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A melodia do Nordeste e suas constancias modais ALOYSIO DE ALENCAR PINTO Um dos aspectos mais caracteristicos da musica folelérica do Nordeste é, sem divida, o da sua melodia. Roland de Candé, em seu diciondrio de misica, define a melo- dia como sendo uma sucessao légica de sons diferentes, cujas rela- goes de concordancia (intervalos) permitem uma percepgao global. Em seguida, complementa essa definigao esclarecendo: da mesma forma que uma eucessio de valores distribuidos em condigoes andlo- gas forma um-ritmo. Melodia e ritmo sao os principios fundamentais da misica. Considerando-se o estudo visua! da musica grafada, é possivel afirmar em termos gerais, que a melodia constitui a sua componente horizontal, do mesmo modo por que a harmonia representa a compo- nente vertical. Ora, pela simples audigdo de uma melodia, ou seja, em nosso caso, de uma toada de cantoria, um mitisico experimentado poderd constatar auditivamente que algumas cantigas do folclore nordesti- no estAo alicergadas sobre escalas modais. Este aspecto caracteristico 6 tanto mais importante se conside- rarmos que ele constitui fato raro, nao somente no Brasil, mas em toda a América Latina. O emprego melddico de escalas modais, tao caracteristico das antigas culturas e tao difundido pelo mundo, cons- titui um tema de apaixonante interesse, nao sé para o folclorista, come também para o musicélogo, pois sabemos que este tipo de esca- las tem servido aos compositores contemporaneos, dentre os quais podemos destacar os nomes de Ravel. Poulenc, Milhaud, Manuel de Falla, Joaquin Nin, Enesco, Szimanowsky, Bartok, Kodaly, Katchaturian, etc., que, pela andlise e estudo das etnias formadoras da musica de seus povos, tanto contribuiram para o enriquecimento da linguagem sonora. Na América do Sul, encontramos escalas pentaténicas na nvi- sica incaica. O-folclore sul-americano esta fortemente influenciado pela escala pentaténica incaica, sendo esta influéncia tanto mais 237 Revista do Instituto dy Ceard ~ 199: acentuada quanto mais préximo dos centros de origem da cultura inca se encontrar o pais correspondente. Partindo do altiplano de Cuzeo, a musica quéchua atinge a Bo- livia, o Equador, determinadas zonas do Chaco, descendo até o norte da Argentina, notadamente nas regides de Jujui e Catamarca. Ao norte do Peru, estas influéncias atingem a zona meridional andina do atual territério colombiano. Encontramos também escalas pentaténicas e hexacordais na misica afro-americana. Existem registros de melodias que compro- vam a pureza primitiva destas escalas nos cantos fetichistas do Vodu do Haiti e nas toadas de candomblé da Bahia. Oneyda Alvarenga diz que esses cantos (candomblé) “se dis- tanciam quase sempre de tal modo de espirito e das tendéncias mais constantes da nossa musica, que nem mesmo os ouvidos brasileiros conseguem furtar-se a uma sensacdo de cousa exética”, Esta mesma impressdo podemos experimentar quando escuta- mos, pela primeira vez as “toadas de cantoria”. Parecem estranhas. Possuem um melos especial; sao agrestes, primitivas, produzindo sempre estranheza nos ouvintes de outras paragens. As origens da musica modal nordestina provém certamente de duas fontes: Quais seriam as origens da musica modal do Nordeste? 1°— Infiuénciaindigena; 2° Influéncia Gregoriana, ou mais especificamente, dos mo- dos eclesidsticos. 1° — A Influéncia Indigena Nao podemos precisar qual era a espécie de musica que canta- vam os nossos indios, na época do descobrimento, portanto desco- nhecemos o tipo de escalas por eles usadas. Acreditamos, porém, que as primitivas tribos do Brasil, principalmente a dos indios Tabajaras de Pernambuco, que “se supunham os primitivos habi- tantes do Brasil”, possuissem um tipo de musica mais ou menos se- “melhante as das outras grandes civilizagdes do continente, quero dizer, os Aimaras, Quéchuas, Astecas e Maias. 238 A melodia do Nordeste e suas constancias modais Se, por analogia, examinarmos a ceramica primitiva de Marajé, veremos que ela ¢ inferior 4 de outros poves americanos, mas nem por isso deixara de apresentar aspectos correlatos O eminente musicélogo Adolfo Salazar informa que “é a famo- sa escala pentaténica que veremos aparecer em todas as culturas anteriores & européia, que ¢ a propria base da cultura musical, e que, em grande parte, esté presente também em culturas ndo-euro- péias, nos chamados povos primitivos” A propésito de misica primitiva, é oportuno lembrar, a titulo de curiosidade, que possuimos dois cantos tupis registrados por Jean de Lexy, no Rio de Janeiro, em 1557. O primeiro destes cantos, de acordo com Guilherme de Melo, é uma cangao fauniana, que celebra a beleza da ave amareia, e tem 0 nome de Canide Youne, Renato Almeida, escudado na propria narrati- va de Lery, observa que o significado de Canide Youne é pdssaro azul. Registro essa divergéncia de tradugdo sobre a cor do passaro, porque a letra do texto, Canide Youne, continue a ser divulgada como passaro amarelo. Deixamos o problema para os especialistas em lin- gua tupi. Casing Youne (Ave amarela) Moderato expressive z CAdipe Yov.ne! CA.nine Yo wel nivna vd Font (Transcrito em notagéo moderna por Luciano Gallet). O segundo é uma cangdo elegiaca, que os indigenas denomina- vam Sabaih. Guilherme de Melo esclarece que 0 texto deste canto est cheio de interjeigdes supersticiosas e cabalisticas: Hé! Heura! Uééch! Sasatu (Canto elegiaco) Andgnie 4 He weu-Ra! veuRal Hev~ . eat HEev. ea! z u HERA! HER! wev.nal Ud Zk 1 * (ranscrito em notac&o moderna por H. Villa-Lobos). 239