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Fe

Capítulo &
As funções egóicas no processo terapêutico
MRE

O estudo das funções egóicas constitui um capítulo impor-


tante, tanto para uma compreensão dinâmica do comportamen-
to como para entender os mecanismos de ação das influências
corretivas sobre esse comportamento. Também mostra impor-
tância por razões de eficácia terapêutica, visto que se destacou
com pleno acerto que o sucesso ou o fracasso de uma psicotera-
pia dependeda evolução adequada ou da negligência dos recur-
sos egóicos do paciente (12). No entanto, tanto em investigações
empíricas como na teoria, tanto na elaboração epistemológica
(incluindo uma revisão ideológica das categorias com que foi
pensado) como no quese refere à clareza de seu manejo clínico,
esse aspecto tem sido até agora insuficientemente aprofundado.
Cabe perguntar o porquê de uma “psicologia do ego”, se
cada corte transversal do comportamento mostra, segundo o
modelo estrutural psicanalítico, traços de influência dos três
sistemas (ego, superego, id). No âmbito do desenvolvimento
da teoria psicodinâmica do comportamento, a ênfase nas fun-
ções egóicas teve umaforça reativa, dado que elas constituíam
a zona menos atendida por uma elaboração teórica rigorosa
(5). Além disso porque, num primeiro período da conceituação
freudiana, essas funções eram vistas como mais passivas, su-
bordinadas às dos outros dois sistemas, carecendo de uma au-
tonomia que a experiência clínica foi revelando posteriormen-
te, até forçar o seu reconhecimento.
BO Le, ————. — Teoria e técnica de psicoterapias
Asfunções egóicas no processo terapêutico.
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Há, ademais, outras razões para dar ênfase ao ego. Como
sistema de funções, o egorevela-se dotado de uma mobili Falamos no começo da precariedade na elabo
dade ração epis-
maior do que a dos outros dois, sua flexibilidade potencial con- temológica desse enfoque. Para constatá-la, basta
rever as lis-
trasta com a inércia atribuída ao superego e ao id. Essa mobili- tas tradicionais das funções egóicas. Hartmann foi
explícito:
dade permite explicar fenômenos empiricamente constatáveis, ninguém fez umalista completa das funçõ
es egóicas, o que,
modificações no comportamento do sujeito que ocorrem porsi só, já revela a curiosa situação de uma
em corrente que não
rimos mais rápidos do queseria de esperar numa perspectiva termina de delimitar seu objeto. Além disso, as
classificações
que atenda primordialmente à inércia dos outros componentes dessas funções mesclaram níveis, sobrepondo
continuamente
da estrutura. O enfoque egóico recorta então aspectos dotados as categorias empregadas. Esta, se estamoscertos,
é uma das
de uma particular flexibilidade e permeabilidade a influên- razões para entender a ambigiiidade em que perm
anecem as
cias de mudança múltiplas, oferecendo assim uma base para
a tentativas de explicar, com base nessa psicologia
do ego, as
compreensão da ação terapêutica, em prazos breves e médios, mudanças e o modo como operam para produzi-la
de uma diversidade de recursos corretivos. Por outro lado, na s as dife-
rentes intervenções terapêuticas. Trabalhar para
tornar claras
medida em que muitas das funções egóicas regulam o contato certas distinções conceituais apresenta-se para
com as condições de realidade e o ajustamento a estas, o ego nós comotare-
fa preliminar à tentativa, por certo imprescindível,
aparece como zona-ponte de especial interesse para todo enfo- de com-
preender as mudanças egóicas no processo terap
que diagnóstico, prognóstico e terapêutico que aspire ultrapas- êutico.
Depois de cotejar leituras com experiências clínic
sar os quadros de umaótica individual concentrada no “mundo as e de
aprofundar reflexõese discussões sobre o tema”, uma
interno”, Neste aspecto, um exame mais aprofundado do papel de nossas
conclusões é que qualquerlista deverá manter disti
do ego e de seus intercâmbios com a realidade implica inevita- nções entre
a função propriamente dita (percepção, planejamen
velmente um movimento de reformulação ideológica. to, coorde-
nação), os efeitos do exercício dessas funções (cont
Dada toda essa importância das zonas destacadas pelo role de im-
pulsos, adequação realista, integração) e as quali
enfoque egóico, cabe perguntar-se quais os determinantes so- dades atribuí-
veis a essas funções com base em seus rendimen
cioculturais que dificultam um desenvolvimento mais rigoroso tos objetivos,
verificáveis segundo a qualidade dos menciona
desse enfoque. Não parece ser casual, mas sim fruto de inibi- dos efeitos (au-
tonomia versus interferências devidas ao comp
ções repressivas e de distorções de uma camada intelectual, a romisso com o
conflito, força versus fraqueza, plasticidade versu
falta de uma indagação mais profunda das conexões com a s rigidez, coe-
são do conjunto versus dispersão, amplitude
realidade e seus dinamismos, tratando-se precisamente de versus restrição,
organização hierárquica e coesão do conjunto).
umaárea de autonomia potencial do indivíduo (6). A evidên-
cia do déficit exprime-se no fato de que todo terapeuta de
orientação social e institucional sabe que trabalha com o ego 2. Discutimosexaustivamente asfunções do ego num
sob minha direção (1971-792)e integrado pelas psicól grupo deestudos
do paciente, mas essa noção funciona em estado pré-científi- ogas Eva Cozzetti, Nilda
Guerschman, Celia Mauri, Julia Redondo, Edith Vivona
co:ele dificilmente poderá explicar em que consiste reforçar o rios doscritérios postulados neste capítulo resultam
e InésYoukowsky. Vá-
ego, quais os caminhos e mecanismos íntimos desse reforço. dessa tarefa de elabora-
ção grupal,
3. À ausência dessas distinções faz com quelis
tas comoas de Bellak (2),
alicerçadas por sua vez nas de Hartmann,
se mostrem confusas: não se
1. Esta última, quanto mais unilateralmente atenta estiver ao podem colocar num mesmo nível (o que está
mundo implícito em sua enunciação
interno, e descuidada das condições de realidade total em que existe o uns depois de outros) “controle de impulsos”, “pensamento”
sujei- e “senso de
to comseu mundo interno, mais impregnadaestará de idealismo. validade”, já que costumamserfacetas de um únicoa
to unitário de compor-
tamento baseado na regulação egóica.
As funções egóicas no processo terapêutico 129
128 0 Peoriae técnica de psicoterapios

Com base nessas distinções, passaremos agora em revista guração do repertório defensivo. Hartmann (5) destaca assim
vários aspectos desse conjunto de funções. esse interjogo:

Até agora, abordamos em psicanálise principalmente a in-


tervenção do conflito em seu desenvolvimento (refere-se aosfa-
1, Funções egóicas
tores autônomos) [...] mas é de considerável interesse, não só
para a psicologia do desenvolvimento, mas também para os
Este conceito abarca um conjunto no qual é necessário,
problemas clínicos, estudar igualmente a influência contrária,
pelas razões precedentemente expostas, fazer diferenciações isto é, a influência que a inteligência de determinada criança,
hierárquicas em três ordens de funções. seu aparelho motor e perceptivo, seus dotes especiais e o desen-
volvimentode todosesses fatores têm sobre o tempo,a intensi-
A. Funções egóicas básicas, voltadas para o mundo exterior, dade e o modo de expressão desses conflitos.
para os outros e para aspectos de si mesmo: percepção, aten-
ção, memória, pensamento, antecipação (planejamento ou As relações entre as citadas funções básicas (dotadas de
programação da ação), exploração (atividades de tenteio e ro- autonomia primária) e as defensivas apresentam-se a nós
deio), execução, controle (regulação) e coordenação da ação. como as de dois subsistemas de nível distinto, enraizados,
Essas funções se mostram dotadas de certo potencial de auto- que se influenciam reciprocamente (reciprocidade que expli-
nomia primária (6) (atuam com eficácia dentro de determina- caria, por exemplo, como o exercício de umaatividade — tera-
da margem de condições, apesar da ação contrária de forças
pia ocupacional — consegue, mediante o reforço das funções
que, ao longo do desenvolvimento e em cada corte transversal
perceptivas, do planejamento e da execução motora, contri-
do comportamento, tendem a enfraquecê-las ou prejudicá-
buir para modificações na força e no nível das defesas, fato
las). Esse potencial de ação “livre de conflitos” é relativo, re-
quea clínica verifica com frequência).
versível, móvel quanto à sua amplitude, mas constatável com
base na capacidade de ajuste do comportamento avaliado em
C. Funções integradoras, sintéticas ou organizadoras. Trata-se
seus matizes mais sutis (plasticidade, correção por retroali-
de funções de terceira ordem,isto é, que constituem um estra-
mentações).
to funcional hierarquicamente sobreposto aos anteriores. Per-
mitem manter, no interior de uma enorme variedade de com-
B. Funções defensivas, destinadas a neutralizar ansiedades
portamentos, uma coesão, uma organização, um predomínio
por meio de diversas modalidades de manejo de conflitos
das sinergias sobre os antagonismos funcionais. A força dessas
criados entre condições de realidade, impulsos e proibições.
funções integradoras é posta à prova particularmente quando,
Tais funções defensivas (dissociação, negação, evitações) não
diante de mudanças na situação, o sujeito deve reorganizar
podem ser colocadas ao lado das que chamamos de básicas,
suasrelações com o mundo, através de uma mobilização sele-
já que são funções de outra ordem, atuam simultaneamente
tiva de novas funções de adaptação. Revelam-se igualmente
com aquelas, cavalgam-nas e, por isso, com fregiiência, preju-
na possibilidade de coordenar metas “racionalmente escolhi-
dicam-nas em seus outros fins de ajustamento. A repressão
atua não só sobre afetos e impulsos, mas, ao mesmo tempo e
das” com outras necessidades arraigadas na zona irracional
basicamente, afetando percepções, recordações, pensamentos dos impulsos. A síntese consiste, por exemplo, em articular
e execuções motoras. Por seu turno, aquelas funções básicas, eficazmente o contato com o próprio desejo e o controle racio-
sua força e disponibilidade constitucional influem na confi- nal sobre as condições reais de satisfação do desejo.
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- Teoria e técnica de psicoterapias
As funções egóicas no processo terapêutico. 33
Algumas dessas funções de síntese
podem, segundo
julgo, vincular-se com o que, num enfoqueexistenci 2. Os efeitos das funções egóicas
mado (Sartre) (11) de “tendência cons
al,
foi cha-
tante do sujeito para
uma totalização de si mesmo, para realizar São talvez mais bem identificados do que aqueles vários
a unidade na mul-
tiplicidade de determinações que o constitu níveis de funções em sua complexa inter-relação. Abran
em”. Essa coinci- gem:
dência é visível quando, no enfoque psica adaptação à realidade, senso c prova derealidade, controle de
nalítico, são mencio-
nadas como “atividades de completa impulsos, regulação homeostática do nível de ansiedade,
mento, de fechamento
gestáltico de si”(10). maior tolerância à ansiedadee à frustração com capacidade de
Essas funções operam sem cessar tend espera, produtividade, capacidade sublimatória, integr
endo a um centra- ação e
mento da pessoa. Conectar-se com esse coerência de uma diversidade de facetas da pessoa. Um dos
nível de funcionamen-
to egóico significa colocar-se, o terapeut pontos mais controversos em termos ideológicos reside na
a, na perspectiva reali-
zável de dentro desse esforço de centrame noção de adaptação à realidade, noção sem dúvida fundamen-
nto e recentramento
pessoal constante (em luta contra tudo tal no quese refere aos critérios habituais de normalidade e
o que tende a dissociar
e a desorganizar). É estar atento à pres cura. Nas psicoterapias dos Estados Unidos, essa noção
ença mais ou menos fun-
bem-suce dida, mas constante, de um projeto de tota ciona como ideal terapêutico; em nosso meio, para
si mesmo, em função do qual umadas pers lização de muitos te-
pectivas, entre vá- rapeutas, como uma espécie de resultado mínimo e questi
rias outras, deve necessariamente ser a das o-
sínteses (aspectos nável em seus conteúdos de submissão social. Uma distinção
que aparecem diluídos em certos desenvol feita por Hartmann é oportuna neste contexto: a que propõ
vimentos correntes, e
centrados numa busca “analítica” que hiper diferenciar estado de adaptação (como meta alcançável na
trofia os momentos qual
de fragmentação,o estudo, por partes, do se aspira permanecer) e processo de adaptação, que implica
sujeito). pôr
À presença dessas funções desíntese se ativamente em tensão o amplo repertório de recursos do sujei-
expr
ime também
num nível de intencionalidade, no qual se to, que é por certo condição necessária para toda tentativa de
buscam estabelecer
conexões eficientes entre o pensamento racional relação dinâmica e crítica com a realidade. Dirija-se a um ou
zonas da experiência. O trabalho em psic e outras
oterapia destinado a ao outro desses modos de adaptação, o processo terapêutico
reforçar funções egóicas deve respeita dependerá em certa medida tanto da ideologia do pacien
r os efeitos bem-sucedi- te
dos dess as funções (exemplo: tornar explícitas as comodaideologia do terapeuta. Dependerá, além disso,da in-
objetivantes do pensamento manifest
conq
uistas
o em suas mensagens serção social concreta de ambose da margem de recuperação
intencionais), assim como assinala imposta pelas condições gerais, estruturais e repressivas
r seus fracassos e explorar do
os motivos desses fracassos. Isso significa sistema social. A distinção de Hartmann pode ser aprofunda-
um terapeuta atento
a uma dupla frente constante: a das mens da se diferenciarmos subníveis nos fenômenos de “adapt
agens “latentes” e a a-
das mensagens manifestase intencionais ção”: há uma “adaptabilidade” dada pela eficiência potencial
do paciente, cuja ne-
gligência equivaleria a desconhecer toda de certas funções egóicas necessárias ao manejo de toda reali-
uma área de rendi-
mentos egóicos*. dade (inclusive ao manejo que tenda a modificá-la); há outra

4. Esse ponto requer ser enfatizado diante gem intencional do paciente, captando em contrapartida
certas regras técnicas da psicanálise Klein
dos equívocos que suscitam outra distinta” (9).
iana, em que, a partir da premissa Isso é totalmente antagônico à atenção que as psicoterapias
de que “todo acontecimento no camp devem prestar,
o deve ser ao mesmo tempo outra entre outros níveis, ao do rendimento egóico. Pela simplificação
coisa” (Baranger), se passa ao método de proposta na-
“o analista negligenciar a mensa- quela regra das relações entre mensagem intencional e mensag
em latente, é
até duvidoso que ela tenha alguma validade notrabalho psicanal
ítico.
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Teoria e técnica de psicoterapias Asfunções egóicas no processo terapêutico 183
“adaptação” concernente à possibilidade
de ajustamento inte- ração com a diversidade de exigências a que estão submetidas.
racional em pequenos grupos(e estes pod
em ser a família ou Revelam-se, por exemplo, na medida em que um sujeito colo-
grupos de trabalho orientados em direções ideo
lógicas diver
- cado numa situação traumática, aguda, imprevista, consegue
sas); por último, há uma “adaptação” que
consiste em aceitar manter atuantes seus recursos adaptativos, opondo uma con-
as condições sociais globais vigentes, de mane
ira passiva. Toda traforça neutralizadora das pressões internas e externas desor-
discussão sobre adaptação e mudança em
psicoterapias deve- ganizadoras ou paralisantes.
ria incluir essas distinções.
o) A plasticidade manifesta-se segundo a capacidade de
reajuste do repertório de funções diante de variações produzi-
3. Algumas qualidades das funções egóicas das na qualidade e na diversidade das exigências queo indiví-
duo deveenfrentar.
a) Autonomia. Esta qualidade foi vinculada
por Hartmann Liberman (9) caracterizou a flexibilidade das funções
à possibilidade de certo funcionamento egói
co não prejudica- egóicas com base nestas possibilidades do sujeito:
do pelo compromisso de suas funções no
manejo dos confli-
tos (“área do ego livre de conflitos”). Essa
possibilidade de re-
lativa autonomia precisou ser demarcada [...] um Ego idealmente plástico tem de possuir: 1) a capacidade
para resgatar o ego de dissociar-se, do observar sem participar e, assim, perceber to-
de um modelo estrutural Primitivo no quals
uas funções esta-
vam a serviço de outras forças intervenientes talidades com os detalhes distinguíveis no âmbito dessas totali-
nos conflitos (id, dades (percepção microscópica: o Ego se reduz e o objeto se
superego, mundo exterior). Essa autonomi
a se verifica pelo amplia); 2) a capacidade de aproximar do objeto a função per-
“ajuste” conseguido em determinados
comportamentos ceptual e ver um detalhe fazendo abstração da totalidade, mas
adaptativos, apesar da existência de conflitos
e de uma orga- sem confundir a parte com o todo; 3) a capacidade de captar os
nização defensiva montada sobre esses confl
itos. Quando o próprios desejos e levá-los à ação, desde que exista a possibili-
restante do rendimento egóico se acha prej
udicado pelo de- dade de satisfazer essa necessidade, e, para isso, tomar uma deci-
senvolvimento dessa organização defensiva,
o comportamen- são depois deter avaliado o equilíbrio entre necessidade e pos-
to adquire, em contrapartida, outros mati
zes que o caracteri- sibilidade; 4) a capacidade de adaptar-se às circunstâncias, ao
zam: restrição perceptual ou imaginativa,
limitações na criati- tipo de vínculo, seja no sentido vertical (avós, pais, filhos) ou no
vidade, rigidez no desenvolvimento de um
comportament o, sentido horizontal (graus de intimidade); a capacidade de utili-
limitações no registro de retroalimentaçõe
s corretivas. Não zatr O pensamento como ação de ensaio, assim como a capacidade
obstante, as relações entre defesa e ajust
e adaptativo nem de estar só; 5) a capacidade de ter um montante de ansiedade
sempre são antagônicas: o alívio da ansiedad
e obtido por de- útil preparatória para efetuar uma ação, uma vez estabelecido o
fesas eficientes pode ser uma condição facil
itadora para o em- vínculo, tomada a decisão e observadas as circunstâncias — tudo
prego de outras capacidades egóicas no mane
jo de outros as- aquilo que permite ter; 6) as possibilidades ótimas para enviar
pectos da realidade. A adaptação normal deco
rre também do uma mensagem na qual a ação,a idéia e a expressão do afeto se
eficiente exercício de defesas úteis. Por isso, Hart
mann propôs combinem de forma adequada.
distinguir relações antagônicas e rela
ções de cooperação
entre diferentes funções egóicas.
Observemos que cada um desses seis grupos de funções
b) A força de cada uma das funções e de seu
conjunto ve- propostos por Liberman abrange ao mesmo tempo várias das
nifica-se pela eficiência adaptativa que consegue
m em compa- funções que denominamos egóicas básicas. Esse agrupamento
134 > —Reoriase
>> a ;
e técnica de psicoterapias As funções egóicas no processoterapêutico 135
em modelos complexos se aproxima melhor do que é empiri-
bém de ser reconhecido no funcionamento atual dessas fun-
camente o funcionamento egóico. No entanto, parece útil não
ções. Comprova-se então que há situações grupais ou institu-
anular esse outro nível de análise em que se reconhecem certos
cionais ego-reforçadoras e outras, em compensação, ego-en-
aspectos mais elementares desse funcionamento, fornecido
fraquecedoras (atuando com base em climas, regras e regras
pelo recorte tradicional de funções simples, visto que permite
sobre a modificabilidade dessas regras). Todo grupo que atacar
reconhecer nainteração terapêutica estímulos capazes de atuar
as capacidades egóicas de algum de seus membros, que não as
especificamente sobre alguns desses aspectos mais elementa-
reafirmar nem as estimular, e acentuar suas limitações ou erros,
res (perceber, recordar, planejar). É claro que, para conservar
assim como negar-lhe sua possibilidade de reformular suasre-
esse nível de análise, ele temde estarjá a salvo de todo atomis-
gras de funcionamento, será claramente ego-enfraquecedor. Se
mo ou elementarismo, e jamais como alternativa ao reconhe
ci- com este enfoque forem reexaminados históricos clínicos, co-
mento dascitadas organizações mais complexas de funções.
mumente centrados no recorte do ego individual, comprova-se
A esta altura, é oportuno destacar a necessidade de uma
que a interação de agentes grupais e sociais ego-enfraquecedo-
passagem. Mesmo no esboço de modelos complexos de fun-
res tem um papel relevante nassituações de doença individual.
cionamento egóico, o enfoque se mantém numa psicologia in-
É também dessa perspectiva que se pode compreender o
dividual, trata-se de um sujeito e caracteriza-se a eficáci
a de mecanismo da ação terapêutica de muitos recursos ambientais
suas funções. Mas o olhar sobre o ego deve ser ampliado para
(grupos ocupacionais, de discussão, de recreação, organização
reconhecer que, na interação social, os outros, os grupos com
comunitária da vida institucional). Cada um deles instala (por
seus dinamismos, co-participam no curso e nos resultados
oposição aos grupos e instituições patógenos) contextos de
desse processamento egóico emdireções muito diversas, quer
verificação reforçadores do ego individual e grupal mediante
para facilitá-lo, quer para entorpecê-lo ou distorcê-lo. Um
apoio dos rendimentos positivos, equanimidade regulada pelo
claro exemplo disto são os fenômenos grupais que Laing in-
coletivo na discussão dos fracassos e acesso do grupo à discus-
vestigou em famílias, cujas regras e regras de regras atuam
são sobre as regras que o regem. Do mesmo modo, nas inter-
interferindo nos rendimentos egóicos. Esse aspecto merece
venções sobre o grupo familiar, um importante aspecto da
ser enfatizado, porque amplia o contexto da avaliação do ego.
ação corretiva exerce-se no sentido de levar o grupo, de um
nível inicial de arbitrariedade no manejo das capacidades
egóicas de seus membros (isto é, com omissões ou distorções
4. Influências ambientais sobre as funções egóicas
na avaliação dessas capacidades), a outro nível de maior obje-
tividade em suas avaliações (passagem de um contexto ego-
Hartmann assinalou a intervenção no desenvolvimento
enfraquecedor a outro reforçador do ego). À possibilidade de
das funções egóicas de três grupos de fatores: a intensidade
produzir esse deslocamento passa pelo desvelamento de suas
dos impulsos, a dotação genética e as influências ambientais
regras e meta-regras, disfarçadas de interação “natural” e de
(que também devem ser entendidas como co-determinantes
simples juízo sobre “fatos”. Com esse enfoque, pode ser escla-
da intensidade dos impulsos). O grupo familiar aparece de-
recedor analisar, como o vislumbraram Freud e Hartmann há
sempenhando um papel primordial na evolução dessas fun-
várias décadas, instituições mais amplas do que o grupo fami-
ções: a riqueza ou pobreza perceptiva, imaginativa,, cognitiva, a
liar (hospitais, escolas, partidos) e fenômenos do sistema so-
existência de uma área livre de conflitos, a plasticidade do re-
cial global (o controle da informação, o sistema de propagan-
pertório defensivo são sempre co-produções (indivíduo-g
rupo da ou o aparelho repressivo, por exemplo) a partir do papel
as vão gestando em seusvínculos). O papel do grupo tem tam-
que cada um deles desempenha a serviço do reforço ou do en-
136
T [>> Teor : si
ia e técni ca de psicoterapias As funções egóicas no processoterapêutico 47
fraquecimento do funcionamento egóico
dosindivíduos. O detalhes, uma atenção concentrada nessa recordação e na ta-
estudo dos antipsiquiatras dedicado às
instituições de interna refa atual, que indaga sobre a relação do paciente com o pai,
ção é um bom exemplo de tal enfoque. Com
essa ampliação lundada na discriminação eu-outro; contém uma segiência
do quadro teórico (ligada a um movimento
de reformulação (comportamento-reflexão-autocrítica-planejamento de outro
ideológica das categorias que recortam
psicologicamente o in- comportamento alternativo), cuja evocação na sessão reforça,
divíduo), já não se trata de avaliar junç
ões egóicas do indivíduo por sua vez, as funções contidas naquela sequência.
tão-somente, mas de questionar principa
lmentea relação entre Continuando, vejamos o papel desempenhado por duas
essas funções e um conjunto de condiçõe
s de realidade que inun- intervenções do terapeuta:
damo sujeito, penetrando em seus rendimentos.
T.: “E você, o que pensa? Por que seu pai desta vez, em que
5. Ativação das funções egóicas no proc você estava prevenido, não terá dito nada sobre o assunto?...”
esso terapêutico P: “Não dá para entender, porque ele não mudou com re-
. Podemos pensar na situação terapêut lação às festas...”
ica como a instala- T.: “Terá ele notado em você uma atitude diferente, algo
ção de um contexto de verificação para
o mencionado conjunto que você tenha transmitido sem palavras?”
de funções egóicas. Também podemos fazê
-lo como um con-
texto de estimulação para essas funções;
o que o próprio contra- São precisamente aspectos relevantes da tarefa em psico-
to inicial faz é estabelecer uma tarefa nova
(indagar, com- terapia: perceber totalidades, captar detalhes, avaliar necessi-
preender , objetivar uma problemática), cuja simp
les abertura dades e possibilidades. Essas intervenções fornecem uma in-
funciona como incitação original ão
exercício daquelas fun- formação nova (uma decisão interna pode ser captada pelo
ções. Ao mesmo tempo, a relação terapêut
ica fornece um con- outro sem palavras), estimulam umaavaliação retrospectiva do
texto de proteção e gratificação emociona
l que alivia ansiedades próprio comportamento diante do outro, propondo ampliar o
suficientemente profundaspara liberar
certo potencial de ati- registro das próprias mensagens gestuais e posturais, uma ten-
vação egóica, isto é, põe essas funções
em estado de melhor tativa de perceber-se a partir do outro, assim como uma busca
disponibilidade. Com essas condições
básicas, cada sessão, em associativa de mais dados que possam contribuir para a hipóte-
cada um de seus momentos, opera com
o ativadora ou mobili- se sugerida pelo terapeuta. Esse fragmento tomado ao acaso
zadora do conjunto das funções egóicas. Tom
emos um frag- pode portanto ser visto, num outro nível que não o dos conteú-
mento de sessão, uma comunicação do paciente
ao ea dos esclarecidos, como a colocação em jogo de umaativa mo-
bilização egóica. O terapeuta funciona como instrutor-guia,
, P: “Eu, aquela vez, fui frouxo: quando meu
pai me disse isto é, como agente portador de estímulos, modelos, reforços e
Você
tem de estar presente na reunião de famíl
ia”, para não dis- métodos corretivos para o desenvolvimento dessas funções. Ao
cutir, respondi que sim. Desta vez,
com a proximidade das fes- mesmo tempo,os fatos vividos fora da sessão, vistos por um
tas, fui logo pensando: “se ele vier com
esse negócio de reunião observador enriquecido com a ótica fornecida pela tarefa da
familiar, vou lhe dizer que vá ele, que
não estou interessado”: e sessão, atuam também como estimuladores e reforçadores de
fiquei esperando, mas desta vez
ele não falou do assunto.” Í
todas as funções ativadas em sessão: percepção, memória,
Esse breve parágrafo, elaborado em torn atenção, imaginação, reflexão objetivante, planejamento. A
o da tarefa pro- constante discriminação entre condições de realidade e as dis-
posta pela relação terapêutica, contém uma reco
rdação com torções criadas por outra realidade (mundo interno) é uma das
18 Teoria e técnica de psicoterapias As funções egóicasno processo terapêutico... 139

tarefas reforçadoras do ego ao longo de todo o processo,já que mento (ativação e consolidação pela colocação à prova de sua
consolida um ego que observa de modo mais sutil a experiên- eficácia) de um conjunto de recursos que chegaram ao trata-
cia. Note-se também que muitos dos elos do processamento mento em estado de disponibilidade e que podem ser caracte-
egóico destacado por Liberman(citado anteriormente) são jus- rizados como próprios de uma área do ego relativamente
tamente aspectossignificativos da tarefa em psicoterapia: per- “livre de conflitos”, capaz de certo crescimento autônomo(6).
ceber totalidades, captar detalhes, avaliar necessidadese possi- Por outro lado, é preciso acrescentar o fortalecimento de fun-
bilidades etc. A duração do processo terapêutico pode influir ções egóicas que chegam comprometidas com o conflito e
no grau de reforço obtido: em terapias breves, é provável que o conseguem libertar-se parcialmente deste, em função de reso-
reforço egóico tenha um alcance setorial, ao passo que em ou- luções parciais do conflito (1), ou sua modificação devida a va-
tras, mais prolongadas, pode ser mais amplo. riações nas forças intervenientes (por exemplo, por mudanças
Emsíntese, pode-se entender que as funções egóicas são nas condições grupais que o exarcebavam). Postula-se, por
reforçadas em psicoterapias por meio da criação de um con- outro lado, com fundamentos em todo um conjunto de obser-
texto de gratificação,alívio de ansiedade, estimulaçãoe verifi- vações de psicologia evolutiva, uma relação de reforço mútuo
cação (situação terapêutica) que as solicita ativamente e as entre auto-estima e experiências deeficácia egóica (13). (Esses
consolida através de seuexercício guiado (processo terapêuti- dinamismos de potencialização de efeitos são abordados mais
co). Com sua própria atividade, o terapeuta fornece além detidamente no capítulo 9.)
disso ao paciente um modelo egóico de identificação. Na re- Mesmo em pacientes afetados por uma patologia grave, a
lação de trabalho constata-se, por outro lado, a existência de margem de recuperação funcional do ego se mostra clinica-
umainteração entre as funções egóicas do paciente e as do mente detectável.
terapeuta: há entre ambas uma constante cooperação, ao
mesmo tempo quese instala umarelação de complementari- Comfrequência, o enfoque terapêutico utilizado numapsi-
dade, costumeiramente regulada de maneira automática. Esse coterapia é o desejo de fortalecer diversas funções egóicas. Por
aspecto do vínculo terapêutico mostra-se particularmente in- exemplo, com um paciente borderline, a finalidade de umainter-
teressante para indagar certasleis que regem a relação detra- pretação não seria tanto a de conseguir um insight como a de
balho paciente-terapeuta (o que será discutido no próximo proporcionar um quadro a partir do qual o paciente possa organi-
parágrafo). . zar uma série de fenômenos. É um esforço no sentidode forta-
Um ponto essencial para umateoria do processo em psi- lecer a função integradora,sintética, na medida emquepropor-
coterapia reside no problemada origem do tipo de mudan- ciona uma andaimaria que permita ao paciente organizar muitos
ças egóicas que podem ser obtidas pelo citado processo. A de seus sentimentos, afetos, pensamentos (Zetzel) (1).
conceituação dessas mudanças teve de desenvolver-se diante
do conceito de área do ego comprometida com o conflito (isto Para que essa linha terapêutica seja efetiva, deve-se con-
é, submetidaàs vicissitudes e aos dinamismos dasrelações in- tar, mesmo no paciente afetado por uma importante debilida-
tersistêmicas [id-superego-ego] e suas contradições diante da de egóica, com um montante de capacidade auto-organizativa
realidade)*. Em primeiro lugar, destaca-se então queo reforço em estado de disponibilidade, apesar da existência de conflitos
na eficácia dos rendimentos egóicos se opera pelo desenvolvi- profundos não-resolvidos. Essas exigências reforçam a idéia
de que existem importantesenergias egóicas, não apenas relati-
5. Área cuja modificação é tradicionalmente interpretada nointerior de vamente “livres de conflito”, mas também independentes dos
uma teoria da mudança mediante o processo psicanalítico. outros sistemas (13):
140
TT > Teoriae é técnica
iai de psicote
: rapias
Asfunções egóicas no processo terapêutico 14
O reforço do ego costuma seridentificado com o
conceito
de “trabalho com as partes sadias” do paciente. Este terapeuta se apóia nas funções egóicas mais bem conservadas
último do paciente e lhe fornece, como “empréstimo temporário”,
conceito é mais amplo: abrange o conjunto de funções
egóicas aquelas que nele estão menos desenvolvidas ou momenta-
potencialmente resgatáveis apesar do conflito,
bem como as-
pectos motivacionais e vocacionais de nível mais madur neamente inibidas. É provável que muitas intervenções intui-
o. Tal-
vez toda psicoterapia deva levar em conta as “part tivas do terapeuta atendam essa necessidadede ajuste sele-
es sadias”
do paciente. Só então poderá proporcionar uma imag tivo moldado sobre o perfil egóico expresso no comportamen-
em to total do paciente*.
equânime desse paciente, atenta a seus aspectos
doentes, re-
gressivos, tanto quanto a suas capacidades e conqu Numadas psicoterapias que estudamos, o terapeuta rece-
istas, não
só no ambiente extra-sessão, mas também no âmbit beu um paciente de 26 anos, operário que fazia um curso téc-
o de cada nico, com queixas de uma forte inibição fóbica generalizada,
sessão. Essa equanimidade se expressará no fato de
que o te-
rapeuta assinale a emergência de ansiedades e defesas que lhe acarretava uma depressão secundária. Nos últimos
arcai- tempos, não podia trabalhar nem estudar. Enquanto se inicia-
cas no vínculo transferencial, por exemplo, e ao mesm
o tempo va uma fase diagnóstica, o terapeuta achou queera preciso co-
o ato de crescimento que pode ser com freglência a premi
ssa meçar a mobilizar o paciente, tirá-lo do bloqueio total com
silenciosa dessa capacidade de mergulho na trans
ferência.
Trata-se de captar emtodaa sua magnitude a constante que chegara. Propôs ao paciente que, quando estivesse em
dialé- casa, desenhasse. Ocorreu-lhe que o desenho eraa tarefa mais
tica saúde-doença. Só com uma compreensão muito
profunda
dessa dialética é possível perguntar a um paciente psicót viável imediatamente, sem saber ao certo por quê. O psico-
ico diagnóstico lhe informou depois que, no âmbito de uma
em plenaregressão “se tudo vai bem” e respeitar
como “sadia”
sua resposta de auto-avaliação, na qual:solicita que ampla inibição de funções egóicas, as que tinham relação com
não se in- gráficos (Wechsler) eram as mais conservadas.
terfira nesse movimento de busca de si mesmo
(11).
Em outro dos materiais estudados, o terapeuta mantém
uma primeira entrevista com umapaciente de 20 anos. O mo-
6. Um aspecto do processo em psicoterapias: tivo de sua consulta é muito vago,e o estado da paciente osci-
a complementaridadeentre funções egóicas la entre momentos de grande ansiedade persecutória e confu-
do paciente e funções egóicas do terapeuta sional, nos quais anuncia queinterromperáa entrevista, como
se estivesse assustada por algo, e outros de calma, nos quais
Até aqui, consideramos em especial o que ocorre com consegue oferecer alguns dados sobre sua doença. Pode-se
as
funções egóicas do paciente no processo terapêutico.
Deve-se
ao mesmo tempo observar que, paralelamente, o proce
sso 6. Pensamos não apenas numa complementaridade no nível das men-
supõe uma mobilização e consolidação progressiva sagens verbais, mas também no intercâmbio de mensagens corporais (isto é,
das funções
egóicas do terapeuta. Essa mobilização egóica do terap numa resposta também gestual e postural específica do terapeuta diante das
euta é mensagens gestuais e posturais do paciente, nas quais se exprimem determi-
seletiva e parece desenvolver-se, de acordo com
materiais clí- nados níveis de ativação perceptiva, atenção, discriminação,integração). Essa
nicos que temos estudado, segundoleis de complement complementaridade corporal se achainclusive sugerida em estudos neurove-
arida-
de com o perfil do funcionamento egóico do pacien getativos da interação em sessão. O registro numasessão de psicoterapia das
te, caracte-
rizado por funções debilitadas e funções conservadas em frequências cardíacas do paciente e do terapeuta mostrou que, a partir do 15º
graus minuto, a do paciente baixava progressivamente e a do terapeuta ia aumen-
diversos. Habitualmente de modo espontâneo, por
um ajuste tando proporcionalmente. Em onze momentos da sessão produziram-se va-
implícito próprio de uma equipe que comporte uma riações opostas, coincidentes no mesmo minuto: se a fregiiência do paciente
tarefa, o
baixava, subia a do terapeuta e vice-versa (21).
das Teoriae técnica de psicoterapias Asfunções egóicas no processo terapêutico 143

ver, pelo registro da entrevista, que as intervenções do tera- são do relato, funções perceptivas e mnêmicaseficientes, capa-
peuta seguem fielmenteas oscilações da paciente: trangiiliza- cidade de abstrair e generalizar contida em suas associações. O
doras (ansiolíticas) em momentos de intensa ansiedade, inda- terapeuta tomou esses indicadores (processando-os de modo
gadoras (ansiogênicas) nos períodos fugazes de calma, discri- não-consciente) para apoiar-se nessas funçõeseficientese soli-
minadoras (com certo estilo obsessivo indispensável) nos citar sua aplicação ao aprofundamento do problema.
momentos de maior confusão, e interpretadoras (propondo A sequência imediata é interessante. O paciente não res-
novas conexões, juntando elementos) nas fases em que a ca- ponde à pergunta formulada pelo terapeuta, limitando-se a
pacidade de discriminação da paciente parecia recuperar-se. acrescentar outro episódio de violência. O terapeuta assinala
As mensagens do paciente e do terapeuta assumem aqui, de imediatamente suaevitação da pergunta e a reformula. Deve-
maneira clara, contornos complementares. se entender a segiiência da seguinte forma: o terapeuta regis-
Consideremos dessa perspectiva a seguinte segúência tra o fracasso do ego adaptativo, cuja tarefa era csclarecer a
(primeiro par de intervenções de uma sessão discutida mais violência (presumivelmente prejudicado pelo ego defensivo,
detalhadamente no capítulo 11). que mobiliza a evitação da tarefa), e assume a tarefa (aciona-
mento de seu ego adaptativo) de voltar ao problemainicial. O
P: “Estou me achando muito violento. Outro dia, meu
que o terapeuta faz é solicitar o esforço do ego adaptativo do
filho estava brigando com um amiguinho por causa de um brin- paciente, que deu anteriormente mostras de força potencial.
quedo. Procureifazer que eles deixassem de brigar, que cada um
Com o estímulo do terapeuta, o paciente retoma efetiva-
se arranjasse com um brinquedo diferente. Não adiantou nada, mente a tarefa. A sessão avança, contando com um nível ade-
continuaram fazendo escândalo. Então explodi, me levantei, fui quado de rendimentos egóicos do paciente. Quando mais
e quebrei o brinquedo. Depois, pensei que aquilo era uma bar- adiante surgem por um lado um sonhode pesca e depois uma
baridade, que podia tê-los feito parar de outro modo. E me lem- frase, na qual denomina de “dar um bolo”* uma confusão de
brei que eu, quando menino, reagia assim quando as coisas não datas com uma amiga, o terapeuta simplesmente assinala
davam certo: um dia, quebrei um carro que tinha porque não essas conexões: deixa ao paciente a tarefa de indagar melhor o
conseguia consertá-lo.” sentido dessa coincidência, com base no fato de que háindica-
T.: “Acho que conviria pensar, para entender algumacoisa dores de que o paciente pode trabalhar com seu ego. É possí-
dessa sua violência, qual poderia ser hoje o conserto que não dá vel comparar esse momento do processo terapêutico com o
certo.” . começo do tratamento, em que a angústia do paciente era su-
ficientemente intensá a ponto de interferir em seus rendimen-
Detenhamo-nos no pensamento de que o terapeuta se tos egóicos. Nessa primeira etapa, o terapeuta assumia um
valeu. Que razões tem para introduzir nesse contexto uma per- papel mais esclarecedor e, em alguns momentos, um papel di-
gunta, com tudo o que ela comporta da exigência para o pa- retivo, dados os indicadores de déficit na função egóica do pa-
ciente: ele deve interpretar essaviolência, detectando agora um ciente, que naquele momento não estava em condições de as-
conserto (conciliação) que não dá certo. A viabilidade desse sumir certas tarefas.
tipo de intervenção surge de um processamento de indicadores Formuladaa interação terapêutica em termos de um ajus-
presente na comunicação inicial do paciente, que revelam um te seletivo de complementaridade nas funções egóicas do pa-
nível de capacidades egóicas eficientes: iniciativa para começar
a tarefa, nível de ansiedade útil, mensagens corporais que * Assim no original. Contudo, no material clínico do capítulo 11 não se
falam de funções de integração e controle conservadas, preci- encontra esta frase. [N. da R.T)]
144
Teoria e técnica de psicoterapias
As funções egóicas no processo terapêe
utico 145
ciente e do terapeuta, torna-se claro o
fundamento de que o
terapeut a deve operar tecnicamente com um pape 8. Laing, Ronald, El cuestionamiento de ln familia, Buenos Aires, Paidós, dar
l flexível:
diante dessa mobilidade das demandas egóicas, 9. Liberman, David, Lingiiística, interacción comunicativa Y proceso psicoanali-
não é possível
pretender como terapêutica uma conduta tico, tomo 1, BuenosAires, Galerna, 1970.
que se fixe num 10. Paz, JoséV. Psicopatologia. Sus fundamentos dinúmicos, Buenos Aires, Nueva
papel (interpretar sempre ou dirigir semp
re). Visión, 1973.
O interesse dessa hipótese acerca da interaçã
mentar na sessão se funda, ao que nos pare o comple- 11, Sartre, Jean-Paul, Crítica de la razón dialéctica, Buenos Aires, Losada, 1963.
ce, no fato de que 12. Wallerstein, Robert, “La relación entre el psicoanálisis y la psicoterapia.
permite avaliar, com base em indicadores
objetivos, o anda- Problemas actuales”, Rev. de Psicoanálisis, tomo XXVIL, nº L, pp. 25-49,
mento do processo e o ajuste da técnica empr 1971.
egada. Entre ou-
tros critérios (como os que podem aludir a cont 13. White, Robert. El yo y la realidad en la teoría psicoanatítica, BuenosAires,
eúdos
e áreas
da problemática considerada em suas rela Paidós, 1973.
ções com o foco te-
rapêutico, por exemplo), poderá ser tida
como acertada a in-
tervenção do terapeuta na medida em que
se molde de acordo
com o nível de possibilidades egóicas evid
enciado pelo pa-
ciente em suas mensagens mais recentes.
Correlativamente, a abertura proporcionad
a por esse de-
senvolvimentoé a de permitir compreender
a racionalidade de
um vasto repertório de operações que o terapeut
habi- a realiza
tualmente de modo intuitivo. Assim, ofer
ecem-se novos pará-
metros para a investigação microscópica do
curso que, empiri-
camente, vá tomando o processo nessas psico
terapias.

Referências bibliográficas

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redonda sobre psicoanálisis y psi-
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7. Laing, Ronald, “Metanoja: algunas exper
iências en el Kingsley Hall de
Londres”, Rev. Arg. de Psicologia, tomo IL
nº 6, 1970.
Letici Dedico este Ii
é Ico esteliono
Esta obrafoi publicada originalmente emespanhol como titulo
TEORIA Y TÉCNICA DE PSICOTERAPIASpor Ediciones NuevaVisión. a Leticia, Daniela e Verónica,
Copyright O 1977 por Ediciones Nueva Visión SAIC, Buenos Aires. a meus
e
pais,
Copyright O 2004, Livraria Martins Fontes Editora Ltda.,
a Susana e Arnoldo Liberman,
SãoPaulo, para a presente edi
a Emilio Rodrigué,
Hº edição 2004 que, de muitas maneiras —. vinculadas à
E a
Beiiragem 2008 inteligência e o amor — habitaram comigo
Tradução estas páginas.
MARIA STELA GONÇALVES

Revisão técnica e da tradução


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Acompanhamento editorial
Lucia Aparecida dos Santos
Revisões gráficas
Ana Maria de O. M. Barbosa
Renato da Rocha Cartos
Dinarte Lorzanelli da Silva
Produção gráfica
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Paginação
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(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Fiorini, Héctor Juan o
Teoria e técnica de psicoterapias / Hécior Juan Fiorini ; tradução
Maria Stela Gonçalves ; revisão técnica Claudia Berliner. - Ed. ampl.
- São Paulo Martins Fontes, 2004. — (Coleçãopsicologia e peda-
gogia)
TRtulo original: Teoria y técnica de psicoterapias.
Bibliografia.
ISBN 85-326-1987-]
1. Psicoterapia É Título. 11. Série.
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1 iienterapia Teoria e técnicas : Sistemas
pio líticas Paicologia 150.195

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