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CRÍTICA

A irresistível devassa do privado


ISABEL LUCAS  01/02/2016 ­ 10:54

A Ilha da Infância, terceiro volume de A Minha Luta, do norueguês
Karl Ove Knausgård, é mais uma compulsiva digressão pelo banal e pelo
interdito que transforma cada leitor em cúmplice e imagem reflectida
num espelho tão incómodo como belo.

Literatura  A Ilha da Infância (A Minha Luta 3)      

Karl Ove Knausgård: escutar o “ouvido absoluto da memória” BERND VON
JUTRCZENKA/DPA/CORBIS

Uma das afirmações mais repetidas para falar da obra do escritor
norueguês Karl Ove Knausgård (Oslo, 1968) é a de que representa um
dos mais originais e arriscados projectos literários. A Minha Luta,
iniciada com a publicação de A Morte do Pai (Relógio d’Água, 2014), é
uma memória ficcionada em seis volumes — um total de 3500 páginas na
versão original ­­ que desafia muitas regras — éticas, inclusive –, narrada
num tom realista e onde o seu autor se expõe, e aos que o rodeiam, sem
qualquer espécie de complacência. A sua única preocupação parece ser a
de escutar o que chama de “ouvido absoluto da memória”, sabendo que
esse absoluto é feito de muitas derivas, inexactidões factuais, excessos,
invenção, num processo que é em simultâneo de grande exibição e de
reconstituição­reconstrução pessoal.

A luta de Karl Ove Knausgård é a do confronto com a sua própria
existência que, comparada com tantas outras, é de algum modo banal, e
de, no fim, resistir. O seu maior feito até aos 40 anos, quando começou a
escrever­se a um ritmo de 20 páginas diárias, foi a empreitada de se
olhar de modo obsessivo e confrontar­se com essa sua banalidade. Os
seis volumes de A Minha Luta são o resultado desse cotejo onde cada
leitor, homem ou mulher, pode encontrar pontos de contacto e uma
cumplicidade que explica muito do sucesso que a obra está a alcançar
desde que começou a ser editada na Noruega, em 2009, e transformou o
seu autor num dos nomes mais comentados da literatura mundial.

A Ilha da Infância, terceiro volume de A
Minha Luta, conheceu recentemente edição
em Portugal, depois de A Morte do Pai, o
primeiro, e de Um Homem Apaixonado, o
segundo, está a acontecer por cá algo
semelhante ao que se passa um pouco por
todos os países onde os livros estão ser
traduzidos: os leitores dividem­se entre os
que se deixam arrebatar e os que sentem
aversão. A meia medida, ou o gosto morno,
não se ajusta a A Minha Luta.
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A Ilha da Infância (A Estamos na infância de Karl Ove ­ ou
Minha Luta 3) melhor, de um rapaz que o adulto Karl Ove
Actor(es):Karl Ove
recria ­­ quando se muda de Oslo com os
Knausgård
Trad. Miguel Serras pais e o irmão mais velho para a ilha de
Pereira Tromøya, no sul da Noruega. Foi em 1969,
Relógio d’Água ainda não tinha um ano. Era uma ilha em
Ler excerto
construção, como a sua família, um pai
(//static.publico.pt/files/Ipsilon/2016­
01­ professor de norueguês e uma mãe
29/AIlhadaInfancia_excerto.pdf)enfermeira, os dois com pouco mais de vinte
anos. O pequeno Karl Ove via­se por
comparação, entre o seu mundo íntimo,
doméstico, privado e, por exemplo, o dos operários. “A mim, o que me
fascinava nos operários — além da mudança que a sua presença
introduzia na paisagem — eram os sinais da sua vida privada que os
acompanhavam. Esse momento, por exemplo, em que tiravam um pente
do bolso do fato­macaco cor de laranja ou das calças azuis largas e
amarrotadas e penteavam o cabelo…” É um território que cruza o escutar
por detrás das portas e o ver através das cortinas com a sensação do
mergulho em águas profundas, estar numa colina a olhar o mar, entrar
num quarto ou tentar entender um país no seu tempo, uma atmosfera
que tem como auxiliares para essa compreensão, a música, a literatura, o
deporto ou o simples preparar de uma refeição, todas etapas de uma
rotina em que cada ser humano se constrói e define. Os mais
escatológicos e os sublimes, numa linguagem que parece ajustar­se a
isso, ora descuidada — ou aparentemente descuidada –, ora de uma
beleza comovente. Como se se sentisse uma respiração interior que vai do
êxtase ao arrastar que acompanha o tédio. E sempre a necessidade de se
ver em relação a. Ao outro, ao mundo. E não esquecer uma lição de vida
para, ao evocá­la, corromper.

Como esta. O dia em que a professora chamou de parte Karl Ove, então
com seis anos, para o advertir. “Não podemos dizer tudo o que sabemos
das outras pessoas.” No meio da classe, ele dissera que o pai de uma
colega tinha chegado bêbado a casa na noite anterior. “Há uma coisa que
se chama vida privada — continuou ela — sabes o que é a vida privada?”
Ele não sabia. “É tudo o que se passa nas nossas casas, na tua, na minha,
na de toda a gente. Nem sempre é bom contar às outras pessoas aquilo
que vimos noutras casas. Estás a compreender?” A resposta foi um gesto.
“Fiz que sim com a cabeça.”

A Minha Luta é o resultado de contar tudo o que viu — sem muito
respeito pela cronologia, já que a memória se apresenta fragmentada ­
não apenas na sua casa mas em todas as casas de todas as pessoas que
Karl Ove Knausgård encontrou na sua vida. Visto assim, pode soar a
devassa. Talvez seja, e isso fará então de cada um dos seus leitores um
voyeur. Talvez sim. Haverá isso tudo, mas não é só isso. Parte da família
e dos amigos rompeu com o escritor neste processo que é o de mergulhar
— e a metáfora é ajustada a uma das actividades que a criança que aqui
se conhece mais admira — ao seu próprio íntimo, custasse o que custasse.
Podia ter­lhe custado a destruição. Ele diz que se salvou neste desafio
obsessivo. E cada leitor — o que embarca com ele neste risco — sente­se
cúmplice dessa intimidade, uma conquista do escritor que, cruzando
memória e ficção, também se constrói como personagem, num ‘eu’ real e
ficcional, um Knausgård autor e protagonista, em que muitas vezes paira
apenas como uma espécie de sombra de um outro ‘eu’ que é o leitor a ler­
se a si mesmo.
  

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