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Revista Eletrônica Theologia 1

Faculdade Palotina - FAPAS

COMPARAÇÃO SINÓTICA E EXEGESE DE


MATEUS 10, 1-4 E MARCOS 3, 13-19

Aodomar José Wandscher1


Jonison Mallmann2
Mário Benachio Auzani3
RESUMO
Pretende-se, neste artigo, apresentar uma comparação sinótica entre as perícopes de Mt
10,1-4 e Mc 3,13-19, passagens onde Jesus forma o grupo dos doze apóstolos, e
desenvolver uma exegese que colabore para uma maior compreensão dos termos
utilizados, bem como da mensagem que o texto quer transmitir. A relevância do mesmo
consiste em esclarecer para os atuais seguidores a que Jesus convida, a fim de ressaltar o
chamado que ele faz para pessoas tão diversas e, ao mesmo tempo, o processo de
formação e convivência que estabelece com esses discípulos. No desenvolvimento dessa
temática estabelecer-se-á a comparação entre os textos sinóticos, analisando a unidade
literária de ambos os textos. Após, será apresentada uma exegese, que aprofundará as
expressões usadas pelos evangelistas e atualizará a todos aqueles que nos tempos
hodiernos ouvem o convite de Jesus, que chama para junto de si e envia para a missão.
PALAVRAS-CHAVES: Jesus; Chamado; Discipulado; Missão.

INTRODUÇÃO

A perspectiva para aqueles que são chamados por Jesus é a formação de


comunidades de discípulos, nas quais os mesmos assumem, em seu tempo e lugar, o
chamado. A partir dessa nucleação, os apóstolos poderão conviver mais intimamente
com o Mestre, sendo formados e recebendo o envio missionário do próprio Jesus.
Visto a importância da passagem bíblica que marca a escolha dos apóstolos para
todos aqueles que seguiram e continuam a responder ao chamado de Jesus, o seguinte
estudo se propõe a estabelecer a comparação sinótica entre os textos de Mateus e
Marcos, onde Jesus institui o grupo dos doze apóstolos.

1
Acadêmico do III semestre de Teologia da FAPAS.
2
Acadêmico do III semestre de Teologia da FAPAS.
3
Acadêmico do VI semestre de Teologia da FAPAS.

THEOLOGIA Ano 2009, Volume 3, No. 1


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Primeiramente, se apresentará a comparação entre Mt 10,1-4 e Mc 3,13-19,


analisando sinoticamente ambos os textos, apontando as referidas diferenças entre os
escritos dos evangelistas. Num segundo momento, se responderá a questão de a perícope
ser ou não uma unidade. Para responder a essa dúvida se recorrerá às perícopes
anteriores e posteriores aos textos em questão.
Por fim, será feita uma exegese de ambos os textos, buscando compreender mais
detalhadamente o significado dos termos utilizados pelos evangelistas, bem como das
ações e contextos vivenciados por Jesus e os apóstolos.

1 COMPARAÇÃO TEXTUAL SINÓTICA

A seguinte pesquisa abordará a comparação sinótica da perícope do chamado de


Jesus aos doze discípulos entre os evangelhos de Marcos e Mateus. Os textos a seguir
constam na Sinopse dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas e da “Fonte Q”, de
Johan Konings.

MATEUS 10,1-4 MARCOS 3,13-19

¹E tendo chamado a si os doze discípulos, ³Filipe e Bartolomeu;


deu-lhes exusia sobre {os} espíritos Tomé e Mateus, o publicano;
impuros a fim de expulsá-los e curar toda Tiago, o {filho} de Alfeu, e Tadeu;
4
doença e toda enfermidade. Simão, o cananeu,
²Os nomes dos doze apóstolos são estes: e Judas, o Iscariotes, o que (também) o
primeiro, Simão, chamado Pedro, traiu.
e André, seu irmão ¹³E sobe ao monte e chama a si os que ele
e Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu queria; e foram-se até ele.
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irmão; E fez doze [que também denominou

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apóstolos], para que estivessem com ele e significa filhos do trovão;
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para que os enviasse a proclamar e André,
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e a ter exusia de expulsar os demônios. e Filipe, e Bartolomeu,
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[E fez os doze] e Mateus, e Tomé,
e pôs nome a Simão: Pedro; e Tiago, o {filho} de Alfeu, e Tadeu,
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e Tiago, o {filho} de Zebedeu, e João, o e Simão, o cananeu,
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irmão de Tiago e Judas Iscariot, o que (também) o traiu.
e pôs-lhe o[s] nome [s] de Boanerges, que

1.1 Análise Sinótica

O evangelista Marcos descreve o local no qual irá dar-se o chamado de Jesus aos
discípulos: ao subir a montanha (Mc 3,13). Mateus, no entanto, não descreve local e
relata unicamente que Jesus chamou os doze discípulos, em contrapartida que Marcos
salienta que Ele chamou aqueles a quem queria (Mc 3,13).
Os dois evangelistas atestam que Jesus confere aos discípulos a exusia, isto é, a
autoridade que é designada por um mandato legitimado por Deus (cf. LACOSTE, 2004,
p.220). Dessa forma, eles receberam a exousia para expulsarem demônios, porém
Marcos evidencia o convite de Jesus aos discípulos para que estivessem com Ele e o
envio para proclamar (Mc 3,14) enquanto Mateus acentua a possibilidade de curar toda
doença e toda enfermidade (Mt 10,1).
Na enumeração dos nomes dos discípulos, Marcos apresenta Jesus como o que
“fez” ou constituiu o grupo dos doze (Mc 3,14), ou seja, uma ação de Jesus. Já Mateus
apresenta o nome dos doze apóstolos de forma descritiva: “os nomes dos doze apóstolos
são estes” (Mt 10,2).
Ao enumerar cada nome dos discípulos escolhidos por Jesus, Marcos salienta os
nomes postos a Simão, Pedro, e a Tiago e João, Boanerges, e seqüencia os nomes na
seguinte ordem: Simão, Tiago, João, André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago,
Tadeu, Simão o zelota e Judas Iscariot (Mc 3,16-19). Chama atenção o fato de Marcos
preocupar-se em esclarecer o significado do nome Boanerges dado a João e Tiago.

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Mateus, ao descrever quem eram os doze apóstolos, designa-os em duplas, a começar


pelos irmãos Simão e André; Tiago e João (também irmãos); Filipe e Bartolomeu; Tomé
e Mateus, o publicano; Tiago e Tadeu; Simão o zelota e Judas Iscariotes (Mt 10,2-4).
Nota-se que o Evangelho de Mateus emprega o aposto publicano ao citar o nome de
Mateus na lista apostólica.

2 A PERÍCOPE É UMA UNIDADE?

2.1 Mc 3,13-19

Ao analisar as perícopes sinóticas do chamado de Jesus aos doze discípulos,


percebe-se que Mc 3,13-19 apresenta uma unidade literária na medida em que descreve
um novo local em que os personagens passam a estar, o monte, e uma nova atitude de
Jesus, o qual chama os apóstolos. Portanto, há uma clara distinção da perícope anterior e
posterior a Mc 3,13-19.

2.1.1 Perícope Anterior

A perícope anterior é Mc 3,7-12 em que Jesus, com os seus discípulos, se retiram


para o mar e são seguidos por uma numerosa multidão (Mc 3,7). Sendo assim, é pedido
que disponibilizem um barquinho por causa da concentração de pessoas (Mc 3,9). Após,
Jesus cura muitos e os espíritos imundos reconheciam-No como filho de Deus, fato que
Jesus advertia para que não fosse tornado público (Mc 3,10-12).
Assim, a perícope anterior de Mc 3,7-12 apresenta uma unidade autônoma em
relação Mc 3,13-19, pois se dá em um local diferente, o mar, e com um grupo maior de
pessoas, a multidão.

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2.1.2 Perícope Posterior

A perícope posterior a Mc 3,13-19 é Mc 3,20-21 em que Jesus vai para casa e a


multidão, mais uma vez, o acompanha (Mc 3,20). A sua família saiu para segurá-lo, pois
diziam que Ele estava fora de si (Mc 3,21).
Vê-se, dessa forma, que a perícope posterior apresenta um outro contexto, pois
Jesus está em casa e com os membros de sua família. Portanto, outro local e outros
personagens são narrados, além ser outro contexto vivenciado por Jesus.

2.2 Mt 10, 1-4

Esta perícope é uma unidade literária. O assunto é completo, mesmo que o tema
seja uma seqüência entre as passagens que antecedem e sucedem o texto de Mt 10,1-4. O
lugar em que ocorrem os respectivos acontecimentos é o mesmo, os envolvidos nas
perícopes é o grupo de discípulos que acompanha Jesus.

2.2.1 Perícope Anterior

A perícope anterior é Mt 9,35-38 em que Jesus, ao percorrer inúmeras cidades e


povoados, ensina e proclama o evangelho do reino, curando toda doença e toda
enfermidade (Mt 9,35), e percebe que aquelas turbas estavam como ovelhas que não tem
pastor (Mt 9,36). Assim, declara aos discípulos que a colheita é grande e os operários
são poucos (Mt 9,37).
Nesse contexto de sensibilidade de Jesus ao ver a grande quantia de pessoas que
precisavam de um pastor para apascentá-las é que se sucede o chamado dos doze e a
exusia dada a eles (Mt 10,1).

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2.2.2 Perícope Posterior

A perícope posterior a Mt 10,1-4 se trata do envio dos doze discípulos por Jesus,
texto situado em Mt 10,5-16. Trata-se de uma série de recomendações, em que Jesus
exorta como os discípulos devem se comportar ao enunciar a chegada do reino dos Céus
(Mt 10,7).
Sendo assim, Mt 10,5-16 se mostra como seqüencial à escolha dos discípulos,
pois na medida em que foram descritos os nomes dos doze apóstolos, Jesus com o
mesmo grupo e no mesmo local da perícope anterior, ensina mais especificamente como
deve ser realizada a missão que lhes incumbiu.

3 EXEGESE DOS TEXTOS SINÓTICOS

3.1 Exegese de Mateus 10, 1-4

Analisando a perícope anterior a Mt 10, 1-4, percebe-se que este capítulo é a


confirmação lógica do anterior, cujo final prepara para Jesus que, em sua caminhada
missionária, viu as multidões, “compadeceu-se delas, porque estavam aflitos e exaustos,
como ovelhas não tendo pastor” (Mt 9,36). Jesus também afirmou que “a colheita é
grande, os operários, porém, poucos. Suplicai, pois, ao Senhor da colheita que faça sair
operários à sua colheita!” (Mt 9,37-38), mostrando, assim, o curto tempo de sua vida
pública perante as exigências do anúncio do Reino de Deus.
Jesus dá aos discípulos a exusia sobre os espíritos impuros e a possibilidade de
curar toda enfermidade (cf. Mt 10,1), mesmas expressões usadas em Mt 9,35 para
descrever os poderes de Jesus, demonstrando que os apóstolos recebem a mesma missão
de Cristo, sendo igual em tudo ao Mestre, o prolongamento de seus braços.
Diferentemente de Marcos, Mateus não nos dá uma narração da escolha dos
doze, mas a pressupõe e traz apenas a lista de seus nomes, que serve como introdução ao

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discurso do envio para a missão. Isso porque a palavra "apóstolo" significa mensageiro
ou enviado e é muito usada nos escritos apostólicos e no Evangelho de Lucas, porém
utilizada uma única vez nos outros três Evangelhos (cf. LANCELLOTTI, 1980, p.102).
O que chama atenção no trabalho sinótico dos dois textos, tanto o de Marcos
como o de Mateus, é o nome que encabeça as duas listas de apóstolos, sendo que a
ordem dos outros apóstolos descritos, por vezes, se altera. A que se devem as
divergências e coincidências dos dois textos?
Na lista apostólica de Mateus todos os apóstolos aparecem unidos pela conjunção
“e”. Marcos não os descreve em duplas neste texto, sendo que, posteriormente, afirma
que Jesus chamou os doze e começou a enviá-los dois a dois (cf. BAC, 1964, p.230).
Percebe-se aí a influência dos destinatários sobre o texto de Mateus, que escreve para os
judeus, sociedade que alega a importância de haver duas testemunhas para os
acontecimentos relatados.
No começo das duas listas apostólicas figura o nome de Simão Pedro: “os nomes
dos doze apóstolos são estes: primeiro, Simão, chamado Pedro” (Mt 10,2). Neste
versículo chama atenção a expressão “primeiro”, o que “sería absolutamente innecesaria
al principio de uma lista de nombres sin que sigan otros ordinales para los siguientes
componentes” (BAC, 1964, p.230). Assim, este versículo corrobora com a passagem em
que Mateus narra a promessa de Jesus a Pedro como Pontífice máximo da Igreja.
Outro ponto nevrálgico desta perícope é a ênfase que se dá ao número apostólico
dos doze, cujo os nomes foram chamados por Jesus. O número doze é simbolicamente
bíblico e utilizado constantemente na Sagrada Escritura. Alude ao número dos doze
patriarcas e das doze tribos de Israel. Os discípulos são os chefes do novo Israel que
Jesus fundava. É tão sagrado e intencional o uso deste número, que depois da traição e
morte de Judas, Pedro achou por bem completá-lo, recaindo a sorte sobre Matias (cf.
BAC, 1964, p.231).
Trilling descreve o grupo divergente e variado que Jesus chamou:

Os nomes dos apóstolos nos permitem algumas conclusões


sobre a composição de seu círculo. Nomes gregos se alinham ao

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lado de nomes judaicos; os seus portadores são oriundos de


várias regiões da Palestina; simples pescadores estão ao lado de
um representante do partido dos zelotas (Simão, o Cananeu) e
de discípulos de João Batista (Tiago e João). É uma mescla
bastante variada essa que Jesus reúne em torno de si, uma
seqüela não muito dócil, não muito cômoda, nem, muito menos,
de aduladores e hipócritas (1966, p.233).

Apesar de todas as dificuldades que Jesus teve com eles, depois que se tinham
sinceramente convertido, enviou-lhes o Espírito Santo e transformaram-se em
testemunhas dispostos a morrer por suas convicções e em colunas sobre cujo
fundamento se erigiu a Igreja.
Simão é chamado de Pedro. A troca do nome que Jesus lhe deu é reflexo do uso
que se foi fazendo em função da nova dignidade que Pedro teria. A intenção especial
que teria Jesus ao mudar o nome de Simão para Pedro é justificado em função de sua
primazia (cf. BAC, 1964, p.231). Seria, dessa forma, um adiantamento do momento
histórico que vai se dar posteriormente, no qual Jesus faz a promessa do pontificado (Mt
16,18).
Ao listar os apóstolos João e Tiago, Marcos descreve que Jesus colocou-lhes o
nome de Boanerges, que quer dizer filhos do trovão (Mc 3,17). Nesse nome não se nota
a mesma transcendência que possui o nome Pedro. Prova da intenção distinta que Jesus
teve ao alterar o nome de Simão. Revela também uma característica popular e usual em
ambiente palestino: o uso de sobrenomes ou cognomes (cf. BAC, 1964, p.231).
Porém, Marcos, ao escrever direcionando seu evangelho para os cristãos de
origem pagã, precisa elucidar o significado das palavras de uso comum para o mundo
judaico, mas desconhecidas às nações vizinhas. Por isso, Marcos explica, com um
aposto, a palavra "boanerges" como “filhos do trovão”, pois esse sobrenome trata de
caracterizar o comportamento ardente de ambos os apóstolos.
Outros apostos explicam algo sobre os apóstolos Mateus, Simão e Judas. Mateus
é chamado de publicano (Mt 10,4), explicação contida unicamente na lista apostólica de
Mateus, que quer designar sua profissão de cobrador de impostos, se referindo à

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narração do seguimento de Mateus, encontrado em Mt 9,9 (cf. LANCELLOTTI, 1980,


p.103).
Quanto à Simão, o cananeu, recebeu este epíteto para diferenciá-lo de Simão
Pedro, pois o nome Simão era muito freqüente (cf. BAC, 1964, p.236). Segundo Born, o
sentido de cananeu não advém por Simão ser natural do país dos cananeus, mas por
pertencer ao grupo nacionalista dos Zelotes. Provavelmente este adjetivo pretende
recordar a antiga pertença de Simão ao partido dos fanáticos zelotes, grupo que agiu,
sobretudo na revolta judaica (60-70), não apenas contra os romanos, mas em relação a
todos os patrícios que lhes desagradavam (1971, p.1579).
Por fim, várias são as interpretações que se podem dar a Iscariotes, o aposto de
Judas. Uma hipótese, segundo Lancellotti, é o termo ser compreendido a partir da
tradução grega do hebraico, que quer dizer "homem de Qariot", uma das cidades de Judá
elencadas no Antigo Testamento (Js 15,25) (1980, p.103). Outra possibilidade é que
Iscariotes designaria uma transcrição semítica do latim sicarius, o equivalente a zelotes,
aqueles que se opunham fanaticamente à dominação romana.
Após explicar mais detalhadamente alguns termos encontrados no texto da
constituição dos doze apóstolos em Mateus, passar-se-á a uma análise do texto referente
a Marcos.

3.2 Exegese de Marcos 3,13-19

A fase oficial de instruções ao grupo de Jesus, sua nova família, é consagrada no


estilo de Moisés no monte Sinai, revestido de plenitude, de poder e autoridade: ele “sobe
ao monte” (Mc 3,13). Dessa forma, Jesus sobe ao monte a fim de repetir e superar a
subida de Moisés ao Sinai (Ex 19,3) e em outras ocasiões deste Evangelho ele sobe à
montanha novamente, assim como consta em Mc 6,46 e 9,2.
Essa atitude de Jesus traz consigo um significado profundo, uma vez que

O gesto de Jesus subir à montanha manifesta sua superioridade,


não apenas em relação aos mestres em Israel, mas também sua

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superioridade em relação a Moisés. Seu discurso e sua


plataforma de governo estarão superando a tradição mosaica e
inaugurando uma nova fase da manifestação de Deus no
universo: O filho unigênito anuncia a vontade do Pai
(MAZZAROLO, 2003, p.831).

Sendo assim, Moisés foi ao monte buscar as tábuas da lei, pois lá existe uma
realidade suprema e perfeita, cujo povo imperfeito e mortal deve manter-se afastado. No
entanto, Jesus ao chamar “a si os que ele queria” (Mc 3,13) anuncia a Boa-Nova que
contém uma nova visão, uma pedagogia que inclui e dignifica. Ele sobe ao monte com
seu grupo e lhe confere “exusia de expulsar os demônios” (Mc 3,15). Ou seja, a
autoridade é dada no monte, lugar mais próximo de Deus, onde Jesus, conhecedor desse
significado, modifica a Lei antiga e instaura a possibilidade do Reino de Deus, que
possui novas coordenadas para o intento missionário e uma inovação no relacionamento
com o Pai e com os irmãos.
Destarte, a novidade do Reino é explicita na forma como Jesus convoca os doze,
pois “Ele não era como um rabino tradicional. Estava ali como alguém muito maior, pois
ensinava com autoridade (...) Jesus mostra-se superior, um sábio diferente”
(MAZZAROLO, 2003, p.832).
De fato, quando Jesus “chama a si os que ele queria” (Mc 3,13), o significado de
chamar a si, não tem unicamente o sentido de expressar uma convocação, mas representa
uma interdependência entre as pessoas convocadas e aquele que as convoca. Como situa
Mazzarolo, o “uso do verbo proskaleomai torna-se uma marca distinta no estilo de
Marcos e revela uma das faces importantes da sua obra, ao traduzir a relação entre Jesus
e os seus discípulos ou entre a soberania de Jesus e de todas as multidões”
(MAZZAROLO, 2003, p.832). Dessa forma, os convocados passam a estar ao redor de
Jesus, direcionando para ele suas atenções, havendo uma dinâmica do falar e escutar,
ensinar e praticar, de dar e receber orientações. Está estabelecida uma relação de
proximidade, convivência e conhecimento.
Jesus chama os convocados para constituir um vínculo especial com ele,
colocando-os numa posição privilegiada por terem sido desejados a fazer parte do grupo

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dos eleitos. Jesus chama aqueles “que ele queria” (Mc 3,13), pois não dependia do
sistema judaico para convocar o seu grupo, não estava atrelado às normas do judaísmo.
O chamado “se dá na Galiléia, em uma montanha, e expressa numericamente o
simbolismo do novo Israel, cuja libertação e salvação se daria não a partir de Jerusalém,
mas da Galiléia (...) caminho construído juntamente com pessoas impuras e pecadoras”
(ZABATIERO, 2006, p.79). Dessa forma, se Jesus tivesse seguido as leis judaicas,
muitos amigos não teriam convivido com ele.
Além disso, ao chamar “os que ele queria” (Mc 3,13), Jesus confirma a plena
autoridade que ele irá exercer sobre os discípulos, delegando-lhes uma missão a ser
cumprida de maneira livre e responsável por cada um deles. A narração de Marcos é
expressa de forma resumida, o que poderia transparecer uma ação pouco refletida de
Jesus ao convocar os doze. No entanto, percebe-se a profundidade dos termos que usa
para expressar esse chamado.
Quando o evangelista cita que “Ele fez os doze” (Mc 3,14), o valor simbólico
desta constatação leva a entender que, depois de escolhidos, os discípulos formaram uma
comunidade de seguidores do Mestre Jesus. Segundo Mazzarolo,

o verbo fazer (poieô) é bastante usado no sentido de


transformar, tornar algo próprio para outra finalidade (...) No
tempo do discipulado eles foram ouvindo as instruções, os
ensinamentos e as orientações para o tempo de missão. A
formação exigiu um processo de redimensionamento dos seus
conceitos (2003, p.835).

Sendo assim, Jesus formou homens novos, conscientizando-os sobre suas


práticas perante a vida, a sociedade e a religião. Os fez olhar diferentemente para a
realidade a fim de assumirem a missão com a mesma autoridade que tinha Jesus sobre os
espíritos impuros.
Aos doze escolhidos, Jesus “denominou apóstolos” (Mc 3,14), pois os judeus ao
denominar os seres procuravam exprimir sua identidade. Considerando que “o termo
apóstolo é uma palavra grega que significa ‘mensageiro’, ‘enviado’” (LANCELLOTTI,

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1980, p.102), Jesus não troca o nome pessoal deles, mas lhe incumbe uma função. A
função que cada um exercia na família e na sociedade agora mudou: de seguidores eles
passaram a ser arautos do Evangelho de Cristo.
A finalidade da convocação de Jesus é “para que estivessem com ele” (Mc 3,14).
Esta é uma forte exigência feita para aqueles que se tornariam apóstolos de Jesus: estar
com Jesus para conhecer seus projetos e aspirações de um novo Reino. Antes de tudo, o
estar com alguém, reflete uma necessidade do ser humano de viver junto com os outros,
conviver estabelecendo aprendizados mútuos. Sendo assim,

a vida ativa necessita da presença e da interação com o outro.


Jesus não convocou os Doze para que cada um continuasse igual
a antes, dentro de seus intentos e projetos individuais, mas para
formar uma comunidade. Estar com ele no tempo da instrução
poderia significar a capacidade e a força de estar com ele
também no testemunho e na dificuldade (MAZZAROLO, 2003,
p.837).

Depois que estivessem com Jesus, os discípulos seriam enviados “a proclamar e


a ter exusia de expulsar os demônios” (Mc 3,15), ou seja, convivendo em comunidade
com Jesus é que eles receberiam o envio para a missão. Estar com Jesus é requisito
essencial para ser enviado, pois na medida em que os apóstolos estivessem educados na
“escola de Jesus” estariam aptos para receber a missão. Tarefa essa que inclui proclamar
para outras pessoas e povos os ensinamentos do Mestre, pois o próprio Mestre lhes dará
autoridade para que isso seja realizado.
A autoridade (exusia) é o poder de Deus que se vale dos homens para a expulsão
dos demônios. Jesus quer partilhar sua missão com seus apóstolos, exigindo deles um
envolvimento de corpo e espírito na vontade do Pai. A missão de expulsar demônios não
se refere só a tarefa de exorcizar, pois

a autoridade de expulsar demônios incluía também ser capaz de


impor um novo conceito sobre jejum (Mc 2,18-22) ou dar
liberdade de fazer coisas simples, sem escrúpulos em relação á
tradição, mesmo sendo dia de sábado (Mc 2,23-28), visto que o

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Filho do Homem é Senhor também no sábado (MAZZAROLO,


2003, p.839).

O verbo ekballein, usado em Mc 3,15, é referente à expulsão de demônios e quer


dizer "jogar fora", "expulsar", "expelir". A missão de Jesus e dos apóstolos é expulsar os
representantes das ideologias de ódio e de violência, que não são pertencentes ao Reino
de Deus. Sendo assim, expulsar demônios representa afastar do caminho todos os
obstáculos ao Reino. Nessa perspectiva, "uma doença não era um demônio, mas podia
ser resultado de um espírito impuro, de uma ação perversa que originava sua desgraça. O
demônio pode não estar diretamente envolvido, mas pode estar atuando através de outra
pessoa ou de outro instrumento" (MAZZAROLO, 2003, p. 840).
Nesta análise da perícope de Marcos não se aprofundarão os significados de
alguns nomes dos apóstolos, tendo em vista que trabalho semelhante já foi empreendido
no comentário exegético ao texto de Mateus.
Sendo assim, nestas perícopes evidenciam-se a missão que Jesus encarrega aos
apóstolos e a instituição daqueles que serão responsáveis pelo anúncio da Salvação.
Jesus escolhe pessoas pouco consideradas pelo sistema político e religioso da época,
porém convida aqueles que verdadeiramente se converteram e posteriormente se
transformarão em testemunhas fiéis, ao ponto de entregar suas vidas por causa da
proclamação da Boa-Nova do Reino de Deus.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O chamado que Jesus fez aos doze apóstolos nos textos sinóticos analisados neste
trabalho, continua sendo feito a cada um dos seguidores que aderem à fé em Cristo. Ele
convida aos vocacionados para subirem o monte, deixando de lado as “baixadas”
contrárias à construção do Reino de Deus, e a manter um relacionamento íntimo com sua
pessoa, ouvindo e respondendo fielmente à missão a que Ele confia.
A escolha dos doze é um sinal profético de que Jesus está disposto a formar uma

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comunidade que representa o novo Povo de Deus, a qual Jesus quer reunir e aperfeiçoá-
los para a missão. Jesus não escolhe os fariseus ou mestres da lei, mas um grupo
diversificado, de excluídos, explorados socialmente e pecadores públicos, que se
converteram ao serem chamados por Jesus.
Os apóstolos deixaram seus barcos, seus futuros, suas expectativas para seguir
Jesus. Receberam novos nomes e com esses uma missão a que foram incumbidos de
realizar. Entre as incumbências que Jesus delega aos apóstolos não está a de governar e
dominar, tendo em vista que a missão dada por Ele é ampla e confiada também a todos
os futuros seguidores que o servirão. Assim, discípulo é todo aquele que assume a
missão que Jesus revela, fruto de uma convivência íntima com o Senhor e de uma
formação conjunta com os outros seguidores, que estão a serviço e comprometidos com
a construção do Reino de Deus.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

BÍBLIA. Espanhol. Bíblia Comentada. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos


(BAC), 1964, v.V (Evangelios).
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TRILLING, Wolfgang. O Evangelho Segundo Mateus. Trad. Edmundo Binder.

THEOLOGIA Ano 2009, Volume 3, No. 1


Revista Eletrônica Theologia 15
Faculdade Palotina - FAPAS

Petrópolis: Vozes, 1966.


ZABATIERO, Júlio Paulo Tavares. Construindo a identidade messiânica de Jesus: uma
leitura sócio-semiótica de Marcos 1,1 - 3,35. Perspectiva Teológica, Belo Horizonte:
Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, v. 38, n. 104, p. 65-87, 2006.

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