas proposto por um europeu a que seja copiado pelos


europeus.
Se, como diz esse europeu "alerta" (eis o nosso alertismo),
“os países da Europa (...) manifestam uma ausência completa de
imaginação criativa diante desse problema, como diante de tantos
outros", não é de lá que vamos esperar nos venha a síntese das
filosofias entre si, e destas com as religiões. Desde que a Doutrina
Evolucionista pôs em xeque-mate todas as filosofias e todas as re-
ligiões, esse repto não replicado até então, passou a ameaçar de
morte nossa civilização ocidental. Agora, ou o mundo ocidental segue
por este caminho que indicamos, ou continuará caindo até seu
soçobro total, arrastando, na sua queda, as outras civilizações em
vias de ocidentalizar-se.
Outra prova temos no que publicou a "Folha de S. Paulo" do dia
6 de janeiro de 1974, prova de que a cultura, quando ainda não
depurada em sabedoria, quanto mais extensa e prolixa for, tanto
menos serve para solucionar nossos problemas atuais e futuros. A
"Folha" trouxe outro artigo, agora com o título: "Arquiteto brasileiro é
elogiado em Paris". Trata-se do Sr. Wilson Reis Neto, e o elogio
ocupa uma página inteira do jornal parisiense "Combat". O projeto do
Sr. Wilson Reis é o da criação de uma zona arquitetônica que será
instalada no que foi, outrora, os mercados centrais de Paris. O
planejador brasileiro foi classificado pelo "Combat" "como o
arquiteto pelo qual chega a primavera, pois seus proietos são
alegres, luminosos, de linhas suaves e originais". Falando o próprio
Sr. Wilson sobre como consegue seus triunfos, declara: "Possivelmente
a ausência de uma tradição arquitetônica muito pesada é a que nos
permite (aos brasileiros) elaborar os projetos sem demasiadas
barreiras e nos coloca em melhores condições de ver as coisas com
novos olhos”.
Por isso confio mais na intuição do que no saber. Há que se
criar sem pensar muito. Controlar demasiadamente uma idéia
confusamente tomada pela intuição é dissecá-la; é matá-la. As
coisas devem vir por si mesmas, naturalmente.
O jornal "Combat" realça as importantes idéias apresentadas
pelo Sr. Reis Neto, e também os compromissos oficiais assumidos
por ele, pendentes de realização.
Não fareje alguém neste método da intuição a "ação direta"
animal; a intuição é supra-racional; é o pensamento tornado
velocíssimo como o coriscar de um raio; é o produto destilado da
cultura de muitas vidas corporais que, agora, assoma à consciência
como um relâmpago instantâneo. Nesta visão lampejante apreende-se a
idéia-mãe, como unidade global, indo-se, depois, para os pormenores.
162

A criação superior, ou é muito fácil, ou é impossível; ou, espontânea,


sai de um jacto, ou não sai nunca. A isto escreve Goethe, no seu
“Fausto”: "É certo que o não pode, se em si mesmo/ não sentir lá por
dentro o fogo sacro./ E só coa inspiração própria, espontânea, / que
se domina a turba. O chocho, o inerte, / como de seu não tem, mas
quer por mesa, / pilha aqui, sisa ali; mistura, assopra / no seu
fogareirinho um lumezito, / e sai-se co'um pitéu de mistifório, / que só
porcos ou cães o tragariam". Ora, o que o Sr. Reis Neto chama
"saber", é a erudição em cujo meio os arquitetos europeus soçobram
por carência de originalidade.
Então? Acaso "as deficiências de formação cultural de todos
nós, brasileiros, quer formados ou não em estudos universitários,
devem alertar-nos quanto aos perigos de um mergulho nas
profundezas da problemática do mundo atual"? Se o brasileiro ilustre
Cesar Lates pensasse desse modo, abster-se-ia de enfrentar os
"perigos de um mergulho nas profundezas da problemática" da física
nuclear. Num congresso, sentindo-se aturdido frente à problemática do
átomo, um físico adverte: "Procuramo-nos explicar reciprocamente algo
que nós mesmos não entendemos". Um outro sarcasticamente
exclamou: "A física? É difícil demais para os físicos". Santos Dumont,
brasileiro também, teria tido mão sobre si, sofreando seu arrojado
espírito, quando, temerariamente, se expôs "aos perigos de um
mergulho nas profundezas da problemática" dos vôos espaciais com
máquinas mais pesadas que o ar...; o desastre de Ícaro devia pôr-lhe
medo.
Todavia, quem poderá criar alguma coisa, sem o perigo de
enfrentar a problemática do novo? Por isso mesmo, todo o progresso da
humanidade se deve ao arrojo dos pioneiros em todas as áreas. Sem o
trabalho sempre arriscado das minorias criadoras, o mundo não teria
saído da barbárie, para não dizer que o pré-homem macacóide nem teria
inventado o varapau e domesticado o fogo. Depois os atos criadores são
aprendidos, repetidos, fixados em hábitos, imobilizados na cultura, e os
não criativos se aferram a ela, pensando que, por esse modo
arcaísta, poderão solucionar os problemas do futuro.
Ora bem: para resolver os cruciais problemas do nosso tempo, de
magnitude tanta, era preciso uma chave, e esta se resume no
seguinte:
I - Tudo o que existe é constituído de forma e conteúdo que é o
mesmo que essência e substância, sem nenhuma exceção, nem
mesmo para Deus.
II - Para apreender esse binário, a homem precisa agir como
um todo, e não, somente, com sua razão. O sensível e o inteligível
vêm ligados desde sempre, e qualquer dicotomia falseia a identidade
163

do real.
III - Houve a Involução, pelo que se tornou possível e
necessária, agora, a Evolução.
Esta é a chave que condensa toda a obra constante deste e de
outros livros nossos; vamos, todavia, explicitá-la um pouco mais:
1) - Olhando o mundo, em torno, verificamos que as coisas, sem
nenhuma exceção, são unidades compostas de essência e de
substância, sendo a essência o que a coisa é, e a substância, o de
que ela é feita. Em qualquer coisa real, é impossível separar a
essência da substância, porque uma substância sem essência alguma,
é caos, e a essência pura, sem nenhuma substância, é pura
idealidade, vazia, subjetiva, que só pode estar na nossa inteligência
como abstração. Para ser real, a coisa precisa ser considerada como
uma dualidade feita de essência e de substância inextricavelmente
ligadas na unidade da coisa. Dentro de toda unidade está a dualidade,
donde vem: tudo o que existe é unidual. Nossos sentidos apreendem
o sensível das coisas, trazendo-as para o nosso psiquismo como
imagens; como as coisas não são caos, suas imagens, em nosso
espírito, também não o são, pelo que já vêm organizadas, e essa
ordem é a essência que a nossa inteligência abstrai. Dessas imagens,
pois, nossa inteligência apreende a essência como generalização
abstrata, subjetiva que é em nossa mente, mas não existe na realidade
objetiva... enquanto não se vestir da substância.
2) Conseqüentemente, não se apreende nada em realidade, se o
homem não agir como um todo. Com a inteligência só se apreende a
parte inteligível da coisa, não, porém, sua, parte substancial visto que
esta é irredutível a discurso racional, a princípio de razão. Quem,
logo, como o fizeram os gregos antes, e os filósofos modernos depois,
buscar a realidade só como essência pura, não terá a realidade, a
coisidade, e sim, apenas, a pura idealidade, a subjetividade, a
abstração pura, à qual se deu o nome de realidade. Por conseguinte,
o famígero realismo grego é um idealismo com o pé firme no objeto,
tomado este só por sua essência, no passo que o idealismo ou filosofia
moderna, é o mesmo idealismo grego, só que com fundamento no
sujeito, no eu subjetivo, transformado este em puro ente de razão. A
realidade verdadeira, no entanto, implica na presença da substância
também, e não só na da essência vazia, donde vem que, para
apreender a coisa como um todo, o homem tem de agir também
como um todo.
3) - Examinando a natureza da essência e da substância,
constatamos que ambas se opõem polarmente, como a tese à
antítese. A essência é fixa, imutável, intransformável, incausal,
inespacial, intemporal, determinística, sem liberdade, irrepresentável,
164

etc., no passo que a substância é móvel, transformável, mutável,


causal, espacial, temporal, variável, livre, representável, etc. Sendo a
substância TRANSFORMÁVEL, então, existe uma só matéria prima,
uma substância primordial, primária, primeira na ordem das coisas, da
qual todas as demais surgiram por transformação. Esta substância
basilar é a que os filósofos pré-heracliteanos procuravam, até que veio
Heráclito e assentou que tudo é movimento; que a mesma substância é
puro movimento. Só que (e o não viu Heráclito) a idéia de
movimento implica na idéia de móvel, de algo que se move, não sendo
possível um movimento puro, isto é, um movimento de nada.
4) - Com o advento das ciências, ficou demonstrado,
experimentalmente, que:
a) matéria e energia são termos redutíveis entre si;
b) todas as energias são transformáveis umas nas outras;
c) portanto, há uma energia primordial DA QUAL todas as
energias e todas as matérias procedem por transformação.
Esta verdade clara para qualquer mente moderna, Einstein
pretendeu reduzir a fórmula matemática no seu "Campo Unificado".
Reduziu ele todas as matérias e todas as energias do universo a um
denominador comum a que deu o nome de energia-substância. Tudo
o que, pois, não for essência, que não possuir as propriedades das
essências, é energia-substância. Em contrapartida, tudo aquilo que
não possuir todas as propriedades da energia-substância, é
essência, ou forma, ou idéia, ou conceito. Logo, a vida, as
emoções, os sentimentos são energia-substância, visto como não se
reduzem a essências. Na fase evolutiva que hoje vivemos, não pode
ser de outro modo: a vida surgiu, por transformação, das outras
energias que lhe estão abaixo. Ora, as emoções e os sentimentos
nascem da vida e lhe estão acima. Sobre todos os sentimentos se
sublima o amor; portanto, o amor é a mais alta manifestação da
energia-substância; este é o pináculo a que pode chegar a evolução
das formas dinâmicas; não há posto a subir acima do amor.
5) - Quando não se pode subir além de dado ponto, este fica
absoluto, pois nada mais há acima a que se referir. Como não há
posto acima do amor, então, o Amor é o Absoluto, e como o
Absoluto é Deus, o Amor é Deus ou "Deus é Amor" (I João 4, 8);
Deus é a Energia-Substância-Amor, DA QUAL TUDO SE FEZ, e
sem A QUAL nada existe.
6) – O conceito de coisa como palpável, como fixa, como estática,
mudou-se para o de coisa-mutável-e-em-transformação. Às três
dimensões do espaço que outrora limitava qualquer objeto, foi
acrescentada outra dimensão, o tempo, visto como nada pode ser
considerado só no espaço, senão, também, no tempo. Um grego não
165

poderia entender que as ondas de energia; que os sentimentos, que


o amor são coisas; nós, do século XX, sim. Para nós, coisidade é
idêntico a realidade, a substancialidade, dado que "res" é igual a
coisa, e não há coisa sem substância.
7) - Como realidade alguma, sem nenhuma exceção, pode
reduzir-se a essência pura, Deus também não pode ser essência
pura, pura idealidade subjetiva, sem substância, vazio de conteúdo,
forma oca, sem existência, portanto, no mundo exterior. Se o fosse,
não iria Deus além de pura criação da mente humana, de pura
ideação, de pura ficção, sem outra "realidade" além da que lhe
empresta o homem. Como só tem existência na cabeça do homem,
e não, fora; como só aí foi criada, ou inventada, passa a ter razão
quem disser que Deus é criatura do homem, e não, vice-versa.
8) - Não sendo Deus essência pura, idealidade abstrata, pura
subjetividade, com existência só na cabeça do homem onde foi
criado, então, necessariamente, tem de possuir Substância..., e
desta MATÉRIA PRIMA foi criado tudo o quanto existe, tudo o que
é substancial. Visto como do nada não pode sair nada, e, se sair,
será pura ilusão fósmea e nada, tenha o aspecto que tiver, então,
tudo o quanto existe saiu da Substância Primária, por transformação.
A substância, não esquecer, ao contrário da essência, é móvel, livre,
transformável, passível de tornar as coisas às quais dá corpo, até
opostas entre si, antitéticas e complementares. Ora, já o vimos: a mais
alta manifestação da energia-substância é o Amor. Logo, Deus criou
tudo de si, da sua Substância, do Amor que é, donde este enunciado:
tudo o que existiu, existe, e possa vir a existir, de futuro, é a
Energia-Substância-Amor modificada.
9) - Todavia, di-lo a experiência de todos os dias, a vida é
egoísta, e o é desde a sua mais remota origem neste mundo. E o
egoísmo é o oposto do amor. Nosso mundo é mau, senão no todo,
pelo menos em parte; em parte, feio; e ainda em parte, dominado
pelo Caos... em que teve origem. Ora, Deus não podia ter feito surgir o
Caos, porque este é a sua negação na forma mais extrema;
conseqüentemente, não criou também, diretamente, em primeira
instância, este universo nosso conhecido.
10) – Portanto, Deus criou um Universo, um Mundo celestial, em
primeira instância, coerente com o que ele é, feito de luz, feito de
amor, que, em parte, se inverteu no EGOÍSMO, e, por esta razão,
caiu e se desintegrou no centro do espaço-tempo ocupado agora pelo
universo nosso, no então atro abismo, no medonho Caos; outrora, teve
aí princípio a Evolução. Coerentemente, essa Evolução é um
refazimento do desfeito, quando da inversão do amor no seu contrário,
no funesto egoísmo desintegrador.
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11) - Deus não podia impedir a queda, ou seja, a inversão do


amor no seu contrário, no egoísmo, porque, fazer isto, seria tornar o
amor fixo, imutável, intransformável, não-livre. Ora, como é o AMOR
a MATÉRIA PRIMA por excelência, fixar esta MATÉRIA no seu estado
pré-criacional, anterior a qualquer nascimento, era impedir toda e
qualquer transformação a partir dela. Tivesse fixado Deus o amor na
imobilidade, estaria ele próprio impedido de executar a sua Primeira
Criação, da qual, após a queda até o Caos, surge, agora, a Criação
Segunda, a que vivemos hoje, ou seja, a em processo de refazimento,
ou Evolução. Logo, em sentido amplo, a Evolução é a volta do Caos
para Deus de algo que, em saindo de Deus, se fez autônomo para ir,
como foi, até o Caos; é Religamento do que, estando ligado antes, se
desligou depois; é Religião (de religare), e todas as religiões
superiores servem a este propósito supremo evolutivo. Tudo o que
integra são manifestações do amor; por conseguinte, Evolução,
Religião, Integração, Civilização, Sabedoria, Amor são formas
diferentes de expressar a mesma e única VERDADE. Pela
recíproca, Involução, Irreligião, Desintegração, Barbárie, Ignorância,
Egoísmo, representam o oposto, o inverso, a contraditória, a negação,
a danação, o Caos.
12) - O mundo está invertido em parte ainda, e precisa desvirar-se
desse avesso; em parte já o fez, e em parte ainda está ao negativo. O
erro original das filosofias todas, foi o não terem enxergado que o
nosso mundo não é ilusão, mas uma realidade invertida, uma
realidade pelo avesso. A participação platônica consiste em tudo aquilo
em que já se operou a desinversão. Ninguém negaria coisidade,
substancialidade, realidade (de res=coisa) ao próprio e mais
arrematado Caos; conquanto, ali, não haja ser, há o existir... de
formidolosas forças remoinhantes, a luta dos pré-elementos, a busca
incessante da ordem que, frágil, logo feita, logo se desfaz. Partículas e
anti-partículas ensaiam criar, seja o átomo, seja o anti-átomo. Ainda
não se decidiu a pendência de qual universo criar, se o de matéria,
se o de anti-matéria. Por fim, depois de transcorrido haver tempo sem
conta, pôde a matéria organizar-se, absorvendo em si, em sua
estrutura, cada vez mais complexa, o acósmico arqui-dilúvio de
energias, então, concentrativas, convergentes para o centro, da espécie
raios laser, nosso conhecido, agora em vias de domesticar-se. Eis
nascido o arqui-gigantesco Ovo Primitivo, o Colosso Universal, e
ainda, agora, na massa do universo, cada nova formação começa do
modo como o foi nesta segunda origem, pelo caos, pelo ensaio-e-
erro, pela luta entre tese e antítese, até que uma generalização
abarque, agasalhe, harmonize a tese e a antítese em nova unidade.
Subindo, debaixo, primeiro pela escala dinâmica, depois, pela
167

escala da vida, surge o homem egoísta e mau, antropófago, agressivo;


concebe um Deus, que, longe de ser sua imagem e semelhança, vai
sendo a paulatina negação de si, e, fundado nessa Referência
absoluta, vai-se, pouco a pouco, desvirando de dragão... imagem
daquele antigo, de quando se deu a inversão do amor no seu contrário.
A reconquista do perdido amor impõe-se como necessidade, como único
caminho. Todos os atalhos propostos para a salvação são ilusórios
sonhos. Não há atalhos possíveis; não há substituto que faça, no lugar
do homem o que lhe cumpre executar, nem a salvação poderá ser de
um talho e acontecer a curto prazo, no lapso apenas de uma
existência corpóreo-terrenal. A salvação não acontece de uma única
vez, de uma vez por todas, mas é progressiva, por etapas, por graus,
por aproximações. Qualquer homem medianamente bom é já um salvo,
em relação ao ponto inferior de que partiu, em sua evolução; contudo,
ele o sabe, quanto lhe falta ainda por andar. Cumpre-lhe desvirar-se,
pouco a pouco, de dragão egoísta, em sábio, em amoroso. Não há
salvação fora do amor.
13) - Por causa do imperativo do amor que põe o amante em luta
pelo amado, cumpre ao que avançou mais ajudar aos que avançaram
menos. Cumpre ao iluminado retornar à caverna a fim de esclarecer e
auxiliar os iludidos das sombras. Esta é a causa por que milhões de
espíritos não caídos, dentre os quais Cristo, se desterraram das
empireas moradas, saíram da luz na qual quais sóis fulguravam,
para encurvarem a matéria de seus perispíritos, adensando-se na
matéria de níveis ou planos inferiores, a fim de resgatarem os perdidos
das trevas do egoísmo, os seres dragontinos, abrandando-lhes a fúria
com lhes mostrar o Oriente luminoso, o só capaz de guiar-lhes os
passos em demanda do Céu, cifrando-se nisto a salvação.
Eis a chave, em termos de razão, e o mais, tudo, são dela
decorrentes ou a ela conducentes, conforme se use o método analítico-
dedutivo, ou o indutivo-sintético. O "Epitáfio de Satã" (contido no livro
“Um Estudo do Nosso Tempo”) condensa, numa síntese suprema, o
saber todo das filosofias e das religiões.
Porém, assentando seu aríete contra os dois primeiros capítulos da
obra "Um Estudo do Nosso Tempo", nosso crítico cuidou ter dela
destruído a base. Por esta razão antecipou a crítica ao dizer: "Deve
ter faltado ao Sr. Caramaschi aquele ponto de apoio que
Arquimedes pedia para a sua alavanca". Enganou-se, no entanto,
porque os primeiros capítulos não se ocuparam da colocação do
problema-mor que só aparece mais adiante, e que permaneceu
intocado. Os problemas da atualidade, como galhos de uma árvore,
nascem daquele tronco fundamental, ao qual chegamos por uma
convergência, a partir dos fatos próximos, particulares, vividos, e que
168

agitam o nosso tempo. Estes, pois, serviram de introdução à obra que,


sem eles, seria a mesma. Ainda que tivesse podido, nosso prezado
crítico, negar a existência dos problemas do nosso tempo convulsionado,
pois, segundo ele, tudo vai bem com os jovens, com a Arte Moderna, com
as mulheres, com a história, esta, porque guiada pela mão de Deus,
ainda assim, o problema fundamental persiste, permanecendo intocado,
e é este: a Doutrina da Evolução, base da cultura moderna,
cientificamente demonstrada, pôs em xeque todas as filosofias e todas
as religiões. Este é o problema.
Este repto não respondido, como soe acontecer na história, deu
azo a que o mundo se precipitasse no materialismo; daí o abandono do
espírito, a rebelião dos jovens contra as instituições, contra a moral, a
caótica Arte Moderna, o desnorteio das mulheres em sua luta
liberticista, a desagregação da família, os festivais de pornografia, a
literatura apimentada feita às pressas para dar vultoso lucro e a curto
prazo, a desenfreada libertinagem (troca de esposas, casamento em
grupo, pederastia oficializada, etc.), a queda do índice de natalidade
nas nações desenvolvidas, a religião nova dos nacionalismos
(Toynbee), os cultos a Satã, o descaso absoluto pela pessoa
humana, concreta, tornada simples coisa nas cidades populosas, e
outras conseqüências mais.
Daquele problema-mor nasceram estes todos, menores, cujas
soluções só são possíveis com esta nova retomada, com esta síntese
filosófica à qual não faltou, de nenhum modo, "aquele ponto de apoio
que Arquimedes pedia para a sua alavanca". O ponto de apoio de
todo este sistema que surge, são os três enunciados-chaves já vistos,
e que, depois, se explicitaram em treze outros. Tal a chave do
sistema, o ponto de apoio que, semelhante ao da alavanca de Arqui-
medes, está presente em toda a obra, pois a ele toda ela se refere. Fale
Fritz Kahn:
"(...) Mas cada planeta, por sua vez, forma em torno de si
mesmo um campo de espaço. Estes campos são, segundo Einstein,
"entrosados um no outro" e, ao girarem os planetas em torno do
Sol, esses campos entrosados deslocam um ao outro como rodas
dentadas. O sistema solar é máquina de espaço e se o espaço fosse
visível, teríamos a impressão de vivermos no interior de enorme relógio
celeste". Eis, pois: assim como a alavanca de Arquimedes está difundida
em todo o universo de qualquer máquina, assim como em toda a
máquina do Universo, nosso ponto de apoio está onipresente em
qualquer parte da obra... onde cada argumento, como uma roda
pequena, engrena sua alavanca à alavanca duma roda maior, indo
assim, até a alavanca suprema da roda-mor ou ciclo máximo
INVOLUÇÃO-EVOLUÇÃO.
169

IX - CONCILIAÇÃO DE OPOSTOS

Assentado, de maneira a não padecer dúvida, que a essência e


a substância formam o ser real das coisas, sem nenhuma exceção;
que a essência sem substância alguma, é pura idealidade vazia,
abstrata, sem existência, estando só em nossa inteligência, como con-
ceito, e não, fora dela; que, para ter realidade, existencialidade, a
essência precisa estar jungida à substância, ou revestida desta; que,
por outro lado, a substância sem nenhuma essência é puro caos que
existe mas não é; que a própria divindade, ao mesmo tempo que é,
como essência, existe, como substância, sendo esta a Energia-
Substância-Amor, primária, primordial, na ordem das coisas, e da
qual tudo decorreu por transformações; que toda unidade, para sê-lo,
precisa ser cósmica, orgânica, sistemática, univérsica em si mesma,
resultando ela, já de início, da combinação entre si de um par de
opostos que se complementam reciprocamente; que estes dois
componentes, embora contrários, são iguais entre si em valor, em
importância, por pertencerem ao mesmo nível hierárquico, vem esta
conseqüência inexoravelmente necessária: não há prevalência do
espírito sobre a matéria, nem desta sobre aquele.
Entenda-se que espírito, aqui, é o mesmo que alma, não
significando a entidade que se mostra viva e atuante após a morte
física. O espírito desencarnado, tal como o homem enfrascado na
matéria densa, igualmente é uma unidade dual, formada, também, de
corpo e espírito, ou seja, segundo Kardec, perispírito e espírito. O
perispírito não é mais do que um corpo de matéria mais leve,
menos encurvada, de outra dimensão do universo, e o espírito é
idêntico a alma.
Os espiritualistas e os materialistas estiveram a desaver-se o
tempo todo, porque nem um nem outro tinha nas mãos a chave que
propiciaria a conciliação destes opostos na síntese. Fazer o espírito
prevalecer sobre a matéria é o mesmo que fazer a sabedoria superar o
amor, porque, uma sabedoria, sem amor, equivale a uma essência
sem substância; pela recíproca, fazer o amor mais excelente que a
sabedoria, equipara-se a pretender que seja a substância mais que a
essência. Um amor sem sabedoria é o mesmo que uma substancia sem
essência; e do mesmo modo como a substância sem essência é caos, um
amor sem sabedoria é caos-do-amor, ou anti-eros. O ente dragontino
ama a negação, a feiura, a maldade, destroços, confusões, estragos.
"Sou o espírito/ que estorva sempre. E com razão, pois tudo/ quanto
nasceu merece aniquilado;/ portanto era melhor não ter nascido./ Meu
elemento é o que chamais vós outros/ Destruição, Pecado, o Mal, em
170

suma" Goethe – Fausto). Esse amor carente de sabedoria é o caos-do-


amor, ou egoísmo, ou anti-eros, tendente a anular tudo, até mesmo a si,
no Caos último da descida involutiva, e primeiro de que partiu a
Evolução.
A sabedoria é de natureza essencial, no passo que o amor o é
substancial; porém, como essência e substância, ambas de igual valor,
formam um par, ipso-facto, igualmente, a sabedoria e o amor se acham
jungidos, inextricavelmente na unidade do sábio-santo ou do santo-
sábio. Não pode, pois, haver santo sem sabedoria, nem sábio sem
virtude; não há o só teoricamente sábio, porque sabedoria se deriva
de sabor de experiência, de vivência. Também não existe o só
praticamente santo, porque, sendo o santo o dragão pelo avesso, sua
santidade precisa assentar-se numa doutrina, num lastro de convicções
teóricas verdadeiras. O sábio chega à santidade e ao amor pelos
caminhos do conhecimento, no passo que o santo chega à sabedoria
pelos caminhos da virtude e do amor; o primeiro é filósofo, no passo
que o segundo é místico; um é santo porque sábio, como Sócrates; e o
outro, sábio porque santo como São Francisco de Assis. O que é o fim
para o sábio, é o início para o santo, e vice-versa; o fim do
conhecimento do sábio é o amor, no passo que o fim da virtude do santo
é a sabedoria, ambas, sabedoria e santidade, conducentes a criar o
justo e perfeito homem integral. Esta é uma forma de expor esta
matéria, ou de explicita-la em pensamentos; contudo, a realidade,
necessariamente, não tem de ser assim, e antes, pode ir pela
alternância do conhecimento e da virtude, ambos se reforçando
mutuamente até à plenitude.
Ao espiritualista repugna a idéia do paralelismo entre o espírito e
a matéria, porque sua idéia de matéria se mostra distorcida, como
sinônimo de animalidade grosseira e de mal. Quando Cristo sentencia
que "o espírito, na verdade, é forte, mas a carne é fraca", quis referir-se
a uma carne insubmissa, recalcitrante, rebelde, ainda ressumbrando
de animalidade. No espírito já raiou a luz da desinversão, porém,
esta pulsão angelical ainda não se fixou no hábito do bem, como se
fora um segundo instinto, uma segunda natureza. O homem, nesta
fase da desinversão, é campo de luta entre o anjo e satanás, estando o
anjo no espírito, e o demônio, na animalidade. Quando, porém, depois da
desinversão, o santo, como que por instinto, faz o bem, sem nenhum
esforço, por prazer até, e ainda que o não queira o faz, certamente
que não se vai dizer ainda que a "carne é fraca". Cristo fazia
doutrina para os outros, que não para si; sua carne não era fraca, mas
heróica, acompanhando o espírito, solidária com este, até o brado final:
consummatum est. De Sócrates também se sabe que sua carne não
se lhe opôs ao espírito, nem mesmo no terrível lance em que, sereno,
171

tranqüilo, esvaziou a taça da morte. Qual ele, qual Cristo, a história está
referta de entes sublimados, cheios de heroísmo, para os quais já não
vale a sentença de Cristo: "a carne é fraca". Daí que, não vendo
antagonismo entre sua carne e seu espírito, São Francisco de Assis
chamava ao próprio corpo de irmão corpo.
Em hipótese alguma não sendo possível EXISTIR (estar no espaço-
tempo) um puro espírito, sem substância alguma, no mundo
espiritual as entidades também se mostram revestidas de um corpo
orgânico, conquanto de matéria menos encurvada que a dos entes de
nosso mundo de matéria densa. Lá, também, para os que ainda lutam
por desinverter-se, "o espírito, na verdade, é forte, mas a carne é fraca".
Esta idéia nova do corpo como aliado, do corpo como irmão, de a
substância corporal ser inalienável ao espírito, só agora é possível, visto
como só agora fica demonstrado que a essência e a substância não se
apartam na unidade de quaisquer coisas, nem na dos entes vivos, não
havendo exceção nenhuma, nem mesmo para Deus. O corpo do demônio
não é adversário do espírito diabólico, nem o do anjo se mostra inimigo
da alma angelical. "Que pode o puro espírito, escreve Lagneau, se não
começar por se dar um corpo que atue sobre os demais corpos?".
O corpo se mostra satânico só para o espírito, encarnado ou não,
que luta por desanimalizar-se. O corpo é diabo, inimigo, adversário do
espírito, só enquanto ele ainda se mostra invertido, rebelde, recalcitrante
ao esforço da desinversão já operada em propósito, em projeto. Para os
que fazem a evolução, primeiro raia a luz no espírito que, por isto, trava a
luta por desanimalizar-se. A matéria resiste, por sua natural inércia,
obrigando o espírito a um continuado esforço, tenaz e vigilante, de modo
que a desinversão só se efetiva, quando se mudam as próprias pulsões
animalescas em suas contrárias. O corpo, então, outrora tido como
ferrenho adversário, torna-se em aliado útil, fiel, transforma-se em
irmão que cumpre amar, em primeira instância, antes que esse
amor se expanda a outros entes ao mundo e a Deus. O egoísmo,
neste caso, se dilata, e este egoísmo dilatado é o amor.
Se o amor tem que se expandir de próximo em próximo, e o
primeiro próximo é o próprio corpo confundido com o espírito, ambos
formando o ego; só depois deste, vêm os espíritos-corpos-egos dos
outros, depois o mundo, e, finalmente, Deus; Deus será o último termo
da expansão. Deus é o mais importante, porém, não é o primeiro na
cadeia da dilatação do egoísmo. E como o amor é substantivo, é físico-
moral, ele se dirige sempre a um objeto existente à mão, à vista; e Deus,
embora existente, oculta-se, inacesso, para além do horizonte ilimitado.
Então não há amor a Deus para o que se inimiza com o corpo, com o
próximo e com o mundo. Está correto o pensamento de São João
para quem é mentiroso o que diz amar a Deus, mas se aborrece de
172

seu irmão, porque, como afirma, quem não ama ao próximo a quem
vê, como pode amar a Deus a quem não vê? (I João 4, 20). O amor
do próximo, pois, é o passo necessário para quem aspira chegar ao
amor de Deus. Esse místico amor a Deus que anda por aí nas bocas
dos religiosos de todos os matizes, é semelhante ao amor de D. Quixote
pela Dulcinéia que ele inventara e nunca vira, ou como o amor à
humanidade in abstracto. Sendo o amor substantivo, dirige-se ao que
é substancial, e não, a nenhuma idéia vazia.
Depois do próximo, vem o mundo. E não esquecer de que
mundo significa puro, ao contrário de impuro que é imundo. Mundo é
o cósmico, o harmonioso, o bom e o belo, no passo que imundo é o
acósmico, caótico, feio e mau. Em qualquer nível, o espírito estará
frente a um mundo, tanto mais misturado ao imundo, quanto mais
invertido e baixo ele for; ao contrário, quanto mais se sobe nos níveis,
mais os mundos serão mais mundos, até que, totalmente, se mostrem
escoimados de imundície. Céu e inferno andam misturados, de sorte
que, quanto mais se desce nos níveis, mais o caos se ostenta, ficando o
céu esmaecido; pela recíproca, quanto mais se sobe neles, mais o céu
se evidencia e se retira o caos. Ninguém se escandalize, portanto,
quando dizemos que é preciso amar ao mundo que, certamente, não
é o que nele há de impuro, de invertido, de imundo.
O último termo é Deus, para o egoísmo que se expande, sendo ele
a Referência do homem, a só que tudo justifica, tudo move, tudo ama,
tudo vivifica, tudo para si arrasta, qual abóbada de energia-amor,
anos-luz quintilhões distante da curvatura deste nosso universo que,
já de si, transcende a toda humana imaginação. O amor de Deus
envolve o universo, penetra os mundos, incendeia o coração do santo,
ilumina o sábio, inflama de êxtase divino o gênio e o artista.
Tudo isto, no entanto, foi posto de lado pelos filósofos que viram
em Deus a Essência pura, pelo que passaram a considerar o mundo
e as coisas só por suas essências. Procedeu-se assim a ruptura, e o
corpo, visto que é substancial, foi também havido por impuro. Plotino
não permite que se lhe retrate o corpo, para não perpetuar uma
sombra, e Anaxarco grita ao tirano que mandara triturá-lo: - Isto que
trituras não é a pessoa, mas só o corpo de Anaxarco! - Quebras-me
o braço, se o apertares mais, brada Epicteto a seu senhor
desumano!, e pouco mais, e o braço se partiu. - Eu não disse que se
quebraria? - tornou Epicteto vitorioso, em seu desprezo da matéria
corporal. Vem o cristianismo, e também prega o desprezo do mundo;
e porque o corpo é mundo, também o desprezo do corpo.
No entanto, a correlação entre o espírito e o corpo é inalienável.
Que o espírito, o pensamento, a idéia atuam sobre o organismo,
prova-o a hipnose pela qual se pode produzir queimaduras reais,
173

quais se obteria com um ferro em brasa. Vice-versa, que o corpo


atua sobre o espírito, provam-na as drogas que, ingeridas, provocam
desequilíbrios mentais e emocionais. Que a mente atua sobre o corpo,
prova-se nesta experiência: mete-se cada braço de um paciente
hipnotizado em um anel feito de cano de metal ou vidro, e pelo
interior de um dos canos enrolados em argolas, faz-se passar água
gelada, e pela outra argola, a do outro braço, água fervendo.
Sugere-se, porém, que a água gelada é água fervendo; da argola de
água fervendo, não se diz nada. Os braços ambos mostram-se
queimados em igual intensidade. Sugere-se, depois, que o braço
"queimado" hipnoticamente, por água gelada, vai demorar mais a sarar
que o outro; e demora, de fato. Bolhas hipnóticas são o nome dado às
queimaduras produzidas por um simples selo-decorreio, mas com a
sugestão de que são emplastros corrosivos. O espírito age, assim,
sobre a matéria, e têm esta base sugestiva todas as maravilhas da fé
no que se refere às curas milagrosas. Pela hipnose se pode produzir
anestesias profundas, em pacientes sonambúlicos, até para se
amputar uma perna, ou braço, ou extrair um olho. O oposto também
se verifica, e para alterar uma personalidade, bastam hormônios,
bastam drogas delirantes, eufóricas, bastam sofrimentos quaisquer,
que, se assim não fosse, não teriam sentido os castigos corporais, e as
provações da existência neste mundo.
Não há, pois, prevalência do espírito sobre a matéria, nem a desta
sobre aquele, porque ambos, espírito e corpo formam a unidade
humana indissolúvel. Onde estiver o foco da excitação, para aí o todo se
dirige. Não há primazia entre a essência e a substância, porque
ambas, no mesmo nível hierárquico, conquanto opostas e
complementares, são necessárias à unidade da coisa. A sabedoria e a
santidade coexistem no par indispensável de que resulta a formação do
homem-integral. Finalmente, Deus, como Lei que tudo rege, e como
Amor que tudo cria e conserva, não é dois, mas Um, na Unidade
Essência-Substância.
No entanto, porque os espiritualistas dão por certa a predominância
do espírito sobre a matéria, os materialistas, numa reação antitética,
propõem o inverso, isto é, que a matéria vem primeiro, e o espírito,
depois. A alternativa proposta por Politzer de que, ou a matéria se deriva
do espírito, ou este, daquela, não subsiste, porque ambas, essência e
substância são irredutíveis entre si, coexistindo em oposição desde
sempre. Diz Politzer:
"Ou a matéria (o ser, a natureza) é eterna, infinita, primeira e
o espírito (o pensamento, a consciência) deriva dela; ou então, o
espírito (o pensamento, a consciência) é eterno, infinito, primeiro, e a
matéria (o ser, a natureza) dele deriva”.
174

"A primeira das respostas é que constitui a base do materialismo


filosófico. Quanto à segunda, encontra-se, de uma forma ou de outra,
em todas as doutrinas que decorrem do idealismo filosófico.”
"Essas duas atitudes filosóficas, as únicas que são coerentes, são
diametralmente opostas".
O ideal (donde idealismo) que se opõe à matéria (donde
materialismo), não é, em primeira instância, pensamento, consciência,
como diz Politzer. O ideal é a contrapartida do real, este que vem de
res = coisa. Uma matéria pura sem nenhuma forma, seria o Caos
mais extremo, em que se acham ausentes quaisquer princípios,
quaisquer leis, donde ser impossível a sua intelecção. Igualmente, o ideal
vazio de conteúdo material ou energético, é pura entidade de razão, sem
realidade objetiva, sem existencialidade. Não é o material que gera o
ideal, nem este àquele; ambos co-são ou, coexistem desde toda a
eternidade do tempo, no infinito do espaço. O ser real é sempre, e
por toda parte, uma unidade na qual se resolve a contradição
essência e substância, idealidade e consistência, forma e matéria. A
idéia de cubo, de prisma, de esfera, de cilindro, não dariam, jamais,
nunca, esses sólidos geométricos sem o concurso da matéria que
enche o vazio dessas formas ideais - isto é pacífico. Logo, em outros
termos, Politzer diz este absurdo: ou a matéria nasce da idéia, ou esta,
da matéria; ou a essência surge da substância, ou esta é gerada por
aquela; ou o conteúdo produz sua forma, ou é esta que cria seu
conteúdo. Uma é o antecedente ou causa da outra, entre essência e
substância, segundo o entende Politzer. Que ambas co-são ou
coexistem desde sempre na unidade do ser real, qualquer que ele
seja, sem nenhuma exceção, nem mesmo para Deus, isso Politzer não
cuidou. No entanto, se pegarmos a unidade material mais simples, o
elétron, verificamos que nele há a idealidade da forma, dos princípios,
das leis de sua constituição, e sua existencialidade substantiva. Fora da
mente do homem, na natureza, no universo, não existe idealidade
pura sem substância, nem esta se organiza em coisa alguma, sem
aquela. Aristóteles tinha razão quando disse que a forma é tão
necessária à matéria, quanto esta àquela. Contudo esteve errado ao
afirmar que Deus é actus purus, pura essência, serrm matéria alguma.
Deus não pode ser pura idealidade, vazia de conteúdo, de substância,
de consistência, sem objetividade, sem existência.
A isto mesmo chega Politzer, só que esta verdade não interessa à
sua filosofia, uma vez que ela, conforme sua definição, não é a
procura da verdade, mas a defesa dos interesses de classe. Escreve
ele:
"Vê-se que Thiers se interessa pela filosofia. Por quê? Porque
a filosofia tem caráter de classe. É certo que, em geral, os filósofos não
175

duvidam disso. Em toda concepção do mundo há um sentido


prático: favorece determinadas classes e desserve outras. Veremos
que o marxismo é, também, uma filosofia de classe" Mais:
"Por isso mesmo é que o dever dos operários e dos trabalhadores
em geral deve ser: opor à filosofia que serve aos exploradores, uma
filosofia capaz de ajudar na luta contra esses mesmos exploradores.
Ainda isto:
"Não está, pois, bem claro que, se a filosofia é uma concepção do
mundo, concepção que tem conseqüências práticas, é preciso que os
trabalhadores que querem modificar o mundo tenham dele uma justa
concepção?"
Eis, pois, que Georges Politzer, expressando o pensamento
marxista, define a filosofia como sendo: "concepção geral do
mundo da qual se pode deduzir certa forma de conduta". Esta
definição está certa. Porém, em vez de desenvolver este enunciado que
daria na conclusão de que cada filosofia é uma concepção geral do
mundo, um ponto de vista, uma perspectiva do mundo (Ortega), em
vez disto, envereda-se para o lado das lutas de classes, donde a
conclusão: as filosofias são justificações dos interesses de classes.
Então, que é a filosofia? é a concepção geral do mundo ou é a
justificação dos interesses de classes? Se for tomada esta última
definição para a filosofia, ela não busca a verdade, e sim, racionalizar o
interesse. Logo, não amo a verdade, doa a quem doer: o que amo
são os meus interesses, as minhas vantagens pessoais decorrentes
dos interesses da minha classe. Se sou um burguês, tenho uma
concepção do mundo; se sou proletário, imagino outra, sempre tendo
por base o meu interesse. Parodiando o sofista grego, poderíamos
dizer: o interesse é a medida de todas as coisas, havendo tantas
verdades quantas são os interesses. Acaso é isto filosofia?
176

Assim, "é preciso que os trabalhadores que querem modificar o


mundo tenham dele uma justa concepção", só que a justa
concepção não é a que é, doa a quem doer, mas a que condiga com os
seus interesses. A visão do mundo que corresponda aos interesses
dos proletários, essa é a justa concepção; o que lhes interessa é justo;
tudo aquilo que se opõe aos seus interesses, injusto. A justiça é o
interesse do mais forte. Bela definição de justiça já pensada por
Trasímaco, por Machiavel, por Nietzsche! A verdade não interessa, que
outro é o objetivo. Diz Politzer:
"Para o materialismo dialético, a forma não pode existir sem o
conteúdo determinado, e, reciprocamente, o conteúdo não pode existir
sem a forma, sem uma forma determinada". Esta verdade tem como
conseqüência a igualdade de valor entre forma e conteúdo, porque
ambos pertencem ao mesmo nível hierárquico, conquanto opostos e
complementares, para formar a unidade da coisa. Porém, em vez de
este caminho conseqüente, o corcel redomão tasca o freio, remetendo-
se pela viela do interesse”; diz, então:
"Dizer que o conteúdo não pode existir sem a forma não
significa, absolutamente, que ele é determinado por ela. Ao contrário,
é ele que a determina. Isso significa que a forma não é preexistente,
imutável, mas variável, e que muda em conseqüência das mudanças
que ocorrem no conteúdo. É o conteúdo que muda primeiro, pela
modificação das condições do meio circundante; a forma muda em
seguida, de acordo com a mudança do conteúdo, de acordo com o
desenvolvimento das condições internas do conteúdo. Segue-se disso
que, longe de preexistir ao desenvolvimento, a forma o reflete, com
certo retardamento: a forma se retarda, em relação ao conteúdo".
E para provar sua assertiva, Politzer escreve que "os biólogos
demonstraram experimentalmente a ligação existente entre a forma e
o conteúdo. Se uma pequena parte da matéria de um ovo em
desenvolvimento for transportada para outra parte do ovo, ver-se-á,
por exemplo, desenvolver-se uma pata onde, normalmente, não
deveria estar: ter-se-á criado, artificialmente, um monstro. Ora, no
momento da operação, as diversas partes da matéria do ovo não se
distinguem umas das outras a não ser por suas propriedades
químicas, pela natureza das substâncias que ali se encontram (...) É,
pois, a natureza bioquímica das substâncias dos ovos das diversas
espécies que determina, em última análise, a forma do corpo do
animal: é o desenvolvimento do conteúdo que precede o
desenvolvimento da forma". E transcreve isto de Stalin: "...no
decorrer do desenvolvimento, o conteúdo precede a forma, a forma
se retarda em relação ao conteúdo... O conteúdo, sem a forma, é
impossível; etc.".
177

Pregada esta doutrina a um operário vazio, jejuno, ínscio de


filosofia, ou a um estudante de qualquer curso, ainda imaturo e
disponível, tudo lhe parece perfeitamente científico, e por isto
aceitável. Basta, porém, por a vista sobre o dito, e já se vê onde se
oculta o sofisma e a incoerência. Se a forma é inseparável de seu
conteúdo; se não há conteúdo sem forma desde os elétrons,
prótons, átomos, moléculas, gens, células, como é que se vai mexer no
puro conteúdo, sem atuar em toda a hierarquia da massa que, longe
de ser conteúdo puro, é já forma-conteúdo? Quando um biologista
destaca e transfere a parte de matéria que deveria formar uma pata
num embrião, para outro local, aqui nasce uma pata, ficando ela em
falta no local certo. Que isto prova? senão, que a forma-pata já estava
predeterminada, fosse ela para onde fosse?
Retirada um pouco antes essa mesma porção de matéria que
iria transformar-se numa pata, e transferida para o dorso, por
exemplo, do embrião, não nasce aí pata nenhuma, e sim,
transforma-se em epiderme. Spemann o demonstrou em tritões.
"O grupo de células que formariam um olho, se deixadas em seu
lugar, transformam-se em epiderme ordinária quando enxertadas no
flanco de outro embrião".
Um pouco depois desta fase, o embrião inteiro se torna num
mosaico bioquímico, e, então, cada área ou setor tem já sua
destinação pré-fixada... pelo eixo longitudinal do embrião. Primeiro
se define o eixo longitudinal do corpo; depois, o eixo longitudinal de
cada membro. Aquele mosaico bioquímico tem suas partes todas
definidas pelo eixo que dá unidade ao todo, e retirar a porção de
matéria que iria produzir um membro, é o mesmo que amputar esse
membro ao animal já formado. No entanto, os gens que irão dar forma
a esse membro, cumprindo a ordem irreversível do comando geral,
criarão o membro onde quer que esta porção de matéria do mosáico
vá parar. É assim que, se retirarmos, neste ponto do desenvolvimento
do embrião; um setor destes, ele não será substituído no local,
ficando em falta aquilo que tal setor formaria; se a área retirada
daria um olho, vá ela para onde for, aí formará um olho, seja no
flanco do tritão, seja nos seus órgãos internos. À área que daria uma
pata posterior, antes de formar-se o seu mosáico particular,
funciona como se fora um "embrião de perna", e, como tal, se for
cortado ao meio, dará duas patas posteriores idênticas, isto é, do
mesmo lado.
Esta perna em embrião, também, por sua vez, após formado seu
eixo longitudinal, se fraciona no mosáico das partes menores, em que
pode, em cada fase, ser retirada a porção de uma peça particular,
um dedo, por exemplo. Igualmente, a porção de matéria do dedo, se
178

for retirada antes de o mosáico formar-se e transplantada, torna-se no


que for próprio dessa área para onde foi levada - epiderme, por
exemplo; todavia, tanto que o mosáico particular da pata se formou,
tanto que a área se diferenciou, a porção de matéria destinada a
formar o dedo, dará um dedo, onde quer que seja transplantada. Eis,
pois, que o grupo de gens das células responsáveis pela formação da
pata, já tinham, então, desencadeado o processo generativo,
segundo uma meta prevista, pelo que a forma da pata já estava
determinada, antes da sua formação. A forma exterior da pata, como
tudo, aparece simultaneamente como forma e conteúdo, sem falta
de coincidência, sem que haja retardamento da forma em relação ao
conteúdo. Forma exterior da pata, dissemos, porque esta resulta das
formas-conteúdos internos, ou forma interna. As células operárias do
sangue vão carregando o material com que as células dos tecidos
construirão o que têm de construir, em obediência ao comando dos
gens que agem como moldes ou modelos. E os tecidos se
diversificam, quando uns gens tomam a dianteira no comando. O
organismo é a execução duma sinfonia morfológica em que, ora uns,
ora outros grupos instrumentais são solicitados a tocar, sob o comando
do regente que, como é um, dá unidade ao todo. Esse regente é
constituído pelo grupo de gens que comanda, do princípio ao fim, a
formação de um indivíduo da espécie. As variações que tornam o
indivíduo único, aconteceram, então, no momento da divisão redução
que deu, como resultado, aquele óvulo e aquele espermatozóide os
quais, em se juntando, determinaram a formação do zigoto.
Não há dois gametas iguais, porque o crossing-over acontecido
seja para se formarem os óvulos, seja para os espermatozóides, os
torna a ambos diferentes quanto à forma interna; exteriormente são
iguais; contudo, internamente, diferentes. O baralhamento de gens entre
os cromossomos (crossing-over), por ocasião da meiose, produz
combinações tantas, que ainda está por calcular-se o número de
possibilidades de formações de indivíduos diferentes. É nesta base que
têm princípio os complexos formas-conteúdos internos que culminam
na edificação de todo o organismo.
Como os átomos são univérsicos, são cósmicos, possuem ordem,
obedecem leis, isto é, possuem forma, por causa disto, ao se assciarem
nas moléculas, não o fazem a esmo, disto resultando que as moléculas
também são cósmicas, e não, caóticas. Ora, os gens são unidades
específicas feitas de moléculas gigantes, que agem como modelos; o
crescimento posterior é um arranjo segundo os dentes e entalhes do
modelo. "E se uma molécula de proteína contém, em média, uns mil
átomos mais ou menos, o gene deve conter cerca de cem mil átomos".
Ora bem: cada átomo é um cosmo, e mil deles, integrados na
179

constelação de corpos químicos da sigla CHONS (Carbono, Hidrogênio,


Oxigênio, Nitrogênio e Sulfur = “Enxofre”), formam uma molécula de
proteína que é outro universo; e são precisos cem universos destes
para formar uma galáxia chamada gene. E o plasma germinativo de
uma moscazinha muito miúda, pouco maior que o "mosquito pólvora",
muito encontrável nos frutos passados de maduro (Drosophila), possui,
provavelmente, seis mil gens. E a forma externa, visível, depende do
arranjo de toda esta hierarquia universal de formas internas.
Se um assentador de tacos do piso de uma sala decidir-se que vai
assentá-los em escama, colocados os primeiros, o resto segue,
necessariamente, pelo ajustamento a esses primeiros; tal os gens, no
comando da formação dos tecidos. Um organismo rejeita um coração
transplantado, porque este possui outra estrutura genética, outra forma
interna que não se encaixa na do organismo recebedor. Os corações
humanos, embora iguais por dentro e por fora, e ainda quanto aos
tecidos, veias e artérias, possuem células dissemelhantes, organizadas
de acordo com esquemas genéticos diferentes, a que damos o nome
de forma interna. Tudo o que não corresponder à estrutura genética, à
forma interna, é corpo estranho que precisa ser eliminado ou isolado,
envolvido por uma capa-prisão. Este envoltório isolante se espessa e
acaba por sufocar o órgão transplantado, e nisto se cifra a rejeição.
Quanto mais complexo for o ente biológico, tanto mais pronta e violenta
será a rejeição. Uma planta aceita enxertos (transplantes) até de
espécies diferentes; no homem, o organismo só aceitará o que for
próprio do organismo. Não se pode, pois, falar de forma-conteúdo
exterior, senão em função dos universos hierarquizados nos
conteúdos-formas interiores.
Quando Politzer e Stalin afirmam que "é o conteúdo que muda
primeiro", o operário labrego e ingênuo, fica a pensar que a massa de
uma crisálida ou ovo, por exemplo, é uma pasta mole, amorfa,
caótica, sem lei, sem forma interna. Todavia, para não incorrer na
condenação dos que entendem, e, ao mesmo tempo, jogando areia nos
olhos do operário, Politzer explica por confusos termos: "no momento da
operação, as diversas partes da matéria do ovo não se distinguem
umas das outras a não ser por suas propriedades químicas, pela
natureza das substâncias que ali se encontram (...) É, pois, a
natureza bioquímica das substâncias dos ovos das diversas espécies
que determina, em última análise, a forma do corpo do animal (...)
Embora escuro e confuso, isto está certo, porque a tal de "natureza
bioquímica das substâncias" é o mesmo que conteúdos formas
interiores de cujo arranjo depende a forma exterior. Pois claro: se
todas as organizações se fazem do pequeno para o grande, do
simples para o complexo, este é o último a aparecer; mas aquilo que
180

o sofista Politzer chama de conteúdo não é caos substancial, sem


forma alguma, como deixa entrever. Uma casa se constrói de tijolos, e
a forma da casa vai depender de como tais tijolos são arranjados;
nunca, ninguém, porém, iria dizer que os tijolos são barro amorfo.
Fora isto, o edifício, ainda, não se levantaria sem uma planta
preestabelecida, sem a qual não se saberia como dispor os tijolos.
E os tijolos, antes de formados e cozidos, eram barro mole, untoso,
amorfo; mas este barro informe é argila e areia; e a argila é silicato
de alumínio hidratado, e a areia é óxido de silício, pelo que
nenhuma nem outra é caos. Após formados e cozidos ao fogo, os
tijolos são assentados com argamassa em que entram cal, areia e
água. Pois a cal não é caos, e sim, óxido de cálcio (cal virgem)
que, posto em contato com a água, se torna "cal apagada", cal
hidratada, ou hidróxido de cálcio, isto é, cessa de ser causticante, e
principia a fixar o gás carbônico do ar, indo pouco a pouco se tornando
carbonato de cálcio. Se supusermos que a organização primeira é a
das partículas subatômicas, a segunda será a dos átomos, a terceira, a
das moléculas, a quarta, a dos tijolos e a da argamassa, a quinta, a
da casa pronta. Nada de caos! porque com e sobre ele nenhuma coisa
se constrói. Cada organização se apóia sobre a antecedente, em
hierarquia, do pequeno ao grande, de simples ao complexo, do
elétron ao universo.
Parodiando a confusa fala de Politzer, poder-se-ia explicar ao
operário que "é a natureza mecano-química dos materiais que
determina, em última análise, a forma do edifício"? Quer dizer: basta a
natureza dos materiais, sem um agente organizador e sem uma planta
da organização? Basta o barro para que os tijolos se façam a si
mesmos, se cozam nos fornos? Basta, depois, a simples reunião dos
tijolos cozidos, da areia, da cal, do ferro e do cimento, e tudo, por
magia da matéria, por natureza destas substâncias, se vai arrumando
por si mesmo, até que, de repente, que maravilha!, a casa se vê
acabada, pintada e limpa, pronta para ser habitada?
Como os sofistas Politzer e Stalin, um e outro fala a operários
rombudos de entendimento científico e filosófico, então,
matreiramente, fá-los crer que a forma é só a externa, a que
enxergam com os olhos da cara, e, então, apontam com o dedo a
massa informe de uma crisálida, e dizem: olhem aí; essa massa
amorfa vai virar uma linda borboleta. Primeiro está a massa, o
conteúdo, a substância, e só no fim, com retardamento, é que a forma
da borboleta surge, graças às modificações desse conteúdo sem
nenhuma forma, sem nenhuma essência, o que vale dizer, desse
puro caos. Logo, a forma nasce do conteúdo, a essência, da
substância, a alma, da matéria.
181

Este é o sofisma. Vejamos, agora, a incoerência: assentado que


"a forma não pode existir sem o conteúdo determinado, e,
reciprocamente, o conteúdo não pode existir sem a forma, sem uma
forma determinada", a conseqüência lógica, natural, espontânea é a
de que forma e conteúdo constituem um par de opostos, iguais
em importância, que se unijugam na estrutura da coisa, sem
primazia para qualquer das partes. Em vez da opção por esta síntese,
Politzer e Stalin fazem a ênfase recair sobre o conteúdo, como
reação aos idealistas antigos e modernos que a fazem recair sobre a
forma. Então, afirmam que a forma se retarda em relação a seu
conteúdo. Ora bem: se a forma se retarda, então, o conteúdo vai
sozinho adiante, e a forma, atrás. Neste caso, como se guia o
conteúdo, quanto ao que há de formar? Entende-se, facilmente, que
ambos seguem conjugados, ou seja, um inextricavelmente jungido ao
outro, na realidade objetiva; mas defasados? um na frente e outro
atrás? O conteúdo caótico, na frente, sem princípio, sem lei, sem
ordem? e a forma, um pouco atrás, apropriando-se do conteúdo já
organizado antes da organização (!), já formado antes da forma?!
Ora sus! quem não percebe, sem nenhum esforço, de um lanço
de olhos, de um estalo, que não pode haver defasamento entre forma e
conteúdo, porque o retardamento do conteúdo faz ficar vazia a
forma que vai na frente; e, se o conteúdo for sozinho adiante, e a forma,
atrás, ele, na frente, é desorganização, acomismo acaso e caos? A
forma vazia existe, sim, mas só em nossa cabeça, como abstração,
como pura idealidade subjetiva. De modo objetivo, concretamente, em
realidade, in natura, a forma nunca é vazia de conteúdo, nem este
pode apresentar-se informal, ainda que por pouco tempo, que seria
quando rompe caminho na frente, deixando atrás a forma, conforme o
forçado arranjo de Politzer e de Stalin.
Mas, por que aquele sofisma e esta incoerência? Porque a
filosofia, segundo Politzer, é uma acomodação ideológica que tem em
vista justificar o interesse de classe. Na conciliação está a verdade,
porém, a verdade só o é, quando corresponde ao interesse de classe.
Ora, a verdade da síntese não interessa ao comunismo, porque não
dá privilégio ao conteúdo, fazendo-o primaz sobre a forma. A filosofia,
então, não é o amor à verdade, mas campo de luta dos interesses
de classe, e o comunismo precisa vencer aqui, primeiro, se quiser
vencer nos outros níveis. Com idéias se combatem idéias, sendo neste
domínio que o idealismo precisa ser desbaratado. Ciente disto, Politzer
escreve: "É, pois, pela luta contra o idealismo e não pela "conciliação",
pela "síntese", que a contradição pode ser resolvida, como já vimos,
ao estudarmos a dialética".
Que isto quer dizer? Pois afirma, não menos, que ao ciclo do
182

idealismo que vingou até agora, como tese, é preciso opôr a antítese
do materialismo, não só no plano ideológico, como, ainda, no prático
das revoluções pelas armas. Se os operários optarem, já, pela síntese
que concilia as duas meias verdades na unidade, não sairão às ruas
para lutar, e, antes, ficarão de ânimos serenados. Ora, é preciso que
a antítese do materialismo esgote todo o seu impulso, para só depois
ser possível a síntese. A conciliação que virá, a síntese, já
vislumbrada, pertence ao futuro, não ao presente que deve ocupar-se
de vencer o idealismo. Tal o pede a dialética no seu processo de
tese, de antítese e de síntese. A conciliação, a síntese, traria paz nas
consciências e no mundo... o que não pode acontecer, porque a
história, cegamente como sempre o foi, terá de avançar;
necessariamente, o planeta terá de ensanguentar-se, antes que se
possa chegar à síntese, já, prevista, de antemão, como o único caminho
do porvir. Como a história desenvolveu-se, até aqui, por tese, antítese e
síntese, que é o mesmo que ensaio-e-erro, querer fazer já a síntese,
seria quebrar a tradição histórica, transferindo a história para o plano
do pensamento, elaborando neste nível, no mental, in abstracto, o
ensaio-e-erro, poupando-nos, desta forma, trabalhos, revoluções,
sofrimentos, sangue e lágrimas.
Mas, não! Embora estejamos enxergando esta evidência na
ponta do nariz, cumpre-nos fechar os olhos, tapar os ouvidos, e fazer a
revolução sangrenta, deixando a síntese, a conciliação dos opostos,
para mais tarde, talvez, quando já não haja mais a humanidade. É
isso que disse Politzer ao escrever que é pela luta contra o
idealismo, e não, pela conciliação, pela síntese, que a contradição se
resolve.
Supõe-se que o primitivo aprendeu a cozer a argila, quando, um
dia, sua choça pegou fogo, tornando rubros seus utensílios de barro cru.
Daí por diante, então, faziam-se palhoças para serem queimadas, com
as feituras de barro cru dentro. E o gênio que demonstrou ser o calor que
cozia o barro, provavelmente, foi morto a mando dos sacerdotes-
feiticeiros que explicavam o fenômeno por uma versão teológica: o
deus fogo retribuía a oferenda da casa que devorava, ruborizando e
endurecendo os utensílios que, dora em diante, não mais se derretiam
quando postos nágua. Assim nós: embora saibamos que na síntese
estará salvaguardada a paz, havemos que fazer guerras, precisamos
promover discórdias, revoluções, derramamento de sangue, de muito
sangue, para que se cumpra o previsto por Hegel, e é de que a história,
necessariamente, tem de fazer-se por ensaio-e-erro, isto é, por tese,
antítese e síntese. Que? fazer a síntese, a conciliação, sem que ainda
tenha o mundo vivido, sofrido e morrido pela antítese? Acaso não é
isto quebrar a tradição da história? Mudar a tradição? sacrilégio
183

contra Hegel! sacrilégio... é pretender cozer o barro diretamente ao


fogo, sem a oferenda da casa ao fulvo deus, ardente, iroso! Assim
como ao deus, o homem primitivo sacrificava a casa, para obter a
cerâmica, o homem moderno, "civilizado", para não trair a tradição
histórica, fará não menos que o sacrifício da humanidade; só por este
modo poderá conseguir a síntese, a conciliação, dos opostos
idealismo e materialismo, conteúdo e forma.
Usando sempre seus dois pesos e duas medidas, escreve Politzer:
"A ciência materialista parte da idéia de que não é possível, em
condições dadas, que o fenômeno previsto não se produza, porque a
natureza não é infiel a si mesma, ela é una".
A ciência materialista parte da idéia? Cuidáramos que ela
partia da matéria, não da idéia, porque a matéria, como conteúdo
que é, vem antes da idéia que é forma. Se o conteúdo vem antes da
forma, e a matéria, antes da idéia, para ser coerente, havia-se de
partir da matéria, que não da idéia. Partir de idéias é próprio dos
idealistas. E como a idéia referida, da qual se parte, não pode ser
demonstrada, por isto, é ela uma intuição a priori, outra vez, técnica
do idealismo.
Mas, de que idéia se parte?Parte-se da que não é possível que
o fenômeno previsto não se produza. Quer dizer: antes de o
fenômeno acontecer, está a previsão dele no princípio, na lei, na
forma do fenômeno? Já, agora, a forma vem antes, e o fenômeno,
depois? Sim, poder-se-ia objetar: porque essa forma que vem antes,
não é aquela que atua lá nas entranhas do fenômeno, mas a que
abstraímos dele, e agora está, aqui, na nossa inteligência. Lá fora, no
fenômeno, o acontecimento e sua lei andam parelhos, porque forma e
conteúdo não se separam. Todavia, desde Kant, os fenômenos
científico-matemáticos foram havidos como indutivos a priori;
indutivas, porque partem da experiência; e a priori, porque, uma vez
descoberto seu princípio, sua lei, sua fórmula, esta se aplica, a
priori, para uma multidão de outros fenômenos da mesma espécie,
só que de outras áreas. Assim, esta primeira idéia de que parte o
materialismo não padece dúvida, e pode ser demonstrada nas
ciências exatas. Agora, o engano:
Porque funcionou bem tal princípio kantiano do indutivo a priori
para as ciências exatas, pretendeu-se que funcionaria também para
as ciências não-exatas, para as ciências humanas. Esta extrapolação
produziu o erro de supor-se que a história é racional (Hegel), o que
não é. Nas ciências humanas, não se pode afirmar que o fenômeno
previsto... irá acontecer segundo a previsão. Provou Toynbee, ao
estudar mais de vinte civilizações, que uma mesma condição dada,
que ele chama de repto, provoca respostas diferentes, em diferentes
184

sociedades. Daí que, em se tratando do homem, não se sabe nunca


como irá reagir a determinado repto, seja ele considerado como
indivíduo, seja como coletividade. Se, para a natureza ser fiel a si
mesma, precisa o homem tornar-se como um autômato, ou como um
corpo químico, ou como um corpo em movimento, então temos isto:
porque o homem é livre, porque suas ações e reações são
imprevisíveis, a natureza deixa, nele, de ser fiel a si mesma. Onde há
liberdade cessa o determinismo. O homem é livre para lançar as
pulsões que o prendem e o limitam depois; livre para criar as leis às
quais se submete... livremente; em que se baseiam as leis que cria
para si, isso é outro assunto.
E se a razão de Politzer, para que os fenômenos se repitam
sempre, sob as mesmas condições, é a de a natureza ser una, então,
no homem, ela cessa de o ser, visto como, aqui, os fenômenos só
são previsíveis como probabilidades. O profeta fatalista terá que ceder
o seu lugar ao futurizador probabilísta. As profecias só são boas,
quando têm a intenção de predizer as más coisas para previní-las a
fim de que não aconteçam; predizer para alertar, para acautelar; ou
então, para excitar os ânimos de modo a forçar a que as coisas
boas se realizem.
A idéia de que se parte para supor-se que os fenômenos são
constantes, sob as mesmas causas e condições, é de que a natureza
é una. E se o não for? Como há Politzer de provar esta suposição,
esta idéia a priori, método este, próprio do idealismo, se afirmou
exatamente o contrário..., quando disse que "é pela luta contra o
idealismo, não pela "conciliação", pela "síntese", que a contradição
pode ser resolvida"? Se não houver conciliação possível entre as
potências rivais, eternamente em luta; se a natureza se mostra, deste
modo e para sempre dividida, como é una?
Então, é pela luta "que a contradição pode ser resolvida?” E
onde, alguma prova de que algum antagonismo, ou contradição se
resolveu com luta? Acaso a eliminação do par oponente é resolução?
E isto não é o máximo que pode acontecer entre duas facções rivais,
irreconciliáveis, em luta de morte? Logo, não é pela luta, mas pela
integração dos opostos na unidade superior, que as contradições se
resolvem; os dois contrários e complementares integram-se,
conciliam-se na unidade hierarquicamente superior. Daí que próton e
elétrons dão átomos; átomos e átomos, moléculas; e assim por
diante, pelo que o universo, já o viu Platão, está cheio de eros, de
integração, de amor, em lugar de lutas, de rivalidades
irreconciliáveis, ódios mortais, como o enxerga o olho mau do
comunismo. Por esta razão, pois, e não pela de Politzer, a natureza
é una; só no amor poderá haver a conciliação de opostos, não na luta
185

perene, não no ódio constante, não no egoísmo ignorante que tudo


divide, tudo desintegra até o mais arrematado caos.
"Lachelier (escreve Gusdorf), um dos mais eméritos
propugnadores do racionalismo moderno, após ter lido, um dia, um
estudo de pré-história, do qual resultava que a família originária não
havia sido regida pelas regras kantianas do imperativo moral,
escrevia a seu colega Boutroux: "Tudo isto causa espanto, mas
mesmo que tivesse acontecido, mais do que nunca importaria dizer
que tal nunca aconteceu, que a história é uma ilusão, e o passado
uma projeção, e que de verdadeiro só existe o ideal e o absoluto;
talvez seja essa a solução da questão do milagre. A lenda é que é
verdadeira, e a história é falsa".
Tanto Lachelier como Politzer fecham os olhos para a verdade:
Lachelier, para ser fiel ao imperativo moral de Kant, queria reduzir à
lenda as descobertas antropológicas pelas quais se comprovava ser
promíscua a família primitiva. Politzer, por sua vez, sabendo que o
materialismo e o idealismo haviam de conciliar-se na síntese, tasca o
freio, e envereda para o lado da luta de classes, como se a vitória
pelas armas do materialismo faccionário resolvesse a contradição que
continuaria existindo, em idéia, sempre pronto a minar o comunismo
pela base. O idealismo kantiano, em Lachelier, não dispondo de
recursos para justificar o fato de ser promíscua a família primitiva, por
isso o negava; o materialismo de Politzer, para sobreviver, tem de
matar seu adversário, o idealismo, só que depois terá de levar o
morto as costas, porque, como já declarou o próprio Stalin, "o conteúdo
sem forma é impossível", o que implica dizer que conteúdo e forma
ou matéria e idéia se interdependem, e um é nada sem o outro.
186

X - O UNIDUALISMO

O dado natural, por sua natureza inesgotável, é sempre retomado


pelos pensadores que têm a função de tornar novas todas as coisas.
Todavia, uma idéia nova, só tem aceitação e consegue impôr-se, quando
os tempos se acham amadurecidos para ela. A teoria da evolução
apareceu já na Grécia, com Anaxímenes, e foi refutada por Aristóteles
que, no entanto, anotara que as aves são aparentadas com os
répteis; o avião de Leonardo da Vinci voaria se tivesse motor; a
América foi descoberta e redescoberta várias vezes antes de Colombo,
mas faltava a bússola aperfeiçoada para tornar regular e segura a
navegação marítima, e não, aventurosas viagens como fora até
então; Arquimedes, não se sabe como, calculou a massa total do
universo, e seus resultados coincidem com os dos físicos e
matemáticos modernos. Grandes homens sempre os teve o mundo; o
que lhes faltou, foi a cooperação do tempo.
O primeiro dado natural foi a matéria, a substância, e aqui se
detiveram a lucubrar todos os filósofos até Heráclito que, por fim, acabou
concluindo que tudo é movimento e transformação, e que a humana
inteligência é impotente para alcançar o fundamento das coisas. O
fundamento que se buscava, então, era uma substância primordial, a
força motriz de tanto movimento, a causa primária de que tudo nasceu.
Esse, o cerrado enigma que deu motivo ao infindável palavrório. A
colocação deste problema foi o repto inicial do pensamento filosófico que
ricocheteou, indo-se para a posição oposta em que se manteve até hoje.
Perguntava-se pela existência do que fosse primordial: quem existe?, e
a resposta de Parmênides foi para a pergunta da essência não
formulada: quem é? Desde então, se deu a ruptura entre existência e
essência, entre forma e conteúdo, entre espírito e matéria. Os
homens se dividiram em duas facções contrárias, a dos espiritualistas
e a dos materialistas, sem que, até o presente, fosse possível encontrar-
se a chave que possibilitasse a síntese conciliatória destes contrários
na unidade.
A um jovem que nos interrogou sobre como fazer para derrotar o
materialismo, respondemos que o materialismo é invencível, por que a
matéria é um dado do real que precisa ser incorporado pela verdade
maior que o integre na unidade. Não se trata de vencer o materialismo
que volta sempre a insistir com sua verdade, até que ela seja absorvida
no sistema. Como a existência se opõe polarmente à essência, o
espírita à matéria, a luta de ambos permanecerá até que aconteça a
integração. E a quem nos disser ser isto impossível, porque matéria e
espírito se excluem, mutuamente, respondemos que é próprio da
187

natureza que as unidades opostas se excluam por contradição extrema,


que é isto o princípio de polaridade. Elétrons e prótons se excluem por
oposição polar; contudo, quando integrados, formam os átomos. Estes,
de polaridades contrárias, outra vez se excluem até que se formem as
moléculas.
O erro começou quando se supôs serem iguais as coisas
diferentes como materialidade e inversão. O fato de ser a natureza
egoísta e amoral, foi tido como conseqüência da materialidade do
mundo; não se pensou, então, que esse mundo está invertido, e que
não será pelo fato de desvirar-se ele desse avesso, que deixará de ser
material. Platão foi havido por um filósofo só de essência; no entanto,
quem tiver olhos para ler nas entrelinhas, verificará que seu topos
uranos está cheio de movimento e de substância, de energia e de
transformação.
Desde que Einstein, no seu "Campo Unificado", reduziu todas as
matérias e todas as energias do universo a um denominador comum
que é a energia-substância, desde então, tudo o que existe é
energia-substância. Das energias, evolutivamente inferiores, surgiu a
vida que não existia antes; da vida despontou a irritabilidade, as
sensações, os sentimentos sobre os quais se sublima o amor,
também substancial, tal como as energias de baixo, de que proveio
a vida. A Aristóteles repugnava que Deus fosse material; a ninguém
repugna, no entanto, que ele seja amor. Ora, o amor, dado que não é
essência, é substância, é energia-substância.
Deus, pois, não é Essência pura, senão, também, Substância...,
e esta é aquela primordial que todos os filósofos pré-heracliteanos
procuravam. Desta Substância-Luz-Amor, Deus criou os filhos e seus
mundos; e porque a substância é livre e polarizável, houve a inversão e
queda de parte do universo angelical. Porque polarizável, porque
livre, o amor pôde mudar-se no seu contrário, no egoísmo desintegrador.
De transformação em transformação, o amor primeiro produziu o
arquidilúvio de energias cujas ondas, ao invés de se abrirem para
fora, como as nossas ondas conhecidas, concentram-se, para dentro, à
semelhança dos raios laser, e foram criar a matéria densa, no centro
do universo.
Quando o homem, após transcorrido haver bilhões de anos, se viu
formado sobre a Terra, mostrou-se invertido, egoísta e mau, pejado
de grosseira animalidade. A pergunta do jovem a quem nos
referimos, não devia ser: como vencer o materialismo, e sim: como
integrá-lo na unidade maior, na síntese. Porque o problema não
consiste em vencer o materialismo, e sim, em derrotar a animalidade,
que é o mesmo que desinvertê-la, desvirá-la do seu avesso.
Derrotada a animalidade, passa esta a atuar de modo oposto,
188

cessando de ser negação e egoísmo, para tornar-se afirmação e


amor. Onde é que pensam os espiritualistas que têm sede os bons
hábitos e as virtudes? Acaso em teorias ocas, sem vivências? em
idealidades vazias de vida? Eles são vivências efetivas, e são tão
persistentes quanto os maus hábitos e os vícios. Virtude e vício são da
mesma natureza, porém, opostos, e uma e outro tem sede no
corporal, no substancial. Desinverter-se de dragão egoísta e mau em
santo e amoroso, isso é o que nos cumpre fazer, e aí, ver-se-á que o
corpo não mais é inimigo do espírito, mas amigo fiel. Por isso é que São
Francisco não via inimizade entre o espírito e o corpo, e chamava a este
de irmão corpo. Um homem de um natural bom, tem tanta dificuldade
em praticar um crime, quanto tem o malvado em fazer o bem. A
animalidade deste o leva a comprazer-se no crime, do mesmo modo
como se compraz o bom no bem. Não tem sentido chamar a virtude
excelsa do santo, o amor, de espiritualidade, esta, no sentido de alma,
de essência, porque o amor é físico, é substancial. A virtude é
espiritualidade, sim, se tomada esta no sentido de corpo celeste, corpo
espiritual, de que nos fala São Paulo (I Cor. 15, 40). O corpo
terrestre ou corpo animal, ou corpo em corrupção, é onde
semeamos aquilo que seremos em corpo celeste ou corpo
espiritual. Porém, o que não semeou a virtude, a desinversão, durante
sua vida terrena, após a morte física, continua invertido e vicioso no
mundo espiritual, e o corpo com que se vê vestido, se não é o
celeste, é o infernal. Daí que dissemos ter havido confusão entre
materialismo e animalidade os quais, de nenhum modo, são sinônimos.
A não ser assim, o homem estaria sempre em luta contra a
matéria, pela eternidade em fora, porque, na carne ou fora dela, terá
sempre um corpo de matéria. Um espírito desencarnado se vê num
corpo pelo qual se manifesta no seu mundo próprio. Sem a substância,
ele não existiria. Ainda que sem o corpo desta nossa carne corruptível,
se o espírito é egoísta, perverso e mau, estará possuído de animalidade
grosseira no seu corpo espectral. Ainda que vestido de um corpo carnal
putrecível, se o espírito é santificado e sábio, tal corpo mostrar-se-á
como aliado, e não, como inimigo.
Uma vez feita esta distinção entre materialismo e animalidade;
que a batalha tem que ser travada e vencida contra a animalidade, e
não, contra o materialismo ... do qual não se pode prescindir, porque
ele é a contra-parte do espírito, da alma, vale perguntar: qual, o mais
importante? o espírito ou a matéria?, a alma ou o corpo na unidade do
ser? Esta pergunta, responderemos com outras perguntas: qual é o
mais importante, na unidade do átomo: é o próton, ou são os elétrons?
No átomo de hidrogênio: é o próton, ou o elétron? Na molécula do sal-de-
cozinha: é o cloro, ou o sódio? Na célula: é o núcleo, ou o citoplasma?
189

No zigoto: é o espermatozóide, ou o óvulo? Na família: é o homem, ou a


mulher? Feitas estas perguntas, cujas respostas são óbvias, intuitivas,
axiomáticas, o leitor que se responda: na unidade do ser, qual tem
primazia, é a forma, ou o conteúdo? é a essência ou a substância? é o
espírito ou a matéria?
O oposto do materialismo é o essencialismo ou idealismo, porém,
nunca, o espiritualismo, visto como espírito não é idêntico a alma-
pura-sem-corpo; e ainda que se considere como valiosa a virtude, esta
é corporal, objetividade, sentimento, ação, atuação, substancialidade,
matéria. Dado que o espírito é uma unidade composta de alma
essencial e corporidade substancial, o espiritualismo já se mostra
como uma unidade dual, isto é, uma unidade em que já se acham
integrados alma e corpo. Quando o espiritualista admite a prevalência
do espírito sobre a matéria, para ele, o que vem a ser o espírito?
Acaso, uma abstração? pura idéia vazia de substância? A alma
essencial se opõe ao corpo substancial, mas, ambos, alma e corpo,
coexistem no mesmo nível hierárquico, inextricavelmente conjugados na
unidade do ser; logo, como é que o termo alma do binário pode ter
prevalência sobre o seu oposto e complementar? Ou então, pela
recíproca, como pode o corporal ter primazia sobre a alma? Ambos são
iguais em valor, em importância, porque pertencem ao mesmo nível
hierárquico, embora opostos e complementares. Não há, pois, sermos
materialistas ou idealistas, porque estas duas oposições se integram
numa unidade que iremos chamar de que? acaso de unidualismo? Eis,
já, sendo preciso cunhar uma palavra nova, para representar esta
nova idéia! Assim, podemos jogar com as palavras monodualismo,
monobinarismo, unidualismo e unibinarismo que são sinônimas, e,
ainda, com os adjetivos, também sinônimos, monodual, monobinário,
unidual e unibinário. Toda unidade é unidualista, visto como é
constituída por duas outras inextricavelmente unijugadas na realidade
do ser. Não, portanto, idealismo nem materialismo, mas unidualismo,
porque, sem nenhuma exceção, nem mesmo para Deus, tudo o que existe
é um universo, quer dizer, a unidade mais a sua contra-parte
pluralidade; todavia, o termo logo abaixo do um é o dois, antes de
este dois abrir-se, em leque, para a pluralidade.
As duas primeiras unidades das quais quaisquer outras resultam,
são a essência e a substância. Assim, o primeiro passo para a
universalidade que cada ente representa, está na dualidade. Portanto,
cada um é feito de um par de oponentes e complementares, e cada
unidade do par é feita de outro par, e assim por diante. Logo, cada
coisa é um universo, e todo universo, se olhado de sua unidade
abaixo, em hierarquia descendente, é uma progressão geométrica de
razão meio; assim: 1; 1/2; 1/4; 1/8; 1/16; 1/32; etc.
190

Conseqüentemente, o organograma de qualquer universo é um leque


no qual, desde o cabo unitário, cada haste se bifurca,
dicotomicamente, em duas menores. É o que Hegel notara, para
afirmar que cada unidade é uma síntese resultante da combinação,
entre si, da tese e da antítese.
Ao considerarmos que a síntese é uma resultante entre tese
antítese, pensemos na fusão de duas coisas numa; evitemos pensar
que cada parte se mantém independente, porque, em realidade, elas
se impregnam, se embebem, mutuamente, muito mais que num
imbricado. No átomo, não há primeiro os elétrons, e, depois, o núcleo
atômico: ambos se fundem em um no átomo; no homem, não temos,
de um lado, a alma e, de outro lado, o corpo; ambos se mostram
unijugados, sem defasamento, desde as células que se formam de
cadeias de moléculas orgânicas, e estas, de átomos. Tal qual o homem
como um todo, as células também possuem alma e corpo.
E assim como o corpo, como um todo, resultante de todos
menores mais que imbricados entre si, igualmente, a alma unitária do
homem resulta da integração de almas celulares. Deste modo, alma e
corpo, desde as células, acham-se enfasados, afinados entre si, sem
possibilidade de separação.
Recusava-se Plotino a ser retratado, para, como dizia, não
perpetuar uma sombra irreal. Como é que imaginava ele, então, um
ente do mundo espiritual? Acaso, como uma alma-essência-pura
sem substância, sem matéria alguma? Se, sim, a alma passaria a ser
um puro ente de razão, abstração pura, carente de existência no
mundo objetivo, porque só existe o que possui substância. Foi
pensando deste modo, que o materialismo negou a sobrevivência da
alma, pois claro: esta como essência que é, não pode existir senão num
corpo de matéria, seja neste mundo, seja no atro abismo, seja no
supremo empíreo. Tem razão, pois, quando afirma que não pode
haver pensamento sem cérebro, não que o pensamento seja
"secreção" do cérebro, e venha depois deste, mas, sim, que ambos
coexistem como unidades oponentes, donde vem que ambos,
pensamento e cérebro, formam o par do unidualismo da consciência.
Se, portanto, não pode haver pensamento sem cérebro, a recíproca
também é verdadeira, e não pode haver cérebro vivo sem
pensamento, porque é pensando que o cérebro se desenvolve; foi
o ato de pensar que provocou a criação das fibras associativas a se
irradiarem dos neurônios. As meninas-lobas achadas na Índia entre
lobos, permaneceram idiotas até suas mortes prematuras, porque
seus cérebros não se desenvolveram por não terem pensado no
tempo próprio do desenvolvimento. A falta de alimentos protêicos no
período de zero a cinco anos também produz a idiotia irrecuperável,
191

porque, embora queira o cérebro pensar, falta-lhe a matéria com que


formar as fibras associativas. Pensamento e cérebro são como órgão e
função, um não existindo independente do outro, pois o órgão que
não funciona, atrofia-se, tendendo a desaparecer. Sem o exercício do
pensar, não há cérebro digno deste nome, porém, sem o cérebro,
também não é possível o pensar.
Generalizando, podemos afirmar que sem função não há órgão e
vice-versa, porque o órgão, se nunca funcionou, não existe, a não ser
na forma vestigial, e no ponto em que cessa a sua função, ele se
atrofia.
Do exposto, ressalta esta conseqüência: os membros de cada
par, porque se acham no mesmo nível hierárquico, embora opostos,
são de igual valor, de igual importância. Como o idealismo
essencialista faz polar oposição ao materialismo substancialista,
ambos são de igual valor (porque se acham no mesmo nível
hierárquico), e se integram na unidade superior, na síntese, no
unidualismo.
O ponto forte do materialismo (a matéria) coincide com o fraco
do idealismo (a ausência de matéria) e vice-versa, do mesmo modo que
cada dente de uma roda se opõe ao entalhe da outra com a qual
se engrena. Se o espírito, após a morte corporal, vira essência pura,
então, de fato, cessa de existir, porque o existir é próprio da matéria, e,
por extensão, da substância. Logo, morreu, acabou. Eis a conseqüência
lógica, iniludível, da premissa idealista que dá como real só a essência.
O ponto fraco do materialismo é supor que a matéria pode existir sem
a essência, não lhe ocorrendo que, sem essência, a matéria é caos;
que a alma não pode ser um produto da matéria, visto como a
substância não pode ir na frente, organizando-se, sem o agente
organizador; formalizando-se, antes da forma. O conteúdo caótico
indo adiante, e a forma, atrás, defasados; a forma tomando posse do
conteúdo formado antes dela que aparece, com retardamento, isto é
um estapafurdio igual ao do idealista que teima seja possível existir a
essência vazia, quando é próprio da essência não existir, por ser
intemporal.
Um ente puro de razão só pode existir na nossa inteligência,
memória e imaginação: é tão contraditório dizer "essência existente"
quanto o é a expressão parelha "substância incorpórea" que Hobbes
declara ser uma tolice; cai sob a mesma condenação o "amor
intelectual" de Spinoza e D. Quixote, visto que o amor é energia-
substância, não essência. Se a alma desencarnada não possui
substância alguma, então, ela só existiria na memória dos que ainda
não morreram. Neste caso, Augusto Comte tem razão: os mortos
ilustres continuam vivos na memória dos vivos, onde imperam, onde
192

reinam; é deste jeito que, segundo esse pensador, "os mortos governam
os vivos".
Assim teria de ser, se o espírito desencarnado fosse pura
essência, idealidade pura, sem existência real, objetiva. Se fosse
possível desaparecer um dos termos oponentes da unidade, cessaria
o monobinarismo, e o ente, seja o que for, se tornaria nada. Sem
um corpo de substância, a alma espiritual é nada; sem uma essência
espiritual, o corpo, seja o de matéria densa, seja o perispírito de matéria
espectral, se transforma em caos. Órgão e função, pensamento e
cérebro, virtualidade e experiência, alma e corpo, interatuam-se,
reciprocamente, de sorte que o reforço ou o enfraquecimento de um,
implica num proporcional reforço ou enfraquecimento do outro. Isto é o
que, na dialética hegeliana se chama relação recíproca, e pode
enunciar-se deste modo:
"Esta relação recíproca significa que o contrário A age sobre o
contrário B, tanto quanto o contrário B age sobre o contrário A e que
B age sobre A na proporção em que A age sobre B".
Se B age sobre A na mesma proporção em que A age sobre B,
temos que um reforçamento de A, implica num recíproco reforço de
B; quando cresce um termo, prontamente, cresce o seu contrário,
por reação. Isto é o que foi dito, e está de acordo com o princípio de
física, segundo o qual, toda a ação suscita uma reação igual e
contrária. O unibinário da consciência é formado pelos recíprocos
oponentes pensamento e cérebro, seja para um homem do nosso
mundo, seja para um espírito desencarnado. 0 reforço do pensamento
obriga a formação de fibras associativas que exigem, a expansão da
caixa craniana. "Tanto o crânio de Goethe como o de Gladstone
cresceram mesmo depois dos 5O anos. No crânio de Kant na idade
de 82 anos as suturas ainda eram móveis enquanto num
microcéfalo elas se fundem já na adolescência" (Fritz Kahn).
E melhor cérebro, melhor aparelhamento das fibras associativas,
possibilita pensamentos mais altos, mais velozes e mais complexos,
até que, em chegando à intuição, os pensamentos se fazem
fugacíssimos como raios.
Em parelha com isto, o unibinário da moral é formado pelo par de
opostos virtude e experiência; e a virtude se enriquece da
experiência, e esta se reforça com aquela. Também, órgão e função
interatuam-se, mutuamente, de modo a manter em equilíbrio ótimo o
unibinário ou sistema de que eles são partes contrárias integrantes.
Politzer, no entanto, após ter posto, no livro, o enunciado hegeliano
da relação recíproca, tira conclusões contraditórias ao princípio.
Segundo ele, o social é constituído pelo par de oponentes operariado e
burguesia. Aplicado o enunciado, temos: todo o reforçamento da
193

burguesia corresponde a um recíproco reforçamento do proletariado, e


vice-versa. Para que o operário produza, é preciso que haja
motivação, e os dirigentes empresariais burgueses tratam de aplicar
as regras da motivação, não lhes passando nunca da memória que a
melhor motivação é o salário. Sem a paga, não se obtém o serviço,
e o salário-de-fome, cria subnutridos, desanimados, que não produzem.
Os filhos do operário, como este, submetidos ao regime de fome,
crescem raquíticos, fracos, vencidos, desanimados, incultos, tornando-se
sub-homens. De futuro, tais sub-homens irão constituir o operariado
que, agora, será improdutivo, ainda que receba o maior salário do
mundo. Eis, portanto, que, enfraquecido o proletariado, vem o
empobrecimento de todos, e a civilização encerra o seu ciclo. Os
faraós, para edificar pirâmides, fizeram emagrecer o povo até a morte;
e depois, também, morreram sobre os mortos, restando sós as ermas
pirâmides, tão solitárias e enigmáticas quanto a grande esfinge de
Gizé.
Enfraquecido o operariado, portanto, a produção cai, e os
dirigentes se empobrecem. Pela recíproca, operários bem pagos podem
ser melhor selecionados quanto à produção, e isto se traduz pelo
enriquecimento da empresa, e de seus dirigentes, e de seus donos.
Assim, um reforço dos operários quanto ao bem-estar, segurança e
garantias, implica num correspondente reforço da burguesia dirigente
que poderá ampliar a empresa até o seu limite máximo ou ótimo de
crescimento. Então, o unibinário da empresa pode ser considerado como
feito pelos termos opostos e complementares dirigentes e operáríos.
Por outras palavras, qualquer empresa econômica é um unibinário
formado pelos integrantes opostos capital e trabalho. E isto (de
quaisquer empresas serem organismos monobinários) se aplica a
toda sociedade, e ainda à civilização, visto como tudo são empresas.
Assim se explicaria a funcionalidade do princípio hegeliano da
relação recíproca, se aplicado à sociedade.
Os dirigentes egípcios, para fazer pirâmide, escorcharam o povo;
este enfraqueceu-se, parou de reproduzir-se, e o Egito caiu a nada...,
ficando em pé só as pirâmides, como atestado de que o
enfraquecimento e morte de um termo do unibinário, implica no
recíproco enfraquecimento e morte do outro. A torre de Babel parou
em meio, por faltar a motivação, sobretudo, a salarial; por causa
disto, os edificadores passaram a falar a língua dos próprios
interesses; e cada um falando o seu próprio, não se ocupava de
entender o que os outros clamavam. Cessada a unidade do unibinário,
ninguém mais entendia ninguém, porque cada um tinha o que gritar,
não, porém, o que ouvir.
No entanto, Politzer, empregando sua técnica de sofista, diz que
194

“todo reforçamento da burguesia é enfraquecimento do operariado"; e


que "todo reforçamento do proletariado é enfraquecimento de seu
contrário, a burguesia". Aquele princípio de Hegel tem validade
universal para toda unidade. Mas esta fala última de Politzer se infere
de uma sentença diferente que poderia chamar-se: relação
recíproca na fase inversa, isto é, relação recíproca na involução; ou,
relação recíproca que aconteceu quando da queda; ou, relação
recíproca entre egoístas ignorantes, e que atua, ainda, agora, nos
períodos de decadência, e pode enunciar-se assim: a curto prazo, o
reforçamento de A é inversamente proporcional ao de B, e vice-versa.
A longo prazo, esta atuação recíproca destruidora anula um dos
termos do monodualismo, e a unidade se desfaz. Tal, o que
acontece, quando o reforçamento de um termo, se faz à custa do
enfraquecimento do contrário. Pois claro: se um elemento do par
principia a comer o seu oposto, passando a "crescer" à custa desse,
tarde demais, verifica que a morte dele implica na sua própria morte.
É o que acontece na desintegração: cada elemento do par briga com
o seu contrário, e, ou ambos se separam, e a unidade se desfaz, ou
um engole o outro, e a unidade, igualmente, cessa de existir. De
nada adiantaria à cobra devorar sua própria cauda! Pois, o que não
faz nenhuma serpente, fá-lo as sucessivas minorias dominantes de
quaisquer sociedades em vias de desintegração. Estado e povo.
Cabeça e corpo. A cabeça come o corpo, e cresce, e incha, e
estoura, e é nada. Babilônia, Egito, Grécia, Roma, sempre foi assim,
e o será..., se o fenômeno histórico persistir.
Todavia, Politzer, partindo do enunciado de que todo o
reforçamento de A corresponde a um enfraquecimento de B, e vice-
versa, conclui: "Essa unidade dos contrários, essa ligação recíproca
dos contrários, assume um sentido particularmente importante
quando, em dado momento do processo, os contrários se convertem
um no outro".
"Exemplo: Em dado momento da luta dos contrários burguesia-
proletariado, cada um dos contrários se converte um no outro. A
burguesia, classe dominante, torna-se classe dominada; o
proletariado, classe dominada, torna-se classe dominante".
E então? a burguesia, como classe dominada, continua
existindo? Se sim, como é possível, se lhe foram destruídos os
fundamentos (capital, propriedade) que a faziam existir? Se não,
como existir sozinho o proletariado, sem o seu par burguesia ?... É certo
que não pode existir o proletariado sem sua unidade contrária, a
burguesia. E então, em que ficamos? Pois, em nada menos que nisto:
destruída a burguesia, parte do "proletariado"... e formava a minoria
dirigente do movimento revolucionário, sobe ao poder, e fica no lugar
195

outrora ocupado pela burguesia que foi liquidada. E o proletariado?


Pois este fica embaixo, como era antes, só que, agora, desamparado
até dos meios de protestar, cercados que se acham por uma cortina
de ferro, isolados do resto do mundo, vigiados uns pelos outros, e por
seus vizinhos que, em sigilo absoluto, de quando em quando, fazem
seus relatórios de setores aos poderosos. Quer dizer então? pois quer
dizer que tudo fica como dantes, donde vem que o comunismo é, como
diz Ortega, "uma falsa aurora de um dia já gasto", a mesma que já
raiou no Egito das pirâmides, na faustosa Babel que, ao cair, deixou
pelo meio a decantada torre.
Tudo acontece, porque a infalível lei de dialética sentencia que
toda unidade (neste caso, a do social) se compõe de duas metades
que se opõem e se completam: o par dos dirigentes poderosos, e o par
dos obedientes proletários, e ai destes! se se rebelarem, se não
cantarem loas aos do poder, se não lhe fizerem zumbaias, se não
se zumbrirem frente aos mandantes. Campos de concentração é que
não faltam nos países comunistas, que, se não são para prender
burguês que os não há, só podem ser para confinar operários...
Antes o uníbinário se compunha de burguesia-operariado; agora
fica assim: todos-,poderosos de um lado, e os sem-poder-nenhum
do outro. Todos-poderosos de chicote em punho, isto é, campos de
concentração, trabalhos forçados, paredões de fuzilamento, expurgos
periódicos, encorajamento de denúncias, tidas estas por "atos
patrióticos", "heróicos" até, se feitas de filhos a pais. O filho que
fizer isto contra os próprios pais, ganha uma estátua em praça
pública, e recebe as honras de herói nacional. A unidualidade cão-
coleira não se altera. Cão representa, neste caso, o proletariado
sempre insatisfeito e pronto para morder. Contra eles, pois, façamos a
coleira de ferro do poder. E isto é justo para a moral comunista
tirada da natureza e enunciada por Nietzche: "a justiça é o
desassombro do forte".
Seguindo a mesma sofística, Politzer escreve: "No mundo físico, a
luta das forças contrárias é universal. Um garfo enferrujado,
fenômeno tão banal, é conseqüência de uma luta entre o ferro e o
oxigênio".
O ferro e o oxigênio não lutam entre si, mas se procuram
reciprocamente (afinidade química) para se harmonizarem na
unidade maior do composto óxido de ferro. Se houvéramos de falar na
linguagem poética de Platão, para quem o universo está cheio de eros,
diríamos que o oxigênio e o ferro se abraçam, não em luta odienta e
destrutiva, porém, pelo contrário, em conexão amorosa, para ambos
criarem consigo o novo, o filho, o óxido de ferro.
No entanto, aceitemos que o fenômeno químico não é amor, e
196

sim, egoísmo de ambas partes, e que cada uma, sozinha, quer


suplantar, vencer, o adversário. Apliquemos ao caso, então, a teoria de
Politzer que diz: "Em dado momento da luta dos contrários burguesia-
proletariado, cada um dos contrários se converte um no outro". Se é
assim, ou vence a burguesia, e todo o proletariado vira burguesia (que
céu!), ou vence o proletariado, e toda a burguesia se transforma em
proletariado (que inferno!). Trata-se, como se vê, de dois nivelamentos,
um por baixo, e todos são proletários, e outro por cima, com que
todos ficam burguesia enricada, cheia de conforto e bem-estar. O
labrego operário que escolha, então, o que deseja: se arrastar a
burguesia para o seu inferno cheio de miséria e sofrimento, ou se
deseja subir pelo esforço, pelo estudo, pela qualificação ao céu da
burguesia. Porque, com a vitória do proletariado, de pronto se forma
outra "burguesia" que são os dispensadores do poder no mundo
comunista. Ora, tanta luta, para se ficar na mesma, na melhor das
hipóteses?
Então, "em dado momento da luta dos contrários burguesia-
proletariado, cada um dos contrários se converte um no outro"? (pág.
71). E não afirmou Politzer que a natureza é una? que é fiel a si
mesma? Pois, neste caso, é substituir, no enunciado, o termo
burguesia-proletariado pelo correspondente oxigênio-ferro: eis como
fica: "em dado momento da luta dos contrários" oxigênio-ferro, "cada
um dos contrários se converte um no outro". Quer dizer: no interior das
moléculas de óxido de ferro, este está em luta contra o oxigênio, e a
tendência é de um destes corpos transformar-se no outro. Se vencer o
oxigênio, todo o óxido de ferro vira oxigênio; quer dizer: o ferro se
torna, também, oxigênio. Se, pelo contrário, vencer na luta o ferro, o
oxigênio se transforma em ferro.
No entanto, se qualquer adolescente do ginásio sabe ser isto
impossível, então não é verdade que os termos oponentes de quaisquer
unidades, possam transformar-se um no outro. Logo, é loucura de
Politzer, quando pretende sonhar com um mundo cheio só de
operários. Igualmente é arrematada utopia pretender derrotar o
materialismo, e na luta entre este e o idealismo não haverá
vencedor, porque o fim será a harmonização destes dois contrários
que brigam desde o dia em que o homem cuidou que a sem razão e a
maldade do mundo eram atributos inerentes à matéria.
A matéria não é mais que um modo de manifestação da
energia-substância que enche todos os planos ou níveis do Universo
desde o centro até a periferia; desde o centro, onde, outrora, revolveu-
se, medonho, o primitivo Caos, até a orla em que se situa o mais alto
empíreo. E este Universo total, composto de centro e bordo, se acha
imerso no arqui-luminoso oceano da Energia-Substância-Amor da qual
197

ele foi feito e tudo nele foi criado. Se a sem razão e a maldade do
mundo fossem inerentes à matéria, tais atributos seriam presentes,
também, nos altos céus, visto que nada pode existir sem a
substância. O pecador sente suas pulsões animalescas, e cuida
serem elas provenientes de sua matéria corporal que ele chama vil;
e o sublime sentimento do bem que inflamava o coração de Cristo,
de Sócrates, que procedência tinha? Acaso tal energia-força-moral
não é do mesmo estrato das paixões ignóbeis? Se a virtude se opõe ao
vício, ambos pertencem ao mesmo estrato; como, logo, atribuir as
virtudes à alma que é essência, e os vícios, ao corpo feito de
substância?
"A tradição clerical (escreve Politzer) e, posteriormente, a
universitária, deformou, conscientemente, a filosofia epicurista, durante
séculos. Assim, os materialistas seriam os "porcos do rebanho de
Epicuro".
Na síntese, no unidualismo, a concepção materialista do mundo se
salva de cair na imoralidade; sem isto, as conseqüências morais do
materialismo, o levam, inevitavelmente, às práticas próprias dos
"porcos do rebanho de Epicuro". Porque, se morreu acabou, só há
gozo nesta vida. Ora, a lei do mínimo esforço e máximo proveito, leva o
materializado a conseguir seu gozo por qualquer meio, ainda que seja
o do sacrifício do próximo. O tudo é ter cuidado com a polícia, que o
resto já se acha resolvido. Por que Marx e Engels não
desenvolveram estudos desta lei tão importante e vital em sua
dialética? Quando a primeira planta, ainda unicelular, resolveu
devorar sua próxima, ela se tornou animal herbívoro; quando o
primeiro herbívoro se dispôs a comer outro animal, nesse ponto
nasceu o animal carnívoro. E tudo era para satisfazer-se e gozar, pelo
caminho mais curto, de máximo proveito e mínimo esforço. No nível
humano, pois, para o materialista, a consciência ética é um contra-
senso, uma vez que nada se tem a esperar após a morte. Daí que,
como diz Politzer, "é notório e bastante generalizado o fato de que
os defensores das filosofias idealistas se conduzem, quase sempre,
na vida, como materialistas". Se, as mais das vezes, os defensores do
idealismo se conduzem na vida como materialistas, como se hão de
conduzir os defensores do próprio materialismo?
Como agirá o materialista, para ser coerente com sua doutrina,
se sua conduta serviu de referência para Politzer criticar os
idealistas só de nome? Se a maioria dos idealistas agem como se
fossem materialistas, o que Politzer considera reprovável, como aprovar
a conduta dos materialistas que são fiéis à sua ideologia? Onde é
que está a moral no comunismo, e em que se funda ela, se os idealistas
imorais, podem ser xingados de materialistas? Se a conduta
198

reprovável dos materialistas serve de modelo para avaliar a


imoralidade dos idealistas, por que se mostra ofendido Politzer pelo
fato de a tradição clerical e a universitária chamarem os
materialistas de "porcos do rebanho de Epicuro"?
E prossegue Politzer: "A razão de Estado (macartismo) justifica
o assassinato dos Rosemberg. Decretar-se-ão verdadeiras as coisas
mais opostas, se tal for do interesse do capital".
Esta definição das coisas verdadeiras (verdade é tudo aquilo
que é do interesse do capital), que Politzer exprobra, decorre de
sua própria definição de filosofia: as filosofias são justificações dos
interesses de classes. A justa concepção do mundo é aquela que
condiz com os interesses de classe. Logo, se a verdade, para os
capitalistas, é aquilo que é do interesse do capital, olhando-se a
outra face da medalha, ver-se-á nela escrito: a verdade é tudo o
que interessa aos mandantes dos proletários. Daí que o assassinato
dos Rosemberg, pelos capitalistas, tem o seu reverso no assassinato
de Nicolau II e família pelos chefes bolchevistas, e isto, de noite, às
pressas, às escondidas. E depois de vitoriosa a revolução comunista,
Lenin coletivizou as fazendas, e determinou qual seria a quota do
Estado, na produção agrícola. Os camponeses produziram só o
necessário para si e seus familiares. Lenin confiscou tudo, e os
camponeses, trinta milhões morreram de fome, após ter dado cabo
de todos os cães, gatos, galinhas e galos, ficando as noites soviéticas
de um silêncio tumular. E houve até casos de antropofagia, além do
mercado hediondo de comestíveis feitos com carne humana. Não há
nenhuma razão para que uns "porcos do rebanho de Epicuro"
falem dos outros "porcos do rebanho de Epicuro". Porcos uns,
porcos outros, visto cada um visar só seu interesse, e não, a
conquista da verdade.
Querendo, pois, rebater os idealistas de práticas reprováveis,
Politzer não achou outro jeito que não fosse compará-los a
materialistas. Como, logo, não concordar que os materialistas são,
de fato, os "porcos do rebanho de Epicuro"? Contudo, a
harmonização destes dois opostos, materialismo e idealismo, é o que
se nos impõe fazer. E os elementos-chaves da síntese podem ser
tomados dos próprios argumentos de Politzer, quando diz:
"Como se explica que existam falsas concepções do mundo,
como as concepções idealistas e, entre outras, as religiões? Para
responder a essas questões é preciso partir do fato de que as coisas
têm aspectos múltiplos, que nossos sentidos descobrem
sucessivamente, graças ao desenvolvimento de nossa atividade
prática. Se alguém se fixa em um desses aspectos apenas, não é
possível que esse alguém tenha um conhecimento válido das
199

coisas".
Logo, concepção falsa do mundo é toda aquela que toma um
aspecto pelo todo. Por conseguinte, a falsidade do idealismo, desde
Parmênides, consiste em ter tomado só o aspecto formal, essencial,
de princípio e de lei das coisas, deixando de lado o aspecto
substancial, consistencial, material. Que fez o marxismo? Pois tomou
ele o aspecto último, material, deixando de parte o outro, ou
considerando-o apenas como derivado e produto desse último.
Conseqüentemente, conforme o próprio enunciado de Politzer, erra
quem toma um ou o outro aspecto como sendo a verdade inteira. Tudo,
portanto, o que afirmou Politzer do idealismo e da religião, se aplica,
à maravilha, ao materialismo. Diante disto, podemos dizer a mesma
coisa do materialismo, trocando apenas algumas palavras pelas suas
antônimas; vejamos: "Como se explica que existam falsas
concepções do mundo, como as concepções materialistas e, entre
outras, os ateísmos? Para responder a essas questões é preciso partir
do fato de que as coisas têm aspectos múltiplos, que nossa
inteligência descobre sucessivamente graças ao desenvolvimento de
nossa atividade especulativa. Se alguém se fixa em um desses aspectos
apenas, não é possível que esse alguém tenha um conhecimento válido
das coisas".
Como se vê, este texto tanto condena o idealismo como o
materialismo, visto como, cada um, por sua vez, tomou um aspecto pelo
todo. Dado que, tanto o idealismo, desde Parmênides, e o
materialismo, desde Heráclito e Demócrito, um e outro se mostra como
meia verdade, a verdade inteira, global, só pode estar na síntese
que integre as duas meias verdades na unidade. Logo, não pode
haver vitória para o materialismo, nem para o idealismo, porque
ambos serão unijugados no monobinarismo do qual eles são partes
integrantes e complementares.
Politzer: "Com efeito, enquanto que a burguesia, liquidando a
feudalidade, substituiu uma exploração por outra, o proletariado,
destroçando a capitalismo, suprime toda e qualquer exploração do
homem pelo homem".
A exploração burguesa do homem pelo homem se trocou, no regime
comunista, pela exploração do homem pelo Estado; porém, como o
Estado não pode reger-se senão por homens, estes homens do governo
serão os exploradores dos outros homens. Por isto, escreve Joelmir
Beting: "O capitalismo é a exploração do homem pelo homem e o
socialismo é exatamente o contrário". E Paul Samuelson: "A utopia da
sociedade igualitária e justa ainda não conseguiu dar resposta
convincente a duas perguntas cruciais: quem vai desfrutar da
calefação no trabalho de gabinete e quem vai recolher o lixo na
200

neve da rua? Quem será o Primeiro-Ministro e quem lavará a latrina


do Primeiro-Ministro?". No Egito, o povo escravo fez pirâmides; no
Estado comunista fazem-se foguetes para ir à Lua, a Vênus, a Marte,
e, também, arsenais atômicos. E a abundância de bens de consumo, de
que já goza o povo norte-americano, vai ficando para depois. E como na
construção das pirâmides, o povo cantava, no começo, e suava, e
chorava, e sangrava, no fim, até que o egípcio se decidiu a não mais ter
filhos, e o Egito morreu, assim acontecerá na Rússia, se o bem-estar do
povo for ficando sempre para depois. E já o barômetro demográfico tem
acusado queda, pelo que, lá, já se pensa em libertar a mulher do
trabalho pesado, para ela ficar em casa..., criando filhos, e, para isto,
ganhando seu salário. Esta notícia no-la deu "O Estado de S. Paulo" em
sua edição de 24 de novembro de 1968. Na edição de 15 de janeiro de
1969, o mesmo jornal publica um outro artigo com o título: "Jovens
russos e o amor". Ingenuamente, aqui, se prega, sem rebuços, a volta
ao passado (arcaísmo), reafirmando o tabu da virgindade pelo que,
como diz, "os jovens não devem ser persuadidos de que ela passou de
moda". Afirma que "ninguém tem o direito de esquecer que a mulher é
débil fisicamente, que se magoa mais facilmente e necessita de maior
ternura. A rudeza, o uso da força, a desatenção à sensibilidade feminina
é algo venenoso, nocivo em nossa sociedade. Não existe perdão para
gente culpada de tal comportamento". Contestam-se "os que
consideram o amor unicamente como entretenimento e se preocupam
apenas com o prazer". Igualmente é contestada a opinião segundo a
qual, "desde que a mulher consegue ser igual ao homem, não se deve
lhe dispensar um tratamento especial, como se fazia nos velhos
tempos".
Toda essa vã tentativa de retorno ao patriarcalismo do tempo dos
czares, não significa outra coisa que implorar às mulheres: dêm-nos
filhos; nosso índice populacional está caindo; seremos vencidos,
morreremos como nação, não por outra causa que não pelo nosso
próprio decrescimento demográfico; quando formos muito poucos,
seremos dominados pelas nações populosas que se derramarão sobre
nós...
Todavia, toda essa lamentação arcaísta será improfícua, visto
como, o que está faltando são esperanças em dias melhores. Fale
Toynbee: "A enfermidade que inibe os filhos de decadência, não é a
paralisia das suas faculdades naturais, mas um colapso da sua herança
social, que os priva da possibilidade de encontrar um objetivo para as
faculdades excepcionais, numa ação social ativa e criadora".
A exploração do homem pelo homem não cessará, enquanto
nosso mundo for invertido, egoísta-ignorante e mau, e o homem que o
habita, dragontino. Quando, porém, o egoísmo ignaro e fechado se
201

tornar dilatado no sábio e no santo, qualquer regime político-econômico


será bom. O tudo é desinverter-se o homem de dragão. Como,
todavia, isso não é fácil, nem pode ser feito a curto prazo, todos se
põem a pensar em reformas exteriores, contanto que, na sua
caverna, o dragão não seja perturbado, isto é, contanto que
ninguém se reforme a si mesmo.
Politzer, mestre sempre em dizer e desdizer, afirma que "não são
as idéias que determinam as condições da luta de classes, mas as
condições da luta de classes é que determinam as idéias".
Isto significa que burgueses e operários brigam entre si, sem ter
a mínima idéia de por que o fazem; conforme se desenvolve a luta, a
idéia da causa por que brigam, vai-se delineando; só então é que
enxergam que brigam por estarem em desigualdade de situações,
sendo estas as determinantes das lutas de classes. Os fenômenos se
dão ao acaso; depois é que aparecem as leis (formas dos fenômenos)
coma conseqüências, e não, como determinantes deles. Dito isto,
logo depois se desdiz numa citação de Stalin:
"Existem idéias e teorias novas, de vanguarda, que servem aos
interesses das forças de vanguarda da sociedade. São elas
importantes porque facilitam o desenvolvimento da sociedade, seu
progresso: e, o que é mais, elas adquirem tanto maior importância,
quando mais fielmente refletem as necessidades do desenvolvimento
da vida material da sociedade".
De acordo com o que foi dito anteriormente, não pode haver
idéias de vanguarda, porque, consoante com o que ensina o
marxismo, as idéias andam retardadas em relação aos fenômenos
sociais objetivos, concretos. As idéias resultam pelo que não podem vir
antes dos fenômenos. Se as idéias são determinadas pelas condições
internas da sociedade (lutas de classes), assim como a forma resulta
das condições intrínsecas do conteúdo, num e noutro caso, idéias e
forma aparecendo com certo retardamento, que vêm a ser, então, as
idéias de vanguarda? De que, por que, por quem e como surgiram
estas, a priori, quando, o que só há, são elas, como a posteriori?
E noutra citação, Politzer transcreve o próprio Marx: "A teoria
torna-se uma força material desde que penetra nas massas".
E antes de penetrar nas massas, quando ainda está na
cabeça do teorizador, se não é uma força material, o que é então? De
que o teorista partiu para construir o seu universo de idéias, se ainda
estavam por aparecer as condições materiais, objetivas, que
provocariam, com certo retardamento, a eclosão das idéias em sua
cabeça? Como pode isto acontecer, se Politzer frisa sempre "que o
aspecto material é anterior ao espiritual"? Então seria preciso que
tivesse acontecido o comunismo, para, depois, aparecerem Marx e
202

Engels como conseqüências!...


Esforçando-se por manter sua posição antitética em relação ao
idealismo, tido como utopia, os igualmente utópicos socialistas supõem
seja o homem um produto do social, um ente só capaz de reações.
O social surge como plasmador do homem, e não, o homem como
o criador do social. Deste modo, assume novo aspecto o velho
problema de o que veio primeiro, se o machado ou o malho, se a
faca ou a serra, se o martelo ou a tenaz, se a mão ou a língua na
auto-construção do homo sapiens, se a economia ou a política, se o
capital ou o trabalho; ou então: se a função ou o órgão, se o
pensamento ou o cérebro, se o corpo ou a alma; ou ainda: se o
fenômeno, o acontecimento, ou sua forma, sua lei; se o conteúdo ou
a forma; finalmente: se a essência ou a substância.
Outra vez, no entanto, a verdade está na síntese dos opostos,
porque, também, sob este aspecto, o homem é unidual, constituído
de indivíduo e sócio. Inextricavelmente, estão unijugados no homem
o eu e o nós, como iremos ver.
203

XI - ENTE BIOLÓGICO E SÓCIO

O dado natural é inesgotável porque a natureza é um


calidoscópio que continuamente se muda no tempo e no espaço,
apresentando sempre um cariz diferente, nunca repetido. E sobre ser
mutável a natureza, dentro dela, seu ilustre filho, o homem, também
se altera, e, ainda, com mais velocidade. Daí ser preciso que haja
filósofos para sempre retomarem o dado e o reinterpretarem. Muda-
se a natureza por ser mutável dentro e fora do homem que, por sua
conta e risco também se muda, pelo que forçoso se torna reformular
sempre a interpretação da natureza. Cada coisa é em si mesma, e é
no homem: mas a coisa quando é no homem, se mostra mais rica de
conotações do que quando ela é só em si mesma, porque adquire
nele e dele uma dimensão nova que, em natureza pura, não possui, e
essa dimensão nova é a antropológica. O ouro e a prata são metais;
mas no antropológico são riquezas. Os vários sons da natureza são
ruídos; no humano são música. Em natureza, os frutos são alimentos;
numa tela de Cézanne assumem um ar divino, uma auréola
luminosa própria dos frutos do jardim do Eterno! Basta emoldurar um
pedaço de natureza para ele se tornar mais do que é. Como o
homem se transforma sempre, está sempre a mudar essa dimensão
antropológica que ele verte sobre as coisas, pelo que elas ficam sendo
mais do que são. Logo, o homem e a natureza, cada um, por sua
vez, também pode dizer: "eis que faço novas todas as coisas"
(Apoc. 21, 5).
Segundo esta retomada que encetamos, tudo o que existe, como
já o dissemos, é uma unidade constituída de unidades menores, e
cada uma destas menores é um universo que, pela própria etimologia
deste nome, significa a unidade mais a sua contra-parte pluralidade, ou
a unidade na diversidade. Porém, o primeiro termo, antes da
pluralidade, antes do oposto da unidade, é o dualismo de que o um
se constitui, ou seja, o unidualismo, ou monobinarismo. A árvore do
universal é de estrutura dicotômica, isto é, abre-se de um tronco de
que sai um par de galhos, cada um dos quais se subdivide, também,
em dois outros galhos menores, e assim, sucessivamente. Isto, não é
em sentido espacial, mas no sentido em que, por exemplo, do tronco
cloreto de sódio, saem dois galhos: o do cloro e o do sódio...,
cada um dos quais, por sua vez, se forma de núcleo atômico e de
esferas ou calotas de elétrons. Em primeira tomada do dado, em
visão de análise ou dedutiva, todo um é, internamente, dois. Na visão
oposta ou indutiva, cada dois, tese e antítese, se resume no um da
síntese. Esta síntese em que o dois se tornou no um, em segundo
204

tempo, passa a ser nova tese que se opõe a nova antítese, formando
outro par que vai unir-se noutra unidade, noutra síntese. Como não
há exceção para esta lei de constituição de tudo, nem mesmo para
Deus cuja unidade se forma do par Essência e Substância,
também o homem é uma unidade binária, qualquer que seja o
aspecto em que o tomarmos. O aspecto do humano que agora
iremos ver, é o da unidualidade formada pelo ente biológico e pelo
sócio.
Os dois aspectos em realidade são indissolúveis, não se podendo
separá-los, a não ser idealmente, por abstração. Não há ente
biológico puro sem o social, nem este sem o suporte biológico. Para
Augusto Comte, "o indivíduo isolado é mera abstração; só os grupos
são reais, pois que "a sociedade humana compõe-se de famílias e
não de indivíduos".
Como Augusto Comte afirma que "a sociedade humana
compõe-se de famílias e não de indivíduos", cabe perguntar-lhe se
estes indivíduos têm, em si, o social, ou não. Se não o tem, então,
são puros entes biológicos, e estes, sozinhos, não existem; se têm, em
si, o social, então, a sociedade não começa com as famílias, e, sim, com
os indivíduos-sócios. Ora, um homem isolado, um Robinson Crusoe,
existe; logo, ele não é um puro ente biológico sem o social; por
conseguinte, o sócio existe nele, formando par com o ente biológico.
A sociedade se forma de famílias; estas se formam de indivíduos. No
entanto, se, nestes indivíduos, não existir o sócio, as famílias não se
formam. A só união sexual não é base da família; provam-no os
animais inferiores que podem viver isolados. Os peixinhos dos
aquários devoram os próprios filhos, se estes não forem separados;
quer dizer: há união sexual e filhos; contudo, as mães não
reconhecem os próprios filhos.
A ausência de hierarquia na visão (agnosia metafísica) faz o
universo chato, plano, e dá nisso de Augusto Comte, que, a ser
verdade para a sociologia, sê-lo-ia, também, para a física. Ocupado só
com os corpos da física, e não, com os da química, o físico, por sua vez
poderia dizer, à moda de Augusto Comte: o núcleo atômico e os
elétrons isolados são meras abstrações; só os átomos são reais,
pois que as moléculas dos corpos se compõem só de átomos, e não de
elétrons e de prótons.
O náufrago Robinson Crusoe se viu compelido a viver isolado
numa ilha; no entanto, ele próprio não era um ente isolado, porque,
como diz Gusdorf, "nenhum homem é uma ilha, e o regime celular de
Robinson, muito longe de representar uma posição invejável,
aparenta-se ao mais doloroso grau de reclusão penitenciária.
Contudo, importa não esquecer, como observa Taine, que o náufrago
205

Robinson levava com ele um barco cheio de civilização inglesa,


utensílios e uma vocação colonial, uma Bíblia e tradições puritanas".
Embora Crusoe levasse em si e consigo uma bagagem de cultura,
seu ego social, não recebendo, do contorno, novo suprimento, tendia
a estiolar-se. O tédio, a nostalgia sofrida por ele, em sua solidão, e a
que curtimos nós, em meio ao tumulto das ruas de cidade grande, é
carência de social próprio, é doença de subnutrição social. E a
"fome social" do náufrago não podia ser saciada pela pobre
presença do índio Sexta Feira. Eis como se aclara o sentido da frase
de Goethe quando diz: "O maior castigo que me poderiam inflingir,
seria habitar sozinho o paraíso". À frase de Aristóteles que declara: só
um deus ou um bruto pode viver isolado, poder-se-ia acrescentar:
porque todo deus ou super-homem, na Terra, é um êxul nas mesmas
condições de Crusoe, visto como, embora leve em si a cultura do
empíreo, não a enxerga de si em torno em nenhum outro ente
humano em que tal cultura se tenha fixado; e é para poder sofrer
menos sua solidão, que ele grava na pedra, no bronze, a eternidade.
O manjar desconhecido (Jo 4, 32) que disse Cristo ter, é aquele com
que se apascentava em suas contínuas retiradas aos desertos e
outeiros..., haja vista, quando teve por visitantes Elias e Moisés
(Mat 17, 3 e 5). Miguel Angelo tinha que ser um exilado pelo que se
viu, depois, na pedra que rompeu, para nela eternizar o seu brado de
pujança, nostalgia e dor.
Harto, isto, entendeu Milton, para pôr na boca de Adão estas
palavras: "As falas mútuas, alimento da alma, / a suave troca de
gracejos, risos, - / os risos, que à razão a origem devem / refusados
por isto sendo aos brutos, / e de amor o incentivo em si nos
formam, - / o amor, notável precisão da vida"? E mais adiante, no
mesmo Canto IX, quando Adão, consciente do pecado que ia
praticar, se dispôs a comer do fruto vedado, declara à companheira
de infortúnio: "porque já decidi morrer contigo". E justifica o seu
propósito: "Como deixar-me do prazer de ouvir-te, / e do tão terno
amor que nos enlaça, / para outra vez peregrinar sozinho / por estes
broncos e perdidos bosques?!".
E como Adão o era, os seres inferiores, unicelulares, também
são imortais, porque a célula-mãe se subdivide, dando-se a si nas
células-filhas. Este processo, todavia, leva ao esgotamento da energia
vital do plasma, pelo que as células, de quando em quando, se
obrigam a encostar-se entre si para se permutarem parte dos núcleos,
dos ácidos nuclêicos e dos gens. Assim, desta união nasce a força
do plasma qual carga nova que se dá às cordas dos relógios (Frìtz
Kahn), pelo que tais unicelulares podem continuar a reproduzir-se por
cissiparidade até novo esgotamento. Quando, no entanto, os
206

unicelulares se reuniram em colônias... das quais surgiram os


seres superiores pluricelulares, tornaram-se impraticáveis tais
encostamentos, e o plasma das células das colônias se esgotam,
em razão do que as células morreram no seio da colônia, e esta se
desfaz, como ainda hoje se pode observar nos coloniais. A morte
natural apareceu, então, pela primeira vez no cenário da vida, em
conseqüência da união... união motivada, por sua vez, pela
diferenciação, pela especialização, pela divisão do trabalho. Eis, pois,
que os entes biológicos inferiores (protozoários e fitozoários), nas
bases da vida, abdicaram a imortalidade quando decidiram formar
colônias, originandose destes seres coloniais, todos os seres
superiores. O unicelular, que poderia ser imortal, abdicou da sua
imortalidade para viver em união..., porque, tal como o entendia
Adão, é preferível a morte a viver solitário. Assim como só depois da
união dos unicelulares em colônias foi possível chegar à plenitude da
vida que se viu depois nos seres superiores vertebrados, nos
mamíferos, sobre os quais se sublima o homem, também, do casal
primeiro, diz Toynbee: "só depois de Adão e Eva terem sido
expulsos do seu Jardim Edênico de Lótus, é que os seus
descendentes começaram a conceber a agricultura, a metalurgia e os
instrumentos musicais". Eis, pois, que no Éden como no empíreo não
havia tecnologia, porque esta nasce da ciência, e no Éden como no
Céu dos que se mantiveram fiéis, não há ciência..., visto que esta é
visão do particular própria daquele que, para conhecer, precisa
dissecar, triturar, pulverizar os entes inferiores..., coisa que enche os
amorosos celículas de horror e espanto. A queda dos que estavam
no amor propiciou a ciência e a técnica, as quais, sem Deus, se
tornam satânicas, estando aqui o saber que se oculta na alegoria da
árvore vedada da ciência do bem e do mal: com Deus, a ciência é
bem; sem ele, mal. Depois deste lanço de olhos que enxerga o homem
situado no pináculo da evolução biológica... evolução que nasceu da
união dos unicelulares em colônia; depois da visão dos celículas no
empíreo e de Adão no Éden, aqueles e este sábios mas sem ciência,
em oposição ao que se viu após a queda pela qual anjos e homens se
mostraram com ciência, mas sem sabedoria; cumpre agora juntar as
partes do mosaico quebrado de modo que a árvore alegórica da ciência
que tanto pode ser do bem, como do mal, seja só do bem, isto é: faz-se
preciso, e com urgência, que o homem de ciência também se torne
sábio. Não só a visão do particular que se pulveriza em especialidades
que se filamentam em radículas cada vez menores, como, também, a
visão do conjunto que só a filosofia pode dar. E nesta visão de conjunto,
relativamente ao homem, verificamos que ele é, sob todos os aspectos,
unidual, antes de abrir-se para o universo que é em si mesmo,
207

semelhante a qualquer outro ente ou ser. No aspecto que agora estamos


vendo, o homem é ente biológico e sócio, sem possibilidade de que
possa existir um sem o outro. O homem isolado, pois, não é uma
abstração, porque ele leva em si, e de si em torno, o seu social que,
também, exige nutrição própria, qual o ser biológico. É por isto que a
solitária, se por muito tempo, enlouquece os reclusos nela postos.
Cada ente humano precisa de seu meio social próprio, de sua
atmosfera social, em que seu espírito, respirando, viva. O sábio que se
isola, temporariamente, para estar com os mortos viventes, seus amigos,
que lhe repetem, na memória, a sabedoria dos livros, sobre a qual,
profundamente, medita, esse, nessa hora, não está só, mas
acompanhado. Todavia, quando ele se confunde no tumulto das ruas
duma megalópolis, onde ninguém conhece ninguém, e todos são
coisas, aí, sim, então, ele está só, e sente solidão, nostalgia, tédio.
Eis, aí: o homem é uma unidade binária, constituída do ente
biológico e do sócio. Cada parte deste unibinário exige alimentos
próprios, não só para o desenvolvimento, desde a infância, como para
manter-se vivo. Tem razão Cristo: "Nem só de pão vive o homem".
Entes humanos podem, por pouco tempo, manter-se estacionários,
no nível de animais, e um exemplo temos nas meninas-lobas
encontradas na Índia. Aqui, o social das meninas formou-se ao nível da
"cultura" dos lobos. Pela recíproca, o "social" dos chimpanzés
incorpora, ao máximo, a cultura humana, pela imitação dos homens,
conforme experiências recentes efetuadas nos EE.UU.
Os sociólogos sempre se puseram a imaginar o que sucederia se,
como num palimpsesto, fosse raspado o social de um ente humano.
Contudo, esta experiência, impossível de executar-se com pessoas, num
mundo humano, isto é, moral, acidentalmente, aconteceu na índia, onde
duas meninas, em tenra idade, se perderam na mata, ou nela foram
abandonadas; tendo sido criadas por lobos. As crianças adquiriram os
comportamentos desses animais, marchando de quatro, uivando de
noite e ingerindo os alimentos à maneira dos cães. A ausência do
convívio humano interditou-lhes o uso da fala. Trazidas para a
civilização, não conseguiram humanizar-se. A que tinha sete anos, por
ocasião de sua captura, morreu aos dezoito, sem que pudesse tornar-
se humana. A menor teve maior dificuldade que a outra em equilibrar-
se sobre os pés, e andar como nós. O atrofiamento do centro da
palavra impossibilitou-lhe a aprendizagem da fala; após sete anos de
treinamento, seu vocabulário não ia além de quarenta e oito palavras.
A vida de relação, a vida social, pois, tem muito a ver com o
desenvolvimento do cérebro; passado o tempo próprio do
desenvolvimento operado através da convivência, os centros nervosos se
atrofiam, não mais podendo ser recuperados. Eis, aí, como se torna
208

impossível delimitar o que é puramente biológico e o que é social; porque


ambos se entrelaçam e se interdependem, e é pela interação de um
sobre o outro, que se dá o desenvolvimento integral do unibinário
humano. O ente biológico e o social se interdependem, como função e
órgão, sendo impossível a dicotomia, no real, destes pares de opostos do
unidualismo humano. Sem o estímulo exterior, o órgão queda-se na
inatividade, e se atrofia, sendo esta a causa de o centro da palavra
ter parado na fase embrionária do social. Ainda que se tivesse
tentado abrir, às meninas-lobas, uma fresta para a comunicação, por
meio dos sinais dos surdos-mudos, partindo do princípio de que seus
centros motores estiveram o tempo todo em funcionamento, ainda assim,
nada se poderia obter, porque a atrofia estava no próprio centro da
linguagem, que não só no seu mecanismo de exteriorização.
A contra-prova também se pode obter por meio de chimpanzés
criados em ambiente humano. A revista "Realidade", em seu número
98, de maio de 1974, publicou um artigo de alto valor científico e de
conseqüências filosóficas inesperadas, com o título "Finalmente
Ensinamos o macaco a falar". Trata-se do seguinte:
Beatrice e Allen Gardner, da Universidade de Nevada, observando
que os chimpanzés, em seu meio natural, empregam muito mais
freqüentemente sinais manuais do que vocais, em suas
comunicações, empreenderam a tarefa de ensinar aos macacos
uma linguagem de gestos, de preferência a uma linguagem oral.
Começaram com um chimpanzé fêmea à qual deram o nome de
Washoe. Tinha esta um ano de idade, quando se principiou o
treinamento que consistiu em ensinar a Washoe a "American Sign
Language" cujas iniciais dão a sigla ASL, que é um sistema de
comunicação empregado pelos surdos-mudos, muito em voga nos
Estados Unidos. Em tal linguagem, os gestos manuais, representam
palavras inteiras, que não, letras a serem posteriormente combinadas.
Ensinando o sinal mais, do contexto duma frase, Washoe o
generaliza para todas as sentenças em que este conceito se aplicava.
De igual modo, o sinal abrir, executado ao tempo em que se abriam três
portas, após aprendido, prontamente, foi generalizado para abrir
também gavetas, refrigeradores e até torneiras. A palavra flor foi
generalizada para todas as flores, e, por sua conta, Washoe associou
flores a cheiros, visto que o conceito de cheiro ela já conhecia, e, ao
aprendê-lo, o generalizara para todos os cheiros, inclusive os vindo da
cozinha, de alimentos que estavam sendo preparados. E na ocasião
em que a criatividade de Washoe fê-la inventar as frases não
ensinadas, como: dar para mim coceira, para pedir afagos; ou: abrir
comida, beber, para que lhe fosse aberta a porta da geladeira,
então, evidenciou-se que os macacos são capazes de empregar o
209

pensamento discursivo, se bem que ainda de modo embrionário. Era já


muito que Washoe empregasse símbolos para significar situações
materiais, concretas, frente a objetos palpáveis; no entanto, ela
empregava os símbolos não concretos, mas, subjetivos, tais como doer,
desculpa e engraçado, em situações ou momentos apropriados.
Possuidora de cento e -sessenta sinais, Washoe foi levada para o
"Instituto for Primate Studios", em Norman. Aos poucos se foi habituando
aos outros chimpanzés que ela nunca vira antes, e aos quais ela
chamava de bichos. Roger Fouts, um dos pesquisadores, a cujo
encargo Washoe foi entregue, ensinou-a o sinal: macaco. Bastou
isto, e ela, contente, passou a usá-lo para todos os macaquinhos e
micos do zoológico. Assustada, porém, por um macaco rhesus, passou
a chamá-lo de macaco sujo. E já o símbolo sujo passou a servir para
tudo quanto lhe fosse desagradável, como, por exemplo, os professores
que se recusavam a satisfazer-lhe os caprichos. Aos patos, cujo símbolo
Fouts lhe ensinara, ela insistiu em manter a combinação de sua autoria,
e os chamava passarinhos dágua.
Estas experiências feitas com Washoe, que deixaram longe as de
Koehler, repetiram-se com Ally, em chimpanzé macho, cujo vocabulário
ia a setenta palavras. O que apareceu de novo é que Ally era um
grande "comunicador" que fazia questão de sinais nítidos, claros,
deliberados. Podia ser um mestre, visto como, cuidadosamente,
sinalizava as palavras, e ainda com eloqüência da atitude, do porte.
Lucy foi outra macaca ensinada a falar, e possuía um
vocabulário de oitenta palavras. Fouts lhe mostra, um dia, um
rabanete, e ela, prontamente, o denomina: comida; porém, depois de
o mastigar, sai-se com esta construção de frase: comida-doer-chorar.
Com a melancia, Lucy fez este progresso por sua própria conta primeiro
chamou-a bebida; depois, bebida doce; finalmente, bebida-fruta.
A antropóide Lucy tinha um gato, e este, um dia, cortou-se,
acidentalmente; então Lucy o tratou, pensou-lhe o ferimento,
carregando-o para todos os lados, até contra a vontade dele, nunca
deixando que sua pata ferida tocasse no chão. E apontando para o
ferimento, dizia, aos presentes: machucar, machucar.
Um dia, deu-lhe na telha ensinar o gato a falar, do mesmo modo
como os homens fizeram com ela: pôs, então, o gato, no lugar que
outrora ela ficava, e, segurando vários objetos, perguntava, por sinais:
que é isto? Depois de vários dias de repetição desta experiência,
desanimou-se, abandonando a tarefa, pois, lhe foi impossível fazer o
gato falar.
Diz Fouts que "Lucy viveu como um ser humano durante toda
sua vida. Está tão imbuída da cultura humana que muito dificilmente
nota as diferenças entre ela e seus amigos um pouco mais altos e menos
210

cabeludos". Mais:
"Ela passa a maior parte do seu dia preocupada com atividades
tipicamente humanas. Dorme em um grande dormitório com sua mãe e
seu pai humanos. De manhã, prepara uma xícara de chá. Ela enche
a chaleira, coloca-a sobre o fogão, acende o fogo, coloca um saquinho
de chá dentro da água, e bastante açúcar em sua xícara de plástico
verde. Chega até mesmo a cheirar o vapor e espera que o chá esfrie”.
"Nunca queima a língua tentando tomá-lo muito cedo. A única
assistência humana de que necessita durante toda essa preparação é
uma mão mais firme para despejar a água quente e um lembrete de
que a água já está fervendo: Talvez uma chaleira com um apito
venha a ajudar”.
"O próximo item em sua agenda é, frequentemente, uma aula de
comunicação. De vez em quando, a aula é apenas de prática, uma
discussão de alguma coisa que pareça interessá-la. Outros dias ela é
testada em suas aptidões de comunicação. Roger gostaria de decidir
sempre o que fazer, mas, às vezes, Lucy decide por ele".
As experiências prosseguem. Desde 1973, nos Estados Unidos,
todos os que podem dispor de um filhote de chimpanzé, ou de
orangotango, estão empenhados na tarefa de os fazer falar a língua
pátria para uso dos surdos-mudos. Onde iremos parar, se a genética
for posta a serviço do unidualismo inteligência-linguagem?
O mais empolgante, porém, foi o relato trazido pela revista
"Manchete", em seu número 1259, de 5 de junho de 1976. O advogado
Michael Miller, de Nova Iorque, diz ter comprado de uns caçadores
das montanhas dos Estados Unidos, um estranho ser "metade homem,
metade macaco". Michael deu a esse elo vivo ligador do homem aos
macacos, o nome de Ollie, em homenagem ao "gordo" (Oliver Hardy)
que é como o chamava o "magro" (Stan Laurel), nas telas do cinema.
Ollie, a nova versão viva do pitecantropo, tem 1,52 cm de altura, é
calvo, sardento, aparentando mais ou menos sete anos de idade. Ele
anda perfeitamente ereto sobre suas patas traseiras, demonstra possuir
inteligência, embora não desenvolvida. Ao ser apresentado à imprensa,
"Ollie emitiu sons como os de uma criança que ainda não aprendeu a
falar, mas pareceu compreender as coisas melhor do que qualquer
macaca”. Escreveu um jornalista (Manchete), sobre esse elo vivo
entre o macaco e o homem: "os cientistas fazem outras observações
importantes, principalmente as relacionadas com seus cromossomas,
considerados "absolutamente anormais" no quadro de sua espécie".
Ollie ainda está sendo submetido a testes médicos e classificação
zoológica.
Na fotografia maior trazida pela "Manchete", em que Ollie, em
porte eloquente, levanta os braços, posando para os fotógrafos no
211

Explorer's Clube de Nova Iorque, reparamos que seu corpo até se


inclina um pouco para trás; na fotografia menor, tomada só da cara,
verificamos que as arcadas superciliares são menos pronunciadas que
nos demais macacos, os lábios são modelados, e, como que
adivinhamos a existência de mento saliente modelando-lhe o queixo.
Ora bem: onde esse macaco humanóide foi achado deve haver
outros, tornando-se possível a captura e a criação deles em cativeiro.
Está-nos aberta, portanto, a porta que nos levará a saber como essa
espécie de macacos, ainda sem nome, reagirá ao aprendizado da
linguagem a que, hoje são submetidos os chimpanzés.
O quanto já se conseguiu, foi suficiente a permitir fosse atenuado o
característico mais significativo entre o macaco e o homem que é a
possibilidade do pensamento e da palavra, e isto, graças aos esforços
desse grupo de psicólogos norte-americanos. Positivouse que os
chimpanzés têm capacidade de abstração, pelo que, o mundo lhes
pode ser ofertado na forma de símbolos representativos das emoções
e das coisas; que eles têm capacidade de generalização, base do
pensamento associativo, ou indutivo, ou discursivo, visto como, formado
um conceito face a dada experiência, ele passou a cobrir um universo
inteiro de experiências correlatas, como foi o caso dos vocábulos abrir,
sujo, cheiro, etc. Experiências quais estas são decisivas para a ciência
que desabrocha agora, cujo nome será algo parecido com
pitecantropologia, uma vez que estudará o homem e o macaco inter-
relacionados.
Koehler já havia demonstrado haver, nos macacos, o estado de
reflexão; porém, esta reflexão abstrata ganhou extensão e profundidade,
quando os chimpanzés puderam comunicar-se com os humanos por
meio de sinais de mudos, atingindo até cento e sessenta símbolos.
E quando tais macacos puderam associar os símbolos para criar
palavras capazes de expressar pensamentos, como nos casos de
Washoe, de Ally e de Lucy, então, o abismo da linguagem que
separava os símios antropóides dos homídeos, estreitou-se tanto, que
se tornou possível a ultrapassagem, pelo que os dois mundos, agora, se
juntaram mais do que a antropologia o conseguira. A combinação de
símbolos para criar conceitos novos de coisas, ações e situações nunca
antes vistas pelos primatas, põe por terra a hipótese de que seu
aprendizado é feito apenas de reflexos condicionados, porém, nada
criativo.
Poderíamos prosseguir tirando conclusões dos alviçareiros e
promissores trabalhos de Beatrice, Allen Gardner e Roger; todavia, por
enquanto, sirva-nos eles para comprovar nossa tese de que o homem é
uma síntese formada de duas unidades oponentes tese e antítese,
indivíduo biológico e sócio. E como, biologicamente, o homem veio do
212

macaco, por evolução, neste já aparece o sócio. Os três chimpanzés,


nomeados atrás, em convivendo com os homens, saturaram-se da
cultura humana; as meninas da Índia, forçadas pelas circunstâncias a
viver com lobos, tiveram seu social impregnado dos hábitos lupinos ou
licantropóides.
O homem isolado, pois, não é uma abstração como pretendia
Augusto Comte, porque, ou no homem existe entranhado o sócio, ou ele
não é homem. Este social do homem se entrelaça ao social da mulher, o
que permite a formação da família que, outra vez, é um unibinarismo
formado do homem e da mulher biológicos por um lado, e do homem
e da mulher culturais, sociais, por outro. Se o homem se unisse à
mulher só pelo corpo, pelo sexo, tal união seria, apenas, acasalamento
animal; ora, o casamento não é isto apenas, mas, sobretudo, integração
dos dois sócios na família que é a célula do social. O filho que nasce
da união sócio-biológica, é um produto, não só do biológico, mas
também do social, porque considerações deste tipo também influíram no
seu nascimento. Se o homem e a mulher decidirem que, devido a tais
ou quais motivos, não devem ter o filho, este não virá ao mundo, pois,
para isso, o social criou meios técnicos de evitar a natalidade. De
maneira que o próprio ser biológico do filho, fica condicionado às
contingências do social.
Agora, no nível da família, começa o social, para Augusto Comte
que cuidava fosse ela, a família, o resultado de leis naturais, quando,
na verdade, o social é pura criação humana, criação em que atuam
todos os erros e acertos humanos. A família é uma unidade dinâmica,
uma coisa que se constrói e se reforma em concordância com o que há
de "sócio", de "cultura vivida", nas unidades integrantes homem e
mulher. A família, portanto, é um devir, um vir-a-ser, e se torna cada
vez mais perfeita, quanto mais se enriquece de civilização o "sócio"
de cada homem e mulher que se unem. Quanto mais sábios forem os
homens e as mulheres, mais perfeitas se tornarão as famílias, e
quanto mais perfeitas, mais felizes. Pela recíproca, quanto menos
sábios forem os homens e as mulheres, mais imperfeitos serão seus
"sociais" e mais infelizes serão as famílias que vierem a construir. Os
ínscios neste sentido social são chamados imaturos, incivilizados,
agentes de desintegração, ignorantes, entes dragontinos. Tudo isto,
todavia, nada tem a ver com cultura intelectual; esta pode ser um
aviamento para a sabedoria, porém, não a sabedoria.
Erro grande foi de Freud o repetir e manter o absurdo histórico de
situar a mulher como um ser inacabado, pelo que ela própria se sente
incompleta, como ele o diz, por faltar-lhe um pênis. O complexo de
castração a levaria a procurar um homem com que se completar. Como o
homem só pode dar-se a ela de quando em quando, no coito, então ela
213

deseja ter um filho, um menino, como compensação pela sua


deficiência pela qual se sente diminuída. E pode mesmo ser que a
mulher sinta isso, como produto que ela é da cultura masculina, cultura
imposta pelo homem, da qual a mulher é partícipe. No entanto, este
absurdo é conseqüência do suposto que afirma a positividade como
pertencente ao ser racional; porque ser racional é ser positivo; porque
só a racionalidade é considerada; porque entre alma racional e corpo
substancial, só a alma conta, como se fosse possível a um ser constituir-
se só de alma pura sem nenhum corpo de matéria. Como a mulher que
merece este nome, é corporalmente produtiva; como é um ser do
tronco-cerebral, feita, por isto, para sentir e amar; mas como nada
disto conta, a mulher fica sendo só uma negação da racionalidade
(Aristóteles e outros) e da virilidade (Freud). Contudo, de fato, pode a
mulher ser considerada negativa, mas isto só em sentido de
polaridade, visto como se convencionou chamar positivo ao que age,
que penetra, que atua, e negativo ao passivo, ao inerte, ao que se
deixa penetrar. Assim, a chave e o êmbolo são positivos, no passo que
a fechadura e a seringa, negativos. Ora, nunca, ninguém pensou que
o receptáculo do êmbolo é um êmbolo incompleto, nem que a
fechadura é uma chave inacabada. Ninguém iria dizer que a
negatividade das esferas eletrônicas de um átomo é frustração
daquilo que não pode chegar a ser prótons nucleares. Na célula, por
que há de ser negativo o citoplasma, e positivo o núcleo? Se a mulher
é incompleta, porque, segundo Freud, lhe falta o falo, num mundo
perfeito, completo, que Freud criaria se fosse um demiurgo, as mulheres
teriam pênis como os homens, pelo oue não se sentiriam mais
frustradas, e antes, se dariam os parabéns por bastar-se a si
mesmas, não precisando mais dos homens. Essas mulheres
hermafroditas se fecundariam a si mesmas, como há exemplo nos
seres inferiores, e os homens ser-lhes-iam perfeitamente inúteis ... Que?
acaso pensaria Freud, como Platão, que a união mais alta é a de dois
homens entre si, porque racionais?
A sexualidade da mulher se abre para a sexualidade masculina;
do mesmo modo que esta busca completar-se com aquela. Se o
homem, como um todo, é a tese, a mulher, igualmente, como um
todo, é a antítese, e ambos só se realizam na mutualidade da síntese,
que é a família; se o filho (ou filha, não importa) completa a mulher
pelo corpo, pelo sentimento, como objeto do seu amor, igualmente
complementa o homem como motivo de sua luta, como imperativo da
sua perpetuação, esta que ele não pode realizar sozinho. Se o homem
propende a ser um ente mais racional que a mulher, esta se mostra
mais afetiva, mais amorosa que o homem; e entre amor e
racionalidade há a mesma equivalência de importância, de valor, que
214

entre substância e essência, que entre conteúdo e forma, que entre


corpo e alma, que entre indivíduo biológico e sócio, que entre
núcleo e citoplasma, que entre esferas eletrônicas e núcleo
atômico, que entre metal e metalóide na construção da unidualidade
molécula, que entre êmbolo e seringa, que entre parafuso e porca.
Desde que Deus não é Essência pura sem matéria alguma, como
pensara Aristóteles e outros; desde que Deus é também "corporal", visto
constituir-se da Energia-Substância-Amor, por este aspecto, a mulher
fica dignificada, tornando-se claro ser ela a contrapartida antitética do
homem, cuja síntese só pode ser achada na família. Tudo decorreu
da Referência Suma, Deus, porque, quando se supôs que ele era só
Razão pura, puro Pensamento, sem corpo, como a mulher é
corporalmente produtiva, ela foi tida por inferior. Agora, como
pudemos chegar a entender que Deus, para existir objetivamente,
precisa possuir Substância, corporeidade, por este aspecto, a mulher
se dignificou. Todavia, para os que recusam este fundamento remoto,
há este outro natural, intuitivo e próximo: tudo o que existe é uma
tese que se opõe, polarmente, a uma antítese para formar a síntese;
ora, nenhuma antítese (no caso, a mulher) é uma tese incompleta ou
inacabada.
Não se trata, como se vê, de ser feminista; trata-se de que esta
é a verdade peremptória, irrecusável, que a todos se impõe. Neste
sentido, tudo é sexuado no universo, pelo que ele, como diz Platão, está
cheio de eros. Não é preciso a mulher criar sua linguagem própria,
específica do seu sexo. Não está por achar-se a linguagem feminina no
mundo, pela qual a mulher possa manifestar-se: toda a linguagem do
sentimento feita de obscuro misticismo, mistério, poesia e amor, ainda
que feita por homem, é feminina. Porém, uma linguagem como a deste
escrito, ainda quando defende o sentimento, o amor, a substância, o
corpo, a mulher, é masculina, vibrante de clareza, de persuadimento,
de racionalidade. Também na música há sexualidade: as tonalidades
maiores são téticas, masculinas, e servem para temas alegres, vivazes,
heróicos; já as tonalidades menores são femininas, antitéticas, e se
prestam para os temas nostálgicos, patéticos, bucólicos, trágicos. Eis,
pois, chegado o tempo de se mudarem os conceitos a respeito da
mulher, fazendo que ela deixe de ser considerada em referência ao
varão. A mulher é em referência à família, tal qual o varão. Como o
homem, segundo Nietzsche, é um ser inacabado, um vir-a-ser ou devir
histórico continuamente modificado pelas contingências filosóficas,
psicológicas, econômicas, sociais, etc., esta nova tomada de posição
impõe-se agora, e vai nortear o futuro.
A idéia comteana, todavia, de que o homem age segundo leis
naturais invioláveis, teve os seus frutos benéficos, porque os
215

sociólogos e antropologistas se puseram a estudar as culturas, as


sociedades, não só no espaço como no tempo. O saldo de todo este
esforço, foi desolador para os positivistas, porque o homem não pode ser
reduzido a princípio de razão. Não há isso de estudar as sociedades
com o fim de descobrir-lhes as leis naturais; não há tais leis, e as que
há, são criadas pelo próprio homem como ser social. Tanto o social
que envolve o homem, como o que o embebe até às medulas, são
empreendimentos humanos, são empresas sujeitas aos métodos e
processos das formações empresariais. O homem é um ente que se fez
e que se faz, por sua conta e risco, e só salvar-se-á com se tornar sábio.
Kant, à frente de todos os idealistas, assentou seus a prioris, e,
segundo ele, o homem é moral por natureza. O imperativo moral
teria sido posto por Deus na natureza humana, sob a forma de intuição
moral. Por cima de mim, dizia ele, o céu estrelado; dentro de mim, a
lei moral. O a priori moral tinha que achar comprovação na história e na
pré-história; e indo nesta direção do passado, o que os antropologistas
encontraram, foi o inferno, inferno que também a psicologia de
profundidade achou dentro do homem. Então, o imperativo moral de
Kant não passava de puro mito..., próprio a manter em pé a
moralidade humana.
"Esta supremacia mítica do espírito (diz Gusdorf), mantida com
a energia do desespero, permite, se preciso for, riscar a natureza e a
história. Lachelier, um dos mais eméritos propugnadores do
racionalismo moderno, após ter lido, um dia, um estudo de pré-
história, do qual resultava que a família originária não havia sido
regida pelas regras kantianas do imperativo moral, escrevia a seu
colega Boutroux: "Tudo isto causa espanto, mas mesmo que tivesse
acontecido, mais do que nunca importaria dizer que tal nunca
aconteceu, que a história é uma ilusão, e o passado uma projeção,
e que de verdadeiro só existe o ideal e o absoluto; talvez seja essa a
solução da questão do milagre. A lenda é que é verdadeira, e a
história é falsa".
Lachelier não achando solução para o problema moral, a não
ser na concepção idealista, propõe que a ciência seja substituída
pela lenda criacionista, segundo a qual, um Deus justo e bom
formou tudo coerente com o que é. Mas a descida aos infernos
interiores do homem, realizada pela psicologia de profundidade, e a
regressão no tempo histórico, efetuada pela antropologia, deram azo
a se pensar num deus negativo, num "Demônio criador", segundo a
expressão de Schopenhauer. Com esta idéia imperante no mundo, a
moral está ameaçada de colapso, e, com ela, a civilização ocidental
que se espalha, hoje, pelo mundo. Todos podem rir-se da ingênua
proposta de Lachelier para o problema moral; mas o caso não é de
216

risos, mas de seriedade, porque ninguém, até agora, foi capaz de


propor outra solução. E sem um fundamento, a moral se derroca e é
nada; e sem moral, não há civilização, visto como, sem ela, a
civilização fecha o seu ciclo, regredindo à barbárie. Os que, pois, se
riem de Lachelier expõem-se a ser lastimados pelos vindouros, porque
tal rir de loucos força é que se transforme em lágrimas de tragédia.
A civilização ocidental está caindo porque se está evaporando as
bases da moral; e esta se conserva, ainda, um pouco, por causa da
inércia do impulso operado e reoperado pelos criacionistas, de Moisés a
Kant, dos quais nos rimos, hoje, nesciamente. A Doutrina da Evolução
demonstrou sem sombra de dúvida, que tudo se originou no turbulento
Caos. Ora, a idéia de Deus não nasceu do vácuo, do nada, mas da
experiência humana que viu no cosmo, beleza, harmonia e paz. A idéia
primitiva tinha que ser a de um Deus Relojoeiro, porque o princípio de
causalidade é o primeiro a despontar, já na vida orgânica, onde
aparece sob a rubrica de reflexos condicionados aos quais Bertrand
Russell deu o nome de "inferências fisiológicas". A concórdia entre os
elementos, a harmonia e a paz da natureza cósmica, abaixo do vital,
levaram o homem a inferir que tudo é belo e bom, porque nascente
duma Causa boa. Surge, porém, a desconcertante Doutrina da
Evolução que dá por origem de tudo o medonho Caos. Por causa disto,
então, como se sabe hoje, é que a vida é egoísta, ignorante, referta de
misérias, dores e tragédias. Filho que é da Natureza hedionda, amoral, o
homem, por seu próprio esforço, subiu do seu inferno pré-histórico,
como o provam as pesquisas antropológicas, em razão do que, o
homem traz, ainda, o mesmo inferno dentro, em si, como o demonstra a
psicologia de profundidade.
Era de esperar-se que a filosofia contemporânea, o
existencialismo, resolvesse a questão ingrata, cruel, de um bondoso
Deus ter criado um mundo sumamente mau. Todavia, o existencialismo,
cumprindo o seu dever histórico de ser a antítese em relação ao
idealismo, apenas veio opôr, a este, a sua meia verdade que ainda é a
de Heráclito, só que elaborada ao nível complexo do humano,
confundindo-se, portanto, com a antropologia, se bem que de visão
mais larga. Mais larga, sim, e tanto que, como no idealismo, manteve
Deus prisioneiro dentro do horizonte humano, pelo que continua Deus
sendo subjetiva projeção do homem.
Ora bem: há coisas que o homem descobre, e outras, que ele
inventa ou imagina; e acaso é Deus imaginosa invenção do homem?
ou é sua descoberta? Se, invenção, sê-lo-ão, também, os primeiros
princípios das ciências, e os postulados matemáticos, visto serem tão
indemonstráveis quanto o é Deus, pelo que não deve a ciência ter valia
fora do universo antropomórfico, ou seja, no universo objetivo. Neste
217

caso, é só na imaginação inventiva de Kepler, que "os raios vetores


varrem áreas iguais em tempos iguais". A não ser assim, que tudo é
invenção do homem, coisas há que são descobertas suas. Pois, então,
do mesmo modo que este enunciado de Kepler é uma descoberta
científica, decorrente da de Newton, a da gravitação universal, ambas
com validade objetiva, no universo, de igual modo a idéia de Deus
nasceu da observação humana objetiva; foi por extensão de suas
experiências vividas, que o homem inferiu a transcendência. Não é
Deus invenção do homem, mas descoberta sua, por extensão do
dado objetivo. Sua descoberta primitiva do divino, podia ser grosseira,
porém, não esquecer que até a nossa alta ciência objetiva, ainda,
agora, vive em crises.
A ciência, embora fundada, como se pretende, na observação
e na experimentação, desde Galileu, não prescinde dos primeiros
princípios intuitivos, indemonstráveis, pelo que ela não se basta só
com seu método de observação e experimentação; ela se obriga a
jogar, queira ou não queira, com os elementos metafísicos tais como
causa, espaço, tempo, matéria, energia, etc. E há mais: quando um
cientista põe em jogo seu método de observação e experimentação,
começa por delinear-se, em sua mente, uma hipótese de trabalho
pela qual a observação e a experimentação se conduzem. Hipótese
e experiência formam, desde logo, o unibinário em cujo âmago as
duas partes, mutuamente, se apóiam, se reforçam, crescendo, no
rumo da conclusão final. Assim é que consegue o homem elaborar
uma teoria que, comprovada, pode formular-se em lei. O unibinário
fica sendo: a lei e a sua demonstração. Esta lei indutiva, torna-se a
priori para uma porção de outros fenômenos semelhantes, ainda não
comprovados, mas que podem sê-lo, a partir da lei, tomada agora
como um a priori. Por causa do paralelismo desta lei com outras leis,
doutras disciplinas, pode-se enunciar uma lei mais geral que
arrebanhe a todas as leis menores na unidade. De generalização
em generalização chega-se a um princípio unitário. Um exemplo:
Quando Newton formulou sua lei da gravitação universal,
afirmando que as matérias se atraem na razão direta das massas, e
na inversa dos quadrados das distâncias, essa lei indutiva, porque
partida da experiência, passou, a priori, a cobrir tudo o que se refere
à difusão de energias por ondas. Como as energias se difundem em
esferas para todos os lados no espaço, ficam sujeitas às propriedades
matemáticas das esferas. Como o crescimento da superfície se faz
proporcionalmente ao quadrado do raio da esfera, segue-se que a
energia ondulatória ao difundir-se por esferas de raios
progressivamente crescentes, se decresce na proporção em que
esses raios aumentam. Esta lei da gravitação, unindo corpos
218

celestes e atuando nas entranhas dos átomos, acaba por ligar tudo
fazendo do universo uma unidade. Logo, estava certo Platão ao
afirmar que o universo está cheio de Eros (princípio de integração),
e vai movido por Eros. A gravitação, consequentemente, não é mais do
que um caso particular da Lei do Amor que impera do átomo ao
universo. E sendo Deus o Amor, nele, tudo se acha unificado. Em
mais alta e mais sublime esfera, a lei de Newton daria neste
enunciado: os entes se atraem na razão direta de suas potências
amorosas, e na razão inversa das distâncias entre si, distâncias não
só físicas como, e sobretudo, psíquicas. De outro modo: a força de
unificação do amor é diretamente proporcional à potência amorosa dos
entes, e inversamente proporcional às distâncias físicas e psíquicas
entre eles. Daí que o amor se esfria com a distância e com a mudança
psíquica. É por isto que a saudade dói muito, só no começo da
separação.
Eis como se pode comprovar um princípio geral: pelas leis que
ele engloba, e estas, pelas experiências de que nasceram. Todavia,
esse princípio unitário, alcançado por indução, portanto, a posteriori,
pode tornar-se a priori para um outro universo de leis que,
antecipadamente, guiarão outras experiências. Daí que Kant afirma que
os princípios científicos são indutivos a priori. O paradoxo da
expressão deixa de sê-lo, quando se sabe que se trata de dois
momentos opostos do pensamento: indutivos, porque partem da
experiência; a priori, porque, uma vez descoberta a lei, ela cobre uma
porção de fenômenos que se tornam conhecidos, antes da experiência.
Em matemática, o método é só dedutivo, analítico, apriorístico,
porque sempre se parte de um postulado indemonstrável, a não ser
pelos resultados verdadeiros que produz. Não vale proceder como o
geômetra moderno que, para fugir à contingência incômoda da
indemonstrabilidade do postulado inicial, opera a fragmentação dele
numa infinidade de outros postulados menores igualmente
indemonstráveis. É o caso de quando nos vêm com suas petulantes
definições "construtivas", no dizer de Gusdorf, segundo as quais eles
"criam livremente seu objeto numa espécie de vácuo conceptual. O
matemático proclama: "Chamo triângulo a figura determinada de tal e
tal maneira"..., - e, de ora em diante, o triângulo existe como ente de
razão, cujas propriedades derivam necessariamente de sua fórmula
constitutiva". Isto é petulância visto como o matemático, se fosse
modesto, diria como Euclides: "peço me concedam afirmar que o
triângulo é uma determinada figura de tal e tal maneira". Quando tais
matemáticos nos dizem que ponto, linha e plano são intuições, nada
mais fazem que tornar tais objetos geométricos em postulados
indemonstráveis.
219

Bertrand Russell, socialista mais de cariz religioso do que de


cunho filosófico, que fez da lógica um absoluto, da matemática uma
divindade e do pensamento positivo uma religião, exclamava: "A
matemática possui não somente verdade como ainda a beleza suprema
- uma beleza fria e austera, qual a da escultura, que não fala aos
fracos da nossa natureza, que não arma as trapas suntuosas da
música; é sublimemente pura e capaz de severa perfeição só
possível na arte suprema". E prossegue com seu cântico de glória à
deusa, noutro lugar: "Aqui, e aqui só, está a eterna verdade e o
conhecimento absoluto; estes teoremas a priori são as "Idéias" de
Platão, a "ordem eterna" de Spinoza, a substância do mundo. A
filosofia deverá ter como alvo igualar a perfeição das matemáticas,
confinando-se a proposições similarmente exatas e similarmente
verdadeiras antes de qualquer experiência".
Depois de este esquizóide (B. Russell) haver-se demorado,
como as almas recém-criadas de Platão, a contemplar as formas
imperecíveis, os arquétipos eternos, do Topos Uranos, eis que, como
elas, desce à face do planeta, e, apaixonadamente, entra a
raciocinar sobre a guerra, o governo, o socialismo, a revolução,
sem, nunca, fazer uso das imaculadas fórmulas matemáticas que
tanto exaltara. Eis o "matemático de sempre" que se pôs, de
improviso, a fazer filosofia, conforme a alusão de Garcia Morentes.
Após esta radical mudança de idéia, passa a enunciar que,
"para tornar-se efetivo e útil, o raciocínio deve ser sobre coisas e
nunca fora do seu contacto. Abstrações servem como sumários; mas
como implementos de argumentação requerem a prova e o
comentário da experiência".
Descido, Bertrand Russell, das empireais alturas, onde, segundo
Platão, pontificam as Idéias puras, que são as da matemática para o
nosso herói, viu, este, o mundo nosso, em toda a sua hediondez, e desta
experiência concluiu "que só um humorístico Mefistófeles poderia tê-
lo criado num momento de excessivo demonismo". E a matemática?
que diz dela, agora, Russell? Ei-lo: "nunca sabemos de que ela está
falando, nem se o que ela diz é verdadeiro". A isto, argumenta
Gusdorf:
"Só que, a despeito deste dito espirituoso de Bertrand Russell,
as matemáticas demonstram sua validade, da maneira mais
esplendorosa, por sua fecundidade e pela extraordinária harmonia
preestabelecida que lhes faculta aplicarem-se incessantemente a
elucidarem e a aperfeiçoarem a experiência, da qual constituem uma
cifra peculiarmente eficaz".
De deusa que era, para B. Russell, a matemática passou a ser
uma sibila que fala coisas que não se pode saber a que se referem,
220

nem se os ditos seus são verdadeiros. Contra esta invectiva russelliana,


Gusdorf dá, como critério de avaliação das matemáticas, os seus
resultados práticos. Ora, se a aplicabilidade das verdades
matemáticas que se alicerçam em postulados indemonstráveis, são
suficientes a dar a elas, matemáticas, validade, de igual modo, o
pragmatismo social valida a moral cujo fundamento é Deus.
Tal como os postulados, Deus, também, não pode ser provado;
porém, do modo como dos postulados saíram as matemáticas, de Deus
saiu a moral; e, se a praticabilidade das matemáticas é-lhes critério
de validação, identicamente, o pragmatismo social valida a moral; e,
tal qual não pode haver matemáticas sem postulados
indemonstráveis, também não pode haver moral sem Deus, sem um
fundamento, igualmente, improvável. Assim, trocando o termo
matemática por moral, no dito de Gusdorf, a construção ficaria
assim: a despeito dos que negam Deus, fundamento necessário da
moral, esta demonstra sua vitalidade, da maneira mais esplendorosa,
por sua fecundidade e pela extraordinária harmonia preestabelecida
(no social) que lhe faculta aplicar-se, incessantemente, a elucidar (a
conduta) e a aperfeiçoar a experiência (civilizante), da qual constitui
uma cifra peculiarmente eficaz.
A tal conduz a construção gusdorfiana, se aplicada à moral;
contudo, em lugar de dizer, da moral, que ela "constitui uma cifra
peculiarmente eficaz", diríamos basicamente eficaz, porque a moral
alicerça tudo, com fundamentar a própria civilização. Logo, como sem
civilização não haveria matemáticas, nem ciências, nem técnicas,
etc., a base da moral se torna fundamento de tudo, nesta ordem
causal: Deus → moral → civilização → postulados e matemáticas;
primeiros princípios e ciências → tecnologia, automação e
robotização → conforto → céu-na-Terra. Segue-se disto, que os
deicidas antigos e modernos são, ou onagros, ou loucos, uma vez que a
morte de Deus implica no puro e simples estiolamento de tudo o
mais. Insistamos ainda, um pouco, neste ponto:
De um postulado matemático sai um universo de princípios,
propriedades e teoremas, que podem ser aplicados às ciências que se
mostram executivas, conforme o provam as máquinas, a indústria, a
técnica que se acham por aí, funcionando. As descobertas, portanto,
embora efetuadas pelo homem, são-lhe exteriores, objetivas, e não,
invenções ou projeções dele. E se a aplicabilidade e funcionalidade
das ciências e das matemáticas são a rubrica de autenticação dos
primeiros princípios e dos postulados, pelo mesmo critério de
verdade, o pragmatismo e a facticidade da moral em que se
fundamenta a civilização, autenticam o ser e a existência de Deus,
visto como é nele, e só nele, que se alicerçam os códigos éticos
221

primeiro, e legais depois. Embora as leis civis modernas não se


refiram a Deus, como fundamento primeiro, os atributos de Deus
estão na sua gênese remota. Ainda que se não faça nenhuma
referência às mãos e aos pés, ninguém consegue executar nada sem
eles. É por isso que quando uma civilização cai, não há leis
nenhumas que consigam segurar a derrocada; é que faltou às leis
o embasamento moral. Então podemos construir o seguinte raciocínio,
para os que pedem provas da existência de Deus:
Sem o imperativo moral, a civilização não nasce, nem se
desenvolve. Ora, a moral se alicerça em Deus desde o início, quando
principiou a civilização da besta pré-hominídea, e sempre que a moral
é posta de lado, apesar de todas as leis civis, o homem retorna ao
estado de que saiu, e a civilização se desfaz. Logo, Deus existe
como intuição de que nasce a moral que torna efetiva a civilização.
Os que, logo, pregam "a morte de Deus", ou dizem haver no lugar
dele "uma poltrona vazia"; os que afirmam que "Deus é invenção do
homem", ou afirmam que "Deus é o próprio homem", ou definem o
homem como "o que quer ser Deus", todos estes, sem exceção, acham-
se ocupados em solapar os alicerces da moral em que se assentam
as leis civis, os usos e os costumes sociais sadios. Agora, por causa
desta pregação, conseqüente do repto assentado pelo
Evolucionismo, as religiões todas estão em colapso; a polícia já não
dá mais conta de tantos abusos, e, também, abusa da força
impunemente; as nações já estão entrando em caos, a família está
falindo, a anti-polícia começa a organizar-se, começam a surgir os
terroristas de todos os pretextos, os bandidos de todos os matizes, os
aventureiros de todos os descalabros. A civilização nossa agora vai a
zero... ainda que sem guerra total... se a idéia fecunda exposta
neste livro não for posta em prática, com urgência.
Como, sem a moral, apesar das leis e da polícia, a sociedade
humana não funciona, então, o funcionamento do social prova a
autenticidade da moral; e como a moral nasce de Deus - e não há
outra fonte donde nascer - então, a existência de Deus se autentica
pela moral, e esta, pela funcionalidade do social.
Consequentemente, Deus não é invenção, porém, descoberta do
homem, estando esta primordial descoberta na raiz de todas as
demais que só foram possíveis com a civilização. Deste modo, a
descoberta de Deus, propiciando o eclodir da civilização, deu azo
a que se desenvolvessem as ciências, conseqüentes dos primeiros
princípios, e as matemáticas, decorrentes dos postulados e dos
axiomas. Nunca, jamais, poder-se-á provar que houve alguma
civilização sem Deus e sem religião; e tal como já muitas vezes tem
acontecido, agora, também, a morte de Deus e o estiolamento das
222

religiões irão pôr um ponto final em nossa civilização ocidental. Ela


perviverá ainda, por certo tempo, enquanto durar a inércia do impulso
que lhe deu origem. Há, pois, duas opções: ou se põe em prática a
Doutrina do Evangelho, reconfirmada por esta nova visão ("eis que
faço novas todas as coisas" - Apoc. 21, 5), ou se desce a nada. No
caso de se ir a nada, também há duas alternativas: uma é a
Terceira Guerra; a outra, o decréscimo progressivo, cada vez mais
acentuado, dos nascimentos. Quando as nações "desenvolvidas"
tiverem completado seu desserviço de exportar sua "civilização"
decadente para o resto do mundo, então, o desastre será completo pela
Terra inteira, sobrando, apenas, uns poucos homens transformados em
selvícolas.
Por meio de idêntico raciocínio visto atrás, chegamos às
qualidades de Deus, das quais se parte para construir a moral.
Conforme a natureza de Deus, ou a do que se coloca no lugar de
Deus, assim será a moral. Se deus é a Natureza circundante, a moral
será a da força e a da astúcia, e Trasímaco, Maquiavel e Nietzsche
passam a ter razão. Porém, se Deus é a anti-natureza, no que ela
tem de invertida neste mundo, Cristo está certo, e a moralidade
consiste em negar-se o homem de demônio, de dragão, de animal.
Deus, pois, é a eterna Referência do homem; negar-lhe a existência, o
ser, é apenas mudar a Referência de nome e de lugar, e, então,
pode ela ser a Natureza, a Razão, a Ciência, a Técnica, o Poder, a
Vontade, a Liberdade, a Humanidade, o Proletariado. O último termo
de referência, esse fica sendo Absoluto, fica sendo Deus.
Quem é, então, Deus? Deus é o que promove a civilização, a
integração, a harmonia, o cosmo, a ordem, a alegria, a beleza, a paz.
Ora, o que integra, harmoniza, ordena, cosmifica, alegra, pacifica,
civiliza, é Eros, ou Amor; logo, Deus é Amor. Eros é o Princípio de
Integração, conforme o afirma o mestre Hesíodo, e quem diz princípio
diz essência; consequentemente, Eros é o Primeiro Princípio por
excelência ou Deus-Forma. Unijugado a essa Essência está o Amor
que é a Energia-Substância basilar, prima, em sentido absoluto, de
que todas as demais energias-substâncias decorrem.
Com isto, acaso, temos definido Deus? Claro está que não, visto
como apenas o assinalamos..., como faz o físico com o seu espaço,
com o seu tempo, com a sua causa, com a sua energia, com a sua
matéria, etc. Estes são os primeiros princípios do físico,
indemonstráveis, inexplicáveis, indefiníveis, porém, em que se
fundamenta a sua disciplina. Para uso imediato, porém, o físico é
forçado a dar definições. Quando ele afirma que o espaço é o lugar
ocupado pelos corpos, e existente entre os corpos, não definiu o
Espaço, em sua plenitude, porque, sendo o Espaço uma intuição, por
223

isto mesmo é indefinível. E há mais: dado que o físico definiu espaço


como sendo o lugar ocupado pelos corpos ou existente entre eles,
sua definição ficou pendente de outra: que é corpo? Então ele diz:
corpo é o que ocupa lugar no espaço. Eis estabelecida a petição de
princípio que é o raciocínio vicioso, consistente em dar por
verdadeiro aquilo mesmo que ainda está por demonstrar-se. Para
não cair nisto que, também, se chama círculo vicioso, o físico aventa
que espaço é a extensão INDEFINÍVEL que abrange todos os
seres e coisas.
Igualmente, o tempo é a duração do movimento, ou o
intervalo entre os acontecimentos. Com esta definição, ele,
comodamente, trabalha em suas experiências e em seus cálculos.
Quando, todavia, ele atenta para o fato de que quanto maior for o
movimento, mais se encurta o tempo, é compelido a concluir que,
quando o movimento se fizer infinito, o tempo fica nulo, zero, e não
há mais tempo. O objeto imaginário que se movesse no espaço, com
velocidade infinita, ficaria onipresente em todos os pontos de sua
trajetória. Pela recíproca, se o movimento diminuir, progressivamente,
o tempo se vai aumentando; quando o movimento for nulo, o tempo se
torna infinito ou eterno. Eternidade, dirá ele, é o movimento que
cessou, que se imobilizou.
Já, para São Tomás, todo o tempo é eterno, ainda que seja
um átimo, porque, como dizia, do desenvolvimento do tempo menor,
depende o maior. O tempo menor determina o maior, em que se fixa.
É deste modo que quaisquer, tempos se acham alojados na
eternidade em que até os átimos de tempo se eternizam. Como se
vê, para São Tomás, a eternidade é a somação de tempos. Por
causa destas dificuldades, Santo Agostinho já dizia: "se ninguém me
perguntar o que é o tempo, eu sei o que é o tempo; porém, se
alguém me perguntar o que é o tempo, eu não sei o que é o
tempo". Então, é perguntar para o físico, de novo: o que é o tempo?
Não só o físico, mas, o químico, o biólogo, o psicólogo jogam com o
conceito de causa. E definem causa como o antecedente de que
decorre algo. Se tudo decorre de uma causa que, por sua vez, é
conseqüência de uma causa anterior, e assim, sucessivamente, deve
haver uma Causa Primeira, uma Causa não causada, indefinível e
inacessível, ou então, a cadeia ascendente não terá fim, e será
válida a ingênua, mas, desconcertante, pergunta da criança que
interroga sobre a origem de Deus.
A isto, Kant afirma que é arbitrário e ilógico interromper a
cadeia causal numa Causa Primeira. Pelo mesmo raciocínio é
arbitrário e ilógico interromper a sucessão dos espaços cujo termo é o
infinito, pelo que se deve prosseguir para além, ainda mesmo, de
224

um transinfinito. De igual modo, segundo o entende São Tomás, sendo


a eternidade o termo final da somação de todos tempos, ou seja, o
Círculo supremo oriundo do abrir-se e do fechar-se dos tempos ou
espirais menores; sendo ela aquele grande Inspiro dentro do qual
respiram os ciclos temporais de todos os fenômenos; tal cadeia
temporal não pode ser interrompida naquele infinito Inspiro sem
Expiro, a que se dá o nome de eternidade. Não! Aquele Inspiro
também Expira; aquele grande Círculo do eterno que se abre, também
se fecha, pelo que, se o Inspiro é a eternidade, o Expiro que vem
depois não pode ter outro nome que Transeternidade. Que se conclui
disto? Pois se conclui que, pela mesma razão por que não há o
transinfinito e a pós-eternidade, não pode haver algo anterior à
Causa Primária. Admitido um termo para o espaço, que é o infinito, e
um termo para o tempo, que é a eternidade, há de haver um termo
para a cadeia de causalidade, e esse é a Causa Primária. Assim tem
que ser, queiram ou não queiram os racionalistas puros, porque,
saibam-no eles, toda a cadeia de raciocínios, ou começa ou acaba
numa INTUIÇÃO indemonstrável.
Augusto Comte, à frente do cientismo, pretendeu tocar a finados
pela morte da metafísica, como se os homens de ciência não fossem
compelidos a fazer metafisica, na hora de justificarem suas posições
iniciais. O físico, como o químico, não pode definir os seus
fundamentos que são Tempo, Espaço, Causa, Energia, Matéria,
Corpo, etc. Estes são os seus primeiros princípios indemonstráveis,
sobre os quais todas as ciências se apóiam. Um modo cômodo de
evitar quaisquer discussões é dizer como Voltaire: "Se quereis
discutir comigo, defini os vossos termos". Porque? Pois, porque,
obrigando o interlocutor a definir, chega a hora em que ele cai numa
antinomia que é um pressuposto indemonstrável.
Assim, quando dizemos que Deus, como Essência é Eros
(princípio de integração); e que Deus, como Substância, como
Energia-Substância, é o Amor, procedemos como o físico ao definir
o seu espaço, o seu tempo e a sua causalidade para uso doméstico.
Dado que tais conceitos se remontam ao inacessível dos primeiros
princípios, igualmente, nossa definição serve só para nos
entendermos, para que nossas palavras não se tornem pura zoada de
gongo.
Cada um, agora, que se ponha a imaginar a portentosa
manifestação de Eros, integrando tudo, do elétron ao universo; que
imagine o Amor, na queda, se degradando nas energias inferiores,
cada vez mais simples, monocromáticas, de comprimentos de ondas
cada vez mais curtos, até que, no Caos medonho, tais raios de
energias concentrantes se enrolaram nos elétrons e nas demais
225

partículas subatômicas. Eis aí como tais energias degradadas se


petrificaram em matéria. Ponha-se, depois, a meditar sobre como, na
fase inversa, evolutiva, a Ordem pouco a pouco se fez a partir do
Caos, saindo deste o universo, e, deste, a vida, por transformação
evolutiva das energias inferiores; como, da vida, brotou, cresceu e
frondejou a consciência cujos frutos vemos hoje nas maravilhas da
técnica que impõe ao homem moderno a alternativa crucial: ou se
vence a si mesmo, e se torna senhor, ou é vencido e fica escravo de
dragontinas paixões, pelo que, em descendo, perde tudo o quanto é
e tem. Se neste ponto perigoso da escalada, conseguir o homem
superar-se, seus sentimentos se sublimarão naquele antigo e agora
novo Amor, Causa Primeira e Fim Último de tudo.
Move-nos a riso a ingênua pergunta de muitos que nos pedem
a demonstração da existência de Deus. Eles que nos provem, então,
que Deus não existe. As provas em contrário sempre são refutações
às demonstrações da existência dele. Ora, quem refuta uma
demonstração, nem sempre prova a afirmação oposta, isto é, de que
Deus não existe. Como as afirmações pró e contra são antinomias, é
tão impossível a uns como a outros demonstrarem suas afirmações.
Uns e outros, pois, tal como ocorre com os racionalistas, para
armarem seus raciocínios, hão que se firmar numa premissa que se
apóia em outro fundamento, e este, em outro, até que o último não
poderá ser demonstrado.
Nossa prova, para fins domésticos, práticos, se afirma na
funcionalidade da moral, do mesmo modo que os primeiros
princípios das ciências físico-matemáticas, e os postulados
matemáticos se validam graças a aplicabilidade das ciências e das
matemáticas que nascem deles. Face a isto, deixamos, aqui, um
desafio aos negadores: provem, eles, que pode haver
condicionamento moral, sem um alicerce escatológico... Ao
fazerem isto, no entanto, tenham em mente duas coisas: a primeira é
que, neste nosso mundo, mesmo com a moral de fundo escatológico,
as coisas nunca andaram bem, e os homens vivem como se
"morreu acabou". A segunda é o fracasso de Confúcio, quando
pretendeu fundar uma moral objetiva, isto é, embasada em motivos
seculares.
Sem Deus não há moral, e sem esta, não há civilização. Esta, a
nossa "prova".
E é isto mesmo que está acontecendo: a Doutrina da Evolução
solapou os alicerces da moral, deixando-a suspensa no ar, e o mundo
humano começa agora sua queda rumo à barbárie, como mais vezes
já aconteceu. Nossa moral se fundamenta na concepção criacionista
de um Deus justo e bom. Ora bem: a Doutrina da Evolução,
226

mostrando que tudo teve origem no Caos (donde a ignorância, o


egoísmo, as dores e misérias do mundo), deixou implícito, sem
sombra de dúvida, que, ou não há Deus, ou ele não é bom. E até
agora, não surgiu nenhum filósofo evolucionista que demonstrasse a
justiça e a bondade de Deus, através da Evolução. Spencer, é certo,
foi evolucionista; mas, em vez de deduzir a teodicéia da Evolução,
fê-la sair dos Primeiros Princípios. Urge, portanto, esta filosofia que
fazemos, para a salvação do mundo, salvação que, entenda-se, não
é nossa, mas, de Cristo, apenas vista com olho filosófico. Esta
grande causa nos obrigou a expender o ingente esforço de efetuar a
síntese que, apesar da Evolução, e ainda, com a Evolução, cria nova
base de sustentação para a moral.
227

XII - ALMA E CORPO

Outro aspecto do unidualismo humano, é o par de opostos e


complementares alma e corpo. Outra vez a alma é essência, e o corpo,
substância, sem nenhuma possibilidade de separação um do outro no
real.
A divisão que comumente se faz entre espiritualismo e
materialismo gera confusão, porque, quando se pensa que espírito é
alma, vai-se ver, através do quanto se há dito, que o espírito é uma
entidade composta, outra vez, de alma essencial e de outra coisa,
esta, de natureza substancial.
Kardec chama alma ao espírito encarnado, e espírito, à alma
desencarnada. Com isto, alma e espírito se tornam palavras sinônimas,
diferentes só quanto à situação de estar num corpo de matéria densa,
ou num corpo de matéria espectral. Este corpo de matéria
quintessenciada é o perispírito. Então, segundo o kardecismo, o ente
humano é constituído de alma e corpo, se encarnado, ou de espírito
e perispírito, se desencarnado. Ou melhor: o homem encarnado se
constitui de alma, perispírito e corpo físico. O perispírito é o duplo
etéreo do corpo físico. E a alma, em sua condição de espírito
encarnado, pode, durante o sono, comunicar-se, ou com os espíritos, no
mundo espiritual, ou com os próprios homens em sessões espíritas,
podendo, neste caso, ser vista pelos videntes, como se fôra um espírito
desencarnado. Em linguagem espírita, quando um espírito ou uma
alma se manifesta a um vidente, o que este enxerga é o perispírito,
ou corpo espiritual.
Segundo a tradição cristã, o unibinarismo humano se constitui de
alma e corpo, só que este pode apresentar-se como corpo
corruptívél, que é o de matéria densa, e corpo glorioso, corpo
incorruptível que será aquele de após ressurreição, conforme o
entendia São Paulo. Então, o corpo incorruptível ou glorioso
corresponde ao perispírito dos espíritas.
No Egito, se pensava que o corpo denso tem o seu ká ou duplo
etéreo, que é o sobrevivente da morte física, e que vai para outros
planos de existência unijugado à alma. A destruição do corpo físico
implicaria na destruição do ká, e a alma cessaria de ser, por falta de
seu veículo de manifestação. Daí o embalsamamento dos cadáveres,
para que o correspondente do corpo, o ká, pudesse sobreviver.
Sendo que a alma, como essência, não pode ser, senão unijugada
a um corpo, que pode ser o de matéria densa, ou um outro de matéria
fluídica, com os nomes de perispírito, corpo incorruptível, corpo
glorioso, corpo astral, ká, então, podemos estabelecer para este
228

nosso estudo, que o homem é uma unidade dual, uma dríada,


composta de corpo e de alma, seja na carne biológica, seja fora dela.
Se o corpo não pode existir sem a alma, e se esta não pode ser sem o
corpo; se ambos se dependem, mutuamente, de modo que a alma
para ser, precisa do corpo sem o qual não é; o corpo para existir,
necessita da alma sem a qual não existe; então, alma e corpo são as
duas partes oponentes e complementares da dríada conjugadas na
unidade do homem. Como ambos, alma e corpo pertencem ao mesmo
nível hierárquico, tal como tese e antítese, são iguais em valor não se
podendo dar primazia nem à alma em prejuízo do corpo, nem ao corpo
em detrimento da alma. E é nesta primazia de um sobre o outro e
vice-versa, que se cifra o corporalismo materialista e o almismo
idealista..., duas atitudes psicológicas antagônicas, radicais, que
separaram os homens em duas facções contrárias desde os primórdios
até hoje. O que se vai ver poderá, agora, ser tido por muito fácil;
contudo, impossível se creu antes de achado:
O idealismo essencialista faz a ênfase recair sobre o ser, no
passo que, mantendo-se em posição diametralmente oposta, o
materialismo existencialista faz a ênfase recair sobre o existir. No que
se refere ao unidualismo humano, os almistas pretendem que o
"espírito" tem prevalência sobre a matéria, no passo que os
corporalistas requerem para o corpo esse privilégio, proclamando
que a alma é função do organismo. Ora, nesta luta de contrários, como
sói acontecer, não haverá vencedores nem vencidos, porque os
elementos do par não podem converter-se um no outro, visto como um se
refere à essência, e o outro, à substância. Como a essência não se
poderá tornar na substância, nem esta, naquela, também o corpo não
é resultante da alma, nem esta, função do organismo, e, antes, uma
e outro, em igualdade paralela, em igual nível hierárquico, formam o
unidualismo in-de-com-po-ní-vel do ser humano. Eis pois, como cessa
a velha luta, quando se pode enxergar que a unidade humana é
monobinária, desde sempre formada pelo par de opostos alma e
corpo. A guerra que os almistas movem ao corpo é oriunda da
confusão que fazem entre o corpo e a animalidade grosseira, a
carnalidade, o pecado; agem como se fosse possível ao homem existir
sem o corpo, assumindo a condição de alma sem substância, essência
pura, pura idéia... vazia de conteúdo corporal de qualquer espécie.
São Paulo, fazendo a distinção entre corpo carnal corruptível e
corpo espiritual incorruptível, diz:
"Assim também a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo em
corrupção; ressuscitará em incorrupção.”
"Semeia-se em ignomínia, ressuscitará em glória. Semeia-se em
fraqueza, ressuscitará com vigor”.
229

"Semeia-se corpo animal, ressuscitará corpo espiritual. Se há


corpo animal, há também corpo espiritual" (1 Cor. 15, 42 a 44).
Mais:
"Porque convém que isto que é corruptível se revista da
incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista da imortalidade”.
"E, quando isto que é corruptível se revestir da
incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então
cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na
vitória" (1 Cor. 15, 53 e 54).
Se até o corpo corruptível é indispensável como campo de
semeadura, de experiência, para que, um dia, já livre do ciclo
biológico do nascer e do morrer, o homem possa permanecer só
com seu corpo incorruptível e imortal, vivendo, para sempre no
Mundo Espírita, no Mundo Celeste, no Topos Uranos, já se vê, não
há de ser ao corpo que se tem de mover guerra, e sim a tudo aquilo
que o faz prisioneiro da mortalidade, isto é, do ciclo biológico das
reencarnações. E o que o faz sujeito ao ciclo periódico da morte,
da reencarnação, é o estar ele invertido de anjo, ressumbrante de
animalidade, pejado de culpa, perdido nas trevas. Vencidas estas
pulsões baixas, desinvertido de dragão egoísta, ignorante, perverso e
mau, o corpo se torna num aliado, porque os bons hábitos, os
costumes sadios, são tão persistentes, tenazes e arraigados, quanto
os seus opostos, os hábitos viciosos. Se no estar invertido se
fundamenta a morte, com seu periodismo nascer-morrer, na
desinversão estará fundada a vida eterna, sem sombra de morte,
cifrando-se nisto o sentido da sentença proferida pelo Apóstolo:
"Tragada foi a morte na vitória". Consequentemente, o corpo, em
si, não é inimigo, e será um aliado útil, se a inércia em que se
fixaram os hábitos dragontinos, animalescos, desde evos longos, for
rompida pelo fremente esforço da desinversão. Esta é a causa por que
São Francisco chamava ao próprio corpo de irmão corpo.
Livrar-se o homem de seu corpo de carne, porque corruptível,
não é livrar-se das pulsões animalescas, satânicas, dragontinas. O
corpo espiritual daquele que não se desinverteu de dragão,
continuará invertido após a morte física, e os planos inferiores do
mundo espiritual estão cheios de orgulhosos, de avarentos, de
hipócritas, de invejosos, de luxurientos, de perversos, alfim, de
invertidos de todas as espécies e matizes. A recíproca disto pode
achar-se no corpo de matéria densa que, embora corruptível, pode
ser o corpo irmão, como sabiamente o entendia São Francisco.
Para os cristãos, vale este argumento: Cristo tinha corpo de
matéria; logo, ou era inimigo de seu próprio corpo, ou não o era; se
o era, então, ele, como nós, vivia em luta consigo mesmo; acicatado
230

pelo aguilhão da carne, do egoísmo, da animalidade. Todavia, se


não se pode imputar nada destas coisas a Cristo, neste caso, ele
não podia ver inimizade entre si-alma e si-corpo. Se o corpo seu não
lhe era inimigo, quem é o inimigo? O mundo?
Sim ... o mundo ... porque este nosso mundo não era o seu
mundo - "meu reino não é deste mundo" (Jo. 18, 36). O seu
mundo era o condizente com o seu corpo, no passo que o nosso
mundo "está posto no maligno" (I Jo. 5, 19), em razão do que
nosso corpo, ressumbrante de animalidade grosseira, é invertido e
mau. E se o nosso já é o mundo do maligno, como se explica que,
depois de sua morte, Cristo tivesse descido aos infernos a pregar aos
Espíritos que lá estavam em prisões desde os dias de Nóe?
(I Pe. 3, 19). Se o nosso mundo estava posto no maligno, em quem
estava posto o imundo inferno ao qual Cristo desceu para pregar
aos Espíritos que, além de infernados, ainda se achavam em prisões?
Metidos em prisões dentro da prisão do inferno?
Se Cristo foi pregar a tais perversos tão perdidos, só podia ser
para os salvar. Salvar do que? Salvar desses mundos inferiores. E como
poderia ser isto? Pois não há outro meio: os seres dragontinos,
ouvindo a PALAVRA, haviam de propôr-se ao ingente esforço de se
desvirarem de dragões; e conforme a desinversão se fosse operando,
tais seres ir-se-iam ascendendo na escala da salvação, o que só é
possível pelas reencarnações neste e noutros mundos, até que, em
chegando os desinvertidos a santos e a sábios, pudessem bradar
com o Apóstolo das gentes: "Tragada foi a morte na vitória". Esta é
a causa por que o ignorante-pecador não pode romper o ciclo da
morte (nascer-morrer), a não ser quando se tornar sábio-santo; e
jamais, nunca, antes disto, porque "o salário do pecado é a morte"
(Rom. 6, 23). Qual será, logo, a conclusão disto? Pois não pode haver
outra senão esta: se, em qualquer nível de existência, a dríada
corpo-alma tem seu mundo próprio, não tem sentido achar que todo
o mundo é demônio. Acaso é demônio o mundo angélico, arcangélico,
querubínico, serafínico, crístico? Nosso mundo era mais imundo antes
do que agora. Mesclado ao nosso mundo está o imundo, e é contra
este imundo que se deve mover guerra, a começar em nós próprios. A
missão de cada homem, portanto, é desajustar-se em relação a seu
próprio mundo, tornando-se, quanto possível, mais sublime que ele.
Com isto, não só tentará arrastar o mundo para o seu próprio nível,
como livrar-se-á de tal mundo, um dia, indo-se para outros mais
altos com os quais, de antemão, estará ajustado.
Esta doutrina nossa, pregando o desajustamento num mundo
onde estar ajustado a ele é que é o ideal, deve causar muitas
controvérsias e polêmicas. Prevenindo-as, faremos a crítica a uma
231

sentença de Leonardo da Vinci, a qual deve cair bem a todos os


ajustados e partidários do ajustamento. Porque, como dizem estes, só
poderá ser feliz aquele que estiver ajustado. A isto, replicamos que não
pode haver felicidade nos mundos inferiores, e acomodar-se a eles, é
recalcitrar ao imperativo vital de subir a estado melhor, de ascender a
mundos mais felizes. Disse Leonardo: "A sabedoria da vida não está
em fazer aquilo de que se gosta, mas em gostar daquilo que se faz".
Gostar daquilo a que as contingências nos obrigam fazer, é
acomodação. Portanto, a sabedoria da vida, segundo da Vinci, consiste
na acomodação, isto é, gostar daquilo que se é obrigado fazer.
Fôra isto verdade, cada ser biológico sentir-se-ia muito feliz em
ser o que é, o anseio de ir a mais deixaria de existir, a evolução seria
uma utopia, sonho vão, e não, a realidade. Espártaco, o escravo
romano, sentir-se-ia perfeitamente integrado na sua servidão, não
tendo agasalhado em sua mente e em seu coração o ideal da
liberdade pela qual morreu trucidado juntamente com seus sequazes,
de modo que toda a via Ápia se encheu de cruzes. O Brasil estaria
muito a gosto sob o imperialismo de Portugal, Tiradentes teria sido
arrematado louco, porque ... a sabedoria da vida consiste em gostar da
situação em que se está, ou em ser o que se é, não indo a mais, não
buscando situação diferente, reputadamente melhor. Cada encarcerado
por seu crime, acabaria acomodado à sua vida de prisão, de modo a
ser-lhe aflitivo ser posto em liberdade. Ninguém lutaria por superar-se a
si mesmo, e o menino, filho de pedreiro, porque ajuda o pai a
construir casas, acabaria pedreiro também, ainda que se mostrasse
talhado a ser um gênio científico, um matemático famoso, um célebre
filósofo, um escritor renomado. Abraham Lincoln teria errado quando,
adolescente ainda, trocou o machado pelo livro, do que resultou ser
ele um dos maiores presidentes que os Estados Unidos já tiveram.
Fique Lincoln rachador de lenha, permaneça, o menino gênio, pedreiro
como o pai, continue o presidiário acomodado à sua cela, prossiga o
Brasil vassalo de Portugal, acomode-se José Joaquim da Silva Xavier
à função de tirar dentes, aceite Espártaco ser escravo de Roma,
permaneça cada ente biológico em seu nível que seria um só, porque
nenhum se aventuraria a subir na escala evolutiva saindo-se de
marisco ou de molusco. Tal seria o mundo se fosse certa a sentença de
Leonardo.
No entanto, buscar fazer aquilo de que se gosta, seguir a
tendência, o pendor natural, a vocação, é criatividade, é realizar aquilo
para o que se é talhado, seguindo a linha de especialização que tende
tornar o indivíduo autêntico, único em si mesmo, inconfundível. São
Tomás já dizia que cada anjo é uma espécie. Por isto a sábia Natureza
cria sempre diferentes, e nunca, iguais, porque permite a cada um
232

especializar-se naquilo de que gosta de fazer. A ave, outrora réptil,


começou a voar, não por necessidade, e sim, porque voar dá prazer.
O prazer, a busca de alegria, da felicidade, move o mundo.
Ora, procurar fazer o que confere alegria, é "fazer aquilo de
que se gosta”. E cada ser biológico buscando o que lhe era aprazível,
criou isso aí que vemos: a Natureza vária, calidoscópica, magnificente,
bela. `
Face à sentença de Leonardo, que significação teve o anseio de
Colombo em querer chegar às Índias, navegando pelo lado oposto,
fiado só na então hipótese da esfericidade da Terra? Por que um
primitivo anônimo havia de aventurar-se a navegar em sua canoa
improvisada, um simples e rude tronco seco carcomido pelo fogo?
Que aventura foi aquela de por velas à canoa para navegar com a
força do vento? Por que ir à Lua e, de futuro, a outros planetas? Por
acaso a sabedoria não consiste na acomodação, pelo que cada um deve
ficar quedo no seu posto? Fique, logo, cada um, acomodado ao que é,
gostando daquilo que faz, pondo de lado a loucura de procurar fazer
aquilo de que gosta, e antes, acabe por gostar daquilo que faz.
Leonardo da Vinci foi um gênio como pintor, escultor, arquiteto,
como inventor de coisas belas, não, porém, como filósofo, como o
demonstra sua sentença. E como se pôs a fazer filosofia, numa aventura
de sair daquilo em que era competente, errou, pois a sabedoria da vida
consiste, muito ao contrário, em fazer aquilo de que se gosta, para
ser possível, depois, gostar daquilo que se faz.
Quando se faz o que se gosta, o trabalho é puro diletantismo,
alegria de viver, flanar criador. Com que mágoa se deixa o trabalho
de um dia, vencido pelo cansaço! Com que antecipado júbilo se sabe
que, no dia seguinte, pode prosseguir naquele esforço que dá prazer!
Edison, um dia, prometeu à sua esposa, depois de muita insistência
desta, que iria tirar férias. Iria passá-las no lugar onde mais gostava
de ficar. No dia aprazado, ele se foi às suas férias, passando-as na
sua oficina de costumeiros trabalhos, em que executava suas
invenções ...
Já quando se faz aquilo de que se não gosta, o trabalho pesa
como uma maldição: "Lavrarás a terra, e comerás o teu pão com o
suor do teu rosto”... Suposto que Deus é o que mais trabalha,
segundo o afirma Jesus: "Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho
também" (Jo. 5, 17); suposto que Deus não cessa de agir, vendo nós
sua obra grande, bela e vária, havemos de concluir que não faz nada
igual, e sim, tudo diferente; não pode ele ser um acomodado, a repetir,
monotonamente, um labor sempre igual. Cria ele o diferente, o sempre
desigual, porque o prazer seu consiste, não no repetir, mas no variar.
Não, logo, acomodação servil, escrava, monótona, cansativa, mas
233

anseio de ir por diante, de avançar por caminhos novos, de realizar-


se, realizando o diferente, de buscar um trabalho gozoso,
aventurando-se a executar aquilo que dá gosto, alegria e prazer.
Acomode-se, embora, a ostra à sua concha, a tartaruga, ao
seu casco, o animal, ao seu instinto, o homem medíocre ao seu trabalho
escravo, monótono, rotineiro, robotóide; mas não se diga que o
talento deva apoucar-se pela acomodação a um quefazer que oprime
e desgosta. Conforme-se o galo em arrastar a asa às suas galinhas, e a
comer restos de comida, mas não se imponha cativeiro à águia cujo
gosto supremo consiste em cortar o aéreo espaço em altaneiro vôo,
porque é lei da Natureza que cada um busque fazer aquilo de que
gosta, e não, nunca, gostar daquilo que faz, a menos que, de
antemão e livremente, tenha procurado fazer aquilo de que gosta, e,
só por isto, agora, gosta do que faz.
O acomodado não se abalaria a sair do seu alojamento com o
qual se identificou. Contudo, sem dúvida, mudar-se-á, ao sentir-se
incomodado. No desajuste, pois, está o começo da subida... ou da
descida. Satã, com se desajustar, lavrou nos seus consócios, como por
contágio, a rebeldia que foi completa pelo empíreo inteiro, arrastando,
consigo, na queda sua, um terço dos espíritos celestes.
Cristo desceu aos infernos a pregar aos Espíritos que lá se
achavam em prisões desde os dias de Noé? E que prisões eram essas?
Essas eram as piores que há, porque não eram prisões exteriores:
essas prisões eram os calejamentos com que se endurecem as almas
rudes!, eram os grilhões invisíveis que prendem as consciências na
ignorância, no erro e no mal!, eram as acomodações e a inconsciência
do próprio estado miserável!, eram o esquecimento, o desnorteio e a
cegueira dos infelizes que ignoram suas maldades, suas demonices!
Isto foi Cristo fazer nos infernos: desalojar, desaguilhoar,
desacomodar, despertar, descalejar, desajustar as consciências com sua
arquiluminosa presença e suas ignipotentes palavras que abrasam
penhas.
De tais mundos, e de outros um pouco mais altos, sempre todos
feitos de essência e substância, temos o relato pormenorizado feito
pelo Espírito André Luiz através da mediunidade de Francisco
Cândido Xavier. Outra coisa não fez Dante de Alighieri em seu
Inferno, em seu Purgatório (umbral) e era seu Paraíso. Milton não lhe
fica atrás, pondo tudo em acros e portentosos versos. Não há mundo
que exista, feito de pura idealidade, de forma vazia, de essência
pura, sem conteúdo, sem matéria, sem substância. Ninguém consegue
romper, no real, o relacionamento da dríada essência e substância.
Nem Platão, seguindo nas pegadas de Parmênides, com seus
dois mundos, o inteligível e o sensível, pôde prescindir da
234

substância, no seu Topos Uranos. Ali, o Demiurgo age, criando


almas na cratera, depois do que as põe frente às formas
imperecíveis, frente às idéias-arquétipos. AGIR, CRIAR e PÔR são
verbos de ação, de movimento, o que implica temporalidade. Se as
almas são postas frente às formas, estas hão de estar
representadas como imagens sensíveis objetivas, visto que as
essências puras, como puras idealidades vazias, como generalidades
são IRREPRESENTÁVEIS! A oposição entre as almas e as formas,
implica espaço. As formas para estarem à frente, para estarem
contra, para estarem em oposição, precisam ser objetivas, e esta
palavra vem de "objacere" que significa: jazer contra... os sujeitos que
são as almas. A cratera é algo objetivo, espacial e material, parecido
com as matrizes que conhecemos, onde o Demiurgo cria as almas, com
o quê? Senão com a substância? Isto, acaso, não é elementar?
Depois de criadas, depois de haverem contemplado as formas
imperecíveis do lugar celeste, as almas são compelidas a encarnar-se
e a reencarnar-se nos planetas, onde esquecem o passado
contemplativo das idéias-arquétipos. Esquecidas, entregues à
Necessidade Cega, elas sobem e descem, avançam e recuam, e, com
isto, se vão diferenciando, tornando-se específicas, nunca mais voltando
a ser o que eram antes, quando da saída da cratera. E como pode
ser tudo isto; sem substância, sem matéria, sem movimento, sem
tempo, sem espaço objetivo, sem mundo sensível, lá, mesmo, no
lugar celeste? Onde o entendimento, ainda que rombudo, que,
claramente, não enxerga isto?
Se há dois mundos, desde Parmênides, que são o mundo
sensível e o mundo inteligível; se Platão descrevendo tal mundo
inteligível, mundo arquétipo das idéias, o Topos Uranos, acabou
mostrando que esse mundo inteligível também é sensível, feito de
espaço, tempo, causa, substância, movimento, etc.; se este nosso
mundo térreo também se compõe de dois outros, ambos encaixados um
no outro, sendo um sensível apreendido pelos sentidos, e outro
inteligível, apreendido pela inteligência; como dizer que aquele
mundo das idéias é só inteligível, e não, sensível? e que este nosso
mundo de substâncias é só sensível, e não, inteligível?
Que diferença, logo, há entre este nosso mundo terrenal e aquele
celestial? aquele sensível e inteligível, e o nosso, igualmente,
inteligível e sensível? A diferença consiste em que o nosso é um
mundo em parte ainda invertido, e em parte já desvirado do avesso. Por
esta parte já desinvertida, nosso mundo participa daquele mundo
celestial que se mostra todo no direito. Por causa da queda, também
nossa matéria se mostra encurvada em grau excesso, no passo que a
matéria dos mundos empireais possui grau mínimo de encurvamento.
235

Sendo o corpo material ou o corpo espiritual indispensável à


alma na mesma proporção com que esta é indispensável àqueles; se
ambos, inextricavelmente embebidos um no outro, formam o par
dialético de contrários que se harmonizam na pessoa humana; se
ambos, corpo e alma pertencem ao mesmo nível hierárquico, como
tese e antítese para construção da síntese unidual do homem; que
vem a significar a intransigência fanática com que almistas e
corporalistas defendem suas posições contrárias, cada um com
absoluta exclusão da facção oposta, sendo este um modo novo,
diferente, de conceituar a velha luta entre espiritualistas e
materialistas? Por que requerer a prevalência de um sobre o outro,
corpo e alma, se ambos são paralelos, num mesmo nível hierárquico,
embora contrários, que é como, de fato, têm de ser? Acima do binário
alma-corpo está a unidade da pessoa, a síntese, e só esta é superior
em nível a quaisquer das partes separadas... separadas... o que só pode
ser em abstração. Assim, para o homem: alma e corpo; assim, para as
coisas: forma e conteúdo; assim, para os mundos: inteligível e
sensível; assim para Deus: Ser e Existir - o Ser que é Eros, e o
Existir que é Amor, este, como a mais alta forma de Energia-
Substância.
Que agigantada montéia não será a filosofia, quando se
harmonizarem alma e corpo, homem e mundo, mundo e Deus?
Quantos séculos de labor e de pensamento serão necessários para que
se esgote todas as possibilidades que esta síntese, simples prólogo,
oferece? Então, estas três dríadas, postas em destaque, hão de
inspirar as artes, hão de dar rumo à ciência, à técnica, à economia,
à política, hão de tomar conta da vida cotidiana! E no social? como
não receber esta doutrina o inteiro e incondicional beneplácito de Cristo?
ele que nunca afirmou ser o espírito essência pura sem substância?
que prometeu ir arranjar um lugar na casa do Pai, com muitas
moradas para os que, em se negando de animal, de imundo, de
dragão, se pusessem a desenvolver o amor pelos semelhantes em tal
porção que igualasse o que cada um tem por si mesmo?
A filosofia do futuro que desde agora se impõe, não pode mais,
como o idealismo, pretender separar o homem do mundo, a alma do
corpo, porque, desacreditado o corpo e o mundo, mostra ignorar que,
sem corpo, não há alma pensante, e, sem mundo, não há o sobre
que pensar.
Descartes tinha razão, no começo, quando afirmava, de si, ser
"uma coisa que pensa", porque, neste caso, o pensar ficava na
dependência de que houvesse a "coisa" sem a qual não haveria
pensamento; com o correr dos tempos, este resíduo realista se foi
dissipando, até que sobrou só o puro pensamento que se bastava
236

a si mesmo, ou, então, que possuía, por suporte, um "sujeito" sem


substância. Kant, o pináculo do idealismo, depois de sustentar a tese de
que todo o saber desenvolve-se dentro do próprio homem, a partir das
intuições puras de espaço, de tempo e de causalidade, pelo que o
saber não nos vem através dos sentidos, enunciou tese contrária, na
velhice, em sua "Antropologia", segundo a qual o homem evoluiu do
macaco, donde vem que a inteligência surgiu por evolução, sendo, por
conseguinte, histórica.
Tudo começa, na vida inferior, pela irritabilidade que se complica
em sentidos e emoções: deste tronco se bifurcam dois galhos irmãos,
um que, seguindo o rumo das impressões, do pré-refletido, floresce em
inteligência, em razão, e o outro, ganhando o rumo das emoções, se
abre, frondoso, nos sentimentos sobre os quais se sublima o amor.
Engano foi, de Aristóteles, supor que só se ocupa Deus de "pensar
pensamentos", pensamentos frios, acrológicos, abstratos, alheios,
distantes, quando ele se acha inflamado do seu Amor, fonte inefável,
vida e fanal de tudo, de todo o bem, da harmonia e da beleza. Como
foi possível poderosos gênios apoucarem a tanto a idéia de Deus?
A própria inteligência, porque nascida, como o sentimento, da
irritabilidade, continua guardando com o sentimento este parentesco
genético; daí que, como diz Ortega, a inteligência buscando o nexo, a
conexão, filha é de Eros, possuindo, por isto, natureza erozóide. E
quando, na intuição, o raciocínio se toma de velocidade infinita, mais
ainda se evidencia a conjugação da inteligência com o sentimento,
pois todo o lampejo intuitivo se faz em meio de êxtase supremo.
Portanto, aquilo que é unido desde sempre, não separe o homem,
e, fazer isto, é seguir o rumo de Anti-Eros, da desintegração, da
ignorância, do caos. Na direção oposta, na de Eros, está a integração,
o amor, a sabedoria que tornam o homem santo e sábio, e, até,
santo porque sábio.
O sábio-santo não pode admitir a adulteração do dado real,
permitindo que esse real seja trocado por um universo de discurso
racional idealista o qual, condenando o corpo, o mundo, provoca o
vazio no coração e nos sentidos. O homo apenas rationalis que
separou o mundo inteligível do sensível, a essência da existência
para condenar a esta, fica falseado no mundo e no corpo, nos e
com os quais tem que viver queira ou não queira, na carne ou fora
dela, porque, mesmo o espírito desencarnado possui o seu corpo e o
seu mundo. A caverna de Platão não é mundo mas o imundo; não
é o mundo em positivo, e sim, o mundo em negação, invertido. Não
se trata de abandonar a caverna, e sim, de desinvertê-la de seu
negativo. O filósofo não pode mais furtar-se a este trabalho ingente,
recolhendo-se, distante; em sua torre, onde, cuidando poder explicar
237

tudo, permanece bizonho, aéreo, alheio ao que lhe toca de mais


perto. A sabedoria não é apenas teorização, mas, sobretudo,
VI-VÊN-CIA, porque, no sábio, se entrelaçam inteligência e coração.
Descartes via o homem da rua como coisa que, não podendo ser
reduzida ao seu geometrismo, era posta no quarto de despejos das
idéias confusas ou obscuras. Protestando contra esta atitude
idealista, Gusdorf acerta e erra num simples parágrafo que escreve;
diz ele:
"Tratar alguém como objeto é recusar-lhe o estatuto a que tem
direito, é reduzi-lo". Nisto Gusdorf acertou; agora: "tratar um objeto
como um ser, é conferir-lhe uma espécie de promoção espiritual".
Nesta segunda sentença está um engano.
É certo que tratar alguém como objeto; é apoucar-lhe a
significação, é coisificá-lo; porém, as coisas também não podem ser
consideradas não-ser, porque, neste caso, ficariam carentes de
essência, tornando-se em pura substância, e, por isto mesmo, seriam
ininteligíveis, visto como a pura substância, sem essência, é caos.
Ora, a essência e a substância formam o par dialético, o dualismo de
opostos e complementares, existente em tudo, sem nenhuma exceção,
nem mesmo para Deus. Admitir o ser ou essência nos objetos, não é
promovê-los, porque, com isto, não se lhes designa a hierarquia. As
coisas são seres, e o homem também o é; aquelas, seres inanimados,
simples, na base inferior da hierarquia, e o homem é o ser
complexíssimo, no topo dela, neste mundo, padrão de referência para
tudo que lhe fica abaixo. O homem não é redutível a princípio de razão, a
discurso, além de outras, por esta causa: se é o padrão, não tem por que
outra coisa medir-se. Só de um plano hierarquicamente superior se pode
avaliar o inferior.
Para entender-se o animal cuja consciência é a linear dos instintos,
preciso se faz colocar-se no planimétrico da razão. Assim também, para
entender o homem cuja consciência é planimétrica, torna-se necessário
estar no nível hierarquicamente superior da consciência volumétrica
que, em lugar do raciocínio usa a intuição. Nesta visão hiperconsciente,
o homem aparece como um todo unitário, prenhe, não só de racionalidade,
mas de todos os sentimentos e emoções, além dos sensos axiológicos,
estéticos, éticos, lógicos, volitivos, etc., tudo em globo é a sabedoria.
Todavia, como os dados da intuição não são demonstráveis,
racionalmente, e tentar isto seria reduzir o volume a plano, os apenas
racionais têm, para si, que tais dados são mitos. No entanto, esses
"mitos" formam um como animismo superior, semelhante ao que se
acha na criança e no primitivo. Também o sábio se torna simples e doce
como a criança; também ele vê o mundo com admiração, como a criança,
como o primitivo; seu olhar é como o da coruja de Minerva - deslumbrado.
238

Aquela junção do primitivo e da criança entre o eu e o mundo, que


o racionalísmo disjuntou, cumpre ao sábio juntar de novo, com que a
sabedoria fica sendo um como animismo de nível superior, tal como o
sentem o poeta e o místico. Daí que o poeta, vertendo para o mundo sua
dimensão antropológica, faz falarem as coisas, e São Francisco de Assis
chama ao lobo de irmão lobo, e à serpente, de irmã cobra, e ao próprio
corpo de irmão corpo. Quem chama ao próprio corpo de irmão corpo,
certamente não admite antagonismo, inimizade e luta entre o espírito
(alma) e a matéria, e, muito menos, entre si e os demais irmãos homens,
sem distinções de quaisquer espécies.
A ruptura entre essência e existência, entre ser e existir, entre o
inteligível e o sensível, entre o mundo material e o mundo ideal,
entre alma e corpo, foi o pecado original da filosofia, e o Adão
deste pecado foi Parmênides em quem já ressoava a fala de Pitágoras
para quem o corpo era um túmulo. A idéia vinda de trás, da Índia e da
Pérsia, achando ressonância nas mentes gregas, tomou forma nos
mistérios do culto órfico. O terreno, pois, já estava preparado para a obra
de Parmênides que deu foros de razão, tornando claro, ao que, até ali,
fora obscuro e confuso.
O pecado de Parmênides, como o de Adão, pegou-se aos filhos, à
geração dos pensadores que o sucederam, variando, quanto possível,
seu tema inicial. A idéia parmenídica do mundo inteligível como real,
encontrou-se com a corrente oriental cristã que, igualmente, desprezava
o corpo, o mundo, como coisas do maligno. Não se pensava, então, que
a fereza e maldade do mundo, não advinha do mundo em si, mas de ele
achar-se invertido por efeito da queda, apesar de o Gênese ter-se
referido à Serpente antiga chamada Diabo e Satanás. O arcanjo Luzbel
com seus consócios já tinha sido, então, arrojado de cabeça ao fundo
abismo, no centro do Universo, no Caos do qual, tudo o que há aqui,
saiu. No entanto, por ruim que fosse um homem, tal como agora, não se
supunha demônio, que diabo é sempre o outro, o próximo, o corpo, o
mundo...dos quais cumpria fugir. O socratismo cristão conceituava Deus
como sumo Bem, e, para buscar este sumo Bem, os mais valorosos
espíritos se faziam anacoretas. E a escolástica medieval ocupou-se
destes temas nascidos da premissa socrática do Deus-Sumo-Bem, em
lugar de tirar as conseqüências da premissa de Cristo para o qual
Deus é Pai solícito e amoroso.
Veio o fim da Idade Média, com o Renascimento, encarnando-se,
no mundo, o segundo Adão, na pessoa de Descartes. Porém, este,
em vez de, como Cristo, lançar as bases da salvação do mundo, apenas
inverteu o sentido do pecado de Parmênides. Daí que o idealismo não é
mais do que um realismo pelo avesso, porque, num e noutro, a
estrutura objetiva, vivencial, espontânea, material do objeto, foi trocada
239

por uma construção intelectual, ideal, subjetiva, fixa e imutável. O anseio


de todos era ver o universo expresso, todo, numa fórmula matemática.
Mesmo despojado de suas substâncias, Deus e o mundo continuaram
sendo havidos como reais (!), reais só por suas essências que não
tinham outro lugar que ficar a não ser nas cabeças dos idealistas. Real
vem de res que significa coisa; mas o contra-senso idealista, antigo e
moderno, deu para chamar ao puramente subjetivo e ideal, de realidade.
Este é o pecado original da metafísica, pelo que fica tendo razão
Marco Túlio Cícero para quem "nada existe de obscuro, que não se
possa encontrar nos livros dos filósofos".
A prova de que Cícero tinha razão, podemos ter neste trecho de
Gusdorf quando parafrasea Sartre:
"De outrem, que não de mim, aprendo qual a configuração
anatômica de meu corpo: "Existo para mim como conhecido por outrem a
título de corpo". Assim sendo, se é verdade que meu corpo exprime
minha facticidade de ser no-meio-do-mundo", tal facticidade é recebida
do exterior, e aprendida. Sartre não hesita em afirmar que minha
enfermidade me é estranha: "Foram os Outros que ma ensinaram, os
Outros a podem diagnosticar; ela é presente aos Outros, mesmo que
disso eu não tenha consciência. É, pois, em sua natureza profunda, um
puro e simples ser para outrem". Em suma, o médico é o "responsável
de minha enfermidade"; exatamente como, sem a mediação do
anatomista, eu nunca saberia que meu estômago tem a forma da bolsa
de uma gaita de foles". Fale mais Gusdorf:
"Se, por exemplo, um tijolo me cai sobre o pé, põe-se de lado a
idéia de que o tijolo me possa fazer mal, pois é inadmissível que a
matéria bruta tenha ação sobre o espírito, e então esfalfar-nos-emos
em provar que, em meu sofrimento, apenas cedo a mim mesmo, ou seja,
a um pensamento. É assim que raciocinam espíritos tão diferentes como
Malebranche, Hume, Berkeley, os estóicos ou Sartre, que se esfalfam
por fazer do tijolo uma espécie de desvio do pensamento, um meio
escolhido por um pensamento humano ou divino para, por um como que
ricochete, agir sobre si mesmo": Ainda isto:
"Todo triunfo da razão dissimula uma demissão e uma sem-
razão da razão. Surge então o sofista como sombra do filósofo ou da má
consciência. Compreendeu ele que a razão se encontra na correção de
um discurso bem untado; apossou-se indevidamente do instrumento e,
por meio de seus argumentos capciosos, compraz-se em refutar a
evidência humana pela autoridade da demonstração. Basta isso para
fazer tremer os sábios que vêem a seta detida em pleno vôo, e o
campeão de corridas, como num sonho mau, imóvel como estátua,
cravado ao solo por imposição de uma autoridade tão potente que
volvido mais de vinte séculos, ainda seduz os primeiros
240

colaboradores do Revue de Métaphysique et de Morale.


"Razão tinha Diógenes o cínico para passar ao ato, juntando o
gesto à palavra, pois é inútil pretender reprimir o discurso em nome de
outro discurso, já que cada um privilegia um elemento que, analisado,
se torna em elemento decisivo, com exclusão do resto da realidade
humana".
Eis, pois, que Cícero tinha sobejas razões; sendo a razão
planimétrica, não pode abarcar o volume, o globo, e, como a formiga da
parábola, querendo achar a esfera, esfalfa-se em esquadrinhar-lhe a
superfície. Ora, o homem se vê compelido a tratar de coisas que
transcendem sua razão, das quais sua vida depende, hajam vista os
primeiros princípios das ciências, os postulados e os axiomas
matemáticos, e Deus. Uma coisa que nos entra pelos olhos, como, por
exemplo, que o movimento existe, ou então, que nosso pé foi
quebrado por um tijolo caído do alto de um edifício, e vêm Zenão e
Sartre nos demonstrar, o primeiro, que o movimento não é racional,
e, por isto, não existe; e o segundo, que nosso pé esmagado é
ilusão, desvio do pensamento, dado que a matéria não pode atuar
sobre o espírito. Que vale a demonstração racional, se tem contra si
o peremptório, irrecusável, desmentido da experiência vivida?
Tudo isto são males provindos do pecado original da filosofia,
praticado por Parmênides, e, depois, por Descartes, visto que, por
opostos caminhos, um e outro quebrou a unidade do dado real.
As impressões são a primeira leitura do real, no nível do pré-
refletido, e, nessa fase do conhecimento, o eu humano forma
unidade com seu ambiente. Aqui, o sujeito e o objeto não se acham
ontologicamente separados um do outro, porque nosso corpo é o
correspondente do objeto com o qual se comunica através dos
sentidos. Depois que a imagem do objeto se formou em nosso
psiquismo, então é que se dá a segunda leitura pela qual nossa
consciência separa a forma de sua correlata substância, para ficar só
com a forma, com a essência, com a generalidade, com o conceito. A
segunda leitura do dado, portanto, o conceito, é pura idealidade
subjetiva, infigurável; a realidade é o dado natural, e permanece
fora, no nível do corpo, das coisas, da ambiência, do mundo. A razão
nos permite trabalhar, subjetivamente, idealmente, com o
correspondente do real. Aqui, no reino da abstração, podemos
remontar aos princípios científicos, e, a partir deles imaginar
realidades ainda não existentes fora de nós, e as projetar no mundo
objetivo sob a forma de invenções nossas. Aparece, graças a isto,
uma sobrenatureza que é as cidades, com tudo o que nelas há.
Esta sobrenatureza, ou natureza segunda, reopera sobre nossos
sentidos, criando-nos, no psiquismo, imagens novas de que
241

abstraímos novos conceitos.


Deste modo, as cidades, pululantes de invenções e de obras de
arte, agem num sentido educativo, porque, aquilo que eram, antes,
puras abstrações nas cabeças dos inventores, se mostra, agora, como
objetividades, tornando claros e evidentes os princípios que, de outro
modo, seriam difíceis de transmitir-se às mentes menos ágeis ou
mais rombudas. Neste sentido, também, e não só no social, a cidade
educa e instrui, e isto, por um método espontâneo, objetivo e
prático. Este é o motivo por que a civilização principiou quando as
tribos humanas se reuniram em cidades, em organizações políticas,
civis, sendo por isto que civil, cidade, cidadão, civilidade, civismo,
civilização, etc., se derivam de uma mesma raiz vocabular. O
convívio, conseqüentemente, quando sadio, bom, é educativo,
civilizador. Nada mais absurdo, portanto, do que o isolamento, seja o
do idealista que não quer nada com o homem das ruas, com o
mundo, seja o do anacoreta cristão que, a força de buscar o
socrático Deus-Sumo-Bem, se invalida para com o próximo.
Todavia, este distanciamento da realidade verdadeira que era
esporádico e exemplar no passado, tornou-se, hoje, geral e
costumeiro. Nascido do idealismo cartesiano que geometrizou o
mundo, o intelectualismo nos ofertou um mundo de clareza racional do
qual se expungiu tudo o que era obscuro, como os sentimentos, as
paixões, a vontade, as irregularidades, as cores, as complicações, a
substância, a vida e o próprio homem. Tal mundo cartesiano-
intelectualista se nos afigura artificial (natureza segunda), todo feito
de aparelhos, de instrumentos, de relógios marcadores e
registradores para todos os fins, de rodas lisas e denteadas,
pequenas e enormes, expostas e embutidas, rápidas e tardonhas, de
tabelas, de integrais, de diferenciais, de prótons, de elétrons, de
"quantas" de energia, de computadores, de máquinas aos milhões,
de leis científico-matemáticas; mundo em que até os animais já
foram considerados máquinas, e os próprios homens são, em
coisas, transformados.
Quando Volta construiu a sua pilha elétrica, deu-lhe o nome de
órgão elétrico artificial, porque já se conheciam, desde Aristóteles, os
peixes elétricos. Se, por esse tempo, já existissem bombas para
transportar líquidos através de canos, elas levariam o nome de
corações artificiais. No entanto, como os conceitos técnicos são hoje
mais comuns que os biológicos, a própria biologia emprega o termo
bomba para o coração, e o professor ensina aos alunos que o
coração bombeia o sangue através das artérias. Formou-se, deste
modo, a mentalidade do homo technicus que nunca houve antes,
podendo-se falar da nossa como uma civilização tecnológica.
242

Uma jovem, um dia, num navio, exigiu de Ortega que a


tratasse como um ser humano, e ele respondeu-lhe não conhecer
seres humanos abstratos, em geral, ideais, infiguráveis, e sim,
homens e mulheres reais, concretos. E acrescenta que a mocinha
recebera educação idealista nalgum "College", e tomava, agora, o que
é concreto e real pela forma de generalidade abstrata, ideal,
referindo-se, o menos possível, às coisas em situação objetiva.
No entanto, era preciso que os conceitos idealistas, do uso,
chegasse a tais abusos, para que o idealismo se esgotasse como
antítese que é, surgida como reação à tese-realismo-grego, a fim de
que se tornasse possível, agora, organizar a síntese que dominará o
futuro. O realismo grego foi a tese cuja antítese se viu no idealismo
moderno; falta, agora, a síntese... que deveria ser efetuada pelo
existencialismo contemporâneo. Como, todavia, os existencialistas
teimam em ser anti-sistemáticos, a possibilidade da síntese saiu-lhes
das mãos.
Mas aí está como a convivência, o estado civil, a cidade, constrói a
mentalidade, forma o complexo cultural, educa e civiliza, pelo que se
torna absurdo quaisquer isolamentos definitivos, sendo só úteis,
proveitosos, sadios, os retiros temporários, com o fim do estudo e da
meditação.
Sendo as coisas, o mundo, o correlativo do corpo, não se pode ter
acesso às essências das coisas e do mundo, a não ser através do
corpo, a começar pelos sentidos; corpo e alma, indissoluvelmente
unidos, deste modo, são o correlativo do mundo real e do mundo
essencial, do inteligível e do sensível, um enfrascado no outro, isto,
em todos os níveis do universo, dos planos inferiores até o mais
alto empíreo. Assim, do mesmo modo como alma e corpo formam uma
unidade indecomponível, também o mundo inteligível e o mundo
sensível são unitários, pelo que o sábio terá de considerar, em pé
de igualdade, o aspecto espiritual ou essencial do mundo com o seu
oposto e complementar aspecto corporal ou material. Deste modo,
esta área sempre desprezada pelos pensadores (o mundo corporal), é
explorada pelos poetas e artistas, tornando possível recompor a
unidade perdida do mundo e do homem, naquele que se propõe a
conquistar a esquiva amante, a sabedoria. Fale Gusdorf:
"Sendo assim, as dimensões vividas do silêncio, do amor, da
luz ou da noite, os ritmos opostos da alegria e da angústia, evocados
pelos artistas, restituíam a profundidade de campo da existência,
sem contudo lograrem obter a validação ontológica por parte dos
filósofos, que persistiram em excluir o poeta da cidade dos puros
espíritos". Mais:
"Cada momento de uma consciência faz um todo com seu
243

universo; uma consciência separada brutalmente de seu universo de


referência fica imediatamente reduzida à condição de pessoa
deslocada. É o que acontece com o camponês na cidade, ou com o
citadino no campo, que se sentem desorientados e, ainda por cima,
grotescos. Outro tanto sucede com o filósofo racionalista, se o
extrairmos do seu universo do discurso e da segurança das liturgias
universitárias, para o levarmos a defrontar-se com uma situação em
que suas justificações usuais não são aceitas nem encontram senão
o vácuo. A figura de cada homem desenha-se sobre o fundo de sua
paisagem vital, da qual não há maneira de o dissociar".
Subscrevemos isto de Gusdorf, pois não o faríamos melhor. Por
outras palavras, Ortega diz o mesmo. Ora, se o filósofo se tem como
amante da sabedoria, que amante é esse que toma a amada só por
metade? Que amante desejaria possuir, da amada, a alma, apenas,
desprezando-lhe o corpo? O amante que se dá, todo, inteiro, sem
reservas, corpo e alma, pede, da amada, alma e corpo; tal o exige o
amor, por sua natureza substancial. Só na tresloucada cabeça de
Dom Quixote pode caber o amor ideal, feito só da pura essência!
Nem, porque cada consciência faça unidade com o seu
universo, os universos das várias consciências se separaram; antes,
interpenetram-se; e ainda é Gusdorf quem, magistralmente, a questão
aclara:
"Sem dúvida as personagens são tomadas, direta ou
indiretamente, da experiência íntima do criador, mas este deve de
algum modo despersonalizar-se para constituir cada uma delas em
sua objetividade real. Balzac, Tolstoi, Shakespeare, devem o melhor de
seu gênio a essa possibilidade de abdicarem de si mesmos, para
viverem uma consciência estranha que eles habitam por procuração. A
contraprova é, aliás, subministrada pelo fato de leitores e
espectadores confirmarem, por seu turno, a verdade da ficção; eles
senão, por sua vez, Madame Bovary, simpatizarão com a heroína,
cuja experiência íntima se impõe também a cada um deles em sua
certeza objetiva”.
"Sendo assim, minha consciência pode visitar outras
consciências, e ser por elas visitada. Interesso-me pelo que há fora de
mim, quer dizer que há em mim mais do que eu, a matéria não de uma,
mas de muitas existências".
Ninguém há que negue esta evidência vivencial, ainda comprovada
nos fenômenos de transferência da psicologia, e nos da catarse, da
psicanálise. Um filho que recebeu sempre maus tratos e humilhações de
seu pai, tende a transferir sua revolta a quantos, depois, lhe forem
superiores em poder, em mando. Graças a este fenômeno de
transferência, torna-se possível a catarse que significa limpeza ou
244

purgação psíquica. Assistindo a um filme, ou peça teatral, ou novela de


televisão, de pronto, todos se empatizam com o herói; todos sofrem,
com ele, as peripécias todas, os maus tratos, as violências sem razão,
mas se aliviam quando o herói "faz justiça", ainda que com as próprias
mãos. Aqui desponta já o consenso de justiça, gênese daquela outra
despersonificada e complicada do poder público e dos tribunais. Daí que
nem sempre os romances históricos servem a este fim, visto como, pode
acontecer de o herói levar a pior a vida toda, e, alfim, acabar morrendo,
sem compensação nenhuma. Na tela do cinema e no livro, as histórias
dos heróis da humanidade que triunfaram só depois de mortos,
causaram-nos depressão e revolta contra a estupidez dos nossos
ancestrais. Esta revolta contra os do passado rebenta na frase
angustiada de Cristo quando exclama:
"Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que edificais os sepulcros
dos profetas, e adornais os monumentos dos justos, e dizeis: se nós
houvéramos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido seus
companheiros no sangue dos profetas. E assim dais testemunhos contra
vós mesmos, de que sois filhos daqueles que mataram aos profetas.
Acabai vós pois de encher a medida de vossos pais"! (Mat. 23, 27 a 32).
Se alguém nos ofende, e não retribuímos em dose igual a ofensa,
nosso sentimento se recalca. Assistindo a um filme, transferimo-nos, já,
para o herói que passa a representar-nos por procuração, feio ou belo,
não importa, e, identificamos o nosso agressor no vilão. E acontece que
feita de novo a ofensa, o vilão apanha a valer, pelo que nos sentimos
aliviados, desforrados. O herói feio pode ser amado, e o vilão bonito,
odiado, porque a beleza moral supera a beleza física, e amamos muito
mais nos outros um gesto nobre e belo, do que um corpo bem prendado
e jovem. Logo, bons filmes, boas peças de teatro e boas novelas fazem
bem à saúde mental. Cada um, então, busca o seu "remédio": os
injustiçados, ainda que bons, gostam de filmes de violência; os
introvertidos, os de comédia, que os façam rir.
Por este motivo, como diz Gusdorf, "a afirmação de um contra o
outro é, de fato como de direito, posterior à afirmação de um com o
outro, ou antes de um pelo outro. A consciência insularizada do
intelectualismo concede um preconceito favorável à solidão e à
independência: "Sofremos, afirma Spinoza, enquanto somos uma
parte da Natureza que não pode ser concebida sem as demais
partes". O filósofo que pensa reforçar seu ser, isolando-se do resto da
humanidade, não dá conta que estar privado dos outros é estar
privado de si. O condenado à reclusão perpétua, se for submetido ao
isolamento total, tem todas as probabilidades de enlouquecer".
O homem é um; mas quando se vai examinar esse um, vêmo-lo
que é dois pelas partes oponentes e complementares alma e corpo; de
245

novo fixamos a vista, e outra vez o um é dois, agora pelos opostos


ente-biológico e sócio. E quando vamos delimitar esse sócio, eis que
ele se estende a outros, à comunidade como um todo. Assim, o que fizer
a mim, faço-o aos outros e vice-versa. É deste modo que, como
doutamente diz Gusdorf, "as palavras evangélicas: "Amarás o próximo
como a ti mesmo", não são um mandamento, senão que exprimem um
estado de fato que se impõe a cada um de nós, quer queiramos
quer não queiramos. Não devemos fazer aos outros aquilo que não
quereríamos que eles nos fizessem; mas também o que faço aos outros,
faço-o a mim mesmo. Em virtude da mutualidade das existências,
dizer que "o inferno é o outro", é admitir igualmente que o inferno
está em mim. Se alguém se nega ao próximo, priva-se ao mesmo tempo
do próximo, e na mesma proporção se empobrece". Mais:
"O eu, enamorado de autenticidade, deve separar-se da
multidão, mas seu protesto deixa entrever a miúdo a nostalgia das
solidariedades que ele exclui. A auto-estimação da consciência que
afirma os valores, apesar de violenta, não basta para mascarar o
apelo desesperado ao seu semelhante". Mais isto:
"Assim como existe uma encarnação biológica do homem,
ligado por seu organismo ao meio natural, assim também podemos
asseverar que existe uma encarnação social onde se manifesta a
essência comunitária da vida pessoal (...) Deste ponto de vista, a
pretensão filosófica à autonomia equivale a uma espécie de mito de
Robinson, que desconhece as mais elementares evidências da realidade
humana, cedendo à muito antiga nostalgia da insularização da
consciência individual”.
Se o homem não pode isolar-se, e mesmo quando se vê de todo
só, ainda leva em si o sócio, que é a contrametade oposta ao ser
biológico; se as consciências se entrelaçam, se interpenetram, se
visitam, mutuamente, donde vem que o ser social do coletivo forma um
todo unitário, um contínuo, onde cessa a corporeidade descontínua
da multidão reunida para um fim preciso; considerando que a
consciência coletiva é aquilo que se acha em todos, e que não
pode separar-se da corporeidade do social, pela mesma razão por
que a alma está jungida ao corpo, o ente biológico ao sócio e a
essência à substância; então, já se vê, o sábio tem que considerar
todas as formas de relacionamento entre alma e corpo, e, por
extensão, entre o homem e o mundo, não apenas segundo uma medida
racional, científico-matemática, mas, também, no que se refere ao
resto do complexo antropológico que é o das artes, das técnicas, da
política, da religião, da economia, da história, do dia a dia do
homem das ruas. Como todo este complexo inalienável não é
redutível a puros princípios de razão, a enunciados de ciência,
246

a formulações matemáticas, não se pode fugir a esta conclusão:


PARA CONHECER A VERDADE, O HOMEM NÃO PODE
EMPREGAR SÓ SUA INTELIGÊNCIA, SUA RAZÃO, E SIM, TEM DE
EMPREGAR-SE A SI MESMO COMO UM TODO EM QUE ENTRAM
ALMA E CORPO NA SUA UNIDUALIDADE IN-DIS-SO-LU-VEL.
O ente biológico e o sócio não se divorciam na unidade do
homem, nem este, do social; o corpo não se dissocia da alma; o
homem, na sua unidualidade biológico-social, não se desvincula do
mundo sensível com o qual se acha jungido por meio de seu corpo
(sentidos, sensações e sentimentos); igualmente, não se desmembra
o homem do mundo das essências às quais se conecta por sua
inteligência, por sua razão; o mundo unidual (sensível-inteligível) no
qual, por todos os aspectos, o homem está inseparavelmente embebido,
estende-se até o Universo distante e total que, em sentido
escatológico, se confunde com o Deus Imanente, o Deus Criação,
este que é um encurvamento do Deus Transcendente - o Oceano
que abrange o Universo inteiro em todas as dimensões e direções,
como arquiluminoso incêndio enceguecente da sempiterna
Substância-Amor. Transborda, então, de júbilo o coração do sábio
nesta concepção acro-emotiva, enquanto sua mente, situada no centro
da pinha ou da esfera dos conceitos-essências, tudo possui ... tudo
domina...
Tudo, pois, unidao e nada apartado... a não ser para o infeliz
que se sente só, fechado em seu egoísmo ignorante, tão míope que só
a si enxerga, e que, por isto, se vê perdido, sem poder achar-se,
inteiramente nu, no corpo e na alma, e por isto mesmo, cheio de
misérias; e ainda que aferrado quanto pode aos bens, às posses de
matéria, nem de longe vislumbra a portentosa abundância daquele
que, não pedindo nada, nem poder, nem riqueza, nem glória, é
nimiamente afortunado, visto como, estando em Deus, repousa para
sempre..., num repouso (!) co-criativo de silente, serena e jubilosa
atividade.
Dado que o inteiro complexo vivencial é um globo, só o
entende o sábio com sua intuição, com sua hiperconsciência, com
sua consciência volumétrica em que razão e sentimento se fundem,
mostrando-se globalmente unidos.
Se o sonho dos gregos era alcançar a realidade real só com a
inteligência, falido se acha este sonho grego; se os idealistas
modernos pensam o mesmo, está falido o idealismo; se os materialistas
cuidam que a verdade está só no complexo substancial oposto à
alma, está falido o materialismo; se os espiritualistas, dando
primazia à alma, supõem seja possível, um dia, alhures, viver fora de
um corpo substancial, como alma pura sem matéria alguma, está
247

falido o espiritualismo; se os existencialistas cuidam que sua missão é


só a de opor-se ao idealismo, sem, contudo, promover a síntese, a só
que pode nortear agora o mundo, está falido o existencialismo. Eis,
pois: se no exclusivismo está a falência, a salvação estará na
síntese total, e, nesta, todas as verdades parciais se salvam, tendo
sua razão os gregos, tendo sua razão os idealistas, tendo sua razão
os materialistas, tendo sua razão os espiritualistas, tendo sua razão
os existencialistas. Todos têm sua razão, porém, a sua é aquela
que falta aos outros.
A síntese, portanto, se impõe, como necessidade do momento e
com urgência, para a salvação do mundo. No entanto, ela não poderá
fazer-se, senão, com uma chave. E a chave está no modo novo da
determinação do Ser, visto como ele é a Referência primordial e
suprema, ponto de partida para tudo e Causa primeira da união, da
integração, da síntese. Ora, Aristóteles, para quem a essência é tão
necessária à substância, quanto esta, àquela, quando se esperava
que ele operasse a síntese que resultaria dessa sua conclusão,
dando Substância a Deus, perdeu a chave da verdade no ponto em
que assentou que Deus é essência pura sem matéria alguma. Com
isto, manteve a ruptura operada por Parmênides, e, mais tarde,
confirmada por Descartes. Repugnou à mente de Aristóteles, como à
de Kant, que Deus pudesse existir no espaço objetivo infinito, sendo, por
isto, espacial e material.
Esta é a chave que estava por achar-se. E o que lhe
possibilitou a descoberta foi o próprio andar da história que nos
demonstrou, primeiro, que matéria e energia são termos
reversíveis entre si; segundo: que todas as energias são
transformáveis umas nas outras. Estas verdades incontestes
serviram de base para Einstein projetar o seu "Campo Unificado".
Ora, concluímos: a vida é energia-substância, visto não poder
classificar-se como essência, nem como qualidade do ser; ela é
subsistente, substantiva. E como não apareceu do nada, só pode
ter surgido, por transformação, das energias-substâncias que lhe
estão abaixo na escala dinâmica. Do tronco da vida, a partir da
irritabilidade, dois galhos saíram, um para a inteligência, e outro
para os sentimentos, sendo estes, outra vez, energia-substância, visto
se oporem à razão de natureza essencial. E a mais alta forma de
sentimento é o amor, pelo que este é, também, energia-substância,
visto como não se reduz a ente de razão. Deste modo, das energias
inferiores nasceu a energia vital, e, desta, os sentimentos sobre os
quais se exalta o amor na sua expressão mais sublime, humanitária,
como se pode observar no santo.
Mas, o amor é o oposto do egoísmo, e a vida é egoísta
248

desde a sua mais remota origem neste nosso mundo. Se a vida é


egoísmo, e, no sábio-santo, ela se mostra como amor, segue-se,
então, que o egoísmo se inverteu no amor. Civilização, portanto, é
sinônimo de inversão da natureza bruta na sobre natureza, na
natureza civilizada, visto como esta se mostra como inversão da
primeira; ou de outro modo: a natureza bruta, selvática, se mostra
invertida em relação à natureza civilizada.
Se, no homem, a natureza selvagem tende a negar-se a si
mesma; se tende a mostrar-se como sua oposição; qual, o agente que
promove esse fenômeno inversório? Pois não foi outro que não a
moral... apregoada pelas religiões as quais não podem existir sem
Deus. Deus, deste modo, se mostra como a contradição da natureza
selvagem, como oposição do egoísmo; e buscando o homem pautar
sua conduta por esse padrão divino, foi compelido a encetar sua
ingente e dificílima tarefa de negar-se de animal. Deus, logo, é a sua
eterna Referência, e o seu fim é o amor, que só este pode viabilizar a
civilização.
Então, não há fugir: Deus é Amor, e esta é a mais subida forma
de Energia-Substância. Não há sentimento acima do amor, e, a ele,
todos os sentimentos sublimes se reduzem, ou dele se derivam.
Como do nada não sai nada, Deus criou tudo de si, da Energia-
Substância-Amor que é. E criou tudo em coerência com suas
qualidades. Logo, o Universo primeiro que Deus tirou de si, da sua
Energia-Substância-Amor, tinha que ser perfeito como ele o é, e os
Filhos do seu Amor, perfeitos também.
No entanto, o amor, como todas as demais energias-substâncias,
é livre, mutável, transformável, que, de outra maneira, o Universo
primeiro e os Filhos, habitantes dele, não podiam ter sido criados, uma
vez que criação é transformação. Sendo o amor necessariamente
livre, pelo que é polarizável, pôde esfriar-se primeiro, e depois,
mudar-se no seu contrário. Não podia Deus tornar fixo, imutável,
intransformável o amor, porque estas são as propriedades das
essências, e o amor não é essência, e, sim, substância.
Então, mudou-se o amor, invertendo-se no seu contrário que é o
egoísmo. Como o amor integra, o egoísmo, como oposto, desintegra. E
aqueles Filhos em que se inverteu o amor no egoísmo, entraram em
processo de desintegração, a começar pelo social, e suas quedas,
espacialmente, se deram no sentido da periferia para o centro do
Universo primeiro, naquele ponto que, depois, se chamou o Caos, do
qual se originou este nosso universo, ou universo segundo.
Esses Filhos caídos do amor, arrastaram consigo, em sua queda,
tudo aquilo em que puderam influir. Não só eles, pois, senão também
seu meio, seu ambiente, inverteram-se, ruíram, desintegraram-se no
249

atro abismo central. E a energia-substância-egoísmo dos caídos se foi


transformando, de plano em plano, de nível em nível, nas energias
inferiores, ganhando em potência dinâmica o quanto perdiam em
potencialidade espiritual. Tais energias espiritualmente degradadas,
porém, dinamicamente, cada vez mais potentes, de ondas cada vez
mais curtas e penetrantes, convergiram para o centro em que se
achou o Caos em cujo bojo a matéria se formou. Nessa amplíssima
fornalha ardente, arqui-infernal, forjaram-se todos os átomos, até os
transurânicos que, explodindo-se, fizeram o Colosso Primitivo abrir-se
em espirais, dado que a imensidade do universo concentrado, de
dez mil anos luz de diâmetro, rodava sobre si, sob formidolosas
pressões dos espaços exteriores e das energias que ainda para o
centro se fechavam. Tais explosões não eram como as de bombas
em nosso espaço aéreo, mas explosões sob as enormíssimas pressões
do resto das energias que, em se concentrando, tendiam, também, a
se tornar matéria.
Do Caos medonho nasceu nosso universo, e neste, a vida, a
consciência unibinária, porque formada do dualismo razão e
sentimento. Os sentimentos e paixões negativos fundados no
egoísmo vital, pouco a pouco desinvertem-se, e todos nós, seres
dragontinos, satânicos, recriados por evolução, nos desviraremos de
dragões em santos e sábios, transformando, com isto, nosso inferno
terrestre em estância celestial.
Enquanto, porém, não formos sábios, e, porque sábios, por isto
mesmo, santos, nossa civilização procederá por avanços e recuos,
andando e desandando, saindo da barbárie e a ela retornando.
Spengler, com sua doutrina do periodismo, tem e não tem razão:
tem-na, porque somos demônios; e não a tem, porque, um dia, seremos
santos e sábios, e santos porque sábios, cessando, para sempre os
avanços e recuos da civilização.
Esta é a verdade, e não há outra, porque quantas verdades vierem
a descobrir-se, enquadrar-se-ão nesta SINTESE que não exclui nada,
e, antes, pelo contrário, agasalha todas as visões nesta VISÃO plena
de luz e de gozo, luz para a inteligência, e gozo para o coração.
Eis o que a madurez dos tempos nos oferece, tornando-se possível
esta SINTESE: a) matéria e energia são termos reversíveis entre si;
b) todas as energias são transformáveis umas nas outras; c) como a
vida não nasceu do nada, e é algo, esse algo só pode ter saído das
energias do mundo dinâmico que lhe fica abaixo. Esta conclusão
impõe-na o princípio de conservação da substância: "na natureza nada
se cria e nada se perde, mas tudo se transforma" (Lavoisier). Além
de a vida não se enquadrar como essência, ainda serve de base
para os fenômenos estudados pela Parapsicologia (telergia ou
250

energia biótica, ectoplasmia, psi-gamma, etc.) Afora estas energias


físico-psíquicas e psico-mentais nascidas da energia vital, há ainda as
energias psico-morais tais como a vontade, os sentimentos, pelo que
estes também são energias-substâncias, sujeitas, portanto, ao
imperativo da transformabilidade. d) a mais alta manifestação
do sentimento é o amor; como não há posto a subir acima do amor;
como não há nada acima ou além dele a que se refira ou. a que se
relacione, sem termo de relação, o amor fica não relativo, o que
vale dizer: absoluto. Como absoluto, o Amor é Deus, ou "Deus é Amor"
(I João 4, 7 e 8). Logo, Deus não é Essência pura, senão, também,
ENERGIA-SUBSTÂNCIA-AMOR da qual tudo foi criado, em primeira
instância. Por causa de esta SINTESE filosófica dar SUBSTÂNCIA
a Deus, foi possível, como conseqüência, reabilitar o mundo e o
co rpo , no que um e outro tem de bom, de direito, de desinvertido. Não
há prevalência do espírito (alma) sobre a matéria, porque alma e
corpo são partes integrantes, oponentes e complementares, do
unidualismo - homem. Não há prevalência, porque ambos, alma e
corpo, ocupam o mesmo nível hierárquico, tal como tese e antítese,
estando acima somente a unidade resultante dessa integração - o
HOMEM.
251

XIII - PENSAMENTO E LINGUAGEM

A linguagem é o sucedâneo do real, por necessidade do


pensamento que teve de substituir as coisas, os seres, o mundo
objetivo por símbolos. Deste modo o homem pode ter presente o
mundo, o universo, na linguagem. Pensamento e linguagem, pois,
nasceram juntos, formando outro unibinário da consciência, cujo
desenvolvimento se deu pela interatuação de ambos, visto como a
linguagem enriquece o pensamento, como este enriquece àquela. O
mundo que o contorno social oferta à criança, começa quando esta toma
posse da linguagem. Por meio desta, infindas experiências que a
criança e o adolescente não tiveram, são-lhes transmitidas. Dado que
a maioria dos homens vivem a crédito da sociedade, repensando e
revivendo o que esta lhes transmitiu através da linguagem, já se vê
quão importante é esta como substituta do mundo real que permanece
ausente. Cultura é linguagem e vice-versa, de sorte que a queda de
uma implica na imediata falência da outra.
O homem autêntico, o que é si mesmo, e não, o social nele, difere
do homem-massa, simplesmente porque se deu ao trabalho de tirar a
limpo com a razão, as verdades que lhe inculcara o contorno social pela
educação. Em solidão, só consigo, ele deu xeque-mate à verdade,
cessando, para si, a crendice que o levara a aceitar tudo com base
no princípio da autoridade: magister dixit. Ora, isto é fazer filosofia.
A mais rudimentar forma de linguagem é a que ainda pode ser
vista nos macacos, conforme estudos feitos por Beatrice e Alien
Gardner, da Universidade de Nevada, quando observaram que os
chimpanzés, nas florestas, empregam muito mais os sinais manuais
do que os símbolos vocais. A partir daí, esses pesquisadores
resolveram ensinar aos chimpanzés a linguagem de sinais manuais,
usada pelos surdos-mudos, cuja sigla é ASL, iniciais das palavras:
American Sign Language. A revista "Realidade", em seu n.° 98, de
maio de 1974, trouxe uma reportagem de Joyce Dudney Fleming, pela
qual ficamos sabendo que mais de trinta chimpanzés estão sendo
ensinados a falar, tendo um deles, chimpanzé fêmea, de nome Washoe,
chegado a adquirir cento e sessenta palavras. Por meio de tal
linguagem, os chimpanzés podem comunicar-se entre si e com os
homens. Fazem generalizações e criam expressões novas pela
combinação dos símbolos já conhecidos.
Como não podia ser de outro modo, a linguagem dos macacos é
substantiva, material, com uma simbologia diretamente ajoujada ao
concreto, ligada à coisidade do mundo. As coisas ausentes em
realidade, estão presentes ou compresentes sob a forma de sinais. Esta
252

linguagem, todavia, mantem-se ao nível do pré-refletido das imagens,


representando um pensamento sensorial, que ainda não vai além da
substituição da coisa-concreta pelo símbolo da coisa em situação.
Assim também teriam pensado os pitecântropos ancestrais do
homem. E na proporção em que o unidualismo pensamento-cérebro
foi evoluindo, já foi sendo possível abstrair, das imagens, os conceitos
genéricos, já não mais imagéticos, sensoriais, e sim, agora, abstratos
e irrepresentáveis, visto como as essências, os conceitos, não se
representam, a não ser por palavras. Temos, assim, esta evidência: do
pensamento-linguagem pré-refletido das imagens, saiu a linguagem
refletida dos conceitos, toda quanta, feita de abstrações. Já, aqui,
temos três níveis de linguagem: a linguagem do ser, feita de
concreções, e ao nível das coisas, do mundo real objetivo; a
linguagem pré-refletida feita, toda de imagens do mundo real; e a
linguagem abstrata, da qual se expungiram as duas anteriores.
Porém, ainda que o pensamento voe tão alto como o condor,
precisa, como este, sempre retornar à terra..., pousando aqui, com
pés firmes, e aqui procurar sua substância. Ainda, como a águia, por
alto que voe, o signo-palavra tem os seus limites que correspondem aos
da razão. Quando a máquina voadora, já não mais águia nem condor,
se toma de velocidade uma, duas, três... vezes supersônicas e ganha a
ionosfera, esse velocíssimo e acrológico raciocinar se torna intuição,
cessando, com o pensamento discursivo e moroso, a representação
simbólica da palavra. Os artifícios dos poetas e dos místicos para
explicarem o inexplicável, são falsificações, porquanto a intuição,
transcendendo o raciocínio abstrato, se põe para além do mundo das
palavras. Aqui, onde já não há mais palavras-sinais, a intuição
trabalha com fórmulas nas ciências físico-matemáticas, e com teses,
nos mundos mais complexos onde a simplicidade matemática não se
aplica. Tais teses são sentenças em que se resumiram ingentes
estudos de determinada matéria. Alegorias e parábolas são
empregadas num processo genético ou de cunhagem de palavras novas,
quando estas precisam nomear realidades segundas que não se
encontram no mundo primário dos sentidos, em primeira instância. Uma
megalópolis, com tudo o que nela há, constitui um exemplo dessas
realidades segundas, em segunda instância, resultantes das
aplicações das idéias e das descobertas científicas em invenções e
criações de toda a espécie. Tal, pois, como ocorre com o poeta e com o
místico, o cientista e o filósofo deparam-se também, com o novo ao qual
lhes cumpre dar nome e explicar.
Através do lusco-fusco da intuição, o pensador trabalha, e a cada
relâmpago dela ele descobre uma até então oculta realidade. Tais
clarões vagos da intuição delineiam-se em símbolos que, após
253

simplificados, se tornam sinais e linguagem corrente para uso de


todos, daí para o futuro. Deste modo, a fronteira da palavra é o limite
para além do qual a intuição opera, com sua simbólica específica,
obrigando-se o escritor a esgarcear, às vezes, o pensamento, com
reticências, anuviando, com isto, que há mais a dizer, e, no entanto, as
idéias tumultuam-se, bloqueando a passagem no bico da pena. "Husserl
(diz Gusdorf), para ser mais rápido, criou uma estenografia pessoal;
apesar disso, em seu espólio inédito, sentimo-lo de quando em quando,
desesperado por não conseguir escrever tão depressa como pensava”....
E quando o homem da intuição, o homem da totalidade, vindo
das alturas, desce para partilhar, em comum, da vida dos demais
homens, traz, no semblante, um ar de nostalgia, e é com sacrifício que
se mantém no meio de todos que tratam de nadas, ao tempo que se
riem, contentes da vida que levam, sem nenhuma necessidade de
saber, nem de perguntar. Contudo, estes são os homens da caverna de
Platão, com os quais ao iluminado cumpre conviver.
A intuição, que está no começo e no fim do pensamento discursivo,
não usa palavras: no começo há a intuição sensível das coisas, dos
acidentes, dos fatos observados in natura, que são a muda linguagem
do ser; no fim, ela pode mostrar-se como intuição espiritual, como
intuição intelectual, como intuição emotiva, como intuição volitiva.
Aquele começo e este fim se referem à evolução do homem, e são,
também, os pontos de partida para o pensamento. Hajam vista os
postulados que são pontos de partida intuitivos para o pensamento
que age por dedução. Transcendendo a mediocridade dos que vivem
na caverna, uns poucos, vivendo nas alturas, recorrem à intuição
que tateia na penumbra, fazendo aventurosas incursões em regiões
ignotas, ou tornando novas as coisas velhas, com lhes ampliar e
aprofundar os sentidos, as significações, mantendo, assim, a
dignidade da comunicação por meio da palavra. As intuições sensíveis
carecem de palavras porque tomam diretamente o dado natural. Aqui,
ainda não se deu a substituição das coisas objetivas pelos seus
sinais abstratos. No outro extremo da evolução, as intuições não
sensíveis também prescindem de palavras, porque estão para além
do racional. E quando estas intuições descem a pensamentos
discursivos, agora sim, estes têm de arrimar-se nas palavras para poder
transmitir-se aos outros.
Está patente, portanto, que as palavras são meios, não, fins; as
palavras existem, por causa do pensamento, da inteligência que as
criou para ter presente e para interpretar o mundo. O mundo é o
fundamento primeiro, o ponto de aplicação, o lugar de partida e de
chegada da inteligência; foi nele e aos embates da vida que a
inteligência nasceu, desenvolveu-se, e chegou até à intuição. Não,
254

afirmar, à moda idealista, que o mundo da inteligência, dos conceitos,


das essências, das palavras, cria-o o homem em si, para, depois,
projeta-lo fora, pelo que o mundo passa a existir, primeiro, na
inteligência, e, a partir daqui, sem substância, só por meio das
essências, dos sinais, das palavras, é projetado fora. Nem o Verbo
divino, o Demiurgo, criaria o mundo a partir só das essências, sem
substância, como querem fazer os idealistas, porque do nada
substancial não poderia sair o mundo... que é, também, substância,
e não somente essência. Se Deus fosse Essência pura, sem
Substância, não teria sido possível criar o Universo. Logo, a
substituição do mundo real de verdade pelo mundo vazio do
discurso, foi o pecado original da filosofia, praticado pelo primeiro e
pelo segundo Adão que, respectivamente, se chamaram Parmênides e
Descartes.
A concepção de um Deus-Essência-Pura-sem-matéria-
alguma, que criou a partir do nada (Santo Agostinho), ou a partir
de uma matéria-substante (Aristóteles) cuja origem não se explica,
meteu a filosofia num beco-sem-saída, gerando a confusão, a
balbúrdia e as polêmicas estéreis e infindáveis. Faltava dar valor à
incógnita do problema, e essa incógnita é a MATÉRIA, recusada com
este nome, mas aceita pelo seu sinônimo ENERGIA-SUBSTÂNCIA-
AMOR.
Os pré-homens macacóides levantaram-se em um mundo de
pensamento ... concreto, muscular, objetivo, real, em que as palavras-
imagens eram cópias fiéis das coisas. Para explicarem como
aconteceu a caçada de burros selvagens, que tanto os empolgara, os
primitivos precisavam repeti-la, simbolicamente, com gestos, com
movimentos corporais e com danças. Não havia, então, outro recurso
que não este: a imitação servil das situações, in natura, que é a
pantomima. Com o correr dos tempos, o homem se foi desprendendo do
real, para levantar-se, em vôo, no reino da idealidade e da fantasia,
criando dois sobremundos: o mundo imagético primeiro, e o
abstrato depois, ambos súbstitutos do mundo real ausente, ou
seja, uma idealização da natureza, que era comunicada de uns a
outros por meio de palavras. Tais palavras, pelo exercício, se foram
identificando tanto com o pensamento, que palavra e pensamento
passaram a ser como uma só coisa. Daí que o domínio duma língua
só se dá quando, o tempo todo, se é capaz de pensar nessa língua.
O grande equívoco principiou quando se deu o nome de real a
esse subjetivismo, a essa abstração, a essa idealidade, e, ao mundo
verdadeiramente real, concreto, objetivo, feito de situações, de seres, de
coisas e de movimentos, designou-se como sendo o mundo de
irrealidades e de sombras. Ninguém atinou, então, que a realidade em
255

nosso mundo se acha, em parte, invertida, por efeito da queda que


aconteceu; esteve ela outrora, totalmente invertida, e se vai
desinvertendo na medida em que avança a evolução. Nosso mundo
participa (participação platônica) da realidade do mundo celeste,
NAQUILO EM QUE JÁ SE DESINVERTEU. Nosso mundo não é
irreal por conter, em si, o erro, a dor e o mal; o erro, a dor e o mal
existem, porque nosso mundo é, em parte, invertido, imundo, negativo,
dragontino, infernal. Contudo, isto, que é fundamental, passou
despercebido, em razão do que se cometeu o colossal equívoco, razão
do perpétuo funambular da filosofia. Como resolver o magno problema
do Ser, depois desta monstruosa falsificação? Deste abuso decorreu,
como de uma premissa, todos os demais desatinos, e tais
desvirtuamentos da inteligência produziram o correlato desvirtuamento
da linguagem, da palavra, que passou a servir até para ocultar os
pensamentos.
Por causa desta formidolosa falsificação, a linguagem e o seu
correlato idealismo antigo e moderno, caíram em descrédito, obrigando-
nos a esta nova retomada, a partir, de novo, do dado realmente
real, tendo em vista que a solução que se tentou, após o repúdio ao
idealismo funambulesco, está levando o mundo à beira de um abismo. A
tentativa positivista fracassou, porque, em se insurgindo Comte contra a
metafísica, fez, ele próprio, metafísica, e da pior espécie. Por outro lado,
o fisicalismo, o cientismo, o tecnicismo não resolveram o problema do
mundo que é o do mal e da dor, e antes, o fizeram mais intrincado e
obscuro. Os filósofos contemporâneos, existencialistas e
fenomenologistas, ocupados em replicar ao idealismo, são contra
quaisquer sistemas, afirmando que o melhor da filosofia é fazê-la e
refazê-la, indefinidamente, sem nunca concluir. Gusdorf escreve que "a
marca do gênio consistiria pois na vontade de não querer chegar ao
termo, no propósito tenaz de deixar sempre em aberto a investigação".
Deixando sempre em aberto a investigação, sem concluir nada, em
que se há de apoiar a vida para ir por diante? Sem um oriente, a história
caminhará, como sempre aconteceu, por puro ensaio-e-erro animal.
Alguma coisa tem que ser dada como definitivo, até que este
"definitivo" seja complementado ou desalojado por um outro
"definitivo" mais aberto e de nível mais alto. Seja, logo, o
desenvolvimento da filosofia uma espiral em que, portanto, os sistemas-
círculos, em vez de se fecharem sobre si, ligam-se uns a outros em
continuidade. No entanto, uma espiral completa, incluindo todos os
círculos possíveis dos dois idealismos, o grego e o renascentista, não
deixa de ser, também, um sistema; e é contra este sistema que se
insurgiram Comte, Marx e os existencialistas. Ninguém acertou: os
dois primeiros, por criarem um intelectualismo aéreo, inaplicável à
256

realidade vivida; os existencialistas, por não concluírem nada... que


pudesse guiar a história, tornando-a menos irracional do que sempre foi.
Tudo isto, porém, serviu a provocar o recrudescimento do verbalismo
teórico, divorciado do dado natural.
Assim como o dinheiro circulante de um país tem por garantia o
lastro das riquezas desse país, também as palavras postas em
circulação pela inteligência, semelhante à moeda, são validadas pelo
lastro ontológico da realidade. E tal como a da moeda, também pode
haver uma inflação de palavras, e isto acontece sempre quando a
inteligência substitui o lastro-realidade, pelo lastro-aéreo do discurso.
Para evitar esta inflação, o homem deve curar de fazer que a
inteligência se ajuste à realidade; as palavras hão de servir a uma
inteligência que se subordinou à realidade, e não, a uma inteligência que
se fez, ela mesma, a realidade primeira do mundo. Há outro perigo
contra o qual se deve estar precavido:
A linguagem é meio de expressão do pensamento, e não, um fim em
si mesma. Então, quando, como agora, fica desacreditada a palavra, é
preciso verificar se o descrédito vem da idéia que a linguagem carreia,
ou se da própria linguagem que se tornou um fim. Quando, em
qualquer arte, a forma de expressão se enfuna, se enche de vento,
esmera-se nas vestes e ornatos, requinta-se, tornando-se um fim em si
mesma, é necessário que esteja o homem em guarda, não se deixando,
como Ulisses, fascinar pelo canto de sereia, e, pelo contrário, esteja ele
atento para descobrir a mensagemm que vem de envolta com a
musicalidade dos períodos, dos versos, das formas, das cores. Esta
prevenção tem em vista manter o equilíbrio da unidualidade fundo e
forma, idéia e expressão.
Fora esta, há a outra forma de abuso, que estávamos vendo, muito
mais perigoso, de que a linguagem participa, sem, contudo, caber-lhe a
culpa. Neste caso, a língua continua a servir à idéia, como simples
meio, sem fazer-se fim, porém, ao que ela serve é um pensamento
divorciado da realidade. A culpa cabe, então, ao "pensamento-teia-de-
aranha”, (Bacon) e não, à linguagem.
Neste caso, como ocorreu com os dois idealismos, o grego e o
renascentista, a inteligência divorciou-se do mundo, fazendo-se a si
mesma absoluta e ponto de referência para tudo. O cúmulo deste abuso
foi considerar o mundo à mão, espontâneo, que é real, objetivo, concreto,
palpável, visível, sensível, como IRREALIDADE, e o outro, o mundo
ideal, essencial, inteligível, como sendo o REAL. Fosse tida por real a
idéia que está nas coisas, no mundo, como forma, como essência,
ainda vá lá! Mas o real do idealismo não é o mundo das essências,
encaixado, embebido, no mundo da substância, e sim, o outro, o
imaculado, o distante, diáfano, etéreo, luminoso, existente, mas sem
257

substância, como se isto fosse possível: existir fora do tempo, existir


sem a substância espacial e temporal. Com isto, a filosofia tornou-se
tão difícil e confusa, que ficou tendo razão Cícero para quem "nada existe
de obscuro, que não se possa encontrar nos livros dos filósofos".
E a linguagem? Acaso se pode imputar o pecado da confusão à
palavra? Não. Ela se manteve sempre como meio de expressão,
sempre dócil, sempre servindo a sua ama, a inteligência. A balbúrdia
não vinha da palavra, mas da própria inteligência que dissociou a
essência da substância, para prosseguir só com a primeira. Que
esperar da filosofia, se Deus foi havido pelo filósofo que mais influenciou
a cultura Ocidental, Aristóteles, como sendo "essência pura sem
matéria alguma"? um Deus que só "se ocupava de pensar
pensamentos"?... pensamentos vazios que não se referiam a coisa
alguma, sem nenhuma substância?, tal como o era si mesmo, ou sua
natureza?...; um Deus cujo motivo do pensar, era o prazer metafísico da
própria contemplação, isto é, da contemplação de si mesmo? Mas, que
dizemos? acaso pode haver prazer em Deus? dado que o prazer, o
gosto, o sentimento, a vontade são substâncias, e, em Deus, então, não
cabia substância? Quem não percebe logo que todo este estulto
palavrório não leva a nada?, não passando de abuso da razão e da
linguagem? Ora, a expressão "pensar pensamento" é um ôco, um
vazio, um nada conceptual! Por causas quais esta, "Lutero disse que
Aristóteles não passava de um asno", e Huberto Rohden, mais
eufemizado, declara que "Aristóteles é, na história da filosofia ocidental,
o rei dos acróbatas". Ora bem: apresentar acrobacias a quem busca,
unicamente a verdade, é asneiríce. Se a filosofia se presta só a
apresentar acrobacias, fora com ela! Se Aristóteles é acróbata do
pensamento, fora com ele! E Descartes primeiro, e o intelectualismo
depois, ao invés de resolver a questão, ainda mais a agravou. Com sua
geometrização do mundo, Descartes se constituiu noutro cúmulo o qual
deu azo a que Kant declarasse ser o homem o que cria o mundo, na
própria inteligência, a partir de intuições puras, e depois projeta esse
mundo feito só de idéias, só de essências, no mundo real, objetivo,
vestindo um no outro como por milagre.
Primeiro Parmênides, e depois, Descartes, transformou a filosofia
em puros símbolos de linguagem, desarraigados da realidade
verdadeira, e esta foi a razão do descrédito da metafísica. A filosofia
transformou-se na "ciência admirável" (Descartes), no "mel que só
as abelhas humanas sabem fazer" (Garcia Morentes), em arte de
subtilezas, em acrobacias do pensamento, em agradável passatempo
como o xadrez e a literatura, mas que não respondeu ao apelo
profundo do espírito eterno que inquire a respeito de por que vive e por
que sofre. Como era de esperar-se, o resultado de tudo isso foi o
258

descrédito da filosofia, o desprezo da metafísica. O etéreo jogo de


abstrações ocultador da ignorância do profundo, invalidou a filosofia-de-
palavras, e os homens, hoje, propendem a voltar-se só para as ciências
que podem apresentar fatos.
No entanto, como já vimos, nos primórdios, a linguagem dos
macacos, e pré-homens tinha que ser substantiva, material, concreta,
muscular, direta e imediatamente ajoujada à coisidade do mundo. As
coisas ausentes em realidade, precisavam representar-se pelos
símbolos e pela liturgia ou ritual da pantomima. Agora, de novo, por
causa do descrédito da metafísica, voltamos ao objetivismo, à linguagem
auditiva, visual, fáctica, pantomímica, como no começo, só que,
agora, vinda pelo rádio e pela televisão massificadores. O que vale,
agora, é a linguagem dos fatos, como na ciência, que substitui os
discursos retóricos pelo microscópio, pela retorta, pelos aparelhos,
pelas análises, pelos computadores, pelas máquinas automáticas,
pelos microprocessadores. Como não se pode prescindir da linguagem
para referir-se ao ausente, ela tem que ser fáctica, deve corresponder a
fatos para gozar de credibilidade. Como, todavia, nem tudo se pode ver,
passou-se a duvidar de tudo o que se não vê.
Ora, isto é regredir às origens, à linguagem feita de concreções, de
gestos pantomímicos. Com isto, a própria linguagem se empobreceu,
uma vez que ela fundamentalmente, foi criada para ocupar o lugar
daquilo que se acha ausente e não se vê. Se tenho um objeto à mão,
pego-o e o mostro logo; se o não tenho, refiro-me a ele por seu nome. Daí
que Vieira diz ser o nome uma "definição breve". Definir é traçar "fins"
ou limites à coisa, recortando-a, num todo maior; definir é conceituar,
estabelecer o conceito, fixar a essência, donde vem que o nome, como
definição breve, é o conceito, a essência. Era, portanto, inevitável que a
linguagem se transformasse num conjunto de abstrações, não só para
substituir o ausente, como para falar das realidades que, por sua
própria natureza, são invisíveis e impalpáveis. Aí está, como até a
linguagem erudita com todos os seus artifícios e estratagemas é
necessária, e, recusá-la, é recusar-se o homem ao seu estatuto, às suas
possibilidades, à sua cultura.
O abuso idealista, desvinculando o inteligível do sensível, a
substância da essência, para ficar só com esta última, com absoluto
desprezo da primeira, desnaturou a própria inteligência que vem de
inter (entre) e legere (ler), ou seja: ler, apanhar, escolher entre as
coisas individuais um nexo oculto que os sentidos não percebem. Esta
"leitura entre"... passou a atuar sobre si mesma, fez-se autônoma,
cessando, por completo, sua subordinação ao dado natural, às coisas
que, desde o início, foram seu objeto e seu ponto de partida. Por causa
do divórcio do real e da autonomia da razão, a linguagem se tornou
259

parlenga, parlapatice, donde o seu descrédito e a recusa de todos em


aceitá-la, passando as massas a substituir as palavras pelas coisas,
pelos fatos que elas deviam representar, mas não o fazem, e, com
isto, fechamos o círculo, retornando ao ponto de que partiu o primitivo.
A palavra é "uma definição breve"... da coisa à qual representa,
e da qual não pode, existencialmente, desvincular-se. O primeiro ato da
inteligência é construir os seus conceitos, abstraindo-os das imagens
das coisas gravadas no psiquismo, para, depois pensar por
abstrações, por essências, por conceitos, visto como pensar diretamente
por imagens e por coisas concretas, é próprio de homens primitivos e
de antropóides. Rebelar-se contra a linguagem escrita dos mestres,
que é cuidada, rica de nuances, caprichada, escorreita, substituindo-a
pela linguagem oral, descompromissada, do rádio e da televisão,
eivada de erros crassos, primitiva, pobre, ou pela malfadada leitura
dinâmica, rápida, dos que têm pressa, e correm para nada, ou ainda
pela linguagem visual dos livros em quadrinhos, das revistas
fotográficas, espalhafatosas, sensacionalistas, próprias para semi-
analfabetos, é retornar à linguagem pantomímica do selvagem..., é
tornar-se o homem no "bárbaro moderno" de que fala Ortega. Substituir,
portanto, a linguagem da cultura pela linguagem visual e corporal de
analfabetos, é pretender retornar ao macaco, donde vem que a rebelião
do primitivo moderno contra a linguagem culta, é um equívoco: é
contra o abuso idealista, contra a inflação da palavra que deve o homem
revoltar-se. Fora isto, é, também, dever de todos protestar contra a idéia
de fazer da línguagem, em qualquer de suas formas (literária,
pictórica, musical, escultural, etc.), um fim, "um estilo em busca de um
assunto", quando ela é apenas um meio que tem por finalidade a
expressão do pensamento ou do sentimento.
E como meio que é, a linguagem será sempre limitada, escassa,
podendo ela ir da fala popular, espontânea, de quem discorre
oralmente, até a mais requintada e erudita expressão do literato, do
escritor. Falem Afrânio Coutinho e outros: "A linguagem literária,
escolhida, limitada e grave, não é por certo a linguagem cediça e
comum, que se fala diariamente e basta para a rápida permuta das
idéias: a primeira é uma arte, a segunda é simples mister. Mas essa
diferença se dá unicamente na forma e expressão; na substância a
linguagem há de ser a mesma, para que o escritor possa exprimir as
idéias de seu tempo e o público possa compreender o livro que se lhe
oferece".
Uma estrada, que também é meio, pode ser uma picada no
mato, pode ser de terra, ou asfaltada com seis pistas, mas será sempre
limitada, nunca sendo um campo extenso em longo em largo, revestido
de macadame; tal é a linguagem cujo fim é sempre servir a idéia, e
260

nunca transformar-se em sino campanudo, ou gongo, ou pomposas


vestes em cujo interior, em vão, se busca um corpo.
Porém, agora, como são tempos de primitivismos, nas danças, na
gíria, nas barbas e cabelos longos, no trajar roupas novas-velhas-sujas-
desbotadas, também, nalguns, deu-lhes para fazer da música uma
não-arte, constituída toda de berreiro rouquenho, de sons fortes,
acompanhado de requebros e de gesticulação exdrúxula, grotesca, e de
indumentária exotíssima. Muitos há, "artistas" pederastas, que se dão os
parabéns, como dizem, por representar os dois sexos num só tempo, de
homens possuindo a inteligência, e, de mulheres, o terno e doce
sentimento, a sensibilidade e o gosto aprimorado. A Arte Moderna,
primitiva, esquemática, pobre ou isenta de mensagem, postou-se ao
nível do homem comum que diz de si consigo: como não pensei
nisso antes? de borrões, de frases sem sentido, de poesias sem metro
e sem rima ... que não dizem nada, também eu sou artista. Eis como
nasce um artista para cujo trabalho Goethe dá a receita:

Muita ação sobretudo. Os circunstantes


querem ver e mais ver. Chovam sucessos
uns sobre outros a flux. Folga a platéia,
na curiosa abundância embasbacada;
entra o poeta em moda, e cresce em fama.
Pela turba é que a turba se conquista:
cada qual tem seu gosto; o que um refuga,
outro vem que o prefere. Assim, dar muito
cifra a receita de agradar a todos.

Armar de peças mil uma só peça


é que é o non plus ultra; afortunado
o poeta que o logra: é mestre cuque
de chanfana afamada entre os fregueses.

Há comédia que chegue a um embrechado,


que se arma, enquanto o demo esfrega um olho,
e enquanto esfrega o outro, se desmancha?

O compacto! a unidade! história; petas.

Que vale ao ramalhete ser tuchado,


se a crítica lá está que ri do junco,
e a uma e uma as flores lhe desfolha?

( . . .)
261

Apuros, para que? para que ouvintes?


Este vem aborrido, aquele impando
de festim lauto; e, o que é pior, não poucos
da Babel jornalística aturdidos.
Vêm aqui, como vão às mascaradas:
matar tempo; açodados, porém frios ...
curiosos, quando muito. E as damas? Essas
trá-las o empenho de assoalhar os luxos;
são atrizes gratuitas; são figuras
que só trabalham pelo amor da glória.

Já basta de quiméricos Parnasos.


Obtens enchente; aplaudem-te; vês nisso
motivo de ufanar-te? Observa atento
a gente que em mecenas se te arvora:
metade dela é fria, o resto bronco.
Um tomara-se já no fim da peça
para se ir ao baralho que o namora.
Outro está já na idéia pregustando
a noite que vai ter entre os abraços,
no seio nu de delirante Frine.

Para relé tão pífia invocar musas!


valha-vos Deus, basbaques da poesia!

Se agradar pretendeis, teimo na minha:


dai ação, mais ação, ação que farte.
O ponto é por os cérebros num caos;
contentá-los em cheio era impossível...
...
(Goethe, Fausto, Diálogo Preliminar)

Aí está! "para jumentos, música de jumentos", já dizia, revoltado,


Paganini, ao tempo em que fazia seu violino ornear ... A linguagem
dos fatos é primária e basilar, própria de um pensamento indigno deste
nome, porque concreto, visual, corporal, para uso de pré-homens e de
antropóides. Na proporção que o pensamento se eleva, se alteia e se
aprofunda, a linguagem se abstratiza, e, de abstração em abstração,
o pensamento se torna unitário e intuitivo, enxergando tudo em termos
de totalidade. Tal, o pensamento da elite criadora que deve governar o
mundo em todos os campos, inclusive o político.
262

No entanto, o abuso idealista, desacreditando a palavra, provocou


a volta aos fatos, donde o cientismo, o fisicalismo, a invalidação da
filosofia, e, conseqüentemente, o descrédito da elite que, unicamente,
pode dirigir e nortear o mundo. Os homens, então, se tornaram todos
iguais, sem hierarquia, e as massas avançam para todos os postos de
comando, na política, nas artes, nas técnicas, substituindo a elite
criadora por uma minoria apenas dominante.
Esta minoria, como é massa, vive e governa, enquanto pode
bajular as massas. O gosto do público é-lhe o padrão, diferente da elite
verdadeira, feita de homens autênticos, que traçam rígidos programas e
os executam, doa a quem doer. Em lugar destes homens de eleição
que não têm outro compromisso além do da verdade que sentem,
surgem os demagogos que pautam seus atos pela doutrina da
subordinação às massas. A prova disto temos em Afrânio Coutinho e
outros.
"Se a obra é mediadora entre o autor e o público, este é mediador
entre o autor e a obra, na medida em que o autor só adquire a plena
consciência da obra quando ela lhe é "mostrada" através da reação de
terceiros. O mesmo vale dizer que o público é condição do autor
conhecer a si próprio, pois esta revelação da obra é a sua
revelação". Isto quer dizer: se a reação de tais terceiros for negativa,
por ser reação de medíocres que não podem entender uma obra de
gênio, então, a obra deste não presta. Só presta, logo, o que passar
com felicidade pelo metro da mediocridade. O aplauso da multidão é
medida do valor. Mais:
"Quando se diz que escrever é imprescindível ao verdadeiro
escritor, quer-se dizer que ele é psiquicamente organizado de tal
modo que a reação do outro, necessária para a autoconsciência, é por
ele motivada através da criação. Escrever é propiciar a manifestação
alheia, em que a nossa imagem se revela a nós mesmos". Aí está de
novo: o público é o espelho no qual o autor se enxerga refletido e se
conhece. O homem de letras não vale por si mesmo, mas segundo o
testemunho de terceiros. O autor se conhece pelo reflexo de sua obra
sobre terceiros que lhe devolvem sua imagem, como em espelho. Para
o autor conhecer-se a si mesmo, precisa produzir obras que, em se
refletindo sobre terceiros, lhe mostre, como em espelho, sua fisionomia
a qual ele vai corrigindo, modificando, no sentido de atingir o "ótimo"
no conceito dos para quem escreve. O autor, então, vai sendo modelado
pelo público; até que fique do modo como o público exige que ele
seja. Em lugar de o autor se fazer guia do público, que é o modo
como age o homem de elite ou elegante, ou elegente, ou o que elege
ou escolhe o melhor, em vez disto, o público é que se impõe como guia
do autor, mostrando-lhe como e sobre o que deve escrever. Em vez
263

de o autor criar o seu público com a sua pena, como guia que é de
massas, estas é que criam o autor à sua imagem e semelhança.
Sendo o autor o conduzido, e o público o condutor, em que se
fundamenta este para ser o guia? Funda-se em si mesmo...; como o
faz o rebanho estourado, escapando ao comando do pastor. É que
estamos vivendo tempos de decadência, nos quais os homens
regridem às suas origens bárbaras. A massa é a que manda, e seu
mando é conducente ao caos. Tudo isto de Afrânio até parece eco de
Sartre para quem a consciência que cada um tem de si, é dada pelos
outros. Da sua enfermidade diz ele: ``Foram os Outros que ma
ensinaram, os Outros a podem diagnosticar; ela é presente aos Outros,
mesmo que disso eu não tenha consciência. É, pois, em sua natureza
profunda, um puro e simples ser para outrem"! Em suma, o médico é
o responsável de minha enfermidade; "exatamente como, sem a
mediação do anatomista, eu nunca saberia que meu estômago tem
a forma da bolsa de uma gaita de foles". Mas, continuemos com
Afrânio:
"De modo geral, todavia, a existência de uma obra levará
sempre, mais cedo ou mais tarde, a uma reação, mínima que seja; e
o autor a sentirá no seu trabalho, inclusive quando ela lhe pesa pela
ausência". Se, pois, não houver reação nenhuma, como vai o autor
conhecer-se, dado que o espelho seu, o público, não o reflete?
Contudo, esta falta de reação do público, também foi considerada
como reação existente, pelo que sempre há reação, e tanto que,
quando a não há nenhuma, "ela pesa pela ausência",... de certo,
mostrando ao autor que sua obra não vale nada e ele é zero! E se
o autor for genial, e estiver convicto de que escreve para o futuro, sendo
sua obra uma antecipação? Como, logo, poderão conhecer-se a si
mesmos os autores cujas obras só aparecem depois de eles estarem
mortos? (que confuso modo é esse de dizer, que faz da ausência,
presença, do negativo, positivo, do não-existir, existência? Um
escritor escreve porque tem público, e por este se conhece; outro, porque
não tem público, precisa criá-lo na sua mente, como ente imaginário,
ideal, e para este escreve; todavia, como não pode saber como será
a reação do seu público, quando este, no futuro, existir in concreto,
fica sem conhecer-se a si mesmo, visto que seu espelho não o retrata,
no presente. Isto é como afirmar: os seres vivos estão sempre
estimulados pelo Sol, esteja ou não este a brilhar no firmamento;
mesmo quando é noite, e não há Sol, há o estímulo da ausência.
Ausência e presença são estímulos promanados do Sol, tal qual a
presença ou a ausência de público são igualmente aptas a
estimular o autor. Só que o autor que tem público, se conhece a si
mesmo através desse público que reflete a sua imagem; o autor que o
264

não tem, não possui esse espelho refletor de si, pelo que não se
conhece a si mesmo, e vai inconsciente de si, produzindo sua obra...
que, se não é feita para homens, certamente o será para as polilhas
e para os ratos. Todavia, pode acontecer de tal obra ser
desentranhada do espólio inédito e publicada; aí, então, o mundo,
boquiaberto, manda fundir uma brônzea estátua desse autor. Sem falar
dos muitos que não tiveram a mínima chance de apresentar suas
obras, a história está cheia daqueles nomes que, em vida, foram
desprezados ou perseguidos, e cultuados depois de mortos.
Em que, logo, se baseiam os autores sem público para, em fazendo
suas obras, se fazerem a si mesmos? Baseiam-se, como unicamente é
certo fazer, na filosofia (visão geral do mundo) que constituíram para
si; baseiam-se, como não há outro modo, em suas convicções
profundas que se chamam suas crenças, estas não postas em
discussão, por serem eles mesmos, dado que "nós somos as nossas
crenças" (Ortega).
Em tempos como agora, o autor que quisesse pautar-se pelo
público... público que desaprendeu, que regrediu à linguagem fáctica,
pobre, muscular, concreta, gesticulada, visual, mímica, pantomímica,
simiesca..., só poderia produzir obras medíocres, nada criando de
duradouro, pelo que nosso mundo só teria o hoje, e não, o amanhã;
todavia, ser homem, é ser em função do futuro, uma vez que todo o
ato humano tem em vista o porvir. No entanto, por falta de visão
filosófica, se forem realizados os prognósticos que se fazem hoje,
nosso futuro não será feliz. Fala-se já que esta nossa sociedade
moderna, industrial, vai desaguar na "sociedade tecnetrônica", em
que, como diz Joelmir Beting, "a liderança será disputada não pelos
mais ricos, mas pelos mais capazes". Eis renovado o velho sonho de
Platão. Só que Platão propunha o mais capaz entre os filósofos, no
passo que, para Joelmir Beting, o mais capaz deve ser recrutado entre
os tecnocratas; ei-lo: "Na sociedade tecnetrônica, tecnologia no lugar
da ideologia, estrutura no lugar do homem, o poder será
absolutamente impessoal e, por isso mesmo, de contestação mais
difícil. A despersonalização do poder político e do poder econômico
será decretada pela interdependência altamente viscosa entre
instituições governamentais, organizações científicas e complexos
industriais”.
A mais não podia descer o abuso oposto ao abuso idealista; a
"estrutura no lugar do homem", e um "poder absolutamente impessoal"
que, sonho vão, não tem nada "de contestação mais difícil",
precisamente, por ser tudo obra do homem. O robô governante
poderá ser tão perfeito, como o computador HAL 9.000, de vigésima
geração. "Um robô que pensa, que toma decisões, que canta, ri,
265

chora, ama, odeia e mata"). Ainda que tal seja o computador-


presidente, não faltará um homem que o destruirá; por que? fale o
próprio Joelmir: porque, ainda que o astronauta do "Discovery" é um
super-homem, "não consegue libertar-se de si mesmo". Aí está a
razão por que, verdadeiramente, "na prática a teoria é outra": O
homem "não consegue libertar-se de si mesmo"... escravo que é de
suas pulsões dragontinas. E ainda um presidente robô implicaria em
ter, por detrás dele, um super-presidente humano que lhe assinasse
as resoluções e atos.
Como, por conseguinte, só o homem pode tomar decisões e
decretar, então, como serão os homens postos à frente dos
computadores governamentais? Outra vez, dê a resposta, o próprio
Joelmir: "A velha democracia do mais popular ou do mais sagaz vai
deslocando o poder político na direção do mais preparado ou do
mais capaz. É a chamada tecnocracia, quase sempre recrutada no
anonimato da Universidade e dos quadros executivos da administração
profissional da empresa privada". Tal pesadelo de robôs governando
por detrás dos tecnocratas é bem próprio de quem acha que o homem
vive só de pão..., contrário ao pensar de Cristo.
A escravidão do homem pela máquina irá até o ponto de os
sistemas sociais serem organizados por computadores, como se acha
escrito: "A simulação de sistemas sociais (por computadores) é
aclamada pelo professor Cândido Mendes como a única saída
científica capaz de derrubar o "verbalismo furibundo e impreciso"
que ameaça a sociologia". Aí está: a questão toda se resume em
derrubar o "verbalismo furibundo e impreciso" que ameaça a
sociologia". Repete-se, como se vê, a velha regra histórica que diz:
contra um abuso, outro abuso; contra o abuso da tese, o abuso da
antítese de uma história que se desenvolve pelo método arcaíssimo do
ensaio-e-erro animal. Deste modo, fica respondida a pergunta que faz
Joelmir no décimo capítulo: "Se o homem continuar falhando, quem
pilotará a espaçonave Terra I rumo ao terceiro milênio"?. Resposta:
o Computador... que, até, já recebeu o nome de "Irmão Grande”. Em
que ficamos?
Nisto: para "fugir ao verbalismo furibundo e impreciso" dos
idealistas, criaremos os computadores que desconhecem palavras; e
reduzida a números artificiais, a IMPENSÁVEL sociologia será
"PENSADA" (?!) pelo robô que criará sistemas, na certa, para não
serem seguidos. Pois claro: sendo os fatos sociais impensáveis,
imprevisíveis, camaleônicos, rasteiradores, pelo que a sociologia não é
ciência, por não possuir leis, em razão do que seu nome deve ser
mudado para socioônica (técnica social), tão situacionista e
inconstante como a economia e a política, passar este trabalho em que
266

fracassa o homem para a máquina criada pelo mesmo homem, é um


absurdo tão grande, qual seria o de exigir que o índio Sexta-Feira
resolvesse os problemas nos quais fracassara Robinson Crusoé. Não
saímos ainda do pasmo em que nos meteu tal proposição: era
inverossímil que, para escapar ao "verbalismo furibundo e impreciso"
idealista, tivesse, um dia, alguém sonhado com uma criatura que fosse
superior a seu criador. Se o computador pudesse fazer isso, diria,
também, antecipadamente, qual será o número premiado na loteria
federal, ou qual, o time vencedor numa partida de futebol.
Razão de sobra tem Laurence J. Peter, quando afirma que, não
somente os homens, senão também os computadores tendem a parar
no seu limite de incompetência. Explica ele: "O computador, qual o
empregado humano, está sujeito ao Princípio de Peter. Se começa
realizando bem seu trabalho, há uma forte tendência para promovê-
lo a tarefas de maior responsabilidade, até que atinge seu nível de
incompetência". Ainda Peter, para os exemplos:
"O Departamento de Educação de Quebec pagou a mais 275.864
dólares em empréstimos estudantis. Engano cometido pelos serviços de
multicopiadoras dirigidos por um computador”.
"Num banco de Nova York o computador pifou e três bilhões de
dólares em depósitos permaneceram sem compensação por 24 horas”.
"O computador de uma companhia aérea emitiu 6 mil, em vez
de dez, avisos de recompletamento. A companhia aérea viu-se com
5.990 pedidos a mais de chocolate com recheio de menta”.
"Um estudo levado a efeito em 1966 mostra que acima de 70
por cento das instalações de computadores feitas até aquela época na
Grã-Bretanha deviam considerar-se comercialmente fracassadas”.
"Certo computador era tão sensível à eletricidade estática, que
cometia erros cada vez que se aproximava uma programadora
vestindo lingerie de "nylon”. Aí está!... como confiar num computador,
ainda que ele não erre, se ele fica na dependência de
programadores humanos que erram? Onde está o gênio capaz
deste impossível que é programar a sociologia impensável para
computadores? Ainda Peter:
"O computador não tem tato. Não adula. Não usa de julgamento.
Nunca diz "Sim, senhor; agora mesmo, senhor!" ante uma instrução
errada, depois sai e faz certo o que tem que fazer. Simplesmente segue
as ordens erradas, contanto que sejam claras”.
"O negócio de Fogg decaiu rapidamente, e em um ano sua
companhia estava falida. Ele sucumbira vitimado pela Incompetência
Computadorizada".
Aí estão as razões suficientes para não serem aceitas as decisões
dos computadores no campo da sociologia. Ainda que o computador
267

seja eficiente, o programador humano não o é; e se o for, há duas


coisas a considerar: a primeira é que o robô será sempre mero
instrumento, cabendo a palavra final ao homem que se acha por
detrás da máquina. Estando por detrás, mostra-se na frente, não só
porque foi o inventor da máquina, como ainda, porque há de assumir a
responsabilidade por ela. Logo, por detrás da máquina, porque na
frente dela. A segunda razão é que a sociologia, sendo simples
disciplina do espírito, e não ciência, não se reduz a discurso
racional, e, menos ainda, a fórmulas e sinais matemáticos para uso
de computadores.
O homem partiu da linguagem dos fatos, pensando por cosas
concretas, reais de verdade; depois, pelas imagens-das-coisas; depois,
pelas essências-das-coisas, depois, pelas essências-apesar-das-coisas;
depois, pelas essências-sem-coisas, essências vazias de conteúdo,
isentas de coisidade, imaculadas de mundo, indo, assim, às aéreas
alturas, com total desprezo do ponto de partida. Tudo, então, se tornou
"verbalismo furibundo e impreciso", pelo que, como reação, o
pensamento teve de descer das alturas à superfície, à planura onde,
outra vez, pontificam os fatos, impera a linguagem da vista, dos
gestos, dos sentidos, e falam os computadores sem vida e
desalmados. De agora em diante, quem não for massa, quem for
autêntico, quem for si mesmo, quem penetrar o sentido acrológico do
mundo, alteia-se, sobe-se, requinta-se, aristocratiza-se, e, com isto,
fica isolado no seu "deserto de homens e de idéias" (Osvaldo Aranha).
Para o que se elevou acima das massas, não há lugar no meio
delas. Sua obra será um grito no deserto e na solidão, e ainda bem,
se chegar a ser publicada para perder-se na Babel em que todos
gritam, mas ninguém escuta ninguém. Esse é o nosso mundo atual,
ainda sem lugar para o filósofo.
Visto como a linguagem enriquece o pensamento e vice-versa,
pobreza de linguagem é apoucamento da capacidade de pensar. O
mundo que o contorno social oferta à criança, começa quando esta toma
posse da linguagem. Por meio desta, infindas experiências que a
criança, o adolescente e o adulto não tiveram, são-lhes transmitidas.
Dado que a maioria dos homens vivem a crédito da sociedade,
repetindo e vivendo o que esta lhe transmitiu através da linguagem,
já se vê quão importante é esta como substituta de tudo o que
permanece ausente. Se é pobre a linguagem, pobre é este mundo
ausente, e se rica é ela, rico é ele. Cultura é linguagem e vice-
versa, de sorte que a queda de uma implica na imediata queda da
outra.
O homem autêntico, o que é si mesmo e não o social nele, o
que sabe perguntar por que?, difere do homem massa, simplesmente,
268

porque se deu ao trabalho de repensar, conferir, tirar a limpo com a


razão tudo o quanto leu, viu e ouviu. Sua substância psico mental
fica sendo sua, própria, e não a substância do social nele. Ora,
fazer isto é o que se chamou, desde sempre, filosofar.
Já o homem massa vive no mundo dos sentidos, dos olhos, dos
ouvidos, do sexo, do estômago, da televisão, do cinema, 'das revistas só
de fotografias, dos livros de leitura dinâmica para os que tem pressa
de chegar a lugar nenhum, dos livros em quadrinhos. Todo mundo tem
pressa, e corre para nada, porque está no mundo da superfície, dos
fatos, da matéria onde ser é correr, onde a matéria deve a sua
existência à velocidade. Os ídolos das multidões falam a mesma
linguagem delas, linguagem de massas, e suas "músicas", músicas
com aspas, não têm mensagem a não ser a das paixões dragontinas
manifestadas por meio de requebros simiescos e berros sub-humanos.
Os que se acham nos lugares dos líderes, únicos capazes de educar
as massas, são, como elas, "porcos bipedus", em demanda do
charco das vilãs paixões. Assim, pouco a pouco, se vão emudecendo,
entediados, todos os valores, até o soçobro final da civilização, ainda
que sem a tão profetizada Terceira Guerra Mundial.
Na crista da onda histórica de um mundo decadente, vão os
demagogos rumo ao caos, levados pelas massas que, com seus
aplausos, impõem as bugiarias de suas preferências. A "liderança" dos
demagogos não é liderança, é servilismo rasteiro; os que lideram de
verdade traçam rumos, são inflexíveis, azorragam as multidões com seu
verbo de fogo, tomados que se acham, de fúrias proféticas, e
acabam por arrastar as massas, ainda mesmo depois de destruídos
por elas, como Cristo, como Sócrates. Já os ídolos-de-nada vivem
consultando o IBOPE, para ver como vai a aceitação de suas nulidades,
pelo que não passam de estriões, comparsas. Os líderes verdadeiros
estão na dimensão da altura, na que se abre para a amplidão, para
o infinito, em que se fixam os anseios divinamente nobres da pessoa
humana.
Os nossos são tempos deseducativos, porque os demagogos são
deseducadores. Quando os medianos -da classe de alunos se põem à
frente como mestres, a classe inteira desaprende. O ensino cada dia cai
mais e mais, e grande parte dos "doutores" saem de universidades
pagas que trazem o epíteto de "chocadeiras". Estamos desaprendendo
as grandes lições dos mestres do passado, para aceitar a doutrina
sofística de que o aplauso da multidão é critério de verdade, e a de
que a verdade é só o evidente que pode ser visto e apalpado. Por
causa disto, todo mundo sabe tudo, atualizando-se a doutrina de
Protágoras, o sofista, para quem cada "homem é- a medida de
todas as coisas". Logo, para saber, um homem qualquer não precisa
269

consultar ninguém: basta consultar-se a si mesmo; despudoradamente,


o nulo diz: eu acho; e desde que acha, o que acha é a verdade. E
quando se lhe pergunta: por que?, sua resposta vem logo: porque
sim! Neste porque sim vai oculta a sofística protagoriana pela qual "o
homem é a medida de todas as coisas", donde ninguém precisa apelar
para nenhuma instância superior de regulação fora de si.
Ora, para evitar isto que seria abdicar da cultura, tornando-nos
primitivos modernos, como ocorre hoje, o que temos a fazer é lutar
contra a inflação da linguagem produzida pelo idealismo; lutar contra
abuso dela, contra o "verbalismo" que fala mas não diz, porque dito
não condiz com a realidade. Uma nova filosofia impõe-se, é a anti-
divorcista que se opõe aos idealismos antigo e moderno, visto que um e
outro separou na unidualidade ontológica, a essência da substância.
Não há que separar o unido, nem para curar só da essência
(idealismo), nem para cuidar só da substância (materialismo),
porque ambas são iguais em importância, iguais em valor, não
havendo primazia de uma sobre outra. O pensável e o impensável
caminham unijugados na unidade do ser: do pensável, cuide a inte-
ligência, e do impensável, sinta-o a INTUIÇÃO, não só com a luz da
supra-racionalidade, senão, também, com o egrégio complexo de
todos os nobres sentimentos. A sabedoria, objetivo supremo do filósofo,
não consiste no puro intelectualismo vazio, e sim, sobretudo, na vivência
efetiva dos sentimentos puros, sobre os quais se sublima o amor. A isto,
fale Gusdorf.
"A verdadeira questão consiste aqui em saber qual seja
precisamente o sentido da verdade em filosofia. A investigação
filosófica impõe-se como tarefa justificar a existência, por outras
palavras tende a assegurar uma correspondência entre a vida humana
e uma verdade que a fundamente em valor. Não se trata de jogo de
idéias, mas de tentativa para assumir a realidade humana integral e
elevá-la de sua desordem congênita a uma ordem onde se exprima a
obediência do espírito. A existência empírica é a ocasião, inicial e a
saída terminal, ao mesmo tempo que o critério. O mito platônico da
caverna descreve a odisséia do filósofo que transita das incertezas do
conhecimento usual à contemplação da verdade, e que volta de
novo a ocupar seu posto na caverna entre os demais homens, onde sua
presença daí por diante deve significar a visitação dos valores
superiores de que ele teve comunicação".
Se a tarefa da filosofia é justificar a existência; se é preciso
"assegurar uma correspondência entre a vida humana e uma verdade
que a fundamente em valor"; se a filosofia não consiste em mero jogo
de idéias, e antes é a séria tentativa de "assumir a realidade
humana integral e elevá-la de sua desordem congênita a uma ordem
270

onde se exprima a obediência ao espírito"; espírito, aqui, que é o


mesmo que inteligência-sentimento; se a vida espontânea,
quotidiana, ou "a existência empírica é a ocasião inicial e saída
terminal, das preocupações filosóficas, sendo a "ocasião inicial"
quando o homem se acha iludido na caverna de Platão, e, a
"saída terminal" quando ele, após sua odisséia pelo mundo do
pensamento, volta à mesma caverna, para ocupar seu posto "entre os
demais homens, onde sua presença daí por diante deve significar a
visitação dos valores superiores que ele teve comunicação"; se em
tudo isto consiste o objetivo da filosofia, já se vê quão distanciada
andou ela da verdade, ao cuidar que o seu fim era o desprendimento e
o abandono da vida. Que? "Não é no desprendimento da vida que
consiste o verdadeiro alvo da filosofia? E não são os esforços em prol do
desprendimento individual e a salvação social reciprocamente
incompatíveis,ao ponto de se excluírem mutuamente? Como pode
alguém propor-se salvar a Cidade da Destruição, quando está
justamente lutando para ser livre? Sob o ponto de vista do filósofo, a
encarnação do auto-sacrifício - o Cristo Crucificado - é uma
personificação da Loucura".
O alvo do idealismo antigo e moderno, exceto o de Platão,
pregava o desprendimento da vida, do mundo, visto como tudo isto
era irredutível a princípio de razão, a discurso racional. No entanto,
agora, nesta nossa visão de síntese, tudo tem que se mostrar integrado.
Conseqüentemente (Gusdorf), "a filosofia não é divertimento, alheio à
vida; é obra de edificação, no sentido prenhe do termo; é o
cometimento de uma sabedoria ativa que quer, por entre as influências
contraditórias, delinear-se como linha de força e linha de vida". Isto,
na vida individual, no que diz respeito à conduta, e isto, também, na
vida coletiva, nas várias ações sociais. Assim (Gusdorf), "o termo
verdadeiro de toda filosofia é uma transformação do mundo, que sirva
de ponto de arranque de novos empreendimentos. Ao contrário do que
Marx afirmava, temos de admitir que a metafísica, quando interpreta o
mundo, o transforma". "Pelo que, o filósofo e, mais geralmente, o
homem de gênio, é um revelador do mundo, ou artes um
transformador das significações. O mundo, após Sócrates, após Platão,
nunca mais volta a ser o mesmo".
Segundo Ortega, a "série dos filósofos aparece como um só
filósofo que houvesse vivido dois mil e quinhentos anos e durante ele
houvesse "prosseguido pensando". E este "prosseguir pensando" não
para, porque (Ortega), "se não podemos alojar-nos nas filosofias
pretéritas, não temos outro remédio senão tentar edificarmos outra. A
história do passado filosófico é uma catapulta que nos lança pelos
espaços ainda vazios do futuro para uma filosofia por vir". É ainda
271

Ortega o que afirma ser a filosofia o "repositório dos erros", e, ao mesmo


tempo, "o tesouro dos acertos"; porque, como diz, cada filósofo, ao
fazer sua filosofia, incorpora o certo dos anteriores, no passo em que
lhes faz a crítica dos erros. Deste modo (Gusdorf), "o senso comum da
história e seu veridicto asserenado reconcilia de alguma sorte todos os
metafísicos que mutuamente se condenavam, e faz-lhes justiça
aceitando-os todos a um tempo, ou seja, rejeitando a pretensão deles ao
monopólio". Merece estar neste alinhamento histórico todo filósofo de
mérito, ou seja (Gusdorf), "aquele que em si realiza, por um momento,
a conjunção das paralelas. Seu êxito é o resultado de uma
justificação da existência, que transfigura o mundo, irradiando num
sentido de verdade persuasiva que a todos empolga". A todos empolga,
sim, porque (Gusdorf), "as questões, de que o metafísico se ocupa,
são do domínio público. A sensibilidade intelectual do filósofo, ao acolhê-
las, satisfaz a uma justa exigência comunitária e esforça-se por dotar
os contemporâneos de nova fórmula de vida: obra de mutualidade que,
tanto na matéria como na forma, desemboca numa realidade
cooperativa, e que, para ser eficaz, deve persuadir e criar adeptos".
Eis como se situa a filosofia contemporânea a qual se nos afigura
como um novo neoplatonismo, no que toca à imposição que faz ao
filósofo de retornar à caverna, e, nela, exercer sua função de orientar
a humanidade perdida na congérie. Portanto, cumpre ao pensador estar
lembrado de que (Gusdorf) "existem outras atividades essenciais em
que o homem empenha sua vida; a arte, a religião, a moral, o próprio
ramerrão da vida quotidiana, permanecem irredutíveis, ou quase, a
serem postos em equação segundo o esquema da inteligibilidade
positiva. Uma razão que só dá razão às matemáticas prova, por isso
mesmo, que perdeu o contacto com a realidade humana, e evolve à
maneira do "geometrismo mórbido" descrito pelos psiquiatras no caso
de certos doentes, arrastados pela vertigem de um raciocínio oco,
que nada tem, de comum com a situação real". Deste modo,
paralelamente à linguagem pensamento, todo um outro mundo se abre
para os conceitos, onde estes não são para serem pensados, mas,
sentidos. Ninguém poderá saber o que é o amargo, o doce, o ácido,
o ardido, se não provou as substâncias destes sabores; igualmente
com os variados cheiros, agradáveis e ruins; não saberia o que seriam
as cores todas do espectro, e ainda as nuances e tonalidades, se não as
visse; nem possuiria o conceito de laranja, de pimenta, de águardente
de cana, de losna (absíntio), se os não provasse. Igualmente, com os
sentimentos: só se sabe o que são vontade, orgulho, humilhação,
alegria, êxtase místico, artístico, filosófico, erótico, a ambição de
poder, o desejo de glória, a cobiça de riquezas, a paixão amorosa,
a dor da perda de um ente querido, quando se os sofreu ou gozou
272

na própria alma e carne. Contudo, para desenvolver tais temas, aí


estão todas as artes, sobretudo a literatura, a poesia, que podem
auxiliar-se, para a expressão, do teatro, da pantomima, da tela do
cinema e da televisão.
Como estamos vendo, o homem está embebido num mundo de
sensações, de emoções e de sentimentos, a -partir de sua vida
espontânea, sobre o qual não pontifica a razão. O conceito duma
coisa é sua idéia associada à sua representação pela linguagem;
esta, porém, não deve reportar-se somente à inteleção da coisa, mas,
também, à nossa vivência, isto é, à experiência vital que, um dia,
tivemos dela. Conceito e vivência não se separam na realidade, e
quem dispuser só do ' conceito vazio duma coisa, possui a esta só por
metade. E porque a vida propiciou oportunidades a todos, de quase
todas as experiências fundamentais, quando nos comunicamos, nossa
linguagem não carreia só idéias, senão, também, sensações, emoções e
sentimentos. A idéia de chupar limão põe-nos água na boca, e, "afirma-
se que uma banda musical de instrumentos de sopro pode ser reduzida
ao silêncio chupando-se um limão diante dela, devido ao efeito sobre
as glândulas salivares de seus membros. Mas não precisaria o ato;
basta a idéia: pela hipnose comprovamos, harto, que uma palavra,
carreando a dupla idéia-sensação, produz reações ou respostas
orgânicas de sede, fome, frio, calor, anestesia e hiperestesia: até
queimaduras reais se podem produzir, com selos postais, mas com a
sugestão de que eles são emplastros causticantes. Se o hipnotizados
sugere aos hipnotizados que eles se acham num avião que sobrevoa
uma cidade, todos, logo olham para baixo, e vêem uma cidade
imaginária que é diferente para cada espectador, porque cada um
enxerga a sua cidade, ou seja, uma das cidades de suas
experiências. É por isto que uma estória contada a um sujeito que tem a
tarefa de repeti-la para um outro, e este, para outro, e assim por diante,
o último reproduzirá uma estória muito diferente. É que cada ouvinte
adapta a estória às suas experiências pessoais, à sua linguagem-
vivência; passando de um a outro, a estória vai-se modificando até ser
outra, mesmo quanto ao sentido.
Confirmando esta forma de mutualidade de vivências em todos os
homens, escreve Gusdorf: "Sem dúvida as personagens são tomadas,
direta ou indiretamente, da experiência íntima do criador, mas este
deve de algum modo despersonalizar-se para construir cada uma delas
em sua objetividade real. Balzac, Tolstoi, Shakespeare, devem o
melhor de seu gênio a essa possibilidade de abdicarem de si mesmos,
para viverem uma consciência estranha que eles habitam por
procuração. A contraprova é, aliás, subministrada pelo fato de leitores e
espectadores confirmarem, por seu turno, a verdade da ficção; eles
273

serão, por sua vez, Madame Bovary, simpatizarão com a heroína,


cuja experiência íntima se impõe também a cada um deles em sua
certeza objetiva". Mais: "Sendo assim, minha consciência pode visitar
outras consciências, e ser por elas visitada. Interesso-me pelo que há
fora de mim, quer dizer que há em mim mais do que eu, a matéria não
de uma, mas de muitas existências. Recursos secretos, virtualidades
sem aplicação podem vir à tona, ao acaso dos encontros. E de certo
nunca lograrei sair de meu ser próprio, a não ser mediante a ficção".
Daí que, tendo nós aberto este capítulo com o título de
pensamento e linguagem, forçoso, agora, é reconhecer que a
linguagem não serve só ao pensamento, senão também às sensações,
as emoções e aos sentimentos, havendo, portanto, outro unidualismo
integrante do homem o que se poderia nomear de linguagem-
vivência. Como a linguagem é comunicação, por esta muita coisa
pode transmitir-se sem palavras, só pelas expressões fisionômicas, pelo
ar expressivo que se dá ao rosto, pelos olhos, pelo torcer dos lábios,
pelo arquear das sobrancelhas, pelo franzir da testa, pelo modo
resoluto de encarar, ou, pelo medroso e acanhado de furtar-se, de
fugir. Por meio de tal linguagem psicológica, os que têm "psicologia"
que são os experientes na arte de devassar os íntimos, podem descobrir
a verdade mascarada por palavras mentirosas, que é quando estas
serviram para ocultar os pensamentos. Por meio desta linguagem
expressionista, psicológica, descobrimos, como por intuição, as pessoas,
e se elas tentam enganar-nos, dizendo uma coisa, harto, entendemos
outra, a verdadeira, a autêntica, a escondida. Esta é também a arte de
ler nas entrelinhas dos escritos, o não impresso. O hipócrita não
conseguirá ludibriar, embair, o mestre desta arte de decifração
desta forma de linguagem, a menos que o falsário, como artista
camaleônico, como expressionista fisionômico, sinta e viva com todas
as cores da verdade, a mentira que quer impingir.
Deste modo, como se vê, não basta ouvir e sondar atentamente
nosso interlocutor, como ainda é necessário conhecer-lhe a vida. Assim,
a linguagem dos fatos que atrás verberamos, como abusivo reduto
dos que fogem do abuso oposto idealista, assume, aqui, agora, o
aspecto psicológico e moral da indispensável e vital linguagem-das-
obras, linguagem-da-conduta, somente pelas quais podem ser os
homens conhecidos: porque cada homem é o que faz...; e o que faz,
fá-lo conforme com a crença... que é ele. O homem é a sua crença
(Ortega), e esta é a que, inexorável, se manifesta na conduta e nas
obras da vida. O homem é aquilo que faz... segundo sua crença
profunda, crença que é ele, porque condensa sua certeza vital, para
si inquestionável... certeza nascida das experiências de sua vida. De
modo que pelas ações, pela conduta, se conhece a crença que é o
274

homem. Pelas ações, pela conduta, cada homem está sempre gritando
a sua "verdade" ! pessoal, que é uma intuição volitiva e emotiva,
sendo, por conseguinte, neste seu substrato profundo que se embasam
todos os seus raciocínios e argumentos, desde que sejam para ser
postos em prática. Mostra-me as tuas obras e a tua conduta, e dir-te-ei
qual é a tua crença e quem és.
275

XIV - A MORAL OBJETIVA DE CONFÚCIO

Confúcio, procurando uma base para a moral, que não fosse Deus,
recebeu o aplauso de Will Durant que o coloca na lugar primeiro da
fila de "Os Grandes Pensadores". Em sua obra deste nome, Will Durant,
assim, se explica:
"Por que incluir Confúcio e omitir Buda e Cristo? Pelo fato de ser um
filósofo moral antes que um pregador de fé religiosa; pelo fato de seu
apelo à vida nobre ter base em motivos seculares e não em
considerações sobrenaturais; pelo fato de, muito mais que Jesus,
assemelhar-se a Sócrates". Mas, que disse Confúcio? Transcreve-o, o
próprio Will Durant:
"Os grandes antigos, quando queriam revelar e propagar as mais
altas virtudes, punham seus Estados em ordem. Antes de porem seus
Estados em ordem, punham em ordem suas famílias. Antes de porem
em ordem suas famílias, punham em ordem a si próprios. Antes de
porem em ordem a si próprios, aperfeiçoavam suas almas. Antes de
aperfeiçoarem suas almas, procuravam ser sinceros em seus
pensamentos e ampliavam ao máximo os seus conhecimentos. Essa
ampliação dos conhecimentos decorre da investigação das coisas, ou
de vê-las como são. Quando as coisas são assim investigadas, o
conhecimento se torna completo. Quando os pensamentos são sinceros,
a alma se torna perfeita. Quando a alma se torna perfeita, o homem está
em ordem. Quando o homem está em ordem, sua família fica em
ordem. Quando sua família está em ordem, o Estado que ele dirige
também pode alcançar a ordem. E quando os Estados alcançam a
ordem, o mundo inteiro goza de paz e felicidade".
Pusemos em destaque a base de Confúcio, em que ele afirma:
"Essa ampliação de conhecimentos decorre da investigação das
coisas, ou de vê-las como são". Ele desce, como se vê, por uma
cadeia hierárquica do Estado até o conhecimento das coisas, e acentua
que esse conhecimento consiste em descobrir ou ver como as coisas
são. Um chefe de Estado, um rei filósofo (Platão), que consegue
enxergar as coisas como elas são, passa a possuir um conhecimento
completo, seus pensamentos se fazem sinceros, sua alma se torna
perfeita, sua pessoa fica em ordem, e esta ordem se irradia para a sua
família, para o Estado que governa. O tudo, logo é enxergar as coisas
como elas são.
A isto, acrescenta Will Durant: "Eis aqui uma sã filosofia moral e
política enfeixada em poucas linhas" (op. cit. pág. 13). Para o que disse,
Confúcio empregou linhas até de mais, visto como deixou por explicar o
que as coisas são, fundamento, por excelência, de que tudo o mais
276

decorre. Dado que o vulgo, em sua vida espontânea, não sabe o que as
coisas são, e sim, só, o que elas aparentam ser, consistindo nisto a
opinião ou doxa; dado que enxergar através das aparências, penetrar
o sentido profundo das coisas é a ciência ou para-doxa, donde
paradoxo; dado que nesta para-doxa se ocuparam todos os filósofos
durante dois mil e quinhentos anos, e ainda há o que dizer; a que pode
reduzir-se a frase de Confúcio: "Essa ampliação de conhecimentos
decorre da investigação das coisas, ou de vê-Ias como são"? Porque
as coisas não são isoladas, mas se relacionam entre si, ligam-se em
cadeia, enchendo o mundo que se integra a outros mundos que
formam sistemas planetários, sistemas galácticos e universo. E se as
coisas forem tomadas como unidades isoladas, estanques, como todos
separados, elas são, outra vez, universos constituídos por unidades
menores, em cadeia descendente, cujo último termo se perde no ignoto.
O dado natural é inesgotável.
Se, pois, de ver como são as coisas depende o "conhecimento
completo", então não há conhecimento completo, porque o dado
natural, é inesgotável, e tanto, que cada pensador o retoma e o
desenvolve em sua filosofia. Se não há conhecimento completo, não há
alma perfeita; se não há alma perfeita, o homem não está em ordem,
pelo que, como o notou Nietzsche, ele é inacabado. Como o homem
não está em ordem, porque inacabado, também não o pode estar a
família, nem o Estado que o filósofo-rei governa. Ocupado no dificílimo e
árduo trabalho de saber o que as coisas são, perdido em pensamentos
grandes, inculcado em acrologias, o filósofo-rei se descura dos
problemas de Estado que são práticos, concretos, objetivos, vivenciais, e
os ministros despacham em seu nome, fazem-se interesseiros,
mercadejam intercessões, roubam, defraudam, perseguem inimigos
pessoais, empestam o Estado; por que? Porque o rei deixou em suas
mãos os problemas práticos, concretos, objetivos, próprios de sua
função de rei, para enfrascar-se em lucubrações profundas, abstratas,
teóricas, distantes, ocupação absorvente em que, até os ossos, se
embebem os filósofos.
Metendo-se o rei-filósofo a querer saber o que são as coisas,
esbarra com o mal, com a fealdade, com a injustiça, com as dores
misérias do mundo, e vê que tudo decorre de a vida ser agoísta, o de e a
Natureza ser amoral. Não querendo recorrer a soluções nenhumas
escatológicas para ater-se somente a motivos seculares, perde o
norte, e entra em desequilíbrio ideológico e emocional. Em estado de
desequilíbrio não pode aperfeiçoar sua alma, nem "ampliar ao máximo
seus conhecimentos", e quanto mais teima nessa linha, mais se perde
na Babel em que todos gritam, mas ninguém escuta nem entende
ninguém. O caos na alma gera o caos da conduta que se expande à
277

família que, como peste, infesta o Estado. Marco Aurélio foi um rei-
filósofo cuja sabedoria deu para deixar a nau do Estado navegar à
deriva, e antes de ocupar o trono, seu filho Cômodo já praticava a
"arte" de gladiador amador, assassinando indefesas gentes dentre os
quais mendigos. Governe o rei, e filosofe o pensador, que como já dizia
Vieira, "ninguém pode executar bem dois ofícios", sobretudo, se cada um
deles exige dedicação exclusiva tempo integral!
A um discípulo que pergunta a Confúcio se devia pagar o mal com
o bem, responde ele perguntando: "Com que então recompensarás a
bondade? Pagarás o bem com o bem, e o mal com a justiça". Contudo,
Confúcio não explicou o que é a justiça, como se ela fosse uma coisa
clara, evidente por si mesma. Acaso a justiça é a vingança? o "olho por
olho e dente por dente"?, que é o mesmo que .a pena de Talião? Seria o
desassombro do forte, como o entendia Nietzsche? Seria o respeito pelo
limite do egoísmo alheio? Guerra Junqueiro já dizia que um justo não
perdoa, visto como exige a reparação da ofensa, e que a caridade
consiste no perdão. Não fora melhor tivesse dito Confúcio que o bem se
paga com o bem, e o mal, com o perdão? com o esquecimento? com a
omissão da resposta punitiva? Porque num mundo, como o nosso, em
que a justiça se mascara e se veste do interesse, todos a têm do seu
lado, e, em nome dela, os homens e as nações estarão eternamente em
luta fratricida. Sem um Padrão, sem uma Referência distante, suprema,
sem uma Instância superior de apelação sobre humana, que vem a ser
a justiça? Como dedicar-se alguém ao conhecimento das coisas sem
ligá-las em hierarquia que, transcendendo ao mundo, ao universo, perde-
se num Horizonte distante em que se aloja o Absoluto inacessível? Como
podem os motivos seculares existir e se bastar a si mesmos, com
que ficam sendo absolutos, se a história nos demonstra que tais
motivos se mudam com o tempo? Como encetar o aperfeiçoamento da
alma eterna, e mantê-lo norteado por tais padrões móveis, relativos,
que, para existir, pedem um fundamento mais remoto? Em que se
basearia o homem para ser justo e bom, se a bondade e a justiça não
acham apoio nem exemplo na Natureza circundante, nem num social
que se fun demente nela? Que significa uma moral alicerçada em
motivos seculares?
O próprio Confúcio teve de fundamentar tais motivos seculares na
correta visão de como as coisas são... coisas que se abrem para o
mundo... que se liga a outros mundos até o universo o qual, de si, já
transcende nossa capacidade imaginativa, conceptiva. Contudo, este
universo não é o fim, e menos ainda o Deus que a nossa intuição
promove, determina, como Referência suprarracional, só em cuja função
podemos saber o que as coisas são.
Diz, Confúcio, no texto transcrito: "Antes de porem em ordem a si
278

próprios, aperfeiçoavam suas almas". Como o si próprio é um elo da


cadeia que, para ser posto em ordem, depende do elo anterior que é o
aperfeiçoamento da alma, vale perguntar: que é o si próprio,
independente da alma? Qual, a diferença entre "alma", "eu" e "si
próprio"? Mais: "Antes de aperfeiçoarem suas almas, procuraram
ser sinceros em seus pensamentos". Ser sincero nos pensamentos
é ser exato e verdadeiro; é não procurar enganar-se a si mesmo com
ilusões, com falazes esperanças, quaisquer que sejam os motivos. Em
vez de manter-se em pensamentos verdadeiros, realistas, por medo
ou covardia, procura o homem agarrar-se a sonhos, a falazes
esperanças quais sejam: a de viver, quando se está quase
moribundo; a de continuar rico por sorte ou pela ajuda de Deus,
quando a pobreza é iminente ... por causa do esbanjamento dos bens,
ou do jogo, ou da má administração deles. Como os pensamentos não
nascem do nada, e sim, de motivos, quando os motivos reais são
indesejáveis, procuramos afastá-los com contra-motivos falsos. Ora,
para aperfeiçoar a alma, condição necessária para pôr em ordem si
próprio, é preciso ser sincero, verdadeiro, realista, em seus
pensamentos. E para que o pensamento possa alcançar o grau
máximo de perfeição ou de verdade, é indispensável esteja ele seguro
a respeito de o que as coisas são, como, por exemplo: o que são alma
e corpo? Qual, a diferença entre "alma", "ego' e "si próprio"? Tais
coisas... somadas a todas às demais, são em si mesmas, ou são em
outras, ou são em nós? Se em outras, qual a fundamental na
hierarquia delas? Esta fundamental, a que todas as coisas se
reduzem..., ou de que se deduzem..., ou de que nascem, é fixa e
imutável, ou é móvel e transformável? Eis aí os "motivos seculares"
em que Confúcio fundamenta sua moral-sem-Deus, segundo o
entende Will Durant...
E visto como Wíll Durant faz empenho de alicerçar a moral em
motivos seculares, próximos, imediatos, objetivos, palpáveis,
fizesse o mesmo com as matemáticas, desprezando os postulados
e os axiomas também indemonstráveis; fizesse o mesmo com as
ciências, dando as costas aos primeiros princípios improváveis em
que elas se baseiam. Se Deus é criação do homem, e não, o
inverso, então, os postulados e os primeiros princípios também o
são; e como as ciências e as matemáticas se firmam neles, tais
ciências e tais matemáticas não subsistem por si mesmas, não são
descobertas, e sim, invenções do homem. Pois claro: foi o homem
que inventou os primeiros princípios, os postulados e os
axiomas, visto que os não pode demonstrar.
Dir-se-á, no entanto, que a praticabilidade, o utilitarismo e a
objetividade das ciências, das técnicas, são a prova acabada de que
279

os primeiros princípios e os postulados são verdadeiros. Neste caso,


o pragmatismo a funcionalidade dos sistemas éticos e legais, que dão
azo a se formarem as sociedades, a se desenvolverem as civifi-
zações, são a prova da existência de Deus, fonte primária do
ético o do legal. Contra os que afirmam que inventar Deus foi uma
necessidade do social, opomos o argumento igual de que inventar
os primeiros princípios e os postulados foi uma necessidade das
ciências e das matemáticas. E a invenção de postulados diferentes,
dando geometrias diferentes, prova que tais geometrias são
histriônicas invenções ou criações humanas; partindo do enunciado
geométrico de que a verdade é arbitrária, a geometria tornou-se,
como agora é, truanice e zombaria de matemáticos brincalhões.
Diferente deste resultado, a "invenção" de Deus como fonte da
justiça e da bondade, inspirou e fez desenvolver-se as civilizações;
e sempre, quando tal idéia de Deus como sendo a Natureza pelo
avesso; sempre quando esta idéia de Deus se trocou pela de que
Deus morreu, ou pela de que Deus não existe, as civilizações, em se
materializando, se desfizeram em nada; nas épocas de decadência e
extinção, a injustiça, a maldade e a violência imperam, porque,
então, a moral cessou de existir com a sua intuição basilar, com o
seu fundamento que é Deus.
E ao sofisma comunista que declara ser Deus criação das classes
opressoras, para docilizar e subjugar, com "o ópio dos povos", as
classes operárias, respondemos que os criadores de religiões
sempre vieram de baixo, não, de cima, e a única exceção, a do faraó
Akhenaten, deu em nada, pois sua religião do Uno-Deus-Luz não
foi aceita pelas massas, talvez por haver-lhe faltado um Apóstolo
Paulo, no dizer de Charles F. Potter. Igualmente, o Deus
aristocrático, etéreo, pura idéia vazia dos filósofos, Deus intuído como
essência pura, sem substância, nunca pode produzir nenhuma religião
popular. A religião nasce do sofrimento (Toynbee), pelo que são os
próprios proletários que criam e desenvolvem a indústria e a
distribuição do seu "ópio", único modo de suportar o peso e a
truculência de seus opressores, mas isto, também, na sociedade
comunista, visto como não se conseguiu, lá, erradicar a religião. Se é o
sofrimento que produz a religião com que a vida se defende do
aniquilamento; e certo que os chefes comunistas não puderam erradicar
a religião, segue-se que os comunistas não conseguiram acabar com o
sofrimento como, demagogicamente, o assoalham. Logo, a presença da
religião, em países comunistas, é uma afronta ao comunismo. É como
se, no atro abismo infernal, na cara de Satã, se cultuasse a Deus, o
supremo Criador dos mundos.
Confúcio achava, como é certo, que os homens são desiguais
280

quanto à inteligência; respondendo ao discípulo Mâncio, sobre esse


assunto, sentenciou: "O que diferencia o homem dos outros animais é
muito pouco - e a maior parte dos homens deita fora esse pouco". Que
diferencia o homem dos animais? A inteligência. E a maioria deita fora
esse pouco? Sim. Tal o entende Confúcio. A inteligência, todavia, não
diferencia o homem dos animais... e se ela não estiver acompanhada
do senso moral; sem isto, o homem, apenas inteligente, desce abaixo
do animal. Daí que os pré-homens macacóides, tanto que se viram
armados de simples varapaus, já se puseram a praticar atos
sangrentos de tal selvageria, que os tigres e os leões se mostraram
surpreendidos.
"Um cérebro de novecentos gramas, declarou o pessimista
Hooton, é suficiente para um comportamento humano ótimo. O
que passa disso é empregado em maldades. Os pré-homens dotados
de grande cérebro ainda estavam longe de atingir esse ótimo, mas, com
o auxílio da nova arma milagrosa, a pedra, já praticavam toda a sorte
de atos sangrentos". Mais:
"Enquanto os antropologistas ainda não se tinham decidido sobre
se os sul-africanos deviam ser considerados macacos ou homens,
Weinert escrevia esta frase que tem sido freqüentemente citada:
Nenhum macaco mata, assa e devora os membros da própria
espécie: isso é humano. E acrescentou: Era bonito considerar o
ato de Prometeu como o primeiro da humanidade nascente; mas
nós não podemos deixar de antepor-lhe o ato de Caim". Mais isto:
"A esse respeito escreveu há alguns anos, com notável franqueza,
o antropologista americano Hooton: Não vejo por que, olhando um
macaco nos olhos, qualquer homem possa pretender algum
parentesco com ele, baseado nas suas maneiras. Todo o macaco
que se preza rejeitaria qualquer pretensão a uma origem comum com
o homem".
"No princípio do século, quando se confirmou definitivamente o
parentesco do homem com o macaco, para nos livrarmos do peso desse
atestado, clamávamos: "Afastemo-nos do macaco!" Em meado do
mesmo século, que nos demonstrou, numa medida que não julgaríamos
absolutamente possível, a bestialidade do "Honro sapiens" gritamos,
cheios de saudade e de pesar: "Voltemos ao gibão!".
Se só a inteligência, sem o senso moral, pode colocar o homem
muito abaixo dos animais, como desceram os alemães de Hitler, uns
milhares pela ação, alguns milhões pela conivência e o resto do povo
pela omissão; se, graças ao senso moral, se pode chegar a super-
homem como Cristo, como Sócrates, como São Francisco de Assis, vale
perguntar a Confúcio se é a inteligência que, de fato, diferencia o homem
dos animais. Se os tigres e os leões podem surpreender-se face a
281

selvageria sem nome do homem "civilizado" (!), pelo que, se pudessem


pensar, haveriam de concluir que a civilização tecnológica sem Deus, é
sinônimo de satanismo sub-animalesco; se tais quadrúpedes, por
isso, se dessem os parabéns, primeiro, por não serem homens, e
segundo, por não serem "civilizados"... como os homens; a que fica
reduzida a sentença de Confúcio? Conseqüentemente, Confúcio não
deixa de ter razão..., mas noutro sentido; moralmente se pode dizer
com ele: "O que diferencia o homem dos animais é muito pouco - e a
maior parte dos homens deita fora esse pouco", pelo que, por isto, pode
chegar a tornar-se, como Mengele, num arrematado sub-animal
inteligente, mas dantescamente sanguinário.
Fritz Kahn aventura-se a dar, também, sua sentença, relativamente
ao fim do pensamento: "Ser céptico é o nível mais elevado que se pode
atingir no pensamento. Poder-se-ia dizer, portanto:
O cepticismo é a religião do homem culto". Ora bem: o céptico é
que duvida de tudo, o que não tem certeza de nada. Logo, quem
duvida de tudo e não tem certeza de nada não pode dar sentença
sobre coisa alguma. Então, como sabe Fritz Kahn, o duvidador de
tudo, que o cepticismo "é o nível mais elevado que se pode atingir no
pensamento"? Se duvida de tudo, em que base indubitável se firmou
para sentenciar isso? Se duvida de tudo, como pode asseverar mais
isto: "É preciso banir do mundo o sofrimento. Não pretendemos ser
filhos da natureza; timbramos em ser rebeldes contra ela".
Se "não pretendemos ser filhos da natureza", de quem ou de que
somos filhos? Se é nosso dever rebelarmo-nos contra a natureza...
para a corrigir, porque a julgamos errada, em que nos basearemos
para esse juízo, e nos alicerçaremos para esse feito? Em nós
próprios? E onde, no universo, está algo que em si mesmo tenha a sua
fundação? E há mais isto: nós somos produto da Natureza, e o
produto que se revolta, insubmisso, contra o produtor, é,
prontamente, destruído por ele...
Pesado, por ventura, não é o tributo pago pelo santo e pelo sábio
em nostalgia, dor e morte, por sua insubmissão à Natureza amoral
que dá a palma da vitória e da vida aos fortes e aos astutos? estes
que tripudiam sobre o justo, o manso, o magnânimo, o bom? Então,
basear-nos-emos em que? se duvidamos de tudo? Acaso a base está
no amor? na piedade? E de que nascem estes sentimentos, a não ser
da religião? Logo, temos de supor (sub-pôr, pôr por de baixo, como
fundamento) ALGO extra-natural a que nos REFERIR, o qual,
governando-nos, põe ordem no caos do nosso natural.
No entanto, o céptico, duvidando de tudo, não pode possuir este
fundamento, para ele dubitável. Acaso, fundar-se-á nos motivos
seculares de Confúcio? Mas, estes motivos seculares implicam em
282

saber o que são as coisas, e o céptico não pode conhecê-las, uma vez
que elas se abrem para o mundo, para o universo, remontando-se ao
Absoluto ou à Referência suma, Deus, que ele põe em dúvida. Por
causa disto, já o vimos, os motivos seculares de Confúcio não dão
azo a reformas nenhumas, nem do homem, nem da família, nem do
Estado, nem do mundo, ficando sem sentido o elogio de Will Durant, e a
proposição de Fritz Kahn.
Will Durant fala dos motivos seculares, base da pretensiosa moral
objetiva, como se esses motivos, apesar de seculares, do século,
absurdamente, não tivessem história, e existissem como um dom da
Natureza. Acontece que o civilizado não é o homem natural, pois,
como o afirma Fritz Kahn, "não pretendemos ser filhos da natureza;
timbramos em ser rebeldes contra ela". Ora, em que nos alicerçaremos
para efetivar a nossa rebeldia ativa contra a natureza que tem como
resultado a civilização? Se o homem pode negar-se em natureza, para
afirmar-se em civilização, segue-se que esta é a negação da natureza.
E como poderia um São Francisco de Assis, um Sócrates, tornar efetiva,
em si, tamanha empresa, sem um sólido fundamento em que se firmar?
Que portentosa atividade interior, que fabuloso dinamismo dalma são
necessários para desinverter, em si, a natureza egoísta e amoral, em
sobrenatureza, em civilização? E como executar tão gigantesca obra,
sem uma idéia chamejante que no coração se oculta como causa, e só
mostra efeitos?
Move-nos a riso a fala de Politzer para quem "o homem não é
bom, nem mau: ele é aquilo que as circunstâncias o fazem"; como se a
vida, para todos os homens, fosse feita só de pura reação. A portentosa
atividade interior do santo e do sábio, oculta sob a capa de serenidade,
nega este pressuposto de Politzer, pois um e outro age sobre as
circunstâncias, sobre o contorno, modificando-os; eles não são
conduzidos, conduzem; não são produtos do meio, mas agentes
modificadores. Fundados em sua Referência, entusiasmam e lideram as
massas, escrevem a história, quando a sociedade se acha em sua
ascensão; e quando eles faltam, quando já não há "este sal da Terra", a
civilização, tornada insulsa, desanda para o seu ocaso e se decompõe
como um corpo morto.
O Homo Technicus de hoje, com sua civilização que se
encaminha da industrialização para a automação e para a
robotização, vai ter, como decorrência, mais horas de lazer. Então se
faz preciso esteja ele preparado para empregar bem esse tempo
disponível. Falando a respeito da revolução que se está processando
no mundo pelos microprocessadores, tão minúsculos que cabem,
folgados, na ponta de um dedo, tão eficientes quanto os grandes
computadores, e tão baratos que, em breve, invadirão o mercado e as
283

nossas vidas, tratando deste assunto, "O Estado de S. Paulo" em sua


edição de 19 de setembro de 1976, transcreve a fala de C. William
Kessler, vice-presidente adjunto da National Cash Register: "Não há
tempo a perder, e os que não fizerem o esforço de reconversão e
reaprendizagem estarão perdidos". Pois bem: a par desse avanço
tecnológico de resultado imprevisível, que supera até a própria ficção,
faz-se preciso um igual avanço filosófico qual este que inauguramos.
Eis, pois, que, necessariamente, quem não se reestruturar mentalmente,
sem perda de tempo, segundo estes moldes, quem não reaprender,
igualmente, estará perdido, não lhe valendo quanto em si tenha de
engenhosa tecnologia. Uma outra revolução, pois, se impõe, e é a
filosófica.
Uma prova em favor desta nossa tese, temos na Suécia que se
tornou no Estado de Bem-Estar social mais próspero e avançado de que
se tem notícia. O Estado, aí, garante, a par da máxima liberdade
democrática e de suficiente segurança pública, benefícios sociais
nunca vistos tais como: assistência médico-hospitalar e dentária
gratuitas; ensino gratuito até o grau universitário; semana de apenas
quarenta horas de trabalho; seis meses de licença para fins de
maternidade; aposentadoria compulsória aos sessenta e cinco anos
de idade; subsídio para aluguel de casa, além de grande facilidade
para a aquisição de casa própria; acesso a quaisquer tipos de
créditos, independente da renda auferida; quota de viagens para
velhos aposentados de setenta anos de idade em diante e ainda
serviços de assistência domésticos, se deles tiverem necessidade. Por
causa de tudo isto, convencionou-se usar a expressão "paraíso
sueco".
Que mal atacaria uma tal sociedade? O tédio... o horrível tédio
de quem não sabe o que fazer... Este paraíso da matéria, como o
lendário de Adão, não se emparelha a um correspondente paraíso do
espírito; daí que a Suécia não pode dar nada ao mundo, a não ser
sua experiência de que um paraíso só de matéria não subsiste. Os
jovens, sobretudo, sentem o "fastio da abastança" e se voltam para as
perversões de todos os tipos e para o crime, em vez de se tornarem
sábios e santos. Se o bem-estar e o lazer são indispensáveis às
altas criações do espírito, onde é que estão estas altas criações vindas
do povo sueco? Que mais tem exportado a Suécia para o mundo além
de seus festivais de pornografias? Por que não levanta logo seu vôo,
a coruja de Minerva, no entardecer dessa civilização?
"Capitalismo ou socialismo?" - pergunta Joelmir Beting em seu
livro "Na Prática a Teoria é Outra" - e responde: "os dois. O vigor
bucaneiro do capitalismo produz e o espírito comunitário do socialismo
distribui. A democracia econômica caminha de mãos dadas com a
284

democracia social. E na base, uma democracia política secular. É um


modelo ideal de sociedade? Para a Suécia parece que sim. O sueco
das ruas, bem formado e esclarecido, diz que não vive no sistema
perfeito, vive no menos imperfeito. Entende, como qualquer cidadão
não bitolado pelas viseiras ideológicas, que as ciências sociais ainda
não apuraram a fórmula infalível da sociedade perfeita". E prossegue
adiante: "Gunnar Myrdall, um dos lapidadores do modelo sueco de
sociedade, diz que os sistemas rotulados de capitalistas e de socialistas,
com todas as suas versões, são sistemas convergentes. E o modelo
sueco, segundo ele, se coloca exatamente nesse ponto de
convergência, por ter sabido combinar dosada e pacientemente as
virtudes de um com os méritos do outro, dando ao homem o mínimo de
segurança sccial para que ele possa, a partir daí, afirmar-se
livremente, segundo o próprio talento".
Até aqui, o "paraíso"; porém, como esse "paraíso", à semelhança
dos outros lugares da Terra, está habitado por seres dragontinos,
prossegue Gunnar Myrdall, pela pena de Joelmir Beting: "O que não
impede, evidentemente, que a Suécia lidere hoje, na Europa, os índices
de alcoolismo, consumo de drogas e de assaltos a bancos”...
Como a história desenvolve-se por ensaios-e-erros, isto é, por
tentativas e falências, a que Hegel deu o pomposo nome de tese,
antítese e síntese, donde vem o dito de Ortega: "Vê-se então que uma
das maneiras que o passado emprega para nos inspirar é o incitamento
a que façamos o contrário daquilo que ele havia feito. Isso é o que se
chamou desde Hegel o "movimento dialético", em que cada novo passo
consiste somente na mecânica negação do anterior. Certamente essa
inspiração dialética é a forma mais estúpida da vida humana, aquela
em que precisamente andamos mais perto de nos comportarmos
com um automatismo quase físico". Daí que Ortega acha ser preciso,
com urgência, "inverter a fórmula de Hegel e dizer que, bem longe de
ser a história "racional", acontece que a própria razão, a autêntica, é
histórica".
Como dizíamos, por causa de a história desenvolver-se por ensaio-
e-erro; por fazer, numa fase, o oposto da fase anterior, então, contra
o "laissez faire" do tempo do liberalismo econômico, veio a fase oposta
do arrocho da intervenção estatal produzindo o tal de "paraíso
sueco". Como é, logo, esse "paraíso"? Pois o intervencionismo estatal
em assuntos econômicos se tornou tão grande, que a escritora sueca
Astrid Lindgreeh se interroga: "Háverá outro país do mundo em que
uma pessoa antes de aceitar um trabalho pergunte "quanto me restará
depois de pagar impostos?" e depois de fazer as contas conclua que
deverá pagar impostos tão altos a ponto de não valer a pena
trabalhar?" (O Estado de S. Paulo de 22/9/76). Depois de fazer tais
285

cálculos, o cineasta Igmar Bergman deixou o seu país declarando:


"Recuso-me a ser tratado como uma vaca. Acreditava que meu país
fosse o melhor do mundo. No entanto, meu despertar foi um choque.
Seja pela humilhação dificilmente suportável, seja porque me tenha
dado conta de que nesse país qualquer um pode ser brutalizado por
um tipo especial de burocracia completamente despreparada para
desenvolver sua complexa e delicada tarefa" (O Estado de S. Paulo
de 22/9/76).
O que está faltando, então, ao "paraíso sueco'?, senão a
sabedoria... que os seres dragontinos não têm. Decerto, não foi
pensando só nas outras nações que Gunnar Myrdall escreveu: "Estamos
vivendo a terceira guerra, a guerra da violação dos espíritos e do
envenenamento moral de gerações inteiras. Uma guerra mais terrível
que a das bombas e dos canhões, a guerra da poluição do corpo e da
mente, a guerra da ajuda transformada em negócio, a guerra da
imposição ostensiva ou camuflada de fórmulas importadas de
libertação do homem, a guerra moral estrábica que condena a
bomba atômica e aceita a dinamite de fabricação caseira, a guerra
de uma juventude ociosa e marginal que não é julgada, é promovida, a
guerra dos que pregam a justiça social de salão, arrotando os
ganhos de balcão, a guerra dos que sobem ao poder por suas
convicções políticas duvidosas e não por sua habilitação técnica para o
exercício da mais responsável das tarefas, a direção da sociedade".
Eis, pois, que, como escreve Astrid Lindgreeh, "o regime social-
democrático que proporcionou tantos benefícios sociais, endurecido e
desgastado na direção destas práticas, tendia a transformar-se numa
ditadura na qual o ser humano recebe ordens quanto ao que deve
fazer ou deixar de fazer" (O Estado de S. Paulo de 22/9/76).
Aí está para onde vai indo a Suécia, a Suécia roborizada ... dos
circuitos integrados. "Esse tipo de circuito interligado de bancos entre
si e destes com o comércio já foi considerado utopia nos Estados
Unidos e no Japão. Na Suécia, vai entrar em cena em agosto de 1973,
arquivando o dinheiro, o talão de cheques e, só para esnobar, o cartão
de crédito" ( ... ) "E lá se vai a primeira e última das utopias: a do
homem livre”... Face a isto, teimamos na nossa: só podem ser livres, o
sábio e o santo; nunca, jamais, seres dragontinos presos só ao mundo
da matéria. Repetimos aqui: os que não fizerem o esforço da
reconversão ou da desviragem de dragões, permanecerão infernados,
que isto é estarem perdidos já neste mundo ou fora dele, seja com
seus corpos de matéria densa, seja com seus corpos espectrais. A
prática da moral é esforço de reconversão; mas moral não há sem
Deus, como não há matemáticas sem postulados, nem ciências sem
primeiros princípios. Ainda que só, contra todos, havemos de gritar
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esta formidolosa verdade da qual, um dia, como um raio, tivemos


comunicação. Este mundo nosso em desintegração, busca,
ansiosamente, salvar-se do caos que se aproxima; contudo, isto só será
possível com uma nova mensagem, e tal mensagem está neste livro.

FIM
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