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Mártires Vermelhos

Wanju Duli
2016
Imagem de Capa: Wanju Duli

Design de Capa: Luiggi Ligocky


Sumário
Capítulo 1: ______________________________________________5
Capítulo 2: _____________________________________________46
Capítulo 3: _____________________________________________95
Capítulo 4: ____________________________________________141
Capítulo 5: ____________________________________________192
Capítulo 6: ____________________________________________247
Mártires Vermelhos

Capítulo 1

– Você já os viu? Com seus mantos rubros, em toda sua glória!


Augusto ignorou-me solenemente, como costumava fazer.
– Vem aqui na janela, Gus! A procissão está começando!
Nenhuma resposta e nenhum movimento. Ele continuava sentado
com os braços cruzados. Fui até ele.
– Até quando pretende me ignorar?
– Não tenho o menor interesse nessa procissão, irmãzinha –
respondeu Augusto – e em nada mais que diga respeito a toda essa
ostentação de sacrifício.
– O que quer dizer com isso?
Eu era muito nova na época. Não conhecia palavras difíceis como
“ostentação”. Augusto, que era cinco anos mais velho, teve a bondade de
explicar-me.
– Eu simplesmente quis dizer que eles se orgulham demais de toda
essa suposta “simplicidade” e “pureza” que clamam possuir. Isso tudo é
apenas um jogo para eles.
– Um jogo?
– Uma religião é um jogo político muito bem bolado, Bibi –
esclareceu Augusto – quando você ficar mais velha, entenderá.
– O que é política? – insisti.
Ele suspirou fundo.
– É uma merda repugnante com a qual teremos que sujar as mãos
quando formos mais velhos.
– Augusto! – exclamou minha irmã – olhe a linguagem!
Augusto gargalhou.
– Você é minha mãe, por acaso? – ele perguntou a ela, com sarcasmo.
Catarina apenas estreitou os olhos e saiu de lá.
– Não ligue para ela – me disse Augusto – a Cat é apenas mais um
peão no tabuleiro. Ela quer jogar o jogo.
– E você não quer? – perguntei.
Augusto deu de ombros.

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– Nós somos da realeza, querida. Teremos que jogar essa porcaria


mais cedo ou mais tarde, querendo ou não.
– Mas Teresa...
– Eu sei – Augusto me interrompeu – embora sejamos todos
príncipes, é Teresa que herdará o cetro e a coroa, pois é a mais velha.
Mas não pense que irá escapar fácil. O pai e a mãe também possuem
planos para que você tenha um bom casamento.
– Casamento – repeti – é pior que política?
– Eu me pergunto – respondeu Augusto – estamos todos
condenados por nascer nessa família, Bibi. Com o tempo você verá que
riqueza não é nada quando não se tem liberdade. Nosso futuro já está
traçado. O futuro de todos nós.
Éramos cinco irmãos. Naquele tempo, eu estava com oito anos e
Augusto com 13. Mas mesmo com tão pouca idade, lembro que Augusto
já me parecia um adulto bastante sério. Era assim que eu o via.
Meus irmãos mais velhos eram meu exemplo absoluto. Todos eles
pareciam extraordinários.
– Teresa vai se casar com o príncipe João, certo? – perguntei.
Augusto torceu o nariz.
– Sim, do reino de Sardes – ele respondeu – e a Cat está prometida ao
irmão dele, Marcos.
– E você? – perguntei.
– Nada disso me interessa – garantiu Augusto – eu vou fugir antes.
– Não entendo – eu disse – você não quer ter uma esposa e filhos?
– Não vejo nada de ruim nisso. Mas não quero ser o fantoche dos
nossos pais para sempre. Nós não somos filhos, mas apenas
instrumentos de alianças políticas.
– Não diga bobagem! – Catarina entrou na sala de novo naquele
momento – pare de encher a cabeça da nossa irmã com seus devaneios.
Catarina tinha 14 anos. Era apenas um ano mais velha que Augusto,
mas agia como se fosse muito mais velha que ele, sempre repreendendo-
o por qualquer coisa.
– Por acaso eu disse alguma mentira? – perguntou Augusto.
– Não sou uma grande fã desse casamento arranjado – esclareceu
Catarina – mas é a melhor opção que temos. Nossos pais querem
garantir nosso futuro.

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Augusto deu mais uma gargalhada.


– Eles nem nos perguntaram se concordamos com isso! – ele
exclamou – você sabe como o pai é: com ele não tem conversa. Temos
apenas que obedecer. Ele diz que é mais velho e mais sábio. Que daqui
uns vinte anos vamos entender as decisões que ele tomou. Mas isso é
uma grande injustiça. Tenho apenas que aceitar que sou muito burro
para tomar minhas próprias decisões?
– Eu confio no pai e na mãe – disse Catarina – e você devia confiar
também.
– Você é uma ovelha pronta para ser imolada apenas para receber um
elogio do nosso pai.
Quando Augusto pronunciou essas palavras, Catarina fez uma terrível
expressão de raiva. Se ela tivesse olhado assim para mim, eu teria saído
correndo.
Eu via Catarina como uma irmã distante e assustadora. Ela era toda
certinha e cheia de regras. Para ela, obedecer aos nossos pais era o mais
importante. Eu sempre tive medo de cometer o menor erro quando ela
estava por perto.
Eu era muito mais próxima de Augusto do que das minhas duas
irmãs mais velhas. Para mim, elas eram como anjos perfeitos e
inatingíveis. Era verdade que eu também admirava Augusto, que era
muito inteligente. Porém, eu também via suas falhas com mais clareza,
por estarmos sempre juntos. Ele mesmo as confessava para mim e assim
parecia mais humano aos meus olhos.
Catarina e Teresa eram como Deusas. As filhas ideais. Eu apenas
deveria imitá-las sem questionar. Mas Catarina sempre tinha muito medo
que Augusto me corrompesse.
– Você fala como se fosse algo errado agradar aos nossos pais – disse
Catarina – eles que nos deram tudo. Sempre vivemos no conforto e
tivemos acesso à melhor educação.
– Brilhante! – exclamou Augusto, ironicamente – então nossos pais
querem que eu pague o dinheiro que eles me deram vendendo o meu
corpo?
– Cala a boca, Augusto! – exclamou Catarina, escandalizada – não
ousa pronunciar essas abominações perto da Bibiana!

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– Mais cedo ou mais tarde ela vai ter que descobrir como os bebês
nascem – disse Augusto.
– Mesmo que nossos pais fossem pobres, eles nos deram a vida, que
é o maior dos presentes – disse Catarina.
– Não sei de onde surgiu essa superstição de que ter nascido é melhor
do que nunca ter nascido – observou Augusto.
– Você sabe muito bem de onde surgiu – disse Catarina – é um
ensinamento religioso.
Augusto deu um largo sorriso irônico.
– Não me diga! – ele exclamou – os respeitáveis ascetas vermelhos,
com suas visões místicas, conhecem verdades superiores que nós, meros
mortais, não entendemos, simplesmente porque eles derramam o
próprio sangue num copo...
– Sacrilégio! – exclamou Catarina, horrorizada – como ousa
desrespeitar nossa religião?
Eu assistia a todo o diálogo, completamente confusa.
Todo domingo às cinco da manhã nós assistíamos a uma cerimônia
religiosa no templo. A cerimônia era dirigida por um sacerdote trajando
um manto com capuz completamente dourado. Seu rosto era totalmente
coberto por uma máscara e suas mãos com luvas. Não ouvíamos nem
mesmo a voz dele.
Cada mártir sacrificava uma parte de si pelo Deus Cordeiro. Diziam
que alguns eram cegos ou surdos. Mas todos eles faziam voto de silêncio
e eram proibidos a mostrar qualquer parte do corpo, nem mesmo os
olhos.
Eu tinha apenas oito anos, então não entendia o que aquilo tudo
significava. Às vezes eu tinha medo de perguntar. Pois ao mesmo tempo
que eu admirava aquelas pessoas extremamente esquisitas, também
possuía temor.
– Essa religião tornou-se completamente obsoleta às necessidades
dos tempos atuais – disse Augusto – a separação entre sacerdotes e
leigos foi crescendo cada vez mais, até surgir um abismo. Não vejo mais
nenhum sentido nisso tudo.
– É melhor você ver – disse Catarina – porque você está prometido a
uma princesa de Tiatira.
Augusto arregalou os olhos e abriu a boca.

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– Quem disse isso?


– Eu ouvi o pai e a mãe conversando a esse respeito ontem à noite –
Catarina sorriu triunfante.
Augusto cobriu o rosto com as mãos. Depois disso, trincou os
dentes.
– Eles estão delirando – falou Augusto – por que eu?
– Porque nossos pais entendem a importância de ter uma aliança com
o poder religioso. É algo que ainda possui muita relevância, mesmo nos
tempos de hoje.
– Não precisa ser eu – insistiu Augusto – mande Bibi se casar com
um deles.
– Ei! – protestei.
– Eles só têm uma filha – explicou Catarina.
– Então deem ela para Lucas.
– Ele só tem três anos! – protestou Catarina.
– Merda – disse Augusto.
– Shhh! – disse Catarina.
– Não me silencie! – disse Augusto – você sabe que isso tudo é uma
puta de uma injustiça e eu não vou aceitar.
– O pai disse que você anda muito rebelde ultimamente. Por isso
mesmo ele quer te casar com alguém de família religiosa.
– Não precisa ser logo com a herdeira dos vermelhos sujos!
Catarina deu um tapa na cara de Augusto. Eu me escondi atrás do
sofá. Não queria nem ver o que iria acontecer.
Ele não parecia acreditar no que tinha acontecido.
– Como ousa...? – ele perguntou.
– Você sabe que sou muito devota – falou Catarina – faço oferendas
ao Cordeiro todas as manhãs no templo.
– Faça o que quiser – disse Augusto – pode sacrificar a si mesma para
o Cordeiro se desejar. Só não me metam no meio de todo esse
fanatismo.
– Vou contar para o pai o que você disse sobre os vermelhos –
ameaçou Catarina.
– Espere – disse Augusto – não faça isso. Vou conversar agora
mesmo com ele.
Augusto levantou-se. Saiu da sala.

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– Não seja como o Gus, Bibi – avisou Catarina – obedeça o pai e a


mãe.
Eu não respondi. Catarina saiu da sala.
Retornei para a janela. A procissão já tinha passado na rua embaixo
de nosso castelo. Suspirei desapontada.
Eu sempre achei belíssimo ver os mártires em seus mantos
vermelhos. Eu só podia vê-los de longe, mas mesmo assim eles eram
como poderosas testemunhas da fé.
Resolvi voltar para meu quarto. Porém, antes de subir as escadas, ao
passar pelo corredor eu ouvi gritos. Era uma discussão.
Por um momento pensei em tapar os ouvidos, mas eu não resisti. Fui
até a porta a escutei as vozes altas do meu pai e de Augusto.
Não conseguia entender direito o que eles diziam. Até que percebi
um tom choroso na voz de Augusto.
Meu irmão estava chorando. Senti um aperto no coração. Eu era
muito chorona e já havia chorado incontáveis vezes na frente de
Augusto. Ele sempre me consolava e me defendia. Mas era a primeira
vez que eu o ouvia chorar.
Eu queria poder ajudá-lo. Senti uma vontade desesperada de fazer
isso.
Quando Augusto saiu da sala, eu vi o rosto dele. Estava com uma
respiração sofrida e com os olhos vermelhos.
Ele passou direto por mim. Nem me viu. Parecia numa espécie de
transe, como se não pertencesse a esse mundo. Ele subiu as escadas e foi
direto para seu quarto.
Quando meu pai saiu da sala, também passou por mim e me ignorou.
Achei melhor não falar com ele. Em geral, minha relação com meus
pais era boa. Eles sabiam ser pais amorosos nos breves períodos em que
tinham tempo para nós. No entanto, eu também conhecia o lado frio do
meu pai como rei. Já o tinha visto tratar mal muita gente, com voz
ríspida e indiferente. Especialmente nossos empregados.
Eu devia ter batido na porta do quarto do Augusto para perguntar se
ele estava bem, mas não tive coragem. Eu sabia que ele não estava bem e
que eu não podia fazer nada para ajudá-lo.
Por isso, apenas entrei no meu quarto. Deitada na cama, acabei
chorando também, por ele.

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Eu me sentia imensamente solitária. Era como se eu tivesse perdido


uma parte de mim naquele dia.
Augusto era sempre inteligente e seguro de si. Uma pessoa admirável.
Desafiava a autoridade. Sempre tinha uma boa piada ou resposta irônica
na manga. Houve muitos momentos em que eu achava chata e exagerada
a postura certinha das minhas irmãs. Por isso era sempre bom ter
Augusto por perto para dar um sorrisinho zombeteiro e me sussurrar
alguma piada cretina que me deixava completamente à vontade.
Mas aquele rapaz forte de repente tornou-se um garotinho indefeso.
Não sei o que meu pai disse a ele, mas já imaginava. Augusto não teria
escolha. Teria que casar com a garota de Tiatira.
Eu até mesmo sabia o nome dela: Jezabel. Ela tinha 16 anos, a idade
da minha irmã mais velha, e já era uma famosa profetisa, mesmo com
tão pouca idade. Achei esperado, considerando a família da qual vinha.
Devia ter recebido uma forte educação religiosa. Imaginei que viver com
uma pessoa ainda mais rigorosa que minhas irmãs devia ser o inferno.
Aquele foi um dia difícil para mim. Eu descobri que até meu irmão
tinha fraquezas, ele que parecia tão forte. Claro que eu sempre o vi de
forma mais humana do que eu via as minhas irmãs. Mesmo assim, eu
sempre acreditei que o Gus teria uma solução para tudo. E prosseguiria a
viver de forma despreocupada para sempre.
Mas não era bem assim. Até então ele havia se safado. Ele já havia
colado nas provas do colégio, matado aulas e zombado de sua posição de
príncipe. Em geral, era uma vergonha para a família. Suas notas eram
péssimas.
Todos nós estudávamos no melhor colégio do reino. Catarina e
Teresa não eram apenas tratadas como princesas, mas quase como
Deusas. Perfeitas em tudo, nas notas, no comportamento e em tudo que
é possível expressar nobreza.
Minhas duas irmãs tiravam as melhores notas da turma, simplesmente
porque meus pais não permitiam que elas tirassem menos. Tínhamos
professores particulares em casa e éramos obrigados a estudar muito.
Augusto rompeu com a tradição da família e bagunçou tudo.
Enquanto minhas irmãs mantinham apenas amizades formais e distantes
com suas colegas, Augusto possuía amizades fortes. Ele falava de modo

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completamente informal com seus amigos e nunca se gabava de sua


posição de príncipe.
Enquanto minhas irmãs nunca tinham convidado ninguém para o
castelo, Augusto vivia convidando seus colegas de classe para bagunçar.
Eu o admirava por toda essa ousadia. Queria ser como ele, mas não
tinha coragem. Eu sabia que era meu dever me mirar em minhas irmãs.
Pelo menos eu imitava Augusto ao tratar bem os empregados do
castelo. Catarina geralmente os tratava mal e Teresa os ignorava
completamente.
Teresa era quase como um símbolo, uma lenda. Eu raramente a via.
Ela era a mais distante de todas. Todos sabíamos que ela seria a futura
rainha.
Aquilo tudo era muito cansativo. Mesmo com a minha pouca idade
eu já conseguia sentir o peso que tinha nos meus ombros.
Eu era apenas a quarta filha. Por isso, frequentemente ficava meio
esquecida. De mim era esperado apenas que cumprisse meus deveres de
tirar as melhores notas da turma e de aceitar me casar com um príncipe
de algum reino aos 18 anos.
E mesmo sem sentir tanta pressão assim, já era um desconforto. Eu
nem imaginava como Teresa devia se sentir, com a pressão de ser a
primeira filha e futura rainha. Nunca conversei com ela sobre isso. Eu
nunca conversava com ela sobre nada. Aliás, já nem me lembrava se
havia trocado palavras com ela ao longo daquele ano.
Nós, os cinco filhos, sempre almoçávamos e jantávamos com meus
pais. Mas era exigido silêncio completo enquanto comíamos.
Augusto sempre odiou isso. Ele odiava muitas coisas. Foi com ele
que aprendi a odiar.
Mas também foi com ele que aprendi a amar, rompendo aquela
indiferença absoluta que reinava no castelo.
No fim do dia, Augusto bateu na porta do meu quarto.
– Eu estava preocupada – eu disse – você está bem?
Ele fez que não. Sentou-se na minha cama e olhou para o nada.
Permaneceu assim por longos segundos.
– O que o pai te disse?
– Vou ter que me casar com Jezabel daqui dois anos.
Eu fiquei sem fala.

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– Como assim? Você vai ter quinze...


– Mas Jezabel já terá dezoito – explicou Augusto – e os pais dela
querem casá-la o quanto antes. Eles querem logo ter herdeiros, porque
só têm uma filha.
– E agora?
– Não sei.
Ele parecia realmente apavorado.
– Minha vida acabou – ele disse.
– Não pode ser tão ruim...
– Vou ser mandado para outro reino, para o meio de gente que nem
conheço – disse Augusto – tenho muitos amigos aqui. Não quero deixar
esse lugar.
– Dizem que Tiatira é um lugar incrível – observei – lá as pessoas são
muito religiosas e há muitos vermelhos.
– Esse é exatamente o problema. Eu não me interesso por religião.
Porém, vivendo lá, terei que me envolver muito mais com isso. Eu serei
o futuro rei do lugar mais religioso do mundo. A porra do rei da família
religiosa mais importante!
– Deve ser legal ser rei.
– Não é legal. Você não será rainha. Minha vida irá se resumir a
religião e política. Um inferno de vida. Prefiro estar morto.
– Não diga isso. Você não está pensando em...
– Não – ele me interrompeu – não se preocupe. Não pretendo fazer
nenhuma loucura como essa. Eu gosto da vida. Só não gosto dessa vida
aqui e muito menos da vida que terei que suportar.
Mas depois daquele dia, ninguém mais falou nesse assunto por um
longo tempo. De certa forma, fiquei aliviada.
Um ano se passou sem maiores problemas. Levávamos a rotina de
sempre.
Meus estudos estavam começando a ficar cada vez mais difíceis. Eu
tinha muitos tutores particulares que me visitavam todo dia no castelo.
Minhas aulas começavam bem cedo: às seis da manhã e iam até às
onze. Almoçávamos no castelo às onze e meia. E meio-dia e meia já
começavam minhas aulas particulares, que se estendiam até às quatro e
meia da tarde. E às seis e meia era a janta.

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Acordávamos todo dia às cinco da manhã, com exceção dos


domingos, em que acordávamos às quatro para comparecer à celebração
religiosa.
Tínhamos que dormir todo dia às nove da noite. Eu tinha pouco
tempo livre, pois ainda precisava fazer os deveres de casa. De tarde eram
apenas aulas de revisão. Além do mais, os professores particulares já me
ensinavam matérias mais adiantadas, para que eu sempre ficasse a frente
de todos os meus colegas.
Eu não tinha aulas no colégio aos sábados. Em compensação, nossos
pais preenchiam nosso dia com aulas alternativas de manhã e de tarde.
Tais aulas não eram ministradas em nosso colégio. Eram coisas que meu
pai julgava indispensável que nós, como príncipes, soubéssemos.
Eram aulas exóticas como etiqueta. Augusto sempre zombou muito
dessas aulas. Principalmente porque nosso professor era totalmente
certinho e enfadonho. Ele já reclamava desde a nossa maneira de abrir a
porta, caminhar e se sentar na cadeira.
Augusto frequentemente o imitava. Ele empinava o nariz, movia as
mãos como se dançasse e fazia uma voz meio cantada e rigorosa que
subia e descia de tom. As imitações dele eram tão perfeitas que sempre
me faziam cair na risada.
Também tínhamos aulas de política, que eu não entendia nada. Eu e
meu irmão as detestávamos, mas Catarina vivia nos dando discursos
sobre o quanto tais aulas eram importantes.
As aulas de religião eram as que deixavam em mim a impressão mais
forte. Eram as aulas que Augusto mais odiava. Ele frequentemente dizia
que aguentaria até ter uma aula a mais de etiqueta do que ter que estudar
aqueles “fanatismos” e “superstições”.
Eu nunca soube explicar direito porque eu era tão apaixonada por
aquelas aulas. Elas simplesmente me tocavam profundamente. De uma
forma misteriosa, encantadora.
Devia ser isso mesmo que me atraía: o mistério. Eu sentia que estava
aprendendo um grande secreto, guardado a sete chaves. Especialmente
porque minha tutora era uma das maiores especialistas em religião de
nosso reino. Ela devia saber mais segredos que a maioria.
Ainda assim, ela não era sacerdotisa. Era uma leiga que tornou-se
uma doutora em religião, sendo professora e pesquisadora. Eu a

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respeitava muito e desconfiava que poucos poderiam se igualar a ela em


conhecimento.
No entanto, eu tinha um desejo secreto de assistir a uma aula de
religião dada por um sacerdote. Só que aquilo simplesmente não era
possível. Todos os monges vermelhos faziam voto de silêncio perpétuo.
Pensando bem, então como eles ensinavam uns aos outros? Somente
através de livros? Eles podiam se comunicar através da escrita. Ou por
sinais. Devia ser bem complicado.
Essa era a aula que eu mais fazia perguntas. Eu tinha muitas dúvidas.
Mas nem todas podiam ser respondidas. Minha professora às vezes dava
respostas ambíguas ou dizia que certas coisas eram segredos dos
sacerdotes.
– Por que eles têm tantos segredos? – perguntei.
– Por vários motivos – respondeu minha professora – um deles é que
existem conceitos e práticas extremamente complexos na nossa religião.
Se esses segredos se espalhassem, seriam interpretados de forma errada.
Então certas coisas devem ficar restritas à Ordem, para que ninguém se
prejudique pelo peso desses mistérios.
– Como alguém poderia se prejudicar?
– Vossa Alteza deve estar ciente a respeito de rituais com sangue e
mortificações.
Eu tinha vontade de revirar os olhos para professores que me
tratavam por “vossa alteza”, mas era a norma. Não havia muito que
fazer. Augusto nunca permitia que o tratassem dessa forma quando meus
pais não estavam por perto. Mas às vezes eu ficava tímida para corrigir as
pessoas o tempo todo, então eu frequentemente aceitava.
– Estou ciente – respondi, simplesmente.
– Há muitos leigos que imitam práticas de sacerdotes. Por isso, certas
coisas são proibidas.
– Não era mais fácil dar às pessoas livros com explicações detalhadas?
– Muita gente não leria esses livros – disse minha professora – muitos
não leem nem mesmo os livros sagrados.
Tive que concordar. Nossos pais nos faziam rezar e ler pelo menos
uma página do livro sagrado todo dia. Mas eu já tinha ouvido falar de
praticantes que nem mesmo tinham aberto o livro na vida. Até porque
era um livro de cinco mil páginas. Intimidava um pouco.

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Wanju Duli

Nossa religião era chamada “calicismo”, termo que vinha de “cálice”,


recipiente no qual os monges derramavam o próprio sangue. Tratava-se
de um ritual sagrado. Eu não entendia direito o significado ou as
circunstâncias em que isso era feito.
Nosso Deus era o Cordeiro. Era um animal pronto para o abate,
banhado em sangue. Nós, servos do Cordeiro, éramos orientados a agir
como animais dóceis e obedientes, prontos a morrer por nossa fé.
O livro sagrado se chamava “Selo” e era dividido em sete partes.
Então às vezes nos referíamos aos livros no plural: os Selos. Apesar de
lê-lo regularmente, eu não entendia quase nada, pois estava cheio de
símbolos e alegorias.
– Quem são os gálatas? – perguntei – eles são reais ou imaginários?
Era dito que havia sete gálatas, cada um protegendo um dos reinos de
nosso mundo. O gálata que protegia nosso reino, Pérgamo, era chamado
Galácia.
– Os gálatas são seres reais, extremamente puros – explicou minha
professora – é preciso se lavar com sangue para ter a pureza de enxergar
um deles.
– Se lavar com o próprio sangue?
– Sim. Ou com o sangue de um cordeiro de sacrifício. Também é dito
que quando estamos muito doentes e entregamos nossa dor para o
Cordeiro, esses seres também nos aparecem.
– Como se entrega a dor para o Cordeiro? – perguntei.
– É preciso rezar para que se tenha uma doença. Se uma doença forte
vir em até três dias, é preciso jejuar por mais três dias e depois comer
carne crua de cordeiro.
Eu quase tive um mal estar, só de ouvir isso.
Eu me sentia dividida. Ao mesmo tempo que achava aquela religião
meio insana, tudo também soava emocionante.
No castelo mantínhamos um cálice sagrado de bronze numa mesa da
sala de estar, que funcionava como um altar. Também tínhamos um
templo dentro do castelo. Meu pai sempre dizia que em alguma ocasião
especial chamaria um sacerdote para celebrar um culto particular para
nossa família, mas ele nunca fez isso.
Imagine só ver um vermelho bem de pertinho! A identidade deles era
secreta. Não podíamos sequer tocá-los.

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Por isso eu sempre me debruçava na janela, ou saía pelas ruas,


quando ocorriam as procissões em datas festivas. Era uma das raras
ocasiões em que víamos vermelhos fora dos templos. Ainda assim, era
proibido que qualquer um se aproximasse menos de dois metros.
Augusto achava aquilo tudo uma baboseira e um exagero. Eles se
faziam relíquias vivas. A propósito, nossa família possuía uma relíquia, a
perna de um mártir vermelho, num cofre. Nunca me deixaram ver.
Era comum que, após a morte, desmembrassem os mártires e se
distribuíssem pedaços de pernas e braços por aí, especialmente para a
realeza. Em outras ocasiões, cozinhavam os corpos até restar os ossos,
que também eram distribuídos. Diziam que essas relíquias possuíam
poderes especiais e podiam abençoar e purificar seus portadores.
Eu não entendia direito como funcionava o sistema de cores. Nas
cerimônias de domingo eles vestiam mantos dourados. Nos funerais eles
usavam mantos negros. E o vermelho era o mais famoso de todos.
Resolvi perguntar para Lisa, minha professora.
– Os dourados são os sacerdotes comuns, que se ocupam dos rituais
para o povo – explicou ela – os negros são eremitas especialistas na
morte. Os vermelhos são os mártires, que nasceram para morrer em
sacrifício do Cordeiro.
– Achei que eram as mesmas pessoas usando roupas de cores
diferentes – confessei – por que os negros são os especialistas na morte
se são os vermelhos que morrem?
– Os negros enterram os mortos e falam sobre a morte. Os
vermelhos geralmente morrem jovens.
Aquilo tudo ressoou fortemente em mim.
Eu era criança. Para mim, a palavra “morte” era quase uma lenda,
mas também era apaixonante. Eu sentia um agradável desconforto ao
ouvi-la. Uma espécie de desespero muito querido.
– Pensei que eles não falassem – observei.
– Eles usam uma linguagem secreta de sinais entre si – explicou Lisa
– e outra linguagem de sinais para ensinar leigos. Eu mesma aprendi essa
linguagem quando tive um professor dourado uma vez.
Fiquei impressionada.
– Como eles são? – perguntei, curiosa.

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– Vossa Alteza sabe que não podemos vê-los. Eles sempre usam
máscaras e luvas, em todas as ocasiões.
– Mas depois de conversarem tanto, mesmo que por sinais, você deve
ter aprendido traços da personalidade dele – falei.
– Um pouco. Meu professor tinha certo senso de humor.
Fiquei fascinada. Por que um cara com senso de humor iria escolher
passar a vida inteira em silêncio e escondendo o rosto? Religião era algo
assim tão importante? Antes eu achava que só pessoas sérias e
monótonas escolhiam se dedicar a religião. Augusto sempre achou isso.
Mas Lisa era legal. Talvez aquele monte de desconhecidos anônimos
também fossem legais.
– Será que você pode me ensinar essa linguagem de sinais? –
perguntei.
– Eu sinto muito. Não tenho autorização para passar adiante. Eu fiz
um voto.
Então mesmo a “linguagem para leigos” deles era secreta.
Às vezes eu ficava braba com tanto segredo. Augusto tinha razão: era
desnecessário! Eles tinham um clubinho de adoradores do Cordeiro. E
daí? Eu também podia formar um.
Resolvi fazer uma pergunta que estava me perturbando.
– Por que os vermelhos morrem?
– Eles sentem que devem morrer.
– Por quê?
– Porque a fé deles é muito grande. Então eles se voluntariam a
morrer pelo Cordeiro.
– Como eles fazem isso?
– Há um ritual com sangue, mas não se sabe muito a respeito. Eles
partem pelo mundo.
– Que mundo?
– Mundos inexplorados e hereges.
– Fora dos sete reinos? – perguntei, horrorizada.
Eu já tinha ouvido falar que havia outros países fora dos limites dos
nossos reinos. Os “selvagens” fora do nosso mundo civilizado.
Diziam que eles cometiam muitos pecados imperdoáveis, como
praticar magias. Havia poderosos magos lá fora, adoradores do Dragão,
que era o inimigo do Cordeiro.

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Mártires Vermelhos

Os magos draconianos tinham muitos poderes. Mas esses poderes


não eram de Deus. Eram coisas proibidas, sujas, odiosas. Não havia
amor neles.
– Os mártires vermelhos se tornam vermelhos para morrer
espalhando o poder dos selos entre os magos.
– Eles ensinam nossos livros sagrados lá fora? – perguntei,
boquiaberta – mas como, se eles não podem falar?
– Eles se comunicam pelos gálatas, ou assim reza a lenda.
É claro. Os vermelhos eram tão puros que até os gálatas falavam com
eles. Talvez por isso ficassem em silêncio. Ao conversarem com os
gálatas, toda a linguagem depois disso seria impura e indigna.
– E depois disso eles morrem – falei.
– Depois disso eles morrem – ela repetiu.
– Por que alguém faria isso? Jogar sua vida fora assim...
– Quem joga sua vida fora é quem não vive pelo Cordeiro – disse
Lisa.
– Viver pelo Cordeiro tudo bem – falei – mas por que morrer por
ele?
– Viver por ele também é um tipo de morte. Morrer para si mesmo
para viver pelo imolado.
– Tem razão. Mas...
Aquilo tudo era muito triste. Era trágico.
– Você disse que eles morrem jovens? – perguntei.
– A Ordem dos vermelhos só aceita jovens até os trinta anos – disse
minha professora – e eles normalmente morrem após um ano ou dois.
Eles viajam por regiões perigosas e fazem coisas perigosas. Muitos deles
acabam comidos vivos e torturados.
– O Dragão é cruel – eu disse – quem escolheria adorá-lo em vez de
adorar o Cordeiro?
– Quem adora o Dragão adora a si mesmo, Vossa Alteza. Eles não se
importam com os outros, não morrem pelos outros como nós. Eles não
têm piedade.
– Mesmo assim eles devem ser perdoados?
– Eles condenaram a si mesmos ao se separar do Cordeiro.
– Mas eles sequer sabem que o Cordeiro existe? – perguntei,
perplexa.

19
Wanju Duli

– Todos sabem, mesmo aqueles que não foram apresentados


formalmente a ele. É algo com que nascemos, que fica em nosso coração
para sempre.
Religião era mesmo complicado.
Eu me sentia exausta após essas aulas, com tantas discussões
teológicas. Ao mesmo tempo, me sentia paradoxalmente revigorada com
todo aquele alimento para o espírito.
E no sábado, após essa aula de teologia, eu ainda tinha aulas de
idiomas. Eu não estava interessada em aprender essas línguas. Só queria
poder aprender a língua de sinais dos calicianos.
Tínhamos os domingos livres. Infelizmente, eles só eram livres na
teoria, pois normalmente eram lotados de eventos familiares. Quase
sempre recebíamos visitas ou visitávamos alguma família importante. Era
a ocasião para colocar em prática nossas aulas idiotas de etiqueta.
Pelo menos eu ria muito com as piadas que Augusto murmurava para
mim. Catarina sempre olhava feio para ele.
Catarina era a minha irmã irritada e cabeça quente. Teresa era minha
irmã indiferente e silenciosa; um perfeito cubo de gelo. Ela devia achar
que nós estávamos muito abaixo dela para merecermos sua atenção.
Afinal, ela era a futura rainha de Pérgamo. Nós éramos apenas príncipes.
Eu e Catarina não seríamos promovidas a rainha futuramente, mas
Augusto seria rei. E Tiatira era um reino mais poderoso que Pérgamo.
Uma vez, muitos séculos atrás, esses dois reinos entraram em guerra e
Pérgamo foi derrotada. Ainda tínhamos leis dessa época, que exigia que
Pérgamo realizasse certos favores militares para Tiatira.
Demorei para reparar nisso, mas aos poucos entendi que Teresa
estava agindo de forma diferente com Augusto. Até então, ela o havia
ignorado completamente. Atualmente, ela quase parecia vê-lo como rival.
Sempre achei que Catarina era mais competitiva que Teresa. Mas
talvez Teresa fosse ainda mais assustadora, de uma forma diferente. Os
olhares cheios de fogo que Catarina lançava para Augusto eram
dolorosos, mas o olhar gelado que Teresa lhe lançava era mortífero.
Isso tudo ficou claro como água naquele domingo. Fomos visitar
uma família rica de Pérgamo, que tinha uma tradição militar forte.
Parecia que quase todos os antepassados deles tinham lutado em alguma
guerra e estavam cheios de medalhas.

20
Mártires Vermelhos

Realmente, morrer por alguma coisa era algo celebrado. Mesmo


assim, eu ainda achava mais nobre entregar-se para a morte por causa de
um ideal religioso pacífico do que morrer matando um monte de gente,
não importa quão nobre seja a causa.
Teresa lançou muitas indiretas naquele domingo. Augusto ficou
calado. Ele não tinha intenção de brigar com ela.
Teresa portava-se como um anjo sorridente e perfeito naquelas
visitas. Deixavam meu pai e minha mãe orgulhosos.
Quando chegamos em casa, fui conversar reservadamente com
Augusto.
– Por que Teresa está agindo assim? – perguntei.
– Não é óbvio? – Augusto deu um sorriso desagradável – ela quer
meu couro. Está furiosa porque vou ser rei de Tiatira. Mas garanto que
ela não está mais furiosa que eu.
– Faz muito tempo que os dois reinos entraram em guerra.
– Conhecendo Teresa, ela não se importará de declarar uma nova
guerra apenas para tentar me tirar do trono – disse Augusto – ela é
mortalmente invejosa. Catarina sabe ser cruel, mas ela não é traidora.
Teresa sabe jogar sujo quando quer.
– Acha que ela te mataria? – perguntei.
– Eu tenho certeza.
Aquela conversa não parecia de verdade. Era inacreditável demais
para estar acontecendo.
Por isso também resolvi fazer uma coisa inacreditável e corajosa:
conversar com Teresa.
Depois de mais de dois anos sem dirigir uma palavra a ela, bati na
porta de seu quarto. Ela demorou para me atender. Segurei a respiração.
Teresa abriu a porta. Me olhou de cima.
Ela era belíssima. Uma das mulheres mais belas que já vi, com os
cabelos perfeitamente trançados. Longos e bem tratados. Os olhos
brilhantes. Vestido impecável. Tudo nela reluzia a ares nobres e santos.
Mas a expressão fria dela matava toda a santidade. Ela me fitava
como se eu fosse apenas um verme desagradável e incômodo.
– Precisa de alguma coisa?
A voz dela era melodiosa. Mas Teresa fez questão de deixar bem
claro o seu imenso desagrado com minha presença.

21
Wanju Duli

– Podemos conversar um pouco? – perguntei.


– Ora – ela disse, sem alterar seu tom ou expressão – quanto tempo
isso vai demorar?
– Prometo que será rápido.
Ela abriu um pouco mais a porta e entrou no quarto. Eu a segui.
Acho que eu nunca soube como era o quarto dela. Eu lembrava
vagamente do quarto de Catarina, mas os aposentos de Teresa eram
quase um segredo maior do que aquele que os vermelhos guardavam.
Não havia nada fora do lugar. Nem mesmo o céu devia ser tão
organizado, perfumado e perfeito.
Ela dormia numa cama de casal enorme. Seu quarto era umas três
vezes maior que o meu e eu já achava o meu grande o bastante.
Não havia nenhum objeto irrelevante ou decoração em excesso.
Tudo era perfeitamente equilibrado, exato e necessário.
Era um quarto ao mesmo tempo bonito e muito monótono. Não
dizia absolutamente nada sobre a personalidade de Teresa. Talvez
porque ela não tivesse gosto próprio nenhum. Apenas obedecia o que
meus pais a mandavam fazer.
– O que é tão importante que a fez vir até aqui?
Saí de meu transe. Olhei para ela outra vez.
– Queria saber se você está chateada por causa de Augusto.
Ela não respondeu imediatamente. Apenas me lançou o mesmo olhar
gelado e indiferente.
– Que questão intrigante – ela disse, sem expressão – confesso que
não a entendo.
– Augusto será rei de Tiatira. Que acha disso?
– Eu não acho nada.
A conversa não estava tomando o rumo que eu esperava. Mas será
que eu esperei alguma coisa?
– Vai sentir saudade dele? – perguntei.
– Isso é irrelevante – disse Teresa – cada um de nós deve cumprir
nosso destino.
– E se um dia os dois reinos entrarem em guerra, o que você vai
fazer?
Mais silêncio. Será que era melhor eu sair de lá?

22
Mártires Vermelhos

– Você é uma criança, irmãzinha – disse Teresa, de forma mais doce


do que eu esperava – e, como toda criança, acha que guerras são feias.
– Você as acha bonitas? – perguntei, surpresa.
– Guerras são necessárias de tempos em tempos. Nunca ouviu falar
na doutrina da guerra justa?
– Não sei se concordo com ela – confessei.
– Você é uma estudante preguiçosa. Não é só porque política e
religião não estão inclusas em nosso currículo escolar que você deve
negligenciar as aulas dos sábados.
Estávamos fugindo um pouco do assunto. Então resolvi aproveitar a
ocasião e perguntar:
– No ano que vem você vai se casar – falei – e vai se formar no
colégio, não terá mais aulas. Como se sente sobre isso?
– A mesma coisa que sinto sobre a partida de Augusto: nada.
– Isso não pode ser verdade.
Teresa sorriu levemente.
– O que é a verdade, Bibiana? É algo bonito? É algo que pode ser
cantado? Ou algo tão horrível que deve ser escondido?
A conversa estava ficando um pouco pesada.
Teresa sabia intimidar horrivelmente. Eu já conseguia imaginá-la
silenciando seu marido e tomando todo o poder somente para si. Ela
tinha todo o potencial para ser a rainha mais poderosa e que inspiraria
mais temor.
Então aquele era o resultado da educação que nossa família recebia.
Teresa era o exemplo de Catarina e estava seguindo o mesmo caminho.
Eu me assustava ao pensar que Teresa era meu futuro. Será que era
naquilo que eu deveria me tornar? Assassinar meus sentimentos. Com
um doce sorriso apunhalar meu inimigo pelas costas.
Baixei os olhos.
– Pensei que você fosse diferente – falei – pensei que tivesse um
coração...
– Você acredita no amor, minha querida. Você acredita em contos de
fadas.
– Eu acredito no Cordeiro – retruquei – creio em seu coração
pingando sangue.
– Você é muito doce. Eu também acredito em alguma coisa.

23
Wanju Duli

– No quê? – perguntei, inocentemente.


– Eu acredito que seu tempo acabou. É hora de você sair do meu
quarto. Tenho mais o que fazer. Vá brincar com Augusto e Lucas, que
também são crianças como você.
Ela pegou no meu braço, me arrastou para fora e fechou a porta na
minha cara. Somente ela seria capaz de fazer algo assim com tanta classe.
Pelo menos essa visita me rendeu um bom relato. Assim que saí de lá,
fui conversar com Augusto e fofoquei para ele tudo o que Teresa me
disse.
– Não acredito que teve coragem de ir ao quarto dela – falou Augusto
– eu não teria.
– Que achou sobre o que ela disse?
– Foi o esperado.
– É claro que ela tem sentimentos – eu disse – ela só está querendo
fingir que não tem.
– Infelizmente, Bibi, os adultos possuem o poder de se tornar o que
fingem ser.
– Teresa não é adulta.
– Não falta muito para ela se tornar uma. Por dentro ela já é tudo
aquilo que mais odeio nos adultos.
No dia seguinte, no colégio, conversei com duas amigas minhas:
Paula e Sara. Eu estava seguindo o exemplo do meu irmão e aos poucos
aprofundando minhas amizades.
Como estudávamos num colégio de elite, as duas também eram
muito ricas. Talvez por isso elas não se sentissem assim tão diferentes de
mim e aceitavam que conversássemos no mesmo nível sem aquele
negócio de “vossa alteza”.
No começo foi meio difícil. Elas pareciam ter um pouco de receio
para falar comigo e me perguntar certas coisas. Aos poucos foram
ficando mais à vontade, embora ainda me vissem como “a princesa”.
Aquilo era meio estranho, pois eu frequentemente me esquecia que eu
era princesa.
Acabei ficando amiga delas porque notei que elas também tinham
algum interesse por religião. Nosso colégio tinha um templo e elas
frequentemente iam lá para rezar.

24
Mártires Vermelhos

Contei a elas o que aprendi sobre os vermelhos com minha


professora particular. Elas ficaram interessadas.
– Ouvi falar que os vermelhos vestem mantos brancos quando
ingressam na Ordem – observou Sara – e eles ficam vermelhos depois
que eles os cobrem com o próprio sangue.
Sara era uma menina super boazinha e meiga, com voz suave. A
perfeita religiosa.
Já Paula era mais enérgica. Gostava não de uma religião tranquila,
mas de sangue e sacrifício.
– Que máximo! – exclamou Paula – sabem, acho que se eu fosse bem
pobre, eu me ordenaria como caliciana. Pena que minha família é rica.
Seria uma pena largar tudo para ser pobre e morrer.
Eu ri.
– Está cheio de histórias por aí de nobres que se ordenaram – falou
Sara – mas também é possível que seu corpo vire relíquias sendo leigo.
– Não seria maravilhoso ter minha perna ou braço no baú de algum
rei? – perguntou Paula.
– Nós temos uma perna lá em casa – observei.
Elas me fitaram sem saber se eu estava brincando.
– Meu pai gosta de relíquias de mártires... – expliquei.
– Será que eu posso ver? – perguntou Paula – nunca vi uma.
– Nem eu – falei – mas meu pai não está no castelo hoje e não vai
saber. Querem ir lá hoje? Podem assistir minhas aulas particulares
comigo.
– Não tem problema mesmo? – perguntou Sara.
Garanti a elas que não. Augusto convidava os amigos para casa o
tempo todo sem pedir permissão, então eu podia fazer isso também.
Eu inclusive as levei para o almoço, sem avisar. Sorte que meus pais
não estavam lá na ocasião.
As duas se impressionavam com qualquer coisa, mesmo sendo tão
ricas. Elas se impressionaram com os portões altos, com os guardas e
com o jardim. Elogiavam tudo.
Eu não sabia se devia agradecer os elogios, porque eu não tinha
nenhuma relação com meu jardim. Sequer passeava por lá ou sabia o que
era feito dele. E nem achava aquilo grande coisa.

25
Wanju Duli

Passei a notar certas decorações da minha casa que eu nunca tinha


reparado, só porque as duas apontaram. Havia até cômodos do castelo
que eu nunca tinha visitado. Alguns até por mera falta de interesse.
Assim como nem sempre fazemos questão de conhecer todas as ruas da
vizinhança, eu não fazia questão de visitar todas as torres do castelo que
não tinham nada a ver comigo. Especialmente aquelas que tinham
relações com antepassados desagradáveis ou com lendas medonhas.
Eu tinha o “privilégio” de saber muita coisa sobre meus antepassados
distantes. Havia muitas informações registradas sobre os reis e rainhas
anteriores. Eu também já tinha ouvido falar de primos e primas de
segundo e terceiro grau que adorariam tomar o poder, por isso meus pais
fizeram questão de ter muitos filhos.
Eu achava tudo aquilo muito chato. Não tinha o menor interesse de
conhecer o resto da minha famosa família. Todos só queriam saber de
poder e dinheiro. Muito previsíveis.
Ouvir os comentários de Sara e Paula sobre o castelo era bastante
bizarro. Descobri aquilo naquele dia. Por que elas achavam legais coisas
que eu considerava extremamente desinteressantes? Garanti a elas que
após dois dias no castelo elas não iriam aguentar mais reparar na
decoração.
– Vocês têm um castelo de verão? – perguntou Paula, empolgada.
– Sim, perto da fronteira com Esmirna – expliquei – mas eu detesto ir
lá. Sempre que vou tenho que visitar meus tios.
– Não gosta dos seus tios? – perguntou Sara.
Daria trabalho responder o motivo, então eu apenas disse que não,
que preferia morrer pelo Cordeiro do que vê-los de novo.
Na hora do almoço, elas também ficaram impressionadas com os
cozinheiros trazendo pratos para a mesa. E elogiaram tanto a comida que
eu comecei a ficar entediada. Talvez fosse difícil entender que eu sentia
que aqueles cozinheiros não tinham nada a ver comigo.
Talvez eu me sentisse um pouco como Augusto: queria poder me
mandar do castelo, esquecer que eu era da realeza. Era uma vida de
aparências, sem significado, com um conforto vazio. É bom ter
conforto, mas quando ele é excessivo começa a sobrar demais e ter mais
do que isso passa a ser irrelevante. Eu achava até desconfortável o fato
de o teto ser tão alto e os cômodos tão amplos.

26
Mártires Vermelhos

Teresa se recusou a almoçar conosco ao saber que minhas duas


colegas iam almoçar na mesma mesa. Catarina foi almoçar, mas ela exigiu
silêncio enquanto estava na mesa. Saiu depressa.
Quando ela foi embora, ficamos só nos três e meu irmão. Augusto
também não concordava com aquela regra do silêncio e voltamos a
conversar.
Notei que minhas duas colegas ficaram extremamente tímidas na
frente de Augusto.
– Legal que a Bibi convidou vocês – Augusto iniciou a conversa – ela
me disse que vocês se interessaram pela nossa relíquia.
– Sim, Vossa Alteza... príncipe Augusto – disse Sara, completamente
encabulada.
Augusto riu de forma simpática.
– Não precisa de títulos – ele abanou a mão – podemos conversar
livremente. Uma de vocês duas não é irmã do Pedro? Filha do barão de
Dardanelos?
– Sou eu – disse Paula, surpresa – você conhece meu irmão?
– Sim, ele é meu colega – disse Augusto – ele nunca veio aqui, mas
somos um pouco próximos. Ele é um cara legal.
– Obrigada! – disse Paula, contente.
Não sei se eu agradeceria se alguém dissesse que meu irmão era legal.
Será que eu achava mesmo que tudo ao meu redor não tinha nada a ver
comigo? E olha que eu e o Gus éramos bem próximos.
Quando estávamos a caminho do meu quarto, ouvi Paula sussurrar
para Sara:
– Ele é tão quente!
Eu gelei por um momento. Virei para trás por um instante e as duas
disfarçaram. Depois riram baixinho.
Tinha certeza de que elas estavam falando sobre o Augusto, mas
resolvi não comentar nada. Aquilo ia um passo além do meu limite para
a estranheza dos comentários delas.
De qualquer forma, tínhamos só nove anos. Minhas colegas se
sentiam muito adultas fazendo comentários como esses.
Agora era o momento do: “Nossa, que quarto enorme!” e “Uau,
adorei essa cortina!”. Eu tinha vontade de dizer: “É mesmo? Pode pegar
a cortina, eu não sei se já reparei nela alguma vez. Não vai fazer falta”.

27
Wanju Duli

Talvez aquela falta de reação e indiferença aos elogios delas também


fosse um pouco de arrogância da minha parte. Eu já tinha visto os
amigos de Augusto elogiando o castelo e ele sempre respondia de forma
animada e alegre.
Mas não ficamos muito tempo no meu quarto. Minhas aulas
particulares começaram. Elas ficaram impressionadas com isso também
e disseram que meus professores particulares sabiam mais que os
professores do nosso colégio e explicavam de forma muito mais didática.
Eu achava simplesmente que eu entendia melhor com os professores
particulares porque sentia toda a liberdade de interrompê-los a qualquer
momento com dúvidas. É verdade que havia apenas vinte alunos por
turma em nosso colégio, mas aula individual era sempre diferente.
Quando as aulas terminaram, finalmente fomos atrás do baú.
Demorei para encontrar, pois não me lembrava em que cômodo estava.
Infelizente, não conseguimos abri-lo, pois a chave não estava por perto.
– Meu pai deve ter escondido – eu disse.
Mas eu não tinha coragem de entrar escondida no quarto dos meus
pais para procurar. Mesmo que eu tivesse mais liberdade com meu pai do
que com minha irmã mais velha, ainda assim ele era o rei. Até eu me
sentia um pouco intimidada. Ele devia guardar coisas importantes no
quarto e não iria gostar que eu mexesse.
Quando voltamos para meu quarto, Sara me perguntou:
– Já sabe com que príncipe você está prometida a se casar?
– Não... – respondi, simplesmente.
Acho que eu não queria saber.
Quando elas foram embora, eu me senti um pouco estranha.
Pensando bem, eu não teria a liberdade de me apaixonar como elas
tinham. Eu nunca tinha pensado nisso.
Mas se eu seguisse o caminho de Catarina e Teresa, aos poucos meus
sentimentos iriam sumir. Talvez sumissem completamente antes mesmo
de eu começar a reparar no sexo oposto. Então essa seria nada mais que
uma preocupação menor.
Achei que aquela seria apenas uma noite como qualquer outra.
Jantaríamos, eu faria meus deveres. Procuraria não desenvolver hobbies
como minhas colegas, pois não teria tempo para eles. Iria ignorar que
havia um mundo lá fora e que eu poderia ter sonhos e amor.

28
Mártires Vermelhos

Bastou que um ano se passasse e eu já me sentia transformada. Aos


oito anos eu ainda me divertia olhando os mártires de mantos vermelhos
desfilando pelas ruas. Nos últimos tempos, o dourado que fazia as
celebrações de domingo já não tinha graça nenhuma. Eu evitava lembrar
que eles existiam.
O Cordeiro me parecia cada vez mais distante. Quando eu era menor,
achava tudo mágico. Mas será que coisas como cálices e relíquias eram
assim tão empolgantes?
Será que haveria alguma coisa empolgante no mundo?
Olhando pela janela, agora eu só podia ver um mundo gigante que eu
jamais alcançaria. Eu tinha tudo e, ao ter tudo, não tinha nada. Não
sentia que nada daquilo era realmente meu, mas apenas um fardo.
Aquela seria apenas uma noite entediante pensando sobre todas essas
coisas, se eu não tivesse ouvido os gritos do meu pai.
Eu corri até o quarto do Augusto. Não fazia a menor ideia do que
estava acontecendo, mas esperei pelo pior.
Por um momento de horror, achei que Augusto tinha tirado a própria
vida e meu pai havia encontrado seu cadáver. Só podia ser isso para
tamanho escândalo.
Assim que vi Augusto são e salvo, respirei aliviada. Nada podia ser
pior, certo? Por que tanta exaltação? Minha mãe também estava lá. E
Catarina. Só Teresa ignorou tudo e nem quis sair do quarto para
descobrir o que estava acontecendo.
– Por que fez isso a mim? Eu sou o seu pai!
– Desculpa, pai – disse Augusto, com urgência – eu não quis...
– Não quis me desafiar? Você não faz outra coisa da vida. Nunca fez.
– Eu juro que dessa vez...
Meu pai deu um murro no rosto de Augusto. Ele caiu sangrando no
chão.
Eu e Catarina nos afastamos imediatamente, com medo. Senti
lágrimas nos meus olhos. A própria Catarina me abraçou e me levou para
longe.
Minha mãe nem piscou os olhos. Estava fria como gelo.
Mas nem eu e nem Catarina saímos do quarto. Eu queria gritar para
meu pai parar, mas não tive coragem.

29
Wanju Duli

Eu era uma covarde. Queria proteger Augusto, que sempre me


defendeu. Mas eu não era capaz.
Eu não era como o Cordeiro, que morria pelos outros. Não era um
vermelho. Era muito doloroso derramar meu sangue.
Meu pai percebeu meus gemidos e olhou para trás.
– Sabem o que esse imundo do irmão de vocês fez?
Eu e Catarina não respondemos.
– Ele estava se agarrando com a empregada! – berrou meu pai.
Catarina tapou a própria boca com a mão.
– Ela não é “a empregada” – disse Augusto – ela se chama Isabel.
Mais um murro. Eu dei um grito. Até mesmo Catarina estava
chorando agora.
– O que você fez? – perguntou meu pai – vocês se beijaram, só isso?
– Só – disse Augusto, com voz fraca.
– Não minta para mim! – exclamou meu pai, fora de si – você
transou com ela, não é?
Augusto ficou sem fala. Quando aconteceu o terceiro soco, eu berrei:
– Por favor, para!
Eu estava chorando sem parar e soluçava. Catarina me abraçava forte.
Notei que ela estava tremendo.
Tive medo que ele pudesse matá-lo.
De repente, meu pai começou a rir.
– Você achou que eu iria simplesmente demitir a empregada se
descobrisse? – meu pai provocou – engano seu! Ela será executada!
– Não!! – gritou Augusto, horrorizado.
– Se disser mais uma palavra, ela será morta sob tortura – ameaçou
meu pai – e você vai assistir.
– Me mata no lugar dela então, merda! – gritou Augusto.
Pensei que esse seria o fim. Achei que dessa vez meu pai fosse
espancá-lo até a morte.
Porém, ele simplesmente chamou os guardas, que trouxeram a
empregada pelos cabelos. Os guardas largaram a empregado no chão, de
qualquer jeito. Depois disso, meu pai mandou que eles segurassem
Augusto.
Meu pai pegou uma faca e, sem cerimônia, arrancou as roupas dela.
Ele tirou tudo. A expressão de minha mãe continuava inalterada.

30
Mártires Vermelhos

Augusto estava gritando e chorando. Meu pai arrastou a faca


levemente pelo corpo dela, rodeando-a.
– Ela é realmente bonita – concluiu meu pai – agora entendo porque
você se descontrolou.
Isabel, a empregada, foi realmente forte. Ela não alterou sua
expressão e aguentou. Provavelmente fez isso para que Augusto não
ficasse ainda mais desesperado.
Nesse momento, chegou meu irmão menor, perguntando o que
estava acontecendo. Catarina correu até ele e impediu-o de entrar no
quarto, mas era tarde demais. Ele viu meu pai segurando a mulher sem
roupas pelos cabelos.
Mesmo assim, Catarina levou Lucas de volta para o quarto dele. Ele
estava bastante confuso.
– Eu gostaria que você entendesse que estou fazendo tudo isso pelo
seu futuro – disse meu pai – entendeu, seu cabeça-dura? Se essa mulher
ficar viva, ela vai ganhar um filho seu. Você quer manchar a sua
reputação e a minha? É claro que não.
– Me mate em vez dela – insistiu Augusto, sem forças.
Meu pai riu.
– Você é ridículo – ele disse – eu vou te mandar para Tiatira amanhã,
ouviu bem? Se está com tanta vontade de fazer sexo, então se case logo!
Tenho certeza de que os pais de Jezabel não serão contra. Mas não ouse
contar que você não é mais virgem, ou eles poderão cancelar o
casamento. Você sabe como aqueles idiotas são religiosos.
Augusto gemeu.
– Se você se comportar bem e viajar amanhã sem resistência, essa
mulher terá uma morte rápida e limpa – disse meu pai – eu cumpro
minhas promessas.
Acho que Augusto entendeu que não havia jeito de ela escapar da
morte. Independente de ela ficar grávida ou não, certamente meu pai não
queria deixá-la viva por aí para que Augusto quisesse um dia fugir de
Tiatira para ir atrás dela.
– Está bem – disse Augusto – eu irei...
Meu pai mandou que jogassem a mulher na prisão. Ela seria
executada em breve.

31
Wanju Duli

Quando meu pai e minha mãe saíram do quarto, estávamos todos


chorando. Catarina já tinha retornado, depois de mandar Lucas de volta
para o quarto.
– Como você pode ser tão burro?! – exclamou Catarina – como pode
ser tão estúpido? Você não sabe do que o pai é capaz?
– Eu sei de tudo! – exclamou Augusto – de todas as coisas sujas que
acontecem. Mas eu estava...
– Não diga que estava apaixonado! – exclamou Catarina – senão eu
juro que vou te bater.
– Não sei o que eu sentia por ela – confessou Augusto – só
estávamos juntos. Foi culpa minha. Eu a seduzi.
– Cala a boca, por favor – Catarina levantou-se – não gostava dela e
queria morrer por ela? Você é dramático e patético. Ainda bem que vai
se casar com a princesa de Tiatira. Ela terá pulso firme para governar,
enquanto você pode ficar nas sombras com seus dilemas existenciais.
Apenas cumpra seu papel de dar filhos a ela e fique quieto.
Catarina saiu do quarto.
Eu me aproximei de Augusto com cautela.
– Você tá machucado – observei.
– Eu nem sinto a dor – disse Augusto – só sinto o peso dessa
injustiça.
– Por que fez isso? – perguntei, preocupada – não entendo...
– Daqui alguns anos você vai entender – garantiu Augusto.
– Ainda pretende fugir?
– É claro que não. O pai vai esperar até eu chegar em Tiatira para
decidir a maneira de matá-la. Por favor, assista à execução.
– O quê?!
– Eu só posso confiar em você para me dizer se meu pai honrou sua
palavra.
– Então você vai sacrificar a liberdade que sonhava por causa da...
empregada? – perguntei.
– O nome dela é Isabel. Não é você que gosta de religiões? Que
gostaria de morrer pelo Cordeiro?
– Eu não gostaria de morrer por nada – decidi – eu gostaria de viver
para sempre.

32
Mártires Vermelhos

– Tudo bem que você pense assim – disse Augusto – porque você
ainda é uma criança. Mas um dia você vai encontrar algo pelo qual valha
a pena dar a sua vida e morte.
– Você também é uma criança, seu idiota...
E foi assim que aos 14 anos Augusto foi enviado para Tiatira.
Sempre achei que Teresa seria a primeira de nós a se casar. Seguida de
Catarina. Mas Augusto sempre foi a ovelha negra da família. Ele tinha
que bagunçar tudo.
Senti que Teresa sentiu inveja dele até mesmo nisso. Ele se casou
antes dela. Conquistou o poder antes.
Finalmente eu era capaz de entender os sentimentos de Teresa um
pouco mais. Eu consegui enxergar a personalidade gelada de Teresa na
indiferença da minha mãe e na ferocidade do meu pai.
Eu não sabia o quanto ela já tinha sofrido. Ela era a primeira filha.
Ela não compartilhava com ninguém a dor que sentia.
Talvez ela também não quisesse ser membro daquela família. Podia
ser que não desejasse ser rainha. Mas não tinha escolha.
Provavelmente ela optou por aguentar tudo por nós. Para nos poupar
daquela desgraça. Ou talvez eu quisesse acreditar nisso para perdoá-la.
Estava na hora de eu também começar a me sacrificar pelos outros,
como meus irmãos. Era meu momento de imitar o Cordeiro.
Quando informei a meu pai que eu gostaria de assistir à execução da
empregada, ele ficou realmente surpreso.
– Por que, Bibiana? – ele perguntou – você só tem nove anos.
– Eu quero me acostumar a ver essas coisas – menti.
– Fale com sua mãe.
Lá fui eu pedir permissão para a minha mãe. Mas foi ainda mais fácil.
– Se realmente quer... – disse minha mãe – pode ser bom para você.
Aquilo tudo era um teatro. Meus pais sentindo que se preocupavam.
Depois de fazer toda aquela porcaria na nossa frente. Meu pai surrando
meu irmão na nossa frente. E na frente do meu irmão de quatro anos.
Foi uma execução rápida. Enforcamento. Amarraram o nó ao lado e
apenas quebraram o pescoço, sem tortura.
Isabel se portou de forma admirável. Parecia quase tranquila.
Pensei que seria pior. Achei que eu ficaria traumatizada.

33
Wanju Duli

Quis acreditar no Cordeiro. Eu queria acreditar que o Cordeiro


receberia a alma de Isabel no céu.
Também rezei para que o Cordeiro recebesse minha alma um dia. Eu
temia no que eu iria me tornar no futuro, após ser maculada pela
insanidade daquela família.
De que adiantava todo aquele dinheiro e conforto se minha alma
estava gritando? De que adiantava eu ter uma das educações melhores e
mais caras do mundo se minha educação moral era menos que lixo?
Meus pais se preocuparam em me garantir dinheiro, poder,
conhecimentos gerais e um coração de pedra. Provavelmente era só
disso que eu precisava como princesa. Talvez eu não quisesse coisas
irrelevantes como vida, felicidade e liberdade. Apenas as pessoas comuns
queriam essas porcarias.
Teresa se casou no ano seguinte, mas permaneceu morando no
castelo. Foi o marido dela que se mudou para nossa casa. Eu passaria a
odiá-lo mortalmente.
Dois anos depois, foi Catarina que saiu. Tanto Teresa quanto
Augusto ganharam filhos. Mas eu nunca mais tinha visto Augusto desde
o dia em que ele foi embora.
Somente quando completei 14 anos que meus pais começaram a
mencionar o meu casamento. Mas eu não estava tão interessada nisso
como minhas colegas. Para elas, um casamento arranjado com um
príncipe parecia um negócio exótico e emocionante. Podia até ser, mas
estava longe de ser romântico ou desejável.
– Quando nós vamos visitar o Gus?
Lucas me perguntava isso com frequência. Ele estava com nove anos,
idade que eu tinha quando Augusto foi embora.
Eu conseguia enxergar claramente meu eu de nove anos nele:
inocente, curioso, chorão. Lucas derramava lágrimas com facilidade e
estava sempre com medo.
De minha parte, eu estava experimentando o lento e doloroso
processo de me transformar nas minhas irmãs. Eu não tinha mais o
Augusto como modelo. Meu modelo absoluto agora era a princesa
Teresa e seu marido ainda mais intragável. Imaginei que os dois apenas
não tinham destruído o mundo ainda porque meus pais ainda estavam
vivos.

34
Mártires Vermelhos

Catarina estava morando em Sardes. Não a visitávamos tampouco.


Eu já tinha vários sobrinhos que não conhecia.
Era meio assustador pensar que dali quatro anos seria minha vez.
Afinal, por que minha vida seria diferente? Mesmo Augusto que tentou
fugir não conseguiu. Então por que eu escaparia daquela roda do
destino, daquela sede pelo poder, pelo dinheiro e pelo dever de agradar
meus pais? Eles já não tinham sido agradados o bastante obrigando meus
três irmãos a fazer coisas que não queriam?
Até então, eu nunca soube se Teresa e Catarina queriam aquilo ou
não. Elas sempre fingiram que queriam e foram obedientes. Pode ser
que, no meio do processo de lavagem cerebral, elas tenham aprendido a
desfrutar o poder de forma genuína.
Mas havia vários tipos de poder no mundo. Eu sabia que, se não
fosse tentada pelo poder político, ainda podia ser tentada pelo poder
religioso. Havia muitas outras tentações perigosas soltas no mundo.
Fitando o medo do meu irmão menor, eu já me achava muito sábia e
poderosa. Mas mesmo naquela época eu ainda não sabia de nada.
Eu mantinha meu teatro. Aluna modelo. Frequentando o templo
todos os domingos com minha família. Assistindo ao espetáculo
religioso proporcionado pelo sacerdote dourado silencioso.
Meus pais só nos obrigavam a rezar, ler os Selos e ir ao templo para
manter a tradição e as aparências. Meu pai não parecia tão interessado
em religião como clamava ser. Ele desejava aliados fortes e sabia que,
embora já não fosse tão poderosa quanto no passado, a religião ainda era
uma força atuando no nosso mundo, mesmo na política.
Aos poucos eu senti que uma parte importante de mim ia morrendo.
Era realmente terrível assistir tudo aquilo dia após dia: a morte de tudo
que eu acreditava que me fazia humana.
Sem perceber, desejei me tornar semelhante à Teresa, porque por
mais que eu a odiasse eu também a admirava.
Isso começou nas coisas pequenas. Passei a usar um penteado
trançado como o dela. Deixei meus cabelos negros crescerem até a
cintura, como ela fazia. Enrolei as tranças menores em tranças maiores.
Até o estilo do vestido era o mesmo.
Eu só lamentava por Lucas. Nós quatro já tínhamos nos perdido. Só
faltava ele. E Lucas não teria mais o exemplo admirável de Augusto, que

35
Wanju Duli

estava longe e já devia ter sido há muito tempo corrompido pela sua
terrível esposa.
Eu apenas aceitei tudo isso. Me conformei à realidade inevitável.
Meu pai escolheu um dos filhos do rei de Esmirna para mim.
Pensando bem, não seria tão ruim. Esmirna era perto de nosso castelo
de verão. Eu poderia ver minha família ao menos uma vez ao ano.
Mas será que eu queria mesmo estar perto? Talvez aquilo tudo não
fizesse diferença. Podia ser que eu desejasse mesmo me casar e ir para
longe. Pena que eu não era tão otimista em acreditar que morar em outra
família real fosse melhorar a situação.
O rapaz fez uma longa viagem para me visitar, pois queria me
conhecer antes do casamento, que se daria dali quatro anos.
Até achei gracioso o gesto dele. Se ainda houvesse um sentimento
assim dentro de mim. Foi como Teresa falou: eu não acreditava mais em
contos de fadas.
Ele se chamava Tiago. Tinha minha idade. Era mais ou menos o que
eu esperava: boa aparência, ótimas maneiras, sorriso charmoso. O
perfeito príncipe encantado, com conhecimento de todas as línguas
relevantes de nosso mundo e sem nenhum outro assunto interessante
para tratar além da qualidade da tapeçaria do meu castelo.
Era um pesadelo. Porém, um pesadelo que ambos parecíamos
dispostos a suportar. Ele devia estar pensando mais ou menos o mesmo
a meu respeito e eu fiz questão de me portar de acordo. Além de falar da
tapeçaria, fiz comentários adequados sobre as porcelanas caras. E
passamos o resto da tarde falando sobre as porcelanas do castelo dele.
Quando Tiago foi embora, eu me perguntei se poderia haver algum
veneno no meio de todas aquelas garrafas que havia espalhadas pelas
adegas.
Eu não era forte o bastante para fugir e tentar iniciar uma nova vida
em outro lugar. Principalmente porque, após uma vida de tanto luxo e de
tanto ser paparicada, eu jamais aguentaria viver como uma camponesa
qualquer.
– Está tudo bem, Bibi?
Lucas entrou na sala. Eu o tranquilizei.
– Está sim – foi minha resposta – que achou de Tiago?
– Não sei. Ele não parecia ser uma pessoa.

36
Mártires Vermelhos

– Como assim?
– Parecia ser um quadro. Um que ganhou o primeiro prêmio num
concurso e está muito orgulhoso.
Eu desatei a rir. Fiquei mais relaxada com esse comentário
inesperado.
– Mas ele não parece tão ruim, né? – perguntei – não do tipo que vai
começar guerras idiotas ou que vai matar inimigos de forma covarde?
– Acho que ele ainda vai precisar de muita maldade para ficar
parecido com o João.
João era o marido da Teresa. Como ele ainda não era rei, ainda não
havíamos tido a oportunidade de apreciar toda a sua sede pelo poder.
Mas ele já havia dado muitas sugestões estúpidas para meu pai, que
parecia adorá-lo.
– Tem uma coisa que eu queria te contar, Bibi – disse Lucas – um
gálata apareceu para mim nos sonhos.
– Mas isso não pode ser – falei, surpresa – você precisa ofertar seu
sangue para recebê-lo. Você matou um cordeiro?
– Não... ele apenas veio para mim.
Será que Lucas era assim tão puro?
– O que o gálata te disse?
– Ele me revelou profecias – falou Lucas – ele mandou que nós dois
saíssemos de Pérgamo imediatamente. Nós precisamos fugir o quanto
antes.
Eu ri.
– Eu não vou fugir – deixei claro – tenho muitas provas essa semana.
Já estudei muito. Quero garantir o primeiro lugar.
– Se continuarmos aqui, vamos morrer – disse Lucas.
– Por quê?
Eu não estava levando aquela conversa realmente a sério.
– O castelo está amaldiçoado – revelou Lucas, misteriosamente – o
Dragão está aqui.
– O Dragão? Que Dragão?
Digamos que eu não andava muito religiosa naqueles tempos. Tinha
muitos outros afazeres importantes para me preocupar com aquelas
lendas da minha infância.
– O gálata me disse que uma feiticeira poderosa amaldiçoou o castelo.

37
Wanju Duli

– A única feiticeira poderosa que eu conheço vivendo aqui é Teresa –


falei – mas que eu saiba ela nem gosta de religião. Não consigo acreditar
que ela esteja adorando o Dragão secretamente.
– E se for João?
João poderia ter influenciado Teresa. Eu não sabia quais eram os
rituais que eles tinham em Sardes. Será que a religião do Dragão era
popular por lá?
– Bem, não importa quem amaldiçoou o castelo, mas é algo muito
perigoso – garantiu Lucas – e nós dois precisamos sair imediatamente.
– E Teresa? – perguntei – e nossos pais?
– Não sei. O gálata só mandou que nós dois saíssemos. Somos os
únicos do castelo que ainda não fizeram pacto com o Dragão.
– Então o Dragão é uma metáfora para adoração do dinheiro e do
poder? – perguntei – pois se for assim, acho que eu também já caí no
inferno.
– Não é metáfora nenhuma, Bibi. O gálata disse que precisamos ir
embora já!
– Peça para o gálata dar uma prova da existência dele – exigi – peça
isso a ele essa noite. Se o que você disser se realizar, eu acredito. E farei
o que você quiser.
– Combinado! – exclamou Lucas, contente.
Na manhã seguinte, Lucas me disse algo incrível:
– Daqui dois dias, o pai vai chamar um vermelho aqui em casa para
nos dar aulas.
– O quê?!
Meu coração acelerou apenas ao ouvir o termo “vermelho”. Todas as
recordações da minha infância retornaram.
Já fazia muito tempo que não havia procissões na minha janela. Em
poucos anos, nosso reino estava se tornando cada vez menos religioso.
Só alguns dourados e negros ainda permaneciam, para realizar os ritos de
costume.
Os vermelhos morriam rápido. Se não houvesse novos jovens
suicidas para substituí-los, é claro que eles iriam terminar.
Eu só via os mártires de longe. Nunca mais tinha visto um nos
últimos anos. Eles tinham coisas mais importantes com que se ocupar do
que desfilar na minha janela.

38
Mártires Vermelhos

Perguntei para meu pai, como quem não quer nada, se ele já tinha
planejado minha aula de religião para o sábado.
– É o de sempre – ele respondeu – por quê?
– Nada.
Já fazia dois anos que eu não tinha mais aulas com a Lisa. Agora
quem me ensinava era Artur, um professor bem velhinho e que sabia
tantas coisas que até ficava difícil de entender o básico que eu queria
saber.
Porém, no dia seguinte meu pai contou que aconteceu um
imprevisto.
– Infelizmente o seu professor morreu.
– Mas..!
Na verdade foi bastante trágico. Eu gostava muito do professor Artur
e fiquei meio chocada. Para alguém com poucos sentimentos, até que
fiquei bem emotiva ao saber da morte dele.
Fomos convidados para o funeral. Fazia muitos anos que eu não ia
num funeral. Já nem me lembrava como era.
Havia alguns negros. Com nenhuma parte do corpo à vista, como
sempre. Enterraram o corpo, realizaram as cerimônias religiosas e tudo
acabou.
Meu pai também gostava do Artur. Ao saber que o rei compareceria
ao funeral, houve ainda mais convidados. Depois fiquei sabendo que
meu pai trocou algumas mensagens escritas com um negro.
– Arranjei um novo professor para você, Bibi – informou meu pai.
– É mesmo? – perguntei – é o eremita negro com quem você estava
conversando?
– Não. Contei a ele que você sempre admirou os vermelhos, desde
pequena. Então achei que você iria gostar se um deles fosse te dar aulas.
O eremita me contou sobre um membro muito inteligente que ingressou
recentemente na Ordem dos Mártires.
Eu gelei. Um vermelho ia me dar aulas. O que Lucas disse era
verdade. Então o resto também devia ser verdade, certo?
Voltei para casa gritando e pulando de alegria.
– Eu não vou sair desse castelo nunca mais, ouviu? – garanti a Lucas.
– Como assim? Você não ouviu a profecia...?

39
Wanju Duli

– Para o inferno com a profecia! Um vermelho vai ser meu professor!


Não me importo se eu morrer depois disso.
Eu estava falando sério. E até fiquei surpresa comigo mesma.
Eu estava tremendo de emoção! Nem consegui dormir na noite de
sexta para sábado, tamanha era a minha ansiedade.
Nunca pensei que eu admirasse tanto assim os mártires vermelhos.
Sempre ouvi sobre eles, fizeram parte da minha vida. No fundo, eles
eram a única coisa que eu admirava no mundo. A única esperança em
meio a um mundo doente e insano.
Enquanto um monte de reis estúpidos faziam guerra por dinheiro e
poder e falavam de tapeçaria e porcelana, havia um grupinho discreto de
jovens de forte fé que aceitavam escapar do teatro da vida para sangrar
dentro de um cálice pelo Cordeiro.
Os monges calicianos, que se comunicavam com os hereges
draconianos em terras distantes através dos gálatas. Depois morriam
torturados e tinham suas carnes devoradas por canibais. Não era
emocionante?
Por que tantos jovens buscavam esse destino terrível em vez de
brincar de porcelana? Isso fazia meu coração bater mais forte. Aquela
aparente insanidade e paixão me dizia que havia algo muito especial no
mundo que ainda valia a pena acreditar. Algo mais precioso que tapetes
pelo qual valia a pena morrer: o Cordeiro imolado.
Descobri dentro de mim um coração vivo e pulsante onde antes
pensei existir um coração de pedra. Era como se meu coração tivesse
parado de bater aos meus nove anos. Agora, cinco anos depois, eu
voltava a dançar como uma criança, sorrindo pelas alegrias simples da
vida.
Mesmo se me oferecessem o príncipe mais belo e o reino mais rico,
eu jamais teria sorrido daquele jeito.
Corri pelo castelo e contei a novidade para todos. Lucas também
estava animado. Meu pai, claro, ficou feliz da vida ao saber que acertou
na decisão. Até minha mãe gelada sorriu para mim.
Mas a maior surpresa foi a reação de Teresa.
– Um mártir vermelho vai pisar no nosso castelo?
Ela cobriu a boca com a mão ao dizer isso. Logo ela, que jamais se
importou com religião.

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Mártires Vermelhos

– Pensei que não era permitido – falei, chorando – ou que nossos


pais nunca iam querer. Pensei que a Ordem deles não iria autorizar essas
coisas. Ou que o pai acharia bobagem. Eu não... jamais imaginei...
Sentei no chão e chorei como uma criança. Eu tinha ganhado o
mundo. Só porque um rapaz suicida iria me visitar no dia seguinte.
Eu queria saber como eles eram. O que pensava uma pessoa que
aceitava morrer de repente, mesmo tendo a vida toda pela frente? Que fé
grandiosa era essa que era mais forte que o peso de uma vida?
João também apareceu e achou a situação toda muito divertida.
– Esses sujeitos são completamente pirados – ele garantiu – eles
pintam o manto com o próprio sangue que arrancam por autoflagelação
e sonham em morrer esquartejados lentamente. No mínimo, vou querer
apertar a mão de um cara desses. Eles têm colhões.
– A regra da Ordem deles diz que ninguém pode se aproximar de um
vermelho a uma distância menor que dois metros – revelei.
– E se eu encostar nele de surpresa sem que ele perceba? – perguntou
João.
– Ele provavelmente vai se mortificar por não ter prestado atenção e
vai arrancar um pouco de sangue de si – informei – eles sempre levam os
instrumentos de autoflagelação no cinto.
Eu tinha feito muitas perguntas para meus professores de religião e
estava bem informada.
João riu bastante quando eu o informei sobre isso.
– Não seja rude com nosso convidado – disse Teresa – você sabe que
a religião ainda tem sua força. E se esse rapaz espalhar coisas ruins sobre
a nossa hospitalidade entre os outros membros da Ordem? Isso pode se
espalhar para outros reinos. Você sabe que o voto de silêncio não os
impede de fofocar por linguagem de sinais.
Ah, é claro que essa era a única preocupação de Teresa...
Acabei me dando conta que na verdade eu sabia muito sobre os
vermelhos. Consegui responder várias perguntas difíceis que João e
Lucas me fizeram naquele dia.
Só que ainda havia muito que eu não sabia. Eu teria coragem para
perguntar diretamente para um mártir vermelho quando conversássemos
frente a frente?

41
Wanju Duli

E como conversaríamos? Provavelmente eu faria minhas perguntas


de forma oral e ele me responderia por escrito. Isso se ele não fosse
surdo. Eu sabia que muitos deles eram surdos ou cegos, escolhendo
renunciar dos sentidos por vontade própria. Mas só os mártires tinham
permissão de fazer essas coisas extremas, para lhes dar forças para
entregar a própria vida pelo Cordeiro. Entre os dourados e negros essas
mutilações não eram muito encorajadas, pois podiam despertar vaidade.
Após passar a noite sem dormir, finalmente chegou o grande dia.
Passei a manhã quase dormindo em minhas aulas de etiqueta e política.
Depois do almoço, enquanto o aguardávamos chegar, meu coração
quase saía pela boca. E se eu chorasse de emoção quando o visse? Mas
que bobagem, eu já havia visto vermelhos dezenas de vezes na infância!
Só que sempre de muito longe e de relance...
Finalmente eu teria uma conversa longa frente a frente com um deles.
– Jeremias, 24 anos, filho do conde de Mármara – informou meu pai.
– O que é isso? – perguntei.
– As informações pessoais do mártir vermelho. Eu as obtive
secretamente, pois, como rei, tenho meios de obtê-las.
– Eu não acredito! – exclamei, sinceramente ofendida – pai, por que
você fez isso? A Ordem dele exige sigilo! Imagina se ele souber que eu
sei dessas coisas!
– Calma – meu pai tranquilizou-me – ele não vai saber.
– E se eu soltar sem querer?
– Aí será problema seu ser uma idiota.
Típico do meu pai fazer um comentário babaca como aquele.
Então ele era dez anos mais velho que eu. Ainda assim, bastante
jovem. E filho de um conde... caramba. Então era verdade que jovens da
alta nobreza largavam tudo para morrer longe de casa.
Ele devia ter recebido uma ótima educação. Eu esperaria grandes
coisas dele.
Quando os guardas nos avisaram que o vermelho tinha cruzado o
portão principal, eu quase saí correndo para me esconder.
– Você fique aí – mandou meu pai, levantando-se – eu irei
recepcioná-lo, mas pode continuar por perto para eu apresentá-la. E
você também, Lucas.

42
Mártires Vermelhos

Até Teresa e João quiseram ficar para ver. Percebi que alguns
empregados nossos também não resistiram em espiar. Seria uma boa
história para contar quando chegassem em casa.
Quando o rapaz de manto vermelho entrou pela porta, prendi a
respiração. Ele era tudo o que eu imaginava e muito mais. Senti a
sensação de nostalgia ao relembrar da infância. Sim, era exatamente o
querido manto vermelho da minha memória!
O empregado que abriu a porta para ele sentiu um pouco de receio e
medo e imediatamente se afastou. Comunicamos a todos do castelo a
regra dos dois metros e estavam todos tomando o maior cuidado.
– Seja bem-vindo, respeitável mestre mártir vermelho! – clamou meu
pai – fico muito feliz que tenha aceitado meu convite. Espero que se
sinta à vontade em nossa humilde morada.
Nossa morada não tinha nada de humilde. Ela mostrava ostentação
exagerada.
A relação da realeza com os sacerdotes calicianos era de respeito
mútuo. Por isso, era frequente uma situação incômoda de não se saber
quem devia fazer uma reverência maior.
O vermelho curvou-se claramente diante de meu pai. E ele também
curvou-se ligeiramente diante de cada um de nós, os príncipes, quando
fomos apresentados.
Concluí que aquele cara não era cego e nem surdo. Fiquei contente.
Mesmo assim, era exótico receber uma reverência de alguém que eu
admirava tanto. Meu pai não perdeu tempo e explicou ao vermelho que
eu iria lhe mostrar o caminho da sala de estudos para que ele me desse
minha aula particular.
– Por favor, me acompanhe – eu disse a ele.
E o vermelho me seguiu. Sempre mantendo a distância correta. Acho
que ele já estava tão acostumado a calcular os dois metros que não via
necessidade de manter uma distância muito maior que essa para garantir
que sua regra fosse mantida.
Indiquei a ele uma cadeira. Contudo, ele sentou-se no chão.
Subitamente me lembrei que eles evitavam sentar em cadeiras,
especialmente se fosse uma muito confortável. Infelizmente só havia
cadeiras confortáveis por lá.

43
Wanju Duli

Para ser educada, sentei-me no chão com ele. Sabia que não era
cortês sentar-se acima de um sacerdote.
Subitamente, fiquei nervosa. Pensando bem, tudo nele me deixava
nervosa: a máscara, o fato de eu não ver os olhos dele, suas mãos com
luvas. Como será que ele conseguia enxergar? A visão e a audição dele
deviam ter limites embaixo daquele manto.
E agora? O que iria acontecer?
– Vamos... começar a aula? – sugeri.
Ele retirou um bloco de anotações de dentro do manto e escreveu.
Eu fiquei com o coração na mão enquanto ele fazia isso.
Quando terminou, ele levantou-se, dirigiu-se a um canto da sala de
estudos e botou o bloco lá. Eu tive que me levantar para pegá-lo. Aquela
conversa não seria muito prática.
O que ele escreveu foi o seguinte:

“Boa tarde, Princesa Bibiana,

Vossa Alteza deve estar ciente de que essa se trata de uma situação muito
especial. Sua Majestade certamente lhe informou das circunstâncias.
Sinta-se à vontade para me fazer algumas perguntas que Vossa Alteza julga
mais urgentes. Contudo, sinto o dever de informar que seu castelo foi vítima de uma
poderosa maldição e eu fui aqui enviado para realizar um exorcismo dessa residência.
Trata-se de um exorcismo muito perigoso que pode custar-me a vida. Por isso fui
aqui enviado em vez de um sacerdote dourado. Sou o servo do Cordeiro imolado e meu
mais profundo desejo é morrer por ele.
Sendo assim, caso aqui se dê a minha morte, já foi acertado com Sua Majestade
que aqui poderão repousar as minhas relíquias”.

Aquilo tudo foi simplesmente bizarro. Ele praticamente tinha me


dito: “Há altas chances de eu morrer hoje, mas enquanto isso vamos
debater teologia”.
Lucas parecia estar certo. Se o gálata tivesse dito a verdade, também
havia alguma chance de eu e ele morrermos. Eu torcia para que não
fosse nas próximas horas, antes de eu fazer todas as perguntas que eu
queria.

44
Mártires Vermelhos

Com o vermelho por perto, senti-me estranhamente protegida.


Mesmo se a maldição cumprisse seu curso, eu quis acreditar que com a
enorme fé que ele tinha, ele teria poder para nos salvar.
E mesmo que não tivesse, se mesmo assim eu estava disposta a
arriscar morrer para ter minhas perguntas respondidas, eu também
acreditei na força da lendária fé que um dia tive na infância e que aos
poucos renascia.

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Wanju Duli

Capítulo 2

Tudo aquilo era tão emocionante e mágico que eu nem sabia por
onde começar a fazer minhas perguntas. Se eu fosse seguir minha razão,
teria preparado uma longa lista com pelo menos umas cem perguntas.
Mas resolvi seguir meu coração.
– Por que você se tornou um mártir vermelho? – perguntei – por que
quer dar a sua vida pelo Cordeiro? De onde veio tanta fé?
Eu devia ter mencionado a profecia de Lucas e o gálata, mas resolvi
ignorar a questão da maldição por enquanto. Porque a busca pela
verdade era mais importante que o medo do poder do Dragão. E essa
busca seria meu escudo.
O vermelho pôs-se a escrever imediatamente. Ele escrevia muito
rápido. Provavelmente era fruto de muito treino.
Quando ele colocou seu bloco de anotações no mesmo lugar da outra
vez, resolvi prestar atenção na letra dele. Ligeiramente difícil de ler
numas partes, mas um pouco elegante. Consideravelmente riscada e
meio de lado.

“Tornei-me isso que sou porque é meu dever. Não há mais nada a ser feito.
Nós não pertencemos a esse mundo. Nosso destino é outro lugar. Quando há esse
entendimento, não somente racional, mas do fundo de nosso espírito, que mais há para
ser realizado?
A missão de todos nós é servir ao Cordeiro imolado. É verdade que ele tem planos
diferentes para cada um. Por isso, mesmo que eu deseje estar com ele hoje no mundo
dos gálatas, devo aceitar o meu fardo de estar separado do meu maior amor.
O pensamento de continuar vivo no mundo material é quase insuportável, mas eu
jamais abreviaria minha existência. O Cordeiro enviou cada um de nós aqui por uma
razão. Para nos conectarmos por carne e espírito. Aceitarei essa dor terrível de estar
separado da Pomba, da Luz, de sua Voz de Trovão.
Morrer para mim é grande sorte. Ao sentir dor, me uno ao Cordeiro Imolado. A
alegria é sangrar. O conforto me separa.
A fé não veio de mim, mas daquele que sempre é e será pela eternidade”

46
Mártires Vermelhos

Foi uma resposta completa. Quase uma poesia. Ele era muito mais
sentimental do que pensei.
Inicialmente imaginei que aqueles que se tornavam mártires o faziam
por motivos racionais. E ele tinha suas razões: não há felicidade em
tapetes, certo? Eu entendia isso.
Mas desejei ouvir da boca dele. Ou ler das mãos dele.
Confesso que fiquei imensamente satisfeita com essa resposta longa e
floreada. Ele levou a sério minha pergunta. Pelo jeito gostou dela.
Afinal, os vermelhos gostavam de pregar os Selos. Claro que ele
queria me selar também E eu queria ser selada na fé.
– Obrigada – eu disse – acho que entendo seus sentimentos. Não
compartilho completamente deles, pois ainda me sinto muito presa a
esse mundo. Você não sente prazeres e tentações? Não é difícil? Não é
doloroso? Não sente saudades da família e dos amigos?
Ele voltou a escrever. Meu coração batia forte. Eu me sentia um
pouco unida a ele naquela conversa. Era o mais perto que eu havia
estado de um vermelho. Queria conhecer pelo menos o mínimo de seu
coração.
É claro que o coração dele era inatingível. Como eu poderia entender
um mártir? Aquele que se sacrifica pelo mundo? Era muito maior do que
qualquer coisa que jamais sonhei.
Meu irmão já quis morrer por uma pessoa que mal conhecia. Uma
empregada da nossa casa. Será que então cada um de nós também
possuíamos potencial para ser um mártir? Nem mesmo precisávamos ser
vermelhos.
Li o que ele escreveu dessa vez.

“O maior prazer para mim é cumprir o meu dever. Simplesmente fazer o que deve
ser feito. A coisa mais nobre do mundo é a obediência.
Devo obedecer aquele que é infinitamente sábio. Que aquilo que quero seja aquilo
que o Cordeiro quer.
De que vale minha vontade? Sou falho, sou fraco. Eu só me levanto porque ele me
levanta.

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Wanju Duli

Minhas tentações são o Dragão mordendo meu calcanhar. Eu o espanto com o


chicote. Quando sinto tentação no corpo, eu me jogo no chão, rolo na areia, nos
espinhos, arranco o sangue.
A carne deve viver pelo espírito. O Cordeiro me deu este corpo não para que eu o
venere, mas para que sirva de instrumento. O corpo não é para minha satisfação.
Meu corpo e meu espírito são de Deus. Sou todo dele.
Meu prazer não deve me agradar e sim servir o Imaculado.
Minha família e meus amigos são aqueles que vivem pelo Cordeiro comigo. Mas
não devo me separar dos hereges. Por isso, eu e os outros vermelhos nos juntamos aos
servos do Dragão, para levar a eles o Selo.
Nós desejamos estar entre sujos. Nós devemos amar os sujos, mas não a sujeira
que eles fazem.
Isso não é doloroso. Estar com o Cordeiro na dor é a maior alegria desse mundo.
Apenas doi quando dele me separo. Mas às vezes ele quer que eu me separe para
sentir saudade e reencontrá-lo. Todos passamos por essas trevas, mas é pela lembrança
da tristeza das trevas e do Dragão que voltamos ao caminho da Luz”

Até que ele era bom com palavras. Devia ter se tornado um dourado
para escrever livros e ensinar aos leigos. Não acabar com todos aqueles
dons e inteligência buscando a própria destruição.
Mas eu desconfiei que não era assim que funcionava o raciocínio
dele. Pela lógica, ele iria beneficiar muito mais gente estando vivo. Podia
dedicar sua vida para ajudar os outros, para escrever, para curar. Em vez
disso, ele queria jogar seu corpo e mente fora.
Só que ele não estava jogando fora. Estava dando-os totalmente para
o Cordeiro.
Era tudo ao mesmo tempo muito complicado e muito simples. Mas
eu não era forte o bastante para entender.
Eu tinha um pouco de vontade de perguntar sobre a infância e
juventude dele antes de tornar-se um vermelho. Mas eu sabia que ele não
tinha autorização para responder aquilo. Decidi que eu mesma poderia ir
atrás dessa informação posteriormente, já que eu conhecia o nome dele e
sua família.
– Você já leu as cinco mil páginas dos Selos? – perguntei – você
acredita literalmente em tudo que está nos nossos livros sagrados? Eles

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Mártires Vermelhos

foram escritos por humanos e possuem falhas mesmo sendo


divinamente inspirados, certo?
Sua resposta foi a seguinte:

“Eu já havia lido todos os Selos antes de entrar para a Ordem. Porém, na
Ordem somos obrigados a decorar a maior parte deles. Devemos decorar o máximo
que conseguirmos antes de morrer. Conheço um mártir que sabe as cinco mil páginas
de cor, pois ele já leu os livros completos dezenas ou centenas de vezes desde criança.
Mas de nada adianta ler apenas a Letra e não penetrar no seu Espírito. Um
acadêmico pode analisar apenas as palavras, mas lê-las dessa forma causa morte. Ler
pelo Espírito é o caminho da imortalidade.
As pessoas que enxergam apenas a Letra pensam que só existem dois caminhos:
interpretar os textos literalmente ou por símbolos. Contudo, o outro mundo não é
como esse. Esse texto retrata o Espírito do outro mundo.
Os textos são perfeitos e sagrados para a mente do outro mundo. O Cordeiro é
perfeito e assim também são seus profetas. Quando lemos, é preciso nos esvaziar de
nós mesmos. Devemos ser nada, para que o Cordeiro nos preencha.
Devemos ser purificados pelo sangue e pelo fogo antes que a palavra penetre em
nosso coração”.

Ele era muito romântico.


Eu estava tremendo. Eu estava diante de um santo, ou diante de um
poderoso feiticeiro das palavras, pois ele me dava essa sensação de
tontura. Tudo o que ele escrevia me deixava em êxtase.
Se ele fosse um príncipe e me escrevesse aquelas coisas, talvez eu
quisesse me casar com ele e me apaixonasse fortemente pela primeira
vez.
Eu tinha vontade de oferecer-lhe todo o dinheiro do mundo para que
aquele cara embaixo do manto casasse comigo. Eu sabia que ele era
nobre, mas mesmo que ele fosse um camponês pobre, desejei estar perto
dele.
Só que aquela pessoa não podia ser comprada. Ele ia morrer.
Desaparecer. Era aquilo que ele queria: unir-se ao Cordeiro. E nada mais.
O que ele dizia fazia um sentido tão forte que era quase sobrenatural.
Era mais lógico que qualquer pensamento filosófico que já conheci.
Porque se baseava não na carne mas no espírito.

49
Wanju Duli

– O que é o Espírito? – perguntei – posso ver e tocar a carne. Mas


não posso apreender o Espírito com meus sentidos físicos.
Lá foi ele escrever. Eu o observava atentamente enquanto ele fazia
isso. Estava muito concentrado. Quase em transe. Escrevia tudo de uma
vez, sem nem parar para pensar.

“O Espírito é o Cordeiro. E o Cordeiro é aquilo que é infinito, sem limites. O


Cordeiro não se permite ser aprisionado na teia da lógica humana. Ele jamais pode
ser capturado por sentidos humanos.
É por isso que você não pode vê-lo, cheirá-lo ou tocá-lo. Os humanos só tocam
coisas finitas. Só entendem aquilo que possui limitações.
Mas o Cordeiro é o incriado. Veio antes de nós. Dele tudo veio e para ele tudo
volta. Que arrogância humana tentar pegar numa rede o Imolado!
Nós somos carne e espírito. A carne é nossa parte finita. O Espírito não tem fim.
É o Cordeiro em nós. Mas ele também está fora de nós. Estamos separados e
sentimos dor.
Jamais poderemos nos tornar como o Cordeiro. Mas podemos participar de seus
planos, de sua profecia, de sua visão beatífica.
Para servir ao Cordeiro precisamos nos soltar de nossa vontade. Cair no chão,
humilhar-se, morrer, morrer e morrer. Nada menos que morte para merecer a
eternidade”

Se fosse mesmo verdade que tínhamos uma alma imortal, não havia
dúvidas. Qual era a prioridade: salvar um corpo que não viveria mais de
cem anos ou dedicar-se a uma alma que não conheceria a morte?
Eu entendia tudo o que ele dizia. Mas como eu poderia nutrir
semelhante paixão?
– Mas como ter certeza que o Espírito é real? – perguntei – como
saber se existe o Cordeiro, a vida eterna e o outro mundo? E se você
morrer por nada? E se os gálatas forem apenas imaginários? Você já se
comunicou com um deles?
Queria poder ver o rosto dele para olhar as expressões que ele fazia
conforme minhas perguntas. Afinal, dessa vez fui particularmente
ousada.
Ele respondeu à altura:

50
Mártires Vermelhos

”Não temos certeza se a matéria é real. Você sente a matéria fortemente em seu
coração? Capta sua eternidade? Ela é finita, se transforma em outras coisas, morre
diante de nossos olhos. Mas o Cordeio e nossa alma não se transformam em outras
coisas. Eles não podem ser divididos em partes, mas são feitos da mesma substância
espiritual.
Esse é um entendimento metafísico que adquirimos pelo estudo, mas mesmo sem
adentrar na ontologia o coração sente. Mas o que é o coração? Não é essa bomba que
bate no peito. Nossa inteligência vem da alma, reflexo do Cordeiro Imolado.
Pelo Espírito sentimos todo o resto e ele possui consciência de si mesmo e daquele
que o criou. Sabemos que o amor é eterno. O amor não termina. Não o verdadeiro
amor. Pois só é verdadeiramente real aquilo que não conhece a corrupção e a morte.
A matéria não é completamente falsa, mas ela é o servo do espírito. Ela é boa,
mas passa por corrupção. Ela só possui beleza quando se torna uma serva daquele
que criou esse mundo e irá destruí-lo.
Posso te explicar tudo isso pela Letra, mas enquanto você não captar o sentimento
imortal pulsando nessas palavras, será letra morta. A letra é cheia de morte quando
não se apoia no coração sangrento do Imolado.
Mesmo com carne, sentimos o Espírito e o Cordeiro. Participamos do céu quando
o corpo é escravizado por seu Senhor. Pois o céu não é sentido somente na morte.
Participamos dele em sua perfeição após a morte, mas agora já vemos com considerável
clareza. É o bastante para seguirmos em seu caminho.
Nós morremos por nada quando ignoramos o Cordeiro. Quando vivemos pelo
prazer do corpo. Quando somos selvagens, sem mestre.
Os gálatas são seres puros sem corpos completamente reais. Mas só chegamos a
eles após passar por uma imitação da morte. É preciso sangue. Aquele sangue que
derrama do espírito.
O sangue do corpo vem fácil. É a seiva da terra. Mas o espírito brilha e acorda
quando há o sacrifício.
Já vi um gálata e já me comuniquei com eles. Os gálatas são espírito, mas eles não
são perfeitos. Extremamente bons, mas conseguimos nos tornar parecidos a eles com
muito esforço. Por isso podemos chegar a eles. Isso é possível ainda nessa vida. Mas
ver a face do Cordeiro só é possível com a morte: quando nos livramos de tudo que é
finito e mergulhamos na imortalidade”

Estava ficando cada vez mais emocionante.

51
Wanju Duli

– Que é a morte? – perguntei – como ela acontece? Por que


acontece? Há como fugir da morte? Derrotá-la? Superá-la?
Ele escreveu o seguinte:

“A morte é aquilo que nos purifica. O Cordeiro, em sua infinita sabedoria, nos
deu a morte não como punição, mas como possibilidade de salvação e redenção.
Não devemos fugir da morte e sim persegui-la. Ela é o único meio para
alcançarmos plena comunhão com o eterno. É só através dela que largamos a finitude
que tanto veneramos em vida.
Venerar a finitude é venerar falsos Deuses. As coisas do mundo são bonitas
somente quando são vistas pela Luz do Imolado. Ele deve vir em primeiro lugar.
Todo o resto será escuridão se não tivermos sua luz.
A dor e a morte são como presentes que nos unem ao Cordeiro. Pois o Cordeiro
sangrou e foi sacrificado. Devemos imitá-lo em tudo.
É dito que alguns santos já subiram aos céus sem passar pela corrupção da morte.
No entanto, isso foi pela vontade do Cordeiro, que sabe mais que nós.
Não devemos desejar sermos poupados da morte. Mesmo que fosse possível, de que
nos serviria? Dor e morte estão aqui por uma razão. O Cordeiro quis que dor e morte
nos mostrassem o que realmente importa na vida, separando o real do imaginário.
Alegrias verdadeiras de alegrias falsas.
A morte não deve ser superada ou derrotada, mas abraçada. O Dragão será
derrotado pela morte. Quando morremos pelo Cordeiro, o Dragão treme de medo e
grita.
O Dragão deseja que nós odiemos a morte e a dor e nos seduz com os prazeres.
Por isso, só chegaremos ao Cordeiro amando sofrimento e morte. Não encontrando um
prazer doentio neles, mas enxergando que tudo aquilo que Deus fez é puro. Então até
a morte pode ser pura e plena de significado quando morremos por ele”.

Teoricamente, aquilo era perfeito. A minha mente entendia, mas não


meu coração.
– Mas na prática sentimos medo da morte – observei – de onde você
tirou tanta disciplina para conseguir superá-lo?
Ele escreveu:

“Eu sou fraco e limitado. Jamais conseguiria isso por mim mesmo. Isso só é
possível quando largamos de nós mesmos e confiamos completamente no Cordeiro.

52
Mártires Vermelhos

Nós devemos seguir o exemplo dele. Fazer o que ele fez. Isso se chama fé, o
tesouro mais precioso desse mundo.
Só encontramos esse tesouro através da humildade. É preciso humilhar-se
completamente. Servir ao mundo por caridade, morrer pelo mundo. Mas não morrer
por amor às coisas finitas. Morremos por elas quando as vemos como reflexo da
compaixão do Imolado.
Nada do que faço de bom vem de mim. Nenhuma força que possuo é minha.
Tudo que há de bom em mim veio do Cordeiro. Ele também me dá a fé. Eu apenas a
aceito pelo meu livre-arbítrio.
Tudo de mal que possuo não vem de Deus, mas de minhas limitações: quando
escolho, por vontade própria, me separar do Cordeiro para venerar a mim mesmo e ao
mundo finito. É o que o Dragão deseja. Mas não devemos dar ouvidos a ele.
Minha disciplina é bênção exclusiva do criador. Ela não vem de mim. Mas eu
não sou perfeito. Tudo o que faço de errado é quando falho em fé e entendimento. Eu
falho porque ainda tenho limites. Com a morte largarei os limites do corpo e serei puro
espírito.
Com a morte vem medo, mas também amor. Sentir medo da morte é pensar que
estamos sozinhos e iremos desaparecer. É o medo da solidão, da separação, do não ser.
Mas quando morremos pelo Cordeiro não há um medo real, apenas um medo falso
fabricado pelo Dragão. Pois a morte nos separa do mundo finito, mas nos une ao
mundo imortal, ao Cordeiro Imolado. Por isso a morte é a maior alegria. É estar
junto, é cumprir nosso destino”

Derramei algumas lágrimas. Não pude evitar. Acho que ele notou.
– Perdão – falei, enxugando as lágrimas – você é tão sábio! Queria
poder me aproximar... por que vocês não podem tocar as pessoas? Isso
também não é um tipo de amor?
Lá foi ele escrever outra vez. Eu já tinha feito muitas perguntas
nobres. Estava na hora de eu satisfazer minha mera curiosidade de
adolescente. Eu me permitiria esses pequenos caprichos.
Ele escreveu o seguinte:

“As regras de nossa Ordem são extremamente rigorosas. Não é errado que as
pessoas se toquem e se amem. Esse amor é genuíno. Quando acreditamos no Cordeiro
podemos viver e morrer pelas pessoas que amamos, pois cada um de nós possui uma
alma imortal. Esse tipo de vida também é admirável e possui sua beleza.

53
Wanju Duli

Ser um mártir não é para todos, pois o Cordeiro possui planos diferentes para
cada um. Ele não deseja que a raça humana se extinga. Virá um dia em que o
Cordeiro destruirá o mundo. Ele abrirá os sete selos e os gálatas assolarão a terra.
Nesse momento, irá julgar os vivos e os mortos.
Enquanto aguardamos a vinda do Imolado, a carne é necessária. Porém, para
cumprir minha vocação, é preciso que as coisas sejam dessa forma.
Eu sou fraco. As regras da Ordem me ajudam a preservar a disciplina. A fé me
sustenta, é meu alimento. Nós fazemos jejuns rigorosos e temos uma vida sofrida. Isso
porque os mártires são como cordeiros se preparando para o abate. Eis nossa missão.
Quem se prepara para a morte deve preparar seu coração, unindo-o completamente ao
do Cordeiro.
É sabido que no instante exato da morte chegam muitas tentações. O Dragão
ataca com força total. Para isso, devo domar o corpo e sentir cada vez mais o Espírito.
O gálata contou-me que irá proteger-me na hora da morte. Ele levará minha
alma para o céu num globo de fogo. Assim, o Dragão não poderá abocanhá-la”

A vida que ele levava era como um belo conto de fadas. Na verdade,
uma história trágica de guerra espiritual, com animais mágicos, dragões e
espíritos.
E ele acreditava seriamente em todas essas coisas. Aquilo não era
admirável?
Eu também queria acreditar. Mas como eu conseguiria imitar o
Cordeiro? Desde criança eu rezava e lia os Selos todos os dias. Assistia as
cerimônias do templo todos os domingos. Então por que a minha fé
ainda era tão fraca?
Eu disse tudo isso a ele. E o vermelho escreveu:

“Às vezes apenas isso não é o bastante. Não basta fazer somente o mínimo,
embora o mínimo seja o primeiro passo.
Quando nosso coração endurece demais com as amarguras do mundo, é preciso
uma purificação mais forte, mais violenta. Não são poucos os que encaram a dor e a
morte como reflexo da maldade do mundo. Essas coisas devem ser vistas pelo que são:
expiação. Uma maravilhosa oportunidade de penitência.
Você deverá buscar imitar o Cordeiro na medida de suas forças. Mas nunca se
contente com o que consegue fazer. Tente sempre melhorar. Cada dia deverá identificar
as suas falhas, pedir perdão, perdoar e prosseguir na jornada”

54
Mártires Vermelhos

Essa foi uma resposta gentil e leve. Ele teve piedade de mim. Podia
ter sido um pouco mais cruel comigo, mas ele optou por não ser.
Talvez eu quisesse que ele fosse cruel, mas eu também tinha um
pouco de medo de escutar certas coisas.
Eu sabia o que precisava ouvir: eu devia colocar o Cordeiro como o
centro da minha vida. Todo o resto era supérfluo. Mas isso doía um
pouco. Senti que fazendo isso eu perderia uma parte daquilo que sou.
Mas perder-se era necessário para reencontrar-se. A morte era necessária
para renascer.
E por que apesar de eu saber de todas aquelas palavras bonitas eu não
fazia o que tinha que ser feito?
– Você é feliz? – perguntei.
Ele escreveu:

“A única felicidade real é através do Cordeiro. Sozinho, eu me perderia. Prefiro a


morte a viver separado do Imolado. Por isso, hoje sou mais feliz do que jamais fui.
Mas eu também aceito perder minha felicidade e liberdade pelo Cordeiro. Vivo apenas
pela sua glória e não pela busca da felicidade. Mesmo assim, a alegria com a
imortalidade da alma inevitavelmente chega como reflexo de ver as coisas à Luz de
Deus”

Pensei em fazer alguma pergunta que o deixasse constrangido, mas


não tive coragem. Eu o respeitava demais para fazer uma brincadeira
maldosa como essa.
Como ele falou, ele só era capaz de manter sua disciplina como mártir
através de muito esforço. Eu não devia dificultar as coisas.
Mesmo assim, resolvi perguntar algo ligeiramente incômodo:
– Você já teve uma namorada?
A resposta dele foi breve e natural:

“Vossa Alteza deve saber que eu não tenho autorização da Ordem para
comentar detalhes sobre minha vida pessoal e sobre meu passado. Por isso peço minhas
sinceras desculpas”

55
Wanju Duli

Tão formal. Bem, eu não poderia culpá-lo. Além de ele ser um


vermelho, eu era uma princesa. Eu não devia esperar que ele falasse
informalmente comigo.
– Tudo bem, não tem problema – eu disse – por que vocês fazem
voto de silêncio? Por que não podem mostrar as mãos, o rosto e nem
mesmo os olhos?
Eu me interessava em cada movimento que ele fazia. A concentração
dele era admirável enquanto ele escrevia. Raramente parava. As palavras
fluíam com rapidez e destreza.

“Ao nos tornarmos vermelhos, morremos para o nosso passado. Essa é a primeira
morte. Portanto, não há mais necessidade de mostrarmos nossa pele, nosso rosto ou
olhos. Não é necessário sermos identificados. Nós recebemos novos nomes, mas esses
nomes só são conhecidos entre os membros da Ordem. Eu não sei a identidade dos
outros membros e não preciso saber. Não faço a menor ideia quem era rico ou pobre,
embora certas coisas possam ser identificadas por diferenças na escrita e atitude.
Apenas tentamos reduzir essas diferenças ao mínimo.
O silêncio também é um desejo de humildade. Ao pronunciarmos palavras,
muitas vezes nos enchemos de vaidade com nossa sabedoria. No silêncio, ouvimos
Deus. Quando falamos, muitas vezes tropeçamos. Ao escrever, é possível montar o
raciocínio com mais clareza e reflexão, cuidando para não trair o Espírito do
Cordeiro”

Ele escrevia muito rápido. Mas devia fazer isso tantas vezes que já
tinha se acostumado.
– Há quanto tempo você entrou na Ordem?

“Passamos por um treinamento intenso de três anos para nos formarmos


vermelhos. Os mais dedicados terminam em dois anos. Eu terminei em dois e já estou
ativo há um ano”.

– Quando você partirá para fora dos sete reinos para cumprir seu
sacrifício? Dizem que vocês não vivem muito mais de um ou dois anos
após saírem. E a maior parte de vocês parte logo que completa o
treinamento, certo?

56
Mártires Vermelhos

“Isso está correto. A Ordem solicitou que eu permanecesse um tempo a mais por
aqui porque eles precisavam de alguém com conhecimento dos Selos para atualizar as
regras da Ordem. Mas agora que já obedeci a incumbência de meu superior, devo
partir o quanto antes. No máximo em um mês”

Um mês. Era pouquíssimo tempo. Então ele devia ser realmente um


dos mais bem educados e inteligentes da Ordem para ter recebido aquela
tarefa e permanecer preso por mais um ano.
Imaginei que para ele aquele ano a mais tinha sido um tormento. O
que ele mais queria era morrer.
– Não foi doloroso permanecer preso aqui por mais um ano?
Ele escreveu:

“Rezei ao Cordeiro para que me desse paciência para suportar isso tudo. Quanto
mais me aproximo do dia de minha partida, mais meu coração se alegra”

Ele era fortemente sentimental para escrever coisas como “meu


coração se alegra”. O mundo que ele vivia era recheado de alegorias e
símbolos. Apesar disso, ele acreditava na existência literal do Cordeiro e
da vida após a morte, já que estava disposto a fazer tudo aquilo.
A presença viva do vermelho e suas escritas me inspiraram de uma
forma que eu jamais poderia ter imaginado. É claro que enviaram para
mim um dos mártires mais impressionantes ainda vivos (porque os mais
impressionantes mesmo já deviam estar mortos) já que foi um pedido da
família real.
E ele mostrou ser tudo aquilo que eu acreditava que ele seria, e muito
mais. Sua lógica era impecável. Sua postura respeitável. Em tudo, era o
reflexo da perfeição.
Ainda assim, ele não parava de dizer que era fraco. Então o que eu
era? Nada. Absolutamente nada.
Pensando bem, todos éramos nada perto do Cordeiro.
E qual seria minha vocação? Me casar com um fã de tapeçaria, fazer
algumas guerras e morrer? Como todos íamos morrer de qualquer forma,
não era melhor morrer pelo Cordeiro? Pelo menos assim tudo valeria a
pena.

57
Wanju Duli

Mas o mais importante era: como eu poderia viver por ele? Afinal, eu
não tinha nascido só para morrer. Desejaria fazer algo bom com a minha
existência antes do fim.
Eu não queria passar o resto dos meus dias com uma existência
egoísta.
E ali estava na minha frente a pessoa perfeita para pedir conselhos!
Eu precisava aproveitar. Talvez eu nunca mais tivesse uma oportunidade
parecida.
– Você pode fazer algum ritual para me abençoar? – perguntei – o
que você pode fazer para me ajudar?
Dessa vez ele parou um pouco para pensar antes de escrever. Achei
aquilo curioso.
Ele escreveu o seguinte:

“No meu entendimento, uma das formas mais efetivas de comunicar a sabedoria
dos Selos é através da Letra viva. Falamos de forma simples para pessoas simples,
mas Vossa Alteza conhece a teologia, a filosofia e a história. Por isso, esse seria um
caminho particularmente forte para dobrar seus joelhos.
Mas eu entendo que não somos apenas razão. Precisamos de mais para seguir o
Cordeiro. É preciso que todo nosso ser seja tocado. Sendo assim, além do
entendimento racional precisamos das experiências místicas.
Isso é completamente fora do protocolo e eu teria que fazer penitência por isso
depois, mas eu posso abençoar Vossa Alteza brevemente. No caso de uma visita de
um gálata, terá que passar por um ritual de purificação”.

O que ele queria dizer com isso? O que ele pretendia fazer?
– Eu aceito, mas você pode me dizer antes o que vai fazer? –
perguntei – eu confesso que estou com um pouco de medo.
Eu conhecia o envolvimento deles com rituais com sangue. E se ele
fosse me cortar? Eu queria me preparar psicologicamente. Mesmo para
um pequeno corte eu precisaria me concentrar. Não queria ser pega de
surpresa.

“O ritual em si é bem simples e com pouca dor. Se houver um cálice de bronze no


castelo, podemos fazer esse tipo de ritual. Senão, há alternativas”

58
Mártires Vermelhos

Sim, ele ia me cortar. Eu me perguntava o que ele queria dizer com


“pouca dor”. Afinal, a resistência corporal e mental dele devia ser muito
superior à minha.
– Há um cálice na sala. Posso ir até lá buscá-lo?
Ele assentiu brevemente com a cabeça. Eu me levantei e saí da sala.
Fechei a porta por trás de mim.
Respirei fundo. Eu estava sem fôlego!
Era como se eu tivesse acabado de sair de outro mundo. A mera
presença do vermelho transformou completamente o ambiente da sala
de estudos. Agora ela se parecia mais com um templo do que com
qualquer outra coisa.
Corri para buscar o cálice. Segurei-o com as mãos trêmulas. Eu não
sabia se ele já tinha sido usado alguma vez.
Quando retornei, ele havia deixado a seguinte mensagem escrita:

“A presença do príncipe Lucas no ritual também seria apreciada. Eu poderei


fazer uma cerimônia de proteção para ambos, para que se guardem da maldição que
ronda o castelo. Isso poderá não salvar a vida do corpo, mas selará a alma, que é o
mais importante”

Só mesmo um monge caliciano para usar a expressão “vida do


corpo”. Para a maioria, era óbvio que vida se referia ao corpo.
– Sim, é claro. Irei trazê-lo.
Corri outra vez. Bati na porta do quarto de Lucas e quando entrei ele
ficou surpreso.
– Você está chorando – observou Lucas.
– Ele é tão sábio! – exclamei, em lágrimas – tão... diferente! Especial.
Não há ninguém como ele nesse mundo. Talvez só no outro.
– Vocês já terminaram?
– Preciso que venha comigo.
Expliquei a ele as circunstâncias e Lucas me seguiu.
Quando retornamos, as luzes da sala estavam apagadas. O vermelho
havia acendido uma vela e segurava um punhal afiado.
Encontrei uma mensagem escrita por ele na mesma mesa:

59
Wanju Duli

“Peço o perdão da Vossa Alteza por ter apagado as luzes sem autorização. Senti
que deveria iniciar a preparação o quanto antes. A atmosfera do castelo está se
tornando cada vez mais pesada. Sinto cheiro de doença. Uma doença da alma, que
reflete na carne. Peço que se sentem a um metro de mim. Na ocasião de rituais, é
permitida a distância de um metro”

Mostrei o recado para Lucas. Ambos fizemos o que estava escrito.


E ele estava escrevendo outra mensagem. Levantou-se e colocou na
mesa. Lucas foi buscar.

“É comum que em rituais acabemos por nos aproximar menos de um metro. Não
se preocupem. Se ocorrerem acidentes, a culpa não recai sobre quem recebe o ritual. Eu
realizarei todas as penitências posteriormente para cobrir minhas falhas”.

Dessa vez ele deixou o punhal em cima da mesa junto com as


próximas instruções:

“Não é necessário muito sangue. Sugiro um corte na ponta de um dos dedos, que é
mais fácil pingar do que um corte na palma da mão, que precisaria ser mais fundo.
Não precisamos de sangue de pulso. Não tanto assim. Peço que tentem fazer por si
mesmos antes de eu interferir. Basta que cada um pingue algumas gotas e me retornem
o cálice. Concluirei os procedimentos”

– Posso ser o primeiro, Bibi? – perguntou-me Lucas.


– Vá em frente – eu disse.
Lucas pegou o punhal e afundou a ponta num dos dedos. Apertou o
próprio dedo e pingou algumas gotas.
Então era assim tão simples? Tentei fazer o mesmo, mas não tive
coragem.
– Quer que eu faça para você? – perguntou Lucas.
– Não! – exclamei – espera...
Tentei outra vez, mas falhei de novo. Eu não podia acreditar que meu
irmão de nove anos conseguia fazer aquilo como se não fosse nada e eu
estava sendo medrosa na frente de um mártir que estava disposto a
entregar seu corpo inteiro pelo Cordeiro.

60
Mártires Vermelhos

Eu estava desperdiçando tempo precioso. Sabia disso. Pela


mensagem que o vermelho escreveu, notei que ele estava com um pouco
de pressa.
Devo ter ficado uns dez minutos ali, tentando cortar o dedo sem
conseguir. Eu apenas encostava levemente a lâmina, mas nunca arrastava
fundo o bastante.
Até que o vermelho se aproximou. Ele rompeu a distância de um
metro. Por causa da minha covardia, ele teria que fazer penitência depois
por ter feito aquilo. Eu era mesmo uma idiota.
Mas o que ele fez superou muito o que eu esperava. Não sei porque
eu imaginei que ele faria algo diferente. Mesmo assim, eu não estava
preparada.
Ele segurou minha mão esquerda com sua mão esquerda. Mesmo que
ele estivesse usando luvas, eu senti o toque dele. A luva não era muito
grossa.
As batidas do meu coração estavam tão fortes que eu sentia meu
corpo inteiro pulsar. Eu torcia para que ele não reparasse no meu
nervosismo.
Ele, por outro lado, parecia tranquilo. Segurou o punhal com a mão
direita e picou meu dedo para derramar exatamente a quantidade de
gotas de sangue necessárias.
Como será que ele estava enxergando? Foi então que eu reparei, por
trás da máscara, que ele usava um tipo de tecido sobre os olhos. Havia
uma leve transparência no tecido e eu notei um breve momento em que
ele piscou os olhos por trás dos tecidos. Só olhando assim de perto que
eu conseguia ver.
Eu não conseguia enxergar a cor da pele e a cor dos olhos. Mal vi os
olhos, para ser sincera. Só distingui que piscaram.
Mas eu não vi nada mais depois disso. Ele se afastou de mim e levou
o cálice consigo.
Respirei fundo. Lucas deu um sorriso divertido quando reparou que
eu estava nervosa. Tive vontade de mandá-lo para aquele lugar, mas eu
provavelmente iria desejar me matar depois se eu falasse uma coisa rude
daquelas na frente de um mártir vermelho. Ainda mais um tão elevado
como ele.

61
Wanju Duli

Senti um odor leve quando ele estava perto. Antigamente eu achava


que os mártires deviam cheirar a sangue e morte. Mas esse vermelho
parecia ser do tipo certinho que se lavava regularmente e que também
lavava as roupas. Eu não sabia quais eram as regras da Ordem a esse
respeito.
Me imaginei fazendo uma pergunta idiota do tipo: “Quantas vezes
vocês tomam banho? Vocês têm permissão de usar sabonete ou xampu?
Aliás, vocês têm cabelos?”
Mesmo que eles tivessem entrado na Ordem para morrer, no dia a dia
isso devia fazer diferença.
Interrompi meus devaneios para prestar atenção no que ele estava
fazendo. Ele acrescentou um tipo de óleo no cálice, de um frasquinho
que ele retirou de dentro das vestes.
Imaginei que ele devia ter um monte de instrumentos debaixo do
manto além do punhal e do óleo. Talvez um chicote.
Havia um silêncio quase completo na sala escura. Por isso, levei um
susto quando comecei a escutar sussurros.
Era muito baixo. Inicialmente não ouvi nada, mas me espantei ao ver
que era o vermelho que estava sussurrando uma reza muito baixinho.
Não identifiquei nem a reza e nem o idioma falado. Mas eu sabia que era
uma reza. Só podia ser.
Ele acrescentou outra coisa dentro do cálice, parecido com folhas
secas. Depois, colocou fogo.
Senti o cheiro de queimado. Até que o fogo se extinguiu.
– Galácia! – exclamou Lucas, me dando outro susto.
Ele apontou para um lugar.
– O quê? – perguntei.
– Há um gálata ao lado... dele – disse Lucas – você não consegue ver?
Eu não conseguia. Duvidei dele.
– Senhor... mártir vermelho – falei, sem saber como me referir a ele –
você pode ver o gálata?
Ele escreveu:

“Sim. O príncipe Lucas está avançado na jornada”

Jornada? Que jornada? E eu? Não era pura o bastante?

62
Mártires Vermelhos

Só podia ser porque ele era criança. Dizem que os gálatas protegem
as crianças. Mas eu já era adolescente. Provavelmente tinha perdido
minha proteção e minha pureza.
Ou talvez porque fosse mais fácil para as crianças terem fé. Elas ainda
não tinham sido corrompidas pelas mentiras do mundo. A mentira de
que o Cordeiro era fruto da imaginação.
A próxima mensagem do vermelho foi bem assustadora:

“Galácia informou que o Dragão está rondando o castelo. Eu precisarei purificar


todos os aposentos. Gostaria de pedir por um guia que me conduza a cada um dos
cômodos que eu tiver permissão de adentrar”

– Vou falar com meu pai – informei.


Meu pai deu permissão para que o vermelho entrasse em todos os
aposentos, sem exceção. Até mesmo em alguns que nem eu e meus
irmãos tínhamos permissão de entrar.
Sendo assim, meu pai chamou um empregado de sua alta confiança
para acompanhar o vermelho. Aquele passeio pelo castelo levou horas.
Não sei quanto tempo ele levava para purificar cada lugar.
Depois disso, ele requisitou permissão para passar a noite no castelo.
Ele recebeu uma mensagem do gálata de que o Dragão atacaria naquela
noite. O vermelho ficaria de vigia.
Meu pai permitiu, é claro. Mesmo que para ele religião fosse apenas
tradição, acho que no fundo ele ainda nutria algum respeito por aquilo
tudo. Sim, bem no fundo ele acreditava e tinha medo. Ele não tinha
muito medo de mandar matar gente na vida real, mas acho que ainda
temia pela punição divina.
Além das penitências que ele provavelmente faria por ter se
aproximado de mim e tocado na minha mão, eu também soube que ele
passaria a noite inteira sem dormir e não comeria nada enquanto
estivesse no castelo.
Resolvi não interferir. É óbvio que ninguém se meteu. Ele devia estar
acostumado a fazer jejuns e vigílias muito longos. Para ele, um ou dois
dias sem dormir e sem comer não devia ser quase nada.

63
Wanju Duli

Eu jamais aguentaria uma vida de fortes privações como aquela. A fé


necessária para uma coisa dessas ultrapassava em muito minha
imaginação.
Por isso as bênçãos e proteções dele eram tão poderosas. Ele havia
largado completamente de si mesmo.
Durante a madrugada, ele fez sua vigília num aposento isolado. Eu
não fazia a menor ideia de que medidas ele estava tomando para se
proteger e como seria a tal batalha dele contra o Dragão.
Imaginei que eu não teria permissão para assistir, mas bem que eu
queria. Ou melhor, eu morreria de medo. Era melhor não estar perto.
Lucas me avisou que nós dois estávamos especialmente vulneráveis
àquela maldição. Mas eu queria acreditar na proteção do vermelho.
No meio da madrugada acordei com um barulhão. Todos acordamos.
Eram três e meia da manhã.
Não foi um barulho qualquer. Era o som de móveis sendo quebrados
e arremessados.
Eu levantei da cama e corri. Lucas me acompanhou. Dessa vez, até
Teresa nos seguiu.
O que eu vi era extraordinário demais para ser real.
Uma estante pesada de livros estava simplesmente flutuando no ar.
Livros voavam. Até que a estante se quebrou na parede, com um
estrondo enorme.
Pisquei duas vezes. Os móveis voltaram para o lugar. Não havia mais
nada voando.
Teria sido alucinação? Mas o som foi ensurdecedor!
– Vocês viram...? – perguntei, com voz trêmula.
– Os livros voaram – disse Lucas, boquiaberto.
– Do que vocês estão falando? – perguntou Teresa, confusa – eu não
vi nada.
– Mas o barulho você escutou, não é? – perguntei.
– Sim, eu acordei por causa dele – respondeu Teresa.
Foi realmente alto demais. E assustador. Como uma besta
ensurdecedora pronta para matar.
Pensando bem, aquele som de móveis se arrastando realmente me
lembravam um pouco de rugidos de feras.
– Galácia está lá! – apontou Lucas.

64
Mártires Vermelhos

Ele correu para uma direção da sala. Nós corremos atrás dele. Não vi
nada parecido com um gálata, embora eu não fizesse a menor ideia da
aparência que eles tinham.
Mas foi lá que localizamos o vermelho. Ele estava caído no chão,
provavelmente desmaiado, em cima de uma poça de sangue.
Eu nunca vi tanto sangue em toda minha vida. E o sangue pingava
dos móveis caídos sobre os quais o corpo dele se estendia.
– Ele está morto? – perguntei, apavorada.
– E agora? – perguntou Teresa – qual é o procedimento? Não temos
permissão de encostar nele nem quando há riscos de morte?
Coloquei meu cérebro para funcionar. Eu já tinha feito essa pergunta
para o professor Artur uma vez. E se ele estivesse certo...
– Usem um cobertor – instruí – envolvam o corpo nele para movê-lo.
Meus pais também tinham acordado. Bem, nós tínhamos médicos.
Eles não moravam dentro do castelo, mas nas proximidades.
Quando chamamos os médicos, eles conseguiram mover o corpo do
vermelho da maneira correta, com segurança, cuidando para não quebrar
o pescoço dele ou qualquer outra fatalidade que poderia resultar da parte
de um leigo.
Ele foi levado para um hospital. O problema foi que lá no hospital
eles fizeram tudo sem consultar a Ordem dos Mártires.
Eu e Lucas resolvemos ficar na sala de espera, enquanto meus pais e
Teresa foram para a cerimônia religiosa dos domingos. Meus pais nos
permitiram faltar para ficar no hospital.
É verdade que a situação do vermelho era de urgência. Um caso de
vida e morte. Mesmo assim, os médicos deviam saber que os vermelhos
tinham regras específicas para esses casos. Só não sabiam quais eram.
Eles simplesmente optaram por proceder como fariam com qualquer
um. Mas logo que a Ordem foi informada do ocorrido, algumas horas
depois, eu e Lucas avistamos três vermelhos nos corredores do hospital.
Havia um rapaz acompanhando os três vermelhos. Ele usava um
manto branco, mas não cobria o rosto ou as mãos. Ele tinha o mesmo
símbolo dos mártires no manto, mas tinha permissão para falar.
Esse cara tinha um sotaque bem forte. Não identifiquei de onde era.
Nos sete reinos falávamos o mesmo idioma, mas havia diferença de

65
Wanju Duli

sotaque. Prestando atenção, concluí que ele fosse de Tiatira e aquilo fazia
sentido: lá era onde havia mais vermelhos. Era a sede deles.
A conversa do cara de branco com o médico começou de forma
pacífica. Mas em pouco tempo o rapaz de manto branco se
descontrolou. Ele começou a gritar alto, falando sobre o absurdo da
situação.
Pelos gritos dele, eu entendi que os médicos tinham retirado a
máscara e as luvas do vermelho. Na verdade, tinham removido também
o manto dele.
Mas o pior não era isso. Eu escutei que o vermelho usava um tipo de
cinto e outros instrumentos de mortificação pressionando a pele e esses
instrumentos foram removidos pelos médicos.
Eu entendi a posição do médico. Ele queria salvar a vida do
vermelho. Era natural para ele remover tudo aquilo que estivesse
prejudicando de alguma forma a saúde do seu paciente.
Mas o objetivo dos monges vermelhos não era preservar a saúde do
corpo e sim do espírito. O cara de branco em algum ponto da conversa
gritou:
– Então devia tê-lo deixado morrer!
Eu e Lucas nos entreolhamos e arregalamos os olhos quando
ouvimos isso.
Eu também sabia que o vermelho estava disposto a morrer no nosso
castelo naquela noite. Inclusive, se isso tivesse acontecido as relíquias
dele nos pertenceriam.
Mas mesmo sabendo que ele partiria para sempre do nosso reino dali
no máximo um mês, eu ainda o preferia vivo do que ter um braço dele
no nosso cofre. Queria ter a oportunidade única de me comunicar com
ele de novo, mesmo que por escrito.
Pessoas muito santas geralmente não ficavam muito tempo vivas.
Elas queriam se matar o quanto antes pelos outros. Era difícil para nós,
meros mortais, ter acesso a elas em suas breves vidas.
Soubemos que o vermelho estava são e salvo. Ele já tinha acordado.
Mas é claro que não tivemos permissão de vê-lo.
Mesmo assim, ele enviou uma mensagem para nós, que nos foi
entregue pelo cara de branco. Diferente dos seus gritos com o médico,

66
Mártires Vermelhos

ele se dirigiu a nós com enorme reverência. Ele sabia que éramos os
príncipes de Pérgamo.
Eu e Lucas abrimos a folha de papel e lemos juntos. Era realmente a
letra do vermelho

“Vossa Alteza,

Infelizmente perdi o privilégio de ser martirizado nessa madrugada. Só posso


imaginar que as coisas tenham ocorrido dessa forma porque o Cordeiro tem outros
planos para mim. Espero que esses planos envolvam um martírio muito mais
doloroso e sob tortura, para que eu possa imitar com ainda mais fidelidade o Imolado.
Não guardo ressentimentos a respeito da atitude dos médicos para comigo. Eles
estavam fazendo o seu trabalho e eu o meu. O trabalho deles é salvar corpos e o meu
salvar almas. Ambas são vocações nobres aos olhos do Cordeiro e não vejo motivos
para sentir tristeza sobre o ocorrido, pois as intenções deles foram puras, embora para
mim o resultado seja desastroso. Em breve cumprirei minhas penitências para
compensar.
Em meio a esse mar de calamidades, trago também boas notícias. O Dragão foi
afastado. Galácia protegeu o castelo. No entanto, os ares da doença ainda rondam
Pérgamo. Eu sugiro que ambos, príncipe Bibiana e príncipe Lucas, se afastem por
tempo indeterminado.

Muito respeitosamente,

O.M. 10091

Aquela carta me fez abrir um sorriso. Por vários motivos.


Apesar dos pronomes formais de tratamento, senti um ligeiro toque
de informalidade. Mas não de um jeito ruim. Era uma informalidade
leve, com um toque brincalhão. Eu quase senti um pouco do senso de
humor do vermelho.
Além disso, também pude sentir um pouco de sua vaidade. Não sei se
a vaidade dele escapou sem querer ou foi planejada para fazer parte do
toque humorístico. Mas eu fiquei feliz de saber que ele optou por
compartilhar conosco um pouco de seu lado mais humano.

67
Wanju Duli

É claro que sempre havia a chance de ele ter escrito tudo aquilo com
intenção séria. Mas não achei que fosse isso. Era verdade que ele queria
ter sido martirizado naquela madrugada. Também era verdade que ele
não ficou brabo com os médicos.
Porém, ainda havia algo mais verdadeiro que tudo aquilo: o vermelho
tinha habilidade com as palavras. Então ele deu um jeito de, ao mesmo
tempo, comunicar a verdade sem erro, mas também colocar um pouco
de sentimento nessas palavras, quase como um convite para termos uma
maior aproximação.
Mesmo assim, ele não mencionou nada sobre um segundo encontro.
Imaginei que, como os membros da realeza éramos nós, o convite devia
partir de nossa parte.
– O que significa “O.M. 10091”? – perguntou Lucas.
– É uma forma antiga de denominação que eles usam para se referir
uns aos outros dentro de certos círculos – expliquei – mas não é o nome
secreto deles. “O.M.” é “Ordem dos Mártires”. E o número deve ser o
número dele na Ordem.
– Isso quer dizer que mais de dez mil vermelhos já foram
martirizados? – perguntou Lucas, impressionado.
Eu também fiquei surpresa. Era muita gente com vocação e fé para
morrer pelo Cordeiro! Mas a Ordem já era bem antiga, então, pensando
melhor, não era tanta gente quanto parecia.
– Não quero sair de Pérgamo – eu disse – e sim marcar um próximo
encontro com o vermelho. Com o nosso caríssimo “O.M. 10091”. Que
acha, Lu?
– Eu concordo – disse Lucas – mas você não está com medo dessa
doença que ele falou?
– Bem, se eu pegar essa doença irei simplesmente usar como
oportunidade para dedicar meu sofrimento à imitação do Cordeiro –
brinquei.
Mas quando eu disse isso eu não imaginava o quão terrível seria a tal
doença. E o quão despreparada eu estava para aguentar algo tão horrível.
Enquanto eu estava saudável, eu não estava nem um pouco
preocupada com essas coisas. Tudo parecia fácil. Na segunda-feira, levei
todas as anotações do vermelho para mostrar para Sara e Paula, sem nem
mesmo saber se eu tinha autorização para isso.

68
Mártires Vermelhos

Elas ficaram impressionadas com o imenso conhecimento dele e pela


capacidade poética com que ele exprimiu todas aquelas coisas.
– Eu quero conhecê-lo! – exclamou Paula, empolgada – posso ir para
seu castelo da próxima vez que você o chamar?
– É claro! – respondi, mais empolgada ainda – eu sei que o nome dele
é Jeremias e ele tem 24 anos. Meu pai descobriu. Ele é o filho do conde
de Mármara.
– Sério? – Paula franziu a testa – espera. Conde de Mármara? O filho
desse conde não estuda no nosso colégio?
– Será que é o irmão mais novo dele? – perguntou Sara.
Eu mal podia acreditar. Será que Jeremias também tinha estudado ali?
Só podia ser. Era o melhor colégio para os ricos de Pérgamo. Ele era
dois anos mais velho que Teresa. Talvez ela o conhecesse!
Resolvemos nos certificar. No intervalo, fomos na sala de aula do
último ano. Perguntamos para os alunos sobre o filho do conde. Foi fácil
encontrá-lo.
Ele ficou muito surpreso quando soube que “a princesa” queria falar
com ele. E dirigiu-se a mim com a mesma reverência excessiva e timidez
com a qual eu já estava acostumada.
O nome dele era Elias. Tinha 17 anos. Cabelos negros ondulados,
pele morena clara e olhos castanhos de tom médio. Tentei imaginar
Jeremias com uma aparência semelhante. Em minha mente se encaixou
bem.
Elias foi muito educado conosco. Mas quando começaram as
perguntas sobre o irmão dele, ele logo mudou de tom.
– Sinto muito – ele disse – não posso dizer nada. Jurei sigilo sobre o
assunto.
Ele informou que a família toda do potencial vermelho precisava
jurar sigilo para não espalhar informações sobre ele, mesmo após sua
morte.
Saímos de lá desapontadas.
– O pessoal dessa Ordem é totalmente paranoico, hã? – comentou
Paula.jóia
– Nem me fale – eu disse.
Eu adoraria saber como meu pai tinha conseguido acesso àquelas
informações. Quantas pessoas será que ele teve que torturar?

69
Wanju Duli

Quando voltei para casa, pedi a ele que convidasse o vermelho de


novo para que fosse me dar aulas no dia seguinte.
– Isso não vai atrapalhar os seus estudos? – perguntou meu pai – não
pode esperar até sábado?
Não, eu não podia esperar. Estava muito ansiosa para vê-lo de novo.
Além do mais, e se ele já tivesse partido para sempre até o sábado
seguinte? Ele podia ir embora a qualquer momento. Ele queria ir o
quanto antes.
– Por favor, pai – fiz uma voz chorosa – eu aprendi muito com ele.
Quero aprender mais.
Nem precisei choramingar muito. Ele se convenceu e mandou trazê-
lo na terça-feira.
Convidei minhas amigas para o castelo nesse dia, mas dessa vez fiz
do jeito certo: avisei os meus pais.
Elas assistiram comigo as aulas particulares da tarde. Mas nenhuma
de nós conseguia prestar atenção.
Assim que as aulas terminaram, corremos para o meu quarto para
fofocar.
As duas estavam completamente fascinadas. Não paravam de ler os
textos que o vermelho tinha escrito. Comentavam sobre algumas frases
particularmente inspiradoras.
– E ele escreveu tudo isso em poucos segundos, com a primeira coisa
que vinha à mente dele? – perguntou Paula, boquiaberta.
– Isso mesmo, foi bem assim – respondi.
– Acho que ele devia escrever pelo menos um livro para deixar como
legado antes de morrer – disse Sara.
– Ou podemos simplesmente marcar várias audiências com ele e
transformar as anotações dele num livro – riu Paula.
Não importava de que ângulo se olhasse: a morte dele parecia um
desperdício enorme. Mas talvez pensássemos assim simplesmente
porque não havíamos entendido a mensagem mais importante que ele
tentou nos passar: que não pertencemos a esse mundo.
O vermelho possuía uma convicção tão forte a esse respeito que a
única coisa que tinha na cabeça era o desejo de ir para o outro mundo o
mais rápido possível.

70
Mártires Vermelhos

Mas para nós era tudo um jogo. Nós admirávamos o mártir vermelho
como se ele fosse um cantor famoso. Tudo bem, nós tínhamos apenas
14 anos. Era nosso jeito de ter interesse por religião.
Geralmente os maiores mestres não deixavam nada escrito. Eles não
estavam interessados em folhas de papel que eram comidas pelas traças.
Eles queriam ser um exemplo vivo.
O vermelho não tinha adquirido todos os seus conhecimentos para
depois se exibir escrevendo um livro com palavras bonitas. Não. Tudo o
que ele aprendeu teve apenas uma finalidade: inflamar seu coração para
desejar ser mártir pelo Cordeiro.
Mas aquilo era insano! Como uma pessoa tão fantástica como ele
poderia existir? Alguém que aceitava dar a vida por um ser invisível.
Ou será que invisível era nosso mundo? Por que viver por coisas que
terminam? Provavelmente porque nos viciamos nisso. E era muito
doloroso deixar esse vício para trás.
– Até que o irmão dele é bonitinho – observou Paula – será que não
tem jeito de você usar sua autoridade de princesa para mandar que ele
tire a máscara?
– Você sabe que a realeza não está acima das ordens religiosas – eu
disse – meu pai está conseguindo essas reuniões para mim a muito custo.
Os mártires são missionários. Eles viajam muito. Não têm o dever de
ficar presos a uma família real específica, como instrutor.
Contei a elas também sobre a confusão que aconteceu no hospital e
sobre o cara escandaloso vestido de branco. Se ele já tinha dado queixas
formais por causa de um procedimento médico, eu nem queria imaginar
o que aconteceria se o vermelho se prejudicasse por causa dos caprichos
da filha do rei.
Eu o respeitava demais para prejudicá-lo por minha causa. Ele quase
tinha morrido para tentar remover a maldição que caiu sobre nosso
castelo. Eu não podia ser assim tão mal agradecida.
Quando um dos empregados bateu na porta do meu quarto para me
avisar que meu professor havia chegado, minhas duas amigas deram
gritinhos de alegria.
Eu torcia para que elas se segurassem e não fizessem nada que não
deviam. Mas aquilo era altamente improvável. Eu vi isso no rosto delas:

71
Wanju Duli

assim que eu abri a porta, elas instintivamente se afastaram, com um


pouco de medo.
– Oi! – exclamei, contente – essas são minhas amigas, Paula e Sara.
Elas irão assistir a sua aula comigo.
Ele apenas fez uma breve reverência.
Falei desse jeito para tentar deixar claro que ele não precisava ser
muito formal comigo. Não sei se deu certo.
Resolvi experimentar ter aulas no meu quarto. Eu raramente chamava
professores para meu quarto. No máximo, já tinha chamado professoras,
nunca homens. Os únicos homens que já tinham entrado no meu quarto
eram meus irmãos, meu pai e os empregados que faziam a limpeza.
Nós quatro nos sentamos no chão. A distância de dois metros foi
rigorosamente respeitada por nós.
Ele já estava começando a escrever alguma coisa em seu bloco de
anotações. Nós três nos entreolhávamos sorridentes.
Quando ele apoiou o bloco na minha mesa e retornou, nós três
corremos até lá, nos atropelando e rindo. Pensando bem, era uma cena
meio patética, mas imaginei que o vermelho iria entender que estávamos
entusiasmadas com a situação. A não ser que, após ser um vermelho por
tanto tempo, ele já tivesse esquecido que estar diante de um vermelho
era empolgante.

“Saudações, Vossa Alteza, e também às suas amigas.

Fico satisfeito em vê-la bem, mas devo reforçar as minhas advertências anteriores:
a praga de Pérgamo já se espalhou. Recebi notícias da capital. Se ainda tem intenções
de deixar o reino, sugiro que parta na direção de Éfeso. A praga pretende seguir seu
curso para Tiatira, onde se fará o foco. Fui informado por Galácia.
De minha parte, irei partir para Tiatira daqui poucos dias e de lá para o reino de
Tarsus, terras do Novo Mundo. Ouço falar que os vermelhos enviados para esses
lados são prontamente martirizados. Em alguns casos são devorados vivos. Soa
promissor.
Possivelmente essa será a última vez que nos vemos, por isso não hesite em fazer
suas perguntas. Será uma imensa honra poder ajudar no que estiver ao meu alcance”.

72
Mártires Vermelhos

Então a doença era mesmo real! Será que já tinha feito suas primeiras
vítimas?
Ele falou que iria viajar para o futuro foco da doença, Tiatira, como
se não fosse nada. Quase como se sugerisse que estava indo para lá
exatamente para tentar pegar essa doença.
Mas é claro que ele não iria admitir aquilo claramente, sendo que
estava me advertindo a evitá-la. De qualquer forma, a jornada dele me
soava poderosa.
Mas não era um pouco injusto? Enquanto ele viajava com um destino
triunfante e completamente sem temor ao encontro da morte, ele me
mandava seguir o caminho para escapar da morte.
Ele certamente disse isso porque sabia que eu não estava preparada
para lidar com a dor. Eu nem mesmo conseguia enxergar o gálata.
– Posso viajar com você? – perguntei.
Talvez ele tenha ficado meio surpreso com minha pergunta, pois
pareceu inicialmente desorientado quando começou a escrever.

“Eu compreendo que a presença do príncipe Augusto em Tiatira seja um motivo


forte que explique esse desejo. Contudo, nossas rotas são perigosas. Normalmente
viajamos apenas com os membros da Ordem. De qualquer forma, se Vossa Alteza
tem intenção de evitar a doença, não seria uma boa hora para essa viagem”

Certo, certo. O vermelho não precisava agir como se fosse meu pai.
Digamos que ele não estava em posição de dar conselhos sobre minha
segurança, sendo que ele não fazia o menor esforço para viver mais um
dia.
Eu adoraria ver o rosto de uma pessoa que dizia com tanta
naturalidade que gostaria de ser devorado vivo.
– Ei – Paula falou antes de mim – nós já entendemos que você é
admirável. Será que você precisa ficar esfregando isso na cara da Bibi a
cada segundo? Você fica dizendo coisas como “quero ser martirizado”,
mas isso é óbvio. Foi para isso que entrou para a Ordem dos Mártires. A
cor do seu manto já mostra como você é elevado. Não precisa elevar a si
mesmo ainda mais através de toda essa vaidade. A nossa religião ensina
que a humildade é a joia mais preciosa. De que adianta ser devorado vivo
se você deixou para trás o mais importante? Se quer morrer pelo

73
Wanju Duli

Cordeiro, faça isso de forma discreta e em silêncio. Não precisa ficar


relembrando o tempo todo que você é capaz de suportar a pior das
doenças e a Bibi é fraca demais para isso.
Eu devia tê-la feito parar, mas não consegui.
Aquilo foi extremamente rude. Ultrapassou as fronteiras de tudo o
que eu conhecia por má educação.
De certa forma, Paula expressou meus pensamentos em voz alta. Ela
disse algo que eu não tinha coragem de dizer. Mas ela não precisava ter
feito dessa forma.
Eu testemunhei um fato inédito: o vermelho não pegou seu bloco
para escrever. Pelo jeito ele ainda estava meio perturbado depois de
ouvir tudo aquilo.
Quando finalmente começou a escrever, fez isso lentamente e com
cuidado. Medindo as palavras.
Então ele havia se afetado. É claro. Até mesmo alguém extraordinário
como ele.
Eu estava curiosíssima para ler a resposta:

“Peço profundas desculpas se deixei essa impressão. Minha intenção não era
contar vantagem, mas uma tentativa de fazer uma piada. Confesso que meu senso de
humor nunca foi muito refinado.
Eu acredito que Sua Alteza possui plena capacidade de enfrentar a praga se
assim o desejar. Contudo, eu a alerto porque eu mesmo já caí doente por ela e minha
luta não foi fácil. Cresci muito em moralidade e espiritualidade após essa batalha.
Para alguns, trata-se da última luta.
Não irei impedi-la de se tornar mártir. Seria belíssimo buscar a doença pelo
Cordeiro. Mas é preciso ter clareza a respeito de seu chamado. É necessário rezar ao
Imolado para que ele lhe revele seus planos com mais detalhes antes de tomar uma
decisão que poderá não ter volta”

Palavras fortes.
Como desconfiei: ele estava mesmo tentando fazer piadas gentis para
me deixar à vontade, e não meramente se gabando.
Eu não imaginava aquele vermelho tendo uma luta difícil. Então
aquela doença devia ser pior que o Dragão. Bem, teoricamente ela foi
provocada pelo Dragão. A tal maldição.

74
Mártires Vermelhos

– Tem uma coisa que eu queria saber – disse Sara – o que vocês
comem? Ou vocês raramente comem?
Fiquei aliviada com a mudança súbita de assunto. Felizmente, Paula
não insistiu na discussão.
Essa era uma pergunta fácil. O vermelho escreveu:

“Só temos autorização de comer uma vez ao dia. Deve ser feito entre as onze da
manhã e meio-dia. Somente são permitidos pão, água, frutas e vegetais, sem nenhum
tipo de tempero. Nunca podemos comer na frente dos outros, nem mesmo dos outros
vermelhos. É frequente que façamos jejuns de longas semanas a pão e água. Também
há jejuns de alguns dias ou uma semana nos quais ficamos somente com água ou
cortamos tudo completamente. Não é permitido comermos nem em caso de doença. Só
a água pode ser retomada na doença em um retiro sem ela”

Eu já imaginava algo assim. Até fiquei surpresa que os jejuns não


fossem mais longos.
Se bem que eu nunca havia passado mais do que algumas horas sem
comer. Eu não fazia a menor ideia do quão difícil poderia ser beber
somente água por vários dias seguidos.
– Sério? – Paula riu – pensei que alguns de vocês ficassem em jejum
por meses seguidos. Conheço algumas meninas que fazem jejuns até
mais rigorosos do que os de vocês para emagrecer.
– Mas de que adianta fazer a coisa certa por motivos errados? –
perguntei – pelo menos se elas quiserem se ordenar um dia, já estarão
adaptadas a essa dura vida.
– Como são as penitências? – perguntou Sara.

“Não tenho autorização para dar detalhes sobre todas as nossas penitências. Elas
consistem em nos preparar para momentos de morte e dor. Toda a dor que sentimos
tem em vista imitar o sofrimento do Cordeiro ao ser imolado. Mas diferente do que as
pessoas pensam, nossas austeridades mais importantes envolvem abstinências. Jejuns e
vigílias são nossas mortificações mais importantes. Aprender a suportar a dor da fome
e do sono é nosso primeiro passo. Quem não sabe lidar com alguns dias sem dormir,
sem comer e sem beber água, não estará preparado para aguentar as outras coisas”.

75
Wanju Duli

Em nosso mundo, muita gente ficava sem comer por motivos


estéticos ou sem dormir por causa de trabalho e estudos. Eu mesma
sacrificava algumas horas de sono para estudar frequentemente.
Mas ele não fazia essas coisas por beleza ou por dinheiro. Era quase
como se ele zombasse de nossos pequenos valores. Ele estava acima de
tudo isso.
Será que nossos valores eram pequenos mesmo? Bem, se o Cordeiro
e a vida após a morte existissem, definitivamente precisaríamos repensar
toda a nossa vida.
Haveria alguma forma de provar que tudo isso era verdade? Eu
perguntei isso a ele.

“O Cordeiro não deseja mostrar o rosto para quem não é digno dele. Se ele se
mostrasse claramente, de que adiantaria? Algumas pessoas são tão céticas que mesmo
se vissem os mortos se levantarem dos túmulos não acreditariam. Nós, seres humanos,
normalmente só aprendemos as grandes verdades da vida pela dor. Não há outro
caminho para o sério buscador. É claro que alguns poucos indivíduos são capazes de
enxergar o Cordeiro nas pequenas belezas do mundo e para esses a jornada será mais
leve. O Cordeiro quis que fosse assim. Ele facilitou o caminho para uns e dificultou
para outros porque cada um necessita de graus diferentes de purificação antes de
estarmos preparados para fitá-lo face a face. Por isso, é dito que aquele que fita a face
do Imolado sem ser puro, morrerá. Mas aquele que é puro e o olha, viverá para
sempre”

Eu já tinha lido algo parecido com isso nos livros dos Selos. Mas por
que quando aquelas palavras vinham dele pareciam muito mais
relevantes? Provavelmente porque eu sabia que ele vivia tudo o que dizia.
Ele falava de coração e não da boca pra fora.
Lembrei que ele usava aqueles instrumentos de mortificação perto da
pele. Ele devia estar sentindo a dor deles naquele exato instante. Eu
também tinha ouvido falar que o tecido dos mantos deles era feito de um
material que intencionalmente machucava a pele e causava desconforto.
Mas quando se vive assim o tempo todo, a dor passa a ser a vida e a
verdade. Por isso para ele uma doença ou a morte não eram nada. Nós,
por outro lado, sempre correndo atrás de confortos, sofríamos muito
cada vez que experimentávamos a dor de um espeto no dedo.

76
Mártires Vermelhos

Relembrei da cena patética em que não fui sequer capaz de arrancar


uma gota de sangue de mim mesma. Aquela era minha pouca força e
minha pouca fé, que me afastava do outro mundo e me prendia a esse.
– Não é mais difícil para um nobre tornar-se um mártir vermelho? –
perguntou Sara – imagino que para um camponês, mais acostumado a
privações e a sofrimentos do corpo, pelos trabalhos manuais e pouco
dinheiro, tenha mais facilidade para o caminho da dor.
Por algum motivo, acho que o vermelho gostou da pergunta.
Imaginei isso porque ele já começou a escrever mesmo antes de Sara
terminar de falar e ele estava escrevendo ainda mais rápido do que de
costume.
O texto dele ficou assim:

“Há controvérsias. Cada pessoa carrega consigo dons diferentes, não importa de
onde venha. É verdade que a religião ainda é mais forte no campo. É normal que lá
os filhos sejam educados com rígida tradição de práticas religiosas, o que faz com que
eles sigam esse caminho de forma natural. Eles também podem sentir o Cordeiro na
beleza da natureza. Nos centros urbanos, por outro lado, experimenta-se mais
distrações. Porém, é exatamente por isso que nesses lugares fica evidente que coisas
como dinheiro e diversões vazias não valem nada. Os jovens da cidade sentem os dois
lados da moeda: buscam um prazer desenfreado, mas nunca estão saciados. Eles
sentem que não podem saciar seu desejo de imortalidade em coisas finitas. Poderão
saciá-lo somente em Deus. Mas suas cabeças estão cheias de estudo. Por isso, a forma
mais certa de levar um nobre para a verdade é através dos livros.
Em nossa Ordem, aqueles que chegam do interior costumam ter uma fé mais
natural, ingênua e pura. É algo bonito de se ver, como se fossem gálatas de carne. Por
outro lado, essa ingenuidade também pode derrubá-los. Eles estão mais acostumados a
suportar o frio e o calor, a fome e a sede. Mas não sabem explicar direito porque são
tão fortes. Eles são puro sentimento. Porém, só o sentimento vago de amor e a intenção
sincera não bastam. Os sentimentos devem ser guiados pela razão.
Quando nobres se tornam vermelhos, seus corpos chegam como peles de bebê,
extremamente sensíveis a qualquer tipo de fogo. Suas mentes, por outro lado, são como
diamantes. Eles conhecem a alta teologia, pois seus pais lhes pagaram professores
sábios. E sendo guiados pela razão, ocorre um fenômeno singular: no começo, eles
sofrem mais que todos. Muitos nobres não aguentam. Mas os poucos que ficam são
exatamente aqueles que no futuro são capazes de ir mais longe. Os camponeses

77
Wanju Duli

aguentam a dor porque suas peles já são como couraças. Mas os nobres aguentam a
dor porque suas mentes são fortes escudos. Ter pele de papel ou de ouro não importa
para eles. Eles só querem derreter, pois sabem que deve ser feito. Eles não querem
vencer a dor. Desejam senti-la em cada vez maior intensidade, para entregá-la ao
Imolado. Nesse sentido, é bom que sintam mais dor, pois sua recompensa será maior”

Ele se empolgou mesmo com a resposta, pois escreveu praticamente


uma redação.
Eu já tinha ouvido falar nisso. Aqueles que possuíam uma fé natural,
desde a infância, geralmente não sentiam inclinação para estudar muito
ou para se mortificar. Eles apenas amavam a pureza do mundo. Mas para
aqueles que a fé chegava mais tarde, eles buscavam muita leitura e dor,
porque sabiam que eram muito sujos. Eram tão dedicados a se limpar
que no final alcançavam um grau de entendimento frequentemente
maior do que aqueles que sempre caminharam com o Cordeiro.
Pensando bem, isso fazia muito sentido. Quem já caminha com ele
desde o início não precisa fazer muito esforço. Só devem continuar na
via, fazer o que sempre fizeram. Mas os sujos precisariam provar seu
valor e passar pelo inferno para elevarem a alma. Porque somente caindo
poderíamos nos elevar. Somente nos humilhando, caindo nas mais
baixas das humilhações. Pois o Cordeiro tinha seu olhar voltado
especialmente aos pequenos, então era preciso tornar-se pequeno.
– Você está fazendo aquilo de novo – observou Paula – sendo
vaidoso e orgulhoso. Por que você se acha melhor do que a maioria dos
seus irmãos da Ordem? Só porque a maioria deles teve origem pobre e
você é nobre? Está cheio de si por ter tanto estudo e por ter sido
chamado pelo seu superior a reformular as regras da Ordem. Seu pai, o
conde de Mármara, tinha dinheiro o bastante para te pagar o melhor
colégio de elite da cidade. De que adianta se orgulhar de algo que não foi
mérito seu? Você apenas teve sorte de ser bem nascido e ter acesso a boa
educação. Isso não o torna melhor do que quem tem muita fé e nem
mesmo sabe ler.
– Paula, cala a boca! – exclamei, desesperada.
– Eu me recuso a ouvir isso calada – prosseguiu Paula – ele
provavelmente se acha melhor que os pobres porque teve que abandonar
muita riqueza e um futuro brilhante para seguir os vermelhos, enquanto

78
Mártires Vermelhos

os pobres, que não tinham nada mesmo, não precisaram fazer sacrifício
nenhum. Eu já ouvi falar que tem gente morrendo de fome que entra
para a Ordem, pois mesmo os jejuns rigorosos que os vermelhos fazem
ainda são menos rigorosos do que não ter comida nenhuma.
– Isso que você disse fortalece ainda mais o ponto dele – observei –
que os nobres entram na Ordem por motivos... nobres. Enquanto
muitos camponeses entram nela para ter o que comer ou para honrar a
família. Morrer pelo Cordeiro é um destino grandioso para quem iria
morrer de fome de qualquer forma, então nem é preciso muito esforço
para escolher.
Em vez de escrever alguma coisa, o mártir vermelho levantou-se.
Caminhou na direção da porta, abriu-a e simplesmente saiu!
– O que ele está fazendo? – perguntou Sara, confusa.
– Não sei – falei.
– Será que ele vai ao banheiro? – perguntou Paula – eles têm
permissão para isso?
Eu saí do quarto também e o segui. Ele dirigiu-se para a porta da
frente, para sair do castelo. Mas eu não permiti.
– Barrem a saída dele! – ordenei.
E os guardas do castelo me obedeceram. Dessa vez, o vermelho foi
obrigado a escrever uma mensagem, que deixou sobre a mesa do salão
principal.

“Vossa Alteza, eu desconheço os meios que foram usados para que minha
identidade fosse descoberta, mas confesso que estou desapontado. Uma princesa tão
bem educada e inteligente certamente sabe que essa informação não poderia ser
buscada e muito menos espalhada. A Ordem é muito estrita em relação a isso.
Existe a seguinte regra: quando uma pessoa pronuncia meu nome, minha origem
ou qualquer coisa relacionada, devo me levantar e sair sem dizer nada.
Eu sou proibido de contatar minha família, pois a regra me proíbe de dirigir a
palavra a qualquer um que saiba minha identidade. Isso significa que a partir de
agora nunca mais poderei pisar nesse castelo e me dirigir a Vossa Alteza.
No final, isso não fará diferença, pois devo partir em poucos dias para cumprir
meu destino. É lamentável que tenhamos que nos separar nesses termos, mas não
nutrirei ressentimentos. Ainda possuo o sincero desejo de que Vossa Alteza encontre
sua missão no mundo e a alerto uma última vez a partir para Éfeso.

79
Wanju Duli

Meus cumprimentos”

Quando li aquilo, respirei fundo.


– Deixem-no partir – eu disse aos guardas.
E eles liberaram caminho. O vermelho fez uma última reverência,
mais breve do que nunca, e saiu.
Quando Paula leu a mensagem, ficou apavorada.
– Você vai me matar? – Paula fez uma careta de arrependimento.
– Bem que eu queria – brinquei, embora não estivesse de muito bom
humor – você vai fazer os meus deveres de casa pelo resto da semana
como penitência.
Minhas duas amigas foram embora mais ou menos uma hora depois
do ocorrido. Eu fiquei profundamente deprimida com aquilo tudo.
Eu já tinha ficado deprimida em outras épocas da minha vida.
Principalmente quando eu sentia a agonia de estar presa naquele castelo,
naquela vida de aparências, naquela montanha de estudos sem
significado.
Paula passou dos limites. É claro que o vermelho não era perfeito.
Mesmo levando uma vida de privações, é claro que ele não conseguiu
morrer completamente para sua vida anterior. Ele ainda se orgulhava um
pouco por possuir muito estudo e por ter alcançado uma vontade
genuína de ser martirizado pelo Cordeiro.
Nem por isso nós tínhamos o direito de ficar apontando todas as
falhas dele. Nós, que éramos muito mais cheias de defeitos. O vermelho
nunca clamou ser um santo ou estar acima de Deus. Pelo contrário, disse
muitas vezes que era fraco.
Para ele não devia ser tão difícil passar fome, mas ainda era difícil
vencer o orgulho. Era a maior tentação de todas.
Era muita hipocrisia de Paula apontar as contradições da vida de um
mártir, quando ela mesma vivia contradições muito profundas, indo nas
cerimônias religiosas nos fins de semana e depois fofocando trivialidades
no resto da semana.
Mas eu estava mais chateada comigo mesma do que com Paula.
Afinal, foi eu que contei para ela uma informação proibida. No fundo, a

80
Mártires Vermelhos

culpa maior foi minha e não dela. Era hora de eu assumir minhas
responsabilidades.
Fiquei tão triste naquela noite que tive dificuldade para dormir.
Chorei um pouco.
Não jantei e não dormi. Não porque eu quisesse fazer penitência, mas
simplesmente porque eu sabia que a comida não ia descer. E o sono não
ia vir.
Devo ter dormido apenas uma ou duas horas. Acordei com uma
febre alta.
Para a minha alegria, o médico do castelo confirmou minha febre
para meus pais e eu fui liberada do colégio e das aulas particulares
naquele dia. Fiquei contente porque teria o dia inteiro todinho para mim.
Fazia muito tempo que eu não desfrutava daquela sensação.
Infelizmente, minha doença era real e não aproveitei o dia como eu
imaginava. Eu apenas piorei cada vez mais. Não saí da cama o dia todo e
até recebi meu almoço na cama. Só que eu acabei vomitando tudo
depois.
Tive que faltar o colégio por uma semana inteira. Fazia muito tempo
desde a última vez que tive uma doença tão grave. Nessa ocasião eu era
muito pequena para me lembrar direito.
A cada dia eu piorava mais. A febre e o enjoo só aumentavam.
Chegou um ponto em que não consegui mais comer absolutamente
nada. Por mais que eu vomitasse, o enjoo não tinha fim.
Meu vômito se transformou praticamente numa água nojenta sem
nada. Afinal, como eu não comia, não havia mais nada para jogar para
fora.
Eu sentia dores intensas na barriga. Minha rotina era alternada por
vômitos e diarreias. Meu corpo clamava por ficar deitado, mas eu não
conseguia parar de levantar para ir ao banheiro.
Em mais de uma ocasião acabei vomitando no meu quarto e na
minha cama. Também acabei defecando na minha roupa e no meu lençol
depois de tomar um remédio idiota que um médico idiota me deu.
Mas depois eu percebi que não era culpa do remédio. Eu estava
praticamente me desmanchando, como se houvesse alguma coisa
horrível dentro de mim que desejasse escapar para fora a qualquer custo.

81
Wanju Duli

Eu emagreci muito em apenas uma semana. Quando tentavam enfiar


comida na minha boca, eu vomitava logo em seguida.
Até beber água era um tormento. Eu precisava beber água
urgentemente, ou iria desidratar. Minhas diarreias estavam cada vez
piores. Era muita água perdida.
Meu médico disse que eu tinha sérios riscos de morrer se um
tratamento não fosse encontrado o quanto antes. Ele me disse que se eu
passasse outra semana naquelas condições meu corpo não iria aguentar.
Não consegui rezar. Não consegui entregar meu sofrimento para o
Cordeiro. Eu era apenas dor. Meu ser inteiro apenas pulsava e gritava.
Até que, para somar-se às insuportáveis dores de barriga, acometeu-
me uma dor de cabeça muito forte. Senti que minha cabeça iria rachar ao
meio. Apenas mover a cabeça ligeiramente era um tormento.
Eu só queria poder dormir e morrer. Mas eu já estava há muito
tempo deitada. Não conseguia mais dormir.
Numa ocasião em que uma das empregadas me levou para ir ao
banheiro, tive que me apoiar nela para não cair. Eu estava fraca até
mesmo para caminhar.
Quando tentei ir ao banheiro, desmaiei. Defequei nas calças outra vez
e espalhei vômito pelo chão.
Então era assim. Eis a vida, eis o ser humano. Por que vivíamos para
agradar um corpo tão fraco que estava destinado à morte?
Minha mente também era fraca. Eu não era capaz de rezar pedindo:
“por favor, Cordeiro, dê-me dor” porque a única coisa que eu queria era
que a dor terminasse. Mas eu também não conseguia rezar pedindo para
que a dor acabasse. Afinal, eu só queria uma única coisa: morrer, para
nunca mais ter que sentir uma dor intensa como aquela outra vez. Eu
não conseguiria aguentar.
Mas aquele desejo pela morte era apenas uma fuga. Não era morrer
pelo Cordeiro, era morrer para agradar a mim mesma.
Aos poucos eu sentia que estava desaparecendo. Ao mesmo tempo
que eu sentia muito medo, também sentia alívio. Por que eu não sumia
de uma vez? Por que tinha que passar por tudo aquilo?
Para meu horror, eu soube que Lucas também ficou doente. Ele
pegou a mesma doença que a minha e estava de cama.

82
Mártires Vermelhos

Aquilo tudo era um verdadeiro pesadelo. O gálata estava dizendo a


verdade. Era tudo verdade. Por teimosia, quis permanecer em Pérgamo.
Meus caprichos iriam resultar na minha morte e na morte do Lucas.
Por que eu não segui os conselhos do vermelho? Não foi por falta de
aviso.
A doença e a morte não fazia diferença entre ricos e pobres. De que
adiantava termos os melhores médicos se um dia eu iria morrer?
Nenhum médico era tão bom para impedir a morte.
Mas havia um tipo diferente de médico que poderia me salvar da
morte. Não da morte do corpo, mas da morte do meu verdadeiro ser: o
espírito.
Era dito que a morte do corpo era apenas a primeira. No outro
mundo quem não fosse digno iria experimentar a segunda morte: a
morte do espírito, eis a verdadeira morte, que era estar eternamente
separado da visão beatífica do Cordeiro Imolado.
Quem não morria para o mundo, não era digno dele.
Realmente, os grandes ensinamentos geralmente chegavam através da
dor. Foi só ao ter aquela doença que senti na pele que viver pelo corpo
não era a verdadeira vida. Eu entendi que meu corpo não devia ser o
centro da minha existência. Ele era um instrumento para que através das
dores dele eu compreendesse uma realidade maior.
Eu não devia viver distraída fingindo que doença e morte não
existiam. No dia em que elas se abatiam sobre mim, eu não estava
preparada.
Foi então que eu entendi porque o vermelho me recomendou partir:
o efeito da doença sobre mim seria apenas sofrimento e mais nada. Mas
quem tinha sabedoria suficiente para entender que a doença e a morte
eram o caminho da elevação do espírito, jamais fugia dessas coisas. Ao
contrário, corria ao encontro delas, como oportunidade abençoada de
encontrar o Cordeiro na dor.
Pessoas assim não deviam ser apenas felizes. Nada as atingia. Nada
nesse mundo ou no outro seria capaz de derrubá-las, porque elas eram
uma fortaleza. Nesse estado de espírito, não havia mal no mundo. Afinal,
quem imita o Cordeiro jamais é tocado pelo mal. Tudo se torna puro, até
o sofrimento físico e mental. Tudo pode ser ofertado como sacrifício
para o Imolado.

83
Wanju Duli

Nesse momento entendemos a verdade: o Cordeiro criou um mundo


completamente bom. Não existe nada de mal nele. Tudo o que existe
tem o potencial para nos levar de volta para ele. O único mal real é
escolher separar-se do Cordeiro por vontade própria para adorar outros
Deuses, como a mim mesma.
Para mim, meu conforto era mais importante que servir o Cordeiro.
Meu corpo não era o templo do Imolado. Era apenas o meu templo, no
qual eu vivia minhas adorações da carne e espalhava superstições sobre a
vida.
Eu adorava uma vida finita e não a infinita. Eu venerava falsos
Deuses e não o único Deus real: o Espírito invencível que queimava
dentro de mim. Aquele espírito não era meu, ele não vinha de mim. Eu
era a serva do Cordeiro. Como pude me esquecer disso?
O Cordeiro me deu um corpo para que eu o sacrificasse por ele. Para
que retornasse a ele. Como pude achar que ele era meu para que eu
fizesse com ele o que queria? Como eu me julgava sábia o bastante para
saber o que eu deveria fazer?
Eu deveria apenas obedecer o Imolado. Porque ele tinha sabedoria
infinita e eu possuía apenas uma visão limitada sobre o mundo.
Quando mais alguns dias se passaram, o médico me deu, no máximo,
uma semana de vida. Ele proibiu que qualquer um entrasse no meu
quarto, pois tratava-se de uma doença contagiosa.
Então eu morreria completamente sozinha, presa naquele quarto
bonito e perfumado? De que adiantava?
O que eu havia feito na minha vida? Eu sabia como segurar uma
xícara apropriadamente. Tinha decorado os anos em que começaram e
terminaram todas as guerras entre os sete reinos. Eu também sabia
contar até cem em cinco línguas, tocar piano e dançar.
Alguma dessas coisas tinha me tornado uma pessoa melhor? Tinha
me feito entender o que é a doença e a morte? Não. Todas aquelas coisas
que aprendi eram excelentes para viver uma boa vida pelo corpo e não
pelo espírito.
Não era errado desfrutar os prazeres do corpo, mas eles só poderiam
ser aproveitados em toda sua beleza e potencialidade quando o espírito
vinha em primeiro lugar. Eu ignorei essa verdade fundamental.

84
Mártires Vermelhos

Sem o espírito a vida não era vida. Apenas sombras do que a vida
poderia ter sido, iluminada pela Luz do Cordeiro.
Mais dois dias depois, meu pai se conformou e mandou chamar um
eremita negro para administrar em mim os últimos ritos.
Quando uma pessoa estava prestes a morrer, um sacerdote caliciano
era chamado para colocar gotas de sangue em nossa testa, representando
o sangue do Cordeiro Imolado. Essa era a única ocasião em que eles
tinham permissão de falar: eles pronunciavam a Reza da Ascensão.
Tratava-se de uma reza curta para abençoar aqueles que estavam para
morrer e protegê-los, para que chegassem em segurança no outro
mundo.
Normalmente quem realizava esse rito eram os eremitas negros, que
se especializavam nos rituais para a morte. Ultimamente, com a praga se
espalhando, era difícil conseguir um deles.
Porém, na falta de um desses, qualquer outro podia administrar os
ritos finais. Um sacerdote dourado ou um monge vermelho também
poderiam fazê-lo.
Foi só então que eu entendi o que eu deveria fazer.
Antes que o eremita negro chegasse no castelo, eu me levantei da
cama. Caminhei com dificuldade, apoiando-me nos móveis e fui até o
quarto de Lucas, que também estava de cama.
Felizmente, a doença ainda não estava tão forte nele quanto em mim.
E ele parecia estar suportando tudo muito mais bravamente que eu.
– Vamos fugir – eu disse.
– O quê? – perguntou Lucas, sentando-se na cama, com voz meio
sonolenta – por quê? Para onde?
– Quero que aquele mártir vermelho me dê meus últimos ritos.
– Devíamos ter fugido daqui antes, como ele e Galácia disseram –
reclamou Lucas.
– Bem, agora já está feito – eu falei – se tenho que morrer, quero pelo
menos poder ouvir a voz dele antes disso.
– Ele disse que não tem mais permissão para nos ver agora que
sabemos sua identidade – lembrou Lucas – e se ele se recusar a aplicar os
ritos?
– Aceito correr esse risco – falei – precisamos ir atrás dele o mais
rápido possível. E se ele já tiver saído da cidade?

85
Wanju Duli

Lucas ainda reclamou mais um pouco, mas eu o peguei pela mão.


– Pegue todos os lençóis que encontrar – ordenei.
Eu o levei até uma torre mais baixa do castelo. Seria uma saída
dramática: amarrei os lençóis um no outro e comecei a descer pela janela.
Estávamos ambos de pijama.
– Isso não vai dar certo... – disse Lucas, com cautela – e se a gente
morrer?
– Lu, a gente vai morrer daqui alguns dias – eu o lembrei – que
diferença faz se for agora ou depois?
– Você tá falando sério?
– Não sei se é loucura ou coragem, mas só sei que quero fazer isso.
Você vem comigo?
Mesmo com um pouco de medo, ele aceitou.
Toda aquela adrenalina que senti ao fugir pela janela quase me fez
esquecer da forte dor que eu sentia na cabeça e na barriga. Mas ao chegar
no chão em segurança, a dor voltou a ficar forte.
A dor era algo curioso. Até que ponto podia ser manipulada? O
caminho dos mártires não era eliminar a dor, mesmo que eles tivessem
poder para isso. Eles queriam senti-la plenamente e ofertá-la ao
Cordeiro. Mas como se seguia esse caminho? Eu queria entender.
Mas agora já não era tempo de entender. Eu só queria morrer de
forma digna. Mesmo que toda a minha vida antes disso tenha sido
indigna.
– Conheço uma passagem secreta – disse Lucas – vem aqui.
Fui com ele até os fundos do pátio de trás do castelo. Depois de
adentrarmos num matagal enorme, ele me mostrou um buraco estreito
no muro.
– Não consigo passar por aí – falei, desapontada.
– Eu vou primeiro – disse Lucas – eu te puxo.
Ele passou facilmente. Para a minha surpresa, consegui sair também,
com algum esforço.
– Viu só? – disse Lucas.
– Por que nunca me contou sobre isso? – perguntei, aborrecida.
– Você nunca perguntou.
Pensando bem, eu nunca tentei seriamente fugir do castelo, porque
meu dever era ser uma filha modelo. Então por que eu me preocuparia

86
Mártires Vermelhos

em saber as rotas de fuga? Lucas era uma criança e gostava de brincar no


pátio e explorar. Eu já não fazia essas coisas.
Andamos pelas ruas, meio desorientados.
– E agora? – ele perguntou.
– Vamos pegar uma carona – sugeri.
Primeiro eu precisava descobrir onde o vermelho estava. Eu não
podia contatar meu pai para encontrá-lo, ou ele saberia que eu tinha
fugido.
Teria sido muito mais fácil que eu mandasse meu pai trazer o
vermelho, como das outras vezes. Mas desconfiei que dessa vez não
daria certo. Meu pai diria que eu estava quase morrendo e deveria
receber meus ritos finais o quanto antes. Além disso, o vermelho não era
meu empregado para que eu o ordenasse a vir a meu castelo quando era
conveniente para mim.
Ele deixou bem claro que não ia mais voltar lá. Sendo assim, agora
era a minha vez de ir atrás dele. Meus pais jamais teriam permitido que
eu saísse de casa para buscá-lo, doente como eu estava.
E o pior era que eu estava arrastando meu irmão menor junto comigo
para aquela loucura. Mas depois de toda a dor que passamos, acho que
ele também entendia meu desejo. Procurar o vermelho era a coisa mais
nobre que poderíamos fazer naquele momento.
Eu sabia que o vermelho não tinha permissão para contatar a família,
mas resolvi ir até o nosso colégio mesmo assim. As aulas estavam quase
acabando, então aguardei o irmão dele sair.
Quando me dirigi a ele, o rapaz ficou bastante surpreso:
– Por que está de pijamas... Vossa Alteza? E por que está com um
lenço no rosto?
– Eu estou com a praga. É melhor não chegar muito perto para não
ser contaminado.
Ele ficou indignado.
– Por que está na rua? Você vai contaminar um monte de gente. A
cidade já emitiu um estado de alerta. Talvez até nossas aulas sejam
suspensas.
– Eu preciso achar o seu irmão urgentemente – eu disse – você sabe
onde ele está? Eu queria que ele administrasse os últimos ritos em mim.

87
Wanju Duli

– Sinto muito – ele disse – embora não tenhamos mais contato direto
com ele, a Ordem envia correspondências regularmente para nossa
família. O meu irmão já partiu de Pérgamo.
– Merda! – exclamei – ele foi para Tiatira?
– Isso – ele respondeu, com cautela – mas a essa altura ele já deve ter
chegado em Tarsus.
– Porcaria! Ele está com tanta pressa assim para morrer? Pois eu não
estou. Eu juro que vou encontrá-lo! Quando parte o próximo navio para
Tarsus?
– Como vou saber?
– Certo, obrigada. Eu te vejo por aí... no outro mundo.
E saí correndo, arrastando Lucas pelo braço.
– Então... a gente vai viajar de navio mesmo? – perguntou Lucas –
você tem dinheiro?
– Sim, eu fugi com dinheiro, não sou burra – falei.
Nos apressamos na direção do porto. Comprei duas passagens.
– Estamos com sorte – eu disse para Lucas – o próximo navio sairá
daqui poucas horas. Chegaremos lá em três dias.
– É muito tempo – falou Lucas – será que a gente vai aguentar?
– Mesmo se eu morrer, você continua nossa jornada – eu disse a ele –
não morra até encontrá-lo, ouviu bem?
– Sim...
Felizmente, nós dois estávamos tão feios, magros e doentes que eu
achava simplesmente impossível que alguém nos reconhecesse e nos
identificasse como príncipes. Nem foi preciso disfarce nenhum. Aquela
doença simplesmente acabou não só com minha saúde, mas também
com minha beleza.
Era melhor ninguém saber que estávamos com a praga, ou poderiam
nos impedir de embarcar. Eu e Lucas cuidaríamos para ficar longe das
pessoas no navio, para não contaminar os outros. Eu mentiria, dizendo
que estávamos com um mal estar qualquer.
Mas aqueles três dias não foram nada fáceis. Meu enjoo voltou com
força total. Eu estava definhando. Aqueles três dias foram como três
meses. Não passavam nunca.
Lucas também estava sentindo muita dor. Ele apenas abraçava a
barriga e se encolhia num canto.

88
Mártires Vermelhos

– O que está fazendo? – perguntei.


– Rezando – ele disse – para que o Cordeiro permita que possamos
viver até encontrar o vermelho. Depois disso, podemos morrer.
– Você é muito forte.
Mas no fundo eu desejava o mesmo. Eu já não queria ser salva ou
curada. Não tinha esperança que isso ocorresse. Só queria estar perto do
vermelho nos meus momentos finais.
Quando desembarcamos, eu estava sentindo náuseas demais para
apreciar a terra completamente exótica na qual pisamos.
Parecia que era tudo diferente. A cor do céu e da terra. O ar também
era fresco e renovado. Por um breve momento, senti uma sensação de
alívio, como se até o ar daquele lugar tivesse propriedades curativas.
Mas nos segundos seguintes voltou tudo: a dor, a dor e a dor.
Troquei o meu dinheiro no porto. Eu não sabia o idioma de Tarsus.
Eu conhecia alguns idiomas, mas é claro que em Pérgamo não
estudávamos a língua dos hereges. Para que, se a maioria de nós não
tinha nenhuma intenção de sair dos sete reinos para as terras “não
civilizadas”?
Mas olhando melhor, aquelas terras pareciam ser ainda mais
civilizadas que as nossas, sob muitos aspectos.
Como raios eu iria encontrar o vermelho naquele lugar enorme?
Na minha cabeça, Tarsus era um país cheio de selvagens canibais, que
estariam prontos a comer vivos qualquer estrangeiro que chegasse. Só
que não era bem assim.
As pessoas se vestiam muito bem, com muita elegância. E não
parecia haver tantas pessoas pobres como tínhamos em Pérgamo.
Resolvi pedir informações no porto. Lá havia algumas pessoas que
falavam o idioma dos nossos reinos. Perguntei se vermelhos tinham
chegado por navio nos últimos dias.
– Sim, eles chegam aqui com frequência – respondeu um funcionário
– costumam ir para os lados de Bolu.
– O que é Bolu?
– É uma região da cidade, no oeste. Eu sugiro que você pergunte por
lá. Os vermelhos sempre procuram comunidades extremamente
religiosas para tentar convertê-los. Por aqui se pune essas coisas com
tortura e morte. Por isso os mártires adoram.

89
Wanju Duli

Realmente, ali eles deviam se sentir no paraíso.


Eu e Lucas nos dirigimos para Bolu. Mas aquele lugar ainda era
enorme. Não seria fácil.
E tinha a barreira linguística. Tentei me comunicar por mímica. Às
vezes eu encontrava alguns tarsianos que sabiam rudimentos do nosso
idioma e algo parecido com comunicação ocorria.
Até que eu finalmente achei alguém que sabia a nossa língua o
bastante.
– Disseram que alguns vermelhos chegaram há alguns dias e foram
para a comunidade de Rize – disse um velhinho – se quiserem, posso dar
uma carona.
Pegamos carona num carro de boi que estava se movendo muito
lentamente. Acabei passando mal no caminho e vomitei.
– Você está bem, senhorita?
– Não se preocupe, é só um mal estar...
Eu me sentia morrendo. Cada vez mais. Estava cada vez mais perto.
Eu não ia mais aguentar.
Imaginei como seria meu túmulo. No meu local de morte estaria
escrito “Tarsus”. Seria realmente estranho. Sempre pensei que iria
morrer em algum dos sete reinos. No reino do meu futuro marido.
Senti que meu espírito já estava pronto para se separar do meu corpo,
mas estava se segurando antes de partir. Ele sabia que ainda precisava
ficar no meu corpo para cumprir minha missão final.
Eu estava meio dormindo quando finalmente chegamos em Rize.
Lucas me acordou.
Fiquei aliviada por conseguir dormir um pouco. Achei que da
próxima vez que eu dormisse eu não ia acordar mais.
Mesmo assim, eu ainda me sentia exausta, como se tivesse corrido
vários quilômetros.
Naquela comunidade, havia muita gente vestindo roupas azuis com
um turbante. Achei que fossem sacerdotes de alguma religião de Tarsus.
Mas meu coração pulou quando vi um vermelho no meio deles. Eu
corri até lá imediatamente. Lucas foi atrás de mim.
– Com licença, senhor mártir! – eu exclamei – eu procuro por O.M.
10091. Por acaso ele está aqui?

90
Mártires Vermelhos

Ele pareceu meio intrigado, principalmente porque eu estava falando


a língua dos sete reinos. Mas ele assentiu e fez um movimento, me
indicando para segui-lo.
Entramos numa barraca. Havia um vermelho sozinho lá dentro.
Era ele! Eu sabia que era! Corri até lá com lágrimas nos olhos,
ajoelhei-me diante dele e segurei a ponta de seu manto.
– Por favor, mestre, me desculpe... – eu disse, com voz falhando –
peço perdão por ter tentado descobrir sua identidade. Desculpe pelo que
Paula disse. Desculpe por tudo! Pois tudo aquilo que o senhor falou era
verdade. Eu e Lucas estamos muito doentes. Eu estou morrendo. Viajei
até Tarsus apenas para fazer um pedido.
Nesse momento toquei a testa no chão.
– Por tudo que é sagrado, eu te rogo para que me administre os ritos
finais! Eu juro que farei qualquer coisa...
Eu me emocionei. Não conseguia parar de chorar. Lucas, que estava
ao meu lado, também se sentiu tocado pela situação.
O vermelho não respondeu imediatamente. Ele pegou uma folha de
papel e começou a escrever.
Sim, era a letra dele. Era meu professor!

“Saudações, Vossa Alteza,

Confesso que estou completamente surpreso. Eu jamais esperava vê-la em Tarsus.


Na verdade, estou preocupado. Seus pais sabem que vocês estão aqui? Vocês sabem
que se alguma coisa acontecer a vocês, a responsabilidade recairá sobre a nossa Ordem
e sobre mim”

– Mas...
Eu não sabia o que dizer.
Ele não via a grandiosidade da situação? Que importava se meus pais
sabiam ou não onde eu estava?
Eu ia morrer em breve e precisava dos últimos ritos para salvar
minha alma! Por que ele precisava ter preocupações tão mundanas logo
na hora que eu mais estava interessado nas coisas do espírito?
Mas talvez ele tivesse razão. Eu era princesa. Eu tinha 14 anos e meu
irmão tinha nove. Estávamos numa terra distante e perigosa. Se eu

91
Wanju Duli

morresse aos pés dele, o que eles iam dizer para meus pais? Eu iria
colocá-lo numa situação realmente incômoda.
Eu já me achava muito adulta com 14 anos, mas ele certamente me
via como uma criança.
Tentei me imaginar no lugar dele. Realmente, eu fui uma idiota
irresponsável, fugindo de casa assim e levando meu irmão junto. Mesmo
que eu estivesse prestes a morrer. Meus pais deviam estar mortos de
preocupação.
No fundo, eu ainda era muito egoísta. Tudo que fiz foi por egoísmo,
não por amor ao Cordeiro ou por desejo de me tornar uma pessoa
melhor.
Eu só estava tremendo de medo da morte e queria um último
consolo.
Eu baixei os olhos.
– Meus pais não sabem... mas não se preocupe. Vai ficar tudo bem.
Eu só quero morrer perto de ti. Tem como me dar a bênção de teus ritos
finais... por favor... senhor?
Eu não sabia mais o que dizer.
O vermelho voltou a escrever.

“É uma situação difícil. Sua Alteza é menor de idade. Não me sinto à vontade
dando seus ritos finais sem a permissão de seus pais.
Mas também entendo que você já tenha idade suficiente para algo assim. A
decisão final deve ser sua. E já que veio até aqui, não vejo porque te negar algo tão
fundamental que é meu dever realizar a todos que me pedirem.
Posso perguntar por que fez uma viagem tão longa apenas para fazer esse pedido?
Eu imagino que Vossa Alteza tenha possibilidade de requisitar os melhores eremitas
negros através dos seus pais”

Era uma pergunta justa.


– Tinha que ser você – eu disse – porque eu te admiro muito. Você é
a pessoa mais sábia que já conheci.
Ele sabia que, como princesa, eu tinha acesso aos melhores
professores. Então ele entenderia o que aquele elogio significava.

92
Mártires Vermelhos

“Eu te disse uma vez que não poderíamos mais entrar em contato. Porém, como é
um pedido de ritos finais, irei conceder”.

Senti-me feliz. Muito feliz.


Era algo tão simples, mas ao mesmo tempo parecia ser a coisa mais
importante do mundo.
Lucas não estava tão doente quanto eu, então iria esperar mais um
pouco. Ele saiu da barraca por um momento.
O vermelho não me explicou nada. Apenas fez.
Ele tirou a luva da mão esquerda. Eu não sabia se tinha permissão de
olhar, então desviei os olhos. Ele furou o próprio dedo e tocou o dedo
com sangue na minha testa.
Continuei de olhos fechados, desfrutando de uma paz inacreditável.
– Em nome do Cordeiro Imolado, eu te selo com o sangue do livro,
da lenda e do sacrifício. Que se abram as portas do céu. Que seu espírito
seja carregado pelos gálatas, pelo martírio do fogo.
Eu me senti extremamente nervosa quando ouvi a voz dele. Estava
ouvindo algo secreto e proibido. Ele falou por baixo dos panos e era
uma voz meio abafada. Mas estava bem perto e entendi com clareza o
que foi dito.
Era a Reza da Ascensão. Quando eu era criança, imaginei que eu
escutaria essa reza num dia em que eu estivesse bem velhinha e
preparada para a morte.
Para a minha surpresa, mesmo aos 14 anos, senti que estava
finalmente preparada. Porque ele estava comigo. Uma pessoa especial
que entendia profundamente das coisas do espírito. Não havia ninguém
no mundo capaz de me dar tanta paz além dele.
As lágrimas escorreram dos meus olhos. Eu achei que eu
permaneceria em um silêncio respeitoso, mas o choro rompeu
fortemente.
Comecei a chorar forte. Não me segurei. Eu não estava com medo e
sim emocionada pela proteção inacreditável que eu sentia.
Eu finalmente senti a presença do espírito e do Cordeiro queimando
no peito. Ele me fez sentir assim.
Sem pedir permissão, me joguei nos seus braços. Eu o abracei
fortemente. Ele permitiu e me abraçou de volta.

93
Wanju Duli

Afinal, eu estava para morrer. Acho que ele entendeu que eu


precisava daquilo. Daquele presente no momento final, mesmo que eu
jamais pudesse ver o rosto dele.
E então eu me acalmei totalmente. Senti um sono pesado e meus
olhos se fecharam. Deitei e dormi, mesmo em meio às dores que me
rasgavam. Imaginei que dessa vez seria para sempre.

94
Mártires Vermelhos

Capítulo 3

Estrelas vermelhas.
Cheiro de esperança. Uma forte esperança que nascia em meio ao
caos. O mundo vibrava, tremia. Eu vivia num mundo assim.
Eu queria acreditar que tudo daria certo no final. Que eu poderia ter
um final feliz, mesmo com morte no fim.
Porque a morte não era o fim.
Eu abri os olhos. Aqueles olhos de carne.
Onde eu estava? Por que eu ainda respirava? Por que meu coração
batia? Aquilo não se parecia nada com céu e inferno. Parecia ser um
misto de ambos.
Mundo real. Eu ainda estava nele.
Sentei-me. Abracei o corpo. Eu sentia frio.
Encontrei-me sozinha na barraca em meio à escuridão. Eu a abri e
saí, descobrindo a noite magnífica.
Aquele não era realmente o mundo real. Comparado ao outro, era
apenas pó.
Ainda assim, eu não conseguia deixar de amar o espetáculo das
estrelas. Parecia que em Tarsus as estrelas brilhavam mais.
É claro que era belo. O Cordeiro tinha feito aquilo tudo. Mas eu só
poderia desfrutar plenamente do nosso mundo se o enxergasse à luz do
outro.
Onde estava Lucas? E o vermelho? Havia muitas barracas no
acampamento. Todos dormiam.
Resolvi verificar na barraca imediatamente ao lado da minha.
Simplesmente entrei nela.
Havia um vermelho dormindo no chão duro. Devia dormir sem
nenhum conforto como parte de sua penitência.
Seria “meu” vermelho? O meu salvador.
Eu não estava mais enjoada. A dor de cabeça tinha sumido. Todas as
dores. Não restou absolutamente nada. Eu me sentia mais saudável do
que nunca.

95
Wanju Duli

O que tinha realmente acontecido naquela ocasião? O que ele fez?


Eu estava para morrer. Ele realizou os ritos finais em mim. E então
eu dormi. Quanto tempo se passou desde então?
Avistei uma vela em cima de uma mesinha baixa. Eu a acendi. Havia
dezenas de papéis. Resolvi dar uma olhada neles.
Parecia uma conversa. Duas caligrafias diferentes se alternavam.

“Você deveria usar o argumento da presciência divina. Os luzeiros são suscetíveis


a ele.
De qualquer forma, acho que você se saiu bem. Essas pessoas insistem em tentar
ler o futuro nas estrelas. Basta mostrar a elas que aquele que confia no Cordeiro não
precisa conhecer o futuro. Não é preciso conhecer mais nada na vida. Apenas o
Imolado.
A vida se resume a sangrar por ele. É muito simples. Por que essa gente complica
tanto? Eles querem ter tudo! Querem vários Deuses, várias estrelas, várias esposas.
Eles querem muito de tudo e vão acabar sem nada. Estão distraídos, perdidos, não
são capazes de direcionar seu coração para aquilo que mais importa.
De fato, viemos para o lugar certo. Precisamos salvar essas pessoas da escuridão
de suas próprias ignorâncias.
Existem boas terras no mundo em que não se conhece formalmente o Cordeiro,
mas eles o conhecem no coração. Já foi alguma vez para Manisa? Nessa terra, as
pessoas são tão boas, tão simples! Nem mesmo nos sete reinos vê-se tamanha
humildade e pureza.
Pessoas assim não precisam ser perturbadas. Mas aqui em Tarsus a situação é
preocupante. Estão completamente perdidos e não admitem que estão errados.
Eles torturam e matam por nada. É verdade que isso também existe nos nossos
reinos. Mas você sabe bem porque isso ainda acontece por lá. Porque as pessoas estão
cada vez menos religiosas. Elas só têm olhos para dinheiro e poder”.

A folha estava assinada por um tal de “O.M. 10086”. Então era um


membro da Ordem dos Mártires que havia entrado pouco antes do
Jeremias.
Apenas ao ler aquele texto curto já consegui entender várias coisas.
Os sacerdotes de turbante azul que vi quando cheguei se chamavam
“luzeiros”. Provavelmente porque tentavam ler o futuro na luz das
estrelas. Eles adoravam vários Deuses e praticavam a poligamia.

96
Mártires Vermelhos

Ao que parecia, havia uma série de debates teológicos por lá, entre os
vermelhos e os sacerdotes azuis chamados luzeiros. Bem, se os luzeiros
estavam dispostos a ouvir os argumentos deles, não deviam ser tão
intolerantes assim.
Resolvi ler a segunda parte, que tinha a caligrafia do vermelho que eu
conhecia.

“A presciência já resolve uma série de problemas. Deus sabe tudo. Ele vive fora
do tempo. Para ele, não há passado, presente e futuro, mas uma coisa só. Nós,
humanos limitados, vemos o tempo como algo linear. Por isso há essa superstição de
tentar adivinhar o futuro. E se adivinharmos, de que adiantará? É preciso desvendar
o presente e não o futuro, pois o que realmente muda o futuro é o que fazemos agora.
O que se deve fazer agora é entregar-se completamente ao Cordeiro. Quem o
obedece em tudo não precisará se preocupar com nada mais. Inclusive, ele irá
presentear alguns com poderes, de acordo com os dons de cada pessoa. Não é preciso
buscar tais poderes nesses tais „Deuses‟ da natureza. O poder pelo poder é vazio.
Eles possuem Deuses para tudo: o Deus do vento, da colheita, do lar. Eles fazem
oferendas aos Deuses quando precisam de algum favor. Mas por que tantos Deuses se
o Deus único já resolve tudo? É como você disse: eles se dispersam, não sabem o que
querem. Eles mudam de ideia conforme as próprias paixões.
Um Deus com limites e defeitos não serve para muita coisa. O Deus da colheita
só entende de colheita e não vê o quadro completo. Ele é um especialista e não um
generalista. O Cordeiro sabe de tudo, não só da colheita. E sabendo de tudo, ele sabe
muito mais da colheita do que aquele que só enxerga a colheita e mais nada. Porque o
Cordeiro também sabe sobre o Sol que aquece as plantas e a chuva que as molha.
A questão das esposas exemplifica isso bem. Os tarsianos são glutões. Querem ter
demais de tudo: dezenas de roupas caras, quatro esposas bonitas para exibir para os
outros.
Como se pode amar quatro esposas? Acabará por não dar amor o bastante para
nenhuma delas. Mal poderá conhecê-las direito. É como os Deuses: por que dar toda
a sua energia para adorar vários Deuses diferentes se direcionando seu espírito para o
Deus onipotente não é preciso mais nada?
As pessoas são cheias de preocupações e ansiedades com isso ou aquilo: com o
futuro, com o passado, com a conta para pagar, com a úlcera. Elas não percebem que
se entregando totalmente para o Cordeiro a conta e a úlcera não importam mais. Se
tornam problemas pequenos, obstáculos para crescimento.

97
Wanju Duli

Eles querem fazer feitiços para acabar com as doenças em vez de ofertar a dor que
sentem para o Cordeiro. Eles estão completamente confusos e perdidos.
Estão cegos pela tecnologia, por esse conhecimento humano fugaz. Existem até
terras ateístas que acham que não precisam mais do divino e podem resolver tudo por
si mesmos, sem ajuda. Eles são orgulhosos. É o orgulho o que mais nos afasta do
Cordeiro.
Nunca fui para Manisa, mas ouço falar coisas boas. Imagino que lá faríamos
bons amigos e inclusive aprenderíamos muito.
Eu acredito que podemos aprender com os ensinamentos bons das outras religiões.
No entanto, os tarsianos são um exemplo extremo. Eles precisam da nossa ajuda.
Eles acham que não precisam, que estamos nos metendo.
Claro que cada um tem seu livre-arbítrio. Não obrigamos ninguém a nada. Mas
temos o dever moral de comunicar a verdade às pessoas, especialmente em lugares em
que a verdade ainda é apenas um rumor distante”

Sim, eles estavam se metendo, não havia como negar. Eu tinha um


tio que bebia muito e cada vez que alguém o criticava por isso, ele dizia
que as pessoas não tinham que se meter.
Talvez ele tivesse razão. Ou talvez não tivesse. Difícil dizer. Acho que
o alerta deve ser dado. Depois disso, cada um deve fazer o que quiser.
Mas até que ponto o alerta deve ocorrer?
Os vermelhos iam aos montes para Tarsus, para tentar convertê-los.
E morriam aos montes na empreitada.
Na visão deles, se conseguissem converter apenas um tarsiano isso já
valeria a morte de dezenas ou centenas de vermelhos. Eu já tinha ouvido
falar que a chave para converter um país para uma religião era formar um
sacerdote nativo. Assim, ele poderia convencer as pessoas através do
próprio idioma e da própria cultura. Não pareceria mais um mero
estrangeiro se metendo nos negócios deles.
Resolvi dar uma olhada em outras anotações da mesa. Achei uma
folha que dizia o seguinte:

“Lista de faltas:

3:10: Negligência no sono. Adormeci durante a vigília. Penitência: vigília extra


de meia hora amanhã.

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Mártires Vermelhos

11:50: Prazer ao comer os tomates. Tirá-los da refeição de amanhã. Penitência:


apertar o cilício cinco centímetros.
14:00: Sentimento de raiva durante debate informal com os luzeiros. Ser mais
gentil e paciente, rezando um „Majestade” antes de emitir uma opinião forte.
Penitência: rezar cem “Majestades”.
15:00: Arrogante no meu argumento sobre o poder da leitura para conversão.
Lembrar-se de todos os iletrados devotos que conheci, repetindo mentalmente o nome de
dez deles antes de falar de leituras. Penitência: distribuir pão aos pobres amanhã.
17:00: Um luzeiro encostou no meu braço. Falta de atenção de minha parte,
redobrar a vigia, aumentar a distância para três metros amanhã. Penitência: oferecer-
me para lavar as roupas comunitárias.
18:00: Riso pelo nariz, após uma piada estúpida contada por O.M. 10060.
Falta contra o silêncio e a discrição. Penitência: lavar pratos por meia hora.
19:30: Deleite em imagens sexuais por alguns minutos. Minha falta por não tê-
las tirado da mente assim que surgiram. Penitência: cinco chibatadas”.

Havia várias daquelas listas de faltas. Pelo jeito ele fazia uma por dia.
Essa era a do dia anterior.
Subitamente, senti uma grande ternura ao ler aquilo. Especialmente
quando li sobre os tomates. Ele não estava sendo duro demais consigo
mesmo? Mas era exatamente o que ele queria.
Nunca pensei que ele fosse tão humano. Sentir fome e sono era algo
simplesmente natural e esperado. Mas ele sentia coisas como raiva e
vontade de rir de besteiras. Seria divertido começar a contar uma piada
atrás da outra e tentar fazê-lo rir. Até que eu sabia umas boas.
Mas era melhor não. Eu não tinha intenção de fazê-lo perder o dia
inteiro lavando pratos.
Eu me perguntava de onde tinham surgido aquelas imagens sexuais
na mente dele. Então até ele era atormentado por isso.
Na idade em que eu estava, eu já entendia certas coisas.
Soprei a chama da vela. Era melhor eu parar de ler as coisas dele. Eu
estava me sentindo culpada. Aquilo era muito pessoal.
Levei um susto quando ouvi um som de ronco, bem baixinho. Olhei
para o lado. O vermelho se moveu no chão, mas ainda estava dormindo.
Acho que ele não conseguia fazer voto de silêncio enquanto dormia.

99
Wanju Duli

Então era assim que vivia um cordeiro sendo preparado para o abate.
Era uma vida difícil. Ele dormia até mesmo mascarado.
Saí da barraca. O céu escuro aos poucos se coloria. Estava
amanhecendo.
Resolvi ficar lá fora e assistir ao nascer do Sol. O Sol surgiu
gigantesco no horizonte. Pinceladas de amarelo em meio ao azul claro.
As pessoas lá já começavam a acordar mesmo antes do amanhecer.
Lucas saiu da barraca ao lado da minha e me abraçou.
– Você também está curado? – perguntei, surpresa.
– Sim – disse Lucas – Jeremias me explicou tudo.
– Shhh!! – exclamei – os outros vermelhos não sabem o nome dele. É
melhor não falar em voz alta.
– Desculpe. Sabia que esse cara super inteligente e disciplinado
também tem poderes? Ou talvez ele os tenha adquirido exatamente por
ser tão inteligente e disciplinado.
– Poderes? Do que está falando?
O vermelho disse em sua carta que o Cordeiro irá presentear alguns
com poderes, conforme os dons de cada pessoa. Então era a isso que ele
se referia?
– Deus deu a ele a capacidade de realizar milagres como recompensa
por sua vida de extrema dedicação e sacrifício.
– Entendi. Ele é um taumaturgo. Ele é perfeito em tudo. Ele tem
uma rotina impecável, vê gálatas, faz milagres e ainda vai sacrificar a
vida pelo Cordeiro.
– Você está com inveja? – perguntou Lucas, estranhando – ele salvou
a nossa vida!
Minha vida não merecia ser salva. Eu era simplesmente indigna.
Eu não queria viver e morrer por ninguém. Apenas por mim mesma.
Eu sentia prazer em comer tomates e não sentia nenhuma culpa nisso.
Uma pessoa como eu nunca poderia conquistar algum tipo de poder
espiritual ou ter a capacidade de enxergar seres celestiais.
– Vim aqui para morrer – falei – e ganhei uma nova vida. Fui salva
pelo poder do Cordeiro. Isso significa que devo dar minha vida por ele?
– Essa é uma escolha sua, Bibi – disse Lucas – o Cordeiro não obriga
a nada. Ele apenas dá, sem pedir nada em troca.
Eu fitei o chão.

100
Mártires Vermelhos

– Aquele vermelho não liga para as coisas do corpo – observei –


então como foi que ele recebeu um poder de cura?
– Eu perguntei a mesma coisa – disse Lucas – ele me disse que não
pediu por esse poder. Ele apenas o recebeu. Ele não gosta de mostrá-los
à toa. Mantém essas coisas em segredo. E ele jamais usa para aliviar a
própria dor, mesmo tendo o poder para isso. Somente utiliza nos outros.
Ele era muito nobre. Rigoroso demais consigo mesmo e muito leve
com os outros. Ele não permitia que o curassem, mas aos outros ele
curava.
Isso porque ele tinha sabedoria o bastante para abraçar a dor e
dedicá-la ao Cordeiro. Ele não queria que aqueles que não tinham essa
sabedoria apenas sofressem.
Foi por isso que ele me mandou sair de Pérgamo.
– Mas... se ele tinha poder de curar, por que em vez de nos mandar
sair do país ele simplesmente não aguardou que pegássemos a doença
para nos curar depois? – perguntei.
– Acho que ele tem mais o que fazer do que servir de nossa babá, não
acha, Bibi? – disse Lucas – ele tem o seu caminho.
Isso era verdade.
– Por que ele quer morrer depois de reunir tantos poderes que
poderiam ser usados para ajudar os outros? – perguntei.
– Você já sabe a resposta para essa pergunta.
– Eu não sei se ele quer mostrar que a vida do espírito é mais
importante que o corpo, mas nós precisamos de corpo para viver –
argumentei – então curar o corpo também é importante.
– Ele sabe que é importante – disse Lucas – por isso que ele cura.
Mas não é para isso que ele quer viver e morrer. Nós teremos outro
corpo e outra vida depois dessa.
Até meu irmão menor entendia melhor essas coisas do que eu. Ele
até via gálatas.
– Nenhum gálata apareceu mais para você? – perguntei.
– Faz um tempo que não aparecem. Quando eu estava doente, senti
que até o Cordeiro tinha me abandonado.
Eu conhecia aquele sentimento. Foi assim também que eu vivi a
minha doença: completamente mergulhada na dor, sem nenhuma
esperança.

101
Wanju Duli

Mas não precisava ser assim. E o vermelho havia nos mostrado com
clareza a verdade.
Eu precisava falar com ele.
Contudo, logo eu descobri que aquilo seria difícil. Ele era muito
ocupado. Tinha muitas tarefas para realizar o dia todo. Muitas delas
envolviam ajuda com limpezas. Eu e Lucas também nos prontificamos a
ajudar, já que estávamos lá no acampamento como visitas.
– Quando vamos voltar para casa? – perguntou Lucas.
– Em breve – falei.
– O pai e a mãe devem estar preocupados.
– Eu sei. Só quero ficar mais uns dias. Queria falar mais com o
vermelho. Perguntar umas coisas.
Ajudar com as limpezas foi muito mais difícil do que eu imaginei. Eu
nunca tinha feito nada daquilo na minha vida. Como princesa, eu tinha
empregados para tudo. Até se eu não quisesse tomar banho sozinha eu
teria uma empregada disponível para passar uma esponja nas minhas
costas.
Tomei banho de balde naquele dia, com uma água gelada, e foi quase
insuportável. Eu não sabia quantos dias ia aguentar naquele lugar. Até a
comida era horrível. Apenas a minha vontade de falar com o vermelho
me permitiria suportar mais alguns dias daquela vida sofrida.
Enquanto eu estava no caminho para Tarsus, eu só tinha um objetivo
em mente: encontrar o vermelho antes de morrer. Por isso não me
importei com a dor e o desconforto. Ironicamente, agora que eu já
estava saudável, cada pequeno desconforto me incomodava de uma
maneira inacreditável. Às vezes eu queria simplesmente gritar de raiva,
especialmente por causa dos odiosos mosquitos.
Nunca pensei que eu fosse uma pessoa que sentisse raiva. Foram só
aparecer os pequenos problemas que eu descobri a minha fúria.
Finalmente consegui uma “audiência” com o vermelho. Ele era tão
popular e o tempo dele era tão requisitado que até uma princesa como
eu precisava marcar horário.
Bem, por lá ninguém sabia que eu era princesa e eu queria que as
coisas continuassem dessa forma ou seria mandada direto para casa.
Ele permitiu que eu entrasse na barraca. Obviamente, não contei
nada sobre minha visita de madrugada ou que mexi nas coisas dele.

102
Mártires Vermelhos

Sentei-me diante dele, de acordo com a distância adequada.


– Você já fez tanto por mim! – eu disse – eu lhe devo minha vida.
Não sabia que era um taumaturgo. Estou surpresa.
Ele escreveu:

“Esses poderes não são meus. São uma bênção do Cordeiro. Só ele tem o poder de
conceder um dom ou de retirá-lo. Somente o Imolado decide sobre a vida e a morte. Se
ele a queria para si naquele dia, eu não teria o direito de mantê-la.
Ainda assim, rezei pela sua vida. Vossa Alteza é jovem, tem planos e sua
maturidade espiritual ainda não atingiu o ápice. Por isso, intercedi por ti. Agradeça
ao Cordeiro e não a mim.
Fiz o mesmo por seu irmão. Ele é puro. A fé dele o salvou.
Fico feliz de vê-los salvos e em segurança. Agora, só peço que retornem o quanto
antes para Pérgamo. A doença não mais irá tocá-los. Não deixem o rei e a rainha
esperando por mais tempo”

– Por que só nos manda para longe de você? – perguntei,


desapontada – quando você estava em Pérgamo queria que eu saísse de
lá. E agora que saí e fui atrás de você, quer que eu volte. Eu sou um
estorvo para você?
Eu estava sendo infantil. Ele era um mártir. Para ele era natural
arriscar a vida para ajudar os outros e depois seguir o seu caminho. Ele
não podia se prender a coisas e pessoas. Era um instrumento de Deus.
Um cordeiro de sacrifício.
A única coisa que me diferenciava das outras pessoas que ele salvou
era o fato de eu ser uma princesa. Mas nem isso era grande coisa. Aos
olhos do Cordeiro todos eram iguais. Eu não merecia tratamento
especial.
O vermelho explicou a situação com paciência:

“Aprecio que queira ficar mais para conversar, mas seus pais estão preocupados.
Eu soube que eles já enviaram pessoas para procurá-los. Por enquanto a busca se
restringe aos sete reinos, mas não demorará muito para que eles descubram o navio
que vocês dois pegaram. Sugiro que voltem antes de serem encontrados para evitar
comoção.

103
Wanju Duli

Além disso, vocês conhecem minha identidade. Eu já alertei sobre as regras. Não
é permitido que continuemos a conversar a partir daqui”

Sinceramente, não fiquei muito preocupada com a busca de meus


pais. Talvez eu pensasse assim porque eu era uma irresponsável, mas eu
queria muito ficar pelo menos mais uns dias, por mais desconfortável
que fosse aquele lugar.
– Por favor, só preciso de mais... três dias – decidi – será que
podemos conversar só mais algumas vezes? Juro que depois disso vou
embora e não voltarei nunca mais.
A resposta dele foi rigorosa:

“Eu não encorajo essa decisão. Mas se essa é sua escolha e a de seu irmão, não
colocarei maiores impedimentos. A Ordem não foi informada que vocês sabem quem
sou. Eu irei realizar penitência por isso, se é o que quer. Mas depois desses três dias,
peço que não dificulte mais as coisas.
A situação por aqui está mais tensa do que parece. Sugiro que hoje assista a um
dos debates para entender do que falo. Se permanecer, é possível que veja um dos
nossos irmãos serem martirizados nos próximos dias. Imagino que você não deseje
isso”

Era doloroso saber que ele faria penitência devido aos meus
caprichos. Mas eu era egoísta a esse ponto. Eu era como os luzeiros: eu
queria muito de tudo. Queria conforto, mas também queria todos os
ensinamentos espirituais que pudesse arrancar dele. E também queria
saber mais sobre ele.
Mas eu não poderia ter tudo. Na vida é preciso fazer escolhas.
Precisamos nos focar naquilo que é mais importante para nós.
Para mim, era mais importante ouvir mais ensinamentos dele do que
evitar que ele sofresse. Essa era a diferença entre nós: um vermelho se
sacrificaria por outra pessoa. Eu não queria fazer isso. Desejava tudo
para mim.
Eu não sabia de que situação tensa ele estava falando. Os sacerdotes
de turbante azul pareciam calmos e simpáticos. Até ali, eu tinha sido bem
tratada. Eles me deram uma muda de roupas, comida e água. Eu não
conseguia ver aquelas pessoas gentis matando outras, do nada.

104
Mártires Vermelhos

– Não se preocupe comigo – falei – quando eu tinha nove anos,


assisti a uma execução por enforcamento e consegui aguentar muito
bem.
Dessa vez, as palavras dele me machucaram:

“Vossa Alteza, a morte por enforcamento é uma das mais piedosas. Eles não
matam de maneiras tão doces.
Por aqui, se alguém for decapitado antes disso terá os dedos, as pernas e os braços
lentamente decepados. Quando se é queimado vivo, começa-se pelos dedos dos pés.
E mesmo isso é muito pouco. Algumas formas de tortura podem durar longos
dias. Só não fazem durar semanas porque eles têm mais o que fazer.
Essas pessoas se entediam facilmente. Inventam formas de tortura e morte cada
vez mais cruéis, porque já são indiferentes às mortes sem dor e desafio.
Para um mártir, essa é a melhor morte: lutar contra o Dragão e unir-se ao
Cordeiro, mas isso não é espetáculo para uma princesa. Ainda mais uma tão jovem,
que apenas conheceu a visão da morte uma única vez”

O que eu poderia responder a isso?


Por toda a minha vida carreguei o peso de ter visto aquele
enforcamento para agora escutar que essa era uma morte “doce”. Era
quase como se as cenas fortes do meu passado não significassem nada.
Eu não sabia que tipo de treinamento rigoroso os vermelhos
passavam, mas eles deviam estar preparados para enfrentar qualquer tipo
de morte e tortura, seja de natureza corporal, mental ou espiritual. Afinal,
como eles diziam, ao entregar-se para o Cordeiro não era preciso
preocupar-se com mais nada.
– Se alguém for martirizado nesses três dias, posso fechar os olhos ou
correr – sugeri.

“Já esclareci minha posição. Agora a decisão é sua.


Eu quero protegê-la, mas se Vossa Alteza não quer ser protegida não posso fazer
nada. Você tem seu livre-arbítrio, que jamais pode ser violado.
Em nossa Ordem, cada um possui um irmão mais adiantado que lhe treina
diretamente. Ele orienta as mortificações.
É dito que uma mortificação do corpo sem a mortificação do espírito para
acompanhar é vazia.

105
Wanju Duli

De que adianta fazer longos jejuns e apenas passar fome? Jejuns só possuem
significado quando atingem a alma.
Você não está pronta para presenciar o martírio de um vermelho. Não ganhará
nada com isso. Apenas sofrimento. O seu espírito não será tocado.
Confusão, depressão, tristeza, choque, delírios. São muitos os sintomas daqueles
que assistem a uma morte cruel sem entenderem aquilo que ela significa. Apenas
perturba a mente sem chegar na alma.
A morte é natural e necessária para que sejamos dignos de receber a outra vida.
Um corpo se despedaça para fortalecer o espírito pelo fogo e pela lâmina.
Aos seus olhos, morte é apenas dor. Você se despedaça por dentro. Você não pode
ver o que nós vemos.
Para nós, ver o irmão martirizado nos traz alegria. Muitos de nós derramamos
lágrimas de felicidade ao ver o irmão sendo despedaçado. Sabemos que ao desprender-
se de si mesmo e estar vazio de si poderá finalmente ser preenchido com o Cordeiro.
A tortura purifica a alma e a morte leva ao céu. Como poderíamos ficar tristes
com isso? Esse efeito é sentido plenamente por aqueles que estão preparados.
Mas você irá se segurar para não sofrer. Para você, a vida é apenas carne e a
morte da carne é o fim de tudo.
Espero ter sido claro. Nós vivemos em mundos diferentes. Você precisa atravessar
a barreira que nos separa para entender. Mas por enquanto você não deseja isso”.

Aquilo era simplesmente cruel. Era a verdade, nua e crua.


Eu sabia que os vermelhos estavam preparados para a morte sob
tortura. Mas mesmo sabendo disso, eu não poderia evitar sofrer ao ver.
Alguns se tornam indiferentes à morte porque treinam o coração para
ser frio. Outros sentem um prazer sádico com tortura. Mas os vermelhos
não sustentavam nenhuma dessas posições.
Tortura era oportunidade de expiação. Nós valorizávamos as relíquias
dos mártires porque sabíamos que aquele tipo de morte purificava tanto
a alma dos que a recebiam com o devido preparo que os méritos
acumulados por eles eram tantos que até sobravam. Então os méritos
podiam ser passados aos portadores das relíquias.
Resolvi aceitar minha situação com serenidade. Eu tinha viajado
longe. Por que não aproveitar a oportunidade de ver um vermelho ser
martirizado?

106
Mártires Vermelhos

Mas aquilo não era um jogo. Os vermelhos levavam aquilo tudo


muito a sério. Eles amavam tanto o Cordeiro que estavam dispostos a ir
até os últimos limites por ele.
Era quase como se apaixonar: eles estavam loucos de amor e queriam
ofertar ao seu amado a lua e as estrelas. Quanto mais difícil de obter o
presente, mais o desejariam e mais longe eles viajariam, até o fim do
mundo, somente para encontrá-lo.
Era uma prova de amor. E qual era a maior prova que sacrificar a si
mesmo? Eles não entregavam somente o corpo, mas aquilo que tinham
de mais precioso: o espírito.
Ao viverem se preparando para a outra vida, eles passavam a ter uma
vida nesse mundo mais extraordinária do que qualquer pessoa. Pois
somente quando se visa o outro mundo nos tornamos dignos tanto
desse mundo quanto do outro. Visando apenas esse mundo, perdemos
os dois.
Na teoria tudo era maravilhoso. Mas, como eles diziam, aquilo era
Letra morta. Eu precisava enxergar o Espírito na Letra. Ou seja,
realmente viver aquela verdade para incrustá-la dentro de mim.
E para viver aquela verdade era preciso passar pelo fogo. Era isso que
eles faziam: sacrificar-se, assim como o Cordeiro sacrificou-se por todos.
Eu não tinha nenhuma esperança de entender todas aquelas coisas
difíceis em apenas três dias. Passar por aquela doença horrível me tornou
mais forte. Mas não tão forte quanto eu imaginava, pois não fui capaz de
ofertar minha dor e transformá-la em puro espírito.
– Por favor, me faça passar pela barreira – pedi – eu quero ver o que
você vê.
Eu já sabia mais ou menos o que ele ia me dizer:

“Não, você não quer. Está dizendo isso da boca para fora.
Se realmente quiser, prove-me. O que está disposta a ofertar ao Cordeiro? O seu
sangue? A sua carne? Os seus ossos?
Ninguém que deseja manter o corpo desse mundo pode chegar no outro. Somente
aquele que aceita perder tudo de si pode se imolar.
Se deseja renascer no mundo dos gálatas é preciso passar pela morte. E não pode
ser qualquer tipo de morte. Toda pessoa experimentará a corrupção do corpo. Mas
nem todos terão a força de largar a carne pelo espírito.

107
Wanju Duli

Nascemos para morrer por ele. Só poderemos viver por ele com a morte”.

Ele estava falando literalmente. Mas também estava falando em


símbolos. Eram as duas coisas juntas.
Alimentar os pobres e vestir os nus também era uma forma de
morrer para si mesmo. Nesse tipo de morte renascíamos para o outro.
Mas qual era minha missão no mundo? Por que o Cordeiro
permanecia em silêncio? Talvez porque eu nunca parei para prestar
atenção no que ele me dizia. Minha atenção estava sempre em outras
coisas e nunca nele.
Quando eu sentia dor no corpo minha atenção se voltava para minha
dor. “Por favor, pare essa dor” era a única coisa que eu podia pensar.
Em vez disso, eu devia tentar escutar o que o Cordeiro estava tentando
me dizer com aquela dor. Eu gritava demais em minha mente enquanto a
sentia. Apenas “pare, pare!” e ficava surda para tentar desvendar as
palavras da dor.
Resolvi conversar com Lucas sobre aquilo tudo. Quando saí da
barraca do vermelho fui falar com ele.
– Você aguentaria assistir um vermelho ser martirizado? – perguntei.
Lucas não disse nada.
– Por que está tão quieto?
– Eu ainda me lembro daquela noite – ele disse – quando o pai bateu
no Gus. E tirou a roupa da moça.
– Você tinha quatro anos. Não precisava ter visto aquilo.
– Eu sei, mas eu vi. Aquela cena nunca mais saiu da minha mente e
me assombra até hoje. Bibi, você quer reunir mais cenas para nos
assombrar?
Não, eu não queria. Eu sabia do que ele estava falando.
Eu podia me fingir de corajosa agora. Mas na hora em que ocorresse,
eu não seria tão forte.
Eu era uma irresponsável por desejar arrastar Lucas para aquilo. Ele
era apenas uma criança.
– Eu quero ficar mais alguns dias – falei – e gostaria que você
voltasse. Mas como eu poderia te deixar voltar sozinho?
Resolvemos que era melhor decidir isso mais tarde. O debate da tarde
já estava prestes a começar e eu não queria perdê-lo.

108
Mártires Vermelhos

Vermelhos sentados de um lado e azuis sentados de outro. Seria


emocionante. Um dos sacerdotes de turbante azul levantou-se.
– Estamos reunidos aqui hoje por nossa pura generosidade em
receber esses estrangeiros que se acham muito mais sábios que nós –
começou o azul – o nosso país abre as portas para eles e os recebe com
cortesia. O que eles fazem em troca? Querem destruir nossa cultura e
nos converter a sua religião. Eu gostaria muito que vocês entendessem
que nossa religião, além de uma realidade espiritual, também possui um
elemento cultural forte para nosso povo. Vocês chamam nossos rituais
de superstições vazias. Isso é uma ofensa grave. Nós damos a vocês
abrigo e nos dispomos a escutá-los. E tudo o que vocês fazem é
desrespeitar nossa forma de viver, apontando tudo que fazemos de
errado. Isso é justo? E depois ainda reclamam quando os jogamos para
fora ou quando nós os punimos. Somos vistos como monstros cruéis
por proteger a cultura e a história do nosso povo, que vocês querem
macular não por misericórdia, mas por ignorância e falta de respeito por
aquilo que é diferente do que vocês conhecem.
Quase tive vontade de bater palmas. Foi um discurso admirável. Mas
é claro que eu não fiz isso, eu não era louca.
Ele falou isso em sua língua local e um cara de branco traduziu em
nossa língua. Fiquei subitamente apavorada quando reconheci o cara de
branco: era o membro da Ordem dos Mártires que estava no hospital
naquele dia e bateu boca com os médicos.
E se ele reconhecesse a mim e a Lucas como os príncipes?
Instintivamente eu me encolhi. Não queria ser mandada de volta para
casa antes do tempo.
Um vermelho escreveu alguma coisa que o sujeito de manto branco
leu em voz alta:
– Eu e meus irmãos agradecemos por esta imensa generosidade e
paciência. Reconhecemos os bons elementos que existem na religião de
vocês, luzeiros, mas consideramos nosso dever moral apontar as
possíveis imperfeições. Nenhuma cultura é totalmente pura e livre de
influências. Tanto a nossa religião como a de vocês foi moldada pela
história das culturas mais diversificadas. Entretanto, também há o
elemento do espírito, que é a verdade. Existem formas de agir e proceder
que estão objetivamente corretas, enquanto outras estão objetivamente

109
Wanju Duli

erradas. Devemos fazer tudo que está ao nosso alcance dentro de nossas
limitações, mas sempre visando à perfeição. O nosso objetivo aqui não é
apenas convertê-los, mas que exista uma troca. Aprendemos muito com
os ensinamentos corretos que vocês possuem. Nós apenas pedimos que
considerem tudo aquilo que temos a dizer, como críticas construtivas.
O sacerdote de azul riu alto.
– Não nos subestimem – disse o sacerdote – suas palavras são vazias.
Vocês são especialistas em nos ofender de forma educada e pomposa.
Enquanto isso, nós somos bem diretos e dizemos: nós não os queremos
aqui. Saiam do nosso país. Nós possuímos leis que nos protegem. Nosso
patrimônio histórico e cultural é o futuro das próximas gerações. Eles
devem ser preservados. Vocês querem destruir o nosso futuro não
através de uma forma direta, incendiando nossas cidades pela guerra,
mas de uma forma muito mais cruel: destruindo aquilo que mais
prezamos, aquilo que nossos antepassados nos ensinaram. Vocês fazem
parecer que são bondosos e suaves, mas esse tipo de afronta também é
uma forma de destruição e morte. Se vocês matassem metade da nossa
população, ainda poderíamos nos recuperar e viver como nós mesmos.
Mas se vocês corromperem a juventude com esses ensinamentos
estranhos e estrangeiros, nunca mais nosso país voltará a ser o mesmo.
Será apenas uma cópia imperfeita dos sete reinos, desprovida de
identidade ou espírito.
Uau! Aqueles caras eram bons. Não era à toa que os vermelhos
precisavam se dedicar bastante ao estudo da teologia para poder
confrontá-los.
O vermelho escreveu uma resposta. O branco leu:
– Não temos nenhuma intenção de dominá-los pela cultura,
simplesmente porque não é nossa intenção dominá-los e sim salvá-los. A
verdade é a verdade, independente da cultura na qual está inserida. É
correto dizer que todos somos um produto de nosso tempo. Não
podemos fugir disso. Nós não somos perfeitos, mas viemos para
apresentar a vocês aquele que é perfeito. O Cordeiro sacrificou a si
mesmo por todos nós e queremos espalhar essa maravilhosa notícia.
Todos podemos nos alegrar juntos. Não é preciso fazer mais nada,
apenas adorar o Cordeiro em toda sua glória. Todo o resto é supérfluo.

110
Mártires Vermelhos

– Eu vejo que vocês vivem ao extremo aquilo que acreditam, já que


até comer e dormir é supérfluo para vocês – zombou o sacerdote azul –
mas mesmo que se sintam muito alegres com seus chicotes, não têm o
direito de impor essa vida aos outros, por mais “pura” que supostamente
seja. Nós luzeiros tentamos achar um equilíbrio, vivendo tanto para o
corpo quanto para o espírito. Nós não nos privamos dos prazeres da
vida. Temos mesas fartas, muita bebida, mulheres e jogos. Quem
estamos machucando ao viver dessa maneira? Ao celebrar a vida? Vocês
só celebram a morte, é um culto de zumbis. O Deus de vocês é um
bicho morto e ensanguentado. É macabro e pessimista. Vocês louvam a
doença e nós louvamos a saúde. E ainda possuem forte convicção de que
vocês estão certos e nós estamos errados. São certamente loucos
fanáticos. Nós os matamos aos montes e vocês voltam aqui aos montes
como mariposas se jogando no fogo. Não queremos que nosso legado
seja um país de zumbis suicidas.
Eu estava curiosíssima para ouvir a réplica dos vermelhos. Por
enquanto era o mesmo vermelho que escrevia. Foi o seguinte:
– Vocês dizem que não estão machucando ninguém vivendo pelo
prazer, mas vocês estão enganados. O ser humano funciona assim: caso
se permita um pouco de vício, sempre quer mais. Querem comprar
bebidas cada vez mais caras e de melhor qualidade. O paladar fica mal
acostumado e passa a aceitar apenas comidas refinadas. Esse estilo de
vida acaba por se tornar muito caro. Vocês se viciam em sexo e a
sociedade paga o preço, criando um mercado negro de prostitutas. E se
viciam nos jogos de azar, enriquecendo uma pequena elite de
empresários e matemáticos, que se beneficia disso. O suposto
“equilíbrio” entre corpo e espírito de vocês não existe. E depois que
bagunçam tudo por essa sede desenfreada pelo prazer, querem inventar
um sistema político mágico que resolva todos os problemas que a falta
de devoção religiosa genuína causou. As suas prostitutas e seus pobres se
acumulam aos montes. E vocês querem convencer a si mesmos que isso
não tem nada a ver com o vício desenfreado em sexo, em bebida, jogos e
outras drogas. Vocês os acham inofensivos. Mas eles matam não
somente os outros, mas vocês mesmos, transformando-os em assassinos
de corpo e espírito.

111
Wanju Duli

Eu estava sem fôlego. Aos poucos eu entendia porque tantos


vermelhos eram queimados em Tarsus.
Ninguém gosta de ter suas falhas esfregadas na cara. Muito menos
por mártires que se colocavam no direito moral de fazer críticas como
essas, devido à vida pura que levavam.
Eles eram um exemplo vivo de que era possível viver exatamente da
forma difícil que eles defendiam. Então como argumentar contra isso?
O sujeito de azul estava ficando cada vez mais furioso. Prestes a
explodir.
– E por que os pobres se multiplicam tanto nos sete reinos? –
desafiou o azul – aqui em Tarsus é possível enriquecer pelo próprio
esforço. Mas os seus reinos funcionam dentro de um sistema que
praticamente impede a mobilidade entre as classes sociais. Há muitas
famílias de nobres com títulos, que apenas se fecham em si mesmas. Os
seus religiosos pregam castidade sexual, mas vocês sabem muito bem
que o povo iletrado e sem dinheiro para ter uma boa educação não tem
acesso às diversões nobres e caras de livros que os ricos possuem. Então
o que resta para os pobres fazerem? Apenas rezar e agradecer por
morrerem de fome e não terem futuro? Não, eles vão ir atrás dos poucos
prazeres disponíveis: o sexo, as drogas. O sistema político de vocês é
uma piada que apenas mantém os ricos no poder e joga para fora dos
limites das capitais limpas os marginalizados da sociedade.
Era difícil dizer para quem eu estava torcendo. Havia argumentos
bons das duas partes.
– Não estamos defendendo o sistema feudal e sim a religião que
floresceu no meio dele – o branco leu os escritos do vermelho – em
nossos mosteiros, todos são bem-vindos: ricos e pobres. Nós temos
professores e livros. Temos nossas próprias plantações. Qualquer
habitante dos sete reinos poderá achar comida e educação seguindo
nossa religião. Nós até recebemos pessoas sem religião para serem
educadas por nós, mas no nosso currículo está, evidentemente, incluso o
ensino dos livros dos Selos e outras de nossas crenças.
– Vocês fingem que são bonzinhos, mas são como cobras –
comentou o azul – vocês não agem às claras, mas às escuras. Vejam só
como procedem: encontram uma criança faminta e oferecem a ela pão.
Em troca, ela vai ter que assistir suas aulas religiosas. A pobre criança

112
Mártires Vermelhos

acaba sofrendo lavagem cerebral mesmo contra a vontade, só para poder


comer um pouco. É assim que vocês manipulam os inocentes.
– Eu acredito que dar às crianças uma educação centrada nos
prazeres do corpo e na busca desenfreada do dinheiro e do poder é uma
lavagem cerebral muito mais perigosa – comentou o branco, lendo o
novo texto do vermelho – a vida de vocês é uma vida de aparências,
centrada apenas em quanto dinheiro possuem e em quão jovens vocês se
parecem, com seus cremes e maquiagens. Vocês desejam viver para
sempre, eternamente jovens e ricos, porque acham que nosso destino
está nesse mundo. Mas nós não nos importamos com coisas como
juventude, boa aparência, riqueza ou status. Isso tudo são apenas
distrações que nos afastam do nosso objetivo máximo: Deus.
O sacerdote azul fez um sinal com a mão ao alto e houve vários
gritos de comemoração da parte dos azuis.
O que será que estava acontecendo? Aquele gesto dele só podia
significar alguma coisa importante. E eu subitamente entendi.
Significava que aquele vermelho tinha ultrapassado o limite. Cruzado
a linha. E seria imediatamente punido.
– Então encontre seu Deus – disse o sacerdote azul – vá correndo
para ele. Correndo e queimando.
Algumas pessoas carregavam toras de madeira nos braços. Senti uma
sensação horrível dentro de mim.
Segurei Lucas pela mão e disse a ele em voz trêmula:
– Vamos sair daqui. Agora. Antes que seja tarde.
– Eles irão queimá-lo vivo... agora? – perguntou Lucas, com voz fraca
– assim, do nada? E como se não fosse nada?
– Não sei e nem quero descobrir. Corra!
Eu levantei e arrastei Lucas de lá. Entrei na minha barraca e não saí
mais.
Nós ficamos lá, encolhidos e em silêncio. Mas podíamos ouvir os
gritos da multidão, que eram realmente horríveis.
De vez em quando havia gritos mais altos e animados. Eu nem queria
pensar que tipo de tortura eles estavam aplicando.
Eu estava tremendo e sentindo lágrimas nos olhos enquanto abraçava
Lucas com muita força.
– Mana...?

113
Wanju Duli

Eu gostava quando ele me chamava de “mana”. Mas meu cérebro


não estava funcionando direito.
– Que foi, Lu? – perguntei.
– Você está me sufocando – ele disse, com voz abafada.
Eu o larguei. Nem sabia o que estava fazendo. Não estava pensando
direito. Eu só queria que aquele horror terminasse.
Mas as horas se passavam e nada daquilo terminar. Pelo jeito eles
iriam noite adentro.
– Quero fazer xixi – disse Lucas.
– Não saia agora – eu disse.
– Mas...
Eu estava ficando irritada. Não ia permitir que ele saísse de jeito
nenhum para ver aquele horror. Nem que fosse de relance.
Procurei algum objeto jogado num canto e achei uma panela.
– Faça aqui dentro – dei a ele – vá lá para o canto. Eu não vou olhar.
– Eu não estou com medo de sair – disse Lucas, irritando-se também
– quem está com medo é você.
– Me obedeça! Sou sua irmã mais velha!
E eu apenas me encolhi e sofri no meu pequeno mundo.
Que diabos era tudo aquilo? O debate mal tinha começado e o cara
mandava torturar o sujeito.
Foi então que eu entendi: aquilo tudo não significava nada. Era
apenas um espetáculo para as duas partes.
Os sacerdotes azuis possuíam um prazer mórbido em queimar
aqueles vermelhos metidos e arrogantes, que se achavam muito
superiores e puros. Já no caso dos vermelhos, eles iam lá exatamente
para sofrer uma morte bem violenta e com muita dor. Então também se
emocionavam com o espetáculo, felizes pelo companheiro que estava
indo encontrar o Cordeiro. Provavelmente sentiam até inveja.
Ou seja, era tudo um teatro. Os azuis não queriam escutar os
argumentos dos vermelhos e vice-versa. Todos eles eram como surdos.
A situação do “debate” era mera formalidade. O objetivo de toda aquela
conversa era um tipo de ritual que culminaria com o vermelho dizendo
algo bem ofensivo e o azul declarando que ele passou do limite. Se
duvidasse, as falas eram até ensaiadas.

114
Mártires Vermelhos

Mas eu não deveria ver as coisas dessa forma. Por um lado, havia um
pouco de teatro sim. Mas por outro os vermelhos se esforçavam por
tecer bons argumentos e tinham a real vontade de tentar convertê-los,
mesmo sabendo que aquilo era quase impossível.
Talvez os azuis não pudessem ser convertidos por meros
argumentos. Aquilo que poderia convertê-los de verdade era ver o quão
longe os vermelhos estavam dispostos a ir para defender a fé deles.
Como alguém poderia fazer aquela loucura por uma fé falsa? Eu
duvidei que os azuis, presos a seus prazeres como eram, estariam
dispostos a morrer sob tortura apenas para defender sua fé. Eles não
fariam isso, porque gostavam demais desse mundo para deixá-lo antes
que o próprio corpo caísse na corrupção.
Já era muito tarde quando os gritos terminaram. Eu finalmente tive
coragem para abrir a barraca.
– Não olhe para a fogueira – avisei meu irmão.
Eu também não ia olhar. Talvez eles já tivessem recolhido as
relíquias, mas eu não queria arriscar.
Eu espiei a barraca do Jeremias.
– Senhor... mártir? Podemos conversar?
Eu nunca sabia direito como me referir a eles.
O vermelho estava muito concentrado em alguma coisa. Mas
interrompeu o que estava fazendo para escrever para mim:

“Estarei ocupado pelo resto da noite. Não dormirei essa madrugada, pois será
ocasião de vigília. Mas podemos conversar um pouco antes disso, se for breve.
Eu vi que você e seu irmão saíram de lá antes de começar. Foi uma boa escolha.
Não teriam gostado de assistir. Chocou até a mim”

O que ele queria dizer com “chocou até a mim?”. Pensei que ele
estivesse completamente preparado para vê-los completar seus destinos
como mártires.
Sentei-me e aguardei que ele terminasse de escrever outra mensagem
que ele havia começado a rabiscar.

“Aquele que morreu era meu mestre. Foi ele que me guiou ao longo desses três
anos. Ensinou-me tudo que sei. Ele era extraordinário. Muito mais forte que eu. De

115
Wanju Duli

origem muito humilde. Os pais dele eram pobres camponeses. Ele já passou fome e
muitas privações. Foi um autodidata. Aprendeu a ler e escrever sozinho.
Ele aprendeu e viveu coisas durante a sua dura vida que eu jamais poderia
experimentar como nobre. Eu acho valioso essa troca que existe entre nós.
Aprendemos muito uns com os outros, exatamente porque cada um de nós vem de
lugares muito diferentes”.

– Se entende que pessoas diferentes podem aprender umas com as


outras, por que vocês precisam converter os luzeiros? – perguntei – e eu
pensei que vocês não tinham permissão para conhecer o passado uns dos
outros.

“Para mim o Cordeiro é a única verdade. Todos que vivem pelo Cordeiro são
meus irmãos. Eles já estão no caminho correto, rumo à salvação. Por isso, devo morrer
não pelos servos do Cordeiro, mas pelos hereges. Nós não estamos nos martirizando
aqui para salvar a nós mesmos, mas por compaixão pelos luzeiros.
Existe uma troca entre nós, mas é uma troca muito mais de espírito do que por
palavras. Nós nos conectamos aos luzeiros pelo espírito quando morremos pelas mãos
deles. É esse tipo de conexão com eles que buscamos: a do torturador e a do torturado.
Nós mártires vermelhos não temos permissão para revelar nossa identidade uns
para os outros. No entanto, conversas assim acabam por escapar brevemente através
dos anos. Tudo o que sei sobre ele são apenas pequenos pedaços de conversa que
eventualmente escaparam. Não sei a fundo sobre a vida de meu mestre”

Tudo aquilo era muito complicado e nobre para a minha cabeça.


– Por que se chocou com a morte dele? – perguntei – você não devia
se sentir feliz por ele ter ido para o céu de uma forma tão admirável?
Desconfiei que ele quisesse dar uma resposta bem bonita para essa
pergunta. Ele escreveu com cuidado e atenção:

“Chorei de alegria e emoção, mas também chorei de medo e saudade. Esse é o ser
humano, princesa Bibiana, não importa o quão elevado seja. Nós também somos
corpo e sentimentos.
Eu sabia que ele estava sentindo dor e medo, mesmo que junto a isso sentisse a
melhor sensação do mundo: a libertação de seu espírito. Todo esse mar de sensações

116
Mártires Vermelhos

deve estar conosco antes do fim. Eis nosso destino. Nem o próprio Cordeiro foi
poupado disso.
Amanhã será minha vez de defender a fé. Por isso não dormirei. Deverei preparar
meu espírito e torná-lo como rocha. Não aceitarei nada menos que isso”

Eu levei um susto. Era inacreditável saber que ele tinha chorado, mas
eu me assustei muito mais com a última informação.
– Você será martirizado amanhã? – perguntei, chocada.

“É considerado respeitável e forte ser martirizado no primeiro dia de defesa formal


da fé. O meu mestre reuniu altos méritos por sofrer seu martírio logo no primeiro dia.
Mas não sei se serei digno. Precisarei de bons argumentos para dobrar o sacerdote.
Ele normalmente mata aquele que o ofende do fundo do coração. E ele somente se
ofende quando sabe que uma verdade muito importante foi dita.
É isso que devo alcançar: devo afundar uma lança em seu espírito, dobrar sua
vontade e deixá-lo sem palavras. Quando as palavras faltam, resta apenas a lâmina e
o fogo”

– Mas... não pode ser!


Ele era inteligente demais para escapar da morte no primeiro dia de
sua defesa. Eu entendi que ele ia morrer no dia seguinte. E ele também
sabia disso.
– Você está com medo? – perguntei.
Ele respondeu com sinceridade:

“Estou tremendo. Sempre esperei por esse dia. Vivi até hoje apenas para me
preparar para amanhã: o glorioso encontro com o Imolado.
Quero imitá-lo. Foi tudo que sempre quis. Eu quero seguir meu mestre. Ele está
esperando por mim.
Galácia estará comigo por toda a madrugada. E ele também estará comigo ao
longo de todo o martírio. Será ele que carregará meu espírito para o céu num globo de
fogo”

Aquilo era insuportável.


– Quero ir com você – eu disse – não posso morrer contigo?
Foram palavras vãs, jogadas ao vento. Ele sabia disso.

117
Wanju Duli

“Não seja tola. Sabe que não estaria preparada para algo assim. Você morreria
por nada. Só deve se martirizar aquele que aprendeu a ofertar a própria dor ao
Cordeiro. Morrer pelo prazer da morte ou medo da vida é uma ofensa grave”

Eu entendi. Não insisti em meu pedido. É claro que eu não estava


preparada para morrer com ele. Que bobagem.
Eu me ofenderia se um de meus professores me chamasse de tola.
Mas eu aceitava que um vermelho falasse aquilo de mim. Eles tinham
esse direito. Ele não disse nada menos que a verdade.
– Quero estar aqui amanhã para me despedir – eu disse – mas não
quero que Lucas fique. Não quero que ele veja. Será que um de vocês
não pode escoltar Lucas de volta para casa?
O vermelho pensou um pouco antes de escrever.

“Irei verificar isso agora mesmo. Peço que espere aqui. Logo voltarei”

Ele levantou-se e saiu da barraca.


Respirei fundo, sentindo meu coração bater forte. Eu estava muito
nervosa. Era um turbilhão de emoções. Uma coisa acontecendo atrás da
outra.
Resolvi me esgueirar até a mesa dele para ver o que ele estava
fazendo antes de eu chegar. Ele estava escrevendo alguma coisa.

“Não tenho posses, não tenho o que deixar para trás. Por isso, nesse testamento
apenas informarei o destino que desejo para minhas relíquias.
Como servo do Cordeiro, não devo desejar nada. Não devo apegar-me ao meu
corpo, de modo que meus restos mortais deverão ser enviados para onde o Imolado
desejar que devem ir.
Contudo, se isso for possível, gostaria que minha cabeça fosse enviada de volta à
minha família, para meus pais. Meu torso deverá ir para Mateus, filho do marquês
de Van. Sobre minhas pernas e braços não há destino certo. Creio que um dos
membros poderia ser enviado para a família real de Pérgamo.
Qualquer decisão final a esse respeito deverá ser tomada por O.M. 10060. Ele é
de minha inteira confiança.

118
Mártires Vermelhos

Caso minhas relíquias se reduzam a pó durante o martírio e sejam perdidas,


também será grande honra encontrar o repouso final de minha carne em Tarsus. Que
meus méritos sejam transferidos aos nobres sacerdotes azuis, que me levarão ao céu”

Quase chorei lendo aquilo. Era muito forte.


Ele pretendia deixar uma perna ou braço para mim! Ele não era
lindo?
Mas eu também me sentia frustrada. Sempre soube que ele morreria,
mas eu quis acreditar que não seria tão cedo.
No entanto, ele sempre desejou que esse dia chegasse o quanto antes.
Então eu também estava um pouco feliz por ele.
Só que eu ainda era imensamente egoísta. Se eu tivesse o poder,
mandaria meu pai aprisioná-lo na minha casa, para tê-lo só para mim.
Queria que fosse meu professor e me desse aulas até o dia da minha
morte.
Mas aquele vermelho não queria ser professor e sim um mártir. Eu
não devia me meter no destino de uma pessoa. Ainda mais num destino
tão glorioso como esse.
Quando o vermelho retornou, me afastei da mesa. Fingi que não
tinha saído do lugar desde que ele deixou a barraca.
Ele me escreveu a seguinte mensagem:

“Consegui alguém para acompanhar o príncipe Lucas. Ele será escoltado logo
pela manhã. Eu também já comuniquei isso ao príncipe, que está de acordo”.

Fiquei aliviada.
– Acho que já estarei preparada para voltar para Pérgamo na manhã
seguinte ao seu martírio – informei a ele – pois sem você aqui, não terei
mais nada a fazer nesse lugar.
A próxima mensagem dele foi bem curta:

“Pretende assistir?”

– Quero ter a coragem para ver até o fim – eu disse – você quer que
eu veja?
Ele escreveu:

119
Wanju Duli

“Minha vontade é a vontade do Cordeiro. Se ele quiser que você veja, que assim
seja”.

Senti que eu estava atrapalhando. Ele queria passar a madrugada


inteira com a presença reconfortante do gálata. Então eu me levantei.
– Vou deixá-lo a sós – falei – prometo que serei uma princesa muito
justa e piedosa. Farei o possível para ajudar muita gente em meu reinado,
especialmente os pobres.
Ele escreveu uma mensagem belíssima:

“Ouvi-la dizer algo assim me traz uma imensa alegria. Por favor, faça isso.
Auxilie não só os pobres de corpo, mas de espírito. E lembre-se que estarei te
assistindo do outro mundo e velando por você. Quando precisar de ajuda, reze para
mim. Farei tudo o que estiver a meu alcance”

Quase chorei outra vez. Naqueles dias eu estava praticamente me


desmanchando em lágrimas. Eu era só coração.
– Obrigada – eu disse – vou rezar por você também. Para que tudo
corra bem amanhã. Gostaria que soubesse que você é a pessoa mais
extraordinária que já conheci. Nunca vou te esquecer. Adeus.
Fiz uma reverência e saí da barraca.
Eu estava exausta. Pensei que não ia conseguir dormir por causa do
meu imenso nervosismo, mas acabei dormindo como uma pedra.
Acordei pouco antes do amanhecer, com Lucas dentro da minha
barraca, se despedindo de mim.
– Você vai pegar o navio amanhã, certo? – perguntou Lucas.
– Isso mesmo – falei – vá em paz, Lu.
– Não se force demais – ele disse – se não for forte para olhar, não se
esqueça que você não precisa fazer isso. Tenho certeza que Jeremias vai
entender.
Eu o abracei. E Lucas partiu.
As próximas horas foram um tormento. Elas não passavam nunca.
Eu queria me ocupar com qualquer coisa para não pensar. Por isso,
ajudei os azuis a cozinhar.

120
Mártires Vermelhos

Eles conversavam animadamente enquanto preparavam a comida,


com sua língua estranha. Como eles podiam estar tão contentes depois
de assistir a uma tortura horrível no dia anterior?
Não pedi ao vermelho detalhes sobre a tortura, porque eu
simplesmente não queria ouvir. Não achei necessário.
Quase não consegui comer. Estava sem apetite. E até achei bom não
comer muito, pois havia altas chances de eu vomitar durante a tortura.
Descobri que aquele movimento ao alto com os dedos que o azul fez
era chamado “Sinal de Juízo”. Imaginei que o objetivo de Jeremias era
induzi-lo a fazer aquele sinal o quanto antes.
De minha parte, preferia que ele não o fizesse naquele dia. Mas isso
não iria apenas prolongar o sofrimento do vermelho? Ele queria muito
morrer. Não aguentava mais viver sem a visão beatífica do Cordeiro.
Então por que afastá-lo dele por mais tempo?
Para minha surpresa, eu me vi rezando para que o azul fizesse o Sinal
de Juízo o quanto antes. Quanto mais longa a espera, maior seria nossa
tortura mental ao aguardar.
Se aquilo tinha mesmo que ser feito, o quanto antes melhor. A maior
tortura era a espera.
Finalmente o debate começou. Estavam todos animados. O meu
coração explodia. Eu já não tinha certeza se tinha forças para assistir a
tortura. Mas ao menos o debate eu queria ouvir até o fim. Seria um
evento extraordinário para contar aos meus netos: “eu estive lá. Quando
eu era apenas uma menina vi algo incrível: o triunfo da pessoa mais
fantástica do mundo”.
O mesmo sacerdote azul do dia anterior tomou a palavra:
– Vocês são mesmo teimosos. Não sabem quando parar. Por que,
pelos céus e pela terra, esse martírio precisa continuar? De minha parte,
daria um fim a ele hoje. Eu os mandaria todos para casa. Vejam bem, eu
estou com 65 anos. Já vivi muito, já vi muita escuridão no mundo. Mas
vocês são apenas crianças. No máximo, vocês não passam muito dos 30
anos. Jovens com metade da minha idade jogando a vida fora. Isso é
lamentável. Eu também soube que vários de vocês eram nobres. Vocês
tinham tudo. Os jovens de hoje são mal agradecidos. Os pais se
esforçam para lhes dar tudo do bom e do melhor e como vocês os
agradecem? Simplesmente os abandonam para jogar fora a maravilhosa

121
Wanju Duli

vida que esse santo Deus Cordeiro lhes deu. Isso é justiça? Isso é
bondade? Colocar lágrimas nos olhos dos pais de vocês e abandoná-los a
ter uma velhice solitária?
Ele estava apelando para o emocional. Ele era bom nisso.
Jeremias começou a escrever. Imaginei que ele estaria suando de
nervosismo por baixo daquele manto. Ou será que, após passar a
madrugada com o gálata, foi capaz de conquistar uma paz sobrenatural?
O rapaz de manto branco leu a mensagem dele:
– Caro sacerdote, você é muito sábio e tem o meu respeito. Estou
certo de que sabe que uma vida não se conta em anos. De que adianta
gastar cem anos venerando a si mesmo? É isso o que eu chamo de jogar
a vida fora. Desperdiçar a vida é viver apegado a ela a tal ponto de
mesmo com a pele enrugada, ossos quebradiços e vista fraca ainda não
ter aprendido a deixar a vida para trás. Em certo ponto devemos ser
maduros o bastante para dizer que já chega. Aquele que ignora o criador
e destruidor do mundo não sabe nada. Minha vida não veio dos meus
pais. Ela veio do Cordeiro. Meu espírito não é propriedade de meus pais,
mas possui um único Senhor: o Imolado, que poderá fazer dela o que
quiser. Sou o escravo absoluto de um ser muito maior que eu e que
possui uma sabedoria muito superior a minha. Você pensa que possui
poder sobre mim: o poder de me matar ou de me deixar viver. Contudo,
somente o Senhor tem essa força. Se aos 65 anos ainda não
compreendeu uma verdade tão fundamental, sua vida foi em vão. Mas
nunca é tarde para dobrar os joelhos e se arrepender.
– Maldito insolente! – berrou o sacerdote – em sua terra não ensinam
o respeito aos mais velhos? Vocês são apenas um bando de moleques
entediados. Cansaram da vida. Acharam tudo vazio. Desejam morrer por
um ideal maior do que vocês mesmos, mesmo que seja um ideal
inventado. Vocês vivem por uma mentira. São apenas masoquistas. Se
orgulham tanto de suas penitências, vestidos de saco e comendo pó! De
que isso adianta? É tudo um jogo para vocês. Os jovens zombam da vida
para irritar e desafiar os adultos. Qual é a diferença entre fazer o que
vocês estão fazendo ou morrer de uma overdose de prazer? Vocês estão
tomados de orgulho por si mesmos. Se acham superiores a qualquer um.
Pensam que estão acima de todos. Então vocês inventaram esse ser

122
Mártires Vermelhos

chamado “Cordeiro”. Qual o problema que ele seja maior que vocês
mesmos se ele não existe? Quem adora a si mesmo são vocês.
Ah, que debate delicioso! Eu daria a minha vida e a minha alma para
saber a resposta de Jeremias. Senti que ele responderia de forma sublime:
– Eu sou jovem e tolo, senhor. Nisso você está certo. Mas perto da
sabedoria suprema do Cordeiro, todos somos tolos e como crianças.
Nada daquilo que faço vem de mim. Eu não poderia dar sequer um
passo se o Cordeiro não me desse sua força. Eu não busco nada mais
que a verdade. Como posso me orgulhar do que sou se tudo que fiz foi
obedecer? Eu não inventei nada do que sou. Apenas fiz o que meu
Senhor me ordenou, como um escravo obediente. Meu corpo e meu
espírito são todos dele. Sou sujo e baixo. Eu vejo minhas falhas e não me
acho digno. Só faço penitências para esvaziar-me de mim mesmo e
encher-me de Deus. Todo o resto é vão. Comer ou não comer, vestir ou
não vestir. Essas coisas simplesmente não importam. Tudo é puro aos
olhos do Imolado. Por outro lado, até a mais pura criação do Senhor se
torna impura quando é usada para servir a nós mesmos. Como o
Cordeiro pode ser inventado se ele é incriado? As coisas inventadas são
os valores meramente humanos. O Cordeiro transcende o entendimento
humano e não pode ser entendido por nossa razão. Por isso ele é o que
é. O seu não entendimento do Cordeiro prova que ele está acima da
razão dos homens e não veio dos homens.
O sacerdote estava cada vez mais irado. Estava muito claro que
Jeremias não escaparia com vida. Era apenas questão de tempo. Desde
seu primeiro pronunciamento, o vermelho já encheu-o de ódio.
– Essa é a coisa mais absurda que já escutei – disse o sacerdote – seu
Deus é incompreensível porque ele é absurdo e não porque está acima
da razão. Todos os seus atos e palavras são ilógicos porque isso tudo é
insano. Vocês pensam que todo esse universo infeliz que construíram
possui uma consistência interna. Mas esse outro mundo de que falam é
um atentado contra a vida. Uma negação da existência. De que adianta
uma filosofia que prega a morte? Ela é vazia e sombria. Vocês dizem que
são mais felizes que qualquer um, mas estão apenas enganando a si
mesmos. Para quem não come nada por dias, comer um grão de arroz é
uma grande felicidade. Essa é a vida que vocês moldaram para si: uma
grande enganação. Vocês se enchem de extrema dor para encontrar o

123
Wanju Duli

prazer no alívio da dor. Mesmo assim, vocês se julgam além do bem e do


mal. Pensam que o mal não irá tocá-los. Mas não param de falar de
batalhas contra o Dragão. Por que o Dragão gosta tanto de atacar os
vermelhos? Você se cansaram da batalha dura e verdadeira da vida real,
de lutar pelo pão de cada dia, e preferiram trocá-la por uma batalha
espiritual imaginária num mundo de fantasia que só existe na cabeça
daqueles que o alimentam.
Interessante. A conversa prosseguia. O sacerdote parecia
estranhamente interessado em prosseguir a conversa com Jeremias,
mesmo que já tenha se irritado muito desde a primeira coisa que ele
disse.
Isso me sugeria que o sacerdote azul admirou seu adversário.
Considerou-o digno e à altura. Até ele, apesar de tanto ódio, parecia estar
experimentando um estranho prazer no debate.
Ele dizia que Jeremias era só um jovem revoltado, mas ele estava com
muita vontade de conversar com esse jovem revoltado e suas palavras o
afetavam.
– Senhor, já que estamos falando do absurdo das coisas inventadas e
imaginárias, falemos da arte – disse o branco, lendo o texto mais recente
de Jeremias – eu reparei que há uma imensa estátua de um monstro
devorando o Sol na entrada da cidade, próxima ao porto. Que mais seria
isso se não uma exaltação da realidade da morte? O Sol morre todos os
dias para dar espaço para a Lua. Da mesma forma, nós devemos morrer
para essa vida para conhecer a outra. Sim, há escuridão. Mas somente
provando daquilo que é escuro iremos valorizar a luz. Assim ocorre o
renascimento do Sol e o resgate da vida. Quem persegue a vida em pleno
desespero irá perdê-la. Quem larga a vida pela glória de seu criador irá
ganhá-la. O ser humano deseja ter o poder, mas não possui a sabedoria
necessária para desfrutar completamente desse poder. Precisamos ter um
guia mais sábio que nós para expressarmos nossa vida em seu modo
máximo. Eu percebi que vocês têm muitos museus na cidade, com
muitas obras de arte, cantando e chorando a existência. Mas por que se
dedicar tanto ao mundo imaginário da arte? Vocês se cansaram da vida
real, de obter o pão de cada dia, e preferiram fugir e se esconder nessas
coisas falsas que em nada elevam o homem?

124
Mártires Vermelhos

– Você se acha muito esperto, hã? – zombou o sacerdote de turbante


azul – eu posso sentir a imensa vaidade emanando de você conforme
escreve cada uma dessas palavras. Está todo orgulhoso de sua poesia,
menino. Mas você escreve muito sem dizer nada. Então seu Deus é arte?
Ele é o pintor do mundo? E vocês, vermelhos, são seus meros
fantoches. De que adianta viver como um escravo? Eu sei pensar por
mim mesmo. Não preciso ser mandado. Rezo para o Deus da colheita
quando preciso dele. Esses Deuses não estão acima de mim.
O vermelho escreveu sua resposta. Entregou ao branco, que a leu:
– O senhor está se perdendo, sacerdote, e cavando sua própria cova.
Prendeu a si mesmo na própria armadilha que montou. Você deseja
defender a superioridade de seus Deuses, mas acabou de admitir que eles
estão abaixo do nosso. De que serve um Deus que não sabe mais que os
humanos? Eles seriam menos que animais. O Cordeiro é o grande artista,
o criador de tudo: aquele que constrói e o que destrói. Ele pintou o
mundo todo com o próprio sangue. Nós estamos vivos para fazer o
mesmo: entregar nosso sangue pelos outros e assim pintar um mundo
bonito. Deus é sabedoria suprema, então tudo o que ele faz é perfeito. Se
queremos ser perfeitos, devemos imitá-lo em tudo. Como somos fracos
demais para isso, o único caminho é se render a ele através da fé. O
Cordeiro deve viver em nós e agir através de nós. Somente assim
seremos puros. Mas quando somos orgulhosos queremos ser o Senhor e
não o escravo. Triste daquele que não segue o conselho do sábio maior
que ele, pois irá morrer. Você se gaba da experiência dos seus 65 anos,
mas o Cordeiro é eterno. Ele possui experiência eterna e sabedoria
eterna. Quem sabe mais? Não há discussão. Quem é maior? Um
instrumento nas mãos abençoadas de Deus ou uma formiga que
abandonou seu formigueiro para ser senhora de si mesma? Ela
certamente morrerá, enquanto o martelo na mão de Deus viverá para
sempre e será o reflexo do seu imenso poder.
O sacerdote levantou-se. Segurou Jeremias pelo manto e jogou-o no
chão.
– Você disse que os nossos Deuses são menos que animais? – ele
perguntou – eu sou uma formiga? Você é o martelo que me esmagará? E
depois vocês clamam que a religião de vocês prega a humildade! Se esses
são os mais humildes entre vocês, eu me pergunto como são seus

125
Wanju Duli

orgulhosos! São vocês que não passam de insetos, estrangeiros sujos que
vieram cuspir em nossa terra e em nossa cultura milenar. Há quantos
anos existem os sete reinos? Dois mil anos? Três mil anos, no máximo?
Pois Tarsus já conta mais de dez mil anos. Você diz que seu Deus é
eterno, então por que ele demorou tanto para mostrar-se?
Jeremias ergueu-se do chão. Endireitou-se e voltou a escrever. O cara
de branco leu:
– Segundo o velho adágio, o Cordeiro demorou para vir porque
estava construindo o inferno para quem fizesse essa pergunta. Mas
deixando a piada de lado, o Cordeiro está fora do tempo. Ele criou o
tempo. Antes de ele criá-lo não existia nada. Para ele, dez mil anos são
como um sopro. Vocês olham para as estrelas para tentar ver o futuro,
mas foi o Cordeiro que posicionou as estrelas. Há um gálata segurando o
Sol e outro segurando a Lua. Você acha que o Sol nascerá amanhã? Essa
é uma certeza para os tolos. Virá o dia em que o Cordeiro dirá: “Que se
exploda o Sol” e ele não mais existirá. Também virá o dia em que ele
falará: “Que as estrelas caiam” e todas elas cairão nos mares e irão
envenená-lo com sangue e fogo.
O sacerdote começou a rir descontroladamente.
– Vocês não trouxeram um mártir, mas um poeta. Infelizmente, você
está desperdiçando seu talento com teologia ruim. Eu quero toda essa
poesia que ele escreveu em minhas mãos. Irei guardá-la. Os
ensinamentos são péssimos, mas as palavras têm a sua beleza.
– Senhor – disse o cara de branco, agora por si mesmo – tudo o que
os vermelhos escrevem é guardado em nosso arquivo. Não podemos
entregar nada.
– E depois vocês se julgam desapegados das coisas do mundo? –
zombou o sacerdote azul – são apenas pedaços de papel. Estamos aqui
generosamente gastando nosso tempo com vocês e não teremos acesso
nem mesmo a essas folhas manuscritas?
– Você pode chamar um copista para copiá-las, mas exigimos guardar
as originais.
– Eu exijo as versões manuscritas – disse o sacerdote azul.
Eu fiquei boquiaberta. O sacerdote azul estava brigando para guardar
os textos que o Jeremias havia escrito. Aquilo estava mesmo
acontecendo?

126
Mártires Vermelhos

– Eu adoraria contratá-lo como escritor em nosso escritório – disse o


azul – eu pagaria um alto salário. É uma ofensa ao criador desperdiçar
uma cabeça como a sua. O que me diz?
O vermelho escreveu uma resposta curta e rápida. O branco leu:
– Também quero contratá-lo. Temos currais extraordinários nos sete
reinos. Nossos porcos apreciam comer até ficarem muito gordos. Eles
também procriam com todas as porcas que encontram, sem escolher
uma parceira fixa.
Puta que pariu! O Jeremias não estava apenas clamando pela morte.
Ele fazia questão de ter uma morte com muita dor e sofrimento.
Dessa vez o sacerdote de manto azul ficou sério. Mortalmente sério.
Sua expressão virou uma sombra.
– Então você é esse tipo de pessoa – disse o sacerdote azul, com um
imenso ódio contido – estou desapontado. Toda sua argumentação até
aqui estava brilhante. Altamente respeitável. Eu te respeitei. Mesmo
depois de você ofender os meus Deuses. Agora esse respeito acabou.
Ele fez o Sinal de Juízo. Era o fim.
Houve muitos gritos. Senti um arrepio.
– Prendam-no.
Era agora. Ia acontecer. Eu não queria ver. Deveria correr?
O sacerdote azul perdeu a discussão. Ele foi derrotado gloriosamente.
Aquela última fala dele provava isso.
Ele não se ofendeu quando seus Deuses foram xingados. Mas um
xingamento direcionado a si mesmo parecia mais terrível. Essa não era a
prova indiscutível de que ele era seu próprio Deus?
Todos entenderam isso. O azul era um mau perdedor. Ele ia apelar
para a violência.
Três empregados dos azuis imobilizaram o corpo do Jeremias com
correntes. Depois disso, o sacerdote azul se aproximou dele. Tentou
espiar seu rosto por baixo do capuz.
– Você é corajoso, isso eu admito – disse o azul – mas de que
adiantou tanta bravura? Tantos estudos, uma vida tão sofrida? No final,
foi tudo em vão. Toda a sua vida patética.
O azul arrancou a máscara de Jeremias e baixou o seu capuz. Fitou-o
diretamente.

127
Wanju Duli

Eu também estava perto o bastante para ver, embora não tão perto
quanto o azul. Jeremias era extraordinariamente parecido com seu irmão
mais novo. Porém, seus cabelos eram um pouco mais cacheados e
longos, pouco abaixo dos ombros. Sua pele ligeiramente mais escura.
Além disso, ele era espantosamente mais magro. Apesar disso, ainda
tinha um certo encanto, principalmente no brilho dos seus olhos, que
mostravam vida e determinação.
Eu fiquei fascinada com o olhar dele. Jeremias encarou o sacerdote
azul diretamente, sem mostrar medo nenhum. Na verdade, se eu fosse o
azul ficaria completamente apavorado se alguém olhasse para mim
daquele jeito. Não era ódio: era uma seriedade suprema.
– Que menino mau! – exclamou o sacerdote azul, com um sorriso
irônico – quantos anos você tem, minha criança? Quinze? Onde estão os
seus pais? Ou você é produto daqueles porcos que você falou? Não tinha
comida suficiente no curral? Os seus pais não te alimentaram direito?
Merda. Ele não iria apenas matá-lo. Iria humilhá-lo. Iria provocá-lo
para que ele retrucasse alguma coisa, mas Jeremias não podia falar nada.
Se ele falasse, romperia uma regra da Ordem e o sacerdote azul venceria.
O sacerdote tocou no rosto dele com o dorso da mão.
– Você está bem? Parece meio doente. Sua pele está com uma cor
meio amarela... ou seria verde? Eu poderia te emprestar um creme.
O azul cuspiu no rosto dele. Jeremias não expressou a menor reação.
Ele tocou nos cachos dele com os dedos.
– Você já lavou alguma vez esses cabelos sebosos? Qual é a utilidade
de ter cabelos se você está sempre de capuz? É mais uma de suas
penitências? Mas até que está bem barbeado. Queria estar sem barba
para sua execução? Em nosso país, a barba representa respeito e
sabedoria. Mas você certamente não sabe nada sobre essas coisas.
Por que ele não o matava de uma vez? Eu não sabia por quanto
tempo eu ia aguentar ver aquilo.
Era uma coisa sem sentido. Por que os azuis se rebaixavam a esse
ponto? Ao tentar humilhar os vermelhos, eles humilhavam ainda mais a
si mesmos. Mostravam que eram como crianças mimadas que não
sabiam perder.
Ou será que as crianças eram os vermelhos que invadiam o país dos
outros e perturbavam seus residentes sem serem convidados? Eu não era

128
Mártires Vermelhos

capaz de ver nenhum inocente ali. Por que aqueles dois grupos de
pessoas não viviam suas próprias vidas ignorando que o outro existia?
Mas não era assim que vivíamos nos sete reinos? Cada família
fechada em si mesma, casando seus filhos com o clubinho favorito de
famílias nobres, esquecendo completamente que havia outras pessoas no
mundo: aqueles que eram diferentes deles.
Eles sabiam que unir pessoas com pensamentos diferentes ia gerar
briga. Talvez até uma guerra. Será que o medo de perder o corpo devia
ser maior do que a vontade de buscar a verdade?
Mas aquilo não era uma busca da verdade. Era só um confronto
gratuito. Será que algo realmente bom podia nascer daquele teatro
trágico? Eu não tinha esperanças. Mas Jeremias precisava ter se queria
aguentar tudo aquilo até o final sem perder a dignidade.
O sacerdote azul rodeava Jeremias lentamente, analisando-o de cima
a baixo. Era um momento tenso. Eu não sabia o que ele queria fazer.
– Aquela sua última observação sobre os porcos – comentou o azul –
você odeia comida e sexo tanto assim? Comida eu posso ver que você
odeia. Você está só pele e osso. Será que você ainda consegue satisfazer
uma mulher, magro como está? Ainda consegue fazer seu sangue circular
para seu membro subir? Pelo jeito está faltando sangue em todos os
lugares, principalmente no cérebro. Chamem as prostitutas.
Quê? Eles tinham prostitutas no acampamento? Os sacerdotes?
Em pouco tempo chegaram cinco mulheres belíssimas, com roupas
muito arrumadas, cheias de enfeites e maquiagem. Elas já chegaram
rindo e tocando no Jeremias.
– Então esse é o rosto de um vermelho? – disse uma delas – parece
uma caveira.
– Vamos te fazer gozar no seu leito de morte – disse outra, em tom
sombrio – você devia nos agradecer de joelhos.
Elas pegaram facas e rasgaram o manto dele. Tiraram tudo e
deixaram-no completamente nu.
Eu fechei os olhos e rezei. Mas eu não conseguia me concentrar,
porque aquelas mulheres não paravam de falar putaria.
Eu corri de lá. Enfiei-me na minha barraca e tapei os ouvidos.

129
Wanju Duli

Eu não ia voltar. Por que eu quis assistir a execução do Jeremias? Só


para vê-lo ser humilhado? Não era melhor lembrar dele do jeito que o
conheci?
Rezei por mais de uma hora na solidão da barraca. Fiquei aquele
tempo inteiro de joelhos.
– Por favor, Cordeiro, se você existe ajuda o Jeremias – eu disse – ele
não merece isso.
Eu só interrompi a minha reza quando escutei muitos gritos dos azuis
lá fora e uma salva de palmas.
Precisava saber o que havia acontecido. Corri desesperadamente até o
local de execução, esperando pelo pior.
Jeremias estava caído no chão, incapaz de levantar e parcialmente
coberto em sangue. Seus dois olhos tinham sido arrancados
completamente das órbitas.
Era um pesadelo. Aquilo não parecia real.
Era um sonho. Se o Cordeiro existisse, não iria permitir que aquilo
acontecesse. Como Deus podia permitir que alguém tão santo quanto
aquele vermelho, que sacrificou sua vida pelo Imolado, morresse daquele
jeito estúpido?
– Está bem, o espetáculo terminou – informou o sacerdote azul – eu
tenho outros compromissos hoje, então vamos acabar com isso de uma
vez, pois já está muito chato. Ele perdeu completamente a vontade de
viver e não expressa a menor reação. Vamos ver se ele acorda com a
separação de relíquias. Qual relíquia você quer, alto sacerdote?
– O braço direito – informou o outro azul.
O primeiro azul desembainhou a espada da cintura. Com ela,
decepou o braço direito de Jeremias.
Eu tive que tapar minha própria boca para não deixar escapar um
grito. Houve brados de alegria dos azuis e mais uma salva de palmas. O
sacerdote azul ergueu o braço decepado de Jeremias. Depois disso,
jogou-o para o alto sacerdote.
E a distribuição de relíquias continuou. Ele perguntou para vários
azuis que parte do corpo do vermelho eles queriam. Alguns pediram
dedos. As pernas estavam tão disputadas que ele foi cortado em várias
fatias para distribuir, como um bife. E fez tudo isso com Jeremias ainda
vivo.

130
Mártires Vermelhos

Ele não aguentou. Não foi capaz de manter o voto de silêncio. Cada
vez que Jeremias dava um grito alto, os azuis celebravam.
– E agora o grande prêmio – disse o sacerdote azul – a cabeça. Ela
será minha.
– O gálata traz a morte porque ela não é o mal – bradou Jeremias – a
vida só é recebida pela morte e para os servos do Imolado a morte é
grande sorte. Aquele que vive em veneração de si mesmo já morreu
ainda em vida.
– Isso é uma reza? – perguntou o sacerdote de azul, maravilhado –
ele finalmente falou! Essas são suas palavras finais?
– Não – disse Jeremias – são as suas. O inferno não está no outro
mundo.
O sacerdote de azul decepou a cabeça de Jeremias. No exato instante
que fez isso, seus dois braços que seguravam a espada também foram
decepados, seguidos de sua cabeça.
Os braços de todos os que seguravam uma das relíquias de Jeremias
foram decepados e suas cabeças explodiram numa chuva de sangue. Isso
ocorreu a umas dez pessoas.
Diante de mim estava a criatura mais magnífica que minha
imaginação jamais seria capaz de conceber por si mesma.
Era um corpo de luz semelhante ao humano flutuando no ar. Ele
tinha três cabeças que eram como o Sol. Três pares de asas coloridas. Ele
tirou uma espada de dentro da boca. Foi com ela que arrancou os braços
de todos os portadores das relíquias.
A criatura alada gritou. E seu grito tinha o som de um trovão.
O céu tornou-se escuro. O dia tornou-se noite. Uma chuva
arrasadora varreu a terra. Uma chuva de pedras.
Ao meu redor, quase todos gritavam. Os sacerdotes azuis fugiram
correndo, aos gritos e com imenso desespero.
Dois dos vermelhos ao meu redor também morreram, atingidos na
cabeça por pedras que caíam do céu.
Eu me ajoelhei. Não consegui me mover. Se aquele fosse o momento
do julgamento divino, eu certamente morreria.
Aquela calamidade ainda durou alguns minutos. Até que, de repente,
tudo parou.

131
Wanju Duli

O Sol abriu-se no céu, em meio às nuvens. Não havia mais nenhum


sinal do gálata.
Olhei ao redor. Os restos mortais de Jeremias tinham desaparecido
completamente! Não havia nem sombra de um braço ou de uma perna.
Havia apenas um resto de sangue no chão.
Assim que tudo parou, os vermelhos que restaram vivos pegaram
panos brancos e os empaparam com o sangue de Jeremias que restou lá.
Possivelmente esse sangue se tornaria valioso, pois era o sangue de um
mártir.
E não somente isso. Era o sangue de um taumaturgo. Todos nós
testemunhamos o milagre. Não havia como dizer que aquilo era
imaginário. Os cadáveres sem braços e cabeças dos dez azuis ainda
estavam ao redor.
Sempre achei que gálatas eram gentis e bonzinhos, mas talvez eu
estivesse enganada. Eles eram realmente assustadores.
Eles provavelmente não eram “bonzinhos”. Eram justos. Mas o
conceito deles de justiça estava muito acima do meu.
Para mim, bondade significava não matar em nenhuma circunstância
e todos os humanos deviam entender a bondade dessa forma.
Mas os gálatas eram mensageiros do Cordeiro. Eles sabiam que o
corpo poderia ser sacrificado para selar o espírito. Então quando um
gálata matava aquilo não era o mal. Aos olhos de Deus, era a melhor
expiação para tentar resgatar o resto do valor do espírito que sobrou
num corpo. Não era uma punição.
Só que naquele momento eu não estava em condições de refletir
sobre assuntos teológicos. Eu estava tremendo.
Achei que haveria muito mais comoção por parte dos vermelhos.
Pensei que eles romperiam o voto de silêncio e gritariam: “Milagre! O
Cordeiro existe mesmo!”
Mas eles não fizeram nada disso. Apenas recolheram o sangue de
Jeremias. Já deviam ter testemunhado outros milagres como esses, pois
eles testemunhavam mortes de mártires com frequência.
Eles já tinham certeza que o Cordeiro existia há muito tempo. A fé
deles era muito forte. Então, eles não ficavam tão impressionados
quando testemunhavam um milagre. Até porque, assim como Jeremias,

132
Mártires Vermelhos

vários deles deviam se comunicar com gálatas com frequência. A visão


de um deles não seria novidade.
Só eu que era a ingênua facilmente impressionável. Por isso eu
tremia.
Mas por que nem mesmo um evento extraordinário como aquele era
o bastante para mover meu coração? Eu não me senti revigorada com a
presença do gálata. Eu estava com medo. Da morte e do outro mundo.
Eu só queria correr de volta para casa o quanto antes.
– Por favor! – clamei, na direção dos vermelhos – algum de vocês
pode me levar até o porto? Eu vim de carona para cá e não sei como
voltar para lá!
Um dos vermelhos me escreveu o seguinte:

“Eu levo você. Partiremos em vinte minutos”

– Obrigada!
Corri para a barraca e reuni meus poucos pertences. Mas antes de
sair, eu ainda entrei uma última vez na barraca do Jeremias.
Eu não sabia se eu podia fazer aquilo, mas eu peguei uma das folhas
dele e guardei comigo. Acho que só uma folha não faria falta. Eles nem
iam reparar quando fossem reunir os escritos de Jeremias para
acrescentar nos arquivos deles.
Vinte minutos depois, segui o vermelho. Caminhamos em silêncio
por um tempo. Pegamos os dois juntos uma carona num carro de boi.
Seria impossível seguir a regra dos dois metros naquele carro apertado,
então eu fiquei mais próxima do vermelho do que era permitido.
Depois ele ia ter que fazer penitência por minha causa. Coitado.
– Está feliz por seu amigo ter ido para o céu? – perguntei.
Ele escreveu alguma coisa em seu bloco de notas e me mostrou:

“Todos estão felizes. Galácia levou-o em segurança. O gálata nos disse que o
mártir nos aparecerá em visões mais tarde”.

A isso eu nada respondi. Estava pensativa.


– Por que alguns vermelhos morreram quando as pedras caíram do
céu? – perguntei – eles eram pecadores?

133
Wanju Duli

Ele escreveu:

“Não foi essa a razão. Eles foram simplesmente martirizados mais cedo. O
Cordeiro levou-os para si porque eles já estavam preparados”

– E sobre aquele monte de azuis que o gálata matou? – perguntei –


eles vão para o inferno?
Dessa vez ele levou mais tempo para escrever a resposta:

“Quanto a isso não sei. Não se deve julgar essas coisas. Só o Cordeiro sabe quem
cai no céu ou no inferno. Alguns vermelhos podem cair no inferno e alguns azuis
podem cair no céu. O coração de cada um é um mistério desvendado somente pelo
Imolado. Os bons e os maus não são tão facilmente discernidos”.

Gostei da resposta. No fundo eu não ficaria satisfeita com uma


resposta simples.
Era uma grande confusão achar que quem sofria dores ou morria
estava sofrendo um castigo de Deus por ser pecador. Ao contrário,
frequentemente a dor era um presente para nos ensinar uma lição moral
e espiritual. Mas era nossa escolha ver a dor somente como incômodo e
querer se livrar dela ou vê-la por aquilo que realmente era. Aí entrava o
livre-arbítrio humano.
O vermelho foi muito gentil e foi comigo até o porto. Foi ali que nos
despedimos. Agradeci profundamente.
Minha viagem de volta de navio foi muito mais agradável do que na
ida. Na ida eu passei a viagem inteira vomitando e com fortes dores de
cabeça. Só conseguia pensar numa única coisa: “por favor, corpo,
aguente só mais um pouco”.
Já na volta meus pensamentos eram de uma natureza completamente
diferente.
Inicialmente pensei que, após assistir o martírio de Jeremias, eu
experimentaria aqueles sintomas que ele descreveu: choque, depressão,
tristeza, vazio. E provavelmente isso teria acontecido se o gálata não
tivesse aparecido.

134
Mártires Vermelhos

Era a primeira vez que eu via um gálata. Aquele era provavelmente


Galácia, o guardião de Pérgamo. Como eu e Lucas éramos príncipes de
Pérgamo imaginei que Galácia nos protegesse.
Inicialmente pensei que Galácia podia ter aparecido por causa da
minha reza, mas é claro que não. Eu não era forte a esse ponto. Com
certeza foi a fé de Jeremias que desencadeou aquele efeito
impressionante.
Sim, é claro que foi ele. No momento da morte, Jeremias viu o
futuro. Ele sabia que o gálata iria fazer uma aparição. Ou talvez o gálata
já estivesse do lado dele por todo aquele tempo. Só eu não o vi. Alguns
dos vermelhos também já deviam estar enxergando o gálata desde o
começo.
Eu ainda não entendia muitas coisas. Mas sabia que tinha feito a
escolha certa por permanecer em Tarsus até a partida de Jeremias.
Eu só não estava triste por ele porque eu sabia que ele estava em
segurança agora. Ele tinha cumprido seu destino. Ele viveu somente por
aquele dia.
Imaginei que àquela altura Jeremias já tinha se encontrado com seu
mestre. E com muitos outros mártires vermelhos que conheceu em vida.
Eu sabia o que eu precisava fazer se eu quisesse assegurar minha ida
ao céu. Por outro lado, mesmo depois de tudo o que vi, eu sabia que eu
nunca teria fé suficiente para me tornar mártir.
Meu caminho devia ser diferente. Mas qual?
Por enquanto, eu só queria sentir aquela sensação ao mesmo tempo
delicada e poderosa: a lembrança da visão do gálata.
Ela ao mesmo tempo me fazia tremer e me dava esperança.
Lucas já tinha conversado muito naturalmente com Galácia. Como
ele era capaz disso? Ele não sentia medo?
Imaginei que quanto mais puros de coração fôssemos, menos medo
sentiríamos dos gálatas.
A viagem de volta passou incomparavelmente mais rápido do que a
viagem de ida. Logo eu já estava em casa.
Voltei ao castelo vestindo as roupas locais de Tarsus, que eram muito
esquisitas. Os guardas do castelo quase não me reconheceram.
– Sou eu – falei – Bibiana.

135
Wanju Duli

– Princesa Bibiana! – um dos guardas exclamou, surpreso – por


favor, entre. Sua família a aguarda.
Imaginei que Lucas já tinha avisado meus pais sobre a situação. Eu já
estava me preparando para receber uma bronca.
Inicialmente não foi isso que aconteceu. Meus pais me abraçaram,
pois estavam mortos de preocupação. Mas um pouco depois disso, a
bronca estourou:
– Onde estava com a cabeça para levar o seu irmão para aquela terra
de bárbaros? – perguntou minha mãe.
– Ah, eu só queria me despedir do vermelho – falei – lembram do
vermelho? Queria que ele me desse os ritos finais. Mas ele nos curou!
– Sim, seu irmão já contou toda a história. Mas essa ideia de
permanecer para assisti-lo se martirizar foi realmente horrível.
Relatei com todos os detalhes para meus pais sobre o gálata que
surgiu e sobre como ele abriu os céus e fez cair a chuva de pedras.
Achei que eles ficariam boquiabertos, mas eles apenas disseram:
“certo, certo, que bom que aquele vermelho morreu como queria. Que
pena que não sobrou relíquias”.
Desconfiei que eles não acreditaram totalmente no meu relato, mas
eu não os culpava. Era realmente incrível demais para alguém acreditar.
Eu contei para Teresa também, mas ela nem piscou. Devia achar que
era tudo mentira.
Só Lucas acreditou completamente em mim. Ele expressou as reações
que eu queria.
– Galácia é mesmo incrível – ele disse – é muito sábio e justo.
– Você não tem medo dele? – perguntei.
– No começo eu tinha um pouco – confessou Lucas – mas depois
me acostumei. Ele sempre me disse que pessoas que fazem o bem nunca
precisam temer os gálatas ou o Cordeiro.
Eu ainda tinha um pouco de medo, pois não me julgava uma pessoa
tão pura assim.
– A propósito, temos uma visita – disse Lucas – lembra daquele
vermelho que me trouxe para casa? Eu pedi que ele me acompanhasse
até Pérgamo e até o castelo. Ele ainda está aqui.
– É mesmo?! – eu perguntei, impressionada – quero falar com ele!
Onde ele está?

136
Mártires Vermelhos

– No meu quarto – informou Lucas.


Corri até lá. O vermelho estava sentado no chão, tranquilamente.
Parecia bem à vontade.
– Oi – eu o cumprimentei – sou a princesa Bibiana. Muito obrigada
por trazer meu irmão para o castelo em segurança. Qual é o seu nome?
Quer dizer, o seu nome de números? Não sei se você pode dizer...
Ele escreveu a resposta no seu bloquinho:

“Foi um prazer ajudar, princesa Bibiana. Meu nome é O.M. 10060”

Coloquei meu cérebro para funcionar. Eu já tinha ouvido aquele


número antes. Em duas ocasiões diferentes.
Era o cara que contou uma piada que fez Jeremias rir pelo nariz. E
ele também era o tal amigo de alta confiança dele.
Quando contei para esse vermelho que eu sabia essas coisas, ele não
se ofendeu, mas achou graça.

“O.M. 10091 era uma figura. Eu gostava muito dele. Agora ele está onde eu
quero estar. Espero encontrá-lo em breve”

Ele parecia se expressar de forma muito mais informal que Jeremias.


– Você pretende se martirizar tão cedo? – perguntei, desapontada –
não pode ficar um tempo aqui no castelo antes para conversarmos?
A resposta dele foi a seguinte:

“Devo partir o quanto antes. Posso ficar no máximo três dias. Depois disso,
realmente terei que partir”

Ele não tinha que partir coisa nenhuma. Ele só queria ir embora
porque estava ansioso para morrer, como todos os outros.
Mesmo assim, tentei tirar o máximo de conhecimento dele que
consegui naqueles três dias. Pedi que ele me desse aulas de longas horas,
que foram muito proveitosas.
Logo que voltei para casa já tive que retomar minhas aulas. Eu teria
que estudar muito para recuperar a matéria perdida.

137
Wanju Duli

Aquilo era tudo muito chato. Depois de ver tudo o que vi, eu estava
muito distraída em relação aos meus estudos. Já não estava tão
interessada neles.
Eu não precisava ser uma aluna modelo. Bastava passar de ano. Eu já
tinha meu futuro garantido, me casando com algum príncipe. A questão
das notas era só para me exibir. Se eu tirasse boas notas, eu talvez
conseguisse conquistar a atenção de um príncipe mais rico.
E de que isso me importava depois de tudo que vivi? Qualquer
príncipe servia. Eu não tinha a ambição por poder das minhas irmãs. Por
que eu precisava perder meu precioso tempo me dedicando a estudos de
coisas que não importavam se aprender teologia era tão mais
importante?
Descobri que o tal O.M. 10060 era muito inteligente. Ele sabia
responder qualquer coisa que eu perguntava sobre teologia caliciana
como se tivesse engolido um livro.
Foi então que descobri que esse era o misterioso mártir que Jeremias
mencionou uma vez, que sabia as cinco mil páginas dos Selos de cor!
Fiquei maravilhada. Eu tinha uma enciclopédia viva diante de mim. Eu
me tornaria imensamente sábia com um professor como ele.
Quando os três dias se passaram, o vermelho me informou que
deveria partir.
Mas eu já tinha perdido Jeremias. Não queria perder outro vermelho
para a morte. Eu precisava dar um jeito de impedir sua partida.
Na verdade foi bem fácil. Mandei que ele entrasse num cômodo da
casa e o tranquei lá. Somente eu tinha a chave.
Meus pais descobriram o que fiz somente dois dias depois e brigaram
comigo.
– Eu quero esse vermelho para mim! – exclamei – quero um
vermelho como professor de religião. Não aceito um mero acadêmico.
Aprendo mais com um vermelho em um dia do que aprendo com um
acadêmico em um mês!
E dei uma série de argumentos tentando provar ao meu pai a
importância de eu ter aulas de religião todo dia com um vermelho. Sendo
assim, eu precisava mantê-lo no castelo por tempo indeterminado.
– Só irei permitir isso se suas notas não caírem – disse minha mãe.
– Combinado – falei.

138
Mártires Vermelhos

– Querida, você já perguntou para esse vermelho se ele aceita ser seu
professor? – perguntou meu pai.
É claro que nenhum vermelho ia querer ficar preso no meu castelo e
fazer algo tão mundano como dar aulas para a princesa. Todos eles
queriam partir para terras selvagens e distantes para serem martirizados
de formas horríveis e heroicas.
Eu estava estragando tudo. Sabia disso. Mas eu disse ao vermelho que
seria uma boa oportunidade para ele fortalecer a virtude da paciência.
Eu tive muita sorte, pois aquele vermelho era inacreditavelmente
educado. Ele me escreveu o seguinte:

“Vossa Alteza, aprecio muito sua determinação em estudar teologia e sua


predileção por me ter como seu professor. Eu sinceramente sinto-me honrado.
No entanto, devo deixar claro que se você pretende manter-me preso aqui será
contra a minha vontade.
Eu concordo em te dar aulas por mais um tempo, mas se Vossa Alteza for me
manter preso por um tempo grande demais, eu terei que contatar a Ordem para me
libertar”

– Você não vai conseguir contatar a Ordem – eu disse a ele – porque


eu não vou permitir. Meu pai é o rei. Ele pode informar a Ordem que
exige você como meu professor.
Eu sabia que não era bem assim. Meu pai tinha poder secular e não
religioso.
Depois de eu mantê-lo preso em casa por mais ou menos um mês,
meu pai foi conversar comigo outra vez.
– Filha, eu acho que já chega. Solte esse vermelho. Ele tem o seu
caminho.
– Não quero! – gritei – eu o quero só para mim!
– Desde quando você é tão mimada?
– Vocês me mimaram! – berrei – a culpa é de vocês. Sempre me
deram tudo o que eu queria. E nunca me deixaram ter um bicho de
estimação. Então eu quero um vermelho!
– Bibiana, pare de gritar agora! – a voz de meu pai endureceu – você
não é mais uma criança. Sabe muito bem que uma pessoa não é um
bicho de estimação. Muito menos um vermelho.

139
Wanju Duli

– Você sempre tratou os empregados do castelo como se eles fossem


menos que animais – falei – e agora quer fingir que se importa com
direitos humanos? Eu só estou seguindo seu exemplo, papai.
E dei um sorrisinho irônico. Ele suspirou fundo.
– Pensei que essa sua... jornada espiritual ou o que valha tinha lhe
ensinado alguma coisa – disse meu pai – mas pelo jeito você não
aprendeu nada. Continua egoísta como sempre.
– Por que eu não devo ser egoísta se vocês sempre me educaram para
que o mundo se dobrasse aos meus pés? – perguntei – eu sempre tive
que seguir o exemplo de Teresa e Catarina, olhando todos de cima. Você
sempre disse que a coisa mais importante para um príncipe era ter
ambição pelo poder. E existe poder maior do que ter poder sobre
alguém? Pois então me deixe exercer meu poder e manter esse vermelho!
É só isso o que eu peço, mais nada.
– Isso é demais. Você fala como se não fosse nada. Sabia que essa sua
atitude pode prejudicar a relação da nossa família com o poder religioso?
Sabia que guerras já começaram por menos que isso?
– Ai, que exagero – eu revirei os olhos – se você não me deixar
manter esse vermelho, eu vou me jogar no chão e gritar.
– Pois faça isso – desafiou meu pai – como a criança que você é.
E eu fiz. Eu me atirei no chão, esperneei e gritei.
– Cale a boca, sua... maldita! E se os empregados ficarem fofocando
depois sobre o seu comportamento? Está bem, mantenha esse rapaz
preso, como desejar. Só não ouse baixar as suas notas. Senão, eu
prenderei você numa sala, para que veja como é bom.
– Viva! – falei – e quando puder, por favor, tente obter as
informações pessoais dele, assim como você obteve as de Jeremias,
certo? Descubra o máximo que conseguir.
Eu estava ansiosa para convidar Sara e Paula para minha casa e
mostrar-lhes meu novo bicho de estimação vermelho.

140
Mártires Vermelhos

Capítulo 4

Quando voltei a frequentar as minhas aulas, Paula e Sara me


ajudaram a recuperar a matéria que perdi.
Tive que sacrificar longas horas de sono nas semanas seguintes para
fazer estudos extras, manter minhas altas notas e ainda ter tempo de
assistir aulas com meu novo vermelho. Era muito para apenas 24 horas,
mas eu estava determinada.
Minhas duas amigas queriam que eu relatasse com detalhes sobre
minha aventura. Afinal, era emocionante eu ter fugido de casa e vivido
tudo aquilo.
Na época da minha doença elas foram proibidas de me visitar, já que
era contagiosa. Mesmo assim, elas me enviaram cartas de apoio que me
deixaram um pouco mais animada.
Eu soube que tivemos quatro dias sem aula por causa da praga.
Menos mal. Só que naqueles últimos tempos a doença já não estava se
espalhando tanto. Eu desconfiava que aquilo tinha uma relação direta
com o sacrifício de Jeremias.
A vida era um equilíbrio delicado. Nós precisávamos da dor e da
doença para entender as realidades espirituais. Ainda assim, com dor
demais nós iríamos nos sufocar.
Para quem estava preparado como os mártires vermelhos, quanto
mais dor melhor. Mas para nós, pessoas comuns, afogar-se na dor não
era bom. No estágio em que nos encontrávamos era melhor ter apenas
dor moderada e, conforme se aprendia a lidar com essas, íamos
conquistando dores maiores.
Paula e Sara ficaram impressionadas quando contei a elas que
Jeremias nos curou.
– É natural para pessoas santas serem abençoadas com certas
capacidades espirituais – observou Sara.
– Mas também é possível obter poderes que não venham do Cordeiro
– disse Paula.

141
Wanju Duli

– Que horror! – exclamou Sara, sem nem querer pensar nisso – nem
fale essas coisas! De que adianta conquistar muita saúde e riquezas
através desses poderes se perdermos nossa alma?
Era como Jeremias tinha dito: o poder pelo poder era vazio. Os
calicianos que recebiam poderes geralmente não pediam por eles. O
Cordeiro presenteava as pessoas conforme queria, de acordo com as
virtudes de cada espírito.
E, assim como o Imolado dava, também podia tirar. Então ter ou não
ter poderes não importava. Havia somente uma coisa que devíamos
ofertar nossa vida para não perder: a fé. Separar-se do Cordeiro era
morte. Uma morte espiritual muito pior que a morte física.
Também contei a elas sobre a tortura de Jeremias e o momento
extraordinário da aparição do gálata.
– Você viu o gálata? – perguntou Sara, impressionada.
– Sim, por um breve momento – respondi – mas acho que ele já
estava lá o tempo todo. Desconfio que só fui capaz de vê-lo porque ele
escolheu mostrar-se a todos naquele instante. Não acho que eu já tenha
reunido méritos suficientes para ter uma visão como essa.
– Significa que nem todos que estavam lá o viram? – perguntou Sara.
– Parece que nem todos os azuis que restaram vivos puderam vê-lo –
falei – alguns só correram quando viram os outros azuis morrerem e a
chuva de pedras.
Isso me deixava intrigada. Talvez eu tivesse sido abençoada pela
breve visão porque eu realmente mereci. Mas eu não entendia direito
essas coisas.
Eu sabia que no fundo eu não devia buscar coisas como visões. Mas
eu era uma adolescente. Estava curiosa e empolgada com tudo aquilo,
como minhas duas amigas. É claro que gálatas e curas eram tópicos
empolgantes para nós.
Provavelmente as pessoas espiritualmente avançadas como os
vermelhos estavam mais interessadas em ajudar os outros e purificar a si
mesmos não porque queriam obter visões, poderes ou qualquer
vantagem com isso, mas simplesmente porque fazer tudo isso eram
coisas boas por si mesmas.
Era como o mundo: quem queria viver pelos prazeres do mundo,
perdia esse mundo e também o outro. Mas quem virava as costas para os

142
Mártires Vermelhos

prazeres desse mundo e buscava os dons do espírito, tornava-se capaz de


desfrutar plenamente dos prazeres dos dois mundos, pois tornava-se
digno deles.
Se buscássemos poderes e visões por mera ambição e curiosidade,
não seríamos dignos. Mas virando as cosas para visões e poderes e
buscando o Cordeiro, nos tornaríamos dignos de ter as coisas que
abandonamos. Somente assim teríamos a sabedoria e humildade de usar
os dons de forma correta: para servir a Deus e não a nós mesmos.
Mas... dane-se tudo isso! Eu preferia fofocar sobre milagres e gálatas
com minhas amigas em vez de falar sobre a importância de dar pão aos
pobres e fazer jejuns para mortificar o espírito.
– Como ele era? – perguntou Paula – o vermelho. Você disse que o
viu sem a máscara e o capuz, não é?
– Ele era muito parecido com o irmão dele – respondi – mas muito
mais magro. Os cabelos um pouco mais longos. E... não sei explicar, mas
todo o ser dele emanava santidade. Não sei se era o olhar. Era realmente
incrível. Estou aliviada por nunca ter olhado diretamente nos olhos dele,
pois não sei se eu aguentaria.
Acho que o sacerdote azul também ficou com medo daquele olhar.
Por isso arrancou os olhos dele. As duas ficaram chocadas quando
contei.
– As relíquias simplesmente sumiram? – perguntou Sara.
– O gálata deve tê-las levado consigo – eu disse – talvez ninguém
tenha sido digno delas.
– Você disse que o sacerdote mandou chamar cinco prostitutas –
falou Paula – o que elas fizeram a ele?
– Eu não sei – eu respondi – não aguentei ver. Eu saí assim que elas
começaram a rasgar o manto dele. Quando voltei, ele já estava caído no
chão, ensanguentado e sem os olhos.
– Há alguns vermelhos que se cegam por vontade própria, não é? –
perguntou Sara.
– Esse é um tipo de penitência, mas não é tão comum quanto dizem
– falei – é para poucos. É preciso ter vocação para isso. Assim como ser
mártir é para poucos.
– Que bom que ele cumpriu o seu destino – disse Sara.

143
Wanju Duli

– Será que agora que ele morreu o irmão dele concorda em soltar
algumas informações sobre ele? – perguntou Paula.
Eu duvidava disso, mas nós três fomos procurá-lo no intervalo.
– Tem certeza de que você não está mais doente? – perguntou o
rapaz, se afastando um pouco, como se pudesse ser contaminado ao
chegar muito perto de mim.
– Estou totalmente curada – garanti a ele – graças ao seu irmão.
– Então você o encontrou.
– Sim. Eu o vi ser martirizado. Você quer que eu fale sobre isso?
– Não – ele baixou os olhos – já recebemos uma carta formal da
Ordem. Só lamento que as relíquias tenham se perdido.
Quase perdi o fôlego olhando para aquele rapaz. Era quase como ver
Jeremias revivido.
Mas fora a aparência, os dois pareciam ser muito diferentes. Elias
tinha medo de pegar uma doença. Jeremias correria para tentar contraí-
la.
– Você também é religioso? – perguntei, curiosa.
– Recebemos educação religiosa moderada desde o berço – ele
respondeu – mas eu nunca me interessei tanto por religião quanto ele.
– Ficou orgulhoso quando seu irmão decidiu ser mártir?
– Todos odiamos – ele respondeu – quando não se tem uma fé tão
grande, é horrível saber que quem você ama decidiu partir para outro
mundo.
– Ele sempre amou religião tanto assim?
– Nem sempre – respondeu Elias – ele já fez coisas bem mundanas
no passado. Mas eu não darei detalhes sobre isso. Na verdade, nem
devíamos estar tendo essa conversa. Você sabe que nossa família jurou
sigilo mesmo após a morte dele.
Eu sabia disso. Mesmo assim, fiquei contente com as poucas
informações valiosas que obtive naquela breve conversa.
Quando nos despedimos, eu fiquei pensativa. Nas últimas semanas
minha vida se resumiu a desejar conversar mais com aquele vermelho.
Eu o chamava para a minha casa e fui atrás dele até mesmo em outro
continente.

144
Mártires Vermelhos

Somente a morte dele me fez parar de persegui-lo. Senão eu


desconfiava que teria continuado a ir atrás dele. Da mesma forma que ele
perseguia o Cordeiro: até o fim do mundo.
Meu interesse religioso ainda era muito mundano. Muito mais
voltado à criatura do que ao Criador. Mas aquilo fazia parte da minha
caminhada. Eu teria paciência para aguardar o meu amadurecimento.
É claro que eu não ia esperar sem fazer nada, embora nem todas as
minhas ideias para aprender religião fossem boas. Como prender um
vermelho em casa.
Pensando bem, aquela minha atitude infantil devia ter atrasado
bastante o meu progresso espiritual. Impedir um vermelho de cumprir o
seu destino devia ser uma ofensa bem grave.
Contei aquilo com cuidado para minhas amigas. Elas ficaram
divididas entre o espanto e o riso.
– Você é louca! – exclamou Paula, rindo – com todo o respeito
“Vossa Alteza”, mas... caramba! Por que não chamou um dourado para
te dar aulas?
Era uma boa pergunta. Os eremitas negros viviam em completo
isolamento, então não havia a menor chance de eu conseguir um deles
como professor. Mas um dourado era uma possibilidade.
– Sempre admirei os vermelhos – contei – quer dizer, sou viciada
neles, desde a infância. Então tinha que ser um deles. Além do mais, se
eles estão treinando largar de si mesmos, eis uma boa oportunidade. O
vermelho pode interpretar que o Cordeiro quer que ele fique preso lá em
casa por alguns anos.
– Anos? – perguntou Paula, chocada – você não está pensando em
fazer isso, certo?
– Quero que ele fique pelo menos mais alguns meses – falei – vou
tentar o máximo de tempo que eu conseguir. Sinto uma grande dor por
ter perdido o Jeremias. Não quero perder esse vermelho também!
– Mas eles não são seus! – Paula riu.
– Paula, isso não é engraçado – disse Sara – ou melhor, é engraçado,
mas... não é! Estamos falando de uma pessoa presa. Um santo. Você
gostaria de estar presa?
– Ele é um mártir, está acostumado a sofrer – argumentei – e eu
sempre respeito as regras dele. Dou a ele comida uma vez ao dia, no

145
Wanju Duli

horário permitido: das onze ao meio-dia. E nunca coloco tempero na


salada. Eu sei de tudo. Já estudei o livro de regras deles e estou fazendo
tudo perfeito. Querem conhecê-lo?
Claro que elas estavam curiosas. Por isso foram me visitar no castelo.
Não sei se meus pais gostavam muito daquelas visitas. Mas eu estava
naquela fase da adolescência em que não dava tanta importância para o
que eles achavam.
Bati na porta antes. Eu costumava deixar o vermelho trancado num
cômodo amplo com banheiro. Ele provavelmente devia se incomodar
com o excesso de luxo dentro daquela sala, mas eu resolvi que resistir a
essa tentação também devia fazer parte da penitência dele.
– Boa tarde, vermelho – nós entramos – essas são minhas duas
colegas, Paula e Sara. Elas também adoram religião, então convidei-as
para que você compartilhe sua sabedoria com elas.
O vermelho estava sentado no chão quietinho fazendo alguma coisa.
Quando nos viu, ele escreveu uma resposta e repousou na mesa em
frente.

“Boa tarde, princesa Bibiana, Paula e Sara!

É um prazer conhecê-las. Sobre qual tópico gostariam de tratar hoje?”

– Ele é tão simpático – Paula nos sussurrou.


Ele era. Principalmente considerando que eu o havia aprisionado.
Não que Jeremias não fosse gentil, mas ele era mais sério e formal. Já
esse novo vermelho era mais informal e tranquilo, mas não de um jeito
ruim. Eu gostava muito da informalidade dele.
Além disso, a cada dia ficávamos mais próximos. É claro que aquilo
não era uma coisa boa para ele, já que as regras da Ordem o proibiam a
ter uma aproximação tão grande com alguém que não fosse um mártir.
– Que tal você ensinar a elas um pouco da linguagem de sinais? –
sugeri – ele tem me ensinado. Não a linguagem de sinais secreta deles,
mas a que eles usam para se comunicar em outras circunstâncias.
O vermelho escreveu alguma coisa:

146
Mártires Vermelhos

“Teoricamente eu não teria autorização para te ensinar essa linguagem e muito


menos para suas amigas. Mas contanto que elas não tenham a intenção séria de
aprender, eu me disponho a mostrar apenas algumas curiosidades”

– Viva! – celebrei – eu ainda não sei falar muita coisa em sinais. Sou
muito ruim com isso. Essa linguagem se chama “galatiano”, embora eles
não a usem para se comunicar com os gálatas.
Ele escreveu:

“Sobre a nossa linguagem de sinais secreta eu não posso dar detalhes. Só posso
dizer que se chama „galac‟ e que possui semelhanças com o galatiano. O galac tem
mais de dois mil anos e trata-se de uma língua complexa e muito mais refinada. Nós
só a usamos para nos comunicar entre nós, mártires. No entanto, existem leigos
acadêmicos ou místicos que desejam se iniciar em certos mistérios de nossa Ordem e
para esses ensinamos o galatiano, que é uma variante mais simples do galac, bem
mais fácil de aprender.
É claro que o galatiano tem menor riqueza linguística, mas serve bem ao
propósito de comunicação. Para quem entende galac é muito fácil compreender a versão
mais simples da língua. Mas o contrário não é verdadeiro. Quem conhece a versão
simples pode até entender uma ou outra palavra que nós mártires usamos. Mas não
entende mais que isso”.

– Que interessante! – exclamou Sara, encantada – eu adoro línguas.


Não sabia que os leigos podiam se iniciar em alguns mistérios dos
mártires.
Eu também não sabia até pouco tempo. Mas não era qualquer um
que podia entrar nesse grupinho restrito. Eles faziam uma rigorosa
seleção de leigos para iniciar. Normalmente pessoas que já possuíam
certo grau de entendimento de teoria e prática da nossa religião.
O vermelho explicou como funcionava:

“Nós temos três graus na Ordem dos Mártires. O terceiro grau são os leigos que
desejam realizar algumas de nossas penitências e aprender mais a fundo nossa
doutrina. Eles não têm autorização para fazer nossas mortificações mais rigorosas. A
eles ensinamos o galatiano. O segundo grau são uma classe de „meio monges‟ que
levamos conosco para as terras que viajamos. Eles usam um manto branco e não

147
Wanju Duli

precisam cobrir o rosto ou as mãos. Eles podem falar e manipular dinheiro. Em


suma, eles nos ajudam nas coisas mais mundanas com as quais não temos
autorização para nos envolver. A maior parte deles aprende só o galatiano, mas
alguns poucos já receberam autorização de aprender o galac.
O primeiro grau somos nós, monges completos, que usam o manto vermelho,
cobrem o rosto e as mãos, não podem falar e realizam penitências mais rigorosas.
Todos nós temos que aprender o galac. Enquanto os brancos levam um ano para
serem ordenados, nós vermelhos levamos entre dois e três anos. Mas não posso falar
sobre o que fazemos durante o treinamento”.

Eu tinha muita curiosidade de saber como eles eram treinados. Devia


ser algo muito poderoso para lhes dar a fortaleza de aguentar uma morte
sob tortura.
– O que acontece se vocês viajam para algum país e não são
martirizados? – perguntou Paula.
Ele respondeu:

“Normalmente nós ficamos lá por um tempo com a intenção de convertê-los. Pelo


menos algumas semanas ou meses. Quando a missão é bem sucedida, ordenamos
sacerdotes locais, eles cuidam das coisas e partimos para outro lugar.
Nós mártires sempre optamos por viajar para os reinos mais perigosos.
Geralmente escolhemos os que estão em guerra, os com população ateísta ou aqueles
que possuem uma religião com uma moralidade de caráter duvidoso.
Enfim, nós sempre tentamos estar onde há grande violência, tanto para tentar
ajudar as populações locais com comida e medicamentos como para ensinar-lhes a
nossa religião. Nossa prioridade é salvar as almas, mas é claro que também ajudamos
com as coisas materiais, já que somos seres de carne e espírito.
Por isso é comum dizer que após começarmos nossa viagem não duramos mais que
alguns meses vivos. Os mais azarados ainda ficam por aí por um ou dois anos. Já
houve um caso extremo de um vermelho que continuou vivo por cinco anos, mas esse
foi o máximo que ouvimos falar. Nós vamos para o meio de bombas, nós realmente
queremos morrer. Mas não pelo prazer de morrer e sim para salvarmos o máximo de
almas antes de entregar a nossa para o Cordeiro.
Alguns podem pensar que, por compaixão aos outros, devíamos ficar aqui por
mais tempo para ajudar antes de subir ao céu. No entanto, estando no outro mundo

148
Mártires Vermelhos

podemos ajudar ainda mais. Após ver Deus face a face recebemos muito mais
capacidades para dar consolo aos seres desse mundo”

– O que é preciso fazer para entrar no terceiro grau da Ordem? –


perguntou Paula.

“O mártir leigo de terceiro grau deverá jurar que pelo resto da vida assistirá às
celebrações religiosas dos dourados todos os dias. Ele deve rezar e ler os Selos todo dia.
E também deverá realizar doações diariamente para os pobres, de comida, roupa,
medicamento ou doar uma parte de seu tempo. Além disso, a cada semana ele irá
selecionar uma penitência, como abster-se de doces, fazer um jejum só com água no fim
de semana e deixar para trás muitas pequenas coisas. Tudo isso é feito sob a
orientação de um diretor espiritual. Os leigos podem se casar ou ser solteiros”

– Isso é muito rigoroso – disse Paula – eu estava um pouquinho


interessada, mas deixa pra lá.
Também fiquei desapontada. Eu queria ser membro do terceiro grau
só para me exibir e dizer para os outros que eu era, mas já que exigia
tanto esforço acho que não valia a pena eu fazer tudo aquilo só para me
exibir.
Por enquanto eu não fazia nenhuma penitência ou caridade. Só
estudava a parte teórica da religião deles, além de fazer aquelas coisas
mínimas que todo praticante normal fazia: rezar e ler os Selos todo dia, ir
à celebração aos domingos.
Eu não me animava muito com o pensamento de fazer jejuns ou de
visitar pobres e dar coisas para eles. Até porque eu era uma princesa. Se
eu fosse entrar numa comunidade bem pobre eu teria que fazer aquilo
escondida.
Era comum que membros da realeza ajudassem os pobres para
ganhar a admiração da comunidade. Mas raramente alguém fazia aquilo
por um sentimento genuinamente religioso.
A breve aula de galatiano foi divertida. As meninas perguntavam:
“Como se diz tal coisa em galatiano?” e o vermelho fazia movimentos
com os braços e mãos para demonstrar.
Geralmente tinha alguma lógica. “Mártir vermelho” em galatiano era
fazer um movimento rápido com a mão direita no pescoço, como se

149
Wanju Duli

fosse cortar a garganta, e depois batia-se no coração com a mão em


punho, tanto para indicar o sacrifício por amor, quanto a cor vermelha
do manto e do coração.
Frequentemente achávamos graça no movimento usado para várias
frases e palavras e ríamos muito. Tentávamos imitar e o vermelho
corrigia, demonstrando a forma de fazer o movimento correto.
Ele também parecia estar se divertindo com tudo aquilo. Dava para
ver que ele tinha verdadeira paixão por aprender idiomas.
Depois nos divertimos com outra coisa. Abríamos os livros dos Selos
numa página aleatória e pedíamos para ele escrever o que estava escrito
lá.
Paula e Sara ficaram boquiabertas. Ele realmente sabia de cor as cinco
mil páginas. Era quase inacreditável.
E não era só isso. Ele também sabia de cor toda a regra da Ordem
dele e mais outros livros religiosos importantes. Além disso, ele sabia dez
idiomas diferentes.
E eu me orgulhava de saber apenas cinco. Havia a língua geral dos
sete reinos, chamada “reinara”. Depois havia uma língua específica de
cada reino. A de Pérgamo era “pergero”. E também havia uma língua em
cada cidade. A cidade em que estava a realeza era “Soma”, então
falávamos “somia”.
Como regra, todo nobre dos sete reinos conhecia, no mínimo, três
línguas: a língua geral, a língua do reino em que nascia e a língua da
cidade em que nascia. Enquanto isso, a maior parte dos camponeses não
sabia nem mesmo ler e escrever e só falava a língua geral.
Pode parecer difícil aprender três idiomas, mas nós usávamos os três
desde criança. Era obrigatório que todo colégio oferecesse disciplinas
dessas três línguas desde o primeiro ano. Além do mais, eram línguas
muito parecidas e que usavam o mesmo alfabeto.
Sendo assim, eu e todas as pessoas que eu conhecia simplesmente
sabíamos ler e escrever em reinara, pergero e somia tão facilmente como
respirar. Nem foi preciso fazer nenhum esforço para aprender aquilo.
Eu só tive que fazer algum esforço para aprender as duas línguas
extras que eu sabia. Uma delas era “vernana”, uma língua antiga e morta
que meu colégio oferecia como disciplina extra. Ela originou a língua
geral e aprendê-la era útil para entender a origem de certas palavras em

150
Mártires Vermelhos

comum que havia nos diferentes idiomas dos reinos. Era como aprender
as “regras do jogo”, então era bem interessante e estimulante.
A quinta língua que eu sabia era uma coisa extremamente chata
chamada “pompena”. Era uma antiga língua da realeza que eu era
obrigada a estudar aos sábados. Ela foi criada por um erudito idiota que
não tinha mais nada para fazer. Seu objetivo era dar às famílias reais mais
um motivo para se exibir. Ela não era secreta e nem nada, mas era
exageradamente complicada.
Havia línguas complicadas de uma forma boa, que tinham uma lógica
emocionante e geravam um desafio. Mas pompena foi um idioma criado
por uma única pessoa cujo objetivo era ser pedante. Então ele inventou
centenas de declinações ridículas. Não havia nenhum motivo para
aquelas coisas existirem e não enriqueciam a língua em nada. Apenas a
tornavam difícil pela simples vontade de torná-la difícil de aprender.
Isso significava que ninguém ia perder tempo para aprender essa
língua por hobby. Então, literalmente, só os reis e príncipes a conheciam
porque eram obrigados a aprender aquela porcaria e no fundo ninguém a
sabia falar direito. Só fingíamos que sabíamos. Acho que a única pessoa
que soube falar pompena com perfeição foi seu criador.
Uma das coisas que mais me irritava quando havia encontros entre
famílias reais para chás de noivados era os reis se cumprimentando em
pompena e falando frases de efeito nesse idioma. Lembro que essa era a
coisa que mais fazia Gus revirar os olhos e ter vontade de pular da janela.
Eu apenas ria.
Augusto. Nossa, que saudades dele! Meu pai todo ano dava desculpas
dizendo que estava ocupado demais para que viajássemos para Tiatira.
– Quais são os dez idiomas que você sabe? – perguntou Sara.
O vermelho escreveu:

“Não posso dizer. Se eu respondesse, vocês saberiam minha origem. Como regra
da Ordem, não posso revelar minha identidade”

Ele era um nobre, sem dúvidas. Não havia como esconder isso. Um
camponês podia até aprender a escrever outra língua além da língua
geral, mas eu duvidava muito que chegasse a aprender dez.

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Wanju Duli

Eu sabia que os membros da Ordem dos Mártires eram pessoas


especiais, mas eles não eram uma Ordem de eruditos. A Ordem de
eruditos era, via de regra, a dos dourados. Eles sim que liam muito e
sabiam a fundo a teoria da nossa religião.
Era mais ou menos assim: os dourados eram os sacerdotes
especialistas em teologia e celebrações formais. Eram os sagrados
guardiões dos fundamentos de nossa religião. Eles sabiam tudo sobre a
parte ritualística, além de conhecer a fundo história e filosofia. Passavam
quase o tempo inteiro lendo, escrevendo e celebrando ritos para os
leigos: batismos, casamentos, adorações do Cordeiro e mais outras
dezenas de rituais.
Eles eram as pessoas perfeitas para ter como professores. Na
verdade, eram treinados para isso.
Já os eremitas negros eram verdadeiros mestres da parte mística. Eles
se retiravam para a solidão de desertos ou montanhas e permaneciam lá
completamente sozinhos, sem ter mais contato com nenhum ser
humano. A única ocasião em que recebiam permissão para sair de seus
eternos retiros era celebrar ritos para os mortos.
Como a morte era um dos momentos mais importantes, que era a
passagem para o outro mundo, os negros se especializavam apenas nisso:
eles davam os ritos finais e celebravam funerais. Na época da praga
nunca se viu tantos eremitas pelas cidades.
Diziam que os eremitas negros tinham uma conexão especial com o
Cordeiro. Permaneciam conversando com gálatas o tempo inteiro. Eles
sabiam tudo que não se aprendia nos livros através de suas visões.
Ou seja, a vida dos dourados era mergulhada nos livros enquanto a
vida dos negros era mergulhada na solidão de desertos.
Já no caso dos vermelhos, eles eram missionários e mártires. O
objetivo deles era viajar de um lugar para outro, não tinham residência
fixa em mosteiros, embora frequentemente se usasse a denominação
“monge” para se referir a eles.
A vida deles era centrada em coisas como mortificações e caridade.
Era verdade que nas três Ordens se realizavam leituras, experiências
místicas, mortificações e caridades, mas cada uma tinha um foco
diferente.

152
Mártires Vermelhos

Para mim, ver dourados não era nada muito emocionante. Eu os via
todos os domingos e os achava pessoas muito comuns, embora
excepcionalmente inteligentes, que apenas liam e celebravam ritos.
Os eremitas negros já eram mais misteriosos, mas o pensamento de
apenas ficar rezando sem fazer mais nada parecia muito entediante. Eles
também faziam algumas mortificações como jejuns ou até usavam o
cilício, mas nada de arrancar muito sangue.
Dos três, eram os vermelhos que mais me atraíam. Geralmente os
jovens ficavam mais fascinados com os vermelhos porque eles levavam
uma vida bem dramática: rituais com sangue, a vida dedicada para se
sacrificar aos outros. Parecia um ideal nobre.
– Como foi que você decorou tantos livros? – perguntou Paula.
Ele escreveu:

“Quando eu era bem pequeno, eu já lia os livros religiosos várias vezes seguidas.
Fiz isso por toda a minha infância como passatempo, sem a intenção de decorá-los.
Aos poucos fui sabendo de cor passagens inteiras. Eu as recitava para os adultos e
eles ficavam impressionados. Por isso, eu quis decorar cada vez mais, para que eles me
elogiassem.
Eu era realmente muito novo, então acho que não devo ser duro demais comigo
porque meus motivos para decorar os Selos não foram exatamente nobres. Mesmo
assim, aos poucos fui descobrindo sozinho boas técnicas para decorar coisas. Fui
inventando meus próprios meios de fazer isso, até que se tornou algo muito natural.
Nós normalmente não notamos o incrível potencial da mente porque a
desperdiçamos dando atenção a coisas que não importam. Se parar para pensar,
sabemos de cor milhares de coisas banais, por mera exposição repetida. Não fizemos
grandes esforços para sabê-las.
É assim que decoro a maior parte dos meus livros: mera exposição repetida.
Muito do que decorei veio naturalmente e não de forma forçada. Outras coisas eu
acabei me induzindo a decorar.
Claro que não sou perfeito. Eu cometo erros, assim como qualquer outra pessoa,
mesmo em coisas que já decorei há muito tempo.
E como sou natural nisso, para mim não foi tão difícil aprender línguas. Quanto
mais você entende a lógica que existe por trás dos textos e das línguas, mais fácil todo
o processo de torna”.

153
Wanju Duli

– Você é muito inteligente – disse Paula – por que não se tornou um


dourado?
Também já pensei coisas parecidas sobre Jeremias. Ele sabia bastante
teologia, era um poeta talentoso e ainda sabia fazer milagres. Na minha
cabeça, ele ia beneficiar muito mais as pessoas sendo professor ou
curando os outros em vez de se martirizar. Até o próprio sacerdote que
o martirizou certamente pensou isso, pois ele elogiou de forma bem
direta e sincera as coisas que ele escreveu.

“Eu já li demais. Acho que foram mais de dois mil livros, embora eu tenha lido
livros específicos dezenas ou centenas de vezes. Eu quero que a Letra morta se torne
viva em mim”

Foi uma resposta magnífica. Quase senti vontade de aplaudir.


– Você gosta de romances de cavalaria? – perguntou Paula.

“Adoro, especialmente porque há mensagens místicas profundas nessas histórias.


Elas falam sobre amor e sobre códigos morais, então são fortemente espirituais.
Eu lia muitos deles no começo da adolescência, mas conforme fui me interessando
mais por religião aos poucos perdi interesse, pois passei a ler livros específicos de
teologia caliciana.
Ainda assim, até hoje admiro e respeito”.

– Que acha do amor cortês e do ideal cavaleiresco? – perguntou


Paula.
– Por que está perguntando isso a ele? – perguntei.
– Porque ele leu muito, então deve ter uma boa opinião sobre essas
coisas – disse Paula.
Estávamos lá para falar de religião, mas era comum que as conversas
se dispersassem.

“Ouso dizer que eles demonstram o tipo de ideal de sacrifício que deve ser
direcionado ao Cordeiro.
O cavaleiro está pronto a morrer por sua dama. E será o bastante se apenas tiver
uma breve visão dela ou receber algo suave como um beijo no rosto. Por mais que ele

154
Mártires Vermelhos

anseie tê-la por inteiro, o nobre cavaleiro irá se sacrificar apenas porque ama sua
dama, independente de receber algo em troca.
Não é assim o amor pelo Imolado? Imolar-se por ele, não importando se veremos
Deus ou iremos para o céu. Nós apenas cumprimos nosso dever como vassalos de
nosso Senhor”.

Só mesmo um vermelho para direcionar aquela conversa para a


religião. Paula frequentemente exaltava os “emocionantes elementos
sutilmente eróticos” das novelas de cavalaria.
Resolvi mudar de assunto:
– Eu sei que você já disse que não pode revelar o passado do OM.
10091, mas será que não pode nos falar pelo menos algumas coisas? –
perguntei – por exemplo, como foi que vocês ficaram próximos?
Eu sabia que o mestre de Jeremias tinha morrido um dia antes dele.
Mas pelo jeito ele também se tornou próximo de outros membros além
de seu instrutor.
Tivemos que esperar bastante até ele terminar de escrever sua
“redação”:

“Eu não disse que sei sobre o passado dele. Ao longo dos anos deixamos escapar
algumas coisas, mas eu não sei tanto assim.
Nós nos tornamos amigos na época em que estávamos modificando alguns detalhes
da regra da Ordem. Alguns de nós, que tínhamos alto conhecimento teológico, fomos
selecionados para fazer isso.
Tanto eu como ele achamos a tarefa bastante aborrecedora, pois nós não nos
tornamos mártires para afundar em livros. No entanto, a obediência é a coisa mais
importante para nós. Aceitamos a tarefa que nos foi proposta e nos pusemos a
trabalhar.
Ele ficou muito impressionado que eu soubesse nossas regras de cor e que as citasse
de cabeça frequentemente. Ao mesmo tempo, acho que ele ficou com um pouco de
inveja, pois sempre fazia questão de falar longamente a respeito de temas teológicos que
eu não sabia muito a fundo e ele conhecia.
Nós discutimos muito nesse período. Brigamos de verdade. Tínhamos um ponto de
divergência fundamental. Ele defendia que a chave para o avanço espiritual era
realizar uma série de pequenos exercícios curtos e penitências ao longo do dia.

155
Wanju Duli

Quanto a mim, eu achava esse método bastante chato. Sempre gostei de dedicar-
me a uma tarefa só por longas horas seguidas, de forma intensiva, como leituras e
mortificações. Ele não queria saber disso. Queria fragmentar completamente nossa
rotina.
No final, tivemos que tornar a regra mais flexível nesse ponto. O irmão poderia
escolher entre a regra normal, que era esta fragmentada, mas de tempos em tempos
podia optar por realizar retiros mais rigorosos nos quais focaria sua atenção num
único ponto da regra para fazer penitência.
A posição dele prevaleceu, pois era a mais conservadora. Ainda assim, fiquei
satisfeito porque a minha proposta também foi levada em consideração e incluída na
regra. Pensei o seguinte: valeu a pena participar daquele projeto. Mesmo depois da
minha morte, minha contribuição fará uma diferença real na vida dos irmãos que
pensam como eu e que possuem vocação para esses retiros.
Foi só depois que terminamos de atualizar a regra que eu e 10091 conversamos
direito. Antes só brigávamos. Mas logo descobrimos que nos dávamos muito bem.
Sempre tínhamos assuntos para discutir.
Descobri que, enquanto eu era mais voltado aos livros e, de certa forma, um
“dourado” de coração, ele era um “negro” de coração. Sempre gostou da solidão e de
entregar-se a fortes penitências.
Nunca gostei muito da solidão. Apesar de gostar de ler, eu sempre fui um cara
sociável. A Ordem dos Mártires me atraiu porque era uma comunidade forte de
amigos que queriam morrer pelo mesmo ideal. A ideia de viajar com eles para terras
distantes também ressoou fortemente, pois era como ser o protagonista de um romance
de cavalaria. Foi a analogia que fiz antes: morrer pela minha dama, pelo meu Deus.
Acho que nisso nós dois éramos parecidos: éramos ambos românticos. Mas sempre
gostei mais de prosa e ele de poesia.
Não sei se posso dizer que realmente o conheci. Parando para pensar, não sei
tanto assim sobre ele. Aos poucos fui aprendendo sobre sua personalidade. Isso dava
para sentir bem.
Ele era o cara quieto que gostava de ficar isolado num canto. E eu o cara que o
incomodava para que ele tentasse socializar mais.
Ele nunca gostou de se abrir muito para as pessoas. Então, cada vez que eu
conhecia um pouco mais dele, me sentia lisonjeado.
Sempre foi muito sério e rigoroso consigo mesmo. Ele sempre levou as regras da
Ordem muito a sério. Não pegava leve consigo, mas quando podia ajudar outra

156
Mártires Vermelhos

pessoa quebrando uma regra, era o único modo de abrir algumas concessões. Nisso
pude atestar seu caráter.
Nunca fui tão bom como ele. Não está em minha natureza seguir regras. Sempre
gostei de fazer as coisas do meu jeito. Se estou lendo um livro maravilhoso de teologia,
não gosto de parar de ler porque chegou a hora da reza. Ou se estou mergulhado num
transe místico, não gosto de sair dele porque está na hora de fazer penitência.
Mas ele nunca pensou assim. Ele sabia que a obediência era a maior das virtudes.
Então, a forma mais sublime de largar de si mesmo era ser capaz de interromper uma
tarefa que nos trazia prazer, mesmo que fosse um prazer espiritual.
Nós podemos experimentar sensações extraordinárias de união ao Cordeiro. Mas
nós devemos aprender até mesmo a largar essa sensação. Devemos levar uma rotina
rigorosa regrada pelo relógio na completa secura espiritual e escuridão.
A vida dele era assim. Ele preferia sentir a escuridão da alma do que o êxtase
místico. Ele dizia que o estado de abandono era o melhor de todos, porque se estamos
juntos com Deus achamos que ele já está garantido. Precisamos enfrentar a separação
de Deus para termos a honra de entregar nossa vida para reencontrá-lo.
Esse é o coração da paixão dos vermelhos por doença, morte e sacrifício. Devemos
nos imolar pelo Cordeiro completamente. Desde o primeiro dia que entramos na
Ordem já nos martirizamos. É errado pensar que somos vermelhos porque estamos
treinando para martirizar nosso corpo um dia. O certo é pensar que ao longo de nosso
treinamento iremos martirizar nosso espírito.
No dia da morte de nossa carne já não somos nada, porque já martirizamos o
espírito há muito tempo. Aquele só é o dia formal de uma separação que já ocorreu
bem antes.
Tornar-se um vermelho é morrer. Eu já estou morto, ou ao menos esse é o
pensamento que devo ter.
Na prática, nunca fui tão sábio ou tão bom quanto O.M. 10091. Ele ficava
admirado comigo porque eu aguento fazer jejuns que duram um mês inteiro ou
permanecer acordado por dias a fio. Ele nunca foi capaz de fazer essas coisas. Ele
dizia que era fraco, mas eu não achava isso. O corpo dele podia ser mais fraco que o
meu, mas seu espírito sempre foi mais forte.
Eu conseguia ficar muito tempo sem comer, mas de que adiantava? Eu acabava
me apegando ao prazer místico que eu sentia com isso e não queria parar. Ele, pelo
contrário, quando tinha que interromper uma mortificação para ajudar seu irmão o
fazia de bom grado.

157
Wanju Duli

Ele também dizia que tinha muita dificuldade de domar o prazer sexual que
sentia e por isso ele sempre levava um chicote consigo para bater em si mesmo sempre
que um desejo como esse surgia.
Para mim era fácil não pensar em sexo e nunca precisei me mortificar seriamente
para evitar esses pensamentos. Mas tanto eu como ele sentíamos certa admiração e
respeito pelo amor apaixonado. Só podíamos suprimir esse sentimento ao focar no
amor pelo Cordeiro. Ele tinha uma pessoa para lembrar. Pelo menos eu não tinha
nenhuma.
Bem, creio que isso seja o bastante. Se eu continuar escrevendo vou acabar falando
mais do que devo”

Ele realmente se empolgou com o relato. Aquilo deu mais de duas


folhas.
Nós três lemos juntas e ficamos emocionadas.
– Muito obrigada por ter contado isso tudo – eu disse – de verdade.
Eu possuía um verdadeiro fascínio pelo Jeremias. Não importava
quantos vermelhos eu conhecesse no futuro. Ele sempre seria o meu
favorito, o meu herói absoluto.
– O que vocês dois conversaram naquela noite? – perguntei – se é
que posso perguntar isso. Lembro que ele foi falar com você para levar
meu irmão para casa pela manhã enquanto eu esperava na barraca. Você
não conseguiu assistir o seu amigo ser martirizado porque nos fez esse
favor.
O vermelho escreveu o seguinte:

“Ele me pediu um favor. Como eu poderia negar? Eu entendi que ele pediu
aquilo a mim porque eu era de sua inteira confiança. O príncipe precisava ser
escoltado de volta para casa. Como ele poderia pedir isso para qualquer um? Mesmo
sendo um vermelho, e mesmo respeitando meus irmãos de Ordem, eu sei que não são
todos que estão preparados para certas tarefas.
Fiz questão de trazer seu irmão até o castelo. Eu não poderia simplesmente
deixá-lo no porto ou no meio do caminho. Claro que isso me impediria de ver a
martirização dele. A viagem de navio dura três dias. Eu apenas disse que sim, que
faria isso.
Será que ele me pediu aquilo porque não queria que eu o visse morrer? Não sei.
Nunca vi o rosto dele. Mas agora vejo que isso fazia parte dos planos do Cordeiro.

158
Mártires Vermelhos

Ele era como um diretor espiritual para você. Com ele morto, você precisa de outro.
Por isso eu ainda estou aqui e não porque você me prendeu”.

Eu me perguntava o que ele queria dizer com aquilo tudo.


Certamente era o mesmo que eles disseram sobre o sacerdote azul: no
fundo ele não tinha poder nenhum para tirar a vida de um vermelho.
Somente o Cordeiro dava a vida e tirava.
Do mesmo modo, eu não tinha poder nenhum para aprisionar o
vermelho. Naquele momento isso ficou claro. Eu só achava que tinha.
– Você seria capaz de fazer algum milagre para se libertar do castelo?
– perguntei – você tem contato com gálatas?
Lá estavam minhas duas clássicas perguntas de adolescente. Mas
eventualmente elas precisariam ser feitas.
Essa foi a resposta dele:

“Talvez eu possa fazer um milagre assim. E talvez eu veja gálatas. O que você
acha?”

Ele me devolveu a pergunta, o maldito!


– Eu acho que você pode fazer qualquer coisa – respondi – quer
dizer... você sabe as cinco mil páginas dos Selos de cor e consegue fazer
um jejum de trinta dias. Que raios você não seria capaz de fazer? Você
deve ver um gálata cada vez que coça o olho.
Ele deve ter achado graça na minha observação.

“Eu evito pensar no que sou capaz de fazer, ou me tornaria muito vaidoso. É
realmente um enorme perigo”.

Então aquilo tudo era um jogo? Ele estava zombando de mim?


Queria me fazer pensar que eu o estava aprisionando, quando a verdade
era que ele estava lá porque queria.
Ele provavelmente pensava que era seu dever me ensinar por um
tempo para substituir Jeremias. Mas ele já devia saber que Jeremias era
insubstituível. As pessoas jamais conseguem tomar o lugar das outras.

159
Wanju Duli

Não importava o quão erudito e santo aquele vermelho fosse.


Jeremias era Jeremias, com todas as suas falhas. Ele tentou fazer o
melhor possível.
Talvez, objetivamente falando, aquele vermelho na minha frente
fosse até espiritualmente mais avançado do que Jeremias. Era assustador
pensar que havia alguém assim, mas lá estava ele diante de mim.
Mas nada daquilo importava. A saudade ficaria para sempre.
Será que Jeremias estava nos assistindo naquele exato momento, lá do
céu? Se estivesse, devia ser um espetáculo agradável.

“A esse ponto você já deve ter entendido que eu, por mim mesmo, não sou capaz
de fazer nada. Qualquer poder que eu porventura tenha não vem de mim. Eu não o
tenho de verdade.
Se eu ficar vaidoso demais, perderei tudo o que tenho. Mas não me importo em
perder. Não preciso de nada. Só de Deus.
Não me importo de ficar preso para sempre em seu castelo se tenho Deus. É claro
que quero me unir a ele completamente e para isso preciso me livrar do meu corpo.
Mas o Cordeiro tem planos diferentes para cada um. Irei apenas obedecer”

É claro que ele ia dizer algo assim. Eles diziam que os poderes não
eram deles e que eles não se importavam com isso. Só queriam Deus.
Mas é claro que tendo Deus eles dificilmente perderiam os poderes,
então dava na mesma.
– O.M. 10091 nunca deixou muito claro o que ele conseguia fazer –
eu disse – sei que ele sabia curar e ver gálatas. Ele não me revelou o
resto.

“Essas coisas não precisam ser ditas. Nem nós mesmos conhecemos a extensão e
os limites de nossos dons até que precisemos aplicá-los numa situação real. Isso às
vezes também depende tanto da fé daquele que cura como daquele que é curado.
Às vezes eu penso que possuo certo poder. Mas toda vez que o vejo como meu ele
desaparece. Houve ocasiões em que manifestei poderes que eu não sabia que possuía e
outras em que perdi poderes que eu estava certo de ter.
Esse é um valioso aprendizado. Nada disso é nosso, princesa. Nem minha vida,
nem meu corpo, nem minha humildade. Tudo é como vento. Agora sou humilde e logo

160
Mártires Vermelhos

sou orgulhoso. Agora consigo fazer um jejum de 30 dias e amanhã fico doente e não
sinto forças nem mesmo para fazer jejuns leves.
Tudo passará. Somente o espírito não muda. Só o Cordeiro é eterno. Como eu
posso confiar nas minhas próprias forças? Ser bondoso, humilde, caridoso. Tudo é vão.
Só consigo ser qualquer coisa quando não sou eu mesmo, mas quando me esvazio de
mim mesmo e cedo espaço para o Imolado habitar em mim”

Lindo. Por que eu precisava de um acadêmico para me dar aulas de


religião se uma pessoa que vivia e morria pela fé podia me dizer coisas
muito mais bonitas?
É claro que ele já tinha lido muito, mas eu não achava que ele havia
dito aquelas coisas por causa das leituras. Ele aprendeu pela vivência.
– Bibi, eu preciso ir – disse Sara – já está ficando tarde.
– Tem razão – disse Paula, levantando-se – também já está na minha
hora. Muito obrigada pelos maravilhosos ensinamentos, senhor mártir
vermelho.
O vermelho também agradeceu a presença delas por escrito. Dei um
abraço nas duas e nos despedimos.
Agora era só eu e ele, como de costume. Sentei-me em sua frente de
novo.
– Agora que estamos a sós, será que tem como você me falar sobre
“a pessoa que o O.M. 10091 tinha para lembrar”? – perguntei – ele teve
uma namorada?

“Eu não me sinto à vontade dando detalhes sobre a vida pessoal dele para você.
Pois se ele não lhe contou é muito provável que não queria que você soubesse. Ou isso
ou ele só estava sendo totalmente obediente às regras da Ordem, como de costume.
Se eu responder essa pergunta, você jura que não vai mais ficar me perguntando
sobre o passado dele? Eu me sinto mal contando seus segredos. Os poucos que ele
compartilhou comigo”

– Eu juro! – eu disse, de imediato.


Como eu iria perder aquela chance?
O vermelho escreveu:

“Ele teve um namorado. O nome dele era Mateus”

161
Wanju Duli

– Espere – eu disse – então ele era gay?

“Sim, ele era. E ele deixou claro que não tinha sentimentos por mim. E
acrescentou: „Eu nunca vi a sua cara. Por que teria?‟ e eu respondi: „Parece justo‟.
Sinto como se fosse ontem que tivemos essa conversa.
Ele só pensava nesse rapaz chamado Mateus. Acho que não teve sentimentos por
ninguém mais. E todos os conflitos sexuais que lhe atormentaram ao longo de suas
penitências o envolvia.
A história que ele me contou foi a seguinte: o pai dele queria casá-lo com a filha
de um conde. Mas ele era apaixonado por esse rapaz. O pai dele disse que casamentos
só servem para se ter laços financeiros. Ele disse que ao longo da história muitas
mulheres lésbicas se casaram com homens só para formar esses laços e mantinham
secretamente amantes mulheres para sexo. O mesmo ocorreu com os homens que
casavam com mulheres para levar adiante o nome da família, enquanto mantinham
amantes do mesmo sexo na cama.
Mas ele sempre foi uma pessoa muito religiosa e não aceitava essas coisas. Para ele
casamento era algo sagrado e devia ser feito por amor. Ele não aceitaria se casar com
alguém que não gostasse.
E ele não sentia atração nenhuma por mulheres. No entanto, os pais dele faziam
questão que ele se casasse com a filha desse conde.
Ele já sentia inclinações para a vida religiosa desde a adolescência. Então ele
aproveitou essa situação para levar adiante sua vocação.
É errado pensar que ele tornou-se um vermelho para fugir desse casamento. Esse
evento foi somente o ápice para que ele tomasse essa decisão”.

Então a história da vida de Jeremias envolvia um evento trágico de


amor. Ele era ainda mais romântico do que pensei.
“Mateus, filho do marquês de Van”. Jeremias tinha dedicado uma de
suas relíquias a ele em seu testamento. Agora tudo se encaixava!
– Onde está esse rapaz agora? – perguntei – o Mateus?

“Não sei”

Como eu sabia sobre a família dele, um dia ainda poderia procurá-lo.


Eu me levantei.

162
Mártires Vermelhos

– Preciso ir – avisei – vou estudar um pouco e depois ir dormir.


Obrigada por tudo. Boa noite, vermelho. Se precisar de alguma coisa, me
envie um gálata nos sonhos para avisar ou simplesmente use seus
poderes de taumaturgo.
Ele escreveu apenas:

“Boa noite, princesa Bibiana”.

Eu o tranquei no quarto com chave, como de costume.


Voltei para meu quarto. Fiz alguns deveres de casa, mas não consegui
adiantar muita coisa. Eu não parava de pensar nas coisas que tínhamos
conversado.
E quando deitei para dormir, eu também demorei para pegar no
sono. Estava pensando em Mateus. Que tipo de pessoa ele seria?
Também lembrei daquelas cinco prostitutas que torturaram o
Jeremias. Será que o fato de elas serem mulheres foi melhor ou pior?
Melhor porque ele não sentiria atração sexual por elas, então seria mais
fácil resistir. E pior porque ele não tinha nenhuma vontade de ter
relações sexuais com mulheres.
Confesso que nas vezes em que conversei com Jeremias houve
momentos em que, em meu orgulho, eu me perguntava se ele por acaso
sentiria pelo menos um pouquinho de atração por mim. Mas agora que
eu sabia que ele era gay, entendi que jamais tinha acontecido.
Será que já não estava na hora de eu esquecer Jeremias e me focar
mais em obter informações sobre meu novo professor? Eu queria saber
pelo menos o nome dele, a idade e de qual família vinha.
Eu estava profundamente desapontada com o meu pai. Ele descobriu
com muita facilidade as informações pessoais de Jeremias, mas estava
demorando em descobrir qualquer coisa sobre meu novo vermelho. Mais
de um mês já tinha se passado.
Eu desconfiava que ele simplesmente não estava interessado em
procurar. Não estava se esforçando o bastante. Eu já tinha discutido com
ele algumas vezes por causa disso.
– Como você quer que eu procure? – perguntou meu pai – se eu
começar a mandar gente atrás dessa informação, vão começar a dar pela

163
Wanju Duli

falta desse vermelho. A Ordem pode acabar chegando a mim e


desconfiar que tenho alguma relação com o desaparecimento dele.
Bem, a Ordem dos Mártires não era burra. Eles deviam ter dado pelo
desaparecimento dele assim que ele não retornou por navio três dias
depois. O maior desejo de um vermelho era morrer logo, então só
poderia ter uma boa razão que impedira um vermelho de voltar para a
terra maravilhosa que era Tarsus, o paraíso perfeito para os mártires.
Pensando bem, talvez apenas Jeremias soubesse da viagem de navio
que o vermelho fez. Foi ele que o mandou fazer e havia chances de ele
não ter comunicado aquilo à Ordem. Se fosse assim, seria ainda mais
difícil rastreá-lo.
Pensei em convidar meu mártir vermelho a ir até o colégio comigo
para conhecer o irmão do Jeremias, mas eu não podia fazer aquilo.
Ninguém podia saber que ele estava em Pérgamo. Quanto mais gente o
visse, mas rapidamente ele seria tirado de mim.
Por isso, tive que tentar convencer o Elias a me visitar no castelo.
– Tem certeza? – ele perguntou – seus pais permitiram isso?
– Queria que você conhecesse um grande amigo do seu irmão. Mas
você não pode contar a ninguém que ele está lá em casa, certo?
Elias aceitou. Eu o levei para meu castelo e deixei que ele e o
vermelho tivessem uma longa conversa a sós. Preferi não estar presente
para que eles conversassem mais livremente.
Quando Elias saiu da sala, ele estava com lágrimas nos olhos.
– Obrigado.
Foi tudo o que ele conseguiu me dizer antes de ir embora.
Não perguntei ao vermelho o que eles conversaram. Achei que eu
não precisava saber. Mas depois perguntei ao vermelho o que ele achou
de ter visto Elias pessoalmente, sabendo que ele e Jeremias eram muito
parecidos fisicamente.

“Foi uma sensação estranha, mas também especial. Estou grato por tê-lo
conhecido”

Já que por minha causa ele não havia visto Jeremias ser martirizado,
achei que eu devia a ele pelo menos isso.

164
Mártires Vermelhos

“Então foi o rei que descobriu a identidade dele. Você também pediu para que ele
procurasse informações sobre mim?”

Essa pergunta foi meio inesperada.


– E se eu pedi? – eu o desafiei – o que você vai fazer?

“Eu não sou mais aquela pessoa, aquele nome e aquela família. Você sabe que já
morri para todas essas coisas. Mas acho que é natural para uma adolescente ter essas
curiosidades em vez de aproveitar para me perguntar detalhes sobre a doutrina e pedir
orientação espiritual”

Aquilo foi ofensivo.


– Como você é arrogante – eu disse – para puni-lo, irei deixá-lo sem
comida pelo resto da semana. Se é verdade que você consegue ficar 30
dias sem comer, isso não deve ser praticamente nada.
Ele escreveu:

“Como desejar, Vossa Alteza. Mas devo lembrá-la que além de me auxiliar em
meus jejuns, você também deve se dedicar às suas próprias mortificações se deseja
melhorar a sua espiritualidade”

Agora ele estava me jogando na cara que eu não realizava


mortificações. Eu sabia que minhas práticas religiosas eram uma
porcaria. Eu só rezava por cinco minutos diários e lia uma página dos
Selos por dia. E ia uma hora por semana nas celebrações dos dourados
porque meus pais me obrigavam.
Sendo assim, como é que eu queria ver gálatas se eu não fazia nada
para merecer isso? Não dava comida para os pobres e esquecia
completamente da existência do Cordeiro na maior parte do meu dia.
Eu ficava impressionada porque havia tantos taumaturgos e santos no
meio dos vermelhos. Mas aquilo não era nem um pouco extraordinário.
Era o esperado. Assim como era o esperado que eu, que era uma
princesinha mimada, não tivesse praticamente nenhum mérito espiritual.
Eu fazia apenas o mínimo para talvez, após a morte, merecer o céu
por bem pouco. Mas eu não precisava fazer somente o mínimo. Meu
interesse por religião não precisava se resumir apenas a mera curiosidade.

165
Wanju Duli

Eu só fazia aquilo que me parecia confortável, interessante e


estimulante. Quando começava a ficar difícil e desconfortável eu já
deixava para lá.
Segundo aquele vermelho, o Jeremias disse que preferia a escuridão, a
secura espiritual, do que experimentar êxtases durante as visões místicas.
Ele queria a sensação de sofrimento e abandono, não só no corpo mas
também na mente.
O espírito se fortalecia não somente quando se mortificava o corpo e
se largava dele, mas quando também largávamos nossa vontade de nos
sentirmos bem o tempo todo. Eu não precisava desejar um sentimento
de êxtase durante uma visão. Senão eu iria me apegar à visão.
Quando vi aquele gálata eu senti medo. Quase desespero. Mas talvez
aquilo fosse necessário.
Quando meu pai soube que eu convidei um rapaz de 17 anos para
visitar o castelo, ele ficou furioso.
– Onde está a sua honra? Você não tem vergonha?
– Do que está falando? – perguntei.
– Você está prometida ao Tiago, filho do rei de Esmirna. Já se
esqueceu?
– Para ser sincera... já. Eu tinha me esquecido.
Parecia que fazia séculos que eu tinha me encontrado com esse
menino. A existência dele simplesmente se apagou da minha mente.
– Não se faça de engraçadinha – ameaçou meu pai.
– Não estou me fazendo – defendi-me – de qualquer forma, esse
Tiago é uma chateação. Ele só fala de coisas chatas.
– Por que não me disse isso antes? Agora já está tudo combinado. Eu
não vou desmarcar esse casamento.
– Até parece – falei – você faz tudo o que eu quero. Contanto que
meu pretendente seja um príncipe pode ser qualquer um, certo?
– E esse rapazinho do seu colégio é um príncipe, por acaso? –
zombou ele – mesmo sendo um nobre, eu não vou concordar que seu
pretendente seja alguém que não tenha sangue real.
– Ai, papai, que exagero. Você entendeu tudo errado! Esse era o
irmão mais novo daquele vermelho que foi martirizado. Eu só o chamei
aqui para ele conversar com meu novo vermelho.

166
Mártires Vermelhos

– E como vai o seu bicho de estimação vermelho? – caçoou ele – está


alimentando-o direito?
– Na verdade não – respondi – acabei de puni-lo com uma semana de
jejum.
– Muito bem – meu pai continuou a caçoar de mim – você daria uma
excelente rainha, punindo seus súditos de forma exemplar. Só me faça
um favor, sim? Não mate esse vermelho de fome. Se um religioso morrer
no meu castelo quem irá se incomodar com isso serei eu.
– Está bem, vou cuidar para não exagerar nas punições – brinquei.
– E nada de trazer mais rapazes para o castelo, ouviu? Você se casará
um dia e deverá manter sua virtude. Depois que se casar poderá ter
quantos amantes quiser, mas não antes. Se ficarem falando por aí que
você traz rapazes para o castelo, nenhum rei vai querer casar seu filho
com uma princesa tão impura.
– Há, há, há! Essa foi boa, pai.
Falando em piadas, eu queria muito conhecer a famosa piada que fez
com que até o sério Jeremias risse. Eu consegui convencer meu
vermelho a contá-la.

“Não é grande coisa. Na verdade, é uma piada bem sem graça. Um vermelho e
um dourado estão diante de um herege que carrega um livro religioso herege. No meio
deles há uma fogueira. O que o vermelho e o dourado fazem?”

– Não sei – falei – o que eles fazem?

“O dourado arranca o livro herege da mão do herege e grita: „Seu herege, vou
queimar seu livro herege! Ele está todo errado, porque a exegese assim indica‟ e joga o
livro na fogueira. Enquanto isso, o vermelho escreve a seguinte mensagem em seu bloco
de anotações: „Seu herege, por que está lendo livros? Deus não está aí, está lá!‟ ele
aponta para a fogueira, se joga nela e é queimado vivo. O herege sorri contente,
dizendo: „Fico feliz que meu livro herege tenha entrado no céu‟”.

– Tem razão, essa piada não tem a menor graça – falei – uma versão
reduzida poderia ser: “Qual a diferença entre um dourado e um
vermelho? Os dourados jogam livros na fogueira e os vermelhos jogam a
si mesmos”. A propósito, está com fome?

167
Wanju Duli

Já tinham se passado os sete dias de jejum. Ele não tinha comido


absolutamente nada. Apenas tomado água.

“Acho que ainda aguento mais alguns dias, se for sua vontade”

– Você é durão, hã? Mas está começando a ceder. Você apenas acha
que aguenta. Então você não tem certeza se aguentaria mais vinte e três
dias, certo?

Ele escreveu:

“Nessa ocasião em particular e conhecendo meus limites como eu os conheço, não


creio que eu seria capaz de completar um mês. No entanto, se esta for a sua vontade,
aceito a morte por inanição e assim encontro o Cordeiro. Eu não poderia me abster de
comida por mim mesmo, pois seria suicídio. Mas se você tirar a comida de mim, eu
seria genuinamente martirizado”

Espera. Será que ele queria aquilo? Se ele dissesse que queria, seria
suicídio. Ele não podia dizer que queria, mesmo que quisesse.
– Não vou fazer isso – decidi – eu sei que você prefere morrer de
uma forma mais dramática, torturado e humilhado numa terra distante.
Seria muito fácil morrer aqui nesse quarto confortável. Por isso, para seu
azar, eu acabei de trazer sua comida. Só coisas sem graça, como folhas
sem tempero e pão seco, do jeito que você adora não gostar.
Saí do quarto por um momento, alcancei o prato de comida e o
entreguei para ele.
– Posso te assistir comendo? – perguntei, só por perguntar.
Ele escreveu:

“Bem, eu não me importo, mas a Ordem se importa. Preciso seguir as regras, até
mesmo as aparentemente irrelevantes, para não ser expulso”

Jeremias levava muito a sério todas as regras da disciplina. Já aquele


vermelho não parecia se importar tanto em quebrar regras, mas as seguia
por tradição. Imaginei que Jeremias fosse capaz de enxergar algo sagrado

168
Mártires Vermelhos

e sublime em cada uma das regras e teria uma explicação complicada


para justificar a existência de todas.
Aceitei a resposta dele e saí da sala, trancando-o outra vez.
Quando eu caminhava de volta ao meu quarto, quase tropecei numa
criança que disparou correndo pelo corredor. Na verdade, ela caiu de
cara no chão.
– Cuidado, Judite!
Eu a levantei. Ela riu e continuou correndo.
A filha de Teresa já estava com quatro anos. E ela também já tinha
um filho de dois anos.
Eu não os via muito, porque Teresa só os mantinha presos no andar
dela. No castelo digamos que cada um tinha um andar para si, que o
chamava de “meu andar”. Na prática não era o que acontecia, mas nós
gostávamos de monopolizar os andares.
Catarina já tinha um filho e estava grávida do segundo. Sobre
Augusto ninguém sabia direito, mas nós achávamos que ele já tinha
ganhado pelo menos o primeiro filho.
Eu ficava muito aborrecida com a falta de interesse das pessoas
daquele castelo na vida de Augusto. Para meus pais e para Teresa,
Augusto era o filho renegado da família, que foi mandado para longe
mais cedo só para não nos desonrar.
Eu não queria saber sobre aquela porcaria de honra e desonra. Só
estava com saudade do meu irmão. Lucas também estava. Até pensei em
viajar secretamente com Lucas para visitá-lo, mas desde a minha fuga
para Tarsus eu não andava muito a fim de enfurecer meu pai outra vez.
Até porque eu já estava criando problemas desnecessários com o meu
vermelho.
Para meus pais, contanto que eu tirasse boas notas e conseguisse um
bom casamento, o resto podia ir para o inferno.
Nós só íamos assistir às cerimônias religiosas todos os domingos
porque meus pais queriam causar boa impressão. Imagine só se a família
real faltasse a essas cerimônias! Iam começar a dizer por aí que éramos
adoradores do Dragão.
Quando recebi minhas notas no final do mês, eu fiquei suando de
nervosismo. Por pouco não fico em segundo lugar. Realmente por muito
pouco. Havia uma menina na minha turma chamada Ester que sempre

169
Wanju Duli

ficava em segundo. Dessa vez minhas notas foram assustadoramente


próximas as dela.
Falei sobre isso com minhas amigas no intervalo.
– Seus pais iam te matar se você ficasse em segundo, não é? – Paula
perguntou.
– Iam – falei – até porque só somos vinte alunos na turma. Eles não
iam aceitar.
Eu andava diminuindo meu tempo de estudo para poder conversar
mais com o vermelho. Era melhor eu ser mais cuidadosa. Meu pai
deixou bem claro que se minhas notas baixassem ele o mandaria embora.
– Vejam só o que me entregaram na rua ontem – disse Sara.
Ela nos mostrou um folheto com o nome de um santo. Estava
escrito “Santo Malaquias”. Mostrava um rapaz de vermelho com os dois
olhos nas mãos e por trás dele um anjo de três cabeças e asas coloridas.
Senti um aperto no peito.
– O que é isso...? – perguntei, sem entender – quem é Santo
Malaquias?
– Você não entendeu, Bibi? – perguntou Sara – é o Jeremias. Ele
virou santo agora. Todos os mártires viram santos automaticamente.
Você não sabia?
– Não, eu não sabia – respondi, confusa.
– Os dourados e os negros precisam ter milagres comprovados pelo
Templo de Tiatira para serem promovidos a santos e o processo demora
um pouco. Mas todos os vermelhos já se elevam a santos apenas por
morrerem. É claro que quando eles também fazem milagres ficam mais
famosos.
– Então esse era o nome secreto dele? – perguntei.
– Sim, o nome que só os vermelhos sabem – disse Sara – ele só é
revelado ao público após eles completarem seus destinos como mártires.
Por que eu não sabia sobre aquilo? Provavelmente porque eu só tinha
olhos para Jeremias e nunca me preocupei em buscar informações sobre
os vermelhos que já tinham sido martirizados.
Atrás do folheto havia uma reza.
– Posso ficar com isso? – perguntei.
– Claro – disse Sara – se você rezar, pode ser que ele se comunique
com você. Como os gálatas fazem.

170
Mártires Vermelhos

Quando voltei ao castelo levei o folheto para mostrar ao meu


vermelho.

“Até que ficou legal. Espero também ganhar um folheto bonito como esse”

– Não sei porque eu mostro as coisas, só para você ficar tirando sarro
– reclamei – eu acho que os folhetos são positivos. É bom que muita
gente saiba que há mais um santo velando por nós no paraíso e peçam a
ajuda dele.

“Espero que possamos participar um pouco da onipresença do Cordeiro para


conseguir ajudar tanta gente ao mesmo tempo”

Lá estava ele tirando com a minha cara de novo. Eu me ofendia com


facilidade, sempre achando que o vermelho se considerava muito nobre
e elevado para as coisas triviais das pessoas comuns.
Mas não era bem assim. Às vezes ele só queria fazer aquelas piadas
cretinas para gerar uma maior aproximação entre nós. Afinal, já que ele
estava sendo obrigado a conviver comigo, era melhor fazer isso em bons
termos.
– Sabe, eu estava pensando – falei – e se eu me casasse com o
príncipe de Tarsus? Eles têm reis lá ainda, não é mesmo? Se eu fosse a
rainha poderia criar leis favoráveis à religião caliciana. Posso até banir a
religião dos luzeiros de lá.
O vermelho escreveu:

“Eu não acredito que você vai tirar a nossa diversão, princesa! Onde nós vamos
morrer se você eliminar os hereges? Não tire todos eles de lá, pois ainda precisamos de
gente para nos matar”

– Eu juro que eu vou cuspir em você da próxima vez que... arrghhh!


– exclamei – está bem, eu admito. Dessa vez foi engraçado. Você está
melhorando as piadas.
Quanto mais o tempo passava, mais nos aproximávamos. Claro, nós
conversávamos todos os dias! Ele estava aprendendo minha
personalidade e eu a dele. Antigamente éramos mais formais. Claro que

171
Wanju Duli

continuávamos a ser sérios quando o assunto era sério, mas ultimamente


não perdíamos a oportunidade de brincar.
Nunca tive essa liberdade com Jeremias, então era algo novo.
Pensando bem, nunca tive essa liberdade com nenhum rapaz além dos
meus irmãos.
Claro que a personalidade daquele vermelho ajudava muito para isso.
Ele era naturalmente brincalhão. Lembro que desde o primeiro
momento notei que ele se expressava de forma mais descontraída.
Descobri que eu gostava disso.
Ele era admirável. Mesmo trancado naquela sala continuava a manter
sua rotina impecável, a realizar suas rezas, leituras, jejuns e penitências. E
ele fazia tudo isso sem perder o bom humor.
Outro na situação dele talvez estivesse desesperado porque não seria
capaz de ser imediatamente martirizado. Mas aquele vermelho era capaz
de ter paciência e confiar no Cordeiro para guiar seu futuro.
Mas até que eu gostei da ideia de ser rainha de Tarsus. Isso me
tornaria imensamente poderosa. Os vermelhos amavam Tarsus e eu seria
a dona do lugar. Ou seja, a dona do destino dos vermelhos. Perfeito!
Porém, quando mencionei aquilo para o meu pai ele riu alto.
– Você está sempre inventando uma nova bobagem, não é? – disse
meu pai – Tarsus é uma porcaria de um fim de mundo. Aquele lugar não
vale nada. É melhor você se casar com um empregado do castelo, como
queria fazer o seu irmão, do que se casar com um lixo de um príncipe
desconhecido de Tarsus.
Tá bom. Entendi o recado. Tirei aquela ideia da cabeça
imediatamente.
Eu sabia que em Tarsus ultimamente a burguesia era bem mais forte
que os nobres. Os reis daqueles lados do mundo se enfraqueciam cada
vez mais.
– Deixando isso de lado, já descobriu alguma informação sobre o
meu vermelho? – perguntei.
– Sim, descobri. A Ordem já deu pela falta dele e as buscas
começaram.
– E o que mais?
– Não sei! – ele respondeu, enfurecido – tenho mais o que fazer do
que buscar informações sobre um louco suicida!

172
Mártires Vermelhos

Quanto mais tempo se passava, menos religioso o meu pai se tornava.


Às vezes eu não o compreendia.
Será que ele estava brabo porque tinha procurado muito aquela
informação e não conseguiu achar nada? Ele não conseguia admitir que
uma informação fosse difícil de ser encontrada.
Mais alguns meses se passaram e eu ainda mantinha o vermelho
como meu prisioneiro. No meu aniversário de quinze anos levei a ele
uma fatia de bolo de frutas.

“Não posso comer bolo, princesa. Você sabe disso”

– Mas esse bolo foi preparado especialmente para você, com todos os
ingredientes que você tem permissão de consumir – argumentei – eu só
usei as frutas que estão na sua regra. Os pães que você come também são
feitos de farinha. Não coloquei açúcar.
Ele escreveu:

“Só vou aceitar porque é seu aniversário, mas terei que fazer penitência por isso
depois”

– Como se eu me importasse com sua penitência – eu disse – agora


eu sou uma bela moça de quinze anos. Esse vestido e esse penteado não
estão belíssimos em mim?

“Parece que estão, mas não tenho autorização de reparar nisso”

– Eu sei que você não tem, por isso mesmo eu perguntei – falei –
sabia que hoje eu vou conhecer um dos príncipes de Éfeso?

“Qual deles? Samuel, Daniel ou Jonas?”

– Por que você é tão bem informado sobre o nome dos príncipes de
Éfeso? – perguntei, estranhando – por acaso você é de lá?

“Pensei que seu pai estivesse procurando informações a meu respeito. Sendo assim,
você já devia saber a resposta para essa pergunta”

173
Wanju Duli

Fiquei furiosa. Eu não queria contar a ele que ainda não tínhamos
encontrado nada. Como foi que ele conseguiu apagar os próprios rastros
tão bem? Seria porque ele era filho de um camponês tão pobre e
desconhecido que não havia sequer registro do nome da família dele?
Seria o maior choque.
Aquele encontro com o príncipe Samuel me deixou profundamente
irritada. Ele era ainda mais monótono que o príncipe dos tapetes. E era
inacreditavelmente arrogante.
Quando cheguei em casa, deixei bem claro para o meu pai que eu não
queria nada com ele.
– Você é uma mal agradecida, sabia? – disse meu pai – você não se
contenta com nada. Não existe homem bom o bastante no mundo para
te agradar. Não basta ser rico, bonito, inteligente e ter sangue azul? O
que mais você quer?
– Eu quero que ele vista um manto vermelho – respondi, de
imediato.
– Eu estou farto desse seu fascínio irracional pelos vermelhos – disse
meu pai – isso já passou dos limites. Eu vou botar esse vermelho para
fora, ouviu?
– Foi só uma brincadeira, pai...
– Eu sei. Mas vindo de você eu não duvido de nada.
Alguns dias depois, o vermelho me fez uma pergunta totalmente
surpreendente:

“Há algum servo do Dragão nessa casa?”

– Não que eu saiba – respondi – por quê?

“Já faz algum tempo que sinto rastros de uma maldição”

– Uau, você é bom – falei – o seu amigo vermelho já exorcizou a


minha casa há muito tempo. Estamos livres da maldição.

“Será? Eu sinto que há um espírito morto aqui que não descansa. Não vai nem
para o céu e nem para o inferno”.

174
Mártires Vermelhos

Eu não fazia a menor ideia do que poderia ser.

“Quem está assombrando seu castelo é uma moça que foi enforcada nas
proximidades há muitos anos”

Eu senti um arrepio quando ouvi aquilo.


– Merda – eu disse – ela era a serva do Dragão? Ou... Augusto!
Aquela praga, a doença que quase me matou. Aquilo foi causado por
ela? Ou pelo meu irmão? Eu não entendia!
– Eu preciso me encontrar com Augusto urgentemente – decidi.
Não gostei nem um pouco de ter caído doente daquele jeito. Foi uma
das piores experiências da minha vida. Eu não pretendia passar por algo
parecido de novo. Ia dar um fim nisso.
Pedi para meu pai permissão para viajar até Tiatira. Ele não deu a
permissão.
– Tem um fantasma assombrando nossa casa? – meu pai riu – eu juro
que estou louco para que você se case logo e tenha muitos filhos. Assim
vai arrumar uma coisa de útil para fazer e te desocupar desses delírios.
Bati na porta do quarto de Lucas.
– Lu, vamos fugir.
– Outra vez? – ele perguntou, desapontado.
– Dessa vez eu prometo que será agradável – eu disse – nós vamos
visitar o Gus.
– O mano? – ele sorriu, empolgado – então eu vou!
– Esse é o espírito!
Dessa vez não precisaríamos realizar uma fuga dramática pela janela.
Saí com o Lucas pela porta da frente do castelo e avisei que íamos dar
uma volta.
– Vamos andar de cavalo e já voltamos – menti.
Na verdade nós andamos de cavalo. Mas não iríamos retornar tão
cedo.
Eu andava muito de cavalo na minha infância. Fazia um bom tempo
que eu não montava em um, então estava na hora de matar a saudade.
Aluguei um cavalo e eu e meu irmão montamos nele. Senti uma
sensação tão boa! Eu já nem me lembrava como era bom.

175
Wanju Duli

Uma sensação maravilhosa de liberdade. O vento no rosto. Mas eu


não estava com tempo para desfrutar disso tudo. Era possível que assim
que meu pai descobrisse que tínhamos fugido mandasse alguém atrás de
nós.
Seriam quase dois dias de viagem, então teríamos que fazer algumas
paradas.
Mas eu não estava preocupada com isso. Eu me preocupava com
pouca coisa na minha vida.
Infelizmente, eu nunca tinha ficado mais que uma ou duas horas
montada num cavalo e não sabia como era. Não imaginei que eu iria
ficar tão cansada, até porque eu estava viajando em alta velocidade.
E é claro que o cavalo também se cansou. E eu me perdi. Em suma:
deu tudo errado! Meu magnífico plano de fuga falhou horrivelmente.
Por sorte consegui achar uma estalagem para passarmos a noite antes
de escurecer completamente. Lá eu consegui um mapa para me guiar.
O pior era que Lucas não parava de reclamar. Ele até começou a
chorar quando achou que íamos passar a noite ao relento e devo dizer
que isso não contribuiu em nada para meu nervosismo.
– Você se parece muito com a princesa Bibiana – disse a dona da
estalagem.
– Ah... há, há, há! As pessoas me dizem isso o tempo todo –
respondi.
Eu estava morta de fome. Eu e Lucas comemos uma janta reforçada.
Nosso cavalo também se alimentou e descansou. Foi só nesse momento
que eu me dei conta:
– Puta merda! Deixei o vermelho trancado na sala.
Por sorte eu o havia alimentado naquele dia. Ainda bem que ele
estava acostumado a fazer jejuns e tinha água no banheiro. Eu iria
lembrar de voltar logo para casa para não matar o rapaz de fome.
Pela manhã já prosseguimos a nossa viagem. Fizemos mais duas
paradas curtas ao longo do dia. Quando já estava anoitecendo de novo,
eu me perguntei se eu deveria procurar outra estalagem ou prosseguir a
viagem.
– Eu quero descansar – choramingou Lucas – não aguento mais.
Estou com dor nas costas nesse cavalo. Estou com dor em tudo.
– Para de reclamar! – gritei – que droga!

176
Mártires Vermelhos

Eu estava irritada. Por que eu tinha inventado de levar uma criança


comigo naquela viagem tão longa?
Eu mesma já não sabia se aguentaria fazer o caminho de volta da
mesma forma. Eu provavelmente mandaria o cavalo alugado de volta e
procuraria outro meio de transporte. Optei pelo cavalo porque achei que
seria mais rápido, mas de que adiantou se me perdi no caminho?
A noite já tinha caído e eu estava no meio do nada. E lá foi Lucas
chorar outra vez!
– Você se perdeu de novo! Vamos dormir no meio do nada. Eu não
acredito! E se nos roubarem? E se nos matarem?
– Lucas, cala a boca! Eu preciso me concentrar ou vou perder o
caminho de verdade!
Aquilo era um inferno. Levei mais uma meia hora até descobrir onde
eu estava.
Eu quase gritei de alegria. Finalmente tínhamos chegado na capital de
Tiatira! A luz da civilização!
Andei gloriosamente nas ruas montada no cavalo. Eu estava em
dúvida se devia passar a noite em algum lugar e terminar minha viagem
pela manhã, até que fui capaz de avistar o palácio lá longe. Ficava no
topo de um morro.
– É aquilo lá, né? – perguntei para Lucas – eu não estou alucinando?
– Não tem outras pessoas ricas com palácios por aqui? – ele
perguntou.
– Espero que não. Eu não quero passar a noite inteira batendo na
porta de todos os palácios da cidade.
Era mais longe do que parecia. E havia muitas subidas íngremes. Mas
como éramos capazes de enxergar nosso destino tivemos forças para
continuar.
Quando finalmente chegamos, fomos barrados na entrada. Eu falei
que era a princesa de Pérgamo, mas aquilo não adiantou muito. Ninguém
acreditou em mim.
– Então mandem chamar meu irmão! – falei.
– Quem é seu irmão? – perguntou o guarda.
– Augusto, marido da princesa Jezabel.
Os guardas se entreolharam desconfiados, mas mandaram chamar
Augusto.

177
Wanju Duli

Da última vez que eu o vi ele tinha 14 anos. Agora já estava com 20.
Ele estaria muito diferente? Imaginei que ele provavelmente se
surpreenderia mais conosco do que nós com ele. Afinal, ele me viu com
nove anos e agora eu tinha 15. Lucas tinha quatro anos na época e agora
estava com dez.
A frente do palácio era iluminada por luzes fortes na noite escura. Eu
estava começando a ficar com frio. Queria que Gus chegasse logo. O
pobre Lucas também estava tremendo.
Quando ele finalmente chegou, eu não o reconheci imediatamente.
Tive que prestar atenção para descobrir que era ele.
Augusto estava muito mais alto e forte. Não era mais um adolescente
magrelo, mas um homem feito. E ele estava de barba! Nunca vi Augusto
de barba antes.
– Bibiana? – ele perguntou.
A voz dele estava bem mais grave. Era uma sensação muito esquisita:
ao mesmo tempo em que tudo nele era maravilhosamente familiar, era
simultaneamente tudo estranho. Um conhecido desconhecido.
Eu queria abraçá-lo, mas não tinha coragem. Eu estava tímida para
abraçar um homem adulto desconhecido. Jamais imaginei que eu ficaria
tão constrangida na frente dele. Baixei os olhos por um momento, mas
logo levantei-os outra vez.
Quando os levantei, Augusto já estava abraçando Lucas, que correu
na direção dele. Ver aquilo foi realmente lindo. Eu me emocionei.
– É você mesmo, Lu? Você tá enorme!
Quando Gus sorriu daquele jeito tão sincero, eu soube: era ele
mesmo. Meu irmão querido.
Eu também abri um grande sorriso. Meu abraço nele foi mais contido
do que o de Lucas, mas também foi cheio de amor.
– Bibi, você tá linda! Qua saudades!
Eu tinha acabado de chegar de uma viagem exaustiva. Eu não estava
me achando nem um pouco linda naquele momento.
Mesmo assim, fiquei feliz com o elogio. Augusto animadamente nos
convidou a entrar. Ele logo nos apontou quartos e banheiros. Eu estava
com muita vontade de tomar um banho, comer e dormir. Restava decidir
a ordem em que eu faria aquelas coisas. Queria poder fazê-las todas
juntas.

178
Mártires Vermelhos

Por fim, resolvi tomar um banho e me arrumar um pouco. Eles


jantavam bem tarde naquele palácio, então fomos convidados a jantar
com eles. Eu iria conhecer o rei, a rainha e a princesa, então era melhor
eu estar apresentável.
Não que fosse algo tão exótico para mim conhecer reis e princesas,
mas aquela era uma ocasião importante. Meu irmão era um membro da
família deles agora, então eu precisava causar uma boa impressão.
Todos pareciam contentes com nossa visita, ou pelo menos fingiam
estar contentes. Se fosse eu, não gostaria muito de receber uma visita
surpresa no meio da noite.
O jantar também estava maravilhoso. Foi tudo muito digno. O rei e a
rainha eram educadíssimos e muito refinados. Até achei que, perto deles,
meu pai e minha mãe eram ligeiramente provincianos.
E aquela princesa... isso que se pode chamar de princesa! A palavra
“elegância” conheceu um novo significado naquela noite. Até uma flor
desabrochando na primavera se sentiria envergonhada perto daquela
mulher tão doce e encantadora, que possuía ao mesmo tempo ares
respeitáveis e formidáveis.
Ela tinha uma pele morena escura perfeitamente lisa e bem tratada.
Lábios grossos e brilhantes pintados de vermelho. Olhos pequenos e
puxados, delineados de negro. Não havia sequer um fio de cabelo fora
do lugar no coque enfeitado por uma tiara de pedras verdes e escuras.
Seus cabelos e olhos eram profundamente negros.
A moça era magra, com pescoço fino. Não uma magreza feia e
esquelética, mas uma magreza equilibrada. O vestido que ela usava era
repleto de camadas delicadas. E ela também tinha muitas joias.
Perto dela, eu era como uma rude garota camponesa. Eu estava
usando um vestido amarelo bem arrumado, mas as meninas do campo
também usavam vestidos amarelos arrumados. Elas não usavam vestidos
de camadas, joias e maquiagem.
Minha pele também era morena, mas jamais seria tão bem tratada
quanto a dela. E eu julgava simplesmente impossível assentar meus
cabelos num coque apertado como aquele. Eles eram simplesmente
rebeldes, embora a rebeldia deles me desse um ar juvenil e descontraído.
Mas não achei que fosse bom ter esse ar numa mesa real.

179
Wanju Duli

Eu precisava ser madura e elegante. Mesmo assim, por alguma razão


senti que eu recebi um genuíno sentimento de aprovação da parte deles.
Depois do jantar fui conversar um pouco a sós com Augusto, embora
eu já estivesse caindo de sono.
– Estou tão feliz de te ver! – eu disse – você não faz ideia do quanto
Lucas me incomodou por todos esses anos para que fôssemos visitá-lo.
Era algo que eu sempre quis muito fazer, mas você sabe como é o pai...
– Eu sei – Augusto sorriu – ele sempre tem coisas mais importantes
para se ocupar do que com os filhos. Os filhos só são um estorvo, são
instrumentos de aliança. Ele ficou desapontado comigo porque fui um
instrumento desajustado.
– E aqui você conseguiu se ajustar?
– Acho que sim. Posso dizer que aqui me sinto em casa. No começo
pensei que eu fosse odiar.
– O que acha de Jezabel? – perguntei.
Augusto suspirou fundo.
– Ela não é uma pessoa fácil de lidar – ele respondeu – e nem de
agradar. Ela é extremamente exigente e rigorosa. No começo eu sofri
bastante.
– Pode me falar sobre isso?
Ele fez que sim.
– Ela ama religião – ele disse – ela respira religião vinte e quatro
horas por dia. Isso é bem estressante, principalmente porque eu nunca
fui muito chegado nessas coisas.
– Eu sei.
– Mas tive que me acostumar. E até acabei gostando de algumas
coisas. Hoje em dia me sinto bem em ter uma vida equilibrada. Parte do
dia é dedicada aos afazeres do mundo. Outra parte aos afazeres do
espírito. Parece certo.
– Pelo menos ela tem um interesse verdadeiro nessas coisas – eu
disse – não é que nem nossos pais que só frequentam as celebrações por
tradição.
– Por aqui a cidade inteira tem um interesse genuíno e se orgulha
disso – ele explicou – e nós somos os guardiões da religião. Você sabe
que o Templo de Tiatira é a sede da religião caliciana, onde ficam os

180
Mártires Vermelhos

sacerdotes mais importantes. Nós frequentemente temos audiências com


eles.
– Que máximo! Há muitos vermelhos aqui, não é?
– Você e seus vermelhos – ele riu – sim, há vários deles.
Eu queria contar tudo para Augusto. Especialmente tudo o que vivi
naquele último ano: os ensinamentos de Jeremias, minha viagem para
Tarsus, o martírio dele, o vermelho que eu mantinha preso em casa.
Bem, aquilo poderia esperar. Agora eu queria saber mais sobre ele.
– Você tem filhos? – perguntei.
– Sim, eu tenho. Temos duas meninas. Jezabel quer um terceiro. Ela
quer que dessa vez seja um menino.
– Quero conhecê-las! – falei, com alegria.
– Pode ser amanhã? Agora elas já foram dormir.
– Claro.
Ficamos em silêncio por um momento, olhando as estrelas.
Estávamos no alto de uma torre.
– O pai e a mãe não sabem que vocês estão aqui, né? – ele me
perguntou com um sorriso de quem sabia de tudo.
– Acho que a esse ponto eles já devem saber – respondi – antes de
fugir com o Lucas eu fiz a idiotice de perguntar para o pai se ele me
permitia viajar para cá.
– Bem, então aguarde ser escoltada de volta para casa. Nem precisa se
apressar em voltar. Vocês dois serão levados de volta em breve.
– Eu sei.
– Você veio por algum motivo específico ou só acordou um dia e
resolveu vir me ver?
– Um pouco dos dois – respondi – eu estava me lembrando do
incidente desagradável daquele dia. Sabe, do enforcamento. Lembrei que
ainda te devia um relato.
– Estou preparado – disse Augusto.
– O pai cumpriu sua promessa – contei – ele a matou sem tortura.
Apenas quebrou seu pescoço. Eu assisti.
– Obrigado. Agora você pode morrer em paz, porque cumpriu a
promessa que fez para mim quando tinha nove anos.
– Bobo – eu ri.

181
Wanju Duli

Mas eu senti que ele ficou feliz e aliviado. Até assumiu um ar sério e
grave quando estava prestes a ouvir o que eu tinha a dizer.
– Eu queria te perguntar – falei – será que vocês dois naquela época
faziam algum tipo de magia draconiana?
– O quê?
– Sei que parece loucura, mas tem um vermelho que me disse que
nosso castelo foi amaldiçoado pelo fantasma da sua... da empregada.
Como era mesmo o nome dela?
– Isabel.
– O que você acha disso?
– Eu não adoro o Dragão, se é isso que você quer saber. Hoje em dia
sou um caliciano devoto. Algo que eu jamais imaginaria me tornar na
adolescência.
– Entendi – eu disse – que tipo de pessoa ela era?
– Eu não conheci Isabel muito bem. Nós apenas ficávamos juntos
nos breves momentos que tínhamos. Foi uma relação mais... como
posso dizer? Mais carnal do que emocional.
– Ela provavelmente odiou nosso pai pelo que ele fez – falei – então
você acha que tem alguma chance de ela ter amaldiçoado a mim e ao
Lucas? Eu e ele pegamos a praga no ano passado. Por pouco não
morremos.
– Vocês pegaram a praga? – ele perguntou, boquiaberto – mas como
isso aconteceu?
– Não sei. Apenas pegamos. Os vermelhos acham que foi por causa
da maldição dela.
– Se você me dissesse isso no passado eu provavelmente iria rir. Não
vou rir agora porque entendo um pouco mais de religião. Mas qual é o
seu plano? Você acha que eu teria poder para acabar com a maldição por
eu ter sido companheiro dela?
– Ela confia em você – falei – não há meios de você contatá-la e
pedir para que deixe esse mundo em paz?
– Eu posso pedir ajuda de um sacerdote para tentar fazer isso – ele
disse – então não se preocupe. Tentarei cuidar dessa questão.
– Agradeço de coração.
Eu já tinha até me esquecido como eu me sentia tranquila perto dele.

182
Mártires Vermelhos

Era assim desde que éramos crianças. Augusto sempre me confortava


e me protegia. Por isso eu também quis me tornar uma irmã assim para
Lucas.
Mas eu só fazia tudo errado. Eu já tinha fugido de casa com ele duas
vezes. Eu quase o fiz assistir um vermelho ser queimado vivo.
Bem, mas Augusto me fez assistir um enforcamento. Então
estávamos empatados nisso.
No dia seguinte conheci as filhas de Augusto. Eram duas gracinhas
de olhos puxados, pele escura e cabelos negros ondulados.
Aproveitei aquele dia para relatar a ele todas as minhas aventuras.
Quando terminei, ele disse:
– Sua vida é um romance de cavalaria. E agora teve até cavalos.
– Obrigada.
Ele ficou muito interessado na minha visão do gálata.
– Acredite se quiser, mas eu já ouvi falar do Santo Malaquias – ele
disse – e eu ouvi vários relatos diferentes do martírio dele. Não é tão
comum quanto você pensa que apareçam gálatas e chuvas de pedra no
momento exato da morte de um mártir. Isso foi muito comentado. Pelo
menos aqui em Tiatira.
Provavelmente em Pérgamo também, já que fizeram até folhetos
dele.
– Você conheceu um santo – ele disse – eu vejo muitos vermelhos
aqui na cidade, mas nunca me comuniquei com um deles. Não sei como
são. Geralmente temos audiências com os dourados. Mas a Jezabel me
fala muito dos vermelhos.
– Ela gosta deles?
– Não, ela os odeia – respondeu Augusto – porque o irmão dela
morreu mártir.
– Não sabia que ela tinha irmão – falei – pensei que ela era filha
única.
– Bem, quando seu irmão se torna mártir é o que você vira. Existe
uma regra que diz que se você é o filho único de uma família é proibido
de se tornar mártir vermelho enquanto seus pais ainda estão vivos.
– Acho que já ouvi falar.
– Essa regra já causou muita confusão no passado – disse Augusto –
existem várias interpretações e ela é frequentemente burlada. É muito

183
Wanju Duli

fácil burlar essa regra nas famílias dos camponeses. Já nas famílias dos
nobres é diferente. Os pais precisam deixar o nome da família ao
descendente. Você entende?
– É claro.
– Por isso, no caso dos nobres e especialmente da família real o filho
único é proibido de se tornar mártir mesmo com os pais mortos. Ele
simplesmente tem o dever de herdar o nome da família. Jezabel queria
impedir o irmão dela de ir embora. Então ela foi até o Templo de Tiatira
e usou o argumento de que ela é prima do irmão dela. É uma filha
adotada. Portanto, teoricamente a regra do filho único se aplicaria.
– Que coisa complicada – falei.
– Pois é. E ela conseguiu ganhar a causa. O irmão dela foi proibido
de se tornar mártir. Mas ele se tornou mesmo assim. Ele fugiu e se
apressou logo em ser martirizado.
Devia fazer mais de seis anos que o irmão dela tinha morrido, pois
lembro que desde que Augusto marcou o casamento com ela já diziam
que ela era filha única.
– Os reis não podem ter outros filhos? – perguntei.
– Não filhos biológicos – respondeu Augusto – dizem que o
nascimento do irmão de Jezabel foi um milagre. Eles rezaram muito para
uma santa e ela realizou esse milagre.
Será que se eu rezasse bastante para Jeremias ele também realizaria
milagres para mim? Ele realizou milagres para mim em vida, então não
era impossível que ele continuasse a fazer isso depois da morte.
– Agora, mudando de assunto – disse Augusto – Bibi, você realmente
precisa soltar aquele vermelho. Você está cometendo uma falta muito
grave.
– Eu sei – falei.
– Até eu já ouvi falar desse vermelho desaparecido – ele disse – não é
tão incomum que vermelhos desapareçam nas terras distantes em que
eles vão pregar, mas esse vermelho desapareceu nos sete reinos. Nunca
se ouviu algo assim antes. Eles têm o registro de esse mártir ter
desembarcado em Pérgamo. Escutou, Bibi?
– Sim. Vejo que agora que mora em Tiatira você está por dentro de
todas as fofocas religiosas.

184
Mártires Vermelhos

– Nem me fale. Só ouço isso o dia todo. Sempre tenho que ajudar o
Templo a resolver problemas como esses. É frequente que o poder
secular tenha que interferir em certos assuntos religiosos e é comum que
o rei me peça conselhos.
– Que legal – eu sorri – isso significa que ele confia em você.
– E ele também já quer me treinar para ser o futuro rei. Nada mais
natural.
– Você já está com porte de rei – falei – principalmente com essa sua
barba.
– Deixei crescer a barba exatamente para tentar parecer mais velho e
maduro. Sinto que as pessoas me levam mais a sério dessa forma.
No dia seguinte, como haveria de ser, chegaram os guardas de
Pérgamo para arrastar a mim e a Lucas de volta para casa. Resolvemos
retornar sem resistência. Até porque eu não tinha a menor vontade de
voltar naquele cavalo outra vez e ter outra viagem exaustiva.
Nós nos despedimos de Augusto. Ele prometeu que faria o ritual
para se livrar da maldição em breve.
O caminho de volta para casa foi muito tranquilo. Senti-me orgulhosa
por ter feito aquela viagem. Foi maravilhoso rever Augusto.
Mas meus pais não estavam nada orgulhosos quando eu cheguei em
casa. Da outra vez que fugi eu estava doente, então eles me deram um
desconto. Mas dessa vez eu fugi, na visão deles, sem absolutamente
motivo nenhum.
– Para mim já chega – disse meu pai – você agora está proibida de
sair do castelo. Será vigiada no caminho de ida e volta do colégio e não
sairá para nenhum outro lugar.
– Que grande injustiça! – exclamei.
– Fique quieta! Injustiça é o que você fez a mim. Você e seu irmão
somem de repente e nos enchem de preocupação. Eu e sua mãe nem
conseguimos dormir na primeira noite.
– A culpa é sua que me proibiu de viajar.
– Eu sou o seu pai. Você deve me obedecer em tudo. Depois que se
casar poderá fazer o que quiser.
– Então acho que eu vou me casar o quanto antes mesmo! – exclamei
– não tenho liberdade nessa casa!

185
Wanju Duli

– Pelo contrário. Você se tornou assim porque lhe demos liberdade


excessiva. Mas agora isso acabou. Você foi idiota o suficiente para contar
ao palerma do seu irmão que prendeu um vermelho em casa. Não sabe
que ele será o futuro rei de Tiatira? Ele deve desde já agir de acordo. E
foi o que ele fez: ele informou ao Templo sobre o paradeiro do
vermelho desaparecido. Agora eles sabem que nós o prendemos aqui no
castelo. Ou melhor, a imbecil da minha filha adolescente o prendeu. Mas
a responsabilidade, é claro, recai sobre mim, já que você é burra demais
para ser capaz de distinguir entre certo e errado.
Eu gelei. Jamais imaginei que Augusto fosse fazer um absurdo
daqueles. Ele por acaso queria destruir as relações amistosas que havia
entre Pérgamo e Tiatira?
– Pela sua expressão, pelo menos você entendeu o que isso significa –
disse meu pai – eles exigem que entreguemos o vermelho em até 48
horas. Se ele não for entregue, haverá guerra.
– Quê?!
Achei que eu não tinha ouvido direito. Havia uma parte da história
que não tinham me contado?
– Por que eles estão misturando poder secular e religioso? – perguntei
– o que os reis de Tiatira têm a ver com o Templo de Tiatira?
– Você é só uma criança idiota, Bibiana.
Eu suspirei.
– É óbvio que não quero essa guerra – eu disse – vocês adultos fazem
guerra por qualquer porcaria e depois a criança sou eu! Então é claro que
vou entregar o vermelho. Não há nem o que pensar.
Fui falar com o vermelho. O coitado já estava sem comer há dias e eu
ainda traria mais más notícias. Ou provavelmente para ele seriam boas
notícias.
Destranquei a porta e entrei. O vermelho estava desmaiado.
– Merda!!
Meu coração disparou. E se o vermelho morresse? Se aquilo
ocorresse, eu seria responsável pela guerra que estava prestes a estourar.
Seria a mesma função da vez anterior: mesmo que ele estivesse perto
da morte, não tínhamos autorização para encostar nele. Por isso, tivemos
que tirá-lo de lá enrolando-o em grossos cobertores.

186
Mártires Vermelhos

Ele foi mandado para o hospital. E é claro que os trouxas do hospital


fizeram a mesma coisa da outra vez. Em pouco tempo, chegaram alguns
vermelhos e um branco no local. Mas dessa vez era um branco diferente,
pois o branco que eu conhecia estava em Tarsus.
Então os brancos eram os membros de segundo grau da Ordem.
Agora as coisas faziam mais sentido.
Nessa ocasião não houve gritos ou discussões. Mas houve muitos
sussurros. Enquanto isso, eu aguardava na sala de espera sem saber o
que estava acontecendo.
Várias horas se passaram. Até que me disseram que o vermelho já
estava bem e queria falar comigo.
Quando entrei no quarto, ele já estava completamente coberto com o
manto, de máscara e luvas, como sempre.
Ele me escreveu alguma coisa:

“Cara princesa Bibiana,

Pensei que você tinha feito mal a mim por me transformar em um prisioneiro no
seu castelo. Mas agora você fez algo muito pior.
Para compensar, agora sou eu que preciso de sua ajuda. Gostaria que você me
ajudasse a fugir para Tarsus. Eu preciso ser martirizado imediatamente”

Eu fiquei perplexa.
– Por que você não quer ir para Tiatira? – perguntei – você tem medo
de te colocarem em outra tarefa burocrática outra vez, como fazer
correções nas regras da Ordem, e você ser impedido de morrer por mais
um ano?

“Exatamente. Você entendeu rápido. Se me mandarem para Tiatira agora, é


exatamente isso que irá acontecer.
Foi muito duro para mim esperar tanto para viajar para Tarsus. Eu desejo
retornar o quanto antes. Eu não tenho intenção de voltar aos sete reinos nunca mais”

Eu compreendi. Disse a ele que iria ajudá-lo a fugir, levando-o até o


porto.

187
Wanju Duli

Mas como eu faria isso? O vermelho ainda estava se sentindo um


pouco fraco. Ele escreveu:

“Vou ter que romper uma regra importante, mas peço para que eu possa me
apoiar em você até que eu consiga caminhar para fora do hospital. Não terei forças
para sair sozinho”

Concordei. O vermelho passou a mão nos meus ombros. E


caminhamos juntos dentro do hospital, até a saída.
Eu estava com o coração disparado. Me sentia dividida.
E se o fato de eu ter ajudado o vermelho a escapar também resultasse
em guerra? Eu tinha medo disso.
Mas agora eu tinha uma dívida a pagar. O vermelho tinha sofrido
bastante no castelo e eu me sentia no dever de retribuí-lo ao menos
nisso.
Porém, não conseguimos ir muito longe. Pouco antes de sairmos do
hospital, fomos encontrados.
O vermelho foi “resgatado” por seus outros irmãos vermelhos. E
enviado imediatamente para Tiatira.
Eu estava triste. Tinha dado tudo errado. E tudo por causa de
Augusto!
Ou será que tinha sido por minha causa?
Quando retornei para casa, fui até a sala em que o vermelho se
hospedou por tanto tempo. Ainda havia coisas dele por lá.
Especialmente papeis rabiscados.
Analisando aqueles papeis, eu via o quão inteligente ele era. Ele sabia
até o idioma dos tarsianos. Vi outras folhas de papel nas quais ele
rabiscou em outros idiomas que eu não fazia a menor ideia do que seria.
Retornei para meu quarto. Senti-me solitária, perdida.
Mas eu nunca estava realmente sozinha. O Cordeiro estava sempre
comigo.
Abri a gaveta da minha escrivaninha e peguei o folheto com a reza
para o Santo Malaquias.
Eu rezei. Só que não aconteceu nada. Eu estava desapontada.
Fui guardar o folheto de volta na gaveta e encontrei lá uma coisa que
eu nem lembrava que existia: a folha na qual Jeremias escreveu.

188
Mártires Vermelhos

Antes de partir de Tarsus, eu entrei na barraca dele uma última vez e


peguei uma folha manuscrita por ele, para guardar como lembrança.
Resolvi lê-la naquele momento.

“O.M. 10060, você definitivamente não entende os meus sentimentos por Mateus.
E como entenderia?
Você nunca se apaixonou por ninguém de verdade. Sempre só teve olhos para o
Cordeiro.
Mas eu não o culpo. Você nasceu em Tiatira. Lá eles só pensam em religião.
Para eles, somente o Cordeiro é a verdade. Mais da metade dos vermelhos que existem
nascem em sua terra. Vocês são mártires natos.
Eu sei que seu caso é especial, porque você é da realeza. Certamente isso fez com
que amasse a religião ainda mais e desejasse morrer por seu povo.
Você já pensou em ser rei e ajudar o povo de Tiatira através do poder político?
Mas você jamais faria isso. Sabe que o poder político corrompe e que o único poder
realmente puro é a religião. Somente ela pode nos arrancar de toda tentação e purificar
a alma.
Mas você sabe que alguém precisa sujar as mãos com esse poder. Então por que
precisa ser Jezabel? Você disse que ela não é uma pessoa boa. Então por que quer
deixar o trono para ela?
Será que no fundo para você ser um mártir não é fugir de suas responsabilidades?
Não está sendo egoísta? O que você mais quer é morrer pelo Cordeiro. E quer isso
tanto que virou um desejo pessoal seu. Já parou para pensar que o Cordeiro pode ter
outros planos para você?
Nesse caso, o verdadeiro sacrifício, o real ato de soltar de si mesmo, seria você
deixar para trás o seu desejo de ir para o céu o quanto antes e sacrificar-se para
ajudar os que ficaram aqui na terra. Sujando suas mãos. Talvez esse seja o destino de
Deus para você.
Eu temo pelo futuro da Ordem dos Mártires nas mãos de Jezabel. E você tem o
poder de impedir que a nossa Ordem seja destruída. Você é o único que pode se
martirizar por todos os mártires exatamente deixando de ser mártir.
Essa mensagem ficou muito mais dramática do que planejei. Eu só escrevi tudo
isso para dizer o seguinte: você não sabe nada. Nem de política, nem de religião e nem
de amor. Decorando tantos livros você só penetrou na Letra. Falta viver o seu
Espírito”

189
Wanju Duli

Eu deixei o papel cair de minhas mãos. Corri de volta para a sala.


Folheei as anotações do vermelho outra vez. Analisei todos os
idiomas nos quais ele escreveu.
E eu confirmei: ele sabia escrever no idioma de Tiatira. E no idioma
da capital. Ele tinha nascido lá. Mas uma das anotações dele me
convenceu mais que todas.
Pompena. Tentei ler algumas frases, mas eu não conhecia o idioma
tão a fundo quanto ele.
Ele parecia escrever em pompena sem erro. Devia ser fluente. Ele
sabia o idioma da realeza muito mais a fundo que eu, que era princesa.
Bati na porta do quarto de Teresa. Ela parecia estar de extremo mau
humor.
– Então aí está você – disse Teresa – não sabe a enorme confusão
que causou com aquele vermelho? Mas eu não me importo. Se Pérgamo
e Tiatira entrassem em guerra, eu teria o maior prazer em ajudar a
explodir o reino de Augusto.
Ela deu um sorrisinho ao dizer isso. Eu não sabia bem como eu
deveria interpretar as palavras dela. Literalmente ou em símbolos?
– Queria te perguntar – falei – você sabe sobre o irmão morto de
Jezabel?
– Ele abdicou do trono muito novo – ela respondeu, como se tivesse
engolido um livro – Por isso Jezabel subiu ao poder. Ele entrou para a
Ordem dos Mártires alguns anos atrás e foi martirizado no ano passado.
– Como sabe disso tudo? – perguntei, surpresa.
– Porque, diferente de você, que é preguiçosa, eu estudei a fundo a
história da realeza dos sete reinos – minha irmã deu um sorriso irônico.
– A morte dele foi confirmada?
– Os mártires morrem aos montes em terras distantes – minha irmã
fez uma careta – e você ainda quer que eles confirmem todas as mortes?
Eles não param de morrer! Ninguém mais se importa em contar.
– Qual é o nome dele?
– Rafael. Por quê?
Príncipe Rafael.
Aparentemente, eu havia acabado de ferrar com a vida dele. Para
compensar, eu sentia que tinha o dever moral de entregar a ele o texto

190
Mártires Vermelhos

que Jeremias escreveu para ele, que muito provavelmente ele não tinha
lido.
Mas eu também sabia de uma coisa: aquele cara daria um jeito de
escapar. Ele iria voltar para Tarsus. E agora que eu compreendia o
quadro completo, eu faria questão de ajudá-lo nesse nobre objetivo.
As pessoas achavam que só era possível mudar o mundo através do
poder político. Mas eu entendia Rafael: ele queria mudar o mundo de
outra forma. Ao lado do Cordeiro, ele teria um poder muito maior que
jamais poderia ser concedido por qualquer governo desse mundo.

191
Wanju Duli

Capítulo 5

– Me diga porque você foi para o hospital.


Eu fiquei calada.
– Estou falando com você, Bibiana.
Normalmente era meu pai quem conversava comigo e me dava
advertências. Quando a conversa era com a minha mãe era porque a
coisa tinha ficado feia.
Eu só tinha medo do meu pai às vezes. Mas eu tinha medo da minha
mãe sempre.
– Meu vermelho desmaiou – expliquei – achei melhor acompanhá-lo
até o hospital, porque fiquei preocupada.
– Seu pai deixou bem claro que você estava proibida de sair do
castelo sem autorização a partir de agora. Não se passou nem mesmo
uma hora depois que tiveram essa conversa e você já saiu.
Novamente, fiquei em silêncio.
Eu não aguentava o olhar dela. Sentia que perfurava minha alma. Ela
era como uma Teresa mil vezes mais terrível.
– Você sabe que eu te amo, Bibiana. Eu não quero te machucar. Mas
você me machuca.
– Mãe, não precisa ser tão dramática – falei – não aconteceu nada de
mais.
– Você pensa que sabe de tudo. Acha que eu e seu pai somos seus
inimigos. Tem ideia do motivo de querermos que tire boas notas e tenha
um bom casamento?
– Existem coisas mais importantes na vida – argumentei – muito do
que estudamos no colégio é irrelevante. E essa vida da realeza, centrada
na política e em outras coisas mundanas, parece tão tediosa!
– Você está entediada porque tem comida e abrigo – ela disse – sim,
existem coisas mais importantes na vida. Mas como você irá pensar nelas
se estiver morta?
– Não vou morrer se eu não for rica. Consigo viver apenas com o
mínimo.

192
Mártires Vermelhos

– Consegue mesmo? E que coisa tão grandiosa é essa pela qual deseja
sacrificar o seu conforto e a vida que conhece?
– O amor – respondi, de imediato – Deus.
– O que é o amor?
– Amor é o que sentimos pelo que as pessoas são – respondi – não
pelo que elas possuem ou pelo que elas sabem.
– Isso é lindo, filha – disse minha mãe – realmente tocante. E como
pretende chegar num amor tão puro?
– Através de Deus.
– O que é Deus?
– Deus não pode ser explicado porque ele transcende a razão humana
– respondi.
– Então se ele transcende tudo que é humano, de que ele serve?
Onde ele está?
– Ele transcende somente a razão – expliquei – ele não pode ser
explicado, mas pode ser sentido. Deus está fora de nós e por isso nos
sentimos sozinhos. Uma vida humana significa uma busca por Deus. É
somente por isso que nascemos: para entrar em comunhão com o
divino. E isso é feito pela lança de ouro com ponta de fogo.
– Está citando os Selos – reconheceu minha mãe – e como você
interpreta essa passagem?
– Existe um fogo dentro de nós – eu disse – é nosso espírito. O
objetivo da vida é incendiar o coração, a ponto de consumir o corpo
inteiro. O fogo do espírito deve queimar todo nosso ser. Devemos ser
como cordeiros que se atiram na chama pela redenção do mundo.
Somente assim nos tornamos pombas e conseguimos voar até o céu.
Finalmente chegamos a Deus e cumprimos nossa missão. Só atingimos a
vida eterna através da morte. Mas antes mesmos da morte do corpo
devemos nos preparar para morrer para nós mesmos. Nós nos
esvaziamos de nós para que o Cordeiro queime no coração. A lança de
ouro mata o Cordeiro. Essa lança se chama obediência, humildade,
caridade e fé.
– Tive uma conversa muito parecida com essa com sua irmã quando
ela tinha a sua idade.
– Com quem? – perguntei – Catarina?
– Não. Com Teresa.

193
Wanju Duli

Eu não conseguia acreditar. Teresa nunca gostou de religião.


– Quando Teresa tinha quinze anos queria se tornar uma eremita
negra.
– O quê?!
Estávamos falando da mesma Teresa que eu conhecia? Minha irmã
de 23 anos, fria e mal humorada?
Se bem que os eremitas viviam na solidão. Teresa não parecia gostar
muito de pessoas. Até que era apropriado.
– Ela estava desencantada com o mundo – contou minha mãe – aos
olhos dela, tudo parecia errado. Todos estavam errados, viviam de forma
estúpida e eram infelizes. Somente ela estava certa. Soa-lhe familiar?
Eu não respondi. Eu geralmente achava que as outras pessoas eram
arrogantes: os príncipes, os vermelhos. Não eu.
– Para ela, tudo era vão, tudo era pó – prosseguiu minha mãe – o
mundo era um circo habitado por palhaços. E ela era a sábia iluminada
que estava acima de tudo isso e via todos de fora. Por desgosto, queria
escapar dessa realidade. Fugir para qualquer outro lugar que não fosse
esse mundo feio, sujo e vendido.
– Mas os vermelhos não querem fugir do mundo! – exclamei – Deus
e alma são realidades objetivas. Eles não são consolos imaginários. Viver
exclusivamente para esse mundo só valeria a pena se não houvesse
outro. Mas há outro. Nós não pertencemos a esse mundo aqui. Somos
uma alma imortal. A morte só atinge a alma daquele que a troca pelo
corpo.
– E se você estiver certa será forte o bastante para carregar o peso
dessas palavras? – perguntou minha mãe – é capaz de viver essa dura
verdade por um amor genuíno ao mundo e não por ódio do mundo?
– É o que desejo descobrir – respondi.
– Existe uma forma bem fácil de saber o que é verdade e o que é
mentira. É calando a boca e fazendo o que você diz. Senão, serão apenas
palavras jogadas ao vento. Você é uma princesa que fala de coisas que
não conhece. De um amor que não conhece.
– Mas eu vi! – exclamei – eu estava doente e quase morri. Eu vi o
vermelho ser martirizado. O gálata e a chuva de pedras.
– Você não optou pela doença por vontade própria. Nem pela morte
e nem pelo martírio. Você apenas foi derrubada pela doença. Consegue

194
Mártires Vermelhos

optar por esse Deus terrível, doloroso e escuro pela sua vontade? Sabe
que só pode chegar a ele pela morte. Ainda assim, você aceita?
– Eu aceito – disse – do fundo do coração.
– Eu vou te mostrar o seu Cordeiro. Sei onde ele está. Eu mostrei
para Teresa e ela não gostou do que viu. Está na hora de você encarar a
verdade e parar de fingir que acredita em algo que não conhece.
Minha mãe levantou-se. Eu estava completamente perdida, mas eu a
segui.
Nós saímos do castelo e fomos até os fundos. Eu raramente ia para
aqueles lados.
Ela me levou para uma região do castelo completamente escura e
suja.
– Entre, filha – disse minha mãe, em tom doce – Deus está aí.
Eu obedeci. Entrei.
Olhei ao meu redor. Aquele ar tinha um cheiro abafado. Estava um
pouco frio e eu tremi.
– Algumas pessoas morreram sob tortura nesse lugar no passado –
contou minha mãe – no tempo de seus bisavós.
– Interessante – falei, embora não estivesse interessada.
Eu sabia que havia locais sinistros no castelo e que eu tinha
antepassados loucos. Mas às vezes eu esquecia que não eram apenas os
antepassados que eram loucos.
A porta se fechou por trás de mim. Levei um susto. Ouvi o som de
uma chave ser passada na fechadura.
Eu me desesperei. Estava tudo completamente escuro. Eu esmurrei a
porta.
– Mãe? – chamei-a – mãe?!
Gritei cada vez mais alto, mas não houve resposta. Somente depois
de alguns minutos ela perguntou:
– Você confia em mim?
– Confio – respondi.
– Então não há nada a temer.
– Você vai me soltar?
– Isso importa? Se você confia em mim, realmente importa se irá
morrer aí ou se será libertada?

195
Wanju Duli

– Por favor, mãe, não faça isso – supliquei – sei que não sou a filha
perfeita. Mas eu ainda quero viver. Sei que posso me tornar uma pessoa
melhor.
– Mas você não queria morrer pelo Cordeiro?
– Sim, mas... eu ainda não estou preparada!
– Quanto tempo você vai esperar? Só há essa vida. Você já ficou
doente e quase morreu. Estou fazendo isso por você. Não mofe de Deus
fazendo-o esperar para sempre.
Ao dizer isso, ela saiu. Ouvi seus passos se afastando.
Eu continuei a chamá-la aos gritos, mas ela não retornou.
Não desisti. Continuei gritando e esmurrando a porta. Eu fiz isso por
muito tempo. Não sei bem quanto.
Eu fiz até que minhas mãos estivessem vermelhas e doessem. Até que
minha garganta arranhasse.
Depois eu simplesmente caí no chão exausta.
Estava escuro. Eu estava com medo. E se tivesse algum bicho ali
dentro? Insetos ou coisa pior? Caveiras e espíritos mortos?
Comecei a chorar muito forte. E eu chorei por muito tempo, até
soluçar. Eu não estava conseguindo respirar direito, de tanto que chorei.
Fiquei deitada no chão, encolhida, abraçando o corpo. Apenas
mergulhada no meu terror. Eu esqueci de todo o resto.
Não sei quanto tempo se passou. Provavelmente longas horas. Eu
estava com frio e com medo. Sentia dores pelo corpo, deitada naquele
chão duro.
Eu normalmente não ficaria com fome, mas, do nada, senti sede e
fome com muita força, talvez porque eu soubesse que era provável que
demorasse muito até eu comer outra vez. Ou talvez eu não comesse
nunca mais.
Minha mãe não era assassina, certo? Ela ia voltar. Em breve.
Mas a espera era insuportável. Não saber se ela ia voltar e quando
faria isso era o que mais doía.
Eu simplesmente esqueci porque eu estava lá. Esqueci do Cordeiro,
da lança, do espírito, do fogo e de todas as alegorias bonitas que usei.
Nada daquilo tinha força naquele lugar. Eu era apenas dor e desespero.

196
Mártires Vermelhos

Não sei porque esqueci que o Cordeiro existia. Provavelmente


porque eu não lembrava da existência dele na maior parte do meu dia.
Eu sempre ficava distraída com outras coisas.
Não era natural para mim pensar em Deus. Então como eu iria me
lembrar de pensar nele quando sofresse? Mesmo que a coisa que eu mais
quisesse no mundo fosse lembrar do Cordeiro, eu não seria capaz. A dor
apenas me consumia.
Eu não tinha treinamento nenhum em me esvaziar de mim mesma e
ser preenchida pelo Cordeiro. Eu sabia apenas falar sobre essas coisas.
Na hora de fazer, eu ficava completamente perdida.
Eu desisti. Apenas fiquei deitada e desisti de tudo. Nem tristeza eu
sentia mais. Apenas uma sensação de abandono e vazio absoluto.
Aquilo foi terrível. Eu não tinha nenhuma esperança.
Nem tentei rezar, porque eu não acreditei que aquela superstição
idiota faria alguma diferença. Qual a diferença de juntar as mãos ou não?
De falar ou não falar? De se ajoelhar ou não?
Tudo era em vão. Eu ia morrer.
Espere... não! Eu não ia morrer. Porque eu confiava na minha mãe.
Eu a amava e sabia que ela me amava. Por isso, eu quis acreditar que ela
voltaria para me salvar.
Minha mãe era mais sábia que eu. Ela sabia o que era certo para mim.
Então eu devia apenas confiar e obedecer com paciência, mesmo que eu
não soubesse ao certo porque ela estava me fazendo sofrer daquele jeito.
Aquilo era fé.
Não era o mesmo com Deus? O mundo que Deus criou era bonito,
mas havia muita dor e sofrimento. Mas Deus era infinitamente sábio.
Deve haver uma razão para estarmos sofrendo agora. Precisamos confiar
nele.
Precisamos confiar que ele fez um mundo bonito. Que ele irá nos
ajudar e nos salvar. Mas para isso devemos confiar completamente nele.
Não pode restar nenhuma dúvida. É preciso deixar tudo para trás e
acreditar nele principalmente nas horas mais escuras.
Pois eram exatamente nas horas sofridas que encontrávamos Deus.
Quando eu estava mergulhada na escuridão, tentando proteger meu
pequeno eu que repudiava qualquer tipo de dor, eu lembrei que o
Cordeiro sentiu uma dor muito maior que a minha. Seu coração foi

197
Wanju Duli

atravessado pela lança de ouro com ponta de fogo e ele sangrou pelo
mundo.
Eu deveria imitá-lo. Devia agradecer a ele por me dar aquela dor, pois
era somente através dela que eu seria capaz de retornar para ele. Somente
a separação me permitiria reencontrá-lo.
No meio da escuridão ajoelhei-me. Juntei as mãos e rezei em voz alta,
mesmo que minha garganta arranhada ainda doesse:
– Sagrado Cordeiro Imolado. Obrigada por essa solidão e por essa
escuridão. Agradeço pela minha fome e sede. Pelos meus joelhos e
garganta arranhados. Pelo medo e pelo vazio. É somente por tudo isso
que agora eu te sinto mais perto de mim do que a minha própria
respiração. Você está mais perto do que minhas mãos e meus pés.
Senti meu peito aquecido e queimando por dentro. Derramei lágrimas
de alegria. Eu ri sozinha. Falei baixinho, num sussurro:
– Então aí está você. Estava escondido. Pobre de mim. Eu não sou
nada. Só contigo sou tudo. Por favor, Cordeiro, não tenha piedade de
mim. Eu aceito morrer. Dá a mim a maior dor. Mas será que eu sou
digna desta dor? Não, eu não sou digna. Nem dessa dor, nem desse
mundo e nem do outro mundo. Então, o que me resta? A destruição
completa. Por favor, meu Deus, me mata e me destrói com toda a dor e
desespero!
Senti algo forte perfurando minhas costas. Eu gritei alto.
Apoiei os braços e as mãos na parede de pedra, suando forte. Eu
respirava intensamente, transpirava. Descobri uma luz por trás de mim.
Era uma dor tanto no corpo quanto no espírito. Começava no
espírito e se espalhava para todo meu ser.
Meus joelhos já estavam doloridos de tanto tempo que fiquei
ajoelhada. Não sei quanto tempo fiquei lá. As lágrimas não escorriam
mais por meus olhos, pois a fonte secou. Então eu pedi:
– Onde estão as minhas lágrimas para eu chorar contigo?
Foi então que me dei conta: era aquele o estado de secura espiritual.
Eu estava toda seca. Não sentia o êxtase no espírito. Queria chorar e me
emocionar, mas não conseguia. Não havia nada, apenas escuridão
perpétua.

198
Mártires Vermelhos

– Obrigada, obrigada... que eu seja apenas um galho seco. É o que


mereço. Somente um galho quebrado e abandonado, levado pelo vento
da submissão absoluta.
A lança entrou mais fundo. Berrei.
Meu coração estava batendo de forma estranha. Nunca vi meu
coração bater assim antes. Primeiro, ele disparou de forma assustadora.
Depois, era como se tivesse parado completamente de bater.
Caí no chão, completamente sem forças. Percebi que havia
vermelhidão e até algumas gotas de sangue no meu joelho.
Eu vi a lança dourada e sua ponta em chamas. Vi as mãos que a
seguravam. Era como um humano, mas não era humano.
Ele todo brilhava, como o Sol e como o céu. Suas nove asas tinham
as cores do arco-íris.
Surpreendi-me por sentir um profundo estado de paz em meio ao
terror. E a bênção de lágrimas que não vinham dos meus olhos.
Foi um milagre. Meus olhos derramavam lágrimas que eram como
um rio. Elas apenas pingavam. Eu escutava o barulho das lágrimas
caindo no chão e aquilo jamais parava.
Eu estava chorando de forma sobrenatural. O gálata atendeu o meu
humilde pedido. Eu não precisava de mais nada no mundo: apenas um
pouco de lágrimas para ser capaz de expressar minha emoção com
aquela visão magnífica.
As lágrimas que caíram dos meus olhos furaram a pedra por baixo de
mim.
– Levanta e recebe tua mãe – disse o gálata – vai ter com ela.
Obedece tua mãe.
“Sim, obrigada!” eu tentei dizer, mas a voz não saiu.
– Vai para Tiatira no décimo dia depois de hoje – instruiu o gálata –
manda o recado de Malaquias a Rafael. Fica alerta com Jezabel. Os
servos do Dragão estão com ela.
Ao pronunciar essas palavras, o gálata desapareceu completamente.
Tudo sumiu: as lágrimas, a paz. A escuridão retornou em mim.
Ergui-me com dificuldade. Levantei-me. Tentei abrir a porta, mas ela
ainda estava trancada.
– Mãe? – chamei-a.

199
Wanju Duli

Mas ela não estava lá. Porém, uns quinze minutos depois ela chegou.
Ou um pouco mais. Eu estava com dificuldade de entender o tempo
depois daquela situação que vivi, que parecia estar em outro tempo.
Ouvi o barulho da chave na fechadura. A porta se abriu.
Eu a abracei e chorei.
– Desculpe, querida – ela falou – fiz para seu bem. Se sofrer agora, o
futuro será menos sombrio.
– Eu sei – respondi, ainda em lágrimas – quanto tempo se passou?
Três dias?
– Foram exatamente 24 horas.
– O quê...? Só um dia?
Então por que pareceu uma eternidade? Minha barriga estava
roncando de fome. A boca seca. Eu estava com dores, com frio, exausta.
E meus joelhos pareciam um ralador de cenoura. Minhas mãos e
pulsos também estavam um pouco machucados, de tanto que esmurrei a
porta. Ainda sentia a garganta meio arranhada.
Mas fora isso, eu ainda parecia totalmente viva. Talvez mais viva do
que nunca.
Quando o abraço terminou, minha mãe disse:
– Não desobedeça seu pai outra vez.
Obediência. Eu finalmente entendi.
– Sim, mãe.
Eu ia seguir o conselho do gálata. Daria um jeito de viajar para Tiatira
dali a dez dias e ao mesmo tempo obedecer meu pai. Seria complicado.
Mas certamente um desafio.
Assim que voltei para o castelo, encontrei-me naquela velha situação
de não saber o que fazer primeiro: tomar banho, comer ou dormir. Em
vez disso, bebi três copos d‟água seguidos. Não me lembrava se já tinha
feito isso alguma vez antes.
Depois peguei uns restos de comida com os cozinheiros na cozinha e
comi. Eu estava completamente perplexa: como raios aqueles doidos
completos dos mártires vermelhos conseguiam fazer aquelas porcarias de
jejuns enquanto faziam muitas outras penitências?
Lembrei do meu vermelho. Eu o deixei sem comida por uma semana.
E depois fiz isso de novo. Senti um arrepio só de pensar nisso. Não

200
Mártires Vermelhos

importava que ele já tivesse feito um jejum de 30 dias uma vez. Ele não
devia ser capaz de fazer aquilo o tempo todo.
Afinal, tudo que fazemos depende de nossa fé no Cordeiro. Se nosso
coração treme um pouco, tudo desaba.
Depois que tomei um maravilhoso banho de banheira que parecia o
céu fui bater na porta do quarto de Teresa.
– Oi – ela disse – ouvi falar que a mãe te prendeu no “quarto dos
prazeres”.
– É um nome apropriado – reconheci.
– Você teve sorte – ela disse – ela me deixou lá por dois dias. Se você
tivesse ficado dois dias, aposto que teria esquecido dos seus vermelhos.
É fácil ficar só 24 horas. A mãe pegou leve com você porque ficou com
pena. Você sabe que os pais pegam mais leve com os filhos mais novos.
– Você já quis ser uma eremita negra?
Ela revirou os olhos.
– Eu era apenas uma adolescente burra, como você é agora.
– Mas eu não quero ser uma vermelha.
– Menos mal. Agora sai daqui.
Obedeci. Eu estava no modo “obediência” agora.
Fui contar para Lucas que vi o gálata.
– Era Galácia?
– Não tenho certeza – confessei – não reparei. Mas ele perfurou meu
coração com uma lança. E ele fez um milagre: minhas lágrimas rolaram
como um rio e furaram as pedras.
– Você trouxe as pedras furadas com você?
– Não. E eu não estou muito a fim de voltar para lá.
– Mesmo que o gálata ainda esteja lá?
– Não vou voltar nem se o Cordeiro estiver lá.
Às vezes a dor das coisas da vida era tão forte que dizíamos coisas
desse tipo. Isso só mostrava que eu ainda tinha muito que aprender.
Fui dormir mais cedo, porque me sentia quebrada. E ainda tive que ir
para a aula na manhã seguinte. Era uma segunda-feira.
Contei para minhas amigas a aventura que fui obrigada a passar.
– Eu nunca teria feito isso por mim mesma – confessei – isso tudo
foi horrível. É estranho. Às vezes sinto que eu seria capaz de morrer pelo

201
Wanju Duli

Cordeiro. E outras vezes sinto que não sou capaz nem de arranhar meus
joelhos por ele.
– Isso é normal – disse Sara – o corpo quer uma coisa e o espírito
quer outra. Por isso o espírito deve domar o corpo. É uma longa
jornada.
Nunca invejei e admirei tanto os vermelhos como naquele dia. Antes
eu via as penitências deles como coisas distantes. Depois de passar por
aquela situação terrível, eu finalmente tinha uma vaga ideia do horror que
eles viviam.
Mas era um horror para mim, que não estava preparada. Para o
coração que está pronto aquilo tudo devia ser o céu.
Senti o céu por breves instantes, mas só porque aceitei atravessar o
inferno.
Ainda assim, parecia que eu não aprendia. Naquele mesmo dia deixei
tudo para lá: a visão do gálata, o milagre das lágrimas, o coração
perfurado. Eu não estava interessada em ter outra experiência como essa
tão cedo porque dava muito trabalho.
Eu ainda preferia me afundar nos meus prazeres mundanos e ficar
sem Deus do que sofrer e ter Deus. Eu era uma pessoa assim.
Por que a minha fé era tão fraca? Mesmo depois de tudo o que eu já
tinha passado e vivido. Parecia que eu era duas pessoas: uma que merecia
ver o gálata e outra que apagava aquilo da mente de propósito para ter a
desculpa de voltar a mergulhar nos meus prazeres convencionais.
Eu queria ter tudo: todos os prazeres do mundo e também o
Cordeiro. Mas eu não podia ter tudo. Era como os vermelhos diziam: se
eu adorasse vários Deuses ao mesmo tempo iria perder o foco, me
distrair. Não iria prestar atenção no que realmente importava. Pois eu só
precisava de uma coisa única. Tendo o Cordeiro eu teria todo o resto.
Mas mesmo que eu não passasse a realizar penitências e não mudasse
minha rotina em nada após aquela experiência, eu ainda me sentia
disposta a fazer o que o gálata disse.
Em dez dias eu voltaria para Tiatira. E daria um jeito de, até lá, obter
a permissão dos meus pais para fazer essa viagem.
O que o gálata disse sobre Jezabel foi meio assustador. E ela parecia
uma moça tão simpática...

202
Mártires Vermelhos

Talvez eu devesse alertar o Gus sobre isso. Já que eu iria para Tiatira,
não deixaria de lhe fazer uma visita.
Não consegui pensar em nada persuasivo o suficiente para que meus
pais me deixassem viajar. Por isso, simplesmente contei a eles a verdade:
disse que um gálata desceu do céu para me dizer para ir até Tiatira.
Eu não contei a parte que ele me disse para obedecer minha mãe,
pois se ela me proibisse de viajar eu teria que obedecer. Era um dilema:
como cumprir as duas ordens do gálata ao mesmo tempo?
– Essa é nova – riu meu pai – um gálata mandou que você viajasse?
Agora está vendo gálatas como seu irmão?
– Estou – respondi.
– Culpa desses seus vermelhos! – exclamou ele – sabia que não é bom
se apegar demais a essas visões? Isso pode gerar vaidade e distrair.
– Sei disso.
Meu pai me fitou com desconfiança.
– Está determinada a fazer essa viagem, não é? – ele perguntou.
– Sim.
– Então eu vou junto. Eu e sua mãe já estávamos querendo visitar
seu irmão faz tempo. Eis a oportunidade.
– Sério? – perguntei, contente.
– Por que eu iria mentir?
Então, dez dias depois nós viajamos. Nunca pensei que seria tão
simples. Às vezes ser simplesmente direto e sincero era o melhor
caminho.
Dessa vez não somente Lucas iria conosco, mas Teresa e o marido
também.
Durante a viagem, João, marido de Teresa, ficou dando sua opinião
furada sobre minha visão do gálata.
– Tem certeza que ele era real? – ele perguntou – não era uma
alucinação?
– Quando você vê uma mesa fica se perguntando se é uma
alucinação? – perguntei.
– Quando estou sóbrio normalmente não – ele respondeu – está
dizendo que este gálata era tão real quanto uma mesa?
– Ainda mais real – garanti.
– E como pode ser isso?

203
Wanju Duli

– Uma mesa só mexe com minha razão e meus sentidos físicos, mas
o gálata moveu todo meu ser: todo meu corpo e espírito – expliquei –
então isso o faz mais real que objetos materiais.
– E por que você pediu um milagre tão inútil como lágrimas? – ele
perguntou – por que não pediu muito dinheiro?
– Vocês já são cheios da grana e ainda querem mais? – perguntei,
impressionada – o que você quer fazer com tanto dinheiro?
– E o que você quer fazer com tantas lágrimas? – retrucou ele – já
não está satisfeita com as que tem?
– Tem razão, fui muito gananciosa – zombei – vou tomar mais
cuidado para ser mais humilde da próxima vez.
Eu me perguntava onde andava meu vermelho. Será que estava no
Templo de Tiatira? Depois eu precisaria descobrir isso. Eu estava
levando comigo a folha manuscrita por Jeremias para entregar a ele.
Às vezes eu me esquecia que aquele vermelho não era mais meu. Era
triste pensar nisso. E em breve ele não seria de mais ninguém, pois
estaria morto. Aos poucos eu aceitava que as coisas deviam ser dessa
forma.
Fui fazendo meus deveres de casa durante a viagem. Meu pai avisou
meu colégio que eu precisaria faltar dois dias de aula devido a deveres da
realeza e blá, blá, blá, então minhas faltas foram abonadas. Mas meus
pais raramente faziam aqueles favores para mim. Só mesmo o milagre de
um gálata para aquela viagem estar acontecendo.
Nossa familia não era o que se poderia chamar de unida. Cada um
gostava de ficar no seu canto. De certa forma eu gostava que fosse
assim. Mas eu também gostava quando fazíamos algo todos juntos.
Descobri isso naquele dia. Embora João fosse um chato. Queria que ele
não estivesse lá.
Foi a maior alegria quando chegamos no palácio de Tiatira. Eu não
me lembrava de já ter visto meus pais tão contentes. Por mais que eles
criticassem Augusto, eu sabia que eles gostavam dele.
Até Teresa cumprimentou Augusto com educação. Na verdade, ela
parecia realmente feliz em vê-lo. Era difícil entendê-la. Só tinha malucos
na minha família. Eu era a única sã.

204
Mártires Vermelhos

E lá fomos nós almoçar todos juntos como uma grande família feliz.
Após o almoço, ficamos todos na sala conversando, aquecidos por uma
lareira. Estava meio friozinho.
As conversas eram as de sempre, extremamente chatas: família,
política, fofocas dos nobres, casamentos, mais política...
Em certo ponto eu já estava bocejando. Eu observava Jezabel e ela
ainda me parecia uma moça muito gentil. Eu não tinha cara para chegar e
falar para Augusto: “Ei, sabia que sua esposa é uma adoradora do
Dragão?”.
O gálata não devia estar mentindo. Jezabel podia até ser uma caliciana
extremamente devota, mas pelo jeito ela também fazia experimentos
com feitiços e outras coisas proibidas.
Quando começaram as fofocas religiosas eu prestei mais atenção.
Afinal, aquilo era Tiatira! Fofocas religiosas não podiam faltar. Sempre
havia um escândalo diferente no Templo e a realeza adorava apontar
tudo o que os sacerdotes faziam de errado, mesmo que fossem coisas
absolutamente triviais. Só porque eles eram sacerdotes a sociedade exigia
deles que não falhassem em nada. Nem um pouco hipócrita.
– Como se sente agora sem o seu mártir vermelho, pequena ladra?
Quem me perguntou isso foi Jezabel. Ela estava começando a
mostrar as suas garras. Mas ela o fez num tom muito doce, então não me
ofendi muito.
Tanto meus pais como os pais dela pareceram pouco à vontade
quando o assunto foi levantado. Era um tema muito delicado.
Estávamos todos lá reunidos, conversando animadamente, como se
os dois reinos não tivessem quase entrado em guerra poucas semanas
atrás.
Imaginei que a ameaça de guerra não foi séria. Foi só um rumor
exagerado. Mas era verdade que eles exigiram o vermelho de volta em até
48 horas ou “algo muito sério” aconteceria.
– Eu realmente sinto muito – eu disse – gostaria de pedir desculpas a
todos pelo enorme transtorno que causei.
– Pelo menos você não sabia a identidade dele quando o prendeu –
disse Jezabel – pois se soubesse, essa ofensa não seria facilmente
perdoada.

205
Wanju Duli

– Jezabel, vamos esquecer isso – disse o pai dela – já passou. A


princesa Bibiana já se desculpou e está tudo resolvido.
– Eu também me desculpo em nome dela – disse meu pai – ela fez
algo realmente estúpido e já foi punida por isso.
Depois eu soube que quem me delatou não foi Augusto. Ele somente
contou para a esposa dele que eu estava prendendo um vermelho. Ele
era ingênuo demais para acreditar que ela manteria a informação em
sigilo.
Será que Augusto já tinha feito o ritual para remover a maldição? Eu
adoraria conversar com ele sobre essas coisas, mas tínhamos que ficar
presos naquela sala com os nossos pais.
– Onde ele está agora? – perguntei – está no Templo de Tiatira?
– Por que você quer saber? – perguntou Jezabel, com uma expressão
menos gentil.
– Eu preciso entregar algo a ele.
– Pode dar a mim que entregarei – disse Jezabel.
– Precisa ser pessoalmente – insisti – também tenho mais algumas
coisas para dizer a ele.
– Espero que seja um pedido de desculpas.
– Qual é o problema de os dois conversarem, Jezabel? – perguntou a
mãe dela.
– Como assim? – dessa vez Jezabel ficou braba – essa menina
sequestra seu filho e o prende por quase um ano e você acha que está
tudo bem?
– Ela não sabia quem ele era, querida – disse a mãe dela.
– E daí? – perguntou Jezabel – mesmo que o vermelho fosse um
camponês pobre, ele é um vermelho! Eu pessoalmente não sou muito a
favor dos ideais extremos dessa Ordem. Ainda assim, eles são monges
calicianos e não se pode simplesmente prender um deles em casa. Isso é
crime. Ela só vai escapar de punição legal por ser menor de idade. Se eu
fosse um vermelho, eu a obrigaria, no mínimo, a fazer penitência no
Templo e preparar um pedido de desculpas formal diante de todos.
Eu estava me sentindo mal com tudo aquilo. Mas ela provavelmente
estava certa. O que fiz foi algo horrível, não importava a idade que eu
tivesse. Tinha que assumir minha responsabilidade.

206
Mártires Vermelhos

Embora o vermelho tenha sido simpático comigo, ele deixou bem


claro que estava preso em meu castelo contra sua vontade e que
realmente gostaria de sair.
– Isso tudo já acabou, Bel – disse a mãe dela – agora Rafael está
seguro em casa. Lembre-se que se não fosse por ela talvez ele estivesse
morto agora.
Então era por isso que o rei e a rainha estavam sendo tão gentis
comigo. Estavam gratos porque, graças a mim, o filho deles tinha
voltado vivo para casa. Se eu não o tivesse prendido eles provavelmente
só teriam recebido uma cabeça ou algo do tipo.
– Ele está aqui no palácio? – perguntei, surpresa.
– Ele foi obrigado a sair da Ordem dos Mártires – explicou Augusto
– devido ao peso daquela regra do filho único que te falei.
– E ele simplesmente aceitou isso? – perguntei, duvidando.
– Não – disse Augusto – ele resistiu até o fim.
– Ele foi teimoso – disse Jezabel – e ficou furioso comigo porque eu
levantei essa regra. Meu irmão sabe as regras da Ordem de cor. Ele até
mesmo ajudou a reformular algumas delas. Então ele tinha argumentos
brilhantes para provar que no caso dele aquela regra não tinha valor.
Mesmo assim, eu usei meu poder e influência para vencer.
– Por que você quis tanto assim que ele abandonasse a Ordem se
sabia que estar lá sempre foi o sonho da vida dele? – perguntei.
– O sonho da vida dele é morrer sob tortura numa terra de selvagens
– disse Jezabel, de forma rigorosa – é claro que eu e nossos pais fomos
totalmente contra esse absurdo. Respeitar decisões daqueles que amamos
possui seus limites. Você não enxerga isso porque já sofreu a lavagem
cerebral que os vermelhos fazem. Todos esses discursos de se imolar
como o Cordeiro. Não é óbvio que a religião prega esse ensinamento no
sentido figurado? Eles querem que possamos morrer para nós mesmos e
viver pelo Cordeiro espalhando amor para os outros. A interpretação dos
vermelhos é tendenciosa e fanática.
– Na verdade a interpretação dos vermelhos é a mais antiga e
tradicional, pois tem sido feita há mais de dois mil anos – argumentei – e
eles também são a Ordem mais antiga. As outras Ordens só surgiram
depois e começaram a fazer essas interpretações mais leves. Mas até que

207
Wanju Duli

foi uma coisa boa, pois graças a isso a religião cresceu mais. As pessoas
preferem o caminho mais fácil.
Eu fui arrogante, mas não resisti. Eu estava começando a ficar com
raiva do que aquela Jezabel dizia.
– Agora entendi porque vocês se deram bem – disse Jezabel – os dois
são cabeça-dura.
– Jezabel, já chega – disse o pai dela.
– Você devia ter visto o espetáculo que Rafael deu no Templo –
Augusto me disse – além de sua argumentação fenomenal, ele fez alguns
milagres.
– Diante de todos? – perguntei, impressionada.
– Foram coisas pequenas, mas milagres genuínos – disse Augusto –
muita gente viu o rosto dele se iluminando enquanto falava. Eu também
vi. Parecia que havia uma luz no meio dele. Como se o próprio Deus
estivesse jogando a luz nele e dizendo: “escutem o que meu servo diz,
pois é a verdade”.
– E mesmo assim eles não foram convencidos – eu disse.
– Não. E sabe o que ele fez depois? Ele simplesmente fugiu.
– Para onde? – perguntei.
– Ele pegou um barco e foi remando sozinho até a Ilha de Emek. É
uma ilha com selvagens canibais. Ele até conhecia o idioma deles!
Começou a pregar para eles e queria ser martirizado sendo devorado
vivo, como de costume. Mas antes que isso ocorresse mais vermelhos
chegaram para tirá-lo de lá.
– Uau! – eu exclamei.
– E isso não foi tudo. Disseram que havia uma criança na ilha que
morreu devido a uma doença e Rafael a reviveu.
– M... maravilhoso! – eu quase disse “merda!”
– O problema é que fugindo para a ilha ele desobedeceu claramente à
Ordem – disse Augusto – mesmo que o cara seja santo e faça milagres,
ele precisa obedecer aos seus superiores. É a regra. Então depois do que
ele fez não houve mais discussão. Ele foi expulso da Ordem. O objetivo
dos mártires é cumprir o plano de Deus para eles, mas Rafael não estava
mais tentando cumprir o plano do Cordeiro. Ele só queria ser
martirizado por si mesmo. Quando um vermelho chega nesse ponto
deve ser expulso.

208
Mártires Vermelhos

– Entendi – falei.
Eu também percebi que o vermelho estava meio perdido em seus
objetivos quando estava no hospital. Ele só queria ser martirizado
imediatamente. Não estava pensando direito, não estava mais tentando
entender a vontade de Deus para ele.
– Mas mesmo que ele não seja mais um vermelho, se ele quiser pode
fugir de novo para pregar e ser martirizado – argumentei.
– É isso que estamos tentando evitar – disse Jezabel – por isso nós o
prendemos no quarto com correntes.
– E depois você reclamou de mim quando o prendi! – exclamei –
pelo menos não usei correntes.
– Nós somos a família dele e temos esse direito – argumentou Jezabel
– está muito claro que o Rafael não está em condições psicológicas de
tomar nenhuma decisão importante agora. Os vermelhos colocaram um
monte de besteiras na cabeça dele e vai levar um bom tempo até fazê-lo
voltar ao normal.
– O que é o “normal”? – perguntei – é ele se envolver com dinheiro e
poder e viver pelos prazeres?
– Eu sabia que você ia dizer isso – Jezabel deu um sorriso de ironia –
você fala como ele. Vocês dois são iguais. Têm a mesma doença.
– Por que você acha que só sua interpretação religiosa é a correta? –
perguntei – eu concordo que podemos interpretar vários ensinamentos
dos Selos levando em conta os simbolismos e alegorias, mas algumas
passagens são para ser entendidas literalmente. Se não aplicarmos
nenhum ensinamento dos Selos de forma literal em nossa vida, eles não
passarão de um livro de histórias que não irão gerar nenhuma
transformação real e consistente dentro de nós. E o objetivo da religião
não é apenas nos entreter, nos fazer pensar e nos confortar, mas nos
levar a uma busca séria pela verdade. Para isso, devemos estar dispostos
a fazer certos sacrifícios. As melhores coisas da vida não são recebidas de
forma fácil. O ser humano é como uma espada que exige forja no fogo.
– Você acha que essa sua última citação dos Selos deve ser entendida
de forma literal? – perguntou Jezabel.
– No caso dessa, tanto literal quanto simbólica.

209
Wanju Duli

– Eu não aguento mais essa conversa – disse Jezabel – está bem, vá


falar com Rafael. Tem chance de você convencê-lo a tirar da cabeça essa
ideia ridícula de se martirizar ou pretende reforçá-la?
– Eu quero mostrar a ele que há outros caminhos – respondi.
– Por que não disse antes? – disse Jezabel – nesse caso, pode ficar
quanto tempo quiser. Ele está no terceiro andar, segundo quarto à
direita.
– Obrigada.
Eu levantei-me e subi as escadas. E quanto mais perto eu chegava,
mais nervosa eu ficava.
Aquela Jezabel era muito controladora. Ela agia como se sua palavra
tivesse mais autoridade que a de seus pais. Augusto devia ser um santo
para aguentar aquilo.
Bati na porta do quarto. Como não houve resposta, eu simplesmente
entrei.
Quando cheguei lá, encontrei um rapaz de cabelos negros sentado no
chão, lendo um livro. Havia várias cadeiras e uma cama no quarto, mas
ele optou por sentar-se no chão. Então mesmo depois de ser expulso da
Ordem ele continuava a manter algumas de suas regras?
– Oi Rafael – cumprimentei-o.
Ele levantou os olhos. Parecia completamente surpreso ao me ver.
Rafael era extremamente parecido com Jezabel, apesar de eles serem
apenas primos e não irmãos. Os dois tinham cabelos e olhos
profundamente negros. A mesma pele morena escura.
– Que está fazendo aqui? – ele perguntou.
Confesso que fiquei emocionada. Além de eu estar vendo Rafael sem
a máscara e o manto pela primeira vez, eu ouvia sua voz. Após quase um
ano de convivência diária juntos, esperei muito por esse dia, embora eu
nunca tivesse acreditado de verdade que fosse chegar. Achei que ele seria
martirizado numa terra distante e eu jamais veria nem mesmo uma de
suas relíquias.
– Minha família veio discutir questões políticas com a sua – resolvi
dizer – e eu vim junto.
– Não sabia que era tão interessada em política – ele sorriu.

210
Mártires Vermelhos

Meu santo Cordeiro! O que era aquele sorriso? Eu quase caí para trás.
Fui pega desprevenida. Eu precisava me assegurar que aquilo não
aconteceria de novo.
O sorriso daquele rapaz era extremamente lindo. Não sei explicar: era
tão sincero e espontâneo. Emanava tranquilidade e paz. Nem parecia que
ele havia voltado há poucos dias de uma ilha na qual tentou ser devorado
vivo por canibais.
Era ele mesmo. Somente ele era capaz de manter aquela calma
mesmo estando no olho do furacão. Ele sempre foi assim. No fundo eu
sabia que ele sofreu a cada dia que ficou preso na minha casa, porque
desejava ser martirizado. Ainda assim, ele sempre aguentava firme, com
paciência e bom humor.
No hospital ele experimentou um breve momento de desespero, mas
aquilo fazia parte. Afinal, ele era humano.
E lá estava ele: ainda sorrindo. Ele era realmente admirável.
– Está bem, eu vim para te ver – confessei – e não por causa da
política. Se importa de eu me sentar ao seu lado? Ou você ainda mantém
a regra dos dois metros?
– Claro, pode sentar. Aos poucos estou eliminando as minhas regras.
Ainda sou apegado a algumas, enquanto outras farei questão de manter
pelo resto da vida.
E eu me sentei no chão ao seu lado, apoiando as costas na parede
como ele fazia. Era muito emocionante estar assim tão perto e poder
prestar atenção em cada detalhe de seu rosto.
Seus cabelos negros eram curtos, ondulados e ligeiramente crespos. E
ele também tinha os mesmos olhos pequenos e puxados de Jezabel.
Quando ele sorria, os olhos diminuíam ainda mais.
Ele estava usando roupas comuns: calça e blusa. Eu tinha tantas
perguntas a fazer a ele que nem sabia por onde começar.
– Essas correntes são desconfortáveis? – perguntei.
– Nem tanto quanto parece – ele respondeu.
– Como é usar calça depois de tanto tempo?
– Normal.
– Não está com frio?
– Não.

211
Wanju Duli

É claro que não. Ele devia estar acostumado a resistir a extremos de


temperatura como parte do treinamento. E nem estava assim tão frio
naquele dia.
– Além da regra de sentar no chão, quais outras você mantém? –
perguntei – está dormindo no chão também?
– Sim. Por enquanto só eliminei o básico: o manto, a máscara, as
luvas, o silêncio e a distância de dois metros. Ainda mantenho as
penitências das vigílias e regras de alimentação. Basicamente, estou com
a mesma rotina que você conhece. Só acrescentei novos livros.
– Isso é um romance de cavalaria! – comentei, contente – posso ver?
– Claro.
Ele passou o livro para mim. Era algo completamente novo que ele
me passasse um objeto diretamente. Antes tínhamos que manter aquele
ritual de levar a folha até a mesa.
Era até estranho não precisar mais fazer isso. Acabei me
acostumando. Será que eu sentiria saudades? Só um pouquinho.
– Certamente esse romance não é mais extraordinário que sua vida –
comentei – eu soube das suas últimas aventuras: o discurso no Templo, a
visita na ilha e os milagres. Então você consegue até reviver os mortos?
Realmente impressionante. Se eu morrer antes do tempo por acidente,
você me revive?
– Darei o meu melhor – ele brincou.
– Ainda pretende se martirizar?
– Bem, estou com 21 anos agora e a Ordem dos Mártires só aceita
novos membros até os 30 – ele respondeu – então tenho duas opções:
tentar voltar para a Ordem nos próximos nove anos e depois me
martirizar ou simplesmente voltar para a ilha na primeira oportunidade.
O único problema é que se eu morrer estando fora da Ordem não vão
fazer para mim um folheto bonito de santo com rezas da mesma forma
que fizeram para Malaquias.
– Ah, é claro, essa é sua maior preocupação – caçoei – mas fico
contente de ver que você ainda mantém o bom humor. Então nem
mesmo considera uma terceira opção?
– E qual seria ela?
– Obedecer seus pais – respondi.

212
Mártires Vermelhos

– Eles não precisam de mim – ele disse – pois eles têm Jezabel, que
será a rainha. E seu irmão será rei.
– Mas nem seus pais e nem sua irmã querem que você morra – falei.
– Todos vamos morrer um dia. Eles precisam aceitar isso.
– Não dá para esperar mais uns cinquenta anos? – perguntei.
– Para quê?
– Você pode ajudar muita gente nesse período.
– Poderei ajudar ainda mais estando no céu – ele respondeu – você
sabe que quando perdemos esse corpo aqui e ganhamos o outro nossas
capacidades morais e espirituais se elevam. Especialmente porque
veremos Deus face a face.
Era difícil achar um bom argumento. Simplesmente não havia. Tudo
que ele dizia estava certo e de acordo com a tradição de nossa religião.
Então só havia uma última chance de convencê-lo. Dei a ele a folha
de papel dobrada.
– Malaquias escreveu isso – expliquei – não sei se você leu.
– Não – ele disse.
Aguardei que ele terminasse a leitura. Quando terminou, ele apenas
sorriu.
– Típico dele. Dramático desse jeito. Mas foi uma boa leitura.
Obrigado.
– Só isso? – perguntei, desapontada – você não se sentiu tocado pelas
palavras dele?
– Ele já me disse coisas assim muitas vezes. E não me convenceu.
– Tem certeza que os planos de Deus para você são o martírio? –
perguntei.
– Nunca temos certeza dos planos dele – respondeu Rafael – mas eu
possuo uma forte convicção de que é isso que devo fazer. Quero
acreditar que todos esses contratempos não foram enviados pelo
Cordeiro, mas são obstáculos do Dragão para tentar diminuir a minha
determinação.
– Você já tentou perguntar para algum santo ou gálata a respeito do
seu caminho? – perguntei.
– Eles raramente respondem de forma clara, pois respeitam muito
meu livre-arbítrio.
– Então peça que respondam claramente – falei.

213
Wanju Duli

– Eu já pedi. Estou esperando um sinal, mas enquanto aguardo não


posso fraquejar em minha rotina de penitências. É preciso estar sempre
vigilante. Sabe bem que a morte vem como um ladrão.
Baixei os olhos.
– Está triste? – ele me perguntou.
– Pensei que você levasse mais a sério o que o Malaquias dizia – falei
– mas você sempre quer fazer as coisas do seu jeito. Não percebeu o que
está acontecendo? Ele te disse para não ser martirizado. Sua família
também. A sua Ordem. E eu.
– Até você? Agora quem está triste sou eu.
– Desculpe – falei – mas está muito claro que todas as pessoas ao seu
redor estão te dizendo para parar. Você é o único que permanece firme
nessa ideia de martírio.
– Pensei que você admirasse os vermelhos e o ideal deles.
– Eu admiro – falei – mas eu e todo mundo enxerga cada vez mais
claramente que chegou o momento de você deixar isso tudo para trás.
Você é o único que não enxerga.
– Por que será que sou o único que não enxerga? – ele brincou – meu
treinamento rigoroso não serviu para nada? É isso que quer dizer?
– É claro que serviu – falei – tudo que você aprendeu vai te ajudar
muito na vida que terá aqui. Ou você perdeu a vontade de viver?
– Não é que eu tenha perdido. Sei que o mundo criado pelo Cordeiro
só pode ser um mundo belo, pois ele é sábio e bom. Ele quer que suas
criaturas sejam felizes. Eu aceito isso. Mas nunca me vi vivendo uma
vida assim, muito menos uma vida longa. Desde criança aceitei que eu
iria morrer martirizado o quanto antes. A Ordem começa a aceitar
membros a partir dos dezoito anos. E eu entrei aos dezoito. Teria
entrado antes se fosse permitido. Mas eles só abrem exceções para
situações bem específicas, como doentes terminais. Infelizmente, minha
saúde costuma ser boa.
– Você só está muito magro – observei.
– É um efeito colateral dos jejuns. Não posso fazer muito sobre isso.
– Pode parar de fazer jejuns... – falei, como se fosse óbvio.
– Essa se trata de uma das práticas mais fundamentais e importantes
de nossa religião – ele disse – mesmo um leigo deve manter uma rotina

214
Mártires Vermelhos

de jejuns regulares, ao menos uma vez por semana. Tradicionalmente


isso é feito na sexta-feira, dia da morte do Cordeiro.
– Então faça uma vez por semana, não precisa fazer todo dia –
sugeri.
– Sai de perto, Dragão! – ele brincou – está me tentando.
– Até parece que você vai ser tentado pelas minhas sugestões. É
como eu disse antes: independente do que as pessoas digam, você
sempre vai fazer as coisas do seu jeito. Pensei que para seguir o Cordeiro
você devia apenas se esvaziar de si mesmo e confiar. Mas se você está
com tanto medo assim de relaxar as suas regras, será que sua fé não é tão
forte? Você não confia que o Cordeiro tem outros planos para você que
sejam nesse mundo?
– Ainda não tenho nenhuma evidência disso.
– Como você é cético! – exclamei, começando a me irritar – está
bem, então. Continue vivendo como vermelho, se isso te faz feliz. Você
é realmente autêntico: mesmo depois de te tirarem o manto, você ainda é
um vermelho de coração.
– Por acaso você veio me visitar só para me entregar a carta que o
Malaquias escreveu? – ele perguntou.
– Um gálata me mandou entregar a você essa carta.
Ele suspirou fundo.
– Por que não me contou isso desde o início?
– Faz diferença?
– É claro que faz – disse Rafael – gálatas são mensageiros do
Cordeiro. Eles conhecem mais de perto a vontade dele. Em que
circunstâncias o gálata te apareceu?
Contei a ele como minha mãe me trancou por 24 horas. Ele deu um
leve sorriso.
– Como foi a sensação de ser trancada?
– A pior do mundo – garanti.
E dessa vez ele gargalhou.
Meu coração bateu forte. Como ele podia ter um sorriso tão bonito
assim?
– Meu relato te convenceu? – perguntei.
– Completamente – ele respondeu – eu confio em você.
Teoricamente você é minha sequestradora e eu devia estar com raiva.

215
Wanju Duli

Mas por algum motivo não estou. Agora vejo que aquele período na sua
casa foi necessário. Eu entendi muitas coisas nesse tempo.
– Quais coisas? – perguntei.
– Paciência. Não era isso que você queria me ensinar?
– Suponho que sim.
– E creio que o Cordeiro também quis me mostrar isso – ele disse –
vocês estão certos quando dizem que ultimamente ando fazendo as
coisas da minha cabeça em vez de tentar prestar atenção no que o
Cordeiro quer. Mas eu sou todo dele. E ele fará comigo o que desejar. Se
o gálata mandou que você viajasse tão longe só para me entregar essa
carta é porque as palavras do Malaquias são as dele.
– Além de estar aprendendo paciência, você está aprendendo
confiança – eu disse – você não deve ter fé somente em Deus, mas
também nos seus amigos.
– É verdade. Eu acreditei na sua visão do gálata porque tenho fé em
você.
– O Cordeiro não envia sinais apenas através de gálatas – eu disse –
mas também através das pessoas.
– Acho que, em minha cegueira e teimosia, acabei por me esquecer
dessa verdade fundamental – disse Rafael – confesso que errei. Me
desculpe.
– Não precisa pedir desculpas.
Eu já tinha feito tantas coisas ruins para ele sem pedir desculpas.
– Pode me tratar informalmente como de costume – eu disse – não
precisa ser formal. Até porque somos ambos príncipes, então não precisa
daquela frescura de “Vossa Alteza”.
– Você não gosta do “Vossa Alteza”?
– Não sou muito fã.
– Eu também não. Nem os mártires vermelhos possuem um título
formal.
– Não pensa mesmo em ser rei?
– Já disse que Jezabel cuidará disso – falou Rafael.
– Mas você é o filho de sangue, então teoricamente se quisesse ser rei
em vez dela você poderia, certo? – perguntei.
Rafael me lançou um olhar desconfiado.

216
Mártires Vermelhos

– É para esse mundo que você quer que eu vá, Bibiana? – ele
perguntou – já está me incitando a brigar pelo poder.
– Não estou incitando – defendi-me – só estou perguntando, como
curiosidade.
– Não tenho interesse no poder e na política – ele disse – eu aceitaria
carregar esse fardo somente se fosse a vontade do Cordeiro.
– Tenho uma pergunta mais importante para você – falei – por que se
dedicou tanto a aprender pompena? É uma língua de pedantes!
– Tem razão. Mas eu a estudo desde pequeno e sempre gostei de
desafios. Eu acabei aprendendo muito bem antes que percebesse.
– Você é muito esquisito! – exclamei – você decora e aprende coisas
por acidente.
– Bem, isso não me torna melhor ou pior que ninguém – disse Rafael
– o que torna as pessoas melhores é cumprir a lei moral tendo em vista a
glória do Cordeiro, para elevar seu espírito até ele.
Eu resolvi reler a carta escrita por Jeremias. Havia algumas coisas nela
que eu precisava perguntar.
– Então você acha que Jezabel não é uma pessoa boa? – perguntei – é
o que diz na carta.
– O problema é que ela não gosta dos vermelhos – explicou Rafael –
então temo que ela tome alguma medida no futuro que prejudique a
Ordem.
– O gálata me disse que ela é uma adoradora dos servos do Dragão –
contei.
Rafael franziu a testa.
– O quê?
– Se o gálata me mandou entregar essa carta é porque o Cordeiro
quer que você tome o poder dela – falei – não está bem claro? Ou fiz
uma interpretação errada?
Rafael ficou pensativo.
– Não gosto dessa história de tomar o poder – ele disse – e não quero
brigar com Jezabel. Já briguei muito com ela por causa dessa história da
Ordem.
– E o que importa o que você gosta ou quer fazer? – perguntei – o
que importa é obedecer a Deus.
– Nisso você tem razão.

217
Wanju Duli

– Então, só para confirmar – eu disse – você realmente desistiu da


ideia de ser mártir, né? Isso tudo que te contei te convenceu?
– Sim, me convenceu – confirmou Rafael – desistirei de ser mártir
diante de seus argumentos e revelações. Assuma a responsabilidade por
isso.
– Que medo – brinquei – mas acho que já assumi a responsabilidade
por você há muito tempo, desde que resolvi trancá-lo.
– E quase me matou de fome.
– A culpa foi sua que me disse que conseguia fazer um jejum de um
mês!
– Mas não é sempre que consigo fazer. Depende de muitas coisas. Eu
conheço bem meu corpo e sei quando está na hora de parar.
– Falando nisso, agora você vai voltar a sentar em cadeiras e dormir
em camas? – perguntei.
– Provavelmente sim, mas será um pouco doloroso. De alguma
forma, parece que afrouxar minha regra é retroceder todo o avanço
espiritual que obtive até hoje. Mas a minha prioridade é obedecer a
Deus.
– Você já garantiu seu céu há muito tempo – falei a ele – por que
você precisa ser santo?
– Tem razão. Eu não preciso ser nada. Devo ser o menor de todos os
servos. Não importa onde estou sentado e o que como contanto que
meu coração esteja sempre no Imolado e se sacrifique por ele. Se o
sacrifício que ele pede é envolvimento com poder político, assim seja.
– Ainda pensa em se casar? – perguntei – você já está passando da
idade.
– Será que todas as princesas vão me achar muito velho e nenhuma
vai querer casar comigo? – ele sorriu.
– Bem, a princesa que não quiser casar com você só pode ser muito
idiota, porque você é muito charmoso – comentei.
Quase me arrependi por ter dito isso. Ele me deu um sorriso tão
cruel que eu queria me matar.
– O que você está tentando fazer, princesa Bibiana? – ele me
perguntou, com a mesma expressão – devo interpretar literalmente ou
em símbolos? Qual é a alegoria? Qual é a exegese? Por favor, me conte.
Sou incapaz de encontrar uma solução teológica apropriada aqui.

218
Mártires Vermelhos

– Seu filho da puta! – exclamei – eu não vou dizer nada. Interprete


como quiser.
– Nossa vida não é um romance de cavalaria, Bibiana – ele disse –
meu amor cortês e meu ideal cavaleiresco foram sempre dedicados ao
Imolado.
– Sei disso. Mas falando sério, não há nenhuma pretendente?
– Vejamos... deixei de ser um vermelho há poucos dias e cinco
minutos atrás eu ainda estava pensando em me martirizar. No exato
segundo em que mudei de ideia as pretendentes já começaram a se
acumular na minha porta.
– Seu maldito, você está zombando de mim.
– Você é sempre tão direta e decidida! Só estou estranhando sua
hesitação.
– Por que não age como um cavalheiro e diz você mesmo?
– Quer casar comigo, Bibiana?
– Não desse jeito! Você disse muito rápido! – eu ri – não estou
preparada. Eu preciso pensar!
– Você precisa pensar? – ele riu também – está bem. De quantos
segundos você precisa?
– Eu aceito – falei.
Depois disso, nós rimos ainda mais alto.
– Espera, isso é sério? – perguntei.
– Se você preferir se martirizar junto comigo pelo Cordeiro eu
também topo – ele avisou.
– Desconfio que isso também seja sério – falei.
– Por que não fazemos a festa de casamento amanhã para aproveitar
a presença de seus pais na cidade?
Eu tapei a boca dele com a mão.
– Cala a boca! Eu preferia quando você não falava.
Ele baixou a minha mão.
– Preferia mesmo?
Os olhos dele eram de um negro tão escuro que era realmente
delirante.
Ele chegou perto de mim. Eu só fechei os olhos.
A gente se beijou. Eu não sabia beijar. E nem ele. Nós nos babamos
bastante.

219
Wanju Duli

– Eu tô tremendo – eu disse – eu tô nervosa.


– Eu também – ele disse.
E continuamos rindo. Fiquei segurando na mão dele. Não sabíamos o
que fazer.
– Sei que você ainda pensa em ser mártir – falei – não se apaga essa
ideia da cabeça em cinco minutos.
– Você me conhece bem – ele confirmou – mais do que qualquer
outra pessoa no mundo.
– Então... você ainda vai tentar ser? Ou vai casar comigo?
– Eu proponho que marquemos o casamento para daqui um ano –
ele respondeu – assim eu terei uma resposta definitiva.
– Eu só precisei de poucos segundos para responder e você precisa
de um ano? – perguntei, chateada.
– Não quero mentir ou te enganar. Posso parecer tranquilo por fora,
mas você sabe que minha vida está uma bagunça nesse momento, não é?
Veja só essas correntes.
Quase me esqueci que a cabeça dele estava confusa. Eu me senti um
pouco culpada.
– Me desculpa por me aproveitar de você nessa situação – falei – sei
que você não está pensando direito.
– Não se desculpe. Está tudo bem. Eu só preciso de um tempo.
Aquele dia também bagunçou bastante a minha cabeça.
Eu estava ansiosa para contar para Augusto o que tinha acontecido,
mas eu não podia. Eu sabia que ele ia contar para Jezabel. Eu
desconfiava que ela não iria gostar muito da novidade. Ela me odiava.
Quando viajamos de volta para casa, ao longo do caminho de volta
para Pérgamo eu estava totalmente aérea. Quando alguém falava comigo
eu simplesmente não escutava e não respondia.
Ao chegarmos ao castelo, encostei a cabeça no meu travesseiro e
senti uma dor muito ruim no coração. Era ao mesmo tempo uma
sensação maravilhosa, mas desconfortável. Machucava.
Nem quando o gálata perfurou meu coração com a lança de ouro
machucou tanto. O que aquilo significava?
Chorei um pouco, mas não entendi porquê. Não tentei racionalizar o
que eu sentia. Só fiz isso quando fui pedir conselhos amorosos para
minhas duas especialistas.

220
Mártires Vermelhos

– É inacreditável que vocês tenham se beijado – disse Paula, chocada


– é totalmente bizarro que ele tenha aceitado. Que ele tenha entrado na
sua brincadeira.
– Não foi uma brincadeira – garanti.
– Isso foi meio cruel, Bibi – disse Sara – a cabeça dele deve estar uma
porcaria. Ele deve estar sofrendo muito.
– Pensei que eu fosse ajudar fazendo isso, mas só atrapalhei – concluí
– acho que eu só estava pensando em mim mesma.
A partir desse dia, foi difícil seguir em frente. Pode parecer um
exagero, mas o amor apaixonado tem muito do drama do amor religioso.
É realmente um sacrifício. Um entregar-se pelo outro.
Machucava de um jeito insuportável. Talvez fosse até mais fácil
imolar-se pelo Cordeiro do que sentir aquela dor.
Eu tinha vontade de dizer para Rafael: “apenas torne-se um mártir e
morra logo. Eu não aguento mais viver sabendo que você está vivo e não
posso estar ao seu lado”.
Era exatamente como o Cordeiro! “Não posso mais viver sem estar
com você”. Então era por isso que Rafael queria se sacrificar. Por esse
motivo queria tanto assim morrer! Eu finalmente entendi. Também foi
por isso que Jeremias morreu: porque permanecer separado de seu
grande amor era impossível.
Mas havia uma diferença fundamental que descobri naquele dia. O
amor apaixonado trazia consigo uma dor e um paradoxo sem solução:
um dia a pessoa amada morreria. Não era possível ficar com ela para
sempre. Sendo assim, desde o início esse tipo de amor já começava
machucando e ferindo.
Já o amor religioso era eterno e perfeito, porque Deus é eterno e
perfeito. Por isso, o amor apaixonado só poderia ser pleno e completo à
luz de um amor religioso: quando os dois entendiam que iriam se
reencontrar após a morte. Viam-se não só como corpos, mas como
almas. Se houvesse essa fé, essa certeza, somente assim o amor
apaixonado podia ser tão puro e belo quanto o amor pelo Cordeiro:
porque tornava-se reflexo do amor divino.
E também não era assim com tudo no mundo? Podíamos amar as
coisas do mundo, mas somente se as víssemos à luz do criador.
Amávamos o mundo e as pessoas para glorificar o Imolado. Se

221
Wanju Duli

amássemos as coisas por si mesmas iríamos sofrer. As coisas terminam,


mas o amor de Deus não termina.
Eu precisava recordar de algo muito importante: não importava que
decisão Rafael tomasse. Ficando comigo por algumas décadas ou se
martirizando em breve, de qualquer forma eu iria reencontrá-lo no outro
mundo. Estaria junto com ele e com todas as outras pessoas que amo.
Sendo assim, eu não precisava sofrer. Independente de amá-lo em
carne ou em espírito, o primeiro e mais fundamental amor que eu devia
ter por ele era o puramente espiritual.
Foi então que meu coração se acalmou. Eu teria paciência para
esperar porque eu sabia que jamais ocorreria uma separação completa,
em nenhuma circunstância.
A única possibilidade de separação era se um de nós se separasse de
Deus. Somente dessa forma jamais reencontraríamos um ao outro de
novo. Se isso ocorresse, um cairia no céu e outro no inferno, anulando a
possibilidade do reencontro. E eu até já sabia qual de nós corria o riso de
estragar tudo.
Foi por isso que naquele dia minha fé pelo Cordeiro começou a
crescer. Nunca tive motivos para aprimorar minha prática espiritual. Mas
agora eu tinha.
Passei a realizar pequenas austeridades diárias, mas coisas leves. Meu
objetivo único era garantir meu lugar no céu não por mim mesma.
Nunca me preocupei tanto assim se eu iria para o céu ou para o inferno.
Mas agora eu me preocupava: se eu caísse no inferno eu me separaria do
Rafael.
Então era assim que os vermelhos se sentiam! Eles não se dedicavam
às suas práticas tão profundamente por medo de cair no inferno. Eles só
aprimoravam seu espírito porque amavam demais o Cordeiro. E queriam
estar junto dele. A única solução para estar junto era a purificação.
Foi só o sentimento do amor apaixonado que me fez entender
plenamente o amor religioso. Até aquele dia, eu só tinha entendido na
teoria. Nem mesmo a visão do gálata deixou as coisas tão claras quanto
aquele beijo.
Então era por isso que a vida era assim. Foi por isso que Deus fez um
mundo em que as pessoas podiam se apaixonar umas pelas outras. O
objetivo do amor apaixonado era que, através desse tipo de amor,

222
Mártires Vermelhos

descobríssemos a existência de Deus. Assim, voltaríamos a ele através


desse amor.
Era tão puro, tão belo, tão profundo!
Eu estava completamente fascinada. Eu queria dizer a Rafael tudo
isso. Mas eu não podia perder mais aulas. Colégio idiota!
Resolvi escrever uma carta muito longa, transbordando amor, como
relato de todas as minhas descobertas. Mandei que um empregado do
castelo partisse a cavalo até Tiatira e entregasse minha mensagem para
meu amado.
Até que tinha suas vantagens ser uma princesa.
Uma semana depois, recebi uma carta como resposta. Eu e ele
estávamos abusando de nossa condição de príncipes e mandando
mensageiros viajarem dias a cavalo para lá e para cá apenas para manter o
sentimento admirável e nobre de nosso amor cortês.
Eu chorei lendo a resposta dele. Eu queria poder me afogar no mar
das minhas lágrimas e não respirar nunca mais. Pois cada vez que eu
respirava eu lembrava que não estava respirando com ele e era
insuportável.

“Minha doce e delicada princesa Bibiana,

Será possível que trocamos exatamente o mesmo amor, a mesma angústia, o


mesmo sofrimento? A respiração também tornou-se difícil para mim. O comer e o
dormir. Eu vejo o Sol e a Lua, a passagem dos dias. E penso: como eu queria que
um gálata destruísse agora mesmo Sol e Lua! Que declarasse o dia do Juízo. Por
favor, eu clamo! Leve-nos, nos arraste desse mundo, não nos faça esperar sequer mais
um dia”.

Esse era só o começo. A carta seguia, com a mesma poesia chorosa, o


mesmo sofrimento lapidado com beleza, pingando chuvas de paixão.
Paula e Sara ficaram malucas quando leram minha carta.
– Queria que um cara escrevesse isso para mim – disse Paula –
mesmo se fosse um camponês muito pobre eu casaria com ele.
Era maravilhoso. A vida era perfeita.
Mas também era muito irônica. Eu e ele passamos quase um ano
vivendo juntos sob o mesmo teto, somente como amigos. Bastou nos

223
Wanju Duli

separarmos para nos tornarmos amantes. Era como Deus: estávamos


separados dele e o jogo da vida era reencontrá-lo. Ao longo da vida
dançávamos naquele baile de separação e reencontro.
Estávamos brincando com fogo, nos derretendo de amores um pelo
outro. Conforme os meses se passavam e a troca de cartas prosseguia, eu
sentia que não ia aguentar mais ficar sem vê-lo. Era muita dor.
O consolo de que eu iria reencontrá-lo após a morte não era o
bastante. Eu estava desesperada.
Mas o que podíamos fazer? Ele estava literalmente acorrentado no
palácio dele. E eu estava proibida por meus pais de sair do castelo
sozinha sem autorização.
Nossa história de amor era naturalmente trágica, sem nem fazermos
força para isso. Além da nossa separação física e troca de cartas, havia a
tensão do noivado: nem mesmo sabíamos se aquilo ocorreria, se nossos
pais seriam a favor. E mesmo se fossem, ainda havia o obstáculo final:
que Rafael resistisse a seu desejo de se tornar mártir.
Eu queria que ele se martirizasse por mim e não pelo Cordeiro. Será
que eu estava sendo muito egoísta? Desistir definitivamente de ser mártir
pelo amor a mim seria o verdadeiro martírio. Assim como Jeremias
queria que Rafael deixasse de ser mártir para ajudar as pessoas sendo rei.
Aos poucos Rafael estava reunindo vários motivos importantes para ficar
mais tempo nesse mundo.
Contudo, uma vez um mártir se é eternamente um mártir. Ele
aprendeu, intensificou e alimentou o amor por imolar-se ao Cordeiro ao
longo de sua vida. Foi um processo consciente de autodestruição. Talvez
uma parte dele já estivesse morta. Afinal, a morte dos vermelhos não
ocorria no dia exato do martírio, mas muito antes.
Será que eu estava amando um cadáver? Era um pouco assustador
pensar nisso, mas eu sentia que o amor dele por mim era realmente
genuíno e vivo.
No final, Rafael não aguentou esperar por um ano. Quatro meses
depois do início de nossa troca de cartas, ele me informou que tinha
tomado sua decisão e estava preparado para o noivado.
Eu conversei com meus pais e ele com os pais dele. A conversa com
meu pai foi particularmente divertida.
– Pai.

224
Mártires Vermelhos

– Hm?
– Eu queria falar sobre casamento.
– Que surpresa. Você nunca quer falar sobre isso. O que foi agora?
Você quer casar com o príncipe da Ilha de Emek para converter os
selvagens canibais?
– Não. Quero me casar com o príncipe Rafael de Tiatira. Nós nos
apaixonamos.
– Espere. O quê? Você quer se casar com o vermelho?
– Ele não é mais vermelho! Além disso, já nos conhecemos bem e
nos damos bem. Então está tudo certo. Não acha?
– Não sei o que dizer. Você me pegou de surpresa.
– Diga apenas: “sim, filhinha, como você quiser!”
– Você sabe que aquele rapaz tem sérios problemas mentais, não é?
– Pai, não era isso que você tinha que dizer. Era: “sim”.
– Ele fugiu sozinho de barco para uma ilha pelo “desejo sincero” de
ser devorado vivo!
– Eu juro que, apesar disso, ele é uma ótima pessoa!
Ele acabou concordando. E os pais de Rafael também, apesar de
Jezabel ser contra. Augusto, por outro lado, ficou feliz da vida.
Era triste saber que eu não veria mais Lucas com tanta frequência.
Mas um dia ele também se casaria e teria que tomar o seu caminho. Ao
menos agora eu ficaria mais perto de Gus.
Digamos que nosso noivado foi bem curto, pois estávamos ansiosos
para casar logo. Então pressionamos nossos pais a organizar a festa de
casamento o quanto antes.
A festa foi em Tiatira. Até arranjei um jeito de levar minhas duas
colegas.
Elas ficaram impressionadas com a pompa e elegância daquele
casamento. Nunca tinham visto nada igual.
Estavam todos tão felizes como se o próprio Cordeiro tivesse
retornado. Principalmente nossos pais. Aquele casamento significava
reforçar ainda mais a aliança entre os dois reinos.
Ouso dizer que os pais de Rafael eram os mais alegres de todos. Além
de eu ter salvado seu filho da morte após prendê-lo em casa, eu havia
criado um motivo poderoso para que ele não retomasse seu desejo de ser
mártir.

225
Wanju Duli

Por mais religiosos e piedosos que fossem o rei e a rainha de Tiatira,


é claro que eles não queriam perder o filho. Mesmo sabendo que o
destino de mártir era o mais nobre do mundo.
Eu senti isso quando o rei de Tiatira me cumprimentou amavelmente
em certo momento da festa, segurou na minha mão e me disse baixinho,
com um sorriso cheio de emoção:
– Você é abençoada, criança.
Nunca pensei na prisão de Rafael ou naquele casamento como se eu
estivesse fazendo um favor para alguém. Fui movida por motivos
exclusivamente egoístas. Mesmo assim, senti-me feliz que daquilo tudo
resultasse um bem.
Eu me perguntava se Jeremias não tinha planejado tudo. Será que ele
não desconfiou que aquilo pudesse acontecer? Não desejou isso? Talvez
ele tivesse pedido para que Rafael levasse meu irmão para casa porque
queria que eu o conhecesse. Ele sabia que nós dois éramos príncipes.
Talvez o aprendizado do amor apaixonado fosse exatamente o que
faltasse na vida de Rafael. Quem sabe Jeremias tivesse se tornado tão
santo e tão determinado em sua fé porque aprendeu a amar com Mateus.
E somente através desse amor da carne ele foi capaz de entender o amor
do espírito.
Então podiam ser esses os planos de Deus para Rafael: completar
esse aprendizado que faltava em sua vida. E esse aprendizado era tão
importante e fundamental que valia a pena sacrificar várias penitências
por ele.
Jezabel estava tão frustrada com toda a situação que sequer
compareceu na festa. Eu não sabia se entendia direito a origem de todo
aquele ódio. Ela ainda estava com raiva por eu tê-lo prendido em casa,
mesmo que com isso eu tenha salvado a vida dele? Ou talvez ela apenas
possuísse um amor doentio, egoísta e possessivo pelo irmão e se
aborrecesse de ver outra mulher na vida dele.
– Isso é tão romântico! – exclamou Sara, emocionada – vocês são
perfeitos juntos. Foram feitos um para o outro!
– Esse seu vestido deve ter custado toda a renda anual de um país,
Bibi – observou Paula.
Era um vestido bem exagerado. Em absolutamente tudo. Mas era
realmente magnífico. Só fiz questão de usá-lo para agradar meus pais.

226
Mártires Vermelhos

Mas se depois Rafael quisesse que eu o doasse para alimentar os pobres,


eu não seria contra. Eu era apegada a muitas coisas, mas vestidos não
estavam entre elas.
Nunca esperei ansiosamente pelo dia do meu casamento. Desde
criança eu achava que seria um evento extremamente entediante, assim
como todos os eventos sociais da realeza que meus pais arranjavam. Na
minha mente, eu me casaria com um príncipe que mal conhecia e de
quem não gostava. Teria filhos por mero dever e estaria condenada e
presa a uma chatíssima vida como princesa, apenas aguardando o dia da
minha morte para me libertar daquela existência de aparências, eventos
familiares e fofocas políticas.
A realidade tornou-se muito diferente da minha imaginação. Minhas
expectativas sempre foram muito baixas. Mas mesmo que tivessem sido
altas, eu duvidava que meus sonhos pudessem superar a realidade.
Embora não houvesse consenso, muitos diziam que Tiatira era o
reino mais poderoso dos sete, exatamente por causa do peso do poder
religioso que carregava consigo. Devido à vida religiosa e piedosa que os
cidadãos levavam, havia mais igualdade, justiça e menos pobreza. É claro
que também havia brigas religiosas, mas em geral as fofocas devido aos
desentendimentos sobre temas teológicos específicos eram a grande
diversão da cidade.
Eu e Rafael tínhamos basicamente os mesmos interesses e éramos
parecidos em muitas coisas. Além disso, ele era totalmente santo, já que
treinou rigorosamente para alcançar aquele grau de gentileza, paciência e
humildade. Para completar, ele tinha o sorriso mais lindo e radiante que
já vi.
É claro que ele, assim como Jeremias, vivia dizendo que era fraco e
cheio de falhas. Eu iria me deleitar em descobrir os defeitos dele ao
longo dos anos, porque se Rafael fosse mesmo totalmente santo e
perfeito seria muito chato! Eu também queria ter algo a acrescentar na
vida dele, assim como ele certamente teria na minha.
Ele já tinha me acrescentado muitas coisas. Tantos ensinamentos
valiosos ao longo do ano em que foi meu professor! E agora eu teria um
marido como professor particular de teologia. Eu nem precisaria
contratar alguém para me ensinar.

227
Wanju Duli

Quando aquela longa festa terminou, finalmente tivemos um pouco


de paz e privacidade. Eu e ele nos mudamos para o quarto andar. Todos
os cômodos foram perfeitamente limpos e decorados para nos receber.
Entramos em nosso quarto de casal e trancamos a porta. Eu atirei-me
imediatamente na cama.
– Não aguento mais escutar que a filha do rei de Laodicéia teve “dois
gêmeos lindos que parecem gatinhos” – eu disse, metendo o travesseiro
na minha cara.
Rafael riu.
– Acho que ouvimos isso pelo menos umas trinta vezes hoje – ele
comentou – e eu também ouvi “você está muito magrinho, precisa
comer mais carne” pelo menos umas vinte vezes.
– Isso porque eles não te viram seis meses atrás – comentei – eu acho
que agora você está ótimo. Está moderando muito mais nos jejuns,
certo?
– Sim. Até mesmo eu percebi que viver uma rotina de vermelho
sendo príncipe é uma receita para o fracasso – disse Rafael – um monge
não deve viver como leigo e um leigo não deve viver como monge. Cada
um deve abraçar as regras da vida que escolheu. E agora meu livro de
regras é outro. Você sabe que entrei para o terceiro grau da Ordem dos
Mártires?
– Não sabia – comentei, surpresa – mas imaginei que você fosse fazer
isso. Pelo menos assim poderá manter sua disciplina por toda a vida. Na
minha opinião, o terceiro grau da Ordem já é rigoroso o bastante.
Agora ele já sentava em cadeiras, deitava em camas e fazia muitas
coisas de pessoas normais. Fiquei aliviada, pois eu não estava muito
animada de dormir deitada com ele no chão.
Mesmo assim, eu não sabia bem quais eram exatamente as
penitências que ele ainda mantinha. Às vezes eu achava melhor não
perguntar, pois talvez fosse invasão de privacidade. Mas sendo a esposa
dele eu imaginei que acabaria descobrindo algumas coisas. E se eu
simplesmente perguntasse ele provavelmente me contaria. Mesmo na
época que devia seguir as regras do primeiro grau da Ordem ele nunca
foi muito fã de manter segredos.

228
Mártires Vermelhos

– Mesmo não sendo mais um vermelho você não tem permissão de


me contar sobre o treinamento que vocês tiveram e outros segredos da
Ordem, certo? – perguntei – não vai poder me ensinar o galac.
– Sinto muito – ele disse – eu teria muitas revelações emocionantes
para lhe fazer, mas não tenho essa permissão. Eu fiz um voto para que
essas verdades morram comigo.
Aceitei isso.
Eu me sentei na cama. Rafael ajoelhou-se diante de mim e segurou na
minha mão.
– Minha princesa, não sou digno de ti.
– Ainda está fazendo a corte? – perguntei, surpresa.
– Até o último momento – ele respondeu – até o meu último suspiro.
Por favor, me permita esse capricho de elevá-la e glorificá-la. Posso
expressar todo meu amor?
– Eu vou ficar tímida, mas vá em frente.
– Por toda minha vida desejei ardentemente pela visão beatífica do
Cordeiro Imolado – ele disse – eu a busquei em todas as coisas desse
mundo e do outro mundo. Estava preparado para entregar não somente
sangue, mas minha carne e meus ossos. Eu quis dar tudo de mim. Não
permitiria que restasse a menor parte. Somente morrendo para mim
mesmo o Cordeiro iria se mostrar. Então eu me mortifiquei, como diz a
própria palavra: “coloquei minha carne para a morte”. Nos Selos é dito
que o caminho da perfeição passa pelo caminho da morte. Não há
santidade sem a renúncia e a batalha espiritual. O sofrimento é o
caminho da redenção. E qual dor é maior que a dor do amor? Eu
descobri isso em ti. Quando nos separamos no primeiro dia, senti que
morreria ficando sem a visão do teu rosto e sem a bênção da tua
presença.
Era exatamente o mesmo. Da mesma forma que eu tinha sentido.
– Então encontrei Deus em ti – ele prosseguiu – o Deus que sempre
busquei em toda parte e pelo qual queria morrer. E agora que finalmente
te reencontrei, repito: não sou digno. E como seria? Tu és a luz das
estrelas erguidas pelos gálatas. O Sol que aquece a fé do coração de fogo.
A Lua que inspira o humilde amor. Tu és todas essas coisas e o que eu
sou? O teu humilde servo. É dito que quanto maior a tortura, mais a
alma se purifica. O amor é a grande tortura. Mesmo que minha carne se

229
Wanju Duli

despedace, não haveria dor maior que privar-me de ti. Tenho sede pela
sagrada comunhão. Sei que sou apenas um escravo, mas terias tu a
compaixão de fazer esse escravo ser a carne da tua carne?
– Ah, não, você quer fazer sexo comigo! – eu me deitei na cama e me
escondi por baixo dos lençóis, entre risos – bem que eu estranhei que
esse discurso estava muito longo e dramático. Era porque você queria
alguma coisa!
– Assim você me embaraça – ele sorriu – eu estava tentando dizer
isso de uma forma bonita. Mas não precisa ser hoje, se não quiser. Quer
esperar mais alguns anos para ter seus dois gêmeos lindos que parecem
gatinhos?
– Anos? De jeito nenhum! – exclamei – todos os meus irmãos, com a
exceção do meu irmão mais novo, já tiveram filhos. Não quero ser
deixada para trás.
– Independente da vontade dos seus pais, da sociedade ou de
qualquer outro, você quer ter filhos?
– Acho que sim. E você?
– Também acho que sim. E deixando os filhos de lado, irei respeitar
o seu desejo se você não quiser fazer isso hoje. Pode ser em qualquer
outro dia. Não há pressa.
– É claro que há pressa! – exclamei – eu só estou fazendo manha.
Você não faz ideia do quanto tenho pensado em você... desse jeito.
Estamos finalmente juntos. Não quero esperar nem mais um dia!
– Eu também não quero esperar – ele disse.
– Eu sei que você não quer – eu sorri – eu te conheço. Sempre
correndo desesperadamente para ser martirizado. A paciência nunca foi
sua virtude mais forte.
– Isso porque meu amor é muito grande.
– Tão grande que machuca – eu disse.
E nos beijamos. Dessa vez foi um beijo muito mais profundo e
apaixonado do que nosso primeiro. Da primeira vez foi algo delicado e
ingênuo. Agora estávamos queimando. As analogias espirituais eram
óbvias. Eu não sentia apenas meu coração queimando, mas meu corpo
inteiro. Eu estava sendo consumida pela chama, pronta para ser
martirizada.

230
Mártires Vermelhos

Estávamos respirando rápido. Tiramos a roupa um do outro. Na


verdade arrancamos as roupas, quase em desespero. Era um desejo
realmente destruidor. Eu queria apenas morte. Morrer para mim mesma
e imolar-me por ele.
Quando tocamos pele com pele o abraço foi profundo. Eu não
queria me separar nunca mais.
– Bibiana...
– Sim? – fiquei surpresa quando ele falou.
– Eu não sei fazer isso. Você me ensina?
– Eu também não sei! Pensei que você...
– Pensou que eu havia adquirido uma larga experiência sexual em
meus anos como vermelho?
Tem razão. Eu era estúpida. Eu me lembrava de ele ter escrito uma
vez que nunca tinha vivido uma paixão antes de se tornar vermelho. Ele
não era como Jeremias.
– Estou sentindo algo me arranhando – eu disse – tem alguma coisa
na sua perna?
Estávamos embaixo dos cobertores.
– É apenas um cilício de metal – ele respondeu.
– Você se importa de tirar? – pedi – acho que seria um pouco
desconfortável fazermos com isso. Quer dizer, eu não sou como você,
não quero que seja desconfortável. Não sou capaz de te acompanhar em
suas penitências. Sinto muito...
– Não se preocupe. Não tenho nenhuma intenção de te machucar.
Eu apenas não o tirei porque me esqueci.
Ele sentou-se na cama e retirou o cilício da coxa. Aproveitou também
e tirou uma corda que havia amarrado no tornozelo.
Aquilo me trouxe uma lembrança ruim. Lembrei do corpo torturado
de Jeremias. Ele também tinha várias coisas amarradas no corpo quando
foi martirizado.
Eu sentia que, por mais que me amasse muito, Rafael ainda estava
contendo seu desejo sexual. Talvez não fosse de propósito. Ele
simplesmente se acostumou a domar esse desejo pela vida inteira, então
devia ser um pouco difícil fazê-lo ressurgir assim, do nada.

231
Wanju Duli

Nós nos beijamos mais. Quando ele finalmente conseguiu se excitar


um pouco e tentamos consumar o ato, eu senti dor. Tentamos mais
vezes, mas não conseguimos.
Rafael nunca se importava em mortificar a si mesmo, mas ele se
recusava terminantemente a me machucar. Por isso, ele não aceitou
continuarmos com aquilo e combinamos que tentaríamos de novo no dia
seguinte.
Ele acordou antes de o Sol nascer para ir até a cerimônia religiosa dos
dourados no templo local. Eu tinha me esquecido que ele assistia aquela
cerimônia todo dia sem falha. Eu só estava acostumada a vê-la aos
domingos.
Já tínhamos conversado sobre isso. Eu continuaria a frequentá-la
apenas aos domingos e ele iria sozinho ao longo da semana. Acordei
apenas brevemente enquanto ele se vestia e depois voltei a dormir,
levantando duas horas mais tarde.
Achei que era impressão minha ou azar, mas Tiatira era realmente
uma terra mais fria que Pérgamo. Também não nevava por lá, mas as
temperaturas podiam cair muito.
Quando me levantei, vesti um casaco mais quente. Eu me encontrei
no salão central com Rafael para tomarmos o café da manhã.
– Então... o que vocês fazem por aqui? – perguntei – quais são os
seus deveres? E os meus?
– Imagino que você deseje frequentar um colégio de Tiatira –
comentou Rafael – você pode ir para o mesmo que eu estudei, que é o
melhor da cidade.
Eu estava finalmente livre das minhas aulas particulares das tardes e
também de minhas aulas dos sábados! Eu mal podia acreditar. Senti uma
sensação incrível de liberdade.
– Quero ter lições de teologia com você todas as noites – avisei –
pode ser?
– É claro.
Naquela noite nós lemos juntos alguns trechos dos Selos,
selecionamos alguns tópicos de estudo e até rezamos juntos. Ele também
perguntou se eu queria que ele me ensinasse algum idioma que ele
soubesse.

232
Mártires Vermelhos

– Por enquanto estou bem só com meus cinco idiomas, obrigada –


garanti a ele – quem sabe no futuro.
Ele lia muito. Eu o acompanhei nas leituras durante a noite. Eu
normalmente não tinha tempo de ler na minha antiga vida em Pérgamo,
pois eu sempre tinha muitas coisas para estudar e deveres do colégio.
Nunca pensei que seria tão maravilhoso me casar. Antes eu me sentia
presa na casa dos meus pais, mas era muito confortável estar lá, então eu
preferia não sair. Mas é claro que eu sabia que minha vida de casada
também teria suas dificuldades.
Antes de dormirmos ele estava escrevendo alguma coisa na mesinha
logo ao lado.
– Que está escrevendo? – perguntei.
– A lista das minhas faltas – ele disse – irei confessá-las amanhã para
o dourado e ele irá estabelecer minhas penitências.
– Mas você fez tudo perfeito durante o dia inteiro! – argumentei.
– Eu sou rigoroso comigo mesmo. Não houve um único dia em que
não achei pelo menos dez ou vinte erros para anotar e confessar. Faço
isso diariamente sem falta. Somente assim posso me tornar uma pessoa
melhor: reconhecendo meus erros, me arrependendo e pedindo um
perdão verdadeiro, de coração.
Então era assim que ele purificava sua alma. Era o somatório de uma
série de pequenas coisas, que juntas geravam alto mérito.
– Amanhã de tarde eu irei para uma região pobre da cidade distribuir
comida, medicamentos e pregar os Selos – ele me informou – se quiser
me acompanhar, será bem-vinda. Você não precisa vir todas as vezes,
pois todos os dias eu faço pelo menos um desses atos de caridade. Mas
acho que você vai gostar.
– Eu aceito.
Naquela noite finalmente conseguimos consumar o matrimônio.
Sinceramente, eu não senti prazer. Senti mais dor do que prazer, mas eu
entendi que não havia uma única vivência humana na qual a dor não
estivesse presente em algum grau. Nem que fosse o medo da separação
de uma sensação muito sublime.
Foi especial, porque me senti mais unida a ele do que nunca. Através
daquele ato não buscávamos meramente o prazer, mas uma verdadeira
união espiritual.

233
Wanju Duli

Eu me sentia protegida em todos os sentidos, mas especialmente de


um jeito espiritual. Isso porque eu sabia que Rafael era uma pessoa muito
gentil e amorosa. Ele era muito devoto, então a nossa união ocorria pela
glória do Cordeiro.
Ele ficou apavorado quando viu que sangrei. Mas eu disse a ele para
não se preocupar.
– Isso é normal? – ele perguntou.
– Sim – eu respondi – já conversei sobre isso com minha mãe. Ela
disse que é normal da primeira vez.
– Então vou acreditar em você.
Na manhã seguinte fui para meu primeiro dia de aula no novo
colégio.
Fui muito bem recebida e houve aquele ar formal de surpresa: “nossa,
ela é princesa de Pérgamo! E é esposa do príncipe de Tiatira!”
Eu sabia que seria difícil fazer amigas no começo. Imaginei que todos
teriam um pouco de receio de falar comigo. Sendo assim, eu que deveria
me esforçar para tentar quebrar toda aquela formalidade e fazer amigas
de verdade.
De tarde acompanhei Rafael na distribuição de pães e remédios. E
depois que a distribuição terminou, ele foi dar aulas de religião numa
comunidade pobre. Ele também distribuiu alguns livros infantis para as
crianças.
– Elas sabem ler? – perguntei.
– Aqui em Tiatira praticamente toda nossa população é alfabetizada –
ele explicou – pelo menos num nível básico. Claro que ainda temos
muito que melhorar. Eu gosto de fazer essas visitas, cada vez para
lugares diferentes, pois assim eu descubro do que as pessoas estão
precisando e quais são as áreas de maior escassez. Precisamos melhorar o
saneamento básico em várias regiões. Eu sempre tomo notas de todas as
sugestões e reclamações das pessoas com quem converso.
– Você é incrível – eu disse – não existe ninguém como você nesse
mundo. Você precisa se tornar rei!
– Eu posso ajudar em tudo que Jezabel e seu irmão precisarem. Eu
não preciso me tornar rei para ajudar a melhorar minha cidade e o meu
país.
– Sim, mas imagine tudo o que poderia fazer sendo rei!

234
Mártires Vermelhos

– Não preciso pensar nisso agora – ele disse – meus pais estão vivos e
com saúde e quero que eles continuem assim por muitos anos. Mais
algumas décadas, de preferência.
Infelizmente, eu não era tão bondosa e dedicada quanto ele. Eu
mantinha apenas as práticas religiosas num nível mínimo e não realizava
penitências muito relevantes. Eu também não tive mais interesse em
acompanhá-lo nessas visitas aos pobres, embora tenha sido uma
experiência marcante tê-lo acompanhado uma vez.
Mesmo assim, ele sempre respeitava minhas decisões e nunca forçava
nada. Ele deixava claro que eu seria sempre bem-vinda a acompanhá-lo
em qualquer coisa que ele fizesse quando eu desejasse. Mas eu realmente
não me via acordando um dia às quatro da manhã e dizendo: “puxa, me
deu muita vontade de ir na cerimônia religiosa! Acho que vou com você
hoje”.
– Se um dia quiser usar, eu tenho vários instrumentos de mortificação
da carne – ele me mostrou uma gaveta – em geral, estes não machucam
muito. Deve-se usá-los o dia inteiro e o objetivo é manter uma sensação
ligeiramente desconfortável toda vez que a roupa roça com a corda ou
metal. É uma lembrança constante da existência do Cordeiro. É para nos
lembrarmos que Deus está em tudo: tanto na alegria quanto na dor. É
uma forma de nos imolarmos por ele: aceitamos sentir desconforto por
ele porque o amamos. E cada vez que a roupa roça na perna somos
constantemente lembrados desse imenso amor. Nós só podemos chegar
a ele se aceitarmos sofrer por ele. Tudo que fazemos deve visar sua
glória. Mas você não precisa experimentar um deles agora, é claro. Se um
dia você se sentir chamada à vocação da mortificação, fale comigo que
será uma honra dar-lhe maiores orientações e explicações de como
funciona cada etapa de uso dos instrumentos.
– Claro – eu disse – obrigada.
Eu acho que eu me sentiria muito vaidosa usando uma daquelas
coisas, então não daria certo. Eu não achava que possuía a humildade
suficiente para me mortificar. Eu ficaria facilmente orgulhosa do alto
grau meritório das minhas práticas e assim elas não teriam muito valor.
Eu não gostava muito quando Rafael deixava de jantar comigo para
fazer os seus jejuns ou não ia dormir junto comigo para fazer suas
vigílias. Quando expressei a ele minha incomodação, ele imediatamente

235
Wanju Duli

deixou de fazer os jejuns e as vigílias quando isso interferia nas coisas


que fazíamos juntos.
Uma semana depois de estarmos casados eu perguntei a ele:
– E então? Está desapontado por ter casado comigo? Você descobriu
que não sou uma pessoa tão devota e caridosa quanto você imaginava.
Ele riu.
– Bibi, a gente já se conhece há muito tempo. Esqueceu que eu
conheço de perto suas opiniões sobre religião e o nível de suas práticas?
Fui seu diretor espiritual por quase um ano.
Fiquei mais tranquila.
– Eu não quero atrapalhar seu desenvolvimento espiritual – eu disse
– vejo como você deixa de fazer as suas coisas por mim. Já deixou até de
fazer sua visita aos pobres por minha causa uma vez.
– Meu objetivo não é avançar espiritualmente pelo simples prazer de
avançar – ele disse – minha meta é unicamente cumprir a vontade de
Deus. Quero cumprir os planos que o Cordeiro tem para mim. Agora
está claro que isso envolve nossa vida de casados. Nós nos tornamos a
mesma carne. Então a tua vontade é a minha vontade. Eu tenho o dever
moral de te obedecer e te fazer feliz. E não o faço só porque devo, mas
porque te amo.
Aquilo foi tão lindo que tive que beijá-lo.
– Prometo que irei me tornar uma esposa melhor – eu falei – sou
naturalmente preguiçosa e egoísta. Não é justo que só você faça
sacrifícios por mim e eu não faça nada por ti. Por isso juro que irei
respeitar mais as suas penitências. Vou te dar mais espaço para que você
possa fazê-las. Além disso, tentarei te acompanhar no que eu puder.
Comecei a pensar quais os pequenos sacrifícios que eu poderia fazer
para acompanhá-lo em algumas coisas. Então decidi que eu passaria a ir
com ele nas visitas aos pobres ao menos uma vez por semana. E, que
seja, resolvi começar a usar um cilício. Era muito mais simples usar
aquele negócio do que fazer jejuns. Para mim jejuns eram dureza. Eu
ainda não tinha esquecido do que passei naquelas meras 24 horas nas
quais fui presa pela minha mãe naquele lugar escuro.
Eu sabia que dedicando-se a atos de mortificação e caridade não seria
tão difícil receber a visita de gálatas, santos ou até manifestar alguns

236
Mártires Vermelhos

poderes. Mas naquele estágio no qual eu me encontrava eu preferia


manter o meu conforto do que avançar espiritualmente.
Naqueles dias conversei com Augusto. Era legal vê-lo com mais
frequência.
– Está gostando daqui? – ele perguntou.
– Adorando – respondi.
– No começo eu mesmo pensei que ia odiar, mas acabei gostando.
Hoje em dia até acho bonita a forte atmosfera religiosa da cidade. Antes
eu simplesmente repudiava. Achava um exagero desnecessário tanto
foco nas coisas do espírito se também somos seres de carne. Hoje já
compreendo melhor. Entendi que é exatamente a dedicação espiritual
que nos faz aproveitar plenamente os prazeres mundanos da forma
correta.
– Esqueci de te perguntar. Você conseguiu se comunicar com o
espírito da Isabel?
– Sim – ele respondeu – tive o auxílio de um eremita negro para isso.
Sabia que eles são especialistas em contatar o mundo dos mortos? Eles
são necromantes, mas eles só realizam as comunicações que são
permitidas por Deus.
Eu não sabia muito sobre os negros. Eles deviam ser imensamente
poderosos.
– Ela concordou em deixar esse mundo? – perguntei.
– O eremita me disse uma coisa estranha. Ela não estava por aqui por
vontade própria, mas porque estava sendo atormentada. Descobri que
Jezabel estava mantendo o espírito de Isabel nesse mundo para se vingar.
– Se vingar de quê? – perguntei, confusa.
– Você sabe – disse Augusto – ela foi meu primeiro amor. Então
Jezabel teve ciúmes. Mesmo ela estando morta, ainda desejou puni-la.
Senti um frio na espinha. Eu nem queria pensar no que uma pessoa
que punia até os mortos seria capaz de fazer com os vivos. Até meu pai,
que mandou matar a moça, tinha um pouco de medo de profanar os
seres do outro mundo.
– O eremita negro conseguiu libertar Isabel completamente da
maldição – disse Augusto – e através das rezas dele um gálata
acompanhou-a com segurança até o céu.

237
Wanju Duli

Aquele eremita negro tinha feito uma coisa que nem mesmo Jeremias
foi capaz de fazer. Então ele era digno de meu respeito.
Embora os vermelhos possuíssem altos méritos espirituais,
comunicações com os espíritos dos mortos não eram sua especialidade.
Mesmo assim, Jeremias conseguiu me proteger, me curar e me salvar. Eu
me sentia profundamente grata por isso.
O próprio Rafael inicialmente pensou que era Isabel quem estava nos
amaldiçoando. Mas ela era apenas um instrumento que Jezabel usou.
– Então foi Jezabel que amaldiçoou a mim e ao Lucas com a praga? –
perguntei.
– Ela estava visando atacar Isabel, que ainda habitava nosso castelo
na forma de espírito – ele explicou – pode ser que vocês tenham sido
atingidos ou porque eram espiritualmente puros ou porque estavam
muito vulneráveis a esse ataque.
Lucas podia até ser puro, mas eu não. Achei mais aceitável a
explicação de que nós dois não éramos espiritualmente fortes na época
para aguentar toda aquela carga de maldições.
Ou quem sabe Deus tenha permitido que pegássemos a doença para
nos dar ensinamentos? Mas se fosse assim, por que ele havia enviado o
gálata que pediu para que Lucas fugisse?
Não havia como ter certeza sobre o que Deus queria. Era um
completo mistério.
Pelo menos aquela questão estava resolvida. Porém, surgiu uma outra
que me era particularmente preocupante.
Eu estava ligeiramente resfriada ultimamente. Depois de ouvir o
relato assustador de Augusto, eu imediatamente associei minha doença
com Jezabel. Ele achou graça.
– Deve ser apenas um resfriado ou gripe. Essas coisas são comuns no
inverno. Em breve você já estará bem.
– Espero que sim.
À noite, perguntei se Rafael poderia me curar.
– Você quer que eu faça um milagre? – ele riu.
– Não pode?
– Eu posso rezar por você – ele disse – e o Cordeiro fará o resto.
E ele rezou. Não melhorei imediatamente. Mas pela manhã eu já me
sentia renovada. Até o fim do dia eu já estava completamente curada.

238
Mártires Vermelhos

Não sei se teve relação com a reza dele ou não, mas sempre que ele
rezava por mim eu já me sentia automaticamente abençoada. Eu
acreditava que um santo como ele era capaz de fazer milagres reais.
– Por que não faz milagres o tempo todo, já que você consegue? – eu
perguntei.
– Eu acho muito mais importante agradecermos a Deus todos os dias
pela bênção da vida e da morte, da alegria e da dor, do que pedir coisas o
tempo todo – foi a resposta dele – por isso eu evito pedir, especialmente
para mim. Mas eu intercedo pelos outros. É importante que a vontade
do Cordeiro seja respeitada. Que ele cure, mas somente se ele quiser. É
melhor morrer por uma doença por vontade de Deus e ser recebido em
seus braços protetores após a morte do que ficar curado e perder o céu.
Ele sabe mais o que é melhor para nós, então devemos apenas confiar.
– Também é por isso que você não se comunica com os gálatas com
mais frequência?
– Essa é uma vocação dos eremitas negros – ele respondeu – eles se
afastam das coisas do mundo e são capazes de encontrar os seres
espirituais na solidão dos desertos. Para isso, eles largam de si mesmos
completamente. Porém, é importante não se perder demais nessas visões
para não esquecer do mundo. Por isso os negros voltam para nós,
ajudando a velar os mortos e facilitando a passagem para a outra vida.
Alguns meses depois, completei 16 anos. Eu estava desapontada,
porque ainda não tinha ficado grávida do meu primeiro filho.
– Tenha paciência – disse Rafael – o Cordeiro nos dará um filho
quando for a hora certa.
Nenhuma das minhas irmãs teve dificuldade de engravidar. Tanto
Teresa quanto Catarina ganharam filho pouco tempo depois de casarem.
E esse também foi o caso de Augusto.
O que haveria de errado comigo? Tive um pouco de medo. Mais
alguns meses se passaram. Comecei a ficar meio deprimida.
Quando se passou um ano desde o dia do nosso casamento, tive uma
conversa com Rafael.
– O que vai acontecer se eu nunca for capaz de engravidar? –
perguntei a ele.
– Nós apenas não teremos filhos – disse Rafael – você acha ruim? Ou
prefere adotar?

239
Wanju Duli

– Eu não me importo de adotar, mas você sabe como a questão do


sangue é importante na realeza – falei – veja só o seu caso e o de Jezabel.
Você tem mais direito ao trono do que ela porque é filho biológico dos
seus pais.
– Minha querida Bibiana. Já disse a você que não me importo com
questões como ser rei ou deixar descendentes. Não faço questão de
passar adiante o nome da família. Foi por causa dessa tradição que eu fui
expulso da Ordem. Claro que disso veio uma coisa boa, pois agora
estamos juntos. O Cordeiro sabe o que faz.
– Não foi o Cordeiro que fez, mas sua prima invejosa, possessiva e
vingativa – falei.
Eu gostava de chamá-la de “prima” dele em vez de irmã, mas ele
ficava em silêncio quando eu falava essas coisas.
– Não que eu esteja reclamando por você não ser mais vermelho – eu
disse – mas será que você não pode fazer um milagre para que eu
engravide?
– Eu prefiro aguardar mais um pouco. Talvez Deus não queira que
tenhamos um filho agora.
– Ou talvez você que não queira e esteja colocando a culpa em
Deus?! – eu gritei – eu estou farta desse seu amor e confiança cega em
Deus. Não dá para ser um pouquinho mais egoísta e mundano por
minha causa?
Eu me descontrolei. Acabei chorando. Rafael me abraçou.
– Está bem – ele disse – irei rezar para que você engravide. Se isso
não der certo, eu tento interceder por outros meios.
– Obrigada.
Cada um de nós tinha suas ocupações. Eu tinha minhas aulas e os
deveres do colégio, enquanto ele tinha sua rotina cheia de rituais
religiosos, visitas caridosas aos pobres e sabe-se lá o que mais. Em geral
nosso dia era cheio. Mesmo assim, eu exigia que toda noite fizéssemos
sexo, sem falta. Eu queria muito ganhar aquele filho.
Aos poucos, minha obsessão por isso foi tornando nossas relações
sexuais algo automático e vazio. Eu não sentia mais aquela união
espiritual sublime.
Até mesmo Rafael parecia um pouco chateado com aquilo tudo.
Ultimamente eu andava de péssimo humor. Eu gritava por qualquer

240
Mártires Vermelhos

coisa e me queixava. Cada mês que vinha minha menstruação outra vez
eu chorava.
Eu nem mesmo sabia porque eu estava com tanta vontade de ter um
filho. Não sei de onde veio essa vontade. Eu apenas sabia que queria
muito ter o filho e não conseguia.
Enquanto isso, as filhas de Augusto e Jezabel cresciam a cada dia
mais bonitas. Jezabel frequentemente me dava indiretas idiotas do tipo:
– É tão maravilhoso ter filhos! É realmente uma bênção. É uma pena
que nem todas as mulheres sejam capazes de se tornar mães.
Aquela bruxa. Ela tinha feito alguma coisa a mim! Só podia!
– Gus, chame aquele seu eremita negro – eu disse – aquele que
enviou Isabel em segurança para o céu.
O eremita negro foi me visitar no palácio alguns dias depois.
Eu nunca tinha visto um negro tão de perto antes. Eles eram como
os vermelhos: usavam máscara, luvas e mantinham um voto de silêncio.
Também havia a distância de dois metros. Ele escreveu alguma coisa a
mim no bloco de notas quando expliquei minha situação:

“Vossa Alteza Real,

Compadeço de sua situação. Porém, deve saber bem que a especialização dos
eremitas negros é com os mortos e não com os vivos. Por isso, não garanto que serei
capaz de resolver essa questão, mas irei investigar a possibilidade da maldição”

– Eu agradeço.
Rafael ainda não tinha tentado seriamente realizar um milagre para
que eu engravidasse, mas ele já tinha rezado muito. Por isso, se aquele
eremita negro resolvesse meu problema, aquilo poderia sugerir que ele
era ainda mais poderoso do que o próprio Rafael.
Eu já desconfiei disso quando ele salvou Isabel sem maiores
dificuldades depois de Jeremias quase morrer tentando. Então eu
esperava grandes coisas daquele negro.
Ele solicitou permanecer algumas horas num dos cômodos do
castelo. Disse que iria entrar em transe ou algo assim. Eu o deixei a sós.
Quando retornou, ele tinha um relato completo da situação:

241
Wanju Duli

“A princesa Jezabel foi responsável por essa maldição. Venha até aqui e te
libertarei dela. Tenho permissão de tocá-la?”

– É claro – falei – ou melhor, depende de onde!


Ele rompeu a regra da distância para me auxiliar. Tocou na minha
barriga levemente, por cima da roupa e ainda com luvas. Ele se
concentrou por alguns segundos.
– Está feito.
– Sério? – perguntei, surpresa – posso ter filhos agora?
– Sim.
Por alguma razão, acreditei fielmente no que ele me disse e o agradeci
mil vezes.
Um mês depois eu descobri que estava grávida. Eu não conseguia
parar de gritar de alegria.
Subitamente, Jezabel parou com as piadas. Ela devia estar se
perguntando o que havia acontecido para que sua poderosa maldição
fosse quebrada.
– Eu me sinto tão bem! – eu fazia questão de exclamar, sempre que
Jezabel estava perto – é tão maravilhoso estar grávida!
Eu falei isso muitas vezes na frente dela. Acho que ela estava
começando a se irritar.
No meu terceiro mês de gravidez levei um grande susto, pois um dia
comecei a sangrar. Assim, do nada. Um monte de sangue nas minhas
pernas.
Rafael correu para me ajudar. Eu estava passando mal. E o sangue
não parava.
Eu entendi a situação muito rapidamente. A médica não conseguiu
resolver o meu problema. Então chamei o eremita negro.
Ele resolveu minha situação num instante. Tocou na minha testa
febril e recitou uma prece sussurrada. Não consegui escutar nada, mas no
dia seguinte eu já estava completamente curada.
– Bruxa miserável... – sussurrei comigo mesma.
Ela estava tentando me fazer abortar. Mas eu não ia permitir.
A partir daí, solicitei ao eremita negro para habitar no nosso palácio
até o fim da minha gravidez. Eu soube que ele não estava muito a fim,

242
Mártires Vermelhos

pois certamente tinha seus êxtases místicos com os quais se ocupar no


deserto. Mesmo assim ele me obedeceu.
E foi assim que, aos 17 anos, ganhei meu primeiro filho: um lindo
menino! Eu sabia que Jezabel já tinha duas filhas e queria que seu
terceiro filho fosse menino. Só por isso eu fiquei feliz da vida por meu
bebê ser do sexo masculino.
A partir daí, começou uma verdadeira guerra entre nós. Pouco depois
de eu ganhar meu primeiro filho já engravidei do segundo. E ela também
engravidou mais ou menos na mesma época.
Toda vez que nos encontrávamos o diálogo era mais ou menos assim:
– Oi querida! – exclamava Jezabel – parabéns pelo segundo filho!
Pena que tenha engordado tanto.
– Melhor do que ser uma vara com um porco na barriga – eu dizia,
sorrindo.
Rafael ficava chocado quando eu lhe relatava minhas conversas com
Jezabel. Acho que ele ria junto comigo só para ser simpático, já que ele
era tão certinho.
Meu segundo filho também foi um menino e o filho dela foi uma
menina. Agora eu tinha dois meninos para me exibir!
Senti que ela estava tão furiosa comigo que a próxima maldição que
ela me lançasse fosse me matar. Por isso, eu solicitei pela proteção
imediata do meu eremita negro.
Antigamente eu tinha um vermelho. Agora tinha um negro.
Mas não demorou muito para que Jezabel descobrisse como eu
estava evitando as maldições dela. Nessa ocasião, ela foi até o cômodo
em que ficava o eremita negro e simplesmente socou-o várias vezes. Ela
chutou-o e socou-o com toda a força até não poder mais.
Ainda bem que eu e Rafael chegamos no quarto a tempo, após ouvir
os sons. Enviamos o eremita para o hospital imediatamente.
– Você vai defender Jezabel agora? – desafiei Rafael.
– Não – ele respondeu.
– Tem certeza que vai deixar essa mulher ser a rainha? – perguntei.
– É uma situação delicada.
E mais delicado ainda foi o que aconteceu dois anos depois.
O rei de Tiatira um dia teve um mal súbito. Ele morreu no hospital
naquele mesmo dia.

243
Wanju Duli

A esposa dele, a rainha, ficou tão devastada que resolveu tornar-se


eremita. Ela abdicou do trono e retirou-se para a solidão dos desertos.
Jezabel assumiu o poder, ao lado de Augusto. Em pouquíssimo
tempo a situação tornou-se caótica.
Uma das primeiras medidas de Jezabel como rainha foi tentar
eliminar a Ordem dos Mártires. Ela também colocaria sérias restrições na
Ordem dos Eremitas. Ela resolveu proteger apenas os dourados. Por
enquanto.
Teoricamente os reis não tinham poder para interferir diretamente
nas Ordens religiosas. Contudo, Jezabel poderia interferir indiretamente.
Ela começou proibindo os vermelhos de circularem pela cidade.
– Augusto! – eu gritei – faça alguma coisa!
– Mas o que posso fazer? – perguntou Augusto, defendendo-se –
quando ela quer alguma coisa, não há nada no mundo que a faça parar.
Catarina tinha razão: Augusto era um rei fraco, que ficava apenas nas
sombras enquanto Jezabel assumia o poder. Augusto era uma pessoa
boa. Mas ele não tinha habilidade e nem vontade de governar.
Ele nunca se interessou muito por política. E nem por religião. Só
havia se interessado um pouco nesses assuntos nos últimos anos porque
foi obrigado. Mas o interesse dele não era tão forte a ponto de ele desejar
interferir nas decisões de Jezabel.
– Você é o rei! – eu insisti – pelo menos diga a ela que não está
satisfeito com as decisões que ela tomou!
– Para ser sincero, eu não sou tão a favor que a Ordem dos Mártires
continue – ele disse – eu também a acho meio extrema. Já houve casos
de crianças fugindo de casa e se martirizando sem a permissão dos pais,
apenas devido ao fascínio pelos vermelhos. Eu acho que essas coisas são
negativas e isso deve ser parado.
– Essas ocorrências com crianças são muito raras! – exclamei – e isso
não é culpa dos vermelhos! Você está sendo injusto. Se Jezabel não
tivesse essa ideia ridícula você acabaria com os vermelhos por si mesmo?
– Eu não! – defendeu-se Augusto – não quero me meter nisso.
Augusto era assim: não queria se responsabilizar por nenhuma
decisão política importante, para não ser posteriormente criticado por
seus detratores. Assim era fácil: não fazer nada e não ser nada por medo
de críticas.

244
Mártires Vermelhos

Às vezes eu ficava em dúvida sobre quem era pior governando:


Jezabel ou Augusto. Aquela dupla era uma porcaria no poder.
Houve protesto da maior parte da população, pois os vermelhos
eram profundamente admirados em Tiatira e tidos como santos.
– Nem será preciso tirá-la do poder – comentei com Rafael – ela será
simplesmente derrubada pelo povo.
A próxima medida do governo dela foi retirar o benefício dos
impostos dados ao Templo. Tradicionalmente, 10% do valor arrecadado
em impostos pelo governo passava para o Templo de Tiatira. Porém, ela
queria cortar completamente o benefício.
Dessa vez houve protestos dos altos sacerdotes do Templo, que
consideravam a medida injusta. A maior parte do dinheiro recebido pelo
Templo era usado não somente em benefício de seus sacerdotes, que
faziam voto de pobreza e precisavam de pouca coisa, mas também para
benefício da população. O Templo financiava a fundação de escolas,
hospitais, creches, casas de idosos, leprosários e muitas outras
instituições. Eles alegaram que sem o auxílio dos impostos, somente com
as doações voluntárias dos cidadãos, muito disso seria perdido. Escolas
administradas por dourados fechariam. Creches fechariam e muitas
crianças órfãs iriam morar na rua.
Devido às reclamações, Jezabel fez a proposta de reduzir o valor do
benefício a 5%. Mas naquele ponto, nem Augusto estava concordando
mais com as novas medidas.
– Pensei que sua esposa fosse extremamente religiosa – eu disse a ele.
– Ela é – disse Augusto – por isso ela está se metendo tanto com
esses assuntos. Segundo ela, os dourados não andam muito pobres
ultimamente. Ela diz que eles usam parte do dinheiro arrecadado para
coisas triviais como viagens desnecessárias e que a Ordem precisa
retomar seus ideais de pobreza. Sabe de uma coisa? Eu estou farto disso
tudo. Política não é comigo. Estou com dor de cabeça. Nem consigo
dormir nesses últimos dias.
A confusão foi tanta que a mãe de Jezabel, que tinha virado eremita
negra, abandonou temporariamente seu retiro no deserto para derrubar
Jezabel do trono. Ela disse que as medidas de Jezabel eram absurdas e
quem devia assumir o trono era Rafael.

245
Wanju Duli

– Você abdicou do poder, mãe – retrucou Jezabel, friamente – não


pode mais decidir nada.
– Não fale desse jeito com nossa mãe – disse Rafael – eu te apoiei,
Bel. Pensei que podia contar com você. Mas agora já é hora de dar um
fim nisso.
Quando Jezabel notou que todos estavam contra ela, não somente
sua mãe e seu irmão mas também seu marido, ela ficou furiosa.
– Então assumam essa merda de trono e caguem nele! – ela
exclamou.
E se retirou para seus aposentos.
– Acho que isso significa que ela abdicou do poder – traduziu
Augusto – não se preocupem. Vocês ainda não a viram realmente
irritada.
Aquilo tudo era uma palhaçada. Todos aqueles príncipes mimados
estavam completamente despreparados para governar. Eram como
crianças.
Acho que só Rafael teria maturidade suficiente para isso. Ele
conhecia o mundo. Viveu sob voto de pobreza e na dor. Passou por um
treinamento rigoroso que fortaleceu o seu espírito.
E foi assim que Rafael, aos 26 anos, e eu, aos 20, assumimos como
rei e rainha de Tiatira.
Assim que isso aconteceu, eu imediatamente chamei o eremita negro
para morar conosco no palácio definitivamente. Eu ainda aguardava uma
série de maldições da parte de Jezabel. Eu duvidava que ela fosse desistir
assim tão facilmente. Mas não importava que os servos do Dragão
estivessem com ela porque o Cordeiro estava comigo.

246
Mártires Vermelhos

Capítulo 6

Fiquei muito surpresa quando recebi uma visita de Catarina. Fazia


anos que eu não a via! Acho que desde que ela se mudou para Sardes nós
só tínhamos nos visto duas vezes e aquilo realmente fazia muito tempo.
Ela foi para Tiatira sozinha, sem o marido e os filhos. Não pude me
conter de felicidade ao vê-la. Tínhamos tanto que conversar! Uma vida
para contar uma à outra.
– É tão estranho – disse Catarina, sentada em minha sala com uma
xícara de chá – parecia que nossa vida no castelo de Pérgamo
permaneceria igual para sempre, dia após dia. Tudo o que eu queria era
escapar de lá. Mas tudo mudou. Agora posso dizer que até sinto
saudades.
– Eu também – confessei – eu estava entediada lá em casa. Aqui em
Tiatira pude encontrar um novo lar. Mas as lembranças da infância ficam
para sempre e todas elas, olhando de longe, parecem especiais. Até
mesmo as dolorosas.
Estávamos somente as duas na sala ampla e belamente decorada.
Catarina olhou a paisagem na janela.
– Quando vivemos em dois lugares diferentes parece que nosso
coração fica dividido para sempre – ela disse – eu não desejaria voltar
para o passado, é claro. Sou feliz em Sardes. Marcos é maravilhoso e as
crianças também. Mas às vezes sou masoquista: gosto de olhar para trás
para me machucar um pouco.
– Sei exatamente como se sente – eu falei – também penso em muitas
coisas que aconteceram lá atrás. Mas não sinto que estou me prendendo
ao passado. Afinal, o passado faz parte de meu presente. De tudo que
sou hoje.
Catarina riu.
– Falando assim parece que temos noventa anos – disse Catarina –
mas se parar para pensar, nem mesmo Teresa já chegou aos trinta.
Somos muito jovens, mas já temos tantas memórias! Principalmente

247
Wanju Duli

você, que teve tudo: aventuras perigosas em terras distantes e até mesmo
uma dramática história de amor.
– Quanto mais passa o tempo, mais vejo que houve uma razão para
tudo ter acontecido dessa forma – eu disse – até mesmo as dores mais
excruciantes que tive um dia, e que na época pareciam sem significado,
agora têm um novo sentido. É o quebra-cabeça de Deus.
Se não fosse a maldição de Jezabel, eu não teria contraído a praga. Se
eu não a tivesse contraído muito provavelmente não teria corrido
desesperadamente até Tarsus para ter tempo de ver Jeremias morrer e ter
a visão de Galácia e da chuva de pedras. E Rafael só foi para meu castelo
porque levei Lucas junto comigo. Foi tudo perfeitamente calculado para
acontecer da melhor forma possível. Mas esse era um cálculo divino e
não um cálculo humano. É claro que eu não era capaz de ver nada disso
na época. Se eu pudesse escolher, teria pedido para o Cordeiro remover a
minha praga. Eu teria casado com um príncipe arrogante e pedante e
minha vida teria sido muito diferente. Eu toparia enfrentar qualquer
doença do mundo e o pior dos horrores para poder me encontrar com
Rafael.
Então era por isso que os vermelhos topavam encarar o maior dos
horrores: porque eles precisavam encontrar Deus de qualquer maneira.
Será que eu devia agradecer Jezabel pela maldição? Ou devia agradecer o
Augusto por ele ter namorado a empregada? Ou quem sabe também
devia agradecer meu pai, pois foi ele que falou com o eremita negro e
conseguiu encontrar um vermelho para me dar aulas: Jeremias. Foi lá que
tudo realmente começou.
Eu não teria feito nada na minha vida por mim mesma. Se parasse
para pensar, eu teria pelo menos dezenas de pessoas para agradecer por
ter chegado onde eu estava naquele momento e por ter vivido todas as
situações preciosas que vivi. No entanto, era o Cordeiro que estava no
centro de tudo. Era ele o protagonista da história da minha vida e da
história do mundo.
Era emocionante ter a honra de ser uma personagem de uma história
tão espetacular. O Cordeiro era como o escritor de um romance de
cavalaria e ele tinha grandes planos para mim. Mas ainda que ele
conhecesse meu destino, eu também tinha meu livre-arbítrio.

248
Mártires Vermelhos

Eu tinha apenas uma missão: cumprir os planos de Deus para mim.


Ele planejou tudo para acontecer da melhor forma, pois somente ele tem
a visão completa, a visão do todo. Então se eu queria que tudo ficasse
bem, bastava confiar nele e fazer o que tinha que ser feito.
Mas para isso eu precisava estar sempre alerta. Tentar escutar o que
ele dizia. O Cordeiro estava não somente nos livros dos Selos, mas em
cada pessoa e acontecimento ao meu redor. Quando eu ficasse confusa,
meu espírito naturalmente iria me direcionar para ele.
Eu nunca estava realmente sozinha. Não havia apenas gálatas e
santos no outro mundo para me direcionar, mas poderosos mestres aqui
mesmo nesse mundo. Havia tantos vermelhos, negros e dourados para
pedir orientações espirituais! Eu também tinha amigos, minha família e
outras pessoas sábias de confiança. Especialmente a pessoa mais especial
para mim: meu marido.
– Foi divertido viver tantas aventuras – eu disse para Catarina – mas
sabe qual foi uma das aventuras mais emocionantes da minha vida? Casar
e ter filhos. Aprendi mais com essas vivências do que se tivesse
percorrido o mundo inteiro! Rafael é muito doce, mas ainda assim nós
brigamos. Até mesmo uma pessoa santa como ele pode sair do sério.
Aos poucos eu entendi que não havia nada de errado nisso. Estava certo.
Eu e Rafael precisamos ter pequenas brigas e desentendimentos, ficar
distantes por alguns momentos e assim ter a oportunidade de redescobrir
porque nos unimos em primeiro lugar. Ficamos com saudade, pedimos
perdão e nos reconciliamos. É como a busca por Deus: vivemos num
mundo em que estamos separados dele somente para ter a chance de
reencontrá-lo. E muitas vezes nós o encontramos em lugares
surpreendentes, como dentro de nós, num amigo ou até num inimigo.
– É curioso como as coisas são – disse Catarina – antigamente o Gus
odiava religião e agora ele gosta. Comigo foi o contrário: eu era muito
religiosa na adolescência. Depois que casei, aos poucos os deveres do dia
a dia foram me afastando do Cordeiro. Somente recentemente eu estou
voltando a me aproximar dele.
– Os deveres do dia a dia podem ser uma oportunidade para nos
reaproximarmos dele e não nos separarmos – eu falei – e isso só
depende de nós: se iremos ofertar cada ato do nosso dia, até mesmo o
mais trivial, para a glória do Imolado. Droga, o chá esfriou.

249
Wanju Duli

Catarina riu.
– Você sempre foi assim, irmãzinha – disse Catarina – boa com
palavras, pronta para dar belos discursos. Mas na hora de aplicar o que
você mesma está dizendo, fica aborrecida por causa de algo trivial como
um chá.
– Acho que você está certa – eu disse – mas quero acreditar que
amadureci um pouco nos últimos anos. Especialmente depois de me
tornar mãe. Eu já amava Rafael de uma forma tão intensa que chegava a
doer. E então quando eu tive filhos senti um tipo de dor e amor que
superava tudo o que conheci. Aquelas criaturinhas pequenas e indefesas!
Como não amá-las? Eu precisava protegê-las, dar minha vida por elas.
Agora entendo como o Cordeiro enxerga os seres humanos: aos olhos
dele, nós somos como bebês delicados. Por isso ele se sacrificou por nós.
Eu encontrei Deus em Rafael. E o encontrei novamente nos meus filhos.
A cada dia o amor vai crescendo e crescendo, mas sem jamais separar-se
da dor, que é o supremo mestre.
– E como vão os seus deveres de rainha? – perguntou Catarina –
deve ser bem estressante.
– Foi depois que subimos ao trono que eu e Rafael tivemos nossas
primeiras brigas realmente pesadas – expliquei – ficamos chocados um
com o outro, como se fôssemos completos estranhos. Onde antes eu via
um santo, parecia que eu via o Dragão. Em certo momento até cheguei a
ter esse pensamento horrível: “por que eu me casei com esse monstro?
Eu estava louca?”, mas quando resolvi parar de culpá-lo por todas as
nossas discussões e olhar para mim mesma, comecei a perceber que
grande parte da culpa por nossas discussões intermináveis era minha. Eu
sempre ponho muito peso nele, pois ele foi o vermelho, ele é o sábio, ele
é o santo. Ele que faz milagres e fala com gálatas. Eu sempre exijo que
ele tenha uma solução mágica que vai resolver tudo e quando ele não
tem eu fico frustrada. Como ele leva uma vida quase perfeita, cada vez
que ele falha eu me choco em descobrir que ele não é Deus, mas apenas
humano.
– Seu marido é realmente um santo – disse Catarina – mas lembre-se
que até mesmo o Cordeiro virou as mesas do Templo. Até mesmo a
raiva tem um papel no mundo, Bibi, assim como a dor. E ela tem o seu

250
Mártires Vermelhos

papel contanto que até ela seja usada para glorificar o Cordeiro: indignar-
se diante de injustiças.
– O povo ama Rafael – contei – ele já é venerado como um santo.
Como um rei santo. Espalhou-se a história do adolescente que abdicou
do trono e fugiu de casa para tornar-se mártir. Todos sabem que ele
viajou para Tarsus e para a ilha de Emek para tentar se martirizar e não
conseguiu. Não eram apenas palavras vazias: ele foi sério em seu
objetivo. Passou pelo rigoroso treinamento dos vermelhos e quase
atingiu o martírio. Mas os planos do Cordeiro eram outros. Até hoje,
Rafael ainda vai visitar as zonas pobres da cidade, todos os dias, para
distribuir comida e ensinamentos religiosos para os mais humildes.
Histórias sobre ele já estão sendo contadas em todos os reinos.
– As histórias chegaram em Sardes – disse Catarina – ele é um
modelo para todos os reis.
– Mas nem mesmo ele escapa de críticas – eu disse – muitos o
acusam de usar a religião para manipular o povo. Também dizem que
essas caridades que ele faz todos os dias são apenas esmolas vazias, algo
simbólico para ganhar a aprovação popular. Muitos dizem que ele ainda
não realizou medidas políticas o bastante para ajudar a população e que
todo esse ideal de bondade e nobreza é mera aparência. Que aquilo que
precisamos são mudanças sociais profundas e não apenas consolos
religiosos vazios para desviar a atenção do povo daquilo que realmente
importa.
– E como ele responde a essas críticas? – perguntou Catarina.
– Ele regularmente escreve cartas para recitar publicamente, sobre
uma variedade de tópicos – expliquei – uma vez ele escreveu uma carta
defendendo o uso do cilício e recentemente outra defendendo o jejum.
Os seus detratores o criticaram dizendo que ele deve falar sobre tópicos
relevantes que trarão uma mudança real na vida do povo em vez de fugir
para esses “temas doentios de práticas religiosas antiquadas que nada
resolvem”. Eu vou ler para você a carta que ele escreveu sobre a prática
de jejum, chamada: “O jejum como caminho para a caridade e para a
elevação do espírito”.
Levantei-me e procurei as cartas guardadas numa gaveta. Essa era
uma carta relativamente recente e estava logo em cima, então foi fácil
encontrá-la. Iniciei minha leitura:

251
Wanju Duli

“Jejuar é uma prática religiosa que existe por tempos imemoriais, espalhada e
defendida pelas mais variadas religiões do mundo. Infelizmente, tal prática já não é
tão popular nos dias de hoje, especialmente entre os leigos. Isso se deve a uma série de
fatores, os quais iremos examinar.
Atualmente, temos uma grande variedade de opções de entretenimento,
especialmente após a invenção da imprensa. Antigamente, além de haver uma menor
taxa de alfabetização, o acesso aos livros era difícil. Eles deviam ser copiados por
inteiro completamente à mão pelos copistas. Ainda existe a profissão de copista, mas
desde que livros começaram a ser impressos em papel e pergaminho com pigmentos a
base de azeite por tabelas e blocos de pedra, a atividade da leitura tornou-se não
apenas um entretenimento de nobres que tinham dinheiro suficiente para adquirir
livros.
Nos tempos em que muitas pessoas pobres não sabiam ler e mesmo se soubessem
não teriam dinheiro para comprar livros, as práticas religiosas se restringiam a assistir
as cerimônias dos sacerdotes e realizar práticas de penitência. O jejum sempre foi uma
prática gratuita e que todos teriam acesso. Era comum que aqueles realmente pobres e
que passavam fome dedicassem sua fome para a glória de Deus. Esse era,
infelizmente, um jejum forçado, mas ainda assim meritório.
Um grande número de pessoas começou a descobrir o potencial imenso dos jejuns.
Passar fome é algo horrível e todos que já passaram por isso sabem que se trata de um
dos sofrimentos mais insuportáveis. Nenhum ser humano devia passar por essa
vivência assustadora contra a própria vontade, mas o sábio Deus conseguiu até mesmo
nisso esconder um valioso tesouro, assim como ele esconde em todas as coisas.
O jejum com propósito religioso é uma mortificação da carne tendo em vista atingir
o espírito. Um jejum realizado com o mero propósito de passar fome não trará
nenhum bem, mas apenas sofrimento. Por isso, para dominar essa prática é preciso
muito treino e dedicação. Deve-se fazer tudo aos poucos, de forma moderada e com a
orientação de um diretor espiritual.
Nossa religião nos ensina o caminho da morte para se chegar ao Imolado. Para
isso, deve-se aprender a morrer pouco a pouco ao longo da vida, soltando cada pequeno
pedaço de nós pelo caminho. Se soltássemos tudo de uma vez, sem preparo, haveria
uma dor indescritível. Por isso, deve-se ter paciência de caminhar passo por passo. No
começo, serão passos trôpegos e pequenos. Com o tempo, aprende-se a caminhar de
forma mais confiante.

252
Mártires Vermelhos

Os alimentos são presentes abençoados por Deus e nos dão a vida. Não é errado
experimentar prazer ao comer se o fazemos pela glória do Cordeiro Imolado. No
entanto, deve-se sempre lembrar qual é o propósito da comida: a vida. Aquele que
busca seguir o Cordeiro seriamente deve, em certo momento de sua existência, entender
que a morte também faz parte da vida e deve ser buscada para que tenhamos uma
vivência completa de tudo de abençoado que está no mundo.
A comida nos dá a vida e a visão da criatura. O jejum nos leva à morte e à visão
do criador. É importante ter isso em mente para que ao longo da nossa existência
possamos buscar ambos: um pouco de vida e de morte. Por isso os leigos que realizam
jejuns regulares, como toda sexta-feira, são capazes de seis dias por semana ver Deus
nas suas criaturas e glorificá-lo através delas, enquanto um dia por semana verão
Deus por si mesmo, pela bênção de experiências místicas ou das trevas que levam à
luz.
Desejar glorificar o Cordeiro por suas criaturas ou através da busca de sua visão
beatífica são vocações diferentes, mas tanto os leigos quanto os sacerdotes
experimentam ambas ao longo da vida. Elas apenas variam em intensidade, de
acordo com os planos do Imolado para cada um.
Não é preciso realizar jejuns muito longos para beneficiar-se deles. Algumas horas
de jejum, um dia ou poucos dias já serão o bastante para os iniciantes. Pode-se optar
por abster-se de tipos específicos de alimento, ficar apenas com água ou ficar sem nada.
O jejum tradicional é feito apenas com água, mas os outros tipos também podem ser
experimentados. Cada pessoa é chamada para um tipo de jejum diferente e que varia
em duração.
Lamentavelmente, nos dias de hoje são poucos aqueles que possuem tempo ou
interesse para dedicar sequer algumas horas para jejuar pelo Imolado. Pessoas jejuam
por outros motivos, mas para que se adquira mérito espiritual através disso é
importante que durante o período de jejum possamos nos recolher a práticas espirituais
específicas, como orações, leituras dos Selos, silêncio e outras penitências. A própria
penitência do silêncio é pouco compreendida num mundo em que as pessoas confiam
muito em suas próprias ideias e nunca param para escutar o que Deus tem a dizer.
Outro dos inúmeros benefícios do jejum é igualar-se ao pobre. Quando nos
abstemos de comida por um longo período, por mais que estejamos com saúde,
mentalmente e espiritualmente preparados, não somos capazes de permanecer como
fortalezas ao longo de todo o processo. Eventualmente, sentimos uma fome genuína.
Até o Cordeiro sentiu fome após seu jejum de 40 dias no deserto, que os eremitas
negros imitam.

253
Wanju Duli

Como resultado, passamos a entender um pouco mais o sofrimento do pobre ao


imitá-lo na fome, da mesma forma que passamos a entender um pouco mais o
Cordeiro ao imitá-lo em seu martírio e morte. Se quisermos entender alguém,
precisamos nos tornar parecidos com ele, viver como ele e com ele.
Observa-se que a prática do jejum espiritual desperta a compaixão pelos pobres, o
desejo de estar ao lado deles e de dar-lhes o que comer. Somente quando passamos pelo
pior começamos não somente a caminhar atrás do outro para ajudá-lo, mas a correr.
A mortificação religiosa e as penitências nos fazem entender não somente o lado
meritório da dor, mas também seu lado sombrio. Através das mortificações nos
sentimos chamados a ajudar a apagar as sombras do mundo daqueles que não estão
preparados para suportá-las.
Alguns dizem que a prática do jejum religioso não tem nenhuma relação com
transformações sociais e políticas, mas eu discordo. Quando ajudamos uma pessoa,
normalmente a vemos com o “outro” ser distante. Ao nos tornarmos iguais ao pobre
no jejum e na dor, ele não é mais apenas o outro, mas é nosso irmão e nós mesmos.
Nos unimos a ele pelo sofrimento do Cordeiro Imolado.
Há quem diga que nos dias de hoje, em que temos acesso a muitos livros e
tecnologia, não precisamos mais de religião. Podemos reduzi-la à busca da moralidade.
No entanto, eu também discordo disso, uma vez que acredito que religião jamais se
reduziu a símbolos de um desejado desenvolvimento moral.
O aprimoramento moral deve ser visto como um meio e não como um fim. Não
devemos nos tornar pessoas melhores porque é bom fazer o bem ou porque isso ajuda
as pessoas na prática, embora esses também sejam efeitos desejáveis. Tornar-se
moralmente bom é algo que deve ser feito somente para glorificar o Imolado. Quando
buscamos outras metas passamos a adorar outros Deuses e nos perdemos.
O corpo foi um presente de Deus para nós e não um templo para ser adorado.
Deve-se alimentar o pobre, mas para quê? Para adorar seu templo que é o corpo e
para garantir a ele uma vida longa? Não é para isso, mas porque além do corpo finito
todo ser possui uma alma imortal. E é a ela que se glorifica quando se alimenta o
corpo, templo do espírito. Tudo que se faz no corpo tem em vista atingir a alma e não
o corpo por si mesmo. Se pensamos diferente passamos a adorar a criatura, não o
criador.
Eu gostaria de recordar que a religião não é apenas um tratamento psicológico ou
uma diversão dos fins de semana que pode ser substituída por esportes ou por
qualquer outra coisa. Ela tampouco é um meio que pode ser usado para que se
obtenha uma sociedade com mais justiça e igualdade. Tudo isso são coisas muito boas,

254
Mártires Vermelhos

mas a religião deve ser vista como fim e não como meio. Ela é a verdade e a vida. A
elevação moral, a busca de igualdade e a justiça servem para nos levar a Deus e não o
contrário.
Os valores estão invertidos num mundo em que os jovens preferem ler romances de
cavalaria e se deleitar com as nobres batalhas dos cavaleiros que salvam a donzela do
Dragão. Jamais repararam eles que todas essas novelas que exaltam o ideal
cavaleiresco no fundo são alegorias para que desperte no leitor a vontade de viver a sua
própria aventura e batalha espiritual em seu corpo e espírito, em sua própria vida?
O Dragão é o Inimigo do Imolado, é o gálata caído. A donzela é o Cordeiro. O
cavaleiro é nosso espírito e seu cavalo é nosso corpo. Sua espada é nossa fé. Além da
espada ele poderá se equipar com outras armas, como a armadura dos jejuns e outras
penitências.
Mas há outra interpretação. A donzela indefesa somos nós. Podemos apenas
rezar para que o Cordeiro nos salve, pois isso depende da vontade dele e não da nossa.
Está em nosso livre-arbítrio irmos até a janela e termos a humildade de pedir ajuda.
Nós não vamos até Deus. É Deus que vai até nós. Esse entendimento é fundamental
para prosseguir: sem ele, não teríamos a força de dar o menor passo. Sem ele somos
como mortos, meros cadáveres vivos. É ele que dá a vida, o espírito imortal.
Os livros e as outras diversões da vida são importantes e nos inspiram, mas nunca
deixem de viver suas próprias aventuras na vida real. Não se deve viver somente a
aventura do corpo, mas da alma, que é nossa real missão tanto nesse mundo quanto
no outro.
Os jejuns nos esvaziam de nós mesmos para dar espaço para Deus habitar em
nós. No dia a dia nos enchemos de outras coisas para suprir a necessidade de
preenchimento, que só pode ser plenamente atendida pela presença do Imolado. Mas o
Cordeiro não pode habitar um templo preenchido por outros Deuses.”.

Quando terminei de ler, Catarina estava boquiaberta.


– Isso é... inacreditável – ela disse – só mesmo alguém que já foi
mártir vermelho para ser capaz de escrever algo assim.
– As cartas dele fazem muito sucesso – contei – eu também sou uma
grande fã. Ultimamente estou tendo que brigar pela atenção do meu
marido, porque ele está cheio de fãs não somente por aqui mas por
todos os reinos.
– E você como rainha? – perguntou Catarina – não tem seus minutos
de fama?

255
Wanju Duli

Eu não me considerava apenas uma sombra do rei. Inspirada pelos


textos e práticas de Rafael e pelo seu belíssimo exemplo de vida, com o
passar dos anos eu estava avançando em minha espiritualidade. Eu já
frequentava mais vezes as cerimônias religiosas e rezava mais. Além
disso, minhas rezas tinham muito mais do meu coração nelas.
Eu tinha um interesse genuíno em ajudar nosso povo. Por isso, eu
conversava bastante com Rafael sobre as decisões políticas. Ele
raramente tomava uma decisão importante sem me consultar antes.
É claro que também tínhamos conselheiros reais no palácio,
especialistas numa variedade de assuntos. Apesar de tanto eu como
Rafael termos estudado tópicos de política na infância por pertencermos
à realeza, tinha muita coisa que não sabíamos. Por isso consultávamos
doutores em economia, história, geografia e mais uma variedade de
profissionais que contribuíam com seu imenso conhecimento.
Às vezes eu me sentia uma criança perto daqueles sábios que eram
muito mais velhos que eu e Rafael. Mesmo assim, até mesmo alguns dos
doutores de cabelo branco, muito respeitados em nosso reino e
detentores de vários títulos, possuíam Rafael na mais alta estima.
E quando eu via o respeito quase reverente que aqueles senhores tão
sábios tinham pelo rei, um respeito verdadeiro e não apenas formal e
fingido, eu o admirava mil vezes mais.
– Bem, eu não posso competir com Rafael – sorri – no passado já me
perguntei se eu seria uma esposa boa o bastante para ele, mas ele já
apagou essa ideia da minha cabeça. Afinal, se uma pessoa admirável
como ele escolheu a mim como esposa, deve haver algo bom em mim
que às vezes nem eu mesma sou capaz de ver, certo?
– Você sempre foi a maluca da nossa irmãzinha menor – Catarina
sorriu também – Augusto foi uma má influência para você, mas pelo
jeito não foi assim tão ruim.
Eu também achava que Augusto tinha influenciado muito do que me
tornei. Nós convivemos juntos por muito tempo na infância. Por mais
que eu tenha tentado imitar Teresa nos anos seguintes, não consegui. A
lembrança da inspiração dele sempre permaneceu viva em mim.
Não importava que Gus não tivesse talento para ser rei. As pessoas
possuem vocações diferentes e eu nunca deixaria de considerá-lo uma
pessoa extraordinária e uma das mais importantes da minha vida.

256
Mártires Vermelhos

Eu era a soma do amor que tive por todas as pessoas queridas que
cruzaram meu caminho ao longo da vida e também do amor que elas
tiveram por mim. Pensar assim me fazia sentir bem, pois eu me sentia
protegida. Eu admirava as pessoas ao meu redor, por mais que, em
épocas mais críticas e pessimistas da minha vida, eu só visse seus
defeitos. Se eu tivesse adquirido um pouco da bondade que tinha em
cada uma delas, já seria o bastante.
Naquela noite, quando fui dormir, encontrei Rafael sentado na nossa
cama, ainda vestido, rodando a coroa entre os dedos.
– Não vai tomar seu banho para deitar? – perguntei.
– Daqui a pouco.
– Você parece desanimado.
Após alguns segundos de silêncio, ele disse:
– Bibiana, eu não sou digno. Eu sou fraco.
– Do que está falando?
– Esse negócio de ser rei não é para mim.
– Que absurdo! – eu ri – nunca vi alguém com tanta vocação para ser
rei quanto você. Eu acho que você é o rei mais justo, mais nobre e mais
espiritual que já caminhou sobre a terra.
– Esse é o problema – disse ele – sou “espiritual” demais. Sou bom o
bastante como mártir, mas não bom o bastante como rei. As pessoas me
criticam e dizem que só falo sobre jejuns, mortificações e rezas e
raramente dou resposta para os “problemas reais” que a população está
enfrentando.
– Então eles não leram as cartas maravilhosas que você escreveu –
respondi – lá você explica tudo: a importância de colocar o espírito em
primeiro lugar para que possa ocorrer uma transformação realmente
estável e definitiva no mundo.
– Sim, as pessoas gostam das minhas cartas, mas depois dizem: “e
daí? Quando você vai resolver o problema dos hospitais sucateados e
dos esgotos a céu aberto?”.
– Mas você está resolvendo! – exclamei – estamos trabalhando em
muitos projetos para isso e já aplicamos vários deles.
– Ainda assim a população não está satisfeita. Dizem que só estou
“tapando buracos” com minhas esmolas para os pobres, minhas lições
dos Selos e minhas cartas sobre confissões e vigílias. Tudo isso que estou

257
Wanju Duli

fazendo seria admirável se eu fosse um sacerdote dourado, mas eu sou


um rei. Estou fazendo o trabalho de outras pessoas. Não estou
cumprindo minha função direito.
– Bem, você não pode evitar falar sobre as coisas que ama –
argumentei – e eu acho que você está ajudando muita gente sim. Não
importa o que você faça, sempre haverá alguém para criticar. Não se
deixe abalar por coisas desse tipo.
Coloquei a mão no ombro dele. Ele segurou minha mão.
– Estou triste – disse Rafael – não sou o rei que eu queria ser. O dia é
muito pequeno para que eu consiga fazer tudo aquilo que quero.
– Você já está realizando um esforço sobrenatural para equilibrar suas
práticas espirituais com seus deveres políticos. Não precisa ser tão duro
consigo mesmo.
– Quando eu era um mártir vermelho meu mestre e meus irmãos da
Ordem constantemente apontavam minhas falhas para que eu pudesse
melhorar – ele explicou – embora eu às vezes ficasse chateado e
aborrecido, eu entendia que estavam fazendo isso para meu bem. Agora
não são apenas cinco ou dez pessoas comentando sobre meus erros. É
toda a população de Tiatira, e até de outros reinos, jogando na minha
cara cada tropeço meu, como se todo o resto de bom que tentei fazer
não valesse nada. E não parece que eles estão tentando me ajudar com
suas críticas, mas querem apenas me lançar comentários maldosos por
ódio.
– Nenhum rei escapou de críticas – falei – nenhum ser humano
escapou. Perfeito é só o Cordeiro.
– Sei que ainda posso melhorar. E sei o que devo fazer para
melhorar. Mas não quero.
– Por quê?
– Se eu deixar de frequentar as cerimônias religiosas diariamente e
reduzir muito dos meus estudos dos Selos, rezas e penitências, é evidente
que terei muito mais tempo para me dedicar a questões políticas
importantes. Eu até diria que isso me daria umas cinco horas extras
diárias.
Eu fiquei quieta.
– Mas você acha que quero fazer isso? – ele perguntou – é claro que
não. Todas essas coisas alimentam meu espírito dia após dia e não

258
Mártires Vermelhos

consigo me imaginar sem elas. Eu preciso dessa vivência direta do


Cordeiro. Quando o adoro por suas criaturas também é maravilhoso,
mas não sinto ser esta minha vocação principal. Eu me aborreço com
várias das questões políticas e muitas delas poderiam ser mais bem
executadas por outros especialistas que as entendem com mais
profundidade que eu. Às vezes acho tudo isso uma perda de tempo. Se
eu reduzir minhas práticas religiosas pela metade, sinto que me tornarei
outra pessoa. Já foi difícil abandonar as regras dos vermelhos. E agora
não sei o que devo fazer.
– Você devia rezar e perguntar ao Cordeiro o que deve fazer.
– Eu sei. Mas e se ele me confirmar que devo reduzir meu tempo de
rezas e penitências? Serei forte o bastante para isso? Para me separar dele
dessa forma?
– Mas é você quem diz que é se separando dele que podemos
reencontrá-lo – argumentei.
– Meu coração diz outra coisa. Ele é egoísta e não quer se separar. Eu
sei que farei isso para o bem das outras pessoas, por isso devo
abandonar meu apego pelo espírito. É um apego muito elevado, mas é
um apego...
– Obedecendo a vontade do Cordeiro você não irá se separar dele –
eu disse – mesmo que a vontade dele seja que vocês se separem
formalmente nesse momento. No fundo, estarão ainda mais unidos,
porque você o obedeceu em seu desejo de ficar longe. Faz sentido?
– Talvez. O Cordeiro pede demais de mim. Ele sabe que meu maior
sonho era me martirizar por ele. Mas ele tirou isso de mim.
– O Cordeiro não quer facilitar a nossa vida, mas dificultar – eu disse
– ele nos desafia exatamente onde somos vulneráveis, onde falhamos,
para que assim possamos nos tornar fortes. O Malaquias podia até não
ser capaz de fazer jejuns, vigílias e outras penitências tão fortes como
você e ficou realmente nervoso e com medo na noite anterior a ser
martirizado. Por isso ele conseguiu se unir ao Cordeiro: porque mesmo
tendo medo ele seguiu em frente por dever e não por prazer. Já você
começou a desenvolver certo prazer pelas penitências e pela ideia do
martírio. Foi por isso que o Cordeiro te afastou dele: porque você não
estava preparado. Precisava amar menos a morte e amar mais a vida.
Rafael ficou momentaneamente pensativo quando eu disse isso.

259
Wanju Duli

– Tudo que você disse é verdade – ele falou – você é muito


inteligente.
Eu tinha meus momentos.
– Obrigada por não se ofender com as críticas que fiz – comentei –
qualquer pessoa teria se ofendido e não me elogiado. Você é muito
humilde e compreensivo.
– Agora eu vejo porque o Cordeiro me colocou ao seu lado – disse
Rafael – só você seria capaz de diminuir minha pulsão pela morte e me
presentear com a pulsão da vida.
– Você não acha que o mundo é lindo? – eu sorri – ele foi feito pelo
Imolado. O Cordeiro fez um mundo maravilhoso para que possamos
viver nele, sermos felizes nele. Está tudo bem ter defeitos, querido. Está
tudo bem ter prazer em comer tomates.
– Tomates?
Confessei a ele sobre a lista de faltas de Jeremias que eu havia lido.
Rafael riu de mim, mas também pareceu ligeiramente embaraçado.
– Nunca li uma lista de faltas dele – disse Rafael – isso não se faz,
amorzinho. Por acaso você já leu alguma das minhas?
– Não. Eu li a dele porque no começo não sabia o que era aquilo.
– Então foi daí que você soube sobre a minha piada. Eu me sinto
culpado por ter obrigado Malaquias a fazer penitência por causa do que
eu disse. Mas nós falávamos tanta bobagem um para o outro, seja por
escrito ou através dos sinais do galac, que naqueles tempos minha lista de
faltas ficava com o dobro ou o triplo do tamanho normal.
Ele riu de forma gostosa com essas lembranças.
– Ser mártir... era dureza. Olhando agora, nem sei como aguentei.
Mas também era divertido.
– Imagino que sim. Vocês deviam se sentir grandes heróis, hã?
– Completamente. Éramos jovens orgulhosos de nossas penitências e
de nossa força. O que mais precisávamos era de um bom chicote para
nos colocar de cara no chão para entendermos o que é humildade. Bem,
agora os vermelhos que conheci não precisam mais tentar conquistar
humildade porque estão todos mortos e na presença do Imolado. Menos
eu.
– Ainda pensa em deixar de ser rei e voltar para a Ordem? –
perguntei.

260
Mártires Vermelhos

– Eu não iria abandonar você e nossos filhos. Seria muito egoísmo.


Não fugirei de minhas responsabilidades e de meu dever. Acho até que
se o próprio Cordeiro mandasse eu fazer algo assim eu não obedeceria.
Não preciso de ajuda para ver com clareza o que é certo e errado nessa
situação. Já tomei a minha decisão muito tempo atrás.
– Mas você se sente preso aqui – observei.
– Gosto de tudo aqui: de você, dos meninos, das coisas que fazemos
juntos. Até gosto de ser rei, mas detesto me ocupar de questões políticas
excessivamente técnicas e detalhistas. É uma perda de tempo
inacreditável. Às vezes tenho vontade de delegar outros para fazer isso
em meu lugar, conselheiros de confiança. Mas eu também sei que isso
não é correto. E se eu começasse a fazer coisas assim, perderia o
controle sobre as decisões que são tomadas e documentos acabariam por
ser aprovados sem meu consentimento. Não seria mais meu governo. Eu
me tornaria somente um símbolo. E muitos dizem que sou apenas isso:
um ideal que jamais se concretizou.
– Experimente reduzir suas penitências e deveres religiosos pela
metade por uma semana – sugeri – e veja como se sente. Se não gostar
do resultado, volte à sua rotina anterior. Que tal?
– Pode ser. É uma boa ideia.
– Não se esqueça que eu sou a rainha e também é minha
responsabilidade lidar com essas partes chatas que você tanto detesta –
comentei – não posso dizer que sou fã de política tampouco, mas sou
menos fã ainda de te ver triste. Eu faria qualquer coisa para ver um
sorriso em seu rosto.
– Obrigado. De verdade. E, já que você mencionou, há essa questão
específica envolvendo o reino de Laodicéia. O ideal seria que
viajássemos para lá para tratar pessoalmente desse tópico. E como seu
irmão está lá, pensei em te pedir para ir. Você estaria livre na semana que
vem?
Fui pega de surpresa.
– Sim, é claro – eu confirmei – poderei viajar sem problemas.
Na verdade eu já tinha planejado vários compromissos diferentes,
embora nenhum deles realmente importante. Rafael raramente me pedia
algum favor, então eu não iria desapontá-lo.

261
Wanju Duli

A última vez que vi Lucas foi na minha festa de casamento, cinco


anos atrás. Na época ele tinha dez anos. Agora já estava com quinze.
Viajei o quanto antes. Eu nunca tinha viajado para Laodicéia e foi
uma viagem muito longa: cinco dias.
Quando eu finalmente cheguei, estava exausta. Fizemos várias
paradas pelo caminho, mas tudo aquilo só me cansava ainda mais.
Fui recebida pela princesa Marta, que tinha apenas 14 anos. Ela era a
esposa de Lucas. Uma gracinha, com os cabelos nos ombros, cheios de
cachinhos. Usava um encantador vestido azul claro cheio de laços de fita.
– Seja bem-vinda, rainha Bibiana! Que alegria te conhecer! Lucas me
falou muito bem de você. Por favor, me siga. Eu já vou chamá-lo.
Ela era mesmo muito queridinha e a animação dela em me ver era
sincera. Mas ela falava muito rápido! Era difícil acompanhá-la.
Caminhava muito rápido também.
O castelo deles era sensacional. Acho que cada morada da realeza era
sensacional a seu modo. A particularidade desse castelo eram os enormes
candelabros e quadros gigantes espalhados pelas paredes.
– Essa é sua suíte – ela apontou um cômodo amplo – quer que eu
diga para Lucas vir aqui ou prefere encontrá-lo na sala?
– O que você achar melhor.
– Então vou chamá-lo aqui para vocês conversarem a sós – ela
decidiu – mais tarde eu peço para trazerem um chá e conversamos na
sala.
E eu fiquei lá sozinha naquele cômodo enorme admirando a
decoração e a limpeza. Mas não precisei refletir muito sobre a posição
dos vasos e das cortinas, pois Lucas não demorou muito para chegar.
– Bibi!
A gente se abraçou. Foi só quando nos separamos do abraço que
comecei a reparar nele.
Ele não tinha mudado tanto assim. Estava mais alto. O mesmo
sorriso inocente e o mesmo rosto, agora emoldurado por cabelos
ligeiramente mais longos. Um ar tipicamente jovial. Bem diferente de
Augusto, que mesmo com 25 anos parecia ter mais de 30. Eu daria a
Lucas um ou dois anos a menos.
– Que saudades, Lu! – exclamei – como você cresceu! Nem acredito
que se casou. Sua esposa é totalmente encantadora. Adorei ela!

262
Mártires Vermelhos

– Eu tive sorte – ele sorriu.


– E os filhos? – perguntei, empolgada.
– Calma! – ele riu – nós estamos casados há apenas quatro meses.
– Bem, achei que ela já podia estar ao menos grávida – justifiquei – se
bem que eu mesma demorei bastante tempo para ter meu primeiro filho.
Mas meu caso foi um pouquinho diferente...
Só de relembrar de Jezabel já fiquei braba. Ultimamente ela andava
estranhamente silenciosa, mas eu devia ficar alerta.
Nós nos sentamos. Lucas disse:
– Ouvi dizer que veio aqui para falar de política.
– Aproveitei e usei essa oportunidade para te visitar – eu disse – onde
está o rei?
– Ainda está doente. Está de cama. Já faz tempo...
Lucas baixou os olhos quando disse isso. Eu entendi.
– Quanto tempo os médicos deram para ele? – perguntei.
– No máximo alguns meses.
– A rainha já morreu, não é?
– Sim.
– Marta é a filha mais velha?
– Eu serei rei, Bibi, se é isso que você está tentando me perguntar –
disse Lucas – e confesso que não gosto nem um pouco da ideia de ser rei
com quinze anos. Estou totalmente despreparado. Nem mesmo terminei
o colégio ainda.
Não tive tanto medo de ser rainha porque eu tinha um marido ao
meu lado que era santo e muito sábio. Então foi algo totalmente natural.
Além disso, eu não tinha a idade dele. Na época que eu tinha a idade de
Lucas eu estava mantendo meu futuro marido como prisioneiro no
castelo e tentando matá-lo de fome. Certamente naqueles tempos eu não
teria muita maturidade para governar.
O futuro era mesmo imprevisível. Antes pensávamos que os únicos
reis de nós cinco seriam Teresa e Augusto. No entanto, Augusto ficou
pouquíssimo tempo no poder e Teresa ainda aguardava sua vez.
Nem eu e nem Lucas tínhamos a menor expectativa ou vontade de
estar no poder. No entanto, lá estava eu. E muito em breve lá estaria ele.

263
Wanju Duli

– Como é o currículo dos colégios de Laodicéia? – perguntei – o


currículo em Tiatira é todo estranho. Eles têm até aulas de rezas. Tive
que decorar várias delas.
– Aqui eles têm o currículo antigo, com as Sete Artes Liberais.
– Sério? – perguntei, encantada – que máximo!
– Não é o máximo. É super chato. Odeio as aulas de retórica. Tenho
que recitar um monte de coisas na frente de toda a turma. E pega mal eu
recitar errado, já que sou o príncipe e futuro rei.
– Marta estuda no mesmo colégio que você?
– Estuda. Acho legal isso.
– Como são as aulas de astronomia? – perguntei – não tínhamos isso
em Pérgamo.
– São normais. Baseadas em geometria. Nas Sete Artes Liberais tudo
se encaixa, como se tudo no universo fosse um quebra-cabeça perfeito.
Primeiro você tem que aprender na gramática a relação entre os
diferentes termos dentro da frase e só sabendo isso consegue entender
plenamente lógica. E somente aprendendo a formular sentenças lógicas
pode falar bem na retórica. Odeio montar aqueles silogismos, é idiota.
– Mas tudo se encaixa em tudo, porque o Cordeiro fez um universo
perfeito! – exclamei.
– Eu duvido que em um universo perfeito teríamos aulas de retórica
– disse Lucas – aquilo só pode vir do Dragão, pois eu acho aquele
negócio um inferno.
– Em Tiatira eles fragmentam a aula de filosofia em várias disciplinas
diferentes – expliquei – por isso no colégio tinham disciplinas chamadas
estética, ética, ontologia e epistemologia. Eles fazem isso porque ter essa
base é importante para entender teologia.
– Está bem, você venceu. O seu colégio era mais chato que o meu.
Eu ri.
– Quer saber porque conhecer ontologia a fundo é importante para
saber teologia?
– Sinceramente? Não.
– Pensei que você gostasse de religião – comentei, desapontada.
– A teoria não me empolga tanto – disse Lucas – mas as práticas
religiosas sim. Eu sempre frequento o Templo de Laodiciéia. Vou lá com
Marta.

264
Mártires Vermelhos

– Já leu as cartas que o Rafael escreve sobre a conexão da religião e


da política? – perguntei.
– Já li algumas. A última que li foi aquela sobre jejuns.
– E o que achou?
– Bem empolgante.
– Catarina foi me visitar semana passada – contei – li essa carta para
ela. E ela gostou bastante.
– Bem, o seu marido é um monstro – disse Lucas – com todo o
respeito. Acho que você sabe disso.
– Eu sei – eu sorri – quer algumas dicas de como ser um bom rei? Já
que sou rainha, acho que posso ajudar um pouco nisso. Embora eu
tenha me tornado rainha há poucos meses.
– Pode ser. Se forem dicas bem rápidas.
– Em primeiro lugar, você sempre deve estar bem vestido, sorrir
bastante e abanar a mão para que as pessoas gostem de você – expliquei.
– Você está me dando dicas de como ser um rei ou de como ser
modelo?
– Acho que os reis podem aprender grandes lições com os modelos.
– Deixa pra lá. Não quero suas dicas.
Eu ri.
Tive que resolver a questão para a qual fui enviada com um alto
funcionário do governo, porque Lucas, que teoricamente era o substituto
do rei na ausência dele, não fazia a menor ideia de como me ajudar.
Passei a noite no palácio. E durante a noite comecei a sentir um mal
estar terrível. Foi um mal súbito, que me acometeu com força total e me
derrubou.
Eu sentia uma febre forte e dores no corpo inteiro. Quando tentei
levantar da cama, desmaiei.
Foi então que me dei conta: eu não tinha viajado junto com meu
eremita negro. Era ele que me protegia. Eu o deixei em nosso palácio em
Tiatira.
Agora que eu estava desprotegida, Jezabel podia me atacar. E agora?
O que eu poderia fazer? Eu não tinha nenhum tipo de poder por mim
mesma. E Rafael não estava ao meu lado para me ajudar.

265
Wanju Duli

Eu me ajoelhei e rezei. Lembrei do dia em que eu estava para morrer


e Jeremias me curou. Ele salvou a minha vida. Então ele poderia me
salvar de novo.
Eu sabia de cor a reza do folheto de Malaquias. Eu a repeti dezenas
de vezes, enquanto ardia em febre.
A minha fraqueza me impedia de ofertar minha dor pelo Cordeiro.
Eu só queria ser curada. Foi isso que pedi.
Quando não tive mais forças para rezar eu me deitei de novo. Aos
poucos, o mal estar foi passando, mas bem devagar. Mais ou menos uma
hora depois eu já estava quase curada.
Fiz a minha viagem de volta de cinco dias com tranquilidade. Podia
ser que aquele mal estar não tivesse nenhuma relação com Jezabel, mas
era melhor eu ficar alerta.
Quando retornei, contei a Rafael que Jeremias me curou. Ele abriu
um sorriso.
– Eu sabia que ele estava velando por nós.
Fui visitar meus dois filhos num dos aposentos do palácio para ver
como eles estavam. Confesso que eu não era exatamente a mãe mais
dedicada. Rafael era um pai muito melhor. Às vezes eu ficava meio
frustrada porque ele era melhor que eu em absolutamente tudo. Eu me
sentia meio desnecessária.
Mas Rafael sempre dizia que só queria uma coisa de mim: que eu
estivesse ao seu lado. Ele dizia que eu já era muito boa em enchê-lo de
alegria. Só que ultimamente eu não estava conseguindo nem mesmo
fazer isso.
Rafael estava cada vez mais deprimido. Ele reduziu sua rotina de
dedicação às práticas religiosas. Ele se envolveu cada vez mais
profundamente com as questões políticas mais complicadas, mesmo não
possuindo nenhum amor por elas.
Apesar de todo seu sacrifício, ele continuava a receber críticas cada
vez mais ferozes. Era verdade que a maior parte da população o apoiava
e o considerava santo. Mas havia um grupo forte que era contrário a
muitas de suas medidas políticas e à sua forma de abordar a política em
geral, que possuía um cunho religioso muito acentuado.
Como a maior parte da população era bastante devota, as cartas que
Rafael escrevia eram consideradas praticamente sagradas. Alguns já

266
Mártires Vermelhos

falavam em reuni-las num livro que no futuro poderia fazer parte das
nossas escritas religiosas de caráter santo e divinamente inspiradas.
Havia uma pequena parcela da população muito influente que estava
começando a se opor diretamente a toda essa santidade atribuída ao rei.
Na opinião deles, Rafael poderia ser reverenciado como santo quando
estivesse morto e não fosse mais capaz de tomar nenhuma medida
política que pudesse causar danos graves. Eles não cansavam de apontar
vários pequenos erros que Rafael havia cometido e com isso defendiam
que ele não era santo coisa nenhuma, mas apenas um ser humano
vaidoso que queria enganar a multidão. Eles temiam que o fanatismo e a
reverência do povo o levassem a apoiá-lo cegamente se de repente Rafael
instituísse alguma medida polêmica e perigosa.
Eu entendia a posição deles e o medo que sentiam com toda aquela
tensão que a santidade do rei provocava. Mas Rafael não declarou-se
santo. Ele apenas gostava de falar de religião publicamente e de visitar os
pobres. Porém, isso se somava à lenda do fabuloso passado que ele teve.
A veneração era inevitável.
Rafael já havia reduzido suas práticas devocionais, então as únicas
coisas que ainda estariam em seu poder mudar para acalmar a multidão
seria parar de escrever suas cartas e parar de visitar os pobres.
Na verdade, esse grupo que se opunha ao rei exigia que ele fizesse
isso. Diziam que as cartas e as visitas ludibriavam o povo. As cartas
tocavam a razão e as visitas tocavam o coração, fazendo com que o povo
se dobrasse por inteiro. Se não houvesse mais falatórios e aparições
públicas, o problema estaria resolvido.
Mas se Rafael simplesmente obedecesse aquela exigência e fizesse o
que havia sido pedido, ele seria visto como um rei fraco.
– Não importa se serei visto como fraco ou forte – ele me disse – eu
só quero cumprir a vontade de Deus.
Acho que aquela simples sentença já mostrava sua força e
determinação. Mas, acima de tudo, mostrava sua fé.
– Reze – eu disse a ele – para descobrir o que o Cordeiro espera de
você nesse momento.
– Ele me deixou na escuridão. Sinto-me abandonado. Parece que eu
falo com ele e ele não me responde.
– Então eu rezarei por ti.

267
Wanju Duli

E eu rezei. Logo entendi a que Rafael se referia.


Eu rezei com muita fé para o Cordeiro, para os santos e para os
gálatas. Cada dia eu fazia uma reza diferente e ofertava uma penitência
nova.
Mesmo assim, nada acontecia. Eu não recebia nenhuma resposta e
não via nenhum sinal ao meu redor que nos indicasse o que deveríamos
fazer.
Rafael publicava suas cartas uma vez por semana. Toda segunda-feira
ele lia sua nova carta da janela do palácio para a multidão lá embaixo, que
sempre o aclamava com gritos quando tudo terminava, e até com
lágrimas.
Alguns já achavam que aquilo estava ficando fora de controle.
Alguma coisa deveria ser feita. Havia uma pequena parcela de fanáticos
que diziam que Rafael não era apenas santo, mas o próprio Cordeiro que
havia retornado! Ele era o próprio Deus e se desejasse declarar o Dia do
Juízo e matar a todos, a população deveria aceitar com obediência e sem
resistência.
Quando ouviu esse rumor, Rafael ficou seriamente preocupado. Era
domingo e ele já havia escrito sua nova carta. Ele estava em dúvida se
deveria mesmo lê-la na segunda-feira ou se deveria cancelar essa tradição
que ele mesmo instituiu.
– Tente optar por um meio termo – sugeri – adie sua leitura da carta
para daqui uma semana, pois assim terá mais tempo para pensar. Na
próxima segunda-feira você decide se deve cancelar ou não as suas
cartas.
– Está certo – ele concordou – não lerei amanhã a carta que escrevi,
mas darei um comunicado. Acho que a melhor forma de esclarecer todo
esse mal entendido é falar sinceramente como me sinto.
– Claro – eu sorri – eles vão gostar.
Na segunda-feira pela manhã, Rafael anunciou que falaria livremente
ao seu povo. Não haveria leitura da carta naquele dia. As pessoas ficaram
tão curiosas que houve ainda mais público do que o normal para escutá-
lo.
– Caros cidadãos de Tiatira – começou Rafael – existe por aí um
rumor de que sou santo. Hoje eu gostaria de desmenti-lo. Sou
meramente um servo do Cordeiro. Seu mais humilde servo. Meu passado

268
Mártires Vermelhos

ficou para trás. Hoje sou apenas seu rei, o servo do povo. Não quero
governar conforme minha vontade, mas de acordo com a vontade de
Deus. Isso é tudo que defendo quando falo de tópicos religiosos. Não
tenho intenção de estabelecer um governo teocrático. Os poderes regular
e secular ainda continuam formalmente separados, embora unidos em
espírito.
Ele ainda falou mais algumas coisas depois disso, mas apenas aquele
começo já foi o bastante para “comprar” o povo, nas palavras de seus
detratores.
O pequeno grupo que se opunha ao rei tinha um nome: Frente Laica,
ou F.L. Segundo eles, aquele pronunciamento do rei piorou ainda mais a
situação. Disseram que não era muito diferente falar aquelas coisas e
mostrar um milagre. A suposta humildade do rei já era um milagre
suficiente para impressionar a multidão e comprovava ainda mais sua
santidade em vez de diminuí-la.
– Não tenho para onde fugir – Rafael me confessou – não importa o
que eu faça ou o que eu diga. Estou encurralado.
– Não se preocupe – eu disse a ele – agora que isso aconteceu, faça o
que já devia ter feito: cancele as cartas e as visitas aos pobres.
– Posso cancelar as cartas – disse Rafael – mas como posso deixar de
visitar meu povo? Muita gente ficará sem comer se eu não levar-lhes pão
amanhã.
– Em vez de levar pão você mesmo, mande outra pessoa levar ou
simplesmente estabeleça alguma medida política forte que impeça os
cidadãos de passarem fome! – exclamei.
– Bibi, isso não é tão simples... você sabe que essas coisas não são
fáceis. As pessoas acham que política é assim, um passe de mágica.
Pensam que basta boa vontade. Mas a realidade é bem diferente. Não
importa o quão rico seja o reino de Tiatira, o nosso dinheiro é limitado.
Estou fazendo tudo que posso. Eu até mesmo estou vendendo os artigos
ricos do nosso palácio. Eu já vendi praticamente metade do patrimônio
que meus pais me deixaram para apressar as reformas. Só não vendi a
outra metade porque pertence a Jezabel e ela não quer se desfazer de sua
parte.
– E mesmo assim não há dinheiro suficiente? – perguntei.

269
Wanju Duli

– Não! E isso nem é um problema do governo dos meus pais. Isso


vem de muito antes. Tem muita coisa errada que precisa ser reformada.
Se eu desejo realizar uma mudança profunda e duradoura, para realmente
fazer a diferença e não apenas “dar esmola” como meus inimigos dizem,
é preciso uma quantia de dinheiro inimaginável. Estou determinado a
consegui-la, mas isso ainda vai levar muitos anos. Não é do dia para a
noite que acontece.
– Por que não reza por um milagre? – perguntei – seria uma boa hora
de rezar por dinheiro. Nesse caso, não haveria nenhum pedido mais
nobre.
– Não vou rezar especificamente por dinheiro, mas para que Deus
me mostre o caminho conforme sua vontade e me dê forças para
atravessar essa fase difícil.
– Você tinha o sonho de se martirizar – observei – e agora acaba de
descobrir que envolver-se com política é um dos maiores martírios. Mas
você não precisa carregar o mundo inteiro nas suas costas, Rafa. Sabe
que estou com você.
– Eu sei – ele sorriu – você me dá forças.
Mesmo assim, Rafael demorou para dormir. Ele estava realmente
perturbado com tudo aquilo. Lembrei que Augusto falou que também
não conseguia dormir direito na época que foi rei.
Eu só conseguia dormir tranquila porque eu confiava em Rafael. Eu
tinha uma visão otimista que tudo daria certo no fim, pois estávamos
fazendo a coisa certa e Deus estava conosco.
Rafael acordou no meio da noite, tremendo e chorando. Eu
raramente o via chorar e dessa vez ele estava derramando lágrimas
desesperadas. Eu o abracei.
– Eu tive um sonho – ele falou, com voz trêmula – e nesse sonho
estavam Galácia e Malaquias.
– O que eles disseram? – perguntei.
– Eles disseram que amanhã devo levar pão para os pobres na região
de Dinar.
– Não é meio perigoso por aqueles lados? – perguntei.
– Eu já fui algumas vezes para lá, mas acho que se eu for durante o
dia não haverá problema.
– Então... por que está chorando?

270
Mártires Vermelhos

– Você me disse para não levar os pães eu mesmo, mas mandar outra
pessoa levar. Mas agora eu recebi uma ordem divina para fazer isso.
Você entende, não é?
– Parece que a mensagem do sonho foi bem clara – falei – e você não
quer contrariar a vontade do Cordeiro, certo?
– Isso – ele sorriu – que bom que você entende.
Ele me abraçou, mas ainda estava chorando.
– Desculpe – ele disse – estou apenas muito estressado com tudo
isso.
– Eu entendo. Pode chorar o quanto quiser. Fico feliz que você
finalmente recebeu o seu sinal. Rezamos tanto para receber uma
indicação do que deveríamos fazer a seguir. Nossas preces foram
finalmente atendidas.
– Também me sinto muito feliz. Tão feliz que nem consigo parar de
chorar.
– Suas lágrimas são de alegria ou de tristeza afinal? – eu ri.
– Acho que um pouco dos dois.
– Seu bobo. Não me assusta desse jeito.
– Você tinha razão, Bibi. Parece que tudo vai ficar bem agora. Tudo
está resolvido, finalmente.
– É mesmo – eu disse – os pobres terão o pão e você estará
protegido por Deus.
No dia seguinte, Rafael foi para Dinar. Ele quis ir sozinho para lá,
sem seguranças. Montou num cavalo que levava uma carroça carregada
de uma quantidade enorme de pães.
Quando voltei para o quarto para pegar um casaco no guarda-roupa,
havia uma moça desconhecida movendo minha cama de lugar.
– Com licença? – eu disse.
– Perdão, rainha Bibiana – disse a moça – recebi ordens para remover
a sua cama.
Será que aquilo era coisa de Jezabel?
– Ordens de quem? – perguntei.
– Do rei.
Era só o que faltava! Rafael era bastante caridoso, mas agora ele já
estava exagerando. Ele já havia vendido muitos móveis da nossa casa.
Precisava vender também a nossa cama? Ele certamente não se

271
Wanju Duli

importaria de dormir no chão, pois estava acostumado, mas eu me


importava.
– Deixe a cama – disse a ela – quando meu marido retornar, eu
converso com ele sobre isso.
– Sim, Vossa Majestade.
Fiquei de mau humor pelo resto da manhã. Quando Rafael
retornasse, eu já estava preparada a iniciar uma boa discussão. Ela
começaria da mesma forma de costume: “Se quer ser caridoso, em
primeiro lugar seja caridoso com sua esposa!”. Era meio cruel, mas
geralmente funcionava e Rafael acabava voltando atrás.
– Bibiana!
Augusto foi correndo na minha direção. Ele estava respirando rápido
e parecia meio desesperado.
– Viu só que loucura? – eu disse a ele – o Rafa quase vendeu a nossa
cama!
– Bibi, esqueça isso e me escute por um segundo – disse Augusto, no
mesmo tom apressado – o Rafael foi sequestrado pelos membros da F.L.
Levei alguns segundos para processar a informação.
– O quê? – perguntei – como assim, sequestrado? Eles ficaram
malucos?
– Eles pediram um valor de resgate.
– Eu não quero saber disso! – gritei – eles irão retornar o meu marido
para cá imediatamente!
Era só o que faltava. Se aqueles infelizes achavam que eu ia entrar no
jogo deles estavam muito enganados.
Augusto me contou o valor absurdo que eles solicitaram. Nós
simplesmente não tínhamos aquela quantia. Nós só a obteríamos se
Jezabel se desfizesse de toda sua parte da herança.
Augusto foi a favor de pagar o resgate com a herança de Jezabel, mas
ela recusou-se de imediato.
– Nunca pensei que eu diria isso, mas eu concordo com a rainha –
ela disse isso num tom condescendente – nós não iremos jogar o jogo
deles. O que eles vão pensar de nós se pagarmos o resgate? Que estamos
com medo.
– Mas nós estamos com medo! – exclamou Augusto – e se esses caras
forem assassinos? E se eles matarem o Rafa se não fizermos o que eles

272
Mártires Vermelhos

pedem? Nenhum dinheiro do mundo é mais importante que uma vida. E


nesse caso é uma vida muito importante para nós!
– Como você é ingênuo, Gus – disse Jezabel – vidas são perdidas
todos os dias em nosso país devido a decisões políticas feitas nesse
palácio. Nunca dá para salvar todos. É preciso escolher entre quais vidas
serão salvas e isso envolve dinheiro.
– Eu não quero conversar sobre isso agora! – gritou Augusto – o
Rafa está em perigo! Precisamos fazer alguma coisa!
De nós três, Augusto era o que parecia mais desesperado. Eu fiquei
tão chocada com a notícia que ainda não a tinha processado direito. E
por mais que tentasse manter a compostura, eu também reparei que até
Jezabel estava nervosa.
Talvez ela não estivesse se negando a pagar o resgate apenas porque
não queria perder a herança. Por mais que Jezabel fosse uma desgraçada,
eu sabia que ela era mais do que isso. Ela realmente gostava do irmão
dela, mesmo que ela gostasse dele de uma forma meio idiota, a ponto de
ter tentado provocar um aborto em mim, no filho dele.
Já era a terceira vez que prendiam Rafael. Eu fui a primeira a iniciar a
tradição, prendendo-o no castelo de Pérgamo. Depois foi Jezabel quem
o prendeu no palácio de Tiatira. E agora os membros da F.L. o pegaram.
Das primeiras duas vezes Rafael foi preso para ser impedido de
morrer. Quando ele finalmente deixou de lado seu desejo de ser
martirizado, apareciam aqueles malucos aleatórios que certamente não
tinham boas intenções. Ou será que eles realmente achavam que suas
intenções eram puras? Que seus propósitos políticos justificariam
qualquer meio empregado para alcançá-lo?
– Esses caras são de uma ala extremista da F.L. – explicou Augusto –
e eles usam violência.
– Quem usará violência com eles serei eu – disse Jezabel – se eles não
retornarem meu irmão aqui imediatamente, irei matá-los.
– Você acha mesmo que esse é um bom meio de resolver as coisas,
Jezabel? – perguntou Augusto – combater a violência com a violência?
– Eu não quero saber dessa porcaria de ética agora – ela disse – só
quero meu irmão de volta.
Jezabel era a dona do dinheiro e estava decidida a não pagar o
resgate. Quando ela colocava alguma coisa na cabeça não havia jeito de

273
Wanju Duli

fazê-la mudar de ideia. Sendo assim, o resgate não seria pago. Não havia
o que discutir.
Eu poderia pedir auxílio de fora. Podia falar com meus pais ou com
meus irmãos para mandarem dinheiro. Será que eu deveria? Era uma
possibilidade.
Mas não demorou muito para recebermos uma segunda mensagem.
Ela dizia que o resgate devia ser pago em até 24 horas. Se não fosse,
Rafael seria assassinado no ato.
– E agora você se convenceu? – Augusto perguntou.
– Não – disse Jezabel – eu irei procurar esses desgraçados e matá-los.
Reúnam o exército. Nós vamos para Dinar.
Lá estava Jezabel agindo como se fosse a rainha. Mas por enquanto
eu iria deixar que ela fizesse as coisas do seu jeito. Eu sentia que a minha
tarefa era outra.
Bati na porta do cômodo no qual se encontrava o eremita negro. O
coitado estava eternamente confinado em meu palácio, mas acabou se
acostumando. Pelo menos ele não tinha pressa em ser martirizado. Os
eremitas normalmente viviam até uma idade bem avançada, então ele
talvez não tivesse tanta pressa para retornar ao seu deserto.
Entrei e sentei-me diante dele. Ele estava sentado no chão e rezando.
– Por favor – eu disse – eu te imploro. Salva meu marido. Ele foi
sequestrado.
O eremita saiu de sua oração para escutar o que eu tinha a dizer.
– Ontem ele teve um sonho – expliquei – um gálata e um santo o
mandaram ir até Dinar. E lá ele foi preso por extremistas da F.L. O que
isso significa? O Cordeiro quis que ele fosse preso? Eu quero saber o que
precisamos fazer a seguir.
Ele escreveu:

“Eu tentarei uma comunicação com eles”

Aguardei que ele o fizesse, mas aquilo durou longos minutos. Eu


estava ficando impaciente.
De repente, ele saiu de seu transe:

“Galácia quer que você suba de joelhos a escadaria do Templo de Tiatira”

274
Mártires Vermelhos

– O quê?!
Aquela era uma penitência popular da cidade. A escadaria do Templo,
que dava para o alto de uma torre, tinha mais de mil degraus. Eu levaria
longas horas para completar meu objetivo e seria doloroso.
– Está bem, farei isso – respondi, simplesmente – mas o que devo
fazer depois que chegar lá?
A resposta foi a seguinte:

“Quando chegar ao topo da torre, o próprio Galácia lhe dirá o que deverá fazer a
seguir”

Eram instruções claras o bastante. Eu confiava naquele eremita


negro, que já tinha me ajudado tantas vezes. Sendo assim, eu iria fazer a
minha parte.
Avisei para o Augusto que eu faria uma penitência.
– Está falando sério?
– Confie em mim – eu disse – eu confio em você. Sei que darão um
jeito na situação enquanto estou fora.
– Cuidado, Bibi. Não faça nada perigoso.
– E nem você.
E eu segui meu caminho até o Templo. Na verdade corri.
Queria esvaziar minha mente de pensamentos, mas eu não conseguia.
Tudo o que eu sabia era que eu precisava salvar Rafael. Era possível que
a vida dele dependesse de mim: de eu ser capaz de cumprir minha
missão.
Cheguei na base da escada. Não havia tanta gente assim nos
arredores. Avistei umas dez pessoas subindo a escada de joelhos,
realizando a famosa penitência.
Rezei para que eu e aquelas pessoas desconhecidas nos uníssemos na
mesma fé para que nossos desejos fossem realizados. Embora eu não
soubesse os desejos dos outros, sabia que deviam ser tão dignos quanto
o meu, para que elas se dispusessem a realizar tamanho sacrifício.
Ajoelhei-me no primeiro degrau. Levantei um pouco do vestido. A
regra era que devíamos escalar os mil degraus com os joelhos nus. Eu
deveria tocá-los diretamente nas pedras.

275
Wanju Duli

Logo no começo já senti o grau de dificuldade. Eram degraus altos


que exigiam um esforço extra para que se atingisse o seguinte de joelhos.
Não seria nada fácil.
Notei que algumas pessoas me apontavam. Devem ter me
reconhecido como a rainha. Naquele ponto, talvez já tivesse se
espalhado a notícia do sequestro, especialmente quando o exército foi
chamado. Sendo assim, imaginei que as pessoas que me reconhecessem
como rainha iriam compreender o que eu estava fazendo.
Mas se elas compreenderiam não importava. O mais importante era
que eu compreendesse porque estava lá e não me esquecesse por
nenhum segundo ao longo dos mil degraus. Somente isso me daria
forças para prosseguir.
E mesmo que eu não entendesse completamente em todos os pontos
porque eu precisava fazer aquilo, eu confiava em Deus. Eu não estava
realmente sozinha lá. Além de estar subindo com os outros dez, eu
também estava com o Imolado. E dessa vez eu iria literalmente me
imolar por ele.
Achei que nas primeiras dezenas de degraus seria fácil subir e eu só
começaria a me cansar lá pelo centésimo degrau. Mas não foi bem assim.
Desde os primeiros já fiquei suando e com dor.
Havia um Sol muito forte. A escadaria ficava ao céu aberto. Eu estava
morrendo de calor. Queria estar em qualquer outro lugar que não fosse
ali.
Mas o que eu estava pensando? O único lugar do mundo que eu
queria estar era exatamente ali. Onde eu podia me imolar. Onde eu podia
salvar meu grande amor.
O Cordeiro era o grande amor, mas eu só chegaria a ele por um amor
humano. Para alguns esse era amor apaixonado, amor familiar, amor por
amigos ou por desconhecidos. Mas sempre havia outro ser entre nós e
Deus. Até mesmo os eremitas retornavam para velar os mortos.
Meus joelhos e braços começaram a doer. Meu corpo inteiro. Eu
queria parar, mas simplesmente prossegui. Eu não tinha escolha, pois
não havia o que pensar. Minha única escolha era obedecer o Cordeiro e
ser como ele. O resto precisava ser pensado? Se eu não aguentasse mais
prosseguir, bastava rezar e o Imolado me daria forças. Eu só precisava
confiar.

276
Mártires Vermelhos

Não se tratava de qualquer tipo de crença. Era preciso esvaziar-se


completamente de si mesmo para conquistar a verdadeira fé. Aquela fé
que não tem dúvidas, aquela que não recua nunca, mesmo diante da
tortura e da morte, como faziam os mártires. Na verdade, eles correm
para a morte, abraçam o fogo como se fosse mel. Porque Deus era tudo
isso: mel, fogo, vida, morte e imortalidade.
Eu não estava contando os degraus. Não precisava contar. Iria apenas
acreditar.
Confiando em Deus, eu não precisava de nada. Aquele calor, aquela
dor e aquele cansaço que eu sentia não eram nada comparado ao que o
Cordeiro fez por todos nós.
Eu estava com sede. Muita sede. Eu não tinha trazido água. Não
tinha trazido nada. Mas eu não precisava de nada. Ofertei mentalmente
meu sofrimento ao Imolado. Eu ainda não sabia direito como fazer isso,
mas decidi que aos poucos eu aprenderia.
Em certo momento, experimentei a escuridão. Era a secura espiritual.
Parecia que Deus não estava mais comigo. Havia apenas dor. Não havia
mais sentido.
Foi então que eu me recordei de uma coisa importante: não
importava se houvesse apenas dor, escuridão e falta de sentido. Mesmo
momentaneamente separada do Cordeiro, eu sabia que aquela separação
só foi planejada para que o calor do abraço no reencontro se tornasse
muito maior.
Eu só devia cumprir o meu dever. Lembrar que aqueles momentos de
vazio e desespero eram exatamente aqueles que provavam o valor da
minha fé. Quando havia alegria e êxtase espiritual era fácil acreditar em
Deus, segui-lo e agradecer. O verdadeiro desafio humano era nos tornar
capazes de acreditar no Cordeiro, de segui-lo e de agradecer a ele mesmo
na cegueira, na dor, no desespero e no vazio.
Era isso o que a fé significava. Ela era necessária porque todos nós
éramos um pouco cegos. Mas estava tudo bem ser cego se fôssemos
cegos segurando na mão do Imolado. Ele era um guia muito mais seguro
do que nossos olhos e nossos pés.
Foi então que entendi porque eu estava subindo a escada ajoelhada.
Eu devia seguir meu caminho humildemente e me arrastando. O

277
Wanju Duli

Cordeiro só aceitaria aquele que caiu por ele. Aquele que diminuiu a si
mesmo ao máximo para deixar espaço para o Imolado preenchê-lo.
Notei que eu já estava na metade do meu caminho. Aquilo era bom?
Aquilo era ruim? Não importava. Eu só devia continuar, sem olhar para
trás e sem olhar para frente. Eu devia seguir Deus no presente e não no
passado ou no futuro. Se ainda faltava muito ou pouco não importava.
Eu faria a minha parte. O Cordeiro faria o resto.
Mas estava muito quente. O suor escorria de mim e pingava. Minha
boca estava seca. Eu não sabia se iria desidratar no meio do caminho.
Só que aquilo não importava. Rafael estava sofrendo muito mais.
Estava nas mãos de estranhos, sem nenhum amigo, enquanto eu tinha
dez companheiros. Rezei por ele. Eu disse:
– Imolado, eu aceito esse calor e essa sede. Obrigada pela dor e pela
sede. Salva o Rafael. Faz com que eu sinta o sofrimento que ele sente e
diminui a dor dele. Por favor, coloca tudo em mim.
Poucos minutos depois dessa reza, começou a chover.
Primeiro os pingos d‟água caíam de forma tímida. Depois se
intensificaram, a ponto de eu me perguntar se o Cordeiro havia aberto
um chuveiro na minha cabeça.
Finalmente o calor terminou. Até a sede diminuiu parcialmente, pois
consegui beber um pouco da água da chuva.
Agora eu estava com frio e medo. O céu ficou nublado. Aos poucos a
noite caía.
Eu me assustei. Como podia? Já era noite? Quanto tempo eu fiquei
nos degraus? A que velocidade eu subia?
Eu me sentia numa espécie de transe. A dor era tanta que eu já não
sentia meu corpo. Eu apenas subia de forma automática, como se o
corpo não fosse mais meu. Eu era movida por Deus e não por mim
mesma.
Foi só então que avistei o topo. Ainda assim, eu me mantive em meu
caminho com paciência, sem apressar as coisas.
Quando finalmente subi o último degrau, atirei-me no chão. Eu caí,
completamente exausta, sem conseguir levantar mais.
Eu estava ensopada e tremendo. Minhas mãos e meus joelhos
estavam sangrando.
Rezei para o Cordeiro e ofereci a ele todo meu sofrimento.

278
Mártires Vermelhos

Onde estavam as dez pessoas? Elas já deviam ter chegado ao topo e


descido. Eu estava sozinha na torre. Claro que em breve, se eu
permanecesse muito tempo lá, mais amigos na fé iriam se unir a mim.
Esse pensamento me confortou um pouco.
Ainda deitada no chão, sem mal conseguir me mover, eu me assustei
com o que vi. Havia alguém lá, mas não parecia humano.
Usava uma túnica branca. Seus pés eram como bronze incandescente.
Seus três pares de asas tinha as cores do arco-íris. Seus olhos eram como
fogo.
Eu tremi. Queria fugir de lá. Quase me atirei escada abaixo.
– Não tenhas medo. Deus está contigo.
Meu coração se acalmou por um momento. Era como se houvesse
duas pessoas dentro de mim: uma parte de mim tremia de medo e outra
sentia imensa paz. Provavelmente quem temia era o corpo; era ele que
queria se jogar. Enquanto o espírito queria se aproximar mais e se
aquecer diante daquele fogo.
Quando estive naquele lugar escuro do meu castelo, o gálata
atravessou a lança pelas minhas costas até meu coração. Eu o vi de
costas, de relance. Agora eu o via frente a frente.
Eu também o vi de frente no exato momento em que Jeremias foi
martirizado. Mas naquela ocasião a visão foi muito terrível. Era
magnífica demais para olhos humanos. O coração não aguentava.
Diziam que os vivos não podiam contemplar a face de Deus. Um
vivo que a contemplasse morreria. Por isso era preciso morrer para
contemplar a face do Imolado.
Os gálatas podiam ver Deus frente a frente e compartilhavam dessa
visão beatífica. Permaneciam tanto tempo em sua presença que parte de
seu ser emanava aquele terror que um vivo sentiria ao ver Deus.
Era esse terror que eu sentia ao ver o gálata. Eu sentia medo por mais
que ele me dissesse para não temer porque eu sabia que aqueles olhos de
fogo tinham visto Deus. Sendo assim, ao olhá-lo era quase como ver
uma parte do Cordeiro através de um espelho. Era uma mistura de
adrenalina com horror. Mas eu resolvi aceitar essa dor, porque era ela
que me trazia a morte que purifica, a paz perpétua que não pode ser
descrita.
– Eu tenho a chave da Morte.

279
Wanju Duli

Eu tremi quando ouvi isso. Sua voz era calma como água, mas
terrível como um trovão.
Ainda chovia.
– Por favor, salve Rafael...
Foi isso que consegui dizer. Eu repeti isso algumas vezes, até perder
quase todas as forças.
– Rainha Bibiana, ele está salvo.
Eu suspirei aliviada diante daquela revelação. Agora eu finalmente
poderia ficar em paz. Tinha cumprido meu objetivo.
– Onde ele está? – perguntei.
– O rei está conosco – disse o gálata – e agora contempla o maior dos
reis.
Ao ouvir isso, meu coração morreu dentro de mim. Eu caí num
choro violento.
– Por que vim até aqui? – perguntei, em meio às lágrimas – pensei
que pudesse salvar sua vida...!
– Em breve tudo ficará claro. Come esse maná que te dará forças
para descer a escada. Conforta tua família. Dá a eles a boa notícia. E
amanhã vai ter com o Papa Dourado.
Minha visão ficou momentaneamente turva. Eu estava exausta.
Fechei os olhos por breves instantes. Quando voltei a mim alguns
segundos depois, o gálata já tinha se retirado.
Em seu lugar estava o tal maná. Ele se parecia com um pão redondo
sem fermento.
Depois de comer do maná, senti minhas forças voltarem por inteiro.
Era como se eu tivesse renascido.
Desci os mil degraus tão rapidamente e com tanta facilidade que mal
percebi. Já tinha parado de chover.
Antes que eu me desse conta, já estava em casa. Realmente, parecia
que era Deus que me movia e não eu mesma.
Todos estavam chorando muito. Desesperadamente.
Eu nunca tinha visto aquilo antes: até mesmo empregados choravam
forte como se um parente querido tivesse morrido. Todos o amavam.
Eu e Augusto nos abraçamos. Foi somente quando o abracei que
voltei a chorar. Desde que o gálata sumiu, eu consegui conter minhas
lágrimas. Mas agora não dava mais.

280
Mártires Vermelhos

– Vocês ainda o encontraram vivo? – perguntei.


– Não – respondeu Augusto – quer que eu te conte como o
mataram? Você vai aguentar ouvir?
– Eu aguento.
– Nem mesmo eu sei se aguento contar – disse Augusto, soluçando –
eles o despedaçaram... o esquartejaram ainda vivo.
Era exatamente igual a Jeremias. Os dois tiveram a mesma morte.
Será que aquilo significava alguma coisa?
– Eles fizeram isso por causa das relíquias, é claro – explicou Augusto
– essa é uma morte comum para mártires. Se o mártir morre torturado,
suas relíquias têm maior valor. E se morre desse jeito, as relíquias já são
divididas entre eles. Cada um pegou uma parte. Mas nós as pegamos
deles.
– Recuperaram tudo? – perguntei, aliviada.
– Sim. O exército matou vários dos rebeldes. Alguns fugiram. E três
deles foram capturados, incluindo o líder. Ele será questionado sob
tortura.
– Será que eu, como rainha e como esposa de Rafael, terei alguma
voz nisso? – perguntei.
– É claro. Você quer ver os prisioneiros?
– Sim.
Augusto me conduziu até o calabouço do palácio. Os três infelizes
estavam ajoelhados e acorrentados, de cabeça baixa.
– Qual deles é o líder? – perguntei ao guarda.
O guarda apontou o do meio.
– Por que fez isso? – eu perguntei, em tom sério.
O líder levantou os olhos.
– Vossa Majestade – ele pronunciou aquilo em tom meio irônico –
esse rei era o pior dos reis. Era o rei mais perigoso que já pisou nesse
mundo, com exceção do Imolado. Ele não podia ficar vivo.
– Não entendo – eu disse – ele te fez algum mal? Fez algum mal a
alguém?
– Fez mal a nós todos. Ele deu esperanças para o povo. E dar
esperanças em excesso faz mal.
– Ele nos deu esperanças em Deus. É a única coisa que precisamos.

281
Wanju Duli

– Então não fiz mal em matá-lo – disse o líder – eu o levei para o céu.
Que mal eu fiz?
Eu queria torturar aquele desgraçado horrivelmente. Queria matá-lo
com muita dor.
– O rei te perdoou? – perguntei.
– É claro que sim, mesmo sem eu pedir por isso – ele riu – aquele
santo de merda. Ele perdoaria até o Dragão.
Dei-lhe um soco na cara. Eu não era muito boa em dar socos, mas
aquele foi bem dado. Pareceu doer bastante. Fiquei satisfeita.
– Você ainda não entendeu, Vossa Majestade? – ele perguntou com
ferocidade e com um sarcasmo ainda maior – um santo como ele não
tem lugar nesse mundo. Essa terra é para pecadores. Eu fiz um favor a
ele. O maior dos favores. Com isso ganhei méritos suficientes até para
subir ao céu.
– Eu juro que se você subir ao céu eu prefiro até habitar com o
Dragão do que ter que olhar para sua cara outra vez.
Ele deu um largo sorriso, como se estivesse gostando da minha raiva.
– Devo torturá-lo, Vossa Majestade? – perguntou o guarda.
– Eles não deverão ser torturados ou mortos – decidi – eles terão
prisão perpétua. E passarão o resto dos seus dias lendo os Selos.
– Os Selos? – o líder gargalhou – por que tenho que ler aquela
porcaria? Prefiro morrer.
– Seria muito piedoso matá-los e mandá-los ao inferno, para onde ele
quer ir – expliquei – se eu quero torturá-lo de verdade, irei obrigá-lo a ler
os Selos, rezar e assistir cerimônias religiosas. Essa será sua punição
eterna. Para o servo do Dragão, o que causa mais dor é uma reza. O céu
é o inferno e o inferno é o céu. Então só haverá dois destinos para eles:
ou a conversão ou um sofrimento terrível de estar diante de Deus e ver-
se eternamente separado dele.
– Puta.
– Guarda – eu disse – faça-o copiar as primeiras cem páginas dos
Selos e me entregar pela manhã. Se não o tiver feito, ele deverá rezar o
“Magnífico” duas mil vezes.
Eu saí de lá.
Eu sabia que eu era uma pessoa terrível. Nunca fui uma santa. Mas eu
simplesmente me descontrolei. Eu era humana. Uma mera humana que

282
Mártires Vermelhos

chorava ao ter meu marido morto em vez de celebrar sua chegada ao


céu.
Contei para Augusto a mensagem do gálata. Ele se sentiu mais
confortado ao saber que Rafael tinha cumprido seu destino.
Jezabel estava arrasada e queria torturar seus prisioneiros, mas eu não
permiti.
Depois disso, fui conversar com o eremita negro. Eu estava um
pouco frustrada.
– De que adiantou tudo isso? – eu perguntei – subi os mil degraus de
joelhos e ainda assim Rafael foi morto.
O eremita escreveu:

“De que adianta, então, todo o esforço de viver se depois morreremos?”

Era uma boa pergunta. A vida fazia muito mais sentido se houvesse
outro mundo. Minha penitência devia ter auxiliado Rafael de outra
forma.
Foi então que me dei conta: Rafael devia estar sendo torturado e
martirizado no exato instante em que eu subia os degraus.
Aquele foi o presente que Deus me deu: a honra e a glória de sofrer
junto ao meu amado. De sentir parte de sua dor em meu corpo e em
meu espírito.
Quando me dei conta disso, eu chorei muito. Ajoelhei-me para rezar,
mesmo com os joelhos ainda doloridos. Agradeci ao Cordeiro por aquela
bênção inacreditável que havia me concedido, que quase superava o que
eu mesma pedi.
Cada vez mais o mundo fazia um sentido assustador. Os planos do
Cordeiro eram cada vez mais claros.
Por mais gentil que Rafael fosse, eu sempre soube que seu grande
sonho era o martírio. Mas ele ao mesmo tempo me amava. Então ele não
podia simplesmente largar a mim e aos filhos.
Morrer martirizado enquanto distribuía pães aos pobres era a forma
mais nobre de perder a vida. A única forma que se equiparava a essa ou
até a superava era morrer pregando os Selos, como Jeremias tinha feito.

283
Wanju Duli

Eu me senti grata ao saber que Rafael tinha morrido como sonhava.


É claro que ele preferia ter morrido seis anos antes, na época que
Jeremias morreu. Só que Deus tinha outros planos para ele.
Naqueles anos extras, Rafael fez muitas coisas. Ele me ajudou de
incontáveis formas, deixou dois filhos e ajudou seu país. Deixou até
mesmo um legado de cartas que, após ele ser martirizado,
definitivamente viraria um livro santo. Eu iria dar a eles também a última
carta que Rafael tinha escrito e nunca chegou a ler.
Pareceu certo. Acho que foi melhor assim, pelo menos para mim e
para todos que foram abençoados pelo sacrifício que ele fez por nós.
Não tínhamos vivido apenas um grande amor que terminou de forma
trágica. Eu não acreditava nisso, pois sabia que aquilo era só o começo
desse amor.
Eu iria reencontrá-lo no outro mundo. Eu tinha essa forte convicção.
Sendo assim, a morte de Rafael não era tão triste e não era realmente um
adeus. Eu entendia isso agora.
Estava começando a sentir aquele tipo de amor sem apego. Fiquei
feliz porque ele estava feliz. E eu iria reencontrá-lo no futuro. Até lá,
prestaria atenção nos planos do Cordeiro para minha vida e iria cumpri-
los da melhor forma que eu conseguisse.
A mãe de Rafael foi nos visitar no fim do dia. Como ela era uma
eremita negra, ela também entendeu que veria seu filho na outra vida. Na
verdade, como ela realizava comunicações espirituais no deserto, era
provável que já conseguisse se comunicar com ele aqui mesmo nesse
mundo.
Perguntei a ela se queria conversar com meu eremita negro, que
talvez tivesse maiores informações sobre a situação de Rafael. Ela
aceitou e entrou no cômodo. Os dois conversaram por horas.
Quando a mãe de Rafael saiu de lá, ela me agradeceu. E aproveitou
para me escrever o seguinte:

“Eu não gosto de revelar o segredo de nossos irmãos, mas o seu eremita negro é
uma mulher. Achei que gostaria de saber disso”

Fiquei boquiaberta. Eu consultava aquele eremita há anos e nunca


desconfiei. Como eu podia ser tão tonta?

284
Mártires Vermelhos

Quando a mãe de Rafael foi embora, eu entrei no cômodo para


conversar a sós com minha eremita negra.
– Por que não me contou que era mulher? – perguntei a ela – eu teria
gostado de saber disso muito tempo atrás. Agora vou me sentir mais à
vontade.
Ela escreveu:

“Por nenhuma razão. Vossa Majestade provavelmente já viu incontáveis


vermelhos, negros e dourados mulheres. As regras da Ordem nos mandam esconder
isso também. Quanto mais escondemos aspectos de nossa identidade mais
desaparecemos e deixamos espaço para o Cordeiro habitar em nós”

– Quer me acompanhar até o Templo amanhã? – eu a convidei – eu


irei visitar o Papa Dourado.
Felizmente, dessa vez eu não precisaria subir a escadaria. A residência
do Papa ficava em outra localidade do Templo.
Achei que, por eu ser rainha, ele me receberia a qualquer hora. Fiquei
surpresa ao saber que até mesmo a rainha precisaria aguardar que o Papa
Dourado estivesse disponível.
Eu aguardei por longas horas junto com a minha eremita negra.
Quando finalmente fomos convidadas a entrar, quis que a eremita fosse
comigo.
O Papa Dourado era o chefe do Templo de Tiatira. Na verdade, o
templo de cada reino tinha um papa, mas o papa de nosso reino era tido
como o mais poderoso.
Eu raramente me comunicava com dourados. Apesar de eles também
terem o voto de silêncio, havia mais ocasiões em que eles tinham
permissão de quebrar esse voto, já que eles eram professores. Já no caso
dos vermelhos e dos negros, a única ocasião em que era permitido falar
em voz alta era na hora de recitar a reza final na hora da morte.
O Papa Dourado usava o manto dourado comum de qualquer outro
sacerdote. A princípio, não havia nenhuma diferença entre ele e os
outros. Creio que sua intenção era se camuflar. A ideia de nenhum deles
mostrar o rosto era sugerir que todos eram iguais diante do Cordeiro.
Além disso, era o símbolo de ser desprovido de identidade, já que
devemos morrer para nós mesmos para renascer no Imolado.

285
Wanju Duli

– Vossa Santidade – eu disse – estou aqui hoje porque Galácia me


enviou.
– Vossa Majestade – respondeu o dourado – Galácia também me
apareceu em visões no dia de ontem e me avisou dessa ilustre visita.
Fiquei surpresa que o papa tivesse se dirigido a mim diretamente e
não por escrito.
– Que tal conversarmos no meu jardim? – ele convidou.
– Minha amiga pode vir junto? – perguntei.
– Sua amiga também é minha amiga – foi a resposta.
E nós três seguimos juntos para o tal jardim.
Porém, não chegávamos nunca nesse local. Nós descemos algumas
escadas que nos levava a uma densa floresta. E no interior da floresta
seguimos um caminho subterrâneo.
Até que atingimos um local belíssimo que me deixou completamente
sem respiração.
Parecia que eu havia penetrado num mundo de fantasia com criaturas
sobrenaturais. Ainda era o mesmo mundo, mas eu sentia que aquele local
respirava beleza e graça. Era um universo repleto de espíritos.
Tudo lá parecia incrivelmente vivo. Desconfiei que até as árvores
pudessem respirar como pessoas. Quem sabe uma pessoa comum só
reparasse que era um jardim particularmente encantador. No meu caso,
meus sentidos espirituais já estavam mais aguçados.
Reparei particularmente nas flores. Havia muita variedade e muitas
cores. E também havia pequenos animais passeando por lá. Bichinhos
muito pequenos e preciosos.
– Esse lugar é puro – disse o papa – não precisamos esconder o rosto
aqui embaixo. Ninguém mais irá entrar. Somente eu tenho a chave. Sou
o guardião das chaves desse jardim, pois Galácia as confiou a mim.
Lembrei do que Galácia me disse: “Eu tenho a chave da Morte”.
O papa tirou a própria máscara e baixou seu capuz. Fiquei surpresa
ao reparar que ele era jovem. Parecia ter uns trinta e poucos anos. Tinha
olhos castanhos escuros e um sorriso bondoso. Ele me era vagamente
familiar.
– Pode tirar a máscara também, nobre eremita negra – ele disse – se
assim o desejar.

286
Mártires Vermelhos

A eremita assentiu. Tirou a máscara e baixou o capuz do manto


negro, do mesmo modo que ele.
Ela também parecia ter mais ou menos a idade do papa. Tinha longos
cabelos negros ondulados, pele morena clara e olhos negros. Ela sorriu
para mim.
Antes eu a via como uma pessoa muito séria. Naquele instante
simpatizei tanto com seu sorriso que quase tive vontade de perguntar se
ela queria ser minha melhor amiga. Mas talvez ela já fosse minha melhor
amiga e eu não soubesse.
Ao longo dos meus últimos anos de colégio em Tiatira, fiz algumas
amigas, mas nunca consegui fazer amizades fortes como as que eu tinha
com Paula e Sara. Eu também não conversava muito com os altos
dignitários do castelo. Por isso, quando eu não falava com Rafael e
Augusto, acho que ela era a pessoa com quem eu mais conversava,
mesmo que apenas por escrito.
– Sigam-me – disse o papa.
Nós duas o seguimos em silêncio até o centro do jardim. Lá havia
uma árvore muito alta e magnífica. Seus frutos eram tão belos que
pareciam brilhar.
– Há muito tempo, havia um casal puro habitando nesse jardim –
explicou o papa – tudo o que faziam era puro. Eles se amavam com
pureza. O sexo entre eles não tinha pecado, porque refletia o espírito de
Deus. Tudo o que eles faziam era para a glória do criador. Até que o
Dragão apareceu.
– O Dragão pisou nesse jardim? – perguntei.
– Antes o Dragão era um gálata – disse o papa – Deus mostrou a ele
que um dia haveria um ser humano que se elevaria acima de todos os
gálatas e este gálata o invejou. Afinal, ele tinha sede desenfreada pelo
poder. Não queria obedecer. Queria ser o senhor e não o escravo. Ele
não optou pela morte e sim pela vida. Não aceitou matar a si mesmo
para honrar o Senhor. Quis salvar seu corpo por vaidade, então ele caiu e
perdeu o seu espírito. Virou um Dragão horrível. Quem vive pelo corpo
o perderá. Mas quem vive pelo espírito conquistará tanto espírito quanto
corpo. Quem busca a vida perderá a Árvore da Vida. Mas quem busca a
morte a encontrará. Aquele que come do fruto da Árvore da Morte

287
Wanju Duli

conquistará a imortalidade. É um fruto amargo na primeira dentada, mas


que depois derrete como mel na boca.
Fitei a árvore com mais intensidade. Era realmente bela.
– O Dragão enganou os dois seres puros – explicou o papa –
incitando-os a comer da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. A
árvore se chama assim não porque tem o poder de causar conhecimento,
mas devido a seu resultado: ao comer dela se aprende sobre o bem da
obediência e o mal da desobediência. Mas agora já era tarde: os dois
tinham preferido seguir sozinhos do que seguir com Deus. Quem
caminha só não pode compartilhar da eternidade do Senhor. O fruto que
eles comeram apodreceu os seus estômagos e os tornou impuros. Eles
perderam tanto o espírito imortal quanto o corpo imortal que antes
possuíam porque queriam ser sábios e poderosos sozinhos, sem estar
com Deus. Então perderam todas as coisas: corpo e espírito.
– Mas o Cordeiro teve piedade – falei.
– É claro que teve. O Cordeiro é todo amor. Ele não os afastou
porque quis. Foi o casal que se afastou dele por vontade própria, por
medo, por vergonha. Eles não tiveram coragem de ajoelhar-se e pedir
perdão. Então eles fugiram, perderam tudo. Eles esqueceram que eram
espírito e corpo e não apenas corpo. Os filhos desse casal nasceram com
espírito e corpo feridos pelo mal que o fruto causou e isso se estendeu
por todas as gerações. O Cordeiro entendeu que só havia uma coisa que
podia fazer para purificá-los: ofertar a eles um alimento mais puro. E
esse alimento era o seu corpo e o seu sangue. Por isso o Cordeiro
morreu por eles.
– Ele morreu por todos nós – eu disse.
– O Cordeiro oferece seu corpo no maná e seu sangue no cálice –
explicou o papa – por isso somos os calicianos. Em cada celebração
religiosa que assistimos, comemos o maná. É ele que purifica o corpo e o
espírito do mal do fruto. Nós nascemos como seres humanos mortais
com potencialidade de nos tornarmos imortais. Mas esse caminho da
mortalidade para a imortalidade é algo que deve ocorrer aos poucos. Por
isso em cada celebração religiosa come-se uma pequena porção do maná.
Quanto mais celebrações assistimos, mais apagamos o mal do fruto. Mas
também podemos nos purificar ofertando nossa própria carne e sangue
por nossos irmãos. Essa é a via rápida.

288
Mártires Vermelhos

– O que aconteceria se eu comesse esse fruto da Árvore da Vida? –


perguntei, olhando-a bem de perto.
– Você morreria imediatamente – disse o papa – e também perderia
seu espírito.
Eu me afastei da árvore instintivamente.
– E se eu comer da Árvore da Morte? – perguntei.
– Você perderá seu corpo, mas salvará sua alma. Está preparada para
fazer algo assim?
Eu não tinha certeza. Provavelmente não. Eu ainda queria ficar viva
por mais tempo, por mero apego à vida. Mesmo sabendo de todas
aquelas coisas.
– Como é que alguns santos conseguem realizar o milagre de fazer
um corpo voltar à vida? – perguntei.
– Porque eles sabem que o espírito é o senhor do corpo e não o
contrário – disse o papa – quando alguém morre, destrói o próprio
corpo físico. Mas se o espírito comandar: “revive” o corpo volta à vida.
Quem gera o sopro da vida em nós é o espírito imortal. Quando
vivemos venerando o corpo como senhor, nós achamos que a morte do
corpo é o fim da existência. E se realmente acreditamos nisso, se
vivemos fingindo que o espírito não existe, ele realmente pode morrer.
– Então o inferno é um tipo de morte do espírito?
– O inferno é a morte do espírito: a nossa separação de Deus – o
papa apontou para uma árvore – por que não se senta sob a sombra
daquela árvore? Eu preciso retornar e resolver alguns assuntos do nosso
mundo, mas vocês podem permanecer aqui mais um tempo. Logo
retornarei para buscá-las.
– Obrigada – eu disse.
E o papa saiu. Enquanto a eremita negra estava passeando pelos
arredores, entretida com os pequenos animais, segui a sugestão do papa e
me sentei à sombra daquela árvore que ele apontou.
Senti uma paz realmente magnífica. Até fechei os olhos por um
momento, sentindo a brisa e ouvindo os encantadores sons da natureza.
Ouvi o som de folhas secas se quebrando. Alguém havia sentado ao
meu lado. Pensei que fosse a eremita negra. Abri os olhos.
– Saudações, princesa Bibiana.

289
Wanju Duli

Dois olhos castanhos profundos e brilhantes me olharam


intensamente. Numa primeira olhada não o reconheci. Seu corpo no
fundo era o mesmo, mas também estava ligeiramente diferente.
– Jeremias! – exclamei, com medo.
– Calma – ele disse – está tudo bem.
Eu me acalmei. Eram os mesmos cabelos negros meio cacheados,
ligeiramente abaixo dos ombros. A pele morena. Ele usava uma túnica
branca e longa, de mangas compridas.
Derramei algumas lágrimas.
– Senti saudades – eu disse – você parece um gálata.
– Mas não sou um gálata – corrigiu Jeremias – pois gálatas são puro
espírito. Eu ganhei um novo corpo após a morte. O Cordeiro me
presenteou com ele.
– Eu também não sou mais uma princesa e sim rainha – acrescentei –
você viu Deus face a face?
– Você também verá um dia.
Era assustador conversar com alguém que tinha visto Deus. O rosto
de Jeremias era meio luminoso, como o rosto dos gálatas.
– Então a minha entrada no céu está garantida? – perguntei.
– Você não deve pensar assim.
– Mas você irá me proteger – eu disse – vai me guiar para o caminho
do céu enquanto vivo, certo?
– Você só não pode esquecer de pedir o meu auxílio – disse Jeremias
– as pessoas se esquecem facilmente de rezar. Eu não posso interferir no
destino das pessoas ferindo o livre-arbítrio que elas possuem, que é a
coisa mais preciosa. A propósito, vi que você já conheceu Mateus.
– O Papa Dourado é o seu ex-namorado? – perguntei, surpresa.
– Mateus sempre esteve comigo – explicou Jeremias – quando me
tornei um mártir vermelho, ele entrou para o segundo grau da Ordem
somente para ainda poder ficar ao meu lado.
– São aqueles que vestem o manto branco, certo? – perguntei.
– Sim. Você o conheceu. Ele estava lá naquele dia, no hospital. E
também estava comigo em Tarsus, lendo o que eu e meu mestre
escrevíamos no duelo de retórica. Ele me viu ser martirizado. A partir
daquele dia, ele saiu da Ordem dos vermelhos e se mudou para a Ordem
dos dourados.

290
Mártires Vermelhos

– Não pode ser! – falei, chocada – no hospital ele gritou com o


médico e disse que ele devia ter te deixado morrer.
– É claro que ele preferia que eu tivesse uma morte pacífica no
hospital do que fosse torturado em Tarsus. Mas o Cordeiro quis assim.
Por isso aquele cara de branco estava tão alterado e berrou tanto com
os médicos.
– Por que ele entrou para a Ordem dos dourados?
– Porque ele queria ajudar a proteger as chaves do jardim – disse
Jeremias – era uma das formas mais efetivas de poder falar comigo com
alguma frequência. Também é possível se comunicar comigo por visões
e sonhos, mas como aqui no jardim o ambiente é mais puro consigo vir
com mais facilidade.
A história de amor de Jeremias e Mateus era tão emocionante quanto
a que eu mesma vivi. Senti-me feliz.
– Vejo que está pensando no Melquisedec – observou Jeremias.
– Quem é esse? – perguntei.
– É o nome secreto do Rafael. Ele nunca te contou?
– Você consegue ler pensamentos? – perguntei, chocada.
Meus pensamentos estavam voando livres e eu torcia para não ter
pensado nada inapropriado.
– Um pouco, mas eu não te li – disse Jeremias – eu não leio
pensamentos sem autorização. Eu só imaginei que você estava pensando
nele, pois sua expressão sugeriu isso. Deseja vê-lo?
– Eu posso...? – perguntei, sem acreditar.
Jeremias levantou-se e me pediu para segui-lo.
Fomos até o outro lado do jardim. Havia um rapaz parado perto de
um lago. Ele também vestia uma túnica parecida com a de Jeremias.
Tinha pele escura, cabelos negros e curtos, olhos puxados e pequenos.
Corri até ele. Rafael apenas sorriu para mim e nós nos abraçamos.
Chorei desesperadamente nos braços dele.
– Por que me deixou? – perguntei, em lágrimas – não sabe que não
posso viver sem você?
– Me desculpe, querida.
– Eu queria comer da Árvore da Morte agora mesmo – falei – para
ficar contigo para sempre. Mas não posso. Preciso cuidar dos nossos
filhos.

291
Wanju Duli

– Eu sei.
– Eu poderia deixá-los com Augusto, mas não sou louca de deixá-los
com sua irmã!
Rafael riu.
– Está feliz? – perguntei.
– Mais que nunca – garantiu Rafael – eu só estava preocupado com
você.
– Prometo que vou ficar bem – eu disse – será difícil ficar sozinha a
partir de agora, mas eu aguento. Porque sei que estará me esperando.
– Não precisa ficar sozinha, Bibi. Quando estiver junto do Cordeiro
também estará comigo.
– Eu sou egoísta – falei – quero seu corpo, quero sua alma, quero
todo seu ser.
– É claro que você quer – ele me deu outro sorriso amável – eu amo
sua sinceridade, Bibi. Amo tudo em você.
E trocamos um beijo na boca, repleto de amor.
– Esse é um beijo de despedida? – perguntei.
– Sinto muito. Eu preciso ir.
– Vocês vão voltar para junto do Imolado? – perguntei.
– Sim.
– O que eu devo fazer a partir de agora? Por favor, me guie! Eu
desejo saber qual é minha missão no mundo!
– Você já se esqueceu, Bibi? Não é preciso saber o futuro. O que
importa é apenas confiar no Cordeiro no presente. Você não precisa
fazer mais nada além de não largar a mão do Cordeiro nunca mais e não
largar a mão daqueles que sofrem. Fazendo apenas isso, você virá para
junto de nós sem falta após a morte.
Foi uma despedida dolorosa. Mas eu fiquei feliz da vida ao ver
aqueles dois, sorrindo e felizes. Se eles estavam em paz, eu teria forças
para prosseguir em meu caminho, não importava o quanto doesse.
– Você me viu na escada? – perguntei, antes de ele partir.
– É claro que te vi. Obrigada por sofrer comigo. Fui eu que mandei a
chuva para saciar o teu calor e a tua sede. Ela caiu quando morri.
Eu também queria ter a fé e a força para me tornar a chuva para
alguém após a morte.

292
Mártires Vermelhos

Quando os dois foram embora, Mateus retornou. Ele sorriu para nós
e levou a mim e a eremita negra de volta ao Templo. Os dois
recolocaram a máscara e o capuz.
Retornamos para o palácio. Contei a Augusto tudo que vi.
– Você acredita? – perguntei.
– Quero acreditar – respondeu ele.
Agora eu estava sozinha como rainha. Aquilo era meio assustador. Eu
me sentia tranquila na maior parte do tempo porque Rafael me dava
forças. Mas e agora? Como competir com Rafael pela aprovação do
povo?
Resolvi iniciar fazendo somente o mínimo: eu iria manter os projetos
que o Rafael começou. E depois de toda aquela tensão com assuntos
religiosos, eu iria cuidar para não envolver tão diretamente religião e
política como ele fez. Eu entendi o que ele quis dizer. Não estava
misturando os poderes. Mas o povo não interpretava dessa forma.
Eles criticavam os fanáticos que queriam obedecer Rafael até se ele
mandasse matar todo mundo, mas os extremistas da F.L. foram piores:
não aceitaram morrer, mas mataram.
Nos meses seguintes, não houve grandes protestos. Na verdade, não
houve comentários em geral. Todos ainda estavam de luto pela morte de
um santo e aceitavam respeitar minhas decisões de governo em memória
dele. Por enquanto.
Quando completei 21 anos, senti que estava começando a me
acostumar a governar. Era bem mais difícil sem Rafael estar por perto
em carne e osso, mas eu tive forças para continuar porque sabia que ele
estava comigo em espírito.
Foi também nessa época que o rei de Laodicéia morreu. Lucas
assumiu o trono como rei, aos 16 anos. Eu enviei a ele uma cópia da
última carta escrita por Rafael para fortalecer seu espírito.
Quatro anos depois, meu pai caiu doente. Eu estava começando a
ficar furiosa com Teresa. Pelo modo que agia, dava a entender que ela
queria que nosso pai morresse logo para que ela pudesse assumir o
trono. Mas ele morreu somente um ano depois.
Quando fomos ao seu funeral, eu não sabia se ficava mais triste do
que deveria. Eu me perguntava se meu pai tinha ido para o céu. Ele tinha

293
Wanju Duli

feito muitas coisas ruins ao longo de sua vida. Mas será que as coisas
boas poderiam salvá-lo?
Optei por não tentar tirar aquela dúvida. Eu desconfiava que a
eremita negra saberia a resposta, mas tive medo de perguntar. Eu era
uma covarde.
Para o desgosto de Teresa, nossa mãe assumiu o poder em vez dela.
Porém, isso só durou três meses. Depois disso a rainha morreu e Teresa
tomou o trono para si aos 34 anos, ao lado de João.
Confesso que fiquei chocada. Minha mãe não poderia ter morrido
assim, do nada! É comum que quando o marido ou a esposa morre o
companheiro que ficou para trás entre em depressão e não viva muito
tempo depois disso. Mas minha mãe não estava depressiva. Ela tinha
superado a morte do meu pai e estava saudável.
Aquilo só tinha uma explicação: Teresa tinha dado um jeito de
assassinar a nossa mãe. Eu desconfiava que João a tinha ajudado ou até
mesmo tinha executado o plano.
Esse foi outro acontecimento que não tive coragem de confirmar
com a eremita negra. Eu temia muito receber a confirmação daquele fato
horrível. Eu queria acreditar que no fundo Teresa ainda tinha um bom
coração, mas era difícil.
Para completar, Teresa se envolveu numa briga política
completamente trivial com Laodicéia. Ela praticamente comprou a briga
e a situação estava por um fio. Em suma, Teresa estava prestes a declarar
uma guerra. Lucas estava numa situação delicada.
Eu queria apoiar Lucas se houvesse a guerra, é claro. Queria poder
ficar do lado dele. Mas a situação era mais complicada que isso. Muitos
dos meus conselheiros reais em Tiatira me sugeriam manter a
neutralidade e simplesmente não me envolver. Pérgamo devia certos
favores militares para Tiatira, mas o contrário não era verdadeiro. Pelo
menos eu não teria que apoiar Teresa. Aquilo seria o fim.
– Vossa Majestade, sei que é difícil, mas sugiro que não envolva
sentimentos pessoais na política.
Era fácil para meu conselheiro falar algo assim. Eu não iria
simplesmente ver meus dois irmãos se matarem sem fazer nada.

294
Mártires Vermelhos

Felizmente, Teresa desistiu da briga em certo ponto. Ela se cansou de


brigar com Laodicéia e começou a comprar briga com Éfeso. Nesse
período pude ficar aliviada e descansar um pouco.
– Você acha mesmo que ela vai deixar passar a nossa antiga rixa? –
Augusto me perguntou – você sabe que Pérgamo e Tiatira estiveram em
guerra no passado.
– Mas isso faz muito tempo – argumentei.
E adivinha só? Teresa provavelmente não tinha mais nada para fazer,
pois realizou uma pesquisa histórica gigantesca. Ela nos enviou uma
carta com umas cinquenta folhas, explicando detalhadamente tudo que
Tiatira havia feito há mil ou dois mil anos para ofender Pérgamo e
deixando claro que a honra de Pérgamo só poderia ser defendida com
sangue derramado.
Eu subestimei Teresa. Ela não era apenas cruel. Ela era um gênio.
Aluna modelo, ela sempre foi a melhor de todas. Suas notas superavam
até mesmo as de Catarina. Acho que só Rafael saberia mais coisas de cor
do que ela, pois minha irmã era uma enciclopédia ambulante.
Aquela carta dela merecia um prêmio. Tinha que ser emoldurada e
ganhar um troféu, pois estava assustadoramente bem pesquisada e bem
escrita.
Além de conter fatos históricos fortes, que mesmo sendo muito
antigos possuíam uma conexão terrível com o presente, ela sabia
persuadir com palavras. Usava termos impactantes, como “honra” e
“devastação”.
– Essa porcaria está tão maravilhosamente escrita que eu quase sinto
vontade de jogar uma bomba em nós mesmos para pagarmos pelos
nossos pecados – caçoei – é sério que Tiatira torturou seus prisioneiros
de guerras com cirurgia? Aqui diz que eles arrancavam o braço de uma
pessoa e costuravam em outra, sem anestesia.
– São os costurados – disse Augusto – você não estudou história?
– Até parece que você estudou! Suas notas sempre foram péssimas!
– Bem, eu me lembro vagamente de ter escutado sobre isso numa
aula que dormi.
Pelo visto Teresa estava bem acordada nessa aula. E ela não perdoou
nada.

295
Wanju Duli

Simplesmente não havia o que argumentar. Aquela declaração de


guerra estava perfeita. Era a primeira vez que eu veria uma guerra
estourar por causa de uma pesquisa histórica bem feita e não porque um
país tinha ofendido a honra de outro no presente.
– Acho que vou enviar uma resposta a ela dizendo: “Tem razão, irmã,
sua pesquisa me convenceu e possui um mérito acadêmico notável. Para
que dia quer marcar o início da guerra? É melhor não chegar atrasada
para o chá não esfriar”.
– Não vai esfriar – disse Augusto – ela está fervendo. Ela vai
derrubar o Sol na sua cabeça.
– Se ela o fizer, eu chamarei os gálatas com suas trombetas para
anunciarem o Dia do Juízo – eu disse – o Cordeiro está comigo.
Honestamente, eu queria aquela briga. Eu queria provar a Teresa que
ela estava errada. Ela tinha feito muitas coisas imperdoáveis.
Eu pude me despedir do meu pai em seu leito de morte, mas eu
nunca disse adeus para a minha mãe. Eu não poderia perdoar Teresa por
isso.
Além do mais, ela achava que podia brincar de guerra? Que era uma
coisa divertida? Ela se considerava Deus?
Tentamos conseguir aliados, mas foi tudo em vão. Ninguém apoiou
Pérgamo e ninguém apoiou Tiatira. Todos sabiam que era uma guerra
suicida para resolver assuntos que eram exclusivos ao passado dos dois
reinos. Ninguém quis se meter nisso. E fizeram bem.
Mas eu não precisaria apenas de um exército forte para vencer. Em
termos de estratégia militar Teresa seria melhor que eu. Ela tinha lido
mais. Sabia mais. Nunca me interessei sobre questões bélicas, pois
sempre defendi um ideal pacífico, então eu não sabia de nada.
Perguntei-me o que Rafael teria feito no meu lugar. Será que ele
tentaria pedir perdão e compensar Pérgamo pelo passado?
Eu não queria fazer nada daquilo. Teresa estava sendo infantil em
relembrar das coisas ruins do passado gratuitamente e se vingar delas em
vez de tentar aprender com elas.
– Sei o que nos fará vencer essa guerra – Jezabel me disse um dia –
siga-me.

296
Mártires Vermelhos

E eu inocentemente a segui. Ela me levou para um aposento muito


escuro da casa e acendeu a lareira. Nós duas nos sentamos diante do
fogo.
Ela pronunciou dizeres muito estranhos, numa língua desconhecida
por mim. Eu apenas aguardei com paciência. Eu sabia que não devia
confiar nela, mas estava curiosa. Se ela conhecia uma arma poderosa e eu
pudesse derrubar Teresa com ela, por que eu iria recuar?
O fogo da lareira adquiriu uma forma estranha, com dentes afiados e
rosto distorcido. Senti um cheiro de enxofre e tapei o nariz. Eu
experimentava uma imensa repulsa por tudo aquilo que eu via e sentia.
– Preciso sair daqui – falei, levantando-me.
Mas Jezabel me puxou pelo braço e me mandou ficar.
– Não é tão assustador quanto parece – ela disse – veja como é belo.
Prestei mais atenção. Pensando bem, havia uma grande força naquilo
tudo. Era vagamente semelhante ao que eu sentia na presença de gálatas.
Eu sentia medo, mas também fascínio.
No entanto, ali havia uma diferença fundamental. Havia algo dentro
de mim que me mandava sair dali. Um senso de dever e urgência. Uma
certeza dentro do meu coração que aquilo era errado.
De alguma forma que não consegui compreender, eu sabia que aquilo
era mau. Mas eu estava curiosa. Jezabel conseguiu apanhar minha
curiosidade quando disse que através daquilo eu poderia derrubar Teresa.
Teresa merecia ser derrotada porque ela fez algo ruim. Ela matou
nossa mãe. Aquilo era mau.
Mas será que eu devia pagar o mal com o mal? Eu poderia usar
qualquer meio para obter meu objetivo? Não foi isso que os extremistas
da F.L. fizeram? Eles usaram a violência. Eu duvidava muito que eu
devesse buscar as coisas certas pelos motivos errados. Eu não podia
olhar apenas para o resultado. Era fazer o certo que importava,
independente do que resultaria daquilo. Eu teria cumprido meu dever.
Eu sabia de tudo isso teoricamente. Mas tudo mudou quando o
cheiro de enxofre começou a parecer doce. E aquela face no fogo já não
parecia tão distorcida.
Ela parecia cheia de poder. Era semelhante a um gálata e ao mesmo
tempo diferente. A curiosidade me consumiu. Ao menos eu precisava
saber o que aquele ser de fogo teria para dizer.

297
Wanju Duli

– Rainha – rugiu a fera de fogo, com uma voz respeitável e


espetacular – eu posso te dar todo o poder e seu preço é muito barato.
Aquilo era novidade. Na minha religião sempre me ensinaram que a
maior parte das coisas boas da vida não chega sem sacrifício. Eu devia
passar pela dor do fogo para purificar a minha alma.
Mas ali estava a possibilidade de obter poder muito facilmente. Eu
não precisaria fazer muitos sacrifícios. Não era tentador?
– Qual é o teu preço? – perguntei, ansiosa.
– É bem simples – explicou a fera – eu só preciso que tu repitas uma
única frase: “Eu renuncio ao Cordeiro”.
– Por quê? – perguntei, com medo.
– Por que tens medo de dizer algo tão simples? Tais palavras não vão
te machucar. São apenas palavras.
Eu não precisava realizar aquela renúncia de coração. Só podia fingir
que renunciava para escutar o que ele diria a seguir. Seria uma mentira,
mas por uma boa causa.
Lá estava eu outra vez usando meios incorretos para chegar onde eu
queria. E dessa vez eu tinha dúvidas se a causa era realmente boa.
– Eu renuncio ao Cordeiro – pronunciei, mecanicamente.
Mas tomei cuidado para não largar dele de verdade. Foram apenas
palavras.
Fiquei surpresa que a fera tenha ficado satisfeita. Pensei que ia ficar
claro que eu estava mentindo. Então por que, ainda assim, ele aceitou
essas palavras vãs e falsas?
– Muito bem – disse a fera – em troca da tua prova de dedicação, vou
te dar um poder.
Como podia ser tão fácil? Era necessário um longo e árduo caminho
de purificação para que Deus nos presenteasse com poderes. Por que
nunca ninguém me disse que havia um jeito mais simples de manipular o
mundo material com pouco esforço?
– Coloca tua mão direita no fogo que eu vou te marcar.
– Isso não vai me machucar? – perguntei.
– Não se preocupe. Os poderes dados pelo Cordeiro são cruéis, pois
matam o corpo. Os meus poderes deixarão teu corpo intacto. Pelo
contrário: te encherão de prazer.

298
Mártires Vermelhos

Mas ele não mencionou o que aconteceria ao meu espírito se eu


optasse por preservar o corpo.
– Esse fogo não machuca – Jezabel mostrou sua própria mão direita
marcada – na verdade é delicioso. Você vai gostar.
Pensei que, se dentro de mim eu não renunciasse ao Cordeiro, os
meus atos do lado de fora não fariam muita diferença. Era só uma
brincadeira: dizer que eu renunciava ao Cordeiro ou brincar com aquele
fogo falso eram apenas passatempos curiosos. É claro que minha fé
verdadeira não seria abalada por aqueles atos externos.
Mas eu não era só espírito. Eu também era corpo. Jejuns e outras
mortificações corporais, que aconteciam apenas no corpo, deviam tocar
o espírito.
Bastava que aqueles atos se mantivessem só como aparências. É claro
que alguém como eu, que já tinha vivido tudo aquilo e via até mesmo
gálatas, não podia cair. Eu era muito forte e sábia.
E, cheia de vaidade e confiança em minha própria força, meti a mão
no fogo.
Senti quase um prazer sexual nesse processo. Mas era só prazer sem
nada mais. Não havia o êxtase espiritual que eu buscava. Isso porque
aquele ato era só corpo sem espírito.
Minha mão foi marcada pela chama, mas não houve dor. Era uma
marca bonita. Aquele ser devia ser incrível para ser capaz de me dar
tanto poder sem me fazer sacrificar praticamente nada.
– Experimente – disse a fera – tente voar.
E, para a minha surpresa, flutuei mais de um metro no ar e fiquei
fascinada.
Depois de uma vida de muitas práticas religiosas e abnegação, o
máximo que eu tinha conseguido foram coisas como lágrimas, uma lança
no coração e alívio da fadiga.
Olhando assim, o que o Cordeiro dava era realmente pouco. Por que
eu precisava me contentar com pouco? Por que tinha que me humilhar
por ele para não receber quase nada em troca?
Era uma vida sofrida em troca de breves momentos de êxtase
espiritual que logo eram apagados por mais dor. Enquanto isso, aquela
fera conseguia me conceder poderes em poucos segundos.
– Esse poder vem de mim? – perguntei, empolgada.

299
Wanju Duli

– É claro – disse a fera – isso tudo é sua própria força. O Cordeiro é


ardiloso. Ele nunca dá poderes. Apenas empresta e exige um alto preço
por eles. Pode arrancá-los dos humanos a qualquer momento. Eu, pelo
contrário, generosamente distribuo poderes a todos.
– É realmente muita generosidade – reconheci.
– Viu só como você é capaz de realizar atos grandiosos sozinha? –
perguntou a fera – então para que você precisa do Cordeiro se até agora
ele só te trouxe sofrimento?
Pois é, para quê? Eu já nem me lembrava. Olhando a relação custo
benefício, não valia a pena. Jeremias e Rafael tinham passado uma vida
de sofrimento intenso e tinham sofrido uma morte horrível. E tudo
aquilo para quê? Para obter a capacidade de fazer um ou outro milagre
de vez em quando. Capacidade esta que podia ser tirada deles a qualquer
momento se eles não fossem mais escravos fiéis.
– Você quer ser uma escrava para sempre? – perguntou a fera – não
deseja ser livre? Não quer ser feliz?
– Eu quero ser feliz e livre – falei.
– Como alguém pode ser livre quando se está acorrentado? Como
pode ser feliz com tanta dor? O que deve ser feito é muito claro: liberte-
se dessa escravidão e voe livre. Deixe para trás toda a dor e busque a
alegria.
– Mas a vida não se reduz à liberdade e ao prazer do corpo –
argumentei, estranhando – porque também somos espírito.
– Sábias palavras – elogiou a fera – somos tanto corpo como espírito.
Portanto, devemos glorificar a ambos. Ferir o corpo é um atentado
contra a vida humana, que é algo muito precioso. Atormentar o espírito
através do corpo é cruel. É desumano. É um crime contra a dignidade
humana.
– Tem razão. É um exagero negar os prazeres do corpo.
– Tu, minha rainha, és dotada de uma inteligência espetacular.
Entendes com muita rapidez verdades que outros demoram mais para
captar. É raríssimo encontrar alguém assim tão sagaz.
Fiquei toda contente e vaidosa com os elogios. Ninguém nunca tinha
me elogiado daquele jeito antes. As pessoas estavam sempre apontando
as minhas falhas. Mas ali estava um ser generoso que podia ver minhas

300
Mártires Vermelhos

qualidades. Alguém que não queria me machucar, mas se preocupava


com meu prazer e minha felicidade.
– Eu quero poder para punir minha irmã Teresa, pois ela fez uma
coisa errada – eu disse – então eu preciso derrotá-la.
– É claro que você precisa, minha rainha. Tudo que Vossa Majestade
quiser.
E deu certo. Aquela porcaria de guerra nem precisou estourar. A Fera
mandou a praga para Teresa. Na verdade, disse que aquele poder vinha
todo de mim e fiquei muito orgulhosa.
Teresa ficou muito doente. Quase morreu. Mas ela foi capaz de se
recuperar duas semanas depois, não sei como.
Eu fiquei furiosa. E se ela continuasse com aquela obsessão por
guerra? Eu precisava puni-la um pouco mais.
Mandei cair sobre o reino de Pérgamo uma chuva furiosa, que
arrasou boa parte das cidades. Se seu reino enfrentasse muitos problemas
internos, ela não teria dinheiro para a guerra. Seria criticada por fazer
guerra enquanto seu povo sofria sérias dificuldades.
Foi só assim que Teresa parou. Ela viu que eu era mais forte. Deve
ter tido medo de mim.
Mas eu fiquei cega pelo poder. Eu queria mais. Estava admirada com
o que eu era capaz de fazer.
Sempre achei que só os santos eram abençoados com milagres. Mas
dava muito trabalho ser santo. Por que eu escolheria um caminho tão
idiota e sofrido se podia ter tudo? Eu podia ter prazer e poder.
Foi naqueles dias que a eremita negra me chamou. Ela raramente me
chamava. Havia escrito uma mensagem para mim:

“Vossa Majestade,

Seus novos hábitos são incompatíveis com minha presença aqui. Eu peço que
recue. Se parar agora os danos não serão tão grandes. Esse é o primeiro aviso.
Se você for até o Templo, ajoelhar-se, se confessar e pedir perdão, ainda poderá
voltar atrás.
Caso contrário, terei que me retirar do palácio e voltarei a meditar nos desertos”.

301
Wanju Duli

– Que bobagem é essa? – perguntei – por que meus novos hábitos


são incompatíveis com sua presença? Você se considera assim tão nobre
e superior? Além disso, por que eu preciso pedir perdão no Templo
como se tivesse feito algo errado? A Teresa matou nossa mãe! Estou
aqui para julgá-la da forma que ela merece. A doença fez bem a ela para
lembrar sobre a dor da morte que nossa mãe sentiu. E com seu reino
arrasado pelo menos ela irá voltar sua atenção para as necessidades de
sua população pela primeira vez e não fazer guerras desnecessárias e tirar
vidas!
Meus argumentos pareciam muito bons. A eremita escreveu:

“Nenhum humano desse mundo possui a sabedoria para julgar outro e jamais
deve exercer seu julgamento. É preciso ser lavado pelo sangue do Cordeiro para se
tornar digno de julgar. Um dia os santos poderão julgar até os gálatas caídos. Até lá,
deve-se focar na própria purificação e em ajudar o outro. Os teus atos atuais poderiam
ser compatíveis com a sabedoria de um Deus, mas somente se você fosse Deus. Um
médico que faz uma cirurgia dolorosa pode salvar uma vida. Um leigo que tentar
fazer essa mesma cirurgia certamente matará seu paciente. No que você é diferente de
sua irmã se também tentou matá-la? E no que você é diferente dela no descaso com o
povo se através da tua chuva muitas pessoas inocentes caíram mortas? Um humano
que tenta julgar os outros acaba fazendo cair tanto inocentes quanto culpados na hora
errada e do jeito errado. Esses não são os planos do Cordeiro”

Aquele discurso moralista me irritou muito.


– Como ousa dizer que sou igual a Teresa? – perguntei – então
prender e matar um assassino é algo injusto? Não está muito claro que
foi Teresa que começou tudo isso? Eu apenas tentei corrigi-la. Tinha
boas intenções. Eu sei que minha sabedoria não é perfeita, mas eu não
sou completamente estúpida! Sei a diferença entre o certo e o errado.
Ela escreveu o seguinte:

“Será que sabe mesmo? Você parece um pouco perdida. Você sabe que só há uma
coisa que precisamos fazer nesse mundo: glorificar o Cordeiro, confiar nele, imolar-se
por ele e oferecer cada ato nosso ao Imolado. Se você perder essa única coisa, será difícil
diferenciar bem e mal com clareza, pois estará sozinha. Mas você não precisa estar só,
Vossa Majestade. Sabe que eu e seus amigos estamos contigo. Eu me disponho a

302
Mártires Vermelhos

ajudá-la, mas você precisa confiar em mim. É melhor você se apressar antes que seja
tarde”

Ela estava passando dos limites.


– Estou farta dessa história de imolar-se pelo Cordeiro – falei – já
estou cansada de ver meus amigos sofrendo por causa dessa obsessão
pela morte. Eu quero viver pela vida e não pela morte. Eu quero fazer
justiça aqui nesse mundo e não no outro. Por que esperar como um
escravo? Por que se calar diante das injustiças se eu posso mudar o
mundo agora mesmo sem esperar pela justiça do outro? Deus é muito
devagar. As pessoas estão sofrendo e morrendo agora. Como ele permite
esse absurdo?

“Está ouvindo a si mesma? Você só diz: „eu quero‟. Mas um humano sozinho
não tem poder de enxergar o quadro completo. Ele só consegue enxergar a dor e não a
expiação através da dor. O sofrimento veio ao mundo através do livre-arbítrio
humano. Nós só conhecemos a dor pela primeira vez porque optamos por nos separar
de Deus. Mil anos são como um dia para o Imolado. Ele tem grandes planos para
cada um daqueles que possuem a paciência de manter a fé mesmo estando no olho do
furacão”

– Isso é pedir muito – eu disse – vocês dizem coisas vazias como: „a


morte do espírito é pior do que a morte do corpo‟, mas onde está esse
espírito? Eu sinto meu corpo agora. Posso tocá-lo. Por que Deus não se
mostra e torna as coisas mais claras? Por que ele não explicou direito o
que devemos fazer e nos deixou no escuro? Ele não pode nos culpar por
não seguirmos o caminho certo se jamais esclareceu direito as regras do
jogo.

“Está tudo claro como água. No fundo, nós sabemos sim o que é certo e errado.
Deus nos guia para aperfeiçoarmos esse entendimento. Sabemos quando estamos
mentindo para nós mesmos como desculpa para fazer coisas erradas que nos trará
benefícios. Para saber se uma coisa é certa, basta pensar: „esse pensamento ou ato pode
ser ofertado para a glória do Cordeiro?” e terá sua resposta. É claro que podemos ser
fracos e confusos em muitos momentos. Por isso devemos nos apoiar no Imolado. E
aqueles que possuem dificuldades para desvendar as coisas do coração podem ler nossos

303
Wanju Duli

livros sagrados. Praticamente o mundo inteiro os conhece, graças ao nobre esforço de


nossos missionários mártires que os traduziram para muitas línguas e os levaram a
todos os cantos. As regras do jogo estão todas escritas no livro. Desde que nascemos
sabemos que as regras existem. É nossa escolha lê-las com atenção e interesse genuíno,
com espírito investigativo e esperança no coração para ver se fazem sentido. É preciso
ler não somente a Letra. De que adiantaria Deus se mostrar claramente? Você já viu
gálatas e chuvas de pedra. Nem se visse os mortos levantando do túmulo você se
convenceria”

– Você é muito arrogante – eu disse – acha que sou burra e que só


você é sábia. Agradeço por ter me ajudado no passado, mas não preciso
mais de você. As pessoas só sabem me criticar. Saia do meu palácio.
Ela começou a escrever alguma coisa, mas eu derrubei o bloco de
suas mãos. A eremita apenas recolheu o bloco do chão, fez uma
reverência breve e retirou-se definitivamente do meu palácio.
Retornei sozinha para o quarto da lareira e falei as mesmas palavras
que Jezabel pronunciou naquele dia. Logo, a Fera apareceu para mim no
fogo. Contei todas as coisas ridículas que a eremita me disse.
– Eles só fingem ser humildes – disse a fera – pensam que só eles são
os detentores da verdade e todos os outros estão errados. Eles não
reconhecem sua sabedoria porque têm inveja de sua ousadia. Mas eu
vejo muita coragem e bravura em seu coração.
Lá estava alguém que sabia olhar para mim e não ver somente uma
pessoa indigna e impura. Ele me dizia que eu era pura, mesmo com
todos os meus defeitos. Que eu já era uma rainha gloriosa em vida,
repleta de beleza e poder.
Eu fui estúpida em manter amizade com pessoas que só me
conduziam à morte e que lembravam constantemente de todas as minhas
falhas. Isso era doentio.
Eu devia me aceitar como eu era. E daí que eu não fosse perfeita?
Por que eu precisava me punir por ser apenas humana?
Livrei-me do meu cilício. Parei de ir às celebrações religiosas, de ler
os Selos e rezar. Senti-me aliviada. Eu tinha muito mais tempo disponível
ao longo do dia para relaxar e glorificar o meu corpo da forma que ele
merecia.

304
Mártires Vermelhos

Passei a fazer refeições mais fartas. Por que eu precisava comer


apenas o mínimo para a sobrevivência? Eu não estava machucando
ninguém.
Comecei a comprar vinhos cada vez mais caros. Antes eu só bebia
álcool muito raramente. Mandei colocarem um colchão mais confortável
na minha cama. Exigi um travesseiro de penas. Fiz até mesmo visitas às
mesas de jogos de azar, para relaxar um pouco a cabeça e esquecer de
tudo.
Então aquilo se chamava liberdade. Eu tinha me livrado das correntes
e me sentia finalmente feliz.
– Você está quase alcançando poder pleno – me disse a fera – se fizer
uma última tarefa para mim, juro que te darei o mundo inteiro, minha
rainha.
– Essa tarefa vai me causar dor?
– Não, é claro que não. O nosso caminho é a exaltação do prazer. É
uma coisa bem simples. Você a cumprirá?
– Bem, vamos ouvi-la.
– Sua última tarefa será conhecer o seu irmão Augusto.
– Eu já o conheço bem – falei – éramos muito amigos no castelo de
Pérgamo, onde nascemos. E até hoje conversamos bastante.
– Eu quis dizer que vocês precisam se tornar uma só carne.
Fiquei chocada.
– O quê?! – perguntei – por quê?
– Isso é um problema? – perguntou a fera – como viúva, você já está
livre de seu voto com seu marido. Você sente receio por ele ser seu
irmão de sangue? Não sabe que no passado era muito comum casar
membros da mesma família entre si?
– Eu não vivo no passado. Vivo no presente. E independente de
convenções sociais, eu não sentiria prazer com isso. Acho que seria
nojento. Não tenho a menor vontade.
– Está bem. Então faça apenas uma felação nele. Está de acordo?
– É claro que não! Você está louco!
– De onde vem todo esse seu repúdio? – perguntou a fera – será que
você ainda segue secretamente os mandamentos do Imolado?
– Não – falei – só não vejo motivos de fazer algo que não me daria
prazer nenhum. Além disso, não quero dar razões adicionais a Jezabel

305
Wanju Duli

para que ela me mate. E até parece que Augusto concordaria com esse
absurdo!
– Nenhum dos dois saberá o que foi feito – prometeu a fera – eu
deixarei seu irmão bêbado e mandarei Jezabel para fora da cidade
momentaneamente.
– Nada feito – eu disse – não tem outra tarefa mais fácil para mim?
– Eu posso te propor outra em vez dessa. Mas será ainda mais
desafiadora. Eu quero que você vá até o Templo, roube as chaves do
jardim e traga para mim um fruto da Árvore da Vida.
– Eu ouvi dizer que o fruto da Árvore da Vida leva à morte –
comentei.
– Mentiras – disse a fera – você acredita mesmo no que aqueles
infelizes dizem? Eles só disseram isso para te manter longe do jardim.
Querem a imortalidade só para eles. São egoístas. Eles não merecem ser
imortais, mas você merece. Você é bela, sábia e corajosa. E então? Me
trará o fruto?
– Eu posso tentar – falei – mas não prometo que conseguirei.
– Está tudo bem. Eu não sou como aqueles imbecis que exigem
perfeição. Já ficarei satisfeito pelo seu esforço. Sei que dará o melhor de
si, minha rainha.
– Pode me dar alguns poderes para me ajudar a roubar a chave?
– Todos que você quiser, bela dama. Você fará um bem à
humanidade através desse ato nobre. Eles querem esconder os frutos da
árvore para dá-los somente a um pequeno número de suicidas
adoradores da morte que chamam de “eleitos”. Isso é uma grande
injustiça. Todos merecem imortalidade, até os pecadores. Você não acha
que merecemos ser iguais?
– É claro que sim – concordei – acho uma palhaçada todo esse
sistema de hierarquias que diferencia pessoas entre boas e más. Quer
dizer... o bem e o mal não são assim tão definidos, certo? Um bem maior
pode vir de um mal como esse. Dizem que roubar é errado, mas nesse
caso será justo.
– Raciocínio perfeito, como eu esperaria de Vossa Majestade.
Deixei o palácio e fui na direção do Templo. Usei poderes especiais
que a Fera me deu para localizar as chaves. Fiquei invisível e roubei-as.

306
Mártires Vermelhos

Ainda invisível, corri pelo caminho da floresta até achar o jardim


subterrâneo. Coloquei a chave na fechadura e empurrei suas pesadas
portas.
O jardim estava completamente deserto. Menos mal. Roubar aquele
fruto seria simples, assim como a Fera me disse.
É claro que eu estava nervosa. Meu coração batia muito forte.
Mesmo invisível, eu sabia que um ser de forte espiritualidade seria capaz
de me enxergar.
E lá no fundo eu tinha a sensação de que estava fazendo algo errado,
por mais belas que tenham sido as explicações. O meu coração não
concordava, embora minha razão se dobrasse.
Antes de roubar um fruto, ainda permaneci a contemplar aquela
belíssima árvore, com o coração pulsando no peito. Mas era melhor eu
me apressar. Podia chegar alguém.
Por fim, estendi a mão e arranquei um dos frutos. O cheiro era
maravilhoso e o brilho intenso. Quase me senti tentada a morder, mas eu
ainda tinha medo do que me disseram. Podia ser mesmo que aquilo
causasse minha morte imediata. Sendo assim, era melhor apenas guardá-
lo e levá-lo para a Fera.
Quando dei os primeiros passos para longe da árvore, algo aconteceu.
A árvore começou a secar pouco a pouco, até ficar completamente
negra. Todos os seus frutos secaram.
Eu fiquei apavorada. O céu do jardim se tornou escuro. Houve um
relâmpago e a partir dele contemplei um gálata de três cabeças que tirou
três espadas da boca.
Era ele. O gálata que causou a chuva e a morte em Tarsus. Assim que
o avistei, caí de joelhos no chão e tremi.
Ele caminhou até onde eu estava. Suas espadas eram como chamas
que se revolviam.
Aqueles olhos não eram desse mundo. Eram como ouro brilhante.
Três pares de olhos.
Ele me fitou com frieza. Aquilo me destruiu. Lágrimas correram de
meus olhos como um rio. Mas aquilo não era milagre nenhum. Apenas
meu desespero.
– Rainha Bibiana, serva do Dragão – pronunciou Galácia – maldita
sejas tu entre as mulheres. O que foi que tu fizeste?

307
Wanju Duli

Meti o rosto no chão e gritei:


– Eu sinto muito! Por favor, me perdoa! Estou arrependida. Eu fiz o
mal.
– Não sinto teu coração se rendendo. Ele tem outro Senhor agora.
– Eu renuncio ao Dragão! – berrei – amo somente o Cordeiro. Fui
tão tola! Desejo purificar meu espírito. Aceitarei qualquer redenção.
Vi outro gálata descer do céu naquele instante. Era o gálata que tinha
uma lança e perfurou meu coração com ela naquele lugar escuro do
castelo.
– Galácia, que Deus te abençoe – disse o gálata – a rainha provou do
fruto?
– Ela não o fez – respondeu Galácia – mas ela está impura. Não
poderia ter pisado neste lugar santo. O jardim deve ser destruído.
– Que assim seja – disse o outro gálata – rainha Bibiana, se valorizas
teu espírito deverás correr para fora do jardim nesse instante sem olhar
para trás. Se te virares apenas uma vez serás pó.
Eu desatei a correr. Não olhei para trás uma vez sequer.
Atravessei as pesadas portas e mesmo após atingir a floresta continuei
correndo.
Cheguei ao Templo e ainda corri. Saí do Templo e mesmo nas ruas
da cidade eu não me virei. Até que ouvi um enorme som de destruição.
Dessa vez eu olhei. Senti que já poderia. Um raio imenso atingiu o
Templo. Não somente o jardim, mas o Templo inteiro virou cinzas.
Avistei três gálatas no céu, com suas túnicas, asas e fogo. As pessoas
nas ruas corriam em desespero, achando que tinha chegado o Dia do
Juízo. Elas eram supersticiosas.
Ou será que tinha chegado mesmo o Dia do Juízo? Eu o teria
provocado? Eu, a esposa de um santo!
De repente, voei até o céu. Um imenso dragão vermelho me
abocanhou. Em sua cabeça estava Jezabel, vestida de púrpura e escarlate
e com joias de ouro.
– Você está atrasada... rainha – disse Jezabel, em tom sarcástico – me
dá esse fruto! Sabemos que nos traiu. Se não quer morrer agora, é
melhor me entregar o que pedi.
– Jamais! – exclamei.

308
Mártires Vermelhos

Eu não poderia entregar ao Dragão o fruto da Árvore da Vida.


Percebi isso naquele instante e não tive a menor dúvida.
– Então morra – disse o Dragão, forçando os dentes na minha carne.
Eu gritei. Mas antes que ele me esmagasse, um gálata desceu sobre
nós e furou os seis olhos do Dragão com sua foice afiada de ouro.
Dessa vez foi o Dragão que deu um berro horrível que foi ouvido em
todos os cantos do reino, de tão ensurdecedor.
O Dragão abriu a boca e me derrubou lá de cima.
Comecei a cair. Pensei que eu morreria, esmagada contra o concreto.
O medo que tomou conta de mim só não foi maior do que quando
avistei Galácia diante da Árvore da Vida.
Foi então que entendi porque o medo de perder o espírito era maior
que o de perder o corpo. Eu aceitei aquela morte horrível se aquilo
salvasse minha alma. E consegui, pela primeira vez, ofertar todo o
sofrimento da minha futura morte pelo Cordeiro.
Antes que eu fosse esmagada no chão, alguém me segurou nos seus
braços. Ele aterrissou levemente, ainda me segurando.
Era Rafael. Ele me olhava com ternura. Ao mesmo tempo, tinha no
rosto um ar inconfundível de profunda tristeza.
– Bibi... – ele disse – você estava certa sobre minha irmã. Eu devia ter
te ouvido.
– A culpa foi toda minha por ter lhe dado ouvidos – eu disse,
derramando lágrimas – estou arrependida. Ainda não estou pura para
passar pela morte.
– Mas não tão impura a ponto de perder o seu espírito para sempre –
disse Rafael – você se confessa para mim?
– Confesso – fechei os olhos.
Nos minutos seguintes, enquanto uma guerra terrível estourava lá em
cima com sangue e fogo, eu listei cada um dos erros que fiz. Arrependi-
me de tudo: de ter mandado a praga para Teresa, de ter matado tanta
gente em Pérgamo com minha chuva, ter dado ouvidos ao Dragão,
roubado a chave, roubado o fruto...
Eram muitas coisas. Parecia que aquilo não teria um fim. Mas eu
disse tudo que consegui lembrar e me arrependi sinceramente.
– Que Deus te perdoe, Bibi. Agora tu estás pura. Come este maná.

309
Wanju Duli

Ele colocou um pão sem fermento na minha boca. Depois disso,


furou o dedo, tocou na minha testa e pronunciou a Reza da Ascensão:
– Em nome do Cordeiro Imolado, eu te selo com o sangue do livro,
da lenda e do sacrifício. Que se abram as portas do céu. Que seu espírito
seja carregado pelos gálatas, pelo martírio do fogo.
Senti uma sensação horrível, como se eu morresse por dentro.
– Não posso morrer agora! – exclamei, em desespero – preciso me
mortificar por tudo que fiz, por muito tempo, para apagar tanto horror.
– Eu não quero te perder – disse Rafael, com tristeza – eu espiei o
futuro. Sei que não devo, mas foi um poder que recebi. Se você viver por
mais tempo, cairá no inferno.
– Eu cairei se morrer agora.
– Não cairá, porque eu te protegerei – disse Rafael – você confia em
mim?
– E como poderia ser diferente? – perguntei – você é minha luz e
minha alma.
– Então feche os olhos e acredite. Apenas seja forte. Você vai para
outro lugar, mas não será muito longe de mim. Peço que suporte a
espera com paciência e reze sem parar.
Mergulhei num sono profundo.
Quando acordei, eu estava numa espécie de campo aberto. Era pura
natureza.
Havia carneiros e ovelhas por toda parte. Eu estava deitada no chão,
sem conseguir me mover ou mexer o pescoço.
Parecia um sonho, mas era incrivelmente real. A sensação macia da
grama embaixo de mim era verdadeira.
Naquele momento, um pequeno cordeiro aproximou-se. Eu levei um
susto. Ele estava coberto de sangue e seus olhos eram vermelhos.
Nenhum ser humano poderá fitar o Cordeiro sem conhecer a morte.
Aquele que o fitar, morrerá.
Mas eu não podia mover o pescoço. Não conseguia fechar os olhos.
Os meus olhos e os dele se cruzaram. Ele tinha sete chifres e sete olhos.
Foi um misto de alegria com uma dor imensa. E só naquela breve
troca de olhares eu entendi tudo.
Senti meu corpo morrendo. Morrendo. Morrendo.
Era sofrimento misturado com felicidade. Paz misturada com guerra.

310
Mártires Vermelhos

Quando acordei outra vez, havia um gálata diante de mim com um


livro aberto.
– Eu te felicito, Bibiana – disse o gálata – porque seres piedosos
intercederam por ti. Tua estada aqui não será longa, mas deverá ser
suportada com paciência.
A maior dor para mim era estar separada de Rafael. Mas um dia eu
sabia que iríamos nos reencontrar.
– Essa tua marca na mão direita deverá ser queimada antes que tu
subas – avisou o gálata.
Não fiquei muito feliz de saber que eu iria perder a mão direita e que
eu mesma deveria arrancá-la. Mas eu aceitava perder a mão. Eu receberia
um novo corpo depois.
Não sei quanto tempo se passou, mas o maior sofrimento foi a
saudade. Eu estava separada das pessoas que eu amava.
Estava separada dele. Do Cordeiro. Aquele que vi e morri porque vi.
Tê-lo visto e ter que me separar dele foi um sofrimento maior do que
jamais tê-lo enxergado. Pelo menos assim minha fé crescia, mas pelo
preço de muita dor.
Aquela estada que não era longa parecia não ter fim. Talvez porque
minha tristeza fosse muito grande.
Mas aos poucos eu me purificava. Eu rezava para o santo Malaquias e
para o santo Melquisedec. Rezei também para Galácia e para os outros
gálatas que vi e cujo nome desconhecia.
Até o dia em que um gálata desceu por mim e construiu ao meu redor
um globo de fogo, para me proteger. Somente assim meu espírito seria
capaz de atravessar de um local para outro.
O gálata subiu como um cometa, me carregando nos braços. Vi
outros mundos no caminho. Infinitos mundos. Chorei de emoção.
A primeira a me receber quando cheguei foi uma moça bonita que
me parecia estranhamente familiar.
– Bem-vinda, Bibiana. Sou a Isabel. Por causa da tua intercessão eu
me libertei, então eu velei por ti.
Ainda desci para a terra para ver como estavam as coisas. Eu não vi
Jezabel em nenhum lugar e não sabia onde ela estava. Augusto estava
num cômodo do palácio dando aulas para três meninas e dois meninos.
Quando retornei, sentei-me com minha mãe para conversar.

311
Wanju Duli

– Achei que Teresa tinha tirado sua vida – eu disse a ela.


– Ela não fez nada assim – disse minha mãe.
Eu me precipitei. Eu fui estúpida. Sempre vi Teresa como um
monstro, quando o verdadeiro monstro era eu.
Mas aquilo era passado. Agora eu queria que Teresa ficasse bem e se
tornasse uma admirável rainha.
Eu simplesmente rezei por todas as pessoas que conheci em vida e de
vez em quando espiei o que ocorria.
Paula se casou com o filho de um barão. Sara tornou-se uma
sacerdotisa dourada. Apareci nas visões da eremita negra, que estava no
deserto, para lhe pedir perdão pessoalmente.
E eu tive que escutar dezenas de vezes o “eu avisei” de Jeremias e
Rafael.
– Eu tenho uma nova piada – disse Rafael – um gálata e um servo do
Dragão estão diante de uma fogueira. Ali perto tem um herege com um
livro herege. O que o gálata e o servo do Dragão dizem a ele?
– Eu conheço essa piada – disse Jeremias, revirando os olhos – ela
não é nova coisa nenhuma, Melquisedec.
– Então não conta o final! – exclamou Rafael, empolgado – o servo
do Dragão diz: “muito bem, seu herege. Continue lendo seu livro
herege”. O gálata diz: “zap!”
– O quê? – perguntei.
– O “zap” significa que o gálata matou o herege com um raio – disse
Jeremias – eu sei. É horrível, não é?
– E o que raios a fogueira estava fazendo no meio da piada? –
perguntei.
– Não sei – disse Rafael – eu gosto de fogueiras, então sempre dou
um jeito de inventar piadas com elas, mesmo que a fogueira não tenha
participação. Ela deve estar lá. Pena que fui esquartejado em vez de ser
queimado vivo. Você gostou das minhas relíquias?
– Sim, guardei sua cabeça no meu quarto – contei – onde foram parar
suas relíquias, Jeremias? Elas sumiram quando Galácia apareceu e matou
todo mundo.
– Não sei – disse Jeremias – esqueçam as relíquias! Quem precisa
delas? Basta confiar no Cordeiro.

312
Mártires Vermelhos

– Estou com saudades do meu cilício – disse Rafael – pena que já


estou no céu e não preciso mais dele.
Olhei para os lados e sussurrei para Rafael, colocando um objeto de
metal em sua mão.
– Eu roubei do purgatório para você.
– Que feio, Bibi! Mas você se confessou depois, não é?
– Sssshhhh!!

FIM

313