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POR UM

PACO
TE DE
AÇÚCAR

MAR
GARIDA
FON
SECA
SANTOS
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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

POR UM PACOTE DE AÇÚCAR

Margarida Fonseca Santos

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

Aos meus queridos amigos


Tiago Marques, que tanto gostou deste texto
e António Matos, pela ajuda sempre presente

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

1.

Olhou de novo para o relógio de parede, que lhe mastigava os dias. Faltavam

dez minutos para o fecho do notário, onde trabalhava desde a sua chegada à cidade.

António teria, nessa fase de mudança, 19 anos, a instrução obrigatória e anos de

pancada marcados na memória e no corpo magro. Porém, ver-se sozinho longe de tudo

não fora uma libertação. Trouxera consigo não mais do que uma autonomia frágil,

quase ingénua. A passagem dos anos somara marcas emocionais às antigas e fechara-o

em medos.

Um alvoroço perto da porta do arquivo obrigou-o a concentrar-se num dossier

aberto. Madalena e Joaquim entraram num alarido que o assustou. Não por ser

desconhecido, mas sim por ser demasiado rotineiro. O coração acusou a aflição, bem

como o suor que lhe coroou a testa e humedeceu as mãos. Habituado a espiá-los,

encoberto pela massa dos óculos, rezou para que não lhe falassem. Conseguiu. Depois

de encasacados, Madalena e Joaquim saíram sem lhe dirigirem qualquer palavra. O

arquivo mergulhou de novo no silêncio bafiento. António habituara-se a considerá-lo

um aliado.

Às seis em ponto, desocupou a secretária pesada onde gastava de forma

disciplinada os seus minutos. Deixara os objectos alinhados numa ordem decidida logo

no primeiro dia de trabalho. Vestiu a gabardina castanha, coçada. A gola, desafiando-o,

assumiu-se torta. António tentou endireitá-la, como se fosse possível. De volta à

posição retorcida, a gola desdenhou do esforço.

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Saiu. O vento atirava a chuva contra tudo e todos, numa fúria rancorosa.

António subiu a gola para se proteger, mas esta manteve-se torta, indiferente à função e

desdenhando mais uma vez do esforço. A paragem deserta avisou-o de que falhara o

eléctrico do costume. Consultou o relógio de pulso, indisposto por aquela antecipação

de horário, tão rara por aquelas bandas. Por fim, resignou-se a esperar pelo seguinte,

aninhando as mãos nos bolsos e encasulando-se no canto.

Mais passageiros iam chegando, resguardando-se de António e da chuva, numa

conciliação deveras difícil. Quase sinistro, de tão inexpressivo, preso no tempo por um

corte de cabelo fora de moda, António impedia-os de arriscar a proximidade. Quando o

eléctrico apareceu, entrou antes de todos sem hesitar. Ninguém protestou. Pôs a gola

para baixo, que, teimosa, permaneceu na posição de sempre, a meia-haste.

A viagem arrastou-o aos solavancos pelas ruas antigas da cidade. Turistas

incomodavam os trabalhadores em fim de estafa com ruídos incompreensíveis e risos

estrangeiros, recolhendo, por isso, olhares de aborrecimento. António sentia essa

agitação como uma agressão, detestava-lhes a alegria. Já nem no Inverno se descansava.

Cruzou os braços e a expressão. Ninguém lhe ligou.

2.

Abriu a porta de casa com a mesma dificuldade de outros dias, em luta com a

ferrugem e a falta de óleo. Pendurou a gabardina no bengaleiro depois de a sacudir num

método só seu, apurado ao longo de muitas repetições e cogitações.

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Acendeu a luz, torcendo o interruptor. Acordada pela claridade, a casa

reapareceu, e, com ela, as manchas de humidade, a tinta estalada, os móveis simples a

distâncias precisas e a ausência de conforto. Uma casa desconsolada, mas disso António

não se queixava.

Depositou em cima da mesa de fórmica, que assegurava a transição da pretensa

cozinha para a triste sala, o saco de plástico onde transportara a merenda. Pôs uma

cafeteira ao lume. Em menos de vinte minutos, jantaria pão da véspera com manteiga

rançosa e um café de saco calculado com a precisão de um químico. Lavaria a loiça

com destreza de artista e desimpediria o tampo da mesa. Depois, sim, podia mergulhar

no seu sonho.

Da estante vazia de livros, retirou um pesado álbum, arrumado a distâncias

iguais dos limites da prateleira, garantindo assim a simetria que lhe dava segurança.

Abriu-o e puxou mais para si o candeeiro de latão. Só aquela luz conhecia o tesouro ali

escondido.

Em folhas plásticas, divididas em rectângulos pensados para grandes moedas,

repousavam pacotes de açúcar vazios. Começou pela primeira página. Reviu toda a

colecção, que nesse instante continha 2.424 pacotes. O primeiro, recolhido havia já

vinte e dois anos, fora guardado no seu passeio de estreia pelas ruas da cidade. Só um

mês mais tarde conseguira encontrar a solução para proteger os pacotes. Desde esse

primeiro instante, aquela ocupação envolvia-o num objectivo capaz de o distrair dos

receios dos dias e de lhe ocupar os serões. Nascera assim um novo sentido para as ruas,

para os cafés, para as horas vazias de tarefas. Agarrara-se àquele pacote de açúcar, e à

possibilidade de coleccionar outros, como um crente à fé, no fervor de uma aparição.

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Chegou, por fim, à última página. Era a número 202, como podia ler-se no topo,

na etiqueta autocolante escrita à mão com letra de copista da Idade Média. Os dois

números, 2.424 e 202, produziram em António um arrepio. Ao encontrar uma repetição

ou uma simetria, fundia-se com o universo e preparava-se para um acontecimento

importante. Reconhecia-se ligado a uma lógica transcendente. Nem o facto de nunca ter

ocorrido qualquer episódio que confirmasse essa crença lhe toldava a esperança.

Não havia espaço para mais nenhum pacote. António levantou-se e abriu as três

gavetas do móvel. Contou as páginas plásticas existentes em cada uma, decidindo-se

por retirar duas da segunda e uma da terceira. Dessa forma, as três gavetas

aprisionariam uma harmonia crescente e descendente, e isso agradava-o. Pousou-as ao

lado do álbum e começou a desenhar os números das três novas páginas, em etiquetas

iguais às anteriores. Gastou nesse propósito dois minutos e trinta e dois segundos, mas

disso não se apercebeu, o que foi uma pena.

Retirou, então, do bolso a carteira e a mais recente aquisição. Uma felicidade

tosca abraçou-o, pois o novo pacote enquadrava-se numa série de versos de Fernando

Pessoa, de quem ouvira vagamente falar em tempos remotos. Deliciava-se com as séries

temáticas. Afinavam-lhe a obsessão.

Na cozinha, ignorando a torneira que pingava por teimosia, fez uma incisão

cirúrgica com uma lâmina na parte de trás do pacote, junto ao rebordo. De seguida,

passou todo o açúcar para um frasco de vidro. Os restos, imperceptíveis àquela luz,

foram abandonados à sua sorte no lava-loiça, debaixo dos pingos. Uma formiga hesitou

na esquina da bancada. A noite prometia, como tantas outas, alimento suplementar, mas

talvez fosse mais prudente esperar pelo escuro. Invertendo a marcha, desapareceu por

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trás de um azulejo. António guardou então a lâmina com um cuidado extremo, paralela

a outras, numa caixa em cima do frigorífico.

De regresso à mesa de fórmica, alisou o pacote. Com a delicadeza de um

relojoeiro, introduziu-o no primeiro rectângulo daquela que decidiu ser a nova página, a

203. Depois abriu as molas do álbum, acondicionou os novos elementos por ordem e

fechou-as. O barulho do metal produziu, naquele rosto esculpido, um sorriso que mais

ninguém conhecia. Recostou-se na cadeira. Só então observou o pingo da torneira. A

atenção dividiu-se entre as gotas que se estatelavam na pedra e o relógio de parede.

Sincronizados, devolveram-lhe uma paz muito peculiar.

3.

Ouvia-lhes os movimentos e as conversas impacientes. Chegavam até si em

sussurros filtrados pela porta. António podia imaginar as várias pessoas à espera, em

fila, de frente para o balcão do notário. Atento, distinguia com uma facilidade extrema o

andar de Madalena e de Joaquim. Madalena, de passos firmes em tacões altos, semeava

à sua volta o desprezo pelo ser humano. Não de forma generalizada, apenas se esse ser

fosse cliente do notário da Rua dos Sapateiros. O porte arrogante escolhido emitia

exigências subliminares a quem estivesse por perto. Os que lhe calhavam em sorte

sentiam sempre a imposição de fazer pedidos claros e rápidos. Era temida como uma

viúva negra, e António sabia disso. Joaquim, por seu turno, usava solas de borracha, a

chiarem a sua excitação não confessada por Madalena e a confirmarem uma submissão

cega ao que a via fazer e pensar. Compondo uma argamassa de ligação entre todos os

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barulhos, destacava-se o selo branco, atestando a conclusão de um processo. A tudo isto

António se mantinha atento, para nunca ser surpreendido.

Naquela manhã, a voz de Madalena parecia furar as paredes, na exibição de um

profissionalismo pouco verdadeiro, mas seguramente assustador para os enfileirados na

espera. Os tacões anunciaram a invasão do arquivo muito antes de António ver a porta

abrir-se.

Madalena entrou na sala e avançou por entre as estantes empoeiradas, onde a

pouca luz acrescentava um toque funesto ao mobiliário. António começou de imediato a

sua estratégia. Pegou em montes de processos para os pousar num outro sítio, enquanto

a espiava com cuidado. Foi repetindo estes gestos. Anotava na mente em que maços

mexera e onde os deixara. Tudo voltaria ao seu respectivo lugar assim que Madalena

dali saísse. Depois parou. Numa antecipação resignada de função, e esperando o que se

seguiria, António foi-se aproximando da fotocopiadora. Um alarme interior arrombava-

lhe o sossego. Um tique exacerbado compunha a cena, empurrando os velhos óculos de

massa de encontro ao nariz.

Contudo, Madalena não parecia vê-lo. Permanecia ao fundo da sala. Acendeu

um cigarro, soprando o fumo para cima. Abriu a janela sem perguntar se podia, e o frio

daquele Inverno corrompeu o espaço. Sacudiu o cabelo, inspeccionou sem grande

detalhe a requisição que tinha na mão e encostou-se à parede.

Logo de seguida, Joaquim, também de papel em punho, apareceu em passos

quase lentos. Viu-a, sorriu-lhe, na vã esperança de lhe despertar a atenção, e dirigiu-se à

estante para procurar os documentos necessários. Só nesse instante se apercebeu de que

Madalena nada fazia.

― Então? Não conferes a assinatura?

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― Ora, o homem é um velho caquético. Ninguém duvida de documentos de

velhos. É de certeza dele.

― Achas? ― Coçando a testa, para disfarçar a importância que qualquer

conversa com Madalena tinha para si, Joaquim comentou: ― Está tanta gente hoje...

António permanecia no seu posto. Com a expressão de um perseguido,

tamborilava os dedos na máquina, numa sequência aprendida na infância e repetida

sempre que a situação lho exigia.

― Ontem, hoje, amanhã, já alguma vez esteve pouca gente? Assim dá menos

trabalho.

― Se um dia te apanham… ― lembrou Joaquim.

― Parvoíce! ― Virou-se então para António. ― Tire-me uma fotocópia disto.

Numa postura obediente, António pegou na folha e abriu a fotocopiadora. Com

gestos precisos, pôs a máquina a funcionar.

― E agrafe também ― ordenou Madalena, gesticulando como quem toca

castanholas, enquanto Joaquim se ria. ― Depressa!

António fez as duas cópias necessárias e agrafou-as, nunca hesitando no

movimento. Assim que Madalena se impacientou, apressou-se a estender-lhas, na ânsia

de acabar com o suplício. Sacudindo de novo o cabelo, Madalena apagou o cigarro no

chão e aproximou-se dele. Arrancou-lhe a requisição e as cópias da mão e dirigiu-se

para a porta.

― Vens? ― perguntou a Joaquim.

― Já agora... ― nova folha a receber a atenção de António ―, sempre

poupamos tempo.

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― Qual poupamos tempo! Fazemos de conta que somos uns super-heróis, muito

rápidos e eficientes. Despache-se, António. Você hoje parece uma lesma, credo.

Repetindo os procedimentos numa pressa mais enervada, António já conseguia

imaginar o silêncio que se seguiria a tudo. Entregou os papéis a Joaquim, mas viu-o

torceu o lábio, olhando para as folhas mal alinhadas.

― Nem parece seu ― comentou, provocando em António uma aflição ainda

pior.

Dirigiram-se então à passagem para o balcão. No último instante, Madalena

tirou do bolso um pacote de açúcar. Num levantar de sobrolho, avisou Joaquim para que

não perdesse pitada. Rodou sobre os calcanhares, com uma expressão trocista e um

sorriso corrosivo.

― Já me esquecia, António, trouxe-lhe isto.

Atirou o pacote pelos ares, e António apanhou-o com a sofreguidão de um

enjaulado faminto. Joaquim não se inibiu de soltar uma gargalha, tentando depois

perceber se Madalena o secundaria. Ela assim fez, dando-lhe autorização para lançar

mais algumas. Quando desapareceram do arquivo, António respirou fundo. Alisou o

pacote com todo o cuidado e guardou-o no meio dos seus documentos com gestos

firmes. Fechou a janela e apanhou a beata do chão, deitando-a depois no lixo. A cabeça,

já longe, ia revendo as páginas da colecção.

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4.

Era o dia do seu aniversário, mas ninguém se lembrara disso, nem ele. Só ao

reparar no cabeçalho de um jornal diário, onde se avisavam perigos vários por causa do

mau tempo, António teve consciência da data. Envergonhou-se durante alguns

segundos, como se alguém pudesse adivinhar a comemoração, ou melhor, a ausência de

comemoração que sempre acompanhara a passagem de mais um ano.

Não esperava qualquer telefonema. Cortara relações com o pai violento e com a

mãe medrosa e desleixada, incapaz de o defender do cinto e das fúrias do marido.

Tantas vezes António se intrometera entre ambos… Guardava as memórias em cenários

repetidos, onde o cheiro do álcool e a dor sofrida lhe apareciam de forma acentuada e

desfocada. Arrecadara, talvez para sempre, a convicção de que todas as mulheres se

assemelhavam à mãe, insensíveis e incapazes de qualquer acto de protecção. Se

António precisasse da ajuda de uma delas, seria posto de lado. Madalena confirmara

esta convicção logo nos primeiros meses de trabalho.

Sentia-se sem idade, sem passado nem futuro. Vivia um dia de cada vez,

replicando sequências estudadas, cumprindo rotinas inventadas por si, produzindo

simetrias inexistentes na calçada, engendrando esquemas para todas as coisas. Era

assim que António se sentia seguro na vida.

Acabara de sair do notário. A gabardina, vestida com cuidado, permanecia com

a ponta da gola a meia-haste, desafiando-o com aquela diferença. Com o avançar dos

meses, as insubmissões da gola começavam já a transformar-se num pormenor estável,

capaz de, nessa assimetria, lhe dar um aconchego concreto. Só uma dúvida sobrevoava

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a sua mente: agora que se preparara para a aceitar torta, iria a gola mudar? António

detestava mudanças.

Enquanto esperava pelo eléctrico, retirou a carteira do bolso. Tentou que os

cantos revirados, de couro fingido, voltassem ao seu formato original. Quase conseguiu.

Procurou o pacote oferecido por Madalena. Oferecido? Não, arremessado. Mas isso não

o preocupava. Era mais um da série Pessoa, bem diferente do primeiro. Sorriu,

satisfeito, para logo regressar ao rosto sem expressão de sempre. Na viagem,

comprimido entre outros tantos trabalhadores a caminho do descanso, manteve a mão

sobre a nova preciosidade, atento aos carteiristas.

Não saiu na paragem de casa, mas sim na seguinte. Sendo quinta-feira, deveria

percorrer os dois cafés para lá da sua morada. Fez o trajecto até ao primeiro.

― Um café, por favor ― pediu, de olhos baixos.

Numa ansiedade que o desorganizava quase tanto como o entusiasmava,

depositou uma moeda no balcão, esperou pela chávena e pelo pacote de açúcar. Pegou

nele assim que o recebeu, ignorando o líquido fumegante. Revirou-o, equacionando na

mente se deveria guardá-lo, pois pareceu-lhe em melhor estado do que aquele que

residia na página 103, terceira linha, quarta saqueta. Decidiu guardá-lo. Saiu porta fora,

enquanto o empregado encolhia os ombros, guardava a moeda e bebia o café sem

açúcar.

Recomeçou a andar. Evitou as pessoas como se o ameaçassem. Ajeitou a gola,

conseguindo que ficasse direita, mas no minuto seguinte entortou-a de novo, mantendo

o novo padrão. Repetiu o gesto várias vezes, enquanto media as emoções que o

acompanhavam. Estava certo. O novo padrão, a meia-haste, era para manter.

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A outra pastelaria obrigava-o a atravessar duas ruas. Esperou, com uma

paciência controlada com afinco, pelo boneco verde do semáforo, embora muitos

transeuntes tivessem já arriscado correr até ao lado contrário. O vento e a chuva

confirmavam as notícias do jornal. Um estremecimento de frio sacudiu-o mesmo antes

do momento de atravessar.

Disciplinado e só, cruzou por fim a passadeira, sincronizando os passos com o

apito para cegos. Meteu de seguida por uma outra ruela, menos movimentada, e avistou

a sua próxima paragem. Nova passadeira, interrompendo-lhe os passos. Estacou de

repente, à ordem do boneco vermelho. Atrás de si alguém refilou. Não lhe deu ouvidos.

Uma eternidade sem poder atravessar. Contudo, pôs-se a observar o meio da

passadeira, cheio da água suja a manchar o alcatrão, numa imagem entrecortada pelos

carros. Empurrando os óculos de massa de encontro ao nariz, fixou melhor os olhos

míopes. Era mesmo um pacote de açúcar desconhecido. Esquecido dos sinais, dos

avisos e dos receios, lançou-se numa pressa desmedida. Alguns gritos aflitos tentaram

impedir a tragédia, mas António abandonara o passeio e a segurança, esquecera-se das

suas rotinas, avançara e agachava-se agora para apanhar o pacote. O tempo parara para

si, a mão quase a alcançar o alvo. O tempo de todos os outros corria numa premonição

que se cumpriria. O som dos travões e da pancada seca deram por finda a cena.

5.

Ao voltar a si, achara-se cercado por tubos, máquinas a piscar, enfermeiros e um

médico a dar, em voz de comando, ordens precisas, disfarçando mal a preocupação. A

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tudo isto, António assistira, sem falar. Uma vaga ideia invadira-lhe então os

pensamentos, misturando a imagem do pacote de açúcar com a chuva, a passadeira, o

som dos travões e os gritos.

Numa aflição de náufrago, começou a tentar mexer-se.

― Tenha calma, Sr. António, fique quieto ― implorou uma enfermeira, pondo o

rosto mesmo em frente ao seu. Desejava sossegá-lo, mas era uma tarefa impossível. ―

Foi atropelado, estamos a tratar de si.

Nada disso lhe interessava. Tentando libertar-se dos tubos e dos braços que

teimavam em prendê-lo, António olhava com insistência para a mão. O médico reparou

nisso:

― Amigo, então? Não tinha nada na mão, só um pacote qualquer todo ensopado

e rasgado, sem préstimo. Deixe-nos agora fazer o nosso trabalho, pode ser? A sua perna

está muito mal tratada. Vamos, fique quieto.

Os olhos de António pararam, a expressão imóvel. A dor apoderara-se dele sem

aviso. Gemeu, afogado pela confusão. Por fim, conseguiu dobrar o braço e mexer a mão

direita. Fechada num punho, guardava, esperava ele, um tesouro. Só ao abri-la entendeu

as palavras do médico. Furioso, lutou com todas as suas forças para sair dali.

― Faça correr já a anestesia, Marquília. Estando assim agitado, ainda vai piorar

mais este rasgão. Temos de o operar.

A sala rodopiou antes de se apagar na mente de António. O corpo mergulhou

numa ausência de vontade. O rosto, torcido de aflição, imobilizou-se como no retrato de

um morto.

― Eu bem dizia. Quando acordam, ficam desorientados. Vamos a isto.

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As horas passaram, mas não para António. Quando voltou a si, dentro do

desespero em que adormecera, viveu o mesmo segundo. À sua volta, um cenário

diferente agravava-lhe os medos. Encontrava-se num quarto com várias camas. A dor

na perna incomodava-o, mas não tanto como os pensamentos. O ânimo ainda não

regressara para dentro de si. Porém, o receio de olhar para a mão era superior à

necessidade de saber. Dos colegas de enfermaria, recebia apenas imagens difusas. Não

sabiam do seu verdadeiro sofrimento, com o coração desatinado por uma interrogação.

Por fim, moveu a cara na direcção do braço, que repousava estendido ao longo

do lençol. A mão, de novo fechada, devolveu-lhe uma esperança muito ténue. Mordeu

os lábios e, num golpe de coragem, abriu-a. Estava vazia, completamente vazia. Um

urro, vindo das entranhas, alarmou os outros. Marquília apareceu numa correria

desgovernada e precipitou-se na sua direcção.

― Então, Sr. António, está com muitas dores? Deixe-me aqui dosear-lhe o soro.

Vai melhorar não tarda, fique tranquilo.

De olhos fechados, António tentava recuperar a imagem do pacote de açúcar

perdido. Memorizava-lhe a cor, o desenho, o estilo. Uma cruzada desenhava-se no seu

caminho: encontrar aquele importante exemplar para a sua colecção. Precisava dele,

essa era a sua única certeza.

6.

Os dias no hospital apresentavam-se-lhe sempre diferentes, deixando António

desorientado ao sentir-se impossibilitado de estabelecer uma rotina concreta para os

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vários afazeres que lhe preenchiam a clausura. A rendição dos enfermeiros nunca era

feita à mesma hora, com variações que podiam chegar a dez minutos, algo inconcebível

para os seus padrões. O banho, tomado segundo as conveniências de todos os

acamados, podia acontecer em qualquer momento da manhã, interrompendo-lhe uma

sequência inexistente, mas que gostaria de cumprir. As refeições, trazidas em enormes

carros metálicos, obedeciam a tudo, menos a um horário. Só a sequência se repetia,

mais nada. António precisava de sair dali.

A enorme cicatriz ziguezagueava pela coxa abaixo. Iria acompanhá-lo para

sempre, vaticinou o colega do lado, um especialista em cenários irremediáveis. Os

músculos haviam conseguido proteger o osso, mas tinham sido rasgados pelo pára-

choques no embate. Debatiam-se agora com novas ligações, adaptando-se devagar à

recuperação da função anterior.

Apoiado num andarilho, como um velho, António decidira ao terceiro dia impor

a si mesmo uma prioridade: o rápido restabelecimento do andar. Só assim poderia

escapar àquela tortura. Aproveitava todos os momentos para se forçar a caminhar,

exceptuando a hora da visita. Esse era o momento em que uma multidão enchia os

corredores, os quartos e as cadeiras, de vozes, petiscos, conversas e avisos.

Numa tentativa de comunicação sem sucesso, Marquília incentivava-o na sua

cruzada, dizendo que António era um exemplo para os outros doentes. Nunca lhe

respondia com palavras, apenas com um olhar aflito. Mantinha-se firme na sua luta,

parando apenas, de tempos a tempos, para recolocar os óculos de massa no seu posto.

Marquília acabava sempre por se apiedar do homem.

A visita dos médicos, ainda mais imprevisível nas horas que organizavam as

manhãs da enfermaria, representava para António uma tábua de salvação. Precisava que

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lhe dessem autorização para regressar ao seu desconsolado lar. Num esforço titânico,

proferia dia após dia a mesma pergunta:

― Já posso ir para casa?

― Então, Sr. António, já falámos disso ontem ― respondia o médico. ― Só

para a outra semana, se tudo correr bem. Se tivesse alguém para o ajudar, eu dava-lhe

alta. Assim, não pode ser. Se algum amigo ou familiar se responsabilizar por si e o vier

buscar, isso é outra conversa. Até lá, nada feito. Sai quando estiver capaz de o fazer

pelo seu pé.

Eram assim, os seus dias.

Passava as noites a repetir pesadelos, incapaz de saber se o fazia de propósito ou

por mania. Sonhava a mesma cena: a passadeira, o pacote de açúcar, António a avançar,

a dobrar-se para o apanhar, o som dos pneus no alcatrão. António arremessava, então,

para o carro um olhar agressivo. Levantava a mão esquerda e, com a força da sua

mente, atirava-o para o lado. Ao abrir a mão direita, encontrava o pacote ileso, seco,

pronto a ser arquivado. O tempo parado permitia-lhe proteger o troféu na carteira,

completar a travessia da rua e rumar a casa. Conseguia imaginar-se a guardar o pacote

no respectivo lugar, com toda a calma, olhando depois para as gotas que pingavam da

torneira, a pedir-lhes que certificassem o gesto. Contudo, nesse instante ouvia de novo

os travões. Acordava no meio de tubos e luzes, a mão vazia, uma dor a rasgar-lhe a

perna. Só depois acordava de vez, alagado em suor, com a esperança também rasgada.

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7.

Quando se viu a cruzar a porta do hospital, tudo mudou. Levava umas calças de

pijama emprestadas a substituir as suas, danificadas pela força das circunstâncias. A

roupa com que entrara e a gabardina, ainda suja de lama, vestiam-lhe o resto. António

rejuvenesceu assim que o vento lhe bateu na cara. Endireitou a gola, para depois a

entortar no novo padrão, e coxeou até ao autocarro. Escolheu apenas a direcção e

apanhou o primeiro que apareceu, pois não fazia ideia de qual o poderia levar até casa.

Só se apeou ao reconhecer as ruas, sabendo agora como encontrar o seu abrigo.

Ignorou os olhares com que o avaliaram durante todo o trajecto. Parecia fugido

de um manicómio, bem sabia. António não lhes deu qualquer importância. Ia focado na

memória do pacote de açúcar a encontrar, revendo os procedimentos pensados nos dias

de internamento para, no dia seguinte, iniciar uma busca sistemática.

Chegado ao velho prédio, tentou subir, com a cadência antiga, os degraus que o

separavam de casa. Não foi capaz. Precisou de pousar sempre os dois pés em cada

degrau antes de conseguir içar-se, com a perna sã, para o seguinte. Por fim, lutou com a

porta e a ferrugem, sentindo-se a salvo quando acendeu a luz, apesar de ser ainda de

dia.

Recusando-se a manter aquelas roupas, enfiou-as num saco para as deitar fora.

Guardaria apenas a gabardina, mas teria de a pôr a limpar a seco. Tomou um banho para

se aquecer. Os canos acusaram a imobilidade de quase três semanas, vomitando a água

quente em solavancos e roncos. Nada disso o perturbou. Já pronto, com roupa lavada e

os dois sacos preparados, saiu. A escada ofereceu a mesma resistência. Desceu devagar,

precisando agora de arriscar primeiro a perna convalescente, para que não se queixasse

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ao ser estirada. Sorriu com essa constatação: subiria com uma, desceria com a outra,

num movimento equilibrado. Já nada o iria atrapalhar.

O primeiro destino foi o contentor de lixo, onde abdicou dos vestígios daquele

episódio. O segundo, a lavandaria, fê-lo sofrer por antecipação. Muitas palavras o

separavam de conseguir o que queria. Ofereceu, como ameaça para alisar dificuldades,

o seu olhar esgazeado e obscuro.

Dali a duas horas e meia, rente ao fecho do estabelecimento, poderia recolher o

que agora abandonava. Pagou uma quantia exagerada para que lhe devolvessem a

gabardina ainda naquela tarde. Por instantes, sossegou.

O frio impedia-o de permanecer na rua. Esquecera-se de trazer outro agasalho,

como se apenas aquela gabardina o pudesse proteger do Inverno. Comprou pão, leite,

queijo e fruta, e voltou ao seu prédio. Na escada, o ritmo lento impôs-se. Ao reentrar,

observou a casa com afinco. Enojou-se com o pó e o chão baço. Com a minúcia da

obsessão em que vivia, lavou, limpou e arejou o espaço. Restabelecida a ordem, fechou-

se ao exterior. Agora, podia avançar.

Sentou-se na cadeira e abriu sobre a mesa de fórmica a colecção de pacotes de

açúcar. Na sua mente, decidiu onde ficaria o eleito, o que lhe desorganizara a vida.

Seria guardado na página 203, terceira saqueta da primeira linha. António anotara

igualmente um outro pacote perdido, arrumado instantes antes do acidente, escolhido

para substituir um mais antigo e em pior estado. Consultou a página 103, terceira linha,

quarta saqueta. Comprovou o que antes pensara, mas a sua carteira, embora tivesse

conservado o dinheiro que guardava naquele inexplicável dia, deixara de ter aquele

outro pacote.

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Ligou-se à imagem da torneira, pingando devagar. Ponderou as prioridades.

Examinou de novo a página 103, terceira linha, quarta saqueta. Não, a mais urgente não

era a substituição daquele pacote. A prioridade máxima era reencontrar o que se

escapara da sua mão ao perder os sentidos. Queria o novo pacote, o que ocuparia, na…

«Página 203, terceira saqueta, primeira linha», sussurrou.

Às sete menos cinco, entrou na lavandaria. A mulher passou-lhe para as mãos a

gabardina com pressa. A gola direita, impecável, perturbou-o. Arrancando a gabardina

do plástico, vestiu-se ali mesmo, entortando a gola no novo estilo, e saiu.

Atrás do balcão, num silêncio consternado, a mulher memorizou aquele rosto.

Precisava disso para nunca se cruzar com ele por desleixo.

8.

António acordara muito cedo e munido de uma estratégia: os cafés da Baixa,

mais antigos, talvez possuíssem o pacote de açúcar que procurava. Sabia que não era de

nenhuma nova série, pois se assim fosse tê-lo-ia reconhecido de imediato. Só poderia

ser um outro, mais para trás no tempo, ou então próprio de uma marca concreta.

Entrou na primeira pastelaria que encontrou. O balcão antiquado exibia salgados

e bolos que aparentavam ter a mesma idade das prateleiras. Era secundado, em pano de

fundo, por garrafas perfiladas na parede, cobertas de um pó acastanhado pelo tempo.

Assim que se dirigiu ao balcão, percebeu o aborrecimento que provocaria no

empregado. De braços cruzados, encostado à arca frigorífica e olhando para cima,

21
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mantinha-se entretido com o jornal da manhã na televisão, onde passavam cenários de

guerra de um país que nunca interessara a António.

― Um café, por favor.

O homem mexeu-se com a lentidão do desagrado que sentia, sempre de olhos

postos nas imagens, agora já de uma mãe com três gémeos. Ainda tentou um

comentário, mas António estava ocupado a inspeccionar o balcão.

― Mais alguma coisa?

Sem lhe responder, António apenas pegou no pacote de açúcar, revirando-o com

impaciência de um lado e de outro. Com um interesse obsessivo, mexeu nos pacotes

que se amontoavam numa taça de vidro. Conseguiu, assim, a total atenção do

empregado, que começava a imaginar o que dali sairia.

― O senhor quer mais alguma coisa? ― voltou a perguntar.

António já não o ouvia. Abandonando o café, o pacote e uma moeda,

encaminhava-se para a saída sem mais conversas. As horas apressavam-no, pois

encontrava-se longe do emprego e dependente do eléctrico menos pontual que conhecia.

Entrou no notário pela porta de trás, escapando ao primeiro embate com

Joaquim e Madalena. Apenas o chefe deu por ele e veio cumprimentá-lo.

― Então, homem, nem se diz nada à gente? Melhorou?

― Sim, Sr. Freitas.

― Ainda esteve muito tempo no hospital.

― Sim, Sr. Freitas.

― Que raio de acidente, não foi?

― Foi sim, Sr. Freitas.

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― Você parece um disco riscado, António. ― Medindo as palavras, o chefe

mudou o tom da voz. ― Não sei se reparou, mas atrasou-se dez minutos.

― Reparei sim, Sr. Freitas. Não volta a acontecer.

O chefe riu-se, deixando cair a repreensão.

― Se você começa a atrasar-se, então o mundo deve estar por um fio… Não

conheço ninguém mais certinho. Mas eu entendo, repare, eu entendo. É o primeiro dia

depois do hospital, deve sentir-se ainda meio atarantado. Amanhã, espero-o às nove em

ponto.

― Sim, Sr. Freitas.

Virando-lhe as costas, o chefe regressou ao seu cubículo. António respirou

fundo. Precisava agora de se ligar àquele espaço. Levou algum tempo a recuperar a

noção dos barulhos, a reconhecer a timidez da luz, a adaptar-se ao cheiro a mofo. Em

simultâneo, apercebia-se da imensidão de trabalho que se acumulara na sua ausência.

Uma náusea estragou-lhe a manhã, pois não havia qualquer ordem nas pilhas que

aguardavam entrada no arquivo. Pô-las de cabeça para baixo. Assim podia certificar-se

que respeitaria a antiguidade de cada processo. Começou a agrupá-los, segundo um

método rigoroso, e isso devolveu-lhe alguma tranquilidade.

Quando Madalena chegou com um documento para fotocopiar, foi apanhada de

surpresa e sentiu-se na obrigação de lhe dedicar um sorriso forçado.

― Seja bem aparecido, António. Grandes férias, hã?

A boca de António abriu-se, mas nada disse. Esticada na sua direcção, uma

folha aguardava que dela tratasse. Numa rapidez alvoroçada, pois queria regressar às

suas arrumações, António procurou o original nos pesados livros de registo, fotocopiou-

o e agrafou as folhas como um autómato, devolvendo-lhas sem comentários.

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― Falta o original ― lembrou Madalena, revirando os olhos. ― Você vem

ainda mais esquisito do que antes, parece-me. ― Ao ver aparecer Joaquim, avisou-o. ―

Prepara-te, acho que o António se avariou.

Madalena saiu, deixando Joaquim algo envergonhado com as palavras ouvidas.

Só conseguia ter coragem para fazer troça de António quando vinha acompanhado pela

colega. Estando os dois sozinhos, tudo se complicava. Sorriu e sossegou-o:

― Deixe, António, eu faço isto. Tem aí muito trabalho para se entreter. Não

quisemos arquivar nada, podíamos…

― Podiam estragar tudo ― disse António, quase a gritar. ― Sou eu que arquivo

― justificou-se, de regresso ao tom esquivo de sempre. ― Prefiro assim.

― Sim, sim. E ficou bem? A perna sarou?

Um aceno teria de servir como resposta, mas Joaquim não o poderia ver.

António já desaparecera por detrás de uma estante, levando consigo documentos para

arrumar. Com um encolher de ombros, Joaquim dirigiu-se às prateleiras, procurou o

livro de que precisava, confirmou a informação e voltou a guardá-lo no mesmo sítio.

Depois, de requisição na mão, levou-a até à fotocopiadora e esperou pelas cópias.

Contudo, ao passar pela secretária de António no caminho de regresso ao balcão, não

resistiu a trocar dois processos de sítio. Depois, escapuliu-se com a agilidade de um

criminoso.

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9.

A hora de saída fora antecipada em quatro minutos, algo inédito em António.

Não representara uma decisão fácil, mas, isso sim, muito consciente. No passado, seria

incapaz de o fazer. O aperto que o consumia e a necessidade opressiva de encontrar o

pacote de açúcar perdido, haviam-lhe modificado a noção de dever. Chegara mesmo a

hesitar, ao arrumar os processos que haviam construído um caos no seu mundo. E se os

deixasse desarrumados? Num último instante, fizera o que o brio profissional lhe ditava,

regressando à catalogação criteriosa e compulsiva, permitindo-se apenas aqueles quatro

minutos de antecipação. Porém, isso não evitara uma revolução de sentimentos.

Aquela segunda-feira trouxera-lhe uma ideia muito concreta. Deveria regressar

ao local do acidente e percorrer todos os estabelecimentos em redor. Como não se

lembrara disso antes? Por momentos, atribuiu as culpas à anestesia. Ouvira os seus

companheiros de enfermaria comentarem como apagava dados importantes. Fazia-o

sem aviso, anestesiando as memórias dos operados. Isso assustara muito António. Na

mente, como uma assombração, ainda recordava a imagem da sala rodopiando sobre si.

Sabia que tal experiência só poderia ter sido nefasta para o seu cérebro.

A chuva decidira dar tréguas à cidade por um longo período. Apenas o vento se

mantivera, fazendo acenar as árvores de grande porte e enrugar os rostos de quem se

aventurasse sem agasalhos pelas ruas. Trazendo apenas um cachecol suplementar azul,

António envergava a sua gabardina castanha, de gola assimétrica. Anotou para si

mesmo a necessidade de vestir roupa mais quente por dentro.

Não foi fácil encontrar-se com o sítio onde fora atropelado. O corpo reagiu

numa contracção alarmista, levando o coração a bater como um louco e instalando um

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tremor generalizado, que em nada se relacionava já com o frio. Deixou-se ficar no

passeio, qual suicida na borda do precipício, indiferente aos resmungos de outros que,

pretendendo atravessar, se haviam colocado atrás de si. Só quando se acalmou foi capaz

de refazer a estratégia delineada.

Conhecia naquela zona dois cafés, visitava-os com regularidade. Precisava de

alargar as suas buscas. Olhando em redor, esquematizou os passos a dar, num raio de

dois quarteirões. Não! Quatro, faria a busca num raio de quatro quarteirões. Sentiu um

arrepio ao ouvir aquela sonoridade repetida: quatro quarteirões. Na carteira, pesavam as

moedas necessárias para oito cafés, trocadas nos cofres do notário. Passaria a ser a sua

ocupação de final de tarde, num esquema cumprido sem falhas.

Se alguém se importasse com António, se alguém andasse a espiá-lo com

atenção, teria de imediato concluído que aquele era um homem transtornado. Teria

acertado no diagnóstico, visto António estar de tal forma focado no seu objectivo que se

tornara exterior ao mundo dos outros.

Em todas as pastelarias e cafés, repetia o mesmo processo. Fazia o pedido,

enquanto os olhos varriam rapidamente todos os pacotes de açúcar existentes. As mãos

mexiam e reviravam os que encontrasse. Em nenhum deles bebia o café, deixando-o a

fumegar no balcão. Em todos ficaria uma moeda para pagar a despesa, e um espanto

carimbado no rosto dos empregados, enquanto tentavam lembrar-se de quantas vezes

isso já acontecera. Podiam rotular António como um caso a seguir.

No final da semana, frustrado e zangado com o que se ia sucedendo dia após dia,

recolhera apenas uma evidência: a estratégia não estava a resultar. Isso havia-o deixado

fraco e cambaleante. Aquela sexta-feira fora agressiva desde o início, atirando-lhe com

muito trabalho, horas teimosas a arrastar-lhe o tempo, exigências do chefe, desdém

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extra de Madalena e réplicas de Joaquim. Talvez precisasse de comer. Resignou-se a

entrar, pela segunda vez, no último sítio onde estivera.

― O senhor sente-se bem? ― perguntou o empregado, de sobrolho carregado.

― Eu? Sim.

― Não tomou o seu café, há pouco. Quer que lhe tire outro?

― Não, obrigado. Queria uma bifana e um copo de leite quente.

O empregado afastou-se, divertido com o pedido. Nunca lhe haviam

encomendado uma tal junção, mas nada naquele homem se poderia considerar normal:

nem a gabardina, nem o cachecol azul sobre o tecido castanho, nem o corte de cabelo

preso no passado, nem os óculos de massa gastos, nem os cafés por beber… nem a

bifana com leite quente.

― Há cada traste ― comentou para a copa, ao fazer o pedido. ― Não demores

muito, que desta vez ele ainda não pôs o dinheiro na mesa e tenho medo que se escape

sem pagar.

10.

O barulho das máquinas de escrever, dos selos brancos e dos carimbos haviam

começado a irritar António, coisa que, até à data, nunca acontecera. Aquilo que fora

durante tantos anos o seu refúgio, entretendo-o com o trabalho enquanto o dia passava,

parecia-lhe agora um empecilho nas suas horas. Regressara ao notário havia mais de

cinco semanas, mas em nenhum momento se sentira como em tempos idos, capaz de

adivinhar passos e humores, cumprindo o seu dever com esmero. Também não mais

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voltara a chegar às nove e a sair às sete, competindo nesse desaforo com Madalena e

Joaquim. O chefe ameaçara-o várias vezes com uma queixa para os superiores

hierárquicos, mas António renascera das cinzas com um trunfo: faria o mesmo aos

outros dois? Bastava isso para interromper a conversa.

Joaquim veio primeiro e procurava o registo de casamento de um recém-viúvo.

Madalena secundou-o, provocando um eco de tacões assertivos por todo o arquivo. Não

se dera ao trabalho de desencantar o livro de que precisava, delegara de imediato a

função em António. Este, resignado, avançou pelas estantes. Não hesitando nem por um

instante, agarrou no livro onde se encontrava o registo original. Caminhava agora para a

fotocopiadora, levando também consigo os papéis de Joaquim.

Porém, um pormenor, inventado pelo sol, e que se reflectia no vidro da

fotocopiadora, hipnotizou António. Parecia brincar com ele, imitando o pacote de

açúcar perdido. Imóvel, António achou aquilo mais do que uma coincidência. Era, isso

sim, um lembrete de que deveria continuar a busca com redobrado empenho.

Madalena, agarrada a um cigarro e mantendo a janela aberta, deu uma

cotovelada a Joaquim e apontou para António com o queixo. Joaquim reparou, então, na

expressão vaga e quieta do outro, riu-se e perguntou:

― Isso é para hoje?

Como António não reagia, o gozo redobrou. Madalena desencostou-se da janela

e avançou em passos silenciosos até à fotocopiadora. Para o apanhar de surpresa,

enquanto lhe atirava com uma baforada de fumo para o rosto, falou alto:

― Então?!

António assustou-se. Abriu a fotocopiadora e apressou-se a devolver-lhe as

requisições. Mas, quando Madalena olhou para o papel, recusou-as irritada.

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

― Essas não são minhas! São estas! Veja lá se acorda!

Joaquim aproximou-se então, num andar repleto de estilo para impressionar a

colega, e tentou agarrar nos seus papéis, que permaneciam nas mãos de António.

― Você droga-se, António? ― perguntou Madalena, num tom enojado, antes de

soltar uma gargalhada, apagar o cigarro no chão e sair.

Joaquim deixou-se ficar para trás, abanou as mãos em frente dos olhos de

António, como se quisesse ligá-lo de novo à terra.

― Ai, homem, credo! Parece um alucinado! Dê cá isso.

Em gestos precisos, Joaquim fotocopiou o que pretendia e regressou ao balcão

de atendimento. António consultou o relógio de parede e suspirou. Sentando o peso da

espera numa cadeira, percebeu: ainda nem a manhã passara.

11.

A doença alastrava. Uma doença feita de pacotes e de açúcar, imagens

desfocadas, tubos e dores, misturando-se com o desejo de encontrar o pacote em falta.

António não conseguia deixar de espiar malas de senhora nos eléctricos e paragens,

bolsos largos de pessoas distraídas, pastas sobrelotadas de homens de negócios, qual

carteirista em busca de uns tostões. Até àquela tarde, nada mudara. As pesquisas davam

sempre lugar a falsas esperanças, seguidas de decepções. Sempre. Até àquela tarde.

Chocalhado pelo eléctrico, que gemia rua acima por estar apinhado de turistas

ruidosos, António encostara a cabeça no vidro, exausto. As noites nunca mais haviam

sido de quietude, e a falta de descanso começava a ensombrar-lhe a realidade. Quando o

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

revisor apareceu, provocando uma onda de gestos repetidos em bancos sucessivos,

António fez o mesmo que todos. Retirou, da carteira do dinheiro, o comprovativo do

seu direito a andar naquele velho transporte. Uma mulher acabara de refastelar a idade

avançada e o corpo roliço mesmo ao seu lado. Procurava o bilhete numa gigantesca

mala desarrumada.

― Como está, Dona Amélia? ― cumprimentou o revisor, com um sorriso

simpático.

― Olhe, estou mortinha por chegar a casa.

― Tem o bilhete consigo? ― O homem fez um esgar, tentando dizer-lhe como

aquele pedido era tão supérfluo quanto perigoso, pois os outros ficariam furiosos se

abrisse excepções. ― Sabe como é…

― Tenho, pois. Dê-me uns segundos.

Inspeccionou a mala durante tanto tempo, que António transferiu o olhar

cansado para o seu conteúdo. Tomou consciência de que nem sentira Amélia ocupar o

lugar do miúdo sardento que antes o acompanhava. Alvoroçado por esta constatação, e

vendo aquele mundo à espera do seu escrutínio, endireitou-se e recuperou parte do

ânimo. Por fim, Amélia encontrou o bilhete. Enquanto o mostrava ao revisor, permitiu

que António olhasse para o interior da mala com toda a liberdade. Dando um suspiro

descontrolado, António viu-o. Exibindo apenas um terço do desenho, ali estava o pacote

de açúcar desejado. A sensação foi esmagadora. Já nem escutou o resto da conversa de

Amélia com o revisor. O interesse era agora outro.

A viagem transformou-se num martírio de expectativa para António. Sem se dar

conta da mudança de atitude do seu companheiro de banco, Amélia abanava a mudança

de idade com um leque velho, maldizendo aquele desconforto. Ainda para mais, o

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

eléctrico transbordava de idiomas diferentes, tendo sido salpicado com cheiros exóticos.

António, por seu turno, mantinha os olhos na abertura da mala, sabendo o lugar exacto

onde vira o pacote em falta.

A certa altura, Amélia espirrou com estrondo, incomodando todos os

circundantes. Todos, menos António, que logo previu uma oportunidade. De mala de

novo aberta, a mulher procurou um lenço de assoar, o que demorou tanto tempo como

para encontrar o bilhete. Assoou-se com força, provocando mais uns trejeitos nos

passageiros locais e risos nos estrangeiros, e enfiou o lenço molhado na mala. O

processo deu a confirmação a António: era mesmo o pacote que perseguia!

Deixou passar a sua paragem e a seguinte, mais outra ainda. Só abandonou o

eléctrico quando Amélia o fez, e a caça começou. Seguiu-a a vários passos de distância.

Contemplou como arrastava o peso dos anos pelo passeio e viu-a entrar no número 46

da rua onde se encontravam. Encostando-se à parede do prédio em frente, António

esperou por uma luz que se acendesse a qualquer instante. Preocupado, pedia aos céus

que o apartamento de Amélia não fosse na parte de trás, pois assim nunca mais saberia

o andar em que morava.

Um regozijo inflamou-lhe os sentidos. Aí estava Amélia, na janela do terceiro

andar, a correr as cortinas para não ficar sujeita às bisbilhotices dos vizinhos. Feliz,

como se tivesse já o pacote de açúcar na mão, António retirou-se, fixando o nome da

rua, a paragem dos eléctricos e a imagem daquela mulher.

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

12.

Os dias de António haviam-se modificado por completo. Os minutos de atraso à

chegada ao emprego e os de antecipação à saída dilatavam-se em progressão

geométrica. As ameaças do chefe subiam de tom na mesma proporção, avisando-o de

que de nada lhe serviria usar Madalena e Joaquim como bodes expiatórios. Estes

haviam-se transformado em exemplos de profissionalismo, quando comparados com

António. No entanto, um novo passatempo acabara de se instalar na vida dos

funcionários do notário: divagar sobre as razões de tal mudança no comportamento de

António. Estaria apaixonado ou a enlouquecer? E quantos dias levaria a ser despedido?

Embora tivesse encontrado, nas buscas sucessivas implementadas assim que

saíra do hospital, vários pacotes de açúcar diferentes, o lugar para aquele exemplar

específico nunca fora ocupado. A terceira bolsa, da primeira linha da página 203, onde

ia no dia do acidente, ficara vazia, pois só um pacote poderia ocupá-la: o certo. Todas

as noites, antes de fechar a colecção, António voltava àquele espaço desabitado e

acariciava-o, como quem pede desculpa por não ter ainda conseguido levar a bom porto

a sua demanda.

Sem horários e sem rotinas, a vida de António desmoronara-se por completo.

Depois de uma existência marcada por tarefas com tempo marcado e medido, gestos

bem definidos, repetições estudadas, vivia agora num emaranhado de planos,

pensamentos caóticos e ânsias. Havia dias em que nem sacudia a sua gabardina do

modo aprendido e repetido desde os seus 16 anos, data em que recebera a sua primeira

protecção para a chuva.

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

Acumulavam-se os jantares comidos fora, sempre perto da casa de Amélia,

dando cabo do magro orçamento de funcionário público do fundo da carreira. Mas nem

o seu físico seco ganhara volume com este novo hábito, pois a empreitada era de tal

forma exigente que lhe emagrecia o corpo.

Só uma rotina se mantinha e florescia: espiar aquela mulher. Sempre a uma

distância calculada com afinco, seguia-lhe os passos, descobrindo também uma lógica

interna nas semanas de Amélia. Os fins de tarde eram sempre passados em longas

conversas com a porteira do prédio, o que facilitava muito a vida de António. Podia

controlá-la ficando dentro do café em frente, do outro lado da rua. As manhãs eram bem

diferentes.

Às segundas, tomava o pequeno-almoço na pastelaria da esquina, a mais

moderna, com uma jovem muito parecida consigo, talvez filha. Às terças, ia ao mercado

do bairro, para comprar peixe fresco e hortaliça. Às quartas, apanhando um transporte,

passava a manhã no cemitério, onde estaria um familiar chegado, talvez marido.

Deixava por lá uma boa dose de lágrimas e flores, mas isso nunca comoveu António.

Às quintas, de novo no mercado, Amélia comprava fruta e carne. Às sextas,

desnorteava António, pois, durante as quatro semanas que já passara a espiá-la, nunca

repetira uma actividade. Fora às compras na Baixa na primeira, estivera a ver barcos no

rio na segunda e, na terceira sexta, fora a uma casa velha, no extremo oposto da cidade.

Ia carregada de embalagens de comida. De quinta para sexta, António dormia ainda pior

do que nas outras noites, por saber que o dia seguinte era uma incógnita.

Naquela sexta, Amélia refastelara-se a ler um livro amarelecido pelo tempo, que

requisitara na biblioteca pública, num banco de jardim. As cautelas de António haviam

baixado de nível. Enchera-se de coragem e aproximara-se muito mais de Amélia do que

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

a sua timidez permitiria noutros tempos. A mão, nervosa mas firme, já se estendera para

alcançar a mala, pousada ao lado de Amélia. Um apito soara de repente. Um polícia de

giro correra na sua direcção, e António viu-se forçado a empreender uma fuga

disparatada, o que viria a dar-lhe dores suplementares na coxa convalescente. Amélia,

sem se aperceber de que fora o alvo do ladrão, apenas levantara os olhos do livro

durante sete segundos e meio, regressando depois ao sítio onde o dedo gordo repousava,

esticado a marcar a linha onde interrompera a leitura.

Duas esquinas mais à frente, António agarrava-se à perna, gemendo de dor,

escondido num vão de escada. Uma esquina abaixo, o polícia arfava de excesso de peso

e desistia da perseguição, com um encolher de ombros.

13.

Sendo uma boa porteira, Dona Felisberta conhecia a vida dos inquilinos do seu

prédio, mas não só. Num raio de seis números para cada lado, fossem pares ou ímpares,

não havia um morador que lhe passasse despercebido. Além desta base confortável de

pessoas monitorizadas, agregara muitos namorados ou namoradas, filhos já casados,

netos, visitas regulares e até amantes. Como um vespertino, divulgava notícias a quem

as quisesse ouvir. Com alguma subtileza, insistia em contá-las aos que pareciam não se

interessar pela vida dos outros. Deitava sempre uns retoques particulares quando lhes

passava um recado não solicitado, para perceberem o quanto sabia de cada um deles.

Isso divertia-a, e depois conversava consigo mesmo:

― Assim ficas ao corrente do que sei de ti! Não julgues que me enganas.

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

A presença de António causara a Felisberta uma estranheza difícil de resolver.

Nunca aquele homem se encontrara com pessoas costumeiras no seu raio de acção.

Descobrira-lhe uma fixação pelo número da porta de que era responsável, o que a

deixara bastante inquieta. Seria ladrão? Se o era, deveria ser muito incompetente, pois

naquele prédio só encontraria pessoas com parcas reformas e ordenados diminutos,

estudantes sem vintém e casas desabitadas. Contudo, isso não a demovera de querer

saber mais. Precisava de tirar a limpo as intenções do homem.

Só na última sexta tudo fizera um bizarro sentido na cabeça de Felisberta.

Amélia chegara, acabada de sair do eléctrico, e ficara na conversa do costume. Durante

vinte e três minutos, haviam conferenciado, divertidas, sobre o casamento iminente de

Cátia do cabeleireiro com Carlitos do talho. Depois de andarem muitos anos num

arrulho sem parança, chegara a hora de assumir a relação. Parecia-lhes uma solução

muito boa. Cátia cortava e penteava como ninguém, além de ser barateira. Carlitos, que

o bairro vira crescer, tomara o lugar do pai, falecido dez anos antes. Conseguia sempre

carne mais em conta do que qualquer outro estabelecimento. Às vezes saía um bocadito

rija, era verdade, mas não havia quem não lhe desculpasse esse pormenor. Ficariam ali,

assegurando assim as vantagens para os moradores e libertando uma morada. Isso iria

alegrar as vidas de todos, sobretudo a de Felisberta, que poderia conhecer novas caras e

estudar hábitos diferentes.

A conversa distraíra, por momentos, Felisberta. Sendo Amélia uma mulher

arguta e quase tão observadora como a porteira, avançavam sempre muito nestas trocas

de informação. Estava Amélia a contar como vira Carlitos, na joalharia do quarteirão

seguinte, a escolher um anel, quando António apareceu esbaforido ao fundo da rua.

Felisberta apurou o olhar, ficando com a certeza de que ali vinha o tal homem, o grande

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

mistério. Começou, sem grande sucesso, uma frase de alerta, mas Amélia não parava de

rir e de relatar a aflição de Carlitos ao inteirar-se dos preços.

Durante uns breves segundos, o olhar de António cruzou-se com o de Felisberta.

Numa pressa disparatada, entrara na pastelaria e pedira algo para comer. Felisberta

sossegou, começando a imaginar uma outra razão para aquela rotina. Cláudia Marisa, a

moradora do 2.º esquerdo, começara a arranjar-se mais nas últimas semanas. Andaria o

homem de roda dela? Se gostava de mulheres maduras, tinha o arranjinho assegurado.

Cláudia Marisa era tão feia que, naqueles treze anos ali passados, nunca Felisberta lhe

conhecera sequer um namorado.

António foi comendo sem vontade, enquanto mantinha as duas mulheres

debaixo de um exame sem tréguas. Acabara de perceber o perigo que corria com aquela

porteira. Precisava de ser mais cuidadoso. Afastando o prato vazio, deu a sua jornada

por terminada. A coxa doía como se um pára-choques a tivesse dilacerado de novo. O

susto com o polícia deixara-o desorientado, sentia-se muito cansado e precisava de

dormir. Pagou e levantou-se.

No mesmo instante, Cláudia Marisa descia as escadas e cumprimentava Amélia

e Felisberta. Um sorriso malandro passou a habitar os rostos de ambas, ao vê-la dar uma

corridinha pelo passeio, deixando um rasto de perfume barato na escada. António, num

passo mais lento, saiu da pastelaria ao mesmo tempo, olhando para o prédio de

esguelha, e seguiu, passeio fora, atrás da quarentona.

― Tudo explicado ― sentenciou Felisberta. ― Olhe que andava preocupada…

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

14.

Madalena acabava de entrar na sala, mas isso já António previra ao ouvir os seus

passos categóricos no soalho. Meteu-se atrás de umas estantes, fingindo procurar

qualquer coisa. Não alcançou grande sossego, pois Madalena veio colocar-se mesmo a

seu lado, de braços cruzados. Depois de esperar uns segundos, atirou-lhe uma pergunta:

― Então?! Isto são horas de chegar?

Como António não respondia, apenas se chegara mais para o lado, sempre a

olhar para a estante, Madalena impacientou-se.

― Não ouviu? Sabe, por acaso, que horas são? Isso é gaja, ou quê?

Joaquim seguira Madalena e entrou nesse momento. Os olhares trocados foram

de troça, apostados em deixar António fora de si.

― O Sr. Freitas quer falar consigo, António ― mentiu Joaquim. ― Espero que

a desculpa de hoje seja melhor do que a de ontem. O nosso chefe está irritadíssimo.

― Mexa-se, homem, não ouviu? ― gritou Madalena, fazendo António

encolher-se por instantes. ― Quer ser despedido, é isso que quer?

Olhando para Joaquim com um ar assustado, António saiu em passos curtos da

sala. Fechou a porta com cuidado, talvez para esticar o tempo até à reprimenda.

― E o Freitas nem sequer está cá ― comentou Madalena, divertida.

― A piada é essa. Caiu que nem um patinho!

― O homem anda mesmo esquisito…

Num gesto de quem reivindica pagamento, Joaquim obrigou Madalena a dar-lhe

a nota que trazia no bolso.

― Que aposta mais estúpida!

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

― Eu disse-te… ― lembrou Joaquim, a sorrir. ― Não sei onde foste buscar a

ideia de que ele controla tudo, que podia saber que o chefe ainda não chegou e que não

saía daqui… Está meio louco, mas não é burro. Não ia arriscar-se a pôr o Freitas em

fúria.

― Já percebi, não precisas de repetir! Fica lá com o dinheiro, não caio noutra. O

que me irrita é não conseguir perceber que bicho lhe mordeu.

― Procura aí nos bolsos da gabardina.

A inspecção durou pouco tempo. Enquanto Madalena revirava a carteira de

António, com um esgar de nojo, Joaquim mantinha a porta entreaberta e espreitava para

fora. Nem de propósito. O chefe aparecera entretanto e estava, mais uma vez, a ralhar

com António. Parecia esquecido das testemunhas silenciosas, aprumadas e atentas na

fila. De olhos postos no chão, António não argumentou, aguentando com embaraço a

gritaria.

― Vem aí! ― gritou Joaquim.

― Não encontrei nada. Que raio!

Viram-no entrar na sala de expressão preocupada e mantiveram o olhar de

desprezo. Quando já iam a sair, Joaquim virou-se para trás.

― É verdade, trouxe-lhe isto. ― Pelo ar voava um pacote de açúcar muito

parecido com o que António procurava. ― Já tem esse?

A avidez de António, tentando agarrar o pacote antes de este cair no chão,

impressionou os outros dois. Revirou-o nas mãos, com a cara torcida de raiva. Num

gesto aborrecido, atirou-o para o lixo.

― Parece que sim ― comentou Joaquim.

― É mesmo louco…

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

15.

A perseguição já durava havia duas horas. Como em qualquer sábado, Amélia

tornara-se muito difícil de seguir, o que desesperava António. Desde apressar plantas e

flores, sem se decidir a comprar nenhuma, conversar com uma amiga de longa data

numa esquina, a entrar numa loja de roupa em promoção, comportara-se de uma forma

tão errante que António começara a irritar-se. Passivo por natureza, ou talvez por

aprendizagem, a irritação fora uma aquisição pós-acidente. Sendo uma novidade

instalada quase sem deixar vestígios, modificava-lhe as reacções como um cancro

silencioso. Primeiro, rompera com a maior parte das rotinas estudadas, aperfeiçoadas e

mantidas, sem mazelas, no passado. Depois, começara a ser capaz de sentir-se irritado,

até raivoso. Sem se aperceber disso, António estava diferente.

Quando a viu entrar numa pastelaria onde nunca havia estado, António

secundou-a. Sentou-se numa mesa por trás de Amélia, mas em ângulo recto, perto o

suficiente para poder chegar à mala, que repousava numa cadeira.

― Minha senhora ― perguntou um criado solícito ―, o que deseja?

― Um chá e meia torrada, com pouca manteiga, se faz favor.

― Meia torrada, muito bem.

António acenou para o criado, mas este nem o viu. Empurrou os óculos de

massa com força e ficou com uma expressão angustiada, concentrando as atenções em

Amélia. Duas vantagens caíam a favor de António: o facto de a sua presa estar

constipada e os calores que a assaltavam sem aviso. Não levaria muito tempo a ir buscar

um lenço ou o leque, deixando, se tudo corresse bem, a mala escancarada.

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E não precisou de esperar, de facto. Quando Amélia a abriu, António controlou-

lhe os movimentos sem se distrair. Um lenço de assoar foi retirado, enquanto a mala

permanecia aberta. António chegou-se um pouco para o lado, tentando alcançar o

conteúdo cobiçado durante a limpeza do nariz, mas foi interrompido.

― O senhor deseja…?

António reagiu de imediato, num sobressalto despropositado. Assustara-se, pois

nem dera conta de que o empregado viera depositar o pedido de Amélia na mesa.

― Um café, se faz favor.

O criado afastou-se, e António regressou ao seu modo de ataque. De repente,

Amélia virou a cabeça para trás, como se se sentisse observada, e não gostou do que

viu. Com aquele ar enfiado, o corte de cabelo medonho, a gabardina enxovalhada,

António era uma visão aterradora. Não o identificou como o pretendente da quarentona.

Apenas não gostou de o encontrar centrado nela. Desconfiada, virou-se para a frente e

pôs a mala no colo.

Nesse instante, o criado depositou então o café em cima da mesa. Quando ia a

voltar para trás, António segurou-lhe no braço, com um olhar suplicante.

― Esqueceu-se do açúcar.

― Eu trago já ― respondeu o rapaz, soltando-se da garra com que António o

prendera.

Chegado ao balcão, tirou um pacote de açúcar de cor parecida ao que António

procurava. Seguindo-lhe os passos, António sentiu uma vertigem. Nunca ali entrara,

Amélia possuía um igual, podia resolver tudo naquele momento. Mas a esperança durou

pouco. Atirado para cima da mesa e recolhido pelas mãos ansiosas de António, o pacote

de açúcar matou todas as conjecturas. Revirando-o de um lado e de outro, António

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

abandonou o pacote ao lado do café, no qual ainda não tocara. Era igual ao da página

67, quarta fila, última saqueta.

De nada lhe serviria permanecer ali. António levantou-se e desapareceu,

deixando uma moeda para pagar a despesa. Amélia viu-o, ia ele já na rua. Suspirou e

depositou de novo a mala na cadeira ao lado. O criado ficara a olhar para ele, enquanto

recolhia o café intacto, a moeda e o pacote.

― Grande animal ― disse para si mesmo.

«A quem o dizes…», pensou Amélia, contente por estar finalmente em

segurança. Foi comendo a torrada devagar, bebericando o chá, mas algo se inquietara

dentro de si. Uma pergunta fazia uma ressonância esquisita: «De onde conheço eu este

homem?»

16.

Madalena tinha em mãos um processo e parecia deveras irritada. Joaquim,

reparando nisso, perguntou-lhe, com um aceno de cabeça, o que acontecera. Numa

postura exacerbada pela raiva, Madalena aproximou-se de Joaquim e deixou cair no

tampo da mesa, com estrondo, o processo que tinha em mãos.

― O homem não regula mesmo! Olha para isso!

Este gesto e a expressão embasbacada de Joaquim fizeram com que a fila se

desorganizasse, para permitir a todos uma espreitadela sobre aquele espectáculo, que

lhes interrompia o aborrecimento. Madalena olhava para todos os lados, talvez

procurando o chefe. Contudo, de repente, começou a gritar bem alto:

41
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― António! Venha cá, se faz favor. Despache-se! António!

Saindo pela porta do arquivo, António apareceu de ar enfiado e encarou a plateia

disforme que depositava em si a curiosidade. Envergonhado pelo grito, e por ter de lhe

obedecer, aproximou-se de Madalena.

― Não falta aqui nada? Então, não falta aqui nada?

― Bem…

― Bem não, mal! Falta! Eu tinha-lhe dito que tinha de fazer isto.

― Eu… bem, esqueci-me…

― Cale-se! ― Madalena não conseguia controlar mais a repulsa por António.

― Se isto fosse um pacote de açúcar lembrava-se, não?

Joaquim, desconfortável com a violência da colega, tocou-lhe no braço,

enquanto olhava para as pessoas que assistiam à cena. Muitos se questionavam: onde

entraria o açúcar naquela fúria?

― Deixa-me! ― ripostou Madalena, soltando-se da mão conciliadora. ― Se há

coisa que eu não suporto é a incompetência!

― Eu posso…

― Podia, diga antes assim! Podia! Agora é demasiado tarde. Explique aqui a

este senhor por que razão não fez o seu trabalho.

Um homem de meia-idade, perplexo e debruçado no balcão, observava António

sem nada dizer. Por sua vez, António também não conseguia articular nenhuma

justificação. Madalena ia ficando cada vez mais impaciente. Pegou no processo e, com

um gesto brusco, espetou-lho no tronco. Sentou-se. Não olhou mais para ele.

― Tem cinco minutos! O senhor espera cinco minutos por si, antes de falar com

o chefe da secção. Desembarace-se do erro, vamos!

42
POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

António dirigiu-se ao arquivo, o passo incerto a desorganizar-lhe as memórias.

Consultou as estantes, confundido por não as entender. Era a primeira vez que tal lhe

acontecia. Precisou de muito mais do que cinco minutos para fazer o que lhe fora

pedido. Quando terminou, entreabriu a porta, na esperança de que Madalena ou

Joaquim pegassem no processo. Sem tirar os olhos do que fazia, Madalena apenas lhe

ordenou:

― Pode ir ao gabinete do chefe. O senhor foi lá fazer queixa de si. Já é tempo de

começar a sofrer as consequências de ser tão desleixado.

Perante os olhares de todos, incluindo o de Madalena, que não pretendia perder

aquela travessia crucificada da repartição, António avançou até à porta do chefe. Bateu

ao de leve, mas a ordem de comando que recebeu de dentro ditou logo uma sentença: o

caso estava muito mal parado.

17.

Para António, ter a vida desassossegada era um mal necessário desde o acidente,

até mesmo incontornável. Contudo, a existência de Amélia fora tranquila e livre de

sustos até àquele momento.

António abandonara a repartição a meio da tarde, sem avisar ninguém. Saíra

pela porta da frente, deixando o balcão emudecido de espanto. Nada nos seus passos

escondera a determinação com que o fizera. Ia ansioso e focado num objectivo, embora

ninguém pudesse adivinhar qual seria.

43
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Na noite anterior, estando já a madrugada a querer despontar, folheara a sua

colecção pela décima quarta vez consecutiva. Parava sempre ao chegar à terceira

saqueta da primeira fiada da página 203. Agora, estando quase preenchida,

desorientava-o esbarrar com aquele espaço em branco. António descobrira-se incapaz

de continuar para uma nova página, a número 204, sem aquele pacote de açúcar.

A conversa com o chefe na véspera dera-lhe uma ideia clara da contagem

decrescente dos seus dias enquanto empregado da repartição. Era urgente voltar à rotina

antiga, eficiente e submissa. Dali até ao fim da semana, teria de conseguir um resultado

concreto!

Doente de ansiedade e obsessão, tudo nele se modificara. Ultrapassara

passageiros na fila do eléctrico, ignorando-lhes as queixas e as cotoveladas que, uma

vez todos lá dentro, lhe haviam aplicado por vingança nas costelas. Descera na paragem

de Amélia e quase correra para perto do prédio. Encostado à parede, esperara com uma

inquietação insuportável.

Assim que Amélia saiu de casa, uma sombra somou-se à sua. António seguia-a a

uma distância nunca antes ousada. Sentindo-se de novo observada, Amélia olhou para

trás, num relance curto e imitando uma distracção. Reconheceu-o de imediato: era o

homem da pastelaria, o que tentara mexer-lhe na mala! O coração afligiu-se muito mais

do que os pensamentos, numa cavalgada que a deixava transpirada e lhe enevoava o

raciocínio.

Assim que alcançou a drogaria do Sr. José, entrou. Viu António passar e

encostou-se ao balcão, de leque na mão e medo no olhar.

― Está a sentir-se bem, Dona Amélia?

― Não! Ai, Sr. José, pensei que estava a ser seguida!

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

― Mas por quem?

― Um homem que vi no outro dia na pastelaria. Ia jurar que era o mesmo.

― Ora ― brincou o droguista ―, sente-se aqui um bocadinho, isso já passa.

Amélia obedeceu, não sem antes espreitar a rua, onde já não encontrou António.

Descansou perto de dez minutos, exactamente o tempo que António previra que ela ali

se demoraria. Enfiado numa entrada de serviço do prédio contíguo à drogaria, esperava

pela sua presa, numa inquietação psicótica.

Quando Amélia retomou o percurso, várias vezes espiou a sua retaguarda, mas o

perigo desaparecera. Ralhando consigo mesma em surdina, apiedou-se do homem e

duvidou. Talvez não fosse o mesmo que a tentara roubar na pastelaria. Pensando bem,

já se cruzara com ele muitas vezes, atribuindo logo a essa coincidência o parecer-lhe

conhecido. Se calhar, concluiu, era o tal pretendente de Cláudia Marisa.

António, perseguindo-a como um felino, manteve-se sempre no seu rasto,

encoberto por outros. Quase conseguiu arrancar-lhe a mala numa esquina. Estando

Amélia mais descansada, nada notou. Mais uma oportunidade se gastava, sem sucesso.

18.

No dia seguinte, tudo se complicou. Ao sair de casa, Amélia não vislumbrou

sequer a sombra de António, que não se dera ao trabalho de comparecer no notário.

Febril, obcecado pela sua cruzada, António chegara à rua ainda antes de Amélia

acordar.

45
POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

Era quinta-feira, dia de mercado, destinado às compras de carne e fruta. Tudo se

encaixava. António permanecia sempre a escassos centímetros da sua presa. A caça

aumentava em ferocidade e risco, em porções equivalentes. Conhecendo-lhe os passos,

António variou a sua conduta, entre manter-se na sombra ou antecipar-lhe o destino

seguinte, numa dança louca. Em nenhuma ocasião falhou a proximidade. Em nenhuma

das ocasiões Amélia o viu. Em nenhuma ocasião António conseguiu enfiar a mão

dentro da mala.

Num dos momentos, pôs-se mesmo colado a Amélia, que não se apercebeu de

como a respiração de António lhe roçava a nuca, enquanto inspeccionava a bancada. As

laranjas distraíam-na do resto do mundo. Também não o sentiu por perto antes de

regressar ao prédio, quando a conversa com a porteira invalidou os planos de António.

Mas, no instante em que Dona Felisberta reparou nele, descarrilou-se a situação.

― Já viu aquele estafermo, Dona Amélia?

Depositando o olhar no vulto que Felisberta apontava, sorriu:

― Se vi! No outro dia, até me assustei, pensei que andava a perseguir-me. Tem

mau ar, não tem? Esquisito…

― Se fosse só o ar. Ainda não percebi onde mora, só o vejo no passeio, todos os

dias para lá e para cá.

― Deve ser o pretendente da Cláudia Marisa ― lembrou Amélia, divertida.

Felisberta franziu o sobrolho.

― Não é, não, que o namoradinho dela é um tipo fino do bairro de Santos,

engravatado em fatos velhos, que até mete dó. Conheci-o hoje.

― Está a falar a sério?

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

Confirmando com um aceno, Dona Felisberta cruzou os braços, esmagando o

peito farto e mostrando o quanto estava segura do que pensava.

Toda a paz de Amélia se esvaiu nesse instante. Juntou os momentos em que o

vira, e já eram muitos. Somou-lhes os argumentos dados por Dona Felisberta, que

comprovavam que o homem se mantinha sempre de roda do seu prédio e não da

vizinha. Tudo se enquadrava num plano de terror. Aparecia sempre a horas relacionadas

com as saídas ou entradas de Amélia, assegurou Felisberta. Isso chegou para que as

certezas de Amélia mudassem de flanco. Sentiu um mau pressentimento a alojar-se sem

cerimónia na preocupação.

Resolveu encará-lo de frente, mas António desviou o olhar e disfarçou, dando

um caminho diferente aos seus passos. Se, num outro dia, aquele poderia ser sinal de

que o homem era inofensivo, agora resultava no oposto. Confirmavam-se as intenções

funestas de forma clara. Amélia apressou-se a entrar. Não queria permanecer ali fora, à

mercê daquele homem sinistro. Mesmo tendo Dona Felisberta insistido para que

conversassem mais um pouco, Amélia não se sentiu segura. Precisava da paz do seu lar,

do gato, da porta fechada a sete chaves.

António avançou até à esquina. «De hoje não passa», pensou, com um tal

entusiasmo que podia até sentir nas mãos o pacote de açúcar em falta.

19.

As horas haviam passado pela rua, mas não por António. Escondido por detrás

de uma cabine telefónica, mantinha-se atento. Dona Felisberta regressara a casa, depois

47
POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

de recolher o lixo e depositar o contentor na calçada. Não voltaria a importunar-lhe os

planos. O prédio exibia luzes em quase todas as janelas, e isso dizia-lhe que os

inquilinos estavam em casa. Mas António sabia, num lugar remoto da sua mente, que a

ocasião iria surgir.

Uma caleira pingava sobre a cabine, salpicando-lhe a gabardina e o cabelo em

intervalos regulares. O chão molhado da rua reflectia os candeeiros, num encantamento

neurótico. António sorria, sentindo-se já um vencedor. Poderia dormir descansado nessa

noite, tudo seria colocado no seu lugar: o pacote na saqueta, os horários do emprego e

as rotinas aprendidas, as que lhe amaciavam os dias.

E era quinta-feira, o que fazia um sentido especial. Era às quintas que o pai se

apaixonava pelas garrafas, antecipando por um dia o fim da semana. Começava uma

sequência de grandes noitadas e bebedeiras na tasca do tio Hermínio. Sempre às

quintas, António precisava de se pôr entre a mãe e o pai, levando, por ela, pancada de

cinto. E sempre às quintas ele pensava como a mãe se esqueceria de repetir o gesto nos

dias seguintes, quando, às sextas e aos sábados, o pai investia sobretudo contra o filho,

irritado como se António fosse culpado de alguma coisa. Era, sim, era culpado de ser

filho de ambos. Não adiantava que o pai lhe pedisse desculpa ao domingo, nem à

segunda. António sabia que tudo se repetiria sem desvios. As quintas funcionavam para

si, por tudo isso, como o início de um sofrimento que lhe provava como era capaz de

aguentar, como ficava mais forte a cada cicatriz. Ou seja, para António, nenhuma

quinta-feira significava um fracasso, mas sim uma vitória à vista.

Por estar tão habituado a espiar o prédio, alegrou-se ao ver a silhueta

desconjuntada do rapaz do 2.º direito aparecer ao fundo da rua. Vinha carregado com

pastas de dimensões pouco comuns. Talvez fosse estudante de artes, mas isso não

48
POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

interessava a António. Sem vacilar, pôs-se a caminho, calculando os passos com um

rigor matemático. Precisava de passar pela porta do número 46 no momento em que o

rapaz entrasse. Num bailado perverso, cruzou-se com ele, continuou, mas depressa

voltou para trás, a tempo de entalar o calcanhar entre a pesada porta de ferro e o

batente.

O rapaz, esquecido já dele, subiu as escadas com desenvoltura. Não olhou mais

para a porta. Era impossível que não se fechasse, por ser tão pesada. Passado um minuto

e meio, a luz da escada desligou-se, mergulhando a entrada num breu conformado.

Nesse momento, António penetrou no prédio e amparou a porta para que não batesse.

Deixou-a lamentar-se num sussurro, enquanto o trinco se acomodava no sítio certo.

Subiu os degraus sem qualquer ruído, confundindo-se com a escuridão.

Chegado ao patamar de Amélia, apercebeu-se de como seria difícil convencê-la

a deixá-lo invadir o seu mundo. Sabia que Amélia o encarava agora como uma clara

ameaça. Contudo, essa dificuldade durou apenas alguns minutos. António começou a

sentir um gato a enrolar-se nas suas pernas, queixando-se com um miado mimado.

Controlou os impulsos, pois o primeiro instinto foi o de o afastar com um pontapé.

Detestava animais, sobretudo gatos, que não se inibiam de um contacto físico melado.

Seria de Amélia? Talvez fosse, e aí teria a sua oportunidade.

Não contente com a falta de atenção daquele estranho, o gato redobrou os

miados. António ouvia-lhe as unhas a raspar na porta e sorriu para a evidência. Amélia

não tardaria a salvar o gato do escuro, e António teria a passagem garantida.

Uma voz de dentro ralhou:

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

― Vês? Vês, Maurício? Eu disse-te que não devias fugir para a escada. ―

Várias voltas de chave e uma corrente desalojada do seu posto cederam às mãos de

Amélia. ― Anda cá, meu lindo, anda. És tão teimoso…

A porta aberta para António! O gato era o centro das atenções, a escuridão

encobria-lhe a presença. Um cenário perfeito. Quando António surgiu de repente,

tapando-lhe de imediato a boca e entrando sem hesitação, Amélia nem queria acreditar

na sua ingenuidade. Viu-o fechar a porta com uma cautela que não augurava nada de

bom. No último segundo, o gato escapuliu-se de novo para fora, quase entalando a

cauda. Achara por bem permanecer na escada. António estava agora a um passo do

pacote.

20.

Amarrada a uma poltrona, que António pusera no centro da sala, e amordaçada

por um cachecol azul com um cheiro difícil de aguentar, Amélia assistia a tudo sem

entender.

Aquele homem tinha o olhar enlouquecido e os gestos trôpegos de ansiedade.

Envergando uma gabardina velha e fora de moda, procurava por toda a casa qualquer

coisa. Ouviu-o abrir a gaveta onde guardava as jóias de família e desprezá-las. Viu-o

retirar a tampa da caixa de louça onde escondia a reforma, atirá-la para o chão para a

desfazer em cacos e desaproveitar o dinheiro. Por fim, observou como ficou feliz, como

se disputasse um jogo de esconde-esconde e tivesse ganho, quando agarrou na mala que

se mantivera camuflada por detrás de uma almofada do sofá.

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

Uma gargalhada de júbilo fugiu da boca de António. De joelhos, como se

rezasse, demorava-se naquela procura, embriagado pela excitação de se saber a um

instante do pacote de açúcar. Primeiro, espreitou para dentro, remexendo os objectos

com uma cautela quase carinhosa. Por fim, despejou o conteúdo na carpete. Tudo se

espalhou: o leque, moedas soltas, lenços de assoar usados e por usar, um pente com

dois dentes partidos, uma agenda de telefones estragada, comprimidos de duas cores,

amarelos e rosa, uma embalagem de rebuçados quase vazia, um invólucro de plástico

com documentos e a carteira.

Mantendo-se de joelhos, António afastava as coisas umas das outras, com gestos

de arqueólogo, inspeccionando cada objecto com toda a atenção. De propósito, deixara

a carteira para o fim, pois sabia que ali se encontrava o seu tesouro.

Tendo eliminado todos os outros, concentrou-se então na carteira. A divisória

para as moedas foi passada a pente fino. Depois a das notas. Por último, uma outra de

onde espreitava a pontinha do pacote.

Amélia deixara de gemer. Já nem se debatia. Nada nos gestos de António lhe

parecia lógico. Não fosse o cheiro sebento que a sufocava, poder-se-ia dizer que

observava a cena com a atenção de quem traça o perfil de um assassino.

A forma como o viu sorrir ao olhar para um qualquer detalhe, imperceptível

para Amélia, chegou mesmo a produzir em si uma certa pena. Aquele homem estava,

ou era!, um alucinado, pensou.

Com as mãos a tremer, António puxou pelo pacote devagar. Não podia rasgá-lo,

tinha de ser meticuloso. Contudo, algo na sua mente se assustou quando começou a

operação. De certa forma, ele conhecia em pormenor o peso de um pacote de açúcar.

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

Também sabia de cor o atrito que fazia dentro de uma divisória. O pacote deslizava

como se não estivesse grávido de açúcar, e isso não fazia qualquer sentido.

Quando por fim o retirou por completo do esconderijo, António teve duas

certezas. A primeira, que era aquele o pacote que procurava; a segunda, que não era

aquele o pacote que procurava. E tudo isto porque, embora de desenho igual, tamanho

idêntico e peso parecido, aquilo não era um pacote de açúcar, mas sim um toalhete

perfumado.

Chorou como uma criança. Nesse choro, concentravam-se todas as desilusões da

vida, as injustiças, as incompreensões e as derrotas. Doeu-lhe a alma como se, mais

uma vez, a mãe não o tivesse protegido. Doeu-lhe o corpo como se, mais uma vez, o pai

o tivesse fustigado com o cinto. Amélia olhava para ele em profundo silêncio,

comovida com o sofrimento daquele espírito perdido. Por instantes, esquecida da

situação, compreendeu-lhe a dor.

De repente, António levantou-se. Os olhos lançavam agora ameaças ao mundo,

tresloucados de frustração. Sentindo dentro de si uma ira que tantas vezes amachucara

em pensamentos, pontapeou a mala, os móveis, atirando para o chão fotografias de dias

felizes, de familiares desaparecidos, destruindo tudo o que antes repousara nas estantes

e mesas.

Por fim, concentrou-se em Amélia, que se afligira com aquele descontrolo.

António via nela a culpa, a culpa que já não pertencia a António. Sim, Amélia era

culpada, culpada por tê-lo enganado! Amélia era tão culpada como a mãe, que nunca o

amara de verdade. Num movimento tão brusco como potente, atirou a poltrona para trás

e virou-lhe costas. Abriu a porta cambaleando e saiu. Apenas se cruzou com o gato.

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

Na sala, no centro daquele furacão, jazia uma poltrona de pernas viradas e uma

vida acabada. O gato, evitando os estilhaços, cheirou a dona e manteve-se com ela até

alguém aparecer, ou, talvez, até a alma se despegar daquele susto e rumar a uma

dimensão mais segura.

21.

Ainda António tropeçava nos degraus da entrada do prédio, já se ouvia o grito

lancinante da vizinha de baixo, Cláudia Marisa, que, alertada pelo estardalhaço de tudo

a partir-se, resolvera indagar o que se passava.

Contudo, António não se preocupou em fugir. Nem sequer em andar mais

depressa. Num caminhar desfeito, escutou mais gritos atrás de si e apenas não parou.

Dona Felisberta, a única que o poderia reconhecer, desfalecera ao dar com a amiga de

olhos postos no infinito, num espanto insuportável. Mas disso, António não podia saber.

Ausentava-se de si mesmo, os outros não lhe interessavam. Habituado a habitar as

sombras, diluiu-se na rua como uma alma penada.

Na sua mente gravitava uma sucessão de acontecimentos em torno do nada

encontrado. A imagem do pacote, o atropelamento, a mala de Amélia, a certeza, tudo

misturando-se sem cerimónia. Mas o que o mantinha em transe, fora do mundo, era

aquela página 203, com a terceira saqueta vazia na primeira linha, pronta a albergar

aquilo que fora o pacote de açúcar mais importante de toda uma existência.

Impossibilitado de preencher aquele espaço com o conteúdo certo, tudo perdera

sentido. A ordem, antes controlada e segura, mostrava-se agora desconexa. Tinha para

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

trás o crescimento da colecção a consolidar-lhe a sua identidade, acompanhando-lhe os

dias feitos de rotinas. Para a frente, apenas um futuro sem lógica, descomposto por

aquela ausência que, pelos vistos, nunca chegara a sê-lo.

Como poderia António regressar a casa? Como poderia olhar para a estante e ver

a colecção equidistante dos lados, pronta a ser admirada? Como poderia regressar ao

notário, depois de ter perdido a esperança? Como?

Avançou sem rumo durante horas que lhe pareceram anos, repetidos numa

confirmação do fracasso, do engano e da revolta. Cruzou ruas sem obedecer aos sinais.

Ignorou a chuva, que se adensou para o vergar. Reafirmou-se um ser dispensável, tal

como o pai lhe repetira durante anos. Pela primeira vez, soube que ele tinha razão.

22.

A noite alongara-se por falta de destino. A quinta-feira não trouxera a

antecipação de uma vitória. A manhã de sexta, não a confirmara. Nada sucedia como

quando era jovem. Os pés acusavam o somatório de quilómetros percorridos nos dias e

semanas daquela busca compulsiva. Porém, António não os sentia. As entranhas

pediam-lhe alimento, também sem sucesso, pois nunca se lembraria de comer. A cabeça

latejava em sucessivas reflexões e ideias desfeitas, e António seguia-lhe a confusão,

como um drogado que procura o traficante.

Quantos quilómetros caminhara, não podia saber. Perdera-se sem resgate

possível. Quem com ele se cruzava encostava-se à parede, com um receio inexplicável.

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

Como um castigo divino, António surpreendeu-se ao perceber que se encontrava

no sítio exacto onde vira, pela primeira vez, o pacote de açúcar. Imobilizou-se, num

misto de fé e nojo, a atenção suspensa pela chuva e pelos carros que pisavam,

indiferentes aos peões, as poças de água escura das bermas. Deixou que o olhar

galgasse, centímetro a centímetro, a passadeira. Anestesiado por esta punição, que

sentia tão merecida, deixou que a progressão de listas brancas e pretas se desenhasse.

E foi então que, a meio da passadeira, no meio da água suja e do alcatrão, numa

imagem entrecortada pelos carros, o viu. Empurrando os óculos de massa de encontro

ao nariz, fixou melhor os olhos míopes. Era mesmo o pacote de açúcar procurado com o

cuidado de um crente. A certeza era absoluta, desprezando a imagem do toalhete

perfumado.

Esquecido dos sinais e dos hábitos que acabara de perder, dos avisos e dos

receios atirados para fora de si pela frustração, lançou-se numa urgência desmedida.

Alguns gritos aflitos tentaram impedir a tragédia, mas António abandonara o passeio e a

segurança, esquecera-se das rotinas, avançara sem hesitar e agachava-se agora para

apanhar o pacote. O tempo parara para si, a mão quase a alcançar o alvo. O tempo de

todos os outros corria. O tempo de todos os outros arquitectou-lhe uma saída.

O som dos travões deu por expirada a vida de António. O corpo já não rumaria

ao hospital. O impacto não lhe rasgaria a perna, despedaçar-lhe-ia a existência. A mente

já não procuraria mais o pacote. As emoções não mais o iriam afligir. Debaixo da chuva

forte, António deixou de ser aquele homem quase sinistro, de tão magro e inexpressivo,

preso no tempo por um corte de cabelo fora de moda. Era, agora, apenas um morto com

o punho fechado sobre o mais importante pacote de sempre.

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

MARGARIDA FONSECA SANTOS

Nasceu em Lisboa em 29 de Novembro de 1960. Tirou o Curso


Superior de Piano no Conservatório Nacional, tendo como
objectivo ser professora de Formação Musical no ensino
vocacional. Deu aulas em várias escolas, nomeadamente na
Escola Superior de Música de Lisboa entre 1990 e 2005.
Começou a escrever em 1993, e isso tornou-se uma verdadeira
paixão, paixão essa que a levou a mudar de vida. Deixou o ensino
da música e, neste momento, dedica-se a tempo inteiro à escrita.
Tem vários livros publicados, na sua grande maioria para crianças
e jovens, e escreve com regularidade para teatro.
Assina, com Maria João Lopo de Carvalho, a colecção juvenil 7
irmãos, e, com Maria Teresa Maia Gonzalez, As Aventuras de
Colombo.
Orienta ateliers de escrita para crianças, adultos e professores
(Escrita Criativa e Escrever para Crianças e Jovens). Orienta,
também, cursos sobre Escrever para Crianças na Escrita Criativa
Online (vários cursos) e na Pós-Graduação em Livro Infantil
(Universidade Católica Portuguesa).
Publicou, em coautoria com Elsa Serra, o manual de Escrita
Criativa Quero ser escritor! Em Abril de 2013, publicou o livro de
escrita criativa Escrita em Dia.
É responsável pelo blogue Histórias em 77 palavras, tendo
recentemente publicado o livro Desafios em 77 palavras (Edicare).

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

Paralelamente, trabalha treino mental e o uso pedagógico e


terapêutico da metáfora, tendo publicado, em conjunto com Rita
Vilela, os livros Histórias para contar consigo e Brincar com
Coisas Sérias. Publicou, igualmente, um livro de Treino Mental,
chamado Altamente. O seu romance De Zero a Dez (apresentado
por Patrícia Reis) tem
recebido excelentes críticas. Um livro sobre a dor crónica, o
cansaço, o medo e a esperança. O laboratório UCB patrocinou a
tradução para castelhano e inglês.
A sua mais recente colecção juvenil corresponde a um sonho
antigo. Intitula-se A Escolha é Minha e obedece à ideia de que
«por vezes, não podemos escolher o que acontece nas nossas
vidas, mas podemos sempre escolher como vamos reagir ao que
acontece». Uma publicação Booksmile, que começou com
Bicicleta à Chuva e vai já no quinto livro.

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POR UM PACOTE DE AÇÚCAR | MARGARIDA FONSECA SANTOS

FICHA TÉCNICA

TÍTULO | Por Um Pacote De Açúcar


AUTOR | Margarida Fonseca Santos
EDIÇÃO | e-manuscrito & Margarida Fonseca Santos

CONCEPÇÃO GRÁFICA | escritores.online

JULHO DE 2017

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e-manuscrito
uma iniciativa:

Associação Portuguesa de Escritores


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